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Poemas Luiza Nilo Nunes

SOROR MARIANA

Poderia abrir roseiras com as mãos


e ser picada pelos bíblicos espinhos

Ser a virgem cujo pulso fosse o caule da paixão,


cuja menarca desenhasse um vaticínio sobre a neve
ou cujos ossos se acendessem pelo frémito das aves

Poderia ter cabelos perpassados pelas aves


Ser dos pombos a palavra combustiva que os inflama,
o sacramento que lhes bate como um sopro nos pulmões
e os faz sangrar e circular urgentemente à minha volta
Ser o ponto do cordel e o filamento do liame,
a linha branca que remenda a contusão das suas asas

Poderia ser tocada pelas águas dos vitrais


até que as águas inundassem os corredores das igrejas
como as águas mais profundas e obscuras do dilúvio
e eu mergulhasse como os peixes que se entregam
para os rios, como os cardumes de crianças
placentárias que regressam
e eu voltasse tão lavada e impoluta à superfície
que o meu sexo brilhasse como a pérola de deus

Silenciosa eu poderia ser de deus o melancólico


delir de uma roseira
ou a sinistra solidão de atravessar um orquidário
ou um perfume muito antigo que doesse

Eu poderia ser de deus a substância que doesse,


o receptáculo doloroso, o vasilhame lacrimal
como nas cartas os registos caligráficos da mão
ou como as túnicas dos mortos escoradas nos varais,
como a camisa carcomida
e o perfume do rapaz
a quem se ama para sempre a lividez e o extravio
ou o seu hálito de lírios transmigrados para a sombra,
o seu invólucro de lírios inclinados para a sombra

Eu poderia ser um cálice de lírios e de sombra


Ser os lábios que sangrassem nos arames do latim
até que a boca proferisse tenebrosas orações,
até que a boca procurasse a vibração da tua boca
e a nossa boca fosse um vínculo entrelaçado de cordões,
um feixe negro
ou um rosário de saliva,
um grande vórtice de pássaros
tombados no amor

Eu poderia olhar os pássaros do céu de Düsseldorf


e levantar-me para o som das catedrais
sem levitar como Teresa
e flamejar como Joana
Ter na carne de livores marcas negras de batom
ou entre as coxas os sintomas de uma língua passional
como se a morte vorazmente me chupasse
e pela noite, no suor dos cobertores
comprimir-te contra o peito como fazem as mulheres,
quando o cio acende tochas nas cabeças das mulheres,
quando a carne é desflorada pelos cascos das mulheres
Poderia até trocar-te por madeixas de mulheres,
por pastoras ingressadas no silêncio dos redis,
por cavaleiros que se despem livremente no princípio

Eu poderia ser o corpo solitário do princípio


Dar à carne florescida pelas águas do baptismo
o esplendor de um animal noviciado
e com a face então picada docemente pela luz
deitar-me nua sobre o chão
e esperar-te

Fetos

Esta mulher que aleija plantas com agulhas de bordar


que as espeta em sangue rijo sob as pálpebras dos mortos

Esta mulher que presidiu ao nascimento do pânico


com alguma solenidade nos dedos
e um intocado calafrio de vergônteas na barriga

Esta mulher que despejou ontem nos rios uma enxurrada


de esqueletos anónimos
como quem puxa a corda fria do autoclismo
como quem mija e cospe línguas sobre a noite mais escura

Esta mulher estranguladora de cisnes


que circula como um lírio pelas cidades bulímicas
com uma criança ulterior no pensamento
Esta mulher pedra de muro de holocausto
onde botas pisariam crânios lívidos de gatos por nascer
e que adentrou a superfície de uma treva com um zigoto
a pendurar-se às omoplatas

Mulher que inclinaria os seus cabelos transgressores


sobre a lombada dos berços
se toda a luz não se esquivasse do lugar

Ornitologia

Acorda cega,
a grande flor ossificada sobre a língua

Ouve o canto do pardal que atravessou o pesadelo


e sente unhas de plumagem cor-de-rosa

Envolta em luzes e fedores placentários,


uma boca de defunto que procura a pulsação da magnólia

Alguém diria que se despe como um lírico animal


entre colunas de dossel
um corpo nu, sacralizado de feridas

Alguém diria que não consegue suportar a fluorescência


dos espelhos a abatê-la frontalmente nos malares

Que já não pode sustentar a letargia das manhãs


a azular-se sobre as teias que lhe cercam o sopro
O bisturi com que lhe abre o coração e desencrava
os uterinos parasitas
A sua força de queimar-lhe as ervas podres dos cabelos
a sua força de acender-lhe a celestina labareda sobre o crânio

É sobretudo uma mulher de iridescência


maligna

Talvez respire a lassidão a evolar-se dos lençóis


como um perfume de jasmins
aquela nuvem de jasmins gaseificados circulando
nas narinas
em estado absoluto de graça
Talvez inverta sobre as tetas o leite roxo dos mortos
e lhes assopre nas cabeças um enxame de varejas
e lhes enfaixe os calcanhares
e lhes extraia em movimentos e pancadas
toda a flora em radiância dos rins

Se acender, entre os seus dedos, um cigarro


pensará pausadamente sobre a larva secretíssima nos dentes
dos amantes
pensará nas asas fétidas dos pombos
pensará sobre carniças baptizadas sobre as mesas
Os domingos em que os porcos brilhavam

Pensará na claridade dos bules


na porcelana em estilhaços estalando vocalizes
A dolorosa cicatriz que a entenebrece
por dentro

E aos poucos lembrará da virulência de embriões


do nevoeiro em que sangraram os seus ovos suspendidos
nas cordas
do seu poder fantasmagórico, excrescente
do seu hálito de lua
a ministrar-lhe a genitália

Alguém diria que ainda ouve o crescimento dos espinhos


que furaram a carnação das autópsias

Que estremece como um pássaro de pó


– entre abóbadas e trevas
Que levita, semelhante a um esqueleto numa bolha de raízes
Que desata o linho fúnebre dos dedos
e o eleva como um véu a apodrecer-se de palavras

É sobretudo uma mulher nupcial

Oráculo 0

Uma flor selvagem


ou uma subtilíssima rosa de terror a enlaçar-nos o tornozelo
como uma estrela felina
um cordão de sangue subitamente desatado
a empurrar-nos gota a gota contra o verso transbordante
a afiar-nos as navalhas
a compelir-nos docilmente sobre o esforço de cair

Ou o nome,
apenas o nome original
o nome incendiário por entre as vozes ascendentes das mulheres
esquerdinas
e os plátanos dos palácios incendiados
e leopardos que brilhavam ao redor da madrugada

Onde começa a estrela, eu começo a lembrar-te por dentro dos pesadelos

Onde começa a estrela, eu começo a lembrar-te por dentro dos pesadelos


eu começo a lembrar-te onde as orquídeas sangram
eu começo a recordar-te onde os cavalos adormecem com as patas magoadas
enlameadas de pavor
e começo a recordar-te onde este outubro sempre estala
(como um ruído de roseiras a arranhar o coração)

Ouve,
eu sei que outubro chegará celeremente pelo quebrar das violadas fechaduras
com suas chuvas de rosas frias e letárgicas
com suas árvores de argila menstruada
e os seus espelhos baços enevoados de sintomas
e sei que os peixes flutuarão pelos jardins
que as ervas crescerão nas línguas tépidas das pedras
e que os gatos ensolarados de vertigens assoprarão poemas frios no desalento
das clareiras
outubro com as laranjas orvalhadas
com o teu rosto de água límpida obliquamente a contorcer-se
com os teus pés de sangue e seiva entre as navalhas da manhã
com o brilho de fotosféricas papoilas entre a poalha dos cabelos enlaçados
outubro com os mortos ao redor dos tornozelos
os mortos presos pelos dedos felinamente catalépticos
os mortos generosos: apertando para sempre o nosso hibisco arterial
e os teus olhos que sorriem entre a lonjura e a vigília
e a subtilíssima linguagem das trepadeiras delicadas.

Irmão,
eu posso ouvir-te sob esta chuva de ossos plúmbeos
que estilhaça as violetas da nossa límpida alegria e dilacera o riso claro
da nossa infância flutuante
eu posso clamar-te até ao topo das circulares catedrais
e escutar-te com os tímpanos de tantas flores suturadas

Que asas perpassaram os alicerces?

Irmão,
brilha uma rosa tumular
e os campos que humildemente percorremos estendem olhos de leopardos
insurretos
e há horas em que esqueço o soçobrar da nossa morte
em que vislumbro a sombra trémula do teu rosto a incendiar-se
com o sopro de uma força ressuscitada
irmão, onde começa a estrela inteira?
outubro arde lentamente com os seus astros de carvão
e nós permanecemos entre os espelhos inaudíveis e o sangue de vegetações
crepusculares
leves, como crianças desamparadas

poema s/ título

Quando a noite cobre a pele dos bovinos


quando há lâmpadas acesas nos olhos límpidos dos gatos
e os santos incendeiam no espírito das vespas
quando a casa é uma campânula de vidro
ou uma estufa de sinistros girassóis
e os mortos teimam em roer o luto branco das cortinas
quando te peço que apazigues o pássaro
esta pomba apoteótica ensanguentada entre os meus dentes
é então aí que os dedos brilham no milagre
e que me varres todo o pó aracnídeo dos cabelos
e que nomeias estes ganchos que trago à volta da garganta
como lâminas de talho, as leves facas assassinas
é então aí que me enxaguas os dois pés embrutecidos
de palavras
com uma água tão salvífica, uma vara de vedor
para que eu possa levitar sobre este círculo de silêncio
à semelhança de um mártir que adoecesse entre os espinhos
com rosas atravessadas no hálito
É que eu trago uma coroa a arder de larvas na cabeça
e quando a noite abate os ossos sobre a cama
e há raízes claustrofóbicas rasgando-se na boca
e vultos lívidos atravessam as paredes com seus vestidos espartilhados
de desastre
todas as portas se abrem à passagem deste grito
todos os cabos mais elétricos se dobram
todas as aves se levantam ao som cardíaco dos tiros
todos os galos alardeiam a erva húmida do medo
e a minha língua, doente, é uma chaga em assobio

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