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Contos

Relógio D' Água Editores


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Título: Contos - Volume VI


Autor: Anton Tchékhov
Tradução (do russo): Nina Guerra e Filipe Guerra
Revisão de texto: Frederico Sequeira
Capa: Relógio D'Água Editores sobre foto do autor

© Relógio D'Água Editores, Outubro de 2006

Fonte: da edição A. P. TCHÉKHOV /colecção em 12 tomos,


com fixação de texto de M. Eriómin e anotada por P. Eriómin, Editora Pravda,
Moscovo, 1985, Colecção «Biblioteca Ogoniok / Obras Clássicas Nacionais» .

Composição e paginação: Relógio D' Água Editores


Impressão: Tipografia Guerra I Viseu
Depósito Legal n.º 249258/06
Anton Tchékhov

Contos
Volume VI

Tradução de
Nina Guerra e Filipe Guerra

Clássicos
O INC ÓMODO VISITANTE

Na isbá baixinha e cambada do guarda-florestal Artiom, sob


um ícone grande e escuro , estavam sentados dois homens : o pró­
prio Artiom, mujique tacanho e magricela, com uma cara senil ,
como que pisada, e barbicha a crescer no pescoço; e um caçador,
jovem , alto , de camisa vermelha nova e botas altas de pântano .
Estavam sentados no banco corrido , atrás de uma mesinha de
três pernas em cima da qual ardia preguiçosamente uma vela de
sebo enfiada no gargalo de uma garrafa.
Do lado de fora da janela, no escuro da noite , marulhava aque­
la ventania que a natureza normalmente faz soprar antes da tem­
pestade . O vento uivava, raivoso , e as árvores arqueavam-se e
gemiam dolorosamente . A um dos vidros da janela, partido , ti­
nham colado um papel e ouvia-se o som das folhas arrancadas
das árvores batendo contra ele.
- Ouve o que te vou dizer, cristão . . . - falava Artiom , num
meio sussurro de tenorzinho rouco , fitando no caçador uns olhos
que não pestanejavam , como que sempre assustados . - Não te­
nho medo dos lobos nem dos ursos , nem de quaisquer animais ,
mas tenho medo do homem. Podemos salvar-nos dos animais
com uma espingarda ou outra arma, mas do homem malvado não
temos salvação .
8 Anton Tchékhov

- É claro ! Pode-se atirar contra a fera, mas , se dispararmos


contra um bandido , os responsáveis somos nós , condenam-nos à
Sibéria.
- Estou aqui nos serviços florestais há quase trinta anos ,
meu amigo , e tenho sofrido tantas desgraças por culpa de gente
má que nem as posso contar. Já passou por minha casa muita
gente , um sem-fim de gente . A isbá fica ao lado do caminho ,
passam muitos transportes , o que quer dizer que qualquer diabo
entra aqui . Entra por aqui cada malvado que , sem tirar o chapéu
nem se benzer diante do ícone , se atira logo a mim: «Dá cá pão ,
sua besta ! » Onde é que eu lhe arranjo o pão? E com que direito
mo pede? Serei algum milionário para dar de comer a cada bê­
bedo que passa por aqui? E ele , é bom de ver, com os olhos
cheios de raiva . . . São todos uns hereges , esses diabos . . . Não
pensa, dá-me logo um sopapo na orelha: «Dá cá pão ! » E eu dou ,
nada a fazer . . . Como é que posso lutar com esses diabos ? Al­
guns são espadaúdos , com punhos do tamanho de botas , e eu ,
como tu vês , tenho este físico . Podem dar cabo de mim com o
dedo mindinho . . . Pois bem , lá lhe dou o pão , o indivíduo
empanturra-se , estica-se no meio da isbá, e nem obrigado me
diz . Há também quem me pergunte pelo dinheiro : «Onde tens o
dinheiro? Responde ! » Mas que dinheiro? Onde posso arranjar
dinheiro?
- Um guarda-florestal sem dinheiro ! - sorriu-se o caçador.
- Tens o teu ordenado todos os meses e, de certeza, vendes ma-
deira à sorrelfa.
Assustado , Artiom olhou de esguelha para o caçador, com a
barbicha a tremelicar como o rabo da pega-azul .
- Ainda és novo de mais para me dizer essas palavras - re­
plicou . - Por essas palavras hás-de responder perante Deus .
Donde és tu? Quem são os teus pais?
- Sou de Viázovka. Filho do regedor Nefed .
- Andas a divertir-te com a espingarda . . . Eu , quando era
mais novo , também gostava disso . Pois . Oh , por mal dos nossos
O Incómodo Visitante 9

pecados ! - bocejou Artiom . - Desgraça! Há pouca gente boa,


mas facínoras e malvados são aos montes , valha-nos Deus !
- Quer-me parecer que também tens medo de mim . . .
- Essa agora ! Porque havia de ter medo de ti? Eu vejo . . . e
compreendo . . . Tu entraste , mas não de qualquer maneira,
benzeste-te , fizeste uma vénia educada . . . Eu topo . . . A ti pode­
-se servir pãozinho . . . Sou viúvo , não acendo o fogão , vendi o
samovar . . . não guardo carne ou coisas assim , por pobreza , mas
quanto a pão , faz favor.
Nisto , alguém resmungou debaixo do banco , depois ouviu-se
um bufo chiado . Artiom estremeceu , encolheu as pernas e olhou
interrogativamente para o caçador.
- É o meu cão que está a ofender a tua gata - disse o caça­
dor. - Chiu , seus diabos ! - gritou para debaixo do banco . -
Quietos ! Anda lá que levas uma arrochada ! Que magrinha é a tua
gata, amigo . Só pele e osso .
- Está velha, não tarda nada a esticar o canelo . . . Então és de
Viázovka, dizes tu?
- Não lhe dás de comer, já vi tudo . Ela é gata, sim , mas é
uma criatura viva. Havias de ter mais pena !
- As coisas não vão nada bem lá na vossa Viázovka - con­
tinuou Artiom como se não tivesse ouvido o caçador. - Num só
ano assaltaram por duas vezes a igreja . . . Ele há cada anticris­
to . . . Isso quer dizer, portanto , que não é só das pessoas que não
têm medo , mas também de Deus ! Roubar os pertences de Deus !
Por coisas dessas , enforcá-los ainda era pouco ! Nos tempos an­
tigos , os governadores punham os algozes a castigar os malan­
dros como eles .
- Castigue-se ou não , seja a chicote , seja a metê-los na en­
xovia, não resulta. Não há nada que arranque o mal de dentro do
homem maldoso .
- Valha-nos a Rainha dos Céus ! - suspirou o guarda-
-florestal , com a voz entrecortada . - Salva-nos do inimigo e do
facínora. Na semana passada, nos Prados Volóvii , um gadanhei-
10 Anton Tchékhov

ro ceifou outro com a gadanha, no peito . . . Matou-o ! E tudo por­


quê , Deus do Céu? Saiu um gadanheiro da taberna . . . com os co­
pos . Vai ao encontro dele outro , também com os copos . . .
O caçador, que ouvia a história com atenção , estremeceu de
repente , esticou o pescoço e ficou à escuta.
- Espera - disse ao guarda. - Parece que estão a gritar . . .
O caçador e o guarda-florestal , com os olhos fixos na janela es­
cura, puseram-se à escuta. Da floresta vinham sons que um ouvi­
do alerta ouve durante qualquer tempestade , sendo difícil distin­
guir se eram pessoas a chamar por socorro ou se era a intempérie
a chorar na chaminé . Mas o vento bateu no telhado , farfalhou no
papel da janela e trouxe um grito distinto: «Acudam ! »
- Fale-se no Diabo . . . - disse o caçador, empalidecendo e
levantando-se . - É um assalto !
- Valha-nos Deus ! - sussurrou o guarda, ficando também
muito pálido e levantando-se .
O caçador olhou em vão para a janela e passeou-se pela isbá.
- Que noite , que noite ! - murmurou . - Não se enxerga pe­
vide ! É mesmo boa altura para assaltar. Ouviste? Voltou a gritar !
O guarda olhou para o ícone , do ícone para o caçador, e
deixou-se cair no banco com o ar de um homem a quem uma no­
tícia inesperada deixa exausto .
- Cristão , amigo ! - disse em tom lamurioso . - Vai ao átrio ,
tranca a porta ! E temos também de apagar as luzes !
- Porquê?
- Podem entrar aqui , Deus nos livre . . . Oh , os meus pecados !
- É preciso ir lá, e tu queres trancar a porta ! Onde tens a ca-
beça? Vamos , eh !
O caçador lançou a espingarda ao ombro e pegou no chapéu .
- Veste-te , pega na tua espingarda ! Eh , Fliorka , anda ! - gri­
tou ao cão . - Fliorka!
De baixo do banco saiu um cão de orelhas compridas , roídas
nas pontas , mistura de setter e rafeiro . Espreguiçou-se aos pés do
dono e deu ao rabo .
O Incómodo Visitante 11

- Porque não te mexes ? - gritou o caçador ao guarda. -


Não vens?
- Onde?
- Ajudar !
- Eu? Que ajuda eu posso dar? - O guarda-florestal abanou
a cabeça e encolheu-se todo . - Eu não vou .
- Porque não queres ir?
- Eu , depois destas conversas assustadoras , não sou capaz de
dar um passo na escuridão . Deixa lá a floresta ! . . . Perdi alguma
coisa na floresta?
- Tens medo de quê? Não tens espingarda? Por favor, vamos
lá! Sozinho , assusta um bocado , mas duas pessoas não ! Ouvis­
te? Outra vez a gritarem ! Levanta-te !
- O que é que tu pensas , rapaz? - gemeu o guarda . - Achas
que eu sou parvo , que vou à procura da minha morte certa?
- Então , não vais , é isso?
O guarda calava-se . O cão deve ter ouvido o grito humano
porque ganiu .
- Vais ou não vais?, pergunto eu - berrou o caçador, esbu­
galhando os olhos de raiva .
- Larga-me , por amor de Deus ! - disse o guarda franzindo
a cara . - Vai tu !
- Eh . . . velhaco ! - resmungou o caçador, virando-se para a
porta . - Fliorka , vamos !
Saiu e deixou a porta escancarada . Irrompeu o vento na isbá.
A chama da vela cintilou , inquieta , levantou-se por um instante
e apagou-se .
Ao trancar a porta, o guarda-florestal viu um relâmpago a ilu­
minar de súbito os charcos do caminho , os pinheiros mais pró­
ximos e a figura do homem a afastar-se . Ao longe ribombou um
trovão .
- Credo , credo , credo . . . - sussurrou o guarda, metendo a
tranca pesada nas grandes argolas de ferro . - Mas que intem­
périe Deus nos manda !
12 Anton Tchékhov

Na isbá, arrastou-se às apalpadelas até ao fogão , trepou para o


catre e deitou-se , cobrindo a cabeça com a peliça de carneiro .
Deitado , pôs-se à escuta, uma escuta tensa: deixou de ouvir o
grito humano , mas o ribombar dos trovões tomava-se cada vez
mais forte . Ouvia a chuva grossa, fustigada pelo vento , a tambo­
rilar com raiva nos vidros e no papel colado neles .
«Foi o Diabo que o levou lá para fora - pensava ele ao ima­
ginar o caçador encharcado pela chuva e tropeçando nos cepos .
- Está a bater o dente de medo , isso de certeza ! »
Não teriam passado mais de dez minutos quando se ouviram
passos e, a seguir, pancadas à porta.
- Quem é? - gritou o guarda.
- Sou eu - ouviu-se a voz do caçador. - Abre !
O guarda-florestal deixou-se escorregar do catre , encontrou a
vela às apalpadelas e , depois de a acender, foi abrir. O caçador e
o cão estavam molhados até aos ossos . Tinham apanhado o gros­
so da chuva e agora escorriam como panos antes de serem es­
premidos .
- O que aconteceu lá fora? - perguntou o guarda.
- Uma mulher ia de carroça e perdeu-se . . . - respondeu o ca-
çador tentando ultrapassar a dispneia. - Enfiou-se para o matagal .
- Irra , que parva ! Então , assustou-se , pois . . . E tu levaste-a
ao caminho?
- A ti não respondo , canalha .
O caçador atirou o chapéu encharcado para o banco e conti­
nuou:
- Tu , para mim, a partir de agora és um velhaco e o maior
dos pulhas . É isto um guarda, vejam só , e com ordenado ! Cana­
lha ! . . .
O guarda arrastou-se até ao fogão com andar culpado , gemeu ,
deitou-se . O caçador sentou-se no banco , pensou um pouco e
estendeu-se nele , molhado como estava . Um pouco depois
levantou-se , apagou a vela, voltou a deitar-se . Um trovão mais
forte fê-lo mexer-se , cuspiu , resmungou:
O Incómodo Visitante 13

- Está com medo . . . E se estivessem a degolar a mulher?


Quem tinha a obrigação de a socorrer? E é isto um homem de
idade , um cristão . . . Porco , é o que é .
O guarda pigarreou e suspirou fundo . Algures n o escuro , o
Fliorka sacudiu com força o pêlo molhado , salpicando tudo à
volta.
- Queres lá tu saber que degolem uma mulher ! - continua­
va o caçador. - Francamente , não sabia que eras assim , Deus é
testemunha . . .
Caiu o silêncio . A nuvem terrível já passara, os trovões
ouviam-se apenas ao longe , mas continuava a chover.
- Mas , digamos , e se não fosse uma mulher que gritasse por
socorro mas tu próprio? - quebrou o silêncio o caçador. -
Achavas bem , seu porco , que ninguém te acudisse? Raios te par­
tam , como a tua canalhice me irrita !
Depois de mais um longo intervalo , o caçador disse:
- Ora bem , se as pessoas te metem medo , significa que tens
dinheiro ! Um pobre não tem medo . . .
- Por essas palavras hás-de responder no juízo de Deus . . . -
disse Artiom de cima do fogão , em voz rouca. - Não tenho di­
nheiro nenhum !
- Balelas ! Os canalhas têm sempre dinheiro . . . Então porque
tens medo das pessoas? Porque tens dinheiro , é claro . Agora, pa­
ra saberes como é , seria bom que eu te pilhasse tudo !
Artiom , sem barulho , deslizou do catre , acendeu a vela e foi
sentar-se debaixo do ícone . Estava pálido , não desviava os olhos
do caçador.
- Espera lá que eu já te faço a limpeza - continuou o caça­
dor, soerguendo-se . - O que é que pensas? É que é preciso dar
uma ensinadela à gentalha como tu ! Diz lá, onde tens o dinheiro
escondido?
Artiom encolheu as pernas e pestanejou .
- Estás a encolher-te? Onde tens o dinheiro? Engoliste a lín­
gua, seu diabo? Porque não falas?
14 Anton Tchékhov

O caçador pôs-se de pé e aproximou-se do guarda.


- Esbugalhas os olhos como um mocho? Passa para cá o di­
nheiro , senão disparo !
- O que queres de mim? - guinchou o guarda, e as lágrimas
jorraram-lhe dos olhos . - Porque fazes isto? Por essas palavras
hás-de responder no juízo de Deus . Não tens o direito de me exi­
gir dinheiro !
O caçador olhou para a cara chorosa de Artiom e , de sem­
blante franzido , começou a passear-se pela isbá; depois , com ir­
ritação , enfiou o chapéu na cabeça e pegou na espingarda.
- Eh . . . eh . . . até mete nojo olhar para ti ! - disse entre den­
tes . - Nem te posso ver ! Não durmo aqui , não consigo . Adeus !
Fliorka!
A porta bateu e o incómodo visitante saiu com o seu cão . . . Ar­
tiom trancou a porta, benzeu-se e deitou-se .
O MARIDO

O regimento de cavalaria N . . . , em manobras , parou por uma


noite e aboletou-se na cidadezinha distrital de K . . . Um aconte­
cimento como a estada dos senhores oficiais surte sempre um
efeito excitante e inspirador nos habitantes locais . Os lojistas
que sonham vender o macróbio chouriço enferrujado e «as me­
lhores» sardinhas esquecidas nas prateleiras há dez anos , os ta­
berneiros e todos os outros empresários não encerram os seus es­
paços comerciais durante toda a noite; o comissário militar do
distrito , o seu escriturário e a guarnição local vestem as suas me­
lhores fardas ; a polícia corre de um lado para o outro em frene­
si , e o que se passa com as senhoras é dos diabos !
As senhoras de K . . . , quando lhes chegou aos ouvidos que o re­
gimento se aproximava, largaram os alguidares quentes dos doces
e correram para a rua. Esquecidas do seu déshabillé e do preparo
desgrenhado , ofegando e enlanguescendo , voavam ao encontro do
regimento e devoravam com os ouvidos os sons da marcha. Quem
olhasse para os seus rostos pálidos e enlevados seria capaz de pen­
sar que os ditos sons não provinham das cometas mas dos céus .
- O regimento ! - diziam elas a palpitar de alegria. - Vem
aí o regimento !
Mas para que necessitariam deste regimento desconhecido ,
numa passagem ocasional , que partiria logo no dia seguinte ao
16 Anton Tchékhov

amanhecer? Quando , mais tarde , os senhores oficiais estavam


parados no meio da praça municipal e , com as mãos atrás das
costas , resolviam o problema do aboletamento , todas as senho­
ras estavam reunidas em casa da mulher do juiz de instrução e
competiam nas críticas ao regimento . Já estavam ao corrente -
só Deus sabia por que meios - do facto de o comandante ser ca­
sado mas não viver com a mulher, que a mulher do oficial supe­
rior dava todos os anos à luz nados-mortos , que o ajudante-de­
-campo estava desesperadamente apaixonado por uma condessa,
tendo já tentado mesmo o suicídio . Estavam a par de tudo . Quan­
do , por trás da janela, relanceou a camisa vermelha de um sol­
dado bexigoso , elas sabiam perfeitamente que se tratava do im­
pedido do tenente Rímzov que percorria a cidade à procura de
vodca amarga inglesa para o seu amo . Viram os oficiais apenas
de relance e de costas , mas já tinham decidido que não havia en­
tre eles nenhum que fosse bonito e interessante . . . Depois , sacia­
das de conversa, exigiram a presença do comissário militar e dos
decanos do clube , e mandaram que fosse organizado um serão
com baile , custasse o que custasse .
O desejo das senhoras foi cumprido: depois das oito da tarde
já estrondeava a orquestra militar na rua em frente do clube , en­
quanto lá dentro , no próprio clube , os senhores oficiais dança­
vam com as senhoras da cidade de K . . . As senhoras sentiam-se
aladas . No enlevo da dança, da música e do tinido das esporas ,
entregaram-se com toda a alma à amizade efémera e esquece­
ram-se por completo dos seus paisanos . Os pais e os maridos ,
afastados para o mais periférico dos planos , acumulavam-se no
vestíbulo , junto ao parco bufete . Todos esses tesoureiros, secre­
tários e inspectores , anémicos , hemorroidais e desajeitado s , ti­
nham a clara consciência da sua mediocridade e não entravam
no salão , apenas , de longe , espreitando como as suas filhas e as
suas mulheres dançavam com tenentes esbeltos e ágeis .
Entre os maridos estava o agente do fisco Kirill Petróvitch
Chálikov, uma criatura bêbeda, limitada e maldosa, dotada de
O Marido 17

grande cabeça rapada e lábios grossos e descaídos. Outrora es­


tudara na universidade , lera Píssarev e Dobroliúbov, cantara,
mas agora dizia de si mesmo que era assessor de colégio e mais
nada. Estava encostado ao umbral e não desviava os olhos da
mulher. A mulher, Anna Pávlovna, de uns trinta anos , pequena ,
morena, nariguda, de queixo espetado , cara coberta de pó-de­
-arroz e torso apertado num corpete , dançava sem parar, quase
até perder o fôlego . As danças deixavam-na extenuada de corpo ,
mas não de alma . . . já que emanava de toda ela fascínio e delei­
te . O peito ondulava-lhe , nas faces transpareciam-lhe manchi­
nhas vermelhas , todos os seus movimentos eram fluentes e lân­
guidos ; via-se que , dançando , recordava o passado remoto em
que dançava no internato , sonhando com uma vida divertida e
luxuosa, com a certeza de que o marido iria ser um barão ou um
príncipe .
O agente do fisco olhava para ela e franzia a cara de raiva . . .
Não era ciúmes que sentia, mas aquilo não lhe agradava porque ,
primeiro , não haveria jogo de cartas por causa do baile; segundo ,
detestava a música de sopro; terceiro , parecia-lhe que os senho­
res oficiais tratavam os civis com demasiada altivez e arrogância;
e, quarto e principal , via na cara da esposa uma expressão de
deleite que o revoltava e indignava . . .
- Mete nojo olhar para aquilo ! - murmurava. - Tem qua­
se quarenta anos , uma cara sem graça nenhuma, mas vejam lá,
também se empoou toda, frisou o cabelo , enfiou o corpete ! Toda
coquette , a requebrar-se , e acha que isso lhe fica bem . . . Ah , sim
senhora, está mesmo uma beleza !
Anna Pávlovna, dançando , é que se esqueceu de tudo , a tal
ponto que nem uma vez olhou para o marido .
- Pois claro , quem é que nós somos? Uns campónios ! -
excedia-se o marido em sarcasmo . - Agora somos postos de la­
do . . . Somos umas focas , uns ursos provincianos ! Mas ela é a rai­
nha do baile , está tão bem conservada que ainda consegue atrair os
oficiais . Com certeza até está pronta a apaixonar-se , porque não?
18 Anton Tchékhov

Durante a mazurca, a cara do agente do fisco desfigurou-se de


raiva. Dançava com Anna Pávlovna um oficial moreno de olhos
esbugalhados e maçãs de rosto tártaras . Trabalhava com os pés a
sério e com sentimento , a cara severa, torcendo os joelhos como
um títere de palhaço puxado pelos fios . Quanto a Anna Pávlov­
na, pálida e trémula, arqueando languidamente a cintura e revi­
rando os olhos , tentava fazer uns passos que aparentemente não
tocassem no chão , ao ponto de ela mesma não se sentir em ter­
ra, no clube distrital , mas longe , muito longe - nas nuvens ! Não
era só o rosto a exprimir-lhe o enleio , era o corpo todo . . . O agen­
te do fisco não aguentou mais , teve uma grande vontade de es­
carnecer daquele enlevo , de dar a entender a Anna Pávlovna que
ela perdera o sentido da realidade , que a vida não era nada da­
quilo que o seu deleite mostrava . . .
- Espera lá que eu já te mostro os sorrisos lânguidos ! -
murmurava ele . - Não és uma estudantezinha do internato , já
não és uma miúda . Focinho velho tem de saber que é focinho !
Os mesquinhos sentimentos de inveja, desgosto , amor-próprio
ferido , a medíocre misantropia provinciana que brota dos pe­
quenos funcionários por causa da vodca e do modo de vida
sedentário agitavam-se dentro dele como ratos . . . Esperou até
ao fim da mazurca, entrou na sala e dirigiu-se à mulher. Anna
Pávlovna estava sentada com o seu cavalheiro , abanando-se com
o leque e, franzindo os olhos com garridice , contava como em
tempos dançava em Petersburgo . (Os lábios dela formavam um
coraçãozinho e pronunciavam assim: «Então , na nossa Piutiurs­
biurgo . . . »)
- Aniuta, para casa! - rouquejou o agente do fisco .
Ao ver à sua frente o marido , Anna Pávlovna primeiro estre­
meceu , como se se lembrasse de repente que tinha um marido ,
depois corou muito , com vergonha de ter um marido tão mirra­
do , soturno e vulgar.
- Para casa ! - repetiu o agente do fisco .
- Porquê? Ainda é cedo !
O Marido 19

- Peço-te que vamos para casa ! - disse o agente do fisco


pausadamente , fazendo cara de mau .
- Porquê? Aconteceu alguma coisa? - preocupou-se Anna
Pávlovna.
- Não aconteceu nada, mas quero que vás para casa imedia­
tamente . . . Quero e pronto ; e, por favor, chega de conversas .
Anna Pávlovna não tinha medo do marido mas , diante do ca­
valheiro , que lançava olhares espantados e irónicos ao agente do
fisco , sentia vergonha. Levantou-se e chamou o marido de lado .
- Que ideia é esta? - começou ela . - Porque é que tenho
de ir para casa? Ainda nem sequer são onze horas !
- Quero que vás , é tudo ! Faz favor, anda e acabou-se .
- Deixa-te de parvoíces ! Vai sozinho se quiseres .
- Nesse caso vou armar um escândalo !
O agente do fisco viu como a expressão deleitada da mulher
lhe abandonava o rosto a pouco e pouco , como ela se envergo­
nhava e sofria - e sentiu um alívio na alma .
- Para que precisas agora de mim? - perguntou a mulher.
- Não preciso de ti mas quero-te em casa. Quero e pronto .
Anna Pávlovna, primeiro , nem queria ouvir, depois começou
a suplicar ao marido que a deixasse ficar nem que fosse só mais
meia hora; depois , sem ela própria saber porquê , pôs-se a pedir­
-lhe desculpa, a fazer juras - e tudo isto sussurrando e sorrin­
do , para que o público não pensasse que havia qualquer proble­
ma entre ela e o marido . Assegurava que ficava só mais um
pouquinho , dez minutos, apenas cinco minutos ; mas o agente do
fisco teimava implacavelmente .
- Se queres ficar, fica ! Mas armo um escândalo !
Agora que falava com o marido , Anna Pávlovna mirrara ,
emagrecera , envelhecera . Pálida , mordendo os lábios , quase a
chorar, caminhou com ele até ao vestíbulo , começou a vestir­
-se . . .
- Onde é que vai? - surpreendiam-se as senhoras da cidade
de K . . . - Anna Pávlovna, querida , onde é que vai?
20 Anton Tchékhov

- Dores de cabeça, de repente - respondeu por ela o agen­


te do fisco .
Os esposos saíram do clube e fizeram todo o caminho até ca­
sa em silêncio . O agente do fisco ia atrás da mulher e, olhando
para a sua figura curvada e destroçada pelo desgosto e pela hu­
milhação , recordava o deleite dela no clube , que tanto o irritara;
e a consciência de que esse deleite desaparecera enchia-lhe a al­
ma de um sentimento de vitória. Estava satisfeito , sim, e con­
tente , mas ao mesmo tempo faltava-lhe qualquer coisa, tinha
vontade de voltar ao clube e fazer com que toda aquela gente se
aborrecesse , se amargurasse , sentisse como esta vida era miserá­
vel e cinzenta quando caminhamos na rua pela escuridão e ouvi­
mos a lama a soluçar debaixo dos pés , e quando sabemos que
amanhã, ao acordarmos , não teremos mais nada pela frente se­
não a vodca e as cartas ! Oh , é terrível !
Quanto a Anna Pávlovna, mal arrastava os pés . . . Ainda ia sob
a impressão das danças , da música, das conversas , do brilho , do
barulho ; andava e perguntava a si mesma: porque a castigara
Deus daquela maneira? O ódio com que escutava os passos pe­
sados do marido enchia-a de azedume , ressentimento , sufoco . la
calada e tentava encontrar a palavra mais insultuosa, mais cáus­
tica e venenosa que pudesse lançar à cara do marido , e, simulta­
neamente , tinha a consciência de que não existiam quaisquer pa­
lavras que pudessem impressionar o seu agente do fisco . O que
eram as palavras para ele? Nem o mais encarniçado inimigo po­
deria inventar um estado mais impotente .
Entretanto , a música estrondeava e as trevas enchiam-se dos
mais excitantes e inflamados sons de dança.
A CORISTA

Um dia, no tempo em que ela tinha mais juventude , beleza e


voz , estava na sua casa de campo , na sobreloja, Nikolai Petró­
vitch Kolpakov, seu admirador. O calor e o ar abafado eram in­
suportáveis . Kolpakov acabara de almoçar e, como bebera uma
garrafa inteira de vinho do Porto horrendo , estava mal-humo­
rado e indisposto . Ambos se aborreciam e esperavam que o ca­
lor acalmasse para irem dar um passeio .
De repente tocou a campainha da porta de entrada . Kolpakov,
que estava sem sobrecasaca e de pantufas , saltou do lugar e
olhou interrogativamente para Pacha .
- Deve ser o carteiro , ou talvez uma amiga - disse a can­
tora .
Kolpakov não tinha vergonha do carteiro nem das amigas de
Pacha, mas , para o que desse e viesse , apanhou toda a sua roupa
numa braçada e foi para o quarto contíguo , enquanto Pacha cor­
ria a abrir a porta. À entrada, para seu grande espanto , não esta­
va o carteiro nem uma amiga, mas uma desconhecida , jovem,
bonita, vestida como uma senhora e, por todos os indícios , das
decentes .
A desconhecida estava pálida e respirava com dificuldade , co­
mo depois de se subir uma escada alta.
- O que deseja? - perguntou Pacha .
22 Anton Tchékhov

A senhora demorou a responder. Deu um passo em frente , pas­


sou um olhar lento pela sala e sentou-se , com o ar de quem já
não pode ficar mais tempo de pé por cansaço ou por doença; de­
pois , durante muito tempo , ficou a mexer os lábios exangues ,
tentando pronunciar qualquer coisa.
- O meu marido está consigo? - conseguiu articular final­
mente , levantando para Pacha os seus olhos grandes com as pál­
pebras inchadas de chorar.
- Que marido? - sussurrou Pacha e ficou de súbito tão as­
sustada que sentiu as mãos e os pés a gelarem-lhe . - Que mari­
do? - repetiu , começando a tremer.
- O meu marido . . . Nikolai Petróvitch Kolpakov.
- Nã . . . não senhora . . . Eu . . . eu não conheço marido ne-
nhum .
Um longo momento de silêncio . A desconhecida passou várias
vezes o lenço pelos lábios pálidos e, para vencer o tremor, reti­
nha a respiração . Pacha estava em frente dela como petrificada e
olhava-a com perplexidade e medo .
- Diz-me então que ele não está cá? - perguntou a senhora
com uma voz já firme e sorrindo de forma estranha.
- Eu . . . não sei de quem está a falar.
- Você é uma mulher abominável , ignóbil , nojenta . . .
murmurou a desconhecida, envolvendo Pacha num olhar cheio
de ódio e de repugnância. - Sim , sim . . . é nojenta. Estou satis­
feita por poder finalmente dizer-lhe isto na cara !
Pacha sentiu que causava àquela senhora de preto , com os
olhos zangados e os dedos finos e brancos , a sensação de qual­
quer coisa nauseabunda e monstruosa, e sentiu vergonha das
suas faces rechonchudas e vermelhas , das marcas de bexigas no
nariz e da franja na testa que não havia meio de puxar para cima.
E parecia-lhe que se fosse magrinha, sem pó-de-arroz nem fran­
ja, poderia esconder que era uma mulher indecente e não teria
medo nem vergonha de se ver em frente desta senhora desco­
nhecida e misteriosa.
A Corista 23

- Onde está o meu marido? - continuou a senhora. - De


resto , tanto me faz que estej a aqui ou não , mas tenho a dizer-lhe ,
a si , que foi descoberto um desfalque e Nikolai Petróvitch é pro­
curado pela polícia . . . Querem prendê-lo . Veja bem o que você
fez !
A senhora levantou-se e , muito emocionada, pôs-se a passear
pela sala. Pacha olhava para ela, e o seu medo era tanto que não
percebia.
- Ainda hoje vão encontrá-lo e prendê-lo - soluçou a se­
nhora, e ouvia-se a irritação e o insulto nos seus soluços . - Eu
bem sei quem o levou até este horror ! Criatura nojenta, repug­
nante ! Abominável , venal ! (A senhora franzia o nariz , torcia os
lábios de repulsa .) Sinto-me impotente . . . Oiça você , mulher re­
les ! . . . Não posso fazer nada , é mais forte do que eu , mas há quem
me defenda, a mim e aos meus filhos ! Deus vê tudo ! Deus é jus­
to ! Deus vai castigá-la por cada lágrima minha, por cada noite
que passei sem dormir ! Há-de chegar a altura em que você se vai
lembrar de mim !
Caiu de novo o silêncio . A senhora andava pela sala e torcia
as mãos , e Pacha olhava para ela com ar lorpa e perplexo , sem
compreender, esperando que saísse dali qualquer coisa medo­
nha.
- Minha senhora, eu não sei nada ! - disse ela, e desatou a
chorar.
- Mentirosa ! - gritou a senhora, e os seus olhos brilharam
de raiva. - Sei tudo ! Há muito que a conheço ! Sei que no últi­
mo mês ele tem estado consigo todos os dias !
- É verdade . E depois? Que importância tem isso? Há muita
gente que me visita, mas eu não obrigo ninguém a vir cá. A von­
tade é deles .
- Acabei de lhe dizer: foi descoberto um desfalque ! Ele gas­
tou dinheiro do serviço em proveito próprio ! Para uma . . . como
você , para si, ele atreveu-se a cometer um crime . Oiça - disse
a senhora em voz resoluta , parando em frente de Pacha . - Você
24 Anton Tchékhov

pode não ter princípios, já que vive apenas para fazer o mal , é o
seu objectivo , mas é impensável que tenha caído tão baixo ao
ponto de não ter qualquer vestígio de sentimento humano ! Ele
tem mulher, filhos . . . Se for condenado e deportado , eu e os
meus filhos morreremos de fome . . . Tente compreender ! Há uma
maneira de o salvar e de nos salvar a nós da miséria e da vergo­
nha . Se eu pagar hoje novecentos rublos , deixam-no em paz .
Apenas novecentos rublos !
- Quais novecentos rublos? - perguntou Pacha em voz bai­
xa. - Eu . . . eu não sei de nada . . . Não lhe levei . . .
- Não lhe peço os novecentos rublos . . . Você não os tem , nem
eu quero o seu dinheiro . Peço-lhe outra coisa . . . Normalmente , os
homens oferecem às mulheres da sua condição coisas preciosas .
Devolva-me apenas as prendas que o meu marido lhe deu !
- Minha senhora, ele não me ofereceu nada ! - guinchou Pa­
cha, começando a compreender.
- Então , onde está o dinheiro? Ele esbanjou o dele , o meu e
o alheio . . . Onde desapareceu tudo isso? Oiça, peço-lhe ! Eu es­
tava indignada e disse-lhe muitas coisas desagradáveis , mas pe­
ço desculpa. Deve odiar-me , eu sei , mas se tiver compaixão po­
de pôr-se no meu lugar ! Imploro-lhe , devolva-me as jóias !
- Humm . . . - disse Pacha e encolheu os ombros . - Dava-
-lhas de boa vontade , mas Deus me fulmine já se ele me deu al-
guma coisa. Acredite na minha consciência. Aliás , tem razão -
embaraçou-se a cantora - , uma ocasião trouxe-me duas coisi­
nhas . Devolvo-lhas , faça o favor. . .
Pacha tirou de uma das gavetinhas do toucador uma pulseira
de ouro oca e um anel barato com rubi .
- Tome ! - disse ela, entregando as jóias à visitante .
A senhora corou , tremeu-lhe o rosto . Sentiu-se insultada .
- O que está a dar-me? - disse . - Não lhe peço uma es­
mola mas aquilo que não lhe pertence . . . aquilo que você , fazen­
do uso da sua condição , extorquiu ao meu marido . . . esse homem
fraco , desgraçado . . . Na quinta-feira, quando a vi com o meu ma-
A Corista 25

rido no cais , você tinha broches e pulseiras caros. Por isso não
vale a pena fingir-se um cordeiro inocente ! Pergunto pela última
vez: devolve-me as jóias ou não?
- Que mulher estranha é a senhora, credo . . . - disse Pacha,
começando a ofender-se . - Da parte do seu Nikolai Petróvitch ,
juro-lhe que só vi estas prendas , uma pulseira e um anel . Só me
trazia pastéis doces .
- Pastéis doces . . . - sorriu-se a desconhecida . - Em casa,
as crianças não têm nada para comer, mas para aqui vêm pastéis
doces . Recusa-se então , definitivamente , a devolver-me as jóias ?
A senhora, não recebendo resposta, sentou-se e , com ar pen­
sativo , fixou os olhos num ponto vago .
- O que faço agora? - disse . - Se não arranjar novecentos
rublos , é o fim dele e também o meu e dos filhos. Mato esta ve­
lhaca ou ponho-me de joelhos diante dela?
A senhora apertou o lenço à cara e desatou a chorar.
- Peço-lhe ! - disse por entre os soluços . - Você arruinou
o meu marido , levou-o à perdição , agora salve-o . . . Não é com­
paixão por ele , mas pelos filhos . . . os filhos . . . Que culpa têm os
filhos?
Pacha imaginou umas crianças pequenas , na rua, a chorarem
de fome , e começou também a chorar.
- O que posso fazer, minha senhora? - disse ela. - A se­
nhora diz que sou velhaca e arruinei Nikolai Petróvitch , mas eu
juro-lhe perante Deus que não tirei proveito nenhum dele . . . No
nosso coro , só a Mótia tem um protector rico , mas nós , as outras
todas , vivemos de mal a pior. Nikolai Petróvitch é um senhor
culto e delicado , por isso é que o recebo . Não podemos deixar de
rec eber . . .
- Peço-lhe as jóias ! As jóias ! Estou aqui a chorar . . . a
humilhar-me . . . Está bem , ponho-me de joelhos ! Está bem !
Pacha soltou um grito de susto e abanou as mãos . Sentia que
a senhora pálida e bonita que se exprimia com tanta nobreza, co­
mo no teatro , era realmente capaz de se ajoelhar diante dela, pre-
26 Anton Tchékhov

cisamente por orgulho , por nobreza, para se engrandecer e para


humilhar a corista.
- Está bem , eu dou-lhe as jóias ! - decidiu Pacha, limpando
os olhos . - Mas olhe que não são de Nikolai Petróvitch . . .
Recebi-as de outros convidados . Mas como queira . . .
Pacha abriu a gaveta superior da cómoda, tirou de lá um bro­
che com diamantes , um fio de corais, vários anéis , uma pulseira
e deu tudo à senhora.
- Já que as quer, tome , mas não tirei proveito nenhum do seu
marido . Tome , enriqueça ! - continuou Pacha, sentindo-se in­
sultada com a ameaça de ela se pôr de joelhos . - Mas se é no­
bre . . . esposa legítima dele , deveria mantê-lo ao pé de si . É isso !
Eu não o convidava, ele vinha cá porque queria . . .
A senhora, por entre as lágrimas , examinou as jóias e disse:
- Não chega . . . Isto nem quinhentos rublos faz .
Pacha, impulsivamente , atirou-lhe da cómoda ainda um reló­
gio de ouro , uma tabaqueira e botões de punho , e disse , abrindo
os braços :
- Não tenho mais nada . . . Nem que me reviste !
A visitante suspirou , embrulhou tudo num lenço , com as mãos a
tremer, e , sem dizer palavra, sem acenar sequer com a cabeça, saiu .
Abriu-se logo a porta do quarto do fundo e entrou Kolpakov.
Estava pálido e sacudia nervosamente a cabeça, como se aca­
basse de tomar qualquer coisa muito amarga; brilhavam-lhe as
lágrimas nos olhos .
- Que coisas o senhor me trazia? - investiu logo Pacha. -
Quando , se me permite a pergunta?
- Coisas . . . O que interessam as coisas? - disse Kolpakov e
sacudiu a cabeça. - Meu Deus ! Ela a chorar, a humilhar-se
diante de ti . . .
- Pergunto-lhe: que coisas me trouxe? - gritou Pacha.
- Meu Deus, ela, tão decente , orgulhosa, pura . . . a querer
pôr-se de joelhos à frente . . . à frente desta . . . rameira ! Ao ponto
a que eu a levei ! Fui eu !
A Corista 27

Deitou as mãos à cabeça e gemeu:


- Não , nunca hei-de perdoar-me ! Nunca! Afasta-te de
mim . . . porca ! - gritou com repugnância, recuando e repelindo
Pacha com as mãos a tremerem . - Ela já queria ajoelhar-se e . . .
diante de quem? Diante de ti ! Oh , meu Deus !
Vestiu-se rapidamente e , contornando Pacha com noj o ,
dirigiu-se para a porta e saiu .
Pacha deitou-se e desatou num alto choro . Já tinha pena das suas
coisas que entregara num impulso , estava ressentida. Lembrou-se
de que , três anos atrás , um comerciante a espancou sem razão e ela
chorou ainda mais alto .
O PASSAGEIRO DA PRIMEIRA CLASSE

Na carruagem de primeira classe , um passageiro que acabara


de almoçar na estação e estava um pouco embriagado estendeu­
-se no divã de veludo , espreguiçou-se com deleite e dormitou .
Nem cinco minutos depois , abriu o olho oleoso para o seu vis-à­
-vis , sorriu e disse:
- O meu pai que Deus tenha gostava que , depois do almoço ,
as servas lhe coçassem os calcanhares . Eu saí ao meu pai , mas
com uma diferença: depois do almoço não coço os calcanhares
mas sim a língua e os miolos . Eu , homem pecador, gosto de ta­
garelar empanturrado . Dá-me licença que converse um pouqui­
nho consigo?
- Faça o favor - anuiu o outro .
- Depois de um bom almoço , basta-me o motivo mais insig-
nificante para que me passem pela cabeça ideias de peso . Por
exemplo , há pouco estavam dois jovens ao pé do bufete , e o se­
nhor ouviu com certeza como um deles felicitava o outro pela
sua fama. «Parabéns - disse ele - , o senhor já é uma celebri­
dade , já começa a ganhar fama .» Pelos vistos eram desses acto­
res ou jornalistas microscópicos . De resto , esses jovens não in­
teressam . A questão que me preocupa, meu caro senhor, é
diferente: no fundo , o que deve entender-se pelas palavras fama
ou celebridade? O que acha? Púchkin chamava à fama um re­
mendo colorido nos farrapos , e todos nós a compreendemos à
30 Anton Tchékhov

maneira de Púchkin , ou seja, de uma forma mais ou menos sub­


jectiva, mas ainda ninguém deu uma definição clara e lógica des­
ta palavra . O que eu daria por essa definição !
- Para que precisa assim tanto dela?
- É o seguinte: se soubéssemos efectivamente o que é a fama,
talvez conseguíssemos saber as maneiras de a alcançar - disse o
passageiro da primeira classe , depois de reflectir. - Quando eu
era mais jovem também aspirava à fama, meu caro senhor, com
todas as fibras do meu coração . Repare que ter popularidade era
a minha loucura, por assim dizer. Era para ela que estudava, que
trabalhava , que não dormia à noite , que andava sempre meio
morto de fome , que estava a estragar a saúde . E, ao que parece , e
se me é permitido julgar imparcialmente , eu tinha todos os dotes
para a alcançar. Em primeiro lugar, sou engenheiro de profissão .
N a minha vida, já construí na Rússia duas dezenas de excelentes
pontes , fiz os sistemas de canalização em três cidades , trabalhei
na Rússia, em Inglaterra, na Bélgica . . . Em segundo lugar, escre­
vi muitos artigos da minha especialidade . Em terceiro lugar, meu
caro senhor, desde a infância que tenho um fraquinho pela quí­
mica e dedico as minhas horas livres a esta ciência. Foi assim que
descobri métodos de produção de alguns ácidos orgânicos , pelo
que encontrará o meu nome em todos os manuais de química edi­
tados no estrangeiro . Estive sempre no serviço público , chegan­
do ao grau de conselheiro de Estado efectivo , e tenho um currí­
culo imaculado . Não vou cansá-lo com a enumeração dos meus
méritos e trabalhos , direi apenas que fiz muito mais do que cer­
tas celebridades . E depois? Já estou velho , preparo-me , pode
dizer-se , para esticar o pernil , mas a minha fama não é maior do
que a daquele cão preto que vai ali a correr pelo aterro .
- Quem sabe? Se calhar é conhecido .
- Humm ! . . . Vamos lá experimentar. . . Diga-me , alguma vez
ouviu o nome de Krikunov?
O outro ergueu os olhos para o tecto , pensou e riu-se .
- Não , não ouvi . . . - disse .
O Passageiro da Primeira Classe 31

- É o meu nome . O senhor, homem maduro e intelectual ,


nunca ouviu falar de mim . . . e isso é uma prova muito convin­
cente ! Provavelmente , não fiz o que devia para alcançar a fama.
Não descobri o verdadeiro método para isso e , ao querer agarrar
a fama pelo rabo , peguei-a pelo lado errado .
- Mas qual será o método eficaz?
- Só o Diabo sabe qual é ! Dirá o senhor: q talento? A genia-
lidade? A enormidade? Nada disso , meu caro senhor . . . Viveram
e fizeram carreira ao mesmo tempo que eu umas pessoas que ,
comparadas comigo , são fúteis , insignificantes , até reles . Traba­
lhavam mil vezes menos do que eu , não suavam sangue , não re­
velavam quaisquer talentos nem ansiavam pela fama. Mas olhe
para elas ! Os seus nomes aparecem a cada passo nos jornais e nas
conversas ! Se o senhor não estiver ainda farto de me ouvir, dou­
-lhe um exemplo . Há uns anos , estava eu a construir uma ponte
na cidade de K . . Deve dizer-se que , nessa cidade de K . . , vivia­
. .

-se num tédio terrível . Se não fossem as mulheres e o jogo das


cartas , talvez eu tivesse enlouquecido . Por tédio , tive lá um caso
com uma cantorinha, enfim , águas passadas . Sei lá, toda a gente
andava doida com aquela cantora, mas a meu ver . . . como lhe hei­
-de dizer? . . . era uma criatura das mais banais , das mais vulgares ,
dessas como há muitas , a pontapé . Uma rapariga fútil , capricho­
sa, interesseira, ainda por cima estúpida. Comia muito , bebia co­
mo um funil , dormia até às cinco da tarde . . . e, ao que parece , não
fazia mais nada. Era considerada uma cocotte , uma profissional ,
mas quando queriam falar dela de forma literária chamavam-lhe
actriz e cantora. Antigamente , eu era um grande amante do tea­
tro , por isso aquele jogo vigarista com o título de actriz revoltava­
-me sobremaneira. A minha cantorinha não tinha o mínimo direi­
to de se chamar actriz, nem sequer cantora. Era uma criatura
absolutamente medíocre , insensível , miserável , pode até dizer-se .
No meu entender, cantava horrivelmente , e todo o encanto da sua
« arte» se resumia a dar uns coices no momento certo e a não se
embaraçar quando alguém entrava no seu camarim . Escolhia
32 Anton Tchékhov

normalmente vaudevilles traduzidos , daqueles que têm cantigas e


em que ela se podia trajar de fato masculino bem justo . Numa pa­
lavra: fu ! Agora, atenção . Lembro-me como se fosse hoje, foi no
dia da inauguração da ponte acabada de construir. Houve Te
Deum , discursos , telegramas e assim por diante . Eu , está a ver,
andava ao lado da minha criação , com medo de que a emoção pa­
ternal me fizesse rebentar o coração . Foi há muito tempo e , mo­
déstia à parte , direi por isso que a minha ponte ficou magnífica !
Espectacular, excelente ! Além disso , como é possível ficarmos
calmos quando na inauguração está presente toda a cidade? «Pois
bem» , pensava eu , «agora o público vai devorar-me com os
olhos , nem sei onde posso esconder-me» . Mas , meu caro senhor,
não valia a pena preocupar-me . . . infelizmente ! Tirando as perso­
nalidades oficiais , ninguém me prestou a mínima atenção . A mul­
tidão está na margem , a olhar como bois para a ponte , mas nin­
guém quer saber quem a construiu . C ' os diabos , desde então
odeio este nosso respeitável público . Mas adiante . De repente o
público agita-se , cochicha . . . As caras sorriem , os ombros
mexem-se . «Descobriram-me , pelos vistos» , penso eu . Qual quê !
Vejo que está a passar através da multidão a minha cantorinha e ,
atrás dela, uma chusma d e doidivanas; é para a s costas desta pro­
cissão que voam os olhares pressurosos do público . E começa um
sussurro de milhares de vozes: « É Fulana Tal . . . Encantadora !
Feiticeira ! » É então que reparam também em mim . . . Dois mon­
cosos quaisquer (amantes locais da arte cénica, pelos vistos)
viram-me , trocaram olhares e cochicharam: «É o amante dela ! »
O que acha? Gosta disto? Pois bem, e ao meu lado estava uma fi­
gura enfezada de chapéu alto , com a cara que não via navalha há
muito tempo , começou a agitar-se ao meu lado , primeiro , depois
virou-se para mim e disse: «Sabe quem é aquela senhora, que vai
ali a andar na outra margem? É a tal . . . A voz dela está abaixo de
qualquer crítica, mas ela domina-a na perfeição ! . . . »
- Não poderia dizer-me - perguntei à figura enfezada -
quem construiu esta ponte?
O Passageiro da Primeira Classe 33

- Não sei , francamente ! - respondeu a figura. - Um enge­


nheiro qualquer!
- E quem construiu a catedral da vossa cidade? - voltei a
perguntar.
- Também não lhe sei dizer.
A seguir perguntei-lhe quem era considerado o melhor peda­
gogo de K . , quem era o melhor arquitecto , e a figura não sou­
. .

be responder a nenhuma das minhas perguntas .


- Ora diga-me , por favor - perguntei em conclusão - , com
quem vive esta cantora?
- Com um tal engenheiro Krikunov.
Então , meu caro senhor, o que acha? Mas adiante . . . Já não
existem neste mundo os Minnesinger nem os bardos , e a fama é
criada quase exclusivamente pelos jornais . No dia a seguir à
inauguração e bênção da ponte , pego avidamente no Notícias
local e procuro uma qualquer referência à minha pessoa . Percor­
ro com paciência as suas quatro páginas e, finalmente , encontro .
Hurra ! Leio: «Ontem , por um óptimo tempo e uma enorme
afluência de público , na presença de sua excelência o senhor go­
vernador tal e tal e de outras autoridades , realizou-se a bênção da
ponte recém-construída . . . » Etc . , etc . E, no final: « À cerimónia,
que brilhou pela sua beleza, assistiu a favorita do público , a nos­
sa artista talentosa Fulana de Tal . É evidente que o seu apareci­
mento causou sensação . A vedeta vestia . . . », etc . , etc . E nem uma
palavra a meu respeito ! Nem meia palavra ! Por mais mesquinho
que isto seja, olha que até chorei de raiva !
Consolei-me pensando que a província era estúpida, que não
se podia exigir mais da província, que para se atingir a fama era
necessário ir para os centros intelectuais , para as capitais . A pro­
pósito , nessa altura eu apresentara um trabalho a concurso em
Petersburgo . A data da decisão do júri aproximava-se .
Despedi-me de K . e fui para Petersburgo . De K . . . até lá o
. .

caminho é longo , por isso , para não me aborrecer, fui num com­
p artimento individual e, é claro . . . levei comigo a cantorinha. Lá
34 Anton Tchékhov

fomos e , durante todo o caminho , comíamos , bebíamos champa­


nhe e . . . o-lá-lá ! Mas eis que chegámos ao centro intelectual .
Cheguei mesmo no dia do concurso e , caro senhor, tive o prazer
de rejubilar: foi outorgado o primeiro prémio ao meu trabalho .
Hurra ! No dia seguinte fui à Avenida Névski e comprei vários
jornais, no valor de setenta copeques . Corri para o meu quarto do
hotel , deitei-me no divã e, vencendo as tremuras , pus-me a ler
rapidamente . No primeiro pasquim , nada ! No outro . . . nadinha !
Por fim , ao quarto jornal deparo com a notícia seguinte: «Ontem ,
no comboio rápido , chegou a Petersburgo a famosa actriz da pro­
víncia Fulana de Tal . Notamos com prazer que o clima do Sul foi
benéfico para a nossa celebridade: a sua bela aparência céni­
ca . . . » , e não sei que mais ! Muito abaixo desta notícia, estava im­
presso em letras minúsculas : «Ontem , no concurso tal , o primei­
ro prémio foi concedido ao engenheiro tal .» Apenas isso ! Ainda
por cima, deturparam o meu nome: Kirkunov em vez de Kriku­
nov. Toma lá o centro intelectual ! Mas não era tudo . . . Quando ,
um mês depois , eu partia de Petersburgo , todos os jornais fala­
vam da «nossa incomparável , divina, talentosíssima» , e a minha
amante já não era mencionada pelo apelido , mas sim pelo nome
e patronímico . . .
Alguns anos depois , fui a Moscovo , convidado pelo presiden­
te da Câmara , em carta escrita pelo seu próprio punho , por cau­
sa de um assunto que Moscovo , com todos os seus jornais , não
deixa de alardear há já mais de cem anos . Nos intervalos do tra­
balho , fiz lá cinco conferências públicas num museu , com fins
de beneficência. Parece-me que seria o suficiente para me tomar
conhecido na cidade , pelo menos durante três dias , não é verda­
de? Mas não ! Nenhum jornal da capital me dedicou uma só pa­
lavrinha. Sobre os incêndios , sobre o teatro de variedades , sobre
os vogais que dormem , sobre os comerciantes que se embebe­
dam , isso sim , havia de tudo , mas sobre o meu trabalho , o meu
projecto , as conferências - nada ! E o meu querido público mos­
covita ! Tomo o «americano» . . . Repleto como sardinhas em lata:
O Passageiro da Primeira Classe 35

senhoras , militares , estudantes de ambos os sexos . . . gente de to­


da a espécie .
- Dizem que a Duma chamou um engenheiro para tratar do
projecto tal ! - digo eu a um vizinho , em voz alta, para que to­
da a carruagem ouvisse . - Não sabe o nome desse engenheiro?
O meu vizinho abanou negativamente a cabeça. O resto do pú­
blico deitou-me olhares rápidos em que se lia «não sei» .
- Dizem que há um conferencista que fala no museu tal ! -
não deixo em paz o público passageiro , querendo encetar con­
versa. - Dizem que é interessante .
Ninguém acenou sequer com a cabeça. Pelos vistos , não ti­
nham ouvido falar das conferências , e as senhoras nem sequer
deviam saber da existência do museu . Aliás , tudo isso era um
mal menor, mas imagine , meu caro senhor, que o público , de re­
pente , pulou dos lugares e assomou-se às janelas . O que era?
O que se passava?
- Olhem, olhem - diz o meu vizinho empurrando-me . -
Está a ver aquele moreno a subir para o coche? É o famoso cor­
redor King !
E toda a carruagem , exultando , desatou a falar dos corredores
que , naquele momento , dominavam os ânimos moscovitas .
Poderia dar-lhe muitos outros exemplos , mas acho que estes
são suficientes . Pois bem , mas suponhamos agora que eu estou
iludido em relação à minha pessoa, que sou um fanfarrão e um
medíocre . Mesmo assim , poderia indicar-lhe muitíssimos con­
temporâneos meus que foram notáveis pelos seus talentos e pe­
lo trabalho mas que morreram sem qualquer notoriedade . Trata­
-se de navegadores , físicos , químicos , mecânicos , agricultores
russos . . . Têm alguma popularidade? Será que as nossas massas
cultas conhecem os pintores , os escultores , os literatos russos?
Há velhos cavalos literários , laboriosos e talentosos , que andam
há trinta e três anos a bater às portas das editoras , que enchem
resmas de papel , que são levados vinte vezes a tribunal por difa­
mação , e mesmo assim não conseguem ir mais longe do que o
36 Anton Tchékhov

seu formigueiro ! Dê-me pelo menos o nome de um corifeu da


nossa literatura que ficasse famoso antes de correr o rumor de
que fora morto em duelo ou de que fazia batota às cartas !
O passageiro da primeira classe ficou tão exaltado que lhe
caiu o charuto da boca, o que o obrigou a soerguer-se .
- Pois é - continuou , furioso - , e agora compare essas pes­
soas com as centenas de cantorinhas , acrobatas e palhaços de to­
da a espécie que até as crianças de peito conhecem. Pois é !
Rangeu a porta , soprou uma corrente de ar e entrou na carrua­
gem um indivíduo de aspecto sombrio , de capote , chapéu alto e
óculos azuis . O indivíduo passou os olhos pelos lugares , carre­
gou o sobrolho e seguiu em frente .
- Sabem quem era? - disse alguém num tímido sussurro da
ponta longínqua da carruagem . - Era o NN . . , o famoso burlão
.

de Tula, que tem um processo em tribunal , no caso do banco


X. . .
- Ora aí está ! - riu-se o passageiro da primeira classe . -
Ele conhece o vigarista de Tula, mas se lhe perguntar se sabe
quem são Semirádski , Tchaikóvski ou o filósofo Soloviov, aba­
na a cachola . . . Porcaria !
Passaram-se uns três minutos em silêncio .
- Permita que também eu lhe faça uma pergunta - tossicou
timidamente o vis-à-vis de Krikunov. - O senhor conhece o no­
me Puchkov?
- Puchkov? Humm ! . . . Puchkov . . . Não , não conheço !
- É o meu nome . . . - disse o outro , um pouco envergonha-
do . - Portanto , não conhece? Ora, há já trinta e cinco anos que
sou professor catedrático de uma universidade russa . . . membro
da Academia das Ciências . . . tenho bastantes obras publicadas . . .
O passageiro da primeira classe e o seu vis-à-vis trocaram
olhares e desataram a rir.
UM ACONTECIMENTO IMPORTANTE

É de manhã. Através do rendilhado da geada na janela do


quarto das crianças entra a luz forte do Sol . Vânia, garoto de seis
anos, de cabelo curto e o nariz como um botão , e a sua irmã Ni­
na, de quatro anos , de cabelo aos caracóis , rechonchuda e tão pe­
quenina que parece ainda mais nova , acordam e, através das gra­
des das caminhas , olham com zanga um para o outro .
- Uui , que pouca vergonha ! - resmunga a ama-seca. - As
pessoas de bem já tomaram chá , e os meninos ainda têm os olhos
colados . . .
Os raios de sol fazem traquinices no tapete , nas paredes , na ro­
da da saia da ama-seca e como que desafiam a brincar com eles ,
mas as crianças não lhes ligam nenhuma. Acordaram de mau hu­
mor. Nina faz beicinho e, chorosa, começa a lamuriar-se:
- Chá-á-á ! Ama, quero chá-á-á!
Vânia enruga a testa e pensa: a que se poderá agarrar para cho­
rar? Já pestanejava e ia abrir a boca quando , da sala de estar, che­
gou a voz da mamã:
- Não se esqueçam de dar leite à gata, teve os filhotes !
Vânia e Nina olham perplexos um para o outro , depois soltam
um grito em uníssono , pulam das camas e, enchendo o ar com
um guinchar estridente , correm descalços , só de camisa, para a
cozinh a.
38 Anton Tchékhov

- A gata teve gatinhos ! - gritam eles . - A gata teve gati­


nhos !
Na cozinha, debaixo do banco , está uma caixa de tamanho
médio , a mesma em que o Stepan vai buscar o carvão para acen­
der a lareira. Da caixa assoma a cabeça da gata. O focinho
exprime-lhe o extremo cansaço , os olhos verdes , com as pupilas
negras e estreitas , olham com languidez e sentimento . . . Vê-se
pelo focinho da bicha que a sua felicidade seria plena se também
estivesse .ali na caixa «ele» , o pai dos seus filhos , a quem ela se
entregou sem reservas ! A gata quer miar, abre muito a boca, mas
da garganta apenas lhe sai um som roufenho . . . Ouve-se o piar
dos gatinhos .
As crianças põem-se de cócoras em frente da caixa e , sem se
mexerem , retendo a respiração , olham para a gata . . . Estão tão
surpreendidas , tão espantadas que não ouvem os ralhos da ama­
-seca que correra atrás deles . Luz-lhes nos olhos a mais sincera
alegria.
Na educação e na vida das crianças , os animais domésticos de­
sempenham um papel quase imperceptível mas sem dúvida be­
néfico . Quem não se lembra dos cães grandes mas magnânimos ,
dos caniches papa-jantares , dos pássaros que morriam em cati­
veiro , dos perus lorpas mas presunçosos , das meigas gatinhas ve­
lhotas que nos perdoavam quando , por brincadeira, lhes pisáva­
mos o rabo ou lhes fazíamos judiarias dolorosas? Por vezes
parece-me que a paciência, a fidelidade , a prontidão para perdoar
tudo e a sinceridade das nossas criaturas domésticas influenciam
a mente da criança de uma maneira mais forte e positiva do que
os sermões prolixos do seco e pálido Karl Kárlovitch , ou do que
as dissertações nebulosas da preceptora tentando provar aos pu­
pilos que a água é composta por oxigénio e hidrogénio .
- Que pequeninos ! - diz Nina, com os olhos muito abertos
e um riso feliz . - Parecem ratos !
- Um , dois , três . . . - conta Vânia. - Três gatinhos . Então é
um para mim , um para ti e o outro para mais alguém .
Um Acontecimento Importante 39

- Murrrm . . . murrrm . . . - faz a parturiente , lisonjeada com


a atenção . - Murrm .
Depois de muito admirarem os gatinhos , as crianças tiram-nos
à mãe e, não satisfeitos com amassá-los com as mãos , metem­
-nos nas fraldas das camisas e correm para as salas .
- Mamã , a gata tem gatinhos ! - gritam .
A mãe está na sala de estar com um senhor desconhecido . Ao
ver os filhos ainda por lavar e vestir, com as camisas levantadas ,
envergonha-se e faz uns olhos severos .
- Baixai as camisas , desavergonhados ! - diz ela. - Saí da­
qui , ou ficais de castigo .
As crianças nem ouvem as ameaças da mãe e não dão pelo se­
nhor de visita . Pousam os gatinhos no tapete e armam um escar­
céu ensurdecedor. À volta delas anda a parturiente a miar com
uma voz suplicante . As crianças são finalmente arrastadas para o
quarto , vestidas , postas a rezar e obrigadas a tomar o chá, mas o
seu mais ardente desejo é livrarem-se o mais depressa possível
daquelas obrigações prosaicas e voltarem para a cozinha.
Os seus passatempos e brincadeiras habituais passam para úl­
timo plano .
Os gatinhos recém-nascidos ofuscam tudo e tomam-se notícia
fresca, a sensação do dia . Se oferecessem a Vânia ou a Nina uma
arroba de confeitas ou mil moedas de dez copeques por cada ga­
tinho , rejeitariam sem a mínima hesitação . Até à hora do almo­
ço , apesar dos protestos veementes da ama-seca e da cozinheira,
ficam sentados na cozinha ao pé da caixa a ocuparem-se dos ga­
tinhos , com as caras sérias , concentradas , cheias de preocupa­
ção . Preocupação não só pelo presente mas também pelo futuro
dos bichanos . Tomam a decisão de que um gatinho fica em casa
com a mãe gata, para a consolar; outro vai para a casa de cam­
po; o terceiro vai trabalhar para a cave , onde há muitas rataza­
nas .
- Mas porque é que eles não olham? - não percebe a Nina .
- Têm os olhos cegos como os pedintes .
40 Anton Tchékhov

Vânia também cisma muito nesse problema. Tenta abrir os


olhos a um dos gatinhos , fungando e arquejando , mas a opera­
ção não dá qualquer resultado . Também é bastante preocupante
o facto de os gatinhos se recusarem obstinadamente a comer car­
ne e leite . Tudo o que metem debaixo dos focinhos deles é de­
vorado pela cinzentona da mãe .
- Vamos fazer umas casinhas para eles - propõe Vânia. -
Vão viver em casas separadas , e a gata faz-lhes visitas .
Põem caixas dos chapéus nos diversos cantos da cozinha, ins­
talam nelas os gatinhos . Mas esta separação da família é preco­
ce: a gata, sempre com aquela expressão suplicante e sentimen­
tal no focinho , passa por todas as caixinhas e leva os filhos para
o lugar antigo .
- A gata é a mãe deles - observa Vânia. - Mas quem é o
pai?
- Sim, quem é o pai? - repete Nina .
- Não podem ficar sem pai .
Vânia e Nina discutem muito tempo quem será o pai dos ga­
tinhos , até que a escolha recai sobre o cavalo grande , vermelho­
-escuro , com a cauda arrancada , que está abandonado há muito
na despensa, debaixo da escada, vivendo os últimos anos da sua
vida com outra tralha de brinquedos . É então trazido da despen­
sa e colocado à beira da caixa.
- Vê lá, então ! - dizem-lhe com severidade . - Ficas aqui
e vê lá se eles se portam bem.
Tudo isto é dito e feito com muita seriedade e uma expressão
preocupada nas caras . Vânia e Nina não querem saber de mais
nada no mundo a não ser da caixa com os gatinhos . A felicidade
das crianças não tem limites . Porém , também passam por mo­
mentos penosos , torturantes .
Antes do almoço está Vânia sentado no gabinete do pai ,
olhando com ar sonhador para a mesa. Ao lado do candeeiro , em
cima do papel timbrado , mexe-se um dos gatinhos . Vânia obser­
va os seus movimentos e toca-lhe no focinho ora com um lápis ,
Um Acontecimento Importante 41

ora com u m fósforo . . . De repente , como que saído das profun­


dezas da terra, aparece o pai ao pé da mesa.
- O que é isto? - soa a voz zangada do pai .
- É . . . é o gatinho , papá . . .
- Eu digo-te o gatinho ! Olha o que tu fizeste , malandro !
Sujaste-me o papel todo !
Para grande espanto de Vânia, o papá não partilha das suas
simpatias pelos gatinhos e, em vez de ficar fascinado e contente ,
puxa a orelha a Vânia e grita:
- Stepan , tira daqui esta porcaria!
Durante o almoço acontece mais um escândalo . . . Quando es­
tá a ser servido o segundo prato , os comensais ouvem uma es­
pécie de pio . Procuram e vão dar com um gatinho escondido de­
baixo do avental de Nina .
- Ninka, fora da mesa j á ! - zanga-se o pai . - Deitar os ga­
tos fora, para a lixeira, j á ! Não quero mais esta porcaria cá em
casa . . .
Vânia e Nina ficam aterrorizados . A morte na lixeira , para
além de ser uma crueldade , significa privar a gata e o cavalo de
pau dos seus filho s , significa devastar a caixa , destruir os planos
de futuro , o futuro luminoso em que um dos gatos consolaria a
mãe na sua velhice , outro viveria na casa de campo e o terceiro
caçaria ratazanas na cave . . . As crianças começam a chorar e a
implorar misericórdia para os gatinhos . O pai concorda, mas
com a condição de os filhos não se atreverem a ir à cozinha nem
a tocar nos gatinhos .
Depois .do almoço , Nina e Vânia vagueiam pelas salas ,
aborrecendo-se . A proibição de entrarem na cozinha lança-os no
desânimo . Rejeitam doces , fazem birras , são malcriados para a
mãe . Quando , à noite , chega o tio Petrucha , chamam-no de lado
e fazem-lhe queixa do pai que quer deitar os gatinhos para a li­
xeira .
- Tio Petrucha - pedem-lhe - , diz à mamã que deixe pôr
os gatinhos no nosso quarto . Di-i-iz !
42 Anton Tchékhov

- Bem , bem . . . eu digo ! - anui o tio a contragosto . - Está


bem !
O tio Petrucha, normalmente , não vem sozinho . Traz o Nero ,
grande cão negro de raça dinamarquesa, de orelhas pendentes e
rabo duro como um pau . É um cão taciturno , sombrio , cheio de
dignidade . À s crianças não presta a mínima atenção e , quando
passa ao pé delas , bate-lhes com o rabo como se fosse nas ca­
deiras . As crianças odeiam-no de alma e coração mas , desta vez ,
as considerações práticas levam a melhor sobre os sentimentos .
- Ouve , Nina - diz o Vânia, abrindo muito os olhos - , em
vez do cavalo , que seja o Nero o pai deles ! O cavalo é morto , o
Nero é vivo .
Durante todo o fim de tarde esperam pelo momento em que o
papá se sente a jogar às cartas e seja possível levar sorrateira­
mente o Nero para a cozinha . . . Por fim , o papá abanca à mesa
de jogo , a mamã está atarefada com o samovar e não vê as crian­
ças . . . Chega o momento certo .
- Vamos ! - sussurra Vânia à irmã.
Nisto , porém , entra o Stepan e declara num tom de riso:
- Minha senhora, o Nero comeu os gatinhos !
Nina e Vânia empalidecem e olham aterrorizados para Stepan .
- Juro . . . - ri-se o lacaio . - Foi-se à caixa e devorou-os .
Pensam as crianças que , agora, toda a gente da casa vai agitar-
-se e atirar-se ao facínora do Nero . Qual quê , as pessoas man­
têm-se sossegadas nos seus lugares e apenas admiram o apetite
do gigantesco cão . O papá e a mamã riem-se . . . E o Nero passeia­
-se ao lado da mesa, abanando o rabo e lambendo-se , todo cheio
de si . . . Apenas a gata se preocupa: anda pelas salas de rabo es­
ticado , olhando com desconfiança para toda a gente , a miar
lastimosamente .
- Rapaziada, já passa das nove ! Cama ! - grita a mamã.
Vânia e Nina deitam-se , choram , e pensam , pensam na gata
ofendida e no Nero cruel , descarado e impune .
OS B ÊBEDOS

Frolov, proprietário de uma fábrica, homem moreno e bem


apessoado , com uma barbicha redonda e uma expressão suave e
aveludada dos olhos , e o seu procurador, o advogado Almer, ho­
mem de certa idade , com uma grande cabeça rija, estavam em
patuscada numa das salas grandes de um restaurante dos arredo­
res da cidade . Saíram directamente do baile para o restaurante ,
por isso estavam de casacas e gravatas brancas . Além deles e dos
lacaios às portas , não havia mais pessoas na sala: por ordem de
Frolov, não deixavam entrar ninguém .
Para começar, bebeu cada um grande cálice de vodca, com os­
tras a acompanhar.
- Boa ! - disse Almer. - Fui eu , meu amigo , quem criou es­
ta moda de acompanhar a vodca com ostras . A vodca queima, ar­
ranha a garganta , mas quando engolimos uma ostra, o que senti­
mos na garganta é pura volúpia, não é?
Um lacaio imponente , de bigode rapado e suíças cãs , pôs na
mesa a molheira.
- O que estás a pôr aí? - perguntou Frolov.
- O molho provençal para o arenque . . .
- O quê? É assim que o servem? - gritou o industrial , sem
se dignar olhar para a molheira. - Achas que isto é um molho?
Não sabes servir, seu parvo !
44 Anton Tchékhov

Os olhos aveludados de Frolov incendiaram-se . Enrolou a


ponta da toalha no dedo , deu um ligeiro puxão , e as iguarias , os
castiçais, as garrafas caíram no chão com estrépito e tinidos .
Os lacaios , há muito acostumados às catástrofes taberneiras ,
acorreram e , sérios , imperturbáveis, quais cirurgiões durante a
operação , começaram a apanhar os cacos .
- Sabes tratá-los como deve ser - disse Almer e riu-se . -
Mas . . . afasta-te um pouco da mesa, senão pisas o caviar.
- Chamai cá o engenheiro ! - gritou Frolov.
Chamavam engenheiro a um velho decrépito de cara azeda
que , de facto , tinha sido outrora engenheiro e homem rico; como
esbanjou toda a fortuna, no fim da vida foi parar ao restaurante ,
onde dirigia os lacaios e as cantoras e cumpria determinadas en­
comendas relativas ao sexo feminino . Compareceu e inclinou
respeitosamente a cabeça para o lado .
- Ouve , meu caro - dirigiu-se-lhe Frolov - , que trampoli­
nada é esta? Já viste como eles nos servem? Não sabias que eu
não gosto disto? Assim deixo de cá vir, c ' os diabos !
- Peço-lhe encarecidamente desculpa, Aleksei Semiónitch !
- disse o engenheiro , levando a mão ao coração . - Vou tomar
medidas imediatas , e os mínimos desejos do senhor serão cum­
pridos da melhor maneira.
- Está bem , vai . . .
O engenheiro fez uma vénia , recuou , sempre em posição ar­
queada , e desapareceu atrás da porta, com relances de brilho dos
diamantes falsos da camisa e dos dedos .
Foi de novo posta a mesa das iguarias . Almer bebia vinho tin­
to e comia com apetite uma ave qualquer com trufas , tendo ain­
da pedido a matelote I de lota e esturjão aos anéis . Frolov só be­
bia vodca e trincava pão . Amassava a cara com as mão s ,
carregava o sobrolho , fungava, visivelmente mal-humorado . Es­
tavam ambos calados . Era o silêncio na sala. Dois candeeiros

1 Caldeirada de peixe à moda dos marinheiros . (N. T.)


Os Bêbedos 45

eléctricos com quebra-luzes mate piscavam e silvavam , como


que zangados . Por trás das portas , cantarolando baixinho , passa­
vam os ciganos .
- Bebe-se , bebe-se . . . e não nos dá alegria nenhuma - disse
Frolov. - Quanto mais emborco , mais sóbrio fico. Aos outros a
vodca cai bem, anima-os , mas eu fico com raiva, pensamentos no­
jentos , insónia. Meu amigo, porque será que não inventaram outros
prazeres além da bebedeira e da devassidão? É que mete nojo !
- Chama as ciganas .
- Elas que vão pro diabo !
À porta do corredor assomou a cabeça de uma velha cigana.
- Aleksei Semiónitch , os ciganos queriam chá e conhaque -
disse a velha . - Posso pedir?
- Podes ! - respondeu Frolov. - Sabias que os ciganos co­
bram ao dono do restaurante uma percentagem pelo que lhes
oferecem aqui os clientes ? Hoje em dia é impossível confiar até
naqueles que pedem alguma coisa para a vodca. O povo todo é
ignóbil , baixo , mal habituado . Olha esses lacaios, por exemplo .
Têm semblantes de professores , tal qual , o cabelo grisalho , che­
gam a ganhar duzentos rublos por mês , têm casas próprias , as fi­
lhas deles andam nos liceu s , mas podemos insultá-los à vontade ,
ser fanfarrões com eles . O engenheiro , por exemplo , por um ru­
blo é capaz de engolir um frasco de mostarda e de cantar como
o galo . Palavra de honra, se ao menos um deles se ofendesse com
alguma coisa eu dava-lhe mil rublos !
- O que se passa contigo? - perguntou Almer, olhando pa­
ra ele com espanto . - Que melancolia é essa? Estás todo ver­
melho , olhas como uma fera . . . O que tens?
- Estou mal . Tenho uma ideia encravada na cabeça . Ficou lá
espetada como um prego , é impossível arrancá-la.
Entrou na sala um velho pequeno , redondinho , obeso , perfei­
tamente careca, gasto , de casaquinho curto , colete cor de lilás ,
uma guitarra na mão . Fez uma cara idiota e esticou-se todo , le­
vando a mão à testa como um soldado a fazer a continência .
46 Anton Tchékhov

à -ã, é o parasita ! - disse Frolov. - Cá está ele ,


apresento-to: acumulou uma fortuna a grunhir como um porco .
Anda cá !
O industrial deitou num copo vodca, vinho , conhaque , sal e
pimenta, mexeu e deu ao parasita. Este emborcou tudo de uma
vez e pigarreou com galhardia.
- Está habituado a beber mistelas , fica enjoado com o vinho
puro - disse Frolov. - Vá lá, parasita, senta-te e canta .
O parasita sentou-se , passou os dedos gordos pelas cordas e
cantou:

Margarida, linda Guida . . .

Depois do champanhe , Frolov ficou ébrio . Bateu com o punho


na mesa e disse:
- Sim, tenho uma coisa na cabeça ! Não me deixa em paz um
segundo !
- Mas o que é?
- Não posso dizer. É segredo . É um segredo tal que só o di-
go nas orações . Mas , se queres saber, amigavelmente , entre
nós . . . mas vê lá, não sai daqui , a ninguém . . . nunca . . . Eu vou
desabafar, será um alívio , mas tu . . . por amor de Deus, ouve e es­
quece . . .
Frolov inclinou-se para Almer e , durante meio minuto , ficou a
respirar-lhe para o ouvido .
- Odeio a minha mulher ! - acabou por dizer.
O advogado olhou para ele com espanto .
- Sim, sim , a minha mulher, Mária Mikháilovna - murmu­
rou Frolov, corando . - Odeio-a, e está tudo dito .
- Mas porquê?
- Eu próprio não percebo ! Estou casado apenas há dois ano s ,
casei-me por amor, tu sabes , mas agora tenho-lhe u m ódio de
morte , como a um inimigo , como a este parasita, desculpa. E não
há quaisquer motivos , nenhuns ! Quando está sentada ao meu la-
Os Bêbedos 47

do , a comer ou a falar de alguma coisa, até parece que me ferve


a alma toda, mal me contenho para não lhe dizer uma grosseria
qualquer. Passa-se qualquer coisa terrível dentro de mim , nem
sei dizer o quê . É impossível deixá-la ou dizer-lhe a verdade ,
porque seria um escândalo , mas viver com ela, para mim , é pior
que o inferno . Não consigo ficar em casa . De dia trato do negó­
cio e ando pelos restaurantes , à noite vou aos bordéis . Mas co­
mo se pode explicar este ódio? Ela não é uma qualquer, é boni­
ta, esperta , meiga .
O parasita bateu o pé e cantou:

Com um oficial andava,


Meus segredos lhe contava . . .

- Para dizer a verdade , sempre me pareceu que tu e a Mária


Mikháilovna não eram feitos um para o outro - disse Almer de­
pois de uma pausa, e suspirou .
- Queres tu dizer que ela é culta? Ouve . . . Eu próprio aca­
bei a escola comercial com a medalha de ouro , e fui três vezes
a Paris . Não sou tão inteligente como tu , é claro , mas também
não sou mais parvo do que a minha mulher. Não , meu amigo ,
não é essa a causa ! Ouve , vou dizer-te como começou esta con­
fusão toda . Começou porque , de repente , pareceu-me que ela
não casara comigo por amor mas por dinheiro . Meteu-se-me es­
ta ideia na cabeça e pronto . Eu tentava varrê-la do espírito de
todas as maneiras . . . mas nada feito ! Ainda por cima , a minha
mulher tomou-se cobiçosa. Depois da pobreza , viu-se com um
saco de ouro e toca de esbanjar dinheiro . Desvairou-se de tal
forma que chega a gastar vinte mil por mês . Ora , eu sou muito
desconfiado . Não acredito em ninguém , suspeito de toda a gen­
te , e quanto mais carinho me mostram , mais torturante é para
mim . Parece-me sempre que estão a bajular-me por dinheiro .
Não confio em ninguém ! Sou um homem difícil , amigo , muito
di fícil !
48 Anton Tchékhov

Frolov bebeu de um trago um copo de vinho e continuou:


- Aliás , nada disto interessa - disse . - Nem vale a pena
falar disto , nunca . É uma estupidez . Dei com a língua nos den­
tes porque estou bêbedo , e tu agora estás a olhar para mim com
olhos de advogado , todo satisfeito por teres descoberto um se­
gredo alheio . Vamos antes beber ! Ouve - dirigiu-se a um la­
caio - , o Mustafá está aqui? Chama-o !
Um pouco depois entrou na sala um pequeno tártaro , de cerca
de doze anos , de casaca e luvas brancas .
- Vem cá ! - disse-lhe Frolov. - Explica-nos o seguinte
facto: houve tempos em que vós , os tártaros , nos domináveis e
obrigáveis a pagar-vos tributo , mas agora servis de lacaios aos
russos e vendeis batas . Como se explica esta mudança?
Mustafá levantou o sobrolho e disse numa voz fina, cantada:
- Reveses do destino !
Almer olhou para a cara séria do rapaz e desatou a rir-se .
- Dá-lhe um rublo ! - disse Frolov. - É com estes reveses
do destino que ele anda a amealhar o seu capital . Têm-no aqui só
para dizer estas sentenças . Bebe , Mustafá ! Vais dar um graaande
velhaco ! É assim , é incrível como há tanta gente da tua laia, de
parasitas , a girar à volta do rico . Quantos bandidos pacíficos , co­
mo tu , que se multiplicam por aqui . . . Tantos que já não sobra es­
paço para pôr o pé ! Achas que chamemos os ciganos? Sim? Pois
que venham os ciganos !
Os ciganos , que havia muito se aborreciam nos corredores , ir­
romperam na sala com uma gritaria louca, e o desvario começou .
- Bebei ! - gritava-lhes Frolov. - Bebei , tribo do faraó !
Cantai ! Eeeh !

Era o Inverno . . . eeeh ! . . . Corria o trenó . . .

Os ciganos cantavam , assobiavam , dançavam . . . Frolov, na­


quele frenesi que por vezes se apodera das «naturezas largas» ,
muito ricas e mimadas , entrou na estroina. Mandou trazer o jan-
Os Bêbedos 49

tar e champanhe para os ciganos , partiu o quebra-luz mate do


candeeiro , lançou garrafas contra os quadros e os espelhos , e tu­
do isto sem qualquer prazer, de cenho franzido , aos gritos irrita­
dos , com desprezo pelas pessoas , com uma expressão de ódio
nos olhos e nos gestos . Obrigou o engenheiro a cantar a solo , da­
va aos baixos uma mistela de vinho , vodca e óleo para bebe­
rem . . .
À s seis horas trouxeram-lhe a conta .
- Novecentos e vinte e cinco rublos e quarenta copeques ! -
disse Almer e encolheu os ombros de surpresa . - Tanto porquê?
Não , espera, temos de conferir !
- Deixa estar ! - murmurou Frolov, tirando a carteira . -
Que . . . que me roubem . . . Para isso sou rico , para ser roubado . . .
Sem parasitas . . . não é possível . . . É s o meu advogado . . . cobras­
-me seis mil por ano , mas . . . por que raio de serviços ? Aliás . . .
desculpa, nem sei o que estou para aqui a dizer.
Quando Frolov voltava para casa acompanhado por Almer, ia
murmurando:
- Ir para casa, para mim , é terrível ! Pois . . . Não tenho nin­
guém a quem possa abrir a minha alma . . . São todos uns la­
drões . . . Traidores . . . Por que raio , diz lá, te contei o meu segre­
do? Por. . . porquê? Diz lá: porquê?
À entrada da casa esticou-se para Almer e , cambaleando ,
beijou-o na boca pelo velho hábito moscovita: beijar indiscrimi­
nadamente , seja qual for a ocasião .
- Adeus . . . Sou um homem difícil , ruim - disse Frolov. -
Levo uma vida reles , de bêbedo , uma vida desavergonhada. Tu
és um homem culto , inteligente , mas limitas-te a sorrir para ti
próprio e a beber comigo . Não . . . não me vem ajuda nenhuma de
vós todos . . . Se fosses meu amigo , se fosses um homem hones­
to , deverias dizer-me : « É s ignóbil , reles ! É s um porco ! »
- Vai lá, vai l á . . . - murmurava Almer. - Vai para a cama .
- Não me vem ajuda nenhuma de vós todo s . A minha única
esperança é a de que no Verão , quando estiver na aldeia, saia pa-
50 Anton Tchékhov

ra o campo , rebente a tempestade e caia um raio que me fulmi­


ne de vez . . . A . . . adeus . . .
Frolov voltou a beijar Almer e , quase a adormecer de pé , am­
parado por dois lacaios , começou a subir a escada.
O TIFO

No comboio rápido Petersburgo-Moscovo , na carruagem dos


fumadores , ia o jovem tenente Klímov. Em frente dele estava
sentado um homem de idade , com a cara rapada de capitão de
navio mercante , tudo indicando tratar-se de um finlandês ou de
um sueco abastado . Durante todo o caminho , o homem chupava
o seu cachimbo e insistia no mesmo tema:
- Hã, o senhor é offizier! Meu irmão também offizier, só que
marinheiro . Marinheiro , serviço em Kronstadt . Para que você
vai a Moscovo?
- Estou lá de serviço .
- Hã ! Tem família?
- Não , vivo com a minha tia e a minha irmã.
- Meu irmão também offizier, marinheiro , mas tem família,
mulher e três filhos . Hã !
O finlandês espantava-se por tudo e por nada, esboçava um
sorriso largo e idiota quando exclamava «hã ! » e , volta e meia,
limpava a sopro o seu cachimbo malcheiroso . Klímov, que se
sentia adoentado e a quem custava muito responder às pergun­
tas , estava a odiá-lo com toda a alma. Sonhava que seria bom ar­
rancar o cachimbo das mãos do homem e atirá-lo para debaixo
do banco e, depois , expulsá-lo para outra carruagem .
52 Anton Tchékhov

«Gente abominável , esses finlandeses e . . . gregos - pensava.


- Um povo inútil , reles , repugnante . Ocupam injustamente um
lugar no globo terrestre . Para que é que eles prestam?»
E só de pensar em finlandeses e gregos sentia em todo o cor­
po uma espécie de náusea. Como termo de comparação , queria
pensar nos franceses e nos italianos , mas a recordação destes po­
vos apenas lhe provocava, sabia lá porquê , imagens de tocado­
res de realejo, de mulheres nuas e das oleografias que a sua tia
tinha penduradas em casa por cima da cómoda.
O oficial sentia que o seu estado , de uma maneira geral , era
anómalo . Os braços e as pernas não se lhe acomodavam no
banco-cama , embora o ocupasse todo; tinha a boca seca e pega­
josa, na cabeça pairava-lhe uma névoa pesada; os pensamentos
pareciam vaguear-lhe não só na cabeça mas também fora dela,
entre os bancos e as pessoas , envoltos em bruma noctuma. Atra­
vés da turbação da cabeça ouvia, como num sonho , o murmúrio
das vozes , o rolar das rodas , o bater das portas . Os sinais do
comboio , os apitos do controlador, a correria dos passageiros na
plataforma ouviam-se agora com maior frequência. O tempo ,
imperceptivelmente , voava depressa, por isso lhe parecia que o
comboio parava nos apeadeiros de minuto a minuto , e que , vol­
ta e meia, chegavam de fora vozes metálicas:
- O correio está pronto?
- Está !
Parecia que o fogueira entrava com demasiada frequência pa­
ra ver o termómetro , que se ouviam sem parar os comboios que
se cruzavam com o nosso e o estrondear das rodas ao passar pe­
las pontes . O barulho , os apitos , o finlandês , o fumo do tabaco ,
tudo isso , misturado com as ameaças e o piscar das imagens ne­
bulosas , cujas formas e carácter um homem sadio é incapaz de
recordar, oprimia tanto Klímov como um pesadelo insuportável .
Numa terrível angústia, soerguia a cabeça pesada, olhava para os
raios do lampião em que giravam sombras e manchas impreci­
sas , queria pedir água mas a sua língua ressequida quase não se
O Tifo 53

mexia e mal tinha forças para responder às perguntas do finlan­


dês . Tentava acomodar-se melhor e adormecer, mas não conse­
guia. Quanto ao finlandês , adormecia várias vezes , acordava,
acendia o cachimbo , dirigia-se-lhe com o seu «hã ! » e voltava a
adormecer. As pernas do tenente é que não encontravam posição
no banco , as imagens ameaçadoras é que se erguiam obstinada­
mente diante dos seus olho s .
E m Spírovo saiu à estação para beber água. Viu pessoas às
mesas comendo apressadamente .
«Como é que podem comer?» , pensava ele , evitando cheirar o
ar fedorento da carne assada e olhar para as bocas a mastigarem
- ambas as coisas lhe pareciam nauseabundas .
Uma senhora bonita conversava alto com um militar de boné
vermelho e, sorrindo , expunha os seus belos dentes brancos; o
sorriso , os dentes e a própria senhora causavam a Klímov a mes­
ma expressão de enjoo que o presunto e as costeletas assadas .
Não percebia como não era medonho para o militar estar senta­
do ao lado dela a olhar-lhe para a cara sorridente e sadia.
Quando, depois de beber água, Klímov voltou para a sua carrua­
gem, o finlandês estava sentado a fumar. O seu cachimbo silvava e
soluçava como uma galocha esburacada em tempo húmido.
- Hã ! - espantou-se ele . - Que estação é?
- Não sei - respondeu Klímov, deitando-se e tapando a bo-
ca para não respirar o fumo acre do tabaco.
- Quando vamos chegar a Tver?
- Não sei . Desculpe , eu . . . não posso responder-lhe . Estou
doente , constipei-me hoje.
O finlandês bateu com o cachimbo no caixilho da janela e pôs­
-se a falar do seu irmão marinheiro . Klímov já não o ouvia e re­
cordava com saudade a sua cama macia e confortável , o jarro
com a água fria, a sua irmã Kátia que sabia tão bem preparar a
cama , acalmar, dar água. Até sorriu quando lhe relanceou na
imaginação o impedido Pável a tirar ao amo as botas pesadas e
abafadas e a pôr a água em cima da mesinha-de-cabeceira.
54 Anton Tchékhov

Parecia-lhe que bastava deitar-se na sua cama, beber água, e o


pesadelo daria lugar a um sono reparador, saudável .
- O correio está pronto? - perguntava uma voz surda vinda
de longe .
- Está ! - respondeu uma voz de baixo junto à janela.
Já era a segunda ou terceira estação desde Spírovo .
O tempo corria depressa, aos saltos, os sinais de partida, os
apitos e as paragens pareciam não ter fim . Klímov, em desespe­
ro , apertou a cara contra o canto do banco, envolveu a cabeça
com os braços , de novo a pensar na irmã Kátia e no impedido
Pável , mas a irmã e o impedido misturavam-se com outras ima­
gens nebulosas , giravam-lhe na cabeça e acabavam por desapa­
recer. A sua própria respiração quente , reflectida pelo espaldar
do banco , queimava-lhe a cara, não havia meio de encontrar con­
forto para as pernas , o vento da janela soprava-lhe para as costas
mas , por mais incómodo que isso fosse , não lhe apetecia mudar
de posição . . . Aos poucos apoderou-se dele uma preguiça pesa­
da que lhe tolheu os membros .
Quando se atreveu a levantar a cabeça, a carruagem já estava
cheia da luz do dia. Os passageiros vestiam as peliças , mexiam­
-se . O comboio estava parado . Os bagageiras , com os seus aven­
tais brancos e os distintivos , atarefavam-se junto dos passageiros
e pegavam-lhes nas malas . Klímov vestiu o capote , saiu maqui­
nalmente atrás dos outros , e tinha a sensação que não era ele que
andava mas outro por ele , e que saíam da carruagem , juntamen­
te com ele , a febre , a sede e as imagens ameaçadoras que não o
deixaram dormir toda a noite . Foi também maquinalmente que
recebeu a sua bagagem e arranjou um trenó . O cocheiro levava­
-lhe um rublo e vinte e cinco copeques até à Rua Povarskaia,
mas Klímov não regateou , sentou-se com obediência no trenó .
Ainda percebia a diferença dos números , mas o dinheiro deixa­
ra de ter valor para ele .
Em casa foi recebido pela tia e pela irmã Kátia, uma menina
de dezoito anos . Quando o saudou , Kátia tinha nas mãos um ca-
O Tifo 55

demo e um lápis , o que recordou a Klímov que ela preparava o


exame para professora. Klímov, ofegante e a soprar de calor,
nem respondia às perguntas e às boas-vindas que lhe davam e ,
sem qualquer objectivo , desatou a passear-se por todas a s salas ;
mal chegou ao seu quarto , atirou-se para cima da cama e afun­
dou a cabeça na almofada. O finlandês , o boné vermelho , a se­
nhora dos dentes brancos , o cheiro a carne assada , as manchas a
piscarem-lhe à frente dos olhos tomaram conta da sua consciên­
cia e Klímov deixou de saber onde estava e já não ouvia as vo­
zes preocupadas das mulheres .
Quando deu acordo de si , viu-se na cama, despido , viu o jar­
ro de água e Pável , mas isso não lhe deu mais frescura nem con­
forto . Continuava a não acomodar as pernas e os braços , a língua
colava-se ao céu da boca, ouvia os ruídos soluçados do cachim­
bo finlandês . . . Junto da cama, empurrando Pável com as suas
costas largas , atarefava-se um doutor robusto de barba negra .
- Tudo bem, tudo bem , meu jovem ! - murmurava o médi­
co . - Ó ptimo , óptimo . . . Pronto , pronto . . .
O doutor tratava Klímov por «meu jovem» , pronunciava
«praunto» em vez de «pronto» , «sem» em vez de «sim» .
- Sem , sem, sem - metralhava ele . - Praunto , praunto . . .
Óptimo , meu jovem . . . Não desanime !
A fala rápida e descuidada do doutor, a sua fisionomia farta e
aquele «meu jovem» condescendente irritaram Klímov.
- Porque me trata por <<jovem»? - gemeu . - Que familia­
ridade é essa? Pro raio que o parta !
E assustou-se com a sua própria voz , tão seca , fraca e cantada
que se tornava irreconhecível .
- Óptimo , óptimo - murmurou o doutor sem se ofender mi­
nimamente . - Não se irrite . . . Sem, sem , sem . . .
Tal como na carruagem , também em casa o tempo voava com
uma rapidez extraordinária . . . No quarto , a luz do dia era substi­
tuída demasiado depressa pelos crepúsculos . O doutor parecia
nunca lhe sair da cabeceira da cama com os seus «sem , sem ,
56 Anton Tchékhov

sem» . Passava-lhe pelo quarto uma procissão ininterrupta de


pessoas : Pável , o finlandês , o capitão Jaroszewicz , o vagomestre
Maksimenko , o boné vermelho , a senhora dos dentes brancos , o
doutor. Todos eles falavam, gesticulavam , fumavam , comiam .
Klímov chegou mesmo a ver, à luz do dia, o padre Aleksandr do
seu regimento que , de estola e breviário nas mãos , estava à sua
cabeceira e murmurava qualquer coisa com uma cara tão séria
como nunca lhe vira. O tenente lembrou-se de que o padre Alek­
sandr tratava todos os oficiais católicos , com familiaridade , por
laches2 e, querendo fazê-lo rir, gritou:
- Padre , o lach Jaroszewicz vai a correr para a floresta !
Porém , o padre Aleksandr, homem animado e amigo de rir,
não se riu , mas tomou-se ainda mais sério e benzeu Klímov com
a mão . Durante a noite , estavam sempre a entrar e a sair duas
sombras silenciosas . Eram a tia e a irmã. A sombra da irmã
punha-se de joelhos e rezava: dobrava-se para o ícone em reve­
rências e, em simultâneo , também a sua sombra cinzenta se in­
clinava, e era como se rezassem a Deus duas sombras . Conti­
nuava a cheirar sempre a carne assada e a cachimbo finlandês ,
mas houve uma ocasião em que Klímov sentiu um cheiro forte a
incenso . O enjoo fê-lo agitar-se , gritou:
- O incenso ! Tirem o incenso !
Não houve resposta . Ouvia-se apenas , algures , o canto baixi­
nho dos padres e alguém a correr pela escada .
Quando Klímov voltou a si , não havia ninguém no quarto .
O sol da manhã disparava contra a janela através da cortina cor­
rida , e uns raios trémulos , finos e graciosos , como laminazinhas ,
brilhavam no jarro . Ouvia-se o barulho de rodas na calçada, o
que significava que já não havia neve . O tenente olhou para
o feixe de sol , para os móveis familiares , para a porta, e logo se
riu . Tremia-lhe o peito e a barriga num riso delicioso , feliz , co­
mo se lhe fizessem cócegas . Dominou-lhe todo o ser, da cabeça

2 Polacos , um pouco depreciativo . (N. T.)


O Tifo 57

aos pés , aquela sensação de felicidade infinita e alegria de viver


que , provavelmente , sentiu o primeiro homem quando foi cria­
do e viu o mundo . Klímov ficou ansioso até à loucura pelo mo­
vimento , pelas pessoas , pelas conversas . O seu corpo jazia co­
mo uma pedra imóvel , só as mãos se mexiam , mas ele quase não
reparou nisso e concentrou toda a sua atenção nas minúcias .
Alegrava-se com a sua respiração , o seu riso, com a existência
do jarro da água, do tecto , do raio de sol , da fita da cortina . Mes­
mo num cantinho tão acanhado como o seu quarto de dormir, o
mundo de Deus parecia-lhe belo , variado , grandioso . Quando
chegou o doutor, o tenente pensou de si para si que a medicina
era uma coisa linda, que o doutor era muito querido e simpáti­
co , que toda a gente era boa , interessante .
- Sem , sem, sem . . . - metralhava o doutor. - Ó ptimo , óp­
timo . . . Agora estamos bem . . . Praunto , praunto .
O tenente ouvia e ria alegremente . Lembrou-se do finlandês ,
da senhora dos dentes brancos , do presunto , e apeteceu-lhe fu­
mar, comer.
- Doutor - disse ele - , diga que me tragam uma côdea de
pão de centeio e . . . sardinhas .
O doutor recusou , Pável não cumpriu a ordem e não foi bus­
car o pão . O tenente não suportou isso e desatou a chorar como
uma criança caprichosa.
- Criancinha ! - riu-se o doutor. - Mamã, buu , buu !
Klímov também se riu e , quando o doutor saiu , adormeceu
profundamente . Acordou com a mesma alegria e sensação de fe­
licidade . Ao lado da cama estava sentada a tia.
- Tia ! - alegrou-se . - O que foi que eu tive?
- Tifo exantemático .
- Então foi isso . Mas agora estou bem, muito bem ! Onde es-
tá a Kátia?
- Não está em casa. Talvez fosse a algum lado depois do exame .
A velha disse isto e debruçou-se sobre a meia que estava a tri­
cotar; os lábios dela tremeram , virou a cara de Klímov e , de re-
58 Anton Tchékhov

pente , começou a chorar amargamente . No seu desespero , es­


quecendo a proibição do doutor, disse:
- Ah , Kátia, Kátia ! Já não temos o nosso anjo ! Já não temos !
Deixou cair a meia e inclinou-se para a apanhar. Olhando pa­
ra a cabeça branca da tia, sem perceber ainda, Klímov assustou­
-se e perguntou:
- Mas onde está ela? Tia !
A velha, concentrada apenas n a sua desgraça e esquecida de
Klímov, disse:
- Pegaste-lhe o tifo e . . . morreu . Fizemos-lhe anteontem o
funeral .
A notícia inesperada e terrível , apesar de lhe ter entrado plena
e claramente na consciência, e por mais assustadora e forte que
fosse , não conseguiu superar a alegria animal que enchia o con­
valescente . Klímov chorava, ria e, logo depois , começou a pra­
guejar porque não lhe davam de comer.
Só uma semana depois , quando , enfiado no roupão e ampara­
do por Pável , Klímov se aproximou da janela, olhou para o céu
primaveril sombrio e escutou o estreito desagradável de uns car­
ris velhos arrastados pela rua, o seu coração teve um aperto de
dor, e Klímov chorou , com a testa encostada ao caixilho da ja­
nela.
- Que infeliz eu sou ! - murmurou . - Meu Deus, que infe­
liz !
E a alegria deu lugar ao tédio quotidiano e ao sentimento de
perda irreparável .
O CARDO-CORREDOR
Um esboço de viagem

Voltava eu do ofício noctumo . O mecanismo do relógio do


campanário do mosteiro 3 , à laia de prefácio , tocou a sua música
baixinha e harmoniosa e, a seguir, bateu as badaladas da meia­
-noite . O grande terreiro do mosteiro , na margem do Donets , no
sopé do monte Santo , ladeado pelos altos edifícios de hospeda­
ria como se se tratasse de muralhas , alumiado agora , a esta hora
noctuma, apenas pelos lampiões baços , as luzinhas das janelas e
as estrelas , apresentava o aspecto de uma caldeirada viva, cheia
de movimento , de sons e da mais original desordem . Todo ele ,
de um extremo ao outro , até onde a vista alcançava, estava atu­
lhado de todo o género de carroças , carros cobertos , carriolas ,
arbás4 , charretes , ao lado dos quais se apertavam cavalos escu­
ros e brancos e bois de cornos volumosos , e se atarefavam as
pessoas e formigavam de um lado para o outro os noviços de ba­
tinas talares negras ; moviam-se sombras e os feixes de luz caí­
dos das janelas pelas cabeças das pessoas e dos cavalos - e tu­
do isto , no crepúsculo espesso, tomava as mais alambreadas e

3 Trata-se do Mosteiro da Assunção , na margem do rio Donets , na Ucrânia. Exis­


te desde os inícios do século xvn . (N. T.)
4 Arbá: carro coberto; palavra de origem turca. (N. T.)
60 Anton Tchékhov

caprichosas formas: ora os varais levantados se estendiam até ao


céu , ora luziam nos cavalos uns olhos ígneos , ora cresciam a um
noviço umas asas negras . . . Ouvia-se o rumorejo, o sopro e a
mastigação dos cavalos , os pios das crianças , os rangidos . Pelo
portão entravam novas multidões , carroças atrasadas .
Os pinheiros , como que empilhados uns por cima dos outros
no monte abrupto , inclinando-se para o telhado do edifício da
hospedaria, olhavam para o terreiro como para um buraco fundo
e escutavam com espanto ; no meio da sua escuridão gritavam
sem parar os cucos e os rouxinóis . . . Quem observasse esta con­
fusão e ouvisse o barulho podia imaginar que nesta caldeirada
viva ninguém se entendia, que toda a gente andava à procura de
qualquer coisa e nunca mais a encontrava, que esta aglomeração
de carroças , carriolas e pessoas teria poucas probabilidades de
alguma vez se dispersar.
Para os dias de São João e de São Nicolau afluíam ao monte
Santo mais de dez mil pessoas . Não só os edifícios de hospeda­
ria mas também a padaria, a alfaiataria, a carpintaria e a cochei­
ra ficavam repletas . . . Os que chegavam à noite esperavam que
lhes indicassem o lugar de pernoita e, como moscas outonais ,
apertavam-se contra as paredes , junto aos poços ou nos corredo­
res estreitinhos da hospedaria. Os noviços , jovens e velhos , an­
davam numa fona, sem descanso e sem esperança de serem
revezados . Tanto de dia como até noite avançada, davam a im­
pressão constante de serem pessoas apressadas e alarmadas por
qualquer coisa , mas as suas caras , apesar da exaustão , manti­
nham-se enérgicas e simpáticas , as vozes carinhosas , os movi­
mentos rápidos . . . Tinham de encontrar lugar de pernoita para ca­
da recém-chegado , dar-lhe de comer e de beber; aos surdos , aos
de compreensão lenta e aos que faziam perguntas sem fim era
preciso dar muitas e cansativas explicações : porque era que não
havia quartos vagos , a que horas eram os ofícios , onde se vendia
o pão bento , etc . Era preciso correr, carregar com coisas , falar
sem parar; mais ainda, era preciso ser amável , delicado , tentar
O Cardo-Corredor 61

colocar os gregos de Mariúpol , mais habituados ao conforto do


que os ucranianos , junto dos outros gregos , assegurar que algu­
ma citadina de Bakhmut ou de Lissitchansk vestida «à fidalga»
não ficasse no mesmo recinto que os mujiques e não se ofendes­
se . Volta e meia ouviam-se exclamações: «Paizinho , dê-nos
kvass , por favor! Arranje-nos feno , por favor! » Ou então: «Paizi­
nho , posso beber água depois da confissão?» E o noviço tinha de
servir o kvass , tinha de arranjar o feno , tinha de responder:
«Mãezinha, pergunte isso ao confessor. Nós não temos o direito
de decidir.» Seguia-se uma nova pergunta: «Onde está o confes­
sor?» E era preciso explicar onde era a cela do confessor . . . Ape­
sar desta actividade frenética, ainda arranjavam tempo de ir ao
ofício litúrgico , de prestar serviço na parte fidalga da hospedaria
e de responder pormenorizadamente a um mar de perguntas , fú­
teis ou não fúteis, que os peregrinos intelectuais gostam de fazer.
Olhando para estas figuras negras em movimento perpétuo du­
rante um dia inteiro , era difícil perceber se alguma vez se senta­
vam ou dormiam.
Quando , de volta da igreja, me aproximei do edifício onde me
tinham reservado um quarto , vi à porta de entrada um monge ho­
teleiro e, perto dele, nos degraus , vários homens e mulheres em
trajos urbanos .
- Meu senhor - fez-me parar o hoteleiro - , por favor, per­
mita que este jovem durma no seu quarto ! Por favor ! Há muita
gente , não há lugares . . . é um castigo !
E apontou para uma figura de tamanho mediano , de sobretu­
do leve e chapéu de palha . Anuí, e o meu companheiro ocasio­
nal foi atrás de mim. De cada vez que abria o pequeno cadeado
da minha porta, tinha de olhar, nem que não quisesse , para o qua­
dro que estava junto ao umbral , ao nível dos meus olhos . Este
quadro , intitulado Reflexões sobre a Morte , representava um
monge ajoelhado que olhava para um caixão com um esqueleto
dentro; nas costas do monge havia outro esqueleto maior arma­
do de gadanha.
62 Anton Tchékhov

- Não existem ossos assim - disse o meu companheiro ,


apontando para a parte do esqueleto onde deveria estar a bacia.
- Note que , em geral , o alimento espiritual servido ao povo não
é de primeira categoria - acrescentou e emitiu um suspiro na­
sal prolongado , muito triste , que deveria provar-me que eu esta­
va a lidar com um homem que era conhecedor do alimento espi­
ritual .
Enquanto eu procurava os fósforos e acendia a vela, suspirou
mais uma vez e disse:
- Em Khárkov visitei várias vezes o anfiteatro de anatomia e
vi os ossos . Cheguei mesmo a ir à morgue . Não estou a incomo­
dá-lo?
O meu quarto era acanhado , sem mesas e sem cadeiras , ocupa­
do na totalidade por uma cómoda, um fogão e dois divãs peque­
nos , separados por uma passagem estreita. Em cima dos divãs ,
além das minhas coisas , estavam os colchões , finos e arruivados .
Observei ao meu convivente que , como os colchões eram dois , o
quarto destinava-se a duas pessoas .
- Aliás , daqui a pouco vão tocar para o ofício matinal - dis­
se ele - , por isso não o vou incomodar muito .
Imaginando sempre que estava a incomodar-me , e embaraça­
do por causa disso , dirigiu-se com um andar culpado até ao seu
divã, suspirou e sentou-se . Quando a vela de sebo , depois de tre­
meluzir com a sua chama preguiçosa e fraca, se estabilizou e nos
alumiou a ambos , pude observá-lo bem . Era um jovem dos seus
vinte e dois anos, de cara redonda bastante bonita , com olhos es­
curos infantis , vestindo uma roupa urbana mas cinzenta e bara­
ta , e , a julgar pelas cores do rosto e pelos ombros estreitos , nun­
ca conhecera o trabalho físico . Era de um tipo muito indefinido:
não se podia tomá-lo por estudante , nem por homem de comér­
cio , nem , ainda menos , por operário; ora, olhando bem para a
sua cara gentil e para os seus olhos infantis , não gostaríamos de
o incluir no rol daqueles malandros vadios que pululam nos lu­
gares de peregrinação onde arranjam comida e dormida, pessoas
O Cardo-Corredor 63

que se fazem passar por seminaristas expulsos por terem lutado


pela justiça ou por elementos de coros que perderam a voz . . .
Havia na cara dele qualquer coisa característica, típica, familiar,
mas não conseguia perceber nem recordar o quê .
Ficou muito tempo calado , pensando em qualquer coisa. Pro­
vavelmente , como eu não dera valor à sua observação sobre os
ossos e a morgue , pensaria que eu estava desagradado com a pre­
sença dele . Tirando um chouriço do bolso , pôs-se a dar-lhe vol­
tas nas mãos e disse , indeciso:
- Desculpe a maçada . . . O senhor não tem um canivete?
Dei-lhe o canivete .
- O chouriço é abominável - franziu a cara, cortando um
bocado . - Vendem esta porcaria na lojeca local , mas os preços
queimam . . . Eu oferecia-lhe um bocadinho , mas o senhor não vai
gostar, com certeza. Quer?
Na sua fala soava também qualquer coisa típica que tinha
muito a ver com as características da fisionomia, mas ainda não
conseguira descobrir o que era. Para ganhar a sua confiança e lhe
mostrar que não estava agastado , aceitei um pedaço de chouriço .
Era de facto horrível: para dar conta dele era necessário ter den­
tes de um bom cão de guarda . Com grande esforço de mandíbu­
las , encetámos a conversa. Começámos por nos queixar, ambos ,
da duração dos ofícios religiosos .
- A regra local aproxima-se da de Atos - disse eu - , mas
em Atos o ofício noctumo normal demora dez horas e , nas fes­
tas grandes , catorze . Se experimentasse rezar lá !
- Sim ! - disse o meu companheiro e abanou a cabeça. -
Estou aqui há três semanas e todos os dias há ofícios . . . Nos dias
da semana, à meia-noite , às cinco e às nove da manhã tocam pa­
ra a missa. É impossível dormir. Depois , durante o dia, são os
acatistos , mais ofícios . . . Eu , quando me preparava para a con­
fissão e a comunhão , quase caía de cansaço . - Suspirou e con­
tinuou: - Mas envergonha-me não ir à igreja, não gosto de fal­
tar . . . Os monges oferecem-nos alojamento , dão-nos de comer,
64 Anton Tchékhov

por isso , já vê , faltar é uma inconveniência. Isto aguenta-se bem


um dia ou dois , mas três semanas custa muito ! Muito ! O senhor
vai ficar aqui muito tempo?
- Vou-me embora amanhã à noite .
- E eu ainda fico mais duas semanas .
- Mas parece que não é muito conveniente ficar aqui tanto
tempo , pois não? - disse eu .
- É verdade , quando vêem aqui alguém muito tempo a viver
por conta dos monges , pedem-lhe que se vá embora . Veja, se fos­
se permitido aos proletários virem cá quando quisessem , não ha­
veria um quarto livre e devoravam todo o mosteiro . É verdade .
Mas os monges abrem uma excepção para mim , e não será tão
cedo que me expulsam daqui . Sou um recém-convertido .
- Como?
- Sou judeu , cristão-novo . . . Converti-me há pouco tempo à
ortodoxia cristã .
Eu percebia agora o que não percebera antes na cara dele: os
lábios grossos , a maneira de levantar o canto direito da boca e o
sobrolho direito quando conversava, e aquele brilho específico
dos olhos , como que oleoso , próprio apenas dos semitas ; tam­
bém percebi as particularidades da sua fala . . . A seguir fiquei a
saber que se chamava Aleksandr Ivánitch , mas que dantes era
Isaac , que era originário da província de Moguiliov e que che­
gara ao monte Santo vindo de Novotcherkassk , local onde se
convertera ao cristianismo .
Vencido o chouriço , Aleksandr Ivánitch levantou-se e , er­
guendo o sobrolho direito , rezou diante do ícone . O sobrolho
continuou levantado quando , a seguir, voltou a sentar-se no divã
e começou a contar-me , resumidamente , a sua longa biografia.
- Desde a mais tenra infância que tinha amor pelos estudos
- começou ele no tom de quem não falasse de si mesmo mas de
algum grande homem falecido . - Os meus pais são judeus po­
bres , vivem de um comércio de pechinchas , enfim, vivem na mi­
séria e porcaria. Em geral , toda a gente de lá é pobre e supersti-
O Cardo-Corredor 65

ciosa, não gosta de estudos porque a educação , evidentemente ,


afasta o homem da religião . . . São uns fanáticos terríveis. Os
meus pais não queriam de maneira alguma dar-me ensino , que­
riam que eu também fizesse comércio e não soubesse mais nada
além do Talmude . . . Mas passar a vida a bater-se pela fatia de
pão , no meio da porcaria, a ruminar sempre esse Talmude , isso
nem todos aguentam , tem de concordar. À s vezes chegavam à ta­
berna do meu pai oficiais que contavam muita coisa com que eu ,
naquele tempo , nem sonhava; é claro que isso era tentador e
fazia-me inveja. Eu chorava e pedia que me mandassem para a
escola, mas ensinaram-me a ler em hebraico , mais nada . Uma
ocasião encontrei um jornal russo , levei-o para casa para fazer
um papagaio com ele , mas bateram-me , embora eu nem sequer
soubesse ler em russo . É claro que o fanatismo é inevitável por­
que cada povo preserva , instintivamente , a sua autenticidade na­
cional , mas eu não o sabia e indignava-me muito . . .
Depois de dizer esta frase tão inteligente , o ex-Isaac , satisfei­
to , levantou ainda mais o sobrolho direito e olhou para mim de
lado , como o galo para o cereal , e com um ar que significava:
«Agora convenceu-se finalmente de que sou um homem inteli­
gente?» Depois de falar mais um pouco sobre o fanatismo e de
como ansiava obstinadamente pela iluminação , continuou:
- O que podia eu fazer? Fugi para Smolensk . Tinha lá um
primo que era estanhador, fazia latas . Fiquei com ele como
aprendiz porque não tinha com que viver, e andava descalço e
esfarrapado . . . Pensava trabalhar de dia e estudar à noite e aos
sábados . Era isso mesmo que eu fazia, mas a polícia soube que
eu não tinha passaporte e mandou-me , sob escolta , para casa do
meu pai . . .
Aleksandr Ivánitch suspirou e encolheu um ombro .
- O que podia fazer? - continuou , e quanto mais vivida­
mente lhe ressurgia o passado na memória, mais se manifestava
na sua fala o sotaque judaico . - Os meus pais castigaram-me e
entregaram-me ao meu avô , um velho fanático , para que me des-
66 Anton Tchékhov

se a correcção . Mas , de noite , eu fugi para Chklov. E quando , em


Chklov, o meu tio tentou apanhar-me , fui para Moguiliov; fiquei
lá dois dias e, depois , fui com um companheiro para Starodub .
Seguidamente , o narrador enumerou , de entre as suas recor­
dações , Gómel , Kíev, Bélaia Tsérkov, Uman , Balta, Bendéri ,
chegando , por fim, a Odessa.
- Em Odessa, vagueei uma semana inteira, sem trabalho ,
cheio de fome , até que uns judeus que andavam no negócio da
roupa velha me deram abrigo . Eu , nessa altura, já sabia ler e es­
crever em russo , sabia alguma aritmética, até às fracções , e que­
ria entrar numa escola. Mas não tinha recursos . Nada a fazer !
Durante meio ano andei por Odessa a comprar roupa velha, mas
os malandros dos judeus não me pagavam, e eu , ofendido , dei o
fora. Depois fui , de vapor, para Perekop .
- Para quê?
- Não sei , um grego de lá tinha-me prometido emprego . Re-
sumindo , até aos dezasseis anos andei assim, sem trabalho certo
e sem destino , até que fui parar a Poltava. Um universitário lá de
Poltava, também judeu , soube que eu queria estudar e deu-me
uma carta para os estudantes de Khárkov. Os estudantes aconse­
lharam-se entre eles e começaram a preparar-me para uma esco­
la técnica. E digo-lhe uma coisa: eram uns estudantes que não
hei-de esquecer até à hora da minha morte . Além de me terem
dado o tecto e a fatia de pão , guiaram-me pelo verdadeiro cami­
nho , ensinaram-me a pensar, indicaram-me o objectivo da vida.
Entre eles havia pessoas inteligentes , pessoas notáveis que até já
são famosas . Por exemplo , o senhor já ouviu falar do Gruma­
cher?
- Não , não ouvi .
- Não ouviu . . . Ele escrevia artigos muito inteligentes nos
jornais de Khárkov e preparava-se para ser professor universitá­
rio . Então , eu lia muito , participava nos círculos estudantis , on­
de não se ouvem ordinarices . Andei a preparar-me durante meio
ano , mas como para a escola técnica é preciso ter o curso com-
O Cardo-Corredor 67

pleto de Matemática do liceu , o Grumacher aconselhou-me a


que me preparasse antes para o instituto veterinário , onde admi­
tem pessoas com apenas o sexto ano do liceu . Eu não queria ser
veterinário mas disseram-me que os finalistas deste instituto po­
diam entrar na faculdade de medicina, logo para o terceiro ano ,
sem exame . Aprendi todo o Kuner5 , j á lia à livre ouvertó o Cor­
nélio Nepos 7 e estudei o Grego antigo em Curtius 8 , li-o quase
todo . Mas , bem vê , mais isto e aquilo . . . Os estudantes que se fo­
ram embora, e eu fiquei numa situação indefinida, sabendo ain­
da por cima que tinha chegado a minha mãe e que andava à mi­
nha procura por toda a cidade de Khárkov. Então , fui-me
embora dali . Nada a fazer ! Felizmente , soube que aqui , na es­
trada de Donetsk , há uma escola de minas . Porque não? É que ,
não sei se sabe , a escola de minas dá direito a ser Steiger, capa­
taz de mina, que é um cargo excelente , conheço minas em que
os Steiger ganham mil e quinhentos rublos por ano . Muito
bem . . . Entrei . . .
Aleksandr Ivánitch , com uma expressão de terror respeitoso
na cara, enumerou cerca de duas dúzias de matérias sofisticadas
que eram ministradas na escola de minas e descreveu o instituto ,
a estrutura das minas , a situação dos operários mineiros . . . De­
pois contou uma história tremenda , que se assemelhava mais a
uma fantasia, mas em que era impossível não se acreditar porque
o tom do narrador e a expressão de horror no seu rosto semítico
eram demasiado sinceros .
- E uma que me aconteceu , uma ocasião , durante os estudos
práticos ! - contava ele , levantando ambos os sobrolhos . - Eu
fui a umas minas , aqui , na zona de Donetsk . O senhor já viu ,
com certeza , como as pessoas descem à mina. Quando põem o

5 R. Kuner - autor do manual de língua latina para os liceu s . (N. T.)


6 À primeira (fr.) . (N. T.)
7 Cornélia Nepos (c . 1 00 -27 a. C .) - historiador e escritor romano cujas obras
eram de leitura obrigatória para os estudantes de Latim . (N. T.)
8 G. Curtius ( 1 820- 1 885) - autor da gramática de língua grega para os liceus. (N. T.)
68 Anton Tchékhov

cavalo a andar, para pôr em movimento o sarilho , há um balde


que desce na roldana, enquanto outro sobe , isto é, um começa a
subir quando o outro começa a descer, da mesma forma que se
tira água do poço com dois baldes . Então , um dia sentei-me num
balde e comecei a descer, e, imagine , ouço de repente: trrr !
Tinha-se rompido a corrente , e eu caí de escantilhão com o bal­
de e o resto da corrente . Caí da altura de três braças , bati de cha­
pa com o peito e a barriga; o balde , como era mais pesado do que
eu , chegou primeiro ao chão , e eu fui bater com o ombro contra
a borda dele . Estou eu atordoado , a pensar que estava todo par­
tido , quando vejo de repente que o outro balde , o que subia, ti­
nha perdido o contrapeso e estava a descer com estrondo direito
a mim . . O que podia fazer? Ao ver aquilo , encostei-me bem à
.

parede , encolhi-me todo , à espera que o balde me batesse na ca­


beça, e lembrei-me do meu pai e da minha mãe , de Moguiliov,
de Grumacher . . . e rezava a Deus , mas felizmente . . . Até dá arre­
pios de medo recordar isto .
Aleksandr Ivánitch fez um sorriso forçado e limpou a testa
com a mão .
- Felizmente , caiu mesmo ao lado e só me passou de raspão
pelas costelas . . . Arrancou-me deste lado a sobrecasaca, a cami-
sa e a pele . . . Uma força bruta . Depois perdi os sentidos .
Tiraram-me de lá e levaram-me para o hospital . Fiquei l á quatro
meses , e os médicos disseram que eu ia ter tísica. Agora tusso
muito , dói-me o peito e tenho um distúrbio psicológico forte . . .
Quando fico sozinho no quarto , entro em pânico . É claro que ,
com esta saúde , não posso ser Steiger. Fui obrigado a abandonar
a escola de minas . . .
- E agora o que faz? - perguntei-lhe .
- Fiz exame para o lugar de mestre-escola rural . É que eu
agora sou cristão ortodoxo e tenho o direito de ser professor. Em
Novotcherkassk , onde me baptizei , foram muito simpáticos co­
migo e prometeram-me um lugar na escola paroquial . Dentro de
duas semanas vou lá e volto a pedir.
O Cardo-Corredor 69

Aleksandr Ivánitch tirou o sobretudo e ficou em camisa (de


gola bordada, à russa) e cinta de lã.
- São horas de dormir - disse ele , bocejando e pondo o ca­
saco à cabeceira. - Digo-lhe , a propósito , que até aos últimos
tempos não conhecia Deus . Era ateu . Quando estava no hospital
comecei a pensar na religião . Na minha opinião , para um homem
pensador apenas é possível uma religião: a cristã . Se não tiver­
mos fé em Cristo , não haverá mais nada para acreditar . . . Não é
verdade? O judaísmo tomou-se antiquado e ainda se mantém
graças , apenas , às particularidades da tribo judaica. Quando a ci­
vilização abranger também os judeus , nem sombra do judaísmo
vai ficar. Note que já todos os judeus jovens são ateus . O Novo
Testamento é a continuação natural do Velho . Não é verdade?
Perguntei-lhe que causas o tinham levado a dar um passo tão
sério e corajoso como era a mudança de religião , mas ele só re­
petia que «O Novo Testamento era a continuação natural do Ve­
lho» , uma frase decorada que , evidentemente , não era dele e não
esclarecia minimamente a questão . Por mais que me esforçasse
e usasse de manha, as razões dele continuaram obscuras para
mim. Se era possível acreditar na sua afirmação de que se con­
vertera ao cristianismo por convicção , já não se percebia, a par­
tir das palavras dele , em que consistia e em que se baseava essa
convicção ; também não era possível supor-se que tenha mudado
de crença por interesse: aquela roupinha barata e gasta, a sobre­
vivência graças ao pão dos monges e o seu futuro indefinido na­
da tinham a ver com vantagens . Restava apenas aceitar a hipóte­
se de que o meu companheiro fora induzido a mudar de religião
por aquele espírito inquieto que o lançava como uma bola de
uma cidade para outra, e que ele , pelo chavão corrente , denomi­
nava ânsia de iluminação .
Antes de me deitar saí ao corredor para beber água. Quando
voltei , o meu companheiro estava parado no meio do quarto e ,
assustado , olhava para mim . A cara dele estava cinzenta e páli­
da, tinha a testa perlada de suor.
70 Anton Tchékhov

- Tenho um distúrbio de nervos terrível - murmurou , com


um sorriso doentio nos lábios . - Terrível ! Um distúrbio psico­
lógico muito forte . Aliás , não tem importância.
E voltou a dissertar sobre o facto de o Novo Testamento ser a
continuação natural do Velho e de o judaísmo ser antiquado . Na
escolha das frases , parecia tentar juntar todas as forças da sua
convicção , para abafar com elas a inquietação da alma e provar
a si próprio que , ao rejeitar a religião dos avó s , nada fizera de es­
pecial ou de errado , antes agira como homem pensante e livre de
preconceitos , e que por isso podia ficar no quarto sozinho , sem
medo diante da sua consciência. Tentava convencer-se e, com os
olhos , pedia-me ajuda . . .
Entretanto , o pavio grande e torto da vela de sebo cobrira-se
de fuligem . Amanhecia. Através da janela sombria, azulada, já se
distinguiam claramente ambas as margens do Donets e o carva­
lhal na outra banda do rio . Era preciso dormir.
- Amanhã , isto aqui vai ser muito interessante - disse o
meu companheiro quando apaguei a vela e me deitei . - Depois
do primeiro ofício matinal , vai haver a procissão da Cruz , nos
barcos , do mosteiro até ao ermitério .
Levantando o sobrolho direito e inclinando a cabeça de lado ,
rezou diante do ícone e , sem se despir, deitou-se no seu divã .
- Sim - disse ele , virando-se para o outro lado .
- «Sim» o quê? - perguntei .
- Quando , em Novotcherkassk , eu me converti ao cristianis-
mo , a minha mãe procurava-me em Rostov. Sentia que eu queria
mudar de religião . - Suspirou e continuou: - Há já seis anos
que não vou lá, à província de Moguiliov. A minha irmã já deve
estar casada.
Depois de uma pausa, vendo que eu não tinha ainda adorme­
cido , começou a falar baixinho e disse que , dentro em pouco ,
graças a Deus lhe dariam emprego e ele teria finalmente a sua
casa e uma situação definida, o pão garantido . Ora eu , ao ador­
mecer, pensava que este homem nunca teria a sua casa nem a sua
O Cardo-Corredor 71

situação definida, nem o pão garantido . Com o lugar de mestre­


-escola, pensava ele em voz alta, era como a terra prometida .
À semelhança da maioria das pessoas , tinha um preconceito con­
tra a vagabundagem e considerava-a uma coisa invulgar, excên­
trica e ocasional como uma doença , e procurava a salvação na
vida normal , quotidiana. Na voz dele ouvia-se a consciência da
sua anormalidade e a lamentação . Parecia justificar-se e pedir
desculpa.
À distância de um côvado de mim , estava deitado um errante;
por trás das paredes e no terreiro , ao lado das carroças , no meio
dos peregrinos , mais de uma centena destes errantes esperavam
a chegada do dia, e ainda mais longe , se conseguíssemos imagi­
nar toda a terra russa, que tremendo número de cardos-corre­
dores iguais a estes encontraríamos , procurando um lugar me­
lhor, vagueando agora pelas estradas e caminhos vicinais, ou ,
esperando o amanhecer, dormindo nas estalagens , nas tabernas ,
nos albergues , a céu aberto na relva . . . Eu estava a adormecer e
imaginava como todas estas pessoas se surpreenderiam e se ale­
grariam se houvesse uma razão e uma linguagem que lhes pro­
vasse que a vida delas necessitava tão pouco de justificação co­
mo qualquer outra.
Enlevado no sono , ouvi como tocava para lá da porta uma si­
neta, como que a desfazer-se em lágrimas , e como um noviço
gritava várias vezes:
- Nosso Senhor Jesus Cristo , Filho de Deus , tende piedade
de nós ! Comparecei ao ofício , por favor!
Quando acordei , o meu companheiro já não estava no quarto .
Era um dia de sol , de trás da janela chegava o rumor do povo .
Quando saí fiquei a saber que o ofício matinal já acabara e que
a procissão da Cruz havia muito partira para o ermitério . O po­
vo , às chusmas , vagueava pela margem e, sentindo-se ocioso ,
não sabia em que se ocupar; comer e beber era proibido porque
no ermitério ainda não terminara o ofício matinal tardio ; as loje­
cas monásticas , onde os peregrinos gostam de se amontoar e per-
72 Anton Tchékhov

guntar os preços , estavam ainda encerradas . Muita gente , apesar


do cansaço , arrastava-se até ao ermitério , por tédio . A vereda do
mosteiro até ao ermitério , que tomei , serpenteava pela margem
alta e abrupta , ora subindo , ora descendo , contornando os carva­
lhos e os pinheiros . Em baixo brilhava o Donets , reflectindo o
sol , por cima era a margem rochosa de greda branca onde se des­
tacavam vivamente as copas dos pinheiros e a folhagem nova
dos carvalhos , como que sobrepondo-se uns aos outros e arran­
jando maneira de crescerem nas rochas quase verticais sem caí­
rem . Estendiam-se pela vereda as filas indianas de peregrinos .
Na sua maioria eram ucranianos dos distritos vizinhos , mas tam­
bém havia muitos vindos de longe e a pé , desde as províncias de
Kursk e Orlov ; nas filas multicores encontravam-se ainda os gre­
gos das granjas de Mariúpol , gente robusta e carinhosa, cheia de
dignidade , longe de se assemelhar à gente da mesma etnia, fraca
e degenerada, que enche as nossas cidades da costa sul; havia
cossacos do Don com as bandas vermelhas nas calças , e até na­
turais da província de Táurida . Havia também muitos fiéis de um
tipo indefinido , como o meu Aleksandr Ivánitch: era impossível
perceber-se quem eram , nem pelas caras , nem pela roupa, nem
pela fala .
A vereda terminava junto a uma pequena balsa; a seguir, cor­
tando o monte , estendia-se para a esquerda, até ao ermitério ,
uma estrada estreita. Junto à balsa havia dois barcos grandes e
pesados , de aspecto sombrio , semelhantes àquelas pirogas da
Nova Zelândia que podemos encontrar nas ilustrações dos livros
de Júlio Veme . Um barco , com tapetes nos bancos , destinava-se
aos clérigos e aos elementos do coro ; o outro , sem tapetes , era
para os peregrinos . Quando a procissão da Cruz navegava de re­
gresso ao mosteiro , eu fui um dos eleitos que conseguiu arranjar
lugar no segundo barco . Os eleitos eram tantos que o barco mal
se mexia, e eu vi-me obrigado a ir sempre de pé , protegendo o
chapéu para que não o derrubassem ou estragassem . O caminho
parecia maravilhoso . Ambas as margens - a alta, íngreme ,
O Cardo-Corredor 73

branca, enfeitada de carvalhos e pinheiros , pendendo por cima


das cabeças , com o povo regressando à pressa pela vereda; e a
outra, em declive , com os prados verdes e um carvalhal - , ba­
nhadas de sol , tinham um aspecto tão feliz e enlevado como se a
manhã de Maio só a elas devesse o seu encanto . O reflexo do sol
no rápido Donets tremia e dispersava-se em todas as direcções ,
e o s seus raios longos cintilavam nas vestes dos clérigos , nos
pendões , nos salpicos lançados pelos remos . O canto pascal , o
badalar dos sinos , o chapinhar dos remos , o grito das aves - tu­
do isso se misturava no ar numa tema harmonia . O barco com o
clero e os pendões seguia à frente . À proa estava um noviço de
preto , imóvel como uma estátua.
Quando a procissão da Cruz se aproximava do mosteiro , des­
cobri , entre os eleitos , o Aleksandr Ivánitch . Estava à frente de
todos e, com a boca aberta de prazer e o sobrolho direito levan­
tado , olhava para a procissão , com a cara radiosa. Certamente ,
quando havia muita gente à sua volta e muita luz , sentia-se con­
tente consigo , com a sua nova fé e com a sua consciência.
Quando , um pouco mais tarde , estávamos no quarto e tomá­
vamos chá, Aleksandr Ivánitch ainda irradiava felicidade; a sua
cara dizia que estava contente com o chá e comigo , dava-me o
devido e total apreço como intelectual mas , se fosse necessário ,
também se sairia com honra de uma conversa que aflorasse qual­
quer coisa importante . . .
- Diga-me , o que devo ler em psicologia? - começou ele a
inteligente conversa , franzindo muito o nariz .
- Para quê?
- Sem conhecimento da psicologia é impossível ser-se peda-
gogo . Antes de educar as crianças , tenho de conhecer a alma de­
las .
Disse-lhe que , para conhecer a alma de uma criança, não bas­
tava a psicologia, e que , além disso , para um pedagogo que ain­
da não dominasse os métodos técnicos de ensinar a leitura e a
aritmética, a psicologia era um luxo equivalente à matemática
74 Anton Tchékhov

superior. Ele concordou com prontidão e começou a descrever


como era difícil e responsável o trabalho do mestre-escola, como
era difícil erradicar na criança a tendência para o mal e para a su­
perstição , obrigá-la a raciocinar com independência e honestida­
de , incutir nela a verdadeira religião , a ideia de individualidade ,
de liberdade , etc . Já não me lembro o que lhe respondi . Voltou a
concordar comigo . No geral , concordava com grande à-vontade .
Pelos vistos , «as coisas inteligentes» ainda não eram muito sóli­
das na sua cabeça.
Até à minha partida vagueámos juntos pelas vizinhanças do
mosteiro , matando o tempo no longo dia de calor. Aleksandr Ivá­
nitch não me largava, e só Deus sabe se foi porque se afeiçoara
a mim ou porque tinha medo da solidão ! Lembro-me que está­
vamos sentados à sombra de um arbusto de acácia amarela , num
dos pequenos jardins espalhados pelo monte .
- Daqui a duas semanas vou-me embora - disse ele . - Tem
de ser !
- Vai a pé?
- Daqui até Slaviansk vou a pé , depois apanho o comboio até
Nikítovka . A partir de Nikítovka há um ramal do caminho-de­
-ferro . Vou segui-lo a pé até Khatsepétovka e, a partir daí, um re­
visor meu conhecido leva-me de comboio .
Lembrei-me da estepe nua e deserta entre Nikítovka e Khat­
sepétovka e imaginei o Aleksandr Ivánitch a calcorreá-la, com as
suas dúvidas , as saudades da sua terra e o seu medo da solidão . . .
O que Aleksandr Ivánitch leu na minha cara foi talvez o tédio , e
suspirou .
- A minha irmã, pelos vistos, já se casou ! - pensou em voz
alta, e logo , desejando afastar pensamentos tristes , apontou para
o cume rochoso e disse:
- Deste monte vê-se a cidade de Izium .
Durante o passeio pelo monte aconteceu-lhe uma pequena
desgraça: tropeçou e rasgou as calças de chita listrada e des­
prendeu a sola do sapato .
O Cardo-Corredor 75

- Irra . . . - Aleksandr lvánitch franziu a cara e , descalçando


o sapato , ficou-lhe à mostra o pé sem meia. - Azar . . . Bem vê ,
isto é uma complicação tal que . . . Pois !
Dava voltas ao sapato , como se não quisesse acreditar que es­
tava definitivamente perdido , sempre de cara franzida , suspiran­
do , estalando os lábios . Na minha mala tinha umas botas curtas ,
velhas mas ainda na moda, com atacadores e biqueiras compri­
das ; trouxera-as para o que desse e viesse , e apenas as calçava no
tempo húmido . Chegados ao quarto , inventei uma frase do mais
diplomático que me foi possível e ofereci-lhe as botas . Aceitou
e disse com um ar importante:
- Eu até lhe agradeceria, mas sei que o senhor considera o
agradecimento um preconceito .
As biqueiras afiadas e os atacadores enterneceram-no como a
uma criança e contribuíram até para alterar os seus planos .
- Agora já não vou para Novotcherkassk dentro de duas se­
manas , mas dentro de uma - reflectiu em voz alta . - Com es­
tas botas não terei vergonha de visitar o meu padrinho . Na ver­
dade , eu não saía daqui porque não tenho roupa conveniente . . .
Quando o cocheiro tirava do quarto a minha mala, entrou um
noviço de cara simpática e irónica, para varrer o chão . Aleksandr
Ivánitch , pressuroso e embaraçado , perguntou-lhe timidamente:
- Posso ficar aqui , ou vou para outro sítio qualquer?
Não se atrevia a ocupar um quarto sozinho e, pelos vistos , já
tinha vergonha de viver à custa do mosteiro . Também não tinha
muita vontade de se despedir de mim; para adiar o mais possível
a solidão , pediu licença para me acompanhar um pouco .
O caminho de acesso ao mosteiro tinha sido aberto no monte
de grés e custara muito trabalho; subia, quase em espiral , pelas
raízes , sob os pinheiros severos . . . Primeiro desapareceu da vis­
ta o Donets , depois o terreiro do mosteiro com os seus milhares
de pessoas , depois os telhados verdes . . . Como íamos sempre a
subir, tinha a sensação de que tudo desaparecia num buraco .
A cruz da catedral , encandescida sob os raios do sol-poente , bri-
76 Anton Tchékhov

lhou com fulgurância no abismo e desapareceu . Ficaram apenas


os pinheiros , os carvalhos e o caminho branco . Por fim, a cale­
che entrou em campo raso e tudo o resto nos ficou para trás e em
baixo; Aleksandr Ivánitch saltou da caleche e, sorrindo com tris­
teza, olhou para mim pela última vez com os seus olhos infantis ,
começou a descer e desapareceu para sempre . . .
As minhas impressões do monte Santo já se iam tomando re­
cordações , já via coisas novas : o campo liso , o horizonte pardo­
-esbranquiçado , um bosquedo junto ao caminho , depois um moi­
nho de vento imóvel e que parecia aborrecer-se porque não o
deixaram girar as asas por causa do dia festivo .
O CORREIO

Eram três da madrugada . O carteiro , já preparado para a via­


gem, de boné , sobretudo e com o sabre enferrujado nas mãos , es­
tava à porta e esperava que os carreteiros terminassem de carre­
gar o correio na troica acabada de atrelar. O encarregado da
distribuição estava sentado à sua mesa, que mais parecia um bal­
cão , escrevia qualquer coisa num impresso e dizia:
- O meu sobrinho estudante quer ir agora para a estação .
Leva-o contigo na troica, lgnátiev. Eu sei que é proibido levar
estranhos com o correio , mas tem de ser ! Em vez de alugarmos
cavalos , que vá de graça.
- Está pronto ! - ouviu-se um grito do quintal .
- Bem , vai com Deus - disse o encarregado . - Que carre -
teiro vai?
- O Semion Glázov.
- Assina aqui .
O carteiro assinou e saiu . À entrada da estação dos correios es­
tava o vulto escuro da troica. Os cavalos esperavam imóveis , ape­
nas um dos laterais marcava passo e sacudia a cabeça , inquieto ,
fazendo tilintar a sineta. A traquitana com os sacos parecia uma
mancha negra e, a seu lado , moviam-se preguiçosamente duas si­
lhuetas: o estudante com uma mala e o carreteiro . Este último fu­
mava um cachimbo curto; a luzinha do cachimbo deslocava-se
78 Anton Tchékhov

nas trevas , apagava-se , acendia-se; ora alumiava por um instante


uma parte da manga, ora o bigode farfalhudo por baixo do nariz
grande , cor de cobre vermelho , ora o sobrolho hirsuto , severo .
O carteiro amassou os sacos com as mãos , colocou o sabre em
cima deles e saltou para cima da traquitana. O estudante , indeci­
so, trepou a seguir a ele e, empurrando-o sem querer com o co­
tovelo , disse-lhe tímida e educadamente: «Desculpe ! » O ca­
chimbo apagou-se . O encarregado saiu da estação tal como
estava, de colete e pantufas , encolhendo-se por causa da humi­
dade noctuma e pigarreando . Andou um pouco ao lado da tra­
quitana e disse:
- Bem, ide com Deus ! Dá cumprimentos à tua mãe , Mikhai­
lo ! E a todos . E tu , Ignátiev, não te esqueças de entregar o enve­
lope a B istretsov . . . Anda !
O carreteiro apanhou as rédeas com uma mão , assoou o nariz
e , depois de ajustar o assento , estalou os lábios .
- Dá lá cumprimentos ! - repetiu o encarregado .
A sineta tilintou qualquer coisa para os guizos , os guizos
responderam-lhe carinhosamente . A traquitana chiou , arrancou ,
a sineta chorou , os guizos riram . O carreteiro , soerguendo-se ,
chicoteou duas vezes o cavalo lateral inquieto , e a troica tambo­
rilou surdamente pelo caminho poeirento . A cidadezinha dormia .
De ambos os lados da rua larga erguiam-se negros os prédios e
as árvores , não se via qualquer luzinha. Pelo céu salpicado de es­
trelas estendiam-se aqui e ali nuvens estreitas , e no sítio onde
dentro em pouco se abriria a aurora pairava um crescente fino ;
porém , nem as estrelas numerosas nem o crescente esbranquiça­
do aclaravam o ar noctumo . Estava frio , escuro , cheirava a Ou­
tono .
O estudante , achando que , por delicadeza , tinha a obrigação
de conversar amistosamente com o homem que não lhe recusara
a boleia, disse:
- No Verão , a esta hora, já clareia, mas agora nem sequer se
vê a aurora. Adeus , Verão !
O Correio 79

O estudante olhou para o céu e confirmou:


- Até pelo céu se vê que estamos no Outono . Olhe para a di­
reita. Está a ver aquelas três estrelas em linha? É a constelação
de Oríon que , no nosso hemisfério , só aparece em Setembro .
O carteiro , que tinha as mãos metidas dentro das mangas e a
cabeça enfiada na gola do sobretudo até às orelhas , não se me­
xeu nem olhou para o céu . A constelação de Oríon , provavel­
mente , não lhe interessava . Habituara-se a ver as estrelas e, pe­
los vistos , havia muito que estava saciado delas . O estudante
ficou um pouco calado e continuou :
- Está frio ! Já deveria amanhecer. O senhor não sabe a que
horas nasce o Sol?
- Por volta das seis - respondeu o carreteiro .
A troica saiu da cidade . Agora, de ambos os lados , viam-se
apenas as sebes das hortas e os salgueiros brancos solitários . Em
frente estava tudo envolto na bruma . Aqui , no espaço aberto , o
crescente parecia mais branco , e as estrelas mais brilhantes . De
repente intensificou-se o cheiro a humidade: o carteiro mergu­
lhou mais na sua gola, o estudante sentiu que o frio desagradá­
vel lhe soprou primeiro nos pés , depois nos sovacos , nas mãos ,
na cara . A troica abrandou o passo; a sineta calou-se , como se ti­
vesse também apanhado frio . Ouviu-se o chapinhar de água e de­
baixo das patas dos cavalos e nas rodas começaram a saltitar as
estrelas reflectidas pela água.
Uns dez minutos depois fez-se uma escuridão tal que já não se
viam as estrelas nem o crescente: a troica entrava na floresta . Os
ramos espinhosos dos abetos batiam volta e meia no boné do es­
tudante , as teias colavam-se-lhe à cara. As rodas e os cascos ma­
traqueavam pelas raízes , a traquitana cambaleava como bêbeda.
- Anda pelo caminho ! - disse o carteiro com irritação . -
Porque te encostas à beira? Os ramos arranharam-me a cara to­
da ! Mais para a direita !
Então , por pouco não aconteceu uma desgraça. A traquitana
deu um solavanco como se fosse atingida por uma cãibra, tremeu
80 Anton Tchékhov

toda e , chiando , cambaleando ora para a direita, ora para a es­


querda , correu com tremenda velocidade pelo caminho florestal .
Os cavalos tinham-se assustado com qualquer coisa e perderam
o controlo .
- Xô ! Xô ! - gritou o carreteiro assustado . - Xô . . . diabos !
O estudante , sacudido pelos solavancos , tentando manter o
equilíbrio e não ser atirado borda fora, inclinou-se para a frente
e começou a procurar qualquer coisa para se agarrar, mas os sa­
cos de couro eram escorregadios e o carreteiro , à cinta do qual
acabou por se agarrar, também saltitava no lugar, e o estudante
corria o risco de cair a cada instante . Por entre o barulho das ro­
das e do chiar da traquitana, ouviu-se o tinir do sabre a cair no
chão ; depois , quase a seguir, qualquer coisa bateu duas vezes
atrás da traquitana.
- Xô ! - gritava desesperadamente o carreteiro , lançando o
corpo para trás . - Pára !
O estudante caiu de cara sobre o assento do carreteiro , ma­
goando a testa, mas logo foi lançado para trás e para cima, ba­
tendo com força contra a traseira do carro . «Eu caio ! » , relanceou­
-lhe na cabeça, mas já a traquitana saía da floresta para o espaço
aberto , virava bruscamente para a direita e , estrondeando pelos
madeiros da ponte , parou como petrificada, e , com esta paragem
súbita, o estudante voltou a ser catapultado para a frente .
Ambos resfolegavam , o carreteiro e o estudante . O carteiro já
não estava na traquitana: caíra juntamente com o sabre , a mala
do estudante e um saco .
- Pára, canalha ! Pááára ! - ouviu-se o grito do carteiro vin­
do da floresta. - Velhaco maldito ! - gritava, aproximando-se
da traquitana a correr, e na sua voz chorosa soava a dor e a rai­
va . - Não te amolasses , seu diabo ! - gritou , dando um salto
até ao carreteiro e levantando o punho .
- Que história, valha-nos Deus ! - murmurava o carreteiro
em voz culpada, ajeitando qualquer coisa junto aos focinhos dos
cavalos . - É ele , o do lado ! É novo , o maldito , e só anda atre-
O Correio 81

lado há uma semana. Anda bem , mas a descer é um castigo ! Eu


dou-lhe três murros neste focinho que ele deixa-se de coisas ! . . .
Quieto ! Eh , demónio !
Enquanto o carreteiro punha em ordem os cavalos e procura­
va a mala, o saco e o sabre no caminho , o carteiro continuava a
cobri-lo de pragas com voz chorosa e guinchando de raiva. Pos­
ta a bagagem no lugar, o carreteiro , sem qualquer necessidade ,
levou os cavalos pela rédea durante uns cem passos , resmungou
para o inquieto cavalo lateral e saltou para a boleia.
Dissipado o medo , tudo pareceu cómico e divertido ao estu­
dante . Pela primeira vez na vida, viajava de noite , numa troica
da posta, e o abanão que tinham acabado de sofrer, o voo do car­
teiro e a dor nas costas pareciam-lhe uma aventura curiosa.
Acendeu um cigarro e disse , rindo-se:
- Assim não é difícil partir o pescoço ! Eu por pouco não caí
e nem sequer reparei que o senhor caiu . Imagino agora o que se­
rá viajar no Outono !
O carteiro calava-se .
- O senhor há muito que leva o correio? - perguntou o es-
tudante .
- Onze anos .
- Oh ! Todos os dias?
- Todos . Levo o correio e logo a seguir tenho de voltar para
trás . Porque pergunta?
Em onze anos , sem falhar um dia, teriam com certeza de acon­
tecer aventuras curiosas . Nas noites estreladas do Verão e nas noi­
tes severas do Outono , ou no Inverno , quando a neve , uivando
maldosa, faz rodopiar a troica, é difícil evitar os momentos as­
sustadores . Por certo que os cavalos , por mais de uma vez , aba­
laram num galope doido , e a traquitana se atolou num charco pro­
fundo , e que foi assaltada por gente ruim, e desviada pela
nevasca . . .
- Imagino as aventuras que teve em onze anos ! - disse o es­
tudante . - Diga lá, estas viagens são terrívei s , não?
82 Anton Tchékhov

Falava e esperava que o carteiro lhe contasse alguma coisa,


mas o homem mantinha-se soturnamente calado , com a cabeça
afundada na gola . Entretanto , começava a amanhecer. Impercep­
tivelmente , o céu mudava de cor; ainda parecia escuro , mas já se
distinguiam os cavalos , o carreteiro , o caminho . O crescente
tomava-se cada vez mais branco , e a nuvem que se esticava de­
baixo dele , lembrando um canhão sobre a carreta, tingia-se leve­
mente de amarelo na sua margem mais baixa. Não tardou a que
ficasse distinta a cara do carteiro , coberta de orvalho , cinzenta e
imóvel como a de um morto . Quedara-se nela uma expressão de
raiva torpe , sotuma, como se ainda sentisse a dor da queda e es­
tivesse irritado com o carreteiro .
- Graças a Deus já amanhece ! - disse o estudante , perscru­
tando a cara raivosa e regelada do homem . - Estou cheio de
frio . As noites de Setembro são frias , mas basta que nasça o Sol
e o frio desaparece . Falta muito até à estação?
O carteiro franziu a cara e fez a sua expressão chorosa.
- O que vossemecê gosta de falar, credo ! - disse ele .
Não pode estar calado?
O estudante embaraçou-se e não o incomodou mais até ao fim
da viagem . A manhã despontava rapidamente . A lua empalideceu
e fundiu-se com o céu cinzento e baço , a nuvem ficou toda ama­
rela, as estrelas apagaram-se , mas o nascente estava ainda frio ,
da mesma cor que todo o céu , sendo difícil de acreditar que ali ,
por trás dele , s e escondia o Sol . . .
O frio da manhã e a soturnidade do carteiro transmitiram-se , a
pouco e pouco , também ao estudante enregelado . Olhava com
apatia para a natureza, esperava pelo calor do sol e pensava ape­
nas no medo e no desgosto que as árvores e as ervas deviam ter
nas noites frias . O Sol nasceu sombrio , sonolento e frio . O nas­
cer do Sol não dourava o cume das árvores , como se costuma es­
crever, os seus raios não se estendiam pela terra e no voo das
aves sonolentas não se via alegria . O frio da noite continuava
mesmo sob o Sol . . .
O Correio 83

O estudante , ensonado , olhou lugubremente para as janelas


com as cortinas fechadas de uma herdade por onde passavam . Por
trás daquelas janelas , pensou ele , as pessoas dormem o seu sono
matinal , o mais profundo , e não ouvem os guizos da mala-posta
nem sentem o frio , nem vêem a cara raivosa do carteiro , e mes­
mo que a sineta acorde alguma menina, esta vira-se para o outro
lado , sorri , quentinha e sossegada, e , encolhendo as pernas e me­
tendo as mãozinhas sob a bochecha, dormirá ainda mais deleito­
samente .
O estudante olhou para o lago artificial que brilhava junto da
herdade e pensou nos pimpões e nos lúcios que achavam possí­
vel viver dentro da água fria . . .
- É proibido transportar estranhos . . . - começou o carteiro
a falar de repente . - Proibido ! E se é proibido , não tem o direi­
to de se sentar aqui . . . Pois . Por mim , tanto faz , só que não gos­
to disso , nem quero .
- Se não gosta disso , então porque não o disse antes?
O carteiro não respondeu e continuou a olhar com hostilidade ,
com raiva . Quando , um pouco mais tarde , a troica parou à en­
trada da estação , o estudante agradeceu e apeou-se da traquitana .
O comboio-correio ainda não chegara . Na via de resguardo esta­
va um longo comboio de mercadorias ; no tênder, o maquinista e
o fogueira , com as caras húmidas de orvalho , tomavam chá de
uma chaleira de estanho suja. As carruagens , a plataforma, os
bancos - estava tudo molhado e frio . O estudante ficou no bu­
fete até à chegada do comboio , tomando chá, enquanto o cartei­
ro , com as mãos metidas para dentro das mangas e a raiva ainda
na cara , andava solitário pela plataforma, olhando para os pés .
Com quem estava zangado? Com as pessoas , com a pobreza,
com as noites outonais?
O FUGITIVO

Foi um processo longo . Primeiro , Pachka andou com a mãe


debaixo de chuva, ora pelo restolhal , ora pelas veredas florestais ,
e m que s e lhe colavam à s botas a s folhas amarelas ; caminhou as­
sim até ao amanhecer. Depois , durante duas horas , esperou no
átrio escuro que abrissem a porta. No átrio não estava tanto frio
nem tanta humidade como na rua, embora os salpicos de chuva,
puxados pelo vento , também entrassem aqui . A pouco e pouco ,
o átrio atulhou-se de gente , e Pachka, apertado , encostou a cara
a uma peliça de carneiro que cheirava muito a peixe salgado ,
e dormitou . Por fim estalou a lingueta , a porta abriu-se , e o
Pachka e a mãe entraram na sala de espera . Aqui também foi pre­
ciso esperar muito tempo . Os doentes estavam todos sentados
nos bancos , calados , sem se mexerem . Pachka olhava para eles
e também se calava, embora visse muita coisa estranha e cómi­
ca. Só uma vez , quando entrou um rapaz a saltitar ao pé-coxinho ,
apeteceu a Pachka saltar também; deu com o cotovelo na mãe ,
riu-se , tapando a boca com a manga, e disse:
- Mamã, olha o pardal !
- Cala-te , filho , cala-te ! - disse a mãe .
Num pequeno guichê apareceu a cara sonolenta do auxiliar­
-médico .
- Venham inscrever-se ! - disse em voz de baixo .
86 Anton Tchékhov

Todos , incluindo o cómico rapaz saltitante , se dirigiram para


o guiché . O auxiliar-médico perguntava a cada qual o nome , a
idade , a morada , há quanto tempo estava doente e assim por
diante . Pelas respostas da sua mãe , Pachka soube que não se cha­
mava Pachka mas Pável Galaktiónov, que tinha sete anos , que
era analfabeto e que estava doente desde a Páscoa.
Depois da inscrição , tiveram de se levantar por uns instantes:
passava o doutor através da sala de espera, com uma toalha cingi­
da à cinta e um avental branco . Quando passou junto do rapaz sal­
titante , o doutor encolheu os ombros e disse num tenor cantante:
- É s parvo ! Achas que não és parvo? Mandei-te vir na
segunda-feira e tu apareces na sexta . . . Por mim , até podes nun­
ca aparecer, mas olha que ficas sem perna, seu imbecil chapado !
O rapaz fez uma cara tão lamentosa como se quisesse pedir es­
mola, pestanejou e disse:
- Faça o favor, Ivan Mikoláitch !
- Qual Ivan Mikoláitch , qual quê ! - troçou o doutor. - Foi-
-te dito: segunda-feira; então , tinhas de obedecer. É s parvo e es-
tá tudo dito . . .
Começaram as consultas . O doutor estava na sua saleta e cha­
mava os pacientes por ordem . Vindos de lá, ouviam-se a cada
momento berros estridentes , choros de criança ou exclamações
zangadas do doutor:
- Porque gritas? Estou a cortar-te ou quê? Fica quieto !
Chegou a vez de Pachka.
- Pável Galaktiónov ! - gritou o doutor.
A mãe ficou aturdida , como se não esperasse por esta chama­
da, e , pegando na mão de Pachka, levou-o para a saleta. O dou­
tor estava à mesa, tamborilando maquinalmente com o marteli­
nho num livro grosso .
- O que te dói? - perguntou sem olhar para eles .
- O rapazinho tem uma ferida no cotovelo , paizinho - res-
pondeu a mãe , e a sua cara assumiu logo a expressão de quem
está muito aflito com a doença do Pachka.
O Fugitivo 87

- Despe-o !
Pachka, ofegando , desenrolou o lenço que tinha ao pescoço ,
depois limpou o nariz com a manga e começou , sem pressas , a
tirar o casaquinho de carneiro .
- Ouve lá, mulher, não estás cá de visita ! - ralhou o doutor.
- Porque não te despachas? Não te tenho cá só a ti .
Pachka, apressando-se , atirou o casaquinho para o chão e ,
com a ajuda d a mãe , tirou a camisa . . . O doutor olhou preguiço­
samente para ele e deu-lhe palmadinhas no ventre nu .
- Que linda pança ganhaste , Pachka - disse ele e suspirou .
- Vá, mostra lá o cotovelo .
Pachka olhou de esguelha para o alguidar de desperdícios en­
sanguentados , depois para o avental do doutor e chorou .
- Mééé ! - imitou-o o doutor. - Já está em idade de casar,
este mariola, e chora ! Que vergonha.
Esforçando-se por não chorar, Pachka olhou para a mãe e nes­
te olhar estava escrito: «Não contes lá em casa que eu chorei no
hospital ! »
O doutor observou-lhe o cotovelo , premiu-o , suspirou , estalou
os lábios e voltou a premir.
- Mereces uma sova, mulher - disse ele . - Porque não o
trouxeste antes? O braço está perdido ! Olha, sua parva , é a arti­
culação !
- O senhor é que sabe , paizinho . . . - suspirou a mulher.
- Paizinho . . . Deixaste apodrecer o braço do rapaz , e agora
vens cá com o «paizinho» . Como é que ele vai trabalhar sem bra­
ço? Vais tratar de um aleijadinho até ao fim da tua vida. A ti bas­
taria nascer-te uma borbulha no nariz para vires logo a correr ao
hospital , mas ao rapaz deixaste-o a apodrecer meio ano ! Vocês
são todos assim .
O doutor acendeu um cigarro . Fumegava o cigarro , e ele des­
compunha a mulherzinha e meneava a cabeça ao ritmo da can­
ção que cantava mentalmente , pensando noutra coisa qualquer.
Pachka, despido , estava postado em frente dele , ouvia e olhava
88 Anton Tchékhov

para o fumo . Quando o cigarro se apagou , o doutor mexeu-se e


falou num tom mais baixo:
- Então , ouve lá. Pomadas e gotas , neste caso , são inúteis .
Tens de o deixar no hospital .
- Já que é preciso , paizinho , porque não?
- Vamos operá-lo . Ficas cá, Pachka - disse o doutor, dando
palmadinhas no ombro do miúdo . - A tua mãe vai-se embora, e
nós , amigo , ficamos cá. Isto aqui comigo é bom, meu amigo , é
uma bela vida ! Nós os dois , Pachka, quando acabarmos com is­
to tudo , vamos apanhar lugres e eu mostro-te uma raposa ! E va­
mos juntos fazer visitas ! Então , queres? E a tua mãe vem buscar­
-te amanhã . Então?
Pachka olhou interrogativamente para a mãe .
- Fica, filho ! - disse ela.
- Ele fica , ele fica ! - gritou alegremente o doutor. - Nem
vale a pena falar mais nisso . Vou mostrar-lhe uma raposa viva !
Amanhã vamos juntos à feira comprar rebuçados . Mária Denís­
sovna, leve-o para cima !
Ao doutor, pelos vistos , homem alegre e complacente , agra­
dava a companhia de Pachka , por isso este quis satisfazê-lo , ain­
da por cima porque nunca na vida tinha ido a uma feira e teria
todo o gosto em ver uma raposa viva , mas como poderia passar
sem a mãe? Pensou um pouco e decidiu pedir ao doutor que dei­
xasse ficar no hospital também a mãe , mas ainda não tivera tem­
po de abrir a boca e já a auxiliar-médica o levava pela escada
acima . Pachka, boquiaberto , olhava à sua volta. A escada, os
chãos e os umbrais - tudo enorme , vistoso , a direito - estavam
pintados com excelente tinta amarela e emitiam o cheiro bom do
óleo . Por todo o lado pendiam candeeiros , estendiam-se passa­
deiras , espetavam-se das paredes torneiras de cobre . Mas Pach­
ka gostou ainda mais da cama em que o sentaram e do cobertor
áspero e cinzento . Tocou nas almofadas e no cobertor, passou o
olhar pela enfermaria e chegou à conclusão de que o doutor vi­
via bastante bem .
O Fugitivo 89

A enfermaria não era grande , tinha apenas três camas . Uma


vazia, outra ocupada por Pachka , na terceira estava sentado um
velho de olhos lacrimejantes , sempre a tossir e a cuspir numa ca­
neca. Da cama de Pachka via-se também , através da porta, uma
parte de outra enfermaria de duas camas : numa estava a dormir
um homem magro , muito pálido , com um saco de borracha na
cabeça; na outra, com os braços abertos , estava sentado um mu­
jique que , com as ligaduras na cabeça, fazia lembrar uma mu­
lher.
A auxiliar-médica, depois de mandar Pachka sentar-se na ca­
ma , saiu e , um pouco depois , voltou com uma braçada de roupa.
- É para ti - disse ela . - Veste-te .
Pachka despiu-se e começou a vestir com prazer a roupa no­
va. Depois de envergar a camisa, as calças e o roupãozinho cin­
zento , mirou-se com presunção e concluiu que , com semelhante
fato , não seria mau dar uma volta pela aldeia . A sua imaginação
pintou como a mãe o mandaria à horta junto ao rio para apanhar
folhas de repolho para rego; ele ia, e a rapaziada da aldeia
rodeava-o e olhava com inveja para o roupão dele .
Entrou uma enfermeira, trazendo dois pratos de estanho , co­
lheres e duas fatias de pão . Pôs um prato diante do velho , o ou­
tro diante de Pachka.
- Come ! - disse ela .
Pachka olhou para o prato e viu sopa de repolho gordurosa
com um pedaço de carne , voltando a pensar que o doutor não vi­
via nada mal e que não era tão zangado como parecia no início .
Comeu lentamente a sopa , lambendo a colher depois de cada co­
lherada, e depois, quando já só tinha a carne no prato , olhou de
soslaio para o velho e teve inveja por ele estar ainda a comer o
caldo . Com um suspiro , atacou a carne , tentando fazê-la durar o
mais possível , mas os seus esforços não tiveram êxito: a carne
também desapareceu rapidamente . Restou apenas a fatia de pão .
Comer pão seco , sem nada, era pouco saboroso , mas nada a fa­
zer. Pachka pensou um pouco e comeu também o pão . Nisto , en-
90 Anton Tchékhov

trou a enfermeira com outros pratos , desta vez carne assada com
batatas .
- Mas onde está o teu pão? - perguntou a enfermeira.
À laia de reposta, Pachka inchou as bochechas e expirou o ar.
- Engoliste-o ou quê? - disse a enfermeira. - E agora com
que vais comer a carne?
Saiu , depois voltou com outra fatia de pão . Pachka nunca na
vida comera carne assada e , mal a provou , achou que era muito
boa . A carne desapareceu rapidamente . Restou a fatia de pão ,
maior do que a anterior. O velho , quando acabou de almoçar,
guardou o seu pão na gaveta da mesinha; Pachka ainda quis fa­
zer o mesmo , mas pensou um pouco e comeu a fatia.
Terminado o almoço , Pachka foi passear. Na enfermaria vizi­
nha, além das pessoas que vira, havia mais quatro . Entre elas , só
um homem lhe chamou a atenção . Era um mujique alto , magríssi­
mo , barbudo , sombrio; estava sentado na cama, sempre com a ca­
beça a oscilar como um pêndulo e a mão direita a abanar. Pachka
não desviava os olhos dele . Primeiro , aquelas oscilações pendula­
res da cabeça pareceram-lhe um gesto cómico para divertimento
de todos, mas quando espreitou bem para a cara do mujique sen­
tiu medo e percebeu que ele estava insuportavelmente enfermo .
Passando para a terceira enfermaria, viu dois mujiques de caras
vermelho-escuras , como que borratadas com barro . Estavam sen­
tados nas camas , imóveis , e , com as suas caras estranhas em que
era difícil distinguir os traços , pareciam ídolos pagãos .
- Tia, porque é que eles são assim? - perguntou Pachka à
enfermeira .
- Têm varíola, filho .
Pachka voltou para a sua enfermaria e sentou-se na cama à es­
pera do doutor, para irem os dois apanhar lugres ou à feira. Mas
o doutor não aparecia. À porta da enfermaria vizinha relanceou
a figura do auxiliar-médico . Inclinou-se sobre o doente que tinha
na cabeça a borracha com gelo e gritou:
- Mikhailo !
O Fugitivo 91

Mikhailo , adormecido , não s e mexeu . O auxiliar-médico aba­


nou a mão e saiu . Sempre à espera do doutor, Pachka observava
o seu vizinho velhote que não parava de tossir e de cuspir na ca­
neca; a sua tosse era esticada, rangente . Pachka gostou de uma
particularidade do velho: quando , a tossir, aspirava o ar, no seu
peito qualquer coisa assobiava e cantava a várias vozes .
- Avô , o que tens que assobia? - perguntou Pachka.
O velho não respondeu . Pachka esperou um pouco e pergun-
tou :
- Avô , onde está a raposa?
- Qual raposa?
- A raposa viva.
- Onde pode estar? Na floresta.
Passou muito tempo , mas o doutor não aparecia. A enfermeira
trouxe chá e admoestou Pachka por não ter deixado o pão para o
chá; o auxiliar-médico apareceu mais uma vez e de novo tentou
acordar Mikhailo: por fora das janelas o ar ficara azulado , nas en­
fermarias acenderam-se as luzes , mas o doutor não aparecia. Já
era tarde para ir à feira ou apanhar lugres ; Pachka estendeu-se na
cama e pôs-se a pensar. Lembrou-se dos rebuçados prometidos
pelo doutor, do rosto e da voz da mãe , da penumbra na isbá, do
fogão , da Egórovna, sua avó resmungona . . . e sentiu-se de re­
pente aborrecido e triste . Lembrou-se de que no dia seguinte a
mãe o viria buscar, sorriu e fechou os olhos .
Um restolho qualquer acordou-o: na enfermaria contígua al­
guém andava e falava num meio sussurro . À luz baça das lâm­
padas das cabeceiras e das lamparinas , moviam-se três vultos
junto da cama de Mikhailo .
- Levamo-lo com a cama, ou como é ? - perguntou um
deles .
- Sem cama . Não passa pela porta. Morreu na hora errada ,
que descanse em paz !
Um pegou em Mikhailo pelos ombros , outros pelos pés ,
levantaram-no : as mãos de Mikhailo e as abas do seu roupão
92 Anton Tchékhov

penderam , frágeis , no ar. O terceiro homem - o mujique ada­


mado - pôs-se a benzer-se , e todos os três , com o passo desor­
denado e pisando o roupão de Mikhailo , começaram a sair da en­
fermaria .
N o peito d o velho adormecido soavam os assobios e o canto
polifónico . Pachka escutou , olhou para as j anelas escuras e, ater­
rorizado , saltou da cama.
- Ma-mã ! - gemeu em voz baixa.
E , sem esperar pela resposta, precipitou-se para a enfermaria
vizinha . Aqui , a luz da lamparina e do candeeiro mal quebrava a
escuridão ; os doentes , emocionados com a morte de Mikhailo ,
estavam sentados nas suas camas ; desgrenhados , fundidos com
as sombras , pareciam mais largos , mais altos e a crescerem cada
vez mais; na cama da ponta, num canto onde a escuridão era
mais espessa, o mujique não parava de baloiçar a cabeça e aba­
nar a mão .
Pachka, sem se dar conta da porta em que entrava, irrompeu na
enfermaria dos doentes de varíola, de lá foi para o corredor, do
corredor precipitou-se para uma sala grande onde estavam deita­
dos ou sentados nas camas uns monstros de cabelos compridos e
caras de velhas . Atravessando a secção feminina, saiu de novo
para o corredor, viu o corrimão de uma escada que lhe era fami­
liar e correu para baixo . Aqui , reconheceu a sala de espera em que
estivera de manhã e começou a procurar a porta de saída.
O trinco estalou , soprou-lhe para a cara um vento frio , e Pach­
ka , tropeçando , saiu para o pátio . Tinha uma única ideia: correr,
correr ! Não conhecia o caminho , mas tinha a certeza de que , se
corresse , iria ter com a mãe a casa. A noite estava escura, mas por
cima das nuvens luzia a lua. Pachka saiu a correr da porta, atirou­
-se em frente , contornou um barracão e esbarrou contra uns ar­
bustos sem folhas ; parou , pensou um pouco , arrepiou caminho e
deitou a correr na direcção do hospital , contornou-o e parou , de
novo indeciso: por trás do edifício do hospital erguiam-se as cru­
zes brancas do cemitério .
O Fugitivo 93

- Ma-a-mã ! - gritou ele , e voltou para trás .


Quando corria ao longo dos severos edifícios , viu uma janela
alumiada.
A mancha rubra parecia assustadora no meio da escuridão ,
mas Pachka, louco de medo , sem saber para onde correr, virou
para a luz . Ao lado da janela eram os degraus de entrada e a por­
ta com uma tabuleta branca; Pachka subiu rapidamente os de­
graus , olhou para a janela, e um acesso de alegria arrebatadora
apoderou-se dele . Através da janela via o doutor, alegre e com­
placente , sentado à mesa a ler um livro . Rindo de felicidade ,
Pachka estendeu as mãos para o rosto familiar, quis gritar, mas
uma força desconhecida cortou-lhe a respiração , bateu-lhe nas
pernas ; Pachka cambaleou e tombou sem sentidos nos degraus.
Quando voltou a si já era dia , e a voz muito familiar que na
véspera lhe prometera a feira , os lugres e a raposa, dizia a seu
lado:
- Que parvo és , Pachka ! Então não és parvo? Francamente ,
merecias uma sova.
O PA!

- Para falar verdade , estou com os copos . . . Desculpa, no ca­


minho passei pela cervejaria e , com este calor, bebi duas garra­
finhas . O calor, meu amigo !
O velho Mussátov tirou um trapinho do bolso e limpou com
ele a cara rapada e macilenta .
- Bórenka, meu anjo, vim cá ver-te por um instantinho -
continuou , sem olhar para o filho - , por causa de um assunto
muitíssimo importante . Desculpa, talvez esteja a incomodar-te .
Tu não terás dez rublos que me arranjes até terça-feira? Vê lá, é
que ainda ontem tive de pagar a casa, mas o dinheiro . . . Sabes
como é? Fiquei sem um tostão .
O jovem Mussátov saiu , sem dizer nada, e ouviu-se a cochi­
char por trás da porta com a senhoria e os colegas com quem alu­
gara a casa de campo . Três minutos depois voltou e , em silêncio ,
entregou uma nota de dez rublos ao pai . Este , sem olhar, meteu­
-a no bolso com ar desprendido e disse:
- Merci . Então , como vai a tua vida? Há muito que não nos
víamos .
- Sim , há muito , desde a Páscoa .
- Já quis visitar-te umas cinco vezes, mas nunca arranjo tem-
po . Ora um problema, ora outro . . . É um castigo ! Aliás , minto . . .
Estou a mentir. Não acredites em mim , Bórenka . Disse que te de-
96 Anton Tchékhov

volvia os dez rublos na terça-feira , mas também não acredites .


Não acredites em nenhuma palavra minha. Não tenho problemas
nenhuns para tratar, só a preguiça e a bebedeira , e tenho vergo­
nha de sair à rua com esta roupa. Desculpa, Bórenka. Há uns
tempos mandei cá a rapariguinha por três vezes , a pedir dinhei­
ro , e escrevi-te umas cartas a lamentar-me . Obrigado pelo di­
nheiro , mas não acredites nas cartas : mentia. Tenho vergonha de
te depenar desta maneira , meu anj o , sei que tu próprio mal con­
segues sobreviver e te alimentas como um eremita, mas não con­
sigo ultrapassar o meu descaramento . Sou tão desavergonhado
que até poderiam exibir-me como atracção , com entradas pa­
gas ! . . . Desculpa, Bórenka. Estou agora a dizer-te toda a verdade
porque não posso olhar com indiferença para o teu rosto angeli­
cal .
Depois de um minuto de silêncio , o velho suspirou fundo e
disse:
- Não me ofereces uma cervejinha?
O filho voltou a sair, sempre calado , e de novo se ouviu co­
chichar por trás da porta . Quando , um pouco mais tarde , lhe
trouxeram a cerveja, o velho animou-se ao ver as garrafas e mu­
dou bruscamente de tom .
- Meu amigo , há dias fui ao hipódromo - começou ele a
contar, fazendo uns olhos assustados . - Éramos três e fizemos
uma vaquinha no Lesto , três rublos . Abençoado Lesto . Cada um
de nós ganhou trinta e dois rublos . Não posso viver sem as cor­
ridas , meu amigo . É um prazer nobre . A minha matrona dá-me
cada enxerto lá em casa por causa das corridas , mas eu vou na
mesma . Gosto daquilo , nada a fazer !
Boris , um jovem loiro de cara melancólica e parada, passeava­
-se de um lado para o outro e ouvia em silêncio . Quando o velho
interrompeu o seu relato para pigarrear, aproximou-se dele e disse:
- Há dias comprei umas botas para mim , meu pai , mas afi­
nal ficam-me apertadas . Não quer comprar-mas? Peço por elas
menos do que custaram .
O Pai 97

- Pode ser - concordou o velho com uma careta - , mas


faz-me o preço que deste por elas , sem desconto .
- Está bem . Ficas a dever-mas .
O filho meteu o braço para debaixo da cama e puxou de lá
umas botas novas . O pai tirou as suas , escuras e cambadas , cer­
tamente alheias , e experimentou as novas .
- Servem perfeitamente ! - disse ele . - Está bem , fico com
elas . Na terça-feira, quando receber a pensão , mando-te o di­
nheiro . Ora, mentira - continuou , voltando a cair bruscamente
no mesmo tom lacrimoso . - Isso da vaquinha é mentira , isso da
pensão é mentira. Tu também estás a querer iludir-me , Bóren­
ka . . . Sinto muito bem a tua política de generosidade . Vejo-te à
transparência ! As botas ficam-te apertadas porque a tua alma é
muito larga. Ah , Bória, Bória! Percebo tudo e sinto tudo !
- O pai mudou-se para outra casa? - interrompeu-o o filho
para mudar de tema.
- Sim , meu amigo , mudei-me . Todos os meses mudo de ca­
sa. A matrona, com o feitio dela, não consegue conviver muito
tempo com as pessoas .
- Um dia fui à sua casa, mas à antiga , porque queria convidá-
-lo a vir comigo para a casa de campo . Com a saúde que tem ,
fazia-lhe bem viver um pouco ao ar livre .
- Não ! - O velho abanou a mão . - A mulher não deixava,
e eu próprio não quero . Vocês já tentaram tirar-me da lama mais
de cem vezes , e eu próprio já tentei , mas não resultou . Deixem lá !
Fico na lama até esticar o pernil . Agora estou aqui contigo , a olhar
para o teu rosto angelical , mas sinto que quero voltar para casa,
para a lama. É o destino . É impossível arrastar o escaravelho pa­
ra cima da rosa. Não . Pois bem, amigo , tenho de ir. Já escurece .
- Então vou acompanhá-lo , espere . Hoje também preciso de
ir à cidade .
O velho e o jovem vestiram os sobretudos e saíram . Um pou­
co mais tarde iam na charrete . Escureceu e nas j anelas já cintila­
vam as luzes da noite .
98 Anton Tchékhov

- Depenei-te , Bórenka ! - murmurava o pai . - Coitados


dos meus filhos , coitados ! Deve ser uma grande desgraça ter um
pai como eu ! Bórenka , meu anjo, não posso mentir quando olho
para a tua cara . Desculpa . . . Até que ponto chega o meu descara­
mento , meu Deus ! Há pouco extorqui-te dinheiro , envergonho­
-te com o meu preparo de bêbedo , ando a sacar dinheiro também
aos teus irmãos , envergonho-os , e então se me visses ontem !
Não te escondo nada, Bórenka . Ontem juntaram-se à mulher uns
vizinhos e todo o género de ralé , embebedei-me e fartei-me de
falar mal de vós à frente deles , meus filhinhos . Insultei-vos ,
queixei-me de que me abandonastes . Eu queria comover aquele
mulherio bêbedo , estás a entender? Armar-me em pai desgraça­
do . É esta a minha maneira de ser: quando quero esconder os
meus defeitos , deito as culpas para os filhos inocentes . Não pos­
so mentir-te , Bórenka, não posso esconder-te nada. Fui ter con­
tigo armado em fanfarrão , mas quando vi a tua meiguice e a tua
misericórdia, a minha língua colou-se ao céu da boca e a minha
consciência revolveu-se .
- Deixe lá isso , meu pai , vamos falar de outra coisa.
- Mãe de Deus , que filhos eu tenho ! - continuou o velho
sem o ouvir. - Que luxo n Senhor me concedeu ! Um desenca­
minhado como eu não deveria ser pai destes filhos , mas outro
homem , um verdadeiro , com alma e sentimentos ! Não sou dig­
no deles !
O velho tirou o seu bonezinho pequeno e benzeu-se várias ve­
zes .
- Graças a Deus ! - suspirou , olhando à volta, como se pro­
curasse um ícone . - Uns filhos excelentes , raros ! Tenho três fi­
lhos varões , todos maravilhosos . Sóbrios , sérios , laboriosos , e
que inteligência a deles ! Cocheiro , estás a ouvir? Que inteligên­
cia ! O Grigóri sozinho tem uma inteligência que dá para dez . Ele
é francês , ele é alemão , e que eloquência de orador . . . Nem um
advogado se compara com ele . . . É um prazer ouvi-lo . . . Oh ,
meus filhos , nem acredito que sois meus ! Não acredito ! Tu , Bó-
O Pai 99

renka, és o meu mártir. Ando a arruinar-te , vou levar-te à ruína . . .


Dás-me sempre dinheiro , apesar de saberes que o teu dinheiro
não vai para coisas sérias . Há dias mandei-te uma carta a lasti­
mar-me , a contar a minha doença, mas mentia: estava a pedir-te
dinheiro para gastar em rum . E tu dás-me dinheiro porque tens
medo de me ofender se mo recusares . Eu sei , eu sinto tudo isso .
O Gricha também é um mártir. Na quinta-feira fui ao departa­
mento dele em estado de bebedeira , todo sujo, esfarrapado . . . a
tresandar a vodca como uma cave . Entrei naquele preparo , pus­
-me a falar com ele , uma conversa ordinária, na presença dos co­
legas , dos chefes , dos utentes . Cobri-o de vergonha para toda a
vida. Ele nem sequer mostrou ter vergonha de mim, só empali­
deceu ligeiramente , mas sorriu e aproximou-se de mim como se
não fosse nada, até me apresentou aos colegas . Depois levou-me
a casa, à minha, e nem uma palavra de censura me disse ! Eu
sugo-o mais do que a ti . Agora, o teu irmão Sacha . . . também é
um mártir ! Casou-se , como sabes , com a filha do coronel , entrou
para o círculo aristocrático , recebeu um dote . . . Aparentemente ,
eu não estou à altura dele . Mas não , amigo , mal se casou , a pri­
meira visita que fez , com a jovem esposa, foi a mim . . . no meu
buraco . . . Juro !
O velho soluçou , logo se riu .
- Ora, nem de propósito , naquele momento estavam a comer
nabo ralado com kvass e a fritar peixe lá em minha casa, e o fe­
dor era tal que até o Diabo ficaria enjoado ! Eu estava prostrado
de bêbedo , a minha matrona saltou com a cara rubra ao encontro
do jovem casal . . . Enfim, uma monstruosidade , não é preciso di­
zer mais . Mas Sacha aguentou tudo .
- Sim , o nosso Sacha é boa pessoa - disse Boris .
- Uma pessoa excelentíssima ! Todos vós sois ouro puro: tu e
o Gricha, e o Sacha, e a Sónia. Eu magoo-vos , torturo-vos ,
envergonho-vos , depeno-vos , mas durante toda a vida não ouvi
de vós uma palavra de censura , não vi um olhar de soslaio . Se ao
menos o vosso pai fosse um homem decente . . . Mas não , é um
1 00 Anton Tchékhov

nojo ! Da minha parte não se viu nada que não fosse mau . Sou má
rês , sou um depravado . . . Agora, menos mal , graças a Deus , fi­
quei acabado e já não tenho carácter, mas antes , quando éreis
mais pequenos , tinha um carácter impositivo . Fizesse o que fi­
zesse , a mim parecia sempre certo . Por vezes voltava à noite do
clube já bêbedo , raivoso , e começava a censurar a tua falecida
mãe por causa das despesas . Serrazinava-lhe a cabeça toda a noi­
te e pensava que assim é que estava bem . De manhã, saíeis para
o liceu e eu ainda continuava a mostrar-lhe o meu mau carácter.
Que descanse em paz , eu é que levei à morte aquela pobre már­
tir ! E quando voltáveis do liceu , se eu estava ainda a dormir, não
vos atrevíeis a almoçar antes de eu me levantar. Ao almoço , era
a mesma cantiga . Tu lembras-te , de certeza . Deus livre qualquer
pessoa de ter um pai assim . Fui-vos enviado por Ele como uma
provação . Sim, como uma provação , precisamente ! Aguentai , fi­
lhos , até ao fim. Honra o teu pai e terás muitos anos de vida . Pe­
lo vosso sacrifício , talvez o Senhor vos conceda longevidade .
Cocheiro , pára !
O velho saltou da charrete e correu para a cervejaria. Voltou
meia hora depois , bêbedo , pigarreou e sentou-se ao lado do filho .
- E a Sónia , onde está agora? - perguntou . - Ainda está no
internato?
- Não , terminou em Maio e agora vive em casa da sogra de
Sacha.
- Ena ! - espantou-se o velho . - Linda menina, portanto
saiu aos irmãos . Eh , Bórenka , sem a tua mãe , quem nos há-de
alegrar? Ouve , Bórenka, a Sónia . . . ela sabe como eu vivo? Sa­
be?
Boris não respondeu . Decorreram uns cinco minutos de silên­
cio profundo . O velho soluçou , limpou a cara com o seu trapi­
nho e disse:
- Gosto dela, Bórenka ! É a minha única filha , e não há maior
consolo na velhice do que uma filha . Gostaria de encontrar-me
com ela . Posso , Bórenka?
O Pai 101

- É claro que pode , quando quiser.


- É verdade? Mas ela . . . não . . . ?
- Nada disso , ela própria o tem procurado , quer vê-lo .
- A sério? Ah , que filhos ! Cocheiro , ouviste? Bórenka, mi-
nha alminha , arranja-me isso ! Ela agora é uma menina nobre ,
délicatesse , consommé e tal , à maneira fidalga, e eu não quero
apresentar-me à frente dela neste preparo ignóbil . Então , Bóren­
ka, vamos arranjar toda esta mecânica da seguinte maneira: três
dias de abstenção , para que o meu focinho bêbedo e nojento fi­
que em ordem; depois vou ter contigo , tu emprestas-me um fati­
nho qualquer por algum tempo; faço a barba, corto o cabelo , de­
pois tu vais buscá-la, leva-la para tua casa . Está bem?
- Está bem .
- Cocheiro , pára !
O velho voltou a saltar da charrete e correu a outra cervejaria.
Antes de chegar a casa do pai , Boris teve de assistir a estes sal­
tos por mais duas vezes ainda e, de cada vez , esperou pelo pai
em silêncio e com paciência. Apearam-se finalmente , despedi­
ram o cocheiro e, quando passavam pelo pátio comprido e sujo
até à casa da «matrona» , o velho tomou um ar muito confuso e
culpado , começou a pigarrear timidamente , a estalar os lábios .
- Bórenka - disse num tom de quem pede esmola - , se a
matrona começar a dizer-te alguma coisa . . . sabes , daquelas . . .
não ligues e . . . trata-a com simpatia. Ela é ignorante e atrevida ,
mas é boa rês . No peito dela bate um coração bom e caloroso .
Atravessado o pátio comprido , Boris entrou num átrio escuro .
A porta chiou nos gonzos , soltou-se o cheiro a cozinhados e ao
fumo do samovar, ouviram-se vozes agudas . Passando pela co­
zinha, Boris viu apenas fumo escuro , uma corda com roupa pen­
durada e a chaminé do samovar cheia de rachas por onde saíam
faúlhas douradas .
- Eis a minha cela - disse o velho , inclinando-se e entran­
do num pequeno quarto de tecto baixo e atmosfera insuportavel­
mente abafada por causa da proximidade da cozinha .
1 02 Anton Tchékhov

À mesa estavam três mulheres a petiscarem . Ao verem o visi­


tante , trocaram olhares e pararam de comer.
- Então , arranjaste? - perguntou severamente uma delas ,
pelos vistos a própria «matrona» .
- Arranjei , arranjei - murmurou o velho . - Bem-vindo en­
tão , Bori s , senta-te ! Em nossa casa, meu amigo , é tudo simples ,
meu jovem . . . Somos pessoas de vida singela.
O velho começou numa agitação disparatada. Diante do filho ,
sentia-se envergonhado mas , ao mesmo tempo , queria exibir-se
diante do mulherio , como sempre , armando-se em pai abando­
nado e desgraçado .
- Sim, meu amigo , meu jovem , vivemos de modo simples ,
sem esmeros - murmurava. - Somos gente simples , meu jo­
vem . . . Não somos como vós , não gostamos de deitar poeira pa­
ra os olhos . Pois . . . E se bebêssemos um copinho de vodca?
Uma das mulheres (talvez com vergonha de beber diante de
estranhos) suspirou e disse:
- Eu bebo mais um por causa dos cogumelos . . . Os cogume­
los são tão bons que bebemos mesmo sem querer. Ivan Guerás­
simitch , ofereça-lhe , ele se calhar também bebe !
- Bebe , meu jovem ! - disse o velho sem olhar para o filho .
- Cá entre nós não há vinhos nem licores , temos a bebida da
gente simples .
- O senhor não gosta da nossa casa - suspirou a «matrona» .
- Não faz mal , ele bebe !
Para não ofender o pai com uma recusa, Boris pegou no copo
e, em silêncio , bebeu . Quando trouxeram o samovar, sempre ta­
citurno , com o rosto melancólico e para agradar ao pai , bebeu
duas chávenas do chá nauseabundo . Sem abrir a boca, ouvia a
«matrona» a arengar, por insinuações , sobre o facto de haver
neste mundo filhos cruéis e desavergonhados que abandonam os
seus pais .
- Sei o que estás a pensar ! - dizia o velho bebido , entrando
no seu habitual estado de excitação alcoólica. - Achas que eu
O Pai 1 03

caí muito baixo , que me atolei na lama, que sou um miserável ,


mas , na minha opinião , esta vida simples é muito mais normal
do que a tua, meu jovem . Não preciso de ninguém e . . . não estou
para me humilhar . . . Odeio quando um moncoso olha para mim
com compaixão .
Depois do chá, o pai pôs-se a amanhar o arenque , pondo-lhe
em cima a cebola picada com tanto sentimento que os seus olhos
se marejavam de lágrimas . Voltou a falar das apostas , dos pré­
mios , de um qualquer chapéu-panamá por que pagara dezasseis
rublos na véspera. Mentia com o mesmo apetite com que comia
arenque e bebia. O filho aguentou aquilo durante uma hora , em
silêncio , depois começou a fazer as despedidas .
- Não me atrevo a retê-lo aqui ! - disse o velho com altivez .
- Meu jovem, peço desculpa por não viver como o senhor pre-
tenderia !
Exibia-se , bufava com dignidade e piscava o olho ao mulhe­
rio .
- Adeus , meu jovem ! - disse , acompanhando o filho até ao
átrio . - Attendez!
No átrio escuro apertou a cara contra a manga do filho e solu­
çou:
- Queria ver a Sóniuchka ! - sussurrou . - Arranja-me isso ,
Bórenka, meu anjo ! Eu faço a barba, visto o teu fatinho . . . faço
uma cara séria. Vou calar-me na presença dela. Juro , vou calar­
-me .
Lançou um olhar tímido para a porta, donde vinham as vozes
do mulherio , reprimiu o choro e disse em voz alta:
- Adeus , meu jovem ! Attendez!
A VELHA CASA
História contada pelo proprietário

Era necessário derrubar a casa velha para construir uma nova


no seu lugar. Eu guiava o arquitecto através das salas vazias e , a
propósito da casa, contava-lhe várias histórias . O papel roto das
paredes , os vidros baços das janelas , os fogões escuros - tudo
isso guardava vestígios de uma vida recente e despertava as lem­
branças . Por exemplo , as pessoas , já embriagadas , tiravam um
morto por estas escadas , tropeçaram e caíram pelas escadas abai­
xo juntamente com o caixão ; os vivos magoaram-se , e o morto ,
como se nada fosse , continuou muito sério e a menear a cabeça
enquanto o levantavam do chão e o metiam de novo dentro da
uma. Aqui estão três portas seguidas : viviam cá umas meninas
que recebiam convidados muitas vezes e, por isso , vestiam-se
melhor do que todos os outros inquilinos e eram impecáveis
quanto ao pagamento da renda. A porta ao fundo do corredor dá
para a lavandaria, onde de dia se lavava a roupa e à noite se fa­
zia barulho e se bebia cerveja. Agora, neste pequeno apartamen­
to de três assoalhadas , está tudo impregnado de bactérias e baci­
los . Isto aqui é malsão . Morreram aqui muitos inquilinos , e
insisto em afirmar que este apartamento , em tempos , foi amaldi­
çoado por alguém e que aqui não viviam apenas os inquilinos ,
mas mais alguém , invisível . É memorável para mim, sobretudo ,
1 06 Anton Tchékhov

a história de uma família. Imagine um homenzinho sem nada de


especial , muito vulgar, com a mãe , a mulher e quatro filhos .
Chamava-se Putókhin , trabalhava como escrivão num cartório
notarial e auferia trinta e cinco rublos mensais . Era um homem
sóbrio , religioso , sério . Quando vinha pagar-me a renda, pedia
sempre desculpa por estar mal vestido , por se ter atrasado cinco
dias no pagamento , e quando eu lhe passava o recibo , ele esbo­
çava um sorriso benévolo e dizia: «Üra essa ! Não gosto de reci­
bos ! » Vivia na pobreza , mas era uma pobreza asseada. Nesta sa­
la, a do meio , viviam os quatro filhos e a avó: era aqui que
cozinhavam , dormiam, recebiam visitas e até dançavam . Neste
quarto vivia o Putókhin; tinha uma secretária onde fazia traba­
lhos para fora: cópias de papéis teatrais , relatórios , etc . Ali , à di­
reita, morava um inquilino a quem ele subalugava. Era o serra­
lheiro Egóritch , um homem sério mas bêbedo ; tinha sempre
calor, por isso andava descalço e só de colete . Egóritch conser­
tava cadeados , pistolas , bicicletas de criança, não se recusava a
arranjar os relógios de parede baratos , por vinte e cinco cope­
ques fazia uns patins , mas desprezava estes trabalhos e conside­
rava-se um especialista em instrumentos musicais . Em cima da
mesa dele , no meio das tralhas de aço e ferro , podia ver-se sem­
pre um realejo com a palheta quebrada ou um cornetim amolga­
do . Pagava dois rublos e meio a Putókhin pelo quarto e só saía
da sua banca de trabalho para ir ao forno meter alguma peça de
metal .
Quando eu passava por aqui à noite (coisa rara) , via sempre o
mesmo espectáculo: Putókhin , à sua secretária, a copiar qualquer
coisa; a mulher dele , magra e com o rosto cansado , a costurar ao
pé do candeeiro juntamente com a sogra; e Egóritch a fazer chiar
a lima. O fogão quente , ainda com algumas brasas , mantinha o
ar aquecido e abafado; cheirava sempre a sopa de repolho , a fral­
das e a Egóritch . Pobreza e ar abafado , mas dos rostos trabalha­
dores , das calcinhas infantis estendidas ao longo do fogão , das
peças metálicas de Egóritch , soprava a paz , o carinho , um certo
A Velha Casa 1 07

contentamento . . . Do lado de fora das portas , no corredor, cor­


riam as criancinhas , penteadas , alegres e profundamente con­
vencidas de que tudo no mundo era maravilhoso e assim conti­
nuaria, bastando que rezassem a Deus de manhã e antes de irem
para a cama .
Imagine agora, meu caro senhor, que no meio desta mesma sa­
la, a dois passos do fogão , está um caixão em que jaz a mulher
de Putókhin . Não há marido cuja mulher tenha vivido eterna­
mente , mas neste caso a morte tinha um significado especial .
Quando , na missa de corpo presente , olhei para a cara séria do
marido e para o rigor dos seus olhos, pensei:
«Apre , meu amigo ! »
Parecia-me que ele próprio , o s filhos , a avó , Egóritch j á ti­
nham sido marcados pela criatura invisível que vivia com eles
no apartamento . Sou um homem profundamente supersticioso ,
tal véL porque sou proprietário do prédio e lido há quarenta anos
com inquilinos . Acredito que se não tivermos sorte nas cartas no
princípio do jogo continuaremos a perder até ao fim; quando a
Providência nos quer apagar da face da terra, a nós e à nossa fa­
mília, mantém uma coerência implacável e , por norma, a pri­
meira desgraça é apenas o primeiro elo de uma longa corrente .
As desgraças , por natureza, são como as pedras . Basta cair uma
da margem alta para que rebolem as outras atrás dela . Re1'utnin­
do , no fim daquela missa eu tinha a certeza de que Putókhin e a
sua família acabariam mal . . .
Foi o que se passou . Uma semana depois , o notário despediu
Putókhin e deu o lugar dele a uma menina qualquer. Pois bem ,
Putókhin ficou magoado não tanto pela perda do emprego mas
por ter sido preterido por uma menina e não por um homem .
Uma menina porquê? Ficou tão ofendido com isso que , ao voltar
para casa, açoitou os filhinhos , insultou a mãe e embebedou-se .
Para lhe fazer companhia , embebedou-se também Egóritch .
Putókhin veio pagar-me a renda mas já sem quaisquer descul­
pas , apesar de se ter atrasado dezoito dias , e pegou sem comen-
108 Anton Tchékhov

tários no recibo que lhe entreguei . No mês seguinte foi a mãe de­
le quem me entregou o dinheiro da renda, apenas metade , pro­
metendo pagar o resto dali a uma semana. No terceiro mês não
recebi nada, e o guarda-portão começou a queixar-se que os in­
quilinos do número 23 se portavam «de maneira ignóbil» . Eram
maus sintomas .
Imagine a cena. A sombria manhã petersburguense bate nestas
janelas baças . Ao lado do fogão , a avó serve chá às crianças .
Apenas Vássia, o neto mais velho , bebe do copo , para os outros
a avó serve o chá nos pires . Em frente do fogão está Egóritch ,
metendo uma peça metálica no forno . Tem os olhos turvos e a
cabeça pesada por causa da ressaca da bebedeira do dia anterior;
pigarreia, treme , tosse .
- Desencaminhou-me por completo , esse diabo ! - resmun­
ga Egóritch . - Bebe como um odre e induz os outros em peca­
do .
No seu quarto , Putókhin está sentado na cama , em que já não
há cobertor nem almofadas , com as mãos enfiadas na cabeleira
e a olhar lorpamente para os pés . Esfarrapado , desgrenhado ,
doente .
- Bebe , bebe o chá depressa, senão chegas atrasado à esco­
la !
-
É a velha que apressa o neto Vássia. - Eu também tenho
de sair já, lavar os chãos aos judeus . . .
Em toda a casa apenas a velha não desanimava. Arrastada pe­
la memória dos seus tempos antigos , decidiu trabalhar, um traba­
lho negro: às sextas-feiras lavava os chãos das casas de penhores
dos judeus , aos sábados ia lavar roupa para os comerciantes , e
aos domingos , de manhã à noite , percorria a cidade à procura de
benfeitoras . Todos os dias arranjava algum trabalho: lavava rou­
pa, lavava chãos , servia de parteira, de casamenteira, pedia es­
mola. Na verdade , na sua desgraça, também ela tinha vontade de
beber um copo , mas mesmo embriagada não se esquecia das suas
obrigações . Na Rússia há muitas velhas fortes como esta, e quan­
to bem-estar se salvaguarda apenas graças a elas !
A Velha Casa 1 09

Depois de tomar o chá , Vássia meteu os livros na sacola e


dirigiu-se para trás do fogão , onde deveria estar pendurado o seu
casaco . Um momento depois saiu de trás do fogão e perguntou:
- Mas onde está o meu casaco?
A avó e as crianças começaram a procurá-lo , procuraram mui­
to tempo , mas era como se a terra tivesse engolido o casaco . On­
de estaria? A avó e Vássia estavam pálidos , assustados . Até Egó­
ritch estava espantado . Apenas Putókhin se calava e não se
mexia. Ele , sempre tão sensível a qualquer desordem , desta vez
fazia de conta que não via nem ouvia nada. Era suspeito !
- Foi ele , para comprar vodca ! - disse Egóritch .
Putókhin ficou calado , logo era verdade . Vássia estava aterro­
rizado . O seu casaco , um casaco maravilhoso , feito do pano de
um vestido da falecida mãe , um casaco com excelente forro de
calicot, foi parar à taberna para pagar vodca!
E , por conseguinte , juntamente com o casaco perderam-se
também o lápis azul que estava no bolso lateral e a agenda com
as letras douradas NOTA BENE ! Dentro da agenda, havia outro lá­
pis , borracha e uma decalcomania .
Apetecia-lhe chorar, a Vássia, mas não s e podia chorar porque
o pai estava com dores de cabeça e , se ouvisse o choro , ia gritar,
bater com os pés , espancá-lo e , quando estava de ressaca, espan­
cava brutalmente . A avó tentaria proteger Vássia, e ele bateria
também na avó; depois iria intrometer-se Egóritch , agarrar-se-ia
ao pai e malhariam os dois com as costas no chão , rolariam os
dois pelo soalho e lutariam até que se lhes extinguisse a raiva
ébria, animal , a avó choraria, as crianças guinchariam, os vizinhos
iriam chamar o guarda-portão . Não , era melhor não chorar.
Como não podia chorar e indignar-se em voz alta, Vássia mu­
gia, torcia as mãos , esperneava, mordia a manga , sacudia-a mui­
to tempo com os dentes cravados , como um cão à lebre . Os olhos
de Vássia pareciam enlouquecidos , a cara deformada pelo de­
sespero . Olhando para ele , a avó arrancou bruscamente o lenço
da cabeça e começou também a estrebuchar em silêncio com as
1 10 Anton Tchékhov

mãos , as pernas , os olhos fixos num ponto . Naquele momento ,


acho eu , nas cabeças da velha e do garoto só existia a clara con­
vicção de que a vida deles acabara, de que já não havia esperan­
ça . . .
Putókhin não ouvia o choro , mas via tudo do seu quarto .
Quando Vássia, meia hora depois , agasalhado com o xaile da
avó , saiu para a escola, Putókhin , com uma cara que não me atre­
vo a descrever, saiu também e seguiu-o . Gostaria de chamar o ra­
paz e consolá-lo , pedir-lhe desculpa, dar-lhe a sua palavra de
honra , invocando a falecida mãe como testemunha, mas do pei­
to só lhe saíam soluços . A manhã estava fria e húmida. Vássia,
antes de chegar à escola municipal , tirou o xaile , para que os co­
legas não o apupassem de «menina» , e entrou na escola só de tú­
nica. Putókhin voltou para casa, a chorar, a murmurar incoerên­
cias , fez vénias profundas à mãe , a Egóritch , à banca de trabalho
deste . Depois , caindo mais ou menos em si, correu a minha casa
e, a resfolegar, pediu-me que lhe arranjasse um emprego . Dei­
-lhe essa esperança, é claro .
- Finalmente caí em mim ! - disse ele . - Já é tempo de ga-
nhar juízo . Chega de estroinice .
Agradeceu-me , todo contente , mas eu , que sou proprietário do
prédio há muitos anos e estudei perfeitamente todos esses se­
nhores inquilinos , olhei para ele e apeteceu-me muito dizer-lhe:
- É tarde , meu caro ! Já morreste !
Depois , Putókhin correu para a escola municipal . Ficou
por lá a passear-se de um lado para o outro à espera que o rapaz
saísse .
- Ouve , Vássia ! - disse ele alegremente quando Vássia apa­
receu . - Prometeram-me agora um emprego . Espera . . .
Compro-te uma peliça excelente . . . inscrevo-te no liceu ! Perce­
bes? No liceu ! Faço com que ainda chegues a fidalgo ! E não be­
bo mais . Palavra de honra, não bebo .
E acredita profundamente num futuro luminoso . Mas chega a
noite . A velha volta da casa dos judeus com vinte copeques , ex-
A Velha Casa 111

tenuada, e começa a lavar a roupa das crianças . Vássia está a re­


solver um problema de matemática. Egóritch não está a traba­
lhar. Graças a Putókhin , alcoolizou-se definitivamente e sente
agora uma necessidade premente de beber um copo . Dentro da
casa, o ar é abafado e quente . Emana o vapor da selha onde a ve­
lha está a lavar a roupa.
- Como é , vamos lá? - pergunta sombriamente Egóritch .
O meu inquilino cala-se . Depois da excitação apodera-se dele
um tédio insuportável . Luta contra o desejo de beber, com a an­
gústia e . . . e, é claro , a angústia vence . A história de sempre .
Cai a noite quando Egóritch e Putókhin saem . De manhã , Vás­
sia não encontra o xaile da avó .
Esta é a história que aconteceu neste apartamento . Depois de
gastar o dinheiro que o xaile lhe rendeu , Putókhin nunca mais
voltou para casa . Não sei onde desapareceu . Perdido o Putókhin ,
foi a vez da velha: começou a embebedar-se , caiu doente . Leva­
ram-na para o hospital , as crianças mais pequenas foram reco­
lhidas por uns parentes quaisquer. Vássia foi trabalhar para a la­
vandaria. Durante o dia preparava os ferros de engomar, à noite
ia buscar cerveja. Quando correram com ele da lavandaria,
colocou-se ao serviço de uma das «meninas» , andando de dia e
de noite a trazer e a levar uns recados quaisquer, sendo já cha­
mado «guarda-putas» . Não sei o que lhe aconteceu depois .
Quanto a este quarto aqui , viveu nele um músico mendigo ,
durante dez anos . Quando morreu , encontraram vinte mil rublos
dentro do colchão dele .
OS GAROTOS

- O Volódia chegou ! - gritou alguém no quintal .


- O menino Volódetchka chegou ! - vociferou Natália, ir-
rompendo na sala de jantar. - Ah , meu Deus !
Toda a família Koroliov, que esperava a chegada do seu Voló­
dia de uma hora para a outra, precipitou-se para as janelas . Em
frente da porta de entrada estava um trenó largo , sobre a troica
branca levantava-se uma névoa espessa. O trenó estava vazio
porque Volódia já estava no vestíbulo e , com os dedos enregela­
dos , vermelhos , desatava o capuz . O capote e o boné do liceu , as
galochas e os cabelos das têmporas estavam cobertos de geada,
e de todo ele , da cabeça aos pés , emanava um cheiro a frio tão
saboroso que , olhando-o , só apetecia gelar também e dizer «uui
que frrrio ! » . A mãe e a tia atiraram-se a ele para o beijarem e
abraçarem. Natália tombou aos seus pés e começou a tirar-lhe as
botas de feltro , as irmãs puseram-se aos guinchos , as portas ran­
giam e batiam , e o pai de Volódia, só de colete e com uma te­
soura na mão , irrompeu no vestíbulo e gritou assustado:
- Já ontem estávamos à tua espera ! A viagem foi boa? Sem
problemas? Valha-nos Deus Nosso Senhor, deixem-no cumpri­
mentar o pai ! Ou não sou eu o pai?
- Gaf-gaf! - rugia no seu vozeirão de baixo o Milord, um
cão enorme e negro , batendo ruidosamente com o rabo nas pa­
redes e nos móveis .
1 14 Anton Tchékhov

Tudo se misturou num único som de alegria que durou dois


minutos . Quando este primeiro impulso de alegria passou , os
Koroliov repararam que , além do Volódia, estava no vestíbulo
mais um homenzinho , agasalhado com lenços , xailes e capuzes ,
coberto de geada; estava imóvel a um canto , sob a sombra lan­
çada por uma grande peliça de raposa.
- Volódetchka , quem é este? - perguntou a mãe num sus­
surro .
- Ah ! - Volódia caiu em si . - Tenho a honra de lhes apre­
sentar o meu colega Tchetchevítsin , aluno do segundo ano . . .
Convidei-o para passar algum tempo connosco .
- Muito prazer, seja bem-vindo ! - disse o pai num tom ale­
gre . - Desculpe este meu trajo informal , mas cá em casa ando
sem sobrecasaca . . . Faça o favor de entrar. Natália, ajuda o se­
nhor Tcherepítsin a despir o casaco ! Ah , Deus Nosso Senhor,
corram daqui com este cão ! É um castigo !
Um pouco depois já Volódia e o seu amigo Tchetchevítsin ,
aturdidos pela recepção barulhenta e ainda com as caras rosadas
do frio , estavam sentados à mesa tomando chá. O sol de Inver­
no , furando através da neve e do gelo que ornavam os vidros , tre­
mia na superfície do samovar e mergulhava os seus límpidos
raios na bacia de lavar os dedos . A sala era quentinha , e os rapa­
zes sentiam o calor e o frio a comichar-lhes nos corpos , não que­
rendo ceder um ao outro .
- Pois é , já estamos quase no Natal ! - dizia em voz cantan­
te o pai , enrolando um cigarro de tabaco ruivo-escuro . - Pare­
ce que ainda há pouco era Verão e a mãe se fartava de chorar a
despedir-se de ti . Mas cá estás tu em casa de novo . . . Como o
tempo corre depressa, meu amigo ! Mal tens tempo de pestanejar
e já estás velho . Senhor Tchfbissov, coma , por favor, não se aca­
nhe ! Nós somos gente simples , sem cerimónias .
As três irmãs de Volódia, Kátia, Sónia e Macha (a mais velha
com onze anos) , estavam sentadas à mesa sem desviarem os olhos
da visita. Tchetchevítsin era da mesma idade e estatura de Volódia,
Os Garotos 1 15

mas não rechonchudo e de pele branca como este; era magro, mo­
reno , sardento , tinha um cabelo cerdoso , os olhos estreitinhos , os
lábios grossos - em geral era desengraçado e , se não usasse o
uniforme do liceu , poderia ser tomado pelo filho da cozinheira.
Era soturno , sempre calado , nem uma vez sorriu . As miúdas ,
olhando para ele , perceberam de imediato que , provavelmente , se
tratava de uma pessoa muito inteligente e sábia. Estava sempre tão
mergulhado nos seus pensamentos que , quando lhe faziam algu­
ma pergunta, estremecia, sacudia a cabeça e pedia que lha repetis­
sem . As miúdas repararam que também o Volódia, de seu natural
divertido e loquaz , desta vez falava pouco , não sorria e nem se­
quer estava contente por estar em casa. Enquanto durou o chá,
apenas uma vez falou com as irmãs , e mesmo assim com palavras
um pouco estranhas . Apontou com o dedo para o samovar e disse:
- Na Califórnia, a propósito , não tomam chá mas bebem gin .
Também mergulhava nas suas reflexões e , a julgar pelos olha­
res que ele e o seu amigo Tchetchevítsin trocavam de vez em
quando , as reflexões de ambos eram comuns .
Depois do chá foram todos para o quarto das crianças . O pai
e as miúdas sentaram-se à mesa e reataram o trabalho interrom­
pido com a chegada dos rapazes . Estavam a fazer, com papel
colorido , as flores e a franja para a árvore de Natal . Era um tra­
balho fascinante e ruidoso . Cada nova flor era recebida pelas me­
ninas com gritos de entusiasmo , até com gritos de terror, como se
a flor tivesse caído do céu ; o papá também se entusiasmava e, de
vez em quando , atirava a tesoura ao chão , irritado porque era em­
botada. A mamã entrava no quarto com ar preocupado e pergun­
tava:
- Quem pegou na minha tesoura? Foste outra vez tu , Ivan
Nikoláitch , que pegaste na minha tesoura?
- Deus Nosso Senhor, nem uma tesoura me querem dar ! -
respondia em voz chorosa Ivan Nikoláitch e , reclinando-se para
o espaldar da cadeira, tomava a pose de um homem ofendido;
mas um momento depois já se entusiasmava de novo .
1 16 Anton Tchékhov

Nas suas vindas anteriores , Volódia também se dedicava aos


preparativos para a árvore de Natal , ou então corria ao terreiro
para ver como o cocheiro e o pastor faziam um monte de gelo;
agora, ele e o Tchetchevítsin não prestavam qualquer atenção ao
papel colorido , e nem sequer foram à cavalariça; em vez disso ,
sentaram-se à janela e começaram a cochichar; depois abriram
um atlas geográfico e começaram a estudar juntos um mapa.
- Primeiro , até Tver . . . - dizia baixinho o Tchetchevítsin - ,
e de lá para Tiumen . . . depois Tomsk . . . depois . . . depois . . . a
Kamchatka . . . Daqui , os Samoiedos fazem o transporte nos bar­
cos , pelo estreito de Bering . . . E pronto , é já a América . . . Lá,
caçam-se muitos animais de pêlo .
- E a Califórnia? - perguntou Volódia.
- A Califórnia é mais abaixo . . . O principal é chegar à Amé-
rica, depois é fácil ir até à Califórnia . Ora bem , quanto ao ali­
mento , arranja-se por meio da caça e da pilhagem.
Tchetchevítsin manteve-se toda a tarde longe das meninas ,
olhando para elas de soslaio . Depois do chá da tarde , calhou fi­
car sozinho com elas durante cinco minutos . Como era incómo­
do calar-se , Tchetchevítsin pigarreou severamente , esfregou o
braço esquerdo com a palma da mão direita, olhou , carrancudo ,
para Kátia e perguntou:
- A menina já leu Mayne Reid?
- Não , não li . . . Oiça, sabe andar de patins?
Mergulhado nos seus pensamentos , Tchetchevítsin não res­
pondeu à pergunta , limitando-se a inchar muito as bochechas e a
suspirar, como se estivesse cheio de calor. Voltou a erguer os
olhos para Kátia e disse:
- Quando uma manada de bisontes corre através da pradaria,
a terra treme , e os mustangs , assustados , escoiceiam e relincham .
Tchetchevítsin sorriu com tristeza e acrescentou:
- Há ainda os guerreiros índios que atacam os comboios .
Mas o pior de tudo são os mosquitos e as térmites .
- O que é isso?
Os Garotos 1 17

- É uma espécie de formigas , mas com asas . A picada delas


é dolorosa. Sabe quem sou eu?
- O senhor Tchetchevítsin .
- Não . Sou Montigomo , Unha de Abutre , chefe dos Invencí-
veis .
Macha , a mais pequena, olhou para ele , depois para a janela
em que já escurecia, e disse pensativamente:
- Ontem , cá em casa, cozeram lentilhas?
As palavras absolutamente incompreensíveis de Tchetchevít­
sin , o facto de ele não parar de cochichar com Volódia, o facto
de Volódia não brincar mas estar sempre a reflectir em qualquer
coisa - tudo isso era enigmático e estranho . A partir de então ,
as duas meninas mais velhas , Kátia e Sónia, decidiram espiar os
rapazes . À noite , quando eles se preparavam para se deitar, as
miúdas aproximaram-se devagarinho das portas e puseram-se à
escuta. Oh , o que souberam da conversa deles ! Os dois rapazes
preparavam-se para fugir, algures para a América onde havia
umas jazidas de ouro; já tinham tudo planeado para a viagem:
uma pistola, duas facas , pão seco , vidro de lupa para acenderem
o fogo , uma bússola e quatro rublos . Escutaram que os rapazes
tinham de andar a pé vários milhares de verstás , lutando , pelo
caminho , com tigres e tribos selvagens , depois teriam de procu­
rar ouro e marfim, matar os inimigos , tomar-se piratas , beber gin
e, finalmente , casar-se com beldades e tomar-se latifundiários .
Volódia e Tchetchevítsin falavam e interrompiam-se um ao ou­
tro com entusiasmo . Tchetchevítsin auto-intitulava-se «Monti­
gomo , Unha de Abutre» , e chamava a Volódia «O meu irmão
cara-pálida» .
- Vê lá, não digas nada à mamã - disse Kátia a Sónia, quan­
do iam deitar-se . - O Volódia traz-nos ouro e marfim da Amé­
rica , mas se disseres à mãe acho que não o deixam ir.

7 O apelido do rapaz , Tchetchevítsin , provém da palavra tchetchevitsa , que signi­


fica «lentilha» . (N. T.)
1 18 Anton Tchékhov

Na véspera de Natal , Tchetchevítsin estudou o mapa da Á sia


durante todo o dia e tirou apontamentos ; Volódia, lânguido , re­
chonchudo como se tivesse sido picado por uma abelha, andava
sombriamente pelas salas e não comia nada. Até , uma vez , no
quarto das crianças , parou diante do ícone , benzeu-se e disse:
- Meu Deus , perdoai-me que sou pecador ! Meu Deus , prote­
gei a minha pobre e desgraçada mãe !
À noite , desfez-se em choro . Antes de ir para a cama, abraçou
demoradamente o pai , a mãe e as irmãs . Kátia e Sónia com­
preendiam o que se passava, mas a mais pequena, Macha, não
estava a perceber absolutamente nada, e quando olhava para
Tchetchevítsin ficava pensativa e dizia com um suspiro:
- A nossa ama diz que , na abstinência, é preciso comer ervi­
lhas e lentilhas .
Na véspera de Natal , de manhã cedo , Kátia e Sónia
levantaram-se e foram ver de que forma os rapazes iam fugir pa­
ra a América. Pé ante pé , foram até à porta deles .
- Então , não vais? - perguntava Tchetchevítsin com irrita­
ção na voz . - Diz lá: vais ou não vais?
- Meu Deus ! - chorava baixinho o Volódia. - Como pos­
so ir? Tenho pena da minha mãe .
- Meu irmão cara-pálida, peço-te , vamos ! Asseguraste-me que
ias , tu próprio me aliciaste , mas , chegada a hora, acobardas-te .
- Eu . . . eu . . . não me acobardo , mas . . . tenho pena da mamã.
- Diz lá de uma vez: vais ou não vais?
- Vou , só que . . . só que espera. Quero viver um pouco em casa.
- Nesse caso , vou sozinho ! - decidiu Tchetchevítsin . -
Passo muito bem sem ti . E era ele que queria caçar tigres , com­
bater ! Já que é assim , devolve-me as espoletas !
Volódia chorou com tanta amargura que as irmãs não aguen-
taram e também choraram baixinho . Caiu o silêncio .
- Então , não vais? - voltou a perguntar Tchetchevítsin .
- V vou .
- Então , toca a vestir.
Os Garotos 1 19

E Tchetchevítsin , para convencer Volódia, louvava a América,


rugia como os tigres , imitava o barco a vapor, praguejava , pro­
metia ceder a Volódia todo o marfim e todas as peles de tigres e
leões .
E aquele garoto magrinho e moreno , de cabelo rijo e sardas ,
parecia às miúdas uma pessoa extraordinária, notável . Era um
herói , resoluto , destemido , e rugia de tal modo que quem esti­
vesse atrás da porta podia acreditar que rugia efectivamente um
tigre ou um leão .
Quando as miúdas voltaram para o seu quarto e se vestiam ,
Kátia, com os olhos cheios de lágrimas , disse:
- Ah , tenho tanto medo !
Até às duas da tarde , hora a que todos se sentaram para almo­
çar, esteve tudo calmo , mas durante o almoço descobriu-se , de re­
pente , que os rapazes não estavam em casa. Mandaram procurá­
-los aos quartos dos criados , à cavalariça, ao anexo do feitor -
não estavam lá. Depois mandaram fazer uma busca na aldeia -
também não . Mais tarde tomaram chá também sem eles , e , quan­
do se sentaram para o jantar, a mamã já estava tão preocupada
que até chorou . À noite foram de novo à aldeia, procuraram-nos
no rio , com lanternas . Deuses , que azáfama se levantou !
No dia seguinte veio um polícia, escreveram um papel na sa­
la de jantar. A mãe chorava .
Eis , porém , que à porta de entrada parou um trenó , e sobre a
troica branca levantou-se o vapor.
- O Volódia chegou ! - gritou alguém no quintal .
- O menino Volódetchka chegou ! - vociferou Natália, ir-
rompendo na sala de jantar.
E o Milord ladrou em voz de baixo : «Gaf! Gaf!»
Os rapazes , afinal , foram detidos na cidade , no Gostíni Dvor8
(andavam lá a perguntar onde se vendia pólvora) . Volódia, mal
entrou no vestíbulo , chorou e atirou-se ao pescoço da mãe . As

8 Uma espécie de centro comercial . (N. T.)


1 20 Anton Tchékhov

meninas ficaram a tremer de terror, pensando no que iria acon­


tecer agora que o pai levara Volódia e Tchetchevítsin para o seu
gabinete , falando lá com eles durante muito tempo; a mãe tam­
bém falava e chorava.
- Como se pode fazer uma coisa destas? - dizia-lhes o pai .
- Se isto chegar ao conhecimento do liceu , Deus nos livre dis-
so , serão expulsos . E você , senhor Tchetchevítsin , devia ter ver­
gonha ! Andou mal , mal , mal ! Foi o instigador, e espero que seja
castigado pelos seus pais . Como são possíveis coisas destas ?
Onde dormiram esta noite?
- Na estação dos comboios - respondeu com orgulho
Tchetchevítsin .
Depois , Volódia deitou-se e puseram-lhe uma toalha embebi­
da em vinagre na cabeça. Mandaram um telegrama e, no dia se­
guinte , chegou uma senhora, a mãe de Tchetchevítsin , e levou o
filho .
Ao partir, Tchetchevítsin arvorava um rosto severo , altivo , e
despediu-se das meninas sem dizer uma única palavra; apenas
pegou num caderno de Kátia e escreveu como lembrança:
«Montigomo , Unha de Abutre .»
UMA HISTÓRIA DA SENHORA NN

Cerca de nove anos atrás , num fim de tarde , durante a sega do


feno , eu e o Piotr Serguéitch , juiz de instrução , montámos nos
cavalos e fomos à estação buscar o correio .
O tempo estava excelente mas , no caminho de volta, ouvimos
trovões e uma nuvem negra e raivosa que avançava contra nós .
A nuvem aproximava-se e nós íamos na direcção dela.
No pano de fundo da nuvem destacava-se a cor branca da nos­
sa casa e da igreja, e luzia o prateado dos álamos altos . Cheira­
va a chuva e a feno segado . O meu acompanhante estava numa
boa veia. Saía-se com todo o género de disparates , ria. Não seria
mau , sonhava ele , se encontrássemos de repente pelo caminho
um castelo medieval com torres ameadas , com musgo , com mo­
chos , para que nos protegêssemos lá da chuva e , no fim, fôsse­
mos mortos por um relâmpago . . .
Eis que pelos campos de centeio e aveia correu a primeira on­
da, lufou o vento e no ar turbilhonou a poeira. Piotr Serguéitch
riu-se e esporeou o cavalo.
- Que bom ! - gritou . - Tão bom !
Eu , contaminada pela alegria de Piotr Serguéitch e imaginan­
do-me já encharcada até aos ossos e correndo o risco de ser mor­
ta por um raio , também comecei a rir.
1 22 Anton Tchékhov

O tufão e a cavalgada célere , quando sufocamos com o vento


e nos sentimos pássaros , emocionam muito , fazem cócegas no
peito . Quando entrámos no nosso quintal , o vento já parara e sal­
picos grossos de chuva rufavam na erva. Ao pé da cavalariça não
havia ninguém .
Foi o próprio Piotr Serguéitch quem tirou as selas e os freios
aos cavalos e os levou para o estábulo . Esperei por ele à porta da
cavalariça, olhando para as faixas oblíquas da chuva; o cheiro
adocicado e excitante do feno sentia-se ali mais do que no cam­
po; as nuvens e a chuva criavam uma sensação de penumbra.
- Ena, que chicotada ! - disse Piotr Serguéitch , aproxi­
mando-se de mim depois de um relâmpago , logo seguido do tro­
vão , que pareceu cortar o céu ao meio . - Viu?
Estava ao pé de mim à entrada e , ainda ofegante do galope ,
olhava-me . Reparei que o seu olhar era de admiração .
- Natália Vladímirovna - disse ele - , daria tudo para ficar
assim a olhar sempre para si . Hoje a menina está bela.
Fazia uns olhos maravilhados e suplicantes , tinha o rosto pá­
lido , na barba e no bigode brilhavam-lhe gotas de chuva que
também pareciam olhar para mim com amor.
- Amo-a - disse ele . - Amo-a e estou feliz porque a vej o .
Sei que não poderá ser minha mulher, mas não quero nada, não
preciso de nada, saiba apenas que a amo . Fique calada, não res­
ponda , não me dê atenção , saiba apenas que é muito querida pa­
ra mim e deixe-me apenas olhar para si .
O seu fascínio passou para mim. Olhava para o seu rosto ins­
pirado , ouvia a sua voz que se misturava com o barulho do ven­
to e, como enfeitiçada, não conseguia mexer-me .
Queria olhar sem fim para os seus olhos brilhantes e escutá­
-lo .
- Cala-se . . . Ainda bem ! - disse Piotr Serguéitch . - Conti-
nue calada .
Sentia-me bem . Ri de prazer e , sob a chuva torrencial , corri
até casa; ele também se riu e , a saltitar, correu atrás de mim .
Uma História da Senhora NN 1 23

B atendo com os pés nas escadas , ofegantes , irrompemos na


nossas salas com barulho , como crianças . O meu pai e o meu ir­
mão , que não estavam habituados a ver-me tão animada e a rir
às gargalhadas , olharam para mim com espanto e também co­
meçaram a rir-se .
A s nuvens da tempestade foram-se , o s trovões calaram-se ,
mas nas barbas de Piotr Serguéitch ainda brilhavam as gotas de
chuva . Durante toda a tarde , até ao jantar, ele cantou , assobiou ,
brincou ruidosamente com o cão , perseguindo-o por todas as sa­
las , e por pouco não derrubou um criado que passava com o sa­
movar nas mãos . Durante o j antar, comia muito , dizia disparates
e afirmava que , quando comemos no Inverno pepinos frescos ,
sentimos na boca o sabor da Primavera.
Antes de me deitar acendi a vela e abri de par em par a minha
janela. Apoderou-se da minha alma um sentimento indefinido .
Lembrei-me de que era livre , saudável , rica, de linhagem nobre ,
que era amada, mas o principal era ser rica e de linhagem nobre
- rica e de linhagem nobre . . . Que bom que era , meu Deus ! . . .
Depois , encolhendo-me n a cama por causa da frescura do orva­
lho que vinha do jardim, tentava perceber se amava Piotr Ser­
guéitch ou não . . . E , sem perceber definitivamente alguma coisa,
adormeci .
D e manhã, quando v i na minha cama a s manchas trémulas do
sol e as sombras dos ramos das tílias , reconstituiu-se vivamente
na minha memória o dia anterior. A vida pareceu-me rica, varia­
da, cheia de encanto . Cantarolando , vesti-me rapidamente e cor­
ri para o jardim . . .
E o que aconteceu depois ? Depois - nada. No Inverno , já a
vivermos na cidade , Piotr Serguéitch visitava-nos de vez em
quando . Os amigos de Verão e da aldeia são encantadores ape­
nas na aldeia e no Verão , na cidade e no Inverno perdem metade
do seu encanto . Na cidade , quando lhes servimos chá, parece que
vestem sobrecasacas alheias e que metem a colher na chávena e
mexem o chá com demasiada lentidão . Na cidade , Piotr Ser-
1 24 Anton Tchékhov

guéitch também falava por vezes de amor, mas o resultado não


era como na aldeia, nada que se comparasse . Na cidade sentía­
mos mais o muro que se abria entre nós : eu , rica e de linhagem
nobre; ele , pobre e nem sequer fidalgo , mas filho de um diáco­
no , não passando de juiz de instrução ; ambos - eu por inexpe­
riência da juventude , e ele . . . só Deus sabia porquê - conside­
rávamos este muro muito alto e grosso . Piotr Serguéitch
criticava a alta sociedade com um sorriso forçado , quando nos
visitava sozinho , ou calando-se soturnamente quando havia mais
convidados na sala de estar. Não existe muro que não seja pos­
sível derrubar, mas os heróis do romance moderno , que eu saiba ,
são demasiado tímidos , moles , preguiçosos e desconfiados, e
resignam-se muito depressa com a ideia de que são azarentos , de
que o seu destino pessoal foi um logro; em vez de lutarem ,
limitam-se a criticar, apelidando de vulgar a alta sociedade e
esquecendo-se de que a sua própria crítica se vai transformando
a pouco e pouco numa vulgaridade .
Eu era amada , a felicidade estava ali muito perto , como se eu
e ela vivêssemos lado a lado ; a minha vida era despreocupada,
não tentava compreender a mim própria, não sabia do que esta­
va à espera nem o que queria da vida; e o tempo passava, passa­
va . . . Passavam ao meu lado pessoas com os seus amores , voa­
vam os dias claros e as noites tépidas , cantavam os rouxinóis ,
cheirava a feno - e tudo isso , tão querido , que me deixava re­
cordações tão maravilhosas , corria tão rapidamente para mim
como para toda a gente , sem deixar rasto , sem que lhe fosse da­
do valor, e tudo desaparecia como o nevoeiro . . . Onde está tudo
isso?
O meu pai morreu , eu envelheci; tudo aquilo de que gostava e
que me dava esperança - o barulho da chuva, as trovoadas ,
pensar na felicidade , conversar sobre o amor - tudo isso se
transformou em mera recordação . E pela frente vejo apenas um
espaço vazio , deserto : uma planície onde não há vivalma , e ao
longe , no horizonte , é escuro , medonho . . .
Uma História da Senhora NN 1 25

Toca a campainha . . . É Piotr Serguéitch . Quando vejo no In­


verno as árvores e me lembro como elas se cobriam , para mim ,
de folhagem verde no Verão , sussurro:
- Oh, queridas !
E quando vejo as pessoas com quem passei a minha Primave­
ra, sinto tristeza, calor, e sussurro a mesma coisa.
Havia muito que Piotr Serguéitch , graças à recomendação do
meu pai , tinha sido transferido para a cidade . Envelheceu um bo­
cado , ficou um pouco macilento . Há muito que deixou de
declarar-me o seu amor, já não diz disparates cómicos , não gos­
ta do seu serviço , tem um problema de saúde qualquer, uma de­
silusão qualquer, desinteressa-se da vida e vive contrariado .
Chega e senta-se perto da lareira; olha em silêncio para o fogo . . .
Sem saber o que dizer, pergunto-lhe:
- Então?
- Nada . . . - responde ele .
E de novo cai o silêncio . A luz vermelha do fogo espevitado
saltita-lhe pela cara triste .
Vem-me à memória o passado , e logo o s ombros me tremem ,
a cabeça descai-me para o peito , choro amargamente . Sinto uma
pena insuportável de mim e deste homem , e desejo loucamente
o passado , o que a vida agora nos nega. Agora já não penso que
sou rica e de linhagem nobre .
Eu soluçava alto , apertando as mãos contra as têmporas , e
murmurava:
- Meu Deus , meu Deus , perdeu-se a vida . . .
Ele continuava sentado , calado e não me disse: «Não chore .»
Ele compreendia que chorar era necessário, que chegara o tem­
po disso . Via pelos olhos dele que tinha pena de mim; eu tam­
bém tinha pena dele e , também , o ressentimento de que este aza­
rento tímido não tenha sabido construir a sua vida nem a minha .
Quando me despedia dele , no vestíbulo , pareceu-me que se
demorava propositadamente a vestir a peliça. Beijou-me a mão
em silêncio , duas vezes, e olhou muito tempo para a minha cara
1 26 Anton Tchékhov

inchada do choro . Acho que neste instante ele recordava a tem­


pestade , as faixas de chuva, o nosso riso , a minha cara daquele
tempo . Apetecia-lhe dizer-me alguma coisa, e ficaria feliz se o
dissesse , mas não falou , apenas abanou a cabeça e me apertou a
mão com força. Pois que seja assim , não se pode fazer nada .
Despedi-me dele , voltei para o gabinete e sentei-me de novo
no tapete em frente da lareira. As brasas vermelhas cobriram-se
de cinza , começaram a apagar-se . O ar gelado bateu na janela
ainda com mais força, o vento cantou qualquer coisa na chami­
né da lareira.
Entrou a criada e , pensando que eu tinha adormecido , chamou­
-me . . .
UM DESAIRE

Grigóri Ivánovitch Ovtchínnikov, médico do hospital rural ,


homem dos seus trinta e cinco anos , magricela e nervoso , co­
nhecido entre os colegas pelos seus pequenos trabalhos na área
da estatística médica e pelo seu caloroso apego aos chamados
«problemas do quotidiano» , andava de visita , uma manhã, às en­
fermarias do seu hospital . Atrás dele , como de costume , seguia o
auxiliar-médico Mikhail Zakhárovitch , homem já de certa idade ,
com uma cara gorda , o cabelo liso e sebento e um brinco na ore­
lha.
O doutor começou as visitas e logo lhe pareceu suspeita uma
circunstância insignificante: o colete do auxiliar-médico enfolava­
-se e teimava em deslizar para cima, apesar de o homem o repu­
xar e ajeitar a cada instante . A camisa dele estava amarrotada e
também se enfolava; da sobrecasaca preta e comprida, das calças
e até da gravata pendiam pedaços de penugem Pelos vistos , o
. . ·.

auxiliar-médico dormira toda a noite vestido e , a julgar pela ma­


neira como repuxava agora o colete e compunha a gravata, a rou­
pa incomodava-o .
O doutor olhou perscrutadoramente para ele e percebeu o que
se passava. O auxiliar-médico não cambaleava, respondia com
coerência às perguntas , mas a soturnidade da sua cara lorpa, os
seus olhos baços , as tremuras que lhe percorriam o pescoço e as
1 28 Anton Tchékhov

mãos , a desordem na roupa e , sobretudo , os terríveis esforços pa­


ra se controlar e disfarçar o seu estado testemunhavam que o
auxiliar-médico acabara de se levantar da cama, não dormira o
suficiente e ainda não se desembriagara, ou antes , estava ainda
gravemente bêbedo . . . Sofria de torturante intoxicação alcoólica
e, como tudo dava a entender, estava muito descontente consigo
próprio .
O doutor, que não gostava do auxiliar-médico e tinha para is­
so as suas razões , sentiu uma vontade muito forte de lhe dizer:
«Vejo que o senhor está bêbedo ! » De repente teve nojo do cole­
te do homem , da sobrecasaca comprida, do brinco na orelha car­
nuda , mas reprimiu o seu mau sentimento e disse com brandura
e educação , como sempre:
- Têm dado leite ao Guerássim?
- Sim , senhor. . . - respondeu Mikhail Zakhárovitch , tam-
bém num tom dócil .
Ao falar com o paciente Guerássim , o doutor olhou para a fo­
lha das temperaturas e sentiu um novo acesso de ódio , reteve a
respiração para não falar, mas não aguentou e perguntou com
grosseria, ofegando:
- Porque não foi apontada a temperatura?
- Está aí apontada, sim ! - disse docilmente Mikhail Zakhá-
rovitch mas , olhando para a folha e vendo que a temperatura não
estava efectivamente apontada, encolheu os ombros num gesto
de embaraço e murmurou: - Não sei , pelos vistos foi a Nadej ­
d a Ossipovna que . . .
- A de ontem à noite também não está marcada ! - conti­
nuou o doutor. - O que você sabe é só embebedar-se , raios o
partam ! Agora também está bêbedo como um cacho ! Onde está
a Nadejda Ossipovna?
A parteira Nadejda Ossipovna não estava nas enfermarias ,
embora tivesse a obrigação de assistir, todas as manhãs , à mu­
dança das ligaduras . O doutor olhou à sua volta e começou a des­
confiar que a limpeza não tinha sido feita, que estava tudo de-
Um Desaire 1 29

sarrumado , que não tinha sido feito nada do que era necessário e
que tudo à sua volta estava enfolado , amarrotado e coberto de
penugem como o abominável colete do auxiliar-médico ; e
apeteceu-lhe arrancar o avental branco , berrar, largar tudo e ir-se
embora. Mas fez um esforço e continuou o giro .
A seguir a Guerássim estava um paciente cirúrgico com infla­
mação do tecido conjuntivo em todo o braço . Precisava de uma
ligadura nova . O doutor sentou-se ao lado dele num banco e co­
meçou a tratar-lhe do braço .
«Ontem foi pândega, a festa de anos de alguém . . . - pensava
o doutor, tirando devagar a ligadura. - Esperai lá que eu já vos
digo as festas de anos ! Aliás , o que é que eu posso fazer? Nada,
não posso fazer nada .»
Apalpando o braço inchado e rubro , descobriu uma pústula e
disse:
- Bisturi !
Mikhail Zakhárovitch , que tentava mostrar que se aguentava
bem nas pernas e estava apto para o serviço , arrancou do lugar e
foi num instante que deu o bisturi ao doutor.
- Não é este ! Dê-me um dos novos - disse o doutor.
O auxiliar-médico troteou até à cadeira onde estava pousada
uma caixa com o material para os curativos e começou a reme­
xer nela atarefadamente . Enquanto cochichava muito com as en­
fermeiras , puxava a caixa na cadeira, restolhava com as coisas e
por duas vezes deixou cair objectos , o doutor estava sentado à
espera e sentia nas costas uma irritação forte provocada por es­
ses sussurros e pela restolhada.
- Demora muito? - perguntou . - O senhor, com certeza,
esqueceu-se deles lá em baixo . . .
O auxiliar-médico precipitou-se para o doutor e entregou-lhe
dois bisturis, mas descuidou-se e respirou-lhe o bafo para a cara.
- Não são estes ! - disse o doutor com irritação . - Disse-
-lhe em bom russo que me trouxesse um dos novos . Aliás , vá
dormir, você tresanda como uma taberna ! Não regula bem !
1 30 Anton Tchékhov

- Mas que mais facas é que quer? - perguntou o auxiliar-


-médico num tom irritado e encolheu lentamente os ombros .
Mikhail Zakhárovitch não estava satisfeito consigo e tinha
mesmo vergonha porque os doentes e as enfermeiras estavam a
olhar para ele; para esconder a vergonha , fez um sorriso forçado
e repetiu:
- Que mais facas é que quer?
O doutor sentiu as lágrimas nos olhos e um tremor nos dedos .
Fez esforço para se controlar e disse em voz tremente:
- Vá dormir ! Não quero falar com bêbedos . . .
- O senhor só pode admoestar-me pelo trabalho - ripostou
o auxiliar-médico - , mas se eu , digamos , tiver bebido , ninguém
tem o direito de me censurar. É que eu trabalho , não? O que mais
quer? Trabalho ou não?
O doutor saltou do lugar e , sem se dar conta dos seus movi­
mentos , levantou o punho e assentou com toda a força um murro
na cara do auxiliar-médico . Não percebia porque fizera aquilo ,
mas deu-lhe um grande prazer, precisamente porque lhe acertara
em cheio na cara e porque um homem sério , positivo , pai de fa­
mília , religioso e que se tinha em alto apreço cambaleou , saltitou
como uma bola e se sentou no banco . Apeteceu-lhe terrivelmen­
te bater mais uma vez , mas ao ver junto da cara odiada os rostos
pálidos e alarmados das enfermeiras , deixou de sentir prazer,
abanou a mão e saiu rapidamente da enfermaria.
No pátio encontrou Nadejda Ossipovna, menina de vinte e se­
te anos , com uma cara amarelada e o cabelo solto . O seu vestido
de chita cor-de-rosa era muito apertado nas pernas , o que a fazia
dar uns passinhos miúdos e frequentes . O vestido farfalhava, sa­
cudia os ombros ao ritmo de cada passo e meneava a cabeça co­
mo se trauteasse mentalmente qualquer coisa engraçada.
«Ah-ah , sua sereia ! » , pensou o doutor, lembrando-se de que ,
por troça, a haviam alcunhado de sereia no hospital , e sentiu lo­
go um grande gozo à ideia de que iria cortar cerce a alegria da­
quela casquilha de passo miúdo e narcisista.
Um Desaire 131

- Por onde é que você anda? - gritou quando se aproxima­


ram um do outro . - Porque não está no hospital? As temperatu­
ras não foram anotadas , aquilo é uma desordem por todo o lado ,
o auxiliar-médico está bêbedo , a menina dorme até ao meio-dia ! . . .
Faça o favor de procurar outro emprego ! Aqui já não trabalha !
De volta a casa, o doutor arrancou o avental branco e a toalha
com que se cingia, atirou-os com raiva para um canto e pôs-se a
andar pelo gabinete .
- Meu Deus , que gente , que gente ! - dizia. - Não são aju­
dantes , são inimigos do trabalho ! Já não tenho forças para con­
tinuar! Não posso ! Vou-me embora !
Tremia, batia-lhe o coração com força, apetecia-lhe chorar;
para se tranquilizar, pôs-se a dar razão a si mesmo , a pensar que
fizera bem ao ter esmurrado o auxiliar-médico . Antes de mais , é
nojento que este indivíduo tenha sido colocado no hospital a pe­
dido da sua tia, ama-seca em casa do presidente da administra­
ção rural (era abominável olhar para essa tia quando vinha a tra­
tamento ao hospital e se portava como se estivesse em casa,
pretendendo ser atendida à frente de todos) . Quanto ao auxiliar­
-médico , não é disciplinado , sabe pouco e o que sabe não com­
preende . Bebe , é atrevido , não é asseado , extorque subornos aos
doentes e, à socapa, vende os medicamentos do hospital . Toda a
gente sabe , também , que ele pratica clínica privada , tratando das
vergonhosas doenças secretas dos citadinos jovens , utilizando
ainda por cima remédios da sua lavra . Menos mal se fosse ape­
nas um charlatão vulgar, mas não , é um charlatão convencido e ,
n o seu íntimo , revoltado . Nas costas do doutor, põe ventosas aos
pacientes que comparecem às consultas e faz-lhes sangrias , as­
siste às cirurgias sem lavar as mãos , mete nas feridas uma sonda
suja - e é quanto basta para se perceber que profundo e atrevi­
do é o seu desprezo pela medicina do senhor doutor, com toda a
sua sabedoria e o seu pedantismo .
Quando os dedos deixaram finalmente de lhe tremer, o doutor
sentou-se à mesa e escreveu uma carta para o presidente da ad-
1 32 Anton Tchékhov

ministração rural: «Estimadíssimo senhor Lev Trofímovitch: se ,


em consequência desta carta, a vossa administração não despe­
dir o auxiliar-médico Smimóvski e não me conceder o direito de
escolher os meus ajudantes , ver-me-ei obrigado (sentindo muito ,
é claro) a pedir-lhe que deixe de me considerar o médico do hos­
pital de N . . e que trate de procurar quem me substitua. Cum­
.

primentos para Liubov Fiodorovna e para Ius s . Respeitosamen­


te , G. Ovtchínnikov.» Relendo a carta, o doutor achou-a curta e
insuficientemente fria . Além disso , os cumprimentos para Liu­
bov Fiodorovna e para luss 9 (alcunha do filho mais novo do pre­
sidente) numa carta oficial eram mais do que inconvenientes .
«Qual luss , c ' os diabos?» , pensou o doutor, rasgou a carta e
pôs-se a redigir outra: «Excelentíssimo senhor. . . » , pensava ele ,
sentando-se em frente da j anela aberta e olhando para as patas
com os patinhos que se balançavam e tropeçavam rapidamente
pelo caminho , certamente rumo ao lago; um patinho apanhou
uma tripa qualquer, engasgou-se e desfez-se em pios alarmados ;
aproximou-se dele outro patinho , tirou-lhe a tripa do bico e tam­
bém se engasgou . . . Mais longe , ao lado da cerca, numa sombra
rendilhada lançada para a erva pelas tílias jovens , andava a co­
zinheira Daria colhendo azedas para a sopa. . . Ouviam-se vo­
zes . . . O cocheiro Zot, com uma cabeçada na mão , e o criado do
hospital , o mujique Manuilo , de avental sujo , estavam junto do
barracão , falando e rindo .
«Estão a comentar que eu bati no auxiliar-médico . . . - pen­
sava o doutor. - Hoje mesmo todo o distrito vai saber deste es­
cândalo . . . Portanto: "Excelentíssimo senhor: se a vossa admi­
nistração não despedir. . . "»
O doutor sabia que a administração rural em caso algum o sa­
crificaria a favor do auxiliar-médico e preferiria não ter qualquer
auxiliar-médico em todo o distrito a perder uma pessoa tão ma­
ravilhosa como o doutor Ovtchínnikov. De certeza que , logo de-

9 Trigésima sexta letra do alfabeto antigo , ou alfabeto eslavo eclesiástico. (N. T.)
Um Desaire 1 33

pois de receber a carta, Lev Trofímovitch se meteria na troica e


viria vê-lo: «Ü que está a pensar fazer, paizinho? Alminha, por
amor de Deus , o que é isto? Para quê? Por que razão? Onde es­
tá ele? Que se apresente aqui de imediato ! Já para o olho da rua !
Amanhã já não quero ver aqui esse velhaco ! » A seguir almoçará
com o doutor e, depois do almoço , descansará no divã carmesim ,
de barriga para cima, cobrirá a cara com o jornal e baterá uma
soneca ressonada; depois tomará chá e levará o doutor a sua ca­
sa para que passe lá a noite . E toda a história acabará assim ,
mantendo-se afinal o auxiliar-médico no hospital e desistindo o
doutor de se ir embora.
Ora, o doutor desej ava do fundo da alma outro desfecho . Gos­
taria que a tia do auxiliar-médico triunfasse e que a administra­
ção , apesar dos seus oito anos de serviço impecável , aceitasse
sem conversas , e até com prazer, a sua demissão . Sonhava como
se iria embora do hospital a que se habituara, como escreveria ao
jornal O Médico , como os colegas subscreveriam um abaixo­
-assinado de apoio . . .
Passava a sereia pelo caminho . No seu passo miúdo e roça­
gando do vestido , aproximou-se da janela e perguntou:
- Grigóri Ivánovitch , é o senhor quem vai receber os doen­
tes , ou dá ordens para que sejamos nós ?
E o s olhos dela como que diziam: «Exaltaste-te , mas já te
acalmaste e estás com vergonha, mas eu sou magnânima e finjo
que não reparo nisso .»
- Está bem , já vou - disse o doutor.
Voltou a pôr o avental , cingiu a toalha à cintura e foi para o
hospital .
«Fiz mal ter fugido depois de lhe bater. . . - pensava pelo ca­
minho . - Como se me envergonhasse ou tivesse medo . . . Como
um aluno da escola . . . Fiz muito mal ! »
Parecia-lhe que , quando entrasse n a enfermaria, o s doentes até
se envergonhariam de olhar para ele , e vice-versa, mas quando
entrou os doentes estavam deitados sossegadamente nas camas e
1 34 Anton Tchékhov

quase não lhe prestaram atenção . A cara do tísico Guerássim ex­


primia uma total indiferença e parecia dizer: «Não te agradou ,
deste-lhe uma ensinadela . . . Não se pode passar sem isso , paizi­
nho .»
O doutor lancetou duas pústulas num braço rubro , fez o pen­
so e a ligadura, depois foi às enfermarias das mulheres , fez o tra­
tamento ao olho de uma mulher; e , durante todo este tempo , a se­
reia andava atrás dele a ajudar como se nada tivesse acontecido
e estivesse tudo em ordem . Depois do giro pelas enfermarias , co­
meçaram as consultas aos doentes externos . No pequeno consul­
tório do doutor, a janela estava aberta de par em par. Bastava
sentar-se no peitoril e debruçar-se um pouco para ver a um cô­
vado de si a erva nova. Na véspera houvera trovoadas com agua­
ceiros , por isso a erva estava um pouco pisada e luzidia. A vere­
da que corria perto da janela na direcção do barranco parecia
lavadinha de fresco , e a loiça partida da farmácia, espalhada de
ambos os lados , era como se também tivesse sido lavada e cinti­
lava sob o sol lançando raios deslumbrantes . Mais longe , por trás
da vereda , apertavam-se uns aos outros os abetos jovens , de ves­
tidos verdes e fofos , a seguir erguiam-se as bétulas com os seus
troncos brancos como papel , e através da sua folhagem ligeira­
mente trémula sob o vento transparecia o céu azul sem fundo .
Quando o doutor assomava a cabeça à janela, os estominhos que
saltitavam pela vereda viravam os seus bicos estúpidos para ele
e tentavam decidir-se: assustamo-nos ou não? E, resolvendo
assustar-se , esvoaçavam uns atrás dos outros aos gritos alegres ,
como se troçassem do doutor por não saber voar, até aos cumes
das bétulas . . .
Através do cheiro pesado do iodofórmio sentia-se a frescura e
o aroma do dia primaveril . . . Era bom respirar !
- Anna Spiridónova ! - chamou o doutor.
Entrou uma jovem campónia de vestido vermelho e fez uma
curta reza diante do ícone .
- O que te dói? - perguntou o doutor.
Um Desaire 1 35

A mulher olhou de soslaio , com desconfiança, para a porta por


onde entrara e para a que dava para a farmácia, aproximou-se
mais do doutor e sussurrou:
- Não me nascem filhos !
- Quem ainda não se inscreveu? - gritou , da farmácia, a se-
reia. - Venham cá, inscrevam-se !
« É um canalha - pensava o doutor enquanto examinava a
mulherzinha - até pelo facto de me ter obrigado a esmurrar al­
guém pela primeira vez na vida. Nunca tinha batido em nin­
guém .»
Anna Spiridónova saiu . A seguir foi a vez de um velho com sí­
filis , depois de uma camponesa com três filhos cheios de sarna.
O doutor mergulhou no trabalho . O auxiliar-médico não apare­
cia. Por trás da porta da farmácia, roçagando com o vestido e fa­
zendo tilintar os frascos , chilreava alegremente a sereia; volta e
meia entrava no consultório para ajudar nalguma cirurgia ou le­
var receitas , fazendo tudo com o ar de estar tudo em ordem .
«Está contente por eu ter agredido o auxiliar-médico - pen­
sava o doutor, escutando a voz da parteira. - Porque eles são
como o cão e o gato e , se o despedirem, será uma festa para ela.
As enfermeiras , ao que parece , também estão contentes . É mes­
mo repugnante ! »
No auge das consultas , começou a parecer-lhe que a parteira,
as enfermeiras e os próprios pacientes tentavam , propositada­
mente , tomar uma expressão indiferente e animada . Como se
compreendessem que ele tinha vergonha e sofria, mas , por deli­
cadeza, fingissem não compreender. Então , querendo mostrar­
-lhes que não tinha vergonha , gritava com irritação :
- Oiçam lá! Fechem a porta, faz corrente de ar !
Sim, mas tinha muita vergonha, estava aflito . Depois de con­
sultar quarenta e cinco doentes, saiu do hospital sem se apressar.
A parteira, que já arranjara tempo para passar por casa e lançar
pelos ombros um lenço vermelho-vivo , caminhava rapidamente
para qualquer sítio , com um cigarro nos dentes e uma flor no ca-
1 36 Anton Tchékhov

belo solto; ia talvez fazer algum dos seus serviços privados ou ,


então , uma visita . Nos degraus de entrada estavam sentados , em
silêncio , alguns doentes , aquecendo-se ao sol . Os estominhos
continuavam com o seu banzé , perseguindo os bicharocos . O
doutor olhava em volta e pensava que , entre todas essas vidas re­
gulares e despreocupadas , apenas duas se destacavam e não
prestavam para nada, como duas teclas estragadas num piano: a
do auxiliar-médico e a dele . O auxiliar-médico devia estar agora
deitado , para curar a bebedeira, mas não conseguia adormecer
porque pensava na sua culpa , porque fora insultado e perdera o
emprego . A situação dele é torturante . Ora o doutor, que nunca
antes batera em ninguém , tinha uma sensação comparável à per­
da da inocência . Já não acusava o auxiliar-médico nem justifica­
va a si mesmo , mas pensava, perplexo: como pôde acontecer que
ele , um homem decente , que nunca batera sequer num cão , es­
pancasse uma pessoa? Mal chegou a casa deitou-se no divã do
gabinete , de cara para o espaldar, e pôs-se a reflectir:
«Ele é má pessoa e é prejudicial ao nosso trabalho ; em três
anos que está ao serviço , acumulou-se a indignação na minha al­
ma, mas isso não pode justificar o meu acto , nada o pode justi­
ficar. Aproveitei-me do direito do mais forte . Ele é meu subordi­
nado , tem culpa e , além disso , está bêbedo ; e eu sou o chefe dele ,
tenho razão e estou sóbrio . . . Portanto , sou mais forte . Em se­
gundo lugar, bati nele na presença de pessoas que me conside­
ram uma autoridade , e com o meu acto dei-lhes um exemplo
abominável . . . »
Chamaram-no para almoçar . . . Comeu umas colheres de sopa
de repolho e voltou logo a ir deitar-se no divã.
«Ü que faço agora? - continuou a pensar. - É necessário
dar-lhe uma satisfação o mais depressa possível . . . Mas como?
Como homem prático , ele considera os duelos uma estupidez , ou
não os compreende . Se eu , naquela mesma enfermaria , na pre­
sença das enfermeiras e dos doentes , lhe pedir desculpa, essa
desculpa apenas dará satisfação a mim , não a ele ; é má pessoa e
Um Desaire 1 37

iria entender as minhas desculpas como mera cobardia ou receio


meu de que se queixe aos superiores . Além disso , as minhas des­
culpas iriam abalar definitivamente a disciplina hospitalar. Dar­
-lhe dinheiro? Não , é imoral e assemelha-se a suborno . E se , di­
gamos , agora mesmo me dirigir aos nossos chefes directos , ou
seja, à administração rural , para resolverem o problema? A ad­
ministração poderá fazer-me uma admoestação oficial escrita ou
despedir-me . . . Mas não o fará. Também não é muito convenien­
te meter a administração nos assuntos internos do hospital; a ad­
ministração , aliás , não tem qualquer direito de se intrometer. . . »
Três horas depois do almoço o doutor foi banhar-se no lago ar­
tificial e pensou :
«E se eu proceder como procedem todos em situações seme­
lhantes? Ou seja, fazer com que ele se queixe ao tribunal . A mi­
nha culpa é incontestável , não me justificarei , e o juiz de paz vai
condenar-me a prisão . Assim , o ofendido terá uma satisfação , e
aqueles que me consideram uma autoridade verão que eu não ti­
nha razão .»
Esta ideia agradou-lhe , a ponto de começar a pensar que o
problema estava resolvido e que não podia haver solução mais
justa.
«Então , óptimo ! - pensava, entrando na água e olhando para
os cardumes de pimpões miúdos e dourados a fugirem dele . -
Que apresente queixa . . . Para ele é o mais conveniente , até por­
que já houve uma ruptura nas nossas relações de trabalho e, de­
pois deste escândalo , um de nós não poderá continuar no hospi­
tal . . . »
À noite , o doutor mandou preparar o charabã para ir a casa do
comissário militar jogar às cartas . Quando já estava preparado
para sair, de chapéu e sobretudo , calçando as luvas no meio do
gabinete , a porta exterior abriu-se com um rangido e alguém en­
trou , sem barulho , no vestfüulo .
- Quem é? - perguntou o doutor.
- Sou eu . . . - respondeu a visita numa voz abafada.
1 38 Anton Tchékhov

O coração do doutor pôs-se a bater com mais força, e a ver­


gonha e um medo indefinido gelaram-no . O auxiliar-médico Mi­
khail Zakhárovitch (era ele) tossiu baixinho e entrou timidamen­
te no gabinete . Ficou calado durante um pedaço e depois disse
numa voz culpada , abafada:
- Desculpe-me , Grigóri Ivánovitch !
O doutor embaraçou-se , não sabia o que dizer. Percebeu que, se
o auxiliar-médico viera para se humilhar e pedir desculpa, não o
fizera por resignação cristã nem para arrasar, com a sua resigna­
ção , o ofensor, mas por simples cálculo: «Faço um esforço , peço
desculpa, para ver se não me demitem e não me deixam sem
pão . . . » O que pode ser mais insultuoso para a dignidade humana?
- Desculpe . . . - repetiu o auxiliar-médico .
- Oiça . . . - disse o doutor, tentando não olhar para ele e não
sabendo ainda o que lhe ia dizer. - Oiça . . . Eu ofendi-o e . . . te-
nho de levar um castigo , ou seja, dar-lhe uma satisfação . . . Não
reconhece os duelos . . . Aliás , eu também não os reconheço .
Insultei-o e . . . e pode apresentar queixa ao juiz de paz , e serei
castigado . . . Ora, ficarmos os dois neste hospital é impossível . . .
Um dos dois, você ou eu , tem de se ir embora ! («Meu Deus ! O
que estou a dizer-lhe? - aterrorizou-se o doutor. - Que estupi­
dez , que estupidez !») Resumindo , apresente a sua queixa ! Mas
não podemos trabalhar juntos ! . . . Ou eu , ou você . . . Apresente a
queixa amanhã mesmo !
O auxiliar-médico olhou de soslaio para o doutor, e nos seus
olhos escuros e turvos acendeu-se o desprezo mais aberto . Sem­
pre considerou o doutor como um rapazola caprichoso , sem es­
pírito prático , e agora aquele tremor, aquela pressa incompreen­
sível das palavras , provocava-lhe o desdém . . .
- E apresento , sim - disse sotuma e raivosamente .
- Pois , apresente !
- E o que acha? Acha que não o faço? Faço . . . Não tem o di-
reito de bater. E devia ter vergonha ! Só os mujiques bêbedos é
que dão murros , e você é culto . . .
Um Desaire 1 39

No peito do doutor rebentou de súbito todo o seu ódio , e gri­


tou numa voz louca:
- Fora daqui !
O auxiliar-médico mexeu-se , contrariado (parecia querer dizer
mais qualquer coisa) , saiu para o vestíbulo e parou lá, pensativo .
E , como se tivesse tomado uma decisão , saiu de casa resoluta­
mente . . .
- Que estúpido , estúpido ! - murmurava o doutor. - Que
estúpido e vulgar é tudo isto .
Sentia que se portara com o auxiliar-médico como um garoto ,
e já estava a perceber que todas as suas ideias sobre o tribunal
não eram inteligentes nem resolveriam o problema, apenas o
complicariam .
«Que estupidez ! - pensava, sentado no charabã, e depois ,
quando jogava às cartas em casa do comissário militar. - Será
que sou tão inculto e conheço tão mal a vida que sou incapaz de
resolver esta simples questão? O que vou fazer, então?»
No dia seguinte de manhã , o doutor viu que a mulher do
auxiliar-médico se sentava no carro para ir a algum lado , e pen­
sou: «Vai ter com a tia ! Que vá ! »
O hospital passava bem sem o auxiliar-médico . Era preciso
escrever uma declaração à administração rural , mas não havia
meio de o doutor acertar na forma da carta. Agora, o sentido da
carta teria de ser o seguinte: «Peço o despedimento do auxiliar­
-médico , embora a culpa seja minha e não dele .» Ora , exprimir
esta ideia de maneira a não resultar estúpida e vergonhosa era
quase impossível para uma pessoa decente .
Dois ou três dias depois , disseram ao doutor que o auxiliar­
-médico tinha ido , com a queixa, falar com Lev Trofímovitch . O
presidente não o deixou pronunciar palavra , bateu com o pé no
chão e expulsou-o aos gritos: «Conheço-te bem ! Fora ! Não que­
ro ouvir ! » Da casa de Lev Trofímovitch , o auxiliar-médico foi à
sede da administração rural e entregou lá uma denúncia em que ,
sem mencionar a bofetada nem pedir qualquer coisa para si , in-
1 40 Anton Tchékhov

formava a administração de que o doutor tinha criticado várias


vezes , na presença dele , esta administração e o seu presidente ,
que o doutor tratava os doentes de maneira incorrecta, que des­
cuidava as visitas às localidades , etc . Quando tal soube , o dou­
tor riu-se e pensou: «Mas que parvo ! » E sentiu vergonha e pena
das asneiras que o auxiliar-médico fazia . Quantas mais asneiras
uma pessoa faz na sua defesa, mais fraca e indefesa se mostra.
Uma semana depois da manhã acima descrita, o doutor rece­
beu a convocação do juiz de paz .
«Isto já é a estupidez completa . . . - pensava enquanto punha
a rubrica no aviso de recepção . - Nem é possível inventar nada
mais estúpido .»
E quando , na manhã calma e sombria, ele rodava para o gabi­
nete do juiz de paz , já não sentia vergonha, mas irritação e re­
pugnância. Estava raivoso consigo , com o auxiliar-médico e
com as circunstâncias .
- Que se amole , vou dizer no tribunal : vão todos pro diabo !
- exaltava-se o doutor. - São todos uns burros e não percebem
nada !
Quando chegou ao gabinete do juiz de paz e viu à entrada três
enfermeiras do seu hospital , convocadas como testemunhas , e a
sereia que , feliz da vida , saltava de impaciência de um pé para o
outro e até corou de prazer quando viu o herói principal do pro­
cesso , o doutor, irritado , teve vontade de se atirar a elas como um
gavião e arrasá-las : «Quem lhes permitiu abandonar o hospital?
Façam o favor de voltar imediatamente ! » Mas conteve-se e , ten­
tando parecer calmo , entrou no gabinete furando através da mul­
tidão de mujiques . O gabinete estava vazio , a corrente do juiz de
paz pendia do espaldar da cadeira. O doutor entrou na saleta
do secretário , onde estava um jovem de cara magra e casaco
de linho com os bolsos salientes (o secretário) e o auxiliar­
-médico que , sentado à mesa, matava o tempo folheando os au­
tos . O secretário levantou-se à entrada do doutor; o auxiliar­
-médico atrapalhou-se e levantou-se também .
Um Desaire 141

- Aleksandr Arkhípovitch ainda não chegou? - perguntou o


doutor, confuso .
- Ainda não . Está em casa . . . - respondeu o secretário .
O gabinete era na herdade do juiz de paz , num dos anexos , vi­
vendo o juiz no solar. O doutor saiu do gabinete e, sem pressas ,
dirigiu-se para o solar. Encontrou Aleksandr Arkhípovitch na sa­
la, junto ao samovar. O juiz de paz , sem sobrecasaca e sem co­
lete , com a camisa desabotoada no peito , estava de pé junto à
mesa e , segurando o bule com as duas mãos , enchia o copo de
um chá escuro como café; ao ver o visitante , puxou para si outro
copo , encheu-o e , sem cumprimentar, perguntou:
- Com açúcar ou sem açúcar?
Em tempos recuados , o juiz de paz servira na cavalaria; ago­
ra, graças ao seu serviço de muitos anos neste cargo electivo ,
atingira a graduação de conselheiro de Estado efectivo , mas nun­
ca chegou a abandonar a farda e os hábitos militares . Tinha um
bigode comprido , à chefe da polícia, usava calças com bandas ,
todas as suas palavras e comportamentos se impregnavam de
graça militar. Falava empinando ligeiramente a cabeça para trás
e lardeando o seu discurso com o suculento «mnhe-e-e» de ge­
neral , dava aos ombros e brincava com os olhos; quando cum­
primentava ou oferecia lume para o cigarro , fazia rapapés e, a
andar, tilintava das esporas com tanto cuidado e ternura como se
cada som das esporas lhe provocasse uma dor insuportável . Ao
convidar o doutor para a mesa de chá, afagou o peito largo e o
ventre , suspirou profundamente e disse:
- P-pois . . . Se calhar deseja . . . mnhe-e-e . . . um petisco e um
copinho de vodca? Mnhe-e-e . . .
- Não , obrigado , não tenho fome .
Ambos sentiam que a conversa sobre o escândalo era inevitá­
vel , e estavam ambos embaraçados . O doutor calava-se . O juiz
de paz , com um gesto gracioso , apanhou uma melga que o pica­
ra no peito , examinou-a por todos os ângulos com muita atenção ,
libertou-a, suspirou fundo , levantou os olhos para o doutor e per­
guntou pausadamente:
1 42 Anton Tchékhov

- Oiça, porque não corre com ele?


O doutor apanhou na voz do juiz uma nota de compaixão e, de
repente , sentiu pena de si , e também um cansaço , uma extenua­
ção com todos os sarilhos que estava a viver na última semana.
Com a expressão de quem está com a paciência esgotada ,
levantou-se da mesa e , franzindo a cara de irritação e encolhen­
do os ombros , disse :
- Correr com ele ! Como vocês todos raciocinam , franca­
mente . . . É espantoso como raciocinam ! Mas eu poderei correr
com ele? Você está aqui sentado e pensa que sou eu quem man­
da no hospital e que faço o que me apetece ! É espantoso como
raciocinam ! Como posso correr com o auxiliar-médico se a tia
dele é ama-seca em casa do Lev Trofímovitch e se o Lev Trofí­
movitch precisa de bufos e de lacaios como esse Mikhail Za­
khárovitch? O que posso eu fazer se a administração rural não
nos dá qualquer valor, a nós , os médicos , e se nos passa rasteiras
a cada instante? Pro diabo com eles , não quero continuar ao ser­
viço , acabou-se ! Não quero !
- Vá lá, vá lá . . . Alminha, você dá importância de mais , por
assim dizer, a . . .
- O decano da nobreza tenta provar por todos os meios que
somos niilistas , espia-nos e trata-nos como se fôssemos escri­
vães dele ! Que direito tem de ir ao hospital , na minha ausência,
interrogar as enfermeiras e os doentes? Então não é insultuoso ,
isso? E este vosso maluquinho , o Sernion Alekséitch que traba­
lha na terra e não acredita em medicina porque é saudável e far­
to como um boi , e que nos trata de parasitas em voz alta e até na
cara, e que nos exprobra o pão que comemos ! Raios o partam !
Trabalho de manhã à noite , sou mais necessário aqui do que to­
dos estes maluquinhos , beatos , reformadores e outros palhaços !
Perdi a saúde no trabalho mas , em vez de me agradecerem ,
exprobram-me a fatia de pão que como ! Muito obrigado ! E ca­
da um acha que tem o direito de meter o nariz onde não é cha­
mado , de dar lições , de controlar ! Este vosso membro da adrni-
Um Desaire 1 43

nistração , o Kamtchátski , censurou os médicos numa reunião


por gastarmos demasiado iodeto de potássio e recomendou-nos
que tivéssemos cuidado na utilização da cocaína ! Diga-me , o
que percebe ele disto? O que tem ele a ver com isto? Porque não
o ensina a si , por exemplo , a julgar?
- Mas . . . mas ele é ignóbil , alminha, é um lacaio . . . Não se
pode dar-lhe importância . . .
- É ignóbil , lacaio , mas vocês elegeram esse inútil para
membro do conselho , e permitem que ele meta o nariz em tudo !
Está a sorrir? Na sua opinião , isto tudo não passa de insignifi­
câncias , de ninharias , mas veja se compreende que elas são tan­
tas que chegam para formar a vida, como com grãos de areia se
forma uma montanha ! Não posso mais ! Não tenho mais forças ,
Aleksandr Arkhípovitch . Não tarda que comece não só a esmur­
rar as pessoas mas a dar-lhes tiros ! Tenha em conta que eu tenho
nervos , e não fios de aço . Sou um ser humano como você . . .
Os olhos do doutor marejaram-se de lágrimas e a voz tremeu­
-lhe; virou-se e pôs-se a olhar pela janela . Silêncio .
- P-pois , estimadíssimo . . . - murmurou o juiz de paz , pen-
sativo . - Mas por outro lado , se raciocinarmos com sangue-frio
(o juiz apanhou mais uma melga e, estreitando os olhos , exami­
nou-a por todos os ângulos , esmagou-a e atirou-a para o lavabo
dos dedos) . . . Então , veja bem , não há razão sequer para o demi­
tir. Corre com ele , mas no lugar dele aparece outro igual , ou tal­
vez ainda pior. Pode substituir cem pessoas que não encontra um
só bom substituto . . . São todos uns pulhas (o juiz afagou os so­
vacos e acendeu lentamente um cigarro) . Temos de nos resignar.
Devo dizer-lhe que , actualmente , apenas é possível encontrar
trabalhadores honestos e sóbrios , dignos de confiança, entre os
intelectuais e os mujiques , ou seja, nos dois extremos . Pode en­
contrar, por assim dizer, um médico honestíssimo , um excelente
pedagogo , um honestíssimo lavrador ou ferreiro , mas a camada
intermédia, se me permite a expressão , os que saíram do povo
mas não chegaram a intelectuais , constituem um elemento inse-
1 44 Anton Tchékhov

guro . Por isso é extremamente difícil encontrar um auxiliar­


-médico , um escrivão , um encarregado de vendas honestos e só­
brios . Muitíssimo difícil . Sirvo na área judicial desde os tempos
pré-históricos e, durante todo o tempo do meu serviço , nunca ti­
ve um escrivão honesto e sóbrio , embora tivesse corrido com
uma legião deles . É gente sem qualquer disciplina moral , já sem
falarmos dos prin-cí-pios , por assim dizer.
«Para que está a dizer-me isto? - pensou o doutor. - Não es­
tamos a falar do que é preciso .»
- Por exemplo , ainda uma semana atrás - continuou o juiz
- , o meu Diujínski lembrou-se de fazer a seguinte coisa, veja
só . À noite , convidou uns bebedolas quaisquer, sabe-se lá quem
diabo são eles , e passou toda a noite na pândega com eles no ga­
binete do juiz . Está a ver? Não tenho nada contra a bebedeira.
Que beba, que se amole , mas porque deixou entrar gente desco­
nhecida no gabinete? Porque , veja bem , roubar um documento
ou um auto de um processo é coisa de um minuto ! E então? De­
pois daquela orgia fui obrigado a passar dois dias a conferir to­
dos os processos , a ver se tinha desaparecido alguma coisa . . .
Pois , e o que fazer então com esse canalha? Correr com ele? Es­
tá bem . . . Mas que garantia terei de que o que viesse não seria
pior?
- E também , como se pode correr com ele? - disse o dou­
tor. - Despedir uma pessoa só é fácil em palavras . Como posso
expulsá-lo e privá-lo do pão de cada dia, quando sei que tem fa­
mília, que é necessitado? Como iria desenvencilhar-se com a fa­
rru1ia?
«C 'os diabos , o que estou para aqui a dizer? - pensou o dou­
tor, e pareceu-lhe estranho que nunca mais conseguisse firmar a
sua consciência numa ideia única e determinada, ou num único
sentimento . - É porque sou superficial e não sei raciocinar.»
- O homem intermédio , como o senhor lhe chamou , não é
seguro - continuou . - Despedimo-lo , descompomo-lo ,
damos-lhe murros , mas é preciso também compreender a situa-
Um Desaire 1 45

ção dele . Não é mujique nem senhor, nem carne nem peixe; o
passado dele é uma amargura, o presente é apenas vinte e cinco
rublos por mês , a família a passar fome e uma situação de su­
balterno ; o futuro é a mesma coisa, vinte e cinco r u blos mensais
e uma situação de dependência, nem que passe cem anos segui­
dos ao serviço . Não tem formação nem propriedade; não tem
tempo para ler nem para ir à igreja, não ouve as nossas conver­
sas porque não deixamos que se aproxime de nós . E é assim que
ele vive , dia após dia, até à morte , sem esperança de melhorar a
vida, comendo mal , com medo de que o ponham no olho da rua
de um momento para o outro e fique sem a casa pública e sem
ter onde abrigar os filhos . Como é que , nesta situação , é possí­
vel não beber e não roubar? E donde lhe podem emanar os prin­
cípios morais?
«Parece que já estamos a resolver problemas sociais - pen­
sou ele . - E de forma tão desajeitada, meu Deus ! E, de resto ,
para quê?»
Ouviu-se o som de guizos . Alguém entrava no terreiro , pri­
meiro até ao gabinete do anexo , depois até à entrada do solar.
- Chegou o próprio - disse o juiz de paz , olhando pela ja­
nela. - É agora que vai levar uma ensinadela !
- Por favor, despache-me o mais depressa possível . . . - pe­
diu o doutor. - Se puder, arrume o meu caso em primeiro lugar.
Não disponho de muito tempo , juro .
- Está bem , está bem . . . Mas ainda não sei , paizinho , se este
caso é da minha competência. É que a sua relação com o
auxiliar-médico é , por assim dizer, uma relação de serviço . Além
disso , esmurrou-o no decurso do cumprimento das obrigações
do trabalho . Não sei exactamente . Vamos perguntar a Lev Trofí­
movitch.
Ouviram-se passos apressados e Lev Trofímovitch , o presi­
dente , apareceu à porta a resfolegar. O presidente da administra­
ção rural era um velho careca e de cabelo branco , de barba com­
prida e pálpebras vermelhas .
1 46 Anton Tchékhov

- Os meus respeitas . . . disse , ofegante . - Uuff, meu


Deus ! Manda que me tragam kvass , ó juiz . Estou arrasado . . .
Deixou-se cair na cadeira mas logo se levantou , foi a correr
até junto do doutor e, esbugalhando raivosamente os olhos , dis­
se num tenor esganiçado:
- Agradeço-lhe imenso, do fundo do coração , Grigóri Iváno­
vitch ! Que grande favor o senhor me prestou ! Não me vou esque­
cer disso até ao fim da vida ! Isto não se faz entre amigos ! Como
queira, mas é falta de decoro da sua parte ! Porque não me infor­
mou? Quem sou eu para si? Quem? Um inimigo , um estranho? Sou
seu inimigo? Será que alguma vez lhe recusei alguma coisa? Foi?
Esbugalhando os olhos e mexendo os dedos , o presidente sa­
ciou a sede com kvass , limpou rapidamente a boca e continuou:
- Agradeço-lhe muito , agradeço-lhe imenso ! Porque não veio
ter comigo , porque não me avisou? Se o senhor tivesse simpatia
por mim, tinha-me visitado amigavelmente: «Lev Trofímovitch ,
alminha, tal e tal . . . passou-se uma coisa assim e assim . . . » Eu re­
solveria tudo num instante , e não haveria escândalo nenhum . . .
Esse imbecil foi como se endoidecesse , anda aí pelo distrito a chi­
canar, a mexericar com o mulherio , mas foi o senhor, desculpe a
expressão porque até é uma vergonha dizê-lo , quem armou uma
porcaria dos diabos e obrigou esse imbecil a queixar-se ao tribu­
nal ! Vergonha, pura vergonha ! Toda a gente me pergunta o que se
passa, o que aconteceu , mas eu , o presidente , não sei , nem sequer
sei em que alhada se meteram por lá. Pois , eu não sou preciso !
Agradeço-lhe muito , muito , Grigóri Ivánovitch !
O presidente fez uma vénia tão profunda que enrubesceu , de­
pois aproximou-se da janela e gritou:
- Jigálov, chama-me aí o Mikhail Zakhárovitch ! Diz-lhe que
venha cá imediatamente ! Mau , mau , mau ! - disse ele ,
afastando-se da janela. - Até a minha mulher se ofendeu , e ela
gosta muito de si , gosta mesmo . Filosofias a mais , é isso que vo­
cês adoram ! Procuram sempre fazer tudo de forma intelectual ,
de acordo com os princípios , com todos os esmeras , e a conse­
quência não passa disto: turvar as águas . . .
Um Desaire 1 47

- E vocês procuram fazer tudo ao contrário disso , e qual é a


consequência?
- A consequência? Já lhe digo: se eu não viesse cá, o senhor
ia cobrir-se de vergonha e ia envergonhar-nos também a nós . . .
Agradeça-me por eu ter vindo cá !
Entrou o auxiliar-médico e parou à porta. O presidente virou-se
de perfil para ele , meteu as mãos nos bolsos , pigarreou e disse:
- Pede desculpa ao doutor, já!
O doutor corou e saiu , a correr, para a outra sala.
- Vês? O doutor não aceita as tuas desculpas ! - continuou
o presidente . - Quer que tu demonstres o teu arrependimento ,
não com palavras , mas com actos . Dás a tua palavra de honra de
que , a partir de hoje, serás obediente e levarás uma vida sóbria?
- Dou . . . - respondeu o homem numa voz de baixo soturno .
- Vê lá então ! Deus te livre de fazeres asneiras ! Ponho-te
num instante no olho da rua ! Se acontecer mais alguma coisa,
não venhas pedir misericórdia . . . Bom , vai para casa . . .
Para o auxiliar-médico , que já se resignara à sua desgraça, es­
te volte-face do destino foi uma surpresa . Até empalideceu de
alegria. Queria dizer qualquer coisa e estendeu a mão para a
frente , mas não disse nada , esboçou um sorriso lorpa e saiu .
- E pronto ! - disse o presidente . - Não é cá preciso julga­
mento nenhum.
Suspirou com alívio e, com ar de ter feito um trabalho muito
difícil e importante , olhou para o samovar e para os copos , es­
fregou as mãos e disse:
- Benditos sejam os pacificadores . . . Sacha, serve-me um co­
pinho de chá. Aliás , manda primeiro trazer um petisco qual­
quer. . . E vodca . . .
- Meus senhores , assim é impossível ! - disse o doutor, en­
trando na sala de jantar, ainda vermelho e torcendo as mãos . -
É . . . é uma comédia ! É um nojo ! Assim não posso . Vale mais ha­
ver vinte julgamentos do que a solução dos problemas ao estilo
vaudeville . Não , não posso !
1 48 Anton Tchékhov

- Mas o que mais quer? - arreliou-se o presidente . -


Demiti-lo? Com certeza, já o demito . . .
- Não , demiti-lo não . . . Não sei o que quero , meus senhores ,
mas esta atitude para com a vida . . . Ah , meu Deus ! É torturante .
O doutor agitava-se nervosamente à procura do chapéu e , co­
mo não o encontrasse , sentou-se sem forças na cadeira .
- É um nojo ! - repetiu .
- Alminha . . . - sussurrou-lhe o juiz de paz - , digamos que
não o compreendo . . . É que você é o culpado deste incidente ! Es­
murrar as pessoas em finais do século XIX não é uma atitude das
mais correctas , diga-se o que se disser . . . Ele é um canalha, mas
tem de concordar que você também foi imprudente . . .
- É claro ! - concordou o presidente .
Serviram vodca e acepipes . Antes de se despedir, o doutor em­
borcou maquinalmente um cálice de vodca e acompanhou-a com
um rabanete . Quando regressava ao hospital , um nevoeiro en­
volvia as suas ideias como às ervas numa manhã de Outono .
«Será possível que durante a última semana - pensava ele -
tenha sido pensado , sofrido e dito tanto apenas para isto , apenas
para que tudo acabe desta maneira tão absurda e vulgar? Que es­
tupidez ! Que estupidez ! »
Envergonhava-se de ter envolvido n o seu problema pessoal
pessoas alheias , envergonhava-se das palavras que dissera a es­
sas pessoas , da vodca que bebera pelo hábito de beber e de viver
porque sim , da sua mente inepta e superficial . . . De volta ao hos­
pital , começou de imediato as visitas às enfermarias . O auxiliar­
-médico acompanhava-o num passo suave de gato e respondia
suavemente às suas perguntas . . . Tanto ele como a sereia e as en­
fermeiras fingiam que não acontecera nada e que estava tudo
bem . O próprio doutor fazia os possíveis por parecer indiferen­
te . Dava as suas ordens , falava com severidade , brincava com os
doentes , mas no seu cérebro martelava:
«Estupidez , estupidez , estupidez . . . »
O MEDO
História contada por um amigo

Dmítri Petróvitch Sílin fez um curso universitário , esteve ao ser­


viço em Petersburgo , mas aos trinta anos abandonou o cargo e pas­
sou a dedicar-se à agricultura. O trabalho não corria mal; mesmo
assim, dava-me a ideia de que o homem não estava no seu lugar e
de que faria melhor se voltasse a Petersburgo . Quando ele , bron­
zeado , coberto de poeira, esfalfado do trabalho , me recebia ao por­
tão ou à porta da entrada da sua casa; e depois , durante o jantar,
quando ele lutava contra a sonolência e a mulher o levava para dei­
tar como a uma criança; ou quando ele , tendo vencido o sono , co­
meçava a expor as suas ideias boas numa voz branda e cordial ,
como que suplicante , eu não via nele um proprietário rural ou um
agrónomo , mas tão-só um homem extenuado , e para mim tomava­
-se claro que ele não desejava economia agrícola nenhuma, que ele
queria apenas que o dia acabasse - então , bom, Deus é grande .
Gostava de o visitar e , por vezes , ficava na sua herdade dois ou
três dias . Gostava da casa dele , do parque , do grande pomar, do
riozinho , da sua filosofia, um pouco mole e alambicada mas cla­
ra. Era possível que gostasse também de Dmítri Petróvitch , em­
bora não o possa dizer com certeza porque , até hoje, não consigo
ainda clarificar os meus sentimentos de então . Ele era um homem
inteligente , bondoso , nada maçador, sincero , mas lembro-me mui-
1 50 Anton Tchékhov

to bem de que , quando me confiava os seus segredos mais íntimos


e dizia que o nosso convívio era a amizade , isso me emocionava
desagradavelmente e me sentia embaraçado . Na sua amizade co­
migo havia qualquer coisa de penoso , desconfortável , e eu prefe­
riria de boa vontade manter com ele uma relação normal de bons
conhecidos .
O problema era que eu gostava muito da mulher dele , Maria
Serguéevna. Não estava apaixonado por ela , mas gostava do seu
rosto , dos seus olhos , da sua voz , do seu andar, tinha saudades
dela quando não a via durante muito tempo , e nestes períodos de
ausência a minha imaginação nada via com mais vontade do que
esta mulher jovem , bonita e elegante . Não tinha quaisquer inten­
ções definidas em relação a ela, nem qualquer sonho , mas , sei lá
porquê , sempre que ficávamos a sós eu recordava que o marido
me considerava um amigo e , então , sentia um certo desconforto .
Quando ela tocava ao piano as minhas peças preferidas , ou me
contava alguma coisa interessante , ouvia-a com prazer mas , em
simultâneo , metiam-se na minha cabeça os pensamentos de que
ela amava o marido , de que ele era meu amigo e de que ela pró­
pria o considerava meu amigo , então o meu estado de espírito
deteriorava-se , e eu ficava mole , desajeitado e aborrecido . Ela
reparava nesta mudança e costumava dizer:
- Aborrece-se sem o seu amigo . É preciso mandá-lo buscar
ao campo .
E quando Dmítri Petróvitch chegava, ela dizia:
- Ora bem, já chegou o seu amigo . Pode alegrar-se .
E assim continuaram as coisas cerca de ano e meio .
Num domingo de Julho aconteceu que eu e Dmítri Petróvitch ,
por não termos nada que fazer, fomos a uma aldeia grande , Klú­
chino , comprar uns petiscos para o jantar. Enquanto corríamos as
vendas , o Sol pôs-se , caiu a noite , uma noite que eu , pelos vistos ,
não esquecerei até ao fim da vida. Depois de termos comprado um
queijo que mais parecia sabão e um chouriço fossilizado com
cheiro a alcatrão , fomos à taberna perguntar se havia cerveja.
O Medo 151

O nosso cocheiro tinha ido à forja ferrar os cavalos , tendo sido


avisado de que esperaríamos por ele ao pé da igreja. Passeávamos ,
falávamos , riamo-nos das nossas compras , e atrás de nós , calado e
com um ar enigmático , andava um homem do nosso distrito a que
tinham posto a estranha alcunha de Quarenta Mártires . Este Qua­
renta Mártires era na realidade um tal Gavrila Séverov, ou sim­
plesmente Gavriuchka, que durante um curto período me servira
de lacaio e que tive de despedir por causa das suas bebedeiras . Já
estivera também ao serviço de Dmítri Petróvitch e fora despedido
pelo mesmo pecado . Era um bêbedo inveterado , toda a sua bio­
grafia se coadunava, em geral , com uma prática ébria e desenca­
minhada. Por nascimento , era um privilegiado: o pai era padre , a
mãe uma fidalga; porém, por mais que eu perscrutasse a sua cara
mirrada, respeitosa, sempre suada, a sua barba ruiva, já a encane­
cer, o seu miserável casaquinho roto e a sua camisa vermelha por
cima das calças , não conseguia descobrir qualquer vestígio daqui­
lo a que entre nós se chama privilégios . Dizia de si mesmo que era
um homem culto e contava que estudara na escola eclesiástica mas
não acabara o curso porque tinha sido expulso por fumar; a seguir
cantara no coro do prelado e vivera dois anos no mosteiro , donde
foi expulso não pelo fumo mas sim por «fraqueza» . Calcorreara a
pé duas províncias e , sabe-se lá porquê , inundava de pedidos o
consistório e outras instituições , foi julgado quatro vezes . Por fim ,
parou de vaguear e assentou no nosso distrito , serviu como lacaio ,
guarda-florestal , matilheiro , guarda da igreja, casara-se com uma
cozinheira, viúva de má vida, acabou por se entalar definitiva­
mente na vida serviçal com toda a sua sujeira e manigâncias , a
ponto de ele próprio já falar da sua origem privilegiada com certa
desconfiança, como se de um mito se tratasse . Na época aqui des­
crita, errava sem emprego , fazendo-se passar por curandeiro de
cavalos ou por caçador; a mulher dele andava desaparecida.
Da taberna fomos até à igreja e sentámo-nos nos degraus da
entrada, à espera do cocheiro . O Quarenta Mártires postou-se a
certa distância de nós e levou a mão à boca para , quando fosse
1 52 Anton Tchékhov

a altura, tossir respeitosamente nela. Já escurecera, havia um


cheiro forte a humidade noctuma, começava a despontar a Lua.
No céu limpo e estrelado havia apenas duas nuvens , uma grande
e outra pequena, precisamente por cima de nós ; estavam ali so­
litárias , como mãe e filha, corriam uma atrás da outra para as
bandas onde se extinguia o ocaso .
- Hoje esteve um dia bonito - disse Dmítri Petróvitch .
- Excepcionalmente bonito . . . - concordou o Quarenta
Mártires e tossicou respeitosamente na mão . - Como foi que o
Dmítri Petróvitch se lembrou de vir até cá? - perguntou numa
voz insinuante , desejando pelos vistos encetar a conversa.
Dmítri Petróvitch não respondeu . O Quarenta Mártires suspi­
rou fundo e pronunciou baixinho , sem olhar para nós :
- Sofro unicamente pelo motivo sobre que terei de responder
perante Deus todo-poderoso . É claro que sou um homem perdi­
do e inepto , mas acreditem: sem uma fatia de pão sou pior que
um cão . . . Desculpe-me , Dmítri Petróvitch !
Sílin não o ouvia e , apoiando a cabeça nos punhos , pensava.
A igreja encontrava-se no fim da rua, na margem alta do rio , e
através da grade da cerca víamos a corrente , os lameiros da ou­
tra banda e a luz forte e vermelha de uma fogueira, junto da qual
se moviam pessoas e cavalos negros . Por trás da fogueira havia
mais luzes: era uma aldeola . . . Cantava-se , ali .
Aqui e ali , sobre o rio e no prado , levantava-se o nevoeiro . Os
farrapos altos e delgados de nevoeiro , espessos e brancos como
leite , vagueavam por cima do rio , tapando os reflexos das estre­
las e agarrando-se aos salgueiros . Mudavam de forma a cada
momento , alguns pareciam abraçar-se , outros fazer vénias , ou­
tros erguer aos céus os braços de mangas largas como as de um
pope a rezar. . . Pelos vistos, provocaram em Dmítri Petróvitch
pensamentos sobre fantasmas , porque ele se virou para mim e
perguntou , sorrindo tristemente:
- Diga-me uma coisa, meu caro , porque será que quando
queremos con tar alguma coisa assustadora, misteriosa e fantás-
O Medo 153

tica, não pescamos o material da vida, mas sim, obrigatoriamen­


te , do mundo dos fantasmas e das sombras do além?
- O medonho é o que é incompreensível .
- Mas , para si , a vida é compreensível? Diga-me: será que
compreende melhor a vida do que o mundo do além?
Dmítri Petróvitch sentou-se pertinho de mim , eu sentia a res­
piração dele na minha face . No crepúsculo , o seu rosto pálido e
magro parecia ainda mais pálido , e a barba escura ainda mais es­
cura, como fuligem . Os olhos dele estavam tristes , sinceros e um
pouco assustados , como se estivesse prestes a contar-me alguma
coisa de meter medo . Olhava-me nos olhos e, com a sua habitual
voz suplicante , continuou:
- A nossa vida e o mundo do além são incompreensíveis em
igual medida. Quem tem medo dos fantasmas deve ter medo tam­
bém de mim, destas luzes , do céu , porque tudo isto , se pensarmos
bem, é tão incompreensível e fantástico como os visitantes do ou­
tro mundo . O príncipe Hamlet não se matou porque tinha medo
das possíveis visões que o assombrariam no seu sono da morte;
gosto daquele seu famoso monólogo mas , francamente , nunca me
tocou no fundo da alma. Confesso-lhe , como amigo meu , que por
vezes , nos momentos de angústia, eu tenho imaginado a hora da
minha morte e a minha fantasia inventa milhares das mais varia­
das fantasias que me levam até uma exaltação torturante , até ao
pesadelo , mas , acredite , nem isso me parece mais pavoroso do que
a realidade . As aparições e as visões são pavorosas , é verdade , mas
a vida também. Eu não compreendo a vida e tenho medo dela,
meu caro . Talvez eu seja um homem doente , louco , não sei . Um
homem normal, saudável , parece compreender tudo o que vê e ou­
ve , mas eu perdi este «parece» e , dia após dia, enveneno-me de
medo . Há uma doença, a agorafobia, que é o medo dos espaços
abertos; pois bem , eu tenho a doença do medo da vida. Quando me
deito na relva e olho muito tempo para um bichinho , nascido ape­
nas ontem e que não compreende nada, parece-me que toda a vi­
da do bicho é feita de terror, e vejo nele o meu próprio ser.
1 54 Anton Tchékhov

- Mas do que é que tem medo , concretamente? - perguntei-


-lhe .
- De tudo . Por natureza , não sou um homem profundo , e não
me interesso muito por problemas corno o mundo do além , os
destinos da humanidade e, em geral , raramente voo às alturas
celestes . Tenho medo , principalmente , do quotidiano , a que nin­
guém pode fugir. Sou incapaz de distinguir nos meus procedi­
mentos o que é verdadeiro e o que é falso , e isso inquieta-me;
tenho consciência de que as condições da vida e de educação me
aprisionaram num círculo estreito de mentira , que toda a minha
vida não passa da preocupação diária, sem dar por isso , de en­
ganar os outros e a mim próprio , e fico assustado com a ideia de
que não me livrarei desta falsidade até à hora da morte . Hoje fa­
ço urna coisa, amanhã já não compreendo porque a fiz . Entrei no
serviço público em Petersburgo e assustei-me , vim para aqui
dedicar-me à agricultura e também me assustei . . . Vejo que sa­
bemos pouco e , por isso , todos os dias nos enganamos , somos
injustos , caluniamos , destruímos a vida dos outros , gastamos to­
das as nossas energias com inutilidades de que não precisamos
e nos estragam a vida, e tenho medo porque não compreendo pa­
ra quê e para quem é necessário tudo isto . Não compreendo as
pessoas , meu amigo , e tenho medo delas . Tenho medo de olhar
para os rnujiques , não sei por que pretenso desígnio superior
eles devem sofrer e para que vivem . Se a vida é um prazer, eles
estão a mais , estão fora; mas , se o sentido e o objectivo da vida
for a pobreza e a ignorância desesperada e inultrapassável , en­
tão não compreendo quem precisa, e para quê , dessa inquisição .
Por exemplo , tente compreender este sujeito aqui ! - disse Drní­
tri Petróvitch , apontando para o Quarenta Mártires . - Pense
bem nisso !
Ao notar que ambos olhávamos para ele , o Quarenta Mártires
tossicou respeitosamente para a mão e disse:
- Para os bons senhores , eu sempre fui um criado fiel , mas a
causa principal são as bebidas alcoólicas . Se agora tiverem con-
O Medo 155

descendência para comigo , um homem desgraçado , e me derem


emprego , beijarei o ícone . A minha palavra é firme .
O guarda da igreja passou por nós , olhou-nos com perplexi­
dade e começou a puxar a corda. O sino , lenta e arrastadamente ,
quebrando o silêncio noctumo , bateu as dez horas .
- Irra, já são dez ! - disse Dmítri Petróvitch . - São horas
de ir. Sim, meu caro - suspirou - , se soubesse o medo que te­
nho dos meus pensamentos quotidianos , de rotina, embora, apa­
rentemente , não devesse haver neles nada de assustador ! Para
não pensar distraio-me com o trabalho e tento cansar-me muito
para dormir bem à noite . Mulher, filhos . . . para as outras pessoas
não é nada de especial , mas para mim é tão difícil , meu caro !
Amassou a cara com as mãos, pigarreou , riu-se .
- Se eu pudesse exprimir a parvoíce que fiz da minha vida !
- disse ele . - Todos me dizem: tem uma mulher querida, uns
filhos encantadores , é um excelente pai de família. Pensam que
sou muito feliz e invejam-me . Bem, já que se fala disto , digo-lhe
um segredo: a minha feliz vida familiar não passa de um triste
mal-entendido e tenho medo dela.
Fez um sorriso forçado que lhe tomou feia a cara pálida .
Abraçou-me pela cintura e continuou a meia-voz:
- O senhor é meu amigo sincero , confio em si e respeito-o
profundamente . O céu concede-nos a amizade para podermos
exprimir os nossos pensamentos e para nos salvarmos dos se­
gredos que nos oprimem. Então , permita-me aproveitar a sua ati­
tude amigável para comigo e revelar-lhe toda a verdade . A mi­
nha vida familiar, que lhe parece tão maravilhosa, é a minha
desgraça principal e o meu medo principal . Casei-me de manei­
ra estranha e estúpida. Devo dizer que , antes do casamento , ama­
va Macha loucamente e a namorei durante dois anos . Pedi-a em
casamento cinco vezes , e ela recusava sempre porque eu lhe era
indiferente de todo . À sexta vez , quando eu , absolutamente doi­
do de amor, rastejava de joelhos aos seus pés e a pedia mais uma
vez em casamento como quem pede esmola, ela concordou . . .
1 56 Anton Tchékhov

Disse-me: «Não o amo mas vou ser-lhe fiel .» Aceitei esta condi­
ção com entusiasmo . Naquela altura eu percebia o que isso sig­
nificava, mas agora, juro por Deu s , não compreendo . «Não o
amo mas vou ser-lhe fiel» . . . O que significa isso? Para mim é
bruma, escuridão . . . Amo-a agora tanto como a amava no pri­
meiro dia do casamento , mas ela continua indiferente como an­
tes e, pelos vistos , fica contente quando eu saio de casa. Não te­
nho a certeza se ela me ama ou não , não sei , não sei , mas
vivemos sob o mesmo tecto , tratamo-nos por «tu» , dormimos
juntos , temos filhos , a nossa propriedade é comum . . . Então , o
que significa isso? O quê? Percebe alguma coisa, meu caro? É
uma tortura insuportável ! Como não compreendo nada da nossa
relação , ora a odeio a ela, ora me odeio a mim, ora nos odeio a
ambos , na minha cabeça a confusão é completa , atormento-me ,
fico embrutecido , e ela, nem de propósito , fica cada vez mais be­
la, espantosa . . . Aos meus olhos , o cabelo dela é maravilhoso , e
sorri como nenhuma mulher sabe sorrir. Amo-a e sei que amo
sem esperança. O amor desesperado pela mulher de quem já te­
nho dois filhos ! Será compreensível , não será assustador? Não
será mais apavorante do que os fantasmas?
Estava numa tal disposição de espírito que falaria ainda du­
rante muito tempo mas , felizmente , ouviu-se a voz do cocheiro .
Chegavam os nossos cavalos . Sentámo-nos na caleche , e o Qua­
renta Mártires , desbarretando-se , ajudou-nos a subir com a ex­
pressão de quem esperava, havia muito , pela oportunidade de to­
car nos nossos corpos preciosos .
- Dmítri Petróvitch, permita que vá a sua casa - pediu ele ,
pestanejando muito e inclinando a cabeça de lado . - Seja mise­
ricordioso , por amor de Deus ! Morro de fome !
- Está bem - disse Sílin . - Vem, ficas três dias , logo se vê .
- Com certeza ! - alegrou-se o Quarenta Mártires . - Hoje
mesmo vou para lá.
Até casa eram seis verstás . Dmítri Petróvitch , contente por ter
desabafado finalmente com o amigo , foi abraçado à minha cin-
O Medo 1 57

tura durante todo o caminho e , já sem amargura nem medo , an­


tes com alegria, dizia-me que , se na sua família estivesse tudo
bem , voltaria a Petersburgo e dedicar-se-ia à ciência. Aqueles
ventos que empurravam tanta juventude dotada para a aldeia, di­
zia ele , eram ventos tristes . Cá na nossa Rússia há muito centeio
e trigo , o que falta são pessoas cultas . É necessário que a juven­
tude dotada e sadia faça ciência, arte , política; o contrário é fal­
ta de pragmatismo . Filosofava com prazer e exprimia a sua pena
por ter de me deixar no dia seguinte , porque tinha de ir ao leilão
de umas matas .
Da minha parte , era o desconforto e a tristeza , parecia-me que
estava a enganar este homem . Ao mesmo tempo , era agradável .
Olhava para a enorme lua vermelha que se erguia no céu e ima­
ginava aquela mulher alta, esbelta , loira , pálida , sempre bem ar­
ranjada, cheirando a um perfume especial , almiscarado , e , não
sei porquê , era um contentamento para mim pensar que ela não
gostava do marido .
Chegámos a casa, sentámo-nos a jantar. Maria Serguéevna ,
rindo-se , servia-nos as nossas compras , e eu achava que , de fac­
to , o cabelo dela era maravilhoso e que sorria como nenhuma
mulher sabia sorrir. Observava-a, e o meu desejo era ver por um
qualquer gesto ou olhar dela que não gostava do marido , e
parecia-me vê-lo .
Dmítri Petróvitch não tardou a lutar contra a sonolência . De­
pois do jantar, ficou connosco cerca de dez minutos e disse:
- Vocês , como queiram , meus senhores , mas eu tenho de me
levantar às três da madrugada . Com vossa licença, vou
abandonar-vos .
Beijou temamente a mulher, apertou-me a mão com força e
gratidão , e fez-me jurar que voltaria a visitá-los na semana se­
guinte . Para acordar a tempo no dia seguinte , foi dormir para o
anexo .
Maria Serguéevna deitava-se tarde , à moda de Petersburgo , e
·

esta noite eu estava contente com isso .


158 Anton Tchékhov

- Ora bem - comecei quando ficámos sozinhos . - Ora


bem , faça-me o favor de tocar alguma coisa.
Não me apetecia ouvir música , mas não sabia como começar
a conversa. Ela sentou-se ao piano e tocou não me lembro o quê .
Sentado a seu lado , eu olhava para as suas mãos brancas e gor­
dinhas , e tentava ler alguma coisa no seu rosto frio e indiferen­
te . Finalmente , ela sorriu e olhou para mim .
- Aborrece-se sem o seu amigo - disse .
Ri-me .
- Por amizade , bastava-me vir cá uma vez por mês , mas
visito-os mais de uma vez por semana.
Dito isto , levantei-me e pus-me a andar de um lado ao outro da
sala, emocionado. Ela também se levantou e afastou-se até à lareira.
- O que está a insinuar? - perguntou , erguendo para mim os
seus olhos grandes e límpidos .
Não respondi .
- Não é verdade o que disse - continuou , depois de pensar
um pouco . - Vem cá apenas por causa do Dmítri Petróvitch .
E muito bem , fico muito contente . Nos nossos tempos já é difí­
cil ver-se uma amizade como esta .
«Ena ! » , pensei e , sem saber como reagir, perguntei :
- Quer dar uma volta pelo jardim?
- Não .
Saí para o terraço . Sentia arrepios na cabeça, gelava de emo­
ção . Já tinha a certeza de que a nossa conversa seria insignifi­
cante , de que não conseguiríamos dizer nada de especial , nem eu
nem ela; mas sabia que esta noite aconteceria aquilo que eu nem
sequer me atrevia a sonhar. Precisamente nesta noite , ou nunca .
- Que rico tempo ! - disse e m voz alta .
- Isso não me interessa absolutamente nada - ouvi como
resposta.
Entrei na sala de estar. Maria Serguéevna continuava de pé
junto à lareira, com as mãos atrás das costas , pensativa, e não
olhava para mim .
O Medo 159

- Porque não lhe interessa absolutamente nada? - pergun­


tei .
- Porque me aborreço . O senhor apenas se aborrece sem o
seu amigo , mas eu aborreço-me sempre . . . Aliás . . . isto para si
não tem interesse nenhum .
Sentei-me ao piano e toquei alguns acordes , à espera do que
ela iria dizer.
- Por favor, deixe-se de cerimónias - disse ela, olhando pa­
ra mim com irritação e prestes a chorar de desgosto . - Se tiver
sono , vá dormir. Não pense que por ser amigo de Dmítri Petró­
vitch tem a obrigação de se aborrecer na companhia da mulher
dele . Não quero sacrifícios . Por favor, vá-se embora .
Não me fui embora, obviamente . Ela saiu para o terraço , eu fi­
quei sozinho na sala de estar, durante uns cinco minutos , fo­
lheando os cadernos de música. Depois saí. Estávamos lado a la­
do à sombra das cortinas , a nossos pés eram os degraus banhados
de luar. Pelos canteiros das flores e pelo saibro amarelo das ala­
medas estendiam-se as sombras negras das árvores .
- Amanhã também tenho de ir - disse eu .
- É claro , quando o meu marido não está em casa , o senhor
também não pode ficar - disse com ironia . - Posso imaginar
como se sentiria infeliz se , por acaso , se apaixonasse por mim !
Espere lá que ainda um dia me atiro ao seu pescoço . . . Vai ser en­
graçado ver o pânico com que fugirá de mim . Vai ser curioso .
As suas palavras e a sua cara branca eram de zangada , mas
nos olhos brilhava-lhe o mais temo e infinito amor. Eu já olhava
para esta criatura como minha propriedade , e foi então que re­
parei que as sobrancelhas dela eram douradas , divinas , umas so­
brancelhas que eu j amais vira na vida . A ideia de que podia
apertá-la nos meus braços de imediato , tocar-lhe no cabelo ma­
ravilhoso afigurou-se-me tão monstruosa que me ri e fechei os
olhos .
- Olhe , mas já é tarde . . . Boa noite , durma sossegado - de­
sejou ela .
1 60 Anton Tchékhov

- Não quero uma noite de sossego . . . - disse eu , rindo-me e


seguindo-a para a sala de estar. - Se esta noite fosse sossegada,
amaldiçoá-la-ia .
Apertando-lhe a mão e acompanhando-a até à porta, via pela
sua cara que ela me compreendia e estava feliz por eu a com­
preender também .
Fui para o meu quarto . Em cima da mesa, ao lado dos livros ,
estava o boné de Dmítri Petróvitch , o que me recordou a amiza­
de dele . Peguei na bengala e saí para o jardim . Já se adensava
aqui o nevoeiro , junto das árvores e dos arbustos , abraçando-os ,
já vagueavam os mesmos fantasmas altos e delgados que vira no
rio havia pouco . Que pena não poder falar com eles !
No ar de uma transparência extraordinária distinguiam-se com
nitidez cada folha , cada gota de orvalho - tudo me sorria no si­
lêncio sonolento e, passando junto dos bancos verdes , recordei
as palavras de uma peça de Shakespeare: que docemente dorme
o luar aqui no banco !
No jardim havia uma pequena elevação . Subi-a e sentei-me .
Um sentimento de fascínio enlanguescia-me . Sabia de certeza
que , agora mesmo , iria abraçar, apertar contra o meu o seu cor­
po miraculoso , beijar-lhe o sobrolho dourado , e apetecia-me não
acreditar nisso , acirrar-me , e lamentava que ela me tivesse casti­
gado tão pouco e cedido tão depressa.
Inesperadamente , soaram passos pesados . Apareceu na alame­
da um homem de estatura média e logo reconheci nele o Qua­
renta Mártires . Sentou-se num banco e suspirou fundo , depois
benzeu-se três vezes e deitou-se . Um minuto depois soergueu-se
e virou-se para o outro lado . As melgas e a humidade noctuma
não o deixavam adormecer.
- Que vida ! - disse ele . - Uma vida de amargura, uma vi­
da desgraçada !
Olhando para o seu corpo magro e dobrado , ouvindo os seus
suspiros graves e roucos , lembrei-me de outra vida desgraçada e
amarga que se confessara a mim neste dia, e senti medo do meu
estado deleitoso . Desci o monte e fui para casa.
O Medo 161

«Na opinião dele , a vida é assustadora - pensava eu . - Nes­


se caso , não façamos cerimónias com ela, despedacemo-la e, en­
quanto ela própria não nos esmagar, arranquemos dela tudo o
que for possível .»
No terraço estava Maria Serguéevna. Abracei-a em silêncio e
comecei a beijar-lhe as sobrancelhas , as têmporas , o pescoço .
No meu quarto , ela disse que me amava havia muito , mais de
um ano . Jurou-me o seu amor, chorou , pediu que a levasse co­
migo . De vez em quando levava-a até à janela para lhe ver o ros­
to ao luar, e via um sonho milagroso , e apressava-me a abraçá­
-la com força para ter a certeza de que era real . Havia muito
tempo que não vivia um enlevo assim . Porém, algures no fundo
da minha alma , alguma coisa me desconfortava, alguma
coisa não estava bem . No seu amor por mim havia algo de incó­
modo e penoso , tal como na amizade de Dmítri Petróvitch por
mim. Era um grande e sério amor com lágrimas e juramentos ,
mas eu queria que não houvesse nada a sério - nem lágrimas
nem juramentos , nem conversas sobre o futuro . Que a noite lua­
renta fizesse relancear nas nossas vidas um meteorito luminoso
- e bastava.
À s três horas da manhã, ela saiu do meu quarto , e quando eu ,
à porta, olhava para ela a ir-se embora, apareceu de repente Dmí­
tri Petróvitch ao fundo do corredor; ao deparar com ele , Maria
Serguéevna estremeceu e, afastando-se para o deixar passar, to­
da ela mostrava repugnância. Ele esboçou um sorriso estranho ,
tossiu e entrou no meu quarto .
- Ontem esqueci-me aqui do meu boné . . . - disse ele sem
olhar para mim .
Encontrou-o , enterrou-o na cabeça com as duas mãos, depois
olhou para a minha cara embaraçada, para as minhas pantufas , e
disse numa voz que não parecia a dele , estranha, rouca:
- Pelos vistos , a minha sina é não compreender nada. Se o
senhor compreende alguma coisa, os meus . . . os meus parabéns .
Até o s olhos se me turvam .
1 62 Anton Tchékhov

E saiu , a tossicar. Depois vi , pela janela, como ele próprio


atrelava os cavalos junto à cavalariça. As mãos tremiam-lhe ,
apressava-se , lançava olhares rápidos para a casa; tinha medo ,
certamente . Depois sentou-se na traquitana e , com uma expres­
são estranha, como se estivesse com medo de uma perseguição ,
chicoteou os cavalos .
Eu parti um pouco mais tarde . Já nascia o Sol , o nevoeiro da
noite encostava-se timidamente aos arbustos e aos montículos .
Na boleia ia o Quarenta Mártires que j á conseguira embebedar­
-se em qualquer lado e debitava os seus disparates ébrios .
- Sou um homem livre ! - gritava aos cavalos . - Eh , meus
lindos ! Sou um cidadão emérito hereditário , ficai sabendo !
Não me saía da cabeça o medo de Dmítri Petróvitch , e esse
medo passou para mim . Pensava no que acontecera e não perce­
bia nada . Olhava para as gralhas-calvas e parecia-me estranho e
assustador o facto de elas voarem .
- Porque o fiz? - interrogava-me , perplexo e desesperado .
- Porque aconteceu precisamente assim e não de outra manei-
ra? Porquê e por obra de quem era necessário que ela me amas­
se a sério e que ele fosse ao meu quarto à procura do boné? E o
que tem o boné a ver com isto?
No dia seguinte parti para Petersburgo , nunca mais me encon­
trei com Dmítri Petróvitch nem com a mulher. Dizem que conti­
nuam juntos .
NA HERDADE

Pável Iliitch Rachévitch andava num passo leve pelo chão co­
berto de passadeiras de lã ucranianas , lançando contra a parede
e contra o tecto uma sombra comprida e estreita , enquanto o seu
convidado Meyer, juiz de instrução , estava sentado no divã tur­
co com um pé sob a coxa, fumando e ouvindo . O relógio mos­
trava as onze da noite , ouviam-se na sala contígua ao gabinete os
barulhos da mesa a ser posta para a ceia.
- Se quiser - dizia Rachévitch - , do ponto de vista da fra­
ternidade, igualdade , etc . , o porqueiro Mitka é efectivamente um
homem idêntico a Goethe ou a Frederico , o Grande; mas , se se co­
locar numa base científica, tenha a coragem de olhar os factos na
cara e verá que o bom nascimento não é um preconceito nem é
uma invenção do mulherio . O bom nascimento , meu caro , tem uma
justificação histórica e natural e, na minha opinião , negá-lo é tão
absurdo como negar que a rena tem cornos . É necessário respeitar
os factos ! O senhor é jurista e não sentiu o sabor de quaisquer ciên­
cias que não fossem as humanidades , e ainda é capaz de se enga­
nar a si mesmo com essas ilusões da igualdade , fraternidade , etc .;
mas eu sou um darwinista inveterado e , para mim, palavras como
raça, aristocracia, sangue nobre não são meros sons ocos .
Rachévitch estava excitado e falava com emoção . Os olhos
dele brilhavam, o pince-nez não se lhe fixava no nariz , piscava o
1 64 Anton Tchékhov

olho e , à palavra «darwinista» , olhou-se com galhardia no espe­


lho e, com as duas mãos , cofiou a sua barba encanecida. Vestia
um casaco muito curto e gasto , calças estreitas; a rapidez dos
seus movimentos , a galhardia e o casaquinho curto não condi­
ziam com ele , e parecia que a sua cabeça, grande , digna e de ca­
beleira comprida, lembrando a de um prelado ou a de um poeta
provecto , estava pregada ao corpo de um jovem alto , magricela
e amaneirado . Quando parava, com as pernas muito afastadas , a
sua sombra comprida evocava uma tesoura .
Em geral , gostava de discursar, com a pretensão de que dizia
sempre qualquer coisa nova e original . Na presença de Meyer,
então , sentia uma extraordinária elevação de espírito e afluência
de ideias . O juiz de instrução gozava da sua simpatia e inspi­
rava-o com a sua mocidade , saúde , maneiras impecáveis , serie­
dade , mas , sobretudo , com a sua cordialidade com ele e com a
sua família. A maioria das pessoas que conheciam Rachévitch
não gostavam dele , mantinham-se afastadas dele e, como ele
próprio sabia, diziam entre si que , com as suas conversas , Ra­
chévitch levara à morte a mulher; pelas costas , chamavam-lhe
misantropo e sapo . Apenas Meyer, recém-chegado à terra e sem
ideias preconcebidas , o visitava de boa vontade e com frequên­
cia, chegando mesmo a dizer, algures , que Rachévitch e as filhas
eram as únicas pessoas em casa de quem ele se sentia em famí­
lia. Rachévitch também gostava dele pelo facto de , sendo jovem ,
poder representar um bom partido para Génia, a sua filha mais
velha .
E agora , deliciando-se com as suas ideias e os sons da sua pró­
pria voz , olhando com prazer para Meyer, um homem de com­
pleição razoável , com um corte de cabelo bonito , um ar decoro­
so , Rachévitch sonhava arranjar o casamento da filha com este
homem bom e , depois, passar para o genro todas as preocupa­
ções com a herdade . Desagradáveis preocupações , diga-se ! Não
pagara os juros ao banco já por duas vezes , já acumulara mais de
dois mil rublos em dívidas tributárias e coimas !
Na Herdade 1 65

- A mim não restam dúvidas - continuou Rachévitch, cada


vez mais inspirado - , de que , se algum Ricardo Coração de
Leão ou Frederico Barba-Roxa forem, digamos , corajosos e
magnânimos , as suas qualidades serão herdadas pelos seus filhos
juntamente com as circunvoluções e saliências cerebrais , e se a
coragem e a magnanimidade forem preservadas nos filhos pela
educação e pelo exercício , e se eles casarem com princesas tam­
bém corajosas e magnânimas , estas qualidades serão transmitidas
aos netos e assim por diante , até que formem uma característica
da espécie e passem organicamente , por assim dizer, ao corpo e
ao sangue . Graças a uma selecção sexual rigorosa, graças ao fac­
to de as farm1ias nobres se protegerem instintivamente dos casa­
mentos desiguais e de os jovens fidalgos não casarem com uma
ralé qualquer, as altas qualidades espirituais transmitem-se de ge­
ração em geração , em toda a sua pureza, são protegidas e , com a
passagem do tempo , com o exercício , tomam-se ainda mais per­
feitas e sublimes . Devemos tudo o que há de bom na humanida­
de à natureza, ao desenvolvimento natural e histórico correcto ,
por meio de uma ordem lógica e racional que , com aplicação , tem
separado durante séculos o bom nascimento e o mau nascimento .
Sim , paizinho ! Porque não foi o vilão reles , o filho da cozinhei­
ra, que nos deu a literatura, a ciência, as artes , o direito , as noções
da honra, do dever. . . A humanidade deve tudo isto , exclusiva­
mente , aos bem-nascidos , e neste sentido , do ponto de vista
histórico-natural , o imprestável Sobakévitch lO , apenas pelo facto
de ser um bem-nascido , toma-se mais útil e sublime do que o me­
lhor dos comerciantes , mesmo que este último construa quinze
museus . Pense o que quiser ! Se não estendo a mão ao vilão ou ao
filho da cozinheira nem os sento à mesa comigo , é para proteger
o melhor que existe na terra e para cumprir um dos maiores de­
sígnios da mãe natureza que nos leva à perfeição . . .

1 0 Personagem de Almas Mortas, de Nikolai Gógol , fidalgo grosseiro , inculto , vi­


garista. (N. T.)
1 66 Anton Tchékhov

Rachévitch parou , cofiando a barba com as duas mãos; tam­


bém a sua sombra em forma de tesoura parou na parede .
- Considere , por exemplo , a nossa mãezinha Rússia - con­
tinuou , metendo as mãos nos bolsos e transferindo o peso do cor­
po ora para os saltos, ora para as biqueiras dos sapatos . - Quem
são os seus melhores homens? Veja os nossos maiores pintores ,
literatos , compositores . . . Quem são? Todos oriundos de um bom
nascimento , todos . Púchkin , Gógol , Lérmontov, Turguénev,
Gontcharov, Tolstói não são filhos de salmista !
- Gontcharov é de uma farm1ia de comerciantes - disse Meyer.
- E depois? A excepção confirma a regra. Além disso , a ge-
nialidade de Gontcharov é muito discutível . Mas deixemos em
paz os nomes e voltemos aos factos . O que me dirá, por exemplo ,
deste facto bem eloquente: mal o vilão se mete onde não é cha­
mado (na alta sociedade , na ciência, na literatura, na administra­
ção rural , na justiça) , a própria natureza assume a defesa dos su­
premos direitos humanos; foi ela a primeira a declarar guerra a
essas hordas . De facto , mal o vilão se meteu onde não é o seu lu­
gar, começou a ficar débil , a mirrar, a endoidecer e a degenerar, e
em lado nenhum encontramos tantos neuróticos , inválidos psí­
quicos , tísicos e todo o género de frangalhos como entre esta laia .
Morrem como moscas outonais. Se não fosse esta degeneração
salvadora , há muito que não restava pedra sobre pedra da nossa
civilização , o vilão devoraria tudo . Diga-me uma coisa, por fa­
vor: o que nos trouxe , até ao momento , esta invasão? O que trou­
xe com ele o vilão? - Rachévitch fez uma cara enigmática, as­
sustada , e continuou : - Nunca antes a nossa ciência e a nossa
literatura estiveram num nível tão baixo como agora ! Os moder­
nos , meu senhor, não têm ideias nem ideais , e toda a actividade
deles se impregna de um único pensamento: sacar o máximo e
deixar alguém sem a última camisa. Todos esses modernos que se
fazem passar pela vanguarda, podemos comprá-los por um rublo ,
e o intelectual moderno tem precisamente esta particularidade:
quando falamos com ele , temos de estar de olho no bolso , senão
Na Herdade 1 67

tira-nos a carteira. - Rachévitch piscou o olho e deu uma garga­


lhada. - Juro por Deus , tira-nos a carteira ! - repetiu numa voz
fininha e alegre . - E a moral? Como vai a moral? - Rachévitch
lançou um olhar para a porta. - Agora já ninguém se espanta
quando a mulher rouba e abandona o marido . . . é uma insignifi­
cância, nada de especial ! Hoje em dia, paizinho , a rapariga de do­
ze anos já tenta arranjar um amante , e todos esses espectáculos
amadores e saraus literários são inventados apenas para que seja
mais fácil arranjar um campónio rico e tomar-se concubina de­
le . . . As mães vendem as filhas , aos maridos é perguntado aberta­
mente o preço das suas mulheres , e pode-se regatear, meu caro . . .
Meyer, até então calado e sem se mexer, levantou-se de re­
pente do divã e olhou para o relógio .
- Peço desculpa, Pável Iliitch , mas tenho de ir já para casa
- disse ele .
Mas Pável Iliitch , que ainda não terminara o seu discurso ,
abraçou-o e , sentando-o à força no divã, jurou que não o deixa­
ria ir sem a ceia. E Meyer viu-se de novo sentado e a ouvir, mas
já deitava a Rachévitch olhares perplexos e inquietos , como se
apenas agora começasse a compreendê-lo . Manchas vermelhas
cobriam-lhe o rosto . E quando finalmente entrou a criada e dis­
se que as meninas convidavam para a ceia, suspirou com alívio
e foi o primeiro a sair do gabinete .
Na sala contígua, estavam à mesa as filhas de Rachévitch , Gé­
nia e Iraída, de 24 e 22 anos , ambas de olhos negros , muito pá­
lidas , de idêntica estatura. Génia com o cabelo solto ; Iraída com
um penteado alto . Antes da ceia, ambas beberam um cálice de
vodca amarga, fingindo que o fizeram sem querer, pela primeira
vez na vida, e ambas se embaraçaram e se riram .
- Deixai-vos de traquinices , filhas - disse Rachévitch .
Génia e Iraída falavam entre si em francês , mas com o pai e o
convidado falavam em russo . Interrompendo-se uma à outra e
misturando o russo com o francês , começaram a contar ataba­
lhoadamente que dantes , nesta altura exacta do ano , em Agosto ,
1 68 Anton Tchékhov

elas iam para o internato , o que era muito divertido . Mas agora
não tinham para onde ir e viam-se obrigadas a viver na herdade
todo o Verão e todo o Inverno . Que tédio !
- Deixai-vos de traquinices , filhas - repetiu Rachévitch .
Queria ser ele a falar. Quando , estando ele presente , os outros
falavam , acometia-o um sentimento equiparado ao ciúme .
- É assim mesmo , meu caro . . . - recomeçou , olhando com
carinho para o juiz de instrução . - Por bondade , por ingenuida­
de e por medo de sermos suspeitos de atraso , confraternizamos
com cada porco , com sua licença, pregamos a fraternidade e a
igualdade com campónios ricos e taberneiros; mas se quisésse­
mos pensar bem , veríamos até que ponto é criminosa esta nossa
bondade . Fizemos com que a nossa civilização ficasse por um
fio , meu caro ! O que os nossos antepassados criaram durante
tantos séculos hoje ou amanhã será profanado e exterminado por
esses moderníssimos hunos . . .
Depois da ceia, foram todos para a sala de estar. Génia e Iraí­
da acenderam velas em cima do piano , prepararam os cadernos
de música . . . Mas o pai continuava a falar, e não se sabia quan­
do se iria calar. As meninas já olhavam com tristeza e desgosto
para o egoísta do pai , para quem o prazer de tagarelar e exibir o
seu intelecto brilhante era, pelos vistos , mais importante do que
a felicidade das filhas . Elas sabiam muito bem que Meyer, o úni­
co jovem que aparecia lá em casa, as visitava para passar o tem­
po em agradável companhia feminina, mas o incansável velho
apoderou-se dele e não o largava nem por um minuto .
- À semelhança dos cavaleiros ocidentais que rechaçaram os
mongóis , nós também temos de nos reforçar e atacar, todos jun­
tos , o nosso inimigo , enquanto for tempo - continuava Raché­
vitch num tom de pregação , levantando a mão direita. - Que eu
não me erga perante o vilão como Pável Iliitch , mas como um
terrível e forte Ricardo Coração de Leão . Deixemo-nos de deli­
cadezas com eles , basta ! Combinemos todos que , mal se aproxi­
me de nós um vilão , lhe lançaremos palavras de desprezo ao fo-
Na Herdade 1 69

cinho: «Tira as patas ! Conhece o teu lugar ! » Ao focinho ! - con­


tinuou Rachévitch , entusiasmado . - Ao focinho ! Ao focinho !
- Não posso - disse Meyer, virando-se dele .
- Mas porquê? - perguntou vivamente Rachévitch , pres-
sentindo uma discussão interessante e prolongada . - Porquê?
- Porque eu próprio não sou fidalgo .
Meyer corou ao dizer isto , o pescoço inchou-lhe , as lágrimas
brilharam-lhe nos olhos .
- O meu pai era um simples operário - acrescentou em voz
rude , entrecortada - , mas não vejo nisso mal nenhum .
Rachévitch embaraçou-se terrivelmente e , aturdido , como que
apanhado em flagrante num crime, olhava atrapalhado para Meyer
e não sabia o que dizer. Génia e Iraída coraram e inclinaram-se
para as pautas; tinham vergonha da indelicadeza do pai . Passou-se
um minuto em silêncio , e a vergonha tomou-se insuportável quan­
do , de repente , de forma doentia, forçada e inconveniente , soaram
as palavras:
- Sim , sou vilão e tenho orgulho nisso .
Logo a seguir, Meyer, tropeçando desajeitadamente nos mó­
veis, despediu-se e foi em passo rápido para o vestíbulo , embo­
ra os cavalos ainda não estivessem atrelados .
- Hoje o caminho está muito escuro - murmurou Rachévitch ,
andando atrás dele . - A Lua levanta-se tarde nesta época do ano .
Estavam os dois parados na escuridão do patamar de entrada
esperando os cavalos . O ar estava fresco .
- Uma estrela cadente . . . - disse Meyer, agasalhando-se no
sobretudo .
- Em Agosto há muitas .
Quando chegaram os cavalos , Rachévitch olhou com atenção
para o céu e disse com um suspiro:
- Um fenómeno digno da pena de Flammarion l l . . .

1 1 Camille Flammarion ( 1 842- 925) , astrónomo francês , autor de romances de di­


1
vulgação científica. (N. T.)
1 70 Anton Tchékhov

Depois de se despedir do convidado , Rachévitch passeou pe­


lo jardim no crepúsculo , gesticulando com as mãos , não queren­
do acreditar que acabasse de acontecer um mal-entendido tão es­
tranho e estúpido . Envergonhava-se , estava irritado consigo
próprio . Em primeiro lugar, era muitíssimo imprudente e indeli­
cado da parte dele fazer essa maldita conversa sobre o bom nas­
cimento sem se informar previamente sobre com quem estava a
lidar; já antes lhe tinham acontecido coisas semelhantes: uma
ocasião , no comboio , pusera-se a criticar os alemães , tendo de­
pois verificado que todos os seus interlocutores eram alemães .
Em segundo lugar, sentia que Meyer nunca mais o visitaria. Es­
ses intelectuais provenientes do povo são doentiamente orgulho­
sos e teimosos e guardam rancor muito tempo .
- Isto está mau , mau , mau . . . - murmurava Rachévitch , cus­
pindo ; sentia nojo e desconforto como se tivesse comido sabão .
- Está mau !
Do jardim via-se a sala de estar, pela janela, e Génia com o ca­
belo solto , muito pálida e assustada, falando muito depressa . . .
Iraída andava pela sala , pensativa; depois começou também a fa­
lar, também muito depressa, com uma cara indignada. Falavam
ambas ao mesmo tempo . Não se ouvia uma palavra, mas Raché­
vitch adivinhava do que estavam a falar. Génia, pelos vistos ,
indignava-se porque o pai , com as suas conversas , tinha afasta­
do de casa todas as pessoas decentes e, agora, privava-as do úni­
co amigo , talvez pretendente , além de que , agora , também o po­
bre jovem não tinha um único lugar no distrito onde pudesse
descansar a alma . Quanto a lraída , a julgar pelo desespero com
que levantava as mãos , queixava-se provavelmente do tédio da
sua vida, da sua juventude estragada . . .
Chegado ao seu quarto , Rachévitch sentou-se na cama e co­
meçou a despir-se lentamente . Estava deprimido , continuava a
atormentá-lo a sensação de ter comido sabão . Tinha vergonha .
Despiu-se , olhou para as suas pernas velhas , compridas e fibro­
sas , e lembrou-se de que no distrito o alcunhavam de sapo e que ,
Na Herdade 171

depois de qualquer conversa prolongada, costumava sentir-se


envergonhado . Não sabia porquê , mas era fatal : começava sem­
pre de uma forma branda , carinhosa, cheio de boas intenções ,
chamando-se a si mesmo velho estudante idealista, um Dom
Quixote; mas , sem dar por isso , passava a pouco e pouco ao in­
sulto e à calúnia, e, o que era mais espantoso , criticava com uma
sinceridade absoluta a ciência, as artes e os costumes , embora já
se tivessem passado vinte anos desde que lera o seu último livro
e não tivesse viajado para mais longe do que a capital da pro­
víncia e , no fundo , não soubesse nada do que acontecia no mun­
do . Ora, se começasse a escrever alguma coisa, nem que fosse
uma carta de felicitações , apenas lhe saíam insultos . E tudo isso
era estranho porque , no fundo , ele era uma pessoa sensível até às
lágrimas . Seria portador de um espírito mau que odiava e calu­
niava independentemente da sua vontade?
- Está mal , mal . . . - suspirava ele , deitado debaixo do co­
bertor. - Mal !
As filhas também não dormiam . Ouviram-se gargalhadas e
gritos , como se alguém perseguisse alguém: era um ataque de
histeria de Génia. Um pouco depois , Iraída também se desfa­
zia em choro . A criada correu várias vezes , descalça, pelo cor­
redor.
- Mas que história, meu Deus . . . - murmurava Rachévitch ,
suspirando e dando voltas na cama . - Isto está mal , mal !
Dormia, e um pesadelo esmagava-o . Sonhou consigo nu , alto
como uma girafa , parado no meio do quarto , espetando o dedo
em frente e dizendo:
- Atirar-lhe ao focinho ! Ao focinho ! Ao focinho !
Acordou sobressaltado e a primeira coisa em que pensou foi
no mal-entendido com Meyer e na certeza de que este nunca
mais o visitaria. Lembrou-se também de que era preciso pagar os
juros ao banco e casar as filhas , e que era preciso comer e beber,
que havia as doenças , que chegara a velhice e as desgraças , que
faltava pouco para o Inverno , que não havia lenha . . .
1 72 Anton Tchékhov

Já passava das nove da manhã . Rachévitch vestiu-se vagaro­


samente , bebeu chá e comeu duas fatias grandes de pão com
manteiga. As filhas não apareceram para tomarem o chá, não
queriam vê-lo , o que o deixava ofendido . Deitou-se no divã do
seu gabinete e deixou-se ficar um pouco , depois sentou-se à me­
sa e começou a escrever uma carta para as filhas . A mão tremia­
-lhe , tinha comichão nos olhos . Escrevia-lhes a dizer que estava
velho , que ninguém precisava dele , que ninguém o amava, que
elas o esquecessem e, quando morresse , o enterrassem num sim­
ples caixão de pinho , sem cerimónias , ou que mandassem os
seus restos mortais para Khárkov, para o anfiteatro de anatomia .
Sentia que cada linha sua ressumava maldade e cabotinice , mas
não conseguia parar e escrevia, escrevia . . .
- Sapo ! - ouviu-se de repente no quarto vizinho; era a voz
da filha mais velha, uma voz indignada e sibilante . - Sapo !
- Sapo ! - repetiu como um eco a mais nova. - Sapo !
O ASSASS ÍNIO

Na estação dos comboios de Progónnaia celebrava-se o ofício


da noite . Diante de um grande ícone , pintado em cores vivas e
com fundo dourado , estava a multidão dos empregados da esta­
ção com as respectivas mulheres e filhos , e também os lenhado­
res e serradores que trabalhavam na linha, perto da estação . To­
dos silenciosos , fascinados pelo brilho das luzes e pelo uivo da
nevasca que , sem mais nem menos , se levantara na rua apesar de
se estar em vésperas da Anunciação . O ofício era celebrado pe­
lo velho padre de Vedeniápino e cantado pelo salmista e por
Matvei Térekhov.
A cara de Matvei irradiava alegria, cantava esticando o pesco­
ço , como se quisesse levantar voo . Cantava em tenor e lia o câ­
none também em tenor, com doçura e convicção . Quando chegou
à «Voz do Arcanjo» , agitava a mão como um regente e, tentando
entrar em sintonia com o baixo senil e abafado do salmista, es­
boçava com o seu tenor qualquer coisa de incrivelmente compli­
cado , e que lhe dava grande prazer, como se via pela cara.
Acabou o ofício , as pessoas dispersaram , voltaram a escuridão
e o vazio , caiu aquele silêncio que existe apenas nas estações
solitárias no meio do campo ou da floresta, quando só se ouve o
1 74 Anton Tchékhov

uivar do vento e mais nada, quando se sente todo o vazio à vol­


ta, toda a angústia da vida a correr lenta.
Matvei vivia perto da estação , na casa de pasto do seu primo .
Mas não lhe apetecia voltar para casa. Sentado ao balcão do bu­
fete , contava a meia-voz ao patrão:
- Na fábrica de azulejos tínhamos o nosso próprio coro . De­
vo dizer-lhe que , apesar de sermos simples operários , cantáva­
mos a sério , magnificamente . Muitas vezes convidavam-nos pa­
ra irmos actuar na cidade , e quando o vigário , o prelado Ioann ,
celebrava o ofício na igreja da Santa Trindade , os coristas do
prelado cantavam no coro direito e nós cantávamos no coro es­
querdo . Mas na cidade queixavam-se de que nós cantávamos
tempo de mais: os da fábrica nunca mais se calam , diziam eles .
É verdade: começávamos o «Cânone de Andrei» e o «Louvor à
Mãe de Deus» às seis da tarde e acabávamos já depois das onze ,
e quando voltávamos a casa, no recinto da fábrica, já passava da
meia-noite . Era bom ! - suspirou Matvei . - Muito bom, Ser­
guei Nikanóritch ! Ora, aqui , em casa dos meus pais , não há ale­
gria nenhuma. A igreja mais próxima é a cinco verstás e não tem
coro , além de que eu , com a minha saúde , não alcançava chegar
lá. Ora, na nossa família não há sossego , é barulho todo o dia,
pragas , porcaria, comemos todos da mesma gamela, como muji­
ques , a sopa tem baratas . . . Deus não me dá saúde , senão há mui­
to que já me tinha ido embora , Serguei Nikanóritch .
Matvei Térekhov ainda não era velho , tinha uns quarenta e
cinco anos , mas a expressão da sua cara cheia de rugas era doen­
tia , e a barbicha rala, transparente já estava branca, o que o en­
velhecia muitos anos . Falava numa voz fraca, cautelosa, e, quan­
do tossia, apertava a mão contra o peito; nesses momentos , o seu
olhar tomava-se inquieto e alarmado , como o dos hipocondría­
cos . Nunca dizia claramente o que lhe doía, mas gostava de con­
tar prolixamente que , uma ocasião , levantara na fábrica uma cai­
xa pesada e forçara a barriga, o que lhe provocara uma hérnia
que o tinha obrigado a largar o trabalho na fábrica de azulejos e
O Assassínio 1 75

a voltar à terra natal . Não conseguia, porém , explicar que «hér­


nia» era essa.
- Confesso que não gosto do meu primo - continuou , en­
chendo um copo de chá. - É mais velho do que eu , é pecado
censurá-lo , e eu sou temente a Deus , mas não aguento . É um ho­
mem arrogante, severo , gosta de praguejar, martiriza a fanu1ia e os
que trabalham para ele, nunca vai à confissão . No domingo passa­
do pedi-lhe com toda a meiguice: «Vamos a Pakhómovo à missa,
meu primo ! » E ele: «Não vou , o pope de lá é jogador de cartas .»
Hoje também não veio aqui , porque o padre de Vedeniápino fuma
e bebe vodca. Não gosta do clero ! Celebra para ele próprio o ofí­
cio da manhã e a liturgia, e o ofício da noite, e é a irmã dele que
lhe serve de salmista. Diz ele: oremos a Deus ! E ela, numa vozinha
fina, como uma perua: Senhor, tende piedade de nós ! . .. Isso é pe­
cado , sem dúvida nenhuma. Todos os dias lhe digo: «Ganhe juízo ,
meu primo ! Arrependa-se , meu primo ! » Mas não me dá atenção .
Serguei Nikanóritch , o dono do bufete , encheu cinco copos de
chá e levou-os na bandeja para a sala das senhoras .
Mal entrou , ouviu-se um grito:
- Como serves o chá , seu focinho de porco? Não sabes ser­
vir em condições !
Era a voz do chefe da estação . Ouviu-se um murmúrio tímido ,
e de novo o grito , brusco e raivoso:
- Fora daqui !
O homem voltou muito confuso .
- Noutros tempos servia condes e príncipes e agradava -
disse baixinho - , mas agora , vejam só , não sei servir o chá . . .
Descompôs-me na presença do padre e das senhoras !
Serguei Nikanóritch já tivera em tempos muito dinheiro e geriu
o bufete de uma estação de primeira, num centro provincial onde
se cruzavam duas linhas . Naquela altura vestia casaca e tinha um
relógio de ouro . Mas o negócio descambou , gastou o dinheiro to­
do numa baixela de luxo , a criadagem roubava-o; a pouco e pou­
co entrou nesta confusão e acabou por se mudar para outra estação,
1 76 Anton Tchékhov

menos movimentada; então , a mulher abandonou-o , levando com


ela toda a baixela de prata, e Serguei Nikanóritch passou para uma
terceira estação , pior, onde já não se serviam pratos quentes . De­
pois para uma quarta. Sem deixar de se mudar e descendo cada vez
mais , veio parar finalmente a Progónnaia, onde apenas vendia chá,
vodca barata e , como acompanhamento , ovos cozidos e chouriço
duro que cheirava a resina e a que ele próprio chamava, por gozo ,
o «dos músicos» . A careca abrangia-lhe todo o cocuruto , tinha uns
olhos azuis esbugalhados e umas suíças espessas e felpudas que
penteava muitas vezes olhando para um pequeno espelho . As re­
cordações do passado atormentavam-no constantemente , não ha­
via meio de se habituar ao «chouriço dos músicos» , à grosseria do
chefe da estação e dos mujiques que regateavam, sendo que , na sua
opinião , regatear no bufete era tão inconveniente como regatear na
farmácia. Envergonhava-se da sua pobreza e da sua humilhação , e
esta vergonha constituía agora o principal conteúdo da sua vida.
- Este ano , a Primavera está atrasada - disse Matvei , escu­
tando o vento . - Ainda bem , não gosto da Primavera. Na Pri­
mavera há muita sujidade , Serguei Nikanóritch . Os livros dizem:
Primavera, cantam os passarinhos , o pôr do Sol . . . Mas que gra­
ça tem isso? Pássaro é pássaro , mais nada. Gosto da boa compa­
nhia, de ouvir conversas , de falar de lerigião ou cantar em coro
alguma coisa agradável , mas desses rouxinóis e dessas flori­
nhas . . . não quero saber !
Voltou a falar da fábrica de azulejos , do coro , mas não havia
meio de o ofendido Serguei Nikanóritch se acalmar, encolhia os
ombros , murmurava qualquer coisa. Matvei despediu-se e foi
para casa.
O frio já não era invernal , a neve já derretia nos telhados , mas
ainda caíam flocos de neve graúdos que rodopiavam rapidamente
no ar, e as nuvens brancas que formavam perseguiam-se pela li­
nha do caminho-de-ferro . O carvalhal , de ambos os lados da linha,
mal alumiado pela Lua escondida algures atrás das nuvens , fazia
um ruído severo , arrastado . Quando uma tempestade forte abana
O Assassínio 177

as árvores , que medonhas elas são ! Matvei ia pela estrada ao lado


da via-férrea, protegendo a cara e as mãos , com o vento a
empurrá-lo pelas costas . De repente surgiu-lhe à frente um cavali­
nho coberto de neve puxando um trenó que raspava as pedras nuas
da estrada, governado por um mujique também todo branco com
a cabeça agasalhada, que fazia estalar o chicote . Matvei olhou mas
já não havia trenó nem mujique , como se fosse uma alucinação , e
estugou o passo , assustado de repente sem saber com quê .
A passagem de nível e a casinha escura do guarda. A cancela
está levantada e aos lados acumulam-se montões de neve , enor­
mes , as nuvens de flocos giram como bruxas no seu sabat . Aqui ,
a linha é atravessada pela velha estrada, outrora muito impor­
tante e ainda hoje chamada estrada real . À direita, perto da pas­
sagem, à beira da estrada, é a casa de pasto de Térekhov, antiga
estalagem . Aqui , à noite , cintila sempre uma luzinha .
Quando Matvei entrou em casa, pairava em todas as salas , e
mesmo no átrio , um cheiro forte a incenso . O primo lák:ov Ivá­
nitch ainda não acabara de celebrar o seu ofício noctumo . No ora­
tório , onde o fazia, havia, no canto da frente , um armário de íco­
nes antigos herdados dos avó s , com caixilhos dourados , e ambas
as paredes , à direita e à esquerda, estavam cheias de ícones de
pintura nova e antiga, em vitrinas e sem vitrinas . Em cima da me­
sa, coberta até ao chão com uma toalha, estava o ícone da Anun­
ciação , e ao lado uma cruz de cipreste e um incensório; ardiam
velas de cera. Junto à mesa estava o facistol . Passando ao lado do
oratório , Matvei parou e espreitou pela porta . lák:ov Ivánitch es­
tava a ler em frente do facistol ; rezava com ele a sua irmã Aglaia,
uma velha alta e magra de vestido azul e lencinho branco . Tam­
bém lá estava a filha de lák:ov Ivánitch , Dachutka, rapariga sem
graça, de dezoito anos , cheia de sardas , descalça como de costu­
me e usando o mesmo vestido com que , ao princípio da noite , da­
va de beber ao gado .
- Glória a Vós que nos mostrastes a luz ! - proclamou lák:ov
Ivánitch em voz cantada e fez uma reverência profunda.
178 Anton Tchékhov

Aglaia apoiou o queixo na mão e começou a cantar em voz fi­


na, esganiçada e lânguida. Em cima, sobre o tecto , também soa­
vam vozes indefinidas que pareciam ameaçar ou profetizar uma
desgraça. No segundo piso não vivia ninguém depois de um in­
cêndio muito antigo , as janelas estavam entaipadas com ripas , e no
chão , no meio das traves , estavam abandonadas garrafas vazias .
Agora, ali , batia e uivava o vento , e parecia que alguém lá corria,
tropeçando nas traves .
Metade do andar de baixo era ocupado pela casa de pasto , na
outra metade arrumava-se a farru1ia de Térekhov, por isso , quan­
do na casa de pasto os viajantes bêbedos armavam barulho , ouvia­
-se tudo até à última palavra. Matvei dormia ao lado da cozinha,
num quarto com um grande fogão que , antigamente , quando isto
ainda era uma estalagem, servia também de forno onde se cozia o
pão todos os dias . No mesmo quarto , por trás do fogão , dormia
Dachutka, que não tinha o seu próprio quarto . Aqui , de noite , can­
tava sempre o grilo e azafamavam-se os ratos .
Matvei acendeu a vela e começou a ler um livro que lhe em­
prestara o polícia da estação . Enquanto lia, a oração acabou e to­
dos foram para a cama. Dachutka também se deitou . Adormeceu
de imediato , mas um pouco depois acordou e disse , bocejando:
- Tio Matvei , não gastes a vela inutilmente .
- A vela é minha - respondeu Matvei . - Comprei-a com o
meu dinheiro .
Dachutka mexeu-se um pouco na cama e voltou a adormecer.
Matvei ainda ficou muito tempo a ler - não tinha sono - e , fin­
da a última página, tirou o lápis do baú e escreveu no livro:
«Este livro foi lido por mim , Matvei Térekhov, e acho que , de
todos os livros que já li , é o melhor, pelo que mostro a minha
gratidão a Kuzmá Nikoláev Júkov, oficial subalterno da gendar­
maria dos caminhos-de-ferro , como proprietário deste livro de
incalculável valor.» Achava um dever de boa educação fazer se­
melhantes autógrafos nos livros dos outros .
O Assassínio 1 79

No dia da Anunciação , depois da partida do comboio-correio ,


Matvei estava sentado no bufete , tomando chá com limão e pe­
rorando .
Eram seus ouvintes o dono do bufete e o polícia Júkov.
- Deve dizer-se - contava Matvei - que eu já na idade in­
fantil era um abnegado pela lerigião . Tinha apenas doze aninhos
mas já lia os «Apóstolos» na igreja, e os meus pais estavam muito
contentes comigo . Todos os Verões , eu e a mãezinha íamos pere­
grinar aos lugares santos. Os outros miúdos cantavam cantigas ou
apanhavam lagostins , mas eu não saía de ao pé da mãezinha.
Os adultos louvavam-me , e para mim também era agradável ter es­
te bom comportamento . Ora, quando pedi a bênção à mãezinha e
fui trabalhar para a fábrica, nas horas vagas cantava lá no coro ,
como tenor, e para mim não havia maior prazer. É evidente que não
bebia vodca, não fumava, observava o asseio corporal , mas
este modo de vida, como se sabe , não agrada ao inimigo do géne­
ro humano, por isso ele quis levar-me à perdição e começou a

obscurecer-me a mente , tal qual como agora ao meu primo . No iní­


cio , fiz a promessa de não comer alimento dos dias gordos à
segunda-feira e de não comer carne todos os outros dias ; e no ge­
ral , com a passagem do tempo , apoderou-se de mim uma grande
fantasia. Na primeira semana da Quaresma, até ao sábado , os pa­
dres santos impõem abstinência rigorosa, só pode comer-se pão ,
mas os trabalhadores e os fracos podem, sem por isso pecarem , to­
mar o seu chazinho; ora eu , todos os dias e mesmo ao domingo ,
nem uma migalha metia na boca, e depois , durante toda a Quares­
ma, não me permitia qualquer óleo , e às quartas e sextas-feiras não
comia nadinha. A mesma coisa nos períodos de abstinência meno­
res . À s vezes , na abstinência antes do São Pedro , os nossos operá­
rios comiam sopa de lúcio-perca, mas eu afastava-me e chupava
um pãozinho seco . Cada qual tem uma resistência diferente , mas ,
quanto a mim, só vos digo: nos dias magros não me custava nada,
1 80 Anton Tchékhov

e quanto mais cumpria com rigor menos me custava. Só tinha fo­


me nos primeiros dias da abstinência, depois habituava-me, toma­
va-se tudo cada vez mais fácil e, lá para o fim da semana, já não
me apetecia nada, e sentia as pernas tão bambas como se não pi­
sasse a terra mas estivesse numa nuvem. Além disso , impunha-me
vários sacrifícios: levantava-me de noite para fazer as reverências ,
carregava com pedras pesadas de um sítio para outro, saía descal­
ço para a neve , e usava cilícios , é claro . Algum tempo mais tarde ,
estava a confessar-me a um padre e , de repente, veio-me à cabeça
uma ideia: este padre , pensei eu , é casado , come alimentos dos dias
gordos , é fumador; como é que, então , ele pode ser meu confessor
e que direito tem para me perdoar os pecados se é maior pecador
do que eu . Eu evito , inclusive , o óleo vegetal , mas ele, é de supor,
até come esturjão . Fui ter com outro padre mas , nem de propósito ,
era gordo , de sotaina de seda que roçagava como um vestido de se­
nhora, e cheirava a tabaco . Fui preparar a minha comunhão para o
mosteiro , mas também ali o meu coração não sossegou , parecendo­
-me sempre que os monges não viviam pela regra. Depois disso
nunca mais encontrei um ofício divino que me agradasse: numa
igreja despacham-no demasiado depressa, noutra, vejam só , can­
tam o hino à Mãe de Deus errado, na terceira, o salmista é fanho­
so . . . À s vezes , Deus me perdoe que sou um pecador, estou na igre­
ja mas o coração treme-me de ira. Assim, de que reza se pode
tratar? E parece-me que o povo na igreja se benze de maneira
errada, e ouve como não é devido; olhe eu para quem olhar, são to­
dos bêbedos , comedores de carne , fumadores , libertinos , jogado­
res , sendo eu o único que , pela minha vida, cumpro os manda­
mentos . O Diabo manhoso não dormia, ia tudo de mal a pior,
deixei de cantar no coro , nunca mais fui à igreja; comecei a pensar
de mim próprio que era um justo , e que a igreja, pela sua imper­
feição , não me servia; ou seja, à semelhança do anjo caído, come­
cei a ter um orgulho incrível em mim. Depois , a minha preocupa­
ção era fundar a minha própria igreja. Tomei de aluguer um
pequeno quarto fora de portas , a uma mulherzinha surda; era jun-
O Assassínio 181

to do cemitério, e fiz lá um oratório como aquele do meu primo , só


que tinha castiçais e um tunbulo verdadeiro . No meu oratório eu
cumpria a regra do Santo Monte de Atos , ou seja, o ofício matinal
começava à meia-noite , e, nas vésperas das festas mais importan­
tes , o ofício noctumo celebrava-se durante dez e , às vezes , doze
horas . Os monges , pela regra, durante a leitura dos salmos e das
epístolas estão sentados , mas eu queria ser mais justo do que os
monges e mantinha-me sempre de pé . Lia e falava num tom arras­
tado, com lágrimas e suspiros , erguendo as mãos , e logo depois da
oração , sem dormir, ia trabalhar, e também rezava sem parar en­
quanto trabalhava. Passou então um rumor pela cidade: Matvei é
santo , Matvei cura doentes e loucos . Não curava ninguém, eviden­
temente , mas já se sabe que, ao mais pequeno cisma ou heresia, as
mulheres acorrem em chusma. Como moscas ao mel . Começaram
a aparecer velhas e solteironas que se rojavam aos meus pés , que
me beijavam as mãos e gritavam que eu era santo e essas coisas ,
houve até uma que viu uma auréola na minha cabeça. O meu ora­
tório ficou pequeno de mais , tomei de aluguer uma sala maior, e
começou uma grande confusão , uma torre de Babel , o Diabo to­
mou conta de mim em definitivo e tapou-me a luz com os seus cas­
cos malditos . Era como se toda a gente tivesse ficado desvairada.
Eu lia e as velhas e as solteironas cantavam; ora, quando as pessoas
não comem nem bebem durante muito tempo e estão de pé um dia
e uma noite, ou mais ainda, começam a ficar com um tremor, co­
mo se tivessem as sezões, e, no meio dos cânticos , havia uma que
gritava, havia outra . . . Era assustador! Eu próprio também tiritava
como o judeu na frigideira do inferno, sem saber por que me acon­
tecia aquilo , e os nossos pés punham-se a saltar automaticamente .
Credo, que esquisito: saltávamos e abanávamos as mãos sem o
querermos; e depois eram os gritos , os guinchos , dançávamos e
corríamos uns atrás dos outros, até cairmos extenuados . Foi assim
que eu perdi o juízo , me asselvajei e caí no pecado .
O gendarme riu-se mas , vendo que mais ninguém se ria, ficou
sério e disse:
1 82 Anton Tchékhov

- É a heresia dos molokanes I 2 . Já li qualquer coisa sobre is­


so, no Cáucaso há muito disso.
- Mas não fui atingido pelo raio celeste - continuou Mat­
vei , benzendo-se em frente do ícone , mexendo os lábios . -
Acho que a minha mãezinha rezava por mim no outro mundo .
Quando na cidade já toda a gente me considerava um santo ,
quando as senhoras e os senhores fidalgos já começavam a
visitar-me em busca de consolação , fui a casa do nosso patrão ,
Ó ssip Varlámitch, para pedir perdão (era o domingo anterior à
Quaresma , dia de perdões) , ele aferrolhou a porta e ficámos a
sós . E começou a admoestar-me . Ora, deve dizer-se que Ó ssip
Varlámitch não tinha educação mas era um homem de grande in­
teligência, e toda a gente o respeitava e temia, porque levava
uma vida rigorosa e justa e era grande trabalhador. Burgomestre
há cerca de vinte anos , fez muitas obras boas : cobriu de casca­
lho toda a Rua Novo-Moskóvskaia, pintou a catedral e fez as
imitações de malaquite nas colunas . Então , fechou a porta e . . .
«Há muito - diz ele - que eu te quero dar uma boa ensinade­
la, malandro . . . Achas tu que és santo? Não és santo nenhum , és
um renegado de Deus , um herege , um celerado ! . . . » Falou , falou ,
muito severamente . Não posso contar-lhes tudo o que ele me dis­
se , mas falou bem e com sabedoria, como um livro , e de forma
esclarecedora . Falou duas horas . Impressionou-me com as suas
palavras , os meus olhos abriram-se . Eu ouvia, ouvia e, de repen­
te , desatei a chorar ! E disse-me ele : «Sê um homem normal , co­
me e bebe , veste-te e reza como toda a gente , porque o que está
para além do normal provém do Diabo . Os teus cilícios são do
Diabo , os teus jejuns são do Diabo , o teu oratório é do Diabo ; tu­
do isso é pecado de orgulho .» No dia seguinte , primeiro dia da
Quaresma, adoeci por vontade de Deus. Rebentou-me a barriga,

12 Um molokan é membro de uma seita religiosa cujo nome provém da palavra


molokó (leite) , porque os membros desta seita , rejeitando qualquer derramamento
de sangue , não consumiam carne , apenas bebiam leite . (N. T.)
O Assassínio 1 83

levaram-me para o hospital ; sofria muito e chorava amargamen­


te , e tremia muito . Pensava que do hospital ia directamente para
o inferno , e por pouco não morri . Fiquei acamado cerca de meio
ano e, quando tive alta, a primeira coisa que fiz foi comungar,
como é devido , e voltei a ser uma pessoa normal . Fui despedir­
-me de Ó ssip Varlámitch e ele disse-me: «Não te esqueças , Mat­
vei , tudo o que é para além do normal provém do Diabo .» E ago­
ra como e bebo como toda a gente . . . Agora , quando acontece
que o padre cheira a tabaco ou a vinho , não me atrevo a censu­
rar, porque um padre também é um homem . Ora , quando dizem
que na cidade ou na aldeia apareceu um santo , que não come há
semanas e estabeleceu as suas próprias regras , sei de imediato de
quem isso é obra. Pois , esta foi uma história que aconteceu na
minha vida. Agora também eu , como Ó ssip Varlámitch , faço ser­
mões aos meus primos e admoesto-os , mas é como quem clama
no deserto . Deus não me deu o dom da persuasão .
O relato de Matvei parece não ter causado qualquer impres­
são . Serguei Nikanóritch não disse nada e começou a guardar a
comida que estava em cima do balcão ; o gendarme começou a
falar do primo de Matvei , lákov Ivánitch , dizendo que era mui­
to rico .
- Tem trinta mil rublos , não menos - disse ele .
O gendarme Júkov, ruivo , de cara gorda (quando andava
tremiam-lhe as bochechas) , sadio , enfartado , quando os seus
chefes não estavam por perto , tinha o hábito de se sentar, refes­
telado , com a perna cruzada; quando falava, baloiçava-se , asso­
biava com indiferença, e nesses momentos tinha uma expressão
presunçosa, farta, como se tivesse acabado de almoçar muito
bem . Não lhe faltava dinheiro , e falava dele com ar de grande co­
nhecedor. Fazia de comissionista e quando alguém precisava de
vender uma herdade , um cavalo ou uma carruagem usada
dirigia-se a Júkov.
- Sim , acho que não serão menos de trinta mil - concordou
Serguei Nikanóritch . - O vosso avô tinha uma fortuna enorme
1 84 Anton Tchékhov

- disse , dirigindo-se a Matvei . - Enorme ! Ficou tudo para o


seu pai e para o seu tio . O seu pai morreu ainda novo , o tio
apoderou-se de tudo e , a seguir, passou para o lákov Ivánitch .
Enquanto você andava com a mãezinha nas peregrinações e can­
tava em tenor na fábrica, eles aqui não perdiam a oportunidade .
- A sua parte é de quinze mil , mais ou menos - disse o gen­
darme , baloiçando-se . - A casa de pasto é dos dois , portanto , o
capital também . Pois . No seu lugar, eu já tinha ido há muito ao
tribunal . Por um lado ia ao tribunal , mas para já esmurrava-o
bem esmurrado até sangrar . . .
Ninguém gostava de Iákov lvánitch porque , quando alguém
pratica a religião de maneira diferente dos outros , isso choca de­
sagradavelmente mesmo as pessoas indiferentes à fé . Quanto ao
gendarme , não gostava dele porque Iákov Ivánitch também se
encarregava de vendas de cavalos e de carruagens usadas .
- Não quer entrar em litígio com o seu primo porque você
mesmo tem muito dinheiro - disse o dono do bufete a Matvei ,
com uma ponta de inveja. -
É fácil para quem tem recursos , eu
é que continuarei nesta situação até morrer.
Matvei contrapôs que não tinha dinheiro nenhum , mas Ser­
guei Nikanóritch já não o ouvia; acometiam-no as recordações
do passado , das ofensas que suportara todos os dias ; a sua cabe­
ça calva cobriu-se de suor, ficou vermelho , pestanej ava.
- Vida maldita ! - disse com irritação e atirou o chouriço pa­
ra o chão .

Contava-se que a estalagem fora construída ainda nos tempos


de Alexandre 1, por uma viúva que se instalou aqui com o filho;
chama-se Avdória Térekhova. A quem passava à beira da estala­
gem nos cavalos da posta, sobretudo nas noites de luar, o quintal
escuro com alpendre e o portão sempre fechado despertavam uma
O Assassínio 1 85

sensação de tédio e de incompreensível inquietude , como se na


casa vivessem bruxos e bandidos; e de cada vez , tendo ultrapas­
sado o sítio , o postilhão olhava para trás e apressava os cavalos .
As pessoas não gostavam de se hospedar aqui porque os estalaja­
deiros eram antipáticos e levavam preços muito altos aos viajan­
tes ; o terreiro era um chiqueiro mesmo no Verão , espojavam-se
aqui porcos gordos e cavalos à solta com que os Térekhov faziam
negócio , e , muitas vezes, os cavalos fugiam do terreiro e galopa­
vam enlouquecidos pela estrada, assustando as peregrinas . Na­
queles tempos a estrada era muito movimentada: passavam lon­
gas filas de carroças com mercadoria e aconteciam incidentes
vários , como , por exemplo , cerca de trinta anos atrás , quando uns
carroceiros , enraivecidos , armaram uma briga e mataram um co­
merciante em viagem a meia verstá da estalagem , onde ainda ho­
je está uma cruz torta; passavam troicas da posta com sinetas e as
pesadas dormeuses 1 3 senhoriais , passavam manadas de gado bo­
vino aos mugidos , envoltas em nuvens de poeira.
Quando construíram o caminho-de-ferro , a princípio só havia
no lugar um apeadeiro a que chamavam simplesmente «O des­
vio» , mas dez anos depois construíram a estação actual , Progón­
naia. O movimento pela velha estrada da posta quase cessou ,
sendo frequentada apenas pelos donos de terras locais e pelos
mujiques , e também , na Primavera e no Outono , por chusmas de
operários . A estalagem transformou-se numa casa de pasto; o an­
dar de cima sofreu um incêndio , o telhado ficou amarelo de fer­
rugem , o alpendre, aos poucos , acabou por ruir, mas no terreiro ,
no meio da lama, ainda refocilavam os porcos , gigantescos , gor­
dos , cor-de-rosa, abomináveis . Como antes , os cavalos fugiam
de vez em quando do terreiro e galopavam como doidos pela es­
trada, com as caudas levantadas . Na casa de pasto fazia-se co­
mércio de chá, feno , farinha, e também de vodca e cerveja ao co-

1 3 Dormeuse é uma espécie de sege de viagem em que o viajante podia estender­


-se ao comprido e dormir. (N. T.)
1 86 Anton Tchékhov

po e para levar; as bebidas alcoólicas eram vendidas com certo


cuidado porque os donos nunca tiveram alvará para isso .
Os Térekhov, em geral , sempre foram muito religiosos , che­
gando mesmo a ser alcunhados de «OS Bogomólov l4 » . Entretan­
to , talvez porque sempre viveram isolados como ursos , evitavam
as pessoas e chegavam à compreensão de tudo pela própria cabe­
ça, propensos por isso às fantasias e à instabilidade na fé , e qua­
se cada nova geração tinha a sua maneira particular de crer em
Deus . A avó Avdótia, a que construiu a estalagem, pertencia à ve­
lha crença ortodoxa; o seu filho e ambos os netos (pais de Matvei
e de lákov) frequentavam a igreja ortodoxa oficial , recebiam em
casa o clero e rezavam em frente de ícones novos com a mesma
veneração dos antigos; o filho de Avdótia não comia carne na ve­
lhice e impôs a si mesmo o voto de silêncio , considerando peca­
minosa toda e qualquer conversa; os netos tinham a particulari­
dade de não compreenderem as Escrituras de maneira simples e
directa, procurando nelas um sentido oculto , afirmando que em
cada palavra sagrada tinha de residir um mistério . O bisneto de
Avdótia, Matvei , desde a infância que lutava com fantasias e por
pouco não caiu na perdição; o outro bisneto , lákov Ivánitch , era
cristão ortodoxo mas , depois da morte da mulher, deixou brusca­
mente de ir à igreja e rezava em casa. Vendo aquilo , também a sua
irmã Aglaia se entregou à tentação: não ia à igreja nem deixava
que Dachutka lá fosse . Sobre Aglaia contava-se ainda que , quan­
do era jovem, tinha ido a Vedeniápino juntar-se aos khlisti l5 e
que , secretamente , continuava a pertencer a esta seita e que seria
por isso que andava de lencinho branco .
lákov Ivánitch era dez anos mais velho d o que Matvei . Era um
velho muito bonito , de grande estatura, com uma barba larga,
branca, que lhe chegava quase à cintura, e com um sobrolho es-

14 Bogomólov: o que reza a Deus . (N. T.)


15 Uma das seitas que surgiu na Rússia no século xvn; os seus membros achavam
possível o contacto directo com o «espírito santo» e a encarnação de Deus num dos
sectários . (N. T.)
O Assassínio 1 87

pesso que lhe dava à cara uma expressão severa, quase maldosa.
Usava uma poddiovka I 6 comprida de boa fazenda, ou uma peli­
ça curta e preta; no geral , vestia-se com decoro e asseio ; calçava
galochas mesmo no tempo seco . Não ia à igreja porque , na sua
opinião , na igreja não se cumpria a regra a rigor e porque os pa­
dres bebiam vinho nas épocas proibidas e fumavam . Em sua ca­
sa, lia as orações e cantava, todos os dias , com Aglaia . Em Ve­
deniápino , no ofício matinal não liam o cânone e o ofício
noctumo nunca era celebrado , mesmo nas grandes festas ; ora , em
sua casa, lia tudo o que estava prescrito para cada dia, sem pres­
sas e sem saltar uma linha, e nos tempos livres lia em voz alta as
crónicas dos santos . Na vida quotidiana cumpria a regra rigoro­
samente; assim, quando durante a Quaresma era permitido beber
vinho em certos dias , «em prol do trabalho zeloso» , bebia vinho
sem falta, mesmo que não lhe apetecesse .
Lia, cantava, queimava incenso e cumpria as abstinências , não
o fazendo para obter quaisquer graças de Deus , mas para cumprir
a regra. O homem não pode viver sem fé , e a fé tem de se mani­
festar com correcção , ano após ano , dia após dia, numa ordem
determinada, devendo o homem dirigir-se a Deus todas as ma­
nhãs e todas as noites com as palavras e os pensamentos exactos
convenientes para cada dia e para cada hora. É necessário viver
da forma que Deus exige e, por consequência, rezar também da
mesma forma, por isso deve ler-se e cantar-se no dia-a-dia ape­
nas o que Deus exige , o que , pela regra, é devido a Deus; assim,
o primeiro capítulo de São João lê-se apenas no dia de Páscoa, e
da Páscoa até à Ascensão não se pode cantar o « É Digno . . . » , etc .
A consciência desta ordem e da sua importância dava a lákov
lvánitch um grande prazer durante a oração . Quando , por neces­
sidade , se via obrigado a violar esta ordem, por exemplo , quan­
do ia à cidade buscar mercadoria ou tinha de passar pelo banco ,
tinha remorsos e sentia-se infeliz .

1 6 Casaco comprido de homem , com cintura pregueada. (N. T.)


1 88 Anton Tchékhov

O primo Matvei que , inesperadamente , saíra da fábrica e vie­


ra instalar-se na casa de pasto como em sua própria casa, come­
çou desde os primeiros dias a violar a ordem. Não queria rezar
com eles , comia e tomava chá fora de horas , levantava-se tarde ,
às quartas e às sextas-feiras bebia leite , supostamente por ser fra­
co de saúde; quase todos os dias , durante a oração , entrava no
oratório e gritava: «Ganhe juízo , meu primo ! Arrependa-se , meu
primo ! » Com estas palavras , subia o calor à cara de Iákov lvá­
nitch , e Aglaia não se continha e começava a praguejar. Ou en­
tão , de noite , Matvei entrava no oratório , pé ante pé , e dizia bai­
xinho: «Meu primo , a sua reza não agrada a Deus . Porque foi
dito: vai reconciliar-te primeiro com o teu irmão , e, depois, vem
e apresenta a tua oferta 17 Ora, o primo empresta o dinheiro a ju­
ros , vende vodca. Arrependa-se ! »
Nas palavras de Matvei , lákov via tão-só a habitual desculpa
dos inúteis e negligentes , que falam do amor pelo próximo , da
reconciliação com o irmão , etc . , apenas para não rezarem , não
jejuarem e não lerem os livros sagrados , e que se referem com
desprezo ao lucro e aos juros porque , simplesmente , não gostam
de trabalhar. Porque ser pobre , não juntar dinheiro e não poupar
nada é muito mais fácil do que ser rico .
Mesmo assim , andava enervado e já não podia rezar como
dantes . Mal entrava no oratório e abria o livro , ficava com medo
de que entrasse o primo e o interrompesse ; efectivamente , Mat­
vei não tardava a aparecer e a gritar, com a voz tremente: «Ga­
nhe juízo , meu primo ! Arrependa-se , meu primo ! » A irmã pra­
guejava, Iákov lvánitch também perdia as estribeiras e berrava:
«Fora da minha casa ! » E o outro: «A casa é de nós os dois .»
Iákov recomeçava a ler e a cantar, mas já não conseguia
acalmar-se e, sem dar por isso , entrava em reflexões e distraía-se
da leitura. Embora considerasse disparates as palavras do primo ,
qualquer coisa o levava a lembrar-se , também a ele , de que era

1 7 Mateus , 5 : 24 . (N. T.)


O Assassínio 1 89

difícil para o rico entrar no reino dos céus , de que comprara a


preço muito vantajoso , havia dois anos , um cavalo roubado , e de
que , ainda a sua mulher era viva, um bêbedo morrera por causa
da vodca que bebera na sua casa de pasto . . .
Agora dormia mal de noite , com um sono inquieto , e dava
conta de que Matvei também não dormia e suspirava, com sau­
dades da fábrica de azulejos . E de noite , enquanto se virava de
um lado para o outro na cama, lákov recordava o cavalo rouba­
do e o bêbedo , e as palavras evangélicas sobre o camelo e a agu­
lha .
Por todos os indícios , recomeçavam a apoderar-se dele as fan­
tasias . E , nem de propósito , apesar de se estar já no fim de Mar­
ço , todos os dias nevava e os barulhos da floresta eram os de In­
verno , não se vendo que algum dia pudesse chegar a Primavera.
O tempo predispunha ao tédio , às zangas , ao ódio , e , de noite ,
quando o vento uivava sobre o tecto , parecia que alguém mora­
va lá em cima, no andar vazio , e as fantasias iam atulhando a
mente a pouco e pouco , a cabeça ardia, o sono fugia.

De manhã, na segunda-feira da Semana Santa, Matvei estava


no seu quarto e ouviu Dachutka dizer a Aglaia:
- O tio Matvei disse há pouco que não é preciso cumprir o
jejum.
Matvei recordou a conversa que tivera na véspera com Da­
chutka e ficou ressentido .
- Rapariga, não mintas ! - disse em voz gemida , como um
enfermo . - Sem jejum não pode ser, o próprio Deus Nosso Se­
nhor jejuou quarenta dias . Eu apenas te expliquei que , para uma
má pessoa, nem a abstinência dá proveito .
- Ouve , ouve esses da fábrica, eles vão ensinar-te coisas boas
- disse Aglaia com ironia enquanto lavava o chão (nos dias de se-
1 90 Anton Tchékhov

mana costumava lavar o chão e, ao fazê-lo , zangava-se com toda


a gente) . - Já sabemos que jejum eles cumprem lá na fábrica. Vai ,
pergunta-lhe , pergunta ao teu tio sobre o «amorzinho» , pergunta­
-lhe como , na companhia dela, dessa víbora, ele enchia a barriga
de leite nos dias magros . Quer ensinar os outros mas esquece-se
da sua víbora. Pergunta-lhe: a quem deixou o dinheiro , a quem?
Matvei escondia de todos, com grandes cautelas , como uma
chaga repugnante , o facto de que naquele mesmo período da sua
vida em que , durante as orações , saltavam e corriam com ele as
velhas e as raparigas novas , teve um caso com uma mulher e te­
ve um filho dela. Quando se veio embora , entregou-lhe tudo o
que conseguira juntar enquanto trabalhou na fábrica , pedindo ao
patrão apenas algum dinheiro para a viagem , pelo que agora só
tinha uns rublos que gastava em chá e velas . O «amorzinho»
informou-o depois de que a criança morrera e perguntava na car­
ta o que deveria fazer com o dinheiro . A carta foi trazida da es­
tação por um dos moços , Aglaia interceptou-a, leu-a e, desde en­
tão , todos os dias exprobrava Matvei com o «amorzinho» .
- Novecentos rublos , isso não é brincadeira ! - continuou
Aglaia. - Deu novecentos rublos à víbora alheia, à cabra da fá­
brica, raios o partam ! - Já se exaltava e guinchava. - Tu calas­
-te? Partia-te a cara, frangalho indecente ! Novecentos rublos
certinhos ! Dava-los à Dachutka , sempre é da família , não é uma
estranha, ou então mandava-los a Beliov, para os órfãos desgra­
çados da Maria ! E não se engasgou , a tua víbora, maldita seja,
anátema , diaba, que nunca mais veja a luz do dia !
Iákov lvánitch chamou-a, já eram horas de começar o ofício .
Ela lavou a cara , pôs o lencinho branco e foi para o oratório do
seu irmão bem-amado já serena , modesta. Quando falava com
Matvei ou servia chá aos mujiques na casa de pasto , tinha o as­
pecto de uma velha magricela de olhos aguçados , maldosa; ora,
no oratório , a cara dela era pura , terna, como que rejuvenescia,
tinha uns modos amaneirados de dobrar os joelhos , punha até os
lábios em forma de coração .
O Assassínio 191

lákov Ivánitch começou a ler baixinho e tristemente , como lia


sempre durante a Quaresma. Depois de ler um pouco , parou para
escutar o sossego que reinava em toda a casa, depois recomeçou a
leitura, sentindo muito prazer; juntava as mãos , revirava os olhos ,
meneava a cabeça, suspirava. De repente , ouviram-se vozes . Eram
o gendarme e Serguei Nikanóritch que vinham visitar Matvei . Iá­
kov Ivánitch envergonhava-se de ler em voz alta e de cantar quan­
do estavam estranhos em casa, pelo que passou a ler num sussur­
ro lento . No oratório ouvia-se a voz do dono do bufete a dizer:
- Um tártaro de Chépovo trespassa o seu negócio por três mil
rublos . Pode-se dar-lhe agora quinhentos de entrada e o resto em
letras . Então , Matvei Vassílitch , faça-me o grande favor de me
emprestar esses quinhentos rublos . Pago-lhe dois por cento de
juros ao mês .
- Onde é que eu tenho o dinheiro? - espantou-se Matvei . -
Que dinheiro?
- Dois por cento mensais são , para si , uma dádiva do céu -
explicou o gendarme . - Ora , se o dinheiro estiver parado nas
suas mãos , só serve para ser roído pelas traças , e mais nada.
Depois de os visitantes terem saído , caiu o silêncio . Porém,
mal lákov Ivánitch recomeçou a ler em voz alta e a cantar,
ouviu-se a voz atrás da porta:
- Meu primo , dê-me um cavalo para eu ir a Vedeniápino !
Era Matvei . E de novo a alma de Iákov se inquietou .
- Mas em que cavalo poderia ir? - perguntou depois de
pensar um pouco . - No baio , o moço levou um porco , no potro
tenho eu de ir a Chutéikino logo que acabe a oração .
- Meu primo , porque é que você pode pôr e dispor dos ca­
valos e eu não? - perguntou Matvei com irritação .
- Porque não vou passear, mas tratar do negócio .
- A propriedade é nossa, comum , por isso os cavalos também
são comuns , e o primo tem de compreender isso .
Caiu de novo o silêncio . lákov não rezava, esperava que Mat­
vei se afastasse da porta.
1 92 Anton Tchékhov

- Meu primo - dizia Matvei - , sou um homem doente , não


quero a propriedade , fique você com ela, mas dê-me pelo menos
uma pequena parte para me alimentar pois sou um doente . Dê­
-ma , e eu vou-me embora.
lákov calava-se . Queria muito desfazer-se de Matvei , mas não
podia dar-lhe dinheiro porque todo o dinheiro era necessário pa­
ra os negócios; além disso , nunca na família Térekhov houve
exemplo de partilha entre irmãos: repartir significa a ruína.
lákov calava-se e esperava que Matvei saísse , sempre a olhar
para a irmã com medo de que ela se intrometesse e recomeçasse
com as pragas , como de manhã. Quando , finalmente , Matvei se
foi embora, lákov continuou a ler, mas a leitura já não lhe dava
prazer, as reverências tomavam-lhe a cabeça pesada e turvavam­
-lhe os olhos , era aborrecido para ele próprio ouvir a sua voz bai­
xinha e tristonha. Quando este desânimo o atingia de noite , Iá­
kov explicava-o com a insónia, mas de dia isso assustava-o e
começava a magicar que se sentavam demónios na sua cabeça
e nos seus ombros.
Acabou a grande custo a oração , descontente e irritado , e foi
a Chutéikino . Os operários tinham andado a cavar uma trinchei­
ra de demarcação junto à estação , já no Outono , e comiam na ca­
sa de pasto por dezoito rublos ; agora era necessário apanhar o
empreiteiro em Chutéikino e cobrar-lhe finalmente esse dinhei­
ro . Com o calor e os nevões , o caminho tinha piorado: ficou es­
curo , acidentado , com buracos de onde em onde; de ambos os la­
dos , o nível da neve ficou abaixo da estrada, pelo que se andava
como por um aterro estreito e, quando vinha trânsito no sentido
contrário , era muito difícil desviar-se . O céu estava sombrio des­
de manhã, soprava um vento húmido . . .
No sentido contrário vinha uma fila comprida de carroças :
mulheres que transportavam tijolo s . Iákov foi obrigado a afastar­
-se do caminho ; o cavalo dele entrou na neve e ficou enterrado
até à barriga, o pequeno trenó inclinou-se todo para a direita, e
ele , para não cair, teve de inclinar o corpo para a esquerda e fi-
O Assassínio 1 93

car assim sentado todo o tempo que as carroças demoraram a


arrastar-se vagarosamente; ouvia, através do barulho do vento , o
rangido dos trenós e o fôlego dos cavalos magros , e ouvia tam­
bém as mulheres a dizerem: «Lá vai o Bogomólov» , e uma de­
las , olhando com compaixão para o cavalo de Iákov, disse mui­
to depressa:
- Parece que a neve não derrete até ao São Jorge l 8 . Que can­
seira !
lákov estava numa posição incómoda, arqueado , e estreitava os
olhos por causa do vento , e diante dele não paravam de passar ora
os cavalos , ora os tijolos vermelhos . Talvez por causa deste des­
conforto e porque lhe doía a ilharga, sentiu uma irritação repenti­
na e o assunto que ia resolver pareceu-lhe insignificante e perce­
beu que poderia mandar no dia seguinte um moço a Chutéikino .
Não sabia porquê , recordou mais uma vez, como na noite de insó­
nia anterior, a história do camelo e do buraco da agulha, e logo se
lhe meteram na cabeça recordações várias : ora sobre o mujique
que lhe vendera o cavalo roubado , ora sobre o bêbedo , ora sobre
as campónias que lhe traziam samovares como penhores . É claro
que qualquer comerciante tenta ganhar o mais que pode , mas Iá­
kov já se sentia cansado de ser negociante , apetecia-lhe fugir para
o mais longe possível dessa ordem das coisas , aborrecia-o até a
ideia de que teria de celebrar ainda o ofício noctumo deste dia. O
vento batia-lhe na cara e farfalhava-lhe na gola, e parecia-lhe que
era o vento que lhe cochichava ao ouvido esses pensamentos ,
trazendo-lhos do imenso campo branco . . . Olhando para este cam­
po que lhe era familiar desde a infância, lákov recordava que tinha
a mesma inquietude e os mesmos pensamentos nos seus verdes
anos , quando o dominavam as fantasias e tinha vacilações na fé .
Sentiu medo de ficar sozinho no campo; virou para trás e pôs­
-se a seguir lentamente as carroças . As mulheres riam-se e diziam:
- O Bogomólov volta para trás .

18 Ou seja, até ao dia 23 de Abril (6 de Maio) . (N. T.)


1 94 Anton Tchékhov

Em casa, por causa do jejum, não cozinharam nada nem aque­


ceram o samovar, e por causa disso parecia muito longo o dia.
Havia muito que lák:ov Ivánitch pusera o cavalo no estábulo , ven­
dera farinha para a estação e, por duas vezes , se pusera a ler os
salmos: mesmo assim ainda faltava muito até à noite . Aglaia já la­
vara todos os chãos e, por não ter mais nada que fazer, punha em
ordem o conteúdo da sua arca com a tampa cheia de etiquetas de
garrafas coladas por dentro . Matvei , triste e cheio de fome ,
sentava-se a ler, aproximava-se do fogão e observava demorada­
mente os azulejos , que lhe evocavam a fábrica. Dachutka dormiu ,
depois acordou e foi dar de beber às vacas . Quando tirava a água
do poço , rompeu-se-lhe a corda e o balde caiu na água. O moço
pôs-se a procurar o croque para ir pescar o balde , e Dachutka,
descalça, andava atrás dele pela neve suja, com os pés vermelhos
como patas de ganso , repetindo: « É fundo ! » Queria dizer que o
poço era tão fundo que o croque não chegava lá, mas o moço não
a percebia e , pelos vistos , já ficara farto dela porque se virou e a
insultou com palavras feias . Neste momento , Iák:ov Ivánitch saía
para o quintal e ouviu o que Dachutka respondeu ao moço na for­
ma de uma rajada de palavrões porcos que apenas poderia ter
aprendido na casa de pasto , com os mujiques bêbedos .
- O que estás a dizer, desavergonhada? - gritou à filha e
assustou-se . - Que palavras são essas?
Mas ela olhava para o pai com uma perplexidade lorpa, sem
perceber porque não se podia pronunciar aquelas palavras . lák:ov
lvánitch já se preparava para lhe fazer um sermão , mas a filha
pareceu-lhe de repente tão asselvajada , tão ignorante e, pela pri­
meira vez desde que tinha filha, compreendeu que a fé dela era
nenhuma. Então , toda aquela vida na floresta, na neve , no meio
de mujiques bêbedos , das pragas , apresentou-se-lhe tão selva­
gem e obscura como esta rapariga, e , em vez do sermão , abanou
a mão e voltou para casa.
Neste comenos , de novo vieram ter com Matvei o gendarme e
Serguei Nikanóritch . Iák:ov Ivánitch pensou que estes homens
O Assassínio 1 95

também não tinham fé e que isso não os preocupava minima­


mente , e a vida começou a parecer-lhe estranha, louca e sem vis­
lumbres de esperança, como a de um cão; passeou sem chapéu
pelo terreiro , depois saiu para a estrada e andou por lá, de punhos
cerrados; nisto começaram a cair farrapos de neve , a sua barba
drapejava ao vento , ele sacudia ininterruptamente os ombros e a
cabeça, porque qualquer coisa lhos oprimia como se lá estives­
sem dependurados os demónios , e tinha a sensação de que não
era ele quem andava mas um animal qualquer, uma fera enorme ,
terrível , e que , se ele gritasse , a sua voz rugida voaria por todo o
campo e por toda a floresta , aterrorizando todas as criaturas . . .

Quando Iákov voltou para casa, o gendarme já não estava lá, mas
o dono do bufete sim, no quarto de Matvei , fazendo umas contas
quaisquer no ábaco . O homem já antes aparecia na casa de pasto ,
quase todos os dias , para falar com lákov Ivánitch; mas ultima­
mente era com Matvei que falava. Serguei Nikanóritch estava sem­
pre a fazer contas no ábaco , com a cara tensa e suada, ou então pe­
dia dinheiro , ou então , alisando as suíças , contava que dantes , numa
estação de primeira, preparava para os oficiais o cruchon1 9 e , nos
banquetes de gala, servia ele próprio a sopa de esturjão. Nada lhe
interessava neste mundo além dos bufetes , e apenas sabia falar de
pratos , do serviço de mesa e de vinhos . Uma ocasião , servindo chá
a uma mulher jovem que amamentava o bebé e desejando dizer-lhe
alguma coisa simpática, exprimiu-se assim:
- O peito da mãe é um bufete para o bebé .
No quarto de Matvei , fazendo as suas contas no ábaco, pedia
dinheiro , dizia que não podia continuar na Progónnaia e, por vá­
rias vezes , repetiu no tom de quem estava prestes a chorar:

l9 Aqui: mistura de vinho branco , rum ou conhaque , com fruta fresca. (N. T.)
1 96 Anton Tchékhov

- Para onde é que eu vou? Para onde é que eu vou agora,


digam-me , por favor?
Depois Matvei foi à cozinha e começou a descascar batatas co­
zidas que guardara, pelos vistos , do dia anterior. Estava tudo si­
lencioso , e Iákov Ivánitch até pensava que o dono do bufete se ti­
nha ido embora. Eram mais do que horas de dar início ao ofício
noctumo; chamou Aglaia e, pensando que não havia ninguém em
casa, cantou sem inibição , em voz alta. Cantava e lia mas , men­
talmente , pronunciava outras palavras : «Meu Deus , perdoai-me !
Meu Deus , salvai-me ! » , e fazia reverências até ao chão , umas
atrás das outras , sem parar, como se quisesse extenuar-se , sem­
pre a sacudir a cabeça, pelo que Aglaia olhava para ele com es­
panto . Temia que entrasse Matvei , e tinha a certeza de que ele en­
traria, e sentia por ele uma raiva que não conseguia ultrapassar
nem com as orações nem com a frequência das vénias .
Matvei abriu sem barulho a porta e entrou no oratório .
- Que pecado , que pecado ! - disse Matvei em tom de cen­
sura e suspirou . - Arrependa-se ! Ganhe juízo , meu primo !
Iákov Ivánitch , cerrando os punhos , sem olhar para ele para
não lhe bater, saiu rapidamente do oratório . Sentindo-se uma fe­
ra enorme e terrível , tal como havia pouco na estrada , passou
através do átrio para a parte mais cinzenta e suja da casa, im­
pregnada de fumo e vapores , onde normalmente os mujiques to­
mavam chá, e andou muito tempo aqui , para trás e para a frente ,
num passo tão pesado que a loiça tilintava nas prateleiras e as
mesas baloiçavam . Estava agora claro para ele que a sua fé não
o satisfazia, que já não podia rezar como antes . Tinha de se ar­
repender, de cair em si, de ganhar juízo , de viver e rezar de ma­
neira diferente . Mas como? Ou talvez fosse apenas uma tentação
do demónio e não fosse preciso nada disso? . . . O que devia fazer?
E como? Quem poderia elucidá-lo? Que desamparo ! Parou e ,
deitando a s mãos à cabeça , tentou pensar, mas a presença próxi­
ma de Matvei impedia-o de raciocinar com calma . Foi rapida­
mente para dentro .
O Assassínio 1 97

Matvei , com a tigela das batatas à sua frente , estava sentado


na cozinha a comer. Além dele , estavam na cozinha Aglaia e Da­
chutka, sentadas frente a frente a enovelar a linha. No rebordo do
fogão e na mesa a que estava Matvei apoiavam-se as duas extre­
midades da tábua de engomar; em cima dela, um ferro frio .
- Minha prima - pediu Matvei - , passe-me o óleo , por fa­
vor !
- Quem pode comer óleo neste dia? - perguntou Aglaia.
- Eu não sou monge , minha prima, sou leigo . Ora, por moti-
vos de saúde fraca, está-me autorizado não só o óleo como tam­
bém o leite .
- Pois , na vossa fábrica é tudo autorizado .
Aglaia tirou a garrafa de óleo da prateleira e pousou-a com
raiva e um sorriso maldoso diante de Matvei , provavelmente
agradada por ele ser tão grande pecador.
- Pois eu digo-te que não podes comer óleo ! - gritou Iákov.
Aglaia e Dachutka estremeceram, mas Matvei , como se não ti­
vesse ouvido nada, verteu óleo na sua tigela e continuou a comer.
- Pois eu digo-te que não podes comer óleo ! - gritou lákov
ainda mais alto , muito vermelho e, de repente , pegou na tigela,
levantou-a acima da cabeça e arremessou-a ao chão com toda a
força. Saltaram os cacos para todos os lados . - Não te atrevas a
falar ! - berrou como louco , embora Matvei não tivesse aberto
a boca. - Não te atrevas ! - repetiu dando um murro na mesa.
Matvei empalideceu e levantou-se .
- Meu primo ! - disse ele continuando a mastigar. - Meu
primo , tenha juízo !
- Fora da minha casa , j á ! - gritou lákov. Metia-lhe nojo a
cara enrugada de Matvei , as migalhas no bigode , a mastigação .
- Fora , ouviste?
- Meu primo , acalme-se ! Apoderou-se de si o orgulho dia-
bólico !
- Caluda ! (lákov bateu com o pé no chão .) Vai-te embora ,
demónio !
1 98 Anton Tchékhov

- Fique você sabendo - continuou Matvei , falando alto ,


porque também já começava a zangar-se - que é um renegado
de Deus e um herege . Os demónios malditos taparam-lhe a luz
da verdade , a sua oração não agrada a Deus . Arrependa-se en­
quanto não é tarde ! A morte do pecador é terrível ! Arrependa-se,
meu primo !
lákov agarrou-o pelos ombros e arrastou-o da mesa. Matvei
empalideceu ainda mais e, assustado e confuso , murmurou:
«Mas o que é isto? O que é isto?» e , resistindo , esforçando-se
por se libertar das mãos de lákov, agarrou sem querer a camisa
deste à beira do pescoço e rasgou-lhe a gola; Aglaia pensou que
o primo queria bater em Iákov, soltou um grito , pegou na garra­
fa de óleo e, com toda a força, assentou-a no alto da cabeça do
primo odioso . Matvei cambaleou , a sua cara ficou calma e indi­
ferente num instante; lákov sentiu prazer ao ouvir o som grasna­
do da garrafa a bater na cabeça, como se estivesse viva, e, resfo­
legando , deitou a mão ao primo , não o deixou cair e por várias
vezes (viria a lembrar-se disso muito bem) apontou com o dedo
para o ferro , olhando para Aglaia, e apenas quando lhe corria o
sangue pelas mãos e ouviu o choro alto de Dachutka, e quando
a tábua de engomar caiu com estrondo e Matvei tombou pesada­
mente em cima dela, Iákov deixou de sentir raiva e percebeu o
que acontecera .
- Que estique o pernil , o garanhão da fábrica ! - disse
Aglaia com repugnância, sem largar o ferro das mãos; o lenci­
nho branco salpicado de sangue deslizou-lhe para os ombros , o
cabelo grisalho soltou-se . - É bem feito !
Era assustador. Dachutka, com o novelo nas mãos , soluçava e
cabeceava, e , a cada movimento de cabeça , fazia «ham ! ham ! » .
Mas , para lákov, o mais pavoroso era aquela mistura de batatas
cozidas e sangue que tinha medo de pisar; e outra coisa ainda,
que o oprimia como um pesadelo , parecia a mais perigosa, e não
compreendia neste primeiro momento: o dono do bufete , Serguei
Nikanóritch , estava postado à porta com o ábaco nas mãos, mui-
O Assassínio 1 99

to branco , a olhar apavorado para o que se passava na cozinha.


Apenas quando Serguei Nikanóritch se virou e foi rapidamente
para o átrio e, de lá, para fora de casa, Iákov se apercebeu de
quem ele era e foi atrás dele .
Sempre a andar, Iákov esfregava as mãos na neve para as lim­
par do sangue e pensava. Relampejavam-lhe coisas na cabeça:
que o moço pedira folga para ir dormir a casa na aldeia e se me­
tera a caminho havia muito; que no dia anterior tinham matado
um porco e que ainda havia grandes manchas de sangue na ne­
ve , no trenó , e que até um lado dos troncos do poço tinha sido
salpicado de sangue , e assim , mesmo que toda a família de Iá­
kov estivesse coberta de sangue , isso não levantaria suspeitas .
Ocultar o crime seria torturante , mas mais doloroso ainda seria
chegar o gendarme da estação , a assobiar e a sorrir com ironia,
chegarem os mujiques , amarrarem as mãos de Iákov e Aglaia,
levarem-nos com júbilo para a esquadra local e, depois , para a
cidade , com toda a gente no caminho a apontar para eles alegre­
mente: «Olhai , levam os Bogomólov ! » Para Iákov, o mais dolo­
roso de tudo era esta possibilidade , por isso queria arranjar ma­
neira de o adiar, para não sofrer esta vergonha já mas , pelo
menos , um pouco mais tarde .
- Posso emprestar-lhe mil rublos . . . - disse Iákov quando
apanhou Serguei Nikanóritch . - Se você disser a alguém , nin­
guém lucra com isso . . . Também já não se pode ressuscitar o ho­
mem . . . - E, com dificuldade em acompanhar o andamento de
Serguei Nikanóritch , que não virava a cabeça nem abrandava o
passo estugado , Iákov Ivánitch continuou: - Posso dar-lhe mil
e quinhentos . . .
Iákov Ivánitch parou porque perdera o fôlego , mas Serguei
Nikanóritch seguiu em frente com a mesma pressa, por certo
com medo de que o matassem também . Apenas quando deixou
para trás a passagem de nível e metade da estrada que levava da
passagem à estação , olhou rapidamente para trás e abrandou o
passo . Na estação e na linha já ardiam as luzes , vermelhas e ver-
200 Anton Tchékhov

des ; o vento abrandara, mas a neve ainda caía aos farrapos e o


caminho estava de novo branco . De repente , quando estava qua­
se a chegar à estação , Serguei Nikanóritch parou , pensou um
pouco e, resoluto , deu meia volta e voltou pelo mesmo caminho .
Escurecia.
- Mil e quinhentos , faça o favor, lákov Ivánitch - disse bai­
xinho , com o corpo todo a tremer. - Estou de acordo .

O dinheiro de Iákov Ivánitch estava depositado no banco mu­


nicipal e distribuído pelas hipotecas sobre as hipotecas ; em casa
guardava pouco dinheiro , apenas o necessário para o negócio .
Entrou na cozinha , encontrou às apalpadelas a lata onde guarda­
va os fósforos e , enquanto o enxofre ardia com a sua chama azul ,
pôde ver que Matvei continuava no chão ao pé da mesa, mas
agora coberto com um lençol branco; só estavam à vista as bo­
tas . Cantava o grilo . Aglaia e Dachutka não estavam: tinham ido
ambas para a sala dos fregueses e, sentadas ao balcão , enovela­
vam em silêncio a linha. lákov Ivánitch muniu-se da lanterna, foi
ao seu quarto e tirou de baixo da cama o baú onde guardava o di­
nheiro para o negócio corrente . Tinha ali apenas quatrocentos e
vinte rublos em notas pequenas , e moedas de prata no montante
de trinta e cinco rublos ; das notas emanava um cheiro desagra­
dável , a podre . Iákov Ivánitch meteu o dinheiro no chapéu , saiu
de casa, depois do portão . Andava e olhava à volta, mas não via
o dono do bufete .
- Eh ! - gritou lákov.
Saiu de junto da passagem de nível um vulto escuro que , in­
deciso , se encaminhou para ele .
- Onde é que você se meteu? - disse Iákov Ivánitch com
desgosto ao reconhecer Serguei Nikanóritch . - Tome : falta aqui
um pouco para os quinhentos , não tenho mais em casa.
O Assassínio 20 1

- Está bem . . . Agradeço muito - murmurou Serguei Nika­


nóritch , agarrando avidamente no dinheiro e enfiando-o nos bol­
sos ; tremia tanto que se notava no escuro . - E você , lákov Ivá­
nitch , fique descansado . . . Porque haveria eu de falar? Não tem
nada a ver comigo , fui lá, vim-me embora. É como quem diz ,
não sei nada de nada, nem visto nem ouvido . . . - E acrescentou
com um suspiro: - Vida maldita !
Ficaram calados por um momento , sem olharem um para ou­
tro .
- Pois , aquilo aconteceu por uma insignificância, sabe Deus
como . . . - disse o dono do bufete , sempre a tremer. - Estou lá
a fazer contas e de repente ouço barulho . . . Espreito pela porta ,
e vocês , por causa de uma pinga de óleo . . . Onde está ele agora?
- Está lá, na cozinha .
- É levá-lo para um sítio qualquer. . . Estão à espera de quê?
lákov acompanhou-o em silêncio até à estação , depois voltou
para casa. Atrelou o cavalo com a intenção de levar Matvei para
Limarovo . Resolvera levá-lo para a floresta de Limarovo e
deixá-lo lá à beira da estrada; às pessoas diria que Matvei tinha
ido a Vedeniápino e não voltara, e toda a gente pensaria que ti­
nha sido morto por quaisquer passantes . lákov sabia que era im­
possível enganar fosse quem fosse desta maneira , mas mexer-se ,
fazer alguma coisa, agitar-se era menos torturante do que ficar
de braços cruzados à espera. Chamou Dachutka para o ajudar a
levar Matvei . Aglaia ficou em casa, a limpar a cozinha.
Quando lákov e Dachutka voltavam para casa foram atrasados
pela cancela fechada da passagem de nível . la passar um longo
comboio de mercadorias puxado por duas locomotivas que res­
folegavam gravemente e soltavam feixes de fogo vermelho das
fornalhas . Na passagem , à vista da estação , a primeira locomoti­
va apitou com estridência.
- Assobia . . . - disse Dachutka .
Quando o comboio finalmente passou , o guarda levantou sem
pressas a cancela.
202 Anton Tchékhov

- É s tu , lákov Ivánitch? - disse ele . - Nem te conhecia,


então é porque estarás rico .
Chegados a casa, era preciso dormir. Aglaia e Dachutka
deitaram-se juntas numa cama que fizeram no chão da sala de
pasto ; lákov acomodou-se no balcão . Antes de se deitarem não
rezaram nem acenderam as lamparinas . Todos os três estiveram
acordados até de manhã, mas sem dizerem uma palavra uns aos
outros; durante toda a noite lhes pareceu ouvir passos em cima,
no andar vazio .
Dois dias depois chegaram da cidade o chefe da polícia e o
juiz de instrução . Revistaram primeiro o quarto de Matvei , de­
pois toda a casa de pasto . O mais interrogado foi lákov Ivánitch
que depôs que Matvei , na segunda-feira ao fim da tarde , tinha
ido a Vedeniápino fazer a preparação para a desobriga e que , pe­
los vistos , tinha sido morto no caminho pelos serradores que an­
davam a trabalhar na linha. Quando o juiz de instrução lhe per­
guntou por que razão o corpo de Matvei tinha sido encontrado
na estrada mas o seu chapéu em casa - tinha ido a Vedeniápino
sem chapéu? - , e por que razão não tinha sido encontrada uma
gota de sangue na estrada ao pé do cadáver, embora ele tivesse a
cabeça rebentada, e a cara e o peito estivessem negros de sangue ,
Iákov confundiu-se , atrapalhou-se e disse:
- Não sei dizer.
E aconteceu precisamente o que Iákov tanto temia: chegou o
gendarme , um polícia fumava no oratório , Aglaia atirou-se a ele
às pragas e foi malcriada para o chefe da polícia; e depois , quan­
do Iákov e Aglaia eram levados de casa , juntou-se à beira do por­
tão a chusma de mujiques que diziam: «Olhai , levam os Bogo­
mólov ! » , e que pareciam muito contentes .
O gendarme , interrogado , depôs abertamente que Matvei tinha
sido morto por Iákov e por Aglaia porque estes não queriam divi­
dir o dinheiro com ele , e que , além disso , Matvei tinha dinheiro de
seu; e que , se o dinheiro não tinha sido encontrado na busca, al­
guém o teria abichado . Interrogaram também Dachutka. Esta dis-
O Assassínio 203

se que o tio Matvei e a tia Aglaia discutiam todos os dias e quase


se engalfinhavam por causa do dinheiro , e que o tio era rico por­
que oferecera novecentos rublos a um «amorzinho» .
Dachutka ficou sozinha na casa de pasto; ninguém lá ia beber
chá ou vodca, e então a rapariga arrumava a casa, bebia refresco de
mel e comia roscas; alguns dias depois, porém, interrogaram o
guarda da passagem de nível e este afirmou que , na segunda-feira,
já de noite , vira lákov e Dachutka a voltarem de Limarovo . Da­
chutka também foi presa, levada para a cidade e metida na cadeia.
Um pouco mais tarde , por denúncia de Aglaia, ficou a saber-se que
no momento do crime também estava presente Serguei Nikanó­
ritch; fizeram-lhe uma busca à casa e encontraram-lhe o dinheiro
num lugar estranho , uma bota de feltro metida debaixo do fogão , e
eram só notas pequenas , só de rublo eram trezentas . Serguei Nika­
nóritch bem jurou que aquele dinheiro era produto do seu negócio
e que já não ia a casa de lákov Ivánitch havia mais de um ano , mas
outras testemunhas garantiram que ele era pobre e que , ultima­
mente , precisava muito de dinheiro e ia todos os dias à casa de pas­
to tentar que Matvei lhe fizesse um empréstimo; também o gen­
darme contou que , no dia do homicídio , ele próprio tinha ido duas
vezes àquela casa na companhia de Serguei Nikanóritch para o aju­
dar a conseguir o empréstimo . Foi também lembrado, a propósito,
que na segunda-feira à noite Serguei Nikanóritch não fora ao com­
boio de mercadorias e passageiros mas sim a outro lado qualquer.
Serguei Nikanóritch também foi preso e mandado para a cidade .
Onze meses depois foi o julgamento .
lákov Ivánitch envelheceu e emagreceu muito , falava muito
baixo , como um doente . Sentia-se um fraco , um humilde , mais
pequeno do que qualquer outro homem; os tormentos da cons­
ciência e as fantasias , que também na prisão não o abandonaram ,
tomaram-lhe a alma tão magra e velha como o corpo . Quando foi
referido em tribunal que lákov lvánitch não frequentava a igre­
ja, o presidente do tribunal perguntou:
- Pertence à velha crença?
204 Anton Tchékhov

- Não sei dizer - respondeu .


Já não havia nele qualquer fé , não sabia nem percebia nada, a
sua fé antiga já o repugnava, já lhe parecia insensata e obscura.
Aglaia é que não se resignou de todo e continuava a exprobrar o
falecido Matvei , acusando-o de todas as desgraças . Serguei Ni­
kanóritch , em vez das suíças , deixou crescer a barba; no tribunal
suava , corava muito e , era visível , envergonhava-se da sua bata
cinzenta e de o terem posto no banco ao lado de simples muji­
ques . As suas justificações eram desajeitadas e , ao tentar provar
que não tinha ido à casa de pasto havia um ano , altercava com as
testemunhas . O público ria-se dele . Dachutka, enquanto esteve
na prisão , engordou; no julgamento , não percebia as perguntas
que lhe faziam e disse apenas que , quando estavam a matar o tio
Matvei , se assustara muito , mas depois nem por isso .
Todos os quatro foram culpados de homicídio tendo como
móbil a cobiça. lákov Ivánitch foi condenado a vinte anos de tra­
balhos forçados ; Aglaia a treze anos e meio; Serguei Nikanóritch
a dez anos; e Dachutka a seis .

No anteporto de Dué , na ilha de Sacalina, lançou âncora ao


princípio da noite um vapor estrangeiro que queria carvão . Pedi­
ram ao comandante que esperasse até de manhã, mas ele recusou­
-se a esperar nem que fosse uma hora, dizendo que , se o tempo
piorasse durante a noite , arriscava-se a zarpar sem carvão . Sim,
no Estreito Tártaro o tempo pode mudar bruscamente em meia
hora, e então as costas de Sacalina tomam-se perigosas . Ora, já se
levantava o vento e as ondas começavam a ficar altas .
Da prisão de Voevódskaia, a mais feia e severa de todas as pri­
sões de Sacalina, levaram para a mina uma leva de presidiários .
Tinham de carregar o carvão nos lanchões , estes teriam de ser
puxados pelo rebocador a vapor até à beira do navio que estava
O Assassínio 205

fundeado a mais de meia verstá da costa, e ali seria preciso des­


carregar o carvão para o navio - um trabalho torturante , quan­
do o lanchão é atirado a cada instante contra o casco do navio e
os estivadores mal se aguentam nas pernas com o enjoo . Os gri­
lhetas , sonolentos , iam ao longo da costa tropeçando na escuri­
dão e tilintando com os ferros . À esquerda mal se distinguia a
costa alta e abrupta, escuríssima; à direita eram as trevas espes­
sas , sem vislumbre de luz , em que gemia o som arrastado e mo­
nótono do mar: «a . . . a . . . a . . . a» , e só quando o vigia acendia o
cachimbo , iluminando por um instante o soldado da escolta e
duas ou três caras grosseiras de grilhetas , ou quando o vigia se
aproximava muito da água com a lanterna, era possível enxergar
as cristas brancas das ondas da frente .
Nesta leva estava lákov Ivánitch , alcunhado na prisão de Vas­
soura por causa da sua barba comprida. Havia muito que nin­
guém o tratava pelo nome e patronímico - ele era simplesmen­
te o Iachka. Era tido em má conta porque , três meses depois da
sua chegada à prisão correccional , sentira uma saudade forte e
insuperável da terra natal , cedera à tentação e fugira; mas foi
apanhado rapidamente , condenado a trabalhos forçados perpé­
tuos e castigado com quarenta chicotadas ; depois foi ainda ver­
gastado duas vezes por furto de roupa pública, embora essa rou­
pa regulamentar lhe tivesse sido roubada , a ele , nas duas vezes .
A saudade da terra entrou nele na altura em que , quando o leva­
vam para Odessa, o comboio dos presos parou de noite na esta­
ção de Progónnaia, e Iákov Ivánitch , colando a cara à janela , ten­
tou ver a sua casa mas não o conseguiu na escuridão .
Não havia ninguém com quem pudesse falar da terra . A irmã
Aglaia tinha sido mandada através da Sibéria para os trabalhos
forçados , e não sabia onde ela estava. Dachutka estava em Saca­
lina, mas tinha sido entregue como concubina a um colono de­
portado numa aldeia longínqua; também não tinha notícias dela,
apenas uma vez um deportado que fora parar à prisão de Voe­
vódskaia contou a lákov Ivánitch que Dachutka já tinha três fi-
206 Anton Tchékhov

lhos . Serguei Nikanóritch servia de lacaio a um funcionário , ali


perto , em Dué , mas não podia esperar encontrar-se alguma vez
com ele , porque o homem tinha vergonha de travar conhecimen­
to com presidiários de origem baixa.
A leva chegou à mina e parou no cais . Dizia-se que não haveria
carregamento porque o tempo estava a piorar e o vapor teria de
zarpar de imediato . Distinguiam-se três luzes . Uma delas movia­
-se: era o rebocador que acostara ao navio e que agora, pelos vis­
tos , estava de volta para informar se haveria ou não estiva. Tre­
mendo com o frio do Outono e a humidade do mar, agasalhando-se
na sua peliça curta e rota, Iákov Ivánitch olhava com fixidez , sem
pestanejar, na direcção da sua terra. Depois de ter vivido na mes­
ma prisão com gente de todo o lado - russos , ucranianos , tárta­
ros , georgianos , chineses , fineses , ciganos, judeus - e depois de
ter escutado as conversas deles e de ter visto os sofrimentos deles,
a sua alma voltou a ascender a Deus e convenceu-se de que alcan­
çara a verdadeira fé , aquela por que ansiara tanto e que ele e a sua
farru1ia, desde a bisavó Avdótia, tinham procurado tanto tempo
sem a encontrarem . Iákov já sabia e compreendia onde estava
Deus e como servi-Lo , mas só uma coisa ele não compreendia:
porque era tão diverso o destino das pessoas , por que razão uma fé
tão simples , que os outros recebiam graciosamente com a vida, lhe
custou tão caro , a ele , ao ponto de , juntamente com os horrores e
sofrimentos que por certo sofreria até à morte , lhe fazerem tremer
as pernas e as mãos como às de um bêbedo? Perscrutava sofrega­
mente as trevas e parecia-lhe que os seus olhos , varando os milha­
res de verstás de escuridão , viam a sua terra, a sua província, o seu
distrito , Progónnaia; e via o obscurantismo , a selvajaria, a cruel­
dade e a indiferença imbecil , severa, animal das pessoas que dei­
xara lá; a vista dele turvava-se de lágrimas , mas continuava a olhar
para o horizonte , onde ardiam debilmente as luzes do navio , e o
seu coração apertava-se de saudades , e apetecia-lhe viver, voltar a
casa, falar lá com as pessoas sobre a sua nova fé e salvar pelo me­
nos uma pessoa, e viver sem sofrimento pelo menos um dia.
O Assassínio 207

O rebocador chegou , e o vigilante anunciou alto que não ha­


veria carregamento .
- Sentido ! - gritou . - Regressar !
Ouviu-se o barulho da amarra da âncora a ser içada no navio .
Já soprava um vento forte , penetrante , e algures por cima da cos­
ta íngreme rangiam as árvores . Pelos vistos , era a tempestade
que rebentava.
ARIADNA

No convés do vapor que ia de Odessa para Sevastópol , um


senhor bastante bem-apessoado , com uma barbicha redonda,
aproximou-se de mim para pedir lume e disse:
- Preste atenção àqueles alemães sentados junto à ponte de
comando . Quando os alemães ou os ingleses se juntam , costu­
mam falar dos preços da lã, da colheita, dos seus negócios pes­
soais; mas , sabe-se lá porquê , quando nós , os russos , nos junta­
mos , falamos apenas de mulheres e de assuntos sublimes . Mas
sobretudo de mulheres .
A cara do senhor já me era familiar. Na véspera tomáramos o
mesmo comboio , de volta do estrangeiro , e vi-o em Volotchisk
com a sua acompanhante , durante a inspecção alfandegária,
diante de um montão de malas e cestos cheios de vestidos de se­
nhora, e vi também como se embaraçou e ficou arreliado quan­
do teve de pagar uma taxa por um trapo de seda qualquer, e co­
mo a senhora protestou e ameaçou que apresentaria queixa não
sei a quem; depois , durante a viagem até Odessa, vi como ele le­
vava para a sala das senhoras ora bebidas , ora laranjas .
O tempo estava um pouco húmido , o navio balançava ligeira­
mente , por isso as senhoras tinham recolhido aos seus camaro­
tes . O senhor da barbicha redonda sentou-se a meu lado e conti­
nuou:
210 Anton Tchékhov

- Pois é , quando os russos se juntam, falam apenas de maté­


rias elevadas e de mulheres . Somos tão intelectuais , tão importan­
tes , que só sabemos proferir verdades e resolver problemas de or­
dem superior. O actor russo não sabe fazer traquinices e , mesmo
quando representa um vaudeville , fá-lo com um ar significativo; e
nós , tal qual : quando calha falarmos de ninharias , interpretamo-las
do ponto de vista elevado . É por falta de coragem, de sinceridade ,
de simplicidade . Pois bem, e de mulheres falamos muito porque ,
na minha opinião , estamos insatisfeitos . Vemos as mulheres de
uma forma demasiado idealista e temos exigências incompatíveis
com aquilo que a realidade pode oferecer; depois , como estamos
longe de obter o que desejamos , o resultado é a insatisfação , são
esperanças desfeitas , dor de alma, e, já se sabe , cada qual fala do
que lhe dói . Esta minha conversa não o aborrece?
- Não , de maneira nenhuma .
- Nesse caso , permita que me apresente - disse o meu in-
terlocutor, soerguendo-se . - Ivan Iliitch Chamókhin , proprietá­
rio rural da região de Moscovo , em certo sentido . . . Ora, a si já
o conheço bem .
Sentou-se e continuou , olhando-me na cara com carinho e sin­
ceridade :
- Um filósofo medíocre , do género de Max Nordau , explica­
ria estas conversas permanentes sobre as mulheres como sendo
um desvario erótico , ou como uma afirmação do nosso espírito
e�cravagista e assim por diante , mas eu encaro o problema de
outra maneira . Repito: estamos insatisfeitos porque somos idea­
listas . Pretendemos que as criaturas que nos dão à luz e dão à luz
os nossos filhos sejam superiores a nós , superiores a tudo . Quan­
do somos jovens , poetizamos e divinizamos aquelas por quem
nos apaixonamos; para nós , o amor e a felicidade são sinónimos .
Para nós , na Rússia, o casamento sem amor é desprezado , a sen­
sualidade é considerada ridícula e repugnante , e os romances e
novelas que gozam de maior êxito são aqueles em que as mu­
lheres são belas , poéticas e sublimes , e se o homem russo se ma-
Ariadna 21 1

ravilha desde há muito com a Madonna de Rafael ou se preocu­


pa com a emancipação feminina, acredite que não é por afecta­
ção . Mas há um problema , que é o seguinte: basta que nos case­
mos ou tenhamos um caso prolongado com uma mulher e, ao
fim de dois ou três anos , já nos sentimos desiludidos , enganados ,
e é de novo o horror, acabamos por nos convencer que as mu­
lheres são falsas , mesquinhas , vaidosas , injustas , mal formadas ,
cruéis . . . Enfim , não só não são superiores como se tomam in­
comensuravelmente inferiores a nós , homens . Então , insatisfei­
tos e enganados , nada mais nos resta do que resmungar e, de ca­
minho , falar daquilo em que nos enganámos de modo tão cruel .
Enquanto Chamókhin falava, reparei que a língua russa e o
ambiente russo lhe davam muito prazer. Talvez porque , no es­
trangeiro , tivera muitas saudades da pátria. Louvando os russos
e atribuindo-lhes um invulgar idealismo , não opinava negativa­
mente sobre os estrangeiros , o que me dispunha a favor dele .
Também era visível que trazia algum pesar na alma e que tinha
mais vontade de falar de si mesmo do que das mulheres , e que
eu não evitaria ter de ouvir agora uma longa história com laivos
de confissão .
D e facto , depois de termos pedido uma garrafa de vinho e be­
bido um copo , ele começou assim:
- Lembro-me de que numa novela de Weltman 20 alguém diz :
«Ena, que história ! » Mas o outro responde: «Não é a história, é
apenas uma introdução à história.» Assim, tudo o que acabei de
dizer é apenas uma introdução , pois eu , na verdade , gostaria de
contar-lhe o meu último caso amoroso . Peço desculpa, mas vol­
to a perguntar-lhe: não o aborrece ouvir-me?
Respondi-lhe que não e ele continuou :
- A acção decorre na província de Moscovo , num dos seus dis­
tritos a norte . Ali , devo dizer-lhe , a natureza é espantosa. A nossa

20 Aleksandr Weltman ( 1 8 00 - 1 8 70 ) , escritor russo . Aqui , trata-se do seu romance


Salomé ( 1 846) . (N. T.)
212 Anton Tchékhov

herdade está na margem alta de um rio rápido , mesmo junto à tor­


rente , onde a água marulha dia e noite; então , imagine um grande
e velho jardim, canteiros com um ar acolhedor, um colmeal , uma
horta em baixo , o rio com salgueiros encaracolados que , quando
há muito orvalho , parecem de cor um pouco mate, como cabelos
encanecidos; na outra banda um prado , para lá do prado , numa co­
lina, um bosque escuro , medonho . Nesse bosque , as sanchas pulu­
lam, atingem números astronómicos , e ao fundo do bosque vivem
alces . Posso morrer, podem meter-me no caixão , mas parece que
continuarei a sonhar com aquelas manhãs , ainda muito cedo, em
que até doem os olhos de tanto sol , ou as divinas tardes primave­
ris , quando no jardim e fora dele gritam as gralhas-calvas e os co­
dornizões , e da aldeia chega o som da concertina, e em casa tocam
piano , marulha o rio . . . Enfim, uma música tal que apetece chorar
e cantar alto . A nossa terra arável não é grande , mas isso é com­
pensado pelos prados que , juntamente com a floresta, dão uma re­
ceita anual de dois mil rublos . Sou filho único do meu pai , somos
ambos pessoas modestas e esse dinheiro , acrescido da pensão do
meu pai , era suficiente para nós . Depois da universidade , passei os
primeiros três anos na nossa aldeia a tratar da propriedade e à es­
pera de que me dessem algum cargo , mas o principal era que es­
tava apaixonado por uma menina bonita e encantadora. Era irmã
do meu vizinho , o proprietário rural Kotlóvitch , completamente
arruinado mas que colhia na sua herdade ananases e pêssegos ma­
ravilhosos , tinha pára-raios , um repuxo no meio do quintal e, si­
multaneamente , nem um tostão . Não fazia nada, não sabia fazer
nada, era mole como um nabo estufado; curava os mujiques com
remédios homeopáticos e praticava espiritismo . Era, de resto , uma
pessoa delicada, branda e nada estúpida, mas eu não morro de
amores por esses senhores que conversam com os espíritos e
curam as campónias com o magnetismo . Em primeiro lugar, nas
pessoas que não são intelectualmente livres há sempre uma con­
fusão de conceitos e é muito difícil falar com elas ; em segundo lu­
gar, essas pessoas não gostam normalmente de ninguém, não vi-
Ariadna 213

vem com mulheres , e este seu espírito misterioso causa um efeito


desagradável nas pessoas sensíveis . Eu também não gostava do as­
pecto físico dele . Era alto , gordo , branco , com uma cabeça peque­
na, olhos pequenos e brilhantes , dedos brancos e rechonchudos .
Não nos apertava a mão , amassava-a. E estava sempre a pedir des­
culpa por tudo e por nada. Pedia alguma coisa, desculpava-se , da­
va alguma coisa, também se desculpava. Quanto à irmã, era de ou­
tro tipo . Note-se que na minha infância e juventude eu não
conhecia os Kotlóvitch porque o meu pai era professor na univer­
sidade de N . . . e vivemos durante muito tempo na província; quan­
do os conheci , a menina já tinha vinte e dois anos e tivera tempo
de acabar o curso no internato e viver dois ou três anos em Mos­
covo , em casa de uma tia rica que a levava a visitar a sociedade .
Quando a conheci e falei pela primeira vez com ela, o que mais me
impressionou foi o seu nome bonito e raro: Ariadna. Ficava-lhe tão
bem ! Era morena, muito magra, muito fina e flexível , esbelta, ex­
traordinariamente graciosa, com uns traços do rosto elegantes e
muito nobres . Os seus olhos também brilhavam, mas os do irmão
tinham um brilho frio e melífluo , como rebuçados , e nos dela lu­
zia a juventude bela e orgulhosa. Conquistou-me logo no primei­
ro dia do nosso conhecimento , e era inevitável . As minhas primei­
ras impressões foram tão fortes que ainda hoje não me libertei
dessa ilusão , ainda me apetece pensar que a natureza, quando
criou aquela menina, tinha um propósito de grande envergadura,
maravilhoso. A voz de Ariadna, o seu andar, o seu chapelinho e até
as pegadas dos seus pés na margem arenosa, onde ela pescava ca­
dozes , despertavam-me a alegria, uma ânsia louca de viver. Era
pelo seu rosto bonito e pelas formas belas do seu corpo que eu for­
mava a noção da sua organização espiritual , e cada palavra de
Ariadna, cada sorriso dela fascinavam-me , cativavam-me e
levavam-me a adivinhar nela uma alma elevada. Era carinhosa, lo­
quaz, animada, simples no trato , com uma fé poética em Deus , ra­
ciocinava poeticamente sobre a morte , havia na sua espiritualida­
de uma tal riqueza de matizes que até os seus defeitos ganhavam
214 Anton Tchékhov

características especiais , simpáticas . Por exemplo , digamos que


precisava de um cavalo novo mas não havia dinheiro . . . Pois bem,
qual era o problema? Vendia-se ou empenhava-se alguma coisa.
Mas se o feitor jurava que já não havia nada para vender ou em­
penhar, era ainda possível arrancar os telhados de ferro dos anexos
e vendê-los à fábrica, ou , em plena ceifa, levar os cavalos de tra­
balho ao mercado e vendê-los por um preço irrisório . Esses dese­
jos desenfreados da menina levavam por vezes o desespero a toda
a casa, mas ela exprimia-os com tanta elegância que , por fim, tu­
do lhe era perdoado e permitido , como a uma deusa ou à mulher
de César. O meu amor por ela era enternecedor, e toda a gente de­
pressa reparou nele: o meu pai , os vizinhos , os mujiques . E todos
se mostravam compreensivos . Quando eu oferecia vodca aos tra­
balhadores , faziam-me vénias e diziam:
- Que Deus o ajude a casar com a menina dos Kotlóvitch .
Ariadna também sabia que eu a amava. Ia muitas vezes à nos­
sa casa, a cavalo ou no charabã, e por vezes passava dias intei­
ros comigo e com o meu pai . Fez amizade com o meu velho ,
que lhe ensinou , até , a andar de bicicleta (era o passatempo pre­
ferido do meu pai) . Lembro-me de que uma ocasião , ao fim da
tarde , eles quiseram andar de bicicleta e eu a ajudei a sentar-se
no selim; estava tão bonita naquele momento que pensei : se to­
co nela queimo as mãos; eu tremia de enlevo ; e quando eles , o
velho e ela , pedalavam belos e esbeltos lado a lado pela estrada,
um cavalo murzelo , montado pelo feitor que vinha em sentido
contrário , se atirou para o lado ao vê-los , acreditei que o fizera
porque também ficara aturdido com a beleza de Ariadna. O meu
amor, a minha adoração comoviam Ariadna, enterneciam-na , e
também ela tinha vontade de ficar encantada comigo tal como eu
por ela, e pagar amor com amor. Porque isso é tão poético !
Porém , ela não podia amar verdadeiramente como eu , porque
era fria e já bastante desnaturada . Já transportava dentro de si o
demónio que lhe sussurrava dia e noite que era encantadora, di­
vina e, sem saber claramente para que fora criada a sua vida,
Ariadna 215

imaginava-se no futuro , exclusivamente , muito rica e aristocrá­


tica, sonhava com bailes , corridas de cavalos , librés , com uma
sala de estar luxuosa, com o seu próprio salão e com todo um en­
xame de condes , príncipes , embaixadores , pintores e actores fa­
mosos , e toda essa gente a venerá-la e a admirar a sua beleza e
as suas toilettes . . . Esta ânsia de poder e de êxitos pessoais , e es­
te pensamento constante sempre no mesmo sentido resfriam o
ser humano , e Ariadna era fria: comigo , com a natureza, com a
música . Entretanto , o tempo corria mas os embaixadores não
apareciam . Ariadna continuava a viver em casa do seu irmão es­
pírita, a situação financeira piorava cada vez mais, a ponto de já
não haver dinheiro para os seus vestidos e chapelinhos e ela ter
de usar de habilidade para esconder a pobreza .
A propósito , quando ela ainda vivia em Moscovo em casa da
tia, pediu-a em casamento um tal príncipe Mak:túev, homem rico
mas insignificante de todo . Ela recusou categoricamente . Agora
roía-a o verme do arrependimento: porque recusara? Tal como o
nosso mujique sopra com repugnância no kvass com baratas mas
bebe , ela franzia a cara, enojada, ao recordar o príncipe , mas ia­
-me dizendo:
- Seja como for, no título há qualquer coisa de inexplicável ,
de fascinante . . .
Sonhava com o título , com o brilho mas , ao mesmo tempo , não
queria perder-me . Por mais inebriante que seja sonhar com em­
baixadores , o coração não é de pedra e o jovem tem pena da sua
juventude . Ariadna fazia esforço para se apaixonar, fingia que me
amava, fazia-me até juras de amor. Mas eu sou um homem ner­
voso , sensível : quando me amam , sinto-o à distância, sem per­
suasões nem juramentos , mas dela soprava-me o frio e , quando
me falava de amor, parecia-me ouvir o canto de um rouxinol de
metal . Ela própria sentia que lhe faltava a pólvora, e sentia des­
gosto , e muitas vezes a vi chorar. Imagine que uma vez me abra­
çou com todo o ímpeto e me beijou (foi à noite , na margem do
rio) , e vi pelos olhos dela que não me amava , que me abraçara
216 Anton Tchékhov

apenas por curiosidade , para se experimentar: o que iria sair da­


li? E eu tive medo . Peguei-lhe nas mãos e disse com desespero:
- Estes carinhos sem amor fazem-me sofrer !
- Mas que . . . esquisitão ! - disse ela , descontente , e afastou-
-se .
Era muito provável que , se passasse um ano ou dois nisto , eu
casasse com ela e assim se acabaria a história, mas o destino quis
organizar o nosso romance de outra maneira. Aconteceu que sur­
giu no nosso horizonte outra personagem . Chegou a casa deles ,
para passar uns tempos , um tal Mikhail Ivánitch Lubkov, colega
da universidade do irmão de Ariadna, um homem querido , da­
queles de quem os cocheiros e os lacaios dizem: «um senhor
engraça-a-a-do ! » Era de estatura mediana, magrinho , com calví­
cie , cara sem graça mas com decoro de bom burguês , pálida, com
um bigode rijo, bem cuidado; no pescoço tinha peles de galinha e
um grande pomo-de-adão . Trazia um pince-nez pendurado num
nastro largo e preto , não sabia pronunciar os erres nem os eles , pe­
lo que a palavra «paralelo» lhe saía como «pahavevo» . Estava
sempre animado , para ele tudo tinha graça. Casara-se outrora, aos
vinte anos , de uma maneira incrivelmente estúpida, recebendo co­
mo dote duas casas em Moscovo , junto ao mosteiro Dévitchi .
Pois bem , meteu-se na reparação das casas , construiu sauna,
arruinou-se , e agora a mulher e os seus quatro filhos viviam em
quartos mobilados , passavam necessidades , e ele tinha de os ali­
mentar - e também isso lhe parecia engraçado . Tinha trinta e seis
anos , e a mulher já ia nos quarenta e dois, o que também lhe pa­
recia cómico . A mãe dele , uma senhora presunçosa e arrogante ,
com pretensões fidalgas , desprezava a nora e vivia apartada deles ,
com um bando de cães e gatos , tendo o filho de lhe dar setenta e
cinco rublos por mês; ele próprio era um homem com gostos es­
merados , gostava de tomar o primeiro almoço no restaurante Sla­
viânski Bazar e almoçar no jardim Ermitage . Precisava, por isso ,
de muito dinheiro , mas o tio dele só lhe dava dois mil rublos por
ano , o que não chegava, e Lubkov passava dias a fio correndo por
Ariadna 217

Moscovo , com a língua de fora, como s e costuma dizer, para ar­


ranjar um empréstimo - o que também lhe parecia cómico . Visi­
tou Kotlóvitch para, como ele dizia, descansar da vida familiar no
seio da natureza. Ao almoço , ao jantar e nos passeios falava da
mulher, da mãe , dos credores , dos oficiais de justiça e ria-se de
todos eles; ria-se de si mesmo e assegurava que , graças ao seu jei­
to para obter dinheiro emprestado , arranjara inúmeros conheci­
mentos que eram uma simpatia de pessoas . Ria sem parar, e nós
também nos ríamos . Com ele , os nossos passatempos já eram ou­
tros . Eu era mais propenso para os prazeres sossegados , por assim
dizer idílicos: gostava de pescar, de dar longos passeios ao fim da
tarde , de ir aos cogumelos ; Lubkov preferia os piqueniques , os fo­
guetes , a caça com os braços . Três vezes por semana, organizava
piqueniques , e Ariadna, com uma cara séria e inspirada, escrevia
num papelinho: ostras , champanhe , doces; depois mandava-me a
Moscovo , sem perguntar, obviamente , se eu tinha dinheiro . E nos
piqueniques multiplicavam-se os brindes , os risos e, mais uma
vez , os relatos sobre a mulher velha, os cãezinhos gordos da mãe ,
os credores simpaticíssimos . . .
Lubkov gostava da natureza , mas olhava para ela como para
uma coisa havia muito conhecida e, na sua essência, incomensu­
ravelmente inferior a ele e criada tão-só para o prazer dele . À s
vezes parava diante de uma magnífica paisagem e dizia: «Seria
bom tomar aqui um chazinho ! » Uma ocasião , ao ver ao longe
Ariadna que caminhava com a sombrinha na mão , apontou com
a cabeça para ela e disse:
- É magra, gosto disso . Não gosto das mulheres gordas .
As suas palavras melindraram-me . Pedi-lhe que , na minha
presença, não se referisse assim às mulheres . Olhou para mim
com espanto e disse:
- Que mal tem que eu goste das magras e não goste das gor­
das?
Não lhe respondi . Mais tarde , estando ele de muito bom hu­
mor e um pouco bebido , disse:
218 Anton Tchékhov

- Reparei que Ariadna Grigórievna gosta do senhor. Admira-


-me que deixe fugir a oportunidade .
Senti-me embaraçado com estas palavras e , com alguma vergo­
nha, expus-lhe o meu ponto de vista sobre o amor e as mulheres .
- Não sei - suspirou ele . - Na minha opinião , uma mulher
é uma mulher, um homem é um homem . Que Ariadna Grigó­
rievna seja poética e sublime , como o senhor diz , isso não signi­
fica que esteja acima das leis da natureza. O senhor bem vê que
ela já está naquela idade em que a mulher precisa de marido ou
de amante . Não respeito menos as mulheres do que o senhor,
mas acho que as relações , sabe do que estou a falar, não excluem
a poesia. A poesia sim, o amante também . É a mesma coisa que
na agricultura: por um lado a beleza da natureza, por outro lado
o lucro que as florestas e os campos dão .
Quando eu e Ariadna pescávamos cadozes , Lubkov deitava-se
ao nosso lado na areia e brincava comigo , tentava ensinar-me a
viver.
- Caro senhor, admiro que possa viver sem namorar ! - di­
zia ele . - É jovem , bem-posto , interessante . . . enfim, é uma be­
leza de homem , mas vive como um monge . Oh , estes velhos de
vinte e oito anos ! Eu sou quase dez anos mais velho do que o se­
nhor, mas qual de nós dois é mais jovem? Ariadna Grigórievna,
qual dos dois?
- Você , é claro - respondeu-lhe Ariadna .
Quando s e fartava d o nosso silêncio e d a atenção com que
olhávamos para os flutuadores , ia meter-se em casa; então ,
Ariadna olhava para mim com irritação e dizia:
- Realmente , o senhor não é um homem mas , Deus me per­
doe , um molengão . O homem tem de se apaixonar, perder a ca­
beça, cometer erros , sofrer ! A mulher perdoa-lhe o atrevimento
e o descaramento , mas nunca lhe perdoa o racionalismo .
Estava seriamente zangada, e continuou:
- Para se ter êxito é preciso ser-se resoluto e ousado . O Lub­
kov não é tão bonito como o senhor, mas é mais interessante e
Ariadna 219

há-de ter sempre êxito com a s mulheres , porque é diferente de si ,


é um homem . . .
Ouvia-se mesmo na sua voz um certo encarniçamento . Um
dia, ao jantar, começou a dizer, sem se dirigir a mim , que , se fos­
se homem , não azedaria na aldeia mas iria viajar, passaria o In­
verno no estrangeiro , por exemplo em Itália . Oh , Itália ! Então o
meu pai , sem querer, deitou lenha na fogueira: pôs-se a falar de­
moradamente de Itália, que bonita era , que natureza divina, que
museus ! Ariadna, de repente , começou a arder no desejo de ir a
Itália. Até bateu com o punhozinho na mesa, e os olhos dela cin­
tilaram: viajar !
Seguiram-se as conversas infindáveis sobre como seria lindo
estar em Itália (ah , Itália, oh , Itália ! ) , e assim todos os dias ; e
quando Ariadna me olhava sem me ver, na sua expressão fria e
teimosa eu notava que , em sonhos , já conquistara a Itália com to­
dos os seus salões , estrangeiros aristocratas e turistas , e que já
era impossível detê-la . Eu aconselhei-a a que esperasse um pou­
co , que adiasse a viagem um ou dois anos , mas ela franzia a ca­
ra com repugnância e dizia:
- Você é racionalista como uma velha fêmea .
Quanto a Lubkov, apoiava a viagem . Dizia que sairia muito
barata e que ele próprio também iria com prazer a Itália , para lá
descansar da vida familiar. Eu , confesso , portava-me como um
colegial . Não era por ciúmes , mas porque pressentia qualquer
coisa terrível , fora do habitual , e tentava, na medida do possível ,
não os deixar a sós , mas eles zombavam de mim; por exemplo ,
quando eu entrava, fingiam que tinham acabado de se beijar, e
assim por diante .
Ora bem, uma bela manhã veio ter comigo o seu irmão espírita,
rechonchudo e branco , exprimindo o seu desejo de falar comigo a
sós ! Era um homem sem carácter; apesar da educação e da delica­
deza, não resistia a ler uma carta alheia se ela ficasse em frente de­
le em cima da mesa. Confessou agora, durante a nossa conversa,
que não pudera deixar de ler uma carta de Lubkov para Ariadna.
220 Anton Tchékhov

- Li e fiquei a saber que ela partiria em breve para o estran­


geiro . Querido amigo , estou muito nervoso ! Explique-me , por
amor de Deus, porque eu não percebo nada !
Ao falar, respirava com dificuldade , directamente na minha
cara , e o seu hálito cheirava a carne de vaca cozida .
- Desculpe estar a revelar-lhe os segredos daquela carta -
continuou Kotlóvitch - , mas o senhor é amigo de Ariadna, e ela
tem respeito por si ! Talvez saiba alguma coisa. Ela quer ir, mas
com quem? O senhor Lubkov também planeia ir com ela. Des­
culpe , mas até parece um pouco estranho da parte do senhor
Lubkov. É um homem casado , tem filhos , mas faz declarações
de amor, trata Ariadna por tu . Desculpe , mas é estranho !
Fiquei gelado , de mãos e pernas entorpecidas , senti uma dor
no peito como se me tivessem posto em cima dele uma pedra es­
quinuda . Kotlóvitch , extenuado , deixou-se cair na cadeira, as
mãos tombaram-lhe como cepos inanimados .
- Mas o que posso eu fazer? - perguntei .
- Chamá-la à razão , dissuadi-la . . . Pense nisto: quem é para
ela o Lubkov? Será um par para ela? Oh , meu Deus , que horror,
que horror ! - continuou , deitando as mãos à cabeça . - Ela tem
pretendentes tão bons , o príncipe Maktúev e . . . outro s . O prínci­
pe adora-a, e ainda na quarta-feira passada o espírito do seu fa­
lecido avô Ilarion confirmou em definitivo , como dois mais dois
serem quatro , que Ariadna seria a mulher do príncipe . Em defi­
nitivo ! O avô Ilarion até morto é um homem espantosamente in­
teligente . Evocamos o espírito dele todos os dias .
Depois desta conversa não dormi toda a noite , quis até dar um
tiro na cabeça. De manhã escrevi cinco cartas e rasguei-as todas ,
depois chorei desesperadamente na eira , depois pedi dinheiro ao
meu pai e parti para o Cáucaso sem me despedir.
É claro , mulher é mulher, e homem é homem, mas será que ,
nos nossos tempos , isso é assim tão simples como antes do dilú­
vio , e será que eu , um homem culto , dotado de uma complexa es­
trutura espiritual , tenho de explicar a minha forte atracção por
Ariadna 22 1

uma mulher apenas pelo facto de as formas do seu corpo serem


diferentes das minhas? Oh , isso seria horrível ! Apetece-me pen­
sar que o génio humano , na sua luta com a natureza, luta também
com o amor físico , encarando-o como inimigo e , mesmo que não
o vença, consiga emaranhá-lo numa rede de ilusões de fraterni­
dade e amor; e, pelo menos para mim , já não é simplesmente uma
função fisiológica do meu organismo animal , como para um cão
ou uma rã, mas o verdadeiro amor, e cada abraço espiritualiza-se
por um impulso cordial e puro e pelo respeito à mulher. Efecti­
vamente , a repulsa pelo instinto animal tem sido ensinada duran­
te séculos a centenas de gerações , já o herdamos no sangue e já
constitui uma parte do nosso ser, e , se agora poetizamos o amor,
isso não será tão natural e necessário nos nossos tempos como o
facto de as minhas aurículas serem imóveis e de não ter o corpo
coberto de pêlo? Parece-me que a maioria das pessoas cultas pen­
sa assim, porque , actualmente , a ausência do elemento moral e
poético no amor é considerada um fenómeno de atavismo; dizem
que é um sintoma de degeneração , de muitos tipos de loucura .
Também é verdade que , poetizando o amor, pressupomos que as
pessoas amadas têm qualidades que , na realidade , não têm , o que
se toma para nós uma fonte de permanentes erros e sofrimentos .
Mas acho que é melhor assim, sofrer, do que consolar-se com a
afirmação de que a mulher é mulher e o homem é homem .
Em Tiflis , recebi uma carta do meu pai . Escrevia ele que Ariad­
na Grigórievna partira para o estrangeiro no dia tal , com a intenção
de passar lá todo o Inverno . Um mês depois voltei para casa. Já era
Outono . Uma vez por semana, Ariadna mandava cartas para o meu
pai , escritas em papel perfumado , umas cartas muito interessantes
redigidas numa excelente linguagem literária. Na minha opinião ,
toda a mulher tem capacidades para escritora. Ariadna descrevia
em pormenor como tinha sido difícil fazer as pazes com a sua tia e
convencê-la a oferecer-lhe mil rublos para a viagem; contava tam­
bém o tempo que demorara a encontrar em Moscovo uma parente
longínqua, uma velha, para a convencer a acompanhá-la. Este ex-
222 Anton Tchékhov

cesso de pormenores cheirava muito a invenção , e eu , evidente­


mente , percebi que Ariadna não levara qualquer acompanhante .
Um pouco mais tarde recebi uma carta dela, também perfumada
e literária. Escrevia que tinha saudades minhas , dos meus olhos
bonitos , inteligentes e apaixonados , censurava-me amistosamente
por estar a desperdiçar a minha juventude , a azedar na aldeia,
quando poderia, como ela, viver num paraíso , sob as palmeiras ,
respirando o aroma das laranjeiras . E assinou assim: «Ariadna,
abandonada por si» . Dois dias depois recebi uma carta do mesmo
género e com a assinatura: «Ariadna, esquecida por si .» A minha
cabeça turvava-se de confusão . Amava-a loucamente , sonhava
com ela todas as noites , e vinha ela agora com o «abandonada» ,
«esquecida» . . . Por que razão? Para quê? . . . E depois , havia o tédio
da vida na aldeia, os fins de tarde longos , o tormento que era para
mim pensar em Lubkov . . . Aquela indefinição martirizava-me ,
envenenava-me os dias e as noites , tudo me ficou insuportável .
Não aguentei , parti para o estrangeiro .
Ariadna convidava-me para a Abbazia2 I . Cheguei lá num dia
claro , quente , depois de uma chuvada, com as gotas ainda a pin­
garem das árvores e hospedei-me na mesma dépendance enorme ,
que mais parecia um quartel , onde viviam Ariadna e Lubkov. Eles
não estavam em casa. Fui até ao parque , passeei pelas alamedas ,
depois sentei-me . Passou a meu lado um general austríaco , de
mãos atrás das costas , com as mesmas bandas vermelhas nas cal­
ças que usam os nossos generais . Alguém levava um bebé no car­
rinho e as rodas chiavam na areia húmida . Passou um ancião de­
crépito e ictérico , uma chusma de ingleses , um padre polaco ,
depois outra vez o general austríaco . Arrastaram-se até ao pavi­
lhão uns músicos recém-chegados de Fiume , com os seus corne­
tins brilhantes; começou a música a tocar. O senhor conhece Ab­
bazia? É uma vila eslava suja, com uma única rua malcheirosa
onde , depois da chuva, é impossível andar-se sem galochas . Eu

2 1 Vila balnear na costa do mar Adriático, actualmente território da Croácia. (N. T.)
Ariadna 223

tinha lido tanta coisa, com tanto enternecimento , sobre este pa­
raíso na terra, que depois , quando atravessava a rua estreita com
cuidado e as calças arregaçadas e, por não ter mais nada que fa­
zer, comprava umas peras rijas a uma velha que , ao perceber que
eu era russo , me dizia «tchitíri» e «davádtsat» 22 , e quando per­
guntava a mim mesmo com perplexidade para onde tinha de ir e
o que estava ali a fazer, e quando a cada passo encontrava russos
enganados da mesma forma que eu , sentia muita irritação e ver­
gonha. Aquilo tem uma enseada serena onde andam os vapores e
os barcos com bandeiras coloridas ; de lá vê-se Fiume e as ilhas
longínquas cobertas de bruma lilás , e isso seria pitoresco se a vis­
ta da enseada não fosse tapada pelos hotéis e suas dépendances ,
de absurdo estilo arquitectónico e mau gosto pequeno-burguês
com que os negociantes gananciosos encheram toda aquela costa
verde; por isso , naquele paraíso não vemos quase nada além de
janelas , terraços e esplanadas com as mesinhas brancas e as ca­
sacas pretas dos lacaios . Há lá um parque , igual a todos os par­
ques das zonas balneares estrangeiras . E a folhagem escura, imó­
vel , taciturna das palmeiras e o amarelo-vivo da areia das
alamedas , e o brilho dos cornetins dos soldados a rugirem, e as
bandas vermelhas das calças do general - tudo isso nos farta em
dez minutos . No entanto , sabe-se lá porquê , sentimo-nos na obri­
gação de viver ali dez dias , dez semanas ! Quando me arrastava
com esforço por essas zonas balneares , convencia-me cada vez
mais de que as pessoas enfartadas e ricas tinham uma vida des­
confortável e aborrecida, tinham uma imaginação fraca e amole­
cida, uns gostos e uns desejos muito pusilânimes . Quanto mais
felizes do que eles são os turistas jovens e velhos que , sem di­
nheiro para pagarem hotéis , vivem onde calha, admiram o mar
das alturas dos montes , deitados na erva verde , andam a pé , vêem
de perto as florestas , as aldeias , os costumes do país , ouvem as
suas canções , apaixonam-se pelas mulheres . . .

22 «Quatro» e «Vinte» , em russo deturpado. (N. T.)


224 Anton Tchékhov

Enquanto estava sentado no parque começou a escurecer, e foi


do crepúsculo que surgiu a minha Ariadna, graciosa e elegante
como uma princesa; atrás dela caminhava o Lubkov, vestindo
um fato novo , largo , comprado certamente em Viena .
- Pohque está zangada? - dizia ele . - Fiz-lhe avgum mav?
Quando me viu , Ariadna soltou um grito de alegria e , se não
estivéssemos no parque , ter-me-ia saltado ao pescoço; apertava­
-me as mãos com força, ria-se e por pouco não chorava de emo­
ção . Começaram as perguntas : como iam as coisas na aldeia, co­
mo estava o meu pai , se vi o irmão dela, etc . Insistia em que eu
a olhasse nos olhos e perguntava se eu me lembrava dos cado­
zes , das nossas pequenas zangas , dos piqueniques .
- No fundo , que bom era tudo isso - suspirou . - Mas aqui
também não nos aborrecemos . Temos muita gente conhecida, sim,
meu querido , meu bom amigo . Amanhã apresento-o a uma famí­
lia russa. Mas , por favor, compre outro chapéu . - Examinou-me
e franziu a cara. - Abbazia não é uma aldeia - disse . - Aqui te­
mos de andar comme il faut.
Depois fomos ao restaurante . Ariadna não parava de rir, de
brincar, de me chamar querido , bom amigo e inteligente , como
se não acreditasse na alegria de eu estar com ela . Ficámos no res­
taurante até às onze e despedimo-nos muito contentes com o jan­
tar e uns com os outros . No dia seguinte , Ariadna apresentou-me
à família russa: «Filho de um conhecido professor catedrático ,
nosso vizinho na herdade .» Com esta família apenas falava de
herdades e colheitas , e chamava sempre a terreiro a minha opi­
nião . Queria fazer-se passar por uma rica dona de terras e, fran­
camente , conseguia-o . Tinha maneiras excelentes , como uma
verdadeira aristocrata (aliás , pela sua origem, ela era-o) .
- Mas veja só a minha tia - disse de repente , olhando para
mim com um sorriso . - Tivemos um arrufo , e ela foi-se embo­
ra para Merano . Veja só !
Depois , quando passeávamos os dois no parque , perguntei-lhe:
- De que tia falou há pouco? Que tia é essa?
Ariadna 225

- Foi uma mentira piedosa - riu-se Ariadna. - Eles não po­


dem saber que eu não estou acompanhada.
Depois de um minuto de silêncio , encostou-se a mim e disse:
- Querido , minha alminha, faça amizade com Lubkov ! É tão
infeliz ! A mãe dele e a mulher são mesmo horrendas !
Tratava Lubkov por «você» e , quando ia dormir, despedia-se
dele da mesma forma que de mim: «até amanhã» ; viviam em an­
dares diferentes , o que me dava alguma esperança de que aquilo
era tudo um disparate e que não havia ali romance nenhum. Quan­
do me encontrava com ele não me sentia constrangido. E quando ,
uma ocasião, ele me pediu trezentos rublos de empréstimo , dei­
-lhos com grande prazer.
Todos os dias passeávamos , aliás , só passeávamos . Ora andá­
vamos pelo parque , ora comíamos , ora bebíamos . Todos os dias
conversávamos com a família russa. A pouco e pouco habituei­
-me a encontrar no parque o velho ictérico , o padre polaco e o
general austríaco que trazia sempre consigo um baralho de car­
tas pequeno e , em todo o lado onde pudesse sentar-se , fazia pa­
ciências agitando nervosamente os ombros . A música também
tocava sempre a mesma coisa. Em casa, na aldeia, eu tinha ver­
gonha diante dos mujiques quando fazia piqueniques com os
amigos ou ia pescar nos dias de semana; aqui também tinha ver­
gonha diante dos lacaios , dos cocheiros e dos trabalhadores que
encontrava; tinha a impressão de que eles olhavam para mim e
pensavam: «Porque é que não fazes nada?» Era assim, todos os
dias sentia esta vergonha, de manhã à noite . Era um tempo es­
tranho , desagradável , monótono; a única coisa que acontecia pa­
ra variar eram os pedidos de Lubkov: ora cem , ora cinquenta flo­
rins . Com o dinheiro na mão , animava-se de repente , como um
morfinómano quando toma a morfina, e começava a rir ruidosa­
mente da mulher, de si próprio , dos credores .
Começaram as chuvas e o tempo pôs-se frio. Fomos a Itália e
mandei um telegrama ao meu pai a pedir que, por amor de Deus , me
mandasse oitocentos rublos para Roma por transferência. Parámos
226 Anton Tchékhov

em Veneza, Bolonha, Florença, e, em cada cidade, hospedávamo­


-nos obrigatoriamente num hotel caro, onde nos cobravam pela luz,
pela criadagem, pelo aquecimento, pelo pão ao pequeno-almoço e
pelo direito de almoçarmos numa sala reservada. Comíamos mui­
tíssimo. De manhã serviam-nos o café complet23 . À uma, era o pri­
meiro almoço: carne, peixe, uma omeleta de qualquer coisa, queijo,
fruta e vinho . À s seis era o almoço de oito pratos , com grandes in­
tervalos , durante os quais bebíamos vinho e cerveja. Depois das oi­
to, tomávamos chá. Por volta da meia-noite, Ariadna declarava que
tinha fome e exigia fiambre e ovos mal cozidos . Para lhe fazermos
companhia, nós os dois também comíamos . Nos intervalos das re­
feições , percorríamos os museus e as exposições , com a ideia cons­
tante na cabeça de chegarmos a tempo do almoço ou do primeiro al­
moço. Eu aborrecia-me em frente dos quadros , apetecia-me voltar
para o hotel e deitar-me, cansava-me, procurava com os olhos uma
cadeira e, secundando os outros , repetia hipocritamente: «Que ma­
ravilha! Quanto ar livre ! » Como jibóias enfartadas , prestávamos
atenção apenas aos objectos brilhantes , as montras das lojas
hipnotizavam-nos, causavam-nos admiração os broches falsos ,
comprávamos montões de coisas inúteis e insignificantes .
A mesma coisa em Roma. Aqui chovia, soprava um vento frio .
Depois de u m primeiro almoço gorduroso , fomos ver a catedral
de São Pedro e , graças ao nosso enfartamento e , talvez , ao mau
tempo , não nos causou qualquer impressão , e nós , acusando-nos
mutuamente de indiferença para com a arte , por pouco não nos
zangámos .
Chegou o dinheiro do meu pai . Fui levantá-lo , era de manhã,
lembro-me . Lubkov foi comigo .
- O presente não pode ser pleno e feliz quando temos um pas­
sado - disse ele . - A mim , o passado deixou-me um fardo pe­
sado . Aliás , se tivesse dinheiro , não seria tão mau como isso , mas
sou pobre como Job . . . Não sei se acredita, mas restam-me ape-

23 Café com leite, pão e manteiga (fr.). (N. T.)


Ariadna 227

nas oito francos - continuou , baixando a voz . - No entanto ,


tenho de mandar cem à mulher e cem à minha mãe . E, aqui, tam­
bém preciso de dinheiro para viver. A Ariadna é como uma crian­
ça, não vê a minha situação e esbanja dinheiro como uma duque­
sa. Para que comprou ontem o relógio? E, diga-me, por favor:
porque havemos de continuar a fingir-nos anjinhos bem-compor­
tados? É que , esconder da criadagem e dos nossos conhecidos as
nossas relações custa-nos mais dez ou quinze francos por dia,
porque eu ocupo um quarto separado . Para quê?
Foi como se uma pedra afiada me rasgasse o peito . Acabara a
indefinição , tudo estava claro para mim. Gelei , e logo tomei a
decisão de deixar de os ver, aos dois , de fugir deles , de voltar
imediatamente para casa.
- Começar relações com uma mulher é fácil - continuava
Lubkov - , basta despi-la, mas depois é tudo tão penoso , tão ab­
surdo !
Quando eu contava o dinheiro recebido , ele disse:
- Se não me emprestar mil francos é o meu fim . O seu di­
nheiro é o meu único recurso .
Dei-lhe o dinheiro , e logo ele se animou e começou a troçar
do seu tio , esse esquisitão que não conseguia esconder da mulher
o seu endereço . Quando cheguei ao hotel fiz as malas e paguei a
conta. Faltava despedir-me de Ariadna.
Bati à porta dela.
- Entrez!
No quarto dela reinava a desordem matinal: na mesa ainda es­
tava a loiça do chá, um pãozinho trincado , cascas de ovo; o chei­
ro a perfume era tão forte que sufocava. A cama não estava fei­
ta, e era evidente que tinham dormido nela duas pessoas . A
própria Ariadna levantara-se havia pouco e estava de blusa de
flanela e com o cabelo por pentear.
Cumprimentei-a, depois fiquei um minuto sentado em silêncio ,
enquanto ela tentava pôr em ordem o cabelo . Depois perguntei­
-lhe , tremendo todo:
228 Anton Tchékhov

- Para que . . . para que me chamou cá, ao estrangeiro?


Pelos vistos , adivinhou o que eu pensava; pegou na minha
mão e disse:
- Quero que esteja aqui ; é tão casto !
Senti vergonha da minha emoção , do meu tremor. E se desata­
va a chorar? Deus me livrasse ! Saí sem dizer mais nada. Uma ho­
ra depois já estava no comboio . Durante todo o percurso , não sei
porquê, imaginava a Ariadna grávida, e metia-me nojo, e todas as
mulheres que via no comboio e nas estações pareciam-me grávi­
das , e tinha repugnância e pena delas . Estava na situação daquele
avarento apaixonado pelo dinheiro que descobriu de súbito que
todas as suas moedas de ouro eram falsas . As imagens puras e gra­
ciosas que a minha imaginação alimentava havia tanto tempo , os
meus planos , as minhas esperanças , as minhas recordações , os
meus pontos de vista sobre o amor e a mulher - tudo isso se ria
agora de mim , me mostrava a língua. Ariadna - perguntava a
mim mesmo , aterrorizado - , essa jovem incrivelmente bonita,
culta, filha de um senador, é amante de um homem tão ordinário ,
tão vulgar, sem qualquer graça? Mas porque não poderia ela amar
realmente o Lubkov? Em que era ele pior do que eu? Oh, que ela
ame quem quiser, mas para quê mentir? Aliás , por que razão de­
veria ela ser sincera comigo? E assim por diante, sempre no mes­
mo sentido , até ficar estonteado . Estava frio na carruagem . Eu ia
em primeira classe , mas havia três pessoas para cada divã, não ha­
via caixilho duplo na janela, a porta exterior abria directamente
para o compartimento - e sentia-me como que agrilhoado , aper­
tado , abandonado , miserável , com os pés gelados; ao mesmo tem­
po , vinha-me à memória a imagem sedutora de Ariadna em blusa
de flanela e com o cabelo solto , e acometiam-me uns ciúmes tão
fortes que eu saltava do lugar, com a morte na alma. Os meus vi­
zinhos ficavam a olhar para mim com espanto e até com medo .
Quando cheguei a casa fui recebido por montões de neve e um
frio de vinte graus negativos . Gosto do Inverno , gosto dele quan­
do estou em casa porque , mesmo com um frio de rachar na rua ,
Ariadna 229

sinto sempre um calor agradável , muito especial . É bom vestir a


peliça curta e as botas de feltro , e , num dia claro e frio , fazer al­
guma coisa no jardim ou no terreiro , ou ler no quarto bem aque­
cido , ou ficar no gabinete do meu pai junto à lareira, ou tomar ba­
nho na sauna rústica . . . Mas , quando não temos em casa uma
mãe , uma irmã ou filhos , os fins de tarde invernais são assusta­
dores , são longos e silenciosos . E quanto mais calor e conforto há
em casa, mais se sente a ausência. Naquele Inverno , quando vol­
tei do estrangeiro , as tardes eram intermináveis , eu angustiava­
-me muito e, com a angústia, nem sequer conseguia ler; de dia,
menos mal: ora limpava a neve no quintal , ora dava de comer às
galinhas e aos vitelos ; mas de noite era um castigo .
Dantes eu não gostava de convidados em casa, mas nessa altu­
ra tinha prazer em recebê-los , porque sabia que falariam necessa­
riamente de Ariadna. Muitas vezes aparecia o espírita Kotlóvitch
que falava da irmã e, por vezes , levava consigo o seu amigo prín­
cipe Maktúev que estava apaixonado por Ariadna ainda mais do
que eu . Ficar sentado no quarto de Ariadna, tocar nas teclas do
seu piano , folhear os seus cadernos de música era já uma neces­
sidade para o príncipe , não podia viver sem isso , e o espírito do
avô Ilarion continuava a vaticinar que , mais cedo ou mais tarde ,
ela seria mulher dele . Também em nossa casa o príncipe ficava
muito tempo , desde o pequeno-almoço até à meia-noite , sempre
calado; bebia em silêncio duas ou três garrafas de cerveja e ape­
nas de vez em quando , para mostrar que também participava na
conversa, ria-se de forma entrecortada, triste , aparvalhada . Antes
de sair, chamava-me sempre de lado e perguntava a meia voz:
- Quando viu Ariadna Grigórievna pela última vez? Estava
bem de saúde? Ela não se aborrece lá, pois não?
Chegou a Primavera. Era preciso cumprir os trabalhos públicos
obrigatórios , depois semear o trigo e o trevo. Eu estava triste, mas
já à maneira primaveril: resignado com a perda. Trabalhando no
campo e ouvindo as cotovias , perguntava a mim mesmo: não será
melhor acabar de vez com este problema da felicidade pessoal ,
230 Anton Tchékhov

casando-me simplesmente com uma rapariga camponesa? Mas , de


repente , no auge dos trabalhos agrícolas , recebi uma carta com se­
lo italiano . O trevo , o colmeal , os vitelos e a rapariga camponesa
- tudo isso se dissipou como fumo . Desta vez, Ariadna escrevia
que estava profunda e infinitamente infeliz . Acusava-me de não lhe
ter estendido uma mão para a ajudar, mas de ter olhado para ela das
alturas da minha virtude e de a ter abandonado num momento de
perigo . Tudo isto escrito numa letra graúda e nervosa, com riscos
e manchas de tinta. Via-se que escrevera à pressa e em sofrimento .
Em conclusão , implorava que fosse ter com ela e a salvasse .
De novo fui arrancado da âncora e lançado a todo o vapor pa­
ra ela . Cheguei quando a noite já ia alta , e ela, ao ver-me , atirou­
-se ao meu pescoço . Durante o Inverno não mudara nada, conti­
nuava jovem e bela. Ceámos juntos e depois , até ao amanhecer,
passeámos no coche por Roma, com ela a falar sempre da sua vi­
da. Perguntei-lhe onde parava Lubkov.
- Não me lembre essa besta ! - gritou . - Mete-me nojo !
- Mas parece que o amava - disse eu .
- Nunca ! Nos primeiros tempos , parecia-me original e
causava-me compaixão , mas nada mais do que isso . É descarado,
toma a mulher de assalto , e isso atrai . Mas não falemos dele . É uma
página triste da minha vida. Foi à Rússia buscar dinheiro , bons
ventos o levem ! Disse-lhe que não se atrevesse a voltar.
Já não vivia no hotel , mas numa casa alugada de duas assoa­
lhadas , que arranjara a seu gosto , num estilo frio e luxuoso . De­
pois da partida de Lubkov, contraíra dívidas no montante de cin­
co mil francos , pedindo dinheiro a toda a gente que conhecia, e a
minha chegada era de facto uma salvação para ela. Eu pensava
levá-la para a aldeia, mas não consegui . Ela tinha saudades da ter­
ra, mas as recordações da pobreza, das necessidades , do telhado
enferrujado na casa do irmão provocavam-lhe repugnância, tre­
muras , e quando lhe propus que voltasse para casa, apertou-me as
mãos convulsivamente e disse:
- Não , não ! Eu , lá, morro de tédio !
Ariadna 23 1

Depois o meu amor entrou na sua última fase , no seu último


quarto .
- Seja um lindo menino como antes , ame-me um pouco -
disse Ariadna inclinando-se para mim . - Você é soturno e ra­
cional , tem medo de se entregar ao impulso e pensa sempre nas
consequências , o que é aborrecido . Vá lá, peço-lhe , imploro-lhe ,
seja carinhoso ! . . . Meu casto , meu santo , meu querido , amo-o
tanto !
Tomei-me amante dela. Pelos menos , durante um mês vivi
com ela como louco , sentindo apenas aquele enleio . Abraçar um
corpo jovem e belo , deliciar-se com ele , sentir ao acordar o calor
dela e ver que ela, a minha Ariadna, estava ali - oh , é difícil
habituar-se a isso ! Mas habituei-me e , a pouco e pouco, comecei
a ver a minha nova situação conscientemente . Antes de mais per­
cebi que Ariadna, tal como antes , não me amava. Mas tinha von­
tade de amar a sério , temia a solidão , e, sobretudo , eu era jovem,
saudável e forte , e , como toda a gente fria, ela era sensual - e
ambos fingíamos que nos juntáramos por amor recíproco e louco .
Depois acabei por compreender mais algumas coisas .
Vivemos em Roma, Nápoles , Florença; fomos uma vez a Paris
mas , como aquilo nos parecesse frio , voltámos logo para Itália.
Apresentávamo-nos por todo o lado como marido e mulher, pro­
prietários rurais ricos , as pessoas travavam conhecimento con­
nosco com muito prazer, e Ariadna tinha sempre um grande êxi­
to . Como ela tinha aulas de pintura, chamavam-lhe pintora, e ,
imagine , isso ficava-lhe muito bem, embora não tivesse u m pin­
go de talento . Dormia todos os dias até às duas ou três da tarde;
tomava o café e o primeiro almoço na cama. Ao almoço comia so­
pa, lagosta, peixe , carne , espargos , caça, e depois , quando se dei­
tava à noite , eu servia-lhe alguma coisa na cama, por exemplo
rosbife , e ela comia-o com uma expressão triste , preocupada; du­
rante a noite ainda comia maçãs e laranjas .
A característica principal , ou mesmo essencial , desta mulher
era a malícia, uma malícia espantosa. Usava de manhas constan-
232 Anton Tchékhov

temente , a cada instante , parece que sem qualquer necessidade ,


por instinto , seguindo o mesmo impulso que faz com que um
pardal chilre ou uma barata mexa as antenas . Usava de manha
comigo , com os lacaios, com o porteiro , com os vendedores nas
lojas , com os conhecidos ; não tinha uma conversa, um encontro
sem denguice e afectação . Bastava que entrasse no nosso quarto
do hotel um homem - fosse quem fosse, um criado ou um ba­
rão - para ela mudar de olhar, de expressão , de voz , até os con­
tornos da sua silhueta se alteravam . Se o senhor a visse naquela
altura, nem que fosse uma vez , diria que em toda a Itália não ha­
via ninguém mais aristocrático e rico do que nós . Não deixava
passar um artista plástico ou um músico sem lhe dizer um mar
de mentiras disparatadas sobre o notável talento desse artista.
- O seu talento é fantástico ! - dizia em voz melíflua e can­
tada . - Até mete medo estar perto de si . Acho que vê as pessoas
à transparência.
E tudo isto apenas para atrair, ter êxito , ser encantadora ! Acor­
dava todas as manhãs com uma única ideia: «ser atraente ! » Era
esse o objectivo e o sentido da sua vida. Se eu lhe dissesse que na
rua tal , número tal , vivia uma pessoa que não gostava dela, isso
fá-la-ia sofrer a sério. Todos os dias tinha de encantar, de enfeiti­
çar, de dar a volta à cabeça de alguém . O facto de eu estar sob o
seu poder e de me transformar, perante os encantos dela, numa
absoluta nulidade dava-lhe o mesmo prazer que os vencedores
experimentavam outrora nos torneios . A minha humilhação não
era suficiente para ela, e de noite , estirada na cama como uma
pantera, descoberta, lia as cartas que lhe mandava Lubkov;
implorava-lhe que voltasse para a Rússia, senão , jurava ele , rou­
baria ou mataria alguém para arranjar dinheiro e ir ter com ela.
Ariadna odiava-o , mas as cartas apaixonadas e servis do homem
emocionavam-na. Tinha em muito alto apreço os seus encantos ,
acreditava que , se nalguma reunião muito concorrida vissem que
corpo bem feito ela tinha e como era bela a cor da sua pele , con­
quistaria toda a Itália, todo o mundo . Estas conversas sobre o cor-
Ariadna 233

po e a cor da pele eram um insulto para mim, e ela, apercebendo­


-se , quando estava indisposta e queria irritar-me , dizia vulgarida­
des e provocava-me , chegando a tal ponto que uma ocasião, na
casa de campo de uma senhora, zangou-se comigo e declarou:
- Se não parar de me incomodar com os seus sermões , dispo-
-me toda agora mesmo e deito-me em cima destas flores !
Muitas vezes , vendo-a a dormir, ou a comer, ou a tentar trans­
mitir ao olhar uma expressão ingénua, eu pensava: para que lhe
concedeu o Senhor esta beleza extraordinária, esta graça, este in­
telecto? Para se espreguiçar na cama, comer e mentir permanente­
mente? De resto , seria ela inteligente? Tinha medo das três velas ,
do dia treze , o mau-olhado e os maus sonhos aterrorizavam-na, ra­
ciocinava sobre o amor livre e , em geral , sobre a liberdade como
uma velha beata, afirmava que Boleslav Markévitch era melhor do
que Turguénev. Mas era diabolicamente manhosa e espirituosa,
conseguindo passar por pessoa muito culta e progressista em so­
ciedade .
Não tinha qualquer pejo , mesmo em momentos de bom hu­
mor, de insultar uma criada, de matar um insecto; gostava de
touradas , de ler sobre crimes e mortes e ficava fula quando os
réus eram ilibados .
Para manter a vida que eu e Ariadna levávamos , precisávamos
de muito dinheiro . O meu pobre pai mandava-nos a sua pensão,
todos os seus pequenos rendimentos , pedia empréstimos para
mim por todo o lado , e quando ele finalmente me respondeu «non
habeo24 » mandei-lhe um telegrama desesperado , implorando-lhe
que hipotecasse a herdade . Um pouco mais tarde pedi-lhe que fi­
zesse uma segunda hipoteca. Fez ambas com resignação e
mandou-me tudo até ao último copeque . Ora, Ariadna despreza­
va a prática da vida, não queria saber de nada disso , e enquanto
eu , ao esbanjar milhares de francos para satisfazer os seus dese­
jos loucos , gemia como uma árvore velha, ela, de alma despreo-

24 Não tenho (lat.) . (N. T.)


234 Anton Tchékhov

cupada, cantarolava Addio, bella Napoli . Fui esfriando a pouco e


pouco e comecei a envergonhar-me das nossas relações . Não gos­
to de gravidezes nem partos , mas por vezes até já sonhava com
um filho que se tomasse uma justificação , pelo menos formal , da
nossa vida a dois . Para não repugnar a mim mesmo definitiva­
mente , pus-me a frequentar museus e galerias de arte , lia livros ,
comia pouco , deixei de beber. Quando somos nós a extenuar-nos
puxando a nossa própria arreata, de manhã à noite , parece que a
alma fica mais aliviada.
Ariadna também ficou farta de mim . A propósito: Ariadna ti­
nha êxito entre gente mediana e, tal como dantes , não havia em­
baixadores nem salão , faltava-nos o dinheiro , o que a ofendia e
fazia chorar; por isso me declarou finalmente que talvez não es­
tivesse contra o regresso à Rússia . Eis-nos então de regresso .
Nos últimos meses antes da partida trocava correspondência as­
sídua com o irmão , provavelmente com desígnios secretos , sabe
Deus quais. É que já estou farto de tentar penetrar nas manhas
dela. Mas não vamos para a aldeia, vamos para !alta, depois pa­
ra o Cáucaso . Ela agora já só consegue viver nas zonas balnea­
res , mas se o senhor soubesse até que ponto eu detesto estas zo­
nas balneares , como sufoco nestas termas , como me envergonho
lá ! Como seria bom ir agora para a aldeia ! Gostaria de ganhar o
meu pão , redimir os meus erros . Agora sinto-me com forças , até
de mais , e acho que se as usasse conseguiria recuperar a herda­
de em cinco anos . Mas , veja, há uma complicação . Aqui não é o
estrangeiro , é a mãe Rússia, é preciso pensar no casamento legí­
timo . É claro que a paixão já desapareceu , do antigo amor não
há sequer uma sombra, mas , seja como for, tenho a obrigação de
me casar com ela.

Eu e um Chamókhin emocionado com o seu próprio relato


descíamos do convés e continuávamos a falar de mulheres . Des­
cobrimos que tínhamos o mesmo camarote .
Ariadna 235

- Por enquanto , só nas aldeias é que a mulher não se atrasa


em relação ao homem - dizia Chamókhin . - Ali , a mulher
pensa, sente e luta contra a natureza em prol da cultura, e fá-lo
com a mesma aplicação que o homem . Ora, a mulher urbana,
burguesa, intelectual há muito que se atrasou e está a regredir ao
estado primitivo , já está a meio caminho do animal humano , e
por culpa dela já se perdeu muito daquilo que o género humano
conquistou; a mulher está a desaparecer a pouco e pouco para
dar lugar à fêmea primitiva . Este atraso da mulher intelectual re­
presenta um sério perigo para a cultura; no seu movimento re­
gressivo , ela tenta levar o homem atrás e atrasa o seu movimen­
to para a frente . É indubitável .
Perguntei-lhe: para quê generalizar, para quê julgar todas as
mulheres só pela Ariadna? A aspiração das mulheres à instrução
e à igualdade entre os sexos , que eu entendo como uma aspira­
ção à justiça, já por si exclui qualquer suposição de movimento
regressivo . Chamókhin , porém , mal me ouvia e deitava-me um
sorriso de desconfiança . Era já um misógino empedernido , con­
victo , era impossível dissuadi-lo .
- Eh , deixe lá! - interrompeu-me . - Se a mulher não vê em
mim um ser humano igual a ela, mas sim um macho , e se durante
toda a sua vida se preocupa apenas em atrair-me , isto é ,
apoderar-se de mim , de que igualdade s e pode falar? Nós , o s ho­
mens , lutamos pela liberdade delas , mas elas não querem essa li­
berdade , apenas fazem de conta que a querem . São manhosas ,
terrivelmente manhosas !
Eu já estava farto da discussão e tinha sono . Virei-me de cara
para a parede .
- Pois - ouvia eu , enquanto adormecia. - Pois . Mas a cul­
pa de tudo isto é da educação , paizinho . Nas cidades , toda a edu­
cação e todo o ensino que se ministra às mulheres resumem-se ,
na essência, na transformação da mulher em animal humano , ou
seja, em fazer com que ela sej a atraente para o macho e vença o
macho . Pois - Chamókhin suspirou . - É necessário que as me-
236 Anton Tchékhov

ninas sejam educadas juntamente com os rapazes , e que estejam


sempre juntos . É necessário educar a mulher de modo a que ela,
tal como o homem, saiba assumir a consciência de que pode não
ter razão , porque agora, na opinião dela, tem sempre razão . In­
cutam à menina, desde o berço , a ideia de que o homem não é o
cavaleiro nem o noivo , mas antes de mais o seu próximo , um
igual a ela em tudo . Habituem-na a raciocinar logicamente , a ge­
neralizar, e não a convençam de que o cérebro dela pesa menos
que o masculino e que , por isso , tem o direito de ser indiferente
às ciências , às artes e, em geral , aos objectivos culturais . Um ra­
paz aprendiz de sapateiro ou de trolha também tem um cérebro
mais pequeno do que um homem adulto , e , no entanto , participa
na luta geral pela vida, trabalha, sofre . É também necessário
abandonar essa maneira de alegar a fisiologia, a gravidez e o par­
to; porque , em primeiro lugar, a mulher não dá à luz todos os
meses; em segundo lugar, nem todas as mulheres têm filhos ; e ,
em terceiro lugar, uma aldeã normal trabalha n o campo até à vés­
pera do parto e não lhe acontece mal nenhum . Também deve ha­
ver plena igualdade na vida quotidiana. Se o homem chega a ca­
deira à senhora, ou apanha do chão um lenço que ela deixou cair,
que ela lhe pague com a mesma moeda. Não teria nada contra se
uma menina de boas famílias me ajudasse a vestir o casaco ou
me servisse um copo de água . . .
Não ouvi mais nada porque adormeci . Na manhã seguinte ,
quando nos aproximávamos de Sevastópol , o tempo estava hú­
mido , desagradável . O navio balançava um pouco . Chamókhin
estava comigo na casa do piloto , sentado , calado , a reflectir. Os
homens , com as golas dos sobretudos levantadas , e as senhoras ,
com as caras pálidas e sonolentas , começaram a descer quando
soou o sinal para o chá. Uma senhora, jovem e muito bonita, a
mesma que em Volótchisk se irritara com os funcionários da al­
fândega, parou em frente de Chamókhin e disse-lhe com a ex­
pressão de uma criança mimada e caprichosa:
- Jean , o teu passarinho está tão mareado !
Ariadna 237

Depois , estava eu em !alta, vi esta senhora a cavalgar num esqui­


pador e, atrás dela, dois oficiais que mal conseguiam acompanhá-la;
via-a mais uma vez, uma manhã, de barrete frígio e avental , a pin­
tar um estudo na marginal , com uma multidão à volta a admirá-la.
Também me apresentei . Apertou-me a mão com força e, olhando
para mim com admiração , agradeceu-me numa voz melíflua e can­
tante, o prazer que eu lhe dava com as minhas obras .
- Não acredite - sussurrou-me Chamókhin - , ela não leu
nada do que o senhor escreveu .
Uma ocasião , ao fim da tarde , passeando eu pela marginal , en­
contrei Chamókhin; levava nas mãos dois grandes embrulhos
com acepipes e frutos .
- O príncipe Maktúev está cá ! - disse ele alegremente . -
Chegou ontem , na companhia do irmão dela, o espírita. Agora
compreendo em que consistia a correspondência dela com o ir­
mão ! Meu Deus - disse ele , olhando para o céu e apertando os
embrulhos contra o peito - , se tudo se arranjar entre ela e o
príncipe , significará a liberdade para mim , poderei ir-me embo­
ra para a aldeia, para o meu pai .
E correu em frente .
- Começo a acreditar nos espíritos ! - gritou-me , virando-se
para trás . - Parece que o espírito do avô Ilarion vaticinou bem !
Oxalá seja verdade !
No dia seguinte parti de !alta e não sei como acabou o ro­
mance de Chamókhin .
A NOIVA

Já eram dez da noite e sobre o jardim luzia a lua cheia . Em ca­


sa dos Chúmin acabara o ofício noctumo encomendado pela avó
Marfa Mikháilovna , e agora Nádia - que saíra por uns momen­
tos para o jardim - via como punham a mesa com os acepipes ,
como a avó se atarefava, com o seu vestido de seda fofo ; o pa­
dre Andrei , arcipreste da catedral , falava com a mãe de Nádia,
Nina Ivánovna, que , sob a iluminação noctuma, parecia agora
muito jovem; ao pé dela estava o filho do padre Andrei , Andrei
Andréitch , ouvindo com atenção .
No jardim estava tudo calmo , fresco , jaziam no chão sombras
escuras , serenas . Ouviam-se as rãs a coaxar como se fosse muito
longe , fora de portas . Sentia-se o Maio , querido Maio ! Respirava­
-se fundo e apetecia pensar que não era aqui mas algures entre o
céu e as copas das árvores , longe da cidade , nos campos e nos
bosques , que se desenrolava a vida primaveril , misteriosa, bela,
rica e santa, inacessível à compreensão do homem fraco , peca­
minoso . E apetecia chorar.
Nádia já tinha vinte e três anos; desde os dezasseis que sonhava
ansiosamente com o casamento , e agora, finalmente, era noiva de
Andrei Andréitch , aquele mesmo que via atrás da janela; gostava
240 Anton Tchékhov

dele , o casamento já havia sido marcado para o dia sete de Julho , e ,


no entanto , não estava feliz, dormia mal , a sua alegria desaparece­
ra . . . Da cozinha, situada na cave, saíam pela janela aberta os sons
das tarefas , da pressa, o barulho das facas , o bater da porta com blo­
co; cheirava a peru assado e a ginjas em vinagre . E, por qualquer ra­
zão , parecia que seria assim toda a vida, imutavelmente , até ao fim !
Alguém saiu de casa e parou à porta: era Aleksandr Timo­
féitch , ou simplesmente Sacha, convidado que viera de Mosco­
vo dez dias antes . Havia muito , tinha vindo pedir uma ajudinha
à avó uma parente afastada desta, uma tal Mária Petrovna , viú­
va e fidalga empobrecida , pequena, magrinha , doente . Tinha um
filho , era este Sacha . Dizia-se que era um excelente artista, e
quando a mãe dele morreu , a avó , para salvação da sua alma ,
mandou-o para Moscovo estudar na Escola de Desenho Técnico;
dois anos depois mudou para a Escola de Pintura, onde passou
quase quinze anos e onde , a muito custo , terminou o curso de ar­
quitectura; não trabalhava nesta área, mas sim nas oficinas de li­
tografia de Moscovo . Vinha todos os Verões , normalmente mui­
to doente , para descansar e recuperar a saúde .
Vestia agora sobrecasaca abotoada e calças de brim coçadas ,
repisadas em baixo . A camisa não estava passada a ferro , e todo
ele tinha um aspecto pouco asseado . Muito magro , com os olhos
grandes , os dedos compridos e delgados , barbudo , escuro mas ,
mesmo assim , bonito . Habituara-se à família dos Chúmin como
se fosse a dele e sentia-se em casa. Havia muito que o quarto que
ocupava se chamava o quarto de Sacha .
Parado no umbral , viu Nádia e foi ter com ela.
- Que bem se está aqui em vossa casa - disse .
- É claro que se está bem . Devia ficar até ao Outono .
- Sim, pelos vistos é o que vai acontecer. Provavelmente , fi-
carei convosco até Setembro .
Riu-se sem motivo e sentou-se ao lado dela.
- Eu estou aqui a olhar para a mamã - disse Nádia. - Da­
qui parece tão jovem ! A minha mãe tem as suas fraquezas , é ela-
A Noiva 24 1

ro - acrescentou depois de uma pausa - , mesmo assim é uma


mulher extraordinária .
- Sim , é boa . . . - concordou Sacha . - Não haja dúvidas que
a sua mãe , à maneira dela, é muito bondosa e querida, mas . . . Co­
mo hei-de dizer-lhe? Hoje, de manhã cedo , passei pela vossa co­
zinha: quatro criadas a dormirem no chão , sem camas , em cima
de uns farrapos . . . e um fedor, percevejos , baratas . . . A mesma coi­
sa que há vinte anos, não mudou nada . A avó ainda passa, pa­
ciência, a avó é a avó; mas a sua mãe , veja lá, fala francês , parti­
cipa em espectáculos . Pelo menos poderia compreender, acho eu .
Quando Sacha falava, brandia dois dedos compridos diante do
seu ouvinte .
- Aqui , por falta de hábito , parece-me tudo um pouco esqui­
sito - continuou . - C ' os diabos , ninguém faz nada. A sua mãe­
zinha passeia todo o dia, como uma duquesa, a avó também não
faz nada, a menina também não . E Andrei Andréitch , o seu noi­
vo , também não faz nada .
Nádia já ouvira este discurso no último ano , talvez no penúl­
timo também , sabendo que Sacha era incapaz de raciocinar de
outro modo , e se dantes isso lhe parecia cómico , agora, não sa­
bia porquê , sentia desgosto .
- Isso é uma conversa batida e há muito que estou farta de a
ouvir - disse ela e levantou-se . - Podia inventar alguma coisa
mais nova .
Ele riu-se e também se levantou , foram juntos para casa . Ná­
dia, alta, bonita, esbelta, ao lado dele parecia ter um ar muito sa­
dio e estar muito bem vestida; ela sentia-o , tinha pena dele e ,
sem perceber porquê , estava u m pouco embaraçada .
- O Sacha também fez muita coisa despropositada - disse
ela . - Por exemplo , falou do meu Andrei , mas não o conhece .
- O meu Andrei . . . Não interessa este seu Andrei ! Tenho pe­
na é da sua juventude .
Quando entraram na sala já estavam todos sentados à mesa do
jantar. A avó , ou vovozinha, como lhe chamavam em casa, muito
242 Anton Tchékhov

gorda, sem graça, sobrolho espesso e buço , falava alto , e logo


pelo tom de voz e pela maneira de falar se percebia que era a che­
fe da fann1ia. Era proprietária de filas de lojas na feira e do solar
antigo com colunas e jardim, mas rezava todas as manhãs pedindo
a Deus que a salvasse da falência e chorava. Estava a sua nora Ni­
na Ivánovna, mãe de Nádia, loira, muito espartilhada, com pince­
-nez e diamantes em todos os dedos; e o padre Andrei , velho ma­
gricela, desdentado e com a expressão de quem se prepara para
contar alguma coisa muito cómica; e o seu filho Andrei Andréitch,
noivo de Nádia, corpulento e bonito , com o cabelo encaracolado ,
com pinta de actor ou pintor - os três falavam de hipnotismo .
- Comigo , recuperas numa semana - disse a avó dirigindo-se
a Sacha - , mas tens de comer mais . Olha só como tu estás ! - sus­
pirou . - Ficaste feio ! És mesmo um filho pródigo , nada a dizer.
- Desperdiçou a fazenda paterna - pronunciou lentamente
o padre Andrei , com uns olhinhos risonhos - e desejava encher
o seu estômago com as bolotas que os porcos comiam25 . . .
- Gosto do meu paizinho - disse Andrei Andréitch e tocou
no ombro do pai . - É um velho querido . Um velho bondoso .
Ficaram todos calados . Sacha riu-se de repente e apertou o
guardanapo à boca.
- Portanto , a senhora acredita no hipnotismo? - perguntou
o padre Andrei a Nina lvánovna.
- Não posso afirmar que acredito , é claro - respondeu Ni­
na Ivánovna, dando ao rosto uma expressão muito séria, até ri­
gorosa - , mas tenho de confessar que há na natureza muitas
coisas misteriosas e incompreensíveis .
- Estou perfeitamente de acordo consigo , embora tenha de
acrescentar, da minha parte , que a fé nos reduz consideravel­
mente a área do misterioso .
Serviram um peru muito grande e gordo . O padre Andrei e Ni­
na lvánovna continuavam na sua conversa. Nos dedos de Nina

25 São Lucas , 1 5 : 1 3- 1 6 . (N. T.)


A Noiva 243

Ivánovna brilhavam os diamantes , depois começaram a brilhar­


-lhe as lágrimas nos olhos , estava emocionada.
- Embora não me atreva a discutir consigo - disse ela - ,
tem de concordar: na vida há tantos enigmas irresolúveis !
- Nem um, atrevo-me a garantir-lhe .
Depois do jantar, Andrei Andréitch tocou violino , acompa­
nhado ao piano por Nina Ivánovna. Andrei Andréitch acabara o
curso da faculdade de letras havia dez anos , mas não estava ao
serviço em lado nenhum , não tinha qualquer ocupação determi­
nada, apenas participava de vez em quando em concertos de be­
neficência; logo , na cidade chamavam-lhe artista.
Andrei Andréitch tocava; todos ouviam em silêncio . Em cima
da mesa refervia sem barulho o samovar, mas apenas Sacha to­
mava chá . Depois , quando o relógio bateu a meia-noite , foi co­
mo se rebentasse de repente uma corda: todos começaram a rir,
se agitaram e começaram a despedir-se .
Depois de se despedir do noivo , Nádia foi para cima, para os
aposentos dela e da mãe (o andar de baixo era ocupado pela
avó) . Em baixo , na sala, começaram a apagar as luzes , mas Sa­
cha continuava sentado a tomar chá . Tomava sempre assim o
chá, demoradamente , à moda moscovita, chegando a beber sete
copos de cada vez . Nádia, depois de se despedir e de se ter dei­
tado , ainda ouviu durante muito tempo , em baixo , as criadas a le­
vantarem a mesa e a vovozinha zangada. Finalmente , tudo se
acalmou , apenas se ouvindo de vez em quando o Sacha , no seu
quarto em baixo , a tossir em tom de baixo .

Quando Nádia acordou deviam ser duas da madrugada, come­


çava a amanhecer. Algures , ao longe , matracava o guarda­
-noctumo . Não tinha sono , a cama era demasiado macia, descon­
fortável . Nádia, como lhe acontecia em todas as noites passadas
244 Anton Tchékhov

deste mês de Maio , sentou-se na cama e pôs-se a pensar. Os seus


pensamentos eram os mesmos da noite anterior, monótonos , inú­
teis , obsessivos; pensava em Andrei Andréitch , como tinha co­
meçado a cortejá-la e a pedira em casamento , como ela dissera
sim e, depois , a pouco e pouco, começara a dar o devido valor a
este homem bondoso e inteligente . Agora, porém , quando faltava
um mês para o casamento , começava a sentir medo , inquietação ,
como se a esperasse alguma coisa grave e indefinida.
«Tic-toc , tic-toc . . . - batia preguiçosamente a matraca do
guarda . - Tic-toc . . . »
Da grande e velha janela vê-se o jardim, os longínquos arbus­
tos de lilases aos cachos grossos , sonolentos e moles de frio ; e o
nevoeiro , branco e espesso , navega lentamente até aos lilases ,
como que para os tapar. Ao longe , nas árvores , gritam as enso­
nadas gralhas-calvas .
- Meu Deus , porque me sinto tão oprimida?
Talvez qualquer noiva experimente a mesma coisa antes do
casamento . Quem sabe? Ou seria influência de Sacha? Mas Sa­
cha há já vários anos seguidos que diz as mesmas coisas , como
se as tivesse decorado de um livro , e quando fala parece ingénuo
e estranho . Então , porque não lhe sai o Sacha da cabeça? Por­
quê?
O guarda-noctumo há muito que não bate . Debaixo da janela
e no jardim começou a azáfama e o barulho dos pássaros; como
um sorriso , a luz primaveril ilumina tudo à volta. Um pouco de­
pois , todo o jardim se animou , aquecido e acariciado pelo sol , as
gotas de orvalho brilhavam nas folhas como diamantes; e o jar­
dim velho , descurado há muito tempo , nesta manhã parecia mui­
to jovem e aperaltado .
Já acordou a vovozinha. O Sacha já tossiu no seu baixo grosso .
Ouvia-se já o samovar trabalhando , as cadeiras a ser arrastadas .
As horas passam devagar. Nádia já se levantou há muito e há
muito que já deu uma volta pelo jardim, mas a manhã ainda per­
dura .
A Noiva 245

Aí vem Nina Ivánovna, com lágrimas recentes nos olhos e um


copo de água mineral . Nina Ivánovna praticava o espiritismo , a
homeopatia , lia muito , gostava de falar das dúvidas a que estava
sujeita, e tudo isso , como parecia a Nádia, se impregnava de um
sentido profundo e misterioso . Nádia beijou a mãe e pôs-se a ca­
minhar a seu lado .
- Porque choraste , mamã? - perguntou-lhe .
- Ontem à noite comecei a ler uma novela em que se des-
creve um velho e a sua filha . O velho está empregado num sítio
qualquer, e o chefe dele apaixona-se pela filha . Não li até ao fim,
mas há lá uma passagem em que é difícil conter as lágrimas -
disse Nina Ivánovna e bebeu um gole do copo . - Hoje de ma­
nhã lembrei-me disso e também chorei .
- E eu tenho andado muito triste estes dias todos - disse
Nádia depois de uma pausa. - Porque será que não durmo de
noite?
- Não sei , meu amor. Eu , quando não durmo , fecho os olhos
com força, assim , e imagino Anna Karénina , como ela entra e fa­
la, ou então qualquer coisa histórica, do mundo antigo . . .
Nádia sentiu que a mãe não a compreendia nem podia com­
preender. Era a primeira vez na vida que sentia isso , e até fi­
cou com medo , teve vontade de se esconder; foi para o seu
quarto .
Sentaram-se as duas a almoçar. Era quarta-feira , dia magro ,
por isso serviram à avó o borch 26 magro e brema com papas .
Para brincar um pouco com a avó , Sacha comeu tanto a sua
sopa de carne como o borch magro . Brincou durante todo o al­
moço , mas as piadas saíam-lhe pesadas , com tendência morali­
zadora, e não tinha graça nenhuma quando ele , antes de dizer
uma piada, levantava os dedos compridos e magros , como se es­
tivessem mortos , e quando passava pela cabeça de todos que es-

26 Sopa grossa de beterraba , predominantemente , com outros legumes e carne .


Neste caso , sendo magra, não leva carne . (N. T.)
246 Anton Tchékhov

tava muito doente e talvez já tivesse pouco tempo de vida neste


mundo; e metia pena, muita pena.
Depois do almoço , a avó foi para o seu quarto descansar, Ni­
na lvánovna tocou um pouco no piano e também saiu .
- Ah , querida Nádia - começou Sacha a sua habitual con­
versa de depois de almoço - , se me desse ouvidos ! Se me des­
se ouvidos !
Nádia afundava-se numa poltrona antiga , com os olhos fecha­
dos , e ele andava sem barulho pela sala, de um canto ao outro .
- Se fosse estudar ! - dizia ele . - Só as pessoas iluminadas
e santas são interessantes , só elas são necessárias . Porque quan­
to mais gente deste género houver, mais cedo descerá o reino de
Deus à terra . Da vossa cidade , então , aos poucos não restará pe­
dra sobre pedra: ficará tudo de pernas para o ar, tudo mudará co­
mo por milagre . E neste lugar erguer-se-ão casas enormes , mag­
níficas , haverá jardins maravilhosos, repuxos extraordinários ,
pessoas notáveis . . . Mas o principal não é isso . O principal é que
não haverá multidão , no sentido em que ela existe agora, deixa­
rá de existir esse mal , porque cada pessoa terá fé e saberá para
que vive , e ninguém irá procurar apoio na multidão . Querida al­
minha, vá estudar ! Mostre a todos que está farta desta vida para­
da, cinzenta , pecaminosa. Mostre-o nem que seja a si mesma !
- Não posso , Sacha. Vou casar-me .
- Eh , deixe lá isso ! Quem precisa disso?
Saíram para o jardim, passearam um pouco .
- Seja como for, minha querida , é preciso reflectir bem , é
preciso perceber como esta vossa vida ociosa é impura e imoral
- continuou Sacha. - Veja se compreende finalmente: se , por
exemplo , você , a sua mãe e a sua vovozinha não fazem nada, is­
so significa que trabalha outro qualquer por vocês , que vocês pa­
rasitam outra vida; acha isso puro , ou não será uma infâmia?
Nádia queria dizer: «sim , é verdade» ; queria dizer que com­
preendia; mas as lágrimas marejaram-lhe os olhos, ficou de re­
pente acanhada , encolheu-se e foi para o seu quarto .
A Noiva 247

Ao fim da tarde chegou Andrei Andréitch e , como de costu­


me , tocou longamente o violino . No geral , era taciturno e talvez
gostasse do violino porque enquanto tocava não tinha que falar.
Quando , depois das dez , se despedia, já de sobretudo , abraçou
Nádia e começou a beijar-lhe com avidez o rosto , os ombros , as
mãos .
- Minha querida, meu amor, minha bela ! . . . - murmurava.
- Oh , que feliz eu sou ! Estou louco de amor !
Parecia a Nádia que já tinha ouvido aquilo havia muito , algu­
res , ou que o tinha lido . . . num romance , velho , rasgado , esque­
cido .
Na sala, Sacha estava à mesa a tomar chá, colocando o pires em
cima das pontas dos seus cinco dedos compridos ; a vovozinha fa­
zia uma paciência, Nina Ivánovna lia. Crepitava a luzinha da lam­
parina, tudo parecia calmo , próspero . Nádia deu as boas-noites e
subiu para o seu quarto , deitou-se e adormeceu de imediato . Po­
rém , tal como na noite anterior, acordou mal despontou a luz
da aurora. Não tinha sono , tinha alma inquieta, pesarosa. Estava
sentada com a cabeça em cima dos joelhos e pensava no noivo ,
no casamento . . . Por qualquer razão , lembrou-se de que a mãe
não gostava do seu falecido marido e que agora não tinha nada
de seu , vivendo na completa dependência da sua sogra, a vovozi­
nha. Então , Nádia, por mais que pensasse , não percebia porque
até ao momento via na mãe qualquer coisa de especial , extraordi­
nário , porque não via nela uma mulher simples , normal , muito in­
feliz .
Em baixo , Sacha não dormia , ouvia-se a tossir. É um homem
estranho , ingénuo , pensava Nádia, e nos sonhos dele , em todos
esses jardins maravilhosos e repuxos extraordinários sente-se
qualquer coisa absurda; mas , sabe-se lá porquê , na sua ingenui­
dade , e até nesse absurdo , havia tanta beleza que agora mesmo ,
mal Nádia pensou se valia a pena ir estudar, passou-lhe um arre­
pio por todo o coração , por todo o corpo que os inundaram de
alegria, de entusiasmo .
248 Anton Tchékhov

- Mas é melhor não pensar, não pensar . . . - sussurrava ela .


- Não vale a pena pensar nisso .
«Tic-toc . . . - matracava o guarda-noctumo algures muito
longe . - Tic-toc . . . tic-toc . . . »

Em meados de Junho , Sacha sentiu-se de súbito aborrecido e


quis voltar para Moscovo .
- Não posso viver nesta cidade - dizia sombriamente . -
Não há água canalizada, não há esgotos ! Tenho nojo de comer ao
almoço , porque na cozinha a imundície é inacreditável . . .
- Espera um pouco , filho pródigo - tentava convencê-lo a
avó , num sussurro , sabia-se lá porquê - , no dia sete é o casa­
mento !
- Não quero .
- Mas se querias ficar connosco até Setembro !
- Mas agora já não quero . Tenho de trabalhar.
O Verão calhou húmido e frio , as árvores estavam molhadas , tu­
do no jardim tinha um aspecto tão inóspito e tristonho que apetecia
realmente trabalhar. Em casa, em baixo e em cima, ouviam-se vo­
zes de mulheres não habituais , nos aposentos da avó tamborilava a
máquina de costura: estavam a preparar à pressa o enxoval . No do­
te de Nádia, só peliças eram seis , e a mais barata delas , pelas pala­
vras da avó , valia trezentos rublos ! A azáfama irritava Sacha; fica­
va no seu quarto , irritado; mesmo assim, convenceram-no a ficar e
deu a sua palavra de que partiria no dia um de Julho , nunca antes .
O tempo corria depressa. No dia de São Pedro , depois do al­
moço , Andrei Andréitch foi com Nádia à Rua Moskóvskaia, pa­
ra ver mais uma vez a casa que havia muito alugaram e prepara­
ram para os noivos . O prédio era de dois pisos , mas por enquanto
só estava arranjado o andar de cima . Na sala grande , o chão era
brilhante , uma imitação de parquê , havia cadeiras de Viena, um
A Noiva 249

piano e uma estante para o violino . Cheirava a tinta. Numa das


paredes , numa moldura dourada, estava um quadro grande pin­
tado a óleo: uma senhora desnuda e, ao lado dela, um vaso cor
de lilás com a asa partida.
- Um quadro maravilhoso - disse Andrei Andréitch e , por
respeito , suspirou . - É do pintor Chichmatchévski .
A seguir era a sala de estar com uma mesa redonda, um divã e
poltronas com forro em azul-vivo . Por cima do divã estava pendu­
rado um grande retrato fotográfico do padre Andrei com barrete e
condecorações . Depois entraram na sala de jantar, com aparador;
depois no quarto de dormir; aqui , na penumbra, estavam lado a la­
do duas camas , dando a ideia de que , quando mobilavam o quarto ,
partiam do princípio de que ali estaria sempre tudo bem, que não
poderia ser de outra maneira. Andrei Andréitch levava Nádia pelas
salas , sempre abraçada pela cintura; ora, ela sentia-se fraca, culpa­
da, odiava todas aquelas salas , camas , poltronas , enojava-a a se­
nhora desnuda. Já era claro para ela que deixara de amar Andrei An­
dréitch , ou talvez nunca o tivesse amado; mas como poderia
dizê-lo, a quem e para quê - não sabia nem era capaz de saber, em­
bora pensasse nisso todos os dias , todas as noites . . . Ele segurava-a
pela cintura, falava com muito carinho e modéstia e mostrava-se
tão feliz a passear pelo seu apartamento ! Mas Nádia via em tudo
apenas uma vulgaridade estúpida, ingénua, insuportável , e a mão
que lhe envolvia a cintura parecia-lhe rija e fria como um aro . E es­
tava prestes a desfazer-se em choro a cada instante , a fugir, a atirar­
-se da janela. Andrei Andréitch levou-a à casa de banho e, aqui , to­
cou na torneira inserida na parede , e da torneira jorrou logo a água.
- Então? - disse ele e riu-se . - Mandei instalar no sótão
uma cisterna de cem baldes, e assim já temos água em casa.
Passearam pelo pátio , depois saíram para a rua, apanharam
um coche . A poeira voava em nuvens espessas , parecia que a
qualquer momento ia chover.
- Não tens frio? - perguntou Andrei Andréitch , franzindo
os olhos por causa da poeira .
250 Anton Tchékhov

Ela não respondeu .


- Ontem , o Sacha (lembras-te?) censurou-me por eu não fa­
zer nada - disse ele depois de uma pausa. - Pois bem , ele tem
razão , tem toda a razão ! Não faço nada nem posso fazer nada.
Minha querida, porque será? Porque me dá tanta repulsa a pró­
pria ideia de que algum dia ponho o boné com cocar e vou para
o serviço? Porque fico tão indisposto quando vejo um advogado ,
ou um professor de Latim , ou um membro da Câmara Munici­
pal? Oh , mãe Rússia ! Oh , mãe Rússia, quantos ociosos e inúteis
ainda suportas na tua terra ! Quantos homens como eu ainda tens ,
ó sofredora !
E generalizava o facto de ele próprio não fazer nada, via nis­
so um sinal do tempo .
- Quando nos casarmos - continuou - , vamos juntos para
a aldeia, trabalhamos lá, minha querida ! Compramos um peque­
no lote de terra , com pomar, com rio , e trabalharemos , observa­
remos a vida . . . Oh , que bom será tudo isso !
Tirou o chapéu , o vento agitava-lhe o cabelo , ela ouvia Andrei
Andréitch e pensava: «Meu Deus , quero ir para casa ! Meu
Deus ! » Já perto de casa , ultrapassaram o padre Andrei .
- Olha o meu pai ! - alegrou-se Andrei Andréitch e acenou-
-lhe com o chapéu . - Gosto do meu paizinho , a sério - disse ,
pagando ao cocheiro . - Velho querido . Velho bondoso .
Nádia entrou em casa, irritada , maldisposta, pensando nos
convidados que teria de divertir até ao fim da noite , que seria ne­
cessário sorrir, ouvir o violino , ouvir todo o género de disparates
e falar apenas do casamento . A avó , imponente , toda fofa com o
seu vestido de seda , altiva como parecia sempre na presença de
convidados , estava sentada ao pé do samovar. Entrou o padre
Andrei com o seu sorriso manhoso .
- Tenho o prazer e o consolo abençoado de vir encontrar a
senhora de boa saúde - disse à avó , e era difícil perceber-se se
ele brincava ou falava a sério .
A Noiva 25 1

O vento batia nas j anelas e no telhado , ouvia-se o seu assobio


e , dentro do fogão , o duende caseiro cantarolava a sua cantiga la­
mentosa e sotuma. Passava da meia-noite . Em casa já toda a
gente se deitara, mas ninguém dormia , e Nádia tinha a sensação
de que , em baixo , não paravam de tocar o violino . Ouviu-se uma
pancada brusca, provavelmente desprendera-se uma portada.
Um minuto depois entrou Nina Ivánovna, de camisa de noite ,
com uma vela na mão .
- O que bateu , Nádia? - perguntou .
A mãe , de trança e sorriso tímido , nesta noite tempestuosa pa­
recia velha e desengraçada , pequena . Nádia recordou que , ainda
pouco tempo atrás , achava a mãe uma mulher extraordinária e
ouvia com orgulho as palavras que ela dizia; mas tudo o que ago­
ra lhe vinha à memória era tão frágil , tão inútil !
Dentro do fogão ouviu-se o canto de várias vozes de baixo e
até um «Aah , meu Deeeus ! » . Nádia sentou-se na cama e , brus­
camente , agarrou-se ao cabelo e desatou a chorar.
- Mamã, mamã - disse ela - , mamã , alminha, se soubes­
ses o que se passa comigo ! Peço-te , imploro-te , deixa-me ir em­
bora ! Imploro-te !
- Para onde? - perguntou Nina Ivánovna sem compreender.
- Ires-te embora para onde?
Nádia chorava e chorava, não conseguia pronunciar uma pa­
lavra .
- Deixa-me ir embora da cidade ! - disse finalmente . -
Não deve haver casamento , nem haverá . . . Tenta compreender !
Não amo este homem . . . Nem posso falar nele .
- Não , meu amor, não - Nina Ivánovna pôs-se a falar mui­
to depressa, terrivelmente assustada . - Acalma-te . . . Isto é sim­
plesmente um estado de espírito . Isto passa. Isto acontece às ve­
zes . Se calhar tiveste uma discussão com o Andrei ; mas arrufos
de namorados são amores dobrados .
252 Anton Tchékhov

- Sai , mamã, sai daqui ! - e Nádia chorou desesperadamente .


- Pois - disse Nina Ivánovna depois de se calar um pouco .
- Ainda há tão pouco tempo eras uma criança , uma miúda, e
agora já és noiva . Na natureza acontece este metabolismo per­
manente . Num instante serás também mãe , velha, e, como eu ,
também terás uma filha rebelde .
- Mãe , és querida, és bondosa, és inteligente , és infeliz -
disse Nádia - , és muito infeliz . . . Então para que me dizes es­
sas banalidades? Para quê , meu Deus !
Nina Ivánovna quis dizer qualquer coisa mas não conseguiu e ,
a soluçar, foi para o seu quarto . O s baixos voltaram a uivar no
fogão , de repente ficou assustador. Nádia saltou da cama e cor­
reu para o quarto da mãe . Nina Ivánovna, com os olhos inchados
de chorar, estava deitada debaixo do cobertor azul claro e tinha
um livro nas mãos .
- Mamã, ouve-me ! - disse Nádia. - Suplico-te , pensa bem
e tenta compreender ! Tenta compreender até que ponto é mes­
quinha e humilhante a nossa vida. Os meus olhos abriram-se ,
agora vejo tudo . Quem é esse teu Andrei Andréitch? Ele não é in­
teligente , mamã ! Oh , meu Deus ! Vê bem , mamã, ele é estúpido !
Nina Ivánovna sentou-se bruscamente .
- Tu e a tua avó martirizam-me ! - disse Nina lvánovna , co­
rando . - Quero viver ! Viver ! - repetiu , e bateu duas vezes com
o punhozinho no peito . - Dêem-me a liberdade ! Ainda sou jo­
vem , quero viver, mas vocês fizeram de mim uma velha ! . . .
Chorou amargamente , deitou-se e enroscou-se debaixo do co­
bertor, e parecia tão pequenina, miserável , parvinha . Nádia vol­
tou para o seu quarto , vestiu-se, sentou-se à janela e ficou à es­
pera da manhã. Esteve toda a noite assim sentada, a pensar, e lá
fora alguém batia sem parar na portada e assobiava.
De manhã, a avó queixou-se de que o vento derrubara todas as
maçãs do jardim e partira uma ameixieira velha. O ar era cinzen­
to , baço , desolador, até dava vontade de acender as luzes ; todos
se queixavam do frio , a chuva fustigava os vidros . Depois do chá,
A Noiva 25 3

Nádia entrou no quarto de Sacha e , em silêncio , pôs-se de joelhos


a um canto, ao lado da poltrona, e tapou o rosto com as mãos .
- O que é? - perguntou Sacha.
- Não posso . . . - disse ela. - Não compreendo como tenho
podido viver aqui ! Desprezo o meu noivo , desprezo-me , despre­
zo toda esta vida ociosa, sem sentido . . .
- Pois , pois . . . - disse Sacha, sem perceber ainda o que se
passava. - Deixa lá . . . Ainda bem !
- Estou enjoada desta vida - continuou Nádia - , não
aguento aqui nem mais um dia . Amanhã mesmo vou-me embo­
ra. Leve-me consigo , por amor de Deus !
Sacha ficou um longo momento a olhar para ela com espanto;
por fim compreendeu e ficou feliz como uma criança . Começou
a abanar com as mãos e a bater com os pés calçados nas pantu­
fas , como se dançasse .
- Magnífico ! - dizia, esfregando as mãos . - Meu Deus ,
que bom !
Nádia olhava para ele sem pestanejar, com grandes olhos apai­
xonados , como enfeitiçada , à espera que ele lhe dissesse alguma
coisa grande e significativa, muito importante; Sacha não disse­
ra ainda nada, mas para Nádia era como se se abrisse já diante
dela um espaço novo e vasto , desconhecido , e olhava para Sacha
cheia de esperança, pronta para tudo , mesmo para a morte .
- Amanhã vou-me embora - disse ele, depois de pensar um
pouco - , e você vai acompanhar-me à estação . . . Eu ponho as
suas coisas na minha mala, compro-lhe o bilhete; depois do ter­
ceiro sinal , você entra no comboio . . . e vamos . Acompanha-me até
Moscovo, depois irá sozinha para Petersburgo . Tem passaporte?
- Tenho .
- Juro-lhe que não vai arrepender-se - disse Sacha com en-
tusiasmo . - Vai para lá, estuda, e o destino depois que decida.
B asta dar uma reviravolta à vida e tudo muda. O principal é vi­
rar a vida, o resto não tem importância. Portanto , está decidido:
partimos amanhã?
254 Anton Tchékhov

- Oh , sim ! Por favor !


Nádia pensava que , com uma emoção tão grande , com a alma
tão carregada, como nunca estivera, iria sofrer muito até à hora
da partida , e pensar, pensar; mas não: mal voltou para o seu
quarto e se deitou , adormeceu e, com o rosto inchado do choro ,
com um sorriso , dormiu até ao fim da tarde .

Mandaram buscar um coche de praça. Nádia, já de chapéu e


sobretudo , foi ao andar de cima para ver mais uma vez a mãe e
olhar para tudo o que era seu; ficou um pouco no seu quarto , pa­
rada ao lado da cama ainda quente , olhou à volta, depois entrou
sem barulho no quarto da mãe . Nina Ivánovna estava a dormir,
reinava o silêncio no quarto . Nádia beijou a mãe , ajeitou-lhe o
cabelo , ficou dois minutos à beira dela . . . Depois , sem pressa,
voltou para baixo .
Chovia muito . O coche coberto , todo molhado , estava em
frente da entrada.
- Não cabes lá com ele , Nádia - disse a avó quando os cria­
dos começaram a meter as malas na carruagem . - Que freima é
esta de o acompanhares com um tempo destes? Ficavas em ca­
sa. Já viste o que chove !
Nádia queria dizer alguma coisa mas não conseguia. Sacha
ajudou-a a sentar-se , cobriu-lhe as pernas com a manta. Sentou­
-se também .
- B o a viagem ! Deus te guarde ! - gritava a avó parada no
umbral . - Escreve-nos de Moscovo , Sacha, sem falta !
- Está bem ! Adeus , vovozinha !
- Nossa Senhora te ampare !
- Irra, que tempo ! - disse Sacha.
Só então Nádia chorou . Já tinha a certeza de que partiria, coi­
sa em que não acreditava quando se despedia da avó , quando
A Noiva 255

olhava para a mãe . Adeus , cidade ! E, de repente , recordou tudo:


Andrei , o pai dele , o novo apartamento , a senhora desnuda com
o vaso ; e tudo isso já não a assustava, não a oprimia, eram coi­
sas ingénuas e miseráveis que ficavam para trás , cada vez mais
para trás . Ora, quando se instalaram no comboio e este se pôs em
andamento , todo esse passado , tão grande e tão sério , se enco­
lheu numa bolinha, e em frente dos seus olhos começou a
desenrolar-se um futuro gigantesco , amplo , que até há pouco
apenas entrevia muito mal . A chuva batia nas janelas da carrua­
gem, via-se apenas o campo verde , relanceavam-lhe diante dos
olhos os postes telegráficos e as aves empoleiradas nos fios , e
então , bruscamente , a alegria cortou-lhe a respiração: lembrou­
-se de que rodava para a liberdade , que ia estudar, a mesma coi­
sa que , dantes, se chamava ir para cossaco . Nádia ria, chorava ,
rezava .
- Não faz maaal ! - dizia Sacha, sorrindo-se . - Não faz
maaal !

Passou o Outono , chegou o Inverno . Nádia já sofria de gran­


des saudades , e todos os dias pensava na mãe , na avó , em Sacha .
As cartas que lhe chegavam de casa eram serenas , bondosas , pa­
recia estar tudo perdoado e esquecido . Em Maio , depois dos exa­
mes , uma Nádia alegre e saudável partiu de visita a casa e , pelo
caminho , parou em Moscovo para ver Sacha . Sacha era o mes­
mo que no Verão passado: barbudo , com o cabelo desgrenhado ,
com a mesma sobrecasaca e as mesmas calças de brim, com os
mesmos olhos grandes e belos; mas não tinha um ar saudável ,
parecia esgotado , envelhecera, emagrecera, tossia muito . Nádia,
sem perceber porquê , achou-o cinzento , provinciano .
- Meu Deus, Nádia, está cá ! - disse ele e riu-se alegremen­
te . - Minha querida, minha alminha !
256 Anton Tchékhov

Demoraram-se um pouco na oficina litográfica cheia de fumo


de tabaco e com um cheiro forte e abafado a tinta; depois foram
para o quarto dele , também empestado de fumo , sujo; em cima
da mesa, ao lado do samovar já frio , estava um prato rachado
com papel mata-moscas escuro , a mesa e o chão estavam peja­
dos de moscas mortas . Via-se que Sacha organizava a sua vida
pessoal com desleixo , que vivia de qualquer maneira , com um
total desprezo pelo conforto , e que , se alguém lhe falasse da sua
felicidade pessoal , da sua vida privada , do amor, Sacha não per­
ceberia nada , apenas se riria.
- Está tudo bem , passou-se tudo sem grandes problemas -
contava Nádia rapidamente . - A mamã visitou-me em Peters­
burgo no Outono , disse que a avó não estava zangada, que ia to­
dos os dias ao meu quarto e benzia as paredes .
Sacha tinha um olhar alegre mas tossia sempre e falava com
uma voz rachada, e Nádia perscrutava-lhe a cara e não com­
preendia se ele estava mesmo gravemente doente ou se era ape­
nas impressão dela.
- Sacha , meu querido - disse ela - , está mesmo doente !
- Não , nada de especial . Estou doente , sim , mas só um pou-
co . . .
- Ah , meu Deus - preocupou-se Nádia - , porque não se tra­
ta, porque não cuida da sua saúde? Sacha, meu querido , meu ami­
go - continuou , com as lágrimas a jorraram-lhe dos olhos , e, sa­
bia lá porquê , vieram-lhe à memória o Andrei Andréitch , a senhora
desnuda com o vaso , e todo o seu passado lhe parecia agora tão
longínquo como a infância; chorou porque Sacha já não lhe pare­
cia tão novo , tão intelectual , tão interessante como no ano anterior.
- Querido Sacha, está muito , muito doente . Faria tudo para não
o ver tão magro e tão pálido ! Devo-lhe tanto ! Nem imagina como
foi grande o que fez por mim, meu querido Sacha ! No fundo , o Sa­
cha é a pessoa que eu tenho mais próxima, mais querida.
Estavam sentados a falar e , para Nádia , depois de um Inverno
passado em Petersburgo , era como se emanasse de Sacha, das
A Noiva 25 7

suas palavras , do seu sorriso e de toda a sua figura qualquer coi­


sa de caduco , de fora de moda, sem interesse desde há muito , tal­
vez já morta.
- Depois de amanhã vou ao Volga - disse Sacha - e depoi s
vou tratar-me com kumiss2 1 . Apetece-me beber kumiss . Vai co­
migo um companheiro meu , com a mulher. A mulher dele é es­
pantosa, e eu tento sempre convencê-la a que vá estudar. Quero
que ela dê uma volta à vida dela.
Conversaram , depois foram para a estação . Sacha deu-lhe ma­
çãs , pediu chá para ela no bufete; quando o comboio partiu e Sa­
cha, sorrindo , abanava o lenço , era visível até pelo seu andar que
estava muito doente e não duraria muito .
Nádia chegou à sua cidade ao meio-dia. Quando ia da estação
para casa, as ruas pareceram-lhe muito largas e as casas muito
pequenas , achatadas ; não havia ninguém , viu apenas um alemão ,
afinador de pianos , vestindo um sobretudo ruivo . E era como s e
todas as casas estivessem cobertas de poeira . A avó , já muito ve­
lha , gorda e sem graça como antes , envolveu Nádia com os bra­
ços e chorou demoradamente e , apertando a cara contra o ombro
dela, nunca mais a largava . Nina Ivánovna também envelhecera
muito , estava mais feia , como que mirrada , mas continuava com
a cintura espartilhada e os diamantes e brilharem-lhe nos dedos .
- Minha querida ! - dizia ela toda a tremer. - Minha que­
rida !
Depois sentaram-se todas a chorar em silêncio . Via-se que a
avó e a mãe sentiam o passado perdido para sempre , irrecupera­
velmente: já não tinham a sua posição na sociedade nem as hon­
ras do passado , nem o direito de convidar as pessoas ; era uma si­
tuação comparável ao que acontece quando , no meio de uma
vida fácil e despreocupada, irrompe de súbito em casa a polícia ,
em plena noite , faz a busca e verifica-se que o dono da casa co-

27 Leite de égua fermentado , bebida típica nos países asiáticos , inclusive da Á si a


Central , e também nas estepes da região do Volga. (N. T.)
258 Anton Tchékhov

meteu um desfalque ou uma falsificação - e , então , adeus para


sempre , vida fácil e despreocupada !
Nadia foi para cima e encontrou a mesma cama, as mesmas ja­
nelas com cortinas brancas , ingénuas , e olhando por uma janela,
o mesmo jardim banhado de sol , alegre , barulhento . Tocou na
sua mesa, na cama, sentou-se um pouco , pensou . Almoçou bem ,
tomou chá com natas saborosas , gordas , mas já faltava ali qual­
quer coisa, sentia-se um vazio nas salas , e os tectos pareciam
baixos . À noite deitou-se , agasalhou-se no cobertor e, não sabia
porquê , achou engraçado dormir nesta cama tão quentinha e tão
macia.
Nina Ivánovna entrou por um instantinho , sentou-se como se
sentam as pessoas culpadas , com timidez , com hesitação .
- Então , Nádia? - perguntou passado u m pouco . - Estás
contente? Muito contente?
- Estou contente , mamã.
Nina Ivánovna levantou-se , benzeu Nádia e as janelas .
- Ora eu , como vês , tomei-me religiosa - disse ela. - Sa­
bes , agora estudo a filosofia e estou sempre a pensar, a pensar . . .
Para mim , muitas coisas ficaram agora claras como a luz do dia.
Antes de mais , parece-me que toda a vida deve passar como atra­
vés de um prisma.
- Diz , mamã , como é que a avó está de saúde?
- Parece que está bem . Quando te foste embora com o Sacha
e chegou o teu telegrama, a avó leu-o e caiu redonda no chão; fi­
cou três dias prostrada, sem se mexer. Depois disso , estava sem­
pre a rezar e a chorar. Mas agora está bem .
A mãe levantou-se e passeou pelo quarto .
- Tic-toc - batia o guarda noctumo . - Tic-toc , tic-toc . . .
- Antes de mais, parece-me que toda a vida deve passar co-
mo através de um prisma - disse a mãe - , ou , por outras pala­
vras , é preciso que na consciência de cada um a vida se separe
em elementos mais simples , como as sete cores essenciais do es­
pectro , e cada elemento tem de ser estudado individualmente .
A Noiva 259

O que mais disse Nina Ivánovna e quando saiu , isso não po­
deria dizê-lo Nádia porque adormeceu .
Passou Maio , chegou Junho . Nádia voltara a habituar-se à ca­
sa. A avó atarefava-se com o samovar, suspirava fundo ; Nina
Ivánovna, à noite , falava das suas filosofias ; tal como antes , vi­
via na casa como uma comensal e tinha de se dirigir à avó por
quaisquer vinte copeques . Havia muitas moscas em casa, os tec­
tos pareciam cada vez mais baixos . A vovozinha e Nina Ivánov­
na não saíam à rua com medo de se encontrarem com o padre
Andrei e com Andrei Andréitch . Nádia andava pelo jardim , pela
rua, olhava para os prédios , para os tapumes cinzentos , e tinha a
sensação de que na cidade tudo envelhecera havia muito , cadu­
cara e estava agora à espera do fim, ou então do início de qual­
quer coisa nova, fresca. Oh , que chegue o mais depressa possí­
vel essa vida nova e luminosa em que será possível olhar de
frente e com coragem o nosso destino , ter consciência da nossa
razão , ter alegria, liberdade ! Esta vida chegará mais cedo ou
mais tarde ! Sim, porque terá de chegar o tempo em que a casa da
avó , onde as coisas estão organizadas de uma maneira tal que só
há um quarto para as quatro criadas , ainda por cima na cave , no
meio da imundície , pois chegará o tempo em que não restarão
vestígios desta casa, em que será esquecida, esquecida por todos .
O único divertimento de Nádia era a criançada da casa vizinha:
quando ela passeava no jardim , eles batiam na cerca e gritavam­
-lhe , rindo:
- Noiva ! Noiva !
Chegou de Sarátov uma carta de Sacha. Com a sua letra alegre ,
dançante , Sacha escrevia que a sua viagem pelo Volga fora mui­
to boa, mas que em Sarátov adoecera um pouco , perdera a voz e
havia duas semanas que estava no hospital . Nádia percebeu o que
isso significava, e apoderou-se dela um pressentimento , quase
'Ima certeza. E era-lhe desagradável que este pressentimento , as­
sim como pensar em Sacha, já não a emocionasse como antes . Ti­
nha uma vontade louca de viver, de ir para Petersburgo , e a sua
260 Anton Tchékhov

amizade com Sacha pertencia a um passado querido mas muito


longínquo ! Não dormiu toda a noite , e de manhã ficou sentada à
janela, escutando . De facto ouviram-se vozes no andar de baixo;
a avó , alarmada, fazia perguntas apressadas . Depois , alguém cho­
rou . . . Quando Nádia desceu a escada, a avó estava num canto a
rezar, com a cara banhada em lágrimas . Em cima da mesa, um te­
legrama.
Nádia andou muito tempo pela sala, escutando a avó a chorar,
depois pegou no telegrama, leu-o . Informava que na véspera de
manhã, em Sarátov, falecera de tísica Aleksandr Timoféitch , ou
simplesmente Sacha.
A avó e Nina Ivánovna foram à igreja encomendar um re­
quiem , mas Nádia continuou a andar muito tempo pelas salas ,
pensativa. Tinha a clara consciência de que a sua vida tinha da­
do uma volta , se tinha virado , como queria Sacha , que ela, ali ,
era uma solitária, uma estranha, desnecessária, que tudo o que
ela fora antes lhe tinha sido arrancado e desaparecera, como se
ardesse e as cinzas fossem dispersadas pelo vento . Entrou no
quarto de Sacha , ficou lá um pouco .
«Adeus , querido Sacha ! » , pensava ela, e imaginava pela fren­
te uma vida nova, ampla, espaçosa, uma vida ainda imprecisa,
cheia de mistérios , mas que a atraía e a arrebatava.
Foi para cima, fez as malas e, no dia seguinte de manhã ,
despediu-se da família e , animada, enérgica, abandonou a cida­
de - supunha que para sempre .
UM CASO DA PRÁTICA MÉDICA

O professor recebeu um telegrama da fábrica dos Liálikov:


pediam que fosse lá com urgência. Adoecera a filha de uma tal
senhora Lialikova, pelos vistos a proprietária da fábrica, e mais
nada se podia perceber do telegrama longo e desconexo . Então ,
o professor não quis ir, mandando em seu lugar um dos seus mé­
dicos , o doutor Koroliov.
Era preciso partir de Moscovo por comboio , sair ao fim de
duas estações , e depois fazer mais quatro verstás nos cavalos .
Estava uma troica à espera de Koroliov na estação ; o cocheiro ti­
nha uma pena de pavão no chapéu e respondia a todas as per­
guntas em voz alta, como um soldado: «Não , vossa senhoria ! » ,
«Sim, vossa senhoria ! » Era uma tarde de sábado , o Sol declina­
va. Chusmas de operários vinham da fábrica para a estação , fa­
ziam vénias aos cavalos que levavam Koroliov. Este , fascinado
pelo fim de tarde , pelas herdades e pelas casas de campo ao lon­
go da estrada, e pelas bétulas , e por todo o ambiente de calma à
sua volta nesta véspera de feriado em que , juntamente com os
operários , pareciam preparar-se para descansar também o cam­
po , a floresta, o sol - descansar e , talvez , rezar . . .
Koroliov nasceu e foi criado em Moscovo , não conhecia a al­
deia e nunca se interessara por fábricas nem as visitara. Porém,
acontecia-lhe às vezes ler coisas sobre as fábricas , visitar indus-
262 Anton Tchékhov

triais e falar com eles; e, quando via alguma fábrica de longe ou


de perto , imaginava sempre que , de fora, tudo era aparentemente
calmo e sossegado , mas por dentro grassaria uma ignorância in­
superável e o egoísmo lorpa dos patrões , o trabalho monótono e
insalubre dos operários , os conflitos , a vodca, os parasitas . Agora,
quando os operários , respeitosos e assustados , se afastavam do ca­
minho à vista da caleche , o doutor pressentia nas suas caras , nos
seus bonés , no seu andar e na sua falta de asseio físico , o alcoo­
lismo , o nervosismo , o distúrbio .
Entraram pelo portão da fábrica e logo surgiram de ambos
os lados as pequenas casas dos operários , as caras das mulhe­
res , a roupa e os cobertores nos degraus das entradas . «Cuida­
do ! » - gritava o cocheiro sem refrear os cavalos . Depois apa­
receu o amplo terreiro sem relva e logo cinco edifícios fabris
gigantescos com chaminés , a certa distância uns dos outros, os
armazéns de mercadorias , as barracas , notando-se em tudo um
depósito cinzento de pó . Aqui e ali , como oásis no deserto ,
viam-se uns jardinzinhos raquíticos e os telhados verdes ou
vermelhos das casas em que vivia a administração . O cocheiro
fez parar os cavalos com brusquidão em frente de um prédio
recém-pintado de cinzento ; havia ali arbustos de lilases cober­
tos de poeira, e os degraus amarelos da entrada exalavam um
cheiro forte a tinta .
- Entre , senhor doutor, faça o favor - soaram no átrio e no
vestíbulo umas vozes de mulheres ; ouviam-se suspiros e sussur­
ros . - Entre , por favor, estamos à sua espera há muito tempo . . .
É uma desgraça. Passe , é por aqui . . .
A senhora Lialikova, corpulenta, já de certa idade , de vestido
de seda preta com mangas à moda mas com cara de mulher sim­
ples , analfabeta, olhava para o doutor com ansiedade e não se
atrevia a estender-lhe a mão . Ao lado dela estava uma senhora de
cabelo curto , pince-nez e camisa curta às cores , magricela e na­
da jovem . As criadas tratavam-na por Khristina Dmitrievna, e
Koroliov percebeu que era uma preceptora. Talvez por ser a pes-
Um Caso da Prática Médica 263

soa mais culta da casa tivesse sido ela a encarregada de receber


o doutor, visto que , pressurosa, começou logo a contar as causas
da doença, com minúcias maçadoras , mas sem dizer quem esta­
va doente e o que se passava.
O doutor e a preceptora conversavam sentados , enquanto a
dona da casa estava de pé à porta, esperando . Da conversa, Ko­
roliov deduziu que quem estava doente era Lisa, rapariga de vin­
te anos , filha única e herdeira da senhora Lialikova; havia mui­
to que estava doente , sendo tratada por vários médicos ; na última
noite tivera uma tal taquicardia que ninguém em casa tinha dor­
mido , com medo de que ela morresse .
- Pode dizer-se que ela é fraquinha desde a infância - dizia
Khristina Dmitrievna numa voz cantante , limpando volta e meia
os lábios com a mão . - Os doutores dizem que são nervos , mas
eu acho que , quando era pequena, os doutores meteram-lhe para
dentro a escrófula que ela tinha, e, então , acho eu que é por isso .
Foram ao quarto da doente . Uma adulta grande , de boa esta­
tura, mas sem graça, parecida com a mãe , com os mesmos olhos
pequenos e com a parte inferior do rosto larga, excessivamente
desenvolvida, com o cabelo por pentear, coberta até ao queixo .
Lisa, no primeiro momento , causou ao doutor a impressão de
uma criatura desgraçada, miserável que , por piedade , tinha sido
abrigada e agasalhada naquela casa, sendo difícil acreditar que
fosse herdeira de cinco edifícios enormes .
- Ora viva - começou Koroliov - , vim cá tratar da sua
saúde . Bom dia.
Apresentou-se e apertou-lhe a mão - uma mão grande , feia,
fria. Ela sentou-se e , talvez porque estivesse muito habituada aos
médicos , mostrou-se indiferente ao facto de ter os ombros e o
peito descobertos , e deixou-se auscultar.
- Tenho taquicardia - disse ela. - Foi um horror toda a
noite . . . Por pouco não morria de medo ! Dê-me alguma coisa .
- Dou , dou ! Acalme-se .
Koroliov examinou-a e encolheu os ombros .
264 Anton Tchékhov

- O coração está em ordem - disse - está tudo bem, não


há desarranjos . É possível que os nervos estejam um pouco des­
trambelhados , mas isso não é nada de especial . A crise já passou ,
acho eu , agora durma .
Nisto trouxeram um candeeiro para o quarto . A doente estrei­
tou os olhos não habituados à luz e, de repente , envolveu a cabe­
ça nas mãos e desatou a chorar. E, de repente , esfumou-se aque­
la impressão de que era uma criatura miserável e feia, e Koroliov
já não reparava nos seus olhos pequenos , nem na parte inferior
do rosto grosseiramente desenvolvida; via uma expressão suave ,
sofrida, inteligente , comovedora, toda ela lhe parecia tão esbelta,
tão feminina e tão simples que teve vontade de a acalmar com
palavras simples de carinho e não com medicamentos e conse­
lhos . A mãe abraçou-lhe a cabeça e apertou-a contra o peito . O
desespero e a mágoa que se viam no rosto da velha ! Ela, mãe , ali­
mentou , educou a filha, não poupou em nada, fez tudo para lhe
ensinar francês , dança, música, arranjou uma dúzia de precepto­
res , os melhores , e doutores , agora mesmo tinha uma preceptora
em casa . . . e não compreendia porquê aquelas lágrimas , porquê
tanto sofrimento , não percebia e estava confusa, e a sua cara ti­
nha uma expressão culpada, alarmada, de desespero , como se ti­
vesse deixado passar qualquer coisa muito importante , descuras­
se alguma coisa, se esquecesse de chamar alguém , mas quem? . . .
- Lísanka, outra vez . . . outra vez - dizia , apertando a filha
ao peito . - Minha querida, minha pombinha, diz , filha, o que
tens? Tem pena de mim , diz .
Ambas choravam com amargura . Koroliov sentou-se à beira
da cama e pegou na mão de Lisa.
- Vá, vá, porque chora? - disse com carinho . - Não há na­
da no mundo que mereça estas lágrimas . Vá lá, não chore , não
vale a pena . . .
E pensou: «Deveria casar-se , está na altura . . . »
- O doutor da nossa fábrica receitou-lhe brometo de potássio
- disse a preceptora - , mas vejo que , afinal , com isso ela ain-
Um Caso da Prática Médica 265

da fica pior. A meu ver, se é para o coração , deveriam ser gotas


de . . . Esqueci-me do nome . . . Convalarina, ou lá como é . . .
E de novo começaram os pormenores . A preceptora interrom­
pia o doutor, não o deixava falar, pintava-se na sua cara o zelo ,
como se supusesse que , como mulher mais culta da casa, tives­
se de manter uma conversa ininterrupta com o doutor, obrigato­
riamente sobre medicina.
Koroliov aborreceu-se .
- Não encontro nada de especial - disse , saindo do quarto
e dirigindo-se à mãe . - Se a sua filha está a ser tratada com o
doutor da fábrica, que continue com ele . O tratamento é correc­
to , não vejo necessidade de mudar de médico . Para quê? É um
problema muito vulgar, nada de especial . . .
Falava sem pressa, calçando as luvas , com a senhora Lialiko­
va imóvel a seu lado e a olhar para ele com os olhos chorosos .
- Falta meia hora para o comboio das dez - disse ele . - Es­
pero bem não me atrasar.
- Mas não poderia ficar? - perguntou ela , e as lágrimas vol­
taram a correr-lhe pela cara . - Tenho vergonha de o incomodar,
mas , por favor. . . por amor de Deus - continuou a meia-voz , lan­
çando olhares para trás , para a porta - , durma cá esta noite . É a
minha única filha, única . . . Pregou-me um susto de noite , ainda
não estou em mim . . . Não se vá embora, por amor de Deus . . .
O doutor queria dizer-lhe que tinha muito trabalho e que tinha a
família à espera em Moscovo; era penoso para ele passar a tarde e a
noite numa casa alheia, ainda por cima sem necessidade, mas olhou
para a cara dela, suspirou e, em silêncio, começou a tirar as luvas .
Na sala grande e na sala de estar acenderam para ele todos os
candeeiros e todas as velas . Sentou-se ao piano e folheou os ca­
dernos de música, depois observou os quadros e os retratos nas
paredes . Os quadros a óleo , com molduras douradas , representa­
vam paisagens da Crimeia, um mar tempestuoso com um barqui­
nho , um frade católico com o cálice , e tudo isso seco , lambido ,
medíocre . . . Nos retratos não viu uma cara bonita, interessante , só
266 Anton Tchékhov

maçãs do rosto largas , olhos espantados; Liálikov, pai de Lisa, ti­


nha uma testa estreita e uma cara toda cheia de si , a farda ficava­
-lhe como um saco no seu corpo volumoso , vilão , no peito tinha
uma medalha e o emblema da Cruz Vermelha. Uma cultura par­
ca, um luxo ocasional , sem sentido , sem conforto , como esta far­
da; os chãos irritam a vista com o seu brilho , o lustre também, e ,
por qualquer razão , vem-lhe à cabeça a história do comerciante
que ia aos banhos com a medalha ao pescoço . . .
Do vestíbulo chegava um sussurro , alguém ressonava baixi­
nho . De repente ouviram-se no terreiro uns sons bruscos , entre­
cortados , metálicos , que Koroliov não ouvira antes e que por is­
so não identificava agora; repercutiam-se na sua alma de modo
estranho , desagradável .
«Acho que não ficaria aqui a viver por nada deste mundo . . . » ,
pensou e voltou a folhear o s cadernos de música.
- Doutor, venha para a mesa, por favor ! - chamou-o a pre­
ceptora a meia-voz .
Foi jantar. A mesa era grande , cheia de acepipes e vinhos , mas
jantavam só duas pessoas : ele e Khristina Dmitrievna. Ela bebia
vinho da Madeira, comia depressa e falava, lançando-lhe olhares
através do pince-nez:
- Os operários estão muito contentes connosco . Na nossa fá­
brica, todos os Invernos se dão espectáculos , os próprios operá­
rios participam , também se fazem sessões de leitura com lanter­
na mágica , temos uma excelente casa de chá, o que mais podem
eles querer? São-nos muito abnegados e , quando souberam que
a Lísanka tinha piorado , encomendaram um Te Deum . São in­
cultos mas também têm sentimentos .
- Parece que em vossa casa não há nenhum homem - disse
Koroliov.
- Nenhum. O Piotr Nikanóritch faleceu vai para um ano e
meio , ficámos sozinhas . Vivemos as três . Passamos o Verão
aqui , no Inverno vivemos em Moscovo , na Rua Polianka. Estou
com elas há onze anos . É como se fosse da família .
Um Caso da Prática Médica 267

O jantar constava de esturjão , almôndegas de frango , sumo de


fruta cozida; os vinhos eram caros , franceses .
- Não faça cerimónias , por favor - dizia Khristina Dmi­
trievna , comendo e limpando a boca com o punho , vendo-se que
vivia ali a seu bel-prazer. - Coma, por favor.
Depois do jantar, levaram o doutor ao quarto onde lhe fora
preparada a cama . Mas não lhe apetecia dormir, o ar do quarto
era abafado , cheirava a tinta; vestiu o sobretudo e saiu .
Fora estava fresco; já despontava o amanhecer, no ar húmido
delinearam-se com nitidez todos os cinco edifícios com chami­
nés altas , as barracas e os armazéns . Por ser feriado , não se tra­
balhava, as janelas estavam escuras e apenas num dos edifícios
continuava a arder a fornalha , o que tomava as janelas rubras e
fazia sair pela chaminé , além do fumo , línguas de fogo . Lá lon­
ge , para além do terreiro , coaxavam as rãs e cantava o rouxinol .
Olhando para os edifícios fabris e para as barracas onde dor­
miam os operários , o doutor voltou a pensar no que pensava sem­
pre que via uma fábrica. Com todos aqueles espectáculos para os
operários e as lanternas mágicas , e a medicina no trabalho , e to­
do o género de melhorias laborais , os operários que ele encontra­
ra havia pouco a caminho da estação não tinham um aspecto di­
ferente dos que tinha visto na sua infância longínqua, quando
ainda não havia espectáculos nem melhorias . Como médico , que
julgava objectivamente sobre as doenças crónicas , cuja causa ra­
dical era incompreensível e sem solução , via nas fábricas uma es­
pécie de absurdo cuja causa era também pouco clara e sem solu­
ção; e, apesar de não considerar inúteis todos os melhoramentos
na vida dos operários fabris, equiparava-os aos tratamentos das
doenças incuráveis .
«É sem dúvida um absurdo . . . - pensava, olhando para as ja­
nelas rubras . - Mil e quinhentos ou dois mil operários a trabalhar
num ambiente insalubre , fabricando uma chita de baixa qualidade ,
passam a vida meio famintos e apenas na taberna despertam des­
te pesadelo; uma centena de pessoas vigia o trabalho deles , e a vi-
268 Anton Tchékhov

da inteira desta centena de pessoas é dedicada a apontar as multas ,


a praguejar, a praticar injustiças , e apenas duas ou três pessoas ,
chamadas patrões , usufruem de vantagens e benesses , embora não
trabalhem e desprezem a chita de baixa qualidade . Mas que van­
tagens têm e como as usufruem? Lialikova e a filha são infelizes ,
até mete pena olhar para elas; quem vive a seu bel-prazer é apenas
Khristina Dmitrievna, solteirona idosa e atoleimada de pince-nez.
Em consequência, todos os cinco blocos fabris trabalhavam e nos
mercados orientais vendia-se chita de má qualidade apenas para
que Khristina Dmitrievna pudesse comer esturjão e beber Madei­
ra.»
De repente ouviram-se os mesmos sons estranhos que Koro­
liov ouvira antes do jantar. Ao lado de um dos edifícios , alguém
batia numa placa metálica, batia e logo abafava o som , de ma­
neira que se seguiam uns sons curtos , bruscos , impuros , qual­
quer coisa como «der. . . der . . . der . . . » . Transcorria depois meio
minuto de silêncio , e junto de outro edifício soavam também os
barulhos entrecortados e desagradáveis , mas num tom mais bai­
xo: «drin . . . drin . . . drin . . . » Onze vezes . Pelos vistos , eram os
guardas-noctumos a baterem as onze horas .
Ouviu-se , ao lado do terceiro edifício: <<jac . . . jac . . . j ac . . . »
E o mesmo nos restantes blocos fabri s , e depois por trás das bar­
racas e no portão . E parecia que , no meio do silêncio noctumo ,
era o próprio monstro com olhos rubros quem produzia estes
sons , que era o próprio Diabo quem ali reinava sobre os patrões
e os operários , enganando estes e aqueles .
Koroliov saiu para o campo .
- Quem é? - interpelou-o uma voz grosseira.
«Como numa prisão . . . » , pensou Koroliov e não respondeu .
Aqui ouviam-se melhor os rouxinóis e as rãs , sentia-se a noi-
te de Maio . Da estação chegava o barulho de um comboio; can­
tavam algures os galos sonolentos - mesmo assim a noite era
calma, o mundo dormia em sossego . No campo , perto da fábri­
ca, havia uma construção feita de madeiros e , ao lado , materiais
Um Caso da Prática Médica 269

de construção empilhados . Koroliov sentou-se nas tábuas e con­


tinuou a pensar:
«Aqui só se sente bem a preceptora, a fábrica trabalha para
prazer dela. Mas é uma ilusão , ela não passa de uma testa-de­
-ferro . O principal , aquele para quem tudo é feito , é o Diabo .»
E pensava no Diabo , em quem não acreditava, e olhava de vez
em quando para as duas janelas em que luzia o fogo rubro .
Parecia-lhe que aqueles dois olhos ígneos que o fitavam eram dos
do próprio Diabo , essa força desconhecida que criou as relações
entre os fortes e os fracos , que criou este erro grave e já impossí­
vel de emendar. É obrigatório que o forte estrague a vida do fra­
co , é a lei da natureza, mas o pensamento apenas compreende is­
to e o aceita num artigo de jornal ou num manual , já que na
confusão da vida quotidiana, na embrulhada das minúcias com
que são tecidas as relações humanas , isso deixa de ser uma lei ,
tomando-se uma incoerência lógica em que tanto o fraco como o
forte perecem igualmente , vítimas das suas inter-relações , obede­
cendo involuntariamente a uma força motriz qualquer, desconhe­
cida, exterior à vida, alheia ao homem . Assim pensava Koroliov
sentado nas tábuas e, a pouco e pouco , tomou posse dele a sensa­
ção de que esta força incógnita e misteriosa estava realmente
muito perto , a olhar. Entretanto , o levante tomava-se cada vez
mais pálido , o tempo corria depressa. Os cinco blocos fabris e as
chaminés , no pano de fundo do amanhecer, sem vivalma a toda a
volta, como se tudo fora extinto , tinham um aspecto peculiar, di­
ferente do diurno; e esfumou-se da memória a consciência de que
havia lá dentro máquinas a vapor e electricidade , telefones , e em
vez disso surgiam na memória habitações lacustres , a idade da
pedra; sentia-se a presença de uma força bruta, inconsciente . . .
E de novo se ouviu:
- Der. . . der. . . der. . . der. . .
Doze vezes . Depois um silêncio profundo de dois minutos e ,
n o outro extremo do terreiro:
- Drin . . . drin . . . drin . . .
270 Anton Tchékhov

«Que desagradável ! » , pensou Koroliov.


- Jac . . . jac . . . - soou no terceiro sítio , de modo entrecorta­
do , brusco , como que desgostoso - , jac . . . jac . . .
Foram necessários quatro minutos para completar as batidas
da meia-noite . Depois , o silêncio; e de novo a sensação de que
tudo se extinguira.
Koroliov ficou ainda um pedaço sentado nas tábuas , depois
voltou para casa, mas demorou bastante a deitar-se . Nos quartos
vizinhos cochichavam , ouviam-se passos de pantufas e de pés
descalços .
«Não estará outra vez com uma crise?» , pensou Koroliov.
Saiu para ver a doente . Na casa já havia muita luz e, na sala
grande , numa parede e no soalho , tremeluzia a luz ainda débil do
Sol que furava através do nevoeiro matinal . A porta do quarto de
Lisa estava aberta, a rapariga estava sentada na poltrona ao lado
da cama , de roupão , agasalhada num xaile , despenteada . Os es­
tores das janelas estavam corridos .
- Como s e sente? - perguntou Koroliov.
- Obrigada.
Tomou-lhe o pulso , depois ajeitou-lhe o cabelo que lhe caía
para a testa .
- A menina não dorme - disse ele . - Lá fora o tempo está
excelente , é Primavera , cantam os rouxinóis , mas a menina está
aqui sentada no escuro a pensar.
Ela ouvia e olhava-o na cara; os seus olhos eram tristes , inte-
ligentes , via-se que queria dizer-lhe alguma coisa.
- Tem estas crises com frequência? - perguntou o doutor.
Ela mexeu os lábios e disse:
- Sim , muitas vezes . Quase todas as noites me sinto mal .
Neste momento , os guardas-nocturnos fizeram soar as duas
horas : «der . . . der. . . der. . . » , e ela estremeceu .
- Estes sons incomodam-na? - perguntou ele .
- Não sei . Aqui , tudo me incomoda - respondeu ela e calou-
-se , pensativa . - Tudo me incomoda . Sinto na sua voz uma
Um Caso da Prática Médica 27 1

compaixão , mal o vi fiquei com a sensação de que , consigo , é


possível falar de tudo .
- Então fale , por favor.
- Quero dizer-lhe qual é a minha opinião . Acho que não te-
nho qualquer doença , é antes uma inquietação , tenho medo , pen­
so que tem de ser assim e não é possível ser outra coisa . É claro
que a pessoa mais saudável não deixa de ter preocupações , por
exemplo , quando sabe que anda um bandido debaixo da sua ja­
nela. Fazem-me muitos tratamentos - continuou ela - , estou
muito grata por isso , evidentemente , e não ponho em causa os
benefícios do tratamento , mas o que eu gostaria , em vez dos mé­
dicos , era de falar com alguém próximo , com um amigo que me
compreendesse , que me dissesse se tenho ou não tenho razão .
- Quer dizer que não tem amigos? - perguntou Koroliov.
- Estou sozinha. Tenho a minha mãe , gosto dela, e mesmo as-
sim estou sozinha. O destino assim o quis . . . As pessoas solitárias
lêem muito mas falam pouco e ouvem pouco , a vida para elas é
misteriosa, são místicas e muitas vezes vêem o Diabo onde ele não
está. Tamara, no Lérmontov, era uma solitária e via o Diabo28 .
- Lê muito?
- Leio . É que eu só tenho tempo livre , de manhã à noite . De
dia, leio , de noite a minha mente está vazia, e em vez de pensa­
mentos tenho umas sombras quaisquer na cabeça .
- V ê alguma coisa de noite? - perguntou Koroliov.
- Não , mas sinto . . .
Ela voltou a sorrir, levantou os olhos para o doutor e olhou-o
com muita tristeza e inteligência . . . E parecia ao doutor que ela
confiava nele , queria falar com ele sinceramente , e que pensava
a mesma coisa que ele . Mas Lisa calava-se , talvez estivesse à es­
pera de que fosse ele o primeiro a falar.
E ele sabia o que poderia dizer-lhe; era evidente que ela pre­
cisava de abandonar o mais depressa possível aqueles cinco blo-

28 Trata-se do poema «Ü Demónio» , de Mikhail Lérmontov ( 1 8 14- 1 84 1 ) . (N. T.)


272 Anton Tchékhov

cos fabris e o milhão de rublos , se o tivesse , e que também teria


de abandonar aquele Diabo que olhava para ela de noite; era
também evidente que ela própria pensava assim e esperava ape­
nas que alguém , digno da sua confiança, lho confirmasse .
Mas Koroliov não sabia como dizê-lo . Como? As pessoas têm
vergonha de perguntar aos condenados qual o crime por que lhes
foi lavrada a sentença; do mesmo modo , envergonham-se de per­
guntar às pessoas muito ricas para que precisam de tanto dinhei­
ro , porque usufruem da fortuna de forma tão má, porque não a
abandonam mesmo quando vêem que é nela que reside a sua des­
graça; e mesmo que se comece a falar deste assunto , a conversa
resulta normalmente desajeitada, envergonhada, interminável .
«Como lhe vou dizer? - pensava Koroliov. - E será mesmo
preciso dizê-lo?»
E disse o que queria, mas por subterfúgios , não frontalmente:
- A menina, na sua condição de proprietária da fábrica e de
herdeira rica, está descontente , não acredita nos seus direitos e
agora, por exemplo , não dorme , o que é sem dúvida melhor do se
estivesse contente , se dormisse como uma pedra e pensasse que
estava tudo em ordem . A sua insónia é respeitável; seja como for,
é um bom sinal . De facto , uma conversa como esta nossa teria si­
do impensável para os nossos pais; de noite , eles não conversa­
vam , dormiam calmamente; ora nós , a nossa geração , dormimos
mal , atormentamo-nos , falamos muito e duvidamos sempre de
termos ou não razão . Mas para os nossos filhos ou netos , esta
questão de terem ou não razão já estará resolvida. Eles saberão tu­
do melhor do que nós . Daqui a cinquenta anos a vida será mesmo
boa, só é pena que não vivamos até lá. Seria interessante ver isso .
- Mas o que vão fazer os filhos e os netos? - perguntou Lisa.
- Não sei . . . Provavelmente abandonam tudo e vão-se embora.
- Vão para onde?
- Para onde? . . . Sei lá, para algum lado - disse Koroliov e
riu-se . - Há sempre um lugar para onde uma pessoa inteligen­
te e boa pode ir.
Um Caso da Prática Médica 273

Olhou para o relógio .


- Bem , já nasceu o Sol - disse . - Para si são horas de dor­
mir. Pela sua saúde . Dispa-se e durma. Estou muito contente por
tê-la conhecido - continuou , pegando-lhe na mão e apertando­
-lha. - É uma pessoa simpática e interessante . Boa noite !
Foi para o seu quarto e deitou-se .
Na manhã seguinte , quando lhe trouxeram a carruagem , toda
a família saiu à soleira para se despedir dele . Lisa estava festi­
vamente de branco , com uma flor no cabelo , pálida, lânguida;
olhava para ele como na véspera, com tristeza e inteligência, sor­
rindo , falando com ele com aquela expressão de quem lhe que­
ria dizer qualquer coisa especial , importante - a ele , o único .
Ouvia-se o canto das cotovias , o badalar dos sinos . As janelas
dos edifícios fabris brilhavam alegremente , e, atravessando o
terreiro e , depois , pelo caminho até à estação , Koroliov já não
evocava os operários nem as habitações lacustres , nem o Diabo ,
mas pensava no tempo , talvez já próximo , em que a vida fosse
tão luminosa e alegre como esta serena manhã de domingo ; e di­
zia de si para si que , numa manhã assim , uma manhã primaveril ,
era muito agradável ir numa boa caleche , puxada pela troica , e
aquecer-se ao sol .
Índice

O Incómodo Visitante 7
O Marido 15
A Corista 21
O Passageiro da Primeira Classe 29
Um Acontecimento Importante 37
Os Bêbedos 43
O Tifo 51
O Cardo-Corredor - Um esboço de viagem 59
O Correio 77
O Fugitivo 85
O Pai 95
A Velha Casa - História contada pelo proprietário 1 05
Os Garotos 113
Uma História da Senhora NN 121
Um Desaire 1 27
O Medo - História contada por um amigo 1 49
Na Herdade 1 63
O Assassínio 1 73
Ariadna 209
A Noiva 239
Um Caso da Prática Médica 26 1
ÜBRAS DO AUTOR NA RELÓGIO D ' ÁGUA :

Três Irmãs

A Gaivota
O Ginjal
Contos - Volumes 1 a V

Novelas - Drama na Caça e O Duelo


O Tio Vânia
NESTA COLECÇÃO

1 . Johann W. Goethe: Fausto


2. Choderlos Laclos: As Ligações Perigosas
3 . Jean-Jacques Rousseau : Confissões
4 . Oscar Wilde: O Retrato do Sr. W. H.
5 . Gustave Flaubert: Madame Bovary
6. Stendhal : A Cartuxa de Parma
7 . S . Masoch: A Vénus de Kazabaika
8 . Edith Wharton: Ethan Frome
9 . Heinrich Heine : O Livro de Le Grand
1 0 . Rainer Maria Rilke : Ewald Tragy
1 1 . Oscar Wilde: O Retrato de Dorian Gray
1 2 . Montaigne : Ensaios (Antologia)
1 3 . Yeats : Onde Nada Existe
1 4 . Hermann Melville : As Ilhas Encantadas
1 5 . Hõlderlin: A Morte de Empédocles
1 6 . Oscar Wilde: De Profandis
1 7 . Emily Bronte : O Monte dos Vendavais
1 8 . Tchékhov : Contos ( Volume I)
1 9 . Tchékhov : Contos ( Volume II)
20 . Tchékhov : Contos ( Volume III)
2 1 . Tchékhov : Contos ( Volume IV)
22 . Oscar Wilde: O Crime de Lorde Artur Savile e Outros Contos
23 . Giacomo Leopardi: Pequenas Obras Morais
24 . Benjamin Constant : Adolfo
25 . Marcel Proust: Do Lado de Swann (Vol . 1 de Em Busca do Tempo
Perdido)
26 . Marcel Proust: À Sombra das Raparigas em Flor (Vol . II de Em
Busca do Tempo Perdido)
27 . Marcel Proust: O Lado de Guermantes (Vol . III de Em Busca do
Tempo Perdido)
2 8 . Marcel Proust: Sodoma e Gomorra (Vol . IV de Em Busca do Tempo
Perdido)
29 . Marcel Proust: A Prisioneira (Vol . V de Em Busca do Tempo
Perdido)
30 . Marcel Proust: A Fugitiva (Vol . VI de Em Busca do Tempo Perdido)
3 1 . Marcel Proust: O Tempo Reencontrado (Vol . VII de Em Busca do
Tempo Perdido)
3 2 . Edith Wharton: Verão
3 3 . R . M . Rilke: As Anotações de Malte Laurids Brigge
3 4 . Franz Kafka: O Desaparecido
3 5 . Ivan Búnin: O Amor de Mítia
3 6 . Tchékhov : Novelas (Drama na Caça e O Duelo)
3 7 . Rainer Maria Rilke: A Balada da Vida e da Morte do Alferes Cristoph
Rilke e Outros Contos de Juventude
3 8 . Miguel de Cervante s : D. Quixote de La Mancha
3 9 . Franz Kafka: A Metamorfose
40 . Herman Melville : Moby Dick
4 1 . Franz Kafka: Contos
42 . Giovanni Boccaccio: Decameron (vols . 1 e II)
43 . Charles Baudelaire: A Invenção da Modernidade (Sobre Arte, Literatura
e Música)
44 . Tchékhov: Contos ( Volume V)
45 . Franz Kafka: O Castelo
46 . Honoré de Balzac : A Rapariga dos Olhos de Ouro
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pode adquiri-lo no endereço www.relogiodagua .pt .