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A Compreensão dos Outros e suas manifestações de vida

Dilthey, historiador da cultura e filósofo alemão, nasceu em Biebrich em 1833 e

morreu em Seis em 1911. Dedicou-se à história ainda jovem, quando conheceu Ranke em

meados dos anos 50 em Berlim. Foi este historiador o responsável pelo interesse do jovem

Dilthey pelos estudos históricos. Contudo, ele não foi historiador como os de sua época, ao

contrário, Dilthey estava muito mais preocupado com o trabalho teórico sobre os conceitos

e os fundamentos do conhecimento histórico. Seu propósito era fundamentar as ciências

humanas em bases específicas, sem a “contaminação” dos conceitos e métodos das ciências

naturais. Como filósofo filiou-se à linha de influência hegeliana e kantiana, mas sempre

tendo a realidade histórica (a experiência vivida) como alvo. Para compreender a realidade

vivida propôs-se a discutir exaustivamente a epistemologia das ciências humanas. Dilthey

acreditava que ditas ciências atuam em um campo específico da realidade e que, portanto,

não poderiam tomar de outro conjunto de ciências os instrumentos necessários à

compreensão da vida. Em sua época, as ciências naturais tinham um grande prestígio que as

colocava como referenciais da produção científica do conhecimento. Portanto, qualquer

disciplina que almejasse o “estatuto” de ciência deveria obedecer a seus critérios.

Dilthey discorda deste pressuposto. Para ele, as ciências humanas e as ciências

naturais por mais que dialoguem e emprestem ferramentas metodológicas umas às outras,

não devem ser confundidas e justapostas. Ambas percebem a realidade de maneira distinta.

As ciências humanas lidam com o mundo humano em sua imprevisibilidade,

incondicionalidade, espontaneidade e dinâmica. As naturais almejam o domínio absoluto de

seu objeto controlando-o, antevendo-o e mensurando-o. Enquanto as ciências humanas

compreendem o mundo histórico, as ciências naturais o explicam.


As ciências humanas buscam a compreensão da alteridade, do outro, da diferença,

em suas manifestações de vida. A compreensão é o método próprio das ciências do espírito.

Todas as funções do conjunto dessas ciências se reúnem na compreensão. A compreensão

desvela e revela o mundo da alteridade. A compreensão não é só um método que vai do

sujeito ao objeto, mas é uma forma do sujeito se auto-conhecer, numa integração plena de

experiência vivida e sua interpretação, agindo reciprocamente. A compreensão atua sobre

as manifestações de vida no mundo histórico. Mas o que são manifestações de vida? Como

elas se tornam compreensíveis? Para Dilthey, as manifestações de vida são resultantes de

um estado mental que é responsável pela expressões (Ausdruck) que configuram a

realidade. Toda expressão tem uma constituição primordial antes de sua consecução que se

dá no âmbito mental, responsável por sua inteligibilidade. É isso que garante sua

compreensão, pois o mesmo processo capaz de produzir uma ação é também o responsável

pela compreensão. Uma ação é compreensível, pois o sujeito do conhecimento é capaz de

reproduzi-la, não na sua integridade, mas dentro de um parâmetro próprio onde a ação

ganha sentido.

A compreensão varia conforme a forma e a importância das manifestações de vida.

Uma primeira classe de manifestações é composta por:

a) conceitos e juízos:

• que são produtos extensos do pensamento;

• apesar de exercerem uma função comum no conhecimento, são

independentes;

• se referem à validade do pensamento independente do contexto em que

aparecem;
• permitem a identificação dos interlocutores (uns com os outros) porque são

comuns tanto a um quanto a outro;

• permitem a especificação da compreensão para cada contexto de

pensamento lógico;

• são algo comum aos sujeitos de um determinado contexto.

 mas nada revelam do sujeito que os produziu, tampouco de sua

vida psíquica. Por isso, a compreensão atua aí de maneira limitada.

2) Ações

A ação não nasce com a intenção de se comunicar, mas em suas manifestações

carregam embutida a comunicação. A ação se relaciona com o nexo vital que a exprimiu,

por isso permite o acesso à vida psíquica. Ocorre que há uma diferença entre o complexo

vital mental – que é produtor da ação – e o complexo vital (histórico) – onde a ação ocorre.

Por isso, a ação é apenas um aspecto da realidade, uma parte da vida e, portanto, não revela

em-si como ela se constituiu, quais as circunstâncias responsáveis para sua consecução e

não revelam o lugar que a constituiu.

3) Expressões de Vivência

As expressões se relacionam intimamente com o mundo de onde proveio e sua

compreensão. Ela revela como nenhuma outra a vida psíquica que lhe deu origem. As

expressões não podem ser julgadas segundo critérios de validade ou falsidade, mas apenas

avaliadas como sinceras ou desonestas, uma vez que a mentira e a dissimulação rompem

com a relação entre expressão e vida mental. A mentira torna a vida impraticável, pois à

todo momento a estrutura da experiência é rompida. No entanto, em algumas obras o


engano não é possível. Nenhuma expressão poética pode se referir a uma vida mental que

não seja a sua. Uma expressão dessa magnitude pode ser compreendida corretamente e

sistematicamente.

Dilthey no final do texto levanta uma aporia: na fronteira entre o saber e o ato existe

uma fronteira impossível de se penetrar pela teoria como a qualquer outra pretensão

científica.

2. Formas elementares de compreensão

No âmbito da vida prática a compreensão tem uma atuação importante. No

cotidiano, as pessoas que convivem umas com as outras devem se fazer compreender

mutuamente. Cada manifestação é, nesse nível, como uma letra que junta à outra forma

palavras com significados mais amplos. A compreensão nasce nesse nível da manifestação.

É um tipo de analogia, pois tudo que é próprio ao sujeito lho é também ao objeto. Na

compreensão elementar temos a compreensão imediata do fato ocorrido, mas não se tem

nesse âmbito acesso ao complexo de vida mental.

Ela não é dedução que vai da causa aos seus efeitos, mas também não nos é

permitido, por meio dela, ir dos efeitos à causa (numa operação indutiva). Ocorre que está

nos próprios fatos a relação de indução, mas não necessariamente ela se dá. Aqui está em

sua forma mais elementar manifestação do espírito e vida espiritual que são uma unidade,

no qual atuam as formas elementares de compreensão.

3. Espírito Objetivo e Compreensão Elementar

O Espírito Objetivo é o contexto no qual a experiência humana é comum a todos os

indivíduos. Sob sua tutela o passado se torna presente e, portanto, duradouro. É a vida
objetivada, histórica e expressada. É o resultado da criação do espírito humano que

circunscreve o campo de atuação do sujeito. De fato, desde a infância, cada um é inscrito

em determinadas funções e enquadramentos estabelecidos pelo contexto que lhe envolve. É

o meio compartilhado sob o qual as pessoas se compreendem, se comunicam.

Uma manifestação nunca é isolada, mas está recheada de uma experiência comum

mesmo que apresentada como resultado de uma vida interior. Essa manifestação está

enquadrada em um tipo de ação determinada pela esfera comum. Temos, então, nessa

relação individual/ comunidade (contexto) o todo das manifestações. Uma frase, por

exemplo, é compreensível porque todas as pessoas pertencentes àquele contexto

compartilham dos signos responsáveis por sua inteligibilidade. É através dessa experiência

comum (espírito objetivo) que temos a relação da manifestação da vida e vida mental. Há

uma unidade de compreensão entre os membros do processo do conhecimento, pois

compartilham do mesmo universo cultural.

A compreensão elementar se dá nesse nível, a partir da experiência comum. A

conexão entre expressão e coisa expressa é deduzida a partir do contexto para cada caso

particular. A compreensão elementar é uma operação por analogia, pois cada indivíduo ali

envolvido partilha desse espírito objetivo. A compreensão elementar é uma interpretação

pragmática. A superior é histórica e, portanto, mais complexa.

4. As Formas Superiores da Compreensão

Quanto maior for a distância entre uma manifestação de vida e o sujeito que a

compreende, mais aí surgem as incertezas que não podem ser dirimidas pela operação

compreensiva elementar. No momento da compreensão, qualquer dúvida daí proveniente

exige prova. A prova é tirada nos momentos em que a relação da manifestação de vida e a
vida interna não se efetivou. Muitas vezes as manifestações podem ser enganosas,

dissimuladas e mentirosas e, por isso, não se estabelece aí a relação necessária com a vida

anterior. Assim, para se resolver as dúvidas deve-se analisar o complexo da vida,

recapitulando-o (por meio das fontes?).

Ademais, na vida prática tem-se a necessidade da formulação de juízos para se

certificar se é possível contar ou não com os indivíduos que nos rodeiam. Para isso, analisa-

se o complexo de manifestações de vida com a vida interior que lhes servem de base. É um

raciocínio que vai das manifestações à sua base. Porém, dado o limite das manifestações

que podem ser apreendidas e a inconstância de sua base, o saber resultante nunca fornece

certezas.

Ocorre que nem sempre as formas superiores de compreensão baseiam-se na relação

de efeito e causa. Algumas ações que requisitam a ação da compreensão superior, podem

ser primeiramente sentidas, vividas, para posteriormente serem compreendidas. Uma

compreensão nem sempre será dedutiva, pode também ser intuitiva.

As formas superiores de compreensão se reúnem a partir das manifestações

passíveis de serem compreendidas num todo. Nenhuma compreensão esgota a

inteligibilidade do objeto, por isso o diálogo entre as diversas disciplinas que a abordam é

mais do que necessário. A compreensão, em grande medida, é um movimento que vai dos

exterior ao interior. Em sua base está a compreensão elementar que fornece de antemão os

elementos partilhados por sujeito e objeto, mas vai além dela na medida que procurar sanar

as dúvidas surgidas que a elementar não é capaz de fazê-lo.

A compreensão tem sempre por objeto algo individual. Mesmo nas formas

superiores, quando se parte do todo, visa-se a obra individual. O indivíduo é o único valor

absoluto a ser apreendido. É um todo individual, uma síntese particular que junto ao
espírito objetivo determina o mundo espiritual. A história então se fundamenta na

compreensão do espírito objetivo e a vida individual relacionados.

Compreende-se, no entanto, o indivíduo na sua relação com os outros. Cada um

possui um caráter do que é universalmente humano. É individual, mas se situa num

processo. É uma apreensão individual do todo. O indivíduo em suas manifestações é o

momento de acentuação particularizante do todo. Assim há dois princípios que envolve a

exsitência individual: um exterior (que o relaciona com o mundo) e um interior (que o

particulariza).

5. Transposição, Recriação, Revivência

A compreensão adota diferentes atitudes de acordo com a tarefa de descobrir o

complexo de vida presente nos dados.

Transposição – o sujeito se transpõe ao objeto porque todas as referências das ações

estão sempre presentes e disponíveis. Um determinado objeto que possa ser retomado em

suas próprias condições poderá ser transposto. Aqui, nesse terreno, “a alma percorreu um

trilho conhecido, no qual já antes gozou e sofreu, exigiu e agiu, em circunstâncias de vida

semelhantes”. P. 268.

As expressões da vivência em muitas vezes, revelam mais do que o autor quis dizer

e assim quando o sujeito do conhecimento atua sobre o complexo vivenciado, tem-se aí

uma contribuição do eu para a experiência expressa. O sujeito atribui sentido ao fato

transposto.

Revivência ou recriação - a compreensão constitui uma operação inversa à ação.

Mas revivenciar é seguir a linha dos acontecimentos. Da intenção à consecução da ação. A

revivência é capaz de juntar os fragmentos de uma vivência, imprimindo-lhe um sentido,


formando um todo contínuo. Assim, maior será a revivência se a produção a ser revivida

estiver dada numa obra. Mas o que significa revivência exatamente? Além disso, é preciso

se perguntar, da revivência o que se pode utilizar para apreensão do mundo do espírito?

Viver é reviver a todo o momento estados alheios. Cabe à imaginação delinear as

regras responsáveis pelo processo da revivência. Numa cena teatral, mesmo que a

experiência seja completamente diferente da minha, pela imaginação sou capaz de revivê-

la. A revivência amplia o universo limitado de cada vida. Nesses termos, historiadores e

poetas são grandes responsáveis para sistematizar o material capaz de nos fazer reviver

experiências diferentes das nossas. A revivência é um processo de identificação de um

presente com o passado por meio da conexão do que é universalmente humano com o que é

passado e por conseqüência com a vida individual que lhe engendrou. A compreensão da

história liberta o homem da limitação de sua vida. E à medida que a consciência histórica se

infiltra na sociedade, mais o poder de libertação é maior.

6. Exegese ou Interpretação

A compreensão e a revivência dependem de um dom individual. Esse dom se

tornará técnica à medida que a consciência histórica evoluir. A evolução é possível por

meio das formas fixadas pelo passado que podem ser revisitadas. A compreensão

sistemática de formas fixas se chama exegese. É um trabalho que atua sobre a linguagem

expressa. A exegese é uma operação própria da filologia e a ciência desse empreendimento

é a hermenêutica. Mas o passado pode impor limites difíceis de serem depurados. Por isso,

as técnicas exegéticas envolvem cada vez mais aperfeiçoamento de suas técnicas. Mas o

seu ensinamento de geração a geração depende da influência pessoal do filólogo.


A hermenêutica é responsável por sistematizar todas as regras correspondentes a

todos os campos de criação (como a artística, por exemplo). A hermenêutica é substituída

no período de consciência histórica por uma teoria idealista de Schlegel, Schleiermacher e

Boeckh que se detém na criação intelectual. Schleiermacher é responsável pela frase: talvez

seja possível compreender um autor melhor do que ele mesmo. A hermenêutica confere ao

método das ciências do espírito, nova missão. O trabalho em relação à teologia já foi feito.

É preciso agora fundamentar por meio da hermenêutica o conhecimento da realidade

histórica. A hermenêutica deverá determinar o grau da universalidade que é possível

alcançar a partir da história. Em suas formas mais elementares a vivência é trazida à

consciência sob formas elementares. Em todo processo compreensivo há um aspecto de

irracionalidade próprio da natureza do método compreensivo e da vida. O processo

compreensivo é também um raciocínio de indução, pois se vai do conhecido para o

desconhecido. É uma estrutura, um sistema ordenador que reúne casos como partes de um

todo.