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Contos

Relógio D' Água Editores


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Título : Contos - Volume IV


Autor : Anton Tché khov
Tradução (do russo) : Nina Guerra e Filipe Guerra
Capa : Relógio D' Água Editores sobre foto do autor
Revisão Técnica : Raquel Dang

© Relógio D' Água Editores, Janeiro de 2005

Fonte : da edição A. P. TCHÉKHOV /colecção em 12 tomos, com fixação de


texto de M. Eriómin e anotada por P. Eriómin , Editora Pravda, Moscovo, 1 985 ,
Colecção «Biblioteca Ogonio k /Obras Clássicas Nacionais» .

Composição e paginação: Relógio D' Água Editores


Impressão: Rainho & Neves, Lda./ Sta. Maria da Feira
Depósito Legal n.º: 221492/05
Anton Tchékhov

Contos
Volume IV

Tradução de
Nina Guerra e Filipe Guerra

Clássicos
O COUTEIRO

Um meio-dia quente e abafado . Nem uma nuvem no céu . . . As


ervas ressequidas pelo sol estão tristes , desesperadas: nem que
chova, nunca mais serão verdes . . . O alto das copas da floresta
imóvel e calada é como um olho alerta, como que à espera de
alguma coisa.
Pela orla desbastada da floresta caminha preguiçosamente ,
balançando-se , um homem alto , de ombros estreitos , dos seus
quarenta anos, vestindo camisa vermelha, calças finas de senhor
mas remendadas , de botas grossas . Arrasta-se pelo caminho . À
sua direita verdeja a clareira, à sua esquerda, até à linha do ho­
rizonte , estende-se o mar dourado de centeio maduro . . . O ho­
mem vai suado e vermelho . Na sua bela cabeça loira poisa ga­
lhardamente um boné branco de pala direita, à jóquei , pelos
vistos prenda generosa de algum fidalgote. Do ombro prende­
-lhe a bolsa de caçador, com um tetraz lá dentro . Leva a espin­
garda de dois canos engatilhada e olha com olhos piscos para o
cão velho e magro que se lhe adianta, cheirando os arbustos . Em
redor tudo é silêncio , nem um som . . . Tudo o que é vivo se es­
condeu do calor.
- Egor Vlássitch ! - chama-o uma voz baixinha.
Estremece e, de sobrolho carregado , olha em volta. A seu
lado , como se nascesse da terra, surge uma mulher de uns trinta
8 Anton Tchékhov

anos, pálida, de foice na mão . Tenta fixar a cara dele, sorri-lhe


·

com timidez .
- Ah, és tu, Pelagueia ! - diz o couteiro, parando e desar­
mando devagar os cães da arma. - Humm ! . . . Como é que vies­
te parar aqui?
- Estão cá as mulheres da nossa aldeia a trabalhar, por isso
eu também . . . À joma, Egor Vlássitch .
- Pois . . . - murmura Egor Vlássitch e continua a andar, va-
garoso .
E Pelagueia atrás dele . Caminham uns vinte passos em silêncio .
- Há muito que não o vejo, Egor Vlássitch . . . - diz Pela­
gueia, olhando com ternura para os movimentos dos ombros do
couteiro . - Desde a Páscoa que o não vejo, quando passou lá
por casa para beber água . . . Foi pela Páscoa, entrou por um mi­
nuto, e mesmo assim naquele preparo . . . bêbado de todo . . . Ra­
lhou, bateu-me e saiu . . . E eu à espera, à espera . . . sempre a olhar
até estragar os olhos, a ver se aparecia . . . Ai, Egor Vlássitch,
Egor Vlássitch ! Ao menos uma vez . . .
- Fazer o quê?
- Nada, é claro, mas . . . a casa, pronto, essas coisas . . . Para ver
como está tudo . . . Sempre é a sua casa . . . Ena, matou um tetraz,
Egor Vlássitch ! Não quer sentar-se um bocadinho, descansar?
Pelagueia não pára de rir como uma parvinha ao dizer tudo is­
to, erguendo os olhos para o rosto de Egor. . . A cara da mulher
respira felicidade . . .
- Sentar-me? Pode ser. . . - diz Egor Vlássitch com indife­
rença e escolhe um lugar entre dois abetos quase pegados um ao
outro . - E tu, porque estás de pé? Senta-te também !
Pelagueia senta-se mais afastada, ao sol, e, envergonhada da
sua felicidade, tapa com a mão a boca sorridente . Passam dois
minutos em silêncio.
- Ia lá a casa, uma vez que fosse - diz baixinho .
- Para quê? - suspira Egor, tira o boné e limpa a testa ver-
melha à manga. - Não há necessidade . Ir lá a casa por uma ou
O Couteiro 9

duas horas é perda de tempo e só te ia atrapalhar a vida, e, quan­


to a ficar a viver na aldeia para sempre, isso eu não aguentava . . .
Sabes que e u sou um homem mimado . Para mi m tem de ser boa
cama, bom chá, conversa esmerada . . . tudo do melhor, e na tua
aldeia só há surro e pobreza . . . Nem um dia aguentava. Se saís­
se um decreto, suponhamos, que me obrigasse a ir viver para lá
contigo, acho que deitava fogo à isbá, ou então dava cabo de
mim. Desde pequeno que sou assim mimado, nada a fazer.
- Onde é que vive agora?
- Em casa do amo, Dmítri Ivánitch, sou o couteiro . Trato da
caça para a mesa dele, mas, no fundo . . . ele tem-me lá por gosto .
- Isso não é um modo de vida sério, Egor Vlássitch . . . Para
o resto das pessoas é um divertimento, mas para si é como se
fosse um ofício a valer . . . um trabalho a sério . . .
- Tola, não percebes nada - diz Egor, olhando sonhadora­
mente para o céu . - Nunca percebeste e nunca hás-de perceber
que espécie de homem eu sou . . . A teu ver, sou um homem de­
sencaminhado, um cabeça no ar, mas, para quem percebe as coi­
sas, sou o primeiro atirador entre os melhores do distrito . Os se­
nhores sentem-no, e até já escreveram sobre mim no jornal .
Nestas coisas da caça, não há quem se me compare . Mas olha
que se eu desprezo esse vosso trabalho campónio, não é por ca­
pricho nem por orgulho . Desde pequeno, fica sabendo, que nun­
ca tive outro modo de vida a não ser a espingarda e os cães .
Tiravam-me a espingarda, pegava na cana, tiravam-me a cana,
caçava à mão . Também negociava em cavalos, quando tinha di­
nheiro corria essas feiras todas, e tu sabes muito bem que o mu­
jique, quando se mete no negócio dos cavalos ou na caça, adeus
charrua. Basta que o espírito livre entre no homem uma vez,
e pronto, já não há nada que lho arranque . É como um senhor,
por exemplo, que se meta em actor ou artista de outra coisa
qualquer: já nunca mais há-de ser funcionário ou agricultor. É s
mulher, não percebes estas coisas, mas isto é que é preciso per­
ceber.
10 Anton Tchékhov

- Eu percebo, Egor Vlássitch ..


- Não, se percebesses não estavas aí a preparar-te para chorar.
- Eu . . . eu não choro . . . - diz Pelagueia, virando-lhe a cabe-
ça. - É pecado, Egor Vlássitch ! Fosse ter comigo, coitada, um
dia que fosse . Há doze anos que nos casámos e, quanto a amor. . .
nunca houve nada entre nós ! . . . Eu . . . não choro . . .
- Amor. . . - murmura Egor, coçando o braço. - Não pode
haver amor nenhum. Só no papel é que somos marido e mulher,
mas isso é alguma coisa? Eu, para ti, sou um selvagem, e tu, pa­
ra mim, és uma pacóvia ignorante . Somos algum casal? Eu sou
livre, mimado, estróina, e tu andas à joma, és uma campónia de
alpargatas, vives na imundície e nem tens tempo de endireitar as
costas de tanto trabalho . Eu penso de mim que sou o maior na
arte da caça, e tu olhas para mim com piedade . . . Que casal é que
podemos ser, então?
- Mas somos casados pela Igreja, Egor Vlássitch ! - soluça
Pelagueia.
- Não foi por minha livre vontade . . . Já te esqueceste? Agra­
dece ao conde Serguei Pávlitch . . . e a ti própria. O conde, por in­
veja de eu ser melhor atirador do que ele, andou a embebedar­
-me durante um mês inteiro; ora, a um bêbado, não só se pode
casá-lo como até convertê-lo a outra religião. Pois ele, então,
por vingança casou-me contigo . . . Um caçador com uma orde­
nhadora ! Viste que eu estava bêbado, porque aceitaste? Não eras
serva, podias recusar-te ! É certo que, para uma ordenhadora, ca­
sar com um caçador é uma felicidade, mas também é preciso ter
juízo . Agora arrepela-te, chora. Para o conde foi uma brincadei­
ra, e para ti, lágrimas . . . a cabeça contra a parede . . .
Cai o silêncio . Voam sobre a clareira três patos-bravos . Egor
olha para eles e acompanha-os com os olhos até que se trans­
forinam em três pontinhos quase indistintos e poisam longe,
para lá da floresta.
- De que vives? - pergunta, passando o olhar dos patos
para Pelagueia.
O Couteiro 11

- Agora ando à joma, e no Inverno tomo conta de uma


criança do orfanato , dou-lhe o biberão . Pagam um rublo e meio
por mês .
- Pois . . .
D e novo uma pausa silenciosa. D a faixa d o restolhal chega
um cantar baixinho , mas logo se cala. Está calor demais para
cantar. . .
- Dizem que vossa mercê montou casa à Akulina, uma isbá
nova - diz Pelagueia.
Egor não responde .
- Quer dizer que lhe tem amor. . .
- É o teu destino , a tua sina ! - diz o caçador, espregui-
çando-se . - Aguenta, minha órfã . Bom, adeus , chega de taga­
relice . . . Tenho de estar em Bóltovo antes do anoitecer. . .
Egor levanta-se, espreguiça-se , põe a arma a tiracolo . Pela­
gueia levanta-se .
- Quando passa pela aldeia? - pergunta baixinho .
- Não tenho nada que ir. Sóbrio , não me apanhas lá, e, bê-
bado , qual é o interesse para ti? Quando estou bêbado fico rai­
voso . . . Adeus !
- Adeus , Egor Vlássitch . . .
Egor põe o boné repuxado para a nuca e , assobiando ao cão ,
põe-se a caminho . Pelagueia fica parada a olhar-lhe para as cos­
tas . . . Vê-o a dar aos ombros , vê-lhe a nuca forte , o andar pre­
guiçoso , indiferente , e os olhos dela enchem-se de tristeza e ter­
nura ... O seu olhar percorre com carinho a figura alta e magra
do marido . . . Egor parece sentir este olhar, pára, volta-se para
ela ... Fica calado , mas Pelagueia vê-lhe pela cara, pelos ombros
soerguidos , que ele lhe quer dizer alguma coisa. Aproxima-se
do �ornem com timidez, com uma súplica nos olhos .
- Toma lá! - diz ele e volta-lhe as costas . Dá-lhe uma
nota de rublo amarrotada e afasta-se rapidamente .
- Adeus , Egor Vlássitch ! - diz ela, pegando maquinalmente
na nota.
12 Anton Tchékhov

Egor vai pelo caminho comprido e recto como um cinto esti­


cado . . . Pelagueia, pálida, deixa-se ficar, imóvel como uma está­
tua, seguindo com os olhos cada passada do homem. Por fim, o
vermelho da camisa dele funde-se com a cor parda das calças,
os passos tomam-se-lhe indistintos, o cão já não se destrinça das
botas . Apenas se lhe enxerga o boné, mas, de súbito, Egor vira
bruscamente para a direita, para a orla desbastada, e o seu boné
desaparece no meio da verdura da mata.
- Adeus, Egor Vlássitch - sussurra Pelagueia e levanta-se
nas pontas dos pés para ver mais uma vez o boné branco .
O MORTO

Uma noite calma de Agosto. O nevoeiro ergue-se lentamente


sobre o campo e cobre com o seu manto baço tudo o que a vista
alcança. Alumiada pela lua, esta névoa ora dá a ideia de um mar
sereno e infinito, ora de uma gigantesca muralha branca. O ar es­
tá húmido e frio. Ainda falta muito até que rompa a manhã. A um
passo do caminho vicinal que ladeia a orla da floresta arde uma lu­
zinha. É aqui, sob um carvalho jovem, que jaz o corpo, amorta­
lhado até aos pés em linho branco novo . Tem sobre o peito um íco­
ne pequeno de madeira. Ao lado do corpo, quase à beira do
caminho, está o «turno» de vela - dois mujiques cumprindo uma
das mais penosas e desagradáveis obrigações dos camponeses .
Um deles, rapaz alto com um bigode incipiente e espessas sobran­
celhas negras, de peliça curta e rota e alpargatas, está sentado na
erva húmida, com as pernas estendidas, e tenta matar o tempo ocu­
pando as mãos . Inclinando o pescoço esgalgado e fungando rui­
dosamente, talha uma colher de um bocado de madeira anguloso.
O outro, um baixote de cara senil, magricela, bexigoso, com bigo­
de ralo e barbicha de bode, tem as mãos esquecidas dependuradas
sobre os joelhos e, sem se mexer, olha vagamente para o fogo . Es­
tão de um lado e do outro de uma pequena fogueira que lhes alu­
mia as caras, tingindo-as de vermelho . Silêncio . Ouve-se apenas o
raspar da faca na madeira e o crepitar das achas húmidas no lume .
14 Anton Tchékhov

- Sioma, não durmas . . . - diz o jovem.


- Eu . . . não durmo . . . - titubeia o barbicha de bode .
- Isso mesmo . . . Faz medo ficar sozinho , um pavor. Conta-
vas antes alguma coisa, Sioma !
- Nã . . . não tenho jeito para contar . . .
- Saíste-me c á um esquisito , Siómuchka ! Não falta quem se
ria e conte histórias , cante uma cantiga, mas tu . . . só Deus sabe
que género de pessoa tu és. Ficas aí pasmado como um espan­
talho a esbugalhar os olhos para a fogueira. Não sabes dizer na­
da de jeito . . . Parece que falas a medo . Já deves andar nos cin­
quenta anos mas tens menos juízo do que um bebé . . . Não tens
pena de seres tão parvinho?
- Tenho pena . . . - responde sombriamente o barbicha de
bode .
- E achas que também não mete pena aos outros ver a tua
estupidez? É s um bom mujique , sóbrio , mas a desgraça é que
não tens juízo nenhum na cabeça. Mas olha, já que Deus te
ofendeu não te dando juízo , podias ganhá-lo por ti próprio . . . Faz
um esforço , Sioma . . . Por exemplo , quando ouvires qualquer
coisa de jeito em qualquer lado , toma atenção , e pensa, pensa
sempre . . . Se não perceberes alguma palavra, faz um esforço e
matuta bem na tua cabeça em que sentido essa palavra foi dita.
Percebeste? Esforça-te ! É que se não ganhares razão acabas por
morrer assim tolinho , o último dos homens .
De repente soou na floresta um som prolongado , gemente .
Qualquer coisa que pareceu desprender-se do cume de uma ár­
vore farfalha pelas folhas e cai na terra. O eco repete surda­
mente estes barulhos . O rapaz estremece e olha interrogativa­
mente para o seu companheiro .
- É a coruja a fazer mal aos passarinhos - diz Sioma, so­
turno .
- Ouve , Sioma, então não é já a altura de os pássaros voa­
rem para as terras quentes?
- Claro , é a altura.
O Morto 15

- A s madrugadas já estão frescas . F-frio ! O grou é uma cria­


tura friorenta, frágil . Para ele, este frio é a morte . Eu , digamos ,
não sou grou mas tenho frio . . . Deita mais lenha . . .
Sioma levanta-se e desaparece no matagal escuro . Enquanto se
atarefa a quebrar ramos secos atrás dos arbustos , o companheiro
tapa os olhos com as mãos e estremece a cada barulho . Sioma
traz uma braçada de chamiço e põe-no em cima da fogueira.
O fogo , indeciso, lambe com as suas linguazinhas os ramos ne­
gros , depois , de repente , como se lhe dessem uma ordem, abraça­
-os e ilumina com a sua luz rubra os rostos , o caminho , o linho
branco com os relevos das mãos e dos pés do morto , o ícone . . .
O «turno» está e m silêncio . O jovem dobra ainda mais o pesco­
ço e põe-se a trabalhar ainda com maior nervosismo . O barbicha
de bode , como antes , continua imóvel e não desvia os olhos do
fogo.
«Sejam confundidos . . . todos os que odeiam a Sião . . . » 1 -
ouve-se no silêncio da noite um repentino canto em falsete e , lo­
go, uns passos abafados ; depois , à luz dos raios vermelhos da
fogueira, surge um vulto pardo de batina monástica curta, cha­
péu de abas largas e um saco às costas .
- Meu Deus , santa Providência ! . . . Ah, Nossa Senhora ! -
fala o vulto num tiple rouco . - Vi o fogo nas trevas e a minha
alma perturbou-se . . . Primeiro pensei: são cavalos a pastar; de­
pois pensei: que pastagem pode ser esta se não se vêem cavalos
nenhuns? Não serão ladrões , não serão bandidos, pensei , à es­
pera de um Lázaro rico? Não será a nação cigana a fazer sacri­
fícios aos ídolos? E a minha alma alarmou-se . . . Disse para mim
próprio: vai , servo de Deus Feodóssi , e aceita a coroa de mártir !
Então, vim trazido até ao fogo como uma borboleta de asas le­
ves . Agora estou aqui à vossa frente e pelas vossas fisionomias
exteriores julgo sobre as vossas almas: não sois ladrões nem pa­
gãos ! Sede em paz !

1 Salmos , 1 29. (N. T.)


16 Anton Tchékhov

- Saúde .
- Não sabereis , cristãos , como se vai daqui para a fábrica de
tijolos de Makúkhin?
- É perto . Portanto, mete a direito aqui pelo caminho; anda
duas verstás e é Anánovo , a nossa aldeia. Passando a aldeia, vi­
ras um pouco à direita, paizinho , pela ribeira, e chegas à fábri­
ca. De Anánovo até lá serão umas três verstás .
- Deus vos dê saúde . Mas o que estais aqui a fazer?
- Somos testemunhas de presença. Bem vê, o corpo . . .
- O quê? Qual corpo? Nossa Senhora!
O peregrino vê o linho branco com o ícone em cima e estre­
mece com tanta força que os pés lhe dão um saltinho . O espec­
táculo inesperado faz-lhe um efeito deprimente . Encolhe-se to­
do e, boquiaberto e de olhos esbugalhados , fica rígido como
uma pedra . . . Passa três minutos sem quebrar o silêncio , como se
não acreditasse nos seus olhos, depois começa a balbuciar:
- Meu Deus ! Minha Nossa Senhora! ! Eu , na minha cami­
nhada, sem incomodar ninguém, e de repente este castigo . . .
- Vossa mercê quem é? - pergunta o jovem. - Clérigo?
- Nã . . . não . . . Ando pelos mosteiros . . . Conheces Mi . . . Mi-
khailo Polikárpitch , o gerente da fábrica? Pois sou sobrinho de­
le . . . Meu Deus , minha Santa Providência! Porque é que estais
então aqui?
- De guarda . . . São ordens .
- Pois , pois . . . - murmura o da batina, passando a mão pe-
los olhos . - E o falecido é donde?
- Passava por aqui .
- Que vida a nossa ! Ora bem , meus amigos , pois cá me
vou . . . Isto é de arrepiar. Tenho mais medo dos mortos do que de
tudo , meus queridos . . . Mas vede lá que coisa ! Quando este ho­
mem era vivo ninguém lhe dava qualquer atenção , mas agora
que está morto e tomado em pó , trememos diante dele como
diante de um glorioso comandante de guerra ou de um reveren­
díssimo . . . Ai, a vida ! E o que foi isto , mataram-no?
O Morto 17

- S ó Deus sabe ! Talvez o matassem, talvez morresse por si.


- Pois , pois ... Quem sabe , amigos , talvez a esta hora a alma
dele se deleite no paraíso !
- A alma dele ainda cá está, ao lado do corpo . . . - diz o jo­
vem. - Durante três dias não se afasta do corpo .
- Pois . . . Que frio está hoje ! Até me batem os dentes . . . Pois
é, então vou sempre em frente , e depois . . .
- E depois , em chegando à aldeia, à direita, vais pela margem . . .
- Pela margem . . . Pois . . . Mas o que estou aqui a fazer para-
do? Tenho de ir. . . Adeus , amigos !
O da batina dá cinco passos pelo caminho e pára.
- Esqueci-me de deixar um copeque para o funeral - diz
ele . - Posso deixar a moedinha, cristãos?
- Tu é que sabes , já que andas pelos mosteiros. Se foi a mor­
te que o apanhou , será pela alma dele , mas se foi ele que se ma­
tou , então é pecado .
- Certo . . . Às tantas é mesmo um suicida ! Então é melhor
deixar a moedinha para mim . Ah , seja pelos nossos pecados !
Nem que me dessem mil rublos eu aceitava ficar aqui sentado . . .
Adeus , amigos !
O da batina volta a afastar-se devagar e volta a parar.
- Não sei o que hei-de fazer. . . murmura. - Ficar aqui ao pé
da fogueira à espera que amanheça . . . é de meter medo . Mas
também tenho medo de ir. Passar este caminho todo no meio da
escuridão , a pensar no defunto . . . Mas que castigo de Deus ! An­
dei a pé quinhentas verstás sem problemas , e agora, ao chegar a
casa, acontece-me esta desgraça . . . Não posso ir !
- É verdade , é de meter medo . . .
- Não tenho medo dos lobos, nem dos ladrões , nem do es-
curo, mas dos mortos tenho . Tenho medo, pronto ! Amigos cris­
tãos, suplico-vos que me acompanheis até à aldeia !
- Estamos proibidos de sair de ao pé do corpo .
- Ninguém vê , amigos ! Juro , podeis acreditar em mim ,
ninguém há-de saber ! E Deus há-de recompensar-vos ! Tu , bar-
18 Anton Tchékhov

bas , acompanha-me , faz favor! B arbas ! Porque estás sempre


calado?
- É tolinho . . . - diz o jovem.
- Acompanha-me, amigo ! Dou-te cinco copeques !
- Por cinco copeques podia ser - diz o jovem, coçando a
nuca - , mas proibiram-nos . . . Se o Sioma tolo ficar aqui sozi­
nho , está bem, vou contigo . Sioma, ficas aqui sozinho?
- Fico . . . - concordou o tolinho .
- Então está bem. Vamos !
O jovem levanta-se e vai com o da batina. Um minuto depois
já não se lhes ouvem os passos . Sioma fecha os olhos e dormi­
ta. A fogueira começa a apagar-se e uma grande sombra negra
cai sobre o morto . . .
A BRUXA

Aproximava-se a noite . O salmista Savéli Guíkin , na sua ca­


sinha ao pé da igreja, estava deitado numa cama enorme e não
adormecia, embora tivesse o hábito de se deitar com as galinhas
e adormecer logo . De uma ponta do cobertor ensebado feito de
retalhos multicores de chita assomava-lhe o cabelo ruivo e rijo,
da outra os pés grandes e que não eram lavados havia muito . . .
Estava à escuta . . . A casa era pequena e encostada à cerca, a sua
única janela dava para o campo . Ora, no campo lavrava uma
verdadeira guerra. Era difícil perceber-se quem estava a dar
cabo de quem, em prol de que morte trabalhava aquele desafo­
ro da natureza, mas , a julgar pelo uivado ininterrupto e sinistro ,
alguém passava um mau bocado . Era como se uma qualquer
força triunfal perseguisse alguém pelo campo , se expandisse em
fúria pela floresta e pelo telhado da igreja, batesse raivosamen­
te com os punhos na janela, bulhasse por paus e por pedras , de
uma parte; e, da outra, era como se alguém, vencido , uivasse e
chorasse . . . O choro lamentoso ouvia-se ora na janela, ora no te­
lhado , ora dentro do fogão . Não era o choro de quem pede so­
corro , mas um choro de amargura, consciente de que já era
tarde demais e não havia salvação . Nas árvores e nos montes de
neve , que se haviam revestido de uma casquinha fina de gelo ,
tremiam lágrimas , pelos caminhos e veredas esparralhava-se a
20 Anton Tchékhov

pasta líquida e escura de lama misturada com neve derretida.


Em suma, era o degelo na terra, in as , no escuro da noite , o céu
não o via e continuava a despejar na terra a derreter novos far­
rapos de neve . O vento estroinava como um bêbado . . . Não dei­
xava que esta neve caísse no chão e fazia-a rodopiar na escuri­
dão a seu bel-prazer.
Guíkin escutava esta música e carregava o sobrolho . É que
ele sabia, ou pelo menos suspeitava, qual era o propósito de to­
da aquela azáfama do lado de fora da janela e que mãozinhas es­
tavam por trás daquilo .
- Eu sei ! - murmurava, ameaçando alguém com o dedo de­
baixo do cobertor. - Sei tuuudo !
A mulher do salrnista, Raíssa Nílovna, estava sentada num
banco perto da janela. Uma candeia de lata pousada em cima de
outro banco , como que tímida e insegura das suas forças , vertia
uma luz débil e tremeluzente sobre os ombros largos da mulher,
sobre os belos relevos do seu corpo , sobre a trança grossa que lhe
chegava quase ao chão . A mulher costurava sacos de serapilhei­
ra grossa. As suas mãos moviam-se rapidamente , mas o corpo , a
expressão dos olhos, as sobrancelhas , os lábios grossos , o pesco­
ço branco estavam sem vida e, mergulhados mecanicamente no
trabalho monótono , pareciam adormecidos . Apenas de vez em
quando ela levantava a cabeça para aliviar a tensão do pescoço,
olhava de relance para a janela onde , do lado de fora, se desvai­
rava a nevasca, e voltava a debruçar-se sobre a serapilheira. Na­
da exprimia o seu rosto bonito de nariz arrebitado e covinhas nas
faces - nem desejos, nem tristeza, nem alegria: tal como um be­
lo repuxo nada exprime quando dele não jorra a água.
Mas eis que acaba de fazer um saco , o deita para o lado e ,
espreguiçando-se com prazer, pára o olhar baço e imóvel na
janela . . . Pelos vidros nadavam lágrimas a que se agarravam far­
rapinhos brancos e efémeros de neve . O floco caía no vidro ,
olhava para a mulher e derretia . . .
- Anda-te deitar ! - resmungou o salmista.
A Bruxa 21

A mulher não respondeu . D e repente pestanejou e brilhou-lhe


nos olhos a atenção . Savéli que, encafuado no cobertor, não dei­
xava de lhe vigiar a expressão do rosto, deitou a cabeça de fora
e perguntou:
- O que é?
- Nada . . . Pareceu-me ouvir alguém . . . - respondeu baixi-
nho a mulher.
O salrnista desembaraçou-se do cobertor com as pernas e as
mãos, pôs-se de joelhos na cama e ficou a olhar com ar de lor­
pa para a mulher. A luz trémula da candeia alumiou a cara pelu­
da e bexigosa do homem, deslizou-lhe pelo cabelo rijo e des­
grenhado .
- Estás a ouvir? - perguntou a mulher.
Por entre o uivado monótono da tempestade de neve ele con­
seguiu ouvir um gemido fino, retinente, quase indistinto ao ou­
vido, como o zumbir da melga quando quer pousar na bochecha
e se zanga porque a impedem.
- É a diligência do correio ... - resmungou Savéli, sentan­
do-se sobre os calcanhares .
A três verstás da igreja passava a estrada da posta . Quando o
vento soprava dos lados da estrada na direcção da igreja, po­
diam ouvir-se na casa as campainhas .
- Meu Deus, quem se lembra de andar por fora com este
tempo? - suspirou a mulher.
- Obrigações do serviço. Queiras ou não queiras, tens de ir,
pronto . . .
O gemido pairou no ar durante algum tempo e esmoreceu .
- Já passou ! - disse Savéli, deitando-se .
Porém, mal tivera tempo de se agasalhar no cobertor e já lhe
chegava ao ouvido um som distinto de campainha. Alarmado, o
salmista olhou para a mulher, saltou da cama e, cambaleando,
pôs-se a andar de um lado ao outro em frente do fogão . A cam­
painha badalou um tempinho e voltou a calar-se, brusca, como
se lhe cortassem o som.
22 Anton Tchékhov

- Já não se ouve . . . - murmurou o salmista, parando e fi­


xando os olhos piscos na mulher. ·

No mesmo instante , porém, o vento bateu na janela e trouxe


o som fino e tilintante . Savéli empalideceu , pigarreou , e voltou
a ouvir-se o chapinhar dos seus pés descalços pelo chão .
- A diligência anda às voltas , perdida ! - disse numa voz
rouca, olhando de lado para a mulher, com raiva. - Ouviste? A
diligência anda perdida ! . . . Eu . . . eu sei ! Achas que eu . . . achas
que eu não percebo? - murmurava. - Sei tudo , raios te par­
tam !
- Sabes o quê? - perguntou a mulher em voz baixa, sem
desviar os olhos da janela.
- Sei que isto tudo é obra tua, sua diaba ! Das tuas artes , mal­
dita ! Esta nevasca, a diligência a andar às voltas . . . foste tu ! Tu !
- Endoideceste , parvo . . . - observou a mulher calmamente .
- Há muito que descobri isso em ti ! Logo no primeiro dia de
casados vi que havia em ti sangue do cão !
- Fu ! - surpreendeu-se Raíssa, encolhendo os ombros e
benzendo-se . - Persigna-te , imbecil !
- É s uma bruxa mesmo bruxa - continuou Savéli numa voz
surda, chorosa, assoando apressadamente o nariz à aba da ca­
misa. - Embora sejas minha esposa, embora sejas de farm1ia de
clero , mesmo assim hei-de dizer na confissão o que tu és . . . Ai
não , que não hei-de ! Meu Deus , valei-me , tende piedade de
mim ! No ano passado , no dia do profeta Daniel e dos Três Man­
cebos , também houve nevasca, e o que aconteceu? Veio o me­
cânico , para se aquecer. Depois , no dia do beato Aleksei , reben­
tou o gelo no rio e apareceu o guarda policial , passou cá toda a
noite a tagarelar contigo e , quando saiu de manhã, olhei para
ele: olheiras negras e faces cavadas ! Hã? Na abstinência de an­
tes da Assunção , houve duas vezes tempestade , e em ambas as
vezes veio cá pernoitar o couteiro . Eu vi tudo , raios o partam !
Ah-ah , ficaste vermelha como um lagostim ! Ah-ah !
- Não viste nada . . .
A Bruxa 23

� Ai não que não vi ! E já este Inverno, ª!ltes do Natai , no dia


dos Dez Mártires de Creta, quando a nevasca não parou toda a
noite . . . lembras-te? , o escrivão do decano da nobreza veio cá pa­
rar também, o cão . . . E por quem te foste deixar tentar? Fu , pelo
escrivão ! Valeria a pena provocar tempestades neste mundo de
Deus por aquilo? Um diabrete moncoso, uma coisa minúscula
que mal se vê, o focinho todo cheio de pontos negros e o pes­
coço torto . . . Se ainda fosse bonito , percebia-se , mas . . . fu ! . . Coi­
.

sas de Satanás , e ponto final !


O salmista recuperou o fôlego, limpou os lábios e pôs-se de
novo à escuta. Já não se ouvia a campainha, mas houve uma ra­
jada de vento por cima do telhado e , do lado de fora da janela,
veio de novo um repique.
- Outra vez ! - continuou Savéli . - Não é por acaso que a
diligência anda às voltas ! Podes cuspir-me nos olhos se não é à
tua procura que anda a diligência! Oh , o demónio bem sabe o
que faz , arranjaste um bom ajudante ! Anda com eles às voltas ,
transporta-os e trá-los para aqui . Eu sei ! Eu veeejo ! Não mo po­
des esconder, tagarela do diabo , voluptuosa maldita ! Mal come­
çou a nevasca, percebi logo quais eram os teus pensamentos .
- Irra, que parvalhão ! - sorriu a mulher. - Com que então ,
a tua cabeça tola acha que sou eu que faço as tempestades?
- Humm . . . Ri-te , ri-te ! Sejas tu ou não , há uma coisa que
nunca falha e eu vejo: mal te começa o sangue a ferver, rebenta
logo a tempestade, e mal começa a tempestade vem cá parar um
maluco qualquer! É sempre assim ! Portanto , és tu !
O salmista, para ser ainda mais convincente, levou um dedo
à testa, cerrou o olho esquerdo e pronunciou em voz cantante:
- Oh, loucura! Oh, maldição de Judas ! Se fosses realmente
do género humano, e não uma bruxa, pensarias na tua cabeça: e
se não era o mecânico , nem o caçador, nem o escrivão , mas o
Diabo disfarçado deles? Hã? Pensa !
- Mas que tolo tu és , Savéli ! - suspirou a mulher, olhando
com piedade para o marido . - Quando o paizinho era vivo e
24 Anton Tchékhov

morava aqui , vinha cá gente de toda a espécie para ele a curar


das febres: da aldeia, dos casais , das granjas dos arménios. Qua­
se todos os dias vinham pessoas e ninguém lhes chamava dia­
bos . Agora, alguém que venha cá a casa para se aquecer, ficas
logo espantado , seu parvo , pensas logo cada coisa.
A lógica da mulher impressionou Savéli . Afastou os pés des­
calços , inclinou a cabeça e quedou-se a pensar. Ainda não tinha
urna convicção firme das suas suposições , pelo que o tom sin­
cero e indiferente da mulher o fez perder o pé; contudo , depois
de matutar um pouco , abanou a cabeça e disse:
- Mas não são uns velhos ou uns zarnbros quaisquer que
vêm, não , são sempre homens novos que pedem para pernoitar
cá . . . Porque será? E se ao menos apenas se aquecessem, mas
não , cumprem a vontade do Diabo . Não , mulher, não há no
mundo criatura mais manhosa do que o vosso género feminino !
Quanto à razão , em vós não há nenhuma, há ainda menos do que
num estorninho , mas quanto à manha diabólica . . . uuui ! . . . valha­
-me Nossa Senhora dos Céus ! Pronto , lá está a diligência a ti­
lintar! Ainda a nevasca estava a começar e já eu sabia quais
eram os teus pensamentos ! Deitaste o feitiço , sua aranhiça !
- Porque não me deixas em paz , maldito? - A mulher per­
dia a paciência. - Porque não me largas , carraça?
- Não te largo porque se esta noite , Deus nos guarde , acon­
tecer alguma coisa . . . Ouve-me , ouve-me ! . . . Se acontecer algu­
ma coisa, amanhã mesmo , logo de madrugada, vou a Diadkovo
e explico tudo ao padre Nikodirn . Vou mesmo dizer-lhe , tal e tal ,
padre Nikodirn , peço encarecidamente desculpa, mas ela é bru­
xa. Porquê? Hurnrn . . . deseja saber porquê? Então aqui vai . . . tal
e tal . Por isso , põe-te a pau , mulher, porque vais ser castigada,
não só no Juízo Final mas também na vida terrena ! Não é por
acaso que no missal há orações contra a vossa laia !
De repente soaram pancadas na janela, tão fortes e insólitas
que Savéli empalideceu e fraquejararn-lhe as pernas de susto . A
mulher levantou-se de um salto e também ficou branca.
A Bruxa 25

- Por amor de Deus , deixem-me entrar, para me aquecer um


bocado ! - ouviu-se , numa voz de baixo trémula. - Está al­
guém? Por favor ! Perdemo-nos !
- Quem é? - perguntou a mulher, com medo de espreitar à
janela.
- O correio ! - respondeu outra voz .
- Não foi em vão que fizeste a bruxaria ! - Savéli abanou a
cabeça. - Ora aqui está ! Bem vês que eu tinha razão . . . Agora
espera e verás !
O salmista deu dois saltos em frente da cama, tombou sobre
o colchão e, fungando de raiva, virou-se para a parede . Logo
sentiu o frio a soprar-lhe nas costas . A porta rangeu e apareceu
na ombreira um vulto humano alto , coberto de neve pegajosa da
cabeça aos pés . Atrás do vulto estava outro , todo branco tam­
bém .
- Trago também os sacos? - perguntou o segundo numa
voz rouca de baixo .
- Pois claro , não se vão deixar fora !
Dizendo isto , o primeiro começou a desatar o capucho mas ,
impaciente , arrancou-o da cabeça juntamente com o boné e
atirou-os com raiva contra o fogão . Depois despiu o casaco e
arremessou-o para o mesmo sítio e , sem cumprimentar, come­
çou a andar pelo quarto .
Era um correio jovem, loiro , com a casaca do uniforme coça­
da e botas ruivas enlameadas . Depois de mais umas passadas
para se aquecer, sentou-se à mesa, esticou as pernas até os pés
sujos tocarem nos sacos e apoiou a cabeça no punho . O seu ros­
to , pálido e com manchas vermelhas , tinha ainda as marcas do
sofrimento e do medo por que passara havia pouco . O seu ros­
to , apesar de desfigurado pela raiva e pelas marcas do sofri­
mento físico e moral , com a neve a derreter-se nas sobrancelhas ,
no bigode e na barba arredondada, era bonito .
- Vida de cão ! - resmungou o correio , passando os olhos
pelas paredes e como se ainda não acreditasse que estava ao
26 Anton Tchékhov

abrigo de um compartimento quente . - Por pouco não morre­


mos . Se não tivéssemos visto a lllz da vossa casa não sei o que
nos poderia acontecer. . . Quando acabará este castigo? Não se vê
o fim a esta vida de cão ! Onde viemos parar? - perguntou , bai­
xando a voz e virando os olhos para a mulher do salmista.
- Aqui é Monte Guliáev, propriedade do general Kalinóvski
- respondeu a mulher, estremecendo e corando.
- Estás a ouvir, Stepan? - voltou-se o correio para o co-
cheiro que se debatia à entrada da porta com um grande saco de
couro às costas . - Viemos parar ao Monte Guliáev.
- Looonge !
Dizendo isto na forma de um suspiro longo e entrecortado , o
cocheiro saiu e , pouco depois , voltou com outro saco , mais pe­
queno; depois voltou mais uma vez trazendo o sabre do correio
pendurado numa correia larga, um sabre que , pelo seu modelo ,
se assemelhava muito àquela espada comprida e plana com que ,
nas pinturas de lubok2, é representada Judite junto ao leito de
Holofernes . Pousados os sacos ao longo da parede , o cocheiro
saiu para o átrio , sentou-se lá e acendeu o cachimbo .
- Depois de uma viagem destas , talvez queira tomar chá? -
ofereceu a mulher do salmista.
- Qual chá qual quê ! - O correio carregou o sobrolho . -
Temos é de nos aquecer rapidamente e partir, senão perdemos o
comboio-correio . Mais dez minutos e vamos . Só que , faça o fa­
vor, explique-nos o caminho . . .
- Este tempo é um castigo de Deus ! - suspirou a mulher.
- Pois . . . E vós , qual é o vosso trabalho aqui?
- Nós? Somos daqui , da igreja . . . Do clero . . . Aquele ali deita-
do é o meu marido ! Savéli , levanta-te , vem cumprimentar o se­
nhor! Dantes havia cá uma paróquia, mas há ano e meio acabaram
com ela. Quando viviam cá os senhores , havia gente, e valia a pe-

2 Técni ca artesanal de gravura em que o tipo de ma triz utilizado é a madeira de


tília. (N. T.)
A Bruxa 27

na ter aqui uma paróquia, mas agora, sem os senhores , de que vai
viver o clero se a aldeia mais próxima é Márkovka, e mesmo es­
sa é a cinco verstás daqui? Agora o meu Savéli é extranumerário
e . . . faz as vezes de guarda. Está encarregado de tratar da igreja ...
E o correio , logo a seguir, ficou a saber que , se Savéli fosse
ter com a generala e lhe pedisse uma carta para o reverendíssi­
mo , dar-lhe-iam um bom lugar; ora, ele não ia falar com a ge­
nerala porque era preguiçoso e tinha medo das pessoas .
- Seja como for, pertencemos ao clero . . . - acrescentou a
mulher do salmista.
- Mas do que vivem então? - perguntou o carteiro .
- Junto à igreja há um lameiro e umas hortas . Mas pouco
nos toca . . . - suspirou a mulher. - O padre Nikodim, de Diad­
kovo , tem olhos invejosos, oficia aqui no São Nicolau de Inver­
no e no São Nicolau de Verão , por isso leva quase tudo para ele .
E não há quem nos proteja!
- Mentira ! - rouquejou Savéli . - O padre Nikodim é uma
alma santa, um luminar da igreja, e o que leva é de acordo com
a regra !
- Que severo é o teu marido ! - sorriu o correio . - Há
muito que estás casada?
- Desde o Domingo do Perdão3 , vai no quarto ano . Dantes ,
o salmista daqui era o meu paizinho , e depois , quando sentiu
chegar a hora da morte , o meu pai , para deixar o lugar comigo ,
foi ao consistório e pediu que me mandassem um salmista sol­
teiro para eu me casar com ele . E assim me casei .
- Ah-ah, mataste então duas moscas com a mesma palmada !
- disse o correio, olhando para as costas de Savéli . - Ga-
nhaste um lugar e uma mulher.
Savéli deu um coice impaciente com a perna e encostou-se
mais à parede . O correio levantou-se da mesa, espreguiçou-se e
sentou-se em cima de um saco que estava ao pé da porta. Pen-

3 Domingo da véspera da Quaresma . (N. T.)


28 Anton Tchékhov

sou um pouco , apalpou os sacos , mudou o sabre de lugar e


estendeu-se , com um pé dependurado para o chão .
- Vida de cão . . . - murmurou , pondo as mãos atrás da nuca
e fechando os olhos . - Não desejo esta vida nem a um tártaro
malvado .
Breve mergulhou tudo em silêncio . Apenas se ouvia o fungar
de Savéli e a respiração lenta e compassada do correio, produzin­
do um «kh-h-h» espesso e extenso a cada expiração . De vez em
quando , na sua garganta como que rangia uma roda, e a perna, a
estremecer, esfregava-se no saco com um barulho roçagante.
Debaixo do cobertor, Savéli mexeu-se e virou-se devagar.
A sua mulher estava sentada no banco e, apertando as boche­
chas com as mãos , olhava para a cara do correio . Tinha o olhar
imóvel como o de uma pessoa surpreendida e assustada.
- Para onde estás a olhar? - sussurrou Savéli em tom zan­
gado .
- Que te importa? Fica deitado ! - respondeu a mulher sem
desviar os olhos da cabeça loira.
Savéli , raivoso , expirou todo o ar do peito e virou-se brusca­
mente para a parede . Três minutos depois voltou a mexer-se , in­
quieto , ajoelhou-se na cama e, apoiando as mãos na almofada,
olhou de soslaio para a mulher. Esta continuava imóvel a olhar
para o visitante . Tinham-lhe empalidecido as faces , acendera­
-se-lhe um fogo estranho no olhar. O salmista, de barriga para
baixo , pigarreou , deslizou da cama e , aproximando-se do cor­
reio , cobriu-lhe a cara com um lenço .
- Para quê? - perguntou a mulher.
- Para não lhe bater a luz na cara.
- Então apaga a luz !
Savéli olhou para a mulher com desconfiança, esticou os lá­
bios para a candeia, mas logo desistiu e ergueu os braços .
- E isso , então , não será uma manha diabólica? - excla­
mou . - Hã? Não existe , então , uma criatura mais manhosa do
que o género feminino?
A Bruxa 29

- Oh , Satanás de fraldas compridas ! sibilou a mulher,


franzindo a cara de desgosto . - Espera que já vais ver !
E, acomodando-se melhor no banco, voltou a fixar os olhos
no correio .
Não importava que tivesse a cara tapada. Não era tanto a
cara que lhe interessava, mas o aspecto geral , o que havia de no­
vo para ela naquele homem. O peito era largo e robusto , as mãos
bonitas , finas , as pernas esbeltas e musculadas , muito melhores ,
muito mais másculas do que os dois «Cotos» de Savéli . Não ha­
via comparação .
- Podem dizer que sou um «sotaina longa» , um mau espírito
- proferiu Savéli depois de ter ficado algum tempo de pé - ,
mas ele não tem nada que dormir cá . . . Pois . . . Está ao serviço
público , nós depois é que somos responsáveis de o termos atra­
sado aqui . Andas a distribuir o correio , pois então distribui , não
tens nada que dormir . . . Eh , tu ! - gritou Savéli para o cochei­
ro . - Tu , cocheiro . . . Como é que te chamas? Quereis que vá
convosco? Levanta-te , com o correio à guarda não podes dor­
mir !
E, excitado , Savéli deu um salto para junto do correio e
puxou-lhe pela manga.
- Eh , vossa senhoria! Se tens de ir, então vai , mas se não fo­
res , então não . . . não é correcto dormires .
O correio sobressaltou-se , sentou-se , passou o olhar estremu­
nhado pelo quarto e voltou a deitar-se .
- Então , quando será essa partida? - disse Savéli , dando
uns estalidos com a língua e puxando-lhe pela manga. - É que
o correio é para isso , para chegar a horas , estás a ouvir? Eu
acompanho-vos .
O correio abriu os olhos . Aquecido e extenuado pelo primei­
ro sono doce, ainda não acordado completamente , viu , como nu­
ma neblina, o pescoço branco e o olhar imóvel e amanteigado da
mulher do salmista, voltou a fechar os olhos e sorriu , como se
sonhasse com tudo isso .
30 Anton Tchékhov

- Mas para onde é que se pode ir com este tempo? - ouviu


ele a suave voz feminina. - Deixá-lo dormir em paz e à vontade !
- E o correio? - alarmou-se Savéli . - Quem leva o cor­
reio? Talvez tu? Tu , não?
O correio abriu de novo os olhos, olhou para as covinhas mo­
vediças da cara da mulher, lembrou-se onde estava, compreen­
deu Savéli . Com um arrepio gelado, percorreu-lhe o corpo a
ideia de que tinha de ir para a escuridão fria e encolheu-se .
- Ainda podia dormir mais cinco minutinhos . . . - bocejou
ele - , em qualquer caso , vamos chegar atrasados . . .
- Ou talvez cheguemos a tempo , mesmo em cima da hora !
- chegou do átrio a voz do cocheiro . - É que , às tantas , para
nossa sorte o próprio comboio vai chegar atrasado .
O correio pôs-se de pé e , depois de um espreguiçamento de­
liciado, começou a vestir o casaco.
Savéli, vendo que os hóspedes iam mesmo partir, até se riu de
prazer.
- Ajuda aqui , tu ! - disse o cocheiro, apanhando um saco do
chão .
O salmista precipitou-se para o homem e ajudou-o a tirar os
sacos da posta para fora. O correio, esse, estava a desemaranhar
o nó do capucho . A mulher espreitava-lhe para os olhos e pare­
cia querer saltar-lhe para a alma.
- Bebia antes um chazinho . . . - disse ela.
- Por mim, tudo bem . . . - concordava o correio . - Mas ele
quer ir já. Em qualquer caso, estamos atrasados .
- Fique ! - sussurrou ela, baixando o s olhos e tocando-lhe
na manga.
O correio conseguiu finalmente desatar o nó e, indeciso, pôs
o capucho debaixo do braço . Sentia o quentinho de estar perto
da mulher.
- Que . . . pescoço tu tens . . .
E tocou com dois dedos no pescoço dela. Não encontrando
resistência, afagou-lhe com a mão o pescoço, o ombro . . .
A Bruxa 31

- Uuf, que coisinha . . . é o teu pescoço . . .


- Ficava . . . tomava um chazinho .
- Como é que estás a pôr isso? Eh, tu, seu papinhas de me-
laço ! - ouviu-se do quintal a voz do cocheiro . - Põe-no de
través .
- Fique , por favor. . . Apre , como uiva a tempestade !
De chofre , apoderou-se então do correio mal acordado , sem
tempo ainda de ter espantado o fascínio do sono jovem e lân­
guido, um daqueles desejos que levam as pessoas a esquecer sa­
cos de correio e comboios de posta . . . a esquecer tudo no mun­
do . Apreensivo , como se quisesse fugir ou esconder-se , deitou
um olhar para a porta, agarrou a mulher do salmista pela cintu­
ra e já se inclinava sobre a candeia para a apagar quando soou
no átrio o bater de botas e à porta apareceu o cocheiro . . . Por trás
do ombro do cocheiro espreitava Savéli . O correio baixou rapi­
damente as mãos e quedou-se , a pensar.
- Está tudo pronto ! - disse o cocheiro .
O correio ainda se quedou um pouco , depois abanou a cabe­
ça com brusquidão , como um homem bem acordado , e saiu
atrás do cocheiro . A mulher do salmista ficou sozinha.
- Vá, senta-te aqui , mostra-nos o caminho ! - ouviu ela.
Primeiro tilintou uma campainha, preguiçosa, depois outra, e
o repique , em cadência fina e prolongada, foi-se afastando da
casinha.
Quando a mulher deixou de ouvir a diligência, arr ancou-se do
lugar e pôs-se a andar nervosamente pelo quarto . Pálida, depois
vermelha. Com o rosto desfigurado pelo ódio , a respiração tre­
mente , os olhos brilhantes de raiva selvagem, feroz , a mulher
como que andava às voltas numa jaula, qual fêmea de tigre ame­
drontada que queriam assustar com o ferro em brasa. Parou por
um instante e pôs-se a olhar para a sua habitação . Quase metade
do quarto era ocupada pela cama que se estendia ao longo da
parede e se compunha de um colchão sujo , almofadas rijas e
cinzentas , um cobertor e toda uma colecção de trapos sem de-
32 Anton Tchékhov

nominação . A cama era um montão informe e feio , fazendo lem­


brar o tufo que se espetava da cabeça de Savéli sempre que ele
se lembrava de untar o cabelo com óleo . Da cama até à porta,
que dava para o átrio frio , estendia-se o fogão russo escuro, pe­
jado de potes e trapos pendurados . Tudo , incluindo o Savéli que
acabara de sair, era imundo , sebento , coberto de fuligem, pelo
que era estranho ver neste ambiente o pescoço branco e a pele
fina e tema da mulher. Correu para a cama e esticou as mãos,
como se quisesse espalhar, pisar, rasgar em tiras tudo aquilo ,
mas logo , como se a enojasse o contacto com a sujidade , recuou
de um salto e recomeçou a andar para trás e para a frente . . .
Quando Savéli voltou , duas horas depois , extenuado e cober­
to de neve , a mulher já estava despida e deitada na cama. Tinha
os olhos fechados mas , pelas convulsões que lhe percorriam a
cara, Savéli adivinhou que a mulher não dormia. Quando re­
gressava a casa tinha jurado calar-se até à manhã seguinte e não
a incomodar, mas não aguentou e disse , cáustico:
- O feitiço saiu furado: ele foi-se embora ! - disse o sal­
mista, sorrindo com maldade .
A mulher calava-se, apenas o queixo lhe estremeceu . Savéli
despiu-se devagar, rastejou por cima da mulher e deitou-se do
lado da parede .
- Amanhã vou explicar ao padre Nikodim que género de
mulher tu és ! - murmurou , enroscando-se .
A mulher virou-se bruscamente para ele , os olhos dela chis­
pavam .
- Para ti , o cargo que te deram já basta - disse ela - , quan­
to à mulher, procura-a na floresta ! Que raio de mulher sou eu
para ti? Raios te partam ! Que pouca sorte eu tive com este pas­
palho , este mandrião , Deus me perdoe !
- Vá lá, vá lá . . . dorme !
- Desgraçada de mim ! - chorava a mulher. - Se não ti-
vesses aparecido podia ter casado com um comerciante ou até
com um fidalgo qualquer ! Se não fosses tu, eu agora podia ter
A Bruxa 33

um marido que amasse ! Que pena não teres ficado enterrado na


neve , não teres morrido gelado no caminho , seu herodes !
Chorou durante muito tempo. Por fim, suspirou fundo e
calou-se . Para lá da janela ainda se enraivecia a nevasca. Nos
escaninhos do fogão e da chaminé , atrás de todas as paredes ha­
via como que um choro , mas para Savéli era como se qualquer
coisa chorasse nos seus ouvidos, dentro dele . Era esta a noite em
que se convencera, definitivamente , das suas suspeitas quanto à
mulher. Já não duvidava de que a mulher, socorrendo-se das
forças diabólicas , mandava nos ventos e nas troikas da posta.
Porém, para seu grande desgosto, este mistério , esta força so­
brenatural e selvagem davam à mulher deitada a seu lado um
encanto especial e incompreensível de que antes não se dava
conta. Como ele, por estupidez , e nem sequer o notando , a tinha
poetizado , ela tomava-se agora como que mais branca, mais re­
dondinha, inacessível...
- Bruxa! - indignava-se ele. - Fu , que nojo !
Apesar disso , depois de ter esperado que ela se acalmasse e
começasse a respirar regularmente , tocou-lhe com os dedos na
nuca.. . pegou-lhe na trança grossa. Ela nem o sentia... Então , ele
ousou afagar-lhe o pescoço.
- Deixa-me em paz ! - gritou ela e assestou-lhe uma coto­
velada tal na base da cana do nariz que ele até viu estrelas.
A dor no intercílio passou-lhe depressa, mas a tortura ainda
continuou.
AGÁFIA

Quando vivia no distrito de S . .. , acontecia-me muitas vezes


passar pelas hortas de Dúbovo e visitar o hortelão , Savva Stu­
katch , ou simplesmente Savka. Estas hortas eram o meu lugar pre­
ferido para aquilo a que eu chamo «pescaria geral» , quando, le­
vando connosco todos os petrechos de pesca e todas as provisões ,
saímos de casa e não sabemos a hora e o dia em que voltaremos .
Na verdade, não era tanto a pesca que me entusiasmava, mas a
possibilidade de vaguear despreocupado, de comer a qualquer ho­
ra, sem regra, de conversar com Savka e de ficar a sós com as lon­
gas e serenas noites estivais. Savka era um rapaz de vinte e cinco
anos , alto, bonito, saudável como a pedra. Tinha a reputação de
homem sensato e esperto, era alfabetizado , raramente bebia vod­
ca, mas , como trabalhador, este homem novo e forte não valia um
pataco. Nos seus músculos sólidos como cordas morava, ao lado
da força, uma preguiça pesada e invencível. Como toda a gente na
aldeia, tinha isbá e courela próprias , mas não arava nem semeava,
nem praticava qualquer ofício. A sua velha mãe batia aos postigos
pedindo esmola, e ele próprio vivia como um pássaro dos céus:
de manhã ainda não sabia o que iria comer ao meio-dia. Não que
lhe faltassem vontade e energia, ou piedade pela mãe, mas , sim­
plesmente, não tinha apetência pelo trabalho nem era consciente
da importância do trabalho ... Jorrava de todo o seu ser a despreo-
Agáfia 35

cupação , a paixão inata e quase artística de viver inutilmente, ao


deus-dará. Ora, quando o corpo jovem e saudável de Savka tinha
impulsos fisiológicos de trabalho físico , o rapaz entregava-se de
alma e coração, embora por pouco tempo, a uma qualquer tarefa
livre mas desarrazoada, como sejam aparar estacazinhas inúteis
ou fazer corridas com as mulheres . A sua posição preferida era a
imobilidade concentrada. Era capaz de ficar horas a fio no mes­
mo sítio, sem se mexer, de olhos fixos num ponto. Apenas se mo­
via por inspiração ou quando o atacava o impulso de um qualquer
movimento rápido: agarrar pelo rabo um cão que corria, arr ancar
o lenço da cabeça de uma mulher, saltar por cima de uma cova
larga. É evidente que , com esta contenção de movimentos , Savka
era pobre como Job e vivia pior do que qualquer vagabundo . Com
o correr do tempo , a sua tributação em atraso acumulou-se de tal
maneira que a comunidade lhe deu, a ele , jovem e sadio , um car­
go de velho: guarda e espantalho das hortas comunais . Por mais
que se rissem da sua velhice prematura, não se importava nada. O
lugar era calmo, cómodo para a contemplação estática e corres­
pondia plenamente à sua natureza.
Calhou que eu visitasse este Savka numa bela tarde de Maio .
Lembro-me de estar deitado , eu, numa esteira rota e gasta quase
encostada à cabana donde saía um cheiro espesso e sufocante a
ervas secas . Com a nuca soerguida apoiada nas mãos , olhava eu
à minha frente . Junto aos meus pés , no chão , estava uma for­
quilha de madeira. Atrás da forquilha destacava-se a mancha ne­
gra da cadelinha de Savka, chamada Kutka, e mais para lá, a não
mais do que duas braças de Kutka, a terra era cortada pela mar­
gem alcantilada do rio . Deitado , eu não podia ver o rio . Via ape­
nas , nesta banda do rio , as pontas das copas do salgueiral que
crescia densamente e também a outra banda serpenteante , como
que trincada . Lá, muito ao longe , numa colina escura ,
apertavam-se umas às outras , como perdizes assustadas , as is­
bás da aldeia em que vivia o meu Savka. Por trás da aldeia ar­
diam os últimos raios do ocaso . Restava apenas uma faixa
36 Anton Tchékhov

rubro-pálida, e mesmo essa começava a cobrir-se de nuvens ,


como as brasas de cinzas .
À direita da horta, cochichando baixinho , havia um amieiral
escuro , à esquerda espraiava-se um campo que a vista não po­
dia abarcar. Onde o olho já não distinguia o campo do céu , em
plenas trevas , ardia uma luzinha brilhante . Savka estava senta­
do , um pouco afastado de mim, com as pernas dobradas à turca
e a cabeça caída, olhando pensativamente para a Kutka . Havia
muito que os nossos anzóis com isco vivo estavam metidos no
rio , pelo que nada mais tínhamos a fazer do que nos entregar­
mos ao repouso que Savka tanto prezava (apesar de nunca se
cansar, ele descansava permanentemente) . O ocaso ainda não se
tinha consumado por completo , mas a noite estival já abraçava
a natureza com o seu carinho meigo , soporífero .
Tudo esmorecia, caindo já no primeiro sono , o mais profun­
do , e apenas uma ave nocturna, que eu não conhecia, pronun­
ciava na floresta um som bem articulado , preguiçoso, esticado ,
sugerindo a pergunta: «Vis-te-o-Ni-ki-ta?» , a que respondia lo­
go a seguir: «Vi-o , vi-o , vi-o ! »
- Porque é que hoje não cantam o s rouxinóis? - perguntei
a Savka.
Savka virou-se lentamente para mim. Tinha uns traços fisio­
nómicos graúdos e nítidos , mas expressivos e suaves como os
de uma mulher. Depois lançou os olhos meigos e contemplati­
vos para a floresta, para o salgueiral , tirou uma flauta do bolso ,
muito devagar, levou-a aos lábios e fê-la piar como a fêmea do
rouxinol . Imediatamente , como que em resposta àqueles pios ,
gritou na margem oposta um codornizão .
- Ora toma lá o rouxinol . . . - sorriu Savka. - Trra-trra !
Trra-trra ! Parece que está a puxar um gancho , mas com certeza
também acha que aquilo é cantar.
- Gosto desta ave . . . - disse eu . - Sabias que ela, quando
migra, não voa mas corre pelo chão? Só voa para atravessar os
rios e os mares , de resto vai sempre a pé .
Agáfia 37

- Ena, que bicho . . . - murmurou Savka, deitando um olhar


respeitoso na direcção do codornizão a gritar.
Sabendo que Savka gostava muito de ouvir histórias , contei­
-lhe tudo o que aprendera desta ave nos livros sobre caça. Do
codornizão desviei-me, sem dar por isso , para a migração das
aves. Savka ouvia-me com atenção , sem pestanejar, sempre a
sorrir de prazer.
- Qual é a terra natal das aves? - perguntou . - A nossa ou
aquela para onde elas migram?
- É claro que é a nossa. É aqui que nasce a ave e cria os filho­
tes, é aqui a pátria dela, e só migra daqui para não morrer de frio.
- Curioso ! - espreguiçou-se Savka. - Seja qual for o te­
ma de conversa, tudo é curioso . Agora falamos das aves , mas
podia ser do homem . . . ou , digamos , desta pedrinha . . . em tudo há
sabedoria! . . . Ah, se eu soubesse que o senhor vinha, não tinha
dito à mulher para aparecer. . . Houve uma que me pediu , hoje . . .
- Ah, por amor de Deus , não quero incomodar! - disse eu .
- Posso dormir na floresta . . .
- S ó me faltava isto ! Ela não morria s e viesse s ó amanhã . . .
Se ainda ao menos s e sentasse a ouvir as conversas . . . mas não ,
são só lamechices . Com ela cá, não se pode falar como deve ser.
- Estás à espera da Dária? - perguntei um pouco depois .
- Não . . . Hoje fo i uma nova que s e fez convidada . . . a Agáfia
Agulheira . . .
Savka disse-o com a sua voz habitual , impassível , um pouco
surda, como se falasse de tabaco ou de papas , enquanto eu , de
tão surpreendido , até sobressaltei . Conhecia a Agáfia Agulhei­
ra . . . Era uma mulher ainda muito nova, de dezanove ou vinte
anos , casada havia menos de um ano com o agulheiro do
caminho-de-ferro , um rapaz novo e galhardo . Ela vivia na al­
deia, e o marido , todas as noites , deixava a estação para ir dor­
mir com ela.
- Essas tuas histórias com mulheres ainda vão acabar mal ,
meu amigo ! - suspirei .
38 Anton Tchékhov

- Paciência . . .
E Savka, depois de pensar u m pouco , acrescentou:
- Eu bem digo às mulheres , mas elas não me dão ouvidos . . .
Não querem saber, as parvas !
Caiu o silêncio . . . A escuridão , entretanto , adensava-se cada
vez mais , os objectos perdiam os seus contornos . A pequena fai­
xa de luz por trás da colina já se apagara, as estrelas tomavam­
-se cada vez mais brilhantes e luminosas . . . O fretenir melancó­
lico e monótono dos gafanhotos , o canto gritado da codorniz e
do codornizão não violavam o sossego da noite , pelo contrário ,
tomavam-no ainda mais monótono . Parecia que não eram as
aves e os insectos , nos seus voos baixinhos , que nos soavam aos
ouvidos e nos fascinavam , mas sim as estrelas , tanto elas nos
olhavam do céu . . .
Foi Savka o primeiro a quebrar o silêncio . Desviou lenta­
mente os olhos da preta Kutka para mim e disse:
- Vejo que se aborrece , meu senhor, vamos jantar.
E, sem esperar pelo meu consentimento , rastejou de barriga
para dentro da cabana e pôs-se a procurar qualquer coisa lá den­
tro: enquanto o fazia, toda a cabana tremia como uma folha ao
vento; depois rastejou de volta e pôs diante de mim a vodca que
eu trouxera e uma tigela grande de barro . Na tigela havia ovos
assados , panquecas de centeio com toucinho , fatias de pão ne­
gro e mais qualquer coisa . . . Bebemos por um copinho torto e
instável , e começámos a comer . . . Sal cinzento e sujo , panquecas
sujas com toucinho , ovos elásticos como borracha, mas que bem
sabia tudo aquilo !
- Vives sozinho , mas as coisas que tu tens - disse eu , apon-
tando para a tigela. - Onde arranjas isto?
- As mulheres trazem-no . . . - murmurou Savka.
- E porque to trazem?
- Não sei . . . por piedade . . .
Não s ó a ementa, mas também as roupas de Savka tinham
marcas da «compaixão» feminina . Assim , reparei que ele tinha
Agáfia 39

esta noite um cinto novo de lã e uma fita escarlate com uma pe­
quena cruz no pescoço sujo . Eu sabia que o belo sexo tinha um
fraco por Savka e sabia também que ele não gostava de falar do
assunto , por isso não continuei com as perguntas . Além disso , a
altura não era a melhor para uma tal conversa . . . Kutka, que ci­
randava à nossa beira e esperava com paciência um bocadinho ,
levantou de repente as orelhas e rosnou . Ouviu-se um chapinhar
de água longínquo e entrecortado .
- Vem aí alguém a vau . . . - disse Savka.
Três minutos depois , Kutka rosnou de novo e emitiu uma es­
pécie de tosse .
- Chiu ! - gritou-lhe o dono .
Soaram passos tímidos no escuro e apareceu a silhueta de
uma mulher saída da floresta. Apesar da escuridão , reconheci-a:
era a Agáfia Agulheira. Indecisa, aproximou-se de nós , parou e
restabeleceu o fôlego . Resfolegava, não por andar muito mas ,
pelos vistos , por causa do medo e da sensação desagradável que
qualquer um experimenta quando anda de noite a vau . Ao ver
junto à cabana dois homens em vez de um, soltou um grito dé­
bil e recuou um passo .
- Ah-ah . . . és tu? - disse Savka, metendo na boca uma pan­
queca.
- Sou ... sou eu - murmurou Agáfia, deixando cair no chão
uma trouxa e olhando de soslaio para mim. - O lákov manda
vénias para vossa mercê e disse para eu lhe entregar . . . aqui qual­
quer coisa . . .
- Deixa de mentir. . . o lákov ! - sorriu Savka. - Não vale a
pena, o senhor sabe ao que vieste ! Sê bem-vinda, senta-te !
Agáfia voltou a olhar para mim de revés e, indecisa, sentou-se.
- Pensei que já não vinhas hoje . . . - disse Savka depois de
um longo silêncio . - Então , porque estás tão encolhida? Come !
Ou queres um copinho de vodca?
- Essa agora ! - disse Agáfia. - Achas que sou alguma bê­
bada? . . .
40 Anton Tchékhov

- Bebe... Aqueces a alma... Vá lá !


Savka chegou a Agáfia o copinho torto. Ela bebeu devagar e ,
no fim, não fe z boca com nada, apenas soprou com barulho.
- Trouxe qualquer coisa... - continuou Savka, desatando a
trouxa e dando à voz um toque de condescendência e brincadei­
ra. - Uma mulher não pode vir sem trazer qualquer coisa. Ah­
-ah, bolo , batatas... Vivem bem ! - suspirou ele , virando-se
para mim. - Em toda a aldeia, só eles é que têm ainda batatas
desde o Inverno.
Na escuridão eu não via a cara de Agáfia, mas , pelo movi­
mento dos seus ombros e cabeça, parecia-me que não tirava os
olhos da cara de Savka. Para não estar a mais no encontro , de­
cidi ir dar uma volta e levantei-me; mas , no preciso momento
em que me levantava, o rouxinol , na floresta, fez soar duas no­
tas de contralto. Uns segundos depois , tendo feito mais uns sons
breves e altos , experimentando dessa forma a voz , começou a
cantar. Savka levantou-se de rompante e pôs-se à escuta.
- É o de ontem ! - disse ele. - Espera lá, então !...
E , arrancando do lugar, correu em passadas silenciosas para a
floresta.
- O que é que queres dele? - gritei-lhe às costas. - Deixa
lá isso !
Savka abanou a mão - a querer dizer que eu não gritasse -
e desapareceu no escuro. Quando lhe apetecia, Savka era exce­
lente caçador e pescador, mas mesmo nisso os seus talentos , tal
como a sua força, se gastavam em vão. Tinha preguiça de seguir
o estereótipo e dedicava toda a sua paixão de caçador a caçadas
inúteis. Assim, apanhava os rouxinóis obrigatoriamente à mão ,
disparava com chumbo miúdo contra os lúcios do rio , ou , por
vezes , ficava especado na margem horas a fio tentando pescar
com um anzol grande um peixinho pequeno.
Ao ficar a sós comigo , Agáfia tossicou e passou várias vezes
a mão pela testa... O copinho de vodca começava a fazer-lhe
efeito.
Agáfia 41

- Como vai isso , Agacha? - perguntei-lhe depois de uma


longa pausa, quando já estava a tomar-se desconfortável conti­
nuar calado .
- Bem, graças a Deus . . . Por favor, não conte a ninguém, por
favor, meu senhor. . . - acrescentou de repente , num sussurro .
- Fica descansada - acalmei-a. - És muito temerária,
Agacha . . . E se o lákov vem a saber?
- Não há-de saber. . .
- Mas se souber?
- Não . . . Vou chegar a casa antes dele . Ele agora está na li-
nha e só volta a casa quando passar o comboio-correio; e daqui
ouve-se o comboio . . .
Agáfia voltou a passar a mão pela testa e olhou n a direcção
onde tinha desaparecido Savka. O rouxinol continuava a cantar.
Uma ave noctuma voou ao rés da terra e, ao reparar em nós , es­
tremeceu , farfalhou com as asas e dirigiu-se para a outra mar­
gem do rio .
Um pouco depois o rouxinol calou-se , mas Savka não volta­
va. Agáfia levantou-se , deu uns passos inquietos e sentou-se de
novo .
- Mas o que anda ele a fazer? - impacientou-se . - O com­
boio não é para amanhã ! Tenho de me ir embora !
- Savka ! - gritei . - Savka !
Nem o eco me respondeu . Agáfia, preocupada, agitava-se .
Levantou-se de novo .
- Tenho de ir ! - disse , com a comoção na voz . - O com­
boio deve estar � chegar ! Eu sei quando chegam os comboios !
A pobre da mulher não se enganava. Nem um quarto de hora
passara e já se ouvia o barulho longínquo do comboio .
Agáfia pousou um longo olhar na floresta e , impaciente , agi­
tou as mãos .
- Onde é que ele andará? - disse , rindo-se nervosamente .
- Para onde diabo é que ele foi? Vou-me embora ! Juro , senhor,
juro que vou !
42 Anton Tchékhov

Entretanto , o barulho tornava-se cada vez mais nítido . Já era


possível distinguir-se o bater das rodas e os suspiros pesados da
locomotiva. O comboio apitou, logo se ouviu o ruído dos ferros
pela ponte . . . um minuto mais , e tudo se calou . . .
- Espero mais um minuto . . . - suspirou Agáfia, sentando-se
resolutamente. - Ainda fico, está bem!
Por fim, Savka surgiu da escuridão . Com os pés descalços , pi­
sava silenciosamente a terra fofa da horta e cantarolava baixi­
nho .
- Irra, que azar, veja lá! - riu-se alegremente. - Mal me
aproximei do arbusto e mal comecei a chegar a mão, o bicho
calou-se ! Ah, raio de diabo careca! Esperei , esperei , a ver se ele
cantava outra vez, até que desisti . . .
Savka deixou-se cair desajeitadamente no chão ao lado de
Agáfia e , para manter o equilíbrio , agarrou-se com as duas mãos
à cintura dela.
- E tu , porque estás tão carrancuda como se nascesses da
tia? - perguntou .
Savka, com todo o seu coração meigo e toda a sua ingenuida­
de, desprezava as mulheres . Tratava-as com indiferença, com alti­
vez e chegava mesmo a rir-se com desdém dos sentimentos delas
para com ele . Sabe-se lá se um tal trato indiferente e desdenhoso
não seria urna das causas da forte e irresistível atracção que pro­
vocava nas dulcineias aldeãs . Era bonito e esbelto, nos seus olhos ,
mesmo quando olhava para as mulheres que desprezava, luzia
sempre um carinho sereno, mas era impossível explicar um tal
fascínio apenas pelas qualidades do seu aspecto exterior. Além da
aparência feliz e do trato pouco vulgar, também influía por certo
nas mulheres o estatuto de Savka como reconhecido azarento e
pobre desterrado da casa materna para as hortas .
- Conta lá ao senhor para que vieste cá! - continuou Sav­
ka, segurando ainda Agáfia pela cintura. - Conta lá, sua espo­
sa de seu marido ! Ah , ah ! . . . Talvez bebamos ainda mais um
copinho , amiga Agacha?
Agáfia 43

Levantei-me e , passando por entre os canteiros , fui ao longo


da horta. Os canteiros escuros tinham o aspecto de grandes tú­
mulos achatados . Erguia-se deles o cheiro da terra cavada e da
suave humidade das plantas que começavam a cobrir-se de or­
valho . . . À esquerda ainda brilhava a luzinha vermelha. Piscava
com simpatia, parecia sorrir.
Ouvi um riso feliz . Era o riso de Agáfia.
«E o comboio? - lembrei-me . - O comboio há muito que
chegou .»
Depois de ter esperado mais um pouco , voltei à cabana. Sav­
ka estava sentado à turca, imóvel , e cantarolava baixinho , qua­
se indistintamente , uma canção que , pelos vistos , se compunha
apenas de palavras monossilábicas , do género: «Eh , vê só , tu e
eu . . . » Agáfia, embriagada da vodca, do carinho desdenhoso de
Savka e do abafo da noite , estava deitada na terra a seu lado e,
convulsamente , apertava a cara contra o joelho dele . Mergulha­
ra tão profundamente no seu sentimento que nem deu pela mi­
nha chegada.
- Agacha, mas o comboio há muito que chegou ! - disse eu .
- Tens de ir, tens de ir - secundou-me Savka, sacudindo a
cabeça. - Porque te espreguiças aí deitada? Desavergonhada !
Agáfia azafamou-se, tirou a cabeça do joelho dele , olhou
para mim e voltou a agarrar-se a ele .
- Há muito que devias ter ido ! - disse eu .
Agáfia agitou-se , ajoelhou-se num joelho . Sofria . . . Durante
meio minuto, toda a figura dela, tanto quanto me era possível
enxergar na escuridão , exprimia hesitação e luta consigo pró­
pria. Houve um instante em que ela, como se caísse em si , esti­
cou o corpo para se pôr de pé , mas uma implacável e irresistí­
vel força conteve-lhe o corpo e ela voltou a apertar-se contra
Savka.
- Ele que vá para o diabo ! - disse ela com um riso maluco
a sair-lhe do fundo do peito , e soava naquele riso uma ousadia
irreflectida, uma impotência, uma dor. . .
44 Anton Tchékhov

Fui devagar para a floresta e, de lá, desci até ao rio , para o sí­
tio onde estavam os nossos petrechos de pesca. O rio dormia.
Uma flor macia de muitas pétalas e caule alto roçou-me cari­
nhosamente pela cara, como uma criança que quer dar a enten­
der que não dorme . Por não ter mais nada que fazer, peguei nu­
ma linha e puxei-a. Retesou-se um pouco mas logo ficou lassa
- nada tinha mordido . . . Não se via a outra margem nem a al­
deia. Apenas uma luzinha cintilou numa isbá, mas logo se apa­
gou . Sondei o chão da margem , encontrei o buraco que encon­
trara ainda de dia e sentei-me nele como numa poltrona. Fiquei
assim sentado muito tempo . . . Via como as estrelas começavam
a ficar nebulosas e a perder a luminosidade , como a frescura da
noite , qual suspiro levezinho , passava pela terra e tocava as fo­
lhas dos salgueiros a acordarem . . .
- A-gá-fia ! - chegava da aldeia a voz surda de alguém . -
Agáfia!
Era o marido preocupado que voltara e andava pela aldeia à
procura da mulher. Entretanto , ouviam-se nas hortas risos conti­
dos: a mulher esquecera tudo , estava embriagada e, com a feli­
cidade de algumas horas , tentava compensar todo o sofrimento
que a esperava no dia seguinte.
Adormeci .
Quando acordei , Savka estava sentado à minha beira e sacu­
dia-me delicadamente pelo ombro . O rio , a floresta, ambas as
margens verdes e lavadas , as árvores e o campo - tudo se ba­
nhava na brilhante luz matinal . Através dos troncos finos das ár­
vores , os raios finos do sol acabado de nascer vinham bater-me
nas costas .
- É assim que o senhor pesca? - sorriu Savka. - Levante-se !
Levantei-me , espreguicei-me com prazer, e o meu peito des­
perto começou a beber avidamente o ar húmido e fragrante .
- A Agacha foi-se embora? - perguntei .
- Olhe-a ali - e Savka apontou para o lado onde se podia
passar o rio a vau .
Agáfia 45

Olhei e vi Agáfia. Arregaçando o vestido , com o cabelo des­


grenhado e o lenço a deslizar-lhe da cabeça, atravessava o rio .
Parecia que as pernas dela mal se mexiam
- Roubada a bocada, a gata bem sabe que é culpada ! -
murmurou Savka, estreitando os olhos . - Lá vai ela com o ra­
bo entre as pernas . . . Estas mulheres são matreiras como gatas
e assustadiças como lebres . . . Não se quis embora, a parva, co­
mo lhe disseram ! Agora vai levar uma sova, e a mim . . . também
vão dar uma açoitada valente na polícia por causa das mulhe­
res . . .
Agáfia saiu para a margem e, através do campo , dirigiu-se
para a aldeia. A princípio caminhava com bastante firmeza, mas
rapidamente os nervos e o medo lhe levaram a melhor sobre
a firmeza: olhava para trás , assustada, parava para recuperar o
fôlego .
- Pois , é medonho ! - sorria Savka tristemente , olhando
para a risca verde-viva que se formava nas ervas orvalhadas à
passagem de Agáfia. - Não deve ter muita vontade de ir !
O marido já deve estar à espera dela há mais de uma hora . . .
O senhor não está a vê-lo além?
Foi a sorrir que Savka proferiu estas últimas palavras , mas eu
senti frio no coração . Na aldeia, junto à última isbá à beira do
caminho , estava parado lákov, olhando com fixidez para a mu­
lher que voltava. Não se mexia, estava imóvel como um poste .
O que estaria a pensar olhando assim para ela? Que palavras lhe
preparava para o regresso? Agáfia parou mais um pouco , olhou
de novo para trás , como se esperasse a nossa ajuda, e seguiu .
Nunca na vida vi um andar assim, quer em bêbados quer em só­
brios . Agáfia, sob o olhar do marido , parecia agitar-se em con­
vulsões . Ora andava aos ziguezagues , ora marcava passo , do­
brando os joelhos e abrindo os braços , ora recuava. A cerca de
cem passos , olhou mais uma vez para trás e sentou-se .
- Ao menos escondias-te atrás dos arbustos . . . - disse eu a
Savka. - Deus te valha se o marido te vê . . .
46 Anton Tchékhov

- Ele já sabe das mãos de quem volta a sua Agachka . . . As


mulheres não vão à horta de noite para buscar repolhos . . . toda a
gente sabe .
Olhei para a cara de Savka. Estava pálida e franzia-se naquela
careta de piedade enojada que as pessoas sentem quando vêem
animais a ser torturados .
- Riso para o gato , lágrimas para o rato . . . - suspirou ele .
Agáfia, de repente , saltou do lugar, sacudiu a cabeça e avan­
çou para o marido com um olhar arrojado . Pelos vistos , juntara
as suas forças e decidira-se .
GRICHA

Gricha4, rapazinho pequeno e rechonchudo , nascido há dois


anos e oito meses , passeia pelo bulevar com a sua ama. Tem
uma capinha comprida forrada de algodão , um cachecol , um
grande gorro com borla felpuda e galochas quentes . Tem muito
calor, sente-se abafado e , ainda por cima, o desabrochado sol de
Abril bate-lhe nos olhos e belisca-lhe as pálpebras .
Toda a sua figurinha desajeitada, de andar tímido e inseguro ,
exprime uma perplexidade extrema.
Até este dia, Gricha conhecia apenas o mundo quadrangular:
num canto a sua cama, noutro a arca da ama-seca, no terceiro a
cadeira, no quarto a lamparina. Olhando para debaixo da cama
vê-se um boneco com um braço partido e um tambor e , atrás da
arca da ama, coisas díspares: um carretel já sem linha, papeli­
nhos , uma caixa sem tampa, um palhaço estragado . Neste mun­
do , além da ama e de Gricha, aparecem muitas vezes a mamã e
a gata. A mamã parece-se com uma boneca, e a gata com a pe­
liça do papá, só que a peliça não tem olhos nem rabo . Deste
mundo a que chamam «O quarto da criança» há uma porta que
dá para o espaço onde almoçam e tomam chá. Aqui , está a ca­
deira de Gricha com pernas compridas e um relógio de parede

4 Diminutivo de Grigóri . (N. T.)


48 Anton Tchékhov

que existe para abanar o pêndulo e tocar. Da sala de jantar pode­


-se passar para outra onde há poltronas vermelhas . Aqui , no ta­
pete , há uma nódoa e, até agora, ainda ameaçam Gricha com o
dedo por causa dela. Pegada a esta sala há mais uma, onde não
o deixam entrar e onde se entrevê o papá - uma personalidade
extremamente enigmática ! A ama e a mamã são compreensí­
veis: vestem o Gricha, dão-lhe de comer e deitam-no na cama;
mas por que raio existe o papá, isso já não se sabe . Existe mais
uma personalidade enigmática: a tia que ofereceu a Gricha o
tambor. Aparece e desaparece . Desaparece para onde? Gricha
espreitava muitas vezes para debaixo da cama, para trás da arca
e para debaixo do divã, mas ela não estava lá . . .
Ora, neste mundo novo onde o sol fere o s olhos , h á tantos pa­
pás , mamãs e tias que não se sabe para quem correr. Mas os
mais estranhos e absurdos são os cavalos . Gricha olha para as
suas patas andantes e não percebe nada. Olha para a ama para
que esta lhe resolva o problema, mas a ama continua calada.
De repente , ouve um bater de pés terrível . . . Marchando a
compasso , avança contra ele pelo bulevar uma chusma de sol­
dados com as caras vermelhas e os ramos do banho5 debaixo do
braço . Gricha fica gelado de medo e olha interrogativamente
para a ama: aquilo não será perigoso? A ama não foge nem cho­
ra, logo não há perigo . Gricha olha para a traseira da massa de
soldados e põe-se também a marchar ao ritmo deles .
Correm através do bulevar duas gatas grandes com o s foci­
nhos compridos , as línguas de fora e os rabos espetados para
cima. Gricha acha que também tem de correr e corre atrás das
gatas .
- Alto ! - grita-lhe a ama, agarrando-o com brusquidão
pelo ombro . - Aonde pensas que vais? Quem te autorizou a fa­
zeres traquinices?

5 Feixes de ramos com que as pessoas se fustigam umas às ou tras nos banhos rus­
sos (uma espécie de massagem) . (N. T.)
Gricha 49

Sentada ao pé de uma pequena selha cheia de laranjas está


uma ama qualquer. Gricha, ao passar por ela, tira uma laranja
para si.
- O que estás a fazer? - grita a sua acompanhante , dá-lhe
uma palmada na mão e tira-lhe a laranja. - Parvo !
Agora, Gricha apanharia do chão , com grande prazer, um bo­
cado de vidro que vê a seus pés e que brilha como a lamparina;
mas tem medo de que lhe voltem a bater na mão .
- Os nossos respeitos ! - ouve Gricha de repente , quase por
cima do seu ouvido , dito numa voz alta e espessa e vê um ho­
mem alto com botões reluzentes .
Para grande prazer de Gricha, o homem estende a mão para a
ama, pára ao lado dela e começa a conversar. O brilho do sol , o
barulho das carruagens, os cavalos, os botões reluzentes - tu­
do isso é tão impressionantemente novo para ele , e nada assus­
tador, que a alma de Gricha se enche de alegria e Gricha come­
ça a rir.
- Vamos ! Vamos ! - grita para o homem dos botões relu-
zentes , puxando-lhe pela aba do casaco .
- Vamos aonde? - pergunta o homem.
- Vamos ! - insiste Gricha.
Gricha gostaria de lhes dizer que não seria mau levarem com
eles também o papá, a mamã e a gata, mas a língua de Gricha
nunca diz o que é preciso .
Um pouco mais tarde , a ama desvia-se do bulevar e leva Gri­
cha para um pátio grande onde ainda há neve . O homem dos bo­
tões reluzentes , atrás deles , também vai . Contornam com cuida­
do os charcos e os grandes bocados de neve dura, depois sobem
uma escada suja e escura e entram num quarto . Aqui há muito
fumo , cheira a carne assada e uma cozinheira está diante do fo­
gão a fritar almôndegas . A cozinheira e a ama beijam-se e
sentam-se no banco com o homem e começam a falar baixinho .
Gricha, de tão agasalhado , sente um calor e um sufoco insupor­
táveis .
50 Anton Tchékhov

«Porque será?» , pensa ele, olhando em volta.


Vê um tecto escuro, a tenaz � cavalinho com dois cornos - ,
o grande buraco negro do fogão a olhar para ele . . .
- M aaarnã ! - chama ele .
- Ai , ai , ai ! - grita a ama. - Esperas !
A cozinheira põe na mesa uma garrafa, dois cálices e um
bolo . As duas mulheres e o homem dos botões reluzentes brin­
dam e bebem várias vezes , e o homem ora abraça a ama, ora
abraça a cozinheira. Depois , começam os três a cantar baixinho .
Gricha estende a mão para o bolo , dão-lhe um bocadinho .
Come e observa como a ama bebe . . . Também quer beber.
- Dá! Ama, dá! - pede ele .
A cozinheira deixa-o dar um gole do seu cálice. Gricha esbu­
galha os olhos , franze a cara. Tosse e depois abana muito as
mãos. A cozinheira olha para ele e ri-se .
De volta a casa. Gricha põe-se a contar à mamã, às paredes e
à gata onde esteve e o que viu. Fala menos com a língua do que
com a cara e as mãos . Mostra como brilhava o sol , como cor­
riam os cavalos, como o fogão pavoroso olhava para ele e como
a cozinheira bebia.
À noite , não havia meio de adormecer. Os soldados com os
ramos, as gatas grandes , os cavalos , o vidrinho, a selha com la­
ranjas , os botões reluzentes amalgamavam-se num bloco e
oprimiam-lhe a cabecinha. Dava voltas na cama, falava pelos
cotovelos e, por fim, não aguentando mais tanta excitação , co­
meçou a chorar.
- Tens febre ! - diz a mamã, apalpando-lhe a testa.
O que poderia ser?
- Fogão ! - chora Gricha. - Vai-te embora, fogão !
- Às tantas comeu demais . . . - conclui a mamã.
E Gricha, a extravasar das emoções da vida nova que há
pouco experimentara, recebe da mãe uma colher de óleo de
rícino .
UM TALENTO

O pintor Egor Sávvitch , que vive na casa de campo da viúva


de um oficial subalterno , está sentado na cama e entrega-se à
melancolia matinal . Lá fora, aproxima-se o Outono . As nuvens
pesadas e deselegantes atulham o céu , camada em cima de ca­
mada; sopra um vento frio , penetrante , e as árvores , num choro
lamentoso , inclinam-se todas para um lado , As folhas amarelas
rodopiam no ar e pelo chão . Adeus , Verão ! Esta aflição da natu­
reza, quando vista pelo olho do artista, é de certo modo bela e
poética, mas Egor Sávvitch não está para belezas . Devora-o o
tédio , a única coisa que lhe dá consolo é que amanhã já não es­
tará nesta casa de campo . A cama, as cadeiras , a mesa, o chão
- tudo atulhado de almofadas , cobertores amarrotados , cestos.
O chão não foi varrido , das janelas foram arrancadas as cortinas
de chita. Amanhã muda-se para a cidade !
A viúva dona da casa não está. Foi a qualquer lado arranjar
carroças para amanhã . A filha dela, Kátia, rapariga de vinte
anos , aproveitando a ausência da mãezinha rigorosa, há mui­
to que está no quarto do jovem pintor. Como ele se vai ama­
nhã embora, Kátia tem muita coisa para lhe dizer. Fala, fala e
sente que nem lhe disse ainda uma décima parte do que tem
para lhe dizer. Com os olhos marejados de lágrimas , olha
para a cabeça cabeluda do pintor, e é de tristeza e admiração
52 Anton Tchékhov

o seu olhar. Ele é peludo até à monstruosidade , até ao anima­


lesco . O cabelo chega-lhe às omoplatas , a barba cresce-lhe a
partir da base do pescoço , os pêlos tapam-lhe as narinas e as
orelhas , os olhos escondem-se-lhe atrás dos tufos espessos e
hirsutos das sobrancelhas . A pelagem é nele tão espessa e
emaranhada que , se entrar nela uma mosca ou uma barata já
não saem daquela selva até à consumação dos séculos . Egor
Sávvitch ouve Kátia, boceja. Está cansado . Quando Kátia
começa a soluçar, olha sorumbaticamente para ela através do
sobrolho hirsuto , carrega o dito e diz na sua voz de baixo
espesso e grave :
- Não posso casar-me .
- Porquê? - pergunta Kátia baixinho .
- Porque um pintor, no geral , um homem que vive com a ar-
te , não pode casar-se . O artista tem de ser livre .
- Mas , Egor Sávvitch , em que o estorvaria eu?
- Não falo de mim, falo em geral . . . Os escritores e os pinto-
res célebres nunca se casam .
- Eu compreendo perfeitamente que o senhor também há-de
ser célebre , mas veja também a minha situação . Tenho medo da
mãezinha . . . É severa e irritadiça. Quando souber que o senhor
não vai casar-se comigo , que isto não era a sério . . . faz-me a vi­
da negra. Oh , desgraçada de mim ! Ainda por cima, o senhor não
lhe tem pago o aluguer.
- Eu pago , que se amole . . .
Egor Sávvitch levanta-se e começa a andar para trás e para
diante .
- Ir ao estrangeiro , isso era óptimo ! - diz ele .
E o pintor explica que não há nada mais fácil do que ir ao es­
trangeiro . Basta pintar um quadro e vendê-lo .
- É claro ! - concorda Kátia. - Então , porque não pintou
um no Verão?
- Mas como posso eu trabalhar nesta barraca! - diz o pin­
tor com desgosto . - E onde arranjava aqui os modelos?
Um Talento 53

Em baixo , a porta bate furiosamente . Kátia, que esperava a


todo o momento a chegada da mãe , foge . O artista fica sozinho .
Durante muito tempo , anda de um canto para o outro , contor­
nando as cadeiras e os montes de tralha. Ouve o barulho da viú­
va a mexer na loiça e a descompor em voz alta uns mujiques
quaisquer que lhe pediam dois rublos por cada carroça. Triste ,
Egor Sávvitch pára em frente do aparador e , carrancudo , olha
demoradamente para o jarro de vodca.
- Ah, raios te partissem ! - ouve ele a viúva que se atira a
Kátia. - Não há um diabo que te leve para eu me ver livre
de ti !
O artista bebe um copo , as trevas vão-se-lhe desanuviando da
alma a pouco e pouco, na sua barriga instala-se uma sensação
que lhe parece fazer sorrir as entranhas . Começa a sonhar. . . Ima­
gina que se toma uma celebridade . É incapaz de idealizar as
suas futuras obras , mas imagina claramente como falam dele os
jornais , como se vendem fotografias suas nas lojas , como os
seus colegas o olham com inveja. Tenta imaginar-se numa rica
sala de estar, rodeado por admiradoras bonitas , mas , neste par­
ticular, a imaginação pinta-lhe um cenário nebuloso e vago por­
que nunca na vida se viu numa sala de estar rica; pensar nas ad­
miradoras bonitas também não resulta porque , além de Kátia,
nunca viu na vida qualquer admiradora ou qualquer menina da
alta. Quem não conhece a vida costuma imaginá-la pelos livros ,
mas Egor Sávvitch também não conhecia livros; uma vez quis
ler Gógol mas adormeceu na segunda página . . .
- Não acende , este maldito ! - berra a viúva no andar de
baixo , atarefando-se com o samovar. - Katka, chega-me as
brasas !
O artista sonhador sente a necessidade de partilhar com al­
guém as suas esperanças e sonhos . Desce à cozinha onde , no
meio do fumo do samovar, ao lado do fogão escuro , se atarefam
a gorda viúva e Kátia. Aqui , o artista senta-se no banco junto a
um pote grande e começa:
54 Anton Tchékhov

- É bom ser artista ! Vou para onde quero , faço o que quero .
Não preciso de ir ao serviço , não preciso de lavrar a terra . . . Não
tenho chefes nem superiores . . . Sou eu o meu próprio chefe . E ,
n o entanto , sou útil para a humanidade !
Depois do almoço , deita-se a «descansar» . Normalmente , faz
sestas até ao crepúsculo mas , desta vez , pouco tempo passava da
hora do almoço quando sentiu que alguém lhe puxava pela per­
na e, rindo , gritava o seu nome . Abre os olhos e vê o seu colega
Ukléikin , um paisagista que tinha ido passar todo o Verão à pro­
víncia de Kostromá.
- Ena ! - alegra-se ele . - Olha quem cá está !
Começam os apertos de mãos , as perguntas .
- Então , trouxeste alguma coisa? Não menos de uma cente­
na de esboços , não? - diz Egor Sávvitch ao ver Ukléikin a ti­
rar a sua tralha da mala.
- Pois . . . Fiz umas coisinhas . . . E tu? . . . Pintaste alguma coisa?
Egor Sávvitch estica-se para trás da cama e, todo vermelho ,
tira de lá uma tela presa numa grade , toda coberta de pó e de
teias de aranha.
- Aqui está . . . «Rapariga à janela depois de se despedir do
noivo» . . . - diz ele . - Fi-lo em três sessões, mas ainda está lon­
ge do acabamento .
O quadro representa Kátia em pinceladas primárias , sentada
a uma janela aberta; para lá da janela há um canteiro e um hori­
zonte lilás . Ukléikin não gosta.
- Humm . . . Muito ar e . . . há uma certa expressividade - diz
ele . - Sente-se o espaço mas . . . este arbusto berra . . . Berra de­
mais !
Surge em cena o jarro de vodca.
Ao princípio da noite visita Egor Sávvitch o seu colega e vi­
zinho de casa de campo Kostiliov, pintor de temas históricos , ra­
paz de uns trinta e cinco anos , também principiante e promete­
dor. Tem cabelo comprido , usa blusa e colarinhos à Shakespeare ,
arvora um ar de dignidade . Ao ver a vodca, franze a cara, queixa-
Um Talento 55

-se do peito doente mas , acedendo aos pedidos dos colegas , em­
borca um copo.
- Tenho um tema em mente . . . - diz ele, começando já a fi­
car embriagado. - Está a apetecer-me pintar um Nero . . . um
Herodes , um Clepentiano6 ou outro velhaco qualquer do géne­
ro, estão a ver. . . e contrapor-lhe a ideia do cristianismo . De um
lado, Roma, do outro o cristianismo , estão a ver. . . Apetece-me
pintar o espírito . . . estão a ver? O espírito !
Em baixo , a viúva grita a cada instante:
- Kátia, traz pepinos ! Vai ao Sídorov, calaceira, traz kvass1 !
Os três colegas rodam pelo quarto como lobos na j aula. Fa-
lam sem parar, falam sinceramente , com ardor; estão todos os
três excitados , inspirados . Quem os ouvisse imaginaria que é
nas mãos deles que está o futuro, a fama, o dinheiro . E a ne­
nhum deles passa pela cabeça que o tempo corre , que a vida se
aproxima do seu ocaso a cada dia que passa, que cada um já co­
mera muito pão alheio e nada fizera; que todos os três são víti­
mas daquela lei implacável segundo a qual entre uma centena de
debutantes prometedores apenas dois ou três se tomam alguém
e que todos os outros ficam de fora, perecem, tendo desempe­
nhado um mero papel de carne para canhão . . . estão animados ,
felizes e olham com destemor para o futuro !
Por volta das duas da madrugada Kostiliov despede-se e, ajei­
tando os seus colarinhos à Shakespeare, vai para casa. O paisagis­
ta fica a dormir no quarto do pintor de género. Antes de se deitar,
Egor Sávvitch pega na vela e vai à cozinha beber água. No corre­
dor estreitinho e escuro está Kátia sentada na arca, com as mãos
nos joelhos , olhando para cima a vê-lo descer. Na cara extenuada
e pálida paira-lhe um sorriso deliciado, brilham-lhe os olhos ...
- És tu? Em que estás a pensar? - pergunta-lhe Egor Sáv­
vitch .

6 Nome inventado, por analogia com Vespasiano , Justiniano , etc . (N. T.)
7 Bebida refrescante feita à base de pão de centeio fermentado em água. (N. T.)
56 Anton Tchékhov

- Estou a pensar na celebridade que o senhor vai ser . . . - diz


ela num meio sussurro . - Não paro de imaginar o grande ho­
mem em que se vai tomar. . . Estive a ouvir a vossa conversa
toda . . . Estou a sonhar. . . a sonhar. . .
Kátia desata num riso feliz , depois chora e, com veneração ,
pousa as mãos nos ombros da sua divindade .
UM CASO SEM IMPORTÂNCIA

A meio de um dia soalheiro de Agosto , eu , na companhia de


um principezeco russo arruinado, cheguei ao enorme bosque ,
chamado de Chabélski , onde planeávamos caçar perdizes . O meu
principezeco , dado o papel que desempenha neste conto , talvez
mereça uma descrição pormenorizada. É um homem moreno ,
alto e esbelto , que ainda não é velho mas já está muito gasto pe­
la vida; usa bigode comprido à chefe da polícia, tem uns olhos
negros proeminentes e o feitio de um oficial na reserva. É um
homem de vistas curtas , à maneira asiática, mas honesto e fron­
tal , não é espadachim, nem exibicionista, nem estróina - qua­
lidades que , aos olhos do público , lhe obtêm um diploma de in­
sipidez e insignificância. O público não o apreciava (no distrito
não lhe chamavam de outro modo que «sua alteza o pateta»);
ora, eu tinha grande simpatia por ele em virtude dos azares e in­
fortúnios de que se compunha, sem interrupções , a sua vida. An­
tes de mais , era pobre . Não jogava às cartas , não se metia em
pândegas , não tinha qualquer ocupação , não metia o nariz em
nada e estava permanentemente calado; mesmo assim , sabia-se
lá como , tinha conseguido desbaratar trinta ou quarenta mil
rublos que herdara do pai . Só Deus sabe onde se sumiu esse di­
nheiro; sei apenas que , graças à falta de controlo , uma boa par­
te foi roubada pelos administradores , feitores e mesmo lacaios ,
58 Anton Tchékhov

e outra parte foi para empréstimos , esmolas e fianças . Era raro


o proprietário do distrito que não fosse seu devedor. Passava di­
nheiro para as mãos de todos os que lho pediam, não tanto por
bondade ou pela confiança que tinha nas pessoas , mas por pose
afectada de gentil-homem: toma lá e vê quanto eu sou comme il
faut! Conheci-o quando ele próprio já estava atolado em dívi­
das , já experimentara o sabor das segundas hipotecas e já ficara
envencilhado até à impossibilidade de se desenvencilhar. Havia
dias em que não almoçava e andava com a cigarreira vazia, mas
viam-no sempre asseado , vestido à moda e emanando um chei­
ro forte a ylang-ylang .
A segunda desgraça do príncipe era a sua solidão absoluta.
Não era casado , não tinha famHia, não tinha amigos . O seu ca­
rácter taciturno e fechado e a sua tendência para ser comme il
faut (tendência que se ia tomando tanto mais relevante quanto
mais queria esconder a sua pobreza) impediam-no de fazer ami­
zades . Para o romance era de feitio difícil , mole e frio, por isso
raramente tinha casos com mulheres . . .
Chegados à floresta, eu e o príncipe saímos da carruagem e
metemos por uma estreita vereda florestal escondida na sombra
de fetos enormes . Mas não tínhamos dado ainda cem passos
quando de trás dos abetos novos , de apenas um côvado de altu­
ra, se ergueu , como se nascesse da terra, uma figura esgrouvia­
da e mirrada, de cara oblonga, casaco no fio , chapéu de palha e
botas à frederica envernizadas . Uma mão do desconhecido se­
gurava o cesto dos cogumelos , a outra brincava dengosamente
com um fio barato pendurado do colete . Ao ver-nos ficou con­
fuso , ajeitou o colete , tossicou educadamente e sorriu com ama­
bilidade , como se fosse para ele um grande prazer encontrar
gente tão boa como nós . Depois , para nossa perfeita surpresa,
arrastando os pés pelas ervas , torcendo todo o seu corpo perni­
longo e sem parar de sorrir amavelmente , o homem aproximou­
-se de nós , levantou ligeiramente o chapéu e pronunciou numa
voz melíflua em que se detectava a entoação de um cão a uivar:
Um Caso sem Importância 59

- Eh , eh, eh ... meus ricos senhores , tenho muita pena mas de­
vo avisá-los que é proibido caçar nesta floresta. Peço desculpa
por, sem me ter apresentado , me atrever a incomodá-los , mas . . .
permitam que me apresente: Grontóvski , chefe do escritório da
administração da propriedade da senhora Kandúrina !
- Muito prazer, mas porque não se pode caçar?
- É esta a vontade da proprietária da floresta !
Eu e o príncipe olhámos um para o outro . Passou-se um mi­
nuto em silêncio . O príncipe , pensativo , observava, a seus pés ,
uma grande amanita derrubada com a bengala. Grontóvski con­
tinuava a sorrir amavelmente . Toda a sua cara piscava, vertia
mel , o próprio fio do seu colete parecia sorrir e tentar impres­
sionar-nos com a sua delicadeza. Pairava no ar a confusão: to­
dos os três nos sentíamos envergonhados .
- Disparate ! - disse eu . - Ainda na semana passada cacei
aqui .
- É muito possível ! - soltou Grontóvski uns risinhos , entre
dentes . - De facto , toda a gente caça aqui , apesar da proibição ,
mas uma vez que encontrei os senhores , é minha obrigação . . . é
meu dever sagrado avisá-los . Sou um homem dependente . Se a
floresta fosse minha, dou-lhes a minha palavra de honra de
Grontóvski que não poria obstáculos ao delicioso divertimento
de vossas senhorias . Mas quem tem culpa de que o Grontóvski
seja dependente?
O esgrouviado suspirou e encolheu os ombros . Comecei a
discutir, a exaltar-me , a argumentar, mas quanto mais alto eu fa­
lava mais melíflua se tomava a cara de Grontóvski . Por certo , a
consciência daquele pequeno poder sobre nós dava-lhe um
grandioso prazer. Via-se que se deliciava com o seu próprio tom
condescendente e que punha um sentimento especial na manei­
ra como pronunciava o seu nome sonante que , pelos vistos , ado­
rava. Especado à nossa frente , sentia-se mais do que à vontade .
Apenas uma coisa lhe estragava um pouco o estado de ânimo , a
julgar pelas miradas de esconso , confusas , que deitava ao cesto:
60 Anton Tchékhov

os cogumelos , essa prosa campónia, aldeã, beliscavam a sua


grandeza.
- Mas não podemos voltar assim para trás ! - disse eu . -
Fizemos quinze verstás até aqui !
- Nada a fazer ! - suspirou Grontóvski . - Nem que não fos­
sem quinze, mas cem mil verstás , nem que fosse um rei vindo da
América ou de qualquer outro país longínquo , eu consideraria
meu dever . . . minha, por assim dizer, obrigação sagrada . . .
- Esta floresta pertence a Nadejda Lvovna? - perguntou o
príncipe .
- Exactamente , a Nadejda Lvovna . . .
- Ela está e m casa agora?
- Está . . . Os senhores , nesse caso , poderiam fazer-lhe uma
visita . . . é a meia verstá daqui , não mais . . . Se ela lhes passar um
bilhetinho , então eu . . . é claro ! Ah , ah ! Hi , hi , hi !
- Pois, pode ser - concordei . - É muito mais perto ir ter
com ela do que voltar para casa. Vá falar com ela, Serguei Ivá­
nitch - disse eu ao príncipe - , já que a conhece .
O príncipe , que não parara de olhar para a amanita, ergueu os
olhos para mim, pensou e disse:
- .Em tempos conheci-a mas . . . não é muito conveniente que
eu vá falar com ela. Além disso , estou mal vestido . . . Vá o se­
nhor, porque não a conhece . . . É mais conveniente .
Concordei . Entrámos no charabã e, acompanhados pelos sorri­
sos de Grontóvski , seguimos ao longo da orla da floresta até à ca­
sa senhorial . Eu nunca tinha sido apresentado a Nadejda Lvovna
Kandúrina, Chabélskaia em solteira, nunca sequer a tinha visto e
apenas ouvira falar dela. Sabia que a senhora era irremediavel­
mente rica, a pessoa mais rica de toda a nossa província . . . Com a
morte do pai , o latifundiário Chabélski, como era filha única her­
dou várias propriedades , uma coudelaria e muito dinheiro . Ouvi­
ra eu dizer que, apesar dos seus vinte e cinco ou vinte e seis anos ,
era desengraçada, insossa, insignificante, apenas se destacando
das outras senhoras do distrito pela sua enorme fortuna.
Um Caso sem Importância 61

Sempre me pareceu que as pessoas sentem consoante a sua ri­


queza e que os ricos devem ser dotados de um sentimento espe­
cial desconhecido dos pobres . Muitas vezes , ao passar ao longo
do grande jardim de Nadejda Lvovna no meio do qual se erguia
o enorme palacete com as janelas sempre tapadas por cortinas ,
eu pensava: «Ü que sentirá ela neste momento? Lá, por trás da­
queles estores, haverá felicidade?» , etc . Uma ocasião vi-a, de
longe , quando ela voltava de qualquer lado num bonito e leve­
zinho cabriolé puxado por um magnífico cavalo branco , e -
confesso o meu pecado - não só tive inveja dela como ainda
pensei que no seu porte , nos seus gestos havia qualquer coisa de
especial que não existia nas pessoas pouco abastadas , à seme­
lhança do que acontece com os indivíduos servis por natureza
que , ao depararem com certas pessoas de aspecto banal , mas
mais nobres do que eles , conseguem sentir à primeira vista a ra­
ça que há nessas pessoas . Eu apenas conhecia a vida pessoal de
Nadejda Lvovna pela via dos boatos . Dizia-se no distrito que ,
uns cinco ou seis anos atrás , ainda antes do seu casamento e de
o pai morrer, ela estava loucamente apaixonada pelo príncipe
Serguei Ivánitch , o mesmo que neste momento se sentava a meu
lado no charabã. O príncipe gostava de visitar o velho e , às ve­
zes , passava o dia inteiro na sua sala de bilhar onde , estoica­
mente , até às dores nas mãos e nos pés , jogava à pirâmide; de
repente , porém, meio ano antes da morte do velho , deixou de vi­
sitar os Chabélski . A mexeriquice distrital , sem apresentar
quaisquer dados concretos , explicava esta mudança brusca de
várias maneiras . Alguns diziam que o príncipe , ao reparar no
sentimento que despertara na desengraçada Nádenka e incapaz
de lhe corresponder, considerou seu dever, como homem de
bem, cessar tais visitas; outros afirmavam que o velho Chabéls­
ki, ao saber da razão por que a sua filha se mirrava, sugerira ao
príncipe pobre que casasse com ela, mas o príncipe , por ser de
espírito comezinho, teria imaginado que o queriam comprar
juntamente com o seu título e ter-se-ia indignado , proferindo
62 Anton Tchékhov

um rol de disparates e zangando-se com o velho . É difícil de di­


zer, no meio destas patacoadas , o que é verdade e o que é men­
tira, mas que havia nisto uma ponta de verdade via-se pelo
facto de o príncipe evitar sempre as conversas sobre Nadejda
Lvovna.
Sei que , depois da morte do pai , Nadejda Lvovna se casou
com um tal Kandúrin , um mestre em Direito vindo de fora, ho­
mem nada rico mas esperto . Nadejda Lvovna não casou por
amor mas por a ter comovido o amor do mestre jurista, o qual ,
segundo dizem, soube desempenhar na excelência o papel de
apaixonado . No presente momento da minha descrição , Kandú­
rin , o marido , vivia por qualquer razão no Cairo e escrevia de lá
a um seu amigo , o decano da nobreza do distrito , «apontamen­
tos de viagem» , enquanto ela, rodeada de comensais parasitas ,
se entediava por trás dos estores descidos e dedicava os seus
dias enfadonhos à pequena filantropia.
A caminho da herdade , o príncipe tomou-se mais loquaz .
- Há já três dias que não vou a casa - disse num meio sus­
surro , olhando de soslaio para o cocheiro . - Coisa curiosa: sou
adulto , não sou mulher e não tenho preconceitos , mas não su­
porto oficiais de diligências . Quando vejo em minha casa um
oficial de diligências , fico todo a tremer, pálido , e até tenho cãi­
bras nas barri gas das pernas . Sabe , o Rogójin protestou a minha
letra !
O príncipe , de uma maneira geral , não gostava de se queixar
das circunstâncias difíceis ; quando se tratava da sua penúria, era
fechado , de um amor-próprio e de uns escrúpulos exagerados ,
por isso as palavras dele surpreenderam-me . Olhou demorada­
mente para a clareira amarela aquecida pelo sol , seguiu com os
olhos um bando de grous que nadavam no céu lazúli e voltou­
-se para mim .
- Ora, a 6 de Setembro tenho de ter dinheiro disponível
para pagar ao banco . . . os juros da hipoteca da herdade ! - disse
em voz alta, já sem vergonha da presença do cocheiro . - Mas
Um Caso sem Importância 63

onde vou arranjá-lo? Isso , paizinho , de uma maneira geral , é di­


fícil ! Ui , ui , bem difícil !
O príncipe examinou os cães da sua arma e , sabe-se lá por­
quê , soprou-lhes para cima; depois pôs-se a procurar com os
olhos os grous que perdera de vista.
- Serguei Ivánitch - perguntei-lhe passado um minuto - ,
se , digamos, a sua Chatílovka for penhorada, o que vai fazer?
- Eu? Não sei ! Que vou perder Chatílovka, isso é tão certo
como dois e dois serem quatro , mas nem posso imaginar uma
tal desgraça. Não posso imaginar-me sem uma fatia de pão ao
meu dispor. O que vou fazer? Sei lá. Não tenho instrução qua­
se nenhuma, nunca tentei trabalhar, para entrar no serviço pú­
blico já é tarde . . . Além disso , onde poderia eu servir? Onde po­
deria ser útil? Digamos que não é exigida uma grande arte para
o serviço , e eu podia, nem que fosse aqui , na administração ru­
ral . . . mas eu tenho . . . sei lá, um acanhamento qualquer, enfim,
não tenho um pataco de coragem . Entro para o serviço e vai
parecer-me sempre que ocupo um lugar que não mereço . Não
sou idealista, não sou utopista nem fanático de nenhum princí­
pio em especial , mas , pelos vistos , sou simplesmente parvo e
tenho uma grande pancada na cabeça. Sou um psicopata e um
cobardolas . Enfim , não sou uma pessoa normal . Cada um é co­
mo cada qual , só que eu represento qualquer coisa . . . sei lá . . . Na
quarta-feira encontrei o Nariáguin . O senhor conhece-o: um
bêbado , desleixado . . . não paga as dívidas , aparvalhado (o prín­
cipe franziu a cara e sacudiu a cabeça) . . . um sujeito horrível !
Vem ter comigo a cambalear e diz-me: «Estou a candidatar-me
a juiz de paz ! » É claro que não vai ser eleito , mas o problema
é que ele acredita que daria um bom juiz de paz , que tem capa­
cidades para isso . Ousadia e confiança não lhe faltam . Passei
também por casa do nosso juiz de instrução . Esse recebe du­
zentos e cinquenta rublos por mês mas não faz quase nada
para além de andar todo o dia de um canto ao outro do seu
quarto em roupa interior, mas fale com ele: está muito conven-
64 Anton Tchékhov

cido de que trabalha, de que cumpre honestamente o seu dever.


Eu , assim , não era capaz ! Teria vergonha de olhar o tesoureiro
nos olhos .
Neste momento ultrapassou-nos com ostentação o Grontóvs­
ki , montado num cavalinho ruço . Do braço direito pendia-lhe o
cesto em que saltitavam boletos «pão-de-ló» . Ao passar por nós
arreganhou os dentes e fez-nos um gesto familiar com a mãozi­
nha como a conhecidos de longa data.
- Imbecil ! - disse o príncipe entre dentes , olhando-lhe
para as costas . - É espantoso como , às vezes, nos abomina
olharmos para estas fisionomias satisfeitas . É um sentimento es-
túpido , animalesco . . . acho que é da fome . . . Onde é que eu ia?
Ah , sim, o serviço . . . Eu teria vergonha de receber o vencimen-
to , é verdade , mas acho que , no fundo , isso é uma estupidez . Se
virmos as coisas de uma forma mais ampla, mais séria, na ver­
dade eu , agora, também como um pão que não é meu . Não é?
Mas , vá-se lá saber porquê , não tenho vergonha disso . . . Talvez
seja por hábito . . . ou por incapacidade de reflectir profundamen­
te na minha situação . . . Ora, esta minha situação tem todo o as­
pecto de ser, pelo menos, terrível !
Olhei para o príncipe: não estaria a exibir-se? Mas a cara
dele estava serena e os seus olhos seguiam tristemente a anda­
dura do cavalinho ruço que se afastava, como se , juntamente
com ele , se afastasse a felicidade .
Caíra por certo naquele estado de irritação e tristeza em que
as mulheres choram silenciosamente e sem motivo e os homens
sentem a necessidade de se queixarem da vida, de si mesmos , de
Deus . . .
Ao portão , quando eu me apeava do charabã, o príncipe ainda
disse:
- Uma ocasião , um senhor que quis alfinetar-me disse que
eu tinha aspecto de batoteiro . Eu próprio já reparei que os bato­
teiros são na sua maioria morenos . Parece-me , está a ver? , que
se eu realmente nascesse batoteiro , mesmo assim havia de me
Um Caso sem Importância 65

manter até à morte um homem decente , porque me faltaria a co­


ragem para fazer o mal . Digo-lhe sinceramente que já uma vez
tive oportunidade de enriquecer. Se, uma vez na vida, tivesse
mentido a mim próprio e a uma . . . e a uma pessoa que perdoaria
a minha mentira, sei-o bem, meteria ao bolso um milhão de ru­
blos . Mas não fui capaz ! Não tive estômago !
Para ir do portão ao solar era preciso atravessar o bosquedo
por um caminho comprido , recto como uma régua, ladeado por
arbustos espessos e aparados de lilaseiros . O solar era uma coi­
sa de mau gosto , pesada, com a sua fachada semelhante à de
um teatro . Erguia-se com deselegância no meio da verdura e fe­
ria os olhos como um calhau grande deitado para a relva ave­
ludada. Fui recebido à entrada principal por um velho lacaio
obeso de casaca verde e grandes óculos de prata; sem me anun­
ciar, limitando-se a deitar um olhar enojado à minha figura em­
poeirada, levou-me para dentro . Quando eu subia uma escada
atapetada, cheirava, não sei porquê , a cauchu; em cima, no ves­
tíbulo , atingiu-me aquele ar que apenas se sente nos arquivos ,
nos aposentos senhoriais e nas casas antigas de comerciantes :
u m cheiro repassado a qualquer coisa que viveu outrora e j á
morreu , deixando nas salas a sua alma. D o vestíbulo até à sala
de estar, atravessei três ou quatro salas . Lembro-me dos soa­
lhos em amarelo-vivo , brilhante , dos lustres cobertos de gaze ,
das carpetes estreitas , às riscas , que não se estendiam de porta
a porta, como é costume , mas se encostavam às paredes ,
obrigando-me , com medo de pisar com as minhas botas rudes
de mato o chão brilhante , a executar uma trajectória quadrilá­
tera. Na sala de estar onde me deixou o lacaio havia móveis an­
tigos envoltos na penumbra e encimados por panos brancos . Os
móveis olhavam com severidade , à maneira dos velhos , e , co­
mo que por respeito ao seu sossego , não se ouvia o mínimo
som.
Até o relógio estava calado . . . A princesa Tarakánova parecia
adormecida na sua moldura dourada, com a água e as ratazanas
66 Anton Tchékhov

paralisadas por força do feitiços . A luz do dia, receando violar o


sossego geral , mal penetrava através dos estores descidos e caía
nos tapetes macios em faixas pálidas e sonolentas .
Três minutos depois entrava na sala, numa passada silencio­
sa, uma velha alta vestida de preto e com um penso na boche­
cha. Fez-me uma vénia e levantou os estores . De súbito envol­
vidas na luz forte , revivificaram-se as ratazanas e a água do
quadro , acordou Tarakánova, piscaram os olhos as soturnas pol­
tronas senis .
- A senhora já vem . . . - suspirou a velha, franzindo também
os olhos .
Após mais alguns minutos de espera, vi finalmente Nadejda
Lvovna. A primeira coisa que me saltou à vista foi que ela era
efectivamente desengraçada: pequena, magra, um pouco curva­
da. É certo que o seu cabelo , espesso , castanho, era luxuoso; que
o seu rosto , limpo , o rosto de uma intelectual , emanava juven­
tude; que o seu olhar era inteligente e claro , mas todo este en­
canto se perdia por causa de uns lábios grandes e gordos e do
ângulo facial demasiado agudo .
Apresentei-me e disse do motivo da minha visita.
- Francamente , não sei o que possa fazer ! - disse ela, pen­
sativa, baixando os olhos e sorrindo . - Eu não gostaria de lhe
dar uma recusa, mas ao mesmo tempo . . .
- Por favor ! - pedi-lhe .
Nadejda Lvovna olhou para mim e riu-se . Também eu me ri .
Devia parecer-lhe engraçada a mania que deliciava Grontóvs­
ki: o direito de autorizar ou proibir qualquer coisa; mas , para
mim, começava a tornar-se estranha e curiosa aquela minha
visita.

8 Trata-se de uma cópia do quadro A princesa Tarakánova, do pintor russo Kons­


tantin Flavítski ( 1 830- 1 866) . Elisaveta Tarakánova ( 1 745 - 1 775) era uma aventu­
reira políti ca que se fez passar por filha da imperatriz Isabel e, como tal , preten­
dia ao trono russo; morreu de tuber culose na prisão; porém, pela lenda, morreu
afogada durante a inundação, e é esta lenda que o quadro representa. (N. T.)
Um Caso sem Importância 67

- Eu não queria violar as regras há muito estabelecidas -


disse Kandúrina. - Já vai para seis anos que a caça está proi­
bida nas nossas terras . A minha resposta é não ! - abanou reso­
lutamente a cabeça. - Desculpe, mas tenho de lho recusar. Se
eu lhe desse autorização , teria de a dar também aos outros . Não
gosto da injustiça. Para todos ou para ninguém .
- É pena ! - suspirei . - É triste , ainda por cima porque fi­
zemos quinze verstás . Não estou sozinho - acrescentei . -
Está comigo o príncipe Serguei Ivánitch .
Trouxe à baila o nome do príncipe sem quaisquer segundas
intenções , foi a pura ingenuidade que me levou a soltar aquilo ,
sem pensar, sem que me movessem quaisquer considerações ou
intenções especiais . Ao ouvir o nome , Kandúrina estremeceu e
fixou em mim um longo olhar. Reparei que o seu nariz tinha em­
palidecido .
- Isso não interessa . . . - disse ela, baixando os olhos .
Tinha-me posto junto à janela que dava para o pequeno bos­
que e era dali que falava com ela. Abria-se diante de mim todo
o bosque com as suas alamedas , os lagos e o caminho por onde
tinha entrado. No princípio do caminho , atrás do portão , viam­
-se as traseiras do nosso charabã preto . Junto ao portão , de cos­
tas para a casa e com as pernas afastadas , estava o príncipe , con­
versando com o esgrouviado Grontóvski .
Quanto a Kandúrina, manteve-se sempre junto de outra jane­
la. Lançava um olhar para o bosque apenas de vez em quando ,
mas , a partir do momento que pronunciei o nome do príncipe ,
não tirou mais os olhos da janela.
- Desculpe - disse ela, com os olhos piscos fixados no ca­
minho e no portão - , mas seria injusto permitir caçadas apenas
aos senhores . . . Além disso , que prazer é esse de matar as aves?
Porquê? Elas incomodam-no?
A vida solitária , confinada em quatro parede s , a penum­
bra das salas e o pesado cheiro dos móveis a apodrecerem
predispõe para o sentimentalismo . A ideia que Kandúrina
68 Anton Tchékhov

expusera merecia todo o respeito , mas eu não me contive e


disse:
- Por essa ordem de ideias , teríamos de andar descalços . As
botas são feitas da pele de animais abatidos .
- É preciso distinguir entre necessidade e capricho - res­
pondeu Kandúrina surdamente .
Já reconhecera o príncipe e não desviava os olhos do seu vul­
to . É difícil descrever a admiração e o sofrimento que luzia no
rosto feio dela! Os seus olhos sorriam e brilhavam, os lábios tre­
miam e riam, a cabeça esticava-se-lhe para os vidros . Seguran­
do-se com as duas mãos a um vaso de planta, levantando ligei­
ramente um pé e retendo a respiração , Nadejda Lvovna lembrava
um cão na postura de alerta e à espera, com impaciência apaixo­
nada, da ordem de «apanha ! »
Olhei para ela, olhei para aquele príncipe que não tinha con­
seguido mentir uma vez na vida, e senti um desgosto, uma amar­
gura por ver que a verdade e a mentira desempenham um papel
tão espontâneo na felicidade pessoal dos homens .
O príncipe , de repente , estremeceu , apontou e deu um tiro .
O gavião que planava por cima dele bateu as asas e voou verti­
ginosamente , afastando-se .
- O tiro foi alto demais ! - disse eu . - Portanto , Nadejda
Lvovna - suspirei , abandonando a janela - , não nos dá auto­
rização . . .
Kandúrina calava-se .
- Então despeço-me , com todo o respeito - disse eu - e
peço desculpa pelo incómodo . . .
Já Kandúrina dera um quarto de volta para se virar para mim,
mas parou e escondeu a cara atrás da cortina, como se sentisse
lágrimas nos olhos e quisesse disfarçá-las . . .
- Adeus . . . Desculpe . . . - disse baixinho .
Fiz-lhe umas vénias às costas e , já sem qualquer cuidado com
as carpetes, voltei pelo soalho amarelo-vivo . Tinha o alívio de
abandonar aquele pequeno reino de tédio dourado e de tristeza,
Um Caso sem Importância 69

e apressava-me, como se quisesse acordar de um pesado sonho


fantástico com as suas penumbras , a sua Tarakánova, os seus
lustres . . .
À saída, uma criada de quarto apanhou-me e entregou-me um
bilhete . «É autorizada a caça ao portador deste bilhete . N. K.»,
li eu .
NO CAMINHO

Pernoitava uma nuvem dourada


No peito do penhasco gigante . . .
LÉRMONTOV

Na sala, que o proprietário da estalagem cossaco , Semion


Tchistopliui , denomina «dos viajantes» , ou seja, destinada ex­
clusivamente às pessoas em viagem , estava sentado à grande
mesa de madeira tosca um homem alto e espadaúdo de cerca de
quarenta anos. De cotovelos fincados no tampo e a cabeça
apoiada nas mãos , dormia. Um coto de vela de sebo espetado
num frasquinho de pomada alumiava a sua barba loiro-escura, o
nariz grosso e largo , as faces bronzeadas , as sobrancelhas ne­
gras e espessas encimando as pálpebras fechadas . . . O nariz, as
faces , as sobrancelhas , todos os traços , cada um em separado ,
eram grosseiros e pesados como os móveis e o fogão da «sala
dos viajantes» , mas , em conjunto , resultavam de certo modo
harmoniosos e até bonitos . É esta, por assim dizer, a sina do ros­
to russo: quanto mais graúdos e ríspidos são os seus traços , mais
suave e bondoso parece . Um homem tinha vestido um casaco de
senhor, usado mas com debrum novo a toda a volta, um colete
de pelúcia e calças largas pretas , enfiadas nos canos de umas bo­
tas altas .
No Caminho 71

Num dos bancos corridos que se estendia ao longo de toda a


parede , em cima de um casaco de pele de raposa, dormia uma
menina de uns oito anos , de vestido castanho e meias altas pre­
tas . Tinha o rosto comprido , o cabelo loirinho , os ombros es­
treitos , todo o corpo magro e frágil , mas o nariz era a mesma ba­
tata grossa e feia do homem . Dormia tão profundamente que
não sentira que a travessa em meia-lua lhe caíra do cabelo e se
lhe espetava na bochecha.
A «sala dos viajantes» tinha um ar festivo . Cheirava a chão
lavado de fresco , na corda esticada em diagonal de um canto ao
outro da sala não pendiam trapos , como era habitual , e a um
canto , em cima da mesa, ardia uma lamparina lançando uma
mancha vermelha sobre o ícone de São Jorge . Observando a
mais cuidada e rigorosa passagem do religioso ao laico , esten­
dia-se , desde o ícone e por ambas as paredes , uma fila de gra­
vuras de lubok . À luz baça do coto e da lamparina de chama ver­
melha, as gravuras fundiam-se numa faixa ininterrupta de
manchas de tinta negras; ora, quando o fogão revestido de azu­
lejos parecia querer fazer coro com a intempérie sorvendo o ar
aos uivos , e as achas , como se acabassem de acordar, levanta­
vam chamas vivas e resmungavam com raiva, nas paredes de
madeiros nus começavam a saltitar manchas rubras e via-se co­
mo , por cima da cabeça do homem adormecido , crescia ora o
eremita Serafim, ora o xá Nasser-Eddin9 , ora um bebé gordo e
castanho que arregalava os olhos e cochichava qualquer coisa
ao ouvido de uma rapariga de cara invulgarmente lorpa e indi­
ferente . . .
Lá fora, barulhava a intempérie . Qualquer coisa de furioso e
malévolo , mas também de profundamente desgraçado , atirava­
-se contra tudo como uma fera e tentava irromper para dentro da

9 Eremita Serafim - trata-se de Serafim Saróvski ( 1 759- 1 833), monge de um


mosteiro na província de Tambov ; foi canonizado . Nasser-Eddin ( 1 83 1 - 1 896) foi
um xá persa, autor de um livro de viagens . (N. T.)
72 Anton Tchékhov

casa. Batendo contra as portas , tamborilando nas janelas e no te­


lhado , ora ameaçava, ora implorava, depois aquietava-se por
pouco tempo e , logo a seguir, irrompia aos uivos alegres e trai­
çoeiros na chaminé , e logo as achas se ateavam e o fogo, como
um cão de guarda, lançava-se com raiva ao encontro do inimi­
go , começava a luta e, depois da luta, vinham os soluços , os
guinchos , o rugido zangado . Em tudo isto se ouvia a amargura
malévola, o ódio insaciado e a impotência ofendida de alguém
habituado às vitórias . . .
Enfeitiçada por esta música selvagem e desumana, a «sala dos
viajantes» parecia ter ficado paralisada para sempre . Mas eis que
range a porta e entra um rapaz de camisa nova de algodão, criado
da casa. Coxeando e pestanejando dos olhos sonolentos , tirou
com os dedos o morrão da vela, pôs mais achas no fogão e saiu .
Logo a seguir, na igreja de Rogatchi , a trezentos passos da esta­
lagem, bateu a meia-noite . Tal como brincava com os flocos de
neve , assim o vento brincava com as badaladas do sino , perse­
guindo os sons , fazendo-os girar pelos grandes espaços , pelo
que algumas pancadas do sino se interrompiam cerce e outras se
esticavam transformando-se num som longínquo e ondulado;
outras desapareciam por completo no meio da balbúrdia geral .
Uma badalada soou com tanta força dentro da casa que foi
como se o sino tocasse encostado às janelas . A rapariguinha que
dormia na pele de raposa estremeceu e levantou a cabeça. Por
um instante ficou a olhar sem tino para a janela escura, para
Nasser-Eddin , sobre o qual passava neste momento a luz rubra
do fogão , depois passou o olhar para o homem adormecido.
- Papá ! - disse ela.
Mas o homem não se mexia. A miúda carregou o sobrolho
com irritação , deitou-se e encolheu as pernas . Ouviu-se na esta­
lagem , atrás da porta, um bocejo longo e ruidoso . Pouco depois
ouviu-se o guincho do ferrolho e umas vozes indistintas . Entrou
alguém: sacudindo a neve da roupa, batendo surdamente com as
botas de feltro no chão .
No Caminho 73

- Quem é? - perguntou preguiçosamente uma voz feminina.


- A menina Ilováiskaia chegou . . . - respondeu uma voz de
baixo .
De novo guinchou o ferrolho , o vento irrompeu barulhento na
casa. Alguém, pelos vistos o rapaz coxo , correu para a porta da
«sala dos viajantes» , tossiu com respeito e deitou a mão à tran­
queta.
- É por aqui , entre por favor, querida menina - disse uma
cantante voz feminina - , aqui está tudo limpo , minha linda . . .
A porta abriu-se e surgiu à entrada um mujique barbudo , de
cafetã de cocheiro e com uma mala grande ao ombro , coberto de
neve da cabeça aos pés . A seguir entrou uma figura feminina,
pequena, quase metade da do cocheiro , sem a cara nem as mãos
à vista, agasalhada, embrulhada como uma trouxa e também co­
berta de neve . Daquela trouxa e do cocheiro soprou para a ra­
pariguinha, como de uma cave , um relento húmido , e a chama
da vela vacilou .
- É um disparate ! - disse a trouxa num tom zangado . -
Podia-se ir às mil maravilhas ! Faltam duas verstás , quase sem­
pre pela floresta, não nos íamos perder. . .
- Perder não nos perdíamos , mas o s cavalos não andam, me­
nina ! - respondeu o cocheiro . - Por amor de Deus , como se
eu fizesse isto de propósito !
- Trouxeste-me sabe-se lá para onde . . . Mas faz pouco baru­
lho . . . Parece que há gente a dormir. Vai-te daqui . . .
O cocheiro pousou a mala no chão e, ao fazê-lo , tombaram-lhe
dos ombros camadas de neve; fez um som de soluço com o na­
riz e saiu . Depois, a rapariguinha viu que saíam do meio da trou­
xa duas mãos pequenas que se estenderam para cima e começa­
ram a desembaraçar com irritação a embrulhada de xailes , lenços
e cachecóis . Primeiro caiu no chão um xaile grande , depois o ca­
puz , a seguir um lenço branco de malha. Liberta a cabeça, a
recém-chegada tirou o capote e, de imediato , ficou duas vezes
mais delgada. Estava agora de balandrau cinzento comprido com
74 Anton Tchékhov

botões grandes e bolsos salientes . De um bolso tirou um embru­


lho de papel , de outro um molho de chaves grandes e pesadas
que pôs em cima da mesa, tão desastradamente que o homem
adormecido estremeceu e abriu os olhos . Durante um bocado fi­
cou a olhar à sua volta, obtuso , como se não percebesse onde es­
tava, depois sacudiu a cabeça, foi para um canto e sentou-se . . .
A viajante tirou o balandrau , voltando a ficar duas vezes mais
magra, depois tirou as botas de camurça e sentou-se também .
Agora já não parecia uma trouxa. Era uma menina de cabelo
escuro , pequena, magrinha, dos seus vinte anos, fina como uma
serpente , com o rosto branco alongado e o cabelo aos caracóis.
Tinha um nariz comprido e afilado , o queixo também comprido
e aguçado , umas pestanas longas , os cantos da boca agudos , e
este ar geral de agudeza parecia dar-lhe ao rosto uma expressão
bicuda. Com o seu vestido justo e comprido cheio de rendas no
pescoço e nas mangas , com os seus cotovelos aguçados e os
seus dedos compridos e cor-de-rosa, lembrava os retratos de se­
nhoras medievais inglesas . A sua expressão séria e concentrada
reforçava ainda mais tal parecença.
A menina observou a sala, olhou de soslaio para o homem e
a garota e, encolhendo os ombros, foi para junto da janela. As
janelas escuras tremiam do vento molhado puxado de oeste . Os
grandes flocos de neve , brilhando de brancura, caíam nos vidros
mas logo desapareciam, varridos pelo vento . A música selva­
gem tomava-se cada vez mais forte . . .
Depois de um longo silêncio , a rapariguinha mexeu-se d e re­
pente e disse , articulando com zanga cada sílaba:
- Meus Deus , meu Deus ! Que desgraçada eu sou ! A pessoa
mais desgraçada do mundo !
O homem levantou-se e , com um andar culpado que em nada
condizia com a sua enorme estatura e as suas grandes barbas , foi
até junto da miúda.
- Não estás a dormir, amiguinha? - perguntou num tom de
desculpa. - O que queres?
No Caminho 75

- Não quero nada ! Dói-me o ombro ! Tu és mau , papá, Deus


castiga-te ! Vais ver, castiga-te !
- Alminha, eu sei que te dói o ombro , mas o que posso eu
fazer, amiguinha? - disse o homem, no mesmo tom com que
se desculpam os maridos bêbados junto das esposas severas . -
É por causa da viagem que te dói o ombro , Sacha. Amanhã já
chegamos , descansamos e vai passar tudo . . .
- Amanhã, amanhã . . . Todos o s dias me dizes amanhã. Ainda
vamos viajar vinte dias !
- Não , amiguinha, dou-te a minha palavra de honra de pai
que chegamos amanhã. Eu não minto , e não tenho culpa que a
nevasca nos tivesse atrasado .
- Não aguento mais ! Não posso , não aguento !
Sacha deu um pontapé brusco e a sala encheu-se do seu choro
estridente e desagradável . O pai abanou a mão e , desnorteado ,
olhou para a menina do cabelo escuro . Esta encolheu os ombros
e , indecisa, aproximou-se de Sacha.
- Ouve , querida - disse ela - , porque choras? É mau
quando nos dói o ombro , mas o que se pode fazer?
- J;:stá a ver, minha senhora - pôs-se o homem a falar, mui­
to depressa, como que a justificar-se - , há duas noites que pra­
ticamente não dormimos e temos viajado numa carruagem pés­
sima . É natural que ela esteja doente e desanimada . . . Ainda por
cima calhou-nos um cocheiro bêbado , roubaram-nos uma ma­
la . . . a nevasca não há meio de parar. . . mas chorar para quê? Eu ,
aliás , agora estou cansado por ter dormido sentado , parece que
estou bêbado . Por amor de Deus , Sacha, isto já está tudo tão di­
fícil e tu , ainda por cima, desatas a chorar!
O homem abanou a cabeça, fez um gesto desesperado e sentou-se.
- É claro que não vale a pena chorar - disse a menina. -
Os bebés é que choram. Se estás doente , querida, o que tens a
fazer é despires-te e dormir. . . Anda cá, vamos despir !
Despida e acalmada a miúda, foi de novo o silêncio na sala.
A menina do cabelo escuro , sentada junto à janela, observava,
76 Anton Tchékhov

perplexa, a sala da estalagem, o ícone , o fogão . . . Devia parecer­


-lhe bem estranho aquilo , a sala," a miúda do nariz grosso com a
sua curta camisa de rapaz , o pai dela . . . aquele homem estranho
sentado a um canto , transtornado como um bêbado , lançando
olhares para todos os lados e amassando a cara com a mão .
Olhando para o homem, calado , a pestanejar, com ar culpado ,
era difícil supor-se que iria falar em breve . Porém, foi ele a que­
brar o silêncio . Afagou os joelhos, tossicou e disse:
- Isto é uma comédia, francamente . . . Olho e não acredito
nos meus olhos: por que diabo o destino nos enxotou para esta
estalagem nojenta? O que queria ele provar com isso? A vida,
por vezes, dá tais salti mortali que apenas nos resta olhar e pes­
tanejar sem compreender. A senhora viaja para longe?
- Não , para perto - disse a menina. - Saí da nossa herda­
de , a vinte verstás daqui , e vou para a nossa granja, visitar o meu
pai e o meu irmão . Sou Ilováiskaia, e a granja também se cha­
ma Ilováiskaia, a doze verstás daqui . Que tempo desagradável !
- Nada pior !
Entrou o rapaz coxo e pôs um novo coto de vela no frasco .
- Tu é que podias aquecer-nos o samovar, rapaz ! - dirigiu-
-se-lhe o homem .
- Quem vai beber chá a esta hora? - sorriu o coxo . - É pe-
cado tomar chá antes da missa da manhã.
- Não faz mal , rapaz , não és tu que vais arder no inferno , so­
mos nós . . .
Enquanto tomavam chá, os recém-conhecidos encetaram a
conversa. Ilováiskaia ficou a saber que o seu interlocutor se cha­
mava Grigóri Petróvitch Likhariov, que era irmão do Likhariov
decano da nobreza num dos distritos vizinhos, e que Grigóri Pe­
tróvitch , em tempos , também tinha sido proprietário rural mas
«arruinara-se oportunamente» . Likhariov ficou a saber que Ilo­
váiskaia tinha por primeiros nomes Mária Mikháilovna, que a
herdade do seu pai era enorme , mas que ela era obrigada a tra­
tar sozinha de toda a administração , uma vez que o pai e o ir-
No Caminho 77

mão faziam vista grossa aos problemas da vida, eram uns des­
preocupados e gostavam demasiado de galgos .
- O meu pai e o meu irmão estão na granja, os dois com­
pletamente sozinhos - dizia Ilováiskaia, mexendo os dedos (ti­
nha o hábito , enquanto falava, de mexer os dedos em frente do
rosto bicudo e, no fim de cada frase , de passar a língua pontia­
guda pelos lábios) . - Os homens são uns desleixados e nem
para eles mexem uma palha. Quem lhes vai preparar a comida
para quebrarem o jejum? Já não temos mãe , e a nossa criada­
gem, sem mim, nem sabe estender uma toalha na mesa como de­
ve ser. Pode imaginar a situação deles ! É que ficam sem festa, e
eu que tenho de ficar aqui toda a noite . É tão estranho tudo isto !
Ilováiskaia encolheu os ombros , bebeu um gole de chá e disse:
- Há festas que têm o seu cheiro próprio . Na Páscoa, na
Santa Trindade e no Natal o ar cheira a qualquer coisa especial .
Até os incréus gostam destas festas . O meu irmão , por exemplo ,
diz que Deus não existe , mas na Páscoa é o primeiro a correr
para a missa de alva.
Likhariov ergueu os olhos e riu-se .
- Dizem que Deus não existe - continuou Ilováiskaia, rin­
do também - , mas então , diga-me lá por favor, porque é que
todos os escritores ilustres , os cientistas , as pessoas inteligentes
em geral , no fim da vida ganham fé?
- Quem não soube ter fé na juventude , também já não a ad­
quire na velhice , por mais ultra-super-escritor que seja.
A julgar pelo tom da sua tosse , Likhariov devia ter voz de bai­
xo mas , talvez pelo medo de falar alto ou por excessiva timidez ,
falava agora em tenor. Depois de uma pequena pausa, suspirou
e disse:
- No meu entender, a fé é uma capacidade do espírito . É a
mesma coisa que o talento: é preciso nascer-se com ela. Tanto
quanto posso julgar por mim próprio , pelas pessoas que conheci
na minha vida e por tudo o que se passa à minha volta, esta ca­
pacidade é própria dos russos no mais alto grau . A vida russa é
78 Anton Tchékhov

uma série ininterrupta de crenças e de paixões; quanto à des­


crença e à negação , ainda nem as cheirou , fique sabendo . Se um
russo não tem fé em Deus , isso quer dizer que tem fé noutra coi­
sa qualquer.
Likhariov tomou das mãos de Ilováiskaia a chávena de chá,
engoliu logo metade e continuou:
- Vou dizer-lhe o que se passa comigo . A natureza introdu­
ziu na minha alma uma extraordinária capacidade de crer. Eu ,
durante metade da minha vida, fiz parte da espécie dos ateus e
niilistas (embora até seja mau falar disso à noite) , mas posso di­
zer que nunca houve na minha vida uma única hora em que não
tivesse fé . Por norma, todos os talentos se revelam na primeira
infância, assim, a minha capacidade já se manifestava quando
eu ainda gatinhava debaixo da mesa. A minha mãe gostava que
as crianças comessem muito e, quando me dava de comer, dizia:
«Come ! O principal na vida é a sopa ! » Eu acreditava, e comia a
sopa nem que fosse dez vezes ao dia, até ficar enjoado , até des­
maiar. A ama-seca contava-me histórias e eu acreditava em to­
dos aqueles contos de fadas , nos génios das casas , nos silvanos ,
em todo o tipo de diabos . Às vezes roubava ao meu pai o subli­
mado corrosivo , cobria com ele os pães-de-mel e levava-os pa­
ra a arrecadação para que , imagine , os espíritos domésticos co­
messem e morressem todos . Ora, quando aprendi a ler e a
compreender o que lia, começou a acontecer comigo todo o gé­
nero de histórias . Uma vez tentei fugir para a América, outra vez
fugi para me tornar bandido; pedi para me aceitarem no mostei­
ro e recrutava rapazes para me torturarem como a Cristo . E, no­
te , a minha fé foi sempre activa, nunca morta. Quando quis fu­
gir para a América, não era para ir sozinho , mas aliciei alguém
para ir comigo , parvo como eu; tinha prazer em regelar fora das
portas da cidade e quando me açoitavam; fugia para me tomar
bandido , mas voltava para casa com a cara esmurrada, obriga­
toriamente . Tive uma infância muitíssimo inquieta, digo-lho
com toda a franqueza ! Ora, quando me mandaram para o colé-
No Caminho 79

gio e, ali , me encheram de todo o género de verdades , tais como


a Terra gira à volta do Sol , ou a cor branca não é branca mas
uma composição de sete cores , a minha cabeça começou a an­
dar às voltas . Tudo em mim se desmoronou: Josué, que fez pa­
rar o Sol; a minha mãe que , em nome do profeta Elias , negava
os pára-raios; e o meu pai , indiferente às verdades que eu apren­
dia. Aquela visão clara das coisas inspirou-me . Como um des­
vairado , andava pela casa e pelas cavalariças a pregar as minhas
verdades , ficava aterrado com a ignorância com que me depara­
va, ardia de ódio para com todos os que viam no branco apenas
a cor branca . . . De resto, tudo isso eram apenas ninharias e garo­
tices , porque , quanto às paixões a sério , viris , por assim dizer,
só viria a tê-las na universidade . Onde foi que a senhora fez o
seu curso?
- Em Novotcherkassk, no Instituto Donskói .
- Então não fez um curso superior? Portanto , não sabe o que
é a ciência. Todas as ciências do mundo têm o mesmo passa­
porte , sem o qual se verifica serem impossíveis: a procura da
verdade ! Cada uma delas , mesmo uma farmacognosia qualquer,
não tem como objectivo a utilidade nem o conforto da vida, mas
a verdade . Excelente ! Quando começamos a estudar uma ciên­
cia, ficamos impressionados , antes de mais , pelos seus princí­
pios . Digo-lhe que não há nada mais fascinante e grandioso,
nada causa mais espanto e admiração ao espírito do que as ba­
ses de uma ciência. Logo a partir da quinta ou sexta lição fica­
mos impregnados das mais brilhantes esperanças , já nos parece
que estamos na posse da verdade . Também eu me entreguei à
ciência com abnegação , apaixonadamente , como a uma mulher
amada. Era escravo da ciência e, fora dela, não queria saber de
mais nenhum sol . Dia e noite , sem levantar a cabeça dos livros ,
decorava as matérias ; gastava tudo o que tinha em livros; cho­
rava quando via as pessoas a explorarem a ciência no interesse
pessoal . Mas o meu entusiasmo não durou muito . O segredo é
que cada ciência, à semelhança da fracção periódica, tem prin-
80 Anton Tchékhov

cípio mas não tem fim . A zoologia descobriu trinta e cinco mil
espécies de insectos, a química conhece sessenta elementos . Se,
com o tempo , se acrescentarem a estes números dez zeros à di­
reita, a zoologia e a química ainda assim estarão tão longe do
seu fim como estão agora, e todo o moderno trabalho científico
consiste precisamente no aumento de números e mais números .
Vi que a coisa era essa quando descobri a trigésima quinta mi­
lésima primeira espécie e não senti satisfação . Bom, mas tam­
bém não tive tempo de cair na desilusão , porque logo se apos­
sou de mim uma nova fé . Entusiasmei-me pelo niilismo , com as
suas proclamações , reformas agrárias e outras coisas . Fui viver
no meio do povo , trabalhei em fábricas , trabalhei como lubrifi­
cador, como barqueiro . Depois , vagueando pela Rússia, impre­
gnei-me da vida russa e transformei-me num fervoroso admira­
dor desta vida. Amava o povo russo até ao sofrimento , amava o
Deus do povo e tinha fé nele , amava a língua, a obra criadora do
povo . . . Et caetera, et caetera . . . Durante algum tempo fui esla­
vófilo , assediei Aksákov lO com cartas; era ucraniófilo , era ar­
queólogo , era coleccionador de arte tradicional . . . apaixonado
pelas ideias , pelas pessoas , pelos acontecimentos , pelos luga­
res . . . permanentemente ! Há cinco anos defendia a negação da
propriedade; a minha última fé foi a teoria da não resistência ao
mal .
Sacha teve um suspiro entrecortado e mexeu-se . Likhariov
levantou-se e aproximou-se dela.
- Amiguinha, não queres chá? - perguntou com ternura.
- Bebe tu ! - respondeu grosseiramente a miúda.
Likhariov ficou confuso e, com o seu andar culpado , voltou
para a mesa.
- Significa que teve uma vida divertida - disse Ilováiskaia.
- Com muito para recordar.

10 Ivan Aksákov ( 1 823- 1 886) , publicista, poeta, activista social russo, redactor de
alguns jornais eslavófilos . (N. T.)
No Caminho 81

- Bom, tudo isso é divertido quando tagarelamos tomando


chá na companhia de uma boa interlocutora, mas pergunte-me
antes: o que me custou esse divertimento? Qual foi o preço da
diversidade da minha vida? É que a minha fé , minha senhora,
não era à maneira do doutor de filosofia alemão , e eu não vivia
no deserto , mas cada nova fé me dobrava a cerviz , rasgava o
meu corpo aos bocados . Veja agora. Dantes eu era tão rico
como os meus irmãos , mas agora estou na miséria. Na embria­
guez das paixões , desbaratei a minha fortuna e a da minha mu­
lher. . . montões de dinheiro alheio . Agora tenho quarenta e dois
anos , a velhice aproxima-se e encontro-me na situação de um
vagabundo , como o cão que perdeu de noite a sua caravana de
carroças . Nunca soube o que era o sossego durante toda a minha
vida. A minha alma tem andado sempre em ânsias , cheguei mes­
mo a sofrer de esperança . . . Sofri com o trabalho duro e desor­
denado , passei por graves provações , fui metido cinco vezes na
prisão , vagueei pelas províncias de Arkhânguelsk e Tobolsk . . .
até me dói recordá-lo ! Vivi , sim, mas naquela embriaguez nem
sentia o processo da vida. Não sei se acredita, mas não me lem­
bro de nenhuma Primavera, não reparei no amor que a minha
mulher tinha por mim nem como nasceram os meus filhos . O
que mais lhe posso dizer? Para todos os que me amaram , cons­
tituí uma desgraça . . . A minha mãe anda de luto por mim há
quinze anos, e aos meus irmãos, que são orgulhosos , doía tanto
a alma por mim que coravam, se humilhavam, gastavam rios de
dinheiro por minha causa, até que acabaram por me odiar como
a uma peste .
Likhariov levantou-se, voltou a sentar-se .
- S e apenas e u fosse infeliz , daria graças a Deus - conti­
nuava ele , sem olhar para Ilováiskaia. - A minha desgraça pes­
soal recua para segundo plano quando me lembro das vezes ,
tantas , em que , atacado por mais um entusiasmo qualquer, eu fui
absurdo , afastado da verdade , injusto , cruel , perigoso ! Quantas
vezes odiava e desprezava com toda a alma aqueles a quem de-
82 Anton Tchékhov

via amor, e vice-versa. Cometi mil traições . Um dia tenho fé ,


ando de rojos , mas no dia seguinte já estou a fugir dos meus
deuses e dos meus amigos e oiço sem reagir o epíteto de «cana­
lha ! » que me atiram às costas . Só Deus viu quantas vezes, en­
vergonhado das minhas paixões , eu chorei e mordi a almofada.
Nem uma vez na vida eu menti ou fiz o mal intencionalmente ,
mas a minha consciência não está limpa ! Nem sequer posso
gabar-me de não ter na consciência o peso da morte de outra
pessoa, já que a minha mulher, diante dos meus olhos , morreu
cansada da minha temeridade . Sim, a minha mulher ! Oiça, na
nossa sociedade prevalecem agora dois tipos de atitude para
com a mulher. Há homens que medem os crânios femininos pa­
ra provarem que a mulher é inferior ao homem, procurando os
seus defeitos para melhor a poderem escarnecer, para exibirem
a sua originalidade diante dela e justificarem a sua própria na­
tureza animalesca. Outros esforçam-se por elevar a mulher até
ao seu nível , ou seja, por obrigá-la a decorar as trinta e cinco mil
espécies e escrever as mesmas parvoíces que eles próprios di­
zem e escrevem . . .
O rosto de Likhariov tomou-se sombrio .
- Mas eu digo-lhe que a mulher sempre foi e será escrava do
homem - passou a falar na sua voz de baixo e bateu com o pu­
nho na mesa. - A mulher é cera mole e macia de que o homem
sempre moldou aquilo que lhe apeteceu . Meu Deus do céu , por
causa de uma paixãozinha insignificante do homem, a mulher
corta o cabelo , abandona a fann1ia, morre numa terra alheia e
longínqua . . . Entre as ideias por que ela se tem sacrificado não
existe nenhuma que seja uma ideia feminina . . . É uma escrava
fiel e abnegada ! Eu nunca medi crânios , o que estou a dizer
aprendi-o com a minha experiência penosa e amarga. As mu­
lheres mais orgulhosas e independentes , quando eu conseguia
contaminá-las com a minha inspiração , seguiam-me sem racio­
cinar, sem fazer perguntas e faziam tudo o que eu queria; de
uma freira fiz uma niilista, como vim a saber mais tarde, que
No Caminho 83

disparou contra um guarda civil ; durante as minhas andanças , a


minha mulher não me abandonou um instante que fosse e , co­
mo um cata-vento , mudava a sua fé em conformidade com as
minhas paixões .
Likhariov levantou-se bruscamente e pôs-se a andar pela sala.
- Uma escravidão nobre , sublime ! - disse ele , erguendo os
braços .- É precisamente nisso que consiste o sentido elevado
da vida feminina ! Do terrível caos na minha cabeça acumulado
durante todo o tempo em que me relacionei com as mulheres, a
minha memória, como um filtro , não guardou as ideias nem as
palavras inteligentes , nem as filosofias , mas esta incrível resig­
nação perante o destino , esta extraordinária misericórdia, esta
capacidade de perdoar. . .
Likhariov cerrou o s punhos , fitou um ponto à sua frente e ,
com uma qualquer apaixonada tenção , como que saboreando
cada palavra, disse entre dentes:
- Esta ... esta resistência magnânima, a fidelidade até ao tú­
mulo , a poesia do coração . . . O sentido da vida está precisamen­
te neste martírio resignado , nas lágrimas que amolecem a pedra,
no amor infinito que tudo perdoa e que introduz no caos da
vida a luz e o calor. . .
Ilováiskaia levantou-se lentamente , deu um passo até Likha­
riov e cravou os olhos no seu rosto . Pelas lágrimas que lhe viu
nas pestanas , pela voz tremente , cheia de paixão , pelas faces
vermelhas , era claro para llováiskaia que as mulheres não eram
para Likhariov um simples e casual tema de conversa. Eram o
objecto da sua nova paixão , ou , como ele próprio dizia, de uma
nova fé ! Pela primeira vez na vida, llováiskaia via diante de si
um homem entusiasmado , dotado de uma fé ardorosa. Gesticu­
lando , com os olhos cintilantes , ele parecia-lhe louco , arrebata­
do , mas no fogo dos seus olhos, na sua fala, nos movimentos do
seu corpo volumoso sentia tanta beleza que , sem dar por isso ,
postou-se diante dele como petrificada, olhando-lhe , fascinada,
para a cara.
84 Anton Tchékhov

- E a minha mãe ! - continuou Likhariov, estendendo as


mãos para ela e com uma expressão suplicante na cara. -
Estraguei-lhe a vida e , pelas noções dela, desonrei a farm1ia
Likhariov. Fiz-lhe tanto mal como só pode fazer um inimigo
de morte . E agora? Os meus irmãos dão-lhe uns patacos para
as hóstias e para os Te Deum, mas ela, sacrificando o seu sen­
timento religioso , poupa esse dinheiro e manda-o , às escondi­
das , ao seu desencaminhado Grigóri ! Só este pormenor insig­
nificante educa e enobrece muito mais a alma do que todas as
teorias , do que todas as palavras inteligentes e do que as trin­
ta e cinco mil espécies . Posso dar-lhe milhares de exemplos .
Digamos , a senhora mesma ! Neva muito , é de noite , mas a se­
nhora vai ver o seu pai e o seu irmão para, no dia de festa, lhes
dar calor e carinho , apesar de eles talvez nem pensarem em si
ou a terem esquecido . Espere ainda, que quando se apaixonar
por um homem há-de segui-lo até ao Pólo Norte . Não é ver­
dade?
- É . . se me apaixonar.
.

- Está a ver? ! - animou-se Likhariov, batendo mesmo com


o pé no chão . - Deuses , estou tão contente por ter conhecido a
senhora ! O meu destino é tão bondoso que me faz encontrar
pessoas magníficas . Não se passa um dia em que não conheça
alguém tão bom que fico pronto a dar a alma por ele . Neste
mundo há mais pessoas boas do que más , muito mais . Veja só,
a senhora e eu estamos aqui numa conversa tão sincera e cordial
como se nos conhecêssemos há cem anos . Às vezes , a sério , an­
do calado durante dez anos , escondendo tudo da mulher e dos
amigos , mas um belo dia encontro um cadete no comboio e
ponho-me a falar, abro-lhe toda a minha alma. Tenho a honra de
ver a senhora pela primeira vez , mas fiz-lhe uma confissão
como nunca antes fiz . Porque será?
Esfregando as mãos e sorrindo alegremente , Likhariov vagou
pela sala e voltou a falar de mulheres . Entretanto , soaram os si­
nos chamando para a missa de alva.
No Caminho 85

- Meu Deus ! - chorou Sacha. - Não me deixa dormir com


as suas conversas !
- Ah, raios ! - Likhariov caiu em si. - Desculpa, amigui­
nha. Dorme , dorme . . . Além dela, tenho ainda dois rapazes -
sussurrou . - Esses vivem em casa do tio , mas esta não pode
respirar um dia sem o pai . Sofre , protesta, mas cola-se a mim
como uma mosca ao mel . Estou a falar demais , e a senhora tam­
bém precisa de descansar. Quer que lhe faça a cama?
Sem esperar pela autorização de Ilováiskaia, sacudiu o capote
húmido e estendeu-o no banco , de pêlo para cima, apanhou os
lenços e os xailes espalhados , pôs o balandrau enrolado à cabe­
ceira, e tudo isso em silêncio , com uma expressão de veneração
servil na cara, como se não estivesse a atarefar-se com trapos fe­
mininos mas com cacos de taças sagradas . Em toda a sua figu­
ra havia qualquer coisa de culpado , de confuso , como se , na pre­
sença de uma criatura frágil , tivesse vergonha da sua
corpulência e da sua força . . .
Quando Ilováiskaia se deitou , ele apagou a vela e sentou-se
no banco ao lado do fogão .
- É assim, minha senhora - sussurrou ainda, acendendo um
cigarro e aspirando o fumo para o fogão . - A natureza dotou o
homem russo de uma extraordinária capacidade de fé , um inte­
lecto indagador e o dom da reflexão , mas tudo isso é reduzido a
pó ao esbarrar contra a despreocupação , a preguiça, a leviandade
sonhadora . . . Pois . . .
Ilováiskaia, espantada, perscrutava o homem na penumbra e via
apenas uma mancha vermelha no ícone e os reflexos das chamas
do fogão no rosto de Likhariov. A escuridão, o badalar dos sinos , o
rugido da nevasca, o rapaz coxo, a Sacha queixosa, o desgraçado
Likhariov e os seus discursos - tudo isso se amalgamava, se fun­
dia num sentimento enorme, e o mundo parecia-lhe fantástico, a re­
gurgitar de milagres e de forças fascinantes . Era como se lhe soas­
se agora aos ouvidos tudo o que acabara de ouvir, e a vida humana
parecia-lhe um conto de fadas maravilhoso, poético e infinito.
86 Anton Tchékhov

Essa ideia gigantesca crescia e crescia, envolvendo em si a


consciência e transformando-sé num sono doce . Ilováiskaia dor­
mia mas via a lamparina e o nariz grosso pintalgado de luz ver­
melha saltitante .
Ouviu chorar.
- Papá, querido ! - suplicava com ternura a voz infantil . -
Vamos voltar para casa do tio ! Há lá a árvore de Natal ! Estão lá
o Stiopa e o Kólia !
- Amiguinha, o que posso fazer? - tentava convencê-la,
baixinho , a voz masculina. - Vê se me compreendes ! Tenta
compreender !
E ao choro infantil juntou-se um choro adulto e masculino .
Esta voz da desgraça humana, no meio do uivo da intempérie ,
tocou o ouvido da menina llováiskaia com uma música tão hu­
mana e tão meiga que ela não suportou o prazer e também cho­
rou . Sentiu depois que uma grande sombra negra se aproximou
dela devagarinho , levantou o xaile caído no chão e lhe agasa­
lhou os pés .
llováiskaia foi acordada por um estranho rugido . Levantou-se
sobressaltada e olhou , surpreendida, à sua volta. Das janelas ta­
padas até meio pela neve olhava o azul do amanhecer. Na sala
pairava uma penumbra cinzenta que deixava ver com nitidez o
fogão , a miúda adormecida e Nasser-Eddin . O fogão e a lampa­
rina já se tinham apagado . Através da porta escancarada via-se
a sala grande da estalagem com o balcão e as mesas . Um ho­
mem de cara cigana, lorpa, com os olhos espantados , estava no
meio da sala, com um charco de neve derretida aos pés , e segu­
rava nas mãos uma vara com uma grande estrela vermelha na
ponta. Estava rodeado por uma chusma de garotos , imóveis co­
mo estátuas e cobertos de neve . A luz da estrela, atravessando o
seu quebra-luz de papel vermelho , tingia de cor as caras molha­
das dos garotos . Esta multidão rugia desatinadamente , e de to­
do aquele rugido Ilováiskaia apenas percebeu uma quadra:
No Caminho 87

Eh lá, meu rapaz pequeno ,


Pega na faca afiada.
Vamos matar o judeu ,
Esse filho da amargura . . .

Junto ao balcão estava Likhariov, olhando enternecido para


os cantores e batendo o pé a compasso. Ao ver Ilováiskaia, fez
um sorriso largo e aproximou-se dela. Ilováiskaia também sor­
riu .
- Boas festas ! - disse ele . - A senhora dormiu bem, eu vi .
Ilováiskaia olhava para ele , calada, continuando a sorrir.
Depois das conversas nocturnas , o homem já não lhe parecia
alto nem espadaúdo , mas pequeno , do mesmo modo que nos pa­
rece pequeno o maior dos vapores quando imaginamos que ele
atravessou o oceano .
- Bom, são horas de partir - disse ela. - Tenho de me ves­
tir. Diga-me , o senhor vai para onde?
- Eu? Até à estação de Klínuchki e , de lá, até Serguievo; e
de Serguievo tenho quarenta verstás até às minas de carvão de
um parvo , um tal general Chachkóvski . Os meus irmãos
arranjaram-me lá o cargo de gerente . . . Vou extrair carvão .
- Desculpe , conheço essas minas . É que o Chachkóvski é
meu tio . Mas . . . o que vai fazer para lá? - perguntou Ilováis­
kaia, olhando com espanto para Likhariov.
- Vou como gerente . Administrar as minas .
- Não percebo ! - Ilováiskaia encolheu os ombros . - Vai
para as minas . Mas aquilo ali é a estepe deserta, não há pessoas ,
o aborrecimento é tal que nem um dia aguenta ! O carvão é pés­
simo , ninguém o compra, aquilo já foi à bancarrota, e o meu tio
é um maníaco , um déspota . . . Nem sequer vai receber salário !
- Não faz mal - disse Likhariov com indiferença. - Até
pelas minas eu devo estar grato .
Ilováiskaia encolheu os ombros e , emocionada, pôs-se a an­
dar pela sala.
88 Anton Tchékhov

- Não percebo , não percebo ! - dizia ela, mexendo os de­


dos em frente do rosto . - É impossível e . . . insensato ! Tente
compreender: aquilo é . . . pior do que uma deportação , é um tú­
mulo para vivos ! Ah , meu Deus - disse ela com ardor, aproxi­
mando-se de Likhariov e mexendo os dedos diante da cara sor­
ridente dele; o seu lábio superior tremia, o seu rosto bicudo
estava pálido . - Imagine a estepe , a solidão . Lá não há nin­
guém para trocar uma palavra, e o senhor. .. tem entusiasmo
pelas mulheres ! Minas e mulheres !
Ilováiskaia, de repente , sentiu vergonha do seu ardor e , vi­
rando as costas a Likhariov, afastou-se até à janela.
- Não , não , não pode ir para lá! - disse ela, passando rapi­
damente um dedo pelo vidro .
Ela sentia, não só com a alma mas até fisicamente , que atrás
dela estava um homem infinitamente infeliz , perdido , abando­
nado; mas ele , como se não tivesse consciência da sua desgra­
ça, como se não fosse ele quem chorara de noite , olhava para ela
e sorria bondosamente . Seria melhor se continuasse a chorar !
Presa de comoção , ela deu várias voltas à sala, depois parou a
um canto e ficou pensativa. Likhariov estava a dizer qualquer
coisa, mas ela não o ouvia. Virando-lhe as costas , tirou do porta­
-moedas uma nota de vinte e cinco rublos, ficou muito tempo
com ela às voltas nas mãos e, lançando um olhar para Likhariov,
corou e voltou a meter a nota no bolso .
Soou a voz do cocheiro atrás da porta. Ilováiskaia, calada,
com o rosto severo , concentrado , começou a vestir-se . Likha­
riov ajudou-a a agasalhar-se , sempre a tagarelar alegremente ,
mas cada palavra dele caía pesadamente na alma de Ilováiskaia.
Não é divertido assistir às brincadeiras de desgraçados ou mori­
bundos .
Quando ela de novo se transformou de ser humano vivo em
trouxa informe , passou pela última vez os olhos pela «sala dos
viajantes» , ficou algum tempo parada e silenciosa, depois saiu
lentamente . Likhariov saiu com ela para se despedir.
No Caminho 89

Fora, o Inverno continuava furioso . Os grandes flocos macios


de neve formavam verdadeiras nuvens que giravam inquietas
sobre a terra como se não encontrassem lugar para si . O cavalo ,
o trenó , as árvores , o boi atado a um poste - tudo branquinho ,
transmitindo a sensação de veludo macio .
- Então , Deus a guarde - murmurou Likhariov, ajudando
Ilováiskaia a sentar-se no trenó . - Não me guarde rancor. . .
Ilováiskaia calava-se . Quando o trenó se pôs e m marcha e co­
meçou a contornar um monte grande de neve , ela virou a cabe­
ça para Likhariov e tinha a expressão de quem queria dizer-lhe
alguma coisa. Likhariov precipitou-se para Ilováiskaia, mas ela
não lhe disse nada, apenas olhou para ele por entre as longas
pestanas donde pendiam farrapos de neve . . .
Foi a alma sensível de Likhariov que leu correctamente aquele
olhar ou foi a sua imaginação que o enganou ao parecer-lhe de
repente que , com mais dois ou três lances fortes , aquela menina
lhe perdoaria o infortúnio , a velhice , os azares e o seguiria sem
fazer perguntas , sem pensar? Ficou muito tempo ali , como pe­
trificado , olhando para o rasto deixado pelos patins do trenó . Os
flocos de neve pousavam-lhe com avidez no cabelo , na barba,
nos ombros . . . O rasto dos patins desapareceu rapidamente , e ele
próprio , coberto de neve , começou a parecer-se com um pe­
nhasco branco; mas os seus olhos ainda procuravam qualquer
coisa nas nuvens de neve .
VÉROTCHKA

Ivan Alekséevitch Ógnev lembra-se de como , naquele princí­


pio de noite de Agosto , abriu a porta envidraçada, que trincole­
jou , e saiu para o terraço . Vestia um capote leve e tinha um cha­
péu de palha de abas largas , o mesmo que , juntamente com as
botas à frederica, está agora debaixo da cama, no pó . Numa mão
tinha um grande pacote de livros e cadernos atados com uma
corda, na outra mão um varapau grande e nodoso .
Atrás da porta, alumiando-lhe o caminho com o candeeiro ,
estava o dono da casa, Kuznetsov, velho careca de longas bar­
bas encanecidas , vestindo um casaco de piqué branco de neve .
O velho , sorridente , abanava a cabeça com bonomia.
- Adeus , meu velho ! - gritou-lhe Ógnev.
Kuznetsov pousou o candeeiro em cima de uma mesinha e
saiu também para o terraço: duas sombras longas e estreitas
moveram-se pela escada até aos canteiros de flores e encosta­
ram as cabeças aos troncos de tílias .
- Adeus e obrigado mais uma vez, meu caro ! - disse Ivan
Alekséevitch . - Obrigado pela sua cordialidade , pelo seu cari­
nho , pelo seu amor. . . Nunca esquecerei a sua hospitalidade em
toda a minha vida. O senhor é bom , a sua filha é boa, e todos na
sua casa são bondosos , alegres, simpáticos . . . São pessoas de
uma tal excelência que eu não tenho palavras !
Vérotchka 91

Derramando o s sentimentos transbordantes e também sob a


influência do licor que acabara de beber, Ógnev falava com uma
voz cantante de seminarista e estava tão comovido que exprimia
o seu sentir não tanto com palavras quanto com os olhos a pis­
carem e os ombros a estremecerem. Kuznetsov, também bebido
e enternecido , esticou-se para o jovem e deu-lhe um beijo.
- Afeiçoei-me a si como um braco ! - continuava Ógnev. -
Quase todos os dias corri para sua casa, dormi cá umas dez ve­
zes e bebi tanto do seu licor que até assusta recordá-lo agora.
Mas o que eu mais agradeço é o seu apoio e ajuda, Gavriil Pe­
tróvitch . Sem o senhor, via-me às aranhas com estas estatísticas
até Outubro . Vou escrever no prefácio , tal e qual: considero meu
dever exprimir o meu agradecimento ao presidente da adminis­
tração rural do distrito de N . . . , senhor Kuznetsov, pela sua amá­
vel ajuda. A estatística tem um futuro brilhante ! Transmita as
minhas vénias a Vera Gavn1ovna, e diga aos doutores , a ambos
os juízes de instrução e ao seu secretário que nunca esquecerei
a ajuda que me deram ! E agora, meu velho , abracemo-nos e
beijemo-nos pela última vez .
O enternecido Ógnev, mais uma vez, trocou beijos com o ve­
lho e começou a descer a escada. No último degrau , voltou-se e
perguntou:
- Será que voltaremos a ver-nos?
- Só Deus sabe ! - respondeu o velho. - Mas acho que
não !
- Pois , é verdade ! O senhor não irá a Petersburgo nem que
lhe paguem; quanto a mim, é pouco provável que volte a passar
por este distrito . Então , adeus !
- Deixava os livros aqui ! - gritou-lhe às costas Kuznetsov.
- Carregar com tanto peso para quê? Eu amanhã lá lhos man-
dava por alguém.
Ógnev já não o ouvia, afastando-se rapidamente da casa.
A sua alma, aquecida pelo álcool , transbordava de alegria, de
calor e de tristeza . . . Caminhava e pensava que , tantas vezes na
92 Anton Tchékhov

vida, toca-nos encontrar boa gente e que , de tais encontros , era


pena ficarem tão-só as recordações . . É como quando , longe no
.

horizonte , surgem os grous e o vento fraco traz até nós os seus


gritos lastimosos e enlevados , mas , um minuto depois , por
mais que perscrutemos o horizonte azul , já nem um ponto ve­
remos , já nem um som ouviremos - assim as pessoas , com os
seus rostos e falas , surgem por um instante na nossa vida e lo­
go mergulham no passado , sem deixarem nada além de míseras
marcas na memória. Vivendo desde a Primavera no distrito de
N . . . e visitando quase todos os dias os hospitaleiros Kuznetsov,
Ivan Alekséevitch afeiçoou-se , como se passassem a ser sua fa­
mília, ao velho , à filha deste, à criadagem, ficou a conhecer ca­
da cantinho da casa, o terraço acolhedor, as sinuosidades das
alamedas , as silhuetas das árvores sobranceiras à cozinha e à
sauna; mas , quando passar agora a cancela, tudo isso se trans­
formará em recordação e perderá para ele o seu significado
real , e , transcorridos um ou dois anos , todas essas imagens que­
ridas , como fantasias e invenções , lhe ficarão desmaiadas na
consciência.
«Não há nada mais precioso na vida do que as pessoas ! -
pensava o enternecido Ógnev, caminhando na alameda em di­
recção à cancela. Nada ! »
No jardim tudo era calma, envolvia-o um calorzinho . Res­
cendia à reseda, ao tabaco de cheiro e ao helitrópio que ainda
não haviam tido tempo de se desflorar nos canteiros . Nos inter­
valos entre os arbustos e os troncos das árvores corria um ne­
voeirinho pouco espesso , suave , embebido de luar, e haveriam
de ficar por muito tempo na memória de Ógnev aqueles farra­
pos de nevo�iro , quais fantasmas , pairando cautelosa mas per­
ceptivelmente para o olho , atravessando as alamedas um atrás
de outro . A lua ia alta por cima do jardim e , abaixo dela, voa­
vam para as bandas do oriente as massas transparentes de ne­
voeiro . Todo o mundo parecia compor-se apenas de silhuetas
negras e de sombras brancas peregrinas . Ógnev, observando a
Vérotchka 93

natureza neste princípio de noite de Agosto , pensava, pela pri­


meira vez na sua vida, que não era a natureza que estava a ver
mas um cenário teatral em que pirotécnicos inábeis , desejando
iluminar o jardim com fogos-de-bengala brancos , se esconde­
ram nos arbustos e, juntamente com os fogos , encheram o ar de
fumo branco.
Quando Ógnev se aproximava da cancela do jardim , desta­
cou-se de um canteiro baixo , de encontro a ele , uma sombra
escura.
- Vera Gavn1ovna ! - exclamou ele com alegria. - Está
aqui? E eu que a procurei tanto , para me despedir . . . Pois é , vou­
-me embora!
- Tão cedo? São onze horas .
- Não , são horas ! São cinco verstás de caminho e ainda te-
nho de fazer as malas . Amanhã tenho de me levantar cedo . . .
Estava diante de Ógnev a filha de Kuznetsov, Vera, de vinte
e um anos , triste como sempre , vestida com descuido , atraente .
As raparigas que sonham muito e que ficam deitadas preguiço­
samente , dias a fio , a ler tudo o que lhes cai nas mãos , que se
aborrecem e se entristecem - estas raparigas , regra geral , ves­
tem descuidadamente . De entre estas raparigas , aquelas que fo­
ram dotadas pela natureza de bom gosto e do instinto do belo ,
este ligeiro desprendimento no trajar dá-lhes um encanto espe­
cial . Ógnev, pelo menos , ao lembrar-se mais tarde da linda Vé­
rotchka, não conseguia imaginá-la sem uma blusinha folgada
formando pregas fundas na cintura e mesmo assim, sem se lhe
moldar ao corpo; sem uma madeixa do penteado alto caída so­
bre a testa; sem aquele xaile vermelho com borlinhas felpudas a
toda a volta, xaile que , nos princípios de noite , lhe pendia dos
ombros , tristonho como uma bandeira num dia sem vento , e , du­
rante o dia, ficava amarrotado no vestíbulo ao lado dos chapéus
de homem, ou na sala de jantar, em cima da arca, onde uma ga­
ta velha se enroscava sem cerimónias para dormir. Este xaile
e as pregas da sua blusinha emanavam a sensação de uma pre-
94 Anton Tchékhov

guiça livre , de um gosto pela _vida sedentária dentro de casa, de


benevolência. Talvez fosse por Ógnev gostar dela, o certo é que
conseguia decifrar em cada botãozinho ou folho de Vérotchka
qualquer coisa de quentinho , de acolhedor, de ingénuo , aquela
qualquer coisa tão boa e poética que falta às mulheres insince­
ras , frias e privadas do sentimento do belo .
Vérotchka era bem feita, tinha um perfil regular e um lindo
cabelo encaracolado . Para Ógnev, que poucas mulheres conhe­
cera na vida, ela afigurava-se uma beldade .
- Vou-me embora ! - disse ele , despedindo-se de Vera jun­
to à cancela. - Não me guarde rancor ! Obrigado por tudo !
Com a mesma voz cantante de seminarista com que conver­
sava com o velho , com os mesmos olhos piscos e os mesmos
movimentos de ombros , pôs-se a agradecer a Vera a hospitali­
dade , o carinho , a simpatia.
- Falei de si em todas as cartas que escrevi à minha mãe . Se
toda a gente fosse como a menina e como o seu paizinho , a vi­
da na Terra seria um aleluia permanente . Toda a vossa gente é
boa! Simples , cordial , sincera.
- Para onde vai o senhor? - perguntou Vera.
- Agora vou para casa da minha mãe em Oriol , fico lá duas
semanitas com ela, e depois sigo para Petersburgo , trabalhar.
- E depois?
- Depois? Bem, vou trabalhar todo o Inverno e , na Prima-
vera, volto à recolha de material , algures na província. Então ,
felicidades, que viva cem anos . . . e não me guarde rancor. Não
voltaremos a ver-nos .
Ógnev inclinou-se e beijou a mão de Vérotchka. Depois , num
estado de emoção silenciosa, ajeitou o capote , pegou de manei­
ra mais cómoda no pacote de livros , ficou ainda um momento
calado e disse:
- Tanto nevoeiro que se acumulou !
- Pois . Não se esqueceu de nada em nossa casa?
- Esquecer o quê? Parece que não . . .
Vérotchka 95

Ógnev ficou ainda mais segundos , calado , depois voltou-se


desajeitadamente para a cancela e saiu do jardim.
- Espere , eu acompanho-o até à nossa floresta - disse
Vera, saindo atrás dele .
Começaram a andar pelo caminho. Já as árvores não tapavam
a perspectiva e era possível ver o céu e o horizonte . Toda a natu­
reza, como se estivesse coberta por um véu , escondia-se mal por
trás de um baço transparente através do qual espreitava alegre­
mente a beleza dela; o nevoeiro , onde era mais espesso e leitoso ,
aterrava, irregular, junto das medas e dos arbustos, ou vagueava
em farrapos atravessando o caminho e apertando-se contra a ter­
ra, como se não quisesse tapar o horizonte . Através da neblina
via-se todo o caminho até à floresta, com as suas valetas escuras
de ambos os lados onde cresciam arbustos pequenos que barra­
vam a passagem ao nevoeiro . Andada meia verstá depois da can­
cela, já se distinguia a faixa escura da floresta de Kuznetsov.
«Porque veio ela comigo? Agora vai ser preciso eu acompa­
nhá-la de volta ! » , pensou Ógnev mas , depois de olhar para o
perfil de Vera, sorriu com carinho e disse:
- Com este bom tempo não me apetece ir embora ! A noite
está mesmo romântica, com a lua, o silêncio e todos os atribu­
tos . Sabe uma coisa, Vera Gavn1ovna? Já sou deste mundo há
vinte e nove anos e nunca tive um romance . Nunca aconteceu
uma história romântica em toda a minha vida, por isso só co­
nheço os rendez-vous, as alamedas dos suspiros e os beijos pe­
lo que os outros contam. É anormal ! Na cidade , metidos no
qu arto, não nos damos conta desta lacuna, mas aqui , ao ar livre ,
sente -se muito . . . E é um desgosto !
- Mas isso é porquê?
- Não sei . Pelos vistos nunca tive tempo para essas coisas ,
ou talvez porque não tenha calhado encontrar mulheres que . . .
D e uma maneira geral , conheço pouca gente e não saio de casa.
Deram mais uns trezentos passos em silêncio . Ógnev, de vez
em qu ando , olhava de soslaio para a cabeça descoberta e para o
96 Anton Tchékhov

xaile de Vérotchka, e na sua alma ressurgiam, um atrás do outro ,


os dias primaveris e estivais ein que , longe do seu quarto cin­
zento de Petersburgo , deliciando-se com o carinho daquela gen­
te boa, com a natureza e com o seu trabalho , nem dava conta de
que as auroras se substituíam aos ocasos e , como que predizen­
do o fim do Verão, deixaram de cantar primeiro o rouxinol , de­
pois a codorniz e, um pouco mais tarde , o codornizão O tem­. . .

po voava imperceptivelmente , o que mostrava como se vivia


bem ali , com facilidade . . . Recordou em voz alta como ele , com
pouco dinheiro e sem hábitos de se movimentar e conviver com
as pessoas , se sentira contrariado por ter de vir, em finais de
Abril , para este distrito de N . . , onde previa tédio , solidão e in­
.

diferença para com a estatística , estatística que , na opinião dele ,


ocupava actualmente um dos mais destacados lugares na ciên­
cia. Chegando numa manhã à cidadezinha de N . . . , instalara-se
na estalagem de Riabúkhin , um homem da velha ortodoxia cris­
tã, onde lhe deram, por vinte copeques diários, um quarto lim­
po e cheio de luz , com a condição de que só poderia fumar na
rua. Depois de ter descansado e de se ter informado do nome do
presidente da administração rural no distrito , foi imediatamente
a casa de Gavriil Petróvitch , a pé . Teve de calcorrear quatro
verstás pelo meio de prados luxuriantes e bosques jovens . Ao
rés das nuvens , inundando os céus de sons argênteos , tremiam
as cotovias , e , ao rés dos campos verdes , batendo as asas com ar
imponente e cerimonioso , voavam as gralhas-calvas .
- Meu Deus ! - admirava-se então Ógnev. - Será que as
pessoas daqui respiram sempre este ar, ou é apenas hoje, em
honra da minha chegada?
Prevendo ser recebido seca e oficialmente , entrara em casa
dos Kuznetsov com um ar acanhado , olhando de viés , repuxan­
do com timidez a barbicha. O velho , de início , franzia a testa,
não compreendendo porque precisaria o jovem, para a sua esta­
tística, da administração rural , mas quando este lhe explicou
prolixamente o que era o material estatístico e onde se recolhia,
Vérotchka 97

Gavriil Petróvitch animou-se , começou a sorrir e a espreitar


com curiosidade infantil para os cadernos de Ógnev . . . Logo nes­
sa noite já Ivan Alekséevitch se sentava à mesa do jantar dos
Kuznetsov, embriagando-se rapidamente com o licor forte da
casa e, olhando os rostos serenos e preguiçosos dos seus novos
amigos , sentia também em todo o corpo a preguiça doce e mo­
dorrenta de quando temos sono e a vontade de nos esticar e de
sorrir. Os novos amigos olhavam com bonomia para ele e per­
guntavam-lhe se os pais ainda eram vivos , quanto ganhava ele
por mês , se ia muitas vezes ao teatro . . .
Recordou também a s suas viagens pelas comarcas , o s pi­
queniques , a pesca, uma excursão de toda a companhia ao
mosteiro feminino para visitarem a madre superiora Marfa que
ofereceu a cada um dos visitantes um porta-moedas adornado
de vidrilhos , recordou as discussões acaloradas , infindáveis ,
puramente russas , e m que o s oponentes, salpicando da boca e
batendo com os punhos nas mesas , não se compreendem e
interrompem-se uns aos outros , se contradizem a si mesmos a
cada frase , sem se darem conta disso , mudam volta e meia de
tema e , depois de duas ou três horas de discussão , riem-se e
dizem:
- E por que raio estamos a discutir? Começamos dançando
e terminamos chorando ! . . .
- Lembra-se como eu , a menina e o doutor fomos de cava­
lo a Chestovo? - perguntou Ivan Alekséevitch a Vera, quando
se aproximavam da floresta. - Encontrámos um tolinho de
Cristo . Dei-lhe cinco copeques , mas ele benzeu-se três vezes e
atirou com a moeda para o meio do centeio . Meu Deus , quantas
sensações levo comigo; se fosse possível juntá-las numa massa
compacta, o resultado seria um bom lingote de ouro ! Não com­
preendo por que razão as pessoas inteligentes e com sentimen­
tos se amontoam nas capitais e não se mudam para aqui ! Será
que na Avenida Névski e nos grandes prédios húmidos há mais
espaço e verdade do que aqui? Palavra, os quartos de aluguer
98 Anton Tchékhov

superlotados de pintores , cientistas e jornalistas , onde também


moro, sempre me pareceram unia espécie de preconceito.
A vinte passos da floresta, atravessava o caminho uma peque­
na e estreita ponte , com colunas baixas nos cantos , que servia
sempre de mirante aos Kuznetsov, nos seus passeios nocturnos .
Dali via-se o caminho a desaparecer na faixa negra formada
pelo derrube das árvores e podia brincar-se gritando e ouvindo o
eco remetido pela floresta.
- Finalmente, cá está a pontezinha! - disse Ógnev. - Agora
tem de voltar. . .
Vera parou e recuperou o fôlego .
- Vamos sentar-nos - disse ela, sentando-se numa das co­
lunas . - Antes da partida, quando as pessoas se despedem, é
costume sentarem-se • • .
Ógnev sentou-se a seu lado em cima do pacote de livros e
continuou a falar. Vera, por ter andado muito , tinha a respiração
pesada; não olhava para Ivan Alekséevitch , mas para o outro la­
do , por isso ele não lhe via a cara.
- E se , daqui a dez anos , voltarmos de repente a encontrar-
-nos? - dizia ele . - Como seremos então? A menina será já
uma respeitável mãe de farm1ia, e eu o autor de uma respeitável
e inútil colectânea de estudos estatísticos, grossa como quaren­
ta mil livros . Encontramo-nos e recordamos os velhos tempos . . .
Agora, estamos a sentir o presente , e ele preenche-nos e emo­
ciona-nos , mas no nosso futuro encontro já não vamos lembrar­
-nos do dia e do mês , nem sequer do ano em que nos vimos
pela última vez nesta pontezinha. A menina, se calhar, vai mu­
dar. . . Ouça, vai mudar ou não?
Vera estremeceu e voltou o rosto para ele .
- O quê? - perguntou .
- Estava a perguntar-lhe . . .
- Desculpe , não ouvi o que estava a dizer. . .

11 Costume tradi cional russo , ainda hoje muito divulgado. (N. T.)
Vérotchka 99

Só então Ógnev reparou na mudança que se deu em Vera. Es­


tava pálida, arfava, o tremor da sua respiração transmitia-se-lhe
às mãos, aos lábios , à cabeça; do seu penteado não caía uma ma­
deixa rebelde , como sempre , mas duas . . . Evitava olhá-lo a di­
reito nos olhos e, tentando disfarçar a sua emoção , ora ajeitava
o colarinho como se este lhe magoasse o pescoço , ora repuxava
o xaile de um ombro para o outro . . .
- Parece que está com frio - disse Ógnev. - Estarmos
sentados ao relento com este nevoeiro não é muito bom para
a saúde . Oiça, vou levá-la nach Haus 1 2 .
Vera calava-se .
- O que tem? - sorriu Ivan Alekséevitch . - Está tão cala­
da, não responde às perguntas . Está maldisposta, zangada?
Diga !
Vera apertou com força a mão à face que estava voltada para
Ógnev e , logo a seguir, afastou-a bruscamente .
- Que situação terrível . . . - sussurrou , como que acometida
por uma dor aguda. - Terrível !
- Terrível porquê? - perguntou Ógnev, encolhendo os om­
bros e não escondendo o seu espanto . - Que se passa?
Ainda a respirar com dificuldade e com os ombros a treme­
rem, Vera virou-lhe as costas , ficou meio minuto a olhar para o
céu e disse:
- Tenho de falar consigo , Ivan Alekséevitch . . .
- Fale .
- Talvez lhe pareça estranho . . . Talvez se espante , mas tanto
me faz . . .
Ógnev voltou a encolher o s ombros e preparou-se para ouvir.
- É o seguinte . . . - começou Vérotchka, inclinando a cabe­
ça e apalpando com os dedos as borlinhas do xaile . - Bem vê ,
eu queria dizer-lhe . . . uma coisa . . . Pode parecer-lhe estranho e . . .
estúpido mas . . . não aguento mais .

1 2 [ . ] até casa (alemão) . (N. T.)


. .
1 00 Anton Tchékhov

O discurso de Vera transformou-se num murmúrio incom­


preensível e, de chofre , o choro interrompeu-o . Inclinava a ca­
beça ainda mais , tapava a cara com o xaile e chorava amarga­
mente . Ivan Alekséevitch , embaraçado , espantado e sem saber o
que dizer ou fazer, tossiu e olhou à sua volta com desespero .
Como não tinha o hábito de chorar nem estava familiarizado
com as lágrimas , estranhou a comichão que sentia nos olhos .
- Ora, ora ! - pôs-se a murmurar, confuso . - Vera Gavrí­
lovna, para que é isso? Alminha, não está . . . não estará doente?
Ou será que alguém a ofendeu? Diga-me , talvez eu . . . não sei . . .
a consiga ajudar? . . .
Quando ele , tentando consolá-la, s e deu a liberdade de afas­
tar delicadamente as mãos com que ela tapava o rosto , Vera
sorriu-lhe por entre as lágrimas e disse:
- Eu . . . amo-o !
Estas palavras , singelas e normais , foram ditas na simples lín­
gua humana, mas Ógnev ficou tão confuso que virou as costas
a Vera e se levantou; vencida a confusão , sentiu-se assustado .
A tristeza, o calor e o estado de espírito sentimental provoca­
dos pela despedida e pelo licor desapareceram-lhe num ápice ,
dando lugar a uma sensação de desconforto muito desagradável .
Parecia que a alma se lhe virara do avesso; olhava para Vera de
soslaio e era como , agora que ela lhe declarara o seu amor, se ti­
vesse desfeito daquela inacessibilidade que tanto embeleza a
mulher, e parecia-lhe agora mais baixinha, mais simplória, mais
escura.
«Ü que é isto? - pensava ele , aterrado no mais fundo de si .
- Mas eu . . . amo-a ou não? Bolas , que problema ! »
Quanto a Vera, agora que o principal e mais difícil j á tinha
sido dito , respirava fácil e livremente . Também se levantou e ,
olhando trontalmente para Ivan Alekséevitch, começou a falar
rápida, incontida e ferverosamente .
Como o homem subitamente assustado não consegue lem­
brar-se , depois , da ordem em que surgiram os sons da catástro-
Vérotchka 101

fe que o aturdiu , também Ógnev não s e lembra das palavras e


do encadeamento das frases de Vera. Na memória apenas se lhe
gravou ela própria a falar, o sentido do que dizia e a sensação
que o discurso dela produzia nele . Lembra-se da sua voz , um
pouco sufocada, rouca de emoção , da paixão e da extraordiná­
ria musicalidade das suas entoações . Chorando e rindo , ela
falou-lhe , com as lágrimas a brilharem-lhe nas pestanas , de co­
mo a impressionara, desde os primeiros dias , o seu intelecto , a
sua originalidade , os seus olhos bondosos e inteligentes, os seus
objectivos de vida, de como se apaixonara por ele louca e pro­
fundamente; de como , nesse Verão , quando ela entrava em casa
vinda do jardim e via no vestíbulo o seu capote ou ouvia a sua
voz , a invadia o friozinho de um pressentimento de felicidade;
de como as mais insignificantes brincadeiras dele a faziam rir às
gargalhadas , de como na quantidade dos seus cadernos ela via
qualquer coisa de incrivelmente sábio e grandioso , de como o
seu varapau nodoso lhe parecia mais belo do que as árvores .
A floresta, os retalhos de nevoeiro e as valetas negras ao lon­
go do caminho pareciam ter-se calado para a ouvirem, mas na
alma de Ógnev ia-se passando qualquer coisa má e estranha.
Enquanto lhe declarava o seu amor, Vera estava fascinante de
bela, falava de maneira bonita e apaixonada, mas , em vez de
prazer, da alegria da vida, de tudo o que ele ansiava por experi­
mentar, ele apenas sentia compaixão por Vera, a dor e a pena de
estar a sofrer por ele uma boa pessoa. Só Deus sabe se lhe falou
mais alto a razão livresca, ou se se manifestou nele o insuperá­
vel hábito da objectividade que , tantas vezes , não deixa os ho­
mens viverem livremente , o certo é que o enlevo e o sofrimento
de Vera lhe pareceram melífluos , nada sérios; mas , ao mesmo
tempo , revolvia-se e segredava nele o sentimento de que , do
ponto de vista da natureza e da sua felicidade pessoal , era mais
significativo do que as estatísticas , os livros e quaisquer factos . . .
E enraivecia-se , e culpava-se , embora sem compreender e m que
consistia exactamente a sua culpa.
1 02 Anton Tchékhov

Para cúmulo do embaraço , não sabia decididamente o que ti­


nha de dizer, apesar de ser necessário dizer alguma coisa. Dizer
abertamente «não a amo» era superior às suas forças , mas tam­
bém não podia dizer «sim» porque , por mais que procurasse ,
não encontrava na alma a faísca . . .
Calava-se , pois , enquanto Vera dizia que , para ela, não havia
maior felicidade do que vê-lo , segui-lo para onde ele quisesse,
nem que fosse agora mesmo , ser a mulher dele , a ajuda dele , e
que , se ele se fosse embora, ela morreria de saudade . . .
- Não posso ficar aqui ! - disse ela, torcendo as mãos . - Es­
tou farta até ao ódio da casa, desta floresta, deste ar. Não suporto
este sossego permanente nem a vida sem um objectivo, não aturo
as pessoas daqui , cinzentas e insossas , todas parecidas umas com
as outras como gotas de água! Todas elas são cordiais e bondosas
porque vivem na fartura, não sofrem nem lutam . . . Mas eu quero
ir precisamente para as casas cheias de humidade , onde se sofre,
onde as pessoas endoidecem de trabalho e das necessidades . . .
Também este discurso soava a Ógnev como melífluo e nada
sério . Quando Vera acabou de falar, ele ainda não sabia o que ti­
nha de dizer, mas , como era impossível ficar calado , murmurou:
- Vera Gavn1ovna, agradeço-lhe muito , embora sinta que não
mereço em nada este . . . sentimento . . . da sua parte . Em segundo
lugar, como homem honesto , devo dizer que . . . a felicidade se
baseia no equilíbrio , ou seja, quando ambas as partes . . . amam
igualmente . . .
Logo a seguir, porém, este seu murmúrio envergonhou-o tanto
que se calou . Sentia que , neste momento , estava com uma cara
estúpida, culpada, banal , tensa e fingida . . . Vera, pelos vistos ,
conseguiu ler a verdade na sua fisionomia porque , de repente ,
ficou séria, empalideceu e baixou a cabeça.
- Desculpe-me - murmurou Ógnev, não suportando o si­
lêncio . - Tenho tanto respeito por si que . . . me dói !
Vera virou-se bruscamente e começou a andar na direcção de
sua casa. Ógnev foi atrás dela.
Vérotchka 103

- Não, não vale a pena ! - disse Vera, abanando a mão . -


Não , eu vou sozinha . . .
- Não , não pode ser. . . tenho de a acompanhar. . .
Parecia a Ógnev que , dissesse o que dissesse , todas a s pala­
vras eram triviais e abomináveis . O sentimento de culpa crescia
dentro dele a cada passo que dava. Irritava-se consigo mesmo ,
cerrava os punhos e amaldiçoava a sua frieza e falta de jeito
para tratar com as mulheres . Esforçando-se por despertar em si
qualquer sentimento, olhava para a bela figura de Vérotchka,
para a sua trança e para as pegadas que deixavam no pó do ca­
minho os seus pés pequeninos , recordava as suas palavras e as
suas lágrimas , mas isso apenas o enternecia sem lhe excitar a
alma.
«Ah, mas é impossível a gente apaixonar-se à força ! - ten­
tava convencer-se , mas pensando ao mesmo tempo: - Mas
quando me apaixonarei espontaneamente? Tenho quase trinta
anos ! Nunca encontrei nem hei-de encontrar uma mulher supe­
rior à Vera . . . Oh , velhice maldita ! Velhice aos trinta anos ! »
Vera caminhava à frente dele, cada vez mais depressa, sem
olhar para trás , cabisbaixa. Parecia a Ógnev que a amargura a
tomara mirrada, lhe estreitara os ombros . . .
«Posso imaginar o que lhe vai agora n a alma ! - pensava ele ,
olhando-lhe para as costas . - Deve ter uma vergonha e uma dor
tais que lhe apetece morrer, com certeza ! Meu Deus , quanta
vida, quanta poesia, quanto sentido há nisto tudo . . . uma pedra
seria capaz de comover-se , mas eu . . . como sou estúpido e ab­
surdo ! »
Chegados à cancela, Vera olhou para ele de relance e , curvan­
do-se e agasalhando-se com o xaile, avançou rapidamente pela
alameda.
Ivan Alekséevitch ficou sozinho . Quando voltava na direcção
da floresta, caminhava devagar, parando volta e meia e olhando
para a cancela. A sua figura exprimia todo o ar de quem não
acreditava em si próprio . Procurava no caminho as pegadas de
1 04 Anton Tchékhov

Vérotchka e não conseguia ac_reditar que aquela rapariga com


quem ele simpatizava tanto tinha acabado de lhe declarar o seu
amor e que ele a «rejeitara» de modo tão desajeitado e rude ! Pe­
la primeira vez na sua vida, teve de descobrir a suas próprias ex­
pensas que o homem depende muito pouco da sua boa vontade
e experimentou na própria pele a situação do homem correcto e
cordial que , contra a sua vontade , é capaz de causar ao seu se­
melhante sofrimentos cruéis e imerecidos .
Doía-lhe a alma. Quando Vera desaparecera da sua vista, sen­
tiu que acabara de perder qualquer coisa muito querida e íntima,
uma coisa que já nunca mais voltaria a encontrar. Sentiu que ,
com Vera, se foi uma parte da sua juventude e que os minutos
que vivera tão infrutiferamente não se repetiriam nunca mais .
Chegado à ponte , parou , pensativo . Queria descobrir a causa
da sua estranha frieza. Era evidente que essa causa residia den­
tro dele , não fora. Confessou a si mesmo , com sinceridade , que
não se tratava de uma frieza racionalista, de que muitas vezes se
gabam as pessoas inteligentes , nem da frieza de um imbecil
egoísta, mas simplesmente da sua impotência de alma, da sua
incapacidade de perceber com profundidade a beleza; a causa
era a sua velhice precoce , bebida na sua educação , na sua luta
desenfreada pelo pão de cada dia, na sua vida sem farm1ia nos
quartos alugados .
Desceu a ponte e embrenhou-se vagarosamente na floresta,
como que contrariado . Na escuridão espessa, negra, com man­
chas ríspidas de luar aqui e ali, naquele lugar onde Ógnev sen­
tia não ter mais nada que os seus próprios pensamentos , teve a
vontade louca de recuperar o perdido .
Ivan Alekséevitch lembra-se de ter voltado atrás . Incitando-se
a si próprio com as recordações de Vera, trazendo-a com força
à imaginação , caminhou rapidamente na direcção do jardim. Já
não havia nevoeiro ao rés do caminho nem no jardim, e a lua
olhava do céu como que de cara lavada, apenas no levante se
notando laivos nebulosos e carrancudos . . . Lembra-se dos seus
Vérotchka 105

passos cautelosos , das janelas escuras , do cheiro espesso a he­


liotrópio e a reseda. O Karó, familiar, abanando a cauda com
amizade , aproximou-se dele e cheirou-lhe a mão . . . Foi a única
criatura viva que o viu andar à volta da casa por duas vezes , fi­
car parado debaixo da janela escura de Vera, e depois , com um
suspiro e um gesto de mão , ir-se embora do jardim.
Uma hora depois já estava na cidadezinha e, cansado , desfeito ,
apertando o corpo e o rosto ardente ao portão da estalagem ,
batia com a aldraba. Algures na cidade ladrou um cão acordado
e , como em resposta às suas pancadas para lhe abrirem, ao pé da
igreja alguém bateu numa chapa de ferro .
- Andas a vadiar de noite . . . - resmungou o dono da estala­
gem , fiel da velha igreja ortodoxa, que lhe viera abrir o portão
em camisa comprida, idêntica à da mulher. - Em vez de va­
diares, rezavas a Deus .
No seu quarto, Ivan Alekséevitch sentou-se na cama e durante
muito , muito tempo ficou a olhar para o fogo; depois sacudiu a
cabeça e começou a fazer as malas . . .
A FLAUTA

Amolecido pelo ar abafado do bosque de abetos , todo cober­


to de teias e agulhas , Meliton Chíchkin , feitor da granja de De­
mêntiev, de espingarda ao ombro , saía para a orla do bosque .
A sua Damka - mistura de rafeiro com setter - prenha e ma­
gríssima, com o rabo encharcado metido entre as patas ,
arrastava-se atrás do dono e esforçava-se por não picar o nariz .
A manhã estava má, enevoada. Dos fetos e das árvores envoltas
num nevoeiro leve caíam gotas grossas , e aquela humidade flo­
restal emitia um cheiro agudo a podre .
À frente , a extrema da floresta era de bétulas e por entre os
seus troncos e ramos entrevia-se o horizonte nebuloso . Alguém,
por trás das bétulas , tocava uma flauta rústica de pastor. O mú­
sico não tocava mais do que cinco ou seis notas , esticando-as
preguiçosamente sem tentar ligá-las numa melodia; mesmo as­
sim, soava naqueles assobios qualquer coisa de severo e muito
tristonho .
Quando a floresta começou a ficar mais rala e os abetos já se
misturavam com as bétulas jovens , Meliton viu o gado . Os ca­
valos com peias , as vacas e as ovelhas à solta por entre as moi­
tas e, fazendo estalar os ramos , com os focinhos metidos nas er­
vas da floresta. Na orla, encostado a uma bétula húmida, estava
de pé um velho pastor, magro , de casaco de burel roto e sem
A Flauta 1 07

chapéu . Olhava para o chão , pensativo , e tocava a flauta, pelos


vistos maquinalmente .
- Bom dia, avô ! Deus te ajude ! - cumprimentou Meliton
numa voz fina e rouca que em nada condizia com a sua estatu­
ra gigantesca e a sua cara grande e carnuda. - Sopras com
muita habilidade no teu pífaro ! Donde é o gado?
- De Artamónovo - respondeu o pastor, a contragosto ,
guardando a flauta no peito .
- Portanto , a floresta também pertence a Artamónovo , olha
qu' isto . . . Ia-me perdendo . Arranhei a cara toda no matagal .
Sentou-se na terra molhada e pôs-se a embrulhar um cigarro
com papel de jornal . À semelhança da vozinha frágil , tudo nes­
te homem era miúdo e não correspondia à sua corpulência e à
sua cara carnuda: o sorriso , os olhinhos , os botões , o boné que
mal se lhe segurava no cocuruto da cabeça gorda, de cabelo cur­
to . Quando falava e sorria, na sua cara balofa e rapada, assim
como em toda a sua figura, sentia-se qualquer coisa feminina, tí­
mida e submissa.
- Que tempo , valha-nos Deus ! - disse ele e meneou a ca­
beça. - A gente ainda não tirou a aveia e a chuva não há meio
de parar, como se viesse por decreto , credo .
O pastor olhou para o céu donde caía o chuvisco , para a flo­
resta, para a roupa encharcada do feitor, pensou e não disse
nada.
- E foi assim todo o Verão - suspirou Meliton . - Para os
mujiques isto vai mau , e para os patrões também não é festa ne­
nhuma.
O pastor voltou a olhar para o céu , pensou um pouco e disse
pausadamente, como se mastigasse cada palavra:
- Tudo tende para a mesma coisa . . . Não vai dar nada de
bom.
- Como corre isto por cá? - perguntou Meliton, acenden­
do o cigarro . - Não viste ninhadas de galo-lira na clareira de
Artamónovo?
108 Anton Tchékhov

O pastor demorou a responder. Voltou a olhar para o céu ,


para os lados , pensou , pestanejou . . . Pelos vistos , dava bastante
valor às suas palavras e , para as encarecer ainda mais , cuidava
de as esticar com uma certa solenidade . A sua cara fazia uma ex­
pressão de rispidez e imponência senis mas , como o nariz se lhe
arrebitava em forma de sela e as narinas olhavam para cima, o
resultado era um rosto manhoso e irónico .
- Não , parece que não vi - respondeu . - O nosso caçador
Eriomka disse que , no dia de Santo Elias , levantou para os la­
dos do Baldio uma ninhada, mas estou que mente . Há poucas
aves .
- Exactamente , amigo , há poucas . . . Há poucas aves por to­
do o lado ! A caça, se virmos as coisas como devem ser vistas ,
está uma miséria muito reles . Não há caça, e alguma que haja
nem merece a pena o esforço , é miúda, ainda não cresceu ! É tão
miúda que até dá vergonha olhar para ela.
Meliton sorriu e abanou a mão .
- O que se passa neste mundo é mesmo ridículo ! A ave ,
hoje em dia, tomou-se desencaminhada, agacha-se a chocar os
ovos tarde demais, e há pássaros que chegam ao S . Pedro e ain­
da não se levantam do ninho. Juro !
- Tudo tende para a mesma coisa - disse o pastor, levan­
tando a cara para o céu . - No ano passado havia pouca caça,
este ano ainda há menos , daqui a cinco anos , vais ver, não há ne­
nhuma. Não tarda, não é só a caça que desaparece , a outra pas­
sarada também.
- Pois - concordou Meliton , depois de ter pensado um
pouco . - Exactamente .
O pastor sorriu com amargura e abanou a cabeça.
- É esquisito ! - disse . - Para onde é que desaparece tudo?
Há vinte anos , lembro-me , havia gansos , havia grous e patos ,
havia o galo-lira . . . nuvens deles ! Às vezes juntavam-se os fidal­
gos nas caçadas e só se ouvia: pum-pum-pum ! Pum-pum-pum !
Narcejas e galinholas eram ao pontapé , as cercetas e os alfaia-
A Flauta 1 09

tes eram tantos como os estominhos ou , vá lá digamos , os par­


dais , aos centos ! Onde é que se meteu tudo isso? Nem os pás­
saros ruins se vêem. Desapareceram as águias , os falcões, os
mochos . . . Os bichos também são poucos . Hoje, meu amigo , o
lobo e a raposa são uma raridade , já para não falar do urso ou da
marta. Ora, antigamente até alces havia aqui ! Há quarenta anos
que observo o que se passa neste mundo de Deus e, no meu en­
tender, tudo tende para a mesma coisa.
- Pra que coisa?
- Coisa má, rapaz . . . É de pensar que chegou ao fim . . . Che-
gou a hora de este mundo de Cristo acabar.
O velho pôs o boné e olhou para o céu .
- É pena ! - suspirou depois de uma pausa. - Meu Deus ,
que pena ! É a vontade de Deus , está claro . Quem criou o mun­
do não fomos nós mas , mesmo assim, é pena, meu amigo .
Quando uma árvore seca ou , vá lá digamos , quando uma vaca
morre , temos pena delas ; então , quando todo o mundo caminha
para a morte , não é uma dor de alma? Tanta riqueza, oh , Nosso
Senhor Jesus Cristo ! O sol , o céu , as florestas , os rios, as cria­
turas vivas . . .- é que tudo isso foi criado e ajeitado para as coisas
se combinarem umas com as outras . Cada coisa tem o seu papel
e conhece o seu lugar. E vai tudo para a perdição !
Na cara do pastor acendeu-se um sorriso triste , pestanejou .
- Estás a dizer: o mundo vai acabar - disse Meliton , pen­
sativo . - Talvez o fim do mundo esteja para breve , sim, só que
não é pelas aves que se pode julgar isso . Não pode ser o pássa­
ro a dar o sinal .
- Não só as aves - disse o pastor. - Os bichos do monte
também, e o gado , e as abelhas , e os peixes . . . Se não acreditas
em mim, pergunta aos velhos; cada um te vai dizer que o peixe
já não é como era dantes. Nos mares , nos lagos e nos rios há me­
nos peixe a cada ano que passa. No nosso rio Pestchanka,
lembro-me como se fosse hoje, pescavam-se lúcios de um cô­
vado de comprido , e havia lota e escalo , e brema, e cada peixe
1 10 Anton Tchékhov

que era uma beleza, mas agora apanhamos um luciozinho ou


uma perca pequerrucha e já damos graças a Deus . Nem uma
gremilha a sério aparece . E de ano para ano vai ficando pior, de
maneira que não tarda que não haja peixe nenhum. Ora, os
rios . . . Os rios estão a secar, então não estão?
- É verdade , secam .
- Pois , é isso . De ano para ano ficam menos fundos , e já não
há os poços , aqueles fundões que havia antigamente nos rios .
Olha ali, estás a ver os arbustos? - perguntou o velho , apon­
tando para o lado . - Por trás deles é que era o leito antigo , era
por ali que corria o Pestchank:a, ainda no tempo do meu pai , mas
agora olha só para onde o diabo o levou ! Primeiro muda o leito
do rio , depois não tarda nada a secar por completo . Pegados à
aldeia de Kurgássovo havia pântanos e lagos , mas onde é que
eles estão? E onde é que se meteram os ribeiros? Aqui pela nos­
sa floresta corria um ribeiro, de tal género que os mujiques dei­
tavam lá as nassas e pescavam lúcios; o pato-bravo invernava à
beira dele; mas , hoje, nem na altura das cheias leva água como
deve ser. Pois , amigo , olha para onde quiseres, o mal está por
todo o lado . Por todo o lado !
Caiu o silêncio . Meliton ficou pensativo, com os olhos fixos
num ponto . Gostaria de ficar com a recordação de um lugar na
natureza, pelo menos , que ainda não tivesse sido atingido pelo
perecimento total . Deslizaram manchas claras pelo nevoeiro e
pelas riscas oblíquas da chuva, como por umas vidraças emba­
ciadas , mas logo se apagaram - era o sol a nascer que tentava
furar as nuvens e olhar para a terra.
- As florestas também . . . - murmurou Meliton .
- As florestas também . . . - repetiu o pastor. - Cortam-nas ,
ou ardem, ou secam, e não crescem novas . Mal cresce qualquer
coisa, derrubam-na logo; hoje nasce , amanhã, pronto , cortam­
-na . . . e é assim sem parar, até que não reste nada. Eu , meu bom
amigo , desde que acabaram com a servidão , ando com o gado
comunal , já antes da abolição era pastor dos fidalgos , apascen-
A Flauta 111

tava neste mesmo lugar, e não me lembro de um único dia de


Verão em que não estivesse aqui . E sempre a observar o que se
passa no mundo de Deus . Já vi de tudo na vida, e com atenção ,
e uma coisa eu percebo: cada planta está a minguar. Seja cen­
teio , seja legume , seja uma flor qualquer, tudo tende para a mes­
ma coisa.
- Em compensação , o povo tomou-se melhor - observou o
feitor.
- Melhor em quê?
- Mais esperto .
- Lá esperto é , isso é verdade , mas que proveito lhe traz?
Para que é precisa a esperteza antes do fim? Para chegar ao pe­
recimento , a esperteza não faz falta. Para que é que um caçador
precisa dela se não houver caça? No meu entender, Deus deu ao
homem a cabeça mas tirou-lhe a força. O povo ficou fraco , fra­
co até mais não. Por exemplo , eu . . . Não valho um pataco, sou o
último dos últimos da aldeia, mesmo assim, rapaz , tenho força.
Olha que já vou nos setenta, mas ando com o gado todo o dia e,
à noite , por vinte copeques , ainda guardo os animais no prado e
não durmo nem tenho frio; o meu filho é mais esperto do que
eu , mas , se o puserem no meu lugar, amanhã mesmo pede au­
mento e vai a correr para os doutores . Pois. Eu , tirante o pãozi­
nho , não como mais nada, porque isto é assim: «O pão nosso de
cada dia nos dai hoje» , é já o meu pai só comia pão , e o meu avô
também, mas o mujique , hoje em dia, ele é chá e vodca, ele é
pão branco , e tem de dormir toda a noite , e que o tratem das
doenças , e não sei que mimos ainda. E porquê? Porque se tor­
nou fraco , não tem força para aguentar. Talvez gostassem de não
dormir, mas fecham-se-lhes os olhos, nada a fazer.
- É verdade - concordou Meliton . - Hoje em dia o muji­
que não presta.
- A verdade é para se dizer: pioramos de dia para dia. E já
agora, no que toca aos senhores , esses ainda enfraquecem mais
que o mujique . O senhor, hoje em dia, já aprendeu tudo , sabe
1 12 Anton Tchékhov

coisas que nem sequer valia a pena saber, mas será que ele tira
algum proveito disso? Olhamos para ele e até mete pena . . . Ma­
grinho , mirrado , tal e qual um húngaro ou um francês , já não
tem aquela pujança, aquele ar. . . é senhor só de nome . Coitado,
não tem um lugar na vida nem trabalha, e não se percebe o que
ele quer. A criatura ora está sentada com a cana na mão , ora de
barriga para o ar a ler o livreco , ora se mete no meio dos muji­
ques a dizer-lhes não sei que sentenças ; e depois ainda aqueles
senhores que passam fominha e arranjam lugares de escrivães .
Pois é assim que ele vive , numa corriqueirice , e nem lhe passa
pela cabeça que podia ocupar-se numa coisa importante . Os se­
nhores de antigamente , metade deles , vá lá digamos, eram ge­
nerais , mas hoje são todos uns moncosos !
- Ficaram pobres - disse Meliton .
- Ficaram, pois , mas isso foi porque Deus lhes tirou a força.
Não se faz nada contra a vontade de Deus .
Meliton voltou a fixar os olhos num ponto indefinido . Pensou
um pouco , suspirou como suspiram as pessoas sérias e sensatas ,
abanou a cabeça e disse:
- E porque é que as coisas são assim? Pecamos muito , es­
quecemo-nos de Deus . . . e então , pronto , chegou a hora em que
tem de ser o fim de tudo . Também é verdade que o mundo não
pode viver eternamente . . . chegou a hora.
O pastor suspirou e, como se quisesse acabar com aquela con­
versa desagradável , afastou-se da bétula e pôs-se a contar as va­
cas com os olhos .
- Ei , ei , ei ! - gritou . - Ei , ei , ei ! Suas bestas , não há dia­
bo que as leve ! Porque vos metestes para o matagal , diabos? Oi ,
. .,
01 , 01 .
Fez uma cara zangada e foi para as moitas juntar o gado . Me­
liton levantou-se e, vagaroso, arrastou-se ao longo da orla. Ca­
minhava olhando para os pés e pensativo; ainda se esforçava por
se lembrar de alguma coisa que a morte tivesse poupado até
agora. Pela chuva oblíqua voltavam a deslizar as manchas ela-
A Flauta 1 13

ras; saltavam para o cocuruto das árvores e logo se apagavam na


folhagem molhada. Damka encontrou um ouriço debaixo de
uma moita e, para chamar a atenção do dono , pôs-se a ladrar e
a uivar.
- Vós lá tivestes algum eclipse? - gritou o pastor de trás
dos arbustos .
- Tivemos ! - respondeu Meliton .
- Pois . Por todo o lado o povo se queixa do eclipse . Portan-
to , meu amigo , no céu também há desordem ! Não é por acaso . . .
Oi , oi , oi ! Ei , ei !
Depois de ter afastado o gado para a orla do bosque , o pastor
encostou-se a uma bétula, olhou para o céu , tirou , sem pressas ,
a flauta do peito e começou a tocar. Como antes, tocava maqui­
nalmente , utilizando cinco ou seis notas e, como se fosse a pri­
meira vez que tinha uma flauta nas mãos , os sons saíam-lhe in­
decisos , desordenados , sem formarem melodia, e Meliton , que
. pensava no fim do mundo , ouvia naquilo uma coisa muito tris­
te e agoniante , e que não gostaria de ouvir. As notas mais altas
e estridentes , entrecortadas e tremebundas , pareciam um choro
inconsolável , como se a flauta estivesse doente e com medo ,
lembrando as notas mais baixas , sabe-se lá porquê , o nevoeiro ,
as árvores desanimadas , o céu cinzento . A música parecia con­
dizer com o tempo e com o velho , e com o discurso do velho .
Apeteceu a Meliton queixar-se . Aproximou-se do velho e,
olhando-lhe para a cara triste e irónica, e para a flauta, murmurou:
- A vida também se tomou pior, avô . É impossível viver.
Más colheitas , pobreza . . . o gado morre muito , doenças . . . A po­
breza oprime .
A cara opada do feitor ficara rubra e com uma angustiada ex­
pressão de mulher. Mexeu os dedos , como que à procura de pa­
lavras que lhe exprimissem o pensamento indefinido , e conti­
nuou:
- Oito filhos , mulher. . . a minha mãe ainda é viva, mas só ga­
nho dez rublos por mês , com o comer à minha conta. A mulher
1 14 Anton Tchékhov

ensandeceu de pobreza . . . e eu bebo como um doido . Sou um ho­


mem sério, sensato, mas ando por aí a vadiar todo o dia como
um cão , com esta espingarda, porque já não posso mais: ganhei
nojo à minha casa !
Sentindo que a língua lhe fazia soltar coisas que não queria
dizer, o feitor abanou a mão e disse com amargura:
- Se o mundo tiver que acabar, que seja o mais depressa pos­
sível ! Para quê prolongar isto e martirizar a gente sem sentido . . .
O velho afastou a flauta dos lábios e , piscando o olho, es­
preitou para dentro do tubo delgado . A cara dele estava triste e
coberta de salpicos graúdos como lágrimas . Sorriu e disse:
- Tenho pena, amigo ! É que tenho mesmo pena, meu Deus !
A terra, a floresta, o céu . . . as criaturas vivas . . . tudo isso foi cria­
do e ajeitado como deve ser. E tudo se perde em vão . Mas de
quem tenho mais pena é das pessoas .
Na floresta começou a ouvir-se o barulho da chuva grossa a
cair. Meliton olhou na direcção donde vinha o barulho, abotoou
o casaco e disse:
- Vou-me lá até à aldeia. Adeus , avô . Como te chamas?
- Luká, o Pobre .
- Então , adeus , Luká ! Obrigado pela boa conversa. Damkli ,
aqui !
Despedindo-se do pastor, Meliton arrastou-se ao longo da
orla da floresta, depois desceu pelo prado que se ia transforman­
do paulatinamente em lameiro. Soluçava-lhe a água debaixo dos
pés , e as espadanas , ainda verdes e sumarentas , inclinavam-se
para a terra, como se tivessem medo de ser pisadas . Para lá do
lameiro , na margem do Pestchanka de que falara o velho , havia
salgueiros , e para lá deles, no nevoeiro , entrevia-se, azulada, a
eira senhorial . Sentia-se a iminência daquela época desgraçada
em que os campos se tomam escuros , a terra lamacenta e fria,
em que o salgueiro-chorão parece ainda mais triste e deixa cor­
rer as lágrimas pelo tronco , em que apenas os grous conseguem
fugir da infelicidade geral , e mesmo esses, como receando ofen-
A flauta 1 15

der a natureza amargurada com a ostentação da sua felicidade,


enchem o espaço celeste de um canto triste e saudoso .
Meliton , arrastando os pés na direcção do rio , ouvia como os
sons da flauta esmoreciam a pouco e pouco atrás de si. Ainda ti­
nha vontade de se queixar. Olhava à volta desanimado e come­
çava a sentir uma pena insuportável do céu , da terra, do sol , da
floresta e da sua Damk:a , e quando soou uma nota mais alta,
voando pelo ar e tremendo como um choro de pessoa, Meliton
sentiu uma amargura e um ressentimento ainda maiores pela de­
sordem que se passava na natureza.
A nota alta tremeu , findou de chofre , calou-se a flauta.
O ATAQUE DE NERVOS

Meyer, estudante de Medicina , e Ríbnikov, aluno da Aca­


demia de Pintura, Escultura e Arquitectura de Moscovo , fo­
ram num fim de tarde a casa de um amigo , o estud�nte de
Direito Vassíliev, convidando-o a ir com eles à ruela S . . . v.
Vassíliev, a princípio , recusou , mas lá acabou por se vestir e
sair com eles .
O que sabia de mulheres perdidas era pela boca dos outros e
pelos livros , já que nunca na vida tinha ido às casas delas . Sabia
que existem mulheres imorais que , por fatídicas circunstâncias
- ambiente , má educação , pobreza, etc . - , se vêem obrigadas
a vender a honra por dinheiro . Não conhecem o amor puro , não
têm filhos , não têm direitos; são choradas , como se tivessem
morrido , pelas mães e pelas irmãs , a ciência encara-as como um
malefício , os homens tratam-nas por «tu» . Apesar disto tudo ,
não deixam de ser à imagem e semelhança de Deus . Todas elas
têm consciência do seu pecado e uma esperança de salvação .
Podem aproveitar os meios que as levem à salvação numa esca­
la muito ampla. É verdade que a sociedade não perdoa às pes­
soas o seu passado , mas , aos olhos de Deus , Santa Maria Egip­
cíaca não é inferior aos outros santos . Quando calhava Vassíliev
reconhecer na rua, pelo trajo e ademanes , uma mulher perdida,
ou ver a sua imagem nalguma revista humorística, recordava
O Ataque de Nervos 1 17

sempre uma história que lera outrora, já não se lembrava onde:


um homem casto e abnegado apaixonou-se por uma mulher per­
dida e pediu-a em casamento , e ela, achando-se indigna de tal
felicidade , envenenou-se .
Vassíliev morava numa das ruelas que davam para o Bulevar
Tverskói . Eram umas onze horas quando saiu de casa com os
amigos . Nevara havia pouco , pela primeira vez , e tudo na natu­
reza estava sob o poder destas primícias . O ar cheirava à neve ,
debaixo dos pés rangia suavemente a neve , tudo - o chão , os
telhados , as árvores , os bancos do bulevar - era suave , branco,
jovem, dando aos prédios um aspecto diferente do que tinham
no dia anterior, tomando os lampiões mais brilhantes , o ar mais
transparente , as carruagens menos ruidosas , impregnando a al­
ma, juntamente com o ar puro , leve e frio , de um sentimento
muito semelhante à neve branca, nova, penugenta.
- «Não sei porque me atrai - começou o médico a cantar
num tenor agradável - para essas margens tristes uma força
desconhecida . . . »
- «Eis o moinho . . . - entrou o pintor - já em ruínas . . . »
- «Eis o moinho . . . já em ruínas . . » 1 3 - repetiu o médico , er-
.

guendo as sobrancelhas e meneando tristemente a cabeça.


Ficou um momento calado , passou a mão pela testa tentando
recordar a letra, e alçou a voz , tão bem que os transeuntes se
voltavam para ele:
- «Aqui o amor livre me encontrou outrora, e eu era livre . . . »
Entraram os três no restaurante e, sem despirem os casacos ,
beberam no bufete dois cálices de vodca cada um. Antes de em­
borcar o segundo cálice , Vassíliev reparou num bocadinho de
rolha na sua vodca, aproximou o cálice dos olhos e olhou de­
moradamente , piscando os olhos míopes . O médico não perce­
beu a expressão dele e disse:

13
Princípio da ária do príncipe na ópera A Sereia de Aleksandr Dargomíjski
( 1 8 1 3 - 1 869) . (N. T.)
1 18 Anton Tchékhov

- Porque estás a olhar assim? Por favor, nada de filosofias !


A vodca existe para ser bebida, o esturjão para ser comido, as
mulheres para passarmos um bom bocado com elas , e a neve
para a pisarmos com os pés . Vive ao menos uma noite como de­
ve ser !
- Mas eu não disse nada . . . - respondeu Vassíliev, rindo-se .
- Achas que estou a fazer-me caro ou quê?
A vodca aqueceu-lhe o peito . Olhava com ternura para os seus
companheiros , observava-os com prazer, tinha inveja deles . Que
equilíbrio o daqueles mocetões saudáveis , fortes , alegres , que
lógica e regularidade há na mente e na alma deles ! Cantam e
adoram teatro , pintam quadros e falam muito , e bebem sem que
tenham dores de cabeça no dia seguinte; são poéticos e depra­
vados , temos e atrevidos; sabem trabalhar e indignar-se, mas
também rir-se às gargalhadas sem motivo e dizer parvoíces; são
fogosos , honestos , abnegados e , no aspecto humano , não são
nada piores do que ele , Vassíliev, que se acautela a cada passo
que dá e a cada palavra que diz , é cismático , cuidadoso e pron­
to a elevar a mínima insignificância à categoria de problema.
Pois bem, agora apeteceu-lhe viver pelo menos uma noite da
mesma maneira que os seus companheiros , desprender-se , liber­
tar-se do seu autocontrolo . É preciso beber vodca? Pois bem, vai
bebê-la, nem que amanhã rebente com dores de cabeça. Querem
levá-lo à mulheres? Pois bem, irá, não vai resistir. Vai rir-se ,
fazer palhaçadas , responder com alegria às observações dos
passantes . . .
Saiu do restaurante a rir-se . Gostava dos seus amigos - um
de chapéu de abas largas às três pancadas e pretensões à desor­
dem artística; outro de chapeuzinho de pele de otária, um rapaz
nada pobre mas com a pretensão de fazer parte da boémia cien­
tífica; gostava também da neve , das luzes pálidas dos lampiões ,
das pegadas escuras e nítidas que o s pés dos transeuntes deixa­
vam na primeira neve; gostava daquele ar e , sobretudo , daquele
tom transparente , suave , ingénuo , virgem que, na natureza,
O Ataque de Nervos 1 19

pode ser observado apenas duas vezes no ano: quando a neve


cobre tudo e , na Primavera, nos dias claros ou nos princípios de
noite luarentos , quando o gelo começa a rachar no rio .
- «Não sei porque me atrai - cantou a meia voz - para es­
sas margens tristes uma força desconhecida . . . »
Esta melodia não lhe saiu do ouvido durante todo o caminho ,
a ele e aos seus companheiros , e os três , dessincronizados , não
pararam de a cantar maquinalmente .
Desenhava-se na imaginação de Vassíliev como , dali a dez
minutos, ele e os amigos tocariam à porta, como entrariam cau­
telosamente e como iriam ter com as mulheres pelos corredores
e salas escuros; como ele , aproveitando-se da escuridão , risca­
ria um fósforo que , de repente , alumiaria um rosto sofredor e
um sorriso culpado . A desconhecida, loira ou morena, estaria
por certo com o cabelo solto e uma camisa de noite branca; fi­
caria assustada com a luz, terrivelmente confusa, e diria: «Por
amor de Deus , o que está a fazer? Apague isso ! » Tudo isso era
assustador mas curioso e novo .

Da Praça Trúbnaia, os amigos viraram para a Gratchovka e


não tardaram a entrar numa viela que Vassíliev conhecia apenas
pelo que lhe contavam. Ao ver duas filas de prédios com as ja­
nelas profusamente iluminadas e as portas escancaradas , ao ou­
vir os sons alegres de pianos e violinos - sons que saíam de to­
das as portas e se confundiam numa miscelânea estranha, como
se algures na escuridão , sob os telhados , uma orquestra invisí­
vel afinasse os seus instrumentos - Vassíliev surpreendeu-se e
disse:
- Tantas casas !
- Isto não é nada ! - disse o médico . - Em Londres há dez
vezes mais . Lá, há cerca de cem mil destas mulheres .
1 20 Anton Tchékhov

Os cocheiros estavam sentados nas suas boleias de modo tão


calmo e indiferente como costumavam estar em qualquer outra
ruela; nos passeios andavam pessoas iguais às pessoas que se
passeavam em todas as ruas . Ninguém se apressava, ninguém es­
condia a cara na gola do casaco , ninguém abanava a cabeça com
censura . . . E nesta indiferença, nesta confusão sonora de pianos e
violinos, nas janelas iluminadas , nas portas abertas de par em par
sentia-se qualquer coisa de muito aberto , descarado , audaz e de­
senvolto . Talvez , nos tempos antigos , houvesse a mesma alegria
e o mesmo barulho nos mercados de escravos , e as caras e o an­
dar das pessoas exprimissem a mesma indiferença.
- Comecemos pelo princípio - disse o pintor.
Os amigos entraram num corredor estreitinho , alumiado por
um candeeiro com reflector. Quando abriram a porta, no vestí­
bulo levantou-se do divã amarelo , preguiçosamente , um homem
de sobrecasaca preta, com cara de lacaio e a barba por fazer, os
olhos sonolentos . Cheirava como numa lavandaria, e ainda a vi­
nagre . Do vestíbulo , uma porta dava para uma sala fortemente
alumiada. O médico e o pintor pararam à porta e, esticando os
pescoços , espreitaram ambos para a sala.
- Buona sera, senhores, rigoletto , huguenote , traviata ! -
começou o pintor, fazendo vénias teatrais .
- Havana, barbatana, pistoletto ! - disse o médico, aper­
tando contra o peito o seu chapelinho e fazendo uma vénia pro­
funda .
Vassíliev estava atrás deles . Também lhe apetecia fazer uma
vénia teatral e dizer uma idiotice qualquer, mas apenas sorria,
sentindo um embaraço que se aproximava muito da vergonha e
esperando com impaciência o que iria acontecer a seguir. À por­
ta apareceu uma loira pequena, dos seus dezassete ou dezoito
anos , com o cabelo curto e o vestido azul curto com uma espé­
cie de galões brancos no peito .
- Porque estão aí à porta? - disse ela. - Tirem os casacos
e entrem na sala.
O Ataque de Nervos 121

O médico e o pintor, continuando a falar em italiano , entra­


ram na sala. Vassíliev, indeciso , seguiu-os .
- Meus senhores , tirem os casacos ! - disse o lacaio , seve­
ro . - Assim não pode ser.
Além da loira, estava na sala mais uma mulher, muito corpu­
lenta e alta, a cara de quem não era russa, os braços desnudos .
Estava sentada ao lado do piano e fazia uma paciência em cima
dos joelhos . Não prestou qualquer atenção à entrada dos clientes.
- Onde estão as outras meninas? - perguntou o médico .
- Estão a tomar chá - disse a loira. - Stepan - gritou - ,
vai dizer às meninas que chegaram uns estudantes !
Pouco tempo depois entrou na sala uma terceira rapariga. Ti­
nha um vestido vermelho-vivo às riscas azuis , a maquilhagem
da cara espessa e desajeitada, a testa tapada pelo cabelo , os
olhos assustados, quase sem pestanejarem. Mal entrou pôs-se a
cantar, num contralto forte e grosseiro , uma canção . A seguir
apareceu a quarta menina, depois a quinta . . .
Vassíliev não via nada de novo o u curioso em tudo isto .
Parecia-lhe já ter visto por mais de uma vez esta sala, o piano ,
o espelho com uma moldura dourada barata, os galões , o vesti­
do às riscas azuis e aquelas caras lorpas e indiferentes . Não viu
nem sombras de escuridão , de silêncio, de mistério , de sorriso
culpado , enfim, nada do que esperava encontrar ali e que o as­
sustava.
Era tudo vulgar, prosaico e privado de interesse . Só uma coi­
sa lhe incitava ligeiramente a curiosidade - o mau gosto terrí­
vel , como que inventado de propósito , em todas as comijas e
nos quadros absurdos , nos vestidos e nos galões . Havia neste
mau gosto algo de característico , de especial .
«Que pobre e estúpido é tudo isto ! - pensava Vassíliev. -
Neste disparate todo que estou a ver, o que poderá seduzir uma
pessoa normal , tentá-la a cometer o pecado terrível de comprar
por um rublo um ser humano vivo? Compreendo qualquer
pecado se for por causa do brilho , da beleza, da graça, da pai-
1 22 Anton Tchékhov

xão, do bom gosto . . . mas , aqui , o que há? As pessoas , aqui , pe­
cam em nome de quê? Aliás . . . o melhor é não pensar! »
- Eh, barbas , ofereça-me uma Porter! - dirigiu-se-lhe a
loira.
Vassíliev, de repente , envergonhou-se .
- Com todo o prazer. . . - disse ele , fazendo uma vénia edu­
cada. - Só que, minha senhora, terá de me desculpar mas . . . não
bebo consigo . Não bebo.
Cinco minutos depois já os amigos iam a outra casa.
- Para que mandaste vir a Porter? - irritava-se o médico .
- Olhem só para o milionário ! Seis rublos deitados à rua !
- Mas se lhe apetecia, porque não haveria de lhe dar esse
prazer? - justificava-se Vassíliev.
- Não foi a ela que deste o prazer, foi à patroa dela. São as
patroas que as mandam pedir bebidas aos clientes , porque é lu­
crativo .
«Eis o moinho . . . - cantou o pintor. - J á em ruínas . . . »
Entrando noutra casa, os amigos ficaram pouco tempo , não
passando do vestíbulo . Tal como na primeira casa, levantou-se
do divã uma figura de sobrecasaca e com a cara de lacaio sono­
lenta. Olhando para aquele lacaio , para a sua cara e para a sua
sobrecasaca gasta, Vassíliev pensou: «Por quantas provações
deve passar um russo normal , simples , para o destino o lançar
para aqui , para servir de lacaio? Onde estaria ele antes e o que
faria? O que espera? Será casado? Onde estará a mãe dele?
E saberá ela que o filho trabalha numa casa destas?» Vassíliev,
involuntariamente , em todas as casas , concentrava agora a sua
principal atenção no lacaio. Numa das casas , parece que na
quarta, o lacaio era pequenito , mais do que seco , mirrado , com
um cordão no colete . Estava a ler o Listok 1 4 e não deu qualquer

14 Moskóvski Listok («Folha de Moscovo») , diário político-literário sensaciona­


lista, um dos primeiros jornais do género «pasquim» a ser editado na Rússia, en­
tre 1 88 1 - 1 9 1 8 . (N. T.)
O Ataque de Nervos 1 23

atenção aos recém-chegados. Olhando para a cara dele , Vassí­


liev, por qualquer razão , pensou que um homem com aquela ca­
ra era capaz de roubar, de matar, de cometer perjúrio . Era um
rosto curioso: testa grande , olhos cinzentos , narizinho chato , lá­
bios pequenos , cerrados, uma expressão lorpa e ao mesmo tem­
po descarada, como a de um braco jovem quando está a apanhar
a lebre . Vassíliev teve até vontade de lhe apalpar o cabelo: rijo
ou macio? Rijo, por certo , como pêlo de cão .

O pintor, como bebesse dois copos de Porter, ficou de súbito


embriagado e extraordinariamente animado.
- Vamos a outra ! - comandava ele , agitando os braços . -
Vou levar-vos à melhor de todas !
Ao chegar com os amigos à casa que , na sua opinião , era a
melhor, exprimiu também o desejo insistente de dançar a qua­
drilha. O médico começou por resmungar que seria preciso pa­
gar um rublo aos músicos , mas lá consentiu em ser par de dan­
ça. Começaram a dançar.
Na melhor casa era tudo tão mau como na pior: espelhos e
quadros , penteados e vestidos iguaizinhos aos das casas ante­
riores . Observando o ambiente e os trajos , Vassíliev compreen­
dia agora que não se tratava de falta de bom gosto , mas de uma
outra coisa que podia ser chamada de gosto ou , até , de estilo da
Ruela S . v, um estilo que era impossível encontrar noutro lu­
. .

gar, qualquer coisa de estudado na sua monstruosidade , nada


casual mas elaborado com o correr dos tempos . Depois de ter
visitado oito casas , já não se admirava com as cores nem com
as caudas compridas dos vestidos, nem com os laçarotes ber­
rantes, nem com os fatos «à marujo» , nem com a espessa ma­
quilhagem violeta das faces ; percebia que , nestes lugares , tinha
de ser assim, que se houvesse alguma mulher, uma que fosse ,
1 24 Anton Tchékhov

que vestisse de maneira normal , ou se na parede fosse pendu­


rada uma só gravura razoável , isso estragaria o tom geral de
toda a viela.
«De que forma inepta elas se vendem ! - pensava. - Será
que elas não podem compreender que a depravação apenas tem
encanto quando é bela e escondida, quando tem a máscara da
virtude? Vestidos pretos modestos , rostos pálidos , sorrisos tris­
tes e um ambiente de penumbra surtem mais efeito do que este
ouropel tosco . Estúpidas ! Se elas próprias não compreendem
isto , alguém lho poderia explicar, digamos, os clientes . . . »
Uma menina de vestido à polaca com debrum branco aproxi­
mou-se e sentou-se a seu lado .
- Moreno simpático , porque não dança? - perguntou-lhe . -
Porque está aborrecido?
- Porque isto é aborrecido .
- Oferece-me Lafitte . Então , já deixa de ser aborrecido .
Vassíliev não respondeu . Depois de um silêncio , perguntou:
- A que horas vão dormir?
- Por volta das seis .
- E a que horas se levantam?
- Duas , três .
- E depois o que fazem?
- Tomamos café, por volta das sete comemos .
- E o que comem?
- O habitual . . . sopa, de repolho ou assim, bife , sobremesa.
A nossa madama trata bem as raparigas . Mas porque me per­
gunta tudo isso?
- Por nada, para fazer conversa . . .
Vassíliev gostaria de falar com a rapariga de muitas outras
coisas . Sentia o desejo forte de saber donde ela era, se os pais
eram vivos , se sabiam que ela estava ali , como tinha ido parar
àquela casa, se estava contente , se era feliz , ou , pelo contrário ,
se se sentia triste e oprimida por pensamentos sombrios , se ti­
nha a esperança de alguma vez mudar de vida . . . Mas não havia
O Ataque de Nervos 1 25

meio de se decidir pela forma que deveria dar à sua pergunta pa­
ra não se mostrar indelicado . Pensou muito e perguntou:
- Que idade tem?
- Oitenta - brincou a rapariga, olhando , risonha, para as fi-
guras que o pintor traçava com os braços e as pernas ao dançar.
De repente , a rapariga desatou às gargalhadas e disse em voz
alta e distintamente , para todos , uma frase longa e cínica. Vas­
síliev ficou perplexo e, sem saber que expressão devia dar à ca­
ra, fez um sorriso forçado . Era o único a sorrir, porque os outros
todos - os amigos , os músicos e as mulheres - nem sequer
olharam para a sua interlocutora, como se não a ouvissem .
- Ofereça-me Lafitte ! - voltou a dizer a rapariga.
Aquele debrum branco e a voz da rapariga começaram a eno­
jar Vassíliev. Afastou-se . Já se sentia abafado , com calor, o co­
ração batia-lhe lentamente mas com força, como um martelo:
um-dois-três !
- Vamos embora daqui ! - disse , puxando o pintor pela
manga.
- Espera, deixa acabar.
Enquanto o pintor e o médico acabavam a quadrilha, Vassí­
liev, para não olhar para as mulheres, observava os músicos . Ao
piano estava um velho de óculos e ar decente , parecido com o
marechal Bazaine; o violino era tocado por um jovem de barbi­
cha loiro-escura, vestido à última moda. O jovem músico , ao in­
vés das caras estúpidas e mirradas que se viam ali , tinha um ros­
to inteligente, jovem, fresco . Vestia com esmero e bom gosto ,
tocava com sentimento . Pergunta-se: como foram parar ali o ve­
lho decoroso e o jovem? O que pensariam quando olhavam
para as mulheres?
Se ao piano e ao violino estivesse alguém esfarrapado , fa­
minto , soturno , bêbado , de cara murcha ou lorpa, compreendia­
-se . Mas , assim, Vassíliev não compreendia nada. Recordava a
história da mulher perdida que tinha lido em tempos e concluía
que aquela imagem humana do sorriso culpado nada tinha em
1 26 Anton Tchékhov

comum com o que estava a ver. Não eram mulheres perdidas


que via ali , via um mundo diferente , muito especial , que lhe era
estranho e incompreensível; se lhe tivessem representado aque­
le mundo num palco ou se lho tivessem descrito num livro , não
teria acreditado nele . . .
A mulher do debrum branco voltou a rir à s gargalhadas e a di­
zer outra frase abominável . Apoderou-se dele o nojo, corou e
sam .
- Espera, também vamos ! - gritou-lhe o pintor.

- Quando estávamos a dançar, tive uma conversa com a mi­


nha dama - contava o médico , quando os três já tinham saído
para a rua. - Falámos do primeiro caso amoroso dela. Ele , o
herói , era um contabilista de Smolensk, casado e pai de cinco fi­
lhos . Ela tinha dezassete anos e vivia em casa dos pais, comer­
ciantes de sabões e de velas .
- E ele conquistou-lhe o coração , foi? - perguntou Vassí­
liev.
- Comprou-lhe roupa interior no valor de cinquenta rublos .
É obra !
«Olha só como ele conseguiu arrancar ao seu par a história do
romance dela - pensava Vassíliev. - Ao passo que eu . . . » -
Meus senhores , vou para casa! - disse .
- Porquê?
- Porque não tenho jeito para isto . Além disso , é aborrecido
e é nojento . Isto é algum divertimento? Se fossem seres huma­
nos , mas não , são uns bárbaros , uns animais . Vou-me embora,
mas é que vou mesmo .
- Vá lá, Gricha, Grigóri , alminha . . . - disse o pintor em voz
chorosa, agarrando-se a Vassíliev. - Anda connosco ! Vamos só
a mais uma casa, depois que se amolem . . . Por favor, Grigóri . . .
O Ataque de Nervos 1 27

Convenceram Vassíliev e levaram-no por mais umas escadas


acima. No tapete e no corrimão dourado , no porteiro que lhes
abriu a porta e no painel que enfeitava o vestíbulo sentia-se o
mesmo estilo da Ruela S . . .v, mas aperfeiçoado , com pretensões
de agradar mais .
- Francamente , vou para casa ! - disse Vassíliev, tirando o
casaco .
- Vá lá, vá lá, queridinho . . . - disse o pintor e beijou-o no
pescoço . - Deixa de te fazer caro . . . Grigri , sê bom camarada !
Viemos juntos, vamos juntos . Irra, que porco estás a ser.
- Posso esperar por vocês na rua. Juro que me agonia estar aqui !
- Pronto , pronto , Gricha . . . agonia-te , mas podes observar na
mesma ! Percebes? Observa !
- É necessário observar as coisas objectivamente - disse o
médico , sério .
Vassíliev entrou na sala e sentou-se . Além deles , havia na
sala muitos clientes: dois oficiais de infantaria; um senhor care­
ca e grisalho no cabelo que lhe restava, de óculos dourados ; dois
estudantes imberbes da faculdade de agrimensura; um homem
muito bêbado com cara de actor. Como todas as meninas esta­
vam ocupadas com estes clientes, não prestavam qualquer aten­
ção a Vassíliev. Apenas uma delas , trajando de Aida, olhou para
ele de soslaio , sorriu por qualquer razão e disse , bocejando:
- Chegou um moreno . . .
Palpitava o coração e ardia o rosto a Vassíliev. A sua presen­
ça ali fazia-o envergonhar-se dos outros; também lhe repugnava
e o fazia sofrer. Atormentava-o a ideia de que ele , um homem
decente e capaz de amar (assim se considerava até este dia) ,
odiasse aquelas mulheres e não tivesse por elas mais nada além
da repugnância. Não tinha pena dessas mulheres , nem dos mú­
sicos , nem dos lacaios .
«É porque não tento compreendê-los - pensava. - Todos
eles me parecem mais animais do que humanos , mas são huma­
nos , têm alma. É preciso compreendê-los e só então julgá-los . ». .
1 28 Anton Tchékhov

- Gricha, não te vás embora, espera por nós ! - gritou-lhe o


pintor e desapareceu para qualquer lado .
Um pouco depois desaparecia também o médico .
«Sim, é preciso tentar compreendê-los , não pode ser de outra
maneira . . . » , continuava Vassíliev a pensar.
E começou a perscrutar atentamente os rostos, mulher a mu­
lher, à procura do tal sorriso culpado . Porém - fosse porque
não sabia ler nas caras , fosse porque nenhuma delas se sentia
culpada - em todos os rostos lia apenas a expressão pateta de
contentamento e do tédio habitual , ordinário . Olhos estúpidos ,
sorrisos estúpidos , vozes estúpidas e estridentes , gestos desca­
rados - e nada mais . Cada uma tinha por certo no seu passado
um romance com um contabilista e cinquenta rublos de roupa
interior e, no seu presente , não tinha outro fascínio na vida além
do café , do almoço de três pratos , do vinho , da quadrilha e do
sono até às duas da tarde . . .
Como não encontrasse qualquer sorriso culpado , Vassíliev
pôs-se à procura de um rosto inteligente . Fixou a atenção na pa­
lidez de uma cara, um pouco sonolenta, cansada . . . Era uma mo­
rena já menos jovem, salpicada de lantejoulas na roupa; estava
sentada na cadeira, olhava para o chão e pensava em qualquer
coisa. Vassíliev pôs-se a passear de um lado para o outro e , co­
mo que sem querer, sentou-se ao pé dela.
«Devo começar com qualquer coisa vulgar - pensava ele -
e depois , a pouco e pouco , passar para as coisas sérias . . . » -
A menina tem um fato bem bonito ! - disse ele e tocou com o
dedo na franja dourada do seu lenço.
- É o que se pode arranjar ... - disse a morena com moleza.
- De que província é?
- Eu? De longe ... De Tchemígov.
- Boa província. Aquilo lá é bom .
- É sempre bom onde não estamos .
«É pena eu não saber descrever a natureza - pensou Vassí­
liev. - Podia agora impressioná-la com a descrição da nature-
O Ataque de Nervos 1 29

za de lá. Por certo que ela gosta daquela natureza , já que nas­
ceu lá.»
- Não se aborrece aqui? - perguntou ele .
- É claro que me aborreço .
- Então porque não se vai embora, s e se aborrece?
- E vou para onde? Pedir esmola, é?
- É mais fácil pedir esmola do que viver aqui .
- Como é que o senhor sabe? Alguma vez pediu esmola?
- Houve alturas que pedi , sim, quando não tinha com que
pagar os estudos . Nem que não pedisse , é uma coisa que se
compreende por si . Um pedinte , seja como for, é um homem li­
vre , e a menina é uma escrava.
A morena espreguiçou-se e seguiu com os olhos sonolentos o
lacaio que levava copos e água mineral numa bandeja . .
- Ofereça-me uma Porter - disse ela e voltou a bocejar.
«Porter. . . - pensou Vassíliev. - E o que aconteceria se en­
trasse aqui , agora, o teu irmão ou a tua mãe? O que dirias tu? E
o que diriam eles? Posso imaginar, então , a tua Porter. . . »
De repente , ouviu-se alguém a chorar. Da sala vizinha, para
onde o lacaio levara a água mineral , saiu rapidamente um se­
nhor loiro com a cara vermelha e os olhos furiosos . Atrás dele
vinha a patroa alta e corpulenta, a gritar numa voz estridente:
- Ninguém lhe permite que esbofeteie as raparigas ! Temos
clientes melhores que o senhor e não batem às raparigas ! Char­
latão !
Criou-se um burburinho . Vassíliev assustou-se e empalideceu .
Da sala ao lado continuava a chegar o choro sentido , sincero de
quem se sente insultado . Então , Vassíliev compreendeu que vi­
viam ali seres humanos , pessoas verdadeiras que , como por to­
do o lado , se sentem ofendidas , sofrem, choram, pedem ajuda . . .
O ódio pesado e a sensação de nojo deram lugar a uma forte
compaixão e à raiva para com o ofensor. Precipitou-se para a
sala donde vinha o choro; enxergou , por entre as filas de garra­
fas que estavam no tampo de mármore da mesa, um rosto
1 30 Anton Tchékhov

sofredor, banhado em lágrimas , deu passo até à mesa, estendeu


a mão para aquele rosto , mas logo recuou , horrorizado . A mu­
lher chorosa estava bêbada.
Furando por entre a chusma barulhenta que rodeava o senhor
loiro , Vassíliev já desanimava, intimidado como um garoto ,
com a sensação de que naquele mundo estranho e incompreen­
sível para ele queriam persegui-lo , espancá-lo, lançar-lhe pala­
vras obscenas . . . Arrancou o casaco do cabide e correu como um
doido pelas escadas abaixo .

Encostado ao tapume , esperava que os seus amigos saíssem.


Os sons dos pianos e violinos , alegres, audazes , descarados e
tristes , misturavam-se num caos e aquela miscelânea de sons
continuava a lembrar-lhe uma orquestra invisível a afinar os
seus instrumentos algures na escuridão por cima dos telhados .
Quando olhava para cima, para aquela escuridão , via um fundo
negro salpicado de pontos brancos em movimento: nevava. Os
flocos de neve , ao entrarem nas áreas iluminadas , giravam no ar,
preguiçosamente , como penugens e , ainda mais preguiçosos,
caíam na terra. Eram farrapos de neve rodopiando em chusma à
volta de Vassíliev e pendurando-se-lhe na barba, nas pestanas ,
nas sobrancelhas . . . Os cocheiros , os cavalos , os passantes: tudo
branco .
«Como pode a neve cair nestas vielas? - pensava Vassíliev.
- Malditas sejam estas casas ! »
Como descera a s escadas a correr, parecia que tinha a s pernas
bambas; sufocava como se estivesse a subir uma montanha, o
coração batia-lhe com tanta força que o ouvia. Estava ansioso
por sair o mais depressa possível da viela e ir para casa, mas ti­
nha ainda mais vontade de ver finalmente os seus amigos e des­
carregar neles o seu pesar.
O Ataque de Nervos 131

Não percebera muitas coisas daquelas casas , as almas daque­


las mulheres perdidas continuavam um mistério para ele, mas
era-lhe claro que as coisas eram muito mais graves do que supu­
nha antes . Se apelidavam de perdida aquela mulher culpada que
se envenenara, então era difícil encontrar uma denominação ade­
quada para as mulheres que dançavam ali ao som do caos musi­
cal e gritavam as suas compridas e abomináveis frases . Não eram
criaturas que caminhavam para a perdição , já estavam perdidas .
«Existe nelas a depravação - pensava ele - , mas sem a cons­
ciência da culpa nem a esperança de salvação. São vendidas , com­
pradas , afogadas em álcool e porcaria, mas , como ovelhas , são
lorpas , indiferentes , não compreendem. Meu Deus , meu Deus ! »
Também ficava claro para ele que tudo aquilo a que s e chama
dignidade humana, individualidade , imagem e semelhança de
Deus , era ali profanado até ao extremo e que a culpa não era só
da viela e das mulheres estúpidas .
Uma chusma de estudantes, brancos da neve , tagarelando e
rindo alegremente , passou a seu lado . Um deles , alto e fino , es­
preitou para a cara de Vassíliev e disse numa voz bêbada:
- É dos nossos ! Emborrachaste-te , amigo? Ah , ah , ah, ami­
go ! Não faz mal , diverte-te ! Vá lá, não te apoquentes , tio !
Agarrou Vassíliev pelos ombros e encostou-lhe o bigode mo­
lhado e frio à cara, depois escorregou , cambaleou e, a abanar as
mãos, gritou:
- Segura-te ! Não caias !
E , rindo , correu atrás dos companheiros .
No meio da balbúrdia, ouviu-se a voz do pintor:
- Que não se atrevam a bater nas mulheres ! Não admito ,
raios os partam ! Canalhas !
À porta do prédio apareceu o médico . Olhou em volta e , ao
ver Vassíliev, disse , preocupado:
- Ah, estás aí? Ouve , a sério , não se pode ir com o Egor a
lado nenhum ! Que raio de homem, não percebo ! Armou um es­
cândalo ! Estás a ouvir? Egor ! - chamou à porta . - Egor !
1 32 Anton Tchékhov

- Não admito que batam nas mulheres ! - ouviu-se em


cima a voz estridente do pintor�
Alguma coisa pesada e volumosa rolou pelas escadas abaixo .
Era o pintor caindo às cambalhotas . Pelos vistos , tinha sido em­
purrado .
Levantou-se , sacudiu o chapéu e , com a cara raivosa, indig­
nada, ergueu o punho cerrado numa ameaça e gritou:
- Canalhas ! Carniceiros ! Vampiros ! Não admito espanca­
mentos ! Bater numa mulher fraca, bêbada ! Seus . . .
- Egor, anda lá, Egor. . . - implorava-lhe o médico . - Pala­
vra de honra, nunca mais venho contigo para lado nenhum. Pa­
lavra de honra !
A pouco e pouco o pintor acalmou-se e os amigos foram
para casa.
- «Não sei porque me atrai - cantou o médico - para es­
sas margens tristes urna força desconhecida . » . .

- «Eis o moinho . . . - juntou-se-lhe o pintor - já em ruí­


nas . . . » Corno a neve cai , Nossa Senhora ! Grichka, porque te
vieste embora? És um cobarde , urna fêmea, mais nada.
Vassíliev seguia atrás dos amigos , olhava-lhes para as costas
e pensava:
«Das duas , urna: exageramos e a prostituição apenas aparen­
ta ser um mal , ou a prostituição é mesmo um mal , corno mais
geralmente se considera, e então estes meus queridos amigos
são uns esclavagistas , violadores e assassinos iguais aos habi­
tantes da Síria e do Egipto , cujas imagens se publicam na Ni­
va 1 5 . Estão agora a cantar, a rir, a raciocinar com sensatez , mas
não foram eles quem , há pouco , explorou a fome , a ignorância,
a estupidez? Foram eles , sou testemunha. Então , que tem isso a
ver com a humanidade , a medicina, a pintura deles? As ciências ,
as artes e os sentimentos elevados destes facínoras lembram-me

15 Niva («Campo») , revista literária semanal, editada em Petersburgo desde 1 870


a 1 9 1 7 . (N. T.)
O Ataque de Nervos 1 33

o toucinho da anedota. Dois bandidos degolaram um pedinte na


floresta, começaram a partilhar a roupa dele e encontraram no
seu bornal um bocado de toucinho . "Ainda bem - disse um
deles - , vamos petiscar." - "Não , o que estás a dizer? -
aterrorizou-se o outro . - Esqueceste-te de que hoje é quarta­
-feira?" Assassinaram uma pessoa, mas saíram da floresta com
a consciência de terem cumprido a abstinência. Do mesmo mo­
do , estes que acabaram de comprar mulheres vão agora a pensar
que são artistas e cientistas . . . »
- Oiçam! - disse ele com zanga e rispidez. - Porque fre­
quentam estes sítios? Não compreendem que isso é horrível? A
vossa medicina diz que cada uma destas mulheres morre precoce­
mente de tísica ou de outra doença qualquer; as artes dizem que,
moralmente, elas morrem ainda mais cedo. Cada uma delas mor­
re porque, durante a sua vida, ela faz o serviço a, digamos , uma
média de quinhentos homens . Cada uma é assassinada por qui­
nhentos homens . E vós fazeis parte desses quinhentos ! Ora, se vós
ambos , durante a vossa vida, visitardes este lugar e outros seme­
lhantes duzentas e cinquenta vezes cada um, tal significa que na
vossa consciência pesará a morte de uma mulher assassinada! Não
é claro? Não é terrível? Matarem os dois , os três , os cinco juntos
uma mulher estúpida e faminta! Ah, não será terrível, meu Deus?
- Já sabia que isto ia acabar assim - disse o pintor, fran­
zindo a cara. - Não devíamos ter-nos metido com este imbe­
cil ! Achas que isso que tens na cabeça são grandes ideias , gran­
des pensamentos? Não , isso é um raio de uma porcaria, e não
ideias ! Estás a olhar para mim com ódio e repugnância, mas , na
minha opinião , seria preferível construíres mais vinte casas des­
tas do que olhares para as pessoas dessa forma. Nesse teu olhar
há mais depravação do que em toda a viela ! Vamos , Volódia, ele
que vá pro diabo ! É um parvo , um imbecil , mais nada . . .
- Nós , seres humanos , matamo-nos mutuamente - disse o
médico . - Isso é imoral , sem dúvida, mas a filosofia não re­
medeia nada. Ora adeus !
1 34 Anton Tchékhov

Na Praça Trúbnaia, os companheiros despediram-se e cada


qual foi para seu lado . Ao ficar sozinho , Vassíliev pôs-se a ca­
minhar rapidamente pelo bulevar. Tinha medo do escuro , da ne­
ve que caía no chão em farrapos grossos e parecia querer cobrir
todo o mundo; tinha medo das luzes dos lampiões a cintilarem
palidamente através das nuvens de neve . Apoderou-se-lhe da al­
ma um medo inconsciente , pusilânime . De vez em quando vi­
nham ao seu encontro outros transeuntes e Vassíliev, assustado ,
desviava-se deles . Parecia-lhe que afluíam de todo o lado mu­
lheres que olhavam para ele , apenas mulheres . . .
«Está a começar - pensava. - Está a começar-me u m ata­
que . . . »

Em casa, deitado na cama, tremia do corpo todo e dizia:


- Vivas ! Vivas ! Meu Deus , são vivas !
Esforçava com afinco a fantasia, ora se imaginando como ir­
mão de uma mulher perdida, ora como pai , ora como a própria
mulher com a cara pintada, e tudo isso o aterrorizava.
Por qualquer razão , achava que tinha de resolver o problema
imediatamente , custasse o que custasse , que não se tratava de
um problema alheio , mas dele , pessoal . Fez um esforço, ultra­
passou o desespero e , sentando-se na cama e envolvendo a ca­
beça nos braços , propôs-se resolver um problema: como pode­
ria salvar todas aquelas mulheres que acabara de ver? Como
cientista que era, conhecia bem a ordem de solução dos proble­
mas de qualquer género . Então , por mais excitado que estives­
se , seguia rigorosamente esta ordem. Primeiro rememorou a
história do problema, a literatura sobre o tema, e , por volta das
quatro da madrugada, andava ele de um canto ao outro do quar­
to a tentar lembrar-se de todas as experiências que, nos tempos
actuais, se estavam praticando para a salvação das mulheres . Ti-
O Ataque de Nervos 1 35

nha muitos bons amigos e companheiros que viviam nos quar­


tos mobilados de Falzfein , Galiáchkin , Netcháev, Étchkin . . . En­
tre eles , havia muita gente honesta e esforçada. Alguns deles já
tinham feito tentativas de salvar as mulheres . . .
«Todas essas tentativas , aliás pouco numerosas , podem ser
divididas em três grupos . Alguns , depois de resgatarem a mu­
lher do prostíbulo , alugavam-lhe um quarto , compravam-lhe
uma máquina de costura e faziam dela costureira. O homem que
a resgatara tomava-a então sua concubina, voluntária ou invo­
luntariamente , e depois , terminado o seu curso, ia-se embora e
entregava-a a outro homem decente , como um objecto qualquer.
E a mulher perdida continuava perdida. Outros , depois de a res­
gatarem, também lhe alugavam um quarto individual , também
lhe compravam a inevitável máquina de costura e , além disso ,
recorriam à alfabetização , aos sermões , à leitura de livros. En­
quanto aquilo era novo e interessante para ela, a mulher vivia
costurando , mas depois , farta disso , começava a receber homens
às escondidas dos pregadores, ou então fugia de volta ao sítio
onde podia dormir até às três da tarde , tomar café e jantar bem .
Outros ainda, os mais fervorosos e abnegados , davam o passo
corajoso e decisivo . Casavam-se com ela. Então , quando aque­
le animal descarado e mimado , ou estúpido e embrutecido , se
tomava esposa, dona de casa e , depois , mãe , tal situação virava
do avesso a vida e a visão do mundo da mulher, pelo que era di­
fícil reconhecer naquela esposa e mãe a antiga mulher perdida.
Sim, o casamento é o melhor e , talvez , o único meio .»
- Mas é impossível ! - disse Vassíliev em voz alta e atirou-
-se para cima da cama. - Quanto a mim, não seria capaz de me
casar com uma dessas ! Para isso é preciso ser santo , desconhe­
cer o ódio e a repugnância. Ora, suponhamos que eu , o médico
e o pintor nos superávamos e nos casávamos , e que todas elas
se casavam com alguém. Pois, mas a conclusão disso? Qual se­
ria a conclusão a tirar? A conclusão seria a de que , enquanto
aqui , em Moscovo , elas se casavam, o contabilista de Smolensk
1 36 Anton Tchékhov

depravaria uma nova leva delas-, e essa leva afluiria a colmatar


as vagas abertas cá, juntamente com as mulheres de Sarátov,
Níjni Nóvgorod e Varsóvia . . . E o que se faria com as cem mil de
Londres? E com as de Hamburgo?
O candeeiro , em que se esgotara o petróleo , começou a fu­
megar. Vassíliev não reparou nisso . Voltou a calcorrear o quar­
to , continuando a reflectir. Colocava agora o problema de outro
modo: o que deveria fazer-se para que as mulheres venais dei­
xassem de ser necessárias? Para isso era preciso que os homens
que as compravam e matavam sentissem toda a imoralidade do
seu papel esclavagista e se aterrorizassem. Era preciso salvar os
homens .
«Com a ciência e as artes , pelos vistos , não se consegue na­
da . . . - pensava Vassíliev. - A única saída é o apostolado .»
E pôs-se a sonhar que , já na noite seguinte , se postaria na es-
quina da viela e diria a cada transeunte:
- Aonde vai o senhor e para quê? Tenha temor a Deus !
Dirigir-se-ia aos cocheiros indiferentes e dir-lhes-ia:
- Porque estais aí parados? Porque não vos indignais, não
vos revoltais? Se tendes fé em Deus, se sabeis que isto é peca­
do , que isto leva as pessoas ao inferno, porque estais então ca­
lados? É verdade que para vós elas são umas estranhas , mas
também têm pais e irmãos iguais a vós . . .
Entre o grupo dos seus amigos, alguém disse uma vez sobre
Vassíliev que era talentoso . Que existe o talento da escrita, o cé­
nico , o artístico , mas ele tinha um especial - o talento huma­
no . Possuía uma fina, uma magnífica sensibilidade à dor em ge­
ral . Como um bom actor sabe interiorizar os movimentos e as
vozes dos outros, Vassíliev sabia interiorizar na sua alma a dor
alheia. Ao ver lágrimas , chorava; ao lado do doente , adoecia e
gemia; perante a violência, tinha a sensação de que era ele pró­
prio a vítima, intimidava-se como uma criança e , tendo medo ,
ia em socorro das pessoas . A dor alheia irritava-o , excitava-o ,
levava-o ao êxtase . . .
O Ataque de Nervos 137

Não sei se aquele amigo tinha razão , mas o que Vassíliev ex­
perimentava, agora que lhe parecia que o problema já estava re­
solvido , era muito semelhante à inspiração de momento . Chora­
va, ria, pronunciava em voz alta as palavras que iria dizer no dia
seguinte , sentia um amor ardente pelas pessoas que lhe dariam
ouvidos e se poriam a seu lado na esquina da ruela enquanto ele
fizesse o seu apostolado; sentava-se a escrever cartas , fazia ju­
ramentos a si mesmo . . .
Tudo isso lhe pareceu uma inspiração , até pelo facto de não
durar muito . Vassíliev cansou-se depressa. As mulheres de Lon­
dres , Hamburgo , Varsóvia, com a sua massa informe , oprimiam­
-no como os montes oprimem a terra em que assentam; aquela
massa intimidava-o , embaraçava-o; lembrou-se de que não ti­
nha o dom da palavra, de que era cobarde e pusilânime , de que
o mais provável era as pessoas indiferentes não quererem ouvir
nem compreender o estudante do terceiro ano de Direito que ele
era, o homem tímido e insignificante que ele era; lembrou-se de
que o verdadeiro apostolado não consiste apenas nos sermões
mas também nas acções práticas . . .
J á era dia, nas ruas trincolejavam a s carruagens , e Vassíliev
estava deitado no divã, imóvel , os olhos fixos num ponto . Já não
pensava nas mulheres, nem nos homens , nem no apostolado .
Toda a sua atenção se concentrava na dor espiritual que o ator­
mentava. Era uma dor embotada, sem motivo , indefinida, perto
da saudade e de um medo extraordinário , desesperada. Não po­
dia determinar onde se localizava a dor - talvez no peito , sob
o coração; não se podia compará-la com nada. Em tempos so­
frera de dores agudas de dentes, já tivera pleurite e nevralgias ,
mas tudo isso , em comparação com a dor espiritual , era insigni­
ficante . Sob esta dor, a vida parecia abominável . A excelente
obra que era a sua tese já escrita, as pessoas amadas , a salvação
das mulheres perdidas - tudo aquilo de que gostava ainda na
véspera, ou que lhe era indiferente , agora que o recordava
irritava-o tanto como o barulho das carruagens , a correria dos
1 38 Anton Tchékhov

criados no corredor, a luz do dia: · · Se alguém, neste momento e


na presença dele , fizesse uma façanha de misericórdia ou co­
metesse uma violência hedionda, ambas as coisas lhe seriam
abomináveis em igual medida. De todas as ideias que vaguea­
vam preguiçosamente na sua cabeça, apenas duas não o irrita­
vam: uma - a de que tinha o poder de se matar quando quises­
se; a outra - a de que a dor não duraria mais do que três dias
(esta segunda sabia-a por experiência) .
Deixou-se ficar deitado algum tempo, depois levantou-se e ,
torcendo as mãos , começou a andar às voltas pelo peómetro do
quarto , encostado às paredes . Olhou de relance para o espelho .
Estava branco , macilento , com as têmporas cavadas , os olhos
maiores , mais escuros , mais parados , como se fossem de outra
pessoa, com o sofrimento gravado neles .
Ao meio-dia bateu à porta o pintor.
- Grigóri , estás em casa?
Esperou um minuto e, como não recebesse resposta, respon­
deu a si mesmo em ucraniano:
- Não está. Foi à universidade , o diabo maldito .
E foi-se embora. Vassíliev deitou-se na cama e , com a cabe­
ça escondida debaixo da almofada, não aguentando a dor, pôs­
-se a chorar e, quanto mais chorava, mais insuportável era a dor.
Quando escureceu , lembrou-se da noite torturante que tinha pe­
la frente e apossou-se dele um desespero teróvel . Vestiu-se à
pressa, correu para fora do quarto deixando a porta aberta e, sem
objectivo , sem saber porquê , saiu para a rua. Pôs-se a andar à
sorte , muito depressa, pela Rua Sadóvaia.
Nevava como no dia anterior, mas a temperatura subira. Com
as mãos metidas para dentro das mangas , a tremer de medo , as­
sustado com tudo - as batidas , os sinais das tranvias de cava­
los , os passantes - Vassíliev caminhou da Sadóvaia até à Tor­
re Sukhareva, dali até às Portas Vermelhas , onde virou para a
Rua Basmânnaia. Entrou numa taberna e bebeu um grande
copo de vodca, que em nada o aliviou . Chegado à Praça Razgu-
O Ataque de Nervos 139

liai , virou à direita e meteu por umas ruelas por onde nunca ti­
nha passado antes . Chegou à ponte velha sobre o lauza maru­
lhante , donde se abriam à vista as longas filas de luzes nas ja­
nelas das Casernas Vermelhas . Para distrair a sua dor com uma
qualquer sensação nova, ou com outra dor, sem saber o que fa­
zer, chorando e tremendo , Vassíliev desabotoou a sobrecasaca e
o casaco e expôs o peito nu à neve húmida e ao vento . Mas is­
so também não lhe aliviou a dor. Então debruçou-se sobre a
guarda da ponte e olhou para baixo , para o lauza negro , turbu­
lento , e teve a tentação de se atirar dali de cabeça, mas não por
repugnância pela vida ou por vontade de suicídio , apenas para
se magoar e distrair a sua dor com outra dor. Mas a água negra,
a escuridão , as margens desertas cobertas de neve eram pavoro­
sas . Estremeceu e recuou . Passeou ao longo das Casernas Ver­
melhas , depois voltou para trás e desceu para um bosque qual­
quer, do bosque subiu de novo à ponte . . .
«Não , para casa, para casa ! - pensava. - Parece que em
casa é menos mau . . . »
E meteu pelo caminho de volta. Em casa arrancou do corpo o
casaco e o chapéu molhados , começou a andar à volta do quarto
rente às paredes , e assim o palmilhou , incansavelmente , até de
manhã.

Quando , no dia seguinte de manhã, o pintor e o médico che­


garam a casa dele , Vassíliev, com a camisa rasgada, as mãos
mordidas , corria destrambelhado pelo quarto e gemia de dor.
- Por amor de Deus ! - chorou ao ver os amigos . - Levai-
-me para onde quiserdes, fazei o que achardes melhor, mas , por
amor de Deus , livrai-me disto ! Senão mato-me !
O pintor empalideceu e atrapalhou-se . O médico por pouco
não chorava também, mas , como achasse que os médicos têm a
1 40 Anton Tchékhov

obrigação de manter o sangue-frio e a seriedade em todas as si­


tuações da vida, disse friamente:
- Estás com um ataque . Não importa. Vamos já ao doutor.
- Aonde quiserdes , mas depressa, por amor de Deus !
- Não te emociones. Tens de te controlar.
O pintor e o médico , com as mãos a tremer, vestiram Vassí­
liev e levaram-no para a rua.
- Mikhail Serguéitch há muito que quer conhecer-te - dis­
se o médico pelo caminho . - É um homem muito querido e um
excelente especialista. Acabou o curso em 82 mas já tem mui­
tos pacientes . Trata os estudantes como bom camarada.
- Rápido , rápido . . . - apressava-os Vassíliev.
O doutor Mikhail Serguéitch , gordo e louro , recebeu os ami­
gos com cortesia, solenidade e frieza, sorrindo apenas com me­
tade da boca.
- O pintor e Meyer já me falaram da sua doença - disse
ele . - Tenho muito prazer em ser-lhe útil . Então? Sente-se , por
favor. . .
Sentou Vassíliev num grande cadeirão ao lado d a mesa e
aproximou dele uma caixa de cigarros.
- Então? - começou ele , afagando os joelhos . - Vamos
começar. . . Que idade tem?
Mikhail Serguéitch fazia perguntas e o estudante de Medici­
na respondia. Perguntou se o pai de Vassíliev tinha quaisquer
doenças particulares , se era alcoólico , se se destacava pela
crueldade ou por quaisquer singularidades . Perguntou a mesma
coisa sobre o seu avô , a sua mãe , os seus irmãos. Ao ouvir que
a mãe tinha uma excelente voz e que por vezes representava no
teatro , animou-se de repente e perguntou:
- Desculpe , não se lembra se a sua mãezinha encarava o tea­
tro como uma paixão?
Assim se passaram cerca de vinte minutos. Vassíliev, de tan­
to ver o doutor a afagar os joelhos e a falar sempre da mesma
coisa, já se aborrecia.
O Ataque de Nervos 141

- Se bem percebo as suas perguntas , o doutor quer saber se a


minha doença é hereditária - disse Vassíliev. - Pois bem, não é.
A seguir, o doutor perguntou a Vassíliev se , na infância, tive­
ra algum traumatismo craniano , vícios secretos, manias , pai­
xões , esquisitices , fraquezas compulsivas . Normalmente , é pos­
sível não se responder a metade das perguntas feitas pelos
médicos minuciosos sem que isso represente qualquer prejuízo
para a saúde , mas Mikhail Serguéitch , o estudante de Medicina
e o pintor estavam com umas caras tais que pareceu a Vassíliev
que , se não respondesse a uma pergunta que fosse , estaria tudo
perdido . O doutor ia apontando as respostas num papel , sabia­
-se lá para quê . Ao ser informado de que Vassíliev já terminara
o curso da faculdade de ciências e que agora estava a fazer o de
Direito , o doutor ficou pensativo . . .
- No ano passado ele escreveu u m excelente trabalho . . . -
disse o estudante de Medicina .
- Desculpe , não me interrompa, não me deixa concentrar -
disse o doutor e sorriu , só com metade da boca. - Sim, é cla­
ro, isso também tem importância na anamnese . O trabalho inte­
lectual exagerado , esgotamento . . . Pois , pois . . . Bebe vodca? -
dirigiu-se a Vassíliev.
- Raramente .
Passaram-se mais vinte minutos . O estudante de Medicina
começou a expor a sua opinião , a meia voz , sobre as causas
mais directas do ataque e contou que , dois dias antes , ele , o pin­
tor e Vassíliev tinham ido à Ruela S . . . v.
O tom indiferente , reservado e frio com que os amigos e o
doutor falavam das mulheres e da maldita ruela pareceu muito
estranho a Vassíliev . . .
- Doutor, diga-me s ó uma coisa - disse ele , fazendo esfor­
ço para ser educado - , a prostituição é ou não é um mal?
- Meu caro , quem o nega? - disse o doutor com o ar de que
já tivesse resolvido para si , havia muito , esses problemas . -
Quem o nega?
1 42 Anton Tchékhov

- O senhor é psiquiatra? - perguntou Vassíliev com gros­


seria.
- Sou , sou psiquiatra.
- Os senhores , se calhar, até têm toda a razão ! - disse Vas-
síliev, levantando-se e pondo-se a andar de um lado para o ou­
tro . - Talvez ! Mas a mim tudo isso parece surpreendente ! Se
estudei em duas faculdades . . . vêem nisso uma façanha; se es­
crevi um trabalho que , dentro de dois ou três anos , terá caído no
esquecimento , põem-me nos píncaros da lua; mas porque não
posso falar das mulheres venais com o mesmo sangue-frio com
que falo destas cadeiras , tratam da minha saúde , consideram-me
doido , têm pena de mim !
Vassíliev sentiu de chofre uma pena insuportável de si mes­
mo e dos seus amigos , e de toda a gente que vira dois dias an­
tes na ruela, e também deste doutor; desatou a chorar e deixou­
-se cair na cadeira.
Os dois amigos olharam interrogativamente para o doutor.
Este , com ar de perito nesta área e de quem compreende perfei­
tamente estas lágrimas e este desespero , aproximou-se de Vassí­
liev e , em silêncio , deu-lhe umas gotas a beber; depois , quando
Vassíliev se acalmou , mandou-o despir e pôs-se-lhe a examinar
a sensibilidade cutânea, o reflexo da rótula, etc .
E Vassíliev sentiu-se melhor. Quando saiu do gabinete do
doutor já experimentava uma certa vergonha, o barulho das car­
ruagens já não lhe parecia irritante , e aquele peso no peito , abai­
xo do coração , como que se derretia. Tinha na mão duas recei­
tas: uma de brometo de potássio; outra de morfina . . . Já antes
tomara daquilo !
Na rua, ficou um pouco parado , pensou e , despedindo-se dos
amigos , arrastou-se preguiçosamente até à universidade .
O TESTA-BRANCA

A loba faminta levantou-se para ir caçar. Os seus três filhotes


donniam profundamente , apertados uns contra os outros e
aquecendo-se uns aos outros . Lambeu-os e foi .
Já corria um Março primaveril , mas de noite as árvores ran­
giam de frio como em Dezembro e bastava tirar a língua de fo­
ra para o frio a beliscar com força. A loba era fraca de saúde ,
desconfiada; estremecia ao mínimo barulho e cismava sempre
que , sem ela em casa, alguém podia fazer mal aos lobinhos .
O cheiro de pegadas de homem e de cavalo, os troncos cortados ,
a lenha em rimas e o caminho escuro coberto de estrume assus­
tavam-na; parecia-lhe que o bicho homem estava por todo o
lado , no escuro , atrás das árvores , e que algures, para além da
floresta, uivavam cães .
Já não era jovem, enfraquecia-lhe o faro e acontecia-lhe to­
mar pegadas de raposa por pegadas de cão , e já se perdia às ve­
zes nos caminhos, o que nunca lhe ocorria na juventude . Com a
saúde assim fraca, já não caçava vitelos nem carneiros grandes
como dantes , e dava a volta para passar de longe pelas éguas
com potros , alimentando-se apenas de carniça morta; muito ra­
ramente calhava comer carne fresca, tirando uma ou outra cria
de lebre na Primavera ou quando se enfiava nos currais dos mu­
jiques onde havia cordeiros .
1 44 Anton Tchékhov

A cerca de quatro verstás do seu covil , à beira da estrada da


posta, havia um invernadouro . Vivia lá o guarda lgnat, um ve­
lho de setenta anos que estava sempre a tossir e a falar sozinho;
dormia de noite , por norma, e de dia batia a floresta com a es­
pingarda de um cano , assobiando às lebres . Pelos vistos, antiga­
mente tinha sido maquinista porque , de cada vez que queria pa­
rar a caminhada, gritava a si mesmo: «Stop , máquina ! » e, antes
de recomeçar a andar: «A todo o vapor! » Andava sempre com
ele uma cadela preta enorme , de raça desconhecida, chamada
Arapka . Quando a cadela se lhe adiantava muito , o velho grita­
va-lhe: «Marcha atrás ! » Às vezes o velho desatava a cantar e ,
nessas ocasiões , cambaleava muito e caía com frequência (a
loba pensava que era por causa do vento) , gritando: «Ai que eu
descarrilo ! »
A loba lembrava-se de que no Verão e n o Outono pastavam à
beira do invernadouro um carneiro e duas borregas , e , quando lá
passara havia pouco pareceu-lhe ouvir balidos . Agora, aproxi­
mando-se do invernadouro , pensava que , sendo já Março , devia
haver de certeza cordeiros no curral . A fome atormentava-a,
imaginava a avidez com que comeria o cordeiro , e tais pensa­
mentos faziam-lhe bater os dentes como castanholas e luzir os
olhos no escuro como dois fogos .
A isbá de Ignat , os barracões , o curral e o poço estavam ro­
deados de montes altos de neve . Tudo silêncio . A Arapka , pelos
vistos , estava a dormir à beira do barracão .
Subindo por um monte de neve , a loba chegou ao telhado do
curral e pôs-se a esgaravatar com as patas e o focinho no colmo .
A palha estava fácil , meio podre , e a loba por pouco não caía de
escantilhão lá para dentro; de repente , soprou-lhe para o focinho
um vapor tépido e o cheiro a estrume e a leite de ovelha. Em
baixo , um cordeiro , às tantas com fome , baliu ternamente. A loba
saltou pelo buraco e caiu de patas dianteiras e de peito em cima
de qualquer coisa macia e quente - por certo o carneiro - mas
entrementes qualquer coisa ganiu no curral , depois ladrou com
O Testa-Branca 145

uns latidos fininhos , uivantes, e as ovelhas afastaram-se brusca­


mente para a parede; assustada, a loba abocanhou a primeira
coisa que calhou e precipitou-se para fora . . .
Deitou a correr com todas a s forças , enquanto a Arapka , fa­
rejando lobo , uivava desalmadamente , as galinhas alarmadas
cacarejavam no invernadouro , e Ignat, saindo à soleira, gritava:
- A todo o vapor ! Sinal de partida !
E apitava como uma locomotiva, e depois: ho , ho , ho , ho ! . . .
E o eco florestal repetia aquela barulheira toda.
Quando , a pouco e pouco , tudo se foi calando , a loba acal­
mou-se um pouco e reparou que o troféu que prendia nos den­
tes e arrastava pela neve era mais pesado e como que mais
duro do que os cordeiros de leite da época; também lhe parecia
ter outro cheiro e que saíam dele uns sons um tanto estranhos . . .
A loba parou e pousou a sua carga n a neve para descansar e
começar a comer; de repente , deu um salto para trás com re­
pugnância. Não era um cordeiro , mas um cachorro , preto , cabe­
çudo e de patas altas , de raça grande e a mesma mancha branca
por toda a testa como tinha a Arapka . A julgar pelos modos de­
le , era um ignorante , um simples rafeiro . Pôs-se a lamber as fe­
ridas e , como se nada fosse , deu ao rabo e ladrou à loba. Esta
rosnou como um cão e correu , afastando-se dele . O cachorro
seguiu-a. A loba virou a cabeça e rangeu os dentes; o cachorro
parou , perplexo , e , pensando pelos vistos que a loba estava a
brincar com ele , esticou o focinho na direcção do invernadouro
e desatou aos latidos sonoros e alegres , como que a convidar a
mãe Arapka a brincar com ele e com a loba.
Já amanhecia quando a loba, de volta ao seu covil , abria ca­
minho pelo meio do matagal de álamos tremedores , distin­
guindo-se cada álamo já com nitidez , e já acordavam os bonitos
galos-lira que , alarmados com os saltos estouvados e pelos lati­
dos do cachorro , esvoaçavam .
«Porque é que ele vem atrás de mim? - pensava a loba com
desgosto . - Se calhar quer que eu o coma.»
1 46 Anton Tchékhov

Vivia com os lobachos num covil pouco fundo: o buraco de


um pinheiro alto que fora arrancado pela raiz três anos antes pe­
la intempérie . Agora havia folhas velhas e musgo no fundo da
cova, e também ossos e como de boi com que os lobinhos brin­
cavam. Já tinham acordado , e todos três , muito parecidos entre
si , estavam à beira do buraco , abanando os rabos à mãe que che­
gava. Ao vê-los , o cachorro parou à distância e olhou demora­
damente para eles; reparando que eles também o observavam
com atenção , começou a ladrar-lhes com zanga, como a estra­
nhos .
O sol teve tempo de nascer, a manhã de raiar, já a neve bri­
lhava a toda a volta e ainda o cachorro estava no mesmo sítio a:
ladrar. Os lobinhos mamavam, empurrando com as patas a bar­
riga da mãe , enquanto esta trincava um osso de cavalo branco e
seco; sofria de uma fome atroz e os latidos do cachorro faziam­
-lhe doer a cabeça: apetecia-lhe atirar-se ao visitante indesejado
e rasgá-lo aos bocados .
Por fim o cachorro , cansado , enrouqueceu; vendo que não ti­
nham medo dele e não lhe prestavam sequer atenção , começou
a aproximar-se dos lobinhos , ora dobrando as patas , ora salti­
tando . Agora, à luz do dia, já era fácil vê-lo bem . . . A sua gran­
de testa era branca e tinha aquela saliência que têm normalmen­
te os cães quando são estúpidos; os olhos eram pequenos , azuis ,
baços , a expressão do focinho era mesmo muito tola. Aproxi­
mou-se mais dos lobinhos e , esticando para a frente as patas lar­
gas , apoiou o focinho nelas e começou:
- Mniá, mniá . . . ngá, ngá, ngá! . . .
O s lobinhos não perceberam mas abanaram o s rabos . Então ,
o cachorro bateu com a pata na cabeça grande de um dos lobi­
nhos . O lobinho respondeu com uma patada também . O cachor­
ro virou-se de lado para ele e olhou-o de soslaio , abanou o rabo
e , de rompante , desatou a correr, dando várias voltas pela neve .
Os lobinhos puseram-se a persegui-lo , o cachorro caiu de costas
e levantou as patas ; os três lobachos atacaram-no e, ganindo de
O Testa-Branca 1 47

entusiasmo , começaram a mordê-lo , mas de leve , de brincadei­


ra. Umas gralhas , empoleiradas num pinheiro alto , assistiam à
luta, preocupadas . O ambiente tornou-se barulhento e divertido .
O sol já aquecia com força primaveril; e os galos-lira, que vol­
ta e meia sobrevoavam o pinheiro derrubado pela tempestade ,
ao brilho do sol pareciam esmeraldinos .
Por norma, as lobas habituam os filhotes à caça dando-lhes
um animal caçado para eles brincarem; agora a loba, vendo os
filhos a perseguirem o cachorro na neve e a lutarem com ele ,
pensava:
«Que se habituem.»
Quando se fartaram de brincar, os lobachos entraram no co­
vil e adormeceram . O cachorro uivou um pouco de fome , depois
deitou-se também, ao sol . Quando acordaram, voltaram à brin­
cadeira .
Durante todo o dia e depois , já ao fim da tarde , não saía da
cabeça da loba a noite anterior: o balido do cordeiro no curral ,
o cheiro a leite de ovelha; e isso fazia-lhe tanto apetite que não
parava de roer avidamente o velho osso , imaginando que era o
cordeiro . Os lobinhos mamavam, enquanto o cachorro , cheio de
fome , corria à volta deles e cheirava a neve .
«Vou comê-lo . . . » - resolveu a loba.
Aproximou-se dele , mas o cachorro lambeu-lhe o focinho e
ganiu , pensando que a loba queria brincar com ele . Não que já
não tivesse acontecido , antigamente , a loba comer carne de cão ,
mas agora, com a sua saúde fraca, não suportava aquele cheiro
tão forte a cão do cachorro e , enojada, afastou-se .
No princípio da noite começou a ficar frio . O cachorro abor­
receu-se e foi para casa.
Quando os lobinhos adormeceram, a loba saiu de novo para a
caça. Tal como na noite anterior, qualquer ruído a alarmava,
qualquer tronco cortado a assustava, tinha medo da lenha, dos
arbustos escuros e solitários do zimbro que , ao longe , lembra­
vam homens . Corria pela neve dura, a uma certa distância do ca-
1 48 Anton Tchékhov

minho . De repente , à frente , bastante longe , relanceou qualquer


coisa escura . . . A loba esforçou a vista e o ouvido: sim, ia qual­
quer coisa a andar à sua frente , ouvindo-se até passos regulares.
Um texugo? Cautelosamente , retendo a respiração , mantendo­
-se sempre afastada do caminho , a loba ultrapassou a mancha
escura, virou a cabeça para ela e reconheceu-a. Era o cachorro
da testa branca que , sem pressas , a passo , voltava para o seu in­
vernadouro .
«Que não me estrague tudo outra vez» , pensou a loba e co­
meçou a correr para chegar mais depressa.
O invernadouro já estava perto . A loba, mais uma vez , trepou
ao colmo pelo monte de neve . O buraco da véspera já tinha si­
do tapado com palha tremês e o telhado tinha sido arranjado
com varas novas . A loba começou a trabalhar rapidamente com
as patas e com o focinho , virando às vezes a cabeça para trás , a
ver se não vinha o cachorro . Pois bem , mal lhe soprou para o na­
riz o vapor tépido e o cheiro a estrume , ouviu atrás dela os lati­
dos alegres e sonoros . Era o cachorro que chegava. Saltou logo
para o telhado , juntando-se à loba, depois saltou pelo buraco e ,
sentindo-se e m casa, no quentinho , reconhecendo as ovelhas , la­
drou ainda mais . . . Arapka , que estava à beira do barracão , acor­
dou e , farejando o lobo , uivou; as galinhas cacarejaram e, quan­
do apareceu Ignat com a espingarda à porta da isbá, já a loba
assustada estava longe do invernadouro .
- Fiu ! - assobiou Ignat. - Fiu ! Corre , a todo o vapor !
Premiu o gatilho - a espingarda negou-se; premiu-o mais
uma vez - nova falha; à terceira vez saiu um feixe enorme de
fogo do cano e soou um «buu !» ensurdecedor. Ignat sentiu o coi­
ce forte no ombro; depois , com a espingarda numa mão e o ma­
chado na outra, foi ver que barulho tinha sido o que o acordara . . .
Um pouco mais tarde voltou à isbá.
- O que foi? - perguntou em voz rouca um peregrino que
nessa noite dormia no invernadouro e fora acordado pelo baru­
lho .
O Testa-Branca 1 49

- Nada . . . - respondeu lgnat. Não foi nada. O nosso


Testa-Branca ganhou o hábito de dormir ao pé das ovelhas , ao
calor. Só que ainda não percebeu que é pela porta que se entra,
pensa que é pelo telhado . Ontem à noite fez um buraco no col­
mo e foi passear, o canalha; agora voltou e andou a esgaravatar
outra vez no telhado .
- Estúpido .
- Pois , aquilo lá lhe rebentou alguma mola nos miolos . De-
testo parvos ! - suspirou lgnat, trepando para o catre do fo­
gão . - Pois é , homem de Deus, ainda é cedo , toca a dormir a
todo o vapor . . .
De manhã chamou o Testa-Branca , puxou-lhe cruelmente as
orelhas e depois , castigando-o com a vergasta, repetiu-lhe:
- Entra-se pela porta ! Pela porta ! Pela porta !
HISTÓRIA DE UM DESCONHECIDO

Por razões de que ainda não é a altura de falar em pormenor,


tive de ir servir, como lacaio , em casa de um funcionário pe­
tersburguense , o senhor Orlov. Ele andava pelos trinta e cinco
anos , o seu nome e patronímico eram Gueórgui lvánitch .
Entrei neste serviço por causa do pai de Orlov, conhecido ho­
mem de Estado , que eu considerava um sério inimigo da minha
causa 1 6 . Supunha eu que , vivendo em casa do filho dele , pode­
ria estudar em pormenor os planos e os propósitos do pai pelas
conversas que ouviria e pelos papéis e apontamentos que en­
contraria em cima da mesa.
Normalmente , perto da onze da manhã soava no meu quarto
de lacaio a campainha eléctrica, dando-me a saber que o amo
acordara. Quando eu , levando nos braços o seu fato e as suas
botas , tudo limpo , entrava no quarto de dormir de Gueórgui Ivá­
nitch , estava ele sentado na cama, imóvel , não com aquele ar so­
nolento de quem acaba de acordar, mas como que cansado pelo
sono , com os olhos fixos num ponto , sem manifestar qualquer
prazer por ter acordado . Eu ajudava-o a vestir-se, ele obedecia-

1 6 O herói deste conto é o típico militante do movimento revolucionário «Liber­


dade do Povo» . Semelhante método conspirativo era muitas vezes utilizado pelos
revolucionários . (N. T.)
História de Um Desconhecido 151

-me contrafeito , taciturno e sem prestar qualquer atenção à mi­


nha presença; depois , com a cabeça húmida das lavagens , todo
a cheirar a perfume fresco , ia para a sala de jantar tomar o café .
Tomava-o à mesa e ia folheando os jornais , enquanto eu e a cria­
da de quarto Pólia nos mantínhamos respeitosamente à porta e
olhávamos para ele . Duas pessoas adultas tinham de olhar, com
a mais séria das atenções , para a maneira como uma terceira
pessoa bebia café e trincava bolachas secas . Parece uma coisa
ridícula e bárbara, mas eu não via nada de humilhante para mim
em ser obrigado a ficar ali de pé , à porta, embora fosse tão fi­
dalgo e tão culto como Orlov.
Naquela altura insinuava-se-me o princípio de tísica e, com
ela, qualquer coisa ainda de mais grave do que a tísica. Não sei
se era por influência da doença, se por mudança da visão do
mundo que começava a desenvolver-se em mim naquela altura
e em que eu nem reparava, o certo era que se ia apossando de
mim, mais e mais a cada dia que passava, a sede louca e irritan­
te de uma vida normal , pequeno-burguesa. Apetecia-me paz de
espírito , saúde , respirar o ar puro , não passar fome . Tornava-me
sonhador e , como sonhador, não sabia ao certo o que queria. Ora
me apetecia tomar hábito e deixar-me ficar o dia inteiro sentado
à janela do mosteiro a olhar para as árvores e os campos ; ora me
imaginava a comprar vinte jeiras de terra e a viver a vida de pro­
prietário rural; ora dava a mim próprio a palavra de honra de
que me dedicaria à ciência e me tornaria sem falta professor uni­
versitário algures na província . Sou tenente reservista da nossa
marinha; pois bem, vinha-me à imaginação o mar, a nossa es­
quadra e a corveta em que eu fizera uma viagem à volta do mun­
do . Sentia o desejo de experimentar mais uma vez aquela sen­
sação inefável de , passeando na floresta tropical ou olhando
para o pôr-do-sol no Golfo de Bengala, pasmarmos de admira­
ção e, ao mesmo tempo , termos saudades da pátria. Sonhava
com montes, mulheres , música e, com a curiosidade de um ga­
roto , perscrutava os rostos , escutava as vozes . Então , quando es-
1 52 Anton Tchékhov

tava à porta a ver Orlov a tomar o café , não me sentia um lacaio


mas uma pessoa a quem tudo no mundo interessa, inclusive
Orlov.
O aspecto físico de Orlov era petersburguense: ombros es­
treitos , tronco comprido , têmporas cavadas , olhos de cor indefi­
nida, cabelo , barba e bigode ralos e de cor baça. Cara bem cui­
dada, gasta e desagradável , sobretudo quando ficava pensativo
ou dormia. Por certo é inútil descrever uma aparência banal , até
porque Petersburgo não é a Espanha - o aspecto físico dos ho­
mens não tem grande importância na nossa cidade , mesmo nos
casos amorosos, apenas os imponentes lacaios e cocheiros pre­
cisam dele . Aliás , só comecei a falar da cara e do cabelo de Or­
lov porque na sua aparência havia uma coisa que merece ser
mencionada, a saber: quando Orlov pegava num jornal ou num
livro , fossem eles quais fossem , ou quando se encontrava com
pessoas , fossem elas quem fossem, os seus olhos punham-se a
sorrir ironicamente e toda a cara lhe sorria também, de forma li­
geira, sem maldade . Antes de ler ou ouvir alguma coisa tinha a
ironia sempre à mão , como o selvagem o escudo . Era uma iro­
nia antiga, arreigada nele , fruto do hábito , e nos últimos tempos
vinha-lhe à cara sem qualquer participação da sua vontade , por
simples reflexo , pelos vistos . Mas disso falaremos depois .
Orlov, depois do meio-dia, com a sua expressão irónica, pe­
gava na pasta cheia de papéis e ia para o serviço . Almoçava
fora e regressava a casa depois das oito . Eu acendia o candeeiro
e as velas no seu gabinete , ele sentava-se na poltrona, esticava as
pernas para cima de uma cadeira e, assim repimpado , começava
a ler. Quase todos os dias trazia livros novos (ou mandavam-lhos
da livraria) , e no meu quarto de lacaio , em todos os cantos e de­
baixo da cama, havia muitíssimos livros em três línguas , não
contando a russa, já lidos e abandonados por ele . Ele lia com
uma rapidez extraordinária. Costuma dizer-se: diz-me o que lês ,
dir-te-ei quem és . Talvez seja verdade , mas quanto ao Orlov era
impossível ajuizar sobre ele pelos livros que lia. Uma salada: fi-
História de Um Desconhecido 153

losofia e romances franceses , economia política, finanças e no­


vos poetas , edições da «Posrédnik» 17 - lia tudo com igual ve­
locidade e a mesma expressão irónica dos olhos .
Depois das dez vestia-se esmeradamente , muitas vezes com
casaca e raramente com a sua farda de Kammerjunker, e saía.
Voltava quando já quase amanhecia.
Eu e ele convivíamos pacificamente , não havendo quaisquer
mal-entendidos entre nós . Normalmente , ele nem reparava na
minha presença e, quando falava comigo , não tinha na cara
aquela sua expressão irónica - pelos vistos não me considerava
um ser humano .
Apenas uma vez o vi zangado . Uma semana depois de eu ter
entrado ao seu serviço , aconteceu que ele voltou de um banque­
te cerca das nove da noite; vinha com cara de capricho , e can­
sada. Quando o seguia para o gabinete , para acender as velas ,
disse-me ele:
- Tresanda a qualquer coisa nas salas .
- Não , desculpe , o ar está limpo - respondi .
- E eu digo-te que tresanda - insistiu , articulando bem .
- Abro os postigos das janelas todos os dias .
- Não te atrevas a discutir, imbecil ! - gritou .
Ofendi-me e já queria ripostar, sabendo-se lá como isso aca­
baria se Pólia, que conhecia o amo melhor do que eu , não se in­
trometesse .
- Realmente , que mau cheiro ! - disse ela, levantando o so­
brolho . - Donde poderá vir? Stepan, abre os postigos da sala
de estar e acende a lareira.
Pólia, soltando uns «ah ! ah ! » , pôs-se a percorrer todas as sa­
las de pulverizador sibilante em punho e roçagando das saias .
Ora, Orlov continuava de mau humor. Fazendo um visível es­
forço para não exteriorizar ruidosamente a sua irritação , estava

17 «Posrédnik» («Mediador») foi uma editora fundada por iniciativa de Lev Tols­
tói e Vladímir Tchertkov; existiu de 1 889 a 1 935 . (N. T.)
1 54 Anton Tchékhov

sentado à mesa a escrever uma carta. Depois de ter escrito al­


gumas linhas , soprou com raiva e rasgou a folha; depois voltou
à escrita.
- Raios os partam ! - murmurou . - Como se eu tivesse
uma memória monstruosa !
Por fim , acabou a carta; levantou-se da mesa e disse , dirigin­
do-se a mim:
- Vais à Znamenskaia e entregas esta carta a Zinaída Fiodo­
rovna Krasnóvskaia, em mão . Mas primeiro pergunta ao por­
teiro se o marido não voltou , ou seja, o senhor Krasnóvski . Se
voltou , não entregues a carta, volta logo para casa. Espera ! . . .
S e ela te perguntar se tenho visitas , diz-lhe que estão c á dois se­
nhores desde as oito , a escreverem qualquer coisa comigo .
Fui de carruagem à Znamenskaia. O porteiro disse-me que o
senhor Krasnóvski ainda não voltara, pelo que subi ao segundo
andar. Abriu-me a porta um lacaio alto , gordo , pardo , com suí­
ças negras , que me perguntou sonolenta, mole e grosseiramen­
te , como só um lacaio pode falar com outro lacaio , o que eu que­
ria. Não tivera ainda tempo de responder quando entrou no
vestíbulo , saindo da sala, uma senhora de vestido preto . Olhou
para mim franzindo os olhos .
- Zinaída Fiodorovna está? - perguntei .
- Sou eu - disse a senhora.
- Trago uma carta de Gueórgui Ivánitch .
Deslacrou a carta com impaciência e, segurando-a com as
duas mãos e exibindo-me os anéis de diamantes , começou a ler.
Observei com atenção o seu rosto branco de traços suaves , o
queixo saliente, as pestanas longas e escuras . Não daria mais de
vinte e cinco anos à senhora.
- Dê-lhe os meus cumprimentos e agradecimentos - disse
ela quando terminou a leitura. - Está alguém com Gueórgui
Ivánitch? - perguntou em tom alegre e meigo , como que en­
vergonhada da sua desconfiança.
- Dois senhores - respondi . - Estão a escrever.
História de Um Desconhecido 1 55

- Dê-lhe os meus cumprimentos e agradecimentos - repe­


tiu e , inclinando a cabeça de lado e relendo a carta em anda­
mento , saiu sem barulho .
Eu, naqueles tempos , encontrava poucas mulheres , e aquela
senhora, que praticamente só vi de relance , causou-me uma im­
pressão muito forte . Quando voltava para casa, a pé , recordava
a cara dela, o seu cheiro a perfume fino , e sonhava. Quando che­
guei , Orlov já não estava em casa.

Portanto , eu e o meu senhor vivíamos em paz e concórdia;


mesmo assim, aquela coisa imunda e insultuosa que eu tanto te­
mia quando resolvi servir como lacaio , estava presente , fazia-se
sentir todos os dias . Além disso , não me dava com Pólia. Era
uma criatura bem nutrida e mimada que adorava Orlov só por­
que era patrão , e me desprezava porque eu era lacaio . Ela, por
certo , do ponto de vista de um verdadeiro lacaio ou de uma co­
zinheira, era sedutora: bochechas coradas , nariz arrebitado , olhos
papudos e uma corpulência a raiar o rechonchudo . Punha pó-de­
-arroz, pintava as pálpebras e os lábios , apertava-se no esparti­
lho , usava anquinhas e uma pulseira de moedas . Tinha um andar
miúdo , saltitante , dava aos ombros e , como se diz , remexia o tra­
seiro . O roçagar das saias , o ranger do espartilho, o tilintar da
pulseira e , ainda, o cheiro ordinário a bâton , a vinagre cosméti­
co e aos perfumes que roubava ao amo causavam-me (quando
arrumava as salas de manhã com ela) a sensação de estar a co­
meter, em cumplicidade com Pólia, uma coisa abominável .
Fosse porque eu não lhe seguia o exemplo nos roubos que ela
fazia, fosse porque não manifestasse qualquer desejo de a tomar
minha amante - facto que , pelos vistos , era ofensivo para ela
- , fosse porque farejava em mim um estranho , Pólia ganhou-
-me ódio desde o primeiro dia. A minha inabilidade , a minha
1 56 Anton Tchékhov

aparência nada lacaia e a minha doença pareciam-lhe coisas mi­


seráveis e que lhe causavam repugnância. Naquela altura eu tos­
sia muito e, às vezes, não a deixava dormir à noite (o meu quar­
to estava separado do dela apenas por uma divisória de madeira) .
Todas as manhãs ela me dizia:
- Mais uma vez não me deixaste dormir. O que tu devias era
ir para o hospital , e não viver em casa de patrões .
Acreditava com tanta sinceridade que eu não era u m homem
mas uma criatura incomensuravelmente inferior a ela que , à se­
melhança das matronas romanas que não tinham vergonha de
tomar banho à frente dos escravos , Pólia andava na minha pre­
sença apenas de camisa.
Uma ocasião , durante o almoço (recebíamos da casa de pas­
to , todos os dias , a sopa e a carne assada) , encontrando-me eu
num estado de espírito maravilhoso , sonhador, perguntei-lhe:
- Pólia, tem fé em Deus?
- É claro que tenho !
- Portanto , tem fé - continuei - de que chegará o dia do
Juízo Final e que todos teremos de responder perante Deus por
todas as nossas más acções?
Não respondeu , fez apenas uma careta desdenhosa; olhando­
-a nos seus olhinhos gordos , frios , percebi que , para aquela na­
tureza monolítica, sem contradições internas , não existia Deus
nem consciência, nem leis , e que , se me fosse necessário matar,
incendiar ou roubar, eu não encontraria melhor cúmplice a
soldo do que ela.
Naquele ambiente estranho para mim, ainda por cima sem es­
tar habituado a que me tratassem por tu e a mentir constante­
mente (eu tinha de dizer «O senhor não está» , quando ele estava
em casa) , a minha primeira semana em casa de Orlov não foi na­
da fácil . A casaca de lacaio pesava-me como uma armadura. Mas
depois habituei-me: como um verdadeiro lacaio , servia, arruma­
va as salas , corria a pé e de carruagem a cumprir ordens de
todo o género . Quando não apetecia a Orlov encontrar-se com
História de Um Desconhecido 1 57

Zinaída Fiodorovna, ou quando se esquecia que tinha prometido


ir visitá-la, lá ia eu à Znamenskaia entregar-lhe a carta em mão e
mentir. A consequência daquilo tudo estava a ser muito diferen­
te do que eu esperava quando decidi servir como lacaio; cada dia
desta minha nova vida se revelava um dia perdido para mim e
para o meu plano , já que Orlov nunca falava do pai e os convi­
dados dele também não; assim, tudo o que eu sabia das activida­
des do conhecido homem de Estado era pelos jornais, como dan­
tes , e da minha correspondência com os camaradas . As centenas
de apontamentos e papéis que eu encontrava no seu gabinete es­
tavam longe de qualquer relação com o que eu procurava. Orlov
era de uma indiferença total para com a famigerada actividade
do seu pai, comportando-se mesmo como se nunca tivesse ouvi­
do falar dela ou como se o pai tivesse morrido havia muito .

Às quintas-feiras Orlov recebia.


Eu encomendava rosbife no restaurante e, por telefone , man­
dava vir caviar, queijos , ostras , etc . da casa Elisséev l 8 . Pólia, lo­
go de manhã, começava a preparar a baixela para o chá e para o
jantar. Verdade seja dita que esta pequena actividade trazia al­
guma variação à nossa vida ociosa, e a quinta-feira, para nós ,
era o dia mais interessante da semana.
Os convidados eram apenas três , sempre . O mais importante ,
e talvez o mais interessante , era o convidado de nome Pekárski ,
um homem alto e magro que rondaria os quarenta e cinco anos ,
com nariz comprido e aquilino , uma grande barba negra e uma
careca. Tinha os olhos grandes , salientes , e a expressão do ros­
to séria, pensadora, como a de um filósofo grego . Prestava ser­
viço na administração dos caminhos-de-ferro e num banco , era

l 8 Grande loja de produtos alimentares em Moscovo e Petersburgo . (N. T.)


158 Anton Tchékhov

consultor jurídico de uma qualquer instituição pública impor­


tante e tinha relações de negócios , como gestor, como presiden­
te de júris de concursos , etc . , com grande número de personali­
dades privadas . A sua graduação na função pública era bastante
baixa e ele próprio se apresentava modestamente como advoga­
do , mas tinha uma influência enorme . Um bilhetinho ou um
cartão-de-visita seus eram o bastante para sermos recebidos por
um médico famoso , pelo director dos caminhos-de-ferro ou por
um funcionário importante sem termos de esperar pela nossa
vez; dizia-se que , com a sua protecção , era possível arranjar-se
um cargo , até da quarta classe, ou abafar um caso desagradável ,
fosse ele qual fosse . Era considerado um homem muito inteli­
gente , mas tratava-se de uma inteligência especial , estranha. Era
capaz , num instante , de multiplicar 2 1 3 por 373 , ou de conver­
ter, sem lápis nem tabelas , libras esterlinas em marcos; conhe­
cia na excelência as áreas dos caminhos-de-ferro e das finanças ,
tudo o que respeitava à administração não tinha segredos para
ele; dizia-se que , em processos civis , era o mais hábil dos advo­
gados , com quem era difícil competir. Esta extraordinária forma
de inteligência, porém, era incapaz de entender coisas que eram
acessíveis mesmo a uma pessoa estúpida. Assim, não com­
preendia porque as pessoas se aborreciam, choravam, se suici­
davam ou chegavam, até , a matar outras pessoas; porque se
preocupavam com coisas e acontecimentos que não lhes diziam
pessoalmente respeito , e porque se riam quando liam Gógol ou
Chedrin . . . Todas as matérias abstractas , escondidas na área do
pensamento ou do sentimento , eram-lhe incompreensíveis e en­
fadonhas , como a música para quem não tem ouvido . Conside­
rava as pessoas apenas do ponto de vista prático e dividia-as em
capazes e ineptas , mais nada, não existindo para ele outras cate­
gorias . Honestidade e decoro , para ele , eram tão-só sinais de ca­
pacidade . Andar na pândega, jogar às cartas e entregar-se à de­
pravação era permissível desde que não prejudicasse o trabalho .
Ter fé em Deus , pensava ele , não era inteligente , mas a religião
História de Um Desconhecido 1 59

devia ser preservada como factor de refreamento do povo , de


outro modo este não trabalharia. Os castigos eram necessários,
mas apenas como factor de intimidação . Ir para uma casa de
campo era inútil , uma vez que também se estava bem na cida­
de . E assim por diante . Era viúvo e não tinha filhos, mas levava
uma vida larga, como se fosse chefe de família, gastando três
mil rublos por ano em casa.
Outro convidado , Kukúchkin , jovem conselheiro de Estado
efectivo , era de pequena estatura e distinguia-se pelo aspecto
desagradabilíssimo que a desproporção entre seu tronco gordo e
rechonchudo e o rosto miúdo e magro lhe conferia. Os lábios
eram em forma de coração e o bigodinho aparado parecia estar
colado com verniz . Era um homem com maneiras de lagarto .
Não entrava, enfiava-se , trotando num passo miudinho , serpen­
teando , soltando risinhos , arreganhando muito os dentes . Era
um funcionário de tarefas eventuais , adstrito a outro funcioná­
rio , o que significa que não fazia nada, embora ganhasse bem,
sobretudo no Verão , quando inventavam para ele todo o tipo de
comissões de serviço . Não era o que se chama um carreirista até
à medula dos ossos, era-o até muito mais fundo , até à última go­
ta de sangue e, paradoxalmente, um carreirista insignificante ,
pouco seguro de si , construindo a sua carreira apenas com base
em pequenos serviços para que se oferecia. Para ser condecora­
do com uma cruzinha estrangeira qualquer, ou para que publi­
cassem nos jornais que ele assistira a uma missa de corpo pre­
sente juntamente com altas personalidades , era capaz de qualquer
humilhação , de suplicar, de bajular, de se desfazer em promessas .
Por cobardia, lisonjeava Orlov e Pekárski , pois considerava-os
pessoas poderosas , e lisonjeava Pólia e a mim porque éramos
criados de uma pessoa influente . De cada vez que eu lhe tirava
a peliça, soltava os seus risinhos e perguntava-me: «Stepan , és
casado?» e , como sinal de atenção para com a minha pessoa,
seguia-se um ror de ordinarices obscenas . Kukúchkin lisonjea­
va as fraquezas de Orlov, a sua depravação , a sua fartura; para
1 60 Anton Tchékhov

lhe agradar, fingia-se um trocista maldoso e um incréu, critica­


va as pessoas que Orlov criticasse , pessoas perante as quais,
noutros lugares , se dobrava servilmente . Quando , ao jantar, se
falava de mulheres e de amor, fingia-se um libertino sofistica­
do . Note-se que , de uma maneira geral , os travessos petersbur­
guenses adoram falar dos seus gostos esquisitos. Qualquer jo­
vem conselheiro de Estado efectivo contenta-se às mil
maravilhas com as carícias da sua cozinheira ou de alguma des­
graçada que se passeia na Avenida Névski , mas quem o ouvir
há-de pensar que o homem está contaminado por todos os vícios
do Oriente e do Ocidente , que é membro honorífico de uma de­
zena de sociedades secretas censuráveis , que já está sob vigi­
lância da polícia. Kukúchkin mentia desavergonhadamente so­
bre si , e os outros , embora não acreditassem nele , faziam
orelhas moucas às suas patranhas .
O terceiro convidado , Grúzin, filho de um notável general e
cientista, era coetâneo de Orlov, de loira cabeleira comprida,
meio cegueta, usando óculos com armação de ouro . Lembro-me
dos seus dedos compridos , brancos , como os de um pianista; em
toda a sua figura, aliás , havia qualquer coisa de músico , de vir­
tuose . Figuras como as dele encontramo-las nas orquestras , co­
mo primeiros-violinos . Tossia muito , sofria de enxaquecas e, no
geral , tinha um ar enfermiço e fraco . Em casa, por certo , ves­
tiam-no e despiam-no como a uma criança. Fez o curso de
Direito e entrou , primeiro , para o departamento de Justiça, de­
pois foi transferido para o Senado , donde se despediu , obtendo ,
mediante um empenho , um cargo no Ministério do Património
Público, donde também não tardou a sair. Actualmente era
chefe de secção na repartição de Orlov, mas já falava em
transferir-se , em breve ; de novo para o departamento de Justiça.
Havia, pois, muita leviandade na sua atitude em relação ao ser­
viço e nas suas migrações frequentes de um lugar para outro;
ora, quando na sua presença se falava a sério de graduações ,
condecorações e ordenados , ele , com bonomia sorridente , repe-
História de Um Desconhecido 161

tia sempre u m aforismo de Prutkov 19: «Apenas n o serviço pú­


blico é possível conhecer a verdade ! » Tinha uma mulher pe­
quenina, com uma cara toda encarquilhada, muito ciumenta, e
cinco filhos magrinhos; enganava muito a mulher, só gostava
dos filhos quando os via, ou seja, de uma maneira geral era in­
diferente em relação à fann1ia e falava dela com ironia. Susten­
tava a família endividando-se , pedindo dinheiro emprestado on­
de calhasse e a quem calhasse , em qualquer ocasião , sem deixar
passar em claro , inclusive , os seus chefes e os porteiros . Era de
uma natureza mole e preguiçosa até à indiferença total para con­
sigo mesmo , deixando-se levar na corrente sem saber para onde
e para quê . la para onde o levavam. Levavam-no para uma es­
pelunca - ia; punham-lhe vinho à frente - bebia, não lho pu­
nham - não bebia; criticavam na sua presença as respectivas
esposas - também criticava a sua, afirmando que ela lhe estra­
gara a vida; mas quando as louvavam, também louvava a sua e
dizia com toda a sinceridade: «Gosto muito dela, coitada.» Não
tinha casaco de peles , embrulhando-se numa manta de viagem
que cheirava a quarto de criança. Quando , ao jantar, se quedava
pensativo a fazer bolinhas de pão e a beber muito vinho tinto ,
então - coisa estranha - eu tinha quase a certeza de que havia
nele qualquer coisa, qualquer coisa que ele próprio sentia vaga­
mente mas que , no meio da balbúrdia e da vulgaridade , não con­
seguia apreender e avaliar. Às vezes sentava-se ao piano (sabia
tocar um pouco) , tirava dois ou três acordes e cantava baixinho:

Que me trará o dia de amanhã ? 20

l9 Kozmá Prutkov era, nos anos de 1 850- 1 860 , o pseudónimo colectivo dos es­
critores A. K. Tolstói e irmãos Jemtchújnikov (Aleksanclr e Vladímir) . Trata-se de
um escritor inventado, do tipo cómico de poeta-burocrata , «presunçoso, lorpa, be­
névolo e leal». A «obra» de Kozmá Prutkov inclui paródias poéticas, clramaturgia
cómica, aforismos , etc . (N. T.)
20 Verso da ária de Lénski da ópera Evguéni Onéguin de Piotr Tchaikóvski ( 1 840-
- 1 893) . (N. T.)
1 62 Anton Tchékhov

Mas , como que assustado , logo se levantava e se afastava para


o mais longe possível do piano .
Habitualmente , os convidados reuniam-se por volta das dez
da noite . Jogavam às cartas no gabinete de Orlov, e eu e Pólia
servíamos-lhes chá. Só então eu podia apreender em plena me­
dida a doçura que era ser lacaio: estar de pé ao lado da porta
quatro ou cinco horas seguidas , não deixar que os copos ficas­
sem vazios , mudar os cinzeiros , correr à mesa para apanhar do
chão um giz ou uma carta caídos , mas , sobretudo, estar ali pa­
rado , à espera, sempre atento , sem me atrever a falar, a tossir, a
sorrir - acreditem que é mais duro do que o mais duro traba­
lho camponês . Nos meus tempos de marinha eu ficava de quar­
to nas noites tempestuosas de Inverno e penso que esse era um
trabalho incomparavelmente mais fácil .
Jogavam às cartas até às duas , às vezes até às três, e depois ,
espreguiçando-se , iam para a sala de jantar e ceavam, ou , como
dizia Orlov, petiscavam . E começava a conversa. Normalmente
encetava-a Orlov, com os olhos risonhos , falando sobre algum
conhecido seu , sobre um livro que lera recentemente , sobre uma
nova nomeação ou um novo projecto; o bajulador Kukúchkin
secundava-o , imitando-lhe o tom, e então , com o estado de âni­
mo em que eu estava, aquilo soava-me como uma música re­
pugnante . A ironia de Orlov e dos seus amigos não conhecia li­
mites e não poupava nada e ninguém. Falavam de religião -
era com ironia; de filosofia, do sentido e dos objectivos da vida
- com ironia; alguém levantava o problema do povo - com
ironia também. Em Petersburgo há uma categoria especial de
pessoas que se especializam em ridicularizar todo e qualquer fe­
nómeno da vida; não podem passar ao lado até de um faminto
ou de um suicida que não digam uma barbaridade qualquer. Po­
rém, Orlov e os companheiros não ridicularizavam nem brinca­
vam - falavam com ironia. Diziam: Deus não existe e, com a
morte , a individualidade desaparece por completo: imortais só
na Academia Francesa. O verdadeiro bem não existe nem pode
História de Um Desconhecido 1 63

existir porque a sua existência é condicionada pela perfeição hu­


mana, e esta é um absurdo lógico . A Rússia é um país tão mise­
rável e aborrecido como a Pérsia. A classe intelectual é um de­
sespero; na opinião de Pekárski , compõe-se em esmagadora
maioria de pessoas ineptas e de pouco préstimo . Quanto ao po­
vo , está alcoolizado , atolado na preguiça, no roubo e na degra­
dação . Não temos ciência, a nossa literatura não presta, o co­
mércio baseia-se na vigarice: «quem não aldraba não vende» .
E tudo neste género , e tudo irónico .
Para o fim da ceia, graças ao vinho , o ambiente tomava-se
mais divertido, passava-se para as conversas alegres . Ironizava­
-se sobre a vida familiar de Grúzin, sobre as vitórias de Kukúch­
kin, sobre o facto de Pekárski , supostamente , ter no seu livro de
despesas uma coluna «para fins de beneficência» e outra «para as
necessidades fisiológicas» . Diziam que não havia esposas fiéis;
que não havia mulher casada de quem, com jeitinho , não se con­
seguissem os favores , sem se sair da sua sala de estar e com o ma­
rido no gabinete ao lado . As meninas adolescentes eram umas de­
pravadas e já a sabiam toda. Orlov guardava uma carta de uma
colegial de catorze anos: esta, quando voltava para casa do seu
colégio , «engatou na Avenida Névski um oficialzeco» , e este tê­
-la-ia levado para sua casa, deixando-a sair apenas à noite , ocor­
rência essa que a menina se apressou a descrever na carta para
uma amiga, partilhando com ela o seu arrebatamento . Diziam que
nunca existira pureza de costumes e que também não existe ago­
ra, nem é necessária, uma vez que se passa maravilhosamente
sem ela. Ora o prejuízo da assim chamada depravação é indubi­
tavelmente sobrestimado. A perversão punível nos nossos códi­
gos não impediu que Diógenes fosse filósofo e mestre; César e
Cícero , uns depravados , foram grandes homens . O velho Catão
casou com uma rapariga novinha e, mesmo assim, continua a ser
considerado um severo abstinente e um esteio dos bons costumes .
Às três ou quatro da madrugada os convidados iam para as
suas casas ou , então , dirigiam-se juntos para fora de portas , ou
1 64 Anton Tchékhov

para a casa de uma Varvara Ossipovna qualquer, na Rua Ofit­


sérskaia, e eu recolhia ao meu cubículo onde não havia meio de
adormecer com dores de cabeça e ataques de tosse .

Três semanas depois de ter começado a servir para Orlov,


num domingo de manhã, se não me engano , alguém tocou à por­
ta. Passava das dez , Orlov ainda dormia. Fui abrir a porta. Po­
dem imaginar o meu espanto: à porta, no patamar da escada, es­
tava uma senhora com véu .
- Gueórgui Ivánitch já se levantou? - perguntou .
Pela voz , reconheci Zinaída Fiodorovna, a tal a quem eu le­
vava cartas à Znamenskaia. Não me lembro se tive tempo de lhe
responder, ou se fui capaz - o seu aparecimento embaraçou­
-me . Ela também não precisava da minha resposta. Passou-me
ao lado num ápice e, enchendo o vestíbulo do aroma do seu per­
fume , do que me lembro muito bem ainda hoje , esgueirou-se
para as salas e os seus passos deixaram de se ouvir. Durante
meia hora, pelo menos , não se ouviu nada. Depois voltaram a
chamar à porta. Desta vez , uma rapariga toda aperaltada, por
certo uma criada de quarto de casa rica, e o nosso porteiro , am­
bos ofegantes , trouxeram duas malas e um cesto de viagem.
- É de Zinaída Fiodorovna - disse a rapariga.
E saiu sem dizer mais uma palavra. Era tudo enigmático e
causava a Pólia, que adorava as travessuras do amo , um sorriso
manhoso; parecia dizer: «É assim que nós somos ! » - e passou
a andar em bicos de pés . Por fim ouviram-se passos; Zinaída
Fiodorovna entrou rapidamente no vestíbulo e, vendo-me à
porta do meu cubículo , disse:
- Stepan , traga a roupa para Gueórgui lvánitch se vestir.
Quando entrei no quarto de Orlov com a roupa e as botas , es­
tava ele sentado na cama com os pés no tapete de cama de pele
História de Um Desconhecido 1 65

de urso . Toda a sua figura exprimia confusão . Não por minha


causa, a quem não prestava atenção e de quem não interessava
a opinião de lacaio; pelos vistos , estava embaraçado e confuso
diante de si mesmo , perante o seu «olho interior» . Vestiu-se ,
lavou-.se , atarefou-se depois com as escovas e pentes , tudo em
silêncio , sem pressas , como se estivesse a dar a si mesmo tem­
po para reflectir na situação e achar uma saída; e via-se , mesmo
pelas costas , que continuava confuso e descontente consigo .
Tomaram café juntos. Zinaída Fiodorovna serviu café da ca­
feteira para si e para Orlov, depois apoiou os cotovelos na mesa
e riu-se:
- Ainda não consigo acreditar - disse . - É como quando
fazemos uma viagem longa e chegamos finalmente ao hotel:
custa-nos a acreditar que já não é preciso continuar mais na car­
ruagem. É agradável suspirar de alívio .
Com uma expressão de garota a quem apetece fazer traquini­
ces , suspirou levemente e voltou a rir-se .
- Vai perdoar-me - disse Orlov, apontando com o queixo
para os jornais . - Ler enquanto tomo café é um hábito insupe­
rável que eu tenho . Mas sei fazer as duas coisas ao mesmo tem­
po: ler e ouvir.
- Leia, leia . . . Os seus hábitos e a sua liberdade ficarão con­
sigo . Mas porque está com essa cara de poucos amigos? Está
sempre assim de manhã, ou é apenas hoje? Não está contente?
- Pelo contrário . Mas , confesso , estou um pouco aturdido .
- Porquê? Teve tempo de se preparar para a minha invasão .
Ameaçava-o com ela todos os dias .
- Pois, mas não esperava que a senhora pusesse a sua amea­
ça em execução precisamente hoje .
- Também eu não esperava, mas assim é melhor. É melhor,
meu amigo . Arranca-se o dente podre , e pronto .
- Sim , claro .
- Ah, meu querido ! - disse ela, apertando os olhos . - Es-
tá tudo bem quando acaba bem, mas antes do desfecho feliz
1 66 Anton Tchékhov

passa-se por tanto desgosto ! Não leve a sério que eu me esteja


a rir; é claro , estou contente , feliz, mas olhe que me apetece
mais chorar do que rir. Ontem aguentei toda uma batalha -
continuava ela em francês . - Só Deus sabe o que me custou .
Mas ainda nem acredito , por isso é que me rio . Parece-me que
estar aqui sentada a tomar café consigo não é real , é um sonho .
Depois, sempre em francês , contou-lhe como , na véspera, se
separara do marido , e os olhos dela ora se enchiam de lágrimas ,
ora riam e olhavam, com adoração , para Orlov. Contou que o
marido já desconfiava, havia muito , mas não procurava esclare­
cer a situação; que havia muitas discussões entre eles e, de cada
vez, no auge da disputa, ele calava-se de repente e ia para o seu
gabinete , não fosse revelar as suas suspeitas no ardor da discus­
são , e também para que ela própria não esclarecesse as coisas .
Então , Zinaída Fiodorovna sentia-se culpada, insignificante , in­
capaz de dar o passo corajoso e sério , e odiava a si mesma e ao
marido , sofria os tormentos do inferno . Ora, na véspera, duran­
te mais uma discussão , quando ele gritou com voz chorosa:
«Quando é que tudo isto acaba, meu Deus? - e saiu para o ga­
binete , ela correu atrás dele como um gato atrás do rato e ,
impedindo-o de fechar a porta, gritou-lhe que o odiava com to­
da a alma. Ele , então , deixou-a entrar no gabinete , e ela disse­
-lhe tudo , confessou que amava outro homem e que esse é que
era o seu mais verdadeiro e legítimo marido , e que considerava
seu dever de consciência mudar-se para casa dele imediatamen­
te , nem que apontassem os canhões contra ela e disparassem .
- Palpita em si uma forte veia romântica - interrompeu-a
Orlov, sem desviar os olhos do jornal .
Ela riu-se e , sem tocar no seu café , continuou a falar. Sentia
a cara a arder, e isso envergonhava-a um pouco , lançando-nos
miradas confusas , a mim e a Pqlia. Pela continuação , fiquei a
saber que o marido lhe respondera censurando-a, ameaçando-a
e que , por fim, acabou a chorar, pelo que seria mais certo dizer
que foi ele quem aguentou uma batalha e não ela.
História de Um Desconhecido 1 67

- Sim , meu amigo , enquanto andei naquela tensão nervosa,


tudo correu bem - dizia ela. - Mas quando caiu a noite , fui­
-me abaixo . O senhor não acredita em Deus , Georges , mas eu
sim, tenho um pouco de fé , e temo o castigo . Deus exige-nos
paciência, generosidade , o sacrifício de nós , mas eu recuso-me
a aguentar e quero organizar a vida à minha maneira. Isso será
bom? E se , do ponto de vista de Deus , não é? Às duas da ma­
drugada ele entrou no meu quarto e disse: «Não se atreva a sair
de casa. Vou buscá-la com a polícia, com escândalo .» Um pou­
co mais tarde , vejo que ele está de novo à minha porta , como
uma sombra . «Tenha pena de mim . Com a sua fuga, a minha
carreira pode ser prejudicada.» Estas palavras tiveram um efei­
to violento em mim , fiquei como que enferrujada, pensei que já
tinha começado o castigo , comecei a tremer de medo e a cho­
rar. Parecia que o tecto ia cair em cima de mim , que me iam le­
var naquele mesmo momento à polícia, que o senhor deixaria
de me amar. . . enfim, só Deus sabe o que eu sentia ! Pensei: en­
tro nalgum mosteiro , ou torno-me enfermeira, rejeito a felici­
dade , mas então lembrei-me de que o senhor me amava e de
que eu não tinha o direito de dispor da minha vida sem o avi­
sar, e tudo se começava a confundir na minha cabeça, eu esta­
va desesperada, sem saber o que pensar e fazer. Mas nasceu o
sol e voltei a ganhar ânimo . Esperei até o dia despontar e vim
para sua casa. Ah , o que eu sofri , meu querido ! Não dormi duas
noites seguidas !
Estava cansada e excitada. Tinha sono e, ao mesmo tempo ,
apetecia-lhe falar sem parar, e rir, e chorar, e ir ao restaurante to­
mar o primeiro almoço , para se sentir em liberdade .
- Tens uma casa acolhedora, mas receio que seja pequena
para os dois - disse ela depois do café , percorrendo rapida­
mente todas as salas . - Que quarto me dás? Gosto deste por­
que é contíguo ao teu gabinete .
Por volta das duas horas mudou de vestido no quarto contí­
guo ao gabinete , a que passou a chamar «O meu quarto» , e saiu
1 68 Anton Tchékhov

com Orlov para almoçar. Tomaram também a segunda refeição


no restaurante , e no longo intervalo entre as duas refeições an­
daram pelas lojas . Até à noite , não parei de abrir a porta aos em­
pregados e aos marçanos das lojas carregados de compras , co­
mo , a propósito , um magnífico tremó , uma mesa de toilette ,
uma cama e um luxuoso serviço de chá de que não precisáva­
mos . E também toda uma família de panelas de cobre que colo­
cámos em fila numa prateleira da nossa cozinha deserta e fria.
Quando desembrulhávamos o serviço de chá, os olhos de Pólia
acenderam-se e por três vezes olhou para mim com ódio e
medo de que talvez não fosse ela mas eu a ser o primeiro que
roubaria umas das graciosas chávenas . Entregaram também
uma secretária de senhora, muito cara mas incómoda. Pelos vis­
tos , Zinaída Fiodorovna tinha a intenção firme de se instalar em
nossa casa como dona.
Ela e Orlov chegaram por volta das dez da noite . Inchada pe­
la consciência orgulhosa de que tinha feito uma coisa corajosa e
extraordinária, loucamente apaixonada e , ao que lhe parecia,
loucamente amada, lânguida, antegozando um sono profundo e
feliz , Zinaída Fiodorovna mergulhava no enleio da sua nova vi­
da. Pelo excesso de felicidade , apertava as mãos com força, ex­
clamava que era tudo maravilhoso e jurava amor eterno; e tais
juramentos , e a convicção ingénua e quase infantil de que tam­
bém era muito amada e sempre o seria, rejuvenesciam-na cinco
anos . Dizia disparates engraçados e ria-se de si mesma.
- Não há maior bem do que a liberdade ! - disse , sentindo-
-se obrigada a proferir qualquer coisa séria e significativa. -
Basta ver este absurdo ! Não damos qualquer valor à nossa opi­
nião , mesmo que seja inteligente , mas trememos diante da opi­
nião de vários parvos . Eu sempre tive medo da opinião dos ou­
tros , mas a partir do momento em que obedeci a mim própria e
decidi viver à minha maneira, os meus olhos abriram-se , venci
o meu medo estúpido e sou feliz , e desejo a toda a gente uma fe­
licidade como a minha.
História de Um Desconhecido 1 69

Logo a seguir, o fio dos seus pensamentos quebrava-se e


punha-se a falar do apartamento novo, do papel de parede , dos
cavalos , de uma viagem à Suíça e à Itália. Quanto a Orlov, can­
sado das andanças pelos restaurantes e pelas lojas , continuava a
sentir aquele embaraço para consigo mesmo que eu lhe notara
de manhã. Sorria, mas mais por delicadeza do que por prazer, e
quando ela falava de alguma coisa a sério , concordava com ela
ironicamente: «Oh, sim ! »
- Stepan , arranje o mais depressa possível u m bom cozi­
nheiro - dirigiu-se-me ela.
- Não vale a pena apressarmo-nos com a cozinha - disse
Orlov, lançando-me um olhar frio . - Primeiro é preciso mu­
darmos de casa.
Orlov nunca tivera cozinha nem cavalos em casa porque , co­
mo se exprimia, não gostava «de encher a casa de imundície» ,
e apenas nos aguentava, a mim e a Pólia, por necessidade .
O chamado «lar de família» , com as suas alegrias e desavenças ,
era um insulto ao seu gosto , uma vulgaridade; era de mau tom,
pequeno-burguês , ter mulher grávida, ter filhos , falar deles . As­
sim, era extremamente curioso para mim imaginar como vive­
riam sob o mesmo tecto aquelas duas criaturas - ela, dona de
casa com espírito prático , com as suas panelas de cobre e os
seus sonhos de um bom cozinheiro e cavalos; e ele , que tantas
vezes dizia aos seus companheiros que em casa de um homem
decente e asseado , tal como num navio militar, não devia haver
nada inútil - mulheres , filhos , trapos , loiçaria . . .

Conto agora o que aconteceu na quinta-feira seguinte . Nesse


dia, Orlov e Zinaída Fiodorovna tinham almoçado ou no Con­
tan ou no Donon. Ora, para casa voltou apenas Orlov, porque
Zinaída Fiodorovna, como eu viria a saber mais tarde , tinha ido
1 70 Anton Tchékhov

ao Bairro Peterbúrgskaia visitar a sua antiga preceptora e , tam­


bém, ficar lá enquanto tivéssemos os convidados em casa. Or­
lov não queria mostrá-la aos seus amigos . Já me tinha apercebi­
do disso essa manhã, à hora do café , quando Orlov começou a
convencê-la de que , para bem do sossego dela, era preciso can­
celar os serões de quinta-feira.
Os convidados , como de costume , chegaram todos quase ao
mesmo tempo .
- A senhora está cá? - perguntou Kukúchkin num sussurro .
- Não - respondi .
Kukúchkin entrou com olhos matreiros , oleosos , sorrindo
enigmaticamente , esfregando as mãos regeladas ;
- Permita-me a honra de lhe dar os meus parabéns - disse
a Orlov, com o corpo todo a tremer de riso bajulador e servil . -
Desejo que frutifiqueis e vos multipliqueis como os cedros-do­
-líbano .
Os convidados foram até ao quarto de dormir e , lá, ao verem
as pantufas de senhora, o tapete entre as duas camas e a blusa
cinzenta pendurada à cabeceira, fartaram-se de fazer piadas a
propósito . Parecia-lhes divertido que aquele teimosão que no
amor desprezava todas as banalidades tivesse caído de repente
e de uma maneira tão simples e vulgar nas teias de uma mulher.
- Do que ristes , o mesmo servireis - repetiu várias vezes
Kukúchkin , que tinha a desagradável tendência de exibir o seu
pretenso conhecimento dos antigos textos eslavos . - Chiu ! -
sussurrou ele , levando o dedo aos lábios , quando , do quarto de
dormir, passaram para a sala contígua ao gabinete . - Chiu !
É aqui que a Margarida sonha com o seu Fausto .
E desatou às gargalhadas , como se tivesse dito uma coisa en­
graçadíssima. Observei a cara de Grúzin , esperando que a sua
alma musical não suportasse aquelas risadas , mas enganei-me .
A sua cara magra e bondosa reluzia de prazer. Quando se senta­
ram para jogar, ele , com os seus «erres» guturais e sufocando de
riso , disse que , para a plenitude da felicidade matrimonial , só
História de Um Desconhecido 171

faltava a Georges arranjar u m cachimbo turco de cerejeira


e uma guitarra. Pekárski ria com imponência, mas pela sua
expressão concentrada via-se que o novo caso amoroso de
Orlov não lhe agradava. No fundo , não compreendia o que
acontecera.
- E o marido dela? - perguntou , perplexo , quando já ti­
nham jogado três róberes .
- Não sei - respondeu Orlov.
Pekárski passou os dedos por entre as longas barbas e pôs um
ar pensativo , assim ficando até à hora da ceia. Quando se senta­
ram para cear, disse lentamente , esticando cada palavra:
- Peço perdão mas , de uma maneira geral , não vos com­
preendo , aos dois. Podiam namorar e violar o sétimo manda­
mento tanto quanto quisessem . . . isso eu compreendia. Sim, isso
compreendo . Mas para que foi preciso revelar o segredo ao ma­
rido? Seria necessário?
- Haverá qualquer diferença?
- Humm . . . - Pekárski reflectiu . - Então , ouve o que te di-
go , caro amigo - continuou , com um visível esforço mental . -
Se eu algum dia voltar a casar e te passar pela cabeça fazeres­
-me comudo , fá-lo de maneira a que eu não descubra. É muito
mais honesto manter uma pessoa no engano do que estragar-lhe
a vida e a reputação . Isso eu compreendo . Pensam ambos que ,
vivendo juntos abertamente , procedem de forma muito honesta
e liberal , mas não posso concordar com esse . . . como se chama
a isso? . . . com esse romantismo .
Orlov não respondeu . Estava de mau humor, não lhe apetecia
falar. Pekárski , continuando perplexo , tamborilou com os dedos
na mesa, pensou e disse:
- Seja como for, não vos compreendo . Não és um estudan­
te , ela não é uma modista. Sois ambos pessoas abastadas . Acho
que podias arranjar-lhe um apartamento .
- Não , não posso . Lê Turguénev.
- Para quê? Já o li.
172 Anton Tchékhov

- Turguénev, nas suas obras., explica que cada rapariga de


espírito elevado e pensamento honesto deve ir com o homem
amado até ao fim do mundo e servir a ideia dele - disse Orlov,
franzindo ironicamente os olhos . - O fim do mundo é a licen­
tia poetica ; todo o mundo , com todos os seus extremos , cabe no
apartamento do homem amado . Por isso , não viver com a mu­
lher que nos ama no mesmo apartamento significa recusar-lhe a
sua alta vocação e não partilhar das suas ideias . Pois é , alminha,
o Turguénev escreveu e eu , agora, tenho de pagar as favas por
ele .
- Não percebo o que é que o Turguénev tem a ver com isto
- disse baixinho Grúzin e encolheu os ombros . - Georges ,
lembre-se como ele , em «Três encontros» , passeia de noite
algures em Itália e ouve de repente: «Vieni pensando a me se­
cretamente» - cantou Grúzin . - Que bom !
- Mas ela não se impôs quando se mudou para tua casa -
disse Pekárski . - Tu próprio quiseste .
- Nunca! Não só não queria como não pensava que isso al­
guma vez pudesse acontecer. Quando ela dizia que se mudava
para minha casa, eu pensava que era uma brincadeira inocente .
Todos se riram.
- Nem eu poderia querer uma coisa dessas - continuou Or­
lov num tom de quem era obrigado a justificar-se . - Não sou
herói de Turguénev e, se alguma vez precisar de libertar a Bul­
gária2 1 , não terei necessidade da companhia de uma mulher. En­
caro o amor, antes de mais , como uma necessidade do meu or­
ganismo , baixa e hostil ao meu espírito; é preciso satisfazê-la
racionalmente ou desistir dela por completo , de outro modo in­
troduz na nossa vida elementos tão imundos como ela própria.
Para que seja um prazer e não uma tortura, tento fazer dessa ne­
cessidade uma coisa bonita e decorá-la com muitas ilusões .
Nunca vou a um encontro com uma mulher sem me certificar de

21 Alusão ao romance Na Véspera de Ivan Turguénev. (N. T.)


História de Um Desconhecido 173

que ela é bela e atraente; também não vou quando estou em bai­
xo de forma. Apenas nestas condições conseguimos enganar­
-nos reciprocamente e ter a ilusão de que nos amamos e somos
felizes . Mas como posso desejar panelas de cobre e cabeleira
despenteada, ou que me vejam quando ainda não me lavei e es­
tou de mau humor? Zinaída Fiodorovna, por ingenuidade , quer
obrigar-me a gostar daquilo de que eu tenho andado a esconder­
-me durante toda a vida. Quer que a minha casa cheire a cozi­
nha e a lavadeiras de loiça; precisa de uma mudança de casa que
dê brado , de ter os seus próprios cavalos , precisa de contar as
peças da minha roupa interior e de cuidar da minha saúde; pre­
cisa de se intrometer a cada instante na minha vida pessoal e de
vigiar cada passo que dou , e , ao mesmo tempo , dar-me a garan­
tia de que vou continuar a desfrutar dos meus hábitos e da mi­
nha liberdade . Está segura, também , de que nós , quais recém­
-casados , faremos muito em breve uma viagem juntos, ou seja,
quer estar inseparavelmente a meu lado no compartimento do
comboio e nos hotéis , quando o que eu gosto é de ler durante as
viagens e detesto conversar.
- Então explica-lhe tudo - disse Pekárski .
- Como? Achas que ela me compreende? Por amor de Deus ,
temos uma mentalidade tão diferente ! Na opinião dela, fugir do
paizinho e da mãezinha, ou do marido , para se unir com o ho­
mem amado é o cúmulo da coragem cívica, quando , na minha
perspectiva, isso não passa de uma garotice . Para ela, apai­
xonar-se e começar um namoro com um homem significa co­
meçar uma vida nova, mas para mim isso não significa nada.
O amor e o homem constituem a essência da vida dela, e, neste
sentido , talvez esteja a agir nela a filosofia do inconsciente; co­
mo será possível convencê-la de que o amor é tão-só uma sim­
ples necessidade , como a alimentação e o vestuário , que o mun­
do não se desmorona porque os maridos e as mulheres não
prestam, que é possível um homem ser depravado , sedutor e, ao
mesmo tempo , um génio nobre , e que , por outro lado , é possí-
1 74 Anton Tchékhov

vel rejeitar os prazeres do amor e ser, ao mesmo tempo , um ani­


mal estúpido e maldoso? Um homem culto moderno , mesmo
que se encontre num patamar inferior, um operário francês , por
exemplo , gasta todos os dias 10 sous com o almoço , 5 sous com
o vinho para o almoço e de 5 a 10 sous com mulheres , reser­
vando todo o seu intelecto e todos os seus nervos , em pleno , ao
trabalho . Ora, Zinaída Fiodorovna não gasta sous com o amor,
mas entrega-lhe toda a sua alma. Digamos que eu lhe faço um
sermão sobre isto; pois bem, vai ripostar, vai vociferar com to­
da a sinceridade que eu a levei à perdição e que agora não lhe
resta mais nada na vida.
- Não lhe digas nada - disse Pekárski - , aluga simples-
mente uma casa só para ela. E pronto .
- É fácil de dizer. . .
Ficaram um bocado calados .
- Mas é simpática - disse Kukúchkin . - É encantadora.
Mulheres como ela imaginam que vão amar eternamente e
entregam-se com entusiasmo .
- Mas é preciso ter juízo - disse Orlov - , é preciso racio­
cinar. Todas as experiências fruto da vida quotidiana e regista­
das nas tábuas da lei de inúmeros romances e dramas confir­
mam unanimemente que todos os adultérios e concubinatos
entre pessoas decentes, fosse qual fosse o amor inicial , não du­
ram mais de dois anos , no máximo três . Ela tem de o saber. Por
isso todas essas mudanças , panelas e esperanças de amor eterno
e concórdia não passam do desejo de se aldrabar a si própria e
a mim. É muito querida, é encantadora . . . ninguém o nega. Mas
virou de pernas para o ar a carroça da minha vida; obriga-me a
elevar ao nível de uma questão séria aquilo que , até hoje, eu te­
nho considerado uma ninharia e um absurdo; estou a venerar um
ídolo que nunca considerei deus . Ela é querida e encantadora,
mas agora, por alguma razão , quando vou do serviço para casa
levo um desgosto na alma, como se estivesse à espera de ir de­
parar em casa com uma arrelia qualquer, do género de encontrar
História de Um Desconhecido 1 75

os fogões todos desmontados pelos pedreiros e os tijolos amon­


toados por todo o lado . Em resumo , já não pago o amor com
sous mas com uma parte do meu sossego e dos meus nervos .
É péssimo .
- E ela, que não está a ouvir e�te facínora ! - suspirou Ku­
kúchkin . - Excelentíssimo senhor ! - disse ele num tom tea­
tral . - Vou libertá-lo da obrigação penosa de amar esta criatu­
ra encantadora! Levo-lhe Zinaída Fiodorovna !
- Força . . . - disse Orlov com indiferença.
Kukúchkin ficou meio minuto a rir-se num tom fininho , tre­
mendo com o corpo todo , e depois disse:
- Veja lá, olhe que não estou a brincar! Não comece depois
a armar-se em Otelo !
Todos começaram a falar da infatigabilidade de Kukúchkin
nos casos de amor e de que ele era irresistível para as mulheres
e perigoso para os maridos , e que , no outro mundo , os diabos
haviam de o assar nas brasas pela sua vida depravada. Kukúch­
kin calava-se e estreitava os olhos , e, quando mencionavam se­
nhoras conhecidas , brandia o mindinho - não se pode , queria
ele dizer, revelar os segredos alheios . De repente , Orlov olhou
para o relógio .
Os convidados perceberam e começaram a preparar-se para
sair. Lembro-me de que Grúzin , embriagado , dessa vez se ves­
tia muito , muito devagar. Enfiou o sobretudo (muito seme­
lhante àqueles casaquinhos que fazem para as crianças nas fa­
mílias de poucas posses) , levantou a gola e pôs-se a contar uma
história comprida; depois, vendo que ninguém o ouvia, lançou
pelos ombros a sua manta com cheiro a quarto de criança e
pediu-me , com uma cara culpada e suplicante , que lhe encon­
trasse o gorro .
- Georges , meu anjo ! - disse ele com ternura a Orlov. -
Alminha, oiça, vamos agora para fora de portas !
- Ide , mas eu não posso . Agora estou numa situação de ho­
mem casado .
1 76 Anton Tchékhov

- Ela é querida, não se vai zangar. Meu bondoso chefe , va­


mos ! O tempo está excelente, um nevão, o friozinho . . . A sério ,
precisa de se distrair, porque está de tão mau humor, cos dia­
bos . . .
Orlov espreguiçou-se , bocejou e olhou para Pekárski .
- Vais? - perguntou pensativamente .
- Não sei . Talvez .
- Embebedo-me , porque não? Está bem, vou - resolveu
Orlov depois de alguma hesitação . - Esperai , vou buscar di­
nheiro .
Dirigiu-se ao gabinete , e logo Grúzin , arrastando a manta
pelo chão , foi atrás dele . Um minuto depois voltavam ao vestí­
bulo . Grúzin , borracho e muito contente, amarrotava na mão
uma nota de dez rublos .
- Amanhã ajustamos contas - dizia ele . - Ela é bondosa,
não se vai zangar. . . Foi madrinha da minha Lísotchka, gosto de­
la, coitadinha. Ah , homem querido ! - riu-se com alegria, de re­
pente , apertando a testa contra as costas de Pekárski . - Ah , Pe­
kárski , alminha ! Advocatíssimus , seco e sisudo , mas gosta, sim,
gosta das mulheres . . .
- Acrescente: das gordas - disse Orlov, vestindo a peliça.
- Vamos já, senão somos capazes de esbarrar com ela à porta.
- Vieni pensando a me segretamente ! - cantou Grúzin .
Finalmente partiram. Orlov não dormiu em casa e voltou no
dia seguinte à hora do almoço .

Desapareceu a Zinaída Fiodorovna o relógio de ouro que lhe


fora oferecido pelo pai havia muito . Esta perda surpreendeu-a e
assustou-a. Passou metade do dia a correr todas as salas , confu­
sa, à procura dele nas mesas , nos peitoris das janelas , mas o re­
lógio parecia ter sido engolido pela terra.
História de Um Desconhecido 1 77

Uns três dias depois , Zinaída Fiodorovna, de volta a casa,


esqueceu-se no vestíbulo do porta-moedas . Felizmente , dessa
vez não fui eu que lhe ajudei a tirar o casaco , foi a Pólia. Quan­
do Zinaída Fiodorovna deu pela falta do porta-moedas , foi ao
vestíbulo mas já lá não estava.
- Estranho ! - dizia Zinaída Fiodorovna. - Lembro-me
perfeitamente de ter pegado nele para pagar ao cocheiro . . . e de
o ter posto aqui depois , ao lado do espelho . Mistérios !
Não roubei o porta-moedas , mas dominava-me a mesma sen­
sação de ter sido eu a roubar e a ser apanhado . Até me vieram
as lágrimas aos olhos . Estavam eles a sentar-se para almoçarem
quando Zinaída Fiodorovna disse a Orlov em francês:
- Apareceram-nos espíritos em casa. Hoje perdi o porta-
-moedas no vestíbulo e , há pouco , fui encontrá-lo no meu quar-
to , em cima da mesa. Mas os espíritos não fizeram esta magia
desinteressadamente: levaram uma moeda de ouro e vinte ru­
blos pelo trabalho .
- Ora lhe desaparece o relógio , ora dinheiro . . . - disse Or­
lov. - Porque será que a mim nunca acontece nada disso?
Um minuto depois já Zinaída Fiodorovna não se lembrava da
magia que lhe tinham feito os espíritos e contava, rindo-se , que
na semana anterior encomendara papel de carta mas , como se
esquecera de comunicar o novo endereço, a loja mandara o pa­
pel para casa do marido , que tinha sido obrigado a pagar a con­
ta de doze rublos . De repente , parou o olhar em Pólia e pôs-se a
observá-la atentamente . Nisto , corou e embaraçou-se de tal mo­
do que se apressou a falar de outra coisa.
Quando lhes levei o café ao gabinete , Orlov estava junto à la­
reira, de costas para o fogo , e ela de frente , na poltrona.
- Não é que esteja de mau humor - disse ela em francês .
- Mas tenho pensado muito e tudo se tornou claro para mim.
Posso dizer-lhe o dia, e até a hora, em que ela me roubou o re­
lógio . E o porta-moedas? Quanto a isso não pode haver dúvidas .
Oh ! - riu-se, pegando na taça de café das minhas mãos . -
178 Anton Tchékhov

Agora percebo porque me desaparecem tantos lenços e tantas


luvas . Como queiras , mas amanhã ponho esta pega com dono e
mando o Stepan buscar a minha Sófia. Essa ao menos não é la­
dra nem tem esta aparência tão . . . repugnante .
- Está de mau humor. Amanhã já muda de disposição e per­
ceberá que não se pode despedir uma pessoa apenas porque se
suspeita dela.
- Não suspeito , tenho a certeza - disse Zinaída Fiodorov­
na. - Quando suspeitei desse proletário de cara infeliz , o seu
lacaio , não disse uma palavra. Georges, não me agrada que não
acredite em mim.
- Se temos opiniões diferentes nalgum assunto , isso não sig­
nifica que não acredite em si . Digamos que tem razão - disse
Orlov, virando-se para o fogo e atirando o cigarro para lá - ,
mesmo assim, não vale a pena a gente enervar-se . De uma ma­
neira geral , confesso que não esperava que o pequeno governo
da minha casa lhe causasse tantas preocupações e desgostos .
Perdeu-se uma moeda de ouro , está bem , esqueça, se quiser
dou-lhe uma centena delas , mas alterar toda a organização , tra­
zer cá para casa uma criada nova, esperar até ela se adaptar. . . tu­
do isso é enfadonho , demorado e não se coaduna com o meu ca­
rácter. É verdade que a nossa criada é gorda, e talvez tenha até
um fraquinho por lenços e luvas , mas é bastante conveniente ,
disciplinada e não guincha quando o Kukúchkin a belisca.
- Resumindo , não quer desfazer-se dela . . . Diga-o aberta-
mente .
- Tem ciúmes?
- Sim, tenho ! - disse Zinaída Fiodorovna resolutamente .
- Obrigado .
- Sim, tenho ciúmes ! - repetiu ela, e brilharam-lhe as lá-
grimas nos olhos . - Não , não são ciúmes , é qualquer coisa
pior. . . tenho dificuldade em dar-lhe um nome . - Levou as mãos
às têmporas e continuou , arrebatada: - Vocês , os homens , às
vezes são repugnantes ! É horrível !
História de Um Desconhecido 1 79

- Não vejo nada de horrível nisto .


- Não sei , nunca vi , mas dizem que os homens , logo desde
a infância, se iniciam com as criadas e que depois , por hábito ,
não sentem qualquer repugnância. Não sei , não sei, mas até já li
isso . . . Georges , tens com certeza razão - disse ela, aproxi­
mando-se de Orlov e mudando o tom para o carinhoso e supli­
cante - , eu , de facto , estou hoje de mau humor. Mas tens de
compreender, não posso fazer nada. Detesto-a e tenho medo
dela. Custa-me olhar para ela.
- Será impossível pôr-se acima dessas ninharias? - disse
Orlov, encolhendo os ombros com perplexidade e afastando-se
da lareira. - Não há nada mais fácil: não lhe dê atenção , e já
não sentirá repugnância nem precisará de fazer um drama por
nada.
Saí do gabinete e não sei que resposta teria ouvido Orlov.
Fosse como fosse , Pólia manteve-se lá em casa. Depois disso ,
Zinaída Fiodorovna por motivo nenhum se dirigia a ela e tenta­
va passar sem os seus serviços ; quando Pólia lhe servia alguma
coisa ou , simplesmente , passava ao lado dela, tilintando da pul­
seira e rugindo das saias , Zinaída Fiodorovna estremecia.
Penso que , se Grúzin ou Pekárski pedissem a Orlov para des­
pedir Pólia, ele fá-lo-ia sem qualquer hesitação , sem se dar ao
trabalho de esclarecimentos ; como todas as pessoas indiferen­
tes , era um conciliador. Mas , nas suas relações com Zinaída Fio­
dorovna, era todo teimosia, mesmo nas coisas mais corriqueiras ,
teimosia que por vezes chegava à arbitrariedade . Eu já sabia: se
alguma coisa agradava a Zinaída Fiodorovna, de certeza que
não agradaria a Orlov. Quando ela, ao voltar de uma loja, se
apressava a gabar as suas compras , ele olhava para elas de re­
lance e dizia friamente: quantos mais objectos inúteis houver
em casa, menos ar puro . Acontecia que , já com a casaca vestida
para ir a algum lado e tendo-se despedido de Zinaída Fiodorov­
na, resolvia ficar em casa, só por teimosia. Parece-me que fica­
va em casa apenas para se sentir desgraçado .
1 80 Anton Tchékhov

- Porque fica em casa? - perguntava Zinaída Fiodorovna


com um desgosto fingido , já que estava radiante de prazer. -
Porquê? Tem o hábito de não ficar em casa à noite , e eu não que­
ro que , por minha causa, altere os seus hábitos . Vá, por favor,
para eu não me sentir culpada.
- Alguém está a acusá-la? - dizia Orlov.
Com ar de vítima, repimpava-se na poltrona do seu gabinete
e, protegendo os olhos com a mão , pegava num livro . Mas rapi­
damente o livro lhe caía das mãos e ele , virando-se pesadamen­
te na poltrona, voltava a tapar os olhos , como que a protegê-los
do sol . Era a vez de ele se sentir desgostoso por não ter saído .
- Posso entrar? - perguntava Zinaída Fiodorovna, entran­
do , indecisa, no gabinete . - Está a ler? Tive saudades e vim só
por um minuto . . . para o ver.
Lembro-me de que , numa dessas noites , ela entrou da mesma
maneira indecisa e despropositada e sentou-se no tapete aos pés
de Orlov, vendo-se pelos seus movimentos tímidos e meigos que
não compreendia o estado de espírito dele e que tinha medo .
- Sempre a ler. . . - começou ela cautelosamente , por certo
com intenção de o bajular. - Sabe , Georges , em que consiste
mais o segredo do seu êxito? É muito culto e inteligente . Que li­
vro é este?
Orlov respondeu . Passaram-se alguns minutos em silêncio ,
que a mim pareceram muito longos . Eu estava na sala de estar,
donde os via a ambos , e tinha medo de tossir.
- Queria dizer-lhe uma coisa . . . - começou Zinaída Fiodo­
rovna, e riu-se . - Digo ou não digo? O senhor é capaz de se rir
e dizer que estou a iludir a mim própria. É que , está a ver,
apetece-me terrivelmente pensar que o senhor ficou hoje em ca­
sa por minha causa . . . para passarmos a noite juntos . É verdade?
Posso pensar assim?
- Pense - disse Orlov, protegendo os olhos . - A pessoa
verdadeiramente feliz é aquela que pensa não só no que existe
mas também no que não existe .
História de Um Desconhecido 181

- Disse uma frase comprida, não a compreendi bem . Quer o


senhor dizer que as pessoas felizes vivem da imaginação? Sim,
é verdade . Gosto de ficar à noite no seu gabinete e deixar-me le­
var pelos pensamentos para longe , muito longe . . . À s vezes é
agradável sonhar. Vamos sonhar em voz alta, Georges !
- Não estudei no instituto feminino , não dei esta matéria.
- Está de mau humor? - perguntou Zinaída Fiodorovna,
pegando-lhe na mão . - Porquê? Diga-me . . . Quando está assim ,
mete-me medo . Não percebo se lhe dói a cabeça, se está zanga­
do comigo . . .
Passaram-se mais uns longos minutos de silêncio .
- Porque mudou tanto? - disse ela baixinho . - Porque já
não é tão meigo e alegre como dantes , na Znamenskaia? Estou
aqui há quase um mês , mas parece que ainda nem sequer come­
çámos a viver juntos nem falámos de nada como deveríamos.
Responde-me sempre com brincadeiras , ou de maneira fria e pro­
lixa, como um mestre-escola. E nas suas brincadeiras há também
uma frieza qualquer. . . Porque deixou de falar a sério comigo?
- Falo sempre a sério .
- Então , vamos falar. Por amor de Deus , Georges . . . Vamos?
- Vamos . De quê?
- Da nossa vida, do futuro . . . - disse Zinaída Fiodorovna,
sonhadora. - Estou sempre a construir planos , sempre . . . e
sinto-me tão bem ! Georges , começo com a pergunta: quando
deixa o serviço? . . .
- E porque o deixaria? - Orlov tirou a mão da testa .
- Com pontos de vista como os seus , é impossível continuar
no serviço . Não é lá o seu lugar.
- Os meus pontos de vista? - disse Orlov. - Os meus pon­
tos de vista? Por convicção e natureza, sou um funcionário nor­
mal , uma personagem de Chedrin22 . Está a tomar-me por qual­
quer outra pessoa, acredite .

22 Mikhail Saltikov-Chedrin ( 1 826- 1 889) , escritor russo . Um dos alvos da sua


obra satírica é o funcionalismo público russo . (N. T.)
1 82 Anton Tchékhov

- Outra vez as brincadeiras , Georges !


- Nada disso . O serviço talvez não me satisfaça, é verdade ,
mesmo assim , para mim é melhor do que qualquer outra coisa.
Estou habituado a ele, e estão lá pessoas como eu; lá, apesar de
tudo , não me sinto um inútil , até me sinto razoavelmente .
- Odeia o seu serviço , detesta-o.
- Ah sim? E se eu pedir a demissão, se começar a sonhar e
a voar para outros mundos , acha que esses mundos serão menos
odiosos para mim do que o serviço?
- Para me contradizer, o senhor está pronto até a caluniar a
si mesmo - ofendeu-se Zinaída Fiodorovna e levantou-se . -
Lamento ter começado esta conversa.
- Porque está zangada? Eu , por exemplo , não me zango por
a senhora não estar no serviço . Cada um vive como lhe apetece .
- Será que tem vivido como lhe apetece? Será que é livre?
Passar a vida a escrever papéis que são contrários às suas con­
vicções - continuou Zinaída Fiodorovna, levantando as mãos
com desespero - , obedecer a ordens , dar parabéns aos chefes
na passagem de ano , depois o jogo , cartas e mais cartas , e, so­
bretudo , servir um sistema que não lhe pode ser simpático . . .
não , Georges , não ! Não brinque tão grosseiramente . É horrível .
O senhor é um homem de ideias e tem de servir apenas a ideia.
- Francamente , continua a tomar-me por outra pessoa qual­
quer - suspirou Orlov.
- Diga simplesmente que não quer falar comigo . Causo-lhe
repulsa, é isso - disse Zinaída Fiodorovna em lágrimas .
- Oiça, minha querida - disse Orlov sentenciosamente ,
soerguendo-se na poltrona. - Como a senhora se dignou refe­
rir, sou um homem inteligente e culto; ora, instruir o instruído
significa apenas estragá-lo . Conheço bem todas as ideias que
tem em mente , pequenas e grandes , quando me chama de ho­
mem de ideias . Portanto , prefiro o serviço e o jogo das cartas a
essas ideias , e , por certo , tenho as minhas razões . Isto em
primeiro lugar. Em segundo lugar, a senhora, tanto quanto sei ,
História de Um Desconhecido 1 83

nunca trabalhou no serviço público e apenas pode ir pescar as


suas opiniões sobre o serviço público às historietas que se con­
tam e às novelas medíocres . Por isso não seria mau combinar­
mos uma coisa de uma vez por todas: não falarmos daquilo que
sabemos há muito nem daquilo que não faz parte das nossas
competências .
- Porque fala comigo dessa maneira? - disse Zinaída Fio­
dorovna, recuando como que aterrorizada. - Porquê? Georges ,
caia em si , por amor de Deus !
A voz dela tremeu , entrecortada; queria por certo conter as lá­
grimas , mas acabou por desatar em choro .
- Georges , meu querido , eu morro ! - disse em francês ,
ajoelhando-se de rompante diante de Orlov e pondo-lhe a cabe­
ça nos joelhos . - Estou extenuada, não posso mais , não posso . . .
N a infância, a minha madrasta, odiosa, depravada; depois o meu
marido; e agora o senhor. . . o senhor. . . Responde ao meu amor
louco com ironia e frieza . . . E esta criada assustadora, descara-
da ! - continuava, soluçando . - Sim, sim, estou a ver: eu para
si não sou mulher, nem amiga, mas uma qualquer que o senhor
não respeita porque me tomei sua amante . . . Eu mato-me !
Eu não esperava que aquelas palavras e aquele choro causas­
sem em Orlov uma impressão tão forte . Corou , remexeu-se , in­
quieto , na poltrona, e na sua cara, em vez da ironia, apareceu um
medo lorpa, pueril .
- Minha querida, não me compreendeu , juro-lhe - pôs-se a
murmurar, confuso , tocando no cabelo e nos ombros dela. -
Desculpe-me , suplico-lhe . Não tenho razão e . . . odeio-me .
- Estou a insultá-lo com as minhas queixas e lamúrias . . . É
honesto , magnânimo . . . um homem raro , tenho consciência dis­
so a cada instante , mas neste tempo todo a angústia tem-me
atormentado . . .
Zinaída Fiodorovna abraçou Orlov impetuosamente e beijou­
-o na face .
- Mas não chore , por favor - disse ele .
1 84 Anton Tchékhov

- Não , não . . . Já chorei tudo , sinto-me aliviada.


- Quanto à criada, amanhã mesmo já não estará aqui
disse ele , continuando a remexer-se inquietamente na poltrona.
- Não , ela tem de ficar, Georges ! Está a ouvir? Já não tenho
medo dela . . . É preciso estar acima das insignificâncias e não
pensar em disparates . Tem razão ! É um homem raro . . . extraor­
dinário !
Passado um pouco, ela deixou de chorar. Ainda com lágrimas
nas pestanas , sentada ao colo de Orlov, dizia-lhe a meia voz qual­
quer coisa enternecida, como quando se contam recordações de
infância e juventude , afagava-lhe o rosto , beijava-lhe e observa­
va-lhe com atenção as mãos cheias de anéis e fios com sinetes .
Entusiasmava-se com a sua história e com a proximidade do ho­
mem amado , e como , pelos vistos, as lágrimas recentes lhe ti­
nham purificado e refrescado a alma, a voz soava-lhe puríssima
e sincera. Orlov brincava com o cabelo castanho dela e beijava­
-lhe as mãos , aflorando-as em silêncio com os lábios .
Depois tomaram chá no gabinete e Zinaída Fiodorovna leu­
-lhe em voz alta umas cartas quaisquer. Passava da meia-noite
quando foram para a cama.
Para mim foi uma noite em que não me largou uma dor forte
de lado , não conseguindo aquecer nem adormecer até de manhã.
Ouvi Orlov a passar do quarto de dormir para o gabinete . Uma
hora depois , tocou a campainha. Com as dores e o cansaço que
eu tinha, esqueci todas as regras e conveniências e fui ao gabi­
nete de roupa interior e descalço . Orlov, de roupão e barrete , es­
tava à porta à minha espera.
- Quando te chamam, tens de vir vestido - disse com se­
veridade . - Traz outras velas .
Eu queria pedir desculpa, mas de repente fui acometido por
um ataque forte de tosse e, para não cair, agarrei-me à ombreira.
- Está doente? - perguntou Orlov.
Parece-me que era a primeira vez em todo aquele tempo que
me tratava por «você» . Só Deus sabe porquê . Pelos vistos , de
História de Um Desconhecido 1 85

roupa interior e cara desfigurada pela tosse , eu fazia mal o meu


papel e parecia-me pouco com um lacaio .
- Se está doente , porque trabalha? - perguntou .
- Para não morrer de fome - respondi-lhe .
- Que abominável é tudo isso , no fundo ! - disse ele baixi-
nho , dirigindo-se para a sua mesa de trabalho .
Enquanto eu , tendo lançado sobre os ombros a sobrecasaca,
colocava e acendia velas novas , ele estava à mesa e , com as per­
nas estendidas sobre a poltrona, cortava as folhas de um livro .
Deixei-o mergulhado na leitura, e o livro já não lhe caía das
mãos como na véspera.

Agora que estou a escrever estas linhas , a minha mão


paralisa-se de medo , um medo formado em mim desde a infân­
cia - o medo de parecer sentimental e ridículo; quando quero
ser carinhoso e dizer palavras temas , não sou sincero . Por cau­
sa deste medo e por falta de hábito , não sou capaz de exprimir
agora com toda a clareza o que se passava naquela altura na mi­
nha alma.
Não estava apaixonado por Zinaída Fiodorovna, mas no sen­
timento humano normal que alimentava por ela havia muito
mais juventude , frescura e alegria do que no amor de Orlov.
De manhã, com a escova de calçado ou a vassoura nas mãos ,
eu esperava com o coração desfalecido o momento em que ou­
viria os passos e a voz dela. Estar ali de pé , olhando para ela a
tomar o café e, depois , o pequeno-almoço , dar-lhe a peliça no
vestíbulo e calçar-lhe nos pés pequenos as galochas , apoiando­
-se ela no meu ombro , depois esperar que o porteiro de baixo to­
casse a campainha a chamar-me , recebê-la à porta, rosada de
frio , empoada de neve , ouvir as suas exclamações entrecortadas
sobre o frio de rachar ou o cocheiro - se o leitor soubesse que
1 86 Anton Tchékhov

importante era tudo isso para mim! Apetecia-me apaixonar-me,


ter a minha família, e que a minha mulher tivesse precisamente
aquele rosto e aquela voz. Andava num sonho , à hora do almoço,
na rua quando me mandavam a algum lado, à noite quando não
adormecia. Orlov repudiava, enojado , os trapos femininos, os fi­
lhos , a cozinha, as panelas de cobre; e eu apanhava tudo
isso e guardava-o zelosamente nos meus sonhos, amava isso,
pedia-o ao destino, e surgia-me na imaginação a mulher, o quarto
da criança, as veredas do jardim, uma casinha . . .
Sabia que s e me apaixonasse por ela não poderia contar com
o milagre do amor correspondido , mas tais considerações não
me preocupavam . No meu sentimento quedo, modesto , mais
perto da afeição vulgar, não havia espaço para os ciúmes por
Orlov nem sequer inveja, porque percebia que a felicidade pes­
soal para um inválido como eu era possível apenas em sonho .
Quando , à noite , Zinaída Fiodorovna, à espera do seu Georges ,
olhava imóvel para o livro sem o folhear, o u quando estremecia
e ficava pálida porque Pólia atravessava a sala, eu sofria com ela
e passava-me pela cabeça lancetar o mais depressa possível aque­
le abcesso, pô-la ao corrente do que se dizia ali às quintas-feiras ,
durante a ceia - mas como fazê-lo? Eu via-a em lágrimas com
uma frequência cada vez maior. Nas primeiras semanas ainda ela
ria e cantava a sua cantiga mesmo quando Orlov não estava em
casa, mas no segundo mês já reinava no nosso apartamento um
silêncio triste , só interrompido às quintas-feiras .
Ela bajulava Orlov e , para conseguir dele um sorriso nada
sincero ou um beijo , punha-se de joelhos diante dele , acaricia­
va-o como uma cadelinha. Ao passar junto do espelho , mesmo
que lhe doesse a alma, não deixava de olhar e compor o pentea­
do . Parecia-me estranho que continuasse a interessar-se pelas
roupas e a entusiasmar-se com as compras . Isso não condizia
com a sua tristeza sincera. Seguia a moda e encomendava ves­
tidos caros . Para quem e para quê? Para mim é especialmente
memorável um vestido novo que custou quatrocentos rublos .
História de Um Desconhecido 1 87

Pagar quatrocentos rublos por um vestido inútil quando as nos­


sas jornaleiras , por um trabalho de forçado , recebiam vinte co­
peques diários sem direito a alimentação , quando às rendilhei­
ras de Bruxelas e Veneza pagam apenas meio franco por dia e o
resto que o ganhem na prostituição - para mim era estranho
que Zinaída Fiodorovna não o compreendesse , e sentia desgos­
to . Porém, bastava que ela saísse de casa para lhe perdoar tudo ,
para encontrar justificações para tudo e esperar que o porteiro ,
em baixo , tocasse a campainha.
A sua atitude para comigo era a de quem trata com um lacaio ,
com uma criatura inferior. Pode-se afagar a cabeça de um cão e
nem se reparar na presença dele; a mim davam ordens , faziam­
-me perguntas , mas não reparavam em mim . Achavam os amos
que era indecoroso falar comigo mais do que o permitiam as
conveniências; se eu , ao servir o almoço , me intrometesse na
conversa ou me risse , iam considerar-me maluco e despedir-me .
Mesmo assim, Zinaída Fiodorovna simpatizava comigo . Quan­
do me mandava fazer algum recado , me ensinava a manejar o
novo candeeiro ou coisas desse género , fazia-o com boa cara,
aberta, meiga, e olhava-me a direito nos olhos . Parecia-me , nes­
ses momentos, que ela se lembrava com gratidão do tempo em
que eu lhe levava as cartas à Znamenskaia. Quando ela tocava a
campainha, Pólia, que me considerava o favorito da senhora e
me odiava por isso , dizia com um sorriso cáustico:
- Vai , a tua está a chamar-te .
Zinaída Fiodorovna considerava-me uma criatura inferior e
nem lhe passava pela cabeça que, se havia ali alguém numa si­
tuação humilhante, era ela. Não sabia que eu , lacaio , sofria por ela
e me perguntava vinte vezes ao dia o que tinha ela pela frente
e como acabaria tudo aquilo . A situação piorava visivelmente a
cada dia que passava. Depois daquela conversa noctuma sobre
o serviço público , Orlov, que não gostava de lágrimas , começou
a ter medo das conversas e a evitá-las ; quando Zinaída Fiodo­
rovna começava a discutir ou a implorar, ou se preparava para
1 88 Anton Tchékhov

chorar, Orlov encontrava um pretexto plausível e ia para o seu


gabinete ou saía de casa. Dormia em casa cada vez menos e al­
moçava ainda menos vezes; às quintas-feiras , ele próprio pedia
aos seus companheiros que o levassem a qualquer lado . Zinaída
Fiodorovna continuava a sonhar com a sua cozinha própria,
com uma casa nova e uma viagem ao estrangeiro , mas os so­
nhos não passavam de sonhos . O almoço era trazido do restau­
rante e, quanto à nova casa, Orlov pedira-lhe que não falassem
do assunto até que voltassem do estrangeiro; quanto à viagem,
dizia que era impossível partir enquanto não lhe crescesse o ca­
belo , porque era impossível arrastar-se pelos hotéis e servir a
ideia sem uma cabeleira comprida. Para cúmulo , à noite , quan­
do o Orlov não estava, começou a aparecer lá em casa o Ku­
kúchkin . Nada havia de especial no seu comportamento , mas eu
não conseguia esquecer aquela conversa em que ele se propuse­
ra roubar Zinaída Fiodorovna a Orlov. Serviam-lhe chá e vinho
tinto , ele soltava os seus risinhos e, desejando agradar, afirma­
va que o casamento civil era, em todos os sentidos , superior ao
casamento pela igreja, e que , na verdade , todas as pessoas de­
centes deveriam comparecer perante Zinaída Fiodorovna e
fazer-lhe vénias até ao chão .

A semana a seguir ao Natal foi uma semana enfadonha,


pressentia-se qualquer coisa má. Na véspera de Ano Novo ,
quando tomavam o café matinal , Orlov anunciou de rompante
que os chefes o mandavam juntar-se ao senador que fazia a ins­
pecção de uma província.
- Não me apetece ir, mas não consigo inventar uma descul­
pa ! - disse com desgosto . - Tenho de ir, nada a fazer.
Com esta notícia, avermelharam-se de repente os olhos de
Zinaída Fiodorovna.
História de Um Desconhecido 1 89

- Por muito tempo? - perguntou .


- Uns cinco dias .
- Confesso que até fico contente por tu ires - disse ela, de-
pois de reflectir. - Distrais-te , apaixonas-te por alguém pelo
caminho e depois contas-me .
Procurava sempre uma oportunidade de fazer ver a Orlov que
não lhe limitava a liberdade e que ele podia dispor de si à von­
tade, e esta política ingénua, mal alinhavada, não enganava nin­
guém, lembrando apenas a Orlov, mais uma vez, que ele não era
livre .
- Vou hoje à noite - disse ele , e começou a ler os jornais .
Zinaída Fiodorovna queria acompanhá-lo à estação , mas ele
dissuadiu-a, dizendo que não partia para a América nem se au­
sentava por cinco anos , apenas por cinco dias ou ainda menos.
Perto das oito foi a despedida. Envolveu-a com um braço ,
beijou-a na fronte e nos lábios .
- Fica bem, não te aborreças na minha ausência - disse
num tom carinhoso e cordial que até a mim comoveu . - Deus
te guarde .
Ela perscrutava-lhe avidamente o rosto para gravar melhor na
memória os traços queridos , depois envolveu-lhe graciosamen­
te o pescoço com os braços e encostou a cabeça ao seu peito .
- Perdoa os nossos mal-entendidos - disse em francês . -
Marido e mulher não evitam discussões quando amam, e eu
amo-te até à loucura. Não me esqueças . . . Manda o máximo de
telegramas que puderes, pormenorizados .
Orlov, sem mais uma palavra, voltou a beijá-la e , embaraça­
do , saiu . Quando a fechadura estalou a fechar-se , parou no meio
da escada, pensativo , e olhou para cima. Pareceu-me que , se na­
quele instante se ouvisse em cima o mínimo som, ele voltaria.
Mas em cima era o silêncio . Orlov ajeitou o capote e, indeciso ,
começou a descer.
Havia muito que os cocheiros esperavam à entrada do prédio .
Orlov sentou-se num dos trenós , e eu no outro , com as duas
1 90 Anton Tchékhov

malas . Estava um frio cortante , nos cruzamentos fumegavam as


fogueiras . Como íamos depressa, o vento gelado picava-me a
cara e as mãos , cortava-me a respiração . Fechando os olhos, eu
pensava: que mulher maravilhosa! Como ela ama ! Agora, que
se faz a recolha de coisas nos pátios , mesmo das inúteis , para
fins de caridade , e em que até o vidro partido é considerado uma
boa mercadoria, a jóia, a raridade que é o amor desta mulher
elegante , jovem, nada estúpida e decente , perde-se desta manei­
ra. Um sociólogo antigo considerava qualquer má paixão uma
força que seria possível , com certo jeito , encaminhar para o
bem; mas , entre nós , mesmo uma paixão nobre e bela que nas­
ça acaba por perecer, impotente , sem ser encaminhada ou com­
preendida, antes profanada. Porque será?
Os cocheiros pararam bruscamente . Abri os olhos e vi que es­
távamos na Serguievskaia, junto ao prédio grande onde vivia
Pekárski . Orlov saiu do trenó e desapareceu para lá da entrada.
Cinco minutos depois apareceu à porta o lacaio de Pekárski ,
sem chapéu , e gritou-me , zangado com o frio:
- É s surdo ou quê? Manda embora os cocheiros e sobe . Es­
tão a chamar-te !
Sem compreender, subi ao primeiro andar. Já antes tinha ido
ao apartamento de Pekárski , ou seja, nunca passara do vestíbu­
lo, onde ficava a olhar para a sala, e depois da rua húmida e
sombria aquele apartamento sempre me impressionara pelo bri­
lho das molduras dos quadros , dos objectos de bronze e dos mó­
veis caros . Agora, no meio daquele brilho , via Grúzin , Kukúch­
kin e, um pouco depois , Orlov.
- É o seguinte , Stepan - disse ele , aproximando-se de mim .
- Vou ficar aqui até sexta ou sábado . Se houver cartas ou tele-
gramas , trá-los cá todos os dias . Em casa, é claro , dizes que eu
parti e mando saudades . Vai com Deus .
Quando voltei a casa, Zinaída Fiodorovna estava deitada no
sofá, na sala de estar, e comia uma pêra. Apenas uma vela do
candelabro ardia.
História de Um Desconhecido 191

- Não perderam o comboio? - perguntou Zinaída Fiodo­


rovna.
- Não . O senhor manda-lhe saudades .
Fui para o meu quarto e deitei-me também. Não tinha nada
para fazer e não me apetecia ler. Não me espantava nem me in­
dignava, apenas me esforçava por compreender para que havia
necessidade daquela mentira. Só os adolescentes enganam des­
ta forma as suas amantes . Ele , um homem que lia e pensava, não
poderia ter inventado nada mais inteligente? Confesso que tinha
em alto apreço o intelecto dele . Pensava que , se lhe fosse ne­
cessário enganar o seu ministro ou outro homem poderoso , apli­
caria muito mais esforço e arte; mas , para enganar agora uma
mulher, serviu-lhe a primeira coisa que lhe veio à cabeça; se o
engano fosse bem sucedido , ainda bem; se não fosse , não have­
ria grande problema, seria possível voltar a mentir da mesma
forma simples e rápida, sem grande quebra de cabeça.
À meia-noite , quando no andar por cima de nós se festejou a
entrada do Ano Novo , ouvindo-se o arrastar das cadeiras e os
gritos de «hurra ! » , Zinaída Fiodorovna chamou-me à campai­
nha do quarto contíguo ao gabinete . Sentada à mesa, amolecida
por ter estado tanto tempo deitada, escrevia qualquer coisa num
bocado de papel .
- É preciso mandar um telegrama - disse ela e sorriu . -
Vá imediatamente à estação e peça que o enviem atrás dele .
Saindo para a rua, li no papelinho: «Feliz Ano Novo , muitas
felicidades . Manda telegrama depressa, tenho saudades terrí­
veis . Já passou uma eternidade . Pena ser impossível mandar mil
beijos e coração . Alegra-te , meu amor. Zina.»
Mandei o telegrama e, no dia seguinte , entreguei-lhe o com­
provativo .
1 92 Anton Tchékhov

O pior era que Orlov, imprudentemente , dera a conhecer o


seu segredo também a Pólia ao dar-lhe a ordem de lhe levar as
camisas à Serguievskaia. Depois disso , ela olhava para Zinaída
Fiodorovna com uma alegria maldosa e com um ódio que , para
mim, era incompreensível; e, tanto no seu quarto como no ves­
tíbulo , não parava de bufar de prazer.
- Já cá demora tempo de mais , já chega para ela ! - dizia,
contente . - Bem podia perceber isso . . .
Cheirava-lhe já que Zinaída Fiodorovna não ficaria muito
mais tempo em nossa casa, e , para não perder oportunidades ,
roubava-lhe tudo o que lhe vinha à mão: frascos , alfinetes de
tartaruga, lenços , sapatos . No primeiro dia do ano novo , Zinaí­
da Fiodorovna chamou-me ao seu quarto e informou-me a meia
voz que lhe desaparecera o vestido preto . Depois pôs-se a cal­
correar todas as salas , pálida, com uma cara assustada e indig­
nada, falando sozinha:
- Olhem só ! Não , mas que coisa ! É de um descaramento in­
crível !
Ao almoço quis servir-se de sopa mas não conseguiu ,
tremiam-lhe as mãos . Os lábios também . Olhava com impo­
tência para a sopa e para os pastéis , à espera de que lhe pas­
sassem as tremuras . De repente , não aguentou mais e olhou
para Pólia.
- Pólia, pode ir - disse . - Basta que fique o Stepan .
- Não faz mal , eu fico aqui - respondeu Pólia.
- Não tem nada que ficar. Vá-se embora daqui . . . de casa ! -
continuou Zinaída Fiodorovna, levantando-se num estado de
forte emoção . - Procure outra casa. Fora, imediatamente !
- Não posso, sem ordem do amo . Foi ele quem me deu tra­
balho . Há-de ser como ele mandar.
- Eu também mando ! Sou eu a dona desta casa - disse Zi­
naída Fiodorovna e ficou vermelha.
História de Um Desconhecido 1 93

- Talvez seja, mas só o senhor é que pode despedir-me . Foi


ele que me deu o emprego .
- Não se atreva a ficar aqui nem mais um minuto ! - gritou
Zinaída Fiodorovna e bateu com a faca no prato . - É uma la­
dra ! Ouviu?
Zinaída Fiodorovna atirou o guardanapo para cima da mesa
e, com a cara penalizada, sofredora, saiu rapidamente da sala de
jantar. Pólia, em grande choradeira, resmungando qualquer coi­
sa, saiu também. A sopa e a perdiz arrefeceram . Por qualquer ra­
zão , todo aquele luxo de restaurante em cima da mesa afigu­
rava-se-me agora miserável e ratoneiro , parecido com Pólia.
Sobretudo os dois pastéis no prato tinham um ar miserável e cri­
minoso . «Hoje seremos devolvidos ao restaurante - pareciam
dizer - , e amanhã voltarão a servir-nos ao almoço de algum
funcionário ou de uma cantora famosa.»
- Vejam só que grande senhora ! - vinha do quarto de Pó­
lia a sua voz . - Se eu quisesse , há muito seria senhora como
ela, só que tenho vergonha na cara ! Ainda vamos ver quem sai
primeiro , eu ou ela ! Sim!
Zinaída Fiodorovna fez soar a campainha. Estava sentada no
seu quarto , num canto , com ar de ter sido posta ali de castigo .
- Não chegou nenhum telegrama? - perguntou .
- Não , senhora .
- Pergunte ao porteiro , talvez tenha chegado algum . E não
saia de casa - disse-me quando eu já saía. - Tenho medo de
ficar sozinha.
Depois , de hora a hora, eu tinha de descer até ao porteiro para
saber se tinha chegado algum telegrama. A sério , que época terrí­
vel ! Zinaída Fiodorovna, para não ver Pólia, almoçava e tomava
chá no seu quarto; também lá dormia, num curto divã semicircu­
lar, e fazia ela mesma a sua cama. Nos primeiros dias era eu quem
levava os telegramas ao telégrafo , mas depois , como não recebia
qualquer resposta, deixou de confiar em mim e ia ela expedi-los .
Olhando para ela, também eu esperava com impaciência um tele-
1 94 Anton Tchékhov

grama. Tinha a esperança de que Orlov inventasse um subterfú­


gio qualquer, por exemplo , mandasse alguém emitir um telegra­
ma em seu nome de alguma estação . Se Orlov se embrenhara de­
mais no jogo das cartas , pensava eu, ou se já tivera tempo de se
apaixonar por outra mulher, Grúzin e Kukúchkin , de certeza,
lembrá-lo-iam de nós . Mas esperávamos em vão. Entrava cinco
vezes por dia no seu quarto com a intenção de lhe contar toda a
verdade , mas ela tinha sempre aqueles olhos de ovelha, os om­
bros caídos , os lábios a mexerem, e, sem lhe dizer nada, eu dava
meia-volta e saía. A compaixão privava.:.me de toda a coragem.
Pólia, como se nada se estivesse a passar, continuava a arrumar
alegremente o gabinete e o quarto de dormir do amo , a revolver
os armários , a fazer barulho com a loiça e, de cada vez que pas­
sava à porta de Zinaída Fiodorovna, cantarolava e tossia. Gosta­
va de que a outra andasse a esconder-se dela. De noite saía para
qualquer lado e, às duas ou três da madrugada, tocava à porta e
eu era obrigado a ir abrir-lha e a ouvir as suas observações sobre
a minha tosse . Não tardava a soar outra campainha e a espreitar
da sua porta Zinaída Fiodorovna, perguntando: «Quem tocou?»
E olhava para as minhas mãos , sempre à espera do telegrama.
Quando no sábado , finalmente, tocaram em baixo e se ouviu
a voz familiar, ela alegrou-se de tal maneira que chorou; preci­
pitou-se ao encontro dele , abraçou-o , beijou-lhe o peito e as
mangas , balbuciando palavras incompreensíveis . O porteiro
trouxe as malas , ouviu-se a voz alegre de Pólia. Parecia ter che­
gado alguém para gozar férias !
- Porque não mandaste nenhum telegrama? - disse Zinaída
Fiodorovna, arfando de alegria. - Porquê? Sofri tanto , nem sei
como sobrevivi . . . Oh, meu Deus !
- É simples ! Eu e o senador, logo no primeiro dia, fomos
para Moscovo , por isso não recebi os teus telegramas - disse
Orlov. - Depois de almoço, alminha, faço-te um relatório por­
menorizado , mas agora dormir, dormir e dormir. . . O comboio é
tão cansativo .
História de Um Desconhecido 1 95

Tinha ar de quem não dormira toda a última noite: por certo


tinha jogado e bebido muito . Zinaída Fiodorovna levou-o para a
cama e, depois , até à noite , todos nós andávamos pela casa em
bicos de pés . A refeição passou-se sem problemas , mas , quando
foram para o gabinete tomar o café , começaram os esclareci­
mentos . Zinaída Fiodorovna falava muito depressa em francês ,
a meia voz , e o seu discurso rumorejava como u m riacho; de­
pois ouviu-se um suspiro fundo de Orlov e a sua voz .
- Meu Deus ! - dizia ele em francês . - Será que não tem
notícias mais frescas do que esta eterna cantiga sobre a megera
da criada?
- Mas , amor, ela roubou-me e foi insolente para comigo .
- Mas então porque é que , a mim, ela não rouba nem diz in-
solências? Não será porque eu nunca dou atenção às criadas ,
nem aos guarda-portões , nem aos lacaios? Minha querida, está
simplesmente a ser caprichosa e a não querer ter carácter. . . Des­
confio até que esteja grávida. Quando lhe propus despedi-la,
exigiu que ela ficasse , mas agora já quer que a despeça. Mas eu ,
nestes casos , também sou teimoso: ao capricho respondo com
capricho . A senhora quer que ela se vá embora, mas eu quero
que ela fique . É a única maneira de curar os seus nervos .
- Está bem, chega, chega ! - disse Zinaída Fiodorovna, as­
sustada. - Deixemos de falar nisso . . . Deixemos isto até ama­
nhã. Conta-me agora de Moscovo . . . Como está Moscovo?

10

No dia seguinte - 7 de Janeiro , dia de João Baptista - Or­


lov, depois do pequeno-almoço , vestiu a casaca e pôs a conde­
coração para ir felicitar o pai no dia do seu santo . Tinha de es­
tar lá às duas , mas quando acabou de se vestir era apenas uma e
meia. Como matar aquela meia hora? Andava pela sala de estar
e declamava os versos de felicitações que , na infância, lia aos
1 96 Anton Tchékhov

pais . Sentada na sala também estava Zinaída Fiodorovna que se


preparava para ir à modista ou a uma loja, ouvindo-o com um
sorriso nos lábios . Não sei como começara a conversa entre
eles , mas , quando levei as luvas a Orlov, estava ele em frente de
Zinaída Fiodorovna e , arvorando um ar de súplica e capricho ,
dizia-lhe:
- Por amor de Deus, por tudo o que é sagrado , não fale da­
quilo que toda a gente já sabe de cor ! Que hábito desgraçado das
nossas damas inteligentes e pensantes, este de falarem com um
ar importante e entusiasmado naquilo de que até os colegiais já
estão fartos há muito ! Ah , que bom seria se a senhora excluísse
do nosso programa matrimonial todas essas questões sérias ! Se­
ria um grande favor que me fazia !
- Ah , porque nós , mulheres, não podemos atrever-nos a ter
a nossa opinião !
- Dou-lhe toda a liberdade , seja liberal à vontade e cite os
autores que quiser, mas faça-me a cedência de não discutir na
minha presença duas matérias apenas: a da nocividade da alta
sociedade e a da anormalidade do casamento . Tente finalmente
compreender. Sempre que a alta sociedade é criticada, opõe-se­
-lhe a sociedade que engloba os comerciantes , os popes , os po­
pulares e os mujiques , todos esses Sídores e todos esses Nikitas .
Pois, para mim , ambas as sociedades me são abomináveis , mas
se me propusessem escolher, em consciência, entre uma e outra,
optaria sem pensar duas vezes pela alta sociedade , e isso não se­
ria hipocrisia nem afectação uma vez que todos os meus gostos
estão do lado dela. A nossa alta sociedade é banal e vazia mas ,
em compensação , a senhora e eu falamos razoavelmente o fran­
cês , lemos alguma coisa e não damos um ao outro empurrões na
barri ga , mesmo quando estamos muito zangados , enquanto en­
tre os Nikitas e os Sídores e vosmecês os comerciantes é tudo
come que logo arrotas , à matroca, toma lá que já chupaste , uns
costumes desenfreados de taberna, uma idolatria.
- O mujique e o comerciante alimentam o senhor.
História de Um Desconhecido 1 97

- Sim, e depois? Isso caracteriza mal tanto a mim como a


eles . Alimentam-me e desbarretam-se diante de mim, logo falta­
-lhes o intelecto e a coragem para procederem de outro modo .
Não censuro nem louvo ninguém, apenas quero dizer: a alta so­
ciedade e a sociedade inferior são ambas melhores, se quiser.
Estou contra ambas com o coração e a cabeça, mas os meus gos­
tos vão para a primeira. Bom, quanto à anormalidade do casa­
mento - continuou Orlov, já a olhar para o relógio - , é altura
de a senhora perceber que não existe anormalidade nenhuma,
apenas , e por enquanto , exigências indefinidas em relação ao
casamento . O que espera do casamento? Nas uniões , legítimas
ou ilegítimas , em todas as uniões e concubinatos , bons e maus ,
a essência é a mesma. Vocês , as senhoras , vivem apenas para es­
ta essência, ela é tudo para vocês , sem ela a existência não teria
sentido para vocês . Não precisam de mais nada a não ser da es­
sência, e então agarram-se a ela, mas , desde que começaram a
ler imensas novelas , têm vergonha de se agarrar a ela e , então ,
atarefam-se todas a mudar de homem sem pensar e, para justifi­
carem esta confusão , falam da anormalidade do casamento . Já
que não podem nem querem eliminar a essência, que é o inimi­
go principal , o satanás , uma vez que continuam a servir essa es­
sência como escravas , que conversas sérias é que pode haver?
Seja o que for que me diga, não passa de absurdo e afectação .
E não vou acreditar em si .
Fui perguntar ao porteiro se o cocheiro já chegara e , quando
voltei , encontrei-os em plena zanga. Como dizem os marinhei­
ros , o mar estava encapelado .
- Vejo que o senhor, hoje, quer impressionar-me com o seu
cinismo - dizia Zinaída Fiodorovna, andando pela sala, muito
emocionada. - Até me repugna ouvi-lo . Estou limpa diante de
Deus e dos homens , não tenho nada de que me arrepender.
Abandonei o meu marido para me juntar consigo , e tenho orgu­
lho nisso . Orgulho , juro por minha honra !
- Óptimo .
1 98 Anton Tchékhov

- Se for um homem ele bem e honesto , deverá também


orgulhar-se do que eu fiz . Este meu acto eleva-nos acima de mi­
lhares de pessoas que gostariam de fazer a mesma coisa mas não
ousam, por fraqueza ou por calculismo mercantil . Mas o senhor
não é um homem de bem. Tem medo da liberdade e troça dos
impulsos honestos por medo de que algum ignorante suspeite
de que o senhor é um homem honesto . Tem medo de me mos­
trar aos seus conhecidos , e não há castigo maior para si do que
andar na rua a meu lado no coche . . . Então? Não é verdade? Por­
que ainda não me apresentou ao seu pai e à sua prima? Porquê?
Estou farta disto , finalmente ! - gritou Zinaída Fiodorovna e
bateu o pé . - Exijo o que me pertence por direito . Faça o favor
de me apresentar ao seu pai !
- Se tem tanta necessidade disso , apresente-se-lhe sozinha.
Ele recebe todos os dias , entre as dez e as dez e meia.
- Que criatura ignóbil é o senhor! - disse Zinaída Fiodo­
rovna, torcendo as mãos . - Mesmo que não esteja a ser since­
ro e não esteja a dizer-me o que pensa, é possível odiá-lo só por
esta crueldade . Oh , que ignomínia !
- Estamos a dar voltas e mais voltas e nunca mais chegamos
a dizer o essencial . A essência da questão consiste em que a se­
nhora se enganou e não quer reconhecê-lo de viva voz . Imagi­
nou que eu era um herói e que tinha umas ideias e uns ideais ex­
traordinários quaisquer, mas verifica-se que sou um funcionário
público medíocre , um jogador de cartas e que não tenho qual­
quer paixão por qualquer ideia. Sou um rebento fiel daquela
mesma alta sociedade de que a senhora fugiu , revoltada com o
vazio e com a vulgaridade dessa sociedade . Confesse-o e seja
justa: indigne-se consigo mesma, e não comigo , porque foi a se­
nhora quem se enganou , e não eu .
- Sim, aceito: enganei-me !
- Óptimo . Chegámos ao essencial , graças a Deus. Agora oi-
ça o seguinte , se quiser. Não sou capaz de me elevar até à se­
nhora, porque já estou estragado demais; a senhora também é
História de Um Desconhecido 1 99

incapaz de se rebaixar até mim, porque é sublime demais . Por­


tanto , só nos resta uma coisa . . .
- Que coisa? - disse muito depressa Zinaída Fiodorovna,
retendo a respiração e ficando de repente branca como o papel .
- Resta recorrermos à lógica . . .
- Gueórgui , porque está a atormentar-me? - Zinaída Fio-
dorovna mudou subitamente para a língua russa, falhando-lhe a
voz . - Porquê? Compreenda os meus sofrimentos . . .
Orlov, assustado com as lágrimas dela, foi rapidamente para o
seu gabinete e, não sei porquê - talvez porque quisesse causar­
-lhe ainda mais dor, talvez porque se tivesse lembrado que isto
se praticava nestes transes - , fechou a porta à chave . Ela soltou
um grito e correu atrás dele, com o vestido roçagando.
- O que significa isto? - perguntou , batendo à porta. -
O que . . . o que significa? - repetia numa voz fina, entrecortada.
- Ah , ele é assim? Pois então fique sabendo que o odeio e des­
prezo ! Está tudo acabado entre nós ! Tudo !
Ouviu-se um gargalhado choro histérico . Caiu qualquer coisa
pequena na sala de estar e partiu-se . Orlov passou do gabinete
para o vestíbulo por outra porta e, lançando olhares cobardes
para trás , vestiu rapidamente o capote , pôs a cartola e saiu .
Passou meia hora, uma hora, e ela sem parar de chorar.
Lembrei-me de que ela não tinha pai nem mãe , nem parentes,
que vivia aqui entre um homem que a odiava e Pólia que a rou­
bava - que desoladora me pareceu a vida dela ! Sem qualquer
finalidade consciente , fui ter com ela à sala de estar. Fraca, in­
defesa, com aquele cabelo maravilhoso que eu via como mode­
lo de ternura e elegância, ela sofria como uma doente; estava
deitada no canapé , escondendo o rosto , com o corpo todo a tre­
mer.
- Minha senhora, não quer que eu vá chamar o médico? -
perguntei baixinho .
- Não , não é preciso . . . isto não é nada - disse ela e olhou
para mim.
200 Anton Tchékhov

Saí. Ora, à noite , ela desatou . a escrever cartas , umas atrás das
outras , e mandava-me com elas a casa de Pekárski , primeiro ,
depois à de Grúzin, à de Kukúchkin e, por fim, aonde eu enten­
desse , de maneira a que eu pudesse entregá-las o mais rapida­
mente possível a Orlov. Quando eu , de cada vez , regressava
com uma carta não entregue na mão , ela descompunha-me ,
suplicava-me , metia-me dinheiro na mão - parecia febril . E de
noite não dormiu , ficou na sala a falar sozinha.
No dia seguinte , à hora do almoço , Orlov voltou e fizeram as
pazes .
Na quinta-feira subsequente, Orlov, fumando muito , queixa­
va-se aos seus companheiros da sua vida insuportável , dizendo
com irritação:
- Isto não é vida, é uma inquisição. Lágrimas , berros , con­
versas inteligentes, pedidos de perdão, outra vez lágrimas e ber­
ros e, em consequência, não sou senhor do meu próprio aparta­
mento , ando estafado e extenuei-a também a ela. Será que sou
obrigado a viver assim mais um mês ou dois ainda? Ê que é
mesmo possível !
- Fala com ela, então - disse Pekárski .
- Tentei , mas não consigo . Pode dizer-se tudo , qualquer ver-
dade , a uma pessoa independente e em condições de raciocinar,
mas neste caso estou a falar com uma criatura que não tem von­
tade , nem carácter, nem lógica. Não suporto as lágrimas , desar­
mam-me . Quando ela chora, fico pronto a jurar-lhe amor eterno
e a chorar também.
Pekárski não percebeu , coçou , pensativo , a testa alta e disse:
- Francamente , aluga-lhe uma casa à parte . Ê tão fácil !
- Ê de mim que ela precisa, e não de casa. Mas falar nisso
para quê? - suspirou Orlov. - Só ouço conversas interminá­
veis , mas não vejo saída para a minha situação . Olhem que isto ,
culpado sem ter culpa ! Não prometi nada mas tenho de cumprir.
Tenho-me esquivado ao papel de herói durante toda a minha vi­
da, sempre detestei os romances de Turguénev, e de repente ,
História de Um Desconhecido 20 1

como se fosse uma partida, calhou-me o papel de verdadeiro he­


rói . Dou a minha palavra de honra que não sou herói nenhum,
apresento provas irrefutáveis disso , mas não me acreditam . Por­
que não acreditam? Pelos vistos, deve haver mesmo na minha
fisionomia qualquer coisa de heróico .
- Nesse caso , vá inspeccionar as províncias - disse Kukú­
chkin, rindo .
- Pois , é a única coisa que me resta.
Uma semana depois desta conversa, Orlov anunciou que ti­
nha sido mandado mais uma vez ajudar o senador; na mesma
noite , partiu com as malas para casa de Pekárski .

11

Abri a porta e vi um velho dos seus sessenta anos , de peliça


comprida, até ao chão , e gorro de castor.
- Gueórgui Ivánitch está? - perguntou .
No primeiro momento pensei que era um dos agiotas credo­
res de Grúzin que às vezes iam ter com Orlov para cobrar pe­
quenas quantias , mas quando ele entrou para o vestíbulo e abriu
a peliça vi os sobrolhos espessos e os característicos lábios aper­
tados que eu tão bem estudara nas fotografias , e duas filas de es­
trelas na casaca do uniforme . Reconheci-o: era o pai de Orlov,
o famoso homem de Estado .
Respondi-lhe que Gueórgui Ivánitch não estava em casa.
O velho cerrou ainda mais os lábios e , pensativo , olhou para o
lado , mostrando-me o seu perfil seco e desdentado .
- Deixo-lhe um bilhete - disse ele . - Acompanha-me .
Deixou as galochas no vestíbulo e , sem tirar a peliça compri­
da e pesada, passou para o gabinete . Aqui , sentou-se na poltro­
na em frente da secretária e , antes de pegar na pena, reflectiu
durante uns três minutos , tapando os olhos com a mão como que
a proteger-se do sol - tal qual o filho quando estava de mau hu-
202 Anton Tchékhov

mor. O seu rosto era triste , pensativo , com aquela expressão re­
signada que j á me aconteceu ver nos rostos de pessoas velhas e
religiosas . Eu estava por trás dele , olhava-lhe para a calvície e
para a covinha da nuca, e logo ficou claro para mim que aquele
velho fraco e doente estava nas minhas mãos . É que em toda a
casa não estava mais ninguém além de mim e do meu inimigo .
Bastava-me fazer uso de um pouco de força física, depois
arrancar-lhe o relógio para disfarçar o motivo , e sair pelas esca­
das de serviço; deste modo , conseguiria incomparavelmente
mais do que me propunha quando entrei para o serviço de la­
caio . Pensava: é pouco provável que se me apresente uma oca­
sião melhor. Mas eu , em vez de agir, olhava-lhe com toda a in­
diferença ora para a nuca, ora para a pele , e reflectia
calmamente nas relações deste homem com o seu filho único , e
também no facto de que as pessoas mimadas pela riqueza e pe­
lo poder, pelos vistos , não querem morrer. . .
- H á muito que serves na minha farm1ia? - perguntou , es­
crevendo umas letras graúdas no papel .
- Já vai no terceiro mês , vossa alta excelência.
Acabou de escrever e levantou-se . Eu ainda tinha tempo . Ins­
tigava a mim próprio , apertava os punhos , tentando espremer da
alma uma gota que fosse do meu ódio antigo; recordava como,
havia ainda pouco , eu era seu inimigo , um inimigo tempestuo­
so , persistente e incansável . . . No entanto , é difícil acender um
fósforo esfregando-o numa superfície mole . O rosto velho e tris­
te e o brilho frio das estrelas das suas condecorações apenas
despertavam em mim os pensamentos banais , baratos e inúteis
sobre o efémero de tudo o que é terreno , sobre a morte iminen­
te . . .
- Adeus , amigo ! - disse o velho , pondo o gorro e saindo .
Já era indubitável: acontecera em mim uma mudança , tor­
nara-me outra pessoa. Para me experimentar, puxei pelas recor­
dações , mas logo me tomei de pavor, como se estivesse a olhar
para um canto escuro e húmido . Lembrei-me dos meus camara-
História de Um Desconhecido 203

das e conhecidos , e o meu primeiro pensamento foi o de que , se


encontrasse algum deles , coraria e ficaria embaraçado . Então ,
quem sou agora? Em que devo pensar, o que devo fazer? Para
onde irei? Para que vivo?
Já não entendia nada e apenas tinha consciência clara de uma
coisa: devia fazer rapidamente as malas e ir-me embora. Antes
da visita do velho , o meu serviço de lacaio ainda tinha algum
sentido , mas a partir de agora era ridículo . Chorava por cima da
minha mala aberta, sentia um tristeza insuportável , mas que
vontade eu tinha de viver ! Estava pronto a abarcar, a deixar en­
trar na minha curta vida tudo o que é acessível ao homem. Que­
ria falar e ler, manejar o martelo numa grande fábrica, ficar de
quarto , arar a terra. Atraía-me a Avenida Névski e o campo , e o
mar - a minha imaginação abraçava todos os lugares . Quando
Zinaída Fiodorovna chegou , corri a abrir-lhe a porta e, com uma
ternura muito especial , despi-lhe a peliça. Pela última vez !
Além do velho , nesse dia tinham ido lá a casa mais duas pes­
soas . Ao fim da tarde , quando escureceu por completo , chegou
inesperadamente Grúzin para levar uns papéis quaisquer a Or­
lov. Abriu a gaveta da mesa, tirou os papéis necessários e ,
enrolando-os , mandou-me pô-los n o vestíbulo ao lado do seu
chapéu , e foi falar com Zinaída Fiodorovna, que estava na sala
de estar, deitada no sofá com a cabeça apoiada nas mãos. Já ti­
nham passado cinco ou seis dias desde que Orlov partira para a
inspecção , não sabendo ninguém quando voltaria; mas Zinaída
Fiodorovna já não enviava telegramas nem os esperava. Quan­
to a Pólia, que continuava lá em casa, Zinaída Fiodorovna pare­
cia não reparar nela. «Que seja assim ! » , lia eu no seu rosto
impassível e pálido . Tal como a Orlov, agradava-lhe ser desgra­
çada por teimosia; por pirraça a si mesma e a todo o mundo ,
deixava-se ficar deitada e imóvel no sofá dias a fio , apenas se
desejando o mal e esperando apenas o mal . Por certo , imagina­
va o regresso de Orlov e as inevitáveis discussões , depois o es­
friamento dele , depois as traições , depois a separação - e estes
204 Anton Tchékhov

pensamentos torturantes talvez lhe dessem um certo prazer. Mas


que diria ela se soubesse da verdade verdadeira?
- Gosto de si , comadre - disse Grúzin , cumprimentando-a
e beijando-lhe a mão . - É tão bondosa ! E o Georges foi-se em­
bora ! - mentiu ele . - Foi-se embora, aquele facínora !
Sentou-se com um suspiro e afagou-lhe a mão com meiguice .
- Permita que fique uma horita aqui consigo , minha pombi­
nha - disse . - Não me apetece ir para casa e ainda é cedo pa­
ra visitar os Birchov. Hoje, os Birchov festejam o aniversário da
sua Kátia. Uma menina querida !
Servi-lhe um copo de chá e um jarrinha com conhaque . Grú­
zin bebeu o chá devagar, visivelmente sem vontade e , devolven­
do-me o copo , perguntou-me com timidez:
- Amigo , não têm cá qualquer coisa . . . que se coma? Ainda
não almocei .
Não tínhamos nada. Fui ao restaurante e comprei para ele um
almoço simples de um rublo .
- À sua saúde , alminha ! - disse ele a Zinaída Fiodorovna,
e emborcou um cálice . - A minha pequena, sua afilhada,
manda-lhe vénias . Coitadinha, tem escrófula ! Ah , os filhos , os
filhos ! - suspirou . - Seja como for, comadre , é agradável ser
pai . O Georges não compreende este sentimento .
Bebeu mais um cálice . Magro , pálido , com o guardanapo ao
peito como um babeiro , comia com avidez e, levantando o so­
brolho , lançava olhares culpados , como um garoto , ora a Zinaí­
da Fiodorovna, ora a mim. Se eu não lhe tivesse dado mais per­
diz ou geleia, creio que choraria. Saciada a fome , animou-se e ,
entre risos , começou a contar qualquer coisa sobre a farm1ia Bir­
chov, mas , ao reparar que estava a ser maçador e que Zinaída
Fiodorovna não se ria, calou-se . E, de repente , tudo se tornou
um tédio . Depois da refeição , ficaram ambos sentados na sala de
estar, à luz de um só candeeiro , calados : a Grúzin custava men­
tir, e ela, ansiosa por lhe perguntar qualquer coisa, não se atre­
via. Assim se passou meia hora. Grúzin olhou para o relógio .
História de Um Desconhecido 205

- Acho que são horas de eu ir.


- Não , fique mais um pouco . . . Precisamos de falar.
Grúzin ficou , o silêncio prolongou-se por mais um pouco .
Grúzin sentou-se ao piano , tocou numa tecla, depois começou
a tocar e a cantar: «0 que me prepara o dia vindouro?»23 , mas ,
como era seu hábito , levantou-se de imediato e sacudiu a ca­
beça.
- Toque qualquer coisa, compadre - pediu Zinaída Fiodo­
rovna.
- O quê? - perguntou , encolhendo os ombros . - Já es­
queci tudo . Há muito que não toco piano .
Olhando para o tecto , a recordar-se , tocou , de uma forma ma­
ravilhosamente expressiva, duas peças de Tchaikóvski; e com
tanto calor e inteligência ! A sua cara era a de sempre - nem in­
teligente nem estúpida, e a mim parecia milagre que um homem ,
a quem eu estava habituado a ver no mais imundo e ignóbil am­
biente , fosse capaz de atingir uma elevação de sentimentos tão
grande , para mim inatingível , e uma tal pureza. Zinaída Fiodo­
rovna, com o rosto a arder, começou a andar pela sala, emocio­
nada.
- Espere , comadre , se me lembrar toco-lhe agora uma coisi­
nha - disse ele . - Ouvia-a tocada no violoncelo .
Primeiro com timidez e procurando as notas , depois com se­
gurança, pôs-se a tocar «0 Canto do Cisne» de Saint-Saens . To­
cou e repetiu .
- É lindo , não é? - perguntou .
Zinaída Fiodorovna, comovida, parou ao lado dele e pergun­
tou:
- Compadre , diga-me com sinceridade , como amigo: o que
pensa de mim?
- O que lhe posso dizer? - começou, erguendo o sobrolho .
- Gosto de si e só penso bem de si . Ora, se quiser que eu fale

23 Ária de Lênski da ópera Evguéni Onéguin, de Piotr Tch aikóvski. (N. T.)
206 Anton Tchékhov

do problema que lhe interessa -:- continuou , esfregando a man­


ga junto ao cotovelo e carregando o sobrolho - , então, minha
querida, é assim: seguir livremente as atracções do coração nem
sempre traz felicidade às pessoas boas . Sou de opinião de que ,
para nos sentirmos livres e ao mesmo tempo felizes, não deve­
mos esconder de nós próprios que a vida é cruel , brutal e im­
placável no seu conservantismo , e é necessário respondermos­
-lhe com aquilo que ela merece , ou seja, sermos como ela,
brutais e implacáveis nas nossas aspirações à liberdade . Acho
eu .
- Não sou capaz ! - sorriu tristemente Zinaída Fiodorovna.
- Já estou cansada, compadre . Fiquei tão extenuada que não
vou mexer um dedo para me salvar.
- Vista o hábito , comadre .
Disse-o em tom de brincadeira, mas a estas palavras brilha­
ram as lágrimas nos olhos de Zinaída Fiodorovna e , depois , do
próprio Grúzin .
- Bom - disse ele - , estávamos aqui muito bem sentados ,
mas tenho de ir. Adeus , querida comadre . Deus lhe dê saúde .
Beijou-lhe as mãos , afagou-as com ternura e disse que a visi­
taria ainda, sem falta, nos próximos dias . Quando , no vestíbulo ,
vestia o seu sobretudo que se assemelhava a um casaquinho de
criança, remexeu demoradamente nos bolsos para me dar uma
gorjeta, mas não encontrou nada.
- Adeus , meu amigo ! - disse com tristeza e saiu .
Nunca me esquecerei do estado de ânimo que aquele homem
deixou em casa. Zinaída Fiodorovna continuava a deambular
pela sala, emocionada. Não se deitava, andava - e isso já era
bom . Eu queria aproveitar esta disposição para falar sincera­
mente com ela e, depois , ir-me embora daquela casa logo a se­
guir; mas , mal tivera ainda tempo de me despedir de Grúzin e já
tocavam de novo à porta. Era Kukúchkin .
- Gueórgui Ivánitch está? - perguntou . - Já voltou? Dizes
que não? Que pena ! Nesse caso vou beijar a mão da dona da
História de Um Desconhecido 207

casa e vou-me logo embora. Zinaída Fiodorovna, posso? - gri­


tou . - Quero beijar-lhe a mãozinha. Desculpe ter vindo tão
tarde .
Ficou pouco tempo , não mais de dez minutos , sentado na
sala, mas a mim pareceu uma eternidade , pensava que nunca
mais se ia embora. Eu mordia os lábios de indignação e desgos­
to , e já odiava Zinaída Fiodorovna. «Porque é que ela não o põe
fora?» , indignava-me , até porque era visível que ela se aborre­
cia com ele .
Quando eu lhe chegava a peliça no vestíbulo , Kukúchkin , em
sinal de especial benevolência para comigo , perguntou-me co­
mo era que eu conseguia désenvencilhar-me sem ser casado .
- Aliás , acho que não te perdes - disse ele , rindo-se . - De
certeza que tens por aqui um namorico com a Pólia. Seu traqui­
nas !
Apesar da minha razoável experiência de vida, naquela altu­
ra eu conhecia mal as pessoas , sendo bem possível que , muitas
vezes , exagerasse o insignificante e não reparasse no importan­
te . Mas notei que Kukúchkin soltava aqueles risinhos e me ba­
julava com qualquer segunda intenção: esperaria ele que eu , na
minha qualidade de lacaio , fosse murmurar por todas as cozi­
nhas e quartos de lacaios que ele nos visitava à noite quando Or­
lov não estava e que ficava com Zinaída Fiodorovna até horas
tardias? E quando os meus mexericos de lacaio chegassem aos
ouvidos dos seus amigos e conhecidos , ele baixaria os olhos
com um ar confuso e brandiria o mindinho . E não seria até que
ele próprio - pensava eu , olhando para a cara pequena e melí­
flua de Kukúchkin - iria hoje mesmo , durante o jogo , fingir
que deixava escapar que já tinha roubado Zinaída Fiodorovna a
Orlov?
O ódio que tanta falta me fizera ao meio-dia diante de Orlov
pai , apoderava-se agora de mim . Kukúchkin , finalmente , saiu , e
eu , escutando o som das suas galochas de couro a arrastar-se ,
sentia um desejo enorme de lhe atirar às costas um insulto gros-
208 Anton Tchékhov

seiro; mas contive-me . Porém, quando os passos dele já não se


ouviam nas escadas , voltei ao vestíbulo e , ao ver o rolo de pa­
péis esquecido por Grúzin , sem consciência do que estava a fa­
zer, peguei neles e galguei as escadas rapidamente . Sem casaco
nem chapéu , saí para a rua. Não estava frio , mas caía uma neve
graúda e soprava o vento .
- Excelência ! - gritei , apanhando Kukúchkin . - Vossa ex­
celência !
Ele parou ao pé do lampião e voltou a cabeça com perplexi­
dade .
- Excelência ! - disse eu , ofegando . - Vossa excelência!
E, como não me ocorria nada para o insultar, bati-lhe duas ve­
zes na cara com o rolo de papéis . Sem perceber, e mesmo sem
se surpreender - de tal modo ficara aturdido - , encostou-se ao
lampião e protegeu a cara com as mãos . A nosso lado passou ,
então , um médico militar que me viu a agredi-lo , mas limitou­
-se a olhar para nós com espanto e seguiu o seu caminho .
Envergonhado , corri de volta para casa.

12

Com a cabeça coberta de neve , a resfolegar, corri para o meu


quarto , e a primeira coisa que fiz foi despir a casaca de lacaio ,
vestir o meu casaco e o meu sobretudo e levar a minha mala pa­
ra o vestíbulo . Fugir ! Mas , antes de me ir embora, sentei-me e
escrevi rapidamente uma carta a Orlov:
«Deixo-lhe o meu passaporte falso - comecei assim - e
peço-lhe que o guarde como recordação , seu funcionário pe­
tersburguense e homem falso !
«Penetrar em casa alheia sob nome falso , espiar no papel de
lacaio a vida íntima das pessoas para depois desmascarar as
mentiras delas . . . o senhor dirá que tudo isto se assemelha ao
roubo . Pois é, mas agora não me interessa o que é ou não é
História de Um Desconhecido 209

nobre . Aturei dezenas dos seus jantares e almoços , quando o se­


nhor dizia e fazia o que lhe dava na gana, e tinha de ouvir, olhar
e calar. . . Não quero continuar a dar-lhe isso de graça. Além dis­
so , já que não há a seu lado quem ouse dizer-lhe as verdades e
não bajulá-lo, que ao menos o lacaio Stepan lhe atire algumas
coisas à bela fisionomia.»
Este começo não me agradou , mas não me apetecia emendar
nada. Além disso , que diferença fazia?
As janelas grandes com as suas cortinas escuras , a casaca
amarrotada no chão e as pegadas dos meus pés molhados davam
ao quarto um ar severo e triste . E o silêncio parecia especial .
A temperatura subiu-me bruscamente , pelos vistos porque
saíra à rua sem chapéu e sem galochas . Ardia-me o rosto ,
doíam-me as pernas . . . A minha cabeça pesada como que gravi­
tava para a mesa, os meus pensamentos como que se bipartiam,
parecendo-me que cada pensamento meu arrastava no cérebro a
sua sombra.
«Estou doente , fraco , moralmente desfeito - continuei a es­
crever - , pelo que não consigo escrever-lhe como gostaria de
fazê-lo . No primeiro momento , tive vontade de o insultar e hu­
milhar, mas agora não me parece que tenha o direito de o fazer.
Ambos caímos, eu e o senhor, e jamais nos levantaremos, e a
minha carta, mesmo que fosse eloquente , forte e assustadora,
assemelhar-se-ia a pancadas na tampa do caixão . . . é impossível
acordar um morto ! Não existem já esforços possíveis para aque­
cer o seu sangue maldito e frio , e o senhor sabe-o melhor do que
eu . Neste caso, para quê escrever então? Mas ardem-me a cabe­
ça e o coração , continuo a escrever e , não sei porquê , a emocio­
nar-me , como se esta carta ainda pudesse salvar-nos , ao senhor
e a mim. Tenho febre , os pensamentos não se me ligam na ca­
beça e a pena range sem sentido no papel , mas a pergunta que
lhe quero fazer ergue-se diante de mim clara como o fogo .
«Não é difícil explicar porque enfraqueci e caí prematura­
mente . À semelhança do fortalhão da B íblia, peguei em peso nas
210 Anton Tchékhov

portas de Gaza e levei-as ao cume do monte , mas só quando en­


fraqueci, quando a juventude e a saúde se foram para sempre em
mim, reparei que as portas estavam acima das minhas forças e
que me tinha enganado. Tenho sofrido dores permanentes e
cruéis . Passei fome , frio, doenças , privação da liberdade; nunca
conheci a felicidade pessoal , não tenho abrigo , as recordações
são-me tão penosas que a minha consciência tem medo delas .
Mas o senhor, porque caiu? Que circunstâncias fatais e diabóli­
cas impediram que a sua vida desabrochasse em flor primaveril ,
porque se apressou o senhor a despojar-se da imagem e seme­
lhança de Deus ainda antes de começar a viver, porque se trans­
formou num animal cobarde que ladra e que , com os seus lati­
dos , assusta os outros apenas porque são latidos de medo?
O senhor tem medo da vida, tem medo como um asiático que fi­
ca sentado dias a fio no seu colchão a fumar o narguilé . S im, o
senhor lê muito e assenta-lhe bem a casaca europeia, mas , mes­
mo assim, com que cuidados temos , puramente asiáticos , de cão
oriental , o senhor se protege da fome , do frio , do esforço físico,
da dor e do incómodo; que cedo a sua alma se escondeu dentro
do roupão , que cobardia manifestou frente à vida real e à natu­
reza, com as quais qualquer pessoa normal e saudável luta.
Quanto conforto , calorzinho , comodidades . . . e que tédio ! S im ,
às vezes é u m tédio de morte , sem vislumbres de nada, como nu­
ma cela solitária, mas o senhor tenta esconder-se também deste
inimigo: chega a passar oito horas por dia a jogar às cartas .
«E a sua ironia? Oh , que bem a compreendo ! Um pensamen­
to vivo , livre , enérgico é perscrutante e poderoso , mas é insu­
portável numa mente ociosa, folgada. Para que o pensamento
não perturbe o seu sossego , o senhor, à semelhança de milhares
dos seus coetâneos , desde a juventude que se esforça por lhe fi­
xar limites; muniu-se de uma atitude irónica para com a vida (ou
chame-lhe como quiser) , e o pensamento refreado e intimidado
não se atreve a saltar a cerca que o senhor ergueu à sua volta; e
quando escarnece das ideias que , supostamente , lhe são todas
História de Um Desconhecido 21 1

conhecidas , assemelha-se a um desertor que foge vergonhosa­


mente do campo de batalha mas , para silenciar a vergonha, se ri
da guerra e da coragem. O cinismo apaga a dor. Numa das no­
velas de Dostoiévski, um velho pisa o retrato da filha querida
porque é culpado para com ela24 ; ora, o senhor escarnece no­
jenta e grosseiramente das ideias do bem e da verdade porque já
é incapaz de voltar a elas . Qualquer alusão sincera e verdadeira
à sua queda é tão assustadora para si que se rodeia propositada­
mente de gente que apenas se preocupa em lisonjear as suas fra­
quezas . Não é por acaso , não é por acaso que tem tanto medo
das lágrimas !
«A propósito da sua atitude para com a mulher. Herdámos a
pouca-vergonha no corpo e no sangue e fomos educados na
pouca-vergonha, mas é para vencermos o animal dentro de nós
que somos seres humanos . Com a maturidade , ao ficar a par de
todas as ideias , o senhor não podia deixar de ver a verdade;
conheceu-a mas não a seguiu , ela assustou-o e , para enganar a
sua consciência, tentou convencer de modo altissonante a si
mesmo que não é o senhor o culpado mas a própria mulher, que
ela é tão baixa como a atitude do senhor para com ela. Será que
as anedotas frias e obscenas , as risadas como relinchos de cava­
lo, todas as suas inúmeras teorias sobre a essência e as exigên­
cias indefinidas para com o casamento , sobre os dez sous que o
operário francês paga à mulher, as suas eternas alegações quan­
to à falsidade e à fraqueza da lógica feminina, será que tudo is­
so não indicia o desejo de , a todo o custo , dobrar a mulher para
mais perto ainda da lama, para que ela e a sua atitude para com
ela estejam ao mesmo nível? O senhor é um homem fraco , des­
graçado e antipático .»
Na sala de estar, Zinaída Fiodorovna começou a tocar piano ,
tentando reproduzir a peça de Saint-Saens que Grúzin tocara.

24 Trata-se de um personagem do romance Humilhados e Ofendidos de Fiódor


Dostoiévski. (N. T.)
212 Anton Tchékhov

Deitei-me na cama, mas , lembrando-me de que eram horas de


partir, levantei-me a grande custo e , com a cabeça pesada, a ar­
der, voltei a sentar-me à mesa.
«Mas aqui levanta-se um problema - continuei a escrever.
- Porque ficámos tão cansados? Porque foi que nós , no princí­
pio tão apaixonados , tão corajosos , tão nobres e homens de tão
grande fé , chegámos , aos trinta ou trinta e cinco anos, ao desca­
labro completo? Porque é que um se apaga com a tísica, outro
mete uma bala na testa, outro procura o esquecimento na vodca,
outro ainda, para abafar o medo e a angústia, pisa cinicamente
o retrato da sua juventude pura e bela? Porque é que , uma vez
caídos , já não tentamos levantar-nos e , ao perdermos uma
coisa, já não procuramos outra? Porquê?
«Ü ladrão crucificado foi capaz de recuperar a alegria da vi­
da e uma esperança corajosa e realizável , mesmo que pudesse
não lhe restar mais do que uma hora de vida. Ora, o senhor ain­
da tem pela frente longos anos , e talvez eu também não morra
tão cedo quanto parece . E se , por milagre , o presente se reve­
lasse um sonho terrível , um pesadelo , e acordássemos dele
renascidos , puros, fortes e orgulhosos da nossa verdade? . . . Os
sonhos doces queimam-me , custa-me respirar da emoção . Ape­
tece-me terrivelmente viver, quero que a nossa vida seja santa,
elevada e solene como a abóbada celeste . Vivamos ! O sol não
nasce duas vezes ao dia, a vida não nos é dada duas vezes . . . en­
tão , agarremos com unhas e dentes os restos de vida e salvemo­
-los . . »
.

Não escrevi nem mais uma palavra. Tinha muitas ideias na


cabeça, mas dispersavam-se , não chegavam a formar frases .
Sem terminar a carta, assinei o meu nome , apelido e condição
social verdadeiros , e dirigi-me ao gabinete . Estava escuro . En­
contrei a mesa às apalpadelas e pus a carta em cima. Pelos vis­
tos , na escuridão , esbarrei contra os móveis e fiz barulho .
- Quem é? - soou a voz preocupada dela, vinda da sala de
estar.
História de Um Desconhecido 213

Logo a seguir, o relógio de mesa do gabinete bateu suave­


mente a uma da madrugada.

13

Sempre na escuridão , passei meio minuto a tactear na porta


para encontrar a fechadura, depois abri-a lentamente e entrei na
sala de estar. Zinaída Fiodorovna, deitada no canapé , soergueu­
-se , apoiada no cotovelo , e ficou a olhar para mim . Sem me atre­
ver a falar, passei lentamente a seu lado , seguindo-me ela com
os olhos . Parei , fiquei assim um pedaço, voltei a passar junto
dela; ela olhou para mim com atenção , perplexa , até com medo .
Por fim, parei e disse com esforço:
- Ele não vai voltar !
Zinaída Fiodorovna levantou-se rapidamente e ficou a olhar
para mim sem perceber.
- Ele não vai voltar ! - repeti . O meu coração batia com for­
ça. - Não volta porque não chegou a sair de Petersburgo . Está
em casa de Pekárski.
Ela percebeu e acreditou - vi-o pela súbita palidez e pelo ges­
to rápido de cruzar as mãos no peito com medo e súplica. Num
instante, deve ter-lhe relanceado na memória o seu passado re­
cente e viu com implacável nitidez toda a verdade . Ao mesmo
tempo, lembrou-se de que eu era um lacaio, um ser inferior. . . um
patife com o cabelo desgrenhado, a cara vermelha da febre, talvez
bêbado, com um sobretudo vulgar, a intrometer-se com grosseria
na sua vida íntima, e sentiu-se insultada. Disse-me severamente:
- Ninguém lhe pediu a opinião . Saia.
- Oh, acredite em mim ! - disse eu com ardor, estendendo
as mãos para ela. - Não sou lacaio, sou um homem livre como
a senhora !
Disse-lhe o meu nome verdadeiro e depressa, muito depres­
sa, para ela não me interromper ou não se ir embora para o seu
214 Anton Tchékhov

quarto , expliquei-lhe quem era e o motivo por que estava na­


quela casa. Esta nova descoberta impressionou-a mais do que a
primeira. Se ainda tinha alguma esperança de que o lacaio lhe
mentia, ou se tinha enganado , ou dizia disparates , depois da mi­
nha confissão já não lhe restavam dúvidas . Pela expressão dos
seus desgraçados olhos e da cara que , de repente , se tomou feia
porque envelheceu e perdeu a suavidade , vi que ela estava mal ,
insuportavelmente , que tinha sido má ideia falar com ela; mas ,
com emoção , continuei :
- O senador e a inspecção foram inventados para a enganar.
Já em Janeiro , tal como agora, não tinha ido para lado nenhum,
ficou cá em casa de Pekárski , e eu via-o todos os dias e partici­
pava na mentira. A presença da senhora incomodava-o , causa­
va-lhe ódio , e troçava de si nas suas costas . . . Se soubesse como
ele e os amigos escarneciam de si e do seu amor não ficaria aqui
nem mais um minuto ! Fuja daqui ! Fuja!
- Muito bem ... - disse ela, toda a tremer, passando a mão
pelo cabelo . - Muito bem . . . Que seja assim.
Os seus olhos estavam cheios de lágrimas , os lábios tremiam­
-lhe , tinha a cara toda branca e irada. A mentira grosseira e mes­
quinha de Orlov indignava-a, parecia-lhe desprezível e ridícula;
ela sorria, mas não me agradava nada aquele sorriso .
- Muito bem . . . - repetiu e voltou a passar a mão pelo ca­
belo . - Que seja assim . Ele imagina que eu vou morrer de hu­
milhação , mas isto a mim . . . parece apenas ridículo . Não faz sen­
tido ele esconder-se . - Afastou-se do piano e disse , encolhendo
os ombros: - Não valia a pena . . . Tinha sido mais fácil esclare­
cer as coisas do que andar escondido pelas casas dos outros . Te­
nho olhos , há muito tempo que já vi tudo . . . só estava à espera da
chegada dele para a conversa definitiva.
Depois sentou-se na poltrona ao lado da mesa e , com a cabe­
ça apoiada no braço do divã, chorou amargamente . Em toda a
sala de estar ardia apenas uma vela no candelabro , estando tudo
na penumbra à roda da sua poltrona; mesmo assim, eu via como
História de Um Desconhecido 215

lhe tremiam a cabeça e o s ombros , como o penteado a desfazer­


-se lhe tapava o pescoço , o rosto , as mãos . . . No seu choro silen­
cioso , regular, nada histérico - um choro normal de mulher -
soava a ofensa, o orgulho humilhado , o insulto sofrido e aquele
desespero e desolação que não tem remédio , a que é impossível
habituar-se . O choro dela ecoava na minha alma atormentada,
em comoção: esquecia-me da minha doença e de tudo mais , cal­
correava a sala e dizia perdidamente:
- Mas que vida é essa? . . . Oh, não se pode viver assim ! Não !
É loucura, é crime , não é vida !
- Que humilhação ! - dizia ela por entre o choro . - Viver
comigo . . . sorrir para mim, quando eu sou um fardo pesado para
ele , uma ridícula . . . Oh , que humilhação !
Ergueu a cabeça e , olhando para mim através do cabelo mo­
lhado de lágrimas , tentando ajeitá-lo , perguntou:
- Eles riam-se?
- Sim, a senhora e o seu amor eram ridículos para essas pes-
soas , e também Turguénev, que a senhora, supostamente , se far­
tou de ler. E se nós os dois morrêssemos agora de desespero ,
também achariam isso muito cómico . Inventariam uma anedota
divertida para contarem na missa de corpo presente da senhora.
Mas para que estamos a falar deles? - disse eu com impaciên­
cia. - É preciso fugir daqui. Eu não posso ficar aqui nem mais
um minuto .
Ela voltou ao choro; afastei-me e sentei-me ao pé do piano .
- De que estamos à espera? - perguntei com angústia. -
Já passa das duas da manhã.
- Não estou à espera de nada - disse ela. - Estou perdida.
- Porque diz isso? É melhor pensarmos , juntos , no que se
pode fazer. Nem eu nem a senhora podemos ficar aqui. . . Para
onde quer ir?
De repente soou a campainha do vestíbulo . Apertou-se-me o
coração . Não seria Orlov, a quem Kukúchkin se queixara de
mim? Como vou encará-lo? Fui abrir. Era Pólia. Entrou , sacu-
216 Anton Tchékhov

diu a neve do casaco no vestíbulo e , sem me dizer uma palavra,


foi para o seu quarto . Quando voltei à sala de estar, Zinaída Fio­
dorovna, pálida como um morto , estava no meio da sala e olha­
va para mim com os olhos grandes .
- Quem era? - perguntou baixinho .
- Pólia - respondi .
Zinaída Fiodorovna passou a mão pelo cabelo e , extenuada,
fechou os olhos .
- Vou-me já embora daqui - disse ela. - Faça-me o favor
de me acompanhar até ao Bairro Petersbúrgskaia. Que horas
são?
- Um quarto para as três .

14

Quando saímos de casa, um pouco mais tarde , a rua estava es­


cura e deserta. Nevava, o vento húmido fustigava a cara. Lem­
bro-me de que era o início de Março , o degelo , e que havia já
vários dias que as carruagens tinham substituído os patins pelas
rodas . Por causa da sensação que lhe causava a escada de ser­
viço , o frio , a escuridão da noite e o guarda-portão de samarra,
que nos interrogou antes de nos deixar sair, Zinaída Fiodorov­
na esmoreceu , desanimou por completo . Quando nos sentámos
no coche e fechámos o tejadilho , ela, com o corpo todo a tre­
mer, desatou a falar muito depressa, dizendo como me estava
grata.
- Não duvido da sua bondade , mas tenho vergonha de que
se esteja a incomodar. . . - murmurava. - Oh , eu sei , eu sei . . .
quando o Grúzin l á foi hoje , senti que ele mentia, que estava a
esconder alguma coisa. Bom . . . Está bem . Mas envergonha-me
que esteja a incomodar-se tanto . . .
Ainda persistiam nela algumas dúvidas . Para lhas dissipar
definitivamente , disse ao cocheiro para ir pela Serguievskaia;
História de Um Desconhecido 217

mandei-o parar à entrada do prédio de Pekárski , saí do coche e


toquei à porta. Quando apareceu o porteiro , perguntei-lhe em
voz alta, para que Zinaída Fiodorovna ouvisse , se Gueórgui Ivá­
nitch estava em casa.
- Está - respondeu o porteiro . - Chegou há meia hora.
Penso que já estará a dormir. O que queres dele?
Zinaída Fiodorovna não se conteve e assomou a cabeça fora
do coche .
- Há muito que Gueórgui Ivánitch vive aqui? - perguntou .
- Já vai na terceira semana.
- E não viajou para lado nenhum?
- Não - respondeu o porteiro , olhando para mim com es-
panto .
- Amanhã de manhã diz-lhe que passou por aqui a irmã
dele , de Varsóvia. Adeus .
Como o coche não tinha avental a resguardá-lo , a neve caía­
-nos em cima, e o vento , sobretudo à beira do Nevá, penetrava-
-nos até aos ossos . Parecia que rolávamos há muitíssimo tempo ,
que há muitíssimo tempo sofríamos e que era há muitíssimo
tempo que eu ouvia a respiração trémula de Zinaída Fiodorov­
na . . . Num relance , numa espécie de delírio , revi a minha estra­
nha vida e , por qualquer razão , lembrei-me do melodrama Pe­
dintes de Paris que vira duas vezes na infância. E quando , para
sacudir o meu devaneio delirante , deitei a cabeça de fora do te­
jadilho e vi o alvorecer, todas as imagens do passado , todos os
pensamentos nebulosos se fundiram de súbito , na minha mente ,
num pensamento único claro e sólido: eu e Zinaída Fiodorovna
estávamos irremediavelmente perdidos . Era uma certeza, como
se o céu azuláceo e frio contivesse uma profecia; mas , num ins­
tante , logo pensei e me convenci de outra coisa.
- E agora? - dizia Zinaída Fiodorovna com a voz rouca do
frio e da humidade . - Para onde vou , o que faço? Grúzin dis­
se: tome hábito . Oh , eu até tomaria hábito ! Mudaria de vestido ,
de cara, de nome , de ideias . . . de tudo , de tudo , e esconder-me-
218 Anton Tchékhov

-ia para sempre . Mas não me deixariam entrar no mosteiro . Es­


tou grávida.
- Amanhã vamos para o estrangeiro.
- Impossível . O meu marido não me dará o passaporte .
- Eu levo-a sem passaporte .
O cocheiro parou junto a uma casa de madeira de dois pisos ,
pintada de escuro . Toquei à porta. Tomando das minhas mãos a
pequena cesta leve - a única bagagem que tinha - Zinaída
Fiodorovna esboçou um sorriso azedo e disse:
- São os meus bijoux...
Estava porém tão fraca que nem podia segurar nos seus bi­
joux. Demoraram a abrir-nos . Depois de termos tocado pela ter­
ceira ou quarta vez , brilhou a luz nas janelas e ouviram-se pas­
sos , tosse , sussurros; por fim estalou a fechadura e espreitou à
porta uma mulher gorda com a cara vermelha, assustada. Atrás
dela, a alguma distância, estava uma velhinha magra com o ca­
belo grisalho cortado, de camisa branca e uma vela na mão. Zi­
naída Fiodorovna irrompeu no átrio e atirou-se ao pescoço da
velha.
- Nina, fui enganada! - chorava alto . - Fui abominavel­
mente enganada, grosseiramente ! Nina, Nina!
Entreguei a cesta à mulher. Fecharam a porta, mas continua­
ram a ouvir-se os gritos de «Nina, Nina ! » . Sentei-me no coche
e disse ao cocheiro que fosse , devagar, para a Avenida Névski .
Tinha de pensar também onde dormiria.
No dia seguinte , ao fim da tarde , visitei Zinaída Fiodorovna.
Mudara muito . Já não tinha vestígios de lágrimas no rosto páli­
do e emagrecido , a sua expressão já era outra. Fosse porque a
via agora noutro ambiente , que estava longe de ser luxuoso , fos­
se porque as nossas relações já eram outras , ou fosse, talvez ,
porque a grande desgraça deixara nela a sua marca, o certo era
que Zinaída Fiodorovna já não se me afigurava tão elegante e
festiva como antes; parecia mais pequena; nos gestos , no andar,
no rosto eu vislumbrava-lhe um nervosismo exagerado , um ím-
História de Um Desconhecido 219

peto , como se estivesse com pressa, tendo perdido a antiga sua­


vidade , mesmo no sorriso . Quanto a mim , comprara no próprio
dia um fato caro e levava-o vestido . O primeiro olhar de Zinaí­
da Fiodorovna foi para este meu fato e para o chapéu que tinha
na mão , depois é que me cravou os olhos impacientes na cara,
como que a estudá-la.
- A sua metamorfose ainda me parece um milagre - disse. -
Desculpe estar a observá-lo com tanta curiosidade . É que é um
homem extraordinário .
Contei-lhe mais uma vez , de forma mais pormenorizada do
que na véspera, quem era e por que razão vivia em casa de Or­
lov. Ela ouvia-me com grande atenção mas , sem me deixar aca­
bar, disse:
- Acabei com tudo , lá. Sabe , não me contive e escrevi-lhe
uma carta. Está aqui a resposta.
Mostrou-me um papel em que reconheci a letra de Orlov:
«Não vou justificar-me . Mas terá de concordar que foi a senho­
ra quem se enganou e não eu . Desejo-lhe felicidades e peço-lhe
que esqueça o mais depressa possível este G. O . que a respeita.
«P. S . Mando-lhe as suas coisas .»
As arcas e os cestos mandados por Orlov estavam ali , na sala
de estar, e entre eles lá estava também a minha humilde mala.
Ficámos calados . Pegou no bilhetinho que eu lhe devolvi e,
nos dois minutos que o manteve diante dos olhos , o rosto dela
tinha aquela mesma expressão altiva, orgulhosa, de desdém , a
mesma expressão dura que tinha no dia anterior quando lhe con­
tei tudo; depois encheram-se-lhe os olhos de lágrimas , mas já
não tímidas nem amargas , e sim orgulhosas , zangadas .
- Oiça - disse ela, levantando-se impetuosamente e afas­
tando-se para a janela, para eu não lhe ver a cara. - Resolvi o
seguinte: amanhã mesmo parto consigo para o estrangeiro .
- Óptimo . Por mim, estou pronto , pode ser mesmo hoje.
- Então , recrute-me . Leu Balzac? - perguntou de repente ,
voltando-se . - Leu? O Pere Goriot termina assim: o herói olha
220 Anton Tchékhov

de uma colina para Paris e ameaça a cidade: «Agora vamos


ajustar contas ! » , e a partir daí dá início a uma nova vida. Assim
farei eu , quando olhar pela última vez para Petersburgo: «Ago­
ra vamos ajustar as contas ! »
E, sorrindo da sua brincadeira, toda ela, por qualquer razão ,
estremeceu .

15

Em Veneza comecei a ter dores pleuríticas . Pelos vistos , apa­


nhei frio quando fomos , pelos canais , da estação ao hotel B an­
ner. Fui obrigado a ficar de cama logo no primeiro dia, o que du­
rou duas semanas . Enquanto estive acamado , todas as manhãs
Zinaída Fiodorovna vinha do seu quarto ter comigo para tomar­
mos o café juntos , depois lia-me em voz alta os livros franceses
e russos que tínhamos comprado em grande quantidade em Vie­
na. Eram livros que eu conhecia havia muito , ou sem qualquer
interesse para mim, mas a voz querida e bondosa soava a meu
lado e era quanto bastava; no fundo , o conteúdo de todos aque­
les livros resumia-se a isto: não estava sozinho . Ela ia depois
passear, regressava no seu vestido cinzento-claro e com um le­
ve chapéu de palha, alegre , aquecida pelo sol primaveril , e ,
sentando-se a meu lado , inclinando-se até muito perto d a minha
cara, contava-me coisas de Veneza ou lia-me os livros - e eu
sentia-me bem .
Durante as noites eu sofria com as dores , o frio e o tédio, mas
durante o dia deliciava-me com a vida - não encontro melhor
expressão . O sol brilhante e quentinho a bater nas janelas e na
porta envidraçada da varanda, os gritos em baixo , o chapinhar
dos remos , o badalar dos sinos , o troar do canhão ao meio-dia e
o sentimento de uma plena, mas plena, liberdade faziam mila­
gres em mim; sentia nas costas asas fortes e amplas que me le­
vavam para espaços infinitos . E que maravilha, que alegria eu
História de Um Desconhecido 221

sentia às vezes ao pensar que ao lado da minha vida corria ou­


tra vida, que eu era servidor, guarda, amigo , acompanhante in­
dispensável de uma criatura jovem, bela e rica, mas fraca, ofen­
dida e solitária ! Chega a ser agradável estarmos doentes quando
sabemos que há pessoas que esperam pela nossa convalescença
como por uma festa. Um dia ouvi-a a cochichar por trás da por­
ta com o meu doutor e , depois , entrou no meu quarto com os
olhos vermelhos de choro - era um mau sinal , mas fiquei co­
movido e senti uma extraordinária leveza na alma.
Finalmente , autorizaram-me a sair à varanda. O sol e a brisa
leve do mar acariciam o meu corpo doente . Olho para baixo , pa­
ra as gôndolas , minhas familiares há tanto tempo , navegando
com uma graça feminina, fluente e majestosa, como se vives­
sem e sentissem todo o luxo desta cultura original . Cheira a mar.
Algures tangem-se cordas , um duo canta. Que bom ! Que dife­
rença daquela noite de Petersburgo em que a neve húmida me
fustigava brutalmente a cara ! Se olharmos a direito sobre o ca­
nal , vê-se o litoral , e no horizonte , nos espaços livres , o sol lan-.
ça na água reflexos tão brilhantes que os olhos nos doem . A al­
ma é atraída pelo mar querido , bom, a que entreguei a minha
juventude . Apetece-me viver ! Viver, mais nada !
Ao cabo de duas semanas comecei a andar por onde me ape­
tecia. Gostava de me sentar ao sol , ouvir o gondoleiro , não com­
preender nada, olhar horas a fio para a casinha onde vivia Des­
démona, diziam - uma casinha ingénua, triste e de expressão
virginal , leve como renda, tão leve que dava a sensação que se
podia mover com uma só mão . Ficava parado , demoradamente ,
junto ao túmulo de Canova25 e não desviava os olhos do leão
triste . No palácio dos duques atraía-me o canto onde sujaram a
tinta negra o desgraçado Marino Faliero26 . É bom ser pintor,

25 Antonio Canova ( 1757-1822) , célebre escultor italiano. (N. T.)


26 Marino Faliero ( 1274-1355), duque da República de Veneza, executado por ser
organizador da conspiração contra o governo das ricas famílias patrícias. (N. T.)
222 Anton Tchékhov

poeta, dramaturgo , pensava eu , mas já que isso é inacessível pa­


ra mim, ao menos o misticismo ! Ah, acrescentar a este sossego
imperturbável e a esta satisfação que enche a alma pelo menos
uma migalha de qualquer fé .
À noite comíamos ostras , bebíamos vinho , passeávamos nas
gôndolas . Lembro-me: a nossa gôndola preta está parada e ba­
loiça suavemente , a água marulha quase inaudível debaixo
dela. Aqui e ali tremem e ondulam os reflexos das estrelas e das
luzes costeiras . Perto de nós , numa gôndola enfeitada com lam­
piões multicores que se reflectem na água, vão pessoas a can­
tar. Ergue-se na escuridão o som das guitarras , dos violinos , dos
mandolins , as vozes masculinas e femininas , e Zinaída Fiodo­
rovna, com a cara muito séria, quase severa, está sentada a meu
lado , apertando com força os lábios e as mãos . Pensa em qual­
quer coisa, nem pestaneja, não me ouve . O rosto , a pose , o
olhar parado , inexpressivo , as tristes recordações , pavorosas e
frias como neve , enquanto à volta tudo são gôndolas , luzes,
música, uma canção com uma exclamação enérgica e apaixo­
nada: «Jam-mo ! . .. Jam-mo ! . . . » - que contrastes da vida !
Vendo-a assim petrificada, apertando as mãos , angustiada,
afigurava-se-me que ambos participávamos num romance à
moda antiga, intitulado «A Infeliz» , «A Abandonada» , ou qual­
quer coisa do género . Ambos - ela, infeliz e abandonada, e eu ,
amigo fiel e abnegado , um sonhador e , se quiserem , um homem
alienado da sociedade , um azarento , já incapaz de mais nada
que não tossir, sonhar, talvez sacrificar-me , mas . . . para quê , a
quem fazem falta agora os meus sacrifícios? Sacrificar o quê?
- eis a questão .
Depois do passeio nocturno tomávamos sempre chá no quar­
to dela e falávamos . Não tínhamos medo de tocar nas velhas fe­
ridas , ainda não saradas; pelo contrário , eu sentia um certo pra­
zer quando reconstituía a minha vida em casa de Orlov e
evocava abertamente as suas relações com ele e que eu tão bem
conhecia, já que não podiam ter sido escondidas de mim.
História de Um Desconhecido 223

- Cheguei a sentir ódio pela senhora - dizia eu . - Quan­


do ele se mostrava caprichoso, ou condescendia, ou mentia,
espantava-me que a senhora não desse por nada, não compreen­
desse , quando era tudo tão claro . A senhora beijava-lhe as mãos,
ajoelhava-se aos pés dele , adulava-o . . .
- Quando lhe . . . beijava as mãos e me ajoelhava, eu amava . . .
- dizia ela, corando .
- Era assim tão difícil adivinhar o que ele era na verdade?
Veja só que esfinge ! A esfinge Kammerjunker! Não estou a
censurá-la de nada, Deus me guarde - continuei , sentindo que
estava a ser bastante malcriado , que não praticava o esmero e a
delicadeza tão necessários quando lidamos com a alma dos ou­
tros; no meu passado , antes de a conhecer, nunca reparava nes­
te meu defeito . - Como era possível não perceber? - repeti ,
numa voz mais baixa e menos segura.
- Quer dizer que despreza o meu passado , e tem razão - di­
zia ela com forte emoção . - O senhor pertence àquela catego­
ria especial de pessoas que não cabem dentro das medidas habi­
tuais, as suas exigências morais destacam-se pelo exclusivo
rigor e, por isso , compreendo que o senhor não possa perdoar;
compreendo-o e, se às vezes o contradigo , isso não significa que
vejo as coisas de maneira diferente do senhor; digo disparates já
velhos apenas porque ainda não tive tempo de gastar os meus
velhos vestidos e preconceitos . Eu própria odeio e desprezo o
meu passado , Orlov, o meu amor por ele . . . Que amor foi esse?
Tudo isso , agora, me parece até ridículo - disse , aproximando­
-se da janela e olhando para o canal em baixo . - Amores des­
ses apenas enevoam a consciência e fazem perder o tino . O sen­
tido da vida reside apenas numa única coisa, a luta. Pisar a
ignóbil cabeça da víbora com o salto , e que ela . . . crac ! É nisso
que está todo o sentido ! Só nisso , ou então não há sentido al­
gum.
Eu contava-lhe longas histórias do meu passado em que des­
crevia as minhas aventuras de facto espantosas . Mas não me
224 Anton Tchékhov

descaí nem com uma palavra sobre a mudança que se produziu


em mim . Ela ouvia-me sempre com grande atenção e , nos mo­
mentos mais curiosos , esfregava as mãos , como que desgostosa
por não ter tido ela própria a oportunidade de viver tais aventu­
ras , medos e alegrias; mas , de repente , ficava pensativa, ensi­
mesmada, e eu via, pela sua cara, que já não estava a ouvir-me .
Fechava então as janelas que davam para o canal e pergun­
tava-lhe se queria que eu acendesse a lareira.
- Não , não vale a pena. Não tenho frio - dizia com mole­
za - , apenas enfraqueci. Sabe uma coisa? Parece-me que nos
últimos tempos fiquei muito mais inteligente . Agora ocorrem­
-me ideias invulgares , originais . Quando penso no passado , por
exemplo, na minha vida antiga . . . bom, nas pessoas em geral , tu­
do isso se funde numa imagem, a da minha madrasta. Bruta,
descarada, sem coração , falsa, depravada e , ainda por c ima,
morfinómana. O meu pai, fraco e sem carácter, tinha casado
com a minha mãe por dinheiro e levou-a à tísica; mas a essa, à
segunda mulher, a minha madrasta, amava-a até à loucura . . .
O que e u sofri! Falar disto para quê? Mas a verdade é que , digo
eu , tudo se funde numa só imagem . . . E sinto desgosto: porque
morreu a minha madrasta? Gostava de me encontrar agora com
ela ! . . .
- Para quê?
- Por nada, não sei . . . - disse ela, rindo-se e sacudindo gra-
ciosamente a cabeça. - Boa noite . As melhoras . Mal recupere
a saúde , trataremos dos nossos assuntos . . . Já não é sem tempo .
Depois de me ter despedido e quando já deitava a mão à ma-
çaneta da porta, ela disse:
- O que acha? A Pólia ainda estará em casa dele?
- Pelos vistos .
Fui para o meu quarto . Vivemos assim durante um mês intei­
ro. A meio de um dia sombrio, estávamos os dois à janela do

meu quarto a olhar em silêncio para o canal azuláceo e para as


nuvens que avançavam do lado do mar, esperando a chuva tor-
História de Um Desconhecido 225

rencial; e quando uma faixa estreita e espessa de chuva já cobria


a costa como gaze , ambos sentimos tédio . No mesmo dia, parti­
mos para Florença.

16

O que vai seguir-se aconteceu já no Outono , em Nice . Uma


manhã entrei no quarto de Zinaída Fiodorovna e fui encontrá-la
sentada na poltrona, com as pernas cruzadas , curvada, abatida,
tapando a cara com as mãos , num alto choro amargo , com o ca­
belo comprido despenteado caindo-lhe sobre os joelhos . A im­
pressão que me deixara o mar espantoso , magnífico que acaba­
ra de contemplar, e que queria partilhar com ela, abandonou-me
de súbito , senti um aperto de dor no coração .
- O que tem? - perguntei; ela tirou uma mão da cara para
fazer o gesto de me mandar sair. - Mas diga, porque está as­
sim? - insisti e, pela primeira vez durante todo o nosso conví­
vio , beijei-lhe a mão .
- Não é nada, nada ! - disse rapidamente . - Ah, nada,
nada . . . Vá-se embora . . . Não estou vestida.
Saí, terrivelmente confuso . A compaixão por ela envenenava­
-me o estado liberto e sossegado em que andava há tanto tem­
po . A minha vontade era cair-lhe aos pés , implorar-lhe que não
chorasse sozinha mas que partilhasse comigo a sua desgraça.
O barulho monótono do mar começou a resmungar nos meus
ouvidos como uma premonição sombria, já adivinhava novas
lágrimas pela frente , novas amarguras e perdas . Porque estava
ela a chorar, porquê? - interrogava-me , recordando os seus
olhos e rosto sofredores . Lembrei-me de que estava grávida. Zi­
naída Fiodorovna tentava esconder a sua situação das pessoas e
de si mesma. Em casa andava com uma blusa folgada ou uma
camisa com pregas demasiado tufadas no peito , e quando saía
apertava o espartilho com tanta força que chegava a desmaiar
226 Anton Tchékhov

durante os passeios . Comigo nunca falava da sua gravidez , e


quando uma vez eu lhe disse que não seria mau consultar um
médico , corou muito e não respondeu .
Quando , mais tarde , voltei a entrar no seu quarto , já estava
vestida e penteada.
- Deixe isso , vá lá ! - disse eu quando notei que ela já es­
tava prestes a chorar outra vez . - Vamos antes até à beira-mar,
falamos lá.
- Não posso falar. Desculpe , agora quero estar sozinha.
E, por favor, Vladímir Ivánovitch , da próxima vez que queira
entrar no meu quarto , bata previamente à porta.
Aquele «previamente» soou-me de uma forma muito estra­
nha, nada feminina. Saí. Lá voltava o maldito estado de espíri­
to petersburguense , todos os meus sonhos se encarquilhavam
como folhas no meio do fogo . Sentia que estava de novo sozi­
nho , que já não havia proximidade entre nós . Eu era para ela o
que , para esta palmeira, era a teia de aranha que se pendurou nos
ramos por acaso e que seria arrancada e levada pelo vento . Pas­
seei pelo parque , onde a música tocava, entrei no casino , onde
observei as jogadoras ataviadas , muito perfumadas , e cada olhar
que elas me lançavam era como se quisesse dizer: «estás sozi­
nho , ainda bem . . . » Saí para o terraço e fiquei muito tempo a
olhar para o mar. Não se via uma vela no horizonte; do lado es­
querdo da costa, na bruma lilás , erguiam-se montes , viam-se os
jardins , as torres , as casas , e em tudo brincava o sol , mas tudo
me era alheio , indiferente , e confuso .

17

Zinaída Fiodorovna continuava a tomar o café da manhã no


meu quarto , mas já não almoçávamos juntos; dizia que não lhe
apetecia comer e alimentava-se de chá, café , lambiscos como la­
ranjas e caramelos .
História de Um Desconhecido 227

Também já não conversávamos à noite . Porquê, não sei . Desde


aquele momento em que a surpreendera a chorar, começou a
falar-me com indiferença, com descuido, até com ironia, e
tratava-me , não sei porquê , por «senhor meu» . O que antes lhe
parecia assustador, espantoso , heróico e lhe despertava inveja
ou admiração , já não a emocionava absolutamente nada e, de­
pois de ouvir as minhas histórias , espreguiçava-se e dizia:
- Pois , as coisas que acontecem, senhor meu , as coisas que
acontecem.
Às vezes não a via durante o dia inteiro . Batia à porta dela
umas pancadas tímidas e culpadas - nada; batia mais uma vez
- o silêncio . Ficava ao pé da porta a escutar, mas havia sempre
uma criada de quarto que passava e me informava: «Madame
est partie.» Depois andava pelo corredor do hotel , andava, an­
dava . . . . Passava por ingleses , por senhoras de peitos grandes ,
por garçons de casacas . . . Ao calcorrear a carpete comprida e às
riscas passava-me pela cabeça que , na vida daquela mulher, eu
representava um papel estranho , pelos vistos falso , e que já não
tinha possibilidade de alterar este papel; corria para o meu quar­
to , atirava-me para cima da cama e pensava, pensava, mas não
concluía nada, apenas era claro para mim que queria viver e
que , quanto mais feio , seco e rude se tomasse o rosto dela, mais
íntima me era e com tanta mais força dolorosa sentia a sua pro­
ximidade . Que eu seja para ela «senhor mem>, que continue a
tratar-me naquele tom descuidado e desdenhoso, que sej a assim,
mas não me deixes , meu tesouro . Agora tenho medo de ficar so­
zinho .
Outra ocasião fui para o corredor e pus-me à escuta com
preocupação . . . Não almocei , não reparei que a noite caía. Final­
mente , perto das onze , ouvi passos familiares e, na esquina jun­
to à escada, apareceu Zinaída Fiodorovna.
- Anda a passear? - perguntou ela, passando ao meu lado . -
Era melhor que o fizesse na rua . . . Boa noite !
- Já não nos voltamos a ver hoje?
228 Anton Tchékhov

- Parece que já é tarde , não? Aliás , como queira.


- Aonde foi? - perguntei , entrando no quarto atrás dela.
- Aonde? A Monte Carlo... - Tirou do bolso umas dez moe-
das de ouro e disse: - Veja, senhor meu . Ganhei . À roleta.
- Não , não devia jogar.
- Porquê? Amanhã vou outra vez .
Imaginei-a ao pé da roleta com a sua cara doentia, grávida,
violentamente espartilhada, no meio da multidão de galdérias e
de velhas xexés apertadas ao pé do ouro como moscas do mel;
lembrei-me de que , já uma vez , ela tinha ido a Monte Carlo às
escondidas de mim...
- Não acredito - disse-lhe eu . - Não vai nada.
- Não se preocupe. Não posso perder muito.
- Não se trata de perder - disse eu com desgosto. - Quan-
do estava lá, a jogar, será que não lhe passou pela cabeça que o
brilho do ouro , que todas aquelas mulheres , velhas e jovens , o
croupier, todo aquele ambiente , que tudo isso era uma zomba­
ria abominável e ignóbil do trabalho do operário , do seu suor e
sangue?
- Se não jogar, o que hei-de fazer aqui? - perguntou ela. -
O trabalho do operário , o suor e o sangue , toda essa eloquência,
deixe isso para outra vez , mas agora, já que o senhor começou
esta conversa, permita-me que a continue; permita que lhe colo­
que a questão frontalmente: o que hei-de fazer aqui , o que fazer?
- O que há-de fazer? - disse eu , encolhendo os ombros. -
É impossível responder de imediato a uma pergunta dessas .
- Peço-lhe uma resposta honesta, Vladímir lvánovitch -
disse ela, e mostrou irritação na cara. - Já que me atrevi a
fazer-lhe esta pergunta, não foi para ouvir frases gerais . Estou a
perguntar-lhe: o que devo fazer aqui? - continuou ela, batendo
com a palma da mão na mesa, como que a marcar o ritmo. -
E não só aqui , em Nice , mas em geral?
Eu calava-me e , pela janela, olhava o mar. O meu coração co­
meçou a bater com uma força terrível.
História de Um Desconhecido 229

- Vladímir lvánovitch - disse ela, com a respiração curta e


entrecortada; custava-lhe falar. - Vladímir Ivánovitch, se o se­
nhor mesmo já não acredita na sua causa, se já não pensa em
voltar a ela, então porque foi . . . porque foi que me tirou de Pe­
tersburgo? Porque me fez promessas e porque despertou em
mim esperanças malucas? As suas convicções mudaram, o se­
nhor tornou-se outra pessoa, e ninguém o acusa disso . . . nem
sempre se pode dominar as nossas convicções . . . mas , Vladímir
Ivánovitch , por amor de Deus , porque não está a ser sincero? -
continuou em voz baixa, aproximando-se de mim . - Quando ,
durante todos estes meses , eu sonhava em voz alta, divagava,
entusiasmava-me com os meus planos , reconstruía a minha vi­
da, porque não me dizia a verdade mas se calava ou me incen­
tivava com as suas histórias e fingia que me apoiava plenamen­
te? Porquê? Para que tinha de fazer isso?
- É difícil reconhecermos o nosso falhanço - disse eu ,
voltando-me para ela mas sem a olhar. - Pois , eu não tenho fé ,
estou cansado , desanimado . . . É difícil sermos sinceros , terrivel­
mente difícil , por isso calava-me . Deus livre as outras pessoas
de viverem o que eu vivi .
Senti-me prestes a chorar e calei-me .
- Vladímir Ivánovitch - disse ela e pegou-me nas mãos . -
O senhor viveu e suportou muita coisa, sabe mais do que eu; pen­
se bem e diga-me: o que vou fazer? Ensine-me . Se o senhor já não
tem forças para ir em frente e levar os outros atrás de si, indique­
-me pelo menos aonde me devo dirigir. Tem de concordar que sou
uma pessoa viva, com sentimentos e capacidade de raciocínio .
Cair numa situação falsa . . . desempenhar um papel absurdo . . . é
doloroso para mim. Não o censuro, não o acuso , apenas lhe peço .
Trouxeram chá.
- Então? - perguntou Zinaída Fiodorovna servindo-me um
copo de chá. - O que me vai dizer?
- A luz não vem só de uma candeia - respondi . - Além de
mim há mais pessoas , Zinaída Fiodorovna.
230 Anton Tchékhov

- Então indique-mas - disse ela vivamente . - É só isso


que lhe peço .
- E também quero dizer - continuei - que é possível ser­
vir a ideia em mais de uma área. Quando a pessoa se engana,
quando perde a fé numa coisa, pode encontrar outra. O mundo
das ideias é amplo e inesgotável .
- O mundo das ideias ! - disse ela e olhou-me com ironia
nos olhos . - Então é melhor deixarmos de falar. . . Falar para
quê? . . .
Corou .
- O mundo das ideias ! - repetiu e atirou com o guardanapo
para o lado; o seu rosto tomou uma expressão indignada e des­
denhosa. - Todas essas suas belas ideias , pelo que vejo,
resumem-se a um único passo , inevitável e imprescindível: te­
nho de ser sua amante . Isso é que é necessário . Ter a mania das
ideias e não ser amante de um homem honestíssimo e cheio de
ideias significa não compreender as ideias . É preciso começar
por aí. . . ou seja, como amante , o resto vem por si .
- Está irritada, Zinaída Fiodorovna - disse eu .
- Não , estou a ser sincera ! - gritou ela, ofegante . - Estou
a ser sincera !
- Talvez esteja a ser sincera, mas está enganada, e isso dói-
-me .
- Estou enganada ! - riu-se ela. - Olha quem fala ! Posso
parecer-lhe indelicada, cruel , mas tem de ser: o senhor ama-me?
Ama, não é?
Encolhi os ombros .
- Isso , encolha os ombros ! - continuou ela com sarcasmo .
- Quando o senhor estava doente , ouvi-o a delirar; e , também,
esses olhos cheios de adoração , constantemente , e os suspiros ,
as conversas decorosas sobre a intimidade , sobre o parentesco
espiritual . . . Mas , o principal é: porque não tem sido sincero até
hoje? Porque calava o que existia e falava do que não existia?
Tinha dito logo desde o princípio quais eram as tais ideias que
História de Um Desconhecido 23 1

o levaram a tirar-me de Petersburgo; e eu , então , pelo menos fi­


caria a saber. E ter-me-ia envenenado , como queria, e já não ha­
veria agora esta comédia aborrecida . . . Eh , falar para quê ! -
Abanou a mão e sentou-se .
- Fala como se desconfiasse que eu tenho intenções deso­
nestas - ofendi-me .
- Ora, ora . . . Não vale a pena. Não é das intenções que eu
desconfiava, mas de as não ter tido . Se as tivesse , eu , agora, já
saberia. O senhor nunca teve nada além de ideias e amor. E,
agora, tem ideias , amor e a perspectiva de me ter como amante .
É assim a ordem natural das coisas , na vida e nos romances . . .
O senhor criticava-o - disse ela e bateu com a palma d a mão
na mesa - , mas não podemos deixar de concordar com ele .
Não é por acaso que ele despreza todas essas ideias .
- Ele não despreza as ideias , tem medo delas - gritei. -
É um cobarde e um aldrabão .
- Ora, ora ! É cobarde , mentiroso e enganou-me; e o senhor?
Desculpe a franqueza: e o senhor é o quê? Ele enganou-me e
abandonou-me à minha própria sorte em Petersburgo , e o se­
nhor enganou-me e abandonou-me aqui . Mas ele , pelo menos ,
não metia ideias nas suas aldrabices , e o senhor . . .
- Por amor de Deus , porque está a dizer essas coisas? -
aterrorizei-me e, torcendo as mãos , aproximei-me dela. - Não ,
Zinaída Fiodorovna, não , isso é cinismo , não pode entrar nesse
desespero , oiça-me - continuei , agarrando-me a uma ideia que
de s úbito me cintilou vagamente na cabeça, e que parecia poder
ainda salvar-nos a ambos . - Oiça. Passei por muitas provações
na vida, tantas que agora, quando as recordo , até tenho verti­
gens; e cheguei à firme conclusão, com o meu cérebro e com a
minha alma dorida, que a vocação do ser humano ou é o amor
abnegado pelo próximo ou não é nada. É isso que temos de pro­
curar, é nisso que está a nossa vocação ! É esta a minha fé !
Ainda quis falar da misericórdia, do perdão , mas a minha voz
tornou-se de repente insincera, e embaracei-me .
232 Anton Tchékhov

- Quero viver ! - disse eu çom sinceridade. - Viver, viver!


Anseio pela paz , pelo sossego, quero calor, este mar, a senhora
ao pé de mim . Oh , como gostaria de lhe inspirar, também a si,
esta sede apaixonada de viver ! A senhora falou de amor, mas
para mim bastaria tê-la perto , ouvir a sua voz , ver a expressão
do seu rosto . . .
Ela corou e , para impedir que eu continuasse , disse rapida­
mente:
- O senhor gosta da vida, mas eu odeio-a. Portanto , os nos­
sos caminhos divergem .
Encheu o copo de chá mas , sem lhe tocar, foi para o quarto e
deitou-se .
- Suponho que é melhor acabarmos com esta conversa -
disse-me de lá. - Para mim , está tudo acabado , e não preciso
de nada . . . É inútil continuarmos a falar !
- Não , não está acabado !
- Ora, ora ! . . . Já sei ! Estou farta . . . Chega.
Fiquei ali parado , depois pus-me a passear de um canto para
o outro , depois saí para o corredor. Quando mais tarde , em ple­
na noite , me aproximei da porta dela e me pus à escuta, ouvi cla­
ramente que ela chorava.
No dia seguinte , o criado , quando me chegava o fato para eu
vestir, informou-me com um sorriso que a senhora do quarto 1 3
estava em trabalho de parto . Vesti-me atabalhoadamente e , mor­
to de medo , corri para lá. No quarto estavam um médico , uma
parteira e um senhora idosa de Khárkov, de seu nome Dária Mi­
kháílovna. Cheirava a éter. Mal ultrapassei a ombreira ouvi um
gemido dela, baixinho , queixoso , e, como se o vento mo trou­
xesse da Rússia, lembrei-me de Orlov, da sua ironia, de Pólia,
do Nevá, do coche sem avental de resguardo , da profecia que eu
lera no céu matinal , do grito desesperado: «Nina, Nina ! »
- V á ao pé dela - disse-me a senhora.
Entrei no quarto de Zinaída Fiodorovna com o sentimento de
ser eu o pai da criança. Ela estava deitada, com os olhos fecha-
História de Um Desconhecido 233

dos , magra, pálida, com uma touca branca rendada. Lembro-me


de duas expressões no rosto dela: uma indiferente , fria, mole;
outra, a que lhe conferia a touca branca, infantil e indefesa. Não
me ouviu entrar, ou talvez ouvisse mas não me desse atenção .
Fiquei ali parado , a olhar para ela, à espera.
De repente torceu-se-lhe a cara de dor, abriu os olhos e cra­
vou-os no tecto , como se tentasse perceber o que lhe acontecia . . .
Pintou-se-lhe a repugnância n o rosto .
- Que nojo - sussurrou .
- Zinaída Fiodorovna - chamei-a, baixinho .
Lançou-me um olhar mole , indiferente , e fechou os olhos .
Deixei-me estar mais um pouco e saí.
Nessa noite , Dária Mikháílovna informou-me que nascera
uma menina mas que a mãe estava em perigo de vida; ouvi de­
pois barulho no corredor, correrias . Dária Mikháílovna veio de
novo ter comigo , com o rosto desesperado , torcendo as mãos .
Disse:
- Oh , que horror ! O doutor desconfia que ela tomou vene­
no ! Oh, como os russos se portam mal aqui!
Zinaída Fiodorovna faleceu no dia seguinte ao meio-dia.

18

Passaram-se dois anos . Como a situação entretanto mudou ,


pude voltar a Petersburgo e viver lá sem me esconder. Já sem
medo de ser e de parecer sentimental , entreguei-me todo ao sen­
timento paterno , ou melhor, à idolatria que Sónia, a filha de Zi­
naída Fiodorovna, provocava em mim. Dava-lhe de comer com
as minhas próprias mãos , dava-lhe banho , deitava-a na caminha,
passava noites a fio a vê-la dormir, gritava quando me parecia
que a ama ia deixá-la cair. A minha sede de um quotidiano nor­
mal, com o correr do tempo, tornava-se cada vez mais forte e ir­
ritadiça, mas os meus grandes sonhos concentravam-se em volta
234 Anton Tchékhov

de Sónia, como se tivessem achado em Sónia aquilo de que eu


precisava exactamente. Amava loucamente aquela menina. Via
nela a continuação da minha vida, e não era só uma impressão,
mas sentia profundamente e acreditava com toda a fé que, quando
eu finalmente me despojasse deste corpo esgrouviado, ossudo
e barbudo , viveria naqueles olhinhos azuis , naquele cabelo loiro
e sedoso , naquelas mãozinhas roliças e cor-de-rosa que me afa­
gavam a cara com tanta ternura e me envolviam o pescoço.
O futuro de Sónia assustava-me . O pai dela era Orlov, mas na
certidão de nascimento o seu apelido era Krasnóvskaia; entre­
tanto, o único homem que sabia da existência de Sónia, ou seja,
eu , estava nas últimas . Era necessário pensar a sério no futuro
da menina.
Logo no dia seguinte a ter chegado a Petersburgo fui a casa de
Orlov. Abriu-me a porta um velho gordo com suíças ruivas e sem
bigode , pelos vistos alemão . Pólia, que arrumava a sala de estar,
não me reconheceu , mas Orlov viu de imediato quem eu era.
- Ã -ã, o senhor faccioso ! - disse ele , examinando-me com
curiosidade e rindo-se . - Que ventos o trazem?
Não mudara nadinha: a mesma cara cuidada e desagradável , a
mesma ironia . . . Em cima da mesa, como sempre , havia um livro
novo qualquer, com uma faca de marfim entre as páginas . Pelos
vistos , antes da minha chegada estava a ler. Convidou-me a
sentar-me, ofereceu-me um charuto e , com a delicadeza própria
apenas das pessoas com uma educação excelente, escondendo
por certo o nojo que lhe causavam a minha cara doentia e a mi­
nha figura esquelética, observou de passagem que eu não tinha
mudado nada e que era fácil reconhecer-me apesar de ter deixa­
do crescer a barba. Falámos um pouco do tempo , falámos de Pa­
ris . Para se ver livre rapidamente da questão penosa e inevitávei
que nos atormentava, tanto a mim como a ele, perguntou:
- Zinaída Fiodorovna morreu?
- S im, morreu - respondi.
- De parto?
História de Um Desconhecido 235

- Sim, de parto ... O doutor desconfiou de outra causa mas ... pa­
ra o senhor e para mim é mais tranquilo pensar que morreu de parto.
Ele suspirou por conveniência e ficou algum tempo calado .
Eu também.
- Bom. Pois eu estou na mesma, não há mudanças substan­
ciais - pôs-se a falar com vivacidade , reparando que eu percor­
ria o gabinete com o olhar. - O meu pai , como sabe , está na
reforma, a descansar, e eu continuo no mesmo serviço . Lembra­
-se de Pekárski? Está na mesma. Grúzin morreu no ano passado ,
de difteria . . . Pois, e Kukúchkin está vivo e recorda o senhor
muitas vezes . A propósito - continuou Orlov, baixando timi­
damente os olhos - , quando Kukúchkin ficou a saber quem era
o senhor, pôs-se a contar por todo o lado que o senhor, suposta­
mente , o atacou e queria matá-lo . . . que se salvou por milagre .
Eu não disse nada.
- Os velhos criados não se esquecem dos seus senhores . . .
É muito simpático d a sua parte - brincou Orlov. - Bom, não
quer café , um copo de vinho? Mando trazer.
- Não , obrigado . Vim por causa de um assunto muito im­
portante , Gueórgui Ivánitch .
- Não sou grande amador de assuntos importantes, mas con­
sigo estou pronto a condescender. De que se trata?
- Bem vê - disse eu, emocionado - , neste momento tenho
comigo a filha da falecida Zinaída Fiodorovna . . . Tenho sido eu
a tratar da criação dela, até ao momento , mas , bem vê , de hoje
para amanhã posso transformar-me num som vazio . Gostaria de
morrer com a certeza de que o futuro dela estava assegurado .
Orlov corou de leve , carregou o sobrolho e olhou para mim
de relance , com severidade . Não foi tanto o «assunto importan­
te» que lhe provocou um efeito desagradável , mas as minhas pa­
lavras sobre a morte , sobre a transformação num «som vazio» .
- Sim, é necessário pensar nisso - disse ele , tapando
os olhos como que a proteger-se do sol . - Obrigado . O senhor
disse: a menina?
236 Anton Tchékhov

- Sim, é uma menina. Uma menina maravilhosa !


- Pois . É claro , não é um cãozinho , é um ser humano . . . com-
preendo , é necessário pensar nisso a sério . Estou pronto a aju­
dar e . . . agradeço muito .
Levantou-se , pôs-se a passear pela sala, mordendo as unhas ,
até que parou diante de um quadro na parede .
- É necessário pensar nisso - repetiu numa voz surda, de
costas para mim. - Hoje mesmo vou a casa de Pekárski e peço­
-lhe que fale com Krasnóvski . Acho que o Ktasnóvski não se
fará muito rogado e concordará em ficar com a menina.
- Desculpe , não sei o que terá Krasnóvski a ver com isto -
disse eu , levantando-me e aproximando-me também de um qua­
dro , na outra ponta do gabinete .
- Mas a criança tem o nome dele , espero eu ! - disse Orlov.
- Sim, e talvez , por lei , ele tenha a obrigação de ficar com a
criança, isso não sei , mas eu , Gueórgui Ivánitch , não vim aqui
para falar de leis .
- Pois , pois, tem toda a razão - concordou Orlov pronta­
mente . - Parece que estou a dizer disparates . Mas não se preo­
cupe . Vamos resolver tudo isto de maneira a haver satisfação
mútua. Se não se encontrar uma solução , encontra-se outra, se
não for outra, haverá uma terceira, e esta questão delicada, dê lá
por onde der, há-de ser resolvida. Pekárski vai arranjar tudo da
melhor maneira. Por favor, deixe-me o seu endereço , e eu comu­
nico-lhe de imediato a solução a que chegarmos . Onde mora o
senhor?
Orlov apontou o meu endereço , suspirou e disse com um sor­
riso:
- Que comissão, meu Deus , ser pai de uma filha pequeni­
na ! 27 Mas o Pekárski vai resolver tudo . É um homem esperto .
O senhor viveu em Paris muito tempo?

27 Réplica modificada de um personagem da c omédia A D esgraça de Ser Inteli­


( 1 7 9 5- 1 829 ). (N. T.)
g ente de A lek sandr G riboié dov
História de Um Desconhecido 237

- Cerca de dois meses .


Calámo-nos ambos . Orlov, pelos vistos , tinha medo que eu vol­
tasse ao assunto da criança e, para me desviar a atenção , disse:
- O senhor, penso eu , já não se lembra da sua carta. Mas eu
guardei-a. Compreendo o seu estado de espírito daquela altura e,
confesso , respeito a sua carta. O maldito sangue-frio , o asiático ,
o riso como um relincho de cavalo , tudo isso é lindo e caracte­
rístico - continuava ele , sorrindo com ironia. - E a ideia prin­
cipal é capaz de estar perto da verdade , embora seja possível dis­
cutir sobre isso interminavelmente . Ou seja - titubeou - , não
digo contestar a ideia em si , mas discutir a sua atitude relativa­
mente ao problema, discutir o seu , por assim dizer, tempera­
mento . Sim, a minha vida é anormal , estragada, não presta, e a
cobardia impede-me de começar uma vida nova . . . nisso tem to­
da a razão . Mas não leve isso tão a peito , que se enerva e se de­
sespera sem razão , e não há motivos para isso .
- Um homem vivo não pode evitar enervar-se e desesperar
quando assiste ao seu próprio perecimento e ao de outras pes­
soas .
- Sem dúvida ! Estou longe de pregar a indiferença, apenas
defendo uma atitude objectiva em relação à vida. Quanto mais
objectivos formos , menos nos arriscamos a errar. É preciso ver
a raiz do problema e procurar em cada fenómeno a causa das
causas . Depauperamo-nos a olhos vistos , degradamo-nos e fi­
nalmente caímos , a nossa geração é composta de neuróticos e de
choramingas , não paramos de falar do cansaço e do esgotamen­
to , mas os culpados não somos nós , eu e o senhor; nós somos in­
significantes demais para que o destino de toda uma geração de­
penda do nosso voluntarismo . Existem aqui , acho eu , grandes
causas gerais, com a sua raison d 'être do ponto de vista bioló­
gico . Somos neuróticos , choramingas , renegados , mas talvez is­
so seja necessário e útil para as gerações vindouras . Nem um ca­
belo cai da cabeça sem a vontade de Deus . . . ou , por outras
palavras , na natureza e no meio humano nada se passa sem
238 Anton Tchékhov

razão . Tudo é lógico e necessário . Se é assim, para que precisa­


mos de nos preocupar tanto e escrever cartas desesperadas?
- Talvez seja verdade - disse eu , depois de reflectir. -
Acredito que , para as gerações futuras , tudo será mais fácil e
mais claro: terão à sua disposição a nossa experiência. Mas que­
remos viver independentemente das futuras gerações e não só
para elas . A vida só nos é dada uma vez , e temos vontade de a
viver energicamente, com sentido , com beleza. Devemos ter a
vontade de desempenhar um papel de realce , independente , no­
bre , fazer história, para que essas mesmas gerações não tenham
o direito de dizer de cada um de nós: era uma mediocridade; ou
qualquer coisa ainda pior. . . Acredito na lógica e na necessidade
do que se passa à nossa volta, mas quero lá saber dessa necessi­
dade . E porque teria o meu «eu» de se perder?
- Nada a fazer ! - suspirou Orlov, levantando-se e como
que dando a entender que a nossa conversa tinha chegado ao
fim .
Peguei no chapéu .
- Não falámos mais do que meia hora, mas veja só quantos
problemas resolvemos ! - disse Orlov, acompanhando-me até
ao vestíbulo . - Portanto , vou tratar daquilo . . . Hoje mesmo fa­
lo com Pekárski . Fique descansado .
Ficou ali até que eu vestisse o casaco e , por certo , tinha pra-
zer em ver-me pelas costas .
- Gueórgui lvánitch , devolva-me a minha carta.
- Com certeza.
Foi ao gabinete e um minuto depois trazia-me a carta. Agra­
deci e saí.
No dia seguinte recebi um bilhete dele . Felicitava-me por ter
sido arranjada uma boa solução do problema. Uma senhora co­
nhecida de Pekárski , escrevia ele , tinha um pensionato , uma es­
pécie de infantário que recebia, inclusive , crianças muito pe­
quenas . Podia-se confiar plenamente na senhora, mas antes de
se fazer qualquer acordo com ela era necessário falar com Kras-
História de Um Desconhecido 239

nóvski - era uma exigência formal . Orlov aconselhava-me a ir


ver Pekárski sem perda de tempo e a levar-lhe a certidão de nas­
cimento da menina, caso existisse . «Queira aceitar os mais sin­
ceros respeitos do seu fiel servidor. . . »
Estava a ler a carta, e Sónia, sentada em cima da mesa, olha­
va para mim com atenção , sem pestanejar, como se soubesse
que estava a decidir-se o seu destino .
TRÊS ANOS

Era ainda o lusco-fusco , mas aqui e ali já se acendiam as lu­


zes nas casas , e no fim da rua, por trás da caserna, começava a
levantar-se a lua pálida. Láptev estava sentado no banco junto
ao portão e esperava que acabasse o ofício noctumo na igreja de
Pedro e Paulo . Tinha a esperança de que Iúlia Serguéevna, de
volta da igreja, passasse perto e, então , poderia falar com ela e ,
talvez, passar com ela todo o princípio de noite .
Já estava ali há cerca de hora e meia e , nesse tempo todo ,
pintava-se-lhe na imaginação a casa de Moscovo , os amigos
moscovitas , o lacaio Piotr, a mesa de trabalho; olhava, perple­
xo , para as árvores escuras , imóveis , e parecia-lhe estranho não
estar agora na sua casa de campo de Sokólniki mas numa c ida­
de provinciana, numa casa em frente da qual todas as manhãs e
todos os fins de tarde , ao som da cometa, passava uma manada
grande de vacas , levantando nuvens alterosas de poeira. Recor­
dava as longas conversas moscovitas , em que ainda há tão pou­
co tempo participava - sobre como era possível vivermos sem
amor, e que uma paixão forte era psicose , e que, afinal , não exis­
te amor mas tão-só a atracção física dos sexos - e muito mais ,
tudo dentro deste género; assim recordava e , com tristeza, pen­
sava que se lhe perguntassem agora o que era o amor não sabe­
ria responder.
Três Anos 24 1

O ofício terminou, começaram a passar as pessoas . Láptev


olhava com atenção para os vultos escuros . Já passara um coche
levando o prelado , os sinos já tinham parado de tocar e , no cam­
panário , as luzes vermelhas e verdes iam-se apagando umas
atrás das outras - era a iluminação por motivo da festa dos san­
tos padroeiros da igreja - mas o povo ainda passava, sem pres­
sas , conversando , parando debaixo das janelas . Finalmente, Láp­
tev ouviu a voz familiar, o coração bateu-lhe com força e , como
Iúlia Serguéevna não vinha sozinha, dominou-o o desespero .
«É terrível, terrível ! - sussurrava ele com ciúmes. - É terrível !»
Ela parou na esquina para a viela para se despedir de umas se­
nhoras e foi então que olhou para Láptev.
- Vou a sua casa - disse ele . - Preciso de falar com o seu
pai . Ele está em casa?
- Pelos vistos - respondeu ela. - Ainda é cedo para ir ao
clube .
A viela era ladeada de pomares e junto às cercas erguiam-se
tílias que a esta hora, ao luar, faziam sombras largas que punham
na penumbra os portões e as cercas de um lado da viela; vinham
de lá cochichos de vozes femininas , risos contidos , o som muito
baixinho de uma balalaica. Cheirava a tília e a feno . Aqueles
cochichos de gente invisível e aquele cheiro irritavam Láptev.
Apeteceu-lhe loucamente abraçar a sua acompanhante , cobrir­
-lhe a cara, as mãos e os ombros de beijos , chorar, rojar-se-lhe
aos pés , dizer-lhe há quanto tempo a esperava. Emanava dela um
cheiro leve a incenso , quase imperceptível , e isso trouxe-lhe à
memória o tempo em que ele também tinha fé em Deus e ia aos
ofícios nocturnos, um tempo em que sonhava muito com o amor
puro , poético . E, porque aquela rapariga não o amava, parecia­
-lhe agora que a felicidade com que sonhava dantes lhe estava
vedada, era uma possibilidade perdida para sempre .
Iúlia Serguéevna começou a falar com preocupação da saúde
de Nina Fiodorovna, irmã dele . Dois meses antes tinha-lhe sido
removido um tumor cancerígeno e temia-se uma recaída.
242 Anton Tchékhov

- Fui vê-la hoje de manhã - disse Iúlia Serguéevna - e


pareceu-me que , numa semana, não só emagreceu como mirrou .
- S im, sim - concordou Láptev. - Não há recidiva, mas
vejo que fica mais fraca de dia para dia, que se apaga a olhos
vistos . Não percebo o que se passa.
- Meu Deus , ela que era tão saudável , cheiinha, de faces ro­
sadas ! - disse Iúlia Serguéevna depois de um curto silêncio . -
Toda a gente aqui lhe chamava mejengra. Como ela se ria ! Nas
festas , vestia-se de campónia, e ficava-lhe muito bem.
O doutor Serguei Boríssitch estava em casa; gordo , vermelho ,
de sobrecasaca comprida, por baixo dos joelhos, andava no seu
gabinete de um canto para o outro , com as mãos nos bolsos , e
cantarolava a meia voz: «Ru-ru-ru-ru .» Não tinha as suíças gri­
salhas alisadas nem o cabelo penteado , como se tivesse acabado
de se levantar da cama. Também o seu gabinete, com as almo­
fadas a trouxe-mouxe em cima dos divãs , com pilhas de papéis
velhos pelos cantos, com um caniche sujo e doente debaixo da
mesa, produzia a mesma sensação desgrenhada e áspera que
produzia o doutor.
- Monsieur Láptev quer ver-te - disse-lhe a filha, entrando
no gabinete .
- Ru-ru-ru-ru - cantarolou ele mais alto , virou para a sala
de estar e, estendendo a mão a Láptev, perguntou: - O que me
vai dizer?
Estava escuro na sala. Láptev, sem se sentar e com o chapéu
na mão , começou por pedir desculpa pelo incómodo; perguntou
o que era necessário fazer para que a irmã dormisse de noite e
também porque emagrecia tanto . Embaraçava-o a sensação de
que já lhe tinha feito aquelas perguntas , no próprio dia, durante
a visita matinal do doutor à doente .
- D iga-me - perguntou Láptev - , não valeria a pena cha­
marmos de Moscovo um especialista? O que acha?
O doutor suspirou , encolheu os ombros e fez um gesto inde­
finido com as mãos .
Três Anos 243

Era evidente que se ofendera. Era um médico extremamente


susceptível e cheio de cismas , sempre com a ideia de que as pes­
soas não tinham confiança nele , não lhe reconheciam autorida­
de e não lhe tinham o respeito bastante , que o público o explo­
rava e os colegas o tratavam com malevolência. Troçava de si
mesmo , dizendo que parvalhões como ele tinham sido criados
apenas para que os outros os cavalgassem.
Júlia Serguéevna acendeu o candeeiro . Cansara-se na igreja,
o que se lhe notava pela cara branca e abatida, pelo andar mole .
Apetecia-lhe descansar. Sentou-se no divã, com as mãos nos
joelhos , e ficou pensativa. Láptev, que tinha a consciência da
sua aparência nada graciosa, parecia sentir agora, fisicamente ,
como era feio . Com efeito , era pequenote , magro , sempre ver­
melho nas faces , e com um cabelo tão ralo que sentia frio na ca­
beça. A sua expressão não ajudava: não tinha aquela simplici­
dade elegante que toma simpáticos mesmo os rostos feios e
rudes; com as mulheres era desajeitado , exageradamente lo­
quaz , amaneirado . Por causa disto tudo , agora quase se despre­
zava. Para que Júlia Serguéevna não se aborrecesse muito na sua
companhia, tinha de falar. Mas de quê? Outra vez da doença da
irmã?
Lançou-se então numa peroração sobre a medicina, dizendo
aquilo que é costume dizerem dela, louvou a higiene e declarou
que , havia muito , tinha a intenção de construir em Moscovo um
albergue noctumo e que , para isso , até já tinha elaborado um or­
çamento estimativo . Segundo o seu plano , um operário que re­
corresse ao albergue teria direito , por cinco ou seis copeques ,
a um prato de sopa quente de repolho com pão , a uma cama
quente e seca com cobertor e a um sítio para secar a roupa e o
calçado .
Júlia Serguéevna, na presença dele , normalmente estava cala­
da, e Láptev, estranhamente , talvez por instinto de apaixonado ,
adivinhava-lhe os pensamentos e as intenções . Também agora
percebeu que , não tendo ela ido para o seu quarto mudar de
244 Anton Tchékhov

roupa e tomar chá depois do ofício noctumo , era porque ia de


visita a uma qualquer casa.
- Mas não tenho pressa no que se refere ao albergue - con­
tinuava Láptev, dirigindo-se agora ao doutor, com irritação e de­
sagrado por ver que este lhe pousava em cima um olhar baço e
perplexo, pelos vistos sem compreender por que raio teria Láp­
tev puxado a conversa sobre a medicina e a higiene . - E talvez
não aplique tão cedo o orçamento . Receio que o albergue noc­
tumo caia nas mãos dos nossos padrecos moscovitas e das se­
nhoras filantropas , gente que dá cabo de qualquer iniciativa.
Iúlia Serguéevna levantou-se e estendeu a mão a Láptev.
- Desculpe - disse - , tenho de ir. Dê os meus cumpri­
mentos à sua irmã, por favor.
- Ru-ru-ru-ru - cantou o doutor. - Ru-ru-ru-ru .
Iúlia Serguéevna saiu , e Láptev, um pouco depois , despediu-se
do doutor e foi para casa. Quando um homem se sente insatis­
feito e desgraçado , que vulgaridade jorra para ele de tílias , som­
bras , nuvens , de todas essas belezas da natureza, presunçosas e
indiferentes ! A lua já estava alta e por baixo dela corriam ve­
lozmente as nuvens . «Mas que lua ingénua, provinciana, que
nuvens magras , miseráveis ! » , pensava Láptev. Envergonhava­
-se de ter falaqo havia pouco do albergue e da medicina, aterro­
rizava-se só de pensar que , no dia seguinte , de novo lhe faltaria
carácter e tentaria vê-la e falar com ela disto e daquilo para,
mais uma vez , se convencer de que era um perfeito estranho
para ela. E, dois dias depois, a mesma coisa. Para quê? Como e
quando acabaria tudo aquilo?
Chegado a casa, foi ver a irmã. Nina Fiodorovna de modo ne­
nhum tinha o aspecto de pessoa fraca, era até uma mulher de
boa e forte constituição , mas a grande lividez do rosto asseme­
lhava-a a uma morta, sobretudo quando estava deitada de costas
e com os olhos fechados como agora; a seu lado estava a filha
mais velha, Sacha, de dez anos , que lia qualquer coisa da sua an­
tologia escolar para a mãe .
Três Anos 245

- Chegou o Aliocha - disse a doente baixinho , como para


si mesma.
Entre Sacha e o tio estabelecera-se havia muito um acordo tá­
cito: revezavam-se um ao outro à cabeceira da doente . Por isso
Sacha fechou a antologia e, sem dizer palavra, saiu do quarto;
Láptev pegou num romance histórico de cima da cómoda e , en­
contrada a página, sentou-se e começou a ler em voz alta.
Nina Fiodorovna nasceu em Moscovo , numa família de pai
comerciante . A sua infância e a dos seus dois irmãos passou-se
na Rua Piatnitskaia. Uma infância longa e enfadonha; o pai era
severo com ela, chegando a castigá-la, por três vezes, à vergas­
tada, a mãe tinha uma doença prolongada de que morreu; a cria­
dagem era suja, bruta, hipócrita; as visitas frequentes eram de
popes e freiras , também brutos e hipócritas : bebiam, comiam e
bajulavam grosseiramente o pai , de quem não gostavam . Os ir­
mãos tiveram sorte , visto que foram para um colégio , mas
Nina ficou em casa , sem instrução , aprendendo tão-só a escre­
ver uns rabiscos e a ler apenas romances históricos . Dezassete
anos atrás , aos vinte e dois , conheceu na casa de campo em
Khímki o futuro marido , Panaúrov: apaixonou-se por ele e ca­
sou com ele em segredo , contra a vontade do pai . Panaúrov, um
bonitão um tanto descarado , com o hábito de acender o cigarro
na lamparina e de assobiar, era considerado uma absoluta nuli­
dade pelo pai de Nina; quando , mais tarde , o genro começou a
escrever-lhe cartas exigindo o dote , o velho escreveu à filha di­
zendo que lhe mandava para a aldeia peliças , pratas e várias
coisas mais que tinham ficado da falecida mãe , e mais trinta mil
rublos em dinheiro , mas sem a bênção paterna; depois mandou
mais vinte mil . Este dinheiro e as coisas sumiram-se em despe­
sas , a herdade foi vendida, e Panaúrov mudou-se com a família
para a cidade , sendo colocado num cargo da administração pro­
vincial . Na cidade arranjou outra família , o que provocou gran­
de falatório porque esta nova e ilegítima fann1ia vivia aberta­
mente .
246 Anton Tchékhov

Nina Fiodorovna adorava o marido . Ali deitada, pensava no


que sofrera, no que suportara aquele tempo todo , e que , se al­
guém escrevesse a vida dela, o resultado seria uma coisa muito
lastimosa. Como o seu tumor era na mama, estava convencida
de que a causa fora o amor, a vida familiar, as lágrimas e os
ciúmes.
Aleksei Fiodorovitch fechou o livro e disse:
- Fim , graças a Deus . Amanhã começamos outro .
Nina Fiodorovna riu-se . Sempre fora amiga de rir mas , ulti­
mamente , o seu cérebro como que enfraquecia por momentos e
ela ria-se pelos motivos mais insignificantes e mesmo por nada.
- Ainda cá não estavas , antes do almoço , veio a Iúlia -
disse ela. - Vejo que não acredita muito no paizinho dela.
Pronto , o meu pai que continue a tratá-la, disse ela, mas de qual­
quer modo escreva em segredo ao santo stárets28 , para que ele
reze por si . Parece que apareceu por cá um stárets qualquer.
A Iúlitchka esqueceu-se aqui do guarda-sol , manda-lho amanhã
- continuou ela, depois de uma pausa. - Não , quando chega
o fim não há médicos nem santos que nos valham.
- Nina, porque não dormes de noite? - perguntou Láptev
para mudar de conversa.
- Porque sim . Não durmo , pronto . Fico deitada e penso .
- Pensas em quê , alminha?
- Nos filhos , em ti . . . na minha vida. É que sofri muito , Alio-
cha. Quando começo a lembrar-me . . . meu Deus ! - Riu-se . -
Não é brincadeira nenhuma, dei à luz cinco vezes , morreram-me
três . . . Até aconteceu estar em trabalho de parto e o meu Grigóri
Nikoláitch , nesse momento , estar com a outra, não havendo nin­
guém para ir buscar uma parteira ou uma velha qualquer; então
eu ia à antecâmara ou à cozinha buscar um criado e via aquilo
cheio de judeus , lojistas , agiotas . . . todos à espera dele . Às vezes

28 O primeiro sentido de stárets é « ancião» . A qui, concretamente, trata- se de um


m onge-eremita com um estatuto religioso especial. (N. T.)
Três Anos 247

a cabeça andava-me à roda . . . ele não me amava, embora nunca


mo tivesse dito abertamente . Agora já acalmei. Aliviou-se-me o
coração , mas dantes tinha ressentimento . . . ah , que ressentimen­
to, meu pombinho ! Uma ocasião, ainda na aldeia, apanhei-o no
jardim com uma senhora, dei meia-volta e vim-me embora . . . co­
mecei a andar sem ver o caminho e , não sei como , fui parar à
entrada da igreja e caí de joelhos: «Nossa Senhora dos Céus ! »
Era de noite , brilhava o luar. . .
Cansou-se e começou a ofegar; depois de ter descansado um
pouco , pegou na mão do irmão e continuou numa voz fraca,
quase inaudível:
- Tu és tão bom, Aliocha . . . Tão inteligente . . . Que boa pes­
soa tu saíste !
À meia-noite Láptev despediu-se dela e levou consigo o
guarda-sol esquecido de Iúlia Serguéevna. Apesar da hora tar­
dia, na sala de jantar ainda tomava chá a criadagem, masculina
e feminina. Que desordem ! As crianças não dormiam, também
estavam na sala de jantar. As pessoas falavam em surdina e nem
reparavam que o candeeiro escurecia, estava quase a apagar-se .
Toda esta gente , grande e pequena, se preocupava com toda uma
série de agoiros maus , o estado de espírito geral era deprimen­
te: partira-se um espelho no vestíbulo; o samovar uivava todos
os dias e , nem de propósito , lá estava ele a uivar; quando Nina
Fiodorovna se vestia saiu um rato de dentro da botina dela. E o
terrível significado de tais agoiros já era conhecido das crianças ;
a mais velha, Sacha, uma morena magrinha, estava muito quie­
ta à mesa, com a cara assustada, angustiada; a mais nova, Lida,
de sete anos, uma loira gorducha, estava de pé ao lado da irmã
e olhava cabisbaixa para o lume .
Láptev desceu ao seu rés-do-chão , para as salas de tectos bai­
xos , onde cheirava sempre a gerânio e o ar era abafado . Na
sala de estar viu Panaúrov, marido de Nina Fiodorovna, a ler um
jornal . Láptev saudou-o com um aceno de cabeça e sentou-se
em frente dele . E assim ficaram os dois , calados . Acontecia eles
248 Anton Tchékhov

ficarem assim tardes inteiras , em silêncio , e um tal silêncio não


os constrangia.
As miúdas desceram para lhes darem as boas-noites. Panaú­
rov, em silêncio , sem pressas , benzeu a ambas duas vezes e deu­
-lhes a mão para beijarem. Esta cerimónia do beija-mão e das
reverências repetia-se todas as noites .
Quando as meninas saíram, Panaúrov pôs de lado o jornal e
disse:
- Esta nossa bendita cidade é um tédio ! Confesso, meu caro
- acrescentou com um suspiro - que estou muito contente por
o senhor ter encontrado finalmente uma distracção .
- De que está a falar? - perguntou Láptev.
- Há pouco vi que saía de casa do doutor Belávin. Espero
que não tenha ido lá por causa do paizinho .
- Com certeza - disse Láptev e corou .
- Pois , com certeza. A propósito, não há maior pileca do que
esse paizinho . Não imagina que animal pouco asseado , medíocre
e bronco aquilo é ! Lá na vossa Moscovo parece que ainda hoje se
interessam pela província do ponto de vista, digamos , lírico , pai­
sagístico e do Anton Infortunado29 , mas juro-lhe, meu amigo , que
aqui não há lirismo nenhum, apenas selvajaria, ignorância, por­
caria . . . e mais nada. Veja, por exemplo, os sacerdotes da ciência
locais, a intelectualidade local, por assim dizer. Imagine que nes­
ta cidade há vinte e oito médicos , que todos enriqueceram e vi­
vem em casas próprias , mas a população vive na mais desvalida
das situações . Foi preciso fazer uma cirurgia a Nina, uma opera­
ção ligeira, no fundo , mas para isso foi necessário chamar um ci­
rurgião de Moscovo porque nenhum dos locais se atreveu a fazê­
-la. Não imagina como eles são . Não sabem nada, não percebem
nada, não se interessam por nada. Pergunte-lhes , por exemplo: o
que é o cancro? Em que consiste? Porque é que aparece?

29 Anton, o Infortunado é um livro de D. V. G rigoróvitch ( 1 822- 1 8 99) sobre o


duro de stino dos campone se s. (N. T.)
Três Anos 249

E Panaúrov pôs-se a explicar o que era o cancro . Era perito


em todas as ciências e explicava cientificamente o que quer que
fosse de que se falava com ele . Explicava tudo à sua maneira
muito própria, é claro . Tinha a sua própria teoria da circulação
sanguínea, a sua química própria, a sua astronomia. Falava de­
vagar, com suavidade e convicção , pronunciava a expressão
«nem imagina» num tom suplicante , estreitando os olhos , sus­
pirando com languidez e esboçando um sorriso misericordioso
como o de um rei , e via-se que estava muito contente consigo
próprio e não pensava minimamente no facto de já ter cinquen­
ta anos .
- Não sei porquê , tenho fome - disse Láptev. - Apetecia-
-me qualquer coisinha salgada.
- Porque não? Já se arranja.
Não tardou que Láptev e o cunhado estivessem em cima, na
sala de jantar, ceando . Láptev começou por beber um cálice de
vodca e, depois , continuou no vinho; Panaúrov não bebia nada.
Nunca bebia nem jogava às cartas , mas , mesmo assim, conse­
guira desbaratar duas fortunas , a sua e a da mulher, e, ainda por
cima, endividar-se muito . Para gastar tanto em tão pouco tempo
não bastavam as paixões, tinha de ter qualquer outra coisa, um
qualquer talento especial . Panaúrov tinha o prazer da mesa, gos­
tava de serviços de loiça bonitos , de música ao almoço , dos
speeches , das vénias dos lacaios - a quem agraciava facilmen­
te com gorjetas de dez ou , até , de vinte e cinco rublos ; partici­
pava em todas as tômbolas e subscrições para banquetes , ofere­
cia ramos de flores às aniversariantes conhecidas , comprava
chávenas , suportes de copos , botões de punho , gravatas , benga­
las , perfumes , boquilhas , cachimbos , cãezinhos , papagaios , ob­
jectos japoneses , antiguidades ; as suas camisas de noite eram de
seda, a cama de ébano incrustrado de madrepérola, o roupão era
um Bucara verdadeiro , etc . , etc .; e para ter tudo isso gastava to­
dos os dias um mar de dinheiro , como ele próprio se exprimia.
Durante a ceia não parava de suspirar e de abanar a cabeça.
250 Anton Tchékhov

- Pois , tudo neste mundo tem o seu fim - dizia em voz bai­
xa, cerrando os olhos escuros . - Apaixonamo-nos e sofremos ,
deixamos de amar, enganam-nos (porque não há mulher que não
�ngane) , sofremos, entramos em desespero e nós próprios enga­
namos a mulher. Mas chega uma hora em que tudo isso se tor­
nará apenas uma lembrança em nós , e então raciocinamos fria­
mente e consideramos tudo isso perfeitas ninharias . . .
E Láptev, cansado , ligeiramente embriagado , olhava para a
cabeça bonita de Panaúrov, para a sua barbicha negra, bem apa­
rada, e parecia-lhe compreender por que razão as mulheres
gostavam tanto daquele homem mimado , convencido e fisica­
mente atraente .
Depois da ceia, Panaúrov não ficou em casa, foi para o seu
outro apartamento . Láptev saiu , acompanhando-o . Em toda a ci­
dade , Panaúrov era o único a usar cartola e, ao lado dos tapumes
cinzentos , das miseráveis casinhas de três janelas e dos urtigais
espessos , a sua figura elegante e janota, a cartola e as luvas cor
de laranja causavam sempre uma impressão estranha e, ao mes­
mo tempo , triste .
Despedindo-se dele , Láptev voltou para casa, sem pressa.
A lua dava uma luz tão forte que se podia distinguir no chão ca­
da palhinha e era como se aquele luar lhe acariciasse a cabeça
sem chapéu , como se alguém lhe passasse uma escova de penu­
gem pelo cabelo .
- Eu amo ! - pronunciou em voz alta, e apeteceu-lhe de re­
pente correr atrás de Panaúrov, abraçá-lo , perdoar-lhe , oferecer­
-lhe muito dinheiro e, depois , fugir para qualquer lado , para os
campos , para a floresta, e correr, correr sem olhar para trás .
Chegado a casa, viu em cima de uma cadeira o guarda-sol es­
quecido por lúlia Serguéevna, pegou nele e beijou-o avidamen­
te . O guarda-sol era de seda, já bastante usado , cingido com
elástico velho; o cabo era de osso simples , branco , barato . Láp­
tev abriu-o por cima da cabeça e pareceu-lhe que à volta chei­
rava a felicidade .
Três Anos 25 1

Sentou-se e, sem largar o guarda-sol , começou a escrever a


um dos seus amigos de Moscovo:
«Caro Kóstia30 , querido amigo , aqui vai uma notícia: amo
"outra vez" ! Digo "outra vez" porque , há cerca de seis anos , es­
tive apaixonado por uma actriz moscovita que não cheguei se­
quer a conhecer pessoalmente; e também, no último ano e meio ,
vivi com uma "senhora dona" que o amigo conhece: nada jo­
vem, nada bonita. Ah, meu amigo , que azar no amor eu tive
sempre ! Nunca tive êxito com as mulheres, e se digo "outra
vez" é porque é triste e ofensivo confessar a mim próprio que
toda a minha juventude se passou sem amor e que amo verda­
deiramente pela primeira vez , só agora, aos trinta e quatro anos .
Mas seja: amo "outra vez" . . .
«Se o Kóstia soubesse que rapariga é esta ! Não s e lhe pode
chamar uma beldade: tem o rosto largo , é muito magra, mas que
maravilhosa expressão de bondade , que sorriso ! Quando fala, é
como se a voz lhe vibrasse , como se cantasse . Nunca conversa
comigo a sério , e não a conheço bem , mas quando estou junto
dela sinto que é uma criatura rara, extraordinária, toda intelecto
e aspirações elevadas . É muito religiosa, e o Kóstia não imagi­
na como isso me comove e como a exalça a meus olhos. Sobre
este ponto estou disposto a discutir consigo infindavelmente .
Posso concordar que tem razão , mesmo assim gosto que ela
reze na igreja. É uma provinciana, mas estudou em Moscovo ,
gosta da nossa Moscovo , veste-se à moda moscovita, e também
por isso a amo , amo , amo . . . Parece que estou a vê-lo a carregar
o sobrolho e a levantar-se para me fazer um longo sermão sobre
o que é o amor, a quem se deve e a quem não se deve amar, etc . ,
etc . O problema, meu caro Kóstia, é que , quando eu não amava,
também sabia perfeitamente o que era o amor.
«A minha irmã agradece-lhe os seus cumprimentos . Recorda
muitas vezes o tempo em que meteu o Kóstia Kotchevói na

30 Diminutivo de K onstantin. (N. T.)


252 Anton Tchékhov

classe preparatória do colégio , e ainda hoje se lhe refere como


"coitadinho" porque guarda a recordação de si como pequeno
órfão . Portanto , meu coitadinho de órfão , eu amo . Por enquan­
to é segredo , não diga nada aí, à senhora que bem conhece . Es­
se problema resolver-se-á por si , acho eu , ou , como diz um la­
caio num livro de Tolstói , "arranja-se" . . »
.

Terminada a redacção da carta, Láptev deitou-se . Os olhos


fecharam-se-lhe logo de cansaço , mas , por qualquer razão , não
conseguia adormecer, parecia-lhe que por causa do barulho da
rua. Passava o gado , tocavam a cometa, depois badalaram os si­
nos a chamar para a missa da manhã; ora passava uma carroça
a chiar, ora se ouvia a voz de uma campónia madrugadora a ca­
minho do mercado . E, depois , havia os pardais que não paravam
de chilrar.

A manhã era alegre , festiva. Às dez horas trouxeram Nina


Fiodorovna para a sala de estar, de vestido castanho e penteado
feito; passeou um pouco pela sala, parou algum tempo ao pé da
janela aberta. O seu sorriso era largo , ingénuo , e quem olhasse
para ela havia de se lembrar de um pintor local , um bebedolas ,
que chamava ao rosto dela <<imagem de ícone» e queria retratá­
-la como senhora milagrosa do Entrudo russo . E em todos -
nas crianças , na criadagem , no irmão Aleksei Fiodorovitch e em
si própria - surgiu de repente a certeza de que ela recuperaria
a saúde . As miúdas , aos guinchos e risos , corriam a apanhar o
tio , a casa tomava-se barulhenta.
Vinham estranhos perguntar pela saúde de Nina Fiodorovna,
trazendo hóstias , dizendo que, neste dia, tinham sido rezadas
missas por ela em quase todas as igrejas . Na sua cidade , Nina
Fiodorovna era uma benfeitora, gostavam dela. Fazia a caridade
com grande desprendimento , tal como o irmão Aleksei que
Três Anos 253

dava dinheiro sem pensar duas vezes nem reflectir se era bem
ou mal empregue . Nina Fiodorovna pagava os estudos de crian­
ças pobres , oferecia às idosas chá, compotas , açúcar, preparava
enxovais para as noivas pouco abastadas , e , quando lhe caía nas
mãos um jornal , a primeira coisa que procurava nele era se ha­
via algum apelo à caridade ou notícia de alguma pessoa em si­
tuação de desgraça.
Agora, por exemplo , tem nas mãos um maço de papelinhos
que o merceeiro lhe mandou , pedindo o respectivo pagamento
de oitenta e dois rublos , tratando-se de bilhetes que ela passou
aos pobres que lhe pediram ajuda e com os quais podiam levan­
tar artigos na mercearia.
- Irra, a quantidade de coisas que eles levaram, os desaver­
gonhados ! - disse ela, mal reconhecendo nos bilhetinhos a sua
letra desajeitada. - Não é brincadeira nenhuma ! Oitenta e dois
rublos ! Ora, não pago !
- Eu pago , hoje mesmo - disse Láptev.
- Mas porquê? - alarmou-se Nina Fiodorovna. - Já basta
receber de ti duzentos e cinquenta por mês , e o mesmo ao teu ir­
mão . Que Deus vos abençoe - disse baixinho , para os criados
não ouvirem .
- E eu gasto dois mil e quinhentos por mês - disse ele . -
Mais uma vez te repito , querida: tens tanto direito de gastar di­
nheiro como eu e Fiódor. Vê se compreendes isto de uma vez
por todas . Somos três filhos do nosso pai , um em cada três co­
peques é teu .
Mas Nina Fiodorovna não compreendia e ficou com a ex­
pressão de quem se esforça por resolver mentalmente um pro­
blema dificílimo . Tal falta de compreensão dos assuntos finan­
ceiros por parte da irmã preocupava e confundia sempre Láptev.
Talvez ela tivesse dívidas pessoais de que tinha vergonha de fa­
lar com ele e que a faziam sofrer - desconfiava ele .
Ouviram-se passos e uma respiração difícil: era o doutor su­
bindo as escadas , desgrenhado e desleixado como sempre .
254 Anton Tchékhov

- Ru-ru-ru - cantarolava. - Ru-ru .


Para não se encontrar com ele , Láptev saiu para a sala de j an­
tar e, de lá, desceu aos seus aposentos . Tomara-se claro para ele
que estabelecer relações amigáveis com o doutor e visitar a sua
casa com simplicidade era impossível, além disso , era-lhe desa­
gradável encontrar-se com aquela «pileca» , como lhe chamava
Panaúrov. Por isso se encontrava tão raramente com Júlia Ser­
guéevna. Lembrou-se então de que , como o pai dela não estava
em casa, era boa altura para, levando-lhe o guarda-sol , a encon­
trar sozinha; e o seu coração teve um aperto de alegria. Depres­
sa, depressa !
Pegou no guarda-sol e , presa da emoção , voou nas asas do
amor. Fora, estava calor. Em casa do doutor, no vastíssimo ter­
reiro , invadido pelas ervas daninhas e urtigas , uns vinte garotos
jogavam à bola. Eram filhos dos inquilinos , artesãos que mora­
vam em três anexos velhos e miseráveis em que o doutor pla­
neava fazer umas obras que ia adiando sempre . Ouviam-se as
vozes sonoras , saudáveis . A lado , muito afastada das crianças ,
estava Júlia Serguéevna, de pé , com as mãos atrás das costas ,
assistindo ao jogo .
- Bom dia ! - gritou-lhe Láptev.
Ela voltou a cabeça para ele . Normalmente , ela mostrava-se
fria e indiferente para com Láptev, ou , então , como na véspera,
cansada; mas agora tinha uma expressão viva e animada como
a dos garotos que brincavam com a bola.
- Olhe , os miúdos em Moscovo nunca brincam com tanta
alegria - disse ela, indo ao encontro de Láptev. - Aliás , lá não
há pátios tão grandes , não há onde correr. O papá acabou de sair
para vossa casa - acrescentou , olhando para as crianças .
- Eu sei , mas não vim por ele , vim pela menina - disse
Láptev, observando com admiração a juventude dela, em que
parecia nunca ter reparado antes , como se apenas agora a des­
cobrisse; parecia-lhe que era a primeira vez que lhe via o pes­
coço branco e fino com um fio de ouro . - Vim por si . . . -
Três Anos 255

repetiu . - A minha irmã manda-lhe o seu guarda-sol , ontem a


menina esqueceu-se dele lá em casa.
Iúlia Serguéevna estendeu a mão para pegar no guarda-sol ,
mas ele apertou-o contra o peito e, num arrebatamento irrefreá­
vel , entregue ao mesmo doce enlevo que experimentara na noite
anterior, sentado sob o guarda-sol , disse:
- Por favor, ofereça-mo . Vou guardá-lo como recordação
sua . . . como lembrança de que a conheci . É maravilhoso .
- Fique com ele - disse Iúlia Serguéevna e corou . - Mas
não há nada de maravilhoso nele .
Láptev olhava para ela num enleio , em silêncio , sem saber o
que dizer.
- Mas porque o obrigo a estar aqui , com este calor?
disse ela depois de uma pausa e riu-se . - Vamos entrar.
- Não incomodo?
Entraram no átrio . Iúlia Serguéevna deitou a correr pelas es­
cadas acima , fazendo roçagar o vestido branco às florinhas
azuis.
- É impossível incomodar-me - respondeu , parando na es­
cada. - É que eu não faço nada, nunca . Para mim todos os dias
são feriados , de manhã à noite .
- As suas palavras são incompreensíveis para mim - disse
ele , acercando-se . - Cresci num ambiente em que todos , sem
excepção , homens e mulheres , trabalham todos os dias .
- Mas se eu não tenho trabalho nenhum? - disse ela.
- É preciso criar na vida condições em que o trabalho seja
indispensável . Sem trabalho , a vida não pode ser genuína e
feliz .
Voltou a apertar o guarda-sol contra o peito , e disse baixinho
para si mesmo , inesperadamente e sem reconhecer a própria
voz:
- Se a menina aceitasse ser minha mulher, daria tudo por
isso . Daria tudo . . . Não há preço , não há sacrifício que eu não
fizesse .
256 Anton Tchékhov

Ela estremeceu e olhou para ele com espanto e medo .


- O que disse? - balbuciou , empalidecendo . - É impossí­
vel , bem vê que é impossível . Desculpe .
Depois , rapidamente , com o mesmo rugir do vestido , subiu a
escada e desapareceu atrás da porta.
Láptev percebeu o que significava aquilo , e o seu estado de
espírito logo mudou , bruscamente , como se a luz na sua alma se
apagasse de repente . Com vergonha, sentindo a humilhação do
desprezado , daquele de quem não se gosta, que repugna, que
talvez enoje, de quem se foge , saiu da casa.
«Daria tudo - escarnecia a si mesmo ao voltar para casa sob
o calor e recordando os pormenores da conversa. - Daria tu­
do . . . à boa maneira dos comerciantes. Como se alguém preci­
sasse deste teu tudo ! »
Tudo o que acabara de dizer lhe parecia abominavelmente es­
túpido . Porque mentira dizendo que crescera num ambiente em
que toda a gente trabalhava? Porque falara num tom tão sen­
tencioso sobre a vida genuína e feliz? As suas palavras não
eram interessantes , nem inteligentes , mas falsas - falsas à
moscovita. Depois , a pouco e pouco , dominou-o a indiferença,
aquele estado de indiferença dos criminosos após a sentença se­
vera, e pensou que agora, graças a Deus , terminara tudo e já não
tinha aquela incerteza terrível , já não precisava de esperar dias
a fio , atormentar-se , pensar sempre na mesma coisa; agora es­
tava tudo claro; agora apenas tinha de abandonar de vez quais­
quer esperanças de felicidade pessoal , de viver sem desejos ,
sem expectativas , sem sonhos; e , para fugir do tédio de que es­
tava tão farto , poderia dedicar-se aos problemas dos outros , à
felicidade dos outros ; e depois , imperceptivelmente , viria a ve­
lhice , a vida chegaria ao fim - e já não precisaria de mais na­
da. Já tudo lhe era indiferente , já não desejava nada e era capaz
de raciocinar com frieza, mas na cara, sobretudo debaixo dos
olhos , tinha um peso qualquer, sentia a fronte tensa como bor­
racha, as lágrimas prestes a jorrar. Com uma grande fraqueza no
Três Anos 257

corpo , deitou-se na cama e, cinco minutos depois , mergulhou


num sono profundo .

O tão inesperado pedido de casamento de Láptev mergulhou


Iúlia Serguéevna em desespero .
Conhecia-o mal , tinham sido apresentados por acaso ; era um
homem rico, representante da famosa casa moscovita Fiódor
Láptev & Filhos , sempre muito sério , pelos vistos inteligente ,
preocupado com a doença da irmã; parecia a Iúlia Serguéevna
que ele não lhe prestava qualquer atenção , tal corno , para ela,
ele era de todo indiferente - e , de rompante , aquela declaração
nas escadas , aquele rosto humilde , fascinado . . .
O pedido embaraçou-a tanto por ser repentino corno pelo
facto de ele ter pronunciado a palavra «mulher» e de ela ter res­
pondido negativamente . Já não se lembrava do que , exactamen­
te , dissera a Láptev, mas ainda sentia vestígios do sentimento
impetuoso e desagradável com que recusara. Não gostava dele ,
Láptev tinha a aparência de um caixeiro , não era interessante
corno pessoa, ela não lhe poderia ter respondido com mais nada
a não ser com a recusa, mas , mesmo assim, sentia desconforto ,
corno se tivesse feito urna coisa má.
- Meu Deus , sem ter entrado nas salas , logo nas escadas -
dizia ela com desespero , dirigindo-se a um pequeno ícone por
cima da cabeceira da sua cama - , nem sequer me fez a corte
antes , mas assim, de modo tão estranho , insólito . . .
Em solidão , a sua inquietude crescia cada vez mais e estava
a ficar acima das suas forças lidar com um sentimento tão pe­
noso . Precisava que alguém a ouvisse , que alguém lhe dissesse
que fizera a coisa certa. Mas não tinha com quem falar. Havia
muito que não tinha mãe , via o pai corno um homem esquisito
e não conseguia falar a sério com ele . Ele inibia-a com os seus
258 Anton Tchékhov

caprichos , com a sua susceptibilidade exagerada e os seus ges­


tos indefinidos; mal ela encetava uma conversa com ele , logo
ele começava a falar de si mesmo . Na sua oração , Iúlia Ser­
guéevna sabia que não estava a ser sincera de todo , uma vez
que não tinha a certeza do que , exactamente , queria pedir a
Deus .
Serviram o samovar. Iúlia Serguéevna, muito pálida, cansada,
com um ar indefeso , entrou na sala de jantar, preparou o chá -
era uma obrigação dela - e serviu um copo dele ao pai . Serguei
Boríssitch , com a sua sobrecasaca comprida abaixo dos joelhos ,
vermelho , despenteado , com as mãos nos bolsos , andava pela
sala, mas não de um canto ao outro , calmamente , e sim como
um animal na jaula. Parava ao pé da mesa, bebericava do copo
e voltava a andar, sempre a pensar em qualquer coisa.
- Hoje, Láptev pediu-me em casamento - disse Iúlia Ser-
guéevna e corou .
O doutor olhou para ela como se não compreendesse .
- Láptev? - perguntou . - O irmão da Panaúrova?
Gostava da filha; era evidente que , mais cedo ou mais tarde ,
ela se casaria e o abandonaria, mas ele tentava não pensar nis­
so . Assustava-o a solidão e imaginava, por qualquer motivo ,
embora não gostasse de falar nisso abertamente , que , s e ficasse
sozinho naquela casa grande , teria uma apoplexia.
- Está bem , fico muito contente - disse e encolheu os om­
bros . - Do fundo do coração , parabéns . Tens agora uma exce­
lente ocasião de te veres livre de mim, para teu grande prazer.
E eu compreendo-te perfeitamente . Viver em casa do pai velho ,
doente , meio maluco deve ser muito penoso na tua idade .
Compreendo-te perfeitamente. Se eu esticasse o pernil o mais
depressa possível , se me levasse o diabo , toda a gente ficaria fe­
liz . Parabéns do fundo do coração .
- Eu recusei .
O doutor sentiu um alívio na alma, mas , já incapaz de parar,
continuou:
Três Anos 259

- O que me admira, há muito , é que não me tenham ainda


metido num manicómio ! Porque é que ando com esta sobreca­
saca e não com uma camisa-de-forças? Ainda acredito na ver­
dade , no bem, sou um parvo idealista, e isso , nos tempos que
correm, não será uma loucura? E como é que respondem à mi­
nha verdade , à minha atitude honesta? Por pouco não me cor­
rem à pedrada, e todos me cavalgam . A própria farm1ia tenta
cavalgar-me ao pescoço , pro diabo com ele , o velho imbecil . . .
- É impossível falar consigo de uma maneira humana ! -
disse Iúlia.
Levantou-se bruscamente da mesa e saiu; foi para o seu quar­
to , a ferver de raiva, recordando quantas vezes o pai tinha sido
injusto com ela. Um pouco depois , porém, até já sentia pena do
pai e, quando ele saiu para ir ao clube , acompanhou-o até ao an­
dar de baixo e fechou a porta atrás dele . Lá fora, o tempo não
estava bom, estava inquieto; a porta tremia à pressão do vento ,
no átrio havia correntes de ar por todo o lado , a vela por pouco
não se apagou . Nos seus aposentos de cima, Iúlia passou por to­
das as salas , benzeu todas as janelas e portas ; o vento uivava,
parecia que alguém andava por cima do telhado . Nunca se abor­
recera tanto , nunca se sentira tão sozinha.
Perguntou a si mesma: teria feito bem em recusar um homem
apenas porque não gostava do aspecto físico dele? Ela, na ver­
dade , não o amava, e casar com ele significaria dizer adeus a to­
dos os sonhos e a todas as noções de felicidade e de vida matri­
monial que ela tinha, mas seria que alguma vez ia encontrar
aquele com que sonhava, alguma vez se apaixonaria? Já tinha
vinte e um anos . Não havia na cidade com quem noivar. Fez
passar pela imaginação todos os homens que conhecia - fun­
cionários , docentes , oficiais; alguns já eram casados, e a vida fa­
miliar deles impressionava pelo vazio e pelo tédio; outros não
eram interessantes , eram cinzentões , pouco inteligentes , imo­
rais . Ora, Láptev, fosse como fosse , era moscovita, tinha um
curso universitário , falava francês ; morava na capital , cheia de
260 Anton Tchékhov

intelectuais , de pessoas nobres e notáveis , onde havia barulho ,


teatros maravilhosos , saraus musicais , excelentes modistas , pas­
telarias . . . Nas Sagradas Escrituras diz-se que a mulher tem de
amar o marido , e nos romances atribui-se enorme importância
ao amor, mas não haverá nisso um exagero? Será que a vida em
família não pode passar sem amor? Até porque dizem que o
amor desaparece rapidamente e que apenas persiste o hábito , e
que o objectivo da vida familiar não é o amor nem a felicidade
mas as obrigações como , por exemplo , a educação dos filhos , o
governo da casa, etc . É também possível que as Sagradas Escri­
turas subentendam que o amor pelo marido é o amor pelo pró­
ximo , ou o respeito , ou a tolerância.
À noite , Júlia Serguéevna leu com atenção as orações noctur­
nas , depois ajoelhou-se e , apertando as mãos contra o peito ,
com os olhos na luzinha da lamparina, disse com profundo sen­
timento:
- Guia-me , Protectora ! Guia-me , Senhor Nosso !
Por vezes acontecia-lhe encontrar velhas solteiras , pobres e
miseráveis , amargamente arrependidas por terem rejeitado ou­
trora os seus pretendentes . Não lhe aconteceria a mesma coisa?
Não seria melhor tomar hábito e tomar-se irmã de misericórdia?
Despiu-se e deitou-se na cama, benzendo-se e benzendo o ar
à sua volta. De repente , no corredor soou brusca e lastimosa­
mente a campainha.
- Ah, meu Deus ! - disse ela, com a irritação dolorosa no
corpo todo que a campainhada lhe causou . Deitada, não parava
de pensar como aquela vida provinciana era pobre de aconteci­
mentos , monótona e, ao mesmo tempo , inquieta. A pessoa, a
cada instante , estava sujeita a estremecer, a recear qualquer
coisa, a zangar-se ou a sentir-se culpada, e os nervos , por fim,
esfrangalhavam-se de tal modo que até espreitar de baixo do co­
bertor metia medo .
Meia hora depois voltou a tocar a campainha, de novo com
brusquidão . Pelos vistos , os criados estavam a dormir e não ou-
Três Anos 26 1

viam . Júlia Serguéevna acendeu a vela e , toda a tremer, irritada


com a criadagem, começou a vestir-se , mas quando , já vestida,
desceu ao corredor, já a criada fechava a porta de entrada.
- Pensava que era o amo , mas não , era por causa de um
doente - disse a criada.
Júlia Serguéevna voltou para o seu quarto . Tirou um baralho
de cartas da cómoda e resolveu: baralhava bem, cortava e se ca­
lhasse um naipe vermelho em baixo seria sim , isto é , teria de
aceitar a proposta de Láptev; se saísse um naipe preto seria não .
Calhou o dez de espadas .
Isso acalmou-a; mas de manhã, ao acordar, já não era certo o
sim ou o não , e Júlia Serguéevna pensou que , afinal , ela podia
alterar a sua vida se quisesse . Pensar tanto , cansou-a, esgotou-a,
sentia-se doente; mas lá se vestiu , já passava das onze , e foi vi­
sitar Nina Fiodorovna. Queria ver Láptev: talvez lhe parecesse
mais atraente; talvez tivesse andado enganada até agora . . .
Era-lhe difícil andar contra o vento , por isso avançava muito
devagar, segurando o chapéu com as duas mãos, não vendo
nada por causa da poeira levantada.

Quando entrou no quarto da irmã e viu Júlia Serguéevna,


Láptev voltou a experimentar a humilhação da pessoa que
sente que repugna aos outros . Concluiu que , se ela podia, com
tanta facilidade , visitar a irmã depois do que acontecera na vés­
pera, então era porque , na verdade , não lhe dava qualquer im­
portância ou o considerava uma nulidade absoluta. Porém,
quando a cumprimentava, notou que ela, muito pálida, suja de
pó por baixo dos olhos , o olhava com tristeza e culpa; Láptev
percebeu que ela também sofria.
Sentia-se adoentada. A sua visita foi curta: ao cabo de dez mi­
nutos começou a despedir-se . Quando saía, disse a Láptev:
262 Anton Tchékhov

- Venha comigo , Aleksei Fiodorovitch .


Iam pela rua em silêncio , segurando os chapéus para que não
voassem, com Láptev atrás dela a tentar protegê-la do vento . Na
ruela o vento era mais fraco e já podiam andar lado a lado .
- Parece-me que ontem fui pouco delicada consigo , peço
desculpa - começou ela, com a voz a tremer como se fosse
chorar. - Isto é uma tortura, não dormi toda a noite .
- Pois eu dormi perfeitamente - disse Láptev sem olhar
para ela - , o que não quer dizer que esteja bem. A minha vida
está destruída, sou profundamente infeliz e , depois da sua recu­
sa de ontem, é como se andasse envenenado . O mais difícil foi
dito ontem, hoje já não me sinto constrangido consigo e posso
falar abertamente . Amo-a mais do que à minha irmã, mais do
que à minha falecida mãe . Sem a minha irmã e sem a minha mãe
ainda podia viver, e vivia, mas sem a menina a vida é um ab­
surdo para mim, não posso . . .
Também agora, como sempre , Láptev pressentia a s intenções
dela. Era claro para ele que Iúlia queria simplesmente desen­
volver o que começara na véspera, que tinha sido por isso que
lhe pedira que a acompanhasse e que agora estava a levá-lo a
sua casa. Mas o que mais poderia ela acrescentar à sua recusa?
Que mais teria inventado? Pelos olhares , pelo sorriso , por tudo ,
até pela postura da cabeça e dos ombros enquanto caminhava a
seu lado , Láptev via que ela não o amava, que , para Iúlia, ele
continuava a ser um estranho . Então , que mais quereria ela
dizer-lhe?
O doutor Serguei Boríssitch estava em casa.
- Bem-vindo , prazer em vê-lo , Fiódor Alekséitch - disse
ele , trocando-lhe o nome pelo patronímico . - Muitíssimo , mui­
tíssimo prazer.
Nunca dantes fora tão simpático , donde Láptev concluiu que
o doutor já estava a par do seu pedido; não gostou disso . Estava
sentado na sala de estar, uma sala que lhe causava uma estranha
impressão com o seu mobiliário pobre , o seu arranjo pequeno-
Três Anos 263

-burguês , os seus quadros imprestáveis . Embora houvesse pol­


tronas e um candeeiro enorme com quebra-luz , aquilo asseme­
lhava-se mais a um recinto habitacional , a um barracão espaço­
so , sendo evidente que só uma pessoa como o doutor poderia
sentir-se em casa numa sala assim; a outra divisão , quase duas
vezes maior, chamavam o «salão» , e nela apenas havia cadeiras ,
como numa sala de aulas de dança. Então , quando Láptev fala­
va com o doutor sobre a sua irmã, começou a atormentá-lo uma
suspeita. Não teria Iúlia Serguéevna visitado a sua irmã para,
depois , o levar propositadamente a sua casa e lhe dizer que acei­
tava o seu pedido? Oh , como isso era terrível ! Mas , mais terrí­
vel ainda era o facto de ele ter semelhantes suspeitas . Imaginou
que , na noite anterior, pai e filha se aconselharam demorada­
mente , talvez tenham discutido muito e , por fim, concordaram
que Iúlia procedera com leviandade ao recusar a proposta de um
homem rico . Soaram-lhe aos ouvidos , até , as palavras que os
pais costumam dizer em semelhantes casos:
«É claro que não o amas , mas pensa no bem que podes fazer !»
O doutor aprontou-se para ir ver os seus doentes . Láptev que­
ria sair com ele , mas Iúlia Serguéevna disse:
- Fique , por favor.
Estava extenuada, sem ânimo e , agora, tentava convencer-se
de que recusar a proposta de um homem decente , bondoso e
apaixonado apenas porque não se gostava dele , sobretudo quan­
do um tal casamento lhe possibilitava mudar de vida, sair da­
quela sua vida nada alegre , monótona e ociosa, quando a sua ju­
ventude passava e nada de mais luminoso se entrevia no futuro,
recusar numa situação destas , portanto , era só capricho e le­
viandade , de que Deus podia até castigá-la.
O pai saiu . Quando os passos dele se silenciaram , Iúlia parou
de súbito em frente de Láptev e , resoluta, acometida por uma re­
pentina e enorme palidez , disse:
- Ontem pensei muito , Aleksei Fiodorovitch . Aceito o seu
pedido .
264 Anton Tchékhov

Ele inclinou-se e beijou-lhe a mão , ela deu-lhe um beijo de­


sajeitado na cabeça. Láptev sentia que nesta conversa de amor
não havia o principal - o amor dela; e que havia muita coisa
dispensável , e apetecia-lhe gritar, fugir, partir imediatamente
para Moscovo; mas ela estava ali tão perto e parecia-lhe tão be­
la que a paixão se apoderou dele , percebendo, então, que já era
tarde para reflectir; abraçou-a apaixonadamente , apertou-a con­
tra o peito e, murmurando qualquer coisa, dizendo-lhe tu , bei­
jou-a no pescoço, depois na face , depois na cabeça . . .
Ela afastou-se até à janela, com medo desses carinhos , e j á
ambos lamentavam ter havido uma tal conversa, e já ambos per­
guntavam a si mesmos , embaraçados: «Para que foi que isto
aconteceu?»
- Se o senhor soubesse como eu sou infeliz ! - disse ela,
apertando as mãos .
- Mas porquê , o quê? - perguntou Láptev, aproximando-se
dela, também a apertar as mãos . - Querida, por amor de Deus,
diga-me ... O que é? Mas diga-me só a verdade , imploro-lhe ,
apenas a verdade !
- Não faça caso - disse ela e forçou um sorriso . - Pro­
meto que serei uma mulher fiel e abnegada . . . Venha cá hoje à
noite .
Mais tarde , sentado à cabeceira da irmã a ler-lhe um roman­
ce histórico , recordava tudo aquilo, ressentido porque , ao seu
sentimento magnífico , puro , grande lhe respondiam daquela
maneira insignificante; não o amavam mas aceitavam a sua pro­
posta apenas porque era rico , ou seja, preferiam nele aquilo a
que ele próprio dava o valor mais baixo . Era possível supor-se
que Iúlia, imaculada e crente , não tenha pensado vez alguma em
dinheiro , mas não amava, não o amava, logo , devia ter um fito
qualquer, talvez não consciencializado de todo , vago , mas que
não deixava de ser um cálculo . A casa do doutor, pelo seu am­
biente pequeno-burguês , era abominável para ele; o próprio
doutor se lhe afigurava um forreta miserável e obeso , uma es-
Três Anos 265

pécie de Gaspar da opereta Sinos da Cornualha3 l , o próprio no­


me Iúlia já lhe soava vulgar. Ele e a sua Iúlia a caminho do ca­
samento , imaginava ele , duas pessoas que eram perfeitamente
desconhecidas uma para a outra, sem uma gota de sentimento da
parte dela, como se tivessem sido juntos por uma casamenteira;
apenas lhe restava uma consolação , tão banal como este casa­
mento , que não era o primeiro nem o último: a consolação de
que assim se casavam milhares de homens e mulheres , e a de
que Iúlia, com a passagem do tempo , quando o conhecesse me­
lhor, talvez o amasse .
- Romeu e Iúlia! - disse ele , fechando o livro , e riu-se . -
Nina, sou Romeu . Podes dar-me os parabéns , hoje pedi a Iúlia
Belávina em casamento .
Nina Fiodorovna pensava que ele estava a brincar, mas não
tardou a acreditar e a chorar. A notícia não lhe agradou .
- Então , parabéns - disse ela. - Mas porquê , assim tão de
repente?
- Não , não foi de repente . Dura desde Março , mas tu não re­
paraste em nada . . . Apaixonei-me ainda em Março , quando a co­
nheci aqui , no teu quarto .
- Eu pensava que casarias com alguém da nossa gente , uma
moscovita - disse Nina Fiodorovna depois de uma pausa. -
As raparigas do nosso círculo social são mais simples . Mas o
principal , Aliocha, é que sejas feliz , isso é o principal . O meu
Grigóri Nikoláitch não me amava, o que é impossível de escon­
der: bem vês como vivemos . É claro que qualquer mulher se po­
de apaixonar por ti , pela tua bondade e pelo teu intelecto , mas a
Iúlitchka foi educada no instituto das meninas nobres e é uma
fidalga, para ela o intelecto e a bondade não são suficientes. Ela
é nova, e tu , Aliocha, não és novo nem bonito .
Para suavizar as suas últimas palavras , fez-lhe uma festa na
bochecha e disse:

31 Ópera c ómica do compo sito r fra ncê s Robe rt P lanquette ( 1 848 - 1 90 3 ) . (N. T.)
266 Anton Tchékhov

- Não és bonito , mas és queridinho .


Da emoção , coloriram-se-lhe ligeiramente as faces e come­
çou a falar com entusiasmo , dizendo se não seria conveniente
que ela, Nina, abençoasse Aliocha com o ícone: é que ela, afi­
nal , era a irmã mais velha e substituía a mãe; e tentava conven­
cer o irmão entristecido de que era necessário fazer um casa­
mento como devia ser, solene e alegre , para que as pessoas não
tivessem nada de mal a dizer.
Láptev começou a visitar os Belávin como noivo , três ou qua­
tro vezes por dia, ficando por isso sem tempo para substituir Sa­
cha na leitura dos romances históricos à cabeceira da irmã. Iú­
lia recebia-o nas duas salas dos seus aposentos , longe da sala de
estar e do gabinete do pai , e Láptev gostava dessas salas . As pa­
redes eram escuras , num canto havia uma placa com ícones ;
cheirava a bom perfume e ao óleo da lamparina. Iúlia vivia na
parte mais longínqua da casa, a cama e toilette estavam tapadas
por biombos , as portas do armário dos livros tinham cortinas
verdes por dentro , ela andava por cima dos tapetes que lhe aba­
favam os passos - e tudo isso levou Láptev a concluir que Iú­
lia tinha um carácter fechado e gostava da vida calma, sossega­
da e solitária. A sua situação em casa ainda era de menoridade ,
não tinha o seu próprio dinheiro e acontecia-lhe , nos seus pas­
seios , envergonhar-se por não ter um copeque consigo . Para os
atavios e os livros o pai dava-lhe um pouco de cada vez , mas
não mais do que cem rublos por ano . O próprio doutor não tinha
provavelmente dinheiro, apesar da boa clientela. Todas as noi­
tes jogava às cartas no clube e perdia sempre . Além disso , com­
prava casas na sociedade de crédito mútuo , com transferência
da dívida, e alugava-as; embora os inquilinos não lhe pagassem
regularmente , o doutor assegurava que essas operações imobi­
liárias eram muito lucrativas . Hipotecou a casa em que vivia
com a filha e, com o dinheiro , comprou um terreno onde já co­
meçara a construir um grande prédio de dois pisos , para o hipo­
tecar depois .
Três Anos 267

Láptev vivia agora como numa neblina, como se não fosse


ele mas o seu duplo , fazendo muita coisa que não se atreveria a
fazer antes . Por três vezes foi ao clube com o doutor, jantou com
ele e ofereceu-lhe dinheiro para as obras . Chegou a visitar Pa­
naúrov na outra casa que este mantinha: Panaúrov convidara-o
para almoçar lá e Láptev, imprudentemente , aceitara o convite .
Recebeu-o uma senhora dos seus trinta e cinco anos , alta e ma­
gra, de sobrolho negro e ligeiras brancas no cabelo , que não ti­
nha aspecto de ser russa. Com manchas brancas de pó-de-arroz
na cara, sorriu-lhe melifluamente e deu-lhe um aperto de mão
impetuoso que lhe fizeram chocalhar as pulseiras nas mãos
brancas . Aquele sorriso dela pareceu a Láptev que se destinava
a ocultar dos outros e de si mesma como era infeliz . Viu tam­
bém duas meninas , de cinco e três anos , parecidas com Sacha.
Ao almoço foram servidos sopa de leite , vitela fria com cenou­
ra e chocolate - tudo muito adocicado e nada saboroso; em
compensação , brilhavam na mesa os garfinhos dourados , fras­
cos com soja e pimenta-de-caiena, uma molheira muito alambi­
cada, um pimenteiro de ouro .
Somente depois de ter comido a sopa de leite Láptev se aper­
cebeu de como , na verdade , era inconveniente estar ali a almo­
çar. A senhora estava confusa, sempre a sorrir, a mostrar os den­
tes . Panaúrov conversava, explicando cientificamente o que era
o estado de paixão e donde provinha.
- Aqui , estamos a lidar com um dos fenómenos da electrici­
dade - dizia em francês , dirigindo-se à senhora. - Na pele de
cada homem existem glândulas microscópicas por onde passam
correntes . Se encontrarmos uma criatura por onde passem cor­
rentes paralelas às nossas , eis o amor.
Quando Láptev voltou para casa e a irmã lhe perguntou onde
tinha estado , sentiu-se embaraçado e não respondeu .
Durante todo o período pré-nupcial sentiu-se numa situação
falsa. O seu amor crescia a cada dia que passava e via Iúlia
como poética e sublime; amor correspondido é que não havia,
268 Anton Tchékhov

consistindo a essência daquilo em ele comprar e ela se vender.


Por vezes , por força de tantas reflexões , Láptev entrava num
verdadeiro desespero e perguntava a si mesmo se não seria me­
lhor fugir. Já não dormia as noites inteiras e não parava de pen­
sar em como , depois do casamento , encararia em Moscovo a se­
nhora que , nas cartas para os amigos , ele tratava por «senhora
dona» e como receberiam o pai e o irmão , pessoas de feitio di­
fícil , a notícia do seu casamento com Iúlia. Temia que o pai ,
logo no primeiro encontro, se saísse com alguma grosseria para
com Iúlia. Quanto ao seu irmão Fiódor, passava-se ultimamen­
te uma coisa estranha. Nas suas longas cartas , escrevia muito
sobre a importância da saúde , sobre a influência das doenças no
estado psíquico , sobre o que era a religião , mas nada sobre Mos­
covo e os negócios . Essas cartas irritavam Láptev e indicavam­
-lhe que o carácter do irmão estava a mudar para pior.
O casamento foi em Setembro . A cerimónia decorreu na igreja
de Pedro e Paulo , depois da missa matinal , e no mesmo dia os
recém-casados partiram para Moscovo . Quando Láptev e a mu­
lher, de vestido preto com cauda, já não uma menina mas uma
verdadeira senhora pelo aspecto , se despediam de Nina Fiodo­
rovna, todo o rosto da doente se alterou , mas dos olhos secos
não lhe caiu uma lágrima. Disse-lhes:
- Se eu morrer, Deus me proteja, fiquem com as minhas fi­
lhas .
- Oh , prometo-lhe ! - respondeu Iúlia Serguéevna, e os
seus lábios e pálpebras também começaram a tremer nervosa­
mente .
- Venho visitar-te em Outubro - disse Láptev comovido . -
As melhoras , querida.
Viajavam num compartimento individual , ambos tristes e em­
baraçados . Iúlia sentou-se num canto , sem tirar o chapéu , fin­
gindo que dormitava; Láptev ia deitado defronte dela no seu
banco-cama. Preocupavam-no pensamentos diversos: sobre o
pai , sobre a «senhora dona» , sobre se Iúlia iria gostar do aparta-
Três Anos 269

mento de Moscovo . E , olhando de vez em quando para a mulher


que não o amava, pensava com desânimo: «Porque aconteceu
tudo isto?»

Os Láptev, em Moscovo , faziam comércio por atacado de ar­


tigos de retrosaria; franjas , nastros , passamanaria, fios de algo­
dão para malha, botões , etc . A receita bruta atingia os dois mi­
lhões anuais ; quanto ao lucro líquido , ninguém o conhecia, só o
velho . Os filhos e os encarregados arriscavam o número de tre­
zentos mil rublos anuais , dizendo que poderia ser de mais cem
mil se o velho não «deitasse dinheiro à rua» , ou seja, se não ven­
desse a crédito de olhos fechados; com efeito , nos últimos dez
anos tinham-se acumulado letras malparadas no montante de
um milhão de rublos , impossíveis de ser cobradas , e o fiel de ar­
mazém, quando começavam a falar disso , piscava o olho com
manha e dizia umas palavras que nem para todos eram de claro
significado:
- Consequência psicológica do nosso século .
As principais operações comerciais realizavam-se na zona
comercial da cidade , num espaço a que se chamava o «celeiro» .
A entrada no «celeiro» era pelo pátio , sempre sombrio , cheiran­
do a esteira, soando a cascos de bestas de carga no alcatrão .
A porta, de aspecto muito modesto , coberta de folha-de-flandres ,
dava para uma sala de paredes pardas da humidade e rabiscadas
a carvão , alumiada pela luz que vinha da janela estreita e gra­
deada; a seguir, à esquerda, havia outra sala, mais espaçosa e
limpa, com um fogão de ferro fundido e duas mesas , mas tam­
bém com uma janela prisional: era o escritório; daqui subia-se
por uma estreita escada de pedra para o segundo piso , onde era
a sala principal: bastante grande , mas , em virtude da penumbra
permanente , do tecto baixo e do atulhamento de caixas , sacos e
270 Anton Tchékhov

pessoas que por ali formigavam, causava no recém-chegado a


mesma impressão desagradável das salas de baixo . Na sala de
cima e no escritório amontoavam-se nas prateleiras a mercado­
ria em pilhas , embrulhos e caixas de cartão , numa arrumação
onde não se via ordem nem beleza, e se , aqui e ali , não esprei­
tassem dos buracos dos embrulhos de papel ora um fio escarla­
te , ora uma borla, ora uma ponta de franja, não seria possível
adivinhar de imediato o que se vendia ali . E, olhando para aque­
les embrulhos e para aquelas caixas deformadas , era difícil
acreditar-se que se ganhavam milhões com aquelas insignifi­
câncias e que todos os dias trabalhavam no celeiro cinquenta
pessoas , sem contar os compradores .
Quando , no dia seguinte à sua chegada a Moscovo , Láptev
foi ao «celeiro» , os contratados que empacotavam as mercado­
rias batiam nas caixas com tanto barulho que na primeira sala
e no escritório ninguém o ouviu entrar, e nem o carteiro , seu
conhecido , que descia as escadas com um maço de cartas na
mão e franzindo a cara por causa das marteladas , reparou nele .
O primeiro a recebê-lo , em cima, foi o irmão Fiódor Fiódo­
ritch , a tal ponto parecido com ele que as pessoas pensavam
que eram gémeos . Esta parecença fazia com que Láptev se
lembrasse sempre do seu aspecto físico , e agora, vendo à sua
frente aquele homem de má raça, pequena estatura, faces cora­
das , cabelo ralo , ancas magras , nada interessante , nada intelec­
tual de aparência, Láptev perguntava a si mesmo: «Serei mes­
mo assim?»
- É bom ver-te ! - disse Fiódor, trocando beijos com o ir­
mão e apertando-lhe a mão com força. - Tenho-te esperado to­
dos os dias com impaciência, meu caro . Quando escreveste a di­
zeres que te casavas , começou a atormentar-me a curiosidade , e
também tinha saudades , irmão . Pudera, já não nos vemos há
meio ano . Então , como é? Que tal? A Nina está mal? Muito
mal?
- Muito mal .
Três Anos 27 1

- É a vontade de Deus - suspirou Fiódor. - E a tua mu­


lher? É com certeza bonita, não? Já gosto dela, agora é também
minha irmãzinha. Vamos mimá-la juntos .
Mais à frente , Láptev viu as costas largas e curvas do pai , Fió­
dor Stepánitch. O velho estava sentado no banco ao lado do bal­
cão e conversava com um cliente .
- Paizinho , Deus mandou-nos a alegria ! - gritou Fiódor. -
Chegou o meu irmão !
Fiódor Stepánitch , como era alto e de constituição robusta, ti­
nha ainda um aspecto de homem sadio e forte apesar dos seus
oitenta anos e das rugas . Falava numa voz espessa e grave de
baixo , como o som de um sino , que lhe saía do peito largo como
de dentro de uma pipa. Rapava a barba, usava bigode aparado à
militar e fumava charutos . Como lhe parecia que estava sempre
muito calor no «celeiro» e em casa, andava sempre , em qualquer
altura do ano , com um casaco folgado de lona. Via mal (tinham­
-lhe tirado uma catarata do olho havia pouco) e já não trabalha­
va, limitando�se a conversar e a tomar chá com compota.
Láptev inclinou-se e beijou-lhe a mão , depois na boca.
- Há muito que não nos vemos , meu senhor - disse o ve­
lho . - Há muito tempo . Então , posso dar-te os parabéns pelo
teu casamento legítimo? Vá lá, parabéns então .
E expôs a boca para o beijo. Láptev inclinou-se e beijou-o .
- E então , trouxeste a tua menina? - perguntou o velho e ,
sem esperar pela resposta, dirigiu-se ao cliente com quem con­
versava: - Através desta carta informo o meu pai de que me ca­
so com a menina tal e tal . Pois . Mas pedir a bênção e o conse­
lho ao pai , isso não , para ele não existe tal regra. Agora vivem
pela cabeça deles . Eu , quando me casei , já passava dos quaren­
ta, mas ainda me rojava aos pés do meu pai a pedir-lhe conse­
lho . Isso hoje já não existe .
O velho estava contente por ver o filho , mas achava incon­
veniente acarinhá-lo e manifestar a sua alegria. A voz dele , o
tom , aquela maneira de dizer «menina» incutiam em Láptev
272 Anton Tchékhov

aquele mau humor que o atingia sempre que ia ao «celeiro» .


Aqui , cada pequeno pormenor lhe lembrava o passado , quando
o açoitavam e o mantinham a meia ração; sabia que agora con­
tinuavam a açoitar os aprendizes e a partir-lhes os narizes , e
que , quando estes aprendizes crescessem, também açoitariam
os outros . E bastava-lhe ficar cinco minutos no «celeiro» para
ter a sensação de que iriam ralhar com ele ou dar-lhe um mur­
ro no nariz.
Fiódor deu umas palmadinhas no ombro do cliente e disse ao
irmão:
- Aliocha, apresento-te Grigóri Timoféitch , o nosso arrimo
de vida de Tambov. Pode servir de exemplo à juventude moder­
na: já passa dos cinquenta mas ainda tem filhos de peito .
Os encarregados riram-se, e o comprador, um velho magricela
pálido , também.
- A natureza acima da sua acção normal - observou o fiel
de armazém, que também ali estava, ao balcão . - De onde en­
tra algo , sai algo .
O fiel de armazém , um homem dos seus cinquenta anos , com
barba escura, óculos e um lápis atrás da orelha, exprimia nor­
malmente as suas ideias de uma forma incompreensível , por in­
sinuações longínquas , e via-se pelo seu sorriso manhoso que
atribuía às suas palavras um sentido especial e sofisticado . Gos­
tava de obscurecer a sua fala com palavras livrescas que inter­
pretava à sua maneira, o mesmo fazendo com as palavras mais
banais , a que dava um sentido diferente do que tinham. Por
exemplo , a palavra «além» . Quando exprimia alguma ideia ca­
tegórica e não queria que o contradissessem, estendia o braço
direito para a frente e pronunciava:
- Além !
O mais espantoso era o facto de os outros - encarregados e
clientes - o compreenderem perfeitamente . Chamava-se Ivan
Vassílitch Potchátkin e era oriundo de Kachira. Na circunstân­
cia, dando os parabéns a Láptev, exprimiu-se assim:
Três Anos 273

- É da sua parte um mérito de coragem, porque o coração


feminino é Chamil32 .
Outra pessoa importante no «celeiro» era o encarregado Ma­
kéitchev, corpulento , imponente , loiro , com uma altíssima testa
de careca e suíças . Aproximou-se de Láptev e deu-lhe os para­
béns respeitosamente, a meia voz:
- Tenho a honra . . . Deus Nosso Senhor ouviu as orações do
seu progenitor. Deus seja louvado .
Depois aproximaram-se dele outros encarregados , também
para o felicitarem. Todos eles vestidos à moderna e com ar de
pessoas de bem, educadas . Falavam sem reduções do som «O» ,
pronunciavam o «g» como um «h» aspirado; palavra sim, pala­
vra não acrescentavam-lhe o «-S» servil , pelo que os seus para­
béns , pronunciados rapidamente , soavam como um chicote sil­
vando no ar: «djss» .
Láptev ficou rapidamente farto daquilo tudo e só lhe apetecia
ir para casa, mas era inconveniente . Por educação , tinha de ficar
no «celeiro» pelo menos duas horas . Afastou-se do balcão e pôs­
-se a perguntar a Makéitchev se o Verão tinha corrido bem e se
havia novidades; o gerente respondia com respeito , sem o olhar
nos olhos . Um aprendiz , de cabelo cortado e blusa cinzenta, ser­
viu a Láptev um copo de chá, sem pires ; um pouco mais tarde ,
outro aprendiz, passando a seu lado , tropeçou numa caixa e por
pouco não caiu, fazendo o imponente Makéitchev, de imediato ,
uma cara terrível , raivosa, uma cara de facínora, e gritando-lhe:
- Vê lá se andas com os pés !
Os encarregados estavam contentes por o jovem patrão se ter
casado e por, finalmente , ter chegado; lançavam-lhe olhares
curiosos e simpáticos , e cada um, quando passava a seu lado ,
achava-se na obrigação de dizer, com respeito , qualquer coisa
agradável . Láptev, porém, estava convencido de que nada da-

32 Chamil (e . 1 7 9 8- 1 87 l ) , l íde r da l uta de libe rtação nacional do s po vos do Cáu­


caso. (N. T.)
274 Anton Tchékhov

quilo era sincero e de que apenas o bajulavam por terem medo


dele . Não podia esquecer o que acontecera uns quinze anos atrás
quando um encarregado , tendo adoecido psiquicamente, correu
para a rua em trajes menores e descalço e , erguendo o punho
ameaçador para as janelas dos patrões , gritava que eles tinham
dado cabo dele; quando o pobre recuperou a saúde mental , os
outros gozaram durante muito tempo com ele lembrando-lhe que
gritara aos patrões: «plantadores» em vez de «exploradores» . No
geral , os empregados tinham uma vida muito dura em casa dos
Láptev, e havia muito que se falava disso em toda a zona co­
mercial . O pior de tudo era o facto de o velho Fiódor Stepánitch
praticar uma espécie de política asiática com eles . Assim, nin­
guém sabia quanto ganhavam os seus favoritos Potchátkin e Ma­
kéitchev; o ordenado deles , com os prémios , não ultrapassava
os três mil rublos anuais, mas o velho divulgava que lhes paga­
va sete mil; os prémios eram dados todos os anos , a todos os
encarregados , mas em segredo , de maneira que quem recebia
pouco não o divulgava, por amor-próprio , dizendo que recebeu
muito; nenhum aprendiz sabia quando seria promovido; nenhum
empregado sabia se o patrão estava ou não contente com ele . Ex­
plicitamente, nada era proibido aos encarregados , por isso não
sabiam o que lhes era permitido ou não. Não lhes estava proibi­
do casarem-se , mas não se casavam com medo de desagradar ao
patrão e perder o emprego . Era-lhes permitido ter amigos e fazer
visitas , mas às nove da noite fechava-se o portão e todas as ma­
nhãs o patrão passava o olhar desconfiado pelos empregados e
verificava se não cheiravam a vodca: «Sopra lá ! »
Todos o s dias santos , os empregados tinham a obrigação de
assistir à liturgia e deviam colocar-se na igreja de maneira a que
o patrão os visse . As abstinências eram cumpridas rigorosamen­
te . Nos dias solenes (no dia do santo do patrão ou dos membros
da sua farm1ia, por exemplo) , os encarregados tinham de ofere­
cer ao aniversariante , fazendo uma subscrição , um bolo doce da
casa Fley ou um álbum. Os encarregados viviam no rés-do-chão
Três Anos 275

da casa da Rua Piatnitskaia e no anexo , três ou quatro por quar­


to , e ao almoço comiam da tigela comum, embora diante de
cada um deles estivesse um prato . Se algum dos patrões entra­
va durante o almoço , levantavam-se .
Láptev tinha a consciência de que , entre eles , só os que ti­
nham sido estragados pela educação ministrada pelo velho po­
deriam considerá-lo seu benfeitor, os outros viam nele um ini­
migo e um «plantador» . Depois da sua ausência de seis meses ,
Láptev não via mudanças para melhor; mais , havia até qualquer
coisa nova que não prometia nada de bom. O mano Fiódor, que
antes era meigo , pensativo , delicadíssimo , agora tinha o ar de
homem ocupado e prático , sempre de lápis atrás da orelha, cor­
rendo pelo «celeiro» , dando palmadinhas nas costas dos clien­
tes e chamando aos empregados , em alta voz: «Amigos ! » Pelos
vistos , estava a desempenhar um papel qualquer e , naquele pa­
pel , era irreconhecível para Aleksei .
A voz do velho badalava sem parar. Por não ter mais nada que
fazer, o velho instruía o cliente no sentido de saber viver e tra­
tar dos negócios , dando a si mesmo como exemplo . Dez , quin­
ze , vinte anos antes já Láptev ouvia esta gabarolice , este tom au­
toritário e opressor. O velho adorava-se: segundo ele , a mulher
e os parentes da mulher tinham sido agraciados por ele; tinha
feito muito pelos filhos; beneficiava tanto os encarregados e to­
dos os empregados que toda a rua e todos os que o conheciam
rezavam por ele; tudo o que fazia era óptimo , e se os negócios
dos outros não corriam bem era porque não lhe pediam conse­
lho - sem o seu conselho nenhum negócio poderia ser bem su­
cedido . Na igreja, punha-se sempre à frente de todos , chegando
mesmo a fazer observações aos padres quando eles , na sua opi­
nião , diziam a missa de forma errada, acreditando que isso cor­
respondia à vontade de Deus , porque Deus o amava.
Às duas da tarde já toda a gente trabalhava no «celeiro» , me­
nos o velho que continuava a badalar, a badalar. Láptev, para
não ficar de braços cruzados , recebeu os passamanes de uma ar-
276 Anton Tchékhov

tesã, depois ouviu um cliente , comerciante de Vólogda, e man­


dou um encarregado tratar dele . ·

- T. V. A . - ouvia-se de todos os lados (no «celeiro» , os


preços e os números dos artigos eram designados por letras) . -
R. I . T. !
Quando saiu , Láptev despediu-se apenas de Fiódor.
- Amanhã vou com a minha mulher à Piatnitskaia - disse
ele - , mas aviso: se o pai lhe disser nem que seja a mais pe­
quena lavra grosseira, não fico lá mais um segundo .
- Estás na mesma - suspirou Fiódor. - Casaste mas não
mudaste . É preciso ser condescendente para com o velho , meu
irmão . Pois bem, aparece amanhã às onze , mais ou menos . Fi­
camos à espera com impaciência. Vem logo depois da missa.
- Não vou em missas .
- Bom, tanto faz . O principal é que não seja depois das on-
ze , para termos tempo de rezar a Deus e tomar o primeiro al­
moço juntos . Dá cumprimentos à maninha e beija-lhe a mãozi­
nha por mim . Tenho o pressentimento de que vou gostar dela -
acrescentou Fiódor com toda a sinceridade . - Tenho inveja de
ti , irmão ! - gritou quando Aleksei já descia as escadas .
«Porque estará sempre a encolher-se com vergonha, como se
julgasse que está nu? - pensava Láptev enquanto ia pela Nikóls­
kaia e tentando perceber a mudança que se dera em Fiódor. -
E tem uma linguagem nova: irmão, querido irmão , Deus mandou
a sua graça, rezemos a Deus . . . parece o Iúduchka de Chedfin33 .»

No dia seguinte , domingo, Láptev já ia com a mulher pela


Piatnitskaia, numa caleche ligeira puxada por um só cavalo . Ti-

33 Personagem do livro Os Senhores Golovliov, de Mikhail S altikov-Chedrin


( 1 826-1 889) . (N. T.)
Três Anos 277

nha medo de alguma afronta por parte de Fiódor Stepánitch , pe­


lo que já ia de pé atrás e desagradado . Depois de duas noites em
casa do marido , Iúlia Serguéevna já considerava o seu casa­
mento um erro , uma desgraça, e se fosse obrigada a viver com
o marido noutra cidade , em vez de Moscovo , achava que não
aguentaria semelhante horror. Mas Moscovo distraía-a, gostava
das ruas , das casas , das igrejas , e se lhe fosse possível passear
por Moscovo naqueles trenós maravilhosos atrelados a cavalos
caros , passear o dia inteiro , de manhã à noite , e a grande veloci­
dade , sorvendo o fresco ar outonal , então talvez não se sentisse
tão infeliz .
Junto de um edifício branco recém-estucado , de dois pisos , o
cocheiro refreou o cavalo e começou a virar à direita. Já os es­
peravam. Ao lado do portão estava o guarda-portão de cafetã
novo , botas altas e galochas , e dois polícias; todo o espaço , des­
de o meio da rua até ao portão e desde o terreiro até à entrada,
estava coberto de areia nova. O guarda-portão tirou o chapéu , os
polícias fizeram a continência. À entrada, foram recebidos por
Fiódor, com uma cara muito séria.
- Muito prazer em conhecê-la, maninha - disse ele , bei­
jando a mão de Iúlia. - Bem-vinda.
Levou-a pelo braço pela escada acima, depois pelo corredor,
através de uma multidão de homens e mulheres . No vestíbulo
também havia aperto de gente e cheirava a incenso .
- Vou apresentá-la ao nosso paizinho - sussurrou Fiódor
no meio do solene silêncio tumular que ali reinava. - Um ve­
lhinho respeitável , um pater familias .
Na sala grande , ao lado da mesa preparada para o Te Deum ,
estavam, pelos vistos à espera, Fiódor Stepánitch , o padre de
barrete e o diácono . O velho estendeu a mão a Iúlia e não disse
nada. Estavam todos calados . Iúlia envergonhou-se .
O padre e o diácono começaram a paramentar-se . Trouxeram
o tunbulo , lançando chispas , cheirando a incenso e a carvão .
Acenderam as velas . Os encarregados entraram na sala em
278 Anton Tchékhov

bicos de pés e puseram-se ao longo da parede em duas filas . Era


o silêncio , ninguém ousava tossir.
- Abençoa, padre ! - disse o diácono .
Rezaram o Te Deum solenemente , sem omitir nada e leram
dois acatistos: A Jesus Cristo dulcíssimo e a Nossa Senhora. Os
cantores cantavam por pauta, durante muito tempo. Láptev repa­
rou no recente embaraço da sua mulher; enquanto se liam os aca­
tistos e os cantores cantavam, a várias vozes , o triplo «Senhor
tende piedade de nós» , ele , com o coração nas mãos , esperava
que , de um momento para o outro , o velho se voltasse e fizesse
qualquer observação , do género «a senhora não sabe benzer-se»;
sentia desgosto: para quê toda aquela multidão, para quê toda
aquela cerimónia com popes e cantores? Era demasiado à ma­
neira dos comerciantes . Porém, quando Iúlia, juntamente com o
velho , expôs a cabeça sob o Evangelho e, depois , se ajoelhou vá­
rias vezes , percebeu que ela gostava de tudo aquilo e acalmou-se .
No final do Te Deum , às palavras de «longos anos de vida» ,
o padre deu a beijar a cruz ao velho e a Aleksei , mas , quando se
aproximou de Iúlia Serguéevna, cobriu a cruz com a mão e to­
mou o ar de quem quer falar. Abanaram as mãos aos cantores , a
mandá-los calar.
- O profeta Samuel - começou o padre - chegou a Belém
por vontade de Deus e, lá, os anciãos perguntaram-lhe , tremen­
do: «De paz é a tua vinda, ó profeta?» E disse o profeta: «É de
paz; vim sacrificar ao Senhor; santificai-vos e alegrai-vos hoje
comigo .» Será que vamos também nós , ó Iúlia, serva de Deus,
indagar-te se é de paz a tua vinda a esta casa? ...
Iúlia ficou vermelha de emoção . Ao acabar, o padre deixou-a
beijar a cruz e disse num tom já diferente:
- Agora é preciso casar Fiódor Fiódoritch . Já é tempo .
De novo se puseram a cantar os cantores , as pessoas a remexer­
-se , o barulho a crescer. O velho , comovido , com os olhos cheios
de lágrimas , beijou Iúlia três vezes , benzeu-lhe o rosto e disse:
- É a vossa casa. Eu , velho , não preciso de nada.
Três Anos 279

Os encarregados davam os parabéns e diziam qualquer coisa,


mas o canto era tão alto que não se ouvia nada. Depois tomou­
-se o primeiro almoço e bebeu-se champanhe . Iúlia estava sen­
tada ao lado do velho, dizendo-lhe ele que não era bom viverem
separados , que deviam viver todos juntos , na mesma casa, já
que as partilhas e as discórdias levavam à ruína.
- Eu ganhei a riqueza, os meus filhos apenas a gastam - di­
zia ele . - Agora vivei comigo na mesma casa e ganhai o vosso
pão . Para mim, velho , chegou a altura de descansar.
À frente dos olhos de Iúlia surgia a cada instante o Fiódor,
muito parecido com o marido mas mais remexido e tímido;
todo se afobava a seu lado e beijava-lhe muitas vezes a mão .
- Nós , maninha, somos gente simples - dizia, e na sua
cara alastravam manchas vermelhas . - Vivemos com simplici­
dade , à russa, à cristã, maninha.
Quando voltavam para casa, Láptev, muito contente por
tudo se ter passado da melhor maneira e, contra todas as suas
previsões , sem ter acontecido nada de especial , disse à mu­
lher:
- Deves estar admirada por um pai grande e espadaúdo ter
uns filhos como eu e o Fiódor, pequeninos e de peito fraco . Pois ,
mas é tão natural ! O meu pai já tinha quarenta e cinco anos
quando se casou com a minha mãe , de apenas dezassete . Ela
empalidecia e tremia na presença dele . Nina foi a primeira a nas­
cer, ainda a minha mãe era relativamente saudável , por isso saiu
mais forte e mais bem constituída do que nós ; ora, eu e o Fiódor
fomos concebidos quando a minha mãe já estava esgotada pelo
medo permanente . Lembro-me do meu pai a dar-me a lição , ou
simplesmente a bater-me , quando eu não tinha ainda cinco anos .
Açoitava-me , puxava-me as orelhas , batia-me na cabeça; e todas
as manhãs , quando eu acordava, a primeira coisa que pensava
era: irão açoitar-me hoje? Eu e o Fiódor estávamos proibidos de
brincar e de fazer traquinices; tínhamos de ir à missa de alva e à
missa da manhã, beijar a mão aos popes e aos monges , ler em
280 Anton Tchékhov

casa os acatistos . Tu és muito crente e gostas disso tudo, mas eu


tenho medo da religião e , quando passo ao lado de uma igreja,
vem-me à memória a minha infância e fico apavorado . Logo aos
oito anos levaram-me para o «celeiro» trabalhar; eu trabalhava
como simples aprendiz e não era uma criança saudável , até por­
que lá me batiam todos os dias . Depois , quando me mandaram
para o colégio , estudava até à hora de almoço e , depois , ia para
o «celeiro» até à noite , e isto até aos meus vinte e dois anos , al­
tura em que conheci Iártsev, que me convenceu a sair de casa do
meu pai . Este Iártsev fez muito por mim . Sabes uma coisa? -
disse Láptev e riu-se de prazer. - Vamos visitar o Iártsev. É um
homem nobilíssimo ! Vai ficar tão comovido !

Num sábado de Novembro , regia a orquestra sinfónica Anton


Rubinstein . Era grande o aperto e o calor. Láptev assistia de pé ,
atrás das colunas , enquanto a mulher, longe dele , estava senta­
da na terceira ou quarta fila com Kóstia Kotchevói . No princí­
pio do intervalo passou a seu lado , inesperadamente , a «senho­
ra dona» , Polina Nik:oláevna Rassúdina. Depois do casamento ,
Láptev pensava muitas vezes , preocupado , num eventual en­
contro com ela. Agora, que ela olhava para ele aberta e frontal­
mente , Láptev lembrou-se de que ainda não arranjara tempo
para esclarecer as coisas com ela, ou , pelo menos , de lhe escre­
ver meia dúzia de linhas amigáveis ; parecia esconder-se dela;
envergonhou-se e corou . Ela apertou-lhe a mão com força,
calorosamente , e perguntou :
- Viu o Iártsev?
E, sem esperar pela resposta, seguiu em frente , numa passada
larga, como se alguém a empurrasse pelas costas .
Era muito magra e feia, tinha um nariz comprido , um rosto
sempre cansado , mesmo extenuado , dando a sensação de que
Três Anos 28 1

lhe era muito difícil manter os olhos abertos e não cair. Tinha
uns belos olhos escuros e uma expressão inteligente , bondosa e
sincera, mas uns gestos bruscos , angulosos . Não era fácil falar
com ela porque não sabia ouvir nem falar calmamente . Era difí­
cil amá-la. Dantes , a sós com Láptev, ria-se às gargalhadas , de­
moradamente , tapando a boca com a mão , e afirmava que ; para
ela, o amor não era o essencial da vida; requebrava-se como
uma rapariga de dezassete anos e , para lhe dar um beijo, era pre­
ciso apagar as velas todas . Já tinha trinta anos . Há muito que
não vivia com o marido , um professor. Ganhava a vida dando
aulas de música e participando em quartetos .
Decorria a nona sinfonia, e ela voltou a passar perto de Láp­
tev, como que por acaso , mas a multidão de homens que forma­
vam um muro atrás das colunas impediu-lhe a passagem e ela
parou . Láptev reparou que ela usava a mesma camisa de veludo
com que ia aos concertos no ano anterior e há dois anos . As lu­
vas eram novas , o leque também, mas barato . Gostava de se ata­
viar, mas não sabia e custava-lhe gastar dinheiro com isso; en­
tão , vestia mal , com desleixo , e quando ia na rua a passo largo
era fácil tomá-la por um jovem noviço .
O público aplaudia e gritava «bis» .
- O senhor, hoje, vai passar o fim de tarde comigo - disse
Polina Nikoláevna, aproximando-se de Láptev e olhando com
severidade para ele . - Daqui , vamos juntos tomar chá e não
tem o direito moral de me recusar esta insignificância.
- Está bem, vamos - concordou Láptev.
Depois da sinfonia, começaram as infindáveis chamadas ao
palco . O público estava já levantado e ia saindo muito devagar;
ora, Láptev não podia sair sem avisar a mulher. Era preciso pôr­
-se à porta e esperar.
- Está a apetecer-me terrivelmente tomar um chá -
queixou-se Rassúdina. - Arde-me a alma.
- Pode-se tomar chá aqui - disse Láptev. - Vamos ao
bufete .
282 Anton Tchékhov

- Não tenho dinheiro para derreter no bufete . Não sou


comerciante .
Láptev ofereceu-lhe o braço, mas ela recusou, pronunciando
uma frase longa e cansativa que ele já ouvira da boca dela mui­
tas vezes, ou seja, que , não se incluindo ela no sexo belo e fra­
co , não necessitava dos serviços dos senhores homens .
Enquanto falava com ele , observava o público e cumprimen­
tava os seus numerosos conhecidos: colegas dos cursos de
Guerrier34 e do conservatório , alunos e alunas . Apertava-lhes
as mãos com força e ímpeto , como se quisesse arrancar-lhas .
Mas ei-la que se encolhe e começa a tremer como se tivesse
febre ; acabou por dizer, baixinho , olhando para Láptev com
terror:
- Com quem foi o senhor casar-se? Onde tinha os olhos, seu
doido? O que encontrou nesta garota estúpida e insignificante?
Eu amava-o pelo seu intelecto , pela sua alma, mas esta boneca
de porcelana precisa apenas do seu dinheiro !
- Não fale nisso , Polina - disse ele em tom de súplica. -
Tudo o que possa dizer-me sobre o meu casamento já eu o
disse muitas vezes a mim próprio . . . Não me atormente ainda
mais .
Apareceu Iúlia Serguéevna de vestido preto e um grande bro­
che de diamantes que o sogro lhe mandara depois do Te Deum;
atrás dela, a sua comitiva: Kotchevói , dois médicos amigos , um
oficial e um jovem gordo , com o uniforme estudantil , de nome
Kisch .
- Vai com o Kóstia - disse Láptev à mulher. - Volto mais
tarde .
Iúlia acenou com a cabeça e seguiu em frente. Polina Niko­
láevna seguiu-a com os olhos , sempre a tremer e a encolher-se ner­
vosamente, e o olhar dela estava cheio de repugnância, ódio e dor.

34 V ladímir Guerrier ( 1 837- 1 9 1 9) , h istoriador russo, organizador dos Cursos


Superiores Femininos de Moscovo ( 1 872) . (N. T.)
Três Anos 283

Láptev, pressentindo uma conversa desagradável , asperezas e


lágrimas , temia ir a casa dela, por isso lhe propôs que fossem to­
mar chá a um restaurante . Mas ela disse:
- Não , não , vamos para minha casa. Não se atreva a falar-
-me de restaurantes .
Não gostava de restaurantes porque achava que , lá, o ar estava
envenenado pelo fumo do tabaco e pelas respirações masculinas .
Tinha uma atitude estranhamente preconcebida para com todos
os homens que não conhecia, achando-os uns depravados, a to­
dos , capazes de se atirarem a ela em qualquer momento . Além
disso , a música dos restaurantes irritava-a até à dor de cabeça.
Saindo da Assembleia Nobre , alugaram um coche até Ostójen­
ka, Ruela Saviólovski , onde Rassúdina morava. Láptev, pelo ca­
minho , não parou de pensar nela. De facto, devia-lhe muito .
Conhecera-a em casa do seu amigo lártsev, a quem ela dava aulas
teóricas de música. Polina ligou-se a ele com uma paixão forte ,
absolutamente desinteressada, a ponto de , tendo já relações ínti­
mas com ele, continuar a dar aulas e a trabalhar até à extenuação
como dantes. Graças a Polina, Láptev começou a compreender a
música e a gostar de uma arte que antes lhe era quase indiferente .
- Metade do meu reino por um copo de chá ! - disse Polina
em voz surda, tapando a boca com o regalo para não se consti­
par. - Dei hoje cinco aulas e pro diabo com elas ! Os alunos são
tão lorpas , tão burros que eu ia morrendo de raiva. Quando aca­
barão estes trabalhos forçados? Estou esgotada. Mal junte tre­
zentos rublos largo tudo , vou para a Crimeia e deixo-me ficar lá
deitada na praia a engolir oxigénio . Gosto tanto do mar, ah, co­
mo eu gosto do mar !
- Não vai a lado nenhum - disse Láptev. - Em primeiro
lugar, não consegue juntar dinheiro , em segundo lugar, é forre­
ta. Desculpe , mas insisto: juntar esses trezentos rublos , pataco a
pataco , vindos de pessoas ociosas que estão a aprender música
por não terem mais nada que fazer, é menos humilhante do que
recebê-los de empréstimo dos seus amigos?
284 Anton Tchékhov

- Não tenho amigos ! - disse ela com irritação . - E , por fa­


vor, deixe de dizer parvoíces . A classe operária, a que pertenço,
tem um único privilégio: a consciência de ser incorrupta, o di­
reito de não dever nada aos comerciantezecos e de os desprezar.
Não , meu senhor, não me compra ! Não sou a sua Iúlitchka !
Láptev não pagou ao cocheiro , sabendo que , se o fizesse , iria
provocar toda a avalancha de palavras que já tantas vezes tinha
ouvido . Pagou ela.
Polina tomava de aluguer um pequeno quarto mobilado no
apartamento de uma senhora solitária, em regime de cama e me­
sa. O seu grande piano de cauda Becker estava por enquanto em
casa de Iártsev, na Bolchaia Nikítskaia, aonde ela ia todos os
dias praticar. No seu quarto havia poltronas com cobertas , uma
cama com um cobertor branco de Verão e plantas da senhoria,
nas paredes havia oleogravuras , e nada havia que indiciasse que
morava ali uma mulher, antiga cursista. Não havia toilette nem
livros , nem sequer uma mesa de trabalho . Via-se que se deitava
mal chegava a casa e que , de manhã, se levantava e saía logo .
A cozinheira trouxe o samovar. Polina Nikoláevna preparou o
chá e , ainda a tremer - estava frio no quarto - , pôs-se a criticar
os cantores da nona sinfonia que ouvíramos . Fechavam-se-lhe os
olhos de cansaço . Bebeu um copo de chá, outro , um terceiro.
- Portanto , o senhor está casado - disse ela. - Não se
preocupe , não vou desfalecer de tristeza, hei-de saber arrancá-lo
do meu coração . Só é um desgosto e uma amargura que o se­
nhor, afinal , seja tão medíocre como os outros e não procure na
mulher o espírito , o intelecto , mas o corpo , a beleza, a juventu­
de . . . Juventude ! - pronunciou , nasalizando , como se imitasse
alguém, e riu-se . - Juventude ! O que precisa é de pureza, Rei­
nheit35 ! Reinheit! - e desatou às gargalhadas , deitando o corpo
para trás , encostada ao espaldar da poltrona. - Reinheit!
Quando parou de rir tinha os olhos cheios de lágrimas .

35 Castidade, inocência (alemão) . (N. T.)


Três Anos 285

- É feliz , ao menos? - perguntou .


- Não .
- Ela ama-o?
- Não .
Láptev, presa da emoção e sentindo-se desgraçado , levantou­
-se e pôs-se a andar pelo quarto .
- Não - repetiu . - Polina, sou muito infeliz , se quer saber.
Nada a fazer. Fiz asneira, agora não posso remediar nada. É pre­
ciso ver as coisas filosoficamente . Ela casou-se sem amor, se ca­
lhar por estupidez e por interesse, mas sem pensar, e agora, pelos
vistos , tomou consciência do seu erro e sofre. Eu vejo isso . À noi­
te dormimos juntos , mas durante o dia ela tem medo de ficar a sós
comigo , cinco minutos que sejam, e procura divertimentos , a
companhia de outras pessoas . Tem vergonha e medo de mim.
- Mesmo assim, pede-lhe dinheiro , não?
- Polina, isso é estúpido ! - gritou Láptev. - Ela aceita o
meu dinheiro porque , para ela, é de todo indiferente tê-lo ou
não . É uma pessoa pura, honesta. Casou comigo porque queria,
simplesmente , sair de casa do pai , só isso .
- Tem a certeza de que ela casaria consigo se não fosse
rico? - perguntou Rassúdina.
- Não tenho a certeza de nada - disse Láptev com angús­
tia. - De nada. Não compreendo nada. Por amor de Deus , Po­
lina, deixemos de falar disso .
- Ama-a?
- Loucamente .
Depois , foi o silêncio . Polina bebia o quarto copo de chá, ele
continuava a andar pelo quarto e pensava que a mulher talvez
estivesse agora no clube dos médicos a jantar.
- Mas será que se pode amar sem se saber porquê? - per­
guntou Rassúdina e encolheu os ombros . - Não , é uma paixão
animalesca que o domina! Está inebriado ! Está envenenado por
aquele corpo bonito , por aquela Reinheit! Afaste-se de mim,
está sujo ! Vá ter com ela !
286 Anton Tchékhov

Abanou a mão , depois agarrou no chapéu dele e arremessou­


-lho contra o corpo . Láptev, em silêncio , vestiu a peliça e saiu ,
mas Polina correu ao átrio e agarrou-se-lhe espasmodicamente
ao braço , desfeita em lágrimas .
- Deixe , Polina ! Chega ! - dizia ele , mas não conseguia
desprender-lhe os dedos do seu braço . - Acalme-se , por favor !
Ela fechou os olhos e empalideceu , o seu nariz tomou aquela
desagradável cor de cera dos mortos , e Láptev continuava a não
conseguir desprender-lhe os dedos do braço . Desmaiou . Er­
gueu-a cautelosamente e deitou-a na cama, ficando dez minutos
a seu lado até que recuperou os sentidos . As mãos dela estavam
frias , o pulso fraco , irregular.
- Vá para casa - disse ela, abrindo os olhos . - Vá-se em­
bora, senão volto outra vez a chorar. Preciso de me controlar.
Saiu . Não foi ao clube dos médicos , onde o esperava toda a
companhia, mas para casa. Pelo caminho , perguntava a si mes­
mo com censura: porque não organizara a sua fann1ia com esta
mulher que o amava tanto e que , de facto , era já sua esposa e
amiga? Era a única pessoa afeiçoada a ele e , além disso, não se­
ria um objectivo gratificante da sua vida dar felicidade , abrigo e
sossego a esta criatura inteligente , orgulhosa e exaurida pelo
trabalho? E ficar-lhe-iam bem, continuava a perguntar-se , aque­
las pretensões à beleza, à juventude , a uma felicidade impossí­
vel e que , por castigo ou troça, o mantinham num estado som­
brio e oprimido havia já três meses? Há muito que acabou a
lua-de-mel , mas ele - que ridículo ! - ainda não sabe que pes­
soa é a sua mulher. Ela escreve às suas amigas do instituto e ao
pai longas cartas de cinco páginas , encontrando sempre do que
falar, mas com ele fala apenas do tempo , de que são horas do al­
moço ou do jantar. Quando , antes de se deitar, ela reza demora­
damente a Deus e , depois , beija as suas cruzes e medalhões , ele ,
olhando para a mulher, pensa com ódio: «De que reza ela tanto?
De quê?» Mentalmente , insultava-a, e também a si , dizendo-se
que , quando se deitava com ela e a abraçava, estava a usufruir
Três Anos 287

do que pagava, mas era terrível; se fosse uma mulher robusta,


atrevida, pecaminosa . . . mas não , havia nela uma juventude , uma
religiosidade , uma meiguice , uns olhos inocentes e puros . . . En­
quanto foi apenas sua noiva, a religiosidade dela comovia-o ,
mas , agora, aquela determinação convencional de convicções
afigurava-se-lhe uma barreira por trás da qual não se via a ver­
dadeira verdade . Na sua vida familiar já tudo era doloroso .
Quando a mulher, sentada a seu lado no teatro , suspirava ou ria
sinceramente , sentia amargura porque ela se deliciava sozinha e
não queria partilhar o seu prazer com ele . Era curioso que ela se
tenha tomado amiga de todos os seus amigos , sabendo já todos
eles que pessoa ela era, mas ele não sabia nada, apenas se de­
primia e sofria de ciúmes em silêncio .
Chegado a casa, Láptev vestiu o roupão , calçou as pantufas e
sentou-se no gabinete a ler um romance . A mulher não estava
em casa. Mas nem meia hora se passou e já tocavam à porta do
vestíbulo e se ouviam os passos de Piotr que corria a abrir. Era
Iúlia. Entrou no gabinete com a peliça vestida e as bochechas
coradas do frio .
- No Préssnia há um grande incêndio - disse , ofegante . -
Chamas altíssimas . Vou lá com Konstantin Ivánitch .
- Vai com Deus !
O seu ar sadio , fresco , aquele medo infantil nos olhos acal­
maram Láptev. Leu durante meia hora mais e foi para a cama.
No dia seguinte , Polina Nikoláevna mandou-lhe para o «Ce­
leiro» dois livros que ele lhe tinha emprestado em tempos , todas
as suas cartas e fotografias ; com um bilhete em que estava es­
crita uma única palavra: «Basta ! »

Em finais de Outubro tomou-se evidente que houve recidiva


na doença de Nina Fiodorovna. Emagrecia velozmente , o seu
288 Anton Tchékhov

rosto mudava. Apesar das dores fortes , queria acreditar que con­
valescia e, todas as manhãs , vestia-se como se estivesse bem,
mas depois passava o dia todo na cama, vestida. Para o fim,
tomou-se muito loquaz . Deitada de costas , estava sempre a con­
tar qualquer coisa, com grande esforço , respirando com dificul­
dade . Teve uma morte súbita, nas seguintes circunstâncias:
Ao princípio de uma noite luarenta, clara, as pessoas passea­
vam nos trenós pela neve fresca, e aquele barulho da rua chega­
va ao quarto . Nina Fiodorovna estava deitada de costas na ca­
ma, e Sacha (que já não tinha ninguém para a revezar) estava
sentada a seu lado e dormitava.
- Não me lembro do patronímico dele - contava Nina Fio­
dorovna, baixinho - mas o nome e apelido eram Ivan Kotche­
vói . Era um funcionário pobre e um bêbado incorrigível , Deus
o tenha em eterno descanso . Visitava a nossa casa, e dávamos­
-lhe todos os meses uma libra de açúcar e uma oitava de libra de
chá. E às vezes algum dinheiro também . Depois aconteceu: o
nosso Kotchevói entrou em bebedeira e morreu , queimado pela
vodca. Deixou um filhinho , um rapazinho de sete anos . Orfão­
zinho . . . Trouxemo-lo e escondemo-lo nos quartos dos encarre­
gados , e viveu assim um ano inteiro , sem o nosso pai saber.
Mas , quando o viu , só abanou a mão e não disse nada. Quando
Kóstia, o órfão , fez oito anos (eu , naquele tempo , já estava noi­
va) , corri os colégios todos com ele . Andei , andei e não o admi­
tiam em lado nenhum . E ele a chorar. . . «Porque choras , seu par­
vinho?» , perguntei-lhe eu . Então levei-o à Razguliai , ao colégio
n .º 2 , e lá admitiram-no , Deus lhes dê a paga . . . E o rapazinho co­
meçou a ir todos os dias , a pé , da Piatnitskaia à Razguliai , da
Razguliai à Piatnitskaia . . . O Aliocha era quem pagava o colé­
gio . . . Por vontade de Deus , o rapazinho estudava bem, com apli­
cação , e assim se fez um homem a sério . . . Agora é advogado em
Moscovo , amigo do Aliocha, e também muito culto . Não des­
prezámos uma pessoa, demos-lhe abrigo, e agora de certeza que
ele reza a Deus por nós . . . Pois . . .
Três Anos 289

Nina Fiodorovna falava cada vez mais baixo , com longas


pausas , depois calou-se e, de repente , soergueu-se e sentou-se .
- Sinto-me . . . acho que me sinto mal - disse ela. - Senhor,
tende piedade de nós . Oh, não consigo respirar!
Sacha sabia que a morte da mãe estava para breve , por isso ,
quando lhe viu o rosto a ficar de súbito tão macilento , adivinhou
que era o fim e assustou-se .
- Mãezinha, não , por favor ! . - chorou ela. - Por favor,
isso não !
- Corre à cozinha, que vão buscar o teu pai . Estou a sentir-
-me muito mal .
Sacha correu toda a casa a chamar os criados mas não encon­
trou nenhum, apenas viu a irmã Lida a dormir na sala de jantar,
em cima de uma arca, vestida e sem almofada. Sacha, tal como
estava, sem galochas , correu para o pátio , depois para a rua.
Sentada no banco atrás do portão estava a ama-seca vendo os
trenós a passearem. Do rio , onde se patinava, chegavam os sons
da banda militar.
- Minha ama, a mamã está a morrer ! - disse Sacha, em
alto choro . - É preciso ir chamar o papá ! . . .
A ama subiu ao quarto de dormir e , olhando para a doente ,
meteu-lhe nas mãos uma vela de cera acesa. Sacha, aterroriza­
da, azafamava-se e implorava, sem saber a quem, que fossem
buscar o seu pai; depois vestiu o casaco , pôs o lenço e correu pa­
ra a rua. Sabia, pelos criados , que o pai tinha outra mulher e
mais duas filhas , com quem vivia na Rua Bazárnaia. Meteu pa­
ra o lado esquerdo , sempre a chorar e com medo das pessoas es­
tranhas , e não tardou a atolar-se na neve e a ter frio .
Viu um coche sem passageiros na rua mas não o tomou , com
medo de que o cocheiro a levasse para fora de portas , lhe rou­
basse tudo e a abandonasse no cemitério (uma vez, quando to­
mava chá com os criados , eles contaram um caso destes) . Andou ,
andou , ofegante de cansaço, sempre a chorar. Por fim deu com a
Rua Bazárnaia e perguntou a uma desconhecida onde morava o
290 Anton Tchékhov

senhor Panaúrov. A senhora começou com longas explicações


mas , ao ver que a miúda não estava a perceber nada, pegou-lhe
na mão . e levou-a até uma casa de um piso com porta central .
A porta não estava fechada. Sacha atravessou o átrio a correr,
meteu por um corredor e , por fim, chegou a uma sala quente e
muito iluminada onde , à mesa com o samovar, estava sentado o
pai e , com ele , uma senhora e duas meninas . Mas Sacha já não
era capaz de falar, só chorava. Panaúrov compreendeu .
- A mãe está mal , não é? - perguntou . - Diz lá, filha, é a
mãe que está mal?
Preocupado , mandou buscar um cocheiro .
Quando chegaram a casa, Nina Fiodorovna estava sentada na
cama com as costas apoiadas em almofadas . Tinha-lhe escure­
cido o rosto , tinha os olhos fechados . À porta do quarto aperta­
vam-se a ama, a cozinheira, a criada de quarto , o mujique Pro­
kófi e outra gente simples , desconhecida. A ama dava umas
ordens quaisquer, em sussurro , mas não se fazia entender. Ao
fundo do quarto , junto à janela, estava Lida, pálida, sonolenta, a
olhar severamente para a mãe .
Panaúrov tirou a vela das mãos de Nina Fiodorovna e , fran­
zindo a cara com repugnância, atirou-a para cima da cómoda.
- Coisa horrível ! - disse ele , e estremeceram-lhe os om­
bros . - Nina, tens de te deitar - disse com carinho . - Deita­
-te , querida.
Ela olhou e não o reconheceu . . . Deitaram-na de costas .
Quando chegaram o padre e o doutor Serguei Boríssitch,
a criadagem já se benzia e já rezava pela alma de Nina Fiodo­
rovna.
- Credo , que história ! - disse o doutor, pensativo , saindo
para a sala de estar. - E olhem que ainda era jovem, nem qua­
renta anos tinha.
Ouviam-se os soluços altos das meninas . Panaúrov, pálido ,
com os olhos húmidos , aproximou-se do doutor e disse numa
voz fraca e lânguida:
Três Anos 29 1

- Meu caro , faça-me o favor de mandar um telegrama para


Moscovo . Eu não tenho forças .
O doutor arranjou tinta e escreveu à sua filha um telegrama
nestes termos: «Panaúrova faleceu oito noite . Diz a marido:
vende-se casa Dvoriânskaia com transferência dívida, falta pa­
gar nove . Leilão dia doze . Aconselho não perder.»

Láptev morava numa das ruelas transversais da Rua Málaia


Drnítrovka, perto do Velho Pímen . Além da mansão grande que
dava para a rua, alugava ainda um anexo de dois pisos para o
seu amigo Kotchevói , advogado , a quem todos os Láptev cha­
mavam simplesmente Kóstia, já que o tinham visto crescer. Em
frente deste anexo havia outro , também de dois pisos , onde vi­
via uma família francesa - o marido , a mulher e cinco filhas .
O frio era de vinte graus negativos . As janelas estavam co­
bertas de gelo . Depois de acordar, Kóstia, com uma cara preo­
cupada, tomou quinze gotas de um medicamento qualquer, de­
pois tirou do armário dos livros dois pesos e começou a fazer
ginástica. Era alto , muito magro , com um grande bigode arrui­
vado , mas o mais notável do seu aspecto físico era um par de
pernas extraordinariamente longas .
Piotr, mujique de meia-idade , de casaco e calças de chita meti­
das por dentro das botas altas , trouxe o samovar e preparou o chá.
- Hoje o tempo está muito bom, Konstantin Ivánitch - dis­
se ele .
- Pois , o tempo pode estar bom, só que a nossa vida, amigo ,
não está grande coisa.
Piotr, por delicadeza, suspirou.
- Como estão as miúdas? - perguntou Kotchevói .
- O padre não veio , é o próprio Aleksei Fiodorovitch quem
lhes está a dar a lição .
292 Anton Tchékhov

Kóstia encontrou no vidro da janela um espaçozinho sem


gelo e pôs-se a espreitar pelos binóculos para as janelas da
fann1ia francesa.
- Não se vê nada - disse .
No andar de baixo , Aleksei Fiodorovitch dava uma aula de
religião e moral a Sacha e a Lida. Havia já um mês e meio que
elas viviam em Moscovo , no rés-do-chão do anexo , juntamente
com uma preceptora; três vezes por semana, vinham a casa dar­
-lhes aulas um professor da escola municipal e um padre . Sacha
estudava o Novo Testamento , Lida tinha começado havia pouco
o Velho . À Lida tinha sido marcada na última aula a parte que
ia do início até Abraão .
- Portanto , Adão tinha dois filhos - disse Láptev. - Mui­
to bem . Como se chamavam? Tenta lembrar-te !
Lida, severa como sempre, calava-se, olhando para a mesa, me­
xendo apenas os lábios; a mais velha, Sacha, olhava para ela e sofria.
- Tu sabes , mas não te enerves - disse Láptev. - Então ,
como se chamavam os filhos de Adão?
- Abel e Cabei - sussurrou Lida.
- Caim e Abel - emendou Láptev.
Pela bochecha de Lida deslizou uma grande lágrima, que caiu
no livro . Sacha baixou os olhos e corou , prestes a chorar. Láp­
tev sentiu tanta pena delas que não conseguia falar, tinha um
aperto na garganta, as lágrimas também à flor dos olhos; saiu de
ao pé da mesa e acendeu um cigarro . Kotchevói desceu, com um
jornal na mão . As miúdas levantaram-se e fizeram-lhe a reve­
rência, sem olharem para ele .
- Por amor de Deus , Kóstia, dê-lhes a lição - dirigiu-se-lhe
Láptev. - Eu tenho medo de chorar também, e além disso pre­
ciso de ir ao «celeiro» antes do almoço .
- Está bem.
Aleksei Fiodorovitch saiu . Kóstia, com uma cara muito séria,
de sobrolho carregado , sentou-se à mesa e puxou para si a his­
tória sagrada.
Três Anos 293

- Então , onde é que iam? - perguntou .


- Sobre o dilúvio ela sabe - disse Sacha.
- O dilúvio? Está bem, vamos ao dilúvio . O dilúvio , força !
- Kóstia percorreu com os olhos a breve descrição do dilúvio
e observou: - Devo dizer-vos que nunca houve um dilúvio co­
mo está descrito aqui . Nem existiu Noé nenhum. Alguns milha­
res de anos antes do nascimento de Cristo , houve na Terra um
dilúvio extraordinário , e isso é mencionado não só na Bíblia ju­
daica mas também em outros livros dos povos antigos , como
gregos , caldeus , hindus . Mas , por mais extenso que fosse o di­
lúvio , não podia inundar toda a terra. Digamos que inundou as
planícies , mas os montes ficaram de certeza a descoberto . Lede
este livro mas não acrediteis em tudo .
Dos olhos de Lida correram de novo as lágrimas; virou a
cara a Kóstia e o seu choro era tão alto que ele estremeceu e
levantou-se , muito confuso .
- Quero ir para casa - disse Lida. - Quero o meu pai e a
minha ama.
Sacha também chorou . Kóstia subiu para as suas salas e tele­
fonou a Júlia Serguéevna.
- Alminha, as miúdas estão outra vez a chorar. Assim é im­
possível .
Júlia Serguéevna, só de vestido e com um xaile de malha pe­
los ombros , toda gelada, veio a correr da casa grande e pôs-se a
consolar as meninas .
- Acreditai , acreditai em mim - dizia ela num tom supli­
cante , apertando contra o peito ora uma, ora outra garota - ,
o vosso pai vem hoje, mandou um telegrama. Temos pena da
mamã, eu também tenho muita pena dela, mas o que se pode fa­
zer? Não se pode fazer nada contra a vontade de Deus !
Quando as miúdas deixaram de chorar, agasalhou-as e levou­
-as a passear no trenó . Primeiro foram pela Málaia Dmítrovka,
depois passaram ao lado do Mosteiro das Paixões e foram até à
Rua Tverskaia; pararam na Igreja de Nossa Senhora de Ibéria,
294 Anton Tchékhov

puseram cada qual sua vela e rezaram de joelhos . No caminho


de volta, passaram pela padaria de Filíppov e compraram roscas
com papoila.
Os Láptev almoçavam depois das duas . Piotr servia à mesa.
Este Piotr, durante o dia, corria para os correios , ao «celeiro» ,
ao tribunal de circunscrição por ordem de Kóstia, fazia muitos
outros serviços ; ao fim da tarde fazia cigarros , à noite abria a
porta da rua a quem chegava e, às cinco da manhã, j á acendia os
fogões: ninguém sabia quando o homem dormia. Adorava abrir
garrafas de água mineral , o que fazia com destreza, sem baru­
lho , sem deixar verter uma única gota.
- Com Deus ! - disse Kóstia, emborcando um cálice de
vodca antes da sopa.
.
Nos primeiros tempos , Iúlia Serguéevna não gostava de Kós­
tia; a sua voz de baixo , as palavras e expressões que utilizava,
do género badalhoco , murro no focinho , organiza-nos o samo­
var, o seu hábito de brindar e ronronar ao beber, tudo isso lhe
parecia muito vulgar. Porém , quando o conheceu melhor, come­
çou a sentir-se muito à vontade na sua presença. Kóstia era sin­
cero com ela, gostava de conversar com ela ao princípio da noi­
te , a meia voz , dava-lhe a ler manuscritos de romances da sua
autoria que mantinha em segredo até dos grandes amigos como
Láptev e Iártsev. Iúlia Serguéevna lia os romances e, para não o
magoar, gabava-lhos , o que alegrava muito o famoso grande
escritor que Kóstia tinha a esperança de vir a ser mais cedo ou
mais tarde . Nos seus romances apenas descrevia aldeia e as
herdades senhoriais , embora raramente visse aldeias (apenas
quando ia às casas de campo dos amigos) e , quanto a herdades ,
apenas uma vez na vida estivera numa quando foi a Voloko­
lamsk por causa de um processo judicial . Evitava o elemento
amoroso , como se o envergonhasse , fazia muitas descrições da
natureza, utilizando expressões como «contornos caprichosos
das montanhas» , «formas caprichosas das nuvens» , «Um acorde
de ressonâncias misteriosas» . . . Ninguém queria editar os seus
Três Anos 295

romances , o que ele explicava pelas condições de censura exis­


tentes .
Gostava muito do foro , mesmo assim não considerava a ad­
vocacia a sua actividade principal , mas sim os romances . Jul­
gava-se de uma natureza fina, artística, sempre atraída pela ar­
te . Sendo privado em absoluto de ouvido musical , não cantava
nem tocava qualquer instrumento , mas frequentava todas as so­
ciedades sinfónicas e filarmónicas , organizava concertos de be­
neficência, convivia com cantores . . .
Durante o almoço conversavam .
- Passa-se outra vez qualquer coisa curiosa com o meu ir­
mão Fiódor - disse Láptev. - É preciso verificar, disse ele ,
quando a nossa empresa faz cem anos de existência, para co­
meçarmos logo a solicitar a concessão do título nobiliárquico , e
fala disso absolutamente a sério . O que lhe aconteceu? Franca­
mente , começo a preocupar-me .
Falando ainda de Fiódor, diziam que , hoje em dia, a moda era
fingir alguma coisa. O Fiódor, por exemplo , tenta parecer um
simples comerciante , embora já não o seja - quando o mestre­
-escola vai falar com ele (porque o velho Láptev é o curador
dessa escola) , Fiódor até muda de voz e de maneira de andar, e
porta-se com o professor como se fosse chefe dele .
Depois do almoço , não tendo nada que fazer, foram para .o ga­
binete . Falaram dos decadentes , da Donzela de Orleães36 (de
que Kóstia leu um monólogo inteiro) ; pensava também que imi­
tava Ermólova na perfeição . Depois sentaram-se a jogar às car­
tas . As meninas não foram para o seu anexo , ficaram sentadas ,
juntas na mesma poltrona, pálidas , tristes , atentas ao barulho da
rua: não seria o pai que chegava? De noite , com as velas acesas ,
eram dominadas pela angústia. A conversa durante o jogo , os
passos de Piotr, o crepitar da lenha na lareira irritavam-nas , não

36 Tragédia de Friedrich Schiller ( 1 759- 1 805) , encenada nos anos de 1 890 no


Teatro Máli em Moscovo , com Maria Ermólova no papel principal . (N. T.)
296 Anton Tchékhov

queriam olhar para o fogo; de noite já não lhes apetecia tanto


chorar, mas sentiam-se apavoradas , com um aperto no coração .
Não compreendiam como as pessoas podiam falar de alguma
coisa ou rir-se quando a mãe tinha morrido .
- O que viu hoje pelo binóculo? - perguntou Júlia Ser­
guéevna a Kóstia.
- Hoje não vi nada, mas ontem o próprio velho francês to­
mou banho .
Às sete horas , Júlia Serguéevna e Kóstia saíram: iam ao Tea­
tro Máli . Láptev ficou com as miúdas .
- Já são horas de o vosso papá chegar - dizia ele , olhando
de vez em quando para o relógio . - O comboio , pelos vistos ,
está atrasado .
As miúdas estavam na poltrona, caladas , encostando-se uma
à outra como animaizinhos com frio , e Láptev andava pelas sa­
las e olhava, com impaciência, para o relógio . Em casa estava
tudo silencioso . Já perto das nove , alguém chamou à porta. Piotr
foi abrir.
Quando ouviram a voz familiar, as miúdas soltaram um grito ,
choraram, precipitaram-se para o vestíbulo . Panaúrov vestia uma
peliça luxuosa, a barba e o bigode estavam brancos da geada.
- Esperai , esperai - murmurava, enquanto Sacha e Lida,
rindo e chorando , lhe beijavam as mãos frias , o gorro , a peliça.
Bonito , lânguido , mimado pelo amor, ele acarinhou sem pressa
as filhas , depois entrou no gabinete e disse , esfregando as mãos:
- Não venho por muito tempo , meus amigos . Amanhã parto
para Petersburgo . Prometeram-me a transferência para outra
cidade .
Hospedou-se no hotel Dresden .
Três Anos 297

10

Ivan Gavn1itch Iártsev i a muito a casa dos Láptev. Era u m ho­


mem robusto , forte , de cabelo preto e cara inteligente e simpá­
tica; era considerado bonito , mas ultimamente começara a en­
gordar, o que lhe prejudicava o rosto e a figura. Também lhe
ficava mal cortar o cabelo assim tão curto , ficando com a cabe­
ça quase rapada. Dantes , na universidade , graças à sua grande
estatura e à sua força, chamavam-lhe o «peito-largo» .
Tinha feito o curso da faculdade de letras juntamente com os
irmãos Láptev, depois entrou na de ciências e era já mestre em
química. Não contava receber uma cátedra, nem sequer era ain­
da auxiliar de laboratório , mas dava aulas de Física e de Histó­
ria Natural na escola politécnica e em dois liceus femininos .
Estava entusiasmado com os seus alunos , sobretudo com as alu­
nas , afirmando que estava a crescer uma geração maravilhosa.
Além da química dedicava-se ainda, em casa, à sociologia e à
história russa, publicando por vezes em jornais e revistas pe­
quenos artigos que assinava lá . Quando falava de qualquer te­
ma de botânica ou zoologia, parecia um historiador; quando re­
solvia um problema de história, parecia um naturalista.
Outro amigo próximo da farm1ia Láptev era Kisch , alcunhado
de «eterno estudante» . Estudou três anos na faculdade de medi­
cina, depois passou para a de matemática, fazendo aqui cada
ano em dois . O pai , um farmacêutico provinciano , mandava-lhe
quarenta rublos por mês , e a mãe mais dez , às escondidas do pai ,
bastando-lhe este dinheiro para a sobrevivência e , inclusiva­
mente , para se dar ao luxo de um capote polaco com gola de
castor, luvas , perfumes e fotografias (fazia-se fotografar com
frequência e oferecia os seus retratos aos amigos) . Asseadinho ,
um tanto careca, com suíças douradas à altura das orelhas , mo­
desto , tinha sempre o ar de homem pronto para ser prestável .
Tratava dos problemas dos outros: ora corria por todo o lado
com uma lista de donativos , ora regelava desde manhã cedo
298 Anton Tchékhov

junto de alguma bilheteira de teatro para comprar o bilhete para


alguma senhora conhecida, ora o mandavam encomendar uma
coroa ou um ramo de flores . Dele , só se falava assim: o Kisch
vai , o Kisch faz , o Kisch compra. Na maioria dos casos , porém,
cumpria as suas missões de forma péssima. Então choviam-lhe
em cima as recriminações , às vezes esqueciam-se de lhe dar o
dinheiro que ele adiantara para as compras , mas ele limitava-se
a ficar calado e, nos casos mais difíceis , a suspirar. Nunca se
alegrava nem se entristecia muito , contava sempre numa toada
longa e monótona, as suas piadas só faziam rir porque não ti­
nham graça nenhuma. Assim, uma ocasião , com a intenção de
fazer humor, disse a Piotr: «Piotr, tu não és potro» , o que pro­
vocou uma risada geral , inclusive a dele , muito contente por se
ter saído com uma chalaça tão boa. No funeral de algum pro­
fessor catedrático , Kisch ia sempre à frente do cortejo, ao lado
dos facheiros .
Iártsev e Kisch apareciam normalmente ao fim da tarde, à
hora do chá. Se os donos da casa não iam ao teatro ou ao con­
certo , o chá prolongava-se até ao jantar. Numa dessas reuniões ,
em Fevereiro , passava-se n a sala de jantar a seguinte conversa:
- Uma obra literária apenas é importante e útil quando a sua
ideia contém um sério problema social - dizia Kóstia, olhando
zangado para Iártsev. - Se a obra contiver um protesto contra
a servidão da gleba, ou se o autor se pronunciar contra a alta so­
ciedade com todas as suas vulgaridades , essa obra será impor­
tante e útil . Ora, essas obras onde há apenas «ahs ! » e «ohs ! » ,
onde ela se apaixona por ele mas ele deixa de a amar, essas
obras , digo eu , são insignificantes e que vão pro diabo .
- Estou de acordo consigo, Konstantin lvánitch - disse Iú­
lia Serguéevna. - Este descreve um encontro amoroso, aquele
uma traição , outro o reencontro depois da separação . Será que
não há outros temas? É que há por aí tanta gente doente,
desgraçada, martirizada pela miséria para quem, acho eu , ler
aquilo é repugnante .
Três Anos 299

Para Láptev era desagradável que a sua mulher, uma jovem


que ainda não fizera vinte e dois anos , raciocinasse sobre o
amor dessa forma tão séria e tão fria. Ele adivinhava por que ra­
zão era assim.
- Se a poesia não resolve problemas que lhe parecem impor­
tantes - disse Iártsev - , recorra às obras técnicas , de direito ju­
dicial e financeiro , leia os opúsculos científicos . Para que seria
preciso que em Romeu e Julieta, em vez do amor, se tratasse , di­
gamos , da liberdade do ensino ou da desinfecção das prisões , se
se pode ler sobre isso nos artigos e nas instruções especializados?
- Isso é exagero , compadre ! - interrompeu-o Kóstia. -
Não estamos a falar de gigantes como Shakespeare ou Goethe ,
mas de uma centena de escritores talentosos e medíocres que te­
riam muitíssimo mais préstimo se se dedicassem à promoção
entre as massas dos conhecimentos e das ideias humanitárias .
Kisch , com os seus erres guturais e nasalizando um pouco os
sons , pôs-se a contar o conteúdo de uma novela que lera havia
pouco . Contava com todos os pormenores e sem pressas ; passa­
ram-se três minutos , cinco , dez e ainda ninguém tinha conse­
guido perceber do que se tratava; ele continuava, com uma cara
cada vez mais indiferente e os olhos cada vez mais baços .
- Kisch , conte mais depressa - não aguentou Iúlia Ser-
guéevna - , é insuportável .
- Kisch , pare ! - gritou-lhe Kóstia.
Todos se riram, incluindo Kisch .
Chegou Fiódor. Muito apressado , com manchas por toda a
cara, cumprimentou as pessoas e levou logo o irmão para o
gabinete . Ultimamente evitava as reuniões de mu.itas pessoas e
preferia a companhia de uma só .
- Que os jovens se divirtam, nós aqui vamos falar a sério e
com sinceridade - disse ele , sentando-se na poltrona funda, a
mais afastada do candeeiro . - Há tanto tempo que não nos ve­
mos , mano . Há quanto tempo não vais ao «celeiro»? Acho que
há uma semana já.
300 Anton Tchékhov

- Pois . Não tenho lá nada para fazer convosco . E também,


francamente , estou farto do velho .
- É claro que no «celeiro» eles podem passar muito bem
sem nós , mas é necessário ter-se alguma ocupação . Comerás o
teu pão com o suor do teu rosto , como foi dito . Deus gosta dos
labores .
Piotr apareceu com um copo de chá na bandeja. Fiódor
bebeu-o sem açúcar e pediu mais . Bebia muito chá, era capaz de
beber dez copos num serão .
- Sabes uma coisa, irmão? - disse ele , levantando-se e
aproximando-se de Aleksei . - Sem grandes filosofias , candi­
data-te a vogal , e nós , a pouco e pouco , arranjamos-te o lugar de
membro do conselho municipal e , depois , o cargo de adjunto do
presidente . E assim por diante . Tu és um homem esperto, culto ,
vão reparar em ti e vão pensar em ti para Petersburgo (agora, lá,
as personalidades da administração rural e municipal estão na
moda) , sim, irmão , e antes dos cinquenta serás conselheiro pri­
vado com a fita no ombro .
Láptev não respondeu; percebeu que tudo aquilo - o conse­
lheiro privado e a fita - era ambição do próprio Fiódor, e não
sabia o que responder.
Os irmãos estavam sentados e calados . Fiódor abriu a tampa
do seu relógio e ficou a olhar para ele durante muito , muito tem­
po com uma atenção tão tensa como se quisesse seguir o movi­
mento dos ponteiros; a expressão do seu rosto pareceu estranha
a Láptev.
Chamaram-nos para jantar. Láptev foi para a sala de jantar,
Fiódor ficou no gabinete . Na sala já não se discutia, Iártsev fa­
lava no tom do professor que faz uma conferência:
- Em consequência da variedade de climas , de energias , de
gostos , de idades , a igualdade das pessoas é fisicamente impos­
sível . Porém, o homem culto é capaz de tomar inócua esta desi­
gualdade , do mesmo modo que já o fez com os ursos e os pân­
tanos . Porque , efectivamente , um cientista conseguiu fazer com
Três Anos 30 1

que o gato , o rato , o esmerilhão e o pardal comessem do mesmo


prato , e é de esperar que a educação fará a mesma coisa com as
pessoas . A vida vai sempre em frente , a cultura alcança a olhos
vistos grandes êxitos , e, provavelmente , chegará o dia em que ,
por exemplo , a situação actual dos operários fabris parecerá tão
absurda como a nós parece a servidão da gleba, quando se tro­
cavam raparigas por cães .
- Isso não vai acontecer em breve , passará muito tempo -
disse Kóstia e sorriu - , muitíssimo tempo , quando a Rotschild
parecerem absurdas as suas caves cheias de ouro , e até esse mo­
mento que o operário se mate a trabalhar, opado da fome . Não ,
compadre . É preciso lutar, e não esperar. Se o gato come do
mesmo prato que o rato , acha que tem consciência disso? Que­
rias ! Foi obrigado à força.
- Eu e o Fiódor somos ricos , o nosso pai é capitalista, mi­
lionário , é necessário lutar connosco ! - disse Láptev e esfre­
gou a testa com a mão . - Lutar comigo . . . isso não cabe na mi­
nha cabeça ! Estou rico , mas o que me deu o dinheiro até ao
momento , o que foi que essa força me deu? Em que serei mais
feliz do que vós? Tive uma infância de forçado , o dinheiro não
me salvou das chicotadas . Quando Nina estava doente e morreu ,
o meu dinheiro não a salvou . Quando não me amam, não posso
obrigar ninguém a amar-me , nem que gaste cem milhões .
- Em compensação , pode fazer muito bem às pessoas -
disse Kisch .
- Que bem posso fazer? Ontem , o senhor pediu-me ajuda
para um matemático que procura emprego . Acredite que posso
fazer por ele tanto como o senhor. Posso dar-lhe dinheiro , mas
não é isso que ele quer. Uma ocasião pedi a um músico célebre
que desse trabalho a um violinista pobre , e ele respondeu-me:
«Ü senhor dirige-se precisamente a mim porque não é músico .»
Portanto , respondo-lhe da mesma maneira: o senhor dirige-se a
mim, com tanta certeza, à procura de ajuda, porque nunca este­
ve na situação de homem rico .
302 Anton Tchékhov

- Essa comparação com o célebre músico , isso é que eu não


percebo ! - disse Júlia Serguéevna e corou . - O que tem a ver
com isso o célebre músico?
A cara dela tremeu de ódio , e baixou os olhos para o escon­
der. E aquela expressão do seu rosto foi compreendida não só
pelo marido mas por todos os presentes .
- O que tem a ver com isso o célebre músico? - repetiu bai­
xinho . - Não há nada mais fácil do que ajudar um pobre .
Caiu o silêncio . Piotr serviu tetrazes , mas ninguém os quis
comer, todos se ficaram apenas pela salada. Láptev já não se
lembrava do que dissera, mas uma coisa era clara para ele: não
foram as suas palavras que provocaram ódio , mas o facto de se
ter intrometido na conversa.
Depois do jantar foi para o seu gabinete; tenso , com o cora­
ção inquieto , à espera de novas humilhações , pôs-se à escuta do
que acontecia na sala. Logo recomeçou ali a discussão; depois ,
Jártsev sentou-se ao piano e cantou uma romança sentimental .
Era mestre em cem ofícios : cantava e tocava, até sabia fazer
prestidigitação .
- Quanto aos senhores , como queiram, mas eu não quero fi­
car metida em casa - disse Júlia. - Temos de ir a algum lado .
Resolveram ir para fora de portas e mandaram Kisch ao clu­
be dos comerciantes buscar uma troica. Não convidaram Láptev
porque , normalmente , ele não ia para fora de portas e , além dis­
so , estava o irmão com ele; mas Láptev percebeu-o no sentido
de que ele era um aborrecimento para os outros , era um estra­
nho naquela companhia jovem e alegre . E o sentimento amargo,
o desgosto que o invadiu eram tão fortes que Láptev por pouco
não chorou; mas até estava contente por ser tratado com me­
nosprezo , com tanta indelicadeza, por ser um marido estúpido ,
maçador, um saco de ouro; e tinha a sensação de que ficaria ain­
da mais contente se a mulher o enganasse nesta noite com o seu
melhor amigo e depois lho confessasse , olhando com ódio para
ele . . . Tinha ciúmes por ela - de estudantes seus conhecidos , de
Três Anos 303

actores , de cantores , de Iártsev, até de transeuntes na rua, e ago­


ra desejava loucamente que ela lhe fosse infiel de verdade , que­
ria apanhá-la com alguém e depois envenenar-se , livrar-se de
uma vez por todas deste pesadelo . Fiódor sorvia o chá com ba­
rulho . Finalmente , preparou-se também para sair.
- O nosso velhote , pelos vistos , tem «água escura»37 -
disse ele , vestindo a peliça. - Já vê muito mal .
Láptev também vestiu a peliça e saiu . Acompanhou o irmão
até ao Mosteiro da Paixão de Cristo , tomou um trenó e foi para
o restaurante lar.
«É a isto que se chama felicidade familiar! - ria-se de si
mesmo . - É isto o amor ! »
Batia o dente , e não sabia s e eram ciúmes ou outra coisa qual­
quer. No restaurante , passeava-se ao longo das mesas , ouvia um
cançonetista cantar; para o caso de encontrar os seus não tinha
qualquer frase preparada, e tinha a certeza de que , se desse de
caras com a mulher, apenas esboçaria um sorriso miserável e es­
túpido , e todos compreenderiam o porquê de ele se encontrar
ali . Com a luz eléctrica, a música alta, o cheiro a pó-de-arroz e
porque as senhoras que passavam por ele o olhavam , sentia-se
enjoado . Parava às portas , tentava espiar e escutar o que se pas­
sava nas salas reservadas , e parecia-lhe que , em cumplicidade
com o cançonetista e com aquelas senhoras , ele desempenhava
ali um papel ignóbil , desprezível . Depois foi ao restaurante
Strelna, mas também lá não encontrou os seus e , apenas quan­
do voltava para trás e se aproximava do lar, o ultrapassou rui­
dosamente a troica; o cocheiro bêbado gritava e ouviam-se as
gargalhadas de Iártsev.
Láptev chegou a casa já depois das três da manhã. Iúlia Ser­
guéevna já estava na cama. Vendo que ela não dormia , Láptev
aproximou-se da cama e disse com rispidez:

37 Trata-se , na linguagem popular, de oftalmoplegia, ou paralisia dos músculos


oculares. (N. T.)
304 Anton Tchékhov

- Compreendo a sua repugnância, o seu ódio , mas na pre­


sença de estranhos poderia poupar-me , poderia esconder os seus
sentimentos .
Ela sentou-se na cama, descendo o s pés para o chão . À luz do
candeeiro , os seus olhos pareciam grandes , negros .
- Peço desculpa - disse ela.
Pela comoção , todo a tremer, Láptev já não conseguia pro­
nunciar mais uma palavra que fosse , estava calado em frente
dela. Iúlia também tremia e estava ali sentada como uma crimi­
nosa à espera do interrogatório .
- Como estou a sofrer! - disse ele finalmente , deitando as
mãos à cabeça. - É um inferno , parece que enlouqueci !
- E para mim, acha que é fácil? - disse ela numa voz tré­
mula. - Só Deus sabe como me sinto mal .
- És minha mulher há já meio ano , mas na tua alma não há
uma faísca de amor, não há esperança, não há um raio de luz ! Por­
que te casaste comigo? - continuou Láptev com desespero . -
Para quê? Que demónio te empurrou para os meus braços? Es­
tavas a contar com quê? O que querias?
Iúlia olhava para ele com terror, como se tivesse medo que
ele a matasse .
- Gostavas de mim? Amavas-me? - continuou ele , sufocan­
do . - Não ! Então , porquê? Porquê? Diz: porquê? - gritou . -
Oh , maldito dinheiro ! Maldito dinheiro !
- Juro por Deus que não ! - exclamou ela e benzeu-se;
com este insulto , encolheu-se toda, e Láptev ouviu-a a chorar.
- Juro por Deus que não ! - repetiu . - Não pensava no di­
nheiro , nem o quero , apenas considerei que , se recusasse o teu
pedido , faria mal . Tinha medo de estragar a minha vida e a
tua . Agora sofro por causa do meu erro , sofro insuportavel­
mente !
Desfazia-se num choro amargo , e Láptev percebeu que ela
sofria mesmo; sem saber o que dizer, sentou-se no tapete aos
pés dela.
Três Anos 305

- Pronto , pronto - murmurava ele . - Insultei-te porque te


amo loucamente. - Beijou-lhe o pé num impulso e abraçou-a
apaixonadamente . - Urna faísca de amor, só ! - murmurava
ele . - Mente-me ! Mente ! Não digas que foi um erro ! . . .
Mas ela continuava a chorar, e Láptev sentia que ela suporta­
va os seus carinhos apenas corno urna consequência inevitável
do seu erro . E encolheu o pé que ele beijara, corno um pássaro .
Teve pena dela.
Iúlia deitou-se e cobriu a cabeça, ele despiu-se e também se
deitou . De manhã ambos se sentiam confusos e não sabiam do
que falar; pareceu até a Láptev que ela assentava no chão com
insegurança o pé que ele beijara.
Antes do almoço chegou Panaúrov, para se despedir. Iúlia
sentiu o desejo irrefreável de ir a casa, à sua terra; que bom se­
ria ir-se embora, pensava ela, e descansar da vida em família,
daquele embaraço e da consciência permanente de ter feito urna
coisa má. Durante o almoço foi decidido que partiria com Pa­
naúrov e ficaria duas ou três semanas em casa do pai , até que
lhe apetecesse voltar.

11

Iúlia e Panaúrov iam num compartimento individual; ele ti­


nha na cabeça um boné de pele de carneiro de forma um tanto
estranha.
- Bom, Petersburgo não me satisfez - disse ele pausadamen­
te, suspirando . - Prometem muito, mas nada de definido . Pois é,
minha querida. Já fui juiz de paz, já fui membro permanente da
administração rural e presidente do conselho judicial , e, por últi­
mo, conselheiro da administração provincial; parece que servi a
pátria o bastante para ter direito a darem-me alguma atenção, mas
não: não há meio de conseguir a transferência para outra cidade . . .
Panaúrov fechou o s olhos e abanou a cabeça.
306 Anton Tchékhov

- Não me dão valor - continuou , parecendo que estava a


adormecer. - É claro , não sou um administrador genial , mas ,
em compensação , sou um homem decente e honesto , o que nos
nossos tempos é uma raridade . Confesso que , uma vez por ou­
tra, tenho enganado um pouco as mulheres , mas , em relação ao
governo russo , sempre fui um cavalheiro . Mas chega de falar no
assunto - disse , abrindo os olhos . - Falemos da senhora. Por­
que se lembrou , de repente , de ir visitar o paizinho?
- Não sei , tive um pequeno mal-entendido com o meu ma­
rido - disse Iúlia, olhando para o boné dele .
- Pois , ele é um pouco esquisito , este seu marido . Todos os
Láptev são esquisitos . O seu marido ainda é suportável , menos
mal , mas o irmão dele , Fiódor, é um parvo absoluto .
Panaúrov suspirou e perguntou com seriedade:
- Já tem um amante?
Iúlia olhou para ele com espanto e sorriu .
- Por amor de Deus , o que está a dizer?
Numa estação grande jantaram, passava das dez . Quando o
comboio voltou a partir, Panaúrov tirou o sobretudo e o boné e
sentou-se ao lado de Iúlia.
- Sabe que é muito querida - começou ele . - Desculpe-
-me a comparação na área da gastronomia, mas lembra-me um
pepino salgado de fresco; ainda cheira, por assim dizer, à estu­
fa, mas já contém um pouco de sal e de aroma de endro . A pou­
co e pouco está a fazer-se uma mulher magnífica, divina, ele­
gante . Se esta nossa viagem tivesse acontecido , digamos, cinco
anos atrás - suspirou ele - , consideraria meu dever agradável
entrar na fileira dos seus admiradores , mas agora, infelizmente,
sou um inválido .
Sorriu com tristeza e , ao mesmo tempo , condescendência, e
abraçou-a pela cintura.
- Está doido ! - disse ela e corou; assustou-se de tal maneira
que lhe gelaram os pés e as mãos . - Deixe-se disso , Grigóri
Nikoláitch !
Três Anos 307

- De que tem medo , alminha? - perguntou ele com mei­


guice . - Que mal tem? Não está habituada, é só isso .
Para ele , quando uma mulher protestava, queria apenas dizer
que a impressionara e que gostava dele . Envolvendo a cintura de
Júlia, deu-lhe um beijo forte na face, depois na boca, com toda a
certeza de que estava a dar-lhe grande prazer. Júlia recuperou o
ânimo, perdeu o medo e a vergonha, começou a rir-se. Panaúrov
beijou-a mais uma vez e disse , pondo o cómico boné na cabeça:
- É tudo o que lhe pode dar este inválido . Um paxá turco ,
um velho bondoso , recebeu de prenda, ou talvez de herança, um
harém completo . Quando as suas mulheres jovens e bonitas for­
maram uma fila diante dele , passou ao longo delas , beijou uma
a uma e disse: «É tudo o que sou capaz de vos dar.» Eu digo o
mesmo agora.
A Júlia, tudo aquilo parecia estúpido , insólito e divertido .
Apetecia-lhe fazer traquinices . Subiu para o banco e, cantaro­
lando, tirou da prateleira uma caixa de bombons e gritou , ati­
rando-lhe um bocado de chocolate:
- Apanhe !
Ele apanhou-o; rindo muito alto , ela atirou-lhe mais um bom­
bom, depois outro , depois outro e , de cada vez que ele os apa­
nhava e metia na boca, olhava para ela com um ar suplicante , e
Júlia tinha a sensação de que nos traços e na expressão dele ha­
via muito de feminino e de infantil . E quando ela, ofegante , se
sentou no banco-cama e continuou a olhar para ele com os olhos
risonhos , Panaúrov tocou com dois dedos na face de Júlia e
disse, fingindo desgosto:
- Garota ignóbil !
- Tome - disse ela, entregando-lhe a caixa. - Não gosto
de doces.
Panaúrov comeu os bombons todos e guardou a caixa vazia
na sua mala; gostava de caixas com desenhos .
- Bom, chega de travessuras - disse. - O inválido tem de
fazer oó .
308 Anton Tchékhov

Tirou do porta-mantas o seu roupão de Bucara e a almofada,


deitou-se e cobriu-se com o roupão .
- Boa noite , pombinha ! - disse ele baixinho e suspirou
como se lhe doesse o corpo todo .
Um pouco depois já ressonava. Sem qualquer embaraço , Iú­
lia deitou-se também e adormeceu rapidamente .
Quando , na manhã seguinte , ia da estação para casa na cida­
de natal , as ruas pareciam-lhe desertas , desabitadas , a neve
parecia-lhe cinzenta, as casas pequenas , como se alguém as ti­
vesse acachapado . Pelo caminho , cruzou-se com um enterro: o
defunto ia num caixão aberto , com pendões .
«Dizem que encontrar-se com um defunto é bom agoiro» ,
pensou ela.
Nas janelas da casa onde vivera e morrera Nina Fiodorovna
havia agora os rectângulos brancos dos escritos .
De coração a desfalecer, Iúlia entrou no terreiro da sua casa e
tocou à porta. Abriu-lha uma criada desconhecida, gorda, sono­
lenta, vestindo um casaquinho quente de algodão . Subindo as
escadas , Iúlia lembrou-se de como Láptev lhe declarara ali o seu
amor; a escada, agora, estava suja de pegadas . Em cima, no cor­
redor frio , esperavam os doentes, de peliças vestidas . A emoção
dificultava-lhe o andar, fazia-lhe bater com força o coração .
O doutor, ainda mais obeso , vermelho como um tijolo , com o
cabelo desgrenhado , tomava chá. Ao ver a filha alegrou-se mui­
to, até lhe vieram as lágrimas aos olhos; Iúlia sentiu que era a
única alegria na vida do velho e, comovida, abraçou-o com for­
ça e disse-lhe que ia ficar muito tempo com ele , até à Páscoa.
Depois de mudar de roupa no seu quarto , foi tomar chá com
o pai na sala de jantar; ele , a andar de mãos nos bolsos de um
canto ao outro , cantava: «ru-ru-ru» , o que significava que esta­
va descontente com qualquer coisa.
- Tens uma vida muito divertida em Moscovo - disse ele . -
Estou contente por ti . . . Ora, um velho como eu não precisa
de nada. Não tardarei a esticar o pernil e a livrar toda a gente de
Três Anos 309

mim. É de admirar que tenha um arcaboiço tão sólido e ainda


esteja vivo ! Espantoso !
Disse ainda que tinha sete fôlegos e que era um burro velho
que toda a gente cavalgava; que lhe tinham atirado tudo para
cima do lombo: o tratamento de Nina Fiodorovna, cuidar das fi­
lhas dela, o funeral; que o bonifrate do Panaúrov não quis saber
de nada e que até lhe pedira cem rublos emprestados e não lhos
devolvia.
- Leva-me para Moscovo e mete-me lá no manicómio ! -
disse o doutor. - Sou maluco , sou uma criança ingénua porque
ainda acredito na justiça e na verdade !
Depois censurou o marido de Iúlia por falta de perspicácia:
não comprava as casas que estavam a vender-se tão vantajosa­
mente . Desta feita, Iúlia já não sentia que era a única alegria na
vida do velho . Durante o tempo em que ele esteve a dar con­
sultas e , depois , a fazer visitas aos doentes, Iúlia andou por to­
das as salas sem saber o que fazer, em que pensar. Já se desabi­
tuara da sua cidade e da casa do pai; não lhe apetecia sair à rua
nem visitar os conhecidos , e quando se lembrava das velhas
amigas e da sua vida de solteira, não sentia tristeza nem pena
do passado .
Ao princípio da noite arranjou-se bem e foi ao ofício noctur­
no . Na igreja, porém, só estava gente simples , a sua peliça mag­
nífica e o seu chapéu não causavam qualquer sensação . E pare­
cia-lhe que ocorrera qualquer mudança na igreja e nela própria.
Dantes gostava muito quando , no ofício da noite , liam os câno­
nes e o coro cantava heirmós3 8 , por exemplo , «Abrirei os lá­
bios» ; gostava de avançar lentamente , por entre a multidão , até
ao padre que estava no meio da igreja e depois sentir na fronte
os santos óleos; mas , desta vez , já só esperava o fim do ofício .
E , quando saía da igreja, estava com medo que lhe pedissem es-

3 8 A palavra é grega; na hinografia bizantina do século VII é uma estrofe poética


que junta o canto bíblico com hinos cristãos de sistema silábico diferente. (N. T.)
3 10 Anton Tchékhov

mola; seria aborrecido parar e procurar nos bolsos, até porque já


não tinha cobres nos bolsos , apenas notas .
Deitou-se cedo , adormeceu tarde . Não parava de sonhar
com uns retratos quaisquer e com o funeral que vira de ma­
nhã; tinham trazido para o terreiro o caixão aberto com o mor­
to e parado à porta, depois balançaram durante muito tempo o
caixão , batendo com ele na porta com muita força . Júlia acor­
dou com as pancadas e levantou-se de um salto , aterrorizada.
Batiam mesmo à porta , em baixo , e, além das pancadas , ou­
via-se o fio da campainha a roçar na parede , mas sem a fazer
soar.
O doutor tossiu . Ouviu-se a criada a descer as escadas , depois
a voltar para cima.
- Senhora ! - disse ela, batendo à porta. - Senhora !
- O que se passa? - perguntou Júlia.
- Um telegrama para si !
Júlia saiu , de vela na mão . Atrás da criada estava o doutor, de
sobretudo por cima da roupa interior, também com uma vela.
- A campainha está estragada - disse ele , bocejando . - Há
muito que é preciso repará-la.
Júlia abriu o telegrama e leu: «Bebemos à sua saúde . Jártsev,
Kotchevói .»
- Ah , que parvos ! - disse ela e riu-se; tomou-se-lhe o
coração leve e alegre .
Voltando para o seu quarto , lavou a cara sem fazer barulho,
vestiu-se; depois , até ao amanhecer, dedicou-se demoradamen­
te a fazer as malas . Ao meio-dia partiu para Moscovo .

12

Na Semana Santa, os Láptev foram a uma exposição à aca­


demia de pintura. Foi a fanu1ia toda, à moscovita, levando as
duas meninas , a preceptora e Kóstia.
Três Anos 311

Láptev conhecia de nome todos os pintores famosos e não


perdia uma exposição . Por vezes também ele pintava paisagens ,
no Verão , na casa de campo , considerando que tinha bom gosto
e que , se tivesse estudado , poderia ter dado um bom pintor. No
estrangeiro, gostava de passar pelas lojas de antiguidades e exa­
minar, como conhecedor, objectos antigos , dando a sua opinião ,
pagando ao preço que o antiquário queria coisas que eram de­
pois guardadas na cocheira dentro das caixas e acabavam por
desaparecer sem deixar rasto . Outras vezes , entrando numa loja
de gravuras , examinava com atenção demorada os quadros , os
bronzes , fazia observações variadas e , de repente , comprava
uma moldura de entrecasca de tília ou uma caixa de papel sem
préstimo nenhum . Em casa tinha quadros de grandes formatos
mas fracos; quanto aos bons , estavam em sítios desadequados .
Por várias vezes lhe aconteceu pagar caro por objectos que se
verificava depois serem falsificações grosseiras . Era curioso
que ele , homem tímido, ficasse muito ousado e convencido nas
exposições de pintura. Porquê?
Iúlia Serguéevna olhava para os quadros como o marido , atra­
vés do punho entreaberto ou do óculo , e causava-lhe admiração
que as pessoas representadas nos quadros parecessem vivas e as
árvores verdadeiras; apenas não compreendia que houvesse tan­
tos quadros idênticos, parecendo-lhe que todo o objectivo da ar­
te consistiria em ver nos quadros, quando se olhavam pelo pu­
nho entreaberto , as pessoas e os objectos a realçarem-se como
verdadeiros .
- É a floresta de Chíchkin - explicava-lhe o marido. - Ele
pinta sempre a mesma coisa . . . Presta atenção: esta neve cor de
lilás não existe . . . E o rapaz , aqui , tem o braço esquerdo mais
curto do que o direito .
Quando todos se sentiram cansados e Láptev foi procurar
Kóstia para irem para casa, Iúlia parou em frente de uma pe­
quena paisagem e pôs-se a olhar com indiferença para ela. No
primeiro plano havia um riacho atravessado por uma ponte de
312 Anton Tchékhov

troncos , na outra margem havia uma vereda que desaparecia nas


ervas escuras , depois um campo , depois , à direita, um pedaço de
floresta e uma fogueira na orla: pelos vistos, o pastoreio noctur­
no . Ao longe apagava-se o ocaso .
Iúlia imaginou-se a atravessar a ponte , depois a andar pela ve­
reda, cada vez mais longe , rodeada de silêncio , apenas cortado
pelos gritos dos codornizões sonolentos, em frente clareava a
fogueira. E, por qualquer razão , começou a parecer-lhe que ha­
via já muito tempo que via, com frequência, aquelas mesmas
nuvens a estenderem-se pela parte vermelha do céu , e aquela
floresta, e aquele campo; sentiu-se solitária e apeteceu-lhe mui­
to meter-se naquela vereda, e mais além, no lugar do ocaso , ja­
zia o reflexo de qualquer coisa eterna, que não era deste mundo .
- Que bela pintura ! - disse , espantada por ter, assim de re­
pente , compreendido a tela. - Olha, Aliocha ! Não estás a sen-
. ?. . . . Q ue paz '.
trr
Tentava explicar porque gostava tanto daquela paisagem, mas
nem o marido nem Kóstia a compreendiam . Continuava a olhar
para a paisagem com um sorriso triste , e o facto de os outros não
verem nela nada de especial perturbava-a; depois pôs-se a andar
de novo pelas salas e a ver os quadros , com ânsia de os com­
preender, e deixou de lhe parecer que havia muitos quadros
idênticos na exposição . Quando , de volta a casa, atentou pela
primeira vez no quadro grande pendurado na parede da sala por
cima do piano , sentiu uma hostilidade por ele e disse:
- Que prazer nos pode dar um quadro destes em casa?
Depois disso , as cornijas douradas , os espelhos venezianos
com flores e quadros como aquele que estava por cima do pia­
no , assim como os raciocínios do marido e de Kóstia sobre a
arte , causavam-lhe tédio e desgosto , por vezes ódio até .
A vida decorria como de costume , dia após dia, sem prome­
ter nada de especial . A temporada teatral acabara, chegava a es­
tação quente . O tempo estava sempre magnífico . Um dia, de
manhã, os Láptev decidiram ir ao tribunal de circunscrição ou-
Três Anos 313

vir Kóstia que , designado pelo tribunal , era advogado de defesa


de alguém. Atrasaram-se em casa e, quando chegaram ao tribu­
nal , as testemunhas já tinham começado a ser inquiridas . O réu
era um soldado reservista, acusado de assalto por arrombamen­
to . Havia muitas testemunhas , lavandeiras ; segundo os depoi­
mentos delas , o acusado visitava muitas vezes a patroa das mu­
lheres , dona da lavandaria; na festa do Levantamento da Cruz 3 9
ele chegou à noite e pôs-se a pedir dinheiro para matar a ressa­
ca, mas ninguém lho deu; foi-se então embora mas , uma hora
depois , voltou com cerveja e pão de mel com menta para as ra­
parigas . Beberam e cantaram quase até ao amanhecer, e só de
manhã se aperceberam de que a fechadura do sótão estava re­
bentada e que tinha desaparecido a roupa: três camisas de ho­
mem, uma saia e dois lençóis . Kóstia perguntava a cada teste­
munha, com ironia: nessa festa, não bebeu da cerveja que o
acusado levou? Queria por certo insinuar que as lavandeiras se
tinham roubado a si mesmas . Proferia as suas alegações sem
qualquer emoção , olhando com ar severo para os jurados .
Explicou em que consistia um roubo com assalto por arrom­
bamento e em que consistia um simples roubo . Falava de forma
pormenorizada, convincente , revelando a extraordinária capaci­
dade de discursar prolixamente e num tom sério daquilo que já
toda a gente sabia havia muito . E era difícil perceber-se o que
ele pretendia exactamente . Do seu longo discurso , podia o jura­
do tirar apenas uma conclusão: «houve arrombamento mas não
houve roubo porque a roupa foi vendida pelas próprias lavan­
deiras para pagar o bródio em que participaram; ora, se houve
roubo , foi sem arrombamento» . Parece que disse o que era ne­
cessário , já que o seu discurso não só comoveu os jurados e o
público como lhes agradou muito . Quando foi pronunciada a

3 9 Pela tradição, festa em memória da descoberta da cruz em que , supostamente,


Jesus Cristo foi crucificado; a cruz foi erguida para ser venerada pelos fiéis. A fes­
ta remonta talvez ao século VI. É celebrada em Setembro . (N. T.)
314 Anton Tchékhov

sentença absolutória, Iúlia acenou a Kóstia com a cabeça e , de­


pois, apertou-lhe a mão com força.
Em Maio , os Láptev mudaram-se para a sua casa de campo
em Sokólniki . Iúlia já estava grávida.

13

Passou mais de um ano . Em Sokólniki , perto da linha do


caminho-de-ferro Iaroslávskaia, estavam sentados na erva Iúlia
e Iártsev; um pouco mais longe estava Kotchevói , deitado com
as mãos sob a nuca, olhando para o céu . Os três já se tinham far­
tado de passear e esperavam que passasse o comboio suburba­
no das seis , para voltarem para casa e tomarem chá.
- A natureza fez as coisas assim: as mães vêem nos filhos qual­
quer coisa de extraordinário - dizia Iúlia. - A mãe fica ao lado
do berço horas a fio, olhando para as orelhas , para os olhinhos,
para o narizinho da criança, admirando-a. Se alguém lhe beija o fi­
lhinho, pensa que o fez com grande prazer. E não fala de mais
nada, só do filho . Eu conheço este fraco das mães e controlo-me,
mas� francamente, a minha Ólia é extraordinária. O olhar dela
quando está a mamar! Como ela se ri ! Só tem oito meses, mas , ju­
ro, nem em crianças de três anos eu vi uns olhos tão inteligentes .
- Diga-me uma coisa, a propósito - perguntou Iártsev - ,
de quem gosta mais: do marido ou da filha?
Iúlia encolheu os ombros.
- Não sei - disse ela. - Nunca amei muito o meu marido
e , para falar verdade , a Ólia é o meu primeiro amor. O senhor
sabe que não me casei com o Aleksei por amor. Dantes eu era
estúpida, sofria, estava sempre a pensar que tinha estragado a
vida, a minha e a dele , mas agora vejo que não é necessário o
amor, tudo isso é um disparate .
- Mas , se não é o amor, que sentimento a liga ao seu marido?
Porque vive com ele?
Três Anos 315

- Não sei . . . Qualquer coisa, talvez o hábito . Respeito-o , te­


nho saudades quando ele está fora durante muito tempo , mas
isso não é amor. É um homem inteligente , honesto , o que já é
suficiente para a minha felicidade . É muito bondoso , simples . . .
- O Aliocha é inteligente , o Aliocha é bondoso - disse Kós­
tia, levantando preguiçosamente a cabeça - , mas , querida, para
saber que é inteligente , bondoso e interessante , ainda precisa de
comer muita rasa de sal com ele . . . E o que aproveita da bonda­
de e do intelecto dele? Dá-lhe quanto dinheiro a senhora quiser,
isso dá, mas quando é preciso mostrar carácter, fazer frente a
uma desfaçatez , por exemplo , ele fica confuso , perde o ânimo .
Pessoas como o seu querido Alexis são gente maravilhosa, mas
para a luta não prestam . Aliás , de uma maneira geral , não pres­
tam para nada.
Apareceu finalmente o comboio . Da chaminé jorrava vapor
de um cor-de-rosa puro que se espalhava sobre a floresta, e duas
janelas da última carruagem brilharam de repente ao sol com
tanta força que fazia doer os olhos .
- Vamos tomar chá ! - disse Iúlia Serguéevna, levantando-se .
Ultimamente , ela engordara e arranjara um andar de matrona,
preguiçoso .
- De qualquer maneira, sem amor nada feito - disse Iárt­
sev, que ia atrás dela. - Limitamo-nos a ler e a falar sobre o
amor, mas amamos pouco , e isso , francamente , não é bom.
- Tudo disparates , Ivan Gavrílitch - disse Iúlia. - Não é
nisso que está a felicidade .
Tomavam chá no jardinzinho de resedas , matíolas e , desabro­
chando , os primeiros gladíolos . lártsev e Kotchevói viam na
cara de Iúlia Serguéevna que ela estava a viver um tempo feliz
de paz de espírito e equilíbrio , que não precisava de mais nada
além do que já tinha, e, por reflexo , eles próprios sentiam a al­
ma em paz e o prazer de viver. Os pinheiros estavam lindos ,
com um cheiro a resina delicioso como nunca, as natas eram sa­
borosíssimas , Sacha era uma menina esperta e boa . . .
316 Anton Tchékhov

Depois do chá, Jártsev sentou-se ao piano e cantou romanças;


Júlia e Kotchevói ouviam-no em silêncio e Júlia apenas saía de
vez em quando para espreitar a bebé e ver a Lida que , havia já
dois dias , estava com febre alta e não comia nada.
- «Minha amiga, minha tema amiga . . » . -cantava Jártsev. -
Não , meus senhores , nem que me matem, não percebo o que têm
contra o amor ! - disse ele , sacudindo a cabeça. - Eu, se não
estivesse ocupado quinze horas por dia, apaixonava-me com
certeza.
O jantar foi servido no terraço; o tempo era tépido e calmo ,
mas Júlia agasalhava-se com o xaile e queixava-se da humida­
de . Quando escureceu , sentiu-se maldisposta, toda a tremer, e
pedia aos convidados que se deixassem estar; servia-lhes o vi­
nho e, depois da refeição , mandou trazer conhaque , para que
eles não se fossem embora. Não queria ficar sozinha com as
crianças e os criados .
- Nós , as veraneantes daqui , estamos a planear um espectácu­
lo para as crianças - disse ela. - Já temos tudo , o teatro e os ac­
tores , falta a peça. Mandaram-nos umas vinte peças , mas não há
uma que preste . O senhor, que gosta de teatro e percebe de histó­
ria - dirigiu-se a Jártsev - , escreva uma peça histórica para nós .
- Pode ser, porque não?
Os convidados acabaram com o conhaque e começaram a
aprontar-se para se irem embora. Já passava das dez e isso , no
campo , era considerado tarde .
- Que escuridão , está escuro como breu ! - dizia Júlia,
acompanhando-os até ao portão . - Nem sei como vão enxergar
o caminho , meus senhores . Mas que frio !
Agasalhou-se melhor e voltou para casa.
- E o meu Aleksei , pelos vistos, está a jogar às cartas em
qualquer lado ! - gritou ela. - Boa noite !
Com os olhos afeitos à luz da sala, Jártsev e Kóstia não viam
nada. Tacteando como cegos, chegaram à linha do comboio e
atravessaram-na.
Três Anos 3 17

- Não se vê nada, c ' um raio ! - disse Kóstia na sua voz de


baixo , parando e olhando para o céu . - Mas as estrelas , as es­
trelas são como moedinhas novas ! Gavn1itch !
- O que é? - respondeu Iártsev de qualquer lado .
- Estou a dizer que não se vê nada. Onde está?
Iártsev, assobiando , aproximou-se dele e pegou-lhe no braço .
- Eh , veraneantes ! - gritou de repente Kóstia a plenos pul-
mões . - Foi apanhado um socialista !
Quando estava borracho ficava sempre muito inquieto , grita­
va, implicava com os polícias e os cocheiros , cantava, ria-se
como um doido .
- Natureza, vai pro raio que te parta ! - gritou .
- Vá lá, pronto - acalmava-o Iártsev. - Deixe-se disso ,
por favor.
Um pouco depois os amigos , já com a vista habituada à es­
curidão , começaram a enxergar as silhuetas altas dos pinheiros
e dos postes telegráficos . Das estações de Moscovo chegavam
de vez em quando os apitos dos comboios , os fios do telégrafo
vibravam lastimosamente , mas a floresta não bulia e sentia-se
naquele silêncio qualquer coisa de orgulhoso , de forte , de mis­
tério; os cumes dos pinheiros pareciam tocar no céu . Os amigos
lá encontraram a sua vereda e meteram por ela. Aqui , a escuri­
dão era completa e somente pela faixa comprida do céu salpica­
da de estrelas e pela terra batida sob os pés eles sabiam que es­
tavam a andar por uma alameda. Iam lado a lado , em silêncio ,
com a constante sensação de que vinha alguém ao seu encontro .
A embriaguez dissipara-se . Passou pela cabeça de Iártsev que ,
naquela floresta, talvez voassem agora as almas dos czares ,
boiardos e patriarcas de Moscovo; quis dizê-lo a Kóstia mas
conteve-se .
Quando chegaram às portas da cidade despontava no céu uma
claridade fraca. Continuando em silêncio , lártsev e Kotchevói
seguiam por uma calçada com casas de campo modestas aqui e
ali , tabernas , armazéns florestais ; sob a ponte da linha de liga-
318 Anton Tchékhov

ção envolveu-os uma humidade agradável misturada com o


cheiro de tília, depois abriu-se-lhes diante dos olhos uma rua
larga e comprida onde não se via vivalma nem luzes . . . Quando
chegaram ao lago Vermelho já amanhecia.
- Moscovo é uma cidade que ainda vai ter de sofrer muito -
disse Iártsev, olhando para o Mosteiro Alekséevski .
- O que quer dizer com isso?
- Nada. Simplesmente , gosto de Moscovo .
Iártsev e Kóstia tinham nascido em Moscovo , adoravam a ci­
dade e, involuntariamente , tinham uma atitude de hostilidade
para com todas as outras cidades; Moscovo , para eles , era a ci­
dade maravilha, e a Rússia um país magnífico . Na Crimeia, no
Cáucaso , no estrangeiro sentiam tédio , desconforto , para eles na­
da havia de mais agradável e sadio do que o clima acinzentado
de Moscovo . Dias em que a chuva fria bate nas janelas e o
crepúsculo cai cedo , em que as paredes dos prédios e das igre­
jas ficam pardas e tristes , dias em que não sabemos o que vestir
para sair à rua - esses dias excitavam-nos agradavelmente .
Por fim, ao pé da estação , tomaram um coche .
- É verdade , seria bom escrever uma peça histórica -
disse Iártsev - , mas sem esses Liapunov e esses Godunov, mas
sobre os tempos de Iaroslav ou do príncipe Vladímir V sevolo­
dovitch4o . . . Odeio todas as peças históricas russas , menos o mo­
nólogo de Pímen4 1 . Quando estudamos uma fonte histórica e
mesmo quando lemos os manuais de história russa, dá-nos a
ideia de que na Rússia é tudo incrivelmente talentoso , genial e
interessante , mas quando vejo no teatro uma peça histórica, a vi­
da russa começa a parecer-me medíocre , doentia, nada original .

40 Prokópi Liapunov (?- 1 6 1 1 ) , personalidade política russa, organizador das milí­


cias populares na luta contra a intervenção polaca. Boris Godunov ( 1 552- 1 605),
czar russo. Vladímir V sevolodovitch ( 1053- 1 1 25), grão-príncipe de Kíev, estadista,
cabo-de-guerra e escritor. (N. T.)
4 1 Trata-se do monólogo do cronista Pímen na tragédia Boris Godunov de Alek­
sandr Púchkin. (N. T.)
Três Anos 3 19

Perto da Rua Dmítrovka, os amigos despediram-se e Iártsev


seguiu no coche até sua casa na Rua Nikítskaia. Dormitava, ba­
loiçando a cabeça, sempre a pensar na peça. Fantasiava um ter­
rível alarido, o tinir de ferros, gritos numa língua incompreensí­
vel , talvez em calmuque; e uma aldeia envolta em chamas , e , à
volta, as florestas rosadas pela claridade do fogo e cobertas de
geada, bem visíveis até longe , com tanta nitidez que é possível
distinguir-se o mais pequeno abeto; homens selvagens , a cavalo
e a pé , correm pela aldeia, rubros das chamas , eles e os cavalos .
«São os Pólovtsi42 » - pensa Iártsev.
Um deles - velho , assustador, com a cara ensanguentada,
amarra à sela uma rapariga de tez branca, russa. O velho grita
desvairadamente qualquer coisa, e a rapariga tem um olhar tris­
te , inteligente . . . Iártsev sacudiu a cabeça e acordou .
- «Minha amiga, minha tema amiga . . . » - cantou .
Pagou ao cocheiro e, mesmo enquanto já subia a escada para
o seu apartamento , não conseguia cair em si , imaginando sem­
pre que as chamas saltavam para as árvores , que a floresta cre­
pitava e fumegava; um javali enorme , louco de medo , corre pe­
la aldeia . . . E a rapariga, atada à sela, sempre a olhar. . .
Quando entrou na sala j á era dia claro . Em cima do piano , ao
lado das partituras , extinguiam-se duas velas . No divã estava Ras­
súdina, de vestido preto cingido por uma faixa, com um jornal nas
mãos , dormindo profundamente . Fartara-se de tocar, pelos vistos ,
enquanto esperava por Iártsev, e adormecera de cansaço .
«Ena, como devia estar cansada ! » - pensou ele .
Tirou-lhe o jornal das mãos com muito cuidado , cobriu-a
com uma manta, apagou o que restava das velas e foi para o seu
quarto de dormir. Ao deitar-se , ainda pensava na peça histórica
e continuava a não lhe sair da cabeça a melodia: «Minha amiga,
minha tema amiga . . . »

42 Nome que os russos davam a um povo nómada de língua do grupo turco que
chegou às estepes da margem oriental do Volga, junto ao mar Negro . (N. T.)
320 Anton Tchékhov

Dois dias depois passou por sua casa o Láptev, por um minu­
to , para lhe dizer que Lídia tinha difteria e que Iúlia Serguéev­
na e a bebé tinham sido contagiadas . Cinco dias mais tarde
chegou-lhe a notícia de que Lídia e Iúlia Serguéevna estavam a
melhorar mas que a bebé morrera, tendo os Láptev fugido da ca­
sa de campo para a cidade .

14

Láptev já não gostava de ficar muito tempo em casa. Quanto


à mulher, ia muitas vezes para o anexo , com o pretexto de que
ia ajudar as miúdas no estudo , mas Láptev bem sabia que não
era isso , que ela ia chorar para junto de Kóstia. Houve requiem
ao nono dia, ao vigésimo , depois ao quadragésimo e , de cada
vez , era preciso ir ao cemitério de Alekséevskoe assistir e sofrer
a angústia, durante todo o dia, de pensar apenas naquela infeliz
criança e dizer banalidades à mulher para a consolar. Já poucas
vezes ia ao «celeiro» , ocupando-se apenas em obras de carida­
de , inventando afazeres e preocupações , contente quando , com
um pretexto insignificante , podia andar todo o dia fora, pela ci­
dade . Nos últimos tempos fazia planos para ir ao estrangeiro es­
tudar a organização dos albergues noctumos , e era esta a ideia
que mais o distraía.
Um dia outonal . Iúlia tinha acabado de sair, para chorar no
anexo . Láptev estava no gabinete , deitado no divã, inventando
aonde poderia ir. Foi precisamente neste momento que Piotr lhe
anunciou a chegada de Rassúdina. Láptev, contentíssimo, saltou
do divã e foi ao encontro da inesperada visita, a velha amiga que
quase esquecera. Rassúdina não tinha mudado desde a última
vez em que a vira, estava na mesma.
- Polina ! - disse ele , estendendo as mãos para ela. - Há
tanto tempo que a não vejo ! Se soubesse como estou contente
por vê-la ! Bem-vinda !
Três Anos 32 1

Rassúdina cumprimentou-o com o seu aperto (puxão) de mão


e , sem tirar o casaco nem o chapéu , entrou no gabinete e sen­
tou-se .
- Vim só por um minuto - disse ela. - Não tenho tempo pa­
ra falar de ninharias . Faça o favor de se sentar e ouvir. Se está
contente ou não por me ver, tanto me faz, porque eu não dou um
tostão furado pela atenção condescendente que me prestem os ho­
mens . Ora, se eu vim cá foi porque passei antes por cinco sítios e
em todos recusaram a minha pretensão; entretanto , o assunto
é inadiável . Oiça - continuou ela, olhando-o nos olhos - , há
cinco estudantes meus conhecidos , gente limitada e tola mas
indubitavelmente pobre , que não pagaram as propinas na facul­
dade e, por isso , vão expulsá-los . A sua riqueza impõe-lhe a
obrigação de ir imediatamente à universidade pagar por eles .
- Com grande prazer, Polina.
- Aqui estão os nomes deles - disse Rassúdina, entregan-
do um papel a Láptev. - Vá agora mesmo , tem tempo de se de­
liciar mais tarde com a felicidade familiar.
Neste momento ouviu-se um barulho leve atrás da porta: por
certo o cão a coçar-se . Rassúdina corou e saltou do lugar.
- A sua Dulcineia está à escuta ! - disse ela. - É nojento !
Láptev ofendeu-se por Iúlia.
- Ela não está aqui , está no anexo - disse ele . - E não
fale dela assim. Morreu-nos a filha, ela está num sofrimento ter­
rível .
- O senhor pode consolá-la - sorriu Rassúdina, voltando a
sentar-se - , ainda pode ter mais uma dezena. Para fazer filhos ,
a quem faltará intelecto ?43
Láptev lembrou-se de que já por várias vezes tinha ouvido
aquilo, ou algo parecido , há muito tempo , e sentiu o sopro da
poesia do passado , da vida livre de solteiro, quando se sentia

43 Citação da comédia A D esgraça de Ser Intelig ente de Aleksandr Griboiédov


( 1 795- 1 829) . (N. T.)
322 Anton Tchékhov

jovem e podia fazer o que quisesse , quando ainda não existia o


seu amor por Iúlia e a memória da filha.
- Vamos juntos - disse ele , espreguiçando-se .
Na universidade , Rassúdina ficou à espera no portão enquanto
Láptev ia à secretaria; voltou pouco depois e entregou cinco
recibos a Rassúdina.
- Aonde vai agora?
- A casa do Iártsev.
- Vou consigo .
- O senhor não vai deixá-lo trabalhar.
- Deixo , a sério que deixo ! - disse ele e olhou para ela com
súplica.
Ela tinha um chapeuzinho preto com escumilha e um casaco
muito curto e usado , de bolsos largos . O seu nariz parecia ainda
mais comprido e, apesar do frio da rua, o seu rosto estava exan­
gue . Agradava a Láptev ir assim atrás dela, obedecer-lhe , ouvi­
-la a resmungar. Andava e pensava nela: que força interior de­
via ter esta mulher para que , sendo tão feia, angulosa, inquieta
e incapaz de se vestir decentemente , ainda assim fosse atraente .
Entraram em casa de Iártsev pela porta de serviço , onde foram
recebidos na cozinha pela cozinheira, uma velha asseada com ca­
racóis grisalhos; ela confundiu-se muito , sorriu melifluamente ,
tomando-se-lhe o rosto miúdo como um bolinho , e disse:
- Façam o favor de entrar.
Iártsev não estava. Rassúdina sentou-se ao piano e começou
a tocar exercícios enfadonhos e difíceis , dando ordem a Láptev
para que não a incomodasse . Ele assim fez e , para não a distrair
com conversas , pegou no Véstnik Evr6pi44 e pôs-se a folheá-lo .
Depois de tocar duas horas - era a sua regra diária - , Rassú­
dina comeu qualquer coisa na cozinha e saiu para dar aulas .
Láptev leu a continuação de um romance qualquer, depois , sem

44 «Noticiário da Europa» , revista mensal político-literária de tendência liberal


burguesa, editada em Petersburgo entre 1 866 e 1 9 1 8 . (N. T.)
Três Anos 323

se aborrecer, deixou-se ficar muito tempo sentado , muito con­


tente por já estar atrasado para o almoço em casa.
- Ah, ah , ah ! - ouviu-se o riso de Iártsev que entrou , sadio ,
enérgico , de faces coradas , envergando uma casaca nova com
botões claros . - Ah , ah , ah !
Os amigos almoçaram juntos . Depois Láptev deitou-se no di­
vã, Iártsev sentou-se a seu lado e acendeu um cigarro . Caía o
crepúsculo .
- Pelos vistos , começo a envelhecer - disse Láptev. -
Desde que morreu a minha irmã Nina, penso muitas vezes na
morte .
Falaram da morte , da imortalidade da alma, de como seria
bom a pessoa poder ressuscitar e, depois , voar algures para Mar­
te , ser eternamente ociosa e feliz e , sobretudo , ter um modo de
pensar especial , diferente do terreno .
- Não quero morrer - disse Iártsev baixinho . - Não há fi­
losofia que consiga reconciliar-me com a morte , e vejo a morte
simplesmente como um desaparecimento . Apetece-me viver.
- Gosta então da vida, Gavrílitch?
- Sim, gosto .
- Quanto a mim, neste particular, não chego a compreender-
-me . Ora tenho uma disposição sombria, ora sou indiferente .
Sou tímido , pouco seguro de mim, tenho uma consciência co­
barde , não consigo adaptar-me à vida, tomar-me senhor da mi­
nha vida. Há quem só diga asneiras e só faça disparates e seja
feliz da vida, ora eu , por vezes , faço o bem conscientemente e,
nesses momentos, o que sinto ou é inquietação ou uma perfeita
indiferença. Explico tudo isto , Gavn1itch , pelo facto de eu ser
um escravo , neto de servo . Antes que nós , a ralé , se meta ao ver­
dadeiro caminho , cairá muita gente da nossa laia !
- Isso está tudo muito bem, amigo - disse Iártsev e suspi­
rou . - Tudo isso mostra, mais uma vez, como é rica e variada
a vida russa ! Sabe , cada vez me convenço mais , a cada dia que
passa, que vivemos na véspera de uma grandiosa festa, e eu gos-
324 Anton Tchékhov

taria de viver até ela acontecer, para também participar. Acredi­


te ou não , penso que está a formar-se agora uma geração exce­
lente . Quando dou aulas aos jovens , sobretudo às raparigas ,
delicio-me . Crianças maravilhosas !
Iártsev foi para o piano e tocou um acorde .
- Sou químico , raciocino em termos de química, hei-de
morrer químico - continuou Iártsev. - Mas sou um ávido , te­
nho medo de morrer sem saciar a fome; não me chega a quími­
ca, agarro-me à história da Rússia, à história da arte , à pedago­
gia, à música . . . Um dia, no Verão , a sua mulher pediu-me para
eu escrever uma peça histórica, e agora só me apetece escrever,
escrever; acho que poderia ficar três dias sentado a escrever sem
me levantar. As imagens atormentam-me , dentro da minha ca­
beça é um atropelo , sinto o sangue a pulsar-me dentro do cére­
bro . De modo nenhum quero tomar-me um homem extraordi­
nário , nem criar uma grande obra, tenho somente vontade de
viver, de sonhar, de ter esperança, de não perder nada . . . A vida
é curta, meu caro , temos de a viver da melhor maneira.
Depois desta conversa entre amigos , que durou até à meia­
-noite , Láptev passou a visitar Iártsev quase todos os dias . Iárt­
sev atraía-o . Normalmente , chegava ao fim da tarde , deitava-se
e esperava com paciência que ele chegasse , sem sentir ponta de
aborrecimento . Iártsev, depois de voltar do serviço e comer,
sentava-se a trabalhar, mas bastava Láptev fazer-lhe uma per­
gunta, encetar uma conversa, para não se interessar mais pelo
trabalho; à meia-noite os amigos despediam-se , muito agrada­
dos um com o outro .
Esta vida, porém, não continuou assim muito tempo . Uma
ocasião , quando chegou a casa de Iártsev, Láptev encontrou lá
Rassúdina, sozinha, executando ao piano os seus exercícios .
Olhou para ele com frieza, quase hostilidade , e perguntou , sem
lhe estender a mão:
- Diga-me , por favor, isto vai acabar alguma vez?
- Isto o quê? - perguntou Láptev, perplexo .
Três Anos 325

- O senhor mete-se aqui todas as tardes e não deixa Iártsev


trabalhar. O Iártsev não é um comerciantezeco , é um cientista, e
cada minuto da sua vida é precioso . Tem de compreender e ,
pelo menos , dar mostras d e alguma delicadeza !
- Se a senhora acha que incomodo - disse Láptev, resigna­
do e embaraçado - , acabo com estas minhas visitas .
- Ainda bem. Vá-se então embora, senão ele chega e encon­
tra-o aqui .
O tom em que isto foi dito e os olhos indiferentes de Rassú­
dina acabaram por embaraçá-lo definitivamente . Polina, além
do desejo de o escorraçar o mais depressa possível , já não tinha
qualquer outro sentimento por ele - e que diferente era isso do
amor passado ! Láptev saiu sem lhe apertar a mão, com a espe­
rança de que ela o chamasse , lhe dissesse para voltar, mas logo
se voltaram a ouvir as escalas , e ele compreendeu que já era um
estranho para ela.
Dois dias depois , Iártsev visitou Láptev para passarem o fim
de tarde juntos .
- Tenho uma novidade - disse ele e riu-se. - Polina Ni­
koláevna mudou-se de vez para minha casa. - Iártsev atrapa­
lhou-se um pouco e continuou , baixando a voz: - Porque não?
É claro que não estamos apaixonados um pelo outro , mas acho
que . . . isso não tem importância. Estou contente por poder dar­
-lhe abrigo e sossego , e a possibilidade de deixar de trabalhar se
adoecer; quanto a ela, pensa que, junta comigo , haverá mais or­
dem na minha vida e que eu , sob a influência dela, me tornarei
um grande cientista. Ela pensa assim . Que pense . No Sul há um
provérbio: sonho a sonho fica o povo rico . Ah, ah, ah !
Láptev ficou calado . lártsev passeou pelo gabinete , olhou
para os quadros que já tinha visto mil vezes e disse , com um
suspiro:
- Pois é , meu amigo . Sou três anos mais velho do que o se­
nhor, já é tarde para pensar num verdadeiro amor, e, no fundo ,
uma mulher como Polina Nikoláevna, para mim, é um achado;
326 Anton Tchékhov

é claro que viverei bem com ela até à velhice , mas , cos diabos ,
parece que ando sempre com nostalgia de qualquer coisa, ape­
tece-me sempre qualquer coisa, parece que estou sempre pros­
trado num vale do Daguestão a sonhar com o baile45 . Resumin­
do , o homem nunca está contente com o que tem .
Foi para a sala de estar e , como se nada fosse , pôs-se a can­
tar romanças , enquanto Láptev, no seu gabinete , estava senta­
do com os olhos fechados e tentava compreender o porquê da­
quela união de Rassúdina com Iártsev. Pensava tristemente que
as afeições sólidas e para sempre não existem , e sentia desgos­
to por Polina Nikoláevna se ter juntado a Iártsev, e desgosto
por si , por o seu sentimento pela mulher já não ser o que era
dantes .

15

Láptev estava sentado no cadeirão e lia, baloiçando-se;


Júlia também estava no gabinete e também lia. Não tinham
nada de que falar um com o outro , estavam calados desde ma­
nhã . De vez em quando , Láptev olhava para ela por cima do
livro e pensava: casar por amor ou sem amor - qual é a dife­
rença? E os tempos em que tinha ciúmes , em que se emocio­
nava, em que sofria, pareciam-füe agora muito longínquos . Já
tinha ido ao estrangeiro e descansava agora da viagem; pla­
neava nova viagem para a Primavera, à Inglaterra, de que gos­
tara muito .
Quanto a Júlia Serguéevna, já se habituara à sua desgraça, já
não ia para o anexo chorar. No Inverno que corria já não ia às
lojas , nem aos teatros , nem aos concertos , ficava em casa. Não
gostava de salas grandes , por isso se metia no gabinete do ma­
rido ou na saleta onde tinha os seus ícones , recebidos em dote ,

45 Alusão à poesia «Sonho» de Mikhail Lérmontov ( 1 8 14- 1 841). (N. T.)


Três Anos 327

e onde pendurara aquela paisagem de que gostara tanto na ex­


posição . Quase não gastava dinheiro, as suas despesas eram
agora tão pequenas como dantes em casa do pai .
O Inverno passava sem alegria. Em Moscovo , por todo o
lado se jogava às cartas e , quando se inventava outro qualquer
divertimento, como cantar, recitar, desenhar, o resultado era ain­
da mais enfadonho . Ora, como em Moscovo havia poucas pes­
soas dotadas e em todos os recitais participavam sempre os mes­
mos cantores e declamadores , muitos fartaram-se do próprio
prazer da arte que estava a transformar-se numa espécie de obri­
gação maçadora e monótona.
Além disso , em casa dos Láptev não se passava um só dia sem
amarguras . O velho Fiódor Stepánitch via muito mal e já não ia
ao «celeiro» (os oftalmologistas diziam que não tardaria a ficar
cego); Fiódor, por qualquer razão , também deixou de ir ao «ce­
leiro» , passando a vida em casa a escrever qualquer coisa. Pa­
naúrov obteve a transferência para outra cidade e foi promovido
a conselheiro de Estado efectivo , vivendo agora no hotel Dres­
den e aparecendo quase todos os dias para pedir dinheiro a Láp­
tev. Kisch saíra finalmente da universidade e , esperando que os
Láptev lhe arranjassem uma colocação qualquer, ficava dias a
fio em casa deles, contando histórias muito compridas e sem in­
teresse . Tudo isso era irritante e cansativo , tomava a vida quoti­
diana desagradável .
Piotr entrou no gabinete e anunciou uma senhora desconhecida.
No cartão-de-visita que entregou a Láptev estava escrito: «Jo­
sefina Iossifovna Milan .»
Iúlia Serguéevna levantou-se preguiçosamente e saiu , co­
xeando de leve porque tinha uma perna dormente . A senhora
apareceu à porta, magra, muito pálida, toda de preto , as sobran­
celhas escuras . Apertou as mãos contra o peito e suplicou:
- Mossiú Láptev, salve as minhas filhas !
O tinir das pulseiras e o rosto manchado de pó-de-arroz já
eram familiares a Láptev: reconheceu-a da casa em que almo-
328 Anton Tchékhov

çara um dia, muito inconvenientemente , antes do seu casamento.


Era a segunda mulher de Panaúrov.
- Salve as minhas filhas ! - repetiu ela, e o rosto tremente
tomou-se-lhe de súbito velho e humilde , e os olhos ficaram-lhe
vermelhos . - Só o senhor nos pode salvar, gastei o último di­
nheiro para vir a Moscovo falar com o senhor! As minhas filhas
vão morrer de fome !
Fez o movimento de quem vai ajoelhar-se . Láptev assustou-se
e agarro u-lhe nos braços .
- Sente-se , sente-se . . . - murmurava ele , sentando-a. - Por
favor. . .
- Não temos dinheiro nem para pão - disse ela. - Grigó­
ri Nikoláitch vai-se embora para o novo serviço e não nos quer
levar com ele , nem a mim nem às crianças , e fica com o dinhei­
ro todo que o senhor nos manda, tão generoso , só para ele .
O que vamos fazer? O quê? Oh , pobres das minhas filhas , des­
graçadas !
- Acalme-se , peço-lhe . Vou dar ordens no escritório para
que este dinheiro seja mandado em nome da senhora.
Ela desfez-se em pranto , depois acalmou-se , e Láptev reparou
que as lágrimas lhe tinham deixado sulcos nas faces e que era
visível o seu buço crescido .
- Mossiú Láptev é infinitamente magnânimo . Mas seja o
nosso anjo, a nossa boa fada, convença Grigóri Nikoláitch a não
me abandonar, a levar-me com ele . Amo-o , amo-o loucamente ,
ele é a minha felicidade .
Láptev deu-lhe cem rublos e prometeu que falaria com Pa­
naúrov e , quando a acompanhava até ao vestíbulo , ia sempre
com medo que ela chorasse ou se ajoelhasse .
A seguir, chegou Kisch. Depois , Kóstia com uma máquina fo­
tográfica. Kóstia, ultimamente , apaixonara-se pela fotografia e
todos os dias , várias vezes , tirava fotos a toda a gente da casa,
um passatempo que lhe dava muitos desgostos , a ponto de ter
emagrecido .
Três Anos 329

Antes do chá da tarde , chegou Fiódor. Sentou-se num canto


do gabinete, abriu um livro e , durante muito tempo , ficou a
olhar para a mesma página, ao que tudo indicava sem ler. De­
pois tomou chá, interminavelmente; ficou muito vermelho . Na
sua presença, Láptev sentia um peso na alma, até o silêncio do
irmão lhe era desagradável .
- Podes dar os parabéns à Rússia pelo nascimento de um
novo publicista - disse Fiódor. - É que , fora de brincadeiras ,
dei à luz um artiguelho , meu irmão , a minha primeira experiên­
cia literária, por assim dizer, e trouxe-o para to mostrar. Lê , que­
rido , e diz da tua justiça. Mas sinceramente .
Tirou do bolso um caderno e entregou-o ao irmão . O artigo
intitulava-se «Alma russa» e era aborrecido , escrito num estilo
cinzentão , naquela forma em que , por norma, escrevem as pes­
soas sem talento mas secretamente ambiciosas . A ideia principal
do texto era a seguinte: um intelectual tem direito a não acredi­
tar em fenómenos sobrenaturais , mas tem a obrigação de escon­
der a sua descrença para não fazer as pessoas caírem em tenta­
ção nem lhes abalar a fé; sem fé não há idealismo , e como ao
idealismo foi predestinado salvar a Europa e indicar à humani­
dade o verdadeiro caminho . . .
- Mas não escreves do que , concretamente , é preciso salvar
a Europa - observou Láptev.
- Isso é claro por si .
- Não , não é claro - disse Láptev e, agitado , começou a
passear-se pela sala. - E , no geral , não se compreende com que
objectivo escreveste tudo isto . Aliás , é contigo .
- Quero editá-lo em brochura .
- É contigo .
Ficaram calados um minuto . Fiódor suspirou e disse:
- É uma pena, é uma pena infinita que tu e eu tenhamos mo­
dos de pensar tão diferentes . Ah , Aliocha, Aliocha, meu querido
irmão ! Tu e eu somos russos , cristãos , gente de grande enverga­
dura; será que nos ficam bem todas estas ideiazinhas alemãs e
330 Anton Tchékhov

. judaicas? É que não somos uns aldrabões quaisquer, somos re­


presentantes da ilustre linhagem dos comerciantes .
- Que ilustre linhagem? - disse Láptev, contendo a irrita­
ção . - Ilustre linhagem ! O nosso avô era açoitado pelos seus
senhores e o último funcionário dava-lhe murros no focinho .
O avô açoitava o nosso pai , o nosso pai açoitava a mim e a ti .
O que nos deu essa tua ilustre linhagem? Que nervos e que san­
gue herdámos? Tu , por exemplo , há já três anos que raciocinas
como um sacristão , dizes todo o género de disparates e agora
escreve-los . . . e isso não passa de devaneio de lacaio ! E eu , e eu?
Olha para mim . . . não tenho flexibilidade , nem coragem, nem
força de vontade; tenho medo de cada passo que dou , como se
me arriscasse a ser açoitado , intimido-me diante de gente insig­
nificante , de idiotas , de porcos que são muito inferiores a mim
moral e intelectualmente; tenho medo dos guarda-portões , dos
porteiros , dos polícias , da guarda civil , tenho medo de todos ,
porque nasci de uma mãe embrutecida, porque ando amedron­
tado e embrutecido desde a infância ! . . . Se não tivermos filhos ,
tu e eu , ainda bem . Oh, que a vontade de Deus seja a de acabar
aqui esta ilustre linhagem de comerciantes !
Iúlia Serguéevna entrou no gabinete e sentou-se ao pé da
mesa.
- Estavam a discutir? - perguntou . - Não venho estorvar
nada?
- Não , maninha - respondeu Fiódor - , isto é uma conver­
sa sobre princípios . Dizes tu: a linhagem é isto , a linhagem é
aquilo - dirigiu-se ao irmão - , e , no entanto , esta linhagem
criou um negócio milionário . Acho que isso tem algum valor !
- Grande coisa, o negócio milionário ! Um homem sem gran­
de intelecto , sem talentos , toma-se casualmente mercador, faz
comércio dia após dia, sem qualquer sistema nem objectivo , sem
sequer ter avidez pelo dinheiro , faz o seu comércio maquinal­
mente , e o dinheiro vai-lhe entrando no bolso por si , sem ser ele
a ir atrás do dinheiro . Nunca largou o negócio , durante toda a vi-
Três Anos 33 1

da, apenas porque pode mandar nos empregados e escarnecer


dos clientes . É zelador na igreja só porque, assim, pode mandar
nos cantores lá na igreja, dobrar-lhes a cerviz; é curador da es­
cola porque lhe agrada a ideia de o mestre-escola ser seu subor­
dinado e porque gosta de se exibir como chefe diante dele . É um
comerciante que não gosta de fazer comércio mas sim de se sen­
tir superior; e o vosso «celeiro» não é uma instituição comercial
mas uma prisão ! Pois é, para um comércio como o vosso são
precisos encarregados privados de individualidade , gente infor­
tunada, e vós mesmos os preparais para o vosso serviço, obri­
gando-os desde pequeninos a fazerem-vos vénias até ao chão
por uma fatia de pão , e habituando-os desde a infância à ideia de
que sois benfeitores deles . Suponho que não daríeis emprego no
«celeiro» a uma pessoa com um curso universitário !
- Pessoas com curso universitário não dão para o nosso
negócio .
- Não é verdade ! - gritou Láptev. - É mentira !
- Desculpa, mas parece-me que estás a cuspir na fonte
donde bebes - disse Fiódor e levantou-se . - Para ti , o nosso
negócio é odioso , mas aproveitas-te dos lucros que ele dá.
- Ah-ah , chegámos ao ponto que interessa ! - disse Láptev,
riu-se e olhou , zangado , para o irmão . - Se eu não pertencesse
à vossa linhagem ilustre , se eu tivesse nem que fosse uma mi­
galha de força de vontade e de coragem, há muito que tinha ati­
rado para longe de mim estes lucros e tinha começado a ganhar
o meu pão pelos meus próprios meios. Mas , lá no vosso «celei­
ro» , despersonalizastes-me desde a infância ! Sou vosso !
Fiódor olhou para o relógio e começou a despedir-se apressa­
damente . Beijou a mão de Iúlia e saiu , mas , em vez de ir direito
ao vestíbulo , foi para a sala de estar e depois para o quarto de
dormir.
- Esqueci-me da disposição das salas - disse ele , muito
atrapalhado . - Casa estranha. Não é verdade que é uma casa
estranha?
332 Anton Tchékhov

Quando vestia a peliça estava como que aturdido . Na cara ti­


nha estampada uma grande dor. Láptev assustou-se e, ao mes­
mo tempo , teve pena de Fiódor, sentiu despertar o amor caloro­
so que tinha pelo irmão mas se apagara dentro dele nos últimos
três anos; sentiu um desejo enorme de exprimir esse amor.
- Fédia, vem cá amanhã almoçar - disse-lhe e afagou-lhe
o ombro . - Vens?
- Sim , sim. Mas dêem-me água.
Láptev correu à sala de estar, tirou do aparador a primeira coi­
sa que lhe veio à mão - era uma caneca alta para cerveja - ,
encheu-a de água e levou-a ao irmão . Fiódor começou a beber
avidamente mas , de súbito , mordeu a caneca, ouviu-se a trinca­
da, depois o choro . A água derramou-se-lhe pela peliça, pela so­
brecasaca. E Láptev, que nunca antes vira homens chorar, ficou
especado , confuso e assustado , sem saber o que fazer. Atrapa­
lhado , olhava como Iúlia e a criada despiam a peliça de Fiódor
e o levavam para dentro; foi atrás deles, sentindo-se culpado .
Iúlia deitou Fiódor e pôs-se de joelhos a seu lado .
- Não é nada - consolava-o . - São nervos . . .
- Alminha, sofro tanto ! - dizia ele . - Sou muito infeliz . . .
mas sempre o escondi , sempre !
Abraçou-a pelo pescoço e sussurrou-lhe ao ouvido:
- Todas as noites vejo a minha irmã Nina. Ela vem e senta-
-se na poltrona ao pé da minha cama . . .
Quando , uma hora depois , vestia de novo a peliça no vestí­
bulo , já sorria e já estava com vergonha da criada. Láptev foi
acompanhá-lo até à Piatnitskaia.
- Vem amanhã almoçar connosco - disse-lhe , pelo cami­
nho , segurando-o pelo braço . - E na Páscoa vamos juntos ao es­
trangeiro . Precisas de refrescar a cabeça, estás muito em baixo .
- Sim, sim. Eu vou, eu vou ... E levamos a maninha connosco.
Quando Láptev voltou para casa, encontrou a mulher numa
forte excitação nervosa. O incidente com Fiódor tinha-a abalado
muito e não conseguia acalmar-se . Não chorava, mas estava
Três Anos 333

muito branca, agitava-se na cama, agarrava-se com força ao


cobertor, à almofada, às mãos do marido , com os dedos gelados .
Os olhos muito abertos , assustados .
- Não te vás embora, não vás - dizia ao marido . - Diz ,
Aliocha, porque deixei de rezar? Onde está a minha fé? Ah, por­
que é que vocês nunca falavam de religião na minha presença?
Tu e os teus amigos confundiram-me . Já não rezo .
Láptev punha-lhe compressas na testa, aquecia-lhe as mãos ,
dava-lhe chá, e ela apertava-se contra ele , cheia de medo . . .
Já perto da manhã, cansou-se e adormeceu , sempre com Láp­
tev sentado à sua beira e pegando-lhe na mão . Láptev não che­
gou a pregar olho e andou todo o dia dorido , embotado , sem
pensar em nada, vagueando com moleza pela casa.

16

Os médicos diagnosticaram a Fiódor uma doença do foro


mental . Láptev não sabia o que se passava na Piatnitskaia, e o
«celeiro» escuro , onde já não apareciam o velho nem Fiódor,
dava-lhe a sensação de uma sepultura. Quando a mulher lhe
lembrava que era necessário passar todos os dias pelo «celeiro»
e pela Piatnitskaia, Láptev ou se calava, ou começava a falar
com irritação da sua infância, de que era incapaz de perdoar ao
pai o passado , de que a Piatnitskaia e o «celeiro» lhe eram odio­
sos , etc .
Num domingo de manhã, a própria Iúlia foi à Piatnitskaia.
Encontrou o velho Fiódor Stepánitch na mesma sala em que , em
tempos , tinham celebrado Te Deum em honra da sua chegada.
O velho , com o seu casaco de lona, sem gravata, de pantufas ,
estava sentado imóvel na poltrona e pestanejava com os seus
olhos cegos .
- Sou eu , a sua nora - disse Iúlia, aproximando-se dele . -
Vim visitá-lo .
334 Anton Tchékhov

O velho começou a ofegar de emoção . Ela, comovida com a


desgraça e a solidão do velho , beijou-lhe a mão; ele apalpou-lhe
o rosto e a cabeça, como se quisesse convencer-se de que era
ela, depois benzeu-a.
- Obrigado , obrigado - disse . - Perdi a vista, não vejo na­
da . . . Enxergo o clarão da janela e do lume , mas já não distingo
as pessoas nem os objectos . Pois, eu estou cego , o Fiódor adoe­
ceu , está muito mal , o negócio anda ao deus-dará, sem ninguém
que o vigie . Se acontece um distúrbio qualquer não há quem te­
nha mão neles; ficam desregrados . E porque terá adoecido o
Fiódor? Apanhou algum resfriado ou quê? Eu , por exemplo ,
nunca estive doente nem precisei de tratamento . Nunca recorri
aos médicos .
E o velho , como de costume , começou a gabar-se . Entretanto ,
os criados , à pressa, punham a mesa na sala, com acepipes e as
bebidas . Eram dez as garrafas , uma delas em forma de Torre
Eiffel . Foi servida uma travessa de pastéis quentes que cheira­
vam a arroz e a peixe cozido .
- Para a mesa, querida convidada, faça o favor - disse o
velho .
Júlia Serguéevna levou-o pelo braço até à mesa, serviu-lhe
vodca.
- Amanhã também venho visitá-lo - disse ela - , e trago as
suas netas , Sacha e Lida. Vão acarinhá-lo .
- Não vale a pena, não as traga. São ilegítimas .
- Ilegítimas porquê? O pai e a mãe delas estavam casados.
- Sem a minha autorização . Não lhes dei a minha bênção;
não quero saber disso . Não contam .
- Diz coisas estranhas , Fiódor Stepánitch - disse Júlia e
suspirou .
- Rezam os Evangelhos : os filhos têm de respeitar os pais e
ter-lhes temor.
- Nada disso . Os Evangelhos rezam que devemos perdoar
mesmo aos nossos inimigos .
Três Anos 335

- No nosso negócio não se pode perdoar. Se perdoarmos a


toda a gente , ficamos arruinados em três anos .
- Mas perdoar, dizer uma palavra de carinho e simpatia a
uma pessoa, mesmo culpada, está acima do negócio , está acima
da riqueza!
Júlia queria amaciar o velho , incutir nele a piedade , o arre­
pendimento , mas ele ouvia com condescendência, como fazem
os adultos com as crianças .
- Fiódor Stepánitch - disse Júlia resolutamente - o senhor
já está velho , em breve Deus o chamará à Sua presença, e não
lhe vai perguntar como o senhor fazia comércio e se o seu ne­
gócio corria bem ou mal , mas se era misericordioso para com as
pessoas , se não era severo para com os mais fracos , por exem­
plo , os criados , os empregados .
- Para os meus empregados sempre fui um benfeitor, e eles
só têm que rezar por mim eternamente - disse o velho com
convicção; porém, comovido com o tom sincero de Júlia e de­
sejando agradar-lhe , disse: - Está bem, traga as netas amanhã.
Vou mandar comprar uns presentinhos para elas .
O velho estava vestido com descuido , tinha cinza de charuto
no peito e nos joelhos; pelos vistos, ninguém lhe limpava a
roupa nem as botas . O arroz dos pastéis estava mal cozido ,
a toalha de mesa cheirava a sabão , a criadagem batia os pés ao
andar. Tanto o velho como toda a casa tinham um aspecto de
abandono , e Júlia Serguéevna, ao senti-lo , teve vergonha por si
e pelo marido .
- Amanhã venho vê-lo sem falta - disse ela.
Passou por todas as salas e deu ordens para que o quarto do
velho fosse arrumado e fosse lá acesa uma lamparina. Fiódor es­
tava no seu quarto e olhava para um livro sem o ler; Júlia con­
versou com ele e mandou também que lhe arrumassem o quar­
to . Depois desceu às instalações dos encarregados. No meio da
sala onde eles almoçavam tinham posto uma coluna de madeira
tosca para que o tecto não desabasse; os tectos eram baixos , o
336 Anton Tchékhov

papel de parede era do mais barato , cheirava a monóxido de car­


bono e a cozinhados . Por ser feriado , os encarregados estavam
todos em casa, sentados nas respectivas camas , à espera do al­
moço . Quando Iúlia Serguéevna entrou , saltaram dos lugares e
responderam às suas perguntas com timidez , olhando para ela
de soslaio , como presidiários .
- Meu Deus , que instalações tão más são as vossas ! - dis­
se ela, levantando as mãos . - Não estais apertados aqui?
- Apertados mas quentinhos - disse Makéitchev. - Agra­
decemos muito a vossas mercês e rezamos por si a Deus mise-
ricordioso . _.

- A correspondência da vida às ambições do indivíduo -


disse Potchátkin .
Reparando que Iúlia não compreendera as palavras de Pot­
chátkin, Makéitchev apressou-se a esclarecer:
- Somos gente miúda e temos de viver em correspondência
com a nossa condição .
Iúlia examinou a camarata dos aprendizes e a cozinha, co­
nheceu a despenseira e ficou muito descontente .
Quando voltou para casa, disse ao marido:
- Temos de nos mudar o mais depressa possível para a Piat­
nitskaia. E tu vais passar a ir todos os dias ao «celeiro» .
Deixaram-se ficar no gabinete , calados . Láptev, com um peso
na alma (não tinha vontade de ir para a Piatnitskaia nem ao «ce­
leiro») , adivinhava porém no que estava a pensar a mulher e não
tinha forças para a contradizer. Acariciou-lhe a face e disse:
- Tenho a sensação de que a nossa vida já acabou e de que es­
tá a começar para nós uma meia vida cinzenta. Quando soube que
a doença do meu irmão Fiódor era incurável , chorei; vivemos
juntos a infância e a juventude , dantes eu amava-o de todo o co­
ração , e agora esta catástrofe . Foi como se, ao perdê-lo , eu tives­
se rompido definitivamente com o meu passado . E agora, quan­
do dizes que é indispensável mudarmo-nos para a Piatnitskaia,
para aquela prisão , é como se também já não tivesse futuro .
Três Anos 337

Levantou-se e foi até à janela.


- Seja como for, tenho de dizer adeus aos pensamentos so­
bre a felicidade - disse ele , olhando para a rua. - A felicida­
de não existe . Nunca a tive e, pelos vistos , ela não existe em ge­
ral . Aliás , fui feliz uma vez na vida, quando , uma noite , me
sentei debaixo do teu guarda-sol . Lembras-te , uma vez que te
esqueceste do guarda-sol em casa da minha irmã Nina? - per­
guntou , virando-se para a mulher. - Naquela altura estava apai­
xonado por ti e, lembro-me , passei toda a noite sentado debaixo
do guarda-sol , em estado de graça.
No gabinete , ao lado dos armários dos livros , havia uma có­
moda de mogno com ornamentos de bronze em que Láptev
guardava várias coisas inúteis ; e também o guarda-sol . Tirou-o
e deu-o à mulher.
- Ei-lo .
Júlia olhou para ele , reconheceu-o e sorriu com tristeza.
- Lembro-me - disse . - Quando te declaraste , estavas
com ele assim na mão . . . - e , vendo que o marido se preparava
para sair, disse: - Se for possível , volta mais cedo , por favor.
Aborreço-me sem ti .
Depois , Júlia foi para o seu quarto e ficou muito tempo a
olhar para o guarda-sol .

17

No «celeiro» , apesar de o negócio ser complicado e o mo­


vimento de dinheiro ser enorme , não havia contabilista , sendo
impossível perceber-se fosse o que fosse pelos livros manti­
dos pelo escriturário . Todos os dias iam ao «celeiro» comis­
sionistas , alemães e ingleses , com quem os encarregados fala­
vam de política e de religião; ia lá um fidalgo , homem
alcoolizado , doente e miserável , que traduzia no escritório a
correspondência estrangeira; os encarregados chamavam-lhe
338 Anton Tchékhov

o «tuta e meia» e davam-lhe o chá com sal . De uma maneira


geral , todo aquele comércio se afigurava muito estranho a
Láptev.
Ia todos os dias ao «celeiro» e tentava introduzir regras no­
vas; proibira que se açoitasse os aprendizes e se escarnecesse
dos clientes; ficava fora de si quando os encarregados , rindo
alegremente, enviavam para a província mercadorias invendá­
veis e imprestáveis, apresentando-as como a última moda. Era
agora o patrão do «celeiro» , mas continuava a ignorar os núme­
ros exactos do seu capital , se o negócio corria bem, qual era or­
denado dos fiéis de armazém, etc . Potchátkin e Makéitchev
consideravam-no jovem e inexperiente , escondiam-lhe muitas
coisas e todas as noites, muito sorrateiros, metiam-se a cochi­
char com o velho cego .
Uma ocasião , no princípio de Junho , Láptev chamou Pot­
chátkin para tomar o primeiro almoço com ele no restaurante de
Bubnov e também para falarem do negócio . Havia já muitos
anos que Potchátkin entrara na casa Láptev (era uma criança de
oito anos quando entrou) . Era um homem da casa, confiavam
nele cegamente , não provocava qualquer suspeita quando reti­
rava toda a receita da caixa e a metia nos bolsos. Era o superior
no «celeiro» , nas camaratas e , também, na igreja, onde agora
cumpria em vez do velho as funções de zelador. Por causa do
seu trato cruel com os subordinados e aprendizes , estes
puseram-lhe a alcunha de Maliuta Skurátov46 .
Quando entraram no restaurante , Potchátkin acenou com a
cabeça ao criado e disse:
- Amigo , traz-nos meia curiosidade e vinte e quatro sarilhos .
Um pouco depois o criado trouxe na bandeja meia garrafa de
vodca e pratos com acepipes variados .

46 Maliuta Skurátov (?- 1 673), de seu verdadeiro nome G . Skurátov-Bélski , era o


braço direito fiel do czar Ivan , o Terrív el, tendo-se destacado pela sua perfídia e
pela sua crueldade animalesca. (N. T.)
Três Anos 339

- Ouve , meu caro - disse Potchátkin ao criado - , traz-nos


uma dose de mestre principal de calúnia e fala maldosa com
puré de batata.
O criado, como não percebesse, atrapalhou-se e quis dizer qual­
quer coisa, mas Potchátkin olhou severamente para ele e disse:
- Além !
O criado pensou tensamente , depois foi aconselhar-se com
outros empregados e , finalmente , adivinhou e foi buscar uma
dose de língua de vaca. Depois de terem bebido dois copos e pe­
tiscado , Láptev perguntou:
- Diga-me , Ivan Vassílitch , é verdade que o nosso negócio ,
nos últimos anos , tem piorado?
- Nada disso .
- Diga-me toda a verdade , sinceramente: que lucro tínha-
mos e que lucro temos agora, qual é o montante do nosso capi­
tal? É que é impossível trabalhar assim, às escuras . Há pouco fi­
zemos um balanço no «celeiro» , mas desculpe , não acredito
naquilo , acho que estão a esconder-me alguma coisa e que só di­
zem a verdade ao meu pai . Habituaram-se desde sempre a esta
política e já não podem passar sem ela. Para quê? Exijo sinceri­
dade . Em que situação está o nosso negócio?
- Tudo em dependência da ondulação do crédito - respon­
deu Potchátkin , depois de uma reflexão .
- O que quer dizer com isso de ondulação de crédito?
Potchátkin começou a explicar, mas Láptev não percebeu na­
da e mandou chamar Makéitchev. Este compareceu de imedia­
to , comeu qualquer coisa, tendo primeiro rezado , e pôs-se a fa­
lar, na sua voz de barítono imponente e espessa, dizendo que ,
antes de mais nada, os encarregados tinham a obrigação de re­
zar dia e noite pelos seus benfeitores .
- Óptimo , mas deixem que eu não me considere vosso ben­
feitor - disse Láptev.
- Cada pessoa tem de se lembrar do que é e sentir qual é a
sua condição . O senhor, pela graça de Deus, é nosso pai e ben­
feitor, e nós seus escravos .
340 Anton Tchékhov

- Estou farto dessa conversa, finalmente ! - zangou-se Láp­


tev. - Por favor, seja agora você meu benfeitor e explique-me
como vai o nosso negócio . Deixe de me considerar um garoto ,
senão amanhã mesmo fecho o «celeiro» . O meu pai está cego , o
meu irmão está no manicómio , as minhas sobrinhas ainda são
crianças ; odeio este negócio e ia-me embora com prazer, mas
não há quem me substitua, sabem muito bem. Então , deixem-se
de políticas , por amor de Deus !
Foram para o «celeiro» fazer as contas; à noite continuaram,
em casa, com a ajuda do próprio velho; o tom do velho reve­
lando ao filho os segredos comerciais era o de quem fala de mis­
tério e bruxarias e não de comércio . Resultado: os lucros esta­
vam a crescer anualmente em dez por cento e o capital dos
Láptev, apenas em dinheiro e títulos , era de seis milhões de ru­
blos .
Já passava da meia-noite , depois da contagem, quando Láp­
tev saiu para o ar fresco , sentindo-se sob o fascínio daqueles nú­
meros. A noite estava calma, luarenta, abafada; as paredes bran­
cas dos prédios de Zamoskvorétchie , o aspecto dos pesados
portões fechados , o silêncio e as sombras negras davam a sen­
sação geral de uma fortaleza em que faltasse apenas a sentinela
com a espingarda. Láptev foi para o jardinzinho e sentou-se no
banco junto à cerca que o separava do terreiro vizinho , onde
também havia um pequeno jardim. O pado estava em flor. Láp­
tev lembrou-se de que este pado não mudara nada, nos tempos
da sua infância era na mesma nodoso e da mesma altura. Cada
cantinho do jardim e do terreiro lhe lembrava o passado longín­
quo . Na infância, tal como agora, todo o terreiro banhado pelo
luar se via por entre os espaços das árvores; as sombras eram
igualmente misteriosas e severas; estava deitado no meio do ter­
reiro , na mesma postura, o cão preto; e também as janelas dos
encarregados estavam abertas de par em par. Tudo lembranças
tristes .
No outro terreiro ouviram-se passinhos leves atrás da cerca.
Três Anos 341

- Minha querida, minha linda ... - sussurrou uma voz mas­


culina junto à cerca, tão perto que Láptev ouvia a respiração do
homem.
Beijavam-se. Láptev tinha a certeza de que os milhões e o ne­
gócio , repúdio da sua alma, lhe estragariam a vida e fariam de­
le , definitivamente , um escravo; imaginava-se resignado , en­
trando a pouco e pouco no seu papel de proprietário da casa
comercial , começando a estupidificar-se , envelhecendo e, final­
mente , morrendo como morrem normalmente as pessoas vulga­
res: de morte feia, triste , angustiada e provocando angústia nos
outros . Mas o que o impedia de largar os milhões e o negócio e
fugir do jardinzinho e do terreiro que lhe eram odiosos desde a
infância?
Os sussurros e os beijos por trás da cerca emocionavam-no .
Pôs-se no meio do terreiro e , desabotoando a camisa no peito ,
olhava para a lua, imaginando que ia abrir a cancela, sair e nun­
ca mais voltar; o pressentimento da liberdade deu-lhe um aper­
to delicioso no coração , riu-se alegremente e imaginou que
vida poética, divina, talvez santa, poderia ser a sua . . .
Mas não ia, continuava parado , perguntava-se: « 0 que me
prende aqui?» E irritava-se consigo , e com o cão preto deitado
nas pedras em vez de ir para o campo , para a floresta, onde se­
ria independente , feliz . Por certo os impedia de fugir dali , a ele
e ao cão , a mesma coisa: o hábito do cativeiro , a condição de es­
cravos . . .
No dia seguinte , ao meio-dia, fo i ver a mulher e, para que a
visita não fosse aborrecida, convidou Iártsev. Iúlia Serguéevna
estava numa casa de campo de Bútovo , havendo já cinco dias
que Láptev lá não ia. Saindo na estação suburbana, tomaram
uma caleche . Iártsev, todo o caminho , não parou de cantar e de
tecer louvores ao tempo maravilhoso . A casa era bastante perto
da estação , no meio de um grande parque . No início da alameda
principal , vinte passos depois do portão , estava sentada Iúlia
Serguéevna debaixo de um choupo velho e largo , à espera dos
342 Anton Tchékhov

convidados . Trazia um vestido creme-claro , leve e elegante ,


adornado com rendas , e nas mãos tinha o mesmo guarda-sol ve­
lho . Iártsev cumprimentou-a e dirigiu-se logo para a casa, don­
de chegavam as vozes de Sacha e Lida; Láptev ficou e sentou­
-se ao lado da mulher, com a intenção de falar dos negócios com
ela.
- Porque não vens há tanto tempo? - perguntou ela, sem
lhe largar a mão . - Fico aqui dias inteiros à espera de te ver
aparecer. Aborreço-me sem ti !
Levantou-se , afagou-lhe o cabelo, examinou-lhe com uma es­
pécie de curiosidade a cara, os ombros , o chapéu .
- Sabes, eu amo-te - disse ela, e corou . - És tudo para
mim . Agora, que vieste , estou feliz , infinitamente . Fala comigo .
Conta-me qualquer coisa.
Ela declarava-lhe o seu amor, mas a sensação de Láptev era
só a de estar casado com ela há dez anos, e apetecia-lhe tomar
o pequeno-almoço . Iúlia abraçou-o pelo pescoço , fazendo-lhe
cócegas na cara com a seda do vestido; Láptev, com delicadeza,
afastou a mão dela, levantou-se e, sem dizer nada, foi na direc­
ção da casa. Correram ao seu encontro as miúdas .
«Como elas cresceram - pensava ele . - As mudanças que
aconteceram em três anos . . . Mas talvez ainda seja preciso viver
mais treze , mais trinta anos . . . As coisas que ainda nos esperam
no futuro ! Viver para ver.»
Sacha e Lida penduraram-se-lhe ao pescoço , ele abraçou-as e
disse:
- O avô manda cumprimentos . . . O tio Fiódor já não vai du­
rar muito , o tio Kóstia mandou uma carta da América com os
melhores cumprimentos . Já está farto da exposição e não tarda
a voltar. E o tio Aliocha tem fome .
Depois , sentado no terraço , via como a mulher andava deva­
gar pela alameda na direcção da casa. Reflectia em qualquer
coisa, no seu rosto havia uma expressão triste , encantadora, nos
olhos brilhavam-lhe as lágrimas . Já não era a menina magrinha,
Três Anos 343

frágil e pálida de outrora, mas uma mulher madura, bonita, for­


te . E Láptev reparou na admiração com que Iártsev olhava para
ela e como a nova e bela expressão do rosto de sua mulher se re­
flectia no rosto do amigo , também triste e fascinado . Parecia
que estava a vê-la pela primeira vez na vida. E quando tomavam
o pequeno-almoço no terraço Iártsev tinha um sorriso estranha­
mente alegre e tímido e não tirava os olhos de Iúlia, do seu be­
lo pescoço . Láptev observava-o sem querer e pensava que sim,
que talvez ainda tivesse de viver mais treze ou trinta anos . . .

O que nos tocará viver durante o resto da vida? O que nos es­
pera no futuro?
E pensava:
«Viver para ver.»
Índice

O COUTEIRO 7

O MORTO 13

A BRUXA 19

AGÁFIA 34

GRICHA 47

UM TALENTO 51

UM CASO SEM IMPORTÂNCIA 57

NO CAMINHO 70

VÉROTCHKA 90

A FLAUTA 1 06

O ATAQUE DE NERVOS 116

O TESTA-BRANCA 1 43

HISTÓRIA DE UM DESCONHECIDO 1 50

TIIBS ANOS 240


NESTA COLECÇÃO

l . FAUSTO 1 6 . A MORTE DE EMPÉDOCLES


Johann W. Goethe Hõlderlin

2. AS LIGAÇÕES PERIGOSAS 1 7 . DE PROFUNDIS


Choderlos Lados Oscar Wilde

3. CONFISSÕES 1 8 . O MONTE DOS VENDAVAIS


Jean-Jacques Rousseau Emily Bronte

4. MOBY DICK (VOLUME 1 E II)


1 9 . CONTOS (l .º Volume)
Hermann Melville
Tchékhov

5. RETRATO DO SR. W. H.
20 . CONTOS (2 .º Volume)
Oscar Wilde
Tchékhov
6. MADAME BOVARY
Gustave Flaubert 2 1 . CONTOS (3 .0 Volume)
Tchékhov
7. A CARTUXA DE PARMA
Stendhal 22. O CRIME DE LORDE ARTUR
SAVILE E OUTROS CONTOS
8. A VÉNUS DE KAZABA"iKA Oscar Wilde
S . Masoch
23 . PEQUENAS OBRAS MORAIS
9. ETHAN FROME Giacomo Leopardi
Edith Wharton
24 . ADOLFO
1 0 . O LIVRO DE LE GRAND Benjamin Constant
Heinrich Heine
25 . DO LADO DE SWANN
1 1 . EWALD TRAGY
(VOL . 1 de EM BUSCA
Rilke
DO TEMPO PERDIDO)
Marcel Proust
1 2 . O RETRATO DE DORIAN GRAY
Oscar Wilde
26. À SOMBRA DAS RAPARIGAS
1 3 . ENSAIOS (Antologia)
EM FLOR (VOL. II de EM BUSCA
Montaigne DO TEMPO PERDIDO)
Marcel Proust
14. ONDE NADA EXISTE
Yeats 27 . O LADO DE GUERMANTES
(VOL. III de EM BUSCA
1 5 . AS ILHAS ENCANTADAS DO TEMPO PERDIDO)
Hermann Melville Marcel Proust
28 . SODOMA E GOMORRA
(VOL. IV de EM BUSCA
DO TEMPO PERDIDO)
Marcel Proust

29 . A PRISIONEIRA (VOL . V de
EM BUSCA DO TEMPO
PERDIDO)
Marcel Proust

30. VERÃO
Edith Wharton

3 1 . AS ANOTAÇÕES DE MALTE
LAURIDS BRIGGE
R. M. Rilke

32. O DESAPARECIDO
Franz Kafka

3 3 . A FUGITIVA (VOL. VI de
EM BUSCA DO TEMPO
PERDIDO)
Marcel Proust

34. NOVELAS
Tchékhov
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