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IMPASSES TEÓRICOS

Martín-Barbero, Canclini, Orozco. Os impasses de


uma teoria da comunicação latino-americana
RESUMO Martín-Barbero: a busca de totalidades abandonadas e
A pesquisa latino-americana de comunicação lembra das identidades esquecidas
uma ilha isolada, indiferente aos grandes debates filosó- A teoria da comunicação latino-americana atualmente
fico-comunicacionais do século 20. Martín-Barbero ain- mais bem sucedida desenvolveu-se, no seu último quar-
da pensa segundo o modelo das totalidades e das hege- tel, majoritariamente no México. O espanhol Jesús
monias. Estudar a comunicação, para ele, é intervir, agir Martín-Barbero trabalhou vários anos nesse país, o
socialmente, e o processo comunicacional não está no argentino Néstor García Canclini radicou-se lá e foi
ato de se assistir a TV, mas nas trocas que o receptor faz, nesse solo que as teorias circulantes mais conhecidas
lá fora, com sua comunidade. Néstor Canclini, traba- ganharam foro internacional. Junto com os dois e,
lhando com arte e cultura popular, é mais realista, vê o sem dúvida, herdeiro e afilhado teórico de Martín-
consumo como feito da cumplicidade entre a sociedade Barbero, Guillermo Orozco sempre atuou no México.
civil e o Estado. Critica os que enaltecem os objetos da Dos três pensadores, dois doutoraram-se em país de
arte popular e se esquecem dos homens e de seus proces- língua francesa e este último nos Estados Unidos. Nem
sos. Guillermo Orozco segue Martín-Barbero e critica as por isso, contudo, fazem uso da vasta bibliografia espe-
pesquisas que se ocupam do ato comunicacional especí- culativa desenvolvida na Europa no século 20, dos ques-
fico. É alguém que busca a ressurreição dos agentes que tionamentos teóricos e epistemológicos empreendidos
vão esclarecer as pessoas como assistir “corretamente” pelo grande debate comunicacional entre a filosofia fe-
à TV. nomenológico-existencial e a idealista. No máximo, re-
correm a Pierre Bourdieu, a Jean Baudrillard ou a Michel
PALAVRAS-CHAVE Foucault, mas não demonstram trânsito com os pensa-
recepção dores da nova crítica alemã (Anders, Flusser, Kamper,
sentido Kittler, Hartmann), com a filosofia comunicacional fran-
comunicação cesa (Deleuze, Derrida, Lévinas), sequer com os pensa-
dores do Círculo Cibernético (von Foerster, Maturana,
ABSTRACT Bateson).
The Latin-American research on communication remembers Além do mais, esses estudiosos não se dedicam espe-
an insulated island, indifferent to the great philosophical cificamente ao estudo do processo comunicacional em si,
discussions about communication of the 20th century. Mar- praticando, no mais das vezes, uma sociologia, uma
tín-Barbero still thinks according to the model of totalities antropologia, uma economia política das comunicações
and hegemonies. Then for him , communication is to interfere (quase sempre: de massa), tudo isso muito afastado do
socially, to act, and communication process is not placed in the estudo da própria comunicação interpessoal, por irradi-
act of TV viewing but on the exchanges that recipient outside ação ou virtual. A teoria da comunicação latino-ameri-
does, in her/his communities. Néstor Canclini , working with cana é uma ilha solitária, que busca com seus próprios –
art and popular culture , is more realistic , he sees consumption e muitas vezes escassos - recursos teóricos dar conta da
as something made with the complicity between citizens and complexidade de um processo comunicacional em tem-
the State. He criticizes people who exalts the objects from pos de mudanças vertiginosas, superação de paradig-
popular art and forget the men and their social processes. mas e aceleração tecnológica. Talvez por isso encontre
Guillermo Orozco suits Martin-Barbero and criticizes the poucos ecos nos Estados Unidos e na Europa.
researches that are occupied with the specific communication Jesús Martín-Barbero é, talvez, o pensador latino mais
act. He is someone who is looking for the resurrection of the lido e citado na área de comunicações do Brasil. Em sua
agents who will explain the people how to watch “correctly “ teoria das mediações fica claro como ele desprende o pro-
on the TV. cesso comunicacional da investigação de seu processa-
mento próprio para transferir para o campo social maior
KEY WORDS – já, portanto, no espaço da sociologia – o modo de
mass media reception realização, os efeitos ou impactos comunicacionais. Es-
sense ses estudos são necessários, importantes e originais em
communication certa medida, mas já não são mais específicos da área da
comunicação. Comunicação aí não passa de um exem-
Ciro Marcondes Filho plo, se bem que significativo, das interações sociais.
USP Em Dos meios às mediações, Martín-Barbero volta-e ao
cjrmfilho@usp.br exame da Escola de Frankfurt. Repete o clichê desgasta-

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do e equivocado de Umberto Eco, que os associa imedia- para uma festividade desopiladora. Ele não rompe com
tamente à idéia do pessimismo ou do Apocalipse. Além nenhum saber inconsciente, como queria Benjamin ou
de grosseiro e incorreto, pois não havia pessimismo na como sugere Mikhail Bakhtin.
Teoria Crítica, quando muito pensamento negativo, herda- Nestas questões, Adorno foi mais apurado e certeiro
do da crítica kantiana e schopenhaueriana, demonstra que os dois. Não via em Mickey Mouse nenhuma vacina
desconhecer que, já em Dialética do Iluminismo – sem contra a sujeição do homem à técnica, não via no riso
contar no entusiasmo de Walter Benjamin pela imagem como algo de revolucionário, no máximo, como um tipo
e pelas práticas dos receptores e com a esperança de de sadismo conservador e da pior espécie. Sim, porque o
Jürgen Habermas na inter-subjetividade – tanto Adorno que os críticos da esquerda tradicional desprezam é que
quanto Horkheimer rejeitavam o pensamento único e a há um lado reacionário e conservador das massas, que
visão sem-saída da cultura de massas. Lá e na corres- não querem necessariamente “virar a mesa”, mas, antes,
pondência da época, ambos diziam buscar pontos posi- participar do banquete.
tivos da indústria cultural, em especial a oportunidade Ainda nesse tema e seguindo a cartilha do pensamen-
do aparecimento do insubmisso, do inconformado, do to marxista pós-Muro, Martín-Barbero orientará sua ca-
estranho, do “não-idêntico”. Não era a outra a concep- minhada teórica atacando os pós-estruturalistas (espe-
ção de Adorno quando falava em “redenção” das mas- cialmente Jean Baudrillard) e defendendo uma
sas. Martín-Barbero confunde, pois critica o que não é ressurreição de Antonio Gramsci, fato que já conhece-
criticável e elogia aquilo que foi o grande erro dos dois mos dos cultural studies e da empreitada de Stuart Hall,
pensadores à época da Dialética do Iluminismo: sua no CCCS.
concepção de totalidade. Gramsci é aquele que trata da hegemonia e do folclore.
Theodor Adorno irá renegar a totalidade (hegeliana) Martín-Barbero destaca esses dois focos do autor italia-
que ele abraçou nos anos da Guerra e nos pós-guerra, no, advertindo que hegemonia não é uma situação está-
para tentar trabalhar fora desse modelo, com a pesquisa vel ou sólida, mas uma espécie de “jogo” que se faz e se
do não-idêntico, em sua Dialética negativa. Pois é exata- desfaz, um processo vivido em que se apropriam senti-
mente isso, o que Adorno descartou como inútil ou ina- dos, sedução, cumplicidade. É semelhante à forma como
propriado, que Martín-Barbero vai tentar recuperar no Stuart Hall se apropriou de Gramsci quase na mesma
filósofo alemão, ao dizer que a afirmação que a unidade época: como um autor que trata o conceito de hegemonia
do sistema seria uma das partes mais válidas da obra como algo conjuntural e que se distancia dos reducio-
dos dois pensadores. nismos economicistas do marxismo clássico.
De Walter Benjamin, Martín-Barbero destaca a idéia Hegemonia equivale em parte ao conceito althusseria-
de que a distração seria uma atividade e uma força da no do “dominância”, que se opõe ao de dominação: uma
massa frente ao recolhimento da burguesia. Ora, sabe- sociedade por ter dominação (estrutural) econômica ca-
mos que Benjamin cometeu muitos erros, inclusive esse, pitalista mas ter uma dominância, em certas conjuntu-
de apostar na conscientização das massas pelo lado ras, do elemento político. Caso dos fascismos, das dita-
mágico, pelo deslumbramento com a técnica. Benjamin duras políticas e/ou militares. De qualquer forma, sugere,
falava, com uma certa dose de ingenuidade política, que mesmo que de forma passageira, a idéia de bloco, nada
Chaplin e Mickey Mouse seriam modelos veiculação estranha a Gramsci. O problema é que nos enredamos
que poderiam ser politizantes para as massas. Trata-se fatalmente com esses pensadores no campo das totali-
da “distração” que Martín-Barbero aqui valoriza em dades: um bloco aqui, um bloco acolá; hoje uma hegemo-
Benjamin. nia deste, amanhã, uma daquele. Caímos nas armadi-
É a mesma forma como este autor espanhol, radicado lhas da IIIa Internacional. E o problema está todo aí! Se
na Colômbia, interpreta o carnaval em Bakhtin, enca- considerarmos válida a posição de Foucault, não há
rando o riso, como dizia Benjamin, como uma “vitória mais porque pensar em blocos nem em hegemonias:
sobre o medo”. Ora, sabemos que Mikhail Bakhtin opera tudo se dilui em micro-relações, onde funcionam nova-
com o carnaval como inversão das categorias simbólicas mente regras de imposição e submissão.
de hierarquia e valor, que seu principal achado foi ver Martín-Barbero não descarta Foucault, ao contrário,
no carnaval a transgressão da distinção binária das enaltece sua teoria do poder molecularizado. Mas isso,
classes, dos pólos sociais, das diferenças, e que, acima como vimos, é absolutamente incompatível com qual-
de tudo, tratava-se de um enaltecimento da energia e da quer noção de bloco ou de hegemonia, que supõem orga-
vitalidade das massas. Mas o que significa “vitalidade nizações “molares”. Stuart Hall desvencilhou-se desta
das massas”? É um conceito, sem dúvida, muito ambí- contradição refutando Foucault e advogando o retorno
guo, pois se pode exaltar as massas para um programa da ideologia; mas Martín-Barbero tenta o inverso, acei-
totalitário ou fascista e nisso, nessa “exaltação do carna- tar Foucault, mesmo que este diga que o poder não está
val popular”, os nacional-socialistas eram muito há- vinculado à classe e que são as microtecnologias que
beis, estetizando a política, como bem frisou Benjamin. criam corpos dóceis e disciplinados. O paradigma fou-
O carnaval, em si, é inconseqüente, espécie de relaxa- caultiano é totalmente distinto do modelo clássico (e
mento de tensões e do mal-estar da cultura, canalizado superado) da perspectiva de Gramsci, que flerta com o

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totalitarismo, como sugere seu principal especialista, todo o entorno mas pouca coisa ou nada da comunica-
Hugues Portelli. ção propriamente dita. É o caso das mediações, forma de
O difícil no paradigma teórico de Martín-Barbero é sociologizar os estudos comunicacionais deixando sem-
tentar modernizar a leitura do processo de comunica- pre de lado o estudo específico do processo em si.
ção, que exige algo novo, dinâmico, acoplado à própria Com efeito, os estudos de Martín-Barbero têm como
dinâmica das novas tecnologias, carregando conceitos ponto de partida os lugares e a cultura. Esta opção não é
envelhecidos como ideologia, imperialismo, domina- apenas metodológica. Os estudos sociológicos têm a ten-
ção ou hegemonia. Tratar a comunicação como algo dência de ser mais pragmáticos, ocupados com a ação e
macro-social, ligado às relações de poder, inviabiliza a intervenção no social; eles acoplam-se a políticas mais
a capacidade de deitar a vista sobre o próprio processo amplas de atuação, cujo objetivo é transformar as socie-
da comunicação, que se realiza em cada indivíduo. dades. Inversamente, os estudos da comunicação têm
É o caso de seu comentário à transformação perpetra- um enfoque antes fenomenológico e, por isso, apóiam-se
da por Theodor Adorno, quando este resolve abandonar em estudos de percepção, de captação, entendimento
as posições totalizantes e sair em busca do não-idêntico. mudança interna.
Martín-Barbero diz que Adorno foi heróico combatendo Além do mais, o componente político está quase sem-
o existencialismo alemão, que procurava recuperar na pre atrelado ao olhar sociológico: pela mediação, diz
categoria do Eu-Tu a saída para uma comunicação de- Martín-Barbero, pode-se recolocar o problema da cultu-
gradada. Ora, mas Adorno da Dialética negativa não é ra, quer dizer, “o modo como trabalha a hegemonia e as
diferente dos existencialistas e de seus antecessores, os resistências que mobiliza”. Vê-se, assim, que a comunica-
fenomenólogos, que trabalharam o conceito de Eu-Tu. ção é apenas um álibi dentro de um discurso que, em sua
Foram estes últimos que despertaram para a questão da intencionalidade, é de natureza genuinamente política.
alteridade que Adorno irá reverenciar no fim de sua vida A inversão no processo comunicacional para passar a
(“Lembre-se, há um outro”, dirá ele, parodiando o me- vê-lo a partir dos usos sociais e da articulação entre
mento mori). Adorno sai à caça do estranho, do que des- práticas de comunicação e movimentos sociais atende
toa, do que não se adapta, do que é inusitado. É o “belo àqueles estudiosos que vem a comunicação como meio
estranho”, que ele descobre em Eschendorff: o que a para se chegar à mudança política. Ela é apenas um
consciência vivencia como estranho é o que deve ser instrumento, uma arma, um componente de um proces-
amado como diferente, diz ele. so maior, de uma estratégia, implícito do discurso de
Ora, mas esse é o mesmo discurso da fenomenologia Martín-Barbero. É a mesma lógica de ver receptores como
de Lévinas, de seu conceito de Eu-Tu, apreendido de “sujeitos sociais” (portanto, passíveis de serem funcio-
Martin Buber e que tem parentesco com a filosofia exis- nalizados como agentes, estimuladores da mudança),
tencial de Heidegger, embora não a adote integralmente. de encarar o trabalho de comunicação como espaço de
Buscar o outro, aquele que não sou eu, acolher o estra- “esclarecimento”. Temos aí, todo o receituário da atua-
nho dentro de mim e assim realizar a comunicação é um ção partidária, do dirigismo, do uso político das massas.
discurso de Buber e Lévinas. “Pensar contra si mesmo”, É bem verdade que Martín-Barbero afasta-se da crítica
como diz Adorno, é o mesmo que praticar a diaconia, tradicional, militante, dos meios comunicação. Mas,
como a ela se refere Lévinas: “tornar-me servo do outro, mesmo refutando as versões conspiratórias da TV, que a
dessa alteridade que me completa”. Todos estão falando viam como cúmplice do poder e dos interesses mercan-
da mesma coisa. O que Martín-Barbero não entendeu é tis, como cerceadora da expressão democrática das mas-
que a Escola de Frankfurt começou como um hegelianis- sas ou como reforço de preconceitos, distribuindo bana-
mo de esquerda e terminou com um discurso nietzsche- lidades e mediocridades, mesmo superando esses clichês
ano ou heideggeriano da implosão das totalidades e da e apostando na sua ação “transformando sensibilida-
busca localizada das diferenças. É isso o que falta à teoria des, modos de construir imaginários e identidades” (1999,
da comunicação, é isso o que falta a Martín-Barbero e p. 18), mesmo assim, acredita num “projeto hegemôni-
aos demais pesquisadores latino-americanos. co”, vai atrás da “emergência dos sujeitos sociais”. É
isto que articula seu investimento na memória social.
2. Martín-Barbero e suas mediações O investimento na memória, todos o sabemos, já esta-
Vinte anos atrás, Néstor García Canclini dizia que a va presente em Walter Benjamin. Em Obra das Passagens e
obra de Jesús Martín-Barbero “atravessa várias discipli- nas “Teses sobre a História”, ele fala que o presente
nas”, pois, deslocava a análise dos meios às mediações precisa conhecer e libertar o passado, que se tem que dar
sociais, que, portanto, não era apenas num texto de co- “um salto em direção ao passado” (Tese 14). Tal é o
municação. Com efeito, Martín-Barbero pratica sociolo- sentido do termo “despertar”, que significa, para ele,
gia, uma sociologia válida, importante, necessária para recuperar a dimensão ativa do passado, omar conheci-
os estudos sociais, mas, sempre, uma sociologia. E isso mento de seu potencial reprimido e esquecido e desper-
tem sido um vício teórico da área que carece de estudio- tar. É, na sua linguagem, o resgate de tudo que foi trans-
sos do processos de comunicação stricto sensu. A área mitido do conformismo que pretendia subjugá-lo, é a
tem sido ocupada por cientistas sociais que falam de lembrança de uma relação outra com o mundo e com as

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coisas que as gerações atuais já perderam. sobrevive na imaginação como um mito, um mito da
As mediações históricas, para Martín-Barbero, dão resistência, como foi o caso de Zumbi, no Brasil, e que
sentido e alcance social aos meios de comunicação. Tra- funciona como paradigma da oposição, da negação, da
ta-se de seu conceito de heterogeneidade das temporalida- rejeição a história atual. O mito é um contínuo instru-
des - que nós já conhecemos sob o nome de assincronia (cf. mento emocional para se fazer política. Mas, será que
a expressão Unzeitgleichtigkeit, de Ernst Bloch, de 1935) - paga, de fato, a fatura de uma história esquecida? Num
, a saber, um passado residual, diferente do publicamen- texto memorável, Paul Ricoeur, fala do compromisso
te celebrado, está vivo e “configura nossa memória”. ético com o passado. Para ele, a operação histórica é um
Esses resíduos não-integrados de uma economia e de “ato de sepultura”, de renovar a ação de pôr no túmulo,
uma cultura nos permitem, segundo ele, recombinar me- de fazer ressuscitar o passado, de cumprir as promessas
mórias e nos reapropriarmos criativamente de uma mo- irrealizadas dos que morreram.
dernidade descentrada. Martín-Barbero fala de sujeitos e de hegemonia, de
Martín-Barbero acredita que a comunicação seja uma contraposição e de resistências, num recuo da estratégia
questão de memória. Somente ela, a memória, permite a para o investimento nas matrizes culturais, nos resídu-
troca entre as gerações, mas ela não se esgota nisso. Ele os (relatos de terror, fantasmas, almas, em suma, no
acha que a memória permite, mais além, o fortalecimento folclore), que podem fornecer, no máximo, uma contra-
da consciência histórica (ele, supostamente, está pen- partida exótica à cultura atual mas não são nem se pre-
sando na história “a contra-pêlo” de Benjamin, a histó- tendem realizadores do compromisso ético da civiliza-
ria não-oficial) e que, na mistura com elementos da con- ção, porque isso exige uma recuperação não-mítica do
temporaneidade (cultura afro-cubana, mass media, rock, passado, uma recuperação enquanto realização hoje dos
merengue, cinema, vídeo), cria-se um território comum sonhos de ontem.
para exprimir emoções, “imagens reivindicatórias das As lutas e campanhas do passado acabaram mas o
façanhas não-santificadas de seus heróis” (2007, p. 38), mal-estar na civilização continua. A evocação dos mitos
fato este que lhe daria uma coerência moral e estabilida- pode estimular a imaginação mas seu uso é instrumen-
de para a vida, cheia de inseguranças e medos. tal e, por esse motivo, o uso da memória social pode ser
O mesmo ocorre com as telenovelas. Comparando-as tanto para dominação como para libertação. O mal-es-
com o telejornal, “que se faz passar por realidade”, se- tar, contudo, não é relativo, fabrica-se junto com a vivên-
gundo ele, mas que transmuta-se em hiper-realidade, é cia atual na cultura e é exatamente esse sonho antigo,
nas telenovelas que se representa a história “minúscu- continuamente presente, que convém continuamente res-
la” do que acontece: a mistura de pesadelos com mila- suscitar.
gres, as hibridações de sua transformação e seus anacro-
nismos, as ortodoxias de sua modernização e os desvios 3. A comunicação para Martín-Barbero
de sua modernidade (1999, p. 132). Considerar telejor- No debate sobre a comunicação, a discussão com Mar-
nal como obra de ficção e telenovela como realidade não é tín-Barbero torna-se mais aquecida. O pesquisador es-
novidade; eu também apresentei essa tese no livro Televi- panhol, radicado na Colômbia, faz uma provocação :
são, de 1994, sem conhecer a obra de Martín-Barbero. quem levou anos investigando a telenovela, sabe que o
Só que, naquela altura, eu via a telenovela como reali- sentido dela tem muito mais a ver com a circulação de
dade “real”, não pela ligação com elementos antigos ou significação do que com a significação do texto. É contan-
submersos da cultura, mas porque, efetivamente, ela in- do a telenovela aos outros que se constrói seu sentido
terferia nos processos reais dos telespectadores e suas (1995, p. 58). Não vamos agora nos ater à confusão que ele
narrativas funcionavam como eventos realmente vivi- faz entre significação e sentido. Detenhamo-nos naquilo
dos pelos telespectadores, no momento da recepção, e não a que ele chama de sentido.
posteriori, “nas mediações”. Martín-Barbero diz estar sugerindo um “outro modo
Pois bem, essas matrizes culturais, de que fala Martín- de ver a comunicação”. Segundo ele, o processo de re-
Barbero, “postas em cumplicidade com o imaginário de cepção é, basicamente, um processo de interação ou de
massa”, ativariam a memória. Aparentemente, portanto, “negociação de sentido”; não há comunicação se cada
os resíduos formariam um componente “contra-hege- um ler o jornal como lhe der na cabeça, não podemos
mônico”, resguardando os sujeitos sociais das investi- ficar no extremo de pensar que o receptor faz o que quer
das da cultura que lhes seria estranha. Trata-se, natural- com a mensagem.
mente, da lógica dos blocos, da bipolaridade de forças, Até aqui, Martín-Barbero. Vamos permanecer nesta
de uma presumível resistência ancorada no fundo do afirmação e defender exatamente o contrário : cada leitor lê
popular, das massas; de um mito sobre uma incongru- seu jornal como lhe dá na cabeça, e eu, como receptor,
ência entre os valores do capital e da técnica e os do faço o que quero com a mensagem. Justificativa : o pro-
homem simples. Hipótese, contudo, não confirmada. cesso da recepção é individual ; a atividade de se infor-
Há uma história subterrânea, uma história que nin- mar cotidianamente é altamente racional e a cada um as
guém conheceu nem conhecerá, pois os vencedores não mensagens atingem de uma forma, de acordo com a
a registraram. Uma história que jamais saberemos. Que sensibilidade, a abertura, a disponibilidade. Eu não re-

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cebo indistintamente todas as mensagens que me vêm poder ser recalcado, negado, aparentemente substituído.
da TV ou do jornal. Eu escolho. Eu separo exatamente os Isso não significa que estejamos assumindo aquilo
temas que me interessam e descarto, em seguida, o jor- que Martín-Barbero chama de “epistemologia condutis-
nal. Às vezes, há uma curiosidade, algo exótico que me ta”. De fato, emitir todos emitem, todos querem emitir,
atrai a atenção de forma eventual. Mas, como um todo, sinais há de todos os lados, e, de certa forma, todos
minha busca é direcionada. Só vou buscar no jornal estamos sempre transmitindo algo consciente e incons-
aquilo que me interessa. Só compro o jornal que têm cientemente, mas isso ainda não é comunicação. A co-
idéias semelhantes às minhas. Logo, o processo de re- municação baseia-se numa decisão , numa decisão do
cepção de notícias é particular e direcionado e, em rela- receptor: eu defino se quero ou não ouvir essa notícia,
ção à mensagem que recebo, dou o destino que me apraz : essa emissora, assistir a esse filme, ver esse espetáculo.
as retenho para acumular argumentos e informações Uma publicidade de rua pode atrair minha atenção in-
num debate, para confirmação de minhas próprias posi- voluntariamente. É uma estratégia de sedução, de envol-
ções, para me tranquilizar. As pessoas não lêem o jornal vimento, de captura do outro, como acontece nas rela-
coletivamente nem “negociam sentido” das notícias : as ções humanas. Eu não decidi ser atraído mas posso me
utilizam em seus debates para prevalecer na contenda envolver “no clima”. É minha a decisão.
de opiniões. Numa discussão, é mais comum que eu Tampouco recepção é “lugar de chegada”, espaço pas-
fique com as minhas e ele, com as dele. Não há formação sivo ou inerte da comunicação. Decidir é atuar ativa-
de opinião nesse plano, que é imediato, do confronto com mente e fazer uso consciente ou inconsciente daquilo
o outro. A opinião, por se atrelar a eventos emocionais e a que se quis ver, ouvir, sentir ou ler. Portanto, é local de
circunstâncias que se assentam em padrões de confiança e produção de sentido exatamente porque permite essa
respeitabilidade, se forma e se altera em processos sociais duplicidade de sentidos: um sentido do tipo “não-disso-
mais amplos e a longo prazo. A não ser que se trate de um nante”, normalmente vinculado à busca de notícias e
tema do qual eu esteja totalmente desinformado e não informações jornalísticas (produção de um sentido con-
tenha nenhuma assentamento anterior. gruente e cumulativo) e produção de um sentido “eventu-
Diferente acontece com as produções culturais que almente dissonante”, que é o que se encontra nas produ-
atuam no plano do o imaginário : um filme, um livro de ções culturais e artísticas. A recepção só é “lugar de partida”
ficção, uma telenovela, uma performance, etc. Aqui, eu num segundo momento, o da sociabilidade, momento já
me entrego ao novo, ao inesperado, rompo minhas resis- não mais participante do processo comunicacional stric-
tências. Estou sujeito a alterações de posição e postura to sensu: lá eu divido com os outros o que a comunicação
diante do mundo. Diferente do caso anterior, aqui é me trouxe.
possível ocorrer, de fato, a comunicação do novo ou a E nessa argumentação, Martín-Barbero evoca Jürgen
comunicação propriamente dita, quer dizer, comunicação Habermas (citado por Raúl Fuentes) para auxiliá-lo.
do produto comigo, a efetiva intervenção e alteração de Habermas construiu sua teoria a partir dos trabalhos do
estruturas internas. psiquiatra Alfred Lorenzer, segundo o qual as patologi-
Diante da telenovela, reajo como diante de um filme as não são apenas fatos individuais mas produções
ou de uma obra literária, cedendo meus controles e mi- sociais e se ligam à verbalização: há termos que travam a
nha resistência às novas idéias, aos novos valores, à compreensão do real por estarem mitificados pelo siste-
mudança. Entrar nesse mundo é como permitir-se, oca- ma. Para isso, deve-se investir na inter-subjetividade,
sionalmente, uma fuga, mas uma fuga não inteiramente que equivale, grosso modo, à prática da sociabilidade de
inconseqüente. Naturalmente, o fato de se ligar às tele- Martín-Barbero. A inter-subjetividade permitiria o atin-
novelas nada tem de “vingança”, como sugere Martin- gimento de um “sentido comum” na comunicação.
Barbero, achando que aí as classes populares vingam-se Mas não é bem assim. Há um consumo comum, há um
secretamente de sua situação social. gosto “de massa”, há a participação comum das pessso-
O fato de eu conversar no trabalho, em casa, na facul- as num jogo de futebol, numa oferta de um supermerca-
dade com outros a respeito de um filme, de um capítulo do, na expectativa de um final de telenovela. Mas, em
da telenovela só remete à situação de eu precisar parti- todos esses casos, são comuns mensuráveis, estatísticos,
lhar aquilo que já se instalou em mim, o novo. Aí, nesta mercadológicos. O “comum” é uma medida de mercado.
altura, no convívio social, ocorre um outro processo, que é Exatamente porque nada é comum, não há hemogenei-
o de minha interação com o outro praticando a sociabili- zação dos sentidos e das recepções. São fenômenos sub-
dade a partir do tema “telenovela”. Na sociabilidade, jetivos que se materializam em ações similares. Como eu
opiniões são compartilhadas, discutidas, pessoas revê- vejo, sinto, leio são processos individuais impenetrá-
em o que sentiram mas, agora, a intervenção é novamente veis, insondáveis. Se reduzirmos o sentido comum a
racional. O círculo de amigos pode ter me convencido de esse “espaço de produção de conhecimento e produção
sua leitura da telenovela mas isso não significa que esse e troca de sensibilidades” estaremos limitando-o a algo
fato tenha se sobreposto ao que eu efetivamente senti no físico ou a um ambiente. Não estaremos dizendo nada
momento da recepção. São momentos diferentes. Aquele, do sentido para cada um.
o inicial, é inalterável, marcado pela emoção, apesar de Vamos fazer uma pequena digressão sobre a questão

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do sentido. Em A lógica do sentido, Gilles Deleuze sugere A redação do texto não dá margem a ambigüidades.
que o sentido cria um determinado ambiente. Ele sim- Não há nenhuma alusão a que as pessoas construam
plesmente “acontece” e está longe da significação pura e por si mesmas suas identidades. O verbo na primeira
simples das palavras e das coisas. É um Acontecimento pessoa do plural contém um “nós” eclipsado, que
puro, um “extra-ser” em oposição ao ser das coisas. sugere um ato de educação do povo. Nós, os letrados, nós
Palavras podem ter significação mas não têm “sentido”, os esclarecidos, nós, o Partido. Mas, com que delegação se
elas fazem sentido, o que é muito diferente. É como dizer: propõe isso? Quem nos delegou essa função?
uma obra literária tem um significado mas uma obra
fantástica (Borges, Alice, Ulisses) tem um sentido. Não foi
outra a intenção de Husserl ao separar a noese, captável O trabalho vem muito antes, no
pela racionalidade interpretativa, do noema, inapreen-
sível pelo caminho empírico da busca. despertar das sensibilidades
Sentido é um encontro de campos de força, é a essên-
cia desses campos de força. Não é algo que exista a priori para o diferente, para o outro,
mas é uma produção. Deleuze destaca que apesar de o
sentido ser impassível e neutro ele gera coisas. Ele pro- para a alteridade que, sendo
duz algo que se realiza no momento do acontecer da
coisa. Por isso que os estóicos diziam que um estrangei- estranha, pode nos trazer, de
ro pode muito bem compreender o que o grego fala, mas
lhe falta captar algo mais, o incorpóreo produzido exa- fato, novos olhares, novas
tamente no momento da fala, aquilo que é sentido pelo
grego e não pelo estrangeiro. Derrida faz, em Gramatolo- percepções, uma nova maneira
gia, um raciocínio análogo: o sentido ocorre exatamente
num determinado momento, na fratura da experiência. de encarar o mundo e os outros.
É algo que excede ao logos, que garante a não-previsibi-
lidade, a indomesticabilidade das coisas. Isso tem um nome: comunicação.
A questão do sentido não é inocente, pois, sentido e
definição de sentidos, o “sentido comum”, é algo aco- E por que buscaremos as identidades, por que necessi-
plado à questão do poder, está no mesmo plano da tamos ser idênticos ou, mesmo, iguais aos outros? Ador-
discussão da verdade, tratada por Nietzsche e comentada no propunha o não-idêntico exatamente para fugir ao
por Derrida em Éperons. Por isso, em sua acepção menos rótulo de uma classificação, de uma etiquetagem aprio-
suspeita, ele é e deve ser inapreensível, ou, como dizia rística de nossos atos, nossas falas, nossas ações. Nossa
Wittgenstein, o sentido do mundo está fora dele. E só pode identidade sul-americana, afro-cubana, negra, homos-
estar, naturalmente, pois amarrá-lo, apreendê-lo, fixá-lo sexual, seja lá o que for só cria guetos autoenclausura-
é exercer o poder, o domínio e o enclausuramento. dos. Por que, ao invés de nos diluirmos numa humani-
Quando Martín-Barbero fala em sentido, ele raciocina dade sem fronteiras, sem barreiras, sem dísticos ou
provavelmente de forma habermasiana, na delimitação bandeiras, necessitamos refazer continuamente os blo-
de sentido como algo lingüístico. Mas aí é que está o cos autodenfendidos? Blocos que ao se constituírem e
problema: Habermas pensa em consenso, em acordo por se constituírem excluem exatamente o outro.
universal entre as partes, em um certo tipo de harmo- E por que sujeitos ou agentes de interações comunicati-
nia; ora, a interação social é tudo menos harmonia, vas? A categoria do sujeito já foi desconstruída por Freud,
impera o maior dissenso e os grandes embates de Marx e Nietzsche, que dela retiram qualquer autonomia,
opinião. Não nos interessa o sentido comum, isso não vendo nos sujeitos apenas efeitos de relações sociais, de
passa de mera ficção. Mas Martín-Barbero sai atrás des- processos inconscientes, de vontades de poder. “Sujei-
se sentido comum. Isso nos traz altas suspeitas. to” é apenas um espaço de confluência de fatos, discur-
O deslocamento do estudo da comunicação para a sos, comportamentos. Mas opta-se também pelos “agen-
produção em comum de sentido, afastando o eixo do tes”, que remete ao mesmo princípio, o daqueles que vem
processo comunicacional em si (o que não é o mesmo trazer a boa nova, a verdade, a consciência, aquilo que
que “intercâmbio de mensagens”, como quer Martín- os demais, por si próprios não podem (e nunca vão
Barbero, pois não existe intercâmbio algum, como vere- poder) obter por si mesmos. Ou, como diz o próprio
mos a seguir), transforma o estudo da comunicação em Martín-Barbero: este outro tipo de comunicação traba-
estratégia política de ação. Ele cita Fuentes novamente: lha para “poder realmente dirigir, orientar essa socieda-
“deslocamos o foco da atenção para a institucionaliza- de para tomar decisões” (1995, pp. 45-46).
ção discursiva político-econômica e legal da interação Martín-Barbero acusa a proposta de separar o ato
social, na direção da construção de identidades sociais comunicativo das repercussões ou mediações sociais
dos sujeitos enquanto ‘agentes’ das interações comuni- como sendo um paradigma hegemônico. O fato é que ele vê
cativas “ (2000, p. 12). também equivocadamente o próprio processo de comu-

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Martín-Barbero, Canclini, Orozco: os impasses de uma teoria da comunicação latino-americana • 69 – 85

nicação: para ele, os meios transmitem coisas, passam produtor e realizador tanto do progresso tecnológico
verdades, visões de mundo, modos de pensar hegemôni- quando das desigualdades que deve derivam, mas logo
cos; fazem “intercâmbio de mensagens”. Mas não existe se decepciona: Canclini volta ao velho modelo dos mar-
nada disso: os meios não passam nada, não trocam xistas tradicionais apontando nominalmente “atores”
nada, a comunicação não é transmissão de coisa algu- ou responsáveis pela miséria e pela injustiça: a ideolo-
ma, não há nenhuma materialidade no processo. Comu- gia econômica, os governos e empresas como a Sony, a
nicação é um acontecer conjunto que pode ou não mexer America On Line, a MTV, a Nike, a Benetton.
com nossas estabilidades emocionais, comportamentais, E os equívocos são também teóricos: junta o assessor
políticas ou culturais. Pode ou não porque a vontade de do Departamento de Estado norte-americano, Francis
“passar coisas” está no campo das intenções, das polí- Fukuyama, com Paul Virilio, dizendo que este último
ticas, dos desejos de quem emite, que todos nós de “celebra” o fim da geografia. Diz que a noção de “indús-
certa maneira realizamos, mas nada indica que as trias culturais” é útil aos membros da Escola de Frank-
coisas serão “passadas”, porque comunicação não é furt, quando todos sabemos que estes pensadores jamais
uma coisa que passa de mão em mão ou de uma boca falaram em indústrias culturais mas de indústria cultu-
para uma cabeça. Essa é sua visão ingênua do processo ral, o que é absolutamente diferente. Indústrias culturais
comunicacional. é uma terminologia bastarda, sem qualquer densidade
teórica, espécie de mutilação do conceito original de
4. Canclini e os dilemas da cultura popular e de sua indústria cultural, este sim com densidade teórica e filo-
recepção da comunicação sófica, não se referindo nem a uma indústria nem à
Néstor García Canclini é um antropólogo argentino cultura propriamente dita, mas a uma forma de fazer
preocupado com as diferenças culturais entre nações e política e exercer o poder na atualidade. Ao mesmo tem-
povos. Através de seu olhar etnológico, ocupa-se com os po, Canclini repete o clichê deletério da vulgarização
artistas populares, com a tradição artesanal diante do acadêmica e dos textos de qualidade duvidosa ao dizer
mercado global, sem, contudo, excluir as possíveis assi- que seus pensadores eram “tão renovadores quanto apo-
milações e integrações. calípticos”.
A questão principal que ele coloca não é econômica Mas não se pode dizer que o estudioso argentino da
(“Como pagaremos nossa dívida?”), mas cultural: que cultura popular e da globalização cometa os mesmos
produtos materiais e simbólicos podem melhorar as con- erros que muitos representantes da intelectualidade lati-
dições de vida das populações latino-americanas e po- no-americana, especialmente quando esta fala de ques-
tencializar sua comunicação com as demais culturas? tões como hegemonia, ideologia e dominação. Conhece-
Canclini imagina uma esfera pública transnacional que dor da realidade dos artesãos e produtores da arte
dê conta da diversidade cultural e política. popular, Canclini desmonta esquemas explicativos vici-
Mas sua visão peca pela excessiva utopia e até mesmo ados sugerindo, por exemplo, que o consumo não é eco
por um pouco de ingenuidade. Imagina que os países de uma política cultural ou de uma manipulação perver-
mais desenvolvidos poderiam ajudar os menos desen- sa, mas, antes, efeito de coincidências e cumplicidades entre a
volvidos, como ocorre na União Européia, sem conside- sociedade civil e o Estado. Essa cumplicidade remove uma
rar que o problema europeu não é de solidariedade nem suposta ingenuidade e o caráter indefeso dessas cama-
de colaboração mas de sobrevivência econômica diante das e as vê como participantes dos jogos de poder. É isso
do império americano e do capitalismo japonês. Em sua que garante a estabilidade, diz ele.
sonhada integração global, os países colocariam em pri- Isso desmonta a fantasia que as esquerdas alimenta-
meiro plano a proteção aos trabalhadores e não a com- ram durante décadas e mesmo séculos a respeito do
petitividade das empresas, a melhoria da qualidade de “popular”. O popular é há muito reverenciado como
vida e não a mobilidade dos capitais. Deveria, por fim, tradição, como resíduo frente aos avanços da tecnologia
optar pela inclusão social e não por beneficiar as elites. e da modernização; funcionou continuamente como “de-
Diante da voracidade dos capitais, das estratégias de pósito da criatividade camponesa”, da su posta trans-
pressão política e ocupação militar, da chantagem nu- parência da comunicação face-a-face, de uma certa pro-
clear, sua fantasia cheia de boa vontade não deixa de fundidade que teria se perdido com as mudanças da
sugerir um mundo de contos de fadas. inovação técnica. (cf. 1989, p. 209). Há uma fantasia no
O problema aqui não são as intenções, mas a visão inconsciente das sociedades em torno do folk, visto como
política equivocada. “propriedade de grupos indígenas ou camponeses iso-
Comentando a relação que temos hoje com as tecnolo- lados e auto-suficientes, cujas técnicas simples e a pou-
gias – alguns a enaltecendo, outros a criticando -, Can- ca diferenciação social os preservariam das ameaças
clini busca inocentar a globalização, acusada de causar modernas” (idem, p. 213).
a pobreza e interferir na comunicação, dizendo que esta Canclini reage contra esta tendência que enaltece os
não é nenhum “ator”, como tampouco o é o neoliberalis- objetos, as obras, a arte desses povos, mas não os proces-
mo. O leitor sente que argumentação caminha na dire- sos e os próprios indivíduos participantes desse traba-
ção mais realista, de apontar o próprio quadro como lho. O fetichismo praticado pelos preservadores dos ob-

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jetos e da arte popular acaba remetendo, na linguagem ignoramos totalmente como os setores populares assu-
de Canclini, a uma “tentativa melancólica de subtrair o mem essa transformação, ou a sua “representação” na
popular à reorganização massiva, de fixá-los nas for- comunicação de massa.
mas artesanais de produção e comunicação, de custo- Comentando as performances do artista Paxton, Can-
diá-lo como reserva imaginária de discursos políticos clini se pergunta como passar de cada explosão íntima e
nacionalistas” (idem). Isso resulta, por fim - conclui ele - instantânea ao espetáculo, que supõe uma duração or-
na modernização do folclore, convertendo-o em funda- denada e diálogo com os receptores? Dos enunciados
mento da ordem e buscando (a estratégia populista de, soltos do discurso, dos enunciados solitários à comuni-
CMF) reverter a tendência de manter o povo como mero cação? Justificadamente, o pesquisador constata que há
espectador. efetivamente muito pouca coisa sobre o consumo da
O antropólogo atribui a pequenez de visão dos folclo- cultura e sobre a recepção. Nem meios de comunicação
ristas conservadores ao fato de estes fazerem sempre um nem as instituições costumam pesquisar quais os pa-
recorte micro-social da realidade desses produtores, iso- drões de recepção e compreensão a partir dos quais seus
lando-os do contexto maior. Essa prática, inclusive, leva públicos se relacionam com os bens culturais, menos
à impossibilidade de problematizar as condições de le- ainda, complemente ele, que efeitos geram em sua con-
gitimidade e de validade do conhecimento popular, diz duta e em sua cultura política (1989, p. 140).
Canclini. Esses folcloristas repetem um antigo erro de Canclini está certo: faltam estudos qualitativos sobre
muitas esquerdas que em sua visão simplória achavam como as mensagens são recebidas e processadas. Mais
que restituir a fala ao povo era suficiente para que daí ainda, diríamos nós, os estudos de comunicação pecam
emergisse um saber verdadeiro sobre eles. Já conhecemos por desprezar o evento comunicacional como um acon-
isso de muitas outras realidades, desde as experiências de tecimento singular em que mudanças ocorrem na mente
Walter Benjamin, o fracasso da política da Unidad Popu- do (s) receptor(es). Alguma coisa acontece no instante
lar no Chile, os erros dos cultural studies, entre outros. que convencionamos chamar de “comunicação”, que é
Para fundamentar sua “cumplicidade entre as clas- essa passagem, como ele diz, da explosão íntima ao
ses”, Canclini recorre a Gramsci, sugerindo que a classe, espetáculo, do diálogo solto e solitário à comunicação.
mesmo “hegemônica”, tem que tolerar os espaços de Algo acontece e é de natureza radical. O acontecimento
manifestação os grupos subalternos. Nesse aspecto, ele comunicacional tem sua magia própria, ele impacta o
recusa a visão de Pierre Bourdieu, segundo o qual, a receptor de forma instantânea e realiza o ato comunica-
cultura seria um capital pertencente a todos, que a interi- cional exatamente pela captura. Isto não tem nada a ver
orizam através de seus habitus. Conforme sua leitura, com as mediações posteriores que cada um faz com o
Bourdieu consideraria a cultura popular como eco da que obteve da comunicação. É exatamente isso que nos
cultura dominante. falta aos estudos de comunicação.
Contudo, não reconhecemos exatamente onde isso
destoa muito da afirmação anterior de Canclini, de que 5. As televidências de Guillermo Orozco
há coincidências e cumplicidades entre a sociedade ci- Guillermo Orozco segue a trilha iniciada por Martín-
vil e o Estado. Bourdieu sugere que a cultura popular Barbero e se ocupa, principalmente, em reforçar as posi-
não seja, no mais das vezes, de resistência ou impugna- ções deste, especialmente aquelas relativas às media-
ção, mas, antes, adaptativos ao sistema maior que a ções. Lança novos conceitos no campo da comunicação
inclui. Isso não é de todo desprovido de sentido, pois e observa o processo comunicacional a partir de três
sabemos que os temas da cultura popular são tanto dimensões básicas: medium, tecnologia e instituição, que
derivados de sua prática mística, religiosa, cotidiana, fornecem, por sua vez, a qualidade específica de cada
quanto alegorias, jogos, alusões aos reis, aos poderosos dimensão. Assim, temos a “mediacidade” (não en-
da Igreja, aos donos do poder. Canclini reconhece que tendemos porque não se usou da medialidade, de uso
essa dualidade e mesmo essa oposição é enganosa. O corrente na área e mais apropriado em função do
poder, diz ele, não está nos meios massivos, nos organi- adjetivo medial, que se constrói a partir da forma
zadores de festas, nos vendedores de bebidas, artesana- latina medium), a tecnicidade e a institucionalidade.
to ou souvenirs, nos turistas, nos espectadores da comu- Em termos de conceito, lança na área o substantivo
nicação mas é resultado e um tecido complexo e televidência, construção singular, onde pretende substi-
descentralizado, de múltiplos agentes que se combinam. tuir aquilo que no campo da comunicação constitui-se
O problema, diz Canclini, está na incapacidade de as como leitura do discurso televisivo por algo, na sua opi-
esquerdas trabalharem com os meios de comunicação, nião, mais apropriado ao ato de assistir à TV, que se
dizendo haver um verdadeiro divórcio entre as partes. É estrutura no ver. Daí, o termo televidência, como o ato de
preciso que se estabeleça um diálogo com a indústria se assistir à TV, de “telever”, como diz Orozco. Não
cultural, diz ele. Ele reconhece que produtos dessa in- obstante, o neologismo tem suas dificuldades de aceita-
dústria repercutem na base social e alteram seus pa- ção, pois, vidência não é o mesmo que o ato de ver,
drões, que ela trabalha o popular de forma distinta da- derivado do latim vidçre, mas é uma visão sobrenatural
quela como, de fato, as pessoas são e agem, mas diz que de cenas futuras ou cenas que acontecem em lugares

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onde a pessoa não está presente. Neste segundo senti- mas de ensinar o telespectador a desvendar truques,
do, vidência é o mesmo que “ver longe”, portanto, não enxergar as manipulações e os estereótipos, notar as ex-
comporta o prefixo tele-, tornando-se pleonástico. Vidên- clusões, etc. Em suma, praticar a velha e conhecida contra-
cia é presságio, augúrio e remete a universos exotéricos. comunicação dos anos 60 do século passado, leitura a “con-
Mais apropriado, talvez, teria sido a construção de outro tra-pêlo”, em última análise, desmascarar a farsa.
conceito para verbalizar o ato de se assistir à televisão, a Orozco pretende, com tudo isso, tornar evidente às
partir, por exemplo, da raiz grega de ver, o termo thea. pessoas “o que está em jogo”. A isso ele chama de tel-e-
No campo epistemológico, Orozco contrapõe as pes- videnciar : tornar evidente aquilo que não é. Ele insiste
quisas macro-sociais, que remetem à questão das media- que não se trata de doutrinar nem inocular nada mas de
ções, às pesquisas - em sua terminologia - micro-sociais, “colocar as condições para facilitar a análise e a reflexão
ou seja, aquelas que se restringem ao âmbito individual dos sujeitos da audiência, para facilitar sua aprendiza-
dos “sujeitos-audiência”. Contra estas últimas, defende gem televisiva”. Com isso ele pretende literalmente eman-
uma intersecção entre sua teoria da recepção, fundamen- cipar os telespectadores.
tada nas mediações, e o uso de dados empíricos, obtidos Em primeiro lugar, as pesquisas do fenômeno comu-
através da pesquisa de campo. nicacional stricto sensu não são “micro-sociais” como
O primeiro problema das pesquisas “micro”, diz Oro- pretende Orozco, não se restringem a um universo fe-
zco, é o fato de elas serem feitas de forma desvinculada chado, isolado, enclausurado de uma pessoa diante da
das estruturas sociais, de classe e de poder. O segundo é TV. Não existe audiência exclusiva. Todo o processo de
o fato de os estudiosos restringirem o ato da recepção ao comunicação, seja a leitura de um jornal, a assistência
momento em que a pessoa se coloca diante do aparelho de um filme ou de uma telenovela, quer se esteja só ou
de TV. Nesse caso, os estudiosos não estariam vendo acompanhado, será sempre um fenômeno social, não
que o contato diante do aparelho de TV fica muito dimi- “micro-social”. Social em toda sua grandeza, pois
nuído diante do contexto geral ou na vida cotidiana. O incorpora, tanto no ato de ver, ouvir ou ler, quanto no
terceiro, é que esses estudiosos não vêem que a televi- ato de emitir, toda a história de um povo, de um país, de
dência não é apenas um momento mas todo um processo: uma cultura. No momento da comunicação há uma sín-
a pessoa assiste à TV em casa e repercute o que viu em tese de todo universo de sentido.
círculos sociais maiores; lá as apropriações iniciais são Em segundo lugar, Orozco diz que o processo comu-
reapropriadas com a contribuição de outros em certos nicacional não se restringe ao momento da emissão. Nós
contextos, que não apenas contextualizam o que foi co- diremos o contrário: o processo comunicacional é o acon-
municado mas que o conformam em direções definidas tecimento ocorrido no instante – único – da recepção, da
(2000, p. 14). audiência, da leitura, da participação num evento ou
Assim, Orozco vai atrás da audiência pelos seus cená- numa instalação. Ele ocorre ou não ocorre. Não há retar-
rios cotidianos principais para, segundo ele, “entender damentos, não há recuperações tardias, não há conti-
cabalmente o sentido de sua televidência e de sua pro- nuidade. Ou a telenovela me capturou, ou a representa-
dução comunicativa”. Ou seja, os usos coletivos soci- ção teatral me envolveu e me emocionou, ou o filme me
ais são, para ele, o âmbito mais significativo das inte- fez pensar, ou não. Eu não recupero mais tarde aquilo
rações meio-audiência. Assim, as mediações, as fontes que a comunicação não me passou.
de mediações e os cenários não apenas matizam ou Logo, tudo que acontece depois do momento comuni-
influenciam os receptores, elas constituem a parte in- cacional é repercussão, é efeito, é reverberação social do
tegral de sua conformação determinada, diz ele. Os meios fato, não mais minha experiência direta com o vivencia-
de comunicação, desta maneira, são a parte inicial de do. É a racionalização adquirida pós-discussão com os
um processo, espécie de estimuladores, que lançam outros, é nada. O problema dos sociólogos da comunica-
algo como “sementes” que irão germinar mais à fren- ção é que eles jamais vão poder se con centrar no fenôme-
te, com os adubos e a água das relações contextuais. no, na sua realização aqui e agora, na magia de um efeito
A confirmação dessa hipótese viria com a evidência comunicacional; eles irão sempre buscar alcançar os
empírica: não basta rastrear o desdobramento desses efeitos tardios do acontecimento: estarão, portanto, sem-
fatos comunicacionais em cada um quando se coloca pre a posteriori na experiência da comunicação.
diante da comunidade; é preciso obter aquilo que ele Naturalmente, o fato de se pesquisar o fenômeno co-
chama de “evidência específica para cada uma das múl- municacional exige que nos detenhamos no próprio fe-
tiplas interações”. Trata-se, portanto, de confirmação nômeno. As alusões a estruturas sociais, a classe e a
prática das conjecturas de pesquisa. poder cabem, de fato, aos sociólogos, que transformam o
E por que motivo Orozco segue atrás da “apropria- acontecimento vivido em fato social inserido e submeti-
ções”? Porque, para ele, estas serão sempre suscetíveis do a leis outras que já não são mais de comunicação. O
de transformação posterior, quer dizer, há sempre lugar receptor não vivencia nada: assiste, retém essa “matéria
para uma “educação crítica” as tele-audiências . E como prima” e vai expô-la no ambiente social, onde ela então
pretende Orozco educar as pessoas para a televisão? “toma forma”. Sociólogos afastam o acontecimento co-
Ele diz, não se trata de fazê-las desligar o aparelho municacional e operam com aquilo que está no entorno

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dele, as trocas sociais vindas depois do fato. São como os pois, hoje, quem se incomoda com a verdade na TV, com
historiadores, que não estiveram lá presentes e se põem os desvendamentos? Esse foi o tema da “assistência
a investigar, analisar, tirar conseqüências daquilo que crítica” à TV dos anos 70 do século passado. Depois,
passou sem eles. Sociólogos são cultuadores do déjà essas práticas dissolveram-se por si mesmas. Umber-
vu. Perdem o momento, perdem a cena, perdem a pró- to Eco disse: Não, hoje ninguém quer saber se o que
pria comunicação. passa na TV é verdade ou não. Interessa a emoção. Se ela
Orozco acha que o fato de se assistir à TV fica muito for verdadeira, então o programa é bom.
diminuído em relação ao contexto maior em que se dão Sim, porque a TV já não tem mais essa relação com
as interações sociais, que estas são desmesuradamente verdades ou com desvendamentos. Os programas de
maiores do que aquele. Nada justifica essa suposição. deboche riem-se dessa pretensão e mostram produções
Nos atos comunicacionais bem-sucedidos, os impactos absurdas, sarcásticas, ridicularizadoras da própria TV.
e as emoções transmitidas têm condição de interferir nos Não existe mais educação crítica. Desapareceu com as
processos internos de cada um com a mesma magnitude estratégias das oposições extra-parlamentares, com a
e muitas vezes com magnitude maior do que os pro- Nova Esquerda, com os mitos da conscientização e da
cessos sociais, que são gerais, difusos e raramente politização.
atacam aquela questão específica e íntima que o teles- Isso porque ninguém tem a cabeça aberta por trabalhos
pectador sentiu naquele momento da telenovela, que de leitura crítica da TV. Não há porque ensinar as pessoas
o espectador viu naquela cena especial do filme. Por que análise e reflexão diante da TV. Afinal, isso não é uma
os processos difusos, anônimos, geralmente cerceadores prova de filosofia, é audiência e audiência é prazer, é
do social são mais importantes? gozo, é fantasia, é vivência de outros mundos.
Orozco acha que saindo atrás das pessoas e observan- Não é por aí que as coisas têm que mudar. O trabalho
do-as em suas vivências sociais, em suas mediações, irá vem muito antes, no despertar das sensibilidades para o
encontrar respostas ou mais respostas do que estudan- diferente, para o outro, para a alteridade que, sendo
do especificamente o processo comunicacional. Às ve- estranha, pode nos trazer, de fato, novos olhares, novas
zes é, de fato, mais fácil fazer sociologia, entrevistas, percepções, uma nova maneira de encarar o mundo e os
observações participantes, estudos em profundidade do outros. Isso tem um nome: comunicação. Mas, como para
que investigar, de fato, como se dá o acontecimento tele- nossos autores comunicação é outra coisa, acontece fora
visivo. Investigar a comunicação e como ela atinge a de casa, na rua, depois de se assistir aos programas, eles
cada um é infinitamente mais complexo, mais insondá- jamais vão saber do eu estou falando.
vel, mais incapturável do que fazer estudos sociológicos. Afora isso, qualquer coisa que se fizer, seja estudando
Estes operam com grandes números, com avaliações gené- sociologicamente os efeitos retardados da TV nas medi-
ricas, com resultados estatísticos. Não têm nenhum segre- ações, seja buscando a educação crítica das audiências
do, tudo está lá, nas observações, nas declarações, nas redundará na vala comum de uma política ultrapassa-
projeções. Tudo está lá para que a lupa do pesquisador da, fora de moda, nostálgica, do despertar da consciên-
decifre, explique e afirme ex cathedra o que é o processo cia. Os caminhos efetivamente são outros nFAMECOS
comunicacional.
Mas, exatamente por ser mais complexo, esse proces- NOTAS
so tem tão pouca gente dedicada a seu estudo em pro- Notas do Item 1
fundidade. A maioria opta por estudos econômicos, po- Martín-Barbero comenta a Escola de Frankfurt. Para ele im-
líticos, ideológicos, por estudos de mediação e de porta a “totalidade”: “A afirmação da unidade do
repercussões sociais. E nada de novo surge na área. E sistema constitui um dos aportes mais válidos da
nem vai surgir. obra de Horkheimer e Adorno, mas também dos mais
Mas Orozco tem metas pragmáticas em seus estudos polêmicos”. (Martín-Barbero, 1987, p. 54). A Escola
de comunicação. Ele vê o telespectador com alguém que seria “pessimista”: “Uma dimensão fundamental da
pode ser transformado, poder ser educado para a crítica. análise vai acabar findando, assim, bloqueada por
Ele pretende ensinar a todos os usuários de televisão os um pessimismo cultural que levará a carregar a uni-
segredos que essa máquina fabula, as embromações que dade do sistema segundo a ‘racionalidade técnica’,
são feitas diante do telespectador. Sua intenção é fazer fato pelo qual se acaba convertendo em qualidade
de cada membro da audiência um observador crítico da dos meios o que não é senão um modo de uso históri-
mensagem, um assistidor esperto da televisão, que não co”. (Martín-Barbero, 1987, p. 55). Em Walter Benja-
vai mais se deixar levar pelas manipulações do telejor- min, a dispersão seria “progressista”: “(...) com o qual
nal, da telenovela, quiçá da transmissões esportivas e afirmava-se uma nova relação da massa com a arte,
musicais. com a cultura, na qual a distração é uma atividade e
Temos aí a ressurreição do esclarecedor popular, do uma força da massa frente ao degenerado recolhi-
homem que sabe das coisas e que irá passá-las ao públi- mento da burguesia”. (Martín-Barbero, 1987, p. 67).
co. Ele vai televidenciar aquilo que a TV não quer mos-
trar. Mas tudo isso tem um ar francamente nostálgico, Sobre Bakhtin e o carnavalesco: riso, vitória sobre o medo.

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Martín-Barbero, Canclini, Orozco: os impasses de uma teoria da comunicação latino-americana • 69 – 85

“O riso popular é, segundo Bakhtin, ‘uma vitória tica mais formidável dos últimos anos: a nova con-
sobre o medo’, já que nasce justamente de tornar cepção de poder elaborada por Michel Foucault.
risível, ridículo, tudo o que dá medo, especialmente o Embora esta concepção ultrapasse os limites deste
sagrado. (Martín-Barbero, 1987, p. 89) debate, é sumamente pertinente, sem dúvida, o modo
como ele leva a cabo a releitura das relações entre
Sobre Gramsci e a hegemonia. [Para Gramsci] ...não há cultura e política”. (Martín-Barbero, 1987, p. 76)
hegemonia, “(...)ela se faz e se desfaz, se refaz perma-
nentemente num ‘processo vivido’, feito não só de A relalção Eu-Tu como “negatividade” em Martín-Barbero.
força mas também de sentido, de apropriação do “Linha de reflexão que continuará Adorno alguns
sentido pelo poder, de sedução e de cumplicidade”.(...) anos depois, em sua valente crítica da ‘ideologia da
“E, em segundo lugar, [há] o conceito gramsciano de autenticidade’ – nos existencialistas alemães, espe-
folclore como cultura popular no sentido forte, isto é, cialmente em Heidegger – desmascarando a preten-
como ‘concepção do mundo e da vida’, que se acha são de uma existência salva da chantagem e da cum-
em contraposição (essencialmente implícita, mecâ- plicidade, de uma existência constituída por um encontro
nica, objetiva) às concepções de mundo oficiais (ou, que para escapar à comunicação degradada conver-
em sentido mais amplo, às concepções de setores te ‘a relação eu-tu no lugar da verdade’.”(Martín-
cultos da sociedade), surgidos com a evolução histó- Barbero, 1987, p. 55). Ver também: Arte como lugar de
rica”. (Martín-Barbero, 1987, p. 100). Hegemonia acesso à verdade da sociedade. “Mas aí não estaremos
como modelo antimaniqueista: “(...) olhar o popular muito perto, a partir da arte, daquela transcendência
a partir da óptica gramsciana é totalmente o contrá- que Heidegger, Jaspers e outros haviam acreditado
rio do “facilismo” maniqueísta que critica García encontrar na autenticidade do encontro do eu-tu?”
Canclini. Se alguma coisa ele nos ensinou, foi prestar (Martín-Barbero, 1987, p. 59)
atenção na trama: que nem toda assunção do hege-
mônico pelo subalterno é sinal de submissão, [as- Sobre o Item 2
sim] como o mero rechaço não é de resistência e nem Martín-Barbero, sociólogo da comunicação. “A obra de Mar-
tudo que vem ‘de cima’ são valores da classe domi- tín-Barbero atravessa várias disciplinas. Posto que
nante, pois há coisas que vindas de lá respondem a desloca a análise dos meios às mediações sociais,
outras lógicas que não são as da dominação”. (Mar- não é só um texto de comunicação”. [Canclini: “Pró-
tín-Barbero, 1987, p. 102-3). logo”, in Martín-Barbero, 1987, p. xxiv].

Gramsci e a configuração particular do Estado no Ocidente: Sai da comunicação e vai para a “mediação”. “Por isso, em
“A sociedade civil desempenha aí um papel decisivo lugar de fazer partir a investigação da análise das
em relação à sociedade política: a hegemonia ideoló- lógicas da produção e da recepção para buscar depois
gica e social triunfa, em tempo normal, sobre a domi- suas relações de imbricação e enfrentamento, propo-
nação política e militar. A luta pela derrubada do mos partir das mediações, isto é, dos lugares de onde
bloco social dominante passa, assim, por uma difícil provêm as constrições que delimitam e configuram a
‘guerra de posições’, em que é preciso conquistar as materialidade social e a expressividade cultural da
diferentes ‘casamatas’ [bunkers] da sociedade civil, televisão”. (Martín-Barbero, 1987,
mais do que por uma ‘guerra de movimento’ como no p. 298). Desloca-se o campo para a cultura: “(...) do que
Oriente (Rússia), onde a sociedade política (admi- tratamos é retirar o estudo da recepção do espaço
nistração, exército, polícia) constitui o essencial do demarcado por uma comunicação pensada em ter-
Estado. Esta complexidade de superestruturas no mos de mensagens que articulam, de efeitos e rea-
Ocidente, se ela faz crescer a autonomia do político, ções, para realocar sua problemática no campo da
não questiona jamais a necessidade de uma concen- cultura: dos conflitos que articula a cultura, das mes-
tração de forças das ‘classes subalternas’. (...) Suas tiçagens que a tecem e dos anacronismos que as
Notas sobre Maquiavel propõem ao partido comunista sustêm, e, por último, do modo em que trabalha a
trabalhar para se tornar o ‘Príncipe moderno’ (...) [o hegemonia e as resistências que mobiliza, do resgate,
que] conduz Gramsci a propor uma fórmula radical portanto, dos modos de apropriação e réplica das
para substituir a corrente que pretendia, ela também, classes subalternas”. (Martín-Barbero, 1987, p. 307).
apresentar-se como fundadora de um Estado e de “(...) O artifício consiste em nos darmos conta de que
uma Ordem ‘nova’, o fascismo; mas, uma tal referên- a verdadeira proposta do processo de comunicação e
cia, contudo, não está isenta de uma certa ambigüi- do meio não está nas mensagens, mas nos modos de
dade totalitária”. Portelli, Hugues, Dictionnaire des interação que o próprio meio – como muitos os apa-
Philosophes, Paris, Albin Michel, 1998, p. 637. ratos que compramos e que trazem consigo seu ma-
nual de uso – transmite ao receptor. Sabemos que o
Sobre Foucault: a noção de poder. “E aí, a reflexão os situa- consumidor não somente crê, mas é com base nos
cionistas convergirá sobre a trepidação teórico-polí- modos de uso que esses aparatos são socialmente

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reconhecidos e comercialmente legitimados”. [Mar- se mais necessário do que nunca manter a epistemo-
tín-Barbero, 1995, p. 57] lógica e politicamente estratégica tensão entre as me-
diações históricas que dotam de sentido e alcance soci-
Comunicação como recepção e como resistência. “Foi assim al aos meios e o papel de mediadores que esses podem
que a comunicação se tornou, para nós, questão de estar desempenhando hoje.” (Martín-Barbero, 1987,
mediações mais do que de meios, questão de cultura e, p. xii)
portanto, não só de conhecimentos senão de re-co-
nhecimentos. Um reconhecimento que foi, de início, Mediações: a assincronia; o “residual”. “Essa é a primeira
operação de deslocamento metodológico para re-ver mediação fundamental: a heterogeneidade de tem-
todo o processo da comunicação a partir do outro poralidades.” [Martín-Barbero, 1995, p. 44]. (...) [Há
lado, o da recepção, o das resistências que aí aconte- formações culturais arcaicas, residuais e emergen-
cem, o da apropriação dos usos”. (Martín-Barbero, tes, cf. Raymond Williams].”Isto é, há formações cul-
1987, p. xxvii). turais arcaicas que celebram o passado, mas um pas-
sado que já não tem a ver com o presente, somente em
Mediações e sujeitos. “Investigá-los [processos de consti- termos de análise especializada ou em termo de cele-
tuição do massivo] a partir das mediações e dos bração política. A formação residual é aquele passa-
sujeitos, isto é, a partir da articulação entre práticas do que está vivo, não aquele que celebramos; é aquele
de comunicação e movimentos sociais”. (Martín-Bar- de que somos feitos, que configura realmente nossa
bero, 1987, p. xxix). A redescoberta do popular: articula- memória como grupo que tem, neste momento, que
ções e mediações: escapar de viver, de ter sentido na vida.” [Martín-
(...) nos últimos anos, abre caminho outro projeto Barbero, 1995, p. 44]. Assincronia: “recombinar memóri-
ligado estreitamente ao redescobrimento do popular, ao as”. “Desde aí faz-se perceptível a não-contemporanei-
novo sentido que essa noção hoje cobra: revalorização dade do simultâneo, isto é, a vivência de ‘destempos’
das articulações e mediações da sociedade civil, senti- [destiempos] na modernidade, que não são pura ana-
do social dos conflitos mas além de sua formulação e cronia senão resíduos não integrados de uma econo-
sintetização política e reconhecimento das experiênci- mia e uma cultura outras que ao transformar a ordem
as coletivas não-enquadradas em formas partidárias. seqüencial do progresso libera nossa relação com o
(Martín-Barbero, 1987, p. 287) passado, com nossos diferentes passados, permitin-
do-nos recombinar memórias e nos reapropriarmos
A hegemonia que “nos ensina como pensar”. [A luta através criativamente de uma descentrada modernidade.”
das mediações] “... é a única garantia de não passar- [Martín-Barbero, 1999, p. 26-7].
mos do simulacro da hegemonia ao simulacro da
democracia: evitar que uma dominação derrotada Comunicação vem da memória. “[Diante da precedência do
ressurja nos hábitos cúmplices que a hegemonia ins- global e do local...] O nacional na cultura acaba sen-
talou em nosso modo de pensar e de nos relacionar- do um âmbito rebaixado em ambas as direções. O
mos”. N. G. Canclini, citado por Martín-Barbero em que não significa que culturalmente tenha deixado
Martín-Barbero, 1987, p. 292. de haver vigência; a de uma mediação histórica da
memória ampla dos povos, essa precisamente que
Mediações: [Busca-se uma crítica, fato esse] (...) que, tras- torna possível a comunicação entre as gerações.”
ladado a nosso terreno, significa a necessidade de [Martín-Barbero, 1999, p. 32]. “(...) essa cumplicida-
uma crítica capaz de distinguir a indispensável de- de entre oralidade e visualidade não remete aos exo-
núncia da cumplicidade da televisão com as mani- tismos de um analfabetismo terceiro-mundista se-
pulações do poder e os mais sórdidos interesses mer- não à ‘persistência de estratos profundos da memória
cantis – que seqüestram as possibilidades e da mentalidade coletiva trazidos à superfície pelas
democratizadoras da informação e as possibilida- bruscas alterações do tecido tradicional que a pró-
des de criatividade e de enriquecimento cultural, re- pria aceleração modernizadora comporta’ “(G. Mar-
forçando preconceitos racistas e machistas e conta- ramao). [Martín-Barbero, 1999, p. 34]. “Duplo e im-
giando-nos com a banalidade e a mediocridade que bricado movimento [de intertextualidade e de
apresenta a imensa maioria da programação – do intermedialidade] que nos está exigindo substituir o
lugar estratégico que a televisão ocupa nas dinâmicas da lamento moralista por um projeto ético: o do fortale-
cultura cotidiana das maiorias, na transformação das cimento da consciência histórica, única possibilida-
sensibilidades, nos modos de construir imaginários de de uma memória que não seja mera moda retrô
e identidades. [Martín-Barbero, 1999, p. 18]. nem evasão das complexidades do presente.” [Mar-
tín-Barbero, 1999, p. 47]. Fantasmas e almas. “(...) a
As mediações: as históricas. “É este último projeto, o hege- recuperação dos mais antigos e tradicionais relatos
mônico, que nos faz submergir em uma crescente sobre terror e mistério, fantasmas, almas e ressuscita-
onda de fatalismo tecnológico e frente ao qual torna- dos, sobre imagens satânicas e corpos possuídos, em

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Martín-Barbero, Canclini, Orozco: os impasses de uma teoria da comunicação latino-americana • 69 – 85

‘tenaz mistura’ com os relatos procedentes da cultu- sabe que o sentido dela tem muito mais a ver com a
ra afro-cubana, da mídia, do rock, do merengue, do circulação da significação do que com a significação
cinema e do vídeo. Evocadores de ‘mapas do mun- do texto. É contando a telenovela uns aos outros que
do’, esses relatos e lendas, combinados ecleticamen- se constrói o seu sentido”. [Martín-Barbero, 1995, p.
te, transformam-se em criadores de ‘um território sen- 58]
sorial comum’ para exprimir emoções, em imagens
reivindicadoras das façanhas não santificadas dos “Não é certo que cada um lê o jornal como quer”. “Estamos
seus heróis, conseguindo certa coerência moral e es- discutindo outro modo de ver a comunicação, esta-
tabilidade para umas vidas envolvidas em turbulen- mos propondo que o processo de recepção é um pro-
tos remoinhos de insegurança e de medos.” [Martín- cesso de interação; na expressão dos italianos, é um
Barbero, 2007. P. 38] processo de negociação do sentido. Não há comuni-
cação se cada um ler no jornal o que lhe der na
Telejornal como ficção e telenovela como realidade. “Enquan- cabeça. Dão-se outras coisas: neuroses, histerias, mas
to nos noticiários, o vedetismo político ou fraudulen- não um processo de comunicação. Nesse ponto, não
to se faz passar por realidade, ou, pior ainda, trans- podemos cair em extremos. O primeiro extremo é:
muta-se em hiper-realidade – essa que nos escamoteia quem sabe o que se passa na comunicação é o emis-
a empobrecida e dramática realidade que vivemos -, sor. Há que estudar as intenções do emissor, se são
nas telenovelas e nos [programas] dramatizados se- manipulatórias ou ideológicas. Nem podemos ficar
manais é onde se torna possível representar a histó- no extremo de pensar que o receptor faz o que quer
ria (com minúsculas) do que acontece, suas misturas com a mensagem.” [Martín-Barbero, 1995, p. 57-58].
de pesadelo com milagres, as hibridações de sua O receptor também é produtor de sentido. “ Evidente-
transformação e seus anacronismos, as ortodoxias mente, [ela, a concepção tipo “modelo mecânico”]
de sua modernização e os desvios de sua moderni- está sustentada em uma epistemologia condutista,
dade.” [Martín-Barbero, 1999, p. 132] segundo a qual a iniciativa da atividade comunicati-
va está toda colocada no lado do emissor, enquanto
Matrizes culturais: o popular dentro da cultura de massas. do lado do receptor a única possibilidade seria a de
“Uma expressão deformada, funcionalizada mas reagir aos estímulos que lhe envia o emissor. Essa
capaz, sem dúvida, de ativar uma memória e de concepção epistemológica condutista realmente faz
pô-la em cumplicidade com o imaginário de mas- da recepção unicamente um lugar de chegada e nun-
sa. O que ativa essa memória não é da ordem dos ca um lugar de partida, isto é, também de produção
conteúdos nem sequer dos códigos, é da ordem das de sentido – o sentido que estava abolido pela signi-
matrizes culturais.” (Martín-Barbero, 1987, p. 321). ficação apenas transmitida ou pelos estímulos que
ela comportava.” [Martín-Barbero, 1995, p. 41].
Sobre o compromisso ético da civilização. “A história tem a
carga dos mortos de ontem, da qual nós somos os Telenovela: a vingança das massas. “[O capitalismo aboliu
herdeiros. A operação histórica, toda ela, pode então a socialidade das ruas e da casa, tornou-a
ser tomada como um ato de sepultura. Não um lugar, anacrônica] (...) Mas essa anacronia é preciosa. É ela
um cemitério, simples depósitos de ossos, mas um que, em ‘última instância’, dá sentido hoje ao melo-
ato renovado de pôr no túmulo. Esta sepultura pela drama na América Latina (...), a que permite mediar
escrita prolonga no plano da história o trabalho de entre o tempo da vida, isto é, de uma socialidade
memória e o trabalho de luto. Este último separa defini- negada, economicamente desvalorizada e politica-
tivamente o passado do presente e dá lugar ao futuro. mente desconhecida, mas culturalmente viva, e o
O trabalho de memória teria atingido seu objetivo se a tempo do relato, que a afirma e faz possível, às
reconstrução do passado conseguisse suscitar um tipo classes populares, reconhecerem-se nela. E, a par-
de ressurreição do passado. Será que seria preciso tir dela, melodramatizando tudo, vingar-se à sua
deixar aos únicos concorrentes, confessos ou inconfes- maneira, secretamente, da abstração imposta pela
sos, de Michelet a responsabilidade desta promessa mercantilização à vida, da exclusão política e da
romântica? Não é ambição de todo historiador atingir, despossessão cultural.” (Martín-Barbero, 1987, p.
por trás da máscara da morte, o rosto daqueles que 314).
outrora existiram, agiram e sofreram, e cumprir as pro-
messas que eles deixaram irrealizadas?”. Paul Ricœur, A produção comum de sentido. “[Raúl Fuentes] ...coloca
“Reconnaître le souvenir, connaître le passé”. Le como chave de compreeensão [da comunicação] a
Monde des Débats, setembro de 2000, p.24-25. pista habermasiana: ‘a produção comum de sentido,
mecanismo fundamental da socialidade humana, se
Sobre o Item 3 vê forçada a operar instrumentalmente’. À qual acres-
Conceito de comunicação: contar telenovela constrói “outro” centa, com justiça, aquilo que, de modo imperdoável,
sentido. “ Quem levou anos investigando a telenovela Habermas deixou de fora: a cada dia mais complexa

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mediação da tecnologia comunicativa nas interações ver no consumo o eco dócil do que a política cultural
sociais.” [Martín-Barbero, 2000, p. 11-12]. Sentido ou alguma manipulação perversa quer fazer com o
como “mundo vivido”. público, é preciso analisar como sua própria dinâmi-
ca conflitiva acompanha e reproduz as oscilações do
“Eu creio que precisamos repensar a produção coti- poder. Não é feita a hegemonia desse tipo de coinci-
diana de sentido. E sentido significa, antes de tudo, dências e cumplicidades entre a sociedade e Estado,
sentidos: de ver, de gostar, do fato, do ruído, sensibi- mais que das imposições deste em relação àquela?(...)
lidades. O que é isto, chamado de sentido comum? Não seria essa cumplicidade (...) um dos segredos cul-
Há um sentido em comum? (...) Resgatar o sentido turais da estabilidade do regime político?” [Canclini,
comum é resgatar esse viver cotidiano como espaço 1989, p. 153].
de produção de conhecimento e como espaço de pro-
dução e troca de sensibilidade.” [Martín-Barbero, Sobre a exploração populista do conceito do “popular”. “O
1995, p. 60] povo começa a existir como referente do debate mo-
derno no fim do século XVIII e início do XIX, pela
O modelo condutista separa emissor de receptor. “O modelo formação na Europa de Estados nacionais que trata-
condutista exigia, como condição de rigor e de verda- ram de abarcar todos os estratos da população.”
de, a separação radical entre como se estuda o emis- [Canclini, 1989, p. 208]. “Junto ao positivismo e ao
sor, a mensagem e o receptor prevendo quais disci- messianismo sociopolítico, a outra característica da
plinas estudariam cada uma dessas etapas.” tarefa folclórica é a apreensão do popular como tra-
[Martín-Barbero, 1995, p. 42] dição. O popular como resíduo elogiado: depósito de
criatividade camponesa, da suposta transparência
Sobre a questão das identidades, do sujeitos e dos agentes. “A da comunicação cara a cara, da profundidade que se
argumentação de Fuentes é decisiva: se a comunica- perderia com as mudanças ‘exteriores’ da moderni-
ção social diferencia-se da informação em sua im- dade.” [Canclini, 1989, p. 209].
possível redução ao intercâmbio de mensagens, pois
o que constitui sua especificidade sociocognitiva Popular como fetiche positivista. “O folk é visto, de forma
é a produção em comum de sentido, então, neces- semelhante à da Europa, como uma propriedade de
sitamos deslocar ‘epistemológica e metodologica- grupos indígenas ou camponeses isolados e auto-
mente o foco da análise comunicativa’: a) para a suficientes, cujas técnicas simples e a pouca diferen-
institucionalização discursiva, político-econômi- ciação social os preservariam de ameaças modernas.
ca e legal da interação social (...); b) na direção da Interessam mais os bens culturais – objetos, lendas,
construção de identidades sociais dos sujeitos músicas – que os agentes que os geram e consomem.
enquanto ‘agentes’ das interações comunicativas”. Essa fascinação pelos produtos, o descaso pelos pro-
[Martín-Barbero, 2000, p. 12] cessos e agentes sociais que os geram, pelos usos que
os modificam, leva a valorizar nos objetos mais sua
Uma comunicação atende ao público estressado, outra quer repetição que sua transformação.” [Canclini, 1989,
orientá-lo. “E os meios de comunicação trabalham p. 211]. “O folclore (...) é quase sempre uma tentativa
fundamentalmente para essa imensa massa de gente melancólica de subtrair o popular à reorganização
cansada, estressada, enquanto outro tipo de comuni- massiva, fixá-lo nas formas artesanais de produção e
cação e informação vai por outro lado, para poder comunicação, custodiá-lo como reserva imaginária
realmente dirigir, orientar essa sociedade para tomar de discursos políticos nacionalistas.” [Canclini, 1989,
decisões.” [Martín-Barbero, 1995, p. 45-46] p. 213]. Popular e folclore como estratégias populistas
(devolver a fala ao povo). “Duas características cen-
“Não considerar as mediações é fazer o jogo hegemônico”. trais de sua prática simbólica [dos estudos sociológi-
“(...) O paradigma hegemônico sustenta-se em uma cos e políticos] interessam aqui: seu projeto de mo-
fragmentação do processo (...) [que] homologa o pro- dernizar o folclore convertendo-o em fundamento da
cesso da comunicação ao de transmissão de uma ordem e, ao mesmo tempo, reverter a tendência de
informação, melhor dito, reduz aquele a este. Daí fazer do povo um mero espectador.” [Canclini, 1989,
converte em verdade metodológica a separação entre p. 264]. Os centros populares de cultura permanecem no
a análise da mensagem – seja a análise de conteúdo micro-social. “(...) o recorte microssocial de suas análi-
ou de expressão, de estruturas textuais ou operações ses comunitárias ou suburbanas, ou de práticas coti-
discursivas – e a análise da recepção, concebida pla- dianas, desvinculadas da rede de macrodetermina-
na ou sofisticadamente como indagação acerca dos ções que os explicam, impede-os de explicar a
efeitos ou da reação.” (Martín-Barbero, 1987, p. 284). reestruturação do popular na época das indústrias
culturais. Levar à cena esses atores ‘de base’, como se
Sobre o Item 4 fossem autônomos e alheios às estruturas macrosso-
Sobre a recepção: cumplicidade com o Estado. “Em lugar de ciais, inibe toda a problematização sobre as condi-

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Martín-Barbero, Canclini, Orozco: os impasses de uma teoria da comunicação latino-americana • 69 – 85

ções de legitimidade e validade do conhecimento que esperamos da esquerda e da democracia se pare-


popular.(...) Supõem que dar-lhes a palavra é sufici- ce com o que pedimos aos meios de comunicação:
ente para que emerja um saber verdadeiro sobre eles.” personagens verossímeis, não uma grande história,
[Canclini, 1989, p. 271] mas um relato atrativo que ajude a entender ao mes-
mo tempo as intrigas do universo e do cotidiano, e
A reinvenção de Gramsci. “Com o fim de refundamentar a sobretudo um pouco de prazer, se possível fora da
noção de popular, recorreu-se à teoria da reprodução tela.” [Canclini, 1998, p. 36]
e à concepção gramsciana de hegemonia.” [Canclini,
1989, p. 273]. Ou então: “a classe que, ainda que Crítica à metodologia da esquerda. “Esquerdas não enten-
dirija política e ideologicamente a reprodução, tem dem a comunicação. (...) é impossível escrever uma
que tolerar espaços onde os grupos subalternos de- telenovela sobre as relações entre a esquerda e as
senvolvem práticas independentes e nem sempre fun- indústrias culturais.” [Canclini, 1998, p. 5]. E tam-
cionais para o sistema)”. [Canclini, 1989, p. 273]. bém: “(...) não encontro figura mais eloqüente que o
afastamento de meio século entre os dois divorcia-
A crítica a Bourdieu: “A cultura seria um capital perten- dos para dizer de forma gráfica que a falta de víncu-
cente a toda a sociedade e que todos interiorizam los entre a esquerda e a indústrias culturais se tor-
através dos habitus. (...) desenvolvida em relação a nou crônica e, por hora, irremediável.” [Canclini,
um mercado simbólico altamente unificado – a soci- 1998, p. 6]
edade francesa -, a teoria reprodutiva considera a
cultura popular como um eco da dominante. (...) os Não sabemos como rebatem produtos da indústria cultural no
comportamentos das classes populares não são mui- público.“Há décadas, mesmo que só agora nos demos
tas vezes de resistência ou de impugnação, mas adap- conta, os nexos entre os meios e cultura popular
tativos a um sistema que os inclui.” [Canclini, 1989, p. fazem parte de estruturas mais amplas de interação
274]. Diz Canclini: “(...) não existe tal unificação cultu- social.” [Canclini, 1989, p. 262]. Os produtos da co-
ral, nem as classes dominantes tão eficazes para eli- municação repercutem na base social e altera seus
minar as diferenças e subordiná-las.” [Canclini, 1989, padrões, mas “(...) sabendo que as comunicações
p. 274] massivas põem em cena de um modo diferente o
popular, ignoramos quase tudo sobre o modo como
Rebeldia popular como algo epidérmico. “Mesmo os protes- os setores populares assumem essa transformação.”
tos contra essa ordem [social] são feitos usando uma [Canclini, 1989, p. 263].
língua que não escolhemos, manifestando-se em ruas
ou praças que outros projetaram. Por mais usos trans- Como artistas conseguem comunicar? “‘Estamos nos dan-
gressores que se façam da língua, das ruas e das do ao luxo de viver cada momento por sua qualidade
praças, a ressignificação é temporária, não anula o única. A improvisação não é histórica’, declara Pax-
peso dos hábitos com que reproduzimos a ordem ton, um dos maiores realizadores de performances.
sociocultural, fora e dentro de nós.” [Canclini, 1989, Mas como passar, então, de cada explosão íntima e
p. 347] instantânea ao espetáculo, que supõe algum tipo de
duração ordenada das ima
Festas populares: nem poder, nem massas mas “tudo mistura- gens e diálogo com os receptores? Como ir dos enuncia-
do”. “Onde reside o poder: nos meios massivos, nos dos soltos ao discurso, dos enunciados solitários à
organizadores das festas, nos vendedores de bebi- comunicação?” [Canclini, 1989, p. 48]
das, artesanato e souvenirs, nos turistas e espectado-
res dos meios de comunicação que se deixassem de Falta pesquisar a qualidade da comunicação. “É difícil saber
se interessar desmoronariam todo o processo? Claro que serviços a cultura presta à hegemonia com a
que as relações não costumam ser igualitárias, mas é escassa informação disponível sobre consumo cul-
evidente que o poder e a construção do acontecimen- tural nos países latino-americanos. Conhecemos as
to são resultado de um tecido complexo e descentra- intenções das políticas modernizadoras, mas há pou-
lizado de tradições reformuladas e intercâmbios mo- quíssimos estudos a respeito de sua recepção. Exis-
dernos, de múltiplos agentes que se combinam.” tem estatísticas de freqüência de público em algumas
[Canclini, 1989, p. 262]. instituições e pesquisa de mercado dos meios massi-
vos. Nem as instituições nem a mídia costumam ave-
A esquerda divorciou-se dos meios de comunicação. [É preci- riguar quais os padrões de percepção e compreensão
so] “uma revisão radical de seu divórcio com os a partir dos quais seus públicos se relacionam com
meios de comunicação. A esquerda, e em geral os os bens culturais; menos ainda, que efeitos geram em
movimentos democráticos, terão algo a dizer para a sua conduta e em sua cultura política.” [Canclini,
sociedade se conseguirem investigar como estabele- 1989, p. 140]. “(...) o museu e a mídia, o Estado e as
cer um diálogo com a indústria cultural. Afinal, o empresas privadas avaliam seus resultados median-

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Ciro Marcondes Filho • 69 – 85

te a quantificação de seus públicos e quase nunca não um processo, faz-se imprescindível explorar e
realizam estudos qualitativos sobre o modo como recolher evidências diversas no cenário familiar,
suas mensagens são recebidas e processadas.” [Can- social de bairro, pelo menos.” [Orozco, 2000,
clini, 1989, p. 156]. p.114]. Valem os usos “sociais”: “Tampouco se tra-
taria somente de enfatizar que, mais que as ‘grati-
Sobre o Item 5 ficações’ individuais perseguidas pelos membros
Sobre o termo “televidência”. “O entendimento generaliza- da audiência, a partir da América Latina compro-
do mas impreciso de ‘leitura’, empregado em muito vou-se que são os ‘usos coletivos, sociais’ o âmbito
da literatura internacional para referir-se à atividade significativo das interações meios-audiências.” (cf.
da audiência frente a qualquer um dos meios (...) é, de Martín-Barbero e Muñoz) [Orozco, 2000, p.111]. A
todos os modos, insustentável em uma perspectiva agência é o “meio”.
integral, mas, por sua vez, distintiva do meio televisi- “Faz-se necessário e urgente compreender que tanto
vo que busque compreender mais a fundo os proces- as ‘mediações’ como as ‘fontes de mediações’ e os
sos que têm lugar frente à TV (e/ou cada um dos ‘cenários’ por onde transcorrem os processos de tele-
meios). A TV não se lê, se ‘televê’, o rádio se escuta, o vidência não somente matizam ou influenciam mas
cinema se ‘cinevê’ e o impresso é o único que de lê.” também constituem parte integral de sua conforma-
[Orozco, 2000, p.113] ção determinada e, portanto, de sua explicação e da
definição da audiência como conjunto de sujeitos
Múltipla mediação: mediação + dados empíricos. “(...) inter- sociais, cuja agência comunicativa estimulada espe-
secção entre a teoria existente da recepção e, em par- cificamente por um meio também específico, mani-
ticular, a teoria das mediações, e dados empíricos, festa-se dentro e fora de sua vinculação direta com
dentro de um esforço cumulativo e crítico enfocado esse meio, mas sempre em referência a ele.” [Orozco,
em propor e associar categorias específicas de análi- 2000, p.111]
se.” [Orozco, 2000, p.111]
Um método positivista. “Por outra parte, explorar o pro-
Contra os estudos “micro-sociais”. “Também criticou-se o cesso de televidência supõe, além de segui-la em seu
caráter ‘micro’ que predomina nos estudos de recep- cenários usuais para o tipo de audiência específica
ção e especialmente a tendência a desvinculá-los das de que se trate, obter evidência específica para cada
estruturas sociais, da classe e do poder.” [Orozco, uma das múltiplas interações que têm lugar em cada
2000, p.111]. Não se pode ficar reduzido à sala da TV: um deles, entre a audiência e a TV.” [Orozco, 2000, p.
“Tradicionalmente esses reducionismos desemboca- 114]
ram numa confusão que consiste em assumir que o
processo de recepção televisiva ou ‘televidência’ é A “educação das audiências”. “As apropriações que os
somente aquele que se realiza em frente ao televisor. membros da audiência fazem dos referentes televisi-
Esta compreensão reducionista e sumamente limita- vos devem entender-se sempre como suscetíveis de
da levou, por uma parte, a que o debate internacional transformação posterior. Isso supõe que nenhuma
explorasse inadequadamente a evidência empírica, apropriação televisiva é final, já que pode e de fato se
explorando somente parte dela: aquela que se refere modifica ao longo do processo, que tampouco se
à sala de se assistir TV, enquanto mantém-se o conta- inicia ao ligar-se o televisor nem termina ao desligá-
to direto das audiências com o televisor. Por outra lo, mas transcende o contato direto com o referente.
parte, e com a intenção de transcender o mero conta- Esta compreensão supõe que sempre há lugar para
to direto com a TV, realizaram-se estudos culturais uma educação crítica das teleaudiências, mas, sobre-
em que se busca transcender o mero contato com a tudo, também supõe que o contato com o referente se
TV mas considerando que esse contato fica diminuí- mantenha de diversas maneiras.” [Orozco, 2000, p.
do no contexto mais geral ou na vida cotidiana, dilu- 116]. E também: “Uma desconstrução televisiva a par-
indo-se assim a especificidade do meio televisivo e tir das instituições educacionais e culturais deveria
sua mediação particular.” [Orozco, 2000, p.113] trazer aos sujeitos-audiência critérios não para des-
ligar o televisor ou ‘ficar com o troco’, mas para
Estudos “macro” e sua tendência sociológica. “O esforço serem mais seletivos em suas televidências e para
implícito nesta compreensão da televidência é que, explorá-las e explorar-se através delas e assim ‘dar o
de acordo com a forma como se trate o segmento da troco’. Deveria proporcionar uma alfabetização em
audiência objeto do estudo, é necessário acompa- linguagem da imagem, que lhes permita ‘ver’ suas
nhar a audiência por seus cenários cotidianos prin- manipulações e estereótipos, ‘escutar’ seus silênci-
cipais para entender cabalmente o sentido de sua os, ‘notar’ suas exclusões e, em última instância,
televidência e sua produção comunicativa. Seguin- ‘tomar distância’ da programação. Deveria educar
do com a audiência infantil, ser coerente com a sua percepção das formas e formatos televisivos, de
premissa da televidência não é um momento se- seus fluxos e suas tentativas de sedução.” [Orozco,

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Martín-Barbero, Canclini, Orozco: os impasses de uma teoria da comunicação latino-americana • 69 – 85

2001, p. 103]. “Mais que construir ofertas programá- ___. [1995]. “América Latina e os anos recentes: o
ticas educacionais (legítimas e bem-vindas) [trata-se estudo da recepção em comunicação social”. In:
de] ‘tornar evidente’ às audiências o que está em jogo Souza, Mauro Wilton de (Org). Sujeito, o lado
e criar os espaços de aprendizagem propícios para oculto do receptor. São Paulo: Brasiliense, 1995.
lográ-lo.” [Orozco, 2001, p. 104]
___. [2007]. “Novas visibilidades políticas da ciade e
Tel-e-videnciar: tornar evidente, “educar”. “Por tel-e-viden- visualidades narrativas da violência”. In:
ciar entende-se justamente isso: tornar evidente aquilo MATRIZES, Ano 1, Nr. 1, São Paulo, ECA/USP.
que não é, tanto na televisão como no caso das intera-
ções ou televidências que com ela entabulam suas OROZCO G., Guillermo [2000]. “Televidencias, uma
audiências. Não se trata de doutrinar ou inocular, perspectiva epistemológica para el análisis de
tampouco de reprimir, proibir ou simplesmente criti- las interacciones com la televisón”. In: Orozco
car. Trata-se, sim, de colocar as condições para facili- G., Guillermo (Org.). Lo viejo y lo nuevo.
tar a análise e a reflexão dos sujeitos da audiência e Investigar la comunicación em el siglo XXI.
para facilitar, em última instância, sua aprendiza- Madrid, Ediciones de la Torre, 2000.
gem televisiva./ Para tel-e-videnciar tem que se par-
tir dos sujeitos e de seus contextos particulares, não ___. [2001]. Televisión, audiencias y educación. Buenos
da televisão. A intenção, então, não é ajuizadora [de Aires, Norma, 2001.
tecer juízos] mas emancipatória, e traz como com se-
qüência uma atitude de descoberta, problematizado-
ra e lúdica mas analítica, que a partir de exercícios
sistemáticos vai possibilitando encontros. Em pala-
vras simples, esta estratégia se resumiria em brincar
‘a’ televisão, brincar ‘com’ a televisão e brincar ‘a par-
tir dela’ ou ‘a propósito dela’.” [Orozco, 2001, p. 107].

REFERÊNCIAS
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Estratégias para entrar e sair da modernidade. Trad.
Ana Regina Lessa e Heloisa Pezza Cintrão. 2ª.
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para o desenvolvimento. Uma base de dados para a
cultura. Brasília, UNESCO, 2003.

MARTÍN-BARBERO, Jesús [1987]. De los medios a las


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