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Armadilhas da Memória

Jerusa Ferreira

Vou discorrer sobre algumas questões abordadas no meu livro com este título (Ed. Ateliê,
2004) que trata da Memória e do Esquecimento nos vários segmentos e discursos da
cultura.

Estes escritos têm como tema a memória em seus desafios, construção, impasses: na
cultura, na literatura, na arte. As cogitações e os textos já me acompanham há muito
tempo. Procura de entendimento, passagem por muitos materiais que foram imprimindo
sua marca em tudo o que pude ir realizando na vida e no trabalho universitário. Daí a
organização deste livro que agora ofereço ao leitor, dividindo-o em duas partes.

Na primeira parte comparecem alguns ensaios compostos entre 1996 e 2002. São eles:
“Caronte”; “Rumor do Tempo” e “Viagem à Armênia – A Descoberta do Eu e do Outro”;
“De Poética, Política e Memória” e “Cultura é Memória”.

Os dois primeiros situam a memória e o esquecimento, a evocação dolorosa ou a feliz, os


territórios do pessoal e do coletivo, a sensorialidade e a lembrança e, ainda, a construção
identitária ou mesmo o diálogo com o outro. A aproximação é feita a partir do texto de
artistas de várias latitudes e linguagens. Comparecem poetas e narradores, um da
Rússia, Mandelstam, grandioso até em seu conflito com os atos da memória; o outro
sertanejo, Antonio Brasileiro, buscando, na mitologia, espaço para assentar uma espécie
de territorialidade infernal.

Temos também a presença impactante de um pintor grandioso e pouco conhecido entre


nós, Zoran Music, que se apoiou na apreensão da memória, configurando atitudes, no
mínimo singulares, diante de tormenta existencial e coletiva que experimentou.
Na seqüência me ocupo dos textos do escritor albanês Ismail Kadaré, cruzando discursos
do mito e da história na ficção.

Finalmente procuro observar o que sobre a memória nos trouxe um semioticista e


historiador da literatura e da arte, Iuri Lotman, que tanto avançou no entendimento dos
processos da cultura e da comunicação, ao acompanhar agudamente os processos
seletivos do lembrar e do esquecer.
A segunda parte compõe-se de três estudos: “O Esquecimento, Pivô Narrativo”; O Reino
do Vai não Torna: O Mundo Arturiano, Sobrenatural Céltico e o Sertão”; “Um Gosto de
Disputa. Um Combate Imaginário”.

Escritos em épocas diferentes e publicados num pequeno livro1, eles têm como eixo a
memória narrativa e seus trâmites, levando em conta o grande continuum da
transmissão oral ou do domínio daquilo que costumamos chamar Oralidade. Reúnem-se
aí questões que têm a ver tanto com o universo mítico e o repertório de um legado
ancestral, a perder de vista, quanto com sua inscrição em tempos e espaços sociais bem
definidos.

O entendimento de razões e de processos, a partir da própria linguagem e da observação


de múltiplos confrontos, nos leva a acompanhar várias nuances que se encarregam de
cobrir muitos registros, orais, escritos, impressos, etc.

Aí está valorizada a complexidade da poesia popular, como um exercício de mestria que


articula, de modo perene, as malhas da memória em situação narrativa ou dramática.
Passando pela abordagem estrutural e, conciliando-a com o estudo temático, procuramos
instalar uma espécie de “semiose” que nos leva da linguagem à etnologia. Em causa,
princípios, razões e procedimentos do texto poético da tradição oral e popular, alguns
assentamentos na cultura brasileira e a força de toda uma memória que é cultura.

Jerusa Pires Ferreira


Professora do Programa de Pós-Graduação
em Comunicação e Semiótica da PUC/SP
Coordenadora do Centro de Estudos da Oralidade da PUC/SP

1
Armadilhas da Memória, Salvador, Casa de Jorge Amado, 1991. Coleção Casa de Palavras (esgotado).
2.Aradilhas da Memória. São Paulo, Ateliê, 2004.

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