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Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios

PJe - Processo Judicial Eletrônico

23/06/2021

Número: 0704008-21.2021.8.07.0018
Classe: AÇÃO CIVIL PÚBLICA CÍVEL
Órgão julgador: Vara de Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Fundiário do DF
Última distribuição : 22/06/2021
Valor da causa: R$ 100.000.000,00
Assuntos: Dano Ambiental
Segredo de justiça? NÃO
Justiça gratuita? SIM
Pedido de liminar ou antecipação de tutela? SIM
Partes Advogados
FORUM NACIONAL DE PROTECAO E DEFESA ANIMAL
(AUTOR)
ANA PAULA DE VASCONCELOS (ADVOGADO)
ASSOC BRASILEIRA DE CRIADORES DE CAVALO
QUARTO DE MILHA (REU)
DISTRITO FEDERAL (REU)
INSTITUTO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS
HIDRICOS DO DISTRITO FEDERAL - IBRAM (REU)
SECRETARIA DE ESTADO DA AGRICULTURA,
ABASTECIMENTO E DESENVOLVIMENTO RURAL DO
DISTRITO FEDERAL (REU)

Outros participantes
MINISTERIO PUBLICO DO DISTRITO FEDERAL E DOS
TERRITORIOS (FISCAL DA LEI)
Documentos
Id. Data da Documento Tipo
Assinatura
95351322 22/06/2021 Petição Inicial Petição Inicial
14:23
95372248 22/06/2021 ACP ABQM Rodeio Granja do Torto Petição
14:23
95351328 22/06/2021 Procuração - Fórum Ana Paula Procuração/Substabelecimento
14:23
95351331 22/06/2021 Estatuto Fórum Documento de Comprovação
14:23
95351324 22/06/2021 Parecer Rodeio Parecer dos assistentes técnicos das
14:23 partes
95351325 22/06/2021 Parecer Técnico Prova do Laço Parecer dos assistentes técnicos das
14:23 partes
95351326 22/06/2021 Prova Buldog Parecer Parecer dos assistentes técnicos das
14:23 partes
95351327 22/06/2021 VAQUEJADA parecer final 2020 - STF Parecer dos assistentes técnicos das
14:23 partes
95429060 22/06/2021 Decisão Decisão
18:43
95440188 22/06/2021 Mandado Mandado
20:37
95440755 22/06/2021 Mandado Mandado
20:48
95453101 23/06/2021 Ficha de inspeção judicial Ficha de inspeção judicial
07:04
Segue PDF

Número do documento: 21062214232941400000089131358


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Num. 95351322 - Pág. 1
EXCELENTÍSSIMO SENHOR JUIZ DE DIREITO DA VARA DO MEIO AMBIENTE,
DESENVOLVIMENTO URBANO E FUNDIÁRIO DO DISTRITO FEDERAL-DF.

“Uma das relações mais desiguais,


devastadoras e selvagens que consigo
imaginar é a interação entre humanos e
animais”.
Pedro Arcanjo Matos, no livro “Toda a dor
do mundo”.

FÒRUM NACIONAL DE PROTEÇÃO E DEFESA


ANIMAL, associação sem fins lucrativos, inscrita no CNPJ nº
04.085.146/0001-38, com sede na Rua Cláudio Soares, Conjunto 115,
Pinheiros, São Paulo - SP, CEP 05422-030, cujos objetivos, com fundamento
no art. 225, caput e seu parágrafo 1º, inciso VII e Lei da Ação Civil Pública nº
7.347/85, art. 1º, inciso I e seu art.5º, inciso V, alíneas “a” e “b”, através de
sua advogada constituída, Ana Paula de Vasconcelos (OAB-DF 41.036), que
receberá citação e intimações no seu escritório, situado no Condomínio Privê
Morada Sul, Etapa A, módulo H22, Altiplano Leste, Lago Sul, Brasília-DF,
telefone 61- 98215-4751, vem à honrosa presença de Vossa Excelência ajuizar
o presente procedimento de:
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AÇÃO CIVIL PÚBLICA
C/ TUTELA DE URGÊNCIA ANTECIPATIVA INCIDENTAL
(CPC, Art. 300).

Em desfavor de ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA QUARTO


DE MILHA- ABQM, Pessoa Jurídica de Direito Privado, inscrita no CNPJ
nº 44.465.466/0001-38, com sede à Av. Marquês de São Vicente, nº 446
(ANTIGO 10), Conjunto 1816, 18º Torre Comercial New Work Tower, Barra
Funda, São Paulo - SP, CEP 01139-000, neste ato representado por seu
Presidente Carlos Eduardo Pedrosa Auricchio, GOVERNO DO DISTRITO
FEDERAL, pessoa jurídica de direito público, inscrito no CNPJ
00.394.601/0001-26, com sede no Palácio do Buriti, praça do Buriti, 1º Andar,
sala P-70, Brasília-DF, representado por seu Governador Ibaneis Rocha,
INSTITUTO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS HÍDRICOS
DO DISTRITO FEDRAL- IBRAM, pessoa jurídica de direito privado,
inscrito no CNPJ nº 08.915.353/0001-23, com sede SEPN, 511, Bloco C, Ed
Via Bittar, W3 Norte, Asa Norte, Brasília-DF, representado por seu
Presidente, Sr. Carlos Trinchão, SECRETARIA DA AGRICULTURA
ABASTECIMENTO E DESENVOLVIMENTO DO DISTRITO
FEDERAL –SEAGRI, pessoa jurídica de direito público, inscrita no CNPJ
03.318.233/0001-25, com sede na STN, Asa Norte, Brasília-DF, na pessoa de
seu Secretário Sr. Candido Teles de Araújo, pelos fundamentos de fato e de
direito a seguir narrados.
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1) DA COMPETÊNCIA

A competência administrativa para proteção ao meio ambiente


é comum da União, Estados, Distrito Federal e Municípios (CF, art. 23, VI e
VII) e, segundo o art. 2º da Lei n. 7.347/85 – Lei da Ação Civil Pública, as
ações previstas nessa lei serão propostas no foro do local onde ocorrer o dano,
competência essa funcional, nos termos da lei, significando ser absoluta e
improrrogável.

Referido art. 2º da LACP e a Lei Complementar n. 140/2011,


que regulamentou o também já mencionado art. 23, incisos VI e VII, mais
especificamente o inciso I e III, do seu art. 8º, estatui, entre as ações
administrativas das unidades federativas e dos municípios, executar e fazer
cumprir a Política Nacional de Meio Ambiente e demais políticas nacionais e
locais relacionadas à proteção do meio ambiente.

2) DA LEGITIMIDADE ATIVA

Consoante o artigo 5º da Lei da 7.347/85 (Lei da Ação Civil


Pública), aqueles que possuem legitimidades para propor a ação principal e
ação cautelar são seguintes entidades elencadas em rol taxativo:

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I - o Ministério Público;
II - a Defensoria Pública;
III- a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios;
IV - a autarquia, empresa pública, fundação ou sociedade de
economia mista
V - a associação que, concomitantemente: a) esteja
constituída há pelo menos 1 (um) ano nos termos da lei civil; b) inclua,
entre suas finalidades institucionais, a proteção ao patrimônio público e
social, ao meio ambiente, ao consumidor, à ordem econômica, à livre
concorrência, aos direitos de grupos raciais, étnicos ou religiosos ou ao
patrimônio artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico.

Assim sendo, o FÓRUM NACIONAL DE PROTEÇÃO E


DEFESA ANIMAL, associação constituída há mais 15 anos e que tem entre
suas finalidades institucionais a proteção ao meio ambiente, com a atuação
específica na proteção e defesa dos animais, congregando mais de cem
associações afiliadas em território nacional, conforme estatuto (anexo), possui
a necessária legitimidade ativa para propor a presente ação civil pública com
pedido liminar (tutela de urgência).

3) DELIMITAÇÃO DO TEMA: DIREITO POSITIVO


APLICADO A ESPÉCIE:

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A proteção Constitucional ao meio ambiente ecologicamente
equilibrado e a proteção dos animais contra a crueldade humana, está
estabelecida no art. 225, caput e § 1º, VII, da Constituição Federal, logo trata-
se de ilícito civil de maus tratos aos nossos animais, previsto nesse mencionado
art. 225, § 1º, inc. VII, da Constituição federal e art. 186 c/c 927, do Código
Civil.

A constituição Federal garante ser direito de todos os cidadãos


o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, por ser bem de uso
comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder
Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes
e futuras gerações, vedando a crueldade contra os animais.

Esses direitos fundamentais de quarta dimensão, porque


transcendem seus efeitos para as gerações futuras, estão positivados no art.
225, caput e § 1º, inc. VII, da nossa Constituição Federal, a seguir transcrito:

Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente


ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo
e essencial à sadia qualidade
de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o
dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e
futuras gerações.

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§ 1º Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe
ao poder público:
(...)
VII - proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei,
as práticas que coloquem em risco sua função ecológica,
provoquem a extinção de espécies ou submetam os
animais a crueldade.

Dessa forma, o desequilíbrio ambiental faunístico é causado


sempre que uma dessas condutas previstas na constituição ocorrer:

1) prática que coloque em risco a função ecológica de um


animal;
2) prática que provoca a extinção de uma espécie;
3) prática que submeta o animal a crueldade.

E sempre que houver esse desequilíbrio ao meio ambiente,


surgirá o direito DIFUSO, de toda coletividade, ao restabelecimento do seu
equilíbrio através dos meios processuais disponíveis.

Assim, o Direito Animal, como ramo autônomo do Direito,


surgiu com a promulgação da Carta Magna de 1988, mais especificamente no
art. 225, § 1º, inc. VII, que impõe ao Estado e à sociedade vedação à prática
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de crueldade contra os animais, diferenciando-o do Direito Ambiental, em que
os animais são protegidos por comporem a fauna, esta integrante do meio
ambiente, passando assim a existirem direitos subjetivos dos animais somente
por existirem, independentemente de sua posição na fauna, o que gera certa
perplexidade em razão de não estarmos acostumados a tratar do tema de
dignidade animal, mas apenas da dignidade da pessoa humana (CF, art. 1º, inc.
III), como um dos princípios fundamentais que informam toda a Constituição,
o que já levou muitos doutrinadores a entender que dignidade só poderia se
referir a humanos, afirmando que o termo conteria uma redundância ao se
referir à pessoa humana.

Referida norma constitucional deu origem à criminalização da


conduta de maus tratos a animais, originando o art. 32, da Lei 9.605/98 – Lei
de Crimes Ambientais, que, a par de estabelecer sanções penais, embora ainda
brandas, contra o agressor do animal, segundo Vicente Ataíde Jr, “densifica a
regra constitucional de proibição de crueldade, especificando as práticas
consideradas cruéis e, portanto, proibidas”1. Esse artigo considera prática
cruel toda conduta consistente em abusar, maltratar, ferir ou mutilar animais
(art. 32, caput); experimentação dolorosa ou cruel em animal vivo, ainda que
para fins didáticos ou científicos, quando existirem recursos alternativos (art.

1
Vicente de Paula Ataíde Jr, Introdução ao Direito Animal Brasileiro, p. Revista Brasileira de Direito
Animal, E-ISSN: 2317-4552, p. 48-76, set-dez 2018.
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32, § 1º), prevendo um aumento da pena se dessas práticas resultar a morte do
animal.
Considerando os maus tratos a animais um conceito normativo
aberto na esfera penal, muito mais ainda o será na esfera cível, e para apormos
uma natureza mais científica à definição desse conceito de ilícito civil, temos
uma importante norma administrativa auxiliar para interpretação dos maus
tratos também como ilícito civil, publicada recentemente pelo Conselho
Federal de Medicina Veterinária, a Resolução 1236, de outubro de 2018, que,
em seu artigo 5º, tipifica vinte e nove hipóteses de maus tratos a animais 2, rol
que não pode ser considerado exaustivo, mas sim exemplificativo – como

2
Art. 5º - Consideram-se maus tratos: I - executar procedimentos invasivos ou cirúrgicos sem os devidos
cuidados anestésicos, analgésicos e higiênico-sanitários, tecnicamente recomendados; II – permitir ou
autorizar a realização de procedimentos anestésicos, analgésicos, invasivos, cirúrgicos ou injuriantes por
pessoa sem qualificação técnica profissional; III - agredir fisicamente ou agir para causar dor, sofrimento
ou dano ao animal; IV – abandonar animais; deixar o tutor ou responsável de buscar assistência médico-
veterinária ou zootécnica quando necessária; V – deixar de orientar o tutor ou responsável a buscar assistência
médico veterinária ou zootécnica quando necessária; VI – não adotar medidas atenuantes a animais que estão
em situação de clausura junto com outros da mesma espécie, ou de espécies diferentes, que o aterrorizem ou
o agridam fisicamente; VII – deixar de adotar medidas minimizadoras de desconforto e sofrimento para
animais em situação de clausura isolada ou coletiva, inclusive nas situações transitórias de transporte,
comercialização e exibição, enquanto responsável técnico ou equivalente; VIII – manter animal sem acesso
adequado a água, alimentação e temperatura compatíveis com as suas necessidades e em local
desprovido de ventilação e luminosidade adequadas, exceto por recomendação de médico veterinário ou
zootecnista, respeitadas as respectivas áreas de atuação, observando-se critérios técnicos, princípios éticos e
as normas vigentes para situações transitórias específicas como transporte e comercialização;IX – manter
animais de forma que não lhes permita acesso a abrigo contra intempéries, salvo condição natural que se
sujeitaria;X - manter animais em número acima da capacidade de provimento de cuidados para assegurar boas
condições de saúde e de bem-estar animal, exceto nas situações transitórias de transporte e comercialização;
XI – manter animal em local desprovido das condições mínimas de higiene e asseio; XII – impedir a
movimentação ou o descanso de animais; XIII – manter animais em condições ambientais de modo a
propiciar a proliferação de microrganismos nocivos; XIV – submeter ou obrigar animal a atividades
excessivas, que ameacem sua condição física e/ou psicológica, para dele obter esforços ou comportamentos
que não se observariam senão sob coerção; XV – submeter animal, observada espécie, a trabalho ou a esforço
físico por mais de quatro horas ininterruptas sem que lhe sejam oferecidos água, alimento e descanso; XVI –
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previsto na própria Resolução (art. 5º, § 3º), no que andou bem o Conselho
Federal de Medicina Veterinária, nem somente por não ter essa norma
administrativa o poder de alterar texto e alcance de dispositivo constitucional
e nem de lei federal, como também por ser impossível que o legislador
conseguisse prever todas as hipóteses que a mente humana pudesse criar para
impingir maus tratos aos animais não humanos, destacando-se, no que
interessa ao caso presente, a inclusão das condutas maus tratos físicos, pelos
movimentos bruscos de tração dos bovinos pelas suas caudas, extensão das
suas colunas cervicais, quedas violentas, não raras vezes gerando graves lesões
aos animais, além do terror e do pânico a que são submetidos, e esses maus
tratos físicos e psíquicos se aplicam não somente aos bovinos, mas também

utilizar animal enfermo, cego, extenuado, sem proteção apropriada ou em condições fisiológicas inadequadas
para realização de serviços; XVII – transportar animal em desrespeito às recomendações técnicas de órgãos
competentes de trânsito, ambiental ou de saúde animal ou em condições que causem sofrimento, dor e/ou
lesões físicas; XVIII – adotar métodos não aprovados por autoridade competente ou sem embasamento
técnico-científico para o abate de animais; XIX – mutilar animais, exceto quando houver indicação
clínico-cirúrgica veterinária ou zootécnica; XX – executar medidas de depopulacão por métodos não
aprovados pelos órgãos ou entidades oficiais, como utilizar afogamento ou outras formas cruéis; XXI – induzir
a morte de animal utilizando método não aprovado ou não recomendado pelos órgãos ou entidades oficiais e
sem profissional devidamente habilitado; XXII – utilizar de métodos punitivos, baseados em dor ou
sofrimento com a finalidade de treinamento, exibição ou entretenimento; XXIII - utilizar agentes ou
equipamentos que infrinjam dor ou sofrimento com o intuito de induzir comportamentos desejados durante
práticas esportivas, de entretenimento e de atividade laborativa, incluindo apresentações e eventos similares,
exceto quando em situações de risco de morte para pessoas e/ou animais ou tolerados enquanto estas práticas
forem legalmente permitidas; XXIV – submeter animal a eventos, ações publicitárias, filmagens, exposições
e/ou produções artísticas e/ou culturais para os quais não tenham sido devidamente preparados física e
emocionalmente ou de forma a prevenir ou evitar dor, estresse e/ou sofrimento; XXV – fazer uso e/ou permitir
o uso de agentes químicos e/ou físicos para inibir a dor ou que possibilitam modificar o desempenho
fisiológico para fins de participação em competição, exposições, entretenimento e/ou atividades laborativas.
XXVI - utilizar alimentação forçada, exceto quando para fins de tratamento prescrito por médico veterinário;
XXVII – estimular, manter, criar, incentivar, utilizar animais da mesma espécie ou de espécies diferentes em
lutas; XXVIII - estimular, manter, criar, incentivar, adestrar, utilizar animais para a prática de abuso sexual;
XXIX - realizar ou incentivar acasalamentos que tenham elevado risco de problemas congênitos e que afetem
a saúde da prole e/ou progenitora, ou que perpetuem problemas de saúde pré-existentes dos progenitores.
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aos equinos utilizados, pela desaceleração brusca e suporte do peso do bovino
derrubado, tudo já fartamente documentado na ADI 4983/CE, tornando ainda
mais notórios tais fatos.

Esse reconhecimento da autonomia do Direito Animal em


relação ao Direito Ambiental, e demais ramos do Direito, foi feito pela mais
alta Corte de Justiça, o Supremo Tribunal Federal, no julgamento da Ação
Direta de Inconstitucionalidade No. 4983 (ADIn da vaquejada), no final de
2016, o Supremo Tribunal Federal, por meio do voto-vista vencedor do
Ministro Luís Roberto Barroso, já afirmou a autonomia do Direito Animal em
relação ao Direito Ambiental:

“A vedação da crueldade contra animais na Constituição Federal


deve ser considerada uma norma autônoma, de modo que sua
proteção não se dê unicamente em razão de uma função ecológica
ou preservacionista, e a fim de que os animais não sejam
reduzidos à mera condição de elementos do meio ambiente. Só
assim reconheceremos a essa vedação o valor eminentemente
moral que o constituinte lhe conferiu ao propô-la em benefício
dos animais sencientes. Esse valor moral está na declaração de
que o sofrimento animal importa por si só, independentemente do
equilíbrio do meio ambiente, da sua função ecológica ou de sua
importância para a preservação de sua espécie.” (grifo nosso).

Destarte, essa concepção de limitação do conceito de


dignidade somente em relação aos animais humanos já se encontra defasada.
Com efeito, toda ciência social nasceu da Filosofia, que posteriormente
evoluiu e passou a ter um ramo denominado Ética, ciência esta que resultou
no Direito, sendo assim este entendido como um conjunto de valores
axiológicos próprios e temporais, sempre em constante evolução, que visa
obtenção de condutas e objetivos de condutas, contendo toda lei uma regra e
um princípio. Dessa forma, a Filosofia possibilitou a reflexão das situações em
que o ser humano está inserido, incluindo a sua relação com os animais,
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originando a Ética como um dos seus ramos, ciência que estuda o
comportamento moral, a reflexão individual, a qual originou a ciência do
Direito, que visa a reforçar essas condutas éticas e implementar penalidades e
medidas coercitivas.

Como se vê, quando se fala em Direito Animal estamos


falando de direito positivado no nosso ordenamento jurídico, iniciando,
como não poderia deixar de ser, pela Lei Maior, no já mencionado dispositivo
constitucional (art. 225, § 1º, inc. VII), sendo seguida de Lei Federal 9.605/98,
e outras disposições normativas Estaduais, Distritais e municipais, legais e
infralegais, reforçando o preceito constitucional que confere direitos
subjetivos aos animais, ou seja, podem ser sujeitos de direitos, simplesmente
por terem vida e senciência, esta entendida como capacidade de sentir
emoções, boas ou ruins, diferenciando aqueles seres vivos de simples coisas
semoventes, como ainda consta no nosso vetusto Código Civil.

A Lei Distrital n. 4.060/2007, de 18 de dezembro – estatui, em


seu artigo 3º e seus incisos, o seguinte, in verbis:

“Art. 3º Para efeitos dessas Lei, entendem-se por maus-tratos


atos que atentem contra a liberdade psicológica,
comportamental, fisiológica, sanitária e ambiental dos
animais...”

“I - Praticar ato de abuso ou crueldade contra qualquer


animal”

“XXXI - Levar animal a exaustão”

“XXXV - Submeter qualquer animal a estresse”

O fato de ser um animal sujeito de direitos implica no conceito


de dignidade, visto como princípio que evita o sofrimento físico e psíquico de
alguém ou de um ser vivo, o que já foi muito criticado entre os filósofos do
Direito, até que o jus-filósofo Jeremy Bentham propôs um interessante método
para dirimir a questão.
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Jeremy Bentham, nascido em Londres, no Século XVIII, foi
filósofo, economista e jurista e “um dos últimos iluministas a propor a
construção de um sistema de filosofia moral, não apenas formal e
especulativa, mas com a preocupação radical de alcançar uma solução a
prática exercida pela sociedade de sua época. As propostas têm, portanto,
caráter filosófico, reformador, e sistemático.” (Fonte: Wikipédia)

Bentham, tendo como filósofos com mesmo modo de pensar


John Stuart Mill e James Mill, é considerado como o difusor de uma filosofia
denominada utilitarismo, que significa “teoria ética normativa que se objetiva
a responder todas as questões acerca do fazer, admirar e viver em termos da
maximização da utilidade e da felicidade. Ou seja, para ele, as ações devem
ser analisadas diretamente em função da tendência de aumentar ou reduzir o
bem-estar das partes afetadas. E teria, ainda, buscado a extensão deste
utilitarismo a todo o campo da moral (direito, economia, política).” (fonte cit.)

E para materializar suas ideias filosóficas e políticas Bentham


tinha imprescindível um arcabouço jurídico que permitisse sua
implementação, impondo regras de condutas e sanções, em especial o Direito
Penal, devido à sua força coercitiva sobre as pessoas e por analisar a vontade
e motivação dos acusados, constituindo-se assim no instrumento perfeito para
a difusão e implementação do seu pensamento, conseguindo fazer com que
cada indivíduo reflita e molde sua conduta com base no temor dos rigores da
lei penal.

Pois bem, Bentham propôs o seguinte pensamento: “Não


importa se os animais são incapazes ou não de pensar. O que importa é que
são capazes de sofrer.“ (https://citacoes.in/autores/jeremy-bentham),
significando que cada pessoa deve refletir sobre essa questão e responder a si
mesma: “Os animais tem capacidade de sofrer?”. Se a resposta for positiva
então reconhece-se a dignidade a um animal, distinta da dignidade da pessoa
humana e, assim, pode ser sujeito de direitos simplesmente por existir,
independentemente da sua posição na fauna, parte do meio ambiente, e até
mesmo de sua utilidade para o ser humano, sendo que, hodiernamente, a

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ciência já considera provado o fato de que os animais são sencientes, são assim
seres capazes de sentir emoções muito parecidas com as sentidas pelos animais
humanos, emoções essas que podem ser boas, tais como alegria, euforia,
excitação, ou emoções negativas, resultantes de sofrimento físico e psíquico,
tais como estresse intenso, depressão, ansiedade ou agressividade.

Vejamos a Declaração de Cambridge sobre a Consciência


dos Animais (2012), em que os mais eminentes neurocientistas do mundo,
inclusive com a participação do astrofísico inglês Stephen Hawking, se
reuniram naquela conceituada universidade inglesa e proclamaram a seguinte
declaração:

“A ausência de um neocórtex não parece impedir que um


organismo experimente estados afetivos. Evidências
convergentes indicam que os animais não humanos têm os
substratos neuroanatômicos, neuroquímicos e neurofisiológicos
de estados de consciência juntamente como a capacidade de
exibir comportamentos intencionais. Consequentemente, o peso
das evidências indica que os humanos não são os únicos a
possuir os substratos neurológicos que geram a consciência.
Animais não humanos, incluindo todos os mamíferos e as aves,
e muitas outras criaturas, incluindo polvos, também possuem
esses substratos neurológicos.”

Parece causar espanto a idéia de uma dignidade do animal não


humano, uma vez que somente a dignidade da pessoa humana é mencionada
na Constituição (art. 1º, inc. III), erigido como um dos princípios fundamentais
que informam toda a Carta, mas embora seja tomado como principal, “não é o
exclusivo fundamento (e tarefa) da comunidade estatal”3, significando que não
se limita apenas a uma força normativa, como somente um princípio, em que
pese toda a sua importância, mas se projeta, transcende para informar todo um
conjunto de direitos que, embora não gerados diretamente dele, atuam para sua
concreção. Como apontam alguns pensadores, “a dignidade humana – mais

3
Haberle, Peter. “A dignidade humana como fundamento estatal”, cit. p/ Ingo Sarlet e Tiago Fensterseifer,
“Algumas notas sobre a dimensão ecológica da dignidade da pessoa humana e sobre a dignidade da vida em
geral”.
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que aquela garantida à pessoa – é a que se exerce com o outro”4, aprimorando
o conceito de direito fundamental não apenas individualizado, mas no plano
das relações com os outros cidadãos e a natureza, progredindo do campo moral
para a esfera de compromissos jurídicos de comportamentos,
consubstanciados em leis.

“Com efeito, não nos parece possível excluir de uma compreensão


necessariamente multidimensional e não-reducionista da
dignidade da pessoa humana aquilo que se poderá designar de
uma dimensão ecológica (ou, quem sabe, socioambiental) da
dignidade humana, que, por sua vez, também não poderá ser
restringida a uma dimensão puramente biológica ou física, pois
contempla a qualidade de vida como um todo, inclusive do
ambiente em que a vida humana (mas também a não-humana) se
desenvolve.”5

Assim, a melhor compreensão do conceito do princípio da


dignidade humana implica no relacionamento do ser humano não somente com
seus semelhantes, mas com toda a vida que habita o planeta, tanto no animal
como vegetal, ostentando dimensão ecológica, comportamento que alguns
doutrinadores chamam de biocentrismo, em que toda a forma de vida é
respeitada e protegida, não somente a vida humana, mas os animais não-
humanos e a flora, saindo-se de vez das limitações do pensamento atual
calcado no antropocentrismo, em que o ser humano se vê como único senhor
do Universo e pensa que pode fazer o que bem quiser com a natureza e o meio
ambiente, condutas em que estão inseridos os maus tratos aos animais, tanto
como fauna, ou seja, inseridos no meio ambiente, mas também como seres
sencientes e que, por isso, são sujeitos de direitos apenas e tão-somente por
existirem, independentemente de sua função ecológica, para que fiquem
protegidos do sofrimento físico e psíquico, para que também lhes seja
reconhecida dignidade.

4
Rocha, Carmem Lúcia. “Vida Digna: Direitos, Ética e Ciência. BH, Ed. Fórum, 2004, p. 78.
5
Ingo Sarlet e Tiago Fensterseifer, “Algumas notas sobre a dimensão ecológica da dignidade da pessoa
humana e sobre a dignidade da vida em geral.
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Destarte, e como Kant já dizia que os direitos ligados à
dignidade existem como um fim em si mesmo, é forçoso concluir que os
direitos dos animais não humanos também ostentam a categoria de Direitos
Fundamentais, classe de direitos que não está à disposição do legislador
ordinário e que, por sua natureza intrínseca, não admite retrocessos (vide
Vicente Ataíde Jr, in Curso de Direito dos Animais, ESFEMA-PR, modalidade
à distância), como ocorreu no Estado de Santa Catarina, em que o Código
Animal Estadual, que inicialmente destinava-se a cães, gatos e cavalos, foi
reduzido por outra lei estadual que retirou a proteção aos cavalos, alteração
legislativa inconstitucional, por implicar em redução de direitos fundamentais.

Superando o conceito cartesiano de que o animal seria uma


6
máquina e não possuiria nenhuma razão, idéia que abriu caminho para a
separação do ser humano da natureza, a vida moderna não mais pode ser
fundamentada nessa dicotomia, mas sim de uma forma relacional, em que a
dignidade da pessoa humana, um dos princípios fundamentais da nossa
Constituição, se projeta para além dos limites do ser humano, antes
considerado senhor absoluto do universo, para abranger o relacionamento do
homem com os animais e a vida vegetal, em que essas outras formas de vida
também devem ser respeitadas, tendo a Declaração Universal dos Direitos dos
Animais – UNESCO, previsto o direito dos animais de existirem em um
ambiente biologicamente equilibrado, direito de ser respeitados, direito de ter
dignidade, independentemente da sua utilidade ao ser humano.

Isso porque, nas palavras da professora Sônia T. Felipe7,


citada no parecer da Procuradoria Regional da República da 3ª. Região,
Procurador da República Sérgio Medeiros, em Ação Civil Pública em que se
discute a legalidade da exportação de cargas vivas para Israel e Turquia, in
verbis:

6
“Descartes, Renné. Discurso do método; Meditações; Objeções e respostas; As paixões da alma; Abril

cultural; 2ª. Edição, 1979, p. 70


7
Felipe, Sônia T. Por uma questão de princípios: Alcance e Limites da Ética de Peter Singer em defesa dos
animais, Florianópolis, Boiteux, 2003, p. 155.
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“... se negamos aprovação moral a alguém que causa dor e
sofrimento a um ser humano para se beneficiar de tais atos, então
devemos manter a mesma convicção quando se trata da dor e
sofrimento de outros seres, ainda que não pertençam à espécie
Homo sapiens, pois o que está em jogo, em primeiro lugar, é o
sofrimento, não a natureza dos seres que sofrem, e em segundo
lugar, a integridade e coerência moral do agente, não a qualidade
moral do paciente”.

Pois bem, direitos animais são uma extensão dos direitos


humanos: ambos visam garantir as necessidades primárias de seres que se
importam originariamente com o que lhes ocorre, ambos tratam de seres que
são fins em si mesmos, ambos são respostas à vulnerabilidade dos indivíduos
dependentes entre si. Direitos humanos sem animais são incompletos, pois
direitos humanos, como afirmou Cavalieri, não são apenas humanos. Por isso,
uma tese sobre direitos animais também é sobre direitos humanos: ela é sobre
o mínimo devido a seres vivos que são sujeitos, não objetos. Que são alguém,
não algo.8

Dignidade Animal. As cinco liberdades.

Especialistas em bem estar animal do Farm Animal Welfare


9
Council consideram que um conjunto de princípios essenciais para o bem-
estar animal chamado “cinco liberdades", deveria regular as práticas agrícolas
e outras onde são explorados animais. Ainda há a teoria dos 3 R, no entanto
este conjunto é mais aplicado aos animais de biotério e de experimentação.

Entendemos que essas denominadas “cinco liberdades” devem


se estender para além da pecuária, sendo perfeitamente cabíveis e
necessariamente aplicáveis a qualquer criação de animais, inclusive, para o
nosso caso, dos animais domesticados para entretenimento.

8
JESUS, Carlos Frederico Ramos; “Entre pessoas e coisas: O Status Moral-jurídico dos Animais”, 2017,
Tese de Doutorado, USP, Orientador Porf. José Reinaldo de Lima Lopes.
9
https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/veterinaria/as-cinco-liberdades-e-os-tres-rs-para-o-
bem-estar-animal/29018, acesso em 21-6-2019, 17:15 h.
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Segundo os referidos especialistas, o respeito por estas cinco
liberdades traria um estado ideal de bem-estar para os animais, o que significa
abertura de mercado para os produtos de origem animal brasileiros para a
União Européia, mas, como já dito, esse respeito às cinco liberdades deve
nortear qualquer relação dos humanos com aqueles.

São as seguintes:

1) Liberdade Fisiológica ou Nutricional: significa a


liberdade de não sentir fome e de sede: os animais devem ter
sempre acesso a água fresca e uma alimentação adequada às
suas necessidades para serem perfeitamente saudáveis e
estarem fisicamente bem;

2) Liberdade Psicológica ou de desconforto: os animais


devem ter condições de alojamento e ambientais adequados
às suas necessidades e
confortáveis de acordo com a suas características, sem ser
importunados por humanos ou animais de outra espécie,
significando o direito de estar livre do medo, da angústia e do
estresse;

3) Liberdade Sanitária, como sendo o direito de viver em


locais que não sejam insalubres, de forma a poupá-los da dor,
dos ferimentos e das doenças: os animais devem ter a sua
saúde protegida, quer por uma constante prevenção de
doenças, cuidados com seus ferimentos e sempre devem estar
livres da dor, através de assistência veterinária adequada
imediata uma vez detectado um problema de saúde nos
mesmos;

4) Liberdade Comportamental: para expressar o seu


comportamento natural os animais devem ter espaço que lhes
permita expressar tal comportamento, devem ser mantidos em
espaços com dimensões adequadas que favoreçam suas
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necessidades comportamentais, tais como cordas e árvores ou
estruturas assemelhadas, piscina, caverna, pisos elevados para
aumentar o espaço de locomoção, o que se denomina
“enriquecimento ambiental”, grama ou terra, segundo a
espécie, e devem estar na companhia de membros de sua
espécie de acordo com as suas características e suas
necessidades sociais, pois são seres gregários e sentem
terrivelmente a solidão;

5) Liberdade Ambiental ou de desconforto físico: os animais


devem ser mantidos em ambientes os mais próximos dos seus
habitat, com dimensões as maiores possíveis, haja vista que
paredes ou cercas não fazem parte da mente instintiva de
nenhum animal, que nascem, como nós humanos, com um
desejo arraigado de ser livres.

Pois, nas Cinco Liberdades, todos os animais devem:

1 - Ser livres de Fome e Sede.

2 - Ser livres de Medo e Estresse

3 - Ser livres de Dor e Doenças.

4 - Ser livres de Desconforto

5 - Ter liberdade para expressar seu Comportamento Natural.

As 5 liberdades são consideradas como critérios para BEA


(bem-estar animal) e sua aplicação se dá em diferentes setores da vida animal
em relação ao homem. São tomadas como base na União Européia
(Comunidade Européia) para formulação de leis e regulamentações, em
especial no que diz respeito aos animais de produção, e, juntamente com a
Resolução 1236/2018, do Conselho Federal de Medicina Veterinária, servem

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para entender os maus-tratos a que um ou determinados animais estão
submetidos.

Como se vê, o direito dos animais não é uma tese jurídica e


nem tampouco ativismo, trata-se de direito POSITIVADO, está na nossa
Constituição Federal e em numerosos dispositivos legais estaduais, municipais
e administrativos, cabendo aos cidadãos,

de acordo com seu grau cívico, o reconhecimento e cumprimento da sua


Constituição e do ordenamento jurídico em geral.

Delimitado o tema e o direito objetivo incidente, vamos aos


fatos.

4) DOS FATOS

Conforme se depreende do card abaixo colacionado, está sendo


anunciado nas redes sociais o 18º Campeonato NQMB QUARTO DE
MILHA a maior e mais completa do Centro Oeste para os dias 26 e 27 de
junho de 2021 a ser realizado no Parque de Exposições da Granja do Torto
com as seguintes modalidades de rodeios: Rédeas, Team Pennig,
Breakaway e Laço Individual.

Tendo em vista que as modalidades de rodeios elencados acima


são cruéis aos animais, conforme será demonstrado nas razões expostas, a
fim de que seja impedida apenas o uso de animais nas citadas práticas,
providência que não tem o condão de impedir a realização do evento como

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um todo, o qual apresenta, dentre outras atividades (exposição, shows,
leilão de animais, etc.)

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5) DO RODEIO: PREVISÃO LEGAL E MODALIDADES

.Importante ressaltar, que o Brasil possui duas leis federais que


versam sobre rodeio.

A Lei 10.220/01 institui normas gerais à atividade de peão de


rodeios, equiparando-o a atleta profissional. Veja-se o inteiro teor:

Art. 1o Considera-se atleta profissional o peão de rodeio cuja atividade


consiste na participação, mediante remuneração pactuada em contrato
próprio, em provas de destreza no dorso de animais eqüinos ou bovinos,
em torneios patrocinados por entidades públicas ou privadas. Parágrafo
único. Entendem-se como provas de rodeios as montarias em bovinos e
eqüinos, as vaquejadas e provas de laço, promovidas por entidades
públicas ou privadas, além de outras atividades profissionais da
modalidade organizadas pelos atletas e entidades dessa prática esportiva.

Art. 2o O contrato celebrado entre a entidade promotora das provas de


rodeios e o peão, obrigatoriamente por escrito, deve conter:
I – a qualificação das partes contratantes;
II – o prazo de vigência, que será, no mínimo, de quatro dias e, no
máximo, de dois anos;
III – o modo e a forma de remuneração, especificados o valor básico, os
prêmios, as gratificações, e, quando houver, as bonificações, bem como o
valor das luvas, se previamente convencionadas;

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IV – cláusula penal para as hipóteses de descumprimento ou rompimento
unilateral do contrato.
§ 1o É obrigatória a contratação, pelas entidades promotoras, de seguro
de vida e de acidentes em favor do peão de rodeio, compreendendo
indenizações por morte ou invalidez permanente no valor mínimo de cem
mil reais, devendo este valor ser atualizado a cada período de doze meses
contados da publicação desta Lei, com base na Taxa Referencial de Juros
– TR.
§ 2o A entidade promotora que estiver com o pagamento da remuneração
de seus atletas em atraso, por período superior a três meses, não poderá
participar de qualquer competição, oficial ou amistosa.
§ 3o A apólice de seguro à qual se refere o § 1o deverá, também,
compreender o ressarcimento de todas as despesas médicas e hospitalares
decorrentes de eventuais acidentes que o peão vier a sofrer no interstício
de sua jornada normal de trabalho, independentemente da duração da
eventual internação, dos medicamentos e das terapias que assim se
fizerem necessários.
Art. 3o O contrato estipulará, conforme os usos e costumes de cada
região, o início e o término normal da jornada de trabalho, que não poderá
exceder a oito horas por dia.
Art. 4o A celebração de contrato com maiores de dezesseis anos e
menores de vinte e um anos deve ser precedida de expresso assentimento
de seu responsável legal. Parágrafo único. Após dezoito anos completos
de idade, na falta ou negativa do assentimento do responsável legal, o
contrato poderá ser celebrado diretamente pelas partes mediante
suprimento judicial do assentimento.
Art. 5o (VETADO)
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Art. 6o (VETADO)
Art. 7o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

A Lei 10.519/02, por sua vez, dispõe sobre a promoção e a


fiscalização de rodeio e dá outras providências. Veja-se o inteiro teor:

Art. 1o A realização de rodeios de animais obedecerá às


normas gerais contidas nesta Lei. Parágrafo único. Consideram-se rodeios
de animais as atividades de montaria ou de cronometragem e as provas de
laço, nas quais são avaliados a habilidade do atleta em dominar o animal
com perícia e o desempenho do próprio animal.

Art. 2o Aplicam-se aos rodeios as disposições gerais relativas


à defesa sanitária animal, incluindo-se os atestados de vacinação contra a
febre aftosa e de controle da anemia infecciosa eqüina.
Art. 3o Caberá à entidade promotora do rodeio, a suas
expensas, prover:
I – infra-estrutura completa para atendimento médico, com
ambulância de plantão e equipe de primeiros socorros, com presença
obrigatória de clínicogeral;
II – médico veterinário habilitado, responsável pela garantia da
boa condição física e sanitária dos animais e pelo cumprimento das
normas disciplinadoras, impedindo maus tratos e injúrias de qualquer
ordem;

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III – transporte dos animais em veículos apropriados e
instalação de infraestrutura que garanta a integridade física deles durante
sua chegada, acomodação e alimentação;
IV – arena das competições e bretes cercados com material
resistente e com piso de areia ou outro material acolchoador, próprio para
o amortecimento do impacto de eventual queda do peão de boiadeiro ou
do animal montado.
Art. 4o Os apetrechos técnicos utilizados nas montarias, bem
como as características do arreamento, não poderão causar injúrias ou
ferimentos aos animais e devem obedecer às normas estabelecidas pela
entidade representativa do rodeio, seguindo as regras internacionalmente
aceitas.
§ 1o As cintas, cilhas e as barrigueiras deverão ser
confeccionadas em lã natural com dimensões adequadas para garantir o
conforto dos animais.
§ 2o Fica expressamente proibido o uso de esporas com rosetas
pontiagudas ou qualquer outro instrumento que cause ferimentos nos
animais, incluindo aparelhos que provoquem choques elétricos.
. § 3o As cordas utilizadas nas provas de laço deverão dispor de
redutor de impacto para o animal.
Art. 5o A entidade promotora do rodeio deverá comunicar a
realização das provas ao órgão estadual competente, com antecedência
mínima de 30 (trinta) dias, comprovando estar apta a promover o rodeio
segundo as normas legais e indicando o médico veterinário responsável.
Art. 6º. Os organizadores do rodeio ficam obrigados a
contratar seguro pessoal de vida e invalidez permanente ou temporária,
em favor dos profissionais do rodeio, que incluem os peões de boiadeiro,
os “madrinheiros”, os “salva-vidas”, os domadores, os porteiros, os juízes
e os locutores.
Art. 7o No caso de infração do disposto nesta Lei, sem prejuízo
da pena de multa de até R$ 5.320,00 (cinco mil, trezentos e vinte reais) e

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de outras penalidades previstas em legislações específicas, o órgão
estadual competente poderá aplicar as seguintes sanções:
I – advertência por escrito;
II – suspensão temporária do rodeio;
III – suspensão definitiva do rodeio.
Art. 8o Esta Lei entra em vigor 60 (sessenta) dias após sua publicação.

Como se extrai do conceito conferido pela legislação federal, o


rodeio é prática que admite diversas modalidades. Para tanto, faz-se
necessário expor o que consiste cada modalidade, utilizando, nesse sentido,
as definições trazidas de alguns sites de promovedores de rodeios.

VEJAMOS AS MODALIDADES QUE PRETENDEM


REALIZAR NA COMPETIÇÃO EM QUESTÃO:

Team Penning: É uma modalidade de apartação, muito comum na lida,


no dia a dia das fazendas. Os animais são numerados três a três (três com o número 01,
três com o número 02, etc) - normalmente usam-se 30 animais que são colocados do
lado oposto a um curral que é montado na arena. É disputada por um trio (normalmente
formado por familiares/amigos) daí a denominação Prova da Família, que tem a função
de "tirar" do lote os 3 animais cujo número foi sorteado "na hora". Entre o curral, bem
próximo a ele, no sentido dos animais, há uma linha imaginária (linha de arbitragem).
Caso ultrapasse mais de 4 animais após essa linha, será considerado "estouro" de boiada
e por consequência sem aproveitamento técnico (SAT). É uma prova de fácil
entendimento e dura no máximo 60 segundos. Foto abaixo:

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Rédeas: A Prova de Rédeas é fundamentada do Adestramento Clássico,
porém com mais dinamismo. Será julgado o cavalo que, conduzido por seu cavaleiro,
apresente todos os seus movimentos controlados intencionalmente, sem apresentar
resistência, completamente sob comando, sendo dado critério para suavidade, astúcia,
postura, agilidade, segurança e ritmo ao executar as manobras do percurso sorteado
previamente. Foto abaixo:

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Laço individual: Essa é uma prova de habilidade campeira. O cavaleiro
deve laçar a rês pelos chifres dentro de um limite de 100 m. Vence aquele que conseguir
maior número de laçadas. A armada deve medir 8 m. Foto abaixo:

Breakaway: Modalidade que a amazona e o cavalo ficam em uma área


ao lado à do bezerro no brete, assim que a prova é liberada o bezerro é laçado. Foto
abaixo:
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5) DA CRUELDADE CONTRA OS ANIMAIS NOS
RODEIOS:

Independentemente de ocasionarem, ou não, lesões aparentes,


os instrumentos utilizados nas provas abrangidas por todas as modalidades
do chamado “rodeio completo” impingem sofrimento aos animais.

Nesse ponto, urge conceituar, detalhadamente os equipamentos


comumente utilizados nesses eventos, como o que ocorrerá (citar o rodeio
do caso concreto).

O sedém (forma apocopada de sedenho), como o próprio


significado denuncia, é “um cilício de sedas ásperas e mortificadoras”
(Novo Dicionário da Língua Portuguesa, Aurélio Buarque de Holanda
Ferreira, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2003). Na mesma obra,
encontraremos a definição de cilício: tortura, tormento, aflição. Assim, o
sedém consiste em uma tira feita de crina animal, fortemente amarrada no
flanco inguinal (virilha) do animal, que comprime os ureteres (canais que
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ligam os rins à bexiga) e aperta o prepúcio e o pênis ao escroto. Quando os
animais amarrados por esta tira são soltos na arena e recebem um forte
puxão, a compressão sobre a região dos vasos aumenta, fazendo com que
reajam com coices, enquanto estiverem correndo, desesperados para se
desvencilharem do ato agressivo e doloroso.

As esporas, às vezes pontiagudas, consistem em metais que


são usados pelos peões durante o rodeio, fincados no baixo ventre, peito,
pescoço e cabeça do animal. Tal fato é tão grave que há casos registrados
em relação a alguns animais que ficam cegos ao serem atingidos pela
espora.

As peiteiras consistem em uma corda de couro amarrada


fortemente em volta do peito do animal, causando-lhe desconforto, dor e
lesões no tecido. Algumas peiteiras são dotadas de sinos que são colocados,
geralmente, nos bois, provocando um ruído característico, alterando o
estado do animal diante da elevação drástica da adrenalina. Este incômodo
ocasiona uma reação imediata do animal, que procura se desvencilhar do
seu instrumento de tortura.

Os peões, de outra parte, costumam utilizar laços para outras


modalidades, dentre elas o "pega garrote" e o "laço de oito braças", que
provocam constantes quedas do animal-vítima ao solo, violentamente.
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Prática comum também é a "mesa da amargura", em que grupos
de pessoas ficam sentados em mesas na arena aguardando a ação do animal
que se lança em direção às mesas e acabam por se ferir.

Frise-se que o animal, de regra, é estimulado com choques e


estocadas produzidos por instrumentos contundentes, a fim de que se torne
bravio antes de ingressar na arena.

O sedém, bem como os referidos instrumentos similares –


qualquer que seja o material constitutivo – são comprimidos contra a virilha
dos animais, causando grave sofrimento. Nesta linha uma série de estudos
realizados por profissionais das mais renomadas Instituições de Ensino do
país – estudos estes que instruem a presente ação – cujos excertos pede-se
vênia para transcrever alguns trechos:

“A utilização de sedém, peiteiras, choques elétricos ou


mecânicos e esporas gera estímulos que produzem dor física nos
animais, em intensidade correspondente à intensidade dos
estímulos. Além de dor física, esses estímulos causam também
sofrimento mental aos animais, uma vez que eles têm
capacidade neuropsíquica de avaliar que esses estímulos lhes
são agressivos, ou seja, perigosos à sua integridade” (Júlia
Maria Matera, in “Parecer Técnico sobre a potencialidade
lesiva de sedém, peiteiras, sinos, choques elétricos e mecânicos

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e esporas em cavalos e bois”) grifo nosso “ O sedém é aplicado
na região da virilha, bastante sensível já por ser de pele fina,
mas principalmente, por ser área de localização de órgãos
genitais No caso dos bovinos, o sedém passa sobre o pênis e, nos
cavalos, pelo menos compromete a porção mais anterior do
prepúcio. (…) Quanto à possibilidade de produção de dor física
pelo uso do sedém, a identidade de organização das vias neurais
da dor no ser humano e nos animais é bastante sugestiva de que
eles sintam, sim, dor física. O contrário é que não se pode dizer,
isto é, nada existe, em ciência, que prove que os animais não
sentem com tal procedimento” (Irvênia Luiza de Santis Prada,
professora titular emérita de anatomia da USP, in “Diversão
humana e sofrimento animal – Rodeio)” grifo nosso

É, ainda, importante salientar a existência de inúmeros


trabalhos realizados pela associação cultural Pau Brasil, Tucuxi e WSPA
(Sociedade Mundial para a Proteção dos Animais), formadas e mantidas
pela sociedade civil, que se baseiam em pareceres de veterinários de
renome, e que são categóricos em afirmar que os animais, no curso de um
rodeio, são submetidos a maus-tratos e crueldade. Antônio Fernando
Bariani, zootecnista da UNESP – Jaboticabal/SP, concluiu que:

“(...) em atividades desta natureza, normalmente são utilizados


mecanismos como sedém, esporas, choques, alfinetes e outros,
visando estimular os animais de forma a deixá-los inquietos,
bravios e desesperados para viabilizar o esporte a que se
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propõem (...) Agindo desta forma, expõem os animais a torturas
e sacrifícios desnecessários e incompatíveis com a legislação
vigente e a nossa ética profissional.”

Por sua vez, Marina Moura, Doutora e Professora da USP, com


32 anos de profissão, conclui que:

“... o uso do sedém, instrumento de tortura que consiste em uma


corda, muitas vezes, criminosamente, entremeada de objetos
pontiagudos, como alfinetes encurvados, tachas e anzóis, ao ser
amarrado fortemente em volta do abdome, localizando-se na
parte inferior do mesmo entre os testículos e o pênis, causando
lesões de dilaceramento da pele, esmagamento dos cordões
espermáticos com congestão dos vasos, grande edema e até
gangrena, ruptura da uretra com retenção urinária, uremia e
morte.”

No texto “Cruéis Rodeios”, Vanice Teixeira Orlandi,


integrante da Diretoria da União Internacional Protetora dos Animais
(UIPA), rebate cada uma das equivocadas ideias que inspiraram a Lei
Federal n.º 10.519/02, o que faz com base em pelo menos 18 (dezoito)
laudos oficiais requisitados pelo Ministério Público e pelo Judiciário,
dentre os quais se destacam os produzidos pelo IBAMA, pelo Instituto de
Criminalística do Rio de Janeiro e pela Faculdade de Medicina Veterinária
e Zootecnia da Universidade de São Paulo, sendo importante destacar que,
com relação ao sedém de lã, afirma a autora:
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“O revestimento macio do sedém não tem a propriedade de
evitar o sofrimento, que advém da constrição de área tão
sensível, por ser de pele fina, onde se localiza o órgão genital.
Ao comprimir a região dos vazios do animal, em que há parte
dos intestinos e o prepúcio, o sedém provoca dor; tanto é assim,
que o animal corcoveia da mesma forma como o faz quando
submetido ao sedém áspero. Vale dizer que as reações exibidas
são idênticas, porque as sensações experimentadas são as
mesmas. Em perícia solicitada pelo Ministério Público, em
rodeio realizado em Taboão da Serra, a médica veterinária Dra
Rita de Cássia Garcia constatou dilacerações de pele na virilha
dos animais, não obstante ser o sedém de lã”. (grifo nosso)

Quanto ao fato de que as esporas rombas (não pontiagudas) são


inofensivas, Vanice Teixeira Orlandi explica:

“Os animais são muito sensíveis às esporas que, em condições


normais como nas montarias e provas hípicas, são utilizadas
apenas quando necessário, fazendo o cavaleiro uso dos pés para
tocar o animal, com pouca pressão e sem insistência. Porém, nos
rodeios, o peão se utiliza das pernas para fincar a esporas,
insistentemente, com força e violência no animal, que não é
tocado por esporas, e sim golpeado por elas, na região do
pescoço e baixo - ventre. Perícias atestam que esse instrumento
provoca lesões sob a forma de cortes na região cutânea, não
raro, perfuração do globo ocular. Esporas, pontiagudas ou

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rombas, constituem maus - tratos, pois o que se verifica é o mau
uso desse apetrecho” (grifo nosso)

A propósito, em nenhum momento a Constituição Federal e


nem as recentes leis que tratam da vaquejada e dos rodeios permitem que o
animal seja maltratado, nem o § 7º, do Art. 225, da Constituição Federal,
que, a par de considerar a manifestação cultural cita expressamente que
devem ser asseguradas regras de bem estar animal, e artigo 3º - B, da Lei
13.873/19, que deu nova redação à Lei 13.364/16, exige regulamentos
específicos para o rodeio, a vaquejada, o laço e as modalidades esportivas
eqüestres por suas respectivas associações ou entidades legais, estas que
devem ser reconhecidas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento, e tais regulamentos devem prever regras que assegurem a
proteção ao bem-estar animal.

O rodeio ou vaquejada envolve extrema crueldade não somente


aos bovinos, mas também aos equinos, de acordo com estudo realizado no
Hospital Veterinário da Universidade Federal de Campina Grande – PB,
conforme exposto na já citada ADI 4983/CE, já que um touro, um animal
pacífico, não predador, jamais agiria como age em uma arena, um bovino
não iria sair em disparada da baia e nem dar coices incessantemente se não
houvesse sido estressado, com privação de movimentos, água e comida,
além de choques elétricos e estocadas, de forma a que saia em disparada

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quando a porteira é aberta, ou então com uma corda esmagando seu
intestino, ureteres e prepúcio, conhecida como corda de cedem, o que faz
com que o touro dê repetidos coices para se livrar da dor, reação instintiva
para tentar retirar o aparato que tanto lhe maltrata, além das lesões nos
equinos, que são obrigados a acelerar e frear bruscamente, e ainda suportar
o tranco do peso do animal até ser dominado, causando-lhes severas
tendinites, e só esses atos já demonstram que rodeio não é patrimônio
brasileiro.

Resta evidente, portanto, que os animais utilizados no rodeio


são submetidos a tratamentos cruéis. Embora os defensores da prática do
rodeio (claramente motivamos por interesses econômicos) aleguem que se
preocupam com o bem-estar dos animais, na prática os animais continuam
a sofrer de forma insuportável – porque não há como garantir o bem-estar
animal em uma prática intrinsicamente cruel. Esse tratamento, para além
de ser incorrer no tipo penal do artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais,
ainda viola a Constituição Federal de 1988, que em seu art. 225 caput e §
1º, inc. VII, veda as práticas cruéis contra os animais.

6) RODEIO COMO MANIFESTAÇÃO CULTURAL


“BRASILEIRA” E RODEIO COMO “GERAÇÃO DE RENDA”:
DOIS ARGUMENTOS FALACIOSOS –

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6.1. Rodeio como manifestação cultural:

Um argumento bastante utilizado pelos defensores do rodeio é


o de que o rodeio seria uma legítima manifestação cultural brasileira.
Contudo, tal argumento não merece prosperar. Isso porque, como se viu, as
diversas modalidades compreendidas no “circuito completo” foram
recentemente “importadas” da cultura dos Estados Unidos da América.

De fato, basta observar que os próprios nomes das modalidades


(‘calf roping’, ‘team roping’, ‘bulldogging’, “Breakaway” etc.) são
apresentados em língua inglesa e não na língua portuguesa. Ademais, nos
eventos, os peões usam vestimentas que nada têm que ver com as tradições
do campo tupiniquins, apresentando-se com jaquetas de couro com franjas
(incompatíveis até com o tropical clima brasileiro), e cintos de enormes
fivelas (em regra, com inscrições em inglês), em visual assemelhado ao dos
“cowboys” do “Velho Oeste” americano, popularizados nos filmes
(também americanos) ditos “western”.

A par disso, as “demonstrações” que têm vez e lugar na arena


de rodeio passam – e muito – distantes das práticas rurais do Brasil.
Absolutamente, não faz parte do cotidiano do homem do campo brasileiro
a realização de montarias voltadas, única e exclusivamente, a aferir o
desempenho de um humano em se manter sobre animal que corcoveia ao
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ter um sedém contraindo a virilha e esporas cravadas na região do pescoço.
Em caso de necessidade de imobilização (v.g., para a cura de ferimentos ou
aplicação de vacinas) os animais são “tocados” até currais (esta sim,
tradição “boiadeira”, arraigada na cultura nacional) e conduzidos a
“seringas” ou “xiringas”, corredores estreitos que permitem a imobilização
necessária.

Em absoluto, não faz parte do referido cotidiano a derrubada


de animais ao solo (muito menos por peão que sobre ele salte, de cima de
equino), ou a laçada em que tal animal é “esticado” (como no ‘team
roping’), visto que tais práticas colocam em risco a incolumidade física e a
vida dos animais, algo nada desejado por quem retire seu sustento da
comercialização daqueles.

No entanto, mesmo considerando quer uma parte da vaquejada


seja considerada manifestação cultural, como bem disse o citado Ministro
Barroso, “o fato de a vaquejada ser uma manifestação cultural não a torna
imune ao contraste com outros valores constitucionais”, haja vista que
entre normas-princípio constitucionais não existe antinomia, mas uma
ponderação para cada caso apresentado para análise, tendo essa prática
enfrentado cada vez mais a oposição da sociedade civil organizada,
questionando e combatendo, inclusive juridicamente, as vaquejadas,

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rodeios e provas de laço, em razão da notória crueldade a que são
submetidos os animais que participam dessas provas.

Em síntese, o que se discute é a ponderação entre as normas


principiológicas constitucionais insculpidas nos artigos 225, § 1º, inciso
VII, que veda a crueldade contra animais, e 215 e seu § 1º, que protege os
direitos e manifestações culturais populares, pelo que destacamos trecho do
Ministro Néri da Silveira (RE 153.531/SC) que repudiou o entendimento
de que práticas intrinsecamente cruéis contra animais possam ser
caracterizadas como “manifestações de índole cultural”, porque a cultura
pressupõe desenvolvimento que contribua para a realização da dignidade
humana e da cidadania e para a construção de uma sociedade livre, justa e
solidária, conforme ditame constitucional previsto no artigo 1º, incisos II e
III, e art. 3º, inciso I, da Carta, pois “cultura também se muda” (Rosa
Weber, ADI 4983/CE), e o “fato da vaquejada ser uma manifestação
cultural não a torna imune ao contraste com outros valores
constitucionais” (Luís Roberto Barroso, idem), sendo indigno tanto para a
pessoa humana como para o animal práticas odiosas que tais, praticadas
sob a escusa de preservação da cultura, mas que mal disfarçam interesses
predominantemente comerciais.

A questão cultural também foi tratada pelo juiz da vara do meio


ambiente e desenvolvimento urbano e fundiário do Distrito Federal,
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CARLOS FREDERICO MAROJA DE MEDEIROS, em Ação Civil
Pública 2015.01.1.017379-7, que pedia a vedação da utilização de animais
nas provas de montaria10, rodeio e laço, que se manifestou afirmando que
a Constituição Federal fomenta as práticas desportivas, destacando tutela
especial às originadas na tradição histórica nacional: “Art. 217. É dever do
Estado fomentar práticas desportivas formais e não formais, como direito
de cada um, observados: (...) IV – a proteção e o incentivo às manifestações
desportivas de criação nacional”, sendo de enorme importância a
preservação da cultura, na qualidade de interesse jurídico coletivo com
inequívoco assento constitucional: “Art. 215. O Estado garantirá a todos o
pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional,
e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações
culturais”.

Contudo, como já pontuado, cultura não significa somente


manter antigas tradições, a humanidade evolui, senão ainda estaríamos a
ver lutas sangrentas entre escravos ou rinhas de animais, devendo sempre
contribuir para a melhora do ser humano e das sociedades, requisitos sem
os quais torna-se uma atividade inócua e até mesmo perversa para a
dignidade das pessoas, e assim o termo “cultura” deve ser analisado e
devidamente interpretado, em conjunto com outros valores preciosos para

10
Nunes, Vânia de Fátima Plaza. Qualificação já citada. in Avaliação das provas de rodeio de montaria com
uso de equipamentos. São João da Boa Vista – SP. 27 de junho de 2012.
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a sociedade. Juridicamente falando, o princípio constitucional de
preservação da cultura deve ser cotejado com os princípios da dignidade
humana e da construção de uma sociedade mais justa e solidária.

O ilustre magistrado supra mencionado recorre à filosofia para


explicar esse fenômeno, inicia citando Hannah Arendt, esclarecendo as
origens do termo:

“A cultura – palavra e conceito – é de origem romana. A


palavra ‘cultura’ origina-se de colere – cultivar, habitar, tomar
conta, criar e preservar – e relaciona-se essencialmente com o
trato do homem com a natureza, no sentido do amanho e da
preservação da natureza até que ela se torne adequada à
habitação humana. Como tal, a palavra indica uma atitude de
carinhoso cuidado e se coloca em aguda oposição a todo
esforço de sujeitar a natureza à dominação do homem. Em
decorrência, não se aplica apenas ao amanho do solo, mas pode
designar outrossim o ‘culto’ aos deuses, o cuidado com aquilo
que lhes pertence. Creio ter sido Cícero quem primeiro usou a
palavra para questões do espírito e da alma. Ele fala de excolere
animum, cultivar o espírito, e de cultura animi no mesmo
sentido em falamos ainda hoje de um espírito cultivado, só que
não mais estamos cônscios do pleno conteúdo metafórico de tal
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emprego. (...) Conjuntamente, cultura no sentido de tornar a
natureza um lugar habitável para as pessoas e cultura no sentido
de cuidar dos monumentos do passado ainda hoje determinam
o conteúdo e o significado que temos em mente ao falarmos de
cultura”. (ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São
Paulo, Editora Perspectiva, 2002).

Continua o nobre juiz sentenciante identificando duas acepções


básicas do termo:

“CULTURA (in. Culture; fr. Culture; al. Kultur; it. Cultura).


Esse termo tem dois significados básicos. No primeiro e mais
antigo, significa a formação do homem, sua melhoria e seu
refinamento. F. Bacon considerava a C. nesse sentido como ‘a
geórgica do espírito’ (De augm. scient., VII, 1), esclarecendo
assim a origem metafórica desse termo. No segundo
significado, indica o produto dessa formação, ou seja, o
conjunto dos modos de viver e de pensar cultivados,
civilizados, polidos, que também costumam ser indicados pelo
nome de civilização (v.). A passagem do primeiro para o
segundo significado ocorreu no séc. XVIII por obra da filosofia
iluminista, o que se nota bem neste trecho de Kant: ‘Num ser
racional, cultura é a capacidade de escolher seus fins em geral
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(e portanto ser livre). Por isso, só a C. pode ser o fim último
que a natureza tem condições de apresentar ao gênero humano’
(Crít. do Juízo, § 83). Como ‘fim’, a C. é produto (mais do que
produzir-se) da ‘geórgica da alma’. No mesmo sentido, Hegel
dizia: ‘Um povo faz progressos em si, tem seu
desenvolvimento e seu crepúsculo. O que se encontra aqui,
sobretudo, é a categoria de C., de sua exageração e de sua
degeneração: para um povo, esta última é produto ou fonte de
sua ruína’ (Phil. der Geschichte, ed. Lasson, p. 43)”.
(ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo:
Martins Fontes, 2003).”

A.1. A. L. Kroeber e C. Kluckohn apresentam uma síntese que


representa os elementos aceitos positivamente pela maior parte dos
cientistas sociais contemporâneos: ‘A cultura consiste em padrões
explícitos e implícitos de comportamento e para o comportamento,
adquiridos e transmitidos por meio de símbolos, e que constituem as
realizações características de grupos humanos, inclusive suas
materializações em artefatos; a essência mesma da cultura consiste em
ideias tradicionais (i.e., derivadas e selecionadas historicamente) e
especialmente nos valores vinculados a elas; os sistemas culturais podem,

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por um lado, ser considerados produtos de ação e, por outro, elementos
condicionadores de ação posterior’11.

Em conclusão, o fato de algumas das atividades de rodeio nas


vaquejadas ser manifestação cultural, em uma ponderação de princípios
constitucionais, não gera a consequência de se manter as práticas que já
foram comprovadamente cruéis contra os animais.

Cultura tem caráter dinâmico, evolui, cultura é tudo aquilo que


afasta o ser humano da barbárie (Edna Cardozo).

6.2. Rodeio – questões econômicas:

Outro argumento bastante invocado pelos defensores do rodeio


é sobre a movimentação econômica que essa prática promove, garantindo
o sustento de milhares de famílias que supostamente dependem dessa
atividade para viver. Ocorre que, nos rodeios de forma geral, além do
rodeio em si (que faz o uso do animal em diversas provas), são ofertadas
inúmeras outras atividades, como é o presente caso: shows musicais, feiras
agroindustriais e comerciais, parques de diversões, exposições de animais,
dentre outras.

11
Culture: a critical review of concepts and definitions. Papers of the Peabody Museum of American
Archeology and Ethnology. 47 (1): 181, 1952). Citado in: SILVA, Benedicto (coord.). Dicionário de Ciências
Sociais. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas
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Num. 95372248 - Pág. 43
Veja-se o exemplo da 40ª edição da Exposição Agropecuária,
Industrial e Comercial (Eapic), em São João da Boa Vista (SP), em que,
apesar da proibição da montaria, o evento segue com atrações musicais nos
nove dias de festa. Além de Gustavo Lima, que abriu o evento, se
apresentaram na festa as duplas João Carreiro e Capataz, no dia 6, Fernando
e Sorocaba, no dia 7, o grupo Sorriso Maroto, no dia 8, o cantor Naldo, no
dia 9, Thaeme e Thiago, no dia 11, Munhoz e Mariano, no dia 12, Cristiano
Araújo, no dia 13, e César e Paulinho, no último dia da festa, no dia 14.

Além das atrações musicais, a exposição terá também uma


competição de mulheres vaqueiras, a primeira do Brasil. Na disputa, as
mulheres devem mostrar habilidades em tarefas no dia a dia do campo. A
competição é executada por três dias, e as mulheres devem enfrentar
obrigatoriamente cinco tarefas ou testes. As modalidades são: tambores
(rotação ao redor), balizas (rotação ao redor), ordenha, agilidade e destreza
e speed penning.
(fonte: http://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2013/07/sem-montarias-40-eapic-de-sao-joao-da-

boa-vista-investe-em-atracoes-musicais.html; acesso em 22-6-2021, às 10:51 h)

De tais atividades citadas, avultam em importância, no que diz


respeito à captação de público, os shows musicais. As referidas festas, pois,
podem plenamente se manter – com igual público – ainda que haja exclusão

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Num. 95372248 - Pág. 44
do uso dos animais, sem que isso implique redução de público ou prejuízos
econômicos.

Ademais, não paramos para observar que, ainda que se pudesse


ser considerado que parcela de pessoas retiram seu sustento da prática em
si do rodeio, esse argumento por si só não pode se sustentar. Em uma
analogia, o tráfico de entorpecentes também movimenta muito dinheiro,
mas nem por isso deixamos de condenar essa prática criminosa, ainda que
traficantes possam retirar do tráfico o sustento de sua família. Da mesma
forma, o rodeio, além de ser uma prática cruel aos animais (e a crueldade é
vedada a nível constitucional, como se viu), também é uma prática
criminosa, vida o tipo penal de maus tratos aos animais, que tem sido
largamente violado, por causa da pressão dos grupos que defendem os
rodeios, com seus falaciosos argumentos.

Frise-se que a justiça do Distrito Federal não hesitou em fazer


valer o Código Sanitário e baniu a comercialização de animais de estimação
na Feira dos Importados (PJe: 0702886-7520188070018 ), mesmo a
associação dos vendedores tendo informado que movimentava cerca de R$
5 milhões ao ano, demonstrando que qualquer sentença judicial terá um
impacto econômico e que, em decorrência, se formos pensar estrita e
unicamente em perda de renda pelas atividades ilícitas até hoje não
teríamos proibidos jogos de azar, rinha de cães, dentre outras atividades.
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Num. 95372248 - Pág. 45
7. Conclusões:

Evidente, portanto, que a Lei n. 10.519/02, e recentemente a


disposição prevista no artigo 225, §7º da Constituição Federal, criaram uma
situação absurda, uma vez que não é possível regulamentar ou garantir o
bem-estar animal numa prática que é intrinsicamente cruel aos animais.

Dito de outro modo, o rodeio acarreta sempre crueldade (seja


física ou psicológica) aos animais, a despeito de qualquer tentativa de
minimizar a dor dos animais (nem as cintas, cilhas e barrigueiras de lã
natural, nem as esporas sem as rosetas pontiagudas ou as cordas com
redutor de impacto são hábeis a impedir o sofrimento dos animais). Vamos
além: os citados dispositivos são claramente inconstitucionais, porque
afrontam diretamente o preceito trazido no artigo 225, § 1º, inciso VII, que
é a vedação crueldade contra os animais, comando esse que não pode ser
mitigado em favor dos interesses humanos, além de ferir o próprio § 7º, que
mesmo pretendendo fazer a vaquejada ser considerada manifestação
cultural, também menciona expressamente que deve ser assegurado o bem-
estar dos animais envolvidos, assim como o diz a Lei.

Assim sendo, sendo a crueldade contra os animais


expressamente vedada pela ordem constitucional, os argumentos de
geração de renda e de ser uma manifestação cultural tipicamente brasileira
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Num. 95372248 - Pág. 46
não podem mais prosperar, ainda que fossem verdadeiros, conduzindo à
irrefutável conclusão que as provas de vaquejada, rodeio, laço e similares
são intrinsecamente cruéis e, portanto, incompatíveis com os ditames
constitucionais que vedam os maus tratos a animais.

7. DA TUTELA DE URGÊNCIA ANTECIPADA:

De acordo com o art. 300 do Código de Processo Civil, será


concedida, tutela de urgência diante da existência de probabilidade do
direito pretendido e perigo de dano ou risco ao resultado útil do processo.

No presente caso, ambos os requisitos são manifestos, o que


torna o pedido de tutela provisória de urgência cabível e necessário a fim
de evitar o perecimento do direito.

A existência de probabilidade do direito se evidencia por todo


o quadro fático descrito, uma vez ser a crueldade comprovadamente
intrínseca à prática de vaquejadas e rodeios, inclusive constando duas
Ações Diretas de Inconstitucionalidade das leis que regulamentam essa
prática nefasta no Supremo Tribunal Federal.

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Demais disso, indiscutível que também se encontra presente
evidente risco de dano ao patrimônio público e à vida e à saúde dos
animais-atletas previstos para participar do evento.

Inegável, ainda, o estresse proporcionado a todos os noventa


touros que devem participar da etapa final do campeonato. Noticiam os
responsáveis pelo evento que este abrange mais de uma etapa, o que por si
só permite vislumbrar os incansáveis e inúmeros treinos a que foram
submetidos esses animais finalistas.

Sem contar com o estresse da própria atividade, foram expostos


a diversas circunstâncias durante o trajeto do transporte de suas cidades-
base até as cidades dos campeonatos. Serão contidos e mantidos em bretes
e recintos de pequena dimensão espacial em situações das mais diversas,
desde os dias que antecedem ao campeonato, como durante o próprio
evento.

Somado a todas essas circunstâncias estressantes e adversas à


natureza dos bovídeos, deve ser considerado o alto volume do som previsto
para os dois dias do campeonato, com previsão de shows de música para
uma plateia de até dez mil pessoas, conforme estimado pelos próprios
organizadores.

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Num. 95372248 - Pág. 48
O princípio constitucional da precaução é um dos basilares do
Direito Ambiental e garante uma vida em sociedade sadia e livre de
excessos, em um ambiente ecologicamente equilibrado.

Também não se pode olvidar que no direito ambiental vigora o


princípio da proibição de retrocesso (ou efeito Cliquet) e, por conseguinte
não se pode aplicar norma mais recente, sem estar alinhada aos princípios
constitucionais e demais leis hierarquicamente superiores.

Ademais, nessa toada, deve-se considerar que os danos


ambientais são sempre de difícil reparação, quando não de efeitos
irreversíveis. E não faltam exemplos a serem citados de óbitos e graves
lesões físicas de animais participantes de rodeios e práticas desse gênero.

Uma vez realizado o evento, não será possível retornar ao


status quo ante, livre do estresse acima relatado, ou seja, bem-estar animal
esse previsto na legislação brasileira.

Caracterizados, portanto, a probabilidade dos direitos


implicados e o fundado receio de dano irreparável ou de difícil reparação
aos animais atletas selecionados para participar do campeonato.

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Num. 95372248 - Pág. 49
Didier leciona que “na antecipação de tutela assecuratória,
antecipa-se por segurança, para impedir que, durante o processo, o bem
da vida vindicado sofra um dano irreversível ou dificilmente reversível”. E
é isto exatamente o que ocorre no caso presente.

Ainda, Luciene Gonçalves Tessler afirma que o processo tem


por finalidade fazer valer os direitos atribuídos aos cidadãos por meio das
normas de direito material. O direito à prevenção ambiental, ressalta-se,
antes de ser um direito processual, é verdadeiro direito material, de matriz
constitucional. Nesse sentido, a Carta Maior, em seu art. 225, enuncia que
“todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de
uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao
poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as
presentes e futuras gerações”. Dessa regra, conclui, “infere-se o direito
fundamental à inviolabilidade ambiental”.

Todos os cidadãos têm, portanto, direito à tutela preventiva e


idônea do meio ambiente e do patrimônio público, capaz de assegurar as
suas integridades.

Demais disso, o art. 84 do Código de Defesa do Consumidor,


Lei 8.078/90 (aplicável às Ações Civis Públicas) prevê em seu parágrafo
terceiro:
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Num. 95372248 - Pág. 50
Art. 84 Na ação que tenha por objeto o cumprimento da
obrigação de fazer ou não fazer, o juiz concederá a tutela
específica da obrigação ou determinará providências que
assegurem o resultado prático equivalente.

8. Os Pedidos:

Por todo exposto, REQUER-SE a Vossa Excelência:

8.1. Conceder tutela de urgência, inaudita altera pars (CPC,


art. 300), sob pena de multa diária a ser fixada por esse Juízo:

8.1.1. para que os Requeridos não realizem o


denominado 18º Campeonato NQMB Quarto de
Milha, a ser realizado na Granja do Torto, nesta
capital federal, na data designada (26 e 27 de
junho), mantendo-se esta obrigação de não fazer
até o final do presente processo;

8.1.2. para que os requeridos Distrito Federal,


IBRAM/DF e SEAGRI procedam à fiscalização
nos dias e locais previstos para o evento, de

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Num. 95372248 - Pág. 51
maneira a garantir o cumprimento da tutela
provisória de urgência.

8.2. A citação dos Requeridos para apresentarem resposta no


prazo legal, nos termos do art. 238 do Código de Processo
Civil, sob pena de revelia;

8.3. A intimação do d. órgão do Ministério Público;

8.4. A produção de todas as provas admitidas em direito, a serem


oportunamente especificadas;

8.5. Ao final, julgar procedente o pedido principal para condenar


a requerida ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA QUARTO DE
MILHA- ABQM à OBRIGAÇÃO DE NÃO FAZER
consistente na NÃO realização do evento em epígrafe; e os
Requeridos DISTRITO FEDERAL, Instituto de Meio
Ambiente e Recursos Hídricos do Distrito Federal – IBRAM
e SEAGRI - SECRETARIA DA AGRICULTURA
ABASTECIMENTO E DESENVOLVIMENTO DO
DISTRITO FEDERAL a fiscalizar o cumprimento da decisão
judicial que determinou a não realização do evento;

8.6. A fixação de multa diária a ser arbitrada por este Juízo na


eventualidade do descumprimento das decisões judiciais
pelos Requeridos;

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Num. 95372248 - Pág. 52
8.7. Requer-se, ainda, a condenação dos Requeridos ao pagamento
de todas as despesas processuais e honorários de sucumbência.

Invoca a parte autora a isenção de custas e honorários de


sucumbência, prevista no art. 18, da Lei 7.347/85 – Lei da Ação Civil Pública.

Dá à causa o valor de R$ 100.000,00 (cem mil de reais), para


efeitos fiscais, vez que a tutela ambiental é inestimável e imensurável.

Nestes termos, pede deferimento.

Brasília-DF, 22 de junho de 2021

Ana Paula de Vasconcelos


OAB-DF 41.036

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Num. 95372248 - Pág. 53
PROCURAÇÃO

OUTORGANTE: FÓRUM NACIONAL DE PROTEÇÃO E DEFESA ANIMAL,


associação sem fins lucrativos, com sede na Rua Cláudio Soares, Conjunto
115, Pinheiros, São Paulo-SP, CEP 05724-003, inscrita no CNPJ
04.085.146/0001-38. Por seu representante legal ao final assinado.

OUTORGADO: ANA PAULA DE VASCONCELOS, brasileira, solteira,


advogada, inscrita na Ordem dos Advogados do Brasil, secção do Distrito
Federal sob o no 41.036, com escritório no Condomínio Prive Morada Sul,
Etapa A, modulo H22, Lago Sul, Brasília, DF.

Pelo presente instrumento particular o OUTORGANTE supra referido nomeia


e constitui sua bastante procuradora a OUTORGADA acima referida,
conferindo-lhe plenos poderes das cláusulas “Ad Judicia” e “ Ad Judicia et
Extra” e todos os demais para praticar quaisquer atos do processo, inclusive
transigir, desistir, receber, dar quitação, firmar c compromissos e
substabelecer.

Brasília, 17 de junho 2020.

Elizabeth Suzanne Mac Gregor


Presidente do Conselho Diretor
FÓRUM NACIONAL DE PROTEÇÃO E DEFESA ANIMAL

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Num. 95351331 - Pág. 13
PARECER TÉCNICO sobre provas de RODEIO

São enfocadas, neste texto, as seguintes modalidades de provas de rodeio:


Montaria, Bulldog, Calf Ropping (laçada de bezerro), Team Ropping (laçada dupla) e
Pega-garrote, com referencia à possibilidade de os animais sofrerem física e
mentalmente com a ocorrência de quedas, trações, laçadas, derrubadas, saltos,
corcoveios e ainda com o fato de se encontrarem em condições de absoluta subjugação e
exploração.

I. Considerações Iniciais

Uma das preocupações manifestadas, já há mais de vinte anos, pela BVA - British
Veterinarian Association (Associação Britânica de Veterinários) - foi a de tentar definir
as cinco mais importantes questões inseridas nas inúmeras atividades que atualmente
compõem o contexto do assim chamado “Bem-Estar Animal”. Este procedimento
tornou-se necessário face à preocupação de natureza ética que pretende zelar para que o
ser humano, ao utilizar os animais, em uma grande diversidade de situações, seja
orientado para respeitar-lhes a capacidade de sofrimento e o direito à própria vida.

Assim, a BVA fez realizar-se, em abril/85, o primeiro Simpósio da Animal


Welfare Foundation, (Fundação para o Bem-Estar Animal) centrado na discussão do
tema “Priorities in Animal Welfare” (Prioridades no Bem-Estar Animal). Das cinco
prioridades estabelecidas, uma delas destacou-se: “FreedomfromPainandDisconfort”,
alusiva ao direito natural dos animais de não serem submetidos a dor e desconforto.

Esta questão não é simples de ser discutida, uma vez queo sofrimento é um
fenômeno de vivência subjetiva.

Só quem está sofrendo sabe que está sofrendo e o quanto está sofrendo. Envolve,
portanto, aspectos éticos da mais alta relevância, embora bastante sutis.
Mesmo em relação ao ser humano, cada um de nós verdadeiramente sabe o que é
dor, em si mesmo. Valendo-se de mecanismos de homologia (correspondência no
plano da forma) e de mecanismos de analogia (correspondência no plano da função),
isto é, em termos comparativos é que um indivíduo pode admitir ou supor a ocorrência
de dor/sofrimento em outro indivíduo.
Vamos imaginar - usando um exemplo bastante corriqueiro - que eu já tenha sentido
uma “dor de dente” de determinada intensidade. Sabendo que as outras pessoas e alguns
animais possuem dentes parecidos com os meus, tanto na forma quanto na função, eu
posso aceitar que na vigência de problemas similares aos que eu tive, esses indivíduos
também sintam dor, como eu senti, quando estive sob as mesmas condições.

II. Recursos para a identificação de sinais de DOR/SOFRIMENTO nos


animais

Com base no enfoque referido e obedecendo os rigores do método científico,


admitem-se três maneiras mediante as quais um indivíduo pode identificar a ocorrência
de dor/sofrimento em outro indivíduo. Estas informações constam dos Anais do
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Simpósio “THE DETECTION AND RELIEF OF PAIN IN ANIMALS” (A detecção e
o alívio da dor nos animais), publicado pela BVA em abril/85 e são as seguintes:

- Comunicação da Experiência
- Sinais Fisiológicos
- Comportamento Sugestivo

É claro que, como em todas as classificações que são feitas com finalidade
didática, podem acontecer situações nas quais características de um dos itens agora
apreciados manifestem-se de permeio a outras, de outros itens. Por exemplo, uma
expressão facial, uma dilatação de pupila ou um tremor podem representar um sinal
comportamental ou fisiológico, mas também podem servir para comunicar a experiência
a outrem.

A Comunicação da Experiência (de ocorrência de dor/sofrimento)

Acontece usualmente entre os seres humanos, na medida em que o indivíduo que


está na vivência da situação, informa a outro indivíduo, por exemplo, através da fala ou
da escrita, o que está sentindo. É comum, durante o exame clínico, ao abordar
determinada região do corpo, o médico perguntar ao paciente: - Aqui dói? E quando a
resposta é positiva, ele continua com sua investigação perguntando sobre as
características da dor, se é contínua ou intermitente, sua intensidade, etc. Em outras
palavras, o próprio sujeito da dor é que representa a fonte das informações que se terá
sobre a sua dor. Este procedimento, do ponto de vista científico, deve ser encarado com
reservas, uma vez que existem limites, como a sinceridade do informante. Ele pode estar
mentindo ou exagerando. Pode estar se valendo inconscientemente de uma estratégia
para chamar a atenção das pessoas.
Pode falar uma língua estranha que não entendemos. Pode ser muito idoso e já
ter as idéias confusas. Pode ter uma deficiência mental grave, estar em coma ou
simplesmente ser um bebê.

- como os médicos humanos podem reconhecer a ocorrência de dor em


bebês ou em pacientes comatosos?

A situação dos bebês humanos e dos pacientes em coma é muito parecida à


dos animais, pois nenhum deles tem condições de transmitir verbalmente, por palavras
articuladas oralmente ou escritas, a quem quer que seja, o que estão sentindo.
Entretanto, os animais podem vocalizar, emitindo uivos, gemidos ou sons de outras
características o que, para profissionais médicos veterinários e pessoas próximas ao dia-
a-dia dos animais, que conhecem seu comportamento, pode ser interpretado como sinal
indicativo ou sugestivo da ocorrência de dor e/ou sofrimento.

A título de ilustração, passamos a relatar alguns episódios do cotidiano, vividos


por pessoas de meu relacionamento próximo.
Uma jovem mãe levou seu filhinho de meses a um terceiro médico, pois o bebê
chorava, aos gritos, há dois dias e duas noites, sem diagnóstico e sem lenitivo. Na sala
de espera, uma senhora já idosa aproximou-se dela e lhe disse: - Minha filha, eu criei 11
filhos e sei que esse choro é de dor de ouvido. Quando você entrar, peça para o médico

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examinar o ouvido dele! Isso foi feito e o médico confirmou o diagnóstico de otite
bilateral.

Portanto, é preciso saber “ler” os sinais que estão sendo emitidos pelo
indivíduo, e decodifica-los como indicativos de dor/sofrimento.

Certa feita entrei em uma UTI, em visita a familiar. Sua expressão de


sofrimento era evidente, e as tentativas de comunicar o que sentia eram penosas e
inúteis. Quando percebi que ele movia os dedos, coloquei uma caneta em sua mão e a
duras penas ele conseguiu escrever sobre o papel disponível, as palavras “ar seco”. A
enfermeira, então constrangida, identificou que estava desligada a umidificação do ar do
respiradouro.

Recentemente, surgiu no campo da Bioética, uma questão bastante polêmica nos


procedimentos de transplantes de órgãos. Como os órgãos – rins, coração, fígado,
pulmões) são retirados do indivíduo com morte cerebral, mas organicamente vivos, em
um ato cirúrgico de grandes proporções, pairava a dúvida se o doador poderia de
alguma forma sentir dor ou vivência de sofrimento, passando então a ser recomendada,
pelas entidades competentes, a anestesia desse doador.

Desejamos ressaltar, com o relato desses casos, que não é fácil, mesmo em se
tratando de seres humanos, e também para animais, a avaliação dos sinais indicativos de
dor/sofrimento, principalmente por duas razões:

1ª. – a vivência das situações de dor/sofrimento envolve um aspecto


subjetivo, ao qual os protocolos médicos e veterinários não têm acesso;

2ª. – “a ausência de evidência não é evidência de ausência”, ou seja, a falta


de sinais claros de ocorrência de alguma coisa, não significa que essa coisa não exista.
Por exemplo, nos laudos (negativos) dos exames proctológicos (de fezes), sempre lemos
as expressões: “não foram encontrados ovos ou larvas de parasitas...” e jamais a
afirmativa de que “não existem parasitas...”, pois pode ser que eles existam mas não
tenham sido identificados pelos métodos utilizados.

- quando a presença de lesões é indicativa da vivência de dor/sofrimento – a


observação de lesões, em animais que participaram de provas de rodeio, por si só
confirma a vivência de dor/sofrimento nesses animais (Figura 1).

Figura 1 – fotos de lesão cruenta na virilha de cavalos após participarem


da prova de montaria, causadas pelo sedém, durante a XI Festa do Peão de Boiadeiro
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em Taboão da Serra – SP, em 1999, constantes do Relatório Técnico a respeito efetuado
pela médica veterinária Dra. Rita de Cássia Maria Garcia.

Entretanto, quando da ausência de lesões corporais, temos de fazer a leitura de


eventual ocorrência de dor/sofrimento pela observação de sinais fisiológicos e de
comportamentos sugestivos, como segue:

Os Sinais Fisiológicos - para entender a importância dos sinais fisiológicos na detecção


de determinados estados orgânicos vivenciados por um indivíduo, vamos nos permitir
lembrar episódio de uma obra literária.

Em certo momento, a personagem, que vive uma situação muito difícil,


confidencia suas aflições a uma tia do marido, muito idosa, segurando-lhe as mãos. Ao
insistir para que a senhora creia em sua sinceridade, ouve dela a resposta positiva: -
“Sim, eu acredito em você, minha filha, porque ninguém finge mãos frias”.
A sabedoria da idosa senhora põe à mostra um fato cientificamente
incontestável, o de que algumas funções orgânicas se manifestam independentemente
do controle da vontade, como a vasoconstrição periférica – em que o indivíduo fica
pálido e com a superfície cutânea mais fria, como é o caso das “mãos frias”, a dilatação
das pupilas (midríase) e a aceleração do ritmo cardíaco, etc.

Entende-se por Fisiologia, o ramo da ciência que estuda a dinâmica dos


processos que acontecem na intimidade dos órgãos e do organismo como um todo,
responsáveis pelo desempenho de suas funções. Assim, é por intermédio de pesquisas
em Fisiologia que se tem conhecimento de uma série de dados característicos do padrão
de normalidade das diferentes espécies animais - entre elas incluindo o próprio ser
humano - como temperatura, frequência cardíaca e respiratória, de registro
eletroencefalográfico e eletrocardiográfico, etc.

Esses sinais acontecem por um mecanismo de somatização, processo através do


qual o indivíduo (ser humano ou animal), mesmo de maneira inconsciente e involuntária
imprime no corpo físico (soma), modificações funcionais resultantes de suas condições
mentais/emocionais. Em outras palavras, esses sinais fisiológicos acontecem não apenas
pela ocorrência da “sensação” de dor orgânica, como também pelo sofrimento que o
indivíduo vivência (mentalmente, emocionalmente), motivado pela dor física e também
pelas adversidades que identifica no ambiente e que o colocam em situação de “alerta”.

-diferença conceitual entre dor (física) e sofrimento(mental) - na organização


morfofuncional de animais como equinos e bovinos, e também do próprio ser humano,
existe uma sequência de estruturas nervosas responsáveis pela recepção dos estímulos
causadores de dor (nociceptivos) e condução desses estímulos até determinadas regiões
do cérebro.

Na vigência, por exemplo, de uma queimadura na pele, causada de maneira


natural ou experimental, existem técnicas bastante sofisticadas, mediante as quais é
possível fazer-se a “evocação do potencial elétrico” no córtex cerebral (em áreas
chamadas “primárias”) correspondente aos estímulos nociceptivos (causadores de dor)
que aí chegaram, provenientes da lesão por queimadura.

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A rigor, metodologicamente (cientificamente) falando, este procedimento está
apenas confirmando que, do ponto de vista orgânico, o aparato nervoso receptor e
condutor dos estímulos de dor está íntegro, está funcionando. Algumas regiões do
córtex cerebral, as chamadas “áreas de associação terciárias” acham-se fortemente
implicadas na etapa de processamento e interpretação dos estímulos (no caso,
causadores de dor/sofrimento).
Essas áreas corticais representam, por assim dizer, o “fim da linha” neural
(orgânica) de condução desses estímulos, uma vez que, de alguma forma, ainda
desconhecida pela Ciência, a partir daí esses estímulos adentram a dimensão subjetiva
do indivíduo, quando então acontece o “sentir” a dor.

Portanto, na visão dualista, o “sentir” (vivenciar subjetivamente o significado do


estímulo) é um fenômeno da dimensão mental e não cerebral, e a maneira como cada
indivíduo “sente” qualquer coisa acha-se relacionada com o conteúdo de seu banco de
memória, haja vista o dito popular: “Gato escaldado tem medo de água fria”

Poderíamos, então, estabelecer a seguinte sequência:

- No terreno orgânico (corpo físico):

Percepção de estímulos nociceptivos (causadores de dor).


Condução desses estímulos até o cérebro.

- Implicando também a dimensão subjetiva (mente ou psiquismo):

Processamento e interpretação dos estímulos.


Eventual vivência da sensação (o “sentir” a dor).
Eventual vivência de sofrimento (vivência subjetiva que implica no significado
particular dessa sensação, para esse indivíduo).

Na dimensão subjetiva, o processamento e consequente interpretação dos


estímulos vai ser feito, conforme já foi referido, em função do arquivo de memória do
indivíduo. Assim, um animal ou ser humano que já tenha vivenciado os estímulos aos
quais se acha exposto no momento, e que tenham lhe causado sofrimento, vai “sofrer”
potencial e antecipadamente a repetição mental do episódio.A maneira como cada
indivíduo vai “sentir” alguma coisa vai se fazer também em função de características
pessoais de cada um. Tanto para os animais quanto para os seres humanos, é possível
que um mesmo estímulo sabidamente causador de dor, resulte em sofrimento de
intensidade diferente para cada indivíduo.
Portanto, conceitualmente, pode-se fazer uma diferença entre o que seja dor e
sofrimento, podendo coexistir ou acontecer separadamente. De modo geral, a vivência
de uma dor física é acompanhada de sofrimento, mas pode haver sofrimento sem dor
física.

Um animal perseguido, acuado, subjugado, pode sentir-se ameaçado em sua


integridade orgânica, e com isso sofrer, na dependência do conteúdo de sua
memória, assim como podemos sofrer na cadeira do dentista antes mesmo do
profissional acionar aquele torturante motorzinho sobre nós.

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- a dimensão mental dos animais – já foi o tempo em que se admitia que os
animais eram simplesmente “máquinas cartesianas” desprovidas de sensibilidade e de
outros atributos psíquicos.
E por falar em “mente”, nos animais, é obrigatória a citação de Donald R.
Griffin, um dos grandes estudiosos do assunto. Griffin, biólogo da Harvard
University, e seu colega Robert Galambos descobriram, há algumas décadas, a maneira
como os morcegos se orientam espacialmente no escuro graças ao seu próprio
mecanismo de sonar. Griffin não parou por aí, pois em seguida, dedicando-se à análise
do comportamento de abelhas e outros animais, acabou por lançar a idéia de que
animais que consideramos os mais primitivos também pensam e podem ter consciência.

Nesse enfoque, tornou-se pioneiro no campo da Etologia Cognitiva – termo que


cunhou em seu livro “The Questionof Animal Awareness” (A Questão da Consciência
Animal), publicado em 1976, vertente da ciência-mãe (Etologia) que hoje discute sem
preconceitos essas questões, livrando-se assim do que ele mesmo chama de
“mentofobia”, ou seja, da premissa que diminui o valor dos animais não-humanos,
negando qualquer possibilidade de que possuam pensamento, consciência, enfim, os
atributos mentais que sem nenhuma contestação, admitimos para os seres humanos.

Griffin é autor, entre outras obras, do livro “Animal Minds”, leitura imperdível
para os verdadeiramente interessados no assunto. Portanto, a própria ciência já tem
mostrado pistas importantes sobre a existência dessa dimensão a que chamamos de
“mente” ou psiquismo, nos animais.

Recentemente tivemos a grata surpresa de tomar conhecimento da “Declaração


de Cambridge”, como ficou conhecido o manifesto de 26 neurocientistas procedentes
de vários países, quando reunidos em um Simpósio sobre Consciência, no Reino Unido,
em julho de 2012. Sob a liderança do Dr. Philip Low, pesquisador da Stanford
University e do Massachusetts Instituteof Technology, USA, assim eles se
manifestaram:

“Não dá mais para dizer que não sabíamos: Todos os mamíferos,


pássaros e alguns invertebrados como os polvos, têm consciência... as
estruturas cerebrais implicadas na consciência em humanos também
existem nos animais”.

- a interação mente – cérebro. O cérebro como “órgão” de expressão da


mente - queremos salientar que hoje uma boa parte dos neurocientistas admite
plenamente ser o cérebro, o “órgão” (do grego organon= instrumento, meio, recurso) de
expressão da dimensão subjetiva do indivíduo (mente ou psiquismo), e isto é válido
tanto para o ser humano quanto para os animais, conforme expus detalhadamente em
meu livro (Irvenia Prada) “A Alma dos Animais” (Editora Mantiqueira, 1997),
significando, o termo alma (do latim anima), a dimensão subjetiva, também chamada de
mente ou psiquismo.

O cérebro de animais como bois e cavalos tem organização morfofuncional


muito diferenciada, cujo modelo básico de construção é o mesmo do cérebro do ser
humano, sendo a diferença entre eles, portanto, quantitativa e não qualitativa.

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Particularmente a área pré-frontal – porção mais anterior dos lobos frontais,
relacionada à expressão de funções cognitivas - encontra-se presente não apenas no ser
humano, mas também em animais, especialmente nos mamíferos. Veja-se, a exemplo, a
publicação de J. M. Fuster intitulada “The PrefrontalCortex: Anatomy,
PhysiologyandNeuropsychologyofthe Frontal Lobe”, 2a. ed. New York: Raven Press,
1989.

As características anatomofuncionais do cérebro dos animais permitem certas


comparações (por homologia e analogia) entre o que ocorre com os animais e o ser
humano, até porque, no caso em questão, as vias neurais de dor (conjunto de estruturas
nervosas pelas quais trafegam os estímulos causadores de dor, desde os receptores
periféricos até o córtex cerebral) obedecem ao mesmo modelo de organização, tanto no
ser humano quanto nos animais.

Essas informações técnicas constam do livro acadêmico de Irvenia Prada


“Neuroanatomia Funcional em Medicina Veterinária. Com correlações Clínicas”,
cap. X (2014).

Em virtude dos atuais estudos em Neurociência, não se admite mais, como


antigamente, que os animais sejam seres irracionais, que não pensam, que agem apenas
por instintivo ou por comportamento condicionado.
A Etologia, ramo do conhecimento que recentemente se estruturou como ciência
(da década de 1950 para cá, pelo cientista Konrad Lorenz) e que se dedica ao estudo do
comportamento animal, vem mostrando que o psiquismo dos animais é muito rico.

Algumas espécies mais estudadas, que envolvem chimpanzés, golfinhos, cães e


cavalos tem revelado extraordinárias características de sua mente, antes desconhecidas.

Veja-se, a exemplo, “O Parente mais Próximo”, de Roger Fouts (no qual


relata o trabalho de 30 anos tendo ensinado com muito sucesso, a chimpanzés, a
linguagem gestual dos surdos-mudos);
“O Mistério da Mente”, de Wilder Penfield (em que o autor declara que “em
termos de comportamento é evidente que o homem não é o único a possuir uma mente”)
;
“A Psique do Cavalo”, de R.H. Smythe (no qual se percebe que, apesar de ser
um animal gregário, é notável que o cavalo chegue a se tornar capaz de agir como
indivíduo).
Portanto, hoje a Ciência nos confere subsídios para analisar não apenas a
possibilidade de dor física nos animais, mas também a de “sofrimento”, este encarado
como vivência subjetiva, afeta ao seu contexto mental ou psíquico.

- a expressão de sinais fisiológicos nos animais, indicativos de


dor/sofrimento – aabordagem desse tema já se acha divulgada em artigo de autoria de
Irvenia Prada, publicado na Revista “ Picollo”, Ano VI/ n.34/maio98, Informativo da
Sociedade Paulista de Medicina Veterinária, contendo uma súmula da palestra “Rodeio:
Diversão Humana e Sofrimento Animal”, proferida no I Congresso Brasileiro de
Bem-Estar Animal, realizado em São Paulo, em 1997.

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Nesse trabalho são apresentados aspectos de natureza técnica, indicativos de que
os animais sofrem com a utilização do sedém, peiteira, aplicação de esporas, com o
barulho do sino, etc. , uma vez que, segundo constatamos, todos os animais, durante
sua permanência na arena mostram-se em midríase (estado de dilatação das pupilas),
quando o esperado seria a ocorrência de miose (estado de constrição das pupilas, em
resposta à presença de luz natural ou artificial no ambiente).

Note-se que utilizamos e vamos utilizar outras vezes as expressões


“indicativo de” ou “sugestivo de”, uma vez que desejamos, com este procedimento,
atender os rigores do método científico. Valendo-nos de um exemplo bastante
corriqueiro, vamos supor que eu encontre no meio da rua, um cachorro morto,
ensanguentado, com vários ossos quebrados. Sabendo que aquela rua é de tráfego
intenso de carros e de caminhões, eu posso ser levada a concluir e afirmar que esse
animal foi atropelado.
Entretanto, a rigor, cientificamente (metodologicamente) falando, eu apenas
posso afirmar que aqueles sinais (ossos quebrados, o cão está no meio da rua, etc., são
indicativos ou sugestivos de que o animal tenha sido atropelado, pois existem outras
possibilidades que, embora menos prováveis, devem ser consideradas.

Quanto à ocorrência de midríase (dilatação da pupila) em animais durante


rodeios, basta que se observem fotos exibidas por revistas especializadas.
Invariavelmente, os equinos ou touros que estão sendo montados apresentam em cada
olho, um evidente halo luminoso, resultado da incidência de luz (do flash da máquina
fotográfica ou outro foco de luz) que incide sobre o fundo do olho e é refletida.
O mecanismo intrínseco de ocorrência dessa midríase acha-se mais
detalhadamente explicitado na publicação de Irvenia Prada “Bases Metodológicas e
Neurofuncionais da Avaliação de Ocorrência de Dor/Sofrimento em Animais”
(Prada et al., Rev. educ. contin. CRMV-SP, vol. 5, fascículo I, 2002).

Basicamente, no fundo do olho dos animais existe uma camada fortemente


pigmentada, chamada de tapetumlucidum (Figura 2), e estando a pupila aberta (em
midríase, a luz que incide nesse olho é refletida dando a imagem de intenso halo claro
nos olhos (Figura 3).

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Figura 2 – camada fortemente pigmentada, existente no findo do olho dos
animais - tapetumlucidum – que reflete a luz que incide nesse olho, quando a pupila se
encontra dilatada (em midríase), que acontece também na vigência de estresse agudo,
como nos estados de dor/sofrimento.

Figura 3 – fotos de animais (touros e cavalo) em plena prova de montaria


(disponíveis em revistas especializadas), em ambiente iluminado, mostrando claramente
suas pupilas em midríase, sinal altamente indicativo de que se encontram na vigência de
estresse agudo. Acompanham a midríase, outros sinais fisiológicos (como taquicardia,
elevação da pressão arterial e secreção de adrenalina e cortisol). Esses sinais
fisiológicos atuam conjuntamente e são regidos pelo Sistema Nervoso Simpático.

Este sinal fisiológico (midríase), nessas condições, é indicativo de vivência do


“Síndrome de Canon”, que caracteriza a situação referida pela expressão inglesa
“tofightortoflight”, ou seja, “lutar ou fugir”.

Quando o ser humano ou o animal se sente ameaçado, agredido, assustado, com


medo ou em pânico, automaticamente (de maneira inconsciente e involuntária) seu
organismo é preparado para essa situação de emergência. Acontece então taquicardia
(aumento da freqüência cardíaca), aumento da pressão arterial, dilatação dos brônquios
para facilitar a função respiratória, aumento do aporte sangüíneo para os músculos, pois
eles é que serão solicitados para o lutar ou fugir, diminuição de sangue no território
cutâneo (no ser humano é mais fácil perceber-se isto, pela palidez), transformação
rápida de glicogênio em glicose (“combustível” energético para a ação dos músculos) e
dilatação das pupilas (midríase).

A ocorrência desta síndrome (conjunto de sinais fisiológicos) é altamente


indicativa, do ponto de vista científico, de que os animais - no caso de “rodeios”,
bovinos e eqüinos - estejam vivenciando sofrimento físico e mental.

Aliás, as pessoas afetas à rotina dos matadouros sabem que, ao entrarem na linha
de matança (“corredor” pelo qual os animais são conduzidosao abate), os bovinos ao
perceberem o que está acontecendo, imediatamente “entram” em midríase, indicativo da
ocorrência de medo e pânico (Síndrome de Emergência de Canon).

O Comportamento Sugestivo (de vivência de dor/sofrimento) - os animais não


verbalizam, isto é, não se comunicam através da palavra escrita ou falada, embora
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tenhamos o caso dos chimpanzés de Roger Fouts (“O Parente mais Próximo”) que
se comunicam com seres humanos através da linguagem de surdos-mudos, com gestos
que representam palavras, expressões e idéias. Surpreendentemente, esses chimpanzés
expressaram noções de passado e de futuro e de “sentimentos” de medo, de perda pela
morte de filhotes e de companheiros, etc.

Mas, em se tratando de outros animais, como é o caso de bovinos e cavalos,


temos de nos valer da observação dos sinais fisiológicos indicativos e do
comportamento sugestivo da vigência de dor/sofrimento, quando esses animais se
acham submetidos a determinadas situações.

Assim, podem ser considerados sinais característicos do comportamento


sugestivo de dor/sofrimento, movimentos de flexão e de extensão dos membros,
movimentos de “retirada” da parte do corpo em relação ao agente agressor (em bebês
humanos recém-nascidos, a punção capilar no calcanhar, em 0,3 segundos é seguida de
retirada da perna não puncionada e em 0,5 segundos, de retirada da perna puncionada,
segundo “A Linguagem da Dor no Recém-nascido”, pela Dra. Ruth Guinsburg -
Sociedade Brasileira de Pediatria), o afastar-se para tentar fugir do agente agressor,
coices, pulos, contorções do corpo e por vezes a emissão de sons característicos. Em
determinadas situações de vigência de dor aguda e intensa, os animais podem mostrar
imobilidade e contratura muscular principalmente dos músculos flexores, além de
tremores.

Entretanto, faz-se necessária a atuação da capacidade de percepção do


observador, para que se possa “decodificar” a linguagem de dor/sofrimento nos
animais, expressa por sinais fisiológicos e comportamentais, uma vez que são vários e
por vezes muito sutis. Este aspecto é tão importante que basta lembrar o fato referido
por SHORT & POZNAK, em seu livro “Animal Pain”- Editora Churchill Livingstone,
de que os bebês humanos recém-nascidos, na maior parte dos casos prematuros - que
como os animais não comunicam sua vivência de dor/sofrimento pela linguagem falada
ou escrita- até meados da década de 80 não eram submetidos a anestésicos ou
analgésicos, mesmo durante procedimentos cirúrgicos, pois ninguém até então havia
“percebido” a possibilidade de que pudessem sentir dor e sofrer!

Com o passar do tempo, enfermeiras e médicos começaram a notar, durante


alguns procedimentos como coleta de sangue, punções e outros, alterações de padrões
fisiológicos como aumento da frequência cardíaca e respiratória e aumento da pressão
arterial, em bebês monitorados (ligados a aparelhos que durante todo o tempo registram
essas funções), assim como mudanças de comportamento que, embora sutis, eram
compatíveis com a vivência de dor/sofrimento.

Estudos das últimas décadas, de meados de 1980 para cá mostraram não apenas
que os recém-nascidos também sofrem, como ainda que o seu limiar de dor é mais
baixo que o dos adultos, isto é, um mesmo estímulo nociceptivo (causador de dor) deve
provocar, no bebê, sofrimento de maior intensidade que no adulto. São palavras da Dra.
Ruth Guinsburg, Doutora em Pediatria - Universidade Federal de São Paulo, em seu
trabalho “A Linguagem da Dor no Recém-nascido”, publicado pela Sociedade
Brasileira de Pediatria: - “...o adulto precisa “reconhecer” ou “decodificar”os sinais de
dor emitidos pelo paciente pré-verbal.
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O entendimento de tais sinais pelo adulto depende do seu conhecimento a
respeito da dor nessa faixa etária, de sua sensibilidade e de sua atenção para a
percepção desses sinais” (destaques nossos, para fins do que segue).

Transpondo esta esclarecedora advertência, para a situação similar vivenciada


pelos animais, que como os bebês humanos não verbalizam, bastaria fazermos a
seguinte adaptação para o trecho destacado em negrito:

“o entendimento de tais sinais (fisiológicos e comportamentais), pelo


ser humano, depende do seu conhecimento a respeito dos mecanismos de
ocorrência e formas de manifestação de dor/sofrimento nos animais, de sua
sensibilidade e de sua atenção para a percepção desses sinais”.

III. ANÁLISE TÉCNICA de algumas das modalidades de provas de rodeio :

Montaria (Figura 4)– são utilizados cavalos, éguas e touros como montarias e também
alguns apetrechos, como sedem, esporas e corda americana.

Osedém é uma espécie de corda trançada com crina de cavalo ou outros


materiais, à qual ficam acopladas argolas, uma tira de couro e uma corda mais fina. Ele
é aplicado ao redor do tronco do animal, na região da virilha e no momento de entrada
na arena, é fortemente tracionado.

As esporas, que são colocadas nos pés do peão por sobre as botas, apresentando
rosetas de metal ou borracha dura, são utilizadas pelo na aplicação de golpes com as
pernas sobre as paredes laterais do tronco do animal. A corda americana é feita de
material flexível, geralmente corda de nylon ou sisal trançado e se compõe de
barrigueira, alça e cabo. A barrigueira é ajustada ao redor do tronco do animal, na região
do tórax e em sua porção inferior são pendurados sinos. A alça representa o local na
qual o peão introduz a mão para segurar-se (Thormem, 1999).

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Figura 4 – foto de montaria em touro (disponível na internet) demonstrativa de
como o animal realiza movimentos (estiramento do corpo, saltos, corcoveio e torções)
que não fazem parte habitual de seu repertório comportamental, o que é altamente
sugestivo de que, com isso, pretende se livrar da situação de subjugação e sofrimento a
que se acha submetido.

A região da virilha, onde é ajustado o sedém, é particularmente sensível, tanto


nos animais quanto nos seres humanos e em ambos os sexos, por relacionar-se à
presença ou vizinhança de estruturas importantes nos mecanismos comportamentais de
auto-preservação (sobrevivência) e de preservação da espécie (reprodução). Estes
comportamentos são os mais básicos e, portanto, os que mais prontamente
desencadeiam reações de defesa.

O simples “roçar” de um objeto, por mais delicado que seja, na pele dessa
região, faz com que os animais reajam instintivamente, pois a superfície lateroventral do
abdome não se acha protegida por estruturas ósseas, como a sua superfície dorsal e todo
o contorno do tórax. Além do mais, a pele da região da virilha é mais fina que a do
restante do abdome possibilitando que sejam captados com maior intensidade, pelos
seus receptores nervosos de dor, temperatura (frio e calor separadamente), tato e
pressão, os estímulos que aí chegam.

Em outras palavras, se algo frio ou quente se aproximar dessa região, o animal


sentirá a sensação de frio ou de calor e, no caso do sedém, que é fortemente apertado ao
redor do tronco, o animal com certeza sentirá as sensações de tato e pressão, que podem
causar incômodo e mesmo sensação de dor, dadas as circunstâncias de se encontrar com
essa corda apertada sobre sua virilha.

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De qualquer maneira, é evidente que saltos, corcoveios e torções do corpo
representam tentativas que o animal efetua, para se livrar daquela “coisa” que o está
incomodando.

Como o sedem fica se atritando contra a pele da região, não são raras as lesões
localizadas, conseqüentes.

O sedém passa imediatamente adiante do prepúcio, do pênis e dos testículos,


nos cavalos, e das mamas, nas éguas. Entretanto, nos touros, como o pênis é do tipo
fibroso e o prepúcio é mais longo, o sedem passa sobre o prepúcio, no qual está
contido o pênis(Figura 5).

Figura 5 (disponível na internet) – touro em plena prova de montaria ( no


momento em que consegue se livrar do peão), podendo-se observar a posição do sedem,
espécie de corda justaposta ao redor do tronco do animal, na região da virilha, e
passando sobre o prepúcio, que contem o pênis.

Não apenas a utilização do sedém, mas também a das esporas, a da corda


americana, e todos as circunstâncias da ambiência e manejo (transporte, manobras, som
muito alto, barulhos, luz intensa, espetáculos até altas horas da noite) levam os animais
à vivência da chamada “síndrome de emergência” de Canon, que se compõe de vários
sinais fisiológicos que acontecem de maneira conjunta e não isoladamente, conforme o
descrito no item 2.2, sendo o de fácil observação, a midríase. Esses sinais são altamente
sugestivos, chegando a ser comprobatórios de sofrimento dos animais.

Buldog(Figura 6)- ao atirar-se sobre o garrote, em velocidade, o peão busca segura-lo


pelos chifres, para em seguida torcer o pescoço do animal e derruba-lo ao chão. Ao
atirar-se sobre o garrote, exerce sobre a coluna vertebral do animal e também sobre os
seus membros torácicos (patas da frente), uma considerável pressão representada pelo

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peso de seu corpo que vinha se deslocando em velocidade, acrescido da ação da
gravidade.

Vendo e revendo várias cenas de Buldog, que foram filmadas por entidades
promotoras desses eventos, pude notar que o impacto do corpo do peão sobre o garrote
faz-se principalmente nessa região da coluna vertebral, correspondente às patas
dianteiras e ao pescoço como um todo, uma vez que o peão busca agarrar-se aos chifres
do animal.

Figura 6 (disponível na internet) – momento em que o peão torce o pescoço do


garrote para desequilibrá-lo e promover a sua derrubada.

A região cervical (do pescoço) da coluna vertebral é uma área de particular


interesse anatômico, conforme se lê no cap.5 - Bioestática e Biomecânica Gerais (do
corpo dos animais quadrupedais), no livro Anatomia dos Animais Domésticos,
1981, de Robert Getty. Assim, a coluna vertebral mostra-se como uma viga sustentada
pelo apôio dos membros torácicos e pélvicos (dianteiros e traseiros), sendo que o
pescoço, sustentando em uma de suas extremidades, a cabeça, insere-se à maneira de
uma ponte levadiça, na porção mais anterior do tórax.

Dadas suas funções, a região cervical da coluna vertebral, que se mostra em


arco, apresenta dois pontos anatomicamente definidos, mais sujeitos às forças que
incidem sobre o pescoço, isto é, a porção correspondente à metade do comprimento do
pescoço (3a. e 4a. vértebras), por ser este local o de maior curvatura do arco, e a região
da 5a., 6a. e 7a. vértebras, local onde a curvatura do arco se inverte para se continuar
com a coluna torácica.
Em grandes animais (cavalos, bovinos e também cães de raças avantajadas), este
ultimo local costuma ser sede de uma afecção acompanhada de muita dor, pois esta é a
região de emergência do plexo braquial, um conjunto de nervos calibrosos que se
destinam à enervação da região e também, dos membros torácicos. De modo geral trata-
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se de uma sub-luxação das ultimas vértebras cervicais, produzida por traumatismos
violentos ou mesmo treinamentos excessivos a que são submetidos animais ainda em
crescimento, o que acontece particularmente com eqüinos e cães.
O conjunto de sintomas que aparecem em traumatismos da porção final da
coluna cervical constitui o que se conhece em clínica com o nome de “Síndrome de
Wobbler”.

Em se tratando de bovinos, na fita de vídeo a que aludi, um dos peões refere-se


ao fato de que faz por dia, de 50 a 60 vezes o procedimento do Buldog, para seu
treinamento com vistas às competições. Neste caso, seria desejável a verificação de
quantas vezes o mesmo animal é utilizado e sujeito à torção de seu pescoço, rolamento e
queda, pois com certeza um animal submetido repetidas vezes a essa situação, terá
problemas nessa região da coluna (final da região cervical).

É preocupante a repetição de ocorrência de episódios de dor/sofrimento, não


apenas pelas lesões corporais, mas também e principalmente pelas possíveis “cicatrizes
psicológicas” resultantes.

Após agarrar-se aos chifres do animal, o peão provoca uma torção de seu
pescoço, em conseqüência do que o corpo do animal sofre um movimento espiralado, de
tal forma que cai ao chão “meio de lado” para, no instante seguinte, rolar o corpo
apoiando-se sobre a coluna, com as quatro patas voltadas para cima. No desenrolar
dessa cena, muitas lesões de natureza física podem acontecer em varias partes do corpo
do animal, como os membros, região das costelas e principalmente, conforme já referi, a
coluna vertebral como um todo mas, em especial a região cervical (do pescoço), onde é
aplicada a torção.

Mesmo que não sejam detectadas lesões aparentes, não se pode afirmar que o
animal não sofre, pois o simples fato de estar sendo perseguido, contido e violentamente
derrubado, mediante torção brusca de seu pescoço, por si só representa fator
determinante de sofrimento físico e mental.

A presença ou ausência de lesão física não é tudo. Aliás, é necessário se


entender que nem sempre a ausência de lesão aparente significa ausência de sofrimento.

A exemplo, uma pessoa pode receber um tapa no rosto e não apresentar


nenhuma lesão indicativa do fato.

No presente caso do buldog, é preciso lembrar que, dada a configuração


robusta do pescoço dos bovinos, os efeitos deletérios de uma torção quase sempre
passam despercebidos, pois a coluna vertebral, que é a estrutura mais sensível, localiza-
se profundamente à massa muscular.

A coluna vertebral é constituída por uma seqüência de peças ósseas, as


vértebras, formando-se em sua intimidade um canal que contem a medula espinhal.
Essas vértebras são mantidas em posição à custa de ligamentos e músculos. Sujeitados à
violenta torção do pescoço, esses ligamentos e músculos sofrem um grande impacto,

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podendo ocorrer até luxações ou sub-luxações das vértebras, ou seja, deslocamentos
mais ou menos pronunciados das vértebras, em relação à sua posição normal.

Esses processos são muito dolorosos, pois comprometem as raízes dos nervos
espinhais, que se conectam com a medula espinhal aos pares, relativamente a cada
espaço inter-vertebral. Na própria musculatura do pescoço, do lado contrário ao da
torção, que é violentamente estirada pelo movimento imposto pelo peão, pode acontecer
ruptura de feixes musculares, de seus tendões de inserção nas vértebras e mesmo de
vasos sangüíneos. Entretanto, dada a configuração robusta do pescoço dos bovinos,
esses efeitos deletérios quase sempre passam despercebidos.

Por outro lado, os bovinos também são animais que caracteristicamente


evidenciam muito mal, seus estados de sofrimento. Parece que sofrem em silêncio. Não
gemem, não chamam facilmente nossa atenção, o que facilita a possibilidade de que
sejam camufladas situações de vivência de dor/sofrimento. Mas, em absoluto isto não
significa que não sofram, pois são feitos dos mesmos tecidos orgânicos que tantos
outros animais, inclusive o ser humano.

CalfRoping (Laçada de Bezerro) - nessa prova são utilizados bezerros muito novos,
com cerca de 40 dias de vida. Enquanto está correndo, o bezerro é laçado pelo peão que
vem montado a cavalo, em velocidade (Figura 7).

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Figura 7 (disponível na internet) – momento em que o bezerro, sendo
liberado para a arena, corre em velocidade para fugir da ameaça a que se acha
submetido devendo, em seguida, ser laçado pelo peão que já se prepara para isso.

O laço, que atinge o seu pescoço, faz com que o bezerro estanque abruptamente,
caindo sobre o solo. Ele é então erguido do solo pelo peão, que já desmontou
rapidamente, sendo seguro inclusive pela prega cutânea que se dispõe entre o tronco e a
perna traseira.

É novamente atirado ao solo, agora em decúbito lateral, sendo três de suas patas
amarradas juntas. Com o animal imobilizado, está terminada a prova.

Como se leva em consideração a contagem do tempo, todos os movimentos são


rápidos e bruscos, o que aumenta a possibilidade de ocorrência de traumatismos no
bezerro, em várias partes do corpo (coluna vertebral, membros, costelas e órgãos
internos que podem sofrer rupturas), ainda mais se levando em conta que são animais
em início de seu desenvolvimento orgânico.

Além das eventuais lesões corporais que podem resultar desse procedimento, é
irrefutável a ocorrência de sofrimento mental ou psíquico nesses animais, dada a
complexa configuração morfofuncional de seu sistema nervoso (cérebro e vias neurais),
necessariamente implicada na avaliação e interpretação do fato de estarem sendo
submetidos a perseguição e subjugação.

Team Roping (Laçada Dupla) - neste tipo de prova existe a participação de dois
cavaleiros, que perseguem um garrote. Enquanto um deles laça a cabeça, o outro laça as
pernas traseiras, e eles se apresentam, após as laçadas, um de frente ao outro, sendo
então o animal tracionado em sentidos opostos.

À semelhança dos dois eventos anteriores, pode haver a ocorrência de lesões


orgânicas em várias partes do corpo, com vigência de dor física mas, existe também a
ocorrência de sofrimento mental, pelas razoes já expostas.

Pega-Garrote - o animal é solto na arena e derrubado, de diversas maneiras e como


possível, por dois peões. Conforme já comentado, todo tipo de movimento brusco e/ou
violento pode ocasionar danos orgânicos aos animais, além da vivência de sofrimento
mental, dada a situação de perseguição e de subjugação às quais se acham submetidos.

Conclusões Finais - A estrutura orgânica dos eqüinos e bovinos é passível de lesões na


ocorrência de quaisquer procedimentos violentos, bruscos e/ou agressivos, em coerência
com as características da constituição de todos os corpos formados por matéria viva.

Por outro lado, sendo o cérebro, o “órgão” de expressão da mente, a complexa


configuração morfofuncional que esse órgão exibe em eqüinos e bovinos é altamente
indicativa da capacidade psíquica desses animais, de avaliar e interpretar as situações
adversas a que são submetidos, disto resultando sofrimento.

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Face ao exposto, é nosso PARECER TÉCNICO totalmente contrário à
realização das diferentes provas de rodeio.

São Paulo, 20 de outubro de 2020

Atenciosamente,

Irvênia Luiza de Santis Prada


Médica Veterinária pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia – USP
CRMV – SP – 0525
Profa. Titular Emérita – FMVZ – USP
Membro da Academia Paulista de Medicina Veterinária – APAMVETAssessora Técnica do Fórum
Nacional de Proteção e Defesa Animal
Docente de Curso de Pós-Graduação na Universidade Caxias do Sul, RS.
Idealizadora e coordenadora do MEDVESP – FMVZ – USP
Autora dos livros:- Neuroanatomia Funcional em Med. Vet. – com correlações clínicas Editora Terra
Molhada, 2014.
O Cérebro Triúno a serviço do Espírito, AME-Brasil Editora, 2017
A Questão Espiritual dos Animais, Editora FE- Folha Espírita, SP, 2018
A Alma dos Animais, Casa Editora O Clarim, Matão – SP, 2018
Espiritismo. Razão como método; Mediunidade como laboratório; Moral como objetivo, Editora FE-
Folha Espírita, SP, 2019.

Vania Plaza Nunes

Médica Veterinária pela Unesp, campus de Botucatu, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia
CRMV-SP 4119
Diretora técnica do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal
Coordenadora de Projetos e Educação do Instituto de Medicina veterinária do Coletivo
Diretora técnica do Grupo de Voluntários para Valorização da Vida Animal
Pós graduada em Saúde Pública pela Unicamp
Pós graduada em Vigilância Sanitária e Saúde Ambiental pela Unicamp
Pós graduada em Ecologia e Educação Ambiental pela UniAnchieta
Pós graduada em Comportamento animal pela UNIFEOB
Pós graduada em Homeopatia pelo Instituto Jaqueline Pecker
Pós graduada em Bem -Estar animal pelo E-Learning Cambrigde- UK
Pós graduanda em Medicina Veterinária Legal

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PARECER TÉCNICO
sobre a PROVA DO LAÇO COMPRIDO
(ou TIRO do LAÇO)

Considerações Gerias – a Prova do Laço Comprido, também chamada de Tiro do


Laço, querem os aficionados que ela seja reconhecida como esporte símbolo do Rio
Grande do Sul. Valem-se do argumento de que consta dos preâmbulos das leis desse
estado, a recomendação de que “os gaúchos devem ter compromisso com os elevados
valores da tradição gaúcha”, lembrando que essa prova do tiro do laço faz parte da
cultura local.
Ora, os termos “tradição” e “cultura” a princípio e a rigor não bastam como
argumentos, pois há de se avaliar em que “valores” essa tradição e essa cultura se
baseiam. Por exemplo, há cerca de 125 anos, a escravidão fazia parte da cultura
brasileira e de outros países escravocratas, e também representava uma tradição, uma
vez que essa ignomínia durou mais de 300 anos.

Outro caso, infelizmente atual, é o de comunidades em determinados países que


ainda têm como cultura e tradição, a mutilação genital das meninas.

Então há que se perguntar: - Nesses exemplos que acabam de ser citados, a


tradição e a cultura que envolvem são válidas? É certo que não, não são válidas, pois os
valores nos quais se alicerçam dizem respeito à subjugação e ao exercício arbitrário
do poder.

Respeitamos a observação de que se deva ter compromisso com os “elevados


valores da tradição gaúcha”, mas essa prova do laço e outras similares, que subjugam
animais a comportamentos completamente fora de seu repertório cotidiano, estão longe
de merecer a consideração de basearem-se em “elevados valores”.

Pelo contrário, submeter animais a situações que lhes cause dor e


sofrimento nada tem de meritório.

Os chamados espetáculos de diversão humana que se utilizam de animais, nessas


condições, afrontam a dignidade humana e com urgência precisam ser banidos de
qualquer cenário.

Muito antigamente os animais eram considerados “máquinas automatizadas e


insensíveis”, mas há décadas, por revelações da própria ciência, sabe-se hoje que na
realidade são seres sencientes(do latim sentiens = que sente, que tem inteligência e
outros atributos compatíveis) que sofrem calados as arbitrariedades da injustiça humana.

Animais e seres humanos têm em seu sistema nervoso, as mesmas estruturas que
compõem as vias neurais da dor. Portanto, a dor nos animais é tão presente quanto no
ser humano.
Basta lembrar que toda a farmacologia utilizada para o ser humano é testada em
animais, bem como são usados animais em diversos experimentos para avaliação da dor
humana.

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Como é realizada a prova e quais os danos físicos e mentais possíveis para o animal
– a prova do laço comprido ou tiro do laço integra uma competição na qual o peão,
montado a cavalo, tem um espaço de aproximadamente 100 metros para laçar o boi que
tenta dele fugir (Figura 1), sendo laçado pelo pescoço, derrubado, por vezes arrastado e
em seguida amarrado pela extremidade distal dos membros.

Figura 1 – (disponível na internet) – momento em que o peão lança o laço sobre


o boi que corre para fugir da situação de subjugação e perigo a que se acha submetido.

No caso das provas em dupla de peões a cavalo, eles perseguem em


velocidade o animal, um de cada lado, sendo que um deles laça a extremidade distal dos
membros torácicos (anteriores), enquanto o outro laça a extremidade distal dos
membros pélvicos (posteriores), estirando o animal com forças em sentido contrário.

Há que lembrarmos, inclusive, que a repetição dos procedimentos observados


nas provas, que acontece particularmente durante os treinamentos, potencializa a
ocorrência dos danos a serem referidos.

- Quando o animal ainda se encontra no brete – momentos antes da


“largada”, o animal tem de ser estimulado para sair correndo, e um dos procedimentos
consiste em segura-lo pela cauda, sobre a qual são aplicados movimentos bruscos que
podem causar luxação, sub-luxação e mesmo fratura das vértebras coccígeas, o que
provoca intensa dor na região comprometida.

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- Quando o animal é liberado para a arena – ele sai correndo em disparada,
tentando fugir da situação que lhe impuseram já no brete.

É importante a lembrança de que os bovinos não foram feitos para correr.

Quem estiver em um haras e se aproximar do espaço em que estejam cavalos


soltos, com frequência verá um deles ou alguns deles, correndo e dando saltos, em
evidente demonstração de alegria por se encontrarem em liberdade.

Mas, se nos detivermos em algum pasto em que se encontrem bois, jamais


veremos algum deles correndo pela área ou saltitando. De fato, os bovinos não foram
feitos para correr, e isso é fácil de ser concluído, observando-se a máxima anatômica de
que “a forma é a imagem plástica da função”.

Melhor explicando, os melhores corredores animais são os felinos, e entre eles o


guepardo tem a liderança. Eles têm a coluna vertebral construída segundo uma
arquitetura que permite sua hiperextensão e sua hiperflexão, aliando-se a isso o fato de
que suas costelas são finas e arqueadas, o que lhes possibilita incrível expansão do tórax
(tipo flácido) durante esses movimentos.

Os cavalos, por sua vez, não têm uma coluna tão privilegiada e nem as costelas
tão arqueadas compondo, portanto, um tipo intermediário em relação ao aspecto que
estamos comentando e, portanto, correm mais com as suas eficientes pernas do que
contando com uma vantajosa conformação de coluna e costelas.

Nos bovinos, que representam um tipo completamente oposto ao dos felinos, a


coluna vertebral não tem curvaturas maleáveis que permitam movimentos amplos e suas
costelas são largas e não arqueadas.

Graças a isso, o tórax dos bovinos caracteriza o tipo resistente, com pouca
capacidade de expansão.

Para concluir, subjugar um bovino para faze-lo correr é demonstrar


completo desrespeito pelo animal, pois mesmo que não tenha formação acadêmica,
o peão de fazenda que na lida do dia-a-dia convive com bovinos, sabe que eles não
foram feitos para correr.

Assim, é evidente que o animal que sai do brete em disparada encontra-se


assustado pela situação inusitada a que se acha submetido e corre, tentando fugir de seus
perseguidores. Está, indubitavelmente, em vigência de sofrimento mental ou psíquico.

- Quando o animal é abruptamente laçado pelo pescoço - no momento em


que é laçado, o animal encontra-se correndo em velocidade, na tentativa de escapar da
perseguição a que se acha submetido.

Quando o laço é jogado em seu pescoço e a corda é puxada violentamente, para


trás, esse animal estanca abruptamente, sofrendo um grande impacto na região do
pescoço, onde se encontram estruturas anatômicas importantes como a traquéia.

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A traquéia, de conformação tubular e de constituição fibrocartilaginosa,
localiza-se na face anterior do pescoço estando, portanto, totalmente sujeita a lesões
compressivas, do que resultam prejuízos para a função respiratória, podendo-se
observar diferentes graus de asfixia, com diminuição da capacidade de oxigenação dos
tecidos orgânicos e inclusive do cérebro.

Nesses casos a língua do bezerro pode apresentar-se em protrusão, ou seja,


projetada para fora da boca (Figura 2).

Ainda no pescoço, em plano superficial, correm lateralmente à traquéia, as


calibrosas veias jugulares, pelas quais se faz a drenagem do sangue venoso da cabeça.

Figura 2 (disponível na internet) – momento em que o peão laça o pescoço do


bezerro e estira a corda promovendo forte pressão sobre estruturas cervicais como a
laringe, a faringe, a traquéia, o esôfago e vasos sanguíneos, com protusão da língua do
animal, demonstrativa do exagero da subjugação a que se acha submetido.

Quando o laço é apertado no pescoço do animal, as veias são fortemente


comprimidas, o que resulta em congestão venosa na região da cabeça, o que pode
refletir-se em congestão dos vasos do cérebro e do globo ocular, quando então os olhos
do animal parecem “saltar das órbitas”.

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A estrutura óssea fundamental do pescoço é representada pelas sete vértebras
cervicais, que se dispõem em seqüência formando a porção correspondente do canal
vertebral, no interior do qual se aloja a respectiva porção da medula espinal.

Com o impacto da laçada, no movimento provocado de hiperflexão ou de


hiperextensão da região cervical da coluna vertebral, podem acontecer sub-luxações,
luxações e fraturas das vérTebras cervicais, com diferentes possibilidades de lesões
graves da medula espinal.

Lesões da medula espinal, particularmente da região cervical, podem resultar em


tetraparesia (perda parcial da função motora) ou tetraparalisia(perda total da função
motora) dos membros ou mesmo na ocorrência de “choque espinal” e morte. A
musculatura e os tecidos cutâneos e subcutâneos do pescoço também podem ser lesados
com contusões, formação de hematomas, estiramentos e ruptura de suas estruturas
musculares e tendíneas.

- Quando o animal é derrubado e cai no chão - ao cair abruptamente no chão,


o animal tem sua coluna vertebral submetida a exagerado movimento de extensão, o que
possibilita a ocorrência de sub- luxação e de luxação de vértebras.
Trações mais violentas podem determinar também fratura de vértebras e
estiramento ou ruptura de ligamentos.

Em casos de luxação, sub-luxação ou mesmo fratura de vértebras cervicais,


particularmente na região mais caudal do segmento cervical (C4, C5, C6 e C7)
implicado na continuidade do pescoço com toda a estrutura óssea e ligamentar do tórax,
podem ocorrer também lesões da medula espinal, comprometendo não apenas a
própria medula como também as raízes dos nervos espinhais (raízes sensitivas e
motoras dos nervos espinhais), levando os animais a perda temporária ou definitiva da
sensibilidade regional e a paresia ou paralisia da musculatura correspondente.

Ao cair no chão (ser derrubado), o animal é arrastado, mesmo que por instantes,
disso resultando que a pele da cabeça, do pescoço, da parede lateral do tronco e dos
membros pode sofrer lesões diversas como equimoses, hematomas, “queimaduras”
(por atrito), solução de continuidade e perda de tecido.
Pode ainda acontecer fratura de costelas e de segmentos ósseos dos membros.
No caso de fratura de costelas, existe a possibilidade de contusão pulmonar,
hemorragia e pneumotórax com colabamento dos pulmões e conseqüente perda da
capacidade respiratória.

Ainda se ao cair o animal bater com a face lateral da cabeça contra o solo, pode
haver lesão do nervo facial, que inerva a musculatura da face, do que resulta paresia ou
paralisia temporária ou definitiva dessa musculatura.

- Quando os membros são amarrados – após a queda do animal, o peão


desmonta do seu cavalo e se aproxima rapidamente dele, fazendo com que os membros
do animal fiquem em condição favorável para que três deles sejam amarrados, sendo
assim concluída a prova.
Ao amarrar os membros do animal, o peão pode acarretar no animal, todas as
lesões que já foram indicadas e ainda, particularmente, lesões de pele, sub-luxação,

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luxação e fratura de segmentos ósseos, além de comprometimento de tendões e
ligamentos.

Conclusões e Parecer Final - considerando as condições a que os animais são


submetidos antes, durante e após a prova, é inegável sob a óptica da Fisiologia e da
Clínica Médica, que tais condições introduzem de maneira abrupta e violenta, no
repertório comportamental do animal, estímulos muito agressivos que geram alterações
orgânicas e sofrimento psíquico.

Estados de estresse agudo, como é o que caracteriza para o animal, essa prova,
determinam liberação de hormônios como adrenalina e cortisol, relacionados com o
catabolismo (aumento da produção de energia). Esses hormônios causam consumo de
nutrientes de forma anômala levando a consequências indesejáveis como a depressão
imunológica, que predispõe o indivíduo a infecções e outros estados mórbidos.

Outra consequência desse tipo de estresse agudo é a possibilidade de ocorrência


da chamada “Miopatia de Captura”, afecção que pode acometer mamíferos e aves
submetidos a exercício intenso ou atividade de extrema solicitação, desencadeando uma
resposta inflamatória e edema muscular.

Portanto, é inegável a ocorrência de sofrimento mental ou psíquico nos animais


que são submetidos a treinamentos e provas de laçada, pois são levados a situações que
não fazem parte de seu repertório comportamental, uma vez que são incitados a correr
para fugir de seus perseguidores, são expostos na arena a perseguição e barulho, são
submetidos a traumas, são amarrados, são contidos....

Devemos ainda considerar que a ocorrência de dor/sofrimento atualmente é tida


como a consequência mais importante que pode levar o indivíduo – ser humano ou
animal - ao adoecimento que por vezes só ocorrerá horas ou mesmo dias após o término
do evento que lhe determinou a vigência de dor/sofrimento.

Ainda há que se considerar a importância do documento que ficou sendo


conhecido como “Declaração de Cambridge”. Liderados pelo Dr. Philip Low, da
Stanford University – USA, vinte e seis neurocientistas reunidos em julho de 2012 na
Grã-Bretanha em um Simpósio sobre Consciência, decidiram emitir espontaneamente
um manifesto do qual consta o texto: “Não podemos mais fazer de conta que não
sabíamos: mamíferos, aves e até certos invertebrados como os polvos, têm consciência,
uma vez que as mesmas estruturas neurais que no ser humano interagem com a
consciência, também existem nos animais".

Por fim, temos de nos convencer definitivamente de que o Modelo Cultural de


Subjugação e de Exploração dos Animais que o ser humano tem utilizado
historicamente está obsoleto e não satisfaz mais qualquer nível da dignidade humana.
Não é mais cabível que seres humanos se divirtam à custa do sofrimento de outros seres
que também sofrem. Esse exercício arbitrário do poder é aviltante.

Assim, considerando o que foi exposto neste documento, é nosso PARECER


TÉCNICO totalmente contrário à realização da prova de laço contínuo ou tiro de
laço.

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São Paulo, 18 de outubro de 2020
Atenciosamente,

Irvênia Luiza de Santis Prada


Médica Veterinária pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia – USP
CRMV – SP – 0525
Profa. Titular Emérita – FMVZ – USP
Membro da Academia Paulista de Medicina Veterinária – APAMVETAssessora Técnica do Fórum
Nacional de Proteção e Defesa Animal
Docente de Curso de Pós-Graduação na Universidade Caxias do Sul, RS.
Idealizadora e coordenadora do MEDVESP – FMVZ – USP
Autora dos livros:- Neuroanatomia Funcional em Med. Vet. – com correlações clínicas Editora Terra
Molhada, 2014.
O Cérebro Triúno a serviço do Espírito, AME-Brasil Editora, 2017
A Questão Espiritual dos Animais, Editora FE- Folha Espírita, SP, 2018
A Alma dos Animais, Casa Editora O Clarim, Matão – SP, 2018
Espiritismo. Razão como método; Mediunidade como laboratório; Moral como objetivo, Editora FE-
Folha Espírita, SP, 2019.]

Vania Plaza Nunes


Médica Veterinária pela Unesp, campus de Botucatu, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia
CRMV-SP 4119
Diretora técnica do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal
Coordenadora de Projetos e Educação do Instituto de Medicina veterinária do Coletivo
Diretora técnica do Grupo de Voluntários para Valorização da Vida Animal
Pós graduada em Saúde Pública pela Unicamp
Pós graduada em Vigilância Sanitária e Saúde Ambiental pela Unicamp
Pós graduada em Ecologia e Educação Ambiental pela UniAnchieta
Pós graduada em Comportamento animal pela UNIFEOB
Pós graduada em Homeopatia pelo Instituto Jaqueline Pecker
Pós graduada em Bem -Estar animal pelo E-Learning Cambrigde- UK
Pós graduanda em Medicina Veterinária Legal

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PARECER TÉCNICO sobre a PROVA DE BULLDOG em RODEIOS

Análise Técnica do que acontece com o animal durante a realização da prova – o


garrote (bovino de 12 a 18 meses) sai da baia em velocidade, sendo ladeado por dois
peões montados a cavalo. Em poucos segundos, o peão que se encontra à esquerda do
garrote atira-se sobre ele, buscando segura-lo pelos chifres, para em seguida torcer o
pescoço do animal com a finalidade de desequilibra-lo e derruba-lo ao chão (Figura 1).

Figura 1 (disponível na internet) – momento em que o peão, após atirar-se sobre


a cabeça do garrote, torce o pescoço do animal na tentativa de derrubá-lo.

Nesse procedimento, o peão flexiona o seu braço direito ao redor do chifre


direito do garrote, enquanto seu braço esquerdo se posiciona sob a mandíbula do
animal. Com essa técnica, o peão torce o pescoço do animal para a esquerda, em
consequência do que o seu corpo sofre um movimento espiralado, de tal forma que o
garrote cai ao chão “meio de lado” sobre o seu antímero esquerdo (lado esquerdo do
tronco) para, no instante seguinte apoiar seu tronco sobre a coluna vertebral, com as
quatro patas voltadas para cima.
Completando o rolamento, apoia-se sobre seu antímero direito (lado direito do
tronco), em seguida sobre as patas e se levanta. Ao atirar-se sobre o garrote, o peão
exerce sobre a coluna vertebral do animale também sobre os seus membros torácicos
(patas da frente), considerável pressão representada pelo peso de seu corpo que vinha se
deslocando em velocidade, acrescido da ação da gravidade.

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Vendo e revendo várias cenas de Bulldog, nos inúmeros filmes disponíveis na
internet, pude notar que o impacto do corpo do peão sobre o garrote faz-se
principalmente na região torácica (alta) e na região cervical (a do pescoço) da coluna
vertebral do animal, regiões estas que correspondem respectivamente às patas dianteiras
e ao pescoço como um todo.

Arquitetura Anatômica do pescoço dos bovinos – a base óssea do pescoço é


representada por sete vértebras cervicais, sendo que entre os corpos vertebrais acha-se
postado o disco intervertebral, como estrutura à guisa de coxim. As vértebras são
mantidas próximas umas das outras pela ação de ligamentos, cápsulas articulares e
músculos curtos. Fazem parte ainda da constituição anatômica do pescoço, músculos
longos, fascias, ligamentos, vasos (artérias, veias e vasos linfáticos) e nervos, além da
pele e do tecido celular subcutâneo.

A região cervical da coluna vertebral é uma área de particular interesse


anatômico, conforme registra o clássico tratado acadêmico “Anatomia dos Animais
Domésticos”, 1981, de Robert Getty, particularmente no cap. 5 – “Biostática e
Biomecânica Gerais (do corpo dos animais quadrupedais)”.

Aí se lê que arquitetonicamente a colunavertebral mostra-se como uma viga


sustentada pelo apôio dos membrostorácicos e pélvicos (dianteiros e traseiros), sendo
que o pescoço seinsere, por sua base, na porção mais anterior do tórax,funcionado à
maneira de uma ponte levadiça.

Em sua outraextremidade, livre e sem nenhum ponto de apoio, o pescoço


sustenta o peso da cabeça e promove a sua mudança de posiçãono espaço, por contração
muscular.

Movimentos normais do pescoço – a finalidade básica dos movimentos do pescoço é a


de sustentar o peso da cabeça edireciona-la adequadamente no espaço para que os
órgãos dossentidos especiais que nela existem (como olhos, ouvidos e receptores de
equilíbrio) captem, damelhor maneira possível, os estímulos do meio ambiente (luz,
som, mudança de posição do corpo no espaço).

Considera-se como flexão do pescoço, o movimento que oindivíduo efetua com


a finalidade de abaixar a cabeça (olhar para baixo)
e, como extensão do pescoço, o movimento que o indivíduo realizacom a finalidade de
levantar a cabeça (olhar para cima).

Consideram-seainda os movimentos de lateralidade do pescoço, igualmente à


direita e à esquerda, sendo aqueles que o indivíduo efetua para girar acabeça para a
direita ou para a esquerda (olhar para um lado ou para o outro). Esses movimentos
podem ainda se fazer de maneira combinada,sendo possível, por exemplo, uma flexão
do pescoço com giro para adireita ou uma extensão do pescoço com giro para a
esquerda.

Os dois antímeros (lados) do pescoço funcionam da mesmamaneira, não


havendo diferença se a torção que o peão exerçasobre ele se faça para a esquerda ou
para a direita.

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Uma torçãosempre será torção, não importa se para o lado esquerdo oudireito.
No caso da prática do Bulldog, jamais poderemos dizerque o procedimento executado
pelo peão, sobre o pescoço de umgarrote, se caracteriza como “flexão”, pois ele não
direciona acabeça do animal para baixo, mas “torce” o pescoço do garroteem
movimento espiralado.

Isso é tão perigoso que existe realmente a possibilidade de fratura da coluna


cervical do animal, com instalação de quadro clínico de tetraplegia (paralisia total do
anima, do pescoço para baixo), o que infelizmente acabou acontecendo na Festa do peão
de Boiadeiro, em Barretos, em 2011 (Figura 2).

Figura 2 –(disponível na internet) – momento em que o peão, ao torcer de


maneira exagerada o pescoço do garrote, em prova de bulldog, em 2011, promoveu
fratura da coluna cervical do animal com instalação imediata de tetraplegia (paralisia
total dos segmentos corporais, abaixo do local da fratura).

A torção do pescoço, como a que o peão impõe ao garrotedurante a


realização da prova de bulldog, não faz parte dosmovimentos normais do pescoço.

Em outras palavras, qualquerindivíduo (ser humano ou animal), por si só, em


condiçõesnormais, não torce o seu pescoço.

Estruturas anatômicas implicadas na manutenção do equilíbriocorporal – a


questão do equilíbrio é tão importante para todos os seres,que ao longo do processo
evolutivo das espécies desenvolveu-se umconjunto de estruturas que se especializaram
nessa função.

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É o chamadoSistema Vestibular. É um sistema de sensopercepção com
receptorescontidos em neuroepitélio localizado dentro da orelha
interna(antigamente chamada de ouvido interno).

Esses receptores sãosensíveis à mudança de posição da cabeça no espaço, sendo


que as informações daí resultantes alcançam várias centros nervosos do encéfalo para
que o indivíduo tenha noção da posição do seu corpo no espaço e das mudanças que
estão acontecendo.

Assim sendo, todos os fatores, sejam internos (afecções) quantoexternos (no


caso do bulldog, o procedimento executado pelo peão), que causem desequilíbrio ao
indivíduo geram, segundo seu nível deintensidade, desde desconforto até sofrimento
intenso.

Locais anatomicamente frágeis da região cervical da colunavertebral – essa região


mostra arquitetura em arco, no qual seidentificam dois segmentos anatomicamente
frágeis, por serem os maissujeitos às forças que incidem sobre o pescoço, isto é:

- 3a. e 4a. vértebras cervicais, porção correspondente à metade do


comprimento do pescoço,sendo este o local de maiorcurvatura do arco (de concavidade
ventral);

- da 5a. à 7a. vértebras cervicais, local onde a curvatura doarco se inverte


(concavidade dorsal) para se continuar com a porçãotorácica da coluna vertebral.

Em grandes animais (cavalos, bovinos etambém cães de raças avantajadas), este


último local costuma ser sedede uma afecção acompanhada de muita dor (“Síndrome de
Wobbler”), pois esta é a região de emergência do plexo braquial,conjunto de nervos
calibrosos que se destinam à inervação da região edos membros torácicos.

Geralmente se trata de uma sub-luxação das últimas vértebras cervicais,


produzida por traumatismosviolentos ou treinamentos excessivos a que são
submetidosanimais ainda em crescimento (como é o caso dos garrotes).

Possibilidades de ocorrência de lesões corporais nos garrotessubmetidos à prova de


bulldog - no desenrolar das cenas quecaracterizam o bulldog, muitas lesões de natureza
física podemacontecer em várias partes do corpo do animal, como os membros,
região das costelas e principalmente, conforme já referi, a colunavertebral como um
todo mas, em especial a região cervical (do pescoço),onde é aplicada a torção.

No presente caso do bulldog, é preciso lembrarque, dada a configuração robusta


do pescoço dos bovinos, os efeitosdeletérios de uma torção quase sempre passam
despercebidos, pois acoluna vertebral, que é a estrutura mais sensível (por conter em seu
canal vertebral, a medula espinal), localiza-se profundamente àvolumosa massa
muscular do pescoço.

Sujeitados à violenta torção dopescoço, os ligamentos e músculos que mantem


as vértebras em posiçãosofrem grande impacto, podendo ocorrer luxações ou sub-
luxações dasvértebras, ou seja, deslocamentos mais ou menos pronunciados dessas
peças ósseas, em relação à sua posição normal.

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Esses processos sãomuito dolorosos, pois comprometem as raízes dos nervos
espinhais, quese conectam com a medula espinhal aos pares, relativamente a cadaespaço
intervertebral.

Na própria musculatura do pescoço, do ladocontrário ao da torção, que é


violentamente estirada pelo movimentoimposto pelo peão, pode acontecer ruptura de
feixes musculares, deseus tendões de inserção nas vértebras e mesmo de vasos
sangüíneos.

Por outro lado, os bovinos também são animais que expressam muitomal,
seus estados de sofrimento. Sofrem em silêncio. Não gemem, nãochamam
facilmente nossa atenção, o que facilita a possibilidade de quesejam camufladas
situações de vivência de dor/sofrimento. Mas, emabsoluto isto não significa que não
sofram, pois são feitos dos mesmostecidos orgânicos que tantos outros animais,
inclusive os seres humanos.

O estresse psicológico dos animais submetidos a treinamentos eprovas de rodeio - é


preocupante a ocorrência de episódios dedor/sofrimento nos animais de
rodeio,particularmente no caso doBulldog, não apenas pela possibilidade de
acontecerem lesões corporais,mas também pelos danos psicológicos resultantes.

Mesmo que não sejam detectadas lesões (o que não significa queelas não
existam), não se pode afirmar que o animal não sofra, pois osimples fato de estar sendo
perseguido, contido e violentamentederrubado, mediante torção brusca de seu pescoço,
por si só representafator determinante de sofrimento físico e mental.

A presença ou ausênciade lesão física não é tudo. Aliás, é necessário se


entender que nemsempre a ausência de lesão aparente significa ausência
desofrimento.

A exemplo, uma pessoa pode receber um tapa no rosto enão apresentar nenhuma
lesão indicativa do fato. Isso confirma oenunciado metodológico de que “a ausência de
evidência nãosignifica evidência de ausência”.

A lida com os animais na rotina das fazendas é uma coisa,treinamento e provas


em competição, são outra coisa – a práticado bulldog em uma fazenda acontece
motivada pela eventualnecessidade de se deter um animal e as condições que
envolvemesse procedimento no campo são muito diferentes daquelasimplicadas em uma
disputa de campeonato, quando o menortempo gasto para se derrubar o garrote, conta
muito.

Assim, ostreinamentos com vistas à participação dos peões em provas de


rodeioexigem repetidos procedimentos desse tipo. Em um dos filmes a quealudi, um
dos peões refere-se ao fato de que faz por dia, de 50 a60 vezes o procedimento do
Bulldog, para seu treinamento comvistas às competições.

Não é difícil se entender que esse peão nãotinha à sua disposição, 50 a 60


garrotes, ou 25 a 30, ou 10 a 15,podendo-se concluir por um raciocínio

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absolutamente lógico, que elerepetiu o mesmo procedimento inúmeras vezes, no
mesmo garrote (12 a18 meses), que é um animal ainda em crescimento.

Neste caso, seria desejável a verificação de quantas vezes omesmo animal é


utilizado e sujeito à torção de seu pescoço,rolamento e queda, durante dos treinamentos,
pois com certezaum animal submetido repetidas vezes a essa situação, terá problemas
nessa região da coluna (final da região cervical).

Portanto, é simplista demais qualquer comparação que sequeira estabelecer entre


práticas eventuais que possamacontecer no dia-a-dia das fazendas, com o volume de
exigência,de subjugação e de exploração dos animais submetidos atreinamentos e
provas nos (lamentáveis) espetáculos de rodeio.

O Modelo Cultural de Subjugação dos Animais – o ser humano temutilizado


historicamente a estratégia de considerar como “coisas”disponíveis e descartáveis,
outros seres humanos que considera inferiores (mulheres eescravos) e seres animais,
simplesmente para exercício de poder,ou seja, para mostrar quem pode mais. As
mulheres passaram a servistas como seres portadores de alma, somente no século VI, os
escravos índios, no século XVI e os escravos negros, somente no final doséculo XIX.
Quanto aos pobres animais...

As práticas culturais que até hoje infelizmente se perpetuamnos chamados


espetáculos de diversão humana acham-se aindaprofundamente imersas nesse
paradigma. Divertir-se às custasdo sofrimento alheio, subjugando animais a situações
“desumanas” para ganhar aplausos e medalhas, não satisfazmais os ideais de seres
humanos que querem transcender para avivência de patamares éticos mais elevados de
dignidade pessoale coletiva.

Não tem nada de bonito o adesivo que se vê nascaminhonetes dos


aficionados de rodeios, em que se lê: “Aqui o sistemaé bruto!”

Chega! Basta! Clamamos agora por vivência harmônica comtudo e com todos.

A questão legal e ética do exercício profissional do MédicoVeterinário – nós,


médicos veterinários, temos uma responsabilidademuito grande para com o bem-estar
dos animais, o que aliás se encontramuito bem fundamentado na Resolução no. 722 de
agosto de 2002exarada pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária, que aprova
o Código de Ética do Médico Veterinário. Em seu capítulo IV –Comportamento do
Médico Veterinário, lemos no artigo 13:

É vedadoao médico veterinário (Inciso 21) – “praticar ou permitir que


sepratiquem atos de crueldade para com os animais nas atividadesde
produção, de pesquisa, esportivas, culturais e artísticas, ou dequalquer outra
natureza”.

Portanto, face ao que posso perceber das provas de bulldog, sinto-meno dever
não apenas pessoal, mas também profissional de meposicionar contra a prática dessa
modalidade de rodeio, por seremevidentes os atos de crueldade em que se encontram
envolvidos osanimais utilizados nessas provas.

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Conclusões e Parecer Final

Considerando que:

- os bovinos utilizados no Bulldog são garrotes (12 a 18 meses) ainda emcrescimento;

- os procedimentos do peão sobre o garrote, nos treinamentos e nas provasde Bulldog


são de extrema brutalidade;

- a violenta torção que o peão determina no pescoço do garrote, seja para adireita ou
para a esquerda, representa fator de risco para ocorrência delesões na porção cervical da
coluna vertebral, particularmente em seusdois locais de fragilidade anatômica, tais
sejam a região da 3ª. e 4ª.vértebras cervicais e a região da 5ª. à 7ª. vértebras cervicais;

- o desequilíbrio e a queda do animal ao chão, motivados pelo peão que lhetorceu o


pescoço, ofende uma das mais nobres funções dos organismos,que é a manutenção de
seu equilíbrio corporal;

- existe grande possibilidade de ocorrência de lesões orgânicas e deestresse psicológico


nos animais submetidos aos treinamentos e àsprovas de Bulldog, que não se justificam
pelas motivações humanas;

- os bovinos são animais que expressam muito mal seus estados desofrimento, o que
favorece a possibilidade de que sejam camufladassituações de vivência de dor /
sofrimento;

- as práticas eventuais e esporádicas do dia-a-dia nas fazendas acontecemsob condições


muito diferentes daquelas implicadas em uma disputa decampeonato, em que o volume
de exigência, de subjugação e deexploração dos animais se torna abusivo;

- o Código de Ética do Médico Veterinário proíbe ao médico veterináriopraticar ou


permitir que se pratiquem atos de crueldade para com osanimais, inclusive em práticas
esportivas;

- o modelo cultural de subjugação e exploração da natureza, nela incluindoos animais, é


anacrônico e ultrapassado, uma vez que brota no serhumano de consciência desperta, o
ideal de não mais se divertir àscustas do sofrimento alheio, muito menos sob a
motivação de ganhoeconômico, de aplausos e de medalhas e troféus;

- faz parte dos ideais renovadores do ser humano, a busca de suatranscendência para o
alcance de patamares éticos mais elevados dedignidade pessoal e coletiva, os quais não
contemplam a sujeição e aexploração de animais,

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Face ao exposto, é nosso PARECER FINAL totalmente contrário à realização
dasprovas de Bulldog nos espetáculos de rodeio.

São Paulo, 18 de outubro de 2020

Atenciosamente,

Irvênia Luiza de Santis Prada

Médica Veterinária pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia – USP


CRMV – SP – 0525
Profa. Titular Emérita – FMVZ – USP
Membro da Academia Paulista de Medicina Veterinária – APAMVET
Assessora Técnica do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal
Docente de Curso de Pós-Graduação na Universidade Caxias do Sul, RS.
Idealizadora e coordenadora do MEDVESP – FMVZ – USP
Autora dos livros:- Neuroanatomia Funcional em Med. Vet. – com correlações clínicas
Editora Terra Molhada, 2014.
O Cérebro Triúno a serviço do Espírito, AME-Brasil Editora, 2017
A Questão Espiritual dos Animais, Editora FE- Folha Espírita, SP, 2018
A Alma dos Animais, Casa Editora O Clarim, Matão – SP, 2018
Espiritismo. Razão como método; Mediunidade como laboratório; Moral como objetivo,
Editora FE- Folha Espírita, SP, 2019.

Vania Plaza Nunes

Médica Veterinária pela Unesp, campus de Botucatu, Faculdade de Medicina Veterinária e


Zootecnia CRMV-SP 4119
Diretora técnica do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal
Coordenadora de Projetos e Educação do Instituto de Medicina veterinária do Coletivo
Diretora técnica do Grupo de Voluntários para Valorização da Vida Animal
Pós graduada em Saúde Pública pela Unicamp
Pós graduada em Vigilância Sanitária e Saúde Ambiental pela Unicamp

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Pós graduada em Ecologia e Educação Ambiental pela UniAnchieta
Pós graduada em Comportamento animal pela UNIFEOB
Pós graduada em Homeopatia pelo Instituto Jaqueline Pecker
Pós graduada em Bem -Estar animal pelo E-Learning Cambrigde- UK
Pós graduanda em Medicina Veterinária Legal

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PARECERTÉCNICO dePROVAS DE VAQUEJADA
referente à utilização de bovinos

Que tempos são estes, em que


precisamos defender o óbvio?
(Bertolt Brecht, 1898 – 1956)

Origem, Histórico e Características da Vaquejada

Segundo o historiador Câmara Cascudo, por volta de 1810 ainda nãoexistia a


vaquejada como hoje a conhecemos aqui no Brasil, mas já se tinha conhecimento de
algo semelhante aesse tipo de atividade. Era a derrubada de vara de ferrão, praticada em
Portugale na Espanha, em que o peão utilizava uma vara para alcançar o boi.
Mas, a disputa propriamente dita (derrubar o boi pela cauda) é de origem
nordestina, com raízes na região do Seridó, interior do Rio Grande do Norte. Em
passado distante, como não existiam cercas que estabeleciam os limites das
propriedades rurais do nordeste, emespecial no Rio Grande do Norte e as práticas de
lida e manejo do gado eram realizas acampo aberto, a derrubada dos animais
representava oúnico recurso disponível para a sua contenção dentro da área da
propriedade a que pertenciam.
Os melhores vaqueiros eram osresponsáveis pelas derrubadas e em finais de
semana divertiam-se exibindo suas proezasnos vilarejos e colônias da região em que
viviam, a falta de qualquer atividade que pudesse gerar alguma “diversão” fazia com
que os que trabalhavam no campo se “exercitassem” em campos improvisados nos
pequenos povoados onde viviam.
Com o tempo, a prática das vaquejadas como espetáculo popular passou a ser
efetuada segundo alguns regramentosobjetivando-se a eliminação ou pelo menos
diminuição de procedimentos com risco de ocorrência de lesões, tanto para o serhumano
quanto para com os animais.Entretanto a exploração comercial, a competição e
premiação para os melhores vaqueiros só ganha impulso forte nos anos 90 na região
nordeste na mesma época que os rodeios na região sudeste em especial em São Paulo,
ganham uma “roupagem” de um grande evento com muito apelo social, em especial nas
cidades interioranas. Os shows com artistas passam a ser incorporados nos eventos para

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garantir maior público e bilheteria. Até hoje se mantém a valorização do vaqueiro na
condução do cavalo e derrubada do boi, em uma típica atividade em que os animais –
cavalos e bois - são objetos de domínio e de subjugação pelos seres humanos, na
exibição de seus “talentos”.

Os animais utilizados - nesta pratica na atualidade se busca devea valorização


do cavalo. Eledeve ser rápido, resistente, forte e ágil. De modo geral os cavalos
utilizados são da raça Quarto de Milha e são domados para que, no menor espaço de
tempo possam conduzir o vaqueiro a seu intento, que é o de derrubar o boi, com as 4
patas para cima, tracionando e torcendo a sua cauda. Os bois são geralmente do grupo
Zebu, com mais frequência da raça Nelore, com peso médio entre300 a 450 kg.

Uma atividade altamente lucrativa - na década de 1990 a disputa passa a ser


encarada como uma forma de comércio muito atrativa. Diversos segmentos foram então
se atrelando ao espetáculo. Surgiram, assim, promotores de eventos, músicos e
atividades financeiras ligadas a animais e fazendas, como churrascarias e comércio de
bebidas, comercio de roupas e acessórios com características rurais entre outros.Passa
então a ser um mercado altamente visado, de grandes investidores de produtos ligados a
“festa” e, dessa maneira, os organizadores começam a cobrar pelo ingresso, participação
de peões e do público. As provas passam a ofertar prêmios em valores significativos
para ampliar a disputa entre os participantes. O vaqueiro assim como o peão
participantes dessas provas e não necessariamente os trabalhadores de fazendas, passou
a ser reconhecido como “atleta”, o que contribuiu para a vaquejada ser vista como um
esporte, tendo sido regulamentado pela LF No 10.220, DE 11 DE ABRIL DE
2001,Institui normas gerais relativas à atividade de peão de rodeio, equiparando-o a
atleta profissional.¹.

Atualmente as festas de mourões, como são também chamadas as


vaquejadas, são competições milionárias.
Hoje existem duas categorias de vaquejadas, a profissional e a amadora1. A
partir da lei federal nº 10.519 de 2002¹ passou-se a considerar essa atividade esportiva
importante para a economia, o turismo e a cultura local².

1
Revista da Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Quarto de Milha nº 166 - retrospectiva 2005.

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O recinto, local da prova - o piso do recinto é de terra e/ou areia. Ao redor de
todo o recinto/arena em geral existem arquibancadas nos eventos “mais conceituados”
que acomodam o público participante. Normalmente são utilizados equipamentos
eletrônicos como autofalantes e caixas de som de grande potência, alternando-se
narrativas de provas com músicas em altos volumes.

Bovinos sofrem na vaquejada? – conceitos fundamentais e cuidados nas


argumentações
1. o rigor do método de investigação dos fatos (método científico) – antes de
mais nada é imprescindível que se reconheçaa importância do rigor do método racional
ou científico na investigação de fatos que sejam sugestivos da ocorrência – ou não – de
dor/sofrimento dos animais que participam das provas de vaquejada ou de qualquer
outra atividade similar.
Assim sendo, a ciência, como atualmente se caracteriza, emergente da
Revolução Científica do século XVII, não tem competência para revelar a verdade
absoluta dos fatos, mas apenas para, no máximo, aproximar-se o quanto possível
de uma verdade absoluta, chegando ao denominado “conhecimento de ponta”. Pelo
racional ou relativismo do contexto, amanhã ou num futuro mais distante, esse
conhecimento que hoje é admitido como o mais provável, pode ser substituído por outro
mais aceitável.
Por outro lado, sendo a dor/sofrimento um fenômeno da esfera subjetiva, em
contexto intimista, jamais se poderá admitir, alegando dados científicos, que isso
ou aquilo “prova” que não há sofrimento nos animais. Essa postura é falaciosa,
pois não encontra suporte na estrutura do método científico.Dentro dos rigores
que a investigação científica exige, o máximo que se pode dizer é que tais e tais
sinais são sugestivos ou altamente sugestivos da ocorrência – ou não - de
dor/sofrimento nos animais.E razão pela qual, neste PARECER, nossa postura
será sempre a de atender o rigor do método científico a que estamos nos referindo,
concluindo que tal fato ou tal sinal seja SUGESTIVO disso ou daquilo.
2. uma incongruência – há pouco mais de 200 anos estabeleceu-se por
influência do triunvirato de pesquisadores François Magendie (1783-1855), Claude
Bernard (1813-1878) e Louis Pasteur (1822-1895), grande incremento do uso
experimental de animais vivos, com base noconceito de homologia e no conceito de
analogia.

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Pelo conceito de homologia(correspondência no plano da forma), observa-se
que a construção orgânica do corpo dos animais equivale morfologicamente à
construção do corpo dos seres humanos, pois ambos são constituídos por ossos,
músculos, articulações, vísceras e cérebro.
Pelo conceito de analogia (correspondência no plano da função),entende-se a
identidade de funcionamento dos órgãos do corpo dos animais, que se faz de maneira
semelhante ao funcionamento dos órgãos do corpo humano.
Esses dois princípios representam os argumentos que basicamente suportam e
justificam a utilização de animais em pesquisas e testes, inclusive no relativo à
avaliação dos limiares de dor (avaliada em animais como referência para o que se passa
com o ser humano) e da capacidade antiálgica e anestésica de fármacos. Daí surge o
seguinte questionamento:
- Se os animais tem similaridade orgânica e funcional com o ser humano, a
ponto de serem utilizados como modelo experimental nos laboratórios;
- Se a ciência tem demonstrado metodologicamente que esses mesmos animais
são seres inteligentes e sensíveis, que sentem e que sofrem;
- Se estivéssemos na situação deles, em subjugação a determinados
procedimentos como os que constam das provas de vaquejada e de outros eventos
similares, com certeza sofreríamos...
- Por que então negar a possibilidade desses animais também sofrerem?
- Por que razão sua capacidade de sofrimento e seu direito à própria vida e a
condições mínimas de bem-estar não são respeitados?

3. A importância do fator emocional no julgamento humano – atualmente a


Neurociência reconhece a importância da regência do fator emocional em nossas
decisões e escolhas, haja vista o texto elaborado pela Dra. Rita Carter em seu livro
Mapping the Mind2. A cientista expõe a existência de uma “conversa” neuroquímica
entre o sistema límbico (conjunto de estruturas neurais do encéfalo que trabalham
na manifestação de comportamentos acompanhados de emoções) e a área pré-
frontal (porção mais anterior do córtex dos lobos frontais do cérebro, que
trabalham com funções cognitivas) – Figura 1.Cita, a exemplo, o caso de Elliot,
paciente do Dr. AntonioDamasio, neurocientista português radicado nos Estados

2
Carter R. Mapping the Mind, chapter four. Los Angeles: University of California Press; 2000.

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Unidos. Com a extirpação cirúrgica de um tumor cerebral, romperam-se as ligações
entre essas duas regiões cerebrais. Como consequência, Elliot perdeu totalmente a
capacidade de tornar conscientes as suas emoções, bem como a sua capacidade de
escolha, desde as coisas mais simples de sua vida como aquelas de natureza mais
reflexiva. A Dra. Carter comenta que passou a lhe faltar o “feeling” do contexto (algo
como “cair a ficha” do que estava acontecendo), para que pudesse decidir
adequadamente a respeito de suas ações.

Área Sistema Límbico


Pré-Frontal

Figura 1 – esquema de encéfalo humano com destaque para as conexões


neuroquímicas existentes (e no caso, rompidas) entre estruturas do sistema
límbico(emoções) e a área pré-frontal dos lobos frontais do cérebro |(cognição), com
base na primeira figura ilustrativa do capítulo 4 do livro Mapping the Mind – Rita
Carter.

Esse conhecimento é de extrema importância para que se possa identificar a


motivação das pessoas que promovem ações pró e contra alguma coisa pois, com
certeza, o fator emocional é o determinante dessa motivação.
No caso específico das vaquejadas, é notório o fato de que todas as pessoas que
promovem ações favoráveis à essa prática acham-se atreladas a diversos interesses
emocionais, todos ligados ao contexto, sejam comerciais, afetivos, de autopromoção, de
autoestima ou de “pertencimento” a um grupo com o qual se afinizam e dentro do qual
se sentem acolhidas e “protegidas”.Suas escolhas e ações resultam de um “olhar
egocentrado”, que visa, portanto, a satisfação de seus próprios interesses. O que fazem,

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portanto, é tentar ajustar a narrativa dos fatos à sua conveniência, quase sempre sem se
darem conta conscientemente disso. São levadas pela “paixão”.
Com isso podemos adquirir o entendimento, sustentado pela Física Quântica, de
que a versão relatada de cada fato encontra-se intimamente atrelada ao olhar do
observador do fato, sendo que a direção desse olhar (no caso, favorável à
vaquejada) é determinada pelo fator emocional, predominante sobre o cognitivo e
com postura contrária a ele. Não adianta explicar racionalmente que os animais
sofrem, o emocional não aceita!
Esse tipo de postura integra o chamado Paradigma Antropocêntrico (antropós,
do grego = ser humano) – Figura 2, do qual consta a recomendação, preconizada pelo
filósofo Francis Bacon (1561 – 1626), de que o conhecimento da natureza tem por
finalidade a dominação e a exploração de seus elementos em favor do bem-estar do ser
excelso – o homem. Nossa cultura ainda mostra fortes resíduos desse modelo
anacrônico de pensamento e de conduta, infelizmente.

Figura 2 (disponível na internet) – esquema representativo da “pirâmide


aristotélica” (Paradígma Antropocêntrico), de disposição hierárquica, em que os seres
de composição orgânica mais simples são metaforicamente colocados na base e, nos
níveis progressivamente mais altos, os de organização mais complexa, com absoluto
destaque para o ser humano (masculino), a quem todos os outros elementos devem
servir.

De outra parte, ainda no tocante à vaquejada, as entidades e indivíduosque


se colocam contra a prática do evento, também são movidas pelo seu fator
emocional, mas com um detalhe que faz toda a diferença: o emocional (sensibilizar-
se com a capacidade de sofrimento dos animais) encontra-se “casado” com o cognitivo

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(que evidencia racionalmente a ocorrência de dor/sofrimento nos animais). Esse é o
diferencial! Essa postura integra o chamado Paradigma Ecocêntrico ou Biocêntrico
(Figura 3), segundo o qual o universo conhecido pode ser idealizado, com base na
Física Quântica, como uma grande rede de trama multidirecional em que cada ser vivo
tem o seu lugar e o seu papel, sendo desejável que todos vivam em perfeita harmonia,
sem privilégios nem dominação.

Figura 3 (disponível na internet) – esquema representativo da “rede cósmica”


(ParadígmaEcocêntrico ou Biocêntrico) em que cada ser vivo, sem disposição
hierárquica, ocupa o seu lugar e tem a sua função, havendo a busca de vivência
harmônica entre todos.

Disso decorre que uma adequada estratégia para se considerar a validade


de uma escolha (ser pró ou contra alguma coisa) é verificar se o emocional da
pessoa encontra-se “casado” com o racional. Apenas no caso de a resposta ser
“sim” a postura é legítima e deve ser levada em conta.

4. Os animais como “coisas” - os animais não são simples “coisas”, não são
máquinas cartesianas que se movimentam unicamente por automatismos e instintos,
como se supôs durante mais de três séculos e ainda assim o supõem as pessoas
desinformadas. Essa equivocada postura vem de René Descartes, filósofo francês do
século XVII. Por influência religiosa, admitia a sensibilidade como sendo atributo da
alma, que só existiria nos seres humanos. Consequentemente, os animais eram vistos

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apenas como máquinas automatizadas. É atribuída a Descartes a recomendação de que
gemidos dos animais nunca fossem interpretados como sinais de sofrimento, mas
simplesmente como resultantes dos mecanismos da “máquina”, produzidos à
semelhança de como o são os ruídos das rodas de uma carroça em movimento.
Este conceito cartesiano a respeito dos animais como “máquinas” difundiu-se
nas mentes humanas de maneira muito conveniente para a prática, sem culpa e sem
responsabilidade, da subjugação e da exploração arbitrária dos animais. Tal estratégia é
empregada para o exercício do poder, para as atitudes de mando e de desmando, tão
próprias daqueles que se colocam acima do bem e do mal, como “donos do mundo”.

Dispor dos animais a seu arbítrio, como “coisas” disponíveis e descartáveis


passou a ser um procedimento altamente vantajoso para o ser humano, em vários
aspectos, menos no tocante à questão ética.

Como já disse alguém, que inteligência ou que espécie de qualquer outro


atributoterão de demonstrar até que seu “sacrifício” ou os procedimentos cruéis e
demaus tratos a que são submetidos, sejam considerados crimes?

O que faria um bovino ceder à sua derrubada, quando alguém maneja


arbitrariamente a sua cauda, com a finalidade de desequilibrá-lo?

Uma hipótese que consideramos bem provável é a de que o bovino ceda à sua
derrubada subjugado pela dor física e pelo sofrimento mental que vivencia no momento.

1.A vivência de dor/sofrimento como motivação para o bovino ceder à sua


derrubada –quando o bovino é liberado para a arena, após ser contido no brete, ele
corre em disparada na tentativa de se livrar dos estímulos estressantes que lá já havia
recebido (tração da cauda, empurrões, chutes, pontapés e eventualmente choques
elétricos) sendo então aberto o brete,perseguido por dois peões/vaqueiros a cavalo que
correm paralelamente entre si e lateralmente ao animal, um de cada lado (Figura 4). Um
dos cavaleiros (à direita do boi) é o passador/estereiro que “recolhe” a cauda do animal
e a repassa para o outro cavaleiro/peão, que deve derrubar o animal em uma área
demarcada no solo.

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Figura 4 – foto (disponível na internet) de momento em que o animal corre em
velocidade pela arena, ladeado pelos dois peões.

Assim que consegue agarrar a cauda do boi, o peão segura-a com firmeza e, à
medida que se aproxima da área demarcada, prossegue torcendo-a várias vezes para
finalmente estira-la fortemente (Figura 5).

Figura 5 – foto (disponível na internet) do momento em que o peão estira fortemente


a cauda já torcida, do bovino, para desequilibrá-lo visando sua derrubada dentro da área
demarcada. Observar a região em destaque, de inserção da cauda no tronco do animal, o
que será comentado no ítem “A cauda do animal não é um simples apêndice do seu
corpo”.

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Com o procedimento descrito, o peão promove o desequilíbrio do animal, fase
denominada de saiada ou mucica (varia a designação, dependendo da região), para que
em seguida ocorra a sua queda (derrubada), o que deve acontecer dentro do espaço
demarcado, com as quatro patas do animal voltadas para cima, o que se pode observar
bem em vídeos disponíveis na internet. Denota-se ainda por exemplo na imagem
acimafigura 5, a intensa e violenta torção do corpo do animal, a contratura muscular da
face, olhos serrados, indicando o intenso impacto recebido pelo animal no esforço feito
para tentar se livrar da perseguição e se ver obrigado a torcer o corpo pelo impacto
sofrido na cauda (Parte final da coluna vertebral do animal).

- possibilidade de ocorrência de lesões nessa etapa, com vivência de dor - no


momento em que o passador apreende a cauda do boi, este animal se encontra correndo
em velocidade, na tentativa de escapar da perseguição a que se acha submetido. Em
seguida, quando o peão responsável pela derrubada alcança a cauda do animal, vai
exercendo sobre ela algumas torções e depois violenta tração, provocando nessa cauda
um hiperestiramento.
Essa região, pela sua constituição anatômica com base óssea (sequência de
vértebras), músculos, fáscias, vasos sanguíneos e pele de revestimento, fica sujeita a
uma série de lesões, tais sejam:
 rompimento ou esgarçamento de fáscias, músculos e vasos
 sangramento pelo rompimento de vasos, com formação de hematomas
subcutâneos
 luxação ou sub-luxação de vértebras
 fratura única ou múltipla das vértebras coccígeas ou caudais, o que sempre
se fará acompanhar de derrame sanguíneo subcutâneo.
 arrancamento da pele ou da própria cauda, estabelecendo-se locais abertos
de contaminação de segmentos mais craniais, como o sacral e lombar.

O derrame sanguíneo, quando acontece pelo rompimento de vasos, quase sempre


não é percebido, isto é, não se vê sangue escorrendo da cauda do animal, uma vez que,
apesar de o sangue ter extravasado para fora dos vasos sanguíneos rompidos, ele é
contido pela pele. Ele se torna visível apenas quando a pele toda ou parte dela também
se rompe, expondo estruturas mais internas da cauda.

10

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Lamentável episódio em que a cauda é “arrancada” de sua inserção no tronco do
animal consta da publicação “Vaquejadas do Passado”3, em que o autor relata a fala do
personagem vaqueiro: “Infelizmente houve uma fatalidade, pois arranquei toda a cauda
do boi e o mesmo ficou desmoralizado e inutilizado para correr... Assim acabou-se a
fama do “Espetor”. Triste história...
Entretanto, mesmo não sendo visível o sangue, na ocorrência de rompimento de
vasos, uma observação mais acurada irá constatar um ou mais aumentos de volume em
determinadas regiões da cauda, o que indicará a formação de um ou mais hematomas
(coleções de sangue, localizadas) resultantes do derramamento de sangue ocorrido.
As lesões da cauda, estabelecidas pela sua torção/tração/estiramento também
podem incluir a ruptura de ligamentos (estruturas orgânicas fibrosas) que unem as
vértebras coccígeas ou caudais entre si, o que se desdobra em sub-luxação e luxação de
vértebras caudais e ruptura de vasos sanguíneos.
- a cauda do animal não é um simples apêndice do seu corpo – com sua base
óssea formada por 16 a 21 vértebras (número variável segundo a raça), a cauda
representa um dos segmentos da coluna vertebral, mostrando-se conectada com o sacro
e as últimas vértebras lombares (figura 6).

Figura 6 – esquema representativo da porção posterior do corpo de um bovino,


em vista lateral, com destaque para os últimos segmentos da coluna vertebral:
lombar em vermelho, sacral em azul e caudal em amarelo. L – última vértebra lombar; S
– sacro; C – 1ª. vértebra caudal ou coccígea. Esquema com base na Fig. 26.1 do livro
Anatomia dos Animais Domésticos, de Getty, R. vol. 1, 5ª. edição, Interamericana
Editora, 1981.

3
Vaquejadas do Passado, capítulo O Boi Inspetor (pag. 119), de Evandro Araújo Branco

11

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É importante a observação de que a porção óssea da cauda se encontra conectada
ao sacro ainda na região da pelve, com sérias implicações locais de ordem clínica
quando da ocorrência de lesões. Por exemplo, um dos músculos de movimentação da
cauda, o músculo coccígeo, amplo e de forma laminar, tem origem na superfície interna
de um dos ossos pélvicos e se insere nas três primeiras vértebras caudais (Figura 7).

Figura 7 – esquema representativo da disposição do músculo coccígeo,


de movimentação da cauda, que se insere nas três primeiras vértebras da cauda. L –
última vértebra lombar; S – sacro; C – 1ª. vértebra caudal. Esquema com base na Figura
28.15 do livro Anatomia dos Animais Domésticos, de Getty, R. vol. 1, 5ª. edição,
Interamericana Editora, 1981.

Pela Figura 7 percebe-se claramente que já um hiperestiramento da cauda do


bovino (o que é de praxe nas provas de vaquejada) e pior ainda, a ocorrência de um
arrancamento da cauda (o que é possível acontecer nas provas de vaquejada),
desdobram-se em sérias repercussões para outros segmentos da coluna vertebral e para
estruturas internas da pelve, como esgarçamento do músculo coccígeo com ruptura
de vasos e sangramento.

Quanto a outros músculos que promovem a movimentação da cauda, são


identificados três deles que têm origem na região lombar e sacral, de maneira que
quando a cauda é estirada pelo peão ou mesmo arrancada, ocorrem lesões não

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apenas na própria cauda como também em níveis mais craniais da coluna, como o
sacral e lombar.

Outra possibilidade de lesão quando do estiramento ou arrancamento da cauda


ocorre pela disposição de estruturas das três meninges espinais – piamater, aracnóide e
dura-mater, que revestem a porção final da medula espinal, segundo mostra a Figura 8.

Figura 8 – esquema correspondente à Figura VI-2 do livro Neuroanatomia


Funcional em Medicina Veterinária. Com Correlações Clinicas, de Irvenia Prada,
representativo do comportamento das meninges espinais. 1. medula espinal; 2 –
piamater; 3. espaço sub-aracnoideo, preenchido por líquor; 4 – aracnóide; 5. dura-mater;
6. radículas e raízes de nervos espinais; 7. cone medular (porção final da medula
espinal); 8. filamento terminal (expansão da piamater em forma de ligamento), que se
prolonga caudalmente e, após perfurar o saco dural (9), reveste-se por manguito da
dura-mater (10) constituindo-se, assim, o ligamento coccígeo (11) que se insere no
periósteo das primeiras vértebras caudais.

Pela figura 8 pode-se deduzir que o hiperestiramento da cauda ou o seu


arrancamento poderá causar lesões muito comprometedoras nas regiões sacral e
lombar da medula espinal, tais sejam ruptura de radículas e raízes de nervos espinais
da região, rompimento do ligamento coccígeo com perda da estabilidade funcional dos
sacos meníngeos, além de rompimento do espaço subaracnóideo com perda de líquor e
possibilidade de infecção.

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Essa afecção é denominada de “Síndrome da Cauda Eqüina” (nome em
referência ao conjunto das estruturas assemelhar-se, em todas as espécies, a um rabo de
cavalo), que é o comprometimento (por ruptura e/ou instalação de processo inflamatório
e/ou infeccioso) das raízes dos últimos nervos lombares, dos nervos sacrais e dos nervos
caudais ou coccígeos que, conforme já referimos, conectam-se com a região mais caudal
da medula espinal e inervam a região caudal do tronco, os membros posteriores, a cauda
e os órgãos contidos na pelve (reto, colo, bexiga urinária e alguns órgãos genitais).

Nesse caso, há alteração ou perda de função das estruturas inervadas por esses
nervos, além da ocorrência de dor intensa, na região comprometida.

- os mecanismos neurais da dor - Hoje se sabe que a dor nos animais é tão
presente quanto no ser humano, pois as chamadas “vias neurais da dor”, ou seja, o
conjunto das estruturas nervosas pelas quais caminham os estímulos produtores de dor
tem equivalência entre seres humanos e animais, particularmente mamíferos, constantes
do livro4 indicado na Figura 9 (capítulo XII).

4
Prada. I. Neuroanatomia Funcional em Medicina Veterinária. Com correlações clínicas. Capítulo XIV.
Capítulo XII – Vias Sensitivas (Aferentes). Jaboticabal, Editora Terra Molhada, 2014.

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Figura 9

As vias neurais condutoras de estímulos nociceptivos (causadores de


dor/sofrimento) são detalhadamente descritas no livro Neuronatomia Funcional em
Medicina Veterinária. Com Correlações Clínicas, de Irvenia Prada, capitulo XII – Vias
Sensitivas (Aferentes), do qual consta o esquema apresentado a seguir (Figura 10).

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Figura 10 – corresponde à Figura XII - 2 do livro Neuroanatomia Funcional em
Medicina Veterinária. Com Correlações Clinicas, de Irvenia Prada - Esquema
representativo, em animais,da via neoespinotalâmica – dor somática superficial (A) e
paleoespinotalâmica – dor somática profunda (B). 1. Trato espinotalâmico; 2. Trato
espinorreticulotalâmico; 3. Formação reticular; 4. Tálamo; 5. Córtex cerebral, do qual
faz parte a área somestésica (A So), onde chegam os estímulos causadores de
dor/sofrimento.

Por este esquema da Figura 10 percebe-se a organização das estruturas neurais


compondo via de condução de estímulos da dor provenientes tanto de regiões
superficiais do corpo, quanto de regiões profundas. Esse modelo de organização é o
mesmo para todos os mamíferos, inclusive para o ser humano.

- os animais também podem sofrer mentalmente – em situações como as que


se encontram nas provas de vaquejada, pois se encontramsob condições de
constrangimento, de perseguição e de subjugação, inclusive expostos à vivência de
dores físicas, os animais podem sim sofrer mentalmente. A dor física prescinde para
existir de fato da percepção mental que se traduz em sofrimento.

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Como já é de pleno conhecimento da Etologia, a ciência do comportamento,
bem como da Neurociëncia, os animais são seres sencientes5 ou seja, tem capacidade
de fruir sensações de alegria/felicidade e de dor/sofrimento. São também seres
inteligentes, o que se tem demonstrado metodologicamente em grande número de
pesquisas, nas últimas décadas.

A exemplo, pode-se citar “O Parente Mais Próximo”, deRoger Fouts, 1998;


“The Pré-Frontal Cortex”, de J.M.Fuster, 1989; “Animal Minds”, de Donald Griffin,
1994 e “The Prehistory of the Mind. The Cognitive Origins of Art and Science”, de
Steven Mithen, 1999, entre outros.
No livro Neuroanatomia Funcional em Medicina Veterinária. Com
Correlações Clínicas, de Irvenia Prada, o capítulo XIV - Neuroanatomia Interação
Cérebro – Mente trata especificamente da capacidade do cérebro dos mamíferos
de processar os estímulos adversos que a ele chegam.
Algumas estruturas cerebrais ou conjunto delas são identificadas como
transdutores cerebrais6, pois há indícios de que teriam a capacidade de transportar
esses estímulos para a dimensão da mente, na qual são interpretados e sentidos com
base no conteúdo dobanco de memórias de cada indivíduo. Não por outra razão, o dito
popular: Gato escaldado tem medo de água fria. Da mesma forma, os transdutores
cerebrais teriam a capacidade de receber estímulos vindos da mente, como a vontade,
capazes de estimular áreas cerebrais para a manifestação de comportamentos que o
indivíduo queira expressar.
Portanto, “sentir” a dor física e “sentir” o sofrimento (vivência subjetiva
provocada por estímulos de dor ou de outra natureza) são fenômenos de natureza
mental.
- O Manifesto de Cambridge (UK)de 2012, reconhecendo que os animais
têm consciência – a literatura já citada, contem evidentes informações de que, em sua
interação cérebro – mente, os animais demonstram importantes atributos como

5
Prada, I. – Os Animais são Seres Sencientes - capítulo no livro Instrumento Animal. O Uso prejudicial
de animais no Ensino Superior. Coordenador – Thales Tréz. Patrocínio Animal Free Research -
www.animalfree-research.org InterNICHEwww.interniche.org, 2008.
6
Prada, ILS. - A Alma dos Animais. Capítulo VI – Os Transdutores Cerebrais. Casa Editora O Clarim,
Matão - SP, 2018.

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inteligência, capacidade de memória, de aprendizado, de associação de idéias e de
entendimento do contexto no qual se encontram inseridos, ou seja, têm consciência do
que se passa com eles e ao seu redor.

Em 2012 encontravam-se reunidos na Inglaterra centenas de neurocientistas em


Simpósio sobre Consciência Humana quando, liderados pelo Dr. Philip Low, da
Stanford University – USA, vinte e seis neurocientistas assinaram um documento
reconhecendo que mamíferos, aves e mesmo alguns invertebrados como os polvos têm
consciência. Justificam referindo que as mesmas estruturas cerebrais que no ser humano
são ativadas para a manifestação de atos de consciência, também existem nesses
animais, e considerando o princípio funcional de que não existem órgãos ou estruturas
sem função, concluíram ser, esse fato, altamente sugestivo de que esses animais tenham
consciência. (https://www.youtube.com/watch?v=ifG0XNh7s08, acesso em 20de
outubro de 2020).

- Outras lesões podem ocorrer, além da cauda - devido à brusca queda e forte
impacto do animal no solo, seu corpo é passível de sofre lesões em outros segmentos,
estruturas e regiões, tais sejam:
- cabeça – no episódio da queda, se o animal bater com a face lateral da
cabeçacontra o solo, pode haver lesão do nervo facial(Figura 11), que inerva a
musculatura da expressão facial,do que resulta paresia (paralisia parcial) ou paralisia
temporária ou definitivadessamusculatura;

Ramo superficial do nervo facial

Figura 11 (disponível na internet) – cabeça de bovino em vista lateral, com


dissecação de estruturas subcutâneas como é o caso do nervo facial.

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- pele - ao cair o animal no solo e sendo arrastado, mesmo que por instantes,
dado o atrito, apele da cabeça, do pescoço, da parede lateral do tronco e dos membros
podesofrer lesões diversas como escoriações por todo corpo do animal,
equimoses,hematomas, queimaduras (pelo atrito), solução de continuidade e perda de
tecido;
- costelas - fraturas de costelas também poderão ocorrer, com a possibilidade
de perfuração dos pulmões. Nesse caso podem ocorrer diferentes graus deinsuficiência
respiratória e mesmo asfixia, com diminuição da capacidade deoxigenação dos tecidos
orgânicos, ou colabamento do pulmão, pode havercontusão pulmonar, hemorragia,
pneumotórax e eventualmente, óbito;
- musculatura e tecidos cutâneos e subcutâneos de todo corpo– pela queda,
podem ocorrer contusões, formação de hematomas,estiramentos e mesmo ruptura de
estruturas musculares e tendíneas;
- órgão cavitários – a bruscaderrubada do animal pode determinar a ocorrência
de ruptura de órgãos diversos como fígado, baço e mesmo segmentos do sistema
digestivo (rúmen, omaso e abomaso), com hemorragia e outras consequências;
- plexo braquial –a disposição anatômica do nervo radial, um dos nervos
destinados ao membro anterior, predispõe a ocorrência de lesõesem sua estrutura,
quando sujeito a traumas, o que pode acontecer quando o bovino, na derrubada, bate
violentamente com a face lateral do tronco no solo. Resulta desse fato a instalação de
paresia ou paralisia da musculatura extensora da extremidade distal do membro,
que de modo geral é definitiva;
- coluna vertebral – com o impacto da queda, pelo peso de seu corpo (em
média entre 400 e 450 kg), podem ocorrer sub-luxação, luxação e fratura de
vértebras, com possíveis lesões da medula espinal e de raízes dos nervos espinais,
caracterizando-se alguns conjuntos de sintomas, como os que definem a
chamadaSíndrome de Wobbller, resultante desubluxação das últimas vértebras
cervicais.

Características do evento e sinais fisiológicos e comportamentais dos animais,


sugestivos da ocorrência de dor/sofrimento nos bovinos de vaquejada

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Para atender critérios e normas regulamentares, os peões/vaqueiros devem
cumprir a prova dentro de um curto espaço de tempo, e em espaço físico restrito, o que
demanda repetição intensiva dos treinamentos, sejam treinando os cavalos, que
compõem a dupla de vaqueiros, sejam empregando bovinos para o treinamento de
derrubada.
Portanto, os animais não sofrem apenas durante a prova, mas em todas as
fases do processo, tais sejam:
- os repetitivos treinamentos
- o transporte
- a contenção nos piquetes, no brete, antes da prova
- o ambiente alheio (luzes, muitas pessoas e sons muito altos)
- convívio involuntários com outros grupos sociais que geram insegurança,
comportamento de dominância de alguns indivíduos do grupo,
- medo da situação presente pré arena, observado em imagens de reunião de
grupos em situação de perigo para tentar se proteger.
- a perseguição, na arena
- a torção e o estiramento da cauda
- a derrubada
- retorno rápido, se possível a posição quadrupedal no menor tempo possível e
necessidade de fuga da área da prova onde vivenciou física e mentalmente sofrimento,
angustia, medo e dor de grau variável.

Quanto ao transporte, os animais normalmente procedem de regiões de


distância variável em caminhões que também servem aos abatedouros. Nesses
caminhões os animais permanecem embarcados por período variável de tempo, não
recebendo água ou alimentação. Além disso, permanecem confinados em contato
próximo com outros bovinos, suportando durante horas seguidas a movimentação do
veículo e dispendendo esforço para se manterem em pé, tudo isso representado forte
estímulo para o estabelecimento de estresse (“conjunto de alterações emocionais,
comportamentais e físicas em um individuo submetido a um estimulo nocivo, seja este
estímulo físico e/ou mental”).
Embora haja diretrizes internacionais para o transporte de bovinos, no Brasil,na
prática o que observa invariavelmente é uma ausência de fiscalização, quando essa

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ocorre apenas se preocupa com os aspectos sanitários e não com a condição dos animais
e do veículo em si.

Quando o bovino se encontra no brete(reduzido espaço em que aguarda sua


liberação para a arena), de modo geral ele é estimulado para que saia em disparada pela
arena, ao ser liberado, pode passar muitos minutos entre o piquete prébrete e outros
tantos no brete até sua liberação na arena, invariavelmente muitos animais empurram
uns aos outros sendo que alguns caem mesmo quando existem barreiras parciais de
separação entre cada indivíduo, pois essas na verdade quando existem só são
empregadas entre os animais mais próximos de soltura no brete, os demais pela
movimentação que fazem podem cair ou deitar no brete, apresentam dificuldade de
levantar pelo espaço exíguo e muitas vezes são pisoteados pelos outros inúmeras vezes
até que consigam se erguer. Assim ele pode ser contido e tracionado pela cauda com
movimentos bruscos, na intenção de “estimula-lo”, o que por vezes envolve ainda
chutes, cutucões e eventualmente choques elétricos. Por isso, no brete, também podem
ocorrer lesões. Além dos sofrimentos físicos que podem resultar desses procedimentos,
os animais também podem entrar na vivência de sofrimento mental ou psíquico, pois é
incontestável a situação de medo, angustia, aflição, constrangimento, subjugação e de
maus tratos a que se acham submetidos.

A Ciência do Bem-Estar animal


A Ciência do Bem-Estar Animal surgiu nos anos 1970 no Reino Unido, após um
amplo movimento da sociedade dos anos 1960 questionando os procedimentos
inadequados dos sistemas de criação animal, após a publicação do “Animal Machine”
da jornalista Ruth Harisson. Seguindo-se uma ampla investigação governamental,
confirmaram-se situações de elevado sofrimento aos animais trazendo relatos que
exigiram mudanças imediatas nos sistemas de criação definindo assim as conhecidas “5
Liberdades” iniciais e depois em 1993 através da FAWC ( Farm Animal Welfare
Council), como as que conhecemos até hoje.
Elas nos recomendam que todos os animais, independentemente da espécie,
devem ser capazes de se manter livres de fome, sede, medo e desconforto, estresse,
de doenças e serem capazes de expressar seu comportamento natural.
Desde então, o crescimento dessa ciência transdisciplinar trouxe a sociedade e a
comunidade cientifica muito conhecimento, trabalhos decodificadores esclarecendo

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conceitos, trazendo respostas, e indicadores do grau de bem-estar de cada indivíduo em
determinada situação.Isso nos possibilita desvendar quais as necessidades dos animais,
sua capacidade de adaptação, seus esforços em trabalhar para obter recursos
necessários à sua qualidade de vida, sempre apoiadas em aspectos físicos, mentais e
comportamentais de cada indivíduo. Além disso também force ferramentas cientificas
para avaliar os esforços que os animais são capazes de fazer para evitar situações de
vivências físicas e mentais negativas observadas por aspectos comportamentais que
traduzem esses estados negativos e danosos aos animais.
Fundamentalmente a Ciência do Bem-Estar animal diz respeito àquilo que
de fato os animais vivenciam e se são capazes ou não de se adaptar em cada
situação.

Não se trata apenas de danos físicos, mas também do sofrimento mental


que se traduz no comportamento. Portanto, é necessário deixar claro que quando
falamos em Bem-Estar animal estamos falando daquilo que os animais nos
informam como adequado ou não às suas necessidades e não daquilo que
acreditamos ser o melhor para eles na nossa visão humana.

Animais das diferentes espécies tem necessidades especificas que o processo de


domesticação não padronizou em modelo único para os animais em geral. Ao contrário,
a evolução de milhares de anos de cada espécie, deu-se de forma a garantir sua defesa,
bem-estar e sobrevivência. O emprego da expressão “garantir o bem-estar dos
animais” carrega uma infinidade de fatores que incluem aspectos da natureza da
espécie, de sua vivencia mental, sua capacidade de adaptação fisiológica de acordo
com necessidades em determinado ambiente.

A Ciência do Bem-Estar animal nos mostra que “os animais tem interesse
em não sofrer” e tem sido uma ferramenta fundamental para aprimorar práticas e
minimizar ou eliminar riscos aos animais seja no sistema de criação, transporte e
desta forma ainda contribuíndo na busca de alternativas para minimizar praticas
cruéis e desnecessárias aos animais de produção, por exemplo.
O valor real da Ciência do Bem-Estar animal se traduz em todo mercado de
produção animal para exportação para países europeus e outros onde a sociedade local
não aceita mais a sofrimento/ crueldade animal.

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No Brasil, grupos de pesquisa consagrados como o ETCO da Unesp de
Jaboticabal em SP, disponibiliza manuais de diversas práticas de fazenda com bovinos
incluindo manejo, transporte, desmame, entre outros que são referências ao M.A.P.A. (
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), construídos em parceria com esse
ministério e estando disponibilizados em seu site institucional.
Portanto, o emprego da expressão não tem o “dom” de apagar todas as
situações danosas a que os animais são submetidos e, mais que isso, vivenciam
numa arena de vaquejada, rodeio ou outra prática em que os animais são
instrumentalizados pelo interesse humano de lucro e “entretenimento”.

Considerações Finais

1. O “porque” da existência dessa prova – a primeira coisa que nos vem


àmente,aotratar deste assunto, é aseguinte: Que razões levam um ser humano a exibir-
se em uma arena, paraoutros seres humanos, em busca de aplausos, nas condições
dessa prova? Eledispõe, para isso, arbitrariamente, dos animais, os quais subjuga
completamentenum espetáculo de violência, de crueldade e de insensibilidade.

Atualmente, três são as atividades em que os animais são subjugados e


explorados:
– na produção industrial de alimentos de origem animal, com abate;
- nos laboratórios de pesquisas e testes;
- nos espetáculos de diversão com a utilização de animais (rodeios, vaquejadas, etc.)

Mudança significativas vem ocorrendo na alimentação humana e na


realização de testes com animais, com a finalidade de diminuir progressivamente a
participação de animais nesses dois primeiros contextos. Sabemos que não dá para
parar com tudo agora, mas profissionais experientes e comprometidos buscam ampliar
alternativas para a substituição dos animais tanto na produção de alimentos de origem
animal, quanto na utilização de modelos – animais em laboratórios de pesquisas e testes.

Entretanto, a subjugação de animais em espetáculos de diversão humana não


tem porque continuar, isso tem de terminar, mesmo com o estabelecimento de um
prazo razoável para que as pessoas envolvidas busquem outras opções mais dignas de

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obtenção de recursos financeiros, pois absorver o seu sustento e da sua família pela
práticade crueldade de maus tratos para com os animais, como acontece na vaquejada e
no rodeio, é algo inaceitável, em pleno século XXI, no contexto do nosso processo
civilizatório.

2. tradição e cultura não são argumentos válidos – a argumentação de que a


vaquejada é uma tradição cultural do nordeste brasileiro, devendo por isso ser mantida,
´não encontra o menor embasamento em qualquer raciocínio lógico. Basta lembrarmos
que no Brasil, há pouco mais de cem anos, fazia parte da nossa cultura, como
tradição por mais de 300 anos, a prática da escravidão de outros seres humanos.
Basta lembrarmos também que em alguns países ainda se efetua a deprimente
mutilação genital nas meninas...
Portanto, existem tradições culturais que devem ser mantidas por
dignificarem o ser humano, enquanto outras devem ser abolidas de vez, como é o
caso daquelas em que haja subjugação e exploração de outros seres, como é o caso
da vaquejada e dos rodeios.
Neste contexto vale a citação de Thomas Jefferson, responsável pela redação do
princípio da igualdade doshomens na Declaração da Independência Americana, em
texto que consta da carta escrita a Henry Gregoire,em 25 de fevereiro de 1809:

“O fato de Isaac Newton ter sido superior a outros indivíduos, em


termos deinteligência, não o tornou senhor das propriedades, nem das
pessoas deles”.

3. Posturas que se tornaram referências:

- Jeremy Bentam, filósofo britânico(1748 - 1832): “Nós não precisamos perguntar se


os animais são capazes de pensar ou de se comunicar, basta sabermos se sofrem!”
(Introdutiontothe Principies of Moral and Legislation,1780, cap.17
- Richard Serjeant, sacerdote britânico (1770 – 1838) : “Cada mínima evidência dos
fatos apóia o argumento de que os mamíferos, vertebrados superiores, têm sensações
de dor pelo menos tão intensas quanto as nossas... seu sistema nervoso é praticamente
igual ao nosso e suas reações à dor, extraordinariamente semelhantes...”
(The Spectrum ofPain,Londres:Hart Davis, 1969, p.72)

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- Donald Griffin, cientista americano (1915 – 2003): “Em termos científicos...nossa
antiga premissa de que os animais não tem consciência, está se tornando cada vez mais
questionável. Além do mais, háimplicações morais e éticas nesse conhecimento”.
(O Pensar dos Animais, Cambridge: Harvard University Press, 1984)

- Fritjof Capra, físico contemporâneo - “A moral, enquanto ética, não se caracteriza


pelo cumprimento de regras mas, pelo entendimento do sentido de harmonia do
conjunto cósmico, que precisa ser preservado para a felicidade de todos... há cientistas,
como eu, que estão ansiosos por fazer essa conexão (com a moral), pois não somos
donos do mundo, apenas `pertencemos´ a ele”. (Pertencendo ao Universo)

- Guimarães Rosa – escritor brasileiro (1908 – 1967): “Se os animais só inspiram


ternura, o que houve, então, com os homens?” (Grande Sertão Veredas)

- Mahatma Gandhi – (1869 – 1948): “seja você a mudança que quer ver no mundo!”

Conclusões Finais:

Do que foi exposto, julgamos ter ficado claro que:


 os bovinos utilizados nos treinamentose nas provas de vaquejada tem estrutura
física, organização neuro-sensorial edimensão psíquica (mental) compatíveis
com a vivência de dor/sofrimento aoserem submetidos às condições em que
essas provas são realizadas e aos repetitivos treinamentos acontecem;
 todos os procedimentos que os peõesimpõem aos bovinos, nas Provas de
Vaquejada, são abusivas tanto em relação àintegridade e à saúde do corpo físico
desses animais, quanto em relação à suaestrutura mental ou psíquica, uma vez
que estes animais são expostos, na arena,a perseguição, sofrimento e crueldade.

Assim se, de uma parte, nesse espetáculo deprimente, vemos animais,


sendosubjugados e submetidos ao arbítrio de insensíveis, por outro lado desejamos
econfiamos que os seres humanos hoje responsáveis por esses acontecimentosdespertem
seus sentimentos para a realidade de que a missão dos “superiores” –se assim nos
consideramos – é a de proteger e auxiliar esses seres que não estão à nossa disposição,
mas que merecem ser respeitados em sua capacidade defruírem dor/sofrimento, em seu
direito natural àintegridade física/mental e emseu direito natural à própria vida.
25

Número do documento: 21062214233056800000089131363


https://pje.tjdft.jus.br:443/pje/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=21062214233056800000089131363
Assinado eletronicamente por: ANA PAULA DE VASCONCELOS - 22/06/2021 14:23:30
Num. 95351327 - Pág. 25
Essa é a forma de dignidade que, segundo nosso desejo, um dia ahumanidade
irá conquistar e, portanto, merecer.
Esse é o nosso PARECER TÉCNICO.
Atenciosamente,

São Paulo, 18 de outubro de 2020

Irvênia Luiza de Santis Prada


Médica Veterinária pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia – USP
CRMV – SP – 0525
Profa. Titular Emérita – FMVZ – USP
Membro da Academia Paulista de Medicina Veterinária – APAMVET
Assessora Técnica do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal
Docente de Curso de Pós-Graduação na Universidade Caxias do Sul, RS.
Idealizadora e coordenadora do MEDVESP – FMVZ – USP
Autora dos livros:-
Neuroanatomia Funcional em Med. Vet. – com correlações clínicas Editora Terra Molhada, 2014.
O Cérebro Triúno a serviço do Espírito, AME-Brasil Editora, 2017
A Questão Espiritual dos Animais, Editora FE- Folha Espírita, SP, 2018
A Alma dos Animais, Casa Editora O Clarim, Matão – SP, 2018
Espiritismo. Razão como método; Mediunidade como laboratório; Moral como objetivo, Editora FE-
Folha Espírita, SP, 2019.

Vania Plaza Nunes

Médica Veterinária pela Unesp, campus de Botucatu, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia
CRMV-SP 4119
Diretora técnica do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal
Coordenadora de Projetos e Educação do Instituto de Medicina veterinária do Coletivo
Diretora técnica do Grupo de Voluntários para Valorização da Vida Animal
Pós graduada em Saúde Pública pela Unicamp
Pós graduada em Vigilância Sanitária e Saúde Ambiental pela Unicamp
Pós graduada em Ecologia e Educação Ambiental pela UniAnchieta
Pós graduada em Comportamento animal pela UNIFEOB
Pós graduada em Homeopatia pelo Instituto Jaqueline Pecker
Pós graduada em Bem -Estar animal pelo E-Learning Cambrigde- UK
Pós graduanda em Medicina Veterinária Legal

26

Número do documento: 21062214233056800000089131363


https://pje.tjdft.jus.br:443/pje/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=21062214233056800000089131363
Assinado eletronicamente por: ANA PAULA DE VASCONCELOS - 22/06/2021 14:23:30
Num. 95351327 - Pág. 26
Poder Judiciário da União
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS
TERRITÓRIOS

Vara de Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Fundiário do DF


SAM, sala 03, térreo, Setores Complementares, BRASÍLIA - DF - CEP:
70620-020
Horário de atendimento: 12:00 às 19:00

Número do processo: 0704008-21.2021.8.07.0018

Classe judicial: AÇÃO CIVIL PÚBLICA CÍVEL (65)

Assunto: Dano Ambiental (10438)

Requerente: FORUM NACIONAL DE PROTECAO E DEFESA ANIMAL

Requerido: ASSOC BRASILEIRA DE CRIADORES DE CAVALO QUARTO DE MILHA e outros

DECISÃO INTERLOCUTÓRIA

Reconheço a plausibilidade jurídica da pretensão autoral, pelas seguintes razões:

É bem verdade que o art. 225 da Constituição tem nítida feição antropocêntrica, qualificando o
interesse ambiental como propriedade humana, do que é deveras emblemático o próprio conceito de "meio
ambiente" a pressupor um entorno ao ser humano, como se não fosse ser integrante da natureza.

Contudo, mesmo o antropocêntrico art. 225 reconhece claramente um direito aos animais: o direito
de não serem submetidos a crueldade (CF, art. 225, § 1º, VII). Embora trivial, a interpretação da regra
constitucional que veda expressamente as práticas que submetam os animais à crueldade conduz ao
reconhecimento do direito em comento, posto que só faz sentido cogitar de se incumbir o poder público de
proteger a fauna das condutas descritas no texto constitucional se tais condutas violam direito de alguém.

A ressalva contida no § 7º do mesmo art. 225, acrescentado pela EC 96/17, deve ser interpretada em
harmonia com o conjunto do texto constitucional. A diretriz geral do art. 225 indica que o preservacionismo
é a referência hermenêutica de todo o ordenamento jurídico. A preservação do esporte e da cultura deve
ocorrer em conformidade com o princípio da proteção à vida com dignidade, que é assegurada também aos
animais não-humanos. Assim, nos casos em que as práticas desportivas e culturais não impliquem em
tratamento cruel a animais, a conduta estará respaldada pela ordem constitucional - pense-se, por exemplo,
numa manifestação como a das Cavalhadas, que ocorrem no estado de Goiás, com cavaleiros montados
numa manifestação folclórica, que não submtete os animais envolvidos a sofrimento exagerado ou
desnecessário. Se a prática dita "esportiva" ou "cultural" pressupõe a submissão de animais a crueldade ou
maus-tratos, é francamente inconstitucional, e não se respalda pela ressalva do § 7º do art. 225 da Carta.

Acrescente-se a recordação de que a Lei n. 9605/98 (Lei dos Crimes Ambientais) tipifica como
delito a conduta de "praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou
domesticados, nativos ou exóticos" (art. 32). Se a conduta é tipificada como crime, é inerentemente ilícita,
posto que crime é, por definição, fato típico, antijurídico e culpável. Se é conduta ilícita, reforça-se o
reconhecimento da plausibilidade jurídica da pretensão de coibição do ato.

Número do documento: 21062218434776700000089199815


https://pje.tjdft.jus.br:443/pje/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=21062218434776700000089199815
Assinado eletronicamente por: CARLOS FREDERICO MAROJA DE MEDEIROS - 22/06/2021 18:43:47
Num. 95429060 - Pág. 1
As provas de rodeio são inequivocamente causadoras de severos maus tratos aos animais envolvidos,
notadamente as que envolvem perseguição, laceio e derrubada de bovinos, sendo estes submetidos a intenso
padecimento pela dinâmica manifestamente cruel com que ocorrem. Se são cruéis, são inconstitucionais, e
não podem ser promovidas.

O periculum in mora decorre da possibilidade de prejuízo irreparável ao microbem ambiental


tutelado pela norma do art. 225, § 1º, VII, caso não se conceda a tutela provisória ora postulada, ou seja, pela
possibilidade de submissão dos animais ao tratamento cruel constante de prova de perseguição, laceio e
derrubada.

Contudo, há que ponderar que, como admite a própria autora, o evento referido na inicial tem escopo
bem mais amplo que as provas de rodeio, envolvendo divulgação de cultura sertaneja, comercialização de
bens em geral etc., que não se relacionam necessariamente com as provas crueis, e que são perfeitamente
lícitos, podendo ser realizados, sem prejuízo da tutela provisória ora concedida.

Em face do exposto, defiro a liminar, para cominar aos réus a proibição de realização de provas
envolvendo maus-tratos e crueldade com animais, especiaimente provas de perseguição, laceio e derrubada
de animais, sob pena de multa no valor de R$ 2.000.000,00 pela violação, sem prejuízo da responsabilidade
penal e administrativa respectivas. Os órgãos públicos competentes ficam obrigados a realizar a fiscalização
do evento, de modo a impedir a realização das atividades lesivas à proteção constitucional da fauna.

Dispenso a audiência prévia de autcomposição, dado o caráter indisponível dos interesses jurídicos
em pauta. Cite-se e intimem-se, com urgência, para ciência e cumprimento à presente decisão, bem como
para a apresentação da resposta, no prazo legal.

Publique-se; ciência ao Ministério Público.

BRASÍLIA-DF, Terça-feira, 22 de Junho de 2021 18:05:11.

CARLOS FREDERICO MAROJA DE MEDEIROS

Juiz de Direito

Número do documento: 21062218434776700000089199815


https://pje.tjdft.jus.br:443/pje/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=21062218434776700000089199815
Assinado eletronicamente por: CARLOS FREDERICO MAROJA DE MEDEIROS - 22/06/2021 18:43:47
Num. 95429060 - Pág. 2
Poder Judiciário da União
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS
TERRITÓRIOS

VMADUFDF
Vara de Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Fundiário do DF
SAM, sala 03, térreo, Setores Complementares, BRASÍLIA - DF - CEP:
70620-020
Telefone: (61) 3103-4359
Horário de atendimento: 12:00 às 19:00

MANDADO DE CITAÇÃO E INTIMAÇÃO - DF

O Dr. CARLOS FREDERICO MAROJA DE MEDEIROS, Juiz de Direito da Vara de Meio Ambiente,
Desenvolvimento Urbano e Fundiário do DF, DETERMINA ao senhor oficial de justiça que, nos autos da
Ação: AÇÃO CIVIL PÚBLICA CÍVEL (65) , processo n° 0704008-21.2021.8.07.0018:

Autor(es): FORUM NACIONAL DE PROTECAO E DEFESA ANIMAL


Réu(s): ASSOC BRASILEIRA DE CRIADORES DE CAVALO QUARTO DE MILHA e outros

CITE para integrar a relação processual e, caso queira, oferecer contestação, ciente do conteúdo do presente
mandado e das peças anexas, o(a)(s):

Réu: DISTRITO FEDERAL, CNPJ nº 00.394.601/0001-26, por meio da Procuradoria-Geral

Endereço: SAM Bloco "I" Edifício Sede - Brasília-DF - CEP: 70620-000 - Telefone: 3325-3300

E INTIME-SE-O PARA CIÊNCIA E CUMPRIMENTO DA DECISÃO ABAIXO:

"Reconheço a plausibilidade jurídica da pretensão autoral, pelas seguintes razões: É bem verdade que o
art. 225 da Constituição tem nítida feição antropocêntrica, qualificando o interesse ambiental como
propriedade humana, do que é deveras emblemático o próprio conceito de "meio ambiente" a pressupor um
entorno ao ser humano, como se não fosse ser integrante da natureza. Contudo, mesmo o antropocêntrico
art. 225 reconhece claramente um direito aos animais: o direito de não serem submetidos a crueldade (CF,
art. 225, § 1º, VII). Embora trivial, a interpretação da regra constitucional que veda expressamente as
práticas que submetam os animais à crueldade conduz ao reconhecimento do direito em comento, posto que
só faz sentido cogitar de se incumbir o poder público de proteger a fauna das condutas descritas no texto
constitucional se tais condutas violam direito de alguém. A ressalva contida no § 7º do mesmo art. 225,
acrescentado pela EC 96/17, deve ser interpretada em harmonia com o conjunto do texto constitucional. A
diretriz geral do art. 225 indica que o preservacionismo é a referência hermenêutica de todo o ordenamento
jurídico. A preservação do esporte e da cultura deve ocorrer em conformidade com o princípio da proteção
à vida com dignidade, que é assegurada também aos animais não-humanos. Assim, nos casos em que as
práticas desportivas e culturais não impliquem em tratamento cruel a animais, a conduta estará respaldada
pela ordem constitucional - pense-se, por exemplo, numa manifestação como a das Cavalhadas, que
ocorrem no estado de Goiás, com cavaleiros montados numa manifestação folclórica, que não submtete os
animais envolvidos a sofrimento exagerado ou desnecessário. Se a prática dita "esportiva" ou "cultural"
pressupõe a submissão de animais a crueldade ou maus-tratos, é francamente inconstitucional, e não se
respalda pela ressalva do § 7º do art. 225 da Carta. Acrescente-se a recordação de que a Lei n. 9605/98
(Lei dos Crimes Ambientais) tipifica como delito a conduta de "praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou

Número do documento: 21062220375373600000089210178


https://pje.tjdft.jus.br:443/pje/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=21062220375373600000089210178
Assinado eletronicamente por: NATALIA MORAIS NASCIMENTO - 22/06/2021 20:37:53
Num. 95440188 - Pág. 1
mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos" (art. 32). Se a conduta é
tipificada como crime, é inerentemente ilícita, posto que crime é, por definição, fato típico, antijurídico e
culpável. Se é conduta ilícita, reforça-se o reconhecimento da plausibilidade jurídica da pretensão de
coibição do ato. As provas de rodeio são inequivocamente causadoras de severos maus tratos aos animais
envolvidos, notadamente as que envolvem perseguição, laceio e derrubada de bovinos, sendo estes
submetidos a intenso padecimento pela dinâmica manifestamente cruel com que ocorrem. Se são cruéis, são
inconstitucionais, e não podem ser promovidas. O periculum in mora decorre da possibilidade de prejuízo
irreparável ao microbem ambiental tutelado pela norma do art. 225, § 1º, VII, caso não se conceda a tutela
provisória ora postulada, ou seja, pela possibilidade de submissão dos animais ao tratamento cruel
constante de prova de perseguição, laceio e derrubada. Contudo, há que ponderar que, como admite a
própria autora, o evento referido na inicial tem escopo bem mais amplo que as provas de rodeio,
envolvendo divulgação de cultura sertaneja, comercialização de bens em geral etc., que não se relacionam
necessariamente com as provas crueis, e que são perfeitamente lícitos, podendo ser realizados, sem prejuízo
da tutela provisória ora concedida. Em face do exposto, defiro a liminar, para cominar aos réus a proibição
de realização de provas envolvendo maus-tratos e crueldade com animais, especiaimente provas de
perseguição, laceio e derrubada de animais, sob pena de multa no valor de R$ 2.000.000,00 pela violação,
sem prejuízo da responsabilidade penal e administrativa respectivas. Os órgãos públicos competentes ficam
obrigados a realizar a fiscalização do evento, de modo a impedir a realização das atividades lesivas à
proteção constitucional da fauna. Dispenso a audiência prévia de autcomposição, dado o caráter
indisponível dos interesses jurídicos em pauta. Cite-se e intimem-se, com urgência, para ciência e
cumprimento à presente decisão, bem como para a apresentação da resposta, no prazo legal. Publique-se;
ciência ao Ministério Público. BRASÍLIA-DF, Terça-feira, 22 de Junho de 2021 18:05:11. CARLOS
FREDERICO MAROJA DE MEDEIROS Juiz de Direito"

OBSERVAÇÃO:

* O PRAZO PARA CUMPRIMENTO DA OBRIGAÇÃO FLUIRÁ DA DATA DA INTIMAÇÃO,


CONSOANTE § 3° DO ART. 231 DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL - CPC/2015.

* O prazo para contestação será de 30 (trinta) dias úteis, contados do registro do mandado cumprido no
Processo Eletrônico – Pje, devendo indicar as provas que pretende(m) produzir.

CUMPRA-SE, na forma da lei. Confere e subscreve, por determinação do MM. Juiz de Direito.

BRASÍLIA-DF, 22 de junho de 2021.

NATALIA MORAIS NASCIMENTO


TÉCNICO JUDICIÁRIO

Documentos associados ao processo

Título Tipo Chave de acesso**


Petição Inicial Petição Inicial 21062214232941400000089131
358
ACP ABQM Rodeio Granja do Petição 21062214232960000000089148
Torto 906
Procuração - Fórum Ana Paula Procuração/Substabelecimento 21062214232971900000089131
364
Estatuto Fórum Documento de Comprovação 21062214232982100000089131

Número do documento: 21062220375373600000089210178


https://pje.tjdft.jus.br:443/pje/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=21062220375373600000089210178
Assinado eletronicamente por: NATALIA MORAIS NASCIMENTO - 22/06/2021 20:37:53
Num. 95440188 - Pág. 2
367
Parecer Rodeio Parecer dos assistentes técnicos das 21062214233019600000089131
partes 360
Parecer Técnico Prova do Laço Parecer dos assistentes técnicos das 21062214233033700000089131
partes 361
Prova Buldog Parecer Parecer dos assistentes técnicos das 21062214233045900000089131
partes 362
VAQUEJADA parecer final 2020 - Parecer dos assistentes técnicos das 21062214233056800000089131
STF partes 363
Decisão Decisão 21062218434776700000089199
815
Decisão Decisão 21062218434776700000089199
815
Decisão Decisão 21062218434776700000089199
815

Obs: Os documentos/decisões do processo, cujas chaves de acesso estão acima descritas, poderão ser
acessados por meio do
link: https://pje.tjdft.jus.br/pje/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam (ou pelo site do TJDFT:
"www.tjdft.jus.br" > Aba lateral direita "Advogados" > item "Processo Eletrônico - PJe" > item
"Autenticação de documentos"; ou também pelo site do TJDFT: "www.tjdft.jus.br" > Aba lateral
direita "Cidadãos" > item "Autenticação de Documentos" > item "Processo Judicial Eletrônico - PJe
[Documentos emitidos no PJe]).

Número do documento: 21062220375373600000089210178


https://pje.tjdft.jus.br:443/pje/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=21062220375373600000089210178
Assinado eletronicamente por: NATALIA MORAIS NASCIMENTO - 22/06/2021 20:37:53
Num. 95440188 - Pág. 3
Poder Judiciário da União
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS
TERRITÓRIOS

VMADUFDF
Vara de Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Fundiário do DF
SAM, sala 03, térreo, Setores Complementares, BRASÍLIA - DF - CEP:
70620-020
Telefone: (61) 3103-4359
Horário de atendimento: 12:00 às 19:00

MANDADO DE CITAÇÃO E INTIMAÇÃO - IBRAM

O Dr. CARLOS FREDERICO MAROJA DE MEDEIROS, Juiz de Direito da Vara de Meio Ambiente,
Desenvolvimento Urbano e Fundiário do DF, DETERMINA ao senhor oficial de justiça que, nos autos da
Ação: AÇÃO CIVIL PÚBLICA CÍVEL (65) , processo n° 0704008-21.2021.8.07.0018:

Autor(es): FORUM NACIONAL DE PROTECAO E DEFESA ANIMAL


Réu(s): ASSOC BRASILEIRA DE CRIADORES DE CAVALO QUARTO DE MILHA e outros

CITE para integrar a relação processual e, caso queira, oferecer contestação, ciente do conteúdo do presente
mandado e das peças anexas, o(a)(s):

Réu: INSTITUTO BRASÍLIA AMBIENTAL (IBRAM), por meio da Procuradoria-Geral do DF

Endereço: SAM Bloco "I" Edifício Sede - Brasília-DF - CEP: 70620-000 - Telefone: 3325-3300

E INTIME-SE-O PARA CIÊNCIA E CUMPRIMENTO DA DECISÃO ABAIXO:

"Reconheço a plausibilidade jurídica da pretensão autoral, pelas seguintes razões: É bem verdade que o
art. 225 da Constituição tem nítida feição antropocêntrica, qualificando o interesse ambiental como
propriedade humana, do que é deveras emblemático o próprio conceito de "meio ambiente" a pressupor um
entorno ao ser humano, como se não fosse ser integrante da natureza. Contudo, mesmo o antropocêntrico
art. 225 reconhece claramente um direito aos animais: o direito de não serem submetidos a crueldade (CF,
art. 225, § 1º, VII). Embora trivial, a interpretação da regra constitucional que veda expressamente as
práticas que submetam os animais à crueldade conduz ao reconhecimento do direito em comento, posto que
só faz sentido cogitar de se incumbir o poder público de proteger a fauna das condutas descritas no texto
constitucional se tais condutas violam direito de alguém. A ressalva contida no § 7º do mesmo art. 225,
acrescentado pela EC 96/17, deve ser interpretada em harmonia com o conjunto do texto constitucional. A
diretriz geral do art. 225 indica que o preservacionismo é a referência hermenêutica de todo o ordenamento
jurídico. A preservação do esporte e da cultura deve ocorrer em conformidade com o princípio da proteção
à vida com dignidade, que é assegurada também aos animais não-humanos. Assim, nos casos em que as
práticas desportivas e culturais não impliquem em tratamento cruel a animais, a conduta estará respaldada
pela ordem constitucional - pense-se, por exemplo, numa manifestação como a das Cavalhadas, que
ocorrem no estado de Goiás, com cavaleiros montados numa manifestação folclórica, que não submtete os
animais envolvidos a sofrimento exagerado ou desnecessário. Se a prática dita "esportiva" ou "cultural"
pressupõe a submissão de animais a crueldade ou maus-tratos, é francamente inconstitucional, e não se
respalda pela ressalva do § 7º do art. 225 da Carta. Acrescente-se a recordação de que a Lei n. 9605/98
(Lei dos Crimes Ambientais) tipifica como delito a conduta de "praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou
mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos" (art. 32). Se a conduta é
tipificada como crime, é inerentemente ilícita, posto que crime é, por definição, fato típico, antijurídico e

Número do documento: 21062220483782600000089210066


https://pje.tjdft.jus.br:443/pje/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=21062220483782600000089210066
Assinado eletronicamente por: NATALIA MORAIS NASCIMENTO - 22/06/2021 20:48:37
Num. 95440755 - Pág. 1
culpável. Se é conduta ilícita, reforça-se o reconhecimento da plausibilidade jurídica da pretensão de
coibição do ato. As provas de rodeio são inequivocamente causadoras de severos maus tratos aos animais
envolvidos, notadamente as que envolvem perseguição, laceio e derrubada de bovinos, sendo estes
submetidos a intenso padecimento pela dinâmica manifestamente cruel com que ocorrem. Se são cruéis, são
inconstitucionais, e não podem ser promovidas. O periculum in mora decorre da possibilidade de prejuízo
irreparável ao microbem ambiental tutelado pela norma do art. 225, § 1º, VII, caso não se conceda a tutela
provisória ora postulada, ou seja, pela possibilidade de submissão dos animais ao tratamento cruel
constante de prova de perseguição, laceio e derrubada. Contudo, há que ponderar que, como admite a
própria autora, o evento referido na inicial tem escopo bem mais amplo que as provas de rodeio,
envolvendo divulgação de cultura sertaneja, comercialização de bens em geral etc., que não se relacionam
necessariamente com as provas crueis, e que são perfeitamente lícitos, podendo ser realizados, sem prejuízo
da tutela provisória ora concedida. Em face do exposto, defiro a liminar, para cominar aos réus a proibição
de realização de provas envolvendo maus-tratos e crueldade com animais, especiaimente provas de
perseguição, laceio e derrubada de animais, sob pena de multa no valor de R$ 2.000.000,00 pela violação,
sem prejuízo da responsabilidade penal e administrativa respectivas. Os órgãos públicos competentes ficam
obrigados a realizar a fiscalização do evento, de modo a impedir a realização das atividades lesivas à
proteção constitucional da fauna. Dispenso a audiência prévia de autcomposição, dado o caráter
indisponível dos interesses jurídicos em pauta. Cite-se e intimem-se, com urgência, para ciência e
cumprimento à presente decisão, bem como para a apresentação da resposta, no prazo legal. Publique-se;
ciência ao Ministério Público. BRASÍLIA-DF, Terça-feira, 22 de Junho de 2021 18:05:11. CARLOS
FREDERICO MAROJA DE MEDEIROS Juiz de Direito"

OBSERVAÇÃO:

* O PRAZO PARA CUMPRIMENTO DA OBRIGAÇÃO FLUIRÁ DA DATA DA INTIMAÇÃO,


CONSOANTE § 3° DO ART. 231 DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL - CPC/2015.

* O prazo para contestação será de 30 (trinta) dias úteis, contados do registro do mandado cumprido no
Processo Eletrônico – Pje, devendo indicar as provas que pretende(m) produzir.

CUMPRA-SE, na forma da lei. Confere e subscreve, por determinação do MM. Juiz de Direito.

BRASÍLIA-DF, 22 de junho de 2021.

NATALIA MORAIS NASCIMENTO


TÉCNICO JUDICIÁRIO

Documentos associados ao processo

Título Tipo Chave de acesso**


Petição Inicial Petição Inicial 21062214232941400000089131
358
ACP ABQM Rodeio Granja do Petição 21062214232960000000089148
Torto 906
Procuração - Fórum Ana Paula Procuração/Substabelecimento 21062214232971900000089131
364
Estatuto Fórum Documento de Comprovação 21062214232982100000089131
367
Parecer Rodeio Parecer dos assistentes técnicos das 21062214233019600000089131

Número do documento: 21062220483782600000089210066


https://pje.tjdft.jus.br:443/pje/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=21062220483782600000089210066
Assinado eletronicamente por: NATALIA MORAIS NASCIMENTO - 22/06/2021 20:48:37
Num. 95440755 - Pág. 2
partes 360
Parecer Técnico Prova do Laço Parecer dos assistentes técnicos das 21062214233033700000089131
partes 361
Prova Buldog Parecer Parecer dos assistentes técnicos das 21062214233045900000089131
partes 362
VAQUEJADA parecer final 2020 - Parecer dos assistentes técnicos das 21062214233056800000089131
STF partes 363
Decisão Decisão 21062218434776700000089199
815
Decisão Decisão 21062218434776700000089199
815
Decisão Decisão 21062218434776700000089199
815
Mandado Mandado 21062220375373600000089210
178
Mandado Mandado 21062220375373600000089210
178

Obs: Os documentos/decisões do processo, cujas chaves de acesso estão acima descritas, poderão ser
acessados por meio do
link: https://pje.tjdft.jus.br/pje/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam (ou pelo site do TJDFT:
"www.tjdft.jus.br" > Aba lateral direita "Advogados" > item "Processo Eletrônico - PJe" > item
"Autenticação de documentos"; ou também pelo site do TJDFT: "www.tjdft.jus.br" > Aba lateral
direita "Cidadãos" > item "Autenticação de Documentos" > item "Processo Judicial Eletrônico - PJe
[Documentos emitidos no PJe]).

Número do documento: 21062220483782600000089210066


https://pje.tjdft.jus.br:443/pje/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=21062220483782600000089210066
Assinado eletronicamente por: NATALIA MORAIS NASCIMENTO - 22/06/2021 20:48:37
Num. 95440755 - Pág. 3
Poder Judiciário da União
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS
TERRITÓRIOS

VMADUFDF
Vara de Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Fundiário do DF

Número do processo: 0704008-21.2021.8.07.0018

Classe judicial: AÇÃO CIVIL PÚBLICA CÍVEL (65)

AUTOR: FORUM NACIONAL DE PROTECAO E DEFESA ANIMAL

REU: ASSOC BRASILEIRA DE CRIADORES DE CAVALO QUARTO DE MILHA, DISTRITO


FEDERAL, INSTITUTO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS HIDRICOS DO DISTRITO
FEDERAL - IBRAM, SECRETARIA DE ESTADO DA AGRICULTURA, ABASTECIMENTO E
DESENVOLVIMENTO RURAL DO DISTRITO FEDERAL

FICHA DE INSPEÇÃO ANUAL

Certifico e dou fé que foi realizada Inspeção Ordinária relativa ao ciclo de 2021 nos presentes autos, e que:

( X ) os mesmos se encontram em ordem.

( ) foram promovidas as regularizações pertinentes.

Prossiga-se, cumprindo as determinações precedentes.

DOCUMENTO DATADO E ASSINADO ELETRONICAMENTE CONFORME CERTIFICAÇÃO


DIGITAL

Número do documento: 21062307042775100000089222592


https://pje.tjdft.jus.br:443/pje/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=21062307042775100000089222592
Assinado eletronicamente por: ADRIANO LUIZ OLIVEIRA - 23/06/2021 07:04:27
Num. 95453101 - Pág. 1

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