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UNIDADE 1

Economia internacional

Objetivo de aprendizagem
n Conhecer as principais teorias de comércio internacional
e a metodologia de registro das transações com o
exterior.

Seções de estudo

n Seção 1 O período do Mercantilismo

n Seção 2 O que diz a Teoria das Vantagens Absolutas?

n Seção 3 O que diz a Teoria das Vantagens


Comparativas?

n Seção 4 O balanço de pagamentos


Universidade do Sul de Santa Catarina

Para início de estudo


Você já se perguntou por que as nações comercializam? Os
professores Maria Carvalho e César Silva (2000), respondem
afirmando que “o bom senso nos leva a crer que as nações
comerciam porque podem obter vantagens”.

E estas vantagens são mostradas na teoria clássica do comércio


internacional, que é o principal item desta unidade. Bom estudo!

Seção 1 - O período do Mercantilismo


Este período compreendeu do século XV a meados do século
XVIII. A doutrina mercantilista resultou da expansão do
comércio iniciada no final da Idade Média e teve seu apogeu após
o descobrimento da América e do caminho marítimo para as
Índias.

O Mercantilismo como sistema econômico é uma reação à


ordem medieval, opondo-se simultaneamente ao poder local
do nobre rural e ao poder universal da Igreja Católica. As
idéias mercantilistas expressavam os interesses do Estado e da
burguesia.

A política comercial mercantilista reforçava o poder do monarca


absoluto, defendendo a unificação econômica e o poder nacional
para permitir a sobrevivência do Estado-Nação contra ameaças
externas. A contrapartida política do Mercantilismo era o
absolutismo e o nacionalismo.

Essa conjunção de fatores fazia com que a coroa tivesse que gerar
receitas para manter-se no poder. A origem dessas receitas era
o comércio interno e externo. Os mercantilistas defendiam a
unificação econômica doméstica e a liberdade de comércio no
interior do território nacional. Houve restrições às aduanas e
pedágios impostos por nobres feudais, a unificação do regime
monetário, a racionalização do sistema de pesos e medidas e,
como conseqüência, promoveu a liberdade da indústria.

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Finanças internacionais

As palavras de Thomas Mun, um comerciante inglês, em 1644,


mostram o pensamento mercantilista da época em relação ao Thomas Mun, England’s
comércio exterior. Theasure by Foreign
Trade, 1664, cap II apud
Kenen, Peter, Economia
A forma mais comum [....] de aumentar nossa riqueza Internacional: Teoria
e nosso tesouro é através do comércio exterior, por e Política. São Paulo:
isso devemos observar sempre esta regra: todo ano, Campus, 1998.
vender mais aos estrangeiros do que consumimos deles.
Suponhamos que este Reino tenha abundância de
tecidos, chumbo, estanho, ferro, peixe e outros bens
nativos e nós exportemos anualmente o excesso para
outros países por 2,2 milhões de libras. Assim, tem-se
condições de comprar bens estrangeiros para nosso
consumo no valor de dois milhões de libras. Sendo
essa ordem devidamente mantida em nosso comércio,
permanece a certeza de que o Reino enriquecerá seus
cofres a cada ano com duzentas mil libras, quantia que
será colocada no Tesouro, pois a parte que não nos for
devolvida em bens terá que ser trazida para casa na forma
de tesouro (KENEN, 1998, p.35).

As exportações consistiam em uma maneira de incrementar


o volume de metais preciosos do país, pois os pagamentos
internacionais eram feitos em ouro e prata.

Tinha-se, portanto, a visão de que o país tinha que ser


superavitário comercialmente (exportações maiores que as
importações) para tornar-se mais rico. E, o Estado, tinha como
função, estimular as exportações e desestimular as importações.

Gonçalves (1998) afirma que a Espanha extraía metais preciosos


(ouro e prata) dos Incas. A Inglaterra, a França e outros países
extraíam ouro e prata da Espanha por meio do comércio exterior.

Para os mercantilistas o aumento da produção e do comércio


doméstico depende, além do estoque dos meios de pagamento,
da unificação econômica e liberdade de comércio no interior das
fronteiras nacionais. E, o crescimento do estoque de meios de
pagamento de um país depende da produção de minas nacionais
ou do superávit na balança comercial.

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Portanto, para um país sem minas, uma política comercial


baseada no protecionismo e na promoção de exportação é a única
estratégia compatível com o aumento do poder nacional.

Mas por que a concepção de comércio exterior dos


mercantilistas estava errada?

Porque se todos os países fechassem suas economias não haveria


comércio. As exportações tenderiam a zero. Como conseqüência,
o país teria que produzir internamente tudo que precisasse.

Outra forma de ver a questão é que um país que exporta mais


do que importa tende a aumentar a oferta monetária. Como
conseqüência, há aumento de preços.

O aumento dos preços internos faz com que o país perca


competitividade no mercado internacional e faz com que
as exportações diminuam e que as importações aumentem.
Baseados nesses argumentos, os economistas clássicos se
opuseram aos mercantilistas, enfatizando que o governo não
deveria intervir no comércio internacional.

Seção 2 - O que diz a Teoria das Vantagens Absolutas?


A visão clássica não vinha ao encontro dos interesses da coroa,
mas sim dos súditos da coroa. Argumentavam que a exportação
era um meio para a aquisição de produtos importados, não ouro e
prata.

De acordo com Adam Smith (1776 apud KENEN, 1998, p. 9):

Dar o monopólio do mercado interno ao produto da


indústria nacional, em qualquer arte ou manufatura em
particular, de certa foram é o mesmo que definir o que
cada pessoa deve fazer com o seu capital, sendo, em
quase todos os casos, uma regra inútil ou prejudicial... O
princípio de qualquer chefe de família prudente é nunca
tentar fazer em casa algo que lhe custe mais para produzir
do que para comprar. O alfaiate não procura fazer os
próprios sapatos, ele os compra do sapateiro. O sapateiro
não tenta fazer as suas próprias roupas, ele contrata um
alfaiate...

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Finanças internacionais

Aquilo que é prudente na condução de qualquer família


dificilmente poderia ser insensato na condução de um
grande reino. Se um outro país puder nos fornecer um
bem por um preço menor do que o necessário para que
nós mesmos o produzamos, é mais sensato comprar
dele com parte da produção da nossa própria indústria,
empregada de modo a nos trazer uma certa vantagem.

De acordo com Smith (1983), quando um produto de qualquer


ramo da indústria excede a demanda interna de um país, o
excedente deve ser mandado para o exterior e trocado por alguma
coisa que tenha demanda em casa.

Para ele, sem tal exportação, uma parte do trabalho produtivo


de um país deve cessar e o valor de sua produção anual diminuir.
Além disso, argumentava que o excedente do produto importado,
pago com excedente doméstico, pode ser trocado mais uma vez
por um produto demandado domesticamente.

Outra contribuição de Smith segundo Gonçalves (1998), foi


que os metais preciosos são um produto como qualquer outro.
Portanto, um país grande produtor de metais preciosos seria
naturalmente exportador deste produto, porque o preço dos
outros produtos cotados em ouro e prata, no país com minas,
seria mais alto do que no país sem minas.

Mais tarde, a teoria da vantagem absoluta foi aperfeiçoada por


David Ricardo, um dos seguidores de Adam Smith, que criou a
Teoria das Vantagens Comparativas.

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Seção 3 - O que diz a Teoria das Vantagens


Comparativas?
A teoria de David Ricardo, conhecida como a Teoria das
vantagens comparativas, tem como argumento principal, que o
comércio entre dois países cujas estruturas de produção não sejam
similares é sempre vantajoso em relação ao não-comércio.

Utilizando o exemplo do vinho e do tecido,


produzidos por Portugal e Inglaterra, Ricardo afirmava
que se Portugal tivesse que dividir seu capital na
produção de vinhos e tecidos, certamente perderia
em relação à possibilidade de realizar comércio
com a Inglaterra. O comércio com a Inglaterra lhe
proporcionaria mais tecidos e de melhor qualidade.

Para melhor descrever o raciocínio de Ricardo, leia o esquema a


seguir.

Para Inglaterra são necessários 100 homens, por um ano,


para produzir uma determinada quantidade de tecido; e são
necessários 120 homens, por um ano, para produzir uma
determinada quantidade de vinho.

Para Portugal são necessários 90 homens, por um ano, para


produzir a mesma quantidade de tecido; e são necessários 80
homens, por um ano, para produzir a mesma quantidade de
vinho que a Inglaterra.

Embora Portugal tenha uma vantagem absoluta na produção de


vinhos e tecidos, pela teoria das vantagens comparativas, Ricardo
afirmava que seria vantajoso Portugal realizar comércio com a
Inglaterra. Nesse caso, a Inglaterra dedicar-se-ia à produção de
tecidos, enquanto Portugal dedicar-se-ia à produção de vinhos.

Com o comércio entre os dois países, a Inglaterra compraria


os vinhos (que custaram o trabalho de 80 homens) e venderia
os tecidos (que custaram o trabalho de 100 homens), mas ela
poderia obtê-los a um preço mais baixo do que ela pagaria
internamente (120 homens).

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Finanças internacionais

Por outro lado, Portugal pagaria pelos tecidos (que lhe custariam
90 homens) o equivalente em vinho, que lhe custa 80 homens.
Desta forma, os dois países têm vantagens comparativas com o
comércio internacional.

Logo, as teorias de comércio internacional mostram


que o protecionismo e o isolamento é prejudicial
aos países. Quanto maior a abertura do comércio,
mais progresso econômico o mundo alcançará.

Mas Adam Smith já alertava sobre a dinâmica de um processo de


abertura econômica. Segundo ele, a abertura deve ser lenta para
dar tempo da economia adaptar-se às novas condições e possam
realocar os recursos de um setor para o outro. Essa é a grande
dificuldade que a Organização Mundial do Comércio se depara
neste século XXI.

Todas as transações que um país realiza com o exterior, incluindo


o comércio internacional, devem ser registrados na contabilidade
do país. É sobre isso que trata a seção seguinte: como são
contabilizadas as transações internacionais?

Seção 4 - O balanço de pagamentos


O Balanço de Pagamentos de um país representa o resumo
contábil das transações econômicas que esse país faz com o resto
do mundo, durante certo período de tempo. Com base nesse
balanço é possível avaliar a situação econômica internacional do
país (LOPES, VASCONCELLOS, 1998).

Ou, como resumem Simonsen e Cysne (1995), o balanço


de pagamentos é o registro sistemático das transações entre
residentes e não residentes de um país durante um período de
tempo.

Como residentes se entende os indivíduos que vivem


permanentemente no país (incluindo os estrangeiros com
residência fixa), os funcionários fora do país em viagens de
turismo, negócios, educação, etc. Consideram-se também

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residentes as pessoas jurídicas de direito privado ou público


sediadas no país, inclusive filiais de empresas estrangeiras.

No Brasil, o Balanço de Pagamentos é elaborado pelo Banco


Central e para o registro contábil utiliza-se a regra de partidas
dobradas: o débito em determinada conta corresponde a um
crédito em outra.

Toda transação que cria um direito constitui um crédito. As


exportações, por exemplo, são lançadas como crédito. Por outro
lado, as importações são lançadas como débito, assim como juros
pagos ao exterior. Os créditos entram com sinal positivo e os
débitos entram com sinal negativo. De modo geral, considera-se
que toda entrada de divisas corresponde a um crédito e toda saída
a um débito, conforme os exemplos indicados no quadro a seguir:

CRÉDITO DÉBITO
Exportação de bens e serviços Importação de bens e serviços
Recebimento de doações e indenizações de Pagamento de doações e indenizações a
terceiros Estrangeiros
Recebimento de empréstimos de estrangeiros Pagamentos de capital emprestado por
estrangeiros
Recebimento de reembolso de capital do Reembolsos de capital a estrangeiros
estrangeiro
Vendas de ativos para estrangeiros Compras de ativos de estrangeiros
Recebimento de Fretes Pagamentos de Fretes

Quadro 1.1 - Exemplos de lançamentos no Balanço de Pagamentos


Fonte: Lopes e Vasconcellos (1998).

Observe alguns exemplos de lançamento apresentados por


Simonsen e Cysne (1995), cujas operações são liquidadas em
moeda ou títulos de curto prazo:

„„ um país exporta uma mercadoria recebendo pagamento


à vista em moeda estrangeira: credita-se na conta
exportações e debita-se na conta “haveres de curto prazo
no exterior”;
„„ um país importa mercadorias pagando-se à vista em
moeda nacional: debita-se em importações e credita-se
em “capitais de curto prazo”;
„„ um país paga em ouro monetário a amortização de um
empréstimo externo: débito de “Amortizações” e crédito
em “ouro monetário”.

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Finanças internacionais

Se a transação não envolve pagamento em moeda, ela é concebida


como resultado de duas operações, a primeira envolvendo uma
entrada e a segunda uma saída, conforme os exemplos:

„„ um país recebe um donativo do exterior em mercadorias:


débito em importações e crédito em transferências
unilaterais;
„„ um país permuta mercadorias com o exterior: crédito em
exportações e débito em importações;
„„ um equipamento estrangeiro é adquirido pelo país com
financiamento externo: crédito de financiamento, débito
de Importações.

Como é a Estrutura do Balanço de Pagamentos?

As transações na balança de pagamentos dividem-se


em: transações autônomas (ou espontâneas) e transações
compensatórias (ou induzidas):

„„ As transações autônomas são realizadas normalmente


e acontecem por si mesmas. Essas transações são
motivadas pelos interesses dos agentes (empresas,
consumidores, governo) e referem-se às transações da
balança de transações correntes e da balança de capitais,
como mostra o quadro 1.
„„ As transações compensatórias têm como objetivo
financiar o saldo final das transações autônomas.
Acabado um determinado período não pode existir
igualdade entre crédito e débito quanto às transações
voluntárias. Com base nesse superávit (ou déficit), o
governo é induzido a realizar uma série de transações
(compensatórias) com o intuito de equilibrar (ou zerar) as
contas do Balanço de Pagamentos.

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A estrutura do Balanço de Pagamentos é apresentada a seguir.

Balanço de Pagamentos
1. Balanço de Transações Correntes (BTC)
I - Balança Comercial
Exportações (FOB)
Importações (FOB)
II - Balança de Serviços
Transportes (fretes) e Seguros
Viagens Internacionais e Turismo
Rendas de Capital (lucros, dividendos e juros)
Diversos (como serviços governamentais)
III - Transferências Unilaterais (donativos)
Saldo do Balanço de Pagamentos em Conta Corrente (I + II+ III)
2. Balança de Capitais
Investimentos Diretos
Reinvestimentos
Empréstimos e Financiamentos a Longo e Médio Prazo
Empréstimos a Curto Prazo
Amortizações
Capitais a Curto Prazo
3. Erros e Omissões
Saldo do Balanço de Pagamentos (1+2+3)
Transferências Compensatórias (Financiamento Oficial Compensatório)
Variação de Reservas
Variação no Total
Haveres de Curto Prazo no Exterior Contrapartida para Valorizações e
Desvalorizações
Variação no total
Ouro Monetário Contrapartida para Valorizações e
Desvalorizações
Contrapartida para Monetização e
Desmonetização
Variação no total
Direitos Especiais de Saque Contrapartida para Valorizações e
Desvalorizações
Contrapartida para Cancelamento e
Alocação

Variação no Total
Posição de reservas no FMI Contrapartida para Valorizações e
Desvalorizações
Operações de Regularização
Atrasados Comerciais

Quadro 1.2 - Estrutura do Balanço de Pagamentos


Fonte: Simonsen e Cysne (1995).
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Finanças internacionais

Para entender melhor o Quadro 1.2, que mostra a estrutura do


balanço de pagamentos, a seguir apresenta-se descrito com mais
detalhes cada item.

Para iniciar acompanhe:

1) Balanço de Transações Correntes (BTC)

Resume a diferença entre o total das exportações e importações


tanto de mercadorias como de serviços, sendo também incluído o
saldo de transferências unilaterias (donativos), executadas durante
o período.

BTC superavitária

Significa que o país está recebendo recursos que podem ser


utilizados:

a) no pagamento de compromissos assumidos anteriormente


(diminuição do endividamenro externo);

b) para investimento do país no exterior (aumento de controle do


país sobre empreendimentos no exterior);

c) para aumentar as reservas do país.

BTC deficitárias

Implica a necessidade de:

a) contrair empréstimos no exterior (aumentando o


endividamento do país);

b) contrair investimentos estrangeiros no país;

c) diminuir as reservas do país.

Poupança Externa Negativa

Representa a transferência de bens e serviços para o resto do mundo.

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Poupança Externa Positiva

Em termos reais (não financeiros) significa a absorção de recursos


reais do resto do mundo, que permitem o financiamento do
consumo e dos investimentos do país.

Os principais itens do BTC são:

a) Balança comercial: a balança comercial inclui basicamente as


importações e exportações:

Exportações > Importações = Superávit Importações > Exportações = Déficit


Balança Comercial Balança Comercial

As Exportações e Importações podem ser contabilizadas como:

„„ FOB – Free On Board


„„ CIF – Cost, insurance and freight
No conceito FOB, as despesas incluídas no valor das mercadorias
são as incorridas até o embarque da mercadoria. As exportações
CIF são as que incluem, além do custo, o valor do frete e do
seguro do transporte da mercadoria até o destino. Para efeito
do Balanço de Pagamentos, utilizam-se as exportações e
importações FOB, já que as despesas com seguros e fretes estão
incluídas na balança de serviços.

b) Balança de Serviços: a balança de serviços mostra as


negociações internacionais dos chamados bens invisíveis ou
intangíveis, e os rendimentos de investimentos. Contabiliza-se
como serviços as seguintes operações:

„„ transportes e seguros: corresponde ao saldo das receitas


e despesas realizadas com fretes e prêmios de seguros
efetuados;
„„ viagens internacionais: representa o saldo das receitas e
despesas com turistas;
„„ rendas de capital: refere-se a rendimentos de capital
auferidos ou pagos pelo país. Nesta conta estão incluídos
os juros pagos ou recebidos do exterior por empréstimos
ou financiamentos recebidos ou concedidos por não-
residentes em momento anterior. Também são incluídos

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Finanças internacionais

nesta conta os lucros enviados por empresas nacionais no


exterior – crédito e os lucros remetidos pelas empresas
estrangeiras no país-débito. Inclui os lucros reinvestidos
por empresas estrangeiras no país-crédito);
„„ diversos (inclui-se aqui todos os gastos com
representações diplomáticas no exterior e transferências
dos demais países para os gastos de suas representações
diplomáticas no país. Inclui também: recebimentos e
pagamentos referentes a royalties, patentes, assistência
técnica, comissões, aluguel de equipamentos, filmes, etc).

c) Transferências Unilaterais: as transferências unilaterais se


referem aos pagamentos sem contrapartida de um país para
outro. São consideradas transferências unilaterais: as remessas
feitas por empregados migrantes para suas famílias no país de
origem, doações feitas por um governo para outro, reparações de
guerra, etc.

2. Balança de Capitais

Consideram-se aqui as contas que representam modificações


nos direitos e obrigações de residentes no país para com não-
residentes.

As contas de capitais são as seguintes:

„„ investimentos: referentes ao capital de não residentes no


país aplicados no país, sejam esses investimentos diretos
ou em carteira, assim como os investimentos feitos por
residentes do país aplicados no exterior;
„„ reinvestimentos: refere-se aos investimentos de
empresas estrangeiras localizadas no país;
„„ empréstimos e financiamentos: refere-se a empréstimos
e financiamentos de longo e médio prazo;
„„ empréstimos de curto prazo: inclui os empréstimos
recebidos do exterior e concedidos a outros países, tanto
para governos, como para empresas e indivíduos, além
dos financiamentos obtidos na importação e concedidos
na exportação. Os empréstimos de médio prazo são os

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considerados de um a cinco anos. Os de longo prazo


refere-se aos superiores a cinco anos. Os empréstimos de
curto prazo são inferiores a um ano;
„„ amortizações: registra os pagamentos do principal
referentes a empréstimos e financiamentos tomados no
exterior, e os pagamentos do principal feitos por não
residentes referentes a empréstimos e financiamentos
concedidos pelo país ao exterior;
„„ capitais de curto prazo: constitui-se de capitais
especulativos, como aplicações no mercado financeiro e
de alta volatibilidade.

3. Erros e Omissões

O registro de várias contas com valores estimados impede a


equivalência entre os créditos e débitos. Como uma forma de
cobrir os erros estatísticos cometidos, bem como as transações
não registradas, surge essa conta de resíduo chamada de Erros e
Omissões.

Somados todos os saldos das contas mencionadas (Transações


correntes, Transações de capital e erros e omissões), tem-se o
resultado do balanço de pagamentos, que pode ser superavitário
ou deficitário.

As transações compensatórias são de sinal contrário ao resultado


do balanço de pagamentos. Se o balanço for positivo (indicando
entrada de recursos) a conta de transações compensatórias será
deficitária. Quando o balanço de pagamentos for deficitário, a
conta de transações compensatórias será credora. As transações
compensatórias são:

„„ Variação de reservas (conta caixa): As reservas


internacionais registram a variação nos haveres em
moeda estrangeira (ou haveres de curto prazo no exterior)
e ouro possuídos em reservas pelo país, mais a variação
nos Direitos Especiais de Saque e na posição de reservas
no FMI. Quando há déficit no balanço de pagamentos,
ele poderá ser coberto por uma saída de divisas ou de
ouro do país, ou seja, ocorrerá uma variação negativa
no volume de reservas do país, indicado por uma conta
credora no item variação de recursos.

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Finanças internacionais

Se o balanço for superavitário, haverá entrada de divisas ou ouro,


ou seja, uma variação positiva de reservas, indicada por um débito
no item variação de reservas. Uma observação importante a ser
feita aqui se refere às desvalorizações e valorizações e monetização
e desmonetização.

Por exemplo, como o balanço é contabilizado em


dólares e parte das reservas é mantida em euro,
uma valorização do euro em relação ao dólar levará
a um lançamento negativo na conta de haveres de
curto prazo, porque o saldo desses haveres avaliados
em dólares aumentou; e como contrapartida faz-se
um lançamento positivo na conta de valorizações
e desvalorizações. O mesmo acontece com as
valorizações ou desvalorizações do ouro e dos
Direitos Especiais de Saque -DES. A monetização e a
desmonetização se referem as seguintes operações:
se o Banco central compra ouro no mercado
interno há um lançamento a débito na conta “Ouro
Monetário” com lançamento em contra-partida para
Monetização/Desmonetização. O mesmo acontece se
ocorre uma alocação ou cancelamento dos DES.

„„ Operações de regularização: Refere-se a operações


realizadas com instituições internacionais, como o Fundo
Monetário Internacional – FMI. Quando há déficit no
balanço de pagamentos recorre-se a empréstimos dessas
instituições para cobrir esses déficits.
„„ Atrasados comerciais: São contas vencidas e não pagas
no exterior. Quando um empréstimo é vencido e não
pago, debita-se da conta amortizações (exatamente como
se ele fosse pago) e credita-se de atrasados comerciais.
Quando o pagamento é feito, debita-se na conta atrasados
e credita-se na conta caixa (reservas internacionais).

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Considerações adicionais:

O que acontece quando um cidadão inglês que vem residir no


Brasil e traz consigo um carro, por exemplo?
Haverá um lançamento positivo em “Transferências Unilaterais”
e um lançamento negativo na conta Importações. Se o cidadão
inglês também trouxer um título representativo de um direito
sobre determinado capital (como um empréstimo que efetuou a
um cidadão inglês), haverá um crédito na conta “Transferências
Unilaterais” e debita-se a conta “Empréstimos”. E, para complicar o
caso, se o imigrante tiver uma dívida com um cidadão estrangeiro,
haverá um débito na conta transferências unilaterais e um crédito na
conta empréstimos.
O que ocorre quando um cidadão brasileiro, residente, é
assalariado de uma empresa estrangeira (não-residente)?
A operação será contabilizada na balança serviços, na conta
rendas de trabalho. Mesmo o brasileiro estando fora do Brasil (mas
permanecendo como residente no Brasil), todas as rendas de trabalho
auferidas por ele serão contabilizadas na balança serviços, não se
restringindo ao valor transferido para o Brasil. Todos os gastos em
bens e serviços realizados no estrangeiro serão contabilizados a
débito na conta transações correntes no Brasil.

Com relação ao país que possui déficit em transações correntes


considere que:

„„ com déficit em transações correntes o país fechará o


saldo do balanço de pagamentos com a entrada de
capitais autônomos ou compensatórios. Se o país receber
capital autônomo além do seu déficit em conta corrente,
ocorrerá um superávit total no balanço de pagamentos;
„„ o excesso de capital não será absorvido pela economia,
ficará depositado no exterior sob a forma de reservas
adicionais, como uma provisão para o futuro. Mas, se
o país não recebe capital suficiente para cobrir o déficit
em conta corrente, terá que usar os capitais acumulados
anteriormente. Se esses capitais provisionados não forem
suficientes o país terá que recorrer aos empréstimos
do FMI, por exemplo, ou contabilizar como atrasados
comerciais, que implica em “sujar” a imagem do país no
exterior.

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Finanças internacionais

O Brasil, no início do Plano Real, em 1994, apresentou uma


valorização monetária (Real valorizado em relação ao dólar). Isso
estimulou a importação de bens e serviços. Houve aumento na
compra de bens de consumo e de produtos intermediários, além
dos brasileiros viajarem muito para o exterior. E o Brasil não
exportava o suficiente para pagar toda essa conta.

Como resultado, o país tinha que compensar essas operações


com o movimento de capitais. E foi isso que ocorreu. Na época,
o país atraiu muito capital externo, como forma de Investimento
Externo Direto (IED) e também capitais de curto prazo. O IED
entrou principalmente para a compra das empresas estatais que
estavam sendo privatizadas. O capital de curto prazo sentia-se
atraído pelas altas taxas de juros brasileiras. Essa entrada de
capitais mantinha, portanto, a moeda valorizada.

O problema adveio com as crises internacionais do final da


década de 90. Os capitais de curto prazo fugiram dos países
emergentes, como o Brasil. A questão que ficou portanto era:
como financiar o déficit em conta corrente? A saída de curto
prazo foi a desvalorização do real em 1999. A desvalorização
da moeda, na medida em que aumenta a remuneração para
o exportador, permite que ele abaixe o preço do produto
brasileiro no exterior, estimulando as exportações e inibindo as
importações, que ficam mais caras para os brasileiros.

O problema dos déficits em conta corrente, cobertos por capitais


externos, é que isso implica em transferências de rendas futuras
para o exterior sob a forma de remessa de juros e lucros, gerando
um efeito de bola de neve. Logo, os capitais estrangeiros
recebidos do exterior deveriam vir, predominantemente na forma
de IED que gerem exportações ou queda de importações como
forma de compensar o envio de juros e lucros para o exterior.

Os déficits permanentes na BPs podem ser corrigidos por alguma


das seguintes medidas:

„„ desvalorizações das taxas de câmbio;


„„ redução do nível de atividade econômica;
„„ restrições tarifárias ou quantitativas às importações;
„„ subsídios às exportações;
„„ aumento da taxa interna de juros;

Unidade 1 33
Universidade do Sul de Santa Catarina

„„ controle da saída de capitais e de rendimentos para o


exterior.
A adoção de algumas dessas saídas depende da conjuntura
econômica de cada país. Apelar para o protecionismo econômico
significa ter problemas com parceiros comerciais, dificultando
o desenvolvimento de longo prazo do comércio internacional e
gerando a necessidade do país explicar-se junto à Organização
Mundial do Comércio.

Agora que você já aprendeu sobre a Economia Internacional,


antes de seguir para o estudo da próxima unidade, realize
a seguir as atividades propostas para praticar os novos
conhecimentos.

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Finanças internacionais

Síntese
Nesta unidade, você pôde verificar que as teorias de comércio
internacional condenam o protecionismo e consideram que o
isolamento é prejudicial aos países.

Quanto maior a abertura do comércio mais progresso econômico


o mundo alcançará. Dentre as teorias de comércio internacional,
salienta-se a teoria de David Ricardo, conhecida como a Teoria
das Vantagens Comparativas.

Esta teoria tem como argumento principal que o comércio entre


dois países cujas estruturas de produção não sejam similares é
sempre vantajoso em relação ao não-comércio.

Também se estudou neste capítulo a balança de pagamentos que


representa o resumo contábil das transações econômicas que um
país faz com o resto do mundo, durante um certo período de
tempo.

Seguindo a proposta da disciplina, na próxima unidade você irá


estudar Integração e Blocos Econômicos Regionais. Até lá!

Unidade 1 35
Universidade do Sul de Santa Catarina

Atividades de auto-avaliação
Efetue as atividades de auto-avaliação e, em seguida, acompanhe as
respostas e comentários a respeito no final deste livro didático. Para
melhor aproveitamento do seu estudo, realize a conferência de suas
respostas somente depois de fazer as atividades.
Leia com atenção aos enunciados e realize a seguir as atividades
propostas.
1. Por que os países devem manter comércio internacional? Explique a
teoria das vantagens comparativas.

2. O que significa déficit em transações correntes no balanço de


pagamentos? Indique duas medidas que o país pode adotar para cobrir
esse déficit.

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Finanças internacionais

Saiba mais
Se você ficou interessado em conhecer mais detalhes sobre a
economia internacional, segue algumas sugestões de leitura sobre
o assunto:

GONÇALVES, R. A nova economia internacional: uma


perspectiva brasileira. São Paulo: Campus, 1998.

LOPES, L. M.; VASCONCELLOS, M. A. S. de. (org).


Manual de macroeconomia: nível básico e nível intermediário.
São Paulo: Atlas, 1998.

KENEN, P. Economia internacional: teoria e política. São


Paulo: Campus, 1998.

SIMONSEN, M. H.; CYSNE, R. P. Macroeconomia. São


Paulo: Atlas, 1995.

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