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Universidade Sul de Santa Catarina

Direito
Internacional
Econômico

UnisulVirtual
Palhoça, 2017
Copyright © UnisulVirtual 2017
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Universidade do Sul de Santa Catarina – Unisul Campus Universitário UnisulVirtual


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Livro Didático
Professora Conteudista Diagramação
Deisi Cristini Schveitzer Caroline Casassola
Designer Instrucional Revisão Ortográfica
Lis Airê Fogolari Diane Dal Mago
Projeto Gráfico e Capa ISBN
Equipe UnisulVirtual 978-85-506-0199-1
E-ISBN
978-85-506-0200-4

S42
Schveitzer, Deisi Cristini
Direito internacional econômico : livro didático / Deisi Cristini Schveitzer ;
design instrucional Lis Airê Fogolari. – Palhoça : UnisulVirtual, 2017.
121 p. : il. ; 28 cm.

Inclui bibliografia.
ISBN: 978-85-506-0199-1
E-ISBN: 978-85-506-0200-4

1. Direito internacional público. 2. Direito econômico. 3. Direito financeiro.


4. Comércio internacional. 5. Organizações internacionais. I. Fogolari, Lis Airê,
1981-. II. Título.

CDD (21. ed.) 341.1

Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Universitária da Unisul


Deisi Cristini Schveitzer

Direito
Internacional
Econômico

Livro didático

Designer instrucional
Lis Airê Fogolari

UnisulVirtual
Palhoça, 2017
Sumário

Introdução  | 7

Capítulo 1
O Direito Internacional e o
Direito Internacional Econômico | 9

Capítulo 2
Organizações Internacionais
Intergovernamentais | 35

Capítulo 3
Meios de solução de conflitos internacionais | 57

Capítulo 4
Do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) à
Organização Mundial do Comércio (OMC) | 79

Considerações finais | 113

Referências | 115

Sobre a Professora Conteudista | 121


Introdução

Por meio deste livro você compreenderá o universo do Direito Internacional


Econômico como ramo do Direito Internacional Público.

A importância desse conteúdo justifica-se no fato de que: como seria a


convivência em uma sociedade internacional comercialmente competitiva se
não existissem normas? O direito internacional econômico nasce justamente
da necessidade de criar um conjunto de normas com a finalidade de ordenar
o comércio internacional.

Tenha em mente que este livro não objetiva esgotar o conhecimento do tema;
pelo contrário, abordará noções gerais sobre ele.

Nosso objetivo não é oferecer-lhe somente conhecimento das informações


disponíveis nas unidades específicas, e sim dar-lhe oportunidade para uma
reflexão, com vistas a desenvolver seu raciocínio crítico.

Iniciaremos com as noções básicas do Direito Internacional e Direito Internacional


Econômico, avançando para o conhecimento dos organismos internacionais
de cooperação econômica, meios de solução de conflitos internacionais e a
Organização Mundial do Comércio.
Capítulo 1

O Direito Internacional e o
Direito Internacional Econômico

Seção 1
Sociedade Internacional
A sociabilidade é uma característica precípua da espécie humana, procurando
sempre estar em um grupo para viver e sobreviver. Nas palavras de Guerra
(2009, p. 3), uma “pessoa, ao nascer, sente a necessidade de se localizar em
sociedade e o processo de socialização vai desde o nascimento até a morte.”
Ou seja, um processo de aprendizagem que se caracteriza por ensinar o
indivíduo a participar da sociedade.

Para Mello (1971), a sociedade surge das relações recíprocas dos indivíduos.

É possível definir sociedade como um conjunto de pessoas, em um determinado


território, com costumes comuns. O Brasil forma uma sociedade específica,
apesar das diferenças regionais. (HUSEK, 2002, p. 16).

Na lição de Azambuja (2008), a sociedade é a união moral de seres racionais


e livres, organizada de maneira estável e eficaz para realizar um fim comum e
conhecido de todos.

E nesse construir conceitual, qual a definição para sociedade internacional?

A sociedade internacional existe desde a mais remota antiguidade, sendo


impossível fixar uma determinada data do seu surgimento. E é lógico que as
características da sociedade internacional, de hoje, são diferentes da antiga.

9
Capítulo 1

A diversidade de objetivos perseguidos e de necessidades satisfeitas ao


longo de sua história, eleva-a a uma alternância entre evolução e retrocesso.
Essa alternância de valores reclamou, ao seu tempo, regulamentação que a
disciplinasse e permitisse a imposição de norma cogente, sem interferir no curso
natural de sua história. (PEREIRA, 2009, p.3).

Na sociedade internacional também encontramos os elementos que a caracterizam


como tal: a permanência dos indivíduos, organização e objetivo comum.

A sociedade internacional, ao contrário do que acontece nos Estados, é descentralizada.

A partir disso podemos conceituar a Sociedade Internacional como o conjunto


de sujeitos internacionais em contínua convivência global, relacionando-se e
compartilhando interesses comuns e recíprocos por meio da cooperação, o que
demanda certa regulamentação. (BASTOS, 1995).

As características da sociedade internacional podem ser resumidas, nas palavras


de Mello (1971):

•• Universal – abrange todos os entes do globo terrestre.


•• Paritária – existência de igualdade jurídica.
•• Aberta – todo ente, ao reunir determinados elementos, torna-se seu
membro sem que haja necessidade de os membros já existentes se
manifestarem sobre o seu ingresso.
•• Não possui uma organização institucional, não sendo um
superestado. Não possui uma poder legislativo, executivo ou judiciário
por cima dos Estados, consequentemente, é descentralizada.
•• O direito que nela se manifesta é originário – não se fundamenta em
outro ordenamento positivo.

Além dessas, atualmente, a sociedade internacional compreende características


como as traçadas por Pereira (2009, p. 6):

•• Um aumento significativo no intercâmbio de mercadorias entre as


pessoas, que extrapola os limites físicos das fronteiras dos Estados,
unindo produtor e distribuidor.
•• Dominar o ininterrupto fluxo de informações. Atualmente, não se pode
tratar de informações como fatos isolados e restritos ao território de
um Estado, mas sim de uma teia que se presta a interligar os atores
do Direito Internacional, de maneira que uma oscilação na Bolsa de
Valores de Tóquio cause reflexos diretos do outro lado do mundo.

10
Direito Internacional Econômico

Analisemos um exemplo: A Bolsa de Valores de Tóquio despencou no dia 22 de março


de 2017 e fechou o dia com um recuo superior a 400 pontos, registrando a maior
queda desde que Donald Trump venceu a eleição presidencial dos Estados Unidos,
em novembro de 2016. O Nikkei 225, índice que reúne as empresas mais negociadas
da bolsa japonesa, despencou 414 pontos, ou queda de 2,13% ante o fechamento
anterior, e encerrou as negociações aos 19.041,38 pontos.

•• O fluxo migratório regular do homem pelos cinco continentes; a partida


de sua terra natal e a chegada ao novo Estado, carregando consigo
expectativas, sonhos e esperanças, mas também um sem-número de
reflexos jurídicos, derivados do exercício de seu direito de migrar.

Apenas como um exemplo, o Brasil tem 26 mil pedidos de refúgio. Os pedidos


de refúgio são feitos por pessoas de países em guerra ou com medo de voltar a
seus países por sofrerem perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade,
opinião política, pertencimento em grupos sociais ou violação generalizada de direitos
humanos. O Brasil tem uma política “de portas abertas”: é possível entrar no país para
só depois fazer o pedido formal para o governo. (VASCONCELLOS, 2017)

•• A construção de um campo estratégico unificado, para enfrentar um


adversário poderoso, cruel, impiedoso e absolutamente imprevisível.

A definição de sociedade internacional, na visão de Pereira (2009, p. 3), permeia


pela ideia de múltiplas associações de indivíduos que coexistem motivados por
razões diversas de grupo para grupo, mas que, em sua interdependência, fazem
nascer em relações jurídicas que reclamam tutela (proteção).

Mello (1971, p. 22) afirma que existe uma sociedade internacional, porque existem
relações contínuas entre as diversas coletividades que são formadas por homens
os quais apresentam como característica a sociabilidade, essa também se
manifesta no mundo internacional. A sociabilidade não existe apenas dentro das
fronteiras de um Estado, mas ultrapassa tais limites.

A sociedade internacional, como descreve Husek (2002, p. 18), é, ao mesmo


tempo, um fenômeno social e jurídico: ubi societas, ibi jus, aforismo atribuído
ao jurista romano Ulpiano 1, que significa, onde há sociedade, há direito.
Reconhecida a existência da sociedade, há que se reconhecer a existência do
Direito que a informa: o Direito Internacional.

Na sequência, abordamos o conceito e as características do Direito Internacional,


o qual nasce no seio da sociedade internacional.

1. Eneo Domitius Ulpianus (Tiro, 150 - Roma, 228) foi um jurista romano de grande influência para o mundo
do direito em todo seu desenvolvimento, bem com político e grande economista para seu tempo. (TRINDADE
JUNIOR; SARTORI).

11
Capítulo 1

Seção 2
Conceito e características de Direito Internacional

2.1 Conceito de Direito Internacional


A função do direito é regulamentar o funcionamento da sociedade.

Nos últimos anos, é perceptível o incremento dos estudos no âmbito do Direito


Internacional e assuntos afins, como a Economia Internacional, Negociações
Internacionais e o Comércio Exterior. Em dezembro de 1994, uma portaria do
MEC (Ministério da Educação) institui o currículo mínimo de matérias com ensino
obrigatório nas faculdades de direito, entre elas, o Direito Internacional.

A expressão Direito Internacional (international law) surge com Jeremias


Bentham, em 1780, utilizada em oposição a national law ou a municipal law. Ela
foi traduzida para o francês e demais línguas latinas, como Direito Internacional
(ACCIOLY; SILVA; CASELLA, 2009).

Para Guerra (2009, p. 33), o Direito Internacional se caracteriza pelo conjunto de


normas que regulam as diversas relações existentes entre os múltiplos atores que
compõem a sociedade internacional.

Nesse sentido, podemos dizer que o Direito Internacional é a parte do Direito


que busca disciplinar as relações internacionais existentes entre países ou entre
pessoas de nacionalidades diferentes.

O Direito Internacional tem profunda relação com a área das Relações


Internacionais, servindo de instrumento delas. É por meio do Direito Internacional
que as relações internacionais entre os Estados acontecem com maior segurança,
e as relações privadas de caráter internacional são facilitadas.

Para Gama (2002, p. 27) o Direito Internacional pode ser definido como sendo um
complexo de normas e princípios 2 que trata das relações entre Estados, pessoas
estrangeiras e pessoas físicas e jurídicas de cada Estado.

O Direito Internacional divide-se em duas áreas de estudo: a pública e a privada.

2. Os princípios são formulações deônticas de todo sistema ético-jurídico, os mais importantes a serem
considerados não só pelo aplicador do Direito, mas também por todos aqueles que, de alguma forma, ao
sistema jurídico se dirijam. (NUNES, 2011).

12
Direito Internacional Econômico

Direito Internacional Público


Trata dos interesses internacionais públicos, regulando os direitos e deveres
internacionais dos Estados, dos organismos internacionais e dos indivíduos perante
os Estados. O objetivo do Direito Internacional Público é o de regular os interesses
dos países, objetivando a diminuição de conflitos e o alcance da paz mundial.

O Direito Internacional Público disciplina a relação entre Estados que se


aproximam e, por vezes, unem-se para eliminar fronteiras e facilitar o intercâmbio
de mercadorias e serviços, buscando semelhanças e afinidades culturais,
idiomáticas e religiosas. (PEREIRA, 2009, p. 13).

Os países do Mercosul chegam a um acordo sobre a tarifa de imposto de importação e


exportação de carnes. Isso vai facilitar (ou, dependendo, pode dificultar) o comércio de
carnes entre os países que fazem parte do bloco.

Direito Internacional Privado


Pode ser conceituado como o conjunto de normas reguladoras das relações de
ordem privada da sociedade internacional, conjugando leis de ordenamentos
jurídicos distintos e indicando a lei competente a ser aplicada. O objetivo do Direito
Internacional Privado é decidir qual lei será aplicada quando houver divergências
entre as leis internas de dois países em questões de interesse privado.

Considerando o exemplo anterior do comércio de carnes do Mercosul, quando


duas empresas vão realizar um contrato internacional de compra e venda
(importação e exportação), a lei de que país será aplicada nesse contrato? A do
país exportador ou a do importador?

O Direito Internacional Público auxilia, por meio de tratados, a formação do Direito


Internacional Privado. Assim, dois ou mais países firmam um tratado de comércio
(DIPubl) e, com base nesse tratado, as empresas dos países envolvidos assinam
contratos e realizam negócios (DIPriv).

O doutrinador português Miranda (2006, p. 37) diferencia, com muita propriedade,


o Direito Internacional Público e Direito Internacional Privado:

No Direito Internacional Público, está patente uma vida


internacional que vale por si mesma, que se manifesta em
determinados processos de formação de normas e que se liga
a formas relacionais e institucionais específicas. Já no Direito

13
Capítulo 1

Internacional Privado, em princípio não se afasta o Direito Interno


de cada Estado: há situações ou relações jurídicas que estão em
conexão com mais do que um ordenamento jurídico 3, mas é o
ordenamento jurídico correspondente a este ou àquele Estado
que vai decidir que o Direito aplicável para resolver o conflito de
leis, decretando ele mesmo normas para esse fim.

2.2 Relações entre o Direito Internacional e o Direito Nacional


Na lição de Husek (2002, p. 26), o direito de cada país regula a vida interna do
seu Estado, enquanto o Direito Internacional regula as relações internacionais dos
Estados, Organismos Internacionais, empresas transnacionais e o Indivíduo.

Enquanto o Direito Interno subordina os sujeitos de direito a um poder central,


que estabelece a lei e os faz respeitá-la, graças a um aparelho institucional,
que pode recorrer à força, o Direito Internacional pressupõe a promulgação em
comum, por meio de acordo, de uma regulamentação, cabendo a cada Estado
avaliar a dimensão do dever que lhe incumbe e as condições de sua execução.
(SEITENFUS; VENTURA, 1999, p. 25).

O âmbito de aplicação do Direito Internacional é tão somente no território dos


Estados. O Direito Internacional não é celebrado para execução nos espaços
internacionais (alto-mar, polo antártico, espaço ultraterrestre), pelo contrário, nos
limites territoriais de cada Estado é que a aplicação das normas internacionais se
torna mais importante, permitindo a harmonização da sociedade.

O problema surge, muitas vezes, quando há divergência entre as normas criadas


internacionalmente e as do plano interno do Estado. Há, nessa situação, um conflito
de normas (entre o internacional e o nacional), que pode gerar duas possibilidades:

•• seguir o Direito Internacional e estar de acordo com a comunidade


internacional;
•• observar apenas o Direito Interno.

3. Ordenamento jurídico é o conjunto de normas jurídicas existentes dentro de um país. O Brasil, por exemplo,
tem uma infinidade de normas jurídicas de diferentes assuntos: penais, civis, constitucionais, administrativas,
comerciais, tributárias, processuais, trabalhistas, previdenciárias etc. Todas essas normas compõem o
ordenamento jurídico interno do país. Cada país tem o direito de definir suas normas internas como lhe convier,
de acordo com os valores de sua sociedade, seus costumes e necessidades. Chama-se ordenamento porque
as normas seguem uma ordem entre si, evitando que uma não se sobreponha à outra.

14
Direito Internacional Econômico

Para estudar os efeitos desse embate entre normas de diferentes origens, foram
estabelecidas algumas teorias. Para Husek (2002, p. 27), quando o conflito entre
normas das duas esferas ocorre, a solução é buscada no dualismo ou no monismo:

Dualismo – Surgiu em 1914, denominada pelo jurista austríaco Alfred Verdross.


Segundo Rezek (2015, p. 4), para os dualistas (Carl Heinrich Triepel, na Alemanha,
e Dionízio Anzilotti, na Itália), o Direito Internacional e o Direito Interno são
sistemas rigorosamente independentes e distintos, de tal modo que a validade
jurídica de uma norma interna não se condiciona à sua sintonia com a ordem
internacional. Essa teoria lembra os limites de validade das normas jurídicas
no Direito Nacional e que as normas do Direito Externo somente são aceitas
internamente quando introduzidas no plano doméstico. Ou seja, no caso de
igualdade entre as normas internacionais e nacionais, aplicam-se ambas, mas,
no caso de desigualdade, há a prevalência da norma interna, até que essa mude
o suficiente para permitir a aplicação da norma internacional. Ainda, para os
dualistas, não há a necessidade premente de harmonizar os dois Direitos, porque
eles acreditam na possibilidade de haver a dualidade de ambientes de aplicação
das normas. Nesse sentido, Guerra (2009, p. 46) afirma que a norma interna vale,
independentemente da norma internacional.

Monismo - conforme apregoa Seitenfus e Ventura (1999, p. 26), prevê uma


unidade lógica e sistemática das regras internas e internacionais, o que implica
um imperativo de subordinação entre uma e outra. O monismo se manifesta
pela introdução, geralmente nos textos constitucionais dos Estados, de uma
cláusula que estipula a supremacia de um direito sobre o outro, hierarquizando
suas fontes. Para os monistas, é importante a harmonização das normas, pois
elas compõem um único ordenamento jurídico. O que se propõe é a eliminação
da dualidade de regras, evitando o conflito de normas. E, em razão dessa
característica, a corrente dividiu-se em duas:

•• Monista internacionalista - prevê a unicidade da ordem jurídica sob


o primado do Direito Internacional, a que se ajustariam todas as
ordens internas (Hans Kelsen é o maior expoente dessa corrente).
Prega a ordem jurídica única e a impossibilidade de o Estado
sobreviver em clima de hostilidade com a comunidade internacional,
em razão da não aceitação interna do Direito Externo (REZEK, 2015);
•• Monista nacionalista - prevê o primado do Direito Nacional de cada
Estado soberano, sob cuja ótica a adoção dos preceitos de Direito
Internacional reponta como faculdade discricionária. Prega a soberania
dos Estados sobre a da comunidade internacional e a supremacia
da Constituição de cada país. (SEITENFUS; VENTURA, 1999). Nesse
caso, cada Estado possui a soberania de definir qual aplicação terá
a norma internacional dentro do seu ordenamento jurídico interno (se
será lei ordinária, lei complementar, status constitucional).

15
Capítulo 1

O predomínio do dualismo ou do monismo repercute em soluções práticas,


exigidas pelo convívio internacional. No tratamento constitucional, em função dos
tratados internacionais, verificam-se três possibilidades:

a. Há cláusulas que conferem aos tratados o valor de Direito Interno;


b. Há cláusulas determinando a supremacia dos tratados sobre o
Direito Interno, podendo haver prevalência sobre a Constituição,
sobre as demais leis ou sobre outros tratados;
c. Há cláusulas que preveem a necessidade de incorporação do
texto do tratado ao ordenamento interno logo na internalização
do acordo, para que ele encontre sua vigência – equiparação dos
tratados à lei ordinária. (SEITENFUS; VENTURA, 1999).

2.3 Características do Direito Internacional Público


No plano internacional, não existe autoridade superior nem milícia (força militar)
permanente. Os Estados se organizam horizontalmente e se prontificam a
proceder de acordo com as normas jurídicas na exata medida em que essas
tenham constituído objeto de seu consentimento.

Os Estados possuem direitos formalmente iguais (igualdade soberana) e devem


fazer suas próprias leis.

A coordenação é o princípio que preside a convivência organizada de tantas soberanias.

O Estado soberano não é originalmente submetido a uma jurisdição


internacional 4 diante de Corte de Justiça Internacional alguma. Sua
concordância em ser julgado por uma Corte é que confirma a autoridade dela, de
modo que a sentença (decisão da Corte) se torne obrigatória e que seu eventual
descumprimento configure um ato ilícito.

Para a sociedade internacional, costuma-se, em razão do princípio da


coordenação 5, usar uma linha reta, na qual um Estado instala-se ao lado do
outro, nem acima, nem abaixo, observe:

4. Poder de julgar de um tribunal ou de uma autoridade. Por exemplo, no seu município, o juiz local tem o poder
de julgar os casos que acontecem na cidade. Esse poder é chamado de jurisdição.

5. Que se opõe ao princípio da subordinação, no qual um Estado manda no outro.

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Direito Internacional Econômico

Isso se encontra confirmado na Carta da ONU (Carta de São Francisco), que criou
a organização, no que diz respeito à composição da Assembleia Geral das Nações
Unidas, órgão de caráter decisório, no qual todos os países membros da entidade,
independente de seu tamanho territorial, potência financeira ou bélica, população, ou
outro fator, têm o mesmo voto igualitário. Cada país tem o poder de um voto!

Para que você possa observar como a sociedade internacional se organiza de forma
diferente da sociedade nacional, observe as duas figuras apresentadas a seguir.

Figura 1 – Princípio da coordenação

Brasil Argentina China Somália Japão

Fonte: Autora, 2017.

Já no plano interno dos Estados, nota-se outra figura, uma pirâmide, sendo que
no seu topo está o Estado e na sua base os cidadãos (é a sociedade de pessoas
físicas e jurídicas do país).

Figura 2 - Pirâmide de relacionamento Estado e indivíduos.

Estado

Indivíduos
Fonte: Adaptado de Kindermann, 2011.

Isso significa que o Estado tem poder sobre os seus subordinados, gerando uma
relação de poder em que os indivíduos se submetem ao poder exercido pelo
Governo que eles mesmos elegeram.

17
Capítulo 1

As regras do Direito Internacional são obrigatórias. Não se trata de cortesia


internacional, de conveniência ou comodidade. As normas não são apenas
uma espécie de moral internacional e, há muito tempo, ultrapassaram a
condição de meros enunciados de Direito Natural 6. Entretanto, elas não
compõem um direito homogêneo.

O caráter jurídico de uma regra internacional decorre da objetividade do seu


enunciado, da generalidade de sua aplicação e de sua compatibilidade com o
conjunto de regras já admitidas no sistema. (SEITENFUS; VENTURA, 1999, p. 23).

O Direito Internacional é histórico e conjuntural, vindo a desenvolver-se de


acordo com a conjuntura política da época. Ele acompanha a sociedade
internacional nos seus movimentos.

Quando acabou a Segunda Guerra Mundial, após todos os horrores sofridos na


Europa, os países deliberaram a criação da ONU – Organização das Nações Unidas,
com a finalidade de estabelecer um sistema que evitasse, no futuro, uma nova guerra
mundial, criando um Conselho de Segurança, que, embora as críticas à sua atuação
(ou à falta dela), até o momento conseguiu evitá-la.

Seção 3
Fontes do Direito Internacional Público
Primeiramente, é necessário que você saiba o conceito de fonte, observe!

O termo fonte, nas palavras de Nunes (2011, p. 113) designa a origem, a


procedência de alguma coisa.

Considera-se fonte do direito o local de origem do Direito, já o próprio Direito, mas


saído do oculto e revelado ao mundo.

No entanto, observe que importa para esse estudo também a forma como esse
direito nasce. Segundo Husek (2002, p. 31), a fonte do direito representa o modo
pelo qual este se manifesta.

6. É um direito inerente ao ser humano, naturalmente estabelecido por Deus ou pela natureza humana.

18
Direito Internacional Econômico

O art. 38 do Estatuto da Corte Internacional de Justiça elenca as fontes do


Direito Internacional:

1. A Corte, cuja função seja decidir de acordo com o direito


internacional as controvérsias que lhe forem submetidas, aplicará:
a) as convenções internacionais, quer gerais, quer especiais,
que estabeleçam regras expressamente reconhecidas pelos
Estados litigantes;
b) o costume internacional, como prova de uma prática geral
aceita como sendo o direito;
c) os princípios gerais do direito, reconhecidos pelas nações
civilizadas;
d) sob ressalva da disposição do art. 59, as decisões judiciárias
e a doutrina dos juristas mais qualificados das diferentes nações,
como meio auxiliar para a determinação das regras de direito.

2. A presente disposição não prejudicará a faculdade da Corte


de decidir uma questão ex aequo et bono, se as partes com isto
concordarem. (FRANCO FILHO, 1999).

Você deve estar questionando se todas as fontes de Direito Internacional estão


elencadas no artigo acima mencionado, correto?

E a resposta é não. Não há uma enumeração taxativa das fontes. A doutrina


normalmente divide as fontes do Direito Internacional Público em materiais e
formais. Veja os tipos de fontes a seguir.

O primeiro tipo de fonte é chamado de fonte material ou primária. Dela sai a


matéria do Direito Internacional, isto é, do que ele é feito. São os movimentos
da sociedade internacional. Esses movimentos históricos, sociais, religiosos,
culturais, bélicos, entre outros, são a matéria-prima do Direito Internacional. Nas
palavras de Reale (2002, p. 140), não é outra coisa senão o estudo filosófico ou
sociológico dos motivos éticos ou dos fatos econômicos que condicionam o
aparecimento e as transformações das regras do direito.

19
Capítulo 1

Entre 21 e 23 de junho de 2016, em Cancum, aconteceu a Reunião Ministerial da


Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (Organisation for
Economic Co-operating and Development- OECD) sobre economia digital, na
qual foram discutidas quatro grandes eixos temáticos:

• abertura da Internet;

• conectividade global;

• confiança digital; e

• trabalho e tecnologia.

Sobre abertura da Internet, foram realizados dois painéis: o primeiro discutiu os


benefícios sociais e econômicos da Internet, abordando o conceito, sua importância,
e quais as políticas prioritárias nessa área; o segundo procurou explorar alternativas
para estimular a inovação digital na economia. (ANTONIALLI; TAMBELLI, 2016).

O segundo tipo de fonte é chamado de fonte formal ou secundária. Ela indica a forma
como foi feito o direito. A matéria discutida pelos Estados (a questão da economia
digital) pode ser apresentada por meio das fontes formais do Direito Internacional,
que são os tratados e convenções internacionais, os costumes, os atos unilaterais,
os Princípios Gerais do Direito e as resoluções das organizações internacionais.

Na  Reunião Ministerial da Organização para Cooperação e Desenvolvimento


Econômico (OCDE) realizada em Cancun, foi aprovada a Declaração sobre
Economia Digital. (ANTONIALLI; TAMBELLI, 2016).

Tratados e Convenções
Os tratados e convenções internacionais são as manifestações expressas
(escritas) dos acordos de vontades (consenso) entre Estados.

De acordo com o artigo 1 da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados,


assinada em 1969 e promulgada pelo Decreto nº 7.030, de 14 de dezembro de
2009, tratado significa: “Um acordo internacional concluído por escrito entre
Estados e regido pelo Direito Internacional, quer conste de um instrumento
único, quer de dois ou mais instrumentos conexos, qualquer que seja sua
denominação específica. (BRASIL, 2009).”.

20
Direito Internacional Econômico

Por tratado entende-se um acordo de vontades, regido pelo Direito Internacional,


entre sujeitos de Direito Internacional, produzindo efeitos com relevância nas
relações internacionais.

Costumes
O costume, outra fonte considerada formal, é o conjunto de normas consagradas
por longo uso e observadas nas relações internacionais como obrigatórias.

O costume distingue-se do uso pela ideia de obrigação. Sua força obrigatória


procede, antes de tudo, de uma prática geral, admitida como lei.

Gama (2002, p. 41) define os costumes como sendo condutas reiteradas e aceitas
pelas pessoas como o correto para determinada situação.

Por exemplo, um Chefe de Estado quando visita outro país deve ser recebido com
honras, pompas e com toda a proteção diplomática cabível. Isso decorre de um
costume internacional.

Não há hierarquia entre as normas costumeiras e normas convencionais. O tratado


e o costume possuem o mesmo valor sem que um tenha primazia sobre o outro.

Um tratado mais recente pode derrogar ou modificar um costume (a prática do corso 7


foi proibida pela Declaração de Paris de 1856) e um costume mais recente pode
derrogar ou modificar um tratado (na guerra de 1914 foram utilizadas balas explosivas,
pelas partes em luta, que eram proibidas pela Declaração de São Petersburgo de
1868). (MELLO, 1971, p. 150).

Atos Unilaterais
Os atos unilaterais são aqueles atos em que a manifestação da vontade de um
sujeito de direito (nesse caso do Estado) é suficiente para produzir efeito jurídico,
não necessitando do consentimento do outro sujeito envolvido.

O ato unilateral tem sido considerado pelos doutrinadores do Direito Internacional


como uma das suas fontes, apesar de não estar elencado no rol do artigo 38 da
Corte Internacional de Justiça.

7. Corsário, à luz do direito internacional, é o termo aplicado ao dono de um navio armado e comissionado por
uma determinada nação, que é empregado na promoção da guerra naval, atacando navios, portos e demais
benfeitorias inimigas. Corsários. (SANTIAGO).

21
Capítulo 1

Tais atos são assumidos pelo sujeito do Direito Internacional Público,


restringindo sua própria competência ou assumindo obrigações de caráter
jurídico. São atos unilaterais:

Reconhecimento de uma situação - quando um Estado reconhece o nascimento


de um novo Estado ou de um Governo saído de um movimento revolucionário.

Por meio de nota oficial, a Argentina, do presidente Mauricio Macri, foi o primeiro país a
reconhecer oficialmente a legitimidade do governo de Michel Temer em 2015.

Protesto – O Estado declara sua intenção de não reconhecer uma situação ou direito,
ou de demonstrar seu descontentamento com um fato atribuível a outro Estado.

Em dezembro de 2016, o presidente ditador de Cuba, Raúl Castro, disse em uma


entrevista não reconhecer o governo golpista de Michel Temer, “Cuba não compactua
com a ação violenta do Congresso Nacional brasileiro contra a legítima presidenta
Dilma Rousseff”. (CONEXION, 2016).

Silêncio, nas palavras de Guerra (2009, p. 9) é assimilado à aceitação, a ausência


de protesto expressa a concordância implícita criada por um sujeito de direito.

Notificação – o Estado leva ao conhecimento de outro, ou de outros, de modo


oficial, um fato que pode produzir efeito jurídico.

Renúncia – quando um sujeito de direito abandona a um direito, faculdade ou


pretensão sobre algo.

Na comemoração dos cinquenta anos da fundação da União Africana, realizada em


2013 na Etiópia, o Brasil renunciou à cobrança de uma dívida que doze países do
continente haviam contraído. O governo brasileiro os perdoou. (AZEVEDO, 2013).

Denúncia - é o desligamento de um sujeito de um acordo ou tratado.

Promessa – compromisso assumido por um Estado de ter, no futuro, certa atitude.

Princípios Gerais do Direito


Para Gama (2002, p. 41), os princípios gerais de direito são regras criadas
para assegurar a continuidade da existência das pessoas e de seu bem-estar.
Retratam valores que apontam o caminho a seguir. (HUSEK, 2002, p. 33).

22
Direito Internacional Econômico

Podemos destacar alguns princípios gerais do direito que são aplicados no Direito
Internacional. Vejamos:

•• Pacta sun servanda - que significa o respeito à boa-fé nas


obrigações internacionais, a responsabilidade internacional
pela prática de ato ilícito e restituição do que foi obtido por
enriquecimento ilícito.
•• Boa-fé.
•• Esgotamento das vias internas de recurso antes do ingresso perante
uma jurisdição internacional.
•• Dignidade da pessoa humana.

Princípios gerais de Direito Internacional são valores fundamentais que a


comunidade internacional, mediante consenso, decide proteger e preservar para
garantir sua própria existência.

O repúdio ao terrorismo: um compromisso ético-jurídico assumido pelo Brasil, quer em


face de sua própria Constituição, quer perante a comunidade internacional. (STF).

Resoluções Internacionais
As resoluções internacionais são resoluções (decisões) de organizações
internacionais, obrigatórias para os Estados-membros da organização, como é o
caso das resoluções do Conselho de Segurança da ONU.

Doutrina, jurisprudência internacional e equidade


São, ainda, fontes de integração, interpretação ou aplicação do Direito
Internacional Público, que venham a suprir lacunas deixadas pelas outras fontes
formais, a doutrina, a jurisprudência internacional e a equidade.

A doutrina é o posicionamento sobre os assuntos jurídicos escritos em livros e


artigos por estudiosos da área (juristas).

A jurisprudência internacional é a decisão dada pelos juízes das Cortes


Internacionais de Justiça, que vira sentença judicial e serve de base para novas
decisões de casos semelhantes.

Já a equidade, é o uso do senso comum na busca do que for mais próximo da


justiça (no sentido de justo) para o caso.

23
Capítulo 1

Seção 4
Ramos do Direito Internacional
Entre os ramos de Direito Internacional, abordaremos os mais relevantes na
sociedade internacional. Vejamos:

Direito Penal Internacional X Direito Internacional Penal


O Direito Penal Internacional é o conjunto de normas internacionais que regula
penalmente condutas nocivas de impacto transfronteiriço, apelando para a
cooperação jurídica internacional em matéria penal. Atesta a internacionalização
da produção de normas penais, com a regulação de diversos crimes
transnacionais ou transfronteiriços. (RAMOS, 2013, p. 286).

Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado


Transnacional Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em
Especial Mulheres e Crianças.

Já com relação ao Direito Internacional Penal, antes da Primeira Guerra Mundial


existiam somente algumas normas internacionais que reconheciam as necessidades
de sanção aos indivíduos responsáveis por atos ilícitos. Somente os indivíduos
particulares foram objeto do Direito Internacional Penal. Não havia norma penal que
visasse penalizar as pessoas físicas que constituíam os órgãos do Governo.

Foi a partir da Segunda Guerra Mundial que surgiu a necessidade de penalizar os


criminosos de guerra.

A Convenção de Londres, assinada em 8 de agosto de 1945, que estabeleceu o


Tribunal de Nurenberg, visou a penalizar as pessoas físicas constituintes dos órgãos
do Estado, tipificando e definindo o crime de guerra, o crime contra a paz e o crime
contra a humanidade.

O Direito Internacional Penal define-se como sendo o conjunto de regras


jurídicas concernente às infrações internacionais que constituem violação do
Direito Internacional.

Ramos (2013, p. 285) define o Direito Internacional Penal no conjunto de normas


internacionais que regulam penalmente condutas as quais afetam valores
essenciais para a comunidade internacional, mesmo sem nenhum impacto
transfronteiriço, pois regulam crimes que afetam valores essenciais e interessam
não a um Estado ou grupo de Estados, mas a toda coletividade internacional.

24
Direito Internacional Econômico

São crimes internacionais o genocídio, os crimes de guerra, os crimes contra a


humanidade e o crime de agressão.

A finalidade precípua do Direito Internacional Penal é a mantença da paz e


segurança mundiais. Para reprimir as condutas violadoras da paz e segurança, bem
como para preveni-las, erige semelhantes condutas como criminosas, delegando
seu sancionamento penal à competência de tribunais nacionais ou estrangeiros.

O Tribunal Penal Internacional foi estabelecido em 2002, pelo Estatuto de Roma,


em Haia, Holanda, local da sua sede. O Estatuto define os crimes de genocídio,
contra a humanidade, guerra e agressão. Esse último, foi tipificado como crime em
2010, na Conferência de Kampala, Uganda.

Direito Humanitário
É acionado ao mesmo tempo em que se inicia um conflito armado. E é desligado
quando o conflito se encerra, não se recorrendo a ele em tempos de paz. É
um conjunto de tratados internacionais destinado à proteção do civil e da
propriedade em período de guerra, ou seja, um conjunto de normas jurídicas
próprias a minimizar os efeitos do combate sobre o homem e a propriedade.

Para exemplificar, citamos a convenção contra a tortura e outros tratamentos ou penas


cruéis, desumanos ou degradantes, adotada pela Resolução nº 39/46, da Assembleia
Geral das Nações Unidas, em 10 de dezembro de 1984.

Direito Internacional do Meio Ambiente


O Direito Internacional do Meio Ambiente ou Direito Internacional Ambiental está
baseado em tratados e convenções. Como exemplo, podemos citar a Convenção
do Direito do Mar, de 1982, que prevê princípios e normas referentes à proteção e
a preservação do meio ambiente marinho.

Para Guerra (2009, p. 478), o Direito Internacional Ambiental regula os aspectos,


relacionados ao meio ambiente, que dependem da ação livre da pessoa humana
e cuja regulamentação ultrapassa o interesse de um único Estado.

Ainda, para Guerra (2009, p. 480), ao meio ambiente relaciona-se à proteção


dos espaços naturais e das paisagens, à preservação das espécies animais
e vegetais, à manutenção dos equilíbrios biológicos, à proteção dos recursos
naturais, à comodidade dos vizinhos, à saúde, à seguridade, à salubridade
pública, à conservação dos sítios e monumentos.

25
Capítulo 1

A Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento


(Cnumad), realizada em junho de 1992 no Rio de Janeiro, conhecida como Rio-92 ou
Eco-92 ou Cúpula da Terra, marcou a forma como a humanidade encara sua relação
com o planeta. Foi naquele momento que a comunidade política internacional admitiu
claramente que era preciso conciliar o desenvolvimento socioeconômico com a
utilização dos recursos da natureza. (Senado Federal).

As normas do Direito Internacional do Meio Ambiente têm reflexos relevantes


com as normas que regulam o comércio internacional. Há princípios que a
Organização Mundial do Comércio (OMC) adota e aplica, como a liberdade do
comércio, a transparência das relações comerciais, o não privilegiamento de
parcerias entre os Estados, que conflitam com as normas de proteção ambiental.
(SOARES, 2002, p. 435).

Direito Internacional do Trabalho


A justiça social, a valorização do trabalho, as boas relações entre empregados e
empregadores, não são problemas peculiares ao Brasil e qualquer outro país, mas
universais. (ROQUE, 1997 p. 227).

O Direito Internacional do Trabalho objetiva a adoção de normas uniformes


sobre o Direito do Trabalho, com a finalidade de elevar as condições de
vida do trabalhador e a harmonia entre o desenvolvimento tecnológico e
econômico e o progresso social.

Terminada a Primeira Guerra Mundial, os representantes dos Estados vitoriosos


assinaram o Tratado de Versalhes, em 28 de julho de 1919, que além de instituir a
Liga das Nações, comprometeram-se, no artigo 23, a “assegurar e manter relações
de trabalho equitativo e humano para o homem, a mulher e a criança, nos seus
próprios territórios”. Surgindo assim, a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

A OIT é responsável pela formulação e aplicação das normas internacionais do


trabalho (convenções e recomendações). As convenções,  uma vez ratificadas
por decisão soberana de um Estado, passam a fazer parte de seu ordenamento
jurídico. O Brasil está entre os membros fundadores da OIT e participa da
Conferência Internacional do Trabalho, desde sua primeira reunião, realizada em
1919. (Organização Internacional do Trabalho).

26
Direito Internacional Econômico

A Declaração Universal dos Direitos do Homem é um documento básico do


Direito Internacional do Trabalho, disciplinando nos artigos 23 e 24, o seguinte:

Artigo 23
§1. Toda pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha de
emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à
proteção contra o desemprego.
§2. Toda pessoa, sem qualquer distinção, tem direito a igual
remuneração por igual trabalho.
§3. Toda pessoa que trabalha tem direito a uma remuneração
justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família,
uma existência compatível com a dignidade humana, e a que se
acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.
§4. Toda pessoa tem direito a organizar sindicatos e a neles
ingressar para a proteção de seus interesses.
Artigo 24
Toda pessoa tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação
razoável das horas de trabalho e a férias periódicas remuneradas.
(FRANCO FILHO, 1999).

Direito Internacional Econômico


Direito Econômico é o direito das políticas públicas na economia. É o conjunto de
normas e institutos jurídicos que permitem ao Estado exercer influência, orientar,
direcionar, estimular, proibir ou reprimir comportamentos dos agentes econômicos
num dado Estado ou conjuntos de Estados.

Para Jo (2000, p.438 e 439), Direito Internacional Econômico é o conjunto das


normas legais que regem as relações econômicas internacionais. A maioria dos
juristas inclui como objeto o investimento estrangeiro e a transação internacional
de mercadorias, capital, serviços etc. Portanto, os principais temas do Direito
Internacional Econômico são o direito de estabelecimento, o direito de investimento
estrangeiro, o direito das relações comerciais, o direito das relações financeiras, o
direito das relações econômicas e o direito de integração regional econômica.

As relações econômicas internacionais começaram a ganhar status jurídico com


a Conferência de Bretton Woods, realizada entre os dias 1º a 27 de julho de 1944,
em Bretton Woods, no Estado de New Hampshire, próximo ao Canadá.

27
Capítulo 1

A Conferência tinha como objetivo político eliminar o nacionalismo econômico,


sendo o princípio da globalização econômica e financeira, com o nascimento
dos três organismos, o tripé de Bretton Woods, o Banco Internacional para
a Reconstrução e o Desenvolvimento Banco Mundial, o Fundo Monetário
Internacional e a Organização Mundial do Comércio (anteriormente, Acordo Geral
de Tarifas e Comercio).

O Direito Internacional Econômico está basicamente fundado na regra da


reciprocidade internacional advinda dos tratados bilaterais ou multilaterais

Para finalizar, não se pode conceber, nos dias atuais, que as políticas econômicas
nacionais sejam adotadas sem levar em consideração as influências do mercado
internacional, as reações que advirão da imposição de restrições ao comércio, seja
do ponto de vista das relações reais de poder, seja do ponto de vista das instituições
multilaterais que organizam o comércio internacional. (AGUILLAR, 2006, p. 343).

Seção 5
Sujeitos /Atores do Direito Internacional X Sujeitos /
Atores do Direito Internacional Econômico
Na prática internacional utiliza-se, de forma indiscriminada, as expressões
Sujeitos do Direito Internacional e Atores do Direito Internacional. Para Guerra
(2009, p. 14), todo sujeito é ator internacional, mas nem todo ator é sujeito
de Direito Internacional. Os atores internacionais, embora importantes para o
Direito Internacional, não podem praticar todos os atos da vida internacional,
como elaborar tratados.

As teorias que se destacam para explicar a existência dos sujeitos de Direito


internacional são: a corrente estatal, a corrente individualista e a corrente
heteropersonalista. Para a corrente estatal, somente os Estados são sujeitos
do Direito Internacional, sendo capazes de possuírem direitos e obrigações na
sociedade internacional. A corrente individualista considera o único sujeito
do Direito Internacional a pessoa humana, os indivíduos. Em contrapartida, a
corrente heteropersonalista afirma que além dos Estados e dos indivíduos, outras
entidades podem ser sujeitos de direitos e deveres na ordem jurídica internacional.

Para alguns autores, entre eles Varella (2009, p. 3), prepondera no Direito
Internacional apenas reconhecer os Estados e as Organizações Internacionais
como sujeitos de Direito Internacional, por serem titulares de direitos e obrigações.

28
Direito Internacional Econômico

Na mesma linha, Rezek (2015, p. 187) entende que são sujeitos internacionais
apenas os Estados e Organizações Internacionais porque são competentes
para celebrar tratados.

Já nas palavras de Soares (2002, p. 141), o conceito de sujeito de direito é o


reconhecimento das pessoas, indivíduos ou coletividades de indivíduos, ou mesmo
outros determinados fenômenos, que são titulares de direitos e obrigações.

A expressão Atores Internacionais é mais ampla, considerando todos aqueles


que participam de alguma forma das relações internacionais, compreendendo
os Estados, organizações internacionais, organizações não governamentais,
empresas, indivíduos e outros.

Guerra (2009, p. 17) define Atores Internacionais como sendo os


destinatários das normas jurídicas internacionais, não somente os Estados
e Organizações Internacionais, incluindo no rol, empresas transnacionais,
pessoa humana, beligerantes, Santa Sé, Cruz Vermelha, além de outros
existentes no cenário internacional.

Vejamos alguns Atores Internacionais citados pelos doutrinadores de Direito


Internacional:

1. Estados - O principal sujeito das relações internacionais públicas é o Estado.


É o mais importante ator internacional, por serem destinatários das normas
internacionais e por serem criadores delas.

O Estado é a ordem política sob a qual vive o homem moderno. Ela se caracteriza
por ser a resultante de um povo vivendo sobre um território delimitado e
governado por leis que se fundam em um poder não sobrepujado por nenhum
outro externamente e supremo internamente. (BASTOS, 1995, p. 10).

Conforme estabelece a Convenção Interamericana sobre os Direitos e Deveres


dos Estados, firmada em Montevidéu, em 1933, são elementos constitutivos
de um Estado:

•• Uma população permanente ou massa humana - massa de


indivíduos, nacionais e estrangeiros, que habitam o território em
determinado momento histórico. “Assim, temos que o povo é o
componente humano do Estado e, pelo fato de o Estado surgir
em função das pessoas que o compõem, não o imagina sem a
existência de um povo.” (GUERRA, 2009, p.101).
•• Um território determinado ou a base física - com fronteiras definidas
e devidamente ocupado. O território é a área terrestre do Estado,
somada àqueles espaços hídricos de topografia puramente interna,
como os rios e lagos que se circunscrevem no interior dessa área
sólida. (REZEK, 2015, p.165).

29
Capítulo 1

O território, nas palavras de Pereira (2009, p. 98) é a base física onde


são acomodados o governo independente e a massa humana.
•• Um governo próprio - com poder interno (autonomia) e poder externo
(independência). A existência de um governo, com autoridades
encarregadas de estabelecer e fazer cumprir as normas existentes
no âmbito interno, bem como conduzir as relações internacionais, é
a evidência que existe uma organização política estável e apta a ser
reconhecida no plano internacional. (GUERRA, 2009, p.102).
•• Capacidade de entrar em relação com os demais Estados -
reconhecida pelos demais membros da comunidade internacional.
Esse quarto elemento completa o terceiro.

A existência desses elementos, e de todos eles em conjunto, é de suma


importância, uma vez que se não estiverem presentes, não se considerará um
Estado plenamente.

Como cada Estado é uma peça dentro da sociedade internacional, as suas


relações internacionais são relações de direitos e de deveres. Também, há,
nos tratados, direitos e deveres entre as partes contratantes, existem direitos e
deveres universais dos Estados, que podem ser resumidos nos itens a seguir.
São direitos dos Estados:

•• O direito à existência e à igualdade formal, que consiste no direito


que têm os Estados soberanos de serem iguais perante a lei
internacional. Isso significa que cada Estado terá direito igualitário
de voto e um não poderá reclamar jurisdição (poder) sobre o outro.
•• O direito ao respeito mútuo, que é o direito de ser tratado com
consideração e reconhecido como pessoa internacional.
•• O direito à liberdade, que compreende a soberania externa
(independência) e interna (autonomia). A soberania interna
compreende os direitos de organização política, de legislação e
de jurisdição sobre as pessoas, e de domínio sobre o território. A
soberania externa compreende os direitos de ajustar tratados, de
representação, de fazer a guerra e a paz.
•• O direito de defesa e conservação, que consiste na prática de
todos os atos necessários à defesa do Estado contra os inimigos
externos ou internos.

30
Direito Internacional Econômico

São deveres dos Estados:

•• O dever moral de assistência mútua, por exemplo, nos casos de


calamidades e catástrofes.
•• O dever jurídico de respeitar os direitos fundamentais dos outros
Estados (tratados, soberania etc.).
•• O dever de não intervenção, pois a intervenção é um ato abusivo,
visando à imposição de uma vontade estranha ao Estado. Esse
dever admite exceções, como a intervenção em nome do direito
de defesa e conservação, para preservar os direitos humanos e,
em caso de guerra civil, para proteção dos nacionais. É o caso da
intervenção coletiva, prevista na Carta da ONU, que é promovida
pelo seu Conselho de Segurança, em casos de ameaça à paz ou
outros atos de agressão.

2. Os Beligerantes e os Insurgentes – os beligerantes são entidades transitórias


que pretendem assumir, na sua totalidade ou quase totalidade, atribuições dos
Estados. Trata-se da situação emergente em certos Estados, em que se verifica
uma guerra civil, em que os rebeldes ocupam uma porção do território e exercem
uma autoridade identificável com o poder estatal durante um tempo.

O reconhecimento de beligerância ocorre quando uma parte da população


se subleva (revolta) para criar novo estado ou, então, para modificar a forma
de governo existente, ou quando os demais estados resolvem tratar ambas
as partes como beligerantes num conflito, aplicando as regras de Direito
internacional a respeito. (ACCIOLY; SILVA; CASELLA, 2009, p. 262).

Ao contrário, no caso dos insurgentes, ocorre quando uma manifestação


assume proporções de guerra civil sem reconhecer o caráter jurídico desta,
não caracterizando assim um estado de beligerância, mas também não se
enquadrando em puro ato de vandalismo ou banditismo.

3. As Organizações Internacionais - são conjuntos de Estados soberanos, que


se reúnem e criam, por meio de um tratado constitutivo, uma nova personalidade
jurídica, diferente das personalidades dos Estados que a compõe.

31
Capítulo 1

A essa personalidade jurídica os Estados estipulam objetivos, delegam poderes


e determinam uma estrutura para que o seu funcionamento possa ser tal que
atinja os objetivos previstos. A partir de sua criação, a OIG passa a funcionar e
desempenhar o papel para o qual foi criada. Ela o faz por intermédio de pessoas
que vêm a ser os representantes dessa organização. E, assim como os Estados,
esses representantes são agentes habilitados para celebrar obrigações, por meio
de tratados, em nome da OIG, e, assim o fazendo, está agindo na medida dos
poderes delegados pelos seus Estados-membros.

Cada OIG pode apresentar características diferentes. Mas algumas características


das OIGs são comuns, entre elas o fato de serem constituídas por Estados
soberanos, o fato de esses Estados estarem participando por livre vontade,
de terem o mesmo objetivo que os une na OIG, e a condição de ter uma
personalidade jurídica própria.

4. Comitê Internacional da Cruz Vermelha – criado em 1863, em Genebra, na


Suíça, é uma organização imparcial, neutra e independente, com uma missão
humanitária, objetivando proteger a vida e a dignidade das vítimas da guerra e da
violência interna, levando-lhes assistência.

Para os casos de conflitos em Estados que não admitam a simbologia católica


(cruz), a organização adota forma de uma lua em sua fase quarto crescente,
também na cor vermelha e fundo branco.

5. Indivíduos – os indivíduos são relevantes atores do Direito Internacional. Na


opinião de Barral (2006, p. 119) há um debate, na doutrina, sobre a caracterização
do indivíduo como sujeito de Direito Internacional. Fato é que um número
crescente de tratados reconhece proteção diretamente aos indivíduos ou os
obriga e responsabiliza no plano internacional.

Miranda (2006, p. 215) entende que não é por haver uma norma que estabeleça
direitos e deveres, posições de vantagem ou de vinculação para o indivíduo que
ele se torna sujeito de Direito Internacional.

Os indivíduos não podem figurar como parte na elaboração de um tratado, mas


os tratados podem estabelecer direitos e deveres a serem exercitados por eles.

32
Direito Internacional Econômico

6. Santa Sé – é a cúpula governativa da Igreja Católica, constituída pelo Papa e


a Cúria Romana. É um Estado com área exclusivamente urbana; sua superfície
conta com 1km², com uma população de mais de 80% de sacerdotes e auxiliares,
estimada em menos de mil pessoas, e um governo, independente do Estado
italiano. Em 1929 foi firmado o Tratado de Latrão, reconhecendo, no centro de
Roma, o Estado da Cidade do Vaticano. Com o tratado, a  Itália reconheceu a
soberania da Santa Sé sobre a área territorial do Vaticano.

Guerra (2009, p. 21 e 22) ensina que a Igreja Católica não é considerada um


sujeito de Direito Internacional. A personalidade é da Santa Sé. O Papa é ao
mesmo tempo chefe do Estado e chefe da Igreja Católica. Deve-se registrar que a
Santa Sé distingue-se do Vaticano. O Vaticano é o território.

7. Empresa transnacional ou multinacional – são as empresas capazes de


influenciar a economia de diversos países ou as sociedades comerciais, cujo
poder está disperso nas subsidiárias, ou, ainda, aquelas que atuam no estrangeiro
por meio de subsidiárias ou filiais. Como características pode-se citar:

•• grande empresa;
•• enorme potencial financeiro ou administração internacionalizada;
•• unidade econômica e diversidade jurídica.

Na maioria das vezes os termos transnacionais e multinacionais são utilizados como


sinônimas. Para Mazzuoli (2015, p. 426), os termos são diferenciados, vejamos:

Entende-se por empresas transnacionais as constituídas sob as leis de


determinado Estado e que têm representações ou filiais em dois ou mais
países, neles exercendo seu controle, acionário ou contratual, ainda que o seu
capital provenha de um único Estado ou de uma única pessoa. Multinacionais
são as empresas cujo capital provém de mais de um Estado, podendo ser
bilaterais (com capital provenientes de dois países ou multilaterais (com capital
provenientes de três ou mais países).

As empresas transnacionais e multinacionais participam da sociedade


internacional na qualidade de atores do Direito Internacional e não de sujeitos de
Direito Internacional nas relações internacionais, pois carecem de capacidade
jurídica para concluir tratados.

33
Capítulo 2

Organizações Internacionais
Intergovernamentais

Seção 1
Teoria geral das Organizações Internacionais
As Organizações Intergovernamentais, junto com as Organizações Não
Governamentais, as denominadas ONGs, resultam da vontade dos Estados
ou de pessoas de direito interno, que, à semelhança do que ocorre nos
ordenamentos jurídicos nacionais dos Estados, têm existência como pessoa
coletiva, não se confundindo com os indivíduos ou as entidades que as
constituíram ou as compõem. (SOARES, 2002, p. 150).

No Direito Internacional, quando as organizações são instituídas por Estados


e/ou Organizações Internacionais, as Organizações Intergovernamentais
são denominadas de Organizações Intergovernamentais, Organização
Internacional, ou, ainda, Organizações Internacionais Intergovernamentais.

A Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados de 1969, aprovada pelo


Congresso Nacional, por meio do Decreto Legislativo nº 496, de 17 de julho
de 2009 e promulgada pelo Decreto nº 7.030, de 14 de dezembro de 2009,
define, em seu artigo 2º, Organização Internacional como uma Organização
Intergovernamental. (FRANCO FILHO, 1999, p. 120).

As Organizações Internacionais fazem parte do Direito Internacional atual e


são o resultado do aumento das relações internacionais e da necessidade da
cooperação entre os Estados. (ACCIOLY; SILVA; CASELLA, 2009, p. 394).

35
Capítulo 2

1.1 Conceito das Organizações Internacionais


Na lição de Mazzuoli (2011, p. 600) pode-se conceituar Organização Internacional
como a associação voluntária de sujeitos do Direito Internacional, criada
mediante tratado internacional e com finalidades predeterminadas, regidas pelas
normas do Direito Internacional, dotada de personalidade jurídica distinta da dos
seus membros, que se realiza em um organismo próprio e estável, dotado de
autonomia e especificidade, possuindo ordenamento jurídico interno e órgãos
auxiliares, por meio dos quais realiza os propósitos comuns dos seus membros,
mediante os poderes próprios que lhes são atribuídos por esses.

Nesse sentido, podemos dizer que as Organizações Internacionais são um


agrupamento de sujeitos internacionais (Estados e Organizações Internacionais),
criados por tratados, com finalidades internacionalmente relevantes, com órgãos
próprios e dotados de personalidade jurídica.

A criação e o funcionamento de uma Organização Internacional depende do tratado


constitutivo, como dele também depende o respeito aos direitos e deveres dos
Estados-membros em suas relações recíprocas. (SEITENFUS, 1997, p. 27).

Para Accioly, Silva e Casella (2009, p. 394), as Organizações Internacionais


multiplicam-se à medida que aumenta a conscientização a respeito dos
problemas especificamente internacionais, ante os quais são imponentes os
Estados, mesmo os que se arrogam a condição de mais poderosos, evidenciando
as crescentes necessidades de operação coordenada por parte dos Estados.

Vejamos como exemplo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento


Econômico (OCDE), fundada em 14 de dezembro de 1961:

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico


– OCDE atua nos âmbitos internacional e intergovernamental
e reúne os países mais industrializados do mundo e alguns
países emergentes, como México, Chile, Coreia do Sul e
Turquia. No âmbito da organização, os representantes efetuam o
intercâmbio de informações e alinham políticas, com o objetivo
de potencializar seu crescimento econômico e colaborar com o
desenvolvimento de todos os demais países-membros.

As Organizações Internacionais ou Intergovernamentais são pessoas jurídicas de


Direito Internacional. Têm ordens jurídicas próprias, diferentes dos Estados que a
integram. Os Estados criam Organizações Internacionais para dar efetividade aos
acordos com os demais Estados. São criadas a partir da iniciativa dos próprios
Estados ou de outras Organizações Internacionais, com um fim determinado.

36
Direito Internacional Econômico

Tradicionalmente, são apresentados os Estados como únicos sujeitos de direito


internacional que são capazes de criar uma Organização Internacional. Entretanto,
têm-se admitido que as Organizações Internacionais também façam parte de uma
outra Organização Internacional. (GUERRA, 2009, p. 218).

A União Europeia é membro da Organização Mundial do Comércio (OMC).

As Organizações Internacionais são resultado de manifestação da vontade dos


sujeitos de direito internacional público (Estados e Organizações Internacionais), ou
seja, uma Organização Internacional não poderá ter como membros pessoas físicas
ou jurídicas de direito interno, tais como indivíduos, empresas ou organizações não
governamentais. Quando uma organização tem membros que não são Estados e
Organizações Internacionais, será uma Organização Não Governamental (ONG).

De maneira sucinta, Guerra (2009, p. 217) entende por Organizações


Internacionais os entes formados por um acordo concluído entre Estados e que
são dotados de personalidade própria para realizar diversas atividades definidas
pelos próprios Estados os quais as conceberam.

1.2 Personalidade Jurídica das Organizações Internacionais


Na lição de Varella (2009, p. 260), a personalidade jurídica da Organização
Internacional é um elemento fundamental do próprio conceito. Deve ser
reconhecida pelos Estados-membros, mas nem sempre o é pelos sujeitos
de Direito Internacional que não a integram. Existe uma tendência ao
reconhecimento geral da personalidade jurídica pelos não membros, mas a
regra é a necessidade de um tratado que valide esse reconhecimento.

Wendpap e Kolotelo (2007, p. 144) sintetizam os critérios utilizados pela Corte


Internacional de Justiça (CIJ) para a constatação da personalidade jurídica das
organizações internacionais, como sendo:

a. associação permanente de Estados, que persegue fins lícitos,


dotada de órgãos próprios;
b. distinção, em termos de poderes e fins jurídicos, entre a
organização e os seus Estados-membros;
c. existência de poderes jurídicos que possam ser exercidos no plano
internacional, e não unicamente no âmbito dos sistemas nacionais
de um ou mais Estados.

37
Capítulo 2

Explícita 1 ou implicitamente 2, direta ou indiretamente, o tratado constitutivo da


Organização Internacional confere-lhe personalidade jurídica, a qual vale quer em
relação aos Estados-membros, quer em relação a terceiros Estados e a outros
sujeitos de Direito Internacional. (MIRANDA, 2006, p. 241).

Como exemplo, o art. 34 do Protocolo de Ouro Preto do Mercosul reconheceu a personalidade


jurídica do Mercosul: “O Mercosul terá personalidade jurídica de Direito Internacional”.

Para Roque (1997, p. 191), da personalidade jurídica resulta a capacidade jurídica


da Organização Internacional para o exercício de suas funções. Não perdem os
Estados-membros sua personalidade jurídica, nem sua soberania.

As Organizações Internacionais, assim como os Estados, têm personalidade


jurídica internacional, ou seja, podem contrair obrigações e reclamar direitos,
e esfera própria de atuação no cenário internacional. São criadas por tratados
entre diversos Estados soberanos, por meio de uma ato constitutivo, regidas
pelo Direito Internacional, e têm personalidade jurídica distinta da dos seus
membros. (MAZZUOLI, 2011, p. 600).

1.3 Classificação das Organizações Internacionais


Não há na doutrina uma classificação particular das Organizações
Internacionais. Existem diferentes classificações. Vejamos as classificações
relevantes para o nosso estudo:

a. Classificação segundo a natureza


•• natureza política – seu traço fundamental prende-se ao caráter
político-diplomático de suas atividades. Seu objetivo principal é a
manutenção da paz e da segurança internacionais. Para o Estado,
o fato de ser integrante da entidade exige a observância de certas
normas de convívio internacional. Como exemplo a Organização das
Nações Unidas (ONU).
•• cooperação técnica – restringem-se unicamente a aproximar
posições e tomar iniciativas conjuntas em áreas específicas. A
Organização Mundial da Saúde (OMS) é um exemplo.

1. A maioria das Organizações Internacionais estabelece explicitamente a personalidade jurídica no seu tratado
constitutivo ou pelos tratados especiais ou separados. (JO, 2000, p. 302).

2. A personalidade deve ser reconhecida mesmo no caso da falta de disposição no tratado constitutivo.
Quando a Organização Internacional começa a exercer as suas funções, conforme os objetivos do tratado
constitutivo, por meio dos seus órgãos, ela já se tornou uma pessoa internacional, mantendo uma vida
independente. (JO, 2000, p. 302).

38
Direito Internacional Econômico

b. Classificação segundo suas funções


•• aproximar posições dos Estados-membros – procura-se ajustar
posições e tomar decisões compatíveis com os interesses de
todos. A doutrina de Seitenfus (1997, p. 37) atribui como exemplo a
Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
•• adotar normas comuns de comportamento de seus membros
– ocorre basicamente na área de direitos humanos, questões
trabalhistas ou de saúde pública internacional.
•• ação operacional – quando há urgência em solucionar crises
nacionais ou internacionais oriundas de catástrofes naturais,
conflitos internacionais, guerras civis e pesquisa conjunta em áreas
de interesse dos Estados-membros.
•• gestão - prestam serviços aos Estados-membros, particularmente
no campo financeiro e de desenvolvimento. Como exemplo o Fundo
Monetário Internacional (FMI).

c. Classificação segundo ao alcance


•• Universal ou aberta – toda aquela vocacionada para acolher o maior
número possível de Estados, sem restrição de índole geográfica,
cultural, econômica ou outra. O âmbito de atuação é mundial. A
Organização Mundial do Comércio é um exemplo de Organização
Internacional de alcance universal.
•• Regional ou fechada- aceitam como membro os Estados de uma
região determinada. Um exemplo de Organização Internacional
dessa classificação é a Organização dos Estados Americanos (OEA).

d. Classificação segundo ao alcance


•• supranacionais – há um poder superior ao dos seus respectivos
Estados-membros. A única Organização Internacional
supranacional é a União Europeia.

Os Estados-membros da União Europeia congregam efetivamente as suas


soberanias em algumas áreas, adquirindo, assim, muito mais força e influência em
conjunto do que poderiam obter isoladamente. Congregam as suas soberanias
tomando decisões comuns por meio de instituições comuns como o Parlamento
Europeu, que é eleito pelos cidadãos da União Europeia, e o Conselho Europeu, que
representam ambos os governos nacionais.

39
Capítulo 2

•• intergovernamentais – atuam por meio de representantes estatais,


que exprimem a posição e votam em nome e por contra de seus
respectivos governos.

e. Classificação segundo à competência


•• cooperação – visa a realizar os objetivos por meio da cooperação,
pressupondo a manutenção da independência e soberania entre
os Estados. Desenvolvem funções de cooperação entre os seus
membros, buscando atingir objetivos comuns.
•• integração – visa à formação de uma comunidade regional
integrada, por meio da limitação do poder soberano dos Estados-
membros. Pretende integrar os Estados-membros, fato que requer
transferência de parcelas de soberania.

f. Classificação segundo os fins


•• Fins gerais – não contemplam um âmbito definido de cooperação,
mas várias finalidades consideradas úteis para a comunidade
internacional. Como exemplo a Organização das Nações Unidas
(ONU) e a Organização dos Estados Americanos (OEA).
•• Fins específicos – são criadas com fins definidos e atividades
específicas. Vejamos:
· Organizações de Cooperação para Fins Militares ou de
Segurança – com a finalidade de defesa e ajuda mútua nas
ocorrências de agressões.
· Organizações de Cooperação para Fins Técnicos e Científicos
– compreendendo fins das telecomunicações, fins de
comunicações, fins marítimos, fins de metereologia, fins aéreos
e fins energéticos.
· Organizações de Cooperação com Fins Sociais, Culturais e
Humanitários – proteção dos indivíduos sob diversos aspectos,
abarcando os fins trabalhistas, fins educacionais e fins da saúde.
· Organizações de Cooperação para Fins Econômicos –
compreendendo fins econômicos propriamente dito, fins financeiros,
fins comerciais, fins agrícolas, fins industriais e fins turísticos.

40
Direito Internacional Econômico

1.4 Órgãos das Organizações Internacionais


Cada Organização Internacional poderá definir os seus órgãos que
contemplaram a sua estrutura de funcionamento.

Para Rezek (2015, p. 299), dois órgãos são indispensáveis na estrutura de


uma Organização Internacional: uma Assembleia Geral e uma Secretaria. Na
Assembleia Geral todos os Estados com voz e voto, em condições igualitárias,
configuram como centro de uma possível competência legislativa da entidade.
Já a Secretaria, seria o órgão de administração, de funcionamento permanente,
integrado por servidores neutros em relação à política dos Estados-membros.

Varella (2009, p. 266) estende o número de órgãos mais comuns na estrutura de


uma Organização Internacional para quatro. Vejamos:

•• Assembleia Geral ou Conselho Ministerial – órgão máximo de


deliberação, com poder de alterar os tratados em vigor. Pode reunir-
se permanentemente ou periodicamente, como a Organização
Mundial do Comércio (OMC), que se reúne a cada dois anos.
•• Secretário Geral – é um órgão unipessoal, ocupado por um indivíduo
escolhido pelos Estados-membros. A escolha de um agente da
própria organização busca demonstrar a neutralidade na escolha do
secretário em relação aos Estados-membros.

De acordo com a Carta das Nações Unidas, o secretário-geral tem o dever de “levar
à atenção do Conselho de Segurança qualquer assunto que, em sua opinião, possa
ameaçar a manutenção da paz e segurança internacional”.
António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, assumiu as funções em 1º de
janeiro de 2017 e permanecerá até 2021. (ONUBR).

•• Mecanismo de Solução de Controvérsias – as Organizações


Internacionais estão buscando instrumentos próprios de solução de
controvérsias.
•• Órgãos específicos – que têm por objetivo controlar e implementar
os objetivos da Organização Internacional.

A estrutura de uma Organização Internacional, para Mello (1971, p. 301), varia


de acordo com as suas finalidades. De modo geral, apresentam um Conselho,
que é o órgão executivo onde estão representados apenas alguns Estados; uma
Assembleia, onde estão representados todos os membros e um Secretariado,
que é a parte administrativa.

41
Capítulo 2

1.5 Domicílio das Organizações Internacionais


As Organizações Internacionais necessitam de que um Estado permita/ofereça a
instalação física de seus órgãos no seu território. Então, para que tenham o seu
lugar no globo, dependem dos Estados para que possam fixar a sua sede, a fim
de exercer suas competências.

As Organizações Internacionais firmam tratado sede com um Estado anfitrião


e, nesse território, estabelecem seu domicílio. No Estado de domicílio, a
Organização Internacional edifica sede e instala o seu pessoal, que frui de
privilégios e imunidades semelhantes aos deferidos aos diplomatas de Estados
estrangeiros. (WENDPAP e KOLOTELO, 2007, p. 146).

Em dezembro de 2002, foi assinado, no Palácio do Planalto, o Acordo de Sede entre o


Governo brasileiro e a OTCA (Tratado de Cooperação Amazônica), que estabeleceu a
sede da Secretaria Permanente da Organização em Brasília.

Jo (2000, p. 305) ensina que o acordo de sede é um tratado celebrado entre a


Organização Internacional e o Estado sede da Organização Internacional, para
acertar as questões do local da sede, os direitos, deveres, privilégios e imunidades.

A Organização Internacional poderá ter mais de uma sede, ou variar a instalação


de seus órgãos. Vejamos o exemplo da ONU:

A sede das Nações Unidas fica em Nova Iorque, nos Estados Unidos; já a sede das
Nações Unidas, na Europa, fica em Genebra, Suíça.

Embora não tenha obrigatoriedade, via de regra, as Organizações Internacionais


fixam sua sede nos Estados-membros.

1.6 Extinção e Sucessão das Organizações Internacionais


Não há regras no Direito Internacional que disciplinam a extinção e sucessão
das Organizações Internacionais. Para Varella (2009, p. 284), a extinção da
Organização Internacional ocorre com a desconstituição da personalidade
jurídica pelos seus membros. Já, a sucessão, ocorre quando outra Organização
Internacional é criada a partir daquela que foi extinta.

A Organização das Nações Unidas (ONU) foi criada em 26 de junho de 1945, após a
Segunda Guerra Mundial, com a assinatura da Carta de São Francisco; ela substituiu
a Sociedade das Nações ou Liga das Nações, que funcionou em Genebra, após a
Primeira Guerra Mundial.

42
Direito Internacional Econômico

Seção 2
Organizações Internacionais de
cooperação econômica
As Organizações Internacionais de cooperação econômica manifestam
preocupações com as disparidades econômicas entre os Estados-membros,
e para amenizar tais disparidades acordam princípios e normas que devem
ser observados nas relações econômicas internacionais. Entre os princípios,
podemos destacar o de autonomia na determinação das políticas econômicas
internas de cada Estado e o princípio da cooperação entre os Estados, para o
fim de reduzirem as diferenças entre eles.

Nos dias atuais é inconcebível que as políticas econômicas nacionais sejam


dotadas sem levar em consideração as influências do mercado internacional, as
reações que advirão da imposição de restrições do comércio internacional, por
meio das Organizações Internacionais.

Essa seção se reservará ao estudo das Organizações Internacionais relevantes na


sociedade internacional de cooperação econômica.

2.1 Organizações Internacionais de cooperação econômica no


âmbito da Organização das Nações Unidas
A Organização das Nações Unidas (ONU) dispõe, para a consecução de suas
atividades, vários organismos especializados de caráter técnico e administrativo,
que visam a ampliar a cooperação entre Estados. Vejamos a seguir as
Organizações Internacionais de cooperação econômica:

•• Grupo Banco Mundial (GBM) ou Banco Mundial (BM) – seu objetivo


é reduzir a pobreza no mundo, e sua principal função é promover o
desenvolvimento econômico e social dos países.

O número de pessoas vivendo na pobreza no Brasil deverá aumentar entre 2,5


milhões e 3,6 milhões até o fim de 2017, afirmou um estudo inédito do Banco
Mundial, divulgado em 13 de fevereiro de 2017. (G1, 2017).

O Grupo Banco Mundial é uma das fontes mais importantes de financiamento


e conhecimento para os Estados em desenvolvimento. Está integrado
por cinco instituições comprometidas a reduzir a pobreza e promover o
desenvolvimento sustentável.

43
Capítulo 2

As cinco instituições do Grupo Banco Mundial, sediado em Washington, são:


Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD); Associação
Internacional de Desenvolvimento (AID); Sociedade Financeira Internacional
(SFI); Agência Multilateral de Garantia de Investimentos (MIGA); e Centro
Internacional para Arbitragem de Disputas sobre Investimentos (ICSID).

As cinco instituições, embora formalmente independentes, estão


estreitamente relacionadas, cada uma delas desempenhando um papel
distinto na luta contra a pobreza e melhoria das condições de vida das
populações dos países em desenvolvimento.

Enquanto que a designação de Grupo Banco Mundial se refere às cinco


instituições, o termo Banco Mundial refere-se apenas ao Banco Internacional
de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) e à Associação Internacional de
Desenvolvimento (AID). Vejamos o papel de cada uma delas:

•• Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) -


criado na conferência das Nações Unidas em Bretton Woods, New
Hampshire, Estados Unidos, em Julho de 1944, com o objetivo
de ajudar a reconstrução da Europa, concentra a sua atuação
na concessão de financiamento aos Estados em condições mais
favoráveis em relação aos mercados financeiros internacionais, com
taxas concessionais e prazos alargados.
•• Associação Internacional de Desenvolvimento (AID) - fundada em
1960, concede aos seus Estados-membros doações e empréstimos
com taxas de juros bonificadas, com um período de graça de
10 anos e uma maturidade que varia entre os 35 e os 40 anos, a
países que não têm acesso aos mercados financeiros. É um fundo
reconstituído de 3 em 3 anos, financiado por contribuições dos
governos dos países mais ricos.

O Banco Mundial funciona como uma cooperativa integrada por 189 Estados-


membros. Esses Estados acionistas são representados por um Conselho
de Governadores, que é o órgão máximo responsável de formular políticas
na instituição. Em geral, os governadores são ministros das finanças e de
desenvolvimento dos Estados-membros e se reúnem uma vez por ano.

Como os governadores se reúnem somente uma vez por ano, esses delegam
deveres específicos aos 25 Diretores Executivos que trabalham na sede central do
Banco. Os cinco principais acionistas são França, Alemanha, Japão, Reino Unido
e Estados Unidos da América, que nomeiam a cada ano um Diretor Executivo
e os demais Estados são representados pelos outros 20 Diretores Executivos,
eleitos num sistema de rodízio.

44
Direito Internacional Econômico

Os Diretores Executivos do Banco Mundial se reúnem normalmente ao menos duas


vezes por semana para revisar as atividades da instituição, incluindo a aprovação
de empréstimos e garantias, novas políticas, as estratégias de assistência aos
Estados e as decisões em matéria de créditos e questões financeiras.

•• Fundo Monetário Internacional (FMI) – Como o Banco Internacional


de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), também foi criado na
conferência das Nações Unidas em Bretton Woods, New Hampshire,
Estados Unidos, em Julho de 1944. Sua sede fica em Washington,
Estados Unidos. O objetivo do FMI é garantir a estabilidade do
sistema monetário internacional - o sistema de taxas de câmbio
e pagamentos internacionais que permitem aos países (e seus
cidadãos) negociar uns com os outros.

Para Seitenfus (1997, p. 148) enquanto o BIRD apresenta-se como uma instituição
de auxílio ao desenvolvimento, o FMI restringe-se ao auxílio à administração
monetária externa do Estado-membro.

O Conselho de Governadores, o mais alto órgão de decisão do FMI, é composto


por um governador e um governador suplente por cada Estado-membro. The
governor is appointed by the member country and is usually the minister of
finance or the governor of the central bank. O governador é nomeado pelo
Estado-membro e é geralmente o ministro das finanças ou o governador do
banco central. All powers of the IMF are vested in the Board of Governors. Todos
os poderes do FMI são investidos no Conselho de Governadores. The Board
of Governors may delegate to the Executive Board all except certain reserved
powers. O Conselho de Governadores reúne-se normalmente uma vez por ano.

Uma das principais responsabilidades do FMI é supervisionar o sistema monetário


internacional e monitorar as políticas econômicas e financeiras de seus 189
Estados membros, uma atividade conhecida como vigilância.

O FMI também monitora as tendências econômicas regionais e globais e analisa


o impacto que as políticas dos países-membros podem ter nos países vizinhos e
na economia global. It issues periodic reports on these trends and analysis. Emite
relatórios periódicos sobre essas tendências e análises.

A maioria dos recursos para os empréstimos do FMI é fornecida pelos Estados-


membros, principalmente por meio do pagamento de cotas. A cada membro
do FMI é atribuída uma quota, baseada, em grande medida, no seu tamanho
relativo na economia mundial. Isso determina sua contribuição máxima para os
recursos financeiros do FMI.

45
Capítulo 2

Ao entrar para o FMI, um país normalmente paga até um quarto de sua cota sob
a forma de moedas estrangeiras amplamente aceitas (como o dólar americano, o
euro, o renminbi chinês, o iene ou a libra esterlina ou Direitos Especiais de Saque).
Os restantes três quartos são pagos na própria moeda do país.

•• Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) - criada em


1967, com sede em Genebra, é uma das agências especializadas da
Organização das Nações Unidas (ONU), composta de 187 Estados-
membros, com o objetivo de se dedicar à constante atualização
e proposição de padrões internacionais de proteção às criações
intelectuais em âmbito mundial.

As principais funções da OMPI são:

•• Estimular a proteção da Propriedade Intelectual em todo o mundo,


mediante a cooperação entre os Estados;
•• Estabelecer e estimular medidas apropriadas para promover a
atividade intelectual criadora e facilitar a transmissão de tecnologia
relativa à propriedade industrial para os países em desenvolvimento,
com o objetivo de acelerar os desenvolvimentos econômicos,
sociais e culturais;
•• Incentivar a negociação de novos tratados internacionais e a
modernização das legislações nacionais.

A OMPI também é responsável pelo registro de marcas, desenhos ou modelos


industriais - as invenções.

Em cooperação com o governo do Brasil se estabeleceu o Escritório da OMPI, em


fevereiro de 2009, no Rio de Janeiro, com o objetivo de promover novos enfoques e
formas de interação e vinculação entre o setor produtivo e os usuários do Sistema de
Propriedade Intelectual (PI) dessa região, aproximando-os aos modelos globais dos
serviços prestados pela organização.
Com a abertura do escritório da OMPI no Brasil, estabeleceu-se uma cooperação direta
e estreita com o INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) brasileiro, contribuindo,
especialmente, com os distintos programas de cooperação internacional do INPI na
América Latina e outras regiões, fundamentados no Acordo bilateral de cooperação
técnica INPI-OMPI para capacitação e disseminação da cultura de PI. (ONUBR).

46
Direito Internacional Econômico

A OMPI também tem escritórios em Cingapura, Tóquio e Nova Iorque.

•• Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura


(FAO) – Criada em 16 de outubro de 1945, na cidade de Quebec,
Canadá. É composta de 194 Estados-membros, dois membros
associados, as Ilhas Faroé e Tokelau, e uma Organização
Internacional, a União Europeia.

As atividades da FAO objetivam a alcançar a segurança alimentícia de todos


e assegurar que os indivíduos tenham acesso a alimentos de boa qualidade,
permitindo-lhes levar uma vida ativa e saudável.

Os objetivos principais da FAO são:

•• Erradicar a fome, a insegurança alimentar e a desnutrição;


•• Fomentar as pesquisas científicas na área agrícola;
•• Melhorar a conservação dos
​​ recursos naturais, incluindo a terra,
água, ar e clima, para o benefício das gerações presentes e futuras;
•• Divulgar conhecimentos;
•• Propiciar a adoção de uma política internacional em benefícios dos
principais produtos agrícolas;
•• Reduzir a pobreza rural;
•• Fazer que a agricultura, a atividade florestal e a pesca sejam mais
produtivas e sustentáveis.

Desde 1973, o escritório de representação da FAO no Brasil está localizado na


capital federal, Brasília, dentro do campus do Instituto Nacional de Meteorologia
(INMET), órgão ligado ao Ministério da Agricultura. 

Desde março de 2013 foi instalada no Sul do Brasil uma Unidade de Gestão de
Projetos da FAO. A iniciativa foi resultado de um acordo assinado entre a Itaipu
Binacional e Governo do Estado do Paraná, por meio da Secretaria de Agricultura e
de Abastecimento com a FAO. O objetivo é apoiar ações voltadas ao desenvolvimento
sustentável, ampliando a Cooperação Sul-Sul e aproximando a FAO de órgãos
estaduais, municipais, estatais e da sociedade civil.(FAO)

47
Capítulo 2

•• Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento


Industrial (ONUDI) - Com sede em Viena, na Áustria, foi criada
em 1966 e tornou-se agência especializada da Organização das
Nações Unidas, em 1985.

A ONUDI visa a promover o desenvolvimento industrial para a redução da


pobreza, a globalização inclusiva e a sustentabilidade ambiental.

Os serviços prestados baseiam-se em duas funções principais: enquanto


fórum global, gera-se e dissemina-se conhecimento relacionado à indústria;
enquanto agência de cooperação técnica, proporciona-se apoio técnico e a
implementação de projetos. (ONUBR).

Além de ter sua sede em Viena, opera no centro de cooperação regional da Turquia,
e mantém escritórios em Bruxelas, na Bélgica, Genebra, na Suíça e Nova York, nos
Estados Unidos, além de 29 escritórios regionais e nacionais em todo o mundo.

No Brasil, a ONUDI reabriu sua representação em 2010 e tem como principal


objetivo usar sua experiência no campo de apoio aos países emergentes para
promover a cooperação sul-sul. Atento às mudanças na configuração industrial
global, a representação no país se esforça para realizar projetos de cooperação
técnica, ser facilitador de parcerias e diálogos triangulares, além de intermediar ou
patrocinar o intercâmbio de conhecimentos e experiências. (SEBRAE).

•• Organização Mundial do Comércio (OMC) – criada pelo acordo


de Marrakech, em 1995, conta com 160 membros, sendo o Brasil
um dos membros fundadores. A sede da OMC está localizada em
Genebra (Suíça) e as três línguas oficiais da organização são o
inglês, o francês e o espanhol.

Seu objetivo primordial é promover a expansão do comércio global. Para Varella (2009,
p. 292), os principais instrumentos para alcançar o objetivo são a institucionalização
de um ambiente permanente de negociações multilaterais comerciais e a
consolidação de um sistema de solução de controvérsias entre os Estados.

Além disso, a OMC preconiza o combate ao abuso do poder econômico por parte
de uma empresa, ou seja, a prática do dumping, isto é, vender mercadorias no
Estado importador por preço inferior ao seu valor normal no Estado de produção,
com a finalidade de conquistar um determinado mercado estrangeiro, promovendo
uma concorrência desleal com os produtores nacionais. (ARAÚJO, 2002, p. 70).

48
Direito Internacional Econômico

2.2 Organizações Internacionais de cooperação econômica


nas Américas
•• Associação Latino-americana de Integração e Desenvolvimento (ALADI)
– criada em 12 de agosto de 1980, pelo Tratado de Montevidéu, é
o maior grupo latino-americano de integração. É formada por treze
Estados-membros: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba,
Equador, México, Panamá, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.

A ALADI substituiu a ALALC, a antiga Associação Latino-Americana de Livre


Comércio, que foi criada em 1960.

A ALADI está aberta à adesão de qualquer Estado latino-americano. Em 26 de


agosto de 1999 foi aperfeiçoada a adesão da República de Cuba e, em 10 de
maio de 2012, foi a vez da República do Panamá. Também foi aceita a adesão
da República da Nicarágua, na Décima Sexta Reunião do Conselho de Ministros,
realizada em 11 de agosto de 2011.

O objetivo da ALADI é promover a expansão da integração da região, objetivando


garantir seu desenvolvimento econômico e social, tendo como meta final a
criação de um mercado comum.

O artigo 3º do Tratado de Montevidéu estabeleceu os seguintes princípios gerais:

•• pluralismo em matéria política e econômica;


•• convergência progressiva de ações parciais para a criação de um
mercado comum latino-americano;
•• flexibilidade para permitir a celebração de acordos;
•• tratamentos diferenciais com base no nível de desenvolvimento
dos Estados-membros;
•• multiplicidade nas formas de integração dos instrumentos comerciais.

A ALADI  está formada por três órgãos políticos: o Conselho de Ministros das


Relações Exteriores, a Conferência de Avaliação e Convergência e o Comitê de
Representantes. E um órgão técnico: a Secretaria-Geral. 

A ALADI promove a criação de uma área de preferências econômicas na


região, objetivando um mercado comum latino-americano, por meio de três
mecanismos, vejamos: 

49
Capítulo 2

· uma preferência tarifária regional, aplicada a produtos originários


dos países-membros frente às tarifas em vigor para terceiros países; 
· acordos de alcance regional (comuns a todos os Estados-membros); 
· acordos de alcance parcial, com a participação de dois ou mais
países da área. 

•• Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) – criado em 8 de


abril de 1959, constituído por 48 países, é a instituição financeira
internacional que apoia iniciativas em países latino-americanos
para reduzir a pobreza e promover a equidade, de modo a fomentar
a integração regional e o desenvolvimento sustentável. Também
oferece doações, presta assistência técnica, bem como realiza
projetos e pesquisas junto a governos, empresas privadas e
Organizações Não Governamentais.

Com sede em Washington, nos Estados Unidos, o BID possui representações em


vários Estados-membros, além de um escritório regional em Tóquio e outro em Paris.

É constituído pelo Banco, propriamente dito, pelo Fundo para Operações


Especiais, pelo Fundo Multilateral de Investimentos e pela Corporação
Interamericana de Investimentos.

O principal órgão de decisão do BID é o Conselho de Governadores, que se


reúne anualmente e é composto, geralmente, pelos Ministros das Finanças dos
Estados-membros. Embora o Conselho de Governadores seja o órgão decisório
mais elevado, as suas funções são em grande parte delegadas no Conselho de
Administração, que é responsável pela definição das políticas da instituição e
pelas decisões relacionadas com a sua gestão quotidiana.

O Presidente do BID - sempre oriundo de um país beneficiário - exerce a dupla


função de presidir o Conselho de Administração e dirigir o pessoal, constituindo
a estrutura operacional da instituição. É coadjuvado nesta missão por um Vice-
Presidente Executivo e por quatro Vice-Presidentes, cobrindo as áreas de
Finanças e Administração, Setores e Conhecimento, Países, e Setor Privado.

Entre as diversas ações do BID, o Fórum Interamericano da Microempresa


(FOROMIC) é a iniciativa destinada a facilitar o intercâmbio de experiências e práticas
e oferecer serviços de desenvolvimento aos pequenos negócios latino-americanos.

50
Direito Internacional Econômico

•• Sistema Econômico Latino-Americana (SELA) - criado em 17 de


outubro 1975 pela Convenção do Panamá, com sede em Caracas,
Venezuela, é composta por 28 países da América Latina e do Caribe:
Argentina, Bahamas, Barbados, Belize, Bolívia, Brasil, Colômbia,
Costa Rica, Cuba, Chile, Equador, El Salvador, Granada Guatemala,
Guiana, Haiti, Honduras , Jamaica, México, Nicarágua, Panamá,
Paraguai, Peru, República Dominicana, Suriname, Trinidad e Tobago,
Uruguai e Venezuela.

Objetiva promover um sistema de consultas e coordenação de posicionamentos


e estratégias comuns para a América Latina e o Caribe, em termos econômicos,
diante de outros países, grupos nacionais, foros e organismos internacionais.
Busca, também, impulsionar a promoção da cooperação internacional e a
integração regional entre os países da América Latina e o Caribe.

Seu órgão pleno é o Conselho Latino-Americano, representado por cada


Estado-membro, e suas decisões são implementadas pela Secretaria
Permanente, que é o órgão técnico-administrativo dirigido por um secretário
permanente eleito por um mandato de quatro anos. Há também os Comitês
de Ação, que são criados para cumprir determinado interesse de pelo menos
dois membros, a fim de promover programas e projetos em conjunto, numa
determinada área destinada à cooperação.

•• Organização dos Estados Centro-americanos (ODECA) – criada em


14 de outubro de 1951, pela Carta de San Salvador, por Costa Rica,
Guatemala, Honduras, Nicarágua e El Salvador, com o objetivo de
promover a cooperação e a integração entre os membros.

A ODECA surge com a pretenção de reforçar os laços que unem os Estados;


prevenir e evitar qualquer mal-entendido; assegurar a solução pacífica de qualquer
controvérsia que possa surgir entre eles; ajudar um ao outro; buscar soluções
conjuntas para os problemas comuns e promover o seu desenvolvimento
econômico, social e cultural, por meio da ação cooperativa e solidária.

O artigo 4º da Carta de San Salvador dispõe sobre a estrutura institucional, que


é composta dos seguintes órgãos: Reunião dos Chefes de Estado; Reunião
dos Ministros das Relações Exteriores; Reunião de Ministros de outros ramos;
Escritório Central e o Conselho Económico.

51
Capítulo 2

•• Mercado Comum Centro Americano (MCCA) - Surgiu em 13 de


dezembro de 1960, com a assinatura do Tratado Geral de Integração
Econômica Centro-Americana, em Manágua, pelos Estados de
El Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua, na tentativa de
promover a paz na região, afetada por graves conflitos bélicos.

Em 4 de junho de 1961 foi assinado o Tratado de Integração Centro-Americana,


com o objetivo de criar um mercado comum nessa região. Em 23 de julho de
1962, Costa Rica aderiu ao Tratado.

A sede do MCCA fica na cidade de San Salvador, capital de El Salvador.

Além de promover a paz na região, objetiva também:

· Criar e implementar estratégias que visem à integração


econômica entre os países do bloco;
· Aumentar o comércio entre os Estados-membros;
· Criar acordos comerciais entre o MCCA e outros países ou
blocos econômicos.
· Integração monetária.

•• Comunidade do Caribe (CARICOM) - criado em 4 de julho de 1973,


pelo Tratado de Chaguaramas, Trinidad e Tobago, assinado por
Barbados, Jamaica, Guiana e Trinidad e Tobago, para representar os
países caribenhos. Atualmente, conta com 15 membros: Antigua e
Barbuda, Bahamas, Barbados, Belize, Dominica, Granada, Guiana,
Haiti, Jamaica, Montserrat, Santa Lúcia, São Cristóvão e Nevis, São
Vicente e Granadinas, Suriname e Trinidad e Tobago. Sua sede fica
na cidade de Georgetown (capital da Jamaica).

Vejamos os principais objetivos do bloco econômico: 

· Promoção da integração econômica entre os Estados-membros.


· Ações de coordenação de políticas externas.
· Medidas para que os benefícios do bloco possam ser
usufruídos de forma igualitária e justa entre todos os membros.
· Ações de planejamento que visam ao desenvolvimento
econômico dos Estados-membros.
· Promoção da cooperação nos campos cultural, educacional,
tecnológico, científico e industrial.

52
Direito Internacional Econômico

Os órgãos máximos do CARICOM são o encontro dos Chefes de Governo, que


representam a autoridade máxima, e o Conselho Ministerial, quando se busca
alcançar o consenso em questões regionais e de política.

Pacto Andino - atualmente conhecido como Comunidade Andina de Nações,


criado em 20 de maio de 1969, pelo acordo de Cartagena, Colômbia, assinado
pelos Estados da Bolívia, Chile, Peru, Equador e Colômbia. Sua sede fica na
cidade de Lima, capital do Peru.

O Brasil é um dos cinco países associados do bloco econômico.

Os principais objetivos do Pacto Andino estão inseridos no artigo 1 do acordo de


Cartagena, que dispõe:

Art. 1. O presente acordo tem como objetivo promover o desenvolvimento equilibrado


e harmonioso dos países-membros, acelerar o crescimento por meio da integração
econômica, facilitar a sua participação no processo de integração previsto no Tratado
de Montevidéu e criar condições favoráveis ​​para a conversão de ALALC, em um
mercado comum, todos, a fim de garantir uma melhoria constante na qualidade de
vida dos habitantes da sub-região.

•• Área Norte Americana de Livre Comércio (NAFTA) – criado em


1 janeiro de 1994, é um bloco econômico composto por Estados
Unidos, México e Canadá, com o objetivo de fortalecer as relações
comerciais entre esses Estados.

O NAFTA possui caráter essencialmente econômico, podendo ser caracterizado


como uma Zona de Livre Comércio. 3

Para Seitenfus (1997, p. 210), os principais pontos definidos pelo acordo são:

· política para os investimentos;


· serviços, inclusive financeiros e de transporte;
· política aduaneira;
· trocas de produtos agrícolas, de energia e de matérias-primas
da petroquímica;
· licitações públicas;
· recurso de processos administrativos;

3. Associação entre dois ou mais países, no sentido de reduzir e eliminar, progressivamente, os gravames
aduaneiros e restrições de ordem administrativa, relativamente ao comércio entre eles. Mantêm-se, todavia,
independentes no que se refere a suas políticas comerciais com países não associados. (SOSA, 2000, p. 331).

53
Capítulo 2

· regras anti-dumping e anti-subsídios;


· procedimentos para a solução de controvérsias, baseados na
arbitragem internacional.

Conforme o artigo 102, o acordo tem como objetivos: 

a. eliminação de barreiras não tarifárias e de tarifas de importação


entre os três países, buscando facilitar o movimento entre fronteiras
de bens e serviços; 
b. promover condições de concorrência leal na zona de livre comércio; 
c. aumentar substantivamente as oportunidades de investimentos nos
territórios dos países signatários; 
d. providenciar a adequada e efetiva proteção e aplicação dos direitos
de propriedade intelectual em cada território membro; 
e. criação de processos efetivos para a implementação e aplicação do
acordo, sua administração e resolução de conflitos;  
f. estabelecer um padrão para futuras cooperações trilaterais,
regionais e multilaterais, visando à expansão e aprimoramento dos
benefícios do acordo.

•• Mercado Comum do Sul (Mercosul) – criado em 26 de março de


1991, com a assinatura do Tratado de Assunção pelos governos de
Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, para criar o Mercado Comum
do Sul (MERCOSUL). O objetivo primordial do Tratado de Assunção
é a integração dos Estados Partes, por meio da livre circulação
de bens, serviços e fatores produtivos, do estabelecimento de
uma Tarifa Externa Comum (TEC) 4, da adoção de uma política
comercial comum, da coordenação de políticas macroeconômicas e
setoriais, e da harmonização de legislações nas áreas pertinentes.

O Protocolo de Ouro Preto, assinado em dezembro de 1994, reconheceu a


personalidade jurídica de Direito Internacional do bloco, atribuindo-lhe, assim,
competência para negociar, em nome próprio, acordos com terceiros países,
grupos de países e organismos internacionais.

4. Tarifa aplicada, conjuntamente, por países que formam uma União Aduaneira ou um Mercado Comum,
relativamente às importações oriundas de terceiros países. (SOSA, 2000, p. 307).

54
Direito Internacional Econômico

O Tratado de Assunção permite a adesão dos demais Estados- membros da


ALADI ao MERCOSUL. Em 2012, o bloco passou pela primeira ampliação desde
sua criação, com o ingresso definitivo da Venezuela como Estado Parte. Em
2016, a Venezuela foi suspensa do bloco.

De acordo com o artigo 1º do Tratado de Assunção, o mercado comum implica:

· A livre circular de bens e serviços e fatores produtivos entre os


países, da eliminação dos direitos alfandegários até restrições
não tarifárias à circulação de mercado de qualquer outra medida
de efeito equivalente;
· O estabelecimento de uma tarifa externa comum e a adoção de
uma política comercial comum em relação a terceiros Estados
ou agrupamentos de Estados e a coordenação de posições em
foros econômico-comerciais regionais e internacionais;
· A coordenação de políticas macroeconômicas e setoriais
entre os Estados Partes - de comércio exterior, agrícola,
industrial, fiscal, monetária, cambial e de capitais, de serviços,
alfandegária, de transportes e comunicações e outras que
se acordem -, a fim de assegurar condições adequadas de
concorrência entre os Estados Partes; e
· O compromisso dos Estados Partes de harmonizar suas
legislações, nas áreas pertinentes, para lograr o fortalecimento
do processo de integração. (FRANCO FILHO, 1999, p. 529).

Conforme estabelecido no Artigo 1 do Protocolo de Ouro Preto, os órgãos com


capacidade decisória de natureza intergovernamental do MERCOSUL são:
o Conselho do Mercado Comum (CMC), o Grupo Mercado Comum (GMC); a
Comissão de Comércio do Mercosul (CCM), a Comissão Parlamentar Conjunta
(CPC); o Foro Consultivo Econômico-Social (FCES); a Secretaria Administrativa
do Mercosul (SAM). (FRANCO FILHO, 1999, p. 546).

55
Capítulo 3

Meios de solução de conflitos


internacionais

A sociedade internacional, com seus múltiplos sujeitos e atores, todos com


interesses diversos e contraditórios, tem produzido uma gama de controvérsias 1
internacionais, nos mais variados aspectos.

Para Soares (2002, p. 163), por controvérsias deve-se entender qualquer oposição
de interesses entre as pessoas envolvidas, em qualquer campo das relações
internacionais, qualquer que seja sua natureza, econômica, política, cultural,
científica, ambiental ou outra configuração particular.

Os sujeitos e os atores do Direito Internacional, nas suas relações, podem vir a


divergir num determinado fato ou direito, gerando, assim, os conflitos internacionais.

Com a evolução da sociedade internacional e o surgimento de novos sujeitos


do Direito Internacional, deve-se atentar ao fato de que esses conflitos podem
derivar não só de uma oposição entre Estados, como também “entre Estados e
Organizações Internacionais, entre Estados e indivíduos, entre Estados e pessoas
jurídicas, entre as Organizações Internacionais, entre Organizações Internacionais e
indivíduo, entre Organizações Internacionais e pessoa jurídica, entre os indivíduos,
entre indivíduo e pessoa jurídica, e entre as pessoas jurídicas” (JO, 2000, p. 497-498).

Mas se os conflitos podem ser entre indivíduos como diferenciar um conflito interno
de um internacional?

Independente de quais são os sujeitos envolvidos, para que se configure um conflito


internacional é necessário que o elemento transfronteiriço esteja sempre presente.

1. Também denominada litígio, disputa, questão, lide, contenda.

57
Capítulo 3

Há alguns anos, os conflitos internacionais eram, muitas vezes, resolvidos mediante


conflito armado. Porém, após as duas guerras mundiais, os Estados passaram a
repudiar a guerra, optando pelos métodos pacíficos. Nesse sentido, podemos citar,
entre outros documentos internacionais que consagram a solução pacífica dos
conflitos, a Carta da Organização das Nações Unidas (ONU), artigo 2º, 3 e a Carta
da Organização dos Estados Americanos (OEA), artigo 2º, b. Vejamos:

Artigo 2. A Organização e seus Membros, para a realização dos


propósitos mencionados no Artigo 1, agirão de acordo com os
seguintes Princípios:
(...)
3. Todos os Membros deverão resolver suas controvérsias
internacionais por meios pacíficos, de modo que não sejam
ameaçadas a paz, a segurança e a justiça internacionais.
(BRASIL, 1945)
Artigo 2. Para realizar os princípios em que se baseia e para
cumprir com suas obrigações regionais, de acordo com a Carta
das Nações Unidas, a Organização dos Estados Americanos
estabelece como propósitos essenciais os seguintes:
(...)
b) Promover e consolidar a democracia representativa, respeitado
o princípio da não-intervenção; (BRASIL, 1952)

Dessa forma, pode-se dizer que “a solução dos litígios se caracteriza por ser
pacífica e voluntária” (MELLO, 2000, p. 1.344).

Miranda (2006, p. 265) aponta quatro princípios de solução dos conflitos internacionais:

•• O dever de procurar a solução pacífica de qualquer conflito;


•• A liberdade de escolha dos meios considerados adequados à
solução do conflito em concreto;
•• O dever de agir de boa-fé, não inviabilizando a concretização do
meio escolhido;
•• O dever de acatar a solução do conflito, uma vez encontrada ou
definida e também de executar de boa-fé.

Assim, as soluções pacíficas de controvérsias devem ser entendidas como


instrumentos elaborados pelos Estados e regulados pelo Direito Internacional,
para colocar fim a uma situação de conflito de interesses, e até mesmo com a
finalidade de prevenir a eclosão de uma situação que possa degenerar numa
oposição definida e formalizada em polos opostos. (SOARES, 2002, p. 163).

58
Direito Internacional Econômico

Os sujeitos do Direito Internacional procuram resolver seus conflitos de forma


pacífica. Os meios para a resolução de conflitos, de acordo com a doutrina
majoritária, podem ser classificados em diplomáticos, jurisdicionais, políticos e
os meios coercitivos.

Para Accioly, Silva e Cassela (2009, p. 760) os métodos de solução pacífica


de controvérsias internacionais são classificados em três categorias: duas de
caráter amistoso (meios diplomáticos e meios jurídicos) e uma de caráter não
amistoso (meios coercitivos).

É importante esclarecer também que não há qualquer grau de hierarquia entre


os meios de solução pacífica dos conflitos, podendo as partes, em regra, decidir
pelo que melhor atender seus interesses.

Tais classificações prestam certo serviço, ao distinguir entre meios menos formais
e mais formais, e indicam a disposição de os Estados socorrerem-se a estes ou
aqueles, em função de decisões políticas quanto aos graus de obrigatoriedade a
que se pretendem submeter.

Seção 1
Meios diplomáticos
Entende-se como diplomático o meio em que as partes de uma controvérsia
a resolvem, ou tentam resolvê-la, mediante negociação, serviços amistosos,
consultas, bons ofícios e mediação.

É necessário ressaltar que “enquanto a diplomacia é formalmente aplicada


somente para as disputas entre Estados, ela pode ser útil também para as
disputas entre as instituições e indivíduos” (JO, 2000, p. 504).

Para Guerra (2009, p. 336), os meios diplomáticos para solução de controvérsias


buscam o alcance de um acordo entre as partes envolvidas em uma contenda
internacional, sem se preocupar com a identificação dos possíveis responsáveis
pela eclosão da referida divergência. A seguir alguns meios de solução de
conflitos pela via diplomática.

1.1 Negociação
A negociação nada mais é que o conflito resolvido por intermédio de um
acordo realizado diretamente entre os conflitantes, pela via diplomática, sem a
interferência de terceiros alheios ao litígio.

59
Capítulo 3

É característica da negociação a rapidez, a ausência de formalidades e a


imediatividade na solução da controvérsia apresentada entre os sujeitos e
atores de Direito Internacional.

As negociações podem ser bilaterais, quando envolvem somente dois sujeitos, ou


multilaterais, com três ou mais sujeitos, essa última também é conhecida como
conferência ou congresso internacional.

Huzek (1998, pp. 163-164) lembra que na negociação, os conflitantes


apresentam “suas razões, reúnem-se e concluem, no mais de vezes, um
acordo, pondo fim ao problema”.

De fato, na negociação normalmente não há intervenção de terceiros para a


solução da contenda e o desdobramento que se observa, em regra, ao final, é a
celebração de um tratado internacional. (GUERRA, 2009, p. 337).

O entendimento direto responde, no dia a dia, pela solução de elevado número


de conflitos internacionais. Talvez não se perceba essa realidade em razão
de uma generalizada tendência a não qualificar como conflitos verdadeiros
aqueles tantos que não produzem maior tensão nem ganham notoriedade: são
esses, justamente, os que melhor se habilitam a resolver-se pela mais simples
das vias possíveis, qual seja. a negociação entre os contendores, sem qualquer
apoio, instrumental ou substancial, de outras pessoas jurídicas de direito das
gentes. (REZEK, 2015, p. 392).

Como exemplo, a negociação entre Brasil e Bolívia, para delimitação do território,


envolvendo o Acre, que terminou com a celebração do Tratado de Petrópolis, de
1903, ficando acertado que a Bolívia abriria mão do Estado do Acre em troca de
territórios brasileiros do Estado do Mato Grosso e receberia também a quantia de
2 milhões de libras esterlinas, devido ao látex extraído da região, enquanto essa
pertencia ao Estado boliviano. (DELPHINO, 2010).

Como resultado das negociações, poderá ocorrer a renúncia de um dos


governos ao direito que pretendia e, nesse caso, temos a desistência. Na
aquiescência, o resultado das negociações poderá ocorrer no reconhecimento
por um dos sujeitos das pretensões do outro. E ainda, pode ocorrer a transação,
como resultado das negociações, quando ocorrem concessões recíprocas.
(ACCIOLY, SILVA, CASSELA, 2009, p. 768).

60
Direito Internacional Econômico

1.2 Serviços amistosos


Serviços amistosos são aqueles “prestados sem aspecto oficial por diplomata
designado pelo governo para que chegue a um bom termo sem a necessidade
de maiores movimentações e sem chamar a atenção da opinião pública”
(HUZEK, 2002, p. 195).

1.3 Inquéritos
Os inquéritos são denominados de investigação, em virtude das quais são
constituídas pessoas ou comissões, com a finalidade de esclarecer fatos e,
eventualmente, sugerir condutas ou soluções. (SOARES, 2002, p. 167).

Para Pereira (2009, p. 205) é possível afirmar que o inquérito em si não


soluciona a controvérsia, mas acolhe os subsídios que permitirão à comissão
deliberar sobre a melhor forma de cuidar do assunto.

1.4 Sistemas de Consultas


A consulta nada mais é que a negociação realizada de forma programada. Não
há, assim como na negociação, qualquer intervenção de terceiro.

Para Accioly, Silva, Cassela (2009, p. 771), a consulta pode ser definida como
troca de opiniões, entre dois ou mais sujeitos interessados direta ou indiretamente
num litígio internacional, no intuito de alcançarem solução conciliatória.

No sistema de consultas à previsão, normalmente expressa em tratado, de


encontros periódicos onde os Estados trarão à mesa suas reclamações mútuas,
acumuladas durante “o período, e buscarão solucionar a base desse diálogo
direto e programado, suas pendências” (REZEK, 2015, p. 394).

Antes mesmo da fundação da Organização dos Estados


Americanos, no velho contexto das conferências
interamericanas que remontam a 1890, as reuniões de consulta
têm permitido aos países do continente, pela voz de seus
ministros das relações exteriores, que se entendam sobre
conflitos existentes e lhes encontrem solução. Na Carta da
Organização dos Estados Americanos, vigente desde 1951,
as reuniões de consulta dos chanceleres integram a estrutura
orgânica da entidade. (REZEK, 2015, p. 356).

61
Capítulo 3

1.5 Bons ofícios


Diferentemente da negociação, nos bons ofícios há a participação de um
terceiro sujeito de Direito Internacional que ajuda os litigantes na solução
do conflito. Para Guerra (2009, p. 338), os bons ofícios caracterizam-se pela
tentativa amistosa de um terceiro Estado ou até mesmo de vários Estados,
estranhos à contenda internacional, de levarem aos envolvidos em um
determinado litígio a chegarem a um consenso.

Bons ofícios “são atos por meio dos quais uma terceira parte procura facilitar e
abrir via às negociações das partes interessadas, ou buscar reabrir negociações
que foram interrompidas”. (JO, 2000, p. 505).

É importante frisar que a intervenção desse terceiro, conhecido como prestador


dos bons ofícios, é meramente instrumental, no sentido de que apenas aproxima
as partes, podendo, inclusive, nem se inteirar do motivo da disputa.

Accioly, Silva, Cassela (2009, p. 769) ensinam que os bons ofícios podem ser
oferecidos, pelo Estado ou Estados que procuram harmonizar os litigantes, ou
podem ser solicitados por qualquer desses ou por ambos. O oferecimento não
constitui ato inamistoso, tampouco a sua recuso.

O terceiro não propõe solução para o conflito, nem sequer toma conhecimento
das razões de uma e outra das partes, ou seja, limita-se a aproximá-las, a
proporcionar-lhes um campo neutro de negociação, por haver-se convencido
de que a desconfiança ou o ressentimento reinantes impedirão o diálogo
espontâneo entre os conflitantes. (REZEK, 2015, p. 393).

Os bons ofícios poderão ser prestados por Estados, por uma Organização
Internacional, pelo intermédio de um dos seus funcionários, ou por
uma personalidade de credibilidade e projeção no campo das relações
internacionais. (GUERRA, 2009, p. 338).

Portugal foi em 1864 o prestador de bons ofícios para que o Brasil e a Grã-Bretanha,
rompidos desde o incidente Chistie 2, restabelecessem seu relacionamento
diplomático. (REZEK, 2015, p. 393)

2. A Questão Christie foi um impasse diplomático ocorrido entre o Império do Brasil e o Reino Unido entre os
anos de 1862 e 1865. As relações entre Brasil e Inglaterra foram bastante conturbadas ao longo do século XIX.
É preciso lembrar que a coroa britânica insistiu e vigiou o tráfico atlântico, afetando as relações comerciais e
econômicas brasileiras. A Lei Eusébio de Queirós, datada de 1850, é um exemplo das demandas inglesas que
surtiram efeitos no Brasil, com a proibição do tráfico de escravos. Essas interferências inglesas já geravam
descontentamento por parte de alguns brasileiros, interessados na mão-de-obra escrava e no negócio lucrativo
do tráfico atlântico. (RODRIGUES, 2017)

62
Direito Internacional Econômico

1.6 Mediação
Mediação é um instrumento de solução pacífica de conflitos em que um terceiro
intermedeia oficialmente uma negociação.

Assim como nos bons ofícios, na mediação há a participação de um terceiro,


conhecido, nesse caso, como mediador. Entretanto, para Guerra (2009, p. 339)
um traço distintivo entre os dois instrumentos é no fato de o Estado mediador
tomar conhecimento dos fatos que motivaram a contenda internacional.

Contudo, ao contrário dos bons ofícios, na mediação, o terceiro, que poderá ser
um Estado, uma Organização Internacional ou uma personalidade que se destaque
no âmbito das relações internacionais, intervém mais ativamente, ficando a par do
conflito e das razões dos conflitantes, sugerindo, ao final, uma solução.

Após inteirar-se das informações dos conflitantes, o mediador propõe uma solução
que seja conveniente aos envolvidos, e também à sociedade internacional.

Ressalta-se que a solução é mera sugestão, podendo os conflitantes aceitar ou


não o parecer do mediador, ou seja, essa via só terá sucesso se os conflitantes
entenderem satisfatória a proposta de decidirem agir na sua conformidade. No
entendimento de Rezek (2015, p. 396) basta que uma das partes entenda de
rejeitá-la para que essa via de solução pacífica conduza ao fracasso.

Como exemplo, a Argentina, o Brasil e o Chile foram mediadores, em 1914, num


conflito entre os Estados Unidos e o México, finalmente resolvido com a celebração
de tratado bilateral. (REZEK, 2015, p. 395)

Da mesma forma que os bons ofícios, a mediação pode ser oferecida ou ser
solicitada; e o seu oferecimento ou a sua recusa não deve ser considerado ato
inamistoso. (ACCIOLY, SILVA, CASSELA, 2009, p. 771).

1.7 Conciliação
Na conciliação, não há um conciliador singular, mas uma comissão de
conciliação, integrada por representantes dos Estados em conflito e elementos
neutros, em número total ímpar. (REZEK, 2015, p. 396).

Para Pereira (2009, p. 2005), a comissão terá por tarefa conduzir os conflitantes a
uma solução, que virá após o conhecimento pleno dos motivos que justificam e
que motivaram o debate.

63
Capítulo 3

Os litigantes, na conciliação, elegem uma comissão de pessoas, não


necessariamente neutras (pois podem ser seus funcionários ou seus advogados),
a qual, após procedimento com alguma formalidade, apresenta suas conclusões
sobre questão litigiosa, na forma de relatório opinativo. (SOARES, 2002, p. 168).

Seção 2
Meios políticos
Os meios políticos são aqueles em que a solução do conflito é resolvida
diretamente ou por intermédio de uma Organização Internacional.

Jo (2000, p. 508) lembra que “os meios pacíficos que as Organizações


Internacionais empregam podem ser via solução política ou via solução judiciária”.
Normalmente, as Organizações Internacionais Governamentais optam pelos meios
políticos na resolução dos conflitos originados por desentendimentos entre seus
membros e que envolvam seus acordos, adotando ainda o meio judicial.

Como exemplo, podemos citar o método de solução de conflitos definido pela


Organização Internacional do Comércio (OMC), como um meio político de solução
pacífica dos conflitos internacionais de origem econômica.

As soluções proferidas pela Assembleia Geral e pelo Conselho de Segurança


das Nações Unidas podem ser utilizadas como instâncias políticas de solução
de conflitos internacionais. (GUERRA, 2009, p. 346). Normalmente, o Conselho
de Segurança merece a preferência dos ligantes, por estar permanentemente
acessível. (HUZEK, 2002, p. 199).

Para Mazzuolli (2011, p. 1052), os meios políticos de solução de conflitos, dentro


do seio da ONU, podem se dar sem o conhecimento de uma das partes envolvidas
na controvérsia, quando a outra recorre à Assembleia Geral ou ao Conselho de
Segurança, buscando a via satisfativa do seu direito que entende violado.

64
Direito Internacional Econômico

Seção 3
Meios Jurisdicionais
Jurisdição é o foro especializado e independente que examina litígios à luz do
direito e profere decisões obrigatórias. (REZEK, 2015, p. 401).

A arbitragem e a solução judiciária são os meios judiciais, também chamados de


jurisdicionais ou legais de solução de conflitos.

A distinção entre os dois meios jurisdicionais está no seu aspecto formal. O


tribunal arbitral é constituído pelas partes litigantes para resolver o litígio e
desaparece com ele, enquanto que o tribunal judiciário é anterior ao litígio e
subsiste à sua solução, bem como os seus componentes não são escolhidos
pelas partes litigantes. (GUERRA, 2009, p. 342).

É facultado aos Estados litigantes aceitar ou não o poder jurisdicional na solução de


um conflito, entretanto, uma vez aceita, o aludido conflito necessariamente deverá
ser resolvido por terceiros, onde se impõe uma solução definitiva e sem recurso.

A diferença dos meios jurisdicionais em relação aos meios anteriores estudados 3


está na submissão ao direito, que passa a ser utilizado como o norte do julgamento,
da decisão prolatada ao caso concreto, ou seja, o viés da política é posto abaixo de
um conjunto de normas jurídicas internacionais aceitas e praticadas pelos Estados
que compõem a sociedade internacional. (PEREIRA, 2009, p. 208).

A solução de natureza judiciária apresenta uma decisão de natureza obrigatória


para as partes envolvidas numa contenda internacional.

Vejamos, no primeiro momento, a arbitragem.

3.1 Arbitragem
A arbitragem é um processo jurisdicional em que as partes litigantes elegem um ou
mais árbitros, nesse último caso, temos o tribunal arbitral, para resolver o litígio.

Os árbitros são terceiros imparciais, que procuram encontrar a solução para


o conflito segundo as normas jurídicas aplicáveis. As partes reconhecem tal
solução como obrigatória. Trata-se de uma via jurisdicional, mas não judiciária.
(HUSEK, 2002, p. 196).

3. Meios diplomáticos e meios políticos.

65
Capítulo 3

Para Guerra (2009, p. 344) é o meio pelo qual os Estados conflitantes resolvem
de comum acordo entregar a solução nas mãos de um árbitro ou tribunal arbitral.
É temporária, mas como houve o acordo de vontades, qualquer que seja a
conclusão será obrigatória.

O foro arbitral é temporário, ou seja, não tem permanência. Proferida a sentença,


termina para o árbitro o trabalho judicante que lhe haviam confiado os Estados
em conflito. (REZEK, 2015, p. 402).

A escolha dos conflitantes pela arbitragem se dará mediante a convenção arbitral,


podendo estar revestida por uma cláusula arbitral ou um compromisso arbitral.

Vejamos a diferença entre a cláusula arbitral e compromisso arbitral:

Cláusula arbitral - disposição contida em tratado de qualquer outra natureza,


informando que os futuros litígios dele originados serão resolvidos por arbitragem.

A oposição da cláusula arbitral num tratado tem por finalidade obrigar os seus
Estados-membros a recorrerem à arbitragem na solução de suas pendências
internacionais, quer para resolverem qualquer divergência relativa à interpretação
do acordo, quer para criar meios mais céleres de se executar o compromisso
firmado, quer ainda para deixar expresso que todos os litígios porventura
existentes entre as partes deverão ser submetidos a esse meio de solução de
controvérsia internacional. (MAZZUOLI, 2011, p. 1060).

Compromisso arbitral – é um tratado em que os contendores:

a. descrevem o litígio entre eles existente;


b. mencionam as regras do direito aplicável;
c. designam o árbitro ou o tribunal arbitral;
d. eventualmente estabelecem prazos e regras de procedimento;
e. comprometem-se a cumprir a sentença arbitral. (REZEK, 2015, p. 404).

O compromisso arbitral é um tratado no qual os contendores descrevem o litígio


em que estão envolvidos, apontam as regras de direito que querem aplicáveis e
designam o árbitro ou tribunal, já previamente consultado. (HUSEK, 2002, p. 196).

A arbitragem pode ser operacionalizada por meio da arbitragem institucional ou


permanente e ad hoc:

66
Direito Internacional Econômico

Arbitragem institucional - existe quando a convenção arbitral determina que o


litígio será arbitrado por uma instituição arbitral, que administrará o procedimento
arbitral mediante suas próprias normas.

A Corte Permanente de Arbitragem foi criada em 1899, pela Primeira Conferência


Internacional da Paz, realizada em Haia, Holanda, para facilitar a arbitragem e outros
meios de resolução de litígios entre Estados, e se tornou uma instituição de arbitragem
moderna e diversificada. Não é um tribunal, uma corte no sentido tradicional, e sim
uma lista permanente de pessoas qualificadas para funcionar como árbitros, quando
escolhidos pelos Estados litigantes. A corte oferece quatro métodos de resolução de
conflitos: investigação, mediação, conciliação e arbitragem.

Arbitragem ad hoc - as partes fixam as regras e formas em que o processo


arbitral será conduzido naquele caso em particular. Nesse caso, o procedimento
arbitral não seguirá as regras de uma instituição arbitral, mas sim as disposições
determinadas pelas partes ou pelo(s) árbitro(s).

O produto final da arbitragem é uma decisão de índole jurisdicional obrigatória.


A sentença arbitral é definitiva, não cabendo recurso, uma vez que o árbitro
não se inscreve num poder específico, como aqueles que se consagram nas
ordens internas.

Para Guerra (2009, p. 344), ao assinarem o compromisso, os litigantes se


obrigam a acatar a sentença arbitral, todavia, se o árbitro ou tribunal exceder os
poderes conferidos ou se houver cerceamento de defesa, a sentença será nula.
A sentença arbitral tem valor jurídico, portanto, deve ser cumprido pelas partes
envolvidas, cuja decisão é definitiva.

Varella (2009, p. 408) explica que a decisão arbitral pode ser considerada sem
efeito e não obrigatória pelos próprios árbitros ou por um tribunal internacional
competente quando:

a. houver fraude ou deslealdade dos árbitros;


b. a sentença tiver sido pronunciada por árbitro em situação de
incapacidade de fato ou de direito;
c. houver violação de um princípio fundamental do processo, a
exemplo da impossibilidade de manifestação de uma das partes;
d. o tribunal ou o árbitro exceder seus poderes.

67
Capítulo 3

Embora definitiva e obrigatória, a sentença arbitral não é executória. Seu


cumprimento fica na dependência da boa-fé e da honradez das partes. O árbitro
não dispõe de uma milícia que garanta pela força o cumprimento de sua sentença.

3.2 Solução judiciária


Quando o litígio é submetido a um tribunal ou corte judicial estamos diante de
uma solução judiciária.

Segundo Jo (2000, p. 513), “a criação de uma corte ou tribunal de características


internacionais dá-se pela vontade e pelas necessidades dos Estados. Nesse
sentido, existem várias cortes internacionais e regionais”.

A Corte Internacional de Justiça (CIJ), criada em 1946, e a Corte da Justiça da


União Europeia (CJUE), criada em 1957, são exemplos de uma corte internacional e
uma regional, respectivamente.

A instituição pioneira foi a Corte de Justiça Centro-Americana, instituída em 20 de


dezembro de 1907, entre a Costa Rica, El Salvador, Guatemala e Honduras, tendo
durado dez anos. (GUERRA, 2009, p. 342).

Entre os vários tribunais internacionais permanentes em funcionamento,


destacamos para estudo a Corte Internacional de Justiça, Tribunal de Justiça da
União Europeia e o Tribunal Internacional do Direito do Mar.

Corte Internacional de Justiça 4


A Corte Internacional de Justiça é o principal órgão judiciário da ONU.
Estabelecida em junho de 1945, pela Carta das Nações Unidas, começou a
funcionar em 1946. Sua sede fica no Palácio da Paz, em Haia Holanda. 

A função da Corte é de solucionar, em concordância com o Direito Internacional,


disputas legais submetidas por Estados, além de oferecer pareceres consultivos
sobre questões legais apresentadas por órgãos autorizados da ONU e outras
agências especializadas.

A Corte somente decide com base no Direito Internacional, jamais com


fundamento no ordenamento jurídico interno de algum Estado-membro.
Vejamos o artigo 38, § 1º, do seu Estatuto:

4. Meios diplomáticos e meios políticos.

68
Direito Internacional Econômico

1. A Corte, cuja função é decidir de acordo com o direito


internacional as controvérsias que lhe forem submetidas, aplicará:
a. as convenções internacionais, quer gerais, quer especiais, que
estabeleçam regras expressamente reconhecidas pelos Estados
litigantes;
b. o costume internacional, como prova de uma prática geral
aceita como sendo o direito;
c. os princípios gerais de direito, reconhecidos pelas nações
civilizadas;
d. sob ressalva da disposição do artigo 59, as decisões judiciárias
e a doutrina dos juristas mais qualificados das diferentes nações,
como meio auxiliar para a determinação das regras de direito.
2. A presente disposição não prejudicará a faculdade da Corte
de decidir uma questão ex aequo et bono 5, se as partes com
isto concordarem.

A regra é a de que somente Estados podem ser parte numa questão perante
a Corte. Tais Estados são, em geral, membros da ONU, mas há possibilidade
de Estados não membros autorizados pela Assembleia Geral e pelo Conselho
de Segurança tornarem-se parte no Estatuto da Corte. Os particulares não têm
qualquer meio de acesso à Corte. O artigo 34, 1: “Só os Estados poderão ser
partes em questões perante a Corte.”.

A Corte é composta de 15 juízes, que são eleitos para mandatos de nove anos
pela Assembleia Geral da ONU e pelo Conselho de Segurança. Ela é apoiada por
um corpo administrativo e seus idiomas oficiais são o inglês e o francês. 

Todos os Estados-membros do Estatuto da Corte têm o direito de propor


candidatos, só que não por meio de seus governos, e sim por um grupo formado
por membros da Corte Permanente de Arbitragem designada pelo Estado. Os juízes
eleitos devem ser pessoas de alto caráter moral, que possuam as qualificações
necessárias para ocupar os mais altos cargos no judiciário de seu próprio país, ou
ser jurisconsultos de competência reconhecida em Direito Internacional. 

Nenhum membro da Corte poderá ocupar outro cargo durante seu mandato.
Não poderá exercer nenhuma outra função política ou administrativa, nem agir
como agente, conselheiro ou advogado em nenhum caso. E mesmo não havendo
a obrigação da Corte em estar permanentemente em sessão, seu Presidente é
obrigado a morar em Haia. 

5. Conforme o correto e válido. (Nota da professora).

69
Capítulo 3

Juízes brasileiros da Corte Internacional de Justiça:

•• Rui Barbosa – 1921 – 1923 (falecimento).


•• Epitácio Pessoa – 1923 – 1930.
•• José Philadelpho de Barros e Azevedo - 1946-1951.
•• Levi Carneiro - 1951-1955.
•• José Sette Câmara - 1979 a 1988.
•• José Francisco Rezek – 1996 a 2006.
•• Antônio Augusto Cançado Trindade – 2009 até a atualidade.

De acordo com o artigo 36 do Estatuto da Corte Internacional de Justiça, a


competência da Corte abrange todos os assuntos especialmente previstos na
Carta das Nações Unidas ou em tratados e convenções em vigor.

Os Estados, partes do presente Estatuto, poderão, em qualquer momento,


declarar que reconhecem como obrigatória, ipso facto 6 e sem acordos especiais,
em relação a qualquer outro Estado que aceite a mesma obrigação, a jurisdição
da Corte em todas as controvérsias de ordem jurídica que tenham por objeto:

a. a interpretação de um tratado;
b. qualquer ponto de Direito Internacional;
c. a existência de qualquer fato que, se verificado, constituiria violação
de um compromisso internacional;
d. a natureza ou extensão da reparação devida pela ruptura de um
compromisso internacional. (art. 36, 2).

Relativamente à sentença e conforme disciplinado nos artigos 56 a 60 do Estatuto


da Corte, podemos vislumbrar que:

•• A sentença deverá declarar as razões em que se funda.


•• Deverá mencionar os nomes dos juízes que tomaram parte na decisão.
•• Se a sentença não representar, no todo ou em parte, opinião
unânime dos juízes, qualquer um deles terá direito de lhe juntar a
exposição de sua opinião individual.
•• A sentença será assinada pelo Presidente e pelo Escrivão. Deverá ser
lida em sessão pública, depois de notificados, devidamente, os agentes.

6. Pelo próprio fato

70
Direito Internacional Econômico

•• A decisão da Corte só será obrigatória para as partes litigantes e a


respeito do caso em questão.
•• A Sentença é definitiva e inapelável. Em caso de controvérsia,
quanto ao sentido e ao alcance da sentença, caberá à Corte
interpretá-la a pedido de qualquer das partes.

A Corte também tem competência consultiva e poderá dar parecer consultivo


sobre qualquer questão jurídica a pedido do órgão que, de acordo com a Carta nas
Nações Unidas ou por ela autorizada, estiver em condições de fazer tal pedido.

Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE)


Foi criado em 1952, pelo Tratado da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço
(CECA), com sede em Luxembugo.

O TJUE é composto por 2 jurisdições. Vejamos:

•• O Tribunal de Justiça – composto por um juiz de cada país da UE


e 11 advogados-gerais. Trata dos pedidos de decisões a título
prejudicial, provenientes das jurisdições nacionais, bem como de
certas ações de anulação e de recursos.
•• O Tribunal Geral - 47 juízes. Trata dos recursos de anulação
interpostos por particulares, empresas e, em certos casos,
governos nacionais. Na prática, isso significa que este tribunal trata
essencialmente processos relacionados com direito da concorrência,
auxílios estatais, comércio, agricultura e marcas registradas.

Os juízes e os advogados-gerais são nomeados pelos governos dos países da


União Européia (UE), por períodos renováveis de seis anos. Em cada uma das
jurisdições, os juízes escolhem um Presidente que é investido no cargo por um
período renovável de três anos.

O TJUE interpreta o direito europeu para garantir que esse é aplicado da mesma
forma em todos os países da UE e delibera sobre diferendos jurídicos entre
governos nacionais e instituições europeias.

Em determinadas circunstâncias, os particulares, empresas ou organizações que


considerem que os seus direitos foram violados por uma instituição europeia,
também podem recorrer ao TJUE, de duas formas:

71
Capítulo 3

•• Indiretamente, por meio dos tribunais nacionais, os quais podem


decidir remeter o caso para o TJUE.
•• Diretamente, para o Tribunal Geral, se uma decisão de uma
instituição europeia o afetou direta e individualmente.

Tribunal Internacional do Direito do Mar


Criado em 1982, pela Convenção de Montego Bay, Jamaica, com sede em
Hamburgo, Alemanha.

A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, celebrada em Montego


Bay, a 10 de dezembro de 1982, foi aprovada pelo Congresso Nacional, pelo
Decreto Legislativo n° 5, de 9 de novembro de 1987, e promulgada Decreto nº
99.165, de 12 de março de 1990.

O Tribunal é composto de 21 membros independentes, eleitos entre pessoas que


gozem da mais alta reputação pela sua imparcialidade e integridade e sejam de
reconhecida competência em matéria de Direito do Mar.

O Tribunal não pode ter como membros mais de um nacional do mesmo Estado.
Os membros do Tribunal são eleitos por nove anos e podem ser reeleitos.

O especialista brasileiro em direito internacional Antonio


Cachapuz de Medeiros tomou posse, em março de 2016, em
Hamburgo, na Alemanha, como juiz do Tribunal Internacional do
Direito do Mar. Ele já atuou na Corte Permanente de Arbitragem,
em Haia, na Holanda, e na Associação Latino-Americana de
Integração (Aladi). (PORTAL BRASIL, 2016).

O Tribunal Internacional do Direito do Mar é um órgão das Nações Unidas


que estuda e julga questões referentes ao mar territorial 7 dos Estados e que
analisa e decide pedidos referentes a zonas contínuas marítimas, extensão do
mar territorial e de plataformas continentais. A Corte também analisa questões
relacionadas com a proteção e preservação do meio ambiente marinho, com a
pesquisa científica marinha e o desenvolvimento e a transferência de tecnologia
do mar. (PORTAL BRASIL, 2016).

Os artigos 30 a 33 do Estatuto do Tribunal Internacional do Direito do Mar


disciplinam, de forma clara, as regras pertinentes à sentença. Vejamos:

7. Todo Estado tem o direito de fixar a largura do seu mar territorial até um limite que não ultrapasse 12 milhas
marítimas, medidas a partir de linhas de base determinadas de conformidade com a presente Convenção. (artigo 3º).

72
Direito Internacional Econômico

1. A sentença deve ser fundamentada.


2. A sentença deve mencionar os nomes dos membros do Tribunal
que tomarem parte na decisão.
3. Se, no todo ou em parte, a sentença não representar a opinião
unânime dos membros do Tribunal, qualquer membro terá o direito
de juntar à sentença a sua opinião individual ou dissidente.
4. A sentença deve ser assinada pelo Presidente e pelo Escrivão. Deve
ser lida em sessão pública, depois de devidamente notificadas as
partes na controvérsia.
5. A sentença do Tribunal será definitiva e deverá ser acatada por
todas as partes na controvérsia.
6. A sentença não terá força obrigatória senão para as partes e no que
se refere a uma controvérsia determinada.
7. Em caso de desacordo sobre o sentido ou alcance da sentença,
compete ao Tribunal interpretá-la, a pedido de qualquer das
partes. (BRASIL, 1990).

Seção 4
Meios Coercitivos
Os meios coercitivos para resolução dos litígios internacionais, também
conhecidos como sanções, contrariam os princípios estabelecidos na Carta das
Nações Unidas, haja vista a proibição à ameaça ou o uso da força ou qualquer
ação não amigável decidida unilateralmente pelo Estado. Vejamos os artigos 1º,
1 e 2º, 3, 4 e 6 da Carta:

Artigo 1. Os propósitos das Nações unidas são:1. Manter a paz e


a segurança internacionais e, para esse fim: tomar, coletivamente,
medidas efetivas para evitar ameaças à paz e reprimir os atos de
agressão ou outra qualquer ruptura da paz e chegar, por meios
pacíficos e de conformidade com os princípios da justiça e do
direito internacional, a um ajuste ou solução das controvérsias ou
situações que possam levar a uma perturbação da paz;
Artigo 2. A Organização e seus Membros, para a realização dos
propósitos mencionados no Artigo 1, agirão de acordo com os
seguintes Princípios:
(...)

73
Capítulo 3

3. Todos os Membros deverão resolver suas controvérsias


internacionais por meios pacíficos, de modo que não sejam
ameaçadas a paz, a segurança e a justiça internacionais.
4. Todos os Membros deverão evitar em suas relações internacionais
a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial ou a
dependência política de qualquer Estado, ou qualquer outra ação
incompatível com os Propósitos das Nações Unidas.
6. A Organização fará com que os Estados que não são Membros
das Nações Unidas ajam de acordo com esses Princípios em
tudo quanto for necessário à manutenção da paz e da segurança
internacionais. (BRASIL, 1945).

Para Mazzuoli (2011, p. 1072), nem sempre os sujeitos da sociedade internacional


estão abertos ao diálogo ou dispostos a resolver judicialmente suas contendas. Assim,
fracassados que sejam os meios pacíficos de solução de controvérsias, ou caso não
tenham disso aplicadas as medidas judiciais cabíveis para a solução do conflito entre
as partes, essas poderão utilizar dos meios coercitivos para pôr fim ao litígio.

Mello (2000, p. 1376) sustenta que o fato de os meios coercitivos serem


geralmente utilizados pelos Estados de forma individual, torna-os injustos. Isso
por que somente os Estados desenvolvidos, que possuem poder econômico,
possuem condições de aplicá-los.

Jo (2000, p. 529) complementa afirmando que a tendência é que os meios


coercitivos sejam empregados unicamente, sob o controle do sistema da ONU,
como meio de manter a segurança coletiva de forma imparcial a todos os
Estados. Refletindo essa tendência, a palavra “sanção” é usada para as medidas
coercitivas tomadas pelas Organizações Internacionais.

Ainda que tais meios não tenham natureza pacífica, porque motivados pelo
uso da força coercitiva, eles representam, uma última opção estatal antes de
qualquer ataque armado ou antes do emprego de alguma forma de agressividade,
sendo assim, pertencentes ao campo das soluções pacíficas de controvérsias.
(MAZZUOLI, 2011, p. 1072).

A seguir, alguns meios coercitivos.

4.1 Retorsão
É a medida coercitiva aplicada pelo Estado ofendido ao Estado ofensor,
consistindo no mesmo ato legal e inamistoso praticado por esse último. É o
meio mais moderado.

Trata-se de medida coercitiva sem força armada, pois a retorsão é um ato não
contrário ao Direito Internacional, ou seja, não viola o Direito Internacional.

74
Direito Internacional Econômico

Para Mazzuoli (2011, p. 1073), consiste no processo pelo qual um Estado


retribui a outro, com os mesmos meios, na mesma medida e na mesma
proporção, os atos pouco amistosos por esse praticados em seu detrimento e
que lhe acarretam prejuízos.

No mesmo sentido, porém, em outras palavras, Varella (2009, p. 454) entende


a retorsão como medida de reação não armada contra um ato do Estado que,
muito embora seja lícito, é considerado descortês, demasiado rigoroso ou que
acarreta danos a seus interesses.

Como exemplo, o aumento de tarifa de um determinado produto alfandegário ou o


fechamento dos portos para os navios do outro Estado. (HUSEK, 2002, p. 200).

4.2 Represálias
É a medida coercitiva aplicada pelo Estado ofendido ao Estado ofensor, porém,
ao contrário da retorsão, o ato é ilegal.

Dessa forma, a represália é uma medida coercitiva contrária ao Direito


Internacional.

Mello (2000, p. 1380) afirma que para a aplicação da represália devem ser
observados os seguintes requisitos:

a. a existência de um ato contrário ao Direito Internacional;


b. a inexistência de outros meios para que o Estado obtenha a
reparação;
c. proporcionalidade em relação ao delito;
d. que o Estado lesado tenha tentado, antes de praticá-las, obter
satisfação sem sucesso.

Além disso, Mello (2000, p. 1380) diferencia represália de legítima defesa


porque essa última visa a impedir que o ilícito seja praticado, enquanto
naquela o ilícito já foi consumado.

Represálias são medidas de pressão contra um Estado que praticou um ato


ilícito, com o objetivo de constrangê-lo, pelo uso da força, a voltar à licitude.
(VARELLA, 2009, p. 455).

75
Capítulo 3

Husek (2002, p. 200) ensina que as represálias podem ser negativas ou positivas. As
negativas, quando o Estado se nega a cumprir determinada obrigação, decorrente
de um pacto, ou executa atos que lhe são proibidos. As positivas, quando um
Estado pratica atos contra pessoas e bens do Estado com que está em litígio.

É exemplo de represália a inexecução de um tratado. (HUSEK, 2002, p. 200).

4.3 Bloqueio Pacífico 8


Apesar do nome, não tem nada de pacífico, trata-se, na verdade, de impedir, mediante
força armada, as comunicações com portos ou com a costa do Estado ofensor.

Para Husek (2002, p. 201) algumas condições se exigem para o bloqueio pacífico:

•• só pode ser empregado após o fracasso das negociações;


•• que seja efetivo;
•• que seja notificado oficialmente;
•• só obrigatório entre os navios dos Estados em litígio, e não para
terceiros;
•• os navios apreendidos devem ser devolvidos após o bloqueio.

É quando um Estado, sem declarar guerra ao outro, mas por meio de força armada,
impede que esse último mantenha relações comerciais com terceiros Estados,
interrompendo forçosamente as comunicações comerciais entre esses Estados e
o Estado bloqueado. Consiste na prática de um Estado em impedir que navios ou
embarcações de terceiros Estados trafeguem pelos portos ou pelas costas de um
Estado, como forma de obrigar esse último a proceder de determinada maneira,
favorável ao Estado autor do bloqueio. (MAZZUOLI, 2011, p. 1077).

Bloqueio que os Estados Unidos da América declarou a Cuba, em decorrência


de atos do governo cubano contrários aos interesses dos Estados Unidos.
(MAZZUOLI, 2011, p. 1077).

8. Também chamado de bloqueio comercial.

76
Direito Internacional Econômico

4.4 Embargo
É o sequestro, em tempo de paz, de navios e cargas provenientes do Estado
ofensor nos portos ou águas territoriais do Estado ofendido. Segundo Mello
(2000, p. 1381), o embargo tem sido condenado pela sociedade internacional,
haja vista atingir inocentes, ou seja, a simples particulares, contudo, ainda não
desapareceu das relações internacionais.

No mesmo sentido, Mazzuoli (2011, p. 1075) conceitua como uma das formas
especiais pela qual se reveste a represália. Por meio do embargo, um Estado,
em tempo de paz, sequestra navios e cargas de nacionais de Estado estrangeiro,
ancorados em seus portos ou em trânsito nas suas águas territoriais, a fim de
fazer predominar a sua vontade em relação à vontade do Estado embargado.

Não se confunde com o chamado Direito de Angária, que significa a requisição,


por parte de um Estado, dos navios mercantes estrangeiros para o transporte
de soldados e munições em troca de pagamento. E é diferente também, do
embargo do príncipe 9, que significa a proibição de saída de navio estrangeiro
do porto do Estado ou de suas águas territoriais por problemas sanitários ou por
questões judiciárias ou policiais. (HUSEK, 2002, p. 201).

4.5 Boicote 10
É a ruptura das relações econômicas (comerciais e financeiras) entre os
Estados, ou seja, a interrupção de relações comerciais ou financeiras com um
Estado considerado ofensor dos nacionais ou dos interesses de outro Estado.
(GUERRA, 2009, p. 348).

Ressalta-se que a boicotagem poderá “ser realizada pelo governo ou por


particulares, essa última pode ser espontânea ou forçada” (MELLO, 2000, p. 1382).

A boicotagem está amparada no artigo 41 da Carta das Nações Unidas. Vejamos:

Artigo 41. O Conselho de Segurança decidirá sobre as medidas


que, sem envolver o emprego de forças armadas, deverão ser
tomadas para tornar efetivas suas decisões e poderá convidar
os Membros das Nações Unidas a aplicarem tais medidas. Estas
poderão incluir a interrupção completa ou parcial das relações
econômicas, dos meios de comunicação ferroviários,
marítimos, aéreos, postais, telegráficos, radiofônicos, ou
de outra qualquer espécie e o rompimento das relações
diplomáticas. (BRASIL, 1945, grifo nosso).

9. Denominado embargo civil.

10. Denominado de boicotagem.

77
Capítulo 3

Percebe-se, então, que a boicotagem interfere nas relações comerciais.

4.6 Rompimento das relações diplomáticas


É o rompimento das relações oficiais entre Estados, por meio da retirada dos
agentes diplomáticos do Estado violador e o retorno do corpo diplomático do
Estado ofendido.

Para Guerra (2009, p. 349), pode ocorrer a ruptura das relações entre dois
Estados, decorrente de uma violação de direitos, como também para ser utilizada
como mecanismo de pressão de um Estado sobre outro Estado.

Frisa-se que as relações econômicas poderão ser mantidas se as partes


assim desejarem.

A título ilustrativo, citamos o episódio envolvendo os governos do Equador, da


Venezuela e da Colômbia, que romperam relações diplomáticas, em março de 2008,
pelo fato de o último ter violado o território do primeiro ao enviar militares sem que
houvesse a devida permissão.

O rompimento das relações diplomáticas de um Estado em relação a outro pode


ser reatado, caso as duas partes entabularem novas negociações nesse sentido,
evitando-se um desconforto internacional maior, e, principalmente, uma guerra
declarada entre ambos. (MAZZUOLI, 2011, p. 1077).

78
Capítulo 4

Do Acordo Geral sobre Tarifas e


Comércio (GATT) à Organização
Mundial do Comércio (OMC)

Seção 1
Acordo Geral Sobre Tarifas e Comércio (GATT)
As relações internacionais contemporâneas podem ser caracterizadas pela
superioridade da paz sobre a guerra e da economia sobre a política. Após a
Segunda Guerra Mundial 1, muitos tratados internacionais firmados entre os
Estados estão relacionados às atividades econômicas internacionais.

Jo (2000, p. 438) ensina que após a Segunda Guerra Mundial, quando se proibiu
o uso da força, os Estados vêm competindo, usando armas econômicas e
comerciais para realizarem os seus objetivos políticos internacionais, tais como a
superioridade econômica e o bem social econômico.

Com a pretensão de criar uma organização voltada para o comércio internacional,


após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos propuseram uma reunião
ao Conselho Econômico e Social da recém-criada Organização das Nações
Unidas (ONU 2). A primeira reunião da Comissão preparatória à Conferência
sobre Comércio e Emprego das Nações Unidas, na qual seriam estabelecidos

1. A Segunda Guerra Mundial, ocorrida entre 1939 e 1945, é assim chamada por ter se tratado de um conflito
que extrapolou o espaço da Europa, continente dos principais países envolvidos. Além do norte da África e a
Ásia, o Havaí, território estadunidense, com o ataque japonês a Pearl Harbor, foi também palco de disputas
territoriais e ataques inimigos. (CARDOSO).

2 A organização da Nações Unidas (ONU) foi criada pela Carta das Nações Unidas em 25 de junho de 1945,
assinada por cinquenta Estados, entre eles o Brasil. O Brasil aprovou a Carta pelo Decreto-lei 7.935 de 4 de
setembro de 1945 e ratificada em 12 de setembro. A promulgação foi dada pelo Decreto 19.841 de 22 de
outubro de 1945. (SEITENFUS, 1997).

79
Capítulo 4

os fundamentos organizativos de uma Organização Internacional do Comércio,


ocorreu em Londres, Inglaterra, em outubro de 1946.

A segunda reunião da Comissão preparatória para a Conferência de Havana


ocorreu em Genebra, Suíça, entre abril e novembro de 1947. Nesse encontro,
durante a Rodada Genebra de 1947, a primeira das grandes rodadas de
negociações multilaterais de comércio, vinte e três Estados 3, entre eles o Brasil,
assinaram o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio, (General Agreement of
Tariffs and Trade – GATT), que, escrito basicamente pelos Estados Unidos e pela
Inglaterra, propunha regras multilaterais para o comércio internacional, com o
objetivo de evitar a repetição da onda protecionista que marcou os anos 30.

Em novembro de 1947 a março de 1948, 56 Estados, reunidos em Havana (Cuba),


durante as negociações da Conferência sobre Comércio e Emprego das Nações
Unidas, redigiram um projeto de convenção propondo a criação da Organização
Internacional de Comércio (OIC). Em razão da ausência de ratificação e falta de
apoio do Congresso dos Estados Unidos da América, a OIC não vingou.

A não ratificação da Carta de Havana pelos Estados Unidos da América foi o


decreto de morte da nascente OIC. A nação que liderava o mundo ocidental em
sua reconstrução no pós-guerra achou por bem não levar adiante sua própria
proposta de criação de uma verdadeira instituição para gerir o comércio entre as
diversas nações do globo. (OLIVEIRA, 2006).

O grupo preparatório da Conferência de Havana, que havia redigido um Acordo


Geral sobre Tarifas, subscrito por 23 Estados, diante da impossibilidade da criação
da OIC, contentou-se com o GATT, que passou a reger a ordem do comércio
internacional com a forma de um tratado multilateral sem organização estabelecida.

Para Accioly, Silva e Casella (2009, p. 421), o GATT não era Organização
Internacional, propriamente dita, mas acordo temporário, cuja vigência se estendeu
de 1948 até 1994, quando veio a ser absorvido pelo conjunto institucional mais
amplo e mais estruturado da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O GATT prevê uma série de princípios que regem as relações internacionais


comerciais entre os Estados, sendo, de acordo com Jo (2000, p. 444), o
multilateralismo, comércio livre e comércio leal:

Multilateralismo – refere-se à participação de todos os Estados no processo da


formação da ordem internacional de comércio, na sua negociação e aplicação.
A base do multilateralismo é o princípio da Nação mais favorecida, inserido no
artigo 1 do GATT. Vejamos a parte inicial do artigo:

3. Austrália, Bélgica, Brasil, Birmânia, Canadá, Ceilão, Chile, China, Cuba, Estados Unidos da América, França,
Índia, Líbano, Luxemburgo, Noruega, Nova Zelândia, Pakistan, Países-Baixos, Rodésia do Sul, Grã-Bretanha e
Irlanda do Norte, Síria, República Tchecoslovaca e África do Sul. (GATT, 1947).

80
Direito Internacional Econômico

1. Qualquer vantagem, favor, imunidade ou privilégio concedido


por uma Parte Contratante em relação a um produto originário
de ou destinado a qualquer outro país, será imediata e
incondicionalmente estendido ao produtor similar, originário do
território de cada uma das outras Partes Contratantes ou ao
mesmo destinado. (GATT, 1947).

O princípio da Nação mais favorecida fundamenta-se na reciprocidade, a qual


garante que os Estados ofertarão o mesmo tratamento recebido dos demais
Estados. Justifica-se na regra de que todos os benefícios alfandegários ou não
alfandegários concedidos a um Estado devem ser automaticamente estendidos a
todos os membros. (VARELLA, 2009, p. 293).

Comércio livre – implica a aplicação da teoria da economia de mercado no comércio


internacional. Os Estados abrem seus mercados internos e extinguem as medidas de
restrições ao comércio, sendo que a tarifa se torna a única medida legitimada para o
controle do comércio internacional. Esse princípio está inserido no artigo 11 do GATT:

1. Nenhuma Parte Contratante instituirá ou manterá, para a


importação de um produto originário do território de outra Parte
Contratante, ou para a exportação ou venda para exportação de
um produto destinado ao território de outra Parte Contratante,
proibições ou restrições a não ser direitos alfandegários,
impostos ou outras taxas, quer a sua aplicação seja feita por
meio de contingentes, de licenças de importação ou exportação,
quer por outro qualquer processo. (GATT, 1947).

Comércio leal – é aquele que garante as oportunidades de concorrência no


limite aceito pelas normas internacionais de comércio. Se as práticas dos setores
público e privado não são consideradas legais, usam-se as medidas antidumping e
compensatórias, bem como o mecanismo de solução de disputas sob o sistema GATT.

As medidas antidumping são, ao lado das salvaguardas e das medidas


compensatórias, chamadas de medidas de defesa comercial. Elas são exceções
ao princípio do livre comércio, mas desempenham, ao mesmo tempo, o
contraditório papel de instrumentos que permitem esse comércio. A medida de
defesa comercial é a garantia que um Estado tem de que, diante de uma abertura
ao comércio leal, a preços esperados, em volumes razoáveis, ele terá armas para
se proteger das exportações que constituírem exceções a essas regras. Dessa
forma, as medidas de defesa comercial servem de verdadeiras peneiras diante do
fluxo de importações. (CORDOVIL, 2011, p. 30).

81
Capítulo 4

Para Velloso (2007), o principal objetivo do GATT era a diminuição das barreiras
comerciais e a garantia de acesso mais equitativo aos mercados por parte de
seus signatários e não a promoção do livre comércio, essa função do GATT
pode ser traduzida como sinônimo de liberalização do comércio ou remoção de
barreiras tarifárias e não tarifárias. Incorporou muitas provisões da OIT, contida
na Carta de Havana, e foi adquirindo progressivamente atribuições de uma
Organização Internacional, não perdendo o caráter de acordo provisório nem
obteve uma personalidade jurídica própria.

Além da primeira rodada de negociações de Genebra, Suíça, de 1947, foram


realizadas mais sete Rodadas de negociações no âmbito do GATT: Annecy,
França, em 1949, Torquay, Inglaterra, em 1950, Genebra, Suíça, em 1955, Dillon 4,
negociada em Genebra, em 1960, Kennedy 5, negociada em Genebra, em 1964,
Tóquio, negociada em Genebra, em 1973 e Uruguai, em 1986, iniciada durante a
reunião ministerial em Punta del Este.

As rodadas de negociações aconteceram e funcionaram como encontros entre


todas as partes contratantes nas quais elas negociavam reduções tarifárias,
diminuição de outras barreiras comerciais e outros assuntos concernentes
ao comércio internacional. As cinco primeiras Rodadas trataram quase que
exclusivamente de estabelecer novas metas, como: concessões tarifárias e
redução aduaneira, além da adesão de outros países ao GATT. (VELLOSO, 2007).

A primeira rodada de negociações do GATT resultou em 122 acordos de redução


mútua de tarifas com disposições para o estabelecimento de zonas de livre
comércio ou de mercado comum. A segunda, resultou em 5.000 reduções de
tarifas. A terceira, resultou em 8.700 reduções de tarifas. A quarta, resultou em
reduções de tarifas aplicáveis a 2,5 bilhões de dólares em negócios. A quinta,
resultou em 4.400 reduções de tarifas. (FREIRE E ALMEIDA, 2008).

As outras rodadas, ou seja, de Kennedy, Tóquio e Uruguai, são as mais importantes.

A Rodada Kennedy, de 1964, significou o início de uma nova etapa no GATT, essa foi
a primeira em que a Comunidade Europeia participou das negociações como bloco,
defendendo o interesse comum de seus países-membro, tornando-se um negociador
com grande poder de barganha ao poderio dos Estados Unidos; foi estabelecida a
não reciprocidade para países em desenvolvimento e dada atenção especial para
as exportações desses mesmos países. A partir dessa rodada, foram incorporados
outros temas e questões nas negociações multilaterais. (VELLOSO, 2007).

4. Conhecida como Rodada Dillon, em homenagem ao chefe da equipe de negociação dos Estados Unidos, o
subsecretário de Estado Douglas Dillon. (FREIRE E ALMEIDA, 2008).

5. Homenagem ao presidente John F. Kennedy, dos Estados Unidos. (FREIRE E ALMEIDA, 2008).

82
Direito Internacional Econômico

Negociada em Genebra, a Rodada de Tóquio resultou em outra grande redução


de tarifas. Pela primeira vez o GATT tratou da questão das barreiras não tarifárias,
estabeleceu códigos de conduta referentes a tais barreiras e fez pequenas e
modestas reduções nas barreiras comerciais na área agrícola. A rodada concedia
tratamento preferencial aos países em desenvolvimento. (FREIRE E ALMEIDA, 2008).

A Rodada Uruguai, foi longa, de 1986, iniciada durante uma reunião ministerial em
Punta del Este, Uruguai, da qual mais de 125 Estados participaram até 1994, com
111 Estados assinando o acordo em Marrakesh, no Marrocos, para criar a OMC.

Além da diminuição de mais de um terço das tarifas médias de proteção de todos


os produtos, inclusive agrícolas, a Rodada Uruguai inclui novos temas na mesa
de negociações. Os países industrializados, em particular os Estados Unidos da
América, conseguiram colocar na pauta a liberalização do setor terciário. Os serviços
de instituições financeiras, transportes, investimentos, seguros e propriedade
intelectual, foram incluídos na pauta da rodada. (SEITENFUS, 1997, p. 158).

A OMC nasceu de negociações, e tudo que ele faz é para as negociações. A


maior parte do trabalho atual da OMC vem das negociações no período 1986-
1994, a chamada Rodada Uruguai, e negociações anteriores no âmbito do
GATT. A OMC é, atualmente, o anfitrião a novas negociações no âmbito da
Agenda de Doha para o Desenvolvimento, lançado em 2001. (OMC).

O quadro abaixo do site do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e


Serviços, mostra o resumo das Rodadas de Negociação na história do
sistema multilateral de comércio:

Quadro 1 - Resumo das Rodadas de Negociação

Países
Rodada Período Temas cobertos
Participantes

Genebra 1947 23 Tarifas

Annecy 1949 13 Tarifas

Torquay 1950 - 1951 38 Tarifas

Genebra 1955 - 1956 26 Tarifas

Dillon 1960 -1961 26 Tarifas

Kennedy 1964 - 1967 62 Tarifas e antidumping.

83
Capítulo 4

Tóquio 1973 - 1979 102 Tarifas, Medidas não tarifárias, Cláusula de


Habilitação.

Uruguai 1986 - 1993 123 Tarifas, Agricultura, Serviços, Propriedade


Intelectual, Medidas de Investimento, novo
marco jurídico, OMC.

Doha 2001 - ? 149 Tarifas, Agricultura, Serviços, Facilitação de


Comércio, Solução de Controvérsias, “Regras”.

Fonte: MDIC, 2017.

No âmbito do GATT, foram realizadas 8 Rodadas de Negociação e sob a OMC foi


lançada a Rodada Doha, com o objetivo de ser a Rodada do Desenvolvimento,
beneficiando, principalmente, os interesses dos países em desenvolvimento. (MDIC).

Seção 2
Organização Mundial do Comércio (OMC)
A OMC foi criada nas Negociações da Rodada Uruguai, firmada no curso da
Reunião Ministerial de Marraqueche, de 12 a 15 de abril de 1994, entrando em
vigor em 1 de janeiro de 1995. Sua sede está localizada em Genebra, Suíça, e até
29 de julho de 2016 contava com 164 Estados membros.

Roberto Carvalho Azevedo é o sexto diretor-geral da OMC. Foi eleito diretor geral em


7 de maio de 2013. Numa reunião do Conselho Geral, em 28 de fevereiro de 2017, os
membros da OMC acordaram, por consenso, nomeá-lo como Diretor Geral para um
segundo mandato de quatro anos, a partir de 1º de setembro de 2017. Roberto é um
diplomata brasileiro, que representa o Brasil na Organização Mundial do Comércio,
desde 2008. É considerado o diplomata brasileiro que mais entende de negociações
comerciais, bem preparado e com bom trânsito dentro da OMC.

Seu orçamento é formado por contribuição dos Estados membros no


percentual de comércio internacional que dominam. As línguas oficiais são
inglês, francês e espanhol. Tem personalidade jurídica própria, sendo, portanto,
sujeito de Direito Internacional.

A OMC é a única Organização Internacional que trata das regras que regem o comércio
entre os Estados. Os pilares sobre os quais repousa são os acordos da OMC, os quais

84
Direito Internacional Econômico

foram negociados e assinados pela maioria dos Estados que participam do comércio
mundial e são ratificados pelos respectivos parlamentos. (OMC).

Os acordos da OMC são longos e complexos porque são textos legais que
abrangem uma ampla gama de atividades. No entanto, todos esses documentos
são inspirados por vários princípios simples e fundamentais que sustentam o
sistema de comércio multilateral. (OMC).

O Acordo resultante da reunião de Marraqueche é composto de quatro anexos,


subdivididos também em outros anexos. O novo Acordo Geral sobre Tarifas e
Comércio (chamado de GATT 1994, em substituição ao GATT 1947) é um dos 13
Acordos Multilaterais contidos no Anexo 1A. O Acordo Geral sobre o Comércio
de Serviços (GATS) está incluído no Anexo 1B, enquanto o Acordo sobre os
Aspectos Relacionados com os Direitos de Propriedade Intelectual (TRIPS) faz
parte do Anexo C. (AGUILLAR, 2006, p. 344).

O objetivo é assegurar que o comércio seja conduzido de maneira harmoniosa,


com a abertura do comércio para o benefício de todos.

A OMC pode ser vista a partir de diferentes perspectivas. É uma organização


para a abertura do comércio; é um fórum para os governos negociarem acordos
comerciais; é um lugar para resolver suas disputas comerciais e aplica-se um
sistema de regras comerciais. Essencialmente, a OMC é um lugar em que os
governos membros tentam resolver os problemas comerciais enfrentados uns
com os outros. (OMC).

A OMC tem várias funções, vejamos:

•• Administra um sistema global de regras comerciais;


•• Funciona como fórum para a negociação de acordos comerciais;
•• Lida com a solução de disputas comerciais entre os seus membros;
•• Serve as necessidades dos países em desenvolvimento, prestando
assistência técnica e capacitação;
•• Cooperação com outras Organizações Internacionais;
•• Supervisiona as políticas nacionais de comércio.

Para Benjamin (2013, p. 31), a OMC foi criada pelo Acordo de Marraqueche
para desempenhar três funções principais: monitorar o comércio internacional
e as políticas comerciais dos seus Membros; servir de foro de negociações
permanente que facilitasse o aperfeiçoamento das regras que pautam o sistema
multilateral de comércio e facilitar, por meio de um mecanismo transparente e
objetivo, a solução de controvérsias entre os membros da Organização.

85
Capítulo 4

Estrutura do OMC
A estrutura orgânica da OMC é formada por quatro níveis:

•• Primeiro nível – a Conferência Ministerial;


•• Segundo nível - o Conselho Geral (Órgão de Solução de
Controvérsias e o Órgão de Exame das Políticas Comerciais);
•• Terceiro nível – os três Conselhos (Bens, Serviços e Propriedade
Intelectual);
•• Quarto nível – os vários Comitês e um Secretariado.

Vejamos o organograma da estrutura da OMC:

Figura 1 - Organograma da Estrutura da OMC

Fonte: OMC, 2017.

86
Direito Internacional Econômico

A partir de agora você verá com mais detalhes os órgãos principais da OMC:

Conferência Ministerial
Órgão máximo, composto por representantes de todos os Estados membros,
na figura do Ministro de Relações Exteriores ou do Ministro do Comércio
Exterior. A Conferência Ministerial geralmente se reúne a cada dois anos para
tomar decisões importantes sobre os assuntos que se enquadram no âmbito de
qualquer dos Acordos Multilaterais de Comércio.

O quadro abaixo demonstra o local e a data das Conferências Ministeriais:

Quadro 2 - Conferências Ministeriais

Local Data

Singapura 9 a 13 de dezembro de 1996.

Genebra 18 a 20 de maio de 1998.

Seattle 30 de novembro a 3 de dezembro de 1999. 

Doha 9 a 13 de novembro de 2001.

Cancun 10 a 14 de setembro de 2003.

Hong Kong 13 a 18 de dezembro de 2005.

Genebra 30 de novembro a 2 de dezembro 2009.

Genebra 15 a 17 de dezembro de 2011.

Bali 3 a 6 de dezembro de 2013.

Nairobi 15 a 19 de dezembro de 2015.

Buenos Aires 11 a 14 de dezembro de 2017.

Fonte: Autora, 2017.

Conselho Geral
É o órgão-diretor. Reúne-se periodicamente, várias vezes por ano, em Genebra,
para executar as funções da OMC. Deve-se reunir, ao menos uma vez por mês.
Também é composto por representantes de todos os Estados - membros, só
que, diferentemente da Conferência Ministerial, os governos são representados
pelos embaixadores permanentes dos Estados em Genebra, ou por delegados
das missões. O Conselho tem a faculdade de atuar na Conferência Ministerial.
Atualmente, o presidente é o Embaixador Xavier Carim, da África do Sul.

87
Capítulo 4

O Conselho Geral reúne-se também, segundo regras diferentes, como o Órgão de


Solução de Controvérsias (OSC) e como o Órgão de Análise Política Comercial.

Órgão de solução de controvérsias (OSC)


O acordo constitutivo da OMC previu a criação de um mecanismo de
solução de controvérsias, cujas características, definidas na Rodada Uruguai,
consubstanciaram-se no Entendimento sobre as Regras e Procedimentos que
Governam a Solução de Controvérsias (ESC) 6, responsável pela modificação
dos artigos XXII 7 e XXIII 8 do GATT. A aplicação desse aparato normativo cabe ao
Órgão de Solução de Controvérsias (OSC), que é uma especialização funcional do
Conselho Geral da OMC. (PANDIN, 2015).

O Conselho Geral reúne-se como OSC para lidar com as disputas entre os
membros da OMC. Tais disputas podem surgir em relação a qualquer acordo
constante do Ato Final da Rodada Uruguai que esteja sujeito ao ESC. O OSC tem
autoridade para estabelecer painéis de resolução de litígios, encaminhar questões
à arbitragem, adotar painel, órgão de apelação e relatórios de arbitragem, manter
vigilância sobre a implementação das recomendações e decisões contidas
em tais relatórios e autorizar a suspensão de concessões, em caso de não
cumprimento das recomendações e decisões. (OMC).

A resolução de conflitos comerciais é uma das principais atividades da OMC. Uma


disputa surge quando um Estado membro acredita que outro Estado membro está
violando um acordo ou um compromisso que assumiu na OMC. (OMC).

Normalmente, as controvérsias que surgem na OMC se referem às promessas


não cumpridas. Dessa forma, surge um conflito quando um Estado adota uma
política comercial ou toma uma medida e o outro membro considera que ela

6. Entendimento sobre Solução de Controvérsias (ESC). Anexo 2 do Acordo da OMC. (OMC).

7. 1. Cada Parte Contratante examinará com compreensão as representações que lhe sejam encaminhadas
por qualquer outra Parte Contratante e deverá se prestar a consultas a respeito daquelas representações,
desde que elas digam respeito a questões relativas à aplicação do presente Acordo. 2. As Partes Contratantes
poderão, a pedido de uma das Partes Contratantes, entrar em entendimentos com uma ou várias Partes
Contratantes sobre questões para as quais a solução satisfatória não poderia ser alcançada por meio das
consultas previstas no parágrafo primeiro. (GATT, 1947).

8. 2. Se as Partes Contratantes interessadas não chegarem a um Acordo satisfatório dentro de um prazo


razoável, ou se a dificuldade for uma das previstas no § 1 (c) deste artigo, a questão poderá ser submetida às
Partes Contratantes. As Partes Contratantes iniciarão, sem demora, uma investigação sobre qualquer assunto
que lhes seja submetido e, se julgarem conveniente, dirigirão recomendações especiais e apropriadas às
partes Contratantes que julguem interessadas, ou baixarão normas sobre a questão. As Partes Contratantes,
quando acharem necessário, poderão efetuar consultas com as outras Partes Contratantes, com o Conselho
Econômico e Social das Nações Unidas e com qualquer outra organização intergovernamental competente.
Se elas consideram que as circunstâncias são suficientemente graves para justificar uma tal medida,
poderão autorizar uma ou várias Partes Contratantes a suspender, com respeito a tal outra ou tais outras
Partes Contratantes, a aplicação de qualquer concessão ou outra obrigação resultante do Acordo geral cuja
suspensão justificada elas examinarão, levando em conta as circunstâncias. Se uma tal concessão ou outra
obrigação for efetivamente suspensa com respeito a uma Parte Contratante, será permitido à referida Parte
Contratante, no prazo de 60 dias, a contar da data da aplicação dessa suspensão, notificar por escrito ao
Secretário Executivo das Partes Contratantes, sua intenção de denunciar o Acordo geral. Essa denúncia se
efetuará ao término do prazo de 60 dias, contados a partir da data em que o Secretário executivo das Partes
Contratantes tiver recebido a aludida notificação. (GATT, 1947).

88
Direito Internacional Econômico

desrespeita as normas da OMC ou constitui um descumprimento das obrigações


contraídas. Um terceiro grupo de Estados pode declarar que têm interesse na
questão, o que lhe faz possuidor de certos direitos.

A OMC possui um dos mecanismos mais ativos de resolução internacional de


litígios no mundo. Desde 1995, mais de 500 litígios foram trazidos para a OMC e
foram emitidas mais de 350 decisões. (OMC).

A solução de controvérsias é o pilar central do sistema comercial multilateral e a


contribuição única da OMC para a estabilidade da economia global. Sem um meio
de resolver disputas, o sistema baseado em regras seria menos eficaz porque as
regras não poderiam ser aplicadas. O procedimento da OMC ressalta o estado de
direito e torna o sistema comercial mais seguro e previsível. O sistema é baseado
em regras claramente definidas. (OMC).

No entanto, o ponto não é julgar. A prioridade é resolver litígios, por meio de


consultas, se possível. Em janeiro de 2008, apenas cerca de 136 dos quase 369
casos haviam chegado ao processo de painel completo. (OMC).

Ocorre uma disputa quando um Estado adota uma medida de política comercial
ou toma alguma ação que um ou mais membros da OMC consideram que estão
quebrando os acordos da OMC, ou a falta de cumprimento de obrigações. (OMC).

Um procedimento para resolver disputas existia sob o antigo GATT, mas não
tinha horários fixos, as decisões eram mais fáceis de bloquear, e muitos casos
arrastaram por um longo tempo. O acordo da Rodada Uruguai introduziu
um processo mais estruturado, com etapas mais claramente definidas no
procedimento. O acordo enfatiza que a pronta solução é essencial para que a
OMC funcione eficazmente. (OMC).

Nesse sentido, o procedimento de resolução de controvérsias da OMC fortalece as


normas, dá maior segurança jurídica e previsibilidade, pois tem por base normas
claramente definidas, além de estabelecer prazos para realizar os procedimentos.

Convém aqui mencionar que o procedimento é, em grande parte, equivalente


ao de um tribunal ou corte de justiça, e a prioridade dada pela OMC é que
os conflitos sejam resolvidos de forma pacífica entre as partes, mediante a
celebração de consultas. Assim, a primeira etapa do procedimento consiste na
celebração de consultas entre os governos-partes no conflito, e ainda que o caso
siga o curso e chegue a outras etapas, poderá, sempre que possível, celebrar
consultas e a mediação.

A resolução de litígios é da responsabilidade do OSC, a qual consiste em todos


os membros da OMC. O OSC tem a autoridade exclusiva para estabelecer
painéis de peritos para considerar o caso e aceitar ou rejeitar as conclusões

89
Capítulo 4

dos painéis ou os resultados de um recurso. Ele monitora a implementação das


decisões e recomendações e tem o poder de autorizar retaliação quando um
país não cumpre uma decisão.

Entre os objetivos do método de solução de controvérsias da OMC, podemos citar:

Segurança e previsibilidade nas relações jurídicas - Os sujeitos (indivíduos


e empresas) que participam do comércio internacional necessitam estabilidade
e previsibilidade nas leis, normas e regulamentos dos Estados que regulam sua
atividade comercial. Em face disso, o ESC proporciona um sistema normativo
rápido, eficiente e de confiança para resolver as controvérsias relativas à
aplicação das disposições dos acordos da OMC, fortalecendo, desse modo,
o cumprimento das normas, o processo de solução de controvérsias da OMC,
torna o sistema de comércio mais seguro e previsível. Além disso, se algum
membro descumprir os acordos, o sistema de solução de controvérsias permite
resolver com certa rapidez a situação, ao formular uma resolução independente,
a qual deve aplicar-se com prontidão, caso contrário, o membro infrator poderá
sofrer sanções comerciais.

Preservar direitos e obrigações dos acordos - O sistema de solução de


controvérsias da OMC proporciona aos membros mecanismos que garantem a
observância de seus direitos.

Esclarecimento dos direitos mediante a interpretação das normas - muitas


vezes não se pode observar com clareza o alcance de determinados direitos e
obrigações, porque, com frequência, as disposições jurídicas estão redigidas
em termos gerais, para que se possa aplicar a uma série de casos individuais,
ou então, não estão dispostas em termo claros e precisos. Por esses motivos,
frequentemente é necessário interpretar as disposições aplicáveis a um caso em
particular (artigo 3, artigo 17; do ESC), esclarecendo alguns direitos.

Artigo 3: Disposições gerais


(...)
2. O sistema de solução de controvérsias da OMC é um elemento
central no fornecimento de segurança e previsibilidade ao
sistema multilateral de comércio. Os Membros reconhecem que
serve para preservar os direitos e obrigações dos Membros nos
termos dos acordos abrangidos e para esclarecer as disposições
existentes desses acordos, de acordo com as regras habituais de
interpretação do direito internacional público. Recomendações e
decisões do DSB não podem adicionar ou diminuir os direitos e
obrigações previstos nos acordos abrangidos. (OMC).

90
Direito Internacional Econômico

Artigo 17: Revisão de apelação


(...)
6. O recurso deve ser limitado às questões de direito abrangidas
pelo relatório do painel e nas interpretações legais desenvolvidas
pelo painel. (OMC).

Solução pacífica- A OMC deseja que, ocorrendo um conflito, os membros


cheguem a um acordo entre si, sem intervenção da organização por meio
das consultas. No entanto, se recorre à via jurisdicional somente quando as
partes não conseguem chegar a uma solução pacífica mutuamente. Nesse
sentido, o ESC exige que sejam celebradas consultas formais antes de iniciado
o procedimento. Ademais, permite-se que durante e a qualquer momento do
procedimento jurisdicional as partes cheguem a um acordo pelas negociações
bilaterais (artigo 3 e art. 11 do ESC).

Artigo 3: Disposições gerais


(...)
7. Antes de apresentar uma causa, um Membro deve exercer o
seu julgamento sobre se a ação sob estes procedimentos será
frutuosa. O objetivo do mecanismo de solução de controvérsias
é garantir uma solução positiva para uma disputa. Uma
solução mutuamente aceitável para as partes em uma disputa
e consistente com os acordos abrangidos é claramente
preferível. Na ausência de uma solução mutuamente acordada,
o primeiro objetivo do mecanismo de solução de controvérsias
é, em geral, assegurar a retirada das medidas em questão se
estas forem incompatíveis com as disposições de qualquer
dos acordos abrangidos. A provisão de compensação só deve
ser recorrida se a retirada imediata da medida for impraticável
e como uma medida temporária na pendência da retirada da
medida que seja incompatível com um acordo abrangido. O
último recurso que o presente Memorando fornece ao Membro
que invoca os procedimentos de resolução de litígios é a
possibilidade de suspender a aplicação de concessões ou
outras obrigações ao abrigo dos acordos abrangidos de forma
discriminatória em relação ao outro Membro, sob reserva da
autorização do DSB De tais medidas. (OMC).
Artigo 11: Função dos painéis
A função dos painéis é auxiliar o DSB no cumprimento das
suas responsabilidades ao abrigo do presente acordo e dos
acordos abrangidos. Por conseguinte, um painel deve fazer uma
avaliação objectiva do assunto que lhe foi submetido, incluindo

91
Capítulo 4

uma avaliação objectiva dos factos do caso e a aplicabilidade


e conformidade com os acordos abrangidos relevantes, e
fazer outras descobertas que irão ajudar o DSB a fazer o
Recomendações ou em dar as decisões previstas nos acordos
abrangidos. Os painéis devem consultar regularmente as partes
na disputa e dar-lhes oportunidades adequadas para desenvolver
uma solução mutuamente satisfatória. (OMC).

Solução da controvérsia de forma breve - o ESC estabelece os procedimentos


e os prazos que devem ser aplicados na solução da controvérsia. Quando um
assunto entra na etapa jurisdicional, em regra, não deverá transcorrer mais de 1
(um) ano até a formulação da resolução pelo painel, nem mais de 1 (um) ano e 4
(quatro) meses, caso se interponha uma apelação (artigo 20 do ESC). Contudo,
caso o reclamante acredite que o caso é urgente, seu exame deverá levar um
tempo ainda menor (artigo 4 e do artigo 12 do ESC).

Artigo 4: Consultas
(...)
9. Nos casos de urgência, incluindo os que dizem respeito a
bens perecíveis, as partes na disputa, os painéis e o Órgão de
Apelação envidarão todos os esforços para acelerar o processo
na medida do possível. (OMC).
Artigo 12: Procedimentos do Painel
(...)
8. Para tornar os procedimentos mais eficientes, o período
em que o painel deve realizar seu exame, desde a data em
que a composição e os termos de referência do painel foram
acordados até a data em que o relatório final é emitido às
partes. Para a disputa, deve, como regra geral, não exceder
seis meses. Em casos de urgência, incluindo os relativos a bens
perecíveis, o painel deverá enviar o seu relatório às partes na
disputa no prazo de três meses. (OMC).

Proibição de aplicação de ações de forma unilateral - No ESC, os membros


convencionaram que em caso de qualquer desavença deve-se buscar o sistema
multilateral para resolver suas diferenças comerciais no marco da OMC, em vez
de recorrer à ação unilateral (artigo 23 do ESC), ou seja, os membros devem
acatar os procedimentos convencionados e respeitar as resoluções do OSC,
abstendo-se de aplicar qualquer medida (sanção) unilateralmente.

92
Direito Internacional Econômico

Artigo 23: Fortalecimento do Sistema Multilateral


1. Quando os Membros procuram a reparação de uma violação de
obrigações ou outra anulação ou redução de benefícios nos termos
dos acordos abrangidos ou um impedimento para a consecução
de qualquer objetivo dos acordos abrangidos, eles devem recorrer
e cumprir as regras e Procedimentos deste entendimento.
2. Nesses casos, os deputados devem:
(A) não tomar uma determinação no sentido de que ocorreu uma
violação, que os benefícios foram anulados ou prejudicados ou
que a consecução de qualquer objetivo dos acordos cobertos
tenha sido impedida, exceto através do recurso à resolução de
litígios de acordo com as regras e Procedimentos do presente
entendimento e devem fazer tal deliberação compatível com
as conclusões contidas no relatório do painel ou do órgão de
recurso adotado pelo DSB ou de uma sentença arbitral proferida
no âmbito do presente entendimento;
(B) siga os procedimentos estabelecidos no Artigo 21 para
determinar o prazo razoável para que o Membro interessado
implemente as recomendações e decisões; e
(C) seguir os procedimentos estabelecidos no Artigo 22 para
determinar o nível de suspensão de concessões ou outras
obrigações e obter autorização DSB de acordo com esses
procedimentos antes de suspender concessões ou outras
obrigações nos termos dos acordos cobertos em resposta
ao fracasso do Membro interessado para implementar as
recomendações e decisões dentro desse prazo razoável. (OMC).

Obrigatoriedade do sistema e Jurisdição exclusiva - Quando um membro tiver


um conflito com outro membro relacionado com as normas da OMC, ele deverá
adotar, obrigatoriamente, o sistema de solução de controvérsias da Organização.
Assim, diferentemente de outros sistemas de controvérsias internacionais, não é
necessário que as partes aceitem previamente a jurisdição do sistema da OMC,
visto que esse figura na fórmula de adesão do membro à Organização. Ademais,
quando o membro recorrer ao sistema de solução de conflitos da OMC, além de
estar impedido de aplicar qualquer medida de forma unilateral, também estará
impedido de recorrer a qualquer outro foro para solucionar a lide (artigo 23 do ESC).

93
Capítulo 4

Veja o quadro dos períodos aproximados para cada etapa de um procedimento


de resolução de litígios na OMC:

Quadro 3 - Períodos aproximados das etapas de um procedimento de resolução de litígios na OMC.

60 dias Consultas, mediação etc.

45 dias Painel configurado e painel designado

6 meses Relatório final do painel para as partes

3 semanas Relatório final do painel para os membros da OMC

60 dias O OSC adota relatório (se não for recurso)

Total = 1 ano (Sem recurso)

60-90 dias Relatório de apelação

30 dias O OSC adota relatório de recursos

Total = 1h 3m (Com recurso)

Fonte: OMC, 2017.

Vejamos de maneira detalhada cada etapa do procedimento de resolução de


litígios na OMC:

•• Primeira etapa: consulta e mediação (até 60 dias) -  Antes de tomar


qualquer outra ação, os Estados em disputa devem conversar um
com o outro para ver se eles podem resolver suas diferenças. Se
infrutífera a conversa, eles também podem pedir ao diretor-geral da
OMC para mediar ou tentar ajudar de qualquer outra forma.
•• Segunda etapa:  painel (até 45 dias para um painel a ser nomeado
e mais 6 meses para o painel concluir) -  Se as consultas falharem,
o Estado reclamante pode pedir que um painel seja nomeado. O
Estado pode bloquear a criação de um painel uma vez, mas quando
o órgão de resolução de litígios se encontra pela segunda vez, o
compromisso não pode mais ser bloqueado (a menos que haja um
consenso em relação à nomeação do painel).

O relatório final do painel deve ser normalmente entregue às partes na disputa


no prazo de seis meses. Em casos de urgência, incluindo os relativos a bens
perecíveis, o prazo é reduzido para três meses.

94
Direito Internacional Econômico

Os principais estágios dos painéis são:

•• Antes da primeira audiência - cada lado da disputa apresenta seu


caso por escrito ao painel.
•• Primeira audiência - o Estado reclamante (ou Estados), o Estado
reclamado e os que anunciaram ter interesse na disputa fazem sua
defesa na primeira audiência do painel.
•• Réplicas - os Estados envolvidos apresentam réplicas escritas e
apresentam argumentos orais na segunda reunião do painel.
•• Especialistas (peritos, expertos) - se um lado suscitar questões
científicas ou outras questões técnicas, o painel pode consultar
peritos ou nomear um grupo de revisão de especialistas para
elaborar um relatório consultivo.
•• Projeto inicial - painel envia os capítulos expositivos (fatos e
argumentações) de seu relatório a ambas as partes na controvérsia,
além de dar um prazo de duas semanas para que as partes
façam qualquer formulação. Nesse relatório, não se incluem as
constatações e conclusões.
•• Relatório provisório - na continuação, o painel envia um relatório
provisório (no qual se incluem as constatações e as conclusões)
às partes e dá um prazo de duas semanas para que essas
solicitem um reexame.
•• Reexame: o período de reexame não deve exceder duas
semanas. Durante esse tempo, o painel pode celebrar novas
reuniões com as partes.
•• Relatório Definitivo -  é enviado às partes e, 3 semanas mais tarde,
distribuído a todos os membros da OMC. Se o painel decide
que a medida comercial objeto da lide constitui uma infração de
um acordo da OMC ou o não cumprimento de uma obrigação
decorrente das disposições da OMC, recomenda que se ponha
em conformidade com essas disposições. O painel pode sugerir a
maneira como deverá ser feita.
•• Resolução - passados 60 dias, o relatório se converte em uma
resolução ou recomendação do OSC, a não ser que se rejeite por
consenso. As partes na controvérsia podem apelar (e em alguns
casos, ambas o fazem).

95
Capítulo 4

Os painéis são como tribunais. Mas, ao contrário de um tribunal normal, os painelistas


são geralmente escolhidos em consulta com os Estados em disputa. Somente se os
dois lados não concordarem, o diretor-geral da OMC os nomeará.

Os painéis consistem em três ou cinco peritos de diferentes Estados que


examinam a evidência e decidem quem é certo e quem está errado. O relatório do
painel é passado para o órgão de resolução de controvérsias, que só pode rejeitar
o relatório por consenso.

Os painelistas para cada caso podem ser escolhidos a partir de uma lista


indicativa de candidatos bem qualificados, nomeados pelos membros da
OMC, embora outros possam ser considerados também, inclusive aqueles
que anteriormente se apresentaram como integrantes do painel. Os membros
do painel servem em suas capacidades individuais. Eles não podem receber
instruções de nenhum governo. A lista indicativa é mantida pela Secretaria
e periodicamente revisada, de acordo com as modificações ou adições
apresentadas pelos Membros.

Qualquer um dos lados pode apelar à decisão de um painel, às vezes, ambos


os lados fazem isso. Os apelos devem basear-se em pontos jurídicos, como a
interpretação legal. Não podem reexaminar evidências existentes ou examinar
novos problemas.

Cada um deles é ouvido por três membros de um órgão de apelação permanente


de sete membros, criado pelo órgão de resolução de litígios. Os membros do Órgão
de Apelação têm que ser indivíduos com posição reconhecida no campo da lei e do
comércio internacional e não devem estar vinculados a nenhum governo.

Diferentemente dos painéis, o Órgão de apelação é um organismo permanente,


composto de sete membros, que se ocupa de examinar os aspectos jurídicos dos
relatórios emitidos pelos painéis.

O recurso pode manter, modificar ou reverter as conclusões jurídicas do


painel. Normalmente, os recursos não devem durar mais de 60 dias, com no
máximo de 90 dias.

O órgão de resolução de litígios deve aceitar ou rejeitar o relatório de recursos


dentro de 30 dias, e a rejeição só é possível por consenso.

Esse órgão de apelação é a segunda e última instância da etapa jurisdicional.


Trata-se de uma novidade da Rodada de Uruguai, visto que não existia no antigo
sistema do GATT de 1947.

96
Direito Internacional Econômico

•• Terceira etapa: aplicação da resolução - Se um Estado fez algo


que não deveria fazer, deverá retificar-se rapidamente; e se segue
infringindo o acordo, deverá oferecer uma compensação ou sofrer
uma sanção adequada que lhe faça efeito. A questão prioritária
nessa etapa é que o Estado perdedor coloque sua política em
conformidade com a resolução ou recomendação.

O Estado perdedor deve seguir as recomendações do relatório do painel ou do


relatório de apelação (recurso). Deve indicar sua intenção em uma reunião do OSC,
realizada no prazo de 30 dias após a adoção do relatório. Se o cumprimento da
recomendação imediatamente se revelar impraticável, o Estado membro receberá um
período de tempo razoável (prazo prudencial) para fazê-lo. Se não adotas as medidas
dentro desse prazo, deve iniciar negociações com o Estado reclamante (ou Estados)
para determinar a compensação mutuamente aceitável, como por exemplo, reduções
tarifárias em áreas de particular interesse para o Estado reclamante.

Se, após 20 dias, nenhuma compensação satisfatória for acordada, o Estado


reclamante pode solicitar ao OSC a permissão para retaliar, ou seja, para
suspender concessões ou outras obrigações, com o objetivo de encorajar o
Estado perdedor a cumprir a decisão. 

A princípio, as sanções devem impor-se no mesmo setor no qual surgiu a diferença.


Se isso for impraticável ou ineficaz, poderá impor-se em um setor diferente no
marco do mesmo acordo. Se também isso for impraticável ou ineficaz, e as
circunstâncias são suficientemente graves, poderão adotar-se medidas no marco
de outro acordo. O objetivo buscado é reduzir ao mínimo a possibilidade de adoção
de medidas que tenham efeitos em setores não relacionados com a diferença e
procurar ao mesmo tempo medidas eficazes. Em qualquer caso, o OSC fiscaliza
a maneira com que se cumprem as resoluções adotadas. Todo caso pendente
permanece em sua ordem do dia, até que se resolva a questão.

Árbitros
Além dos painéis e do Órgão de Apelação, pode-se recorrer a árbitros para que
sejam resolvidas certas questões em várias etapas do processo.

A arbitragem é um meio de solução de controvérsias alternativo aos painéis e do


Órgão de Apelação (art. 25 do ESC). Os laudos arbitrais não são objetos de apelação.

97
Capítulo 4

Artigo 25: Arbitragem


1. A arbitragem expedita dentro da OMC como um meio
alternativo de resolução de litígios pode facilitar a solução de
certas disputas que dizem respeito a questões claramente
definidas por ambas as partes.
2. Salvo disposição em contrário do presente entendimento, o
recurso à arbitragem estará sujeito ao acordo mútuo das partes,
que deverá concordar com os procedimentos a seguir. Os
acordos para recorrer à arbitragem devem ser notificados a todos
os Membros com antecedência suficiente do início efetivo do
processo de arbitragem.
3. Outros Membros podem tornar-se parte de um processo
de arbitragem apenas mediante acordo das partes que
concordaram em recorrer à arbitragem. As partes no processo
devem concordar em cumprir a sentença arbitral. Os prêmios de
arbitragem devem ser notificados ao DSB e ao Conselho ou ao
Comitê de qualquer acordo pertinente em que qualquer Membro
possa levantar qualquer ponto relativo a ele.
4. Os artigos 21.º e 22.º do presente Acordo aplicam - se mutatis
mutandis aos prémios de arbitragem. (OMC).

O ESC prevê outras duas formas de arbitragem, muito mais frequentes, para
situações e questões específicas do processo de aplicação:

•• Depois que o OSC haja adotado o relatório do painel (ou do Órgão


de Apelação) – para determinação do prazo prudencial concedido ao
reclamado para a aplicação (artigo 21, (C) do ESC);

Artigo 21: Vigilância da Implementação de Recomendações e


Decisões
(...)
3. Em uma reunião do DSB realizada no prazo de 30 dias após a
data de adoção do relatório do painel ou do órgão de recurso, o
Membro em questão informará o DSB das suas intenções quanto
à implementação das recomendações e decisões do DSB. Se
for impraticável cumprir imediatamente as recomendações e
decisões, o Membro interessado terá um prazo razoável para
fazê-lo. O prazo razoável será:
(C) um período de tempo determinado através de arbitragem
vinculativa dentro de 90 dias após a data de adoção das
recomendações e decisões.  Em tal arbitragem, uma diretriz para
o árbitro deve ser que o prazo razoável para implementar as
recomendações do painel ou do Órgão de Apelação não deve exceder
15 meses a partir da data de adoção de um painel ou relatório do
Órgão de Apelação. No entanto, esse tempo pode ser mais curto ou
mais longo, dependendo das circunstâncias particulares. (OMC).

98
Direito Internacional Econômico

•• Quando a parte vencida está obrigada a aplicar as resoluções


e recomendações do OSC - quando a parte que sofre retorsão
impugna o nível ou a natureza da suspensão de obrigações proposta
(artigo 22 (6 e 7) do ESC).

Artigo 22: Compensação e Suspensão de Concessões


(...)
6. Quando a situação descrita no parágrafo 2 ocorrer, o DSB,
mediante solicitação, deverá conceder autorização para
suspender concessões ou outras obrigações no prazo de 30
dias após o termo do prazo razoável, a menos que o DSB
decida por consenso rejeitar o pedido. No entanto, se o Membro
interessado se opuser ao nível de suspensão proposto ou alega
que os princípios e procedimentos estabelecidos no parágrafo
3 não foram seguidos quando uma parte reclamante solicitou
autorização para suspender concessões ou outras obrigações
de acordo com o parágrafo 3 (b) Ou (c), o assunto deve ser
encaminhado à arbitragem. Essa arbitragem será realizada
pelo painel inicial, se os membros estiverem disponíveis ou
por um árbitro (15) nomeado pelo Diretor-Geral e deverá ser
completado no prazo de 60 dias após a expiração do prazo
razoável. Concessões ou outras obrigações não devem ser
suspensas durante a arbitragem.
7. O árbitro (16) agindo de acordo com o parágrafo 6 não deve
examinar a natureza das concessões ou outras obrigações a
serem suspensas, mas determinará se o nível dessa suspensão é
equivalente ao nível de anulação ou impairment. O árbitro também
pode determinar se a suspensão proposta de concessões ou outras
obrigações é permitida ao abrigo do contrato coberto. No entanto,
se o assunto referido à arbitragem incluir uma reivindicação de
que os princípios e procedimentos estabelecidos no parágrafo 3
não foram seguidos, o árbitro examinará esse pedido. No caso
de o árbitro determinar que esses princípios e procedimentos
não tenham sido seguidos, a parte reclamante deve aplicá-los de
acordo com o parágrafo 3. As partes aceitarão a decisão do árbitro
como final e as partes interessadas não buscarão uma segunda
arbitragem. O DSB deve ser informado prontamente da decisão
do árbitro e, mediante solicitação, concederá autorização para
suspender concessões ou outras obrigações quando o pedido for
consistente com a decisão do árbitro, a menos que o DSB decida
por consenso rejeitar o pedido. (OMC).

Essas duas possibilidades de arbitragem se limitam a esclarecer questões


muito específicas no processo de aplicação, e dão lugar a decisões que são
vinculantes para as partes.

99
Capítulo 4

O Brasil no Sistema de Solução de Controvérsias da OMC


Para o Brasil, trata-se de um dos eixos centrais de sua ação na área comercial.
De forma coerente com sua tradição de privilegiar a solução pacífica de
controvérsias e o multilateralismo, o Brasil não tem hesitado em recorrer ao
sistema quando medidas adotadas por outros países, em desrespeito às regras
multilaterais de comércio, afetem interesses comerciais brasileiros. (MRE).

O Brasil é, nesse contexto, um dos membros mais atuantes do sistema de


solução de controvérsias da OMC.  Foi um dos pioneiros a utilizar o sistema,
tendo participado como Parte principal do primeiro contencioso iniciado ao
amparo do ESC, que ultrapassou a fase de consultas e chegou à etapa de
apelação. Esse primeiro contencioso foi o caso US – Gasoline. (MRE).

Estados Unidos – Gasolina: O Brasil questionou as restrições


impostas pelos EUA, sobre o pretexto de proteção do meio
ambiente, à importação de gasolina. O Brasil conseguiu
demonstrar que a gasolina importada era submetida a condições
de venda menos favoráveis do que as oferecidas à gasolina
doméstica, e que a medida americana não poderia ser justificada
por meio das exceções aos acordos da OMC. (MRE).

Com 29 casos como demandante, 19 como demandado e 103 participações como


terceira parte em contenciosos sobre os mais variados temas, o Brasil está entre os
seis principais usuários do sistema, atrás apenas dos EUA, da União Europeia, do
Canadá, da China e da Índia. Ainda hoje, o Brasil é um país em desenvolvimento
que mais vezes participou como Parte demandante de procedimentos de solução
de controvérsias. Atualmente, o Brasil está atuando em 5 contenciosos como parte
principal, 2 como parte demandada e 3 como demandante. (MRE).

Vejamos o resumo dos principais casos em que o Brasil atuou como Parte demandante:

Embraer-Bombardier
O embate entre Embraer e Bombardier iniciou-se em 1996, quando a empresa
canadense questionou junto à OMC os subsídios concedidos à Embraer por meio
do “PROEX-Equalização 9”. Em resposta, o Brasil iniciou disputa contra o Canadá,
em razão dos subsídios concedidos pela Província de Quebec à Bombardier. O
Brasil logrou, assim, empatar o jogo: obteve autorização para retaliar o Canadá

9. O Proex Equalização é o mecanismo através do qual o governo brasileiro arca com parte dos encargos
financeiros incidentes no financiamento à exportação, de forma a tornar as taxas de juros equivalentes às
praticadas internacionalmente. (BANCO DO BRASIL).

100
Direito Internacional Econômico

em montante semelhante àquele que fora obtido pelo governo canadense contra
o Brasil. Isso levou ambos os países à mesa de negociação, o que resultou, em
2007, na revisão das regras de crédito de exportação de aeronaves no âmbito da
Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Comunidades Europeias – Açúcar


Em 2002, o Brasil recorreu à OMC contra os subsídios concedidos pelas
Comunidades Europeias (CE) ao açúcar. Embora as CE fossem o maior
exportador mundial de açúcar, o custo de produção de açúcar na Europa era 4
a 6 vezes maior do que no Brasil. As CE produziam açúcar a um custo altíssimo
e vendiam no mercado internacional a um preço muito mais baixo, o que só
era possível em virtude dos vultosos subsídios pagos aos produtores. Como
resultado da vitória brasileira no contencioso, as exportações europeias de açúcar
passaram de quase 7 milhões de toneladas na safra 2000-2001 para 2,2 milhões
de toneladas na safra 2011-2012, e as exportações brasileiras de açúcar dobram
a partir do primeiro ano do contencioso.

Estados Unidos – Algodão


Em dos mais longos contenciosos da história da OMC (2002-2014), o Brasil
questionou, com êxito, os subsídios concedidos pelos EUA à produção doméstica
e à exportação de algodão no período 1999-2002 (US$ 12,9 bilhões). Em 2001,
para um valor total de produção de US$ 3 bilhões, os subsídios chegaram a
quase US$ 4,2 bilhões. Diante da recusa americana em cumprirem as decisões
do Órgão de Apelação da OMC, o Brasil obteve o direito de retaliar os EUA, tanto
em bens como em propriedade intelectual, no valor de US$ 829 milhões para
o ano de 2009. Com a determinação do governo brasileiro de levar adiante as
retaliações, os EUA viram-se obrigados a negociar com o Brasil uma solução
de mutuamente acordada. Disso resultou Acordo Quadro nos termos do qual,
como contrapartida para o fim do contencioso, os EUA acordaram em pagar ao
Brasil compensação superior a de US$ 800 milhões. Os recursos são destinados
para projetos de desenvolvimento e modernização da cotonicultura brasileira,
empreendidos pelo Instituto Brasileiro do Algodão 10.

10. Em 2010, os governos do Brasil e Estados Unidos da América acordaram na criação de um fundo com
recursos oriundos do Commodity Credit Corporation, órgão pertencente ao governo americano, como solução
parcial do contencioso do algodão na Organização Mundial do Comércio – OMC (WT/DS267) entre esses
dois governos relativa aos subsídios concedidos pelo governo americano a seus produtores. Assim, surgiu o
Instituto Brasileiro do Algodão – IBA, associação civil sem fins lucrativos fundada em junho de 2010, para gerir
esses recursos, com o objetivo de promover o desenvolvimento e fortalecimento da cotonicultura brasileira,
observando as melhores práticas de gestão, governança e transparência. (IBA).

101
Capítulo 4

Comunidades Europeias (CE) – Frango Salgado


Em 2003, o Brasil questionou a mudança da classificação tarifária aplicada pela
CE às importações de frango salgado, que resultou em acentuada elevação da
tarifa de importação, com consequentes prejuízos às exportações brasileiras.
O Brasil saiu-se vitorioso na OMC, o que lhe permitiu não apenas preservar seu
acesso ao mercado europeu de frango, mas também obter concessões em outros
produtos. Foram acordadas as seguintes quotas: (i) 170 mil ton/ano de frango
com tarifa de 15,4%; (ii) 92 mil ton./ano de carne de peru com tarifa de 8,5%; (iii)
79 mil ton./ano de preparações à base de frango com tarifa de 8%.

Estados Unidos – Suco de Laranja


Em 2007, o Brasil questionou a sistemática adotada pelos Estados Unidos para
aplicação de medidas antidumping 11, adotadas pelo Departamento de Comércio
dos EUA, contra as exportações brasileiras de suco de laranja, bem como à forma
de cálculo da margem antidumping por meio do zeroing. Esse método de cálculo
não somente afeta a determinação sobre a existência de dumping, como infla as
margens de direitos antidumping. Após a condenação desse método de cálculo
no contencioso movido pelo Brasil, os EUA decidiram por fim ao uso do zeroing,
que já havia sido objeto de outras disputas.

Para o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, considera-se que


há prática de dumping quando uma empresa exporta para o Brasil um produto a
preço de exportação inferior àquele que pratica para o produto similar nas vendas
para o seu mercado interno (valor normal). Dessa forma, a diferenciação de
preços já é por si só considerada como prática desleal de comércio. (MDIC).

Indonésia – Frango
Em 2015, o Brasil questionou na OMC as barreiras comerciais impostas pela
Indonésia à importação de carne de frango e produtos de frango. Desde 2009, esse
conjunto de medidas restritivas resultou na proibição da importação de frango de
qualquer origem. As restrições comerciais da Indonésia são variadas, envolvendo
um complexo sistema de licenciamento de importação, atraso na aprovação
sanitária do Brasil e de seus produtores, proibição de importação de certos
produtos de frango e limitação da venda do frango importado a determinados
segmentos do mercado local. O contencioso ainda está em fase de painel, estando
prevista a divulgação do relatório final apenas no primeiro semestre de 2017.

11. As medidas de defesa comercial consistem na aplicação de direitos antidumping e direitos compensatórios,
provisórios ou definitivos – a fim de neutralizar efeitos de práticas desleais de comércio de determinado país
ou grupo de países –, ou na aplicação de salvaguardas, as quais consistem em medidas tarifárias ou restrições
quantitativas necessárias em face de surtos de importações de diversas origens, com vistas a coibir prejuízo
grave à indústria nacional. (CAMEX).

102
Direito Internacional Econômico

Indonésia – Carne Bovina


O Brasil solicitou, em abril de 2016, consultas à Indonésia em função de
restrições impostas pelo país asiático às exportações de carne bovina brasileira.
O contencioso diz respeito a uma série de medidas legais e administrativas
indonésias, que dão ensejo, de fato e de direito, ao banimento da carne brasileira
daquele mercado, em desconformidade com as obrigações assumidas por aquele
país asiático no âmbito dos acordos aplicados na OMC. O Brasil ainda não solicitou
o estabelecimento de painel, pois o caso está em fase de análise e preparação.

Tailândia – Açúcar
Em 2016, o Brasil apresentou ao OSC da OMC pedido de consultas à Tailândia,
quando questionou a prática do governo tailandês de concessão de apoio aos
produtores de cana-de-açúcar, elevando a produção e a exportação. O Brasil
conseguiu identificar problemas relacionados a incentivos concedidos pela
Tailândia para o setor, em particular o esquema tailandês de quotas (avaliado em
US$ 775 milhões anuais), que, ao dividir o lucrativo mercado doméstico entre
as usinas segundo sua produção total, estimula artificialmente a geração de
excedentes exportáveis, mesmo que vendidos no exterior abaixo do preço de
custo, em afronta às obrigações contidas nos Acordos da OMC, notadamente no
Acordo de Subsídios e Medidas Compensatórias (ASMC) 12.

Essa intensa atuação permitiu ao Brasil uma influência crescente na definição do


alcance de vários dos compromissos assumidos no âmbito da OMC, e tem-se
revelado instrumental para a eliminação de barreiras às exportações brasileiras e
para a estratégia de desenvolvimento do País.

O Itamaraty conta, desde 2001, com uma área vinculada à Subsecretaria-Geral de


Assuntos Econômicos e Financeiros (SGEF), dedicada exclusivamente à preparação
e acompanhamento dos contenciosos no âmbito da OMC, com objetivo de
facilitar a participação do Estado no sistema de solução de controvérsias.
Atuando em estreita articulação com o setor privado brasileiro e outras áreas do
Governo, a Divisão de Contenciosos Comerciais é responsável, entre outros, pelo
acompanhamento permanente dos casos em andamento (elaboração de petições,
participação em consultas e audiências, pesquisa e análise de jurisprudência),
como também pela condução das discussões pré-contencioso (receber as
ponderações de setores afetados, elaboração de pareceres jurídicos, coordenação
com os setores e órgãos governamentais envolvidos) e, não menos importante, o
monitoramento da implementação dos contenciosos.

12. Regulamenta a concessão de subsídios específicos a todos os bens não agrícolas e disciplina a aplicação
de medidas compensatórias. (MRE).

103
Capítulo 4

A decisão de iniciar um contencioso na OMC é tomada pela Câmara de Comércio


Exterior 13, tendo presente a análise preliminar sobre a viabilidade jurídica do
caso, de responsabilidade da Coordenação Geral de Contenciosos e o parecer
das demais áreas do Governo, com competência na matéria sobre os interesses
econômicos e políticos em jogo, sempre em articulação com o setor privado. Para
tanto, a CAMEX pode atuar de ofício ou provocada pelo setor privado interessado,
que participa ativamente da preparação de todas as etapas do contencioso.

Órgão de Revisão da Política Comercial (TPRM)


A vigilância das políticas comerciais nacionais é uma atividade fundamentalmente
importante, que se desenvolve ao longo do trabalho da OMC. No centro desse
trabalho está o Mecanismo de Revisão de Política Comercial (TPRM). Todos os
membros da OMC são revistos, a frequência da revisão de cada Estado, variando
de acordo com a sua participação no comércio mundial.

As revisões ocorrem no Órgão de Revisão de Política Comercial, que é, de fato,


o Conselho Geral da OMC - o qual compõe a adesão plena da OMC - operando
de acordo com regras e procedimentos especiais. As revisões são, portanto,
essencialmente avaliações de grupos de pares, embora grande parte do trabalho
seja feito pelo Secretariado da OMC.

O TPRM foi um resultado inicial da Rodada Uruguai , sendo provisoriamente


estabelecido na Revisão de Médio Prazo da Rodada de Montreal em dezembro de
1988. O Artigo III do Acordo de Marraqueche, acordado pelos Ministros, em abril
de 1994, colocou o TPRM em um uma base permanente como uma das funções
básicas da OMC e, com a entrada em vigor da OMC em 1995, o mandato do TPRM
foi alargado para abranger o comércio de serviços e a propriedade intelectual.

O objetivo primordial do TPRM é facilitar o bom funcionamento do sistema comercial


multilateral pelo reforço da transparência das políticas comerciais dos deputados.

Todos os membros da OMC estão sujeitos à revisão sob o TPRM. O Anexo


exige que os quatro Membros com as maiores partes do comércio mundial
(atualmente, as Comunidades Europeias, os Estados Unidos, o Japão e a China)
sejam revisados a​​ cada dois anos, os próximos 16 serão revisados ​​a cada quatro
anos e outros serão revisados ​​a cada seis anos. Um período mais longo pode ser
corrigido para os Estados menos desenvolvidos.

13. A Câmara de Comércio Exterior (CAMEX) é o órgão responsável pela gestão da política de comércio
exterior no Brasil, de acordo com o Decreto nº 4.732 de 2003. (MP).

104
Direito Internacional Econômico

Conselho para bens, serviços e propriedade intelectual


É composto por delegados das missões ou integrantes dos governos em Genebra
e tem com função o acompanhamento da implementação das regras negociadas.

Comitês
Os Comitês são compostos por delegados das missões e técnicos dos
ministérios, enviados especialmente para as reuniões, sendo subordinados ao
Conselho Geral. A função dos comitês é o assessoramento por intermédio de
grupos de trabalho, estudos, confeccionando relatórios.

Secretariado
A responsabilidade da Secretaria da OMC é fornecer apoio, independente de
alta qualidade aos governos membros da OMC em todas as atividades que
são realizadas pela Organização e para servir a OMC com profissionalismo,
imparcialidade e integridade.

A Secretaria é uma equipe multicultural de indivíduos altamente qualificados,


os quais possuem ampla gama de habilidades, conhecimentos e experiência
necessários para lidar com as responsabilidades da Secretaria e trabalhar em
conjunto como um serviço público internacional eficiente e diligente.

O Secretariado da OMC, com escritórios apenas em Genebra, tem 634 funcionários


regulares e é liderado por um Diretor-Geral. Uma vez que as decisões são tomadas
apenas pelos membros, a Secretaria não possui poderes de decisão. 

Os principais deveres do secretariado são:

•• dar apoio técnico e profissional aos diversos conselhos e comitês,


para prestar assistência técnica aos países em desenvolvimento,
monitorar e analisar a evolução do comércio mundial;
•• fornecer informações ao público e aos meios de comunicação;
•• organizar as conferências ministeriais; 
•• fornecer algumas formas de assistência jurídica no processo de
solução de controvérsias;
•• aconselhar os governos que desejam se tornar membros da OMC.

105
Capítulo 4

Disposições de tratamento especial e diferencial aos Estados


em desenvolvimento na OMC
Os acordos da OMC contêm disposições que dão aos Estados em
desenvolvimento direitos especiais. Essas são chamadas de tratamento
especial e tratamento diferenciado. Os Ministros em Doha, na 4ª Conferência
Ministerial da OMC, obrigaram o Comitê de Comércio e Desenvolvimento (CTD) a
examinar essas disposições de tratamento especial e diferenciado. A Conferência
Ministerial de Bali, em dezembro de 2013, estabeleceu um mecanismo para
analisar a implementação de disposições de tratamento especial e diferenciado.

Os acordos da OMC dão aos Estados desenvolvidos a possibilidade de tratar os


Estados em desenvolvimento de forma mais favorável do que outros membros
da OMC. Essas disposições especiais incluem, por exemplo, períodos de tempo
mais longos para a implementação de acordos e compromissos ou medidas para
aumentar as oportunidades comerciais para os países em desenvolvimento.

Essas disposições são referidas como de tratamento especial e diferenciado. As


disposições especiais incluem:

•• Períodos mais longos para a implementação de acordos e compromissos;


•• Medidas para aumentar as oportunidades comerciais para os países
em desenvolvimento;
•• Disposições as quais exigem que todos os membros da OMC
salvaguardem os interesses comerciais dos países em desenvolvimento;
•• Apoio para ajudar os países em desenvolvimento a desenvolver a
capacidade de realizar o trabalho da OMC, lidar com disputas e
implementar padrões técnicos;
•• Disposições relativas a membros dos países menos desenvolvidos (PMA).

Na Declaração de Doha, os governos membros concordaram que todas as


disposições relativas ao tratamento especial e diferencial são parte integrante
dos acordos da OMC e que essas disposições devem ser revistas, visando a
fortalecê-las e torná-las mais efetivas e operacionais.

Mais especificamente, a declaração obriga o CTD a identificar quais das


disposições de tratamento especial e diferencial são obrigatórias e considerar as
implicações legais e práticas, tornando obrigatórios aqueles que atualmente não
são vinculativos. Além disso, o Comitê deve considerar maneiras pelas quais os
países em desenvolvimento, em particular os PMA, podem ser auxiliados a utilizar
melhor o tratamento especial e diferenciado.

106
Direito Internacional Econômico

A Conferência Ministerial de Bali, em dezembro de 2013, estabeleceu um


mecanismo para analisar a implementação de disposições de tratamento especial
e diferenciado. O mecanismo, que terá lugar em Sessões Dedicadas do CTD,
proporcionará aos membros a oportunidade de analisar e rever todos os aspectos da
implementação das disposições contidas em acordos multilaterais da OMC, decisões
ministeriais e do Conselho Geral, com a possibilidade de fazer recomendações aos
órgãos pertinentes da OMC, visando a melhorar a implementação de disposições
revisadas ou melhorar as próprias disposições por meio de novas negociações.

As negociações sobre disposições especiais e diferenciais ocorrem na sessão


extraordinária do CTD. As negociações resultaram em várias decisões, como as
relativas aos PMA, constantes do Anexo F da Declaração Ministerial de Hong Kong
e do Mecanismo de Acompanhamento adotado na Conferência Ministerial de Bali.

A Cláusula de Habilitação oficialmente denominada - Decisão sobre tratamento


diferenciado e mais favorável, reciprocidade e participação plena de países
em desenvolvimento - foi adotada no âmbito do GATT em 1979 e permite que os
membros desenvolvidos ofereçam um tratamento diferenciado e mais favorável
aos países em desenvolvimento.

A Cláusula de Habilitação é a base jurídica da OMC para o Sistema de


Preferências Generalizadas (SGP). No âmbito do SGP, os países desenvolvidos
oferecem tratamento preferencial não recíproco (como direitos zero ou baixos nas
importações) aos produtos originários de países em desenvolvimento. Os países
que dão preferência determinam unilateralmente quais países e quais produtos
estão incluídos nos seus esquemas.

Três são os exemplos importantes de disposições para o tratamento diferenciado


e mais favorável dos países em desenvolvimento: 

•• No artigo XXXVII do GATT, de 1994, os membros desenvolvidos


da OMC comprometeram-se a conceder uma alta prioridade à
redução e eliminação de barreiras aos produtos atualmente ou
potencialmente interessantes para os países em desenvolvimento,
incluindo direitos aduaneiros e outras restrições que se diferenciem
injustificadamente entre esses produtos Na sua forma primária e
em suas formas processadas. 
•• A Decisão de 1979 sobre o tratamento diferencial e mais
favorável (a “Cláusula de Habilitação”) permite aos Membros
desenvolvidos conceder tratamento tarifário preferencial aos
países em desenvolvimento. Também permite que os Membros em
desenvolvimento entram em acordos regionais ou globais entre si

107
Capítulo 4

para redução ou eliminação de tarifas e, de acordo com os critérios


e condições que podem ser prescritos pela Conferência Ministerial,
para a redução ou eliminação mútua de medidas não tarifárias. 
•• O Artigo IV do GATS estipula que a crescente participação dos países
em desenvolvimento Membros no comércio mundial será facilitada
pela negociação de compromissos específicos, relacionados ao
fortalecimento da capacidade de serviço doméstico e à sua eficiência
e competitividade, por meio do acesso à tecnologia em uma base
comercial; a melhoria do seu acesso a canais de distribuição e redes
de informação; e a liberalização do acesso ao mercado em setores e
modos de oferta de exportação para eles.

Os Estados em desenvolvimento compreendem a maioria dos membros da OMC. Eles


são agrupados como “países em desenvolvimento” e “países menos desenvolvidos.”

Não há definições da OMC de países “desenvolvidos” e “em desenvolvimento”. Os


membros anunciam por si próprios se são países “desenvolvidos” ou “em
desenvolvimento”. No entanto, outros membros podem desafiar a decisão de um
membro para fazer uso de disposições disponíveis para países em desenvolvimento. 

O status do Estado em desenvolvimento na OMC traz certos direitos. Existem,


por exemplo, disposições em alguns acordos da OMC que proporcionam aos
países em desenvolvimento períodos de transição mais longos, antes de serem
obrigados a implementar plenamente o acordo e os países em desenvolvimento
podem receber assistência técnica.

Que um membro da OMC se anuncia como um país em desenvolvimento não


significa automaticamente que se beneficiará dos esquemas de preferência
unilaterais de alguns países membros desenvolvidos, como o GSP. Na prática,
é o país de preferência que decide a lista de países em desenvolvimento que se
beneficiarão das preferências. Para mais informações sobre o SGP, consulte o site
da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). 

A OMC reconhece como PMA os países que foram designados como tal pelas
Nações Unidas. Atualmente, existem 48 países menos desenvolvidos na lista
das Nações Unidas, 36 dos quais até o momento se tornaram membros
da OMC, e são: Afeganistão,  Angola,  Bangladesh,  Benin, Burkina Faso,
Burundi, Camboja, República Centro-Africana, Chade, Congo, República
Democrática do Djibouti, Gâmbia, Guiné, Guiné Bissau, Haiti, República Democrática
Popular do Lao, Lesoto,  Libéria, Madagáscar,  Malawi, Mali, Mauritânia, 
Moçambique, Myanmar Nepal,  Níger, Ruanda, Senegal, Serra Leoa,  Ilhas
Salomão,  Tanzânia, Irã, Uganda, Vanuatu,  Iémen, Zâmbia. 

108
Direito Internacional Econômico

Oito países menos desenvolvidos estão negociando para se juntar à


OMC. Eles são: Butão, Comores , Guiné Equatorial , Etiópia , São Tomé e
Príncipe , Somália , Sudão e Timor-Leste .

Adesão à OMC
A adesão à OMC de novos Membros depende de negociação prévia com os
Membros atuais para a abertura dos mercados de bens e serviços e também
de adequação da legislação interna do país solicitante aos diversos acordos
existentes no âmbito da OMC. (MDIC).

Para acompanhar o processo de acessão, é formado um Grupo de Trabalho


específico por Estado solicitante. Atualmente, encontram-se em processo de
adesão os seguintes países:

Quadro 4 - Estados em processo de adesão na OMC

1. Andorra 12. Iraque

2. Argélia 13. Líbia

3. Azerbaijão 14. República Árabe Síria

4. Bahamas 15. República Libanesa

5. Belarús 16. Santo Tomé y Príncipe

6. Bósnia y Herzegovina 17. Serbia

7. Bhután 18. Somália

8. Comoras 19. Sudão

9. Etiópia 20. Timor-Leste

10. Guinea Ecuatorial 21. Uzbekistán

11. Irã

Fonte: Autora, 2017.

Os Termos de adesão são negociados pelos membros da OMC e pelo governo


aderente em vários contextos formais e informais - pelas reuniões ou consultas
bilaterais, plurilaterais ou multilaterais.

Após o estabelecimento de um grupo de trabalho para o processo de adesão,


as negociações bilaterais, plurilaterais e multilaterais ocorrem em paralelo. A
conclusão bem-sucedida dessas negociações leva à elaboração de um pacote

109
Capítulo 4

de adesão (“termos de adesão / entrada”), que deve ser adotado pelo grupo
de trabalho de adesão e aprovado pelo Conselho Geral da OMC ou pela
Conferência Ministerial. Posteriormente, o governo aderente deve aceitar os
“termos de entrada” - seja por assinatura ou ratificação - e se torna um membro
integral da OMC 30 dias depois de notificar a aceitação do seu Protocolo de
Adesão ao Diretor Geral da OMC.

OMC e outras organizações


A OMC colabora com várias outras organizações governamentais internacionais,
sob a bandeira de coerência, um termo que se origina na Decisão sobre
alcançar uma maior coerência na política econômica mundial, os ministros
concordaram em Marrakeche, em abril de 1994. Mas a coerência na formação
de políticas econômicas globais ultrapassa muito os acordos de cooperação
formal e específica da OMC com o FMI e o Banco Mundial. De fato, agora é
reconhecido que o sistema da OMC é apenas uma parte de um conjunto muito
mais amplo de direitos e obrigações internacionais que vinculam os membros da
OMC. OMC mantém relações institucionais extensas com outras Organizações
Internacionais; Existem cerca de 140 Organizações Internacionais que possuem
status de observador nos órgãos da OMC. 

A OMC também participa como observadora no trabalho de várias Organizações


Internacionais. No total, a Secretaria da OMC mantém relações de trabalho com
quase 200 Organizações Internacionais em atividades, que vão desde estatísticas,
pesquisa, estabelecimento de padrões e assistência técnica e treinamento. 

Embora a extensão dessa cooperação seja variada, a coordenação e a


coerência entre o trabalho da OMC e a de outras Organizações Internacionais
continuam a evoluir de modo a ajudar os Estados membros no funcionamento
de suas políticas econômicas. 

Processo decisório da OMC


As decisões mais importantes são adotadas pela totalidade dos membros, seja
por meio de seus ministros (Conferência Ministerial) ou por seus embaixadores ou
delegados (Conselho Geral), por meio de consenso.

Apesar de muitas vezes ser dificultoso o processo de decisão por consenso, a


principal vantagem é que são mais aceitáveis para todos.

110
Direito Internacional Econômico

Contudo, quando não for possível ser tomada uma decisão por consenso, a
OMC adota o processo de votação em que ganha a maioria. De qualquer forma,
diferentemente do FMI e do Banco Mundial, cada país tem um voto.

O Acordo da OMC prevê ainda quatro situações específicas de votação:

•• maioria de ¾ para:
a. interpretação das medidas previstas nos acordos;
b. derrogação temporária de obrigação – waivers 14.
•• maioria de 2/3 para:
c. modificação de acordos;
d. acessão de novos membros

Membros contrários às decisões não são obrigados a segui-las, podendo a


Organização conceder exceções ou ainda determinar a retirada do membro.
Contudo, essa última alternativa não é muito interessante nem para a OMC nem
para o membro opositor.

Ainda havendo impasse, a OMC poderá adotar um outro mecanismo de votação,


a fim de facilitar o seu funcionamento, trata-se do Green Room 15. Esse método
consiste em colocar apenas alguns membros no centro das decisões.

14. Permissão concedida pelos membros da OMC, permitindo que um membro da OMC não cumpra os
compromissos normais. As isenções têm limites de tempo e as extensões devem ser justificadas. (OMC).

15. O nome informal da sala de conferência do diretor-geral. É usado para se referir a reuniões de 20 a 40
delegações, geralmente ao nível dos chefes das delegações. Essas reuniões podem ocorrer em outros lugares,
como nas Conferências Ministeriais, e podem ser convocadas pelo ministro que preside a conferência, bem
como o diretor-geral. (OMC).

111
Considerações finais

A partir dos estudos realizados por meio deste livro didático, você teve a
oportunidade de conhecer as particularidades do Direito Internacional e do Direito
Internacional Econômico como ramos do Direito, com a finalidade de regular as
relações entre sujeitos e atores do Direito Internacional.

Identificou, também, as Organizações Internacionais Intergovernamentais no


âmbito econômico, que, entre outros objetivos, contribuem para o sucesso de
uma sociedade internacional mais harmoniosa.

No estudo dos meios de solução de conflitos, você pode observar que apesar
da regulamentação das relações econômicas internacionais, podem existir
conflitos originados por desentendimentos nessas relações. Foi verificado que
esses conflitos deverão ser resolvidos mediante meios pacíficos, sejam eles
diplomáticos, judiciais ou políticos. Todavia, existem ainda os meios coercitivos.

Por fim, você observou também que a partir da 2ª Guerra Mundial, os Estados
buscaram regular as relações econômicas internacionais, visando à criação de um
clima de segurança, evitando possíveis conflitos. Para as relações comerciais, foi
firmado entre os Estados um acordo multilateral denominado de GATT. Devido aos
efeitos produzidos pela evolução econômica das últimas décadas, era necessário a
criação de uma organização internacional que regulasse e fiscalizasse as relações
comerciais internacionais, englobando aspectos comerciais que até então não
estavam regulados. Dessa forma, foi instituída a OMC.

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120
Sobre a Professora Conteudista

Deisi Cristini Schveitzer

Graduada em Direito, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), mestre


em Relações Internacionais para o Mercosul pela Universidade do Sul de Santa
Catarina (Unisul), advogada e professora universitária da Unisul, onde leciona, em
cursos presenciais e a distância, as Unidades de Aprendizagem: Direito Internacional
Privado, Direito de Propriedade, Estágio Supervisionado em Direito I, Noções
Introdutórias de Trânsito, Direito Internacional Econômico, Direito das Relações de
Consumo, entre outras. Também foi professora conteudista dos livros didáticos:
Instituições de Direito Público e Privado, Introdução ao Estudo do Trânsito, Direito de
Propriedade, Direito Internacional e Direito das Relações de Consumo.

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