Você está na página 1de 8




    
Publicada em  às 00h51m

BOA VISTA, RR - Ele é um gigante. Fica dentro de um parque considerado Patrimônio Histórico da
Humanidade pela Unesco. Está situado na tríplice fronteira entre o Brasil, a Venezuela e a Guiana,
em plena Amazônia. De um de seus lados está uma grande savana, e do outro, uma selva virgem.
Atrai a atenção de cientistas, pesquisadores e cineastas. Parece um lugar inóspito. E é. Mas apesar de
ter 2.734 metros de altitude e de estar tão longe dos grandes centros urbanos, o Monte Roraima
também pode estar ao seu alcance. Como? Bem, isso vai depender do seu espírito aventureiro e da
sua disposição para entrar em forma. Nas próximas páginas, você saberá como pode conhecer as
peculiaridades desta montanha que inspirou o escritor britânico Arthur Conan Doyle em seu livro "O
mundo perdido" (1912), os produtores do filme "Up, altas aventuras" (animação da Disney/Pixar de
2009), e que foi recém-explorada pela Expedição Miramundos: Monte Roraima 2011.

Veja aqui os vídeos da websérie da expedição Miramundos.

   !"  #      

O Monte Roraima é um monumento natural de incomparável beleza e que reserva grandes surpresas
a quem se arrisca a desbravá-lo. Para aqueles viajantes que são apaixonados pelo contato com a
natureza, e não perdem uma boa dose de adrenalina por nada, eis aqui um destino desafiador, que
pode ser mais acessível do que se imagina. Por ano, estima-se que cerca de três mil aventureiros
passem por ele, principalmente vindos de Europa, Ásia e América do Sul.

Apesar de ser o sétimo ponto mais alto do Brasil, a altitude de 2.734 metros estimada pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não é seu maior atrativo. O formato de mesa
(denominado à ), a presença de animais incomuns e plantas exóticas, suas formas improváveis e
seus dois milhões de anos de formação fazem do Roraima a grande estrela dos mais de cem tepuis da
Venezuela. O monte preserva em seu platô de cerca de 31 quilômetros quadrados uma
biodiversidade única, com várias espécies endêmicas como plantas carnívoras e um pequeno sapo
preto do tamanho de uma unha. Suas rochas, castigadas pela erosão causada pela chuva e pelo vento
ao longo dos milhares de anos, formam silhuetas incríveis que desafiam a lei da gravidade e se
confundem com os contornos de animais, pessoas e dinossauros.

O Monte Roraima já inspirou filmes de Hollywood, como o inesquecível "O parque dos
dinossauros" (1993), dirigido por Steven Spielberg. Na realidade, o filme tem como referência a obra
"O mundo perdido" de Conan Doyle - o criador de Sherlock Holmes - que, por sua vez, foi
influenciado pelos relatos do botânico Everard im Thurn, que subiu o Roraima em 1884. Mais
recentemente, há dois anos, a animação "Up, altas aventuras", da Disney/Pixar, conta a história de
um vovô solitário que cumpre uma promessa feita à mulher e realiza o sonho de viajar para um lugar
paradisíaco no meio de uma floresta da América do Sul. Quando os produtores visitaram a região do
Monte Roraima, bateram o martelo. Era o lugar ideal para ilustrar as aventuras do protagonista por
reunir belezas naturais como o Salto Angel, no lado venezuelano, e seus mistérios.

A subida do Monte Roraima a pé, por trekking, só é possível pelo lado da Venezuela, por dentro do
Parque Nacional Canaima - nomeado Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1994. É preciso
estar bem preparado fisicamente e estar pronto mentalmente para enfrentar alguns "perrengues" na
viagem. Mas tudo é recompensado pelas experiências vividas e pelas paisagens exuberantes. Assim
como na trilha inca para Machu Picchu, no Peru, ou no Nepal, quem sobe o Roraima pode contar
com a ajuda de carregadores locais - indígenas da aldeia de Paraitepuy - que sustentam suas famílias
principalmente com a renda gerada pelo turismo.

Apesar de o monte estar longe dos principais centros urbanos brasileiros e de ser de difícil acesso, há
agências e operadoras de ecoturismo no país que trabalham com este destino há alguns anos e que se
profissionalizaram, permitindo que os expedicionários vivam esta aventura em segurança e com toda
a logística necessária para os duros dias de caminhada e as noites de acampamento, respeitando com
consciência as normas ambientais do parque. Essas operadoras também se encarregam de
providenciar as autorizações necessárias junto ao Inparques (Instituto Nacional de Parques da
Venezuela), que limita o número de visitantes no Roraima.

Diferentemente do que ocorre na subida de uma montanha comum, a chegada ao topo do monte não
é o principal objetivo. Pelas características geológicas do Roraima, quando se conquista o topo, a
viagem parece começar a tomar um novo rumo, já que o viajante tem a possibilidade de explorar sua
área por alguns dias. A paisagem única e misteriosa dá a sensação de se estar em um planeta
completamente distinto daquele que conhecemos.
A hospedagem durante o percurso é feita em barracas de camping montadas em acampamentos que
contam com o abrigo de pedras. O banho, invariavelmente com água fria, só é permitido em alguns
lugares específicos, para não poluir os pontos de água potável ou causar qualquer outro tipo de dano
ambiental. Na subida, a dificuldade maior é o peso das mochilas, caso você prefira dispensar a
contratação de um carregador extra. O percurso feito no cume dependerá do número de dias
contratados pelo viajante, tendo como mínimo o período de duas noites lá em cima.

Conhecido por seu clima volátil e pelas variações de temperatura, a melhor época para visitar o
monte é no início do ano, quando chove menos por lá. Nas noites de céu limpo, o Roraima se
transforma em um planetário, permitindo que se enxerguem a olho nu as mais variadas constelações,
planetas e até mesmo satélites.

s $  $!%    




A subida da aldeia indígena ao topo do Monte Roraima, estimada em 1.700 metros, se faz em três
dias. No platô, os atrativos são variados. As caminhadas podem levar às chamadas janelas, de onde é
possível apreciar a vista de toda a Gran Sabana ou da Floresta Amazônica que se estende à beira do
monte, além de pontos interessantes e exóticos, tais como o Vale dos Cristais, que concentra uma
quantidade incrível de exemplares de quartzo; grandes poços naturais apelidados de "jacuzzis", o
Fosso, o Vale das Figuras, o Lago Gladys e a Proa - este último o lugar mais inóspito do Monte,
localizado no extremo norte, onde só é possível chegar com o uso de cordas e técnicas de escalada e
rapel.

A rotina no topo é cansativa durante a expedição. As caminhadas sobre as pedras se tornam difíceis
não apenas por seu relevo acidentado, mas principalmente pelo peso das mochilas. O cuidado precisa
ser redobrado para evitar torções e acidentes mais sérios. Caso alguém se machuque e não tenha
como caminhar de volta, um helicóptero é acionado pelo guia por rádio, mas só conseguirá pousar
para o resgate se as condições climáticas permitirem. Além do preparo físico, para quem encara uma
expedição como esta, é importante estar bem de saúde, com a imunidade em alta, para evitar ficar
doente.
Comparando outros grupos que encontramos pelo caminho, percebemos que não são todas as
empresas de viagem que se preocupam devidamente com a questão da preservação ambiental da
montanha. Apesar de o Brasil ser o país com o menor território no Monte Roraima, com apenas 5%,
contra 10% da Guiana e 85% da Venezuela, as agências brasileiras parecem ter dado um passo à
frente neste quesito. As principais praticam o chamado turismo ecológico e defendem a preservação
ambiental de toda a região. Oferecem infraestrutura para dar o destino correto para todo o lixo
produzido e orientam seus guias e os turistas sobre as regras ambientais da montanha.

Por concentrar as nascentes de vários rios da região, o Monte Roraima é conhecido como a "Mãe das
águas." De origem indígena, a palavra Roraima seria uma contração, segundo os locais, de "roro"
(verde-azulado) com "imã" (grande), nome dado em homenagem às suas variações de cor quando
visto de longe ao longo do dia. O monte é considerado sagrado por diversas etnias indígenas da
região, que veneram seu deus, Macunaíma. Diferentemente do que se pensa, o nome do estado
brasileiro foi dado em referência ao Roraima, e não o contrário.

Uma das características do monte é seu clima inconstante. Ele está em uma região que possui
grandes variações de temperatura, ventos fortes e chuvas repentinas. De acordo com especialistas do
Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet-Brasília), de uma forma geral, o clima de Roraima é
típico de regiões equatoriais: quente e úmido. Porém, no Nordeste do estado, onde está localizado o
monte, existe o efeito da altitude. Ou seja, a temperatura cai à medida que se sobe -
aproximadamente 0,7ºC a menos, a cada cem metros de altitude vencidos. Por isso, o Roraima acaba
tendo uma grande amplitude térmica, com a temperatura variando de 25ºC, pela manhã, a menos de
10ºC, nas noites de céu limpo.

Vá preparado para o frio. É importante dormir bem agasalhado. Leve um saco de dormir próprio
para 0ºC e meias quentes somente para a noite. Posicione bem a barraca fora de correntes de vento e
em terreno plano. Improvise um travesseiro com as roupas ou use um inflável. Abrigue-se com
agasalhos corta-vento e capas, que ajudam a proteger dos ventos repentinos e das chuvas. A umidade
do Monte Roraima dificulta a secagem das roupas. Leve camisetas dry-fit para as caminhadas e lave-
as quando possível.
s&  #' # 

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), do governo federal, negocia


atualmente com o Inparques, seu correspondente na Venezuela, e com operadoras de viagens, a
criação de normas mais claras para o turismo no Monte Roraima. Magno Souza, empresário do setor
em Boa Vista, acredita que um novo regulamento pode profissionalizar mais a exploração turística
da região.

- A tendência é que as agências voltadas para a preservação ambiental ganhem força. A preocupação
com o patrimônio histórico e natural também afeta a economia, porque os impactos ambientais
gerados pelo turismo poderiam levar, a um médio prazo, ao fechamento do parque - alerta Souza,
que implementou em sua empresa procedimentos de proteção ambiental após conhecer as
experiências de Bonito, no Mato Grosso do Sul, considerado modelo de referência em ecoturismo.

(
       


Na fauna do Monte Roraima, animais endêmicos como sapos ( c     


) e pequenos
roedores se escondem num ambiente onde os insetos são os animais mais perceptíveis. O mais
estranho deles é uma espécie de gafanhoto que vive debaixo d'água. Roberto Vámos, fotógrafo e
consultor ambiental da expedição da Miramundos ao Monte Roraima, destaca a riqueza biológica
existente na montanha.

- No monte, a vida ocupa os espaços mais inusitados: Algumas plantas crescem em cristais e as
pedras apresentam uma coloração negra devido ao tipo de musgo existente no local. As árvores
parecem bonsais, e há por toda a parte pequenos arranjos naturais de plantas onde bromélias e
espécies carnívoras vivem juntas em total harmonia - explica.

Vámos recomenda que os turistas tomem cuidado para não pisar em nenhuma planta, como as
pequenas carnívoras K à
   
. O ideal é se manter sempre na trilha, para não criar
caminhos alternativos e usar apenas sabonetes biodegradáveis (indicados pelo Inparques). É
importante lembrar que nenhuma planta, animal ou pedra podem ser retirados da montanha, sob
severas penas que variam de multa em dinheiro a reclusão por alguns dias na Venezuela, caso a
vistoria do Instituto de Parques Nacionais da Venezuela (Inparques) flagre alguma irregularidade ao
fim da viagem.

- É importante que o viajante procure uma agência que forneça a estrutura ideal para cuidar dos
dejetos produzidos e que o lixo também seja guardado e trazido de volta à base pelas próprias
equipes para evitar qualquer tipo de contaminação ou impacto ambiental no monte - diz o consultor
ambiental.

()(s*+,)(-)s./0

1**12)30 Partindo do Brasil, as expedições ao Monte Roraima começam em Boa Vista,


capital do estado, no extremo Norte do país. Os grupos organizados pelas operadoras de turismo
costumam ter entre cinco e 14 pessoas. De Boa Vista, os viajantes seguem por terra, geralmente em
vans, até a cidade de Santa Elena de Uairén, já no lado venezuelano. É preciso levar passaporte para
passar pela fronteira, assim como a autorização para subir o monte emitida pelo Inparques (o
documento venezuelano é providenciado pelas agências). Em Santa Elena, os grupos trocam de
veículo. Em um jipe 4x4, seguem até a aldeia de Paraitepuy, onde são apresentados aos seus
carregadores da comunidade e iniciam a subida do Roraima.

*()*,0 O pacote da Roraima Adventures , com seis dias de duração, saindo de Boa Vista,
custa a partir de R$ 1.390 (somente a parte terrestre) por pessoa. A operadora fica no Centro de Boa
Vista, tel. (95) 3624-9611. Na Cia Eco , o pacote de nove dias, também saindo de Boa Vista, sai a
partir de R$ 2.315 (somente a parte terrestre). Tel. (11) 5571-2525. Pela Pisa , o pacote de dez dias,
incluindo a parte aérea a partir de São Paulo, custa a partir de R$ 3.528. Tel. (11) 5052-4085.
s*1245$*),,)s1450 Use um mochilão que tenha presilhas de cintura e peito, com
carga máxima de até 15% de seu peso. Roupas: Uma bermuda; uma calça leve (de preferência, que
vire bermuda); roupas íntimas; três pares de meias para trekking e um mais quente para dormir; duas
blusas de rápida secagem; duas camisetas; roupa para dormir; casaco; luvas; gorro; chapéu ou boné;
roupa de banho; sandália tipo papete; bota de trekking; travesseiro do tipo inflável; saco de dormir
(para até 0ºC); capa de chuva ou poncho que cubra a mochila. Tudo isso num mochilão. Higiene
pessoal: Evite usar xampu, e leve sabonete biodegradável e toalha de secagem rápida.
Medicamentos: Kit de primeiros-socorros; pomadas para dores musculares; creme para assaduras;
protetores solares corporal e labial (à prova d'água); pílulas de purificação de água. Acessórios:
Cantil; corda de náilon; saco estanque (impermeável); isolante térmico; lanterna de cabeça (com
pilhas reservas); óculos de sol.

3)5(1*)0 O número de pessoas no grupo, suas idades e a duração da viagem


determina a quantidade de comida a ser levada na expedição. Carregue pequenos lanches pessoais
extras, como barras de cereal e gel de carboidrato, apropriados entre as refeições.

*),/,1/5),0 Faça uma boa preparação física, mas também leve analgésicos.

6*52,s*,(7,0 Use calçados de tecido impermeável, previamente amaciados, com meias para
trekking.

*,8/4.*,0 Proteja-se com repelente, principalmente nas margens dos rios da Gran Sabana até o
acampamento base. As picadas dos puri-puri, pequenos mosquitos da Amazônia, coçam por até
quatro dias e podem deixar pequenas feridas.

()(9:*;<,410 Faça atividades aeróbicas, como corrida e bicicleta, e também


musculação. Quem não está acostumado com atividades físicas regulares deve começar a treinar com
pelo menos três meses de antecedência. Procure um médico e faça um check-up para avaliar a sua
aptidão. Em dias de treinos, carboidratos e proteínas dão energia e ajudam a desenvolver os
músculos. Se possível, também procure orientação especializada para saber o que comer.

-=()5),10 Faça exercícios em esteira com diferentes inclinações, na academia. Mas,


fora dela, até as escadas do seu prédio podem virar um campo de provas. Varie a duração,
velocidade e peso, fazendo uso de mochilas carregadas com livros ou qualquer outro objeto pesado.
A escada simula bem a realidade do que encontrará nas trilhas. Envolve toda a musculatura exigida
durante a subida, principalmente as das pernas e dos glúteos.

)>)14.)+,)*54-)0 É importante como preparação para o que o espera no Roraima.


Procure fazer trekkings pelas montanhas da sua cidade, no sol ou na chuva. Esta será também uma
boa maneira de você testar seus equipamentos e amaciar o calçado que vai usar.
Y