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tMINISTÉRIO DA JUSTIÇA
SECRETARIA NACIONAL DE SEGURANÇA PÚBLICA
UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO
CENTRO DE CIÊNCIAS JURíDICAS E ECONÔMICAS
CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO LATU SENSU EM SEGURANÇA PÚBLICA

ABORDAGEM POLICIAL E SUA (IN)FUNDADA SUSPEITA

ROGÉRIO FERNANDES LIMA

POLÍCIA MILITAR DO ESPÍRITO SANTO

VITÓRIA/ES
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2008
ROGÉRIO FERNANDES LIMA

ABORDAGEM POLICIAL E SUA (IN)FUNDADA SUSPEITA

Monografia de conclusão do Curso de


Pós-Graduação Latu Sensu em
Segurança Pública apresentada ao
Centro de Ciências Jurídicas e
Econômicas da Universidade Federal do
Estado do Espírito Santo, sob a
orientação do Professor Drº Sandro José
da Silva.
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VITÓRIA/ES
2008
ROGÉRIO FERNANDES LIMA

ABORDAGEM POLICIAL E SUA (IN) FUNDADA SUSPEITA

Monografia de conclusão do Curso de Pós-Graduação Latu Sensu em


Segurança Pública apresentada ao Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas
da Universidade Federal do Espírito Santo.

Aprovada em:

BANCA EXAMINADORA:

_____________________________________
Professor Drº Sandro José da Silva

_____________________________________
Professor Mestre Marcio Luiz Boni

_____________________________________
Professor Especialista Adriana Lacerda
10

Agradeço a Deus que possibilitou minha


chegada até o presente estágio, fazendo
11

com que superasse todos os obstáculos;


a minha mãe, Solange Barroso Lima, que
sempre, junto a mim, deu-me força e
apoio.

A polícia apresenta suas armas,


Escudos transparentes, cassetetes
Capacetes reluzentes
E a determinação de manter tudo
Em seu lugar.

O governa apresenta suas armas


Discurso reticente, novidade inconsistente
E a liberdade que cai por terra
Aos pés de um de Godard

A cidade apresenta suas armas


Meninos nos sinais, mendigos pelos
E o espanto está nos olhos de quem vê
O grande monstro a se criar

Os negros apresentam suas armas


As costas marcadas, as mãos calejadas
12

E a esperteza que só tem quem ta


Cansado de apanhar

Selvagem, Paralamas do Sucesso


(Herbert Viana, Bi Ribeiro, João
Barone e Gilberto Gil; gravadora
EMI; 1986)
RESUMO

O presente trabalho monográfico objetiva buscar um maior entendimento


acerca do tema “abordagem policial e a fundada suspeita”, tendo por base a
legalidade da ação policial, vendo se esta era pautada em preconceitos raciais
ou quaisquer outros; para tanto foi feito um estudo comparado em diversas
áreas do Direito Público – Direito Constitucional, Administrativo, Penal,
Processual Penal, bem como o estudo adentrou a área sociológica, tendo por
escopo formar uma opinião sólida a respeito da melhor maneira de se
compreender o procedimento policial, bem como o proceder do cidadão.
13

SUMÁRIO
RESUMO
1. INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 08
2. PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS ............................................................. 09

3 DIREITO DE IR E VIR ................................................................................. 13

4 ESTADO-ADMINISTRAÇÃO ...................................................................... 19

5 PODER DISCRICIONÁRIO ........................................................................ 22

6 PODER DE POLÍCIA .................................................................................. 24

7 ABORDAGEM POLICIAL ............................................................................ 27

8 CIDADANIA ................................................................................................. 31

9 ELEMENTO SUSPEITO ............................................................................. 36

10 CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................ 44

REFERÊNCIAS ........................................................................................... 51
14

1. INTRODUÇÃO

Qualquer atividade desenvolvida requer procedimentos adequados, dentro


desta ótica é que buscamos entender o procedimento policial da abordagem e
busca pessoal, observando, precipuamente, a abordagem a pessoas, esta a
mais crítica, pois vem a restringir o ir e vir do cidadão.

Assim sendo, o estudo em tela buscou unir a prática deste pós-graduando, o


qual serve nos quadros da briosa Polícia Militar do Espírito Santo com as
atividades desenvolvidas na Academia.

O presente trabalho não tem a pretensão de esgotar o tema, tema que é muito
novo nos ambientes universitários, mas sim fomentar o debate acerca do
assunto, haja vista que podemos vir a ser abordados a qualquer momento.

O ponto inicial da pesquisa foi abordar os princípios constitucionais, enfocando,


principalmente, o direito de ir e vir do cidadão, adiante se analisou o surgimento
do Estado enquanto Administração, enfocando então o poder discricionário e o
poder de polícia, até chegarmos na abordagem, e sua real necessidade.

Diante disto concluímos o presente trabalho na esperança de motivar a


pesquisa sobre o tema, haja vista que não se trata somente de um caso de
policia ou de direito, mas sim de um caso de exercício da cidadania.
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2. PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS:

Os princípios constitucionais consubstanciam a inter-relação, o fio condutor


entre todos os conceitos jurídicos, refletindo a evolução, sócio-política-
econômica dos valores culturais de uma época; são, desta forma, necessários
para o entendimento científico do Direito e sua história. Afinal, o Direito não
pode ser compreendido dissociado de sua história, sob o risco desta
interpretação ser equivocada, alienada e alienante.

Antes de adentrar ao estudo específico dos princípios constitucionais, mister se


faz uma prévia explanação sobre a questão dos princípios.

Segundo a professora, Elizabeth Cristina Campos Martins de Freitas:

O termo princípio, etimologicamente, advém do latim (principium,


principii) e nos remete à idéia de começo. Consoante De Plácido e
Silva, princípio, derivado do latim principium (origem, começo), em
sentido vulgar que exprime o começo de vida ou o primeiro instante
em que as pessoas ou as coisas começam a existir. É, amplamente,
indicativo do plural, quer significar as normas elementos ou os
requisitos primordiais instituídos como base, como alicerce de alguma
coisa. E, assim, os princípios revelam o conjunto de regras ou
preceitos que se fixaram para servir de norma a toda espécie de ação
jurídica, traçando, assim, a conduta a ser tida em qualquer operação
1
jurídica (...)

Os princípios constituem abstrações desprovidas de concreção. Exercem uma


função ordenadora, apta a indicar rumos nos momentos de instabilidade.
Mostram-se invocáveis quando da exegese dos textos básicos, nos períodos
de normalidade institucional, os princípios funcionam imediatamente como
critérios interpretativos e de integração, conferindo coerência geral ao sistema.

1
FREITAS, Elizabeth Cristina Campos Martins. Campinas: PUC. Revista Jurídica, 2001.
Volume 17. Nº 01. P.14-37
16

A moderna teoria jurídica, que tem no professor J.J. Canotilho, como esteio
maior, entende prestar-se o princípio a resolver, com maior flexibilidade em
relação às normas, as antinomias normativas, enquanto os princípios postulam
uma otimização recíproca, que é irreconduzível a soluções de tudo ou nada. Já
as normas conflitantes podem exigir instrumentos mais radicais de soluções.

Os princípios constitucionais são aqueles que guardam os valores


fundamentais da ordem jurídica. Isto só é possível na medida em que estes
não objetivam regular situações específicas, mas sim desejam lançar sua força
sobre todo o mundo jurídico; os princípios constitucionais são aqueles valores
albergados pelo Texto Maior a fim de dar sistematização ao documento
constitucional, de servir como critério de interpretação e finalmente, o que é
mais importante, espraiar os seus valores, pulverizá-los sobre todo o mundo
jurídico.

É bom salientar que os princípios não exigem um comportamento específico,


isto é, estabelecem ou pontos de partidas ou metas genéricas; as regras, ao
contrário, são específicas ou em pautas; os princípios não são aplicáveis à
maneira de um tudo ou nada, pois enunciam uma ou algumas razões para
decidir em determinado sentido, sem obrigar a uma decisão particular, já as
regras enunciam pontos dicotômicos, isto é, estabelecem condições que
tornam sua aplicação e conseqüências que se seguem necessariamente; os
princípios têm um peso ou importância relativa, ao passo que as regras têm
uma impossibilidade mais estrita, assim, os princípios comportam avaliação,
sem que a substituição de um por outro de maior peso signifique a exclusão do
primeiro, já as regras, embora admitam exceções, quando contraditadas
provocam a exclusão do dispositivo colidente; o conceito de validade cabe bem
para as regras, que ou são válidas ou não o são, mas não para os princípios,
que, por serem submetidos à avaliação de importância, mais bem se encaixam
no conceito de legitimidade.
17

Uma vez incorporados à Constituição, os princípios fundamentais passam a


suscitar interesse no tocante à sua tipificação ou enquadramento normativo.
Seria então o caso de indagar da força jurídica dos princípios, isto é, se os
mesmos têm alguma ou acentuada expressão normativa.

O professor Jorge Miranda esclarece detalhadamente que os princípios não se


colocam além ou acima do direito, também eles, numa visão ampla,
superadora de concepções positivistas, literalistas e absolutizantes das fontes
legais, fazem parte do complexo ordenamental. Não se contrapõem as normas,
contrapõem-se tão somente aos preceitos, as normas jurídicas é que se
dividem em normas princípios e normas disposições, constituem normas
básicas de ordenação constitucional.

A distinção, pois, entre princípios e normas jurídicas não resultam na negação


dos princípios como espécies normativas, uma vez positivadas no texto
constitucional, ascendem os princípios à categoria normativa, pelo que devem
ser tidos como normas jurídicas, alguns auto-executáveis enquanto
diretamente aplicáveis ou diretamente capazes de conformarem as relações
político-constitucionais.

Para José Afonso da Silva:

os princípios são ordenações que se irradiam e imantam os sistemas


de normas, são [como observam Gomes Canotilho e Vital Moreira]
núcleos de condensações nos quais confluem valores e bens
constitucionais. Mas, como disseram os mesmos autores, os
princípios, que começam por ser à base de normas jurídicas, podem
estar positivamente incorporados, transformando-se em normas-
princípios e constituindo preceitos básicos da organização
2
constitucional.

Os princípios constitucionais se preocupam, sobretudo, em estabelecer os


limites da eficácia de tais normas, cujo excesso da generalidade as insere,
segundo, certos juristas, numa categoria especial, isto é, num tipo à parte, sem
2
SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. São Paulo: Malheiros. 19ª.
2001
18

que isso invalide, em absoluto, o título de normatividade que já lhes foi


outorgado pela doutrina dominante.

Mas não é unicamente a generalidade o traço imperante na caracterização dos


princípios, Domenico Farias, que lhes não recusa o caráter de genuínas
normas jurídicas, acrescenta o da fecundidade, uma idéia, todavia, retorna com
freqüência, se não exclusiva, decerto preponderante – os princípios são a alma
e o fundamento de outras normas. Substancialmente é a idéia de fecundidade
do princípio aquela que se acrescenta à mera generalidade.

Esclarece, em seguida, as duas funções capitais que se inferem da


fecundidade dos princípios, a saber – a interpretativa e a integrativa. Com
efeito, escreve Farias: ‘A forma jurídica mais definida mediante a qual a
fecundidade dos princípios se apresenta é, em primeiro lugar, a função
interpretativa e integrativa’.

O recurso aos princípios se impõe ao jurista para orientar a interpretação das


leis de teor obscuro ou para suprir-lhes o silêncio. Antes ainda das Cartas
Constitucionais, ou, melhor, antes que, sob o influxo do jusnaturalismo
iluminista, máximas jurídicas muito genéricas se difundissem nas codificações,
o recurso aos princípios era uma necessidade de interpretar e integrar as leis.

Partindo-se da função interpretativa e integrativa dos princípios – cristalizada


no conceito de sua fecundidade – é possível chegar, numa escala de
densidade normativa, ao grau do mais alto àqueles já subiram na própria esfera
do direito positivo: o grau constitucional.

Deve-se compreender que uma Constituição não é fundamentalmente um


projeto para o futuro, é uma forma de garantir direitos e limitar poderes, acima
de tudo limitar poderes de déspotas. O próprio poder constituinte não tem
autonomia: serve para criar um corpo rígido de regras garantidoras de direitos
e limitadores de poderes.
19

Os princípios constitucionais são o cerne do ordenamento jurídico pátrio, sendo


corporificados pela vontade do cidadão, servindo de base para legislações
infraconstitucionais. E por ser expressão da vontade do cidadão, tem por
escopo tutelar as garantias primordiais à vida das pessoas, buscando desta
maneira que uma Nação consiga atingir seus objetivos precípuos.

Na concepção jurídica, como também, fora dela, princípios designam ‘a


estruturação de um sistema de idéias, pensamentos ou normas por uma idéia
mestra, por um pensamento chave, por uma baliza normativa, de onde todas
as demais idéias, pensamentos ou normas derivam se reconduzem ou se
subordinam’.

Na ciência jurídica tem-se utilizado o termo princípio ora para designar a


formulação dogmática de conceitos estruturados por sobre o direito positivo,
ora para designar determinados tipos de normas jurídicas, ora para estabelecer
os postulados teóricos, as proposições jurídicas construídas
independentemente de uma ordem jurídica concreta ou de institutos de direito
ou normas legais vigentes. É imprescindível entender dos princípios, pois
assim sabemos quais são os valores primordiais de um povo.

3. DIREITO DE IR E VIR:

Para falar no direito de ir, vir e permanecer, liberdade de locomoção, deve-se


fazer uma inserção sociológica, filosófica e jurídica, ou no dizer de Afonso
Arinos de Melo Franco:
A justificação dos direitos públicos individuais, ou liberdades
individuais, pode ser encontrada na teoria jurídica, na filosofia do
3
direito, ou em argumentos meta-jurídicos, éticos e religiosos

3
FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Direito Constitucional: Teoria da Constituição:
Constituições do Brasil. Rio de Janeiro: Forense. 1976. P.45
20

Em que pese seja ambos os termos – direitos humanos e direitos fundamentais


– comumente utilizados como sinônimos, a explicação corriqueira e, diga-se de
passagem, procedente para a distinção é que o termo direito fundamental se
aplica para aqueles direitos do ser humano reconhecido e positivado na esfera
do direito constitucional positivo de determinado Estado, ao passo que a
expressão ‘ direitos humanos’ guardaria relação com os documentos de direito
internacional, por referir-se àquelas posições jurídicas que se reconhecem ao
ser humano como tal, independentemente de sua vinculação com determinada
ordem constitucional, e que, portanto aspiram à validade universal, para todos
os povos e tempos, de tal sorte que revelam o inequívoco caráter
supranacional.

O direito de ir, vir e permanecer, é, pois, um direito fundamental, inscrito na


Carta Magna de nosso país, sendo a liberdade da pessoa humana de se
locomover livremente por toda parte, um bem intransigível e inegociável,
obedecidos os preceitos legais.

A Constituição da República Federativa do Brasil em seu preâmbulo nos diz:

Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia


Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado
a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade,
a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça
como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem
preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem
interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias,
promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte Constituição da
4
República Federativa do Brasil

A Carta magna continua em seu artigo 1º, a reconhecer como valores em seus
incisos: a cidadania e a dignidade da pessoa humana.

Continuando o Constituinte de 1988, buscou fortalecer os seus conceitos,


também no artigo 4º, do citado diploma legal, reconhecendo: prevalência dos
direitos humanos.
4
BRASIL, Constituição (1988), Constituição [da] República Federativa do Brasil. Brasília:
Senado Federal, 1988.
21

Finalmente em seu artigo 5º, considerado pelos doutrinadores constitucionais o


que mais defende os direitos fundamentais, chegando a codificá-los, nos seus
incisos II, X e XV –

II – ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa


senão em virtude de lei; X – são invioláveis a intimidade, a vida
privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a
indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;
XV – é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz,
podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer
5
ou dele sair com seus bens.

É importante salientar que é pela locomoção que o homem externa um dos


aspectos fundamentais da sua liberdade física. Circular consiste em deslocar-
se de um ponto para outro; em um sentido amplo, contudo, deve incluir o
próprio direito de permanecer. Este circulação há de se dar, é óbvio, segundo
os meios tecnológicos existentes e as várias obras realizadas. O direito de
circular, pois, encontra duas sortes de limitações. Uma concernente à própria
manifestação deste direito, e a outra que pode defluir das regulamentações
impostas pelos poderes públicos aos meios de locomoção e a utilização das
vias e logradouros públicos. O circular caracteriza a liberdade do homem poder
movimentar-se por todos os espaços públicos e privados, sendo que seu
impedimento de transitar só poder ocorrer se vier a violar direito de terceiro,
pois as normas de convívio social, bem como as normas jurídicas não nos
permitem ultrapassar os direitos alheios em detrimento de nossas vontades.

Consistindo no poder de fazer tudo aquilo que não prejudique outrem, como,
por exemplo, o exercício dos direitos naturais de cada homem, que tem por
limites apenas aqueles que assegurem aos outros membros da sociedade o
gozo desses mesmos direitos, limites esses que somente podem ser
determinados pela lei, pensamento, este fundado desde a Revolução
Francesa, encontrado-se no artigo 4º da Declaração dos Direitos do Homem e
do Cidadão, promulgada pela Assembléia Nacional Constituinte Francesa em 3
de setembro de 1791.
5
Op. Cit.
22

Se a liberdade de ir e vir for tolhida ou ameaçada, a Constituição assegura


meios ou instrumentos processuais eficazes, como o habeas corpus, para que
de imediato, se suspenda a violação ou ameaça de violação, bem como
existem outros remédios constitucionais que garantem o exercício dos direitos
fundamentais, sejam eles violados pelo Estado ou por particulares.

No direito comparado percebemos que a liberdade é uma dimensão essencial


da pessoa, entendida como liberdade geral de atuação ou se preferir, liberdade
geral de auto-determinação, que se apresenta como a melhor interpretação da
Constituição, como um valor superior do ordenamento jurídico, que se
concretiza num conjunto de manifestações da Carta Maior como concede a
outras categorias de direitos fundamentais, tais como direito de imagem, direito
a intimidade, liberdade ideológica, entre outros.

Com a inviolabilidade do direito à liberdade, pretende o Estado dar proteção ao


cidadão no seu relacionamento no meio social, sem qualquer restrição, salvo
para resguardar o bem comum ou o interesse público, ou seja o ordenamento
jurídico garante ao brasileiro ou estrangeiro, em território nacional, a
inviolabilidade de sua locomoção em terras nacionais, colocando que todos são
livres para transitarem por onde queiram, obedecidos as leis pátrias, isto
porque as leis são a emanação da vontade popular.

A liberdade individual é um conceito básico do pensamento político moderno,


eis por que as constituições têm associado este termo ao uso de outros
direitos, sua inserção nos textos constitucionais no capítulo referente aos
direitos e garantias fundamentais, tem tradição histórica no constitucionalismo
brasileiro, de vez que somente foi extirpada, praticamente, nos períodos de
exceção, embora constasse nas Cartas que nestes períodos vigoraram.
23

A garantia e o gozo dos direitos individuais, entre os quais incluímos o direito à


liberdade, dependem do regime e da forma de governo de cada nação e, por
que não dizermos, da situação política dominante.
Na esfera da liberdade individual, também chamada de liberdade geográfica,
significando um espaço de vida na qual a interferência de terceiros, particulares
ou Estado, apenas ocorre se houver vontade do homem livre, ou seja, a esfera
íntima do particular poder se movimentar.

Os remédios também são tradicionais, haja vista que na esfera da vida privada,
a qual se constitui e organiza, atualmente, sob o signo das obrigações
privadas, advindas de contratos (de massa, de consumo, ou privados
propriamente) ou de responsabilidade civil (relações involuntárias como dizem
os clássicos), segundo lhe convenha ou bem lhe pareça.

Claro está que essa liberdade de ir, ficar ou permanecer termina onde atenta
contra o bem geral.

Na prática, porém, os que exercem autoridade, por mais cultos e bem


intencionados que sejam, podem involuntariamente ofender ou limitar
excessivamente a liberdade do indivíduo, assim como este, voluntariamente ou
não, pode opor obstáculos excessivos ao exercício legítimo da autoridade ou
ofender a liberdade dos outros indivíduos pela extensão abusiva da sua
própria.

Direitos individuais, liberdades públicas, direitos do homem e do cidadão são


expressões equivalentes, mas comumente se distingue, para facilidade do
estudo ou por conceituação doutrinária.

O conteúdo dos direitos individuais em direitos relativos à igualdade civil, à


liberdade civil e à liberdade política. São também denominadas obrigações
negativas do Estado, porque sua declaração significa que o Estado não deve
24

fazer nada que os possa lesar. São limitações à autoridade, à atividade dos
poderes públicos, dos governos e das autoridades em geral.

A liberdade civil é o direito de todos os homens exercerem e desenvolverem


sua atividade física, intelectual e moral, e compreende a liberdade física, isto é,
o direito de ir e vir, de não ser detido arbitrariamente, mas apenas de acordo
com a lei, quando a transgredir, inviolabilidade do domicílio, o direito de
propriedade, de que não pode ser despojado senão por motivos de utilidade ou
necessidade pública, mediante prévia e justa indenização.

A definição de liberdade, dada pela Declaração de 1791, obedecendo aos


anseios do terceiro estado em França revolucionária, pode não ser perfeita,
mas não se conhece nenhuma tão clara – A liberdade consiste em poder fazer
tudo que não prejudique a outrem.

Desta forma, o exercício dos direitos naturais do homem não tem outros limites
senão os que asseguram aos demais membros da sociedade ao gozo dos
mesmos direitos.

As limitações somente a lei poderá determinar, a lei não pode proibir senão as
ações nocivas à sociedade, tudo que não é proibido por lei, não pode ser
impedido e ninguém será obrigado a fazer aquilo que a lei não determinar.

Tudo isso é a liberdade que são os direitos do indivíduo à vida, à associação, à


locomoção, à comunicação do pensamento, prerrogativas fundamentais do
cidadão, direitos comumente chamados individuais, naturais e inalienáveis.

O Estado, por um princípio essencial de justiça, tem de respeitá-los, não lhes


podendo traçar outros limites senão aqueles absolutamente necessários à
coexistência social.
25

Quer isso dizer, que cada homem pode exercer suas atividades físicas e
espirituais, pode exercer seus direitos até onde não prejudique igual direito dos
outros homens e não ofenda o bem público.

Em suma o direito de ir, vir e permanecer é o direito fundamental do cidadão


movimentar-se livremente, podendo circular por todos os espaços públicos ou
privados, desde que autorizados e permitidos, haja vista que na ocorrência de
proibição esta deverá estar pautada na legalidade, seja para proteção do
patrimônio público, seja para defesa da propriedade, conforme preconiza nossa
Carta Política de 1988 e que a interferência neste direito requer a necessidade
do ato, pois não é qualquer vontade que pode conter o livre transitar do
cidadão.

4. ESTADO-ADMINISTRAÇÃO:

O Estado é a mais complexa das organizações criadas pelo homem, podendo-


se, mesmo dizer que ele é sinal de um alto estágio da civilização.

Neste sentido, podemos dizer que o Estado surge num momento bem definido,
qual seja o século XVI, com o surgimento dos Estados português e espanhol;
todavia não se nega que na Antiguidade Clássica (cidades gregas e romanas)
já apresentasse sinais precursores dessa realidade, contudo os autores
preferem localizar seu aparecimento no início dos tempos modernos, onde se
reúnem, nas entidades políticas denominadas, todas as características próprias
de Estado.

A palavra estado deriva do latim status, que significa estado, posição e ordem.
Em seu sentido ontológico, Estado significa um organismo próprio dotado de
26

funções próprias, ou seja, o modo de ser da sociedade politicamente


organizada, uma das formas de manifestação do poder.

Entre as várias correntes doutrinárias sobre as finalidades do Estado, nota-se


com alento a corrente contratualista, e tem como expoentes – John Locke e
Thomas Hobbes – segundo esta teoria, o Estado teve sua origem a partir de
um pacto social firmado entre os indivíduos. Para eles, os fins estatais devem
ficar adstritos à mera aplicação do direito.

Os defensores dos fins relativos do Estado sustentam a posição de que este


deve ater-se a conservar o patrimônio público, ordenar a vida em sociedade e
incentivar a economia, a cultura e o ensino. Sua preocupação deve residir nas
suas relações com o indivíduo e na solidariedade dos mais fortes para com os
mais fracos.

O Estado, portanto, é uma sociedade, pois se constitui essencialmente de um


grupo de indivíduos unidos e organizados permanentemente para realizar um
objetivo comum. E se denomina sociedade política, porque, tendo sua
organização determinada por normas de Direito positivo, é hierarquizada na
forma de governantes e governados, e tem uma finalidade própria, o bem
público.

O Estado, enquanto entidade una, é um ser indivisível, o que nos condiciona a


crer na existência de funções do poder do Estado, ou seja, tripartição de
funções, quais sejam – legislativa executiva e judiciária.

Neste sentido, escreve a professora Maria Sylvia Zanella Di Pietro: ‘embora o


poder estatal seja uno, indivisível e indelegável, ele desdobra-se em três
funções: a legislativa, a executiva e a jurisdicional.

Segundo Hely Lopes Meirelles:


27

o que há, portanto, não é separação de poderes com divisão absoluta


de funções, mas, sim, distribuições das três funções estatais
precípuas entre os órgãos independentes, mas harmônicos e
coordenados no seu funcionamento, mesmo porque o poder estatal é
6
uno e indivisível.

Dentro desta ótica, o Estado, como Administração (Governo), tem como


objetivo, proporcionar aos cidadãos uma melhor condição de vida, bem como o
seu desenvolvimento – econômico, social, cultura e educacional – neste rol, é
que se incluem as funções precípuas definidas pelo legislador constituinte.

Artigo 3º - Constituem objetivos fundamentais da República


Federativa do Brasil:
I – construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II – garantir o desenvolvimento nacional;
III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as
desigualdades sociais e regionais;
IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça,
sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Artigo 5º - Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer


natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes
no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
7
segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

O professor Hely Lopes Meirelles sintetiza a compreensão de funcionamento


do Estado da seguinte forma: ‘ numa visão global, a Administração é, pois, todo
o aparelhamento do Estado preordenado à realização de serviços, visando à
satisfação das necessidades coletivas’

Sendo o Estado uma criação do homem, através do pacto social, escolheram


os cidadãos, este ente para gerir suas vidas, abrindo mão por suposto, de sua
autotutela, onde poderiam fazer justiça com as próprias mãos, delegando,
desta forma ao Estado, o qual através de suas funções – legislativa, cria as leis
em sentido genérico; executiva, que além de executar as leis dá provimento às
necessidades básicas dos nacionais, bem como aos serviços próprios de
Estado e a jurisdicional, que enfrentam o caso em concreto, dirimindo as
querelas entre os cidadãos, bem como entre as funções de Estado.

6
MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. São Paulo: Malheiros. 1998. 23ª.
P.61-62
7
Op. Cit.
28

Diante deste pacto é que os cidadãos permitem que o ente, Estado, entre em
suas particularidades em proveito da coletividade, onde, dever-se-á ter como
princípio o interesse público em detrimento do individual.

5. PODER DISCRICIONÁRIO:

É o que o Direito concede à Administração, de modo explícito ou implícito, para


a prática de atos administrativos com liberdade na escolha de sua conveniência
e conteúdo; neste caso, da discricionariedade, apesar do ente da
administração pública ter a liberdade na sua decisão (discricionariedade), esta
está intimamente ligada a preceitos legais preestabelecidos, contudo não
vinculantes.

A discricionariedade resulta da permissão da lei, posto que, contrariamente, ela


procede da própria disciplina normativa, a dizer, da maneira pela qual se regula
dada situação.

Desta forma, tem-se o preceito que diz que a discricionariedade implica


liberdade de atuação nos limites traçados pela lei; se a Administração
ultrapassa esses limites, a sua decisão passa a ser arbitrária, ou seja, contrária
a lei.

Sob o ponto de vista jurídico, utiliza-se a teoria da formação do direito por


degraus de Kelsen, considerando-se os vários degraus pelos quais se
expressa o direito, a cada ato acrescenta-se um elemento novo não previsto no
anterior, esse acréscimo se faz com o uso da discricionariedade, esta existe
para tornar possível esse acréscimo.

A faculdade discricionária diferencia-se da vinculada pela maior liberdade de


ação que é conferida ao administrador, sendo possível que para praticar um
ato discricionário e livre, no âmbito em que a lei lhe confere essa faculdade.
29

Desta forma, conclui-se que a discricionariedade será sempre relativa e parcial,


porque, quanto à competência, à forma e à finalidade do ato, a autoridade está
subordinada ao que a lei dispõe como para qualquer ato vinculado. Sendo que,
para a prática do ato discricionário, deverá o ente da administração ter:
competência legal para praticá-lo, deverá obedecer a forma legal para
realização e deverá atender à finalidade legal de todo ato administrativo, que é
o interesse público.

Em suma, está aqui a se dizer que a discricionariedade é pura e simplesmente


o fruto da finitude, isto é, da limitação da mente humana. À inteligência dos
homens falece o poder de identificar sempre, objetiva e inobjetável, a medida
idônea para preencher de modo ótimo o escopo legal.

Ao considerarmos o ato discricionário, não podemos ter este ato como verdade
única e absoluta, sendo imune à apreciação por parte do Poder Jurisdicional do
Estado, mas sim, sabermos, até mesmo, por princípio constitucional, de acordo
com a Magna Carta.

O Poder Judiciário deverá apreciar o ato administrativo com a observância dos


princípios da oportunidade e conveniência, não se entrenhando quanto ao seu
mérito, mas em sua análise, deverá sopesar o princípio da razoabilidade
aplicado pelo agente público.

A rigor, pode-se dize que, com relação ao ato discricionário, o judiciário pode
apreciar os aspectos da legalidade e verificar se a Administração não
ultrapassou os limites da discricionariedade, neste caso, pode o judiciário
invalidar o ato, porque a autoridade ultrapassou o espaço livre deixado pela lei
e invadiu o campo da legalidade.

A discricionariedade – poder discricionário ou função discricionária, segundo as


definições dos doutrinadores, que assim se dividem – é o limite de liberdade
30

que remanesce ao agente público para atuar, optando dentre as opções que se
apresentam diante do caso concreto, primado pela observância do princípio da
razoabilidade, escolhendo a que melhor se adeqüe ao interesse público.

6. PODER DE POLÍCIA:

O poder de polícia é o conjunto de atribuições concedidas a Administração,


para disciplinar e restringir direitos e liberdades individuais, em face do
interesse público. É a faculdade de que dispõe a Administração Pública para
condicionar e restringir o uso e gozo de bens, atividades e direitos individuais,
em benefício da coletividade ou do próprio Estado. Hodiernamente adota-se no
direito brasileiro, o poder de polícia como a atividade consistente em limitar o
exercício dos direitos individuais em benefício do interesse público.

O Poder de Polícia é o conjunto de atos da Administração Pública que servem


para atingir o bem comum ou interesse público, sendo discricionários ou
vinculados, que agem de maneira preventiva ou repressiva, utilizando-se da
coercitividade e auto-executoriedade, sendo, contudo, objeto de apreciação do
Poder Judiciário, nestes casos o Poder Público tem por escopo evitar lesão aos
direitos individuais ou propriedade, visto que a Administração Pública deve
primar pelo princípio da legalidade.

Segundo o professor Diogo de Figueiredo Moreira Neto:

com este esclarecimento sobre o que se deve entender pela difundida


expressão, poder de polícia, chega-se a um conceito didático que põe
em evidência a característica de instrumentalidade acima sublinhada:
denomina-se polícia à função administrativa que tem por objeto
aplicar concreta, direta e imediatamente as limitações e os
condicionamentos legais ao exercício de direitos fundamentais,
compatibilizando-os com interesses públicos, também legalmente
31

definidos, com a finalidade de possibilitar uma convivência ordeira e


8
valiosa.

Neste ponto encontra-se entrechoque de interesses, quais sejam: autoridade


da Administração Pública e a liberdade individual, observando-se que o
interesse particular não pode estar sobre o interesse da coletividade.

O poder de polícia informa todo o sistema de proteção que funciona, em


nossos dias, nos Estados de direito. Devendo satisfazer a tríplice objetivo, qual
seja o de assegurar a tranqüilidade, a segurança e a salubridade públicas,
caracteriza-se pela competência para impor medidas que visem a tal
desideratum, podendo ser entendido como a faculdade discricionária da
Administração de limitar, dentro da lei, as liberdades individuais em prol do
interesse coletivo.

Não existe qualquer incompatibilidade entre os diretos individuais e os limites a


eles opostos pelo poder de polícia do Estado porque, a idéia de limite surge do
próprio conceito de direito subjetivo, tudo aquilo que é juridicamente garantido
é também juridicamente limitado.

De outra forma, entretanto, descaberia falar em limitação a direitos, pois atos


restritivos, legais ou administrativos, nada mais significam senão a formulação
jurídica do âmbito do Direito, por isso, é ilegal a ação da Administração que, a
pretexto de exercer o Pode de Polícia, se interna na esfera juridicamente
protegida da liberdade e da propriedade; o que em fazendo a Administração
Pública estaria retornando a um estado medieval, onde o Senhor feudal ditava
as ordens aos seus vassalos, controlando, inclusive suas vidas, forma esta,
inadmissível em nossos dias de Estado Democrático de Direito.

A polícia judiciária objetiva investigar, apurar e fornecer elementos de conduta


ilícita praticada por determinado nacional, para que este saiba que não está

8
MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Curso de Direito Administrativo. Rio de Janeiro:
Forense. 2001. 12ª. P.386
32

acima da Lei, tendo por isto, um caráter repressivo (coercitivo), proporcionando


ao Ministério Público que leve os fatos ao Poder Judiciário, para que este diga
o direito.

Proporcionando à coletividade uma resposta do Estado, que é uno, através de


suas funções: legislativa, executiva e judiciária; defendendo assim o princípio
da isonomia, manifestando desta forma, que atitudes separadas de
particulares, que atentem contra o ordenamento jurídico pátrio devem ser
objeto da tutela do Estado, demonstrando desta maneira a força do Estado na
consecução do interesse público e proteção da coletividade.

No Estado brasileiro, a polícia judiciária é representada pelas seguintes


instituições: Polícias Civis estaduais, Polícia Federal e Polícia Judiciária Militar.

A partir desta conceituação de Polícia Judiciária, podemos elaborar um


conceito de Polícia Administrativa, sendo que a busca desta polícia,como
atividade primeira, é a prevenção, cabendo-lhe, também, a repressão de
atividades anti-sociais ou contrárias ao interesse público, que infrinjam o
interesse da coletividade.

Celso Antônio Bandeira de Mello nos ensina:

Renato Alessi, sempre preciso, não desconheceu o caráter


eventualmente repressivo da polícia administrativa e realçou seus
vários traços ao defini-la como a atividade administrativa preordenada
à proteção do todo social e de suas partes, mediante uma ação, ora
de observação, ora de prevenção, ora de repressão contra os danos
9
que a eles poderiam ocorrer em razão da atividade de indivíduos.

A atividade da Administração Pública expressa em atos normativos ou


concretos, de condicionar, com fundamento em sua supremacia geral e na
forma da lei, a liberdade e a propriedade dos indivíduos, mediante ação ora
fiscalizadora, ora preventiva, ora repressiva, impondo coercitivamente aos

9
MELLO, Celso Antonio Bandeira de.
33

particulares um dever de abstenção (non facere) a fim de conformar-lhes os


comportamentos aos interesses sociais consagrados no sistema normativo.

Sobre a discricionariedade do poder de polícia, temos que a rigor, no Estado de


Direito inexiste um poder, propriamente dito, que seja discricionário fruível pela
Administração Pública. Há isto sim, atos em que a Administração Pública pode
manifestar competência discricionária e atos a respeito dos quais a atuação da
administração é totalmente vinculada.
Desta forma, pode-se, asseverar que a polícia administrativa se expressa ora
através de atos no exercício de competência discricionária, ora de competência
vinculada.

À polícia administrativa remanescem todas as demais formas de atuação,


preventivas e repressivas, com suas sanções aplicáveis executoriamente sobre
a propriedade e a atividade privadas, atuando, apenas excepcionalmente,
através de um constrangimento sobre as pessoas, quando em ação de
resposta, contemporânea da transgressão administrativa em curso ou iminente.

Por fim, temos que entender o poder de polícia como uma atividade
desempenhada pela Administração, e no caso brasileiro, deve estar em
consonância com a Carta Magna de 1988, obedecido o Estado Democrático de
Direito, que visa um não fazer do indivíduo em face da coletividade, não
facultando ao administrador ou agente público, desviar-se da legalidade, o que
fazendo responderá por desvio de finalidade ou desvio de poder.

7. ABORDAGEM POLICIAL:

Abordar é à maneira de aproximação a uma pessoa com um objetivo definido.


34

Pode-se falar de várias formas de abordagem, contudo o objetivo deste estudo


é falar sobre a abordagem policial, não se remetendo, entretanto, às técnicas e
táticas operacionais, mas sim a abordagem propriamente dita.

Àquela, onde o agente público, imbuído de autoridade, exercendo o poder de


polícia, interpela o transeunte, baseada em sua fundada suspeita, rompendo
assim com uma garantia individual do cidadão abordado, qual seja, o seu
direito de ir, vir e permanecer e estar, tudo isto com o escopo de proporcionar
aos cidadãos uma maior sensação de segurança, fazendo valer, desta forma, o
interesse público da coletividade em detrimento ao individual.
A Polícia Militar do Estado do Espírito Santo, em sua instrução modular, traz a
seguinte definição de abordagem policial:

dizem os nossos dicionários que abordar é: acometer e tomar,


aproximar-se, chegar, interpelar. No nosso caso, poderíamos
considerar como sendo uma técnica policial de aproxima-se de uma
pessoa ou pessoas, a pé, montadas ou motorizadas, e que emanam
indícios de suspeição; que tenham praticado ou estejam na iminência
de praticar ilícitos penais, com o intuito de investigar, orientar,
10
advertir, prender, assistir, etc...

A abordagem policial é acima de tudo um método profilático de evitar que


ilícitos ocorram, preservando, desta forma, a ordem pública, trazendo para o
citadino uma maior sensação de segurança.

Para falarmos em abordagem policial, contudo, não se pode deixar de falar


sobre a busca pessoal, haja vista que acontecem, quase sempre,
simultaneamente, sendo conhecida, vulgarmente, pela população como:
revista, geral, dura, baculejo, etc...

A busca pessoal encontra sua previsão legal explicita no Código de Processo


Penal brasileiro, devendo ser feita por mandado judicial ou com fundada
suspeita.

10
POLÍCIA MILITAR DO ESPÍRITO SANTO. Instrução Modular. Vitória. 5ª. 1999. P.111
35

art. 244 – A busca pessoal independerá de mandado, no caso de


prisão ou quando houver fundada suspeita de que a pessoa esteja de
posse de arma proibida ou de objetos ou papéis que constituam
corpo de delito, ou quando a medida for determinada no curso da
11
busca domiciliar.

As dúvidas sobre a legalidade da busca pessoal com mandado judicial na


verdade são inócuas, contudo a busca pessoal, baseada na fundada suspeita é
a que gera questionamentos, dúvidas e incertezas, e diante da assertiva,
pergunto-me: onde repousa o sustentáculo jurídico da busca pessoal, baseado
na fundada suspeita?

A fundada suspeita sustenta-se na discricionariedade do agente público, de


maneira a exercitar o poder de polícia, onde, este agente (policial) baseado em
sua experiência e tirocínio policial, realiza a abordagem policial e posterior
busca pessoal, com o intuito de evitar que ilícitos ocorram, agindo
preventivamente.

Observa-se, contudo, que o policial não pode ficar restrito apenas a


subjetividade de seu raciocínio, a fim de se evitar erros que o levem a atitudes
contra legem, devendo observar quanto as atitudes dos transeuntes,
características incomuns ou suspeitas que venham a colidir com informações
passadas pelos órgãos policiais ou comunitários, bem como, se trazem,
suspeição de volumes incompatíveis ou externadores em partes do corpo.

Outro ponto a se salientar é que normalmente o policial trabalha em um setor


específico de policiamento, por isso, familiariza-se com as pessoas que
transitam por aquele local, desta forma uma pessoa com características
diferentes da região, fazem nascer no agente público uma suspeição, que
somente cessará com a abordagem policial e, se necessário a busca pessoal.

Os pontos citados acima formam no raciocínio do policial a sensação de


insegurança, gerando a fundada suspeita, e que acarretará na abordagem

11
CÓDIGO DE PROCESSO PENAL BRASILEIRO. São Paulo: RT editores. 2ª. 2000. P.361
36

policial e busca pessoal, que deverá ser levada a termo dentro dos princípios
da administração pública, aqui também neste caso, quais sejam: moralidade,
impessoalidade, legalidade, publicidade e eficiência.

Por isso, quando se fala em discricionariedade não se quer dizer a vontade


única e exclusiva do agente público, porque o ato discricionário não é
totalmente discricionário ou desregrado, por estar sempre vinculado a Lei, pois
se assim não fosse o agente público estaria cometendo um ato arbitrário, ou
desvio de poder, cerceando desta forma os princípios e garantias
fundamentais.

Na literatura policial não se encontra vasta bibliografia pertinente ao tema,


dando uma melhor fundamentação a definição de fundada suspeita, da
mesma opinião é a compartilhada pela douta professora Ana Clara Victor da
Paixão, a qual se expressa da seguinte maneira:

o termo fundada suspeita utilizado no art. 244 do Código de Processo


Penal é a chave que abre todas as portas, autorizando buscas e
apreensões sem mandado e justificando todos os abusos cometidos.
No altar da fundada suspeita são sacrificados os direitos à
publicidade, à intimidade e a dignidade, que a Constituição Federal
pretendeu assegurar a todas as pessoas, brasileiras ou estrangeiras,
12
residentes em solo pátrio.

Contudo o entendimento majoritário da doutrina baseia-se na verdade, isso


também deve ser observado no tocante a revista, ou busca pessoal, por
identidade de razões, uma vez que a Constituição tutela a intimidade e a
privacidade da pessoa, não apenas em seu domicílio, mas igualmente fora
dele.

E, ademais, ambas são medidas vexatórias, como reconhece Tourinho, em que


pese entender que o emprego de fundadas suspeitas no parágrafo 2º do artigo
240, para justificar a busca pessoal, signifique menor exigência do que as
fundadas razões exigíveis para a busca domiciliar. De forma diferente pensa o
12
PAIXÃO, Ana Clara Victor da. A Busca e a Apreensão no Processo Penal. Disponível
em:<http://www.ujgoias.com.br/cgd/2a/2a020.htm>
37

professor Tornaghi, que equipara as duas expressões, afirmando: a fundada


suspeita de que fala esse dispositivo (art. 240, parágrafo 2º) é o mesmo que a
fundada razão da qual falei ao tratar da condição de legitimidade da busca
domiciliar.

Diante destas considerações é que forma-se um senso crítico de que a


fundada suspeita não pode ficar totalmente ao alvedrio do agente público na
tomada de atitude, ou seja, existe a necessidade de motivação por parte do
administrado (cidadão), que enseje no raciocínio do policial uma atitude
preventiva, e não somente um ato reflexo, em cima de bases preconceituosas
da qual ouvimos relatos diuturnamente.
8. CIDADANIA:

O conceito de cidadania pode variar de acordo com a ciência que a estuda,


pois para o direito - cidadão é o nacional, brasileiro nato ou naturalizado, no
gozo dos direitos políticos e participantes da vida do Estado, tendo capacidade
de votar e ser votado, por isso a cidadania, dentro da Carta Magna de 1988
sofre restrições ao seu exercício pleno, sendo, inclusive, adquirida
gradualmente, conforme se depreende dos artigos 12 e 14 da Constituição da
República.

Diante do histórico ditatorial brasileiro, onde vemos vários casos de abuso ou


excesso de poder através dos mais variados modelos arbitrários de gestão
pública bem como supressão da vontade popular são salutar uma análise da
redemocratização como fator de geração do sentimento de cidadania.

Marcio Luiz Boni, analisando Dallari nos ensina:

Dalmo de Abreu Dallari afirma na obra Direitos Humanos e Cidadania,


que o momento e o ambiente da Revolução Francesa nasceu da
moderna concepção de cidadania, para eliminar privilégios; e que o dia
11 de julho de 1789 foi um marco para as modificações na organização
e sistema da França quando o povo invadiu a prisão de Bastilha, em
38

Paris, onde se achavam os presos acusados de serem inimigos do


13
regime político absolutista.

Na visão do autor, apesar de séculos de lutas e vitórias, este não é o único


supedâneo para sustentar a aquisição da cidadania, pois esta, muito mais do
que exercício do direito de voto, é a garantia de exercício de uma gama de
direitos individuais, sejam eles de primeira, segunda ou terceira geração.

Como destacado pelo Ministro do Supremo Tribunal Federal, Celso de Mello:

enquanto os direitos de primeira geração (direitos civis e políticos) –


que compreendem as liberdades clássicas, negativas ou formais –
realçam o principio da liberdade e os direitos de segunda geração
(econômicos, sociais e culturais) – que se identificam com as
liberdades positivas, reais ou concretas – acentuam o princípio da
igualdade, os direitos de terceira geração, que materializam poderes de
titularidade coletiva atribuídos genericamente a todas as formações
sociais, consagram o princípio da solidariedade e constituem um
momento importante no processo de desenvolvimento, expansão e
reconhecimento dos direitos humanos, caracterizados enquanto
valores fundamentais indisponíveis, pela nota de uma essencial
14
inexauribilidade.

A sociedade brasileira, vítima inconteste, de várias violações aos seus direitos


fundamentais, sendo estes fatos algo como que costumeiro em nossa história,
sempre buscou uma saída, através das manifestações populares para o
retorno ao exercício das suas liberdades fundamentais, inclusive, insurgindo-se
contra a atitude arbitrária dos governantes.

Segundo Paulo Bonavides com a evolução das garantias fundamentais do


cidadão houve um incremento nos direitos materiais e formais incorporados ao
ordenamento jurídico.

13
BONI, Márcio Luiz. Cidadania e Poder de Polícia na abordagem policial. Campos dos
Goytacazes. 2005.
14
MORAES, Alexandre. Direito Constitucional. São Paulo: Atlas 23 ed. 2008. pg. 31.
39

Segundo o Major PMES Márcio Luiz Boni:

A cidadania é um fenômeno complexo e historicamente definido,


construído pela sociedade em busca de direitos civis, políticos e
sociais. A cidadania plena, combinando liberdade, participação e
15
igualdade são um ideal do Ocidente, talvez inatingível.

O que nos leva a concluir que para o Oficial Superior a cidadania não passa de
uma quimera para a sociedade ocidental.

Na evolução histórica das sociedades vimos que os direitos se solidificam de


variadas maneiras, pois existem países que aderiram ao Commom Law, como
exemplo os países anglo-saxões, outros ao contrário, preferiram o Civil Law,
dentre eles o Brasil, sendo que o Civil Law nos prende mais ao positivismo da
Lei, por isso na construção da cidadania, dependendo do caminho a ser
seguido vai variar o seu exercício e conseqüente respeito.

Observamos que no Brasil, no período da ditadura de Vargas, na vigência da


Constituição Polaca, foi o período, a contrario senso, que mais se aflorou a
aquisição de direitos civis, entre eles os trabalhistas.

Ainda dentro da análise de Márcio Luiz Boni, diante da visão minimalista de


Estado, ocorre uma relativização dos direitos indisponíveis, haja vista o alto
custo para o Estado manter e implementar tais políticas, ex vi:

A busca da cidadania dita por ideal com direitos civis, políticos e


sociais, depois de um lento e longo período de conquistas, enfrenta os
obstáculos do pensamento neoliberal e da globalização, em face da
proposta de “Estado-Mínimo”. Dentro desta ótica, direitos tidos como
indisponíveis passam a ser relativizados diante dos seus custos para o
16
Estado.

15
Op. Cit.
16
Op. Cit.
40

O que se busca é a melhoria dos mecanismos de representação popular,


objetivando conseguir a consolidação e ampliação da democracia, fugindo-se
de um Estado clientelista e parcial.

Assim, superar a posição de subserviente (periférico) é imprescindível para a


conquista do amadurecimento da sociedade, do contrário estaremos alinhados,
estruturalmente, com o centro hegemônico.

Uma primeira relação de cidadania diz respeito à autonomia de uma sociedade


de traçar ela mesma suas próprias políticas.
Numa segunda relação, a cidadania é sinônimo de democracia, sob o viés
político, é a capacidade da sociedade se organizar e participar ativamente, no
ponto de vista sóciopolítico-econômico é a consagração dos direitos mínimos
do homem, e sob o viés cultural é a possibilidade do homem definir seus
próprios valores através da educação.

Por isso, podemos concluir que cidadania é a sociedade autônoma, e sendo,


autônoma, consegue escolher um conjunto de políticas adequadas ao
ambiente econômico, político e social existente, e estendê-los a todos, por isto
é democrática e que caminha ao desenvolvimento.

Na observação de Márcio Luiz Boni:

Comparato ressalta a importância dos meios de participação popular


para o controle político. E, ao detalhar a participação na administração
da coisa pública, afirma que a polícia, como braço armado da
Administração Pública, sempre foi imune aos controles democráticos
que, em nível estadual, sempre obedeceu à política de segurança dos
Governadores, sem estar minimamente vinculada aos interesses da
17
comunidade.

17
Op. Cit.
41

Deve ser ressaltado que não é somente aproximando a policia do povo que os
problemas terão fim, mas é necessário que sejam estabelecidos marcos
delimitadores para o controle da atividade policial, através de um conselho de
cidadãos, o qual seria eleito por sufrágio comunitário e velaria pela atuação
policial em sua região, participando ativamente na política de segurnaça
pública local.

Esta opção pode ser utópica, mas contribuiria, sobremaneira, para resolução
de conflitos e busca da paz social.

A prevenção do momento de crise, e da ação violenta ou ilícita, diminuiria a


demasiada intervenção policial no cotidiano social, o que, em certos momentos,
ensejam o uso da força para o seu controle, criando, com isto mais violência.

A Carta Política, promulgada, após vinte e quatro anos de período de exceção,


é um marco da cidadania no Brasil, em razão da ruptura com a ordem jurídica
autoritária e a conseqüente positivação de direitos e garantias que valorizam a
cidadania, sendo um marco para toda América Latina.

O fenômeno da globalização é para os países como o Brasil, em


desenvolvimento, uma grande incógnita, pois apresentam aspectos positivos e
negativos, o que requer do governo maior atenção com as decisões neoliberais
que tomam, principalmente na minimilização do Estado, o que pode causar um
processo de exclusão social que venha a comprometer as conquistas sociais
adquiridas.

Podemos enfocar que a segregação social, mas não somente ela, mas somado
a um conjunto de fatores, pode levar a um aumento no agravamento da
criminalidade e violência, verificando-se o declínio do ente estatal de enfrentar
os problemas cotidianos.

Segundo Márcio Luiz Boni:


42

Reconhecida à existência e gravidade desses problemas; verifica-se


que à segurança enquadra-se no conceito de cidadania. A gestão da
segurança social é uma necessidade que integra o rol das funções-
síntese do Estado, devendo, portanto, ser garantida ao cidadão de
maneira efetiva, democrática e humanizada com respeito aos direitos,
18
e também obediência aos deveres.

A cidadania deve ser entendida como o entrechoque de direitos e deveres, e


que neste embate de direitos da coletividade e direitos particulares, prevalecer-
se-ão os direitos da coletividade em detrimento dos individuais.

Por isso, podemos concluir que a potencial consciência e respeito aos direitos
e deveres das partes envolvidas, nas diversas relações sociais, evitariam a
intromissão do Estado através de seu aparelhamento repressivo.

Está ínsita a relação causal entre a cidadania e a atividade policial, atuando


juntas, lado a lado, em busca da ordem e tranqüilidade públicas no conjunto do
sistema de segurança e justiça.

A atividade pública de segurança abrange a maioria dos direitos integrantes do


conceito de cidadania, e precisa de maior concretude, tanto na relação entre os
órgãos e os seus agentes, em prol do reconhecimento profissional, quanto no
cumprimento de seu mister constitucional.

9. ELEMENTO SUSPEITO:

Na análise desenvolvida por Márcio Luiz Boni acerca do trabalho produzido


pelas professoras Silvia Ramos e Leonarda Musumeci, do Centro de Estudos
de Segurança e Cidadania (Cesec) da Universidade Cândido Mendes, temos:

18
Op. Cit.
43

A noção de cidadania pode se apresentar paradoxal à idéia de poder


de polícia, num exame imediato dos princípios de liberdade e
autoridade. Entretanto, o que se constata é que ambos coexistem de
forma complementar e harmônica, pois ao passo que se sustentam no
interesse público, a cidadania e o poder de polícia são pilares do
19
Estado Democrático de Direito.

Abordagens policiais são mecanismos, lastreados no poder de polícia estatal, e


utilizados preventiva e repressivamente pelos integrantes das polícias militares,
civis – estadual e federal, para o cumprimento da missão constitucional de
polícia ostensiva e preservação da ordem pública.

Analisando a natureza jurídica das abordagens policiais, concluímos que estas


são atos administrativos praticados pelos agentes policiais e que, como tal,
devem preencher os requisitos que compõem o ato administrativo, sujeitando-
se aos controles – por parte dos poderes legislativos e judiciários, bem como a
própria Administração, através da autotutela, primando, primordialmente pelo
atendimento aos princípios explícitos no artigo 37, caput da Constituição
Federal, bem como aos princípios constitucionais implícitos.

Em especial ao princípio da legalidade – na forma ampla ou estrita; e o


princípio da moralidade; não nos esquecendo de ressalvar mais dois
importantíssimos controles da atividade policial, o realizado por pelo Ministério
Público, tendo como lastro o artigo 129 da Carta Magna, bem como o efetivado
pela participação popular o qual possui mecanismos próprios, seja através da
Ação Popular, seja através da Ação Civil Pública.

Os desvios de finalidade, excessos ou abusos do poder de polícia na atuação


policial, além de possibilitarem a invalidação de seus atos, podem ensejar a
responsabilização nas esferas penal, civil e administrativa.

19
Op. Cit.
44

Entretanto, apesar dos limites delineados pela lei, somente uma análise do
caso em concreto permite mensurar, se houve, ou não, transposição destes
balizadores.

Dado ao maior exercício da cidadania observa-se um crescimento do


questionamento acerca da discriminação e seletividade nas abordagens
policiais, estereotipando, por sua vez um determinado segmento social ou
racial, criando, desta forma, um grupo de excluídos ou escolhidos para
servirem, primeiramente, a abordagem policial.

As professoras - Silvia Ramos e Leonarda Musumeci, do Centro de Estudos


de Segurança e Cidadania (Cesec) da Universidade Cândido Mendes,
desenvolveram o artigo “’Elemento Suspeito’. Abordagem Policial e
Discriminação na cidade do Rio de Janeiro”, com base na pesquisa
“Abordagem Policial, Estereótipos Raciais e Percepções da Discriminação na
Cidade do Rio de Janeiro”, realizada em 2003, na qual se buscou conhecer as
experiências da população carioca com a polícia, principalmente nas
abordagens policiais, e conhecer os mecanismos e critérios de construção da
suspeita por parte dos policiais, para verificar a influência dos filtros sociais e
raciais na atuação da polícia.

No artigo, constata-se a percepção da população carioca acerca da


seletividade social no desenvolver da abordagem policial, todavia as
pesquisadoras não conseguiram delimitar um paralelo das abordagens a
veículos na cidade do Rio de Janeiro com a filtragem racial dos policiais
rodoviários dos Estados Unidos da América.

Nota-se que, apesar da seletividade, a população aprova o desenvolvimento de


atividades de abordagens policiais, contudo, consideram, em geral,
preconceituosas.
45

Segundo as pesquisadoras Silvia Ramos e Leonarda Musumeci, em pesquisa


realizada na população carioca abordada - cerca de 60% acreditam que a
Polícia escolhe pela aparência física quem será abordado(a), incluindo aí cor
da pele (40,1%) e modo de vestir (19,7%). Na opinião de 80% dos cariocas, os
jovens são mais parados do que as pessoas mais velhas; para cerca de 60%,
os negros são mais parados que os brancos e os pobres mais do que os ricos.
Além disso, 43% da população classificaram a PM fluminense como muito
racista e, em outra pergunta, 30% afirmaram que ela é mais racista do que o
restante da sociedade.

Observemos as conclusões das pesquisadoras citadas:

Entretanto, os resultados gerais da pesquisa quantitativa não


confirmaram imediatamente essas percepções. Quando se considera a
simples experiência de ter sido parado(a) alguma vez e o número de
abordagens sofridas, há uma relação consistente com gênero e idade,
mas não com raça, renda ou escolaridade. O peso dessas variáveis só
aparece, como veremos, quando se diferenciam tipos de abordagem e
20
tipos de tratamento que a Polícia dispensa aos cidadãos.

Por sua vez Márcio Luiz Boni nos relata:

Segundo as pesquisas de Ramos e Musumeci, nas abordagens a


veículos não foi possível identificar o aspecto discriminatório, em face
da dificuldade de se estimar a dimensão e composição da parcela de
pessoas que possui e/ou dirige veículos particulares, haja vista que ela
não se distribui de forma aleatória pelos grupos etários, raciais ou
econômicos da população carioca. Qualquer comparação entre o total
de pessoas paradas pela polícia (sendo mais de 50% em abordagens
automobilísticas) e o total de moradores da cidade tenderia a sub-
representar no primeiro grupo os muito jovens e o segmento mais

20
RAMOS, Silvia; MUSUMECI, Leonarda. “Elemento Suspeito”. Abordagem Policial e
Discriminação na cidade do Rio de Janeiro. CESEC/Boletim Segurança e Cidadania, Rio de Janeiro,
ano 03, n. 08, dez. 2004. Disponível em: <http://www.ucam.edu.br/cesec/publicacoes/zip/boletim08.pdf>.
46

pobre da população, no qual se incluem, majoritariamente, as pessoas


21
negras.

Constatou-se que nas abordagens realizadas nas pessoas a pé ou em


transportes coletivos, a pesquisa detectou que, há, porém, outras situações de
abordagem policial típica e predominantemente racializadas, além de filtradas
(em sentido inverso ao das blitz) por gênero, idade, território e classe social.

Márcio Luiz Boni em sua Dissertação nos relata:

Antes do artigo “’Elemento Suspeito’. Abordagem Policial e


Discriminação na cidade do Rio de Janeiro”, em outra pesquisa sobre a
questão da discriminação na abordagem policial, o Datafolha apontou
22
que os negros e pardos continuam sendo discriminados pela polícia.

Uma indagação pode ser feita – a cor da pele justifica um tratamento diferente?
No tocante a abordagem policial, na apresentação do Major PMES Márcio Luiz
Boni, após análise de pesquisa do Instituto Datafolha:

Segundo pesquisa realizada pela Datafolha, 86% dos homens que se


consideram pretos já enfrentaram uma revista policial na rua. Entre os
brancos, 71% tiveram essa experiência. Entre os pardos, 82%. Se o
paulistano for preto e jovem (16 a 25 anos), a incidência da abordagem
policial é maior, atinge 91% do segmento. Essas mesmas pessoas
foram, em média, revistadas cerca de 10 vezes. Brancos do mesmo
segmento etário sofreram revista policial, em média, 7,4 vezes, do que
podemos observar, e na região metropolitana da Grande Vitória não
fugiria ao padrão nacional, o elemento suspeito é sempre o
23
negro/pardo, jovem e estereotipado.

Com o fito de ilustrar o tema vertente do elemento suspeito trazemos a lume a


estória narrada por Luís Fernando Veríssimo:

21
Op. Cit.
22
Op. Cit.
23
Op. Cit.
47

ATITUDE SUSPEITA

Sempre me intriga a notícia de que alguém foi preso? Em atitude


suspeita? É uma frase cheia de significados. Existiriam atitudes
inocentes e atitudes duvidosas diante da vida e das coisas e qualquer
um de nós estaria sujeito a, distraidamente, assumir uma atitude que
dá cadeia!

- Delegado, prendemos este cidadão em atitude suspeita.


- Ah, um daqueles, é? Como era a sua atitude?
Suspeita.
- Compreendo. Bom trabalho, rapazes. E o que é que ele alega?
- Diz que não estava fazendo nada e protestou contra a prisão.
- Humm. Suspeitíssimo. Se fosse inocente não teria medo de vir dar
explicações.
- Mas eu não tenho o que explicar! Sou inocente!
- É o que todos dizem meu caro. A sua situação é preta. Temos ordem
de limpar a cidade de pessoas em atitudes suspeitas.
- Mas eu estava só esperando o ônibus!
- Ele fingia que estava esperando um ônibus, delegado. Foi o que
despertou a nossa suspeita.
- Ah! Aposto que não havia nem uma parada de ônibus por perto.
Como é que ele explicou isso?
- Havia uma parada sim delegado. O que confirmou a nossa suspeita.
Ele obviamente escolheu uma parada de ônibus para fingir que
esperava o ônibus sem despertar suspeita.
- E o cara-de-pau ainda se declara inocente! Quer dizer que passava
ônibus, passava ônibus e ele ali fingindo que o próximo é que era o
dele? A gente vê cada uma...
- Não senhor delegado. No primeiro ônibus que apareceu ele ia subir,
mas nós agarramos ele primeiro.
- Era o meu ônibus, o ônibus que eu pego todos os dias para ir para
casa! Sou inocente!
- É a segunda vez que o senhor se declara inocente, o que é muito
suspeito. Se é mesmo inocente, por que insistir tanto que é?
- E se eu me declarar culpado, o senhor vai me considerar inocente?
- Claro que não. Nenhum inocente se declara culpado, mas todo
culpado se declara inocente. Se o senhor é tão inocente assim, por que
estava tentando fugir?
48

- Fugir, como?
- Fugir no ônibus. Quando foi preso.
- Mas eu não estava tentando fugir. Era o meu ônibus, o que eu tomo
sempre!
- Ora, meu amigo. O senhor pensa que alguém aqui é criança? O
senhor estava fingindo que esperava um ônibus, em atitude suspeita,
quando suspeitou destes dois agentes da lei ao seu lado. Tentou fugir
e...
- Foi isso mesmo. Isso mesmo! Tentei fugir deles.
- Ah, uma confissão!
- Porque eles estavam em atitude suspeita, como o delegado acaba de
dizer.
- O quê? Pense bem no que o senhor está dizendo. O senhor acusa
estes dois agentes da lei de estarem em atitude suspeita?
- Acuso. Estavam fingindo que esperavam um ônibus e na verdade
estavam me vigiando. Suspeitei da atitude deles e tentei fugir!
- Delegado...
- Calem-se! A conversa agora é outra. Como é que vocês querem que
o público nos respeite se nós também andamos por aí em atitude
suspeita? Temos que dar o exemplo. O cidadão pode ir embora. Está
solto. Quanto a vocês...
- Delegado, com todo o respeito, achamos que esta atitude, mandando
soltar um suspeito que confessou estar em atitude suspeita é um
pouco...
- Um pouco? Um pouco?
24
- “Suspeita.

Concluindo com os entendimentos acima vemos que o elemento suspeito no


Brasil é o negro, o pobre, o mal-vestido, o tatuado, ou seja qualquer pessoa
que atraía a atenção do policial mais pelos seus caracteres estigmatizante,
seletivos, baseados em preconceitos do que pela sua potencial periculosidade
ao risco da ordem pública.

24
VERÌSSIMO, Luís Fernando. A Grande Mulher Nua. São Paulo: Círculo do Livro,
1989.
49

Apoiados no trabalho de Joana Domingues Vargas podem reforçar o


entendimento de que, realmente, o fator ‘cor’ é um diferencial na seleção de
pessoas para abordagem policial.

O que me parece pertinente reter sobre a questão é a necessidade de


se conhecer quem são os responsáveis pela categorização dos
atributos dos suspeitos. Para o caso em pauta, não se trata de
autodefinição (como acontece com os censos ou pesquisas que se
utilizam de questionários, abertos ou não), mas, conforme já assinalado
para as outras variáveis, de informação fornecida pela vítima em sua
interação com a polícia ou, em casos mais raros, em que o indiciado é
levado à delegacia (como um flagrante, por exemplo), da transcrição
desta informação do documento de identificação para o registro
policial.25

Cristiano Chaves de Farias e Nelson Rosenvald, em seu Direito Civil – Teoria


Geral nos relatam:

Exaurindo todas as vertentes que decorrem da matéria, Ingo Wolfgang


Sarlet estabelece que dignidade da pessoa humana é a qualidade
intrínseca e distintiva de cada ser humano que o faz merecedor do
mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da Comunidade,
implicando, neste sentido, um complexo de direitos e deveres
fundamentais que assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer
ato de cunho degradante e desumano, como venham a lhe garantir as
condições existenciais mínimas para uma vida saudável, além de
propiciar e promover sua participação ativa e co-responsável nos
destinos da própria existência e da vida em comunhão com os demais
26
seres humanos.

Isto posto ao afirmarmos que a abordagem policial é ato administrativo,


obedecendo, pois seus requisitos, e atendendo aos princípios constitucionais,
entre eles – legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência,
não podemos admitir que o agente de segurança pública aja imbuído de

25
VARGAS, Joana Domingues. Indivíduos sob suspeita: a cor dos indivíduos acusados de
estupro no fluxo do sistema de justiça criminal. Acessado no site
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0011-52581999000400004>
26
DE FARIAS, Cristiano Chaves e ROSENVALD, Nelson. Direito Civil. Rio de Janeiro:
Lúmen Júris editora. 4ª ed. 2006. p.94.
50

critérios preconceituosos, trazendo, com isso, toda forma de constrangimento


ao cidadão, reforçamos aqui que parte dessas atitudes é baseada, na lógica do
direito, ao uso do Civil Law em detrimento do Commom Law. E que para
atender a Carta Constitucional, bem como os pactos e tratados internacionais
que o Brasil é signatário é importante que seja respeitada a dignidade da
pessoa humana, a qual é um valor espiritual e moral inerente à pessoa, que se
manifesta particularizadamente na consciente autodeterminação e na
responsável condução da vida levando consigo a pretensão ao respeito por
parte dos demais.

10. COSIDERAÇÕES FINAIS:

No final do século XX, início do XXI, observou-se um aumento significativo nos


índices de criminalidade e violência urbana no Brasil, sendo objeto de pesquisa
dos principais núcleos de violência das universidades brasileiras.

O atual comportamento tem causado espanto, haja vista que cidades pacíficas
a cada dia vêm se tornam mais violentas, chegando-se, em alguns casos, do
Poder do Estado sofrer concorrência direta dos delinqüentes – sejam eles das
Milícias ou do tráfico de drogas, criando um verdadeiro Poder paralelo.

Diante deste quadro podemos questionar a teoria contratualista de Rousseau,


onde o homem abre mão de fazer justiça com as próprias mãos e a entrega ao
Estado, contudo este Ente não tem conseguido atender aos seus anseios,
ferindo, desta forma, a teoria da tri-partição dos poderes ou funções pregada
por Montesquieu, sendo que as funções estatais não atendem nem
proporcionam a paz que tranqüiliza o cidadão

Nesta conjuntura é que o presente trabalho se propõe a estudar o mecanismo


estatal da Abordagem Policial em face ao respeito aos Direitos Humanos e às
garantias fundamentais do cidadão, preconizados na Carta Política de 05 de
outubro de 1988 – a dita Constituição Cidadã, proporcionando aos nacionais
uma maior sensação de segurança, bem como, uma maior e efetiva presença
do Estado.
51

Num primeiro momento nos deparamos com uma grande questão, qual seja:
qual a fundamentação legal que garante ao policial interromper o ir e vir do
cidadão, bem como constrangê-lo, através da busca pessoal, sob o jugo da
aprovação popular?

A resposta, que poderia parecer fácil num primeiro momento, nos é cara, pois
embasarmos a abordagem policial apenas na fundada suspeita codificada no
Art. 244 do Código de Processo Penal é muito simplório, a pesquisa se fez
necessária.

Um questionamento surge – o que seria a fundada suspeita?

Em minha experiência, tanto como policial militar quanto como acadêmico,


deparei-me com questionamentos de ambos os lados.

Quando prelecionava para a tropa antes de um turno de serviço e policiais


questionavam sobre a fundamentação legal para a abordagem policial,
respondia, sem titubear que a garantia legal encontrava-se no artigo 244 do
CPP, contudo, permanecia a dúvida sobre o elemento chamado ‘fundada
suspeita’; haja vista o subjetivismo que a própria narrativa do texto legal nos
apresenta, vale ressaltar que tanto na Academia de Polícia como no Curso de
Direito a matéria foi tratada de maneira muito superficial, mas que, em debates
no Curso de Especialização em Segurança Pública, em especial com os
Professores Doutores – Jacqueline Muniz, Roberto Kant de Lima e Sandro
José da Silva, o tema ganhou cores vivas, principalmente acerca da questão
da seletividade racial/social que os policiais adotam ao realizarem abordagens
policiais, e confrontando com o procedimento adotado nos países que utilizam-
se do Commom Law existe uma melhor adequação, das partes envolvidas –
abordado e executor na aplicação desta praxe policial, não havendo mácula
alguma para o cidadão, o qual de pronto já entende o posicionamento a ser
tomado, bem como sabe que existe uma pertinência jurídica com sua parada e
revista e não apenas aspectos raciais ou segregadores da atividade policial.
52

A fundada suspeita trata-se de elemento essencialmente subjetivo, cabendo ao


aplicador da Lei, em especial o policial militar, usando de sua experiência
profissional para avaliar toda a situação, optando pelo melhor momento de
efetuar a abordagem policial, bem como quais cidadãos irão ser submetidos a
abordagem e a busca pessoal.

Por óbvio que a abordagem policial causa um constrangimento aos cidadãos, o


que nos é relatado face nossa experiência profissional, tanto por civis quanto
por policiais, e que o questionamento acerca da atividade policial é inevitável,
alegando, que na maioria das vezes as abordagens são pautadas em
preconceitos – raciais ou sociais, servindo, como parâmetros os fatores de
discriminação social e que os agentes públicos sentem receio em abordar
pessoas mais esclarecidas, fato que ficou claro na pesquisa das professoras
Silvia Ramos e Leonarda Musumeci, bem como da análise apresentada pelo
Major da PMES Márcio Luiz Boni.

Quando estive na graduação pude observar por parte de meus colegas de sala
questionamentos do tipo: o porquê das blitz e abordagens, sendo surpreendido
por um amigo, que não admitia a abordagem policial, por entender ser esta,
uma violência.

Em princípio devemos fazer uma reflexão histórica acerca da Corporação


Polícia Militar no Brasil, anteriormente chamada de Tropa de Milícia, a qual
servia em primeiro plano aos interesses do Rei de Portugal, reprimindo e
contendo manifestações (legítimas) contrárias aos interesses da Coroa, bem
como a captura de escravos fugidos.

No país inteiro disseminou as Polícias Militares, exceção feita ao Rio Grande


do Sul, onde, até hoje, chama-se Brigada Militar, ressalve-se que a gênese das
tropas de milícias era, primordialmente, proteger o patrimônio da Coroa.

A Polícia Militar do Estado do Espírito Santo tem seu surgimento em 06 de abril


de 1835, sendo, pois uma das mais antigas do país, contudo somente no ano
de 1992, retornou com as atividades de formação de Oficiais no próprio Estado,
53

criando uma Academia de Polícia – EsFO, haja vista que durante um grande
período os Oficiais eram formados em outras co-irmãs de várias Unidades
Federativas, especialmente em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro,
Paraná, Pernambuco, entre outras, não proporcionando, desta forma, à
Corporação uma doutrina unitária de policiamento, mas sim deixando uma
grande confusão do modus operandi da Briosa, fragilizando, desta forma, um
conceito particular de abordagem policial, não proporcionando a criação de
standarts próprios, buscando eliminar a questão do preconceito racial/social.

Ponto relevante a ser levantado é que, em gênese, a Polícia Milita não se


objetivou a segurança pública, mas sim, a segurança interna (manter a ordem)
e a segurança externa (força auxiliar e reserva do Exército Brasileiro).

Exemplos clássicos de como eram tratadas as Corporações militares no Brasil,


tem-se a Polícia Militar do Estado de São Paulo, que baseava sua formação e
treinamento ao exército francês, sendo que alguns dos rituais são observados
até hoje na Academia do Barro Branco, local de formação dos Oficiais daquela
polícia, como exemplo um tipo de ballet específico; por outro lado temos a
Polícia Militar do Estado de Minas Gerais, a qual sempre primou pelo
treinamento físico-militar, sendo, pois treinada aos moldes do exército
prussiano.

Vale lembrar que na época não havia nenhum controle externo das Polícias
Militares por parte da União Federal, sendo no ápice ocorreu a Revolução
Constitucionalista de 1932, quando o Estado de São Paulo tentou romper o
Pacto Federativo, momento em que houve dificuldade por parte do Exército
brasileiro para conter a revolta, face aos fatos o Exército brasileiro passou a
controlar as forças públicas estaduais, criando mecanismos de controle seja no
tocante ao efetivo das tropas, treinamento e quanto ao armamento
equipamento a ser utilizados pelas corporações, haja vista que à época da
Revolução de 1932, a Polícia do Estado de São Paulo possuía até tanques de
guerra; porém nos dias atuais o governo do Rio de Janeiro anuncia a compra
de um helicóptero de guerra para ser utilizado no policiamento da cidade do
Rio de Janeiro.
54

Já na década de 1960, ocorreu o Golpe militar de 31 de março de 1964,


entrado, o país, em um estado de exceção, cabendo às Polícias Militares
executar o serviço de controle e repressão das lícitas, manifestações
populares.

Ressalte-se que mesmo em passado metade do século XX, não era missão,
precípua, das polícias militares a segurança pública ou da comunidade,
estando aquartelada e agindo, somente subsidiariamente.

Com o processo de redemocratização do país na década de 1980, e com o


advento da Constituição de 05 de outubro de 1988, sobrou a Polícia Militar
ocupar o seu verdadeiro papel junto a comunidade, cumprindo sua missão
constitucional, contudo, devemos entender que, devido ao passado da
Corporação, não que isso a isente de culpa, e seus abusos.

O relacionamento com a Sociedade Civil Organizada sofreu e sofrerá ainda


durante um período uma resistência de ambos os lados, e a imagem só poderá
ser mudada através da mudança de atitudes.

Por outro lado, nos deparamos com os questionamentos dos policiais quanto a
maneira que as pessoas recebem a abordagem, muitas, inclusive, colocando-
se acima do bem e do mal; atitude esta que é facilmente compreendida, pois
desde o Brasil Colônia sempre houve uma segregação social no país, e haviam
e há ‘os donos do poder’, os privilegiados que sempre passam a espreita do
poder estatal, seja quando a Corte de Portugal se transferiu para o Brasil,
quando do bloqueio continental imposto por Napoleão Bonaparte, o que já faz
200 anos, que trouxeram consigo seus serviçais, fazendo com que, os que aqui
habitavam cedessem suas moradias aos recém chegados, sem, inclusive,
receber a indenização devida, o que ocasionou a ida dos legítimos proprietários
ocupar um lugar nos morros cariocas, ou seja, quando um parlamentar desvia
dinheiro público dizendo a opinião pública ou que ganhou trezentas vezes na
loteria ou que o uso de cartões corporativos foi um pequeno erro por parte da
autoridade pública, fazem com que outros se achem certos ao serem
abordados por policiais e utilizando-se do seguinte jargão – “sabe com quem
55

você está falando?”, buscando, desta forma intimidar o trabalho desempenhado


pela autoridade pública, utilizando das atitudes acima para justificar à sua
própria.

No confrontamento do que – você sabe com quem está falando e é a polícia! É


que se insere agora, em atendimento aos preceitos constitucionais, pois a nova
dogmática a ser utilizada para elaboração de um novo ordenamento jurídico
acerca da abordagem, bem como, delineia a quem deve ser cobrado, pois
desde o fim do pleito eleitoral o cidadão sabe a quem cobrar as atitudes.

Então, no momento em que o agente público – policial determina ao cidadão, o


qual transita tranquilamente, que encoste seu veículo, desça, apresente seus
documentos ou ainda, que afaste as pernas para ser executada uma revista ou
busca pessoal, ferindo, em tese, princípios constitucionais, este servidor
público não o faz baseado na mórbida vontade de humilhar o cidadão, ou
diminuí-lo perante aos demais, mas o faz por que, os mesmos cidadãos
quando acordaram com o pacto contratualista de Rousseau, Locke e Hobbes,
destinaram poderes aos seus representantes para que efetuassem
contratações e treinassem pessoas para executar o policiamento tecnicamente,
desta feita o policial, preposto do Estado, utilizando-se do Poder de Polícia a
ele confiado para interromper o ir e vir do cidadão, dentro da discricionariedade
a ele confiada, contudo esta discricionariedade não é vaga, ampla e irrestrita,
deve-se pautar-se na Lei e no respeito ao cidadão, observando em cada caso
específico o preconizado no artigo 244 do Código de Processo Penal brasileiro,
pois se desta forma não fosse, estaríamos tratando de arbitrariedade.

Observa-se que no caso, o policial está objetivando tutelar a proteção coletiva,


em abstrato, em detrimento ao interesse individual do cidadão abordado,
justificando-se, pois, no confronto de princípios fundamentais prevalecerá
sempre o bem do coletivo em face ao individual, e que o Estado primará para o
bem do interesse público, neste caso a segurança pública.

Por isso, vê-se que não é dado ao policial um poder irrestrito para que este
aborde indiscriminadamente os cidadãos, mas sim, que este criando em seu
56

senso de dever uma fundada suspeita, deva abordar e sanar a dúvida em


benefício da coletividade, devendo primar pelo princípio da impessoalidade,
não estando, também, acima da Lei.

Por outro lado ao cidadão não é dado o direito de se recusar a cumprir a ordem
legal emanada da autoridade competente, respondendo, neste caso pelo ilícito
de desobediência, mas estando amparado por Lei e regulamentos a denunciar
possíveis abusos praticados pelos policiais.

No tocante ao assunto, reforça-se que nos dias atuais com o aumento dos
índices de violência e criminalidade, e em conformidade com os preceitos
constitucionais, artigo 144 da Constituição Federal, a segurança pública, dever
do Estado, direito e responsabilidade de todos (...) e dentro do senso de
cidadania, é que a abordagem policial é um meio lícito e eficiente para a
prevenção de cometimentos de crimes e violências, haja vista que não
podemos nos basear nos ensinamentos do mestre italiano Lombroso, onde,
para esse, o criminoso tinha um perfil característico, mas sim a policia e
cidadão devem criar um meio eficiente e comum de combater a insegurança
pública, sendo parceiras na condução das políticas de segurança pública, não
permitindo que valores preconceituosos influam na determinação das
abordagens policiais, mas sim externando o respeito por parte do policial ao
cidadão abordado e vise e versa.
57

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