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Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios

PJe - Processo Judicial Eletrônico

22/06/2021

Número: 0704008-21.2021.8.07.0018
Classe: AÇÃO CIVIL PÚBLICA CÍVEL
Órgão julgador: Vara de Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Fundiário do DF
Última distribuição : 22/06/2021
Valor da causa: R$ 100.000.000,00
Assuntos: Dano Ambiental
Segredo de justiça? NÃO
Justiça gratuita? SIM
Pedido de liminar ou antecipação de tutela? SIM
Partes Advogados
FORUM NACIONAL DE PROTECAO E DEFESA ANIMAL
(AUTOR)
ANA PAULA DE VASCONCELOS (ADVOGADO)
ASSOC BRASILEIRA DE CRIADORES DE CAVALO
QUARTO DE MILHA (REU)
DISTRITO FEDERAL (REU)
INSTITUTO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS
HIDRICOS DO DISTRITO FEDERAL - IBRAM (REU)
SECRETARIA DE ESTADO DA AGRICULTURA,
ABASTECIMENTO E DESENVOLVIMENTO RURAL DO
DISTRITO FEDERAL (REU)

Documentos
Id. Data da Documento Tipo
Assinatura
95429060 22/06/2021 Decisão Decisão
18:43
Poder Judiciário da União
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS
TERRITÓRIOS

Vara de Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Fundiário do DF


SAM, sala 03, térreo, Setores Complementares, BRASÍLIA - DF - CEP:
70620-020
Horário de atendimento: 12:00 às 19:00

Número do processo: 0704008-21.2021.8.07.0018

Classe judicial: AÇÃO CIVIL PÚBLICA CÍVEL (65)

Assunto: Dano Ambiental (10438)

Requerente: FORUM NACIONAL DE PROTECAO E DEFESA ANIMAL

Requerido: ASSOC BRASILEIRA DE CRIADORES DE CAVALO QUARTO DE MILHA e outros

DECISÃO INTERLOCUTÓRIA

Reconheço a plausibilidade jurídica da pretensão autoral, pelas seguintes razões:

É bem verdade que o art. 225 da Constituição tem nítida feição antropocêntrica, qualificando o
interesse ambiental como propriedade humana, do que é deveras emblemático o próprio conceito de "meio
ambiente" a pressupor um entorno ao ser humano, como se não fosse ser integrante da natureza.

Contudo, mesmo o antropocêntrico art. 225 reconhece claramente um direito aos animais: o direito
de não serem submetidos a crueldade (CF, art. 225, § 1º, VII). Embora trivial, a interpretação da regra
constitucional que veda expressamente as práticas que submetam os animais à crueldade conduz ao
reconhecimento do direito em comento, posto que só faz sentido cogitar de se incumbir o poder público de
proteger a fauna das condutas descritas no texto constitucional se tais condutas violam direito de alguém.

A ressalva contida no § 7º do mesmo art. 225, acrescentado pela EC 96/17, deve ser interpretada em
harmonia com o conjunto do texto constitucional. A diretriz geral do art. 225 indica que o preservacionismo
é a referência hermenêutica de todo o ordenamento jurídico. A preservação do esporte e da cultura deve
ocorrer em conformidade com o princípio da proteção à vida com dignidade, que é assegurada também aos
animais não-humanos. Assim, nos casos em que as práticas desportivas e culturais não impliquem em
tratamento cruel a animais, a conduta estará respaldada pela ordem constitucional - pense-se, por exemplo,
numa manifestação como a das Cavalhadas, que ocorrem no estado de Goiás, com cavaleiros montados
numa manifestação folclórica, que não submtete os animais envolvidos a sofrimento exagerado ou
desnecessário. Se a prática dita "esportiva" ou "cultural" pressupõe a submissão de animais a crueldade ou
maus-tratos, é francamente inconstitucional, e não se respalda pela ressalva do § 7º do art. 225 da Carta.

Acrescente-se a recordação de que a Lei n. 9605/98 (Lei dos Crimes Ambientais) tipifica como
delito a conduta de "praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou
domesticados, nativos ou exóticos" (art. 32). Se a conduta é tipificada como crime, é inerentemente ilícita,
posto que crime é, por definição, fato típico, antijurídico e culpável. Se é conduta ilícita, reforça-se o
reconhecimento da plausibilidade jurídica da pretensão de coibição do ato.

Número do documento: 21062218434776700000089199815


https://pje.tjdft.jus.br:443/pje/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=21062218434776700000089199815
Assinado eletronicamente por: CARLOS FREDERICO MAROJA DE MEDEIROS - 22/06/2021 18:43:47 Num. 95429060 - Pág. 1
As provas de rodeio são inequivocamente causadoras de severos maus tratos aos animais envolvidos,
notadamente as que envolvem perseguição, laceio e derrubada de bovinos, sendo estes submetidos a intenso
padecimento pela dinâmica manifestamente cruel com que ocorrem. Se são cruéis, são inconstitucionais, e
não podem ser promovidas.

O periculum in mora decorre da possibilidade de prejuízo irreparável ao microbem ambiental


tutelado pela norma do art. 225, § 1º, VII, caso não se conceda a tutela provisória ora postulada, ou seja, pela
possibilidade de submissão dos animais ao tratamento cruel constante de prova de perseguição, laceio e
derrubada.

Contudo, há que ponderar que, como admite a própria autora, o evento referido na inicial tem escopo
bem mais amplo que as provas de rodeio, envolvendo divulgação de cultura sertaneja, comercialização de
bens em geral etc., que não se relacionam necessariamente com as provas crueis, e que são perfeitamente
lícitos, podendo ser realizados, sem prejuízo da tutela provisória ora concedida.

Em face do exposto, defiro a liminar, para cominar aos réus a proibição de realização de provas
envolvendo maus-tratos e crueldade com animais, especiaimente provas de perseguição, laceio e derrubada
de animais, sob pena de multa no valor de R$ 2.000.000,00 pela violação, sem prejuízo da responsabilidade
penal e administrativa respectivas. Os órgãos públicos competentes ficam obrigados a realizar a fiscalização
do evento, de modo a impedir a realização das atividades lesivas à proteção constitucional da fauna.

Dispenso a audiência prévia de autcomposição, dado o caráter indisponível dos interesses jurídicos
em pauta. Cite-se e intimem-se, com urgência, para ciência e cumprimento à presente decisão, bem como
para a apresentação da resposta, no prazo legal.

Publique-se; ciência ao Ministério Público.

BRASÍLIA-DF, Terça-feira, 22 de Junho de 2021 18:05:11.

CARLOS FREDERICO MAROJA DE MEDEIROS

Juiz de Direito

Número do documento: 21062218434776700000089199815


https://pje.tjdft.jus.br:443/pje/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=21062218434776700000089199815
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