Você está na página 1de 410

c m B

E FILOSOFlA

íma

Karl R. Popper
PÓ S-ESCRITO À LÓGICA DA DESCOBERTA C IEN TÍFICA
volume I

E O GB1ECTF/O
DA CIÊNCIA

18750

QUIXO t
«As id é ia s de P op p er c o n s titu e m o m a is
im p o r ta n te d e s e n v o lv im e n to d a filo s o fia
do s é c u lo x x » .
Im r e L a k a to s

O R e a lis m o e o G b je c tiv o d a C iên cia é o


p r im e iro v o lu m e de u m a tr ilo g ia de K arl
R . P op p er, o P ó s -E s c r ito à L ó g ic a da
D e s c o b e r ta C ie n tífic a , q u e, em b o ra
e s c r ito , c o n h e c id o e m u ito d eb a tid o em
c ír c u lo s e s p e c ia liz a d o s d e sd e h á cerca de
tr in ta a n o s , só e m 1 9 8 3 fo i d e fa cto
p u b lica d o .
N e s t e v o lu m e , K arl R. P op p er fo rm u la e
e x p lic a a s u a teo r ia n ã o -ju stific a c io n a lis ta
do c o n h e c im e n to . A c iê n c ia — a c iê n c ia
e m p ír ic a —, ten d o em b o ra c o m o o b jectiv o
a e la b o ra çã o d e te o r ia s c a b a lm e n te
e x p la n a tó r ia s , não c o n s e g u e n o e n ta n to
p rovar, d e m o n str a r o u ju s tific a r o fa cto
d e q u a lq u e r d e s s a s te o r ia s s e r verd ad eira.
T e m p o is de p r o s s e g u ir a q u e stio n a ç ã o e
a c r ític a de to d a s e la s,
in d e p e n d e n te m e n te d a s u a m a io r ou
m e n o r veracid ad e.
P o p p er d e se n v o lv e a lé m d is s o , n e s ta obra,
a s s u a s c r ític a s à s p o s iç õ e s p o s itiv is ta s ,
ir r a c io n a lis ta s ou r e la tiv is ta s , e a d e fe s a
d e u m a c o n cep çã o d e c iê n c ia a b erta , q u e
n ã o p od e n u n c a ju s tific a r -s e com o
verd a d eira .

C om o p r e s e n te la n ç a m e n to , P u b lic a ç õ e s
D o m Q u ix o te o r g u lh a m -se d e in c lu ir n a
s u a « B ib lioteca de F ilo so fia » u m a obra
q u e é j á u m c lá s s ic o do p e n s a m e n to
filo s ó fic o e e p iste m o ló g ic o
c o n te m p o r â n e o .
.....

Karl R. Popper

O REALISMO
E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA
Organização de W. W. Bartley, III

l.° volume do
Pós-Escrito à Lógica
da Descoberta Científica

PUBLICAÇÕES DOM QUIXOTE


LISBOA
1987
FICHA:

Título: O Realismo e o Objectivo da Ciência.


Autor: Karl R. Popper.
Colecção: Opus, n. ° 5.
© 1956, 1983, Karl Raimund Popper.
Título original: Realism and lhe A im o f Science.
Tradução: Nuno Ferreira da Fonseca, a partir da edição inglesa
publicada por Hutchinson, Co., L td ., Londres.
Revisão tipográfica: José Manuel Lopes Marques.
Capa: Fernando Felgueiras.
l . a edição: Julho de 1987.
Edição n.°: 5BF 1132.
Depósito legal n.°: 15 516/87.
Todos os direitos para a língua portuguesa reservados por:
Publicações Dom Quixote, L .da, Rua Luciano Cordeiro, 119,
1098 Lisboa Codex, Portugal.
Fotocomposição, paginação e fotólitos: Textype — Artes Gráficas, L.
Impressão e acabamento: Gráfica Manuel Barbosa & Filhos, L .da,
em Julho de 1987.
Distribuição: Diglivro, Rua Ilha do Pico, 3-B, Pontinha, Lisboa,
e Movilivro, Rua do Bonfim, 98, r/c, Porto.

SOI. 8
CLASS-.
P *3L j l
CÜTTER
TOMBO : 1 ^ *?z
UNIVERSIDADE federal do parA
BIBLIOTECA CENTRAL

ÍNDICE -
Prefácio do organizador .................................................................................................................. 11
Agradecim entos.................................................................................................................................. 17
Introdução, 1982 ................................................................................................................................ 19
Prefácio, 1956 .................................................................................................................................... 39

PARTE I — A ABORDAGEM CRÍTICA

Capítulo I IN D U Ç Ã O ..........................................................................................................
1. (*1) Um filósofo intrigado no estrangeiro ..............................................................
2. (*2) A abordagem crítica: solução do problema da indução................................
3. (*3) Acerca dos chamados procedimentos indutivos, mais notas sobre a aprendi­
zagem e o estilo indutivo....................................................................................
4. (*4) Uma família de quatro problemas da indução ..............................................
5. (*5) Por que é que o quarto estádio do problema é m etafísico..........................
6. (*6) O problema m etafísico........................................................................................
7. (*7) Realismo metafísico ............................................................................................
8. (*8) A metafísica de Hume. O «monismo neutral» ..............................................
9. (*9) Por que é que a teoria subjectivista do conhecimento falh a?...................... 116
10. (*10) Um mundo sem enigm as.................................................................................... 126
11. (*H) O estatuto das teorias e dos conceitos teó rico s.............................................. 130
12. (*12) Crítica do instrumentalismo. O instrumentalismo e o problema da indução 134
13. (*13) O instrumentalismo contra a ciência................................................................ 143
14. (*14) A ciência contra o instrum entalismo................................................................ W8
15. (*15) O objectivo da ciê n c ia ........................................................................................ Ú 5 i'
16. (*16) Dificuldades do realismo metafísico. Por um realista metafísico................ 167

Capítulo II — DEMARCAÇÃO................... 177


17. (* 17) O significado do problema da demarcação ...................................................... 177
18. (*18) Um caso de verificacionismo............................................................................... 181
19. (* 19) Testabilidade sim, mas significado n ã o ............................................................ 191

N ota acerca da numeração das secções. Em cada um dos três volumes do Pós-escrito, e nas
duas partes do primeiro volume, as secções estão numeradas de forma consecutiva, começando pela
secção 1. Os números de secção originais, que indicam a ordem das secções do quadro do Pós-escrito
enquanto todo, apresentam-se, nos índices gerais, entre parênteses e a seguir a um asterisco (*).
[E ste últimos números são aliás os que constavam das provas do Pós-Escrito à Lógica da Des­
coberta Científica, já disponíveis desde 1957, e às quais diversas obras e edições recentes de Karl
R. Popper fazem referência. N. do T.]

7
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

20. (*20) Enunciados não testáveis.................................................................................... 193


21. (*21) O problema da «eliminação» da m etafísica........................................... 195
22. (*22) A assimetria entre falsificação e verificação........................................... 197
23. (*23) Por que é que até as pseudociências podem muito bem ter significado. Pro­
gramas metafísicos para a ciência .................................................................. 204

Capítulo III — METAFÍSICA: SENTIDO OU SEM-SENTIDO............................................ 209


24. (*24) Observações lógicas sobre a testabilidade e a m etafísica.............................. 210
25. (*25) Os termos metafísicos podem ser definidos através determos empíricos.. 225
26. (*26) A filosofia, em mudança, do sentido e do sem-sentido................................. 227

Capitulo IV - CORROBORAÇÃO............................................................................................ 231


27. (*27) Corroboração: certeza, incerteza, probabilidade............................................. 231
28. (*28) «Corroboração» ou «probabilidade»?............................................................... 236
29. (*29) Corroboração ou confirm ação?......................................................................... 240
30. (*30) O problema do grau de corroboração............................................................... 242
31. (*32) C orroboração......................................................................................................... 245
32. (*32A) Mais alguns comentários acerca da definição de grau decorroboração . . . 255
33. (*33) Flumanismo, ciência e o preconceito ind u tiv o................................................. 264
(*31) Adenda: Observações críticas sobre a análise designificado........................... 270

PARTE II: — A INTERPRETAÇÃO DA PROBABILIDADE EM TERMOS


DE PROPENSÃO

Capítulo I — PROBABILIDADES OBJECTIVA E SU B JEC T IV A ................................... 287


1. (*34) Os significados da probabilidade....................................................................... 288
2. (*35) Probabilidades relativas e absolutas.. ............................................................. 289
3. (*36) A interpretação em termos de propensão. Interpretações objectivas e
subjectivas.............................................................................................................. 291
4. (*37) Testes experimentais e sua repetição: independência ..................................... 293
5. (*38) A interpretação lógica ......................................................................................... 297
6. (*39) Comparação das interpretações objectiva e subjectiva................................... 299
7. (*40) As interpretações objectivistas e subjectivistas de b em «p(a,bj» ............... 301

Capítulo II — CRÍTICA DA INDUÇÃO PROBA BILÍSTICA ............................................. 305


8. (*41) A regra indutiva simples ..................................................................................... 305
9. (*42) Como interpretar a regra indutiva simples nos casos em que ela funciona 309
10. (*43) Resumo do estatuto de b em « p (a ,b )» ............................................................. 311
11. (*44) Os proventos decrescentes da aprendizagem por in d u ç ã o ............................. 316
12. (*45) O paradoxo da aprendizagem in d u tiv a............................................................. 319
13. (*46) Uma máquina indutiva.............. .'..................................... ................................ 322
14. (*47) A impossibilidade de uma lógica indutiva ....................................................... 325
15. (*48) Lógica de probabilidades vs. Lógica in d u tiv a .................................. 326
16. (*49) A interpretação indutivista da probabilidade................................................... 329
17. (*50) A redundância das teo rias................................................................................... 333
18. (*51) Testar uma teoria não tem razão de s e r ........................................................... 335
19. (*52) Resumo desta crítica............................................................................................. 340
Adenda (Janeiro de 1981). Um breve sumário da Crítica da Indução
Probabilística........................................................................................................ 342

Capítulo III — OBSERVAÇÕES SOBRE AS TEORIAS OBJECTIVAS


DA PROBABILIDADE...................................................................................... 347
20. (*53) A favor das propensões....................................................................................... 348
21. (*54) Em que é que a teoria da frequência re s u lta ................................................... 359
22. (*55) Em que é que a teoria da frequência f a l h a ..................................................... 365

8
ÍNDICE

23. (*56) O significado do fracasso ................................................................................... 369


24. (*57) Contraste entre a teoria neoclássica e a teoria da frequência....................... 370
25. (*58) A estrutura da teoria neoclássica....................................................................... 380
26. (*59) Enunciados probabilísticos singulares............................................................... 382
27. (*60) Mais uma crítica das teorias subjectiva e ló g ic a ............................................ 386
28. (*61) A interpretação em termos de propensão da probabilidade de acontecimen­
tos individuais..................................................................................................... 389
Resumo a terminar, 1982.................................................................................... 393

NOTAS DO TRADUTOR ...................................................................................................... 397


ÍNDICE DOS NOMES ............................................................................................................ 399
ÍNDICE DOS ASSUNTOS...................................................................................................... 403

9
PREFÁCIO DO ORGANIZADOR

Este livro, Realism and the Aim o f Science, é o primeiro volume do Pós-
-escrito de Sir Karl Popper à sua Lógica da Descoberta Científica, obra há muito
esperada e que só agora é publicada, apesar de ter sido escrita há uns vinte e
cinco anos. Este volume oferece um desenvolvimento novo e muito alargado
das posições de Popper a respeito da indução, da demarcação e da corrobora-
ção, apresentando também a sua teoria das probabilidades segundo a ideia de
propensão (propensity theory o f probability). Inclui ainda uma consideração por­
menorizada (e respectiva resposta) de numerosas críticas e objecções feitas às
posições de Popper ao longo dos anos, desde que A Lógica da Descoberta Cien­
tífica foi publicada pela primeira vez.
Juntamente com as outras partes do Pós-escrito (que agora se publicam
todas), este volume foi escrito principalmente entre os anos de 1951 e de 1956,
na época em que a Logik der Forschung, o primeiro livro de Popper a ser publi­
cado (1934), era traduzido para inglês com o título de The Logic o f Scientific
Discovery [em português: A Lógica da Descoberta Científica, N. do T.].
Os diversos volumes do Pós-escrito faziam primitivamente parte de uma série
de apêndices a A Lógica da Descoberta Científica em que Popper se propôs cor­
rigir, alargar e desenvolver as idéias do seu primeiro livro, tendo alguns desses
apêndices sido, na verdade, incluídos em A Lógica da Descoberta Científica
quando esta foi publicada, em 1959. Mas um grupo desses apêndices adquiriu
uma vida própria e cresceu até constituir uma obra separada e una, a exceder
em muito a extensão da primitiva Logik der Forschung. Decidiu-se publicar esta
nova obra — chamada Pós-escrito: Vinte anos depois — como se fosse uma
continuação ou um volume complementar de A Lógica da Descoberta Cientí­
fica e pôs-se, assim, a obra em letra de forma, em provas de galé, em 1956-1957.
Alguns meses antes da esperada publicação, porém, o projecto encaminhou-se
a passos largos para um impasse. Em Unended Quest, a autobiografia intelec­
tual de Sir Karl, este refere-se da seguinte maneira às provas de granel: «A lei­
tura das provas transformou-se num pesadelo (...) Tive então de ser operado

11
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

a ambos os olhos, e depois disso não pude recomeçar, por algum tempo, a lei­
tura das provas. Em consequência disso, o Pós-escrito está ainda por publicar.»
Lembro-me distintamente desses tempos. Fui a Viena visitar Popper ao hos­
pital pouco depois da sua operação a vários descolamentos de ambas as reti­
nas, e trabalhámos no Pós-escrito enquanto ele recuperava. Durante muito
tempo, ele mal conseguia ver, e receávamos muito que viesse a ficar cego.
Depois de ter tornado a ver, trabalhou-se muito no Pós-escrito: acrescen-
taram-se várias secções, e fizeram-se milhares de correcções nas provas. Mas
a pressão de outros trabalhos tornava-se demasiadamente grande, e a partir de
1962 praticamente nada foi acrescentado ao texto. Durante a década seguinte,
uma década altamente produtiva, Popper, depois de publicar Conjectures and
Refutations (1963), concluiu e publicou mais três livros: Objective Knowledge:
An Evolutionary Approach (1972), Unended Quest (1974 e 1976) e (juntamente
com Sir John Eccles) The Self and Its Brain (1977), bem como muitos artigos.
Foram esses os anos, e essas as obras, em que se desenvolveu a sua teoria, hoje
famosa, do espírito objectivo [objective mind, N. do T.] (e dos Mundos 1, 2
e 3), em que a sua abordagem se alargou até às ciências biológicas.
Entretanto, o Pós-escrito, que representava o culminar da obra de Sir Karl
em filosofia da física, ficava por publicar. Mas não ficava por ler: a maior parte
dos mais chegados dos alunos e colegas de Popper estudaram esta obra, e mui­
tos deles obtiveram, ao longo dos anos, cópias das provas de granel. É, para
os que, como eu, conheceram esse livro e foram profundamente influenciados
por ele, fonte de grande satisfação vê-lo finalmente acabado e a ser partilhado
com o público em geral.
O texto que agora se preparou para publicação é essencialmente o mesmo
que já existia em 1962. A não ser nalgumas partes, conforme se assinala, não
se fizeram grandes alterações. Sentiu-se que este era o tratamento apropriado
a uma obra que adquirira já, pela sua influência sobre os alunos e os colegas
de Popper, um carácter histórico — tendo-se passado uns vinte e cinco anos
desde a sua composição, e quarenta e cinco desde a redacção da originária Logik
der Forschung. É evidente que muitas questões seriam hoje tratadas .de maneira
diferente, mas uma revisão completa, feita pelo autor, teria demorado indefini­
damente a publicação.
A preparação da edição incluiu: a reunião das diferentes versões de algu­
mas partes do texto, já que tais versões se tinham acumulado ao longo dos anos;
a organização do texto do livro (copy-editing); acrescentar notas, bibliográfi­
cas e outras, para auxílio do leitor. Os poucos novos acrescentos que o próprio
Popper fez estão bem assinalados: são apresentados entre colchetes e assinala­
dos com um asterisco. As minhas curtas notas editoriais e bibliográficas vão
também entre colchetes, seguidas da abreviatura «Ed.». Segui aqui, em geral,
o procedimento estabelecido por Troeis Eggers Hansen, o responsável pela edi­
ção de Die beiden Grundprobleme der Erkenntnistheorie, de Popper (escrito em

12
PREFÁCIO DO ORGANIZADOR

1930-1932 e publicado em 1979). Popper pôde inspeccionar o trabalho editorial


numa série de encontros que realizámos em vários sítios, ao longo destes últi­
mos quatro anos: em Heidelberg, Guelph, Toronto, Washington D. C., Schloss
Kronberg, e em casa de Popper, Buckinghamshire. Popper acrescentou também
novos prefácios a todos os volumes, e novos posfácios ao segundo e ao terceiro
volumes.
Fez-se uma alteração importante na apresentação, por minha sugestão. Publi­
car esta extensa obra num só volume teria sido possível, mas isso significaria
publicar um livro pesado e pouco manuseável, excedendo as posses de muitos
estudantes de filosofia. Algumas partes do Pós-escrito — incluindo O Realismo
e o Objectivo da Ciência — terão um vasto interesse, interessarão não só filó­
sofos e estudantes de filosofia, mas também um público mais vasto.
Tais partes são também, na globalidade, independentes umas das outras.
Tudo isto me levou a sugerir que a obra fosse publicada em três volumes sepa­
rados, em formato compatível, constituindo todo o Pós-escrito. Após alguma
hesitação, Sir Karl concordou com esta proposta, e também com os títulos que
sugeri para os três volumes.
Assim, o Pós-escrito é agora publicado da seguinte maneira:
O Realismo e o Objectivo da Ciência (vol. I);
O Universo Aberto: Argumentos a favor do Indeterminismo [The Open
Universe: An Argument fo r Indeterminism, N. do T.] (vol. n);
A Teoria dos Quanta e o Cisma em Física [Quantum Theory and the
Schism in Physics, N. do T.] (vol. III).

Ainda que estes três volumes do Pós-escrito possam ser lidos separadamente,
o leitor deveria ter sempre presente que eles formam uma argumentação ligada.
Cada um dos volumes do Pós-escrito ataca uma ou outra das abordagens sub­
jectivas ou idealistas do conhecimento; cada um deles constrói uma ou mais com­
ponentes de uma abordagem objectiva e realista do conhecimento.
Assim, no presente volume, Popper questiona o «Indutivismo», que vê como
sendo a principal fonte de subjectivismo e de idealismo, em quatro estádios: o
lógico, o metodológico, o epistemológico e o metafísico. Desenvolve a sua teo­
ria da falsificabilidade [falsifiability, N. do T.] e mostra os seus efeitos ao demar­
car uns dos outros os pontos de vista científicos, não-científicos e pseudocientí-
ficos. E apresenta a sua teoria da corroboração como uma maneira de exprimir
preferência racional por uma teoria em relação a outra sem recorrer quer às «cer­
tezas» subjectivas, quer à «justificação» objectiva das filosofias convencionais.
Neste primeiro volume, Popper discute ainda a sua relação com aquelas figuras
históricas da filosofia, tais como Berkeley, Hume, Mach e Russell, que deram
uma contribuição importante para a tradição subjectivista; e dá respostas por­
menorizadas a críticos contemporâneos, filósofos ou cientistas. Popper ataca
também a interpretação subjectiva do cálculo de probabilidades, interpretação

13
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

que radica na crença de que a probabilidade mede um estado subjectivo de conhe­


cimento insuficiente. Em A Lógica da Descoberta Científica, Popper defendera
uma interpretação objectiva do cálculo de probabilidades, usando para esse fim
a interpretação em termos de frequência. Agora, ele crítica também a interpre­
tação em termos de frequência, e em lugar desta apresenta em pormenor a sua
própria interpretação em termos de propensão — uma interpretação que, durante
os últimos vintes anos, encontrou muitos campeões seus. Estas idéias e argu­
mentos são aplicados e desenvolvidos nos restantes volumes.
Em O Universo Aberto: Argumentos a favor do Indeterminismo, Popper
desenvolve a sua própria perspectiva, indeterminista, e apresenta uma crítica de
formas tanto «científicas» como metafísicas de determinismo, com o argumento
de que a física clássica, contrariamente à opinião corrente, não pressupõe nem
implica determinismo, tal como a física quântica o não faz. Acha ele, ainda
assim, que o determinismo metafísico continua a estar subjacente aos trabalhos
de muitos dos que nos nossos dias se ocupam da teoria dos quanta, incluindo
os adversários do determinismo. Popper liga o papel constantemente desempe­
nhado em física pelas interpretações subjectivas da probabilidade a esses pres­
supostos deterministas metafísicos.
Há uma íntima ligação entre os argumentos do primeiro volume e os do
segundo, na sua mútua preocupação com a liberdade, a criatividade e a racio­
nalidade do homem.
O primeiro volume, na sua consideração da justificação e da racionalidade,
refuta uma pretensão subjectivista e céptica acerca dos limites da crítica — e,
junto com esta, acerca dos limites da racionalidade. Se tal limite existisse, então
qualquer argumentação séria seria fútil, e a sua aparência de seriedade seria ilu­
sória.
O segundo volume, no seu tratamento do determinismo, defende a preten­
são segundo a qual a nossa nacionalidade é limitada a respeito da previsão do
crescimento futuro do conhecimento humano. Se tal limite não existisse, então
qualquer argumentação séria seria fútil e a aparência, ilusória.
Popper defende, assim, que a razão humana é ilimitada no que respeita à
crítica, mas limitada no que toca aos seus poderes de previsão; e mostra que
tanto a falta de limitação como a limitação são, nos seus respectivos lugares,
necessários para que a racionalidade humana exista.
No volume iii , A Teoria dos Quanta e o Cisma em Física, Popper examina
e refuta um articulado de argumentos e de «paradoxos» que se usam muito para
defender uma perspectiva idealista. Conjecturando que os problemas de inter­
pretação da mecânica quântica podem ser reportados a problemas da interpre­
tação do cálculo de probabilidades, Popper desenvolve a sua interpretação da
probabilidade em termos de propensão. Apresenta depois uma extensa crítica
de algumas das interpretações dominantes da teoria dos quanta, tentando resolver
os conhecidos paradoxos desta, e tentando exorcisar «o Observador» da física

14
PREFÁCIO DO ORGANIZADOR

quântica. O seu «Epílogo Metafísico», que conclui a obra, cose num todo os
temas do Pós-escrito, num estudo histórico e progamático do papel dos pro­
gramas metafísicos de investigação [metaphysical research programmes, N. do
T.] na história da física.
O responsável pela edição deseja exprimir a sua gratidão ao American Coun-
cil o f Learned Societies e à American Philosophical Society, pelo generoso apoio
destas instituições ao seu trabalho editorial nestes volumes. Deseja também agra­
decer à sua secretária, Nancy Artis Sadoyama, pela sua assistência dedicada e
constante.

15
AGRADECIMENTOS

Quero aproveitar esta oportunidade para agradecer ao meu colega John W.


N. Watkins pelo grande encorajamento que foi para mim o seu persistente inte­
resse. Watkins leu este volume em forma de manuscrito e de provas e fez as
mais proveitosas sugestões de melhoramento. Foi por sugestão dele que decidi
publicar este Pós-escrito como uma obra separada, em vez de ser uma série de
apêndices a A Lógica da Descoberta Científica, como tinha sido primitivamente
planeado. Mas ainda mais importante para a conclusão da obra do que estas
sugestões foi o seu interesse pelas idéias que há nesta obra.
Queria também agradecer aos co-tradutores de The Logic o f Scientific Dis-
covery, Dr. Julius Freed e Lan Freed, que leram a maior parte do volume em
provas de galé, e fizeram um grande número de sugestões para melhorar o seu
estilo. [Ambos morreram muitos anos antes da sua publicação, Ed.]
Joseph Agassi foi, durante o período em que este livro foi escrito, primeiro
o meu aluno investigador [research student, N. do T.], e, mais tarde, meu assis­
tente investigador [research assistant, N. do T.J. Discuti com ele, em porme­
nor, quase todas as secções, tendo daí resultado, muitas vezes, que, a seu con­
selho, eu tenha alargado uma ou duas frases para uma secção inteira — ou, num
determinado caso, para uma parte nova inteira. [Tornou-se a 2.a parte deste
volume, O Realismo e o Objectivo da Ciência.] A sua colaboração foi do maior
valor.
Quero também agradecer à London School o f Economics and Politicai
Science, que fez com que me fosse possível beneficiar da assistência do
Dr. Agassi, e ao, Center fo r Advanced Study in the Behavioral Sciencies (Ford
Foundation) em Stanford, Califórnia, por me ter dado a oportunidade de
trabalhar ininterruptamente, de Outubro de 1956 a Julho de 1957, nas provas
deste livro, e por fazer com que fosse possível ao Dr. Agassi ajudar-me nesse
período.

PENN, BUCKINGHASMSHIRE, 1959

17
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

O Professor W.W. Bartley, III, foi meu aluno, e depois meu colega na Lon-
don School of Economics, entre 1958 e 1963, e trabalhou muito de perto comigo
neste livro entre 1960 e 1962. Em 1978 acedeu amavelmente a ser o responsável
pela edição do Pós-escrito. Estou-lhe grato pela sua assistência e por ter empreen­
dido esta árdua tarefa. Devo-lhe mais do que o que consigo exprimir.
Tenho também muito prazer em agradecer a muitas outras pessoas que, nos
anos entretanto decorridos, trabalharam comigo neste Pós-escrito, particular­
mente Alan E. Musgrave, David Miller, Arne F. Petersen, Tom Settle, Jeremy
Shearmur e Tyrrell Burgess. Destes, David Miller e Arne Petersen deviam ser
mencionados com destaque especial, pela imensidade de trabalho que ambos efec-
tuaram, em vários períodos, antes de 1970. Miller fez preciosas sugestões e cor-
recções adicionais em 1980 e em 1981.
A London School continuou, ao longo de todos estes anos, a ajudar-me,
nomeando um assistente de investigação. Durante os treze anos que se segui­
ram à minha reforma, em 1969, tem-no feito com a ajuda-de uma bolsa da Nuf-
field Foundation, à qual desejo exprimir os meus agradecimentos. Responsável
principal por esse acordo foram: o meu amigo e sucessor, o Professor John Wat-
kins; o falecido Sir Walter Adams, director da Escola; e o actual director, o
Professor Ralf Dahrendorf, de cuja calorosa amizade e grande interesse pela
minha obra sou devedor profundo.
Tivesse o Pós-escrito ter sido publicado nos anos cinquenta, e tê-lo-ia dedi­
cado a Bertrand Russell: disse-me o Professor Bartley que existe uma carta nesse
sentido nos Arquivos Russell na McMaster University.
Posso, para acabar, referir que este Pós-escrito (junto com a tradução de
The Logic o f Scientific Discovery) me parecia quase pronto em 1954. Foi então
que escolhi o seu título original, «PostScript: After Twenty Years», com uma
alusão à publicação de Logik der Forschung em 1934.

PENN, BUCKINGHAMSHIRE, 1981

18
INTRODUÇÃO, 1982

Nesta introdução ao primeiro volume do Pós-escrito, gostaria de discutir


muito rapidamente algumas questões que foram levantadas, ao longo das três
décadas que decorreram desde que este livro foi escrito, contra os pontos de
vista que aqui apresento.

A primeira tem a ver com os termos técnicos «falsificável» [«falsifiable»,


N. do T.] («empiricamente refutável») [«empirically refutable», N. do T.] e «fal-
sificabilidade» [«falsifiability», N. do T.] («refutabilidade empírica») [«empi-
rical refutability», N. do T.]. Introduzi-os pela primeira vez em Erkenntnis 3,
1933, e na Logik der Forschung, 1934, em ligação com a minha solução do pro­
blema da demarcação (demoradamente discutido na parte I, capítulo n, do pre­
sente volume). O problema da demarcação é o de encontrar um critério que nos
permita distinguir entre enunciados [statements, N. do T.] pertencentes às ciên­
cias empíricas (teorias, hipóteses) e outros enunciados, particularmente enun­
ciados pseudocientíficos, pré-científicos e metafísicos, mas também enunciados
matemáticos e lógicos. Há que distinguir o problema da demarcação de outro
problema bem mais importante, o da verdade: teorias que se mostrou serem fal­
sas — como, por exemplo, as fórmulas de radiação de Rayleigh-Jeans e de Wien,
ou o modelo atômico de Bohr, de 1913 — podem, não obstante, reter o seu
carácter de hipóteses empíricas, científicas.
Ainda que, nisso seguindo Tarski, eu não creia que um critério de verdade
seja possível, propus um critério de demarcação — o critério da falsificabili-
dade. A minha proposta foi a de que um enunciado (uma teoria, uma con­
jectura) tem o estatuto de pertencer às ciências empíricas se e só se for falsi­
ficável.
Mas quando é que um enunciado é falsificável? É de grande importância
para a presente discussão notar que a falsificabilidade no sentido do meu crité­

19
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

rio de demarcação é uma questão puramente lógica. Tem a ver somente com
a estrutura lógica de enunciados e de classes de enunciados. E não tem nada
a ver com a questão de saber se determinados resultados experimentais possí­
veis haveríam ou não de ser aceites como falsificações.
Um enunciado ou uma teoria é falsificável, segundo o meu critério, se e só
se existir, pelo menos, um falsificador potencial — pelo menos um enunciado
básico possível [possible basic statement, N. do T.] que esteja logicamente em
conflito com ela. É importante que não se exija que o enunciado básico em ques­
tão seja verdadeiro. A classe dos enunciados básicos é definida de tal maneira
que um enunciado básico descreva um acontecimento logicamente possível, o
qual é logicamente possível que possa ser observado.
Para tornar estes assuntos menos abstractos, darei aqui quatro exemplos:
dois de enunciados falsificáveis, e dois de enunciados não-falsificáveis [unfalsi-
fiable, N. do T.].
1) «Todos os cisnes são brancos.» Esta teoria é falsificável já que, por exem­
plo, contradiz o seguinte enunciado básico (que, aliás, se dá o caso de ser falso):
«a 16 de Maio de 1934, um cisne negro esteve entre as 10 e as 11 horas da manhã
em frente à estátua da imperatriz Elizabeth, no Volksgarten, em Viena.»
2) O princípio de Einstein da propocionalidade da massa inerte e (passiva­
mente) pesada. Este princípio de equivalência contradiz muitos falsificadores
potenciais, acontecimentos cuja observação é logicamente possível. Todavia, e
não obstante todas as tentativas (as experiências de Eõtvõs, apuradas mais recen­
temente por Dicke) de realizar experimentalmente tal falsificação, as experiên­
cias têm corroborado, até agora, o princípio da equivalência.
3) «Todas as acções humanas são egotistas, motivadas pelo interesse pessoal.»
Esta teoria é amplamente aceite: tem variantes no behaviorismo, na psicaná­
lise, em psicologia individual, no utilitarismo, no marxismo vulgar, em religião,
e na sociologia do conhecimento. É evidente que esta teoria, com todas as suas
variantes, não é falsificável: nenhum exemplo de uma acção altruísta é capaz
de refutar a opinião de que houve um motivo egotista por detrás dela.
4) Os enunciados puramente existenciais não são falsificáveis — tal como
acontece no famoso exemplo de Rudolf Carnap: «Há uma cor (‘vermelho-
-corneta’) que incita terror aos que a olhem.» Outro exemplo é: «Há uma ceri­
mônia cujo desempenho exacto faz o Diabo aparecer.» Tais enunciados não são
falsificáveis. (São, em princípio, verificáveis: é logicamente possível encontrar
uma cerimônia cuja realização leve ao aparecimento de uma forma aparente­
mente humana com chifres e cascos. E se uma repetição da cerimônia falhasse
na obtenção do mesmo resultado, isso não seria falsificação nenhuma, pois tal­
vez tivesse então sido omitido algum aspecto da cerimônia correcta no qual não
se tivesse reparado, mas que fosse essencial.)
Tal como se mostra através destes exemplos, a falsificabilidade no sentido
do critério de demarcação não quer dizer que uma falsificação possa, na prá­

20
INTRODUÇÃO, 1982

tica, ser levada a cabo, nem que, caso o seja, não seja problemática. A falsifi-
cabilidade no sentido do critério de demarcação não significa nada mais do que
uma relação lógica entre a teoria em questão e a classe dos enunciados básicos,
ou a classe dos acontecimentos descritos por elas: os falsificadores potenciais.
A falsificabilidade é, portanto, relativa face a estas duas classes. Dada uma dessas
classes, a falsificabilidade é uma questão de lógica pura — o carácter lógico da
teoria em questão.
Que a classe dos falsificadores potenciais (ou dos enunciados básicos) tenha
de ser dada, é algo que se pode mostrar melhor através do nosso primeiro exem­
plo — «Todos os cisnes são brancos».
Como já disse, esse enunciado é falsificável. Suponhamos, porém, que
há alguém que, ao mostrarem-lhe um cisne que não seja branco, toma a po­
sição de que não pode ser um cisne, já que é «essencial» a um cisne ser
branco.
Tal posição equivale a considerar os cisnes que não sejam brancos, estrutu­
ras logicamente impossíveis (e, portanto, também não-observáveis): exclui-os da
classe dos falsificadores potenciais.
Relativamente a essa classe alterada de falsificadores potenciais, o enunciado
«Todos os cisnes são brancos» é, evidentemente, não-falsificável. Para evitar
tal manobra, podemos exigir que quem quer que seja que defenda o carácter
empírico-científico de uma teoria tenha de ser capaz de especificar em que con­
dições é que estaria disposto a considerá-la falsificada; ou seja, exigir que seja
capaz de descrever, pelo menos, alguns falsificadores potenciais.

Chegamos agora a um segundo sentido de «falsificável» e de «falsificabili­


dade», o qual tem de ser muito claramente distinguido do meu critério, pura­
mente lógico, de demarcação, a fim de se evitar uma confusão.
Pode-se levantar a questão de saber se um caso de falsificação [an actual
falsification, N. do T.] chega alguma vez a ser tão premente que se tenha que
ver a teoria em questão como falsificada (logo como sendo falsa). Não há sem­
pre uma saída para quem queria salvar a teoria em questão?
Sempre sustentei, mesmo na primeira edição da Logik der Forschung (1934)
e também no meu livro, anterior ainda, mas só há pouco tempo publicado, Die
beiden Grundprobleme der Erkenntnistheorie (1979, escrito entre 1930 e 1933),
que nunca é possível provar terminantemente que uma teoria científica empí­
rica é falsa. Nesta acepção, tais teorias não são falsificáveis. «Qualquer sistema
teórico pode ser protegido de várias maneiras contra uma falsificação empírica.»
(Grundprobleme, p. 353.) «É sempre possível encontrar alguma maneira de fugir
à falsificação; por exemplo, introduzindo ad hoc uma hipótese auxiliar...» [Logic
o f Scientific Discovery (L.Sc.D.), p. 42, na mesma secção em que se apresenta
a falsificabilidade.] «Nenhuma refutação [disproof, N. do T.] terminante pode
alguma vez ser produzida...» (L.Sc.D., p. 50.)

21
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

Portanto, repetindo, devemos distinguir dois significados das expressões «fal-


sificável» e «falsificabilidade»:
1) «Falsificável» enquanto termo lógico-técnico, no sentido do critério de
falsificabilidade em termos de demarcação. Este conceito puramente lógico —
falsificável em princípio, poder-se-ia dizer — assenta numa relação lógica entre
a teoria em questão e a classe dos enunciados básicos (ou os falsificadores poten­
ciais descritos por estas).
2) «Falsificável» no sentido de a teoria em questão poder ser definitivamente
ou terminantemente ou demonstravelmente falsificada («demonstravelmente fal­
sificável»). Sempre salientei que mesmo uma teoria obviamente falsificável no
primeiro sentido nunca é falsificável no segundo. (Por esta razão, usei, regra
geral, a expressão «falsificável» só no primeiro sentido, no sentido técnico. No
segundo sentido, falei, regra geral, não de «falsificabilidade», mas antes de «fal­
sificação» e dos seus problemas.)
É claro que os sufixos «-vel» e «-bilidade» são utilizados de modo um pouco
diferente nos dois sentidos. Ainda que o primeiro sentido diga respeito à possi­
bilidade lógica de uma falsificação, em princípio, o segundo diz respeito a uma
prova experimental prática terminante de falsidade. Mas uma prova terminante
para resolver uma questão empírica é coisa que não existe.
Toda uma bibliografia assenta em não se observar esta distinção. Diz-se fre­
quentemente que o meu critério de demarcação é inaplicável, porque as teorias
científicas empíricas não podem ser definitivamente falsificadas. Sem tanta
importância, diz-se frequentemente (ver secção iv, adiante) que a descoberta da
não-falsificabilidade das teorias científicas, no segundo sentido, é um resultado
que contradiz a minha teoria, não obstante o facto de eu mesmo ter apontado
isso repetidas vezes. [Em vez de se distinguir os dois significados — «falsifica-
bilidade-I», a possibilidade em princípio de certas teorias serem falsificadas
por terem alguns potenciais falsificadores, e «falsificabilidade-II», a pos­
sibilidade, sempre problemática, de uma teoria poder mostrar-se ser falsa, já
que não existem provas empíricas finais — fizeram-se as irônicas distinções entre
«Popper-I», «Popper-II» e «Popper-III», e por aí fora (isto é, distinções
entre várias fases de «Popper» que flagrantemente se contradizem umas às outras
e não podem ser harmonizadas).]1 E as dificuldades, em muitos casos a impos­
sibilidade, de uma falsificação prática terminante são apresentadas como difi­
culdade, ou até como uma impossibilidade, do proposto critério de demarcação.
Tudo isto não teria muita importância, não fosse o facto de ter levado algu­
mas pessoas a abandonarem o racionalismo em teoria da ciência, e a cair no irra-
cionalismo. Pois se não for a ciência que avance racionalmente e criticamente, como
podemos esperar que se vão tomar decisões racionais noutras áreas? Um ataque
1 [Vejam-se as obras de Imre Lakatos, especialmente «Criticism and the Methodology of Scientific
Research Programmes», Proc. Arist. Soc. 69, pp. 149-186, e The Methodology o f Scientific Research
Programmes, 1978, pp. 93-101. Ed.)

22
INTRODUÇÃO, 1982

frívolo a um termo lógico-técnico mal compreendido levou, pois, algumas pes­


soas a conclusões filosóficas, e até políticas, desastrosas e de grande alcance.
Devia salientar-se que a incerteza de qualquer falsificação empírica (que eu
mesmo repetidamente assinalei) não deveria constituir grande motivo de preo­
cupação (tal como também fiz notar). Há um bom número de importantes fal­
sificações que são tão «definitivas» quanto a falibilidade humana geral permite,
Além disso qualquer falsificação pode, por sua vez, ser testada de novo. Um
exemplo de falsificação — a falsificação do modelo de átomo de Thomson, que
levou Ernest Rutherford a propor o modelo nuclear — devia ser aqui referido,
para ilustrar a força que uma falsificação pode ter. No modelo de átomo de
Thomson, a carga positiva estava distribuída por todo o espaço que o átomo
ocupava. Rutherford aceitou este modelo. Mas depois vieram as famosas expe­
riências dos seus alunos Geiger e Marsden. Estes descobriram que as partículas
alfa disparadas contra uma folha de ouro muito fina eram, por vezes, reflecti-
das pela folha de ouro, em vez de serem apenas refractadas. As partículas reflec-
tidas eram raras — aproximadamente uma em vinte mil — mas ocorriam com
regularidade estatística. Rutherford estava estupefacto. Um quarto de século mais
tarde, escreveu ele sobre este assunto: «Foi realmente o acontecimento mais incrí­
vel que alguma vez me aconteceu na vida. Era quase tão incrível como disparar
uma bala de quinze polegadas contra uma folha de papel de seda e ela voltar
a atingir-nos.»2
A formulação de Rutherford é excelente. Não é impossível — não é, decerto,
logicamente impossível — que um tiro de um canhão gigante contra uma folha
de papel de seda seja reflectido por esta — mesmo com uma probabilidade esta­
tística regular de um em vinte mil. Não é ligicamente impossível; logo, a teoria
de Thomson (segundo a qual os átomos formam uma parede como o papel de
seda) não está definitivamente refutada. Mas Rutherford e alguns outros físi­
cos, entre os quais Niels Bohr, aceitaram que se precisasse de outra teoria. Con­
sequentemente, propuseram que a teoria de Thomson fosse vista como estando
falsificada e fosse substituída pelo modelo nuclear de Rutherford, e, um pouco
mais tarde (já que este modelo também tinha os seus problemas), pelo maravi­
lhoso modelo atômico de Bohr, modelo que, cerca de doze anos depois, viria,
por sua vez, a ser superado pela mecânica quântica.
É frequente acontecer que demore muito tempo até uma falsificação ser
aceite. Geralmente, não é aceite até que a teoria falsificada seja substituída por
uma proposta de teoria nova e melhor. Como Max Planck observou, é muitas
vezes preciso esperar até que uma nova geração de cientistas tenha crescido e
amadurecido, o que, porém, nem sempre é necessário. Não o foi com o novo
modelo de átomo de Rutherford (1912), nem com o reconhecimento, por J. J.

2 Lord Rutherford: «The Development of the Theory of Atomic Structure», in J. Needham


e W. Pagei, eds.: Background o f Modern Science, 1938, p. 68.

23
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

Thomson (1897), de partículas subatômicas, tais como o electrão, reconheci­


mento que significava que a teoria dos átomos indivisíveis estava falsificada.
(Os átomos tinham sido vistos como indivisíveis por definição desde 460 a.C.,
aproximadamente.) Nem o foi com a falsificação, por Carl Anderson (1932),
da poderosa teoria segundo a qual só havia duas partículas elementares — o
protão e o electrão —, e com a rejeição, por Hideki Yukawa, da teoria electro­
magnética da matéria.
Estes são apenas quatro dos muitos exemplos de revoluções científicas que
foram introduzidas através da falsificações bem sucedidas. O significado lógico-
-técnico, mal compreendido, da falsibilidade no primeiro sentido, no sentido
do critério de demarcação, levou a duas lendas históricas. A primeira lenda, que
não é importante, é a de que eu passei sobre o carácter não-terminante [the non-
-conclusiveness, N. do T.] da falsificabilidade de teorias — o facto de as teo­
rias nunca serem terminantemente falsificáveis no segundo sentido, quando, na
verdade, eu salientei isso repetidas vezes desde 1932. A segunda lenda (e esta
lenda é bem mais importante) é a de que a falsificação não desempenha papel
nenhum na história da ciência. Na verdade, desempenha um papel capital, não
obstante o seu carácter não definitivo. Os exemplos já dados dão algumas pro­
vas disso, mas vou dar mais alguns exemplos na próxima secção.

II

Foi defendido por alguns — até por alguns do meus antigos alunos — que
a minha teoria da ciência era refutada pelos factos da história da ciência. Ora,
isto é um erro: é um erro com respeito aos factos da história da ciência, e é
também um erro no que respeita às pretensões da minha metodologia.
Tal como tentei tornar claro em 1934 (L . S c . D p. 37; e secções 10 e 11),
não vejo a metodologia como uma disciplina empírica, a ser testada, porventura,
pelos factos da história da ciência. É, antes, uma disciplina filosófica — metafí­
sica —, talvez, em parte, até mesmo uma proposta normativa. Baseia-se ampla­
mente no realismo metafísico, e na lógica da situação: a situação de um cien­
tista explorando a realidade desconhecida detrás das aparências, e ansioso por
aprender com os erros.
Contudo, sempre pensei que a minha teoria — da refutação, seguida da emer­
gência de um novo problema, seguido, por sua vez, de uma teoria nova e talvez
revolucionária — tinha o maior interesse para os historiadores da ciência, já
que levava a uma revisão da maneira como os historiadores haviam de olhar
a história, especialmente por a maior parte dos historiadores acreditar, nesse
tempo (1934), numa teoria indutivista da ciência3. (Hoje, já abandonaram muito
essa posição — mesmo os meus críticos.)

3 [Ver Joseph Agassi, Towards an Historiography o f Science, 1963. Ed.]

24
INTRODUÇÃO, 1982

Que a minha teoria, na medida em que é exacta, tenha interesse para cien­
tistas e para historiadores é coisa que não espanta, pois muitos deles — a maior
parte, creio eu — partilham a minha visão realista do Mundo, e também enten­
dem os objectivos da ciência como eu: conseguir explicações cada vez melhores.
Alguns exemplos poderão ser úteis.
Apresenta-se aqui uma lista de casos interessantes em que refutações levaram
a reconstruções teóricas revolucionárias. Em grande parte, essa lista remonta aos
anos trinta e ao tempo da minha estada na Nova Zelândia, época em que dei uma
série de conferências na sucursal de Christchurch da Royal Society of New Zeland,
ilustrando a minha teoria com exemplos tirados da história da física. Escrevi sobre
alguns desses casos em várias ocasiões, e não acho que esta lista inclua todos os
casos de falsificação a que me referi nos meus vários escritos. Assim procedendo,
confiei sempre principalmente na minha memória: não pretendo ser um historia­
dor da ciência. E, por causa da pressão provocada por outros trabalhos urgentes,
nunca tive tempo para examinar sistematicamente a história da física, em busca
de mais exemplos: não tenho dúvidas de que haja centenas. Mas acho que a lista
que aqui apresento — uma lista de alguns casos notáveis que só podem ser enten­
didos como exemplos de refutação — é suficientemente expressiva. (Eu estaria
até inclinado a sugerir que, historicamente, uma ciência se torna ciência quando
aceita uma refutação empírica, mas não proponho isto como uma hipótese a con­
siderar demasiadamente a sério; e o caso de Copérnicopode ser um contra-exemplo:
uma grande teoria científica que não foi provocada por uma refutação empírica.)
Lista de Exemplos Escolhidos Quase ao Acaso
1) Parménides-Leucipo: Leucipo toma a existência do movimento como
refutação parcial da teoria de Parménides segundo o qual o Mundo é
pleno e sem movimento [motionless, N. do T.]. Isto leva à teoria dos
«átomos e o vazio». É o fundamento da teoria atômica4.
2) Galileu refuta a teoria do movimento de Aristóteles: isto leva à funda­
ção da teoria da acelaração, e, mais tarde, à das forças newtorianas. Além
disso, Galileu considera as luas de Júpiter e as fases de Vénus como uma
refutação de Ptolomeu5, e, portanto, como um apoio empírico da teo­
ria de Copérnico, rival daquela.
4 Cf. as minhas Conjectures and Refutations, capítulo 2, secções vi e vii. [Ver também o
volume m do Pós-escrito, «Epílogo Metafísico». Ed.]
5 Numa carta muito interessante que me dirigiu, Ailan Franklin levantou algumas dúvidas acerca
deste exemplo, sugerindo que, ainda que Galileu tenha argumentado contra a lei aristotélica do movi­
mento como se ela só lidasse com velocidades constantes, o próprio Aristóteles, bem como alguns
comentadores posteriores, tinha reconhecido que os corpos em queda se aceleram. Franklin acha
que a cinemática do movimento uniformemente acelerado foi trabalhada no século xiv em Mer-
ton College, Oxford, e também em Paris (por Oresme). Refere-se também à «teoria do impetus»
de Buridan e ao argumento de Domingo de Soto segundo o qual os corpos em queda exemplifica­
vam a aceleração uniforme. Estou grato a Franklin por estes comentários. Ver também as minhas
Conjectures and Refutations, capítulo 3, secção 1.

25
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

3) Torricelli (e seus antecessores): a refutação da tese «a natureza aborrece


o vácuo». Isto constitui a preparação para uma visão mecanicista do
Mundo.
4) A refutação por Kepler da hipótese de movimento circular, hipótese até
então sustentada (mesmo por Tycho e por Galileu), leva às leis de Kepler,
e, desse modo, à teoria de Newton6.
5) A refutação por Lavoisier da teoria do flogiste leva à química moderna.
6) A falsificação da teoria da luz de Newton (o experimento, de Young,
das duas frestas [Young’s two-slit experiment, N. do T ]. Isto leva à teo­
ria da luz de Young-Fresnel. A velocidade da luz na água em movimento
é outra refutação. É uma preparação para a relatividade especial.
7) O experimento de Oersted é interpretado por Faraday como sendo uma
refutação da teoria universal das forças centrais newtorianas, e leva,
assim, à teoria do campo de Faraday-Maxwell.
8) Teoria atômica: a atomicidade do átomo é refutada pelo electrão de
Thomson. Isto leva à teoria electromagnética da matéria, e, a seu tempo,
ao aparecimento da electrónica. Vejam-se as tentativas de Einstein e de
Weyl para chegar a uma teoria monista («unificada») da gravitação e
do electromagnetismo7.
9) A experiência de Michelson (1881, 1887, 1902, etc.) leva ao Versuch einer
Theorie der electirschen und optischen Erscheinungen in bewegten Kòr-

6 Em muitas ocasiões, os historiadores afirmaram haver um prejuízo a favor do movimento cir­


cular, prejuízo que Kepler e outros tiveram que superar. Mas o movimento circular não era simples­
mente um prejuízo: havia, de facto, uma lei da conservação para a circularidade — não só para a
rotação dos planetas, mas também para a roda: a conservação do momento angular. É claro que as
leis de conservação não tinham, então, grande clareza. Mas a lei da conservação de Galileu, a sua
forma da lei de inércia, era válida para o movimento circular, assentando tudo isto em idéias e princí­
pios de explicação metafísicos aceites nesse tempo. Nesse contexto, o movimento circular era explicá­
vel, mas o movimento elíptico achava-se que era irracional. Assim, devia-se ter em consideração a
racionalidade da atitude metafísica pré-kepleriana (atitude metafísica ou programa de investigação):
havia a bem estabelecida continuação da rotação da roda: se temos uma roda em suspensão livre, o
momento angular tem tão bom apoio da observação como as forças inerciais. Custou a Kepler um
grande esforço superar esta ideia — mas não por se tratar de um prejuízo, e sim por constituir precisa­
mente uma parte importante do fundo racional. Sentindo, como a princípio sentiu, que o movimento
elíptico era irracional, Kepler precisou de um novo tipo de explicação para esse movimento. Talvez
tenha sido aqui que o Sol entrou: em Kepler, há forças que emanam do Sol, ao passo que na teoria
de Galileu o movimento circular dos planetas não é, na verdade, dependente do Sol. É claro que a
teoria de Kepler é diferente da nossa própria teoria: Kepler falava, sobretudo, não da atracção do
Sol, mas sim da emissão de raios pelo Sol. Só com Newton é que começou a tornar-se claro que a
atracção do Sol influencia os planetas tal como a atracção da Terra influencia a Lua. Galileu, porém,
continuou a opor-se à teoria de Kepler por causa do seu pendor astrológico — isto é, irracional: a
«influência» dos planetas uns sobre os outros. Kepler era, na verdade, um astrologista; e a astrologia
sustenta que os corpos celestes exercem forças uns sobre os outros. Assim, podemos compreender tanto
Galileu como Kepler. A estrutura metafísica de Galileu impunha-lhe o movimento circular e impedia
que ele aceitasse influências do Sol e da Lua. Ver também ObjectiveKnowledge, capítulo 4, secção 9.
7 Cf. o meu artigo «The Rationality of Scientific Revolutions», in R. Harré, ed., Problems
o f Scientific Revolution, 1975, pp. 72-101; ver a secção xn.

26
INTRODUÇÃO, 1982

pern, de Lorentz (1895: vide § 89). O livro de Lorentz foi de uma importân­
cia crucial para Einstein, que a ele fez alusão duas vezes no § 9 do seu artigo
de 1905 sobre a relatividade. (O próprio Einstein não considerava o experi­
mento de Michelson muito importante.) A teoria da relatividade especial de
Einstein é a) um desenvolvimento de formalismo instaurado por Lorentz,
e b) uma interpretação diferente — isto é, relativista — desse formalismo.
Não há, até agora, um experimento crucial para decidir entre as interpreta­
ções de Lorentz e de Einstein, mas se tivermos de adoptar a acção à distân­
cia (não-localidade: vide A Teoria dos Quanta e o Cisma em Física, vol. III
do Pós-escrito, prefácio de 1982), então teremos de regressar a Lorentz.
Deu-se, aliás, o caso de ter levado muitos anos até os físicos come­
çarem a chegar a algum acordo acerca da importância das experiências
de Michelson: não pretendo asseverar que as falsificações costumem ser
aceites logo à primeira (veja-se a secção anterior) — nem sequer que sejam
imediatamente reconhecidas como potenciais falsificações.
10) As «descobertas casuais» [«chance-discoveries», N. do T.] de Roentgen
e de Becquerel refutaram certas expectativas (inconscientemente manti­
das), especialmente as expectativas de Becquerel. Tiveram, é claro, con­
sequências revolucionárias.
11) A teoria, bem sucedida em parte, da radiação dos corpos negros, de
Wilhelm Wien, veio opor-se às teorias (em parte), também muito bem
sucedidas, de Sir James Jeans e de Lorde Rayleigh (veja-se a secção ante­
rior). A refutação, por Lummer e Pringsheim, da fórmula da radiação
de Rayleigh e Jeans, juntamente com o trabalho de Wien, leva à teoria
dos quanta de Planck (ver L.Sc.D., p. 108). Aí, Planck refuta a sua pró­
pria teoria, a interpretação absolutista da lei da entropia, enquanto oposta
a uma interpretação probabilística semelhante à de Boltzmann.
12) Os experimentos de Philipp Lenard respeitantes ao efeito fotoeléctrico
opunham-se, conforme o próprio Lenard insistiu, ao que seria de espe­
rar da teoria de Maxwell. Levaram à teoria de Einstein dos quanta de
luz ou fotões (os quais também estavam, é claro, em oposição a Max­
well), e, deste modo, muito mais tarde, ao dualismo partícula-onda.
13) A refutação da teoria antiatomista e fenomenalista da matéria, de Mach-
-Ostwald: o grande artigo de Einstein, de 1905, sobre o movimento brow-
niano sugeria que o movimento browniano pudesse ser interpretado como
uma refutação daquela teoria. Esse artigo fez, pois, muito no sentido
de estabelecer a realidade das moléculas e dos átomos.
14) A refutação, por Rutherford, do modelo de vórtice do átomo8. Esta refu­
tação leva directamente à teoria de Bohr, de 1913, do átomo de hidro­
gênio, e, portanto, finalmente, à mecânica quântica.

Cf. «The Rationality of Scientific Revolutions», p. 90.

27
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

15) A refutação, por Rutherford (em 1919), da teoria segundo a qual os ele­
mentos químicos não podiam ser artificialmente alterados (ainda que
pudessem desintegrar-se espontaneamente).
16) A teoria de Bohr, Kramers e Slater (ver L.Sc.D., pp. 250 e 243). Esta
teoria é refutada por Compton e Simon. A refutação leva, quase de ime­
diato, à mecânica quântica de Heinseberg-Born-Jordan.
17) A interpretação de Schrõdinger da sua teoria (sua e de L. de Broglie)
é refutada pela interpretação estatística das ondas de matéria (experimen­
tos de Davidsson e Gremer, e de George Thomson, por exemplo). Isto
leva à interpretação estatística de Born.
18) A descoberta, por Anderson, do positrão (1932) refuta uma porção de
coisas: a teoria das duas partículas elementares, protões e electrões, é
refutada; a conservação das partículas é refutada; e a própria primitiva
interpretação de Dirac das suas previstas partículas positivas (ele pen­
sava que fossem protões) é refutada. Algum trabalho teórico feito por
volta dos anos de 1930 e 1931 é, com tal descoberta, corroborado. (Para
alguns promenores, veja-se Norwood Russel Hanson, The Concept o f
the Positron, 1963: um excelente livro.)
19) A teoria eléctrica da matéria9, elaborada por Einstein e por Weyl, e impli­
citamente mantida — e, em certa medida, desenvolvida — por Einstein
até ao fim da vida (já que ele interpretou a teoria unificada do campo
como uma teoria de dois campos, gravitação e electromagnetismo), é
refutada pelo neutrão e pela teoria da Yukava das forças nucleares: o
Mesão de Yukawa. Isto vai dar origem à teoria do núcleo.
20) A refutação da conservação da paridade (vide Allan Franklin, Stud. Hist.
Philos. Sei. 10, 1979, p. 201).

III

Entende-se, é claro, que estas refutações se limitaram a criar novas situa­


ções problemáticas [problem situations, N. do T.], as quais, por sua vez, esti­
mularam o pensamento imaginativo e crítico. As novas teorias que se desenvol­
veram não foram, pois resultado directo das refutações; foram realizações do
pensamento criativo, do homem pensante.
Outra observação evidente é que, em vários destes casos, levou tempo até
que as refutações fossem aceites como tais: houve, muitas vezes, acções de reta­
guarda, às vezes até prolongadas, antes de a refutação em causa ser aceite natu­
ralmente como refutação por todas as pessoas competentes, em vez de ser inter­
pretada de alguma outra maneira. Mas não foi sempre o que aconteceu, de

9 Cf. a introdução ao volume m do Pós-escrito. Cf. também «The Rationaütv of Scientifíc


Revolutions», p. 90, primeiro parágrafo novo.

28
INTRODUÇÃO, 1982

maneira nenhuma: não foi, por exemplo, nos casos 12) (os resultados de Lenard
foram aceites bastante rapidamente), 13) a 17) e até mesmo no caso 18), ainda
que a teoria refutada tenha, neste último caso, tido uma longa vida posterior.
Há, é claro, excepções a esta análise em termos de refutação seguida de
reconstrução. A maior excepção parece ser a de Copérnico, cujo fito foi dar
uma explicação alternativa dos factos empíricos explicados por Ptolomeu10. Para
assegurar que este caso é realmente uma excepção, ter-se-ia que o estudar em
mais pormenor, em especial a aceitação da teoria pelos cientistas, a qual pôde
ser adiada até às descobertas empíricas de Galileu, referidas em 2), que se pode
defender serem refutações de Ptolomeu.
A minha teoria da ciência não pretendia ser uma teoria histórica, nem ser
uma teoria apoiada em factos históricos (ou em outros factos empíricos), tal
como já disse anteriormente. Duvido, porém, que exista alguma teoria da ciên­
cia que seja capaz de ser tão esclarecedora para a história das ciências como
é a teoria da refutação seguida de reconstrução revolucionária e, não obstante,
conservadora11.
IV
É capaz de ser este o momento de referir, e de refutar, a lenda de que Tho-
mas S. Kuhn, na sua qualidade de historiador da ciência, foi quem mostrou que
as minhas idéias sobre a ciência (por vezes chamadas, mas não por mim, «falsi-
ficacionismo») podem ser refutadas pelos factos: isto é, pela história das ciências.
Não acho que Kuhn tenha sequer tentado mostrar isso. Seja como for, ele
não mostrou tal coisa. Além disso, na questão do significado da falsificação
para a história das ciências, o ponto de vista de Kuhn e o meu coincidem quase
completamente.
Isto não quer dizer que não haja grandes diferenças entre as idéias de Kuhn
sobre a ciência e as minhas. Sustento a antiga teoria da verdade (quase explí­

10 O que aconteceu no caso de Copérnico foi a reinterpretação dos factos em termos da antiga
teoria de Aristarco, que tinha, em grande medida sido esquecida, sem haver qualquer intenção de
ter um experimento crucial. Copérnico queria dizer que os mesmos factos podiam ser reinterpreta-
dos à luz da teoria de Aristarco. Só mais tarde é que houve quem notasse que os factos podiam
ser mais bem interpretados à luz da teoria de Copérnico e que havia ainda outras vantagens. Outra
maneira de dizer isto — se bem que utilizando uma terminologia diferente da que foi empregue
por Copérnico — é dizer que este propôs uma substituição do fundo metafísico, e que a teoria pto-
lemaica era uma teoria metafísica que sofria de graves dificuldades: por exemplo, o mecanismo de
protecção [sheli mechanism, N. do T.] é violado pelos cometas que o penetram. Só quando se reco­
nheceu que as duas teorias alternativas tinham consequências empíricas diferentes é que a questão
se tornou científica, ou, pelo menos, um programa de investigação vivo, aberto a tornar-se cientí­
fico. Testes desses passaram, de facto, a ser possíveis com Galileu: com as fases de Vénus, as luas
de Júpiter e as diferenças de tamanho de Vénus, Marte e Mercúrio. (O tamanho aparente dos pla­
netas deveria ser constante se a Terra estivesse no centro.) (Ver Objective Knowledge, 1972, p. 173.)
11 Ver, por exemplo, «The Rationality of Scientific Revolutions», in Rom Harré, ed., Problems
o f Scientific Revolution, secção vm, pp. 82 e segs.

29
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

cita em Xenófanes, em Demócrito e em Platão, e bem explícita em Aristóteles)


segundo a qual a verdade é a concordância entre os factos e o que é afirmado.
O ponto de vista de Kuhn acerca desta questão fundamental parece-me influen­
ciado pelo relativismo, mais especificamente, por uma certa forma de subjecti-
vismo e de elitismo, tal como é proposta, por exemplo, por Polanyi, Kuhn parece-
-me também estar influenciado pelo fideísmo de Polanyi: a teoria segunda a qual
um cientista tem de ter fé na teoria que propõe (ao passo que eu acho que os cien­
tistas — como Einstein em 1916 ou Bohr em 1913 — com frequência se aperce­
bem de que estão a propor conjecturas que, mais tarde ou mais cedo, virão a ser
superadas). Há muitos outros pontos de divergência, dos quais o mais importante
talvez seja o ênfase que eu dou à crítica racional objectiva: vejo como caracterís­
tica própria da ciência, tanto da antiga como da moderna a abordagem crítica
das teorias do ponto de vista de se saber se elas são verdadeiras ou falsas. Outro
ponto importante parece-me ser o facto de Kuhn não ver a grande importância
das muitas revoluções puramente científicas que não estão ligadas a revoluções
ideológicas. Na verdade, ele quase parece identificar umas com as outras12.
Mas a respeito quer da falsificabilidade, quer da impossibilidade de haver
provas terminantes de falsificação, e do papel que estas desempenham na his­
tória das ciências e das revoluções científicas, não me parece que haja qualquer
diferença significativa entre Kuhn e eu.
Kuhn, porém, parece ver grandes diferenças entre mim e ele neste capítulo,
ainda que ele mesmo também saliente muitas semelhanças entre as suas idéias
e as minhas. Para explicar essas semelhanças, refere que assistiu às minhas con­
ferências «William James» [William James Lectures, N. do T.] em Harvard, em
1950. Ele era também, nessa altura, devo acrescentar, um dos membros mais
activos e mais críticos dos meus seminários (oito conferências de duas horas cada
uma, e oito seminários de duas horas cada um, creio eu). Mas parece ser claro
que não se lembra de que aconteceu nessas sessões; e na altura em que escreveu
o seu primeiro livro, The Copernican Revolution (1957; paperback edition, 1959)
já só retinha, evidentemente, uma memória muito esquemática das minhas posi­
ções, e considerava-me um «falsificacionista ingênuo». Todavia, nesse livro,
Kuhn aceitava na prática os meus pontos de vista sobre o carácter revolucioná­
rio da evolução da ciência. Afasta-se dos meus pontos de vista só ao sustentar
aquilo que atrás descrevi como «fideísmo», pois afirma «que um cientista tem
de acreditar [itálico meu] no seu sistema antes de confiar nele como um guia
para investigações fecundas no campo do desconhecido»13. Mas Kuhn está a

12 Ver «The Rationality of Scientific Revolutions», op. cit., pp. 72-101, especialmente pp. 87-93.
13 T. S. Kuhn, The Copernican Revolution, pp. 75 e segs. da edição brochada, 1959. Pus em
itálico as palavras «tem de acreditar» porque o fideísmo é o único aspecto deste trecho em que Kuhn
se afasta de mim: eu diria que o cientista pode acreditar; em alternativa, ele pode aceitar «o
seu sistema» só a título de ensaio (como sabemos a partir de Einstein, por exemplo; ou de Niels
Bohr — antes de 1926, em todo o caso).

30
INTRODUÇÃO, 1982

seguir-me bastante de perto quando continua desta maneira: «Mas o cientista


paga um certo preço pelo seu comprometimento [...]. Uma simples observação
que seja incompatível com a sua teoria pode demonstrar14 que ele tem estado
a usar uma teoria errada o tempo todo. O seu esquema conceptual tem então
de ser abandonado e substituído.»15
Isto é, evidentemente, «falsificacionismo»; é, na verdade, algo como um
«esterótipo metodológico da falsificação», para citar uma alusão que Kuhn me
faz no seu livro posterior, The Structure o f Scientific Revolutions (1962, p. 77).
Mas no seu livro anterior, sobre Copérnico, Kuhn prossegue desta maneira: «Eis,
em resumo, a estrutura lógica de uma revolução científica. Um esquema con­
ceptual [...] acaba por levar a resultados que são incompatíveis com a observa­
ção [...]. É um resumo útil, porque a incompatibilidade entre teoria e observa­
ção é a fonte última de qualquer revolução nas ciências.»
Este «resumo útil» da lógica de uma revolução científica não é apenas falsi­
ficacionismo, de longe mais simplista do que o que quer que seja que eu alguma
vez tenha dito nos meus escritos, nas minhas conferências ou nos meus seminá­
rios; sempre estive, na verdade, totalmente de acordo com a seguinte observa­
ção, mais crítica, que Kuhn acrescenta: «Mas, historicamente, o processo da
revolução nunca é, eu diria: ‘quase nunca é’, e nunca poderia ser [e Ruther-
ford? — ver mais atrás], tão simples quanto o resumo lógico indica. Tal como
já começámos a descobrir, a observação nunca é absolutamente incompatível
com uma teoria.»
É claro que eu já tinha salientado este ponto em 1934 (eu tinha sempre apon­
tado o facto de que «a observação está impregnada de teoria» [«observation
is theory impregnated», N. do T.], tal como apontara o facto de ser impossível
produzir uma refutação [«disproof», N. do T.] indiscutível de uma teoria empi-
ricamente científica. Veja-se a secção I, mais atrás.) Fiquei, pois, surpreendido
quando li, no segundo livro de Kuhn, The Structure o f Scientific Revolutions
(p. 77), o seguinte: «Nenhum processo já revelado pelo estudo histórico do desen­
volvimento científico se assemelha de algum modo ao estereótipo metodológico
da falsificação por comparação directa com a natureza» [os itálicos são meus].
O que quis Kuhn dizer com isto? Que o processo histórico não se assemelha
de modo algum a um processo de falsificação, ou que não se assemelha ao «este­
reótipo» que ele caracteriza como sendo a «comparação directa com a natureza»,
a que chama, noutra ocasião, «falsificacionismo ingênuo», e que eu, pelo menos,
sempre rejeitara?
Ora, sucede que é na minha teoria que Kuhn está a pensar quando fala de
um «estereótipo» da falsificação. Pois noutro local (em P. A. Schilpp, ed. The
Philosophy o f Karl Popper, p. 808), escreve: «Sir Karl não é, claro, um falsifi-

14 Loc. cit. Kuhn escreve «demonstra».


15 Não me agrada a expressão «o seu esquema conceptual»; eu diria: «a sua teoria».

31
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

cacionista ingênuo. Ele sabe tudo quanto acabou de ser dito, e acentuou-o desde
o princípio da sua carreira [...] Ainda que não seja um falsificacionista ingê­
nuo, Sir Karl pode, é a minha sugestão, ser legitimamente tratado como tal.»
[Os itálicos são meus.]
Este passo é realmente espantoso. É exactamente o mesmo que dizer: «Ainda
que Popper não seja um assassino, ele pode, é a minha sugestão, ser legitima­
mente tratado como um assassino.»
Não há verdadeiros argumentos no artigo de Kuhn que levem a este espan­
toso veredicto, a não ser ele acreditar que os meus próprios argumentos contra
o que ele chama «falsificacionismo ingênuo» ameaçam «a integridade da minha
posição básica». Mas aquilo que ele erradamente crê ser a minha «posição
básica» é apenas a lenda ou o paradigma segundo a qual Popper é um falsifica­
cionista ingênuo. Esse argumento (se assim se pode chamar) é circular.
Acredito que Kuhn realmente acredite naquilo que escreve. Como pode ele,
porém, ser capaz de o fazer? Ensaiei várias teorias explicativas. Só uma delas
me parece de algum modo plausível. É a de que Kuhn, logo muito cedo na
sua carreira, formou acerca dos meus pontos de vista uma teoria que se tor­
nou o seu paradigma de Popper: Popper era o homem que substituira o veri-
ficacionismo pelo falsificacionismo («ingênuo»), Kuhn formou para si esse para­
digma (segundo as suas próprias indicações) antes ainda de alguma vez ter lido
quaisquer dos meus textos. Quando finalmente leu A Lógica da Descoberta
Científica, leu-a à luz desse paradigma. Muitas passagens nesse meu livro (uma
na página que vai imediatamente a seguir à apresentação da ideia de falsifica­
ção) mostravam que eu não me, adaptava ao seu paradigma. Mas, tal como
aprendemos com Kuhn, os paradigmas não se abandonam assim tão facil­
mente16.
Agora a questão é a seguinte. Serei eu realmente o homem que teve como
cerne do seu pensamento o falsificacionismo? Será verdadeiro o paradigma kuh-
niano? Poderei eu ser «legitimamente tratado como» um «falsificacionista ingê­
nuo» ainda que Kuhn admita, depois de olhar para A Lógica da Descoberta
C ientífica, que eu já em 1934 o não era?
Acontece, isso sim, que o verdadeiro cerne do meu pensamento acerca do
conhecimento humano é o falibilismo e a abordagem crítica; e que eu vejo, e

16 O contributo de Kuhn para P. A. Scilpp, ed., The Philosophy o f Karl Popper (vol. n,
pp. 798-819) é uma crítica, escrita de forma muito agradável, do lendário falsificacionista ingênuo
K. R. P. Kuhn está tão convencido de que conhece as minhas opiniões e as suas fraquezas que,
com os meus livros na mão, fala de «locuções» como «falsificação» ou «refutação» que são «antó-
nimas de ‘prova’». Mas no índice de assuntos da minha L.Sc.D. poderia ter encontrado isto: «Refu­
tação [disproof, N. do T.] não se pode produzir uma refutação terminante [de uma teoria], 42, 50,
81-87.» Esta e muitas outras observações que encontramos no seu contributo mostram o que é que
acontece ao leitor de um livro quando tem «paradigma» daquilo que se lá há-de encontrar e não
encontrar. Acrescente-se que eu acho que muitos historiadores das ciências são muito maus leitores
(isto é, leitores preconceituosos).

32
UNIVERSIDADE FfOEIUL 00 PiPA
BIBLIOTECA CENTRAL
INTRODUÇÃO, 1982

vi, até antes de 1934 (veja-se o meu livro Die beiden Grundprobleme der Erkennt-
nistheorie), o conhecimento humano como um caso muito especial de conheci­
mento animal. A minha ideia central no campo do conhecimento animal
(incluindo o conhecimento humano) é a de que ele se baseia em conhecimentos
herdados. A sua natureza é a de expectativas [expectations, N. do T.] incons­
cientes. Desenvolve-se sempre como resultado da modificação de conhecimen­
tos prévios. A modificação é (ou é como) uma mutação: vem de dentro, tem
a natureza de um balão de ensaio, é intuitiva ou marcadamente imaginativa.
Tem, pois, um carácter conjectural: a expectativa pode ser frustrada; o balão
ou a bolha pode ser picado: toda a informação recebida do exterior é elimina­
tória, selectiva.
O que há de especial no conhecimento humano é que ele pode formular-se
na linguagem, em proposições. Isto faz com que seja possível o conhecimento
tornar-se consciente e ser efectivamente criticável através de argumentos e
testes. Chegamos desse modo à ciência. Os testes são refutações tentadas. Todo
o conhecimento não deixa de ser falível, conjectural. Não há justificação,
incluindo, é claro, a justificação final de uma refutação. Aprendemos, contudq,
com as refutações, isto é, através da eliminação de erros, por retroacção \feed-
back, N. do T.]17. Neste contexto, não há, de maneira nenhuma, lugar para «fa
sificacionismo ingênuo».

Há uma outra objecção à minha teoria do conhecimento, e essa está mais


bem fundamentada, ainda que o seu impacto na minha teoria seja desprezável.
É o que se admite ser a fraqueza de uma definição (de verosimilhança, ou apro- >•
ximação à verdade) que propus em 196318.
Deixe-me o leitor primeiro explicar com dois exemplos, 1) e 2), o único tipo
de uso da ideia de verosimilhança que provavelmente se faz na minha teoria do '
conhecimento (ou na de qualquer outro).
1) A afirmação de que a Terra está em repouso e que os céus estrelados giram
à volta dela está mais longe da verdade do que a afirmação de que a Terra gira
em torno do seu próprio eixo, de que é o Sol que está em repouso, e de que
a Terra e os outros planetas se movem em órbitas circulares à volta do Sol (tal
como foi avançado por Copérnico e por Galileu). A afirmação, que se deve a
Kepler, de que os planetas não se movem em círculos, mas sim em elipses (não
muito alongadas) com o Sol no seu foco comum (e com o Sol em repouso, ou
em rotação à volta do seu eixo) é mais uma aproximação à verdade. A afir-

17 Não acho que Norbert Wiener, em Cybernetics, se tenha referido ao darwinismo ou à elimi­
nação de erros (tentativa e erro).
18 Ver Conjectures and Refutations, canitnlo )(), _____________

33
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

mação (que se deve a Newton) de que existe um espaço em repouso, mas que,
excluindo a rotação, a sua posição não se pode encontrar através da obser­
vação das estrelas ou de efeitos mecânicos é mais um passo em direcção à ver­
dade.
2) As idéias de Gregor Mendel acerca da hereditariedade estavam, parece,
mais próximas da verdade do que as perspectivas de Charles Darwin. As poste­
riores experiências de criação de moscas da fruta levou a melhoramentos adi­
cionais da verosimilhança da teoria da hereditariedade. A ideia de bolo de genes
[gene pool, N. do T.] de uma população (uma espécie) foi um passo mais. Mas
os maiores passos foram, de longe, aqueles que culminaram na descoberta do
código genético.
Estes exemplos, os exemplos 1) e 2), mostram, creio, que uma definição for­
mal de verosimilhança é coisa que não é necessária para se poder falar de modo
sensato acerca dela (ver também, mais adiante, as pp. 270-284).
Por que é que eu tentei, então, dar uma definição formal?
Em muitas ocasiões argumentei contra a necessidade de definições. Elas
nunca são, realmente, precisas, e raramente servem para alguma coisa, a não
ser na seguinte espécie de situação: podemos, ao introduzir uma definição,
mostrar não só que são precisos menos pressupostos básicos para uma boa
teoria, mas também que a nossa teoria pode explicar mais do que sem a defi­
nição. Por outras palavras, uma definição a mais só tem interesse se der força
a uma teoria. Pensei poder fazer isso com a minha teoria dos objectivos da
ciência: a teoria segundo a qual a ciência visa a verdade e a resolução de
problemas de explicação, isto é, visa alcançar teorias de maior poder expli­
cativo, mais conteúdo e maior testabilidade. A esperança de reforçar mais
tal teoria dos objectivos da ciência através da definição de verosimilhança
em termos de verdade e de conteúdo foi, infelizmente, vã. Mas a opinião,
amplamente sustentada, segundo a qual o abandono dessa definição enfra­
quece a minha teoria é completamente destituída de fundamento. Posso ainda
acrescentar que aceitei a crítica da minha definição poucos minutos após ela
me ter sido apresentada, tendo-me eu interrogado por que é que não tinha
visto o erro antes; mas nunca ninguém mostrou que a minha teoria do conhe­
cimento (que eu desenvolví, o mais tardar, em 1933, e que tem desde então
crescido com vigor e é muito usada por cientistas em actividade) é minima­
mente abalada por aquela infeliz definição errada, nem por que é que a ideia
de verosimilhança (que não é uma parte essencial da minha teoria) não pode­
ría continuar a ser usada na minha teoria como um conceito não-defi-
nido.
A asserção de que a minha autoridade é danificada por este incidente é obvia­
mente verdadeira, mas eu nunca pretendí nem quis ter alguma autoridade. A
asserção de que a minha teoria é danificada foi avançada sem sequer se tentar
dar uma razão, e parece-me meramente incompetente.

34
INTRODUÇÃO, 1982

VI

Também, por vezes, se objecta contra a minha teoria dizendo que ela não
é capaz de responder ao paradoxo de Nelson Goodman19.
Que não é isso o que acontece é o que se verá através das considerações
seguintes, que mostram, por um simples cálculo, que o enunciado de testemu­
nho [evidence statement, N. do T.] e, «todas as esmeraldas observadas antes
de 1 de Janeiro do ano 2000 são verdes» não torna a hipótese h - 1, «todas as
esmeraldas são verdes, pelo menos até Fevereiro do ano 2000» mais provável
do que a hipótese «todas as esmeraldas são azuis, sempre e em todos os tem­
pos, com excepção das que foram observadas antes do ano 2000, as quais são
verdes». Isto não é um paradoxo, a ser formulado e dissolvido por investiga­
ções linguísticas, é sim um teorema demonstrável do cálculo de probabilidades.
O teorema pode ser formulado da seguinte maneira:
O cálculo de probabilidades é incompatível com a conjectura de que a pro­
babilidade é alargável (e, portanto, indutiva).
A ideia de que a probabilidade é alargável tem uma grande aceitação. É a
ideia segundo a qual uma verificação [evidence, N. do T.] e — na Áustria, todos
os cisnes são brancos, digamos — aumenta, de algum modo, as probabilidades
de um enunciado que se estenda para lá de e, tal como h -II, «Todos (ou a
maior parte de) os cisnes são brancos nas regiões que fazem fronteira com a
Áustria». Por outras palavras, a ideia é a de que a verificação torna as coisas
que estão para lá do que ela realmente afirma pelo menos um pouco mais pro­
váveis. (Esta perspectiva foi energicamente defendida por Carnap, por exemplo.)
A opinião de que a probabilidade é alargável foi sugerida especialmente pelo
seguinte teorema (sendo h = hipótese; e = prova empírica; b = conhecimento
anterior):
Seja p(h,b) ^ 0. Mais, seja e prova favorável [isto é, e decorre de h na
presença de b, de tal maneira quep(e,b) ^ 1 e p(e,hb) = 1]. Então, p(h,eb) >
> p(h,b). Quer dizer, a prova favorável e torna h mais provável, ainda que h
diga mais'do que e. E isto aplica-se a quaisquer outros e-I, e-II, ..., que satis­
façam condições semelhantes.
Parece, portanto, que provas favoráveis crescentes vão apoiando h; e, desse
modo, parece que o apoio é alargável.
Mas trata-se de uma ilusão, como se pode mostrar, desta maneira:
Sejam h - 1 e h - II duas quaisquer hipóteses apoiadas em e na presença de
b de tal maneira que p(e,b) ã 1 e p(e,h-\b) = p(e,h-\\b) = 1.

19 [Ver W. W. Bartley, III, «Eine Lõsung des Goodman-Paradoxons», in G. Radnitzky e Gunnar


Andersson, Voraussetzungen und Grenzen Der Wissenschaft (Tübingen, 1982), pp. 347-358; e in
«Rationality, Criticism and Logic», Philosophia 11, Fevereiro de 1982, especialmente as pp. 169-
173 e as referências que aí se dão. Ed.]

35
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

Seja I—II (anterior) = p(h-lb) / p(h-llb) a razão entre as probabilida­


des de h - 1 e de /z—II antes da prova e, e seja /?—I—II (posterior) = p(h-l, eb)
/ p (h -\\, eb) a razão entre as duas possibilidades depois da prova e.
Teremos, então, para quaisquer h - 1, h - \\ e e que satisfaçam as condições
acima indicadas: /?—I—II (anterior) = /?—I—11 (posterior).
Isto decorre quase imediatamente de p(a, bc) = p(ab, c)/p(b, c), isto é, do
teorema de Bayes.
O que significa (posterior) = /?—I—II (anterior)! Significa que a
verificação não muda a razão das probabilidades anteriores, tenhamo-las nós
calculado ou pressuposto livremente, desde que ambas as hipóteses sejam capa­
zes de explicar as provas e. Mas isto significa que, se h - l = todos os cisnes,
nalguma região maior do que a Áustria, são brancos; h - ll = todos os cisnes
do Mundo são não-brancos, excepto os da Áustria, que são brancos; e = todos
os cisnes na Áustria são brancos, então, tomando uma qualquer probabilidade
que se queira anterior para h - l e para h - ll, a razão /?—I—II (anterior) não é
afectada pela verificação. Não há, pois, qualquer «derramamento», qualquer
apoio alargável, nem para os cisnes, nem para as esmeraldas. E isto não é
absurdo, mas sim tautológico (e não é afectado pela tradução).

36
De uma coisa não há dúvida: que nada há de mais adequado para fo r­
mar um espírito capaz de grande desenvolvimento do que viver e par­
ticipar em grandes revoluções científicas. Aconselharia, portanto, todos
aqueles que vivam numa época que não lhes apresente naturalmente
essa vantagem a procurá-la artificialmente por si próprios, lendo tex­
tos das épocas em que as ciências sofreram grandes mudanças. Estu­
dar textos dos sistemas mais opostos a extrair a verdade que eles encer­
ram, responder a questões levantadas por esses sistemas opostos,
transferir as teorias capitais de um sistema para outro sistema, é um
exercício que nunca seria demais recomendar aos estudantes. Este seria
sempre recompensado pelo seu trabalho, ao tornar-se o mais indepen­
dente possível das opiniões limitadas da sua época.

HANS CHRISTIAN OERSTED *

Os matemáticos podem vangloriar-se de possuir novas idéias que a sim­


ples linguagem humana ainda é incapaz de exprimir. Esforcem-se eles
por exprimir essas idéias em palavras apropriadas, sem a ajuda de sím­
bolos, e, se forem bem sucedidos, não só nos colocarão numa situa­
ção de permanente reconhecimento, mas achar-se-ão eles também,
atrevemo-nos a dizê-lo, muito esclarecidos durante o processo, e duvi­
darão até se as idéias expressas em símbolos teriam alguma vez sequer
chegado a sair das equações e a passar para o seu espírito.

JAMES CLERK MAXWELL**

* Hans Christian Oersted, «Observations on the History of Chemistry: A Lecture, 1805-1807»,


in The Soul in Nature, with Supplementary Contributions (London, Henry G. Bohn, 1852), p. 322.
** Scientific Papers o f James Clark Maxwell, ed. W. D. Niven, vol. n (Cambridge, 1890),
p. 328; reimpresso a partir de Nature 7, 27 de Março de 1873, p. 400: Review of Thomson’s & Taite’s
Elements o f Natural Philosophy.
PREFÁCIO, 1956

ACERCA DA INEXISTÊNCIA DO MÉTODO CIENTÍFICO

Mas, na realidade, nós não sabemos nada por ter visto; pois a ver­
dade está escondida sob a superfície.
DEMÓCRITO1

Começo, regra geral, as minhas lições sobre Método Científico dizendo aos
meus alunos que o método científico não existe. Acrescento que tenho obriga­
ção de saber isso, tendo eu sido, durante algum tempo, pelo menos, o único
professor desse inexistente assunto em toda a Comunidade Britânica.
O meu assunto não existe em vários sentidos, e vou mencionar alguns deles.
Primeiro, o meu assunto não existe porque os assuntos, em geral, não exis­
tem. Não há assuntos; não há ramos do saber — ou, melhor, da pesquisa
[inquiry, N. do T.]: há somente problemas, e o impulso para os resolver. Uma
ciência como a botânica ou a química (ou, digamos, a química-física, ou a elec-
troquímica) é, defendo eu, apenas uma unidade administrativa. Os administra­
dores das universidades têm, de resto, um trabalho difícil, e é de grande conve­
niência para eles trabalhar supondo que há alguns assuntos determinados, com
cátedras associadas a eles, e destinadas a serem ocupadas pelos peritos nesses
assuntos. Não estou de acordo: até os alunos competentes são enganados por
este mito do assunto. E eu sou relutante a chamar a algo que engane uma pes­
soa uma conveniência para essa pessoa.
Isto quanto à não existência de assuntos em geral. Mas o Método Científico
ocupa uma posição de certo modo peculiar, ao ser ainda menos existente do
que alguns outros assuntos inexistentes.
O que eu quero dizer é o seguinte. Os fundadores do assunto, Platão, Aris­
tóteles, Bacon e Descartes, bem como muitos dos seus sucessores, por exemplo

1 Ver Hermann Diels, Die Fragmente der Vorsokratiker, ed. Walter Kranz, 6. Auflage, 1951,
vol. ii, p. 166; 68 B 117.

39
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

John Stuart Mill, julgavam que existia um método para encontrar a verdade
científica. Numa fase mais tardia e um pouco mais céptica, houve metodologis-
tas que julgavam que existia um método, se não de encontrar uma teoria ver­
dadeira, pelo menos de averiguar se uma dada hipótese era ou não verdadeira;
ou (o que ainda é mais céptico) se alguma dada hipótese era, pelo menos, «pro­
vável» a um grau determinável [ascertainable, N. do T.].
Afirmo que não existe método científico nenhum, em nenhum destes três
sentidos. Pondo isto em termos mais claros:
1) Não há um método para descobrir uma teoria científica;
2) Não há um método para averiguar a verdade de uma hipótese cientí­
fica, ou seja, não há um método de verificação;
3) Não há um método para determinar se uma hipótese é «provável»,
ou provavelmente verdadeira.

Tendo, então, explicado aos meus alunos que não há essa coisa que seria
o método científico, apresso-me a começar o meu discurso, e ficamos ocupa-
díssimos. Pois um ano mal chega para roçar a superfície mesmo de um assunto
inexistente.
O que é que ensino aos meus alunos? E como é que posso ensinar?
Sou um racionalista. Por racionalista entendo um homem que deseja com­
preender o Mundo e aprender através da discussão com outros homens. (Note-
-se que eu não digo que um racionalista sustente a teoria errada segundo a qual
os homens são totalmente ou parcialmente racionais.) Por «discutir com os
outros» entendo, mais em especial, criticá-los; solicitar a crítica deles; e tentar
aprender com isso. A arte da argumentação é uma forma peculiar da arte de
combater — com palavras em vez de espadas —, uma arte inspirada pelo inte­
resse em nos aproximarmos da verdade acerca do Mundo.
Não acredito na teoria corrente segundo a qual, para tornarem uma discus­
são fecunda, os opositores têm de ter muita coisa em comum2. Pelo contrário,
creio que quanto mais diferem os seus backgrounds, mais fecunda é a argumen­
tação. Não há sequer necessidade de uma linguagem comum para se começar:
se não tivesse havido uma torre de Babel, teríamos tido de construir uma. A
diversidade torna a discussão crítica fecunda. As únicas coisas que os parceiros
de uma discussão têm de partilhar são o desejo de conhecer, e a disponibilidade
para aprender com o companheiro, criticando severamente as suas opiniões
— na versão mais forte possível que se puder dar dessas opiniões — e ouvindo
o que ele tem para dizer como resposta.

2 [Ver «The Myth of the Framework», in The Abdication o f Philosophy: Philosophy and the
Public Good. Essays in H onor o f Paul A rthur Schilpp, ed. Eugene Freeman, 1976, pp. 23-48; e
«Addendum: Facts, Standards, and Truth: A Further Criticism of Relativism» in The Open Society
and Its Enemies, fourth edition, 1962, pp. 369-396. Ed.]

40
PREFÁCIO, 1956

Sou de opinião que o chamado método da ciência consiste neste tipo de crí­
tica. As teorias científicas distinguem-se dos mitos unicamente por serem criti-
cáveis e por estarem abertas a modificações à luz da crítica. Não podem ser veri­
ficadas nem probabilizadas.
A minha atitude crítica — ou herética, se preferirem — influencia, é claro,
a minha atitude perante os meus parceiros filosóficos.
Todos conhecem, com certeza, a história do soldado que descobriu que todo
o seu batalhão (excepto ele, é claro) estava com o passo trocado. Dou constan­
temente comigo nessa posição divertida. E tenho muita sorte, pois, regra geral,
alguns dos outros membros do batalhão estão dispostos a acertar o passo. Isto
aumenta a confusão; e, como não sou um admirador da disciplina filosófica,
fico satisfeito enquanto suficientes membros do batalhão estão com o passo sufi­
cientemente trocado uns em relação aos outros.
Algumas das coisas que me põem fora da cadência, e que eu gosto de criti­
car, são:
1) Modas. — Não acredito em modas, correntes, tendências, ou escolas, quer
em ciências, quer em filosofia. Penso, de facto, que a história da humanidade
podería perfeitamente ser descrita como a história da eclosão de doenças filo­
sóficas e religiosas de moda. Essas modas só podem ter uma função séria —
a de despertar a crítica. Acredito, no entanto, na tradição racionalista de uma
comunidade do saber, e na necessidade urgente de preservar essa tradição.
2) A imitação das ciências físicas. — Não me agrada nada a tentativa, feita
em campos fora das ciências físicas, de imitar [to ape, imitar, macaquear,
N. do T.] as ciências físicas, praticando os ditos «métodos» destas — a medi­
ção e a «indução a partir da observação». A doutrina segundo a qual há tanta
ciência num assunto quanta matemática nele houver, ou quanta medição ou «pre­
cisão» houver nele, assenta numa total incompreensão. Pelo contrário, a seguinte
máxima é válida para todas as ciências: «Nunca se pretenda mais precisão do
que a que é exigida pelo problema que se tem em mãos.»
Não tenho, pois, qualquer fé na precisão: sou de opinião que a simplicidade
e a clareza são valores em si mesmos, mas não de que a precisão ou «exactidão»
seja um valor em si mesma. A clareza e a precisão são aspirações diferentes e,
por, vezes, até incompatíveis. Não acredito naquilo a que frequentemente se
chama uma «terminologia exacta»: não acredito em definições3, e não acredito
que as definições aumentem a exactidão; e detesto especialmente as terminolo­
gias pretenciosas e a pseudo-exactidão que lhes corresponde. Aquilo que se pode
dizer pode e deve sempre dizer-se cada vez mais simplesmente e claramente.
3) A autoridade do especialista. — Não acredito na especialização nem nos
peritos. Dando demasiada importância aos especialistas, estamos a destruir a
comunidade do saber, a tradição racionalista, a própria ciência.

3 [Ver The Open Society and Its Enemies, 1945, capítulo n; e Unended Quest, secção 7. Ed.]

41
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

Para concluir, acho que só há um caminho para a ciência — ou para a filo­


sofia: encontrar um problema, ver a sua beleza e apaixonarmo-nos por ele;
casarmo-nos com ele, até que a morte nos separe — a não ser que encontremos
outro problema ainda mais fascinante, ou a não ser que obtenhamos uma solu­
ção. Mas ainda que encontremos uma solução, poderemos descobrir, para nossa
satisfação, a existência de toda uma família de encantadores, se bem que talvez
difíceis, problemas-filhos, para cujo bem-estar poderemos trabalhar, com uma
finalidade em vista, até ao fim dos nossos dias4.

4 [Este «Prefácio, 1956» foi lido num encontro dos Fellows of the Center for Advanced Study
in the Behavioral Sciences, em Stanford, Califórnia, em Novembro de 1956. Ed.]

42
PARTE I

A A B O R D A G EM C R ÍTIC A
CAPÍTULO I

INDUÇÃO

Mas quanto a certa verdade, nenhum homem a conheceu,


Nem a há-de conhecer; nem dos deuses,
Nem de todas as coisas de que falo.
E ainda que ele, p o r acaso, houvesse de exprimir
A verdade perfeita, ele próprio não sabería disso;
pois tudo não passa de uma teia tecida de conjecturas.

XENÓFANES

Neste capítulo introdutório, o problema da indução é tratado mais comple­


tamente e num âmbito mais alargado do que na minha Lógica da Descoberta
Científica (L.Sc.D., para abreviar), da qual a presente obra é uma continua­
ção: aqui, discutirei todas as ramificações mais importantes desse problema das
quais tenho consciência.
Na secção 2, tento dar um resumo da minha teoria do conhecimento, refor­
mular o problema da indução e reafirmar a sua solução. A discussão das pers­
pectivas — quase sempre perspectivas metafísicas — que tendem a evitar que
essa solução seja aceite é levada a cabo na secção 16, intitulada «Dificuldades
do realismo metafísico. Por um realista metafísico».
O capítulo dois (secções 17 a 26) ocupa-se do problema da demarcação — a
demarcação entre ciência e metafísica. (Não tento demarcar sentido e sem sentido.)
Tento, nesse capítulo, mostrar que o problema da demarcação, mais a sua solução
através de um critério de demarcação por testabilidade [testability criterion o f demar-
cation, N. do T.], têm um significado que excede em muito as fronteiras da filosofia.
O capítulo três (secções 27 a 32) ocupa-se do problema da corroboração, e
da introdução do termo técnico «grau de corroboração». Tento mostrar que este
problema tem algum interesse, dada a situação problemática existente na filo­
sofia das ciências, pois a sua solução corrige a crença, muito espalhada mas
errada, segundo a qual a indução científica pode ajudar-nos a determinar a pro­
babilidade de uma hipótese.

45
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

1 — Um filósofo intrigado no estrangeiro

Pouco tempo depois de pela primeira vez ter vindo a Londres, no Outono
de 1935, cerca de um ano depois da publicação da minha Logik der Forschung
(L.d.F., para abreviar), levaram-me a uma reunião da Aristotelian Society. Ber-
trand Russell, que eu durante muito tempo admirara como sendo o maior filó­
sofo desde Kant, leu um texto acerca de «Os Limites do Empirismo»1. Acredi­
tando que o nosso conhecimento empírico fosse obtido por indução, e estando
profundamente impressionado pela força da crítica de Hume, Russell sugeriu
que tínhamos de aceitar um princípio da indução, o qual, por sua vez, não podia
basear-se na indução: um princípio cuja adopção assinalava os limites do empi­
rismo. A posição de Russell era quase igual a uma que eu, bem ou mal, atri­
buira a Kant na primeira secção da minha L.d.F.
Convidado a participar na discussão, disse eu que não acreditava, de maneira
nenhuma, na indução, ainda que acreditasse no empirismo — um empirismo
que não impusesse a si mesmo aqueles limites kantianos que Russell estava dis­
posto a aceitar. Esta afirmação (que eu formulei com a clareza que me foi pos­
sível, com o pouco inglês de que dispunha) foi considerada pelo público uma
piada, tendo a assistência rido e aplaudido amavelmente. Sugeri, a seguir, que
todo o embaraço se devia à crença, errada, segundo a qual o conhecimento cien­
tífico era uma espécie de conhecimento especialmente rigorosa [strict, N. do T.],
certa [certain, N. do T.] e augusta. Esta afirmação teve uma aceitação igual à
primeira. Terminei tentando explicar que, no sentido habitual de «saber» [the
usual sense o f «know»; to know = saber/conhecer, N. do T.], sempre que eu
sei que está a chover, tem de ser verdade que esteja a chover, pois, se não for
verdade, não poderei saber que está a chover, por muito sinceramente que possa
acreditar que o sei. Neste sentido da palavra, «conhecimento» significa sempre
«conhecimento verdadeiro e certo»; e «conhecer» significa, além disso, estar de
posse de razão suficiente para sustentar que o nosso conhecimento é verdadeiro
e certo. Mas, disse eu, não havia conhecimento científico nesse sentido. Se, não
obstante, escolhessemos rotular os resultados dos nossos esforços científicos com
o nome habitual «conhecimento científico», teríamos então de ser claros e dizer
que o conhecimento científico não era uma espécie de conhecimento; muito
menos uma espécie que se pudesse distinguir por um alto grau de solidez ou de
certeza. Pelo contrário, medido pelos elevados padrões da crítica científica, o
«conhecimento científico» não passava de puras conjecturas [sheer guesswork,
N. do T.] — se bem que conjecturas controladas pela crítica e pela experimen­
tação. (Não podia sequer atingir qualquer grau positivo de «probabilidade», se

1 Publicado nos Proceedings o f the Aristotelian Society 36, 1936, pp. 131-150. As minhas obser­
vações referiam-se especialmente às pp. 146 e segs. [Ver Unended Quest, de Popper, 1976, secção
22. Ed.]

46
A ABORDAGEM CRÍTICA

este termo fosse usado na acepção do cálculo de probabilidades, por exemplo


na forma que lhe deram Keynes ou Jeffreys.) Acabei dizendo que só através
do reconhecimento de que o conhecimento científico consiste em conjecturas
■% ou hipóteses é que podemos resolver o problema da indução sem ter de pressu­
por um princípio da indução, nem quaisquer limites do empirismo.
O meu pequeno discurso foi bem recebido, o que foi gratificante, mas foi-o
por razões erradas, o que foi intrigante. É que tinha sido tomado por ataque
à ciência, e talvez até pela expressão de uma atitude de algum modo superior
face a ela. É evidente que eu atacara, por arrastamento, a Ciência com «C»
maiúsculo, e os devotos prontos a tomar os seus ditames como verdades evan­
gélicas. Mas eu sabia, é claro, que Russell, com a sua profunda e crítica com­
preensão da ciência e o seu amor à verdade, não era um desses devotos. Logo,
a destronização da Ciência com «C» maiúsculo, ainda que implícita no que eu
tinha dito, não tinha sido a minha principal intenção, de maneira nenhuma. Em
vez disso, o que eu tinha esperado comunicar ao público era isto: se supuser­
mos que aquilo a que se chama «conhecimento científico» é constituído unica­
mente por conjecturas [guesses or conjectures, N. do T.], então essa suposição
será suficiente para resolver o problema da indução — chamado, por Kant, «o
problema de Hume» — sem sacrificar o empirismo, isto é, sem adoptar um prin­
cípio da indução, dotando-o de validade a priori. Pois as suposições não são
«induzidas a partir de observações» (ainda que possam, é claro, ser-nos sugeri­
das por observações). Este facto permite-nos aceitar sem reservas (e sem os limites
que Russell põe ao empirismo) a crítica lógica de Hume à indução, e desistir,
assim, da busca de uma lógica indutiva, da certeza, e até da probabilidade, mas
prosseguindo entretanto a nossa busca científica da verdade.
Este, o aspecto principal, tinha-se perdido. E apercebi-me de que dificilmente
poderia ter sido de outra maneira. Pois, se as pessoas pensam de modo indu­
tivo — e quem é que o não faz? —, uma observação como «eu não acredito
na indução» dificilmente pode ser interpretada noutro sentido que não seja «eu
não acredito na ciência». Não penso, tampouco, que teria comunicado melhor
aquilo que queria dizer se tivesse começado, digamos, com as seguintes pala­
vras: «acredito na grandeza da ciência, mas não acredito que os métodos ou
procedimentos da ciência sejam indutivos nalgum sentido.» Tivesse eu dito isso,
e as pessoas iriam, sem dúvida, ouvir «Ciência» em vez de «ciência», e pode­
ríam concluir que eu pretendia sustentar alguma doutrina da intuição ou intui-
cionismo, ou talvez alguma forma de autoritarismo científico.
Tendo eu agora mesmo usado dois «ismos», posso talvez referir que tenho
sido muitas vezes censurado, até por alguns dos meus mais clementes amigos
filosóficos, pelo meu hábito de discutir filosofia em termos de «ismos». E eu
estou pronto para admitir que poderia ser muito mais simples se, sem nenhuma
referência a «ismos», pudéssemos explicar os nossos princípios, apresentar os
nossos argumentos, e ficar, assim, satisfeitos. Mas a minha intrigante experiên-

47
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

cia dá um exemplo de porque é que esse método nem sempre funciona. Nós nunca
nos dirigimos a mentes completamente abertas. Por muito aberto que um dado
público possa ter o seu espírito, não pode deixar de albergar, mesmo que seja
só subconscientemente, teorias relacionadas, perspectivas e expectativas acerca
do Mundo e até acerca das maneiras pelas quais aprendemos a conhecê-lo. Esse
público tem posições que adoptou; geralmente, são posições típicas: «ismos».
A maior parte de nós, em especial a maior parte dos filósofos sustenta um
grande número de teorias conscientemente e após exame crítico; e podemos
dispor-nos quer a defendê-las com argumentos, quer a abandoná-las quando bons
argumentos forem apresentados contra elas. Mas também sustentamos teorias
que damos por assentes mais ou menos inconscientemente e, portanto, de uma
maneira acrítica; e essas teorias acriticamente sustentadas contêm, em muitos
casos, a razão mais forte para continuar a sustentar conscientemente as outras
teorias. Que isto é o que acontece é algo que se sabe desde há muito tempo:
Bacon descreveu tais suposições inconscientes como ídolos e como prejuízos \pre-
judices, prejuízos, preconceitos, N. do T.]. Nos Diálogos de Platão, Sócrates
muitas vezes faz os seus interlocutores verem que certas posições por eles toma­
das implicam que sustentem teorias ou perspectivas das quais não têm inteira
consciência, e que, por vezes, estão até em contradição mútua. Antes dele, Par-
ménides fala de opiniões errôneas sustentadas acriticamente por nós, «os mor­
tais».
Uma das mais antigas, mais interessantes e talvez das mais importantes mis­
sões da filosofia é o exame crítico de tais «posições» e das teorias ou perspecti­
vas que elas envolvem — em especial, as que são acriticamente aceites como
garantidas. Fazendo tal exame, descobre-se; muitas vezes, que se trata de agre­
gados de perspectivas relacionadas umas com as outras ligadas por pressupos­
tos comuns, por preferências comuns ou por aversões comuns. É evidente que,
muitas vezes, é conveniente e até necessário dar nomes a tais posições, perspec­
tivas ou agregados [clusters, N. do T.] de perspectivas. Daí, os «ismos».
Os «ismos» terem deixado de estar na moda na filosofia moderna, e o seu
uso, ou o de nomes semelhantes, ser tido por sintoma de mau gosto é algo que
se deve ao facto de a discussão crítica de teorias ou de posições ou de agrega­
dos de perspectivas ter deixado de estar na moda. Mas as modas, especialmente
em filosofia, não deveríam ser aceites. Deveríam ser examinadas criticamente,
porque elas mesmas não passam de «ismos» — «ismos» acriticamente adoptados.
Tudo isto vai dar à indução. Muitos filósofos, e até alguns cientistas, acre­
ditam que a indução é um facto inegável do senso comum: que o uso efectivo
daquilo a que hoje em dia é frequente chamar «procedimentos indutivos» é algo
que não pode ser negado de alguma maneira sensata. Isto pode ou não ser assim
(ver a secção 3, mais adiante). Mas devíamos, em todo o caso, aprender a escu­
tar os que negam factos do senso comum. Os filósofos foram sempre extrema­
mente pacientes em ouvir pessoas que afirmaram e pessoas que negaram a exis-

48
A ABORDAGEM CRÍTICA

tência de mesas e de cadeiras, ou de meteoritos, ou de espíritos [ghosts, N. do T.]


(quer dentro quer fora de máquinas)*, ou de enunciados analíticos. Mas as dis­
cussões de todas estas assunções e «ismos» estão longe de ser tão fundamentais
para a filosofia como é a discussão acerca da existência ou inexistência de pro­
tocolos indutivos. Discutamos, pois, o assunto de uma maneira crítica. Talvez
a assunção da existência ou inexistência de protocolos indutivos — de uma
«lógica indutiva» seja, no fim de contas, um prejuízo, de tal maneira que o que
exista seja meramente um mito, um «ismo» errado (o «indutivismo»).
Se há indutivismo, então isso mostra porque é que os «ismos» são antiqua­
dos. Pois coisas como «ismos» acriticamente sustentados são um perigo para
o indutivismo. Bacon viu isso. Mas o seu remédio — purguem o vosso espírito —
era ingênuo. E, assim, pareceu aos indutivistas ser melhor desviar daí a aten­
ção, ou então estudar «ismos» indutivamente.
Essas teorias que, sendo inconscientemente sustentadas, são evidentemente
sustentadas acriticamente, estão, frequentemente, incorporadas na nossa lingua­
gem, e não só no seu vocabulário, mas também na sua estrutura gramatical.
Tanto quanto sei, isto foi visto pela primeira vez por Bertrand Russell, quando
apontou o facto de muitas teorias filosóficas dependerem do pressuposto errado
de que «todas as proposições são redutíveis à forma sujeito-predicado», um pres­
suposto que está intimamente ligado à estrutura gramatical das línguas Indo-Eu-
ropeias*2. Mais tarde, uma doutrina semelhante foi desenvolvida por Benjamin
Lee Whorf, que salientou, mais especificamente, a dependência da nossa ideia
de tempo em relação à nossa linguagem3.
Estes factos acerca da linguagem são, por vezes, usados para defender a
seguinte conclusão radical. Somos, pode dizer-se, intelectualmente prisioneiros
da nossa linguagem: só somos capazes de pensar em termos de teorias (da subs­
tância, ou do espaço e do tempo, por exemplo) que, sendo-nos desconhecidas,
estão incorporadas na nossa linguagem, e não podemos evadir-nos da nossa pri­
são pelo nosso próprio esforço — por exemplo, por meio de uma discussão crí­
tica —, pois a discussão crítica teria de ser conduzida com auxílio da nossa lin­
guagem, e permanecería, por conseguinte, dentro dela — dentro da prisão. Só
aprendendo uma nova linguagem com uma estrutura diferente — uma lingua­
gem por essência impossível de ser completamente traduzida na nossa velha lin-

* Ver notas do tradutor, no final do volume.


2 Bertrand Russell, A Criticai Examination o f the Philosophy o f Leibniz, 1900. Veja-se, por
exemplo, a p. 15, em que Russell se refere, ao que suponho pela primeira vez nos seus textos, àquilo
a que mais tarde se chamou «pseudo-enunciados» — quer isto dizer, «uma forma de palavras sem
significado» que pode erradamente ser tomada por um enunciado. Ver também o artigo de Russell
intitulado «Logical Atomism», in J. H . Muirhead, ed., Contemporany British Philosophy, First
Series, 1924, pp. 360, 367 e segs., a respeito da «influência da linguagem sobre a filosofia» e, mais
particularmente, sobre «a metafísica de substância-atributo»; e veja-se ainda a p. 61 do seu livro
M y Philosophical Development, 1959.
3 Ver B. L. Whorf, Language, Thought and Reality, 1956.

49
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

guagem — e, portanto, só através do choque com uma nova cultura, e da con­


versão a essa nova cultura, poderiamos ser libertados da nossa prisão. Ou antes,
poderiamos entrar noutra prisão, possivelmente uma prisão maior.
Parece-me haver muito para aproveitar desta doutrina do encarceramento,
mas parece-me que se exageram as suas consequências. Ainda que a ajuda pres­
tada pelo confronto de culturas possa ser imensamente preciosa, podemos, por
vezes, passar sem ela: podemos conseguir com o nosso próprio esforço crítico,
derrubar uma ou outra das muralhas da nossa prisão. Foi o que Russell fez,
quando descobriu uma dessas muralhas (ou quando tomou consciência dela) atra­
vés de um estudo crítico da filosofia de Leibniz. A consciência [awareness,
N. do T.] de qualquer dessas muralhas equivale à sua destruição, já que o encar­
ceramento é intelectual: consiste, em boa parte, na nossa cegueira intelectual
a respeito das muralhas da prisão.
H á que admitir que a descoberta de Russell e a resultante destruição de uma
das muralhas da prisão não o libertou — nem a nós — completamente. Algu­
mas das antigas muralhas ainda estão de pé, precisamente porque não tomá­
mos consciência delas; e mesmo a destruição da muralha intangível de que era
responsável a nossa gramática de sujeito-predicado não significa que possamos
agora evadir-nos para o exterior. Podemos unicamente evadir-nos para dentro
de uma prisão mais ampla (a de uma linguagem de relações). Este facto, porém,
não nos deveria abalar. Uma pena perpétua que nos confina a uma prisão inte­
lectual de que podemos, em princípio, libertar-nos, evadindo-nos para uma mais
ampla, e depois para outra ainda mais ampla, sem limites predeterminado, é
não só uma sentença suportável, mas também uma sentença que abre uma pers­
pectiva emocionante de luta pela liberdade: uma tarefa de valor para a nossa
vida intelectual.
Há várias maneiras, perfeitamente análogas, de se estar intelectualmente
encarcerado. Podemos estar aprisionados não somente numa linguagem, mas
também em sistemas de pressupostos, ou de teorias, ou de pontos de vista (a
que se chamou «ideologias totais»4) dentro de uma linguagem, pressupostos dos
quais podemos não ter consciência, e os quais, por essa mesma razão, podemos
não ser capazes de criticar ou de transcender. Ainda que tudo isto seja de admitir,
não deveria ser exagerado. Diz-se frequentemente, por exemplo, que uma dis­
cussão não pode ser fecunda a não ser que os participantes estejam de acordo
quanto aos pontos fundamentais, ou que partilhem algum background ou alguma
«estrutura conceptual»5 comuns. Nego a verdade de tal asserção. Ainda que uma
discussão possa ser muito satisfatória para os participantes se eles estiverem de

4 Encontrar-se-á uma crítica da doutrina das «ideologias totais» e de construções socíologísti-


cas análogas no capítulo 23 de The Open Society, op. cit. Veja-se, por exemplo, a referência à crí­
tica que Einstein faz do nosso «aparato categorial» na pp. 220.
5 [Ver «O Mito da Estrutura», op. cit., e «Addendum: Facts, Standards, and Truth: A Fur-
ther Criticism of Relativism», in The Open Society, op. cit., Ed.]

50
A ABORDAGEM CRÍTICA

acordo em todos os pontos importantes, será mais fecunda em condições menos


agradáveis.
Uma das tarefas da crítica filosófica é tornar conscientes esses vários siste­
mas de crenças [systems o f beliefs, N. do T.] de tal maneira que, depois de um
exame inquiridor, possamos, a título de ensaio, escolher o melhor que esteja
à nossa disposição. Mas isto significa que temos de compreender, examinar, com­
parar e criticar sistemas coerentes de supostos, isto é, «abordagens» [approa-
ches, N. do T.] ou «ismos» (tais como indutivismo, ou positivismo, ou intui-
cionismo). Naquela reunião da Aristotelian Society, a minha tentativa de explicar
a minha solução estava condenada ao fracasso porque não tive oportunidade
de analisar e de criticar a abordagem ou atitude a que chamei «indutivismo»,
uma atitude que estava condenada a impor às minhas palavras uma interpreta­
ção que eu não tinha pretendido.
Quem pensa tem tendência para desenvolver alguma estrutura à qual tenta
acomodar qualquer nova ideia com que se depare. Regra geral, traduz até qual­
quer nova ideia que encontre para uma linguagem adequada à sua própria estru­
tura. Uma das tarefas mais características da filosofia é atacar, se for preciso,
a própria estrutura. E para o fazer, pode vir a ser necessário atacar crenças que,
sejam elas conscientemente sustentadas ou não, são tão dadas por certas que
qualquer crítica delas se sente que é preversa ou que não é sincera. Sempre que
a própria estrutura for atacada, os seus defensores irão, regra geral, interpretar
e tentar refutar o ataque no interior da própria estrutura por eles adoptada. Mas,
ao tentar traduzir argumentos críticos dirigidos contra a estrutura para uma lin­
guagem adequada a essà estrutura, estão sujeitos a produzir distorções fatais
e mal-entendidos. Uma discussão em termos de «ismos» pode, em certa medida,
diminuir isto, ao salientar constantemente o facto de a própria estrutura estar
debaixo de fogo.2

2 — A abordagem crítica: solução do problema da indução

Não acredito na Crença


[I do not believe in Belief, N. do T.]

E. M. FORSTER

Ao longo dos muitos anos que se passaram desde a reunião da Aristotelian


Society, nunca me ocorreu que a minha própria abordagem, a minha própria
estrutura, poderia estar mais sujeita a mal-entendidos do que outras — que podia
colidir mais gravemente com certas idéias largamente sustentadas e inconscien­
temente aceites — e que, por conseguinte, as pessoas podiam interpretar mal

51
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

a minha abordagem, indentificando-a com alguma forma de irracionalismo, cep-


ticismo ou relativismo. Só há pouco é que comecei a suspeitar disto, e a suspei­
tar de que a minha própria abordagem da teoria do conhecimento era mais revo­
lucionária, e por essa razão mais difícil de captar, do que eu pensava. Esta
suspeita nasceu de uma nova maneira de encarar a minha própria abordagem
e a sua relação com a situação problemática existente na filosofia, uma maneira
que me foi sugerida pelo meu amigo W. W. Bartley, III. As idéias de Bartley
são admiráveis por si mesmas6. Mas também explicam porque é que certos mal-
-entendidos quanto à minha posição tão inevitavelmente surgem.
O problema central da filosofia do conhecimento, pelo menos desde a
Reforma, tem sido o seguinte. Como podemos adjudicar ou avaliar as preten­
sões, de amplo alcance, de teorias e crenças em competição? Chamarei a este
o nosso primeiro problema. Este problema levou, historicamente, a um segundo
problema: Como podemos justificar as nossas teorias ou crenças? E este segundo
problema, por sua vez, está ligado a umas quantas outras questões: em que con­
siste uma justificação? e, mais especialmente: é possível justificar as nossas teo­
rias ou crenças racionalmente, isto é, dando razões — «razões positivas» (como
lhes irei chamar), tais como o apelo à observação; razões, quer isto dizer, para
as considerar verdadeiras, ou, pelo menos, «prováveis» (no sentido do cálculo
de probabilidades)? Elá, é claro, um suposto não-explícito, aparentemente inó­
cuo, que patrocina a transição da primeira questão para segunda: nomeada­
mente, o suposto de que se adjudica a partir de pretensões em competição deter­
minando qual delas pode ser justificada por razões positivas, e quais é que o
não podem ser.
Ora, Bartley sugere que a minha abordagem resolve o primeiro problema,
mas que, ao fazê-lo muda completamente a sua estrutura. Porque eu rejeito o
segundo problema, que acho irrelevante, e as respostas que é costume dar-lhe,
que acho incorrectas. E igualmente rejeito, por ser incorrecto, o suposto que
leva do primeiro problema ao segundo. Afirmo (divergindo, defende Bartley,
de todos racionalistas anteriores, excepto, talvez, dos que se lançaram no cepti-
cismo) que não podemos dar nenhuma justificação positiva, nem nenhuma razão
positiva, das nossas teorias e das nossas crenças. Quer isto dizer, não podemos
dar nenhumas razões positivas para considerar as nossas teorias verdadeiras.
Além disso, afirmo que a crença segundo a qual podemos dar tais razões, e ainda
segundo a qual deveriamos buscá-las, não é, ela mesma, uma crença racional
nem verdadeira, mas sim uma crença que se pode mostrar ser sem préstimo.

6 Algumas dessas perspectivas foram, entretanto, publicadas: ver W. W. Bartley, III, The Retreat
to Commitment, 1962, e «Rationality versus the Theory of Rationality», in The Criticai Approach
to Science and Philosophy, ed. Mario Bunge, 1964. [Ver agora também o meu texto «The Philo-
sophy of Karl Popper, part m: Rationality, Criticism, and Logic», Philosophia, 1982. Ed.] Mas
estas minhas observações, as que faço no texto, não se baseiam nessas publicações, mas sim em
conversas que mantive com Bartley antes de tal publicação. Esta secção foi, em parte, reescrita em
1979.

52
A ABORDAGEM CRÍTICA

(Estava para escrever a expressão «destituída de base» [baseless, N. do T.]


onde escrevi «sem préstimo». Isto justamente constitui um bom exemplo de quanto
a nossa linguagem é influenciada pelos supostos inconscientes que são atacados
no interior da minha própria abordagem. Supõe-se, sem crítica, que só uma pers­
pectiva que carece de préstimo será destituída de base — sem base, no sentido
de ser infundada, ou injustificada, ou sem apoio, ao passo que, segundo a minha
perspectiva, todas as perspectivas — as boas e as más — são, neste importante
sentido, destituídas de base, infundadas, injustificadas, sem apoio.) .
Tanto quanto a minha abordagem envolve tudo isto, a minha solução do
problema central da justificação — tal como ele sempre foi entendido — é tão
inequivocamente negativa como a de qualquer irracionalista ou céptico.
Estou, porém, em divergência com o céptico e com o irracionalista ao ofe­
recer uma solução inequivocamente afirmativa de outro problema, um terceiro
problema, o qual, ainda que seja semelhante ao problema de saber se podemos
ou não dar razões válidas para se considerar uma teoria verdadeira, deve ser
claramente distinguido dele. Esse terceiro problema é o problema de saber se
uma teoria é preferível a outra — e, a sê-lo, porquê. (Estou a falar de uma teo­
ria ser preferível no sentido em que pensamos ou conjecturamos que ela é uma
aproximação mais chegada à verdade e que até temos razões para pensar ou con-
jecturar que assim seja.)
A minha resposta a esta pergunta é inequivocamente afirmativa. Podemos,
muitas vezes, dar razões para que se encare uma teoria como sendo preferível
a outra. Consistem tais razões em apontar que, e como é que, uma teoria tem
até então aguentado a crítica melhor do que outra. Chamaria a tais razões razões
críticas, para as distinguir daquelas razões positivas que se oferecem com a
intenção de justificar uma teoria, ou, por outras palavras, de justificar a crença
na verdade dessa teoria.
As razões críticas não justificam uma teoria, pois o facto de uma teoria ter
sempre, até certo momento, aguentado a crítica melhor do que outra não é razão
nenhuma para se supor que seja realmente verdadeira. Mas, ainda que as razões
crítica não possam nunca justificar, uma teoria, podem ser usadas para defen­
der (mas não para justificar) a nossa preferência por essa teoria, isto é, a nossa
decisão de a usar a ela, em vez de alguma das outras (ou de todos as outras)
teorias até então propostas. Tais razões críticas não provam, é claro, que a nossa
G

preferência seja mais do que conjectural: houvesse novas razões críticas a


pronunciarem-se contra a nossa preferência, e teríamos de a abandonar, ou o
mesmo se uma nova e prometedora teoria fosse proposta, exigindo uma reno­
vação da discussão crítica.
Dar razões para a nossa preferência pode, é claro, ser chamado uma justifi­
cação (em linguagem comum). Mas não é uma justificação no sentido que aqui
se critica. As nossas preferências são «justificadas» apenas relativamente ao
estado actual da discussão.

53
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

Adiando para mais tarde a importante questão dos padrões [standards,


N. do T.] de preferência por teorias, passo agora a apresentar a perspectiva
de Bartley sobre a nova situação problemática que surgiu. Bartley descreve
a situação de maneira notável, dizendo que eu, após ter dado uma solução
negativa ao clássico problema da justificação, o substituí pelo novo pro­
blema da crítica, um problema para o qual ofereço uma solução afirma­
tiva.
Esta transição do problema da justificação para o problema da crítica é,
sugere Bartley, fundamental, e dá origem a mal-entendidos porque quase toda
a gente aceita implicitamente como garantido que todas as outras pessoas
(incluindo eu) aceitam que o problema da justificação é o problema central da
teoria do conhecimento.
Porque, segundo Bartley, todas as filosofias, até agora, foram filosofias
justificacionistas, no sentido em que todas elas supuseram que a tarefa prima
facie da teoria do conhecimento era mostrar que, e como é que, podemos jus­
tificar as nossas teorias ou crenças. Não foram só os racionalistas, os empi-
ristas e os kantianos que partilharam tal suposto, mas também os cépticos e
os irracionalistas. Os cépticos, obrigados a admitir que não podemos justifi­
car as nossas teorias ou crenças, declaram a ruína da busca do conhecimento,
ao passo que os irracionalistas (os fideístas, por exemplo), devido à mesma
admissão fundamental, declaram a ruína da busca de razões — isto é, de argu­
mentos racionalmente válidos — e tentam justificar o nosso conhecimento, ou,
antes, as nossas crenças, apelando para a autoridade, como a autoridade de
fontes irracionais. Ambos supõem que a questão da justificação ou da exis­
tência de razões positivas é fundamental: ambos são justificacionistas clás­
sicos.
Bartley observa que a minha abordagem foi quase sempre tomada, errada-
mente, por alguma forma de justificacionismo, ainda que, de facto, seja com­
pletamente diferente deste. Pois, ainda que eu ofereça uma solução negativa do
clássico problema da justificação, assemelhando-me, nesse aspecto, aos cépti­
cos e aos irracionalistas, ao mesmo tempo destrono o problema clássico e
substituo-o por um novo problema central que permite uma solução que não
é céptica nem irracionalista. Pois a solução que proponho para o novo problema
é compatível com a ideia de que o nosso conhecimento — o nosso conhecimento
conjectural — pode crescer, e que o pode fazer através do uso da razão, do argu­
mento crítico.
A minha posição, sugere Bartley, é susceptível de ser mal compreendida, a
não ser que se capte primeiro que o problema clássico da justificação foi não
só removido da sua posição central, mas também que, visto do novo ponto de
vista, ele tem, na verdade, de ser desmantelado por ser insignificante. Porém,
para um justificacionista, é muito difícil ver isto. Pois ele argumentará como
Hume: «Se eu lhe perguntar porque é que você crê nalgum assunto em parti-

54
A ABORDAGEM CRÍTICA

cular [...], você terá de me dar alguma razão; [...] ou terá de conceder que a
sua crença é inteiramente destituída de fundamento.»7
Ora, tal como E. M. Forster, eu não acredito na crença: não estou interes­
sado numa filosofia da crença, e não acredito que as crenças e a sua justifica­
ção, fundação ou racionalidade sejam o assunto da teoria do conhecimento. Mas
se, naquele passo de Hume, substituirmos as palavras «crê em» por «propõe
uma teoria ou uma conjectura acerca de», e as palavras «a sua crença» por «a
sua conjectura», então a afirmação de Hume perde muito a sua força. Pois pou­
cas pessoas se hão-de chocar por ouvir dizer que a conjectura é «inteiramente
destituída de fundamento». Ter algum «fundamento» ou justificação, pode ser
importante para uma crença, mas não é o tipo de coisa que se exija de uma con­
jectura ou de uma hipótese, pelo menos no sentido em que Hume usa o termo
«fundamento» (que corresponde à minha expressão «justificação através de
razões positivas»). É certo que apenas algumas pessoas falam de «os fundamen­
tos da teoria física», por exemplo, mas isso ou é discurso justificacionista, ou
então significa algo de muito diferente; e uma vez que nos apercebamos de que
as teorias físicas são conjecturas ou hipóteses, e que estão sujeitas a mudanças
revolucionárias, podemos preferir não falar dos seus «fundamentos» — nem
mais nem menos do que acerca da nossa crença nelas.
Podemos, é certo, dar algumas razões para propor uma hipótese, e para a sub­
meter a discussão crítica. Mas isso não são razões justificatórias, são mais da natu­
reza de explicações de porque é que nós — à luz dos nossos objectivos, tais como
alcançar teorias mais criticáveis e mais severamente criticadas — oferecemos uma
teoria em vez de uma outra. Estas razões e o seu papel lógico são declaradamente
diferentes das que Hume tinha na ideia. Podemos, por exemplo, estar a oferecer
uma razão perfeitamente boa para propor uma hipótese ao indicar que se ela fosse
verdadeira, resolvería um problema que queremos resolver (como a teoria de New-
ton, que resolveu o problema de explicar as leis de Kepler). Uma razão deste gênero
pode ser perfeitamente suficiente para se propor uma hipótese e para se recomen­
dar uma hipótese como sendo merecedora da nossa atenção crítica. Mas não seria,
é claro,-uma razão para se supor que fosse verdadeira. Pode nem sequer ser uma
razão para a aceitarmos a título de ensaio, nem até para a preferir, pois podem
existir outras hipóteses conhecidas que resolvam o problema ainda melhor.

II

Chegamos, assim, a perceber que o problema epistemológico de Hume — o


problema de dar razões justificativas positivas, ou problemas da justificação —
podia ser substituído pelo problema, que é totalmente diferente, de explicar,

7 David Hume, Enquiry Concerning Human Understanding, secção v, parte i; Selby-Bigge,


p. 46. [Cf. Popper acerca de métodos de crítica em The S elf and its Brain, op. cit., pp. 172-3. Ed.]

55
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

dando razões críticas, por que é que preferimos uma teoria a uma outra (ou
a todas as outras que nos sejam conhecidas), e, em última análise, pelo pro­
blema de discutir criticamente hipóteses para descobrir qual delas é — compa­
rativamente — a que se há-de preferir.
Um justificacionista pode, porém, objectar que eu não substituí realmente
um problema por outro. Ele pode argumentar, primeiro, que, em vez de «razões
por que preferimos uma teoria a uma outra» eu podia ter dito «razões por que
julgamos que uma teoria é melhor que outra». Enquanto esta questão é de natu­
reza verbal, estou pronto a concedê-lo; pois ainda que eu não queira filosofar
acerca de crenças, nunca entro em disputas por causa de palavras. Em segundo
lugar, ele pode dizer que ainda que se dispusesse a admitir que essas «razões
por que acreditamos que uma teoria é melhor do que uma outra» talvez não
tivessem o carácter de razões para se acreditar que, digamos, a primeira dessas
teorias é verdadeira, poderia ainda assim afirmar que são «razões positivas»:
que são razões para se acreditar na verdade de alguma teoria — isto é, na ver­
dade da teoria (metateoria, como se lhe pode chamar) de que a primeira teoria
é melhor do que a segunda. Desta maneira, o justificacionista podia concluir
que eu não substituí realmente o problema da justificação por outro diferente.
Porém, ao dizer isto, o justificacionista limitar-se-ia a não se aperceber daquilo
que admitira. Primeiro, há uma infinita diferença entre uma metateoria que
afirma que uma teoria A é melhor do que uma teoria B, e outra metateoria que
afirma que a teoria A é, de facto, verdadeira (ou «provável»). E há uma infinita
diferença entre argumentos que poderíam ser considerados válidos e razões de
peso em apoio de uma ou de outra dessas duas metateorias. Por exemplo, ao dis­
cutir teorias ou conjecturas explicativas em competição (teorias ou conjecturas
acerca, digamos, de estrutura da matéria), podemos muitas vezes, resumir bem
a situação dizendo que, segundo o estudo presente do debate crítico, a conjec­
tura a é largamente superior à conjectura b, ou até a todas as outras conjecturas
propostas até ao momento: que parece ser uma melhor aproximação à verdade
do que qualquer das outras (e talvez ela possa até ser verdadeira). Mas, em geral,
não seremos capazes de dizer que, segundo o estado presente do debate crítico,
a conjectura a é a melhor que alguma vez será produzida na sua área, ou que
parece ser realmente verdadeira. Portanto, uma das duas metateorias pode não
fazer mais do que resumir bem o estado presente da nossa discussão crítica, e
pode, nesse sentido, ser meramente negativa, meramente crítica, ao passo que
a outra, de um modo geral, não fará isso de modo nenhum (ainda que possa resu­
mir o estado presente da nossa crença, ou da nossa convicção intuitiva).
Em segundo lugar, não há, mais uma vez, nenhuma tentativa da minha parte,
de justificar positivamente, ou de estabelecer, no sentido tradicional, que uma
dada preferência por uma teoria face a outra é a preferênia correcta. O pro­
blema da justificação não é apenas mudado; é suprimido. A metateoria tam­
bém não é positivamente justificada: é conjectural — e aberta à crítica.

56
A ABORDAGEM CRITICA

III

Objecção mais importante parece ser a seguinte. A minha pretensão de ter


substituído o problema da justificação por outro problema é tão destituída de
fundamento, pode um justificacionista dizer, quanto a minha pretensão a ter
dado soluções diferentes das dos cépticos e dos irracionalistas. Que esta última
pretensão é destituída de fundamento é o que se pode ver (assim pode o justifi­
cacionista argumentar), a partir do facto de a minha resposta acabar por ser
idêntica ao relativismo, ao pragmatismo, e a perspectivas semelhantes muito
conhecidas (ou, quanto muito, ser uma variante delas). Pois, ao dizer que deve­
riamos substituir a questão de saber se uma teoria é verdadeira pela questão de
saber se ela é melhor ou pior do que alguma outra teoria, estou, claramente,
a adoptar, assim o justificacionista pode argumentar, uma posição relativista
com respeito à verdade. E quando digo que esta última questão deveria ser deci­
dida invocando o sucesso das teorias em causa, mostro-me (pode ele argumen­
tar) ser um pragmatista, ou talvez até um convencionalista.
Mas esta objecção atribui-me implicitamente doutrinas justificacionistas que
eu não sustento. É que eu não digo que deveriamos substituir a questão de saber
se uma teoria é verdadeira pela questão de saber se ela é melhor do que outra teo­
ria, nem digo que uma teoria é melhor do que outra sempre que tem mais sucesso
nalgum sentido pragmático. Ambos estes aspectos são de grande importância.
A minha posição é a seguinte. Afirmo que a busca da verdade — ou de uma
teoria verdadeira que possa resolver o nosso problema — é de toda a importân­
cia: toda a crítica racional é uma crítica da pretensão de uma teoria a ser verda­
deira e a ser capaz de resolver os problemas que lhe compete resolver. Não subs­
tituo, pois a questão de saber se uma teoria é verdadeira pela questão de saber
se ela é melhor do que outra. Substituo antes a questão de saber se podemos
produzir razões válidas (razões positivas) a favor da verdade de uma teoria pela
questão de saber se podemos produzir razões válidas (razões críticas) contra o
ela ser verdadeira, ou contra a verdade das que com ela estejam em competi­
ção. Além disso, descrever uma teoria como sendo melhor do que outra, ou supe­
rior, ou o que se queira, é, mantenho, indicar que ela parece aproximar-se mais
da verdade8.
A verdade — a verdade absoluta — continua a ser o nosso fito; e continua
a ser o padrão implícito da nossa crítica: quase toda a crítica é uma tentativa
de refutar a teoria que se critica, isto é, de mostrar que ela não é verdadeira.
(Uma excepção importante é constituída pela crítica que tenta mostrar que uma

8 Para uma análise lógica da expressão «aproximar-se mais da verdade» [nearer to the truth,
N. do T.], ver Conjectures and Refutations: The Growtk o f Scientific Knowledge, 1963, especial­
mente o capítulo 10 e a Adenda. Ver também, aqui no Pós-escrito, a secção 4, adiante. [Ver tam­
bém Objective Knowledge, 1972, especialmente os capítulos 2, 3 e 9; e The Self and its Brain, 1977,
pp. 148-149. Ed.)

57
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

teoria não é relevante — que não resolve o problema que lhe competia resol­
ver.) Estamos, pois, constantemente em busca de um teoria verdadeira (uma teo­
ria verdadeira e relevante), ainda que não possamos nunca dar razões (razões
positivas) para mostrar que encontrámos realmente a teoria verdadeira que bus-
cávamos. Ao mesmo tempo, podemos ter boas razões — isto é, boas razões crí­
ticas — para pensar que aprendemos algo de importante: que progredimos em
direcção à verdade. Pois podemos, primeiro, ter aprendido que uma determi­
nada teoria não é verdadeira segundo o estado presente da discussão crítica; e,
em segundo lugar, podemos ter encontrado algumas razões provisórias para acre­
ditar (sim, até para acreditar) que uma teoria nova se aproxima mais da ver­
dade do que as suas antecessoras.
Para ser menos abstracto, vou dar um exemplo histórico.
As teorias de Einstein foram muito discutidas pelos filósofos, mas poucos
salientaram o importante facto de que Einstein não acreditava que a relatividade
especial fosse verdadeira: logo desde o início, ele chamou a atenção para o facto
de ela poder ser, quando muito, apenas uma aproximação (já que era válida ape­
nas para o movimento não-acelerado)9. Encaminhou-se, assim, para uma apro­
ximação maior, a relatividade geral. E, mais uma vez, fez notar que essa teoria
também não podia ser verdadeira, mas sim somente uma aproximação. De facto,
buscou uma melhor aproximação durante quase quarenta anos, até à sua morte10.
Não há vestígio de relativismo epistemológico na atitude de Einstein, apesar
do nome «Teoria da Relatividade»: Einstein buscou a verdade, e pensou ter
razões — razões críticas — que lhe indicavam que não a tinha encontrado. Ao
mesmo tempo, deu, ele e muitos outros, razões críticas que indicaram que tinha
feito grandes progressos na direcção da verdade — que as suas teorias resol­
viam problemas que as respectivas antecessoras não eram capazes de resolver,
e que se aproximavam mais da verdade do que as suas rivais conhecidas11.

9 [Ver, de Popper, o «Prefácio de 1982» a A Teoria dos Quanta e o Cisma em Física, vol. m
do Pós-escrito. Ed.]
10 Como acabou por se revelar depois da sua morte, é possível que Einstein estivesse tragica­
mente enganado nas suas dúvidas a respeito da relatividade geral: veja-se, por exemplo, Charles
W. Misner e John A. Wheeler, «Classical Physies as Geometry», Annals o f Physics 2, 1957, pp.
525 e segs., em que se chama a atenção para G. Y. Rainich, Transactions o f the American Mathe-
matical Society 27, 1925, pp. 106-136. Ver ainda Rainich, «Electromagnetics in the General Relati-
vity Theory», Proceedings o f the National Academy o f Sciences o f the U. S. A . 10, 1924, pp. 124
e segs.; The Mathematics o f Relativity, New York, 1950; e os últimos textos de Wheeler, especial­
mente o que surge em Logic, Methodology and Phüosophy o f Science, Proceedings o f the 1960
International Congress, ed, E. Nagel, P. Suppes e A. Tarski, 1962, pp. 361-374. Desde que esta
nota foi escrita, a teoria de Misner-Wheeler, a que agora se chama «Geometrodinâmica», conhe­
ceu um grande desenvolvimento. Veja-se sobretudo a Geometrodynamics de Wheeler, 1962; e Charles
W. Misner, Kip S. Thorne e John A. Wheeler, Gravitation, 1973.
11 As razões que Einstein tinha para assim pensar foram criticadas, da maneira mais interes­
sante possível, por Alfred 0 ’Rahilly, em Electromagnetics: A Discussion o f Fundamentais, 1938 —
um livro que se destaca entre os textos dedicados ao ataque (e, habitualmente, à má interpretação)
da relatividade especial.

58
A ABORDAGEM CRÍTICA

Este exemplo pode apoiar a minha afirmação de que ao substituir o pro­


blema da justificação pelo problema da crítica não precisamos de abandonar
nem a teoria clássica da verdade como correspondência com os factos, nem a
aceitação da verdade como um dos nossos padrões da crítica. (Outros valores
são a relevância para os nossos problemas, e o poder explicativo.)
Por conseguinte, ainda que eu mantenha que o que é mais frequente é nós
não encontrarmos a verdade, e não sabermos sequer quando é que a encontrá­
mos, retenho a ideia clássica de verdade absoluta ou objectiva como ideia regu­
ladora; quer isto dizer, como padrão de que podemos ficar abaixo. A mudança
que houve não diz respeito à ideia de verdade, mas sim a quaisquer pretensões
a conhecer a verdade, quer isto dizer, a ter à nossa disposição argumentos ou
razões que bastem, ou até quase bastem, para estabelecer a verdade de qual­
quer teoria em questão.
Não há que se ficar chocado com a descoberta de que não podemos justifi­
car, nem sequer apoiar com argumentos ou razões, a pretensão de que as nos­
sas teorias sejam verdadeiras. É que o raciocínio crítico tem ainda uma impor­
tantíssima função relativamente à avaliação de teorias: podemos criticar e
descriminar as nossas teorias em consequência da nossa discussão crítica. Ainda
que em tal discussão não possamos, regra geral, distinguir (com certeza, ou quase
com certeza) uma teoria verdadeira de uma teoria falsa, podemos, por vezes,
distinguir uma teoria falsa de uma teoria que pode ser verdadeira. E, muitas
vezes, podemos dizer de uma determinada teoria que, à luz do estado presente
da nossa discussão crítica, ela parece ser muito melhor do que qualquer outra
teoria apresentada; melhor, entenda-se, do ponto de vista do nosso interesse pela
verdade, ou melhor no sentido de nos aproximarmos mais da verdade.
Saliento, portanto, a função crítica (ou, se se quiser, negativa) da razão.
Saliento, porém, também que o raciocinar é mais importante, mais poderoso
e menos estéril do que o que tem sido habitual pensar-se. A crítica racional é,
na verdade, um meio através do qual aprendemos, através do qual crescemos
em conhecimento e nos transcendemos a nós mesmos.

IV

Parece-me que a formulação simples de Bartley — que a justificação pode


ser substituída por crítica não-justificacional — e o seu ênfase na mudança de
foco envolvida pela transição das várias filosofias justificacionistas para uma
filosofia crítica que não visa a justificação é muitíssimo esclarecedor. Pelo menos,
foi o que eu achei, e sentindo que o leitor também poderia tirar partido dele,
decidi apresentar aqui a formulação de Bartley. Essa formulação ajudou-me a
ver porque é que a própria ideia de crítica é tantas vezes mal compreendida pelos
filósofos justificacionistas: estes têm tendência para reduzir a ideia de crítica
válida à magra tarefa de provar a invalidade de certas tentativas de justificar

59
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

certas crenças. A formulação de Bartley também ajuda a explicar porque é que


eu posso estar de acordo com tanto do que foi dito por vários irracionalistas
contra o racionalismo e contra as tentativas racionalistas de justificar as nossas
crenças, ainda que não faça concessões ao irracionalismo, mas insista, pelo con­
trário, que qualquer teoria ou crença pode, e deve, ser submetida a uma crítica
racional severa e inquiridora [searching, N. do T.], e que deveriamos buscar
razões — argumentos racionais — que a pudessem refutar. Na verdade, afir­
mei que o que distingue a atitude de racionalidade é simplesmente a abertura
à crítica12.
Os irracionalistas têm toda a razão quando insistem que temos outras «fon­
tes [sources, N. do T.) de conhecimento» além da razão e da observação —
exemplo, a inspiração, ou a compreensão por simpatia; ou a tradição, que é
talvez a «fonte de conhecimento» mais importante, e que com tanta frequência
é ignorada pelos racionalistas por causa da sua óbvia falibilidade13. Mas os irra­
cionalistas estão perigosamente enganados quando dizem que há um conheci­
mento, seja de que gênero for, ou que fonte tiver, ou que origem, que está acima
ou está isento da crítica racional.

Igualmente errada é a perspectiva segundo a qual a crítica racional estaria


no mesmo barco que o argumento racional positivo, já que também ela tem sem­
pre de se basear em alguns pressupostos indemonstráveis, de tal maneira que
a sua validade é, por essência, relativa face a esses pressupostos; ou, por outras
palavras, de tal maneira que nos defrontamos com uma situação na qual a posi­
ção A é criticada em termos da posição B, a qual, porém, é impossível, por sua
vez, de se estabelecer, de modo que nenhuma crítica de A em termos de B será
terminante — e vice-versa, é claro.
Muitos dos componentes individuais deste argumento estão perfeitamente
correctos. Mas a conclusão de maneira nenhuma deriva deles. Assim estou dis­
posto a admitir que, nas nossas críticas, muitas vezes trabalhamos com pressu­
postos injustificáveis e indemonstráveis. Assim, a nossa crítica nunca é, na ver­
dade, terminante. Mas a indemonstrabilidade, seja de que gênero for, nunca
preocupa o racionalista crítico. Pois os argumentos deste — tal como as teorias
que critica precisamente em termos desses argumentos — são conjecturais. A
diferença é muito simples. O argumento justificacional, conducente a razões posi­
tivas, mais tarde ou mais cedo alcança razões que não podem, elas mesmas, ser

12 Ver, por exemplo, The Open Society and its Enemies (fourth edition, 1962), capítulo 24;
e a conferência que dei no Academia, «On the Sources of Knowledge and of Ignorance» (que hoje
em dia é a Introdução a Conjectures and Refutations, 1963; ver sobretudo as pp. 25-30). [Ver ainda
«Addendum; Facts, Standards, and Truth: A Further Criticism of Relativism», op. cit. Ed.]
13 [Ver, dePopper, «Towards a Rational Theory of Tradition», Conjectures and Refutations. Ed.]

60
A ABORDAGEM CRÍTICA

justificadas (senão, o argumento levaria a um regresso infinito). E o justifica-


cionista costuma tirar por conclusão que tais «pressupostos últimos» têm, de
algum modo, de estar para além dos argumentos, não podendo ser criticados.
Mas as críticas, as razões críticas oferecidas pela minha abordagem não são,
em sentido nenhum, as últimas: também elas estão abertas à crítica; são con­
jecturais. Pode-se continuar indefinidamente a examiná-las; elas estão indefini­
damente abertas ao reexame e à reconsideração. Todavia, não se gera nenhum
regresso infinito, pois não está em causa provar nem justificar nem estabelecer
nada, e não há necessidade de qualquer pressuposto supremo. Só a exigência
de prova ou de justificação é que origina um regresso infinito e cria a necessi­
dade de um termo último da discussão. É este o cerne da diferença entre justifi­
cação e crítica14.
Relacionada com esta objecção está a ideia, largamente difundida, de que
um método puramente crítico — isto é, um método de justificar positivamente
o que quer que seja — é impossível, por ter de se confinar à crítica de tipo «ima-
nente». Uma crítica chama-se «crítica imanente» quando ataca uma teoria a par­
tir de dentro, adoptando todas as suposições ou pressupostos desta, e só esses;
e chama-se «crítica transcendente» quando ataca uma teoria a partir de fora,
procedendo a partir de suposições ou pressupostos que são estranhos à teoria
criticada. Contudo, é o que se defende, a crítica imanente é relativamente pouco
importante, pois uma vez que não pode fazer mais do que apontar inconsistên­
cias lógicas dentro da teoria criticada, nunca pode resultar contra uma teoria
consistente. (Além disso, pode-se até dizer que apontar inconsistências pode não
ser totalmente imanente, já que assume ou pressupõe uma lógica que exclui
inconsistências.) Chega-se assim à conclusão de que qualquer crítica de uma teo­
ria consistente, e, portanto, a crítica mais importante, deve ser «transcendente».
Donde se acaba por defender que os defensores de uma teoria que esteja debaixo
de ataque podem sempre rejeitar qualquer crítica por não ser terminante, ou
por não ser válida — a não ser, na verdade, que das suposições ou dos pressu­
postos que estivessem na base de alguma crítica transcendente pudesse ser dada
uma justificação positiva. Os métodos da crítica e da justificação positiva esta­
riam assim, é o que parece, no mesmo barco.
A ideia plausível do âmbito estreito e da insignificância (relativa) do método
crítico está errada. Parece estar ligada à observação, essa correcta, de que todos,
ou a maior parte dos críticos de um sistema de pensamento adoptam um outro
sistema de pensamento que os guia no seu ataque crítico. Ainda que a crítica
possa, realmente, ter tendência para ser «transcendente» no que respeita à sua
origem, orientação ou inspiração, isso não significa que tenha de ser «transcen­
dente» no sentido lógico do termo. De facto, nenhum crítico autocrítico ficará
satisfeito, regra geral, com essa crítica, a não ser que consiga livrar-se dos ves-

14 [Ver a L.Sc.D. de Popper, secção 29. Ed.]

61
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

tígios da sua origem transcendente. Ainda que seja guiado pelo seu próprio
sistema de pensamento, transformará a sua crítica até que ela se torne ima-
nente — e, por isso mesmo, mais eficaz contra o seu opositor. É que a teoria
que está a ser examinada não é apenas um sistema de supostos, dogmas, con­
jecturas, ou o que quer que seja; é também uma tentativa de resolver um pro­
blema. Por conseguinte, pode ser imanentemente criticada por, por exemplo,
não resolver os seus problemas, ou por não resultar mais do que as que compe­
tem consigo, ou por se limitar a transferir o problema a resolver, etc. Deste
modo, a crítica imanente pode apontar fraquezas graves até numa teoria con­
sistente. Quanto ao apontar inconsistências, será, na maior parte dos casos, aceite
como uma crítica imanente, precisamente porque o problema que uma teoria
se lança a resolver é o de dar uma explicação consistente de algo (o resultado
de uma experiência, por exemplo) que contradiga teorias anteriores. Em geral,
a situação problemática que estimula a teoria que está a ser criticada, e que,
só ela, lhe dá pertinência, contém sempre supostos ou pressupostos que incluem
a aceitação de princípios lógicos (e a ultrapassam em muito) — tais como a regra
de rejeitar contradições — e que fornecem uma ampla base para crítica ima­
nente. (Por exemplo, quando a situação problemática que leva à formulação
de uma teoria envolve a tarefa de explicar certas observações ou experimentos,
podem-se usar outros experimentos para criticar a teoria imanentemente —
desde, é claro, que os defensores da teoria estejam dispostos a admitir os resul­
tados desses experimentos1516.) Logo, a crítica imanente é possível e é importante.
Não é, porém, preciso que nos confinemos à crítica transcendente. Esta con­
siste em proceder a partir de uma teoria em competição, e não há nada de errado
em tentar mostrar que uma teoria evidencia fraquezas ao passo que a outra o
não faz. Pelo contrário, este gênero de crítica transcendente mútua pode, no
fim de contas, permitir-nos dizer que uma determinada teoria é preferível à que
compete consigo, e porque é que o é.

VI

A abordagem crítica que aqui descreví leva quase imediatamente a uma solu­
ção simples do problema de indução de Hume (1939)1S.

15 Devo a observação contida entre parênteses a um comentário de Alan E. Musgrave acerca


deste trecho.
16 A crítica humana da indução ocorre pela primeira vez no Treatise o f Human Nature, livro
i, parte iii, secçâo vi, em que Hume explica que não devemos, ao tentar justificar as nossas crenças,
recorrer à experiência «para lá daqueles casos particulares que foram objecto de observação» (ver
a p. 91 da edição Selby-Bigge); quer isto dizer, para lá daquilo que realmente conhecemos por obser­
vação. (Ainda que Hume muitas vezes se refira a uma inferência do passado para o futuro, deve­
mos considerar isto, é a minha sugestão, apenas como um caso especial da inferência daquilo que
é realmente conhecido por observação para aquilo que não é conhecido.) O argumento de Hume

62
A ABORDAGEM CRÍTICA

Recordemos o que é que Hume tentou mostrar (na minha opinião, com
sucesso, até onde a lógica chega).
0 Indicou que há inúmeras regularidades (aparentes) na natureza nas quais
toda a gente, na prática, confia, e muitas leis universais da natureza, aceites pelas
cientistas, que são da maior importância teórica.
ií) Tentou mostrar que qualquer inferência indutiva — qualquer raciocínio
a partir de casos simples e observáveis (e da sua ocorrência repetida) para algo
como regularidades ou leis — tem de ser inválida. Qualquer inferência dessas,
tentou ele mostrar, não poderia sequer ser válida de maneira aproximada ou
parcial. Não poderia sequer ser uma inferência provável: tem que ser, antes,
completamente infundada, e tem de continuar sempre a sê-lo, por muito grande
que o número de casos observados possa ser. Assim, Hume tentou mostrar que
não podemos raciocinar validamente do conhecido para o desconhecido, ou
daquilo que se teve experiência para aquilo de que não se tem experiência (nem,
portanto, do passado para o futuro, por exemplo): sejam quais forem as vezes
que se tenha observado regularmente o Sol nascer e pôr-se, nem mesmo o maior
número de casos observados constitui aquilo a que chamei uma razão positiva
da regularidade ou da lei do nascer e do pôr do Sol. Esse número não pode,
portanto, nem tornar provável tal lei.
iii) Assinala que não pode haver razões válidas para justificàr a crença numa
lei universal que não sejam as que a experiência fornece.
O choque de /), por um lado, com ií) e iii), por outro, constitui o problema
de Hume, o problema lógico da indução.
Os pontos ií) e iii) podem ser reformulados, um pouco mais claramente e
mais resumidamente, como se segue.
ií) Não pode haver um raciocínio válido a partir de proposições singulares
de observação para leis universais da natureza, logo, para teorias científicas.
Este é o princípio da invalidade da indução.
iii) Exigimos que a nossa adopção e a nossa rejeição de teorias científicas
dependam dos resultados da observação e da experimentação, e, portanto, de
enunciados singulares de observação.
Este é o princípio do empirismo11.
Suponhamos agora i) verdadeiro. O problema lógico da indução consiste,
então, no choque aparente entre ií), o princípio da invalidade da indução, e iii),

contra a indução voltará a ser mais discutido na parte n, secção 16, deste volume do Pós-escrito,
veja-se a nota 17 a essa secção, e também o Enquiry Concerning Human Understanding, de Hume,
secção iv, parte ii. Para um alargamento, feito por Hume, desta crítica a todas as teorias probabi-
lísticas da indução, veja-se o seu A n Abstract o f a Book Lately Published entitled A Treatise o f
Human Nature, e a minha L.Sc.D ., secção 81 e Apêndice *ix. Infelizmente, a crítica humeana da
indução foi misturada, pelo próprio Hume, com a sua crítica da causalidade, da qual é, porém,
logicamente independente. Com a notabilíssima excepção de Bertrand Russell (ver adiante), os comen­
tadores não conseguiram, regra geral, deslindar estes dois aspectos.
17 [Ver Objective Knowledge, p. 12. Ed.]

63
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

o princípio do empirismo: o empirismo parece implicar que sem a indução não


podemos ter conhecimento científico.
Hume apercebeu-se de que o choque entre ií) e iií) era apenas aparente, pois
aceitou quer ií), quer iií), e dissolveu o «choque» abandonando o racionalismo.
Decidiu que todo o nosso conhecimento de leis é obtido a partir da observação
— de acordo com iií) — por indução, e concluiu que, já que a indução é racio­
nalmente inválida, isto mostra que temos de confiar na associação («hábito»,
que resulta da repetição) e não na razão.
Também eu aceito ií) e iií), mas não extraio deles nenhuma conclusão anti-
-racionalista. Afirmo não só a compatibilidade de ií) e iií), mas também que
ií) e iií) são consistentes com o seguinte princípio iv):
(iv) Exigimos que a nossa adopção e a nossa rejeição de teorias científicas
dependam do nosso raciocínio crítico [combinado com os resultados da obser­
vação e da experimentação, tal como é exigido por iií)].
Este é o princípio do racionalismo crítico.
Para se ver que í) a iv) são consistentes temos apenas que perceber que a
nossa «adopção» de teorias científicas só se pode dar a título de ensaio; que
essas teorias são sempre, e sempre serão, suposições, conjecturas ou hipóteses.
São avançadas, é claro, com a esperança de se descobrir a verdade, ainda que
sejam mais as vezes em que a não atingem. Podem ser verdadeiras ou falsas.
Podem ser testadas por observação (a principal tarefa da ciência é tornar esses
testes cada vez mais severos), e rejeitadas se não passarem neles. Não há nada
no argumento de Hume que se pronuncie contra a possibilidade de testes ou
de se rejeitar uma lei universal por ela ser contrariada [contradicted, N. do T.]
por enunciados de observação. Na verdade, com uma lei proposta não pode­
mos fazer mais nada do que testá-la: não serve de nada fingirmos que estabele­
cemos teorias universais, que as justificámos ou que as tornámos prováveis atra­
vés da observação. Não o fizemos, e não o podemos fazer. Não podemos dar
razões positivas nenhumas a favor delas. Continuam a ser suposições ou con­
jecturas — ainda que, talvez, bem testadas. No entanto, se considerarmos os
problemas que resolvem e as críticas e testes que suportaram, poderemos ter exce­
lentes razões críticas para as preferir a outras teorias — ainda que só proviso­
riamente e a título de ensaio.
O que eu aqui disse oferece uma solução completa do problema lógico da
indução, de Hume. A chave desta solução é o reconhecimento de que as nos­
sas teorias, mesmo as mais importantes, e até as que são realmente verdadei­
ras, nunca deixam de ser suposições ou conjecturas. Se, de facto, são verda­
deiras, não o podemos saber, nem a partir da experiência, nem de qualquer
outra fonte.
Os pontos principais da minha solução são:
í) Aceitação da ideia de que as teorias são de importância capital, quer para
a ciência prática, quer para a ciência teórica.

64
u s w í -; " - ............... . . . . , ,,, ,.* *
B IBLiQ f £ c A Cfc'íV£ « AE ,4 ABO RDAG EM CRÍTICA

ií) Aceitação do argumento de Hume contra a indução: qualquer esperança


de podermos possuir razões positivas para acreditar nas nossas teorias é des­
truída por esse argumento. (Mas note-se que o argumento de Hume não apre­
senta nenhumas dificuldades para os que sustentam que podemos testar as nos­
sas teorias tentando refutá-las.)
iii) Aceitação do princípio do empirismo: as teorias científicas são rejeita­
das ou adoptadas (ainda que só temporariamente e a título de ensaio) à luz dos
resultados de testes experimentais ou observacionais.
iv) Aceitação do racionalismo crítico: as teorias científicas são rejeitadas ou
adoptadas (ainda que só temporariamente e a título de ensaio) como sendo
melhores ou piores do que outras teorias conhecidas à luz dos resultados da crí­
tica racional.
Eis, em breve resumo, a minha solução do problema de Hume — o problema
lógico da indução18. Houve, é claro, outras formulações do problema, e há
aspectos do problema que ainda não foram suficientemente analisados na pre­
sente secção. Vou agora, por conseguinte, seguir o problema através de uns quan­
tos seus aspectos e fases ou estádios. A análise deles levar-me-á para lá do pro­
blema lógico da indução, tal como ele aqui foi formulado, até àquilo a que
chamarei a quarta fase ou estádio (ou fase, ou estádio, metafísica) do problema
da indução.

Antes de examinar esses diversos aspectos do problema da indução, precisa­


mos primeiro de nos defrontar com outras questões que não são lógicas, nem
metodológicas, nem metafísicas: precisamos de considerar alguns dos chama­
dos «factos» acerca da indução e da aprendizagem.

18 Para outras formulações, ver L.Sc.D ., passim, e sobretudo a minha carta ao editor da revista
Erkenntnis, reproduzida no Apêndice *i de L.Sc.D. [Ver formulações posteriores em Objective Know-
ledge, capítulos 1 e 2. Ed.] Pode-se referir aqui um dos mal-entendidos com que a minha teoria
se defrontou. (Ele constitui a base de uma recensão de G. J. Warnock da minha L.Sc.D ., in Mind
69, pp. 99-101.) Na introdução do capítulo x da L.Sc.D. afirmei: «Deveriamos tentar determinar
até que ponto é que ela, isto é, uma hipótese foi capaz de provar a sua aptidão para sobreviver
resistindo a testes.» Como se mostra pelo contexto de toda a discussão, não pretendí, evidentemente,
dizer com isso que uma teoria que tenha sobrevivido até agora, e que tenha, por essa razão, mos­
trado a sua aptidão para sobreviver até agora, tenha também provado a sua aptidão para sobrevi­
ver a futuros testes (como se supõe na recensão). Pelo contrário, disse e tornei a dizer, com insis­
tência, que se tivermos que fazer uma escolha escolhemos, de momento, a teoria que pareça ser
a melhor à luz da crítica, incluindo os testes; e que essa escolha é perfeitamente razoável, ainda
que não possamos saber se a teoria irá sobreviver a futuros testes (que podem ser ou não ser dife­
rentes de testes passados) e ainda que possamos recear — ou esperar — que não vá sobreviver a
testes. (Por acaso, o autor da recensão está defacto errado quando diz que «Popper diz com ênfase»
que o problema da indução é «insolúvel»; porque dar uma solução ao problema — mesmo uma
solução que não seja uma justificação da indução — não é o mesmo que dizer, enfaticamente ou
de outro modo, que o problema não tem solução. Este erro liga-se ao facto de aquilo a que eu chamo
«o prolema da indução» ou problema de Hume, ser muito diferente daquilo que o autor da recen­
são diz que eu chamei assim.

65
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

3 — Acerca dos chamados procedimentos indutivos, mais notas sobre a apren­


dizagem e o estilo indutivo

Parece que quase toda a gente acredita na indução; isto é, que toda a gente
acredita que aprendemos pela repetição de observações. Até Hume, não obs­
tante a sua grande descoberta do facto de uma lei natural nunca poder ser nem
estabelecida nem tornada «provável» por indução, continuou a acreditar firme­
mente que animais e homens aprendem através de repetição; através de obser­
vações repetidas, bem como através da formação de hábitos, ou do fortaleci­
mento de hábitos, por repetição. E sustentou a teoria segundo a qual a indução,
ainda que racionalmente indefensável e incapaz de resultar em algo melhor do
que a crença não pensada [unreasoned belief, N. do T.], era, não obstante, de
confiar — mais de confiar e mais útil, em todo o caso, do que a razão e do
que os processos de raciocínio; e que a «experiência» era, portanto, o resultado
não pensado [unreasoned, N. do T.] de uma acumulação (mais ou menos pas­
siva) de observações.
Contra tudo isto, dá-se o caso de eu julgar que, de facto, nunca realizamos
inferências indutivas, nem fazemos uso daquilo a que agora se chama «proce­
dimentos indutivos». Em vez disso, descobrimos sempre regularidades pelo
método, que é essencialmente diferente, de tentativa e erro, de conjectura e refu­
tação, ou de aprendizagem a partir dos novos erros, um método que torna a
descoberta de regularidades muito mais interessante do que Hume pensava. O
método de aprender por tentativa e erro foi erradamente considerado um método
de aprender por repetição. A «experiência» obtêm-se ao aprender com os erros
que cometemos, em vez de ser pela acumulação ou associação de observações.
Obtém-se por uma abordagem criticamente activa pelo uso crítico de experimen­
tos e observações designadas para nos ajudar a descobrir onde é que nos
desencaminhámos19.

II

Assim, enquanto concordo com a análise de Hume do problema lógico da


validade da indução — isto é, com a sua tese da invalidade da indução — dis­
cordo, dele e, quer-me parecer, da maior parte das pessoas, numa questão pura­
mente factual. Creio que a pretensão de que, de facto, procedemos por indu­
ção é um puro mito, e que as pretensas provas em favor desse pretenso facto
são, em parte, inexistentes, e, em parte, obtidas por má interpretação dos factos.

19 Veja-se também esta secção, parte ix, nota 27 (e texto) adiante.

66
A ABORDAGEM CRÍTICA

Apresso-me, porém, a acrescentar que a minha tese factual não tem inci­
dência de espécie nenhuma sobre as minhas doutrinas lógicas, metodológicas
ou epistemológicas. É que a pergunta factual, psicológica e histórica «Como
chegamos às nossas teorias?», ainda que possa ser fascinante20, é irrelevante
para a questão lógica, metodológica e epistemológica da validade. Também nisto
sigo Hume. Foi, na verdade, a maior conquista de Hume a separação distinta
desses dois problemas. Dando-lhes respostas quase opostas, fez com que se tor­
nasse claro que são bem distintos um do outro.
Acham alguns cientistas, ou então assim parece, que têm as suas melhores
idéias quando estão a fumar; outros, quando estão a beber café ou uísque. Não
há, pois, razão para eu não admitir que alguns possam ter as suas idéias atra­
vés da observação, ou de observações repetidas. E, nesse sentido, eu deveria
dispor-me perfeitamente a mitigar a minha tese de que nunca procedemos por
indução: substituamos «nunca» por «quase nunca».
Mas tendo feito esta concessão, quero explicar que, quer uma teoria nos
ocorra primeiro enquanto fumamos, lemos ou observamos, ou até durante o
sono, a questão importante continua a ser: Qual é o seu valor [worth, N. do T.]
lógico? É uma teoria boa ou uma má teoria? Darwin, alguém o disse, chegou
à sua teoria da selecção natural ao ler Malthus. É um aspecto de considerável
interesse histórico, mas não tem incidência de espécie nenhuma na questão do
valor da teoria de Darwin: ainda que a teoria de Malthus fosse verdadeira e esti­
vesse bem apoiada pelas provas mais fortes, a teoria de Darwin poderia ser falsa
e estar mal apoiada; e ainda que a teoria de Malthus fosse insustentável, a de
Darwin poderia ser excelente.
Toda a gente, é claro, há-de admitir isto. E, no entanto, parece que poucos
são os filósofos que insistem que devemos distinguir claramente questões de vali­
dade (tais como a de saber se temos alguma razão para confiar na indução) e
questões de facto (tais como a de saber se na verdade confiamos na indução,
ou usamos «procedimentos indutivos»; ou se uma teoria foi realmente originada
por via de indução, etc.).

III

A ideia sobre a questão que está mais em voga parece ser a seguinte. Quando
Hume descobriu que a indução era inválida, usou a palavra «inválida» no sen­
tido de «não de acordo com os cânones do raciocínio dedutivo válido». Mas
a descoberta de Hume é trivial, segundo a perspectiva de que estou a dar conta,
pois o raciocínio indutivo é uma espécie de raciocínio que em alguns aspectos
é semelhante ao raciocínio dedutivo, e, noutros, diferente dele. É, portanto, per-

20 Jacques Hadamard escreveu um livro interessantíssimo sobre este assunto: The Psychology
o f Invention in the Mathematical Field, 1945.

67
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

feitamente óbvio que os seus padrões ou cânones não hão-de concordar em


todos os aspectos com os do raciocínio dedutivo. O raciocínio dedutivo tem
os seus próprios padrões, os seus próprios cânones, os seus próprios «procedi­
mentos». Assim, um «procedimento indutivo» ou uma «inferência indutiva»
não será em geral uma «inferência válida» — isto é, não será uma inferência
dedutiva válida. Mas isto não é razão para que não seja «razoável» — isto é,
conforme aos padrões apropriados de raciocínio indutivo: é indutivamente
válido.
Mas o que são esses alegados padrões indutivos? Há duas respostas, dadas
por duas escolas filosóficas diferentes. Uma dessas escolas ensina que os padrões
são os do raciocínio «provável», em conformidade com as leis do cálculo de
probabilidades. Refutei demoradamente essa teoria na minha L.Sc.D. e nou­
tros textos, e acrescentarei mais alguma crítica mais adiante, neste Pós-escrito.
A outra escola ensina que devemos observar e classificar os vários «procedimen­
tos indutivos» e os vários usos da palavra «provável» que possam ocorrer quando
falamos desses «procedimentos indutivos», e que os resultados dessas investi­
gações nos irão permitir estabelecer as leis, padrões ou cânones de validade indu­
tiva.
Assim, segundo esta escola, os «usos» factuais estabelecem padrões. Deixa
de haver uma distinção entre facto e padrão (entre as questões «quid facti» e
«quidjuris»21). Deixa de haver um problema lógico da validade ou da «justifi­
cação» da indução. Não podemos, segundo esta escola, «justificar» o uso de
procedimentos indutivos, tal como não podemos «justificar o uso de procedi­
mentos dedutivos, de procedimentos culinários ou de quaisquer outros proce­
dimentos, excepto talvez nalgum sentido pragmático de «justificar»: por outras
palavras: pelo seu sucesso. E os procedimentos indutivos não precisam mais de
uma «justificação do que precisam os procedimentos dedutivos, ou quaisquer
outros.»
Antes de passar a criticar esta ideia em voga, quero chamar a atenção para
o facto de se tratar, essencialmente, de uma perspectiva antiga traduzida para
linguagem em voga. Pois a antiga expressão «as leis do pensamento», usada para
denotar os princípios da inferência dedutiva, continha uma alusão à ideia de
que não havia maneira de «justificar» a validade da lógica dedutiva, a não ser
apontando o facto psicológico de que, de facto, pensamos desta maneira — ou
que somos, de facto, obrigados a pensar desta maneira, ou obrigados a admitir
que certas inferências dedutivas são inevitáveis ou «necessárias»22. Uma vez a
validade do raciocínio dedutivo reduzida, assim, a facto, estava aberto o cami­
nho para a aceitação de um «princípio da indução» ou de «cânones do raciocí­
nio indutivo», cuja validade, igualmente, não precisava de outra justificação

21 Cf. L.Sc.D ., secção 2, p. 31, em que se faz referência a Kant.


22 Cf. Conjectures and Refutations, capítulo 9, sobretudo as pp. 207 e segs.

68
A ABORDAGEM CRÍTICA

que não fosse o facto de nós raciocinarmos, ou, talvez, de sermos obrigados
a raciocinar segundo esses cânones indutivos.
A versão hoje em dia actual desta antiga teoria substitui um argumento psi­
cológico totalmente defeituoso a favor da identidade da questão da validade e
da questão do facto por um argumento pragmatista, behaviorista ou analítico
[language-analytic, N. do T.] igualmente defeituoso.
Todos esses dispositivos são meras tentativas de reavivar uma teoria de que,
já há muito, Hume e Kant dispunham, e os revivalistas modernos passam gros­
seiramente por cima da obra desses grandes homens sem tentar contrariar os
seus argumentos, nem sequer compreendê-los. É puro dogmatismo afirmar que
nada há na validade para lá do sucesso. (Nenhuma teoria resultou mais do que
a de Newton. Se o sucesso fosse a nossa única preocupação, ninguém a teria
criticado, isto é, ninguém teria reconsiderado a questão da sua verdade. Con­
tudo, a sua crítica levou a uma importante revolução intelectual; uma revolu­
ção que afectou profundamente o pensamento epistemológico.)
A identificação de modos válidos de pensamento com pensamento real foi
coisa que se tentou vezes a fio, desde tempos imemoriais. Uma das mais influen­
tes e mais perniciosas dessas tentativas foi a filosofia da identidade entre razão
e realidade, de Hegel. As mais recentes teorias da indução equivalem a uma reme-
moração da tentativa de Hegel.
Mas os pretensos factos que essas teorias da indução tentam converter em
padrões são perfeitamente imaginários; e algumas pessoas cujo conhecimento
de ciência não é de desprezar — Albert Einstein, por exemplo23 — negaram que
fossem factos. Mas ainda que todos nós, que negamos a existência de «proce­
dimentos indutivos» estivéssemos errados, seria o cúmulo do dogmatismo afir­
mar que esses «factos» disputados criam padrões de raciocínio cuja validade
não está aberta a posterior discussão. (E ainda que a arte de argumentar criti­
camente acerca de problemas filosóficos — e, com ela, a grande tradição de pen­
samento filosófico racional — esteja a desaparecer com grande rapidez não estou
com vontade de me resignar a esse facto sem o tentar mudar; e ainda menos
vontade tenho de seguir a moda actual de elevar tal facto a um novo padrão
de excelência filosófica.)
IV

Os filósofos não são, é claro, os únicos que acreditam na indução e na exis­


tência de «procedimentos indutivos». Tal como já disse, quase toda a gente acre­
dita, incluindo muitos psicólogos — especialmente os que se interessam pela teo­
ria da aprendizagem; muitos biólogos; bastantes físicos. Quanto aos físicos, não
direi agora mais nada, pois já me referi a Einstein. Mas vou dizer algo acerca

23 Veja-se sobretudo a Herbert Spencer Lecture dada por Einstein, On the M ethod ofTheore-
tical Physics, Oxford, 1933.

69
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

da «teoria da aprendizagem», e também acerca daquilo a que chamei «o estilo


indutivo» — uma maneira de escrever que ainda é muito a que conta nalguns
periódicos de biologia (vejam-se as subsecções x e xi, adiante).

Quanto à teoria da aprendizagem, não há dúvida de que podemos apren­


der, e o fazemos de facto, a partir da experiência. Estaria até disposto a dizer,
como Hume e outros empiristas clássicos, que toda a aprendizagem é aprendi­
zagem a partir da experiência.
Contudo, quando se chega à interpretação da tese «toda a aprendizagem é
aprendizagem a partir da experiência», entro em divergência com eles quanto
à apreciação do papel que a repetição desempenha no processo de aprendiza­
gem, e também quanto à apreciação do papel que a observação desempenha na
aquisição da experiência.
Quanto à aprendizagem e à repetição, uma grave fonte de confusão foi o facto
de se não distinguirem três actividades inteiramente diferentes a que, a todas elas,
se chama «aprendizagem». (Não quero com isto dizer também que não se pode­
ría tirar partido de distinguir mais de três.) Chamar-lhes-ei 1) aprendizagem por
tentativa e erro (ou por conjectura e refutação); 2) aprendizagem por formação
de hábitos (ou aprendizagem por repetição propriamente dita); 3) aprendizagem
por imitação (ou por absorver uma tradição). Os três gêneros podem ser encon­
trados em animais e em seres humanos, desempenhando os seus vários papéis
característicos na aquisição de aptidões [skills, N. do T.], bem como de conhe­
cimento teórico, tal como a aprendizagem de novos factos.

1) Só a primeira destas três maneiras de aprender, a aprendizagem por ten­


tativa e erro, ou por conjectura e refutação, é relevante para o crescimento do
nosso conhecimento, só ela é «aprendizagem» no sentido de se adquirir nova
informação, ou de se descobrirem novos factos e novos problemas, práticos e
teóricos, e novas soluções para os nossos problemas, velhos e novos. Este gênero
de aprendizagem inclui a descoberta de novas aptidões de novas maneiras de
fazer coisas. Nos processos de aprendizagem neste sentido, a repetição mecâ­
nica (tal como a da água mole que fura a pedra dura) não desempenha papel
absolutamente nenhum. Não é o impacto repetido nos nossos sentidos que leva
a uma nova descoberta, mas sim algo de inteiramente diferente: as nossas ten­
tativas repetidas e variadas de resolver um problema que, estando por resolver,
continua a irritar-nos. É essencial nisto que essas tentativas «repetidas» difiram
umas das outras, e que repitamos a mesma tentativa só quando ela nos parecer
resultar e só para a ensaiarmos mais uma vez; isto é, para testar se possível em
condições variáveis, a hipótese de ela levar invariavelmente a uma solução con­
seguida do nosso irritante problema.

70
A ABORDAGEM CRÍTICA

A aprendizagem por tentativa e erro compreende o aprender a partir de obser­


vação sistemática, bem como o aprender a partir de observação casual [chance
observation, N. do T.], se bem que de maneira diferente. A observação siste­
mática começa sempre com um problema que estamos a tentar resolver, ou com
conjecturas que estamos a tentar testar: é isso o que a faz ser sistemática. Mesmo
quando tentamos determinar algum parâmetro por medição sistemática, há uma
hipótese subjacente — a hipótese de que haja um parâmetro invariável em rela­
ção a certas mudanças nas condições das nossas medições. Sem uma tal hipó­
tese, seja ela conscientemente proposta ou suposta inconscientemente, a obser­
vação não pode ser sistemática. Contudo, até uma chamada «observação casual»,
mesmo sendo a maneira menos inventiva de fazer descobertas, é ainda um caso
do método da tentativa e erro. É que praticamente todos os exemplos de «obser­
vação casual» são exemplos da refutação de alguma conjectura, suposição ou
expectativa, consciente ou inconscientemente sustentada. Uma «observação
casual» é como uma pedra que não esperávamos encontrar no nosso caminho:
tropeçamos nela precisamente porque não a esperávamos — ou, para sermos
mais exactos, porque esperávamos, ainda que inconscientemente, que o cami­
nho fosse plano. Assim, as chamadas «observações casuais» ou «descobertas
acidentais» — isto é, descobertas de tropeção — não são tão acidentais como
se podia pensar à primeira vista.
Além disso, a maior parte dos exemplos habituais de «descobertas casuais»
baseiam-se em más interpretações indutivistas: exemplos genuínos mesmo de des­
cobertas de tropeção parecem ser raros. Talvez a primeira imunização de gali­
nhas contra a cólera das galinhas, por Pasteur (1880), ou a descoberta da acção
catalítica dos sais de mercúrio na conversão da naftalina em ácido ftálico (por
aquecimento com ácido sulfúrico)24 sejam quase exemplos genuínos. Mas mui­
tos dos outros não o são.
Oersted, por exemplo, estava desesperadamente em busca de algumas interac-
ções electromagnéticas. E Roentgen, ao serem-lhe feitas perguntas acerca da sua
descoberta dos raios X, explicou: «Eu procurava raios invisíveis»25 — raios que
ele esperava detectar (tal como no caso dos raios infravermelhos e dos raios ultra­
violetas) por meio de um écran fluorescente. (Por isso é que o écran lá estava.)

24 Parece que a história desta descoberta, juntamente com algumas variantes dela, se tornou
de certo modo lendária entre os químicos. Segundo uma comunicação particular do Prof. Alexan-
der Findlay, a descoberta foi feita em 1896 por Sapper, um jovem químico alemão que partiu, por
acaso, um termômetro na mistura e que notou uma grande aceleração na velocidade da reacção.
É importante que se acrescente que essa aceleração continha a solução de um problema urgente
de química industrial que Sapper estava a tentar resolver. Houve, pois um acidente; mas esse aci­
dente foi antecedido e preparado pelo problema de que ele veio a ser a solução, de modo que a
observação esteve longe de ser acidental. (Ver ainda A. Fleming, Cemistry in the Service o f Man,
7th edition, 1947, pp. 318 e segs.)
25 Ver Otto Glasser, Wilhelm Conrad Roentgen and the Early History o f the Roentgen Rays,
1933, p. 13.

71
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

É certo que, em muitas ocasiões, chapas fotográficas não expostas perto de tubos
de Crookes tinham mostrado — contra as expectativas — sinais de exposição,
e isso podia facilmente ter levado a uma genuína «descoberta de tropeção» dos
raios X; mas todas as pessoas envolvidas, até o próprio Crookes, não avalia­
ram bem o significado daqueles sinais de exposição. Quanto à radioactividade,
Becquerel buscava conscientemente novos raios, e, mais especificamente, na sua
obra sobre os sais de urânio orientou-se por uma hipótese (errada) que se devia
a Henri Poincaré. A descoberta da penicilina também não foi uma descoberta
casual, pois o gênero de efeito bactericida (ou bacteroestático) observado por
Fleming era bem conhecido dele e de outros, e, portanto, nem sequer era «ines­
perado» (veja-se a subsecção x, adiante). Além disso, Fleming, estava muitís­
simo desperto, mesmo antes da sua descoberta, para o possível significado desse
gênero de efeito para fins terapêuticos.
Quer com os animais, quer com os homens, a aprendizagem por tentativa
e erro resulta primitivamente não tanto em novo «conhecimento» como em novas
aptidões. Todas as aptidões, porém, estão ligadas a expectativas conscientes ou
inconscientes; e o elemento de erro, no método de tentativa e erro, torna-se sem­
pre manifesto na frustração [disappointment, N. do T.] de uma ou outra expec­
tativa. (Aquilo a que chamamos o nosso conhecimento — «conhecimento» em
sentido subjectivo — pode dizer-se que consiste nas nossas expectativas cons­
cientes, talvez verbalmente formuladas.) Podemos tomar como exemplo de novas
aptidões adquiridas por tentativa e erro o tocar piano, ou andar de bicicleta;
ou, mais exactamente, encontrar o melhor dedilhar para uma passagem ao piano,
ou aprender como evitar uma queda ao andar de bicicleta. Nestes casos, tenta­
mos primeiro resolver conscientemente um problema através de tentativas sis­
temáticas — pela eliminação ou rejeição (ou falsificação) de soluções insatisfa­
tórias; as repetições posteriores desempenham um papel muito diferente. Os casos
ajudam portanto, a contrastar o carácter e a função da repetição nos gêneros
de aprendizagem aqui distinguidos como 1) e 2).

2) O segundo gênero de aprendizagem — formação de hábitos por repeti­


ção propriamente dita (ou por repetição «mecânica») deveria ser claramente dis-
tinguido do primeiro. Aqui, não procuramos nenhuma nova solução de um pro­
blema, mas tentamos, isso sim, familiarizar-nos com uma solução previamente
descoberta por tentativa e erro [ou aprendida por imitação; veja-se 3), adiante].
Para mostrar como este segundo gênero de aprendizagem difere do primeiro,
é instrutivo considerar os nossos exemplos principais, o de aprender a tocar certa
passagem ao piano, e o de aprender a evitar uma queda ao andar de bicicleta.
Há poucas aptidões humanas em que a «prática» constante — isto é, não
só a repetição, como também a repetição mais ou menos «mecânica» — seja
tão importante como em aprender a tocar piano. E, todavia, não encontramos
nada de novo, tal como um novo dedilhar, através da prática. Só depois de ter­

72
A ABORDAGEM CRÍTICA

mos descoberto o novo dedilhar por tentativa e erro, isto é, depois de o compa­
rarmos com soluções alternativas do problema e de rejeitarmos soluções menos
adequadas, é que podemos começar a «praticá-lo». Assim, a função da repeti­
ção mecânica — da «prática», ou do «aprender maquinalmente» — não é des­
cobrir algo de novo, mas sim estabelecer familiaridade com algo previamente des­
coberto. A sua função não é tornar-nos conscientes de um novo problema (como
é o caso da função de testar repetidamente algumas soluções a título de ensaio),
mas sim eliminar, tanto quanto possível, o elemento de consciência do nosso
desempenho [performance, N. do T.]. E, assim, atingimos um estado em que o
problema original — por exemplo, o de coordenar a partitura e os movimentos
dos dedos — desaparece completamente, e podemos dar toda a nossa atenção
a algo mais importante: a ideia musical, o fraseado da passagem. A função da
«prática», ou repetição propriamente dita, no aprender a andar de bicicleta (ou
a guiar um automóvel) é a mesma: não produz uma descoberta, nem sequer uma
nova aptidão, ainda que possa transformar uma descoberta (uma descoberta de
como fazer as coisas) numa nova aptidão; e, ao tornar certas acções inconscien­
tes, deixa-nos libertos para dar a nossa atenção aos problemas de trânsito.
A doutrina indutivista de que toda a aprendizagem maquinai, e de que até
o crescimento do nosso conhecimento é resultado da formação de hábitos atra­
vés da repetição mecânica está, portanto, errada. A repetição enquanto tal não
é capaz de atrair a nossa atenção; tende, antes, para tornar inconscientes as nos­
sas expectativas. (Não somos capazes de ouvir o relógio a fazer tiquetaque, mas
podemos «ouvi-lo» parar.)
A popularidade da ideia de que o nosso conhecimento cresce através de indu­
ção deve-se, sem dúvida, ao facto de se misturar aprendizagem nos dois senti­
dos 1) e 2).

3) Posso, porém, referir também, resumidamente, um terceiro gênero de


aprendizagem — a aprendizagem por imitação. É uma das formas de aprendi­
zagem mais primitivas e mais importantes, e nela a base institiva altamente com­
plexa da aprendizagem e o papel que nela desempenham a sugestão e as emo­
ções são mais óbvios do que noutras maneiras de aprender (ainda que estas
estejam, é claro, sempre presentes). O que é importante para a nossa discussão
é que, do ponto de vista do indivíduo que aprende, o aprender por imitação,
é sempre um processo típico de tentativa e erro: uma criança (ou um animal
jovem) tenta, consciente ou inconscientemente, imitar o seu progenitor, e ou
se corrige a si mesmo, ou é corrigido pelo progenitor. Este processo de tenta­
tiva e erro constitui o primeiro estádio, um estádio fundamental, do processo
imitativo. É, portanto, um estádio de descoberta: a criança descobre como andar
por imitação; e isto quer dizer, em parte, por tentativa e erro. Pode ser seguido,
é claro, de um estádio em que a nova aptidão descoberta, como resultado da
«prática», seja executada inconscientemente, e se torne, assim, um hábito.

73
O REALISMO E O OBJECTIVC DA CIÊNCIA

VI

Um indutivista interpreta o conhecimento («conhecimento» em sentido sub­


jectivo) como sendo composto por expectativas, e eu também assim faço. Ele,
porém, vai mais longe e interpreta uma expectativa como a memória de obser­
vações ligadas por associações que são resultado de repetição. (Ele pensa que
o cão espera comida quando a campainha toca simplesmente porque em repeti­
das ocasiões, anteriormente, a comida chegou depois de a campainha tocar.)
Em oposição a isto, julgo que as novas expectativas se formam por tenta­
tiva e erro: formamos expectativas a título de ensaio em campos de interesse,
campos em que temos problemas, campos em que somos capazes de aprender,
isto é, de corrigir as nossas expectativas. Se as novas expectativas que se for­
marem forem bem sucedidas, poderão tornar-se (por repetição) automáticas,
inconscientes e petrificadas, e gradualmente deixaremos de ser capazes de apren­
der nesse campo específico. A obtenção de comida é um campo em que o com­
portamento do cão normalmente é «plástico»: ele pode aprender nesse campo,
e descobre regularidades por tentativa e erro, por antecipação e refutação. Dessa
maneira, forma também primeiro a teoria de que a comida vai aparecer quando
a campainha tocar; depois disso, a antecipação ou expectativa pode tornar-se
habitual e petrificada através da repetição.

VII

A perspectiva aqui apresentada está em flagrante oposição às teorias da asso­


ciação e do reflexo condicionado (veja-se secção 9, adiante). A primeira destas
duas teorias funciona supondo que termos de associação ou «dados» simples
nos são «dados». Esta suposição é ingênua e insustentável, ainda que esqueça­
mos a situação de estímulos complexa, e suponhamos que os estímulos são sim­
ples. A segunda é muito diferente, e menos objectável, enquanto não faz
nenhuma suposição acerca de dados ou termos simples mas tenta explicar como
é que estímulos (que podem ser altamente complexos) originariamente não rela­
cionados com uma expectativa (que também pode ser altamente complexa) se
podem tornar sinais capazes de desencadear precisamente uma expectativa. Isto
é perfeitamente aceitável como problema; a solução, porém, a teoria do reflexo
condicionado, é inaceitável. Supõe a existência de reflexos elementares não-
-complexos, não-condicionados com os quais se constrói o reflexo condicionado,
e supõe que toda a aprendizagem deve ser explicada como condicionamento de
reflexos. Ambas estas suposições estão erradas. Aprender no primeiro sentido,
no sentido fundamental, isto é, aprender por tentativa e erro, inclui um elemento
de invenção ou de acção criativa que ultrapassa em muito qualquer mero reflexo;
e falar aqui, onde invenção e plasticidade da acção são o que impera, do «con­
dicionamento de reflexos» sugere, erradamente, que toda a aprendizagem,

74
A ABORDAGEM CRÍTICA

mesmo a descoberta e a invenção, pode ser explicada pela repetição. Mas nós
vimos que a aprendizagem por repetição é menos fundamental (e, portanto, tam­
bém menos elementar) do que a aprendizagem por tentativa e erro26.

VIII

O erro do indutivista não se limita ao facto de não apreciar a diferença entre


aprendizagem por tentativa e erro e aprendizagem maquinai, nem à suposição,
daí decorrente, de que podemos aumentar o nosso conhecimento pela forma­
ção de hábitos. Ele acredita ainda que há alguma matéria-prima [raw material,
N. do T.] do conhecimento sob a forma de percepções, observações, impres­
sões sensíveis ou «dados» dos sentidos que nos são «dados» pelo mundo exte­
rior, sem a nossa própria intervenção. Trata-se de uma teoria psicológica insus­
tentável, largamente refutada pelos factos. No cinema, o que nos é «dado» é
uma sequência de imagens paradas [stills, N. do T.], mas o que nós vemos,
observamos ou percebemos é movimento; e não podemos deixar de ver o movi­
mento, mesmo que saibamos que estamos apenas a ver fotografias de, digamos,
um desenho animado.
O facto é que ver, perceber ou observar é uma reacção não apenas a estímu­
los visuais, mas a certas situações complexas, nas quais não são só complexos
e sequências de estímulos que desempenham algum papel, mas também os nos­
sos problemas, os nossos receios e esperanças, as nossas necessidades e satisfa­
ções, os nossos gostos e as nossas aversões. A nossa reacção — isto é, a nossa
experiência perceptual imediata — é influenciada por tudo isto e também, em
larga medida, pelo nosso conhecimento anterior, pelas nossas expectativas ou
antecipações, que fornecem uma espécie de estrutura esquemática às nossas reac-
ções. Se aprendemos, no sentido de aumentar o nosso conhecimento, com as
nossas observações ou percepções, fazemo-lo porque observar ou perceber con­
siste em modificar, apurar, corrigir e, muitas vezes, falsificar as nossas anteci­
pações. Logo, a teoria indutiva é sempre superficial: uma análise mais cerrada
mostra que aquilo que o indutivista toma ingenuamente por um «dado» dos nos­
sos sentidos consiste, na verdade, num dar e receber complexo entre o organismo
e o seu ambiente: o processo de modificar ou corrigir as nossas antecipações
e de refutar as nossas conjecturas, processo que é tão característico em qual­
quer espécie de aprendizagem pela qual aumentemos o nosso conhecimento27.

26 [* Publiquei várias críticas do chamado «reflexo condicionado». Resumidamente, afirmei


que os cães de Pavlov não eram «condicionados», mas formavam uma teoria [numa área (tentar
obter comida) em que a formação de teorias é vitalmente importante] de que a comida aparecia
quando a campainha tocava. Ver sobretudo o meu contributo para Karl R. Popper e John C. Eccles,
The Self and Its Brain, 1977, pp. 91 e 135-138; e os artigos de Roger James que a esse livro se
referem, e agora também o excelente livro de James, Return to Reason, 1980.]
27 Compare-se com tudo isto o capítulo 1 das Conjectures and Refutations, sobretudo as pp. 43-
52. [Cf. Objective Knowlegge, capítulo 7. Ed.]

75
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

IX

A perspectiva empirista clássica — de que a experiência resulta da aprendi­


zagem através da repetição da observação — é um sistema fechado de prejuí­
zos cujo exame crítico habitualmente se repele e, muitas vezes, se toma a mal.
Esse sistema de prejuízos é muito popular, e passou a fazer parte do «senso
comum», mas pode, porém, ser também descrito como sistema filosófico inte­
lectual [highbrow, N. do T.] e, de certo modo, artificial, porque há muitas indi­
cações no sentido de a «experiência» e a «aprendizagem a partir da experiên­
cia» serem vulgar e popularmente usadas na acepção do método de tentativa
e erro: «aprender a partir da experiência» significa, em sentido perfeitamente
vulgar, «aprender com os erros» (mais do que «aprender maquinalmente» ou
«aprender pela associação de observações» — para não falar dos «dados dos
sentidos»). Como diz Oscar Wilde: «A experiência é o nome que toda a gente
dá.aos seus erros.»28
Em resumo, aquele, que é o uso realmente vulgar ou popular da palavra
«experiência» implica uma teoria que é semelhante à minha própria teoria
exposta com demora considerável na L.Sc.D e noutros textos29. Segundo essa
teoria, a experiência não deveria ser tomada como uma «fonte de conhecimento»
suprema, mas antes como um sistema de expectativas ou de antecipações falí­
veis a que todos nós chegamos por tentativa e erro. Mas a minha referência aos
usos populares — ou à etimologia — de «experiência» não pretende ser um argu­
mento a favor da minha própria perspectiva, pois tais usos são, muitas vezes,
enganadores (ainda que não devéssemos afastar-nos do senso comum — seja
o que for que isto possa querer dizer — sem uma razão muitíssimo boa). A minha
intenção é, em vez disso, referir que os analistas dos usos linguísticos vulgares
não se valem das suas próprias armas quando, levados pela sua filosofia indu-
tivista da experiência como fonte de conhecimento, supõem a existência de «pro­
cedimentos indutivos».
X

O indutivismo de muitos biólogos é, creio eu, tradicional, remontando a


Bacon, Boyle, Leeuwenhoek, e aos primeiros tempos da Royal Society. Tentei
esquematizar a filosofia que está por detrás dessa tradição — a crença de que

28 Oscar Wilde, Lady Windermere'sFan, acto iii. Cf. secção 15 do Addendum (1961) ao vol. ii
de Open Society (4th edition), pp. 388 e segs. Ver ainda, por exemplo, o artigo «Experience» no
O xford English Dictionary, que também dá conta, é claro, do significado filosófico ou epistemo-
lógico, «a observação de factos ou acontecimentos considerada como fonte de conhecimento» (citando
Thomas Reid), mas que, de resto, sustenta a ideia de que «experiência» (à excepção de «experiên­
cia religiosa») significa, vulgarmente [commonly, N. do T.] o resultado de se aprender com os nossos
erros.
29 Além da secção referida na nota anterior, ver ainda a Introdução a Conjectures and Refu-
tations, bem como Objective Knowledge, capítulo 2.

76
A ABORDAGEM CRÍTICA

a natureza é um livro aberto que deve ser lido sem preconceitos — na última
secção da minha L.Sc.D. e, de maneira muito mais complexa, na introdução
a Conjectures and Refutations.
Em parte alguma é tão proeminente o poder da tradição indutivista como
naquilo a que chamei «o estilo indutivo» — uma certa maneira de relatar as
nossas investigações que ainda é a maneira tradicional de escrever nuns quan­
tos periódicos de biologia, se bem que, hoje em dia, tenha quase desaparecido
dos periódicos de física e de química.
A ideia básica que inspira o estilo indutivo é esta: temos de nos ficar cuida­
dosamente pelas nossas observações reais, e de nos precaver contra a teoriza-
ção, pois esta pode fazer-nos adquirir prejuízos teóricos que podem facilmente
influenciar ou contaminar as nossas observações, se não tivermos muito cuidado.
Por esta razão, um texto escrito em estilo indutivo tem, essencialmente, a
seguinte estrutura:

1) Primeiro explica os preparativos para a nossa observação. Pertencem aqui,


por exemplo, os dispositivos experimentais, tais como os instrumentos usados,
a sua preparação para o experimento e a preparação dos objectos de observação.
2) A parte principal do texto consiste numa descrição pura, teoricamente não
influenciada, dos resultados experimentais: as observações feitas, incluindo medi­
ções (quando as há).
3) Segue-se um relatório de repetições do experimento, com uma avaliação
do grau de confiança dos resultados, ou de erros prováveis. (De há pouco tempo
para cá, isto pode incluir trabalho de estatística.)
4) Opcional: uma comparação dos resultados com outros anteriores, ou com
os de outras pessoas que trabalhem na mesma área.
5) Também opcional: sugestões para futuras observações, para melhoramen­
tos desejáveis dos instrumentos, e para mais medições.
6) O texto termina (também opcionalmente) por um breve epílogo, geral­
mente de apenas umas linhas, e, por vezes, em tipo mais pequeno, que contém
uma formulação de uma hipótese seguida pelos resultados experimentais referi­
dos no texto.

Não estou a sugerir, é claro, que se fique sempre preso a estes pontos. Alguns
podem ser omitidos, outros acrescentados. O que eu estou a querer dizer é que
há uma certa tendência para fazer os jovens biólogos acreditarem que esta é a
maneira adequada de apresentar resultados, e que até os mestres aderem a este
modo de apresentação.
Não há dúvida de que a ideia que inspira o estilo indutivo — a ideia de
nos agarrarmos estritamente aos factos observados e de excluir influência e pre­
juízo — é louvável. E não há dúvida de que aqueles que são treinados para
escrever dessa maneira não têm consciência de que esta ideia louvável e apa­

77
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

rentemente segura é ela mesma, o resultado errado de um prejuízo — pior


ainda: de um prejuízo filosófico — e de uma teoria errada de objectividade.
(A objectividade não resulta de observação desinteressada e sem preconceitos.
A objectividade, e também a objectividade não influenciada, resulta da crítica,
inclusivamente da crítica de relatos observacionais. É que nós não podemos
evitar, ou suprimir as nossas teorias, nem fazer com que elas não influenciem
as nossas observações; podemos, porém, tentar reconhecê-las como hipóteses
e formulá-las explicitamente, de maneira que possam ser criticadas.)
Como exemplo de estilo indutivo, posso aqui referir o clássico texto em que
Alexander Fleming deu notícia da descoberta da penicilina30. Ele descreve a sua
observação da invasão acidental de uma cultura de bactérias por algum agente
que as destrói. É uma descrição de observações, do que aconteceu; e ainda que
não diga, é claro, que esse tipo de coisas era inesperado, ou que aconteceu pela
primeira vez, o seu estilo indutivo pode deixar o leitor inocente (por exemplo,
um filósofo) com a impressão de que a invasão, pela penicilina, da cultura de
bactérias foi não só acidental (isto foi-o, em certo sentido), mas também ines­
perada.
Mas os factos históricos mostram que tal impressão estaria errada. Pelo
menos desde Metchnikov (1845-1916), que teorias acerca de «anticorpos» — isto
é, células, moléculas ou outros agentes microscópicos que comem, destroem ou
inibem o crescimento de bactérias perigosas — tinham sido constantemente dis­
cutidas pelos bacteriologistas. Nem tampouco foi o bolor bactericida de Ale­
xander Fleming o primeiro a ser observado a fixar-se acidentalmente numa cul­
tura de micróbios. Na verdade, há muito que os biólogos esperavam poder um
dia, dessa maneira, encontrar um meio poderoso de matar bactérias no homem.
Em 1924 Sinclair Lewis publicara Arrowsmith, um excelente romance em que
um acidente muito parecido com o que é descrito no texto de Fleming desem­
penha um papel crucial. (As partes bacteriológicas desse romance foram escri­
tas em colaboração com o Dr. Paul de Kruif que, mais tarde, se tornou famoso
com o seu Microbe Hunters, uma história popular da bacteriologia e de muito
atraente leitura, que inclui ainda uma análise muito boa dos métodos de desco­
berta científica.)
Na verdade, muitos incidentes similares eram conhecidos na época, bem como
muitas substâncias que eram, prima facie, semelhantes à penicilina; o problema
principal era o de saber se alguma delas seria apropriada para fins médicos. Fle­
ming conjecturou que a penicilina seria apropriada. Mas durante uma década
não conseguiu assegurar a colaboração, muitíssimo preciosa, de um químico
competente. Uma década após a descoberta de Fleming. Howard Florey e os
seus colaboradores descobriram os surpreendentes poderes curativos da penici­
lina, confirmando assim a conjectura de Fleming. Contudo, mesmo esses pode-

30 A. Fleming, British Journal o f Experimental Pathology, 1929, pp. 226 e segs.

78
Üd i AT
UHWERSlBABt FlúèK
® m T JlO T .E C A Ç EWLÇ* i L.

res surpreendentes não eram totalmente inesperados, pois Paul Ehrlich (1854-
1915) tinha tido a esperança de encontrar uma substância poderosa assim, e as
drogas de enxofre (cuja acção parece ser de algum modo semelhante à penici­
lina) foram inventadas por homens educados na tradição de Ehrlich.
Portanto, a descoberta de Fleming não foi verdadeiramente acidental: foi
trabalho de um grande descobridor que sabia muito bem o que estava a fazer,
e o que é que valia a pena descrever; e, ainda que fosse um acidente o facto
de o bolor cujas propriedades antibióticas ele observava se ter mostrado ser não-
-tóxico, a existência de substâncias desse gênero eram esperadas, e ansiadas, há
muito tempo. Essa expectativa motivou quer o trabalho de Fleming, quer o da
equipa de Florey.
É, porém, em vão que procuramos, nos primeiros textos, uma apresentação
desses motivos, esperanças e expectativas; dos problemas que tornam os textos
significativos. Devido ao estilo indutivo das suas publicações, as esperanças espe­
culativas e as antecipações são habitualmente transmitidas, entre biólogos, por
via de uma tradição oral, em vez de ser pela escrita. Em todo o caso, poucos
periódicos de biologia estariam dispostos a aceitar um texto que discutisse tais
especulações teóricas, pois essas violam as regras aceites do estilo indutivo31.

XI

Uma crítica do estilo indutivo que não sugerisse algo para o lugar deste estaria
incompleta. Um cientista deveria, é claro, ser livre de apresentar os seus resul­
tados como achasse conveniente. Um estudante de lógica da ciência, porém, deve­
ria também ser livre para submeter à crítica um tipo de estrutura geral que os
cientistas podiam muito bem achar ser aconselhável de adoptar, a não ser que
houvesse boas razões para se afastarem dela. Um texto experimental padrão,
segundo o meu plano, seria construído da seguinte maneira:

1) Uma exposição clara do problema — ou, se se pode achar que o problema


é conhecido, uma referência clara a ele e a uma exposição dele. O autor deveria
também tornar claro se aceita a situação problemática tal como é esquemati-
zada por algum antecessor seu, ou se vê o problema de maneira diferente. Isto
daria ao autor uma oportunidade de tornar clara para si mesmo (e talvez para
os outros) a situação problemática, sempre em mudança.
2) Uma inspecção mais pormenorizada das hipóteses relevantes com incidên­
cia no problema (e das experiências com incidência nas hipóteses, indicando o

31 [Ver K. Popper, «Science: Problems, Aims, Responsabilities», Federation Proceedings 22,


Julho-Agosto de 1963, pp. 961-972, sobretudo as pp. 970-971. Esse artigo, bem como o de Peter
Medawar, «Is the Scientific Paper a Freud?» (BBC, 3.° canal, 1963-64) levaram hoje a uma
mudança. Ed.]

79
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

grau até ao qual essas experiências são capazes de contribuir para a apreciação
das hipóteses).
3) Uma apresentação mais específica da hipótese (ou hipóteses) que o autor
tenciona propor, discutir ou testar experimentalmente.
4) Uma descrição dos experimentos e dos seus resultados.
5) Uma avaliação: se a situação problemática mudou; e, se o fez, como.
6) Sugestões de trabalho posterior resultante do trabalho relatado.

Estes pontos parecem ser perfeitamente óbvios, se se adoptar a minha pers­


pectiva sobre o protocolo da ciência. No entanto, poucos são os autores a adop­
tar algo como este «estilo»: a tradição indutivista é demasiadamente forte.
Torna-se, porém, cada vez mais urgente que qualquer texto explique a sua
localização dentro da situação problemática nas várias ciências. O aumento
gigantesco de material publicado, juntamente com um decréscimo de contactos
pessoais entre trabalhadores científicos de campos vizinhos, levou a uma auto­
matização da ciência que faz com que seja mais importante do que nunca salien­
tar o significado de problemas teóricos e de teorias. É que as teorias constituem
a rede de coordenadas da ciência.

XII

Referi algumas razões que, mesmo não sendo provável que convençam um
indutivista da inexistência de procedimentos indutivos, deveríam, pelo menos,
mostrar que há interpretações alternativas dos factos que ele despreza, expondo-
-se aos perigos inerentes a essa recusa; que a crença de que os procedimentos
indutivos existem pode ser desafiada; e que, ainda que haja alguns exemplos
prima facie de procedimentos indutivos, uma análise posterior pode mostrar que
se trata de exemplos de um método cuja estrutura lógica é inteiramente dife­
rente: o método de tentativa e erro.
Logo, nem o apelo ao pretenso fa d o de usarmos a indução, ou protocolos
indutivos, nem as tentativas de converter esse fa d o num padrão podem ser aceites
em lugar de argumentos: o indutivista que tenta justificar as nossas teorias, ou
as nossas crenças, através de um apelo à indução não pode evitar o dever de
dar uma justificação racional da indução.

XIII

O método de indução por repetição é suposto fornecer um padrão de justi­


ficação. (Por outro lado, o método de tentativa e erro — de aprender com os
nossos erros — é puramente crítico, selectivo. Só se torna justificacionista ou
indutivista se supusermos, erradamente, como Bacon ou como Mill, que é pos­
sível justificar uma teoria através da eliminação completa de todas as suas alter­

80
A ABORDAGEM CRÍTICA

nativas; mas o número de alternativas não testadas é sempre infinito32, e há sem­


pre possibilidades em que não se pensa.) Um indutivista é, essencialmente, um
justificacionista (no sentido da secção 2).
Hume pensou que a indução era racionalmente injustificável, mas que tinha
o seu próprio gênero de justificação: que se justificava a si mesma na prática
pelo seu alto grau de fidedignidade, no qual só o que se pode é acreditar, se
bem que apenas irracionalmente. Os indutivistas modernos também pensam que
a indução, se bem que obviamente diferente da dedução, tem o seu gênero pró­
prio de justificação: justifica-se a si mesma na prática e estabelece os seus pró­
prios padrões: é autovalidativa, auto-autenticadora. Na indução, factos e padrões
encontram-se conciliados, tal como em Deus. A diferença lógica entre Hume
e a perspectiva moderna é, assim, a diferença entre um crente de certo modo
relutante e céptico e um teísta dogmático.
Mas a racionalidade — isto é, a crítica — e o dualismo de factos e padrões
pode facilmente ser salva se abandonarmos o justificacionismo. Se o fizermos,
ficaremos também conscientes do abismo [gap, N. do T.] lógico entre in­
dução por repetição e o método de tentativa e erro, ou de aprender com os
erros.
Os crentes nos procedimentos indutivos têm uma coisa em comum comigo:
ambos estamos em divergência em relação a Hume ao pensar que, de certo modo,
os factos ou procedimentos de alguns conhecimentos estão relacionados de perto
com alguns padrões de racionalidade. Mas enquanto eles acreditam que os fac­
tos — ou aquilo que eles julgam ser os factos — são auto-autenticados, criando
os seus próprios padrões de racionalidade indutiva, eu conjecturo que, de modo
geral, os padrões racionais (que eu penso que são padrões de crítica, isto é
padrões lógicos) são capazes de determinar os nossos procedimentos. E como
a razão e a lógica nos dizem que, racionalmente, não há indução nem justifica­
ção, mas somente crítica e eliminação, seria uma boa ideia tratar de ver se esses
factos de descoberta científica não podem ser interpretados — e mais bem inter­
pretados — como procedimento de tentativa e erro.

4 — Uma família de quatro problemas da indução

A formulação do problema de indução de Hume dada atrás, na secção 2,


é, julgo eu, de importância fundamental. Mas há outras formulações do pro­
blema que revelam aspectos diferentes dele, e que podem ser encaradas como
sendo diferentes fases ou estádios da sua discussão.

32 Isto foi claramente afirmado por Jeffreys e Wrinch, Phil. Mag. 42, 1921, pp. 369 e segs.;
Ver L.Sc.D ., p. 140, nota *1; ver ainda Die beiden Grundprobleme, sobretudo as pp. xix e segs.,
nota 11.

81
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

Nesta secção, pretendo distinguir quatro dessas fases:


1) Uma ligeira variante da formulação dada na secção 2. Pode-se-lhe cha­
mar o desafio de Russell [RusselTs challenge, N. do T.], e pode-se dar-lhe a for­
mulação da seguinte pergunta: «Qual é a diferença entre um lunático e um cien­
tista?» Está relacionado de perto com o «problema da demarcação», isto é, o
problema de se encontrar uma caracterização adequada do carácter empírico
das teorias científicas.
2) O chamado «problema da crença racional».
3) A questão de saber se podemos fazer inferências acerca do futuro, ou de
saber se o futuro será como o passado, uma questão que o próprio Hume não
conseguiu distinguir suficientemente do problema da indução. Chamar-lhe-ei «o
problema do amanhã, de Hume».
Estas três questões têm, todas elas, um carácter lógico, epistemológico ou
metodológico, e tentarei mostrar, nesta secção, que não são precisas para a sua
solução mais nenhumas idéias.
Mas a nossa discussão há-de nos levar a distinguir uma quarta fase ou está­
dio que, apesar de uma aparente semelhança com a terceira, difere muito desta
no seu carácter lógico. Pode-se-lhe chamar:
4) «A fase metafísica do problema do amanhã», ou «a quarta fase, ou fase
metafísica, do problema da indução». A discussão desta quarta fase do pro­
blema dar-se-á na secção 5. Na presente secção, limitar-me-ei a uma discussão
das primeiras três fases ou estádios.

Bertrand Russell foi o primeiro filósofo desde Kant a sentir toda a força do
problema da indução de Hume. Kant vira claramente que, desde que Hume
tivesse razão, o conhecimento de carácter universal — e, assim, pensara ele, o
conhecimento científico — não podería existir; mas como acreditava que o exem­
plo das matemáticas e, ainda mais importante, o da mecânica de Newton mos­
travam que de facto possuímos um certo conhecimento científico, achou que
o problema central da filosofia era explicar como é que era possível que tal
conhecimento existisse, isto é, explicar porque é que Hume não tinha razão.
Russell entendeu o problema de modo semelhante, ainda que a pormenori­
zada solução que deu difira consideravelmente da de Kant. (Por exemplo, ao
descrever as leis da mecânica como conhecimento meramente provável, em opo­
sição ao conhecimento certo das matemáticas, Russell alargou ainda mais o
abismo entre as matemáticas e a ciência física, abismo que Kant discutira.)
A indução é demoradamente discutida por Russell em muitas ocasiões, mas
pela primeira vez, segundo creio, no seu incomparável livro de 1912, The Pro-
blems o f Philosophy [Os Problemas da Filosofia, ed. port. Armênio Amado,
Coimbra, trad. de Antônio Sérgio; N. do T.]. Ao passo que, nesse delgado mas

82
A ABORDAGEM CRÍTICA

grande livro, Russell não refere Hume como estando na origem do problema,
já o faz na sua History o f Western Philosophy (1946). Aí, no capítulo sobre
Hume, formula o problema da maneira seguinte.
Se Hume tem razão quanto a não podermos fazer nenhuma inferência válida
da observação para a teoria, então a nossa crença na ciência deixa de ser razoá­
vel, pois qualquer pretensa teoria científica, ainda que arbitrária, passa a ser
tão boa — ou tão justificável — como qualquer outra, porque nenhuma é jus­
tificável; a frase «a minha conjectura é tão boa como a tua» regularia o método
científico como sendo o único princípio deste. Assim, se Hume tivesse razão,
«não havería diferença entre sanidade e insanidade»33, e as obsessões e ilusões
de um demente seriam tão razoáveis como as teorias e as descobertas de um
grande cientista.
A este desafio de Russell, há uma resposta simples e praticamente completa
que está implícita nas discussões da secção 2. É certo que não podemos justifi­
car a pretensão de a teoria do cientista ser verdadeira; como tampouco o pode­
mos à pretensão de as ilusões serem verdadeiras. Podemos, porém, defender a
pretensão de a teoria do cientista ser melhor — melhor, mesmo no sentido, de
certo modo estrito, de estar mais bem apoiada por observações. É que as obser­
vações podem ser cruciais entre duas teorias, no sentido em que podem contra­
dizer uma enquanto são compatíveis com a outra. O argumento de Hume não
estabelece que não possamos fazer nenhuma inferência da observação para a
teoria: estabelece apenas que não podemos fazer inferências verificadoras de
observações para teorias, deixando aberta a possibilidade de podermos fazer infe­
rências falsificadoras: uma inferência da verdade de um enunciado de observa­
ção («Isto é um cisne negro») para a falsidade de uma teoria («Todos os cisnes
são brancos») pode ser dedutivamente, perfeitamente válida.
Não vejo como é que se pode contestar esta solução da provocante formu­
lação russelliana do problema (a não ser confundindo a primeira fase do pro­
blema com a segunda ou com a teoria, ainda a discutir). Parece que Russell,
ao sugèrir que a ciência seria impossíel se Hume tivesse razão, simplesmente pas­
sou por cima do importantíssimo facto de o argumento de Hume não mostrar
a invalidade de inferências falsificadoras da observação para a teoria. A suges­
tão de Russell é conforme à visão kantiana da ciência, ciência como conheci­
mento bem estabelecido (scientia, epistèmê), mas não é conforme à própria visão
de Russell das teorias científicas como sendo hipotéticas ou conjecturais. De
facto, em muitos passos, Russell descreve o método da ciência de uma maneira
que torna desnecessário falar de indução. Escreve ele, por exemplo: «A lógica,
em vez de ser, como anteriormente, o entrave das possibilidades, passou a ser
o grande libertador da imaginação, apresentando inúmeras alternativas que estão

33 Bertrand Russell, History o f Western Philosophy, 1945. Ver o penúltimo parágrafo do capítulo
xvii (p. 673 da primeira edição inglesa). (O trecho original não está em itálico.)

83
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

vedadas ao senso comum irreflectido, e deixando à experiência a tarefa de deci­


dir, sempre que uma decisão fo r possível, entre os muitos mundos que a lógica
oferece à nossa escolha.»M As palavras-chave deste belo passo talvez sejam
«sempre que uma decisão for possível»: não tenho muitas dúvidas de que Rus-
sell, quando escreveu este passo, tenha visto que, sempre que uma decisão for
possível, só o poderá ser enquanto rejeição de algumas das «inumeráveis alter­
nativas», e não como uma decisão positiva por uma delas. No entanto, Russell
não viu, parece, que este era o caso típico, ou até mesmo o único caso; nem
que este facto tornava possível a resolução do problema lógico da indução de
Hume.
Apenas um ponto importante precisa de ser acrescentado a essa solução do
problema: só a observação, sem mais nada, nem sempre é capaz de decidir qual
das duas teorias em competição é a melhor, se bem que o possa fazer, especial­
mente quando as teorias permitem um experimento crucial. Em geral, é pre­
ciso algo mais do que a observação: é também precisa uma discussão crítica
dos méritos das duas teorias. Uma discussão dessas tem de considerar se elas
resolvem o problema que é suposto resolverem: se explicam o que é suposto
explicarem; se não se limitam a alterar o problema, através, por exemplo, de
uma suposição ad hoc não-testável; se são testáveis, e até que ponto são bem
testáveis.
Estas questões (intimamente relacionadas com aquilo a que chamo o «pro­
blema da demarcação», a ser discutido mais adiante, no capítulo 2, secções 17
a 26) são muito importantes, pois pode muito bem acontecer que nos depare­
mos com duas teorias de valor muito diferente, e que as nossas observações sejam
compatíveis com ambas da mesma maneira, se bem que por razões muito dife­
rentes: com uma teoria, apesar do facto de a testarem severamente, e, com a
outra teoria, simplesmente por ela não ser testável — por todas as observações,
sejam elas quais forem, serem compatíveis com ela. (A primeira teoria pode ser,
digamos, a de Newton, ou a teoria de Kepler de que todos os planetas se movem
em elipses, combinado talvez com a sua teoria da Harmonia Universal; e a
segunda pode ser a teoria de Platão de que todos os planetas possuem alma e
são deuses.)
Só depois de se terem resolvido as questões acerca do valor explicativo e da
testabilidade das duas teorias é que podemos dizer se elas estão realmente em
competição uma com a outra, e se podem ser submetidas a testes observacio-
nais cruciais que possam decidir contra uma delas e, por isso mesmo, mostrar
que a outra é «melhor». Deste modo, podemos no fim chegar a dizer, após mui­
tas tentativas e muitos erros, que temos uma teoria que, segundo o estado actual
da nossa discussão crítica, incluindo testes observacionais, parece aproximar-se
mais da verdade do que todas as demais tomadas em consideração.34

34 Bertrand Russell, The Problems o f Philosophy, 1912, p. 148. (No original não há itálicos.)

84
A ABORDAGEM CRÍTICA

II

Fez-se, pois, face ao desafio de Russell de que tratámos na primeira fase do


problema da indução.
O «problema da crença racional», como se pode chamar à segunda fase do
nosso problema, é, em minha opinião, menos fundamental e menos interessante
do que a primeira fase. Surge da seguinte maneira.
Mesmo se admitirmos que não há nenhuma dificuldade lógica em mostrar
que, por vezes, as observações nos podem ajudar a distinguir entre teorias «boas»
e teorias «más» (e como é que o fazem), teremos de insistir no facto de não
ter sido dada nenhuma explicação de fidedignidade da ciência, nem do facto
de ser razoável acreditar nos seus resultados — em teorias bem testadas por
observações. Uma teoria boa não é apenas uma teoria que até à data escapou
à falsificação. Mesmo se admitirmos que somos sempre falíveis e muito pro­
pensos a cometer erros, e que todas as teorias científicas são conjecturais, não
é sensato negar que haja uma enorme quantidade de conhecimento positivo na
ciência. Mas como é que podemos admitir a razoabilidade desta posição — deste
gênero bem restrito de crença na ciência — e, ao mesmo tempo, admitir que
Hume tem razão?
Este é o novo desafio. A minha opinião de que ele é menos fundamental
e menos interessante do que o primeiro deve-se, em parte, ao meu limitado inte­
resse pela filosofia da crença. Mas deve-se também ao facto de não serem pre­
cisas nenhumas idéias verdadeiramente novas para lhe fazer face. Não obstante,
este novo desafio, ou o segundo estádio do problema, pode ajudar a esclarecer
a situação.
Vou partir do princípio que se chegou a acordo acerca do carácter conjectu­
ral das teorias científicas: que as nossas teorias nunca deixam de ser incertas
ainda que «bem sucedidas» e bem «apoiadas» por provas pelo resultado da dis­
cussão, e que nós podemos ser incapazes de prever que gênero de mudança é
que virá a ser necessário. (Lembremo-nos da mecânica de Newton!) Por conse­
guinte, partirei do princípio de que, se aqui falamos de «crença racional» na
ciência e nas teorias científicas, não pretendemos dizer que é racional acreditar
na verdade de alguma teoria em particular. Este facto é da maior importância.
O que é, então, o objecto da nossa «crença racional»? É, proponho, não
a verdade, mas sim aquilo a que podemos chamar a verosimilhança [the truth-
likeness (or «verisililitude»); N. do T.] das teorias da ciência, tanto quanto elas
tenham suportado uma crítica severa, incluindo testes. O que nós acreditamos
(bem ou mal) não é que a teoria de Newton ou a de Einstein sejam verdadeiras
mas sim que são boas aproximações à verdade, ainda que podendo ser supera­
das por outras melhores.
Mas esta crença, afirmo-o eu, é racional mesmo se aceitarmos que amanhã
iremos descobrir que as leis da mecânica (ou aquilo que nós temos por lei da

85
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

mecânica) mudaram subtilmente (uma possibilidade que será discutida de forma


mais completa nas subsecções m e IV, adiante, subsecções dedicadas ao «pro­
blema do amanhã»). É que, nesse caso, defrontarmo-nos-íamos com o problema
de explicar não só as nossas regularidades observadas, mas também as antigas.
O nosso problema seria: a) construir uma teoria a partir da qual se pudesse obter
a antiga teoria como, em certas condições, uma boa aproximação, e b) mostrar
que circunstâncias (condições iniciais) é que provocaram a mudança35. Esta abor­
dagem, que assegura a sobrevivência da teoria superada como sendo uma apro­
ximação, é exigida pelo realismo e pelo método da ciência. Submetermo-nos,
sem mais, ao facto de a mudança ter acontecido, e registá-lo, seria equivalente
à aceitação de milagres, ao abandono da procura de explicações racionais, e,
portanto, da missão da ciência — da racionalidade.
Estas considerações mostram que a crença na verosimilhança [truthlikeness,
N. do T.] de resultados científicos bem corroborados (tais como as leis da mecâ­
nica) é realmente racional, e continua a sê-lo mesmo depois de esses resultados
terem sido superados. Além disso, é uma crença que pode ter graus.
Temos de distinguir duas dimensões ou escalas graduadas diferentes: o grau
da verosimilhança de uma teoria, e o grau de racionalidade da nossa crença de
uma certa teoria ter atingido (um certo grau de) verosimilhança.
Chamei ao primeiro destes dois graus «grau de verosimilhança»36, e ao
segundo «grau de corroboração»37. Ambos são «comparativos» no sentido em
que duas teorias podem ser comparadas relativamente à verosimilhança ou à
corroboração, sem, porém, que isso leve, em geral (isto é, com a excepção pos­
sível de teorias probabilísticas) a estimativas numéricas.
Se duas teorias em competição tiverem sido criticadas e testadas tão com­
pletamente quanto nos tenha sido possível, daí resultando que o grau de corro­
boração de uma delas seja maior do que o da outra, teremos, em geral, razões
para acreditar que a primeira teoria será uma melhor aproximação à verdade
do que a segunda. (Também é possível dizer-se de uma teoria ainda não corro­
borada que ela é potencialmente melhor do que outra; quer isto dizer, que seria
sensato aceitá-la como sendo uma melhor aproximação à verdade, desde que
passasse em certos testes38.)
Segundo esta perspectiva, a racionalidade da ciência e dos seus resultados
— e, portanto, da «crença» neles — é inseparável por essência, do seu progresso,
com a discussão, sempre a ser actualizada, dos méritos relativos de novas teo­
rias; é inseparável do progressivo derrube de teorias, e não só da pretensa con-

35 Ver L.Sc.D ., secção 79, p. 253.


36 Ver Conjectures and Refutations, capítulo 10, e Adenda. Ver ainda Objective Knowledge,
capítulos 2, 3 e 9; e «A Note on Verisimilitude», in British Journal fo r the Philosophy o f Science
27, 1976, pp. 147-164. Ed.
37 Ver L.Sc.D ., capítulo x e Apêndice *ix.
38 Cf. com isto o capítulo 10 de Conjectures and Refutations, sobretudo as pp. 215 e segs.

86
UWVERSIBaut íl j íú . - •*-
b ib l io t e c a c e n t r a l
A ABORDAGEM CRÍTICA

solidação progressiva (ou probabilidade crescente) resultante da acumulação de


observações apoiantes, como crêem os indutivistas.
Um exemplo entre centenas pode ilustrar isto mesmo.
Quase todos nós, hoje em dia, acreditamos fortemente — e temos razões
para acreditar — no modelo coperniciano do sistema solar (depois de revisto
por Kepler e por Newton): uma certa disposição dos planetas, movendo-se em
elipses próximas à volta do Sol, acompanhados pelas suas luas. Mas quais são1
as nossas razões para acreditarmos na verosimilhança desta teoria? (Para ser­
mos exactos, nós não acreditamos na sua verdade completa, já que ela é ape­
nas um modelo, obrigado, portanto, a ser uma grande simplificação e uma apro­
ximação — já sem contar com o facto de poder precisar de uma correcção
einsteiniana, e talvez de mais alguma elaboração revolucionária para dar conta
da validade aproximada da lei de Bode.)
Contar a história das provas observacionais que se têm acumulado desde há
muitos séculos, começando pelos Egípcios e pelos Babilônios, não faria justiça
às poderosas razões que temos para acreditar na verosimilhança do modelo. Para
lá do facto de que teríamos de explicar tradições (tais como o relato de Homero
sobre a hesitação do Sol no seu caminho, ou o de Josué sobre a sua imobiliza-
ção) como sendo mitos, os relatos observacionais são altamente selectivos, e essa
selecção é influenciada por idéias preconcebidas.
As nossas verdadeiras razões para acreditarmos na verosimilhança do modelo
de Copérnico são muito mais fortes. Consistem na história da discussão crítica,
incluindo a avaliação crítica de observações, de todas as teorias do sistema solar
desde Anaximandro, sem esquecer a hipótese de Heraclito, segundo a qual nas­
cia um sol novo todos os dias, nem as cosmologias de Demócrito, Platão, Aris­
tóteles, Aristarco e Ptolomeu. Não foi tanto a acumulação de observações por
Tycho como a rejeição crítica de muitas conjecturas por Kepler, Descartes e
outros, culminando na mecânica de Newton e no seu subsequente exame crí­
tico, que, no fim de contas, persuadiram quase toda a gente de que um grande
passo tinha sido em direcção à verdade.
Esse convencimento, essa crença, essa preferência, é razoável porque se
baseia no resultado do estado actual da discussão crítica, e a preferência por
uma teoria pode chamar-se «sensata» se for argumentável e se resistir a argu­
mentos críticos inquiridores — tentativas engenhosas de mostrar que a teoria
não é verdadeira, ou que não está mais próxima da verdade do que as que
consigo competem. Na verdade, este é o melhor sentido de «sensato» que
conheço.
A razoabilidade de uma crença, no sentido que aqui foi descrito, muda com
o tempo e com a tradição cultural e, num âmbito limitado, até com o grupo
de pessoas que estão a orientar uma discussão, pois novos argumentos e novas
idéias críticas podem alterar a razoabilidade de uma crença. É evidente que novos
experimentados também podem fazer o mesmo.

87
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

Todavia, o estado presente da discussão crítica pode ser muito definido a


respeito da superioridade de uma teoria sobre outra. Pode também ser muito
definido acerca da falsidade de uma teoria. Mas não acerca da sua verdade. Sem­
pre que tais determinações definitivas foram produto de discussão prolongada
e exaustiva, foram, no passado, geralmente corroboradas por discussões poste­
riores; inversões das determinações relativas de duas teorias, e renascimentos
de teorias que tinham sido definitivamente rejeitadas, foram notavelmente raros.
(A teoria corpuscular da luz, de Newton não foi, de maneira nenhuma, ressus­
citada pela teoria dos fotões, de Einstein, ao contrário do que frequentemente
se afirma: a teoria de Newton era uma teoria de transmissão ou propagação;
a teoria dos fotões, planeada para enfrentar problemas de emissão e de absor­
ção, sucumbe perante a teoria ondulatória em problemas de propagação.) Em
oposição a isto, inversões de pretensões baseadas em «provas indutivas» foram
supreendentemente frequentes, de maneira que há como que provas indutivas
contra a indução. (Não só a falsa afirmação de que todos os cisnes são bran­
cos, mas também a maior parte das superstições, superstições médicas inclusive,
são apoiadas por grandes quantidades de provas indutivas.) O facto de as inver­
sões de apreciações críticas serem raras pode-se explicar facilmente: os bons argu­
mentos críticos mantêm o seu poder — a não ser, realmente, que trabalhem com
prejuízos não-detectados ou com provas observacionais fictícias ou mal inter­
pretadas.
Dizer que muitas das nossas apreciações sobreviveram, e que, mesmo quando
as nossas melhores teorias foram superadas, raramente subvertemos o juízo de
que elas eram as melhores que havia no tempo em que como tal foram conside­
radas, é dizer que o nosso método crítico teve um sucesso surpreendente no pas­
sado. Mas não devemos concluir que o será no futuro. Os nossos problemas
podem tornar-se difíceis demais para nós, ou o nosso intelecto pode entrar em
declínio. De resto, só muito poucos entre milhares de cientistas bem treinados
é que conseguem dar contributos para os mais difíceis e mais fundamentais pro­
blemas da ciência, e, se esses poucos deixassem de existir, a ciência poderia estag­
nar. Ou então alguns preconceitos podem tornar-se a nossa ruína: o culto de
tecnicidades que impressionem, ou o culto da precisão podem levar o melhor
de nós mesmos, e interferir na nossa busca da clareza, simplicidade e verdade.
Não há uma entrada real para a ciência; não há um método que garanta o
sucesso; e qualquer teoria do conhecimento que, explicando porque é que somos
bem sucedidos, nos permita prever que continuemos a ter sucesso, explica e prevê
demais.
A escolha da melhor teoria é como a da melhor testemunha. Quando nos
deparamos com testemunhas que se contradizem umas às outras, tentamos fazer-
-lhes perguntas cruzadas, analisar criticamente o que elas dizem, verificar e
contra-verificar pormenores relevantes. E podemos decidir — decidir racional­
mente — preferir uma delas; ainda que partamos do princípio de que todas as

88
A ABORDAGEM CRÍTICA

testemunhas, sem excluir as melhores, são de algum modo influenciadas, já que


todo o testemunho, mesmo quando se limita à observação, é selectivo (tal como
todo o pensamento), e, assim, o ideal de «toda a verdade, e nada senão a ver­
dade» é, para falar com rigor, inantigível, ainda que, sem dúvida, estejamos
dispostos a rever a nossa preferência por uma das testemunhas à luz de novos
argumentos críticos, ou de novas provas.
Esta é, em resumo, a contribuição «positiva» que a minha teoria dá à segunda
fase do problema da indução. Também é, porém, necessário salientar o lado
negativo.
Ainda que possamos, sensatamente, acreditar que o modelo coperniciano
(revisto por Newton) está mais perto da verdade do que o de Ptolomeu, não
há meio de dizer a que ponto ele está perto da verdade: mesmo que pudéssemos
definir uma métrica para a verosimilhança (o que só podemos fazer em casos
que parecem não ser de muito interesse), não seríamos capazes de a aplicar, a
não ser que soubéssemos a verdade — coisa que não sabemos. Podemos pensar
que as nossas actuais idéias acerca do sistema solar estão perto da verdade, e
elas podem-no estar; mas nós não o podemos saber. Tampouco deveriamos pen­
sar que a nossa discussão nos forneceu razões para acreditar que sim: tudo o
que ela fez foi fornecer-nos boas razões para acreditar que progredimos em direc­
ção à verdade, isto é, temos boas razões para acreditar que algumas das nossas
actuais idéias são mais aparentadas à verdade [more truthlike, N. do T.] do que
algumas alternativas. E ainda que o modelo coperniciano tenha sido a grande
ruptura [breakthrough, N. do T.], já não pensamos que o nosso sol é o centro
do universo, nem sequer da nossa galáxia.
Não podemos justificar as nossas teorias, ou a crença que elas sejam verda­
deiras, nem tampouco podemos justificar a crença de que estejam perto da ver­
dade. Podemos, porém, defender racionalmente uma preferência — por vezes,
uma preferência muito forte — por uma certa teoria, à luz dos resultados actuais
da discussão.
O método da ciência é racional39: é o melhor que temos. É, portanto, sen­
sato aceitar os resultados, mas não no sentido de prender a eles a nossa fé: nunca
sabemos antecipadamente quando é que esses laços se podem romper.
É, porém, sensato, ou racional, confiar nos resultados da ciência para todos
os fins práticos. É que a prática significa sempre uma escolha: podemos agir
desta ou daquela maneira. (A inacção é, evidentemente, apenas uma maneira
possível de acção.) E na medida em que aceitamos, ou rejeitamos, uma teoria
científica como base de acção prática, isso significa escolher uma teoria em vez

39 R. A. Wollheim, numa recensão de L.Sc.D. (The Observer, 15 de Fevereiro de 1959) coloca


esta questão em termos muitos claros: «[...] enquanto pensarmos que os cientistas estão sempre
a tentar estabelecer leis, a sua actividade terá de parecer irracional; mas uma vez que concebamos
que eles estão sempre a tentar falsificar hipóteses, então a tarefa em que os cientistas estão envolvi­
dos parecerá consistente e compreensível.»

89
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

de outra. Nos casos em que estivemos em posição de fazer uma escolha dessas,
será racional escolher, dentre duas teorias em competição, aquela que tiver sobre­
vivido a uma discussão crítica prolongada, incluindo testes.
Um último aspecto é de apontar aqui. A crença parece ser algo de que muito
se precisa em acções práticas: o homem é um animal crente [a believing animal,
N. do T.] porque é um animal actuante. O teórico, qua teórico, pode passar
sem ela. Para ele, a teoria que parece ter a maior verosimilhança não é uma
teoria em que se acredite, mas sim uma teoria que é importante para um pro­
gresso posterior. É também aquela que ele isolará como sendo a que merece uma
posterior crítica.
É claro que até o teórico, qua teórico, tem de agir: ele tem, por exemplo,
de escolher os seus problemas. E na medida em que o faz, também ele pode
ser guiado por crenças — e por dúvidas.

III

A terceira fase do problema da indução é, em minha opinião, ainda menos


fundamental do que a segunda. A primeira fase era um urgente problema prá­
tico de método: como distinguir teorias boas de teorias más? A segunda era
menos importante, mas ainda de alguma urgência, pois nós acreditamos nos
resultados da ciência, num sentido vulgar de «acreditar», e essa crença é sen­
sata, num sentido vulgar de «sensato». Como não era evidente, à primeira, como
é que se podia dar conta desses factos no interior da estrutura lógica da nossa
solução, havia aí um problema com algum significado.
Mas a terceira fase do problema, o «problema do amanhã», como lhe irei
chamar, parece-me, tendo nós uma vez alcançado clareza acerca das duas pri­
meiras fases, não passar de uma típica confusão filosófica (a não ser, efectiva-
mente, que se confunda com o quarto estádio, o metafísico). É certo que um
indutivista como Hume ou como Russell pode pensar que ele é impossível de
distinguir daquele a que chamei o problema da indução, e pode até pensar que
se trate de uma formulação superior do mesmo problema. Mas uma parte essen­
cial da minha solução não-indutivista está precisamente em reconhecer o carác-
ter fundamental da primeira fase do problema, e o carácter inferior da terceira
fase do mesmo. Podemos formular assim a terceira fase do problema: «Como
é que sabe que o futuro vai ser como o passado foi?», ou talvez assim: «Como
é que sabe que as leis da natureza continuarão amanhã a ser válidas?»
A resposta mais simples e mais directa à primeira destas duas perguntas é
esta: «Eu não sei se o futuro vai ser como o passado foi; pelo contrário, tenho
boas razões para esperar que ele vá ser diferente de muitas maneiras — em quase
todos aqueles aspectos que são preferidos pelos indutivistas como sendo exem­
plos da ‘uniformidade da natureza’. Assim, o nosso habitual pão de todos os
dias pode tornar-se veneno (recorde-se o caso francês de envenenamento colec-

90
A ABORDAGEM CRÍTICA

tivo com centeio); o ar pode sufocar quem o respirar (recordem-se os enve­


nenamentos de ar em Hamburgo); e os nossos maiores amigos, os de maior
confiança, podem tornar-se inimigos mortais (recordem-se as sociedades totali­
tárias).»40
Se se disser que esta resposta à primeira pergunta não vem ao caso porque
o que se queria dizer com ela é dito muito mais claramente na segunda pergunta
(«Como é que se sabe que as leis da natureza vão continuar a ser válidas ama­
nhã?»), então a minha resposta será, uma vez mais e com ênfase: «Eu não sei
se aquilo que hoje em dia vemos como uma lei da natureza não irá ser amanhã
visto como uma conjectura refutada. De facto, isto parece ser uma ocorrência
mais frequente do que envenenamento de centeio.»
Mas pode-se dizer que esta resposta também não vem ao caso; que a per­
gunta a que se respondeu não era acerca de hipóteses que podem ser refutadas,
mas acerca de autênticas leis verdadeiras da natureza, regularidades naturais
autênticas, e da possibilidade de estas poderem mudar. Para esta pergunta, a
minha resposta é trivial. Na natureza há mudanças de todos os tipos, mas aquilo
a que chamamos uma lei da natureza é a afirmação de algo que se mantém inva­
riável durante as mudanças; e se descobrirmos que o que tínhamos pensado ser
um invariável afinal muda, então é porque fizemos uma conjectura errada: não
era uma lei da natureza, e é tudo.
Descobri, porém, que os indutivistas não se satisfazem com estas respostas,
e que não acham que a terceira fase do problema, o problema do amanhã, esteja
resolvida.
As suas desconfianças ligam-se a algumas das minhas idéias acerca do «grau
de corroboração» (vide capítulo iv, adiante). Descrevi-o, em muitas ocasiões,
como não sendo mais que um registo resumido, ou uma apreciação do modo
como uma teoria resistiu, até à data, à crítica e a testes, bem como da exausti-
vidade da discussão crítica e da severidade dos testes a que foi submetida.
Nalgumas ocasiões, descrevi-a também como sendo o grau até ao qual a teo­
ria em questão «foi capaz de provocar a sua aptidão para sobreviver resistindo
a testes»41. Mas, tal como é mostrado pelo contexto destas passagens, eu não
pretendí significar com isto mais do que um relatório acerca da aptidão pas­
sada da teoria para sobreviver a testes severos: tal como Darwin, não afirmei
que algo (quer seja um animal ou uma teoria) que tenha mostrado a sua apti­
dão para sobreviver a testes sobrevivendo-lhes tenha mostrado, com isso, a sua
aptidão para sobreviver a todos, a quase todos ou a alguns testes futuros42. De

40 Os exemplos que dei fazem alusão aos que Russell deu com a finalidade oposta — isto é,
em defesa da indução — em The Problems o f Philosophy, p. 69. [Ver Objective Knowledge, capí­
tulo 1. Ed.]
41 L.Sc.D ., capítulo x, antes da secção 79 (p. 251).
42 O aspecto da «aptidão para sobreviver» foi mal compreendido pelo autor da recensão da
Mind; cf. nota 12 à secção 12, mais atrás.

91
O REALISMO E O OBJECT1VO DA CIÊNCIA

facto, acredito que uma teoria, ainda que bem testada, possa amanhã ser refu­
tada — especialmente se alguém se esforçar seriamente por a refutar, e espe­
cialmente se essa pessoa tiver uma ideia nova acerca de como a testar.
Mas se o grau de corroboração não é mais do que uma avaliação do desem­
penho passado da teoria, não torna a surgir, sob a forma do problema do ama­
nhã, o problema da indução? Pois não é verdade que o grau de corroboração
de uma teoria — isto é, o seu desempenho passado — determina a nossa espec-
tativa relativamente ao seu desempenho futuro? Não estarei eu mesmo, errada-
mente, a atribuir a uma teoria a disposição para sobreviver a testes futuros, com
base no seu desempenho passado?
Concordo que uma atribuição dessas, vinda da minha parte, equivalería a
um colapso da minha teoria: seria uma inferência indutiva. Mas eu não pre­
ciso, de maneira nenhuma, de ir para além dos argumentos já avançados43, se
quiser esclarecer a questão.
O caso é este. Eu não acredito que uma teoria altamente corroborada seja
particularmente de esperar (ou provável, ou lá o que for) que sobreviva a testes
futuros; ou que seja mais de esperar que o faça do que uma teoria menos cor­
roborada. Pelo contrário, a probabilidade [likelihood, N. do T.] de uma teoria
sobreviver há-de depender, em larga medida, entre outros factores da taxa de
progresso nesse ramo específico da ciência, ou, por outras palavras, do inte­
resse que os investigadores tiverem por uma área específica, e dos seus esforços
para projectarem novos testes. Mas a taxa de progresso pode ser muito grande
precisamente numa área em que os padrões de crítica e de teste sejam muito
elevados — isto é, em áreas em que há teorias altamente corroboradas.
Consequentemente, eu não deveria esperar que uma teoria mais corroborada
sobreviva, regra geral, a uma teoria menos corroborada. A esperança de vida
de uma teoria não aumenta, julgo eu, com o seu grau de corroboração, nem
com o seu poder passado de sobreviver a testes.
Mas não espero eu (perguntar-me-ão) que o Sol se vá levantar amanhã, ou
não baseio as minhas previsões nas leis do movimento? É claro que sim, por­
que essas são as melhores leis disponíveis, tal como anteriormente se discutiu
demoradamente. Mesmo onde tenha dúvidas teóricas, hei-de basear os meus
actos (se tiver que agir — isto é, que escolher) na escolha da melhor teoria dis­
ponível. Assim, estaria disposto a apostar no Sol se levantar amanhã (apostar
é uma acção prática), mas não nas leis da mecânica newtoniana (ou einsteiniana)
sobreviverem a críticas futuras, ou a sobreviverem-lhes mais tempo do que, diga­
mos, a melhor teoria disponível da transmissão sináptica, em que esta última
tenha (ou assim pareça) um grau de corroboração mais baixo. Quanto a acções

43 Esta discussão trabalha vários trechos de L.Sc.D ., sobretudo a secção 79 e o Apêndice *ix
(subsecção *14), e de «Philosophy o f Science: A Personal Report» (1957; hoje é o capítulo 1 de
Conjectures and Refutations).

92
A ABORDAGEM CRÍTICA

práticas (tais como apostar em previsões feitas por essas teorias), estaria dis­
posto a baseá-las, em ambos os casos, na melhor teoria da sua área, desde que
esta tivesse sido bem testada.
A questão pode também ser posta da seguinte maneira. A questão de sobre­
vivência de uma teoria é coisa que pertence ao seu destino histórico, e, portanto,
à história das ciências. Por outro lado, o seu uso para previsão é um assunto
ligado à sua aplicação. Estas duas questões estão relacionadas, mas não inti­
mamente, pois nós muitas vezes aplicamos teorias sem nenhuma hesitação mesmo
que elas estejam mortas — isto é, falsificadas — enquanto forem aproximações
suficientemente boas para o fim em vista. Assim, não há nada de paradoxal no
facto de eu estar pronto para apostar em aplicações de uma teoria ao mesmo
tempo que me recuso a apostar na sobrevivência dessa mesma teoria.
A minha recusa em apostar na sobrevivência de uma teoria bem corrobo­
rada mostra que não extraio nenhuma conclusão indutiva da sobrevivência pas­
sada para a sobrevivência futura.

IV

Mas será que eu não extraio realmente conclusões indutivas do desempenho


passado para o desempenho futuro? Não tem Russell razão em salientr que a
«única razão para acreditar que as leis do movimento se manterão em funções
é elas terem funcionado até agora, tanto quanto o nosso conhecimento do pas­
sado nos permite ajuizar44»? Esta perspectiva indutivista, apesar da sua capa­
cidade de persuasão está errada.
Primeiro, deveriamos lembrar-nos de que ninguém alguma vez observou as
leis do movimento a funcionar: as leis do movimento são invenção nossa, e
pretende-se que resolvam certos problemas — explicar certos acontecimentos.
Se o tiverem feito com sucesso, confiaremos nelas e não em competidoras suas
menos bem sucedidas. Mas amanhã alguém pode apresentar-nos uma nova teo­
ria, um novo conjunto de leis do movimento, que não só resolva todos os pro­
blemas e passe em todos os testes que o antigo conjunto resolvia e passava, mas
sugira ainda novos testes cruciais. Podem sugerir-nos desvios das antigas leis
que, até ao momento, tinham passado despercebidos. (Tudo isto aconteceu mais
do que uma vez desde então — de facto, até uma vez um ano após a publica­
ção do livro de Russell. Parto aqui do princípio que Russell quis dizer com «leis
do movimento» um conjunto invariável de Lorentz, pois, de outro modo, teria
acontecido ainda antes de ele ter escrito.) Logo, aquelas leis do movimento que
«funcionaram até ao momento, tanto quanto o nosso conhecimento do passado
nos permite ajuizar» não se «mantiveram em funções» e não havia razões para

44 Bertrand Russell, The Problems o f Philosophy, p. 61. (Os itálicos são de Russell.)

93
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

esperar que o fizessem, porque, tanto quanto o nosso conhecimento actual nos
permite ajuizar, nunca estiveram «em funções».
Se, no entanto, aquilo em que Russell estava a pensar fossem as outras leis
do movimento — as verdadeiras leis do movimento, as quais, podemos supor,
funcionaram no passado, então teríamos de acentuar que essas leis nos eram
(e ainda nos são) desconhecidas, e que nenhuma inferência indutiva — nenhuma
inferência do seu funcionamento passado para o seu funcionamento futuro —
se pode basear nessas leis desconhecidas.
Claro, se algumas verdadeiras leis realmente funcionaram no passado (como
acredito que tenham funcionado), hão-de continuar a funcionar no futuro. Mas
esta afirmação não se baseia em indução; baseia-se no facto de nós explicar­
mos as mudanças por meio de leis invariáveis, e de que nos recusaríamos a cha­
mar uma verdadeira lei a algo que não «funcionasse» — isto é, que não fosse
válido — em qualquer parte e em qualquer altura.
Pode sugerir-se que deveriamos interpretar com mais liberdade as palavras
de Russell, de modo que elas significassem algo como isto: «A única razão para
se acreditar que se há-de observar o Sol a nascer amanhã é que ele foi, no pas­
sado, observado enquanto nascia; e para acreditar que a terra vá continuar em
rotação é que, se a nossa interpretação do que observámos está correcta, ela
o fez no passado. (E observações análogas seriam válidas para as leis do movi­
mento em geral.)» Mas, evidentemente, isto também não funciona (já para não
falar do facto de as observações, que, como vimos, são selectivas, nunca serem
a única razão para qualquer crença sensata ou racional), pois dizer que a nova
interpretação de movimentos passados está correcta é o mesmo que dizer que
certas teorias são verdadeiras.
Não é a formulação de Russell que está errada, mas os sentimentos que ela
exprime (incluindo as suas várias referências à probabilidade). Não há, muito
simplesmente, nenhuma razão para acreditar na verdade (ou na probabilidade)
de qualquer conjunto específico de conjecturas, daquelas a que chamamos uma
teoria física, ainda que possa haver razão para preferir uma teoria a outras por
essa ser uma melhor aproximação à verdade (o que não é uma probabilidade)45.
Nisto é que há uma grande diferença.

Os indutivistas estarão a aplicar um método de argumentação justo e sen­


sato se tentarem mostrar que aquelas conhecidas dificuldades com que eles bata­
lharam tanto tempo, e com tão pouco sucesso, têm de aparecer, talvez com algu­
mas mudanças adequadas, também na minha teoria.

45 Quer dizer, a verosimilhança não satisfaz as regras (as regras de Keynes, por exemplo) do
cálculo de probabilidades. Ver Conjectures and Refutations, capitulo 10 e Adenda.

94
A ABORDAGEM CRÍTICA

Uma dificuldade para os indutivistas, julgo eu, é dizer porque é que, tendo-
-se observado só corvos pretos até, digamos, 1950, se haveria de preferir a lei
«Todos os corvos são pretos» à lei «Todos os corvos anteriores a 1970 são pre­
tos, e depois de 1970 são brancos», pois ambas estas leis parecem dar conta igual­
mente bem das provas observacionais existentes. No entanto, diz-se, nos «obvia­
mente» preferimos a primeira à segunda. O problema é explicar porque é que
o fazemos46.
Ora, pode-se pensar que o mesmo problema há-de aparecer no interior da
minha teoria da resolução de problemas através de conjecturas, da seguinte
maneira. Alguém pode ficar impressionado pelo facto de dois ou três corvos
que viu serem pretos; quer uma explicação, e encontra a hipótese de todos os
corvos serem pretos. Mas alguma outra pessoa sugere a hipótese rival segundo
a qual todos os corvos são pretos até 1970, ou, para evitar a objecção de que
as nossas leis só deveríam conter universais (ao passo que «1970» é um nome
individual)47, sugere uma terceira hipótese — a de que todos os corvos são pre­
tos excepto os que tenham sido fotografados durante um eclipse total do Sol
(os quais são brancos).
Por que é que preferimos, perguntam-me, a primeira hipótese à segunda e
à terceira, já que as três parecem relacionar-se igualmente bem com as provas?
A resposta é que a segunda teoria e a terceira afirmam uma ligação, uma
dependência que teria de ser explicada: pois aceitar uma mudança inexplicada
é inexplicável numa certa data equivalería a aceitar um milagre48 (veja-se a sub­
secção II, atrás.) Só isto a torna inferiores à primeira. Além disso, as nossas
actuais teorias científicas sobre a coloração dos pássaros têm um carácter que
nos faz suspeitar que qualquer explicação da mudança em questão que não fosse

46 Não estou bem seguro de quando é que este trecho foi escrito, mas foi, quase com certeza,
antes de o Prof. Nelson Goodman me ter chamado a atenção para o seu livro Fact, Fiction and
Forecast, 1955; veja-se a nota 72a ao capítulo 11 de Conjectures andRefutatiâns, p. 284. Seja como
for, a minha discussão mostra que o problema do apoio empírico, problema que Goodman levan­
tou com a ajuda dos seus novos e peculiares predicados [«verdul» («grue», N. do T.), etc.] pode
facilmente ser formulado sem esses predicados. Assim, o problema desses novos predicados, e o
problema da sua exclusão, não me parece tanto ser um novo enigma, a resolver por uma teoria
do entrincheiramento [entrenchment, N. do T.] como me parece ser uma coisa que não vem ao caso.
[Jogo de palavras intraduzível: «but rather like a red (or perhaps a reen) herring». «A red her-
ring», um arrenque vermelho, é uma expressão que designa um despropósito, uma coisa que não
vem ao caso, uma impertinência. E Popper brinca com a palavra «red» transformando-a, segundo
o modelo dos adjectivos — isto é, das propriedades — forjados por Goodman, em «reen», «ver-
verde». N. do T.] [Veja-se os meus artigos: «Goodman’s Paradox: A Simple-Minded Solution»,
in Philosophical Studies, Dezembro de 1968, pp. 85-88; «Theories of Demarcation between Science
and Metaphysics», in I. Lakatos e A. Musgrave, des., Problems in the Philosophy o f Science (Ams-
terdam, North-Holand Publishing Company, 1968), pp. 54-57; «Eine Lósund des Goodman-
-Paradoxons», in Gerard Radnitzky e Gunnar Andersson, eds., Voraussetzungen und Grenzen der
Wissenschaft (Tübingen, J. C. B. Mohr (Paul Siebeck) Verlag, 1981); e «The Philosophy of Karl
Popper: part iii , Rationality, Criticism and Logic», Philosophia, 1982. Ed.]
47 Cp. L.Sc.D ., secções 13 a 15 e Apêndice *x.
48 [Cp. L.Sc.D ., secção 79. Ed.]

95
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

ad hoc iria contrariar algumas teorias bem corroboradas (da genética). Só por
estas razões, não vejo nenhuma dificuldade, de espécie nenhuma, em explicar
a minha preferência num caso como este.
Contudo, a minha objecção principal ao argumento é bem diferente.
Todas as nossas hipóteses são conjecturas, e todos somos livres de apresen­
tar conjecturas — mesmo conjecturas que possam parecer tolas à maior parte
de nós. Só assim podemos abrir caminho para idéias arrojadas, não convencio­
nais, novas. O preço dessa liberdade é sermos, muitas vezes, confrontados com
idéias que parecem ser tolas. Poucas delas serão levadas a sério, mas algumas
podem sê-lo; e algumas delas podem, por vezes, contrariamente, às nossas pri­
meiras impressões, mostrarem-se como passos na direcção certa. Assim, ainda
que qualquer cientista que rejeite uma teoria por a achar tola esteja a priori a
correr um risco, não há maneira de evitar tais riscos: não só qualquer proposta
de nova conjectura é arriscada, como também o é a decisão de a levar a sério
ou de a rejeitar. Em oposição aos indutivistas, não afirmo que haja uma teoria
(alcançada indutivamente) que seja a que melhor explica ou dá conta de algu­
mas provas dadas. Pelo contrário, a ideia de uma pluralidade de conjecturas
em competição — que nós, é certo, tentamos reduzir através da crítica — é essen­
cial à minha metodologia.
Ao passo que tal pluralidade pode confundir o indutivista, a mim não me
cria problemas nenhuns.
Na prática, muitas das conjecturas mais manifestamente «tolas» podem ser
eliminadas através da crítica por não serem testáveis, ou por serem menos tes-
táveis; por serem arbitrárias, ou ad hoc; por criarem, sem desculpa, mais pro­
blemas desnecessários; e por contrariarem as nossas idéias mais gerais daquilo
que deve ser uma explicação satisfatória: idéias que são de certo modo vagas,
mas que, tal como as teorias científicas, se desenvolvem por tentativa e erro:
idéias acerca do «estilo» (mecânico, eléctrico, estatístico, etc.) de uma boa expli­
cação. É claro que considerações dessas podem, por vezes, fazer com que rejei­
temos uma boa teoria. Este é também um dos riscos que corremos; faz parte
do carácter conjectural da ciência.
Assim, Galileu rejeitou, erradamente, a teoria lunar das marés porque (como
sugeri noutra ocasião)49 esta era parte integrante da teoria astrológica das
«influências» estrelares, que ele, com razão, achou que era de mau gosto, ainda
que ninguém pareça ter-se alguma vez dado ao trabalho de refutar a astrologia
observacionalmente nem sequer de examinar criticamente a grande quantidade
de provas indutivas em que ela «se baseia». Outros exemplos são a rejeição ini­
cial, na Europa continental, da teoria da gravitação de Newton, e a rejeição ini­
cial, em Inglaterra, sob influência da autoridade de Newton, da teoria ondula-
tória da luz, de Huygens, até a teoria corpuscular ter sido refutada por Young.

49 Ver Conjectures and Refutations, p. 188, nota 4 (e a referência que aí se faz à p. 38, nota 4).

96
UNIVERSID&--E r , - ■<•- - ,
BitíLSOTEÇÃ é A B O fiD S G E M CRITICA

Assim, a crença de que o dever do metodólogo é dar conta da tolice das teo­
rias tolas que estão de acordo com os factos, e justificar a sua exclusão a priori,
é ingênua: deveriamos deixar para os cientistas a tarefa de lutarem pelo reco­
nhecimento e pela sobrevivência das suas teorias (e de si próprios). Além disso,
trata-se de uma crença indutivista. Um indutivista, que pensa que a única razão
suficiente para se aceitar uma teoria é o apoio desta em observações passadas
fica, obviamente, confundido quando descobre que muitas teorias muitíssimo
pouco atraentes podem ter a pretensão de estarem tão bem apoiadas por obser­
vações passadas como a teoria mais atraente. Mas a mim o problema não se põe.
Pelo contrário, se uma teoria com um grande poder explicativo parecer
atraente ou prometedora a alguém, por qualquer razão (tal como foi o caso de
Galileu em relação à sua teoria não-lunar), então essa pessoa terá razão se se
agarrar a ela, e se não perder as esperanças cedo demais, mesmo perante difi­
culdades internas, e mesmo perante aparentes refutações empíricas: pode no fim
vir a acertar, apesar de tudo. Se não, sempre terá aprendido com os seus erros,
tanto mais quanto maior tiver sido o seu esforço intelectual na tentativa de fazer
face à crítica. Uma certa dose de dogmatismo e de casmurrice é necessária ém
ciência, se não quisermos perder idéias brilhantes com as quais não sabemos
lidar à primeira nem modificar.
Há, no método crítico da ciência, lugar, e função, até para a orla lunática.
Disse numa ocasião que as nossas universidades não deveríam tentar produzir
estudiosos ou cientistas, mas contentar-se com um objectivo mais modesto e mais
liberal — o de produzir homens capazes de distinguir um charlatão de um estu­
dioso ou de um cientista50. Fui imediatamente corrigido por L. E. J. Brouwer,
que me disse que mesmo essa fórmula ainda não era suficientemente liberal, já
que podia ser interpretada como estando a encorajar aquela superioridade nada
liberal com que os acadêmicos muitas vezes olham os que estão de fora. Indicou
ele que havia em ciência lugar até para o charlatão, e rejeitou, com razão, tudo
o que pudesse ser interpretado como estando a apoiar distinções desse gênero.
Assim, se tivéssemos que dar razões metodológicas para condenar todas as
teorias como a de que todos os corvos são pretos excepto os que tenham sido
fotografados durante um eclipse total do Sol, com facilidade poderiamos estar
a condenar uma teoria importantíssima. Poderiamos dar razões a priori contra
a lei de Einstein segundo a qual os grupos de estrelas fixas na região do Zodíaco
apresentam sempre as mesmas distâncias angulares relativas, excepto as que se
captem durante um eclipse total do Sol, altura em que se verificará que algu­
mas das suas distâncias angulares relativas são ligeiramente diferentes. Soubesse
Galileu o que é fotografia, e teria facilmente podido achar que esta lei einstei-
niana tinha um desagradável sabor astrológico.

50 Ver a nota 6 ao capítulo 11 de The Open Society. (Nessa nota — que é um ataque à ideia
de se produzirem peritos — o termo «perito» é usado onde aqui se usa «erudito».)

97
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

VI

Até agora, a nossa discussão foi lógica, ou metodológica ou espistemoló-


gica. Pode resumir-se dizendo que eu substituí o problema «Como é que sabe?
Qual é a razão, ou a justificação, da sua asserção?» pelo problema: «Por que
é que prefere essa conjectura a conjecturas competidoras? Qual é a razão da
sua preferência?»
Ao passo que a minha resposta ao primeiro problema é «não sei», a minha
resposta ao segundo é que, regra geral, a nossa preferência por uma teoria mais
bem corroborada será defendida racionalmente pelos argumentos que tiverem
sido usados na nossa discussão crítica, incluindo, é claro, a discussão dos resul­
tados dos testes. São esses os argumentos dos quais o grau de corroboração é
suposto dar um relato sumário.
Deste modo, está resolvido o problema lógico da indução.
É claro que se mantêm muitos problemas que se pode dizer serem aspectos
ou fases do problema da indução, e alguns deles podem ser problemas lógicos.
O principal problema dos que restam — chamei-lhes a quarta fase do problema
da indução — é, porém, de diferente natureza, apesar da sua íntima ligação com
problemas já discutidos.

5 — Por que é que o quarto estádio do problema é metafísico?

A quarta fase do problema é metafísica. O desafio que ela contém pode ser
formulado da seguinte maneira.
Há leis naturais verdadeiras. Isto sabemo-lo nós, e sabemo-lo por expe­
riência. Hume diz que não sabemos; porém, apesar do que ele diz, nós sabe­
mo-lo: a nossa crença de que há leis naturais verdadeiras baseia-se, sem dúvida
nenhuma, de um modo ou de outro, em regularidades observadas: na
mudança dos dias e das noites, na mudança das estações, e em experiências
semelhantes. Logo, Hume deve estar errado. Somos capazes de mostrar por
que é que ele está errado? Se não o somos, então não resolvemos o nosso
problema.
Simpatizo francamente com o espírito deste desafio, ainda que não concorde
inteiramente com a sua formulação.
Para começar, deveriamos notar que há umas quantas maneiras diferen­
tes de interpretar a pretensão de que há leis naturais verdadeiras. Há estas, por
exemplo:
1) Existe (actualmente), pelo menos, um enunciado universal verdadeiro, o
qual descreve regularidades invariáveis da natureza.
2) Algum enunciado universal possível que descreva regularidades invariá­
veis da natureza (quer já expressa, quer não) é verdadeiro.

98
A ABORDAGEM CRÍTICA

3) Existem regularidades na natureza (quer já expressas, ou exprimíveis, ou


não). .
Se todas estas pretensões se relacionam com o problema da indução de Hume,
as questões que se lhes ligam são, não obstante, muito diferentes — e nuns quan­
tos diversos aspectos.
Primeiro, o que Hume mostrou foi que nós não podemos retirar uma lei uni­
versal como «Todos os cisnes são brancos» de observações (ou de enunciados
de observação), sejam elas quantas forem, de cisnes brancos. Mas os enuncia­
dos (1-3) acima apresentados não são universais: são enunciados existenciais sin­
gulares. Coloca-se, assim, a questão de saber como é que um enunciado exis­
tencial singular desses se relaciona dedutivamente com a observação, ou, talvez,
com reflexões sobre a nossa experiência.
Sendo a nossa asserção — «Há leis naturais verdadeiras» — existencial, não
se refere sequer a qualquer lei física em particular, mas afirma apenas que, pelo
menos, uma dessas leis é verdadeira. Isto tem uma importância considerável.
Eu, pelo menos, não estaria disposto a indicar alguma lei da física em particu­
lar e a dizer: «Esta lei é verdadeira, na sua presente formulação e interpreta­
ção: estou certo de que ela nunca virá a ser falsificada, nem modificada, nem
reconhecida como sendo apenas condicionalmente válida, ou válida somente den­
tro de certos limites.» Simultaneamente, acredito que, pelo menos, algumas das
leis do nosso actual sistema de física sejam verdadeiras nesse sentido; diria até
que muitas delas o são, se as incluirmos em níveis de universalidade mais baixos.
Em segundo lugar, a nossa asserção, pelo menos nas suas duas primeiras
interpretações, não pertence à física, mas, antes, fala acerca das teorias da física
(ou, talvez, da ciência em geral). Pode exprimir-se isto dizendo que ela pertence
à metateoria da física. (Pertence àquilo que Tarski chama a «semântica» da ciên­
cia física.) Ao passo que os enunciados da ciência são acerca de objectos não-lin-
guísticos, a nossa asserção é, pois, acerca de objectos linguísticos. Pertence, por­
tanto, a alguma linguagem (uma «meta-linguagem») na qual podemos falar
acerca de alguma outra linguagem (a «linguagem objecto»), a qual, por sua vez,
se refere ao Mundo. A proposição «Existe alguma lei verdadeira» é uma con­
jectura acerca do Mundo e também um comentário acerca de leis naturais. Ao
passo que o problema original de Hume se ocupa da relação lógica entre uma
lei natural e alguma experiência observacional, o nosso novo problema ocupa-
-se da relação, lógica ou de outra natureza, entre comentários acerca de leis natu­
rais e comentários (ou reflexões) acerca de experiências observacionais.
Pode-se pôr a objecção de que a nossa asserção de que existe pelo menos
uma lei da natureza verdadeira pertence, apesar do que eu acabei de dizer, à
ciência. O argumento poderia ser que as leis da natureza pertencem à ciência,
e se a for uma lei da ciência, então «a é verdadeira» seguir-se-á de a (pela defi­
nição de «verdadeiro» de Tarski), e a partir de «a é verdadeira» e de «a é uma
lei da natureza», obteremos, é claro, «Existe uma lei da natureza verdadeira».

99
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

Admito que a conclusão esteja correcta: «Existe uma lei da natureza verdadeira»
decorre, na verdade, de qualquer lei científica. No entanto, como todas as leis
científicas são conjecturais, a proposição «Existe uma lei da natureza verdadeira»
não precisa, por sua vez, de ser verdadeira: ela herda o carácter conjectural da
lei a. Ao mesmo tempo, não adquir carácter científico só por decorrer de uma
lei científica. Enunciados não-testáveis, logo não-científicos, decorrem trivial­
mente de qualquer enunciado testável. E, em particular, o enunciado «Existe
uma lei universal científica (ou testável) verdadeira» não é, por sua vez, testá­
vel. Decorre, é claro, de qualquer asserção (conjectural) de uma lei científica,
como acabámos de ver.
Outro problema que também diminui o interesse da conclusão é que os argu­
mentos usados na nossa discussão científica para apreciar as conjecturas cientí­
ficas não podem ser usados em apoio da conjectura de que «Existe uma lei da
natureza verdadeira». É que esses argumentos limitam-se a apoiar a nossa pre­
ferência por uma lei ou por outra, e não estabelecem nem apoiam a opinião
de que alguma delas seja verdadeira.
Em terceiro lugar, na sua interpretação (aquela que aqui principalmente me
interessa), a nossa asserção assume um carácter metafísico — em vários dos mui­
tos sentidos habituais do termo «metafísico», e num sentido em que esse termo
se pode usar por contraste com «lógico», «metodológico» ou com «epistemo-
lógico».
Diferentemente das asserções puramente metodológicas, e também diferen­
temente das asserções puramente metalinguísticas, mas à semelhança das con­
jecturas da própria ciência, a nossa asserção pode ser interpretada como uma
conjectura acerca do Mundo. Afirmar que existe uma lei da natureza verdadeira
pode-se interpretar como significando que o Mundo não é completamente caó­
tico, mas tem certas regularidades estruturais «incorporadas» [«built-in»,
N. do T.], por assim dizer. Logo, pertence a uma teoria da estrutura do Mundo,
a um gênero de cosmologia geral: é uma conjectura de uma cosmologia me­
tafísica.
É evidente que a nossa asserção, por ser existencial, não pode ser empirica-
mente testada; não é falsificável; e tampouco é verificável, já que nenhuma lei
é verificável. Como a nossa asserção é irrefutável, podemos descrevê-la como
sendo «metafísica», no sentido técnico em que este termo é usado na L.Sc.D.
(compare-se aí a secção 6)51. E não sendo nem falsificável, nem verificável, pre­
sumivelmente será «metafísica» também em sentido positivista.
Também é «metafísica» no sentido tradicional da palavra, já que trata de
assuntos que são vistos como característicos da metafísica. Trata, do mesmo

51 Ver L.Sc.D ., passim; Conjectures and Refutations, sobretudo o capítulo 11 e o Apêndice


ao capítulo 10. Ver ainda o meu artigo «Indeterminism in Quantum Physics and in Classical Physics»,
in Th British Journal fo r the Philosophy o f Science 1, 1950, pp. 117 e segs.

100
A ABORDAGEM CRÍTICA

gênero de assunto que, por exemplo, o princípio da causalidade universal, do


qual uma formulação possível é a seguinte: «Para qualquer acontecimento neste
Mundo, existem leis universais verdadeiras e condições iniciais verdadeiras a par­
tir das quais se pode deduzir um enunciado que descreva o acontecimento em
questão.» Também esta é uma asserção acerca do Mundo e da sua estrutura.
Pode-se levantar a objecção de que a nossa asserção, seja qual for a sua pos­
sível interpretação metafísica, ainda pertence sobretudo à metodologia ou à teoria
do conhecimento. Para buscarmos leis verdadeiras (tal como fazemos), temos
que pressupor na nossa busca, pode-se ainda argumentar, a existência de tais
leis. E assim, «Existem leis da natureza verdadeiras» é um pressuposto meto­
dológico.
Mas esta objecção não é terminante, pois pode-se perfeitamente buscar algo
que não exista, e fazê-lo sem supor ou pressupor ou postular a sua existência.
Por exemplo, quando testamos uma lei, buscamos um contra-exemplo dela. Mas
não supomos nem pressupomos nem postulamos a existência de tal contra-
-exemplo. Aliás, pode não existir nenhum contra-exemplo: a lei que estivermos
a testar pode ser verdadeira.
Ainda, portanto, que não pressuponhamos nem suponhamos «Existem leis
da natureza verdadeiras», podemos acreditar nisso — e sem dúvida que o fare­
mos, de facto. E talvez essa crença seja psicologicamente importante na nossa
busca de leis verdadeiras. Mas mesmo isso não faria dela um pressuposto meto­
dológico; faria apenas dela um pressuposto psicológico.
Dá-se o caso de eu partilhar essa crença, e de pensar que ela é mais sensata
do que qualquer outra alternativa que eu conheça. A melhor maneira de com­
preender — e de avaliar — essa crença é vê-la como uma conjectura metafísica
acerca da estrutura do Mundo.
Antes, porém, de passarmos a esta questão metafísica, há outra objecção
mais ou menos metodológica, uma objecção que também explora a ligação,
acima referida, à lei da causalidade universal.
Muitos foram os filósofos que sustentaram que o problema da verdade da
lei da causalidade universal (ou da «Uniformidade da Natureza», o que talvez
ainda seja uma fórmula mais vaga) é equivalente ao problema de Hume. Isto
é, pode-se defender a ideia de que a lei da causalidade universal pode ser usada
como um princípio de indução cuja validade tornaria as inferências indutivas
válidas.
Esta sugestão, porém, está completamente errada. Talvez fosse desculpável
antes de Einstein, mas, depois disso, muito dificilmente o poderá ser. Desde Eins-
tein que deveria ser evidente que um princípio indutivo — um princípio que tor­
nasse válida a inferência indutiva — não pode existir, pois se uma teoria tão
bem confirmada como a de Newton se pode descobrir ser falsa, então é claro
que nem sequer as melhores provas indutivas podem alguma vez garantir a ver­
dade de uma teoria. Por conseguinte, nenhum princípio indutivo que nos per­

101
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

mita efectuar inferências indutivas há-de ser válido: ele seria refutado pela pri­
meira refutação de uma teoria que tivesse sido induzida segundo o princípio indu­
tivo em questão.
Mas se uma solução positiva do problema de Hume sob a forma de um
princípio válido de indução não pode existir, então a lei da causalidade uni­
versal — seja ela o que fo r — não poderá ser um princípio válido de indu­
ção. O mesmo resultado poderia ser argumentado de uma forma mais directa:
a lei da causalidade universal poderia ser verdadeira e nós, apesar disso, não
conseguirmos nenhum progresso científico — talvez pelo facto de as condi­
ções iniciais variarem de modo tão radical que praticamente nunca se repe­
tem, nem sequer de maneira aproximada, ou por causa da complexidade das
leis, ou por outras razões. Assim, mesmo se fosse verdadeira, a lei da causa­
lidade universal não teria significado metodológico. A significativa e impor­
tante regra metodológica que é «Buscai leis naturais» não decorre dela. Nem
tão pouco se promete sucesso a quem actuar de acordo com este impera­
tivo.
Se a lei da causalidade universal não tem significado metodológico nenhum,
não é de espantar, então, que a asserção, muito mais fraca, de que nos ocupa­
mos aqui, «Existem regularidades na natureza» — a asserção cuja validade é
posta em causa no quarto estádio do nosso problema — não tem também
nenhum significado metodológico directo. Mesmo que soubéssemos, como sendo
certo, que havia regularidades na natureza, os argumentos de Hume contra a
indução seriam válidos. Milhões de observações de pessoas que falam inglês não
determinaria que todos os homens falam inglês; nenhuma sequência de obser­
vações dos elementos de uma amostra nos pode dizer que estamos em presença
de uma amostra boa [a fair sample, N. do T.]. Por outro lado, mesmo que sou­
béssemos que não havia regularidades invariáveis — mesmo que houvesse contra-
-exemplos de todas as leis aparentes — seria ainda muito sensato tentar racio­
nalizar, tanto quanto possível, semelhante mundo sumamente irracional, através
do método crítico de tentativa e erro.
Assim, o nosso problema metafísico é, em grande parte, acadêmico, e de
natureza muito diferente da dos problemas lógicos e metodológicos que resol­
vemos. O facto de o quarto estádio, ou estádio metafísico, do nosso problema
continuar por resolver é, portanto, prefeitamente compatível com a minha pre­
tensão de ter resolvido completamente o problema da indução de Hume num
plano lógico, metodológico e epistemológico. A solução do quarto estádio não
é precisa para firmar a minha pretensão.
O argumento lógico de Hume contra a indução muito simplesmente não tem
incidência directa na nossa asserção metafísica de que existem regularidades na
natureza. No entanto, é absolutamente verdade que vamos ter de defender esta
asserção metafísica contra Hume — mas não contra a sua lógica; contra a sua
metafísica, isso sim.

102
A ABORDAGEM CRITICA

Estamos agora em posição de reformular com mais clareza a quarta fase,


a fase metafísica, do problema da indução. Podemos fazê-lo salientando que
ele é um aspecto do problema do amanhã.
Concordei (poder-me-ão dizer) que a conjectura metafísica de que há leis
naturais verdadeiras, no sentido de «Existem regularidades», é melhor do que
as suas alternativas conhecidas, sendo, portanto, uma conjectura em que é sen­
sato acreditar. Mas se há leis naturais, então pode-se argumentar da seguinte
maneira: se a for uma lei dessas, continuar-se-á a aplicar, ou continuará a fun­
cionar, no futuro — digamos, amanhã. Mas como é que posso dizer que é sen­
sato acreditar nisto, se concordar com Hume? É certo que uma conjectura cien­
tífica pode ser mais razoável do que outra, à luz do estado actual da nossa
discussão crítica; mas, admitindo que Hume tem razão, por que é que haveria­
mos de aceitar que fosse mais razoável acreditar nesta conjectura metafísica do
que nas suas alternativas? Por que não haveriam, por exemplo, todas as regu­
laridades aparentes de mudar lentamente? O meu anterior argumento parece não
ser aplicável aqui, porque era metodológico: mostrava por que é que, querendo
explicar o Mundo através dos métodos da ciência, qualquer mudança ocorrida
em regularidades conhecidas teria de ser explicada com o auxílio de novas leis
(conjecturadas). Mas agora defrontamo-nos com perguntas diferentes. Agora,
as nossas perguntas são: por que não haveria a ciência e o seu método de falir
completamente amanhã, por todas as regularidades falirem, quer as anterior­
mente pensadas, quer as que o não tivesse sido? E por que é que haveria de
ser sensato acreditar que isto não acontecerá, e que, ainda que amanhã hou­
vesse mudanças tais que a ciência e o seu método falissem, haveria pelo menos
uma regularidade, desconhecida para nós, que continuaria a funcionar por ser
verdadeiramente invariável?
A discussão do problema metafísico ocupar-nos-á durante algum tempo.
Mas, como primeiro passo para uma solução, gostaria de fazer notar até que
ponto é ingênua qualquer formulação do problema que se use termos tempo­
rais como «amanhã» ou «o futuro». É que qualquer formulação dessas dá, inge­
nuamente, por certa uma regularidade: a ordem do tempo.
De facto, todas as formulações como «Será o futuro semelhante ao passado?»
se baseiam ingenuamente na aceitação acrítica e inconsciente de uma teoria do
tempo que é intuitivamente «natural», porém altamente suspeita. É uma teoria
que foi sustentada e expressa, por exemplo, por Santo Agostinho, e que New-
ton foi um dos primeiros a formular explicitamente com estas palavras: «O
tempo absoluto, verdadeiro e matemático decorre por igual de si próprio e a
partir da sua própria natureza, sem relação com nada de externo.» [«Absolute
true, and mathematical time flows equally o f itself, and from its own nature,
without relation to anything externai.», N. do T.] ’252

52 Isaac Newton, Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, 1687.

103
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

Os que formulam o problema da indução em termos temporais (como «o


futuro» ou «amanhã») pressupõem inconscientemente esta teoria do tempo (ou
outra no essencial semelhante a esta) sem, assim parece, terem consciência do
seu carácter problemático. Porque se põe a considerar se as leis da natureza
podem mudar no sentido de no futuro, ou amanhã, vir a haver regularidades
diferentes das que têm vigorado até hoje. Mas isto implica a teoria de que o
futuro, ou o amanhã, há-de chegar, independentemente de uma mudança nas
leis da natureza. Supõem, portanto, um curso do tempo que é independente do
que quer que aconteça, e independente de qualquer mudança nas leis da natu­
reza. Supõem, precisamente, portanto, o que Newton tenta descrever. Mas são
mais ingênuos do que Newton, não tendo consciência de que na própria for­
mulação do seu problema estão a pressupor inconscientemente que certas leis
da natureza — as leis do curso do tempo absoluto — estão isentas da dúvida
de Hume. Por outras palavras, ainda que se julguem ser empiristas e indutivis-
tas, supõem, como Kant, que essas leis do tempo são válidas a priori.
Esta perspectiva é equivalente a uma cosmologia metafísica nos seguintes ter­
mos. Há tempo (e, presumivelmente, espaço), e tudo na natureza acontece no
tempo. O Mundo é uma totalidade de acontecimentos, não de coisas (do que
Heraclito foi o primeiro a aperceber-se)53, e os acontecimentos dão-se essen­
cialmente no tempo (e, presumivelmente, no espaço).
Esta cosmologia foi desafiada por Leibniz e por Berkeley, que, independen­
temente um do outro, propuseram uma teoria relacionai do tempo e do espaço.
O tempo era considerado um sistema de relações de ordem [ordering relations,
N. do T.] (tais como antes, depois, simultâneo) válidas entre acontecimentos;
e o espaço como um sistema de relações de ordem válidas entre coisas. Aqui,
o Mundo é, mais uma vez, uma totalidade de acontecimentos. Mas esses acon­
tecimentos não estão num tempo cuja existência seja uma condição para que
um acontecimento exista. Em vez disso, só existe a totalidade dos acontecimen­
tos, juntamente com as suas relações temporais; e «tempo» não passa de uma
palavra, de um nome do sistema abstracto dessas relações temporais. Esta pers­
pectiva mais sofisticada poderá, talvez, não estar correcta; mas tem sido geral­
mente aceite pela ciência, mesmo antes de Einstein.

6 — O problema metafísico

O princípio metafísico da causalidade universal é um princípio em que não


acredito. (A fortiori, não creio no princípio, mais forte do que este, do deter­
minismo «científico», que será discutido no volume n deste Pós-escrito.) Mas

53 Encontrar-se-á uma defesa desta interpretação de certo modo controversa em The Open
Society, nota 2 ao capítulo 2, e Conjectures and Refutations, capítulo 5 (e o Apêndice ao capítulo 5).

104
A ABORDAGEM CRÍTICA

acredito, como já foi dito, no princípio, muito mais fraco, que é a seguinte;
«Existe pelo menos uma lei da natureza verdadeira.» Irei resumir uma série
variada de argumentos a seu favor. Depois disso, prestarei atenção a algumas
das dificuldades da posição metafísica que me proponho adoptar.
Tornemos a considerar, primeiro, a minha resposta ao primeiro estádio do
problema, dada nas secções 2 e 4. Aí, salientei que as teorias científicas são supo­
sições ou conjecturas que podem ser verdadeiras ou não, e que nós nunca pode­
mos saber de uma teoria se ela é verdadeira, mesmo que seja verdadeira. O que
agora quero salientar é isto: o facto de nós não sabermos e não podermos saber
que uma teoria é verdadeira não é, por si mesmo, uma razão para ela não ser
verdadeira. Pode ser uma razão para suspender a crença, mas decerto não é uma
razão para descrença; isto é, para se acreditar que a teoria seja falsa54.
Podemos agora tornar a considerar a resposta ao terceiro estádio, dada na
secção 4. Disse eu aí que é sensato agir com base (e, portanto, acreditar) numa
teoria científica minuciosamente discutida e bem testada, desde que estejamos
prontos a mudar de opinião à luz de novos argumentos, ou de novas provas
empíricas, por exemplo.
Esta observação também resolve, até um certo ponto, o quarto estádio do
problema, pois acreditar numa afirmação e acreditar na verdade de uma afir­
mação é a mesma coisa. (O que está de acordo com a teoria de Tarski.) Pode,
portanto, achar-se que é razoável acreditar que exista uma lei da natureza ver­
dadeira, desde que exista uma lei da natureza minuciosamente discutida e bem
testada. Desde o momento que nós temos, de facto, um número considerável
de leis da natureza minuciosamente discutidas e bem testadas, há, na verdade,
razões empíricas a favor da crença de que existe pelo menos uma lei da natu­
reza verdadeira.
Pode-se, porém, achar que esta resposta ainda não é inteiramente satisfató­
ria. E a referência a Hume, na nossa formulação original do problema, talvez
dê uma chave para se saber qual é a razão dessa insatisfação: Hume, se não
era um idealista declarado, era, pelo menos, um céptico quanto à realidade do
mundo físico. O seu cepticismo ligava-se intimamente à suas idéias sobre a indu­
ção. Hume admitia a força da sua crença num mundo físico ordenado por leis,
mas afirmava que essa crença era infundada. Isto sugere que o quarto estádio
da questão deveria ter sido: «Eu acredito que vivemos num mundo real, que
ostenta alguma espécie de ordem estrutural que se nos apresenta sob forma de
leis. É capaz de mostrar que esta crença é razoável?»

54 Com Hume, o conhecimento é uma espécie de crença verdadeira justificada. Toda essa abor­
dagem choca com a minha. Se eu aqui falo de «crença» é num sentido diferente — é no sentido
próprio de Objective Knowledge. Para mim, o conhecimento — isto é, o conhecimento conjectural
— é objectivo: está fora, é um produto do espírito de cada um de nós, e não um estado do nosso
espírito. Não considero que o «problema» da crença tenha importância.

105
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

A questão que aqui se levanta é a do realismo metafísico, numa forma que


não acentua tanto a existência de corpos físicos como acentua a existência de
leis, pois os corpos físicos são apenas um aspecto da estrutura de tipo lei que
o Mundo tem [the lawlike structure o f the world, N. do T.] e que, só ela, asse­
gura a permanência (relativa) deles; o que significa, por outro lado, que a exis­
tência de corpos físicos (acerca da qual Hume é tão céptico) implica a de regu-
laridades físicas objectivas (cf. secção 16).

7 — Realismo metafísico

Um desastroso medo da metafísica [...] é a doença do filosofar


empirista contemporâneo. [...] Esse medo parece ser o motivo de
se interpretar, por exemplo, uma «coisa» como um «feixe de qua­
lidades» /a «bundle of qualities», N. do T.J — «qualidades» que
se podem descobrir, supõe-se, entre a matéria-prima dos nossos
sentidos [...] Eu, pelo contrário, não acho que nenhuma espécie
perigosa de metafísica seja envolvida pela aceitação, no sistema,
na ideia de uma coisa física (ou objecto físico) como noção autô­
noma, justamente com a estrutura espácio-temporal apropriada.

ALBERT EINSTEIN

Felizmente, ou talvez infelizmente, a L.Sc.D. no era um livro de metafí­


sica — não, pelo menos, de metafísica da «espécie perigosa» a que Einstein se
refere55. Nem o é, tampouco, este Pós-escrito. Contudo, afirmei na L.Sc.D.,
que acreditava no realismo metafísico (cf. segundo parágrafo da secção 79, e
o final das secções 4 e 28). E ainda acredito no realismo metafísico.
Em parte alguma se usa o realismo metafísico para sustentar qualquer das
soluções propostas na L.Sc.D. (Nisto, o seu método difere da prática costumeira
dos idealistas, os quais, de Berkeley e Hume até, digamos, Reichenbach, usam
as suas idéias metafísicas para apoiar as suas teorias epistemológicas.) O rea­
lismo metafísico não é uma tese da L.Sc.D., nem em parte alguma desempenha
o papel de um pressuposto. E, no entanto, está lá, e está muito presente. Cons­
titui uma espécie de pano de fundo que dá corpo à [which gives point to,
N. do T.] nossa busca da verdade. A discussão racional, isto é, a argumenta­
ção crítica com o interesse de nos aproximarmos da verdade, seria vazia sem
uma realidade objectiva, um mundo que empreendemos descobrir, desconhe­
cido, ou em parte desconhecido: um desafio ao nosso engenho, à nossa cora­

55 Pelo menos não a metafísica do «tipo perigoso» a que Einstein se refere no mote traduzido
a partir do seu contributo para The Philosophy o f Bertrand Russell, edited by P . A. Schilpp, 1944,
p. 230.

106
A ABORDAGEM CRÍTICA

gem e à nossa integridade intelectual. Não há, na L.Sc.D., compromisso nenhum


com o idealismo, nem sequer com a ideia de que conhecemos o Mundo só atra­
vés das nossas observações — perspectiva que com tanta facilidade leva à dou­
trina de que tudo o que conhecemos, ou podemos conhecer, são as nossas expe­
riências observacionais (cf. L.Sc.D., capítulo v).
Este realismo robusto, se bem que sobretudo implícito, que impregna a
L.Sc.D. é um dos aspectos dessa obra dos quais tenho algum orgulho. É tam­
bém um dos aspectos dela que a ligam a este Pós-escrito, do qual cada volume
ataca uma ou outra abordagem subjectivista ou idealista do conhecimento.
Poderá, portanto, não ser despropositado discutir aqui e nas nove secções que
se seguem, mesmo que seja esquematicamente, alguns problemas metafísicos
enquanto tais, sobretudo porque eles se ligam, de várias maneiras, ao problema
da estrutura e do estatuto da ciência (ou do «conhecimento científico», no sen­
tido que foi explicado na secção 1). Esta discussão ocupar-nos-á até à secção 16.
A intenção dos filósofos empiristas, de Bacon a Elume, Mill e Russell, era
prática e realista. À excepção, possivelmente, de Berkeley, todos eles queriam
ser realistas terra-a-terra. Mas as suas epistemologias subjectivas estavam em
contradição com as suas intenções realistas. Em vez de atribuírem à experiência
sensível o importante mas limitado poder de testar, ou de inspeccionar as novas
teorias acerca do Mundo, esses epistemólogos sustentaramf«a teoria de que todo
o conhecimento é derivado a partir da experiência sensível»] . E fizeram «é deri­
vado» equivaler a «é indutivamente derivado», ou, ainda mais frequentemente,
a «tem origem». Nunca viram claramente que não é a origem das idéias que
deveria interessar aos epistemólogos, mas sim a verdade das teorias; nem que
o problema da verdade ou falsidade de uma teoria só se pode pôr, evidente­
mente, depois de termos sido postos perante uma teoria — isto é, depois de ela
ter nascido por obra de alguém, de um modo ou de outro — e que a história
da sua origem dificilmente terá alguma importância para a questão da sua ver­
dade. (Lembro-me muito bem de um velho camponês das montanhas do Tirol
que tinha como certo que o trovão era o ruído produzido pela colisão de nuvens
pesadas, e o relâmpago uma faísca muito forte, devido à fricção das nuvens.
Não tenho grandes dúvidas de que a origem histórica desta teoria tão simples
seja menos suspeita — isto é, que esteja mais próxima do modelo indutivo —
do que a teoria mais sofisticada que os meteorologistas modernos adoptaram.)

A crença, própria dos filósofos empiristas, «de que todo o conhecimento


deriva da experiência sensível» leva necessariamente à ideia de que todo o conhe­
cimento há-de ser conhecimento da nossa experiência sensível presente (as «idéias
de impressões» de Hume), ou então da nossa experiência sensível passada (as56

56 Isto é uma definição de empirismo (incluída na Encyclopedia Britannica) citada por Russell
no início do seu artigo sobre «The Limits of Empiricism»; ver nota 1 à secção 1.

107
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

«idéias de reflexão» de Hume). Assim, todo o conhecimento se torna conheci­


mento do que se está a passar na nossa mente. Com esta base subjectiva, não
se pode construir nenhuma teoria objectiva: o Mundo torna-se a totalidade das
minhas idéias, dos meus sonhos.
A doutrina de que o Mundo é o meu sonho — isto é, a doutrina do idea­
lismo — é irrefutável. Pode lidar com qualquer refutação interpretando-a como
um sonho (tal como a psicanálise pode lidar com qualquer crítica psicanalizan-
do-a). Mas a crença muito difundida de que a irrefutabilidade de uma teoria
é um ponto a seu favor está errada. A irrefutabilidade não é uma virtude, mas
sim um vício. Isto é igualmente válido para o realismo, infelizmente: é que o
realismo também é irrefutável. (A refutação do realismo não passa de um sonho
de idealista. A morte, sonha esse idealista, pode ser o despertar que nos há-de
demonstrar afinal que enquanto vivíamos estávamos só a sonhar. Mas como
argumento, isto não se inclinaria sequer para refutar o realismo: se viéssemos
a aperceber-nos, ao acordar, de que tínhamos estado a sonhar, só o faríamos
por sermos capazes de distinguir sonho de realidade. Mas isto é precisamente
o que o idealista diz que não podemos fazer.) Da irrefutabilidade do idealismo
segue-se a indemonstrabilidade do realismo, e vice-versa. Ambas as teorias são
indemonstráveis (e, portanto sintéticas) e também irrefutáveis: são «metafísicas».
Mas há uma diferença importantíssima entre elas. O idealismo metafísico
é falso, e o realismo metafísico é verdadeiro. É claro que não «sabemos» isto
no sentido em que podemos saber que 2 + 3 = 5; quer dizer, não o sabemos no
sentido de conhecimento demonstrável. Não o sabemos também no sentido do
«conhecimento científico» testável. Mas isto não significa que o nosso conheci­
mento seja impensado [unreasoned, N. do T.] nem irrazoável. Pelo contrário,
não há conhecimento factual que seja apoiado por mais argumentos, ou por
argumentos mais fortes (mesmo não-terminantes).

Antes de considerar de modo mais completo os argumentos positivos a favor


do realismo metafísico, vou primeiro discutir alguns argumentos negativos, argu­
mentos que apoiam o realismo por meio de uma crítica do idealismo.
Do ponto de vista de uma epistemologia subjectivista ou idealista, a forma
mais forte de idealismo é o solipsismo. O argumento epistemológico a favor do
idealismo é o que tudo o que eu conheço são as minhas próprias experiências,
as minhas próprias idéias. Acerca de outros espíritos [other minds, N. do T.]
não posso conhecer nada de directo. De facto, o meu conhecimento acerca de
outros espíritos teria de depender do meu conhecimento acerca de corpos: não
temos nenhum conhecimento empírico de espíritos separados de corpos [disem-
bodied spirits, N. do T.]. Se os corpos são apenas partes do meu sonho, os
outros espíritos ainda mais o hão-de ser.
O problema dos outros espíritos tem sido infindavelmente discutido nos últi­
mos anos, muito em termos epistemológicos. Confesso que não li todas essas

108
A ABORDAGEM CRÍTICA

discussões, e não é, portanto, impossível que o meu argumento simples a favor


da existência de outros espíritos tenha já sido usado por outras pessoas (ainda
que eu não ache que tenha). Esse argumento satisfaz-me completamente — tal­
vez por eu me lembrar constantemente de que neste gênero de investigação
[inquiry, N. do T.] não há argumentos que possam ser terminantes.
O meu argumento é o seguinte. Eu sei que não criei a música de Bach, nem
a de Mozart; que não criei os quadros de Rembrandt, nem os de Boticelli. Tenho
toda a certeza de que nunca conseguiría fazer nada disso: são coisas que não
estão em mim. (Sei-o particularmente bem desde que fiz muitas tentativas para
copiar Bach; foi a coisa que mais me fez apreciar o seu poder inventivo.) Sei
que não tenho imaginação para escrever algo como a Ilíada ou o Inferno, ou
The Tempest. Se possível for, sou menos capaz ainda de desenhar uma história
aos quadradinhos aceitável, ou de inventar um anúncio de televisão, ou de escre­
ver alguns dos livros sobre a justificação da indução que sou obrigado a ler. Mas
na hipótese solipsista, todas essas criações seriam criações dos meus próprios
sonhos. Seriam criaturas da minha própria imaginação, pois não haveria outros
espíritos: haveria somente o meu espírito. Sei que isto não pode ser verdade.
É claro que este argumento não é terminante. Poderei talvez subestimar-me
(e, simultaneamente, sobreestimar-me) no meu sonho. Ou pode a categoria da
criação não ser aplicável. Tudo isto se compreende. No entanto, o argumento
satisfaz-me completamente.
O meu argumento, não há dúvida, assemelha-se um pouco ao argumento
de Descartes segundo o qual um espírito finito e imperfeito não pode criar a
partir de si mesmo a ideia de Deus, mas eu acho o meu argumento mais con­
vincente. A analogia com o argumento de Descartes sugere, contudo, uma sim­
ples extensão ao mundo físico. Eu sei que sou incapaz de criar, a partir da minha
própria imaginação, algo tão belo como as montanhas e as neves da Suíça, ou
até como algumas das flores e das árvores do meu jardim. Sei que o nosso
Mundo é um mundo que eu nunca fiz.
Só posso repetir que este argumento me satisfaz. Talvez por eu nunca ter
realmente precisado dele: não pretendo ter alguma vez duvidado da realidade
de outros espíritos, nem dos corpos físicos. Na verdade, quando penso neste
argumento, só o que posso é achar que o solipsismo (ou, de uma maneira mais
geral, a dúvida da existência de outros espíritos) não é tanto uma forma de epis-
temologia como uma forma de megalomania.
Isto quanto ao solipsismo e a outras formas de epsitemologia idealista que
ponham em questão a existência de «outros espíritos». Parece-me muito possí­
vel que argumentos como este que aqui foi proposto terão evitado que Berke-
ley se tornasse um solipsista: sendo cristão, ele sabia que não era Deus. Che­
gou, assim, à opinião de que havia outros espíritos além do seu e de que tinha
sido Deus quem nos tinha feito preceber esta coisa plena de esplendores que é
o mundo da nossa experiência.

109
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

A versão que Berkeley dá do idealismo é tão irrefutável como qualquer outra,


e não tem muita coisa a seu favor. Mesmo supondo que o argumento solipsista
favorece a tese solipsista, é claro que um apelo ao argumento epistemológico
deixa de ser convincente uma vez admitidas realidades que não são percebidas,
tais como Deus, e outros espíritos humanos. A tentativa de Berkeley de conci­
liar o idealismo epistemológico e o cristianismo leva a um compromisso apa­
rente que, na verdade, prejudica ambos. (O cristianismo é prejudicado porque
o sofrimento físico de Cristo deixa de lhe ser infligido pelos homens, e passa
a sê-lo pela acção imediata da divindade57.)
Nenhum destes argumentos deveria ser preciso. O realismo é tão manifesta­
mente verdadeiro que até um argumento directo como o que aqui foi apresen­
tado é um pouco desagradável. Há nele uma certa banalidade e uma certa cadu­
cidade que me fazem lembrar um pouco um hábito que eu detesto: o de filosofar
sem um verdadeiro problema. «Foi dito que todos os homens sensíveis têm a
mesma religião e que nenhum homem sensível nunca diz o que é essa religião.»58
Acho que continuar o meu argumento seria não tomar em consideração a
segunda metada deste dito sábio.
Seria injusto, é certo, dizer que os idealistas não tinham, de facto, problema
real nenhum. O problema deles era a «justificação» (positiva) do nosso conhe­
cimento, e caíram numa armadilha: na sua própria descoberta de que era impos­
sível «justificar» o realismo. W. W. Bartley, III chamou-me a atenção para o
facto de ser injusto julgá-los do ponto de vista que renuncia a todo o programa
de justificação «positiva», achando-o fútil, e substituindo-o por um programa
de crítica (cf. secção 2, atrás). Aceito este aviso. Mas quem é que, dos filósofos
idealistas, alguma vez salientou que mesmo o realismo fosse verdadeiro nunca
poderia ser justificado no sentido deles, tal como não se poderia justificar o idea­
lismo se o realismo fosse falso? E que, por conseguinte, a impossibilidade de
«justificar» o realismo não diz nada contra a verdade deste? E qual deles, dos
filósofos idealistas, tornou claro que, uma vez que esta situação caracteriza a
estrutura lógica do problema, é, evidentemente, perfeitamente fútil usar, como
argumento contra o realismo, o facto de este não poder ser «justificado» — ou
qualquer argumento semelhante?
A exasperante esterilidade [staleness, N. do T.] dos argumentos dos idealis­
tas e dos sensistas resulta de estes não conseguirem ver a limitação lógica ine­
rente aos seus programas justificacionistas. Eles muito simplesmente não vêem
que nem mesmo uma prova lógica da impossibilidade de justificar o realismo
constituiria uma justificação da sua negação59.

57 Ver também a secção 11, mais adiante, texto respeitante à nota 95.
58 The Note-Books o f Samuel Butler (Shrewsbury Edition, 1926), p. 229.
59 Bartley chamou a minha atenção para o facto de uma questão semelhante ter sido levantada
por Ralph Barton Perry em «The Ego-Centric Predicament», Journal o f Philosophy, Psychology,
and Scientific M ethod 7 (1910), pp. 5-14. A questão de Perry era esta: se pressupusermos ou admi­

110
A ABORDAGEM CRÍTICA

Os meus argumentos não se aplicam só ao solipsismo e ao idealismo de Ber-


keley, mas a todas as outras formas desta doença (tanto quanto as conheço),
em especial às várias formas de positivismo e de fenomenalismo, e ainda ao cha­
mado «monismo neutral» de William James, Ernst Mach e Bertrand Russell,
como mostrarei na próxima secção.
Que Russell não queria lá muito ser um idealista é o que se pode ver a partir
do belo passo em que ele descreve os seus sentimentos após a sua conversão ao
realismo: «[...] pensámos que era real tudo aquilo que o senso comum, não
influenciado pela filosofia ou pela teologia, supõe ser real. Sentindo estar a fugir
de uma prisão, permitimo-nos pensar que a erva é verde, que o Sol e as estrelas
existiríam mesmo se ninguém tivesse consciência deles [...]»60
Mas, sendo um crente na indução, Russell achou que a sua epistemologia
não trazia os benefícios que ele queria. «A teoria do conhecimento», diz-nos
ele, «tem uma certa subjectividade essencial; pergunta: ‘Como é que eu conheço
aquilo que conheço?’ e começa inevitavelmente pela experiência pessoal. Os
dados da teoria do conhecimento são egocêntricos, também o sendo os estádios
iniciais da sua argumentação. Até agora, ainda não passei dos estádios iniciais,
e dei, por isso, a impressão de ser mais subjectivista do que de facto sou.»61
Este passo é interessante por causa da franqueza com que revela que o objec-
tivo realista ainda não tinha sido alcançado, é também por causa da clareza com
que situa o erro fundamental: se admitirmos que o nosso conhecimento é con­
jecturas, então a pergunta fundamental de Russell, «Como é que eu conheço
aquilo que conheço?», aparece como estando mal posta, pois essa questão em
termos de conhecimento, é quase o mesmo que perguntar: «Você já parou de
bater na sua mulher?» Supõe que eu conheço, e, por conseguinte, que a indu­
ção é válida. A questão, aparentemente análoga, que se apresenta em termos
de conjectura, tal como «Como (ou porque) é que eu conjecturo aquilo que con-
jecturo?» não é, na verdade, nada análoga: esta questão é psicológica, não tem
impacto epistemológico. Assim, a resposta adequada à pergunta de Russell é:
«Eu não conheço; e quanto a conjecturas, não se preocupe como ou porque
é que eu conjecturo aquilo que conjecturo. Não estou a tentar provar que as
minhas conjecturas estejam correctas, mas estou, isso sim, ansioso por que mas
critiquem, para que, se possível, as substitua por conjecturas melhores. E se você
se sente tão duvidoso quanto eu acerca das minhas conjecturas, espero que me
ajude, criticando-as desapiedadamente.»62
Assim que substituirmos a ideia de conhecimento pela de conjecturas, desa­
parece a aparente «subjectividade essencial» da teoria do conhecimento. Tal­

tirmos o facto do embaraço egocêntrico, nada decorre disso acerca da verdade ou da falsidade do
realismo ou do idealismo.
60 The Philosóphy o f Bertrand Russell, edited by P. A. Schilpp, 1944, p. 12.
61 Op. Cit., p. 16.
62 Veja-se também o fim da secção 4, mais atrás.

111
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

vez algum conhecimento (epistêmS?) tivesse de ser aplicado, essencialmente,


numa base subjectiva — com base naquilo que eu sei seguramente. Mas, em
oposição a isto, as conjecturas, são propostas, e, enquanto tais, as contrapro­
postas de qualquer pessoa podem fazer-lhe face. O problema da sua base sub­
jectiva, localizada nos nossos sentidos («não há nada no meu espírito que não
tenha estado primeiro nos meus sentidos»), não precisa de ser levantado.
Movemo-nos logo desde o começo, no campo da intersubjectividade, do dar e
receber de propostas e crítica racional.
Assim, o problema fundamental de Russell precisa de ser reformulado em
termos de conjecturas; em termos do carácter hipotético do conhecimento que
(noutro contexto) ele seria o primeiro a salientar. Eu tinha, portanto, razão,
acho, ao fazer disto a minha questão principal quando respondí ao texto de Rus­
sell na Aristotelian Society, oito anos antes de ele publicar os passos agora cita­
dos (cf. secção 1).
A seguir ao passo já citado, Russel escreve: «Se alguma vez tiver vagar para
empreender outra investigação séria de um problema filosófico, hei-de tentar
analisar as inferências da experiência para o mundo da física, supondo-as capazes
de validade, e tentando descobrir que os princípios de inferência, se verdadei­
ros fossem, é que as tornariam válidas.»63 Assim, Russell estava disposto a adop-
tar o que Kant chamava um método «transcendental»; o método que consiste
em tomar o conhecimento científico como um facto, e em perguntar pelos prin­
cípios que explicariam como é que esse facto é possível. O resultado (dado em
Human Knowledge, Its Scope and Limits, 1948, de Russell) podería ter sido pre­
visto — na verdade, eu tinha-o diagnosticado correctamente na observação que
fiz na Aristotelian Society. Era uma teoria da indução que aceitava um princí­
pio indutivo — ou algumas regras de inferência indutiva — como sendo válido
a priori.
A diferença entre o apriorismo de Russell e o de Kant está principalmente
na formulação que Russell dá do seu princípio indutivo como sendo um con­
junto de regras de inferência provável.
O método (transcendental) descrito por Russell no passo que acabei de citar
equivale manifestamente a uma renúncia à sua abordagem subjectivista, pois,
aqui, ele aceita «o mundo da física» como sendo o facto objectivo que a episte-
mologia tem de explicar. Logo, o método subjectivo não é, mesmo para Rus­
sell, tão essencial quanto se podería supor. E não há razão para ele governar
os primeiros passos se tem de ser abandonado depois. A própria análise de Rus­
sell mostra que a base subjectiva não é capaz de sustentar o realismo metafísico
que ele mesmo quer estabelecer, e que outros métodos — métodos não-
-subjectivos — são precisos para esse fim.

63 Op. cit., p. 16. (Os itálicos não estão no original.)

112
UNIVEfiSiíJÃDE fcucHAL üò T-ítok
BIBLIOTECA C E N T R A L
A ABO RDAG EM CRÍTICA

Esses outros métodos, porém, não precisam de nos envolver no apriorismo


quer no de Russell, quer no de Kant. Ainda que envolvam um corte com a filo­
sofia empirista tradicional, e em especial com a metafísica de Berkeley e de
Hume, que põe em causa a realidade do mundo físico, não nos forçam a rom­
per com o empirismo — com a doutrina segundo a qual não se pode estabele­
cer nenhum princípio sintético como sendo válido a priori. Podemos combinar
empirismo com realismo metafísico, bastando para tanto que consideremos seria­
mente o carácter hipotético de todo o «conhecimento científico», e o carácter
crítico de toda a discussão racional.

8 — A metafísica de Hume. O «monismo neutral»

Hume, tal como Russell, era um realista convicto cuja teoria subjectiva do
conhecimento o fez chegar a resultados metafísicos em que ele era constitutiva-
mente incapaz de acreditar, por uma hora sequer64, ainda que se sentisse obri­
gado a aceitá-los com base na lógica. Hume parece ter considerado a sua pró­
pria firme crença nas coisas reais irracionais, se bem que praticamente inevitável.
Tentou fazer uso desta mesma contradição — que observou no seu próprio espí­
rito — para resolver o seu problema, mas isso não o levou a parte alguma: «A
perplexidade que resulta desta contradição», escreve Hume, «produz uma pro­
pensão para criticar estas aparências quebradas» — quer dizer, as suas percep­
ções interrompidas de um corpo — «através da ficção de uma existência contí­
nua»...65 Ninguém que leia o seu tortuoso argumento (livro i, parte iv, secção n,
do Treatise) poderá deixar de partilhar a sua desilusão a respeito dos resultados
finais daquilo que ele primeiro anuncia, de modo tão confiante, como «o meu
sistema»66. Tendo descoberto que nem mesmo agarrando o touro pelos cornos
podería fazê-lo mexer-se — que nem sequer as contradições estimulavam «o espí­
rito» a transcendê-las —, afirma francamente no fim da secção: «Só a despreo­
cupação [carelessness, N. do T.] e a desatenção nos podem dar algum remédio.»
É estranho que este pensador claro e sincero nunca tenha suspeitado que, ao
mostrar que a sua teoria subjectivista do conhecimento não trazia benefícios,
estava a dar algo que equivalia a um golpe mortal nessa teoria.

64 «[...] seja qual for a opinião do leitor neste momento, [...] daqui a uma hora ele estará con­
vencido [de que] há um mundo externo e um mundo interno»; cp. o Treatise de Hume, o fim da
secção ii do livro i, parte iv. (Selby-Bigge, p. 218.)
65 Treatise, Selby-Bigge, p. 205. Ver ainda a nota sobre as pp. 204 e segs.: «Este raciocínio,
há que o confessar, éum pouco abstruso [...]; mas [...] essa própria dificuldade pode ser conver­
tida numa prova do raciocínio [...]».
66 Treatise, Selby-Bigge, p. 199, linhas 7-12. Parece que quando Hume escreveu este trecho
pela primeira vez não fazia tenção de acrescentar ao seu sistema «a segunda parte» (p. 201); uma
«terceira parte da hipótese que me propus explicar» (p. 205); e, finalmente, até um «quarto mem­
bro deste sistema» (p. 208).

113
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

A reacção de Hume às suas descobertas, depois de ter, de facto, destruído


a sua teoria, lembra a reacção de Frege à carta de Russell em que este o infor­
mava dos paradoxos que descobrira na sua teoria e de Frege. «Escrevi a Frege»,
conta Russell, «que respondeu com a maior seriedade que ‘die Arithmetik ist
ins Schwanken g era ten » Não era, pois, pensou ele, a teoria da aritmética de
Frege que estava a vacilar e a ameaçar desabar, mas sim a própria aritmética67.
O «sistema» de Hume comprometeu-o com o idealismo: a crença nos cor­
pos físicos — ou em «objectos» que «continuam a existir» — era, para ele, resul­
tado de uma inevitável «ficção da imaginação»68. Assim, concordava com Ber-
keley e com «os maus judiciosos filósofos», como ele diz, um facto de «que
as nossas idéias de corpos não são mais do que colecções de idéias formadas
pelo espírito...69». Mas, assim, não só os corpos físicos eram reduzidos a nada
mais do que feixes de idéias, mas também os espíritos o eram, incluindo o de
Hume, pois Hume ultrapassou as opiniões de Berkeley ao ensinar que «[...]
aquilo a que chamamos espírito [mind, N. do T.] não é mais do que um mon­
tão ou colecção de diferentes percepções [...], supostas, ainda que falsamente,
estarem dotadas de simplicidade e de identidade perfeitas»70.
A ontologia de Hume foi muito imitada, mas nenhuma das imitações con­
seguiu alcançar a bela simplicidade do sistema de Hume. Essa ontologia pode
ser ilustrada convenientemente pelo seguinte diagrama de uma porção do Uni­
verso — digamos, de um simpósio em que cinco filósofos estão presentes (ver
a página seguinte).
Pode-se interpretar os círculos como vislumbres de corpos, ou como impres­
sões elementares, percepções, «dados dos sentidos», ou como os traços ou refle­
xões de todos estas na nossa memória. Eles constituem a matéria-prima do nosso
Universo, segundo a teoria de Hume71.
Cada um dos feixes de percepção constituintes de cada um dos corpos físi­
cos em vista é aqui representado por uma coluna vertical que contém os seus
vários aspectos tal como eles aparecem aos vários espíritos. Cada um dos feixes
de percepção de cada um dos espíritos dos participantes no simpósio é repre­
sentado por uma linha horizontal que contém os aspectos dos vários corpos tal
como estes aparecem a cada espírito.
Uma vez que o material, ou os elementos do universo de Hume consistem
em percepções de vários corpos, pertencentes a vários espíritos, esse «sistema»
é, sem dúvida, idealista. Todavia, sistemas que quase são idênticos ao de Hume

67 Ver The Philosophy o f Bertrand Russell, Library o f Living Philosophers, ed. by P. A. Schilpp,
p. 13.
68 Op. cit., sobretudo as pp. 198 e 201.
69 Op. cit., p. 219.
70 Op. cit., p. 207; cf. também a secção vi (p. 252, ao fundo).
71 [Compare-se esta discussão com a que aparece em The S elf and Its Brain, 1977, secção 53,
pp. 196-199. Ed.]

114
CORPOS

Cachimbo Cachimbo Cachimbo . , ^ \


1.‘ mesa 1.* garrala 2.* garrafa de de de Corpo de Corpo de Corpo de Corpo de Corpo de
___________________________ David Ernest George PaVld Ernest Freddy G e o rge Harry

00 0
o

o
oo
°o o O o o oO

0 o
o

0o
Espírito de
o o°o° ooo o

o
David o° o O

o
OOoo

o
o o oo o o o
Espírito de oo o o O
Ernest ° nOo
°
o o o o O O O o
o o
ESPÍRITOS

o o o°
Espírito de
_ o° o o oo°° O
Freddy
o o °o o o O o°°
o
O0
o

ooo
o
oo

ooo
V
Espírito de
o o o

oo

o
o
George
o o o

0
o o
o o o

A ABO RDAG EM CRÍTICA


Espírito de o°o° o o o° o o o o °
Harry o o o o o o o o o° o
o o ° o° o
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

— tais como os de Mach, de Russell, ou de Reichenbach — foram descritos como


sistemas de «monismo neutral», em que a palavra «neutral» é suposto signifi­
car «neutral entre realismo e idealismo» (ou, talvez, entre materialismo e espi-
ritualismo), e em que «monismo» é suposto indicar que o material do Universo
(ou o carácter dos seus elementos) é, todo ele, de um só gênero: sensações, ou
impressões72.
Tanto quanto me é dado ver, a única diferença entre o idealismo de Hume
e o «monismo neutral» é a seguinte. Se lhe perguntassem como é que os vários
feixes são ligados, Hume respondería: através da associação de idéias. Os «monis-
tas neutrais» (Ernst Mach, William James, ou Bertrand Russell) dariam uma
resposta diferente. Diriam (se é que os interpreto correctamente): «Os feixes são
ligados por duas espécies de lei natural: os feixes horizontais por leis psicológi­
cas (incluindo a lei da associação), e os feixes verticais por leis físicas. Por outras
palavras, os espíritos são os feixes que obedecem às leis da psicologia, ao passo
que os corpos físicos são os feixes que observam as leis da física. Os próprios
elementos são simultaneamente elementos de corpos e elementos de espíritos;
e são, portanto, neutrais.»73
Como o leitor há-de calcular, não posso aceitar esta doutrina. Os elementos
pretensamente «neutrais» são meras percepções — algo que se pode fazer desa­
parecer fechando os olhos, ou tapando os ouvidos. Os corpos físicos, tais como
as leis da física os caracterizam, não desaparecem dessa maneira, ao passo que
as sensações visuais subjectivas desaparecem. Logo, o monismo «neutral» é uma
forma de idealismo; e só a um idealista — a um filósofo completamente imbuído
da teoria subjectivista do conhecimento — é que esta doutrina poderá parecer
ser «neutral».
Assim, rejeito o «monismo neutral», juntamente com o idealismo, por ser
parte da teoria sujectivista do conhecimento.

9 — Por que é que a teoria subjectivista do conhecimento falha?

A teoria subjectivista do conhecimento falha por várias razões. Primeiro,


supõe ingenuamente que todo o conhecimento é subjectivo — que não pode­
mos falar de conhecimento sem um conhecedor, um sujeito que conhece. Em
segundo lugar, aquele que é tradicionalmente o seu problema fundamental está

72 [Ver «A Note on Berkeley as Precursor of Mach and Einstein», in Conjectures and Refuta-
tions, capítulo 6. Ed.)
73 Talvez possa confessar aqui que no Inverno de 1926-1927, também eu alinhei por esta forma
de monismo neutral sem então me aperceber de que se tratava no fundamental do mesmo que a
teoria de Mach e de James. Ainda que eu tenha admitido, a título de ensaio, essa ideia por muito
pouco tempo, para ver o que é que se podia fazer com ela, não acreditei a sério nela durante mais
de uma hora — isto é, até ter descoberto o seu carácter idealista.

116
A ABORDAGEM CRÍTICA

mal concebido. Estou a pensar no problema «Como é que eu conheço aquilo


que conheço?» (na formulação de Russell; veja-se a nota 7 à secção 7), com
a resposta empirista ingênua que implica: «A partir da observação, ou da expe­
riência sensorial.»74
Contra tudo isto, defendo que o conhecimento científico certamente não é
o meu conhecimento. Pois acontece que eu sei como o que sei é pouco — como
há muitos milhares de coisas que são «conhecidas da ciência», mas não conhe­
cidas por mim (ainda que eu gostasse de as conhecer). Para mim (e eu esperaria
que também o fosse para qualquer outro sujeito) só este facto deveria bastar
para se rejeitar uma teoria subjectivista do conhecimento científico.
Mas mesmo os pedaços de conhecimento científico e de conhecimento de
senso comum que se dá o caso de eu possuir não estão de acordo com o esquema
preconcebido da teoria subjectivista do conhecimento: poucos deles são intei­
ramente resultado da minha própria experiência. São antes, em grande parte,
resultado de eu ter absorvido certas tradições (por exemplo, lendo certos livros),
em parte consciente, em parte inconscientemente. E não estão mais ligados à
minha própria experiência observacional do que as minhas crenças metafísicas
(convicções religiosas ou morais, digamos), que também resultam da absorção
de certas tradições. Em ambos os casos, a minha crítica de algumas dessas tra­
dições pode desempenhar um papel importante na formação daquilo que eu acre­
dito conhecer. Mas essa crítica quase sempre é estimulada pela descoberta de
inconsistências no interior de uma tradição, ou entre diferentes tradições. (Quase
nunca é estimulada pela descoberta de uma inconsistência entre uma tradição
e uma experiência observacional nossa; pois a muito poucos, na verdade, é dado
falsificar, pelas suas próprias observações, uma teoria tradicional.)
Assim, conhecimento científico não é o mesmo que o meu conhecimento;
e aquilo que é o meu conhecimento — o meu conhecimento de senso comum
ou o meu conhecimento científico — é, em grande parte, resultado da minha
absorção de tradições, e (espero) de algum pensamento crítico.
Há, é claro, um terceiro gênero de conhecimento a que também se pode cha­
mar «meu»: eu sei onde é que tenho de procurar o meu frasco de tinta, ou a
porta do meu quarto; sei o caminho pra a estação dos caminhos-de-ferro; sei
que os atacadores dos meus sapatos têm tendência para se partirem quando eu
estou atrasado. Este gênero de conhecimento (a que se pode chamar «conheci­
mento pessoal») dificilmente é tradicional, já que resulta das minhas próprias
experiências; e, portanto, é o que se aproxima mais do gênero de coisa em que
a teoria subjectivista está a pensar. Mas nem mesmo este «conhecimento pes­
soal» se adapta àquela teoria; é que ele está embutido no conhecimento de senso

74 [Trabalhos posteriores elaboram e alargam consideravelmente o argumento contra a teoria


subjectivista do conhecimento. Ver Objective Knowledge, capítulos 1-4; Unended Quest, secções
31, 38 e 39; e The S e lf and Its Brain (com Sir John Eccles), capítulo P3. Ed.]

117
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

comum que temos de coisas tradicionais — de frascos de tinta, de atacadores


de sapatos, de estações de caminhos-de-ferro, coisas acerca das quais temos de
aprender absorvendo uma tradição. É certo que as nossas observações, os nos­
sos olhos e os nossos ouvidos foram imensamente úteis nesse processo de absor­
ção. Mas absorver uma tradição é um processo diferente, no fundamental,
daquele em que a teoria subjectivista está a pensar, teoria essa quer que eu
comece com o meu conhecimento e, ainda mais, com a minha experiência obser-
vacional.

É provável que o subjectivista responda que os processos que ele tem em


vista sejam lógica e geneticamente anteriores àqueles a que me estou a referir.
Dirá ele que eu, antes de alguma vez poder começar a absorver uma tradição,
tenho de aprender muita coisa acerca do Mundo por experiência observacional.
Nesta fase, queria perguntar como um subjectivista faria: «Como é que sabe?
Qual é a base observacional da sua asserção?» É que a resposta do subjecti­
vista é resultado de puro preconceito e de falta de imaginação. As ciências bio­
lógicas contam-nos uma história diferente: temos, por exemplo, muito boas
razões para pensar que muitos insectos tenham uma boa dose de «conhecimento
inato» — que alguns, na verdade, sejam incapazes de aprender, de modificar
as suas reacções inatas em certas áreas; que usem os seus sentimentos e «reco­
nheçam» certas coisas (comida, ou um parceiro sexual potencial) sem nunca as
terem visto antes. Mas se isto é verdade para alguns insectos, pode muito bem
ser verdade para os mamíferos, pelo menos até certo grau, e para os homens:
podemos muito bem nascer com algo como tradições ou «instintos» inatos (ainda
que estes nos possam, muitas vezes, enganar). De facto, a resposta do subjecti­
vista faz parte da mitologia empirista.

A resposta seguinte do subjectivista é provável que seja esta: mesmo que fosse
verdade que os insectos e os homens tivessem conhecimento inato de gênero ins­
tintivo, esse conhecimento teria de ser resultado, de uma maneira ou de outra,
da experiência observacional; isto é, da experiência de gerações anteriores.
Por duas razões diferentes, esta resposta não é mais sustentável do que a
anterior. Primeiro, mesmo que fosse verdadeira, estâria a desviar a questão. Em
segundo lugar, o que ela afirma parece não ser verdadeiro — está, seja como
for, em contradição com as idéias que actualmente são aceites pela maior parte
dos genetistas.
Quanto à primeira das minhas duas questões, o que está em causa não é o
empirismo em geral, mas sim o empirismo subjectivista, ou, mais exactamente,
a teoria subjectivista do conhecimento que começa com o problema «Como é
que eu conheço?» e que supõe que todo o meu conhecimento pode ser recon­
duzido às minhas experiências observacionais subjectivas. Mas uma vez que se
admita que as minhas experiências não bastam — que temos de fazer apelo às

118
A ABORDAGEM CRÍTICA

dos meus antecessores (ou de quaisquer outras pessoas), a teoria subjectivista


sucumbe, pois estar-se-ia a admitir, então, que o conhecimento» é algo de inter-
subjectivo, e estar-se-ia a admitir que esse conhecimento intersubjectivo é gene­
ticamente anterior ao meu conhecimento subjectivo. (Isto prova a fortiori, por
acaso, que este não pode ser logicamente anterior àquele.)
Quanto à segunda questão, a réplica dada é, na essência, lamarquista, e não
darwinista, pois é suposto ser uma defesa da ideia de que, se nós temos conhe­
cimento inato, este há-de ser, em última análise, resultado da experiência obser-
vacional individualmente adquirida. Dá-se o caso de eu pessoalmente simpati­
zar muito com o lamarquismo; mas o lamarquismo não tem, presentemente,
o favor de muitos biólogos; e, de qualquer maneira, uma teoria do conhecimento
(seja ela empirista ou não) não deveria adoptar acriticamente uma conjectura
tal como o lamarquismo (ou algo de semelhante) numa base a priori.15

Os subjectivistas deixam-se muitas vezes enganar por algumas das ambigui­


dades da palavra «conhecimento». «Conhecimento» deriva claramente de «eu
conheço». E isto sugere que «conhecimento» só pode ser aquilo que é conhe­
cido — conhecido das pessoas.
Mas esta ideia é manifestamente inadequada. Peguem num livro que tenha
uma tabela de logaritmos. Há pessoas que sabem como fazer uma tabela dessas
(como a calcular, como a dispor, como a imprimir), e outras que sabem como
a usar; mas não há ninguém que «saiba» a tabela (nem sequer no sentido em
que, digamos, algumas pessoas «sabem» o começo da tabuada de multiplicar).
Todavia, a tabela representa «conhecimento» — conhecimento objectivo: res­
postas, ou respostas parciais, a inúmeras perguntas importantes: muitíssima
informação importante. E esse conhecimento não é «conhecido» de todos (nem
sequer do compilador); está apenas disponível: está lá, potencialmente, para
quem quer que seja que esteja pronto a confiar no responsável pela edição e
no editor.
O caso é semelhante com qualquer teoria científica: uma teoria pode con­
ter, potencial ou disposicionalmente, uma grande quantidade de informação que
ninguém «conhece» — nem o seu descobridor, nem os seus utilizadores: pode
ser aberta e a informação ser retirada dela, por exemplo aplicando-a a conjun­
tos de condições muito especiais.
O conhecimento científico neste sentido objectivo pode ser estudado, absor­
vido, usado, aplicado. Um mesmo pedaço dele pode ser aceite ou rejeitado, dog­
mática ou criticamente. Pode-se acreditar nele ferverosamente, ou encará-lo como
uma suposição grosseira: há muitas atitudes subjectivas divergentes, e muitas
maneiras de reagir a tradições.75

75 [Ver Objective Knowledge, pp. 97, 149 e 268-284. Ed.]

119
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

Um dos usos do conhecimento objectivo, ou de um pedaço de conhecimento


objectivo, é ajudar-nos a formar algumas das nossas próprias convicções sub­
jectivas. Esta via — é seguida com muito mais frequência do que a que vai do
conhecimento subjectivo para o conhecimento objectivo. A teoria subjectivista
do conhecimento supõe, porém, como coisa evidente, ou que só há conhecimento
subjectivo (que um livro é apenas um corpo físico de uma espécie que pode fazer
surgir no espírito do seu utilizador as associações que poderão constituir conhe­
cimento), ou, pelo menos, que o conhecimento objectivo — se é que podemos
falar de semelhante coisa — não pode ser mais do que o registo de, ou uma
derivação de, algum pedaço de conhecimento subjectivo.
Ainda que o conhecimento objectivo resulte sempre, directa ou indirecta-
mente, das acções humanas, de passos dados à luz do conhecimento subjectivo
e objectivo, o conhecimento objectivo muitas vezes emerge sem que previamente
tenha sido conhecido subjectivamente. Este é, invariavelmente, o caso em todos
os cálculos (tanto quanto o homem que os faz está envolvido): aí, esperamos
que o resultado surja com alguma forma física antes de formarmos a corres­
pondente convicção subjectiva. (Não nos deveriamos esquecer de que os inven­
tores do cálculo não sabiam verdadeiramente como é que ele funcionava, ainda
que tivessem uma vaga ideia: retiraram conhecimento dos seus cálculos quase
por magia. O que eles acharam foi que a máquina de conhecer que tinham cons­
truído funcionava extremamente bem — regra geral, se bem que nem sempre.)
Ver-se-á, a partir do que eu disse, que podemos considerar o conhecimento
objectivo — a ciência — como uma instituição social, ou como um conjunto
ou uma estrutura de instituições sociais76. Tal como outras instituições sociais,
resulta das acções humanas, em grande parte sem intenção, e quase completa­
mente imprevisto (pace Bacon). Vive e cresce em parte através da cooperação
e da competição institucionalizadas dos cientistas que não são só inspirados pela
curiosidade — o desejo de aumentar o seu conhecimento subjectivo — mas o
são ainda mais pelo desejo de contribuir para o crescimento do conhecimento —
isto é, do conhecimento objectivo. (Muitas das grandes contribuições que se
deram consistiram em erros e na detecção desses erros.)
O estudo do modo como as contribuições se dão, se testam, se aceitam, se
rejeitam; do seu estatuto hipotético; dos padrões tradicionais que lhes são apli­
cados, e da refinação desses padrões — eis a parte mais interessante e mais
fecunda da teoria do conhecimento — isto é, a teoria do conhecimento objectivo.

É claro que não tenciono sugerir que não haja conhecimento subjectivo, ou
que não seja importante para o crescimento do conhecimento: o conhecimento
objectivo não poderia crescer sem ele. A ligação entre os dois não é, tal como

76 Ver o meu livro The Poverty o f Historicism, em especial as secções 32 e 21, e The Open
Society, em especial os capítulos 23 e 14.

120
A ABORDAGEM CRÍTICA

indiquei, nada simples. Há, pois, todos os motivos para se ter também uma teoria
do conhecimento subjectivo.
Mas qualquer teoria dessas haveria de fazer parte de uma ciência empírica,
e não da lógica da ciência, ou da epistemologia, pois o seu tópico é o cresci­
mento, o desenvolvimento do conhecimento de alguém — das experiências sub­
jectivas que exprimimos quando dizemos: «Eu sabia que havia de ser assim!»
Podem tornar-se objecto de estudo psicológico ou — com mais interesse, acho
eu — de estudo biológico geral.
Se queremos ver o conhecimento e a actividade científicos como fenômenos
biológicos, temos de considerar o papel que eles desempenham no processo de
adaptação do animal humano ao seu ambiente e às mudanças ambientais: a acon­
tecimentos iminentes. Os animais, e até as plantas, preparam-se, digamos, para
a hibernação numa base puramente instintiva. (Como é que eu sei isto e outras
coisas que vou afirmar aqui? Não as sei: é tudo suposições.) E algumas pessoas
fazem-no, talvez, consultando o calendário e fazendo uma encomenda ao car-
voeiro. Outros fazem-no estudando a combustão do petróleo, e inventando um
novo tipo, mais seguro e mais econômico, de queimador de petróleo.

O análogo psicológico ou biológico de uma hipótese pode ser descrito como


um expectativa, ou antecipação, de um acontecimento. Essa expectativa ou ante­
cipação pode ser consciente ou inconsciente. Consiste na prontidão do organismo
para agir, ou reagir, em resposta a uma situação de um certo gênero específico.
Consiste na activação (parcial) de certas disposições (ver a secção 27 da L.Sc.D.,
em especial a p. 99, onde se faz uma breve referência ao carácter disposicional
do conhecimento).
Exemplos clássicos da maneira como expectativas inconscientes se podem tor­
nar conscientes são: falhar um degrau («Pensei que não houvesse aqui nenhum
degrau»), ou ouvir o relógio parar («Não me apercebia de o ouvir trabalhar,
mas ouvi-o quando parou»). O nosso organismo estava a antecipar, inconscien-
temente, certos acontecimentos, e só ficámos conscientes do facto depois de as
nossas expectativas terem sido frustradas, ou falsificadas.
Este estar preparado de forma disposicional para o que há-de vir parece ser
o verdadeiro análogo biológico do conhecimento científico.
Num organismo animal, as disposições para reagir de uma certa maneira a
certos gêneros de estímulos são, em parte, inatas. A minha tese é a de que, tanto
quanto são adquiridas, são modificações de disposições inatas que são «plásti­
cas» e que se desenvolvem e mudam, ao serem actividadas por estímulos, e, espe­
cialmente, também sob influência do fracasso e do sucesso (talvez associados
a sentimentos dolorosos e de prazer); pois as acções e reacções que são desen­
cadeadas pelos estímulos são, regra geral, orientadas para certos objectivos bio­
lógicos. Deste modo, o organismo desenvolve o seu conhecimento disposicio­
nal inato: aprende por tentativa e erro.

121
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

Isto é conhecimento adquirido que pode ser transmitido por tradição, se bem
que o não possa ser (a acreditarmos na conjectura darwinista) por herança. Mas
o conhecimento inato também muda; e a sobrevivência do conhecimento inato
mais bem adaptado é, mais uma vez, um processo de tentativas e erros77.

O quadro aqui apresentado deveria ser colocado em contraste com o qua­


dro de Hume, que ainda é popular entre os epistemólogos: a ideia de que, na
verdade, aprendemos através da repetição de observações.
A repetição desempenha realmente um determinado papel no processo de
aprendizagem. Mas trata-se de «aprendizagem» num sentido muito diferente do
da aprendizagem por tentativa e erro (ver a secção 3). Se estamos a aprender
uma habilidade (andar de bicicleta, tocar piano, falar uma nova língua), então
os dois processos podem parecer ser um só, porque a aprendizagem por repeti­
ção leva a melhor onde a aprendizagem por tentativa e erro acaba. A diferença,
porém, é esta: todo o conhecimento novo, todas as modificações radicais das
nossas disposições, todas as descoberta são resultado de tentativas e erros. A
repetição apenas nos familiariza com o novo conhecimento adquirido — pode
fazer-nos esquecer o que estamos a fazer, e como à que adquirimos as nossas
reacções, e, especialmente, o facto de que houve dificuldades a superar ao longo
do período de tentativas e erros.
Tanto quanto me apercebo, para os teóricos do processo de aprendizagem
ainda não é claro o abismo entre estes dois sentidos da palavra «aprender». A
teoria do conhecimento subjectivo — do crescimento do nosso conhecimento
subjectivo — cometeu o seu erro fatal no instante em que viu na repetição, e
não na tentativa e erro, o principal instrumento de aprendizagem (ver a secção
3, atrás. Este erro também desempenha um papel decisivo em todas as teorias
subjectivistas da probabilidade: veja-se a parte II deste volume).
Quanto à observação, e à aprendizagem através do testemunho dos nossos
sentidos, a teoria aqui delineada opõe-se directamente ao empirismo tradicional.
A teoria tradicional é excessivamente influenciada pela verdade inegável de
que sem os nossos sentidos não poderiamos ter conhecimento nenhum do
Mundo. Estou disposto a admitir ainda mais: que sem os nossos sentidos não
poderiamos viver. Mas discordo completamente da perspectiva empirista tradi­
cional segundo a qual todo o nosso conhecimento do Mundo é «resultado» da
observação ou da experiência sensível, ou, segundo a qual, também, o conheci­
mento «entra sempre no nosso intelecto através dos nossos sentidos». Para lá
do conhecimento disposicional e nato, o nosso conhecimento desenvolve-se sob
influência de estímulos (transmitidos pelos nossos sentidos). Mas os estímulos,
regra geral, actuam simplesmente como gatilhos, ainda que possam desencadear

77 [Ver Donald T. Campbell, «Evolutionary Epistemology», in Paul A. Schilpp, ed., The Phi-
losophy o f Karl Popper (La Salle, 1974), pp. 413-463. Ed.]

122
r

A ABORDAGEM CRITICA

cascatas de desenvolvimentos novos no nosso aparato disposicional. O mesmo


no que diz respeito às observações. Só têm significado no contexto das nossas
expectativas, das nossas hipóteses, das nossas teorias.
A ideia tradicional de que o nosso conhecimento cresce por acumulação (ou,
talvez, por repetição) de percepções ou observações é um puro mito — talvez
o mito com mais crentes nos tempos modernos. Esse mito é refutado pelo facto
de um homem cego e surdo poder saber mais, e poder dar maiores contributos
para o conhecimento, do que um homem com olhos e ouvidos aguçados: de certo
que, se os nossos sentidos foram intelectualmente tão cruciais como os empiris-
tas pensavam, a falta desses importantíssimos sentidos provocaria a deficiência
intelectual mais grave de todas. Mas, na verdade, não provoca nada disso, como
o grande exemplo de Helen Keller mostra.

O empirismo tradicional tenta descrever o espírito com o auxílio de metáfo­


ras, como numa tábua rasa — algo como um quadro bem apagado, ou uma
película fotográfica não exposta — a ser inscrita por observações. Esta teoria,
a que eu chamei «a teoria do balde» [«the bucket theory o f mind, N. do T.],
vê o espírito como um balde e os sentidos como funis através dos quais o balde
pode lentamente ficar cheio com observações. O total dessas observações (ou,
talvez, o total ordenado ou digerido) é «o nosso conhecimento». Esta perspec­
tiva está radicalmente errada.
Há, por assim dizer, dois lados em cada organismo superior: a sua consti­
tuição inata, as suas disposições para agir e reagir, a sua «reactividade», é uma
dessas partes; e o seu aparato para receber estímulos, a sua «sensibilidade» é
a outra parte. Enquanto o empirismo tradicional vê o conhecimento como
estando localizado na esfera da sensibilidade, a minha perspectiva situa-o na
esfera da actividade e da reactividade do organismo.
Esta mudança tem consequências de largo alcance. Segundo a minha pers­
pectiva, as observações (ou «sensações», ou «dados dos sentidos», etc.) não são
coisas como as «uvas» de Bacon, das quais corre o «vinho do conhecimento»;
não são a matéria-prima do nosso conhecimento. Pelo contrário, as observa­
ções pressupõem sempre um conhecimento disposicional prévio. Uma observa­
ção resulta de um estímulo que toca uma campainha. O que quer isto dizer?
O estímulo tem que ser sinificativo, relativamente ao nosso sistema de expecta­
tivas ou antecipações, para ser capaz de tocar uma campainha, e ser, assim,
observado. A campainha — ou, por outras palavras, um interesse, uma dispo­
sição para responder ao estímulo, uma expectativa que o estímulo poderá mos­
trar ser significativa — tem de lá estar de antemão, ou então o estímulo passará
sem que se dê por ele: não estimulará. Assim, as observações pressupõem uma
preparação disposicional, quer isto dizer, conhecimento disposicional; e ainda
que as observações possam desencadear mudanças disposicionais — especial­
mente se forem contrárias às nossas expectativas — não podem vir a fazer parte,

123
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

nem a tornar-se ingredientes do sistema de disposições que constitue o nosso


conhecimento subjectivo: não são afins do conhecimento subjectivo (ainda que
os seus resultados o possam ser), mas pertencem a uma diferente esfera de coisas.
Logo, o modo habitual de ver um «reflexo condicionado» também está
errado. O que os experimentos fazem não é «a ligação do som de uma campai­
nha ao fluxo de saliva do cão»; elas exploram, isso sim, o facto de as reacções
vitalmente importantes ligadas aos esforços do cão para tentar obter comida
constituírem, por razões óbvias, um dos mais plásticos sistemas disposicionais
do animal: os animais que têm de caçar para obter a sua comida em condições
muito diversas têm de ser capazes de se adaptarem a essas condições. A obten­
ção de comida é, pois, um campo predisposto para a aprendizagem: a própria
plasticidade é inata. Logo, o cão facilmente pode formar uma nova expecta­
tiva — na verdade, uma nova teoria: descobre que a campainha anuncia o seu
jantar. É tudo. Quando as disposições são menos plásticas, ou quando os
interesses vitais do animal não estão envolvidos, as tentativas de estabelecer
um reflexo condicionado quase sempre falham.
Segundo o empirismo tradicional, podemos derivar ou extrair da nossa expe­
riência sensorial o nosso conhecimento do Mundo, por métodos que podem ser
vistos como razoáveis. Se se adere acriticamente a esta perspectiva — a teoria
«balde» do espírito — a descoberta de Hume de que é impossível justificar a
indução tem de levar ao irracionalismo. Tem de levar à conclusão de que, por
exemplo, a nossa crença em corpos físicos é um prejuízo injustificável. E é-o,
de facto. É, no início, como todo o conhecimento, um prejuízo — mas um pre­
juízo que pode ser examinado criticamente. Como resultado do exame crítico
desta conjectura, um exame alargado ao longo dos últimos cem anos, sabemos
hoje mais coisas sobre os corpos — por exemplo, que eles são processos (como
Heraclito previu). E, todavia, procedemos de modo perfeitamente racional:
aprendemos, alargamos o nosso conhecimento testando os nossos preconceitos:
por tentativa e erro, não por indução através de repetição. Nem a nossa «fé ani­
mal» na regularidade resulta de repetições. Resulta de uma disposição inata (que
pode ser activada pelo estímulo de repetições, ou pelo de um acontecimento só)
para esperar regularidades.
Assim, o problema da teoria subjectivista do conhecimento, «Como é que
eu aprendo, através dos meus sentidos, a conhecer o Mundo?», está mal posto.
E à pergunta de Hume, «Que causas nos induzem a acreditar na existência do
corpo?»78, pode-se responder de uma maneira radicalmente diferente da de
Hume. Podemos dizer que aquilo a que um cão rosna, ou em que morde, ou
de que gosta é algo que ele «acredita ser existente». Existentes no sentido
que Hume tem na ideia, não no grau superior, as coisas a que reagimos forte­
mente — contra as quais lutamos pelas nossas vidas, ou as coisas que come­

78 Treatise, livro i, parte iv, secção ii, primeiro parágrafo.

124
A ABORDAGEM CRÍTICA

mos, ou aquelas pelas quais podemos ser destruídos. A crença na sua existência
deriva de uma disposição inata para as tratar como sendo potencialmente impor­
tantes. É uma crença inata, se bem que precise, indubitavelmente, de muitos
estímulos para o seu desenvolvimento. São estas as «causas» — ou sou eu que
assim conjecturo — dessa crença, desse prejuízo. Mas não são razões. As razões
só começam a aparecer quando começamos a criticar os nossos prejuízos — a
tratá-los como conjecturas; por exemplo, quando começamos a descobrir mais
coisas sobre os «corpos». E razões de outro gênero podem aparecer quando cri­
ticamos a epistemologia subjectivista que levou à questão de Hume.
E na suposição dogmática de que deveriamos ser capazes de responder a uma
pergunta de teoria do conhecimento como a de Hume através de uma investi­
gação da maneira como a crença surge a partir de percepções e de associações,
ou da maneira como «experimentamos imediatamente» manchas de cor ou coi­
sas, etc., que radica a maior parte das formas de idealismo. É surpreendente
que, cem anos depois de Darwin, os filósofos continuem ingenuamente a discu­
tir o problema de epistemologia em termos de origem do nosso conhecimento
nos dados dos sentidos ou nas percepções (ou em termos dos gêneros de pala­
vras que usamos quando discutimos as percepções), ou em termos do número
de «repetições» da «observação» de um corvo preto ou de um cisne branco79.

O motivo mais profundo que está por detrás da teoria subjectivista do conhe­
cimento é a percepção de que muito do nosso pretenso «conhecimento» é incerto
(e, portanto, não é verdadeiramente «conhecimento») e o desejo de começar pela
certeza [certainty, N. do T.]: por uma base certa, ou, pelo menos, pela base mais
certa que tivermos. E as experiências que «me são dadas», tais como a expe­
riência de ver algo (ou, como em Descartes, a experiência de duvidar) parecem
oferecer-se como pontos de partida naturais. Os subjectivistas pensaram, acri-
ticamente, que, sobre a base desses «dados», o edifício do conhecimento
— conhecimento científico — podia ser erigido. Mas esta suposição é incorrecta.
Não se pode construir nada sobre esses «dados», mesmo se supusermos que eles
existem. Mas não existem: não há «dados» não interpretados; não há nada que
nos seja simplesmente «dado», sem ser interpretado; nada que se tome como
base. Todo o nosso conhecimento é interpretação à luz das nossas expectativas,
das nossas teorias, e é, portanto, de alguma maneira, hipotético.
Isto é exactamente o que seria de esperar se o realismo fosse verdadeiro —
se o mundo à nossa volta fosse mais ou menos como o senso comum, refinado
pela ciência, nos diz que ele é. Sendo o realismo verdadeiro, sendo nós animais

79 Veja-se ainda o meu artigo «Philosophy of Science: A Personal Report», sobretudo as sec-
ções iv e v, e a segunda nota à secção ii. [Esse artigo encontra-se agora publicado como capítulo 1
de Conjectures and Refutations. Ver também os capítulos 1, 2, 3 e 7 de Objective Knowledge,
1972. Ed.]

125
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

a tentar adaptarmo-nos ao nosso ambiente, então o nosso conhecimento só


poderá ser aquela operação de tentativa e erro que descreví. Sendo o realismo
verdadeiro, a nossa crença na realidade do Mundo e nas leis físicas não poderá
ser demonstrável, nem se poderá mostrar que é certa ou «razoável» por qual­
quer raciocínio válido. Por outras palavras, estando o realismo certo, não pode­
remos ter esperança nem esperar ter mais do que conhecimento conjectural: o
milagre é, antes, termos sido tão bem sucedidos na nossa busca de conjecturas.
E, ao dizer isto, não estou só a pensar nos sucessos miraculosos dos últimos
trezentos anos.
Assim, se o realismo está certo, o objectivo da teoria subjectivista, encon­
trar uma base subjectiva segura sobre a qual fosse erigido o nosso conhecimento
do Mundo — e boas razões para uma crença na realidade do Mundo — é um
objectivo irrealizável e, na verdade, irrazoável.

O realismo explica-nos, assim, por que é que a nossa situação do conheci­


mento é necessariamente precária. Se, por outro lado, alguma forma de idea­
lismo for verdadeira, então qualquer coisa pode acontecer — e, portanto, tam­
bém, possivelmente aquilo que acontece mesmo. Assim, o realismo é, destas duas
teorias metafísicas, a mais forte logicamente. É preferível por razões lógicas:
o idealismo metafísico revela-se como sendo vazio de qualquer poder explicativo.
Ao rejeitar a teoria subjectiva do conhecimento, estamos a sabotar um dos
mais fortes argumentos ou motivos a favor do idealismo. Mas temos ainda de
discutir os argumentos cépticos de Hume contra a realidade da matéria.

10 — Um mundo sem enigmas

A teoria subjectiva do conhecimento — que nos diz para construirmos o


mundo físico a partir da minha própria experiência perceptual «egocêntrica» —
determinou para si uma missão que é desnecessária e insuportavelmente difícil.
É por isso que torna sempre a cair nalguma forma de idealismo. E o que torna
o idealismo tão pouco atraente é, precisamente, a facilidade fatal com que explica
tudo. É que o idealismo resolve mesmo todos os problemas — esvaziando-os.
Um exemplo típico é a solução que os idealistas (ou os monistas neutrais)
dão do problema do corpo-espírito [the body-mindproblem, N. do T.] — o pro­
blema das influências fisiológicas imensamente intrincadas (das drogas, diga­
mos) no nosso estado mental, e vice-versa, das influências mentais (da tomada
de consciência de perigos, digamos) no nosso estado fisiológico. O idealismo,
em todas as suas formas, incluindo o monismo neutral, permite-nos resolver este
problema numa fracção de segundo, tão completamente que o problema desa­
parece. Se todos os corpos, incluindo o meu, forem só feixes de percepções, então
quaisquer mudanças no mundo físico hão-de ser também, em geral, mudanças

126
A ABORDAGEM CRITICA

do mundo mental, e vice-versa: pode, assim, prever-se que haja inter-relações


(cujas leis pormenorizadas terão de ser descobertas por indução).
Outro problema que desaparece à luz do subjectivismo e do idealismo
— ou, talvez, na escuridão que eles criam — é o problema da matéria. É um
dos problemas mais antigos da filosofia. Está intimamente relacionado com o
problema da mudança. A mudança parece pressupor algo que permaneça inal­
terado durante a mudança. Isto levou Heraclito e Hegel à teoria da identidade
dos contrários; e levou Leucipo e Demócrito à teoria, mais importante do que
a anterior, de que toda a mudança consiste no movimento — no movimento
de partículas materiais indestrutíveis, de átomos que não estão sujeitos a
mudança nenhuma além do movimento.
Era uma teoria da mudança, e da matéria, clara e importante: a matéria era
a entidade que se podia mover mas que, de outra maneira, permanecia inalte­
rada durante a mudança. Nem esta teoria da mudança nem esta teoria da matéria
foram, é claro, definitivas. Desde o tempo de Leucipo e de Demócrito e, mais
especialmente, desde Descartes — com Leibniz, Boscovich e Faraday — que a
teoria da matéria se desenvolveu, encaminhando-se para uma teoria da estru­
tura da própria matéria, um desenvolvimento que constitui um dos mais fas­
cinantes capítulos da história do pensamento científico e filosófico (ver o
volume m do Pós-escrito, secção 20)8081.
Mas o que é que a epistemologia subjectivista tem a dizer a isto tudo?
«Quando seguimos gradualmente um objecto nas suas mudanças sucessivas, o
progresso regular do pensamento faz-nos atribuir um identidade à sucessão»,
escreve Hume, «quando comparamos a sua situação depois de uma mudança
considerável, quebra-se o progresso do pensamento; e, consequentemente,
apresenta-se-nos a ideia da diversidade: para reconciliar tais contradições, a ima­
ginação está disposta a simular algo desconhecido e invisível, que ela supõe que
continue o mesmo em todas aquelas variações; e a esse algo ininteligível chama
uma substância, ou (...) matéria.»*1
A teoria da substância ou da matéria é descrita de modo inteligível neste
passo, de certo modo difícil, de Hume, sendo a sua ligação com a teoria da
mudança claramente indicada; mas é rejeitada por ser uma ficção ininteligível
da «imaginação». (Como este deux ex machina pertence ao espírito, «não deveria
ser mais do que» um feixe de idéias; e as idéias não são ininteligíveis. É estra­
nho que Hume nunca se tenha incomodado com esta contradição.) Além disso,
o trecho indica, com toda a consistência, que os objectos não observados são,
de igual modo, nada mais que ficções da imaginação; são interpolações fictí­
cias postas entre os fenômenos observados; são «interfenômenos», para usar
um termo moderno que devemos a Reichenbach (veja-se a secção 13, adiante).

80 [Ver The Self and Its Brain, capítulos PI e P3. Ed.]


81 Treatise, livro i, parte iv, secção iii (Selby-Bigge, p. 220).

127
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

Esta «ficção ininteligível» da substância ou matéria não é uma ideia, segundo


Hume: não é uma percepção ou impressão, nem uma reflexão; e é, portanto,
destituída de significado. Hume faz o seguinte silogismo: «Não temos uma ideia
perfeita de nada, a não ser de percepções. Uma substância é inteiramente dife­
rente de uma percepção. Não temos, portanto, nenhuma ideia de uma substân­
cia.»82 E, ainda mais, conclui a partir disto que qualquer questão respeitante
a uma substância terá de ser destituída de significado: «Que possibilidade, então,
há-de responder a essa pergunta [...] quando nós não [...] compreendemos o
significado dessa pergunta?»83
Assim, o problema da matéria (e, juntamente com ele, o da estrutura da
matéria) é rejeitado por ser destituído de significado, com fundamentos a priori
típicos. Nisto, Hume seguiu Berkeley, que rejeitara a teoria atômica como sendo
destituída de significado84, e foi, por sua vez, seguido por Mach.
A rejeição daquele que estava destinado a tornar-se um dos mais importan­
tes problemas da ciência e da filosofia não é um acidente. No mundo de Ber­
keley, de Hume e de Mach não pode haver problemas sérios. Segundo o posi­
tivismo, «o nosso mundo é apenas superfície — não tem profundidade»85. E
que ele consiste apenas em percepções e nas reflexões destas na memória.
É um mundo em que não há nada para descobrir, já que nada está coberto. E

82 Treatise, livro i, parte iv, secção v (Selby-Bigge, p. 234). Não há dúvida de que a primeira
premissa de Hume fosse para continuar «e nenhuma das nossas idéias (perfeita ou não) é inteira­
mente diferente de uma percepção». Nada, porém, acho eu, poderá salvar o silogismo. Mudando-
-se a ordem das premissas de Hume, ele pode ficar assim: «Uma substância é algo de inteiramente
diferente de uma percepção. Nenhuma das nossas idéias é algo de inteiramente diferente de uma
percepção. Logo, nenhuma das nossas idéias é ideia de uma substância.» Mas a conclusão correcta
seria: «Logo, nenhuma das nossas idéias é uma substância», o que seria trivial, considerando que
Hume descreveu a substância como compreendendo, essencialmente, idéias e interfenómenos. Para
se obter a conclusão de Hume, teria que se substituir a sua segunda premissa — que é a nossa pri­
meira premissa — por «A ideia de uma substância é algo de inteiramente diferente de uma percep­
ção»; mas isto a priori nunca seria verdadeiro (segundo Hume), já que na sua perspectiva nenhuma
ideia é inteiramente diferente de uma percepção. Trata-se de uma dificuldade fundamental, uma
vez que num mundo que só contenha idéias (e no qual uma crença é apenas uma «ideia viva») não
somos capazes de explicar a nossa crença na substância como sendo algo como uma «ficção» que
não é uma ideia. Berkeley e os modernos analistas da linguagem evitariam esta dificuldade dizendo
que a palavra «substância» não tem significado (ver ainda o Treatise, Selby-Bigge, pp. 61-62); mas
aí a dificuldade surge com uma nova forma: até agora ainda não se produziu um critério de signifi­
cado das palavras que fizesse sentido. Mas, diferentemente dos analistas da linguagem, Hume não
estava verdadeiramente interessado em palavras, mas sim em mundos — no mundo das nossas idéias
e no mundo das nossas crenças.
83 Treatise, loc. cit. Hume, porém, pareceu compreender o significado da questão de se saber
se uma substância poderia ou não ser uma das nossas idéias, e pensou que lhe poderia dar uma
resposta.
84 Veja-se o meu artigo «A Note on Berkeley as a Precursor of Mach and Einstein», actual-
mente in Conjectures and Refutations, capítulo 6.
85 Estou a citar de memória, e talvez não esteja a citar exactamente, uma notável observação
feita em conversa por Otto Neurath ao resumir a sua própria filosofia da natureza.

128
A ABORDAGEM CRÍTICA

um mundo acerca do qual não há nada a achar, nada para aprender. É um


mundo sem quaisquer enigmas.
Assim, a epistemologia de Hume, aparentemente tão céptica, leva, tal como
a de Mach, à doutrina de que a natureza é um livro aberto, e de que a verdade
é manifesta; desde que nada mais há do que idéias, não pode haver enigmas.
Isto explica por que é que a prova de Hume da invalidade da inferência indu­
tiva tão raramente foi levada a sério (em oposição à crítica humana da causali­
dade). Sendo a natureza um livro aberto, não precisávamos de uma lógica indu­
tiva: poderiamos induzir, invalidamente mas com bons sucessos, por associação,
ou por hábito.
Hume poderia muito bem ter achado que comentários como estes fossem
críticas severas à sua obra: «Pois se a verdade está de algum modo ao alcance
da capacidade humana, é certo que há-de estar muito funda e obstrusa», escreve
Hume, que diz da sua filosofia: «[...] estimar-lhe-ia uma forte conjectura con­
tra ela, fosse ela tão fácil e óbvia.»86 Mas este passo refere-se somente a dis­
cussões filosóficas ou metafísicas em sentido restrito; porque na continuação
imediata, Hume afirma claramente a sua esperança de que a sua filosofia da
natureza humana possa constituir um atalho para todo o conhecimento (legí­
timo): que nos abra o livro da natureza. «É evidente», escreve ele, «que todas
as ciências têm uma relação [...] com a natureza humana. Até as Matemáticas,
a Filosofia Natural e a Religião Natural, estão, em certa medida, dependentes
da ciência do HOMEM [...]. Eis, pois, aqui o único expediente a partir do qual
podemos ter a esperança de conseguirmos [...] deixar o enfadonho e demorado
método que seguimos até agora, e, em vez de tomar aqui e ali um castelo ou
uma aldeia na fronteira, marchar directamente para a capital ou centro dessas
ciências, para a própria natureza humana; da qual uma vez senhores, podemos
esperar uma vitória fácil em qualquer outro sítio. Dessa estação, podemos alar­
gar as nossas conquistas por essas ciências todas [...]»87
O passo parece indicar que o próprio Hume pensava que a verdade haveria
de ser manifesta uma vez que tivéssemos exorcizado o erro com a ajuda do prin­
cípio délfico e socrático «Conhece-te a ti mesmo». (Ainda que esse princípio
se tenha transformado em: que saibas que não podes «ter [...] nenhuma ideia
de eu» [self, N. do T.]; porque, como diz Hume, «de que impressão poderia
essa ideia derivar?».)88
O ataque de Hume às coisas materiais faz parte do aspecto metafísico, por
assim dizer, do seu ataque às leis universais, enquanto a sua negação da vali­
dade representa o aspecto lógico desse ataque. Não acho que os seus argumen­
tos metafísicos e epistemológicos sejam tão fortes quanto os argumentos lógicos.

86 Treatise, Introdução. (Selby-Bigge, pp. xviii e segs.)


87 Treatise, loc. cit. (pp. xix e segs.). (Os itálicos são meus.)
88 Treatise, livro i, parte iv, secção vi. (Selby-Bigge, p. 251.)

129
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

Na verdade, não são, de longe, tão fortes quanto os argumentos epistemológi-


cos e linguísticos de Berkeley contra o realismo (ou materialismo) dos cientis­
tas. Volto-me agora, por isso, para Berkeley e para os sucessores modernos deste.

11 — O estatuto das teorias e dos conceitos teóricos

A teoria de Hume, e a dos monistas «neutrais», é a de que o Mundo con­


siste somente em percepções e nas reflexões destas, e de que estas, percepções
e suas reflexões, estão agrupadas em feixes que dão espíritos e corpos físicos.
Mas o que é que liga esses feixes?
Segundo Hume, a lei da associação liga as percepções, dando espíritos; e
na medida em que a causalidade física não é mais do que o hábito, liga-os tam­
bém em corpos. Neste sentido, então, há uma espécie de realidade para além
das idéias; a saber, a lei da associação das idéias, ou a tendência destas para
se associarem.
Segundo o monismo «neutral», as leis da psicologia ligam as idéias. Estas,
por sua vez, há-as de duas espécies. Há, primeiro, as leis da natureza, obtidas
através da observação dos fenômenos, e através de indução por generalização
simples através do hábito ou repetição. E há, em segundo lugar, teorias cientí­
ficas mais abstractas, em especial as teorias físicas de Newton. Qual é o seu esta­
tuto? Será que eles explicam as nossas observações? Quer William James quer
Ernst Mach adoptaram uma resposta berkeleyana a esta pergunta.
Na perspectiva de Berkeley, as teorias científicas não são mais do que ins­
trumentos para o cálculo e a previsão de fenômenos iminentes. Não descrevem
o Mundo nem nenhum aspecto dele. Não o podem fazer porque são completa­
mente vazias de significado. A teoria de Newton não significa nada porque pala­
vras como «força», «gravidade» e «atracção» não significam nada: são concei­
tos ocultos. A teoria de Newton não é uma teoria explicativa, mas apenas uma
ficção de matemático, uma habilidade de matemático. Como não descreve nada,
não pode ser verdadeira nem falsa — só pode ser útil ou inútil, conforme servir
ou não servir a sua finalidade de previsão. Berkeley usa a designação «hipótese
matemática» para este gênero de habilidade sem significado mas útil, concebida
para conveniência dos matemáticos: «fabricada e aceite para abreviar e facili­
tar os cálculos», como Bacon se lhe refere na sua crítica da teoria de Copérnico89.
Discordo completamente da visão instrumentalista das teorias científicas de
Berkeley, e também da sua teoria do significado: relega para a categoria de sím­
bolos sem significado palavras como «matéria» ou «substância», «corpúsculo»
ou «átomo», e, para mais, quase todas as palavras usadas nas teorias de Copér-

89 Novum Organum, ii, 36. A respeito de Berkeley, ver «Note on Berkeley as a Precursor of
Mach», in Conjectures and Refutations, capítulo 6, onde se dão as referências necessárias.

130
A ABORDAGEM CRÍTICA

nico, de Galileu, de Kepler e de Newton. Mas ninguém antes de Berkeley (e difi­


cilmente alguém depois dele) esteve tão próximo de ver que, segundo uma teoria
observacionista ou fenomenalista do significado, todos os conceitos científicos
têm de ser completamente vazios de significado. Porque, no sentido berkeleyano,
todos os conceitos científicos são «ocultos». Nem denotam percepções, obser­
vações ou fenômenos, nem podem ser definidos com a ajuda de percepções, de
observações ou de fenômenos, ou com a ajuda de quaisquer conceitos que denotem
percepções, observações ou fenômenos. Quer isto dizer, não podem ser «constituí­
dos», como digo n a L.Sc.D.90 (Nem podem ser «operacionalmente definidos»9091.)
Esta é a verdadeira grande descoberta de Berkeley, por ele interpretada como
prova da ausência de significado [meaninglessness, N. do T.] dos termos e das
teorias científicas. Eu interpreto-a como uma refutação da teoria observacio­
nista ou fenomenalista do significado.
Na verdade, no sentido berkeleyano de «oculto», todos os nossos conceitos
científicos são ocultos: usam-se para descrever propriedades estruturais não vistas
e, na verdade, invisíveis de um mundo não visto e invisível92. Mas isto não sig­
nifica que as teorias que se formulam com a ajuda desses conceitos sejam «ocul­
tas» ou «metafísicas» ou «não-empíricas»: elas podem muito bem ter consequên­
cias testáveis. Não receio conceitos «ocultos» precisamente porque tenho um
critério de demarcação que me permite detectar teorias não-científicas por meios
que são mais eficazes do que qualquer pretenso critério do carácter empírico
ou não empírico dos conceitos ou palavras envolvidos93.

90 Ver L.Sc.D ., fim da secção 25. «Constituição» é o nome que Carnap dá (em Der Logische
A ufbau der Welt) a uma definição em termos fenomenais. Veja-se também a secção 20, adiante.
91 As definições operacionais de conceitos científicos são impossíveis enquanto «constituições».
Considere-se, por exemplo, a definição operacional de comprimento esboçada por Bridgman no
seu admirável livro intitulado The Logic o f Modern Physics. O comprimento é definido graças à
descrição de medições envolvendo, digamos, o metro-padrão de Paris. Ora, como se pode ver pela
própria análise de Bridgman, a descrição envolve correcções para a temperatura. Mas essas correc-
ções pressuporiam que tivéssemos definido medições de temperatura, as quais, por sua vez, pressu­
põem o comprimento. Círculos deste gênero são, por essência, inevitáveis. (Veja-se também a pri­
meira nota, e o respectivo texto, à secção vi do meu artigo «Three Views Concerning Human
Knowledge», in Conjectures and Refutations, capítulo 3, e a nota 26 ao Apêndice *x da L.Sc.D .)
92 Não acredito em fantasmas (quero dizer, nos objectos estudados pela chamada «pesquisa
psíquica» [«psychical research», N. do T.]), não porque sejam ocultos, mas por não serem sufi­
cientemente ocultos. São ocultos, mas de um gênero primitivo de ocultação, representando um com­
promisso ingênuo entre o mundo vulgar e visível e o mundo verdadeiramente escondido e invisível
que a ciência tenta explorar.
93 Quando escrevi a L.Sc.D ., refiro-me à secção 4; ver a nota 1 a essa secção — pensei, de
modo optimista, que os positivistas tivessem tomado consciência do facto de serem os enunciados
e não os conceitos que eram importantes, e que tivessem desistido da tentativa de demarcar metafí­
sica e ciência com base no carácter dos conceitos ou palavras usados. Mas enganei-me. A análise
operacional do significado de conceitos ainda é muito influente. E até alguns membros do primeiro
Círculo de Viena ainda continuam nos caminhos dos «positivistas mais antigos», como lhes chamei
em 1934. Por exemplo, Carnap, no seu artigo «The Methodological Character of Theoretical Con-
cepts» (in Minnesota Studies in the Philosophy o f Science, vol. i, ed. Herbert Feigl a Michael Scri-
ven, 1951), baseia a sua definição de frases significativas na de conceitos significativos (p. 51).

131
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

Passando agora a criticar a interprçtação instrumentalista que Berkeley faz


das teorias científicas, posso talvez começar por dizer que ele não foi suficien­
temente longe na sua crítica dos conceitos teóricos. Se bem que ele se tenha apre-
cebido da inexistência daquilo a que chamava «idéias gerais abstractas», não
se chegou a aperceber de que a maior parte dos predicados da linguagem comum
são abstractos no seu sentido. O próprio Berkeley, quando está a usar a lingua­
gem, usa constantemente termos abstractos. Assim, quando fala de «infideli­
dade» (no sentido de descrença), como faz, por exemplo, na última investida
de The Analyst contra «o moderno crescimento da infidelidade», é claro que
não tenciona designar com a palavra «infiel» apenas uma colecção crescente de
homens que ele detesta (e que, digamos, se comportam de uma determinada
maneira observável), mas usa-a como nome de uma propriedade verdadeiramente
abstracta desses homens. Os termos universais da linguagem comum não são
apenas nomes gerais, partilhados (como se poderia pensar, face a palavras como
«mesa» ou «cão») por uma colecção concreta de coisas concretas, mas como
«cobre», «cristal», «maçã», «comida», «veneno» ou «dinheiro», denotam pro­
priedades estruturais, ou relacionais ou «disposicionais» de coisas que são «abs­
tractas» precisamente no sentido berkeleyano. Todos os conceitos universais
incorporam teorias. E ainda que algumas destas possam ser testadas, nunca
podem ser exaustivamente testadas (e nunca podem ser verificadas). A propo­
sição «Aqui está um copo de água» está aberta a um número infinito e ines­
gotável de testes — testes químicos, por exemplo — porque a água, como todas
as outras coisas, só é reconhecível pelo seu comportamento tipo-lei [law-like
behaviour, N. do T.] (cf. o fim da secção 25 da L.Sc.D.). Assim, «água» é
disposicional, como qualquer outro conceito universal. Até «vermelho» é dis-
posicional, pois «Esta superfície é vermelha» afirma que esta superfície tem
uma disposição para reflectir a luz vermelha. (O facto de não haver algo como
universais não-disposicionais invalida, por acaso, o programa, que Carnap pro­
pôs em «Testability and Meaning» de «reduzir» as disposições a propriedades
observáveis não-disposicionais94.) Em consequência disto, não só a dinâmica
de Newton, mas a maior parte dos enunciados da linguagem teriam de ser
descritos como sem-significado em sentido berkeleyano, já que «copo», e, tal­
vez até com maior evidência, «água», ainda que pertençam à linguagem
comum, são universais genuínos, e, portanto, termos abstractos em sentido ber­
keleyano.

94 Veja-se o meu artigo «The Demarcation between Science and Metaphysics» (Janeiro de 1955,
contribuição para o volume sobre Carnap da Library o f Living Philosophers, edited by P. A. Schilpp),
em especial a secção 4, da nota 59 até ao fim da secção, depois publicado em Conjectures and Refu-
tations, capítulo 11. Regozijo-me por Carnap hoje já aceitar esta ideia; porque ele escreve na página
65 do artigo referido na nota anterior: «Não há realmente uma linha clara entre propriedades obser­
váveis e disposições testáveis.» Ver ainda as duas últimas páginas de «Three Views Concerning Human
Knowledge», op. cit.

132
A ABORDAGEM CRÍTICA

De facto, os termos universais mais comuns da linguagem vulgar incorpo­


ram um grande número de teorias, tanto empíricas como metafísicas ou reli­
giosas. Exemplos notórios são os termos «pai» e «filho», que incorporam uma
teoria empírica aparentemente desconhecida em certas culturas primitivas — isto
para não falar da teoria metafísica da causalidade, que também incorporam;
e, na verdade, a qualidade.de «ser pai» ou a de «ser filho» não pode ser mais
bem percebida, em sentido berkeleyano, do que «ser gravitacionalmente atraído
pelo Sol». (Verificamos, mais uma vez, que o idealismo de Berkeley choca com
o seu cristianismo. A razão é a mesma que anteriormente: a doutrina da encar­
nação é essencial ao Cristianismo95.)
Tudo isto indica que a diferença entre a dinâmica de Newton, por um lado,
e os enunciados vulgares da linguagem vulgar, por outro — se é que tal dife­
rença existe — é apenas uma questão de grau. Mas isto significa o fim da teoria
de Berkeley. Em primeiro lugar, porque a significância ou a ausência de signi­
ficado das palavras dificilmente poderá ser uma questão de grau. (Se uma pala­
vra tem algum significado, por pouco que seja, ela tem significado.) Em segundo
lugar, porque faz parte da doutrina de Berkeley que os enunciados da lingua­
gem vulgar, incluindo as leis da natureza, sejam verdadeiros ou falsos por des­
creverem algo; e a partir disto temos agora de concluir que o mesmo há-de ser
válido para teorias científicas como a de Newton. Por outras palavras, as teo­
rias científicas não são só instrumentos, mas sim enunciados descritivos genuí­
nos. São conjecturas genuínas acerca do Mundo.
Claro que esta é uma posição realista: faz com que nos seja possível dizer
que uma teoria científica, ou uma lei da natureza, pode ser verdadeira (mesmo
que nunca possamos ter a certeza disso). E, mais ainda, faz com que nos seja
possível dizer — como fizemos nas secções 5 e, especialmente, 6 — que a dou­
trina metafísica que afirma a existência de uma lei verdadeira da natureza tem,
de um modo ou de outro, a cobertura de argumentos empíricos.
Tentei mostrar que um realista não precisa temer o ataque de Hume à reali­
dade das coisas materiais. Mas a fraqueza dos argumentos idealistas de Hume
decerto não estabelece a verdade do realismo. O ataque de Berkeley à interpre­
tação das teorias científicas parece-me mais interessante e mais subtil do que
o ataque, dele e de Hume, às coisas materiais (se bem que eu, pessoalmente,
seja mais atraído pela maneira que Hume tem de buscar a verdade acerca do
Mundo do que pelos argumentos linguísticos de Berkeley): pode-se aprender
muito com este ataque de Berkeley. E ainda que esse ataque possa ser facilmente
repelido, mostrando que os argumentos de Berkeley provariam em excesso, isto
não refuta a sua interpretação das teorias científicas como instrumentos. O ins-
trumentalismo pode muito bem ser verdadeiro, mesmo se os engenhosos argu­

95 Cp. secção 7, mais atrás, texto relativo à nota 57.

133
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

mentos de Berkeley a seu favor forem insustentáveis. E como uma certa forma
de instrumentalismo se tornou, desde 1927 (ver o volume III do Pós-escrito), uma
nova espécie de ortodoxia, será necessário criticar o instrumentalismo enquanto
tal, independentemente dos argumentos de Berkeley. Para o fazer, podemos
agora abandonar a nossa discussão crítica da teoria subjectivista do conheci­
mento, e regressar ao nosso tópico principal: a teoria da ciência.

12 — Crítica do instrumentalismo. O instrumentalismo e o problema da indução

Ainda que eu tenha, acho eu, conseguido fazer o feitiço voltar-se contra o
feiticeiro (o feiticeiro é Berkeley), e transformar a sua prova do instrumenta­
lismo numa refutação da sua teoria do significado, ainda não refutei a doutrina
do instrumentalismo enquanto tal, pois pode haver outras versões além da de
Berkeley.
Por instrumentalismo entendo a doutrina segundo a qual uma teoria cien­
tífica como a de Newton, ou a de Einstein, ou de Schròdinger deveria ser inter­
pretada como um instrumento e nada mais que um instrumento de dedução
de previsões de acontecimentos futuros (medições, sobretudo) e de outras apli­
cações práticas; e, mais especialmente, a doutrina segundo a qual uma teoria
científica não deveria ser interpretada como uma conjectura genuína acerca
da estrutura do Mundo, ou como uma tentativa genuína de descrever certos
aspectos do nosso mundo. A doutrina instrumentalista implica que as teorias
científicas possam ser mais ou menos úteis, e mais ou menos eficazes; mas
nega que elas possam ser, como os enunciados descritivos são, verdadeiros ou
falsos.
Toda a questão do instrumentalismo se centra nas palavras «nada mais que»
Porque ninguém que sustente que as teorias científicas são conjecturas genuí­
nas acerca do Mundo alguma vez contestaria que elas também podem ser vistas
como instrumentos de dedução de previsões e de outras aplicações.
Já tive ocasião de discutir, na L.Sc.D., uma determinada forma de instru-
mentalismo, se bem que não com este nome. Trata-se de uma perspectiva dis­
cutida por Schlick e atribuída por este a Wittgenstein (ver L.Sc.D., secção 4,
notas 4 e 7, e texto). Essa forma de instrumentalismo é semelhante à de Berke­
ley enquanto está de acordo com a teoria deste segundo a qual as teorias cientí­
ficas são sem significado. (Segundo Schlick, são sem significado porque não são
«verificáveis». Uma doutrina que de algum modo está relacionada com o ins­
trumentalismo é o convencionalismo de Poincaré e de Duhem, que vê nas teo­
rias científicas convecções úteis, em vez de conjecturas a testar pela experiên­
cia. Uma vez que também critiquei esta doutrina com alguma demora na
L.Sc.D., não me proponho a considerá-la neste capítulo. Mas a minha presente
discussão aplicar-se-lhe-ia, apenas com algumas alterações.)

134
A ABORDAGEM CRÍTICA

Esbocei rapidamente uma crítica do instrumentalismo noutra ocasião96. Mas


uma vez que este tópico é importante no presente contexto, vou agora desen­
volver essa crítica de modo um pouco mais complexo.
A ideia da minha crítica é a seguinte. Nas ciências aplicadas e em tecnologia
faz-se muito uso de «regras de computação» (como lhes proponho chamar).
Exemplos de tais regras de computação são as regras e as tabelas usadas na nave­
gação, ou as regras e as tabelas usadas para calcular tempos de exposição em
fotografia (para os que não têm um medidor de exposição). Estas regras de com­
putação não são, na realidade, mais que instrumentos; quer isto dizer, elas são
concebidas, compradas e vendidas como instrumentos úteis, e não como des­
crições informativas do Mundo.
Ora, se o instrumentalismo fosse verdadeiro, todas as teorias científicas não
seriam mais que regras de computação. Por conseguinte, não poderia haver dife­
renças fundamentais entre as teorias das chamadas ciências puras, como a dinâ­
mica de Newton, e as regras de computação tecnológicas que encontramos por
toda a parte nas ciências aplicadas e na engenharia.
Mas não é o que acontece: há diferenças profundas entre teorias e meras
regras de computação tecnológicas. O instrumentalismo pode dar uma descri­
ção perfeita dessas regras de computação, ao passo que é incapaz de dar conta
daquelas diferenças. Os meus argumentos poderíam ser contrariados estabele­
cendo-se algo como uma regra de tradução que permitiría ao instrumentalista
transpor para linguagem instrumentalista qualquer coisa que o defensor das teo­
rias pudesse dizer para mostrar o carácter peculiar da sua abordagem. Mas seme­
lhante defesa do instrumentalismo não resultaria. É que este método esvaziaria
a tese instrumentalista de qualquer conteúdo, e roubar-lhe-ia, portanto, o inte­
resse que presentemente tem. Além disso, há realmente uma diferença de ati­
tude; por exemplo, o instrumentalismo supõe que a sua gama de objectivos em
última análise práticos está circunscrita com alguma boa precisão. Ele não é
capaz de aceitar a ideia de que qualquer coisa pode um dia vir a servir algum
fim sem, com isso, esvaziar a sua tese de todo o conteúdo. O defensor das teo­
rias, por outro lado, pode achar uma teoria interessante em si, independente­
mente de qualquer consideração da sua utilidade futura.
Irei referir aqui dez pontos que lançam alguma luz sobre as diferenças entre
a abordagem do defensor das teorias e a do instrumentalista, e entre teorias e
regras de computação.

96 Cf. o meu artigo «Three Views Concerning Human Knowlegge», in Conjectures and Refu-
tations, capítulo 5, secção v. (Esta secção inclui um resumo de um artigo ainda não publicado, «A
Defense of Free Thinking in Quantum Theory», baseado numa conferência que dei em Cambridge
em 1953.) [Veja-se o volume m do Pós-escrito, e ainda os seguinte artigos de Popper: «The Pro-
pensity Interpretation of Probability», in The British Journal fo r the Philosophy o f Science 10,
1959, pp. 25-42; «The Propensity Interpretation of the Calculus of Probability, and the Quantum
Theory», in Observation and Interpretation in the Philosophy o f Physics, The Colston Papers,
vol. ix, ed. S. Kürner, 1957, pp. 65-70. Ed.]

135
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

1) A estrutura lógica das teorias é diferente da das regras de computação.


As relações lógicas entre dois ou mais sistemas teóricos são diferentes das que
há entre dois ou mais sistemas de regras de computação. E as relações entre teo­
rias, por um lado, e regras de computação, por outro, não são simétricas.
Sem discutir este ponto completamente, pode-se fazer notar que as teorias
são sistemas dedutivos, que conjecturalmente se pretende sejam válidos em toda
a parte a qualquer altura. As regras de computação podem apresentar-se em
forma tabelar, e são elaboradas com um fim prático e limitado em vista. Assim,
regras de navegação que são úteis para navios lentos podem ser inúteis para aero­
naves rápidas. As regras de computação (de navegação, por exemplo) podem
basear-se numa teoria (na de Newton, por exemplo), num sentido em que
nenhuma teoria se baseia em regras de computação.
Este argumento, porém, ainda não é decisivo: ainda se pode dizer que as
próprias teorias são como que regras de computação glorificadas — super-regras
a usar para elaborar mais regras de computação especiais.
2) As regras de computação só são escolhidas por causa da sua utilidade.
As teorias, pode-se descobrir que não são falsas, mas continuarem a ser úteis
para fins de computação. Por exemplo, podemos aceitar que a teoria de New­
ton, ou a conjunção da teoria de Newton com a teoria de Maxwell (de Hertz)
das ondas sem fios, está falsificada. Mas não há razão nenhuma para que as
regras de computação usadas na navegação (incluindo o radar) não houvessem
de continuar a basear-se naquelas duas teorias.
3) Ao testar teorias, temos de tentar falsificá-las. Ao testar os nossos ins­
trumentos, só precisamos de conhecer os limites da sua aplicabilidade. Se falsi­
ficamos uma teoria, procuramos sempre uma melhor. Mas um instrumento não
é rejeitado por haver limites à sua aplicabilidade: nós esperamos encontrar tais
limites. Se uma estrutura de avião é «testada até à destruição», não rejeitamos
depois o seu tipo por termos conseguido destruí-la; podemos rejeitá-la por os
seus limites de aplicabilidade serem mais apertados do que os de outra estru­
tura, mas não só por ela ter mais limites (ao passo que podemos rejeitar uma
teoria universal só por essa razão).
4) As aplicações de uma teoria podem ser vistas como testes, e uma falha
na produção de resultados esperados pode levar à rejeição da teoria. Não é o
que acontece, na maior parte dos casos, com as regras de computação e com
outros instrumentos: qualquer falha (digamos, a das regras tradicionais de nave­
gação na navegação aérea) pode levar-nos a rejeitar a nossa conjectura teórica
de que elas seriam aplicáveis numa certa área, mas elas hão-de continuar a ser
usadas noutras áreas. (O carrinho de mão pode continuar lado a lado com o
tractor.)
5) Há uma tendência definida para haver, por um lado, teorias cada vez
mais gerais, e, por outro, instrumentos cada vez mais especializados (incluindo
os computadores). A segunda tendência é explicável em termos de instrumen-

136
A ABORDAGEM CRÍTICA

talismo: do ponto de vista prático, queremos instrumentos que sejam os mais


convenientes para o fim específico que se tem em vista. Parece, assim, que
os interesses e os fins do teórico podem diferir dos do engenheiro de compu­
tadores.
6) Interessante haveria de ser um caso em que tivéssemos diante de nós duas
teorias que, de momento, fossem indistinguíveis no que respeita às aplicações
práticas previsíveis. Porque os instrumentos e as regras de computação são pro-
jectadas para um dado campo de aplicação. O teórico pensa de modo diferente:
se as duas teorias forem logicamente diferentes, ele tentará encontrar um campo
de aplicação em que elas produzam resultados diferentes — mesmo que antes
ninguém estivesse interessado nesse campo. Fá-lo-á porque poderá então obter
um experimento crucial, falsificando uma das duas teorias. Deste modo, novos
campos da experiência podem ser abertos pelas teorias — campos em que antes
ninguém tinha pensado. Esta função explicativa (e intelectual) das teorias pode
ser explicada dizendo que as teorias são instrumentos de exploração (como um
barco de exploradores ou um microscópio). Mas teríamos então que admitir que
há uma realidade a explorar; e se a há, ela pode ser descrita, de maneira verda­
deira ou falsa — o que é precisamente aquilo que um instrumentalista berke-
leyano quer negar. (Digo «instrumentalista berkeleyano» porque é claro que o
instrumentalismo também pode combinar com um realismo metafísico, e até com
o materialismo. Nós podemos, por exemplo, negar que as teorias descrevam a
realidade, mas afirmar que haja coisas em si — mesmo coisas materiais em si —
as quais, ainda que nunca as possamos descrever com as nossas teorias, podem
ser operadas, com maior ou menor sucesso, pelos nossos instrumentos, incluindo
as nossas teorias.)
7) Isto conduz-me a uma importante distinção entre dois tipos de previsão
(ou dois sentidos do termo «previsão») cuja diferença não pode, parece, ser apre­
ciada por um instrumentalista. Um dos tipos é, digamos, a previsão do próximo
eclipse — o seu mesmo tempo de ocorrência, a região onde é visível, etc., ou
a previsão do número de ervilhas de diferentes cores em experiências mendelia-
nas de cultura: em traços gerais, a previsão de acontecimentos de um gênero
já conhecido. O outro tipo é a previsão de um acontecimento de um gênero que
nunca tenha sido contemplado a sério antes de a nova teoria ser criada; um acon­
tecimento cuja possibilidade aprendemos, por assim dizer, a partir da teoria.
Exemplos deste segundo gênero são as previsões de Einstein respeitantes aos eclip­
ses do Sol; ou as suas previsões respeitantes à conversão de massa em energia.
Previsões deste gênero emergem, muitas vezes de uma teoria para surpresa do
seu autor, cuja única intenção pode muito bem ter sido só a de remover algu­
mas das dificuldades da teoria então existente. Abre um mundo de factos novo
e insuspeitado — ou, talvez, um novo aspecto do nosso velho mundo; e seria
difícil a adaptação a esta situação sem se forçar uma estrutura referencial ins­
trumentalista.

137
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

8) A questão crucial é, evidentemente, a de saber se a teoria tem ou não,


para além do seu poder instrumental, algum conteúdo informativo. À luz do
ponto anterior dificilmente se poderá negar que o tenha, pois se podemos apren­
der com a teoria algo acerca de acontecimentos de um gênero desconhecido, a
teoria tem de ser capaz de nos descrever esses acontecimentos (o que, de facto,
faz). Mas há mais argumentos directos. Quem negaria, hoje, que a teoria de
Copérnico descreve a estrutura (aproximada) do nosso sistema solar? Mas, com
base na sugestão de Osiander, o editor de Copérnico, que propôs uma interpre­
tação instrumentalista do sistema de Copérnico, isso foi negado pelo cardeal
Bellarmino, por Francis Bacon e pelo bispo Berkeley. O que estes homens nega­
ram foi, precisamente, que o sistema coperniciano tivesse algum conteúdo des­
critivo ou informativo.
9) As teorias, por oposição às regras de computação, ajudam-nos a inter­
pretar as nossas experiências. Exemplo disso é a interpretação, de Lise Meitner
e Otto Frisch, das observações de cisão de urânio. É claro que não é por acaso
que Frisch foi um dos autores da teoria da cisão do núcleo [drop theory o f the
nucleus, N. do T.] que previa que núcleos muito pesados haveríam de se desin­
tegrar. (Este facto pode também explicar porque que é que Frisch passou por
cima do problema da emissão e da recaptura de neutrões: é que não fazia parte
da teoria da cisão do núcleo.) Mas o que aconteceu aqui nas fronteiras da ciên­
cia acontece constantemente na vida comum. Estamos constantemente a inter­
pretar a nossa experiência graças a teorias. Um certo mau sabor ou mau cheiro
é interpretado como sendo devido a um ovo podre; e uma derrapagem — um
termo absolutamente teórico — explica ou interpreta um movimento invulgar
e perigoso de um automóvel, movimento que é devido a uma insuficiente fric­
ção entre os pneus e a estrada. (Isto é um exemplo da maneira como a linha
divisória — se é que tal coisa existe — entre linguagem vulgar e linguagem teó­
rica está constantemente a oscilar.)
10) A previsão foi considerada pelos instrumentalistas, desde Berkeley, como
uma das principais missões práticas da ciência. O valor prático das previsões
é óbvio e não precisa que o instrumentalismo o justifique. Os defensores das
teorias, porém, podem explicar a importância das previsões para a ciência nos
seus próprios termos, sem fazer da previsão mais missão imposta à ciência a
partir do exterior. Para o defensor das teorias, as previsões quase só são impor­
tantes por causa da sua incidência na teoria: porque ele está interessado em bus­
car teorias verdadeiras, e porque as previsões podem servir de testes, e ofere­
cem uma oportunidade de eliminar teorias falsas.
O segundo gênero de previsões atrás referido — a previsão de um aconteci­
mento até então insuspeitado — dá-nos não só uma medida da novidade de uma
teoria, mas também uma medida da sua superioridade em relação à teoria antiga,
e, portanto, do progresso que se faz. Mesmo que a nossa teoria tenha um dia
que ser rejeitada, ter-nos-á levado a descobrir novas espécies de factos empíricos.

138
A ABORDAGEM CRÍTICA

Não há dúvida de que todos estes dez pontos podem ser explicados (de uma
maneira que os elimina) por um instrumentalista determinado. A mim, porém,
parece-me que eles justificam largamente a rejeição do instrumentalismo.

Para qualquer pessoa que adopte uma perspectiva instrumentalista, o pro­


blema da indução desaparece. Não está nunca em causa a verdade ou a falsi­
dade de instrumentos. Por conseguinte, não está nunca em causa a validade dos
procedimentos ou técnicas usadas para conceber ou para melhorar instrumen­
tos. Mas o problema da indução ocupa-se apenas de questões de verdade, de
falsidade e de validade.
O instrumentalista deve muito, sem dúvida, ao desejo de resolver, ou de dis­
solver, o problema da indução. Berkeley cria na indução de generalizações sim­
ples — que, digamos, as nuvens de um certo tipo costumam trazer chuva; mas
viu que uma teoria «oculta» — como a de Newton, ou como o atomismo —
não pode resultar da indução. Isto não lhe criou, porém, dificuldade nenhuma,
já que ele sustentava que as teorias «ocultas», a serem bem sucedidas, não pas­
savam de instrumentos úteis. A solução berkeleyana do problema quase entrou
no esquecimento, mas foi redescoberta por Mach, que professou a doutrina de
que as teorias não passam de resumos econômicos e de instrumentos de previ­
sões; por Poincaré e por Duhem, que disseram que elas não passavam de con­
venções; e por J. S. Mill. Wittgenstein e Schlick (e, posteriormente, por Ryle),
que disseram que elas não eram enunciados genuínos, mas sim pseudoenuncia-
dos cuja função era servir de regras de inferência (ou «bilhetes de inferência»)
— de regras para transformar enunciados de observação genuínos em outros
enunciados de observação genuínos (isto é, em previsões).
Berkeley, Mach, Poincaré e Duhem acreditavam, todos eles, que as genera­
lizações simples de baixo nível de universalidade se baseavam na indução. Mas
viram, pelo menos, que as teorias mais abstractas não se podiam basear na indu­
ção. Hume foi mais longe, ao indicar que a indução, mesmo a de generaliza­
ções simples, não era válida e era impossível de justificar; mas nunca duvidou
do que considerava ser um facto da psicologia ou da biologia — o facto de os
homens e os animais (influenciados pela associação ou pelo hábito) fazerem indu­
ções que se mostram serem muito úteis, ainda que qualquer tentativa de as jus­
tificar tenha de ser inválida.
Vou mais longe do que Hume: defendo que os procedimentos indutivos muito
simplesmente não existem (nem sequer os de baixo nível) e que a história da
sua existência e um mito97. Berkeley, Poincaré e Duhem tinham razão ao afir­
mar que é impossível obter uma teoria abstracta ou de nível superior, como a
de Newton, por indução a partir da observação. Mas não tinham razão ao pen­

97 Ver as secções 3 e 9, atrás, e o meu artigo «Philosophy of Science: A Personal Report»,


em especial as secções iv a vi, depois publicado como capítulo 1 de Conjectures and Refutations.

139
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

sar que há uma diferença essencial, relativamente a este aspecto, entre leis de
nível superior e leis de nível inferior; pois todas as leis são invenções úteis, e
não generalizações indutivas. (A minha perspectiva própria é, evidentemente,
a de que elas não são apenas invenções úteis, mas também conjecturas genuí­
nas acerca da estrutura do Mundo, e conjecturas que podem ser testadas.) Não
há dúvida de que as hipóteses de nível inferior não são tão abstractas quanto
as teorias explicativas de nível superior. Mas são, não obstante, teóricas e abs­
tractas.

Voltemo-nos agora para a sugestão, que se deve a Mill, a Wittgenstein e a


Schlick, de que deveriamos considerar as leis universais ou teorias como regras
de inferência, e não como enunciados genuínos98.
A sugestão pode ser elaborada da seguinte maneira. Seja um enunciado uni­
versal tal como «Todos os homens são bípedes». Em presença dele — isto é,
se o usarmos tacitamente como premissa, ou como premissa «suprimida» —
podemos inferir a partir do enunciado particular «Sócrates é um homem» a con­
clusão «Sócrates é um bípede». Suponhamos que só os enunciados particulares
é que «têm significado» [are «meaningful», N. do T.]; ou antes, suponhamos
(é uma suposição mais fraca) que, por uma razão ou por outra, estamos inte­
ressados apenas em enunciados particulares (porque, digamos, só os enuncia­
dos particulares é que descrevem factos empíricas), e não em enunciados uni­
versais. Podemos, portanto, ficar interessados na transição, ou inferência, de
«Sócrates é um homem» para «Sócrates é bípede»; e podemos dizer que todo
o interesse do enunciado universal «Todos os homens são bípedes» reside no
facto de ele nos permitir fazer a transição de um enunciado particular para outro.
Por outras palavras, podemos interpretar o enunciado universal como sendo um
enunciado que nos dá o direito de fazer essa transição, ou como um enunciado
que valida certas interferências, e não uma asserção acerca de um «facto univer­
sal», seja o que for que isto signifique.
Podemos, sem dúvida, ver os enunciados universais como se eles validas­
sem certas inferências, ou como sendo equivalentes a certas regras de inferên­
cia: é um facto simples da lógica que, sempre que temos uma inferência válida
decorre a partir de mais do que uma premissa, podemos interpretar qualquer
uma das premissas (se for verdadeira) como uma regra (válida) que nos permite
tirar a conclusão das outras premissas. Assim, podemos dizer que «Sócrates é
um homem», se for um enunciado verdadeiro, valida a inferência de «Todos
os homens são bípedes» para «Sócrates é bípede»; e, da mesma maneira, que

98 Recorde-se que esta sugestão foi feita por Wittgenstein e por Schlick para reconciliar a não-
-verificabilidade das leis universais com o critério de significado do Tractatus; ver as notas *4, 7
e 8 à secção 4, e a nota 1 ao Apêndice *i da L.Sc.D .. A referência a Mill faz alusão à Logic, livro
ii, capítulo iii, 3: «Toda a inferência vai de particulares para particulares.» Veja-se ainda a primeira
nota à secção iv do meu artigo «Three Views Concerning Human Knowledge», op. cii.

140
A ABORDAGEM CRÍTICA

«Todos os homens são bípedes», sendo verdadeiro, valida a inferência de «x


é homem» para «x é bípede». Mas este facto não tem de ser interpretado como
sendo um facto que estabelece que um enunciado universal é essencialmente uma
regra de inferência, ou nada mais que uma regra de inferência.
Para discutir esta questão, concordemos em dizer que os enunciados podem
ser verdadeiros ou falsos, e que as inferências, ou as regras de inferência, podem
ser válidas ou não-válidas. (Dizemos que são válidas quando elas conservam a ver­
dade; isto é, quando são tais que a verdade das premissas assegura a verdade da
conclusão.) Podemos então dizer que em todas as linguagens habituais, incluindo
a linguagem da matemática, da ciência, e o inglês vulgar [diriamos nós: o portu­
guês vulgar, N. do T.], um enunciado universal como «Todos os homens são bípe­
des» é factualmente verdadeira se e só se a transição de «x é homem» para «x é
bípede» for factualmente conservadora da verdade (ou, como poderiamos dizer,
«factualmente válida»). Além disso, um enunciado universal será logicamente ver­
dadeiro (ou «analítico») se e só se a inferência correspondente, ou regra de infe­
rência, for logicamente conservadora da verdade, ou logicamente válida.
Por causa destas equivalências, não se ganha nada com «explicarmos» os
enunciados universais como sendo regras de inferência — a não ser, na verdade,
que queiramos propor substituir enunciados universais por regras de inferên­
cia, talvez por pensarmos ser menos provável que estas criem confusões ou emba­
raços filosóficos do que as enunciados universais. Mas isto seria o mesmo que
propor evitar ou desfazermo-nos dos enunciados universais, substituindo-os por
regras de inferência; ou, por outras palavras, seria o mesmo que propor usar
uma linguagem em que não ocorressem enunciados universais, que seriam subs­
tituídos por regras de inferência.
Poder-se-ia, sem dificuldade, construir uma linguagem deste gênero. Não
seria uma linguagem vulgar, mas sim uma linguagem artificial, enquanto a sua
gramática proibisse o uso de enunciados universais. Todos os seus enunciados
seriam particulares, e poderíam, portanto, ser funções de verdade de enuncia­
dos atômicos (no sentido do Tractatus), e poderíam ser verificáveis. Além disso,
ao expurgar todas os enunciados universais, poderia parecer que o problema
da indução desaparecería".
Uma linguagem artificial como esta seria sem dúvida conforme a muitos pro­
pósitos positivistas. Nem, porém, a possibilidade de ela ser construída nem a
sua construção e a sua adoção reais poderíam ajudar a resolver qualquer pro-9

99 Uma maneira particular de construir uma linguagem L em que são proibidos os enunciados
universais (e substituídos por uma adequada licença de inferência) é a seguinte. Estabelecemos a
regra geral de que sempre que decidirmos aceitar, em linguagens comuns, o enunciado «Todos os
As são Bs», aceitaremos, em L, todos os enunciados singulares que se possam obter, por substitui­
ção, a partir de «Se x é A , então x é B». Esta regra tem o efeito que se pretende. Se formularmos
esta regra para eliminar enunciados universais como uma regra para eliminar sistemas teóricos uni­
versais, poderemos exprimi-la da seguinte forma: substituam-se todos os axiomas universais «Todos

141
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

blema. Nem esclarecería nada. De facto, a proposta de substituir enunciados


universais por regras de inferência criou, ao sugerir pseudo-soluções, novas con­
fusões e complicações filosóficas que, a julgar pela experiência passada, não há-
-de ser em breve que se hão-de dissipar.
Devido à equivalência entre enunciados universais e regras de inferência, tudo
o que a proposta pode conseguir é substituir o problema da verdade nos enun­
ciados universais pelo da validade das regras de inferência correspondentes. Não
se lucra nada com esta substituição, já que os dois problemas são exactamente
equivalentes. Parece, assim, que os filósofos que propuseram a substituição
deviam estar confusos a este respeito. Acreditavam num proveito, ou numa solu­
ção, quando não havia nem uma coisa nem outra.
Mas a situação ainda é pior.
É costume usar só regras de inferência lógicas ou analíticas. A sugestão de
que todas os enunciados universais deveriam ser consideradas regras de infe­
rência encoraja-nos implicitamente a tomar todos os enunciados universais por
analíticos. [O que seria o mesmo que adoptar uma forma radical de convencio­
nalismo (vejam-se os capítulos iv e vii da L.Sc.D.).] O costume de usar só regras
de inferência lógicas, ou analíticas, liga-se ao facto de na vida comum, bem como
em matemática ou em ciência, quase nunca temos consciência das regras de infe­
rência que usamos. Usamo-las inconscientemente, implicitamente, contando
inquestionavelmente com a sua validade: dificilmente poderá haver algo como
uma regra de inferência problemática100. Em consequência disto, raramente
pomos em causa a validade das regras de inferência, e nunca pensamos em sub­
metê-las a testes experimentais. Mas se, como foi proposto, interpretássemos
todas as teorias universais como regras de inferência, então teríamos de tratar
essas regras de inferência como teorias universais: teríamos de as testar, de ten­
tar falsificá-las — a não ser que abandonássemos o método crítico da ciência.
Não parece que os filósofos que defenderam a proposta de substituição
tenham reparado nestas consequências. Ao ver as leis científicas como analíti­
cas, aproximaram-se do convencionalismo. E, no entanto, entre eles contavam-se
alguns dos mais proeminentes adversários do convencionalismo.
Tudo isto pode indicar a confusão criada pela proposta de os enunciados
universais serem vistos como regras de inferência.

os As são Bs» da teoria pelo axioma-esquema «Se r é A, então x é B»! Ou, por outras palavras:
aceite-se qualquer enunciado singular que possa ser obtido por substituição a partir deste esquema
como axioma da teoria!
Esta regra levará, em geral, a teorias em que infinitos axiomas singulares substituirão cada um
dos axiomas da teoria vulgar. A situação é muito análoga à que é provocada pela aplicação do teo­
rema de W. Craig à eliminação de uma determinada classe de predicados — dos «predicados teóri­
cos», digamos; e a confusão filosófica que em ambos os casos se gera também é muito análoga.
(Ver ainda L.Sc.D ., nota 4 ao Apêndice *x.)
100 Podemos obter a partir da teoria das probabilidades um sistema de regras de inferência quase
válidas; mas embora sendo apenas quase válidas, não são de modo algum problemáticas.

142
A ABORDAGEM CRÍTICA

Mais recentemente, entrou na moda uma nova atitude face ao problema da


indução. Espalhou-se entre alguns filósofos a ideia de que a indução pode real­
mente ser um mito, e de que o problema de indução pode realmente ser resol­
vido através da indicação de que a indução é coisa que não existe. Mas alguns
filósofos continuam a estar impressionados pelo facto de muitos cientistas afir­
marem que estão a fazer induções — que obtêm leis generalizando os seus resul­
tados observacionais.
Destes dois ingredientes deriva a seguinte teoria. Os cientistas, diz-se, fazem
realmente aquilo a que se pode chamar «induções» em vários campos da ciên­
cia — em cada um destes segundo o seu método ou protocolo próprio. Mas essas
«induções» não devem ser tomadas por inferências: fazer induções é muito sim­
plesmente uma capacidade, ensinada por exemplos, e adquirida na prática cien­
tífica. Como não há um problema da validade das capacidades, o problema da
indução — que é o problema da validade da indução — desaparece. Em resumo,
a inferência indutiva é um mito: só existem procedimentos ou técnicas induti­
vas (há, de facto, uma grande variedade delas); mas estas não podem dar ori­
gem a nenhum «problema da indução».
Esta teoria só pode ter qualquer coisa para oferecer a um instrumentalista.
E, para esse, é supérflua. É que se as teorias científicas não passam de instru­
mentos, o problema da indução de maneira se levanta, tal como vimos.
Por outro lado, os que, de nós, não aceitam o instrumentalismo e vêem as
teorias científicas como hipóteses ou conjecturas — como resultados a título de
ensaio da nossa busca de teorias verdadeiras — não acharão que sirva para muito
a observação de que há uma multiplicidade de procedimentos indutivos: essa
observação só pode multiplicar as dificuldades do problema da indução. Con­
trariamente, a observação de que não há procedimentos indutivos alguns (ainda
que haja uma variedade de procedimentos através dos quais podemos testar as
nossas teorias — procedimentos que podem, todos eles, ser analisados em ter­
mos de lógica dedutiva) pode ajudar a eliminar o problema da indução, e, assim,
a resolvê-lo.

13 — O instrumentalismo contra a ciência

Segundo o instrumentalista, as teorias científicas não podem ser verdadei­


ras descobertas: são dispositivos [gadgets, N. do T.]. A ciência é uma activi-
dade de produção de artifícios [gadget-making, N. do T.] — uma veneranda
canalização. (No mundo das aparências, no mundo sem enigmas, não há lugar
para verdadeiras descobertas científicas.) A filosofia do instrumentalismo, por
outro lado, aparece como uma verdadeira descoberta filosófica: ela revela, des­
cobre o verdadeiro carácter da ciência — a realidade por detrás da sua aparên­
cia. Revela que as teorias científicas não são aquilo que parecem ser. Que não

143
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

são, como parecem ser, descrições de um mundo por detrás do mundo da apa­
rência; revela-se, através da análise filosófica, que elas são meros instrumen­
tos. (E revela-se, através da análise filosófica, que os «grandes cientistas» são
canalizadores venerados. Que alívio!)
A tendência do instrumentalismo é anti-racionalista. Implica que a razão
humana não possa descobrir nenhum segredo do Mundo. Assim, não sabemos
hoje mais acerca do Mundo do que sabíamos há quatrocentos anos. O nosso
conhecimento dos factos não aumentou; só a nossa habilidade em manobrá-los,
e o nosso conhecimento de como construir dispositivos. Não há, segundo o ins­
trumentalismo, revolução científica; só há revolução industrial. Não há verdade
na ciência; só utilidade. A ciência é incapaz de iluminar os nossos espíritos; só
pode dar conteúdo às nossas crenças.
Não é de espantar que se encontrem perspectivas como a do bispo Berkeley.
Na verdade, Berkeley tornou bem claro que as dava a publicar em grande parte
na esperança de defender a religião contra a arremetida da ciência e do «livre
pensamento»; contra a pretensão de que a razão, sem o auxílio da revelação
divina, pode descobrir um mundo por detrás do mundo da aparência. Mas já
espanta um pouco encontrar apoio para estas idéias instrumentalistas no campo
dos admiradores da ciência.
O meu primeiro exemplo de um admirador da ciência que apoia o instru­
mentalismo é Reichenbach. Não há mais dúvidas quanto à obediência de Rei-
chenbach do que quanto à do bispo: Reichenbach está no campo oposto. Rei­
chenbach acredita nos ensinamentos da ciência. «O filósofo tem de admitir»,
escreve ele, «que a natureza pode muito bem ser como o físico quântico a des­
creve; se essa descrição é verdadeira ou não, isso é uma questão da ciência empí­
rica.»101 Não pode haver mais dúvidas quanto ao realismo fundamental de Rei­
chenbach do que quando às convicções realistas de Hume ou de Russell. Além
disso, Reichenbach — tal como os monistas «neutrais» mantém-se agarrado à
crença de que a sua análise da física é filosoficamente neutra. «Os que preten­
dem que a causalidade é a priori e se entende aos não-observáveis e os que recu­
sam a falar do comportamento causai dos não-observáveis são iguais enquanto
cometem o erro de julgar a mecânica quântica do ponto de vista de certas dou­
trinas filosóficas. É possível falar do estatuto lógico da mecânica quântica em
termos neutrais.»102 Reichenbach pretende ter concretizado esta possibilidade
na sua investigação: «A investigação é empreendida sem pressupor qualquer con­
cepção Filosófica», escreve103. Mas ele não é, de facto, mais neutral do que os
monistas neutrais: aceita implicitamente a teoria do conhecimento. É um idea­

101 A citação é a frase que conclui o artigo de Reichenbach intitulado «The Principie of Ano-
maly», in Dialectica 2, 1948, descrito pelo autor como resumo, com melhoramentos, de Philoso-
phical Foundations o f Quantum Mechanics, 1944.
102 Loc. cit.
103 Cf. o fim do seu Summary, op. cit., p. 349.

144
A ABORDAGEM CRÍTICA

lista berkeleyano ou humeano; e, como instrumentalista berkeleyano, está mais


bem informado sobre os objectos tratados pela física do que a própria física.
Pois toda a sua análise da física dos quanta se baseia na distinção entre os fenô­
menos observados, tal como aquela árvore que está ali fora enquanto a olho
pela janela, e as interpolações entre esses fenômenos, a que ele chama «interfe-
nómenos», tais como aquela mesma árvore depois de eu ter tirado os olhos dela
para escrever esta frase. «Quando dizemos que uma árvore existe enquanto não
estamos a olhar para ela», escreve Reichenbach, «[...] estamos a interpolar um
objecto não observado entre observáveis; e seleccionamos o objecto interpolado
de maneira que este nos permita levar por diante o [...] postulado da causali­
dade idêntica para observados a não observados [...]»104 E continuava: «Se aban­
donarmos este postulado, chegaremos a diferentes descrições dos não observá­
veis. Essas descrições não são falsas [...] A linguagem vulgar, segundo a qual
o objecto subsiste quando a observação pára, constrói-se separando/ima des­
crição dessa classe; esta descrição normal, ou sistema normal, é determinada
pelo postulado da causalidade idêntica para objectos observados e não obser­
vados. O postulado não é verdadeiro nem falso, mas é, isso sim, uma regra que
usamos para simplificar a nossa linguagem,» 105
Consideremos agora, por um instante, esta doutrina. O que Reichenbach diz
— e o que ele quer dizer, como se mostra no seu livro e no seu artigo — é o
seguinte. Os objectos que interpolamos entre as observações são mais ou menos
arbitrariamente escolhidos, ou «seleccionados». O «sistema normal» consiste
em seleccionar os objectos de uma maneira tal que as leis causais sejam as mes­
mas para objectos observados e não observados. Mas esta escolha «normal» é
apenas a adopção livre de um postulado que não é verdadeiro nem falso; e
preferimo-lo apenas porque queremos simplificar a nossa linguagem. (Assim,
pode-se descrever o «postulado» como uma convenção.)
Reichenbach usa o seguinte exemplo: «[...] podemos supor», escreve, «que
a árvore não observada se divide em duas árvores.»106 Mas neste caso, explica,
poderemos ter de alterar as nossas leis causais, tanto quanto os objectos não
observados estão envolvidos; pois podemos observar a sombra da árvore mesmo
quando não observamos a árvore; e, assim, teríamos de supor que as duas árvo­
res (nas quais a árvore se divide quando não é observada) «causam uma som­
bra só»107.
Tais suposições seriam, evidentemente, embaraçosas; e esta, segundo Rei­
chenbach, a única razão porque habitualmente adoptaram o «sistema normal»,

104 Op. cit., p. 341. As reticências na citação indicam uma extensa omissão, de mais de três
frases. Não obstante, a citação apresenta fielmente a doutrina de Reichenbach.
105 Loc. cit. (A última frase da citação foi posta em itálico por mim.)
106 Loc. cit.
107 Loc. cit.

145
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

quer isto dizer, o «postulado da causalidade idêntica para objectos observados


e não observados»: adoptamo-lo para «simplificar a nossa linguagem».
Contra esta perspectiva, queria chamar a atenção para o facto de que a divi­
são da árvore quando afastamos o olhar dela e a sua junção quando voltamos
a olhar violaria manifestamente as leis da física, pois envolvería (segundo a física)
forçar, acelerações, dispêndios de energia, etc., muito consideráveis. Mas isto
é o mesmo que dizer que a física nos informa inequivocamente de que a árvore
não se divide quando afastarmos o olhar dela. (Nem desaparece, segundo a física:
isso envolvería destruição da matéria, e, portanto, algo da natureza de uma
explosão atômica.) Assim, quando Reichenbach diz que a suposição «normal»
— segundo a qual a árvore não observada se comporta como se fosse obser­
vada — «não é verdadeira nem falsa», mas é apenas um dispositivo «para sim­
plificar a nossa linguagem», está a revelar-nos que os ditames claros e inequí­
vocos da física não são, na verdade, mais que dispositivos simplificativos. E
quando afirma que podemos escolher adoptar outros «postulados» (enquanto,
evidentemente, eles originarem os mesmos resultados no que respeita aos fenô­
menos ou observações), está a concordar implicitamente com Berkeley e Mach
em que as teorias físicas sejam apenas instrumentos de descrição e previsão de
fenômenos.
Assim, Reichenbach é conduzido, pela sua teoria subjectivista do conheci­
mento, a uma posição que ele mesmo rejeita: à crença de que o filósofo pode
saber mais, ou pode conhecer melhor, do que o físico; à crença de que a filoso­
fia pode corrigir os ditames da física.
A posição idealista de Reichenbach acaba por se mostrar essencial para a
sua solução dos problemas da teoria dos quanta, pois o seu resultado é o
seguinte. Na teoria dos quanta, é «impossível dar uma definição de interfenó-
meno de maneira que os postulados da causalidade sejam satisfeitos»108. Assim,
segundo a teoria dos quanta, «a classe de todas as descrições da interfenóme-
nos não contém nenhum sistema normal»109. Reichenbach chama a este resul­
tado, do qual pretende ter dado uma prova, «o princípio da anomalia» (ou, por
vezes, «o princípio da anomalia casual»).
Ora, do ponto de vista idealista, isto é um resultado, e que resultado. Por­
que ele pode ser formulado da seguinte, maneira. A teoria dos quanta cumpre
o que dela se espera. Permite-nos calcular correctamente as observações. É ver­
dade que não nos permite introduzir objectos não observados de maneira nor­
mal. Mas como a maneira normal de introduzir objectos não observados é, em
todo o caso, simplesmente uma questão de conveniência e de simplicidade lin­
guística, este resultado negativo não tem que nos preocupar.

108 Philosophical Foundations o f Quantum Mechanics, 1944, pp. 32 e segs.


109 Loc. cit.(Os itálicos são de Reichenbach.)

146
A ABORDAGEM CRITICA

Tenciono discutir no volume m deste Pós-escrito o problema de interpretar


a física dos quanta do meu ponto de vista realista (por acaso, sem mais referên­
cias a Reichenbach). Agora, queria apenas dizer que a solução de Reichenbach
me parece tão insatisfatória como todas as soluções idealistas, porque é dema­
siadamente barata. Apesar do impressionante aparato matemático e lógico uti­
lizado, sofre da velha doença: é fatidicamente fácil. Porque ela acaba por ser
o mesmo que dizer: «o formalismo cumpre o que dele se espera. O que quer
mais? Quer compreendê-lo? Mas é fácil: é apenas um instrumento de previsão
de fenômenos; e compreender um instrumento significa saber como é que ele
é construído e como é que funciona. Se quiser saber mais — se quer, por exem­
plo, ficar com uma ideia de como é que os átomos ou os electrões ou os fotões
interagem — então deverá ter-se esquecido de que as entidades não observadas
(tais como os átomos, ou os electrões ou os fotões) não são mais que interfenó-
menos, introduzidos só para sua conveniência; assim, a sua questão não se jus­
tifica; e você pode até estar a fazer uma pseudopergunta metafísica.»
Isto não é, evidentemente, uma paráfrase do que Reichenbach realmente diz.
Mas também não é uma paródia. Pelo contrário, dá conta com muita justiça
dos resultados de Reichenbach e da sua atitude (que é semelhane à de Bohr e
à de Heisenberg). Em todo o caso, o principal aspecto que o meu relato pre­
tende pôr em destaque é o idealismo subjectivo de Reichenbach, e ao facto de
esse idealismo ser um ingrediente essencial dos seus resultados, e não simples­
mente um desvio, nem apenas uma maneira de pôr as coisas que pudessem tam­
bém ser expressas na «linguagem do realismo».
O meu segundo exemplo é Carnap. Tal como no campo de Reichenbach,
ninguém pode duvidar da sinceridade da fidelidade de Carnap à ciência. Nos
seus primeiros tempos, especialmente em Der Logische Aufbau der Welt, Car­
nap tenta edificar um sistema do mundo da ciência tendo por fundamento a
experiência sensorial subjectiva de cada pessoa; mas, um pouco mais tarde, é
convertido, por Otto Neurath, ao «fisicalismo». No seu extenso livro — Fun­
damentos Lógicos da Probabilidade — desenvolve uma teoria probabilística da
indução científica. Essa teoria conduz ao resultado, na minha opinião correcto
(cf. L.Sc.D., secção 80), de que, num universo infinito, a probabilidade lógica
de uma lei universal, mesmo com as provas empíricas mais favoráveis, será sem­
pre igual a zero. Mas Carnap, infelizmente, identifica o grau de confirmação
de uma lei com a sua probabilidade lógica. Obtém, consequentemente, o resul­
tado indesejado de que o grau de confirmação de qualquer lei (quer aceite, quer
rejeitada) tem também de ser igual a zero. Assim, nenhuma lei é confirmávei.
Este resultado fá-lo colocar uma questão (p. 574): «São Precisas Leis Para Fazer
Previsões?» A sua resposta é que não são precisas, e que, portanto, «não são
indispensáveis» à ciência. O argumento excede, assim, o instrumentalismo. Tal
como os instrumentalistas, Carnap pensa aqui que a única função da ciência
é fazer previsões; como eles, acredita que as leis são «instrumentos eficazes»

147
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

para esse fim; mas sustenta também que elas não são precisas. Na verdade, o
seu argumento mostraria que elas são completamente redundantes. «Vemos»,
escreve Carnap, «que o uso de leis não é indispensável pra fazer previsões. Não
obstante, é oportuno, é claro, apresentar leis universais nos livros de física, de
biologia, de psicologia, etc. [...] Ainda que essas leis apresentadas pelos cientis­
tas não tenham um elevado grau de confirmação110, [...] servem de instrumen­
tos eficazes para encontrar aquelas previsões particulares altamente confirma­
das que são precisas na vida prática.»111
É certo que as leis universais, na teoria de Carnap, são enunciados; mas como
se mostram não ser confirmáveis, e não serem indispensáveis à ciência — ainda
que sejam «instrumentos eficazes para previsões» — é claro que a teoria da indu­
ção de Carnap o levou a uma prespectiva muito afim da de Reichenbach: só
os enunciados particulares de observações possíveis é que contam verdadeira­
mente; pois o estatuto das leis é simplesmente o de enunciados não confirmá­
veis cuja única função é serem instrumentos de previsão eficazes mas, não obs­
tante, completamente redundantes.
Considerando a atitude muito diferente que Carnap adoptou num momento
anterior do mesmo livro (estou a pensar especialmente na sua referência a Eins-
tein e a mim na p. 193, referência que mostra que a sua intenção era fazer jus
às teorias), não há dúvida de que ele não pretendia nem esperava aqueles resul­
tados. São consequências involuntárias da sua aceitação implícita de uma epis-
temologia indutivista112.
Nos volumes posteriores do Pós-escrito, encontraremos mais exemplos do
infeliz papel desempenhado pelas interpretações subjectivista, indutivista e ins­
trumentalista da ciência, e mais particularmente, da física dos quanta.

14 — A ciência contra o instrumentalismo

Podemos agora concluir a nossa discussão da teoria subjectiva do conheci­


mento. A questão da razoabilidade do realismo metafísico foi levantada (no fim
da secção 6) em ligação com a atitude céptica de Hume. O nosso exame da teo­
ria subjectiva do conhecimento de Hume e dos seus sucessores levou ao resul­

110 É uma afirmação errada por defeito: num universo infinito, o grau é zero.
111 Logical Foundations o f Probability, 1950, p. 575. (Os itálicos são meus.) O meu pontilhado
substitui as palavras «têm uma confirmação por casos altamente qualificada e, assim,». Omiti-as
porque não pretendo aqui explicar nem criticar a concepção de Carnap de uma «confirmação qua­
lificada por casos», cuja inadequação assinalei noutra ocasião; ver The British Journal fo r the Phi-
losophy o f Science, 6, 1955, pp. 157-163; e 7, 1956, pp. 249-256, sobretudo a secção (7), pp. 251 e segs.
112 Critiquei de forma mais completa as descobertas de Carnap acerca de leis universais em
«The Demarcation between Science and Metaphysics», contribuição para o volume dedicado a Carnap
da Library o f Living Philosophers, edited by P. A. Schilpp; republicado em Conjectures and Re-

148
A ABORDAGEM CRÍTICA

tado de que nessa teoria não se podem encontrar nenhuns argumentos de peso
contra a razoabilidade do realismo metafísico.
A realidade dos corpos físicos é implicada por quase todos os enunciados
de senso comum que fazemos; e isso, por sua vez, implica a existência de leis
da natureza: logo, todos os ditames da ciência implicam o realismo. Estes argu­
mentos fazem com que seja razoável acreditar que há leis da natureza verdadei­
ras, ainda que esta perspectiva não seja nem verificável nem falsificável, e seja,
portanto, metafísica. A nossa discussão do cepticismo de Hume e dos seus segui­
dores não revelou nada que pudesse ter algum peso contra estes argumentos.
Encontrámos apenas um dogma especioso — o de que tudo, seja o que for, que
estiver no meu espírito (ou na minha linguagem) só pode reflectir o que previa­
mente tenha estado nos seus sentidos. No seu rasto, encontrámos uma série de
consequências involuntárias e inaceitáveis, incluindo contradições, descritas aber­
tamente por Hume como tais.
Talvez a coisa mais notável que encontrámos tenha sido a atitude de muitos
membros desta escola de pensamento para com os seus resultados. Tal como
Frege, que, confrontado com contradições na sua teoria da aritmética, pensou
que a aritmética estava periclitante, os seguidores de Berkeley e de Hume
inclinam-se para acreditar que a realidade esteja periclitante. E enquanto admi­
ram a ciência, a sua filosofia das ciências condu-los necessariamente a resulta­
dos que equivalem à ideia de que a ciência está periclitante. Para eles, aquilo
que os cientistas vêem como as maiores descobertas da ciência, as descobertas
de leis, não passam de habilidades, ou de regras de transformação, ou então
não passam de modos de falar redundantes se bem que talvez muito eficazes.
Estas consequências involuntárias deviam ser vistas como outras trantas refu­
tações das teorias do conhecimento que lhes deram origem.
Qualquer crítica dirigida contra teorias em competição deveria sempre ser
usada numa tentativa de encontrar pontos fracos na nossa própria posição. Mas
não encontrou nenhumas consequências involuntárias nem resultados absurdos
resultando da minha abordagem. Segundo a minha abordagem, é sensato acei­
tar as perspectivas do senso comum enquanto elas aguentam a crítica: a ciência
tem origem na crítica e no senso comum e na imaginação. (Por exemplo, eu,
como o senso comum, acredito na realidade das coisas materiais, e, portanto,
da matéria. Não sou, porém, um «materialista»; não só porque acredito em espí­
ritos [minds, N. do T.], mas porque não creio que a doutrina de que a matéria

futations, capítulo 1 1 . 0 último artigo de Carnap, «The Methodological Character of Scientific


Concepts» (veja-se a nota 93 à secção 11, mais atrás), revê algumas das descobertas que critiquei.
O objectivo deste novo artigo é readmitir as teorias como sendo significativas e dar um critério
da significação delas. Julgo, porém, que esse novo critério de significação facilmente se pode demons­
trar que é, ao mesmo tempo, demasiadamente estreito e demasiadamente largo, precisamente como
se pode demonstrar que o antigo critério positivista de significado é (ele é, justamente por essa razão,
criticado na secção 8 de L.Sc.D .). (Ver a secção 19, adiante.)

149
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

é suprema [ultimate, N. do T.] e inexplicável tenha aguentado a crítica113. É,


além disso, uma doutrina pouco inteligente e quase nada imaginativa. Se um dia
formos capazes de explicar a matéria de modo satisfatório — digamos, como uma
perturbação num campo de forças ou de propensões — devemos ter cuidado e
não pensar que a explicámos de vez [explained it away, N. do T.], como alguns
«espiritualistas» se inclinam para pensar mesmo hoje em dia. Ao explicar um
eclipse ou uma trovoada ou uma bomba atômica, não estamos a mostrar que
são irreais, ou que são meras aparências. Ao afirmar que um automóvel ou um
pedaço de queijo é uma estrutura de partes que não são automóveis nem boca­
dos de queijo, não estamos a afirmar que os automóveis ou os bocados de queijo
sejam ilusões. Curiosamente, porém, até Russell fala como se a física, ao expli­
car a estrutura da matéria, tivesse mostrado que a matéria é uma ilusão114.)
É certo que há pessoas que consideram algumas das minhas teorias perver­
sas, mas esses meus resultados «perversos» têm todos o carácter de negações
de crenças filosóficas que é vulgar ter. Foi, pois, considerado perverso eu salien­
tar a importância da falsificação em vez da verificação. Isto, disse Schlick, é
perverso, porque nós queremos estar certos e não estar errados. Não vejo razão
para disputar o argumento psicológico de Schlick. Eu também prefiro estar certo;
e é precisamente por gostar de estar certo que prefiro corrigir-me, ou, se for
necessário, ser corrigido pelos outros. Assim, esforço-me por detectar erros nos
meus próprios argumentos, isto é, por os criticar, por os refutar. De uma maneira
mais geral, os nossos testes são tentativas de falsificação precisamente porque
queremos aproximar-nos da verdade e evitar a falsidade: porque preferimos estar
certos. Outros também protestaram, como Schlick, que eu não dou conta de
argumentos positivos, ou argumentos de apoio (por oposição a refutações). Mas
este protesto denuncia um prejuízo indutivista. A principal ideia da indução e
da verificação é a de que nós buscamos casos apoiantes. Discordo desta ideia
filosófica, ou metodológica: simples casos apoiantes são, regra geral, demasia­
damente baratos para que valha a pena tê-los; pode-se sempre tê-los a pedido;
e assim, não têm peso nenhum; e qualquer apoio capaz de ter algum peso só
pode vir de testes engenhosos, empreendidos com o objectivo de refutar a nossa
hipótese, se esta puder ser refutada.

113 [Veja-se a discussão que Popper efectua da história da ideia de matéria no seu «Epílogo
Metafísico», volume in do Pós-escrito; em The S e lf and Its Brain, capítulos 1 e 3; e em «Philo-
sophy and Physics», in A tti d e iX II Congresso Internazionale di Filosofia, Veneza, 1958 (Florença,
1960) 2, pp. 367-374. Ed.]
114 Ver, por exemplo, Portraits from Memory, 1956, p. 145: «A verdade é, evidentemente, que
o espírito e a matéria são ilusões. Os físicos [...] descobrem este facto acerca da matéria [...].» Inclino-
-me para afirmar o contrário. Nunca como agora tivemos argumentos científicos (por oposição ao
senso comum) tão fortes a favor da realidade da matéria, agora que a começámos a compreender.
Era uma ideia metafísica dúbia de que não podíamos saber nada, e transformou-se numa estrutura
acerca da qual se podem fazer muitas perguntas claras e de elevado interesse, às quais até talvez
se possa responder.

150
A ABORDAGEM CRÍTICA

Sugeriu-se também que a minha tentativa de negar a ideia popular de que


«a ciência começa com a observação» era perversa — se não até, na verdade,
uma tentativa pouco sincera de impressionar as pessoas dizendo algo novo e para­
doxal. Mas esta ideia é simplesmente parte de uma filosofia popular — de uma
teoria indutivista do conhecimento; e a sua negação é de longe menos perversa
que o choque com o senso comum a que as consequências dessa teoria dão ori­
gem. Além disso, os principais princípios do indutivismo popular têm de ser
abandonados quando nos apercebemos de que talvez nem a teoria de Newton
seja verdadeira, apesar das provas empíricas incrivelmente fortes que a apoiam.
Não consigo encontrar nenhumas consequências da minha teoria que cho­
quem com o senso comum ou com a ciência; nem tampouco foram semelhan­
tes choques encontrados pelos meus críticos, ainda que tenham encontrado mui­
tos choques com doutrinas filosóficas aceites. Mas a teoria subjectivista do
conhecimento, e, com ela, a interpretação instrumentalista das teorias científi­
cas, choca não só com o senso comum mas também com a ciência e com a tra­
dição racionalista. Rejeita-os — se bem que não tenha intenção de o fazer, p
tal como os rejeita, pode ser rejeitada por eles.
Concluo, com isto, a minha crítica dos argumentos a favor do idealismo.
Mas tenho ainda que dizer algo acerca do realismo, quer a favor dele, quer como
crítica.

15 — O objectivo da ciência

Nenhum destino mais justo podería ser concedido a qualquer teoria


física do que o de ela indicar o caminho para se introduzir uma
teoria mais compreensiva em que aquela vivesse como um caso
limite.

ALBERT EINSTEIN

Até aqui, argumentei a favor do realismo, em grande parte através de uma


crítica do idealismo. Irei agora apresentar alguns argumentos positivos a favor
do realismo, antes de passar, na secção seguinte, a indicar algumas das suas difi­
culdades. Os argumentos positivos em que estou a pensar assentam na relação
entre o realismo e o objectivo da ciência.
Desde a publicação da Logik der Forschung (isto é, desde 1934), desenvolví
um tratamento mais sistemático do problema do método científico: tentei come­
çar por algumas sugestões acerca dos objectivos da actividade científica, e deri­
var a maior parte daquilo que tenho a dizer acerca dos métodos da ciência
— incluindo muitos comentários acerca da sua história — desta sugestão.
Limitar-me-ei aqui a explicar a sugestão e a indicar a sua incidência sobre os
problemas do realismo.

151
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

Falar do «objectivo» da actividade científica pode talvez parecer um pouco


ingênuo; pois é evidente que diferentes cientistas têm diferentes objectivos e a
ciência, ela mesma (seja o que for que isto signifique), não tem objectivos.
Admito tudo isto. Quando, porém, falamos da ciência, parece que sentimos,
com maior ou menor evidência, que há algo que é característico da actividade
científica; e como a actividade científica se parece muito com uma actividade
racional, e como uma actividade racional há-de ter algum objectivo, a tentativa
de descrever o objectivo da ciência não pode ser completamente fútil. tffLPi■QugM
Sugiro o seguinte. O objectivo da ciência é encontrar explicações satisfató­
rias do que quer que se nos apresente e nos impressione como estando a preci­
sar de explicação. Por explicação (ou por explicação causai) entenda-se um con­
junto de proposições das quais uma descreve o estado de coisas [state o f affairs,
N. do T.] a explicar (o explicandum), enquanto as outras, as proposições expli­
cativas, constituem a «explicação» stricto senso (o explicans do explicandum).
Podemos considerar, regra geral, que o explicandum se sabe mais ou menos
que é verdade ou se supõe que seja conhecido, pois não tem muito sentido pedir
uma explicação de um estado de coisas que se pode acabar por mostrar ser intei­
ramente imaginário. (Os discos voadores podem ser um caso desses: a explica­
ção que é precisa pode não ser uma explicação dos discos voadores, mas sim
uma explicação dos relatos que dão conta de discos voadores; existissem, porém,
discos voadores, e não se exigiría mais nenhuma explicação dos relatos.) Por
outro lado, o explicans, que é o objecto da nossa busca, não será conhecido,
regra geral: terá de ser descoberto. Assim, a explicação científica, sempre que
for uma descoberta, há-de ser a explicação do conhecido pelo desconhecido115.
O explicans, para ser satisfatório (e a capacidade de satisfazer pode ser uma
questão de grau), tem de satisfazer um certo número de condições. Primeiro,
tem de implicar logicamente [logically entail, N. do T.] o explicandum. Em
segundo lugar, o explicans tem de ser verdadeiro, ainda que, em geral, não se
saiba que é verdadeiro; em todo o caso, não deve dar-se o caso de se saber que
é falso — nem sequer depois dos exames mais críticos. Se não se souber que
é verdadeiro (o que geralmente acontece), deverá então haver provas indepen­
dentes a seu favor. Deve, por outras palavras, ser independentemente testável;
e será mais satisfatório quanto maior for a severidade dos testes a que tiver sobre­
vivido.
Tenho ainda que elucidar o meu uso da expressão «independente», e dos
seus contrários, «ad hoc» e (em casos extremos) «circular».
Seja a um explicandum que se sabe ser verdadeiro. Como a se segue, trivial­
mente, de si mesmo, podemos sempre apresentar a como uma explicação de si
mesmo. Mas haveria sempre de ser altamente insatisfatório, ainda que soubés-

115 Ver o último parágrafo do texto (antes da citação final) de «Note on Berkeley as a Precur­
sor of Mach», republicado em Conjectures and Refutations, capítulo 6, p. 174.
A ABORDAGEM CRÍTICA

semos, nesse caso, que o explicans era verdadeiro, e que o explicandum decor­
ria dele. Assim, temos de excluir as explicações deste gênero por causa da sua
circularidade.
O gênero de circularidade, porém, em que estou agora a pensar é uma ques­
tão de grau. Considere-se o seguinte diálogo: «Por que é que o mar hoje está
tão agitado?» — «Porque Neptuno está muito zangado.» — «Com que provas
pode sustentar a sua afirmação de que Neptuno está zangado?» — «Então não
vê como o mar está mesmo agitado? E o mar não está sempre agitado quando
Neptuno está zangado?» Acha-se que esta explicação é insatisfatória porque (tal
como no caso da explicação completamente circular) a única prova a favor do
explicans é o próprio explicandum116. O sentimento de que este gênero de expli­
cação quase circular ou ad hoc é altamente insatisfatório, e a respectiva exigên­
cia de que se evitem explicações deste gênero, contam-se, julgo eu, entre as prin­
cipais forças responsáveis pelo desenvolvimento da ciência: a insatisfação
conta-se entre os primeiros frutos da abordagem crítica ou racional.
Para que o explicans não seja ad hoc, tem de ser rico em conteúdo: tem de
ter várias consequências testáveis, e entre estas, especialmente, consequênciás
testáveis que sejam diferentes do explicandum. É nessas consequências testáveis
que estou a pensar quando falo de testes independentes, ou de provas indepen­
dentes.
Se bem que estas observações talvez possam ajudar a elucidar de algum modo
a ideia intuitiva de um explicans independentemente testável. São ainda muito
insuficientes para caracterizar uma explicação satisfatória e independentemente
testável. É que, sendo a o nosso explicandum — seja, de novo a «O mar hoje
está agitado» — podemos sempre apresentar um explicans altamente satisfató­
rio que é completamente ad hoc, ainda que tenha consequências independente­
mente testáveis. Podemos ainda escolher estas consequências como quisermos.
Porque podemos escolher, digamos, «Estas ameixas são sumarentas» e «Todos
os corvos são pretos». Seja b a sua conjunção. Podemos então tomar como expli­
cans muito simplesmente a conjunção de a e b: irá satisfazer todos os requisi­
tos até agora apresentados, mas será ad hoc, e intuitivamente declaradamente
insatisfatório.
Só se exigirmos que as explicações usem leis universais da natureza (com­
pletadas por condições iniciais) é que poderemos avançar em direcção à con­
cepção da ideia de explicações independentes, ou não ad hoc. Porque as leis uni­
versais da natureza podem ser enunciados com um conteúdo rico, de tal maneira
que possam ser independentemente testados em qualquer, e em qualquer oca­
sião. Assim, se forem usadas como explicações, não podem ser ad hoc, porque
nos podem permitir interpretar o explicandum como uma ocorrência de um efeito

116 Este tipo de raciocínio sobrevive em Tales (Diels-Kranz 10, vol. i, p. 456, linha 35): Anaxi-
mandro (D.-K. A l t , A28); Anaxímenes (D.-K. A17, Bl).

153
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

reproduzível. Tudo isto, porém, só é verdade se nos limitafmos a leis universais


que sejam testáveis, isto é, falsificáveis. É aqui que entra o problema da demar­
cação e o critério da falsificabilidade.
A pergunta «que gênero de explicação é que pode ser satisfatória?» leva,
assim, à seguinte resposta: uma explicação em termos de leis universais testá­
veis e falsificáveis e de condições iniciais. Uma explicação deste gênero será tanto
mais satisfatória quanto mais testáveis aquelas leis forem, e quanto mais testa­
das tiverem sido. (E o mesmo para as condições iniciais.)
Deste modo, a conjectura de que o objectivo da ciência é encontrar explica­
ções satisfatórias conduz-nos à ideia de melhorar o grau de satisfação propor­
cionado pelas nossas explicações [the degree o f satisfactoriness o f our explana-
tions, N. do T.] através do melhoramento do seu grau de testabilidade, isto é,
encaminhando-nos para outras mais testáveis, o que significa — como se mos­
tra nos capítulos vi e vm da L.Sc.D. — avançar para teorias de conteúdo cada
vez mais rico, teorias com um grau cada vez mais elevado de universalidade,
e com um grau cada vez maior de exactidão. Isto, não há dúvida, está total­
mente de acordo com a história e com a prática concreta das ciências teóricas.
Podemos chegar a um resultado que, no fundamental, é o mesmo por outra
via. Se o objectivo da ciência é explicar, então também há-de ser seu objectivo
explicar aquilo que até agora tem sido aceite como explicans, tal como uma lei
da natureza. Assim, a missão da ciência está constantemente a renovar-se. Poder-
-se-ia continuar para sempre, avançando por explicações com um grau de uni­
versalidade cada vez maior — a não ser que chegássemos a uma explicação
suprema [an «ultimate explanation»; N. do T.], isto é, uma explicação que nem
pode ter mais nenhuma explicação nem precisa dela.
Haverá explicações supremas? A doutrina a que chamei «essencialismo» sus­
tenta a opinião de que a ciência deve procurar explicações supremas em termos
de essências117: se pudermos explicar o comportamento em termos de essência
dessa coisa — das suas propriedades essenciais — então não se poderá levantar
mais nenhuma questão (a não ser, talvez, a questão teológica do Criador das
essências). Assim, Descartes acreditava ter explicado a física em termos da essên­
cia de um corpo físico, que era, pensava ele, a extensão; e alguns newtonianos,
no seguimento de Roger Cotes, julgavam que a essência da matéria era a inér­
cia desta, bem como o seu poder de atrair outra matéria, e julgavam ainda que
a teoria de Newton podia ser deduzida dessas propriedades essenciais de toda
a matéria (e, assim, ser em última instância explicada por elas). Newton, ele
mesmo, tinha uma opinião diferente. Era uma hipótese respeitante à explica­

117 Discuti e critiquei de forma meus completa o essencialismo no meu artigo «Three Views Con-
cerning Human Understanding», in Conjectures and Refutations, capítulo 3, onde também faço
referência às minhas primeiras discussões (na última nota à secção ii). [O essencialismo e a exigên­
cia de explicações supremas relacionam-se intimamente, é claro, com o justificacionismo. Veja-se
a secção 2, atrás. Ed.]

154
A ABORDAGEM CRÍTICA

ção causai suprema ou essencial da própria gravidade que ele estava a pensar
quando escreveu no Scholium generate no fim dos Principia: «Até aqui, expli-
quei os fenômenos [...] pela força da gravidade, mas não descobri ainda a causa
da própria gravidade [...] e eu não invento hipóteses arbitrariamente ou ad hoc.» 118
Não acredito na doutrina da explicação suprema. No passado, os críticos
dessa doutrina foram, regra geral, instrumentalistas: interpretavam as teorias
científicas como se não passassem de instrumentos de previsão sem nenhum
poder explicativo. Também não concordo com eles. Mas há uma terceira possi­
bilidade, uma «terceira perspectiva», como lhe chamei, e que foi bem descrita
pela expressão «essencialismo modificado» — com ênfase na palavra «modifi­
cado»119.
Esta «terceira perspectiva», a que eu defendo, modifica o essencialismo de
forma radical. Primeiro que tudo, respeito a ideia de explicação suprema. Man­
tenho que qualquer explicação pode ser mais explicada, por uma teoria de maior
universalidade. Não pode haver nenhuma explicação que não precise de mais
uma explicação, pois nenhuma pode ser uma descrição auto-explicativa de uma
essência (tal como uma definição essencialista de corpo, como foi sugerido por
Descartes). Em segundo lugar, rejeito todas as perguntas por o que é?: pergun­
tas que perguntam o que uma coisa é, qual é a sua essência, ou a sua verda­
deira natureza. É que temos de abandonar a ideia, característica do essencia­
lismo, de que em todas as coisas individuais há uma essência, uma natureza ou
princípio inerente (tal como o espírito do vinho no vinho) que naturalmente faz
com que ela seja aquilo que é, e, assim, que aja como age. Esta perspectiva ani-
mista não explica nada, mas levou alguns essencialistas (como Newton) a evita­
rem as propriedades relacionais, como a gravidade, e a acreditarem, com fun­
damentos que achavam ser válidos a priori, que uma explicação satisfatória tem
que ser uma explicação em termos de propriedades inerentes (por oposição a
propriedades relacionais). A terceira e última modificação do essencialismo é
a seguinte. Temos de abandonar a ideia, que está muito ligada ao animismo (e
é característica do Aristóteles, por oposição a Platão), de que é às propriedades
essenciais inerentes a cada coisa individual ou singular que se tem que recorrer
por serem as que explicam o comportamento dessa coisa. É que esta perspec­

118 Ver ainda as cartas de Newton a Richard Bentley de 17 de Janeiro e, sobretudo, de 25 de


Fevereiro de 1693 («1692-1693»). Fiz citações dessa carta na secção iii de «Three Views Concerning
Human Knowledge», em que se discute este problema de forma um pouco mais completa.
119 A expressão «essencialismo modificado» foi usada como descrição da minha «terceira pers­
pectiva» pelo autor de uma recensão de «Three Views Concerning Human Knowledge», em The
Times Literary Supplement 55, 1956, p. 527. Para evitar mal-entendidos queria dizer aqui que o
facto de eu aceitar essa expressão não deve ser entendido como uma concessão às doutrinas da «rea­
lidade suprema» e da «explicação suprema», e menos ainda uma concessão à doutrina das defini­
ções essencialistas. Mantenho-me fiel à crítica dessa doutrina que apresentei em The Open Society,
capítulo 11, secção ii (em especial a nota 42) e em outros textos; ver adiante, secção 31; e ainda
a nota 2 à secção 19 de L.Sc.D.

155
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

tiva não consegue lançar luz nenhuma sobre a questão de saber por que é que
coisas individuais diferentes se hão-de comportar de maneira semelhante. Se se
disser «porque as suas essências são semelhantes», levanta-se a seguinte ques­
tão: por que não havería, então, de haver tantas essências diferentes quantas
coisas diferentes há?
Platão tentou precisamente resolver este problema dizendo que as coisas indi­
viduais semelhantes são descendência e, portanto, cópias, da mesma «Forma»
original, que é, portanto, algo de «exterior», de «anterior» e de «superior» às
várias coisas individuais; e, na verdade, não temos ainda uma teoria de seme­
lhança melhor. Mesmo, recorremos à origem comum de dois homens, quando
queremos explicar a sua semelhança, ou a de um pássaro com um peixe, ou a
de duas camas, ou de dois automóveis, ou de duas línguas, ou de dois protoco­
los legais; quer isto dizer, explicamos a similitude sobretudo de modo genético;
e se a partir disto fizermos um sistema filosófico, é muito capaz de vir a ser
uma filosofia historicista. A solução de Platão foi rejeitada por Aristóteles; mas
como a versão aristotélica do essencialismo não dá sequer um vislumbre de solu­
ção, parece que Aristóteles nunca compreendeu o problema120.
Ao escolher explicações em termos de leis universais da natureza, estamos
precisamente a dar uma solução deste último problema (platônico), pois esta­
mos a conceber todas as coisas individuais, e todos os factos particulares, como
estando submetidos a essas leis. As leis (que, por sua vez, precisam de mais expli­
cação) explicam, assim, regularidades ou semelhanças de coisas individuais ou
de factos ou acontecimentos particulares. E essas leis não são inerentes às coi­
sas particulares. (Nem são idéias platônicas exteriores ao Mundo.) As leis da
natureza são antes concebidas como descrições (conjecturais) das propriedades
estruturais ocultas da natureza — do nosso mundo.
Eis aqui, então, a semelhança entre a minha perspectiva (a «terceira pers­
pectiva») e o essencialismo: se bem que eu não pense que nós possamos descre­
ver, através das nossas leis universais, uma essência suprema do Mundo, não
tenho dúvidas de que possamos procurar ir cada vez mais fundo na exploração
da estrutura do nosso mundo, ou, como também se poderia dizer, na explora­
ção de propriedades do Mundo cada vez mais essenciais, ou de profundidade
cada vez maior.
Todas as vezes que passamos a explicar alguma lei ou teoria conjectural por
outra teoria conjectural de maior grau de universalidade, estamos a descobrir
mais coisas acerca do Mundo: estamos a penetrar mais fundo nos seus segre­
dos. E todas as vezes que conseguimos falsificar uma teoria deste gênero, esta­

120 Quanto à teoria platônica das formas ou idéias, «uma das suas funções mais importantes
è explicar a semelhança das coisas sensíveis [...]»; cf. The Open Society, capítulo 3, secção v; ver
ainda as notas 19 e 20, e o respectivo texto. O fracasso da teoria de Aristóteles em desempenhar
essa função é aí referido (na terceira edição, 1957) no fim da nota 54 ao capítulo 11.

156
A ABORDAGEM CRÍTICA

mos a fazer uma importante nova descoberta. Porque essas falsificações são
importantíssimas. Ensinam-nos o inesperado. E voltam a assegurar-nos que,
ainda que as nossas teorias sejam feitas por nós, ainda que sejam invenções nos­
sas, não deixam por isso de ser asserções genuínas acerca do Mundo, pois podem
chocar com algo que não fomos nós que fizemos.
O nosso «essencialismo modificado» é, julgo eu, útil quando se levanta a
questão da forma lógica das leis naturais. Ele sugere que as nossas leis ou teo­
rias devam ser universais, isto é, que tenham de fazer asserções acerca de todas
as regiões espacio-temporais do Mundo. Sugere, além disso, que as nossas teo­
rias façam asserções acerca das propriedades estruturais ou relacionais; e que
as propriedades descritas por uma teoria explicativa devam ser, nalgum sentido,
mais profundas do que as que há que explicar.
Estas duas idéias — a de propriedades estruturais ou relacionais do nosso
mundo, e a de profundidade de uma teoria — precisam de uma elucidação.
Muitas vezes explicamos o comportamento tipo-lei de certas coisas indivi­
duais em termos da sua estrutura. Assim, somos capazes de explicar, e de com­
preender, o funcionamento de um relógio depois de o ter desmontado e tornado
a montar algumas vezes, pois, dessa maneira, podemos aprender a compreen­
der a sua estrutura — e a sua maneira de funcionar em consequência da sua
estrutura. Ora, se considerarmos um pouco mais de perto este procedimento,
descobrimos que, uma explicação estrutural deste gênero, estamos sempre a pres­
supor algum comportamento tipo-lei além daquele que há a explicar (e «mais
profundo» do que este). Por exemplo, aquilo que queremos explicar, no caso
do relógio, é o movimento regular das suas rodas e dos seus ponteiros. Fazemo-lo
analisando a estrutura do relógio; mas temos também de pressupor que as diver­
sas partes que compõem a estrutura são rígidas (isto é, que conservam as suas
formas e «extensões» geométricas) e impenetráveis (isto é, que arrastam as outras
consigo no seu movimento — quando uma peça surge no caminho de outra —,
em vez de uma delas, envolvida num encontro, se mover, por assim dizer, atra­
vés da outra). Estas duas propriedades tipo-lei, a rigidez e a impenetrabilidade
de certos corpos físicos, podem, por sua vez, ser estruturalmente explicadas: por
exemplo, por grelhas de átomos [lattices o f atoms; N. do T.], que se conjectu-
rou constituírem a estrutura material desse tipo de corpo. Mas, nesta segunda
explicação, estamos não só a conjecturar que certas partes — os átomos — estão
dispostas numa estrutura «de grelha», mas estamos a pressupor, além disso, que
se verificam entre os átomos certas leis de atracção e de repulsão. Essas, por
sua vez, podem ser explicadas pela estrutura subatômica dos átomos, juntamente
com as leis que regem o comportamento das partículas subatômicas, e assim
por diante. Tudo isto se pode exprimir através da metáfora, que se reconhece
ser vaga, de que as leis da natureza afirmam «propriedades estruturais do
Mundo». (A metáfora é vaga justamente porque, a qualquer nível, não é só a
estrutura que explica, mas também as leis; mas é aceitável porque, a qualquer

157
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

nível, as leis são, em parte, explicadas por estruturas, e também porque é pelo
menos concebível que, a algum nível, a estrutura e a lei se possam tornar indis­
tinguíveis — que as leis imponham ao Mundo um certo gênero de estrutura,
e que possam ser interpretadas, em alternativa, como descrições dessa
estrutura121. É o que parece ser o fito, ainda que não atingido por enquanto,
das teorias de campo de matéria.) Isto pelo que toca à ideia de estrutura.
A segunda ideia que precisa de elucidação é a de «profundidade». Essa ideia
desafia, parece-me, qualquer tentativa de análise lógica exaustiva; é, no entanto,
um guia das nossas instituições. (É o que acontece em matemática: face aos axio­
mas, todos os seus teoremas são logicamente equivalentes e, no entanto, há uma
grande diferença de «profundidade» que dificilmente é susceptível de uma aná­
lise lógica122.) A «profundidade» de uma teoria parece estar ligada muito inti­
mamente à sua simplicidade e à riqueza do seu conteúdo. (As coisas passam-se
de outro modo no caso da profundidade de um teorema matemático cujo con­
teúdo se possa considerar ser nulo.) Dos ingredientes parecem ser exigidos: um
conteúdo rico e uma certa coerência ou densidade [compactness, N. do T.] (ou
«originalidade») do estado de coisas descrito. Este último ingrediente é que, ainda
que seja intuitivamente bastante claro, é tão difícil de analisar, e é ele que os
essencialistas tentavam descrever quando falavam de essências, por contraste com
simples acumulações de propriedades acidentais. Não penso que possamos aqui
fazer muito mais do que referirmo-nos a uma ideia intuitiva, nem penso que
precisamos de fazer muito mais do que isso. Porque, no caso de qualquer teo­
ria específica proposta, é a riqueza do seu conteúdo e, por conseguinte, o seu
grau de testabilidade que decide o seu interesse, e são os resultados de testes
realmente feitos que decidem o seu destino. Do ponto de vista do método, pode­
mos encarar a profundidade da teoria, a sua coerência e até a sua beleza como
simples guias ou estímulos da nossa intuição e da nossa imaginação.

121 Determinados problemas respeitantes às leis da natureza, e a sua natureza dúplice de serem
simultaneamente necessárias nalgum sentido (a que aqui se faz alusão através da palavra «impõem»)
e contingentes (a que aqui se faz alusão através da palavra «descrição») são tratados no Apên­
dice *x de L.Sc.D. Sobre o problema da explicação da rigidez («extensão») e da impenetrabilidade,
veja-se também o «Epílogo Metafísico» no volume m do Pós-escrito, secções 21 e 27, onde se pode­
rão encontrar algumas observações acerca da teoria de campos da matéria {field theory o f matter,
N. do T.].
122 Foi já avançado que em matemática a profundidade de um teorema pode ser medida atra­
vés da suposição de que a) aumenta com o número de passos — isto é, com a extensão — da prova
mais pequena, e que b) diminui com a extensão do próprio teorema. Isto relativizaria a ideia de
profundidade, uma vez que um determinado teorema t que na linguagem formalizada i , é pequeno
e precisa em L, de uma prova muito extensa, pode ser uma fórmula grande na linguagem L 2, e ser­
vir, ainda assim, de axioma na linguagem L 2. Mas intuitivamente parece haver algo de absoluto
quanto à profundidade — uma qualidade que, manifestamente, se perde na medida que foi pro­
posta, e que tem algo a ver com a) a profundidade da ideia ou da natureza da prova (mais simples)
(no sistema mais simples) e não o seu comprimento, e b) a fertilidade da aplicabilidade geral dessa
ideia, enquanto método de prova, e não a brevidade do teorema.

158
A ABORDAGEM CRÍTICA

Parece, no entanto, haver algo como uma condição suficiente da profundi­


dade, ou dos graus de profundidade, a qual pode ser analisada logicamente. Ten­
tarei explicar isto graças a um exemplo da história das ciências.
É sabido que a dinâmica de Newton alcançou uma unificação da física ter­
restre de Galileu e da física celeste de Kepler. É frequente dizer-se que se pode
induzir a dinâmica de Newton a partir das leis de Galileu e de Kepler, e afirmou-
-se até que pode ser rigorosamente deduzida destas123. Mas não é assim: de um
ponto de vista lógico, a teoria de Newton, para falar com rigor, contradiz quer
a de Galileu quer a de Kepler (se bem que estas possam, evidentemente, ser obti­
das como aproximações, uma vez que se tenha a teoria de Newton para traba­
lhar). Por isso, é impossível derivar a teoria de Newton quer da de Galileu, quer
da de Kepler, quer de ambas, seja por indução ou por dedução, pois nem uma
inferência dedutiva nem uma inferência indutiva podem alguma vez passar de
premissas consistentes para uma conclusão que contradiz formalmente essas per-
missas.
Vejo nisto um argumento muito forte contra o indutivismo.
Vou agora indicar resumidamente as contradições entre a teoria de New­
ton e as dos seus antecessores. Galileu afirma que uma pedra ou um projéctil
que sejam lançados se movem segundo uma parábola, a não ser no caso de
uma queda livre vertical, em que se movem, com aceleração constante, em linha
recta. (Ao longo desta discussão não consideramos a resistência do ar.) Do
ponto de vista da teoria de Newton, estas duas asserções são falsas, por duas
razões distintas. A primeira é falsa porque o caminho de um projéctil de longo
alcance, como um míssil intercontinental (lançado numa direcção horizontal
ou inclinado para cima) não será parabólico, nem sequer de forma aproximada:
há-de ser elíptico. Só se torna aproximadamente uma parábola se a distância
total do voo do projéctil for desprezável em comparação com o raio da Terra.
O próprio Newton insistiu neste aspecto, tanto nos Principia como na sua ver-

123 O que se pode deduzir das leis de Kepler (ver Max Born, Natural Philosophy o f Cause and
Chance, 1949, pp. 129-133) é que, para todos os planetas, a aceleração em direcção ao Sol é sem­
pre igual a k /r 2 em que r é a distância, nesse instante, entre o planeta e o Sol, e k uma constante,
a mesma para todos os planetas. Mas este mesmo resultado está em contradição formal com a teo­
ria de Newton (excepto na suposição de que as massas dos planetas são iguais, ou, a serem desi­
guais, infinitamente pequenas comparadas com a massa do Sol). Este facto decorre do que aqui
se diz, no texto que segue a nota 125, acerca da terceira lei de Kepler. Mas, além disso, dever-se-ia
recordar que nem a teoria de Kepler nem a de Galileu incluem o conceito newtoniano de força,
que tradicionalmente é introduzido nessas deduções assim sem mais nem menos; como se esse con­
ceito («oculto») pudesse ser retirado dos factos, em vez de resultar de uma nova interpretação dos
factos (isto é, dos «fenômenos» descritos pelas leis de Kepler e de Galileu) à luz de uma teoria intei­
ramente nova. Só depois de o conceito de força (e até a proporcionalidade das massas gravitacio-
nal e inercial) ter sido introduzido é que foi possível ligar a fórmula da aceleração (atrás indicada)
à lei da atracção de Newton, a lei da inversa do quadrado (através de uma suposição como a de
que as massas dos planetas são desprezáveis).

159
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

são popularizada, The System o f the World, onde o ilustra graças à seguinte
figura124:

A figura que Newton apresenta ilustra a sua afirmação de que, se se aumen­


tar a velocidade do projéctil, e com ela a distância do voo, ele há-de, «por fim,
excedendo os limites da Terra, [...] passar para o espaço sem a tocar». E há-
-de descrever aproximadamente, uma elipse kepleriana.
Assim, um projéctil move-se sobre a Terra ao longo de uma elipse de excen­
tricidade finita, e não segundo uma parábola. É claro que, para lançamentos
suficientemente curtos, uma parábola será uma excelente aproximação; mas uma
trajectória parabólica não é, em rigor, deduzível da teoria de Newton, a não
ser que a esta acrescentemos uma condição inicial factualmente falsa (e que,
por acaso, é irrealizável na teoria de Newton, já que leva a consequências absur­
das) de modo que o raio da Terra seja infinito. Se não admitirmos este pres­
suposto, ainda que se saiba que ele é falso, teremos sempre uma elipse, por
contraste com a lei de Galileu segundo a qual deveriamos obter uma parábola.

124 Ver os Principia de Newton, o Scholium no fim da secção ii do livro i; p. 55 da edição


de 1934 (tradução a - Moite revista por Cajori). A figura, que é de The System o f the World, e
a citação que aqui se apresenta encontram-se na p. 551 dessa edição.

160
A ABORDAGEM CRÍTICA

Uma situação lógica exactamente análoga surge ligada à segunda parte da


lei de Galileu que afirma que a existência de uma aceleração constante. Do ponto
de vista da teoria de Newton, a aceleração dos corpos em queda livre nunca é
constante: aumenta sempre durante a queda, devido ao facto de o corpo se apro­
ximar do centro de atracção. Este efeito é muito considerável se o corpo cair
de uma grande altura, se bem que não seja, evidentemente, de considerar se a
altura for desprezável em comparação com o raio da Terra. Neste caso, pode­
mos obter a teoria de Galileu a partir da de Newton se, mais uma vez, introdu­
zirmos o falso pressuposto de que o raio da Terra é infinito (ou a altura da queda
igual a zero).
As contradições que acabei de indicar estão longe de ser desprezáveis no caso
de mísseis de longo alcance. A esses, podemos aplicar a teoria de Newton (com
correcções referentes à resistência do ar, é claro) mas não a de Galileu: esta muito
simplesmente conduz a resultados falsos, como se pode mostrar graças à teoria
de Newton.
Com respeito às leis de Kepler, a situação é semelhante. É evidente que na
teoria de Newton as leis de Kepler só são aproximadamente válidas — isto é,
inválidas, em rigor — se considerarmos a atracção mútua entre planetas125. Mas
há contradições mais fundamentais entre as duas teorias do que esta, que é de
certo modo óbvia. É que mesmo se, fazendo uma concessão aos nossos adver­
sários, desprezarmos a atracção mútua entre planetas, a terceira lei de Kepler,
considerada do ponto de vista da dinâmica de Newton, não pode ser mais do
que uma aproximação aplicável a um caso muito especial: o de planetas cujas
massas sejam iguais, ou a serem desiguais, sejam desprezáveis em comparação
com a massa do Sol. Como não é válida, nem sequer de forma aproximada,
para dois planetas dos quais um seja muito leve e o outro muito pesado, é claro
que a terceira lei de Kepler contradiz a teoria de Newton precisamente da mesma
maneira que a teoria de Galileu o faz.
É o que se pode mostrar facilmente da seguinte maneira. A teoria de New­
ton funciona para um sistema de dois corpos — um sistema estrelar binário —
uma lei a que os astrônomos muitas vezes chamam «lei de Kepler», já que está
intimamente ligada á terceira lei de Kepler. Essa chamada «lei de Kepler» diz
que se m0 for a massa de um dos dois corpos — o Sol, digamos — em , for

125 Ver, por exemplo, P. Duhem, The A im and Structure o f Physical Theory, 1905; English
translation by P. P. Wiener, 1945, parte ii, capítulo vi, secção 4. Duhem diz de maneira mais explí­
cita aquilo que está implícito na própria afirmação de Newton (Principia, livro i, proposição lxv,
teorema xxv); porque Newton torna muito claro que sempre que dois corpos interagem, as duas
primeiras leis de Kepler são, quando muito, válidas apenas de forma aproximada, e mesmo isso
só em casos muito especiais, casos dos quais ele analisa dois com algum pormenor. Dá-se o caso
de a fórmula 1), adiante, decorrer imediatamente do livro i, proposição lix, face ao livro i, propo­
sição xv. (Ver ainda livro iii, proposição xv.) Assim, a minha análise, tal como a de Duhem, está
implícita na de Newton.

161
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

a massa do outro corpo — um planeta, digamos — então, escolhendo unidades


de medida apropriada, podemos derivar da teoria de Newton

1) a } /! 2 = m0 + m x

em que a é a distância média entre dois corpos, e T o tempo que dura uma revo­
lução completa. Ora, a terceira lei de Kepler afirma que

2) a3 / T2 = constante,

quer isto dizer, a mesma constante para todos os planetas do sistema solar.
É claro que só obtemos esta lei a partir de 1) com o pressuposto de que
ma + m 1 = constante; e como m0 = constante para o nosso sistema solar se
identificarmos m0 com a massa do Sol, obteremos 2) a partir de 1) desde que
tenhamos o pressuposto de que m , é a mesma para todos os planetas; ora, sendo
isto factualmente falso (como na verdade, acontece, já que Júpiter é vários milhares
de vezes maior que os planetas mais pequenos), então as massas dos planetas são
todas zero comparadas com a do Sol, de maneira a que possamos fazer m t = 0
para todos os planetas. É uma aproximação bastante boa do ponto de vista da
teoria de Newton; mas, simultaneamente, fazer m, = 0 não somente é falso, em
rigor, como é irrealizável do ponto de vista da teoria de Newton. (Um corpo com
massa igual a zero deixaria de obedecer às leis newtorianas do movimento.) Assim,
mesmo se esquecermos tudo acerca de atracção mútua entre planetas, a terceira
lei de Kepler 2) contradiz formalmente a teoria de Newton que gera 1).
É importante que se note que a partir das teorias de Galileu e de Kepler não
conseguimos sequer o mais pequeno vislumbre de como é que essas teorias have­
ríam de ser ajustadas — que premissas (falsas) é que teriam de ser adoptadas,
ou que condições é que teriam de ser estipuladas — para serem interpretadas
através de outra com uma validade mais geral, como a de Newton. Só depois
de possuirmos a teoria de Newton é que podemos descobrir se as antigas teo­
rias são aproximações dela, e em que sentido é que o são. Podemos exprimir
este facto resumidamente dizendo que, ainda do ponto de vista da teoria de New­
ton as teorias de Galileu e de Kepler são excelentes aproximações a certos resul­
tados específicos de Newton, da teoria de Newton não se pode dizer, do ponto
de vista das outras duas teorias, que é uma aproximação aos resultados delas.
Tudo isto mostra que a lógica, seja ela dedutiva ou indutiva, não pode dar o
passo daquelas teorias para a dinâmica de Newton126. Só a ingenuidade é que
é capaz de dar esse passo. E uma vez dado, pode dizer-se que os resultados de
Galileu e de Kepler corroboram a nova teoria.

126 Os conceitos de força (cf. nota 123, mais atrás) e de acção à distância introduzem dificul­
dades adicionais.

162
A ABORDAGEM CRÍTICA

Aqui, porém, não estou tão interessado na impossibilidade da indução como


no problema da profundidade. E, a respeito deste problema, podemos realmente
aprender algo com o nosso exemplo. A teoria de Newton unifica as de Galileu
e de Kepler. Mas longe de ser uma mera conjunção dessas duas teorias — que
desempenham para a de Newton o papel de explicando —> corrige-as enquanto
as explica. A missão explicativa primitiva era a dedução dos primeiros resulta­
dos. Mas essa missão é cumprida não através da dedução desses primeiros resul­
tados, mas através da dedução, em lugar destes, de algo melhor: novos resulta­
dos que, nas condições específicas dos antigos resultados, numericamente se
aproximam muito desses antigos resultados e, ao mesmo tempo, corrigem-nos.
Assim, pode-se dizer do sucesso empírico da antiga teoria que corrobora a nova
teoria; e, sobre isso, as correcções podem, por sua vez, ser testadas — e talvez
refutadas, ou então corroboradas. O que é patenteado de forma expressiva pela
situação lógica que acabei de esquematizar é o facto de a nova teoria não poder
ser ad hoc nem circular. Longe de repetir o seu explicandum, a nova teoria
contradi-lo e corrige-o. Deste modo, até a evidência do próprio explicandum
se torna prova independente a favor da nova teoria. (Por acaso, esta análise
permite-nos explicar — em termos semelhantes aos de L.Sc.D., secção 57 —
o valor das teorias métricas e da medição, e ajuda-nos, assim, a evitar o erro
de aceitar a medição e a precisão como sendo valores supremos e irredutíveis.)
Sugiro o seguinte. Se, nas ciências empíricas, uma nova teoria com um grau
de universalidade mais elevado explicar com sucesso alguma teoria mais antiga
corrigindo-a, então isso é um sinal seguro de que a nossa teoria penetrou mais
fundo do que a antiga. À exigência de que uma nova teoria contenha a antiga
de forma aproximada, para valores apropriados dos parâmetros da nova teo­
ria, pode-se chamar (seguindo nisso Bohr) o «princípio de correspondência».
A satisfação desta exigência é uma condição suficiente de profundidade,
como disse há pouco. Que não é uma condição necessária, é o que se pode ver
a partir do facto de que a teoria electromagnética das ondas, de Maxwell, não
corrigiu, nesse sentido, a teoria ondulatória da luz, de Fresnel. Ela representa
um aumento da profundidade, sem dúvida, mas noutro sentido: «A velha ques­
tão da direcção das vibrações da luz polarizada perde o sentido. As dificulda­
des respeitantes às condições fronteiriças das fronteiras entre dois meios foram
resolvidas pelos próprios fundamentos da teoria. Deixaram de ser precisas quais­
quer hipóteses ad hoc para se eliminarem as ondas luminosas longitudinais. A
pressão luminosa, tão importante na teoria da radiação e só recentemente deter­
minada experimentalmente, podia ser derivada como sendo uma das consequên­
cias da teoria.»127 Este trecho brilhante em que Einstein esquematiza algumas

127 A. Einstein, Physikalische Zeitschrift 10, 1909, pp. 817 e segs. Pode dizer-se que o aban­
dono da teoria de um éter material (implícito no facto de Maxwell não conseguir construir um modelo
material satisfatório dele) dá profundidade, no sentido atrás analisado, à teoria de Maxwell, por

163
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

das principais conquistas da teoria de Maxwell, comparando-a com a de Fres-


nel, pode ser considerada como uma indicação de que há outras condições sufi­
cientes de profundidade de que não dei conta na minha análise.

A missão da ciência, que é, segundo o que eu sugeri, a de encontrar explica­


ções satisfatórias, dificilmente se poderá compreender se não formos realistas,
pois uma explicação satisfatória é uma explicação que não é ad hoc, e esta ideia
— a ideia de provas independentes — dificilmente se poderá compreender sem
a ideia de descoberta, de avanço para níveis de explicação mais profundos; sem
a ideia, portanto, de que há algo para nós descobrirmos; e algo para se discutir
criticamente.
E, no entanto, parece-me que em metodologia não precisamos de pressu­
por o realismo metafísico. Nem podemos retirar dele nenhuma ajuda, a não
ser do tipo intuitivo. Pois uma vez tendo-nos sido dito que o objectivo da ciên­
cia é explicar, e que a explicação mais satisfatória será a que for mais severa­
mente testável e mais severamente testada, sabemos tudo o que precisamos de
saber enquanto metodologistas. Que o objectivo é realizável, isso não pode­
mos afirmar — nem com a ajuda do realismo metafísico, nem sem ela: o rea­
lismo metafísico pode apenas dar-nos algum encorajamento intuitivo, alguma
esperança, mas nenhuma segurança de espécie nenhuma. E ainda que se possa
dizer que um tratamento racional da metodologia depende de um objecto da
ciência pressuposto ou conjecturado, ele não depende certamente da supo­
sição metafísica — e muito provavelmente falsa — de que a verdadeira teo­
ria estrutural do Mundo (a haver alguma) pode ser expressa na linguagem
humana.
Se a imagem do Mundo traçada pela ciência moderna se aproxima, nalgum
ponto, da verdade — por outras palavras, se temos algo como um «conheci­
mento científico» — então as condições existentes quase por toda a parte do
Universo fazem com que a descoberta de leis estruturais do gênero das que pro­
curamos — e, portanto, o alcance do «conhecimento científico» — seja quase
impossível. É que quase todas as regiões do Universo estão ocupadas por uma
radiação caótica, e quase todo o resto por uma matéria num estado igualmente
caótico. Apesar disto, a ciência tem sido miraculosamente bem sucedida ao avan­
çar em direcção àquilo que eu penso deveria ser considerado o seu objectivo.
Penso que este estranho facto não pode ser explicado sem que cheguemos a exa­
gerar as nossas afirmações [without proving too much, N. do T.] (cf. secção
3, texto relativo à nota 1). Mas pode encorajar-nos a continuar a visar esse objec­
tivo, mesmo que não consigamos encontrar mais nenhum encorajamento para

comparação com a de Fresnel; e isto está, parece-me, implícito na citação do artigo de Einstein.
Assim, a teoria de Maxwell na formulação de Einstein talvez não seja verdadeiramente um exem­
plo de outro sentido de «profundidade». Mas na forma original de Maxwell penso que é.

164
UÜIVERSIOM E K » * * ~
b ib l io t e c a a b o r d a g e m c r it ic a

acreditar que o podemos realmente atingir, nem do realismo metafísico, nem


de nenhuma outra fonte128.

* Adenda de 1980 à secção 15

1) A secção anterior foi, como se referiu, publicada pela primeira vez em 1957.
Inclui, entre outras coisas, uma refutação da ideia sustentada por homens como
Isaac Newton e Max Born, de que a teoria de Newton pode ser retirada das leis
de Kepler, ou por um argumento indutivo, ou por um argumento dedutivo.
Quando pela primeira vez escrevi essa secção, não acentuei muito a refuta­
ção do mito histórico de que a teoria de Newton resulta de indução, porque pen­
sei que tinha destruído a teoria da indução vinte anos antes; e era suficiente­
mente optimista para acreditar que qualquer resistência que ainda emanasse dos
defensores da indução viria a desaparecer em breve. (Não obstante, critiquei com
algum pormenor a então corrente teoria da indução probabilística, de Carnap,
tendo daí resultado que ele acabasse por a abandonar; a última forma em que
Carnap defendeu a indução era completamente diferente da famosa teoria que
ele desenvolveu no seu extenso mas, em minha opinião, insustentável livro, Logi-
cal Foundations o f Probability.)
De então para cá, os indutivistas retomaram algum alento, em parte porque
eu deixei de responder aos argumentos deles, os quais foram todos claramente
refutados em diversas partes dos meus primeiros textos. Deixei de lhes respon­
der porque pensei, e ainda penso, que a questão estava arrumada há muito tempo
e era, por isso, enfadonha.
2) Pode, no entanto, ser bom repetir aqui, muito abreviadamente, um dos
mais interessantes argumentos contra a indução, um argumento que estava implí­
cito na secção anterior.*

128 A maior parte desta secção 15 foi publicada pela primeira vez em Ratio 1, 1957 (quer na
edição inglesa, quer na alemã). Esse texto é agora publicado de novo, com autorização do editor
daquela publicação, o meu falecido amigo Julius Kraft.
* Agora publicado em Obective Knowledge, de que constitui o capítulo 5. A ideia, discutida
nesta secção, de que as teorias podem corrigir uma lei «observacional» ou «fenomenal» que elas
seria suposto explicarem (como, por exemplo, a terceira lei de Kepler) foi repetidas vezes exposta
nas minhas palestras, a partir da época em que estive na Nova Zelândia. Uma dessas palestras simulava
a correcção de uma pretensa lei fenomenal (veja-se o artigo de 1941 que se refere ao meu livro The
Poverty o f Historicism, 1957, 1960, nota às pp. 134 e segs.). Outra dessas palestras foi publicada
no volume de Simon Moser intitulado Gesetz und Wirklichkeit (1948), 1949 (ver sobretudo as
pp. 57 e segs.), e republicado em Hans Albert, Theorie und Realitüt, 1964 (ver em especial a p. 100),
do qual se publica uma tradução inglesa, «The Bucket and the Searchlight: Two Theories o f Know­
ledge», em Objective Knowledge (é um apêndice deste livro). Esta minha ideia foi também o «ponto
de partida» (como ele afirma na p. 92) do artigo de Paul K. Feyerabend intitulado «Explanation,
Reduction and Empiricism» (in Herbert Feigl e Grover Maxwell, eds., Minnesota Studies in lhe
Philosophy o f Science 3, 1962), cuja referência [66] é relativa esta mesma secção (tal como ela foi
pela primeira vez publicada, na Ratio). Parece que os autores de vários artigos sobre assuntos apa­
rentados com este desprezaram o reconhecimento de Feyerabend.

165
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

Entendo por indução um argumento que nos leva, dadas algumas premissas
empíricas (singulares ou particulares) a uma conclusão universal, a uma teoria
universal, ou com certeza lógica, ou com «probabilidade» (no sentido em que
este termo se usa no cálculo de probabilidades).
O argumento contra a indução que aqui pretendo tornar a apresentar é muito
simples.
Muitas teorias que se pensou resultarem de indução (como a de Newton, por
exemplo) são na verdade inconsistentes com as suas pretensas premissas induti­
vas (parciais), como se mostrou há pouco.
Mas se assim é, então a indução entra em falência, em todos os sentidos
importantes. Isto quanto à indução não-probabilística.
Quanto a um argumento indutivo probabilístico: segundo o cálculo de pro­
babilidades, se nos for dado um certo número de premissas indutivas consis­
tentes, então qualquer conclusão inferida que seja inconsistente com elas, só pode
ter, relativamente a essas premissas, uma probabilidade de zero.
3) A teoria de Newton era, sem dúvida, muito devedora da de Galileu e da
de Kepler; tanto, que Newton as via como premissas indutivas (parciais) da sua
teoria.
A teoria galilaica dos corpos em queda livre compreendia uma constante,
g, a constante de aceleração. Da teoria de Newton segue-se que g não é uma
constante, mas sim uma variável, dependente (a) da massa do corpo que exerce
atracção (a Terra, no caso de Galileu) e (b) do quadrado da distância ao centro
da massa.
Logo a teoria de Galileu é inconsistente com a de Newton.
É claro que, pressupondo que só consideramos os corpos em queda livre que
estão muito perto da superfície da Terra, de tal maneira que estão quase todos
à mesma distância do centro da Terra, podemos explicar por que é que g parece
(eroneamente) ser uma constante.
A situação com as leis de Kepler é muitíssimo semelhante.
Para todos os sistemas de dois corpos em que um deles seja muito pesado
e o outro insignificantemente leve, podemos derivar as três leis de Kepler da teoria
de Newton, e, assim, explicá-las. Mas como Kepler formulou as suas leis para
um sistema de muitos corpos, constituído pelo Sol e por vários planetas, esse
sistema, do ponto de vista da teoria de Newton, não é válido. Não podería, por­
tanto, formar nem um sistema completo nem um sistema parcial de premissas
(indutivas ou dedutivas) da teoria de Newton.
Isto quanto a uma derivação indutiva ou dedutiva da teoria de Newton a
partir da teoria de Kepler ou da de Galileu.
4) É claro que foi para a teoria de Newton um sucesso decisivamente impor­
tante poder explicar as teorias de Galileu e de Kepler: quer isto dizer, que essas
teorias pudessem ser deduzidas da de Newton dentro de certos supostos simpli-
ficativos (e, para falar com rigor, falsos).

166
A ABORDAGEM CRÍTICA

Mas como as pretensas premissas indutivistas são, em rigor, inconsistentes


com as pretensas conclusões indutivistas, é altamente enganador, neste caso,
falar-se de uma inferência indutiva, ou de uma relação probabilística indutiva.
5) Este tipo de situação é típico da história das ciências. A relação entre a
teoria da gravitação de Newton e a de Einstein é outro exemplo muito parecido
e importante de um caso desses.
6) Tanto quanto me é dado saber, até agora não se deu nenhuma resposta
adequada a este argumento, especialmente por parte dos defensores de qualquer
das teorias probabilísticas da indução que circulam.

16 — Dificuldades do realismo metafísico. Por um realista metafísico

Não seria correcto abandonar o tópico do realismo metafísico sem, pelo


menos, fazer uma referência às dificuldades dessa posição. Essas dificuldades
são sérias. A mim parece-me que põem problemas insolúveis. E, no entanto,
são de uma natureza tal que não afectam minimamente a minha fé no realismo.
Estão num plano diferente, por assim dizer, do dos problemas e argumentos
com que posso sustentar a minha fé no realismo. É talvez um plano menos racio­
nal — um plano em que os argumentos se tornam de certo modo vagos e menos
tratáveis.
Newton foi levado, pela sua teoria da acção à distância, à crença de que o
espaço era o sensorium de Deus. O argumento é, de certo modo, fantástico,
sem dúvida; mas é mais sério do que parece à primeira vista. É que a dificul­
dade é muito concreta. As distâncias no Universo são imensas. A acção à dis­
tância significaria que os efeitos gravitacionais eram, como a Divindade, omni-
presentes no mundo inteiro. Newton, tal como Einstein, sentiu-se incapaz de
aceitar a acção à distância como sendo uma propriedade da mecânica da natu­
reza. Sentiu o mistério dela e atribuiu-a a Deus.
Einstein resolveu este problema, ou pelo menos assim parece, com a sua teoria
segundo a qual as perturbações gravitacionais tornam-se difusas com a veloci­
dade da luz. Esta solução é altamente satisfatória, especialmente do ponto de
vista da nossa discussão da secção anterior: indica uma unificação possível das
teorias da luz e da gravidade, e fá-lo interpretando a luz e as perturbações gra­
vitacionais em termos de propriedades estruturais — propriedades de campo —
do Universo, do nosso mundo.
E, no entanto, defrontamo-nos ainda com o problema de Newton. Porque
se mantém uma questão: e essas propriedades estruturais do nosso mundo? Elas
são as mesmas, julgamos nós, em toda a parte e em todos os tempos. Como
poderemos compreender isto?
Quando falamos de propriedades estruturais do nosso mundo, estamos a falar
do Mundo, pelo menos metaforicamente, como se ele fosse uma coisa, como

167
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

um cristal, um balão ou talvez uma máquina. Mas, segundo a actual teoria física,
as propriedades estruturais de um cristal, de um balão ou de uma máquina
devem-se a interacções entre as suas partes; e essas insteracções envolvem velo­
cidades finitas, até à velocidade da luz (inclusive). As interacções preservam a
forma do cristal [keep the crystal in shape, N. do T.]; determinam a pressão
de gás no balão; mantêm a máquina unida.
Mas as propriedades do mundo que descrevemos através de leis da natureza
não podem ser entendidas desta maneira. Não podem, parece, ser explicadas
como devendo-se à interacção, já que são a base de qualquer interacção. São
— essa é a sua característica mais profunda — as mesmas pelo mundo todo,
em qualquer lugar e em qualquer momento: são omnipresentes. E assim o pro­
blema de Newton surge de novo.
Além disso, a estrutura das várias coisas que referimos pode ser compreen­
dida, ou explicada, em termos de leis. Mas a estrutura do Mundo difere dessa
nisto: é que ela é o que a lei descreve, não o que a lei explica. Esta dificuldade,
porém, é menos grave, pois podemos explicar as leis — e, assim, a estrutura
do Mundo — através de leis mais profundas: aqui é de grande utilidade o facto
de se ter abandonado a teoria essencialista da explicação suprema. Além disso,
esta é precisamente a altura de nos lembrarmos de que não podemos tornar­
mos vítimas da nossa própria metáfora; que «a estrutura do nosso mundo» será
apenas uma metáfora, concebida para nos ajudar a divisar aquilo que as leis
descrevem; que essa metáfora estava destinada a falhar algures; e que é muito
bom ter descoberto em que ela falha.

Deveria ter-se presente tudo isto. Mas isso não resolve, ainda assim, a difi­
culdade de Newton. Devemos, julgo eu, aceitar a existência de leis da natureza;
mas fazê-lo, receio bem, como um mistério que se tornou talvez ainda mais impe­
netrável de Einstein para cá; pois as próprias leis da natureza, que postulam,
segundo Einstein, que não há efeitos que se possam difundir com velocidades
superiores à da luz, fazem com que seja impossível compreender a omnipresente
homogeneidade estrutural do Mundo.
A teoria do Universo em expansão pode aqui ser de algum auxílio; mas se
se suposer que um segundo (ou uma fracção de segundo) após o instante zero
o raio do Mundo era da ordem de muitos anos-luz. (Que não se pudesse, nesse
caso, falar de «equilíbrio térmico» parece-me perfeitamente evidente.)
Muitas vezes se disse que — para usar as palavras de Wittgenstein — «Não
é o como o Mundo é que é místico, mas sim que ele seja» [«Not how the world
is, is the mystical, but that it is», N. do T .]129. Mas a nossa discussão mostra
que o problema de como o Mundo é — o facto de ele ter uma estrutura, ou
de as suas regiões enormemente distantes estarem todas submetidas às mesmas

129 L. Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus, 6.44.

168
A ABORDAGEM CRÍTICA

leis estruturais — parece ser inexplicável em princípio e, por isso, místico, se


quisermos usar este termo. Este parece, em todo o caso, ser o embaraço em que
o realista se encontra. O idealista pode encontrar uma saída — uma explicação
por meio da qual pode reduzir este mistério ao da pura existência do Mundo.
Porque pode dizer, como Kant, que o nosso intelecto impõe as suas leis à natu­
reza; ou, nas palavras de Wittgenstein, que «só as ligações tipo-lei são pensá-
vró»130. Ainda que o realista possa talvez estar de acordo, pelo menos em parte,
com estas idéias, elas não o ajudam minimamente a explicar ou a entender por
que é que, a haver um mundo, teria de ser um mundo pensável, regulado por
leis — um mundo compreensível para algum intelecto; um mundo habitável para
a vida.
Mais alguns exemplos da dificuldade poderão, talvez, ser úteis. Podemos
adoptar a terminologia de Comte e de Mill, que distinguem dois gêneros de lei
ou de regularidade de sucessão e regularidades de coexistência. As leis de suces­
são são as leis «causais» em que o tempo desempenha um papel essencial, por
exemplo as leis que determinam mudanças (acelerações, por exemplo) do estado
de um sistema. As leis de coexistência são, por exemplo, as leis que descrevem
as regularidades anatômicas ou estruturais de um animal, de uma molécula ou
de um átomo.
Ora, as leis estruturais de coexistência de animais, moléculas ou até de áto­
mos podem, em princípio ser reduzidas a leis «causais» — às leis causais de
acordo com as quais aquelas estruturas são produzidas e mantidas (relativamente)
estáveis por algum tempo. Parece que somos capazes de compreender, pelo
menos em princípio, as condições de estabilidade de uma molécula, por exem­
plo, graças à teoria de ressonância; isto é, de uma interacção causai das partes
constituintes. Mas não entendemos tais leis estruturais, ou leis de coexistência,
como sendo a constância absoluta da carga ou massa electrónica; ou, de um
modo mais geral, como a absoluta identidade qualitativa e quantitativa das pro­
priedades das partículas elementares. Estas, não se pode entendê-las, parece,
como sendo devidas a interacção: segundo a relatividade geral, não pode haver
interacção niveladora [equalizing, N. do T.] entre cargas electrónicas simultâ­
neas cuja distância se pode contar por anos-luz.
Poderiamos talvez um dia derivar, e explicar, as condições de equilíbrio de
electrões e de outras partículas elementares de uma maneira aparentemente não
totalmente diferente da maneira como explicamos as condições de equilíbrio das
moléculas: isto é, em termos de «leis de sucessão» causais — em termos, diga­
mos, de equações de campo que determinam um espectro de soluções discretas.
Mas significaria isso que teríamos ultrapassado o dualismo entre leis de suces­
são e leis de coexistência, reduzindo estas últimas às primeiras? De modo algum,
pois, em vez de nos preocuparmos com a inexplicabilidade do facto — da lei

130 Loc. cit., 6.361.

169
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

estrutural — de que todos os electrões no nosso vasto mundo parecem ter, sem
se influenciarem causalmente uns aos outros, absolutamente a mesma carga,
teríamos então de nos preocupar com o facto de todas as partes do nosso vasto
mundo serem governadas pelas mesmas leis determinantes de identidade das car­
gas electrónicas. E esse facto estrutural — que é, evidentemente, o mesmo de
há pouco, só que expresso de maneira diferente — parece manifestamente estar
para lá de qualquer esperança de alguma vez vir a ser causalmente explicado,
já que qualquer explicação causai teria de ser em termos de leis exactamente
iguais àquelas cuja validade universal gostaríamos de explicar a de compreender.
Assim, a afirmação da universalidade ou constância das nossas leis causais
ao longo do espaço (e do tempo) equivale à afirmação de uma regularidade estru­
tural — uma regularidade de coexistência que parece ser, por princípio, causal­
mente inexplicável, já que não pode ser explicada por nenhuma lei causai, ou
lei de sucessão. De facto, quando falamos de uma lei de sucessão, pretendemos
dizer que todas as sucessões, incluindo todas as sucessões coexistentes, apresen­
tam a mesma regularidade, a mesma estrutura. Vamos, assim, uma vez mais,
que a homogeneidade estrutural do Mundo pode resistir a qualquer explicação
«mais profunda»: continua a ser um mistério.
Não acho que se possa resolver esse mistério pensando que o Mundo é o
que é por uma espécie de necessidade lógica. A esperança de reduzir as ciências
naturais à lógica parece-me absurda e repelente. Nem tão pouco acho que o mis­
tério possa ser resolvido pelo idealismo. O idealismo, nas suas diversas formas,
especialmente o convencionalismo e o instrumentalismo, oferece soluções; mas
essas soluções parecem, com toda a evidência, não ser verdadeiras, e é melhor
defrontarmo-nos com um mistério do que tentar fugir-lhe com falsas soluções,
especialmente se elas forem de pouca valia.
Considere-se a engenhosa solução de Kant — que o nosso intelecto não lê
as leis no livro aberto da natureza, mas impõe as suas próprias leis da natu­
reza. Isto é verdade, até certo ponto; as nossas teorias são da nossa própria
lavra, e não somos capazes nunca de descrever factos empíricos (ou de lhes
reagir de outro modo) sem os interpretarmos em termos das nossas teorias (ou
das nossas expectativas, talvez inconscientes). Mas isto não quer dizer, como
Kant julgava, que as leis da natureza, como a de Newton, sejam válidas a priori
e irrefutáveis, ainda que seja verdade que nós as impomos àqueles mesmos fac­
tos empíricos a que teríamos de recorrer para uma refutação. Pelo contrário,
aprendemos com Einstein que o nosso intelecto pode formar, pelo menos a
título de ensaio, teorias alternativas; que o nosso intelecto é capaz reinterpre-
tar alternativamente os factos nos termos de cada uma dessas novas teorias;
que, na competição dessas teorias, podemos decidir livremente, sondar a sua
profundidade e ponderar o resultado da nossa crítica, incluindo os testes que
tivermos feito; e que só deste modo é que podemos esperar aproximarmo-nos
da verdade.

170
A ABORDAGEM CRÍTICA

A epistemologia de Kant também é refutada, julgo eu, pelo próprio facto


de ser, mas só dentro de certos limites, altamente bem sucedida. Kant julgava
que nós estávamos equipados com uma aparelhagem mental, com um sistema
digestivo psicológico e talvez fisiológico que nos permitia digerir os estímulos
que, no mundo exterior, alcançavam os nossos sentidos, e julgava por nós, ao
digerir esses estímulos, ao assimilá-los e absorvê-los, lhes impunhamos as carac­
terísticas estruturais daquela aparelhagem; isto é, era o cunho [imprint, N. do T.]
do nosso espírito neles que dava origem às verdades válidas a priori acerca do
nosso mundo. Ora, é inegável que haja verdades dessas geneticamente a priori.
Mas essas verdades, curiosamente são pouco importantes. É que nós não somos
obrigados a interpretar o mundo das coisas nos seus termos; pelo contrário, facil­
mente nos apercebemos do seu carácter subjectivo, e as tratamos como elas mere­
cem. Alguns excelentes exemplos deste mecanismo kantiano são fornecidos por
certas ilusões de óptica regulares e inevitáveis. Outro exemplo é-nos fornecido
pela ordem das cores; quer isto dizer, pelo facto de sentirmos o vermelho como
sendo mais parecido com o laranja, com o amarelo, com o roxo e com o azul
do que com o verde; o amarelo mais parecido com o verde e com o vermelho
do que com o azul, etc. ... São verdades a priori: pode ser um facto empírico
que nós percebamos as cores — que não sejamos cegos para as cores; pode tam­
bém ser um facto empírico que o nosso mecanismo de percepção das cores se
baseie numa componente vermelho-verde e numa amarelo-azul e não numa com­
ponente vermelho-azul e numa amarelo-verde (nesta frase estou a usar os nomes
de cores para designar comprimentos de onda e não percepções). Mas uma vez
que nós vemos a cores graças a este mecanismo, elas são necessárias e intrinse-
camente ordenadas por essas relações de semelhança e dissemelhança.
A explicação para tudo isto é, sem dúvida, o mecanismo digestivo psicofi-
siológico kantiano de que estamos dotados. A nossa fisiologia explica aquelas
semelhanças. Vemos graças a uma componente vermelho-verde e uma amarelo-
-azul; e, se uma delas falar, somos cegos para as cores, ou cegos para vermelho-
-verde, ou cegos para amarelo-azul. Fisiologicamente o vermelho não se pode
misturar com o verde, nem o amarelo com o azul. Tornam-se, assim, opostos.
As outras cores podem misturar-se, podendo uma cor transformar-se, por tons,
noutra, porque ambas as componentes podem ser estimuladas independentemente
ao mesmo tempo.
Kant tinha razão quanto a isto. Mas a questão acaba por ser relativamente
pouco importante. Ninguém é arrastado por estas relações, válidas a priori, entre
cores para impor as respectivas leis à natureza, ao mundo das coisas coloridas.
Nós nem julgamos que as coisas vermelhas tenham, consideradas do ponto de
vista físico, uma maior afinidade com as coisas amarelas ou azuis do que com
as coisas verdes, nem achamos que haja aqui leis da natureza para descobrir —
a não ser, é claro, leis da nossa própria psicologia e da nossa fisiologia. Mas,
segundo Kant, essas leis do nosso aparelho mental digestivo são por nós impos­

171
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

tas ao Mundo, no sentido em que estão destinadas a tornarem-se leis «objecti-


vas» das coisas que percebemos.
As ilusões de óptica pertencem à mesma categoria. E poder-se-ia conjectu-
rar que a nossa crença em coisas reais tem, de igual modo, bases fisiológicas.
Mas neste caso, os mecanismos fisiológicos e as crenças que deles resultam (resul­
tando ambos, podemos nós conjecturar, de uma longa evolução e adaptação)
parecem resistir à crítica e vencer na competição com teorias alternativas.
E quando nos enganam, como no cinema — sobretudo nos desenhos anima­
dos — não levam adultos a afirmar a sério que têm diante deles um mundo de
coisas. Não somos, assim (como Kant pensou, e Hume também), vítimas da
nossa «natureza humana», do nosso aparelho mental digestivo, da nossa psico­
logia ou da nossa fisiologia. Não somos prisioneiros perpétuos do nosso espí­
rito. Podemos aprender a criticár-nos, e, deste modo, a transcender-nos. Temos
as nossas limitações; mais somos mais livres do que Kant pensava.
Considerações semelhantes se aplicam a outras formas de escravidão humana,
como a tendência para aceitar os valores, as crenças e os dogmas do grupo social
a que cada um de nós pertence. Esta tendência é forte e também pode ter uma
base fisiológica. Mas podemos romper com ela. Para o fazer, poderemos preci­
sar, a princípio, do estímulo de um choque de culturas ou de uma conversão.
Mas podemos, mais tarde, desenvolver o hábito da discussão inquiridora, crí­
tica, racional. A discussão racional e o pensamento crítico não são como os sis­
temas mais primitivos de interpretação do Mundo; não são uma estrutura a que
estejamos presos e atados. Pelo contrário: são os meios que temos para sair da
prisão para fora — para nos libertarmos.
Hume disse que as crenças humanas fundamentais não eram mais do que
hábitos irracionalmente adquiridos que os homens não podiam superar, estando
destinados a obedecer-lhes. Kant, num certo sentido, aceitou esta ideia pessi­
mista, se bem que a sua «revolução coperniciana» lhe tenha provocado uma vira­
gem optimista. Kant disse que como o Mundo objectivo da experiência era um
mundo formado pelo nosso intelecto envolvido na experiência [our experien-
cing intellect, N. do T.] (que desempenhava o seu papel até a nível da percep­
ção), as nossas crenças acerca do mundo podiam ser objectivamente verdadei­
ras e racionais: se bem que pudessem ser descritas como hábitos, não eram apenas
hábitos, já que a nossa razão tinha o seu papel na formação dessas crenças, tanto
quanto os nossos sentidos e as nossas associações. Qualquer desenvolvimento
posterior desta linha de pensamento terá de ter em atenção o facto de que o
crescimento do conhecimento consiste fundamentalmente na revisão crítica das
nossas crenças; um facto que estabelece que nós não estamos presos às nossas
crenças fundamentais do modo tão intenso que Hume e Kant consideravam.
Estabelece também que tanto Hume como Kant tinham, em parte, razão. Hume
tinha razão ao estar céptico quanto à realidade das nossas crenças, o que é
demonstrado pelo facto de nós termos superado algumas delas (o que sugere

172
A ABORDAGEM CRÍTICA

a possibilidade de transcendermos outras). Mas, sendo, como era, um grande


crítico, não tinha razão em menosprezar, justamente, o significado da nossa
capacidade para superar as nossas crenças criticando-as. E Kant tinha razão ao
assinalar, contra Hume, que o raciocínio [reasoning, N. do T.] estava envol­
vido na formação das nossas crenças — até mesmo das nossas crenças habituais.
Tinha razão, além disso, ao assinalar o significado do crescimento do nosso
conhecimento, e em dizer que qualquer crescimento precisa de uma estrutura
teórica que tem de ser anterior a esse crescimento. Mas não tinha razão em jul­
gar que essa estrutura, por sua vez, não podia de maneira nenhuma ser supe­
rada, sendo, portanto, válida a priori. Para continuar a nossa história, pode­
riamos talvez dizer que Hegel tinha razão ao assinalar (se é que podemos
interpretar assim a sua obscura doutrina) que também a estrutura estava sujeita
ao crescimento, podendo ser superada. Mas não tinha razão ao sugerir (mais
uma vez: se é que podemos interpretar assim a sua doutrina) que a herdada era,
por essência, relativa a alguma estrutura, não sendo a nossa crítica activa, a nossa
descoberta de contradições, de refutações que nos forçava a mudar de idéias
ou de crenças, mas que eram essas idéias que se superavam a si mesmas, de tal
maneira que nós estávamos dependentes das idéias em evolução, em vez de as
idéias estarem dependentes de nós, da nossa crítica racional. Isto faz com que
a nossa crítica dependa da estrutura historicamente herdada e leva, assim, mais
uma vez, ao relativismo — aouelativismo-histórico.
Esta filosofia da escravidão humana exerceu um estranho fascínio sobre a
teoria do conhecimento pós-kantiatia. (Desempenhou um papel capital no declí­
nio do racionalismo e do liberalismo131.) Tudo o-que Kant pudesse ter feito para
corrigir Hume foi desfeito pela doutrina de que os nossos hábitos de crença
— os nossos valores, as nossas atitudes, os nossos dogmas, e, desse modo, o
nosso mundo da experiência — dependem do período histórico em que nos
encontramos ou do grupo social a que pertencemos (Hegel, Marx). Esta dou­
trina, que se tornou moda às mãos das ciências sociais modernas, é, evidente­
mente, verdadeira enquanto não lhe atribuímos nenhum significado epistemo-
lógico particularmente profundo. É verdade que nós dependemos da nossa
educação, das nossas crenças, do nosso conhecimento, das nossas expectativas;
mas também é verdade que não dependemos completamente disso. Não há
dúvida de que só lentamente e parcialmente é que nos podemos libertar dessa
escravatura; mas não há um limite natural desse processo de libertação, do cres­
cimento do conhecimento. É claro que é possível negar que alguma vez chegue­
mos a poder escapar aos nossos grilhões intelectuais: é possível afirmar que nos
enganamos se pensarmos que estamos menos presos pela estrutura dos nossos

131 Este tópico é desenvolvido, se bem que dirigido sobretudo à filosofia pré-kantiana, na minha
palestra intitulada «On the Sources of Knowledge and of Ignorance», Proceedings o f the British
Academy, 46, 1960, pp. 38-71; publicado depois em Conjectures and Refutations, pp. 3-30.

173
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

prejuízos do que as pessoas estavam há dois mil anos — que a estrutura, a moda
mudou, mas não o seu poder sobre nós. Ainda que esta perspectiva (em voga)
sobre a questão possa ser irrefutável, é, muito simplesmente, falsa. Do Renas­
cimento para cá, tem havido um aumento notável na atitude crítica.
Uma forma especial desta filosofia da escravidão humana é o relativismo
linguístico, uma perspectiva que foi apresentada de modo muitíssimo rigoroso
por Benjamin Lee Whorf132. No contexto em que ora nos encontramos, essa
perspectiva pode ser formulada como sendo a de que as nossas linguagens huma­
nas podem incorporar (ou não incorporar) na estrutura de cada uma delas cren­
ças, teorias e expectativas, a um ponto tal que não somos capazes de nos esca­
parmos a esses grilhões ideológicos por meio da crítica, já que a crítica tem
sempre de utilizar a linguagem. Nesta formulação, o uso do plural, «linguagens»
pode ser uma indicação de como sair desses liames: eles não são tão fortes quanto
se poderia pensar, pois pode ser possível aos homens libertarem-se uns dos outros
criticando uma linguagem, ou sistema de crenças noutra linguagem ou sistema
de crenças (choque de culturas). Não há razão nenhuma para se pensar, como
algumas pessoas fazem, que Whorf, ou algum outro, demonstrou a incomen-
surabilidade entre os vários conjuntos de crenças (ou que todas as asserções são
relativas a conjuntos irredutivelmente diferentes de crenças fundamentais).
Outros foram levados pelas fascinantes análises de Whorf a pensar que, como
todas as linguagens têm algo em comum, elas hão-de ter um conjunto comum
de crenças que deve ser indetectável pelo método da crítica mútua que é, por
essência, dependente da divergência linguística. É certo que isto é verdade até
um certo ponto; e pode ser expresso de um modo mais simples dizendo que nós
havemos sempre de albergar prejuízo de que não temos consciência. Mas isto
não significa que não possamos detectar, por vezes, por um método ou por outro
(ou por método nenhum), alguns dos nossos prejuízos, e ver-nos livres deles atra­
vés da crítica. Nem tampouco significa que este processo, talvez lento mas inter­
minável, de libertação intelectual possa ser acelerado pela prática do pensamento
crítico e da discussão racional.
A discussão racional não deve, porém, ser praticada apenas como um jogo
para passar o tempo. Ela não pode existir se não houver problemas reais, se
não houver a missão de descoberta que nos impomos: sem uma realidade a des­
cobrir — uma realidade a explicar por leis universais estruturais.
Eis-nos, assim, de volta ao nosso problema, e ao problema de Newton. O
idealismo dá-nos uma saída fácil, mas, até mesmo na forma kantiana, dificil­
mente nos dá uma solução convincente. Em todo o caso, nós, os realistas, temos
de viver com a dificuldade. Mas devíamos enfrentá-la133.

132 B. L. Whorf, Language, Thought and Reality, 1956.


133 Quando escreví esta frase, achava-me convencido de que «o problema de Newton», como
eu aqui lhe chamei, era insolúvel — ou que tinha, quando muito, uma insatisfatória solução reli-

174
A ABORDAGEM CRÍTICA

Com isto, concluo a discussão metafísica que iniciei na secção 7, animado


por um trecho de Einstein que aí seleccionei como mote; e com isto concluo
também a discussão da «quarta fase» — a fase metafísica — do problema da
indução.

giosa, algo de certo modo na linha do próprio Newton. Eu, pessoalmente, não tinha esperanças
de o resolver, nem intenção sequer de o atacar. Foi, por isso, surpresa completa para mim quando,
mais tarde, no decurso de uma tentativa para reinterpretar a relatividade geral no sentido do in-
determinismo, esbarrei contra o que me pareceu ser uma solução de parte —r uma pequeníssima
parte — do problema de Newton. Como resultado disso, já não estou convencido da sua insolubili­
dade. (Veja-se também O Universo Aberto, Argumentos a Favor do Indeterminismo, volume n
do Pós-escrito, secção 19; e A Teoria dos Quanta e o Cisma em Física, volume m do Pós-escrito,
secção 27.)

175
CAPÍTULO II

DEMARCAÇÃO

17 — O significado do problema da demarcação

Depois de ter, uma vez mais apresentado a minha solução do problema'da


indução, tentei segui-lo nas suas ramificações até à sua fase metafísica, como
lhe chamei — muito para lá do seu âmbito original. Mas a minha exploração
das ramificações do problema da indução estaria incompleta se desprezasse o
problema da demarcação entre ciência e metafísica. De facto, há uma questão
que quase sempre se me põe mal eu tomo consciência de que na verdade não
acredito na indução, e que não acredito sequer que a indução desempenhe um
papel significativo nas ciências. Essa questão é a seguinte: abandonando-se a
indução, como é que se pode distinguir as teorias das ciências empíricas das expe-
culações pseudocientíficas, não científicas ou metafísicas?
Este é o problema da demarcação. Ele resolve-se, sugiro eu, aceitando a esta­
bilidade, a refutabilidade ou a falsificabilidade como sendo a característica dis­
tintiva das teorias científicas. A partir da formulação que foi dada, dificilmente
se poderá avaliar o seu significado. À primeira vista, ele pode até parecer antes
ser uma questão pedante do que um problema com verdadeiro interesse. Pois
o que significa um nome, uma distinção, uma classificação ou uma demarca­
ção? Quando ansiamos por saber, quando o nosso objectivo é aprender algo
acerca do Mundo, não nos preocupamos muito com os compartimentos ou
departamentos que possam ser atribuídos ao que virá a ser o nosso conhecimento.
Tal como eu disse na introdução, assuntos e outras divisões do saber são fictí­
cios e enganadores, ainda que possam ser de alguma conveniência enquanto uni­
dades administrativas. No que toca à ciência e à metafísica, não acredito de
maneira nenhuma em algo como uma demarcação clara. A ciência foi sempre,
em todas as épocas, profundamente influenciada por idéias metafísicas. Certas
idéias e problemas metafísicos (como o problema da mudança, ou o programa

177
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

cartesiano de explicar toda a mudança através de uma acção a distâncias a per­


der de vista) dominaram, durante séculos, o desenvolvimento da ciência enquanto
idéias reguladoras; ao passo que outras (como o atomismo, uma outra tenta­
tiva de resolver o problema da mudança1) se transformaram gradualmente em
teorias científicas. É claro que também houve desenvolvimentos na direcção
oposta: como os positivistas gostam de dizer, há um número considerável de
doutrinas metafísicas que se pode demonstrar serem ecos de doutrinas da ciên­
cia absoletas.
Pode-se exemplificar isto graças à história do próprio positivismo. Pode dizer-
-se que o próprio positivismo e fenomenalismo de Mach foi, na sua origem, uma
teoria científica respeitável, concebida para explicar a falta do sucesso do ato-
nismo e de outras teorias da estrutura da matéria, através da hipótese de que
muito simplesmente não havia nenhuma entidade física tal como a matéria ou
a «substância». Mach podia apontar o sucesso da física fenomenalista — sobre­
tudo da termodinâmica fenomenalista — e as dificuldades lógicas fundamen­
tais que entravavam o caminho das tentativas de Boltzmann para explicar a
segunda lei em termos de uma estrutura atômica ou molecular. A solução pro­
posta por Mach implicava que esses problemas, e todos os outros pertencentes
à «substância» ou à «matéria», fossem pseudoproblemas, incluindo, claro, todos
os problemas respeitantes à «estrutura da matéria». Mas devido ao trabalho de
Einstein de 1905 sobre o movimento browniano, estabeleceu-se o pleno signifi­
cado das teorias de Maxwell e de Boltzmann. O movimento browniano alcan­
çou, através da interpretação de Einstein, o estatuto de um experimento cru­
cial. E, como o próprio Einstein assinalou, a existência de movimento browniano
refutava a versão fenomenalista da termodinâmica2. Com isto, mostrou-se que
o problema da estrutura atômica da matéria era um problema físico genuíno.
Assim, a partir de 1905, o positivismo e fenomenalismo de Mach tornou-se cada
vez mais metafísico, num dos sentidos preferidos pelos positivistas: tornou-se
um caso de física obsoleta que os cientistas enquanto cientistas tinham abando­
nado, mas que continuava a perdurar entre filósofos, e entre cientistas, quando
estes se transformavam em filósofos — ou em apologetas, o que eles de vez em
quando fazem quando as suas teorias começam a ficar em apuros (veja-se tam­

1 Veja-se a secção 23, mais adiante (texto antes da nota 37).


2 Este é, assim, outro caso de uma teoria que corrige a sua própria base observacional; ver
a secção 15, mais atrás, sobretudo o texto a seguir à nota 125, e ainda o meu artigo «Irreversibility,
or Entropy since 1905», in British Journal Phil. Science 8, 1957. [Ver também Popper, «The Arrow
of Time», in Nature, 17 de Março de 1956, p. 538; «Irreversibility and Mechanics», in Nature, 18
de Agosto de 1956, pp. 381-382; «Irreversible Processes in Physical Theory», in Nature, 22 de Junho
de 1957, pp. 1296-1297; «Irreversible Processes in Physical Theory», in Nature, 8 de Fevereiro de
1958, pp. 402-403; «Time’s Arrow and Entropy», in Nature, 17 de Julho de 1965, pp. 233-234;
«Time’s Arrowand Feeding on Negentropy», in Nature, 21 de Janeiro de 1967, p. 320; «Structural
Information and the Arrow of Time», in Nature, 15 de Abril de 1967, p. 322; e Unended Quest,
op. cit., secção 35. Ed.]

178
A ABORDAGEM CRÍTICA

bém a secção 113 mais adiante, isto é, a secção 21 de A Teoria dos Quanta e
o Cisma em Física, volume iii do Pós-escrito.)
Tal como estes exemplos demonstram, não pode haver uma demarcação clara
entre ciência e metafísica; e o significado da demarcação se é sequer que algum
há, não haveria ser sobreestimado. Apesar disto, defendo que os problema da
demarcação tem um elevado significado. Tem-no não porque haja algum mérito
intrínseco em classificar teorias, mas sim porque uns quantos e genuínos e impor­
tantes problemas estão intimamente ligados a ele; na verdade são todos os pro­
blemas da lógica da ciência.
No início desta secção, fiz referência a uma dessas ligações: à ideia de que
o método indutivo nos dá um critério de demarcação. Outra ligação anterior­
mente referida — o problema da discutibilidade das hipóteses científicas, e,
portanto, da racionalidade dessas hipóteses — está é claro ligado com o pro­
blema da testabilidade das hipóteses científicas. Podemos considerar a testa-
bilidade um certo tipo de discutibilidade: discutibilidade por meio de argu­
mentos empíricos, argumentos que apelam à observação e à experimentação.
Uma terceira ligação ao problema da indução é apresentada pela maneira
como eu distingui a quarta fase, ou fase metafísica do problema da indução
das outras três fases lógicas e metodológicas desse problema. Na sua quarta
fase — isto é enquanto problema de saber se existem leis naturais verdadei­
ras — esse problema assumiu um carácter marcadamente diferente do das fases
anteriores, e essa diferença reclamou uma elucidação urgente. Para essa elu­
cidação, o carácter existencial do problema deu-nos a chave: os enunciados
puramente existenciais são impiricamente irrefutáveis. Ao discutí-los temos de
ter sempre presente a sua irrefutabilidade empírica. O facto de os enuncia­
dos e os problemas metafísicos poderem, não obstante, ser discutíveis (ainda
que de modo inconclusivo), tentei-o estabelecer pelo expediente simples de os
discutir.
O problema da demarcação está também, é claro, intimamente relacionado,
tanto histórica como logicamente, com aquele a que chamei, no começo da sec­
ção 2, o problema central da filosofia do conhecimento. Porque o problema
de como adjudicar ou decidir entre teorias ou crenças em competição leva, como
disse nessa ocasião, ao problema de decidir se é possível ou não justificar racio­
nalmente uma teoria; e isto, por sua vez, leva ao problema de distinguir entre,
ou de demarcar, teorias racionais e crenças irracionais, um problema que fre­
quentemente é identificado (talvez de forma um pouco irreflectida) com o pro­
blema de distinguir entre, ou de demarcar, teorias empíricas ou «científicas»
de teorias «metafísicas».
Assim, o problema da demarcação é mais do que uma questão de classificar
teorias para se ser capaz de lhes chamar ou «científicas» ou «metafísicas». Ele
dá, na verdade, acesso a alguns dos mais fundamentais problemas da teoria do
conhecimento, e, assim, da filosofia.

179
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

Mas o problema da demarcação tem também uma importância prática con­


siderável. Defrontei-me com este problema e com a sua solução muitos anos
antes de me ter começado a interessar pelo problema da indução e antes de ter
percebido aquelas ligações entre o problema da indução e o problema da demar­
cação a que acabei de me referir. Isto foi em 1919, quando comecei a suspeitar
das várias teorias psicológicas e políticas que reivindicavam o estatuto de ciên­
cias empíricas, em especial a «psicanálise» de Freud, a «psicologia individual»
de Adler, e a «interpretação materialista da história», de Marx3. A mim parecia-
-me que todas estas teorias eram defendidas de uma forma acrítica. Dispunha-
-se de um grande número de argumentos em favor delas. Mas a crítica e os argu­
mentos contrários a elas eram vistos como hostis, como sintomas de uma recusa
obstinada em admitir a verdade manifesta; e, por isso, eram enfrentados com
hostilidade e não com argumentos.
O que eu achava mais impressionante e mais perigoso nessas teorias era a
pretensão de elas serem «verificadas» ou «confirmadas» por um fluxo inces­
sante de provas observacionais. E, na verdade, assim que se abriram os olhos,
podia-se ver por toda a parte casos que constituíam verificações dessas teorias.
Um marxista não era capaz de olhar para um jornal sem encontrar em todas
as páginas, desde os artigos de fundo até aos anúncios, provas que constituíam
verificações da luta de classes; e encontrá-las-ia sempre também (e em especial)
naquilo que o jornal não dizia. E um psicanalista, fosse ele freudiano ou adle-
riano, diria sem dúvida que todos os dias, ou até de hora a hora, estava a ver
as suas teorias a serem verificadas por observações clínicas.
Mas seriam essas teorias testáveis? Estariam realmente essas análises mais
bem testadas do que, digamos, os horóscopos, frequentemente «verificados» dos
astrólogos? Que acontecimento, que se poderia conceber que, aos olhos dos seus
aderentes, as falsificasse? Não eram todos os acontecimentos imagináveis «veri­
ficações»? Era precisamente esse facto — o facto de que essas análises batiam
sempre certo, de que eram sempre verificadas — que impressionava os seus ade­
rentes. Comecei a pensar que essa aparente força era, na verdade, uma fraqueza,
e que todas essas «verificações» eram demasiadamente pouco válidas para serem
tomadas por argumentos.
O método de procurar verificações parecia-me pouco válido — parecia-me,
na verdade, ser o método típico de um pseudociência. Apercebi-me da necessi­
dade de se distinguir, tão claramente quanto possível, este método de um outro
método — o método de testar uma teoria tão severamente quanto se for capaz —
isto é, o método da crítica, o método de procurar casos que constituam falsifi­
cação.

3 Contei esta história a partir de um ângulo pouco diferente em «Philosophy of Science: A Per-
sonal Report». Ver também Unended Quest, secção 8.

180
A ABORDAGEM CRÍTICA

O método de procurar verificações não era apenas acrítico: promovia tam­


bém uma atitude acrítica quer em quem expunha quer em quem lia. Ameaçava,
assim, destruir a atitude da racionalidade, da argumentação crítica.
Freud era, de longe, o mais lúcido e o mais perssuasivo dos expositores a
que me estou a referir. Mas qual era o seu método de argumentar? Freud dava
exemplos; analisava-os, e mostrava que eles se encaixavam na sua teoria, ou que
a sua teoria podia ser descrita como sendo uma generalização dos casos anali­
sados. Por vezes apelava aos seus leitores para que suspendessem as suas críti­
cas, e indicava que iria responder a todas as críticas sensatas em ocasiões poste­
riores. Mas quando eu olhei um pouco mais de perto para uns quantos casos
importantes, descobri que as respostas nunca tinham chegado. De forma assaz
curiosa, porém, muitos leitores estavam satisfeitos.
Para mostrar que isto não são simples demonstrações ou acusações vazias
vou substanciá-las com algum pormenor através da análise da discussão que
Freud apresenta das teses fundamentais do seu extenso livro, A Interpretação
dos Sonhos, justamente considerado por ele e por outros a sua obra mais impor­
tante. Seria crítica a abordagem de Freud?

18 — Um caso de verificacionismo

«Se um doente, de outro modo altamente inteligente, rejeita uma


sugestão com motivos não muito inteligentes, então a sua lógica
imperfeita é prova da existência de um ... fo rte motivo para a sua
rejeição.»

SIGMUND FREUD

A finalidade desta secção é mostrar, analisando um caso famoso, que o pro­


blema da demarcação não é apenas um problema de classificar teorias em cien­
tíficas e não científicas, mas que a sua solução é uma necessidade urgente para
uma apreciação crítica das teorias científicas ou pretensamente científicas. Para
este fim, seleccionei a grande obra de Freud, A Interpretação dos Sonhos, por
duas razões. Primeiro, porque a minha tentativa de analisar os argumentos desta
obra desempenhou um papel considerável no desenvolvimento das minhas idéias
sobre a demarcação4. Em segundo lugar, porque, apesar de graves defeitos,
alguns dos quais vou tentar expor aqui, ele contém, para lá de qualquer dúvida

4 Outra teoria que desempenhou um papel semelhante (ver «Philosophy of Science: A Perso-
nal Report») foi o marxismo (ver Unended Quest, secção 8); mas enquanto discuti o marxismo com
grande pormenor em The Open Society, e o historicismo em geral em The Poverty o f Historicism,
não tinha ainda nenhuma análise promenorizada do método freudiano de lidar com os casos falsi­
ficadores e com as sugestões críticas.

181
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

razoável, uma grande descoberta. Estou, pelo menos, convencido de que há um


mundo do inconsciente, e de que as análises de sonhos que Freud dá neste livro
estão, no fundamental, correctas, ainda que, sem dúvida, incompletas (como
o próprio Freud salienta) e, necessariamente, de certo modo distorcidas. Digo
«necessariamente» porque até mesmo a observação «pura» nunca é neutra —
é necessariamente resultado de interpretação. (As observações são sempre colec-
cionadas, ordenadas, decifradas e ponderadas à luz das nossas teorias. É, em
parte, por esta razão que as nossas observações têm tendência para apoiar as
nossas teorias. Esse apoio tem pouco ou nenhum valor, a não ser que adopte-
mos conscientemente uma atitude crítica e que procuremos refutações das nos­
sas teorias, e não «verificações» delas.) O que é válido até mesmo para as mais
isoladas observações será válido também para a interpretação dos sonhos.
O. que me proponho fazer nesta secção é analisar o modo como Freud argu­
menta a favor da sua tese central em A Interpretação dos Sonhos.
O objectivo principal de Freud nesse livro é o de «provar que, na sua natu­
reza essencial, os sonhos representam realizações de desejos»5. Freud, é claro,
está consciente de que há uma objecção óbvia a essa teoria — a existência de
pesadelos e de sonhos de ansiedade; porém, Freud rejeita tal objecção. Freud
afirma, num trecho em que formula aquele que vai ser aqui o nosso problema
principal, o seguinte: «De facto, parece que os sonhos de ansiedade fazem com
que seja impossível afirmar o enunciado geral (baseado nos exemplos citados
no último capítulo) de que os sonhos são realizações de desejos; parecem, na
verdade, caracterizar um enunciado desses como sendo um absurdo. No entanto,
não há grande dificuldade em fazer face a essa objecção.»6 O método de fazer
face a essa objecção, explica Freud7, consiste em mostrar que aquilo que na sua
aparência (no seu conteúdo manifesto) parece ser um sonho de ansiedade, é,
na realidade (no seu conteúdo latente) a realização de um desejo. Isto conduz

5 Cf. Sigmund Freud, The Interpretation o f Dreams (publicado pela primeira vez em 1899),
traduzido e preparado por James Strachey, 1954, p. 127. Ver ainda as pp. 119 e 121. No que se
segue, traduzo, numa ou outra ocasião, directamente a partir de S. Freud, Gesammelte Schriften,
ii e iii, 1925. Posso dizer que uma análise das Conferências Introdutórias (1916-1917) teria levado
aos mesmos resultados. (Cf. sobretudo a décima quarta Conferência.) Para uma crítica psicanalí-
tica e um restabelecimento da tese principal de Freud, ver J. O. Wisdom, «A Hypothesis to Explain
Trauma-Re-Enactment Dreams», in Intern. J. o f Psycho-Anal. 30, 1949, pp. 13 e segs. Os trechos
de Freud que aí são citados completam os que são citados aqui. Cp. sobretudo a referência que
Wisdom faz nas pp. 13 e 15 (notas 2 e 8) a Freud, New lntroductory Lecturs, 1937, pp. 43-44,
em que Freud introduz, para explicar os sonhos de revivência de uma trauma [trauma-re-enactment
dreams, N. do T.], o conceito de realização de desejo tentada [«attempted» wish fulfilment; N. do T.]
«mas não considerou que isso», diz Wisdom na p. 15, «dissesse algo de essencialmente novo». Cp.
também a referência de Wisdom, na p. 14 (notas 4 e 5) à explicação que Freud dá dos «sonhos
dolorosos» [«painful dreams», N. do T.] explicando-os pela realização de desejos, mas de desejos
de punição, conforme se indica nas lntroductory Lectures, 1943, p. 185, e em Beyond the Pleasure
Principie, 1922, p. 38. Veja-se ainda a nota 24, mais adiante.
6 Op. cit., p. 135. (Os itálicos são meus.)
7 Loc. cit.

182
A ABORDAGEM CRÍTICA

Freud a uma modificação muito ligeira de sua tese principal respeitante à natu­
reza essencial dos sonhos, que ele formula da seguinte maneira: «Um sonho é
uma realização (disfarçada) de um desejo (suprimido ou recalcado)1.»
Freud reafirma, em repetidas ocasiões, o seu programa de revelar o conteúdo
latente de todos os sonhos de ansiedade como sendo realizações de desejos.
Assim, esse programa é reafirmado, por exemplo, na p. 550, e, de forma ainda
mais completa, na p. 557, em que se lê: «Não há, pois, dificuldade nenhuma
em ver que os sonhos desagradáveis e os sonhos de ansiedade são realizações
de desejos no sentido da nossa teoria, nem mais nem menos do que o são os
sonhos de satisfação simples.»89 Mas Freud nunca chega a realizar o seu pro­
grama; e no fim , acaba por o abandonar — sem porém explicitamente o dizer.
São as seguintes as provas desta afirmação.
Freud começa numa fase não muito adiantada do seu livro (na p. 157), a
discutir «os sonhos muito frequentes que parecem estar em contradição com a
minha teoria»10; e, quase logo a seguir, é-nos dado um ligeiro indício de que
o programa de reduzir os sonhos de ansiedade a sonhos de realização de dese­
jos recalcados poderá não conseguir passar de um sonho de desejo não reali­
zado; pois na p. 161 ficamos a saber que nos sonhos de ansiedade, a ansiedade
tem de ser separada do sonho, a cujo conteúdo só superficialmente é que está
associada (veja-se também a p. 162 e a nota de editor que lhe compete). Na
p. 236, ficamos a saber que a ansiedade «pode ser psiconeurótica.... Nesses
casos... aproximamo-nos do limite em que a finalidade de realização de desejos
própria dos sonhos deixa de funcionar.» (Os itálicos são meus; veja-se também
o final da p. 487.) Há, portanto, afinal, um limite. Na p. 580, Freud mostra-se
consciente de que até então esteve apenas a escapar-se à questão da redução dos
sonhos de ansiedade a sonhos de realização de desejos: «Estou a referir-me é
claro», disse ele, «à questão do sonho de ansiedade; e para que não se confirme
a impressão de que estou a tentar escapar-me às provas apresentadas por esta
testemunha principal contra a teoria da realização de desejos sempre que eu me
defronto com ela, vou agora dar, pelo menos, algumas sugestões para uma expli­

8 Op. cit., p. 160. A tese principal de Freud está intimamente relacionada cora uma outra que
também é fundamental (cp. pp. 123, 233 e segs.): a de que «a função» de um sonho, ou, em todo
o caso, a sua função «normal» é a de ser um guardião do sono, protegendo-o de contra perturba­
ções; ainda que, por vezes, ele possa também ter «de aparecer no papel de um perturbador do sono»
(p. 580).
9 Op. cit., p. 557. (Os itálicos são meus.) Compare-se esta citação com o texto relativo à nota 6,
atrás. Freud, porém, falara, antes deste passo, dos sonhos de ansiedade em termos muito diferen­
tes e menos confiantes, por exemplo, nas pp. 161 e 236 (ver adiante).
10 Op. cit., p. 157. A discussão dos «sonhos desagradáveis» continua nas pp. 556 e segs.; ver
a citação relativa à nota anterior. Por acaso, estou perfeitamente disposto a acreditar na hipótese
de Freud (p. 157) de que muitos dos seus doentes realizavam, nos seus sonhos, o desejo que tinham
de refutar a teoria de Freud. No entanto, com esta hipótese estamos a aproximar-nos perigosamente
de um estratagema convencionalista (cf. L.Sc.D ., secção 20), conforme vou tentar mostrar.

183
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

cação do sonho de ansiedade.»1112Mas as sugestões não são satisfatórias; pelo


menos, não satisfazem Freud. Porque após duas páginas das quais não emerge
nada de mais esclarecedor com respeito ao nosso problema do que uma repeti­
ção da velha afirmação de que «não há nada de contraditório na noção de que
um processo físico que gera ansiedade possa, não obstante, ser a realização de
um desejo», Freud abandona completamente a tentativa. Ele acaba por nos dizer,
na p. 582, que todo o tópico de sonhos de ansiedade recai inequivocamente «fora
da estrutura psicológica da formação de sonhos. Se não fosse pelo facto de o
nosso tópico ‘a teoria dos sonhos’ estar ligado à ansiedade pelo factor simples
da libertação do inconsciente durante o sono, estaria capaz de omitir qualquer
discussão dos sonhos de ansiedade e de evitar a necessidade de entrar, nestas
páginas, em todas as obscuridades que os envolvem».12 Na edição de 1911, mas
não nas edições seguintes, Freud resumiu numa única frase o seu repúdio pelo
seu próprio programa, um repúdio elaborado se bem que apenas implícito e apa­
rentemente inconsciente: «A ansiedade nos sonhos, gostaria de insistir, é um
problema de ansiedade e não um problema dos sonhos.»13
Nas quatro páginas seguintes, Freud discute, e em parte analisa, três sonhos
de ansiedade. A sua finalidade já não é provar que eles são realizações de dese­
jos, mas unicamente de apoio à sua afirmação «de que a ansiedade neurótica
resulta de fontes sexuais» (p. 582). Isto, com toda a evidência, arrasta consigo
a ideia de que a ansiedade está ligada a certos desejos. Mas não justifica a infe­
rência de que todos os sonhos de ansiedade tenham de ter uma natureza de rea­
lizações de desejos. (Esta inferência errada parece que foi retirada por alguns
dos leitores de Freud; mas deveria reparar-se no seguinte: é que Freud se limita
a sugerir que o primeiro dos três sonhos poderia ter sido, em parte, uma reali­
zação de desejos, e não sugere nada do mesmo gênero em ligação com o segundo
e o terceiro sonhos.)
A razão pela qual Freud não realiza o seu programa originário de mostrar
(por meio de análises pormenorizadas das que ele é suposto dar) que todos os
sonhos são realizações de desejos é, evidentemente, que no fim ele já não acre­
dita nela. E assim, o sonho de ansiedade torna-se um problema de ansiedade:
ele agora «faz parte da psicologia das neuroses» (p. 582) e não da teoria dos
sonhos; isto é, da teoria da realização de desejos. Eu seria o último a criticar

11 Ges. Schriften, ii, 1925, p. 497; corresponde à p. 580 (as últimas cinco linhas antes do pará­
grafo novo) da edição Strachey.
12 Edição Strachey, p. 582. (Os itálicos são meus.)
. 13 Loc. cit., nota 2. (Os itálicos são meus.) Uma afirmação bastante inequívoca (que, no entanto,
não contém o termo «ansiedade, mas sim o termo «neurose traumática» em lugar daquele), do facto
de alguns sonhos de ansiedade não serem realizações de desejos, mas «serem as únicas excepções
genuínas» pode-se encontrar na primeira frase da secção ix do artigo de 1923 (de Freud) a que se
refere a nota 15, adiante; cf. também as últimas quatro páginas do primeiro capítulo das Novas
Conferências Introdutórias, 1933, sobretudo esta observação; «Não recorrerei ao dito de que a excep-
ção confirma a regra [...].»

184
A ABORDAGEM CRÍTICA

tal mudança de opinião. Mas é que esta mudança não é uma correcção cons­
ciente, ou a admissão de um erro. Pelo contrário, nove anos depois de estes tre­
chos terem sido escritos, Freud acrescentou à página (p. 135) em que ele tinha
pela primeira vez introduzido o seu programa os sonhos de ansiedade a sonhos
de realização de desejos uma dura censura aos «leitores e críticos deste livro».
Freud acusa-os de não concordarem com a sua tese de que todos os sonhos,
incluindo os sonhos de ansiedade, são realizações de desejo, e de não compreen­
derem o seu programa (abandonado vários anos antes, se bem que apenas no
fim do livro) segundo o qual «os sonhos de ansiedade, quando interpretados,
podem mostrar-se ser realizações de desejo» (p. 135). «É quase impossível acre­
ditar na teimosia com que os leitores e os críticos deste livro insistem em fechar
os olhos e em não verem esta consideração, e a distinção fundamental entre o
conteúdo manifesto e o conteúdo latente dos sonhos.»14
Ora, o que eu pretendo dizer não é tanto que não eram os leitores e os críti­
cos que eram teimosos; que os leitores e os críticos dificilmente poderíam não
se aperceber do problema dos sonhos de ansiedade; nem que tinham toda a razão
em estarem insatisfeitos com o facto de lhes ter sido dito primeiro que a redu­
ção dos sonhos de ansiedade a sonhos de realização de desejos não punha «gran­
des dificuldades» (pp. 135 e 557) e por descobrirem no fim (p. 582) que essa
redução nem sequer era tentada, mas afastada, em vez disso, por «não ser um
problema de sonhos». Não; pretendo antes criticar a maneira como Freud rejeita
a crítica15. Estou realmente convencido de que Freud poderia ter melhorado lar­
gamente a sua teoria se tivesse tido uma atitude diferente perante a crítica —
sobretudo perante «a crítica não-informada», como os psicanalistas gostam de
lhe chamar. E, no entanto, não há dúvida de que Freud era menos dogmático
do que a maior parte dos seus discípulos, que se inclinaram para fazer da nova
teoria uma religião, uma religião completa, com mártires, heréticos e cismas,
e que viram em cada crítico um inimigo — ou pelo, menos, alguém «não-
-informado» (isto é, a precisar de ser analisado).
Esta atitude autodefensiva anda a par com a atitude de procurar verifica­
ções, de as encontrar por toda a parte com abundância, de se recusar admitir
que determinados casos não se ajustam à teoria (e, simultaneamente, de os
afastar por «não serem um problema de sonho, mas um problema de ansie­
dade» — na verdade, um «estratagema convencionalista» típico, tal como se

14 Ges. Schriften, ii, p. 25, que corresponde à nota 2, p. 135 da tradução Strachey. Ver ainda
as observações sobre a «laicidade» na décima quarta das suas Conferências Introdutórias.
15 Ver ainda, além da nota 2, op. cit., p. 135, que acabámos de citar, a nota que em 1925 foi
acrescentada à p. 160. Aí, Freud diz que os seus críticos «fazem pouco uso da sua consciência moral»
(Ges. Schriften, ii, p. 31), sugerindo que eles eram movidos por «tendências agressivas» quando
atribuíam à «psicanálise» a doutrina de que «todos os sonhos têm um conteúdo sexual». Mas não
pertence Otto Rank — que, como Freud explica, afirma precisamente isso — às fileiras da «psica­
nálise»?

185
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

discutiu na secção 20 da L.Sc.D.; uma «imunização», como lhe chama Hans


Albert).
Uma vez adoptada esta atitude, qualquer caso que se possa conceber tornar-
-se-á um caso verificatório. Ilustrei isto em 1919, através do seguinte exemplo
de dois casos radicalmente opostos de comportamento. Um homem empurra
uma criança para a água com intenção de a afogar; e outro homem sacrifica
a vida numa tentativa de salvar a criança. Cada um destes casos radicalmente
diferentes de comportamento se pode facilmente explicar em termos freudia­
nos — e, por acaso, em termos adlerianos também. Segundo Freud, o primeiro
dos dois homens sofria de recalcamento (digamos, de algum dos componentes
do seu complexo de Édipo), ao passo que o segundo atingira a sublimação. (E,
como uma vez disse o psicanalista S. Bernfeld, a psicanálise pode prever que
um homem vá ou recalcar ou sublimar, mas não pode prever se ele vai fazer
uma coisa ou outra.) Segundo Adler, o primeiro sofria de sentimentos de infe­
rioridade (que talvez produzissem a necessidade de provar a si mesmo que era
capaz de ter a audácia de cometer um crime); e o mesmo para o segundo homem
(cuja necessidade era a de provar a si mesmo que era capaz de ter a audácia
de arriscar a vida). Não consigo pensar em nenhum caso concebível de com­
portamento humano que não pudesse ser interpretado em termos quer de uma
quer de outra teoria, e que não pudesse ser reivindicado, por cada uma das teo­
rias, como «verificação».
[* (Acrescentado em 1980.) A última frase do parágrafo anterior é, julgo
eu agora, forte demais. Como Bartley me fez notar, há certas espécies de com­
portamento possível que são incompatíveis com a teoria de Freud — isto é, que
são excluídas pela teoria de Freud. Assim, a explicação freudiana da paranóia
em termos de homossexualidade recalcada parece que excluiría a possibilidade
de haver homossexualidade activa num indivíduo paranóico. Mas isto não faz
parte da teoria básica que eu estava a criticar. Além disso, Freud podería dizer
de qualquer homossexual activo aparentemente paranóico que não era verda­
deiramente paranóico, ou que não era completamente activo.]
Que factos radicalmente opostos como estes foram de facto interpretados
como sendo verificações é o que se pode mostrar pormenorizadamente anali­
sando o tratamento que Freud dá a determinadas objecções à sua teoria. Na
Interpretação dos Sonhos, Freud refere-se aos «sonhos muito frequentes que
parecem contrariar a minha teoria por o seu assunto ser a frustração de um
desejo ou a ocorrência de algo claramente indesejado» (p. 157). Um grupo des­
ses sonhos de «contradesejo», como ele lhes chama, pode-se explicar, diz Freud,
como sendo sonhos que realizam um desejo que o paciente tem de que a teoria
de Freud possa estar errada. (Há um outro grupo que aqui não nos interessa.)
Assim, a aparente verificação transforma-se numa «verificação». E quanto ao
caso radicalmente oposto, o de um paciente cujos sonhos são sonhados para
obsequiar o analista e para o confirmar, não para o refutar? Esses «sonhos de

186
A ABORDAGEM CRÍTICA

agradecimento» (como Freud por vezes lhes chama16) são também, evidente­
mente, verificações; porque são realizações de desejos precisamente no mesmo
sentido em que os outros o eram.
Uma atitude mais crítica perante esses «sonhos de agradecimento» seria a
seguinte. Eles devem-se (como o próprio Freud diz) ao psicanalista, por suges­
tão — devem-se ao facto de o psicanalista ter imposto as suas idéias a um doente
sugestionável. Não deveriamos então, por isso, considerar atentamente a possi­
bilidade de que algumas outras «verificações clínicas», de que os analistas gos­
tam de falar, ou até, na verdade, todas elas, se devessem a um mecanismo desse
gênero? E a simples possibilidade de um mecanismo desses existir não invalida
aquelas verificações?
O próprio Freud vê este problema, e é interessante ver como é que ele lida
com o problema17.
«O psicanalista ficará talvez, no primeiro instante, chocado», assim começa
Freud a discussão, «quando se lembrar desta possibilidade» — isto é da possi­
bilidade de assim estar a influenciar o doente18. É uma observação interessante:
o psicanalista, como o próprio Freud, fica chocado porque vê que todo o seu
edifício de verificações clínicas ameaça ruir. Mas a ansiedade do psicanalista
diminui quando lhe dizem que é somente o céptico que lhe está a recordar essa
chocante possibilidade: «O céptico pode dizer que estas coisas aparecem no sonho
porque quem sonha sabe que deveria produzi-los — que elas são esperadas pelo
psicanalista», escreve Freud; e acrescenta: «O próprio psicanalista, esse há-de,
com razão, pensar de outra maneira.»19
Não há dúvida de que o fará. Mas porquê «com razão?» Não é dada
nenhuma razão para isto. Pelo contrário, quando, três páginas adiante, o cép­
tico torna a aparecer pela última vez — aí ele chama-se «alguém» — até o pró­
prio Freud já não «pensa» de maneira diferente; pois agora escreve: «Se alguém
sustentasse que a maior parte dos sonhos que se podem usar numa análise são,
de facto sonhos de agradecimento que podem ter sido produzidos por sugestão
«do analista», então não se pode dizer nada contra esta opinião, do ponto de
vista da teoria psicanalítica. Neste caso, só preciso de me referir às considera­
ções que fiz nas minhas Conferências Introdutórias, em que [...] se mostra como
é mínimo o grau em que a consciência dos nossos resultados é prejudicada pela

16 «Sonhos de agradecimento» [«obliging dreams», N. do T.] («Gefãlligkeitstrdume») ou


«sonhos complacentes» [«compliant dreams», N. do T.] — sonhados para agradar ao analista ou
para lhe agradecer confirmando a sua teoria — são descritos e discutidos por Freud nas pp. 312-
314 dos Ges. Schríften, iii (o que corresponde às «Remarks on the Theory and Practice of Dream
Interpretation», 1923, secções vii e segs., Collected Papers 5, 1950, pp. 141-145). Ver ainda a vigé­
sima sétima e a vigésima oitava das Conferências Introdutórias.
17 Op. cit., Ges. Schriften, iii, pp. 310-314.
18 Op. cit., p. 130.
19 Op. cit., p. 311. (Cotl. Papers 5, p. 142.)

187
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

compreensão do efeito de sugestão do nosso sentido.»20 Receio que a referência


às Conferências Introdutórias pouco ou nada ajude quem quer que seja a livrar -
-se da contradição entre as duas últimas situações. Se alguém for capaz de pensar
de maneira crítica, terá de ficar num estado de «choque»; em especial, se ler nas
entrelinhas da décima quinta das Conferências Introdutórias (cf. aí as primeiras
seis linhas do ponto 4), que o choque teve origem na descoberta de que os doentes
de Freud, de Adler, e de Stekel, sonhavam, respectivamente, com instintos sexuais,
[...] de domínio e de renascimento», adaptando desta maneira, como Freud diz,
«o conteúdo dos seus sonhos às teorias favoritas dos seus médicos».
Mas regressando agora das Conferências Introdutórias ao texto que me levou
a citá-las, o único argumento que, nessas quatro páginas de apologética, é mere­
cedor do nome é o argumento do «puzzle» (pp. 312-313 e 143, respectivamente).
Esse argumento afirma que, se o psicanalista conseguir reunir todas as peças
da complicada imagem, «de tal maneira que o desenho se torne significante e
que nenhum buraco seja deixado em parte alguma [...] então, o psicanalista sabe
que a solução foi encontrada e que não há mais nenhuma outra solução».
Nada poderia haver de mais perigoso do que este argumento se, como acon­
tece no presente contexto, ele fosse usado para dissipar as dúvidas do psicana­
lista a respeito dos resultados da sugestão. Pois, para começar, aquilo que assus­
tava o psicanalista era precisamente a possibilidade de que o puzzle pudesse ser
completado sobre pressão — apertando e forçando as peças para os seus luga­
res (as quais acabariam por ser elásticas ou plásticas e não rígidas), ou talvez
por meio da sua sugestão inconsciente a um doente prestável e que este talvez
pudesse produzir algumas peças novas, feitas especialmente à medida para se
encaixarem muito bem nos diversos «buracos».
Mesmo sem esta objecção decisiva o argumento só é aceitável se tivermos diante
de nós uma teoria que possa ser severamente testada: as outras teorias podem
sempre fazer os seus puzzles encaixar bem. Considere-se, por exemplo, as inter­
pretações da história em termos de raças em luta, ou de classes em luta: todas
elas «resolvem» muito bem o puzzle da história e da política vulgares. O mesmo
é válido para a interpretação astrológica da história, ou para interpretação de
Homero em termos de disputas domésticas no Monte Olimpo, ou para a inter­
pretação do Velho Testamento em termos de culpa colectiva, de punição e de expia-
ção. Todas estas interpretações conseguem «resolver» o puzle. Mas a crença delas

20 Op. cit., p. 314. (Os itálicos são meus. Cp. Coll. Papers, p. 145.) A referência é relativa
ao ponto quatro da décima quinta das Conferências Introdutórias, que apresenta como resposta,
quando muito, um argumento circular, e à última (a vigésima oitava), que apresenta um argumento
que mostra apenas que alguns dos princípios mais gerais da análise são apoiados por provas inde­
pendentes, de modo que nem tudo se pode dever a sugestão. (Concedo prontamente; aquela que
é talvez a mais espectacular prova deste gênero encontra-se na República de Platão, por exemplo,
571-575. Esses passos não são referidos por Freud. São discutidos, eles e alguns outros, em The
Open Society, nota 59 ao capítulo 10.) O passo da vigésima oitava Conferência também usa aquele
que é essencialmente o argumento do puzzle; ver adiante.

188
A ABORDAGEM CRÍTICA

— delas e de Freud — «de que não há nenhuma outra solução» mostra-se não
ter fundamento: todas elas são bem sucedidas (e as de Adler e de Stekel também).
Não quero que me interpretem mal. Penso que A Interpretação dos Sonhos
de Freud é uma grande conquista. Tem, porém, mais a natureza do atomismo
anterior a Demócrito — ou talvez das histórias do Olimpo que Homero reu­
niu — do que a natureza de uma ciência testável. Mostra, de certo, que até uma
teoria metafísica é infinitamente melhor do que nenhuma teoria; e é, suponho
eu, um programa para uma ciência psicológica comparável ao atomismo ou ao
materialismo, à teoria electromagnética da matéria ou à teoria dos campos de
Faraday, as quais eram, todas elas, programas para a ciência física. Mas é um
erro fundamental acreditar que, por estar a ser constantemente «verificada»,
tem de ser uma ciência, baseada na experiência.
Um perigoso dogmatismo anda sempre lado a lado com o verificacionismo.
Não acho que a pergunta «qual é a natureza essencial dos sonhos?» seja uma
boa pergunta para se fazer; mas se se fizer, então outras respostas além da teo­
ria da realização dos desejos, de Freud, parecem ser, pelo menos, tão apropria­
das quanto esta. Por exemplo, todo o material de Freud e todas as suas análi­
ses aceitariam muito bem a seguinte resposta: «Todos os sonhos resultam de
conflitos — ou de desejos em conflito, ou de conflitos entre desejos e obstácu­
los que os ameaçam frustar, criando preocupações ou problemas.»21 Ora, como,
num sonho, os desejos dificilmente podem ser exprimidos de outra maneira que
não seja a representação daquilo que é desejado22 — isto é, da sua realiza­
ção uma representação dessa realização tem de se encontrar na maior parte dos
sonhos. No entanto, ainda que alguns sonhos possam culminar numa realiza­
ção, o conflito e a frustação são sempre tão fortemente representados (mesmo
nos mais simples sonhos da infância e nos sonhos de fome) quanto a realiza­
ção; e tornam-se dominantes num sonho de ansiedade, o qual não precisa de
ser sintoma de uma neurose de ansiedade23.

21 Os sonhos que representam trabalho num problema são discutidos em The Interpretation
o f Dreams, nota 2 (acrescentada em 1919) à p. 181, em que Freud se refere às experiências levadas
a cabo por Pótzl. (Ver ainda a p. 569.) Alguns dos resultados de Põtzl tinham sido antecipados
por Samuel Butler num maravilhoso trecho de Erewhon Revisited (1901), capítulos 27 e 28. «Quem
me dera alguém escrevesse um livro sobre sonhos», diz Butler no capítulo 28, sem saber do livro
de Freud, publicado dois anos antes.
22 Esta ideia é retirada da última frase da secção iii do texto de Freud Acerca dos Sonhos, 101;
Standard Ed. 5, pp. 629 e segs.
23 Ver Butler, loc. cit., para uma descrição e uma análise interessantes de um sonho de ansie­
dade. Os sonhos de fome — de Shackleton e Wilson — que não se encaixam na teoria de Freud,
mas que se encaixam na que aqui se propõe são registados pelo capitão Scott em The Voyage o f
the Discovery (Diário, apontamento de 22 de Dezembro de 1902): «Os meus camaradas têm ‘sonhos
de comida’ muito maus; esses sonhos tornaram-se, de facto, a conversa habitual ao pequeno-almoço.
Parece que é uma espécie de pesadelo: ou estão sentados a uma mesa cheia do que há de melhor
mas têm os braços amarrados, ou agarram um prato e ele escapa-se-lhes da mão, ou estão a enfiar
na boca um belo e saboroso pedaço de comida, quando de repente caem num precipício. Sejam
quais forem os pormenores, há algo que no último instante interfere e eles acordam.»

189
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

Não há nada que esteja mais longe das minhas intenções do que apresentar
esta teoria — que em todo o caso deveria tudo a Freud — como uma alterna­
tiva à teoria de Freud24. O que eu quero assinalar é que Freud não discute em
parte alguma uma teoria alternativa (como a que aqui foi esquematizada) que
dê conta do facto simples, agora admitido, de que os sonhos de ansiedade cons­
tituem uma refutação da forma geral de realização de desejos — tal como tinha
há muito sido sugerido por leitores «teimosos» e por críticos «não informados».
Em parte alguma ele compara a sua teoria com uma competidora prometedora
dela, ponderado uma em face da outra, à luz dos testemunhos da experiência;
e nunca a critica: chegou à sua teoria e tenta verificá-la; faz com que ela bata
certo, tanto quanto possível, e — como foi mostrado pelo exemplo do sonho
de ansiedade — mesmo para lá daquilo que ele próprio julgava ser possível,
quando pela primeira vez publicou o seu grande livro sobre A Interpretação dos
Sonhos.
Foram estas, mais ou menos, as razões que me levaram, em 1919, a rejeitar
as pretensões dos freudianos, adlerianos e marxistas de que as suas teorias se
«baseassem na experiência» da mesma maneira que se baseavam as das outras
ciências — a neurologia experimental, digamos, ou a bioquímica. Rejeitei as suas
pretensões porque descobri que as suas teorias não satisfaziam o critério de tes-
tabilidade, de refutabilidade ou de falsificabilidade. Hoje em dia, este critério
está a ser cada vez mais aceite como critério de demarcação; mas as três teorias
que referi raramente são discutidas em termos desse critério. Em vez disso con­
tinuam a ser discutidas em termos de provas confirmativas — ou «verificações».
Foi assim que pela primeira vez vi o problema da demarcação. No presente
contexto, pouca ou nenhuma importância tem saber se tenho razão ou não acerca
da irrefutabilidade de qualquer uma das três teorias a que me referi: elas ser­
vem, aqui, simplesmente de exemplos, de ilustrações. Porque a minha finali­
dade é mostrar que o meu problema de demarcação foi, desde o início, o pro­
blema prático de avaliar teorias e de ajuizar das suas pretensões. Não era, de
certo, um problema de classificar ou de distinguir alguns assuntos chamados
«ciência» e «metafísica». Era, antes, um problema prático urgente: em que con­
dições é que é possível um apelo crítico à ciência — um apelo que pudesse dar
algum fruto?

24 Como outra alternativa à fórmula freudiana de realização de desejos, a sua elaboração e


reinterpretação foram propostas por J. O. Wisdom no artigo referido na nota 5, mais atrás. Atri­
buindo um grande peso à ideia de Freud de desejos de punição (uma ideia que o próprio Freud
pouco usou), Wisdom propõe-se explicar todos os sonhos — até mesmo os sonhos de ansiedade —
em termos de realização de desejos. (Wisdom prefere o termo «satisfação de necessidades», mas
não consigo ver nenhuma razão, de um ponto de vista psicanalítico, para que não houvesse um
«desejo inconsciente» correspondente a qualquer «necessidade» no sentido de Wisdom, incluindo
aquelas a que ele chama «necessidades de punição».) Poder-se-ia dizer que a teoria de Wisdom admite
conflitos ao explicar sonhos, mas, tanto quanto me é dado ver, ela só admite uma espécie de con­
flito — a que se deve aos sentimentos de culpa.

190
A ABORDAGEM CRÍTICA

19 — Testabilidade sim, mas significado não

Contei uma parte da história de como pela primeira vez fui levado ao for­
mular do problema da demarcação porque quero mostrar que não foram nem
o dogma filosófico da falsificabilidade nem as dificuldades filosóficas da veri-
ficabilidade que me levaram até ele. Tratava-se, isso sim, de um problema alta­
mente prático e urgente — o de decidir se uma teoria era aceitável: se era discu­
tível por meio de argumentos empíricos (isto é, argumentos que recorrem à
observação e à experimentação), e se os argumentos haveríam de ser considera­
dos testes sérios. O meu problema mostrou-se ser, ao mesmo tempo, um pro­
blema lógico, um problema metodológico, e até um problema da própria ciên­
cia. Porque a missão do cientista é ajuizar das teorias; e uma maneira de julgar
uma teoria é dizer que ela não pode ser julgada por padrões científicos vulgares
(isto é, através da determinação de como ela resiste aos testes) por ser irrefutá­
vel e, portanto, não testável.
E assim, sugeri que a testabilidade, refutabilidade ou falsificabilidade fosse
aceite como critério do carácter científico dos sistemas teóricos; quer isto dizer,
como critério de demarcação entre ciência empírica, por um lado, e matemá­
tica pura, lógica, metafísica, e pseudociência, por outro.
Nunca me ocorreu, nem nessa época nem depois disso, propor a testabili­
dade, refutabilidade ou falsificabilidade como critério de significado (por opo­
sição a «sem-sentido destituído de significado»); e quando pela primeira vez,
em 1927 ou por aí perto, ouvi dizer que o Círculo de Viena tinha aceitado a
verificabilidade como critério de significado25, imediatamente pus objecções a
esse procedimento, com base em dois motivos completamente diferentes: pri­
meiro, porque considerar a posse do significado como critério de demarcação
significava imprimir na nossa física o estigma do palanfrório sem significado,
um dogma que eu me sentia incapaz de aceitar; e, em segundo lugar, porque
a verificabilidade era proposta como critério de significado, de sentido ou de

25 Esta formulação deve-se a F. Waismann (ver a nota 2 à secção 6 de L.Sc.D .), ainda que se
possa dizer, suponho eu, que a ideia é, mais ou menos, de Wittgenstein. Hoje em dia é muito fre­
quente as pessoas esquecerem-se de que se chama «sem significado» ou «sem-sentido» a uma expressão,
no sentido de certo modo técnico (que se deve a Russell, tendo sido depois aceite por Wittgenstein
e pelo Círculo de Viena) que temos estado aqui a discutir, somente se ela for puro palanfrório. Um
bom exemplo deu uma pseudoproposição sem significado do Tractatus de Wittgenstein é: «Sócra­
tes é idêntico.» Em oposição ao sentido habitual de «sem-sentido», neste sentido técnico asserções
manifestamente tolas como «o rato roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia» [«Wee bees sneeze
when three trees squeeze one cheese in a breeze», N. do T.], ou «3 + 11 = 33» não são «sem-sentido»
ou «sem-significado», mas sim falsas. Além disso, qualquer proposição falsa, por muito tola que
seja, tem sempre significado (isto é, tem «sentido»); e a sua negação, por trivial que seja, é sempre
verdadeira. (Com respeito à classificação russelliana das expressões em verdadeiras, falsas e sem-
-sentido, e à influência dessa classificação em Wittgenstein, ver também os meus artigos «The Nature
of Philosophical Problems and their Roots in Science» e «Self Reference and Meaning in Ordinary
Language», que hoje em dia se encontram, ambos, em Conjectures and Refutations.

191
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

significância, e, por isso, indirectamente como critério de demarcação, solu­


ção que era completamente inadequada, e, de facto, o contrário daquilo que
era preciso. É que eu consegui mostrar que ele era ao mesmo tempo demasia­
damente estreito e demasiadamente largo: declarava (sem intenção) que as teo­
rias científicas não tinham significado, e, por isso, colocava-as (também sem
intenção) ao mesmo nível da metafísica (cf. secção 4 da minha L.Sc.D., e Apên­
dice *ii).
Além disso era «verificacionista» num sentido importante: é que menospre­
zava o facto de a discussão científica (como sendo uma certa espécie de discus­
são racional) ser uma discussão crítica, e de a atitude fundamental dela ser a
de procurar refutações, e não a de procurar verificações ou confirmações.
A extensa linha de demarcação entre ciência empírica, por um lado, e pseu-
dociência, metafísica, lógica, e matemática pura, por outro, tem de ser traçada
mesmo a cruzar o coração da região do sentido — com teorias dotadas de sig­
nificado em ambos os lados da linha divisória — e não entre as regiões de sen­
tido e de sem-sentido. Rejeito, mais especificamente, o dogma de que a metafí­
sica tem de ser destituída de significado. Porque, como vimos, algumas teorias,
como o atomismo, foram durante muito tempo, não testáveis e irrefutáveis (e,
por vezes, não verificáveis também) e, nessa medida, «metafísicas». Mas, mais
tarde, elas passaram a fazer parte da ciência física26. E outras sofreram o des­
tino oposto. É manifestamente inadequado descrevê-las como sendo sem-sentido.
Estou disposta a admitir que alguns metafísicos (estou a pensar, especialmente,
em Hegel, e nos hegelianos) incorreram, de facto, em dizer coisas sem sentido,
e, o que é pior, sem-sentido pretensioso. Mas os cientistas também não estão
livres desta doença. Em todo o caso, parece ser melhor não se considerar que
o sem-sentido é algo demasiadamente grave. É, de certo, pouco saudável e pouco
sensato escolher o problema da ausência de sentido, ou carência de significado
para problema básico de uma filosofia, e a sua exposição como sendo a tarefa
principal, ou talvez a única, de uma filosofia: a análise de significado, tal como
a psicanálise, pode facilmente acabar por ser «um padecimento que se toma a
si mesmo pela sua própria cura»27.
Eu não poderia ter sido mais explícito na minha rejeição de todo problema
do sentido ou presença de significado versus sem-sentido ou ausência de signi­
ficado do que fui desde o princípio, como qualquer leitor da L.Sc.D. poderá
ver. Denunciei-o como sendo um pseudoproblema, uma tentativa errônea de for­
mular o problema da demarcação, e uma solução errada deste problema. E afir­

26 A natureza metafísica da «teoria corpuscular» da matéria (atomismo) é resumidamente expli­


cada na secção 23, adiante (ver o texto que se segue à nota 37).
27 Refiro-me a um aforismo do poeta vienense Karl Kraus, que escreveu: «Die Psychoanalyse
ist jene Geisteskrankheit die sich für ihre Therapie hàlt.» (Nachts, 1924, p. 80.) Ou, numa tradu­
ção livre: «A psicanálise é o padecimento que erradamente se toma pela própria cura.»

192
A ABORDAGEM CRÍTICA

mei, repetida e consistentemente, a minha posição28. Mas apesar de tudo isto,


frequentemente me rotulam como sendo «o positivista que propôs que se modi­
ficasse o critério de significado em termos de verificabilidade, e que fosse subs­
tituído pelo critério de significado em termos de falsificabilidade». Por alturas
de 1949 já um aditamento tinha sido feito a este rótulo: «Mas compreendo que
ele hoje em dia não se chamasse a si mesmo um positivista.»29 Só o que posso
dizer é que sempre critiquei severamente o positivismo e nunca mudei de opi­
nião acerca desse assunto, e peço ao leitor que se assegure deste facto inspec-
cionando o Apêndice *i (1933) e as secções 4, 10, 59 e 85 da minha L.Sc.D.
(1934).
Resignei-me ao facto de que, apesar de tudo isto, tal há-de ficar sempre preso
a mim até ao resto da minha vida. (E talvez mesmo para lá disso, no caso de
a história da filosofia continuar a dar notícia de nós, nos últimos restos do
iluminismo — o que parece ser uma possibilidade remota, face à exigência já
esmagadora e ainda em aumento de um messianismo filosófico irracional e anti-
-racional a la Heidegger, por um lado, e de um método filosófico «matemati­
camente exacto», por outro30.) Mas tenciono repetir, até ao fim, que a confu­
são entre o problema da demarcação e do significado é um dos erros capitais
da escola positivista de pensamento.

20 — Enunciados não testáveis

A suposição, errada, que corrigi na secção anterior, de que o meu critério


de demarcação pretende ser um critério de significado, é susceptível de criar
muita confusão. Essa suposição não só interpreta mal as minhas intenções, como
é formalmente inconsistente com a minha teoria. Assim, se é sobreposta à minha
teoria, o resultado é autocontraditório. Posso mostrar isto da seguinte maneira.
Se considerarmos qualquer enunciado com significado e formarmos a sua
negação, o resultado será, evidentemente também um enunciado com significado.
Pode-se sempre formar a negação antepondo ao enunciado as palavras «não
acontece que». Considere-se agora uma expressão sem significado, e antepo-
nham-se-lhe estas palavras: o resultado será, evidentemente, também uma expres­

28 Ver, além do Apêndice i e das secções 4 e 10 de L.Sc.D ., The Open Society (1945, e edições
posteriores), sobretudo as notas 46, 51 e 52 ao capítulo 11, e outros passos que aí se indicam; ver
também a nota 2 ao capítulo 1; e ainda os meus artigos «Indeterminism in Quantum Physics and
in Classical Physics», in The British Journal fo r the Philosophy o f Science 1, 1950-1951; «The Nature
of Philosophical Problems, etc.», ibid., 3, 1952; «Three Views Concerning Human Knowledge»,
1956; e «Philosophy of Science: A Personal Report», 1957. [Cf. Unended Quest, secções 8 e 16,
e Conjectures and Refutations, capítulos 1, 2 e 3. Ed.]
29 Cf. a nota 3 da p. 76 de W. Kneale, Probability and Inductions. [Cf. Unended Quest, sec­
ção 17. Ed.]
30 Essa «exactidão» é uma desilusão. Ver as Observações Preliminares ao capítulo m.

193
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

são sem significado. Chegamos, deste modo, à seguinte evidência, a qual deve­
ria ser satisfeita por qualquer critério de significado e de ausência de signifi­
cado que fosse consistente e apropriado: a negação de um enunciado com sig­
nificado tem de ter significado, e a de uma expressão sem significado, ou de
uma sequência de palavras sem significado, tem de ser destituída de significado.
Esta exigência será violado se o meu critério de demarcação for interpretado
como critério de significado de uma expressão.
Porque a negação de um enunciado universal falsificável é um enunciado
existencial não-falsificável. Por exemplo, «todos os corvos são pretos» é falsi­
ficável, já que podemos, um dia, descobrir um corvo branco. Mas a sua nega­
ção é o enunciado existencial «existe (nalguma parte do universo, seja no pas­
sado, no presente ou no futuro) um corvo que não é preto»; e este enunciado exis­
tencial é não-testável, já que não pode ser falsificado por quantidade alguma de
dados observacionais. Assim, se o meu critério de demarcação fosse um crité­
rio de significado, esse enunciado existencial teria de ser considerado sem signi­
ficado, ainda que fosse a negação de um enunciado universal com significado.
Por conseguinte, a exigência estaria a ser violada. Ela era, de facto, violada pelo
critéro de verificabilidade, já que este era um critério de significado.
Isto não mostra que a culpa seja do meu critério de demarcação. Mostra
apenas que decorrem consequências absurdas de qualquer tentativa de interpretar
o meu critério de demarcação entre a ciência e metafísica como sendo um crité­
rio de significado. Não admira que alguns filósofos — aqueles que eram, por
formação, incapazes de pensar numa demarcação entre ciência e metafísica que
não fosse ao mesmo tempo uma demarcação entre sentido e sem-sentido — tives­
sem achado que o meu critério de demarcação era insatisfatório.
Ora o estatuto dos enunciados existenciais na minha teoria é bastante sim­
ples. Quanto ao seu significado, não pode haver questão alguma: eles são tão
dotados de significado quanto as suas negações, os enunciados universais. Assim,
a exigência que acima foi formulada é satisfeita de forma corrente (ainda que
eu esteja longe de tentar produzir uma teoria do significado).
Quanto à questão do carácter científico ou metafísico dos enunciados exis­
tenciais, é importante recordar que o meu critério se aplica a sistemas teóricos,
e não a enunciados retirados de um contexto de um sistema teórico (tal como
eu assinalei desde o início: veja-se L.Sc.D., Apêndice i). Isto deve-se ao facto
de eu estar muito mais interessado em saber aquilo que uma teoria diz do que
em como ela o diz. Mas uma mesma teoria pode ser formulada de muitas manei­
ras diferentes, graças a um número maior ou menor de hipóteses (premissas).
Afirmei, por isso, na minha L.Sc.D. (secção 15) que, segundo o meu critério,
alguns enunciados existenciais são científicos, quer isto dizer, aqueles que per­
tencem a um contexto testável. Um exemplo que aí se dá é o do enunciado «existe
um elemento que tem o número atômico 72». Este enunciado é testável enquanto
faz parte de uma teoria altamente testável, de uma teoria que dá indicações acerca

194
A ABORDAGEM CRÍTICA

de como encontrar esse elemento. Se, por outro lado, considerarmos este enun­
ciado existencial isoladamente, ou enquanto parte de uma teoria que não nos
dá nenhuma indicação de como e onde é que esse elemento podería ser encon­
trado, então teremos de o descrever como sendo metafísica unicamente porque
ela não seria testável: mesmo um grande número de fracassos em detectar o ele­
mento não podería ser interpretado como sendo um fracasso do enunciado ao
passar um teste, pois nós nunca poderiamos saber se a tentativa seguinte não
podería produzir o elemento, e verificar terminantemente a teoria.
Assim, alguns enunciados existenciais serão testáveis, e outros não testáveis.
E, por vezes, isso dependerá do contexto, e talvez mude com uma mudança de
contexto31.

21 — O problema da «eliminação» da metafísica

O facto de o meu critério de demarcação entre a ciência e a metafísica ser


suposto aplicar-se apenas a sistemas teóricos é um aspecto de importância con­
siderável para a apreciação desse critério — mais importante do que a questão
dos enunciados existenciais.
Este ponto, acentuado desde o início, distinguia o meu critério do dos posi­
tivistas; pois estes acreditavam que o seu critério de significado podia ser apli­
cado a qualquer expressão linguística, sem referência ao contexto desta. (Eles
pensavam que tudo que era preciso era ter conhecimento das regras da lingua­
gem a que as expressões pretendam.) Julgavam que o seu critério de significado
lhes iria permitir detectar casos de sem-sentido onde quer que fosse que estes
ocorressem. Descreveram, por vezes, assim, o seu objectivo como sendo «a eli­
minação da metafísica através da análise da linguagem»32. E julgaram ter um
método, uma técnica, que lhes permitisse eliminar elementos metafísicos — quer
isto dizer, sem-sentido — também das teorias científicas.
Não creio que a metafísica seja algo sem-sentido, e não acho que seja possí­
vel eliminar todos os «elementos metafísicos» da ciência: eles estão intimamente
entrelaçados com os restantes. No entanto, julgo que sempre que seja possível
encontrar-se em ciência um elemento metafísico que possa ser eliminado, a eli­
minação será benéfica. Pois a eliminação de um elemento não testável da ciên­
cia remove um meio de se evitarem refutações; e isto terá tendência para aumen­
tar a testabilidade ou a refutabilidade da teoria em causa. E, na verdade, houve
um certo número de casos de teorias científicas que ganharam muito com a des­
coberta de que havia nelas elementos metafísicos que podiam ser eliminados,
e com a tentativa de os eliminar.
31 [Cf. «Replies to my Critics», in P. A. Schilpp, The Philosophy o f Karl Popper, vol. n,
pp. 976-1013 e 1037-1039. Ed.]
32 Este era o programa de investigação de Carnap.

195
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

O meu critério de demarcação não pertende’ porém, ser um instrumento de


detecção desses elementos. Não pretende querer dizer que ele possa ser utilizado
dessa maneira. Achei até, de facto, que ele era muito útil num certo número
de casos. Mas não acho que a detecção de elementos metafísicos e a sua elimi­
nação da ciência possa alguma vez vir a fazer parte de uma rotina ou de uma
técnica.
Os positivistas têm uma ideia diferente acerca da possibilidade de desenvol­
ver uma técnica destas. Para um positivista, ela envolvería simplesmente a pro­
cura de erros gramáticos e outros erros linguísticos semelhantes (os quais, aliás,
são cometidos pela maior parte dos autores).
Mas quando o conteúdo das teorias passa a assumir toda a importância, como
nos casos em que uma teoria é beneficiada pela eliminação de elementos meta­
físicos com significado, a tarefa há-de fazer parte da crítica racional; e a crítica
racional é sempre um processo imaginativo e criativo, e não uma simples téc­
nica. A eliminação de elementos metafísicos não consiste nunca na simples omis­
são de uma ou duas fases, mas envolve sempre uma reconstrução da teoria, ins­
pirada, regra geral, por uma nova ideia respeitante à sua interpretação.
Deveriamos também lembrarmo-nos de que uma mesma teoria pode, mui­
tas vezes, ser interpretada ou em sentido convencionalista (como conjunto de
definições irrefutáveis), ou empiricamente, como foi indicado na minha discus­
são do convencionalismo (L . S c . D secções 19 e seguintes). Isto mostra até que
ponto muita coisa depende da interpretação de uma teoria, se quisermos ajui­
zar do carácter empírico desta aplicando o nosso critério de demarcação; e mos­
tra, por conseguinte, que a tarefa de descobrir elementos metafísicos não pode
ser resolvida apenas por meio de um exame do formalismo. De facto, isso faz
apenas parte da missão mais geral de melhorar uma teoria, por meio da crítica,
e por tentativa e erro.
Um caso interessante, ligado a isto, é a crítica que Berkeley faz de Newton.
Berkeley conseguiu não só dar uma excelente crítica do carácter oculto ou meta­
físico do tempo absoluto e do espaço absoluto de Newton, mas chegou até a
antecipar, no seu De Motu, a famosa sugestão, feita por Mach, de uma reforma
da teoria, posteriormente levada a cabo por Einstein na teoria da relatividade
geral33. Mas deveriamos lembrar-nos de que a teoria do espaço e do tempo abso­
lutos, em conjunção com a teoria ondulatória da luz, se torna testável, de tal
modo que a experiência de Michaelson pode ser interpretada como uma refuta­
ção. Não o foi, portanto, o carácter intrinsecamente metafísico daqueles con­
ceitos que fez com que a sua eliminação fosse desejável, mas sim o facto de que,
dado apenas o contexto da mecânica de Newton, eles representavam elementos
não-testáveis.

33 Ver o meu artigo «A Note on Berkeley as Precursor of Mach», in British Journal fo r the
Philosophy o f Science 4, 1953, pp. 26 e segs., in Conjectures and Refutations.

196
A ABORDAGEM CRÍTICA

[* pode talvez também referir-se que a minha interpretação das formas de


indeterminação de Einsenberg como relações de distorção era uma tentativa de
eliminar o positivismo machiano de Einsenberg («observáveis») e de eliminar
aquilo que eu considerava ser o seu dogmatismo metafísico: a sua teoria de que
as fórmulas de indeterminação indicavam os limites do conhecimento humano.]

22 — A assimetria entre falsificação e verificação

Há, como foi indicado na L.Sc.D., uma assimetria lógica fundamental entre
falsificação empírica e verificação. Se bem que alguns dos meus críticos tenham
negado a existência dessa assimetria, antecipei e respondí cabalmente aos seus
argumentos na L.Sc.D.
Não se pode, acho eu, negar com seriedade essa assimetria fundamental: um
conjunto de enunciados singulares de observação («enunciados básicos», como
lhes chamei) pode, por vezes, falsificar ou refutar uma lei universal; mas não
pode verificar uma lei, no sentido de a estabelecer. Pode-se exprimir exactamente
o mesmo facto dizendo que ela pode verificar um enunciado existencial (o que
significa falsificar uma lei universal) mas que aquele não a pode falsificar a ela.
Esta é a situação lógica fundamental; ela apresenta uma notória assimetria.
Das várias objecções que foram postas contra a minha pretensão de que essa
assimetria existe — e, por isso, contra o meu critério de demarcação —, aquela
que à primeira vista parece ser a mais flagrante é a seguinte. Sempre que falsifi­
camos um enunciado estamos com isso, automaticamente, a verificar a sua nega­
ção, pois a falsificação de um enunciado a pode sempre ser interpretada como
a verificação da sua negação, não-tf. Por conseguinte, podemos sempre falar
(se quisermos) de verificação em vez de falsificação, e vice-versa: a diferença
entre estas duas maneiras de pôr as coisas é simplesmente verbal, e elas são,
portanto, por razões lógicas, completamente simétricas.
Por exemplo, se podemos descrever um teste empírico como uma falsifica­
ção que se tentou ou como a procura de um exemplo negativo (do enunciado
a), então também o podemos descrever como a uma verificação que se tentou
ou como a procura de um exemplo positivo (do enunciado não-tf). De modo
análogo, qualquer obstáculo à verificação do enunciado a tem de ser também,
por razões lógicas, um obstáculo à falsificação de não-a, e vice-versa. Disse
assim, que é difícil verificar um enunciado existencial tal como «existe uma
máquina de movimento contínuo», quer isto dizer, «uma máquina que nunca
deixa de emitir energia sem, no entanto, alguma vez absorver energia do seu
ambiente circundante», já que nós podemos ter de procurar pelo mundo todo
para a encontrar (e, eventualmente, examinar algum candidato durante um
período indefinido de tempo); mas, evidentemente, deve ser tão difícil falsifi­
car a negação deste enunciado existencial — isto é, o enunciado universal «todas

197
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

as máquinas que continuem sempre a emitir energia devem, após um tempo


finito, absorver energia do seu ambiente». Porque a verificação de um dos enun­
ciados não é mais do que a falsificação do outro.
Ora, concluiu o meu crítico, destas premissas evidentes segue-se que não se
justifica, por razões puramente lógicas, distinguir falsificação de verificação,
ou falsificabilidade de verificabilidade, e demarcar uma classe de enunciados
falsificáveis ou testáveis como sendo científicos, distinguindo-os de uma outra
classe que é a dos enunciados não-falsificáveis (se bem que talvez unilateralmente
verificáveis), a que se chama metafísicos. Assim, o falsificacionista que afirma
que o enunciado «todos os cisnes são brancos» pode ser falsificado, terá de admi­
tir que qualquer falsificação ou refutação desse enunciado universal há-de ser
equivalente à verificação e aceitação do enunciado existencial «existe um cisne
não-branco». Há-de, portanto, estar errado chamar ao enunciado universal cien­
tífico e ao enunciado existencial metafísico. (A lição que é costume retirar daqui
é a de que a distinção entre enunciados científicos e metafísicos não depende
de coisas como a testabilidade —jsto é, de uma relação entre enunciados —
mas antes dos conceitos — observáveis ou de outra índole — que ocorrem nas
enunciados34.)
Em resposta a esta crítica, queria dizer que tenho por verdadeira todas as
premissas do meu crítico — como trivialmente verdadeiras, até —, mas rejeito
todas as suas conclusões (que são apresentadas no último parágrafo), nenhuma
das quais, por acaso, decorre das suas premissas.
Em primeiro lugar, há algo de que gostaria de me desembaraçar — algo com
que estou de acordo, já que pertence às premissas do meu crítico, mas que, no
entanto, denuncia uma incompreensão. Refiro-me à alusão, na parte final das
premissas do meu crítico, a «obstáculos» ou «dificuldades» que por vezes sur­
gem no nosso caminho quando pretendemos verificar um enunciado puramente
existencial tal como «existe uma máquina de movimento contínuo». É claro que
aquilo que o meu crítico diz é verdade — a verificação empírica deste enunciado
é por razões óbvias, exactamente tão difícil, ou exactamente tão fácil — como
a falsificação empírica da lei universal que constitui a sua negação. Mas eu nunca
me preocupei com essa dificuldade, e nunca me referi a ela, nem nunca extrai
dela qualquer conclusão. Não chamo «metafísico» a um enunciado puramente
existencial isolado por ele ser «difícil» de verificar, mas por ser logicamente
impossível falsificá-lo empiricamente ou testá-lo. E sempre salientei, é claro, que
a impossibilidade lógica de falsificar um enunciado existencial deste gênero é
exactamente a mesma coisa que a impossibilidade lógica de verificar a sua nega­
ção universal. A referência do meu crítico a obstáculos e dificuldades é, por­
tanto, irrelevante. Além disso, parece denunciar uma atitude verificacionista:

34 Ver sobretudo as secções 24 e 25; ver também a nota 93 à secção 11.

198
A ABORDAGEM CRÍTICA

os verificacionistas, assim parece, não são capazes de imaginar nenhuma difi­


culdade a respeito de enunciados puramente existenciais, a não ser a dificuldade
de os verificar.
A questão respeitante aos obstáculos e dificuldades pode, assim, ser afas­
tada como sendo irrelevante; e posso passar a outros pontos talvez mais rele­
vantes.
Não há dúvida de que se pode dizer que os problemas de falsificação e de
verificação são, em certos aspectos, «simétricos». O facto de haver aqui certas
simetrias dificilmente impede a existência de uma assimetria fundamental — tal
como a existência de uma grande simetria entre números positivos e números
negativos não impede uma assimetria fundamental no sistema dos números intei­
ros: por exemplo, o facto de um número positivo ter raízes quadradas reais,
ao passo que um número negativo não tem raiz quadrada real.
Assim, pode-se, com certeza, dizer que falsificabilidade e verificabiljdade
são «simétricas» no sentido em que a negação de um enunciado falsificável tem
de ser verificável, e vice-versa. Mas este facto, que repetidas vezes salientei na
minha L.Sc.D. (em que até descrevi os enunciados universais como sendo exis­
tenciais negativos), e que é tudo quanto o meu crítico estabelece nas suas pre­
missas, não é argumento contra a assimetria fundamental cuja existência assi­
nalei.
Essa assimetria tem um aspecto puramente lógico e também um aspecto meto­
dológico ou heurístico.
Quanto ao seu aspecto lógico, não pode haver dúvidas de que um enunciado
universal (unilateralmente falsificável) é logicamente muito mais forte do que
a proposição existencial (unilateralmente verificável) que lhe corresponde. Por­
que o que a seguir apresento é uma regra lógica muito conhecida. De uma pro­
posição universal, pertencente a todas as coisas de uma certa espécie, ou a todos
os elementos de um certo universo de discurso não vazio,
1) todas as coisas tem a propriedade P,
podemos derivar, para qualquer coisa individual a que pertença a esse gênero
ou universo,
2) a coisa a tem a propriedade P;
e de 2), podemos, por sua vez, derivar,
3) existe uma coisa que tem a propriedade P.
Logo, 1) implica 2) e 3), e 3) implica 3). Mas 3) não implica 1) nem 2), e
2) não implica 1).
Ou, por outras palavras, 1) é logicamente mais forte do que 2) e do que 3),
e 2) é logicamente mais forte do que 3).
É esta a fonte da importante assimetria que há no caso dos enunciados uni­
versais unilateralmente falsificáveis e dos enunciados existenciais unilateralmente
verificáveis; e a situação é a mesma para enunciados mais complexos (veja-se
a secção 24).

199
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

Devido ao seu poder lógico, os enunciados universais podem ser importan­


tes como hipóteses explicativas: podem explicar (especialmente em conjugação
com condições iniciais singulares) acontecimentos ou enunciados singulares. Os
enunciados puramente existenciais, por outro lado, isolados ou em conjugação
com enunciados singulares, costumam ser demasiadamente fracos para expli­
car o que quer que seja.
É por isso que os cientistas se interessam por hipóteses universais e não por
hipóteses existenciais (isoladas).
Isto leva-nos ao aspecto metodológico ou heurístico da assimetria — à dife­
rença entre a atitude crítica ou falsificacionista e a atitude verificacionista.
A perspectiva verificacionista da ciência é, de certo modo, algo como isto:
de um modo ideal, a ciência consta de todos os enunciados verdadeiros. Como
nós não os conhecemos todos, tem, pelo menos, de constar de todos os que nós
tenhamos verificado (ou, talvez, «confirmado», ou demonstrado serem «pro­
váveis»). Assim, os enunciados existenciais verificadas deveríam, por esta razão,
pertencer à ciência.
A atitude do falsificacionista é diferente. Para ele, a ciência consiste em
arriscarem-se hipóteses explicativas — «arriscar» no sentido em que essas hipó­
teses afirmam tanto que facilmente se podem revelar como falsas. E dá o seu
melhor para as criticar, esperando detectar e eliminar candidatos defeituosos
ao estatuto de teoria explicativa, esperando também, através disso, alcançar mais
compreensão. Quanto aos enunciados puramente existenciais, não se interessa
por eles por causa da sua fraqueza, e por eles não poderem ser falsificados a
não ser que sejam parte integrante de um sistema teórico. Está disposto a admiti­
dos na ciência se forem implicados por um enunciado básico aceite; mas mesmo
nesse caso, o seu único interesse está no facto de a sua aceitação ser equivalente
à rejeição das suas negações universais.

Outra objecção que muitas vezes se levanta contra a assimetria é a seguinte:


não há nenhuma falsificação que possa ser absolutamente certa, devido ao facto
de nunca podermos ter a certeza de que os enunciados básicos que aceitamos
são verdadeiros. Discuti isto de forma muito completa no capítulo da minha
L.Sc.D. que trata da «base empírica» (capítulo V), e não acho que alguma
outra epistemologia tenha tido isso tanto em conta como a minha teve. (Os
teóricos partidários da indução, por exemplo, nunca discutem completamente
este problema — apesar do facto de as suas teorias falirem se se mostrar que
a base empírica delas não é firme.) Quanto à pretensão de este facto refutar
a assimetria entre falsificação e verificação, a situação realmente é muito sim­
ples. Considere-se um enunciado básico ou um conjunto finito de enunciados
básicos. Será sempre uma questão em aberto a de saber se os enunciados são
verdadeiros ou não: se os aceitarmos como verdadeiros poderemos ter come­
tido um erro. Mas, não importa se eles são verdadeiros ou são falsos, uma lei

200
A ABORDAGEM CRÍTICA

universal não pode ser derivada deles. Mesmo se soubermos, com toda a segu­
rança, que são verdadeiros, uma lei universal não poderá ainda assim ser deri­
vada deles.
Se, porém, supusermos que são verdadeiros, uma lei universal poderá ser
falsificada através deles.
Logo, a assimetria é a seguinte: um conjunto finito de enunciados básicos,
se fo r verdadeiro, pode falsificar uma lei universal, ao passo que em condição
alguma poderia verificar uma lei universal: existe uma condição em que pode­
ría falsificar uma lei geral mas não existe condição alguma em que pudesse veri­
ficar uma lei geral.
Assim se aceitarmos como sendo verdadeiro o enunciado «este cisne é preto»,
somos obrigados, pela lógica, a admitir que refutámos a teoria universal «todos
os cisnes são brancos»; e se aceitarmos, como sendo verdadeiro, o enunciado
«este planeta está agora mais distante do Sol do que estava há um mês atrás»,
então somos obrigados, pela lógica, a admitir que refutámos a teoria «tçdos
os planetas se movem em círculos tendo o Sol por centro comum a todos». Ora,
é verdade, especialmente no segundo caso, que podemos ter cometido um erro
ao aceitar o enunciado singular em questão; e, por essa razão, a falsificação
da teoria não é absolutamente certa. Mas é absolutamente certo que, se aceitar­
mos qualquer enunciado singular («enunciado básico») que esteja em contradi­
ção com uma teoria que tenhamos aceitado, haveremos de ter cometido algures
um erro — um erro que tem de ser corrigido. E é absolutamente certo que se
aceitarmos um enunciado básico que esteja em contradição com a teoria que
estamos a testar, somos obrigados a rejeitar essa teoria por ela estar falsificada.
E é, assim, também absolutamente certo (já que qualquer enunciado básico con­
tradiz algumas teorias) que, sempre que aceitamos qualquer enunciado básico,
há algumas teorias que são, por isso, implicitamente declaradas estarem falsifi­
cadas, de tal maneira que ficamos logicamente comprometidos a rejeitá-las. Mas
nenhuma teoria foi verificada: não há nenhuma teoria que sejamos obrigados
a aceitar como sendo verdadeira. Daí a assimetria.
De facto a assimetria é ainda mais forte do que até aqui foi indicado. Um
princípio tradicional do empirismo que eu aceito é o de que as teorias hão-de
ser julgadas à luz dos testemunhos observacionais. Mas isto significa que por
vezes temos que nos decidir a aceitar algum enunciado básico — nem que seja
a título de ensaio, e após muitos testes e deliberações. E assim que o aceitamos,
ficamos, como vimos, logicamente obrigados a rejeitar alguma teoria. Não há
nada de análogo a isto no que toca à aceitação de uma teoria, ou no que toca
à verificação dela.
Assim, a relação lógica entre enunciados básicos e teorias, e a incerteza dos
enunciados básicos, fazem-se cumprir uma à outra, em vez de se revogarem uma
à outra: ambas trabalham contra a verificação; e nenhuma delas trabalha uni­
lateralmente contra a falsificação.

201
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

A questão da incerteza da base empírica situa-se num plano completamente


diferente do da questão da relação lógica entre enunciados básicos e teorias.
A sua natureza é como a do truísmo de que podemos sempre errar (mesmo até
numa prova matemática); ao passo que o carácter de não verificabilidade das
teorias é como a observação, mais interessante, segundo a qual nunca podemos
ter premissas empíricas suficientes — supondo que são verdadeiras — para esta­
belecer a verdade de uma lei universal. Assim, as duas questões devem ser tra­
tadas separadamente. Para resumir, é verdade — como se salientou na minha
L.Sc.D. — que nem as falsificações alguma vez são absolutas, ou bastante cer­
tas; mas as razões desta incerteza são absolutamente diferentes das razões que
tornam impossível em princípio qualquer verificação de uma teoria, impossível
em princípio e não apenas de certo modo duvidosa. O princípio do próprio empi-
rismo implica ambas: a assimetria e a possibilidade de falsificar teorias.
Tudo isto é tão trivial que eu nunca o tornaria a expor, não fosse o caso
da existência de uma assimetria lógica entre falsificação e verificação ter sido
constantemente negada pela maior parte dos meus críticos positivistas.
Mais grave do que esta é uma objecção que está intimamente ligada ao pro­
blema do contexto, e ao facto de o meu critério de demarcação se aplicar a sis­
temas de teorias e não a enunciados fora de contexto. Há-de-se apresentar esta
objecção da seguinte maneira. Nenhuma hipótese individual é falsificável, assim
se poderá dizer, porque qualquer refutação de uma conclusão pode chocar qual­
quer premissa individual do conjunto de todas as premissas usadas para deri­
var a conclusão refutada. A atribuição de falsidade a alguma hipótese particular
que pertença a esse conjunto de premissas é, portanto, arriscada, especialmente
se considerarmos o grande número de pressupostos que intervém em qualquer
experiência.
Esta objecção pertence àquelas que foram discutidas, se bem que resumida­
mente, na L.Sc.D. (nas secções 16, último parágrafo, em especial a nota 2, 18,
19 e 20, e ainda noutros locais). A resposta a essa objecção é a seguinte. Real­
mente, só podemos falsificar sistemas de teorias e qualquer atribuição de falsi­
dade a qualquer enunciado particular no interior de um sistema desses é sem­
pre altamente incerta.
Isto não afecta, é claro, a assimetria fundamental que assinalei mais atrás.
Mas deixa-me a braços com a tarefa de explicar o facto inegável de que por vezes
somos muito bem sucedidos ao atribuir a uma hipótese individual a responsa­
bilidade pela falsificação de uma teoria complexa, ou de um sistema de teorias.
Muitos aspectos dos procedimentos metodológicos que de facto efectuamos
podem compreender-se como sendo devidos aos nossos esforços para tornar tais
atribuições mais conseguidas. Em primeiro lugar, temos a estrutura em cama­
das das nossas teorias — as camadas de profundidade, de universalidade e de
precisão. Esta estrutura permite-nos distinguir partes mais arriscadas ou mais
expostas da nossa teoria de outras partes que podemos — isto em termos com­

202
A ABORDAGEM CRÍTICA

parativos — dar como certas ao testar-mos uma hipótese exposta. Explica o facto
de que nós conscientemente testamos, regra geral, uma certa hipótese que esco­
lhemos, tratando o resto das teorias envolvidas no teste como sendo mais ou
menos não problemáticas — como sendo uma espécie de «conhecimento de base»
[background knowledge]35. Esse conhecimento de base é, geralmente, feito variar
por nós durante os testes, o que tende a neutralizar erros que possam estar envol­
vidos nele.
Talvez o aspecto mais importante deste procedimento seja o de nós tentar­
mos sempre descobrir como arranjar testes cruciais para decidir entre a nova
hipótese que se está a investigar — aquela que estamos a tentar testar — e algu­
mas outras. Isto é uma consequência do facto de os nossos testes serem refuta­
ções tentadas; de serem concebidas — concebidas à luz de algumas hipóteses
em competição — com o objectivo de refutar, se for possível, a teoria que esta­
mos a tentar testar. E tentamos sempre, num teste crucial, fazer com que o
conhecimento de base desempenhe exactamente o mesmo papel — tanto quanto
possível — relativamente a cada uma das hipóteses entre as quais tentamos tomar
uma decisão através do teste crucial. (Duhem criticou as experiências cruciais,
mostrando que elas não podem provar uma das hipóteses em competição, como
se supunha que fizessem; mas, se bem que tenha discutido a refutação — assi­
nalando que a sua atribuição a uma hipótese e não a outra era sempre arbitrá­
ria —, nunca discutiu a função que eu mantenho que é a função dos testes cru­
ciais — a de refutar uma das teorias em competição.)
Tudo isto, evidentemente, de modo algum, pode evitar uma má distribui­
ção da justiça: pode acontecer que condenemos uma hipótese inocente. Como
tive ocasião de mostrar (especialmente nas secções 19 e 20, e também na sec-
ção 29, de L.Sc.D.), está sempre envolvido um elemento de escolha livre e
decisão ao aceitar-se uma refutação ou ao atribuí-la a uma hipótese e não a
outra.
Os nossos procedimentos científicos nunca se baseiam inteiramente em regras;
há sempre conjecturas e intuições envolvidas: não podemos remover da ciência
o elemento de conjectura e de risco.
Como é que podemos reduzir esse risco? Só tentando pensar, também
enquanto formos capazes, nas consequências de qualquer decisão — isto é de
qualquer adaptação à nossa teoria — que pareça prometedor. (Temos de pen­
sar, por assim dizer, em todas as combinações prometedoras.) Relativamente
a isto, a situação é a mesma que em qualquer outro caso em que tenhamos de
pensar uma nova teoria: a precisão de atribuir refutação de uma teoria a qual­
quer parte particular desta equivale, na verdade, à adopção de uma hipótese;

35 [Sobre a ideia de «conhecimento de base» [«background knowledge», N. do T.], ver Con-


jectures and Refutations, capítulo 10 e adenda 3. Ed.]

203
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

e o risco envolvido é exactamente o mesmo. Para lhe fazer face, precisamos de


ingenuidade, ousadia — e de alguma sorte36.
Não há, assim, nenhum procedimento rotineiro, nenhum mecanismo auto­
mático para resolver o problema de se atribuir falsificação a qualquer parte par­
ticular de um sistema de teorias — tal como não há nenhum procedimento roti­
neiro para se conceberem novas teorias. O facto de que nem tudo é lógica na
nossa interminável busca da verdade não é, porém, razão para que não usemos
a lógica para esclarecermos tanto quanto pudermos essa busca, assinalando quer
onde é que os nossos argumentos falham e até onde é que eles resultam. A assi­
metria lógica fundamental que descreví pode decerto esclarecer de algum modo
esta questão.
[* Tudo isto é acerca da falsificação empírica e das suas incertezas. Deve-se
distinguir isto do critério puramente lógico de falsificabilidade, isto é, da exis­
tência (não a verdade), de potenciais falsificadores de uma teoria. Não dificul­
dades semelhantes ligadas com a falsificabilidade. A falsificabilidade não é afec-
tada pelos problemas que podem afectar as falsificações empíricas.]

23 — Por que é que até as pseudociências podem muito bem ter significado.
Programas metafísicos para a ciência

O meu critério de demarcação — isto é, a testabilidade — é necessário para


o cientista, bem como para o filósofo, em certas dificuldades concretas. Ele isola
as teorias que se podem discutir seriamente em termos de experiência. Alerta
o cientista para o facto de haver outras teorias que não podem ser discutidas
dessa maneira; e chama a sua atenção para o facto de que essas outras teorias,
como não são testáveis, devem ser examinadas por outros métodos que não sejam
a testagem. Se o cientista não encontra outra maneira de as examinar critica­
mente, pode-se considerar com razão para as abandonar. [«A irrefutabilidade
não é uma virtude mas sim um vício.» (Cf. secção 7, mais atrás.)] Mas ao fazê-
-lo, correrá sempre um risco; pois é, por vezes, possível aprender algo com ver­
dadeiro interesse até com uma teoria pseudocientífica ou metafísica.
Como exemplo clássico de uma pseudociência, podemos considerar a astro­
logia. Pode-se fazer recuar a história desta, juntamente com a da astronomia,
à crença religiosa de que os planetas são deuses (como até Platão afirmou). Esta
crença politeísta foi abandonada quer na astrologia quer na astronomia, de

36 John W. N. Watkins fez notar que «decidir onde é que está o erro pode muito bem ser um
assunto para prolongada controvérsia crítica», e que isso pode ser de toda a conveniência, já que
é provável que essa controvérsia ajude a esclarecer as consequências das várias mudanças possíveis
de fazer à teoria; ver o artigo de Watkins, «Epistemology and Politics», in Proc. Arist. Society,
1957, sobretudo o texto relativo à última nota (referente a Duhem, O Objectivo e a Estrutura da
Teoria Física, capítulo vi).

204
A ABORDAGEM CRÍTICA

maneira que ambas as ciências acabaram por concordar na ideia de que os pla­
netas eram simplesmente designados a partir dos nomes dos deuses. Mas a astro­
logia, enquanto abandonava o politeísmo, continuou não só a associar um sig­
nificado mágico aos velhos nomes divinos, como também a atribuir aos planetas
poderes tipicamente divinos, que ela tratava como sendo «influências» calculá­
veis. Não é de espantar que tenha sido rejeitada pelos aristotélicos e por outros
racionalistas. Mas rejeitaram-na, porém, em parte, por razões erradas, e leva­
ram essa rejeição demasiadamente longe. A teoria lunar das marés, por exem­
plo, foi historicamente uma descendência de crenças astrológicas. Antes de ter
sido aceite por Newton, foi rejeitada pela maior parte dos racionalistas como
sendo um exemplo de superstição astrológica. Mas a teoria da gravitação uni­
versal de Newton mostrou não só que a Lua podia influenciar os acontecimen­
tos «sublunares» mas, para mais, que alguns dos corpos celestes supralunares
exerciam uma influência, uma atracção gravitacional sobre a Terra, e, desse
modo, sobre os acontecimentos sublunares, em contradição com a doutrina aris-
totélica. Assim, Newton aceitou, relutante mas conscientemente, uma doutrina
que tinha sido rejeitada por alguns dos melhores cérebros, incluindo Galileu,
como sendo parte de uma pseudociência sem crédito.
Isto mostra até que ponto é fácil perdermos uma ideia importantíssima rejei­
tando indisciplinadamente uma teoria pseudocientífica.
Um bom exemplo de como tudo isto pode ser complicado é-nos dado por
Kepler, cujas teorias eram uma curiosa mistura de ciência e astrologia. Dife-
rentemente de Newton, que só muito relutantemente é que aceitava idéias astro­
lógicas, Kepler pertencia à tradição astrológica. Como Copérnico, Kepler per­
tencia à tradição platónico-pitagórica, acreditando em «influências» astrais,
sobretudo a do Sol sobre os planetas. Não obstante, Kepler era um astrônomo
altamente sofisticado e crítico: nunca se cansava de submeter as suas hipóteses
a testes engenhosos e altamente criativos, examinando as suas consequências à
luz das melhores provas astronômicas à disposição. A sua atitude maravilhosa­
mente crítica («Que tolo que eu fui», escreveu ele) fez com que lhe fosse possí­
vel dar os grandes contributos que deu à ciência — apesar do carácter fantás­
tico de algumas das suas belas hipóteses37.
Dá-se o caso de os astrólogos sempre se terem vangloriado de que as suas
teorias se baseavam num número enorme de verificações — numa quantidade
esmagadora de provas indutivas. Essa pretensão nunca foi seriamente investi­
gada nem explorada, e não vejo por que é que não haveria de ser verdadeira.

37 Vemos aqui, como em tantos outros casos (por exemplo, no caso de Copérnico), que é possí­
vel que hipóteses importantes tenham origem em idéias verdadeiramente fantásticas: a origem é coisa
que nunca importa, enquanto a hipótese for testável. Compreende-se a frieza de Galileu face a Kepler:
Galileu pertencia ao partido racionalista (tal como a Igreja Católica Romana) e opunha-se à astro­
logia. É claro que também é esta a razão por que ele estava tão obsesso com a sua teoria das marés,
uma teoria antiastrológica mas errada, e com a sua versão ultra-simplificada do sistema coperniciano.

205
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

Mas pouco ou nada interessante é saber se a astrologia foi muitas vezes ou poucas
verificada; a questão é a de saber se ela alguma vez foi seriamente testada por
meio de tentativas sinceras de a falsificar.
Podemos agora passar da pseudociência da astrologia para uma teoria meta­
física altamente importante — o atomismo. O carácter metafísico da teoria cor-
puscular, antes de Avogadro pelo menos, é evidente. Não havia possibilidade
de a refutar. Podia-se sempre explicar o facto de não se conseguirem detectar
os corpúsculos, nem qualquer prova deles, afirmando que eles eram demasia­
damente pequenos para serem detectados. Só com uma teoria que levou a um
cálculo do tamanho das moléculas é que se bloqueou mais ou menos esta via
de fuga, de tal maneira que a refutação passou, em princípio, a ser possível.
(As «verificações» eram, em princípio, possíveis antes disso: a invenção do
microscópio, digamos, podería, imaginariamente, ter levado à descoberta de
moléculas microscopicamente visíveis.) Assim, o atomismo passou a ser testá-
vel assim que foi sujeito a um cálculo do tamanho de uma molécula. Este exem­
plo mostra que uma teoria não testável — uma teoria metafísica — se pode
desenvolver e fortalecer até que se torne testável. Mas, a isto ser assim, parece
grosseiramente enganador descrevê-la como não tendo significado; e muito arris­
cado rejeitá-la sem mais, como Mach fez.
Repetidas vezes me referi ao exemplo do atomismo, por ele ser tão caracte­
rístico e tão importante38. O atomismo primitivo era um sistema metafísico não
só no sentido em que não era testável, mas também no sentido em que conce­
bia o mundo em termos de uma vasta generalização, à maior escala possível:
«não há mais nada senão os átomos e o vazio» (Leucipo, Demócrito)39. Os seus
dois conceitos fundamentais, átomos e vazio, eram inobserváveis e, portanto,
desconhecidos — como Demócrito salientou com uma lógica devastadora40.
Assim, o atomismo explicava o conhecido através do desconhecido: construía
um mundo desconhecido e invisível por detrás do nosso mundo conhecido41.
E, precisamente por esta razão, fói consistentemente atacado por positivistas
(mesmo depois de 1905), por todo os indutivistas de Bacon a Mach, e por todos
os instrumentalistas de Barkeley a Duhem. A partir de 1905, os positivistas pas­
saram a ser compreensivelmente mais reticentes sobre essa questão. Mas nunca
explicaram como é que pode acontecer que um palanfrório sem significado possa
ser substanciado em sentido. De facto, o exemplo do atomismo estabelece a ina­
dequação da doutrina de que a metafísica é um mero palanfrório sem signifi­
cado. Estabelece a inadequação da política de fazer pequenas mudanças subrep-

38 Cf. as secções 4 e 85 de L.Sc.D ., e as secções 17 e 19, atrás.


39 Diels, Vorsokratiker ii, 6 .a ed., 1952, pp. 79 (15), 84 (10) e 168 (6).
40 Cf. Demócrito, fragm. 125. (Diels, op. cit., p. 168.)
41 «Mas, de facto, nada há que saibamos por ter visto; pois a verdade está oculta no que é
profundo.» Demócrito, fragm. 117. (Diels, op. cit., p. 166; cf. o mote deste volume.)

206
A ABORDAGEM CRÍTICA

tícias aqui e ali na doutrina de ausência de significado, com a esperança vã de


a salvar42.
Seja como for, o atomismo é um excelente exemplo de uma teoria não tes-
tável cuja influência sobre a ciência ultrapassou a muitas teorias científicas tes-
táveis. Outra teoria deste gênero foi a teoria mecanicista do mundo de Descar­
tes (como gosto de lhe chamar, já que ela se baseava na doutrina de que toda
a causa física se dava por empurrão), ou, como se lhe pode chamar, o programa
de Hobbes, Descartes e Boyle de interpretar o mundo físico em termos de matéria
extensa em movimento. Mas o último, e até agora o maior, foi o programa de
Faraday, Maxwell, Einstein, de Broglie e de Schrõdinger de conceber o mundo
— tanto os átomos como o vazio — tem termos de campos contínuos43. Digo
«era» porque esse maravilhoso programa foi destruído por alguns outros gran­
des físicos. (Ver o vol. III do Pós-escrito.)
Cada uma destas teorias metafísicas serviu, antes de se ter tornado prestá­
vel, de programa de investigação para a ciência. Indicou a direcção da nossa
busca, e o tipo de explicação que nos poderia satisfazer; e fez com que fosse
possível algo como uma apreciação da profundidade de uma teoria. Em biolo­
gia, a teoria da evolução, a teoria da célula e a teoria da infecção bacteriana,
desempenharam, todas elas, papéis semelhantes, pelo menos durante algum
tempo. Em psicologia, o sensacionismo, que pode tomar a forma de uma espé­
cie de atomismo psicológico (isto é, a teoria de que todas as ciências se com­
põem de elementos não analisáveis últimos, tais como, por exemplo, os dados
dos sentidos), e a psicanálise também deveríam ser referidos como programas
metafísicos de investigação.
Por importantes que tenham sido para a ciência, estes programas metafísi­
cos têm, ainda assim, de ser distinguidos das teorias testáveis que os cientistas
usam de diferente maneira. A partir daqueles programas, o cientistas retira o
seu objectivo — aquilo que ele consideraria ser uma explicação satisfatória, uma
descoberta verdadeira daquilo que está «oculto nas profundezas». Mesmo sendo
empiricamente irrefutáveis, esses programas metafísicos de investigação estão
abertos à discussão; podemos mudá-los à luz de esperanças que inspirem ou do
despontamento pelo qual eles possam ser considerados responsáveis.
É claro que também há idéias metafísicas que não têm valor (ou pelo menos
assim julgo) para a ciência. Alguns dos «enunciados puramente existenciais» dis­
cutidas na secção 15 (ver também a secção 27) de L.Sc.D. incluem-se aqui. A
asserção (existe uma serpente do mar) não é especialmente interessante para o
cientista enquanto não se lhe acrescentar indicação nenhuma que uma pista para

42 Cf. a secção 26, adiante.


43 Pedi a J. Agassi que estudasse este tópico, e sou devedor de um seu trabalho, por enquanto
ainda não publicado, quanto a muitos novos pormenores interessantes acerca dos programas meta­
físicos de Boyle e de Faraday. [Cf. Joseph Agassi, «The Function of Interpretations in Physics»,
University of London Library, 1956; e o livro de Agassi, Faraday as a Natural Philosopher, 1971. Ed.]

207
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

possíveis testes. No entanto, asserções puramente existenciais dessas mostraram-


-se, por vezes, serem sugestivas e até fecundas na história das ciências, ainda
que nunca se tenham tornado parte desta. Na verdade, poucas teorias metafísi­
cas exerceram maior influência no desenvolvimento da ciência do que a teoria
puramente metafísica, «existe uma pedra filosofal (isto é, uma substância que
pode transformar metais vis em ouro)», ainda que ela seja não-falsificável, que
nunca tenha sido verificada e que hoje ninguém acredite nela. O exemplo da
pedra filosofal mostra, por acaso, que, pelo menos neste caso, é o carácter exis­
tencial do enunciado, e não a ocorrência de termos vagos ou sem significado,
que é responsável pela falta de testabilidade: o metal vil e o ouro são perfeita-
mente bons no que toca a conceitos.

208
CAPÍTULO III

METAFÍSICA: SENTIDO OU SEM-SENTIDO?

«O método correcto da filosofia havia de ser da seguinte maneira.


Não dizer nada [...]; e então, sempre que alguém tentasse dizer
algo de metafísico, mostrar-lhe que não tinha dado significado
algum a alguns dos signos das suas frases.»

LUDWIG WITTGENSTEIN

Observação preliminar (1982). Esta citação de um dos últimos parágrafos


do Tractatus acabou por ser o programa de um movimento filosófico à escala
mundial. O seu objectivo era mostrar a sua própria privação de sentido [sense-
lessness, N. do T.]. A metafísica é sem-sentido! A filosofia é palanfrório.
Ora, também eu muitas vezes perco a paciência ao ler textos filosóficos. Estou
perfeitamente disposto a admitir que boa parte deles pouco melhores são do que
palanfrório: filosofar sem problemas genuínos. Não estou, portanto, comple-
tamente distante da tendência do Tractatus, de Wittgenstein.
Mas, como havemos de ver, as expressões [utterances, N. do T.] metafísi­
cas podem muito bem ser interessantes e ter significado. Entendo aqui por «meta­
físico» algo como «não empiricamente testável». Wittgenstein entendia «não
completamente verificável»1. Estas idéias, e outras relacionadas com estas, vão

1 Segundo certas lendas em voga, Wittgenstein nunca sustentou o critério de significado em


termos de verificabilidade: esse critério teria sido mal compreendido e mal interpretado por Schlick
e por Waismann (que expôs o critério de verificabilidade em Erkennthis 1, 1930, pp. 228 e segs.).
Que a lenda não é verdadeira é que se pode ver a partir do artigo que Scklick publicou em Die
Naturwissenschaften 19, 1931, pp. 145 e segs.; ver sobretudo a p. 156, em que Schlick diz que uma
lei natural «pode ser modificada à luz de mais experiência» não podendo, assim, nunca ser termi-
nante ou absolutamente verificada. Por isso, «não tem a natureza lógica de uma proposição»: não
é uma proposição (se me é permitido usar a formulação que Ryle dá a uma teoria que se deve a
J. S. MilI), mas sim um título de inferência [an inference ticket, N. do T.]. Schlick atribui explici­
tamente esta teoria a uma comunicação pessoal de Wittgenstein, e não há dúvida de que obteve

209
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

ser discutidas nesta capítulo. Acaba por se verificar que dois programas sugeri­
dos por Wittgenstein estão errados: 1) o de que as expressões não-verificáveis
são destituídas de significado por violarem as regras gramaticais da linguagem:
Tractatus 5.473 a 5.47321; 2) o de que elas são destituídas de significado por
empregarem palavras ou expressões sem que a estas tenha sido conferido signi­
ficado: Tractatus 5.473 a 5.4733, e 6.532.

24 — Observações lógicas sobre a testabilidade e a metafísica

Nesta secção, pretendo explicar, com o auxílio de uns quantos exemplos, que
os enunciados testáveis e os enunciados não-testáveis (ou «metafísicos») podem
ter a mesma forma lógica. Além disso, podem ocorrer neles (talvez numa ordem
ligeiramente diferente) as mesmas expressões — palavras ou símbolos —, e essas
expressões podem ter exactamente o mesmo significado. Assim, nem a forma
lógica de um enunciado nem o tipo de expressão que nele ocorra basta para deter­
minar se é testável ou não-testável. Esta distinção não é, portanto, uma distin­
ção entre enunciados bem formados e enunciados mal formados (como se supu­
nha no programa lógico-positivista). Mas não está, ainda assim, para lá do
âmbito da análise lógica.
Além dos enunciados universais e dos enunciados existenciais simples
[straightforward, N. do T.] encontramos frequentemente, tanto em ciência como
fora da ciência, enunciados com uma estrutura ligeiramente mais complexa. O
enunciado que afirma a existência da pedra filosofal é um desses casos. É que
se pode escrever esse enunciado com a seguinte forma:
«Existe um x tal que x é uma substância e para qualquer y é válido o seguinte:
se y é um metal vil [a base metal, N. do T.] e se se lhe acrescenta ou se se o
mistura com uma pequena quantidade de x, então y transforma-se em ouro.»

a aprovação de Wittgenstein antes de publicar os passos relevantes do seu artigo. Isto mostra que,
pelo menos em 1931, Wittgenstein exigia das «proposições autênticas» («echte Sãtze») que pudes­
sem ser «terminantemente» ou «absolutamente» verificadas. Tudo isto se pode verificar através dos
textos de Schlick que foram escritos sob influência directa das suas discussões com Wittgenstein,
e que foram aprovados por este. (Posso acrescentar que isto me foi confirmado pessoalmente por
Schlick numa conversa em que este defendeu de forma apaixonada as suas teorias e as de Wittgens­
tein da minha crítica. Foi também pessoalmente confirmado por Waismann.)
2 Ambos os programas se tornaram, durante um período de tempo considerável, a ocupação
principal do Círculo de Viena e, sobretudo, do seu lógico principal, Carnap. Ver, de Carnap, Pseudo-
-problemas em Filosofia (Scheinprobleme in der Philosophie); «O Derrube (Überwindung) da Meta­
física através da Análise Lógica da Lingugem»; The Logical Syntax o f Language (ver sobretudo
a p. 278, em que se afirma que «a análise lógica mostra» que as proposições espúrias da metafísica
«são pseudoproposições»). O interesse continua em Testability and Meaning (em que o meu crité­
rio de demarcação em termos de testabilidade é erradamente interpretado como se fosse um critério
de significado). Tanto quanto sei, Carnap discutiu alguns exemplos de má metafísica, mas nunca
mostrou, através de «análise lógica», como pretendia, que a não-verificabilidade ou a não-testabilidade
se devem sempre ou a 1) ou a 2). E não se devem, tal como mostro neste capítulo.

210
A ABORDAGEM CRITICA

Podemos chamar a um enunciado deste gênero uma proposição existencial-


-universal porque ela afirma a existência de algum x que se caracteriza pela sua
relação com qualquer y de um certo gênero.
Podemos considerar como sendo outro exemplo, de tipo diferente, o seguinte
enunciado, também ele não-testável: «Todos os acontecimentos têm uma causa.»
Isto pode-se escrever assim:
«Para qualquer acontecimento x, existem um y e um z tais que y é uma regu­
laridade que se pode descrever através de uma lei universal (verdadeira) u, e z
é um acontecimento (um conjunto de condições iniciais) que antecede x, e x é
previsível (deduzível) a partir de z em presença de y (ou de «).»
Este podemos descrevê-lo como um enunciado universal-existencial. Não é
testável porque não há nada que nos sugira como é que se poderia determinar
a existência da regularidade y (ou da lei universal u) e do acontecimento ante­
rior z; e se não conseguirmos encontrar um y e um z apropriados, não há nada
que nos diga se o fracasso se deveu a falta de competência ou ao facto de y
ou z estarem bem escondidos ou ao facto de não existirem y ou z nenhuns (iáto
é, de o nosso enunciado universal-existencial, «Todos os acontecimentos têm
uma causa», ser falsa).
Chamei a atenção para enunciados com estas formas na secção 66 da L.Sc.D.,
em que discutia o chamado «Axioma da Convergência» ou «Axioma do Limite»
[«Limite Axiom», N. do T.] de von Mises3.
Como a minha discussão deu origem a mal-entendidos (cf. a nota *2 à sec­
ção 66 da L.Sc.D.), parece justificar-se incluir aqui uma nova discussão, mais
completa.
Quero chamar a atenção tanto para o método como para os resultados da
discussão. Ambos me parecem importantes, e parece-me que implicam críticas
graves aos métodos em voga: ao método que consiste em construir linguagens-mo-
delo por amor da «precisão», e ao método de análise linguística ou conceptual.

Afirmo que todas as expressões ou símbolos usados em dois enunciados, dos


quais um é testável e o outro é metafísico, podem não apenas ser os mesmos,
como podem ter precisamente o mesmo significado. Isto tem uma importância
considerável. E de importância igualmente considerável é o facto de o meu
método fazer com que seja possível afirmar que o significado é precisamente

3 O «axioma» de von Mises (que postula a existência de um limite da frequência relativa da


ocorrência de uma propriedade P em qualquer sequência probabilística de acontecimentos ou «colec-
tivo» pode ser escrito como um enunciado universal-existencial-universal-existencial-universal, com
a seguinte forma: «Para qualquer sequência probabilística, existe um número real x entre 0 e 1,
chamado o limite de frequência relativa, tal que para qualquer fracção dada y, por pequena que
seja, para a qual y > 0 será válido, existe um número natural ny, tal que para qualquer número
natural n (para o qual n > ny será válido) a frequência relativa m /n de m ocorrências da proprie­
dade P até ao /t-ésimo acontecimento da sequência não se desvia de x mais do que y; quer dizer,
—y < x — (m /n) < + y.»

211
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

o mesmo — ainda que possamos não saber o que é o «significado» e que pos­
samos ignorar o problema (se é que há algum problema). O método que vou
adoptar é o seguinte. Vou analisar certas conjecturas simples de matemática pura,
certos enunciados da teoria dos números. Como pertencem à teoria dos núme­
ros, essas conjecturas podem diferir, na sua natureza, das conjecturas das ciên­
cias naturais, mas, para o nosso propósito, essas diferenças não têm importân­
cia. (Ainda acredito que haja diferenças, ainda que essa crença tenha sido posta
em causa pelo meu colega, o Doutor I. Lakatos4.)
Podemos considerar que os números naturais 1, 2, 3,... constituem o nosso
universo infinito de discurso: são as coisas individuais que nos interessam e acerca
de cujas propriedades nos estamos a propor teorizar. Para os propósitos em vista,
vamos considerar que um enunciado é testável se e só se puder ser refutado (fal­
sificado) inspeccionando e determinando as propriedades de um número finito
desses indivíduos, e que é não-íestável (ou metafísico) se não o pudermos refu­
tar, sejam quantos forem os números naturais que possamos inspeccionar.
(Pressupõe-se que não podemos inspeccionar um número infinito deles.)
As únicas propriedades importantes desses números que aqui irei conside­
rar são as propriedades «primo» e «não-primo» [«composite», N. do T.]:
chama-se «primo» a um número natural se e só se esse número for maior do
que 1 e não for divisível por nenhum número natural a não ser por ele próprio
e por 1; se não, chama-se-lhe «não-primo». (Logo, o número 1 é o único número
natural não-divisível que não é primo, e 2 o único número par que é primo.)
Vou escolher para a minha análise as duas seguintes conjecturas, muito sim­
ples e muito interessantes, sobre números primos:
G) A conjectura de Goldbach;
H) A conjectura dos primos gêmeos [twin-prime conjecture, N. do T.].

Goldbach conjecturou que todos os números pares maiores do que 2 (isto


é, todos os números pares não-primos) são a soma de dois primos. Como todos
os números pares maiores do que 2 se podem escrever na forma 2 + 2 x, esta
conjectura pode-se também exprimir da seguinte maneira:
Para qualquer número x, é válido o seguinte: 2 + 2 x é a soma de dois
primos.

Ainda outra forma de exprimir a mesma conjectura:


G) Para qualquer número natural, x, existe pelo menos um número natural
y, tal que os dois números, x + y e (2 + x) —y são ambos primos5.

4 [Cf. Lakatos, Proofs and Refutations, 1976. Ed.]


5 Note-se que a soma destes dois números é igual a 2 + 2x. Escrevendo «P(x)» por «x é primo»,
e usando o símbolo «(x)» para significar «para qualquer número natural x», «(E>')» para significar

212
A ABORDAGEM CRÍTICA

A conjectura de Goldbach poderá um dia vir a ser provada. (Um importante


corolário dela foi provado por Vinogradov.) Hoje ainda não somos capazes de
a provar; mas, até agora, ainda não conseguimos encontrar um contra-exem-
plo — um número natural x que não tenha a «propriedade Goldbach», isto é,
a propriedade que lhe é atribuída por G).
Voltemo-nos agora para o nosso segundo exemplo H), a chamada conjec­
tura dos primos gêmeos. Dois primos que, como 3 e 5, 5 e 7, 11 e 13, 17 e 19
ou 29 e 31, estão separados apenas por um número natural (par) chamam-se
«primos gêmeos». A conjectura dos primos gêmeos afirma que há primos gêmeos
em número infinito, ou, por outras palavras, que não há um par de primos
gêmeos que seja o maior de todos. Esta conjectura pode ser expressa numa forma
semelhante à da conjectura de Goldbach, como se segue:
H) Para qualquer número natural x, existe pelo menos um número natu­
ral y, tal que os dois números, x + y e (2 + x) + y são ambos
primos6.

«existe um número natural y tal que» e «&» para significar «e», podemos escrever a conjectura
de Goldbach da seguinte maneira (note-se que a soma de (x + y) e (2 + x) — y é 2 + 2x, isto é
um número par maior do que 2);
G) (x) <Ry)\P (x + y) & P{(2 + x )-y ]} .

Isto é, aproximadamente, a maneira mais simples de escrever a conjectura de Goldbach neste for­
malismo. Podemos também definir (escrevendo <«->» para «se e só se») uma propriedade Gdb
(leia-se «goldbachiano») de números naturais tal que um número x tenha a propriedade Gdb se e
só se 2 + 2x for a soma de dois primos:

Def 1 Gdb(x) <H> (Ey) \P(x + y) & P [(2 + x)—y y ]).

Graças a este predicado «Gdb» podemos agora exprimir a conjectura de Goldbach através de
G’) (x) Gdb(x),

ou, por palavras: «Qualquer número natural é goldbachiano.»


6 Usando os mesmos símbolos que se usaram na nota 5, a conjectura dos primos gêmeos pode-
-se escrever, de maneira muito semelhante a G):

H) (x)(Ey){P(x + y) & P[(2 + x) + y]}.

Esta é, mais uma vez, praticamente a maneira mais simples de escrever a conjectura dos primos
gêmeos neste formalismo. Também podemos definir uma propriedade Etp (leia-se «excedido por
pelo menos um par de primos gêmeos») dos números naturais, tal que um número x tem a proprie­
dade Etp se e só se mais pequeno do que algum par de primos gêmeos:

Def 2 Etp(x) <-> (Ey)\P(x + y) & P [(2 + x) + y]\.

Graças ao novo predicado «Etp», podemos agora exprimir a conjectura dos primos gêmeos através de

H ’) (x) Etp(x),

ou, por palavras: «Qualquer número natural é excedido por algum par de primos gêmeos.»

213
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

As nossas duas conjecturas G) e H) são, na sua redacção, notoriamente seme­


lhantes (ainda que o não sejam no seu conteúdo). A única diferença é a ocor­
rência de um sinal de menos em G) num lugar em que H) tem um sinal de mais.
Fora isto, são exactamente iguais. Além disso, H) só usa expressões que tam­
bém ocorrem em G); até o sinal de mais ocorre em G), se bem que apenas uma
vez. É, pois, evidente que se G) «tem significado» (em qualquer sentido mais
ou menos aceitável), H) tem de também «ter significado» exactamente no mesmo
sentido.
Se, porém, estivermos interessados em testabilidade, essa pequena diferença
faz uma enorme diferença [makes all the diference, N. do T.]: pois enquanto
G) é testável (falsificável) H) não é. A respeito de qualquer número x que seja
dado, podemos decidir se x tem a propriedade de Goldbach; mas não se x é exce­
dido por primos gêmeos.
Para testar G) quanto a qualquer número x dado, é suficiente considerar os
números y que são mais pequenos do que x. (Só no caso x = 1 é que conside­
ramos y = x; em todos os outros casos, inspeccionamos os y entre 1 e x —1,
incluindo estes limites.) Cada um dos números x para os quais x + y é primo
é, então, inspeccionado para se ver se 2 + x —y também é, ou não, primo. Se
um dos números y faz com que tanto x + y como 2 + x — y sejam primos,
então x tem a propriedade Goldbach; se não, não tem esta propriedade. Pode­
mos, assim, decidir em, no máximo, x — 1 passos se um dado x é ou não é gold-
bachiano.
Em contrapartida, testar H) para algum número x dado envolve a inspec-
ção de todos os números que excedam x em y, paray = 1, y = 2, ..., para ver
se encontramos um y tal como x + y e 2 + x —y sejam ambos primos. É claro
que se encontrarmos para algum x dado um y desse gênero, teremos corrobo­
rado H) para esse particular número x. Mas se não encontrarmos um y satisfa­
tório até, digamos, x + y = 2 x o u x + y = x2, então teremos de continuar
a inspeccionar números y cada vez maiores. E mesmo que nunca encontremos
um y satisfatório, isso não significa que tenhamos falsificado H) para o número
x dado, pois é sempre possível que um y ainda maior possa dar o resultado espe­
rado e possa satisfazer H).
Assim, G) pode ser refutada por inspecção, isto é, encontrando-se um exem­
plo que a refute — um x que não a satisfaça. Mas H) não pode ser refutada

Dá-se o caso de podermos atribuir a propriedade «ser primo gêmeo» [the property «twinpri-
mal», N. do T.] ou «Twp» a um par — digamos, o mais baixo —, de primos gêmeos; quer dizer,
podemos definir

Def 3 Twp(x) <-s> P(x) & P(2 + x)

que nos permitiría substituir Def 2 por

Def 2’ Etp(x) (Ey)Twp(x + y).

214
UNIVERSIDADE FEDERAL DO vk?Á
BiBLiOT tt j , A B d R Ó Â á E M CRÍTICA

dessa maneira, pois nunca podemos assegurar, por inspecção, que um dado x
não satisfaça H). Isto significa que G) é falsificável e que H) é não-falsificável.
É claro que nem G) nem H) são verificáveis.

É interessante notar, porém, que o estatuto de H) mudaria radicalmente se


um dia conseguíssemos provar um teorema que afirmasse, digamos, que se x
fosse excedido por, pelo menos, um par de primos gêmeos, o mais pequeno des­
ses pares deveria estar entre x e algum número calculável para lá de x. Por exem­
plo, podemos um dia conseguir provar a seguinte conjectura falsificável:

Hf) Para qualquer número natural x, é válido o seguinte: desde que


x > 1, e desde que x seja excedido por, pelo menos, um par de pri­
mos gêmeos, deverá haver um par de primos gêmeos entre x e
2 + 2x; ou, por outras palavras, deverá haver um y que é o mais
baixo de um par de primos gêmeos tal que x < y < 2 x.

A conjectura Hf) implica o seguinte enunciado, entre outros: para qual­


quer par de primos gêmeos, x e x + 2, há — desde que este seja excedido por
algum par de primos gêmeos, e desde que x ^ 5 — um par maior de primos
gêmeos tal que o gêmeo mais baixo está entre x + 6 e 2 x — 1, incluindo estes
limites.
Se conseguíssemos provar a conjectura Hf) (ou talvez uma mais fraca, diga­
mos uma com x < y < x2, ou com x < y < 2x, em vez de x < y < 2 x), então a
conjectura H) dos primos gêmeos tornar-se-ia testável (no sentido quase empí­
rico aqui discutido). É que uma prova de Hf) faria, em princípio, com que
fosse possível estabelecer, através da inspecção de um número finito de núme­
ros diferentes, a respeito de qualquer número x dado, que não há primos gêmeos
maiores do que x; ou, por outras palavras, que x falsifica a conjectura dos pri­
mos gêmeos.
É interessante notar que Hf) é, por sua vez, uma conjectura falsificável: ela
podia ser falsificada, por exemplo, encontrando dois pares consecutivos de pri­
mos gêmeos, a, a + 2, e b, b + 2, tal que b + 2 a.
H f), porém, não é, ainda que falsificável, testável da mesma maneira que,
por exemplo, G) é. Porque se não encontrarmos, a seguir a algum número a,
mais nenhum primo gêmeo, ainda que tenhamos tentado todos os números até,
digamos, 3 a, ou 4 a, não sabemos se a é um caso que refuta Hf) ou não:
3 a + 1 pode ser o primeiro de um par de primos gêmeos [e nesse caso H f) é
falsa], ou pode não haver mais primos gêmeos [e nesse caso Hf) pode ser ver­
dadeira] .
Vimos que Hf) é falsificável; e, em presença de Hf), H) torna-se falsificá­
vel também. Podemos, portanto, dizer que o carácter metafísico de H) é rela­
tivo — relativo com respeito ao estado actual do nosso conhecimento (não com

215
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

respeito ao «sistema de linguagem» usado). Pois embora H) seja, presentemente,


não-testável e metafísica, uma nova descoberta matemática [a descoberta de uma
prova de Hf)] torná-la-ia testável. Além disso, um sistema de conjecturas com­
posto de Hf) e de H) constitui um sistema teórico testável.
Levanta-se a questão de saber se poderiamos, nesse sistema teórico, substi­
tuir Hf) por uma conjectura não-testável ou metafísica [a que podemos chamar
Hm)], conservando a testabilidade da conjunção — isto é, de H) e Hm). A res­
posta é: sim, e muito facilmente. Hm) pode, por exemplo, ser a seguinte con­
jectura:

Hm) Se qualquer número é excedido por algum par de primos gêmeos,


então, para qualquer número x, se x e x + 2 são primos gêmeos,
ocorre pelo menos um par (maior) de primos gêmeos cujo gêmeo infe­
rior está entre x e 2 x.

Embora Hf) e Hm) sejam diferentes quanto à forma lógica, a diferença de


redacção é muito pequena, e ambas usam, com certeza, as mesmas expressões
ou «conceitos»; ver-se-á isto com toda a distinção se escrevermos Hf) da
seguinte maneira:

Hf) Para qualquer número x, é válido o seguinte: se x é excedido por


algum par de primos gêmeos, então, se x e x + 2 forem primos
gêmeos, ocorre pelo menos um par (maior) de primos gêmeos cujo
gêmeo inferior está entre x e 2 x.

Hm) obtém-se, muito simplesmente, enfraquecendo suficientemente Hf) para


que se chegue a tornar não-testável. Mas ainda que Hf) seja testável e Hm)
metafísica, a conjunção de H) com Hf) tem precisamente a mesma força ou
conteúdo lógico que a conjunção de H) com Hm), como facilmente se pode
ver7.
Os nossos exemplos G), H), H f) e Hm) podem ser usados para mostrar uns
quantos aspectos importantes.

7 Para tornar isto claro, escrevemos

Hf (x)\Etp(x) -* [Twp(x) -* (Ey)(Twp(y) & x < y < 2x)j).

H -) (x)[Etp(x) - (x)[Twp(x) - (Ey)(Twp(y) & x < y < 2 x ) ] } .

Há-de ser claro que (Hm) se segue de (HO, de acordo com o conhecido princípio lógico de que {(x)
[A(x) ->B(x)]j -> [(x)A(xj - » (x)B(x)]. Também é claro que a partir de H), isto é, de (x)Etp(x), jun­
tamente com H m), obtemos HO; assim, a conjunção de H) e de HO tem precisamente a mesma força
que a conjunção de H) e de H m).

216
A ABORDAGEM CRÍTICA

1) A diferença entre enunciados testáveis e enunciados metafísicos não


depende necessariamente da forma lógica de tais enunciados8, mas sim da infor­
mação que transmitem — algo que se pode exprimir de muitas maneiras dife­
rentes e que não depende (se for exprimível de modo adequado nalguma lin­
guagem) da linguagem escolhida: se não for testável na linguagem L,, podê-lo-á
ser na linguagem L2.
2) A diferença decerto não depende da ocorrência, no enunciado metafísico,
de símbolos ou expressões sem significado ou mal definidos. Símbolos desses
ocorrem em H) ou em Hm), tal como também ocorrem em G) ou em Hf), res­
pectivamente. Em G) ocorre um símbolo «—» que não ocorre em H); mas é evi­
dente que esse facto — que se poderia imaginar que tornasse G) sem-
-significado — não pode tornar H) sem-significado se G) tem significado.
3) O carácter metafísico de H) e de Hm) é relativo, dependendo das nossas
outras conjecturas: em presença de Hf), H) torna-se testável. E, em presença
de H), Hm) torna-se testável (e vice-versa).
4) O carácter metafísico de um enunciado pode resultar da sua fraqueza
lógica — da sua falta de conteúdo: Hm) obtém-se a partir de Hf) enfraquecendo
esta última (fazendo diminuir o seu conteúdo).
De igual modo, podemos obter um enunciado metafísico enfraquecendo G).
Podemos, por exemplo, obter, enfraquecendo G), a conjectura não-falsificável
de que quase todos os números naturais (digamos, todos, excepto um determi­
nado conjunto finito) são goldbachianos (uma conjectura que está intimamente
relacionada com uma que Vinogradov provou). Ou podemos obter uma con­
jectura ainda mais fraca, a de que para qualquer número x, existe um bloco
de, ou, pelo menos, x números goldbachianos consecutivos. Mas estas conjec­
turas são, evidentemente, consequências não-testáveis de G). (Uma outra con­
jectura, ainda mais fraca — a de que existem infinitos números goldbachianos —
é demonstrável, já que é uma consequência imediata do teorema, provado por
Euclides, de que existem infinitos números primos.)

8 É claro que podemos construir formalismos nos quais se possa traduzir G) e H), e com res­
peito aos quais a diferença entre eles se possa dizer que é uma diferença de forma lógica. Por exem­
plo, podemos estipular quer o símbolo «(Ex)» pode ser seguido da indicação de um limite máximo
para a variável x. Nesse caso, G) e H) podem tornar-se, digamos,

G ’) M (Ey)x., (x > 1 - P(x + y) & P[(2 + x )- y )] .

H ’) (x)(Ey)(x > 1 -> P(x + y) & P[(2 + x ) + y)\.

A diferença entre as duas mostrar-se-ia agora no facto de o operador «(Ex)» ser limitado em
G) mas não em H), o que, poder-se-ia dizer, representa uma diferença de forma lógica; e é claro
que podemos excluir H) por não ter significado, estipulando que todos os operadores existenciais
têm de ser limitados (por alguma constante finita ou por algum termo que não seja o que ocorre
no próprio operador). Mas mantém-se o facto de podermos exprimir ambas as conjecturas de maneira
perfeitamente adequada em linguagens em que a forma lógica delas é idêntica.

217
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

5) O carácter metafísico de um enunciado não é apenas uma questão de fra­


queza lógica ou de falta de conteúdo lógico. Embora um enunciado (não-tauto-
lógico) cujo conteúdo lógico seja demasiadamente pequeno não possa, realmente,
ter conteúdo empírico nenhum, e tenha, portanto, de ser metafísico, a inversa
não é válida: um enunciado pode ser metafísico (o que significa que o seu con­
teúdo testável é zero) ainda que possa ter um elevado conteúdo lógico. Este facto
ficará assente no ponto que se segue, 6)9.
6) Podemos exemplificar isto mesmo com a ajuda de enunciados que empre­
guem não só termos puramente matemáticos, mas também termos empíricos.
Talvez se obtenha o exemplo mais simples de todos substituindo alguns dos nos­
sos termos matemáticos por termos empíricos.
Assim, considerando que o nosso universo de discurso é uma sequência de
lançamentos de uma moeda, podemos substituir «x é primo» por «o lançamento
número x resulta em que saíam caras». Obtemos, assim, a partir das nossas duas
conjecturas, G) e H), as seguintes conjecturas acerca da nossa sequência de lan­
çamentos da moeda:

GP) Para qualquer número natural x, existe, pelo menos, um número


natural y tal que os dois números x + y e (2 + x) — y são núme­
ros de lançamentos que resultam em caras.
HP) Para qualquer número natural x, existe, pelo menos, um número
natural y, tal que os dois números x + y e ( 2 + x ) + y são núme­
ros de lançamentos que resultam em caras.

Ora, G) é uma conjectura muito duvidosa acerca de todos os x, pois o facto


de bater certo com um x pequeno é uma pura questão de sorte, embora com
x crescentes se torne cada vez mais provável que qualquer caso particular x seja
conforme a GP).
Mas HP) é «quase certamente verdadeira» para qualquer x e para qualquer
série de lançamentos da moeda, pois afirma unicamente que havemos de encon­

9 [‘ (Acrescentado em 1982.) É possível tornar G) e H) ainda mais semelhantes. Podemos usar


o símbolo | x | para o «valor absoluto» de x; isto é, | x | = x se e só se x ^ 0; senão, | x | = —x
(sendo, portanto, positivo). Podemos, então, escrever:

F) (x)(E^)[P( | x | + \ y \ ) & P ( 2 + \ x \ + y)].

Esta fórmula afirma G) quando fazemos as variáveis x e y variarem ao longo dos inteiros nega­
tivos, x, y < 0; e a mesma fórmula F) afirma H) quando fazemos as variáveis x e y variarem ao
longo dos inteiros positivos, x,y > 0; e afirma

I) (x) \Gdb(x) v Etp(x)]

quando fazemos x e y variarem ao longo dos inteiros positivos e negativos excepto 0:x,.y< 4 0.
E interessante verificar que embora este domínio inclua os outros, I) é, de longe, a mais fraca
das três conjecturas G), H) e I). É muito mais fraca até do que a disjunção de G) e H).]

218
A ABORDAGEM CRÍTICA

trar de tempos a tempos, se continuarmos a fazer lançamentos, dois lançamen­


tos em que saem caras separados apenas por um lançamento (que não importa
se dá caras ou coroas). Trata-se de uma conjectura muito fraca: dada a infor­
mação de que a probabilidade de saírem caras é igual a Vi, e de que os lança­
mentos são independentes, o conteúdo lógico de HP) acaba por ser zero10.
Resulta que o conteúdo lógico da negação de HP), sendo dada a mesma
informação, é igual a 1. Isto acontece porque a negação de HP) é «quase cer­
tamente falsa», com base na informação dada: «quase contradiz» essa in­
formação11. No entanto, a negação de HP) não tem conteúdo empírico: não
é testável, precisamente porque afirma a mera existência de um número de lan­
çamento a seguir ao qual não haverá mais nenhum par de caras (separadas por
um lançamento, rigorosamente). Não será, assim, refutada, mesmo que encon­
tremos tais lançamentos vezes a fio, a seguir a qualquer número que examinemos.
O exemplo é importante. Mostra a existência de enunciados «completamente
metafísicos» (isto é, enunciados não-testáveis, as negações dos quais também
são não-testáveis, ou, por outras palavras, enunciados que não são falsificáveis
nem verificáveis). Além disso, mostra que podemos ter razões — talvez até
mesmo razões empíricas — para até aceitarmos um enunciado «completamente
metafísico», e, desse modo, rejeitar, a título de ensaio, a sua negação. [Trata-
-se, é claro, de uma ocorrência vulgar em enunciados metafísicos unilateralmente
verificáveis, como «existe pelo menos um cisne não-branco», se bem que seja
uma questão de escolha chamar a este enunciado «metafísico» ou «empírico»,
na medida em que se pode considerar que ele não está «isolado», mas que faz
parte de um sistema empírico. Claro que se um enunciado não-testável aumen­
tar o conteúdo lógico de um sistema testável — como no caso da conjunção
de H) com Hm), ou dos seus correspondentes [counterparts, N. do T.] empí­
ricos — já não lhe vamos chamar «metafísico», se o considerarmos como parte
do sistema.]
Não há necessidade de formular explicitamente as conjecturas de lançamen­
tos da moeda que correspondem a Hf) e a Hm). Em vez disso, pode valer a
pena referir que podemos construir outros correspondentes em termos empíri­
cos das nossas conjecturas matemáticas, correspondentes muito aproximados
(embora não muito interessantes). Podemos, por exemplo, escolher conjectu­
ras acerca da actividade das manchas solares, interpretando os nossos números
naturais x como números de anos (contados a partir de algum instante zero)

10 Estou aqui a supor que o conteúdo lógico de a sendo dado b é complementar da probabili­
dade de a sendo dado b; isto é, Ct(a,b) = 1 — p(a,b).
11 Na teoria de von Mises, a negação de HP) contradiz efectivamente a informação; é que nessa
teoria, o facto de a ocorrência de pares de lances de caras, separados exactamente por um lance,
ter a probabilidade de 'A, implica que ocorrências desse gênero tornem sempre a surgir. Assim,
nessa teoria, HP) decorre efectivamente da informação «dada», ao passo que na teoria clássica e
na teoria métrico-teórica da probabilidade não decorre (ainda que «quase decorra»). (Ver adiante,
secções 22 e segs.)

219
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

e substituindo o predicado «primo» por «um ano de baixa actividade das man­
chas solares».
7) Quer o enunciado testável G) quer o enunciado metafísico H) dão ori­
gem, como vimos, à definição de um predicado característico — os predicados
«goldbachiano» e «excedido por algum par de primos gêmeos». Ao primeiro
destes predicados pode-se chamar «completamente decidível», «normal», «ordi­
nário» ou «recursivo», pois podemos decidir num número finito de passos de
inspecção se algum número n dado é ou não é goldbachiano. Neste aspecto,
é muito semelhante a muitos predicados empíricos perfeitamente ordinários [ver
ponto 8), adiante]. O segundo predicado, «excedido por alguns primos gêmeos»,
pode ser «unilateralmente decidível», «seminormal», «semiordinário» ou «recur-
sivamente enumerável» porque é verificável mas não é falsificável: dado um
número de n, podemos encontrar um par de primos gêmeos maior do que n,
e, através disso, verificar o enunciado «n é excedido por alguns primos gêmeos»;
mas o facto de não se conseguir encontrar um par de primos gêmeos não falsi­
fica o enunciado.
Podemos ver aqui o esqueleto de uma classificação em categorias (classifi­
cação essa que se podería refinar muito, desde que assim o quiséssemos):
á) Predicados «ordinários», que, quando aplicados a indivíduos separados
(por exemplo, números individuais), originam enunciados singulares completa­
mente decidíveis.
b) Predicados «semiordinários», que, aplicados da maneira indicada na alí­
nea anterior, originam enunciados singulares unilateralmente verificáveis (isto
é, não-falsificáveis). (Pode-se chamar a estes predicados «predicados metafí­
sicos».)
c) Predicados «semiordinários» geradores de enunciados singulares unila­
teralmente falsificáveis.
d) Predicados «extraordinários» geradores de proposições singulares que não
são nem verificáveis nem falsificáveis. (A estes predicados também se pode cha­
mar «predicados completamente metafísicos».)
Veremos que o complementar ou negação de um predicado da categoria a)
pertence ainda à categoria a), e que a negação de um predicado da categoria
d) ainda pertence a d); mas a negação de um predicado da categoria b) pertence
a c), e vice-versa.
8) Alguns exemplos e métodos de construção de predicados (quer matemá­
ticos, quer empíricos) das quatro categorias estão implícitos na nossa discussão.
d) Como exemplo de predicados «ordinários» ou completamente decidíveis,
podemos considerar os predicados «primo», «goldbachiano», «vermelho» ou
«lance que resulta em saírem caras», e, é claro, os complementares ou nega­
ções destes predicados.
Ao passo que os enunciados singulares obtidos a partir destes predicados são
completamente decidíveis, os enunciados universais são, num universo infi­

220
A ABORDAGEM CRÍTICA

nito, unilateralmente falsificáveis, e os enunciados existenciais unilateralmente


verificáveis.
b) Podemos agora construir alguns predicados unilateralmente verificáveis
a partir dos da categoria a); por exemplo, o predicado «excedido por algum
número goldbachiano» e o predicado «excedido por algum número não-
-goldbachiano» são ambos unilateralmente verificáveis (tal como o predicado
«excedido por alguns primos gêmeos»).
Quanto a «vermelho», podemos supor um universo de automóveis, e
podemos chamar a um carro c «sucedido por outro carro» se c for de uma
data anterior ou tiver um número de chassis mais baixo. O predicado «suce­
dido por um carro pintado de vermelho» será, então, um predicado verifi­
cável e não-falsificável, enquanto continuar a produção de automóveis. Obser­
vações análogas aplicar-se-iam a «sucedido por um ano de baixa actividade
de manchas solares», ou «sucedido por cinco lançamentos de caras numa
série», etc.
Estes predicados originam enunciados singulares unilateralmente verificáveis
e enunciados existenciais unilateralmente verificáveis; mas os enunciados uni­
versais não são nem verificáveis nem falsificáveis: são completamente metafísi­
cos, como H).
c) Os predicados unilateralmente falsificáveis podem ser construídos da
mesma maneira. Por exemplo, «excedido apenas por números goldbachianos»
ou «sucedido apenas por carros pintados de vermelho» geram, é evidente, enun­
ciados singulares que são unilateralmente falsificáveis. (Os complementares de
predicados da categoria b) também podem ser aqui referidos, e vice-versa.) Os
enunciados universais também são unilateralmente falsificáveis, mas os enun­
ciados existenciais são completamente indecidíveis.
d) Finalmente, podemos construir predicados completamente indecidíveis a
partir dos das categorias b) e c), através de uma espécie de universalização dos
de b) e de uma espécie de particularização (existencialização) dos de c). Obte­
mos, assim, duas subcategorias, db) e dc), mas há muitas outras que pertencem
a d). Por exemplo, o predicado (demonstravelmente universal) «excedido só por
números dos quais cada um, por sua vez, é excedido por um número goldba­
chiano» é um predicado completamente metafísico da subcategoria db), ao
passo que «excedido por algum número que, por sua vez, é excedido só por
números goldbachianos» pertence a dc). Os outros predicados de b) e de c)
geram predicados análogos, tais como «sucedido só por carros dos quais cada
um, por sua vez, é sucedido por um carro pintado de vermelho» db), ou «suce­
dido por algum carro que, por sua vez, é sucedido só por carros pintados de
vermelho» dc).
Os predicados de db) e de dc) construídos segundo este esquema geram
enunciados singulares, universais e existenciais que são, todas eles, completa­
mente não-testáveis [untestable, N. do T.] ou «completamente metafísicos».

221
O REALISMO E O OBJECT1VO DA CIÊNCIA

Mas não se deveria descrever nenhum desses predicados nem nenhum des­
ses enunciados como sendo «sem-significado», em sentido algum. Pelo contrá­
rio, os predicados estão bem-definidos, em termos de conceitos manifestamente
dotados e significado; e os enunciados são gramaticalmente bem-formados12.
Além disso, alguns dos enunciados são demonstravelmente verdadeiros, e outras
demonstravelmente falsos.
Por exemplo, «excedido por um número goldbachiano», que pertence a ti),
é um predicado demonstravelmente universal. Quer dizer, aplica-se, demons­
travelmente, a qualquer número n (muito simplesmente porque não há um primo
que seja o maior de todos, nem, portanto, uma soma de dois primos que seja
a maior de todas). O mesmo é válido para «excedido só por números que são
excedidos por alguns números goldbachianos», que pertence a db) e que é, por­
tanto, «completamente metafísico». De facto, todos os enunciados universais,
singulares e existenciais obtidos a partir de predicados da categoria d) forma­
dos da maneira aqui descrita são consequências logicamente fracas de proposi­
ções da categoria a). Por exemplo, «excedido por algum número que é exce­
dido só por números goldbachianos» dc) é uma forma logicamente ligeiramente
mais fraca de «excedido só por números goldbachianos» c)13.
Seria difícil a qualquer um descrever estes exemplos como sendo sem-
-significado (ou «cognitivamente sem-significado»), sobretudo aos filósofos que,
com razão, argumentam a favor da posse de significado dos enunciados pura­
mente existenciais, e que julgam, erradamente, poderem com isso mostrar a ina­
dequação do meu critério de demarcação (que, realmente, ferra nos enunciados
existenciais isoladas a marca de serem não-testáveis e «metafísicos» — embora
não, é claro, sem-significado).
O predicado «excedido por algum par de primos gêmeos», que se baseia em
H), é um predicado não-testável; em presença de HQ, porém, torna-se testável.
Assim, o estatuto de um predicado relativamente a testabilidade pode mudar
com o progresso do nosso conhecimento, exactamente como o estatuto de um
enunciado como H) relativamente à testabilidade pode mudar com o progresso

12 Para mostrar isto numa linguagem simbólica padrão, podemos começar pelo predicado com­
pletamente decidível «A» («vermelho», «goldbachiano» ou «não-goldbachiano», etc.), e pela rela­
ção «<» («é excedido por»). Definimos

B(x) <H> (Ey)[x < y & A(y)\


C(x) <r-> (y)(x < y ^ A(y)]
D b(x ) <H> (y)[x < y - » B(y)]
Dc(x) <-> (Ey)(x > >■ & CO)]

Estas parecem ser as definições mais simples que geram os resultados desejados; mas é claro que
há muitas outras maneiras de alcançar resultados semelhantes.
13 [Áqui o texto está incompleto. Faltam várias linhas que continham mais exemplos e que não
foi possível reconstruir. Ed.j

222
A ABORDAGEM CRÍTICA

do nosso conhecimento. Mas o significado (seja o que for que isso possa ser)14
do predicado não precisa de mudar ao mesmo tempo. No nosso exemplo ele
decerto não muda, já que o seu significado está plenamente definido em ter­
mos dos predicados «número natural», «primo», «maior» e de alguns opera­
dores lógicos, etc. Análogas observações se aplicam ao predicado «excedido por
dois lances de caras separados exactamente por um lance».
Este resultado tem um considerável interesse: ele resolve, pelo menos para
mim, um problema com que desde há muitos anos tenho estado preocupado.
O problema é o de saber se o significado dos nossos termos teóricos muda sem­
pre, ou não, quando, devido ao progresso da ciência, o seu estatuto relativa-
piente à testabilidade muda. Que o significado dos nossos termos teóricos mui­
tas vezes muda, no decurso do progresso científico, é algo que é evidente: basta
pensar em termos como «átomo», «planeta», «luz», «movimento», «espaço»
ou «força». Influenciado por estes exemplos, comecei a duvidar se podería haver
algo como uma «invariância de significado» (a expressão deve-se a Paul Feye-
rabend)15, numa ciência em crescimento; e, mais particularmente, a duvidar se
o significado de um termo teórico não estaria destinado a mudar sempre que
o progresso da ciência afectasse o seu estatuto relativamente à testabilidade.
Mas, como a nossa discussão mostra, essas dúvidas não têm fundamento.
Ainda que o significado dos nossos termos possa mudar à medida que as nos­
sas teorias mudam, tal mudança não está destinada a seguir até a uma mudança
de estatuto relativamente à testabilidade. A testabilidade e o significado estão,
é claro, relacionados: o facto de uma teoria ser testável depende, em parte, do
significado dos termos usados (e, em parte, do estado do nosso conhecimento).
Mas não há dependência no sentido oposto: nem sequer as mudanças mais espec-
taculares na testabilidade precisam, enquanto tais, de afectar a testabilidade.
Estes resultados apresentam uma solução daquele que era, para mim, de
longa data, um problema em aberto. Assim que compreendí a solução, pensei
também que as minhas dúvidas talvez pudessem ser um sintoma de que eu não
estava completamente livre da influência do pensamento positivista, ainda que
tivesse, já há muito tempo, argumentado contra a teoria de que o significado
de um termo era determinado pelo método de verificar (ou até de testar) a pro­
posição em que o termo em questão ocorria. Nunca me tinha verdadeiramente
interessado pelo problema do significado de termos, e tinha aceitado, de forma
acrítica e até irreflectida, a ideia, de certo modo mais geral, de que o signifi­
cado de um termo era determinado pelo seu uso. Como o uso científico de um
termo é frequentemente influenciado pelo seu estatuto de testabilidade, parecia

14 Não sei o que é o «significado» de uma expressão (e não acredito em perguntas de tipo «o
que é?»), mas suponho que uma definição (matemática) possa, pelo menos, ajudar a determiná-lo.
15 [Cf. o seu artigo «Problems of Empiricism», in Robert G. Colodny, ed., Beyond the Edge
o f Certainty, 1965, p. 164. Ver Popper, L.Sc.D ., secção 38, nota *3. Ed.]

223
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

que as mudanças nesse estatuto poderíam influenciar o significado do termo em


questão.
Só em consequência da análise de que dei conta nesta secção é que me aper­
cebí de que tudo isto estava errado, que não era o «uso» de um termo que deter­
minava o seu significado, mas o que é muito mais restrito, as relações que, ao
que nós supomos, realmente se verificam [hold good, N. do T.] entre as enti­
dades denotadas pelo termo em questão e outras entidades. Aqui, como sem­
pre, a análise linguística está errada. O nosso uso (ou as suas regras) pode ser
sintomático dos nossos pressupostos teóricos — pode revelar esses pressupos­
tos — mas não é a mesma coisa que eles. E ainda que os nossos pressupostos
sejam muitas vezes apenas implícitos e não sejam fáceis de formular explicita­
mente, podem-se formular explicitamente como conjecturas acerca de coisas.
O uso (ou regras de uso), por outro lado, pode, quando muito, ser formulado
como regras que descrevem o nosso próprio comportamento.
(Por exemplo, pode-se dizer que o significado da palavra «entre» é dado pelos
axiomas de Hilbert. Mas esses axiomas são suposições acerca de coisas — acerca
de relações específicas entre coisas. Não são regras que estabeleçam hábitos de
fala.)
O facto de o significado dos termos não depender, em geral, do seu esta­
tuto de testabilidade destrói, julgo eu, uma outra teoria, muito popular, acerca
da maneira como os termos teóricos adquirem significado empírico. Estou a
referir-me à teoria indutivista segundo a qual é através do contacto (indirecto)
dos termos teóricos com a observação e com a experimentação que lhes é con­
ferido significado empírico. (A teoria operacionalista do significado é uma
variante desta abordagem indutivista.) Pode-se exprimir da seguinte maneira a
ideia intuitiva que subjaz a esta perspectiva: os termos não-teóricos, ou termos
empíricos de carácter básico denotam «observáveis», e, portanto, «têm signifi­
cado»; os termos teóricos devem, se possível, ser definidos através desses ter­
mos empíricos básicos (ou «constituídos» por eles, ou «reduzidos» a eles); se
isto não for possível, podem ainda adquirir algum significado pelo facto de serem
empregues em enunciados dos quais se podem derivar outros que usam termos
empíricos básicos. Desse modo, os termos teóricos não-definidos absorverão,
por assim dizer, algum significado empírico: significado empírico que irá pene­
trar, a partir de enunciados básicos e de termos básicos, em enunciados teóri­
cos e em termos teóricos.
Se esta perspectiva estivesse correcta, não poderia haver nada que tivesse mais
influência no significado de um termo teórico do que uma mudança no seu esta­
tuto de testabilidade — ou, mais exactamente, no estatuto de testabilidade de
alguns dos enunciados em que ele ocorre — de «não-testável» a «testável» e a
«testado». Essa mudança, porém, não afecta, em geral, o significado, tal como
acabámos de ver. assim, a teoria indutivista da absorção de significado empí­
rico por parte de termos teóricos falha.

224
A ABORDAGEM CRÍTICA

Tudo isto não é de espantar, considerando que a distinção entre termos empí­
ricos básicos e termos teóricos também está errada. Como já disse, todos os ter­
mos são teóricos, embora uns sejam mais teóricos do que outros16.

25 — Os termos metafísicos podem ser definidos através de termos empíricos

Talvez valha a pena esquematizar rapidamente um protocolo geral através


do qual podemos definir predicados metafísicos em termos empíricos, isto é,
predicados que são, por essência, não-testáveis (se bem que talvez sejam verifi­
cáveis).
Seja x uma pessoa (ou um animal, ou uma planta, ou outra coisa). Preten­
demos definir uma disposição metafísica de x — uma capacidade [ability,
N. do T.] que não só é «oculta» em sentido berkeleyano, como não é, em prin­
cípio, testável.
Considere-se uma qualquer coisa empírica y. Pode ser uma coisa vulgaríS-
sima. Seja um copo de água.
Ora, o que há-de x fazer com um copo de água? A coisa mais simples é
bebê-lo. Chegamos assim ao esquema «x tem a disposição D se e só se existir
um y tal que y é um copo de água e, se x beber y, então...». Substitua-se
agora o pontilhado por algo de emocionalmente entusiasmante, como rejuve­
nescer ou transformar-se em leão. O que conclui a história: «x é capaz de se
rejuvenescer (ou de se transformar em leão) se e só se existir um y tal que
y é um copo de água (muito especial), ou um copo em ouro cheio de água,
e se x beber y, x terá o aspecto que tinha e sentir-se-á como se sentia quando
era novo (ou terá o aspecto de, e sentir-se-á como, um leão), e x conhece
segredo de y.»
Se x não for uma pessoa nem um animal, mas sim uma coisa, poderemos
ainda assim continuar a trabalhar com o nosso copo de água: x poderá então
ser convertível em ouro, ou numa pérola, se for molhado com a água ou ati­
rado para dentro dela. Além disso, a disposição metafísica pode ser tal que seja
possuída por todos os homens (ou animais, plantas ou outras coisas) ou apenas
por alguns em especial (pessoas nascidas num domingo, ou sob o signo de
Gêmeos; ou uma planta plantada durante a lua nova).
Seja, por exemplo, x uma determinada doença. Nesse caso, y poderá ser a
erva que a cura, se for tomada três vezes por dia. Chegamos assim à proprie­
dade metafísica «curável por meio de alguma erva existente algures».
Poder-se-á dizer que aquilo que estive a descrever não são predicados meta­
físicos, mas sim predicados mágicos. A metafísica primitiva, porém, está inti­

16 L.Sc.D ., fim da secção 25; ver também Cortjectures and Refutations, pp. 118 e 388.

225
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

mamente relacionada com a magia. Os predicados que descreví são fórmulas


mágicas protegidas contra a refutação pelo seu carácter existencial.
Todos os predicados metafísicos cuja construção foi aqui descrita têm sig­
nificado, pois todos eles podem ser definidos em termos com significado; e, em
geral, supõe-se que uma definição dá significado aos termos definidos desde que
os termos definidores tenham significado. E uma vez que aqui podemos esco­
lher os termos empíricos mais triviais como termos definidores, não há problema
algum.
Podem-se conceber definições mais complexas, usando mais do que um ope­
rador existencial: pode-se dizer de duas ervas que elas têm a propriedade dispo-
sicional de serem convertíveis numa panaceia se e só se existir uma constelação
é uma fórmula latina secreta, tal que se sob essa constelação, se fizer uma infu­
são dessas duas ervas misturadas enquanto se repete a fórmula, o resultado será
uma panaceia.
O principal ataque dos positivistas é dirigido, evidentemente, contra a meta­
física religiosa, sobretudo contra a possibilidade de uma «teologia racional».
Afirmam eles que os termos dessa teologia hão-de ser destituídos de significado.
Para refutar essa afirmação, tentei há algum tempo formular aquilo a que cha­
mei «a asserção arquemetafísica» [«the arch-metaphysical assertion», N. do T.]
no simbolismo de «Testability and Meaning», de Carnap17. Por «asserção arque­
metafísica» entendo a asserção da existência de um Deus pessoal, isto é, de um
espírito pessoal omnipotente, omnipresente e omnisciente. «x é omnipotente»
pode-se definir generalizando a ideia x pode pôr a coisa y no lugar z»: esta ideia
pertence à vida comum e é, por isso, perfeitamente empírica. E ainda que a sua
generalização, «x pode pôr o que quer que seja em qualquer sítio», talvez já
não seja empírica, é ainda capaz de ser definida por meio da aplicação de uma
operação lógica muito comum a um termo empírico, sendo, portanto, manifes­
tamente dotada de significado. A omnipresença ainda é mais fácil de definir gene­
ralizando o predicado empírico «x está situado no local y». O resulado é «x está
situado em todos os lugares». Os termos «omnisciência» e «pessoa» podem ser
definidos juntamente, graças ao predicado «x conhece y». Podemos dizer que
x é uma pessoa se e só se houver um y e x conhecer y; e podemos dizer que
x é omnisciente se e só se x estiver situado algüres e conhecer todos os y. Quanto
a espírito, pode-se dizer que uma pessoa omnipresente é um espírito. Deste modo,
podemos dar «significado empírico» à teologia racional. Esta, porém, não deixa
de ser metafísica: não por não ter significado, mas sim porque as asserções que
lhe são próprias não podem ser testadas — são irrefutáveis.
Alguns positivistas aceitaram que a minha reconstrução do enunciado a que
chamei «a asserção arquemetafísica» tivesse significado, mas retorquiram que

17 Essa tentativa é feita em «The Demarcation between Science and Metaphysics», in Conjec-
tures and Rpfutations, capítulo 11. Ver as notas 18 a 20 da próxima secção.

226
A ABORDAGEM CRITICA

o meu enunciado, uma vez que tem significado, não é metafísico, mas é muito
simplesmente um enunciado empírico falso, que eles acrescentam ser um velho
problema já há muito resolvido. Este acrescento é uma parte necessária da res­
posta e é falso, pois facilmente se pode mostrar, a partir da bibliografia do Cír­
culo de Viena, que o principal ataque do positivismo foi o que se dirigiu contra
a «metafísica tradicional», da qual a chamada «teologia racional», a de Espi-
nosa, por exemplo, era o exemplo mais saliente. A tese positivista era a de que
tudo isto era irremediavelmente sem-signifiçado. Esta tese é evidentemente rejei­
tada pelos que agora dizem que eu, ao mostrar que é impossível interpretar algu­
mas teorias metafísicas como tendo significado, apenas mostrei que elas são não-
-metafísicas.
De facto, podemos agora perfeitamente perguntar: «O que era essa filoso­
fia tradicional que vocês em tempos atacaram com tanta violência? Para que
era tanta exaltação? E, seja como for, não foram vocês que ligaram testabili-
dade a significado? E os nossos exemplos, e outros ainda, não mostram que
há enunciados não-testáveis mas com significado? E por que é que a tautologia
«uma combinação sem-significado de palavras é uma combinação sem-
-significado de palavras» haveria de ter algum interesse para alguém ao cimo
deste mundo? Não se transforma, porém, a sua asserção de que a metafísica
é sem-significado nesta tautologia, se se contrariarem os meus exemplos dizendo
que eles, como têm significado, não são metafísicos?»
Mas deixando de lado a controvérsia, posso resumir da seguinte maneira as
minhas idéias. Ao passo que a maior parte dos conceitos científicos não podem
ser definidos em termos daquilo a que se pode chamar «fenômenos», nem sequer
daquilo a que se pode chamar os termos empíricos da linguagem vulgar, há
alguns conceitos metafísicos que podem ser definidos desse modo. Por conse­
guinte, qualquer tentativa de caracterizar a ciência (por oposição à metafísica)
por um critério como a capacidade de ser empiricamente definido [empirical defi-
nability, N. do T.] própria dos seus termos leva a uma demarcação que é simul­
taneamente estreita demais e larga demais: ela excluirá quase tudo o que se pre­
tende que inclua e incluirá muito do que se pretende que exclua.

26 — A filosofia, em mudança, do sentido e do sem-sentido

À semelhança de Berkeley, Wittgenstein tinha, no seu Tractatus, uma filo­


sofia do significado e da privação de significado [meaninglessness, N. do T.],
ou do sentido e do sem-sentido [sense and nonsense, N. do T.] que era uma filo­
sofia vigorosa e clara. De um lado, havia os enunciados empíricos informati­
vos, e do outro o mero palanfrório, mero palavreado, embora um palavreado
que podia parecer-se com os enunciados empíricos. Os signos constituintes dos
enunciados empíricos eram palavras a que se tinha dado significado empírico:

227
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

cada uma delas estava associada, pelo uso, a certas coisas ou acontecimentos
observáveis. O palanfrório, por outro lado, ou violava a gramática (como no
caso de «Sócrates é idêntico») ou continha palavras às quais «não tínhamos dado
significado». E a única missão da filosofia era — segundo Wittghenstein —
«demonstrar» às pessoas que diziam coisas metafísicas que estavam a dizer coi­
sas sem sentido. Eis como Wittgenstein resumiu, no Tractatus (6.53) a sua men­
sagem: «O método correcto da filosofia seria o seguinte. Não dizer nada a não
ser aquilo que se pode dizer, isto é, as proposições das ciências naturais, isto
é, algo que não tem nada a ver com filosofia; e aí, sempre que alguém quisesse
dizer algo de metafísico, demonstrar-lhe que não tinha dado signifiado a certos
signos das suas proposições.»
Tínhamos aqui uma teoria aliciante. Ela estava, é claro, incompleta, na
medida em que não se tinha mostrado que as palavras, signos ou conceitos usa­
dos pelas ciências naturais podiam, todos eles, ser definidos por meio de defi­
nições empíricas — definições baseadas em conceitos que exprimiam experiên­
cias imediatas. Foi essa a tarefa a que Carnap se lançou em Der Logische Aufbau
der Welt (1928). Nesse livro, Carnap tentou desenvolver os contornos de um
sistema de definições ou «constituições» de termos científicos: um conceito estava
«constituído» se existisse uma cadeia de definições que o reduzissem a termos
da experiência imediata.
Claro que isto era uma teoria da indução a partir de «dados» aplicada a con­
ceitos em vez de ser aplicada a enunciados. Mas não passou de um programa,
pois era coisa que não se podia fazer. A «constituição de conceitos» não era
mais possível do que a «indução de teorias»18.
Em consequência disso, a teoria wittgensteiniana da ausência de significado
e do sem-sentido, uma teoria simples e directa [straightforward, N. do T.] teve
de ser abandonada. Foi abandonada; e a filosofia da ausência de significado
ou do sem-sentido, e com ela a escola positivista, começou a desintegrar-se.
Ao longo dos anos tentaram-se muitas mudanças e correcções. A ideia directa
de ausência de significado ou de palanfrório foi sendo sucessivamente substi­
tuída por várias idéias mais sofisticadas19. Disse-se, por exemplo, que uma
expressão é «metafísica» se «não for uma frase significante da linguagem da
ciência». (Como se algum metafísico se fosse preocupar com saber se estava ou
não a usar «a linguagem da ciência», ou lá o que se possa pretender que essa
linguagem é.) Assim, a tese da ausência de significado acabou por ser diluída
ao ponto de deixar de poder ser reconhecida a não ser por peritos. Algo de seme­
lhante aconteceu à ideia de metafísica. Expressões que nos anos trinta seriam

18 Indiquei isto na L.Sc.D . (fim da secção 25), e já o tinha indicado ainda antes, em discussões
com membros do Círculo de Viena. Ver, por exemplo, a nota 27 e o texto entre as notas 25 e 27
do meu artigo «The Demarcation between Science and Metaphysics», op. cit.
19 Uma história que é contada de forma mais completa em «The Demarcation between Science
and Metaphysics», ver a nota anterior. [Cf. Unended Quest, secções 16 e 17. Ed.]

228
A ABORDAGEM CRÍTICA

consideradas modelos de sem-sentido metafísico (já que não eram verificáveis


nem falsificáveis) são hoje em dia consideradas perfeitamente respeitáveis. E
todas estas mudanças sub-reptícias foram introduzidas ad hoc para evitar as con­
sequências indesejadas de um critério de significado que, ainda que modificado,
nunca deixou de ser inadequado. É que ele foi sempre demasiadamente estreito
e demasiadamente largo ao mesmo tempo, como facilmente se pode mostrar:
sempre colocou teorias científicas desejáveis e teorias metafísicas indesejáveis
dos lados errados da linha de demarcação. Pois até a teologia racional, por exem­
plo, pode ser «formalizada» nalguma das linguagens propostas da ciência20.
Por que não se há-de simplesmente abandonar o dogma de que o critério
de significado (ou — agora — de «significação» [«significance», N. do T.]) deve
ser equivalente ao critério de demarcação? As tentativas de recuperar este dogma
causaram infindáveis dificuldades. Não consigo imaginar por que é que se terá
achado que valia a pena arranjar tais dificuldades. Talvez para se salvar a vene­
rável filosofia do positivismo de ser refutada? Mas é que ela foi refutada, e fpi
abandonada, de um modo ou de outro, por todos os que compreendem a situa­
ção. Então por que havemos de continuar a maçar-nos?
Com isto concluo os meus comentários sobre o problema da demarcação,
pois a maior parte dos seus aspectos lógicos, sobretudo a sua ligação à ideia
de conteúdo empírico, já foram tratados de maneira assaz satisfatória na
L.Sc.D., e não têm grande precisão de mais elucidações.

" Ver a nota 17 ã secção 25, bem tom o o artigo «The Demarcation, etc.». Entretanto Carnap
escreveu um texto, «The Methodological Character of Theoretical Concepts» (ver as referências que
faço nas notas 93 e 94 à secção 11, e nota 112, à secção 13) em que revê algumas das posições que
eu critiquei no meu artigo; ele tenta, mais especificamente, dar um novo critério de significado
(a que agora se chama «critério de significação») e apresenta duas provas, uma a estabelecer que
o seu critério não é demasiadamente largo (pp. 54-57) e outra a estabelecer que não é demasiada­
mente estreito (p. 58-59). Mas, perante determinadas suposições que se fazem na segunda prova,
pode-se mostrar que a primeira prova cede, e que o critério acaba por ser demasiadamente largo;
e, do mesmo modo, perante determinadas suposições que se fazem na primeira prova, a segunda
prova cede, e o critério revela-se ser demasiadamente estreito.

229
CAPÍTULO IV

CORROBORAÇÃO

27 — Corroboração: certeza, incerteza, probabilidade

Explorei, nos dois capítulos anteriores, as ramificações lógicas do problema


da indução. Há, porém, outra ramificação e nesse ainda não toquei porque ela
não está logicamente ligada ao problema da indução. Mas está ligada a este pro­
blema por laços que se podem mostrar ser ainda mais fortes do que a lógica:
está ligada pelo preconceito indutivo e por uma solução errada do problema da
indução que, infelizmente, ainda é muito frequentemente aceite como sendo
válida. Estou a referir-me, é claro, à ideia de que ainda que a indução seja inca­
paz de estabelecer com certeza uma hipótese que se tenha induzido, é capaz de
fazer o que, a seguir a isto, é o que de melhor se pode fazer: atribuir à hipótese
induzida algum grau de probabilidade. (E uma probabilidade de 1 seria certeza.)
Esta perspectiva está radicalmente errada, mas pode apoiar-se num argumento
altamente convincente. Pode-se apresentar esse argumento da seguinte maneira.
Todo o problema da indução, assim reza o argumento, resulta claramente
do facto de as inferências indutivas não serem válidas — o que é o mesmo que
dizer que de premissas indutivas não se seguem dedutivamente conclusões indu­
tivas. Mas não é preciso ficar-se alarmado com este facto de certo modo banal,
sobretudo porque existe uma grande e importante classe de inferências em que
a conclusão não decorre rigorosamente das premissas. De facto, qualquer infe­
rência dedutiva pode ser modificada de maneira a originar uma inferência que
não é válida, mas apenas «mais ou menos válida» ou «válida até um certo grau».
Considere-se o seguinte exemplo:

VÁLIDA VÁLIDA ATÉ UM CERTO GRAU


Todos os homens fumam x °7o de todos os homens fumam
Jack é um homem Jack é um homem
Jack fuma Jack fuma

231
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

Como o exemplo sugere, podemos dizer que enquanto na inferência válida


a verdade das premissas faz com que a verdade da conclusão seja certa, na infe­
rência mais ou menos válida, a verdade das premissas deixa a verdade da con­
clusão incerta. A conclusão, porém, é tornada mais ou menos provável —
provável, para sermos exactos, ao grau de x por cento.
As inferências que estabelecem uma conclusão como sendo provável — in­
ferências prováveis, como também se pode dizer — existem de facto. Conforme
o exemplo mostra, são inferências em que a conclusão vai, de um modo ou de
outro, além daquilo que se afirma nas premissas: não é completamente impli­
cada pelas premissas. Isto acontece, evidentemente, com todas as conclusões
indutivas. O que parece mostrar que o problema da indução se resolverá assim
que tivermos desenvolvido uma teoria da probabilidade que nos permita deter­
minar a probabilidade de uma conclusão indutiva — isto é, de uma hipótese —,
sendo dadas algumas premissas indutivas, ou da ordem do testemunho [eviden-
tial premises, N. do T.]. Se escrevermos p(a,b) = r com o significado «a pro­
babilidade de a sendo dado b é igual a r» (em que r é uma fracção entre 0 e
1), poderemos, então, dar a seguinte forma ao argumento convincente a que
nos referimos.
Seja h uma hipótese (uma «conclusão indutiva») e e a nossa «prova empí­
rica». O problema da indução consiste, então — ou assim, parece —, em deter­
minar o valor de r em p(h,e) = r, isto é, o valor da probabilidade da hipótese
induzida h, sendo dada a prova e. Assim, o problema da indução resolve-se cons­
truindo uma lógica generalizada — uma lógica da probabilidade. Porque
segundo este convincente argumento, a lógica indutiva não é mais que lógica
da probabilidade. É a lógica da inferência incerta, do conhecimento incerto, e
p(h,e) é o grau a que o nosso conhecimento certo da prova e justifica racional­
mente a nossa crença na hipótese A1.
Tal como já anteriormente disse, julgo que este argumento está completa­
mente errado. O recurso à probabilidade não afecta em nada o problema da

1 Na L.Sc.D . (Apêndice *iv) forneCi uns quantos sistemas axiomáticos para o cálculo formal
de probabilidades (de cujas interpretações uma é a interpretação lógica). Embora não tenha quais­
quer presunções de familiariedade com tais questões técnicas, vou, para não deixar nada muito incom­
pleto, apresentar um dos sistemas axiomáticos mais simples. Consiste apenas em três axiomas: o
primeiro introduz a ideia p{a,b), o segundo a ideia do produto ab (leia-se «a-e-b») e o terceiro a
ideia de complementar ã (leia-se «não-o»),

A Há pelo menos dois elementos, a e b, tais que

p(a,a) 4 p(a,b).

B p(ab,c) = p(a,d)p(b,c) $ p(a,c),


desde que p(a,á) = p(bc,d) e p(bc,c) = p(d,c).

C p(ã,b) = p(c,c) — p(a,b),


desde que p(d,d) 4 p(d,b) para algum elemento d.

232
A ABORDAGEM CRÍTICA

indução (cf. as secções 1, 80 e 83 de L.Sc.D., e os trechos de Hume citados


no Apêndice **vii, texto relativo às notas 4 a 6). De um modo formal, isto
pode ser apoiado pela observação de que qualquer hipótese universal h vai
tão além de qualquer prova empírica e que a sua probabilidade p(h,e) nunca
deixará de ser zero, pois a hipótese universal faz asserções acerca de um
número infinito de casos, ao passo que o número de casos observados só pode
ser finito.
Há, pelo menos, duas maneiras de criticar a pretensa ligação lógica existente
entre o problema da indução e o da probabilidade. A discussão completa de
uma dessas duas maneiras, guardá-la-ei para a segunda parte deste volume, na
qual pretendo criticar a interpretação subjectiva da probabilidade — isto é, a
interpretação da probabilidade como grau de conhecimento incompleto ou
incerto. Tentarei, nessa segunda parte, mostrar que a ideia de uma probabili­
dade indutiva não funciona, e tentarei também mostrar por que é que ela não
pode funcionar.

A isto podemos acrescentar um postulado que introduza a identidade (substitucional), a = b, dos


dois elementos a e b:
* a = b se e só se p(a,c) = p(b,c) para qualquer elemento c. (Nesse caso, a e b podem ser
substituídos um pelo outro em qualquer ocasião.)
Podem-se acrescentar mais definições adoptando uma regra de definição baseada em a - b;
podemos, por exemplo, definir «a v b» (leia-se «a-ou-ò»), como habitualmente, por
«a v b = a b».

Este sistema axiomático simples permite-nos deduzir, além de todas as leis da álgebra de Boole,
as conhecidas leis do cálculo de probabilidades, como a lei da reflexividade

1) p(a,a) = p(b,b) = 1.

Consequência imediata de 1) e de B são: a importantíssima lei da monotonia

2) p{ab,c) < p(a,c)\

e a lei geral da multiplicação

3) p{ab,c) = p{a,bc)p(b,c).

Uma consequência mais remota do sistema é a lei geral da adição,

4) p(a v b,c) + p(ab,c) = p(a,c) + p(b,c).

Obtemos, além disto, um certo número de teoremas que não é possível obter no cálculo habi­
tual, por exemplo os seguintes:

5) p(a, T b ) = 1
6) ab = b se e só se p(a,ba) ^ 0 .

Na interpretação lógica, a igualdade «a = b» pode-se ler «é logicamente equivalente a» (ou «é inter-


deduzível com »); e «ab = b» pode-se, então, ler «a decorre de b», o que, é claro, também se pode
escrever «a iz b» ou «b Si a».

233
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

A outra maneira é fazendo notar que a crença intuitiva numa probabilidade


indutiva de uma hipótese à luz das provas [evidence, N. do T.] é uma mistura
de, pelo menos, duas idéias intuitivas. Uma dessas idéias — a ser discutida nesta
secção e nas próximas — é defensável, mas tem uma importância limitada e está
logicamente desligada do problema da indução, enquanto a outra — a ideia de
uma lógica probabilística indutiva — é indefensável. Que ela é indefensável por
razões lógicas e matemáticas é o que se irá mostrar de forma mais completa na
segunda parte deste volume; agora pretendo assinalar outro aspecto desta ideia,
um aspecto que, de certo modo, até me parece ser mais importante. Refiro-me
à atitude errada face à ciência da qual parece que tal ideia brota.
Voltemo-nos primeiro para a ideia que, penso eu, é defensável. Trata-se da
ideia de que se podem distinguir hipóteses segundo os resultados dos seus tes­
tes: a ideia de que algumas hipóteses estão bem testadas pela experiência e outras
nem tanto; de que há, além disso, hipóteses que, até à data, não foram absolu­
tamente nada testadas, e hipóteses que não resistiram aos testes, e que, portanto,
se podem considerar falsificadas. Se, deste ponto de vista, considerarmos umas
quantas hipóteses, não poderá haver objecções a que as graduemos segundo o
grau a que elas passaram os seus testes — exactamente como se podem graduar
os estudantes que passaram por uns quantos testes, uns fáceis, outros difíceis.
O desejo de graduar hipóteses segundo os testes por que elas passaram é legí­
timo: não tenho conhecimento de nenhuma objecção séria. Por razões que serão
discutidas na próxima secção, proponho que se chame ao grau de uma hipó­
tese, ou ao grau a que ela resistiu aos testes, o «gau de corroboração» (e não
a «probabilidade») dessa hipótese. Poder-se-ia pensar que esse grau é muito
importante, uma vez que a aceitabilidade de uma hipótese há-de depender, obvia­
mente, do grau de corroboração desta. Mas não creio que qualquer embaraço
ou diferença de opinião relativamente à aceitabilidade de uma hipótese possa
alguma vez ser eliminado por meio de uma determinação «exacta» do seu grau
de corroboração. Embora eu mais adiante vá dar uma definição de grau de cor­
roboração — uma definição que nos permita comparar teorias rivais como as
de Newton e de Einstein — duvido que uma avaliação numérica desse grau tenha
alguma vez significado prático. (Talvez eu seja tendencioso, já que, em geral,
não acredito em notas de exame.) Seja como for, a ideia de grau de corrobora­
ção é significativa, neste contexto, principalmente por causa do auxílio que pode
dar à clarificação da grande confusão que é causada por idéias erradas sobre
as probabilidades indutivas.
Isto conduz-me ao ponto principal e final desta secção — o background filo­
sófico geral da crença nas probabilidades indutivas.
A ideia de ciência que dá origem a essa crença é, basicamente, a velha ideia
de Ciência com «C» maiúsculo. É a ideia de ciência como scientia ou epis-
temê — como conhecimento certo e demonstrável. Sem dúvida que esta ideia
está hoje um pouco modificada: hoje em dia toda a gente reconhece que a plena

234
A ABORDAGEM CRÍTICA

certeza é algo de inatingível nas ciências a que se chama «indutivas». Mas como
se considera a indução uma espécie de generalização (enfraquecida) da dedu­
ção, o velho ideal é apenas ligeiramente modificado.
Esse velho ideal deveria, porém, ser completamente abandonado. Deveria
ser abandonado até mesmo no caso de estarmos a considerar sistemas puramente
dedutivos. Hoje já não vemos um sistema dedutivo como um sistema que esta­
belece a verdade dos seus teoremas deduzindo-os de «axiomas» cuja verdade
é perfeitamente certa (ou evidente por si mesma, ou indubitável), consideramos,
isso sim, um sistema dedutivo um sistema que nos permite discutir crítica e racio­
nalmente os seus vários pressupostos, calculando sistematicamente as suas con­
sequências. A dedução não se usa apenas com o fim de provar conclusões, mas
sim como instrumento de crítica racional. No quadro de uma teoria puramente
matemática, deduzimos conclusões para investigarmos o poder e a fecundidade
dos nossos axiomas. E numa teoria física, deduzimos conclusões para criticar­
mos e, sobretudo, para testarmos as conclusões deduzidas e, através disto, as
nossas hipóteses; regra geral, não pretendemos estabelecer as nossas conclusões.
Ao considerar a probabilidade indutiva uma medida da razoabilidade das
nossas crenças ou da confiança do nosso conhecimento, o devoto da indução
provável dá a conhecer que ainda está agarrado, como Bacon, a um ideal enfra­
quecido de episteme. Imagina os seus enunciados de testemunho [evidential
statements, N. do T.] e como sendo enunciados que desempenham um papel
análogo ao dos axiomas evidentes por si mesmos que supostamente «provam»
os nossos teoremas. E imagina que as suas hipóteses h desempenham um papel
análogo ao dos teoremas cuja verdade é tornada certa por dedução a partir dos
axiomas, só que, sendo a indução mais fraca do que a dedução, temos agora
apenas uma certeza de Ersatz: a probabilidade aparece como substituto da cer­
teza — não o que se desejaria, mas, pelo menos, a melhor coisa possível a seguir
a isso e, em todo o caso, aproximada dela.
Tudo isto é inaceitável. As próprias proposições de testemunho e estão longe
de ser certas. [Sempre salientei este aspecto; ele foi, no entanto, usado pelos
indutivistas como argumento contra a minha doutrina da assimetria entre falsi­
ficação e verificação (cf. secção 22). Mas nenhum indutivista alguma vez expli­
cou como se havia de interpretar «p(h,ej» quando o próprio e é incerto e, pre­
sumivelmente, «apenas provável»2.] Nem tão pouco esses enunciados de
testemunho nos são «dadas» — nem por Deus, nem pela natureza, nem pelos
nossos sentidos. Qualquer observação e (ainda num grau mais elevado) qual­
quer enunciado de observação já é, ele próprio, uma interpretação à luz das nos­
sas teorias3. Ainda, porém, que este facto seja importantíssimo, ele levanta uma

2 [Ver R. C. Jeffrey, The Logic o f Decision, 1965, capítulo 11. Ed.]


3 [Cf. Donald T. Campbell, «Evolutionary Epistemology», in P. A. Schilpp, ed., The Philo-
sophy o f Kari Popper, pp. 413-463. Ed.]

235
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

questão que é de somenos importância comparada com a que pretendo aqui cri­
ticar: uma atitude geral; uma filosofia geral das ciências; uma filosofia que
entende que o seu problema principal é o de explicar de onde é que a ciência
deriva a sua «certeza», a confiança que racionalmente oferece, a sua validade,
a sua autoridade. É que eu mantenho que a ciência não tem certeza, não ofe­
rece confiança de ordem racional, não tem validade, não tem autoridade. O
melhor que dela podemos dizer é que embora ela conste das nossas conjecturas
nós fazemos o melhor que podemos para as testar, isto é, para as criticarmos
e as refutarmos.
Mas a filosofia indutivista não atribui apenas autoridade à ciência, atribui-
-lhe também (talvez inadvertidamente) uma abordagem cautelosa e até tímida
que é inteiramente alheia ao nosso verdadeiro modo de proceder. Essa filoso­
fia, ao considerar que o objectivo da ciência é alcançar probabilidades altas para
as suas teorias, dá a entender que a ciência procede de acordo com a regra: «Ide
o menos possível para lá das vossas provas e!» Porque o conteúdo da hipótese
h não pode ir muito além das provas e sem reduzir p(h,e) a um valor muito pró­
ximo de zero. Seja, por exemplo, e a conjunção de muitas descrições de um acon­
tecimento de um certo tipo: h não precisa de afirmar muitos mais acontecimen­
tos não cobertos por e para fazer com que p(h,e) seja muito pequena, segundo
o cálculo de probabilidades. Isto mostra que uma probabilidade elevada é a
recompensa dúbia por dizer muito pouco ou nada. Por outras palavras, a regra
«Obter probabilidades altas!» estimula hipóteses ad hoc.
Tudo isto dá uma imagem da ciência muito pouco estimulante — uma ima­
gem que, além disso, não tem a mínima semelhança com o original. Na ver­
dade, o que faz com que o original seja tão estimulante é o seu arrojo; as suas
hipóteses imaginadas de modo arrojado, submetidas de modo arrojado a toda
a espécie de crítica — a todas as refutações que possamos imaginar, incluindo
os mais severos testes que a nossa imaginação nos possa ajudar a conceber. É
esse arrojo que nos ajuda a transcender os limites, a princípio estreitos, da nossa
imaginação e da linguagem comum.

28 — «Corroboração» ou «probabilidade»?
Na secção anterior introduzí o termo «grau de corroboração» para caracte­
rizar o grau a que uma hipótese resistiu aos testes. Nesta secção pretendo ape­
nas discutir uma questão terminológica — as minhas razões para propor que
se fale de «grau de corroboração» e não de «probabilidade de uma hipótese
à luz dos testes». A minha razão principal é, é claro, que esta última expressão
— ainda que em si perfeitamente legítima — presta-se a provocar confusões.
Estou disposto a admitir que as palavras «provável» e «probabilidade» se
usam frequentemente num sentido que é semelhante àquele em que eu propo­
nho que se use a expressão, de certo modo desajeitada, que é «grau de corro-

236
A ABORDAGEM CRÍTICA

boração». Uma expressão como «uma conjectura provável» pertence ao falar


comum; e expressões como «uma conjectura improvável» ou talvez até como
«uma hipótese improvável» são expressões perfeitamente correntes de uso
comum, embora talvez ligeiramente «culto» [«learned», N. do T.]. Além disso,
o significado comum de uma frase como «O senhor deve tentar pensar numa
hipótese mais provável» ou como «Das várias hipóteses apresentadas até agora,
a sua parece ser, à luz dos testes, a que é mais provável» parece-me bastante
claro: o significado que se pretende que estas frases tenham está, sem dúvida,
intimamente relacionado com o significado para o qual proponho que se use
o termo mais artificial «grau de corroboração», uma proposta que nos faria subs­
tituir a última frase por esta, mais difícil: «Das várias hipóteses apresentadas
até agora, a sua parece ser aquela que, à luz dos testes, tem o mais elevado grau
de corroboração.» Não obstante, desliguei-me, na L.Sc.D. (secções 79 a 84),
do uso bem firmado das palavras «provável» e «probabilidade», substituindo
estas palavras por uma terminologia mais artificial. Essa substituição precisa
de uma defesa explícita. É que eu julgo que nós deveriamos falar simples e cla­
ramente e que não nos deveriamos desviar do uso comum sem que para tanto
houvesse razões que a isso nos obrigassem.
Há, porém, aqui razões que a isso nos obrigam; e como essas razões na
L.Sc.D. (nas secções 81 a 83) só são implicitamente dadas, tentarei expô-las aqui
por completo.
1) Há um segundo uso, ainda mais bem firmado, de «provável» e de «pro­
babilidade» que intuitivamente dificilmente se pode distinguir do primeiro. (Por
primeiro uso entendo a «probabilidade» de hipóteses que proponho seja rebap-
tizada e se passe a chamar «grau de corroboração».) Ocorre em frases como:
«Ann provavelmente casar-se-á com Arthur» ou como «É provável que Bob
passe à tangente nos exames finais». Pode-se descrever esta probabilidade como
probabilidade de um acontecimento. Tem um traço característico: a probabili­
dade de Ann se casar com Arthur e de Bob passar à tangente nos exames finais
não pode exceder a probabilidade do menos provável desses dois acontecimen­
tos (e, geralmente, é menor do que ela). Ou, de um modo mais geral, a proba­
bilidade de um acontecimento complexo constituído pela concorrência de vários
acontecimentos separados é, em geral, menor do que a probabilidade de qual­
quer um dos acontecimentos componentes, ou, quando muito, igual.
Por conseguinte, para enunciados (hipóteses) que descrevam acontecimen­
tos é válido o seguinte: a probabilidade de um enunciado que descreva um acon­
tecimento diminui com o aumento do conteúdo lógico do enunciado.
Esta «regra do conteúdo», como lhe posso chamar (ela corresponde ao
«axioma da monotonia» do cálculo de probabilidades; veja-se a secção ante­
rior, nota 1, e L.Sc.D., Apêndices *iv e *v), está de acordo com o bem firmado
uso linguístico segundo o qual um lance de doze com dois dados se diz ser
«menos provável» do que um lance de seis com um dado.

237
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

Não há nenhuma regra de conteúdo correspondente que seja válida para o


primeiro sentido de «probabilidade», a que chamo «grau de corroboração». Pelo
contrário: a maior parte dos físicos dirão que a teoria da luz de Maxwell é «mais
provável» no primeiro sentido — isto é, «mais bem corroborada» ou «mais bem
testada» — do que a teoria da luz de Fresnel. A razão é esta: é que a teoria
de Maxwell foi mais amplamente e mais severamente testada — até em áreas
em que a teoria de Fresnel não pode ser testada. Ao mesmo tempo, a teoria
de Maxwell tem um conteúdo lógico muito maior do que a de Fresnel: a teoria
de Maxwell é uma teoria ondulatória da luz e uma teoria do electromagnetismo,
ao passo que a teoria de Fresnel é apenas uma teoria ondulatória da luz. Assim,
a teoria de Maxwell, ainda que «mais provável» no sentido de estar «mais bem
corroborada» ou mais bem testada, é simultaneamente «menos provável» no
sentido do segundo uso da palavra, o qual também está muito bem firmado,
sobretudo se não estivermos a pensar tanto nos testes que uma hipótese passou
com sucesso, como nas oportunidades [chances, N. do T.] de um acontecimento
ocorrer.
2) Os dois usos — a probabilidade de uma hipótese relativamente aos seus
testes, e a probabilidade de um acontecimento (ou de uma hipótese) relativa­
mente às suas possibilidades — raras vezes foram distinguidos, e a maior parte
das vezes são tratadas por junto. Isto poderá dever-se ao facto de eles serem
intuitivamente — isto é, pelo menos «nas primeiras impressões» — difíceis de
distinguir. Mas é possível mostrar que enquanto o segundo uso está de acordo
com as regras do cálculo matemático de probabilidades (em particular com o
«axioma de monotonia») o primeiro não está.
Pode-se encontrar um exemplo antigo e particularmente instrutivo dessa falha
em distinguir os dois sentidos numa famosa carta de Leibniz4. Nessa carta, Leib-
niz fala muito claramente de hipóteses que eu diria que tinham um grande con­
teúdo; fala da sua «simplicidade», da sua «virtude» e do seu «poder» (explica­
tivo) e diz que uma hipótese é tanto mais «provável» quanto maiores forem a
sua simplicidade e o seu poder, e quanto maior for o número de fenômenos que
puder «resolver» (explicar) com menos «pressupostos» (adicionais ou ad hoc).
Leibniz está, evidentemente, a pensar no nosso primeiro sentido de «probabili­
dade» — a que eu proponho que se chame «grau de corroboração», mas parece
pensar que essa «probabilidade» se comporta como uma probabilidade que satis­
faz o cálculo de probabilidades, pois sugere que ela é uma espécie de substituto
ou Ersatz da certeza ou da verdade, já que se pode aproximar da «certeza física»
(ou «certeza moral», como diz Couturat nos seus comentários). Não há aqui
nada que sugira que ele se apercebe de que a simplicidade e o poder explicativo

4 Carta a Conring, 19 de Março de 1678; ver vol. i, pp. 195 e segs. da edição Gerhardt de Die
Philosophischen Schriften von G. W. Leibniz, 1875-1890, e Louis Couturat, La Logique de
Leibniz, 1901, p. 268.

238
A ABORDAGEM CRÍTICA

são equivalentes à improbabilidade lógica, no sentido do cálculo de probabili­


dades (cf. L.Sc.D., secções 34 a 46, 83, 30 e 32).
3) Ora, a eu ter razão quanto a tudo isto, há-de ser importante evitar uma
confusão entre estes dois sentidos, sobretudo por quase todos os que escreve­
ram sobre a probabilidade de hipóteses terem pressuposto sem mais discussão
que a probabilidade de uma hipótese relativamente aos testes por que passou
(o seu «grau de corroboração») podia ser tratada em termos de cálculo de pro­
babilidades.
Se, por outro lado, eu estiver errado ao afirmar que o grau de corroboração
não satisfaz o cálculo de probabilidades, então não poderá advir nenhum mal
de se distinguir provisoriamente tão distintamente quanto possível os dois usos
— talvez para mais tarde se provar que ambos podem ser tratados em termos
de cálculo de probabilidades, determinando por isso mesmo que eu estava errado.
(Julgo, porém, que posso provar que tenho razão; ver adiante, secção 31.)
Assim, tudo se mostra a favor de uma distinção clara, provisoriamente, pçlo
menos, e contra uma suposição prematura e acrítica de que o grau de corrobo­
ração tenha de satisfazer as regras gerais do cálculo de probabilidades.
4) Uma razão adicional resulta do facto de haver um terceiro sentido de «pro­
babilidade» — a probabilidade de uma inferência, explicada resumidamente na
secção anterior — que também se pode considerar que (tal como o segundo sen­
tido) satisfaz o cálculo de probabilidades. Foi esse terceiro sentido que tantas
vezes foi inconsciente e acriticamente confundido com grau de corroboração.
Por Locke e Hume, por exemplo, que distinguiram «inferência provável» ou
«argumento provável» de «argumento demonstrativo» ou «prova»5.
Ora, a eu estar certo na minha defesa de que o grau de corroboração não
satisfaz o cálculo de probabilidades, as probabilidades de Locke e de Hume têm
de se distinguir claramente de «probabilidade» no nosso primeiro sentido, isto
é, têm de se distinguir de grau de corroboração.
5) Se se introduzirem alguns termos artificiais novos para substituir as pala­
vras «provável» e «probabilidade» num ou noutro dos sentidos aqui discutidos,
o melhor será escolher um nome novo para o primeiro sentido e falar, diga­
mos, de uma «hipótese corroborada» pela seguinte razão.
A probabilidade de um acontecimento é o conceito mais popular: está fir­
mado tanto no jogo como nas ciências físicas e sociais, e, é claro, nas matemá­
ticas. A «probabilidade» de uma lei universal à luz dos testes é, em compara­
ção, um conceito próprio de um lógico ou de um filósofo. Mas é menos
repreensível (se é até que o chega a ser) intrometer-se no uso filosófico do que
no uso comum. (E é também talvez ligeiramente mais provável que a tentativa
possa resultar no acontecimento.)

3 No Enquiry (cp. secção vi, primeira nota), se bem que menos claramente no Treatise, Hume
divide os argumentos em «demonstrações, provas e probabilidades».

239

O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

6) Todos estes usos excepto o primeiro satisfazem as regras do cálculo de


probabilidades. A minha sugestão tem, portanto, a vantagem de levar à seguinte
regra terminológica fácil de recordar.
Mantemos os termos «provável» e «probabilidade de» nos casos em que não
há motivo para se duvidar que o cálculo matemático de probabilidades seja satis­
feito (e em particular a «regra de conteúdo» ou «axioma da monotonia»). Para
outros casos — como o da «probabilidade de hipóteses» no nosso primeiro
sentido — escolhemos outros termos (como «corroboração»), pelo menos a título
provisório, quer dizer, até se eliminar a dúvida de que as regras do cálculo não
lhe possam ser aplicadas.
Com isto termina a minha defesa das decisões terminológicas tacitamente
adoptadas nas secções 79 a 83 da L.Sc.D. Uma leitura dessas secções há-de mos­
trar que as razões que agora acabámos de dar não só já se lá encontram implí­
citas, mas que algumas delas assumem a forma de uma crítica pormenorizada
de autores como Keynes, que de maneira acrítica identificaram grau de corro­
boração com probabilidade.
Nas restantes secções deste capítulo vou ocupar-me apenas do grau de cor­
roboração de hipóteses — como de agora em diante direi, evitando, de acordo
com a minha regra terminológica, o termo «probabilidade».
As outras probabilidades, sobretudo a probabilidade de acontecimentos e
a probabilidade de inferências (lógica probabilística) serão discutidas na parte n
deste volume (ver ainda L.Sc.D., Apêndice *iv).

29 — Corroboração ou confirmação?

Na secção anterior, expliquei resumidamente as razões que tenho para sus­


peitar que o grau de corroboração não satisfaz o cálculo de probabilidades.
Essa suspeita cria todo o problema de que nos ocupamos, e para não obs-
curecer esse problema com uma terminologia confusa, introduzí o conceito de
«grau de corroboração» e insisti na necessidade de se usar «probabilidade» só
para conceitos que satisfaçam o cálculo de probabilidades (e em particular a
«regra do conteúdo», que corresponde àquilo a que chamei o «axioma da mono­
tonia» do cálculo).
Infelizmente há o perigo de outra confusão terminológica. Até há pouco
tempo (até L.Sc.D. estar em provas), eu não usava o termo «grau de corrobo­
ração», mas sim, em seu lugar, «grau de confirmação». E usei esse termo pre­
cisamente pela mesma razão: por causa da necessidade de evitar o termo «pro­
babilidade». Devo, portanto esclarecer agora por que é que decidi mudar a minha
terminologia, depois de a ter usado em, pelo menos, meia dúzia de publicações.
A história é muito simples. Até há pouco tempo, usei o dístico «grau de con­
firmação» porque era a tradução de Carnap, no seu «Testability and Meaning»,

240

.
A ABORDAGEM CRÍTICA

do meu termo «Grad der Bewáhrung» ou «Bewahrungsgrad» — o termo que


introduzí na L.d.F. para evitar «probabilidade» pelas razões que acabei de
explicar6. Como os rótulos não interessam, não vi razão para não aceitar a tra­
dução de Carnap, ainda que não gostasse especialmente dela. O termo rapida­
mente se fixou. Não há dúvida de que Carnap o usou primitivamente para deno­
tar aquilo que eu tinha pretendido denotar: o grau a que uma teoria resistiu a
testes. (Até num texto recente, Carnap ainda fala da «exigência de confirmabi-
lidade ou testabilidade», fazendo referência a «Testability and Meaning», em
que ambos esses termos são a tradução de termos usados na L.d.F. — por exem­
plo no título da secção 83.) Em breve, porém, o termo passou a ser usado com
um significado diferente; é que Carnap, na primeira fase de Logical Founda-
tions o f Probability supôs, assim sem mais, que o «grau de confirmação» de
uma hipótese satisfazia as regras do cálculo de probabilidades.
Nenhum dos intervenientes nesse desenvolvimento alguma vez referiu que
eu tinha argumentado em grande escala contra tal suposição, e nunca se res­
pondeu a nenhum dos meus argumentos. Aparentemente foram esquecidos.
Achei essa situação um pouco embaraçosa, e quando publiquei um artigo
(intitulado «Degree of Confirmation») em que dava uma definição daquilo a
que agora proponho que se chame «grau de corroboração», referi-me numa nota
a esse desenvolvimento. Nessa nota protestei de forma moderada contra uma
observação de Carnap no sentido de ser «geralmente aceite» que o grau de con­
firmação satisfazia as regras do cálculo de probabilidades.
O meu artigo foi alvo de uma resposta de J. Kemeny (que também usa «grau
de confirmação» no sentido de «probabilidade») no Journal o f Symbolic Logic.
Dizia ele na sua resposta: «Dever-se-ia fazer notar que Popper usou o termo
«grau de confirmação» primeiro — há vinte anos — sendo, portanto, infeliz
o facto de nos últimos anos ele ter sido muito usado num sentido indesejado
por Popper. Mas Popper não parece aperceber-se que o uso recente tem sido
num sentido diferente.»7
Foi esta observação de Kemeny que me levou a abandonar o termo «grau
de confirmação». É que eu com certeza não considerava esse rótulo como minha
propriedade.
Mas era um pouco surpreendente ler que eu não parecia «aperceber-me de
que o uso recente tem sido num sentido diferente» quando tinha sido justamente

6 Poder-se-á encontrar a tradução de Carnap, com referências a L.d.F ., em «Testability and


Meaning», Philosophy o f Science 3, 1936, p. 427. Um ou dois anos depois, sugeri a Carnap que
«grau de corroboração» poderia ser uma tradução melhor, mas como ele não concordou, aceitei
a sua tradução. (O termo «grau de corroboração» foi-me sugerido pelo meu amigo, o Prof. Hugh
N. Parton.)
1 Journal o f Symbolic Logic 20, 1955, p. 304 (itálicos no original). Dever-se-ia fazer a seguinte
correcção à réplica de Kemeny, p. 304, linha 16 a contar do fim: onde se lê «medida do apoio dado
por y a x» leia-se «medida do poder explicativo de x relativamente a y».

241
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

esse facto óbvio que tinha motivado a minha nota. E os recentes utilizadores
do termo não parecem ter consciência da possibilidade de o grau a que uma hipó­
tese fo i testada poder não satisfazer o cálculo de probabilidades, nem do facto
de eu ter dito isto há muito tempo, nem de nunca se ter respondido aos meus
argumentos.
Mas como agora escolhi um rótulo novinho em folha, acho que é melhor
ignorar a história do rótulo velho, que abandonei. A única coisa que agora
importa é que não se tornem a fazer confusões.
No que respeita ao «grau de confirmação» — no sentido mais recente, que
faz dele uma probabilidade — não posso deixar de sentir que o termo é redun­
dante. Por que não nos havemos de ficar por «probabilidade»? Para mais, levou
a muita confusão. Porque probabilidade e «grau de confirmação» (no uso
recente) não cumprem o que deles seria de esperar. Dão a todas as leis univer­
sais, tanto refutadas como bem corroboradas, o mesmo grau zero de probabili­
dade ou confirmação (cf. L.Sc.D., secção 80). E levam a outras dificuldades
insuperáveis deste gênero, como Carnap mais tarde veio a descobrir.
Dá-se o caso de eu preferir o rótulo «grau de corroboração» a «grau de con­
firmação». É que o termo «confirmação» facilmente, pode sugerir uma ideia
errada. Compreende o radical «firme», sugerindo ou um processo de tornar uma
hipótese gradualmente mais certa, ou então até um processo de a tornar final­
mente segura8. Por outras palavras, o termo «confirmação» tem fortes conota­
ções verificacionistas [verificationist associations, N. do T.]. É com satisfação,
portanto, que o deixo para os verificacionistas e para os que crêem na indução.
Viesse também o «grau de corroboração» a tornar-se uma probabilidade no
decurso dos próximos vinte anos ou isso9, e eu sugeriría aos meus alunos (se
os houvesse) que mudassem, por mais uma década ou isso, para algum rótulo
simples como «grau de uma hipótese» em vez de «grau de corroboração» e «gra­
duada por meio de testes» em vez de «corroborada».

30 — O problema do grau de corroboração

Se considerarmos o problema da indução um problema puramente prático,


ele poderá ser reformulado da seguinte maneira: «Quando é que aceitamos
— a título de ensaio — uma teoria?» A nossa resposta é, evidentemente:
«Quando ela tiver resistido à crítica, incluindo os mais severos testes que pos­
samos conceber; e mais especialmente quando ela tiver feito isso melhor do que
qualquer teoria que esteja em competição com ela.»

8 Cf. Philosophy o f Science 12, 1945, nota 2 à p. 99.


9 [Ver Jaakko Hintikka, «Induction by Enumeration and Induction by Elimination», in I. Laka-
tos, ed., The Problem o f Inductive Logic, 1968, pp. 191-216. Ed.]
A ABORDAGEM CRÍTICA

E é tudo: não há necessidade de levar este problema mais longe, ainda que
uma vez que o tenhamos resolvido possamos levantar outro — um que não pre­
cisa de ser levantado e que tem pouca influência na prática da investigação.
Trata-se do seguinte problema: «Seremos nós capazes de determinar o grau a
que uma teoria resistiu a testes? E, em particular, poderemos comparar duas
teorias — digamos, as teorias da gravitação de Newton e de Einstein — e dizer
com precisão por que é que a de Einstein está mais bem testada ou mais bem
corroborada e é, portanto, mais aceitável (a título de ensaio)?»
Na sua forma mais simples, o problema pode-se apresentar assim: a que
ponto é que a teoria t está bem testada? E poderemos atribuir-lhe um número
— uma medida ou grau — que resuma a severidade e o número dos testes, e
a maneira como a teoria os suportou, concedendo-lhe algo como uma nota de
exame, a que se chamaria o seu «grau de corroboração»?
No capítulo x da L.Sc.D. discuti as propriedades características do grau de
corroboração. Os principais pontos da minha discussão foram os seguintes:
1) O grau de corroboração está intimamente relacionado com a testabilidade
de uma teoria. O facto em si é perfeitamente óbvio: uma teoria mais testável
pode ser mais bem testada; e o que nós procuramos é uma classificação ou grau
que exprima a que ponto é que uma teoria foi severamente testada e como é
que ela resistiu aos testes.
2) Como a testabilidade, por sua vez, pode ser medida pelo conteúdo da teo­
ria, e como o conteúdo, por sua vez, pode ser medido pela improbabilidade lógica
absoluta da teoria, conteúdo e probabilidade relacionam-se com o grau da cor­
roboração da mesma maneira que a própria testabilidade. (Posso aqui referir,
de passagem, que a ideia de conteúdo empírico de uma teoria, enquanto medida
da classe dos falsificadores desta, era talvez a ideia lógica mais importante da
L.Sc.D. Desempenha um papel decisivo na teoria dos graus de testabilidade,
na teoria da simplicidade, na teoria da probabilidade e da improbabilidade lógi­
cas, e na da corroboração.)
3) A corroboração nunca pode ser uma probabilidade, já que está mais rela­
cionada com a improbabilidade de uma teoria do que com a probabilidade de
uma teoria: uma teoria forte (como a teoria ondulatória electromagnética da
luz, de Maxwell) pode ser mais amplamente e mais severamente testada do que
uma teoria mais fraca que ela implique (como a teoria ondulatória da luz, de
Fresnel). Todos os testes da última teoria são também testes da primeira, mas
não vice-versa. A situação pode ser semelhante até no caso de teorias que se
relacionem logicamente de maneira algo diferente, como a de Einstein e a de
Newton: um teste que apoie a teoria de Newton também apoia a de Einstein,
ainda que alguns testes sejam, de facto, testes cruciais entre as duas teorias; mas,
além destes, há testes da teoria de Einstein que muito simplesmente não são testes
da teoria de Newton. (Por exemplo, o desvio para o vermelho num campo gra-
vitacional forte.) Em todos estes casos, a teoria logicamente mais improvável

243
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

é que é aquela que não só tem maior testabilidade ou conteúdo, como em breve
se mostrará ser, de facto, a mais bem testada — desde que não seja refutada.
(É também a que tem um maior poder explicativo.)
4) O grau de corroboração da teoria mais fraca (como a de Fresnel ou a
de Newton) não só podia ser excedido pelo de uma teoria mais forte (a de Max­
well ou a de Einstein), mesmo sem haver falsificação da teoria mais fraca. O
grau de corroboração da teoria mais fraca pode, na verdade, diminuir com a
emergência de uma teoria mais forte10.
5) Toda a gente aceitou como certo, de forma acrítica, que uma hipótese
de probabilidade elevada era uma coisa boa, algo que deveria constituir o nosso
objectivo. Mas a probabilidade mais elevada será a de uma hipótese que não
diz nada (como uma tautologia) ou quase nada (como certos enunciados pura­
mente existenciais) ou que vai o menos possível além dos factos que se esperava
que explicasse (isto é, uma hipótese que é ad hoc). Não só o pretenso objectivo
de se obterem elevadas probabilidades nunca foi criticamente examinado, como
se pode mostrar que o princípio intuitivo de que as probabilidades elevadas são
algo de bom choca com outro princípio intuitivo: o princípio de que as hipóte­
ses ad hoc são algo de mau. E é este último princípio que é adoptado nas dis­
cussões críticas reais de teorias científicas, bem como na prática científica —
e não o primeiro.
Há mais alguns pontos, mas estes cinco que aqui se resumiram hão-de bas­
tar, espero, para mostrar o seguinte. O meu verdadeiro problema relativamente
ao grau de corroboração não era o de dar uma «definição adequada» de uma
ideia intuitiva de grau de corroboração. O verdadeiro problema em que eu estava
a pensar era, antes, este: há uma ideia intuitiva que à primeira vista pode pare­
cer uma probabilidade, e que muitos lógicos consideraram, sem a examinarem,
que fosse uma probabilidade; ao mesmo tempo, se olharmos mais de perto a
nossa efectiva apreciação de teorias, essa ideia passa a apresentar propriedades
que são incompatíveis com o cálculo de probabilidades. Chegamos assim às duas
questões seguintes.
A primeira questão é esta. Quem é que tem razão? Os filósofos que dizem
que ao testarmos uma hipótese estamos a estabelecer a sua probabilidade, no
sentido do cálculo de probabilidades? Ou eu, que digo que seja o que for que
estabeleçamos ao testar severamente uma hipótese, nunca poderá ser, em geral,
uma probabilidade no sentido desse cálculo?
A segunda questão pode-se apresentar assim. A minha ideia de grau de cor­
roboração será consistente? Será que existe uma função de medida que tem as

10 Isto é afirmado muito resumidamente na última fase antes do penúltimo parágrafo da sec-
ção 82 de L.Sc.D . Para justificar esta observação, deve-se definir grau de corroboração de maneira
que ele não seja só relativo às provas sob forma de testes, como também a outras teorias. Alcança-
-se isto através daquilo a que chamei a sua «forma relativizada»; ver adiante, secção 32.

244
A ABORDAGEM CRÍTICA

propriedades que eu atribuo ao grau de corroboração (e que, por conseguinte,


não satisfaz o cálculo de probabilidades)?
O nosso método para resolver estas duas questões será o de dar uma defini­
ção de grau de corroboração, em termos de conteúdo — o conteúdo da teoria
e o dos enunciados de teste. Como o conteúdo, por sua vez, é definível em ter­
mos de improbabilidade e, logo, de probabilidade, a nossa definição de grau
de corroboração será apresentada em termos — termos mais familiares — de
probabilidade. A partir dessa definição podemos imediatamente retirar a solu­
ção das nossas duas questões. Como o definiens há-de ser uma função de pro­
babilidades, poderemos de imediato decidir a questão de saber se o «grau de
corroboração» é, ele mesmo, uma probabilidade. A resposta é não. E como sabe­
mos que o cálculo de probabilidades é consistente, também podemos responder
sim à segunda pergunta.
O próprio facto de eu dar uma definição de grau de corroboração faz com
que seja aqui necessário salientar que o meu verdadeiro problema — aquele que
eu queria resolver — não era o de definir grau de corroboração. Em vez disso,
a tarefa de encontrar uma definição adequada dessa ideia (e de grau de aceita­
bilidade) surgiu não do desejo de definir, mas sim de alguns problemas reais.
Surgiu, em última análise, dos problemas da indução e da demarcação. E pro­
blemas genuínos não se podem resolver com definições, ainda que as definições
possam por vezes ser úteis para esclarecer certas questões.

31 — Corroboração

O problema das pessoas — pessoas acríticas — que sustentam uma teoria


é que se inclinam para considerar que tudo apoia ou «verifica» essa teoria, e
que nada a refuta. Muitos empiristas, Bacon por exemplo, viram este perigo;
e tentaram contrariá-lo aconselhando os cientistas a absterem-se de teorizar e
a expulsarem do seu espírito todas as teorias «preconcebidas» — até uma teo­
ria se impor, como resultado de observação pura e sem preconceitos, no seu
espírito. Como vimos, este conselho é impraticável, só podendo levar ao auto-
-engano e ao hábito de sustentar teorias inconscientemente (e, portanto, acriti-
camente). O conselho adequado que há a dar ao cientista é o de que ele há-de
sempre sustentar, consciente ou inconscientemente, um aglomerado de teorias
e que é altamente aconselhável adoptar uma atitude crítica face a essas teo­
rias — ainda que, regra geral, ele não possa ser activamente crítico de mais do
que uma de cada vez.
Equivale a adoptar a atitude acrítica o considerar-se que um acontecimento
ou uma observação (digamos, e) apoia ou confirma uma teoria ou uma hipó­
tese (digamos, h) sempre que e «esteja de acordo» com h ou seja um caso parti­
cular de h.

245
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

Assim, acredita-se que acriticamente a ocorrência de um cisne branco «apoia»


ou «confirma» a hipótese hl segundo a qual todos os cisnes são brancos. E a
hipótese h2 de que 90 % dos cisnes são brancos? A hipótese h2 é, evidente­
mente, inconsistente com a hipótese hl de que todos os cisnes são brancos; mas
se se considera que a última hipótese é «apoiada» pela ocorrência de um cisne
branco, a primeira também deveria ser assim considerada11. Talvez se possa res­
ponder que para apoio da teoria estatística h2 é precisa uma amostra de pelo
menos dez cisnes — nove brancos e um não-branco. Mas, se assim fosse, não
diriamos também que para apoio da teoria h] era preciso, pelo menos, o
mesmo número de cisnes, todos eles brancos, evidentemente? (Mas a isto acon­
tecer, um caso particular nunca poderia apoiar uma teoria.)
Vamos, porém, deixar para depois a questão das teorias estatísticas como
h2: para já, vamos considerar apenas teorias universais.
Relativamente a essas, temos a considerar duas atitudes principais:
d) A atitude acrítica ou verificacionista: procura-se «verificação», «confir­
mação» ou «instanciação» [«instantiation», N. do T.], e encontra-se, regra
geral. Pensa-se que qualquer «caso particular» observado da teoria «confirma»
a teoria.
b) A atitude crítica, ou atitude falsificacionista: procura-se falsificação ou
casos desfavoráveis12. Só se a mais conscienciosa busca de casos desfavoráveis
não resultar é que poderemos falar de corroboração da teoria.
Poder-se-á perguntar se é realmente tão acrítico considerar todos os casos
particulares de uma teoria confirmações dela. Mas é possível mostrar que por
razões lógicas fazer isso equivale à crença de que tudo é uma confirmação —
com a excepção única de um caso desfavorável. Assim, não são só os cisnes bran­
cos que «confirmam» a teoria de que todos os cisnes são brancos, mas também
os corvos negros e os sapatos vermelhos. Isto poderá parecer estranho; mas a
ser verdade, então terá que se admitir que os que consideram (quase) qualquer
coisa como sendo uma «confirmação» das suas teorias estão a actuar deveras
muito bem, do ponto de vista verificacionista, e vice-versa: que o verificacio­
nista é um homem que tem tendência para considerar que tudo apoia as suas
idéias.
Facilmente se pode mostrar que tudo é um caso de «Todos os cisnes são
brancos» — a não ser que seja um contra-exemplo, isto é, um cisne não-
-branco. É que «Todos os cisnes são brancos» pode-se escrever da seguinte
maneira: «Tudo quanto é um cisne é branco», ou «Se algo é um cisne, então

11 C. G. Hempel, que sustenta uma teoria instancionista da confirmação, sustenta também, curio­
samente, a teoria de que não há provas nenhumas e que possam confirmar duas hipóteses e h2
se e h2 forem inconsistentes. Ver a nota 13 ao Apêndice *vii da L.Sc.D.
12 Não deixa de ter interesse histórico o facto de até cerca de 1600 «caso» [«instance», N. do T.]
significar «contra-exemplo» ou «contra-instância» (de instantia, isto é, obstáculo: o que está no
meio do caminho — no caminho para a aceitação, neste caso).

246
A ABORDAGEM CRÍTICA

é branco» ou «Qualquer coisa é branca a não ser que não seja um cisne».
Sempre que uma coisa satisfaça isto, é um «caso» [«instance», N. do T.]. É
sabido que (em lógica estensional) qualquer coisa que não seja um cisne satis­
faz estas fórmulas, e também qualquer coisa que seja branca; de modo que
só uma coisa que seja um cisne e não seja branca (e, por isso, contra-exemplo)
é que não a satisfaz. Isto mostra por que é que a verificação, ou instancia-
ção, tem demasiadamente pouco valor para que tenha algum significado, e
por que é que só são interessantes os casos que se poderia esperar que fos­
sem contra-exemplos, a não ser que a teoria fosse verdadeira. Mais exacta-
mente, os casos interessantes hão-de ser casos cruciais — casos para os quais
a teoria a testar prevê resultados que diferem dos resultados previstos por
outras teorias significativas, em especial por aquelas que foram aceites até
ao momento.
A diferença fundamental entre a perspectiva verificacionista e a minha pers­
pectiva, a do «apoio» é, portanto, a seguinte. Ao passo que a perspectiva veri­
ficacionista conduz à pretensão de que todos os «casos» de h apoiam h, eu afirmo
que somente os resultados de testes genuínos é que podem apoiar h.
Assim, um cisne branco que tenha sido observado apoiará, para o verifica­
cionista, a teoria de que todos os cisnes são brancos; e se for consistente (como
Hempel), dirá que um corvo-marinho que tenha sido observado também apoia
teoria de que todos os cisnes são brancos. Na minha perspectiva, pelo contrá­
rio, nenhuma dessas observações apoia necessariamente a teoria, ainda que cada
uma delas a possa apoiar em circunstâncias especiais. Assim, por exemplo, se
tivermos boas razões para pensar que aquilo que está neste charco é um cisne
preto (pensando isso à luz de teorias anteriormente aceites), então quer a des­
coberta de que é um cisne branco, quer a de que é um corvo-marinho preto pode
apoiar a teoria de que todos os cisnes são brancos.
Na perspectiva verificacionista sobre este assunto, há, pois, uma relação
lógico-formal simples — a instanciação — cuja presença ou ausência decide se
e apoia h ou não: se e é um caso de h, então e apoia h. Na minha perspectiva,
a situação é menos simples: só se e resultar de tentativas autênticas ou sinceras
de refutar h é que se pode considerar que e apoia h.
Parece-me pouco provável que essa relação entre e e h seja passível de uma
análise lógica completa: a sinceridade não é o tipo de coisa que se preste a aná­
lise lógica. Mas não há razão para ficarmos desanimados. Primeiro que tudo,
podemos passar muito bem sem uma análise lógica do apoio e da corrobora-
ção. E, em segundo lugar, podemos avançar bastante na direcção da sua aná­
lise — mais do que se poderia esperar.

Vou agora tentar analisar de forma mais completa a ideia «e apoia h», que
prepara a análise do grau a que e corrobora h. Para tanto, utilizaremos, além
,de e (as provas empíricas) e de h (a hipótese), mais uma variável: o nosso conhe­

247
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

cimento de fundo [background knowledge, N. do T.] b. E podemos então dizer


que e apoia h à luz de b n .
Por conhecimento de fundo b entendemos qualquer conhecimnento (relevante
para a situação) que aceitemos — talvez só a título de ensaio — enquanto esta­
mos a testar h. Assim, b pode incluir, por exemplo, condições iniciais. É impor­
tante perceber-se que b tem de ser consistente com h; assim, aceitássemos nós,
antes de considerar e de testar h, uma teoria h ’ que, juntamente com o resto
do nosso conhecimento de fundo, fosse inconsistente com h, e teríamos de excluir
h ’ do conhecimento de fundo b. (Pode nem sempre ser fácil decidir o que é que
temos de excluir de b, mas isto é um problema que não tenciono discutir agora.)
Suponhamos que há certas consequências experimentalmente testáveis de hb,
isto é, da conjunção de h e b. Entre essas consequências, pode haver alguns acon­
tecimentos que certamente não esperaríamos que ocorressem se h fosse falsa.
Seja e uma consequência dessas; quer dizer, seja que e descreve um aconteci­
mento observável que se pode prever que ocorra (em presença de b) se h for
verdadeira, e que não esperaríamos que ocorresse se h fosse falsa. Inclinar-nos-
-emos então para dizer que se e efectivamente ocorrer, então isso há-de apoiar h.
Esta, porém, não é uma formulação muito satisfatória, ainda que possa servir
como ponto de partida. O problema está ligado à observação (que se fez duas
vezes) de que e é um acontecimento «que não esperaríamos que ocorresse se h
fosse falsa».
Tendo em conta o facto de que exigimos que «e decorra de h (em presença
de b)» poderiamos inclinar-nos para interpretar a observação em questão pela
exigência «não-e decorre de não-h (em presença de b)». Mas isso equivalería
a outra forma de verificacionismo: tornaria e e h equivalentes (em presença de
ti), e permitir-nos-ia, assim, verificar h por observação, isto é, observando que
e é verdadeira.
Mas mesmo para lá de qualquer hostilidade ao verificacionismo, não é plau­
sível exigir que não-e decorre de não-A (e de b). Porque, suponhamos que e é
um acontecimento que apoia h — algo previsto por h, e algo que nunca nin­
guém teria considerado sem h. Por exemplo, seja e a primeira observação de
um novo planeta (Neptuno) por J. G. Galle, numa posição prevista por Adams
e por Leverrier, e seja h a teoria de Newton em que essa previsão se baseava.
Então, com certeza que e apoia h — e fá-lo com muita força. Mas, apesar deste
facto, e também decorre de teorias que, como a de Einstein, implicam não-h
(em presença de ti). Seria, portanto, um erro crasso exigir que não-e decorresse
de não-h (e de ti). O erro traduz-se na crença de que e (que, como acabámos
de dizer, deve ser crucial entre h e alguma outra teoria significativa) tem de ser
crucial entre h e todas as outras teorias que estão em contradição com h.13

13 [A ideia de «conhecimento de fundo», aqui introduzida por Popper, foi primeiramente divul­
gada por ele em 1954 e 1957. Ver L.Sc.D ., pp. 401 e 404. Ed.)

248
A ABORDAGEM CRÍTICA

Por esta razão, a nossa segunda exigência «não-e decorre de não-h (e de b)»
é forte demais. Mas não podemos passar completamente sem alguma coisa desse
gênero. Porque a nossa primeira exigência — que e decorre de h (e de b) é bas­
tante insuficiente, considerando que e decorre de h, em presença de b, se se segue
de b sozinho.
Mas exigir que e não decorra de b sozinho também não basta. Porque se
e fosse provável, em presença de b sozinho («provável» no sentido do cálculo
de probabilidades), então dificilmente se poderia considerar que a sua ocorrên­
cia era um apoio significativo de h.
Assim, James Challis, a quem Adams tinha dado os resultados dos seus cál­
culos, observou efectivamente Neptuno perto da órbita calculada antes de Galle
o ter feito. Mas o astro que viu não parecia mover-se, e ele não pensou que a
sua observação fosse suficientemente significativa para a comparar com poste­
riores observações da mesma região que revelariam o movimento. A presença
de algum astro desconhecido de oitava grandeza, perto do lugar calculado, era,
em si, bastante provável, com base no conhecimento de fundo, não lhe pare­
cendo, portanto, significativa. Só a presença de um astro em movimento, de
um planeta, é que teria sido significativa, por ser inesperada — embora não com
base nos cálculos de Adams14. Vamos portanto admitir que a natureza inespe­
rada [unexpectedness, N. do T.] de um acontecimento pode ser identificada com
uma probabilidade baixa, no sentido do cálculo de probabilidades, com base
no conhecimento de fundo.
É portanto necessário colocar uma segunda exigência. Através dela pode­
mos excluir, por exemplo, os casos em que e seria provável dado somente o
conhecimento de fundo b; «provável» no sentido do cálculo de probabilidades.
Precisamos, portanto, do cálculo de probabilidades; e vamos escrever

p(a,b) = r,

que se deve ler: «A probabilidade de a sendo dado b é igual a r.» Do mesmo


modo, vamos escrever «ab» para a conjunção «a e b» e ã para «não-a». Por
conseguinte,
p(ab,c) = r

dever-se-ia ler: «A probabilidade de a e b sendo dado c é igual a r»; e, por exem­


plo,
p(ã,bc) = r

dever-se-ia ler: «A probabilidade de não-a sendo dado b e c é igual a r.»

14 Para os factos, ver B. A. Gould, Report to the Smithsonian Institute on the History o f the
Discovery o f Neptune, 1850.

249
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

Ora, nós podemos exprimir a nossa exigência de que a prova empírica e, a


apoiar h, não possa ser provável (ou esperada) com base somente no conheci­
mento de fundo b através de

p(e,b) <V.2 .

Isto leva-nos imediatamente a perceber que quanto mais pequena fo r p(e,b),


mais forte será o apoio que e presta a h — desde que a nossa primeira exigência
seja satisfeita, isto é, desde que e decorra de h e de b, ou de h em presença de b.
O resultado é interessante de duas maneiras. Primeiro, é altamente intuiti­
vamente satisfatório que só se aceite como sendo significativa a prova impro­
vável e — improvável segundo o nosso conhecimento de fundo — como se mos­
tra no exemplo de Neptuno. A previsão que um adivinho faz a uma rapariga,
«você vai conhecer em breve um jovem interessante», é demasiadamente pro­
vável por si mesma para que se possa aceitar, caso se mostre ser verdadeira,
que apoia as teorias em que a arte do adivinho se possa basear. Em segundo
lugar, exigimos intuitivamente que só testes severos é que contem, e que quanto
mais severos seiam mais contem. Mas isto é o mesmo que exigir que e seja impro­
vável segundo o nosso conhecimento de fundo. Isto obviamente exprime em lin­
guagem probabilística a exigência de que e resulte de um teste severo. E isto,
por sua vez, envolve a exigência de que h seja altamente testável — isto é, tes-
tável por testes severos — e, portanto, altamente improvável, ou com grande
conteúdo empírico.

Todas estas considerações sugerem que a seguinte definição de «e apoia h»


seria razoavelmente adequada: e apoia h em presença do conhecimento de fundo
b se e só se
a) e decorrer de hb,
b) p(e,b) < Vi.
É claro que podemos escrever a), bem como b), em termos probabilísticos;
quer dizer, em vez de «e decorre de hb» podemos usar aqui uma fórmula ligei­
ramente mais fraca15, que é «a probabilidade de e, dado hb [isto é, a conjun­
ção de h e ô)] é igual a um». Escrevemos isto da seguinte maneira:

a) p(e,hb) = 1.

15 Pode-se representar «e decorre de hb» em linguagem probabilística, por exemplo através da


fórmula
p(e,hbe) = 1.

A partir desta fórmula, a fórmula a), mais fraca, decorre de imediato. Ver L.Sc.D ., Apêndice *v,
fórmula (+) na p. 356, bem como a discussão que se segue a essa fórmula.

250
A ABORDAGEM CRÍTICA

Perante d) e b) podemos modificar mais (e enfraquecer) a nossa definição,


escrevendo e apoia h em presença de b se e só se

c) p(e,hb) — p(e,b) >Vi.

Pode-se referir entre parêntesis que, escrito desta forma, «apoia» revela-se ser
uma versão mais forte de «é positivamente dependente de», pois definimos de
um modo bastante geral na teoria das probabilidades: a é positivamente depen­
dente de b em presença de c se e só se

p(a,bc) — p(a,c) > 0.

E poderiamos realmente usar isto como definição de «apoia», ou, mais exacta-
mente, poderiamos substituir o definiens c) pelo definiens mais fraco

d) p(e,hb) — p(e,b) > 0.

Chegamos deste modo à (forma relativisada da) definição de «apoia» que é dada
em L.Sc.D., Apêndice *ix na primeira das três notas (p. 396).
Parece-me que o definiens d) é perfeiamente adequado, na medida em que
lhe acrescentarmos a seguinte cláusula adicional, que, por assim dizer, substitui
c): o apoio dado por e a h só se torna significativo quando

e) p(e,hb) — p(e,b) > Vi.

Com esta cláusula adicional entrámos na discussão do problema do grau de


apoio ou grau de corroboração. Porque aceitando o definiens d) e acrescentando
esta cláusula, estamos a dizer que não basta definir «apoia», mas que temos,
além disso, de determinar um grau significativo de apoio; ou, por outras pala­
vras, que temos de introduzir uma medida do grau de apoio ou de corrobora­
ção para distinguir graus significativos.
A primeira sugestão, uma sugestão óbvia, parece ser esta: aceitando a cláu­
sula adicional, consideramos a diferença usada em c) e d), quer dizer

f) P(e,hb) — p(e,b)

uma medida do grau de apoio que e dá a h em presença de b, ou do grau de


corroboração C) e h por e em presença de b; quer dizer, a sugestão é a de defi­
nirmos
C(h,e,b),

isto é, o grau de corroboração de h por e em presença do conhecimento de fundo


b, pela diferença expressa na definição f) . A definição sugerida tem pequenos

251
O REALISMO E O OBJECTIVO DA CIÊNCIA

defeitos que se podem reparar «normalizando» é), quer dizer, dividindo e) pelo
«factor de normalização»

g) P(e,hb) — P(eh,b) + p(e,b).

Chegamos assim à definição

D C(h,e,b) = ____ P (eM ) ~ P(e’b)____


p(e,hb) — p(eh,b) + p(e,b)

Enquanto nesta definição D o numerador è) da fracção tem um significado intui­


tivo claro e simples, o denominador f ) não tem semelhante significado: é esco­
lhido apenas por levar a resultados satisfatórios — remove os defeitos que
referimos — e por parecer ser o factor de normalização mais simples que leve
a esses resultados.
Mas antes de indicar um dos defeitos que a adopção de D remove, vou refe­
rir alguns dos resultados gerais da adopção ou de f ) ou de D.
Adopte-se D como definição do grau de corroboração ou escolha-se é) como
definiens, obtemos os seguintes resultados altamente intuitivos:

/) Se e apoia h [dado o conhecimento de fundo