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RELAXAMENTO CINÉTICO (RC)

A PAZ, OU A REDESCOBERTA DO ÓBVIO

Austro Queiroz
Registrado na Biblioteca Nacional sob o nº 234.995 livro 415 folha 155

INTRODUÇÃO:

A PAZ COMEÇA EM SI

Antes de mais nada, caro leitor, gostaria de esclarecer a relação que vejo entre o relaxamento e a idéia
de paz.

Associar a palavra "paz" à descrição de uma simples técnica de relaxamento, pode parecer infundado,
exagerado, ou, até mesmo, pretensioso para alguns.
Faço questão, no entanto, de conjugar a modesta noção de relaxamento à nobre idéia de paz, pois
como a paz começa em si, ela começa na descontração.
Apesar de ser uma das suas mais humildes servidoras, a descontração é a primeira a estar presente no
coração da cada operário da paz.
E só dela poderá surgir, individualmente, do fundo dos nossos corações, a decisão coletiva, unânime da
humanidade, de trabalhar em primeiríssimo lugar em prol da paz.

O tema central do presente livro é evidentemente o anúncio e a descrição de uma maneira atualizada de
conceber e realizar a mais antiga e natural das técnicas de relaxamento, a que é usada
espontaneamente pelos próprios animais, como veremos adiante, e aqui rebatizada, para efeitos
pedagógicos, de RELAXAMENTO CINÉTICO (RC).

No entanto, a mensagem predominante dele, caro leitor, é lembrar-lhe da necessidade premente que
temos, cada um de nós, de nos descontrairmos.
Seja lá como for.
Seja lá quando for.

Tudo o que for capaz de levar-nos à descontração é útil e fundamentalmente sadio.

Se a única coisa que lhe descontrai é o programa "tolo" de televisão que lhe distrai, não renuncie a ele!
Não ceda às criticas dos que querem separá-lo do que ainda lhe permite de desconectar sua mente da
tensão permanente.
Se o "vício" lhe descontrai, olhe-o sobretudo sobre esse ângulo!

Explico-me melhor:
Se você bebe em demasia, ou fuma, não adianta aqui eu repetir o que você já está cansado de saber,
ou seja, que isso não é bom para a sua saúde, que trata-se de um prazer que custa o dobro ou mais em
desprazer, que o que se esquece no álcool volta mais forte com a ressaca, que o fumo não lhe inspira,
mas lhe asfixia, etc., etc., etc.
Acho que, antes de mais nada, se quero ter a mais mínima oportunidade de ser escutado por você, devo
respeitar sua condição de adulto, ou seja, devo abster-me de julgá-lo ou de culpabilizá-lo.

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Cumprida essa prerrogativa, o que eu quis mesmo lhe dizer com: "olhe o vício sob o aspecto da
descontração", é que se você concentrar-se MAIS E MELHOR AINDA no seu prazer catalogado de
"vício" e tentar vivê-lo, DESFRUTAR DELE, realmente conscientemente, e não como um simples
automatismo que reprime a depressão e o desespero, como é o caso na maioria dos casos, se você
abandonar-se de verdade a cada gole, a cada trago, com certeza você atingirá o fundamento da
descontração em si:
A PAZ.

VOCÊ JÁ ESTARÁ PRATICANDO UM RELAXAMENTO!

Mas, devo advertí-lo de que fazendo o simples exercício acima proposto, você corre o sério risco de
perder seu vício preferido!
Pois quanto mais contatamos a paz e o prazer que dela emana, mais nos tornamos sensíveis ao que
prejudica nossa saúde física e mental.

Posso mesmo assegurar-lhe que é IMPOSSÍVEL desfrutar e… não desfrutar ao mesmo tempo.

Logo, se você praticar seu "vício" com a intenção de desfrutar dele, seu mental e seu organismo logo
estarão mais conscientes da real noção de prazer e de desprazer.
Aos poucos, você se afastará, e sem esforço, de tudo que lhe traz mais dissabor do que sabor.

Às pessoas que encontram sérias dificuldades para deixar de fumar, beber, ou perder peso, eu
aconselharia um sério e minucioso exame, ou RE-exame, das suas capacidades de distinguirem prazer
de sofrimento.

Sei que corro o risco de chocar, ou mesmo de ofender alguns leitores com tal proposição, peço
desculpas de antemão, não é essa minha intenção.
Se o faço, é porque quase trinta anos de clínica me demonstraram que:
1. Enquanto alguém não confessar a si mesmo que seu "vício" só está ali para encobrir o gosto que ele
perdeu, ou nunca desenvolveu direito na vida... pela vida…
2. Enquanto ele não for capaz de encontrar uma RAZÃO realmente prazerosa de viver…
O melhor que ele poderá fazer é trocar um "vício" por outro igualmente "prejudicial", já que a noção de
PRAZER antecede nossa capacidade de descontrair e de encontrar a paz interior.

Mas, mesmo o que acabei de dizer, talvez você já esteja cansado de saber, caro leitor, e nem assim
reuniu forças para "vencer" o vício.
Nesse ponto, o relaxamento cinético poderá ser um auxiliar de grande valia para você.
Se, porventura, o RC, como chamamos abreviadamente esse relaxamento, conseguir seduzi-lo a ponto
de estimular sua vontade de praticá-lo, com o tempo esse seu prazer reencontrado, ou descoberto, o
fará constatar a maravilha e o gozo que é um corpo em si, mesmo que você o ache "feio", ou "velho", ou
"gordo", ou "doente", ou tudo isso ao mesmo tempo!

Seu corpo é seu livro pessoal, através do qual você não somente pode aprender como procurar recursos
de cura e utilizá-los melhor, como pode, igualmente, estudar o universo inteiro, caro leitor.

Seu corpo é uma réplica exata do cosmos, não há uma só função cósmica que não esteja representada
na sua fisiologia:
Você produz frio e calor, órgãos seus "gravitam" em torno de outros órgãos mais centrais e mais
"densos".
Sua matéria conhece os mesmos movimentos cósmicos de expansão e contração que a matéria do
universo.
Como na dinâmica das estrelas e da vida, milhões de "indivíduos", de células, nascem e morrem em
você continuamente.
Enfim:
A biologia é uma réplica em miniatura da cosmologia.
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Você poderá constatá-lo tanto através dos mais avançados meios de pesquisa científica, como os da
física quântica, quanto através da sabedoria humana milenar:

"O que está no alto é como o que está embaixo, o que está embaixo é como o que está no alto"

Estas sábias palavras, que em nada destoam das conclusões científicas atuais, foram atribuídas, há
milhares de anos atrás ao deus egípcio "Thot", o equivalente do deus grego Hermes Trimegisto.

Na realidade, todo corpo material, inclusive o nosso, faz parte da "ordem explícita" do cosmos, a qual é
regida por uma "ordem implícita" e não material, representada pela energia que move o universo.
A "teoria do caos" considera toda organização complexa no universo como um HOLOS, um "todo",
onde:
"O simples bater asas de uma borboleta em um ponto do globo pode desencadear uma tempestade em
outro ponto longínquo dele".

Os fenômenos materiais são considerados pela teoria do caos como uma "ordem explícita", que pode
parecer-nos "caótica", "aleatória", mas que, na realidade, é regida por uma ordem "implícita" ou
"energética", conhecida nessa teoria sob o nome de "variável oculta".

O cérebro funciona aparentemente segundo o mesmo princípio.


Um exemplo simples para entender a "psicologia do caos" ou essa dinâmica entre a "ordem explícita" e
a "ordem implícita", é um coelho que baixa a cabeça duas ou três vezes para colher algum alimento,
antes de levantá-la para averiguar que nenhum predador se aproxima.
Da próxima vez ele baixará a cabeça cinco ou seis vezes, mas sempre em intervalos irregulares de
tempo, a fim de que um predador não possa acomodar seu movimento ao tempo que ele passa se
alimentando.
A freqüência "aleatória" obedece assim a uma lógica que nada deve ao acaso.

Nosso corpo é igualmente regido por uma "ordem implícita", caro leitor.

E essa ordem não depende diretamente nem da sua vontade, nem da sua consciência!

Basta que constatemos que uma pessoa em estado de coma profundo pode sobreviver durante anos,
por pouco que a sua nutrição seja assegurada.
Mas, mesmo no que concerne alguém fora de coma e perfeitamente desperto, caro leitor, todas as suas
funções vitais são auto-reguladas e independem da sua intervenção direta.

Existe, então, uma "ordem" além da nossa vontade consciente, que compartilhamos com todo organismo
vivo e que segue suas próprias leis de funcionamento.

O Relaxamento Cinético é um método que visa ensinar-nos não somente como nutrir nosso estado de
vigília, nossa presença no "aqui e agora", graças à essa fonte de energia, mas, igualmente, fornecer-nos
subsídios para que possamos "conhecer a nós mesmos" e facilitar nosso processo de cura de eventuais
doenças.

Todo animal mantém um contato "instintivo" com as forças que regulam seu organismo.
A "intuição" deste contato parece ser inversamente proporcional à consciência de si, pois chegando ao
ser humano, ou seja, ao ponto máximo da consciência de si, a perda desse contato é praticamente total.
Não há sequer uma palavra clara para defini-lo!
Falamos de "instinto" referindo-nos à "inteligência" animal, sabemos que um animal não tem
normalmente nenhuma dificuldade para manter sua saúde no seio do meio ambiente, mas não há uma
só palavra que defina, a nível humano, nossa dependência de forças biológicas que escapam ao controle
humano.

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Tudo se passa como se buscássemos inconscientemente ocultar nossa dependência das mesmas leis
que regem a biologia animal, fazendo de conta que somos autônomos, uma espécie mais "especial" que
as outras.
Para esquecermos nossa dependência da… VIDA, nos negamos a conceber um verbo que englobe
funções como: respirar ou digerir, em torno de um termo que signifique ao mesmo tempo, claramente e
sem ambiguidades, que estas funções são regidas pela vida, logo, que tudo que produzirmos em ciência,
filosofia ou arte é, igualmente, um dom dela, ao mesmo título que o nosso cocô cotidiano.

"Viver" foi o verbo que um dia significou isso para os nossos antepassados.

Com o tempo, nosso narcisismo nos isolou destas funções vitais e do seu dom de produção, dom de…
“inspiração”… e passamos a chamá-la de: “vida vegetativa”.
Sem nos darmos conta de que quando esquecemos nossa dependência da «vida vegetativa», quando
não “cultivamos” nossas raízes inextirpáveis dela, como atualmente, somos nós que vegetamos em um
mundo estéril e sem vida.

"Intuição" é ainda o termo que mais se aproxima para definir nosso contato com as forças biológicas que
regulam todos os nossos órgãos vitais.
Mas, na realidade, todos nós estamos cortados da nossa realidade biológica, mal prestamos atenção ao
que comemos, como comemos e se comemos adequadamente.
Não temos mais uma idéia clara da toxicidade do ar.
Tampouco temos claro qual é nossa necessidade real de repouso.
Se sequer temos contato com índices tão vitais ligados à nossa manutenção, imaginem nossa ignorância
no que concerne o teor real de tensões que acumulamos!

Vivemos no e para nosso mundo subjetivo, nosso "eu", nossa "consciência" de si, nos isolou da
consciência da nossa dependência do meio e dos nosso parâmetros biológicos internos indissociáveis
deste.

Só a consciência que nos isolou da nossa vida orgânica e do meio ambiente pode recriar a ponte que
nos reunirá a eles.

O papel dela não é, no entanto, substituir-se a eles.


Nem sequer intervir sobre eles a nível da nossa vontade "consciente", já que ela não tem o poder de
influir diretamente sobre nossos parâmetros interiores, como batimentos cardíacos ou movimentos
peristálticos intestinais.
O que nossa consciência, sim, pode aprender, é a retomar… consciência… do enorme trabalho biológico
que significa simplesmente estar "vivo" ou estar com "saúde".
Uma vez sensibilizadas ao que poderíamos aqui chamar, e sem nenhum exagero, de "milagre da vida",
uma vez conscientes do respeito e do agradecimento que devemos aos nossos organismos, ao nosso
corpo, nossas consciências poderão realizar o percurso do "filho pródigo", nossa "volta ao lar", nosso
reencontro no seio da nossa natureza humana com a nossa mãe natureza e no seio da nossa irmandade
com tudo que vive.

O Relaxamento Cinético é um dos caminhos dessa “re-união” do homem com seu meio ambiente interno
e, através deste, com o nosso meio ambiente externo.

Nosso "eu" ou nossa "consciência de "si", consciência de ser um "indivíduo" será, então, nosso guia
rumo ao Relaxamento Cinético, que pode nos abrir as portas não somente à nossa paz interior, como à
nossa consciência da nossa integração plena, enquanto sistema vivo, a tudo que vive.

Vamos agora estudar mais alguns detalhes da relação entre nossa consciência e nossas funções
biológicas.

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A RELAÇÃO ENTRE A CONSCIÊNCIA E AS FUNÇÕES BIOLÓGICAS

Como vimos, nossa vontade consciente não é necessária para que o nosso organismo funcione
plenamente.
No entanto, como lembraremos várias vezes nesse estudo, se por um lado não podemos influenciar
direta e conscientemente no bom desempenho do nosso organismo quando este se desregula,
podemos, sim, contribuir largamente a esta desregulação!

Pois, na realidade, o corpo absorve continuamente todas as nossas tensões psico-afetivas, toda nossa
carga mental que não conseguimos evacuar conscientemente.

Estar atento ao que se passa no corpo é, assim, uma maneira de inibir a contínua influência inconsciente
que exercemos sobre ele, enviando-lhe nosso excesso de tensão mental.

Relaxar não faz parte, então, de uma opção pessoal, trata-se de um ato vital ligado à nossa higiene de
vida pessoal e que realizamos sempre, mas, cada vez menos, devido à escassez crescente de
oportunidades de descontrair e o aumento vertiginoso do stress no nosso dia-a-dia.

A consciência dessa situação, quando não transformada em culpabilidade ou ansiedade suplementar,


mas, sim, convertida em firme resolução de dedicar mais tempo à questão, já é um ato de descontração
em si!

Quando você atua cada vez mais consciente do que faz, realmente pouco importa qual seja a ação em si
que você utiliza para relaxar (por isso mesmo é que até um "vício" pode servir), pois a força da sua
consciência voltada à intenção de se descontrair será, em si, suficiente para conectá-lo cada vez mais
com a descontração em si.

Estar consciente do que se faz pode também ser cultivado como um automatismo!

A DECISÃO de se descontrair o máximo possível, começando pelas ações mais ligadas ao lazer, pode
tornar-se um hábito !
Aos poucos, seu inconsciente seguirá a programação DECIDIDA pelo seu consciente e os resultados,
em termos de baixa da tensão psíquica, do stress, da ansiedade, da desatenção e do aumento de
concentração, serão consideráveis.
Não se interrogue sobre o que aqui afirmo, não dê valor a um "sim" ou a um "não" teórico da sua parte:
Teste na prática o que talvez para você seja apenas uma hipótese, mas que para mim e para centenas
de pessoas a quem tive a oportunidade de ensiná-lo é uma experiência.

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Se consegui fazê-lo ler esse livro até esse parágrafo e o que disse até aqui lhe interessou, caro leitor,
sem sequer ter abordado diretamente o tema do Relaxamento Cinético especificamente, já me dou por
satisfeito!

Pois, repito, o mais importante nesse escrito, é de levá-lo à consciência da necessidade premente de
descontrair-nos, necessidade que nos impõe o stress da vida moderna.
Hoje em dia, descontrair-se é bem mais importante do que escovar os dentes, que é uma atividade que
suponho que você pratica regularmente.
No entanto, se todos os seus dentes caírem, ainda assim você poderá lançar mão de uma magnífica
prótese!
Mas…
A ciência ainda não aprendeu a fazer próteses para sistemas nervosos exaustos…

E se você já pratica um método de relaxamento, seja ele qual for, um dos clássicos, ou a massagem, o
tai chi, a meditação ou a ioga utilizados para esse fim, saiba que todos eles são magníficos e bons, se
você sente que eles estão lhe fazendo bem, pois isto indica que eles são o que lhe convém.

Concluindo essa primeira visão mais geral do relaxamento e da sua relação com a paz, caro leitor, diria
que, quer seja para descontrair, quer seja para criar, o essencial é habituar-se a habitar a própria
consciência, para que essa possa habitar todos os nossos atos.
"Consciência", "atenção" ou "concentração", são termos que podem ser considerados como sinônimos
na prática do relaxamento cinético.
O que eles não podem é ser considerados como sinônimo de "esforço".

Algo que nos obrigue a "pensar", ou a "controlar" o que fazemos, por definição, não tem nenhum poder
de relaxar-nos.
Estar consciente, nada mais é que estar desperto, nada mais é do que simplesmente sentir, aceitar que
uma sensação penetre, através da sua própria energia, nosso campo de consciência.
Estar consciente é DIRIGIR nossa própria atenção e, através dela, todo nosso ser, à sensação que vem
ao nosso encontro.
Pois só essa consciência pode guiar-nos na decisão de aceitarmos permanecer em uma sensação dada
ou dirigir-nos a um outro campo sensorial.

Quando bem utilizada, e o principal propósito desse livro é ensinar-nos a utilizá-la bem, a consciência
não requer esforço nenhum.
Pelo contrário: nos poupa deles.
Usar bem o nosso estado habitual e natural de consciência é como passear sobre uma linda grama
evitando algumas imperfeições do terreno:
O esforço para evitar os acidentes do percurso são, assim, bem menores que a energia necessária para
atravessá-los distraidamente, "poupando" nossa atenção.

O "anti-stress" mais básico é, então, o cultivo da consciência, o contato, sem controle prévio, com nossas
sensações.
Quem controla o que sente, declarou guerra contra si mesmo.
Essa guerra interior não terá como não se propagar ao exterior do indivíduo.

Daí a importância da nossa sensibilização à sensibilidade da nossa consciência e à consciência da


nossa sensibilidade.
Daí a importância de não negligenciarmos algo extremamente simples e à nossa disposição
permanentemente, como a consciência da tensão física que FALA conosco, que nos indica, através da
dor, ou de um simples mal-estar, que estamos acumulando tensão.
Daí a importância da modesta descontração individual e permanente para a paz, tanto à paz interior,
quanto à paz em nossa volta, pois ambas são as células de base da paz mundial.

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Cada vez que você aceitar se descontrair, caro leitor, saiba que estará realizando um humilde, mas
importantíssimo ATO POLÍTICO, pois a paz mundial começa na sua descontração pessoal!

Associar a paz no mundo ao relaxamento, e mesmo à sua fórmula mais popular, mais elementar, a
simples "descontração", a que nos permite analisar a vida de "cabeça fria", é um dos meios mais
simples e mais simplesmente à nossa disposição em prol da paz.
Pois, nossa descontração pessoal é um dos fatores que mais contribuem a que tenhamos mais vontade
de "fazer amor", no mais nobre sentido dessa palavra, do que de "fazer a guerra", no sentido em que só
uma mente atormentada poderia crer que a violência semeada colherá outra coisa do que violência.

Uma vez colocada a relação entre a descontração e a paz, uma vez ressaltado que o mais importante é
estar consciente da necessidade de eliminar todo excesso de pressão mental, seja lá como for, vamos
ao histórico da mais óbvia e mais natural maneira de descontrair a mente e o corpo profundamente, o
RELAXAMENTO CINÉTICO.

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APRENDENDO A ANDAR COM O CAMINHO

Minha experiência com o estudo e a prática do relaxamento se confunde com minha experiência de vida
profissional.
Afinal, foi o caminho que me ensinou a andar.
Logo, a história do Relaxamento Cinético se confunde com o meu percurso.

Tentarei, então, retraçar os passos mais importantes que me conduziram a essa técnica, abordando os
diferentes encontros profissionais que tive o privilégio de realizar e que foram, com o tempo, forjando a
concepção do RC.

O interesse suplementar que este histórico poderá representar para o leitor é que ele oferece a
oportunidade de um rápido mergulho nas fontes que nutriram tudo o que se propõe hoje em dia em
termos de relaxamento, psicoterapia e autoconhecimento.
Além disso, abordaremos sumariamente os fundamentos que garantem a especificidade de cada
tendência terapêutica, assim como seu potencial de atuação sinérgica.

Peço desculpas de antemão ao leitor pelas vezes em que darei detalhes demais e pelas outras em que o
deixarei curioso, sem ir mais adiante.

Sempre se escreve "demais" E "de menos" quando se aborda um histórico que religa uma quantidade
inumerável de dados, fatos e recordações que se mesclam e se reescrevem, mas, sobretudo se "re-
inventam", à medida que se atualizam.
Nenhum de nós sabe realmente o que viveu antes que o tempo nos indique o significado, ao mesmo
tempo "póstumo" e atual, de um evento, destinado a servir de suporte ao que só o futuro poderá revelar.

Segue, então, um traçado, da maneira que ele se apresenta agora à minha memória, do caminho que
me levou ao Relaxamento Cinético.

Já no meu o tempo de estudante de medicina, o relaxamento me despertou a curiosidade.

Afinal, o que é o relaxar, senão o confiar.


E o que é confiar, senão estar em paz?
Mas, como obtê-lo ?
Como relaxar, ou seja, confiar em si, como estar em paz consigo?

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Em termos estritamente terapêuticos, o caminho que parece mais fácil e mais direto à confiança em si,
parece ser a auto-sugestão positiva nesse sentido, seja a nível hipnótico, seja a nível de relaxamento, ou
da prática do "pensamento positivo".

Minha curiosidade estudantil se dirigiu, assim, espontaneamente, ao estudo e à compreensão da


hipnose.
Mas o problema com toda forma de auto ou hetero-sugestão é que ela parece dirigir-se ao sintoma e não
à sua causa.

Não demorei muito a decepcionar-me com as possibilidades e os limites da hipnose a nível de


relaxamento, logo, como "técnica" facilitadora no que concerne a obtenção da paz interior através de um
reforço da confiança em si, pois uma "contra-sugestão" dita "positiva" parecia impotente a realmente
conduzir-nos ao motivo real da tensão assim "combatida".

Além de não dar maiores subsídios sobre a fonte real de preocupação, sobre a causa do sintoma, toda
sugestão consciente que se opõe a uma sugestão inconsciente, logo, obrigatoriamente anterior e mais
profunda, parece fadada a "combater" a sugestão "negativa" criando um estado, no melhor dos casos, de
"neutralidade".

Entre todas as razões alegadas pelos historiadores de Freud relatando o "porquê" dele ter abandonado
a hipnose em favor da catarse afetiva de Breuer e da livre associação, a ineficácia da sugestão hipnótica
em remover realmente a causa do sintoma, podendo inclusive servir de repressor deste, obrigando a
causa do sintoma reprimido, graças à sugestão, a empregar sintomas mais violentos e mais profundos
ainda para sinalizar uma disfunção, é certamente uma das principais.

A sugestão age sobre a tensão física, ou sobre outro sintoma de tensão psíquica qualquer, mais como
um analgésico que pode até aliviar o incômodo, mas que não atua sobre o que o está causando.

Não comentarei aqui o uso da hipnose para outros fins, como o de obter um relaxamento inicial
unicamente como ajuda à exploração do inconsciente, ou como alternativa à anestesia cirúrgica, pois a
hipnose em si não é o propósito do presente estudo, que concerne os meios de relaxar em geral, sendo
a sugestão hipnótica é apenas um deles.

Tampouco quero aqui me erigir em "inquisidor" da hipnose em particular ou da sugestão em geral.


Não há como avaliar objetivamente a eficácia real de uma técnica psicoterapêutica.
Neste domínio, a convicção pessoal do terapeuta e a confiança que ele suscita são fatores
extremamente importantes na cura.

Afinal, está cientificamente demonstrado que todo pesquisador é um dos dados da pesquisa que realiza
e que toda observação será inevitavelmente influenciada pelo observador.

Além do mais, o "efeito placebo" é cada vez levado mais a sério pela pesquisa farmacêutica, e a
demonstração do peso da sua influência em toda cura não cessa de aumentar.
Além do que, sequer sabemos o que quer realmente dizer "efeito placebo", e a palavra "sugestão", até o
presente, resta indissociável desse fenômeno cientificamente quantificável.

Por sua vez, pouco sabemos, igualmente, o que entender ao certo através da palavra "sugestão", já que
há ainda poucos dados sobre os circuitos neuro-hormonais que a "sugestão" aciona, e menos dados
ainda sobre o real papel do pensamento humano em geral na cura.

Desconfiando das reais possibilidades que teriam os fenômeno hipnótico ou da auto e hetero-sugestão
diretas como meio de relaxar, questionando-me sobre os efeitos possíveis de uma "contra-ordem
positiva", sobre o possível conflito interno que esta poderia deflagrar opondo-se ao "sintoma", inquieto,
de uma certa forma, com a possibilidade de um outro conflito envolvendo, por um lado, o livre arbítrio de

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cada um de nós e, por outro lado, o fenômeno da hetero-sugestão, dirigi-me, então, da hipnose ao
estudo das técnicas de relaxamento.

Estas tinham a vantagem de serem todas auto-sugestivas, pelo menos a médio prazo, e de utilizarem
recursos mais "físicos", como a tensão muscular diretamente como apoio ao fenômeno auto-sugestivo
visando obter uma descontração dos músculos voluntários e involuntários.

Uma ótima ocasião se apresentava a mim, médico recém-formado, no início de 1975, pois tive a
oportunidade de trabalhar com o Professor Dietrich Langen, um dos grandes experts alemães no
"Treinamento Autógeno de Schulz".
Professor da clínica de psicoterapia da Universidade Joahannes Gutenberg, de Mainz, na antiga
Alemanha ocidental, o Professor Langen era um homem aberto e tolerante de um modo geral,
encorajando-me, inclusive, a defender um doutorado em "psicocibernética", obtido em 1978.

O uso de técnicas ditas de "biofeedback" para relaxar estava no auge da moda.


"Aparelhinhos" de todos os tipos eram patenteados, visando fornecer dados capazes de conduzirem
pessoas ao estado "alfa", alusão às ondas cerebrais de mesmo nome.
O professor Langen não era um adepto pessoal destes "modernismos", sem no entanto combatê-los.
Tampouco era o "biofeedback" o ponto central das minhas pesquisas , mais voltadas para a relação
entre o estudo da regulação de organismos "auto e hetero-regulados", segundo a cibernética e as
funções cerebrais dos sistemas biológicos em geral e do homem em particular.
Na realidade, meu maior interesse na época era a psicanálise freudiana, que me parecia, e ainda hoje
me parece, ser a base de todo estudo profundo dos fundamentos da dinâmica entre o nosso "consciente"
e o nosso "inconsciente".

Meu contato com a psicanálise na Alemanha passou pelo professor Carl Huhn, da universidade de
Heidelberg, que propunha análise de grupo, bastante em voga na Alemanha dessa época, e que se
desenvolveu bastante, principalmente devido à enorme dificuldade em obter-se análises individuais com
os analistas ligados às universidades, havia uma espera de até 5 anos!

Neste círculo, tive a oportunidade de trabalhar freqüentemente com um dos alunos do professor Huhn, o
doutor Michael Klieeisen, com o qual tive a honra de escrever vários artigos e apresentar trabalhos em
vários congressos sobre "psicocibernética".
Além do seu interesse pela psicanálise, o Dr. Klieeisen era igualmente discípulo do professor Langen,
que por sua vez, além de ser um dos principais experts e divulgadores do Treinamento Autógeno do Dr.
Schulz, era igualmente o principal herdeiro da técnica do que eu traduziria aqui por "terapia
bidimensional", de Ernst Kretschmer.

O método do professor Kretschmer, que ele mesmo denominou de "Zweigleisige Standard Methode" em
1949, assim como o método de Dollard e Miller, ambos da mesma época, tentavam conciliar duas
tendências da psicoterapia que se cindiram depois da aparição da psicanálise.
A primeira destas tendências em psicoterapia estava centrada sobre a "psicologia profunda" do
indivíduo, na qual a causa do sintoma era privilegiada como meio de suprimir, a médio e a longo prazo,
definitivamente o sintoma em si.
Nesta tendência encontram-se todas as formas de "psico" análise e de psicologia conhecida na época
como "profunda".

Na época, a tendência "rival" aos métodos analíticos eram todas herdeiras da sugestão, seja sob forma
de hipnose, técnica bem anterior à psicanálise, herdeira do "magnetismo" de Mesmer, seja através de
condicionamentos praticados segundo a psicologia comportamental, que traduziria, de uma certa forma,
a sugestão hipnótica na linguagem do condicionamento, trabalhando sob o mesmo princípio de "contra-
ordens" enviadas ao sintoma.
Essa segunda tendência não levava em conta as causas do sintoma, partindo da hipótese que a
resolução consciente deste levaria o indivíduo a uma reformulação global na sua maneira de viver e de
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Como o "caminho do meio", como diria Buda, sempre é mais equilibrado que os extremos, este "caminho
do meio" em psicoterapia me parecia, em 1975, corresponder aos esforços do Dr. Kretschmer, assim
como os de Dollar e Miller, no sentido de obter um método terapêutico capaz de beneficiar-se tanto das
vantagens da psicologia profunda quanto da velocidade terapêutica das técnicas baseadas na sugestão
e seus derivados diretos ou indiretos, como o comportamentalismo, a bioenergética e a catarse afetiva
no renascimento ou no grito primal.

E o futuro deu razão a estes visionários, já que todo método de cura atual, e não somente em
psicoterapia, além de buscar o trabalho interdisciplinar, num esforço de inteligência coletiva, como
veremos no "adendo", orienta-se em direção à terapia integrativa, global.

Se bem que a técnica do Dr. Kretschmer não represente hoje, sob a forma, nada mais do que um
interesse sobretudo histórico, no fundo ela já preconizava uma teoria "holística" da psicoterapia, dezenas
de anos antes que este conceito fosse criado.

O que na época me incentivou a trabalhar sobre a teoria do Dr. Kretschmer, foi o fato de que a
cibernética previa igualmente uma ação conjugada entre níveis "analíticos-decisionais" e níveis
"executantes-comportamentais" envolvidos em todos os sistemas auto-regulados, como os seres vivos,
por exemplo.

Uma longa exposição detalhada aqui sobre os princípios da cibernética nos afastaria demasiadamente
do tema do relaxamento cinético.
Mas, podemos dizer, em linhas gerais, que todo sistema auto-regulado, do qual fazemos parte, possui
um nível no qual as decisões são tomadas em função dos dados analisados de um contexto.

Este nível é representado no homem pela reflexão e no animal pelo "instinto", já que é assim
designamos a inteligência animal.
Subordinado a este nível, existe o nível de execução, encarregado dos automatismos, dos "hábitos" e
dos comportamentos, automáticos, "reflexos", em função das decisões do sistema analítico "superior".
Este nível poderia situar-se em nosso inconsciente individual, como "programa" ou "software", e em
nosso sistema nervoso, que seria a matéria, ou o "hardware" do programa.

Mas, esta visão global que prevê a ação conjugada entre um nível de "análise de contexto dado e de
decisão" e um nível de "automatismo e de execução" não concerne unicamente as psicoterapias, com
sua tendência analítica, ou "profunda", e sua tendência sugestivo-cartático-comportamental.

Ela concerne cada ato de um sistema auto-regulado!


Como fugiríamos de novo demasiadamente ao tema se abordássemos aqui essa questão abrangendo
todos os sistemas auto-regulados, inclusive os que não são considerados biologicamente como "vivos",
vamos nos contentar e nos concentrar sobre o ser humano e sobre sua psicologia em especial.

Os fundamentos da psicologia humana, os meios que dispomos para desenvolver nossa consciência, já
eram conhecidas desde a antigüidade.

Vamos abrir aqui um breve parênteses para estudar o mais ilustrativo deles, descritos nos sutras da ioga.

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IOGA, CIBERNÉTICA E RC

Nossos ancestrais sabiam perfeitamente que nossa integração ao nosso meio ambiente, ou seja, ao
cosmos, dependia da nossa capacidade prévia de analisarmos uma situação e a tomarmos as decisões
que se impunham em função da análise, passando em seguida à ação, à execução sem falhas e sem
hesitações do que foi decidido, sempre guardando-se a possibilidade de uma correção da ação,
segundo o resultado obtido, pois toda regulação comporta um subsistema dito de "retroalimentação" ,
onde a "causa" é "informada" do efeito" que está sendo obtido.

O resultado esperado de uma perfeita análise da situação e de uma passagem à ação sem falhas é uma
completa integração do homem, tanto no seu meio biológico-interno, quanto no seu meio cósmico-
externo.
Podemos, então, falar de uma TRÍADE, se considerarmos a fase da análise-decisão e a sua
subordinada fase da execução como meios para atingir a plena integração do homem ao que o circunda.

Essa tríade já foi descrita nos "sutras de Patanjali" da ioga, através dos nomes em sânscrito:

"Dharana", "Dhyana" e "Samadhi".

"Dharana" seria a capacidade do "espírito" de "estar atento", de "se concentrar".


Geralmente essa capacidade é cultivada tradicionalmente através da meditação, sendo o termo
"Dharana" às vezes utilizado como sinônimo dela.

Diríamos, em uma linguagem mais atual, que o "Dharana" corresponde, na nossa vida cotidiana, à
nossa capacidade de reflexão, de análise de uma situação.
No entanto, o stress, ao qual somos cotidianamente submetidos, nos afasta de uma reflexão calma e
imparcial, e isto desde os tempos mais antigos!

A "meditação" que, na realidade, corresponde, no fundo, à uma reflexão sem objeto, foi assim um dos
recursos utilizados para devolver à nossa mente toda serenidade, a fim de que ela possa contatar toda
sua profundidade e daí, do mais profundo da sua serenidade, encontrar sua lucidez.

"Concentração", "meditação", "reflexão", "análise", são assim sinônimos de uma ação que poderíamos
aqui chamar de:

CONTEXTUALIZAÇÃO.

Através do termo "contextualizar" gostaria de designar nossa faculdade a discernir nossa posição em
um contexto dado.
Da adequação entre o que somos e o que o contexto é depende nossa capacidade de sobrevida e de
adaptação a uma situação dada.

"Contextualizar" seria, então, o resultado de uma reflexão capaz de situar-nos e conduzir-nos em função
do contexto no qual nos encontramos.
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Veremos mais adiante, na descrição do Relaxamento Cinético, que a nossa consciência desempenha
um papel importantíssimo na "contextualização", ou seja, na busca da adequação entre uma zona de
bloqueio corporal e o movimento que poderá diluí-lo.

Há, então, várias maneiras de praticarmos o "Dharana" descrito pela ioga.


Mas todas elas situam a forma humana que somos em relação a um fundo, a um contexto, quer seja
este contexto o cosmo, quer seja ele o microcosmo da relação entre uma zona de bloqueio corporal e o
movimento que poderá diluí-lo.

E pouco importa a dimensão do que consideramos "fundo", ou contexto, pois em todos eles podemos
experienciar o "samadhi" se conseguirmos a harmonia perfeita com ele.

Passemos agora ao estudo da segunda fase da tríade:


"Dhyana".

"Dhyana", corresponde ao poder do "espírito" de "sugerir" ao mais profundo de si mesmo o que ele
mesmo deseja que lhe ocorra.
Coloquei o termo "sugerir" entre aspas, pois apesar de "Dhyana" ser comumente associado ao poder da
"sugestão", ou à nossa força de auto-persuasão, creio que há uma grande confusão ligada ao que
representa realmente "Dhyana", confusão tipicamente humana entre os termos:
SUGESTÃO E DECISÃO.

Creio que você concorda comigo, caro leitor, que há uma diferença consistente entre o que é da ordem
de uma simples "sugestão" e o que provém de uma "decisão".
A sugestão abre margens para mil outras sugestões, nuances da primeira, ou mesmo contraria a elas.
A sugestão se situa no terreno da opinião, do "gosto".
A sugestão se deixa facilmente influenciar por contra-sugestões.
Ela não está certa, segura de nada, e sobretudo de si mesma.
A sugestão não concerne nossa vontade diretamente, ele traduz no máximo um desejo, algo em
princípio "negociável".

Já a decisão concerne completamente outro domínio do nosso "espírito" ou da nossa mente, se o leitor
me permite utilizar aqui a palavra "mente" como sinônimo de "espírito", já que essa palavra, de
conotação mais leiga, é mais unanimemente aceitável.

A "decisão" supõe um longo e sério trabalho prévio de reflexão, de "meditação" sobre um contexto dado.
Ao chegarmos à decisão, já pesamos os prós e os contras da ação, já nos decidimos a aplicá-la.
Na decisão, já superamos a "indecisão", as dúvidas já ficaram para trás, já cumpriram seu papel de
conselheiras.

Eis, então, o que significa realmente, caro leitor, o termo "Dhyana", ele significa:
DECISÃO.

Seria mesmo espantoso que um terreno tão frágil como o da sugestão, comparado com a dimensão da
decisão, resistisse durante séculos, através dos sutras da ioga, e fosse preconizado como um
instrumento privilegiado na formação do nossa "mente", e que a potência indiscutivelmente superior da
"decisão" não fosse sequer mencionada nessa tríade!

Mas o erro não provém dos nosso anciãos que teriam preferido a palavra "sugestão" ao termo "decisão".
O erro é ligado à história da semântica.
Pois, assim como a palavra "vida" foi dissociada da sua raiz "vegetativa", como vimos no início deste
estudo, com o passar do tempo, o termo "sugerir" desligou-se da noção de "decidir" e perdeu o contato
com a fonte inicial do seu significado.

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Eis porque, caro leitor, a "sugestão" hoje em dia possui inclusive uma conotação pejorativa e é
facilmente associada à impostura, à pusilanimidade, quase à desonestidade, assim como a força da vida
foi cortada da sua raiz vegetativa, culminando com um nível de suicídio sem precedentes, altíssimo e
crescente hoje em dia.

Em tempo mais antigos, alguém só enviava uma "sugestão", a si mesmo, ou a outra pessoa, após estar
convicto da sua pertinência.
Hoje em dia, "sugerir" não significa nada, é apenas dar uma opinião, sem nenhuma certeza da sua
validade.
Nos remotos tempos da adoção do termo "Dhyana", estava fora de cogitação aconselhar algo sem
assegurar-se previamente do bom fundamento da informação, havia um COMPROMISSO real com a
EXPERIÊNCIA:
Ninguém "sugeria" uma ação ou uma RESOLUÇÃO sem estar apoiado em uma prática sólida e
consistente.

A prática do "Dhyana" estava, como está ainda hoje, apoiada no que chamamos hoje de DECISÃO e
nada tem a ver com a conotação ambígua de "sugestão", tal como concebemos esta palavra atualmente.

Toda DECISÃO é tributária de uma RESOLUÇÃO.


E no sentido literal da palavra, já que passamos à decisão quando o problema já está estudado e
resolvido.

Só após a resolução é que passamos a decisão.


A partir daí, já não há mais dúvidas: formamos uma UNIDADE com o ato que iremos aplicar:

SOMOS UM COM A AÇÃO.

Só se entendermos "Dhyana" como provindo de uma DECISÃO e não de uma ambígua e fraca
"sugestão" é que poderemos entender o terceiro elemento da tríade proposta pelos sutras para educar
nosso "espírito", ou nossas mentes:

O "Samadhi".

Pois o "Samadhi" corresponde a um profundo sentimento de ligação com o "todo", com o "cosmos", ou
com "deus", que é como muitos concebem essa palavra, que viria através da sensação de integração
plena:
DE UNIDADE COM A AÇÃO.

O "Samadhi" corresponde fundamentalmente a uma profunda confiança na ação, a uma decisão prévia
inequívoca, a uma perda de toda tensão inútil durante uma ação, já que é nossa indecisão, nossa
apreensão durante uma ação, o que mais nos dificulta de levá-la bem e a termo.

Tal é o ponto de vista também da cibernética, que indica que um organismo complexo e auto-regulado
nunca se lança em uma ação por acaso!
Ele sempre realiza previamente um longo e minucioso trabalho de CONTEXTUALIZAÇÃO em função
dos seus objetivos.
Só quando já alcançou a RESOLUÇÃO, detectando a ação mais adaptada à ação, é que passará à
decisão.

A partir daí, nada mais terá a fazer que executá-la:


"A sorte está lançada", lançou César pouco antes de um dos seus famosos combates.

Em toda biologia, somos a única espécie que hesita durante uma ação, precisamente porque não
aceitamos tomar decisões, na ilusão que se não a tomarmos, não teremos que assumir as
conseqüências inevitáveis dos nossos atos.
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O conflito entre a liberdade individual e o medo desta "responsabilidade" é o que caracteriza o "ser"
humano.
Ultrapassar este conflito é dirigir-se à unidade com a ação, é concentrar-se nela, dedicar-se unicamente
a ela, e deixar que ela seja, em si, nosso único objetivo.
A maior fonte de erros é a preocupação com o resultado durante a execução de uma ação.

O "Samadhi" representa este estado de unidade absoluta com a ação.

É necessário um trabalho prévio longo e consistente, em termos de "Dhyana" ou DECISÃO e antes


ainda, em termos de "Dharana", ou contextualização, para que possamos chegar ao "Samadhi", ou à
profunda comunhão com a ação que o caracteriza e, através dela, à harmonização entre nosso interior e
o nosso exterior.

Embora o estado de "Samadhi" represente a união de toda e qualquer ação nossa com tudo em nossa
volta, algo como um estado permanente de "inspiração", conhecido na mística sob o nome de
"iluminação", podemos considerar, para efeitos "humanos", que todo ato humano representa essa busca
de comunhão, busca de "Samadhi", anseio e necessidade de unidade completa e total com uma ação
empreendida.

Neste nosso estudo consideraremos, então:


1. "Dharana" como sinônimo de "contextualização".
2. "Dhyana" como o equivalente de "decisão".
3. E "Samadhi" como representando a "ação perfeita", mas também o caminho que leva a ela, forjado da
nossa necessidade de harmonia, da nossa intuição da sua existência, da nossa ânsia de
uma união total entre tudo que somos e tudo que é em nossa volta.

A mística relata vários exemplos dessa sensação de "Samadhi" ou de plenitude.


Santos, como S. Francisco de Assis, ou grandes místicos hindus, atraíam para si animais selvagens.
Daniel não foi devorado na cova dos leoes.
Jesus viveu uma harmonia tão intensa com o cosmos, que declarou:
"Eu e o Pai somos um".

Esta tríade proposta pelos sutras de Patanjali da ioga, a fim de desenvolver nossa consciência,
correspondem igualmente ao desenvolvimento e à regulação dos sistemas complexos descrita pela
cibernética.

Podemos considerar que o nível de regulação "analítico-decisional" descrito pela cibernética corresponde
ao "Dharana", ou "processo de contextualização", enquanto a fase "executivo-comportamental" prevista
pela cibernética corresponde ao "Dhyana", à "decisão" que anuncia a resolução prévia do problema
contextualizado e a iminência da ação liberada de indecisão, ou "Samadhi", que será empreendida.
O "Samadhi" é, então, a conseqüência da perfeita aplicação dos dois princípios anteriores, sinal que não
há mais retificações a fazer, já que o "sistema" em questão, no caso a mente humana, atingiu a união
perfeita com a ação.

O Relaxamento Cinético segue os mesmos passos, como veremos mais adiante com detalhes, no
sentido em que seu objetivo é levar nossa consciência à contextualização do bloqueio, até que nossa
ação corresponda à decisão inequívoca de facilitar o processo de descontração, o que culminará com a
diluição do bloqueio, através da "ação inequívoca, ou "Samadhi", representada pelo movimento que
lançaremos ao seu encontro.

Fechemos agora este importante parêntese para voltarmos à descrição da gênese do RC.

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DA TERAPIA À PREVENÇÃO

Vimos como o fundamento de toda ação humana corresponde à tríade: "contextualização-decisão-ação


harmoniosa" descrito já há milênios nos sutras de Patanjali da ioga.
Vimos como o método do Dr.Kretschmer já preconizava uma psicoterapia integrativa bidimensional,
criando as bases para a obtenção do terceiro elemento dessa tríade, aqui representada pela
"cura" do bloqueio psíquico que impedia a "ação harmoniosa", cujo ponto culminante é descrito
pelo estado de "samadhi".

Descrever o métdo do Dr. Kretschmer em linguagem cibernética, abrindo espaço a toda pesquisa de
fundo na direção de uma psicoterapia integrativa, passou, então, a ser a minha próxima
prioridade profissional.

A experiência do doutor Klieeisen, grande estudioso na matéria e igualmente interessado em toda


abordagem global da psicoterapia, me foi de uma grande valia.
Dr. Klieeisen foi, assim, um excelente guia entre estas diversas abordagens psicoterapêuticas da época
e, graças a ele, pude escrever um doutorado intitulado:

"Psicoterapia integrativa, teoria da probabilidade e modelo cibernético".

Em alemão: "Integrative Psichotherapie, Warscneinlichkeitstheorie und Kybernetisches Modell".

Hoje em dia, uma abordagem deste gênero seria chamada de "holística", ou "global".

Para realizá-la, era importante seguir os traços da psicoterapia desde a sua origem e entender seu
processo de fragmentação em diferentes princípios, que se desagregaram uns dos outros à medida em
que ela se desenvolvia e que a rivalidade entre os homens se tornou mais forte que o seu desejo de
cooperação.

A psicoterapia nasceu com a medicina.


No entanto ela já era praticada, sob forma de magia, desde os primórdios da humanidade, como bem
nos lembrou Stern, em 1957.

A magia seria assim o fator psicoterapêutico que evoluiria em seguida até o magnetismo de Mesmer e,
finalmente, até a hipnose, a qual isolou o princípio da sugestão como sendo o seu fator terapeuticamente
ativo.
Nos passos da sugestão surgiu, em seguida, a terapia comportamental e as terapias fazendo apelo ao
princípio de programação ou de "pensamento positivo".

O outro pólo da psicoterapia se desenvolveu em torno da psicanálise e da "psicologia profunda" que


possuía várias variantes, "rivais" infelizes da análise freudiana, entre as quais a versão do Dr.
Kretschmer.

Infelizmente não pude dedicar-me mais a fundo à prática psicanalítica, pois uma súbita paixão pela
Gestalt-Terapia de Fritz Perls me obrigou a disciplinar melhor meu tempo disponível!

Optei por uma formação em "Gestalt" com Werner Arnett, discípulo direto de Perls.
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No que concerne diretamente a psicanálise, logo tive que me contentar com estudos apenas teóricos
sobre a psicanálise freudiana.
Havia muitas opções na época, entre outras a bioenergia reichiana, o psicodrama de Moreno, a terapia
não diretiva de Rogers, a Gestalt de F. Perls, o grito primal de Janov e toda uma nova corrente de
abordagens psicocorporais.
Diria até: havia muitas "tentações"! de tanto que dava vontade de estudar e enveredar a fundo em todos
estes caminhos.
Mas uma vida humana seria certamente insuficiente para percorrê-los todos e, felizmente, assim como
"todo caminho leva a Roma", toda prática consistente de um método dado nos leva ao fundo, à essência
mesmo da psicoterapia, que não deveria esquecer que, apesar de sua prática dever permanecer
rigorosamente regulamentada profissionalmente e exercida apenas por profissionais credenciados, ela é
apenas um dos meios disponíveis para que o homem se reencontre, se reconheça, se reconcilie consigo
mesmo.

Tendo optado pela Gestalt, segui, então, minha paixão pela psicanálise de Freud, ao mesmo título que
minha paixão anterior a ela pela análise junguiana, a nível de congressos, conferências e círculos de
estudos sobre o tema, apenas como ouvinte e, sempre que pude, na universidade de Heidelberg, onde
havia um importante núcleo de estudo sobre a abordagem psicossomática, que despertava na época um
grande interesse na psicanálise e na medicina.

Mas em nenhum momento perdi de vista o estudo da sugestão no relaxamento, já que consagrei uma
parte dos seis anos que vivi na Alemanha a dar cursos de "Treinamento Autógeno de Schulz", graças ao
professor Langen, que me concedeu a grande honra de auxiliá-lo nessa tarefa, sendo ele um dos
grandes difundidores dessa técnica em toda a Alemanha ocidental, ajudando, inclusive, a implantá-la a
nível popular, através de cursos em estabelecimentos de formação contínua para adultos, conhecidos
como "Volkshochschule".

O treinamento de Schulz me parece um excelente meio de obter um relaxamento seguro, simples e


eficaz.
Não creio que haja um treinamento que corresponda melhor às características acima, inclusive a
"Sofrologia" do Professor Alfonos Caycedo, que tive a oportunidade de estudar desde o início da sua
difusão internacional, também por volta dos anos setenta.
Mesmo o excelente método do Dr. Jacobson, mais popular nos países de influência anglo-saxônica e o
qual tive também a oportunidade de praticar, não me parece atingir a profundidade que o método do Dr.
Schulz obtém.

E se relanço aqui a mais arquetípica, ancestral e primária das idéias de relaxamento que posso
conceber sob o nome de "Relaxamento Cinético", diante de tantos métodos tão eficazes e comprovados
há dezenas de anos, é porque ela é em si tão elementar, simples, óbvia e, além do mais, tão
naturalmente praticada por quase todo mamífero, como veremos mais adiante, que não há nada mais
urgente a fazer, em matéria de relaxamento atualmente, do que redescobrir essa prática!

Pois sempre precisamos de "novidades" para funcionarmos mentalmente.


E, por outro lado, sempre será necessário reinventar, redescobrir, reatualizar o óbvio, enquanto
privilegiarmos o complicado e negligenciarmos a inexplorada riqueza do simples, do evidente, do natural.

Mas, antes de descrever o Relaxamento Cinético em si, necessito ainda aqui prosseguir com a narração
do histórico que me levou à redescoberta do óbvio.

Estou ainda no meu tempo de descoberta da Gestalt.


E o "aqui e agora" que ela preconizava só reforçava mais em mim a certeza que "presença", ou seja,
"atenção" nada mais significava que "a-tensão", ou ausência de tensão, de stress, no sentido literal do
termo.

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Por isso mesmo, embora estivesse já bastante sobrecarregado com o apetite da minha curiosidade de
jovem pesquisador em ciências humanas, nunca perdi de vista o treinamento autógeno, sobretudo em
uso pessoal, pois "relaxar" já havia se tornado parte dos meus condicionamentos naturais, bastante útil
para jovens que, como eu, são de índole impaciente e… facilmente irritável… embora eu tenha tirado
partido também disso na minha vida profissional, como explicarei no "adendo".

Concomitantemente à minha formação em "Gestalt", tive ainda a oportunidade de trabalhar no


departamento psiquiátrico, dirigido pela doutora Herta Lauer, do hospital antroposófico de Herdecke
(Gemeinnüziges, Gemeinschates Krankenhaus), próximo a Dortmund, onde tive o privilégio de estudar a
visão antroposófica da medicina e do homem.

A meditação, sob forma de contemplação, de "a-tensão", diria eu aqui, praticada pelos seguidores do
Dr. Rudolf Steiner, também indicavam a necessidade de uma profunda descontração mental para que
nossa consciência fosse capaz de apreender a realidade como um todo maior do que a soma das
partes:
O relaxamento, mesmo sem ser um recurso direto, continuava mesmo assim sendo igualmente, para
mim, o embasamento desta escola.

Com o fim da minha formação em Gestalt-Terapia, em 1980, passei a dedicar mais tempo às técnicas
orientais, como shiazu, acupuntura e acupressura, tai chi e também a bioenergia reichiana.
Mas, como sempre funcionei a nível de "paixão", foi o zen e sua meditação, o zazen, que me
arrebataram nessa ocasião e fui estudá-los com o Graf Dürkheim e com Maria Hippius, na Floresta
Negra, na Baviera.

Nesta ocasião descobri o Kinomichi através de um jovem mestre, denominado "Yuma".


O Kinomichi é uma "anti" arte marcial, como o denomina seu criador, o mestre Noro.
Esta técnica é inspirada no Aikido, já que M. Noro foi um dos primeiros e principais discípulos de Mestre
Ueshiba, criador do Aikido.
A Yuma, este "jovem mestre em Kinomichi", devo também uma iniciação à holovisão dos índios da
América do Norte, pois encontrei-o quando acabara de chegar de um longo período na reserva dos
sioux.

O zen, o zazen, o Aikido, o Kinomichi e a holovisão indígena completariam assim a minha já longa
caminhada nos passos de grandes técnicas e grandes mestres.

E, em todos estes passos, sempre havia para mim os traços do relaxamento, sob forma de
"descontração", de "calma" praticada sob várias formas, mas, sempre de maneira imprescindível, a fim
de levar-nos à presença de espírito, única capaz de orientar a evolução das nossas consciências.

Em 1981 troquei a Alemanha pela França.


Instalei-me em Paris, onde resido até hoje, me dedicando-me um pouco à prática da psicoterapia e
quase exclusivamente ao meu aperfeiçoamento em Kinomichi junto ao Mestre Noro.
Já não praticava mais diretamente o treinamento autógeno, embora este continuasse fazendo parte de
mim, e me dediquei mais ao zazen.
Decidi dedicar-me, igualmente, diretamente ao Aikido, precursor do Kinomichi, fiel à minha antiga
"mania" de pesquisador, sempre em busca da origem...

Graças ao meu mestre em Aikido, Daniel Martin, discípulo de Noro e de Saito, dois dos maiores nomes
do Aikido histórico, pude obter o 1o. Dan em Aikido, mais conhecido como "faixa preta".

Nada me predispunha a estar agora, diante deste computador escrevendo sobre uma técnica de
relaxamento, pois a polivalência das múltiplas influências que herdei me levaram aparentemente por um
caminho que, à primeira vista, pareceria bastante distante do relaxamento em si.

A partir de 1983 comecei a propor "workshops" intitulados: "O corpo e o todo".


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Nesta época já havia uma nebulosa, que se tornara praticamente incontável, de métodos propostos em
psicoterapia, todos indecifráveis em suas raízes, de tanto que todas as linhas de pesquisa na matéria se
influênciaram reciprocamente.
Sem contar a chegada dos métodos vindos do oriente.
Cada terapeuta que, como eu, havia banhado nessa cultura polivalente, tentava agora recriar seu próprio
caminho, retraçar seu histórico, encontrar a si mesmo, no meio de tantos dados e tantos fatores
importantes.
Diria que no começo dos anos 80, a psicoterapia saiu da era das "análises" e entrou na era das
"sínteses".

Isso já havia sido mesmo previsto e desejado por Jung que, coerente com sua teoria da "individuação",
afirmava que ninguém pode fazer terapia baseado em "Jung", "Freud", ou "Adler", mas unicamente
baseado em si mesmo (citação de Stern).

Fritz Perls lembrava igualmente aos seus discípulos, segundo o que me relatou meu mestre em Gestalt,
Werner Arnett, que não deveríamos contentar-nos em sermos apenas "pequenos Fritz", sinônimo de
"imitador" em alemão, mas sim buscar nossa própria compreensão de um material assimilado.

Na realidade, cada terapeuta terá que encontrar em si suas próprias bases, que darão frutos
necessariamente com nuances distintas das raízes que os nutriram.

Poderia, na época, ter optado por representar um dos vários caminhos que percorri e tornar-me um
"gestaltista", um "aikidoca", ou dedicar-me unicamente ao zen.

Poderia, igualmente, como vários companheiros de caminhada, ter criado minha própria escola de
psicoterapia, propor meu próprio "método".

Mas esse não me pareceu ser o "meu" caminho.

Afinal, o que não faltava na época eram técnicas pessoais, originais, competentes e sérias em
psicoterapia.
Meu interesse se voltava para uma função bem menos "acadêmica", bem mais distante do meio
universitário, onde banhei-me com tanto prazer e entusiasmo no início da minha vida profissional.

Minha paixão não se dirigia tampouco ao exercício da psicoterapia clínica, que me trazia o
amadurecimento da minha experiência e também o indispensável sustento econômico, mas meu coração
batia forte rumo a uma nova aventura:

A PREVENÇÃO.

Os anos de clínica médica me haviam convencido que era nesse domínio que mais havia necessidade
de esforços a serem realizados.

Levar o conhecimento médico, psicoterápico, numa finalidade preventiva, além das fronteiras da
medicina e da psicologia clínica, me parecia uma tarefa pouco empreendida e fundamental.
A experiência em centros de formação populares junto ao professor Langen havia sensibilizado o jovem
médico em mim para a premente necessidade de um trabalho social, para-médico, em prol mesmo da
medicina e da saúde, de tanto que inúmeras doenças gravíssimas poderiam ser evitadas, retardadas ou
melhor tratadas, se simplesmente seus portadores houvessem recorrido à medidas preventivas!

Apesar do entusiasmo, que me indicava o caminho a seguir sem hesitação, a decisão não foi nada fácil.

A prevenção não é valorizada ainda hoje, imaginem há vinte anos atrás.

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Ademais, fazer prevenção em psicoterapia não significava nada, não havia metodologia prevista para
isso, não havia trabalhos pioneiros que indicassem a rota.
Suponho que ainda hoje haja pouco, muito poucos trabalhos reconhecidos a nível universitário e
patenteado pelo uso popular sobre a matéria.

Mantive mesmo assim minha decisão de trabalhar a nível de prevenção:


Os workshops que eu propunha, intitulados: "O corpo e o todo", representavam a primeira forma que
pude conceber afim de propor um trabalho de prevenção, dentro da área do autoconhecimento, inovando
a maneira clássica de trabalhar com prevenção, que se resumia na época quase que exclusivamente a
prodigalizar conselhos de higiene e bom senso.

Devo dizer que abdiquei mesmo completamente à palavra prevenção, que me parecia não mais
corresponder ao que nela há de mais nobre, que é recriar permanentemente novos meios para que o
ditado que diz que "é melhor prevenir do remediar" não seja apenas palavras em vão, ou "pérolas
jogadas a porcos".

Optei pelo termo "autoconhecimento", que minha "de"…formação médica traduzia como "prevenção", de
tanto que estava convencido, e dezoito anos de prática nesse sentido me confirmaram, de que a melhor
maneira de prevenir qualquer mal é escutar o que vem tanto do nosso corpo como da nossa "alma".

No "adendo" também explicarei com mais detalhes os fundamentos desta opção.

E, afinal de contas, o que importa mais: a palavra ou o ato?

Eu classificaria, por exemplo, a antiga medicina chinesa, onde as pessoas sãs pagavam para
permanecerem com saúde e eram tratadas de graça enquanto estivessem doentes, de medicina
"preventiva", enquanto a nossa medicina atual é "curativa".
Na china antiga, os curadores viviam graças à saúde dos seus pacientes e a doença representava para
eles um infortúnio financeiro.
Pena que não conseguimos reproduzir hoje em dia no ocidente esse magnifico "know how"…

Parti, então, à minha aventura na prevenção realizando na prática a síntese de toda gama de influências
que me haviam moldado profissionalmente.

Na primeira fase dos workshops, período que se situa entre 1983 e 1989, por precaução de não
desenvolver uma abordagem heteroclítica demais, o suporte do trabalho era eminentemente físico,
baseado principalmente no espirito zen e na técnica do Aikido.
Só "nas margens", subsidiariamente, é que outras influências se faziam, com o correr dos anos, sentir.

O "fio terra" do trabalho, era o seu próprio fio condutor, ou seja, o corpo e o aprendizado de técnicas
físicas que indicavam tensões e bloqueios, mas que não se destinavam a uma análise verbal e nem
sequer a uma "leitura corporal", como pratica a bioenergética.

Os ensinamentos de mestre Noro e do Kinomichi me foram de muita valia neste período, pois ele
utilizava os mesmos princípios do Aikido não mais em um espírito "marcial" ou de "defesa pessoal", mas
unicamente no sentido de ajudar a nossa mente a entender o movimento natural do corpo, a integrá-lo e
energizar-se a partir dessa integração, desfazendo as tensões e os bloqueios que sobrevém quando
ignoramos a maneira como nosso corpo se insere naturalmente no contexto, na dinâmica temporo-
espacial que nos encontramos.

Na realidade, nosso corpo representa bilhões de anos de "ergonomia", de adaptação temporo-espacial


de toda matéria universal ao movimento, e que culminou no movimento da vida.
Nossa forma física foi testada e aprimorada milhões de anos antes que ela nos fosse ofertada com todo
o milagre da sua performance.

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Entender o corpo, habitá-lo, é ler nele, e literalmente, toda a história do universo.

Nunca é demais lembrar a sábia indicação de Hermes Trimegisto:


"O que está no alto é como o que está embaixo e o que está embaixo é como o que está no alto."

O estudo do corpo, tal e qual o praticam inúmeras disciplinas orientais, é a mais viva comprovação disso.
"O corpo e o todo" era, então, o nome deste trabalho que eu propunha, a nível de prevenção, no âmbito
do autoconhecimento.
Durante cerca de seis anos, então, de 1983 a 1989, dediquei-me a promover workshops em vários
pontos do Brasil, em Paris e, em seguida, também em Barcelona, na Espanha.

Nesta fase do meu trabalho se encontram as raízes do RELAXAMENTO CINÉTICO, cuja concepção
abordaremos em seguida.

22
COMO SURGIU A CONCEPÇÃO DO RELAXAMENTO CINÉTICO

O trabalho com o corpo, no sentido de levar nossa mente, por um lado, a melhor sentir o contexto
cósmico no qual este está inserido e, por outro lado, descobrir o enorme potencial de energia que a ela
pode direcionar, o grau de maturidade e lucidez que ela pode atingir, se ela chega à consciência da
analogia perfeita entre a lei do corpo e a lei do cosmos, é um trabalho extremamente rigoroso,
tecnicamente falando.

Quando um monge Shaolin perfura uma espessa madeira com um enorme prego servindo-se
unicamente da palma da mão como martelo, há um trabalho de uma extrema precisão, no que concerne
a harmonia da sua mente com as autênticas linhas de força que regem seu corpo.

E mesmo que os objetivos dos workshops "O corpo e o todo" fossem bem mais modestos que a façanha
acima, já que nosso objetivo de cidadãos urbanos visava unicamente uma maior consciência e uma
maior atuação desta na relação simbiótica que mantemos como nosso meio ambiente, no qual
poderíamos incluir a mais longínqua das estrelas, havia um trabalho que exigia o estudo permanente de
dados técnicos.

A repetição de exercícios que melhoram nossa performance no domínio de uma técnica dada se chama
"kata" no oriente.

Todo praticante de arte marcial conhece estes exercícios em série, que, por serem monótonos,
repetitivos e cíclicos, desencorajam nosso espírito "linear" ocidental.
Eu tinha grande dificuldade em motivar pessoas pouco habituadas à prática das artes marciais a
passarem mais de cinco minutos realmente motivados a extrair todo ensinamento que uma técnica pode
oferecer a um espírito que persevera na sua prática.

Recorria às vezes ao riso, ao lúdico.


Outras à persuasão, às vezes até à "autoridade".
Mas confesso que esse é o ponto fraco das nossas mentes ocidentais:
A dificuldade em entender que a vida, logo a lógica da vida, é cíclica, ou, melhor dito, "espirálica" e não
linear, como a lógica ocidental.

Logo, sempre é extremamente exaustivo para um ocidental trabalhar "tecnicamente" segundo o princípio
do ciclo um dia inteiro, imaginem cerca de vinte horas de trabalho em dois dias!
Era imperativo utilizar um meio de descontração qualquer para evitar o inevitável acúmulo de tensões,
que levaria ao efeito inverso ao desejado.

O problema é que seja qual for a técnica de relaxamento que eu optasse por ela, ela já conteria em si um
aprendizado técnico!
Ensinar técnica de relaxamento a quem, já está tenso de tanto aprender técnicas é algo como descansar
carregando pedras…

Com o tempo, passei a optar naturalmente pelo natural, ou seja:


Pelo movimento espontâneo.

Antes que explique mais em detalhes essa "não técnica", necessito esclarecer que há muito tempo
meditava sobre um detalhe ligado ao stress:
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Como faz um músculo para manter-se tenso, bloqueado, em stress permanente?

Como podem certos grupos musculares acumularem tensões, quando eles são
permanentemente atravessados por movimentos?
O simples aumento do tônus muscular devido a uma tensão psíquica permanente não explica o alto
grau de tensão que podemos acumular.
O treinamento autógeno é excelente para baixar o tônus muscular a níveis próximos da norma, mas só
dificilmente ele consegue penetrar em áreas de bloqueio mais profundas.

A fusão da fáscia muscular de vários músculos mantidos em tensão, fusão que serve, de uma certa
forma, de parede contendora ao que Reich chamaria de "couraça corporal", também não explica porque
os movimentos "evitam" estas área de tensão.

Técnicas de descontração que seguem esta pista, como o método de sueca Gerda Boyesen, mãe do
meu caro colega do "Centre d'Evolution" em Paris, Paul Boyesen, atuam geralmente de maneira
mecânica e exterior ao bloqueio, sem incidência concreta sobre sua causa.

Seu filho, P. Boyesen, tal como E. Kretschmer e Dollar e Miller no passado, tentou, criando a "Análise
Psico-orgânica", "auscultar" precisamente a relação entre a palavra e a dinâmica
fisiológica.

A própria bioenergia, abordando diretamente o "bloqueio", focaliza demais a atenção sobre ele e sobre a
sua carga afetiva, mas ao preço de perder de vista o corpo como um todo inserido indissociavelmente
em contexto maior, que é a dimensão espaço-temporal, que segue suas próprias leis, entre elas, a LEI
DA GRAVIDADE, a qual abordaremos abundantemente nesse estudo sobre relaxamento e que as impõe
ao corpo.

E esta é a grande diferença entre a abordagem corporal ocidental e a oriental:


Enquanto o ocidente enfoca a disfunção a nível da unidade "corpomente", utilizando essa unidade como
"fundo" do problema, o oriente enfoca tanto o sintoma como a unidade "corpomente"
no seu autêntico contexto:
A vida, ou seja, o cosmos.

Eis aí, então, um dos grandes problemas, no ocidente, da psicoterapia em geral e do relaxamento em
particular:
Quanto mais privilegiarmos um fator envolvido em um bloqueio mental-afetivo-psicomotor, mais
perderemos de vista o contexto global do qual este depende!

Nenhuma técnica pode se considerar realmente "global", ou "holística", de tão grande que é a dificuldade
de abrangermos na prática todo o fundo que envolve a forma de um problema dado.

Peço perdão se dou por acabada aqui esta sumária e incompleta abordagem da questão da formação e
da manutenção da tensão, a nível muscular, mas nosso propósito aqui não poderia ser de apresentar
uma elaboração ampla e cientificamente rigorosa sobre o tema, tendo que contentar-nos com o mínimo
de dados que possam informar o leitor não especialista na matéria, mas interessado em tirar proveito do
Relaxamento Cinético, de modo que ele situe, a nível teórico, o fundamento desta técnica de
relaxamento.

O essencial agora é entendermos que:


1. Embora alguns músculos sejam requisitados, pelo cérebro para servirem de deposito de um acúmulo
de tensões psicoafetivas.
2. Embora a fáscia muscular destes músculos, ou seja, a fina "pele" que envolve individualmente cada
um deles fusione com o tempo de duração de um bloqueio "crônico", funcionando assim como uma

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espécie de "parede contendora" que dificulta e mesmo paralisa a ação muscular, aumentando a
capacidade de retenção de tensões.

É imperativo que entendamos aqui que:

NÃO HÁ UMA AUTÊNTICA PAREDE MUSCULAR QUE ISOLE O MÚSCULO BLOQUEADO DO


MÚSCULO LIVRE.

Em outras palavras:
TODO BLOQUEIO MUSCULAR É DE ORDEM FUNCIONAL.

Não poderemos considerar a fusão de várias fáscias musculares como causa do bloqueio muscular, já
que esta é originada por ele, logo, não poderia originá-lo!
Pois para que haja fusão de fáscias, tem necessariamente que ter havido antes, e por um longo período
de tempo, uma retenção muscular PROGRAMADA INCONSCIENTEMENTE pelo cérebro.

E é precisamente a nível da programação cerebral que se encontra a autêntica "parede funcional" de


toda tensão muscular:

Poderemos "desprogramar" a nível local, seja pela técnica que for, um bloqueio muscular dado que é
utilizado como depósito de tensões psico-afetivas, mas enquanto não desprogramarmos a formação do
bloqueio a nível de "software", ou seja, a nível da INFORMAÇÃO cerebral, este ressurgirá.

Alguns poderiam argumentar aqui que mesmo que a "desprogramação" do bloqueio funcional, a nível
cerebral, fosse obtida, supondo que o Relaxamento Cinético nos ajudasse a obtê-lo, como é o que aqui
pretendo e em breve darei detalhes mais precisos a respeito, a "programação psíquica", que comanda
precisamente a programação cerebral, continuaria atuando e gerando novos bloqueios.

Não posso ir de encontro a essa hipótese, pois a minha própria experiência clínica a confirma:

Em última instância, só um trabalho a nível "profundo", psicoterapêutico ou psicanalítico, envolvendo a


palavra e a expressão catártica do conteúdo traumático emocional, é capaz de fornecer uma garantia…
"profunda"… de que as causas últimas das tensões musculares foram removidas, com o "fechamento da
gestalt", ou a a retomada de consciência e a relativização atualizada no "aqui e agora" da memória
traumática inconsciente.

Mas…
Podemos obrigar todo mundo a fazer uma psicoterapia "profunda", ou uma "análise" ?
Podemos banir como inúteis toda técnica que não se subordine à "psicologia profunda", ou "psicologia do
inconsciente" ?
Podemos realmente afirmar que quem não fizer terapia "não vai pro céu" e estará "eternamente"
condenado a penar no "inferno" da retenção muscular de si?
Podemos excluir categoricamente que não há como ir do músculo ao inconsciente, mas unicamente do
inconsciente ao músculo?

Este tema realmente ultrapassa os limites de uma obra tão modesta come esta, destinada unicamente a
situar o Relaxamento Cinético entre as "técnicas" no âmbito do autoconhecimento em geral e da
prevenção em particular.

Voltemos, então, à noção de "programação a nível cerebral" e deixemos a discussão sobre o último
escalão, a programação a nível psíquico para um outro espaço-tempo mais apropriado.

O fato é que, para que haja retenção muscular, HÁ que haver uma programação cerebral específica
DESVIANDO UM OU VÁRIOS MÚSCULOS DAS SUAS FUNÇÕES HABITUAIS EM PROL DA NOVA
FUNÇÃO DE ACUMULAR TENSÕES PSICOAFETIVAS.
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E mesmo que essa programação cerebral esteja subordinada a uma programação psíquica prévia, é
dela que depende tudo que será detectado a nível físico:
A programação cerebral e sua eventual supervisora, a programação psíquica, representam assim a
"ordem implícita" que comanda a "ordem explícita" representada pelo bloqueio detectado.

A questão que se impõe agora é:


COMO DESPROGRAMAR UMA TENSÃO A NÍVEL CEREBRAL ATRAVÉS DE UMA TÉCNICA DE
RELAXAMENTO ?

A resposta é :
Através de movimentos espontâneos.

Eu não tinha consciência disto, até que propus aos participantes dos seminários "O corpo e o todo" que
fizessem bastantes movimentos espontâneos entre cada série de técnicas, para …"relaxar".

Não me recordo exatamente do momento do "eureca", onde pude relacionar meu velho questionamento
sobre a falta de parede orgânica, concreta, à tensão muscular, que só poderia ser "retida" em princípio a
nível de uma programação cerebral, e o MOVIMENTO ESPONTÂNEO como o meio mais eficaz para
DESPROGARAMAR a "parede funcional cerebral":

Recordo-me daqueles corpos exausto se retorcendo, como que querendo tocar literalmente, através das
suas contorções, o âmago da tensão.
Recordo-me de algumas pessoas que se deliciavam longamente e sem nenhuma pressa nesses
momentos, como se toda a minha "tortura" técnica fosse para ele apenas uma escusa para chegar a
esse gozoso instante.
Recordo-me da imagem de cães ou gatos, preguiçosamente estirados, mas com os corpos retorcidos,
imóveis em suas contorções, como que deixando a GRAVIDADE distender passivamente seus
músculos, aspirar o excesso de tensão que eles obrigatoriamente acumularam em esforços precedentes.
Recordo-me da minha crescente curiosidade a respeito deste tipo de fenômeno nos grupos.
Recordo-me da minha proposição, cada vez mais freqüente, para que tal "não técnica" fosse praticada..
Recordo-me de ter começado a criar uma sessão especial para essa prática, além do uso já freqüente,
através de inúmeras mini-pausas, destes movimentos espontâneos.
Recordo-me da minha necessidade de melhor apreender o fenômeno e…
"De"–formação profissional obriga… de sistematizá-lo.
Recordo-me de começar a "incentivar" com palavras bem mais que "dirigir" tais movimentos.
Recordo-me de inspirar-me no que observava para incentivar as pessoas a prosseguirem.
Recordo-me de ter notado mesmo aí nesta espontaneidade de movimentos o mesmo fenômeno dos
CICLOS, onde, por exemplo, primeiro as pessoas se punham a fazerem contorções de pé, em seguida
se sentavam , ainda realizando contorções, para logo se deitarem, ainda realizando movimentos ativos,
buscando com seu movimento a DIALOGAR com a tensão ressentida, para finalmente deitarem-se
imóveis.

E mesmo se a maioria delas buscava imediatamente nessa fase final uma posição cômoda, próxima à
que dormiam, muitos ADOTAVAM POSTURAS EM CONTORSÃO COMO OS ANIMAIS!!

A sistematização do que hoje chamo "RELAXAMENTO CINÉTICO" surgiu assim, caro leitor, bem mais
do que eu pude observar do que do que pude pensar, sistematizar, interpretar, ou criar.

Sempre me pareceu que o próprio movimento criou o MOVIMENTO ESPONTÂNEO DE


DESCONTRAÇÃO, que aqui chamo de "relaxamento através do movimento", ou seja: relaxamento
cinético.

Evidentemente, eu não seria tão ridículo a ponto de "reivindicar" a autoria de um movimento que é
conhecido e praticado certamente há milhões de anos e literalmente por "gato e cachorro"!
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Tampouco duvido do fato que muitos terapeutas corporais utilizem técnicas mais ou menos similares a
esta.
Alias, o presente livro é igualmente um incentivo para que eles descubram ou redescubram o fenômeno
do movimento espontâneo e natural como o meio mais eficaz de tocar fisicamente focos de bloqueios e
tensões.

Afinal, não há nada de excepcional em observar e constatar o óbvio…

Você mesmo, caro leitor, já recorreu ao movimento espontâneo para se relaxar várias vezes e
provavelmente nem se deu conta do que estava fazendo.

O princípio do movimento espontâneo, caro leitor, pertence então a cada um de nós!

Bastaria que você interrompesse essa leitura agora, começasse a se espreguiçar, como faz
espontaneamente todas as manhãs e já estaria utilizando o princípio fundamental do Relaxamento
Cinético!!

Ou não seria antes o RC, como o chamamos abreviadamente, que estaria utilizando o princípio
fundamental do movimento espontâneo ???

Se o primeiro interesse desse livro foi o de salientar a importância da descontração, seja ela qual for,
para a paz mundial, o segundo interesse dele é alertá-lo para a enorme riqueza contida no movimento
espontâneo.

ESQUEÇAMOS AQUI POR UM INSTANTE O RELAXAMENTO CINÉTICO!!

Pois ele nada mais é que uma técnica, mesmo mínima, visando levar-nos ao movimento mais
"espontâneo" que nossas mentes "pavlovicamente condicionadas" por anos de perda de
espontaneidade, conseguem ainda se permitir.

Mas:
NÃO PRECISAMOS DE NENHUMA TÉCNICA ESPECIAL PARA ISSO !!

Basta nos mexermos de um lado para o outro, dançar descontraidamente ao som de um ritmo
imaginário, contorcermo-nos no chão, estirar-nos, fazer caretas, mesmo sem focalizar nossa consciência
nos focos de tensão e já estamos em pleno processo de recuperação do nosso movimento espontâneo
e, através dele, começaremos, mesmo sem percebê-lo, a desprogramar a nível cerebral o
condicionamento que mantém um grupo de músculos isolados do fluxo de movimento natural que
permeia todo nosso corpo, seja qual for o movimento que realizarmos.
Pois quando andamos, ou sorrimos, ou fazemos cocô, todos os nosso músculos se mexem e deveriam
naturalmente tirar proveito de todos estes movimentos para se manterem em forma.

Bom, uma vez que eu mesmo realizei a "anti-propaganda" do método que pretendo apresentar nesse
livro, antes mesmo de acabar de expô-lo, devo ao menos apresentá-lo por completo!

Creio que o leitor entendeu que pretendo, através de um pouco de humor, incitá-lo a tomar iniciativas
naturais, simples, fáceis, que já fazem parte do dia-a-dia e perfeitamente ao seu alcance em prol da sua
própria saúde.

Mas, claro, não sou tão ingênuo a ponto de crer que poderemos ser espontâneos "espontaneamente"!

Pois embora pareça paradoxal, precisamos que nos re-ensinem, através de técnicas simples, como
recuperar nossa própria espontaneidade psicomotora, reprimida através de muitos anos de "civilização".

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Claro que não se trata de uma volta aos "tempos das cavernas", mas de um simples reequilibro entre
gesto social e gesto natural.
E já que perdemos praticamente por concreto o contato com o natural, será o "social", o "aprendido", o
gesto convertido em "técnica mínima de facilitação ao óbvio" que poderá criar uma ponte que nos religue
com o nosso movimento natural.

O RC se baseia, então, no princípio, de que quanto mais houver regras técnicas, menos haverá
espontaneidade de movimento.
Quanto mais utilizarmos suportes exteriores, como a música, por exemplo, para movimentar-nos, menos
nossos movimentos gozarão das condições ideais para dialogar diretamente com o processo de
retenção muscular.

Mas, por outro lado, quanto menos houver fios condutores e instruções que orientem e incentivem a
prática do movimento espontâneo, menos o cidadão urbano, condicionado desde a infância a só realizar
movimentos técnicos (movimentar-se, viver, trabalhar em uma grande cidade não é o mesmo que
movimentar-se no campo) conseguirá redescobrir a INTUIÇÃO NATURAL que cada um de nós possui do
movimento espontâneo que DESPROGRAMA a tensão a nível cerebral, diluindo o circuito neuro-
muscular funcional criado pela mente para servir de receptáculo ao excesso de tensão afetiva.

Há que haver, então, para cada um de nós, uma "técnica mínima de facilitação ao óbvio", afim de que
possamos recontactar a nossa intuição natural, que orientará em seguida nosso próprio movimento ao
encontro da retenção muscular, diluindo-a no fluxo cinético normal que percorre todo e qualquer músculo
acionável através da nossa vontade.

Eis, então, a primeira definição do RC, caro leitor:


"Técnica mínima de facilitação ao óbvio".

No entanto, talvez eu o tenha convencido, caro leitor, a tentar por você mesmo e espontaneamente a
chegar no seu movimento espontâneo.
A utilidade do presente livro para você acabaria, nesse caso, aqui .
Obrigado pela companhia!

Mas, se você pertence, como a maioria de nós, ao grupo de pessoas que necessita ainda de ajuda para
aprofundar sua relação com a própria espontaneidade, descreverei agora as diferentes etapas do RC e
maneira como ele poderá lhe ser útil no seu dia a dia.

Permita-me antes resumir os principais pontos que abordamos até aqui.

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RESUMINDO:

Segue agora um resumo "especial", caro leitor.

Chamo esse resumo de "especial", em primeiro lugar porque ele comporta novos dados ainda não
abordados explicitamente.
Mas, também porque, apesar de resumir pontos já explicitados, mas nem sempre sob o mesmo ângulo,
talvez o que lhe tenha escapado na exposição mais explícita lhe pareça mais claro em uma linguagem
mais sintética.

Às vezes , a linguagem e a compreensão tem desses "mistérios"…

RELAXAMENTO CINÉTICO (RC):

A REINVENÇÃO DA RODA.

Desde os primórdios da humanidade, o homem vem lançando mão da sua mente para tocar sua própria
consciência.
A "consciência de si" obedece leis bem mais estritas do que se pode imaginar.
Estas leis não concernem exclusivamente o ser humano, toda e qualquer atividade "viva", na acepção
biológica da palavra, é tributária do mesmo processo de "regulação e de evolução de si" ao qual também
estamos submetidos.

Graças à cibernética, sabemos inclusive que todo sistema complexo, que se trate de uma organização
social, ou de um sistema planetário, segue os mesmos princípios de auto-regulação empregados pelo
organismos vivos em geral e pelo homem e particular.

Pois todo sistema organizado, para que continue a ser um "sistema", ou seja "organizado", necessita de
um subsistema interno de auto-regulação, capaz de assegurar a manutenção do "si mesmo" que ele é.

Quer se trate de um organismo considerado biologicamente como "vivo", quer o sistema organizado em
questão não seja "biológico", toda auto-regulação, do ponto de vista cibernético, se realiza em duas
fases:

Na primeira fase são acionados os circuitos referentes à captação de informações vitais ao sistema,
informações que serão em seguida triadas e que fornecerão as bases para a tomada de decisões que
orientarão em seguida a ação do sistema.
Esta "fase 1" é realizada por um subsistema do sub-sistema de regulação, que chamaremos aqui de
"fase analítico-decisional", já que é nessa fase que o sistema se orienta e toma suas decisões em função
do contexto em que se encontra.

A segunda fase concerne precisamente a aplicação das decisões tomadas, aplicação realizada através
do sub-sistema de auto-regulação do organismo.
Chamaremos essa fase de "fase 2", ou "fase dos automatismos de execução".

Estes dois sistemas mantém não somente uma ligação permanente entre si, como com tudo que se
passa, tanto no meio interno ao sistema quanto no seu meio ambiente e, sobretudo, uma ligação
continua com a ação decidida, afim de modificar, caso seja necessário, seu curso.

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Esse princípio onde o efeito está em contato com sua causa e pode interagir com ela é conhecido em
cibernética como "retroalimentação", ou "feedback".

Uma vez que um sistema ANALISOU o contexto e DECIDIU qual ação será empreendida, ele se dedica
inteiramente à sua EXECUÇÃO, sem nenhuma hesitação, enquanto a informação do curso da ação,
obtida através da retroalimentação não indique modificações necessárias.

Entre todos os sistemas autoregulados, biológicos ou não, o homem é o único que parece fugir a essa
regra.

Pois o homem nunca está realmente seguro das suas decisões e sempre perde grande parte do seu
poder de execução em hesitações.
Desconfiando da sua análise prévia e da sua averiguação via "feedback", o homem dedica apenas uma
ínfima parte do seu potencial na execução de uma ação.

O que faz com que o maior fator de erro no homem é menos seu poder de análise ou de averiguação
contínua do desenrolar de uma ação do que a falta de firmeza durante a execução.

Por isso o homem é, aparentemente, o único sistema auto-regulado que não vive em harmonia nem
consigo, nem com seu meio ambiente, já que ele se "pré-ocupa", no sentido literal do termo, em vez de
se ocupar de cada coisa em seu tempo.

Daí estar sempre o homem "pré-ocupado" com o antes e o depois.

Daí viver ele sempre em busca constante do "Samadhi", que é como a ioga chama a integração perfeita
de um ser humano com a ação que ele empreende, obtendo assim a harmonia perfeita entre seu meio
interno e seu meio ambiente.

Os outros seres considerados como "vivos" não parecem compartilhar a "pré-ocupação" humana, logo,
uma vez que analisaram e decidiram, na "fase 1", o rumo de uma ação, dedicam-se inteiramente à sua
execução, ou "fase 2", não tendo sequer que buscar uma "fase 3" ou fase de "harmonia entre si mesmo,
a ação e o meio ambiente".

Só o homem hesita diante da execução de uma ação.


Só o homem busca o "Samadhi".
Os outros sistemas auto-regulados vivem nele.

A grande riqueza do homem, o grande instigador da sua razão, é sem dúvida alguma sua capacidade de
duvidar.
Sem ela, nosso comportamento só seria capaz de repetir parâmetros "instintivos", ou estereotipados.
No entanto, a dúvida só é útil ANTES da decisão tomada.
DURANTE a execução de um ato, todo ato de dúvida é o pior veneno, o que há de mais nocivo ao
funcionamento mental da nossa espécie.

Desta hesitação, desta insegurança pessoal, ela mesma indissociavelmente vinculada a traumas
socioculturais, surge todo o acúmulo de tensão não evacuada na ação.
Durante a ação, hesitamos entre a execução e apreensão.
E esta energia desviada pela apreensão será o principal fator de tensões psico-afetivas e de bloqueios
neuromusculares.

Todos nós necessitamos conhecer a fundo essa dinâmica em duas fases que harmoniza, em uma
terceira fase e através da ação, cada um de nós com o "contexto" onde nós encontramos.

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Essa "tríade" invariável, que acabamos de abordar através da visão da linguagem cibernética e que
analisaremos sob o ângulo dos sutras de Patanjali da ioga, poderia ser resumida em três palavras:

1 - CONTEXTUALIZAÇÃO
2 - DECISÃO
3 - AÇÃO

Como vimos:
Todo ser vivo e mesmo todo sistema organizado TEM QUE levar em conta o CONTEXTO , o meio onde
se encontra, afim de adaptar-se a ele, pois sem essa adaptação todo sistema organizado está
condenado à destruição.
Levar em conta o contexto "contextualizar" é assim a primeira obrigação de um sistema que quer manter
sua ordem interna.

A decisão é o segundo passo, pois se um sistema organizado age sem decidir, não terá como sobreviver
a médio prazo.
Só então é possível o terceiro passo, ou seja, ação propriamente dita, ação inteiramente submetida à
DECISÃO, logo, livre de indecisões.
Pequeno detalhe, a ação subsidiária de regular, avaliar, controlar e corrigir se necessário o efeito de um
ação, mais conhecido em cibernética como "retroalimentação" ou "feedback", como explicamos antes,
está subentendida no passo 1, a "contextualização".

Esse conhecimento acima já está no patrimônio cultural da humanidade há milênios.

Referindo-se à evolução do espírito humano, os sutras de Patanjali da ioga referem-se, na língua


sânscrita, à:
"Dharana", "Dhyana" e "Samadhi".

"Dharana" seria a capacidade do "espírito" de "estar atento", de "se concentrar".


"Dhyana", por sua vez, corresponderia ao poder do "espírito" de "sugerir" ao mais profundo de si mesmo
o que ele mesmo deseja que lhe ocorra, ou seja, o equivalente da palavra "decisão".
Finalmente, o "Samadhi" corresponderia a um profundo sentimento de ligação com o "todo", com o
"cosmos", ou com "deus", que é como muitos concebem essa palavra.

O "Samadhi" corresponde fundamentalmente a uma profunda confiança na ação, a uma decisão prévia
liberada de indecisões, inequívoca, permitindo o cumprimento pleno de nossa capacidade de execução,
sem perda energética, sem apreensões inúteis e mesmo prejudiciais à ação, onde toda tensão será
evacuada no ato.

O "Samadhi", como vimos antes, corresponde à fase onde um sistema organizado, uma vez que ele
realizou previamente um trabalho de contextualização, e já tendo detectado a ação mais adaptada à
ação, nada mais terá a fazer que executá-la:

"A sorte está lançada", lançou César pouco antes de um dos seus famosos combates.

Agir e unicamente se concentrar no agir:


Eis o objetivo de todo homem de ação, eis o lema de todo "samurai", eis a meta de todo desportista, eis
o mais profundo koan zen, eis o caminho em direção ao "Samadhi", ou à harmonia profunda com todo
"contexto", com todo espaço-tempo, com todo "aqui e agora" onde nos encontremos.

O Deus hindu Krishna aconselha:


"Concentra-te na ação e não nos frutos da ação", ou seja, no resultado.

Sábia maneira de indicar-nos, que a melhor maneira de obter resultados, é não perder tempo SEQUER
com eles durante a execução!
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O problema bem humano, como vimos, é que em vez de ocupar-nos, nós nos...
"Pré- ocupamos"...
Daí, hesitamos.
Daí, retemos nosso próprio movimento, por não termos decidido resolutamente previamente por onde
iremos.
Daí, acumulamos tensões.
Daí, com o tempo, nossa atuação baixa cada vez mais de nível, tanto no plano físico, quanto a nível
mental.
Com o tempo, chegamos até a criar uma "couraça corporal", como chamava Reich ao acúmulo de
retenção afetiva vinda de uma experiência traumatizante na infância e depositada sob forma de tensão
física no nosso corpo.

Mas:

"Como" se depositam realmente nossos traumas infantis e nossas indecisões do dia-a-dia no nosso
corpo?

Onde estão as "paredes" que mantém prisioneiras estas tensões, esta sobrecarga afetiva traumática
reforçada por suas conseqüentes e múltiplas indecisões cotidianas ?

Essa questão já foi abordada sob vários ângulos.


Há muitas respostas a elas.
Todas válidas, pois todas aportam mais um aspecto da nossa realidade multifacetada, logo, relativa.
O ângulo de abordagem aqui proposto, parte do pressuposto que nenhum novo tecido, a nível físico, é
confeccionado para servir de grades de prisão à tensão retida.

Logo, a única maneira que uma tensão física encontraria de manter-se durante dezenas de anos no
nosso corpo, sem ser evacuada e mesmo prosperando, só poderia consistir em um:

DESVIO A NÍVEL DA FUNÇÃO PSICOMOTORA.

Ou seja, áreas da nossa atividade muscular seriam desviadas da sua função natural e requisitadas para
servirem de deposito à tensão afetiva.
A bioenergia e, bem antes dela, o relaxamento, e ainda antes deles a hipnose, porém, bem antes ainda,
a massagem, e finalmente, antes de todos e há milênios, a ioga, já trouxeram excelentes e brilhantes
soluções à essa questão.

Resta..
Falar do óbvio...
Reinventar a roda...

Pois:

1- Já que não há paredes específicas que retenham a tensão neuromuscular, já que todo músculo é, por
princípio, permeável ao movimento, é óbvio que se houver uma maneira de reativar, de movimentar o
tecido muscular implicado no acúmulo de tensão, a tensão acumulada TERÁ QUE se desfazer, se diluir
no movimento que a atravessa.

2- É óbvio que nenhum de nós sabe fazer isso natural e espontaneamente, senão, não estaria eu aqui
hoje escrevendo sobre isso, nem haveriam todas estas técnicas multimilenares destinadas a este fim.

3- É óbvio que apesar da nossa impossibilidade de acessar conscientemente essa informação sobre o
"como" reativar os músculos envolvidos no acúmulo de tensão, nosso o cérebro o sabe perfeitamente,
pois TEM QUE ser a partir dele que são emitidas as ordens de manter tal ou tal grupo de músculos
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desviados das suas funções originais, em função de um acúmulo de tensão afetiva que ele não
consegue descarregar mais a nível consciente e mental.

Como se trata, obviamente, de um bloqueio inconsciente, não será nossa consciência que poderá
encontrar soluções diretas à dissolução da zona de bloqueio.

Nossa "intuição" poderá, no entanto, ajudar-nos a contatar nossa programação cerebral "inconsciente",
responsável pela manutenção do bloqueio.
Lembremo-nos aqui de que, afinal de contas, nosso cérebro é o responsável, a nível material, da
programação do bloqueio.
Logo, evidentemente, ele é potencialmente capaz de desprogramar um bloqueio que ele mesmo
programou, se formos capazes de enviar-lhe uma mensagem que comporta uma DECISÃO CLARA, uma
ordem inequívoca, nesse sentido.

Para isso, necessitamos :

1- "Re-" entrar na CONTEXTUALIZAÇÃO da bloqueio.


2- DECIDIR, a nível intuitivo, que movimento vamos utilizar para atingir a área retida.
3- EXECUTAR este, ou estes, movimentos.

Como a nível consciente não temos acesso a esse processo trifásico, no que concerne um bloqueio
programado a nível inconsciente, só um artificio , uma TÉCNICA, poderia ajudar-nos a realizar essa
ação.

Essa técnica é precisamente o RC.

Seu princípio é extremamente simples e sua prática ainda mais.


Como localizar um foco de tensão no próprio corpo?
Isso todos nos sabemos fazer, pois todo foco de tensão emite sinais: "dói" ou "incomoda", de um modo
ou de outro.
Se, ao invés de utilizarmos as técnicas clássicas de automassagem, relaxamento, ioga ou outros
exercícios pré-concebidos para este fim, nós simplesmente nos dispusermos a:

1- "Escutar" a tensão" que nos "fala" através da linguagem do incômodo.


2 -"Dialogar" com a tensão, enviando em sua direção movimentos, a partir do que nos inspira
intuitivamente os sinais emitidos pela tensão.

Este diálogo entre o "incômodo", de um lado e nossos movimentos "intuitivos" do outro, que constitui o
principal fundamento do RC, não representa, em si, absolutamente nenhuma novidade, ele é apenas
uma redescoberta.
Pois todos nós já praticamos essa técnica inconscientemente, massageando, por exemplo nosso
pescoço dolorido e mesmo espreguiçando-nos.

Os próprios animais são mestres nesta arte:


Quem já não viu um cão ou um gato deitado, criando contorções corporais e permitindo assim que a
força da gravidade desfaça docemente a tensão muscular que ele acumulou durante uma ação?

Vários outros exemplos são observáveis na natureza, indicando que o princípio ativo do "Relaxamento
Cinético" é um patrimônio da vida, utilizado na higiene neuromuscular dos seres vivos, do mesmo modo
que a água é utilizada na higiene da pele.

Este princípio poderia ser descrito como um DIÁLOGO entre a TENSÃO e a "A-TENSÃO".

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O que aqui chamamos de "a-tensão" é um ato calmo e consciente, realizado pelo portador de uma
tensão neuromuscular funcional e temporária em direção desta tensão, visando reabsorvê-la no
movimento acionado, seja ativamente, através do próprio movimento, seja passivamente, mantendo uma
contorção corporal que será "trabalhada" pela força da gravidade, a qual atua como um "massagista"
que alonga um grupo de músculos.

Evidentemente a "a-tensão" dos animais não é consciente, eles realizam estes movimentos e contorções
instintivamente.

Nós realizamos tais atos de higiene neuro-muscular mais freqüentemente do que imaginamos!
Na maioria dos casos, de maneira "intuitiva" e inconsciente.

O RC consiste precisamente em uma reativação dessa memória intuitiva que todos nós já possuímos
naturalmente, a fim de desenvolvermos nossa capacidade de realizar mais a fundo e mais
consistentemente essa limpeza neuromuscular.

Com o tempo e a experiência, constataremos, que nossa intuição nos leva cada vez mais e melhor aos
pontos de bloqueio que necessitam ser reativados em nos mesmos e nos dá, ao mesmo tempo,
indicações bastantes precisas, embora inconscientes, de como ir desfazendo os "nós tensionais"
existentes.

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O ARQUÉTIPO DO "DESPORTISTA-HERÓI", OU DO "FELINO-SAMURAI" E O RC

"Arquétipo" é um termo do acervo da terminologia junguiana que alcançou um amplo sucesso universal,
prova que ele era necessário à cultura mundial.

Através desta palavra C. Jung designou, justamente, todo comportamento, ou todo conhecimento,
humano à caráter universal.
Segundo Jung, todos nós possuímos uma idéia arquetípica da mulher, ou seja, nossa "anima", assim
como possuímos nosso "animus", ou imagem do masculino.
Existem a "`persona" ou "imagem de si", o "velho sábio" e uma infinidade de "arquétipos", descritos ou
não por Jung, que correspondem ao imaginário comum dos homens, ou ao "inconsciente coletivo", se
continuarmos empregando a terminologia junguiana.

O arquétipo do "herói", ou "competidor", ou "desportista", ou "guerreiro", ou "homem de ação", ou "felino",


ou, ainda, "samurai", é certamente uma das principais presenças no nosso imaginário com a qual nos
identificamos mais facilmente.

Já é bem mais raro alguém se identificar com o "anti-herói", ou com o arquétipo da "sombra" em
linguagem junguiana:
Nenhum de nós se confronta facilmente com o seu "lado escuro da lua"…

Mas quem não se identifica com o herói de um filme?


E onde já se viu um filme sem herói??

Mas:
Porque a figura do herói nos fascina tanto?
Porque nos identificamos geralmente com ele?
Porque toda mitologia nos transmite o "arquetípico" combate do bem contra o mal?

Simplesmente, caro leitor, porque o "bem e o mal" nada mais é do que…


Cada um de nós em si …

Lembra quando falamos há pouco da busca humana do "Samadhi", essa nossa ânsia de experienciar a
harmonia perfeita de tudo que somos com tudo que nos cerca, caro leitor?

Lembra quando lembrei que nunca assumimos inteiramente uma DECISÃO e que, por isso mesmo,
estamos DIVIDIDOS durante uma EXECUÇÃO, logo, fora do estado de "Samadhi"?

Este é o arquetípico combate entre "o bem e o mal" em nós, caro leitor.

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Por isso o herói, o guerreiro, o felino, o samurai, nos fascinam, pois eles refletem, "ESPELHAM", nosso
arquétipo da:
NÃO HESITAÇÃO DURANTE A EXECUÇÃO DA AÇÃO.

Eles indicam uma tomada de DECISÃO sem ambigüidade.

A mitologia, em particular, e a cultura, em geral, são um grande espelho do imenso caleidoscópio que a
humanidade é e que cada humano, cada fração deste "holos", reflete à sua maneira.

O mito do phenix foi de uma extrema importância na consolidação do RC e nos seus inúmeros
"renascimentos das próprias cinzas", mas este capítulo aqui será abordado mais longamente em um
"adendo" dedicado só a ele.

Voltando ao arquétipo do "herói", o atleta em competição é quem assume atualmente mais


universalmente este arquétipo.
Pois quanto mais um atleta é vencedor, mais ele reduziu sua margem de hesitação durante a ação.

Todo especialista em psicologia esportiva concorda que uma competição hoje é definida sob o plano
mental, já que, física e tecnicamente, os melhores atletas se encontram em níveis extremamente
semelhantes.

A "NÃO HESITAÇÃO" decide hoje toda "batalha" esportiva.

No tênis isso é flagrante: o atleta que lamenta ainda um ponto que acabou de perder durante um ponto
seguinte, pode, simplesmente, a partir desta "hesitação", perder o "match".
No futebol, ou nos esportes coletivos, será a equipe que demonstrar mais "inteligência coletiva", logo,
menos hesitação e mais confiança, ou seja, mais "garra", que criará mais oportunidades de vencer.

E…
"Garra"…
É o que não falta aos felinos…

Mas, você já notou como a maioria do tempo um felino é calmo e até mesmo… "preguiçoso", caro
leitor ?

Não há "pré-ocupação" nele.


Não há "nó", não há bloqueio muscular.

O samurai autêntico também é, assim, contrariamente ao que se crê, bastante descontraído e… mesmo
vaidoso.

Um samurai passa horas por dia cuidando da sua higiene e da sua aparência :
Penteado, roupas, tudo tem que estar perfeito!

Mas não confunda, caro leitor, esse cuidado com a higiene e a elegância com a rígida disciplina das
casernas, que são apenas uma pálida cópia desta atividade.
Na realidade, ao mesmo tempo em que um samurai se concentrava, se preparava, assim, para lutar ou
para morrer, ele...
DESCONTRAÍA!

O longo cuidado consigo era para ele uma forma de relaxar, de se concentrar em ações mais simples
sem hesitações e com empenho, reforçando o princípio vital à ação do combate.

O felino igualmente descontrai sempre que não há um combate à vista.


O felino também cuida da sua higiene.
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Mas, sobretudo, o felino se contorce, se espreguiça, pratica o "arquétipo" primitivo do RC.
Em todo caso, descontrair, através do RC ou não, é uma importante chave para chegarmos à não
hesitação e, dela, ao "Samadhi".

Já notou que os heróis tipicamente arquetípicos, como James Bond, além de agirem sem hesitação, são
extremamente calmos, se lançam em ações perigosíssimas como se estivessem tomando banho de sol
em uma praia?

Estes indícios nos levam de volta à questão do "bloqueio neuromuscular":


James Bond parece desconhecê-los!

No caso dos atletas, por exemplo, por mais que um atleta esteja fisicamente treinado, por mais que ele
tenha um preparo físico ideal e um preparo psicológico que lhe forjará um "mental de ferro", as tensões
neuromusculares podem passar perfeitamente desapercebidas nele e confundidas com um "bom" tônus
muscular.
Pois como temos todos a imagem da "carne firme" para indicar uma boa compleição atlética, cremos que
um músculo "bem treinado e bem desenvolvido" deve ser estar mais "tenso" que o músculo de alguém
que não pratica esportes.

E isso é uma inverdade.

O excesso de rigidez muscular de um atleta é algo patológico e não "são".

Músculos rígidos, em repouso, não são mais eficazes, durante a ação, do que músculos mais
descontraídos, em fase de repouso:
Muito pelo contrário!

Estes detalhes passam desapercebidos mesmo para muitos especialistas, porque pouco nos ocupamos
dos bloqueios neuromusculares funcionais, destinados a acumular nossas tensões psico-afetivas retidas
mentalmente e agravadas pela condição atlética, que obriga o desportista a reter, não só devido às suas
hesitações bem humanas, mas igualmente devido à constante e inevitável sobrecarga muscular.

A causa mais freqüente das distensões musculares são estes bloqueios supra-carregados, prontos a
"explodir", literalmente, sobre o peso da sobrecarga.

Gostaria de aconselhá-lo, então, caro leitor, caso seja um praticante profissional ou amador de esportes,
de não negligenciar tudo que o RC pode lhe proporcionar como alívio destes bloqueios.

Até porque, se você pratica esportes, certamente já utiliza as bases naturais e universais do RC.

Logo, basta que esteja um pouco mais atento a elas, à maneira como você já se "contorce", já se
"sacode" intuitivamente e ir cultivando esse processo.
Este livro não se destina exclusivamente aos esportistas, mas, ninguém mais do que eles necessita
realmente tomar consciência do RC que já pratica inconsciente e intuitivamente, e cultivá-lo mais
consistentemente.

Mas, estávamos falando do "combate interior" que nos assola na hora da execução de uma ação
previamente... "mal... decidida, não é isso?

Toda arte marcial sabe, e ensina, que todo combate nada mais é que um combate contra si mesmo.

Durante um autêntico duelo entre samurais, raramente mostrado no cinema, não há aquelas longas e
intermináveis troca de golpes e esquivas, "made in Hollywood" ou "in Hong Kong".
Dois samurais duelam simplesmente mirando-se, olhos nos olhos:
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O primeiro deles que deixar passar o mínimo sinal de dúvida, de medo, de cólera, de hesitação no olhar,
perderá a cabeça antes de poder reutilizá-la para reencontrar sua concentração!

O duelo entre samurais é mental, espiritual, pois nenhum deles é tolo de "arriscar" um golpe "ao acaso"
que daria ao seu adversário, em plena possessão da sua presença de espírito, a ocasião de utilizar uma
esquiva que já seria a própria preparação do golpe mortal.

O estado de "samadhi", ou seja, a atenção plena e descontraída na ação, buscada no RC sob o nome de
"a-tensão", é, assim, a arma decisiva que diferencia o vivo do morto, no mundo dos samurais.

Pois a "harmonia perfeita" não exclui o espaço do combate e da disputa, como nos ensina o "avatar"
Krishna, na Bagva Gita.

Inclusive, será o samurai que estiver menos preparado para morrer que morrerá.

E será a mais mínima tensão que o trairá, que criará o bloqueio neuromuscular a mais que lentificará,
devido ao medo, logo, à hesitação, tanto seu físico quanto seu mental.

Logo, no universo dos samurais, morre primeiro quem tem mais medo de morrer e não quem está
absolutamente preparado para isso, como o legendário Masashi, ou como Yamamoto, inspirador do
"Hagakuré", o "livro secreto dos samurais", ambos vencedores de incontáveis duelos, mas que morreram
"de velho" e no seu leito.

Todas estas narrações acima, de heróis, felinos e desportistas, caro leitor, nada mais são que "espelhos"
arquetípicos e culturais do que somos.

Toda narração conta, "espelha", a permanente e arquetípica luta entre o "bem", ou "decisão" e o "mal",
ou nossa indecisão na hora da execução de uma ação.
Essa luta entre nosso "bem" e nosso "mal", já se instalou, evidentemente, desde a nossa dificuldade em
CONTEXTUALIZAR, ou seja, em situar-nos em relação a um evento, sem sabermos ao certo onde está
o "bem" ou o "mal".

Assim, nossa "ação perfeita", ou "Samadhi", já se encontra comprometida desde nosso "Dharana", ou
fase de "contextualização-concentração", que bloqueia nosso "Dhyana", ou "decisão", devido ao acúmulo
de tensões psíquicas e físicas.

O que descrevemos no RC como o "diálogo" entre nossa "tensão e a nossa atenção", ou "a-tensão",
representa, assim, caro leitor, um dos terrenos onde nosso "bem" (nossa "a-tensão") e o nosso "mal"
(nossa "tensão") podem se encontrar e "fazer as pazes" dentro de nós.

Eis o caminho da nossa paz interior, chave da nossa harmonia, ou "Samadhi".

Analisaremos em seguida as diferentes etapas e os diversos processos envolvidos na dinâmica do RC.

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DINÂMICA DO RC:

EMBASAMENTO, ETAPAS E FIOS CONDUTORES

1. EMBASAMENTO

O embasamento do RC fundamenta-se, justifica-se e inspira-se no encontro entre uma zona de tensão e


o fluxo, o movimento que, em princípio, deveria percorrê-la naturalmente:

Quando o cérebro requisita um ou vários músculos, voluntários ou involuntários, a fim de utilizá-los como
"fio terra" para absorver o conteúdo do excesso de tensões psico-afetivas, estes músculos são desviados
das sua funções naturais e o movimento que deveria percorrê-los e renová-los permanentemente
também é desviado, ou fortemente diminuído.

O excesso de tensão se acumula, assim, na zona de bloqueios neuromusculares, já sobrecarregados de


tensões psico-afetivas a caráter traumático, incapazes de serem evacuadas conscientemente, através da
expressão direta dos sentimentos.

Nos nossos movimentos condicionados pelo dia-a-dia não temos como ir de encontro a estes bloqueios.
Vale salientar que eles são, em si, um recurso psico-cerebral bastante útil e eficaz que nos permite de
funcionar mentalmente, apesar do "handicap" das tensões.
Se estas tensões não fossem depositadas fora do nosso campo mental, elas simplesmente paralisariam
nosso psiquismo.

Alguém que recebe uma sobrecarga emocional acima dos seus limites, ou reprime, ou desmaia, ou tem
um infarto.

Sentimos decerto uma "agonia", um "incômodo", uma "ansiedade" permanente devido a estes bloqueios.
Mas…
De tanto fazer parte da norma do cotidiano de cada um de nós, passamos considera-los como…
"normal"…

Fumamos, bebemos em demasia, consumimos tudo que possa escravizar nossa atenção, a fim de criar
mais suportes de evacuação da incessante pressão da vida dita "moderna".

Barulho urbano, poluição sonora, mas igualmente atmosférica, visual, gustativa e táctil, invadem e
saturam nossos cinco sentidos.
Exaustos, tomamos comprimidos para "tonificar".
Insones, ansiosos, tomamos "gotinhas", halo ou homeopáticas, para nos acalmar ou para dormir.

No entanto, nosso cérebro continua mantendo um circuito neuromuscular que serve de regulador
intermediário entre o excesso de tensões mentais que recebemos em um dado momento e a nossa

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capacidade espontânea, diferente para cada um de nós e cada momento da nossa vida, de evacuá-las
naturalmente.

Estes circuitos funcionais neuromusculares acumuladores de tensões são, assim, em princípio, de uma
grande utilidade para o organismo.
Sua utilidade mais básica vem do fato que eles servem de "couraça corporal" onde será depositado todo
o conteúdo traumático-afetivo da nossa infância.
Tais "depósitos", esperam que os circuitos da memória afetiva sejam reativados, através de uma terapia,
ou, mais raramente, de uma catarse espontânea, e seu conteúdo retrabalhado de forma que a medo ali
enclausurado deixe de atuar como fator favorecedor de um stress permanente.
Mas tais circuitos regulam também a quantidade excessiva de tensão afetiva ou de tensão muscular que
somos obrigados a fornecer no ritmo das nossa vidas contemporâneas.

Seria, então, uma grande ingenuidade da nossa parte e uma ignorância da dinâmica psico-fisiológica
humana considerar estes bloqueios neuromusculares acumuladores de tensões como nossos "inimigos",
ou como "nocivos" ou "inúteis".

A função deles, por mais paradoxal que isso possa parecer, é, por um lado, indispensável e, por outro,
lado extremamente NOBRE.

Eles são os REGULADORES permanentes, sempre a postos para não permitir que uma sobrecarga
tensional sature e paralise nosso sistema nervoso.

Eles são uma espécie de " corpo diplomático", sempre "negociando" a melhor maneira de evacuar as
tensões acumuladas.
Eles funcionam em nossos corpos assim como os amortecedores dos nossos automóveis, impedindo
que um impacto mais brusco venha danificar peças vitais e assegurando ao mesmo tempo o nosso
conforto.

A única coisa "errada" com estes sistemas é que eles se sobrecarregam e se perpetuam sob forma de
"couraça corporal", como bem observou Reich, ao invés de se desfazerem desde que não haja mais
saturação.

Mas seria ainda mais ingênuo da nossa parte acreditarmos que um dia o homem poderá viver livre de
tensões.

Mesmo que cada um de nós "imagine", inspirados pela música de John Lenon, de mesmo título, um
mundo onde não houvesse mais riscos de guerra, nem outro tipo de tensão existencial, mesmo assim
ainda acumularíamos tensões e teríamos que evacuá-las mais lentamente do que nossa capacidade de
atravessá-las, ou de evitá-las.

Os circuitos cerebrais de retenção-regulação neuromusculares são para o homem o que a ruminação é


para os bovinos: um estoque de energia.
Só que, no nosso caso, trata-se de energia retida, imprópria ao consumo e que será evacuada
posteriormente.

Se mamíferos superiores pudessem viver naturalmente sem acumular nenhuma tensão física, não
veríamos felinos praticando freqüentemente "alongamento" ativando com exercícios a naturalmente lenta
descontração muscular.

Assim como faz parte da natureza do músculo receber "trabalho", exercícios, "carga" para manter-se em
boa saúde, faz parte também da sua higiene o hábito de serem "contorcidos" como roupas encharcadas,
massageados e mesmo docemente ativados, "chacoalhados", a fim de mantê-los limpos de todo resíduo
de tensão.

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O problema não é a tensão e, sim, nossa dificuldade a eliminá-la.

Os grandes predadores passam a maior parte do tempo "prostrados", recuperando-se dos enormes
esforços pontualmente fornecidos.
Nenhum músculo poderá funcionar normalmente, mesmo em uma pessoa hipoteticamente isenta de
stress neuromuscular causados por traumas psíquicos infantis, se esta não se ocupa continuamente de
descarregá-los profundamente através uma descontração espontânea, mas ativa.
Esta atividade de "descarga pela descontração ativa" se realiza natural e automaticamente quando
estamos em boa saúde e, principalmente, sob forma de "espreguiçamento".

Mas, de tanto perdermos de vista a noção de CONTEXTO, de tanto ignorarmos que estamos
naturalmente inseridos em um meio ambiente não somente terrestre, mas literalmente cósmico, de tanto
ignorarmos que somos apenas espécimens de uma das incontáveis espécies que habitam esse planeta,
de tanto "guerrear" contra a nossa mãe-terra e tudo que vive nela e do qual dependemos, na nossa tola
e arrogante ilusão edípica de querer dominar as forças que nos dominam, tornamo-nos "inimigos"
inclusive de nós mesmos!

"Combater" o stress nada mais é do que um ato de higiene, o equivalente de "combater" as cáries ou as
bactérias patogênicas que habitam naturalmente o ar, em todos os casos trata-se de um trabalho de
manutenção.
Assim como escovamos os dentes todos dias e assim como nosso sistema imunitário fabrica anticorpos
a cada instante, o repouso e a descontração fazem parte da higiene incontornável de todo organismo
complexo, principalmente os de sangue quente.

O EMBASAMENTO do relaxamento cinético corresponde, então, ao DIÁLOGO natural que todo


organismo efetua entre um foco de TENSÃO neuromuscular e o MOVIMENTO que é enviado na direção
do bloqueio, a fim de diluí-lo no fluxo assim criado.
Esse processo é o mesmo do espreguiçamento, onde reativamos os músculos lentificados, "pesados"
devido ao acúmulo de uma carga passiva, seja por um excesso, seja por uma falta recente de uso.

Mesmo em repouso, um músculo trabalha!


Ele é um elemento vivo, como o fluxo de um rio, atravessado continuamente por energia neuro-elétrica e
por vibração física, mecânica.
Tudo que ele não consegue descarregar sozinho, seja através da ação natural, seja através do repouso,
necessita da nossa ajuda, e já o fazemos, como vimos antes, naturalmente.

O DIÁLOGO ENTRE MOVIMENTO E TENSÃO é, então, contínuo em nosso sistema muscular.


Refiro-me a "diálogo" porque enviamos sempre um movimento que deverá reabsorver em si um foco de
tensão.

O Relaxamento Cinético baseia-se nesse processo natural e busca reativá-lo com nossa ajuda
consciente.
Trata-se de enviar impulsos voluntários, como se eles fossem "palavras", autênticas "massagens
cinéticas" na direção dos focos crônicos de tensão que já não mais se desfazem espontaneamente
devido a uma programação neuromuscular cronicamente associada a uma sobrecarga de tensão psico-
afetiva.

O praticante de RC aprende aos poucos o "alfabeto" desse diálogo, ligado a uma "lógica sensitiva" e
orientados através do que chamamos comumente de "intuição".

Sendo o cérebro o programador do bloqueio, mas sendo ele igualmente, e sobretudo, o coordenador de
todo movimento impulsionado através do corpo, o fato de enviarmos continuamente movimentos na
direção da zona de bloqueio detectada acabará fazendo com que ele utilize o próprio movimento para
diluir a tensão nele, já que prevalecerá a ordem dominante:
SE ELA PARTE DE UMA DECISÃO CONSCIENTE INEQUÍVOCA DE DESCONTRAIR-SE.
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O RC depende, então, de paciência e treinamento.

Claro que se nos exercitarmos uma única vez já seremos capazes de detectar focos de bloqueio e
constatar uma clara melhora mesmo depois de alguns minutos de prática.
Mas, será um mais longo, minucioso e paciente trabalho, que poderá criar novos hábitos
neuromusculares, substituindo focos crônicos por sistemas de evacuação mais fluidos.

Nunca é demais repetir, não se trata no RC de um aprendizado "consciente", como é o caso em geral na
utilização de novas técnicas.

Sendo o movimento espontâneo o melhor diluente aos bloqueios neuro-cerebrais, ou seja, programados
a nível inconsciente:
1. Só quando aceitarmos largar o controle consciente dos nossos movimentos voluntários, deixando o
que chamaríamos aqui de "intuição", por falta de um termo mais preciso, dirigir a operação
propriamente cinética…
2. Só quando desistirmos de entender a dinâmica em si, abandonando a intenção de controlar nossos
movimentos voluntários…
3. Só quando não mais utilizarmos parâmetros com "certo ou errado", "demais ou de menos", "gracioso
ou esdrúxulo"…
4. É que poderemos enveredar pelo real caminho que nos conduzirá, através do movimento realmente
espontâneo, ao real diálogo entre a tensão e a "a-tensão".

(1a): EMBASAMENTO AINDA:

ATENÇÃO = A-TENSÃO

Nossa atenção é literalmente uma "a-tensão", ou seja, uma ausência de tensão.

Cremos comumente que estar atento é estar tenso.


"Concentrado" tornou-se sinônimo de retenção, muscular e respiratória.
A descontração é erroneamente associada à distração.

Uma das bases para a compreensão e aplicação do RC é precisamente entender e treinar a "a-tensão"
como ausência de tensão, como condição prévia e indispensável à atenção.

RESPIRAR.

Plena e livremente, eis o único segredo da consciência, eis o único segredo da "a-tensão".

Sempre nos surpreendemos quando conseguimos constatar que o que pensamos é completamente
dependente da nossa respiração!

Portanto, é fácil comprová-lo.


Basta que treinemos um pouco nossas memórias, que se bloqueiam em momentos de stress, a fim de
que consigamos REPOUSAR nossa "a-tensão" sobre nossa respiração, desde que um problema
qualquer nos aflige ou nos irrita.

Longe de impedir-nos de pensar, ou de distrair-nos, a consciência voltada à respiração sem nenhuma


intenção de controle ou de verificação de nada, simplesmente "pousada" sobre ela, como um pássaro
leve sobre o robusto tronco de uma árvore que balança levemente em ciclos rítmicos comandados pelo
vento, abre toda uma nova dimensão de observação da realidade, do "aqui e agora", que restam
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completamente bloqueados por pré-programações estereotipadas e que são re-acionadas
automaticamente, desde que o medo ou a raiva assumem o comando do nosso psiquismo, bloqueando
nosso ritmo respiratório natural.

Tente comprovar isso, caro leitor, como o simples fato de SE DEIXAR RESPIRAR pode ajudá-lo a
resolver seus problemas, seja qual for a natureza destes: competição esportiva, problemas financeiros,
de saúde ou relacional.
E muito mais do que todas as suas iras, ou "pré-ocupações"!

Não seria absolutamente nenhum exagero afirmar aqui, que o fenômeno da consciência nada mais é que
um dom do fenômeno da respiração.

Mas, justificar tal afirmação ultrapassaria os limites deste trabalho.


E aceitá-la ou não é irrelevante à compreensão dele.

Deveríamos, no entanto, confiar mais na intuição dos que nos legaram a etmologia das nossas palavras
e a analogia das nossas expressões.
Em quase todas as línguas, uma pessoa é considerada como "inspirada", quando consegue resultados e
soluções que requerem um estado de consciência alerta, em "estado de graça", acima do comum.
Deveríamos realmente meditar sobre nosso enorme lucro, de levar essa expressão, a "inspiração", a
sério e no sentido literal, ao "pé da letra".

Ficaríamos surpreendidos se pudéssemos comprovar as inúmeras virtudes terapêuticas de uma


respiração livre de tensões, conscientemente "re-posta" em liberdade, não mais esmagada pela nosso
mau hábito de associar a atenção à tensão e não à "a-tensão".

Tente, então, caro leitor, independentemente da prática do RC, sempre que puder simplesmente
observar sua respiração.

Observe-a sem nenhuma intenção de modificá-la, mesmo que a sinta tensa, sufocada.

Não respire mais forte, mais amplo, não "auxilie" sua respiração.

Confie simplesmente no fato, que sendo ela programada de maneira independente da sua vontade,
basta que você a observe, sem nenhuma outra "in-tensão" que esta, para que toda tensão que você
havia depositado inconscientemente sobre ela diminua paulatinamente.

Se você tentar controlar, "melhorar", a performance da sua respiração através de gestos ou de técnicas
voluntárias, você enviará uma mensagem errônea ao seu inconsciente e ao seu cérebro, sugerindo que
sua atuação ativa é necessária ao bom funcionamento da sua respiração.
O que é absolutamente inexato.

Pois, quanto mais você ESQUECER sua respiração, melhor ela se portará.

Porque sugerir aqui, então, de observar a própria respiração?

Exatamente para inibir o controle inconsciente que você exerce sobre ela, confundindo concentração,
atenção, com tensão, como dissemos antes.
Quanto mais você observá-la, resistindo à tentação de controlá-la, de dominá-la, mais constatará que a
única coisa que você pode fazer, a nível respiratório, é ATRAPALHAR!!

Com o tempo, você aprenderá a constatar que quanto mais você pousar sua atenção sobre sua
respiração sem nenhuma intenção de interferir, mais sua respiração poderá demonstrar-lhe que basta
você confiar nela para que ela exerça plenamente a programação involuntária que lhe garante o ar… até
o "fim"… até a sua última "expiração", se me permite aqui esta nota de humor negro…
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Medite assim que possa sobre esse fato, caro leitor.
Tente comprová-lo e terá contatado o elemento mais essencial do RC!

Cientes desse importante ponto, voltemos agora à prática concreta do RC.


Uma vez que nos permitimos de respirar o mais naturalmente possível, dirigindo nossa "a-tensão" não
mais sobre nossa respiração, mas na busca de movimentos que sejam o mais espontâneos, "intuitivos",
que já nos é possível, deixemos que nossa "intuição" nos guie, utilizando sempre como "fio condutor" o
diálogo entre a tensão detectada e o movimento espontâneo enviado em sua direção.
À medida que progredimos na prática, constataremos como o movimento espontâneo tem o poder de
diluir a tensão no seu fluxo.
Isto faz parte da ordem natural das coisas , já que toda tensão nada mais é que ausência ou retenção de
movimento, diluindo-se neste desde que tocado por ele.
E o que chamamos aqui de "movimento espontâneo" designa algo como uma "chave" capaz de penetrar
na zona de bloqueio, por ter ela sido "concebida" pela mesma "pessoa" que fabricou a fechadura e que
conhece o segredo de penetrá-la, ou seja:
O cérebro.
Ou o "inconsciente", se você prefere este termo mais ligado ao "software" cerebral.

A chave de todo bloqueio é, então, o movimento dito "espontâneo".


E a chave deste é o que conhecemos sob o nome de "intuição".

No começo, os movimentos ainda não são totalmente espontâneos, a mente persiste em querer dominar
o processo, ignorando que é precisamente a sua obsessão em controlar tudo que causa os mais graves
distúrbios nos circuitos neuromusculares temporários espontâneos que se desenvolvem no sentido de
regular todo excesso de tensão.

E se o fato de estar concentrado, "atento", envolvesse nem que fosse o mais mínimo grau de tensão:
Como seria possível estar atento à tensão muscular e dissolvê-la?
Como seria possível diluir a tensão muscular adicionando à esta a tensão da concentração?

Com o tempo, o praticante aprende a acercar-se, através do movimento, dos focos mais crônicos, que
encerram as maiores e mais danosas sobrecargas neuromusculares.
E graças precisamente a essa capacidade, lentamente adquirida, de não mais querer resolver o
problema da tensão "autoritariamente", à força, mas unicamente concentrado, ou seja, com sua "a-
tensão" voltada ao movimento que parece "combinar" mais com ela.
Movimento este que vai sendo mais e melhor recebido pela zona de bloqueio, já que uma sensação de
prazer e de alívio vai se delineando à medida que nossos movimentos tateantes, "intuitivamente"
acionados, vão conseguindo penetrar as áreas de bloqueio:

Sem nenhuma pressa.


Sem nenhum perigo.
Sem nenhuma "contra-indicação".
Sem nenhuma violência.
Sem nenhuma violação das leis que regulam a zona de bloqueio, que não existe por acaso, ou por
"malefício", mas que está ali presente na nobre missão de regular nosso fluxo global de tensão, a fim de
que não sejamos literalmente submersos por uma pressão psico-afetiva incontrolável.

Passemos em seguida às etapas e aos "fios condutores" do RC.

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2. ETAPAS DO RC

1. Cerrar os olhos.
2. Consciência inicial e breve da respiração.
3. Consciência da dinâmica entre uma zona de bloqueio e a movimentação espontânea.
4. Consciência da dinâmica entre uma zona de bloqueio e a movimentação contorcional através da
gravidade.
5. Repouso.
6. Consciência da organização corporal e dos bloqueios internos.
7. Consciência final e longa da respiração.
8. Finalização, retomada da psicomotricidade.

Estas etapas serão conduzidas pelo que chamaremos:

3. OS FIOS CONDUTORES DO RC

A consciência e a respiração, o movimento e o repouso, a gravidade e o corpo, serão nossos "fios


condutores".
Seis referenciais, seis faróis, concebidos em pares, por serem dualmente complementares e
interdependentes, orientam, então, a evolução do RC.

Na realidade, nossos fios condutores são "seis mais um", ou sete, como nossas notas musicais.

O sétimo fio condutor do RC é o nosso ritmo pessoal.


Mas como desconhecemos por inteiro o nosso próprio ritmo, já que ele vive submerso na incessante
vaga de estímulos que nos transborda, teremos que servir-nos dos outros seis para detectá-lo melhor.
Como nosso ritmo pessoal é, mesmo que não tenhamos consciência dele, uma marca absolutamente
única no universo: a que identifica sem a mais mínima ambigüidade o ser, a "vibração", o "som" que
somos, será ele o primeiro que descreveremos aqui, a fim de já irmos nos familiarizando com ele.

NOSSO RITMO ÚNICO E PESSOAL

Assim como não há duas impressões digitais idênticas, duas íris absolutamente iguais, dois timbres de
voz indiferenciáveis, há, para cada um de nós, algo como uma "resultante" que identifica mais que a
soma, a globalidade de todas as nossa freqüências emitidas.
Pode chamá-la aqui de "bioritmo", se você o deseja, caro leitor, pois o uso já consagrou esta expressão.
O que me importa, sobretudo, é que você ponha menos teoria e mais prática no contato com ele.
Seu ritmo pessoal pode encontrar-se acelerado em um dado momento.
Ou, pelo contrário, em estado de extrema lentidão.

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Mas, assim como seu timbre de voz ainda é reconhecível mesmo quando você se encontra quase
afônico, seu ritmo, ou seja, a característica do seu "movimento pessoal" é a mesma, seja qual for a
cadência ou a aceleração que ela se encontre.
A familiaridade com a associação entre movimento e relaxamento, como ela é proposta no RC, é
também concebida para ajudá-lo a familiarizar-se com o seu próprio movimento e o enorme manancial
de ENERGIA E PAZ que ele contém para você!

Detectar o próprio ritmo é descobrir a própria partição na sinfonia do universo.

Nosso ritmo nos sintoniza com o holos, com o "todo".


Toda perda de paciência, da saúde, de amor, de humor, é uma perda de contato com o nosso próprio
ritmo.
Quando vibramos em fase com nós mesmos, todo o universo nos responde em coro.

Mesmo a irritação pode reconduzir-nos ao nosso ritmo mais harmônico, quando aceitamos de deixar que
sua "melodia" nos atravesse:
Sem pôr-lhe empecilhos, mas também sem retê-la, através de uma identificação pessoal a ela.

De toda maneira, qualquer vibração emocional nada mais faz que atravessar-nos, mas nossa natureza
não concerne nenhuma delas em especial.

E, na realidade, não são as emoções que "passam" por nós, mas nós que passamos por elas!

Só que nos dirigimos às emoções de maneira inconsciente, na maioria dos casos.


Mas, se não fossemos nós que "invadimos" o espaço das emoções e não o contrário, a profissão de ator
seria impossível.
Pois, afinal, o que é um ator, senão alguém dotado da capacidade de entrar numa emoção descrita em
um script?
Ao lê-la, o ator busca uma correspondência em sua memória que o transporte até ela, a fim de reproduzi-
la.

No entanto, é extremamente difícil para cada um de nós, ter uma idéia clara da própria freqüência de
vibração baseando-se nas emoções.
No melhor dos casos conseguimos nos definir como "introvertidos" ou "extrovertidos", "alegres" ou
"coléricos", mas nunca aproximamos mediante as emoções uma especificidade absolutamente pessoal.

O aspecto cinético do RC, associado à busca de descontração e, sobretudo, o uso permanente da nossa
"a-tensão", são fatores determinantes para que com o tempo, tenhamos uma "intuição" mais exata de
como utilizar nossa freqüência vibratória única para obter mais repouso e mais energia ao mesmo tempo.

Estar atento ao ESPONTÂNEO, ao natural, da nossa movimentação no RC, ao movimento que "pede"
para ser executado, conforme a prática nos ensina, nos leva a um conhecimento e uma familiarização
com a nossa vibração pessoal, que ecoa em harmonia com o que nos cerca.

Desde que "soamos" mais "autênticos", desde que parecemos ser mais "nós mesmos", deixando de
mentir a nós mesmos, expressando o que se passa realmente conosco, desde que tenhamos a coragem
de não mais dissimular a emoção através da qual estamos literalmente passando, nossa "vibração
pessoal" será sentida como uma segurança, um bem-estar e uma lucidez que nos acompanham, mesmo
nos momentos mais difíceis.

Ficam aqui estas considerações gerais sobre o nosso ritmo pessoal.


Vamos agora ao fio condutor que nos levará diretamente a ele:
A consciência.

46
A CONSCIÊNCIA

A consciência, é o autêntico fio condutor de todos os demais.

Isto ficará mais claro à medida que entendermos melhor a dinâmica do RC.
Mas que fique já claro que a progressão neste processo, aliás, como por tudo na vida…, dependerá da
nossa "a-tensão" a cada momento.

O papel da consciência e de sua ligação com a respiração já foi abordado na descrição do embasamento
do RC.
A consciência, a concentração e a atenção, são termos que, para efeito de RC, podemos considerar
como sinônimos.

Eu prefiro mesmo substituir todos eles pelo neologismo "a-tensão", de tanto que esquecemos
que atenção não é tensão, mas exatamente o contrário.

Perdoe-me, então, caro leitor, por essa minha obsessão chata de confrontá-lo a este "modismo".
O que me move a fazê-lo aqui não é a pretensão ridícula de inventar "moda", bossa", nova.
Trata-se já de uma aplicação prática do método do RC:

Pois, se eu utilizar o neologismo "a-tensão", mesmo "enchendo seu saco", decerto conseguirei ajudá-lo a
concentrar sua atenção sobre essa característica essencial da nossa capacidade de estarmos
"despertos", "inspirados".

Sua "a-tensão" poderá, assim, programar sua memória, e através dela seu inconsciente, para associar
sua consciência a um estado de descontração, o que facilitará enormemente sua progressão no RC.
Este estado de "a-tensão", de "descontração" da nossa consciência, é às vezes chamado de
"consciência flutuante" em RC, sugerindo que só quando nossa consciência possui o dom da fluidez, ela
poderá obter o dom da fixação, sem a confundir com "rigidez".

A RESPIRAÇÃO

A respiração não será evocada, nesse contexto do RC, em outra função do que a de repouso e fonte
de… "inspiração"… da consciência.
Ela será muito brevemente visitada antes de cada sessão de RC, onde os participantes, de pé e imóveis,
se deixarão respirar por alguns instantes.
E antes de mais nada.
A volta da consciência à respiração será também a última fase do RC.

DE OLHOS FECHADOS!!

Assim que começamos o nosso primeiro contato com a respiração, de pé e imóveis, o que marca o início
da sessão RC, é também aconselhavel fechar os olhos.
Quanto mais formos debutantes em RC, mais essa regra, aplicada antes mesmo de começar, é útil:

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Praticar RC de olhos abertos, é como conduzir um carro de olhos fechados!

Quando dirijo uma sessão de RC, sempre prefiro que as pessoas só fechem os olhos quando se sintam
mais seguras do que vão fazer, pois nosso "paranóico" se agita nesses momentos:
"O que será que "ele" vai querer que eu faça"??…

Mas como suponho que você tentará praticar o RC sozinho, caro leitor, logo, seu "paranóico" não
"desconfiará" de você mesmo, asseguro-lhe que fechar os olhos, e desde o início, facilita
bastante o surgimento da "a-tensão".

Em todo caso, não há como obter uma "a-tensão", um mínimo suficiente para criarmos um diálogo entre
o movimento do RC e a zona de bloqueio, se não voltamos nossa visão ao interior de nós
mesmos.
Abordemos agora o papel do movimento no RC.

O MOVIMENTO

Há fundamentalmente dois tipos de movimento no RC:

O primeiro deles é o "movimento espontâneo", também conhecido, e num tom mais "descontraído", sob
a alcunha de "munganga".
Este grupo de movimento, como veremos com mais detalhes, realiza uma série de "contorções"
contínuas, ou seja, sem pausa real entre elas, apenas com momentos mais ou menos acelerados,
O segundo grupo de movimentos não é realizado diretamente pelo praticante, mas pela gravidade.
Nesse caso, o praticante continua adotando o mesmo princípio de contorções de antes, porém
exagerando um pouco mais na sua amplitude e, sobretudo, mantendo a posição imóvel durante alguns
instantes, segundo uma medida de tempo "intuitiva", a fim de permitir à gravidade de atuar diretamente
sobre os músculos.

O terceiro tipo de movimento levado em conta pelo RC, mas não influenciado direta ou indiretamente por
ele, é o nosso movimento involuntário, ou "peristáltico", aquele que rege a dinâmica dos nossos órgãos
internos.
Em relação a esse movimento autônomo, independente da nossa vontade, somente o que o praticante
tem a fazer é colocar sua atenção sobre ele, sem controlá-lo, permitindo que a tensão inconscientemente
programada se dilua na consciência aí focalizada.

Todo movimento realizado pelo RC é também conhecido como "MOVIMENTO DE FUNDO", já que o
termo "cinético", no nome desse relaxamento, indica precisamente que será o movimento que criará um
"fundo" à zona de bloqueio, um "contexto", um "meio ambiente", no qual o bloqueio poderá diluir-se.
A função deste "movimento de fundo" é, então, adaptar-se à forma do bloqueio, permitir que ele flua,
através do "diálogo" entre o bloqueio da tensão e o movimento gerado pela "a-tensao".
Este "diálogo" será inspirado e orientado pela nossa "intuição".

Vamos analisar um pouco mais o primeiro destes movimentos, o "movimento espontâneo".

O MOVIMENTO ESPONTANEO, OU A ARTE DE "MUNGANGAR"

"Munganga" é uma expressão popular que designa gestos incompreensíveis ou deselegantes.

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"Mungangar" é o neologismo adotado pelos praticantes do RC para expressar, sob forma de humor, os
gestos aleatórios empregados na primeira fase de movimentação do RC.

Na realidade, não há como chegar ao movimento capaz de diluir um bloqueio neuromuscular, a não ser
intuitivamente, visto que a programação destes se encontra a nível inconsciente e a nível cerebral.
Por sua vez, não há como obter movimentos espontâneos, "intuitivos", mantendo-os em padrões já
definidos dos exercícios físicos clássicos ou da ioga.
Temos que aceitar realizar movimentos que, à primeira vista, parecem descoordenados e sem nexo.
Mas só através deles conseguiremos colocar à disposição de nosso cérebro toda a fluidez da nossa
psicomotricidade que ele necessitará para cria a "chave cinética" capaz de desprogramar o bloqueio que
ele mesmo programou previamente.

Logo, para movimentar-se no RC, esqueça a elegância e privilegie o diálogo entre o seu movimento e a
zona de bloqueio.
Contorções sucessivas e contínuas em torno da área sensível acabarão afinando a capacidade do
praticante em "tocar" o bloqueio de maneira a diluí-lo no próprio movimento.

A "munganga", tão aparentemente deselegante, poderá também ser designada pela elegante expressão
de: "movimento espontâneo".

A "munganga", ou o "movimento espontâneo" é, então, o primeiro tipo de movimento que concerne o


RC.

Ainda sobre a expressão, "movimento espontâneo", ela também está aí para lembrar-nos que somos a
única espécie capaz de conceber movimentos "não espontâneos".

No que concerne o movimento universal, a expressão "movimento espontâneo" é um pleonasmo.

A palavra movimento é potente e auto-suficiente demais em si mesma, e todos nós, os seres vivos,
somos tão pouca coisa diante dessa impulsão que criou o universo e que se propaga até hoje de
maneira indivisível e onipresente através dele, que o termo "espontâneo" ao lado da palavra "movimento"
não deve ser extrapolado da dimensão humana.

Na realidade, não pode haver, em termos de movimento, um deles que seja "espontâneo" e um outro
que não o seja, pois, como nos ensina a física quântica e a teoria da relatividade, todos os movimentos
do universo estão interrelacionados e não há uma só forma de movimento que não se "trans-forme" à
medida que o movimento segue imperturbavelmente sua própria "via", através de suas próprias formas,
pois toda forma nada mais é que uma forma de movimento.

Somos apenas canais de circulação do movimento único e universal.

No entanto, a nível de psicologia humana, teremos que recorrer ao adjetivo "espontâneo", a fim de
criarmos uma diferença entre nossos movimentos automatizados do dia-a-dia e os movimentos que
tentaremos produzir graças à nossa "intuição".
A nossa "a-tensão" será nosso guia.
"Inspirados" por ela, tatearemos rumo à zona de bloqueio, através do movimento "espontâneo", que se
converterá aos poucos na "chave cinética" capaz de abrir e diluir a zona de bloqueio neuro-muscular.

A consciência, é então, como já dissemos, o autêntico fio condutor de todos os demais.

Nossa "a-tensão" acompanhará, assim, todo processo do RC, conduzindo-nos entre o repouso e o
movimento.

Resta-nos agora descrever um outro tipo de movimento explorado pelo RC, produzido pela ação da
gravidade, logo, que será abordado conjuntamente com esta.
49
A GRAVIDADE

CONTORSÃO E GRAVIDADE.

Quando seu corpo repousa descontraidamente no chão, ou mesmo quando você dorme, em nenhum
instante seus músculos estão parados.
Eles se movem o tempo todo e literalmente.
Este imperceptível movimento muscular não se deve unicamente à própria natureza do músculo, que é
incessantemente atravessado por inúmeros tipos de microvibrações.
A gravidade atua permanentemente sobre o músculo, aspirando-o em sua direção, lenta e
imperceptivelmente, mas continuamente.

Este tipo de movimento "passivo", ou "gravitacional", é de extrema importância no RC.

Desde o início do RC, ainda de pé, assim que repousarmos alguns instantes nossa "a-tensão" sobre
nossa respiração e iniciarmos a dinâmica dos movimentos espontâneos, desde que lentifiquemos um
pouco a velocidade de cada movimento em si, a gravidade já estará atuando sobre nossos músculos,
aspirando-os na direção do solo.

Mas é quando começamos a trabalhar sentados que a ação gravitacional se faz mais presente.
Aqui começa sua atuação mais intensa, através de CONTORSÕES que o praticante realiza e que
intensificam a ação da gravidade.

Para obtê-las, o praticante busca uma posição física inabitual, "retorcida", sem nada forçar, mas, próximo
do limite dos diferentes eixos de rotação articular.
A "contorsão" segue o princípio do posicionamento intuitivo, ainda em sintonia com a zona de bloqueio
que emite sinais ao movimento que a busca, indicando se o recebe prazerosamente, dolorosamente ou
indiferentemente :

1. Manter-se aí por alguns instantes, segundo a sensação recolhida.


2. Relaxar mais intensamente toda a massa muscular, facilitando a absorção da tensão muscular a
através da gravidade.
3. Buscar uma nova contorção portadora de uma nova descarga profunda da tensão muscular através da
gravidade.

Com o tempo, o próprio corpo pede um contato mais intenso com a gravidade, todos os nossos
músculos gostariam de entregar-se a ela, gozar da suave e eficaz massagem que ele proporciona
continuamente.

É hora de alongar-se por inteiro.

Ainda há discretos movimentos ativos e "espontâneos" que se realizam, mas a tônica passa a ser do
"espreguiçamento" e das contorções, que estiram e alongam deliciosamente nossa massa muscular já
bastante sensibilizada à ação gravitacional.
Algum tempo depois, os únicos movimentos ativos que persistem são os que transportam a massa
muscular global de uma contorção a outra.
Finalmente, todo o corpo pede uma única coisa:
REPOUSO!

A partir daí…
"Bate" o sono…
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Vamos, então, abordar agora o quarto fio condutor do RC:

O REPOUSO

É preciso, então, bastante "a-tensão" nessa fase, a fim de que não adormeçamos, o que cortaria o RC
antes do seu final e nos privaria de uma importantíssima etapa sua.

Quando o RC é dirigido pelo que chamamos de "puxador", esta pessoa sempre alerta os participantes
para manterem-se despertos.
Podemos esclarecer aqui, que como não se trata no RC e: EM ABSOLUTO, de obter um efeito sugestivo
mas sim de trabalhar com a plena consciência, não faz mal que hajam barulhos externos mínimos
durante sua execução, nem que o "puxador" adote um tom persuasivo e calmo.

Quanto mais a pessoa que dirige a sessão fala de maneira natural, sem diminuir nem aumentar sua
freqüência vocal habitual, falando com pessoas perfeitamente despertas, logo, sem tentar "acalmá-las"
nem muito menos "adormecê-las", mais a "a-tensão" pessoal de cada um de nós dirige de fato todo o
processo.

Embora algum barulho leve e ocasional até ajude o RC, já que permite-nos de manter-nos conscientes e
não completamente desligados do exterior, o uso de música é altamente desaconselhável durante RC.
A música é um potentíssimo direcionador e "impõe", através da sua magia, do seu "encanto", no sentido
literal do termo, seu próprio ritmo ao nosso.

NÃO SOU CONTRA A MÚSICA COMO MEIO DE RELAXAR!


Muito pelo contrário!!
Escutar música, completamente descontraído e deixar-se levar por ela, é um dos maiores prazeres que
experimentei nesta vida e um dos mais potentes meios de relaxar que conheço.

No entanto, quando adicionada ao RC, a música monopoliza por inteiro o espaço e não mais permite
que os movimentos se orientem de maneira espontânea, influenciando-os profundamente, desviando
nossa "a-tensão" sobre ela, impedindo-nos de desenvolver nossa própria intuição, de colocar nossa "a-
tensão" sobre o diálogo entre o movimento espontâneo, ou a contorção, e o bloqueio.

Fechado o parênteses, voltemos ao RC, na fase de repouso absoluto.

Claro que os músculos continuam se relaxando, aspirados pela ação da gravidade.


Mas, como não há mais contorções, nem outro estímulo qualquer, o risco de adormecer aumenta a cada
minuto.
Sendo a voz do "puxador", quando se trata de uma sessão de grupo, o único estímulo exterior contínuo,
este deveria nessa fase ser discretamente "chato", quando se trata de iniciantes, a fim de impedí-los de
"cair" no sono, falando um pouco mais forte, ou um pouco mais rápido, por exemplo.

Agora, nossa "a-tensão" está totalmente liberada de todo e qualquer movimento e de toda e qualquer
contorção.
O corpo repousa comodamente, de preferência próximo da posição em que costumamos dormir, logo:

TODA "A-TENSÃO" É POUCA"!

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É o momento de aproveitar do repouso, que continua proporcionando à gravidade a oportunidade de
descarregar mais profundamente nossos músculos, para levar nossa "a-tensão" ao quinto fio condutor
do RC:

O CORPO

Nosso corpo utiliza dois tipos de músculos para seu funcionamento, os músculos ditos "voluntários", por
estarem submetidos à nossa vontade e através dos quais realizamos os gestos cotidianos, e os
músculos ditos "involuntários", que regem o funcionamento dos nossos órgãos internos.

Até o presente momento, no RC, nossa consciência esteve ocupada com os nossos movimentos
psicomotores, ou seja, com nossos músculos ditos "voluntários".
Agora, que já não há mais movimentos espontâneos a fazer, nem contorções a serem mantidas, nossa
"a-tensão" pode liberar-se do movimento voluntário para explorar o nosso movimento interior, ou
involuntário.

Todos os nossos órgãos internos funcionam graças a músculos que escapam à nossa vontade.
Todas as funções ditas "nobres": respiração, digestão, circulação sangüínea, e todo movimento
fisiológico dos órgão internos em geral, escapam assim à nossa consciência, ao nosso controle.

Não tendo como influenciá-los diretamente, não temos igualmente como danificá-los diretamente.

E…
Felizmente !

Já que nenhum coração cessará de bater simplesmente por não desejarmos mais viver.
Mudamos tantas vezes de opinião em uma mesma vida…

Logo, todo o nosso funcionamento interno, assim como nossa respiração, não necessita da nossa
participação consciente para sua manutenção.
Mas, se não podemos ajudá-los conscientemente, podemos perturbá-los inconsciente e
involuntariamente, assim como o fazemos com nossa respiração.

Essa fase do RC é, então, dedicada a intensificar, através de nossa "a-tensão", nossa consciência do
interior do nosso corpo.

Nossa consciência tem o dom de retirar a pressão inconsciente que exercemos sobre nossa fisiologia.

Da mesma maneira que criamos continuamente circuitos neuromusculares a nível da nossa musculatura
"estriada", ou voluntária, destinados a acumular o excesso de tensão psico-afetiva que nos asfixiaria se
não fosse evacuado em urgência a estes circuitos, devido à nossa dificuldade sociocultural humana de
expressar espontaneamente nossas emoções, criamos igualmente, a nível dos músculos "lisos", ou
"involuntários" que comandam os órgãos internos, circuitos de retenção do nosso excesso de tensão
psico-afetiva.

Quanto mais nos censuramos de exprimir nossas emoções, dissimulando de nós mesmos o que
sentimos, mais rapidamente saturaremos, assim, nossa capacidade de "estocar" o excesso de tensões a
nível da "couraça muscular", a nível da musculatura "estriada" e mais teremos que utilizar circuitos
neuromusculares de acúmulo de cargas psico-afetivas a nível da musculatura "lisa", ou seja, a nível dos
órgãos internos.

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A fase do RC dedicada ao "corpo", ou ao corpo em "repouso", concerne, então, particularmente a esse
trabalho de descontração a nível dos circuitos neuromusculares ligados à musculatura involuntária.

Pelo fato mesmo desta musculatura não estar diretamente submetida à nossa vontade, o recurso de
tentar chegar a ela através de movimentos espontâneos voluntários, como na fase anterior, é,
evidentemente, inoperante.

Teremos, então, de empregar uma outra técnica, uma outra estratégia.

Para "tocar" nossos bloqueios internos, a maioria das técnicas utiliza a sugestão como recurso, como
"ponte".
Há várias formas de fazê-lo, como enviar sugestões diretas a um órgão, como que "dialogando" com ele,
tentando "acalmá-lo", por exemplo, ou "incentivá-lo a curar-se.
Há ainda o método de concentrar-se sobre uma área que se percebe como danificada e enviar oxigênio
sobre essa zona, concentrando-se sobre a respiração e, em seguida, sobre a área que deverá
beneficiar-se em primazia dela.
Há ainda o método de enviar diretamente "bioenergia" renovada sobre um órgão dado, concentrando-se
na imagem da luz e enviando "luz" diretamente sobre o órgão.

Estou absolutamente convencido que tais técnicas funcionam, nem que seja simplesmente por "efeito
placebo", como vimos brevemente no início desse trabalho.

Mas, assim como a música atrapalha a nossa conexão intuitiva, através da nossa "a-tensão", com o
diálogo entre um bloqueio dado e o movimento espontâneo capaz de absorvê-lo, toda sugestão direta a
um órgão nos desvia da dinâmica real do RC.

E, como nunca será demais repeti-lo, repito uma vez mais:

O fundamento do RC é o encontro entre uma área de bloqueio, quer ela seja regida pela musculatura
voluntária, quer ela concerna os órgão internos e um MOVIMENTO capaz de absorvê-la.

Ora, se enviarmos sugestões à nossa zona de bloqueio, MESMO QUE O PROCESSO FUNCIONE, o
que estamos fazendo, de fato, é realimentar no nosso inconsciente a impressão inexata de que nossa
vontade consciente é necessária ao bom funcionamento do nosso organismo!

E, como já afirmamos antes, esta concepção é, do ponto de vista fisiológico, inexata.

Como todo ser vivo, nosso organismo independe de nossa consciência para sua subsistência, a nível
fisiológico.
A melhor prova é que alguém pode manter-se vivo durante anos, se alimentado, mesmo em estado de
coma profundo, ou seja, sem nenhuma consciência de si.

Existem, então, ao menos quatro razões para que o RC não utilize o princípio da sugestão para relaxar,
tanto a nível psicomotor, quanto a nível interno:

1. Recorrer à auto-sugestão é dar à nossa consciência uma importância em relação à nossa fisiologia
interna que ela de fato não possui, é fortificar a mensagem errônea que a nossa presença consciente é
necessária ao nosso bom funcionamento fisiológico.
Por fortificar essa mensagem inexata e reforçar a nossa força de auto-persuasão:

2. Recorrer à auto-sugestão é uma "faca de dois gumes", já que reforça a presença da sugestão
consciente tanto para o "positivo" quanto para o "negativo", pois quanto mais enviarmos mensagens
conscientes de sugestão ao nosso inconsciente, mais facilitaremos o acesso também às mensagens
indesejáveis do conteúdo consciente.
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3. Recorrer à sugestão é também, em princípio, criar um conflito entre a mensagem inconsciente
previamente enviada aos órgãos, a qual criou, através do cérebro, o circuito neuromuscular de acúmulo
de tensão, e a nova mensagem "positiva", que funcionará como uma "contra-ordem".

4. O quarto motivo pelo qual o RC não utilizaria a sugestão, mesmo que ela não entrasse em conflito
com os seus objetivos, é a pouca crença da maioria das pessoas nela.

Na realidade, muitos de nós tem a sensação de estar mentindo a si mesmo quando utiliza mensagens
persuasivas positivas:
A auto-sugestão é freqüentemente associada a auto-engano.

Na França, pátria do mais antigo e mais conhecido método do "pensamento positivo", a técnica do Dr.
Emile Coué, a expressão: "utilizar o método Coué" é sinônimo de um otimismo ingênuo, algo como
"ocultar o sol com uma peneira".

Sei que os argumentos acima podem ser interpretados com um ataque à utilização da persuasão de um
modo geral.

Só posso, então, aqui repetir o que disse no início desse trabalho:


1. Nenhum de nós é dono da verdade.
2. A ciência desconhece o princípio ativo da sugestão, ou do "efeito placebo".
3. Toda forma de terapia, sobretudo as que estão sendo empregadas há dezenas de anos, merecem
nosso respeito, mesmo quando pessoalmente discordamos delas.

O que dizer, então, da sugestão, a primeira das terapias, uma técnica que tem sido útil a milhões de
pessoas já há milhares de anos?

Atacá-la, condená-la, seria mais que um erro, seria uma tola arrogância.

A intenção do RC NÃO É de atrair a si pessoas que já estão satisfeitas com o método de relaxamento
que usam, mas sim proporcionar mais oportunidades ainda de relaxar àqueles que até agora não se
sentiram atraídos pelas técnicas de relaxamento já consagradas, já que a maioria delas recorrem à
sugestão.

Considere, então, caro leitor, a reserva que emitimos acima sobre o uso da sugestão no RC, não como
uma condenação do método em si, mas como uma proposição alternativa, potencialmente útil, no
trabalho de desbloqueio, às pessoas refratárias à persuasão.

Como age o RC, então, já que ele não se baseia no princípio da sugestão, nem pode servir-se da
vontade sobre a musculatura involuntária, para atingir a zonas de bloqueio neuromuscular a nível dos
órgãos internos?

O princípio é o mesmo que indicamos antes para a respiração:


O fato de colocarmos nossa "a-tensão" sobre nossa respiração, sem a intenção de controlá-la, gera
uma inibição da pressão inconsciente que exercemos sobre ela.

De fato, quando se trata de órgãos internos, estamos muito mais próximo da realidade fisiológica
quando tencionamos deixar de atrapalhar do que quando queremos, voluntariamente "ajudar".

Logo, uma vez que atingimos a fase de repouso do RC, que já não nos é mais necessário realizar
nenhum movimento espontâneo, nem manter nenhuma contorção trabalhada pela gravidade, nossa "a-
tensão" pode dedicar-se a mover-se pelo interior do nosso corpo, pousando-se sobre um órgão que a
solicite, que atraia a atenção.

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Como para a respiração, basta que deixemos nossa "a-tensão" sob um órgão dado, sem nenhuma
pressa, sem nenhuma outra intenção do que estar consciente dele, para que toda pressão que nosso
inconsciente exerce sobre ceda pouco a pouco!

O tempo, a perseverança, e uma boa dose de paciência, pouco a pouco adquirida, graças ao RC,
poderão ajudar-lhe a constatar a veracidade desta afirmação, caro leitor.

Mas, talvez já lhe ajude a entender como isso é possível, se você meditar um pouco sobre o fato, que:
Ou há uma influência do inconsciente sobre um ponto dado, ou a influência é do consciente.
Em todo caso, por definição, é impossível que um ponto dado do nosso organismo esteja ao mesmo
tempo sobre a influência dos dois, já que, por definição, a presença de um implica necessariamente na
ausência do outro!
Logo, por princípio:

O consciente e o inconsciente se comportam como o sol e a lua: um reina sobre a noite, outro sobre o
dia.

Colocar, então, nossa "a-tensão", calmamente e pelo tempo que parecer necessário, sobre um órgão
dado que se encontra sob pressão do nosso inconsciente, MESMO QUE NENHUMA MENSAGEM
ESPECIAL LHE SEJA DIRIGIDA, é mais do que suficiente para neutralizar, a curto termo, e impedir a
longo termo toda utilização da área "visitada" pela consciência como foco "crônico" de depósito de
tensões.

Além disso, o poder real do nosso consciente só se desenvolve plenamente quando ele é capaz de
entender que, devido às oscilações e flutuações constantes do nosso nível de consciência:

É o inconsciente que comanda, de fato, tanto nossa fisiologia quanto nossa "consciência", praticamente
todo o tempo!

Sei que tal afirmação pode parecer inacreditável, inadmissível mesmo, para as pessoas que não estão
habituadas a estudá-la.
Mesmo entre terapeutas ela não goza de uma unanimidade.
Mas as discordâncias são bem mais o fruto de uma compreensão inexata da afirmação, logo, ligadas à
forma de tratá-la e às conclusões que poderiam ser retiradas dela, do que inerentes a uma questão de
fundo.

Pois, no fundo, todos concordamos que podemos fazer coisas erradas "distraidamente".
E é esse "distraidamente" aí que Freud chamou de "ato falho", promovendo-o à condição de um dos
maiores reveladores do inconsciente.
Prefiro, então, não abordar aqui o inconsciente sob o ângulo do "ato falho", sujeito a controvérsias, e
associá-lo unicamente à palavra "distração", antes que esta seja vítima de interpretações.

Quem seria louco a ponto de afirmar que nuca fez nada errado "distraidamente"?
A quem faltaria lucidez a ponto de não reconhecer que quando estava tentando escrever com a colher do
café, ou mexer o açúcar com a caneta, não foi vítima de uma distração inconsciente, causada pela
extrema absorção da consciência na confecção de uma carta apaixonada?

Creio que posso esperar que haja unanimidade, da parte de todos nós, em reconhecer que, no caso
acima, houve uma perturbação da nossa "a-tensão", justamente devido à tensão da paixão, que a
invadiu mais do que ela pode absorvê-la!

Como a consciência está sujeita a oscilações, segundo seu grau de tensão emocional, ou o grau de
cansaço físico, ela está submetida, em última instância, à nossa programação inconsciente subjacente

Todo método terapêutico conhece e utiliza esse princípio de dissociação entre a intenção e o ato.
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Porque um ato não corresponde sempre e fielmente à intenção?

Simplesmente porque há uma outra intenção sujacente, não consciente, que predomina sobre a intenção
consciente desde que não estamos plenamente presentes ao ato, desde que nosso nível de atenção,
logo, de consciência, baixa.

Um receio qualquer já é suficiente para criar um conflito entre a execução de um ato e uma indecisão
inconsciente, como vimos no estudo de "Samadhi

Todos nós conhecemos conflitos e dilemas onde duas intenções conscientes se afrontam.

Em princípio, todo estado emocional de uma certa intensidade, mesmo os inconscientes, "estocados" na
memória afetiva reprimida sob forma de distúrbio traumático, perturba o nível da nossa consciência,
coloca-nos em um "estado segundo emocional", no qual as "distrações" sao possíveis.

A falha entre a intenção e o ato representa, assim, o ponto de apoio das "alavancas" terapêuticas.

Ela é, evidentemente, o fundamento das terapias baseadas na psicologia profunda e que trabalham,
implícita ou explicitamente, com a noção de inconsciente, como a psicanálise de Freud, a análise
junguiana, ou a Gestalt-Terapia.

Mas ele é também empregado por todas as terapias que trabalham com a sugestão, como a hipnose ou
a relaxamento, ou ainda com os produtos derivados da sugestão, como o condicionamento empregado
nas terapias comportamentais, como a "programação neurolingüística", ou mesmo a linguagem
psicocorporal, das terapias psico-afetivas, ou da bioenergia.

Sempre costumo dizer, que apesar das inúmeras e controvertidas maneiras de definir o inconsciente,
além das incontáveis técnicas para sondá-lo, há uma definição extremamente simples e compreensível
desta noção:

O inconsciente é a distância entre o que dizemos e o que fazemos.

Como explicar este fenômeno que faz com que, na grande maioria dos casos, nunca agimos segundo
nossa intenção, mas em obediência à uma "impulsão" que parece estar fora do nosso controle, ou
simplesmente por "automatismo", senão recorrendo à noção de "inconsciente"?
Quem de nós desconhece a sensação de haver reconhecido… tarde demais… que disse o que "não
devia"?
E quem desconhece o arrependimento de não ter tido coragem de aproveitar de uma oportunidade de
realizar algo?

Como considerar-nos "despertos", quando somos incapazes de manter nossa atenção em algo, na
grande maioria dos casos, mesmo durante cinco minutos ?

A interpretação dos sonhos é certamente um grande meio de analisar o inconsciente.


Mas eu não conheço meio mais "presente" e de mais fácil acesso à essa análise, do que simplesmente
observar o quanto sonhamos acordados, crentes que somos coerentes com nossas intenções, mas sem
a mínima consciência de que nossas ações as contradizem em absoluto.

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"Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço", diz o ditado que se aplica a todos nós praticamente
todo o tempo.

Você duvida disso, caro leitor?


Faça, nesse caso, o exercício seguinte:
Pare de justificar qualquer ato seu para unicamente observá-lo.

Esta distância, então, entre o ato e a intenção, explorada de diversas maneiras, mas, de maneira
unânime por toda técnica terapêutica, é igualmente o fundamento do RC.

A "a-tensão", à qual tento sempre chamar nossa atenção, é treinada pelo RC a fim de que possamos
estar, e literalmente, presentes ao presente, ao que se passa concretamenmte.

Esta "presença de espírito" é, igualmente, o objeto das meditações e recebe o nome de "Dharana" nos
sutras de Patanjali da ioga, como vimos.

Durante o RC nossa "a-tensão" aprende a acompanhar nossos movimentos de maneira presente, mas
sem controle, estimulando unicamente nossa "intuição", a fim de que esta contate as zonas de bloqueio
através dos movimentos que irão se desenvolvendo sob a sua inspiração:
Sem "vagabundear" distraidamente e inconscientemente durante o exercício, mas sem tornar-se
opressora ou voluntariosa, logo, geradora de tensões.

Deixar que nossa "a-tensão" descondicione, simplesmente através da sua presença, pouco a pouco, e
lentamente, toda pressão inconsciente e contínua que exercemos sobre nossa fisiologia, é um
aprendizado que vem com a experiência.

Tentar fazê-lo e adormecer durante o processo, já é um indício que estamos relaxando!


Mas tentá-lo e já conseguir não dormir, indica que conseguimos já habitar profundamente nossa "a-
tensão":
Mais calma ainda, então, resultados palpáveis não tardarão !

Uma vez examinada a relação entre nossa "a-tensão" e o nosso corpo, no seu aspecto fisiológico-
involuntário, concluindo assim o estudo dos seis fios condutores do RC, voltemos agora à respiração que
é o primeiro e o último fio condutor utilizado.

A RESPIRAÇÃO, FASE FINAL

No início do RC nossa "a-tensão" dirigiu-se durante alguns instantes à nossa respiração, a fim de que o
nosso ritmo biológico profundo, profundamente inscrito nela, pudesse servir-nos de guia:

O ritmo da respiração é a resultante do encontro entre nosso ritmo pessoal e o espaço-tempo que
atravessamos.

Nunca estamos parados.


O tempo não pára e nós somos seus passageiros.

Nosso ritmo compõe harmonias sempre renovadas, sempre diferentes, segundo o momento no qual nos
encontramos, ou… nos "perdemos"…

Como cada corpo material, cada forma, cada objeto, emite aos demais seu próprio ritmo, há uma
influência recíproca e contínua entre eles.
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O frio, o calor, a luz, a sombra, o som, o silêncio, o silêncio do som, o som do silêncio, a cor, o odor, o
tato, o sabor, todos os nossos sentidos captam vibrações que se conjugarão às nossas.

A respiração é o revelador mais sensível e mais visível desse encontro.

Durante o RC, a contínua atividade de relaxar, através de movimentos espontâneos, de contorções, ou


mesmo da visita aos nossos órgãos internos, enfoca nossa "a-tensão" em encontros, em composições
rítmicas entre o que somos, no mas profundo de nós mesmos, e o que compomos, quando em contato
com o "exterior" a nós mesmos, pois consideramos como "exterior" tudo que nos chega através dos
nossos cinco sentidos.

Na realidade, nunca estamos a sós com nós mesmos, sempre há uma influência sobre o nosso ritmo
pessoal de algo exterior aos sentidos.
Logo, nunca captamos, de fato, nossa própria vibração pessoal em seu estado genuinamente "puro".

Toda meditação visa a aproximação do praticante com o centro de si mesmo, que vibra em uníssono
com tudo que o envolve.

Se você pratica uma técnica de meditação, caro leitor, sabe ao que me refiro.

Mas…
Nem sempre temos tempo, ou paciência de meditar!

Além do mais, a meditação foi envolvida em uma aura místico-esotérica que deforma a natureza
profunda do que ela, pois ela nada mais é que um profundo encontro consigo mesmo:
UM BANHO INTERIOR.

Assim como você se banha freqüentemente, caro leitor, ou escova os seus dentes, sua mente precisa
igualmente de uma higiene de limpeza.

Tentar encontrar-se, o mais profundamente consigo mesmo, nada tem, então, de "esotérico", trata-se de
uma autêntica necessidade cotidiana e lastimavelmente negligenciada:
A paz no mundo depende dela!

Sei que corro o risco, reafirmando-o aqui, de parecer patético ou dramático.


Mas assim como o oceano nada mais é do que uma imensa quantidade de ínfimas gotinhas de água, a
paz do mundo só depende da reunião da paz interior de cada um de nós.

De nada adiantarão todos os nossos louváveis e gradiloqüentes esforços em prol da paz, enquanto não
soubermos transmití-la a nós mesmos e de nós mesmos ao nosso próximo.

A fase do RC que abordamos nesse momento é uma excelente contribuição à paz mundial, através da
gotinha desse oceano humano que somos, e será sob o ângulo de busca de paz interior, bem mais que
sob um fundo de pesquisa mística, que o tema será aqui abordado.

Ademais, caro leitor, quanto menos você se preocupar em entender o que é "mística", o que é
"transcendência", ou se Deus existe ou não, ou qual seria sua natureza, para simplesmente dedicar-se a
encontrar a profunda paz que espera por você no mais profundo do que você realmente é, mais você se
surpreenderá do número de respostas que "sua" paz será capaz de fornecer-lhe sobre todos estes
temas.

E será menos a resposta que você receberá que lhe surpreenderá, do que "o fato delas terem sempre
estado ocultas para você quando terão sido… o óbvio", citando aqui as palavras da bela música de
Caetano Veloso:
"O índio".
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Tente, então, caro leitor, chegar simplesmente ao óbvio da respiração, ou seja:
Independentemente de tudo que possamos atribuir-lhe, ela é antes de mais nada nosso elo mais banal e,
ao mesmo tempo, mais fundamental com a vida.

Evite os extremos!

Tente, por um lado, liberar-se do mau hábito que temos todos nós, de subestimar quase completamente
e durante uma vida inteira a importância vital para nossa saúde, que representa o exercício de:
SE DEIXAR RESPIRAR.

Medite longamente sobre essa questão.


Longe de estar perdendo tempo com isso, você estará ganhando, e sem nenhum exagero, anos de vida,
de realização e de felicidade, pelo simples fato de SE LEMBRAR DE SE DEIXAR RESPIRAR.

Não que sem sua memória você morra asfixiado, por esquecer de inspirar.
Mas sem a lembrança de não se cortar do ar por excesso de pressão mental, você continuará se
asfixiando lentamente e alimentando um circuito estranho, que faz com que quanto mais você estiver sob
tensão, mais você entra em uma discreta insuficiência respiratória e quanto mais insuficiente for sua
respiração, mais idéias negras parasitarão sua mente.

Uma simples e curta presença da sua consciência sobre a sua respiração, cotidianamente treinada, em
"momentos perdidos", como em uma fila de espera, em um trajeto, desfará mais idéias negras na sua
cabeça, pela simples eliminação da sua constante pressão inconsciente sobre ela, lhe levará a uma
análise do seu psiquismo e da sua situação de vida de uma inspiração, lucidez e eficácia
incomparavelmente superior a todas as noites da sua vida que você passou em branco ruminando seus
problemas.

Aliás, não conheço nenhum sonífero mais eficaz do que simplesmente deixar-se respirar
conscientemente, interditando-se outra atividade mental simplesmente através do repouso da "a-tensão"
sobre a respiração.

Mas só quem conhece as possibilidades de uma "respiração consciente", MAS SEM NENHUMA
INTERVENÇÃO, por tê-la praticado, acreditará na sua incrível potência.

O que digo aqui parece tão banal, tão comum, tão acessível que, antes de constatarmos a
surpreendente eficácia desta prática, não conseguiremos acreditar que isso possa ser verdade.

Mas você não precisa subentender no que aqui afirmo o enunciado de uma "chave esotérica ou mística".

Embora termos como pneuma, atma e vários outros conceitos ancestrais, arquetípicos e mitológicos
indiquem esta relação entre o ar e o mais íntimo do nosso ser, da nossa "alma", palavra que traduzimos
hoje mais comumente por "mente", evitando, assim, divergências de interpretações que não concernem
a este estudo, de caráter eminentemente prático.

A própria palavra "inspiração", como dissemos várias vezes, é uma indicação clara desta relação entre o
ar que respiramos e nossa boa saude mental.

Afinal, 80% do nosso oxigênio é destinado ao cérebro.

Mas, evite o outro extremo, se consegui sensibilizá-lo para a importância, literalmente vital, da respiração
para sua lucidez:
Evite de querer controlar, "melhorar" conscientemente sua respiração:
Lembre-se de que ela funciona muito bem quando você a esquece!

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Lembre-se de que se alerto aqui para sua necessidade de praticar regularmente e várias vezes por dia,
independentemente do RC, uma "respiração consciente", não é em absoluto pela utilidade da sua
consciência para a sua respiração em si, mas pela necessidade da sua respiração em si para a sua
consciência.
E, sobretudo, pela sua necessidade de "limpar" sua respiração de todo acúmulo de pressão inconsciente
que você deposita nela vinte e quatro horas por dia!

Logo, seja perseverante, porém modesto:


Inspire simplesmente o ar.
E… deixe simplesmente que o ar "lhe" Inspire…

Praticando o RC deitado, uma vez que não há mais movimentos nem tomada de consciência de nenhum
órgão interno, você chegou ao momento ideal, desta técnica, para constatar, desde que já tenha alguma
experiência da prática, o que aqui afirmo:
Deixe que sua consciência se pouse delicadamente sobre a sua respiração e que ela aí se repouse.

Volto à imagem de um pássaro, metáfora da nossa consciência, pousado sobre o robusto galho de uma
árvore frondosa, que balança levemente ao sabor do vento, metáfora da nossa respiração.
Se insisto sobre essa imagem não é por questões líricas, mas porque ela nos aproxima mais da
realidade que imaginamos.

A consciência pode nos parecer mais forte, robusta, ou até mais "pesada" que a respiração.
Mas o que seria dos seu cérebro, caro leitor, se lhe faltasse o ar durante alguns minutos?

Eis, então, a fragilidade da consciência-ave, caro leitor, "encarnada" na frágil "plumagem" neuronal,
dependente do trabalho contínuo do sistema cárdio-pulmonar.
E eis a robustez da nossa respiração, diretamente conectada a toda a massa de ar do globo.

Aproveite, então, caro leitor desejoso de experimentar o RC, deste previlegiadíssimo momento em que
se encontra deitado, sem absolutamente nada para fazer, deixando simplesmente que a gravidade
continue aspirando doce e continuamente sua sobrecarga muscular, para experienciar mais e mais e
uma vez mais a indescritível delícia que é permitir-se respirar.

Não se deixe levar por "viagens" mentais que lhe distrairão desse imenso gozo!

Viaje na sua respiração simplesmente.


"Voe" no ar que respira, se locomova através do vai e vem das rodas de tração da "locomotiva a vapor"
que é seu diafragma.
Aprenda a descobrir e a redescobrir esse imenso prazer.
A "inspiração" virá, então, sozinha e dela mesma!

Chega de palavras:
Respire simplesmente, livremente e conscientemente, caro leitor.
O que aí se passa pertence ao mundo do silêncio.

Uma vez passados bons momentos nesta última etapa do RC, é hora de concluí-lo.
O retorno à plena possessão psicomotora, passa por movimentos mínimos a nível das extremidades dos
dedos.
Estes movimentos serão, lentamente e sem nenhuma pressa, ampliados cada vez mais em direção ao
centro do corpo, atingindo as articulações mais volumosas das mãos e pés, em seguida dos punhos e
dos tornozelos, dos braços e das pernas e finalmente do tronco, abdômen e pélvis.
Espreguiçar-se gostosamente é em geralmente o último gesto que faremos antes de abrir os olhos,
marcando o fim do RC.

NO ENTANTO…
60
A experiência nos demonstrou que, uma vez que você se espreguiçou, se você aceitar sentar-se ainda
de olhos fechados, mantendo sua "a-tensão" , e só então abri-los, você conserva mais profundamente o
hábito de estar atento.
Abrir os olhos ainda deitado é um hábito comum, isso você já faz toda manhã.
Mas, se você sentar-se antes de abrir os olhos, sua força de decisão será reforçada na direção da
descontração, aliando-se a esse ato inabitual, já que nossa tendência é espreguiçar e abrir os olhos
imediatamente, num ato reflexo.

Mas, se esse ponto incomodá-lo, na o leve em conta.


Afinal, é você mesmo que acabará descobrindo qual é sua forma de conceber o RC e de praticá-lo.

61
COMO PRATICAR O RC

A maneira mais simples de praticar o RC é liberá-lo de toda limitação "técnica".

Sei que a declaração acima pode surpreendê-lo, caro leitor, principalmente logo depois de haver tomado
seu tempo descrevendo a "técnica" do RC!

Mas, o essencial no RC é não perdermos de vista que não necessitamos "aprendê-lo", já que o
praticamos naturalmente.
O que necessitamos, sim, é cultivar a memória dos gestos que todos nós utilizamos, SEMPRE E DE
MANEIRA INTUTIVA, para descontrair-nos.

Logo, se você é realmente "alérgico" ao mínimo de rigor que toda aprendizado técnico exige, esqueça a
técnica e guarde a lembrança:

Retire desse livro unicamente a indicação do que lhe parece bom para você.
Como, por exemplo, de vez em quando, se espreguiçar um pouco mais demoradamente, ou se lembrar
mais freqüentemente de prestar mais atenção aos sinais físicos, como o sinal que indica que a posição
na qual você está sentado já não é mais confortável, por exemplo.

Sinais que indicam talvez que você está se contraindo inutilmente, ou bloqueando sua respiração sem
necessidade.

Talvez, também, de vez em quando, você poderia se lembrar de se contorcer um pouco deitado e manter
o corpo nessa posição "semi-incômoda", mas relaxando e respirando, afim que a gravidade possa agir
mais em profundidade nos bloqueios menos acessíveis, menos
sinalizados diretamente pelo "incômodo".

Garanto que tirará muito mais proveito do RC agindo assim, "descompromissado com ele", do que se
você "obrigar-se" a praticá-lo.
Às vezes, entusiasmados com uma técnica, nos "obrigamos" a praticá-la, mas não percebemos que ela
já tornou-se, e desde início, mais uma obrigação do que um prazer!

Impor-se uma prática regular, sem possuir o mínimo de disciplina mental que nos permite aproveitar
realmente de qualquer ensinamento técnico, é o erro mais freqüente que cometemos, e a causa maior de
desistências, assim como é o ponto mais fraco de toda técnica.

Nesse caso, mais cedo ou mais tarde, o RC, como outro método qualquer, se tornará para você o que
ele já era desde o início:
Uma obrigação a mais…

Como poderia ele, visto de tal ângulo, lhe ser de alguma valia em matéria de descontração?

Espero que entenda, caro leitor, porque insisto tanto nesse ponto:
É que enquanto você não souber diferenciar "prazer" de "dever", você não conseguirá se descontrair!

Desconfie, então, da sua "alergia à técnica"!


Ou melhor, não a subestime…

62
Será melhor para você ir deixando-se seduzir pelo RC aos poucos, sem pressão e sem pressa, até que o
prazer natural que ele pode lhe proporcionar vire um "hábito" gostoso.
Até porque o prazer do RC você já conhece.

Você só não o conhecia sob esse nome.


Nem sabia ainda cultivá-lo e desenvolvê-lo, tirando todo proveito consciente que um animal, por não ter
problema de consciência, já tira dele.

Uma vez salientado esse ponto, vamos à segunda maneira através da qual você pode entrar em contato
com o RC, caso você não sofra de uma "alergia" intensa demais aos aprendizados "técnicos":

Pratique-o nos momentos mais fáceis, mais acessíveis a você, quer seja de manhã, de tarde ou de noite,
em casa ou no trabalho, mas em locais e em horários onde não precisará ser interrompido e onde não se
encontre em demasia "sob a pressão" do tempo.

Não releia mais o texto do RC.


Nem tente lembrar-se dele.
Vá simplesmente praticando-o do seu jeito, sem se preocupar com "certo ou errado".

Quando der vontade e SE DER, se "bater" a curiosidade, releia o livro, mas não tente obrigatoriamente
se lembrar do que leu, ou aplicá-lo.
Deixe que o seu corpo vá lhe mostrando, com o tempo como chegar até as zonas mais profundamente
bloqueadas dele.

"A PRESSA É INIMIGA DA PERFEIÇÃO", reza o ditado.


Poderíamos afirmar que a pressa é, sobretudo, "inimiga" da descontração.
E que sem descontração, não há como chegar na "perfeição", ou no "Samadhi", como diriam os yoguis,
falando-nos da perfeição, sinônimo de paz interior.

Mas, já que falamos de "perfeição", caro leitor, vejamos como aplicá-la à "técnica", abordando agora a
terceira maneira de práticar o RC.

Se você já está habituado a aprendizados técnicos bem mais exigentes que o RC e interessado em
aprofundar tecnicamente sua experiência neste relaxamento, o que lhe proponho, além dos cuidados
preliminares e elementares como a disponibilidade de espaço e de tempo, roupas folgadas, etc., é que
você estude minuciosamente a descrição aqui proposta do RC antes de se lançar nele.

Leia quantas vezes lhe for necessário.


Entenda bem o que o RC é e como ele pode lhe ser útil.
Apreenda o embasamento, as etapas, os fios condutores, o "porque" deles.

E, sobretudo, se você deseja realmente praticá-lo através do seu aspecto mais técnico, se dê o tempo e
o trabalho de gravar você mesmo uma fita com sua própria voz que será o "puxador" do RC.

Esse detalhe, que só agora abordo, é fundamental para os que querem realmente apreender o RC do
ponto de vista técnico, seja por serem praticantes já há bastante tempo de técnicas de relaxamento, seja
porque uma atividade esportiva rigorosa exige deles uma descontração muscular consistente e profunda,
já que os esportistas, como os guerreiros e os felinos, como vimos antes, acumulam obrigatoriamente
uma grande quantidade de tensão muscular latente, devido não só ao esforço físico em si, mas
igualmente devido às típicas dúvidas e hesitações humanas durante a execução de um ato, como
também já analisamos no início desse trabalho.

Evidentemente, todo homem… ou mulher… "de ação", se comporta, como vimos, como um samurai e
como um felino.

63
Se você tentar fazer o RC, DO PONTO DE VISTA TÉCNICO, mas não recorrer a um "puxador", você
terá que pensar você mesmo em controlar o tempo de duração e a passagem através das suas diversas
etapas.
Ou seja:
Você estará divido entre a pessoa que deseja se descontrair e a pessoa que orienta, que dirige mesmo,
os passos desta descontração.

Em outras palavras, você jamais obterá uma "a-tensão", se tiver que se ocupar do relaxamento e da sua
seqüência ao mesmo tempo.

Por isso é que um "puxador" SEMPRE é necessário no início do aprendizado TÉCNICO do RC.

Mesmo que o "puxador seja "mecânico", nada mais que uma fita gravada por você mesmo, indicando
etapas e tempos aproximativos a dispensar em cada uma delas.

Claro que essa "mecânica" inibirá de uma certa forma sua movimentação natural.
Mas é melhor você interromper sua descontração antes do momento que o faria sem a fita, do que você
se encarregar mentalmente de executar o relaxamento e dirigí-lo, dirigindo seu esforço à memória e não
à descontração em si.

O RELAXAMENTO CINÉTICO É, ANTES DE MAIS NADA, NÃO TER QUE SE "PRÉ-OCUPAR"!

Dirigindo você mesmo o seu próprio relaxamento, é impossível você não acionar previamente circuitos
de memória que lhe manterão em estado de tensão!

Mesmo que esta tensão seja absolutamente imperceptível.

Claro que se julgamos que não necessitamos, pelo menos ainda, consagrar-nos a um aprendizado
técnico do RC, preparar uma fita é o pior veneno à esta prática!

Como o RC nada mais é que uma técnica inspirada no movimento de descontração natural de todo
animal, desde que o praticante não deseje atravessar uma etapa técnica, a lenta e descontraída prática
"natural" lhe será muito mais proveitosa do que sua submissão forçada às exigências técnicas.

Mas quem já sabe retirar prazer de seus esforços prévios, terá tudo a ganhar não cedendo à preguiça, a
fim de poder realmente descontrair plenamente em seguida, tirando proveito da vantagem que lhe
proprociona sua familiaridade com o uso de técnicas.

Evidentemente um praticante de RC com bastante experiência, e sobretudo, um praticante que já tem a


prática do ensiná-lo, pois só se aprende realmente o RC (eu diria, como tudo na vida…) quando se é
capaz de ensiná-lo, como veremos mais adiante, este já não precisará mais de fitas pré-gravadas, nem
de outro tipo de "puxador"!

Pois ele terá se habituado a tal ponto com a prática do RC, se identificado de tal maneira com ela, que
ela atuará continuamente sobre ele.
Todo gesto seu será, já inconscientemente, dirigido no sentido de fornecer o mais mínimo esforço em
função do máximo de proveito desejado.

Descontrair, se mexendo ou não, se tornará uma segunda natureza.

Segue agora alguns exercícios de RC realmente realizados e que podem lhe dar uma idéia, caro leitor,
de como se desenrola uma sessão de RC na prática.

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Antes que você examine esse material, lembre-se que o que aí foi dito seguia uma
CONTEXTUALIZAÇÃO, ou seja, estas palavras, tal e qual elas foram pronunciadas, só tiveram sentido
quando ecoaram naquele recinto e em função das pessoas ali presentes!

Se houvesse alguém a mais ou a menos, ou se houvesse outra atmosfera, outro horário, outras
perturbações sonoras, as palavras e as indicações teriam sido evidentemente outras!

Se as transcrevo aqui, não é na intenção de sugerir-lhe de copiá-las, mas simplesmente para oferecer-
lhe um VAGO modelo de como você poderia "mais ou menos" conceber sua própria fita "puxadora".

Claro que se você preferir simplesmente gravar minhas palavras, observando um intervalo de pelo
menos uns cinco segundos entre cada frase, e repetí-las a você mesmo, em um tom o mais próximo
possível da sua voz natural, sem tentar auto-induzir um estado de calma, deixando que esta surja da
própria prática, não há mal algum nisso.

Com o tempo, você aprenderá a regular e variar melhor o tempo de intervalo.


E em seguida a criar o seu próprio texto.

Você pode, então, começar por aí, se acha mais fácil e simples, até porque o tempo lhe ajudará a
conceber você mesmo seus termos, seu ritmo e sua maneira pessoal de praticar o RC.
Só assim você poderá, com a prática e a experiência, contatar com sua freqüência pessoal e única.

Por isso mesmo você nunca verá um fita pré-gravada de RC à venda, pois isto implicaria na sugestão do
"indutor" do exercício e, como vimos, esse não é o caminho do RC.

Igualmente por isso é que não fiz um esforço maior no sentido de reorganizar mais pedagogicamente as
"puxadas" de RC que seguem abaixo.
Não houve, então, adaptação da linguagem à escritura, o estilo oral da narração é mantido, salvo
pouquíssimas modificações onde poderia haver incompreensão.
Estes textos transcritos terão assim o valor de testemunho do trabalho na sua real dimensão.
Vamos a elas então?

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EXEMPLOS DE COMO "PUXAR" UM RC

MODELO 1

Fique em pé.
Assim que "der", feche os olhos.
Consagre alguns instantes à sua respiração, deixe-se respirar.

Agora, você pensa em focalizar uma tensão qualquer em você, a primeira que chamar sua "a-tensão".
Tente entrar dentro do seu corpo através de um movimento qualquer que você vai fazer, feito uma
"munganga".
Vamos chamar isso tecnicamente de munganga.
Você vai tentar encontrar um foco de tensão.
E em torno desse foco de tensão, você vai tentar criar um movimento.
É feito uma munganga, não faça com a cabeça.
Não faça o movimento com a cabeça, usando o mental, se guie pela sua intuição.
Não use obrigatoriamente as mãos para massagear-se, quanto mais você realizar movimentos fora dos
seus parâmetros habituais, mais constatará a tensão, mais entrará em contato com ela.
Procure manter os olhos fechados.
Quanto mais você ficar com os olhos fechados melhor, porque você fica mais dentro de você.
Não fique com medo do ridículo. Não tem nada de racional nesse negócio. Fique só sentindo, use a
sensação para transformar essa sensação em um movimento em torno de uma tensão que você está
sentindo em algum lugar do seu corpo, pouco importa aonde.
Siga o seu próprio ritmo, não acelere nem vá rápido demais.
Vá encontrando seu próprio ritmo interior.
Você está num ritmo interior, seu mesmo, biológico, para alguns esse ritmo é um pouco mais acelerado,
para outros mais lento, procure entrar em contato com esse ritmo, veja onde está o seu ritmo:
Será que você não está fazendo depressa demais?
Será que você não está fazendo lento demais?
Procure o contato com o seu ritmo interior.
NÃO USE A LÓGICA, USE A SENSAÇÃO!
Continue com a sua "a-tensão" na tensão.
Tensão essa que, no início, era tensão afetiva e acabou se transformando em tensão muscular.
Continue focalizado nessa tensão muscular, ponha a sua "a-tensão" nessa tensão.
Deixe que sua "a-tensão" se entregue inteiramente à tensão com a qual você dialoga, deixe que sua "a-
tensão" gire, gravite em torno dessa tensão.
Deixe que essa "a-tensão" gere o movimento na qual a sua tensão muscular vai diminuir, vai se diluir.
Lembre-se de que não é necessário fazer nenhum esforço para ter, para prestar "a-tensão".
Basta que você dirija sua consciência para o foco de tensão muscular.
E se você realmente chegar nele através da sua "a-tensão", esta acabará se convertendo em fluidez e
movimento corporal em torno da tensão, e a sua tensão muscular naturalmente irá se diluindo na fluidez
proporcionada pela sua "a-tensão".
Use, então, a sensação, focalizando sua "a-tensão" sobre o foco de tensão muscular.
Vá colocando sua "a-tensão" em cima da tensão, e criando em torno dela um movimento que vai servir
de fundo para essa tensão.
Não se apresse!
Vá, cada vez mais, entrando na noção de tempo.
Faca como se tudo fosse eterno.
SE DÊ TODO O TEMPO DO MUNDO PARA FAZER O SEU MOVIMENTO!
66
Procure entrar realmente dentro da noção de tempo.

Sê dê tempo.

TODO O TEMPO DO MUNDO.

Faca como se todo o tempo do mundo estivesse à sua disposição.


Uma das maiores fontes de tensão que a gente tem é justamente porque temos a sensação de que o
exterior está roubando o tempo da gente.
Pensamos que o trabalho, o tráfego, os compromissos, as responsabilidades, as obrigações, as
desavenças, não nos deixam mais tempo para viver.
Estamos tão acostumados, "drogados", a vivermos sob pressão, a não dispor de tempo que mesmo em
períodos de lazer, mesmo dormindo damos um jeito de viver sob pressão através de problemas que
criamos e que de fato não precisariam estar ali.
Na realidade, nos mantemos dentro dos nossos problemas porque necessitamos manter nossa
adrenalina, estamos já condicionados, drogados de adrenalina, de tanto que vivemos sob pressão.
Cada vez mais as coisas do dia-a-dia vão mais depressa, mais rápidas.
Nos sentimos mais responsabilizados, vamos ficando cada vez mais com menos TEMPO.
Você vai se pressionando já do interior.
Você se põe pressão.
Então faça como se você tivesse todo o tempo DO MUNDO para fazer seu exercício.

NÃO SE APRESSE, PELO CONTRÁRIO, DESACELERE, RETIRE SUA PRESSÃO!

Mantenha a "a-tensão" sobre a tensão muscular, vá criando um movimento de fundo em torno dessa
tensão.
SE DÊ TEMPO.
CADA VEZ MAIS, SE DÊ TEMPO.
Não hesite em fazer "munganga".
Não tente fazer coisa certinha, bonitinha.
Ninguém está lhe vendo.
Tá todo mundo de olho fechado.
Você não está fazendo uma coisa estética, nem lógica.
Você está trabalhando com a sua tensão muscular.
E talvez o movimento que vá lhe ajudar a fazer com que essa tensão flua dentro do movimento, pareça
esdrúxulo aos seus olhos.
PERCA O MEDO DE PARECER RIDÍCULO, OU HISTÉRICO, OU GROTESCO.
Esse medo não vai lhe ajudar em nada, pelo contrário:
Em si, esse medo já é tensão.
O pessoal que ainda está de pé poderia pouco a pouco se preparar para ir se sentando.
SEM PRESSA NENHUMA.
Utilize sua "a-tensão" para fazer com que o seu movimento tenha cada vez mais tendência a dirigir-se
para a posição sentada.
ACEITE O ESDRÚXULO, O ILÓGICO, O ANTI-ESTÉTICO, O HISTÉRICO, O GROSSEIRO, O
GROTESCO.
Não busque parâmetros em movimentos conhecidos, estereotipados pela ginástica, pela dança, pela
ioga ou pelas artes marciais.
Busque antes o que a sua intuição vai lhe revelar, se você aceitar trocar o pensar pelo sentir, o que
parece estético pelo que se sente como agradável, como "distensiona-dor", essa palavra "bárbara", que
inventei agora, mas que diz muito bem o que ela diz.
Tente tudo, sobretudo nao utilize movimentos conhecidos, vá se aventurando no que sua sensação-
intuição lhe revela como possibilidade de movimento, siga os movimentos mais agradáveis, pois eles
estão em relação direta com a tensão à qual você está atento.
Se você for deixando a sua tendência natural de controlar seu corpo através da "a-tensão" que de fato é
uma tensão a mais para focalizar sua "a-tensão" nesse jogo entre a tensão muscular e o movimento de
67
fundo que pode ser criado pela "a-tensão", em torno dela, você verá pouco a pouco que a sua intuição
do movimento justo, aquele que permitirá à sua tensão muscular de fluir nele, ficará mais natural em
você.
Você verá que a sua intuição será percebida como uma sensação de fluidez, de movimento, que
distensiona a dor.
Cada vez mais seu corpo vai intuindo qual é o movimento que vai servir para diluir, dentro desse
movimento, naturalmente, aquela tensão na qual você focalizou a sua "a-tensão".
SE DÊ TEMPO.
TODO O TEMPO DO MUNDO.
Você vai precisar de muito tempo para aprender a se dar tempo.
Aqui, para esse relaxamento-meditação, para essa dinâmica entre a tensão e a "a-tensão", isso é vital.
SE DÊ TEMPO.
FACA TUDO SEM PRESSA, SEM PRESSÃO.
Para aquelas pessoas que já estão deitadas eu percebo que intuitivamente elas já estão utilizando a
gravidade para realizar o movimento, criando contorções no corpo e deixando a gravidade ir puxando o
corpo para a terra, realizando assim ela mesma esse movimento de fundo.
Logo, essa é uma boa intuição, pois você pode utilizar muito bem o solo, criando contorções em torno do
seu corpo para que estas contorções sejam amplificadas pelo efeito da gravidade.
Continue então nessa direção, criando contorções físicas e se mantendo momentaneamente imóvel nela,
distensionado, relaxado, a fim de que a gravidade vá puxando cada vez mais o bloqueio muscular para
dentro dela, reposicionando assim o músculo na sua fluidez natural.
Para essas pessoas que já estão deitadas nessa dinâmica com a gravidade, continue nela.
Isso já é um bom indicador que a intuição está fluindo, criando seus próprios parâmetros de movimento e
dando pouco a pouco à gravidade o comando total sobre o movimento corporal.
Para aqueles que ainda estão sentados, continue no seu ritmo natural.
Para os que estão deitados, continue constatando como seu corpo vai distensionando pelo simples fato
de você estar com o ombro "pra lá ou com a perna "pra cá".
Só isso.
Aí você já vai precisar de menos movimento muscular voluntário, de menos esforço.
Vai ser a gravidade que vai puxando, distensionando seu corpo, e não mais você.
Agora, com a gravidade, chegou um auxiliar literalmente de peso para lhe auxiliar!
Mas não se apresse, se você não chegou lá ainda, e está precisando de alguns complementos sentado,
fique à vontade, continue.
Se você está deitado aprenda cada vez mais a trabalhar com a gravidade.
Bote o corpo numa posição estranha, esdrúxula, ilógica, e você vai vendo que um bocado de tensão,
muita tensão, mas muita tensão MESMO, vai se diluindo por ali, escoando do seu corpo pra terra,
puxado pela gravidade, que a partir de agora se torna o seu movimento de fundo natural, ou seja, já não
é mais você que está criando o movimento de fundo no qual vai se diluir a sua tensão muscular mas é a
própria gravidade que ocupa esse papel, que é o papel natural dela.

CONTINUE DELEGANDO A SUA FLUIDEZ, O SEU MOVIMENTO MUSCULAR, À GRAVIDADE.

Apenas crie contorções "esdrúxulas" e as mantenha por alguns momentos a fim de que a gravidade
massageie, distensione, alongue, descontraia o seu corpo.
Mas não se apresse, você não precisa parar de vez todo o seu movimento, criando por exemplo uma
posição extremamente cômoda, onde você não precise fazer mais esforço nenhum.
Deixe isso mais para o finzinho. Por enquanto, continue criando contorções.
Não se apresse.
Para todos aqueles que já estão com um bom contato com a gravidade, vá abandonando cada vez mais
seu corpo a ela.
Se você já optou por uma posição totalmente distensionada, vá confiando seu corpo cada vez mais a ela.
Se você está ainda sentado vá adotando uma tendência a entregar seu corpo cada vez mais a
gravidade, adotando movimentos que requerem uma atuação maior da gravidade até você entregar seu
corpo totalmente a ela e adotar naturalmente a posição deitada.

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Continue simplesmente , caso você esteja ainda sentado ou já deitado, confiando seu corpo cada vez
mais à gravidade.
Se você já está totalmente imóvel numa posição confortável, o que é sinal que você já abdicou do poder
de movimentar o próprio corpo para confiar esse movimento muscular a gravidade, que vai executá-lo
sob forma de descontração profunda, então, se você já chegou aí nessa dinâmica de descontração,
coloque agora sua "a-tensão" não mais sobre esse movimento muscular de fundo, já que é a gravidade
que o está realizando em seu lugar, e focalize sua "a-tensão" sobre a sua respiração.
Mas não tente modificar a sua respiração.
Não tente controlá-la, acelerá-la, ou sequer acalmá-la.
Pouse simplesmente, suavemente, sua "a-tensão" sobre o seu ritmo respiratório.
Guarde esse contato consciente com a sua "a-tensão" dirigindo-a do movimento de fundo criado por ela
e que agora está confiado a gravidade para o seu ritmo respiratório.
Coloque simplesmente ela sobre a sua respiração e verá que o simples fato de colocar sua "a-tensão"
sobre a sua respiração irá desbloqueando a respiração, sem que você tenha que fazer nada para isso.
Você apenas coloca a "a-tensão" na respiração.
E apenas isso irá desbloqueando sua respiração mais profundamente, sem a sua interferência.
Se você já está a algum tempo com a sua "a-tensão" sobre a sua respiração, volte ela para a gravidade,
focalize de novo sua "a-tensão" sobre a gravidade, e procure confiar cada vez mais nela, se abandonar
que vez mais a ela, deixar com que ela vá LHE distensionando, através desse seu movimento
imperceptível de puxar todos os corpos para o centro da terra.
Para aumentar essa sua confiança, esse seu abandonar a gravidade, vá passando em revista,
tranqüilamente, as diversas partes do seu corpo.
Vá então focalizando a sua "a-tensão" sobre os músculos do seu couro cabeludo, em seguida sobre a
testa, olhos, boca, queixo, orelhas, nuca, pescoço, ombros.
Enfim, vá descendo com a sua "a-tensão" sobre todo seu corpo.
Mas não seja um fiscal de você mesmo.
Não ordene nada, não imponha, não determine, não se impaciente, apenas pouse delicadamente sua "a-
tensão" sobre as diversas partes do corpo.
Mas pouse sua "a-tensão" não de forma ordenada, o que já seria uma tensão, mas de forma aleatória,
pulando talvez do joelho para o ombro, se deixando simplesmente levar pelo que está pedindo para ser
re-focalizado pela "a-tensão".
Lembre-se de não fazer movimentos voluntários novamente, mas apenas pouse sua "a-tensão" sobre
uma eventual tensão que ainda esteja numa das suas articulações ou músculo, a fim de orientar essa
tensão muscular, ou articular, para dentro da gravidade.
A medida que a sua "a-tensão" vai passeando pelo seu corpo, ela mesma vai varrendo sozinha o que
ainda resta de tensão, pois ela vai direcionando essa tensão para dentro da gravidade.
Continue com a sua "a-tensão" passeando dentro do seu corpo.
Continue passeando sobre o seu corpo, desordenadamente, sem concentração precisa sobre nenhuma
parte.
Vá lá, passe lá de novo pela sua barriga, pelas suas pernas, pelo seu joelho, sem fazer nenhum esforço
de concentração.
Vá simplesmente passeando por dentro do seu corpo, com a sua "a-tensão".
Enfoque, por exemplo, seu pé esquerdo com a sua "a-tensão", depois o seu pé direito, tente alcançar
com a sua consciência um dedo ou outro do seu pé, a bem localizá-lo, veja se consegue senti-lo
claramente.
Continue passeando pelos detalhes do seu corpo.
Detalhes musculares, por enquanto.
Agora, pouco a pouco, vá focalizando sua "a-tensão" em detalhes mais viscerais, ou seja, volte por
exemplo, sua "a-tensão" para sua respiração, veja como o seu ritmo respiratório se mantém por si
mesmo.
Em seguida, passeie com sua "a-tensão" sobre o seu ritmo cardíaco, veja como estão os seus intestinos,
observe se você nota alguma tensão neles, passe alguns momentos com a sua "a-tensão" enfocada
neles, mas resista a tentação de modificar algo.
Confie cada vez mais nesse princípio no qual o simples fato de você colocar sua "a-tensão" sobre uma
parte do seu corpo, a simples presença dessa "a-tensão" fará com que a tensão sobre a qual ela se
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focaliza se diluirá num movimento de fundo criado pela simples presença da "a-tensão" nessa parte do
seu corpo.
Você precisará de tempo pra constatar realmente isso.
Por enquanto só o que você poderá fazer, é resistir à tentação de interferir com a sua própria vontade
nessa tensão, o que criaria uma tensão suplementar, contentando-se simplesmente de focalizar sem
interferência, sua "a-tensão" sobre uma tensão determinada.
Sinta, então, de novo um pouquinho sua respiração, volte ao seu batimento cardíaco, se deixe atrair por
alguma pulsação arterial que você sinta em alguma parte do seu corpo.

LARGANDO:

Deixe essa palavra cada vez mais tomando forma na sua "a-tensão".
Vá largando toda a tensão.
Quanto mais você larga a sua tensão, mais a sua "a-tensão" vai entrando num espaço de confiança.
Confiança em relação à gravidade.
Confiança em que ela é a sua aliada, que ela vai puxar seus músculos para dentro do seu próprio
movimento, e que isso é muito bom para você, já que sua tensão muscular foi regulada para ser
equilibrada pela tensão da gravidade e que é a sua tensão afetiva que está aumentando a sua tensão
muscular e distanciando-a do parâmetro de tensão natural que é a gravidade.
Logo, para largar sua tensão afetivo-muscular você não terá outra opção, a longo prazo, que não seja
confiar na gravidade, re-entregar sua tensão muscular a ela, reintegrar o seu meio ambiente
gravitacional.
Resista, então, à tentação de comandar sua tensão muscular.
Resista à tentação de sugerir a você mesmo bem-estar ou repouso, ou qualquer outro tipo de sugestão
de efeito de curta duração mas que se revela finalmente enganador pois não dirige sua tensão muscular
a quem pode realmente regulá-la, que é a gravidade.
Mais cedo ou mais tarde, com a prática do Relaxamento Cinético, você constatará quão vão são os seus
esforços de modificar sua tensão muscular ou pela sua "a-tensão" contínua, o que evidentemente é
impossível, já que ninguém pode ficar o tempo todo prestando "a-tensão" a si mesmo, ou por uma
técnica exterior como massagens ou ginásticas, já que só a gravidade pode regular sua tensão
naturalmente, se você aceitar de trabalhar com ela, de contar com ela, de confiar nela, coisa que todo
animal ou homem primitivo possui intuitivamente mas que nós, homens modernos, vítimas do stress,
escravos da falta de tempo, perdemos esse contato natural com a gravidade.
Aceite, então, se dar o tempo de recontactar a gravidade.
Não queira tudo agora, nem logo.
ACEITE TRABALHAR A LONGO PRAZO.
Aceite que confiar é a tarefa mais difícil para o ser humano, já que no fundo, se você for honesto, você
não confia em nada, nem em ninguém, sequer em você mesmo.
Vá, então , humildemente, aprender a re-confiar na gravidade, como faziam seus ancestrais e como
fazem todos os animais.
Coloque sua "a-tensão" sobre essa evidência:
DEITADO ASSIM COMO VOCÊ ESTÁ AGORA, VOCÊ NÃO PRECISA SEGURAR NADA, VOCÊ NÃO
PRECISA FAZER NENHUM ESFORCO MUSCULAR, SUA ATENCÃO PODE SIMPLESMENTE
FLUTUAR SOBRE O SEU CORPO, SUA CONSCIÊNCIA PODE DEDICAR-SE A SI MESMA A PAIRAR
SOBRE OS FENÔMENOS QUE REQUEREM SUA ATENCÃO SEM QUE PARA ISSO ELA TENHA QUE
SE OCUPAR COM ABSOLUTAMENTE NADA QUE SE REFIRA A ÁREA CORPORAL.
Experimente largar tudo para a gravidade e ficar simplesmente "a-tento", ou seja, sem tensão.
Medite sobre essa idéia de que a "a-tensão" é um estado em que você está sem tensão, ou seja, quanto
menor for o seu esforço, muscular ou mental, maior será a sua concentração, contrariamente o que se
pensa correntemente.
Experimente não fazer nada, apenas confiar na gravidade e deixar a sua "a-tensão" deambular,
vagabundamente, sobre as coisas que vão atraindo a "a-tensão" dela.
Antes trabalhamos com a expressão: movimento de fundo, que você criou com a sua "a-tensão", depois
trabalhamos com a idéia de largar seu movimento para a gravidade, e agora estamos trabalhando

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diretamente com a confiança na gravidade, a fim que sua consciência possa pairar sobre o seu corpo
sem ter que se sentir responsável pelo bem-estar deste.
Entre em comunicação de confiança com a gravidade.
ENTREGUE A ELA SEU CORPO.
Continue meditando sobre a palavra confiança, utilizando a gravidade como suporte dessa meditação.
Vá deixando essa confiança crescer dentro de você.
Você vai precisar, evidentemente, de muito tempo MESMO para você confiar REALMENTE na
gravidade.
Mas não se preocupe com isso.
O importante não é obter essa confiança "absoluta" na gravidade.
O IMPORTANTE É O CAMINHO QUE LEVA A ELA.
Normalmente confundimos "a-tensão" com tensão, acreditando que é preciso estar tenso para estar
atento, o que evidentemente é uma contradição lógica.
Quanto mais você for confiando na gravidade mais você vai entregando seu corpo para ela, e mais
disponibilidade a nível de "a-tensão", a nível de consciência, você obterá.
A conseqüência é que a sua dimensão interior, seu espaço-tempo existencial, vai se tornando, vai se
constituindo, unicamente em consciência.
É como se você não tivesse mais que se preocupar com a seu corpo, é como se a gravidade e os outros
elementos ligados a ela, como luminosidade, ar, nutrição, fossem se reposicionando naturalmente em
torno de você para lhe ofertar o que você realmente necessita naquele momento.
SEM EXCESSO NEM ESCASSEZ.
Aproveite, então, desse momento, no qual você não precisa realizar nenhum esforço muscular, para
meditar um pouquinho sobre essa leveza, para sentir um pouquinho essa paz, essa tranqüilidade que
representa o não ter que estar continuamente sob tensão.
Observe como nesse momento que você larga sua tensão muscular tudo em você continua funcionando
sozinho e melhor, como respiração, digestão e sistema vascular funcionam melhor quando você não
interfere diretamente sob forma de tensão sobre eles.
Tudo em você está sendo "pilotado" automaticamente.
Dedique-se, então, a ser unicamente confiança, ou seja, consciência, nesse momento.
É como se nesse momento você estivesse "sem corpo".
Não tenha medo disso.
NÃO MISTIFIQUE ISSO.
Isso é um fenômeno simples, banal e natural.
Aliás, esse é o estado natural do homem, do homem que deveria viver naturalmente, não sob pressão
mas em estado de calma e paz, como qualquer animal que você observar, e que não esteja ainda
"intoxicado" com a presença do stress humano em seu meio ambiente.
Aceite, então, estar um mínimo ligado ao seu corpo e um máximo ligado a sua consciência.
Volte para a palavra confiança e dê mais confiança à gravidade.
Largue mais.
Pouco importa "como se faz" para largar mais.
Simplesmente queira largar mais e deixe que o processo flua naturalmente.
Tudo que você não precisar segurar, largue.
E, nesse momento, você não precisa segurar absolutamente nada.
Você agora não precisa segurar nada pois quem está segurando inteiramente seu corpo é a gravidade e
seus órgãos internos já funcionam mesmo independente da sua vontade voluntária.
E seria, então, convenhamos, muita tolice da sua parte ocupar sua cabeça agora com problemas que de
qualquer maneira não serão resolvidos agora.
Vagabundeie, então, livremente com a sua consciência sobre qualquer elemento que atraia a sua "a-
tensão".
Seja só consciência.
Confie seu corpo, temporariamente, à gravidade, representada por esse solo que está suavemente lhe
mantendo sobre ele.
Medite sobre essa possibilidade de vivenciar você mesmo agora como sendo praticamente, unicamente,
consciência.

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Agora você é praticamente "nada" em termos corporais, já que você pode confiar todo seu corpo para a
gravidade e aos mecanismos involuntários que o mantém continuamente.
Tente viver essa experiência de se sentir sendo apenas consciência.
Não tente fazer nada de especial com esse estado de consciência.
Procure contatar o prazer que é esse vagabundear sobre uma coisa ou outra através consciência.
Com a sua experiência nessa prática, através das vezes que você vai repetí-la, você verá que esse
estado de consciência flutuante lhe será muito útil no dia-a-dia, vindo naturalmente ao seu auxílio
naqueles momentos de stress maior.
Você constatará, com a repetição do exercício, que o bom hábito de não de se estressar inutilmente,
agravando inutilmente situações já delicadas, se tornará cada vez mais presente no seu cotidiano.
Se habitue a fazer desse espaço de "consciência flutuante" sua habitação, sua meditação, aquilo que
direciona sua "a-tensão" para o que é realmente útil, prazeroso e eficaz.
Sem que você tenha sequer que fazer outra coisa para isso que não seja simplesmente habitar sua "a-
tensão", sem comandá-la nem forcá-la a nada.
Não hesite no entanto agora a realizar micro-movimentos de descontração se isso lhe ajudar a se
entregar ainda mais à gravidade.
Não fique parado, deitado, de forma tensa.
Fique imóvel unicamente se isso estiver sendo realmente prazeroso.
Procure não dormir, pois com o correr do tempo todo o relaxamento prazeroso tende a se transformar
em sono.
Procure vivenciar a sua consciência, sem no entanto entregá-la ao sono.
Procure simplesmente "passear", "flutuar" dentro do seu corpo com a sua consciência, que é o que
chamamos em RC de "consciência flutuante".
Não hesite em integrar toda a interferência exterior, sem fugir dela, mas passeando através dela, ou seja,
atravessando-a.
Talvez você não esteja familiarizado com essa particularidade da sua consciência, mas sua consciência
é muito mais uma flutuação do que uma ancoragem.
O seu corpo sim, este está ancorado à terra, ou seja, à gravidade.
Logo, a longo prazo, você não terá outra opção do que confiar na gravidade para ancorar seu corpo, em
vez de tentar ancorá-lo à sua cabeça, em vez de tentar submetê-lo à sua vontade consciente.
Deixe sua "a-tensão" flutuar, como se você fosse um barco feito de consciência, navegando num mar de
matéria, representado pela sua massa corporal e pelo meio ambiente no qual essa massa está inserida.

Volte agora uma vez mais à sua respiração e repouse sua consciência longamente sobre ela.
Pense naquela imagem clássica de um pássaro sobre o galho de uma arvore frondosa, que balança ao
sabor do vento..
Mantenha este estado por algum momento, sem outra flutuação que não seja a da sua respiração.
Mas também sem nenhuma rigidez.
Não faça nada.
Apenas repouse sua "a-tensão" sobre sua respiração.

Vamos agora iniciar o processo de retomada do corpo, de "reincorporarão".


Sua "a-tensão" volta agora naturalmente ao seu corpo, a fim de que você possa recomandar seus
músculos através da sua vontade.
Evidentemente seus músculos perderam uma boa parte da tensão, do stress que eles tinham antes, pela
simples fato de você tê-los deixado tranqüilos, livres da sua vontade estressante e em contato direto com
a gravidade.
Reinicie, então, esse contato voluntário com o seu corpo.
Comece pelas extremidades, através de movimentos mínimos nas extremidades dos dedos das mãos e
dos pés.
Procure guardar os olhos fechados.
Vá ampliando e expandindo esses movimentos voluntários dentro das mãos e dos pés em seguida dos
braços e das pernas, até levá-los a cabeça e ao tronco.
Não se apresse.
Proceda novamente como se você dispusesse de todo o tempo do mundo.
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Lembre-se que o principal aprendizado nesse exercício, o fundamento essencial dele, é o aprender a se
dar tempo.
Lembre-se que você está vivendo numa era em que o tempo pessoal de cada um de nós foi comprimido,
transformado em pressão, em tensão, e que o seu "trabalho" é precisamente não trabalhar!
Lembre-se que para retornar ao estado natural de "a-tensão" você precisa, precisamente, não estar mais
tenso!
Lembre-se que o seu "desfazer" é precisamente não fazer!
Logo, não se apresse, deixe fluir.
Uma vez que você tenha ocupado com movimentos todo o seu espaço corporal, se espreguiçando,
esticando seu corpo naturalmente, como você deveria fazer todas as manhãs, procure se sentar e só
agora abra os olhos.

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MODELO 2

Então vamos lá, né?

Não esqueça sua respiração, deixe-se respirar, de olhos fechados é ainda mais fácil.
Procure aí de pé uma tensão dentro de você.
Focalize a sua "a-tensão" numa tensão.
Assim que der feche os olhos, se já não o fez.
Então de olhos fechados vá procurando.
Assim que você encontrar uma tensão tente criar um movimento em torno dessa tensão.
Seu movimento pode ser ilógico, esdrúxulo, absurdo, pouco importa.
O importante é que você comece a tentar um diálogo entre o movimento que você está criando com a
sua "a-tensão" e a tensão que você localizou dentro de você.
Se dê tempo.
Se dê todo o tempo do mundo.
Não se apresse.
Vá devagar.
Evite usar as mãos.
Siga o seu ritmo.
Alguns vão ir mais lento, outros mais rápido.
Siga o seu ritmo.
Se dê todo o tempo do mundo.
Não exite em parecer ridículo ou esdrúxulo, pouco importa.
Você não está fazendo nada lógico ou estético.
Você está intuindo uma sensação de movimento que vai pouco a pouco fluindo em você.
É a sua sensação-intuição que vai lhe guiar pra encontrar esse movimento que vai servir de fundo pra
tensão que você está localizando com a sua "a-tensão".
Não se preocupe em ficar calmo, nem relaxado, nada disso.
Se preocupe, simplesmente, em focalizar a sua "a-tensão" sobre a sua tensão.
Se fosse um efeito sugestivo eu mesmo me preocuparia em falar mais calmo com você, ou algo assim,
mas nada disso tem importância.
O importante é esse diálogo entre a sua tensão e a sua "a-tensão".
Vá entrando mais nessa noção de ritmo.
Vá tentando encontrar o seu ritmo.
Não se apresse, nem se lentifique.
Siga o que intuitivamente você está sentindo como sendo o seu ritmo nesse momento, até porque ele
muda de hora em hora.
Continue fazendo dialogar a sua "a-tensão" com a sua tensão.
Não se preocupe com as minhas palavras, elas estão aí só pra ir direcionando o seu movimento, mas é o
diálogo entre sua tensão e sua atenção que vai decidir o que acontece.
Não tente tomar consciência do tipo de movimento que você está fazendo, você só ia se atrapalhar com
a sua cabeça.
Vá fazendo movimentos.
Vá se despreocupando inteiramente se eles estão certos ou errados, bonitos, feios, ou "tronchos". Nem
sequer se preocupe se seu movimento está lhe ajudando ou não.
Simplesmente vá sentindo que esse movimento de alguma forma toca a sua tensão, essa palavra já é
mais operacional, a palavra tocar.
Deixe o seu movimento tocar a sua tensão.
Se dê tempo.
Relaxamento Cinético é um produto feito sob medida, que muda de hora em hora, de segundo em
segundo mesmo.
Então vá seguindo o que acontece dentro de você.
74
Eu só sirvo aqui mesmo de lembrança, lembrança do espaço.
Mas não se deixe atrapalhar por mim.
Me escute de uma orelha um pouco distraída, sem prestar muita "a-tensão" ao que eu digo.
O importante é o diálogo entre a sua "a-tensão" e a sua tensão.
Se você ainda está de pé, vá levando, pouco a pouco, o seu movimento pra tendência sentado, ou seja,
vá utilizando cada vez mais a gravidade pra ir lhe puxando para o espaço de ficar sentado.
Mas não se apresse.
Tome todo seu tempo.
Se você está já na posição deitado, vá substituindo, pouco a pouco, o movimento ativo pelo movimento
gravitacional.
Vou me explicar melhor, você dá umas contorções no seu corpo e você fica naquela posição por alguns
momentos até que a gravidade puxe os seus músculos pra baixo.
Então não vai ser mais você que vai fazer o movimento ativamente, você apenas cria uma contorção,
perna "para um lado", braços "para o outro", da forma esdrúxula que você escolher, e daquele jeito,
naquela contorção, você vai então deixando que a gravidade vá lhe puxando pra baixo.
Evite, por enquanto, de se colocar em uma posição cômoda de relaxamento e de não fazer nada, é muito
cedo para isso.
Continue criando uma contorção qualquer.
Mas se você já está há algum tempo deitado vá abdicando, pouco a pouco, de um movimento ativo
qualquer, para ir trabalhando somente com contorções.
Você põe o seu corpo de um lado, um pouco torto, um pouco troncho, e você deixa a gravidade lhe
puxar.
Insista um bocadinho em ficar numa posição meio torta e descontrair bastante nessa posição.
Veja como a gravidade vai lhe puxando bem devagarinho, estirando seus músculos.
Mas você tem que se dar tempo.
Se você fizer rápido demais não dá tempo de a gravidade atuar.
A gravidade não tem pressa, ela não está sob estresse como você.
O ritmo dela é muito, mas muito mais lento do que o seu.
Vá aprendendo cada vez mais a trabalhar com a gravidade.
Vá criando contorções e deixando que a gravidade lhe puxe para baixo nesse espaço de contorção.
Vá relaxando.
Abdique de qualquer movimento ativo, se você já está há algum tempo deitado.
Resista ainda à tentação de ficar comodamente relaxado, mas também procure ser o mínimo possível
ativo fisicamente, ou seja, trabalhe com a contorção, deitado e com contorção, bastante contorção.
Deixe a gravidade lhe puxar bem para o lado.
Dê tempo de ela lhe puxar.
Depois mude de posição e fique mais um tempinho, ou um tempão, em uma outra posição deixando a
gravidade lhe puxar para baixo, para dentro dela.
Vá, pouco a pouco, entregando seu corpo à gravidade.
Vá largando seu corpo, abandonando ele para ela, confiando nela.
Vá lentificando a amplidão e a freqüência dos seus movimentos agora.
Vá tentando fazer movimentos cada vez mais lentos e cada vez menos amplos.
Contorções bem mais sutis, mais simples.
Vá diminuindo cada vez mais a amplidão do movimento.
Até você ir indo, pouco a pouco, naturalmente, a uma posição totalmente distensionada.
Assim que der, a partir de agora, sem pressa nenhuma, você procura uma posição bastante cômoda.
Se possível, onde não haja mais tensão muscular nenhuma, ou seja, evite contorções, faça só coisas
que você se sinta perfeitamente à vontade dentro desse espaço.
Siga essa tendência mas não se apresse.
Vá no seu ritmo.
Para quem já chegou nessa posição distensionada, aquela na qual você sente que já pode se largar para
a gravidade, a posição que lhe permite confiar seu corpo a ela, então coloque agora a sua "a-tensão"
não mais no movimento muscular, claro, porque você parou com ele, mas sim coloque a sua "a-tensão"
sobre a sua respiração, sem procurar modificá-la em nada, em absolutamente nada.
Apenas pouse a sua "a-tensão" sobre a sua respiração.
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Não se preocupe com a sua respiração, não se preocupe em acalmá-la nem nada porque como ela é
uma dinâmica auto-regulada, você só pode atrapalhá-la, ajudá-la você não pode em nada.
Se você deixar de atrapalhar, ela se regula por ela mesma.
Então coloque a sua "a-tensão" sobre a sua respiração e toda a tensão que você tinha colocado
involuntariamente sobre a sua respiração, toda a tensão afetiva no seu diafragma, vai se desbloqueando
porque a sua própria "a-tensão" vai varrendo e limpando o seu diafragma de toda tensão, sem você
precisar fazer nada para isso.
Será a presença descontraída do seu consciente que irá diluindo naturalmente a pressão contínua de
sua tensão inconsciente sobre sua respiração.
Então só repouse, suave e delicadamente, sua "a-tensão" sobre a sua respiração.
Se você já colocou há algum tempo a sua "a-tensão" sobre a sua respiração comece agora a levar a sua
"a-tensão" para dentro do seu corpo, a passear dentro dele.
Deixe a sua "a-tensão" se focalizar, por exemplo, no couro cabeludo, ou nos olhos, ou no nariz, orelha,
queixo, ou nuca, um braço ou uma perna, um dedo em particular, enfim, deixe a sua "a-tensão" passear
dentro do seu corpo sem focar nada especialmente, distraidamente.
Distraidamente vá passeando com a sua "a-tensão" dentro do seu corpo.
Não hesite a fazer pequenos movimentos de correção caso você esteja em uma posição muito tensa.
Não fique parado a qualquer preço.
Só fique parado em uma posição se estiver confortável, se começar a incomodar ou doer alguma coisa
faça um micro-movimento que vai corrigir, reposicionar você numa distensão, num movimento de não
tensão, num espaço de não tensão.
Continue passeando com a sua "a-tensão" nas diversas partes do seu corpo, dos seus músculos, mais
precisamente, por enquanto.
Não focalize nada em especial.
Mas lá onde você estiver passeando com a sua "a-tensão", ela vai varrendo, vai distensionando.
Vá dando mais e mais aquela parte que você focalizou para a gravidade, que está o tempo todo
descontraindo seu corpo.
Talvez você não note conscientemente, mas a gravidade está atuando, a cada segundo ela está atuando
sobre você, lhe distensionando, puxando para baixo o que é tensão muscular, aspirando.
É como se ela absorvesse toda essa energia pesada, morta, estagnada, que está em você.
Ela vai, simplesmente, tirando de você, sugando, o que não serve mais para você, o que está lhe
paralisando, para deixar entrar energia nova, que evidentemente vai sendo reposta pela respiração, pela
luminosidade, pela sua nutrição.
Então a gravidade tira essa energia que está morta e a energia viva que o oxigênio está trazendo vai se
reposicionando dentro de você naturalmente.
Vamos passar cada vez mais da palavra LARGAR à palavra CONFIANÇA.
Você precisa aprender a confiar, ou a confiar de novo na gravidade.
Eu digo confiar de novo porque os homens primitivos, que não tinham o teor de estresse que nós temos
e os animais, os que não estão contaminados pelo homem, neles você pode ainda notar, tudo é calmo e
tranqüilo.
Vá confiando na gravidade.
Você não tem opção, você tem que confiar nela porque só ela pode recuperar sua tensão presa,
estagnada.
Mas vá aprendendo a confiar nela.
Confiar é a coisa mais difícil para um ser humano.
Você sabe bem que no fundo você não confia em nada, nem em ninguém, nem sequer em você mesmo,
quanto mais em Deus ou em outra coisa.
Você apenas se engana, fazendo de conta de confia.
Então vá aprendendo a confiar na gravidade, ela está mais próxima de você, ela está lhe tocando, e você
não precisa fazer nada, só abandonar a sua tensão muscular para ela nesse momento.
Vá confiando na gravidade, abandonando seu corpo para ela.
Resista à tentação do sono.
Essa minha conversa mole agora vai servir também para isso, para você não cair na inconsciência.
Procure ficar acordado passeando dentro do seu corpo com a sua "a-tensão".
Agora leve essa "a-tensão" um pouco mais para as vísceras.
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Veja aí como está o seu intestino, veja como está a sua batida cardíaca, mas você não inspeciona, você
viaja, você passeia, você faz turismo dentro do seu corpo.
Veja se tem alguma pulsação arterial em alguma parte do seu corpo, mas não tente modificar nada,
apenas focalize a sua "a-tensão", constate e não tente mudar nada, a mudança vai vir por si mesma, e a
gravidade é que vai orquestrar tudo isso.
Vá confiando cada vez mais na gravidade.
Vá entregando cada vez mais seu corpo a ela.

Vá cada vez mais indo para o seu espaço de consciência.


Você é um ser que tem uma consciência dentro de um corpo, agora você não precisa ter uma
consciência dentro de um corpo porque o seu corpo está entregue à gravidade.
Você pode se dedicar a ser só, essencialmente, consciência.
Ou, se você preferir, seja o mínimo de corpo e o máximo de consciência.
Você ainda está ligado ao seu corpo físico mas você não precisa fazer nada por ele, você pode
abandoná-lo inteiramente à gravidade e se dedicar a ser simplesmente uma consciência flutuante.
E você localiza essa consciência através do que a gente está chamando aqui de "a-tensão", que você vai
colocando em diversas partes do seu corpo.
Então, tente ser esse máximo de consciência e esse mínimo de encarnação corpórea, agora.
Você talvez não esteja familiarizado com essa linguagem mas a sua consciência está mais pra flutuação
do que pra âncora.
Seu corpo sim está ancorado na terra, na gravidade.
Mas sua consciência não.
Ela flutua.
A essência dela, o espaço dela, é a flutuação.
Então procure agora ficar apenas flutuando nas diversas partes do seu corpo, do qual você não tem mais
que se ocupar porque a gravidade pode tomar inteiramente conta dele, se você deixar.
Você não vai, é claro, conseguir entregar seu corpo hoje, agora, pra gravidade, inteiramente, mas com o
tempo, com o hábito, você vai vendo que você faz muito progresso nesse campo, e que muita tensão
boba, retida, difícil, que com massagem, acupuntura, seja lá com que técnica for, não sai, você
bobamente deixando a gravidade agir ela sai.
É uma questão só de paciência e de tempo, mas que sai, sai.
Pra isso, eu repito, você precisa aprender a confiar na gravidade.
Leva muito tempo isso.
Logo, não se apresse.
O objetivo não é que você faça um relaxamento agora, enorme, intenso, magnífico, tudo isso é bobagem.
O objetivo é que você vá treinando, que você vá fazendo o caminho, preparando o caminho.
Então, não se preocupe com resultados.
Se você acabar aqui e sentir muito bem, ótimo, mas esse não é o objetivo.
O objetivo é criar um hábito, um hábito de confiar na gravidade e de não guardar tensão, de não reter
tensão bobamente em si que não serve pra nada, que só vai lhe atrapalhando e criando doença ao longo
dos anos.
Procure se manter acordado.
Pra isso é preciso você deixar sua "a-tensão" flutuar, é preciso você se deixar distrair.
Se vier um barulho de fora, assimile o barulho, integre ele, não exclua.
Não fique tentando se relaxar, deixe que minha voz até lhe irrite um pouco.
O objetivo não é que você fique totalmente relaxado como se você se tivesse cortado do mundo, o
objetivo é que sua "a-tensão" e sua consciência flutuem dentro do seu espaço corporal e flutuem nas
pancadas que o exterior estão dando sobre você, como a minha voz agora, ou pode ser um barulho de
carro, uma buzina, uma coisa que quebra.
Tente oscilar, vibrar com a coisa que está lhe perturbando de fora, de fora da consciência, quer venha do
seu corpo ou de fora do seu corpo, tente oscilar, tente se regular nesse espaço e se deixar perturbar o
mínimo possível pelo que vem de fora, flutuando, justamente, se adaptando, se movimentando com a
consciência fluida dentro desse estado permanente de perturbação exterior.
Porque em qualquer lugar que você esteja do mundo tem sempre uma perturbaçãozinha, nem que seja
um barulho de muriçoca ou uma mosca na sua sopa.
77
Continue com a "a-tensão" flutuando, com a consciência flutuando.
Procure não dormir.
A partir de agora vai ficando mais difícil isso.
É por isso que você deve continuar se distraindo, deixando sua consciência se distrair, ser atraída por
coisas do exterior ou por uma tensãozinha dentro do seu corpo.
Não tente entrar dentro de um estado de completa indiferença para o exterior, senão você acaba
dormindo e sai do exercício.
Não que o sono não seja uma coisa boa, mas não é o objetivo agora.
Um cachorro acabou de latir, se você notou, notou, se não notou não tem importância.
Não fique também prestando "a-tensão" demais exterior.
Não dirija mais a sua "a-tensão" de jeito nenhum, deixe ela flutuar, só flutuar, vai prum lado, vai pro
outro, feito um pouco como "merda n'água" como a gente diz.
Essa flutuação vai lhe ser muito útil porque com o hábito, com o tempo que você for fazendo isso ela vai
se inserindo no seu dia-a-dia.
Então, naqueles momentos de mais estresse, mais tensão, quando você tem tendência a ficar
angustiado, irritado, aí aquela coisa de dentro vai flutuando e vai lhe regulando, vai lhe dando mais
calma.
Então, o objetivo principal desse exercício é você obter essa consciência flutuante, principalmente para
você utilizar no seu dia-a-dia.
Se você é "bruxo" e quer fazer com isso uma "viagem astral" o problema é seu, mas não é nosso.
Melhor seria para você prestar agora mais atenção à gravidade e menos às suas viagens mentais.
Continue distraído, flutuante, acordado, mas dando seu corpo, seu movimento, para a gravidade.
Sinta como você não precisa fazer nada, sinta como é bom não precisar fazer nada.
Veja como você pode dar absolutamente, inteiramente, seu corpo para a gravidade e ficar só sendo
consciência, só sendo flutuação de consciência, só sendo "a-tensão", se distraindo feito criança, feito um
bebê no berço.
Você não tem outra coisa a fazer agora, a não ser ficar só deixando sua "a-tensão" ser levada prum
canto ou pro outro, sem se preocupar se está certo ou errado, se vão lhe recriminar, se vão lhe dar uma
recompensa ou um castigo, nada, apenas flutue com a sua consciência.
Evite no entanto viagens mentais.
O objetivo aqui na é esse, o objetivo aqui é ensinar-lhe a confiar na gravidade, a fim de que ela possa ir
descarregando continuamente o excesso de tensão que você produz.
O objetivo maior e central é você chegar nesse espaço de flutuação de consciência, e você só consegue
ele se você der seu corpo para a gravidade.
Este estado flutuante de consciência vai ser muito útil como "hábito" para você, nas situações de
estresse do dia a dia.
Ele vai lhe permitir de estar mais calmo, mais presente, mais lúcido.
É um pouco como se você saísse do corpo, aquela famosa saída do corpo que falam os místicos, mas o
interesse da gente aqui não é esse.
Aqui você não sai do corpo, pelo contrário: você entra melhor nele!
Só que você entrega ele pra gravidade, você aprende a confiar nela até poder fazer isso.
O interesse não é que você saia do corpo para fazer viagem onde você pensa que vai fazer, você pode,
você é livre para isso, mas o interesse é que você tenha uma consciência flutuante, que é a essência
dela, da sua consciência, para você utilizar essa descontração e essa fluidez no dia-a-dia.
Lembre-se que consciência é "a-tensão" e "a-tensão" significa estar em um estado de não-tensão.
O melhor momento é esse que você está agora, que você pode confiar toda tensão muscular para a
gravidade, ficar só flutuando nesse espaço de consciência, seguindo distraidamente essas besteiras que
eu estou dizendo aqui, ou alguma coisa que se passa no seu corpo ou fora do seu corpo.

Como última pousada da sua "a-tensão" nesse RC, coloque-a agora sobre a sua respiração e se deixe
"inspirar" por ela, em todos os sentidos dessa palavra.

Farei uma pausa mais longa agora, aproveite esse silêncio para reunir profundamente sua inspiração
mental com sua inspiração física.

78
Pronto gente, a gente já deu uma boa puxada nesse espaço de flutuação através do corpo, nesse
espaço de consciência, a gente vai voltar com a "a-tensão" com a consciência para dentro do corpo, de
novo sem pressa, devagar, se dando tempo.
Comece a reintegrar seu corpo com movimentos começando pelas extremidades, se possível as pontas
dos dedos dos pés e das mãos.
Movimentos calmos, lentos, sem pressa nenhuma, vá colocando movimento dentro do seu corpo de
novo com a sua consciência, ou seja, vá reincorporando seu corpo.
Evidentemente, à medida que você for fazendo isso, vá ampliando pouco a pouco, passando dos dedos
para as mãos e pés, das mãos e pés para os braços e pernas, vá ampliando o movimento dentro de
você até finalmente chegar no tronco, pescoço e cabeça.
Com todo o tempo do mundo.
Não se apresse.
O tempo inteiro do universo é seu agora, ainda é seu nesse momento.
Vá se espreguiçando, como você deveria fazer todas as manhãs.
Se espreguice docemente, calmamente, reintegre seu corpo.
Assim que você achar que já reintegrou seu corpo totalmente vá procurando a posição sentada.
Vá se sentando, pouco a pouco.
E procure só abrir os olhos quando você chegar nessa posição.

MODELO 3
79
Então ok, vá, comece isso então.
Procure fechar os olhos, procure se deixar respirar.
Não faça nenhum movimento natural ou um movimento que você conheça, vá procurando alguma coisa
que você não conheça.
Pra quem tá ainda de olho aberto, assim que você puder, feche os olhos.
Vá tentando encontrar uma tensão dentro de você e vá tentando criar um movimento em torno dessa
tensão.
Não tente fazer certo, porque não tem certo ou errado.
Não tem lógica nenhuma.
Logo, vá apenas improvisando como for saindo.
O melhor nome técnico pra isso que você está fazendo, por enquanto é "munganga".
Você tá fazendo munganga, né?
Procure se manter em pé por enquanto, se você puder, e vá tentando criar um movimento em torno de
uma tensão.
Nem se acelere nem se retenha.
Procure encontrar seu ritmo biológico.
Então, duas noções já estão aí.
Primeira noção de tensão e movimento e a outra de ritmo biológico, né?
O que você está fazendo é colocando sua "a-tensão" na sua tensão, ou seja, você focaliza sua tensão
através da sua "a-tensão" e converte a sua "a-tensão" em movimento.
Movimento inspirado na tensão que está sendo focalizada.
A idéia é de criar um diálogo entre o movimento que você está sugerindo e a tensão que está retida.
Tente ir pra essa noção de diálogo.
Diálogo entre a tensão e o movimento.
Ou melhor, diálogo entre a sua tensão e a sua "a-tensão", porque a sua "a-tensão" é que vai criar um
movimento em torno da sua tensão.
Não tente reprimí-la, não tente desfazê-la com a sua vontade, ou na marra.
Tente simplesmente propor um movimento, sugerir um movimento, intuitivamente, a nível de sensação,
sem lógica nenhuma, a essa tensão que você sente.
Como o seu movimento não vai depender da lógica, ele pode parecer esdrúxulo, ridículo, absurdo, torto,
pouco importa.
Não é um concurso de estética, nem de lógica.
Tente sair dos lugares comuns de exercícios que você já fez ou conhece, tal ou tal técnica.
Quanto mais você evitar o conhecido, melhor pra você entrar no intuitivo, não no desconhecido, mas no
intuitivo.
Procure encontrar bem o seu ritmo.
Nem acelerado nem lento demais.
Veja o que é que seu corpo está querendo como ritmo, como cadência de movimento.
Se dê tempo.
Se dê todo o tempo do mundo.
Faça como se a noção de tempo não existisse, como se você dispusesse de todo o tempo do mundo.
Deixe que eu seja o controlador desse tempo nesse espaço que estou propondo pra você fazer esse
exercício.
Faça como se o tempo fosse infinito dentro dele.
Não se preocupe com o esdrúxulo, com o exótico, com o estranho, com o fora do comum.
Vá procurando que a coisa seja intuitiva, a nível de sensação.
Quem vai lhe guiar é a tensão que você sente, e que vai inspirar ela mesma o movimento no qual ela
deve fluir.
Quanto mais você focalizar a sua "a-tensão" na sua tensão, mais a própria tensão vai dialogando com a
"a-tensão" e sugerindo o movimento que ela precisa.
80
Então não há um confronto, há muito mais um diálogo.
E é a tensão que vai lhe inspirar.
Basta você colocar a "a-tensão" sobre ela e ela mesma vai lhe dizendo intuitivamente, a nível de
sensação, qual é o movimento dentro do qual ela pode ser absorvida.
Porque toda tensão só aspira a uma coisa: ser absorvida num movimento.
Porque tensão é movimento retido.
Se você já está em contato com a posição sentada, ou mesmo se você já chegou na posição deitada,
comece a trabalhar com a noção de gravidade.
Pra quem ainda está sentado, deixe a gravidade lhe puxar prum um lado e pro outro.
Se você já chegou na posição deitada você já pode abandonar a noção de movimento voluntário pra
trabalhar com contorções.
Evite chegar rápido demais na posição imóvel.
Tente trabalhar com contorções.
O que é que você faz então?
Você cria uma contorção e você fica imóvel durante um momento nessa posição, deixando que a
gravidade puxe o seu membro que está contorcido para baixo.
Então faça uma contorção qualquer e deixe a gravidade lhe puxar para baixo.
Tenha calma.
Não tenha pressa.
Se dê tempo.
Se você está deitado, aprenda a fazer isso, a deixar seu corpo numa posição contorcida de forma que os
músculos estejam um pouco esticados, e deixar que a gravidade vá lhe relaxando, que ela vá
absorvendo o seu peso, e nessa absorção ela vá relaxando você.
Crie, então, contorções, só faça aquele movimento de criar a contorção, e tente ficar imóvel dentro da
contorção.
Se você já está deitado é inútil que você trabalhe fazendo muito movimento voluntário com os seus
músculos, é preferível que você crie contorções e que você se abandone à gravidade.
Essa parte é muito essencial, muito fundamental, porque é o começo do ponto em que você vai deixar de
querer controlar seu músculo voluntariamente e que você vai dar esse movimento do seu músculo à
gravidade.
O que foi que aconteceu enquanto você estava sentado ou em pé?
Você era quem comandava com a sua "a-tensão" o movimento, você se inspirava na tensão e através
disso você criava um movimento, não era?
Agora que você está deitado, você não precisa criar mais esse movimento com a sua "a-tensão", basta
você criar uma contorção e a gravidade vai puxando você pra baixo.
Então vá aprendendo cada vez mais a trabalhar com ela.
Ou seja, a partir de agora, se você está deitado, você não precisa mais fazer praticamente nenhum
movimento voluntário.
Você cria a contorção, qualquer contorção esdrúxula, e a gravidade vai distensionando seu corpo em
inúmeros pontos, ela vai mexendo com um bocado de tensão que está inserida nesse ponto de
contorção que você escolheu.
Porque tem milhares e milhares de micro-tensões no seu corpo.
Então você escolhe uma contorção qualquer, fica imóvel na posição, com calma, com paciência, e vai
relaxando cada vez mais, de maneira a que a gravidade lhe puxe para baixo.
Então você vai abandonando o seu movimento voluntário à gravidade.
Essa passagem é super-importante pra outra fase do exercício.
Então vá renunciando, pouco a pouco, à noção de movimento voluntário e vá trabalhando com
contorções que vão fazer com que a gravidade lhe puxe pra uma posição.
Não demore tempo demais em uma contorção, mas também não saia dela muito rápido.
Se dê o tempo de deixar a gravidade trabalhar essa contorção, puxar os seus músculos naquela posição
que você escolheu, que você está relaxando dentro dela.
Vá utilizando cada vez menos de movimento e cada vez mais contorção.
E dentro da contorção vá relaxando, relaxe, relaxe, tente largar, largar, largar, se abandonar, deixar,
soltar o músculo pra que a gravidade vá puxando seu membro naquela posição, ou as suas costas, pra
um outro esquema.
81
Ela vai abrindo você pouco a pouco e ela está sempre lhe puxando pra baixo, ela está sempre em
movimento, a gravidade.
Vá se habituando com essa noção que você está confiando o seu movimento à gravidade.
Vá se habituando a essa noção que mesmo quando você está parado a gravidade está lhe puxando, ela
está em movimento sempre, a gravidade.
Vá se habituando com essas noções.
Pouco a pouco vá passando essa posição em contorção a uma posição mais confortável, cada vez mais
confortável.
Até você chegar no ponto em que você esteja totalmente distendido em uma posição totalmente
confortável.
Se dê tempo.
Não se apresse.
Mas vá tendendo a essa posição de ficar distendido e confortável.
Se você já chegou a uma posição distendida e confortável, coloque lentamente sua "a-tensão" sobre a
sua respiração, sem procurar modificá-la.
Você não precisa mais ficar com a "a-tensão" no seu corpo, por enquanto, nem em nenhum movimento
muscular, então coloque ela sobre a sua respiração, deixe ela pairar sobre a sua respiração.
Não tente modificar a sua respiração, pois o simples fato de você colocar a sua "a-tensão" sobre a sua
respiração vai liberando a respiração das tensões que inconscientemente você colocou sobre o seu
diafragma, sobre os seus músculos respiratórios, certo?
Então não faça nada em especial, apenas focalize com a sua "a-tensão" na sua respiração que a tensão
que estiver ali dentro vai saindo.
Se você já está alguns instantes com a sua "a-tensão" focalizada sobre a sua respiração, volte ela de
novo pra dentro do seu corpo pra ela passear um bocadinho sobre o seu corpo.
Então deixe a sua "a-tensão" fazer turismo no seu corpo, que ela vá pra sua cabeça, pros músculos do
couro cabeludo, pra fronte, pra testa, pros olhos, pra boca, pro queixo, pra nuca, pros ombros, não
obrigatoriamente nessa ordem, talvez pro pé esquerdo ou direito, talvez pro ventre, pro quadril...
Deixe a sua "a-tensão" passear.
Não tente fazer nada de especial ou obter nada de especial, apenas fique varrendo com a sua "a-tensão"
as diversas partes do seu corpo.
Lembre-se que a partir de agora é a gravidade que está puxando os seus músculos, que está fazendo o
movimento no seu lugar.
Logo, você só tem que passear com a sua "a-tensão", ou seja, com a sua consciência, nas diversas
partes do corpo.
Então, passeie através do seu corpo sem procurar mudar nada, faça turismo, não se preocupe com nada
do seu corpo, é a gravidade que está cuidando dele agora.
Continue deixando sua "a-tensão" flutuar, passeie.
Procure a partir de agora ficar acordado, porque vai ficando cada vez mais difícil, você vai ter uma
tendência a dormir nessa posição.
Então eu vou lhe aporrinhar um pouquinho, eu ficar falando pra encher o seu saco um bocadinho, pra
tirar você do sono, porque a tendência de dormir desde que você relaxa é muito grande. Mas não tem
interesse nenhum em dormir.
Procure não dormir, deixe a sua "a-tensão" flutuar dentro do seu corpo.
Passeie, passeie dentro do seu corpo todo, sobretudo procure a partir de agora não dormir, senão você
perde a parte mais gostosa do exercício que é ficar relaxado e acordado, privilégio que a gente já perdeu
há muito tempo, né?
Porque desde que você relaxa você cai no sono, então você perde muito contato com a sua consciência
porque ou ela está ocupada com problema, ou ela está ocupada com a tensão do seu corpo, ou ,então,
ela está dormindo.
Você tem muito pouco tempo pra ficar simplesmente e unicamente atento, estado esse que no oriente se
chama de meditação.
E meditação não é outra coisa que ficar bestamente bobeando com a cabeça sem se preocupar com
problema.
Então fique aí com a sua "a-tensão" flutuando, passeando dentro do seu corpo, vá para uma perna, vá
para um braço...
82
Enquanto você não está muito acostumado eu vou lhe pentelhando com a minha voz chata, como diria
Raul Seixas.
Se você já está há algum momento com a sua "a-tensão" dentro do seu corpo volte ela agora um pouco
pra respiração de novo.
De novo não tente modificar nada, apenas esse movimento de vai e vem que eu estou sugerindo pra
você é pra você se acostumar a ter mais consciência da sua "a-tensão", ou mais "a-tensão" da sua
consciência, ou mais consciência da sua consciência, ou mais "a-tensão" da sua "a-tensão", enfim, tudo
isso é a mesma coisa, né?
É pra você direcionar o seu pensamento.
Mas tudo isso são palavras insuficientes.
Fique flutuando.
Vá agora pra sua respiração.
Fique um pouquinho nela, não modifique nada.
Vamos agora da respiração fazer um passeio mais nos órgãos internos, né?
Dê um passeio no seu ventre, nas suas vísceras, veja se você sente alguma coisa por lá, um bloqueio
intestinal ou algo assim, e se sentir, não tente modificar nada, só constate, depois dê um passeio no seu
ritmo cardíaco, veja se você descobre um ou outro ponto de pulsação arterial no seu corpo mas, de
novo, não tente modificar nada.
Lembre-se que a gravidade durante todo esse tempo está em movimento e puxando seus músculos para
baixo, logo você continua em estado de movimento, só que você não percebe, porque o tempo todo a
gravidade está cada vez mais puxando seus músculos pra dentro dela.
Continue resistindo à tentação de dormir, e o meio mais simples de você resistir à essa tentação é deixar
sua consciência vagabundear.
Saia dessa noção, um pouco limitada, que relaxamento é você ficar imóvel e num estado de sonolência,
com a voz bem calma que vai tentar lhe acalmar.
Não é isso.
Relaxamento é você não se deixar tensionar pelo que está acontecendo, é você sair de um estado de
stress.
Então o que a gente está tentando é que você recupere a consciência da sua consciência flutuante pra
você trazer ela pro dia-a-dia.
É um pouco como se você fosse saindo do contato mais forte com o seu corpo.
Continue fazendo turismo dentro de você com a sua "a-tensão" flutuante.
Note que ela agora lhe pertence mais, é como se você agora fosse mais consciência do que matéria, já
que a sua matéria você pode dar cada vez mais à gravidade, porque você está largando seu corpo
dentro da gravidade.
Vamos trabalhar de novo aquela palavra que é confiança.
A coisa mais difícil que um ser humano pode fazer é ter confiança em alguma coisa.
Lembre-se, se você for honesto, que você não confia nem em você, nem em Deus, nem no seu próximo,
em nada.
Você só faz de conta, você só evita admitir que você é um "homem de pouca fé".
Logo, não vai ser agora que você vai começar a confiar numa gravidade.
Então, se dê tempo, tenha paciência, seja humilde, não trapaceie e vá, pouco a pouco, meditando sobre
essa possibilidade de dar o seu corpo para a gravidade.
Até porque, se você pensar direitinho, você vai ver que você não tem escolha mesmo, né?
Não é ela que está lhe segurando?
Mas mesmo assim você desconfia dela.
Vá aprendendo, então, a confiar mais e mais nessa gravidade, porque você não tem opção.
Quando você não confia na gravidade, o que é que acontece?
Você retém seu movimento, você cria tensão, e não é a partir da sua cabeça que você vai desbloquear
nada.
E se você desbloquear porque alguém sugeriu com palavras doces, ou porque fez uma massagem,
acupuntura ou shiatsu, tudo bem, funciona, mas volta tudo de novo, porque o furo está na sua cabeça
que quer controlar tudo e que não quer confiar.
Então já que você não confia em Deus, em você, nem em nada, tente confiar na gravidade porque pelo
menos com o pé no chão você está o tempo todo, não é?
83
Vá meditando sobre isso.
O exercício é uma espécie de reflexão meio preguiçosa, meio flutuante, não é?
Então preste "a-tensão" ao que eu estou lhe dizendo, distraidamente, não se deixe impressionar muito
por mim, continue seu exercício, eu estou aqui mais pra lhe pentelhar a cabeça e pra não deixar você
dormir, do que pra lhe relaxar.
Quem vai lhe relaxar mesmo é a sua consciência flutuante, no momento em que você entregar seu corpo
para a gravidade, que você confiar mais nela, que é o que você está aprendendo a fazer agora.
Então quanto mais você fizer isso, quanto mais você meditar sobre isso, mais você vira espaço de
consciência e menos você vira espaço físico.
Agora mesmo, por exemplo, é como se você não tivesse corpo porque você pode dar tudo o que
concerne ao seu corpo à gravidade e ficar apenas flutuando com a sua consciência, pairando em cima
desse corpo.
Vou repetir uma idéia pra você ir se acostumando cada vez mais com ela: se lembre que a sua
consciência está mais pra bóia flutuante do que pra âncora.
Quem está ancorado na terra é o seu corpo não a sua consciência.
Sua consciência, o estado essencial dela, é flotante, meio feito merda n'água.
Ela vai pra lá e pra cá.
Então, deixe ela vagabundear.
Não tente dirigi-la, por enquanto.
Deixe ela ir prum lado e pro outro, apenas acompanhe ela.
Como é que você sabe se você está acompanhando a sua consciência?
É quando você não está dormindo.
Então procure dissociar a noção de relaxamento da noção de sugestão, e mesmo de sono.
Procure ficar acordado, atento, e sem tensão, porque a palavra a-tento significa sem tensão.
Experimente cada vez mais essa idéia de viver com o mínimo de corpo e com o máximo de consciência.
Agora, nesse momento, você pode.
Mas inúmeras são as vezes na sua vida que você pode fazer isso e não faz.
Às vezes você está dirigindo, mesmo quando você está trabalhando, se você é terapeuta você pode ficar
bem relaxado, ou escutando alguma coisa, ou vendo televisão, tem inúmeras ocasiões que você pode
estar muito mais relaxado do que você está, simplesmente se deixando respirar.
Mas como você tem uma tensão residual interna enorme, você está sempre tenso.
Então isso aqui é pra você pegar o hábito de habitar esse espaço de consciência flutuante, que você
está nele agora.
Isso aí vai ser como uma casa pra você.
Você vai habitando cada vez mais esse espaço, até que você transponha ele, por hábito, simplesmente
por hábito, sem fazer nada, ao dia-a-dia.
Isso vai lhe acompanhando inconscientemente cada vez mais nos ditos momentos de stress.
Aí isso vai reduzir o stress, aumentar a sua "a-tensão", diminuir a sua tensão muscular, etc., etc., etc.
Você vai se aporrinhar um pouco menos quando algo não funcionar como você quer.
Então, para essa parte que você está deitado, já viu né? Você vai jogando a sua confiança na gravidade,
a gravidade vai puxando os seus músculos para baixo, você vai ficando cada vez mais
desresponsabilizado em fazer algo pelo seu corpo, você vai vendo que é besteira ficar segurando seu
corpo, um músculo ou outro, você vai aprendendo a largar tudo isso, sua consciência vai ficando uma
consciência flutuante, você vai impedindo ela de dormir deixando a sua consciência vagabundear em
muitas coisas, sem se apegar a nada, e pouco a pouco você vai estar nesse estado de consciência
flutuante, ou de "a-tensão".
Repetindo pra você que a palavra atenção significa sem tensão.
Sem tensão de forma nenhuma, porque a intenção é uma tensão que você está jogando pra dentro, não
é?
Então largue a intenção também.
Fique só flutuando.
Não se preocupe com essa minha comparação grosseira de cocô n'água, porque tem muita vantagem,
às vezes, de ser como bosta n'água.
Espero que minha chatice tenha lhe ajudado a não pegar no sono.
Se for o caso, é um sucesso.
84
Mas não se preocupe também em não dormir, senão você já acumula tensão de novo!
Se você adormecer, pelo menos você relaxou bastante, a gente lhe acorda daqui a pouco.

Vamos agora voltar mais longamente à nossa respiração.


Pouse simplesmente sua "a-tensão" sobre ela, deixe-se respirar, deixe-se inspirar.

Então vamos voltando, pouco a pouco, pra dentro do seu corpo, certo?
Você vai começar a reincorporar seu corpo com movimentos mínimos nas extremidades dos dedos dos
pés e das mãos.
Pouco a pouco.
Sem pressa nenhuma.
Volte para aquela noção de que você tem todo o tempo do mundo.
Então vá voltando, pouco a pouco, pra dentro do seu corpo.
Quando chegar nos pés e nas mãos você vai ampliando, passando pras pernas, pros braços, sem
pressa nenhuma, até você chegar no tronco, no pescoço e na cabeça.
Quando você completar todo esse ciclo, de novo sem pressa nenhuma, você vai procurando se sentar e
é aconselhável que você só abra seus olhos no final de tudo, quando você estiver sentado, que é o sinal
que o exercício pra você acabou.
Mas, vá devagar.
Tome todo o tempo do mundo pra chegar aí.

A VOCAÇÃO SÓCIOCULTURAL DO RC

85
O Relaxamento Cinético, por ser uma técnica inspirada no comportamento natural dos homens e dos
animais, possui em primeiro lugar uma vocação individual.
Você pode, então, perfeitamente, caro leitor, beneficiar-se desta técnica sem nunca encontrar outro
praticante.

No entanto, o RC possui igualmente uma vocação social.

Em primeiro lugar porque ele é, como vimos, um modesto, porém potente instrumento à paz interior, se
levarmos em conta a facilidade com que ele pode ser praticado, se inscrevendo, assim, entre as
inúmeras e, igualmente, valiosíssimas técnicas que ativam as gotinhas de água que somos nesse
imenso oceano humano ansiando pela paz mundial.

A grande facilidade de transmissão do RC faz também dele um instrumento à vocação social.


O fato de sua prática melhorar sensivelmente quando aprendemos a transmití-la é outro potente
argumento nesse sentido.

Ensinar RC é o melhor meio de aprendê-lo, caro leitor, pelo fato que o RC, para ser tecnicamente
treinado, necessita de um "puxador", como vimos, mesmo que se trate de uma simples gravação de um
roteiro feito por você mesmo.

Como não há absolutamente nenhuma contra-indicação à prática do RC, pois ele apenas segue sua
intenção pessoal, privilegiando e incentivando seus movimentos os mais lentos e os mais suaves para
consigo mesmo, você já pode ensiná-lo antes mesmo de aprendê-lo!

Para isso, basta que você fabrique um texto de "puxador", que você reúna alguns amigos ou parentes e
que você simplesmente leia o seu texto !

Sem se levar a sério e com uma pequena dose de bom humor e descontração, você já criará um "clima"
de relaxamento, simplesmente graças à sua iniciativa.

Creio que você me entendeu, caro leitor, o relaxamento começa na vontade de compartilhá-lo.

Verá, no entanto, como esse seu pequeno círculo poderá progredir rapidamente e como aparecerão
novas possibilidades de melhor descrever e explorar as várias fases do RC.

O fato de você treinar o seu "puxador" de RC o fará progredir grandemente na sua prática, pois à medida
em que você o "ensina", você vai integrando em você mesmo novos elementos que o permitirão de
realizá-lo mais eficazmente.

Como, para ser "puxador" do RC, basta ler um texto-roteiro, você e seus companheiros poderão alternar-
se nesta posição.
Verá como é ilustrativo e divertido ser "puxado" por personalidades diferentes.
O aspecto "lúdico" dessa iniciativa é evidentemente outro potente fator de contribuição à descontração
individual e coletiva.

No "adendo" que segue eu tentarei inclusive sensibilizá-lo para a importância capital do bom humor ao
relaxamento.

Outro aspecto importante da relação humana que o RC em grupo nos proporciona, é a experiência de
"harmonia", de "unidade", entre os diferentes componentes de um "corpo" social.
Toda equipe esportiva, toda equipe governamental, toda sociedade que trabalha e produz
coletivamente, aspira à uma harmonia cada vez mais perfeita entre seus diferentes componentes.

86
Hoje em dia, a inteligência que nos resta a descobrir e a conquistar é a inteligência coletiva.

Nossos homens de ciência sabem atualmente que nada de válido poderá ser mais descoberto hoje se
não houver um trabalho em equipe.

Pierre e Marie Curie já eram uma equipe, um só "cérebro", recompensado com o prêmio Nobel.
E, já na época, o trabalho em equipe, o trabalhado fornecido pelos colaboradores e alunos desse "casal-
uno", em termos de ciência, já era essencial.

Todo detentor de um "Nobel" mais recente, o recebe em nome da sua equipe, de tanto que o trabalho
individual hoje em dia é nada em ciência, quando não depositado no seio de uma equipe em plena
cooperação.

Na natureza a inteligência coletiva é um fato.

Abelhas e formigas são consideradas como sendo um único corpo, de tanto que funcionam em estreita
cooperação.
Os peixinhos do mar funcionam também como um só "corpo social", onde centenas de indivíduos
realizam o mesmo movimento, instantaneamente, como um só organismo, a fim de desorientar os
predadores.

Sua experiência de "puxador" do RC lhe aproximará dessa sensação de "corpo social", caro leitor.

No começo, como todo debutante que compensa a falta de segurança pelo autoritarismo, você estará
ocupado demais em recitar seu texto, ou em se fazer "obedecer", para perceber que os praticantes de
RC em grupo formam um só corpo!

Talvez você esteja com tanta insegurança ainda, que sua atenção esteja tensa e bloqueada com a idéia
de "missão", ou "dever" de fazer "bem feito".

Mas com o tempo você notará que você não precisa dirigir o RC, pelo contrário:
Você necessita deixar-se dirigir por ele!

Os praticantes, através dos seus ritmos próprios e distintos, é que lhe "darão as ordens", afinando a sua
"batuta" de "maestro" do RC, não em função do que você quer, mas em função do que o grupo pede:

Neste estádio da sua prática, o "corpo social", que é mais que a soma dos indivíduos presentes, que
interage em harmonia, será para você uma realidade experienciável.

Através desta vivência, você constatará como, aos poucos, seu timbre de voz, o ritmo da sua fala, o que
você diz, ou deixa de dizer, será "ditado" não mais por uma folha de papel, nem pela sua cabeça, mas
pelo "denominador comum" do que você sente, do que você observa, que nada mais é do que sua
comunicação direta não com um ou outro participante em si, mas com todos ao mesmo tempo, pois cada
um retirará do que você diz a versão justa que corresponde ao seu exato momento.

Quando você menos esperar, você se verá no centro de um só corpo, formado por todos os
participantes, que não estão ali para receber suas instruções, mas para que você retransmita a cada um
deles a "resultante" do que esta acontecendo.

Com o tempo, você entenderá na prática o que a teoria do caos chama de "variável oculta" referindo-se
ao centro de convergência, à "ordem implícita" de um movimento aparentemente aleatório ou "caótico".

Você será essa "variável oculta", caro leitor.

Mas…
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Só quando a prática do RC lhe ensinar, a você e aos seus companheiros que farão a mesma experiência
de "puxador do RC", que o segredo de todo líder é saber obedecer aos imperativos indicados pelos seus
liderados em conjunto, e não submetê-los aos seus delírios narcisistas e despóticos.

Os "puxadores" pioneiros do RC gostariam de auxiliá-lo nessa aventura de "puxar" um RC!

Atualmente existem os "puxadores" históricos do RC, os que fundaram e melhoraram o método e este
livro marca sua primeira apresentação ao grande público.

Este livro é fruto do desejo destes pioneiros de compartilhar o RC com todos que desejam beneficiar-se
dele.
Eles colocam aqui sua experiência em RC à sua disposição, caro leitor, através de um "site" na internet,
indicado no fim desta página, onde você poderá encontrar respostas a todas as suas questões sobre o
RC e todo subsídio e incentivo necessário à criação do seu próprio grupo, sem nenhum ônus da sua
parte.

Para que você possa conhecer melhor estes "puxadores" veteranos, segue uma ligeira apresentação
pessoal deles e também uma série de perguntas selecionadas sobre as principais dúvidas que sempre
surgem na prática do RC.

O que você está esperando ainda, caro leitor, para criar o seu próprio grupo de RC ??

SITE: http://www.culturaphenix.com/projetopazcriacao.htm

ADENDO

O BOM HUMOR É O "SAMADHI" DA DESCONTRAÇÃO !!!!!

OU
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DO "LABORATÓRIO DE TRABALHO" PROPICIADO PELOS SEMINÁRIOS: "O CORPO E O TODO",
RESPONSÁVEIS PELA ELABORAÇÃO DO RC, À ELABORAÇAO DO "PROJETO CULTURAL
PHENIX"

Como não podia deixar de ser, caro leitor:

GUARDEI O MELHOR "PRO" FIM!!

Só de poder agora, FINALMENTE!, falar dele para você, meus dedos não resistem a explodir este
teclado de computador com LETRAS MAIÚSCULAS EM EXCLAMAÇÃO!!!

Pois, aqui entre nós, caro leitor, não sei o que você achou desse livro.
Eu pessoalmente gostei muito de fazê-lo e não pense que isso é tão evidente assim!
Tenho certeza que alguns livros, ou pelo menos muitas passagens deles são "um saco" de escrever!

Mas mesmo sinceramente achando ótimo fazê-lo, há algo nele, como na maioria dos livros, que não
podem fugir à regra de um rigor técnico mínimo que eu não gosto, é a seriedade.

Mas, não há como abordar a técnica sem um mínimo de rigor.

Este tema, do "rigor técnico" tem muito a ver com o tema do estresse e das…. "técnicas" de
relaxamento, pois, é difícil falar de técnica sem cair na armadilha da "seriedade", não acha, caro leitor?

Aprendi com 11 anos, sem saber ainda na época, que se pode aprender uma técnica principalmente
graças ao bom humor.

Uma das minhas primeiras paixões no estudo foi o inglês como matéria.
Não porque eu seja aficcionado particularmente por essa língua.
Mas sim porque um irmão da confraria marista do Recife, o irmão Luciano, no primeiro dia do curso, tirou
a turma toda, um "primeiro ginasial" da época, da sala de aula e levou-a lá pro dormitório dos alunos
internos onde nós, os "externos", não tínhamos absolutamente o direito de penetrar.

Só aquilo deixou nossa turma em polvorosa!

Todos os alunos das outras classes quietinhos na sala de aula e aquela "cambada" de alunos, nós, no
corredor daquele rigoroso estabelecimento, seguindo um "irmão", que mantinha um ar "sisudo", mas que
dava pra notar, que, como de costume, ele estava "aprontando" algo…
Nas classes, todos os alunos nos olhavam, invejosos e curiosos, enquanto nós lhes fazíamos caretas e
murmurávamos chacotas!
Chegando no dormitório dos internos, os cerca de vinte e cinco alunos que éramos, em torno dos onze
anos, nos dispersamos, curiosíssimos, enquanto o "irmão" punha em marcha uma antiquíssima eletrola
com um velho e quase inaudível disco…
Em inglês…
Com uma "cara séria" que não enganava nenhum de nós, ordenou:
"Peguem a caneta e o papel que trouxeram e anotem todas as palavras que identificarem!"
"Podem formar grupos de trabalhos e se comunicarem à vontade!"

Aquilo era uma grande piada:

Nenhum de nós sabia "bulhufas" de inglês!!


Mas:
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Que alegria!
Que euforia!
Não se via um de nós parado ou distraído!
Aquele dormitório já não existia mais!
Ficava todo mundo em torno daquela velha radiola, acabando de fissurar o arranhadíssimo disco!
"Bota pra frente"!
"Volta pra traz"!
"O disco diz isso"!
"Não! Essa palavra não é isso, é aquilo!"
Confusão total.

Todo mundo mexia na radiola e anotava umas coisas completamente loucas e descoordenadas, SEM
SABER SEQUER O QUE ESCREVIA!
Ninguém entendeu nada sobre nada do disco.

Em termos de rendimento em si, esta aula foi certamente uma das piores do mundo!

Havia, mesmo assim, duas palavras que todo mundo unanimemente anotou e estava seguro de ter
"acertado".
Estas palavras "inglesas" eram… :
"Macaco" e … "banana"…

Anos depois soube que aquele conhecidíssimo "tubo" americano da época, dizia algo assim:
"I'm no macaco but I like of banana, day light comes and we wann'go home".

Este exercício completamente nulo, em termos técnicos, agiu como uma bomba relógio sobre nossa
classe.

O interesse pelo inglês depois dessa aula inaugural do "irmão" Luciano era visível nas aulas seguintes,
se bem que dadas na nossa sala de aula comum e habitual.
Seu curso suscitava um interesse bem maior do que o das outras matérias, simplesmente pelo carisma
desse irmão, que se fazia passar por sério e rigoroso, não deixando, de fato, de sê-lo, mas que veiculava
um bom humor tão contagiante que nos levava à descontração e à vontade de dar o melhor de nós
mesmos durante seus cursos.

Este irmão foi o meu primeiro herói de infância em carne e osso, depois de meu pai.

Bem mais tarde, quando estava no auge do meu interesse pelo zen, entendi também que ele havia sido
o meu primeiro e mais competente MESTRE, na acepção plena do termo.
Com ele entendi que a seriedade seca, fria, morta, não rima com competência, mas, muito pelo contrário,
compreendi, cerca de vinte anos depois do ensinamento, que este modo de encarar qualquer
aprendizado é mesmo seu pior inimigo.

A técnica foi feita para a vida.


Mas, há gente que pensa que é a vida que foi feita para a técnica.

E só há isso a entender na vida, caro leitor, que "levá-la a sério", significa exatamente NÃO levá-la a
sério.

Daí ninguém entender o zen, que nada mais é do que uma grande piada, pois a vida nada mais é do que
uma grande piada.

Você já foi nestas "casa de espelhos" que existem em festas populares, caro leitor?
Se nunca foi:
DE UM JEITO DE IR!
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Você vai se divertir um bocado diante daqueles espelhos ondulados e deformados, ora se vendo mais
gordo, ora mais magro, às vezes gigante, outras anão!
Dificilmente você conseguirá sair de lá sem RIR DE SI MESMO, mesmo que tenha entrado com o mental
mais "constipado" do mundo.
Essa casa de espelho aí, caro leitor, nada mais é do que a metáfora, o… "espelho" da sua própria vida.

Pois:
O que vive você no dia-a-dia, o que você recebe dos demais, senão as constantes imagens de você
mesmo deformadas, e literalmente, pela visão de quem faz parte do seu dia?

E o que faz você no dia-a-dia, senão enviar a deformação da sua percepção e ainda querendo fazê-la
passar,"desonestamente", pela "realidade" do outro?

Seria exagero comparar o dia-a-dia que acima descrevo com a "casa de espelhos" das festas populares?

Seria exagero afirmar que o zen nada mais é do que isso e só isso, ou seja:
Reconhecer o ridículo que são as suas "certezas" sobre "quem" você é, ou "o que" o outro é, nesse
nosso mundo onde cada um de nós "só sabe que nada sabe", como afirmou Sócrates há 2.500 anos
atrás?

Será que houve um só humano que desmentiu até hoje Sócrates, demonstrando unanimemente à
humanidade que ele "sabia que sabia" ?

Temos nós outra coisa como recurso para orientar-nos no sentido da nossa existência que seja outra
coisa que simples opiniões pessoais, ou seja, nossa fé?

Nem que seja nossa fé no ceticismo?

Existe alguém na história inteira da humanidade que mereça mais o título de MESTRE ZEN do que
Sócrates?

Será que o próprio Bodidharma, criador dessa maneira de abordar o budismo, era tão "zen" quanto esse
filósofo grego?

Onde encontramos textos de debates tão sérios e recheados de um tão intenso bom humor, como nas
descrições de Platão sobre as explanações de Sócrates?

Quem, dos eruditos desse calibre, era mais gozador do que ele?

Imaginem o mais famoso dos filósofos de Atenas, que… para começar… praticamente só lecionava no
meio de uma feira… interrompendo uma importantíssima preleção para interpelar um passante
apressado, com essas palavras:
Ei você aí que vai tão apressado porque "sabe onde vai", "onde" é que você vai mesmo com essa
pressa?

Nem ouso imaginar onde o transeunte mandou nosso pobre filosofo "tomar"…

O bom humor é isso, caro leitor, não só a maior das descontrações, como a mais sólida base da lucidez.

Talvez você não tenha achado graça nenhuma nessa minha incursão livre sobre o bom humor, ou talvez
eu o tenha chocado.
Peço desculpas, mas não foi sequer a minha intenção "descontraí-lo" ou fazê-lo rir, pois o humor de cada
um de nós é distinto e mesmo único.

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Se insisto tanto sobre o bom humor é porque certamente há coisas na vida que o divertem.

E como trata-se aqui de um livro sobre relaxamento concebido com bastante seriedade e rigor, seria de
uma grande desonestidade da minha parte, e de uma grande falta de respeito para com os leitores que
se deram o trabalho de seguir-me até aqui, se eu não citasse a fonte de relaxamento QUE DISPENSA
POR COMPLETO E ABSOLUTO TODAS AS OUTRAS:

O HUMOR.

Sinto, talvez, decepcioná-lo, caro leitor, mas se você for um praticante sério e compenetrado do RC, ou
de outra técnica, como yoga ou mesmo a meditação zen, o zazen, mas não tiver um mínimo de humor,
não achar graça nenhuma em gargalhar, você será muito mais tenso e estará muito mais longe de você
mesmo do que alguém que não se leva tão a sério quanto você.

Mesmo que ele só "pratique" o bom humor!

Logo, antes de praticar qualquer relaxamento:


Aprenda a rir!
Se já o sabe:
Pratique-o mais freqüentemente!

Pois o bom humor não somente é o meio mais completo para relaxar, como é a técnica de meditação
mais eficaz.
Pois quem ri, NÃO PODE não estar, durante o riso, em perfeito "Samadhi", ou seja, já dentro do que se
precisa obter antes, através da meditação, ou "Dhyana" e da resolução, ou "Dharana".

"Quem canta seus males espanta".


Diz um sábio ditado.
Mas, quem ri cura não somente o corpo, mas também a alma.

Mas há ainda mais:


Quem cultivar o sublime dom de rir de si, não confundindo riso com sarcasmo e cinismo, mas sim
associando-o ao prazer e ao alívio de não mais estar levando suas próprias manipulações mentais a
sério, viverá continuamente em "Samadhi".

Conhecer-se, é aprender rir de si:


É "re"-conhecer-se no "espelho deformante" que representa a percepção do nosso…
"semelhante"…

Afirmando o que acabo de escrever, caro leitor, acabo de ofertar-lhe o que de mais útil e precioso pude
recolher desde que este planeta me acolheu no meio de um dia de agosto de 1948.

Receba-o apenas como um dom de sinceridade e de boa vontade.


Permita-se discordar em absoluto de mim, se necessitar, e não se ofenda, eventualmente, com o que
aqui afirmo.
Afinal, para que eu reivindique o meu legítimo direito a essa minha versão da verdade, eu tenho primeiro
que ser a principal garantia do seu direito a ter a sua própria versão dela, como nos ensinou o grande
filosofo francês Voltaire.

Gostaria agora de concluir esse trabalho lhe contando como cheguei, através da minha pesquisa prática
sobre a prevenção, à comprovação do grande poder que possui o humor, não somente de levar cada um
de nós ao conhecimento de si, mas sobretudo à cura de si.

Volto ao ponto de narração do histórico do RC, lá onde havia ainda os seminários "O corpo e o todo".

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Lembro que nestes seminários ainda não "havia o verbo".
O trabalho era eminentemente corporal.

As palavras eram utilizadas unicamente para transmitir mensagens técnicas, como nas artes marciais, ou
em yoga.
No entanto, eu sentia cada vez mais que havia a necessidade de recorrer à palavra para aprofundar a
tomada de consciência das pessoas sobre a causa dos seus verdadeiros bloqueios e tensões.

Aos poucos, o uso da palavra, da expressão de si, para fins de prevenção, me parecia incontornável, se
eu quisesse acelerar o processo e torná-lo mais compreensível a um maior número de pessoas.
Até porque, apesar destes seminários estarem abertos aos praticantes de qualquer idade,
independentemente da sua saúde física, a não ser claro, em caso de uma enfermidade em fase aguda,
muitas pessoas não sentiam nenhuma atração pela atividade física, fosse ela mínima.

E, a bem da verdade, apesar dos meus esforços de simplificar os exercícios, "O corpo e o todo"
comportava, mesmo assim, digamos… "um pouco mais do que um mínimo" de esforço físico…

Só que, para recorrer ao verbo, eu necessitava de um quadro inequívoco, onde a expressão de si na


prevenção não fosse confundida com um trabalho psicoterapêutico envolvendo a palavra.

Claro que eu estava deontológica e profissionalmente habilitado a realizar grupos de terapia.


Só que isso me afastaria da minha meta, que era contribuir ao desenvolvimento da prevenção.

Mas… sendo eu oficialmente terapeuta, muitos cairiam na tentação de vir aos meus trabalhos não em
busca de prevenção, mas de terapia disfarçada.

Palavras, definições, conselhos, de nada adiantam nestes casos:


Como pode alguém saber se está em um local para fazer "terapia" ou para fazer "prevenção"?
E quem está preocupado em saber "o objetivo" de um seminário quando se busca alívio e se espera
encontrá-lo ali?
E quem de nós nunca busca alívio?
Que terapeuta poderia afirmar que nunca sofre, nunca entra em conflito ou nunca "transfere"?
Onde acaba a confidência em uma roda de amigos e onde começa uma ajuda recíproca com troca de
análises dignas dos melhores grupos de terapia?

Questões que restarão certamente sem respostas.

Parecia não haver nenhuma solução para o meu "drama" de querer enveredar pela prevenção,
perseguido pelo meu passado de médico e de psicoterapeuta.

Mas…
A idéia do "grupo de amigos" não era tão má assim…

Pois:
Qual é a diferença entre um grupo de amigos e um grupo de terapia?

O que vejo como fundamental é que em grupo de terapia todos tem o direito de serem levados a sério e
em grupo de amigos, todos tem o direito de não levar absolutamente nada a sério.

Na terapia, reina a seriedade acima de tudo.


Na amizade, reina a irreverência acima de tudo.

Partindo deste modelo, me apoiei na minha irreverência, cultivada desde o encontro com meu primeiro
"mestre" nela, e sobretudo, congenitamente herdada do grande "galhofeiro" que era o meu pai, adicionei

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a franqueza que herdei da minha mãe e acrescentei minha legendária impaciência como terceiro
ingrediente:

E lá fui eu com essa preparação "técnica" tentar conciliar a expressão de si com a prevenção.
Utilizava minha "metodologia" na seguinte ordem:

1. Franqueza.
2. Irreverência.
3. Impaciência (o herói preferido da minha criança interna e eterna é o "pato donald"…)

A franqueza me permitia de ser direto, ou "curto e grosso", como dizem de si nossos camponeses.
Ficava, então, fácil deixar claro, pelo menos oralmente, que aquilo não era terapia e sim prevenção.
A qual mais tarde passaria a chamar de "autoconhecimento", como explico mais abaixo.
Para os que se faziam de desentendidos, eu começava a levar tudo na gozação, ria da minha cara e da
deles, não havia espaço para uma relação terapêutica, pois desde que o clima começava a se aparentar
à terapia, eu interrompia o trabalho com galhofas, perturbava intencionalmente o fluxo do pensamento e
obrigava nós todos a nos recentrarmos na "inseriedade", neologismo bárbaro que acaba de me vir à
mente, do que estávamos fazendo.
A quem não conseguia rir de si e queria coisa séria, só havia uma opção:
"Cair fora".

Para os "chatos de galocha", os congenitamente constipados dos músculos da gargalhada, a estes eu


recorria à minha última e mais eficaz arma:
Eu "apelava pra ignorância", como se diz.

O Austro "surtou" de novo!


Esta é uma das gozações preferidas dos que participaram mais longamente aos meus trabalhos, quando
eu recorria à impaciência e à irritação para passar uma mensagem tipo "eletrochoque", a quem queria
fazer terapia na marra, ou seja, "transferir", a mim ou ao grupo, um papel que só tem sentido no âmbito
estrito da terapia, ao meu ver.

Pois sou da opinião de que uma psicoterapia é algo sério demais, e no autêntico e útil sentido desta
palavra, para ser assimilada com uma dinâmica de grupo qualquer, proposta por seja lá quem for, fora de
um quadro terapeuticamente delimitado e sem ambigüidades.
E ademais: praticado por pessoas devidamente credenciadas pelos profissionais da terapia.

Quando meu pseudo-acesso de "cólera" não bastava, digo "pseudo", pois embora eu parecesse irado,
na realidade estava apenas "psicodramatizando", se Moreno me perdoa lá da sua tumba, essa
expressão, sempre retomava um tom calmo e procurava fazer a pessoa entender sua necessidade de
buscar um autêntico trabalho de terapia.

Havia, então, um aconselhamento e um ultimatum até, a fim de que pessoas sem maturidade para fazer
prevenção e autoconhecimento só continuassem em trabalho nos seminários se acompanhadas
exteriormente por um terapeuta oficialmente reconhecido como tal e com a devida autorização expressa
dele.

Pois em seminários assim, como nas igrejas, entra "gato e cachorro", como se diz.

Apesar da interdição formal, por uma questão de princípio, deste tipo de autoconhecimento para pessoas
com antecedentes psiquiátricos, pelo óbvio motivo que a maioria delas não está sempre capacitada a
realmente avaliar a realidade e a fantasia de suas percepções, sempre pode haver "furos".

E não se trata de condenar às margens da sociedade pessoas com antecedentes psiquiátricos, pois
muitos deles possuem uma lucidez de fazer inveja aos simples "neuróticos" que todos nós somos.

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Mas minha experiência médica em psiquiatria me interditava de expor um grupo humano fragilizado
potencialmente em uma aventura onde ele é incapaz de avaliar suas próprias forças.

Afinal…
Mais vale…. "prevenir", do que remediar…

O fato é que nunca houve drama maior, desde 1983, e que o clima sempre racaiu sobre a brincadeira e a
descontração.
Esse estilo de se trabalhar não se levando absolutamente à sério, que no começo servia principalmente
de proteção ao espaço, impedindo que ele fosse invadido pelo conteúdo real das terapias, foi aos poucos
se revelando como uma autêntica arma na prevenção.

Sei que novamente falo do óbvio, caro leitor.

Claro que não "inventei a pólvora", ou seja, você já está cansado de saber e de constatar que o riso e o
bom humor fazem muito bem e previnem muitas doenças e contrariedades.

O que pretendo aqui é narrar-lhe como o riso de si tornou-se o maior recurso de conhecimento de si, o
que também não é nenhuma novidade em si, mas desconheço grupos recentes que tenham experiência
com essa "técnica" de autoconhecimento.

O grupo "phenix", ou “roda de autoconhecimento phenix” - "roda" no sentido de algo que está sempre em
movimento, bem mais que um "grupo" que teria tendência, com o tempo, de fechar-se sobre si mesmo,
uma “roda em movimento” que é bem mais uma espiral, ou seja, um conjunto de círculos concêntricos
que evoluem no espaço-tempo, onde há de haver entradas e saídas no movimento da “roda” para que
ela se mantenha viva - seqüência direta dos seminários "o corpo e o todo", conforme descreverei mais
adiante, é um "expert" no "autoconhecimento pelo riso de si mesmo".

Ele possui até um termo para isso:


GREA.

Este termo vem da gíria "gréia", oriunda da gíria inicial "grelha", de "grelhar", ou "fritar" alguém, ou seja,
brincar COM ele, rindo dele.

Esse COM acima é fundamental.

Pois uma coisa é rir DO outro e outra coisa é rir COM o outro, mesmo que seja dele mesmo.
A "grea" é o riso que lhe é proposto como "espelho" deliberadamente deformado, caricaturado, de você
mesmo.
A "grea" é a filha direta do riso na cultura humana, veiculada pelo "bobo da corte" e outros
"caricaturistas" .

A "grea" já era utilizada pelos próprios monges budistas há milênios:


A fim de evitar que os jovens monges simplesmente aprendam de cor o conteúdo dos livros sagrados,
em alguns monastérios, os monges propõem, durante uma pseudo-recreação, jogos onde um monge
deve confundir o outro no seu conhecimento e nas suas certezas, caricaturando suas palavras,
buscando falhas na sua compreensão, utilizando todo e qualquer meio para desestabilizá-lo.

A "irreverência", aqui traduzida por "grea", me parece ser, assim, o fundamento da prevenção, do
conhecimento de si, dos limites do nosso próprio saber e da revelação das nossas trapaças e mentiras.

Em terapia, o terapeuta ocupa o lugar do "curandeiro", do "sábio", do "rei".


Todos projeção do arquétipo do "pai", como diria Lacan.

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Não há como ser terapeuta privilegiando o arquétipo do "bobo da corte", sob pena do terapeuta não ser
levado a sério, no sentido literal da palavra.
Embora o proprio Lacan nao negligenciasse esse arquetipo nas suas preleções…

Nas “rodas de autoconhecimento phenix”, as pessoas mais avançadas que o praticam, privilegiando o
uso técnico da "grea", se centram intencionalmente sobre o arquétipo do "bobo da corte".

Desta forma, cada participante se sente livre de aceitar ou rejeitar a imagem que lhe é enviada pela
percepção deformada (grande pleonasmo…) dos demais, já que não é o "rei" ou o "xamã" que fala e lhe
ordena aceitação, mas o "bobo" que reivindica o "caricatural", ou seja, que reivindica o "só sei que nada
sei", se o leitor me permitir aqui de atribuir o paternalismo da "grea", na sua utilização pedagógica, a
Sócrates.

Pois guardarei sentimentalmente sempre essa "fantasia" de que a "grea" é minha herança genética
legada por nosso pai aos três irmãos que somos e que aprendi a convertê-la em técnica de ensino
graças ao meu primeiro mestre "zen-socrático", o irmão Luciano, da congregação marista de Recife dos
anos sessenta.

Mas, também encontrei bases que poderão ser consideradas bem mais "sérias" e "sólidas" ao problema
do uso da palavra e do autoconhecimento no âmbito estrito da prevenção.

Uma resposta bem mais técnica à questão de como recorrer ao verbo e não criar uma ambigüidade entre
terapia e prevenção surgiu em uma das minhas incursões nos passos de Freud, pioneiro e instigador,
sem nenhuma dúvida, de tudo que se realiza hoje em dia em termos de uso da palavra em psicoterapia.

A leitura das diversas obras de Freud, demonstra ao leitor o fascínio, assumido e reivindicado por esse
autor de gênio, pelas mitologias, principalmente a grega.
O fundamento mesmo da psicanálise, a "libido", inspira-se abertamente em mitos gregos, como Eros,
"Édipo-Rei", ou "Narciso".
O "complexo de Electra" é igualmente diretamente importado dessa rica mitologia.

Conceitos como o de "Eros e Tanatos" são "psicanalizados" e incluídos no acervo da psicanálise


praticamente sem nenhum retoque do original.

O próprio Freud não media esforços para convencer seus colaboradores da grande importância que
representava para um psicanalista o estudo sistemático destas obras.

Na realidade, creio que não haverá exagero da minha parte, se eu afirmar aqui que a psicanálise é a
herdeira moderna da divisa: "Conhece-te a ti mesmo", preconizada pelo oráculo de Delphos e farol
multimilenar tanto da cultura grega quanto de toda cultura ocidental.

Peço perdão de antemão pela minha ignorância, se esta reflexão já havia sido feita antes de mim aqui.
Aliás, como ela me parece evidente, não me surpreenderia que ela já houvesse sido salientada por
pesquisadores bem mais competentes que eu.

O único que importa aqui , é que tenhamos consciência de que é impossível determinar onde começa
psicanálise e onde termina o "conhece-te a ti mesmo" do oráculo de Delphos.

O povo grego praticava o "autoconhecimento" de maneira generalizada e sistemática.


Naquela época…
Não havia televisão…

Temo que se um cidadão de Atenas do tempo de Sócrates, por exemplo, pudesse emitir um julgamento
sobre nossa sociedade … "moderna"… ele consideraria o homem contemporâneo como um "bárbaro",
um "analfabeto", um "inculto".
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Naquele tempo, todo cidadão praticava naturalmente o "conhece-te a ti mesmo".
Haviam discussões públicas permanentes.
Pontos de vistas eram comparados, avaliados, testados.

Cá entre nós, sejamos francos, caro leitor:


Quem dentre nós se dá realmente o tempo de pensar hoje em dia?
Quem tem tempo de se dar ao luxo de se "cultivar"?
Quem medita metódica e sistematicamente sobre as questões fundamentais que concernem a existência
humana?

Vivemos tão sufocados pelo stress da vida moderna que ansiamos unicamente por distrair-nos!

E temos razão em proceder assim, pois já é um primeiro passo em direção à descarga do stress.
No entanto, se continuarmos fugindo da nossa realidade, se não nos interessarmos pela nossa situação
existencial, corremos o risco sério de tornarmo-nos uma espécie em vias de extinção, por
negligenciarmos o único fator que nos torna realmente humanos:
A CONSCIÊNCIA.

E sem consciência da nossa realidade enquanto um todo, nos afastaremos cada vez mais da
consciência da necessidade de compartilhar o que somos com os demais.
Este seria o prelúdio do fim da nossa espécie.

Como podemos observar caro leitor, a descrição que realizamos antes da auto-regulação dos sistemas
organizados, graças à linguagem cibernética e a obtenção do "Samadhi", que estudamos igualmente, e
que corresponde à ação harmoniosa entre o ser e o meio, são aqui mais úteis e atuais que nunca!

E a atualização desta tríade, constituída pelo "Dharana", ou "contextualização", "Dhyana", ou "decisão" e


"Samadhi", ou "ação" (harmoniosa), passa pelo "conhece-te a ti mesmo do oráculo de Delphos, ou seja:
Pelo AUTOCONHECIMENTO.

Não há como negar o inqualificável avanço que a psicanálise de Freud proporcionou à civilização
ocidental.

Não há sequer como medí-lo!


De tanto que as influências da psicanálise se mesclam em nossa civilização com a cosmovisão cristã e
os ideais da revolução francesa: "liberdade, igualdade e fraternidade".

Não há como negar que a psicanálise e a psicoterapia devem permanecer estritamente sob a
responsabilidade de profissionais oficialmente formados e oficialmente reconhecidos.

No entanto, caro leitor, reduzir o autoconhecimento, a herança da cultura grega e do "conhece-te a ti


mesmo" do oráculo de Delphos, à terapia, seria um gravíssimo erro da nossa civilização!

O autoconhecimento é indissociável da experiência de vida.

Um "modesto" varredor de rua, ou mesma uma "prostituta", acumulam uma experiência pessoal,
segundo o que viveram, de um valor inestimável a cada um de nós:

AUTOCONHECIMENTO É CULTURA!

Cada vez que um cidadão, seja ele um criminoso, consegue reunir a memória da sua experiência e
colocá-la em uma linguagem "arquetípica", ou seja, capaz de "espelhar" um sentimento comum à
humanidade, sua obra é imediatamente assimilada e retransmitida pelo seu meio sociocultural:

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CULTURA É ESPELHAMENTO!

Ou seja, cultura é autoconhecimento:


Todo relato oral que nos foi legado pelos nossos antepassados, todas as obras de arte, toda literatura,
toda criação assimilada por um povo ou por uma região, "espelha" cada um de nós, ou seja, contém um
arquétipo que descreve um comportamento, ou um sentimento, comum a vários humanos e, mesmo, à
humanidade inteira.

Nenhuma obra nasce de outra fonte que da experiência do seu criador.

Por isso mesmo, caro leitor, o autoconhecimento é o mais valioso patrimônio da humanidade, o berço de
toda cultura.

Reduzí-lo à dimensão terapêutica seria simplesmente asfixiar toda criação humana.

Desta série de reflexões acima foi que me veio a idéia de associar a prevenção à cultura, ou seja, de
promover o autoconhecimento a partir da divisa do oráculo de Delphos.

Atualmente o autoconhecimento ocupa um "No man's land", um terreno inclassificável, em permanente


colisão com o domínio estrito da psicoterapia e uma multiplicidade de técnicas, mais ou menos inseridas
entre a "mística", a filosofia e o movimento chamado de "new age".

Associando-o à prevenção, talvez eu lhe aporte mais confusão do que clareza!

No entanto, estou convicto de que a melhor maneira de trabalhar pela prevenção é diluí-la em todos os
processos naturais que podem comprovadamente contribuir à nossa saúde física e/ou mental.

A cultura é inegavelmente um deles.

O autoconhecimento, que ela porta em si, que é a sua real fonte, impulsionado pelo "conhece-te a ti
mesmo", é a prova incontestável de que todo processo de autoconhecimento TEM QUE se reconhecer
nela, ou corre o risco de desnaturação, de assimilação ao que ele NAO É, ou seja, um processo
"místico", "político" ou "terapêutico".
A não ser que consideremos aqui, legitimamente, que todo movimento humano, pouco importa sua
ideologia, pouco importa o que ele preconiza, ou o que ele produz, faz parte da cultura humana.

Como poderia ser de outra forma?


Como algo produzido pelo homem seria alheio à cultura da nossa espécie?

O primeiro passo que me ocorreu para reinscrever o autoconhecimento no âmbito da cultura, seu quadro
natural, foi fazer apelo à mitologia, escolhendo um termo oriundo dela e que significasse sem
ambigüidade como o autoconhecimento é a real fonte da cultura e vice-versa.
A escolha não tardou a ser feita:

O MITO DO PHENIX.

Este pássaro único da sua espécie, que se consume no seu próprio fogo e renasce das suas cinzas,
simboliza há milênios o "eu" do homem, mesmo antes que esse termo fosse conhecido!

Efetivamente, o homem é a única espécie que parece ter consciência de viver várias vidas em uma só.

Quantas vezes, caro leitor, mesmo que você seja ainda bastante jovem, você já foi submerso por uma
intensa tristeza, causada por uma imensa decepção que destruiu todos os seus sonhos?
Quantas vezes o "fogo" das suas esperanças, dos seus ideais, acabou consumindo-o inteiramente,
forçando-o a renascer das suas próprias "cinzas"?
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Phenix me pareceu ser o nome ideal para um movimento de autoconhecimento que indicaria claramente,
por um lado, a filiação inegável do autoconhecimento à mitologia, logo, à cultura e, por outro lado, a
necessidade da prática do "conhece-te a ti mesmo".

Só restava designar claramente o princípio ativo do "phenix", pois era assim que passaria a se chamar,
então, o antigo trabalho de prevenção intitulado "o corpo e o todo".

O "espelhamento" parecia ser a técnica mais "arquetípica", a mais utilizada pela humanidade para levar-
nos ao autoconhecimento.

O que chamamos aqui de "espelhamento" concerne ao trabalho de aprender a reconhecer em si o que


mais criticamos nos outros.

Um "espelho", em termos de autoconhecimento, é o equivalente do que Jung chamou de


"arquétipo" em psicologia, ou seja, uma característica que concerne cada um de nós.

Sendo o arquétipo um "espelho" de uma característica humana que concerne cada um de nós, ele
demonstra não somente nossa óbvia filiação à raça humana, como também o fato que a humanidade é
indivisível.

Por estarem todas as suas características de fundo plenamente presentes em cada um de nós, todas
únicas na forma singular que cada um de nós representa, mas todas "espelhando" o mesmo fundo, a
humanidade constitui um autêntico "holos".

A utilidade da palavra "espelho" em relação ao termo "arquétipo", no que concerne o autoconhecimento,


é que "espelho" indica claramente que só poderemos "re-conhecer" um arquétipo, PORQUE já o
conhecemos em nós mesmos.
Embora nos neguemos a "re-conhecer-nos", no que reconhecemos nos outros….
E que não nos agrada…

Mas de onde viria nossa capacidade a reconhecer a hipocrisia ou a mentira, senão da nossa própria
capacidade de mentir e de dissimular?
Como poderia um sentimento qualquer "bater" no nosso sentimento, "ecoar" em nós, se o
desconhecêssemos em nossa própria natureza?
Como seria possível "re"-conhecer o que desconhecemos?

O grande "segredo" do famoso e multimilenar "conhece-te a ti mesmo" é novamente…


O óbvio…

Pois, o que pode revelar o que mais desconhecemos em nós mesmos, senão nossa crítica revoltada do
comportamento do nosso… "semelhante"...?
Porque nos damos o direito de julgar os atos alheios, senão porque eles revelam o que reprimimos?

Confúcio já indicava nos indicava essa "pista" há 2.500 anos atrás:


"Se vires um homem bom, procura imitá-lo.
Se vires um homem mau …
Examina teu coração"…

Jesus apontava na mesma direção:


"É mais fácil ver um cisco no olho do vizinho do que uma trave no próprio olho".

Na realidade, tanto Confúcio como Jesus nos alertavam para nossa dificuldade de reconhecermos em
nós mesmos o "arquétipo da sombra", em linguagem junguiana, pois raramente ousamos reconhecer e
"trabalhar" nosso lado "anti-herói", conforme vimos na explanação sobre arquétipos.
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Jesus e Confúcio, para não citar outros, nos indicavam que o que pensamos do nosso próximo é o
"espelho" ou o "eco", do que pensamos de nós mesmos.

Mesmo a bíblia já nos prevenia desta relação direta entre o que cremos que só concerne os
demais, mas que na realidade também nos concerne a nós mesmos.

Frases como :
"Não julgueis para não seres julgados"…
Ou:
"Quem com ferro fere, com ferro será ferido"…
Indicam sem ambigüidade nossa impossibilidade de enviar algo a alguém e não recebermos de volta o
idêntico, o "espelho" do enviado.

Jesus leva esta lição ainda mais longe, afirmando que o único mal que podemos fazer é a nós mesmos,
que não há o que temer dos outros, pois nosso único "inimigo" somos nós mesmos.

Ele formulou essa lição na sua famosa metáfora:


"Não é o que entra na boca de um homem que pode causar-lhe dano, mas o que sai dela".

O leitor certamente conhece inúmeras outras citações mitológicas ou literárias que abundam nesse
sentido.

A cultura inteira é um rico espelhamento arquetípico do que somos todos.

E o oráculo de Delphos, através de sua divisa, "conhece-te a ti mesmo", foi o grande difusor desta
indicação.

As “rodas de autoconhecimento phenix”, reagruparam, assim, pessoas interessadas pelo


autoconhecimento e desejosas de difundí-lo.

Atualmente, em vários países, estes grupos buscam suas próprias bases, seu próprio modo de conjugar
a cultura ao autoconhecimento.
A técnica de "espelhamento", através de encontros onde as pessoas tentam entender…
Porque não se entendem …
Continua sendo o centro do processo.

Mas muitas outras formas de "se" trabalhar surgiram dessa dinâmica ou se associaram a ela:
O Relaxamento Cinético" aqui descrito, por exemplo, é uma das "flores do phenix", como costumo
chamar os métodos que "floresceram" desse movimento:

O antigo seminário "O corpo e o todo" se encontra em fase de "renascimento", em um processo que
reúne o Zen, o Aikido e a Capoeira, no "ZAC", um laboratório que conjuga os pontos fortes destas três
grandes técnicas ricas em cultura e em autoconhecimento.

"Colagens", trabalho com o arquétipo do "palhaço", novas abordagens da massagem, laboratórios


"agora", pesquisando na prática os antigos encontros de Atenas do mesmo nome, estudos sobre a
mística, a cultura e o autoconhecimento no Brasil, a posição do cidadão na sociedade contemporânea, a
lista seria infinda para descrever todas as tendências que o jovem e efervescente "movimento phenix"
experimenta atualmente, e que sempre mudam, segundo o contexto sociocultural no qual se inserem.

PHENIX É CULTURA!

Por isso mesmo esse movimento se chama:


"CULTURA PHENIX".
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Para concluir esse relato, caro leitor, permita-me transcrever abaixo um aspecto prático da técnica da
"grea".

Como sempre há perguntas no sentido de bem delimitar o conhecimento de si de um processo


terapêutico (e isso, apesar de fazer parte dos preceitos explícitos e dos mais rigorosamente seguidos do
phenix, a não aceitação de pessoas que buscam uma terapia, sequer um debate "filosófico", mas
unicamente uma incursão no autoconhecimento inscrita no âmbito da cultura) a "roda de
autoconhecimento" situada em Recife, norte do Brasil, formulou o texto abaixo, nos mais puro estilo da
"grea", destinado aos que ainda nao sabem diferenciar o autoconhecimento da terapia.

O tema é centrado sobre o lugar que ocupa a palavra na "roda de autoconhecimento".


Expressar uma opinião pessoal passou a ser chamado de: "dar pitacos".
A utilização dessa gíria, visa "desacralizar", intencionalmente, o que será exprimido, lembrando a cada
instante, a quem opina e a quem é o objeto dessa opinião, que um ponto de vista nada mais é que um
ponto de vista, ou seja, algo a ser relativizado e levado em conta unicamente pelo que ele é:
Uma maneira a mais de perceber uma situação.
Fica, então, exclusivamente a critério de quem escuta de aceitar, ou não, o que lhe é dito como um
parâmetro propício ao que vive e sente no momento.
O termo "pitaco" visa sobretudo retirar toda ambigüidade de intenção "terapêutica" no que diz toda
pessoa que se exprime nesse trabalho de espelhamento a respeito do que ele "pensa" do outro, já que
ninguém freqüenta um terapeuta que "dá pitacos"…
O uso da palavra em terapia TEM QUE ter o peso de uma competência técnica, condição "sine qua non"
para a obtenção de um efeito terapêutico.
Já em uma "roda de autoconhecimento", a importância de toda palavra TEM QUE ser completamente
dissociada da "competência" de quem a exprime, para ser associada unicamente ao MOMENTO de
quem a recebe.

A intenção buscada, com o uso de tal "gíria", repito uma vez mais, é inscrever o "phenix" sem
ambigüidade no "só sei que nada sei" socrático, lembrando-nos que, neste contexto, tudo não passa de
"opinião" , logo :

DE UM EXERCÍCIO DE LIBERDADE DE OPINIÃO.

Mas..
Ao mesmo tempo, um exercício de reconhecimento…
Que cada um de nós não pode usar outra opinião que não seja a sua própria!

"Se trabalhar" segundo a "moda Phenix", nada mais é, então, do que um aprendizado de cidadania.
Pois todo cidadão terá que aprender a funcionar encontrando o equilíbrio entre sua própria
individualidade e a sua função no "corpo social" no qual está inserido.

E, como vimos, tanto na prática do RC, como no trabalho de autoconhecimento das “rodas phenix", é
fundamental que nossas consciências realizem um trabalho de "CONTEXTUALIZAÇÃO".
Ou seja:
Só quando soubermos situar-nos como indivíduos na dinâmica coletiva que nos concerne, é que
poderemos experienciar-nos tanto como "líderes" quanto como "células" de um "corpo social".

Segue texto inspirado no início pela pluma do teatrólogo pernambucano Felipe Botelho, membro
fundador do movimento phenix, e completado por vários outros eméritos "greístas" como ele:

A ARTE DE DAR PITACOS


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Oi, minha gente!

Diante da confusão de pessoas que confundem "a obra de arte do mestre Picasso com o aço que finca o
mestre de obra", ou seja, como tem gente que ainda não sabe que o Phenix é a ressureição da Grécia
cabocla, passíveis de confundir o autoconhecimento, praticado há milênios, com suas filhas mais
recentes, as dinâmicas terapêuticas de grupo, segue aqui a definição oficial do "pitaco", essa nobre
invenção da sabedoria popular desejosa de meter o nariz onde não foi chamado e que o phenix fez dela
a sua suprema arte.
Antes de mais nada, que fique claro de uma vez por todas:
Phenix NÃO dá RETORNO, isso é coisa de gente que sabe das coisas.
Já que os Ph, como chamamos diminutivamente os Phenix, acreditaram no que Sócrates acreditou e "só
sabem que nada sabem" o que Phenix dá mesmo é…
PITACO!

Facilitador?
Animador?
Animadinho?
Oxenti gente: isso não existe no Phenix!
O que existe é PITAQUEIRO.
E esses graus de "elevação", tipo PH isso, PH aquilo? Bobajada! PH significa PITAQUEIRO
HONORÁRIO!
Essa numeração aí é só uma forma de medir a elasticidade do SACO da pessoa em ser PITAQUEIRO
através dos anos.
O 1 significa saco já elastificado e o 2 é saco em processo de elastificação.
Enfim, PITAQUEIRO é aquele que desenvolve a arte do PITACO e do PITAQUEADO.
PITAQUEADO é um nível avançado do PITACO, já mixado com CAQUEADO. O CAQUEADO é uma
forma de jogo de cintura desenvolvido há dois mil anos na ilha de Creta por uma ancestral da Carla
Perez.
Não esqueçamos que as “rodas de autoconhecimento phenix” são uma espécie de GRÉCIA CABOCLA,
pois o que fazemos nada mais é do que aquilo que os gregos já faziam há quatro mil anos: "conhece-te a
ti mesmo".
Fazer isso é um direito de todos os phenixianos enquanto cidadãos (cidadãos são aqueles que: se dá,
dão).
E ainda tem o fato de que Phenix não aceita doido.
Nem um neuroticozinho pra fazer chá!
Doido e neurótico (será que eu sou? Ah, essa dúvida, esse conflito me mata!) vai encher o saco em outra
freguesia, vai fazer terapia com psicólogos e psiquiatras, coisa que nada tem a ver conosco ou com o
nosso pitaqueado.
O objetivo do phenix é unicamente atingir o GREASMO, a explosão de consciência de si e do Todo a
partir do contato com o âmago da gréia original existente em cada ser humano e só alcançada depois de
um processo de muitos anos (e bote anos nisso) de autoconhecimento.
Pra quem não sabe ainda, a "grea," essa arte de não levar a sério o que se crê que se sabe, é o novo
nome do zen, já que levaram o velho zen tanto a sério que ele perdeu a graça que era, justamente, não
ter como levá-lo a sério, por simplesmente não ter como levá-lo...
E quase me esqueci de uma coisa: Phenix não usa ESPELHO. Nosso negócio é LÁ E LÔ e é esse o
jogo que fazemos uns com os outros, afinal de contas, se uma coisa está LÁ, também tem que estar LÔ.
Será que ainda tem alguém para dizer que tem Universidade ensinando isso que a gente faz?
Beijão
Felipe

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Retiradas as dúvidas, vamos agora aos 4 lados do pitaqueiro quadrado:

OS 4 PASSOS DO PITAQUEIRO A 4 PATAS

Ser phenix é renascer das cinzas da própria língua!


Efetivamente, caros amigos, bichinha desgraçada é a tal da língua!
A gente pensa que tá falando mal do outro e o danado do "outro" só é o "espelho" da gente!
CALA-TE BOCA!
Abrir a boca, sem deixar entrar mosca, nem sair besteira, é realmente mais difícil do que vender
geladeira no polo norte…
Visto a importância da arte de abrir a boca, sem ter que ficar depois de queixo caído, elaboramos aqui os
4 passos do pitaqueiro:

1. Quando eu abrir minha matraca pra dar um pitaco, lembrarei daquelas séries americanas, onde o "tira"
diz pro marginal algemado:
"Tudo que você disser pode (na verdade… VAI!) ser usado contra você".

2. Quando meu amadíssimo (nem sempre…) irmão abrir sua santa boca para pitaquear-me, lembrarei
das santas palavras de Jesus: "Pai, perdoai-os, eles não sabem o que fazem"…
Mas, sobretudo, me absterei de utilizar desculpas furtivas, como: "quem disso usa disso cuida", e
cuidarei em analisar o que em mim o leva a pensar assim.

3. É melhor vomitar mentiras do que morrer de uma constipação de cocô mental.

4. Os outros só vêem as coisas partindo deles e eu só as enxergo de dentro de mim.


Conclusão:
Se eu quiser ser visto, terei primeiro que saber diferenciar como me vêem de como me vejo.
Corolário:
Se eu quiser me fazer entender, tenho que não confundir o que penso do outro do que ele pensa de si.

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Oi gente!
Eis aí os meus mandamentos:

Pitaqueiro, pra mim, é a passagem de ida sem volta ao paraíso da leveza.


Ser PITAQUEIRO, ou seja, aprender a nao se levar a sério pra mim é já éo mandamento dos
mandamentos!

Assumo, então:

- Assumo o espelho do ego para ver o ego no espelho.


- Assumo ser feliz.
- Assumo a MISSÃO de ser "pitaqueiro" do phenix!

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