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ANÁLISE DA REFEUDALIZAÇÃO DOS ESPAÇOS SOCIAIS SEGMENTADOS NO

CONTEXTO NACIONAL

Uma análise histórico, socioeconômica das estruturas formadoras do Feudalismo


e sua correlação com os espaços sociais segmentados da contemporaneidade.

RESUMO

O presente estudo apriorístico tem como escopo a análise das estruturas


formadoras do processo de feudalização característico do medievo, bem como sua inter-
relação com as estruturas sociais fundantes dos espaços sociais segmentados
nacionais, notadamente os subsistemas sociais marginalizados.
Ainda que o tema que permeia o presente estudo comporte um amplo campo de
debate sob prismas diversos das ciências sociais, prenderemo-nos à análise
tridimensional do fenômeno, apropriando-nos e dando um enfoque análogo ao termo
cunhado por Habermas, a refeudalização¹, trabalhando o conceito com relação aos
espaços segmentados presentes na contemporaneidade, não pretendendo esgotar o
assunto, inexequível que é, outrossim, estimular a mais ampla discussão, utilizando-se do
substrato histórico como embasamento téorico.

INTRODUÇÃO

O feudalismo foi o fenômeno político, social e econômico que cristalizou-se durante


um longo processo histórico, iniciando-se por volta do século VI, e cujas forças
aglutinadoras originaram-se a partir da capitulação do Império Romano do Ocidente face
às hordas migratórias dos povos bárbaros nômades, que por sua característica,
necessitavam da ocupação de novas terras. Essa aglutinação amalgamou vários traços
da sociedade romana aos do barbarismo, possibilitando o surgimento de uma sociedade
ímpar, cujo modelo irradiou-se por toda o velho continente.
Roma, no entanto, já a partir do século IV vinha experimentando um rápido e
silencioso declínio, com a degradação de sua economia por sucessivos ataques dos
povos bárbaros aos territórios pertencentes aos Césares. O esforço de uma guerra
contínua, dizimadora de grande parte da população masculina, as dificuldades causadas
ao comércio e a agricultura, somados a uma incapacidade de se manter coeso o sistema
político, revelaram-se um câncer a corroer as colunas estruturantes de Roma.
O processo de feudalização foi uma resposta da sociedade romana a insegurança
à propriedade trazida pelas invasões e à incapacidade do Estado Romano em oferecer
uma pronta reposta, pois os grandes latifundiários romanos, abandonando as cidades,
migraram em direção ao campo, estabelecendo uma cultura de subsistência, dando
origem ao que convencionou-se chamar “colonato” ou “sistema servil de produção”,
traço distintivo do futuro “modo de produção feudal”.
Com a ruralização de Roma, enfraqueceu-se o poder central, sendo o centro desse
poder paulatinamente deslocado e concentrado, convergindo para os senhores das terras,
os quais passaram a gozar de uma maior autonomia político-administrativa em relação ao
Estado Romano.
O Cristianismo, o qual havia sido alçado à condição de religião oficial do estado
através do Édito de Milão no período constantiniano(313 d.C.), exerceu papel crucial nos
primórdios da feudalização, sendo o legitimador do poder do senhor da terra sobre os

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colonos, pois nas palavras do apóstolo Pedro:
“Vos, servos, sujeitai-vos com temor aos seus senhores, não somente aos
bons e humanos, mas também aos maus.”(I Pedro 2:18)²
Ademais, todos os bens confiscados pelos imperadores antecedentes a
Constantino foram devolvidos à igreja, a qual passou a ser possuidora também de
extensas terras, o que, numa sociedade fundada na propriedade, fez crescer o status da
igreja, já nessa época bastante romanizada em sua estrutura organizacional, o que
instrumentalizou o poder clerical,

CARACTERÍSTICAS DO FEUDALISMO

A disputa por novos espaços sociais criou a necessidade de se organizar um


exército pronto e capaz não só de rechaçar os ataques externos ao feudo, mas também
de manter a ordem interna.
Como bem expôs Salinas: “Os conflitos entre senhores feudais pelo domínio das
terras suscitavam as denominadas guerras privadas, tão comuns que a Igreja as tolerava
a princípio, impondo, em determinadas circunstâncias, as "tréguas de Deus".”(1987:16)³
Dessa disputa de poder entre os diversos feudos emergem as forças propulsoras
futuras do absolutismo, notadamente a nobreza. O senhor feudal, antes absoluto no seu
espaço social, vê-se às voltas com a necessidade de partilhar este poderio com a classe
dos cavaleiros e dos nobres, não desconsiderando a burguesia, cuja dimensão somente
será melhor entendida com o aumento da relações de troca entre os feudos.
A produção agrícola, num primeiro momento, foi concebida visando o consumo
interno, porém, carecendo de técnicas de produção e otimização do uso das terras , sofria
constantes perdas, perdas essas também sentidas na pecuária ainda bem rudimentar.
O excedente porventura existente é, num primeiro momento, objeto de troca
interna num processo de retroalimentação, só vindo a adquirir alguma importância quando
a burguesia surgiu como classe nova e desestabilizadora do modo de produção feudal.
A propriedade da terra era exclusiva dos senhores feudais, a quem competia
delimitar o espaço social a ser ocupado por cada membro do feudo.
O Direito Romano vigia nos feudos de forma fragmentada, sendo comum a
assunção de direitos e obrigações embasados apenas no direito consuetudinário, o Jus
moribus constitutum, por isso mesmo um direito multifacetado.
O direito codificado do Estado Romano deu lugar a um direito costumeiro,
mesclado com o direito canônico, importante fonte ordenadora e sacralizadora das
relações sociais.
“A fixação dos camponeses à terra, portanto, não decorre de pressão senhorial
absoluta, mas de ajustes recíprocos que, embora constituídos em situação desigual de
poder, permitem aos camponeses adquirir condições nas quais direitos e deveres
tenderam a se consolidar nos costumes.”(SALINAS:1987.18).
Os códigos, o digesto, as institutas e as novelas, espinha dorsal do Direito
Românico, foram paulatinamente sendo preteridos, preferindo a sociedade feudal um
direito mais próximo à realidade das relações feudais.

COSTUMES FEUDAIS

Interessa-nos sobremaneira ao presente artigo entender os costumes vigentes na


sociedade feudal, embora, como já exposto, os mesmos não fossem universais, variando
de feudo para feudo.
O princípio que impregnava todas as relações feudais era o da fidelidade: ao

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vassalo nada mais restava senão a lealdade irrestrita para com o seu senhor.
Conforme Marc Bloch:“O acordo vassálico unia dois homens que, por definição,
não eram do mesmo nível. Nada de mais eloquente, a este respeito, do que uma
disposição do velho direito normando: se o senhor que matou o seu vassalo e o vassalo
que matou o seu senhor são ambos punidos com a morte, o crime contra o chefe é,
indiscutivelmente, o mais horrendo pois só ele merece o infamante enforcamento
.”(Edições 70, Lisboa:257)⁴
A vassalagem era um fato hereditário: o filho do vassalo estava condenado a esta
condição ainda que não prestasse juramento ao seu Senhor. O vassalo tinha o dever de
vingar a morte de seu senhor.
Com o tempo a propriedade passa a ser de mais valia que o próprio homem, como
sublinha Marc Bloch:”Numa sociedade em que o indivíduo pertencia tão pouco a
si próprio o casamento, que, como já vimos, punha tantos interesses em jogo, estava
longe de se assemelhar a um acto de vontade pessoal”. (Edições 70, Lisboa:255).⁵
Esse “não pertencer a si mesmo”, encrusta-se no imaginário do servo, que passa
a não se reconhecer, alcançando a propriedade primazia no senso valorativo do homem
feudal. O homem se instrumentaliza. Não reconhece mais a si mesmo.
Kant, em sua obra Fundamentação da Metafísica dos Costumes diz que: “... o
homem não é uma coisa; não é portanto um objecto que possa ser utilizado simplesmente
como um meio, mas pelo contrário deve ser considerado sempre em todas as suas
acções como fim em si mesmo.”⁶
Outro costume, o direito de defloramento da virgem prometida em casamento, nos
é dado por Georges Bataille:
“En principio, su caracter sacerdotal designaba a quienes habian de poseer por
primera vez a la novia. Pero en el mundo cristiano se hizo impensable el recurso a los
ministros de Dios; entonces se establecio la costumbre de pedir al senor feudal la
desfloracion. Evidentemente, la actividad sexual, al menos cuando se trataba de un primer
contacto, era considerada prohibida; y peligrosa ademas, excepto para quien poseia,
como soberano o como sacerdote, el poder de tocar las cosas sagradas sin gran riesgo.”⁷

CONCEITO DE SOCIEDADE

Ao nosso estudo interessa entendermos o conceito de sociedade.


A conceituação do que seja a sociedade assume importância primordial para o
entendimento do que sejam os espaços sociais segmentados da pós modernidade.
Cumpre salientar que os conceitos teoréticos de sociedade são diversos. Quintão,
citando Parsons, conceitua a sociedade como”complexo de relações do homem com seus
semelhantes, um tipo de sistema social contendo em si mesmo todos os pré-requisitos
essenciais para a sua manutenção como sistema auto sustentado”.(2004:13)⁸.
Já a Teoria da Sociedade divide e conceitua a sociedade em organicista e
mecanicista.
O conceito Organicista concebe a sociedade a partir das “...relações entre os
indivíduos, de forma harmoniosa, visando a construção de um novo ente que se sobrepõe
a todos e que assume preponderância sobre a sociedade.” (2004: 13)⁹. Não raras vezes o
ente criado passa a ter supremacia sobre o ente criador. No sistema organicista o papel
de preponderância é da COISA CRIADA, a qual pode ser o sistema feudal, a monarquia
absolutista, o estado liberal, o estado social ou o estado democrático de direito
O modelo mecanicista, por sua vez, concebe a sociedade como “...grupo derivado
de um acordo de vontades formalizado por seus próprios membros, entrelaçados em
vínculo associativo e imbuídos do mesmo interesse comum, que apenas será obtido pela

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conjugação de seus esforços.”(2004: 14)¹⁰. No sistema mecanicista o papel de
preponderância é do INDIVÍDUO.
Segundo BONAVIDES, em sua obra, Ciência Política: “ Sendo o mecanicismo e o
organicismo as duas formulações históricas mais importantes sobre os fundamentos da
Sociedade, todo conceito que se der de Sociedade traduzirá na essência o influxo de uma
ou de outra concepção. Quando Toennies diz que a Sociedade é o grupo derivado de um
acordo de vontades, de membros que buscam, mediante o vínculo associativo, um
interesse comum impossível de obter-se pelos esforços isolados dos indivíduos, esse
conceito é irrepreensivelmente mecanicista. No entanto, quando Del Vecchio entende por
Sociedade o conjunto de relações mediante as quais vários indivíduos vivem e atuam
solidariamente em ordem a formar uma entidade nova e superior, oferece-nos ele um
conceito de Sociedade basicamente organicista.”(2000: p.56.)¹¹
Temos ainda o conceito contratualista de sociedade, citado no magistério de
DALLARI, para o qual “...predomina, atualmente, a aceitação de que a sociedade é
resultante de uma necessidade natural do homem, sem excluir a participação da
consciência e da vontade humanas. E inegável, entretanto, que o contratualismo exerceu
e continua exercendo grande influência prática, devendo-se mesmo reconhecer sua
presença marcante na ideia contemporânea de democracia.”(1998: 2ªed. p.11.)¹²

SURGIMENTO DOS ESPAÇOS SOCIAIS SEGMENTADOS

A partir dos conceitos já expostos acerca dos fatores desencadeantes do processo


de feudalização, tentaremos traçar as similitudes em relação ao surgimento dos espaços
sociais segmentados, em especial aos subsistemas periféricos da sociedade brasileira
contemporânea.
No Brasil, notadamente durante o final do século XIX e a primeira metade do
século XX, iniciou-se um intenso movimento de urbanização, impulsionado principalmente
pela crescente exportação de matérias-primas, a nascente industrialização da economia e
pelos movimentos emigratórios oriundos do velho continente, em substituição à massa
escrava que houvera predominado como força produtiva até o final do período imperial.
Tendo a Europa iniciado o seu processo de industrialização com antecedência em
relação às colônias, e necessitando de mercados consumidores dos seus produtos
manufaturados, incentivou os movimentos de extinção do sistema servil como meio de
produção.
Sob a pressão política exercida pela coroa inglesa, o fluxo de exportação de
escravos oriundos notadamente do continente africano, viu-se comprometido, o que
levou os grandes produtores rurais brasileiros a importar mão de obra da Europa. Aliado a
isso, somava-se o pensamento dominante na “elite” latifundiária brasileira de que o negro,
inserido num sistema escravocrata, acostumado a executar as suas tarefas geralmente
sob açoites, não se prestaria, em última instância, a trabalhar livre. Por outro lado, os
novos industriais acreditavam que os trabalhadores europeus, mais acostumados com as
invenções tecnológicas, prestar-se-iam melhor ao trabalho assalariado, em detrimento à
mão de obra do grande número de negros recém libertos.
Fugindo em grande parte dos conflitos instalados em solo materno, levas e levas
de emigrantes passaram a chegar cada vez mais ao Brasil. Essa enorme massa
trabalhadora precisava de casas, escolas, hospitais, o que impulsionou o processo de
urbanização das grandes cidades.
A incipiente classe média brasileira do começo do século XX respirava os
modismos sociais, políticos e culturais da Europa. Cidades como o Rio de Janeiro e São
Paulo experimentaram uma rápida transformação, modernizando-se e ganhando ares das

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grandes metrópoles de então.
A República já inaugurada, porém presa ainda a conceitos imperiais, não
conseguia responder aos anseios da nova classe proletária e politizada, o que gerou, já
nos seus primórdios, diversos conflitos sociais.
Nesse cenário, ganha força o embrião da primeira favela brasileira, o morro da
Providência, na antiga capital federal, para onde afluíram os marginalizados do novo
sistema em formação: negros, doentes, desempregados, malandros e principalmente os
veteranos das guerras imperiais, notadamente os combatentes da Guerra de Canudos,
que, atraídos pelas promessas de que receberiam casas da nova República, retornaram
ao Rio de Janeiro, onde foram deixados à própria sorte.
Surgem os primeiros movimentos operários inspirados precipuamente no
pensamento liberal europeu. Com o aumento da tensão entre operários e industriais, o
governo federal se viu obrigado a conceber um documento que disciplinasse as relações
trabalhistas. Surge a CLT, documento consolidado concebido pelo varguismo e que reuniu
diversas normas esparsas relacionadas às relações de trabalho.

Da mesma forma que a incapacidade do estado Romano em garantir a


propriedade, face às invasões bárbaras, impulsionou os grandes latifundiários romanos
no século V a formarem as vilaes, assim também ocorreu com aqueles que passaram a
afluir cada vez mais para os nichos sociais marginalizados. Almejando a construção de
um espaço onde se pudesse obter o mínimo existencial, ante um estado ineficaz em
suprir essas mesmas demandas, grupos humanos cada vez maiores migraram para o
interior dessas comunidades.
O próprio Vargas declarou que : “É a necessidade que faz a lei: tanto mais
complexa se torna a vida no momento que passa, tanto maior há de ser a intervenção do
estado no domínio da atividade privada.” ¹³
Após o fim da 2ª guerra mundial, o modelo ditatorial varguista ruiu, pois o sopro da
democracia, como forma de sepultamento das atrocidades cometidas pelos governos
totalitários, fez surgir no Brasil os anseios da construção de um novo paradigma estatal, o
estado democrático de direito.
Com o afastamento de Vargas, sucederam-no alguns políticos com os mesmos
ideais, porém sem a mesma força carismática. Do senado, Vargas ainda influenciava a
política brasileira, o que culminaria com o seu retorno em 1950, agora então legitimado
pelas eleições presidenciais.
O cenário político brasileiro, no entanto, já não era o mesmo, pois os militares
haviam adquirido prestígio com a participação das forças armadas no esforço de guerra
ao lado dos aliados.
Pressionado pelas alas do exército, Getúlio capitula, suicidando-se em 1954. Dez
anos após, os militares assumem o poder, inaugurando o período da ditadura militar.
Esse período foi um marco importante no processo de crescimento e surgimento de
novos espaços sociais segmentados, pois a política habitacional nas principais capitais
durante a ditadura militar caracterizou-se pela criação dos chamados “conjuntos
habitacionais”.

A INSTITUCIONALIZAÇÃO DOS ESPAÇOS SOCIAIS SEGMENTADOS.

Após a tomada do poder pelos militares, iniciou-se um intenso esforço de


industrialização, investindo-se principalmente nas indústrias de base, o que tornou-se
possível através da entrada maciça de capital estrangeiro no país, notadamente o norte-
americano, posto que os Estados Unidos temiam que os militares então no poder

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tendessem para o lado comunista. Foi o chamado “milagre econômico”.
Diversas e faraônicas obras de infra-estrutura foram concebidas neste período, o
que gerou milhares de empregos na construção civil, forçando um deslocamento da
massa trabalhadora, principalmente oriunda do Nordeste, para as grandes capitais do
Sudeste. O aumento da oferta de mão de obra, no entanto, causou a redução do salário
real, obrigando a classe operária a se abrigar nos espaços periféricos marginalizados.
O governo militar desejando consolidar a ocupação do território nacional, concebeu
um programa de moradias populares, pondo em prática uma política de construção de
grandes empreendimentos habitacionais, dinamizando áreas até então de pouca ou
nenhuma valorização imobiliária.
Os conjuntos habitacionais proporcionaram a integração de um grande número de
famílias em um mesmo espaço social, porém, sem o incremento de novas escolas,
hospitais e uma infra estrutura adequada, mostrou-se com o tempo ter sido uma política
demagógica e imperfeita em suas concepções, o que acelerou o processo de favelização
das paisagens urbanas.
Deixados à própria sorte nesses espaços sociais segmentados e ante a omissão
da atuação do Estado, criou-se nesses locais, com o passar do tempo, um novo tipo de
direito para-estatal, semelhante ao direito consuetudinário germânico dos feudos
medievais. Nos espaços normativos deixados pelo Estado-Juiz surgiu a figura dos
diretores de associações de moradores, e a dos chefes do tráfico.
A lei dentro dos espaços sociais segmentados deixou de ser a norma jurídica
instituida por uma autoridade legal, em detrimento a uma norma contra legem emanada
desses novos atores sociais. Assim como a vassalagem característica do feudalismo,
esses novos senhores das terras passaram a deter a propriedade desses espaços
segmentados, ordenando e disciplinando a posse dos bens imóveis.
De certa maneira a figura do “vingador do sangue”, presente no feudalismo,
ressurgiu abrandada por um mínimo de civilidade, substituída pela queima de ônibus e
outros bens públicos e privados, cada vez que um chefe do tráfico é morto pelas forças
repressivas do Estado.
Em certos espaços sociais segmentados é comum mesmo o costume de que as
meninas em estado de puberdade, notadamente aquelas que apresentam dotes físicos
distintos, sejam coagidas a tornarem-se mulheres dos traficantes ou, caso contrário,
sejam obrigadas, junto com seus familiares, a deixarem esses espaços períféricos
marginalizados.
Agregue-se a isso tudo a figura de uma igreja multidenominacional, instituição
típica dos estados laicos, catalisadora social com forte presença nesses espaços
periféricos, veiculadora de ideias muitas das vezes legitimadoras das condições sociais
degradantes imanentes aos atores sociais dessa moderna classe servil.

CONCLUSÃO

Pelo todo exposto, entendemos ser necessária uma ampla atuação do Estado
nesses espaços sociais segmentados. Uma efetiva interação dos principais atores sociais,
executivo, legislativo e judiciário, através de ações afirmativas e positivas, num trabalho
de resgate desses espaços para usufruto da coletividade
As ações coercitivas são necessárias ao exercício do poder de imperium estatal,
mas, mais necessário se faz entendermos as forças motrizes geradores e perpetuadoras
desses sistemas, para que, estabelecendo propostas imediatas e mediatas, possamos
vislumbrar a implantação dos anseios de uma democracia social de direito também

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nesses locais, livrando-as de um retrocesso civilizatório na busca plena do exercício dos
direitos e garantias fundamentais do homem.

Sobre o autor:
Fábio Carvalho é Servidor do Judiciário Federal e graduando em direito pela Faculdade
de Direito do Sul de Minas.

BIBLIOGRAFIA:

¹ Termo cunhado por Habermas sobre as estruturas da esfera política do Estado, em sua
tese Mudança Estrutural da Esfera Pública (HABERMAS, 1984).
² Bíblia almeida revista e corrigida. acesso em 22/02/2011, às 17h01min, disponível em
http://www.bibliaonline.com.br?acf/s/*/sede submissos ao vosso senhor
³ SALINAS,Samuel Sérgio. Do feudalismo ao capitalismo, São Paulo: 1987.
⁴ BLOCH, Marc;A sociedade feudal. Edições 70:257.
⁵ ibiden
⁶ KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Edições 70, 1ª edição.
p. 70.
⁷ BATAILLE, Georges. El erotismo. 1957. p. 83.
⁸ QUINTÃO, Mário Lúcio. Teoria do estado.2004. Delrey. 2ª Edição. p.13.
⁹ ibiden.
¹⁰ ibiden
¹¹ BONAVIDES, Paulo. Ciência política. São Paulo: 2000.Malheiros. p.56.
¹² DALLARI, Dalmo. Elementos da teoria do estado.1998. 2ª ed. p. 11.
¹³ VARGAS, Getúlio, A Nova política do brasil, volume 5, página 311, Livraria José
Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1938