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Segrêdo profissional

SEGRÊDO PROFISSIONAL
Doutrinas Essenciais de Direito Civil | vol. 5 | p. 1063 | Out / 2010DTR\2012\1743
José Duarte

Área do Direito: Fundamentos do Direito

Sumário:

Revista dos Tribunais • RT 120/683 • jul./1939

Há dois dias, apenas, recebi do Conselho Diretor (1) a incumbência de dirigir-vos a palavra, nesta
reunião, interrompendo, assim, os momentos alegres e comunicativos de vossa camaradagem e,
quiçá, os instantes mesmos em que, entregues à expansão da amizade rotária, estejais confiando ao
companheiro, da esquerda ou da direita, algum segrêdo. Mas, não vos atemorize a perspectiva de
uma longa dissertação. Tenho diligência pronta a tudo, o que me cumpre, como rotariano, e por isto
é que, obedecendo ao Conselho Diretor, vos venho importunar. Não sei que em vós mais vejo: se
amigos complacentes, se consócios que aspiram a liberdade de conversar à vontade, já enfastiados
de loquela.

Sextus Rufus disséra: “Vossa clemência me prescreve ser breve “brevem fieri dementia tua
praecepit”. E, como êle, obedecerei, tanto mais voluntariamente, quanto nesta estreiteza de tempo,
me escasseiam recursos para uma dilatada e amena palestra, muito ao vosso agrado; e, a exemplo
dos calculadores que se servem de sinais abreviados para exprimir somas consideráveis, eu
indicarei os fatos e as regras sem os comentar desenvolvidamente. “Parebo libens; quippe mi desit
facultas latius eloquendi; ac morem sequutus calculatorum, qui ingentes summas aere breviori
expriment; res gestas signabo, non eloquar”.

O assunto assaz interessante comporta considerações morais, jurídicas, históricas, políticas e


filosóficas, de que me abstenho em boa parte, para vos não massar. Dir-vos-ei, aqui e agora, o
suficiente, para que tenhais uma noção do que é, do ponto de vista legal, o segrêdo profissional; e,
por não enfastiar o vosso posto, evitarei a mór parte das citações e dos exemplos que poderiam
ilustrar utilmente o desenvolvimento da tese.

Quero advertir-vos, porém, que nada de novo vos comunicarei. Como Horácio nas suas “Epistolas”
— direi — “Nil admirari”. ao que corresponde de Henri Heine, a velha história, sempre nova:

“es ist eine alte Geschichte

Doch bleibt sie immer neu”.

No campo ético, na ciência, como na legislação, a revelação de um segrêdo, que a inviolabilidade faz
jús, coisa é reprovável, e apresenta modalidades diversíssimas. Temos o segrêdo epistolar, o
segrêdo profissional, meras confidencias de amizade, segrêdo sacramental, segrêdos de Estado,
segrêdo militar, etc. Os moralistas distinguem o segrêdo sacramental, o “commissum”, o natural e o
“promissum”. Sob o aspecto geral, filosófico, ou moral a inviolabilidade do segrêdo mais não é do
que um dever a que se acorrenta, lisamente, a conduta individual.

Filológicamente, segrêdo, “secretum” — é coisa oculta, e que deve permanecer com êsse caráter.
Carrara o define tudo o que se confia ao profissional, no exercício de seu ofício, com o pensamento
de não ser divulgado; e Brouardel aceita o conceito: “une confidence faite par une personne à autre
avec conviction intime que celle-ci ne la révélera pas”. Na sua conceituação jurídica, segrêdo
exprime uma noção de relação material ou pessoal e indica o limite posto por uma vontade
juridicamente autorizada, ao conhecimento de um fato, ou de uma coisa, por modo que êstes sejam
destinados, atualmente, a ficar ocultos.

Cada um de nós recebe, e é moralmente obrigado a conservar, como em cofre selado, em segrêdo,

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confidências amigas, notícias de fatos íntimos, confissões, que só a confiança em nós mesmos, na
nossa discreção, na amizade leal, na fidelidade, autorizára nos fôssem comunicados. E’ êle a rica
jóia d’alma, que não se mostra aos olhos de todos, na frase de Garret.

Pode o segrêdo referir-se à pessoa física, ou moral, ao patrimônio, ao crédito, à família, à fé pública,
ao comércio. Na vida social, que se fixa derredor de um eixo de solidariedade, de cooperação e de
reciprocidade de afeições, de serviços, de dedicações, a simpatia, a amizade e a confiança se
mostram, no sentir de Ribot, fatores de felicidade, e com apôio nesses fatores é que somos, a
maioria das vezes, arrastados a confidencias e segrêdos que se ligam à nossa própria vida moral,
afetiva e material. O caráter do indivíduo, essa grande fôrça da mecânica social, assim como a moral
comum, essencial à existência humana, exigem que correspondamos a essas manifestações de
confiança e fidelidade.

Até na natureza, com seus fenômenos mal explicados, encontramos segredos, porque Camões
disséra: “Vejam agora os sábios da escritura Que segredos são estes da natura”.

E Dante, na “Divina Comédia” — um dos mais portentosos monumentos poéticos e literários de


todos os tempos — “solitario e monolítico, come un gigante che signoreggi incontrastato, per la sua
mole e la sua alteza altri Poemi”, no Purgatório, Canto XX, interroga:

“O signor mio, quando saró io lieto

A veder la vendetta, che nascosa

Fa dolce l’ira tua nel tuo segreto?

A má fama palreira que no revelar segredos traz volúpia, granjearam-na, injustamente as mulheres.

Ludovico disséra: “Cosa stolta e pericolosa communicar alle done segreti importanti” e Berstein, na
sua comédia “Le secret” estuda um caso de psicologia mórbida em que envolve a mulher.

Conheceis, certamente, a moralidade da fábula de la Fontaine — “Les femmes et le Secret”:

“Rien ne pése tant qu’un secret

Le porter loin est difficile aux dames;

Et je sais même sur ce fait

Bon nombre d’Hoinmes qui sont femmes.

Pour éprouver la sienne un mari s’écria,

La nuit, étant prés delle: Oh! Dieu qu’est-ce-cela?

Je n’en puis plus! on me déchire!

Quoi? J’accouche d’un oeuf! D’un oeuf? Oui, le voilá.

Frais et nouveau pondu. Gardez bien de le dire:

Ou m’appellerait poule; enfin n’en parlez pas.

Mas, a promessa da espôsa fugira, também ela, com as sombras

dessa noite. Não se conteve ela, a espôsa indiscreta e pouco perspicaz, que, pela manhã, muito
cêdo, correu à vizinha:

“Ma comere, dit-elle, un cas est arrivé;

N’en dites rien surtout, car vous me feriez battre:

Mon mari vient de pondré un oeuf gros comme quatre,

Au nom de Dieu, gardez vous bien

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D’aller publier ce mystère”.

E a notícia foi célere, passando de boca em boca, muita vez segredada

a medo, e por fim,

“Comine le nombre d’oeufs, grace a le renommée

De bouche en bouche allait croissant

Avant la fin de la journée

lis se montaient à plus d’un cent”.

Os romanos, segundo o testemunho de notável e erudito escritor português, eram tão amigos do
segrêdo, que, num subterrâneo ergueram altares a “Consus”, segundo Ovídio, fabuloso “numen” do
segrêdo; mas noutra fonte, assaz autorizada, sob a denominação da Tácita é que os romanos
tiveram o Deus do Segrêdo. Na sua obra “Dieux de 1’ancienne Home” — Preller, Paris, 1884 —
Consus aparece com o seu culto que remonta aos Arcadianos de Evandre, e a tradição o fixava no
dia das “consualia”, em agosto, data do rapto das Sabinas. O nome do Deus viera dos conselhos
(“consiliis”) que êle dera a Rômulo, nessa ocasião. Também se considera o Deus da Terra e da
Agricultura. Não o reconhece Preller como o Deus do Segrêdo. Talvez essa qualidade se lhe atribua,
porque, para alguns, o nome provém de “condere, conditus” (o deus oculto), ou da raiz sanscrita “su”,
donde “sero consero”. Êle vivia oculto, no subterrâneo, na extremidade inferior do Circo de Tarquim
— “Circus Maximus”. No “Dic. des Antiquités greeques et romaines”, de Daremberg e Saglio, não
logrei apurar a legitimidade da ficção.

Os pitagóricos erigiram em virtude primacial, aquela que mais se destaca, a discreção, a delicadeza,
o escrúpulo em manter inviolável o que os outros lhes confiavam. “Le secret”, diz Boussuet, “se
recommendait comme tout seul et par sa propre importance” (“Histoire”, III, 6).

“Qui custodit os suum custodit animam suan Commissa tacere qui nequit

Hic niger est; hunc tu, Romane, caveto”.

Horácio, Liv. I, sat. 2.

Nas relações habituais da família, escreve Trebuchet, um segrêdo é considerado uma coisa sagrada
e todo o homem que o divulga merece reprovação. Eu de mim entendo que se lhe deveria aplicar
pena grave, como uma tonsura ignominiosa, idêntica à que se infligia ao Brahmane adúltero…

Na celebre coleção “Corpus hippocraticum”, editada por ordem de Ptolomeu nos começos do século
III antes de Cristo, vamos encontrar o célebre juramento — que Aristófanes denomina de “Juramento
da Confraternidade”, no qual se contém as obrigações morais a que se acham adstritos os médicos,
destacando-se o alto interêsse de moralidade que se exigia dêsses profissionais, naquela época tão
recuada. “Quaecunque vero inter curandum videro aut audiero, imo etiam ad medicandum non
adhibitur, in communi dominum vita cognovero, ca si quidem effari non contulerit, tacebo et tanquam
arcana apud me continebo”.

O médico jurava por Ápio, por Esculápio, por Hygêia e Panacéia, tendo como testemunhas todos os
deuses e deusas: “Eu não penetrarei nos lares senão para lhes levar o bem; eu resistirei a todos os
desejos de mal fazer, de sedução e, especialmente, tôdas as tentações dos prazeres do amor. Tudo
o que conheça pelo exercício de minha profissão 110 diário comércio com os homens, e que não
deva ser sabido, eu juro de guardar segrêdo e não revelar jamais”.

Nas academias medievais, o juramento que Asclepíade pronunciava, após encerrar o curso médico,
assume essa mesma dignidade de um dever, uma obrigação ética e social.

No Códex — Dened, XV, can. 889, diz-se: “Sacramentale sigillum inviolabile est; qua re caveat
diligentur confessarius ne verbo aut signo aut alio quovis modo quavis de causa prodat aliquatemus
peccatorum” e no § 2.o — “Obligatione servandi sacramentale sigillum tementur quo que interpres
aliique omnes ad quos notitia confessionis quoquo modo per venerit”. Do Templo para o Estado a
idéia passou na mesma essência de moralidade. E vai de idade a idade. E marcha de século a

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século.

Tendes memória deste texto sagrado: “Quero matar a meu irmão Jacó — “occidam Jacob tratem
meum” — e logo acrescenta a passagem, “nuntiata sunt haec Rebbecae” chegou aos ouvidos de
Rebeca, o mau intento de Esaú. Se Esaú fiou só de seu coração êste segrêdo, quem o mexericou,
quem o foi revelar a Rebeca? Não se pode o homem fiar de seu próprio coração? Não; porque se lhe
comunicas o teu segrêdo, com palavras ou gestos, ou com algum outro sinal, o manifestarás. Como
podes, pois, te fiar de outro, se te não podes fiar em ti mesmo?”.

Ao seu dedicado amigo Cícero, não revelou Bruto a conjuração contra a vida de Júlio Cesar.

Diziam os sábios que três sortes de gente deviam ser privadas de julgamento: aqueles que buscam
dignidades ao serviço dos reis; os que desejam por experiência experimentar venenos e os que
dizem seus segredos às mulheres (“Livre des lumiéres”, pág. 69).

No livro 7, escreve Plínio que Anaxarco cortou com os dentes a língua e a cuspiu ao tirano
Nicocreon, para lhe não revelar o segrêdo de seus amigos.

Fôra o barbeiro de Midas quem revelou o segrêdo, e o proclamou pelo mundo, de ter aquele rei
orelhas de asno, que lhe pusera Apoio. Daí em diante, todos os forasteiros repetiam:

“Midas, o rei Midas, tem orelhas de asno!”

Havia entre os egípcios uma lei que mandava cortar a língua aos que manifestavam os segrêdos de
Estado. O poeta cômico Filípides, vendo que Lisímaco, Rei de Pérgamo, lhe queria dizer alguma
coisa em particular, atalhou: “Senhor, mandai-me o que quiserdes, mas não me digais os vossos
segrêdos”.

Segundo a fábula, está Tântalo no profundo do Inferno, por ter revelado o segrêdo dos deuses:

“Quesit aquas in aquis, poma fugacia capitat.

Tantalus, hoc illi garrula lingua debet”. (Ovidio).

A confiança que inspiramos aos amigos e parentes, o brio pessoal, a noção perfeita da lealdade, a
conduta moralmente segura, o espírito de concórdia, o princípio de solidariedade, impõem-nos, a
todos, “homines, humiles et homines honesti”, — para que gozemos da mesma “existimatio”, o dever
de calar os segredos que recebemos, as confidências, que nos são comunicadas. Assim o exigem a
prudência, a sensatez, o tino. “Vult sibi quisque credi, et habita fides plerumque obligat fidem”, diz
Tito Lívio. Muita vez a prática não se harmonisa com o preceito, e tanta é a gente indiscreta, que as
discórdias pululam.

É isto, porém, deformação moral, vício de caráter, ausência de disciplina interna.

Nenhuma diligência de Alexandre fôra suficiente para descobrir o têrmo da jornada de Dario. Isto,
porque os persas costumavam guardar admirável fidelidade aos segredos de seu príncipe, como
refere Quintiliano.

O segrêdo dêsse teor, quando revelado, só merece a censura da moral. A conduta de quem o viola
deve. ser julgada “in foro conscientiae et honoris”. O dever moral do silêncio, não é, então, dever
jurídico. O principio mesmo de solidariedade social nos impéle a confiar nos amigos, nos colégas,
nos benfeitores, nos consócios, nos semelhantes que de nós se aproximam; se, portanto, não
correspondem êles a essa confiança, só à lei moral cabe o julgamento. Não ocorre o mesmo em
relação ao segrêdo profissional, pois que, então, a tutela penal e o interesse público, que promana
do estado geral de liberdade, no sentir de Manzini, de garantir a inviolabilidade do segredo desta
índole, E’, então, mais uma razão política, de que ética que dita a sanção legal.

Desde o século IV um concílio houvera proclamado: “non liceat clericum ad aestimonium devocari
eum qui praeses vel cognitor fuit”, e Farinacio ensinara: “ Sacerdos non potest nec debet revelare sibi
imposita per confitentem in sacramentali confessione”. Êsse preceito da escola católica, levou o seu
espírito à legislação profana. E’ que, antes de tudo, êle promana do direito natural.

“Toute personne qui, accepte, librement un secret assume par célà même 1’obligation morale de le

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conserver; aussi de tout temps la violation des secrets at elle été justement l’objet de la reprobation
universelle: celle des secrets confies était considérée comme contraire au droit naturelle, infidelitas
contra jus naturale; celle des secrets supris comme contraire à 1’honnêteté, naturelle, infidelitas
contra honestatem naturalem” (Muteau, “Du secret profissionel”, Paris, 1870).

É, agora, do dever profissional que irei tratar.

Há pessoas que por sua profissão ou seu estado são necessariamente obrigadas a receber
confidencias, a recolher ou surpreender segrêdos, íntimas confissões que se não devem mostrar aos
olhos de todos. A necessidade de pedir um conselho, de ouvir um juízo, de buscar uma consolação
ou conforto moral, de obter um parecer, de recorrer às qualidades técnicas, ao especialista, ao
sacerdote, em suma, a quem tem autoridade profissional para atender a consultas, emitir opinião,
prescrever soluções, orientar, aconselhar, defender, presservar, impõe a correlata obrigação de
calar, de silenciar, sôbre o que se ouve. Não caberia no caso a agressividade da máxima hebráica —
“maledictus homo qui confidit in homine”. Há deveres de cidadão, deveres de amigo, deveres de
familia, deveres de cavalheirísmo, mas, também, os há, e sacratíssimos, “profissionais”. A confiança,
neste caso, se dirige menos ao homem, que à profissão, posto a conduta, a moralidade, a
circunspecção, o crédito, a bôa fama daquele, possam criar para esta uma situação de preferência e
de maior simpatia.

Aí o ofício, a profissão, — “professioni fiduciose” — gerou a necessidade de receber o segrêdo


alheio, sem o que o profissional nada poderia fazer. Não houve, ou não há, a voluntariedade de
confiar, simplesmente, na discreção ou sensatez de um amigo, senão repousar, absolutamente, na
confiança do profissional, na fé de seu grau, ou de seu juramento. O interêsse de moralidade que daí
dimana, é um interêsse público.

É para êsse caso que o Código Penal (LGL\1940\2) Brasileiro, a exemplo de todos os códigos — a
começar pelo francês, que foi o primeiro, em 1810, a disciplinar o assunto, como nova figura
delituosa, — considera crime: revelar qualquer pessoa o segrêdo de que tiver notícia, ou
conhecimento, em razão de ofício, emprêgo ou profissão” — principio de ordem pública de cuja fiel
observância depende, virtualmente, o digno exercício das profissões, e indispensável à vida social.
Também, o art. 144, do Código Civil (LGL\2002\400), reforçando êsse preceito, dispõe: Ninguém
pode ser obrigado a depor de fatos, a cujo respeito, por estado ou profissão, deva guardar segrêdo”
— abstenção que não se mostra indigna, porque é, antes de tudo um dever de consciência. E’,
todavia, esta última uma norma de escusa, permissiva, de vez que não impede que o indivíduo
acuda ao chamado para depôr. A lei, quer, apenas, po-lo em salvaguarda, oferecer-lhe lisamente o
caminho da recusa nobre, “in verbis”; ninguém pode ser obrigado”. E’ a faculdade de abster-se. Se
não se vale dessa faculdade, cometerá, apenas, um delito moral, em certos casos; porém, noutros
poderá incidir na sanção penal. Dependerá da espécie e das circunstâncias.

Os moralistas exigentes reconhecem a legitimidade do principio que obriga o indivíduo a ser


testemunha, a depôr de fatos que conheça. O interêsse da ordem social e jurídica, e a necessidade
de apurar os fatos que se ligam às ações delituosas, assim como de distribuir justiça aos
co-associados, é que dita essa obrigatoriedade. Mas, se ocorre segrêdo profissional, a testemunha,
sem incorrer em incapacidade, poderá abster-se. Isto, desde o Dig. “de testibus” — que diz: “in
devetur ut praesides attendant, ne patronis, in causa cui patrocinium praestiterunt testimonium dicat”.

É da lição de Von Listz: “Segredos são fatos da vida privada que interessam àqueles a quem
concerne mantê-los secretos. Tais fatos são confiados: a) quando comunicados sob expressa ou
tácita recomendação de segrêdo; b) quando o agente obtém conhecimento deles, no exercício de
sua função, profissão ou ofício.

Quando em França se defendia o princípio da inviolabilidade — houve quem interrogasse: “Cette


disposition est nouvelle dans nos lois; il serait a desier que la délicatesse la rendit inutile, mais
combien ne voit on pas des personnes dépositaires de secrets dus a leur état sacrifier leur devoir a
leur cauticité, se jouer des sujets les plus graves, alimenter la malig’nité par des revelations
indécentes, des anedotes scandaleuses, et déverser ainsi la honte sur les individus. en portant la
désolation dans les families”?

A nossa lei penal não se ateve a fórmulas casuísticas. Não se fiséra a enumeração das profissões.
Há uma regra abstrata de direito penal, e cada caso concreto será cuidadamente, examinado pelo

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magistrado. “In sensu lato”, ali se fala em “qualquer pessoa”, assim como genéricamente se alude a
“ofício”, “emprego” ou “profissão”. O primeiro elemento, pois, é a qualidade do agente. A lei é,
apenas demonstrativa.

Encontra-se em Damhouderius uma enumeração completa e demasiado ampla para o nosso tempo:
“advocati, procuratores, tutores, curatores, oratores, secretara, scribae, graphiarii, ratque id genus
similes, qui secreta dominorum, pupillorum, adultorum, magistrorum suorum pandant et propalant, aut
instrumenta, litteraras aut informationes ostendunt partibus adversariis, ii puniendi sunt (quia falsarii)
poema falsi” L. 1, § “Is qui deposita ad leg. Corn”.

A tranquilidade dos lares, as reputações individuais, o crédito pessoal, a seriedade dos negócios, as
relações de fidelidade, a confiança, a lealdade, estariam profundamente comprometidas, abaladas
na sua essência e finalidade, se licito fôra ao profissional, impunemente, divulgar o que sabe no
exercício de seu oficio. Eis porque, no consenso unânime, quando se viola um segrêdo profissional,
não basta a condenação da lei moral, senão, ainda, e rigorosamente, a sanção da lei positiva. A
razão política, a moralidade universal, o princípio de lealdade não podem deixar ao arbítrio do
profissional, ao seu capricho pessoal, à sua leviandade, dispor dos segrêdos que lhe são
comunicados, trair a confiança de quem lhos transmite.

Á Rotary isto interessa visceralmente porque é assunto que se articula na ética profissional, pela qual
tanto nos empenhamos.

Afortunadamente, para honra de nossa espécie, antes mesmo do legislador cristalizar na norma legal
essa obrigação de inviolabilidade, já se inscrevera na consciência ética dos que sabem honrar e
dignificar as profissões que abraçam, vinculados aos seus compromissos de fidelidade, de
circunspecção, de moralidade e de honra. Há na fé jurada uma força superior a tôdas as leis escritas,
a todas as sanções humanas e contingentes. Devemos, por isto mesmo, ser mais cautelosos nas
nossas expansões, mais sevéros nos nossos conceitos, mais comedidos nas nossa opiniões, mais
reservados nos nossos juízos.

Enquadram-se no dispositivo legal acima transcrito, os emprêgos, os oficios e as profissões. Assim


os médicos, advogados, funcionários públicos, farmacêuticos, parteiras, guarda-livros, contadores,
banqueiros, secretários, militares, domésticos, diretores de hospitais, enfermeiros — todo aquele
que, no seu mistér, na sua atividade social, na sua ocupação especializada e habitual, e por
necessidade mesmo de seu oficio, de sua função, puder conhecer ou receber um segrêdo, que,
revelado acarrete dano moral, patrimonial, ou mesmo de afeição, incide na prescrição legal. Perrau
inclue, também, naquela categoria o cirurgião-dentista, porque, pela lei francesa de 10 de novembro
de 1892, êle se acha subordinado às mesmas obrigações impostas aos médicos.

Não se alegue, que, dêsse modo, se cria um privilégio, em favor de certas classes, de uma
determinada casta, pois que, essa exigência envolve, precipuamente, uma necessidade social, como
adverte Negri.

A profissão de médico, realmente, é a que mais exposta está. Virgílio a chamára “ars muta”.
Qualquer leviandade o levará a faltar ao senso ético e ao seu dever. Já não vivemos no tempo em
que, segundo Herodoto, os babilónios tinham por costume expôr em praça pública as suas
moléstias. Hoje é no recesso do lar, no segrêdo dos consultórios que se fazem os exames, se
auscultara os doentes e se prescreve o tratamento. Mesmo ao tempo em que os médicos gregos iam
para Roma, como escravos de ricos senhores, êstes lhes entregavam a sua saúde e a de sua
família, e repousavam, assim, na sua confiança.

Para Brouardel (La responsabilité médicale — 1898, página 66) os elementos constitutivos do
segrêdo médico assentam sobre a natureza da doença, o prognóstico e as circunstâncias em que se
produz a enfermidade. O médico que, nos momentos angustiosos, de dores, de aflições, de
desespero, socorre um enfermo, penetra num lar, ouve confidencias, familiariza-se com fatos
íntimos, conhece a vida privada nos seus aspectos graves, tem, evidentemente, uma obrigação
maior de ver e de calar, para que não seja o último dos homens e o mais indigno dos profissionais.
Em matéria de segrêdo médico, após amplíssima discussão, todos são acórdes em afirmar que: “tout
ce que le malade confie á son médecin doit rester absolument secret (Le secret medicale —
Brouardel — 1893). Para Trebuchet o médico deve silenciar, se o segrêdo lhe é confiado, mas não
subsiste essa mesma obrigação se o segrêdo é surpreendido, o que Dalloz refuta com vantagem.

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Seria trabalho longo e fastidioso apreciar o segrêdo médico na sua atinência com a doentologia, com
a lei e com a jurisprudência, sobre o que não vos diria novidade — “Nihil innovetur, nisi quod factum
est (S. Etefânio).

Cumpre porém, salientar que existem casos de exceção que os escritores enumeram. Binding, no
seu “Lehrbuch”, página 127 refere-se ao caso de exame para seguro de vida, no qual o médico pode
revelar o segrêdo à Companhia. Ai não é o médico de “família”, mas o funcionário da Companhia.
Outros, admitem a exceção na hipótese de cobrança de honorários, desde que a revelação seja
essencial à essa obtenção, à prova mesmo do petitório.

A delicadeza do assunto poderá levar o médico a vexames sérios. Cita-se o caso clássico do dr.
Wetelet, ocorrido em 1884, em que êsse profissional se dirigira ao jornal “Le Matin”, com o objetivo
de restabelecer a verdade sôbre a morte de Bastien-Lepage, a propósito de uma publicação que se
fizera relativamente à conferência que houvera entre êle, Potain, Fournier e Marchand. Movera-se
processo contra êsse médico, sendo o mesmo condenado. Em Pôrto-Alegre, o brilhante parlamentar
João Neves da Fontoura, então 2.o Promotor Público, denunciou um médico porque publicára um
artigo intitulado — “Considerações a propósito de um caso de acidentes consecutivos à extração da
catarata”, no qual revelara fatos confiados à sua discreção profissional. Condenado por sentença do
juiz Aurélio Bitencourt Júnior, foi, a final, absolvido êsse facultativo.

Fournier, certa vez, alegando o segrêdo profissional, recusou-se a depôr como testemunha no
processo de separação de corpos de madame Remusat contra seu marido.

Em se tratando de exame pré-nupcial o dr. Gaide sustenta que, no interêsse mesmo da próle, o
segrêdo poderá ser revelado.

Relativamente ao aborto tem-se discutido fartamente a justa causa de sua revelação, se se trata de
punir um crime. A jurisprudência francesa é nesse sentido. Há, nesta capital, na Terceira Vara
Criminal um processo em que um facultativo, chamado pela família para atender a uma rapariga que
se sentia mal, teve necessidade de revelar que se tratava de um aborto provocado. Estamos, assim,
diante de um delito que, em qualquer das hipóteses, é uma situação de perigo para as condições
biológicas da sociedade, no sentir de Ihering. “Necessitas constitutit jus”.

No caso de moléstia de caráter epidêmico, em que é, até, obrigatória a notificação, não deve o
médico calar, pois que a fórmula hipocrática não vai ao extremo de aconselhar-lhe que sacrifique a
coletividade.

Fournier alude ao caso de salvação de um inocente injustamente condenado e ouvimo-lo dizer, com
veemência: “Je connais et respecte le serment d’Hippocrate. Je sais que le médicin est astreint à ne
rien savoir et pourtant a ne rien révéler de ce qu’il pourra apprendre dans l’exercice de sa profession;.
. . mais tout autre est la situation dans l’ordre de cas qui nous occupe actuellement. Ici, d’un part une
simulation criminei pouvant couter a un homme plus que la vie, à savoir l’honneur et la liberté, ici
d’autre part, un innocent à sauver et que le médicin risquerait de laisser condemner en restant
aveugle et muet. Le bon sens et la conscience me disent, à moi, médicin, qu’il y a, en pareille
cinconstance, plus qu’un droit à exercer: un devoir á accomplir”. O silêncio que beneficia o celerado e
recusa proteção ao homem de bem é uma indignidade, é um crime.

Ao médico se recomenda tamanho escrúpulo e tanta discreção que nem mesmo sôbre seus
prognósticos deverá pronunciar-se, ou não dar fácilmente à língua, para fugir à sátira de Boileaux, a
respeito dos facultativos que chamados em socorro de uma doente:

“Lui donnet le mal qu’elle n’a point” ou se dispute, ingratamente, como “Tant-pis” e “Tant mieux” de
La Fontaine, depois que “leur malade paya le tribut à nature:

“L’un disait: “II est mort; je l’avais bien prevu”.

“S’il m’eut cru, disait I’autre, il serait plien de vie”.

O advogado, sem a garantia que a lei consagra, não poderia exercer a sua profissão e os clientes lhe
não depositariam confiança irrestrita. E’, também, dever sagrado o guardar os segrêdos que lhe são
confiados: Para Perraud o segrêdo médico, como o do notário, pode ser controvertido, mas o do
advogado é absoluto; não pode sofrer exceção.

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O advogado é o tipo do confidente necessário. O cliente que se lhe entrega, para defender sua
honra, sua vida, sua fortuna, tem o direito de exigir-lhe silêncio, fidelidade, discreção e depositar-lhe
irrestrita confiança.

Há uma nunça delicada, adverte Dalloz, entre a franqueza e a discreção: se o advogado não sabe
distingui-las, deve nos casos de dúvida recorrer ao conselho de sua Ordem, visto como de um lado
êle não deve ir além do que é verdadeiro; e, doutro lado, o seu escritório é como um tribunal de
penitência, e trairá indignamente seu ministério se revelar os segrêdos que lhe forem confiados. As
conclusões do advogado Gilbert em janeiro de 1728, inspiraram-se nessa doutrina, que tem como
incontrastável que admitir possa êsse profissional revelar os segrêdos dos clientes, equivaleria a
transformá-lo de conselheiro e guia dos pleiteantes, em instrumento de espionagem.

Sharswood fizera sentir na sua obra “An essay on Professional Ethics”, Filadélfia, 1884, que não há
profissão que exija um mais alto gráu de moralidade — “sacred ministry, in which a high toned
morality, is more imperatively”, sendo-lhe mister “fidelity to the court, fidelity to the client, fidelity to the
claims of truth and honour”. O dever de manter a inviolabilidade do segrêdo se enquadra nessa
categoria de fidelidade aos clientes e aos reclamos da honra privada.

Quando em França, em 1826, se buscara fixar a interpretação dêsse princípio, 25 advogados, com
veemência, bateram-se pela sua conservação, afirmando que “1’inviolabilité du secret n’est pas
seulement, pour les avocats, un principe d’honneur; elle est de l’essence de leur ministère. Sans
1’inviolabilité du secret, point de confiance; sans confiance l’avoeat ne peut ni conseiller ni plaider en
connaissance de cause”.

Robert classifica a obra do advogado, que se faz pregoeiro dos segredos, que recebe, de “perfidam,
nefariam et sceleratam”, e Imbert o chama de prevaricador.

Farinacio entendera que essa regra moral mais se apoiava na afeição do advogado a seu cliente:
“advocatum, in causa in qua est advocatus propter praesumptam affectionem, testimonium ferre non
potest”.

Lessona, na sua “Teoria delle prove” vol IV n. 26, sustenta que o advogado deve guardar o segrêdo
quer o mesmo lhe seja revelado, quer o surpreenda com a sua perspicácia de causídico. Com êle
concorda Voet (Comm. alia Pandette III pág. 477). Todavia Chaveau et Helie são de parecer que
neste último caso “ils ne sont pas tenu au secret, car ce n’est pas en leur qualité que les faits leur ont
été confiés”.

“L’avocat qui, devenu l’enemi personnel de son client, révele des faits secrets appris dans 1’exercice
de sa profession, est rayé du barreau (Cresson).

A questão de saber se, com o consentimento do cliente, pode o advogado revelar o segrêdo, tem
provocado aceso debate e divide-se o campo em duas correntes opostas. A doutrina francesa
sustenta, sempre, a predominância do interesse moral e social, e declara-se pela negativa. Na
doutrina italiana há opositores valiosos e adeptos extremados daquela opinião, como se verá
consultando Farenda, Ziino, Mattirolo, Maino, Pincherli, Limbardi e outros. Farinacio é dos que
entendem, lícita a revelação “si poenitens licentiam dedit loquendi”.

Os teólogos sempre protestaram, no que respeita a confissão, contra a amoralidade dessa exceção,
e Farinacio comentara: “ sacerdos non potest delicta commissa pre confitentein revelare, etiam quod
sint atrocíssima, ac etiam quod continentur sub crimine laesae majestatis: imo nec etiam ad id cogi
potest de mandato papae”.

Correndo a vista sôbre a obra “Cases on Legal Ethics”, de Castigan, 1917, encontra à pág 570 o
capítulo precioso “Canons of professional ethics of the American Bar Association”, onde está o
juramento de admissão — “the bath of admission”, que deve ser considerado neste trecho: “I do
solennely swear”:

“I will maintain the confidence and preserve inviolate the secrets of my client”…

“So help me God”.

O segrêdo sacramental, que fôra o germe da legislação lêiga, é, também, protegido pelo preceito dos

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Segrêdo profissional

Códigos invocados. Em conseqüência da confissão, segundo o direito eclesiástico, o confessor é


obrigado ao mais absoluto segrêdo — “sigillus confessionis. — Santo Agostinho dizia: “O que eu sei
pela confissão, sei-o menos do que aquilo que nunca soube”. O preceito legal abrange o sacerdote,
porque êle exerce uma profissão. A Constituição Federal (LGL\1988\3) assegura a liberdade de
cultos e, portanto, o ministro de qualquer delas poderá, também, invocar o segrêdo profissional.

Blanche refere o caso de um crime de roubo ocorrido na casa de um padre. O juiz de instrução
soube que metade do dinheiro subtraído havia sido restituído, por intermédio do padre Lavaine, pelo
que mandou intimá-lo a prestar declarações. O sacerdote escusou-se, alegando o segrêdo da
confissão. O ministério público e o juiz insistiram mas o padre teve seu depoimento anulado, porque
o Tribunal reconhecera ter sido irrepreensível a sua conduta.

O segrêdo profissional, como depósito inviolável, vai à esfera dos negócios, a outras atividades
profissionais. Há nos estabelecimentos comerciais, nos bancos, nos escritórios, nas indústrias,
negócios que giram em torno de segrêdos, de confidências, que não devem ser traídas e divulgadas.
A revelação muita vez atinge o crédito de um comerciante, compromete a atividade de um industrial,
provoca um caso particular de conseqüências danosas, sejam morais ou materias, gera ódios,
vinganças, perseguições, repugnância, discórdia e desmoralização. A moral e a lei se associam no
policiamento da conduta do profissional, evitando êsse malefício.

Recentemente, anunciaram os jornais que o diretor do “City Bank” se apresentára à Caixa


Econômica para receber, em nome de terceiro, o valor do sorteio de uma apólice pernambucana. O
afortunado que atingido fôra com o sorteio não apareceu; confiou ao banco o recebimento do prêmio
e seu nome manteve-se oculto.

Na doutrina, tem-se como assente que às operações da Bolsa é essencial o segrêdo (Crépon — De
la negotiation des effets publics).

Os livros comerciais, bem o sabeis, são presservados da bisbilhotice de qualquer imprudente, que
lhes queira conhecer os segrêdos. Somente nos casos de exceção, contidos no artigo 18 do Cod.
Com. é que se permite o seu exame, limitado ao ponto da controvérsia. Meyer e outros admitem que,
de acordo com o principio de ordem pública para apurar a responsabilidade criminal de alguém, é
possível o seu mais amplo exame, o que Carvalho de Mendonça contesta. Se os livros comerciais
têm essa prerrogativa, é bem de ver que o guarda-livros, o contador, os escriturários, que lidam com
êsses livros, que lançam as operações, fazem os registos, se acham vinculados ao segrêdo
profissional.

É, ainda, o Código Comercial que impõe ao corretor o dever de guardar inteiro sigilo nas
negociações de que se incumbe, respondendo pelos prejuízos, que de sua revelação possam
resultar, e até podendo ser condenado à perda do ofício e de metade da fiança.

No art. 78 do Código Comercial não se contém expressa a proibição de revelar segrêdos, mas se
regula a responsabilidade dos feitores, guarda-livros e caixeiros, agentes ou prepostos de
estabelecimentos comerciais, por todo e qualquer dano que causarem por malversão, negligência
culpável ou falta de exata e fiel exação das ordens e instruções recebidas. E dessa regra de direito
comum, em virtude da qual todos respondem, por suas ações ou omissões, bem se poderá admitir
que aqueles agentes possam incorrer na sanção legal, se no seu emprêgo revelam segrêdos que
ocasionem danos.

Segundo Alberici, o Código Austríaco cogitara de incluir entre os que eram obrigados a manter a
inviolabilidade questionada, os domésticos e empregados, em geral, assim como os estudantes de
medicina que convivem nos hospitais e clinicas, a respeito dos casos que acompanham.

No direito francês os agentes de câmbio, os comissários, têm essa obrigação e não podem revelar
os nomes dos comitentes, a menos que sejam autorizados.

No depósito, é obrigado o depositário a guardá-lo fechado, colado, selado e lacrado. Há uma


delicadeza moral em assim prescrever o art. 1.276, do nosso Código Civil (LGL\2002\400). No
depósito é preciso haver boa fé, fidelidade e discreção. Conta-se que Séneca, de Beneficiis, ensinára
que se poderia negar o depósito em presença de terceiro, se tal era o interêsse daquele que o fizera
— “intuebor utilitatem ejus cui redditurus sum, et nociturum illi depositum negabo”. No velho Código
de Manú, do século XIII, antes de éra vulgar, índice da civilização da Índia, vamos encontrar o art.

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Segrêdo profissional

189 que reza: “O depósito feito e recebido em segrêdo deve ser restituido em segrêdo; assim como é
entregue é restituido. Quem age com fraude é punido”.

D’Aguesseau quisera que, mesmo em relação aos tribunais, se respeitasse êste princípio: “savoir
tout ce qui se passe dans le secret de la compagnie et ne pas tout reveler…”, no interêsse da própria
disciplina e do principio de solidariedade moral que une os membros de um mesmo corpo judiciário.
Sespillon, em seu Código Criminal, manifesta a opinião sobre o segrêdo que obriga o magistrado.

O decreto n. 16.273, de 20 de dezembro de 1923, que reorganiza a justiça do Distrito Federal, no


seu art. 293, n. 1, diz ser rigorosamente vedado ao magistrado manifestar sua opinião sôbre
decisões, que haja de exarar, sendo seu imperioso dever manter o segrêdo das deliberações, a que
a lei empreste caráter de reserva ou sigilo. No art. 316, n. IV, a mesma lei impõe aos serventuários
de justiça: guardar absoluto sigilo sôbre os processos, que corram em segrêdo de justiça, ou
decisões que em tal caráter forem dadas, bem como sobre as diligências reservadas.

Manzini entende que o jornalista não deve ser excluído dessa regra, porque, se êle no exercício de
sua profissão surpreende um segrêdo, não o deve revelar, sendo superficial o motivo alegado de que
não há profissão que, na sua essência, seja mais indiscreta. Quem lhe confia um segrêdo? “Se un tal
pazzo ci fosse, dovrebbe imputare a se stesso la mala scelta del confittente”.

No Código Penal (LGL\1940\2) Italiano, no artigo 623, há uma nova figura: a revelação de segrêdos
científicos e industriais, que se tem como delito contra a fé pública. O inventor ou descobridor tem
interêsse em exigir a conservação do “segrêdo de sua invenção”. O artigo 113 n. 18 da Constituição
Federal (LGL\1988\3) assegura-lhe a propriedade e o privilégio temporário; mas, sem garantia do
segrêdo, muitas invenções ficariam profundamente prejudicadas. Exige-se que o inventor apresente
o seu relatório, exponha o seu processo, comunique a essência de sua descoberta, pormenorize a
sua fórmula, sem o que a patente e privilégio lhe não serão concedidos. E’ uma situação de
necessidade, imposta pela lei, e esta mesma o deverá proteger, na sua amplitude.

Topa-se no Código Penal (LGL\1940\2) Espanhol, com os artigos 439 e 441, sendo que o artigo 437
prescreve: “El funcionario publico que descubra secretos de que tenga o haya tenido conocimiento
por razón de su cargo o entregare indebidamente papeles e copias de papeles que tenga en su
poder y no debam ser publicados, incurrirá en las penas de dos a seis anos de inhabilitacion especial
y multa”.

Alguns escritores incluem os notários entre os que têm a obrigação moral de observarem aquela
proibição, mas outros negam-lhes êsse dever, de vez que o notário se limita a instrumentar a
vontade das partes, e pratica atos públicos. Em França, todavia, o notário é um conselheiro habitual
das famílias, e conhece os seus negócios, está inteirado de segrêdos, que não deve revelar.

Vem a ponto assinalar que um interêsse fútil, uma leviandade, um capricho, um vicio ou inclinação,
não podem ser considerados do ponto de vista do direito penal. Seria o caso de um doméstico que
revelasse a embriaguez solitária de seu amo; um dentista que anunciasse haver posto uma
dentadura numa respeitável matrona; um ortopedista que divulgasse ter o comendador Xisto uma
perna mecânica. Poderia haver indelicadeza e lamentável indiscreção, nesses casos, porém, não um
fato sujeito à sanção penal.

O sigilo de negócios de Estado, subordinado a diverso título, no Código Penal (LGL\1940\2) se liga,
também, ao segrêdo profissional. O artigo 87, § 3.o, fala na revelação de segrêdos políticos ou
militares concernentes à segurança e integridade da pátria. Também o decreto 4.743 de 31 de
outubro de 1923 disciplina o assunto. O diplomata poderá praticar atos de traição revelando
segrêdos de Estado, e no Código Alemão, expressamente, se cogita dêsse delito. Nas suas relações
externas o Estado mantém o segrêdo diplomático e nas internas o segrêdo político “strito sensu”.

O segrêdo a que se refere a lei é aquele de que o prifissional tem notícia por necessidade mesma de
seu ofício ou do desempenho de sua missão, ou pela impossibilidade contigente ou transitória de
não poder evitar o seu conhecimento. Deverá ser, ainda, de molde a produzir dano moral ou
patrimonial, público ou privado, se fôr revelado. O magistrado terá de apreciar as circunstâncias
delicadas de cada caso concreto, tendo em atenção, sobretudo, a qualidade do agente.

Se há casos de dúvida, ou de conflito entre o seu dever e o interêsse público, entre os imperativos
morais e os princípios legais, deve o profissional inclinar-se para aquela solução que se lhe afigure

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Segrêdo profissional

menos danosa, de resultados menos graves. Conforme seja a hipótese deverá mesmo ouvir um
advogado, que examinará o aspecto moral do caso, em face do preceito legal e das exigências
sociais.

Quem se habitua a ser indiscreto e a mexericar, não dando treguas à língua dificilmente, poderá
guardar um segrêdo. O hábito, como segunda natureza, afasta do dever moral, o profissional.

“That monster, custom,, who all sense dolt cat

Of habit’s devil, is angel yet in this

That to the use of actions fair and good

He likewise gives a frock or livery

That aptly is put on”.

Foi em 30 de maio de 1923, Pinto da Rocha, falando aos moços da Faculdade de Medicina do Rio
de Janeiro, discorreu, com aquela eloqüência que lhe era peculiar, sobre o segrêdo profissional e
afirmára, então, que isto fôra uma coisa que se encaixara no cérebro da classe médica, e havia de
ser difícil arrancá-la. Entendêra aquele jurista que êsse segrêdo era uma necessidade, porém, não
legislado, porque a lei não pode prescrever todos os casos. Não atino com a procedência dessa
crítica. Se a necessidade existe, e é proclamada no interêsse público, porque não se disciplinar
numa norma legal? Necessidade, opõe-se à liberdade, porque não pode, e não deve ser de modo
diverso do que é. Necessidade é coisa imperiosa, fatal, irresistível.

Que seria, então o segrêdo profissional? Ficaria ao arbítrio de quem o possuísse. Ora, o médico, o
advogado, o sacerdote, poderão dizer, com Camillo: “de portas a dentro pregadores de moral só
admito um: sou eu”? Di-lo-á o cidadão em relação à sua vida privada mas, o profissional não tem
essa liberdade. Converter-se o profissional, só êle, no juiz da conveniência de revelar ou não um
segrêdo, como Se fôra isto um caso de pura teologia moral, remataria num dispautério e à sombra
dêsse arbítrio se perpetrariam abusos lamentáveis. Onde terminaria a liberdade de revelar o segrêdo
e começaria a responsabilidade pela sua danosa violação?

É verdade que cm assunto tão delicado, penetrado de subjetivismo, a lei não poderá ser casuística,
padronizando tôdas as hipóteses que possam emergir nas relações sociais. Mas, por isto mesmo é
preferida a fórmula genérica: há a norma legal, existe a sanção, e as circunstâncias dirão, em cada
caso concreto, se se configura o delito, se à objetividade se alia a intenção. Ao magistrado ê que
ficará confiada a missão de interpretar e aplicar a lei.

Isto posto, nenhuma razão de ordem psicológica, moral, política ou social apoiaria o sentir dos que
condenam a inclusão do segrêdo profissional na categoria dos delitos.

Cita o saudoso jurista Pinto da Rocha a opinião de Leonídio Ribeiro que, numa entrevista concedida
ao “Correio da Manhã”, em março de 1923, declarara que “se deveria dar ao segrêdo profissional
uma interpretação evolutiva”. Dias de Barros, em discurso proferido na Academia de Medicina e
Cirurgia, em 1925, expôs esta tese: “O segrêdo médico é uma concepção evolutiva”. Eis as suas
palavras:

“Tudo quanto houver visto, ouvido, ou compreendido, sem que lho hajam dito, no exercício da
profissão é matéria de segrêdo, é o estofo no qual êle corta a veste talar do seu sacerdócio (pág. 5).
Mas, o meio social tranforma-se, e nessa transmutação, houveram entes de razão que povoaram o
cérebro do homem, tais como os fantasmas, que em sua infância lhe perturbaram o sono, que
tiveram de ser vencidos pelo livre exame, espancadas as trevas do obscurantismo, quebradas as
algemas que o elevam aos preconceitos irrespeitáveis e entravadores de seu progresso (pág. 7), e o
segrêdo médico também, evoluiu analógicamente, a tôdas as concepções humanas (pág. 12). O
douto profissional, porém, não indicou as linhas mestras dessa evolução, nem fixou nitidamente, ou
sequer à superfície, essa nova concepção. Fizera como Sócrates que tanto falara do Justo e do
Bom, e não os definira sendo mister que Platão lhe suprisse a lacuna. Aqui, porém, Platão não
acudira em tempo nem fácil lhe seria a tarefa. O segrêdo é, sempre, o segrêdo. Não se funda no
preconceito, não é abusão, não peca pela ausência de senso moral. As transformações sociais a que
se alude não lhe desnaturam a essência ética. E’ como o principio de honra, de dignidade, de

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Segrêdo profissional

decoro, de sensibilidade moral, de compostura, de fidelidade, que a ética de iodos os tempos


mantém incorruptível e soberano, desafiando as artificiosas convenções sociais ou os desvios de
tôda a evolução. Não há sociedade que se compraza em viver na contumélia, nos mexericos, na
protérvia, na injustiça, na traição, na deshonra, no cinismo, na chocalhice, no enrêdo. Os valores
éticos serão, sempre, os mesmos e triunfadores.

“L’homme est un, quoiqu’il change sans cesse; la vie morale de l’humanité est quoiqu’elle soit dans
un perpetuei’mouvement: c’est le flambeaux que les generations se passent les unes aux autres en
courant”.

O valor moral do homem não é uma ficção, mas o cérne mesmo da vida. “L’uomo sente in sé la
propría umanitá, e la esalta e idealiza come une somma di valori perenni, fino a decretare
1’immortalitá a che i grande ne i quali maggiormente rifulge”.

O que se poderá dizer é que acompanhando a evolução social êsse instituto perdera o seu
absolutismo e ganhara um relativismo consentâneo com as próprias condições da vida. Subsiste o
princípio da inviolabilidade do segrêdo, porém, toleradas as exceções mais amplas. Hoje, por
exemplo, o aparêlho fiscal relativo ao imposto de renda examina, devassa tôda a escrita comercial
de um banco ou de um estabelecimento comercial. O imposto de riqueza móvel, o selo adesivo, etc.,
também toleram êsse exame, que, muita vez, surpreende operações, que se devem manter em
sigilo. A defesa mesma do Estado, no caso de propagandas subversivas, impõe ao profissional não
silenciar, pois que, aí, o segrêdo implicaria na destruição da família, da propriedade, das conquistas
da civilização, e comprometeria fundamentalmente as próprias instituições clássicas.

Francisco de Castro, o sábio médico e notável escritor, no ato de colação de gráu dos médicos, em
23 de janeiro de 1897, falando aos que “não representavam comédias nesse tablado solene em que
a vida alonga os braços para a esperança, quando a grandeza do nada projeta sôbre ela a sua
sombra terrível”, lhes dissera: “no exercício da arte clínica, qualquer que seja o ramo predileto do
vosso labor, há um princípio de doentologia que não desertareis em caso nenhum; princípio que é o
eixo do vosso valor moral, a base da simpatia espontânea da afeição desinteressada, da confiança
efetiva de vossos clientes; uma necessidade e um dever já unissonamente reconhecidos e
conclamados pelo sentimento dos povos cultos, muito antes que os antigos legisladores o
houvessem fundido no bronze das leis, perpetuando-o nas provisões dos códigos escritos. Tal é,
senhores, o segrêdo médico.

O culto do indeclinável preceito de ética profissional, cuja intransigência acabo de recomendar-vos


impõe-se-nos, a nós outros médicos, sob a mesma inspiração do decoro e em nome dos mesmos
cânones de moralidade que o sagraram para os levitas da nossa religião”.

Prefiro, ainda, ficar com a tradição e ser conservador. Daí aplaudir a norma legal. Os que a
combatem são inconseqüentes ou se capacitam de modelos. Ninguém se presume indiscreto e o
mais mexeriqueiro, só critica as alheias bisbilhotices, sem cuidar das próprias.

É certo que êles ‘diriam: “je serais un grand sôt si j’exposais aux yeux de tout le monde les defauts
que je me connais peut-être aussi parfaitement — et nous voulons toujours paraitre au yeux du
monde ce que nous ne somnies en realité”.

Não obstante a regra do Código Penal (LGL\1940\2) e o preceito de moral, quantos de vós têm
ouvido de amigos, na intimidade, na expansão de leviana confiança, a revelação de segredos
profissionais? Quem atira a primeira pedra?

Já percebo o vosso enfado. O irrequieto dos vossos gestos e as fisionomias contrafeitas, exigem o
ponto final. Não sei se estará saciada a vossa curiosidade. No Rotary, onde tão nítida é a noção da
confiança reciproca, do dever de fidelidade, da lealdosa conduta, da ética profissional, excusada
seria esta sabatina. Cada um de vós, no exercício honrado de vossa atividade social, ou de vossa
profissão, tem o instinto mesmo da discreção, e saberá, em tôdas as circunstâncias da vida, ser um
escravo” dêsse preceito.

Se não fôra sustentar, convencidamente, a tese altamente moralizadora da inviolabilidade do


segrêdo, eu me valeria desta oportunidade, para publicar as informações, que Pacheco Moreira
acaba de prestar-me, em tom reservado quasi em cochicho, à socapa, e atinente aos nomes dos que
agrilhoados ao acanhamento ou à intencional esquivança, ainda não acudiram ao apêlo da

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Segrêdo profissional

Comissão de Natal, concorrendo com a sua espórtula, o seu donativo, a sua contribuição, para a
festa de alegria das criancinhas pobres e órfãs, dos nossos Asilos. Tantos são os que, avarentos, se
conservam na mudez desconcertante, sem honrar a Comissão com a gentileza de uma resposta
animadora, que, quasi, não resisti a tentação diabólica de revelar-lhes os nomes — Mas… “eu sou
quem vos vê, outro ninguém”.

Certa vez, ao fim de afanoso dia, observaram a Titus, filho e sucessor de Vespasiano, não haver êle
feito feliz, naquele período de 24 horas, nenhuma pessoa ou propiciado algum benefício, ao que o
mesmo respondeu: Eis um dia que perdi — “Amici, hodie diem perdidi”.

Eu não reproduzo, neste instante, a lamentação, que traduz a amargura d’alma de quem não sente o
prazer da felicidade distribuída ao semelhante, — porque, as palavras minhas, confiante na
solidariedade moral e espiritual de meus companheiros —, valem como um apêlo que não falhará; e,
se esta ventura sai como eu a espero, ninguém é hoje mais bem-aventurado que eu, pois as
criancinhas pobres irão receber, a flux, as oferendas de corações generosos e benfazejos.
“Abrem-se as vossas bolsas aos que se deviam perdulariamente abrir”.

Há, nos vossos orçamentos domésticos verbas expressas com várias destinações, e entre elas “vient
le chiffre des dépenses de monsieur, chiffe parfois elevé, quand on y porte l’article des fonds secrets.
En dernier lieu figure la chapitre des dépenses de madame; c’est un chiffre variable sur lequel je
n’oserais me prononcer” (Laboulaye).

Amigos, em paga do meu discreto silêncio, “sejais na minha ajuda; socorrei em tal presa á lingua
muda”; abri, também, nesse orçamento, a coluna de crédito em favor dos órfãos de Natal.

Rio, dezembro de 1935.

1 Trata-se de uma interessante palestra realizada pelo dr. José Duarte, juiz de direito no Distrito
Federal, no Rotary Clube local; esse distinto magistrado cuida do assunto de forma literária e de
modo realmente interessante.

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