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Direito Tributário e

Empresarial
Profª. Gabriela Wolff
Profª. Ana Paula Tabosa dos Santos Sanches
Prof. Anderson de Miranda Gomes

2019
Copyright © UNIASSELVI 2019

Elaboração:
Profª. Gabriela Wolff
Profª. Ana Paula Tabosa dos Santos Sanches
Prof. Anderson de Miranda Gomes

Revisão, Diagramação e Produção:


Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI

Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri


UNIASSELVI – Indaial.

W855d

Wolff, Gabriela
Direito tributário e empresarial. / Gabriela Wolff; Ana Paula Tabosa
dos Santos; Anderson de Miranda Gomes. – Indaial: UNIASSELVI, 2019.

204 p.; il.


ISBN 978-85-515-0249-5

1.Direito empresarial. – Brasil. 2.Direito tributário. – Brasil. I. Wolff, Gabriela.


II. Sanches, Ana Paula Tabosa dos Santos. III. Gomes, Anderson de Miranda.
IV. Centro Universitário Leonardo Da Vinci.

CDD 346.81065

Impresso por:
Apresentação
Prezado acadêmico!

Iniciamos os estudos de Direito Tributário e Empresarial. Na Unidade


1, estudaremos o conceito, as fontes do Direito Tributário, como se aplica e
integra esta legislação específica.

A Unidade 2 é dedicada ao estudo do conceito e classificação dos


tributos, da competência tributária e das limitações a este poder. Também
nesta unidade, estudaremos a obrigação tributária e o lançamento tributário.

Já na Unidade 3, voltada ao Direito Empresarial, estudaremos seu


conceito, a figura do empresário e suas características, bem como a estrutura
das sociedades empresárias, os títulos de crédito e o procedimento para a
recuperação das empresas.

Desejamos a você uma trajetória de sucesso!

Bons estudos!

III
NOTA

Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto


para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há
novidades em nosso material.

Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é


o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um
formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura.

O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova
diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também
contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.

Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente,


apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.
 
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto
em questão.

Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa
continuar seus estudos com um material de qualidade.

Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de


Desempenho de Estudantes – ENADE.
 
Bons estudos!

IV
V
VI
Sumário
UNIDADE 1 – DIREITO TRIBUTÁRIO.............................................................................................. 1

TÓPICO 1 – CONCEITO DE DIREITO TRIBUTÁRIO.................................................................... 3


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 3
2 CONCEITO DO DIREITO TRIBUTÁRIO....................................................................................... 3
2.1 DIREITO FINANCEIRO E DIREITO TRIBUTÁRIO................................................................... 5
2.2 DIREITO TRIBUTÁRIO COMO RAMO DO DIREITO PÚBLICO............................................ 6
2.3 RELAÇÕES DO DIREITO TRIBUTÁRIO COM OUTROS RAMOS DO DIREITO................. 7
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 15
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 16

TÓPICO 2 – FONTES DO DIREITO TRIBUTÁRIO......................................................................... 17


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 17
2 A CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988........................................................................................... 18
2.1 EMENDAS CONSTITUCIONAIS.................................................................................................. 19
3 LEI ORDINÁRIA................................................................................................................................... 22
4 MEDIDAS PROVISÓRIAS................................................................................................................. 23
5 LEIS DELEGADAS................................................................................................................................ 25
6 RESOLUÇÕES E DECRETOS LEGISLATIVOS.............................................................................. 26
7 DECRETOS REGULAMENTARES.................................................................................................... 27
8 TRATADOS E CONVENÇÕES INTERNACIONAIS.................................................................... 28
9 NORMAS COMPLEMENTARES....................................................................................................... 29
9.1 ATOS NORMATIVOS...................................................................................................................... 31
9.2 DECISÕES ADMINISTRATIVAS................................................................................................... 32
9.3 PRÁTICAS REITERADAS............................................................................................................... 32
9.4 CONVÊNIOS..................................................................................................................................... 32
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 34
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 35

TÓPICO 3 – INTERPRETAÇÃO E INTEGRAÇÃO DA LEI TRIBUTÁRIA................................. 37


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 37
2 NOÇÕES DE INTERPRETAÇÃO E INTEGRAÇÃO...................................................................... 37
3 INTEGRAÇÃO DO DIREITO TRIBUTÁRIO................................................................................. 38
3.1 ANALOGIA....................................................................................................................................... 39
3.2 PRINCÍPIOS GERAIS DO DIREITO TRIBUTÁRIO.................................................................... 39
3.3 PRINCÍPIOS GERAIS DE DIREITO PÚBLICO............................................................................ 41
3.4 EQUIDADE........................................................................................................................................ 42
4 PRINCÍPIOS GERAIS DE DIREITO PRIVADO............................................................................. 43
5 INTERPRETAÇÃO LITERAL.............................................................................................................. 43
6 INTERPRETAÇÃO BENIGNA........................................................................................................... 44
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 46
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 47

VII
TÓPICO 4 – VIGÊNCIA E APLICAÇÃO DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA.............................. 49
1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 49
2 VIGÊNCIA DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA................................................................................ 49
2.1 VIGÊNCIA NO ESPAÇO................................................................................................................. 50
2.2 VIGÊNCIA NO TEMPO.................................................................................................................. 51
3 APLICAÇÃO DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA............................................................................ 52
3.1 APLICAÇÃO RETROATIVA DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA............................................... 53
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................................ 55
RESUMO DO TÓPICO 4........................................................................................................................ 60
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 61

UNIDADE 2 – CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS.............................................. 63

TÓPICO 1 – CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS.................................................. 65


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 65
2 CONCEITO DE TRIBUTO.................................................................................................................. 65
3 CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS................................................................................................. 66
3.1 IMPOSTOS......................................................................................................................................... 67
3.2 TAXAS................................................................................................................................................ 69
3.3 CONTRIBUIÇÕES DE MELHORIA.............................................................................................. 71
3.4 EMPRÉSTIMOS COMPULSÓRIOS............................................................................................... 73
3.5 CONTRIBUIÇÕES ........................................................................................................................... 74
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 77
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 78

TÓPICO 2 – COMPETÊNCIA TRIBUTÁRIA E LIMITES AO PODER DE TRIBUTAR............ 81


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 81
2 COMPETÊNCIA TRIBUTÁRIA......................................................................................................... 81
2.1 CLASSIFICAÇÃO DAS COMPETÊNCIAS.................................................................................. 82
2.1.1 Competência Privativa............................................................................................................ 82
2.1.2 Competência Comum/Concorrente...................................................................................... 83
2.1.3 Competência Cumulativa....................................................................................................... 83
2.1.4 Competência Residual............................................................................................................ 84
2.1.5 Competência Extraordinária.................................................................................................. 84
3 LIMITES NO PODER DE TRIBUTAR.............................................................................................. 85
3.1 PRINCÍPIO DA LEGALIDADE...................................................................................................... 86
3.2 PRINCÍPIO DA ANTERIORIDADE – ANUAL E NONAGESIMAL........................................ 87
3.3 PRINCÍPIO DA IRRETROATIVIDADE........................................................................................ 90
3.4 PRINCÍPIO DA ISONOMIA........................................................................................................... 91
3.5 PRINCÍPIO DA CAPACIDADE CONTRIBUTIVA..................................................................... 92
3.6 PRINCÍPIO DA VEDAÇÃO DE CONFISCO............................................................................... 93
3.7 PRINCÍPIO DA LIBERDADE DE TRÁFEGO DE BENS E PESSOAS....................................... 93
4 IMUNIDADES TRIBUTÁRIAS.......................................................................................................... 94
4.1 IMUNIDADE DAS ENTIDADES POLÍTICAS/RECÍPROCA.................................................... 95
4.2 IMUNIDADE AOS TEMPLOS DE QUALQUER NATUREZA................................................. 95
4.3 IMUNIDADE AOS PARTIDOS POLÍTICOS, SINDICATOS DE EMPREGADOS, ÀS
INSTITUIÇÕES DE EDUCAÇÃO E ENTIDADES DE ASSISTÊNCIA SOCIAL..................... 96
4.4 IMUNIDADE À IMPRENSA.......................................................................................................... 97
4.5 IMUNIDADE MUSICAL................................................................................................................. 97
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 98
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 99

VIII
TÓPICO 3 – RELAÇÃO JURÍDICA TRIBUTÁRIA......................................................................... 101
1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 101
2 ELEMENTOS DA RELAÇÃO JURÍDICA TRIBUTÁRIA........................................................... 101
2.1 HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA E FATO GERADOR .................................................................. 102
2.2 OBRIGAÇÃO TRIBUTÁRIA......................................................................................................... 104
2.2.1 Sujeitos da obrigação tributária........................................................................................... 104
2.2.2 Responsabilidade tributária................................................................................................. 105
2.2.3 Objeto e causa da obrigação tributária............................................................................... 107
3 LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO........................................................................................................ 108
4 CRÉDITO TRIBUTÁRIO................................................................................................................... 109
4.1 SUSPENSÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO................................................................................ 110
4.2 EXCLUSÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO ................................................................................ 111
4.3 EXTINÇÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO.................................................................................. 112
5 CERTIDÃO DE DÍVIDA ATIVA E EXECUÇÃO FISCAL........................................................... 115
6 REGIMES DE TRIBUTAÇÃO........................................................................................................... 118
7 PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO ................................................................................................... 119
LEITURA COMPLEMENTAR.............................................................................................................. 121
RESUMO DO TÓPICO 3...................................................................................................................... 124
AUTOATIVIDADE................................................................................................................................ 125

UNIDADE 3 – DIREITO EMPRESARIAL......................................................................................... 127

TÓPICO 1 – BREVE HISTÓRICO – SURGIMENTO E EVOLUÇÃO DO


DIREITO EMPRESARIAL............................................................................................. 129
1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 129
2 A TEORIA DA EMPRESA................................................................................................................. 131
3 A EMPRESA.......................................................................................................................................... 132
4 O EMPRESÁRIO INDIVIDUAL...................................................................................................... 133
4.1 PROIBIDOS DE EXERCER ATIVIDADE EMPRESARIAL....................................................... 134
5 EMPRESA INDIVIDUAL DE RESPONSABILIDADE LIMITADA – EIRELI........................ 135
5.1 REQUISITOS E IMPEDIMENTOS PARA SER TITULAR DE EIRELI.................................... 136
6 EMPRESÁRIOS RURAIS................................................................................................................... 138
7 MICROEMPRESÁRIOS E EMPRESÁRIOS DE PEQUENO PORTE........................................ 139
RESUMO DO TÓPICO 1...................................................................................................................... 142
AUTOATIVIDADE................................................................................................................................ 143

TÓPICO 2 – SOCIEDADES EMPRESÁRIAS................................................................................... 145


1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 145
2 SOCIEDADES DE PROPÓSITO ESPECÍFICO (SPE).................................................................. 146
2.1 DIFERENÇA ENTRE SPE E CONSÓRCIO CONTRATUAL................................................... 147
3 SOCIEDADES PERSONIFICADAS E NÃO PERSONIFICADAS............................................ 147
3.1 SOCIEDADES NÃO PERSONIFICADAS OU DESPERSONIFICADAS................................ 148
3.1.1 Sociedade em Comum.......................................................................................................... 148
3.1.2 Sociedade em Conta de Participação.................................................................................. 150
3.2 SOCIEDADES PERSONIFICADAS ............................................................................................ 151
3.2.1 Sociedades Simples................................................................................................................ 152
3.2.2 Sociedades Empresárias........................................................................................................ 154
3.2.2.1 Sociedades Empresárias Limitadas.................................................................................. 155
3.2.2.2 Sociedade Anônima (S.A.)................................................................................................. 158
3.2.2.3 Sociedade em Nome Coletivo........................................................................................... 161
3.2.2.4 Sociedade em Comandita Simples................................................................................... 162
3.2.2.5 Sociedade em Comandita por Ações............................................................................... 163
RESUMO DO TÓPICO 2...................................................................................................................... 165
AUTOATIVIDADE................................................................................................................................ 166

IX
TÓPICO 3 – TÍTULOS DE CRÉDITO, RECUPERAÇÃO DE EMPRESAS E FALÊNCIA........ 167
1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 167
2 O SURGIMENTO DO CRÉDITO.................................................................................................... 167
3 CONCEITO E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DO TÍTULO DE CRÉDITO................... 169
4 CLASSIFICAÇÃO DOS TÍTULOS DE CRÉDITO....................................................................... 171
5 CONCEITOS IMPORTANTES LIGADOS AOS TÍTULOS DE CRÉDITO............................. 172
5.1 ENDOSSO........................................................................................................................................ 172
5.2 AVAL................................................................................................................................................. 173
5.3 PROTESTO....................................................................................................................................... 174
5.4 PRESCRIÇÃO.................................................................................................................................. 175
6 TÍTULOS DE CRÉDITO EM ESPÉCIE........................................................................................... 175
6.1 LETRA DE CÂMBIO...................................................................................................................... 176
6.2 NOTA PROMISSÓRIA................................................................................................................... 177
6.3 CHEQUES........................................................................................................................................ 179
6.4 DUPLICATA.................................................................................................................................... 182
7 DA RECUPERAÇÃO DA EMPRESA.............................................................................................. 183
7.1 DA RECUPERAÇÃO EXTRAJUDICIAL.................................................................................... 183
7.2 DA RECUPERAÇÃO JUDICIAL.................................................................................................. 186
8 FALÊNCIA............................................................................................................................................. 187
LEITURA COMPLEMENTAR.............................................................................................................. 190
RESUMO DO TÓPICO 3...................................................................................................................... 193
AUTOATIVIDADE................................................................................................................................ 194

REFERÊNCIAS........................................................................................................................................ 197

X
UNIDADE 1

DIREITO TRIBUTÁRIO

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você será capaz de:

• entender o conceito de direito tributário, suas principais fontes e a sua


relação com os outros ramos do direito;

• compreender a legislação tributária, sua vigência e aplicação, sua interpretação


e integração ao caso concreto, a ponto de facilitar no seu dia a dia profissional.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em quatro tópicos. No final de cada um deles, você
encontrará atividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.

TÓPICO 1 – CONCEITO DE DIREITO TRIBUTÁRIO

TÓPICO 2 – FONTES DO DIREITO TRIBUTÁRIO

TÓPICO 3 – INTERPRETAÇÃO E INTEGRAÇÃO DA LEI TRIBUTÁRIA

TÓPICO 4 – VIGÊNCIA E APLICAÇÃO DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA

1
2
UNIDADE 1
TÓPICO 1

CONCEITO DE DIREITO TRIBUTÁRIO

1 INTRODUÇÃO
A denominação direito tributário está consagrada no direito brasileiro,
sendo a expressão mais adequada, segundo o entendimento majoritário dos
estudiosos do assunto.

Por outro lado, assevera Difini (2006), que em outros países é utilizado o
termo direito fiscal, como no direito francês (droit fiscal), inglês (fiscal law), bem
como em Portugal que, segundo estudiosos, limita o ramo jurídico ao estudo de
um só dos polos (o polo ativo) da relação jurídica tributária, qual seja o fisco,
desprezando o outro, no qual se encontra o sujeito passivo (contribuinte e/ou
responsável).

Assim, a terminologia direito tributário, para a denominação do ramo


jurídico, objeto de nosso estudo, vem sendo adotada em nosso direito desde
a Emenda Constitucional no 18, de 1965, que organizou o Sistema Tributário
Nacional. Daí passou à Lei nº 5.172/66, o Código Tributário Nacional e às
constituições subsequentes (BRASIL,1966). A Constituição Federal de 1988, no
Capítulo I (artigos 145 a 162) do Título VI, cuida do Sistema Tributário Nacional
(BRASIL, 1988).

2 CONCEITO DO DIREITO TRIBUTÁRIO


O conceito de tributo encontra-se descrito no artigo 3º do Código Tributário
Nacional (Lei no 5.172/1966), o qual traduz que: “Art. 3º Tributo é toda prestação
pecuniária compulsória, em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir, que não
constitua sanção de ato ilícito, instituída em lei e cobrada mediante atividade
administrativa plenamente vinculada”.

3
UNIDADE 1 | DIREITO TRIBUTÁRIO

FIGURA 1 – CONCEITO DE TRIBUTO

Prestação Pecuniária
deve ser paga em dinheiro

Prestação compulsória
o pagamento é obrigatório
TRIBUTO

Prestação que não constitui


sanção por ao ilícito, o pagamento
não tem intenção de penalidade

Prestação instituída por lei

Prestação cobrada por atividade


vinculada, o contribuinte está obrigado
a pegar o tributo e o fisco não pode se
recusar a cobrar o tributo devido

FONTE: Os autores

Existe discordância na doutrina quanto ao conceito de Direito Tributário,


entre as diversas conceituações, cada autor escolhe certos elementos que considera
mais significativos para chegar ao conceito (MAZZA, 2018).

Para Souza (1993, p. 40), um dos percursores da ciência tributária no Brasil,


“Direito Tributário é o ramo do direito público que rege as relações jurídicas entre
o Estado e os particulares, decorrentes da atividade financeira do Estado no que se
refere à obtenção de receitas que correspondam ao conceito de tributos”.

De acordo com Machado (2004, p. 63), defensor de uma concepção mais


garantista, “é o ramo do Direito que se ocupa das relações entre o Fisco e as
pessoas sujeitas a imposições tributárias de qualquer espécie, limitando o poder
de limitar e protegendo o cidadão contra os abusos desse poder”.

Torres (2006, p. 35), por sua vez, adota uma conceituação objetiva funcional
voltada para as atividades estatais que são objeto do ramo. “Direito Tributário é o
conjunto de normas e princípios que regulam a atividade financeira relacionada
com a instituição e cobrança de tributos: impostos, taxas, contribuições e
empréstimos compulsórios”.

4
TÓPICO 1 | CONCEITO DE DIREITO TRIBUTÁRIO

Para Carvalho (2004, p. 4), “direito tributário positivo é o ramo


didaticamente autônomo do direito, integrado pelo conjunto de proposições
jurídico-normativas que correspondam, direta ou indiretamente, à instituição,
arrecadação e fiscalização de tributos”.

A análise dos conceitos anteriormente apresentados permite identificar


alguns elementos fundamentais, isto é, núcleos conceituais que são úteis para
formar uma compreensão mais detalhada do que é o direito tributário (MAZZA,
2018). Confira no quadro a seguir:

QUADRO 1 – ANÁLISE DO CONCEITO DE DIREITO TRIBUTÁRIO


Atividade financeira para obtenção de Finalidade essencial à captação de recursos
rendimentos para custeio do Estado.
Regrar as atividades fiscais estabelecendo
Limite do poder de tributar e proteção do
restrições ao poder de cobrar tributos como
cidadão
forma de proteger os direitos do contribuinte.
Estabelecer tributos, cobrança de tributos,
Instituição e cobrança de tributos
fiscalização do pagamento do tributo.
Ramo didaticamente autônomo, o direito em
Autônomo si, considerado como o conjunto de regras
impostas pelo Estado.
O direito tributário constitui um ramo jurídico
Disciplina jurídica de tributos integralmente construído em torno de um
único instituto: o tributo.

FONTE: Adaptado de Mazza (2018)

A partir das conceituações dos autores citados. Podemos dizer que:


o direito tributário é o ramo de direito público que estuda princípios e normas
disciplinadoras do exercício das atividades de instituição, cobrança e fiscalização
de tributos. Desta forma quando o dinheiro do contribuinte ingressa nos cofres
públicos, termina o direito tributário e começa o direito financeiro (MAZZA, 2018).

2.1 DIREITO FINANCEIRO E DIREITO TRIBUTÁRIO


São frequentes as confusões envolvendo os conceitos de direito tributário e
direito financeiro.

O direito financeiro é o ramo do direito público (domínio deontológico,


ciência do dever e da obrigação) que tem por objeto a disciplina jurídica das
atividades jurídicas do Estado, com exceção daquelas de natureza tributária. A
exceção das atividades de natureza tributárias é relevante porque essas atividades
de criação, cobrança e fiscalização de tributos também são atividades financeiras
do Estado, mas pertencem ao objeto específico do direito tributário e foram extintas
do direito financeiro (MAZZA, 2018).

5
UNIDADE 1 | DIREITO TRIBUTÁRIO

Desse modo, as atividades financeiras compreendidas no objeto do direito


financeiro são: despesa pública, receita pública, crédito público e orçamento
público. Confira a tabela a seguir:

TABELA 1 – COMPARATIVO DO DIREITO TRIBUTÁRIO E DIREITO FINANCEIRO


Direito Tributário Direito Financeiro
Ramo do direito público Ramo do direito público
Conjunto de princípios e normas que regula as Conjunto de princípios e normas que regula a
relações jurídicas entre Estado e o particular. atividade financeira do Estado.
Atividades de instituição, cobrança e Despesa pública, receita pública, crédito
fiscalização de tributos. público e orçamento público.

FONTE: Adaptado de Mazza (2018)

2.2 DIREITO TRIBUTÁRIO COMO RAMO DO DIREITO


PÚBLICO
O direito tributário classifica-se como ramo do direito público à medida em
que desenvolve a criação, cobrança e fiscalização de tributos, que são atividades
que o ordenamento jurídico brasileiro define como próprias de Estado.

FIGURA 2 – CARACTERÍSTICAS DO DIREITO TRIBUTÁRIO

Direito Público: Criação, cobrança e fiscalização de tributos

Direito Material: Natureza substancial ou formal

Direito Obrigacional: Relação jurídica entre o fisco e a contribuinte

Direito Comum: Aplicável à generalidade das pessoas

FONTE: Os autores

Por estabelecer uma atividade de natureza formal, o direito tributário é ramo


de direito material, obrigacional, na relação jurídica ligando o fisco ao contribuinte,
direito comum no sentido de ser aplicável à generalidade das pessoas.

6
TÓPICO 1 | CONCEITO DE DIREITO TRIBUTÁRIO

2.3 RELAÇÕES DO DIREITO TRIBUTÁRIO COM OUTROS


RAMOS DO DIREITO
O direito tributário tem autonomia didática, possuindo princípios
próprios e técnicas especificas para compreensão do seu objeto (criação, cobrança
e fiscalização de tributos). Embora seja autônomo, o direito tributário tem diversos
pontos de conexão com outras disciplinas jurídicas (MAZZA, 2018), conforme
será visto a seguir:

O direito financeiro é o estudo da normatização das atividades financeiras


do Estado. Assim, entende-se que a criação, cobrança e fiscalização de tributos
são atividades materialmente financeiras, mas que foram subtraídas do campo
de interesse do direito financeiro para integrar, pelo processo de especialização, o
objeto do direito tributário (MAZZA, 2018).

FIGURA 3 – DIREITO FINANCEIRO

Direito
Financeiro
Destinação do dinheiro
arrecadado pelo fisco.

FONTE: Os autores

O direito constitucional versa sobre o Sistema Tributário Nacional,


abrangendo os artigos 145 a 162 da Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988),
implicando a constitucionalização dos seguintes temas tributários:

a) Espécies de tributos (arts. 145, 148, 149 e 195)

Art. 145.  A União, os Estados, o Distrito Federal e os


Municípios poderão instituir os seguintes tributos:
I - impostos;
II - taxas, em razão do exercício do poder de polícia ou pela utilização,
efetiva ou potencial, de serviços públicos específicos e divisíveis,
prestados ao contribuinte ou postos à sua disposição;
III - contribuição de melhoria, decorrente de obras públicas.
§ 1º Sempre que possível, os impostos terão caráter pessoal e serão
graduados segundo a capacidade econômica do contribuinte, facultado
à administração tributária, especialmente para conferir efetividade a
esses objetivos, identificar, respeitados os direitos individuais e nos
termos da lei, o patrimônio, os rendimentos e as atividades econômicas
do contribuinte.
§ 2º As taxas não poderão ter base de cálculo própria de impostos. 

7
UNIDADE 1 | DIREITO TRIBUTÁRIO

Art. 148.  A União, mediante lei complementar, poderá instituir


empréstimos compulsórios:
I - para atender a despesas extraordinárias, decorrentes de calamidade
pública, de guerra externa ou sua iminência;
II - no caso de investimento público de caráter urgente e de relevante
interesse nacional, observado o disposto no art. 150, III, "b".
Art. 149.  Compete exclusivamente à União instituir contribuições
sociais, de intervenção no domínio econômico e de interesse das
categorias profissionais ou econômicas, como instrumento de sua
atuação nas respectivas áreas, observado o disposto nos arts. 146, III, e
150, I e III, e sem prejuízo do previsto no art. 195, § 6º, relativamente às
contribuições a que alude o dispositivo.
§ 1º Os Estados, o Distrito Federal e os Municípios instituirão
contribuição, cobrada de seus servidores, para o custeio, em benefício
destes, do regime previdenciário de que trata o art. 40, cuja alíquota
não será inferior à da contribuição dos servidores titulares de cargos
efetivos da União (Nova redação dada pela EC 41/03).

Redação original:

§ 1º Os Estados, o Distrito Federal e os Municípios poderão instituir


contribuição, cobrada de seus servidores, para o custeio, em benefício
destes, de sistemas de previdência e assistência social.  (Parágrafo
renomeado pela EC nº 33/01)
§ 2º As contribuições sociais e de intervenção no domínio econômico
de que trata o  caput  deste artigo: (§ 2º acrescentado pela EC 33/01)
I - não incidirão sobre as receitas decorrentes de exportação;
II - incidirão também sobre a importação de produtos estrangeiros ou
serviços; (Nova redação dada ao inciso pela EC 42/03).
Redação original.
II - poderão incidir sobre a importação de petróleo e seus derivados,
gás natural e seus derivados e álcool combustível;
III - poderão ter alíquotas:
a) ad valorem, tendo por base o faturamento, a receita bruta ou o valor
da operação e, no caso da importação, o valor aduaneiro;
b) específica, tendo por base a unidade de medida adotada.
§ 3º A pessoa natural destinatária das operações de importação poderá
ser equiparada a pessoa jurídica, na forma da lei.
§ 4º A lei definirá as hipóteses em que as contribuições incidirão uma
única vez.
Art. 195.  A seguridade social será financiada por toda a sociedade,
de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos
provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito
Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições sociais: (Vide
Emenda Constitucional nº 20, de 1998).

b) Reserva de Lei complementar (art. 146)


Art. 146. Cabe à lei complementar:
I - dispor sobre conflitos de competência, em matéria tributária, entre
a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios;
II - regular as limitações constitucionais ao poder de tributar;
III - estabelecer normas gerais em matéria de legislação tributária,
especialmente sobre:
a) definição de tributos e de suas espécies, bem como, em relação aos
impostos discriminados nesta Constituição, a dos respectivos fatos
geradores, bases de cálculo e contribuintes;
b) obrigação, lançamento, crédito, prescrição e decadência tributários;

8
TÓPICO 1 | CONCEITO DE DIREITO TRIBUTÁRIO

c) adequado tratamento tributário ao ato cooperativo praticado pelas


sociedades cooperativas.
d) definição de tratamento diferenciado e favorecido para as
microempresas e para as empresas de pequeno porte, inclusive
regimes especiais ou simplificados no caso do imposto previsto no
art. 155, II, das contribuições previstas no art. 195, I e §§ 12 e 13, e da
contribuição a que se refere o art. 239. (Redação dada à alínea "d" do
inciso III e ao p. único e seus incisos pela EC 42/03).

c) Competência tributária (arts. 147, 153, 155, e 156)


Art. 147.  Competem à União, em Território Federal, os impostos
estaduais e, se o Território não for dividido em Municípios,
cumulativamente, os impostos municipais; ao Distrito Federal cabem
os impostos municipais. 
Art. 153.  Compete à União instituir impostos sobre:
I - importação de produtos estrangeiros;
II - exportação, para o exterior, de produtos nacionais ou nacionalizados;
III - renda e proventos de qualquer natureza;
IV - produtos industrializados;
V - operações de crédito, câmbio e seguro, ou relativas a títulos ou
valores mobiliários;
VI - propriedade territorial rural;
VII - grandes fortunas, nos termos de lei complementar.
Art. 155.  Compete aos Estados e ao Distrito Federal instituir
impostos sobre:  (Nova redação dada ao artigo pela EC  3/93)
I - transmissão causa mortis e doação, de quaisquer bens ou direitos;
II - operações relativas à circulação de mercadorias e sobre prestações de
serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação,
ainda que as operações e as prestações se iniciem no exterior;
III - propriedade de veículos automotores.
Art. 156.  Compete aos Municípios instituir impostos sobre:
I - propriedade predial e territorial urbana;
II - transmissão inter vivos, a qualquer título, por ato oneroso, de
bens imóveis, por natureza ou acessão física, e de direitos reais sobre
imóveis, exceto os de garantia, bem como cessão de direitos a sua
aquisição;
III - serviços de qualquer natureza, não compreendidos no art. 155,
II, definidos em lei complementar (Nova redação dada ao inciso pela
EC 3/93).

d) Princípios (art. 150)


Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte,
é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
I - exigir ou aumentar tributo sem lei que o estabeleça;
II - instituir tratamento desigual entre contribuintes que se encontrem
em situação equivalente, proibida qualquer distinção em razão de
ocupação profissional ou função por eles exercida, independentemente
da denominação jurídica dos rendimentos, títulos ou direitos;
III - cobrar tributos:
a) em relação a fatos geradores ocorridos antes do início da vigência
da lei que os houver instituído ou aumentado;
b) no mesmo exercício financeiro em que haja sido publicada a lei que
os instituiu ou aumentou;
c) antes de decorridos noventa dias da data em que haja sido publicada
a lei que os instituiu ou aumentou, observado o disposto na alínea
b; (Nova redação dada à alínea pela EC 42/03)
IV - utilizar tributo com efeito de confisco;
V - estabelecer limitações ao tráfego de pessoas ou bens, por meio de

9
UNIDADE 1 | DIREITO TRIBUTÁRIO

tributos interestaduais ou intermunicipais, ressalvada a cobrança de


pedágio pela utilização de vias conservadas pelo Poder Público;
VI - instituir impostos sobre:
a) patrimônio, renda ou serviços, uns dos outros;
b) templos de qualquer culto;
c) patrimônio, renda ou serviços dos partidos políticos,
inclusive suas fundações, das entidades sindicais dos
trabalhadores, das instituições de educação e de assistência
social, sem fins lucrativos, atendidos os requisitos da lei;
d) livros, jornais, periódicos e o papel destinado a sua impressão.
e) fonogramas e videofonogramas musicais produzidos no Brasil
contendo obras musicais ou literomusicais de autores brasileiros e/
ou obras em geral interpretadas por artistas brasileiros bem como
os suportes materiais ou arquivos digitais que os contenham, salvo
na etapa de replicação industrial de mídias ópticas de leitura a
laser (Acrescentado pela EC 75/13).

e) Imunidades (art. 150, VI)

Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte,


é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
VI - instituir impostos sobre;

f) Tributação de guerra (arts. 148, I, e 154, II)


Art. 148.  A União, mediante lei complementar, poderá instituir
empréstimos compulsórios: I - para atender a despesas extraordinárias,
decorrentes de calamidade pública, de guerra externa ou sua iminência;
Art. 154. A União poderá instituir:
II - na iminência ou no caso de guerra externa, impostos extraordinários,
compreendidos ou não em sua competência tributária, os quais serão
suprimidos, gradativamente, cessadas as causas de sua criação.

g) Regime do Simples Nacional (art. 146, parágrafo único)


Art. 146. Cabe à lei complementar:
Parágrafo único. A lei complementar de que trata o inciso III, d,
também poderá instituir um regime único de arrecadação dos
impostos e contribuições da União, dos Estados, do Distrito Federal e
dos Municípios, observado que:
I - será opcional para o contribuinte; 
II - poderão ser estabelecidas condições de enquadramento
diferenciadas por Estado;
III - o recolhimento será unificado e centralizado e a distribuição da
parcela de recursos pertencentes aos respectivos entes federados
será imediata, vedada qualquer retenção ou condicionamento;
IV - a arrecadação, a fiscalização e a cobrança poderão ser compartilhadas
pelos entes federados, adotado cadastro nacional único de contribuintes.

Além desses temas, o constituinte incluiu no Sistema Tributário Nacional


as regras de repartição de receitas tributárias (arts. 157 e 158), tema que na verdade
pertence ao objeto específico do direito financeiro (MAZZA, 2018).

Primeiramente, as relações do direito tributário com o direito


constitucional decorrem principalmente do fato de que a Constituição contém as
bases do ordenamento jurídico, é nela que se encontra o próprio fundamento de
validade do tributo, a outorga de competência tributária para as várias pessoas
políticas (União, estados, Distrito Federal e municípios), e por fim, define os
10
TÓPICO 1 | CONCEITO DE DIREITO TRIBUTÁRIO

lineamentos básicos do sistema tributário nacional (os princípios constitucionais


tributários, as limitações ao poder de tributar, a discriminação de rendas e a
repartição das receitas tributárias).

É também na Constituição que se regulam os tipos de normas veiculadoras


de preceitos tributários e o respectivo campo de atuação, ou seja, quando a matéria
é de competência normativa da lei complementar, quais as matérias reservadas à
lei ordinária, às resoluções do Senado Federal, os convênios etc.

FIGURA 4 – DIREITO CONSTITUCIONAL

Direito
Constitucional A CF/88 em seu título V
"Tributação e Orçamento"
contribuindo para aproximar
o direito tributário e o
direito constitucional.

FONTE: Os autores

O direito administrativo empresta ao direito tributário uma importante


base valorativa e principiológica, como: os princípios administrativos da
legalidade, impessoalidade, segurança jurídica, publicidade, entre outros.

A estrutura organizacional e o quadro de pessoal componentes


da administração tributária estão subordinados ao regramento do direito
administrativo. Tem-se que toda a operação, visando à arrecadação e fiscalização
de tributos, opera por intermédio dos órgãos que compõem a administração
pública do Estado, cuja atuação é regida pelo direito administrativo. Tal
determinação emana do próprio conceito de tributo dado pelo Código Tributário
Nacional (BRASIL, 1966a).

FIGURA 5 – DIREITO ADMINISTRATIVO

Direito Com exceção da criação de tributos,


Administrativo que é função legislativa, todas as
atividades desempenhadas pela
Administração Tributária, ou fisco, são
manifestações da função administrativa,
regidas pelos princípios e regras do
direito administrativo.

FONTE: Os autores

11
UNIDADE 1 | DIREITO TRIBUTÁRIO

O direito civil contribui com diversos institutos e conceitos para o direito


tributário, sendo um ramo de sobreposição porque utiliza conceitos e institutos
próprios de outros ramos do direito (MAZZA, 2018). Em todos os seus setores –
direitos reais, direito das obrigações, direito de família, direito das sucessões –,
fornece vários conceitos para a lei fiscal. Os contratos, as relações de família, as
questões sucessórias e a propriedade tramitam na seara tributária, constituindo
fatos geradores para a cobrança de tributos.

Assim, por exemplo, em torno do contrato de compra e venda de imóvel,


regulado pelo direito civil, a lei tributária pode estruturar uma ou mais relações
tributárias, passando a exigir o recolhimento do imposto de transmissão inter
vivos, de competência dos municípios. Já sobre o lucro que o vendedor apure, a
lei estabelece a obrigação de pagamento do imposto de renda.

FIGURA 6 – DIREITO CIVIL

Direito Utiliza diversos institutos e conceitos.


Civil Exemplo: o legislador define como
hipótese de incidência de IPTU "ser
proprietário de imóvel predial e território
urbano", os conceitos de "proprietário" e
"imóvel" são provenientes do direito civil.

FONTE: Os autores

O direito penal tem relação com o direito tributário, especialmente


a existência dos chamados crimes contra a ordem tributária, tipificados na
Lei no 8.137/90, que revogou a antiga Lei de Sonegação Fiscal (4.729/65). O
crime mais importante definido na Lei é o de supressão ou redução de tributo
(MAZZA, 2018).

Além de sancionar criminalmente os ilícitos tributários considerados


mais graves, como sonegação fiscal, apropriação indébita em matéria tributária
etc, que constituem objeto do direito penal tributário, fornece, ao direito
dos tributos, um conjunto de princípios extremamente útil no campo das
infrações e penalidades fiscais de caráter não delituoso, como in dúbio pro reo
e a retroatividade benigna (retroatividade de disposição legal sobre infração
tributária mais favorável ao infrator).

12
TÓPICO 1 | CONCEITO DE DIREITO TRIBUTÁRIO

FIGURA 7 – DIREITO PENAL

Direito
Penal
Existência dos chamados crimes contra
a ordem tributária, tipificados na Lei nº
8.137/90.

FONTE: Os autores

O direito processual penal colabora com os seus ritos utilizados para


apuração e julgamento dos crimes contra a ordem tributária, sendo um ramo do
direito público com o qual o direito tributário tem uma relação de proximidade e
colaboração (MAZZA, 2018).

FIGURA 8 – DIREITO PROCESSUAL PENAL

Direito Processual
Penal
Ritos utilizados para apuração e
o julgamento dos crimes contra
a ordem tributária.

FONTE: Os autores

O direito empresarial possui pontos de conexão com o direito tributário


especialmente no que diz respeito ao tema da responsabilidade tributária (MAZZA, 2018).

FIGURA 9 – DIREITO EMPRESARIAL

Direito
Empresarial Responsabilidade tributária nas
transformações empresariais,
no trespasse empresarial e
desconsideração da personalidade
jurídica para fins tributários.

FONTE: Os autores

13
UNIDADE 1 | DIREITO TRIBUTÁRIO

O direito processual civil define as normas adjetivas (formais) a serem


observadas quando a questão tributária material for levada a juízo pelo
contribuinte ou pelo fisco (MAZZA, 2018).

FIGURA 10 – DIREITO PROCESSUAL CIVIL

Direito
Processual Civil Estabelece o devido processo
legal para cobrança judicial
de tributos, bem como para
propositura de ações em
defesa do contribuinte.

FONTE: Os autores

O direito internacional público relaciona-se ao direito tributário com a


celebração de tratados e convenções internacionais versando sobre questões
tributárias. A participação do Brasil no Mercosul tem criado novos desafios
envolvendo tributação internacional, especialmente ao equilíbrio da balança
comercial nas importações e exportações (MAZZA, 2018).

FIGURA 11 – DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO

Direito
Internacional Público Celebração de
Tratados e Convenções
internacionais versando
sobre questões tributárias.

FONTE: Os autores

Desta forma, quanto ao caráter relativo da autonomia de qualquer ramo


do direito, sempre que se estuda essa questão, deve-se levar em consideração
que todos se inter-relacionam, mantendo entre si correlações que configuram a
unidade do sistema jurídico. Logicamente, disso não escapa o direito tributário,
que se vale das construções elaboradas por outros segmentos do direito para,
sobre elas, estruturar as relações tributárias.

14
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:

• O direito tributário, na forma adotada pelo direito brasileiro, decorre de


uma complexa construção jurídica, cujos parâmetros são estabelecidos pela
Constituição Federal de 1988.

• O direito tributário é um ramo do direito público em razão do claro interesse


do Estado na arrecadação dos tributos perante os particulares.

• O direito tributário mantém estreitas relações com o direito constitucional,


financeiro, administrativo, penal, processual e com o direito privado.

15
AUTOATIVIDADE

1 Descreva as diferenças entre o direito tributário e o direito financeiro.

2 O direito tributário tem diversos pontos de conexão com outros ramos do


direito. Com base nessa afirmativa, descreva as disciplinas jurídicas que
envolvem o direito tributário.

16
UNIDADE 1
TÓPICO 2

FONTES DO DIREITO TRIBUTÁRIO

1 INTRODUÇÃO
Quando a palavra fonte é utilizada sob a ótica jurídica, adquire sentido
próprio e especial, significando o nascedouro, o que determina as regras
norteadoras de determinado instituto.

A expressão fontes do direito, segundo Moraes (apud ROSA JÚNIOR,


1991, p. 134), é empregada com o significado de “ponto originário de onde provém
ou nasce a norma jurídica”, sendo expressão sinônima de “causas de nascimento
do direito”, correspondendo, pois, aos processos de criação das normas jurídicas.

De acordo com a lição de Carvalho (2004, p. 4), as fontes do direito devem


ser compreendidas como “focos ejetores de regras jurídicas, isto é, os órgãos
habilitados pelo sistema para produzirem normas, numa organização escalonada”.

As fontes são, portanto, o modo de expressão do direito. Em sistemas de


direito escrito, como o brasileiro, a fonte básica do direito é a lei. Tal concepção é
ainda mais importante no direito tributário, uma vez que é regido pelo princípio
da legalidade.

ATENCAO

Sobre a legislação tributária, assim estabelece o art. 96 do Código Tributário Nacional:

“Art. 96. A expressão “legislação tributária” compreende as leis, os tratados e as convenções


internacionais, os decretos e as normas complementares que versem, no todo ou em parte,
sobre tributos e relações jurídicas a eles pertinentes” (BRASIL, 1966a).

A doutrina e a jurisprudência exercem, também no campo tributário, sua


importância na construção do direito, mas com influência mais restrita, em virtude
do princípio da estrita legalidade dos tributos.

Cabe salientar a diferença entre legislação tributária e Lei tributária. Conforme


quadro a seguir:

17
UNIDADE 1 | DIREITO TRIBUTÁRIO

QUADRO 2 – CONCEITOS DE LEGISLAÇÃO E LEI TRIBUTÁRIA

Legislação Tributária Lei Tributária


Conceito abrangente Conceito restrito
Inclui leis, tratados, convenções internacionais,
Somente leis em sentido formal emanadas
decretos e normas complementares (atos
do Parlamento (ordinárias, complementares,
normativos, decisões do fisco, convênios e
emendas constitucionais)
costumes)
Fonte da obrigação tributária acessória Fonte da obrigação tributária principal

FONTE: Mazza (2018)

2 A CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988


O substantivo  fonte  pode evidenciar vários sentidos, dependendo da
interpretação que se lhe atribui. Comumente, poderíamos entendê-lo como
“aquilo que origina ou produz; origem, causa” (AURÉLIO, 2010).

Contudo, quando a expressão  fonte  é utilizada sobre o ponto de vista


jurídico, adquire sentido próprio e específico, significando a origem das regras
norteadoras de determinado instituto.

Fontes do direito são centros criadores de regras jurídicas, no direito


tributário podemos encontrar as seguintes fontes: materiais, reais e formais
(primárias e secundárias).

Fontes materiais são os órgãos habilitados pelo sistema para produção de


normas tributárias, assim como os acontecimentos sociais relevantes para criação
de regras jurídicas. Exemplo: Congresso Nacional, Assembleias Legislativas,
Câmaras Municipais, Presidência da República (na edição de medidas provisórias
tributárias) (MAZZA, 2018).

Fontes formais são os veículos introdutores de normas tributárias,


como as leis ordinárias, as leis complementares, as medidas provisórias,
a Constituição Federal etc. As fontes formais se dividem em primárias e
secundárias (MAZZA, 2018).

18
TÓPICO 2 | FONTES DO DIREITO TRIBUTÁRIO

FIGURA 12 – FONTES FORMAIS

FONTES FORMAIS

Primárias: conhecidas também como principais ou imediatas, são aquelas que


podem criar efetivamente regras jurídicas, inovando em caráter originário na
ordem jurídica. Exemplo: leis, medidas provisórias, emendas constitucionais;

Secundárias: conhecidas também como acessórios ou mediatas, são aquelas


que podem somente detalhar regras introduzidas pelas fontes primárias.
Exemplo: decretos, regulamentos, instruções normativas, portarias ministeriais.

FONTE: Mazza (2018)

Ainda que abstratamente, encontramos, na Carta da República, a descrição


de vários tributos, sendo estabelecidas, ainda, referências aos impostos, às taxas
e às hipóteses em que estas são admitidas: à contribuição de melhoria e seus
pressupostos; e ao delineamento dos empréstimos compulsórios.

Por outro lado, é importante salientar que a Constituição Federal, embora


seja considerada a principal lei tributária, não cria tributos. A competência
tributária para tal é da lei infraconstitucional.

Contudo, é na Constituição que encontramos a delimitação e o


fracionamento da competência tributária, na qual a União, os estados, os
municípios e o Distrito Federal receberam cada qual um campo tributável próprio.
Assim, a Constituição não criou tributos, apenas atribuiu competências para que
as pessoas políticas, por meio de lei, venham a fazê-lo.

2.1 EMENDAS CONSTITUCIONAIS


As emendas constitucionais podem modificar as regras tributárias
contidas no texto constitucional, inserindo novos comandos ou suprimindo os já
existentes sem violar as Cláusulas Pétreas (MAZZA, 2018).

As Cláusulas Pétreas são consideradas um Dispositivo constitucional


que não pode ser alterado nem por Proposta de Emenda à Constituição (PEC).
As cláusulas pétreas inseridas na Constituição do Brasil de 1988 estão dispostas
em seu artigo 60, §4º. São elas: a forma federativa de Estado; o voto direto,
secreto, universal e periódico; a separação dos Poderes; e os direitos e garantias
individuais (SENADO, 2018).

Sucessivas emendas constitucionais já foram promulgadas versando sobre


matéria tributária, merecendo destaque:

19
UNIDADE 1 | DIREITO TRIBUTÁRIO

QUADRO 3 – EMENDAS CONSTITUCIONAIS

Autorizou a União a instituir o imposto sobre


Movimentação ou Transmissão de Valores e de
Créditos e Direitos de Natureza Financeira –
IPMF (art. 2º da Emenda):
“Art. 2.º (*) A União poderá instituir, nos
Emenda Constitucional no 3/93
termos de lei complementar, com vigência
até 31 de dezembro de 1994, imposto
sobre movimentação ou transmissão de
valores e de créditos e direitos de natureza
financeira”.
Alterou regras de distribuição aos Municípios
da receita proveniente da arrecadação do
Imposto de Renda (art. 3º da Emenda):
“A União repassará aos Municípios, do
produto da arrecadação do Imposto sobre
Emenda Constitucional no 17/97 a Renda e Proventos de qualquer natureza,
tal como considerado na constituição dos
fundos de que trata o art. 159, I,
da Constituição, excluída a parcela referida
no art. 72, I, do Ato das Disposições
Constitucionais Transitórias”.
Modificou o regime constitucional das
contribuições sociais (art. 195, I, da CF/88):
“Art. 195. A seguridade social será financiada por
toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos
termos da lei, mediante recursos provenientes
Emenda Constitucional no 20/98 dos orçamentos da União, dos Estados, do
Distrito Federal e dos Municípios, e das
seguintes contribuições sociais: (Vide Emenda
Constitucional nº 20, de 1998)
I - dos empregadores, incidente sobre a folha de
salários, o faturamento e o lucro”.
Alterou o regime das medidas provisórias
tributárias (art. 62, §2º, da CF/88)
“Em caso de relevância e urgência, o
Presidente da República poderá adotar
medidas provisórias, com força de lei, devendo
submetê-las de imediato ao Congresso
Nacional;
Emenda Constitucional no 32/2001
§ 2º Medida provisória que implique instituição
ou majoração de impostos, exceto os previstos
nos arts. 153, I, II, IV, V, e 154, II, só produzirá
efeitos no exercício financeiro seguinte se
houver sido convertida em lei até o último
dia daquele em que foi editada. (Incluído pela
Emenda Constitucional nº 32, de 2001)”.

20
TÓPICO 2 | FONTES DO DIREITO TRIBUTÁRIO

Disciplinou a instituição de Cides (art. 149,


§2º) e alterou regras do ICMS (art. 155, §2º,
IX, da CF/88)
Compete exclusivamente à União instituir
contribuições sociais, de intervenção no
domínio econômico e de interesse das
categorias profissionais ou econômicas, como
instrumento de sua atuação nas respectivas
áreas, observado o disposto nos arts. 146, III,
e 150, I e III, e sem prejuízo do previsto no art.
195, § 6º, relativamente às contribuições a que
alude o dispositivo.
§ 2º As contribuições sociais e de intervenção no
domínio econômico de que trata o caput deste
artigo: (Incluído pela Emenda Constitucional
nº 33, de 2001”.
“Art. 155. Compete aos Estados e ao Distrito
Emenda Constitucional n. 33/2001
Federal instituir impostos sobre: (Redação
dada pela Emenda Constitucional nº 3, de
1993)
§ 2º O imposto previsto no inciso II atenderá
ao seguinte: (Redação dada pela Emenda
Constitucional nº 3, de 1993)
IX - incidirá também:
a)  sobre a entrada de bem ou mercadoria
importados do exterior por pessoa física
ou jurídica, ainda que não seja contribuinte
habitual do imposto, qualquer que seja a
sua finalidade, assim como sobre o serviço
prestado no exterior, cabendo o imposto
ao Estado onde estiver situado o domicílio
ou o estabelecimento do destinatário da
mercadoria, bem ou serviço; (Redação dada
pela Emenda Constitucional nº 33, de 2001).
Modificou o regime da anterioridade
tributária (art. 150, III, “c”, da CF/88)
Sem prejuízo de outras garantias asseguradas
ao contribuinte, é vedado à União, aos
Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
Emenda Constitucional n. 42/2003 III - cobrar tributos:
c) antes de decorridos noventa dias da data em
que haja sido publicada a lei que os instituiu
ou aumentou, observado o disposto na alínea
b; (Incluído pela Emenda Constitucional nº
42, de 19.12.2003).

21
UNIDADE 1 | DIREITO TRIBUTÁRIO

Alterou os percentuais de distribuição de receita


do IPI (art. 159, I, “d”, da CF/88)
“A União entregará: (Vide Emenda Constitucional
nº 55, de 2007)
I  - do produto da arrecadação dos impostos
sobre renda e proventos de qualquer natureza e
sobre produtos industrializados quarenta e oito
Emenda Constitucional n. 55/2007
por cento na seguinte forma: (Redação dada pela
Emenda Constitucional nº 55, de 2007)
d) um por cento ao Fundo de Participação dos
Municípios, que será entregue no primeiro
decêndio do mês de dezembro de cada ano;
(Incluído pela Emenda Constitucional nº 55,
de 2007)”.

FONTE: Adaptado de Mazza (2018)

Assim como ocorre com o próprio texto constitucional, as emendas


constitucionais não criam tributos, pois esta tarefa é exclusiva do legislador ao
definir legalmente os cinco aspectos da hipótese de incidência tributária (aspecto
pessoal, material, territorial, temporal e quantitativo) (MAZZA, 2018).

3 LEI ORDINÁRIA
O direito tributário, em regra, é disciplinado por lei ordinária. O uso de lei
complementar em matéria de tributação constitui exceção. Desta maneira, as leis
ordinárias são o veículo normativo mais importante para disciplina dos temas tributários
não gerais de competência federal. Neste sentido, cabe à lei ordinária disciplinar tudo
aquilo que não estiver sobre reserva de lei complementar (MAZZA, 2018).

FIGURA 13 – EXEMPLOS DE LEI ORDINÁRIA

CONTRIBUIÇÕES DE
TAXAS
MELHORIAS

Realizada por
meio de lei
ordinária

CONTRIBUIÇÕES
IPTU
ESPECIAIS

FONTE: Os autores

Todavia, como ocorre na esfera federal, a lei ordinária também é a fonte


formal mais importante para o direito tributário nos âmbitos estadual, distrital
e municipal. Compete à Lei Ordinária, entre outros temas, instituir, majorar,
reduzir e extinguir todos os tributos de competência dos Estados, Distrito Federal
e Municípios (MAZZA, 2018).

22
TÓPICO 2 | FONTES DO DIREITO TRIBUTÁRIO

4 MEDIDAS PROVISÓRIAS
As medidas provisórias constituem inovação da Constituição Federal
(BRASL,1988, s.p.), sendo o seu campo de atuação determinado em seu artigo 62.
Vejamos seu teor:

Art. 62. Em caso de relevância e urgência, o Presidente da República


poderá adotar medidas provisórias, com força de lei, devendo
submetê-las de imediato ao Congresso Nacional. § 1º É vedada a edição
de medidas provisórias sobre matéria: a) nacionalidade, cidadania,
direitos políticos, partidos políticos e direito eleitoral; b) direito penal,
processual penal e processual civil; c) organização do Poder Judiciário
e do Ministério Público, a carreira e a garantia de seus membros; d)
planos plurianuais, diretrizes orçamentárias, orçamento e créditos
adicionais e suplementares, ressalvado o previsto no art. 167, § 3º;
[...] II - que vise à detenção ou sequestro de bens, de poupança popular
ou qualquer outro ativo financeiro; III - reservada a lei complementar;
IV - já disciplinada em projeto de lei aprovado pelo Congresso Nacional
e pendente de sanção ou veto do Presidente da República. § 2º Medida
provisória que implique instituição ou majoração de impostos, exceto
os previstos nos arts. 153, I, II, IV, V, e 154, II, só produzirá efeitos no
exercício financeiro seguinte se houver sido convertida em lei até o
último dia daquele em que foi editada. § 3º As medidas provisórias,
ressalvado o disposto nos §§ 11 e 12, perderão eficácia, desde a
edição, se não forem convertidas em lei no prazo de sessenta dias,
prorrogável, nos termos do § 7º, uma vez por igual período, devendo
o Congresso Nacional disciplinar, por decreto legislativo, as relações
jurídicas delas decorrentes. § 4º O prazo a que se refere o § 3º contar-
se-á da publicação da medida provisória, suspendendo-se durante os
períodos de recesso do Congresso Nacional. § 5º A deliberação de cada
uma das Casas do Congresso Nacional sobre o mérito das medidas
provisórias dependerá de juízo prévio sobre o atendimento de seus
pressupostos constitucionais. § 6º Se a medida provisória não for
apreciada em até quarenta e cinco dias contados de sua publicação,
entrará em regime de urgência, subsequentemente, em cada uma
das Casas do Congresso Nacional, ficando sobrestadas, até que se
ultime a votação, todas as demais deliberações legislativas da Casa em
que estiver tramitando. § 7º Prorrogar-se-á uma única vez por igual
período a vigência de medida provisória que, no prazo de sessenta
dias, contado de sua publicação, não tiver a sua votação encerrada
nas duas Casas do Congresso Nacional. § 8º As medidas provisórias
terão sua votação iniciada na Câmara dos Deputados. § 9º Caberá
à comissão mista de Deputados e Senadores examinar as medidas
provisórias e sobre elas emitir parecer, antes de serem apreciadas, em
sessão separada, pelo plenário de cada uma das Casas do Congresso
Nacional. § 10. É vedada a reedição, na mesma sessão legislativa, de
medida provisória que tenha sido rejeitada ou que tenha perdido sua
eficácia por decurso de prazo. § 11. Não editado o decreto legislativo
a que se refere o § 3º até sessenta dias após a rejeição ou perda de
eficácia de medida provisória, as relações jurídicas constituídas e
decorrentes de atos praticados durante sua vigência conservar-se-ão
por ela regidas. § 12. Aprovado projeto de lei de conversão alterando
o texto original da medida provisória, esta manter-se-á integralmente
em vigor até que seja sancionado ou vetado o projeto.

23
UNIDADE 1 | DIREITO TRIBUTÁRIO

A partir da publicação da medida provisória, o Congresso Nacional tem


prazo de sessenta dias, prorrogável, uma vez, por igual período, para aprová-la
ou rejeitá-la. Sua aprovação poderá ser feita na íntegra ou com alterações.

Por outro lado, havendo a rejeição da Medida Provisória, esta não pode
ser reeditada. Por fim, apesar de ter força de lei, sua utilização é restrita.

No campo tributário, poderá ser utilizada para a instituição ou majoração


de impostos, exceto os previstos nos arts. 153, I, II, IV, V, e 154, II, da Constituição
da República (BRASIL, 1966b), só produzindo efeitos no exercício financeiro
seguinte, se houver sido convertida em lei até o último dia daquele ano em que
foi editada.

Art. 153. Compete à União instituir impostos sobre:


I - importação de produtos estrangeiros;
II - exportação, para o exterior, de produtos nacionais ou nacionalizados;
IV - produtos industrializados;
V  - operações de crédito, câmbio e seguro, ou relativas a títulos ou
valores mobiliários;
Art. 154. A União poderá instituir:
II - na iminência ou no caso de guerra externa, impostos extraordinários,
compreendidos ou não em sua competência tributária, os quais serão
suprimidos, gradativamente, cessadas as causas de sua criação.

No julgamento da ADI no 2391/2006, o Supremo Tribunal Federal admitiu a


possibilidade de existirem medidas provisórias estaduais, desde que expressamente
previstas na Constituição do respectivo Estado-membro. O entendimento baseou-
se na ausência de proibição, na Constituição Federal de 1988, para outras esferas
federativas editarem medidas provisórias (MAZZA, 2018).

DICAS

Plenário declara constitucional norma catarinense que permite


edição de MP pelo Estado

Por maioria de ministros, o Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) declarou constitucional
dispositivo da Constituição do Estado de Santa Catarina que prevê a possibilidade de o
governador daquele estado editar medidas provisórias. A decisão de hoje foi tomada no
julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 2391, ajuizada em 2001 pelo
Partido dos Trabalhadores (PT), contra a Assembleia Legislativa catarinense (Alesc).

No final de maio, o julgamento da ADI 2391 foi interrompido após o pedido de vista da
ministra Cármen Lúcia Antunes da Rocha. Na ocasião, já haviam votado a ministra Ellen
Gracie, relatora da ação, e os ministros Sepúlveda Pertence – acompanhando o voto da
relatora, no qual julgou improcedente a ADI – e Carlos Ayres Britto, que a julgou procedente.

O julgamento foi retomado em maio com a análise do mérito referente à possibilidade da


edição de medida provisória na esfera estadual. A relatora lembrou que, no julgamento da

24
TÓPICO 2 | FONTES DO DIREITO TRIBUTÁRIO

ADI 425, “a Corte reconheceu, por maioria, a constitucionalidade da instituição de medida


provisória estadual, desde que, primeiro, esse instrumento esteja expressamente previsto na
Constituição do Estado e, segundo, sejam observados os princípios e limitações impostas
pela Constituição Federal”.

Ellen Gracie citou o voto do relator da ADI 425, ministro Maurício Corrêa (aposentado), ao
afirmar que o parágrafo 1º, do artigo 25, da Constituição Federal reservou aos Estados “as
competências que não lhes sejam vedadas por esta Constituição. Quis o constituinte que
as unidades federadas pudessem adotar o modelo do processo legislativo admitido para a
União, uma vez que nada está disposto, no ponto, que lhes seja vedado”.

De acordo com a relatora, se a Constituição Federal não autorizou explicitamente os Estados-


membros a adotarem medidas provisórias, “ela ofereceu, no entanto, forte e significativa
indicação quanto a essa possibilidade quando estabeleceu no capítulo referente à organização
e regência dos Estados a competência desses entes da federação para ‘explorar diretamente
ou mediante concessão os serviços locais de gás canalizado na forma da lei, vedada, diz a
Constituição, a edição de medida provisória para a sua regulamentação’ (artigo 25, parágrafo
2º, da CF)”.

Para a ministra Ellen Gracie, “concluir de forma diversa nos levaria a indagar inevitavelmente
se teria sentido endereçar tal restrição ao presidente da República num dispositivo que trata
apenas de atividade exclusiva dos outros partícipes da federação, que não a União, ou ainda
porque motivo a Constituição Federal imporia uma proibição específica quanto à utilização
pelos Estados-membros de um instrumento legislativo que lhes fosse vedado a instituir”.

Ellen Gracie concluiu seu voto no sentido da constitucionalidade da adoção de medidas


provisórias pelos Estados, “com a condição inafastável de que esse instrumento esteja
expressamente previsto na Constituição Estadual e nos mesmos moldes impostos pela
Constituição Federal, tendo em vista a necessidade da observância simétrica do processo
legislativo federal”.

Hoje, todos os ministros votaram de acordo com o voto da relatora, vencido o ministro
Carlos Ayres Britto. Nesta ADI, não votou o ministro Gilmar Mendes por ter atuado como
advogado-geral da União na época.

FONTE: <http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=67609>.
Acesso em: 13 ago. 2018.

5 LEIS DELEGADAS
Trata-se de ato normativo oriundo do Poder executivo, em forma de lei,
emanado de delegação expressa do Poder legislativo, tão somente para casos
específicos e concretos.

25
UNIDADE 1 | DIREITO TRIBUTÁRIO

E
IMPORTANT

Sobre as leis delegadas, assim dispõe o artigo 68 da Constituição Federal


(BRASIL, 1988, s.p.):
Art. 68. As leis delegadas serão elaboradas pelo Presidente
da República, que deverá solicitar a delegação ao Congresso
Nacional.
§ 1º Não serão objeto de delegação os atos de competência
exclusiva do Congresso Nacional, os de competência privativa
da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal, a matéria
reservada à lei complementar, nem a legislação sobre:
I - organização do Poder Judiciário e do Ministério Público, a
carreira e a garantia de seus membros;
II - nacionalidade, cidadania, direitos individuais, políticos e
eleitorais;
III - planos plurianuais, diretrizes orçamentárias e orçamentos.
§ 2º A delegação ao Presidente da República terá a forma
de resolução do Congresso Nacional, que especificará seu
conteúdo e os termos de seu exercício. § 3º. Se a resolução
determinar a apreciação do projeto pelo Congresso Nacional,
este a fará em votação única, vedada qualquer emenda.

De acordo com o dispositivo constitucional sob enfoque, o Presidente


elabora a lei delegada, após o deferimento do pedido de delegação formulado ao
Congresso Nacional, que o confere mediante resolução.

O objeto da delegação é restrito, não podendo envolver os atos de


competência exclusiva do Congresso Nacional, os de competência privativa
da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal, a matéria adstrita à lei
complementar e determinadas matérias próprias da legislação.

Por outro lado, no campo tributário não há restrições à delegação em


matéria tributária, podendo a lei delegada instituir e aumentar tributos, nos casos
em que não se exige lei complementar.

6 RESOLUÇÕES E DECRETOS LEGISLATIVOS


Resolução é uma espécie normativa utilizada para veiculação de matéria
de competência privativa do Senado, da Câmara dos Deputados ou do Congresso
Nacional (art. 51 e 52 da CF/88). A promulgação da resolução cabe ao Presidente
do Senado (no caso de resolução do Senado ou do Congresso) ou da Câmara
(para resolução da Câmara dos Deputados) (MAZZA, 2018).

No que se trata ao direito tributário, a Constituição de 1988 prevê a


necessidade de resolução nas seguintes hipóteses:

26
TÓPICO 2 | FONTES DO DIREITO TRIBUTÁRIO

QUADRO 4 – RESOLUÇÕES TRIBUTÁRIAS

Aprovar delegação ao Presidente da República para editar leis delegadas (resolução do Congresso
Nacional, art. 68, §2º, da CF/88):

Art. 68.  As leis delegadas serão elaboradas pelo Presidente da


República, que deverá solicitar a delegação ao Congresso Nacional.
§ 2º A delegação ao Presidente da República terá a forma de resolução do
Congresso Nacional, que especificará seu conteúdo e os termos de seu exercício.
Estabelecer alíquota do ICMS (Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e
Prestação de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação aplicáveis
às operações e prestações, interestaduais e de exportação, mediante resolução do Senado, de
iniciativa do Presidente da República ou de um terço dos senadores, aprovada pela maioria de
seus membros (art. 155, §2º, IV, da CF/88):

§ 2º O imposto previsto no inciso II atenderá ao seguinte:


IV  - resolução do Senado Federal, de iniciativa do Presidente da
República ou de um terço dos Senadores, aprovada pela maioria
absoluta de seus membros, estabelecerá as alíquotas aplicáveis às
operações e prestações, interestaduais e de exportação;
Definir alíquota mínima e máxima do ICMS (Imposto sobre Operações relativas à Circulação
de Mercadorias e Prestação de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de
Comunicação) nas operações internas (resolução Senado, art. 155, §2º, V, a e b, da CF/88
Fixar alíquota máxima do ITCMD (Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação)
Estabelecer alíquota mínima do IPVA (imposto sobre a propriedade de veículos automotores)
resolução Senado, art. 155, III, da CF/88: “Art. 155.  Compete aos Estados e ao Distrito Federal
instituir impostos sobre:
III -  propriedade de veículos automotores/’.

FONTE: Mazza (2018), adaptado pelos autores.

7 DECRETOS REGULAMENTARES
Decretos e regulamentos são atos administrativos gerais e abstratos,
expedidos privativamente pelos Chefes do Executivo (MAZZA, 2018).

FIGURA 14 – CHEFES DOS PODERES DO EXECUTIVO

Presidente da
República
Chefes do executivo

Governadores

Prefeitos

FONTE: Os autores

27
UNIDADE 1 | DIREITO TRIBUTÁRIO

Ainda no que corresponde ao decreto regulamentar, conforme determinação


do art. 84, inciso IV, da Constituição Federal (BRASIL, 1988), é de competência
privativa do Presidente da República “sancionar, promulgar e fazer publicar as
leis, bem como expedir decretos e regulamentos para sua fiel execução”. O decreto,
portanto, traça as regras para a fiel execução da lei da qual é dependente, sendo
mero complemento e de cujos limites não se pode afastar, observadas as regras de
interpretação estabelecidas pelo Código Tributário Nacional.

8 TRATADOS E CONVENÇÕES INTERNACIONAIS


Os tratados e convenções internacionais dos quais o Brasil seja signatário
são fontes formais do Direito Tributário, sendo considerados Legislação Tributária
pela Lei no 5.172/66 (BRASIL, 1966a, s.p.):

Dispõe sobre o Sistema Tributário Nacional e institui normas gerais de


direito tributário aplicáveis à União, Estados e Municípios.
Art. 96.  A expressão "legislação tributária" compreende as leis, os
tratados e as convenções internacionais, os decretos e as normas
complementares que versem, no todo ou em parte, sobre tributos e
relações jurídicas a eles pertinentes.

Os tratados e as convenções internacionais derivam de atos externos


que provocam efeitos na ordem jurídica interna, por força do art. 98 do Código
Tributário Nacional (BRASIL,1966), atribuindo-lhes, especialmente, o caráter
revogatório ou modificativo. Os atos que envolvem os tratados e as convenções
são celebrados pelo Presidente da República, porém, devem ser referendados
pelo Congresso Nacional, mediante decretos legislativos: “Art. 98.  Os tratados
e as convenções internacionais revogam ou modificam a legislação tributária
interna, e serão observados pela que lhes sobrevenha”.

E
IMPORTANT

Sobre a competência do Presidente da República para a celebração de tratados


e convenções internacionais, assim dispõe a Constituição Federal (BRASIL, 1988): “Art. 84.
Compete privativamente ao Presidente da República:
[...]”
“VIII – celebrar tratados, convenções e atos internacionais, sujeitos a referendo do Congresso
Nacional;[...]”.

28
TÓPICO 2 | FONTES DO DIREITO TRIBUTÁRIO

9 NORMAS COMPLEMENTARES
Norma complementar é aquela que completa uma norma constitucional
que não é autoexecutável, ou seja, não possui eficácia própria e está sujeita à
aprovação por maioria absoluta.

A norma complementar em matéria tributária está prevista também no art.


146 da CF/88 (s.p.):

Art. 146. Cabe à lei complementar:


I - dispor sobre conflitos de competência, em matéria tributária, entre
a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios;
II - regular as limitações constitucionais ao poder de tributar;
III  - estabelecer normas gerais em matéria de legislação tributária,
especialmente sobre:
a) definição de tributos e de suas espécies, bem como, em relação aos
impostos discriminados nesta Constituição, a dos respectivos fatos
geradores, bases de cálculo e contribuintes;
b) obrigação, lançamento, crédito, prescrição e decadência tributários;
c) adequado tratamento tributário ao ato cooperativo praticado pelas
sociedades cooperativas.
d) definição de tratamento diferenciado e favorecido para as microempresas
e para as empresas de pequeno porte, inclusive regimes especiais ou
simplificados no caso do imposto previsto no art. 155, II, das contribuições
previstas no art. 195, I e §§ 12 e 13, e da contribuição a que se refere o art.
239. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 42, de 19.12.2003)
Parágrafo único. A lei complementar de que trata o inciso III, d, também
poderá instituir um regime único de arrecadação dos impostos e
contribuições da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios,
observado que: (Incluído pela Emenda Constitucional nº 42, de 19.12.2003)
I  - será opcional para o contribuinte; (Incluído pela Emenda
Constitucional nº 42, de 19.12.2003)
II - poderão ser estabelecidas condições de enquadramento diferenciadas
por Estado; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 42, de 19.12.2003)
III - o recolhimento será unificado e centralizado e a distribuição da
parcela de recursos pertencentes aos respectivos entes federados será
imediata, vedada qualquer retenção ou condicionamento; (Incluído
pela Emenda Constitucional nº 42, de 19.12.2003)
IV - a arrecadação, a fiscalização e a cobrança poderão ser compartilhadas
pelos entes federados, adotado cadastro nacional único de contribuintes.
(Incluído pela Emenda Constitucional nº 42, de 19.12.2003).

De acordo com o artigo acima, referente à lei complementar, podemos


entender as seguintes características da norma complementar em matéria
tributária, segundo Lima (2009):

dispor sobre conflitos de competência, em matéria tributária, entre a


União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios;
regular as limitações constitucionais ao poder de tributar;
estabelecer normas gerais em matéria de legislação tributária
especialmente sobre definição de tributos e de suas espécies, bem
como, em relação aos impostos discriminados na Constituição, a
dos respectivos fatos geradores, bases de cálculo e contribuintes,
obrigação, lançamento, crédito, prescrição e decadência tributários,
adequado tratamento tributário, ao ato cooperativo praticado pelas
sociedades cooperativas.

29
UNIDADE 1 | DIREITO TRIBUTÁRIO

DICAS

Leia mais em: <https://www.webartigos.com/artigos/direito-tributario-fontes-


do-direito-tributario/23277#ixzz5NLLfp86U>.

As normas complementares do Direito Tributário são estabelecidas pelo art. 100


do Código Tributário Nacional (BRASIL, 1966a) e, juntamente com as fontes principais,
compõem a legislação tributária.

O artigo 100 do CTN afirma serem normas complementares à legislação


tributária:

FIGURA 15 – FONTES NORMATIVAS

Normativas:
expedidos pelas
Convênios:
autoridades Decisões de
Costumes: que entre si
administrativas. órgãos do fisco:
práticas celebrem a União,
Exemplo: Ordem a que a lei
reiteradas da os Estados, o
de serviço atribua eficácia
autoridade. Distrito Federal
expedida pelo normativa.
e os Municípios.
Delegado da
Receita Federal

FONTE: Os autores

30
TÓPICO 2 | FONTES DO DIREITO TRIBUTÁRIO

E
IMPORTANT

O art. 100 do Código Tributário Nacional classifica a normas complementares


que podem ser utilizadas para complementar as leis, os tratados e convenções internacionais,
assim como os decretos (BRASIL, 1966a, s.p.):

Art. 100. São normas complementares das leis, dos tratados e


das convenções internacionais e dos decretos:
I - os atos normativos expedidos pelas autoridades administrativas;
II - as decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição
administrativa, a que a lei atribua eficácia normativa;
III - as práticas, reiteradamente observadas pelas autoridades
administrativas;
IV - os convênios que entre si celebrem a União, os estados, o
Distrito Federal e os municípios.
Parágrafo único. A observância das normas referidas neste artigo
exclui a imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora
e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo.

DICAS

Leia mais em: <https://www.webartigos.com/artigos/direito-tributario-fontes-


do-direito-tributario/23277#ixzz5NLJhW7B6>.

9.1 ATOS NORMATIVOS


Os atos normativos são normas genéricas expedidas pelas autoridades
administrativas, visando, com maior detalhamento, explicar o conteúdo e alcance
do regulamento. Assim, interpretam certo ponto sujeito à atuação administrativa,
restando ao contribuinte o seu cumprimento. São exemplos: as portarias, as
circulares, as resoluções, os pareceres normativos, entre outros.

Assim como os decretos regulamentares, os atos normativos obedecem


ao rigor hierárquico das normas, pelo que devem guardar conformidade à lei da
qual são dependentes.

Devido a sua natureza infralegal, não podem criar deveres e proibições e


nem contrariar dispositivos legais (MAZZA, 2018).

31
UNIDADE 1 | DIREITO TRIBUTÁRIO

9.2 DECISÕES ADMINISTRATIVAS


Por força de lei, as decisões administrativas possuem eficácia normativa.
Elas são emitidas por órgãos singulares ou coletivos, por exemplo, os pareceres
normativos proferidos pela Secretaria da Receita Federal, as decisões dos Conselhos
de Contribuintes do Ministério da Fazenda, entre outros.

Importante ressaltar que portaria do Ministro da Fazenda vem sendo


utilizada para modificar as alíquotas do II (Imposto de Importação) e do IE
(Imposto de Exportação). Trata-se de uma delegação ao Ministro, da competência
atribuída ao Presidente da República para, nos limites da lei, promover a
modificação das alíquotas desses tributos aduaneiros (MAZZA, 2018).

E
IMPORTANT

No julgamento do Recurso Extraordinário 413245/CE, decidido em 25/03/2010,


o Supremo Tribunal Federal manifestou-se admitindo o uso de portaria ministerial para
modificação das alíquotas do IOF – Imposto Sobre Operações Financeiras (MAZZA, 2018).

9.3 PRÁTICAS REITERADAS


Quanto às práticas reiteradas na administração, esclarece Bastos (1999, p.
176), verbis:

As práticas reiteradas na Administração, num determinado sentido,


geram, no contribuinte, o sentimento de estar cumprindo com o seu
dever. Seria uma demasia exigir-se que ele próprio fosse se insurgir
contra um comportamento administrativo que o beneficiasse para
pleitear outro mais oneroso. Se a Administração decidir alterar essa
prática, só poderá fazê-lo com relação aos comportamentos futuros e
nunca relativamente aos pretéritos, pois estes encontram-se protegidos
pelo caráter normativo de que se reveste o comportamento habitual da
Administração.

9.4 CONVÊNIOS
Os convênios são ajustes ou acordos que a União, os estados, o Distrito
Federal e os municípios celebram entre si, para a prática ou realização em conjunto
de certos e determinados atos. Podem, os convênios, visar à execução de suas leis,
serviços ou decisões, através da atuação de funcionários federais, estaduais ou
municipais.

32
TÓPICO 2 | FONTES DO DIREITO TRIBUTÁRIO

Os convênios estão previstos na Constituição Federal de 1988, tendo por


objeto as matérias fiscais cujos efeitos (reflexos, repercussões) ultrapassam os
limites territoriais de cada unidade da federação (estados). Estabelece o art. 155,
XII, g, da CF (BRASIL, 1988), que cabe à lei complementar a regulamentação da
forma como, mediante deliberação dos estados e do Distrito Federal, as isenções,
os incentivos e os benefícios fiscais serão concedidos e revogados.

Art. 155. Compete aos Estados e ao Distrito Federal instituir impostos


sobre:
XII -  cabe à lei complementar:
g)    regular a forma como, mediante deliberação dos Estados e
do Distrito Federal, isenções, incentivos e benefícios fiscais serão
concedidos e revogados.

33
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:

• A lei é a principal fonte, sendo a Constituição Federal a mais importante.

• A legislação tributária, tal como delineada pelo Código Tributário Nacional


(BRASIL, 1966a), compreende as leis, os tratados e as convenções internacionais,
os decretos e as normas complementares que versem, no todo ou em parte,
sobre tributos e relações jurídicas a eles pertinentes.

• As normas complementares em matéria tributária compreendem os atos


normativos, as decisões dos órgãos singulares ou coletivos emitidos pelas
autoridades administrativas, as práticas reiteradas e os convênios celebrados
entre a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios.

34
AUTOATIVIDADE

1 Descreva as fontes do direito tributário.

2 Descreva a diferença entre Legislação tributária e Lei tributária.

35
36
UNIDADE 1
TÓPICO 3

INTERPRETAÇÃO E INTEGRAÇÃO DA LEI TRIBUTÁRIA

1 INTRODUÇÃO
Interpretar uma lei significa extrair seu exato conteúdo, significado e
alcance. A interpretação é necessária para que se possa aplicar a lei às situações
concretas sob estudo. O processo de descoberta do sentido e vontade da lei diante
de certo caso, frequentemente, demanda um trabalho muito mais amplo do que
a simples leitura do texto legal.

Com a finalidade de facilitar o entendimento e alcance da legislação


tributária, tanto ao administrador tributário quanto ao administrado (contribuinte
e/ou responsável), o Código Tributário Nacional (BRASIL, 1966a) coloca várias
regras de interpretação e integração, evidenciadas precisamente nos artigos 107
ao 112, o qual será objeto de nosso estudo, neste último tópico desta unidade.

2 NOÇÕES DE INTERPRETAÇÃO E INTEGRAÇÃO


Conforme ensinamento de Machado (2004, p. 110):

[...] a interpretação das normas jurídicas pode ser considerada, em


sentido amplo, como a busca de uma solução para um caso concreto,
e em sentido restrito, como a busca do significado de uma norma,
na medida em que se entenda não existir no sistema jurídico uma
norma para o caso que se tem a resolver. Por isto, quem entenda estar
diante de uma lacuna, sustenta ser necessário recorrer à denominada
integração. Portanto, a diferença entre interpretação e integração está
na interpretação: o intérprete visa estabelecer bases para o processo de
aplicação da norma ao caso, ao estudo, com recursos na argumentação
retórica dentro do sentido possível do texto legal.

E
IMPORTANT

Os artigos 108 e 112 do CTN estipulam regras para determinação do sentido


e do alcance das normas tributárias (interpretação da legislação tributária), bem como
listam os meios jurídicos confiáveis para preencher lacunas, ou seja, solucionar casos não
expressamente disciplinado pela lei (integração da legislação tributária) (MAZZA, 2018).

37
UNIDADE 1 | DIREITO TRIBUTÁRIO

3 INTEGRAÇÃO DO DIREITO TRIBUTÁRIO


Na integração, o operador do direito vale-se do argumento de ordem
lógica, como a analogia, a equidade, bem como os demais previstos no art. 108
do Código Tributário Nacional, sob uma perspectiva que está fora do alcance do
texto expresso da norma (BRASIL, 1966a).

Neste sentido, a integração é o processo pelo qual o operador do direito,


utilizando instrumentos oferecidos pelo próprio sistema jurídico, supre a
ausência de norma específica para regulação de determinado caso, preenchendo
as chamadas lacunas da lei (MAZZA, 2018).

FIGURA 16 – CONCEITOS DE LACUNA

Lacuna da lei é um vazio ou uma norma incompleta do ordenamento legislativo


por inexistência de uma norma jurídica aplicada no caso concreto.

FONTE: Os autores

E
IMPORTANT

Assim dispõe o artigo 108 do Código Tributário Nacional (BRASIL, 1966a, s.p.):

Art. 108. Na ausência de disposição expressa, a autoridade


competente para aplicar a legislação tributária utilizará,
sucessivamente, na ordem indicada:
I - a analogia;
II - os princípios gerais de direito tributário;
III - os princípios gerais de direito público;
IV - a equidade.
§ 1º O emprego da analogia não poderá resultar na exigência de
tributo não previsto em lei.
§ 2º O emprego da equidade não poderá resultar na dispensa do
pagamento de tributo devido.

Como se verifica no texto legal citado, a lei determina que, no processo


de integração, o intérprete deverá aplicar a norma tributária, observando-
se sucessivamente, a analogia, os princípios gerais de direito tributário, os
princípios gerais de direito público, e a equidade.

Por outro lado, assevera Torres (apud AMARO, 2006, p. 211), que

a enumeração do art.108 não é taxativa, lembrando que a plenitude


da ordem jurídica é buscada também com os argumentos a ‘contrario
sensu’ e a ‘fortiori’, e com os princípios gerais de direito (não apenas com
os de direito tributário ou direito público, referidos no dispositivo).

38
TÓPICO 3 | INTERPRETAÇÃO E INTEGRAÇÃO DA LEI TRIBUTÁRIA

Assim, passaremos à análise dos meios de integração da legislação


tributária.

3.1 ANALOGIA
Segundo Norberto Bobbio (2005), a analogia compreende um procedimento
pelo qual se aplica a um caso não regulamentado a mesma disciplina que a um
caso regulamentado semelhante.

O entendimento de completude do direito é realizado à medida em que


temos disponível a previsão da integração por meio da analogia.

A analogia é o primeiro dos instrumentos de integração referidos


pelo Código Tributário Nacional (BRASIL, 2009b), que implica na aplicação a
determinado caso, para o qual não existe texto legal expresso, de norma legal
prevista para uma situação semelhante.

O Código Tributário Nacional (BRASIL, 1966a), por sua vez, impede o


emprego da analogia, nos casos em que poderá resultar na exigência de tributo
não previsto em lei (art.108, §1º).

Art. 108. Na ausência de disposição expressa, a autoridade competente


para aplicar a legislação tributária utilizará sucessivamente, na ordem
indicada:
§ 1º O emprego da analogia não poderá resultar na exigência de tributo
não previsto em lei.
Sobre o assunto, assevera Amaro (2006, p.212) que “a analogia tem,
no direito tributário, pequeno campo de atuação, pois o princípio da
reserva de lei impede a utilização desse instrumento de integração
para efeito de exigência de tributo”.

3.2 PRINCÍPIOS GERAIS DO DIREITO TRIBUTÁRIO


Prevê o art. 108, após a analogia, o emprego dos princípios gerais de direito
tributário, como outro instrumento de integração, que se encontram na Constituição
Federal (BRASIL, 1988), tais como:

39
UNIDADE 1 | DIREITO TRIBUTÁRIO

QUADRO 5 – PRINCÍPIOS DO DIREITO TRIBUTÁRIO

(art. 145, §1º da CF/88);


A União, os Estados, o Distrito Federal e os
Municípios poderão instituir os seguintes
tributos:
§ 1º Sempre que possível, os impostos terão
caráter pessoal e serão graduados segundo a
a) da capacidade contributiva
capacidade econômica do contribuinte, facultado
à administração tributária, especialmente para
conferir efetividade a esses objetivos, identificar,
respeitados os direitos individuais e nos termos
da lei, o patrimônio, os rendimentos e as
atividades econômicas do contribuinte.
(art. 150, inc. I da CF/88):

Sem prejuízo de outras garantias asseguradas


b) da estrita legalidade ao contribuinte, é vedado à União, aos
Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
I - exigir ou aumentar tributo sem lei que o
estabeleça;
(art. 150, inc.III, alínea “b”, da CF/88):

c) da anterioridade da lei III - cobrar tributos:


b) no mesmo exercício financeiro em que haja
sido publicada a lei que os instituiu ou aumentou; 
(art. 150, inc. IV da CF/88):
d) da proibição do confisco
IV - utilizar tributo com efeito de confisco;
(art. 150, inc.V da CF/88):

V - estabelecer limitações ao tráfego de


e) da proibição das barreiras tributárias
pessoas ou bens, por meio de tributos
interestaduais e intermunicipais
interestaduais ou intermunicipais, ressalvada
a cobrança de pedágio pela utilização de vias
conservadas pelo Poder Público;
(art. 150, inc. VI, da CF/88):

VI - instituir impostos sobre: (Vide Emenda


Constitucional nº 3, de 1993)
a) patrimônio, renda ou serviços, uns dos outros;
b) templos de qualquer culto;
c) patrimônio, renda ou serviços dos partidos
políticos, inclusive suas fundações, das entidades
sindicais dos trabalhadores, das instituições
de educação e de assistência social, sem fins
f) das imunidades de impostos lucrativos, atendidos os requisitos da lei;
d) livros, jornais, periódicos e o papel
destinado a sua impressão.
e) fonogramas e videofonogramas musicais
produzidos no Brasil contendo obras musicais
ou literomusicais de autores brasileiros e/
ou obras em geral interpretadas por artistas
brasileiros bem como os suportes materiais
ou arquivos digitais que os contenham, salvo
na etapa de replicação industrial de mídias
ópticas de leitura a laser.

40
TÓPICO 3 | INTERPRETAÇÃO E INTEGRAÇÃO DA LEI TRIBUTÁRIA

(arts. 153 a 156 da CF/88):

Art. 153. Compete à União instituir impostos


sobre:
I - importação de produtos estrangeiros;
II - exportação, para o exterior, de produtos
nacionais ou nacionalizados;
g) das competências privativas
III - renda e proventos de qualquer natureza;
IV - produtos industrializados;
V - operações de crédito, câmbio e seguro, ou
relativas a títulos ou valores mobiliários;
VI - propriedade territorial rural;
VII - grandes fortunas, nos termos de lei
complementar.

FONTE: Adaptado de Brasil (2009)

Além destes princípios constitucionais tributários, Machado (2004, p.


115) justifica a “existência do princípio da finalidade extrafiscal dos tributos, que
justifica a maioria das exceções ao princípio da anterioridade da lei ao exercício
financeiro, além de outros que se podem encontrar implícitos nas diversas
disposições do denominado Direito Constitucional Tributário”.

3.3 PRINCÍPIOS GERAIS DE DIREITO PÚBLICO


Como já aprendido em tópico anterior, o direito tributário é considerado
ramo do direito público. Portanto, por consequência natural e legal, deve-se
procurar neste os princípios aplicáveis aos casos sob estudo, os quais não se
tenha norma jurídica expressa e não se tenha alcançado o êxito no processo de
integração, através da analogia e dos princípios gerais de direito tributário.

A principal fonte da qual emanam tais princípios é a Constituição Federal.


Podem ser mencionados os seguintes princípios (BRASIL, 1988):

QUADRO 6 – PRINCÍPIOS GERAIS DO DIREITO PÚBLICO

(art. 5º, da CF/88):

Todos são iguais perante a lei, sem distinção


de qualquer natureza, garantindo-se aos
a) da isonomia ou da igualdade perante a lei
brasileiros e aos estrangeiros residentes
no País a inviolabilidade do direito à vida,
à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade.

41
UNIDADE 1 | DIREITO TRIBUTÁRIO

(art. 5º, inc. XLV, da CF/88):

Nenhuma pena passará da pessoa do


condenado, podendo a obrigação de reparar
b) da irretroatividade das leis
o dano e a decretação do perdimento de
bens ser, nos termos da lei, estendidas aos
sucessores e contra eles executadas, até o
limite do valor do patrimônio transferido.
(art. 5º, inc. LV da CF/88):

c) da ampla defesa dos litigantes em processo aos litigantes, em processo judicial ou


administrativo e judicial administrativo, e aos acusados em geral são
assegurados o contraditório e a ampla defesa,
com os meios e recursos a ela inerentes.
(art. 5º, inc. XIII, da CF/88):

d) da liberdade profissional é livre o exercício de qualquer trabalho,


ofício ou profissão, atendidas as qualificações
profissionais que a lei estabelecer.

FONTE: Adaptado de Brasil (2009)

3.4 EQUIDADE
O verbete equidade pode ser encontrado em dicionários comuns ou
vocabulários jurídicos. Vejamos o conceito apresentado por Aurélio (FERREIRA,
1986, p. 675) a respeito da palavra equidade:

Equidade. [Do lat. aequitate.] S. f. 1. Disposição de reconhecer


igualmente o direito de cada um. 2. Conjunto de princípios imutáveis
de justiça que induzem o juiz a um critério de moderação e de
igualdade, ainda que em detrimento do direito objetivo. 3. Sentimento
de justiça avesso a um critério de julgamento ou tratamento rigoroso
e estritamente legal. 4. Igualdade, retidão, equanimidade. [Var. pros.:
equidade.]

A equidade, portanto, funda-se na ideia de igualdade, sendo aplicada


para a consecução do justo. Representa aquele sentido de justiça que, por vezes,
se separa da lei para atender a circunstâncias concretas que, se não levada m
consideração, cometer-se-ia a pior das injustiças.

O sentido da equidade é o de se evitar a aplicação mecânica da lei, sem


que o juiz se direcione, com isso, para suas convicções pessoais, pois ele deve
aplicar a lei e não julgar da bondade intrínseca do texto, pois, se assim agisse,
estaria sendo arbitrário.

Por fim, é importante salientar que o Código Tributário Nacional (BRASIL,


1966a) impede o emprego da equidade em que possa resultar na dispensa do
pagamento de tributo devido.

42
TÓPICO 3 | INTERPRETAÇÃO E INTEGRAÇÃO DA LEI TRIBUTÁRIA

4 PRINCÍPIOS GERAIS DE DIREITO PRIVADO


Quanto à utilização dos Princípios Gerais de Direito Privado, assim
determina o Código Tributário Nacional, em seu art. 109 (BRASIL, 1966a, s.p.):
“Art. 109. Os princípios gerais de direito privado utilizam-se para pesquisa da
definição, do conteúdo e do alcance de seus institutos, conceitos e formas, mas
não para definição dos respectivos efeitos tributários”.

É importante salientar que este artigo se refere aos princípios gerais de


direito privado, e não às leis de Direito Privado. Assim, os conceitos, as formas,
os institutos encontrados no Direito Civil, prevalecem no Direito Tributário.

Por fim, se um conceito jurídico, legal ou doutrinário, é utilizado pela


Constituição Federal, não poderá ser alterado pelo legislador e muito menos
pelo intérprete. Essa é a determinação do art. 100 do Código Tributário Nacional
(BRASIL, 1966a):

Art. 110. A lei tributária não pode alterar a definição, o conteúdo e o


alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado, utilizados,
expressa ou implicitamente, pela Constituição Federal, pelas
Constituições dos estados, ou pelas Leis Orgânicas do Distrito Federal
ou dos municípios, para definir ou limitar competências tributárias.

5 INTERPRETAÇÃO LITERAL
A interpretação literal sugere que o intérprete investigue antes de
tudo o significado gramatical das palavras usadas no texto legal em análise. O
instrumento de trabalho é o dicionário da língua, importa sobretudo a origem
dos vocábulos.

De acordo com Ricardo Alexandre (2010, p. 256): “a interpretação literal


ou gramatical leva em conta exclusivamente o rigoroso significado léxico das
palavras constantes do texto legal, sem considerar qualquer outro valor. O
CTN exige que as normas que versem sobre determinados conteúdos sejam
interpretadas literalmente”.

Em relação à forma de interpretação da legislação tributária, nos casos de


concessão de suspensão ou exclusão do crédito tributário, de outorga de isenção
ou de dispensa do cumprimento de obrigações tributárias acessórias, esta deverá
ser feita de forma literal. Assim determina o Código Tributário Nacional em seu
art. 111 (BRASIL, 1966a, s.p.):

Art. 111. Interpreta-se literalmente a legislação tributária que disponha


sobre:
I - suspensão ou exclusão do crédito tributário;
II - outorga de isenção;
III - dispensa do cumprimento de obrigações tributárias acessórias.

43
UNIDADE 1 | DIREITO TRIBUTÁRIO

Na lição de Machado (2004, p. 121), “a interpretação literal significa


interpretação segundo o significado gramatical, ou, melhor, etimológico, das
palavras que integram o texto”.

O caso previsto no item I é determinado pelos arts. 151 e 175 do Código


Tributário Nacional (BRASIL, 1966a). Em relação ao item II, ressalta-se ser este
redundante, pois esta hipótese já está prevista no art. 175 do CTN. Por fim, o
item III do artigo em estudo remete a hipóteses de dispensa do cumprimento de
obrigações tributárias acessórias.

E
IMPORTANT

As formas de suspensão do crédito tributário são indicadas no artigo 151 do


CTN, qual seja (BRASIL, 1966a, s.p.):

Art. 151. Suspendem a exigibilidade do crédito tributário:


I - moratória;
II - o depósito do seu montante integral;
III - as reclamações e os recursos, nos termos das leis reguladoras
do processo tributário administrativo;
IV - a concessão de medida liminar em mandado de segurança;
V - a concessão de medida liminar ou de tutela antecipada, em
outras espécies de ação judicial;
(Inciso acrescentado pela Lei Complementar nº 104, de
10.01.2001, DOU 11.01.2001)
VI - o parcelamento. (Inciso acrescentado pela Lei Complementar
nº 104, de 10.01.2001, DOU
11.01.2001)”
As formas de exclusão do crédito tributário são dadas pelo art.
175 do CTN (BRASIL, 1966a):
Art. 175. Excluem o crédito tributário:
I - a isenção;
II - a anistia.

6 INTERPRETAÇÃO BENIGNA
A parte do Direito Tributário que cuida das infrações e respectivas
penalidades recebe a interpretação benigna, em favor ao acusado, conforme
disposição contida no artigo 112 do Código Tributário Nacional (BRASIL, 1966a):

Art. 112. A lei tributária que define infrações, ou lhe comina


penalidades, interpreta-se da maneira mais favorável ao acusado, em
caso de dúvida quanto:
I - à capitulação legal do fato;
II - à natureza ou às circunstâncias materiais do fato, ou à natureza ou
extensão dos seus efeitos;
III - à autoria, imputabilidade, ou punibilidade;
IV - à natureza da penalidade aplicável, ou à sua graduação.
44
TÓPICO 3 | INTERPRETAÇÃO E INTEGRAÇÃO DA LEI TRIBUTÁRIA

Este princípio, expresso na norma legal em comento, autoriza o julgador,


em caso de infrações tributárias, julgar de forma mais favorável ao contribuinte,
quando haja dúvida quanto à capitulação legal do fato; à natureza ou às
circunstâncias materiais do fato, ou à natureza ou extensão dos seus efeitos; à
autoria, imputabilidade ou punibilidade; à natureza da penalidade aplicável ou
a sua graduação.

45
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:

• A interpretação é necessária para que se possa aplicar a lei às situações concretas sob
estudo.

• A diferença entre interpretação e integração está na interpretação, o intérprete


visa estabelecer bases para o processo de aplicação da norma ao caso do estudo,
com recursos na argumentação retórica dentro do sentido possível do texto
legal.

• O Código Tributário Nacional (BRASIL, 1966a) determina que, no processo


de integração, o intérprete deverá aplicar a norma tributária, observando-
se sucessivamente a analogia, os princípios gerais de direito tributário, os
princípios gerais de direito público e a equidade.

46
AUTOATIVIDADE

1 O que é uma lacuna de lei?

2 Descreva os princípios gerais do direito público.

47
48
UNIDADE 1
TÓPICO 4

VIGÊNCIA E APLICAÇÃO DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA

1 INTRODUÇÃO
Vigência, eficácia e aplicação são termos distintos, cuja existência obedece
ao critério cronológico no aspecto temporal. Quando é publicada a lei, é preciso
saber em que momento ela passa a vigorar e até quando ela vigorará, bem como
o espaço territorial em que irá viger. A identificação desses aspectos depende do
exame das normas de aplicação do direito, no tempo e no espaço.

A Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro, Decreto-Lei no 4.657, de 4


de setembro de 1942 (BRASIL, 2002b), lei considerada de Ordem Pública aplicável
a todos os ramos do direito, incluindo nesta o direito tributário, determina a regra
geral de vigência da norma jurídica em matéria tributária, por força do art. 101 do
Código Tributário Nacional (BRASIL, 1966a).

Contudo, a regra geral tem as ressalvas previstas nos arts. 103 e 104 do
Código Tributário Nacional (BRASIL, 1966a) e dos princípios constitucionais
tributários, previstos nos artigos 150 a 152 da Constituição Federal (BRASIL,1988),
uma vez que as normas da Lei de Introdução ao Código Civil têm caráter
supletivo, isto é, admitem disposição em contrário. Este será o objeto de nosso
estudo, neste tópico.

2 VIGÊNCIA DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA


Vigência da legislação significa legislação em vigor, ou seja, válida para
ser aplicada. É o termo jurídico que expressa a existência da lei tributária. Ela se
verifica com a publicação da lei no Diário Oficial.

Assim que são promulgadas e publicadas as leis, inclusive as tributárias,


estas passam a existir no ordenamento jurídico. Esta sua existência não se confunde,
necessariamente, com a produção de seus efeitos, isto é, são frequentes leis que,
embora já aprovadas e promulgadas, não possuem ainda a eficácia, ou porque
não decorreu o prazo previsto para que entrem em vigor, ou porque sua eficácia
se encontra paralisada pela incidência de um princípio constitucional, como o da
anterioridade, ou do prazo nonagesimal.

49
UNIDADE 1 | DIREITO TRIBUTÁRIO

FIGURA 17 – INÍCIO DA EFICÁCIA DAS NORMAS COMPLEMENTARES

Atos normativos expedidos pelas autoridades


administrativas: na data da sua publicação

Decisões dos órgãos singulares ou coletivos de


jurisdição administrativa, a que a lei atribua eficácia
normativa: seus efeitos normativos 30 dias após
a data da sua publicação.

Os convênios que entre si solenizem a União,


os Estados, o Distrito Federal e os Municípios:
na data neles prevista.

FONTE: Os autores

A vigência se dá tanto no tempo quanto no espaço.

E
IMPORTANT

A vigência da legislação tributária vem disciplinada nos arts. 101 a 104 do Código
Tributário Nacional (BRASIL, 1966a). Dispõe o art. 101: “Art. 101. A vigência, no espaço e no
tempo, da legislação tributária rege-se pelas disposições legais aplicáveis às normas jurídicas
em geral, ressalvado o previsto neste Capítulo”.

2.1 VIGÊNCIA NO ESPAÇO


A regra geral é de que a norma valha no território do ente tributante que a
edite. O território é o limite geográfico da soberania, no caso do Estado Nacional (União
Federal), e da autonomia, no caso dos estados-membros, Distrito Federal e municípios.

Assim, a lei federal tem vigência em todo o território nacional, mas as


leis editadas pelos demais entes políticos terão aplicação somente nos respectivos
territórios.

Excepcionalmente, para que uma legislação tenha validade fora do


território do respectivo ente político (extraterritorialidade), há necessidade de
que os entes firmem convênios ou tratados, ou ainda, assim disponham normas
gerais editadas pela União (BRASIL, 1966b).

50
TÓPICO 4 | VIGÊNCIA E APLICAÇÃO DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA

E
IMPORTANT

Assim dispõe o artigo 102 do Código de Tributário Nacional (BRASIL, 1966a, s.p.):

Art. 102. A legislação tributária dos estados, do Distrito Federal e


dos municípios vigora, no País, fora dos respectivos territórios,
nos limites em que lhe reconheçam extraterritorialidade os
convênios de que participem, ou do que disponham esta ou
outras leis de normas gerais expedidas pela União.

2.2 VIGÊNCIA NO TEMPO


Como já visto, a regra geral para vigência no tempo são aquelas aplicáveis
às demais normas jurídicas (Lei de Introdução ao Código Civil, art. 1º, BRASIL,
2002b). A regra é de que comece a vigorar quarenta e cinco dias depois de
oficialmente publicada, se dela não constar a data para entrar em vigor. O mais
comum é a determinação da expressão: “esta lei entra em vigor na data de sua
publicação”.

art. 1º da LINDB (Lei de Introdução ao Direito Brasileiro) 


I – A lei pode trazer no seu texto a dato do início da sua vigência.
(“salvo disposição em contrário”)
II – A lei quando não traz a data em inicia-se a sua vigência, será de 45
dias após a publicação.
III – Pode ocorrer, entre a publicação da lei e sua vigência, um espaço
de tempo em que a lei existe, tem validade, mas não possui eficácia.
Trata-se da vacatio legis (vacância da lei).

Contudo, o tempo em que determinada norma terá validade pode ser


previamente estabelecido na respectiva lei, seja estabelecendo um termo fixo ou
condicionando-a a fato ou a acontecimento futuro, ou ainda, subordinando-a a
uma situação provisória. Nesses casos, a norma terá eficácia temporária, fixada
pelo legislador. O Código Tributário Nacional, em seus artigos 103 e 104 (BRASIL,
1966), estabelece os critérios de vigência temporal da legislação tributária.

51
UNIDADE 1 | DIREITO TRIBUTÁRIO

E
IMPORTANT

Assim dispõem os artigos 103 e 104 do Código Tributário Nacional (BRASIL,


1966a, s.p.):

Art. 103. Salvo disposição em contrário, entram em vigor:


I - os atos administrativos a que se refere o inciso I do artigo 100,
na data da sua publicação;
II - as decisões a que se refere o inciso II do artigo 100 quanto
a seus efeitos normativos, 30 (trinta) dias após a data da sua
publicação;
III - os convênios a que se refere o inciso IV do artigo 100 na
data neles prevista.
Art. 104. Entram em vigor no primeiro dia do exercício seguinte
àquele em que ocorra a sua publicação os dispositivos de lei,
referentes a impostos sobre o patrimônio ou a renda:
I - que instituem ou majoram tais impostos;
II - que definem novas hipóteses de incidência;
III - que extinguem ou reduzem isenções, salvo se a lei dispuser
de maneira mais favorável ao contribuinte, e observado o
disposto no artigo 178.

Por fim, a norma tributária poderá ter eficácia indefinida, até que
outra norma a revogue, ou seja, com ela incompatível (BRASIL, 1966). A
incompatibilidade da nova norma pode ser total ou parcial. Se for total, há ab-
rogação da norma, enquanto se for parcial existirá derrogação, ficando derrogada
somente na parte em que for incompatível com a norma mais recente.

Tanto a ab-rogação, quanto a derrogação, pode ser implícita ou expressa.


Expressa, quando a lei nova expressamente ab-roga ou derroga a lei anterior.
Implícita, quando o preceito da nova norma é incompatível no todo (ab-rogação)
ou em parte (derrogação) com a norma anterior.

3 APLICAÇÃO DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA


A aplicação da legislação diz respeito a sua incidência sobre os fatos
concretos, produzindo, dessa forma, efeitos jurídicos, quais sejam, os direitos e
obrigações para as partes envolvidas (sujeitos ativo e passivo) na relação jurídica
tributária.

A regra geral, inclusive as leis tributárias, é de que as normas sejam


elaboradas para regular fatos futuros, consoante o estabelecido no art. 6º, caput,
da Lei de Introdução do Código Civil Brasileiro: as leis não retroagem, mas têm
efeito imediato e geral (BRASIL, 2002b).

52
TÓPICO 4 | VIGÊNCIA E APLICAÇÃO DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA

Em matéria tributária, no aspecto temporal, o importante é o momento da


ocorrência do fato gerador. Assim, a nova norma só é aplicável aos fatos geradores
futuros ou ainda pendentes (BRASIL, 1966a).

E
IMPORTANT

Assim dispõe o artigo 105 do Código Tributário Nacional (BRASIL, 1966a): “Art. 105. A
legislação tributária aplica-se imediatamente aos fatos geradores futuros e aos pendentes, assim
entendidos aqueles cuja ocorrência tenha tido início, mas não esteja completa nos termos do
artigo 116”.

Desse modo, a lei nova, que tenha reduzido a alíquota de certo tributo,
só se aplica para o futuro, sendo vedada aplicá-la ao passado, exceto se
houver expressa previsão legal no texto dela. Nos casos de sanções tributárias
(penalidades), o Código Tributário Nacional, em seu art. 106, inciso II, “c”, manda
aplicar retroativamente a lei nova, quando mais favorável ao acusado do que à lei
vigente à época da ocorrência do fato (BRASIL, 1966a).

Importante lembrar que, por ocasião do lançamento, se este se referir


a fato pretérito, a legislação aplicável será aquela que vigorava no momento
da ocorrência do fato gerador e não aquela que estiver em vigor na data do
lançamento (BRASIL, 1966a).

3.1 APLICAÇÃO RETROATIVA DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA


Há algumas situações excepcionais em que é possível a aplicação da lei
tributária nova a fatos passados, mesmo que ela nada dita nesse sentido. Esse
acontecimento é chamado de retroatividade benigna, em matéria de infrações.

O artigo 106 e §1º do art. 144 do Código Tributário Nacional tratam


expressamente das hipóteses em que poderá haver aplicação retroativa norma
(BRASIL, 1966a, s.p.):

Art. 106. A lei aplica-se a ato ou fato pretérito:


I - em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa,
excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos
interpretados;
II - tratando-se de ato não definitivamente julgado:
a) quando deixe de defini-lo como infração;
b) quando deixe de tratá-lo como contrário a qualquer exigência de
ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha
implicado em falta de pagamento de tributo;
c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei
vigente ao tempo da sua prática.

53
UNIDADE 1 | DIREITO TRIBUTÁRIO

Art. 144. O lançamento reporta-se à data da ocorrência do fato gerador


da obrigação e rege-se pela lei então vigente, ainda que posteriormente
modificada ou revogada.
§ 1º Aplica-se ao lançamento a legislação que, posteriormente à
ocorrência do fato gerador da obrigação, tenha instituído novos
critérios de apuração ou processos de fiscalização, ampliado os poderes
de investigação das autoridades administrativas, ou outorgado ao
crédito maiores garantias ou privilégios, exceto, neste último caso,
para o efeito de atribuir responsabilidade tributária a terceiros.

Conforme ensina Difini (2006, p. 168): “Leis interpretativas seriam aquelas


destinadas a clarear o significado de lei anterior, sobre cuja interpretação surgiu
controvérsia. É a chamada interpretação autêntica, pois realizada pelo mesmo
órgão que elaborou a lei”. E ainda:

[...] O Código, todavia, utiliza-se do conceito em seu sentido


tradicional. Ademais, não se pode desconhecer que, com razoável
frequência, estabelecesse divergência sobre a interpretação de alguma
lei. Aí a utilidade da lei dita interpretativa, fixando, por lei, uma das
interpretações existentes, como aquela a ser adotada, afastando a
outra, contribuindo para a segurança jurídica. Essa lei será aplicada
retroativamente para que a interpretação legalmente adotada se
aplique aos fatos geradores ocorridos na vigência da lei interpretada,
nos termos do art. 106, inciso I, do CTN. Entretanto, há alguns
limites à aplicação retroativa das leis interpretativas. O primeiro
está no próprio dispositivo legal sob exame: “excluída a aplicação
de penalidade à infração dos dispositivos interpretados”. É que se
havia controvérsia efetiva a respeito da interpretação da lei, tanto que
se fez necessária a edição de lei para fixar sua exegese, não pode ser
punido o contribuinte por ter adotado, antes que a lei interpretativa
fixasse-a, outra interpretação possível. Mas a partir da vigência da lei
interpretativa, poderão ser impostas as penalidades legais pela não
observância da interpretação agora adotada em lei.

FIGURA 18 – RETROATIVIDADE DA LEI TRIBUTÁRIA

Aplicação retroativa
Excepcionalmente a lei tributária pode ser
aplicada a fato ou ato pretérito
Quando for lei somente interpretativa (não inova)
Não há aplicação de penalidade – art. 106 CTN
LC I I8/05 – pretendeu ser interpretativa –
art. 106,1
Retroatividade de lei mais benéfica para o réu
Lei pode retroagir quando deixar de definir
como infração
Art. 112 – CTN

FONTE: <https://slideplayer.com.br/slide/1613805/>. Acesso em: 13 ago. 2018.

54
TÓPICO 4 | VIGÊNCIA E APLICAÇÃO DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA

E
IMPORTANT

No Recurso Extraordinário nº 407190/RS, de relatoria do Ministro Marco Aurélio,


julgado em 27/10/2004, o Supremo Tribunal Federal entendeu que a retroação benigna em
matéria de infrações não pode sofrer limitação temporal por lei ordinária como tentara o INSS
através da Lei nº 9.528/97, que dera nova redação ao art. 35 da Lei nº 8.212/91. Vejamos
a ementa da respectiva decisão: “Tributário. Retroatividade de Lei mais Benéfica. Limitação
Temporal. Lei Complementar. O Tribunal negou provimento ao recurso extraordinário
interposto pelo Instituto Nacional do Seguro Social – INSS contra acórdão do TRF da 4ª Região
que, com base no inciso II do art. 106 do CTN, mantivera sentença na parte em que aplicara
o art. 35 da Lei 8.212/91, com a redação dada pela Lei 9.528/97, a fatos pretéritos, em razão
de a mesma prever pena de multa, sobre contribuições sociais em atraso, menos severa que
a cominada anteriormente, e afastara a incidência da limitação temporal prevista no caput do
referido art. 35, tendo em conta a declaração, incidenter tantum, de sua inconstitucionalidade,
pela Corte Especial daquele Tribunal, por ofensa ao inciso III do art. 146 da CF (Lei 8.212/91,
com a redação dada pela Lei 9.528/97: “Art. 35. Para os fatos geradores ocorridos a partir de 1º
de abril de 1997, sobre as contribuições sociais em atraso, arrecadadas pelo INSS, incidirá multa
de mora, que não poderá ser relevada, nos seguintes termos:”). Salientou-se, inicialmente, o
caráter exemplificativo do inciso III do art. 146 da CF, que prevê competir à lei complementar
estabelecer normas gerais sobre matéria de legislação tributária. Entendeu-se estar a multa
tributária inserta no campo das normas gerais, a qual, por isso, deve ser imposta de forma linear
em todo território nacional, “não se fazendo com especificidade limitadora geograficamente”.
Concluiu-se que a Lei 8.212/91, ao impor restrição temporal ao benefício de redução da multa,
acabou por limitar regra da lei complementar (CTN, art. 106, II), violando o disposto na alínea b
do inciso III do art. 146 da CF. Dessa forma, declarou-se a inconstitucionalidade da expressão
“para os fatos geradores ocorridos a partir de 1º de abril de 1997”, constante do caput do art. 35
da Lei 8.212/91, com a redação dada pela Lei 9.528/97. FONTE: Disponível em:

Fonte: <www.buscalegis.ufsc.br/revistas/index.php/buscalegis/article/ view/20701/20265>.


Acesso em: 20 abr. 2018.

LEITURA COMPLEMENTAR

A RETROATIVIDADE BENIGNA DA LEI TRIBUTÁRIA E O ATO NÃO


DEFINITIVAMENTE JULGADO

Célio Armando Janczeski

A IRRETROATIVIDADE DA LEI TRIBUTÁRIA

A regra geral é que a lei tributária deve reger o futuro, sem se estender
a fatos ou circunstâncias ocorridas anteriormente ao início de sua entrada em
vigor. Só há legitimidade na norma se o contribuinte conhece de antemão a sua
obrigação tributária e todos os elementos de mensuração. A certeza jurídica só
é assegurada se os sujeitos sabem que todos os atos que praticarem durante a
vigência de uma lei, serão regulados por esta, que foi a levada em conta, quando
do planejamento e da realização desses atos. Não faz sentido o sujeito levar a

55
UNIDADE 1 | DIREITO TRIBUTÁRIO

efeito um empreendimento, planificando todos os custos e despesas do mesmo,


incluindo os reflexos tributários, se no futuro, lei poderá fazer incidir sobre o
mesmo, tributo não incidente quando de sua implementação, tornando-o
desvantajoso ao empreendedor. Ocorrido o fato gerador, adquire o contribuinte
o direito de se submeter ao regime fiscal vigente quando da ocorrência deste.

A Constituição Federal, estabelece como norma geral, que  a lei não


prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada (inciso XXXVI,
art. 5o.), estabelecendo que em matéria penal a lei não retroagirá, salvo para beneficiar
o réu (inciso XL, art. 5o). O Código Tributário Nacional, por seu turno, em seu art.
144, esclarece que o lançamento reporta-se à data da ocorrência do fato gerador da
obrigação e rege-se pela lei então vigente, ainda que posteriormente modificada
ou revogada.  Ao tratar do Sistema Tributário Nacional, o constituinte originário
alçou o  princípio da irretroatividade da lei tributária  como direito fundamental
do contribuinte (alínea  a, do inciso III, do art. 150), estando ao abrigo das
chamadas  cláusulas pétreas  (inciso IV, do parágrafo 4o., do art. 60) e como tal
resguardado de qualquer tentativa de supressão (mesmo parcial) pelo poder
constituinte derivado. O princípio não impede lei que conceda uma vantagem
ao contribuinte tenha incidência retroativa, já que como direito individual seu,
só opera como regra protetiva, isto é, quando a lei cria ou aumenta um tributo.

RETROATIVIDADE BENIGNA

O Código Tributário Nacional, em seu art. 106, II, estipula três casos de
retroatividade da lei mais benigna aos contribuintes e responsáveis, tratando-se
de ato não definitivamente julgado. O que deve ser compreendido como ato não
definitivamente julgado  veremos adiante. Este tópico, portanto, se preocupa com
as três hipóteses em que a lei aplica-se a ato ou fato pretérito: a) quando deixe de
defini-lo como infração; b) quando deixe de tratá-lo como contrário a qualquer
exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha
implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade
menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo de sua prática.

As três hipóteses de retroatividade estampadas pela lei, acabam por


beneficiar o contribuinte, sem empecilhos do ordenamento constitucional, que só
proíbe a retroação de lei que agrave sua situação. Manifestando-se sobre o assunto,
é a doutrina abalizada de Héctor Belisario Villegas, para quem  la retroactividad
es exigencia constitucional sólo en cuanto representa una tutela para los imputados. Si
después de cometido el hecho, el legislador modifica favorablemente las consecuencias de la
imputación, es objetivamente justo que no se niegue el beneficio a quien esté en condiciones
de ampararse en la mayor benignidad. 

Como observa com razão Hugo de Brito Machado, não se há de confundir


aplicação “retroativa” nos termos do art. 106, II, com anistia, regulada nos arts. 180 a 182
do Código. Embora em ambas as hipóteses ocorra a aplicação da lei nova que elide efeitos
da incidência de lei anterior, na anistia não se opera alteração ou revogação da lei antiga.
Não ocorre mudança na qualificação jurídica do ilícito. O que era infração continua como

56
TÓPICO 4 | VIGÊNCIA E APLICAÇÃO DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA

tal. Apenas fica extinta a punibilidade relativamente a certos fatos. A anistia, portanto,
não é questão pertinente ao direito intertemporal.

As hipóteses das alíneas a e b, do inciso II, do art. 106, do CTN, autorizam


a aplicação retroativa em casos de lei posterior  deixar de definir um ato como
infração (alínea a) ou deixar de tratá-lo contrário a qualquer exigência de ação ou omissão,
desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de
tributo  (alínea  b).  Na hipótese da alínea  a, não há condições exigidas para a
aplicação retroativa da lei, basta o desaparecimento da infração no texto novo. Na
hipótese da alínea b, por sua vez, há exigência de que não tenha ocorrido fraude,
nem omissão de pagamento de tributo. Apesar da semelhança das duas situações,
afinal quando a lei deixa de definir um ato como infração também está deixando
de tratá-lo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, a hipótese da
alínea a, só pode ter aplicação, quando não se caracterizar a hipótese da alínea b,
ou seja, a lei nova poderá ser utilizada pelo contribuinte sempre que a mesma
deixar de definir um ato como infração, mas desde que a infração não resulte
de fraude, nem omissão de pagamento de tributo devido. Caracterizado fraude
ou omissão de pagamento de tributo, advindo da infração praticada, aplica-se
a lei tributária vigente na data da ocorrência do fato gerador, sem prejuízo de
aplicação retroativa da lei penal (inciso XL, art. 5o, CF). A alínea  b, trata-se de
norma específica que excepciona a regra geral da alínea a.

A hipótese da alínea c, do citado dispositivo, a lei nova continua prevendo


penalidade para o ato levado a efeito pelo contribuinte, mas comina a este ato
uma pena menos severa. A penalidade mais severa decorrente da lei vigente na
data da ocorrência do fato gerador, é substituída por uma menos severa, advinda
da lei nova.

No passado, a jurisprudência vinha distinguindo entre multa moratória


e multa punitiva, para autorizar a retroatividade benigna apenas para a última.
Hodiernamente, no entanto, a distinção apresenta-se superada na doutrina e
na jurisprudência que entende que uma vez assegurada  correção monetária e
juros moratórios, as sanções fiscais são sempre punitivas. É que se já exigidos
correção monetária e juros de mora, qualquer acréscimo pecuniário implicará em
penalidade, pouco importando a denominação utilizada. Se já não há dúvidas
que a multa moratória constitui pena administrativa (Súmula 565, STF), como
sanção fiscal punitiva, não há razoes jurídicas para se afastar a aplicação de lei
nova mais benéfica, nos termos do inciso II, do art. 106, do CTN. 

ATO NÃO DEFINITIVAMENTE JULGADO

Apesar de ainda perdurar em parte da jurisprudência pátria, o


entendimento de que ato não definitivamente julgado é aquele que não foi solucionado
de forma definitiva em razão de impugnação ou recurso administrativo pendente
de julgamento e que não havendo feito judicial pendente sobre a matéria, há ato
administrativo perfeito e acabado, que já consumado segundo a lei vigente ao
tempo em que se efetuou, está protegido contra a interferência da nova legislação

57
UNIDADE 1 | DIREITO TRIBUTÁRIO

pelo inciso XXXVI, do art. 5o, da CF (ato jurídico perfeito), tal posicionamento é
minoritário. Mesmo aqueles que defendem este posicionamento, aceitam que a
interpretação de  ato não definitivamente julgado  compreende tanto o julgamento
administrativo, como o judicial. Entendem, no entanto, que tendo sido solucionado
o feito na esfera administrativa e não tendo o contribuinte aforado ação judicial
com o objetivo de questionar o débito, restará impedido de se beneficiar de
lei nova. É óbvio que não é esta a interpretação que reclama o inciso II, do art.
106, já que não há qualquer exigência de que o contribuinte, após resolvido o
feito administrativamente, tenha que, em seguida, procurar o Poder Judiciário.
É perfeitamente possível e inclusive é o caminho normalmente escolhido pelo
contribuinte, o de esperar que o Fisco inscreva o título em dívida ativa e promova
a cobrança via executivo fiscal. Afinal, se a exegese que se extrai do dispositivo
legal é a de que prevalece não só para a autoridade administrativa como para a
judiciária, não há de se ter o ato como definitivamente julgado. Ou como já se
pronunciou o Pretório Excelso: se ainda comporte o ato recurso ao judiciário não há
como dizer-se estar ele definitivamente julgado. 

Estando o crédito tributário impugnado judicialmente via ação anulatória de


débito fiscal ou qualquer ação aonde o contribuinte demonstre seu inconformismo
pela exigência, a retroatividade benigna prevista pelo Código Tributário poderá ser
implementada até a extinção do feito. E na execução fiscal, quando é que o ato se
torna definitivamente julgado, impedindo a retroatividade benéfica da lei nova?

A matéria comporta duas correntes e ambas possuem defensores junto ao


Egrégio Superior Tribunal de Justiça. Uma das correntes, entende que o momento
processual limite para a retroação é até decorrer o prazo assinalado para os embargos,
eis que após prossegue a execução somente com a prática de atos materiais, não
dando mais lugar para incidentes próprios do processo de conhecimento.

Neste sentido o posicionamento da Segunda Turma, relatado pelo Eminente


Ministro Ari Pargendler, nos autos do Recurso Especial no 184.642/SP, verbis:

TRIBUTÁRIO. MULTA. REDUÇÃO. LEI MAIS BENIGNA. Constitui ato


não definitivamente julgado o lançamento fiscal impugnado por meio de embargos
do devedor em execução fiscal (CTN, art.106, II, c), mas o lançamento fiscal que
já não pode sofrer ataques por meio de embargos de devedor, porque decorrido
o prazo destes, é ato definitivamente julgado, que não pode ser revisto por petição
atravessada nos autos da execução fiscal. Recurso Especial conhecido e provido.

A Primeira Turma, por sua vez, entende que o ato definitivamente


julgado deve ser entendido como ato consumado por decisão judicial, não
necessariamente por sentença. Na execução fiscal, o processo só se finda com sua
extinção na forma do art. 794, do CPC, ou com a arrematação, adjudicação ou
remição definitivamente realizados, mesmo que transitada em julgado eventual
sentença prolatada em embargos da executada.

A ementa do julgado, relatado pelo Eminente Ministro Demócrito


Reinaldo Recurso Especial no 94.511/PR, porta a seguinte redação, literis:
58
TÓPICO 4 | VIGÊNCIA E APLICAÇÃO DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA

EXECUÇÃO FISCAL. REDUÇÃO DE MULTA EM FACE DO DECRETO


– LEI N° 2.471/88. ART. 106, II, C, DO CTN. RETROATIVIDADE DA LEI MAIS
BENIGNA AO CONTRIBUINTE. POSSIBILIDADE.

O art. 106 do Código Tributário Nacional admite a retroatividade, em favor


do contribuinte, da lei mais benigna, nos casos não definitivamente julgados.

Sobrevindo, no curso da Execução Fiscal, o Decreto-Lei n° 2.471/88, que


reduziu a multa moratória de 100% para 20% e, sendo possível a aplicação da lei
mais benigna, sem ofensa aos princípios gerais do direito tributário.

Na execução fiscal, as decisões finais correspondem às fases da


arrematação, da adjudicação ou remição, ainda não oportunizadas, ou, de outra
feita, com a extinção do processo, nos termos do art. 794 do Código de Processo
Civil. Recurso improvido. Decisão unânime. 

Restando incontroverso nas duas correntes que a retroação do art. 106 pode
atingir penalidades já em fase de cobrança executiva e levando-se em conta que os
embargos previstos no artigo 16, da Lei 6.830/80 têm a natureza de ação e como opção
do devedor podem não serem opostos, o que não impediria a retroação ser enfrentada
na própria peça executiva e levando-se em conta ainda que na execução fiscal não há
sentença, o limite temporal há que ser efetivamente as decisões finais promovidas na
execução, que corresponde às fases da arrematação, da adjudicação ou da remição,
ou com a extinção do processo, na forma do art. 794, do CPC.

É que enquanto não extinto o  crédito tributário  o ato não pode ser tido
como definitivamente julgado, sendo irrelevante se já houve ou não a apresentação
de embargos ou se estes já foram julgados, já que ainda pendente aquele.

Sobrevindo lei nova que beneficie o contribuinte pela caracterização de


qualquer hipótese prevista em uma das alíneas do inciso II, do citado artigo, o
interessado, em qualquer grau de jurisdição, enquanto não extinto o crédito,
poderá apresentar petição demonstrando os fatos, cuja matéria há de se sobrepor
à análise do mérito do crédito (em caso de anteceder o julgamento – sentença ou
acórdão – em sede de embargos ou ação ordinária) ou, no caso da apreciação se
implementar em executivo fiscal, ser a manifestação conhecida como exceção de
pré-executividade  e anulado o débito fiscal excutido, já que há muito sepultado
o posicionamento de inadmitir tal defesa em sede de execução fiscal. Afinal,
mesmo líquido e certo, o título tornou-se inexigível (art. 618, I, CPC) por
apresentar-se indevido em decorrência de expressa previsão legal que determina
a retroatividade benigna. E mais: Sempre que a lei nova não ressalve os efeitos
da lei anterior, verificado uma das hipóteses do art. 106, o juiz, de ofício, pode
anular o débito fiscal (alínea a e b, do inciso II) ou reduzir a penalidade (alínea c,
do inciso II), sem impingir máculas aos princípios gerais do direito tributário.

FONTE: <http://www.ambitojuridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_
id=1260>. Acesso em: 13 ago. 2018.

59
RESUMO DO TÓPICO 4
Neste tópico, você aprendeu que:

• Vigência, eficácia e aplicação são termos distintos, cujas existências obedecem


ao critério cronológico no aspecto temporal.

• A vigência da legislação tributária se dá tanto no tempo quanto no espaço.

• Há algumas situações excepcionais em que é possível a aplicação da lei


tributária nova a fatos passados, mesmo que ela nada dite nesse sentido. Esse
acontecimento é chamado de retroatividade benigna, em matéria de infrações,
cuja regra é dada pelo artigo 106 e §1º do art. 144 do Código Tributário Nacional
que tratam expressamente das hipóteses em que poderá haver aplicação
retroativa da norma (BRASIL, 1966a).

60
AUTOATIVIDADE

1 Discorra sobre a vigência da legislação tributária.

2 É possível a aplicação da lei tributária nova a fatos passados, como é


conhecido esse acontecimento?

61
62
UNIDADE 2

CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO
DOS TRIBUTOS

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:

• compreender o conceito de tributo e sua aplicação prática no dia a dia;

• conhecer os principais tipos e classificações dos tributos;

• verificar como eles surgem e quem pode instituí-los;

• conhecer as principais limitações que os entes federados possuem quando


instituem os tributos que são de sua competência, especialmente os
princípios e as imunidade previstas na Constituição Federal;

• entender os elementos da relação jurídica tributária, especialmente, o


conceito de fato gerador, hipótese de incidência, obrigação tributária e os
sujeitos dessa relação;

• perceber as modalidades de responsabilidade tributária;

• estudar os institutos do procedimento tributário, como lançamento fiscal,


as hipóteses de suspensão, exclusão e extinção do crédito tributário;

• analisar as formas de apuração de tributos federais;

• entender a importância do planejamento tributário nas empresas.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você
encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.

TÓPICO 1 – CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

TÓPICO 2 – COMPETÊNCIA TRIBUTÁRIA E LIMITES AO PODER


DE TRIBUTAR

TÓPICO 3 – RELAÇÃO JURÍDICA TRIBUTÁRIA

63
64
UNIDADE 2
TÓPICO 1

CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

1 INTRODUÇÃO
Dando continuidade aos estudos sobre direito tributário e direito
empresarial, nesta unidade faremos o estudo dos principais elementos referentes
ao conceito de tributo e sua classificação.

A compreensão adequada desses temas será de fundamental importância


para o entendimento adequado da competência tributária, os limites para
instituição e cobrança de tributos, bem como da relação tributária entre o Estado
e o contribuinte, conceitos que serão estudados nos tópicos seguintes.

Além disso, você poderá perceber a gama de impostos brasileiros que existem,
compreender as características de cada espécie de tributo e a diferença entre eles,
especialmente, identificando sua função dentro do sistema nacional de tributação.

2 CONCEITO DE TRIBUTO
A definição de tributo está prevista no art. 3º do Código Tributário Nacional.
De acordo com a referida lei, tributo é: “toda prestação pecuniária compulsória,
em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir, que não constitua sanção de ato
ilícito, instituída em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente
vinculada” (BRASIL, 2018b). Do conceito previsto na lei, pode-se concluir que:

FIGURA 1 – CONCEITO DE TRIBUTO

Prestação pecuniára;
Compulsória;
é
Instituído por lei;
Tributo Cobrado mediante lançamento;

Não é Sanção de ato ilícito/multa.

FONTE: O autor

Vamos entender cada um desses itens? Dizer que tributo é uma prestação
pecuniária significa dizer que ele consiste em uma obrigação de dar dinheiro ao
Estado, de modo que não pode ser pago de outra forma, que não seja em moeda
65
UNIDADE 2 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

ou cujo valor nela se possa exprimir. Assim, o contribuinte jamais poderá pagar
um tributo prestando algum serviço ao Estado.

O tributo é compulsório, pois o contribuinte não tem a opção de não


pagar, ou seja, é coercivo. Basta que o evento passível de tributação ocorra e,
obrigatoriamente, o contribuinte deverá pagá-lo, sob pena de o Estado acionar
os meios disponíveis para expropriar-lhe os bens. Essa prestação compulsória
só poderá ser exigida do contribuinte se for instituída por lei – embora existam
exceções que veremos mais adiante.

O tributo ainda só pode ser cobrado pelo lançamento. O lançamento nada


mais é do que o procedimento administrativo realizado pelo ente estatal que, após
ter conhecimento da ocorrência do evento tributável, concretiza-o, descrevendo e
quantificando, impondo ao contribuinte o dever de pagar. Um exemplo de lançamento é
o carnê do IPTU, que todo proprietário de um imóvel recebe todo ano em sua residência.

Finalmente, o tributo não é multa. Enquanto o primeiro nasce do poder


constitucional de tributar, a última resulta do poder punitivo do Estado. Assim, o
tributo não pode ser confundido com uma pena ou sanção. A título de exemplo,
o IPVA, que o proprietário de veículo automotor paga todo ano, não se confunde
com a multa que eventualmente venha a receber por infringir uma das disposições
previstas no Código de Trânsito Nacional.

Analisada cada uma dessas características, que resultam no conceito de


tributo, passamos ao estudo da classificação dos tributos.

3 CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS


Pelo que estudamos até agora, você possivelmente já deve ter observado a
importância que o Estado atribui quando o assunto é cobrar tributos. Justamente
por esse motivo, ficou estabelecido na Constituição Federal – que, como você já
viu na unidade anterior, é a “lei” mais importante dentro da estrutura normativa
do país – quais são os tributos (espécies) e quem poderá instituí-los (competência).

Nas conversas cotidianas com amigos, familiares, ou ainda em notícias


televisivas ou jornalísticas, é comum observar a confusão do uso das palavras
impostos e tributos, sendo utilizadas como sinônimos, quando, na realidade,
não o são. Isto porque o tributo é gênero, que abarca outras espécies tributárias.
Em outras palavras, todo imposto será um tributo, mas nem todo tributo será
classificado como imposto.

Tanto o art. 145 da Constituição Federal como o art. 5º do Código Tributário


Nacional estabelecem que os tributos são divididos nas seguintes espécies:
impostos, taxas e contribuições de melhoria. O Supremo Tribunal Federal, contudo,
ao desempenhar sua atividade de interpretação do texto constitucional, estabeleceu
o entendimento de que, no texto da Constituição Federal, existem cinco espécies

66
TÓPICO 1 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

de tributos: a) impostos, b) taxas, c) contribuições de melhoria, d) empréstimos


compulsórios e as e) contribuições (STF; RE no 146.733 -9/SP), como vemos a seguir:

FIGURA 2 – CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

T
Impostos
R
(art. 145, I CF)
I
P
P
E
Taxas A
Tributo N
Espécies (art. 145, II CF) R
(gênero) T
T
A
I
Contribuições de melhoria P
D
(art. 145, III CF) A
A
R
T
Empréstimo compulsório CTN, art. 5º I
(art. 148, I e II CF) D
A
Contribuições
(art. 149 e 149-A da CF) STF

FONTE: O autor

ATENCAO

MEMORIZE: “Tributo é um T I M E CONTRIBUIÇÃO”, em que:


T – de “Taxas”;
I – de “Impostos”;
M – de Contribuições de Melhoria;
E – de “Empréstimos” Compulsórios;
Contribuição – Contribuições.

Para melhor compreender essa diferença, vamos analisar cada uma dessas
espécies.

3.1 IMPOSTOS
A espécie mais comum de tributo é o imposto. Qualquer mercadoria que
você tenha comprado, qualquer ligação que você tenha feito, certamente estava
inserido no valor de um imposto.

A definição de imposto está prevista no art. 16 do Código Tributário Nacional:


“Art. 16. Imposto é o tributo cuja obrigação tem por fato gerador uma situação
67
UNIDADE 2 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

independente de qualquer atividade estatal específica, relativa ao contribuinte”


(BRASIL, 2018b). Na Constituição Federal, os impostos têm fundamento no art.145,
inciso I, que prevê: “Art. 145. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios
poderão instituir os seguintes tributos: I - impostos; [...]” (BRASIL, 2018c).

Nota-se que a característica fundamental dessa espécie tributária é a não


vinculação a uma contraprestação imediata e específica, o que significa dizer
que não importa se o contribuinte teve uma efetiva contraprestação por parte do
Estado, basta que o contribuinte pratique o fato previsto na lei como passível de
tributação, que já será obrigado a pagá-lo.

A título de exemplo, se o contribuinte for proprietário de um veículo automotor,


pouco importa se as condições das estradas estão propícias para uso, o fato é que, sendo
proprietário de um veículo automotor, deverá realizar o pagamento do IPVA.

Da mesma maneira, a receita auferida pelo Estado mediante imposto não


tem destinação específica, podendo ser utilizada para custear qualquer despesa
pública. Essa ideia de não vinculação está prevista no inciso IV do art. 167 da
Constituição Federal, conhecido como princípio da não afetação.

Resumidamente, os impostos que existem em nosso país estão resumidos


na figura a seguir:

FIGURA 3 – IMPOSTOS BRASILEIROS


Impostos de transmissão
sobre bens imóveis - ITBI

Imposto sobre Importação - II


Impostos Residuais

Imposto sobre Exportação - IE


Imposto Extraordinário
de Guerra
Imposto sobre Renda -
IRPF e IRPJ Imposto sobre propriedade de
veículos automotores - IPVA
Imposto sobre Produtos IMPOSTOS
Industrializados - IPI Imposto sobre propriedade
territorial urbana - IPTU
Imposto sobre Opreações
Financeiras - IOF Imposto sobre serviços de
qualquer natureza - ISS
Imposto sobre Propriedade
Rural - ITR Imposto sobre transmissão causa
mortis e doação, de quaisquer
Imposto sobre Grandes bens ou direitos - ITCMD
Fortunas - ITR

Imposto sobre operações relativas à


circulação de mercadorias e sobre
prestações de serviços de transporte
interestadual e intermunicipal e de
comunicação - ICMS

FONTE: O autor

68
TÓPICO 1 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

Na doutrina jurídica (SABBAG, 2016, p. 795) existem várias classificações


no estudo dos impostos. A figura a seguir sintetiza as classificações existentes:

FIGURA 4 – CLASSIFICAÇÃO DOS IMPOSTOS

REAIS PESSOAIS

PROGRESSIVOS
DIRETOS
IMPOSTOS PROPORCIONAIS
INDIRETOS
SELETIVOS

FISCAIS EXTRAFISCAIS

FONTE: O autor

Da classificação disposta, é importante destacar a diferença entre os


impostos fiscais e extrafiscais. Os primeiros são aqueles que têm a finalidade
meramente arrecadatória, ou seja, têm como objetivo trazer recursos aos cofres
públicos. Os últimos, por sua vez, além da função arrecadatória, têm a finalidade
reguladora de mercado e da economia, por exemplo, no caso do Imposto sobre
Importação. Por intermédio desse imposto, a União busca incentivar, ou não, a
entrada de determinados produtos estrangeiros no país.

A progressividade também é uma característica de alguns impostos.


De acordo com Hugo Machado de Brito, imposto progressivo é: “[...] o
imposto cuja alíquota é maior na medida em que aumenta a base tributável.
Como a base imponível é sempre uma expressão da riqueza de cada um, a
progressividade faz com que o imposto onere mais quem tem riqueza maior”
(BRITO, 2004, p. 79).

Um exemplo prático dessa característica ocorre com o Imposto de Renda


Pessoa Física, na medida em que as alíquotas desse tributo aumentam de forma
progressiva, ou seja, quanto maior for a renda percebida, maior será o montante
pago pelo contribuinte.

3.2 TAXAS
As taxas, diferentemente dos impostos, estão vinculadas à atuação estatal,
ou seja, “o Estado exerce determinada atividade e, por isso, cobra a taxa da pessoa
a quem aproveita aquela atividade” (AMARO,2010, p. 31). Essa espécie tributária

69
UNIDADE 2 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

está regulamentada no art. 145 II da Constituição Federal: “Art. A União, Estados,


Municípios e o Distrito Federal poderão instituir os seguintes tributos: (...) II –
taxas, em razão do exercício do poder de polícia ou pela utilização, efetiva ou
potencial, de serviços públicos específicos e divisíveis, prestados ao contribuinte
ou postos à sua disposição” (BRASIL, 2018c).

O art. 77 do Código Tributário Nacional segue a mesma dicção. Da previsão


constitucional e legal, extraem-se duas modalidades de taxa: a) a taxa de polícia ou
de fiscalização e b) a taxa de serviço ou de utilização, conforme quadro a seguir.

FIGURA 5 – ESPÉCIES DE TAXAS

Efetivamente
prestado
DE SERVIÇO
Específico e divisível
PÚBLICO – Art. 79 CTN
Potencialmente
disponível
TAXAS

DE FISCALIZAÇÃO OU
Exercício de Poder Ainda que
PODER DE POLÍCIA –
de Polícia presumido
Art. 78 CTN

FONTE: O autor

São exemplos de taxas de polícia ou de fiscalização: taxa de alvará, a taxa


de fiscalização de anúncios, taxa de bombeiro, taxa de controle de fiscalização
ambiental, entre outras. Já as taxas de serviço ou utilização têm-se como exemplos:
a taxa de coleta de lixo, as custas judiciais, entre outras.

Sobre esta última modalidade, verificam-se no âmbito do Poder Judiciário


diversos casos de tentativas de imposição de “taxas” para custear atividades
desempenhadas pelo Estado, mas que não se caracterizavam como serviços
específicos e divisíveis, por exemplo, a malfadada taxa de segurança pública, taxa
de iluminação pública e taxa de pavimentação asfáltica. Tais serviços, por não
serem específicos e divisíveis, não são passíveis de cobrança mediante taxa.

NOTA

Súmula STF 595. “É inconstitucional a taxa municipal de conservação de estradas


de rodagem cuja base de cálculo seja idêntica à do imposto territorial rural.”

70
TÓPICO 1 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

Por fim, é importante ainda diferenciar as taxas e o preço público, conforme


características principais descritas no quadro a seguir:

QUADRO 1 – DIFERENÇA ENTRE TAXA E PREÇO PÚBLICO

Taxa Preço público


É tributo Não é tributo
Prestação pecuniária compulsória Prestação pecuniária facultativa
Decorre de lei Decorre de contrato administrativo
Rescisão inadmissível Rescisão admissível
Obedece aos princípios de direito tributário Não obedece aos princípios de direito tributário,
mas aos princípios de direito administrativo
Regime jurídico de direito público Regime jurídico de direito privado
Existe taxa de serviço de utilização potencial Só existe tarifa cobrada em face de serviço de
utilização efetiva
Existe taxa cobrada em razão de poder de polícia Não existe tarifa cobrada em razão de poder de polícia
Exigida por pessoas jurídicas de direito Exigida por pessoas jurídicas de direito
público público e de direito privado
FONTE: O autor, adaptado de Sabbag (2016, p. 800)

Como exemplo de preços públicos, cita-se o pedágio.

NOTA

Súmula 545 STF – “Preços de serviços públicos e taxas não se confundem,


porque estas, diferentemente daqueles, são compulsórias e têm sua cobrança condicionada
a prévia autorização orçamentária, em relação à lei que as institui.”

3.3 CONTRIBUIÇÕES DE MELHORIA


A contribuição de melhoria é tributo que está previsto no art. 145, inciso
III da Constituição Federal. O art. 81 do Código Tributário Nacional estabelece
(BRASIL, 2018b):
Art. 81. A contribuição de melhoria cobrada pela União, pelos
Estados, pelo Distrito Federal ou pelos Municípios, no âmbito de suas
respectivas atribuições, é instituída para fazer face ao custo de obras
públicas de que decorra valorização imobiliária, tendo como limite
total a despesa realizada e como limite individual o acréscimo de valor
que da obra resultar para cada imóvel beneficiado.

71
UNIDADE 2 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

A contribuição de melhoria, portanto, se apresenta como tributo cobrado


ao contribuinte que, na qualidade de proprietário do imóvel, foi beneficiado por
obra pública. O objetivo deste tributo é financiar os custos da obra pública que
resultou na valorização do imóvel. Como exemplo, pode-se citar as obras de
arborização, pavimentação, esgotos pluviais, entre outras.

ATENCAO

MEMORIZE: VI P – Em que VI – VALORIZAÇÃO IMOBILIÁRIA e P – de obra PÚBLICA.

Além disso, é preciso respeitar os limites, individual e total da obra


realizada, conforme vê-se a seguir:

FIGURA 6 – LIMITES COBRANÇA CONTRIBUIÇÃO DE MELHORA

LIMITES

TOTAL: INDIVIDUAL:
A cobrança terá como A cobrança deve ser feita
limite o valor total gasto de forma proporcional à
para a realização da obra. valorização de cada
imóvel individualmente.

FONTE: O autor

Todavia, não é qualquer obra realizada pelo ente estatal que implica
cobrança da contribuição de melhoria, ainda que resulte em valorização do
imóvel particular. O art. 82 do Código Tributário Nacional estabelece os requisitos
mínimos para a instituição dessa espécie tributária, conforme vê-se a seguir:

72
TÓPICO 1 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

FIGURA 7 – REQUISITOS MÍNIMOS INSTITUIÇÃO CONTRIBUIÇÃO DE MELHORIA

Memorial descritivo do projeto;

Orçamento do custo da obra;

Determinação da parcela
do custo da obra a ser
CONTRIBUIÇÃO financiada pela contribuição;
PUBLICAÇÃO
DE MELHORIA
PRÉVIA EDITAL
ART. 82 CTN
Delimitação da zona beneficiada;

Determinação do fator de absorção


do benefício da valorização para
toda a zona ou para cada uma das
áreas diferenciadas, nelas contidas;

FONTE: O autor

3.4 EMPRÉSTIMOS COMPULSÓRIOS


Os empréstimos compulsórios possuem fundamento constitucional no
art. 148 da Constituição Federal.

Art. 148. A União, mediante lei complementar, poderá instituir


empréstimos compulsórios:
I - para atender a despesas extraordinárias, decorrentes de calamidade
pública, de guerra externa ou sua iminência;
II - no caso de investimento público de caráter urgente e de relevante
interesse nacional, observado o disposto no art. 150, III, "b".
Parágrafo único. A aplicação dos recursos provenientes de empréstimo
compulsório será vinculada à despesa que fundamentou sua instituição
(BRASIL, 2018).

Essa espécie tributária só poderá ser instituída pela União. Da disposição


constitucional citada, colhem-se três situações que possibilitam a instituição
do empréstimo compulsório: a) calamidade pública, b) guerra externa ou sua
iminência e c) investimento público.

73
UNIDADE 2 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

FIGURA 8 – HIPÓTESES EMPRÉSTIMOS COMPULSÓRIOS

EMPRÉSTIMOS COMPULSÓRIOS
Art. 148 CF

CALAMIDADE PÚBLICA: GUERRA EXTERNA: INVESTIMENTO PÚBLICO:


relacionada a eventos conflitos bélicos na esfera a autorização para instituição
de casos fortuitos ou de internacional, tendo na União nessa modalidade seria o
força maior, atrelados a nossa primeira fonte de caráter urgente, de interesse
imprevisíveis eventos naturais proteção. Para essa autorização nacional do investimento
ou de atuação humana não será necessários o efetivo
início da guerra, bastando a sua
iminência

FONTE: O autor

Importante característica dessa espécie tributária é a necessidade de


devolução do valor pago ao contribuinte. O prazo e a forma de devolução deverão
constar na lei instituidora deste tributo.

3.5 CONTRIBUIÇÕES
As contribuições estão previstas no art. 149, 149-A da Constituição
Federal. Na linha do que já decidido pelo Supremo Tribunal Federal no
Recurso Extraordinário nº 138.284/CE, as contribuições se subdividem nas
seguintes espécies:

FIGURA 9 – CLASSIFICAÇÃO DAS CONTRIBUIÇÕES

CONTRIBUIÇÕES

Contribuições Sociais De intervenção Corporativas COSIP


Art.149 CF Art. 149 CF Art. 149 Art. 149-A

De seguridade Social
Art. 195 CF

Outras de Seguridade
Social
Art. 195 §4 CF

Sociais Gerais
Art. 149, 212 §5º, 240 CF

FONTE: O autor

74
TÓPICO 1 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

É característica das contribuições, assim como ocorre com as taxas, a sua


vinculação a determinada atividade estatal, ou seja, as contribuições possuem
destinação específica e, por isso, são classificadas como tributos afetados à
execução de uma atividade estatal ou paraestatal específica, que pode, ou não,
beneficiar diretamente o contribuinte.

A partir da Emenda Constitucional nº 33/2001 (BRASIL, 2018d), as


contribuições sociais e de intervenção ao domínio econômico passaram a ter como
base econômica passível de tributação (base de cálculo) os seguintes eventos.

FIGURA 10 – BASES DE CÁLCULO CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS E CIDE'S

Faturamento

Alíquota ad
Receita-bruta
valorem

Valor aduaneiro
Contribuições
sociais e CIDE's Bases de cálculo
EC 33/2002
Alíquota
específica
Unidade de medida

FONTE: O autor

Como visto, as contribuições sociais podem ser destinadas à seguridade


social. Estas possuem disposição constitucional específica, prevista no art. 195 da
Constituição Federal, e estão destinadas a financiar/custear a seguridade social.
Esse tipo de contribuição social possui os seguintes contribuintes e as respectivas
bases de cálculo:

75
UNIDADE 2 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

FIGURA 11 – CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS

Faturamento
Do empregador, da empresa
e da entidade a ela Receita-bruta
equipada na forma da lei
Folha de salários
Do trabalhador e dos
demais segurados da
Contribuições previdência social
sociais
Contribuintes
previdenciárias
Art. 195 CF Do importador de bens ou
serviços do exterior, ou
de quem a lei a ele equipar

Sobre a receita de
concursos de prognósticos

FONTE: O autor

Por fim, o art. 149-A da Constituição Federal, instituído pela Emenda


Constitucional nº. 29/2002, estabeleceu a possibilidade de os Municípios e o
Distrito Federal instituírem uma espécie de contribuição que visa custear o
serviço de iluminação pública.

NOTA

Súmula STF 670. “O serviço de iluminação pública não pode ser remunerado
por meio de taxa.”

76
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:

• O Sistema Tributário Nacional está previsto na Constituição Federal de 1988 e


estrutura todos os temas inerentes a este sistema. De forma infraconstitucional,
o Código Tributário Nacional, que possui status de lei complementar, regula
os ditames constitucionais.

• O conceito de tributo é dado pelo Código Tributário Nacional, no seu artigo 3º,
ou seja: “Tributo é toda prestação pecuniária compulsória, em moeda ou cujo
valor nela se possa exprimir, que não constitua sanção de ato ilícito, instituída
em Lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada”.

• No Sistema Tributário Nacional, de acordo com o Supremo Tribunal Federal,


existem cinco espécies de tributos: impostos, taxas, contribuição de melhoria,
empréstimo compulsório e contribuições.

77
AUTOATIVIDADE

1 Considerando o entendimento legal e jurisprudencial, acerca da definição


do termo tributo e suas classificações, julgue os itens a seguir.

I- Sobre o conceito legal de tributo, descrito no art. 3º do CTN, é possível


afirmar que se admite como forma de pagamento a ‘entrega de coisa’, por
exemplo, parte da produção de uma indústria para pagamento de imposto
sobre produto industrializado.
II- Sobre tributos, é incorreto afirmar que a coercibilidade é o seu traço
característico.
III- Segundo o Código Tributário Nacional, o tributo não se constitui como
sanção de ato ilícito.
IV- Os impostos caracterizam-se como tributos não vinculados, pois a
destinação da receita auferida não está vinculada, podendo ser utilizada
para custear qualquer despesa pública.

Das afirmações destacadas, apenas as seguintes estão CORRETAS:

a) ( ) I e VI.
b) ( ) III e IV.
c) ( ) III e II.
d) ( ) II, III e IV.

2 Considerando o posicionamento consolidado do Supremo Tribunal Federal,


o sistema tributário brasileiro possui:

a) ( ) Três espécies de tributos: impostos, taxas e contribuição de melhoria.


b) ( ) Quatro espécies de tributos: impostos, taxas, contribuição de melhoria
e empréstimo compulsório.
c) ( ) Cinco espécies de tributos: impostos, taxas, contribuição de melhoria,
empréstimo compulsório e contribuições.
d) ( ) Duas espécies de tributos: impostos e taxas.
e) ( ) Nenhuma das alternativas anteriores.

3 Assinale a alternativa INCORRETA:

a) ( ) Os impostos são tributos não vinculados a quaisquer atividades estatais


relacionadas ao contribuinte, sendo vedada a vinculação de suas receitas
a órgãos, fundos ou despesas, salvo exceções constitucionalmente
previstas.
b) ( ) As taxas cobradas pela União, pelos Estados, pelo Distrito Federal ou
pelos Municípios, no âmbito de suas respectivas atribuições, têm como
fato gerador o exercício regular do poder de polícia, ou a utilização,
efetiva ou potencial, de serviço público específico e divisível, prestado
ao contribuinte ou posto à sua disposição.

78
c) ( ) A limpeza pública e a iluminação pública podem ser cobradas mediante
taxa.
d) ( ) A contribuição de melhoria pode ser instituída em razão de obra
pública e da consequente valorização imobiliária, tendo por limite total
a despesa com a realização da obra e, por limite individual, o acréscimo
de valor ao imóvel do contribuinte beneficiado.
e) ( ) É necessária lei complementar para instituir empréstimos compulsórios.

79
80
UNIDADE 2 TÓPICO 2

COMPETÊNCIA TRIBUTÁRIA E LIMITES AO


PODER DE TRIBUTAR

1 INTRODUÇÃO
Caros acadêmicos, feita a análise da definição e classificação do tributo,
cumpre-nos agora avançarmos no estudo das competências tributárias e os
limites da instituição dos tributos mencionados no tópico anterior.

Pela importância da matéria, sua delimitação está prevista na


Constituição Federal, que atribui a cada ente federativo o poder de
instituir determinado tributo. Em verdade, essas atribuições autônomas
buscam concretizar o princípio do federalismo, consagrado no art. 1º da
Constituição Federal.

Essas competências estão instituídas nos art. 153 a 156 da Constituição


Federal, de modo que cada ente federado – União, Estados e Municípios –
está obrigado a respeitar os preceitos lá descritos, sob pena de ofensa ao texto
constitucional.

2 COMPETÊNCIA TRIBUTÁRIA
Antes de analisar a atribuição de cada ente federado, é importante
entender o conceito de competência tributária e as classificações que a doutrina
jurídica apresenta sobre o tema.

Nas palavras do professor Paulo de Barros Carvalho, a competência


tributária “é uma das parcelas entre as prerrogativas legiferantes de que são
portadoras as pessoas políticas em consubstância na possibilidade de legislar
para a produção de normas jurídicas” (CARVALHO, 2012, p. 269).

Faz parte desta competência a competência legislativa sobre a matéria,


nos moldes do art. 6 do Código Tributário Nacional, isto significa que, além de
instituir o tributo, o ente federado poderá legislar sobre a matéria, respeitando os
limites previstos na própria Constituição Federal.

A competência tributária, por estar prevista constitucionalmente,


caracteriza-se por ser indelegável, intransferível, inalterável e irrenunciável,
nos moldes dos arts. 7º e 8º do Código Tributário Nacional.
81
UNIDADE 2 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

Acontece que os tributos previstos constitucionalmente não são


autoexigíveis. É necessário que o detentor da competência, mediante lei, institua o
tributo de sua competência, respeitando os parâmetros fixados pela Constituição
Federal. O exercício dessa competência, em regra, ocorre mediante lei ordinária,
que, como já estudado na unidade anterior, depende de maioria de votação
simplificada. Contudo, determinados tributos exigem sua instituição mediante
lei complementar, sendo tal imposição uma espécie de legalidade qualificada,
como ocorre no caso dos impostos residuais, previstos no art. 154, inciso I da
Constituição Federal.

Neste contexto, é importante diferenciar a capacidade tributária ativa da


competência tributária. A primeira refere-se à capacidade de fiscalizar e arrecadar
o tributo, enquanto a última é o poder de instituir e legislar sobre determinado
gravame ou regulando sua funcionalidade.

Assim, as entidades parafiscais, como os conselhos profissionais (CREA,


OAB etc.), possuem capacidade tributária ativa para arrecadar e fiscalizar
determinados tributos, embora não possuam competência tributária, ou seja,
poder para instituir tributos.

2.1 CLASSIFICAÇÃO DAS COMPETÊNCIAS


A doutrina jurídica classifica a competência tributária em: a) privativa; b)
comum; c) cumulativa; d) residual; e e) extraordinária.

2.1.1 Competência Privativa


A ideia de competência privativa, como o próprio nome já sugere, refere-
se à competência que a Constituição Federal atribuiu a cada ente federado para
instituir determinado tributo e que só pode ser exercida por aquele mesmo ente.

A figura a seguir delimita a competência da União, dos Estados e


Municípios:

82
TÓPICO 2 | COMPETÊNCIA TRIBUTÁRIA E LIMITES AO PODER DE TRIBUTAR

FIGURA 12 – COMPETÊNCIA PRIVATIVA DE TRIBUTOS

UNIÃO ESTADOS MUNICÍPIOS

I ITR ICMS COSIP

Imposto
E ITCMD IPTU
Extraordinário de
Guerra
IRPF e IRPJ IPVA ISS
Impostos Residuais

IPI Contribuições sociais ITBI


Empréstimos para custeio do Sistema
Compulsórios de Previdência e
IOF Assistência Social de Contribuições sociais
seus próprios servidores para custeio do Sistema
Contribuições de Previdência e
ITR Sociais Assistência Social de
seus próprios servidores

DISTRITO FEDERAL

FONTE: O autor

2.1.2 Competência Comum/Concorrente


A competência comum, nas palavras de Ricardo Lobo Torres, é aquela
“competência comum atribuída a cada ente político para impor os mesmos
tributos, guardado, entretanto, o vínculo entre o tributo e o serviço prestado ou a
atividade exercida” (TORRES,2005, p. 363).

Pela definição, é fácil perceber que essa competência está estritamente


relacionada à competência para a instituição de taxas e contribuição de melhoria.
Por exemplo, no âmbito estadual, o contribuinte pode, ao mesmo tempo,
ter de pagar uma taxa de bombeiro, que é de âmbito estadual, e uma taxa de
licenciamento ambiental para o IBAMA, de âmbito federal.

2.1.3 Competência Cumulativa


Essa modalidade de competência aplica-se ao Distrito Federal que, de
forma cumulativa, pode instituir tributos de competência estadual e municipal.
Deste modo, o Distrito Federal pode, como de fato faz, instituir IPTU, ISS, ITBI,
impostos de âmbito municipal, como ICMS, IPVA, ITCMD, que são impostos de
âmbito estadual.

83
UNIDADE 2 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

Todavia, essa espécie de competência não está restrita ao Distrito Federal.


Na ocasião de existir Território Federal, caberá à União a competência dos tributos
estaduais e, ainda, dos tributos municipais, caso este Território Federal não seja
dividido em Municípios, nos moldes do que prevê o art. 147 da Constituição
Federal. “Art. 147. Competem à União, em Território Federal, os impostos estaduais
e, se o Território não for dividido em Municípios, cumulativamente, os impostos
municipais; ao Distrito Federal cabem os impostos municipais” (BRASIL, 2018c).

2.1.4 Competência Residual


Essa modalidade de competência está amparada no que dispõe os art. 154,
I e 195, 4º§ da Constituição Federal.

A ideia do termo residual é justamente aquela gramatical, ou seja, daquilo


que sobra. Assim, a União pode instituir novos impostos ou contribuições
destinadas à seguridade social, além daquelas já autorizadas pela Constituição
Federal.

Todavia, tal instituição não pode ocorrer ao livre arbítrio do legislador, é


necessário que esse novo tributo respeite alguns requisitos previstos na legislação.

FIGURA 13 – REQUISITOS COMPETÊNCIA RESIDUAL

LEI COMPLEMENTAR

NÃO CUMULATIVO
COMPETÊNCIA RESIDUAL

FATO GERADOR DIVERSO


DAQUELES JÁ DISCRIMINADOS
NA CONSTITUIÇÃO

BASE DE CÁLCULO DIVERSA


DAQUELAS JÁ DISCRIMINADOS
NA CONSTITUIÇÃO

FONTE: O autor

2.1.5 Competência Extraordinária


A competência extraordinária também é destinada à União e está prevista
no art. 154, II da Constituição Federal. “Art. 154. A União poderá instituir: II - na
iminência ou no caso de guerra externa, impostos extraordinários, compreendidos

84
TÓPICO 2 | COMPETÊNCIA TRIBUTÁRIA E LIMITES AO PODER DE TRIBUTAR

ou não em sua competência tributária, os quais serão suprimidos, gradativamente,


cessadas as causas de sua criação” (BRASIL, 2018c).

Sobre esta modalidade, sua cobrança poderá ser imediata, representando


verdadeira exceção ao princípio da anterioridade anual e nonagesimal, que
estudaremos em breve. Da mesma maneira, sua cessação deverá ocorrer, de forma
gradativa, quando as causas de sua criação, ou seja, no caso de guerra, desaparecerem.

3 LIMITES NO PODER DE TRIBUTAR


O exercício da competência tributária, aludida no tópico anterior, não é
ilimitada. A Constituição Federal, preservando a interferência da soberania estatal
no patrimônio dos contribuintes, elencou diversos princípios e imunidades que
limitam a atividade de tributação desempenhada pelo Estado. Tal característica é
inerente a qualquer Estado Democrático de Direito.

Para melhor compreender o significado desses limites, pode-se fazer a


analogia com a ilustração a seguir:

FIGURA 14 – LIMITES AO PODER DE TRIBUTAR


Limites ao poder de tributar
Elo entre as partes

Relação jurídico-tributária
Competência/poder de tributar

FONTE: Sabbag (2016, p. 82)

Nota-se, há certo conteúdo (elo entre as partes) no livro (relação jurídica


tributária) que está em uma prateleira (poder de tributar) cercada por uma
moldura (norma jurídica/princípios) (SABBAG, 2016, p. 83). Os limites ao poder
de tributar são um elemento que estrutura todos os demais itens, de modo
que o poder de tributar (prateleira) só se sustenta apoiado na moldura (norma
jurídica/princípios). Invadir os limites da moldura significa retirar toda base de
sustentação da imposição tributária.

Os princípios são necessários para nortear o direito, servem como


responsáveis para definir a estrutura básica, os fundamentos do nosso ordenamento
jurídico. “São enunciados genéricos que representam o primeiro estágio de
concretização dos valores jurídicos a que se vinculam” (TORRES, 2005, p. 75).

85
UNIDADE 2 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

Do texto constitucional, infere-se os seguintes princípios tributários: da


legalidade, irretroatividade, anterioridade, isonomia ou igualdade, capacidade
contributiva, vedação de tributo confiscatório, liberdade de tráfego, entre outros.

A figura a seguir sintetiza os princípios tributários e seus fundamentos


constitucionais.

FIGURA 15 – PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS TRIBUTÁRIOS

Princípios constitucionais tributários

Anterioridade
Legalidade Isonorria Irretroatividade
(anual e nonagesimal)
Art. 150, I da CF Art. 150, I da CF Art. 150, II da CF
Art. 150, III, 'b' e 'c' da CF

Liberdade de tráfego
Capacidade Contributiva Vedação de Confisco
de bens e pessoas
Art. 145, §1º da CF Art. 150, IV da CF
Art. 150, V da CF

FONTE: O autor

A seguir serão analisados os principais princípios tributários.

3.1 PRINCÍPIO DA LEGALIDADE


O princípio da legalidade tributária decorre do preceito previsto no art.
5º, II da Constituição, segundo o qual “ninguém é obrigado a fazer ou deixar de
fazer algo senão em virtude de lei” (BRASIL, 2018c). A mesma lógica se aplica
ao âmbito tributário, ou seja, nenhum ente detentor de competência tributária
poderá exigir ou aumentar tributo se não houver lei que assim o estabeleça.

Tal disposição está prevista no art. 150, inciso I do texto constitucional,


bem como no art. 97 do Código Tributário Nacional.

Conforme já mencionado, em regra, a lei a ser obedecida sob o espectro


desse princípio é a lei ordinária. Contudo há tributos que, por disposição
constitucional, dependem de lei complementar.

FIGURA 16 – EXCEÇÃO LEI ORDINÁRIA

TRIBUTOS QUE DEPENDEM DE


LEI COMPLEMENTAR

Empréstimos Imposto sobre Contribuições da


Impostos residuais
compulsórios grandes fortunas seguridade social residual
(art. 154, I da CF)
(art. 148 da CF) (art. 153, VII, da CF) (art. 195, §4º da CF)

FONTE: O autor

86
TÓPICO 2 | COMPETÊNCIA TRIBUTÁRIA E LIMITES AO PODER DE TRIBUTAR

As exceções previstas acima nunca poderão iniciar seu processo legislativo


por meio de medida provisória, já que esta só é viável nos casos de lei ordinária,
desde que respeitados os requisitos para sua instituição, previstos no art. 62 da
Constituição Federal. Vale dizer, onde há lei complementar, não existe espaço
para medida provisória.

Há de se destacar, contudo, que o próprio texto constitucional estabelece


exceções ao princípio da legalidade, no tocante à majoração de alíquotas, quais
sejam:

FIGURA 17 – EXCEÇÕES AO PRINCÍPIO DA LEGALIDADE

EXCEÇÕES AO PRINCÍPIO DA LEGALIDADE

CIDE Atualização
IOF IE
COMBUSTÍVEL monetária

ICMS Alteração prazo


IPI II
COMBUSTÍVEL pagamento

FONTE: O autor

As exceções previstas no quadro acima não dependerão necessariamente


de lei para a majoração de alíquotas, ou seja, poderão ser alteradas mediante
decreto do Poder Executivo. Conduto, deve-se ressaltar que essa exceção não é
total e ilimitada. Na verdade, o que a Constituição possibilita é uma mitigação
deste princípio. Isto porque, como você já deve ter observado, tais tributos têm
características extrafiscais, ou seja, são reguladores de mercado e da economia,
“permitindo-se ao Poder Executivo a flexibilização no manejo de alíquotas de
certos gravames regulatórios” (SABBAG, 2016, p. 114).

A título de exemplo: “A Lei do Imposto de Exportação estipula alíquota


de 20% para um certo bem exportável. Pode o Poder Executivo reduzi-la para dez
(10%) e, se quiser, retorná-la a seu patamar máximo (20%)” (SABBAG, 2016, p. 20)
desde que respeitados os parâmetros fixados na lei instituidora do tributo.

3.2 PRINCÍPIO DA ANTERIORIDADE – ANUAL E NONAGESIMAL


O princípio da anterioridade, assim como o da legalidade, tem como
escopo último garantir a segurança jurídica aos contribuintes. Busca impedir que
o Estado cobre tributos antes de determinado lapso temporal, que poderá ser
anual ou nonagesimal.

87
UNIDADE 2 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

A anterioridade anual está prevista no art. 150, inciso III, alínea “b’ da
Constituição Federal. Já a anterioridade nonagesimal está prevista na alínea ‘c’ do
mesmo dispositivo constitucional.

Ambos os princípios visam garantir a não surpresa da tributação, ou


seja, de que, de repente, o Estado crie um tributo e queira cobrá-lo de forma
imediata, ou ainda, majore sua alíquota e queira cobrar repentinamente. Como
a denominação já sugere, a anterioridade anual determina que o ente federado
só poderá exigir determinado tributo no ano posterior ao que foi instituído.
Portanto, em obediência ao princípio da anterioridade anual, o tributo que foi
instituído ou teve sua alíquota aumentada em 2018 só poderá ser exigido a
partir de 2019.

Todavia, tornou-se rotina pelos congressistas a promulgação de leis que


majoram tributos nos últimos dias do ano, o que não efetivava a garantia da
tributação não surpresa, pois, sendo promulgada a lei, em 31 de dezembro de
determinado ano, o tributo majorado ou instituído poderia ser cobrado a partir
de 1º de janeiro, sem desrespeitar a anterioridade anual.

Então, foi promulgada a Emenda Constitucional nº 42, de 2003 (BRASIL,


2018c), que acrescentou a alínea ‘c’ no art. 150, inciso III da CF, ou seja, a
anterioridade nonagesimal. A partir de então, além de obediência ao princípio
da anterioridade anual, o ente tributante deve respeitar o prazo mínimo de 90
(noventa) dias, a partir da promulgação da lei, para cobrar o tributo objeto da
nova lei.

Deste modo, um tributo que teve sua alíquota majorada em 1º de


novembro de 2018 não poderá ser exigido já em 1º de janeiro, pois, em que pese
respeite a anterioridade anual, não respeita a anterioridade nonagesimal. Assim,
o tributo exemplificativo só poderá ser cobrado a partir de 30 de janeiro de 2019.
Observe a linha do tempo abaixo.

FIGURA 18 – LINHA DO TEMPO ANTERIORIDADE


Anterioridade nonagesimal

Anterioridade anual

Lei promulgada
01/01/2019 29/01/2019
01/11/2018

FONTE: O autor

Importante mencionar que na anterioridade nonagesimal deve-se


respeitar o prazo de 90 (noventa) dias, o que não significa o prazo de 3 (três)
para fins tributários, ou seja, o prazo deve ser contado por dia. Ademais, tais

88
TÓPICO 2 | COMPETÊNCIA TRIBUTÁRIA E LIMITES AO PODER DE TRIBUTAR

princípios, por serem garantias aos contribuintes – e não do Estado –, se aplicam


somente em casos de majoração de tributos, e não nos casos de minoração.

Igualmente ocorre com o princípio da legalidade, o princípio da


anterioridade também possui exceções, discriminadas a seguir:

FIGURA 19 – EXCEÇÕES AO PRINCÍPIO DA ANTERIORIDADE – NONAGESIMAL E ANUAL

ANUAL NONAGESIMAL

IE IE

II II

IPI

EXCEÇÕES AO
PRINCÍPIO DA IOF IOF
ANTERIORIDADE

CIDE
COMBUSTÍVEL

ICMS
COMBUSTÍVEL

Empréstimo Empréstimo
compulsório para compulsório para
Calamidade/guerra Calamidade/guerra

Fixação base
cálculo IPVA/PTU

IR

FONTE: O autor

89
UNIDADE 2 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

NOTA

Súmula 669 – STF. “Norma legal que altera o prazo de recolhimento da obrigação
tributária não se sujeita ao princípio da anterioridade.”

Súmula 160 – STJ. “É defeso, ao município, atualizar o IPTU, mediante decreto, em percentual
superior ao índice oficial de correção monetária.”

3.3 PRINCÍPIO DA IRRETROATIVIDADE


Este é mais um princípio que busca concretizar a segurança jurídica. A
ideia é que nenhum ente federado poderá cobrar tributos de fatos geradores
passados, ou seja, a cobrança de tributos só ocorrerá em relação a fatos geradores
ocorridos após a vigência da referida lei. Assim, o contribuinte, ao realizar suas
operações comerciais, financeiras e empresariais, poderá planejar de forma segura
seus investimentos, considerando a forma como será tributado, sem correr o risco
de que lei posterior ao evento tributável modifique a forma e o percentual de
tributação dos fatos geradores já perfectibilizados.

Constitucionalmente, está previsto no art. 150, inciso II, alínea ‘a’ da


Constituição.

Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte,


é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
(...)
III – cobrar tributos:
a) em relação a fatos geradores ocorridos antes do início da vigência
da lei que os houver instituído ou aumentado (BRASIL, 2018c).

A seguir, a demonstração da aplicação prática deste princípio:

FIGURA 20 – LINHA DO TEMPO, PRINCÍPIO DA IRRETROATIVIDADE


Irretroatividade tributária

Ocorrência fato A Nova lei que define o Ocorrência fato A


10/12/2018 fato A como possível 30/02/2019
(não tributável) de tributação (tributável)
FONTE: O autor

Assim como os princípios expostos acima, a irretroatividade possui


certa mitigação. Não se trata exatamente da possibilidade de cobrar tributos de

90
TÓPICO 2 | COMPETÊNCIA TRIBUTÁRIA E LIMITES AO PODER DE TRIBUTAR

forma retroativa, mas sim de que certas situações previstas pela lei possam ter
a aplicação retroativa. Um exemplo bastante comum nessas situações é quando
a uma lei posterior deixa de definir determinado ato como infração tributária.
Neste caso, sendo imputada multa ao contribuinte por determinada infração e
sendo promulgada lei posterior que não defina mais aquele fato como infração, a
multa, por consequência, deixará de ser exigível.

FIGURA 21 – EXCEÇÕES AO PRINCÍPIO DA IRRETROATIVIDADE


Aplicação retroativa
Art. 106 CTN

Ato não Quando seja


definitivamente expressamente
julgado: interpretativa, excluída a
aplicação de penalidade à
infração dos dispositivos
interpretados;
Quando deixe de Quando Quando deixe
defini-lo como lhe comine de tratá-lo
infração; penalidade menos como contrário
severa que a a qualquer
prevista na lei exigência de ação
vigente ao tempo ou omissão, desde
da sua prática; que não tenha
sido fradulento
e não tenha
implicado em falta
de pagamento de
tributo;

FONTE: O autor

NOTA

Súmula 584 – STF. “Ao Imposto de Renda calculado sobre os rendimentos


do ano base aplica-se a lei vigente no exercício financeiro em que deve ser apresentada a
declaração.”

3.4 PRINCÍPIO DA ISONOMIA


Outro princípio que limita o poder de tributar é a isonomia ou igualdade.
O art. 5º, inciso I garante a igualdade a todos os cidadãos. No âmbito tributário, a
garantia de isonomia está prevista no art. 150, II da Constituição Federal.

91
UNIDADE 2 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

A ideia trazida por este princípio é a mesma exposta pelo filósofo


estagirista Aristóteles, ou seja, o ente federado, ao instituir tributos, deve tratar
de formal igual os iguais, e de forma desigual os desiguais, buscando assim um
equilíbrio de tratamento.

Como materialização desse princípio pode-se citar a cláusula pecunia non


olet. Em termos literais, o termo significa o dinheiro não tem cheiro. Isso significa
que não importa a origem do fato passível de tributação, seja de origem lícita ou
ilícita. Assim, alguém que aufira renda em decorrência de atividades criminosas
deverá pagar imposto de renda da mesma forma que o contribuinte que aufere
renda de forma lícita, pois, independentemente da forma, ambos auferem renda.

3.5 PRINCÍPIO DA CAPACIDADE CONTRIBUTIVA


O princípio da capacidade contributiva está estritamente vinculado ao
princípio da isonomia e deverá ser prestigiado sempre que possível pelo legislador
ordinário na criação de impostos. Tem como propósito alcançar a justiça fiscal. Está
previsto na Constituição Federal no art. 145, §1º, conforme disposto a seguir:

Art. 145. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios


poderão instituir os seguintes tributos [...]
§ 1º Sempre que possível, os impostos terão caráter pessoal e serão
graduados segundo a capacidade econômica do contribuinte, facultado
à administração tributária, especialmente para conferir efetividade a
esses objetivos, identificar, respeitados os direitos individuais e nos
termos da lei, o patrimônio, os rendimentos e as atividades econômicas
do contribuinte (BRASIL, 2018c).

O referido princípio busca exigir do contribuinte com maior condição


econômica a maior carga tributária e, em contrapartida, exigir menor carga
tributária daquele contribuinte com menor capacidade econômica. Exemplo
prático desse princípio ocorre com o Imposto de Renda Pessoa Física, que é
tributado de forma progressiva, ou seja, aquele que ganha mais paga mais.

A capacidade econômica não se confunde com capacidade financeira,


ou seja, liquidez financeira. Assim, por exemplo, aquele contribuinte que, não
possuindo patrimônio, venha a herdar um imóvel, tornando-se proprietário, terá
que pagar IPTU, mesmo que não tenha disponibilidade financeira.

Outro conceito que surge deste princípio é o de mínimo vital ou mínimo


necessário. O mínimo vital busca resguardar a dignidade da pessoa, direito
fundamental, previsto no art. 5º da Constituição Federal. A essência desse
conceito é garantir que o contribuinte não seja tributado por renda ou capital
mínimo necessário para sua subsistência.

Em que pese não haja disposição expressa nesse sentido, existem algumas
técnicas que buscam concretizar esta ideia. Como exemplo, pode-se citar a faixa
mínima de renda que é isenta de Imposto de Renda Pessoa Física e atualizada
todo ano pela União.
92
TÓPICO 2 | COMPETÊNCIA TRIBUTÁRIA E LIMITES AO PODER DE TRIBUTAR

3.6 PRINCÍPIO DA VEDAÇÃO DE CONFISCO


O princípio da vedação de confisco está previsto no art. 150, inciso IV da
Constituição Federal. Seu propósito é que a carga tributária exigida seja aceitável,
que não se torne tão excessiva a ponto de inviabilizar as bases econômicas eleitas
para tributação.

Sobre este princípio, ensina Roque Carraza: “Não se pode, em homenagem


aos princípios da capacidade contributiva e da não confiscatoriedade, sujeitar um
mesmo fato econômico à incidência de tantos impostos, que acabem por retirar do
contribuinte o mínimo vital a que estamos aludindo” (CARRAZA,2008, p. 102).

Como se pode observar, este princípio tem íntima ligação com o princípio
da capacidade contributiva. Em que pese não existam limites objetivos para
mensurar a característica confiscatória de determinado tributo, um critério válido
de balizamento, que leva em consideração parâmetros máximos e mínimos de
tributação, pode ser verificado a seguir:

FIGURA 22 – LIMITES CONFISCATÓRIOS

Incidência Incidência
Incidência Não Confiscatória
Confiscatória Confiscatória

Mínimo Perda da
Capacidade contributiva
vital Propriedade

FONTE: O autor

Nesta linha, se a incidência tributária ocorrer dentro dos limites da


capacidade contributiva do contribuinte, não se verificará a ocorrência de
tributação com efeitos confiscatórios. Do contrário, desrespeitados os limites
da capacidade contributiva do contribuinte, atingindo o mínimo existencial do
contribuinte, caracterizada estará a contribuição com efeitos confiscatórios.

3.7 PRINCÍPIO DA LIBERDADE DE TRÁFEGO DE BENS


E PESSOAS
Esse postulado decorre do princípio universal de liberdade, está previsto
no art. 150, V da Constituição Federal. A ideia basilar deste princípio é de que o
ente federado não se pode valer da apreensão de bens ou até mesmo de pessoas
como forma de coagi-lo a cobrar tributos.

Justamente pelo Brasil ser um Estado Democrático de Direito, a cobrança de


tributos deve obedecer às regras previstas na legislação tributária, especialmente
aquelas previstas na Lei de Execuções Fiscais, Lei nº 6.830/80 (BRASIL, 2018d).

93
UNIDADE 2 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

NOTA

Súmula 323 STF – “É inadmissível a apreensão de mercadorias como meio


coercitivo para pagamento de tributos.”

4 IMUNIDADES TRIBUTÁRIAS
Por disposição constitucional, existem alguns entes e atividades que não
estão sujeitos a tributação, pois são imunes. As imunidades nada mais são do que
a supressão, por disposição constitucional, da competência atribuída aos entes
federados de instituir tributos sobre determinadas pessoas e atividades.

Nas palavras de Amílcar de Araújo Falcão, a imunidade é “uma forma


qualificada ou especial de não incidência, por supressão, na Constituição, da
competência impositiva ou do poder de tributar, quando se configuram certos
pressupostos, situações ou circunstâncias previstas pelo estatuto supremo”
(FALCÃO, 2002, p. 64).

As imunidades previstas no texto constitucional são as dispostas a seguir:

FIGURA 23 – IMUNIDADES CONSTITUCIONAIS

Recíproca/entidades políticas
Art. 150, VI, 'a' da CF S
U
B
Templos religiosos
J
Art. 150, VI, 'b' da CF
E
T
Partidos políticos; I
Sindicato de empregado V
Instituições educação e A
assistência social S
Art. 150, VI, 'c' da CF

Imprensa
Art. 150, VI, 'd' da CF

Musical
Art. 150, VI, 'd' da CF

FONTE: O autor

94
TÓPICO 2 | COMPETÊNCIA TRIBUTÁRIA E LIMITES AO PODER DE TRIBUTAR

Nota-se que a Constituição elege dois tipos de imunidades, objetivas e


subjetivas. As primeiras são aquelas destinadas a determinados bens, ou seja,
destinam-se a desonerar determinados objetos da tributação. Já as subjetivas são
aquelas que têm como beneficiários determinadas pessoas jurídicas.

Vamos analisar cada uma delas?

4.1 IMUNIDADE DAS ENTIDADES POLÍTICAS/RECÍPROCA


O postulado da imunidade recíproca está disposto no art. 150, inciso
VI, alínea ‘a’ da Constituição Federal. Busca concretizar o pacto federativo,
viabilizando a “convivência harmônica das entidades políticas componentes
do Estado Federal Brasileiro” (HARADA, 2001, p. 291). No caso da imunidade
recíproca, apesar de o legislador constituinte utilizar o termo impostos, esta
também se estende às demais espécies tributárias (TORRES, 2005, p. 232).

Assim, a União, os Estados, o Distrito Federal, Territórios federais e


Municípios não podem cobrar tributos entre si. A título de exemplo, caso a União
seja proprietária de determinado imóvel urbano em um determinado município, não
estará sujeita ao pagamento de IPTU. Da mesma maneira, o município, ainda que
proprietário de um veículo automotor, estará dispensado do pagamento de IPVA.

Também por determinação constitucional, art. 150, §2º, esta modalidade


de imunidade ainda abrange as autarquias e fundações públicas naquilo que é
essencial ou decorrente desta atividade essencial.

NOTA

Súmula 583 do STF. “Promitente comprador de imóvel residencial transcrito em


nome de autarquia é contribuinte do Imposto Predial e Territorial Urbano.”

Súmula Vinculante 52: “Ainda quando alugado a terceiros, permanece imune ao IPTU o
imóvel pertencente a qualquer das entidades referidas pelo art. 150, VI, "c", da Constituição
Federal, desde que o valor dos aluguéis seja aplicado nas atividades para as quais tais
entidades foram constituídas”.

4.2 IMUNIDADE AOS TEMPLOS DE QUALQUER NATUREZA


A imunidade dos templos religiosos de qualquer natureza está disposta
no art. 150, inciso VI, alínea ‘b’ da Constituição Federal, e busca assegurar a
liberdade religiosa. Exonera a renda, o patrimônio e os serviços de tributação,
desde que decorrentes de suas finalidades essenciais.

95
UNIDADE 2 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

De forma diversa do que se verifica na imunidade recíproca, a imunidade


aos templos religiosos se limita à vedação da cobrança de impostos.

4.3 IMUNIDADE AOS PARTIDOS POLÍTICOS, SINDICATOS


DE EMPREGADOS, ÀS INSTITUIÇÕES DE EDUCAÇÃO E
ENTIDADES DE ASSISTÊNCIA SOCIAL
O art. 150, inciso VI, alínea ‘c’ da Constituição Federal, estabelece
imunidades a certas pessoas jurídicas que, em decorrência das atividades que
desenvolvem, possuem função social e são merecedoras de imunidade.

A imunidade prestada aos partidos políticos visa garantir a liberdade


política, prevista no art. 1º, inciso V da Constituição Federal e o pluralismo
político. A imunidade prevista neste dispositivo constitucional, diferentemente
daquelas estudadas acima, não é autoaplicável, o que significa que os contribuintes
beneficiados devem cumprir certos requisitos. No caso dos partidos políticos,
essa imunidade só poderá ser usufruída desde que tenha seu registro no Tribunal
Superior Eleitoral – TSE.

Também gozam dessa imunidade os sindicatos de empregados. Vale


destacar que o sindicato beneficiado pela imunidade é aquele destinado a
proteger os interesses dos empregados, e não dos empregadores. O propósito
desta proteção constitucional visa proteger a parte hipossuficiente da relação de
trabalho, garantindo direitos sociais previstos no art. 7º da Constituição Federal.

As instituições de educação e ensino e de assistência social, sem fins


lucrativos, também gozam dessa imunidade, que visa a proteção à educação e
ao ensino, direitos previstos nos arts. 203 e 204 (assistência social) 205, 208 e 214
(educação e ensino) da Constituição Federal. Sua justificativa decorre de que não
seria razoável tributar atividade que se equipara ao próprio dever estatal.

NOTA

Súmula 724 – “Ainda quando alugado a terceiros, permanece imune ao IPTU o


imóvel pertencente a qualquer das entidades referidas pelo art. 150, VI, "c", da Constituição,
desde que o valor dos aluguéis seja aplicado nas atividades essenciais de tais entidades.”

96
TÓPICO 2 | COMPETÊNCIA TRIBUTÁRIA E LIMITES AO PODER DE TRIBUTAR

4.4 IMUNIDADE À IMPRENSA


O art. 150, inciso VI, alínea “d”, da Constituição Federal prevê a imunidade
para os impostos que incidem sobre o livro, o jornal, o periódico e o papel destinado
à impressão de tais veículos de pensamento. Tem como propósito proteger a livre
manifestação do pensamento e expressão da atividade intelectual, artística e
científica; da livre comunicação e do irrestrito acesso à informação, direitos esses
fundamentais e previstos no art. 5º incisos IV, IX, XIV, XXVII da Constituição.

A imunidade mencionada também se aplica aos insumos necessários para


a produção dos objetos da imunidade. Neste sentido, já se pronunciou o Supremo
Tribunal Federal, quando editou a Súmula 657, segundo a qual “a imunidade
prevista no art. 150, VI, “d”, da CF abrange os filmes e papéis fotográficos
necessários à publicação de jornais e periódicos”.

4.5 IMUNIDADE MUSICAL


Por fim, a última imunidade prevista constitucionalmente é aquela
disposta no art. 150, inciso VI, alínea “e”, da Constituição Federal. Assim como a
imunidade de imprensa, trata-se de uma desoneração de impostos objetiva, que
incide sobre o objeto de imunidade.

Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte,


é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
(...)
VI – instituir impostos sobre: (...)
e) fonogramas e videofonogramas musicais produzidos no Brasil
contendo obras musicais ou literomusicais de autores brasileiros e/
ou obras em geral interpretadas por artistas brasileiros, bem como
os suportes materiais ou arquivos digitais que os contenham, salvo
na etapa de replicação industrial de mídias ópticas de leitura a laser.
(BRASIL, 2018c)

Esta espécie de imunidade não estava prevista no texto original da


Constituição Federal de 1988, e foi acrescentada pela Emenda Constitucional nº
75/2015. Visa da mesma maneira garantir o acesso à informação e à cultura.

97
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:

• A Constituição Brasileira discriminou expressamente todas as competências
tributárias de cada ente federado – União, Estado, Distrito Federal, Território
Federal ou Município.

• A competência tributária é o poder atribuído a cada ente federado de instituir e


legislar sobre determinado tributo, desde que respeite os limites constitucionais;

• As competências tributárias não são absolutas e irrestritas, mas estão sujeitas


a determinados limites ao poder de tributar, que também estão previstos
constitucionalmente;

• Os limites ao poder de tributação compreendem os princípios tributários e


as imunidades tributárias, são garantias dos contribuintes que devem ser
respeitadas pelos entes federados.

• Entre os princípios constitucionais tributários têm-se os princípios da


legalidade, da irretroatividade, da anterioridade anual e nonagesimal, da
capacidade contributiva e da vedação do confisco.

• As imunidades tributárias podem ser objetivas e subjetivas.

• Dentre as imunidades tributárias, destacam-se: imunidade recíproca,


imunidade religiosa, imunidade destinada aos partidos políticos e às entidades
de assistência social, e a imunidade de imprensa e musical.

98
AUTOATIVIDADE

1 Considere e julgue as afirmativas a seguir, assinalando a CORRETA:

I- Instituição de educação, beneficiária de imunidade tributária, faz jus a


exigir o afastamento do IPI incidente sobre o automóvel que ela vai adquirir
e usar exclusivamente em suas atividades.
II- Instituição de educação, beneficiária de imunidade tributária, que tem
certo imóvel alugado, cuja renda reverte em benefício de suas finalidades,
não está sujeita a pagar IPTU sobre este seu bem, dado em locação.
III- A imunidade constitucional recíproca abrange os entes integrantes da
administração indireta de cada unidade federada.

a) ( ) Apenas as assertivas I e II estão corretas.


b) ( ) Apenas as assertivas II e III estão corretas.
c) ( ) Apenas a assertiva II está correta.
d) ( ) Todas as assertivas são equivocadas.
e) ( ) Apenas a assertiva I está correta.

2 Assinale a alternativa que contém tributos que são exceções aos princípios
da anterioridade nonagesimal, anterioridade anual e legalidade de forma
concomitante:

a) ( ) Imposto sobre importação e Imposto sobre produto industrializado.


b) ( ) Imposto sobre propriedade rural e imposto sobre exportação.
c) ( ) Imposto sobre exportação e Imposto sobre importação.
d) ( ) Imposto de Renda e Imposto sobre circulação de mercadoria e prestação
de serviços.
e) ( ) Imposto sobre operação financeira e Imposto sobre serviços.

3 Assinale a alternativa INCORRETA:

a) ( ) O princípio da irretroatividade veda a cobrança de tributos em relação


a fatos geradores ocorridos antes do início da vigência da lei que os
houver instituído ou aumentado.
b) ( ) Os impostos extrafiscais (II, IE, IPI e IOF) poderão ter alíquotas majoradas
por ato do Poder Executivo, a exemplo do decreto, por serem exceções
ao princípio da legalidade.
c) ( ) O princípio da capacidade contributiva aplica-se sempre e
necessariamente aos impostos.
d) ( ) A imunidade tributária limita o exercício da competência tributária
outorgada pela Constituição Federal.
e) ( ) É defeso à União, Estados, Distrito Federal e Municípios exigir
impostos sobre o patrimônio, renda ou serviços uns dos outros, bem
como das autarquias ou fundações por eles mantidas, no que se refere
ao patrimônio, à renda e aos serviços, vinculados a suas finalidades
essenciais ou as delas decorrente.
99
100
UNIDADE 2 TÓPICO 3

RELAÇÃO JURÍDICA TRIBUTÁRIA

1 INTRODUÇÃO
Caro aluno, estamos chegando ao último tópico desta unidade. Já
superamos estudo sobre o conceito de tributos e sua classificação, bem como
das competências tributárias e dos limites do poder de tributar. Esperamos que
você já tenha compreendido os vários conceitos explanados e que o conteúdo
assimilado se efetive no seu estudo e no seu trabalho.

Agora, passaremos ao estudo dos principais elementos da relação jurídica


tributária, compreendendo a dinâmica desta relação, o surgimento da obrigação
tributária, as formas de extinção, exclusão e suspensão do crédito tributário
e outros aspectos importantes que facilitam o entendimento desta relação
jurídica. Ao final, analisaremos breves conceitos sobre os regimes de tributação e
planejamento fiscal.

2 ELEMENTOS DA RELAÇÃO JURÍDICA TRIBUTÁRIA


A relação jurídica tributária se mostra como um liame entre dois sujeitos,
de um lado o contribuinte (sujeito passivo) e de outro o ente tributante (sujeito
ativo), em que o primeiro, após realizar o fato tributável (fato gerador), previsto
em abstrato na norma (hipótese de incidência), fica obrigado (obrigação tributária)
a realizar o pagamento do tributo (crédito tributário) ao ente tributante, após a
sua constituição (lançamento tributário).

101
UNIDADE 2 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

FIGURA 24 – LINHA TEMPORAL DA RELAÇÃO JURÍDICA TRIBUTÁRIA

RELAÇÃO JURÍDICA TRIBUTÁRIA

Hipótese de Fato Obrigação Crédito


Incidência gerador tributária Tributário

Sujeito;
Objeto Lançamento
Causa
FONTE: O autor

Vamos analisar cada um desses itens?

2.1 HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA E FATO GERADOR


A hipótese de incidência como elemento componente da relação jurídica
tributária representa a descrição, de forma abstrata, do fato passível de tributação
que, se for concretizado, viabiliza o surgimento da obrigação tributária.

O professor Paulo de Barros Carvalho (CARVALHO, 2012), aprofundando


o tema da hipótese de incidência tributária, estabelece a regra matriz de incidência
tributária, que auxilia o entendimento das hipóteses de incidência previstas na
legislação. Pode ser sintetizado no gráfico a seguir:

FIGURA 25 – REGRA MATRIZ DE INCIDÊNCIA TRIBUTÁRIA

Critério Material Como? Sujeito Ativo

HIPÓTESE Critério Temporal Quando? Sujeito Passivo

REGRA MATRIZ Critério Espacial Onde?


DE INCIDÊNCIA
TRIBUTÁRIA
Critério Pessoal Quem? Base de cálculo
CONSEQUÊNCIA
Critério
Quanto? Alíquota
Quantitativo
FONTE: O autor

O fato gerador, por sua vez, consiste na “materialização da hipótese de


incidência, representando o momento concreto de sua realização, que se opõe à
abstração do paradigma legal que o antecede” (ATALIBA, 2002, p. 68).

Para melhor compreensão, tomemos um exemplo. O IPTU, imposto de


competência municipal, tem como hipótese de incidência ser proprietário de
102
TÓPICO 3 | RELAÇÃO JURÍDICA TRIBUTÁRIA

imóvel urbano. Enquanto o contribuinte não concretizar ou materializar esse


fato eleito pelo legislador como passível de tributação, teremos a hipótese de
incidência. Quando, porém, o contribuinte se tornar proprietário efetivo de
imóvel urbano, estará caracterizada a ocorrência do fato gerador deste imposto, o
que gerará o nascimento da obrigação tributária.

O quadro a seguir sintetiza a diferença entre esses dois itens componentes


da relação jurídica tributária:

FIGURA 26 – DIFERENÇA HI E FG

Hipótese de
Hipótese de Fato Gerador
Incidência Fato Gerador
Incidência IPTU
IPTU

Ser proprietário Ser proprietário


ABSTRATO de imóvel CONCRETO de imóvel
urbano urbano

FONTE: O autor

Desta forma, os dois elementos se referem ao mesmo fato jurídico,


diferenciando-se, tão somente, quanto ao tempo em que estes elementos surgem.
Enquanto a hipótese de incidência surge de forma concomitante à lei, que
descreve o fato imponível tributário de forma abstrata, o fato gerador exsurge
com a materialização, no mundo fenomênico, dessa mesma base imponível.

A doutrina jurídica ainda classifica os fatos geradores em diversas


modalidades, conforme quadro a seguir:

FIGURA 27 – ESPÉCIES DE FATOS GERADORES

Sua realização se dá de forma


Contínuos
duradoura e estável no tempo

MODALIDADES
Sua realização ocorre ao
FATOS Complexos
longo de determinado período
GERADORES

Se inicia e se completa em
Instantâneos
um só instante

FONTE: O autor

Os artigos 114 e 115 do Código Tributário Nacional ainda definem os fatos


geradores das obrigações principal e acessória.

103
UNIDADE 2 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

Art. 114. Fato gerador da obrigação principal é a situação definida em


lei como necessária e suficiente à sua ocorrência.

Art. 115. Fato gerador da obrigação acessória é qualquer situação que,


na forma da legislação aplicável, impõe a prática ou a abstenção de ato que não
configure obrigação principal.

2.2 OBRIGAÇÃO TRIBUTÁRIA


Após a ocorrência do fato gerador, ou seja, da realização concreta da
hipótese de incidência, surge a obrigação tributária que, como qualquer outra
obrigação jurídica, é composta de: sujeitos, objeto e causa.

2.2.1 Sujeitos da obrigação tributária


São dois os sujeitos da obrigação tributária. De um lado, tem-se o sujeito
ativo, detentor da competência tributária, ou seja, o ente federado credor. Nesta
linha dispõe o art. 119 do Código Tributário Nacional: “Sujeito ativo da obrigação
é a pessoa jurídica de direito público titular da competência para exigir o seu
cumprimento” (BRASIL, 2018b).

Os sujeitos ativos da obrigação tributária ainda se subdividem em diretos


e indiretos, sendo sujeitos ativos diretos os próprios entes federados tributantes,
e indiretos as entidades parafiscais, que detêm capacidade tributária ativa.

Do outro lado tem-se a figura do sujeito passivo, devedor da obrigação


tributária, ou seja, aquele que deve levar dinheiro aos cofres públicos ou realizar
a obrigação acessória descrita na lei. O Código Tributário Nacional estabelece no
art. 121 duas espécies de sujeito passivo: contribuinte e responsável.

FIGURA 28 – SUJEITOS PASSIVOS

Contribuinte
IPTU - proprietário do imóvel
Art. 121, I CTN
SUJEITO
PASSIVO IRPF - Empresa que recolhe de forma antecipada o IR
Responsável
sobre os rendimentos recebidos pelos seus funcionários,
Art. 121, II CTN
verdadeiros contribuintes.
FONTE: O autor

Art. 121. Sujeito passivo da obrigação principal é a pessoa obrigada ao


pagamento de tributo ou penalidade pecuniária.
Parágrafo único. O sujeito passivo da obrigação principal diz-se:

104
TÓPICO 3 | RELAÇÃO JURÍDICA TRIBUTÁRIA

I- contribuinte, quando tenha relação pessoal e direta com a situação que


constitua o respectivo fato gerador;

II- responsável, quando, sem revestir a condição de contribuinte, sua obrigação


decorra de disposição expressa de lei.

Importante mencionar que, assim como a competência tributária é


indelegável, o sujeito passivo não pode se esquivar do pagamento do tributo,
alegando a convenção realizada com outro particular, que não seja caracterizado
como contribuinte. Por exemplo, o proprietário de um imóvel, que o alugue a
terceiros, não poderá se esquivar da responsabilidade pelo pagamento da exação
tributária, transferindo a responsabilidade ao locatário.

2.2.2 Responsabilidade tributária


Como visto, nem sempre o contribuinte se caracterizará como sujeito
passivo da obrigação, podendo a lei delegar a terceiro, no caso o responsável, a
obrigação de realizar o recolhimento do tributo devido.

Essa responsabilidade pode ocorrer de diversas maneiras, a depender do


caso concreto. A doutrina jurídica classifica a responsabilidade tributária em duas
principais modalidades, que se subdividem em outras modalidades, conforme
exposto a seguir.

FIGURA 29 – MODALIDADES DE RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA

RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA
RESPONSABILIDADE
REGRESSIVA
SUBSTITUIÇÃO TRANSFERÊNCIA SUCESSÃO
SUPRESSIVA
SOLIDARIEDADE

FONTE: O autor

Nos casos de responsabilidade por substituição, o que ocorre é que a


legislação, antes mesmo da ocorrência do fato gerador, já estipula que um terceiro
(e não o contribuinte) será responsável pelo recolhimento do tributo.

Essa substituição pode ocorrer de maneira regressiva, quando o


recolhimento do tributo ocorre de maneira diferida ou postergada, como ocorre,
por exemplo, na cadeia produção de alimentos. Como são vários agricultores que
fornecem a matéria-prima para o industrial, este último é eleito pela legislação
como responsável, o que facilita, em grande parte, a fiscalização pelo Fisco.

105
UNIDADE 2 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

Já na substituição progressiva, ocorre o pagamento antecipado do tributo


sobre toda cadeia produtiva, como na produção de veículos automotores em
relação ao pagamento de ICMS.

A responsabilidade por transferência, por sua vez, ocorre em situações


em que o fato gerador já se concretizou, ou seja, apesar de o contribuinte ter
sido quem deu ensejo ao fato gerador, a lei transfere a obrigação tributária a
terceiro. Essa modalidade se subdivide em outras três categorias, quais sejam:
transferência por responsabilidade, transferência por sucessão ou transferência
por solidariedade.

A transferência por responsabilidade ocorre em situações em que o


responsável eleito pela legislação tem dever legal ou contratual para com
o patrimônio do contribuinte, como ocorre no caso dos pais em relação ao
patrimônio dos filhos incapazes.

A transferência por sucessão ocorre em situações em que, havendo o


desaparecimento do devedor original, a responsabilidade se transfere para
terceiro em relação ao seu vínculo. Como exemplo, pode-se citar as empresas
que realizam operação de fusão, transformação, incorporação e cisão, ou ainda,
no caso do espólio em relação aos débitos tributários deixados pelo falecido. Em
ambas as situações, o devedor principal desparece e surge um novo responsável
pelo pagamento dos tributos.

Art. 134. Nos casos de impossibilidade de exigência do cumprimento da


obrigação principal pelo contribuinte, respondem solidariamente com este nos
atos em que intervierem ou pelas omissões de que forem responsáveis:

I- os pais, pelos tributos devidos por seus filhos menores;


II- os tutores e curadores, pelos tributos devidos por seus tutelados ou
curatelados;
III- os administradores de bens de terceiros, pelos tributos devidos por estes;
IV- o inventariante, pelos tributos devidos pelo espólio;
V- o síndico e o comissário, pelos tributos devidos pela massa falida ou pelo
concordatário;
VI- os tabeliães, escrivães e demais serventuários de ofício, pelos tributos
devidos sobre os atos praticados por eles, ou perante eles, em razão do seu
ofício;
VII- os sócios, no caso de liquidação de sociedade de pessoas.

Parágrafo único. O disposto neste artigo só se aplica, em matéria de penalidades,


às de caráter moratório.

Finalmente, a transferência por solidariedade decorre do disposto no


art. 124 do Código Tributário Nacional, o qual determina que as pessoas com
interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal

106
TÓPICO 3 | RELAÇÃO JURÍDICA TRIBUTÁRIA

e em outras situações designadas expressamente na lei responderão de forma


solidária. Isto significa que o ente federado poderá exigir o tributo diretamente
do terceiro, sem antes ter que acionar o devedor principal. Ao contrário da
responsabilidade solidária, tem-se a responsabilidade subsidiária, que comporta
benefício de ordem, ou seja, primeiro o devedor principal é acionado, e só depois
o responsável subsidiário pode ser acionado.

2.2.3 Objeto e causa da obrigação tributária


O Código Tributário Nacional, no art. 113, §§1º e 2º, estabelece a existência
de duas modalidades de obrigação tributária: principal e acessória.

FIGURA 30 – OBRIGAÇÕES TRIBUTÁRIAS

Principal
Obrigação de pagar
Art. 113, §1 CTN
OBRIGAÇÃO
TRIBUTÁRIA
Acessória
Obrigação de fazer
Art. 113, §1 CTN

FONTE: O autor

Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória.


§ 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto
o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extingue-se juntamente com
o crédito dela decorrente.
§ 2º A obrigação acessória decorre da legislação tributária e tem por objeto as
prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação
ou da fiscalização dos tributos.
§ 3º A obrigação acessória, pelo simples fato da sua inobservância, converte-se
em obrigação principal relativamente à penalidade pecuniária.

Assim, toda a obrigação tributária que implique o dever de pagar será


principal, enquanto a obrigação de realizar determinado ato, como o de prestar
informações ao fisco, se caracterizará como obrigação acessória.

A título de exemplo, o contribuinte que aufere renda deverá realizar o


pagamento do tributo na forma da lei (obrigação principal), bem como deverá ao
final de cada ano-calendário realizar a declaração de imposto de renda, ou seja,
prestar informações ao fisco (obrigação acessória).

Neste viés, pode ocorrer que a não realização de uma obrigação


acessória se transforme em uma obrigação principal. No exemplo citado, caso
o contribuinte não preste as informações ao fisco (obrigação acessória), ficará
sujeito ao pagamento de multa (obrigação principal).
107
UNIDADE 2 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

3 LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO
Seguindo a linha temporal da relação jurídica tributária, após o surgimento
da obrigação tributária, o ente competente deve constituir seu crédito tributário
através de um procedimento administrativo denominado lançamento. Noutros
termos, o sujeito ativo, tendo conhecimento da ocorrência do fato gerador, deve
se valer do lançamento para constituir o crédito tributário.

Através desse ato administrativo, o sujeito ativo, identifica a ocorrência do


fato gerador, o momento em que este se realizou, o local/espaço, o sujeito passivo
da obrigação e os demais critérios quantitativos consequentes ocorrência do fato
gerador, ou seja, a base de cálculo e a alíquota incidente na operação, realizando
assim o lançamento tributário e constituindo o crédito tributário.

O Código Tributário Nacional estabelece no art. 142:

Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o


crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento
administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da
obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o
montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso,
propor a aplicação da penalidade cabível.

O lançamento tributário sempre deverá se reportar à data de ocorrência


do fato gerador, conforme dicção do art. 144 do Código Tributário Nacional,
aplicando-se as disposições legislativas da lei vigente à época do fato gerador.

Vamos verificar como na prática esse lançamento ocorre? A seguir mostra-


se exemplo de um lançamento tributário de IPTU, do Município de São Paulo:

FIGURA 31 – EXEMPLO DE LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO


Critério Temporal

Critério Pessoal

Critério Material

Critério Espacial

Critério
Quantitativo
FONTE: <https://web1.sf.prefeitura.sp.gov.br/CartelaIPTU/>. Acesso em: 29 ago. 2018.

108
TÓPICO 3 | RELAÇÃO JURÍDICA TRIBUTÁRIA

Contudo, em alguns casos, o lançamento não é realizado pelo sujeito


ativo, mas pelo próprio contribuinte, como ocorre, por exemplo, no lançamento
por declaração. As modalidades de lançamento previstas na legislação tributária
são: por ofício, por declaração e por homologação.

FIGURA 32 – MODALIDADES DE LANÇAMENTO

POR DECLARAÇÃO
ART. 147 CTN

Modalidades de POR HOMOLOGAÇÃO


Lançamento ART. 150 CTN

POR OFÍCIO
ART. 142 CTN

FONTE: O autor

No lançamento por ofício, o ente estatal reúne todos os elementos


necessários para então realizar o referido ato administrativo, informando o
contribuinte do lançamento efetuado, como ocorre, por exemplo, no IPTU.

No lançamento por declaração, por sua vez, o contribuinte é que presta


as informações à autoridade fiscal, para que esta realize análise das informações
prestadas e, posteriormente, o lançamento.

Por fim, no lançamento por homologação, a participação do sujeito


passivo é muito mais efetiva. Além de prestar informações à autoridade fiscal, o
contribuinte deve realizar o pagamento antecipado do tributo, independentemente
da análise pela administração pública.

Essa homologação deve ocorrer no prazo máximo de 5 (cinco) anos, sendo


que, ultrapassado esse período, será considerada realizada a homologação tácita,
nos moldes do art. 150 §4º do Código Tributário Nacional. Exemplo da hipótese
de lançamento por homologação ocorre com o Imposto de Renda Pessoa Física,
em que o contribuinte presta as informações ao fisco federal, paga o tributo e fica
sujeito à homologação por parte da autoridade fiscal.

4 CRÉDITO TRIBUTÁRIO
Permanecendo na linha temporal traçada no início desse tópico, realizado
o lançamento tributário, exsurge o crédito tributário. Com a constituição do
crédito tributário, a obrigação torna-se exigível pelo credor em face do devedor,
na medida em que define, de forma concreta, as consequências qualitativas
e quantitativas da regra-matriz de incidência tributária. Os arts. 139 a 141 do
Código Tributário Nacional regulam a matéria atinente ao crédito tributário.

109
UNIDADE 2 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

4.1 SUSPENSÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO


Apesar de, com o lançamento tributário do crédito se tornar exigível, a legislação
tributária estabelece situações que implicam a suspensão da exigibilidade deste crédito.
Justamente por se tratar de suspensão da exigibilidade é pressuposta a constituição do
referido crédito tributário. Acionando uma dessas causas suspensivas, o fisco deverá
aguardar o exaurimento desta para continuar a realizar a cobrança do tributo. Portanto,
as causas de suspensão atuam em momento posterior ao lançamento.

Essas hipóteses estão previstas no art. 151, incisos I a VI do Código Tributário


Nacional. O gráfico abaixo demonstra as hipóteses de descrição prevista na lei:

FIGURA 33 – HIPÓTESES DE SUSPENSÃO

Hipóteses de suspensão

Depósito do seu As reclamações e os


montante integral; recursos administrativos
Art. 151, II do CTN Art. 151, III do CTN

Liminar ou tutela
Moratória
antecipada judicial
Art. 151, I do CTN
Art. 151, IV e V do CTN

Parcelamento
Art. 151, VI do CTN

FONTE: O autor

A moratória significa a dilação do prazo de pagamento do tributo, mediante


lei, concedido pela Fazenda Pública, ou seja, a postergação do prazo de pagamento.

O depósito do montante integral é a alternativa dada ao contribuinte, para


que, querendo discutir a exigibilidade de determinado crédito tributário, realize
o montante devido, afastando juros e correção e que, ao final do julgamento,
poderá ser convertido em renda, ou não, a depender da solução alcançada. Essa
discussão pode ocorrer na via administrativa ou na via judicial.

Os recursos administrativos buscam concretizar os princípios de


contraditório e ampla defesa, direito fundamental previsto no art. 5º, inciso LV
da Constituição Federal. Assim, o contribuinte que não esteja satisfeito com o
lançamento efetuado em seu desfavor poderá impugná-lo administrativamente.

A concessão de medida liminar, em mandado de segurança ou de tutela


antecipada, em outra ação judicial, refere-se à decisão judicial, que determina a
suspensão da exigibilidade do crédito tributário até a decisão definitiva pelo Poder

110
TÓPICO 3 | RELAÇÃO JURÍDICA TRIBUTÁRIA

Judiciário. Por fim, o parcelamento é modalidade que possibilita o pagamento a


prazo do tributo devido.

4.2 EXCLUSÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO


Além das causas de suspensão, existem situações que ocasionam a
exclusão do crédito tributário, quais sejam: a anistia e isenção. Diferentemente
das causas de suspensão do crédito tributário, as causas de exclusão têm atuação
em momento anterior ao lançamento tributário.

Estas situações estão previstas no art. 175 do Código Tributário Nacional.

FIGURA 34 – HIPÓTESES DE EXCLUSÃO

Hipóteses de exclusão

Anistia Isenção
Art. 175, II do CTN Art. 175, I do CTN

FONTE: O autor

A anistia consiste, basicamente, no perdão de penalidades pecuniárias,


concedido por lei, operando efeitos retrospectivos. Essa benesse oferecida ao
contribuinte não gera direito adquirido e pode ser revogada a qualquer momento.

Já a isenção consiste na desoneração tributária que atinge a obrigação


principal (de pagar), mas que mantém incólume o dever de prestar as obrigações
acessórias, se assemelha às imunidades previstas constitucionalmente, todavia,
ocorre no plano infraconstitucional.

É bom destacar que existem algumas isenções que são proporcionadas


pelos entes federados, mas que exigem determinada contrapartida por parte do
contribuinte, são chamadas de isenções onerosas e não podem ser revogadas a
qualquer tempo, pois devem respeitar as condições expostas na lei que institui
a referida causa de exclusão. Aquelas não onerosas, por sua vez, podem ser
revogadas a qualquer tempo, art. 178 do Código Tributário Nacional.

NOTA

Art. 178 - A isenção, salvo se concedida por prazo certo e em função de


determinadas condições, pode ser revogada ou modificada por lei, a qualquer tempo,
observado o disposto no inciso III do art. 104.  

111
UNIDADE 2 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

Sobre a isenção, deve respeitar os limites da competência tributária


definidos na Constituição Federal, em outras palavras, é vedada a concessão
de isenção heterônoma, ou seja, concedida por outra entidade política que não
seja aquela detentora da competência tributária. Tal regra visa preservar o pacto
federativo e a autonomia de cada um dos entes.

4.3 EXTINÇÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO


Além das causas de suspensão e exclusão, existem situações que
ocasionam a extinção do crédito tributário. Tais causas estão relacionadas no art.
156 do Código Tributário Nacional, conforme exposto a seguir:

FIGURA 35 – HIPÓTESES DE EXTINÇÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO

Hipótese de extinção

Pagamento Transação
Art. 156, I do CTN Art. 156, III do CTN

Compensação Remissão
Art. 156, II do CTN Art. 156, IV do CTN

Prescrição e Decadência Conversão


Art. 156, V do CTN Art. 156, VI do CTN

Consignação em
Pagamento antecipado
Pagamento
Art. 156, VII do CTN
Art. 156, VIII do CTN

Decisão Administrativa Decisão judicial


Art. 156, IX do CTN Art. 156, X do CTN

Doação em Pagamento
Art. 156, XI do CTN

FONTE: O autor

As causas de extinção põem fim ao objeto da relação jurídica tributária,


ou seja, a obrigação chega ao fim. Vamos analisar cada uma dessas causas? A
primeira delas é o pagamento e não exige maior aprofundamento, pois trata-
se simplesmente da situação em que o contribuinte leva aos cofres públicos a
quantia exigida.
112
TÓPICO 3 | RELAÇÃO JURÍDICA TRIBUTÁRIA

A compensação está prevista no art. 170 do Código Tributário Nacional. O


referido dispositivo não estabelece as condições da compensação, simplesmente
estabeleceu, genericamente, sua possibilidade, deixando a cargo do legislador
ordinário a função de discriminar as hipóteses de compensação, como realizado
no art. 74 da Lei nº 9.430/96. Esse instituto possibilita que o contribuinte detentor
de crédito possa compensar com débitos tributários, desde que tais quantias se
refiram a tributos do mesmo âmbito de competência tributária, ou seja, municipal,
estadual ou federal.

Outra modalidade de extinção do crédito tributário é a transação que


se refere ao negócio jurídico, que dois sujeitos de uma dada obrigação decidem
extingui-la, mediante concessões recíprocas, pondo fim ao objeto da obrigação
(PEREIRA, 2011, p. 74, 75). Tal situação é raramente utilizada, na medida em que
não fica a critério da Procuradoria da Fazenda Pública estabelecer as condições
da transação. Na verdade, a definição dessas condições depende de lei, haja vista
que são direitos indisponíveis.

A remissão se refere ao perdão concedido pelo ente federado competente,


se aplica às obrigações principais, mas só poderá ser instituída se caracterizada uma
das situações previstas no art. 172, quais sejam: I - à situação econômica do sujeito
passivo; II - ao erro ou ignorância excusáveis do sujeito passivo, quanto a matéria
de fato; III - à diminuta importância do crédito tributário; IV - a considerações de
equidade, em relação com as características pessoais ou materiais do caso; V - a
condições peculiares a determinada região do território da entidade tributante.

A conversão em moeda refere-se àqueles casos em que o contribuinte,


por alguma razão, decide realizar o depósito administrativo ou judicial para
impugnar ou discutir o débito, evitando a cobrança de multas e, ao final,
continuando devido o tributo, o montante depositado é convertido em renda em
favor do ente tributante.

O pagamento antecipado refere-se àquelas hipóteses em que o lançamento


do tributo ocorre por homologação, de modo que o contribuinte, além de prestar
as informações ao fisco, realiza o pagamento antecipado do tributo. É claro que
esse pagamento não elimina a possibilidade de apontamentos de divergências
por parte da autoridade fiscal e a realização de revisão do lançamento, de ofício.

A consignação em pagamento consiste na medida judicial na qual o sujeito


passivo, tendo o seu pagamento recusado pelo sujeito ativo, ou ainda, sendo
cobrado, de forma simultânea, por dois entes federados, sobre o mesmo fato,
realiza o depósito em juízo, até que o Poder Judiciário ordene o recebimento do
tributo pelo ente competente. Situação muito comum ocorre com contribuintes
que, morando em regiões limítrofes de municípios, acabam por ser cobrados por
ambos os municípios em relação ao IPTU.

A decisão administrativa ou a decisão transitada em julgado têm o mesmo


pressuposto, ou seja, que não pode mais ser alterada, salvo hipóteses específicas

113
UNIDADE 2 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

previstas na legislação. Desta forma, para o contribuinte que obtiver julgamento


judicial ou na esfera administrativa de forma procedente, o crédito tributário
estará extinto, ou seja, não será mais exigível pelo ente tributante.

A dação em pagamento ocorre quando o contribuinte dá em pagamento


algum bem para a quitação do crédito tributário. Essa modalidade de extinção
se limita à dação de bens imóveis, não sendo estendida a bens móveis. Desta
forma, o contribuinte pode dar uma casa para quitar o débito tributário, mas
jamais poderá realizar a mesma operação oferecendo um automóvel.

Finalmente, as últimas modalidades de extinção do crédito tributário


consistem na prescrição e na decadência. Tais modalidades são muito semelhantes,
pois decorrem da inércia da Fazenda Pública em exigir o pagamento do tributo.
Apesar das semelhanças, tais institutos não se confundem.

A decadência opera-se antes do lançamento tributário, ou seja, consiste


“na perda do direito de efetuar o lançamento tributário após transcorridos cinco
anos do fato gerador” (PEREIRA, 2011, p. 75). Já a prescrição opera-se após o
lançamento e “é o fato jurídico que implica a perda do direito de ajuizamento da
ação de execução fiscal” (SABBAG, 2017, s.p.).

Esta figura auxilia no entendimento desses dois institutos:

FIGURA 36 – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA

DECADÊNCIA PRESCRIÇÃO

5 anos 5 anos

Prazo final para Cobrança


Data do fato gerador Lançamento
efetuar o pagamento judicial

FONTE: O autor

Note-se que enquanto a decadência está relacionada ao direito do ente


federado de lançar o tributo, a prescrição se relaciona com o direito de esse
mesmo ente, após o lançamento – se efetuado dentro do prazo decadencial –
cobrar judicial por tal tributo.

As regras de contagem desse prazo quinquenal estão previstas nos arts.


173, 174 e 150 §4º do Código Tributário Nacional.

114
TÓPICO 3 | RELAÇÃO JURÍDICA TRIBUTÁRIA

Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário


extingue-se após 5 (cinco) anos, contados:
I - do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia
ter sido efetuado;
II - da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por
vício formal, o lançamento anteriormente efetuado.
Parágrafo único. O direito a que se refere este artigo extingue-se
definitivamente com o decurso do prazo nele previsto, contado da data em
que tenha sido iniciada a constituição do crédito tributário pela notificação,
ao sujeito passivo, de qualquer medida preparatória indispensável ao
lançamento.

Art. 174. A ação para a cobrança do crédito tributário prescreve em cinco anos,
contados da data da sua constituição definitiva.

Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja
legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem
prévio exame da autoridade administrativa, opera-se pelo ato em que a referida
autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado,
expressamente a homologa.
[...]
§ 4º Se a lei não fixar prazo à homologação, será ele de cinco anos, a contar da
ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se
tenha pronunciado, considera-se homologado o lançamento e definitivamente
extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação.

5 CERTIDÃO DE DÍVIDA ATIVA E EXECUÇÃO FISCAL


Caro aluno, após estudarmos as regras para a criação e a constituição
do tributo, o questionamento que pode ocorrer é o seguinte: e se o fisco fizer o
lançamento tributário e o contribuinte não realizar o pagamento do tributo, o que
ocorrerá?

Esta pergunta será respondida ao estudarmos sobre a Certidão de Dívida


Ativa – CDA e do processo de execução fiscal.

Realizado o lançamento e não realizado o pagamento do tributo pelo


contribuinte, a Fazenda Pública deve realizar a inscrição do crédito tributário
na dívida ativa. Tal procedimento é necessário para que o ente federado credor
possa realizar a cobrança judicial do montante não pago pelo contribuinte. É
através desse procedimento que a Fazenda Pública obtém um título executivo
extrajudicial que pode ser executado, ou seja, cobrado judicialmente, pois, a partir
de então, se torna certo, líquido e exigível.

115
UNIDADE 2 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

O art. 202 do Código Tributário estabelece os requisitos mínimos e


essenciais que esse título deve conter:

Art. 202. O termo de inscrição da dívida ativa, autenticado pela


autoridade competente, indicará obrigatoriamente:
I - o nome do devedor e, sendo o caso, o dos corresponsáveis, bem
como, sempre
que possível, o domicílio ou a residência de um e de outros;
II - a quantia devida e a maneira de calcular os juros de mora acrescidos;
III - a origem e natureza do crédito, mencionada especificamente a
disposição da
lei em que seja fundado;
IV - a data em que foi inscrita;
V - sendo caso, o número do processo administrativo de que se
originar o crédito.
Parágrafo único. A certidão conterá, além dos requisitos deste artigo, a
indicação do livro e da folha da inscrição (BRASIL, 2018).

O não preenchimento desses requisitos mínimos gera a nulidade do


referido título, conforme prevê o art. 203 do Código Tributário. A seguir,
apresenta-se um modelo de certidão de dívida ativa, no qual se destacam os itens
mínimos previstos no artigo citado.

116
TÓPICO 3 | RELAÇÃO JURÍDICA TRIBUTÁRIA

FIGURA 37 – EXEMPLO DE CDA

FONTE: <http://legislacao.sef.sc.gov.br/html/portarias/1995/port_95_537.htm>.
Acesso em: 29 ago. 2018.

117
UNIDADE 2 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

Realizada devidamente a inscrição em dívida ativa do crédito tributário,


a Fazenda Pública poderá realizar cobrança judicial para satisfazê-lo. O
procedimento a ser seguido pelo Poder Judiciário difere daquele utilizado na
cobrança de dívidas entre particulares, já que existe legislação específica, qual
seja, a Lei nº 6.830/80, a denominada Lei de Execuções Fiscais (BRASIL, 2018).

6 REGIMES DE TRIBUTAÇÃO
No sistema tributário brasileiro existem basicamente três sistemas ou
regimes de apuração de tributos. Esses sistemas de apuração são: Simples
Nacional, Lucro Presumido e Lucro Real, conforme exposto a seguir.

FIGURA 38 – FORMAS DE APURAÇÃO DE TRIBUTOS

SISTEMAS DE TRIBUTAÇÃO

LUCRO PRESUMIDO LUCRO REAL


SIMPLES NACIONAL
Lei nº. 9430/96 Lei nº. 9430/96
Lei º. 136/06
Art. 35 Art. 2º

FONTE: O autor

O sistema de lucro real é o sistema utilizado como regra geral para


apuração do Imposto de Renda Pessoa Jurídica – IRPJ e da Contribuição Social
sobre o Lucro Líquido – CSLL. É aquele de maior complexidade contábil, na
medida em que exige que a empresa, através de uma contabilidade detalhada,
alcance o lucro realmente obtido e passível de tributação. Está regulado na Lei nº
9.430/96 e no Decreto nº 3.000/99, dentre outras leis.

Tais tributos possuem a mesma base de cálculo e para alcançá-la faz-se
necessária a realização da contabilização por intermédio de um instrumento
denominado Demonstração do Resultado Líquido – DRE. Somente através desse
procedimento se alcançará o lucro líquido tributável, que após adições e exclusões
permitidas pela legislação, formará a base de cálculo de tais tributos. Noutros
termos, “o lucro real é o resultado contábil (receitas menos os custos e despesas)
ajustado pelas adições e exclusões” (CHAVES, 2010, p. 14).

Note que, neste sistema, a contabilidade exerce um papel fundamental
para a tributação adequada e correta. Apesar de ser a regra no sistema de
apuração de tributos, tal regime não é obrigatório para todas as empresas, sendo
utilizado, especialmente por empresas de grande porte, geralmente sociedades
anônimas, nos moldes da Lei nº 6.404/76.

O regime de lucro presumido é menos complexo do ponto de vista
contábil, na medida em que a apuração Imposto de Renda Pessoa Jurídica – IRPJ e

118
TÓPICO 3 | RELAÇÃO JURÍDICA TRIBUTÁRIA

da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL ocorre de forma presumida.


Na prática, o que ocorre é a aplicação de um percentual, que varia de 1,6% a 32%,
a depender da atividade econômica exercida pela empresa, e que incide sobre a
receita bruta auferida pela empresa. A aplicação desse percentual sobre a receita
bruta formará a base de cálculo sobre a qual incidirá a alíquota dos tributos
mencionados.

Não são todas as empresas que podem aderir a esse sistema, sendo limitado
às empresas que auferem receita bruta anual até o limite de R$ 78.000.000,00
(setenta e oito milhões de reais) anuais.

Por fim, o outro regime de apuração é o Simples Nacional, previsto da


Lei Complementar nº 123/06, que busca dar tratamento diferenciado às micro e
pequenas empresas, efetivando a proteção constitucional dada a essas empresas,
conforme previsão dos arts. 170, IX, e 179 da Constituição Federal.

Sua sistemática de apuração consiste na aplicação de uma alíquota sobre a


receita bruta auferida mensalmente pela empresa. As alíquotas estão previstas nos
anexos da lei complementar e conjugam proximamente sete tributos (IRPJ, PIS,
COFINS, CSLL, INSS Patronal, ISS ou ICMS). Os anexos variam de acordo com
a atividade desenvolvida pela empresa. A empresa optante por esta modalidade
não poderá ultrapassar o faturamento anual de R$ 4.800.000,00 (quatro milhões e
oitocentos mil reais).

7 PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO
A diversidade de tributos e de regimes de apuração previstos na legislação
brasileira impõe aos contribuintes, tanto pessoas físicas como jurídicas, um estudo
atento e detalhado das atividades que desenvolvem e da legislação tributária que
lhes afeta.

O direito de o contribuinte pagar menos tributo, por intermédio de


planejamento tributário, não é apenas um direito garantido na Constituição Federal,
mas também um dever legal do administrador, conforme determinado pelo artigo
153 da Lei no 6.404/1976. “Art. 153. O administrador da companhia deve empregar,
no exercício de suas funções, o cuidado e diligência que todo homem ativo e probo
costuma empregar na administração dos seus próprios negócios.”

De acordo com Sillos (2005, p. 10), o planejamento refere-se ao “conjunto
de procedimentos adotados pelo contribuinte com o objetivo de eliminar, reduzir
ou diferir para momento mais oportuno a incidência de tributos”.

Há, contudo, certos limites que não podem ser ultrapassados pelo
contribuinte. Esses limites não se apresentam na legislação de forma tão objetiva,
todavia, a diferença entre os conceitos evasão e elisão fiscal ajuda na compreensão
adequada desses limites, conforme a figura a seguir:

119
UNIDADE 2 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

FIGURA 39 – DIFERENÇA ENTRE ELISÃO E EVASÃO FISCAL

LIMITES PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO

ELISÃO FISCAL EVASÃO FISCAL

É a prática que contraria a lei,


É a economia tributária resultante
geralmente com etida após a ocorrência
da adoção de alternativa legal
do fato gerador, objetivando ocultar ou
menos onerosa ou de lacuna da lei
sonegar o pagamento do tributo

FONTE: O autor

Nota-se que um dos limites do planejamento tributário é a própria


legalidade, ou seja, o agir em conformidade com o que está previsto na lei. De
forma prática, Chaves (2010,epub) relaciona cinco etapas para a realizar um
planejamento tributário adequado:

1) fazer um levantamento histórico da empresa, identificando a origem de todas


as transações efetuadas, e escolher a ação menos onerosa para os fatos futuros;
2) verificar a ocorrência de todos os fatos geradores dos tributos pagos e analisar
se houve cobrança indevida ou recolhimento a maior;
3) verificar se houve ação fiscal sobre fatos geradores decaídos, pois os créditos
constituídos após cinco anos são indevidos;
4) analisar, anualmente, qual a melhor forma de tributação do Imposto de Renda
e da contribuição sobre o lucro, calculando de que forma (real ou presumida)
a empresa pagará menos tributos;
5) levantar o montante dos tributos pagos nos últimos cinco anos, para identificar
se existem créditos fiscais não aproveitados pela empresa.

Assim, o planejamento tributário é uma ferramenta que exige variedade


de conhecimentos, e que exige a participação de profissionais de áreas diversas,
especialmente, administradores, contabilistas e advogados, que unindo esses
conhecimentos devem almejar a melhor condição tributária para as empresas,
diminuindo o risco de passivos tributários e aumentando o percentual de redução
dos custos tributários.

120
TÓPICO 3 | RELAÇÃO JURÍDICA TRIBUTÁRIA

LEITURA COMPLEMENTAR

RESPONSABILIDADE DE ADMINISTRADORES
POR TRIBUTOS: ATENÇÃO

Vladimir Veronese
Vinicius S. C. Domingos

Desde a edição do Código Tributário Nacional, há mais de 50 anos, as


hipóteses de responsabilização de terceiros na cobrança do crédito tributário não
sofreram qualquer alteração. Especificamente com relação ao artigo 135 do CTN,
a aplicação das suas disposições deveria ser sempre em caráter extraordinário,
uma vez que se trata de medida punitiva em face de indivíduos que pratiquem
atos lesivos à pessoa jurídica por eles representada.

Contudo, atualmente tal prática tem sido cada vez mais usual nas autuações
fiscais ocorridas nos últimos anos. Nitidamente, por trás de tal tendência, está
a tentativa de desincentivar os órgãos deliberativos das empresas a aprovarem
planejamentos tributários e forçá-los a agir de forma cada vez mais conservadora
(onerosa) em seus atos de gestão.

Soma-se a esse cenário o aumento significativo de arrolamentos de bens


e medidas cautelares fiscais promovidos em face de responsáveis tributários,
acarretando impactos diretos na esfera patrimonial das pessoas físicas envolvidas.

O objetivo do presente artigo é explorar alguns aspectos relacionados a


essa realidade e as conclusões que podemos extrair a respeito da validade de tais
medidas praticadas pelas autoridades fiscais.

Os fundamentos utilizados na responsabilização dos administradores:


ausência de comprovação do dolo e punição pela simples ocupação do cargo.

O artigo 135 do CTN prevê que os administradores são pessoalmente


responsáveis pelos atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato
social ou estatutos. Tal comando legal adverte o intérprete de que a responsabilização
pessoal do administrador não advém da mera ausência de pagamento de tributos pela
pessoa jurídica ou simples descumprimento de lei [2]. Ela deve estar fundamentada
na comprovação da conduta personalíssima dolosa praticada pelo agente, que, de
forma consciente, não extinguiu a obrigação tributária.

Contudo, verifica-se que, na prática, os administradores estão sendo


responsabilizados pelo simples fato de ocuparem algum cargo de gestão na época da
ocorrência do fato gerador. Em geral, as “fundamentações” para a responsabilização
dos administradores pautam-se apenas na análise de documentos societários com a
indicação do cargo ocupado pelo administrador, sem a comprovação específica da
prática de conduta dolosa no exercício de suas funções.

121
UNIDADE 2 | CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

O equívoco ora apontado já foi objeto de análise pelo CARF em diversos


julgados, dentre os quais se destaca o posicionamento proferido no acórdão nº
2403-002.559 no sentido de que “o simples fato de o sócio exercer a gerência
da empresa, por si só, não constitui elemento suficiente à imputação da
responsabilidade pretendida pela autoridade fiscal”.

Além disso, não se pode admitir que todos os diretores, membros do


conselho de administração e sócios, sejam responsabilizados conjuntamente sem
a devida caracterização a respeito dos atos dolosos praticados por cada indivíduo.
Com relação aos membros do conselho de administração, a situação merece ainda
mais cautela, pois, de acordo com o artigo 142 da Lei nº 6.404/76 (“Lei das S/A”),
tais profissionais exercem funções de aconselhamento e não praticam atos diretos
na gestão dos negócios da empresa.

Arrolamento de bens e medida cautelar fiscal nos bens dos


administradores

Como decorrência da responsabilização dos administradores pessoas


físicas pelos débitos cobrados das pessoas jurídicas, surge, como consequência, a
existência de arrolamento de bens e, em alguns casos extremos, o ajuizamento de
medida cautelar fiscal.

O procedimento de arrolamento de bens é disciplinado atualmente pela


Instrução Normativa RFB nº 1.565/2015 e ocorre sempre que a soma dos valores
cobrados de responsabilidade do sujeito passivo exceder, simultaneamente, a
30% do seu patrimônio conhecido e R$ 2 milhões.

Em termos práticos, o que se observa é que com a responsabilização


injustificada dos administradores por débitos de pessoas jurídicas, a regra de
arrolamento de bens acaba sempre operando em sentido desfavorável para as
pessoas físicas. Isso porque, caso ocorra uma autuação fiscal no valor de R$ 10
milhões com responsabilização do administrador, o seu patrimônio terá que ser
superior a R$ 3 milhões para que seus bens não sejam arrolados. Para algumas
pessoas jurídicas, tal limite dificilmente seria atingido, porém, para as pessoas
físicas, a situação é totalmente diferente.

Apesar do entendimento corrente de que o arrolamento não implica em


indisponibilidade dos bens, mas sim em mero “monitoramento” do patrimônio
pelo Fisco, é evidente que o registro da existência de tal medida nos cartórios de
registro de imóveis e nos Departamentos de Trânsito, com relação aos veículos
automotores, implica em sensível diminuição do valor de mercado dos ativos
arrolados. Afinal, será natural que o comprador peça o desconto no preço em
razão do bem colocado à venda estar sendo monitorado pelo Fisco e relacionado
a uma dívida tributária que poderá ser objeto de uma futura execução fiscal.

Além disso, também existem outras implicações, por exemplo, a


possibilidade de arrolamento dos bens do cônjuge do administrador com

122
TÓPICO 3 | RELAÇÃO JURÍDICA TRIBUTÁRIA

fundamento no artigo 4º, inciso I, da referida Instrução Normativa, bem como


a necessidade de se comunicar a Receita Federal do Brasil no prazo de cinco
dias, sobre a alienação, transferência ou oneração do bem arrolado, sob pena de
medida cautelar fiscal (art. 8º).

Com relação à medida cautelar fiscal, é importante ressaltar que, sob


amparo do artigo 4º, parágrafos 1º e 2º, da Lei nº 8.397/92, a Procuradoria da
Fazenda Nacional tem se mobilizado para buscar a indisponibilização dos bens
do acionista controlador e dos administradores. Tais iniciativas são motivo de
extrema preocupação, uma vez que os processos tramitam em segredo de justiça
e as pessoas envolvidas acabam tendo conhecimento do bloqueio de bens apenas
com a sua ocorrência, não sendo possível nenhum acompanhamento preventivo.

Como se pode verificar, atualmente os administradores de empresas


vivem uma situação bastante preocupante com as medidas adotadas pelo Fisco.
Infelizmente, previsões da legislação que deveriam ser aplicadas apenas em
caráter de exceção, têm sido utilizadas como meio de “coação fiscal”, de modo a
inibir a utilização de qualquer meio lícito para obtenção de economia tributária.
Esperamos que o Poder Judiciário e as autoridades administrativas de julgamento
continuem a corrigir tais excessos, de modo a gerar maior segurança jurídica para
a realização de negócios no Brasil.

FONTE: VERONESE, V.; DOMINGOS; V. S. C. Responsabilidade de administradores por tributos:


atenção. Disponível em: <https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/reponsabilidade-de-
administradores-por-tributos-atencao-12072017>. Acesso em: 31 out. 2018.

123
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:

• A relação jurídica tributária é a aquela que envolve dois sujeitos, Estado e


contribuinte/responsável, na qual, ocorrendo o fato gerador por parte do
devedor e o lançamento tributário por parte do credor, surge o crédito tributário
passível de ser exigido.

• Existem três espécies de lançamento tributário: por ofício, por declaração e por
homologação.

• A legislação tributária elege hipóteses de extinção, exclusão e suspensão do


crédito tributário.

• Existem três regimes de tributação na legislação brasileira: Simples Nacional,


Lucro Real e Lucro Presumido.

• O planejamento tributário é uma ferramenta que deve ser utilizada pelos


contribuintes, almejando a redução do ônus tributário de forma legal.

124
AUTOATIVIDADE

1 Considere e julgue as afirmativas a seguir, assinalando a CORRETA:

I- Na hipótese de isenção de pagamento da obrigação principal, o sujeito


passivo fica liberado do cumprimento da obrigação acessória relacionada
àquele tributo ou penalidade pecuniária.
II- O fato gerador da obrigação acessória é qualquer situação que, na forma
da legislação aplicável, impõe a prática ou a abstenção de ato que não
configure obrigação principal.
III- A capacidade tributária ativa (realizar atos de fiscalização e arrecadação) é
delegável.
IV- O tráfico de entorpecentes, por ser crime, não pode ser objeto de tributação,
pois o pagamento de imposto em tal hipótese significaria que o Estado
estaria chancelando uma atividade ilícita, sendo, portanto, insubsistente o
lançamento.
V- O lançamento reporta-se à data da ocorrência da declaração da obrigação
e rege-se pela lei então vigente, ainda que posteriormente modificada ou
revogada.

a) ( ) as alternativas I, II e III são verdadeiras.


b) ( ) as alternativas I, II e III são falsas.
c) ( ) as alternativas II, III e V são verdadeiras.
d) ( ) as alternativas IV e V são falsas.
e) ( ) todas as alternativas são falsas.

2 Constitui modalidade de exclusão do crédito tributário.

a) ( ) transação.
b) ( ) decadência.
c) ( ) remissão.
d) ( ) tutela antecipada.
e) ( ) isenção.

3 Sobre a suspensão e extinção do crédito tributário, é correto afirmar:

a) ( ) O depósito do montante integral realizado pelo contribuinte, para


suspender exigibilidade do crédito tributário, não deve ser convertido
em renda da Fazenda Pública, quando houver extinção do processo sem
resolução de mérito, já que não haveria pronunciamento do Judiciário
sobre a legitimidade do débito fiscal.
b) ( ) O pedido administrativo de compensação tributária e o respectivo
recurso contra seu indeferimento não suspendem a exigibilidade do
crédito tributário, tendo em vista que se trata de mero requerimento
administrativo de natureza fiscal.

125
c) ( ) A lei concessiva de moratória pode circunscrever expressamente a sua
aplicabilidade a determinada região do território da pessoa jurídica de
direito público que a expedir, ou a determinada classe ou categoria de
sujeitos passivos.
d) ( ) A fiança bancária se equipara ao depósito integral, para fins de suspensão
da exigibilidade, posto que garante a satisfação do crédito tributário.
e) ( ) O pedido de parcelamento do débito tributário pelo sujeito passivo da
obrigação suspende, mas não interrompe o prazo prescricional para
a Fazenda Pública promover a sua cobrança, uma vez que se trata de
hipótese de suspensão de exigibilidade do crédito tributário.

126
UNIDADE 3

DIREITO EMPRESARIAL

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:

• ter uma visão sistêmica do Direito Empresarial, com compreensão das for-
mas de como se estabelecem as obrigações comerciais, a partir do conheci-
mento dos seus conceitos básicos;

• compreender a classificação, natureza jurídica e funcionamento das prin-


cipais sociedades empresárias;

• conhecer os principais títulos de crédito e suas utilizações;

• compreender o procedimento de recuperação das empresas e o procedi-


mento de falência;

• identificar as relações comerciais e empresariais, conhecendo a estrutura e


o funcionamento das sociedades, os títulos de crédito e os procedimentos
da recuperação com suas respectivas obrigações, a ponto de facilitar o seu
dia a dia profissional.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você en-
contrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.

TÓPICO 1 – BREVE HISTÓRICO – SURGIMENTO E EVOLUÇÃO DO DI-


REITO EMPRESARIAL

TÓPICO 2 – SOCIEDADES EMPRESÁRIAS

TÓPICO 3 – TÍTULOS DE CRÉDITO, RECUPERAÇÃO DE EMPRESAS E


FALÊNCIA

127
128
UNIDADE 3
TÓPICO 1

BREVE HISTÓRICO – SURGIMENTO E EVOLUÇÃO DO


DIREITO EMPRESARIAL

1 INTRODUÇÃO
Neste tópico será estudado o surgimento do comércio e sua evolução.
Também será estudado como surgiu e se modificou o Direito Empresarial. Para se
entender a história do comércio, deve-se conhecer a etimologia da palavra. Esta
origina-se do latim, commercium, formado de duas partes, “com” que significa
conjunto e “merx /merc” que significa mercado, ou local de troca. Em síntese,
o comércio nada mais é do que um local onde se tem um conjunto de pessoas
fazendo trocas. Não se tem ao certo a origem das trocas comerciais, ou onde tudo
iniciou. Esse procedimento pode ter se originado em diferentes locais ao mesmo
tempo, o que fez com que houvesse uma divergência de teorias. Devido ao caráter
nômade das tribos em busca de novas fontes de recursos, as trocas eram menores,
já que não se preocupavam em juntar excedentes para sua subsistência.

Com o aparecimento da agricultura e da pecuária, o processo de migração


foi refreado, sendo que as tribos passaram a se assentar em determinados
locais que lhe garantissem condições de produzirem seus próprios insumos.
Esse modelo de produção a princípio era de subsistência, ou seja, para o
próprio consumo. Com o tempo, houve progressivamente uma especialização
da produção por determinados grupos assentados, que passaram a obter um
excedente de determinado insumo. Os esforços concentrados em determinados
produtos deixavam uma ineficiência na obtenção de outros. Não era possível e
racional produzir todos os bens necessários para a sobrevivência. Ao invés disso,
compreenderam que poderiam trocar o seu excedente de determinado produto
com outros grupos que tivessem bens e serviços que esses precisassem. Com a
permuta dos produtos, os diferentes grupos se beneficiariam.

No início, a prática de trocas entre produtos por outros era o convencional.


Tal prática chama-se escambo e não havia o envolvimento de dinheiro
como se conhece hoje. O valor era acertado de acordo com as necessidades e
dificuldades de se encontrar determinado produto. Com o passar do tempo,
aumentou-se a complexidade das barganhas e as questões logísticas (transporte
e armazenamento) foram se aperfeiçoando. A dificuldade de se movimentar
com grandes quantidades de produtos fez com que se estabelecesse o processo
de monetarização. Ou seja, o dinheiro foi instituído, trazendo a valorização de
determinado estoque para facilitação das trocas (BRYTO et al., 2012).

129
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

Com o surgimento da moeda, mesmo em sua forma rudimentar e primitiva,


iniciou-se uma nova modalidade nas transações comerciais, os intermediadores.
Esses agentes atuam entre o produtor e o consumidor, nas diversas etapas de
negócios. Esta atividade exercida por esse tipo específico de comerciante tem por
objetivo a geração de lucro. Quanto mais intermediadores, ou “atravessadores”
tiver um produto, maior será o seu valor final para o consumidor. “Na Idade Antiga,
os povos antigos, como os fenícios, destacaram-se pelo exercício da atividade
comercial (...) O desenvolvimento do comércio deveu-se inequivocamente ao
surgimento da moeda” (ABRAM, DOROW, 2009, p. 109).

Na antiguidade, as rotas comerciais eram terrestres e os principais locais


de comércio eram o norte da África, Oriente Médio e sul da Europa (Grécia). Outra
rota comercial muito importante foi a do Oriente com a Índia e China. Com o
declínio do império de Alexandre, o Grande (323 a.C.), houve o desenvolvimento
do comércio marítimo praticado pelos atenienses e fenícios. As cidades com
saída para o Mar Mediterrâneo tiveram crescimento e desenvolveram essa
modalidade. Na Idade Média, pouco houve de desenvolvimento nas relações
comerciais e de produção, período da história também conhecido por “Idade
das Trevas”. Porém, um fato importante foi a criação do papel-moeda na China,
por volta do ano 900 d.C.

UNI

O papel-moeda facilitava a tributação ao Império Chinês. Os mercadores


depositavam seu ouro e prata e recebiam em troca o papel-moeda com valor especificado.

Na Idade Média, por meio do crescimento das cidades e com a ascensão da


burguesia trazida pelo êxodo e a abertura das vias comerciais da Europa, nascem
as corporações de mercadores. Estas reúnem os comerciantes, possuidores de
riquezas, porém sem títulos de nobreza, na tentativa de lhes proteger frente
ao declínio do sistema feudal. As corporações de mercadores possibilitam um
crescimento político e militar, conseguindo autonomia de centros comerciais,
como as cidades italianas de Veneza, Florença e Gênova (ALEJARRA, 2013).

O comércio volta a se desenvolver com as grandes navegações e o


aprimoramento da indústria náutica. Os portugueses e espanhóis desenvolveram
suas esquadras e buscavam “descobrir” novas regiões para estabelecimento
de novas rotas comerciais e exploração de recursos naturais. No início do
desenvolvimento do comércio moderno, os produtos eram intercambiados
diretamente nos postos de troca, sendo que na época as moedas não tinham a
credibilidade financeira para serem universalmente aceitas. Era a fase do escambo
(NOVAES, 2001, p. 1). O comércio como conhecemos hoje permitiu e colaborou
para que a sociedade moderna se desenvolvesse. Novas tecnologias incrementam
130
TÓPICO 1 | BREVE HISTÓRICO – SURGIMENTO E EVOLUÇÃO DO DIREITO EMPRESARIAL

o jeito de se fazer negócios e permitem o acesso dos diferentes produtos e serviços


aos mais diversos lugares do globo.

Com o passar do tempo foram criados alguns mecanismos capazes de garantir


proteção ao comerciante. A evolução dos conceitos levou à remodelação do direito
comercial, no auge da Segunda Guerra Mundial, com o advento do Código Civil
Italiano, que unificou o direito privado, ou seja, juntou, em uma única codificação, o
direito civil e o direito comercial, formando o que chamamos atualmente de Direito
Empresarial (ABRAM; DOROW, 2009, p. 109). Com o surgimento da teoria da
empresa, houve uma ampliação de atividades regidas pelo Direito Comercial. Alguns
doutrinadores sustentam que o Direito Comercial evolui para o Direito Empresarial.
Segundo Coelho (2008), o correto seria a denominação de Direito Empresarial, pois
com a teoria da empresa, amplia-se as atividades por este ramo enfocado.

Quanto à denominação no Brasil, de uma forma bem resumida, podemos


afirmar que, ao longo da história, o Direito Empresarial já recebeu três diferentes
denominações:

FIGURA 1 – DENOMINAÇÕES DO DIREITO EMPRESARIAL

3ª. – Direito Empresarial


Nomenclatura atual desde
1ª. – Direito Mercantil 2ª. – Direito Comercial
2002 com a publicação
(1553 – primeira obra (1850 – com a entrada em
do Código Civil, que
sobre a matéria - jesuítas) vigor do Código Comercial
revogou o Livro I do
Código Comercial

FONTE: Abram e Dorow (2009, p. 111)

Assim, conclui-se que o Código Civil de 2002 unificou, parcialmente,


o Direito Comum e o Direito Comercial, da mesma forma que o Código Civil
Italiano, pois passou a tratar desta matéria sob o título de Direito de Empresa. O
próximo subtópico explana a Teoria da Empresa e alguns elementos associados.

2 A TEORIA DA EMPRESA
O Código Civil Italiano de 1942 trouxe um novo sistema jurídico comercial
expresso pela teoria da empresa. Este promove a unificação do direito privado
sobre as relações civis e comerciais. O direito comercial passa a uma nova fase
ao adotar o conceito da empresarialidade. O direito comercial não regula apenas
as relações jurídicas do comércio, ou com alguns atos, mas toda a atividade
econômica na sua forma empresarial. “Nos dias que correm, transmudou-se (o
direito comercial) de mero regulador dos comerciantes e dos atos de comércio,
passando a atender à atividade sob a forma de empresa, que é o atual fulcro
do direito comercial” (BULGARELLI, 2000, p. 30). Em outras palavras, a teoria
da empresa se aplica às diversas atividades econômicas em que o profissional
produza e/ou comercialize bens e/ou serviços.

131
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

Apesar de adotar a teoria da empresa, o Código Civil Italiano de 1942 não


definiu o conceito jurídico de empresa (RAMOS, 2016). A Teoria poliédrica de
Alberto Asquini tem a empresa como um fenômeno econômico poliédrico, que
compreende a organização dos fatores de produção: natureza, capital, trabalho e
tecnologia. Esta é composta por múltiplos perfis: subjetivo, funcional, objetivo e
corporativo.

a) Perfil subjetivo – A empresa se confunde com o próprio empresário (pessoa


física) que exercita a atividade econômica de forma contínua e organizada.
Pode ser uma pessoa física ou jurídica, sendo titular de direitos e obrigações.
b) Perfil funcional - Trata-se da dinâmica empresarial, ou seja, a atividade que o
empresário ou a sociedade empresária exerce em seu cotidiano negocial.
c) Perfil objetivo – Também chamado de patrimonial, foca-se no que é utilizado
pelo empresário no exercício de suas atividades. Representa o complexo de
bens da empresa.
d) Perfil corporativo – Representa os colaboradores da empresa; os empregados
que evidenciam esforços à consecução dos objetivos empresariais. Trata-se de
um núcleo social organizado em função de uma finalidade econômica comum.

Para Asquini, o perfil corporativo tem uma acepção ultrapassada, que se


sustentava a partir da ideologia fascista na época da edição do Código Civil de
1942. Neste contexto, de forma sintética, Ramos (2016, p. 12) resume os demais
perfis da empresa:

Assim, quando quisermos fazer menção à empresa no seu perfil


subjetivo, o correto é usar a expressão empresário (ex.: determinado
empresário está contratando funcionários). Quando quisermos fazer
menção à empresa no seu perfil objetivo, o correto é usar a expressão
estabelecimento empresarial (ex.: um estabelecimento empresarial foi
vendido por um valor muito alto). Por outro lado, quando quisermos
fazer menção à empresa no seu perfil funcional, ou seja, como
atividade, o correto é usarmos simplesmente a expressão empresa
(ex.: o objeto social daquela sociedade é a exploração de uma empresa
de prestação de serviços de tecnologia). (grifos nossos)

A partir da teoria da empresa, a atividade organizada ganha campo
dentro do regime jurídico empresarial com sentido técnico. Desta forma, há uma
articulação dos fatores de produção (capital, tecnologia, trabalho, natureza) para
atender às demandas do mercado (produção de bens e serviços) sob um olhar que
respalda os direitos e deveres da empresa.

3 A EMPRESA
Como dito, o atual Código Civil brasileiro de 2002 teve inspiração no Código
Civil Italiano, trazendo tanto a base legislativa do direito civil quanto empresarial.
No entanto, o direito empresarial possui sua autonomia, com princípios próprios.
Representa a atividade profissional em que a empresa se constitui como principal
objeto na construção da economia. A evolução da teoria da empresa e do direito

132
TÓPICO 1 | BREVE HISTÓRICO – SURGIMENTO E EVOLUÇÃO DO DIREITO EMPRESARIAL

empresarial no Brasil trouxe um dinamismo e uma maior importância nesta atividade


econômica. Assim, convencionou-se que todos aqueles que através de sociedades
se organizam economicamente são chamados de sociedades empresárias (ao
contrário das sociedades cooperativas, que são sociedades simples).

Os requisitos referentes à empresa como atividade econômica organizada,


segundo Sanchez (2017), são:

Profissionalidade: Exercício habitual e frequente da atividade empresarial


praticada em nome próprio, direta ou indiretamente pelo empresário (individual
ou organização societária), respondendo por seus atos. Essa responsabilidade é
tratada pela doutrina por pessoalidade.

Atividade Econômica: Dinâmica que visa o lucro através da produção,


prestação e comércio de bens e serviços.

Organização: Trata-se da junção de dois importantes elementos: mão de


obra e capital. Trata-se do principal elemento que caracteriza a empresa, sendo
seu caráter organizacional necessário para articular o capital, os trabalhadores e a
matéria-prima gerando eficiência produtiva e lucro.

FIGURA 2 – CONDIÇÕES PARA CARACTERIZAÇÃO DO EMPRESÁRIO

Condições para
caracterização do
empresário

Exercício de
Atividade
Atividade Profissionalismo
Organizada
Econômica

FONTE: Abram e Dorow (2009, p. 118)

4 O EMPRESÁRIO INDIVIDUAL
O empresário individual é aquele que utiliza a personalidade jurídica
de pessoa natural exercendo a empresa. O empresário, então, é a pessoa que
desempenha atividade economicamente organizada para a produção ou
circulação de bens ou de serviços, nos termos do que prenuncia o art. 966, caput,
do Código Civil de 2002,

é o ente físico ou coletivo suscetível de direitos e obrigações, sendo


sinônimo de sujeito de direito. Sujeito de direito é aquele que é sujeito
de um dever jurídico, de uma pretensão ou titularidade jurídica, que
é o poder de fazer valer, através de uma ação, o não cumprimento do
dever jurídico, ou melhor, o poder de intervir na produção da decisão
judicial (DINIZ, 2011, p. 129).

133
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

Neste caso, o empresário possui direitos e obrigações legais, sendo titular da


atividade, podendo ser caracterizado por uma pessoa natural ou por uma pessoa
jurídica com os esforços de diversas pessoas naturais. Segundo o art. 972 do Código
Civil, o empresário pode exercer essa atividade “se estiver em pleno gozo da
capacidade civil e não for legalmente impedido”. Em outras palavras, não poderão
exercer a função de empresários os incapazes (menores de 16 anos), os relativamente
incapazes (maiores de 16 e menores de 18, os ébrios habituais, os viciados, e
incapacitados momentaneamente ou definitivamente de exprimir sua vontade).

UNI

Os incapazes e relativamente incapazes devem ser assistidos e representados,


sob pena de anulabilidade de seus atos. O menor emancipado antes de completar 18 anos
pode exercer atividade empresarial de acordo com o art. 5º do Código Civil.

A incapacidade cessará nos seguintes casos:

• Concessão dos pais, mediante instrumento público, por sentença do juiz se o


menor tiver 16 anos completos;
• Pelo casamento;
• Pela colação de grau em curso de Ensino Superior;
• Pelo exercício de emprego público efetivo;
• Pelo estabelecimento civil ou comercial, relação de emprego, tendo o menor
com 16 anos economia própria.

4.1 PROIBIDOS DE EXERCER ATIVIDADE EMPRESARIAL


a) os funcionários públicos estão proibidos de exercer atividade empresarial por
conta do que estabelecem várias normas, p. ex., CF/88, arts. 54 e 95, parágrafo
único; art. 128, § 5º., II etc. A proibição diz respeito ao efetivo exercício da atividade
empresarial, não existindo, no entanto, nenhuma restrição quanto ao funcionário
público ser simplesmente acionista ou quotista de sociedade empresária.

b) os militares integrantes das Forças Armadas (Marinha, Exército ou


Aeronáutica), além dos integrantes dos efetivos militares sob a responsabilidade
dos Estados e Distrito Federal, estão proibidos de exercer o comércio (restrição
– militares reformados);

c) os auxiliares do empresário (entre eles os leiloeiros, corretores, despachantes


aduaneiros) não podem exercer atividade empresarial por absoluta
incompatibilidade com as funções que desempenham, tendo em vista a importância
de seus cargos, que são inclusive considerados de interesse público.
134
TÓPICO 1 | BREVE HISTÓRICO – SURGIMENTO E EVOLUÇÃO DO DIREITO EMPRESARIAL

d) o falido, que, como tal, não está autorizado a desempenhar a atividade


empresarial. Determina a Lei no 11.101/2005 (Lei de Falências e Recuperação de
Empresa), em seu artigo 102, que o falido fica inabilitado para exercer qualquer
atividade empresarial a partir da decretação da falência e até a sentença que
extingue suas obrigações, ocasião em que ele fica autorizado novamente a exercer
o oficio empresarial, salvo se condenado por crime falimentar. Nesta situação,
torna-se necessária sua reabilitação na esfera penal, que há de ser promulgada
pelo juízo da condenação, nos termos do art. 181, § 1º, daquele diploma legal,
combinado com o art. 94 do CP, isto em até cinco anos contados do dia em que
terminar a execução da pena, e desde que extintas as obrigações do falido.

5 EMPRESA INDIVIDUAL DE RESPONSABILIDADE LIMITADA –


EIRELI
A Empresa Individual de Responsabilidade Limitada – EIRELI foi criada
pela Lei no 12.441, de 11/07/2011, sendo aquela constituída por uma única pessoa
titular da totalidade do capital social. O capital social deve ser devidamente
integralizado, não podendo ser inferior a 100 (cem) vezes o maior salário-mínimo
vigente no país. Ainda, o titular não responde com seus bens pessoais pelas
dívidas da empresa.

Um ponto importante é que a pessoa natural que constituir Empresa


Individual de Responsabilidade Limitada deverá fazê-lo somente em uma única
empresa dessa modalidade. Ainda, ao nome empresarial deverá ser incluída a
expressão "EIRELI" após a denominação social ou firma da Empresa Individual
de Responsabilidade Limitada.

A EIRELI também poderá resultar da concentração das quotas de outra


modalidade societária num único sócio, independentemente das razões que
motivaram tal concentração. Isto se dá por força da inclusão do §3° do art. 980-A
no Código Civil. Trata-se da maior polêmica a respeito da natureza empresarial
desse tipo, já que, caso fosse intenção do legislador trazer uma mera empresa
individual para o ordenamento jurídico, apenas seria necessário mencionar a
unipessoalidade societária, obrigando o titular de sociedade unipessoal acidental
a buscar a transformação para Empresa Individual de Responsabilidade Limitada
(SANCHEZ, 2017).

A Empresa Individual de Responsabilidade Limitada é regulada pelas


normas aplicáveis às sociedades limitadas. O DREI – Departamento de Registro
Empresarial e Integração pela Instrução Normativa nº 10/2013, em 05/12/2013,
aprovou o Manual de Atos da Empresa Individual de Responsabilidade Limitada.

135
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

UNI

O Manual de Atos da Empresa Individual de Responsabilidade Limitada pode ser


encontrado no site

<http://www.juntacomercial.pr.gov.br/arquivos/File/2014/LEGISLACAO_REGISTRO_MERC/
eireli.pdf

5.1 REQUISITOS E IMPEDIMENTOS PARA SER TITULAR DE


EIRELI
Para ser titular de Empresa Individual de Responsabilidade Limitada –
EIRELI se fazem necessários alguns requisitos legais que devem ser preenchidos
por aquele que deseja abrir uma empresa nessa modalidade.

A pessoa natural, desde que não haja impedimento legal, deve ser maior
de 18 anos, brasileiro(a) ou estrangeiro(a), que se achar na livre administração de
sua pessoa e bens. Também poderá abrir a EIRELI o menor emancipado que tiver
concessão dos pais, ou de um deles na falta de outro se o menor tiver 16 anos
completos. A outorga constará de instrumento público, que deverá ser inscrito no
Registro Civil das Pessoas Naturais e arquivado na Junta Comercial. Também este
pode constituir a EIRELI por sentença do juiz que, também, deverá ser inscrita
no Registro Civil das Pessoas Naturais. Outras formas são: pelo casamento; pelo
exercício de emprego público efetivo (servidor ocupante de cargo em órgão da
administração direta, autarquia ou fundação pública federal, estadual ou municipal);
pela colação de grau em curso de Ensino Superior; e pelo estabelecimento civil ou
comercial, ou pela existência de relação de emprego, desde que, em função deles, o
menor com 16 anos completos tenha economia própria.

Por sua vez, não poderá ser titular de EIRELI a pessoa jurídica e a pessoa
natural impedida por norma constitucional ou por lei especial. Em relação à
administração da EIRELI, o Quadro 1 apresenta os impedimentos:

136
TÓPICO 1 | BREVE HISTÓRICO – SURGIMENTO E EVOLUÇÃO DO DIREITO EMPRESARIAL

QUADRO 1 – IMPEDIMENTOS À ADMINISTRAÇÃO DA EIRELI

– em empresa jornalística e de radiodifusão


Brasileiro naturalizado há menos de 10 anos
sonora e radiofusão de sons e imagens;
– A indicação de estrangeiro para cargo de
administrador poderá ser feita, sem ainda
possuir "visto permanente", desde que haja
Estrangeiro sem visto permanente.
ressalva expressa no ato constitutivo de que
o exercício da função depende da obtenção
desse "visto";
– Domiciliado em cidade contígua ao território
nacional e que se encontre no Brasil;
– Em empresa jornalística de qualquer espécie,
de radiofusão sonora e de sons e imagens;
Natural de pais limítrofe – Em pessoa jurídica que seja titular de direito
real sobre imóvel rural na Faixa de Fronteira
(150Km de largura ao longo das fronteiras
terrestres), salvo com assentimento prévio do
órgão competente;
– No gozo dos direitos e obrigações previstos
no Estatuto da Igualdade, comprovado
Cidadão Português
mediante Portaria do Ministério da Justiça,
pode ser administrador de EIRELI.
Pessoa jurídica;
– No seu distrito, salvo o não remunerado;
Cônsul;
Funcionário público federal civil ou militar da – Em relação ao funcionário estadual e
ativa; municipal, observar as respectivas legislações;
Chefe do Poder Executivo, federal, estadual ou
municipal;
Magistrado;
– Ministério Público Federal, Ministério
Público do Trabalho, Ministério Público
Membros do Ministério Público da União
Militar e Ministério Público do Distrito Federal
e Territórios.
Membros do Ministério Público dos Estados
O falido – Enquanto não for legalmente reabilitado.

O Leiloeiro

– O menor de 16 anos; oq ue, por enfermidade


ou deficiência mental, não tiver o necessário
A pessoa absolutamente incapaz discernimento para a prática desses atos; o
que, mesmo por causa transitória, não puder
exprimir sua vontade;
– O maior de 16 anos e menor de 18 anos
(Excessão ao emancipado) o ébrio habitual,
o viciado em tóxicos, e o que, por deficiência
A pessoa relativamente incapaz
mental, tenha o discernimento reduzido e o
excepcional, sem desenvolvimento mental
completo.
FONTE: Os autores

137
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

UNI

A capacidade dos índios é regulada por lei especial (Estatuto do Índio).


Conheça em <https://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/109873/estatuto-do-indio-
lei-6001-73>.

O art. 973 do Código Civil deixa claro que a pessoa legalmente impedida
de exercer atividade própria de empresário, ao se submeter a esse exercício,
responderá pelas obrigações contraídas com seus bens pessoais.

6 EMPRESÁRIOS RURAIS
O exercício da atividade em que os empresários rurais estão envolvidos é
regrado pelo Código Civil. Este exerce atividades que envolvem pequenas produções
e comércio para sua subsistência, tendo o seu faturamento inexpressivo. O Código
Civil caracterizou essa situação como registro de pequeno empresário rural.

Conforme artigo 971, da Lei nº 10.406/02 – Novo Código Civil abordou


que o empresário rural poderá requerer sua inscrição no Registro Público de
Empresas Mercantis e depois de inscrito ficará equiparado ao empresário sujeito
a registro. Essa atividade empresarial se identifica com:

• Exercício de atividade econômica,


• Atividade organizada,
• Exercício praticado de modo habitual e sistemático.

NOTA

Pode-se dizer que a atividade rural é empresária, mas o seu registro como
empresa mercantil é, em princípio, facultativo.

Com o advento do novo Código Civil, o produtor rural passa a ser


considerado empresário rural, se sua atividade rural constituir sua principal
profissão. Este pode requerer sua inscrição no Registro Público de Empresas
Mercantis. No entanto, depois de inscrito, o empresário rural ficará equiparado
ao empresário sujeito ao Registro (ALVES; COLUSSO, 2005).

138
TÓPICO 1 | BREVE HISTÓRICO – SURGIMENTO E EVOLUÇÃO DO DIREITO EMPRESARIAL

7 MICROEMPRESÁRIOS E EMPRESÁRIOS DE PEQUENO


PORTE
No mundo dos negócios, as empresas estão encaixadas em diferentes
classificações. Ao se tratar de negócios em pequena escala, elas podem ser
classificadas nas categorias de microempresa, empresa de pequeno porte e
microempreendedor individual. Apesar de terem suas similaridades, existem
legislações e normas específicas lhes diferenciando.

A Lei Geral das Microempresas e Empresas de Pequeno Porte, como é


conhecida a Lei Complementar nº 123, de 14 de dezembro de 2006 (LC nº 123),
tem o objetivo de gerar empregos, desenvolver a competitividade de mercado,
distribuição igualitária de renda e fortalecimento da economia. A lei busca
contribuir para regulamentar a situação desejosa exposta pela Constituição
Federal, sendo que, dependendo do porte de cada empresa, são estabelecidos
regimes legislativos diferentes. No caso das empresas menores, estas podem
usufruir do sistema chamado Simples Nacional.

O Simples Nacional é uma medida ligada ao Ministério da Fazenda do


Governo Federal. Essa determinada legislação favorece microempresários, no sentido
de que a coleta da sua carga tributária é menor. Também há o favorecimento na
simplificação dos processos de cálculo e arrecadação dos impostos (BRASIL, 2018).

Este sistema abrange a participação de todos os entes federados (União,


Estados, Distrito Federal e Municípios). O Simples Nacional é administrado
por um Comitê Gestor composto por oito integrantes: quatro da Secretaria da
Receita Federal do Brasil (RFB), dois dos Estados e do Distrito Federal e dois dos
Municípios (BRASIL, 2018).

Para o ingresso no Simples Nacional é necessário o cumprimento das


seguintes condições:

• Enquadrar-se na definição de microempresa ou de empresa de pequeno porte;


• Cumprir os requisitos previstos na legislação; e
• Formalizar a opção pelo Simples Nacional.

Algumas características principais do Regime do Simples Nacional são:

• Ser facultativo;
• Ser irretratável para todo o ano-calendário;
• Abrange os seguintes tributos: IRPJ, CSLL, PIS/PASEP, COFINS, IPI, ICMS, ISS
e a contribuição para a seguridade social destinada à Previdência Social a cargo
da pessoa jurídica (CPP);
• Recolhimento dos tributos abrangidos mediante documento único de
arrecadação - DAS;
• Disponibilização às ME/EPP de sistema eletrônico para a realização do cálculo
do valor mensal devido, geração do DAS e, a partir de janeiro de 2012, para
constituição do crédito tributário;
139
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

• Apresentação de declaração única e simplificada de informações


socioeconômicas e fiscais;
• Prazo para recolhimento do DAS até o dia 20 do mês subsequente àquele em
que houver sido auferida a receita bruta;
• Possibilidade de os estados adotarem sublimites para EPP em função da
respectiva participação no PIB. Os estabelecimentos localizados nesses estados
cuja receita bruta total extrapolar o respectivo sublimite deverão recolher o
ICMS e o ISS diretamente ao estado ou ao município.

Os avanços da Constituição possibilitaram que se conseguisse distinguir


cada uma das empresas conforme os fundamentos da lei. Sendo assim, tem-se
como categoria de Microempresa (ME) a empresa ou firma individual cuja receita
anual é igual ou inferior a um determinado valor estabelecido pelo governo
no início de cada ano fiscal. É aquela considerada para os empreendedores
que possuem uma empresa individual e independente. Para estar enquadrado
nesse quesito, o empresário deve estar corretamente registrado nos órgãos que
competem a lei. E a receita anual da empresa deve ser igual ou inferior a R$
360.000,00 (trezentos e sessenta mil reais). Dessa maneira, se uma microempresa
ultrapassar esse faturamento, automaticamente passa à condição de EMPRESA
DE PEQUENO PORTE (E-GESTOR, 2016).

As Empresas de Pequeno Porte (EPP) são aquelas que a partir de 1º


de janeiro de 2018 tenham uma receita bruta anual superior a R$ 360.000,00
(trezentos e sessenta mil reais) e igual ou inferior a R$ 4.800.000,00 (quatro
milhões e oitocentos mil reais). Base: Lei Complementar 155/2016 (art. 1º). Dessa
maneira, se a EMPRESA DE PEQUENO PORTE arrecadar menos que o valor
estabelecido, passa a ser enquadrada na categoria de Microempresa ME. Porém,
se o arrecadamento for maior, ela sai do SIMPLES e passa para a categoria de
Empresa Normal.

Uma terceira classificação empresarial incluída pela lei é a categoria


MICROEMPREENDEDOR INDIVIDUAL (MEI). Esta categoria tem a finalidade
de assegurar a formalidade de negócios de empreendedores que estão no início
da carreira e que até então trabalhavam na informalidade. Trata-se daqueles
fornecedores de serviços e pequenas quantidades de mercadorias e que têm um
faturamento bruto anual de até R$ 81.000,00 (oitenta e um mil reais). Até 2017 esse
teto era de R$ 60.000,00 (sessenta mil reais).

Nesse enquadramento, os empresários não podem possuir sócios ou serem


titulares de uma outra empresa. No entanto, esses empresários podem ter até um
funcionário fixo registrado em carteira. Esses funcionários devem receber como
renumeração o salário mínimo estabelecido na Constituição ou de maneira que
não ultrapasse o piso da sua categoria profissional. Caso o empresário não tenha
funcionários, não há necessidade dos serviços de uma contabilidade. Porém,
caso opte por ter um funcionário, deverá emitir o Pró-Labore. O Pró-Labore é o
pagamento de uma espécie de “salário” para o sócio administrador do negócio.
Esta obrigação é regulamentada no art. 152 da Lei nº 6.404, de 15/12/1976, que
obriga o pagamento de tal valor para os sócios administradores. Por conta de

140
TÓPICO 1 | BREVE HISTÓRICO – SURGIMENTO E EVOLUÇÃO DO DIREITO EMPRESARIAL

existir um limite de faturamento, o valor do Pró-Labore não pode, em hipótese


alguma, ultrapassar o valor de R$ 6.750,00 no mês.

Abaixo, tem-se um quadro simplificado sobre os tipos de empresas


separados de acordo com o enquadramento/faturamento anual, quantos sócios
titulares possui e as opções tributárias para formalização:

FIGURA 3 – QUADRO SIMPLIFICADO COM OS TIPOS DE EMPRESAS


Tipo de
Enquadramento/Faturamento Anual
Empresa Sócio Opções Onde
Empresa Titular Tributárias Formalizar
MEI ME EPP
Normal
Até R$ Um Simples
– – – Internet
81mil titular Nacional
Empresário
Individual Por opção
Simples
ou com
Até R$ Até R$ Um Nacional, Junta
– faturamento
360mil 4,8milhões titular Lucro Real ou Comercial
acima de 4,8
Presumido
milhões
Por opção
Simples
ou com
Até R$ Até R$ Um Nacional, Junta
EIRELI – faturamento
360mil 4,8milhões titular Lucro Real ou Comercial
acima de 4,8
Presumido
milhões
Por opção
Simples
ou com Dois ou
Sociedade Até R$ Até R$ Nacional, Junta
– faturamento mais
Limitada 360mil 4,8milhões Lucro Real ou Comercial
acima de 4,8 Sócios
Presumido
milhões

FONTE: <https://osayk.com.br/microempresa-ou-empresa-de-pequeno-porte-qual-a-
diferenca/>. Acesso em: 10 out. 2018.

No próximo tópico serão apresentadas as formações e tipos de sociedades


empresárias. Trata-se de entender como se comporta esse ente criado pelo direito,
dotado de personalidade jurídica, semelhante à concessão das pessoas naturais.
Tais informações são necessárias para que não seja confundida a sociedade com
a pessoa de seus sócios.

141
RESUMO DO TÓPICO 1

Neste tópico, você aprendeu que:

• O surgimento do comércio e sua evolução.

• O surgimento do Direito Comercial e a transformação do Direito Empresarial.

• A Teoria poliédrica de Alberto Asquini tem a empresa como um fenômeno


econômico poliédrico, que compreende a organização dos fatores de produção:
natureza, capital, trabalho e tecnologia.

• Os perfis múltiplos da Teoria Empresarial: subjetivo, funcional, objetivo e


corporativo.

• Os requisitos referentes à empresa como atividade econômica organizada.

• Condições para caracterização do empresário.

• A caracterização do empresário individual.

• Os direitos e obrigações do empresário.

• As proibições de se exercer atividade empresarial.

• A caracterização da Empresa Individual de Responsabilidade Limitada –


EIRELI.

• Os requisitos e impedimentos para ser titular de EIRELI.

• Os impedimentos à administração da EIRELI.

• A classificação dos Microempresários e Empresários de Pequeno Porte.

• A categoria dos Microempresários Individuais.

142
AUTOATIVIDADE

1 (XVII Exame de Ordem Unificado – FGV) Assinale a alternativa correta em


relação aos conceitos de empresa e empresário no Direito Empresarial.

a) ( ) Empresa é a sociedade com ou sem personalidade jurídica; empresário


é o sócio da empresa, pessoa natural ou jurídica com responsabilidade
limitada ao valor das quotas integralizadas.
b) ( ) Empresa é qualquer atividade econômica destinada à produção de bens;
empresário é a pessoa natural que exerce profissionalmente a empresa e
tenha receita bruta anual de até R$ 100.000,00 (cem mil reais).
c) ( ) Empresa é a atividade econômica organizada para a produção e/ou
a circulação de bens e de serviços; empresário é o titular da empresa,
quem a exerce em caráter profissional.
d) ( ) Empresa é a repetição profissional dos atos de comércio ou mercancia;
empresário é a pessoa natural ou jurídica que pratica de modo habitual
tais atos de comércio.

2 (XV Exame de Ordem Unificado – FGV) Alfredo Chaves exerce, em caráter


profissional, atividade intelectual de natureza literária, com a colaboração
de auxiliares. O exercício da profissão constitui elemento de empresa. Não
há registro da atividade por parte de Alfredo Chaves em nenhum órgão
público. Com base nessas informações e nas disposições do Código Civil,
assinale a afirmativa CORRETA.

a) ( ) Alfredo Chaves não é empresário, porque exerce atividade intelectual


de natureza literária.
b) ( ) Alfredo Chaves não é empresário, porque não possui registro em
nenhum órgão público.
c) ( ) Alfredo Chaves é empresário, independentemente da falta de inscrição
na Junta Comercial.
d) ( ) Alfredo Chaves é empresário, porque exerce atividade não organizada
em caráter profissional.

3 Disserte sobre as diferenças entre Microempresa, Empresa de Pequeno Porte


e Microempreendedor Individual:

143
144
UNIDADE 3
TÓPICO 2

SOCIEDADES EMPRESÁRIAS

1 INTRODUÇÃO
Neste tópico serão estudadas as sociedades empresárias, que nascem do
esforço de várias pessoas em nome de um objetivo comum, o lucro. O art. 981
do Código Civil expressa que “celebram contrato de sociedade as pessoas que
reciprocamente se obrigam a contribuir, com bens ou serviços, para o exercício da
atividade econômica e a partilha, entre si, dos resultados” (BRASIL, 2002).

O Código Civil possibilita a criação das sociedades personificadas em


seus arts. 986 a 996, sociedades empresárias nos arts. 997 a 1.038, sociedades
cooperativas nos arts. 1.093 a 1.096, e sociedades coligadas, rol taxativo. Segundo
Sanchez (2017, p. 75), “As sociedades devem preencher os requisitos previstos no
art. 104 do Código Civil vigente, quais sejam: agente capaz; objeto lícito, possível,
determinado ou determinável e forma prescrita e não defesa em lei”.

Uma questão importante ao se estudar esse assunto é saber diferenciar


Sociedade de Associação. De um lado, temos que uma sociedade empresarial
é formada por duas ou mais pessoas que se comprometem a juntar capital ou
trabalho para a realização de um fim lucrativo, ou seja, seu objetivo é econômico.
Não obstante, a lei também prevê a existência de sociedades sem fins lucrativos
ou econômicos. Essas são chamadas de associações, conforme dispõe o art. 53
do Código Civil: “Constituem-se as associações pela união de pessoas que se
organizam para fins não econômicos” (BRASIL, 2002).

UNI

Mesmo não tendo fins lucrativos, uma associação de caráter cultural ou altruísta
pode manter atividades econômicas, de maneira a se sustentar.

No entanto, deve-se ater na questão de destinação dos lucros. Nas associações,


os lucros são destinados à consecução dos objetivos ideais dos associados. Em outra
direção, nas sociedades empresárias os lucros são repartidos entre os sócios. Ainda,
tanto as sociedades quanto as associações têm seu início com a inscrição dos seus
atos constitutivos no órgão correspondente (ABRAM; DOROW, 2009).

145
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

Nos subtópicos que se seguem serão apresentadas as legislações


pertinentes aos diversos tipos de sociedades, como as de propósito específico, as
personificadas e não personificadas, com suas subdivisões.

2 SOCIEDADES DE PROPÓSITO ESPECÍFICO (SPE)


A Sociedade de Propósito Específico (SPE) representa um modelo de
organização empresarial que constitui uma nova empresa, seja ela Limitada
(Ltda) ou Sociedade Anônima (S.A.), com um objetivo específico. Em outras
palavras, a atividade nessas sociedades é bastante restrita, podendo em alguns
casos ter um prazo de existência determinado. A SPE é também uma forma
de empreendimento coletivo, usualmente utilizada para compartilhar o risco
financeiro da atividade desenvolvida (SANCHEZ, 2017).

O funcionamento de uma SPE segue as normas e exigências para as


sociedades limitadas em geral. Ou seja, é necessária a designação do administrador,
poderes e obrigações dos sócios, quórum para votações, retirada de sócios,
distribuição dos lucros, entre outros. A Lei Complementar nº 128/2008 fez várias
alterações na Lei Complementar nº 123/06 (Lei Geral das MPE), principalmente
no artigo 56, excluindo o Consórcio Simples e introduzindo a Sociedade de
Propósito Específica constituída por MPE (SEBRAE, 2018).

Podem ser consideradas como uma modalidade de joint venture (equity ou


corporate joint venture). As SPE são utilizadas em grandes projetos de engenharia,
com ou sem a participação do Estado. Geralmente estão associadas a projetos
de Parceria Público-Privada (PPP), como construção de usinas hidroelétricas e
redes de transmissão. Não obstante, a modalidade de SPE pode ser aplicada nos
empreendimentos coletivos de pequenos negócios. Estas são optantes pelo Simples
Nacional e têm o objetivo de aumentar a competitividade de suas empresas sócias.
A estratégia é a união de esforços para comprar, revender e promover a produção
nos mercados interno e externo. Trata-se de conjugar esforços de colaboração
para consecução de objetivos comuns e específicos (SEBRAE, 2018).

UNI

Joint venture é uma expressão da língua inglesa que significa a união de


duas ou mais empresas já existentes. Essa união tem por objetivo iniciar ou realizar uma
atividade econômica comum. Esta atividade se dá por um determinado período e visa
primordialmente o lucro.

146
TÓPICO 2 | SOCIEDADES EMPRESÁRIAS

2.1 DIFERENÇA ENTRE SPE E CONSÓRCIO CONTRATUAL


A Sociedade de Propósito Específico (SPE) tem as mesmas características
do consórcio. A diferença é que possui personalidade jurídica, decorrente da
celebração de um contrato de sociedade. Como visto anteriormente, esta sociedade
empresária é constituída especificamente para uma ação ou projeto.

Algumas vezes a literatura jurídica chama a SPE de Consórcio Societário,


devido às semelhanças com a tradicional forma de associação denominada
Consórcio Contratual. Dentre as principais diferenças entre a SPE e o Consórcio
Contratual está a questão da personalidade jurídica. O Consórcio Contratual não
possui personalidade jurídica própria, no entanto ele é obrigado a se cadastrar no
CNPJ. Não obstante, não é passível de obrigações tributárias, como a emissão de
nota fiscal para recolhimento de ICMS (SEBRAE, 2018).

3 SOCIEDADES PERSONIFICADAS E NÃO PERSONIFICADAS


Para que uma sociedade obtenha (dependendo do tipo de sociedade)
personalidade jurídica, é imprescindível a inscrição de seu contrato ou estatuto
social (ato constitutivo) no registro próprio, que também dependerá do tipo de
sociedade. Todas as sociedades que possuem seu ato constitutivo inscrito no
órgão competente são reconhecidas pelo ordenamento jurídico como sujeitos de
direito e equiparadas às pessoas físicas, chamadas de sociedades personificadas.
Aquelas em que não houve registro do ato constitutivo denominam-se sociedades
não personificadas (ABRAM; DOROW, 2009).

As sociedades personificadas – arts. 997 a 1.101 do Código Civil de 2002


– possuem personalidade jurídica, que é adquirida com o registro, nos termos do
art. 985 e do art. 1.150, ambos do Código Civil de 2002. Por sua vez, as sociedades
não personificadas – arts. 986 a 996 do Código Civil de 2002 – não possuem
personalidade jurídica, por não possuírem registro (JUSBRASIL, 2018).

UNI

As sociedades não personificadas estão impossibilitadas de participar de


licitações, nas modalidades de concorrência pública (Lei no 8.666/93).

147
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

3.1 SOCIEDADES NÃO PERSONIFICADAS OU


DESPERSONIFICADAS
Como já enunciado, as Sociedades não personificadas são aquelas que
não possuem seu contrato inscrito (registrado e arquivado) no Registro Público.
São as sociedades em comum ou em conta de participação, que não possuem
personalidade jurídica.

Suas inscrições nos órgãos competentes servem para mostrar para


terceiros a sua existência, o grau de responsabilidade dos sócios e o conteúdo
do seu contrato social. Trata-se de uma exigência expressa no art. 987 do Código
Civil, que a determina (BRASIL, 1965).

UNI

Não é permitido às Sociedades não personificadas contratar com o poder


público (CF, art. 195, & 3º), abrir conta bancária e ter patrimônio em seu nome.

O Código Civil prevê dois tipos de sociedades não personificadas:


Sociedade em Comum e Sociedade em Conta de Participação.

3.1.1 Sociedade em Comum


A sociedade em comum corresponde a qualquer sociedade que explora
uma atividade econômica e que ainda não está registrada. Também é conhecida
como sociedade de fato ou sociedade irregular. Não representa um tipo de
sociedade empresária, pois lhe falta o registro como pessoa jurídica. Trata-se
de uma sociedade limitada, por exemplo, estiver em processo de constituição,
enquanto não for concluído o seu registro, e se já estiver em funcionamento, será
regida na forma de sociedade em comum (CLASSE CONTÁBIL, 2018).

Na sociedade em comum, os sócios nas relações entre si ou com terceiros


podem provar a existência da sociedade somente por escrito. Por isso, atuar em
um empreendimento na forma de sociedade em comum não é um bom negócio,
pois há uma dificuldade nas relações com terceiros. Uma destas dificuldades está
em usar o direito na busca e proteção dos interesses da sociedade (uma cobrança
judicial, por exemplo). Não poderá ser executada devido à inexistência da pessoa
jurídica (CLASSE CONTÁBIL, 2018).

Quanto à relação patrimonial, os bens e dívidas sociais constituem


patrimônio especial, do qual os sócios são titulares em comum. Os bens sociais

148
TÓPICO 2 | SOCIEDADES EMPRESÁRIAS

respondem pelos atos de gestão praticados por qualquer dos sócios. Ainda, todos
os sócios respondem solidária e ilimitadamente pelas obrigações sociais, excluído
do benefício de ordem aquele que contratou pela sociedade. Em outras palavras,
o sócio que efetuou o negócio responde com seus bens particulares, mesmo que
a sociedade tenha bens. Assim, credor não é obrigado a executar primeiro os
bens da sociedade, mas os bens do sócio contratante em primeiro lugar (CLASSE
CONTÁBIL, 2018).

UNI

Os bens e dívidas sociais constituem patrimônio especial, do qual os sócios


são titulares em comum. A responsabilidade dos sócios é solidária e ilimitada pelas
obrigações sociais.

Resumido por Sanchez (2017), as sociedades em comum são aquelas:

a) Que existem apenas de fato, que não possuam contrato por escrito;
b) As que possuam contrato escrito não registrado no órgão competente;
c) Aquelas que, mesmo registradas, passaram por uma mudança substancial,
levando a registro tais modificações.

O empresário que não arquivou seus atos constitutivos no órgão do


registro empresarial ou não cumpriu alguma das formalidades obrigatórias está
irregular. Esta irregularidade faz com que não possa usufruir dos benefícios
reservados ao empresário. Algumas restrições lhe são impostas:

1) O empresário não tem legitimidade ativa para instaurar pedido de falência de


outro empresário - art. 97, § 1º, da Lei no 11.101/2005;
2) O empresário irregular não tem legitimidade ativa para pedido de recuperação
de empresas - art. 97, § 1º, da Lei no 11.101/2005;
3) Não poderá ter seus livros empresariais autenticados no registro das empresas
mercantis, pois não tem inscrição na Junta estadual.

UNI

Caso a sociedade empresária se encontre em situação irregular, o sócio passa


a ter responsabilidade ilimitada pelas obrigações da sociedade.

149
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

Por fim, existem ainda alguns efeitos secundários caso não haja o registro
na Junta Comercial:

• Não poderá participar de licitação pública – art. 28, II, III, IV e V da Lei no
8.666/1993;
• Não poderá registrar-se no CNPJ, no Estado e no Município, sujeitando-se às
sanções previstas nas leis tributárias;
• Ausência de matrícula junto ao INSS, o que acarreta pena de multa (Lei no
8.212/1991, art. 49, §3º).

3.1.2 Sociedade em Conta de Participação


A sociedade em conta de participação não é uma sociedade empresária,
pois é uma modalidade não personificada. Este tipo de sociedade não se configura
em nenhum dos tipos societários vistos anteriormente (arts. 1.039 a 1.092).

Essencialmente, tal sociedade corresponde a um contrato de investimento


comum, no qual duas ou mais pessoas se vinculam para a exploração de uma
atividade econômica. O sócio ostensivo, no papel de empreendedor, dirige
o negócio e é o responsável de forma ilimitada perante os atos e as relações
negociais. Os demais sócios são participantes, exercendo o papel de investidores
(CLASSE CONTÁBIL, 2018).

Na sociedade em conta de participação, a atividade constitutiva do objeto


social é exercida unicamente pelo sócio ostensivo. Isto é feito por seu nome
individual e sob sua própria e exclusiva responsabilidade. Os demais participam
apenas dos resultados, ou seja, a obrigação perante a terceiros corresponde
somente ao sócio ostensivo (CLASSE CONTÁBIL, 2018).

UNI

Os sócios participantes só devem explicações ou responsabilidades perante ao


sócio ostensivo.

Por tratar-se também de uma sociedade não personificada, sua


constituição independe de qualquer formalidade para ser provada. Então, este
tipo de sociedade pode ser constituído oralmente, embora na prática seja feita
por escrito e não registrada. E ainda que porventura este contrato seja registrado,
os efeitos jurídicos são produzidos apenas entre os sócios. Em outras palavras,
legalmente, o eventual registro não confere personalidade jurídica à sociedade
(SANCHEZ, 2018).

150
TÓPICO 2 | SOCIEDADES EMPRESÁRIAS

Também é interessante esclarecer que o sócio participante pode


administrar a sociedade e tem direito de fiscalizar a gestão dos negócios. Não
obstante, caso passe a exercer o papel de sócio ostensivo com terceiros, esse
passa a responder solidariamente. Caso haja falência do sócio ostensivo, tem-se
a dissolução da sociedade e a liquidação da respectiva conta. O saldo constituirá
crédito quirografário, ou seja, destituídos de qualquer privilégio ou preferência.
Se houver falência do sócio participante, o contrato social fica sujeito às normas
que regulam os efeitos da falência nos contratos bilaterais do falido (CLASSE
CONTÁBIL, 2018).

No que se refere à alteração do quadro societário, embora o sócio


participante não tenha poder de mando, o artigo 995 dá uma certa proteção a
este tipo de sócio. Neste caso, o sócio ostensivo não pode admitir novo sócio
sem o consentimento expresso dos demais sócios participantes. O código também
não proíbe que exista mais de um sócio ostensivo. Em caso desta ocorrência,
as respectivas contas serão prestadas e julgadas no mesmo processo. Caso em
qualquer hipótese, houver a dissolução, liquidação e extinção da sociedade, essa
deve ser feita mediante processo judicial apenas (CLASSE CONTÁBIL, 2018).

Um exemplo de sociedade em conta de participação dado por Sanchez


(2017) é uma pessoa jurídica que cria uma rede de hotéis. Cada um dos hotéis é
um empreendimento distinto e precisa de sócios investidores. Neste caso, a junção
com os investidores apenas para um de seus empreendimentos se configura uma
sociedade em conta de participação.

3.2 SOCIEDADES PERSONIFICADAS


O processo de concorrência no âmbito comercial levou os empresários
individuais a se agruparem, surgindo assim as sociedades. Com o passar do
tempo, essas sociedades começaram a adquirir personalidade jurídica, através
do registro do seu ato constitutivo no órgão público competente. Isso confere a
estas sociedades o estado de um sujeito de direito, ou seja, titular de direitos e
obrigações (ABRAM; DOROW, 2009).

As sociedades personificadas são aquelas que possuem seu ato constitutivo


devidamente inscrito no órgão competente. Elas estão classificadas em duas
espécies: A sociedade simples e a sociedade empresária. A distinção destas é
trazida pelo próprio Código Civil em seu art. 982 (BRASIL, 2009).

Por possuírem personalidade jurídica, gozam de:

a) Titularidade organizacional: É sujeito de direitos e obrigações e pode contratar


com terceiros;
b) Titularidade processual: Podem demandar e serem demandadas em juízo;
c) Titularidade patrimonial: Possuem patrimônio distinto dos bens pessoais que
integram o patrimônio dos sócios.

151
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

3.2.1 Sociedades Simples


A Sociedade simples representa um tipo de sociedade personificada e
não empresária. Esta é constituída especialmente para a exploração de uma
atividade de prestação de serviços decorrentes da atividade intelectual de
natureza científica, literária ou artística de maneira cooperativa. Deve ser limitada
à atividade para a qual foi criada. A observação da atividade está vinculada à
habilidade técnica dos sócios e sem abrangência para outras funcionalidades.
Isto desconfiguraria o tipo de sociedade, transformando-a numa sociedade
empresária. Em outras palavras, a Sociedade Simples é aquela que pratica a
atividade econômica de natureza não empresarial cujo objeto social não seja
direcionado à produção ou circulação bens e serviços.

A Sociedade Simples pode ser constituída sobre qualquer espécie


de sociedades, com exceção de Sociedade por Ações. Essa se subdivide em
Sociedade de Comandita por Ações e Sociedade Anônima. Mesmo não exercendo
uma atividade econômica empresária, poderá assumir as formas previstas pela
Sociedade Empresária, que será vista na próxima divisão deste tópico.

UNI

As sociedades simples não são estruturadas empresarialmente e decorrem das


antigas sociedades civis que visam ao lucro.

A sociedade simples representa aquela constituída para o exercício


de atividades que não sejam estritamente empresárias. “Ocorre nos casos das
atividades rurais, educacionais, médicas ou hospitalares, de exercício de profissões
liberais nas áreas de engenharia, arquitetura, ciências contábeis, consultoria,
auditoria, pesquisa científica, artes, esportes e serviço social” (FIÚZA, 2004, p. 32).

Alguns exemplos de Sociedades Simples apresentadas por Sanchez


(2017, p. 78) são a sociedade de advogados e as cooperativas. As sociedades de
advogados são consideradas sociedades simples e se submetem às regras do
Estatuto da Advocacia (Lei 8.906/1994). As cooperativas também são consideradas
sociedades simples, conforme o art. 982 do Código Civil, independentemente do
seu objeto social. São formadas a partir da união de no mínimo 20 pessoas que
reciprocamente se obrigam a contribuir com bens ou serviços para o exercício de
uma atividade econômica, sem objetivo de lucro.

As cooperativas se caracterizam pela regra da responsabilidade ilimitada,


ainda que se possa optar pela forma limitada. A responsabilidade dos sócios será
sempre solidária e dependente da proporção de suas quotas. No entanto, há a
indivisibilidade social em relação ao fundo de reserva.
152
TÓPICO 2 | SOCIEDADES EMPRESÁRIAS

As cooperativas atuam no mercado, “eliminando intermediários e obtendo,


em razão disto, maiores vantagens patrimoniais. É próprio a estas sociedades
realizar negócios, embora em seu nome, para o sócio, a quem irão defluir os
resultados positivos, chamados de ‘sobras’” (ABRAM; DOROW, 2009, p. 134).

Ainda, as cooperativas “existem para trabalhar por seus associados, e, por


isto mesmo, os lucros que são gerados por seu intermédio não lhes pertencem,
nem originalmente, porque originalmente eles já se destinam aos que atuam em
atividades econômicas de forma cooperada” (OLIVEIRA, 1996, p. 82).

A Lei nº 5.764, de 16.11.1971 (BRASIL, 2018), referente às sociedades


cooperativas, expõe os princípios doutrinários do cooperativismo. Tais princípios
foram aprovados, em 1966, pelo Congresso de Viena e são: adesão livre, gestão
democrática, retorno dos excedentes aos associados proporcionalmente às
operações realizadas junto à cooperativa, juros limitados sobre o capital e
desenvolvimento da educação cooperativa.

UNI

Com a Lei nº 5.764, de 16.11.1971 (BRASIL, 2018), estabeleceu-se o princípio da


cooperação e a finalidade não lucrativa da sociedade.

O capital das cooperativas é ilimitado e variável em conformidade com


o número de associados que entram ou saem. No entanto, não será permitido o
ingresso na cooperativa de indivíduos que operem no mesmo campo econômico
(art. 29, § 4º, BRASIL, 2018). Em relação ao retorno das sobras, estas são dadas
na proporção às operações realizadas. Também é prevista a igualdade de
direitos entre os associados (arts. 37, 38, § 3º, e 42, BRASIL, 2018). Existe ainda a
impossibilidade de distribuição de qualquer espécie de benefício às quotas-partes
do capital ou o estabelecimento de outras vantagens ou privilégios, financeiros ou
não, em favor de quaisquer associados ou terceiros. Tal prerrogativa impossibilita
que as cooperativas sejam utilizadas como fachada para evasão fiscal (ABRAM;
DOROW, 2009, p. 134).

Um importante aspecto que diferencia as cooperativas de outras sociedades


está no tipo de remuneração dos sócios. Esta remuneração é de acordo com sua
participação no capital. Ou seja, o retorno das sobras líquidas é atribuído em
proporção às operações que o associado tiver efetuado com a sociedade e não em
função do valor ou quantidade das quotas que o mesmo possui. Neste contexto,
o associado não usufrui de vantagens diretas pelo fato de possuir quotas-partes.
Essas quotas servem como uma mola propulsora, possibilitando o capital social
para o funcionamento da cooperativa (ABRAM; DOROW, 2009).

153
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

Para que uma sociedade seja constituída, tanto na forma empresarial,


quanto simples, deve ser feito um contrato social ou estatuto, conforme o art. 997
do Código Civil (BRASIL, 2018). Este deve conter, necessariamente, as seguintes
cláusulas:

I- Nome, nacionalidade, estado civil, profissão e residência dos sócios, se


pessoas naturais, e a firma ou denominação, nacionalidade e sede dos sócios,
se jurídicas;
II- Denominação, objeto, sede e prazo da sociedade;
III- Capital da sociedade, expresso em moeda corrente, podendo compreender
qualquer espécie de bens, suscetíveis de avaliação pecuniária;
IV- Quota de cada sócio no capital social e o modo de realizá-la;
V- Prestações a que se obriga o sócio cuja contribuição consista em serviços;
VI- Pessoas naturais incumbidas da administração da sociedade, bem como
seus poderes e atribuições;
VII- A participação de cada sócio nos lucros e nas perdas;
VIII- Se os sócios respondem, ou não, subsidiariamente, pelas obrigações sociais.

UNI

A sociedade somente adquire personalidade jurídica (sujeito de direitos) quando


seu contrato social estiver arquivado nos registros próprios.

3.2.2 Sociedades Empresárias

Como visto anteriormente, a sociedade empresária é aquela pessoa


jurídica que exerce, profissionalmente, atividade econômica organizada para a
produção ou circulação de bens ou de serviços. A classificação dos sócios em face
de sua responsabilidade perante a sociedade empresária está no quadro a seguir:

QUADRO 2 – CLASSIFICAÇÃO DOS SÓCIOS SEGUNDO SUA


RESPONSABILIDADE NA SOCIEDADE EMPRESÁRIA

Quando os sócios respondem ilimitadamente


pelas obrigações sociais. Se o patrimônio social
Sociedade ilimitada não for suficiente para o pagamento dos credores
da sociedade, o saldo poderá ser exigido dos
sócios, nos seus patrimônios particulares.
Parte dos sócios tem responsabilidade limitada
Sociedade mista
e outra tem responsabilidade ilimitada.

154
TÓPICO 2 | SOCIEDADES EMPRESÁRIAS

Todos os sócios têm responsabilidade limitada


ao capital social integralizado na sociedade, não
Sociedade limitada
respondendo com seus patrimônios particulares
pelas obrigações sociais.

FONTE: Os autores

Estas ainda podem ser subdivididas conforme o Quadro 3:

QUADRO 3 – SUBCLASSIFICAÇÃO DOS SÓCIOS SEGUNDO SUA


RESPONSABILIDADE NA SOCIEDADE EMPRESÁRIA

Sociedade ilimitada Sociedade em nome coletivo.


Sociedade em Comandita Simples.
Sociedade mista
Sociedade em Comandita por Ações.
Sociedade Limitada.
Sociedade limitada.=
Sociedade Anônima.

FONTE: Os autores

3.2.2.1 Sociedades Empresárias Limitadas


A Sociedade Limitada (Ltda) é constituída por um ou mais sócios e seu
contrato social deve ser registrado na Junta Comercial do Estado de atuação. Ela
é uma das mais comuns no país. Nela, a responsabilidade do sócio é limitada,
ou seja, ele só responde pela parte que investiu. No entanto, sua participação
também fica limitada a essa proporção.

Diga-se que uma sociedade venha a contrair dívidas, o patrimônio dos


sócios não será atingido, sendo que esses responderão apenas pelo capital social
investido. Trata-se de uma garantia aos sócios de que não será afetado seu
patrimônio particular pelas dívidas da sociedade. A exceção a isso ocorre se o
sócio praticar ato com excesso de poderes ou infração da lei ou do contrato social.
A lei exige que os sócios-quotistas apenas integralizem o capital social (art. 1.052
do Código Civil, BRASIL, 2018).

A administração da sociedade pode ser feita por terceiros. Em outras


palavras, o administrador não precisa ser sócio da empresa, no entanto, será
escolhido pela maioria dos sócios.

155
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

NOTA

Numa sociedade limitada, o capital social divide-se em quotas, iguais ou


desiguais, cabendo uma ou diversas a cada sócio.

Como já visualizado, na sociedade limitada, a responsabilidade de


cada sócio é restrita ao valor de suas quotas (partes investidas). Não obstante,
todos os sócios respondem solidariamente pela integralização do capital social.
Quando o capital social é integralizado, cessa a responsabilidade dos sócios e
os seus bens particulares não respondem pelas obrigações sociais. Porém, não
havendo integralização do total do capital social, previsto no contrato social, a
responsabilidade entre os sócios será solidária. Essa situação prevalece até que o
montante do capital esteja completo.

A sociedade poderá ser constituída através de instrumento particular ou


por instrumento público. Em qualquer situação, será inscrito (depositado) no
Registro Público competente, dentro dos 30 dias subsequentes à sua constituição.
Caso algum sócio não integralizar a sua parte no capital social, os outros sócios
podem tomá-la para si ou transferi-la a terceiros, excluindo o primitivo titular.
Neste caso, deve lhe devolver o que houver sido pago, deduzidos os juros da
mora, as prestações estabelecidas no contrato e as despesas. Em caso de omissão
do contrato, segundo o artigo 1.057 do Código Civil brasileiro (BRASIL, 2018),
um dos sócios pode ceder suas quotas a terceiros sem a anuência dos demais
sócios. Isto pode ser feito desde que não haja oposição de titulares de mais de um
quarto do capital social (ABRAM; DOROW, 2009).

Sobre as deliberações na sociedade limitada, Sanchez (2017) faz a seguinte


sumarização:

• Para a modificação do contrato social, fusão, incorporação, dissolução ou a


cessão do estado de liquidação, exige-se a aprovação de três quartos do capital
social.
• Referente a nomeação, destituição ou fixação de remuneração dos
administradores, além de pedido de recuperação judicial, exige-se mais da
metade do capital social.
• Caso o capital social não esteja integralizado, deverá haver unanimidade para
a designação de administrador.
• A destituição de administrador sócio, nomeado pelo contrato social, e para a
nomeação de administrador não sócio, quando o capital já estiver integralizado,
é necessário quórum de dois terços.
• Para demais deliberações, exige-se a maioria dos votos dos presentes à
assembleia, salvo exigência prevista no contrato social.

156
TÓPICO 2 | SOCIEDADES EMPRESÁRIAS

Em relação aos direitos e deveres dos sócios nas Sociedades Limitadas,


Bueno (2018) apresenta:

• Todos os sócios têm direito a uma porcentagem mínima no resultado dos


lucros obtidos pelo negócio, conforme acordado em cláusula que deve constar
no contrato social. Caso não conste e se opte recorrer à Lei das Sociedades
por Ações, esta determina em seu artigo 202 que metade do lucro líquido
seja distribuído aos sócios, ao final do exercício. E se também não tiver sido
declarado no contrato uma cláusula como essa, logo a sociedade deve ser regida
apenas pelo Código Civil Brasileiro ou pela maioria societária, em último caso.

• Além de uma parte sobre os lucros obtidos, os sócios responsáveis pela gestão
e administração do negócio têm direito, ainda, ao Pro Labore, que igualmente
deve ser estabelecido em cláusula contratual, seja de acordo com o Código
Civil ou outra lei. Em caso de inexistência desse fator no contrato, cabe aos
demais sócios decidirem, em conjunto, o valor a ser pago aos administradores
e gestores sócios do negócio.

• Como segurança para todos os sócios, é salutar que no contrato haja uma
cláusula específica sobre informações gerenciais, de modo que possa auxiliar
a fiscalização da gestão da empresa, permitindo sua consulta aos livros, caixa
e demais documentos referentes à sociedade e seus lucros. De acordo com o
artigo 1.071 do Código Civil é possível, por exemplo, exigir uma prestação de
contas mensal, com lucros, gastos, despesas etc. Dessa forma, o sócio gestor ou
administrador do negócio deve apresentar, de forma transparente, esses dados
aos demais integrantes da sociedade.

• Os sócios têm o direito de contribuir e deliberar sobre as ações sociais da empresa


por meio de assembleias, com a participação de todos. De acordo com o Código
Civil, apenas desta forma podem, por exemplo, modificar o contrato social,
dissolver uma sociedade, mudar os sócios responsáveis pela administração e
gestão do negócio, decidir a remuneração dos gestores, aprovar contas, eleger
um conselho fiscal, dentre outras medidas.

• A realização de assembleias é obrigatória quando o número de sócios em uma


empresa LTDA for superior a dez pessoas, de acordo com o artigo 1.072 e os
subsequentes do Código Civil. Deve ser realizada ao menos uma vez por ano.
Para que os sócios e demais representantes da empresa participem, o convite
para a assembleia deve obrigatoriamente ser publicado no Diário Oficial do
Estado ou em um jornal de grande circulação na localidade onde a sede da
empresa foi instalada. Após sua realização, as atas de cada assembleia devem
ser registradas e arquivadas na Junta Comercial. Porém, caso a empresa possua
menos de dez sócios, ainda assim pode realizar as assembleias, porém ocorre
de forma facultativa.

Por fim, pode haver a expulsão de um sócio a partir do momento em que


este descumpra com as obrigações arroladas no contrato social. Exemplos são:

157
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

• Inadimplência da integralização do capital social;


• Falta no dever de lealdade ou alguma incapacidade de outra natureza
identificada por uma maioria societária (artigo 1.030 do Código Civil).

No caso destas situações é necessário ocorrer a rescisão do contrato, na


qual os demais sócios podem convocar uma assembleia para deliberar sobre a
situação. Há ainda a possibilidade de que o contrato social também contenha uma
cláusula na qual seja definida a possibilidade de exclusão extrajudicial. Em caso
de inconformidade com algum desses fatores, a expulsão pode ocorrer mediante
uma ação de dissolução para caracterizar a exclusão judicial (BUENO, 2018).

A seguir um quadro sinótico a respeito da Sociedade Limitada:

QUADRO 4 – QUADRO SINÓTICO DE SOCIEDADE LIMITADA

Adotam subsidiariamente as regras das sociedades


Regência Supletiva simples, os sócios podem optar pela regência
supletiva das regras das sociedades por ações.

Contrapartida adquirida pelos sócios que


Quotas
contribuíram para o capital social.
No silêncio do contrato, a cessão de quotas é
Cessão de quotas permitida, desde que não haja oposição de sócios
que representem 25% do capital social.
A vontade da sociedade é expressa pelos sócios
em reunião ou assembleia, podendo estas serem
Vontade da sociedade
dispensadas caso haja pronunciamento por escrito
de todos os sócios.
As deliberações serão tomadas em reunião ou
Deliberações assembleia, sendo obrigatória a assembleia se o
número dos sócios for superior a dez.
O administrador da sociedade poderá ser sócio ou
Administração
outra pessoa estranha ao quadro societário.
Os poderes de gestão da sociedade conferidos ao
Direitos e obrigações dos administradores
administrador serão definidos no contrato social.
Dever de lealdade e de contribuir para a formação
Deveres dos Sócios
do capital social.
É restrita ao valor de suas quotcas, havendo
Responsabilidade dos Sócios
solidariedade quanto à integralização do capital social.

FONTE: Os autores

3.2.2.2 Sociedade Anônima (S.A.)


Ao se tratar de empresas maiores e mais complexas, tem-se no Brasil a
sociedade anônima (S.A.). Esta também é chamada de companhia ou sociedade por
ações. Trata-se de uma empresa com fins lucrativos que tem seu capital dividido
em ações e a responsabilidade de seus sócios (acionistas) limitada ao preço da
158
TÓPICO 2 | SOCIEDADES EMPRESÁRIAS

emissão das ações subscritas (lançadas para aumento de capital) ou adquiridas.


Nas S.A., os sócios são chamados de acionistas e têm responsabilidade limitada
ao preço das ações adquiridas.

Nesse tipo de sociedade, o capital não está relacionado aos sócios, mas às
ações. Essa sociedade deve ter no mínimo sete acionistas. O documento básico
que regula a sociedade anônima é o estatuto. Nele estão previstos os direitos e
obrigações dos acionistas.

Dentro do gênero das ações nesse tipo de sociedade, divide-se em duas espécies
mais utilizadas: Ações Ordinárias e Ações Preferenciais (ARAÚJO, 2014, s. p.).

Ações Ordinárias (ON): É conferido o direito a voto nas Assembleias


Gerais, além de participação nos resultados da Companhia. Ou seja, não só seus
detentores têm direitos aos dividendos gerados, eles têm a possibilidade de
participar na gestão da companhia através do voto. Esta representa uma espécie
mais comum de ações.

Ações Preferenciais (PN): É conferida vantagem ou benefício não


extensivo à ação ordinária, geralmente uma preferência no recebimento dos
lucros, a garantia de um recebimento mínimo, ou preferência no reembolso do
capital. Em contrapartida, tais ações podem não ter direito a voto, ou alguma
limitação em seu exercício. A esse respeito, a Lei das S/A (BRASIL, 1997) estipula:

Art. 17. As preferências ou vantagens das ações preferenciais podem


consistir:

I - em prioridade na distribuição de dividendo, fixo ou mínimo;


II - em prioridade no reembolso do capital, com prêmio ou sem ele; ou
III - na acumulação das preferências e vantagens de que tratam os
incisos I e II.

Para entender como funciona uma sociedade anônima, alguns conceitos


básicos devem ser revistos:

• Capital Social: É a soma de toda contribuição dos sócios, isto é, o montante


financeiro pertencente à companhia. O capital social é expresso em moeda
nacional e pode compreender qualquer espécie de bem que possa ser avaliado
em dinheiro durante seu processo de formação. O capital social é repartido
em partes chamadas ações. A redução de capital ocorre por desvalorização
das ações ou por excesso ou falta de subscritores (alguém que ingressa na
sociedade, adquirindo ações). O aumento de capital ocorre quando as ações se
valorizam ou há entrada de subscritores, pois eles adquirem ações, aumentando
o patrimônio da companhia.

• Sociedade de Capital: As ações de uma sociedade anônima podem ser


transmitidas para qualquer pessoa, não importando a característica do sócio.
O estatuto não pode proibir esse tipo de negociação, mas pode limitá-la.

159
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

• Responsabilidade do Acionista: A responsabilidade do acionista é limitada


ao valor das ações adquiridas e subscritas. Assim que a ação for integrada, o
acionista não terá nenhuma responsabilidade suplementar.

Os tipos de capital social existente são: “Capital Aberto”, quando as


ações podem ser negociadas na bolsa de valores; e “Capital Fechado”, quando
não há oferta para negociação. Ou seja, seus valores mobiliários não passam por
negociações na bolsa ou no mercado de balcão.

A seguir estão algumas características da Sociedade Anônima (AS):

• possui capital dividido em ações;


• a importância nesta sociedade são os capitais acumulados e não o acionista em
si. A posse de ações é que faz valer a participação do acionista;
• as ações só podem ser emitidas pela empresa com autorização da CVM
(Comissão de Valores Mobiliários);
• somente as próprias ações são usadas como garantia financeira da companhia.
Ou seja, nenhum dos sócios precisa responder com seu patrimônio particular
pelas dívidas da empresa;
• sua estrutura organizacional se compõe por uma assembleia geral, o conselho
de administração, diretoria e conselho fiscal;
• pode ser uma sociedade aberta ou fechada;
• a responsabilidade do acionista é limitada ao preço das ações adquiridas ou
subscritas;
• as ações são títulos circuláveis, isto é, o acionista tem a liberdade de cedê-las e
negociá-las;
• constitui pessoa jurídica de direito privado.

UNI

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) foi criada em 7/12/1976 pela Lei


no 6.385/76, com o objetivo de fiscalizar, normatizar, disciplinar e desenvolver o mercado
de valores mobiliários no Brasil. Trata-se de uma entidade autárquica em regime especial,
vinculada ao Ministério da Fazenda, com personalidade jurídica e patrimônio próprios, dotada
de autoridade administrativa independente, ausência de subordinação hierárquica, mandato
fixo e estabilidade de seus dirigentes, e autonomia financeira e orçamentária.

Deve existir uma divisão de órgãos dentro das companhias para que
não haja relação de vantagem e desvantagens entre grupos, além de manter a
legalidade de tudo que se pratica dentro da empresa. Os principais órgãos das
sociedades anônimas, que possuem uma estrutura fixa, determinada pela Lei no
6.404/76, são:

160
TÓPICO 2 | SOCIEDADES EMPRESÁRIAS

Assembleia Geral

É o órgão superior e mais poderoso no que diz respeito às decisões da


empresa. Sua responsabilidade é de reunir os acionistas para discutir os interesses
da companhia. As decisões como ações futuras, condição dos membros é feita por
eleição. Nestas é possível destituir membros da administração e do conselho fiscal.

A Assembleia geral acontece sob duas formas: Assembleia geral ordinária


e Assembleia geral extraordinária. A Assembleia geral ordinária é anual e visa
discutir matérias preestabelecidas. Já a Assembleia Geral Extraordinária pode ser
convocada a qualquer momento, quando houver necessidade de debater assuntos
residuais ou urgentes.

Em 2011 houve uma autorização pela Lei das S.A. para que os acionistas
de companhias abertas pudessem realizar assembleias gerais à distância, podendo
até realizar votações. Elas são chamadas de Assembleias Eletrônicas ou Votações
Eletrônicas. Com isso, houve uma modernização do contato dos acionistas e a
diminuição de ausências.

Conselho de Administração

É um órgão facultativo. Só precisa existir caso a sociedade seja do tipo


dualista, isto é, quando, além da assembleia geral, existe outro órgão com poder
de fiscalizar a diretoria, que, no caso, é o conselho de administração. É também um
órgão deliberativo e composto por acionistas escolhidos pela assembleia geral, os
chamados conselheiros. A principal função do conselheiro é agilizar as decisões.
Cabe a ele também se reunir com os outros conselheiros para que possam discutir
os negócios da empresa e fiscalizar o trabalho dos diretores.

3.2.2.3 Sociedade em Nome Coletivo


Este tipo de sociedade também é chamado de sociedade geral, sociedade
de responsabilidade ilimitada ou sociedade solidária ilimitada. Nestas, o nome
empresarial consiste na razão social composta pelo nome pessoal de um ou mais
sócios. Quando não houver referência a todos os sócios, a razão social deve ser
acompanhada da expressão "e Companhia" ou "& Companhia", ou "e Cia" ou "&
Cia".

Trata-se de uma sociedade mediante contrato escrito e formalizado apenas


por pessoas naturais. Ou seja, somente as pessoas físicas podem tomar parte na
sociedade em nome coletivo. Estes respondem de forma solidária e ilimitada
pelas obrigações sociais. A responsabilidade perante terceiros de cada sócio pode
ser limitada no ato constitutivo, ou por unânime convenção posterior.

Nessas sociedades, o contrato deve mencionar, além das indicações


obrigatórias, a firma social. Sua administração compete exclusivamente aos

161
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

sócios, sendo o uso da firma, nos limites do contrato, privativo dos que tenham
os necessários poderes.

Os sócios, além de responderem perante a sociedade pela sua obrigação


de entrada, respondem ainda perante os credores da sociedade pelas obrigações
desta. A responsabilidade por estas dívidas é subsidiária em relação à sociedade.
Ou seja, o credor particular de sócio não pode, antes de dissolver-se a sociedade,
pretender a liquidação da quota do devedor.

Entretanto, o credor poderá fazê-lo quando:

I- A sociedade houver sido prorrogada tacitamente;

II- Tendo ocorrido prorrogação contratual, for acolhida judicialmente oposição


do credor, levantada no prazo de noventa dias, contado da publicação do ato
dilatório.

A sociedade em nome coletivo se dissolve de pleno direito por qualquer


das causas estabelecidas para as sociedades em geral e, se empresária, também
pela declaração da falência. Abaixo estão enumeradas as causas de dissolução
com base nos artigos 1.039 a 1.044 do Código Civil:

I- O vencimento do prazo de duração, salvo se, vencido este e sem oposição de


sócio, não entrar a sociedade em liquidação, caso em que se prorrogará por
tempo indeterminado;

II- O consenso unânime dos sócios;

III- A deliberação dos sócios, por maioria absoluta, na sociedade de prazo


indeterminado;

IV- A falta de pluralidade de sócios, não reconstituída no prazo de cento e oitenta


dias;

V- A extinção, na forma da lei, de autorização para funcionar.

3.2.2.4 Sociedade em Comandita Simples


Na sociedade em comandita simples, os sócios são divididos em duas
categorias, comanditados e comanditários.

• Comanditados: São as pessoas físicas responsáveis pelas obrigações fiscais e


financeiras.
• Comanditários: São responsáveis e obrigados somente em relação à sua quota.

162
TÓPICO 2 | SOCIEDADES EMPRESÁRIAS

Esta é considerada um tipo misto de sociedade em que parte dos sócios


tem responsabilidade limitada, enquanto o restante responde integralmente.
Desta forma, no contrato social deve estar explícita a discriminação da situação
de cada sócio. Caso haja a entrada de um novo sócio, deve haver a anuência de
todos os demais. A administração desta sociedade é feita pelos comanditados, ou
conforme especificado no contrato social.

UNI

O comanditário não pode praticar qualquer ato de gestão, nem ter o nome na
firma social, sob pena de ficar sujeito às responsabilidades de sócio comanditado.

Atualmente, esse tipo de sociedade é pouco utilizado, uma vez que seus
sócios possuem responsabilidade ilimitada. O art. 1.049 do Código Civil expressa
que sócio comanditário não é obrigado à reposição de lucros recebidos de boa-
fé e de acordo com o balanço. Assim, diminuído o capital social por perdas
supervenientes, não pode o comanditário receber quaisquer lucros, antes de
reintegrado aquele.

Em caso de morte de sócio comanditário, a sociedade, salvo disposição do


contrato, continuará com os seus sucessores, que designarão quem os represente.
Na falta de sócio comanditado, os comanditários nomearão administrador
provisório para praticar, durante o período de 180 dias e sem assumir a condição
de sócio, os atos de administração.

Por fim, dissolve-se de pleno direito a sociedade de comandita simples:

I- Por qualquer das causas previstas no art. 1.044;

II- Quando por mais de cento e oitenta dias perdurar a falta de uma das categorias
de sócio.

3.2.2.5 Sociedade em Comandita por Ações


Assim como na S/A, esta comandita tem seu capital dividido em ações. Não
obstante, difere da sociedade anônima porque opera por firma ou denominação,
não em conjunto com seus acionistas.

Nesta sociedade, quem exerce os atos deliberativos e responsabilidades


sociais é o diretor nomeado. É importante dizer que há a possibilidade de se nomear
mais de um diretor, desde que isso seja feito no ato de constituição da sociedade.

163
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

Os diretores serão nomeados no ato constitutivo da sociedade, sem


limitação de tempo. Estes somente poderão ser destituídos por deliberação de
acionistas que representem no mínimo dois terços do capital social. O diretor
destituído ou exonerado continua, durante dois anos, responsável pelas
obrigações sociais contraídas sob sua administração.

NOTA

Caso haja mais de um diretor, serão solidariamente responsáveis, depois de


esgotados os bens sociais.

Em relação à assembleia geral, esta não pode, sem o consentimento dos


diretores, mudar o objeto essencial da sociedade. De mesma forma, não pode
lhe prorrogar o prazo de duração, aumentar ou diminuir o capital social, criar
debêntures, ou partes beneficiárias.

A seguir, pode-se visualizar um quadro sinótico com os tipos e


classificações das sociedades em relação ao gênero estudadas no tópico 2.

QUADRO 5 – QUADRO SINÓTICO DAS SOCIEDADES EM RELAÇÃO AO GÊNERO E TIPO

GÊNERO TIPO
– Sociedade limitada
– Sociedade anônima
– Empresárias – Sociedade em nome coletivo
– Sociedade em comandita simples
– Sociedade em comandita por ações
Sociedades
– Sociedade Simples pura
– Sociedade simples limitada
– Simples - Sociedade em nome coletivo
– Sociedade em Comandita Simples
– Sociedade Cooperativa

FONTE: Passei Direto (2018)

No último tópico da Unidade 3 serão abordadas as temáticas Títulos de


Crédito e recuperação de empresas. Não obstante, têm-se ainda, para ajudar a
fixação do conteúdo do tópico 2, o resumo e as autoatividades.

164
RESUMO DO TÓPICO 2

Neste tópico, você aprendeu que:

• As sociedades empresárias nascem do esforço de várias pessoas em nome de


um objetivo comum, o lucro. Essas expressam a celebração de contratos entre
as pessoas que reciprocamente se obrigam a contribuir com bens ou serviços
para o exercício da atividade econômica e a partilha, entre si, dos resultados.

• A classificação das sociedades se dá em: Sociedades Personificadas, Sociedades


Empresárias, Sociedades Cooperativas e Sociedades Coligadas.

• A Sociedade de Propósito Específico (SPE) representa um modelo de


organização empresarial com um objetivo específico.

• A diferença entre SPE e Consórcio Contratual é que a primeira possui


personalidade jurídica, decorrente da celebração de um contrato de sociedade.

• A diferença entre Sociedades Personificadas e Não Personificadas está


na personalidade jurídica, que é adquirida com o registro nas sociedades
personificadas.

• As Sociedades em Comum correspondem a qualquer sociedade que explora


uma atividade econômica e que ainda não está registrada. e as Sociedades em
Conta de Participação. Por sua vez, a sociedade em conta de participação não é
uma sociedade empresária, pois é uma modalidade não personificada.

• As Sociedades Personificadas Simples representam um tipo de sociedade


personificada e não empresária.

• As Sociedades Empresárias são divididas em: Limitada, Anônima, Em Nome


Coletivo, Em Comandita Simples, Em Comandita e Comandita Por Ações.

165
AUTOATIVIDADE

1 (XVI Exame de Ordem Unificado – FGV) Terezinha, sócia minoritária e


administradora da sociedade Z & Cia. Ltda., com participação de 23% no capital
social, foi excluída da sociedade por ter se apropriado de bens sociais e alienando-
os de forma fraudulenta. A exclusão extrajudicial observou todos os requisitos
legais, tendo sido inclusive aprovada em assembleia própria, com quórum
superior à metade do capital social. Após a deliberação, foi alterado o contrato
social com a nova composição societária e realizado o arquivamento na Junta
Comercial. Efetuado o registro da alteração contratual, Z & Cia. Ltda. deverá:

a) ( ) realizar a liquidação das quotas de Terezinha, com base no último balanço


aprovado; a ex-sócia não responderá pelas obrigações sociais anteriores porque,
na sociedade limitada, sua responsabilidade é restrita ao valor do capital social.
b) ( ) ser dissolvida, cabendo aos sócios remanescentes investir o liquidante
em suas funções; a ex-sócia receberá o valor de suas quotas, apurado
com base em balanço especial, no curso da liquidação, após o pagamento
aos credores.
c) ( ) reduzir compulsoriamente o capital, sendo vedado aos demais sócios
suprir o valor da quota de Terezinha; esta responderá subsidiariamente
pelas obrigações sociais até dois anos contados da data da deliberação
que a excluiu da sociedade.
d) ( ) realizar a liquidação das quotas de Terezinha, com base em balanço
especial; a ex-sócia responderá pelas obrigações sociais anteriores, até
dois anos após a averbação da resolução da sociedade na Junta Comercial.

2 Qual a diferença entre Sociedades Personificadas e Não Personificadas?

3 (XVI Exame de Ordem Unificado – FGV) Uma letra de câmbio no valor de R$


13.000,00 (treze mil reais) foi endossada por Pilar com cláusula de mandato
para o Banco Poxim S/A. Não tendo havido pagamento no vencimento, a
cambial foi apresentada a protesto pelo endossatário mandatário, tendo sido
lavrado e registrado o protesto pelo tabelião. Dez dias após o protesto, Rui
Palmeira, aceitante da letra de câmbio, compareceu ao tabelionato e apresentou
declaração de anuência firmada apenas pelo endossante da letra de câmbio,
com identificação do título e firma reconhecida. Não houve apresentação do
título no original em sua cópia. À luz das disposições da Lei nº 9.492/97 sobre
o cancelamento do protesto, é correto afirmar que o tabelião:

a) ( ) não poderá realizar o cancelamento do protesto por faltar no documento


apresentando a anuência do endossatário mandatário.
b) ( ) não poderá realizar o cancelamento do protesto, porque esse ato é
privativo do juiz, diferentemente da sustação do protesto.
c) ( ) poderá realizar o cancelamento do protesto, porque é suficiente a
declaração de anuência firmada pelo endossante-mandante.
d) ( ) poderá realizar o cancelamento do protesto, porque o pedido foi feito
no prazo legal (30 dias) e pelo aceitante, obrigado principal.
166
UNIDADE 3
TÓPICO 3

TÍTULOS DE CRÉDITO, RECUPERAÇÃO DE


EMPRESAS E FALÊNCIA

1 INTRODUÇÃO
Neste tópico, você estudará os principais títulos de crédito e entenderá
a função e o funcionamento de cada um deles. O título de crédito representa
um documento que contém um direito de crédito e representa a obrigação desta
dívida com as informações nele inscrita. Alguns títulos de crédito que você
deve conhecer são os cheques, as letras de câmbio, as notas promissórias e as
duplicatas.

Também nesse tópico será vista a situação de insolvência que pode acometer
as sociedades empresárias, quando estas deixam de cumprir seus compromissos
financeiros. Por meio da Lei nº 11.101, de 9 de fevereiro de 2005 (BRASIL, 2018),
tem-se as disposições legais que regulamentam esta situação. Esta lei direciona
a ação do empresário, possibilitando que o mesmo possa reverter este cenário e
ter a possibilidade de recuperação de sua empresa. Também relata as situações
de falência, em que a empresa não consegue ser recuperada, havendo assim a
liquidação forçada de seus ativos.

2 O SURGIMENTO DO CRÉDITO
O Crédito é um conceito que significa confiança, derivando do verbo
“crer”, ou seja, a capacidade de acreditar em algo ou alguém. Em seu sentido
financeiro, significa dispor recursos financeiros para fazer frente a despesas ou
investimentos. Em outras palavras, é a capacidade de financiar a compra de bens
e serviços.

Como já mencionado no Tópico 1 desta unidade, já nos primórdios das


primeiras civilizações, as relações econômicas se davam por meio do escambo,
ou seja, pelas trocas. Visualizou-se o interesse comum das pessoas sobre
determinados bens, que passaram a servir como base das trocas e produtos de
intermediação. Exemplos destes tipos de produtos eram o sal, o gado e os fios.
Posteriormente, na fase do metalismo, ouro, a prata e bronze serviam como
instrumentos intermediadores das trocas, sendo aceitos por todos (ABRAM;
DOROW, 2009).

167
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

Com a evolução destas trocas, surgiu o dinheiro, que corresponde a


uma mercadoria voluntariamente aceita por todos, desempenhando as funções
intermediárias nas aquisições de outras mercadorias e na obtenção de serviços
indispensáveis. Tal recurso objetiva satisfazer as necessidades humanas no
convívio social (ABRAM; DOROW, 2009).

O dinheiro não foi o último estágio dos instrumentos de


troca. Surgiu uma “nova moeda”, que permitiria trocar dinheiro presente por
dinheiro que se obteria no futuro. Assim, no aspecto financeiro, o crédito como
conhecemos hoje se iniciou na Revolução Industrial, com o aparecimento da
classe operária. Esta usufruía de um emprego mais ou menos estável e vivia do
respectivo salário. Devido a esta previsibilidade de rendimentos, os trabalhadores
ofereciam a garantia de que suas dívidas seriam saldadas, mesmo tendo o bem
antecipadamente, dando início à prática do crédito.

No Brasil, indivíduos e empresas que necessitam de recursos para o


consumo e capital de giro podem contar com o crédito cedido por instituições
financeiras e não financeiras. Estas prestam serviços de intermediação de recursos
de curto, médio e longo prazo. O Banco Central do Brasil é o principal órgão
responsável pelo controle e normatização deste mercado. Em 1964, com a criação
do Conselho Monetário Nacional, uma nova fase nas operações de crédito foi
aberta no Brasil (BANCÁRIOS DF, 2014).

Com a acessibilidade ao crédito, os empreendedores individuais ou


coletivos têm a possibilidade de desenvolver sua capacidade produtiva e
fomentar o crescimento econômico. Neste sentido, a expansão do mercado de
crédito representa uma importante ferramenta para o crescimento da economia
brasileira.

A partir de 1967 presencia-se a expansão dos financiamentos não só para


a produção, mas também para o consumo. Esta obtenção de crédito permitiu ao
consumidor a possibilidade de utilização do bem e serviço de forma imediata. Essa
possibilidade de antecipar a propriedade do bem, assumindo um compromisso
de pagamento em parcelas futuras, impulsionou ainda mais a movimentação
comercial (BANCÁRIOS DF, 2014).

É importante salientar que taxas de juros em conjunto com impostos sobre


operações financeiras foram embutidas no crédito, aumentando o preço do bem
e tornando estes os principais encargos do consumidor.

Destarte, o crédito tem um papel fundamental na economia, uma vez


que permite que bens de maior valor (imóveis, automóveis, máquinas) possam
ser financiados e consumidos por um número maior de pessoas. Além disso, o
investimento dos setores produtivos possibilita um aperfeiçoamento dos aspectos
tecnológicos, da estrutura e da geração de empregos nas empresas.

168
TÓPICO 3 | TÍTULOS DE CRÉDITO, RECUPERAÇÃO DE EMPRESAS E FALÊNCIA

3 CONCEITO E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DO TÍTULO


DE CRÉDITO
O Código Civil Brasileiro (Lei no 10.406/ BRASIL, 2002) em seu art. 887
conceitua o título de crédito: “O título de crédito, documento necessário ao
exercício do direito literal e autônomo nele contido, somente produz efeito
quando preencha os requisitos da lei”.

Neste sentido, o Crédito, no sentido moral, corresponde ao mesmo que


confiança, e economicamente falando, representa uma permuta de bens ou
valores presentes, por futuros. "Título de crédito é o documento necessário para o
exercício do direito literal e autônomo nele mencionado" (MARTINS, 1999, p. 7).

As características dos títulos de crédito são: Cartularidade, Literalidade,


Autonomia, Abstração, Circulabilidade, Coobrigação e Executividade (ZARIF,
2018, s. p.).

CARTULARIDADE

A cartularidade, também chamada de incorporação, representa a


característica pela qual o crédito se incorpora ao documento. Em outras palavras,
o crédito se materializa no título. Um exemplo é o direito de crédito de um cheque
que está incorporado nele próprio, bastando apenas apresentá-lo no banco
referido para exercer o direito.

LITERALIDADE

A literalidade corresponde ao atributo do título de crédito que apresenta


o seu valor de acordo com o que nele está escrito. O título é anulado se lhe for
acrescido qualquer adendo. Exemplo: Uma pessoa emite uma nota promissória
com vencimento para 30 dias. Este documento não pode ser alterado por outro na
tentativa de alterar a data do pagamento. É direito do credor (beneficiário original
ou endossatário) receber no vencimento estipulado da forma que foi acordada.

AUTONOMIA

O princípio da autonomia significa que as obrigações assumidas no título


são independentes umas das outras. Uma elucidação desta característica é: Um
indivíduo compra determinado produto de outro. Não tendo dinheiro para efetuar
o pagamento no momento, emite uma nota promissória. Por estar necessitando
de dinheiro, o vendedor desconta o título num banco. Passado determinado
período, o rádio apresenta defeitos, e o cliente quer desfazer o negócio e pretende
não pagar a promissória. No entanto, tendo em vista o princípio da autonomia,
o banco (endossatário), que é o atual credor do título, não tem nada a ver com a
venda e compra do rádio. Neste caso, o comprador deve pagar a nota promissória
no seu vencimento, e caso queira devolver o rádio e receber o dinheiro de volta,
deverá demandar diretamente contra o vendedor.

169
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

ABSTRAÇÃO

A abstração é a não necessidade de verificação do negócio jurídico que


originou o título. Ou seja, não possui vínculo com a causa concreta motivadora
do nascimento desse título.

UNI

A duplicata não possui característica de abstração, pois fica vinculada ao


negócio mercantil que lhe deu origem.

CIRCULABILIDADE

Esta característica é descrita pela maior rapidez na circulação de valores.


Tal atributo representa a movimentação do título, por endosso ou simples
tradição, que é a transferência física do título. Desta forma, se transmite todos os
direitos inerentes ao título de crédito.

COOBRIGAÇÃO

A coobrigação é o atributo que tem por finalidade dar maior proteção ao


portador do título. Este está previsto no artigo 47 da Lei Uniforme de Genebra,
o qual estabelece que: "Os sacadores, aceitantes, endossantes ou avalistas de
uma letra são todos solidariamente responsáveis para com o portador” (BRASIL,
2018). Destarte, a pessoa que colocar sua assinatura em determinado título fica
responsável por seu pagamento tanto quanto o devedor principal.

EXECUTIVIDADE

A legislação processual brasileira estabeleceu que são considerados


títulos executivos extrajudiciais a letra de câmbio, a nota promissória, a duplicata,
a debênture e o cheque. Há ainda leis especiais que tratam de outros títulos
de crédito, e os consideram como sendo títulos executivos. Assim, havendo a
necessidade de intervenção do Judiciário na cobrança de um título, o credor
poderá ingressar diretamente com a ação executiva. Isto torna mais rápida a
realização do direito inserido no título, porém, para postular em juízo, a parte
deverá ser representada por advogado legalmente habilitado.

170
TÓPICO 3 | TÍTULOS DE CRÉDITO, RECUPERAÇÃO DE EMPRESAS E FALÊNCIA

4 CLASSIFICAÇÃO DOS TÍTULOS DE CRÉDITO


Os títulos de crédito são classificados quanto: à causa, ao emitente, à
emissão, à circulação:

• Quanto à Causa:

Abstratos: deles não se interroga a origem. Exemplos: a Letra de Câmbio,


Nota Promissória, Cheque.

Causais: ligam-se à origem, ou seja, dizem respeito à compra e venda de


mercadorias e prestação de serviço. Exemplos: as duplicatas, ações.

• Quanto ao Emitente:

Públicos: são emitidos por pessoas jurídicas de Direito Público: União,


estados, municípios, territórios, autarquias.

Privados: compreendem os títulos emitidos por particulares, civil ou


comerciante.

• Quanto à Emissão:

Individuais ou singulares: São títulos acessórios que se contrapõem ao


título principal ao qual se referem. Exemplos: cheques e duplicatas.

Em série ou em massa: emitidos, em geral, a longo prazo (prestações


periódicas, juros, dividendos etc.).

• Quanto à Circulação:

Ao portador: São os transferíveis por tradição, ou seja, ao proprietário,


presume-se ser o portador do título. Neste sentido, não obedece a nenhuma
formalidade, transferindo-se de forma simples e rápida. No entanto, segundo
o art. 906 do Código Civil, o devedor poderá opor exceção ao seu portador,
fundando-se em direito pessoal ou em nulidade de sua obrigação.

Nominativos: São os títulos cuja propriedade se transfere por endosso.

À ordem: Se um título de crédito tiver inserido, pelo seu emitente, a


cláusula à ordem, perderá sua condição de simples título nominativo, passando
a circular pelo endosso, que, sendo em branco, fará com que circule como título
ao portador.

171
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

5 CONCEITOS IMPORTANTES LIGADOS AOS TÍTULOS


DE CRÉDITO
Alguns conceitos muito comuns nos títulos de crédito e que devem ser
compreendidos pelo acadêmico são: o Endosso, o Aval, o Protesto. Da mesma
maneira, alguns mecanismos de apresentação e algumas medidas judiciais
necessárias para o recebimento do crédito contribuem para o entendimento dos
títulos de crédito.

5.1 ENDOSSO
Os arts. 910 a 920 do Código Civil (BRASIL, 2018) discorrem sobre este
conceito:

O endosso de título de crédito transfere o direito de recepção do valor


nominal do respectivo título do endossante para o endossatário. Normalmente o
endosso é utilizado como garantia de crédito em operações bancárias. Algumas
características importantes do endosso são:

• O endosso deve ser lançado pelo endossante no verso ou anverso do próprio


título.
• Pode o endossante designar o endossatário, e para validade do endosso, dado
no verso do título, é suficiente a simples assinatura do endossante.
• A transferência por endosso completa-se com a tradição (entrega) do título.
• Considera-se não escrito o endosso cancelado, total ou parcialmente.

Sobre o endosso em série, considera-se legítimo possuidor o portador do


título à ordem com série regular e ininterrupta de endossos, ainda que o último
seja em branco. Aquele que paga o título está obrigado a verificar a regularidade
da série de endossos, mas não a autenticidade das assinaturas.

Pode-se classificar o endosso em próprio e impróprio. O endosso próprio


se dá quando aquele que endossa o título, chamado endossante, transfere a
propriedade do título, e sua titularidade. Este fica coobrigado pelo pagamento
do título, ou seja, caso o sacado não o pague, o beneficiário ou o tomador poderá
cobrar dele.

O endosso próprio é subdividido em endosso em preto e endosso em


branco:

O endosso em preto ocorre quando o endossatário é identificado no


momento da transmissão do título de crédito. Já no endosso em branco, o título
é transmitido, porém sem a identificação do beneficiário. O endossatário de
endosso em branco pode mudá-lo para endosso em preto, completando-o com o
seu nome ou de terceiros. Também pode endossar novamente o título, em branco
ou em preto; por fim, pode transferi-lo sem novo endosso.

172
TÓPICO 3 | TÍTULOS DE CRÉDITO, RECUPERAÇÃO DE EMPRESAS E FALÊNCIA

Por sua vez, o endosso impróprio, sem privar o titular dos seus direitos
cambiais, transfere ao mandatário o exercício e a conservação destes direitos.
Não transfere a titularidade do crédito, mas apenas possibilidade ao detentor do
exercício de seus direitos. São espécies de endosso impróprio o endosso-mandato,
também conhecido como endosso-procuração e endosso-caução.

Endosso-mandato: é aquele que confere ao endossatário a possibilidade


de agir como representante do endossante, exercendo os direitos inerentes ao
título.

Endosso-caução: é aquele em que o título fica em garantia (penhor), em


favor do credor do endossante.

UNI

A cláusula constitutiva de penhor, lançada no endosso, confere ao endossatário


o exercício dos direitos inerentes ao título. O endossatário de endosso-penhor só pode
endossar novamente o título na qualidade de procurador.

5.2 AVAL
O aval corresponde a uma garantia pessoal dada por um terceiro, em
título de crédito, no qual se obriga, ao lado do emitente do título, a satisfazer o
crédito. Em outras palavras, fica responsável a pagar a dívida descrita literalmente
na cártula, caso o devedor não o faça, assumindo obrigações cambiais iguais às
do mesmo.

UNI

Enquanto a fiança é garantia dada em contratos, o aval garante títulos de crédito.

Existem duas modalidades de garantia: aval pessoal e aval real.

Aval Garantia Pessoal: Nessa modalidade, o avalista é escolhido e aceito


pelo credor de acordo com suas qualidades, como: histórico de bom pagador,
capacidade de pagamento e possuir patrimônio disponível em possível execução.

173
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

Aval Garantia Real: O que garante a quitação da dívida é um bem móvel


ou imóvel específico. Esse bem é minuciosamente descrito na garantia, e pode
ser executado para adimplir a dívida mesmo que, ao tempo da execução judicial,
não mais integrar o patrimônio do devedor. Essa característica é conhecida como
direito de sequela em favor do credor.

NOTA

De acordo com o Código Civil brasileiro (art. 1.647, inciso III), exige-se, sob pena
de nulidade, a anuência do cônjuge no caso do aval, exceto se o casamento for regido pela
separação convencional de bens.

5.3 PROTESTO
O protesto representa o ato formal extrajudicial que objetiva conservar
e ressalvar direitos do credor na cobrança de sua dívida. Pode ser caraterizado
como uma providência em que o credor torna público que o título foi apresentado
para aceite ou para pagamento, sem que o devedor ou o aceitante tenham
tomado esta providência. Também se torna público aos demais coobrigados pelo
título que nem uma nem outra providência foi tomada por parte do sacado ou
aceitante, respectivamente. Assim, o portador prova aos demais coobrigados que
não recebeu a quantia representada no título, ou ainda, que o título não foi aceito
ou devolvido (ABRAM; DOROW, 2009).

O protesto não é obrigatório contra o devedor principal, para que se possa


entrar na justiça, a fim de obter o pagamento. “Todavia, conquanto facultativo
relativo aos obrigados principais – aceitante e seu respectivo avalista, que lhe
é equiparado para todos os efeitos –, o protesto se faz indispensável quando se
trata de coobrigados: sacador, endossantes e seus avalistas” (ABRAM; DOROW,
2009, p. 161).

UNI

A falta do protesto obrigatório gerará a perda do direto de regresso contra o


sacador, endossadores e avalistas, conforme o art. 32, do Decreto nº 2.044/1908 (BRASIL, 2018).

O protesto deve ser realizado no lugar em que a obrigação deve ser


satisfeita, encaminhando-se o título a um cartório que se chama Tabelionato. É este
174
TÓPICO 3 | TÍTULOS DE CRÉDITO, RECUPERAÇÃO DE EMPRESAS E FALÊNCIA

que encaminha, ao devedor, um aviso de que o título foi apontado para protesto.
O devedor ou coobrigado disporá de três dias, a contar da notificação, para pagar
ou sustar o protesto, sendo que esta última providência é tomada judicialmente,
através de um advogado, que precisará provar porque o protesto não deverá ser
lavrado. O cancelamento do protesto somente acontecerá mediante pagamento,
com entrega do título em cartório, ou com a concessão, pelo credor, de um
documento formal, chamado carta de anuência. Outra maneira de cancelamento
do protesto se dá mediante decisão judicial.

5.4 PRESCRIÇÃO
O título cambial vincula o devedor e seus obrigados à obrigação nele
representada. Não obstante, tal vinculação não poderá ser eterna, e não havendo
o adimplemento, o credor deverá ir a juízo para receber o valor constante do
título. O meio legal posto à sua disposição se chama ação executiva. Porém, caso
o credor fica inerte, não tomando as providências necessárias ao recebimento do
crédito, tem seu direito prescrito. Neste caso, o título se transforma em um título
comum, perdendo a força de obrigação do devedor ao credor.

6 TÍTULOS DE CRÉDITO EM ESPÉCIE


A figura a seguir apresenta os títulos de crédito mais usados e a legislação
que os regulamenta:

FIGURA 5 – AS ESPÉCIES DE TIPO DE CRÉDITO

1. Títulos mais comumente usados – Letra de Câmbio: Decreto nº 2.044, de 31/08/1908;


Decreto nº 57.663, de 24/01/1966.
– Nota Promissória: Decreto nº 2.044, de 31/08/1908;
Decreto nº 57.663, de 24/01/1966.
– Duplicata Mercantil: Lei nº 5.474, de 18/07/1968;
Resolução MF/Bacen nº 102 de 1968.
– Cheque: Lei nº 7.357, de 02/09/1985.
2. Títulos de Crédito Industrial – cédula de Crédito Industrial.
– nota de Crédito Industrial.
Decreto-Lei nº 413 de 09/01/1969.
3. Títulos de Crédito Rural – nota Promissória Rural.
– duplicata Rural.
– cédula Rural Pignoratícia.
– cédula Rural Hipotecária.
– cédula Rural Pignoratícia e Hipotecária.
– nota de Crédito Rural.
Decreto-Lei nº 167 de 14.02.1967.
4. Títulos da Dívida Agrária Decreto nº 578, de 24 de junho de 1992 – Dá nova
regulamentação ao lançamento dos Títulos da Dívida
Agrária.

175
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

5. Títulos de Crédito Comercial – cédula de Crédito Comercial.


Lei nº 6.840, de 3 de novembro de 1980.
6. Títulos de Crédito Bancário Cédula de Crédito Bancário.
Lei nº 4.728, de 14/07/1965 (disciplina o mercado
de capitais e estabelece medidas para o seu
desenvolvimento), e a Medida Provisória nº 2.160-25,
de 23/08/2001, que dispõe sobre a Cédula de Crédito
Bancário.
7. Títulos de Crédito à Exportação – cédula de Crédito à Exportação;
– nota de Crédito à Exportação
Lei nº 6.313 de 16.12.1975:
8. Títulos de Crédito Comercial – cédula de Crédito Comercial;
– nota de Crédito Comercial.
Lei nº 6.840 de 03.11.1980.
9. Outros títulos de crédito Debêntures, ações, letras imobiliárias, warrants,
conhecimento de transporte, títulos da dívida pública,
cédula hipotecária, partes beneficiárias, bilhete de
mercadoria, certificados de depósitos, certificados de
investimentos, nota de crédito comercial etc. Os títulos
societátios têm seu fundamento legal na Lei nº 6.404/1976
(Dispõe sobre as sociedades por ações).

FONTE: Abram e Dorow (2009, p. 162)

6.1 LETRA DE CÂMBIO


A Letra de Câmbio e a Nota Promissória são regulamentadas pelo Decreto
nº 2.044/1908 (BRASIL, 2018), que traz os conceitos e requisitos destes títulos:

Art. 1º A letra de câmbio é uma ordem de pagamento e deve conter


requisitos, lançados, por extenso, no contexto: I. A denominação
“letra de câmbio” ou a denominação equivalente na língua em que
for emitida. II. A soma de dinheiro a pagar e a espécie de moeda. III.
O nome da pessoa que deve pagá-la. Esta indicação pode ser inserida
abaixo do contexto. IV. O nome da pessoa a quem deve ser paga. A
letra pode ser ao portador e também pode ser emitida por ordem e
conta de terceiro. O sacador pode designar-se como tomador. V. A
assinatura do próprio punho do sacador ou do mandatário especial. A
assinatura deve ser firmada abaixo do contexto.

Destarte, a letra de câmbio representa um título à ordem, que se cria


mediante o saque. Nela, o sacador (também chamado de doador) saca o título
de crédito que se consigna o valor a pagar e o dia do vencimento. Neste caso, o
sacador (devedor) que aceita a letra de crédito pagará na ocasião do vencimento.
Por sua vez, o tomador é o beneficiário, um terceiro ou o próprio sacador
(ALMEIDA, 1998).

A letra de câmbio será utilizada pela instituição financeira aceitante como


instrumento de captação de recursos financeiros para fazer funding (fundo) para
empréstimos a pessoas físicas ou jurídicas. A negociação de letras de câmbio com
aceite de instituições financeiras deve ser intermediada por instituições financeiras
176
TÓPICO 3 | TÍTULOS DE CRÉDITO, RECUPERAÇÃO DE EMPRESAS E FALÊNCIA

e demais sociedades do sistema distribuidor de títulos e valores mobiliários cujos


funcionamentos foram devidamente autorizados pelo BACEN (PORTAL DA
EDUCAÇÃO, 2018).

Os títulos de crédito no Brasil devem ser nominativos, portanto, por ordem


e conta do sacado. Isso significa que a cambial também pode ser emitida por
entidade ligada a instituição financeira. Essa se apresentará como procuradora do
devedor na operação de financiamento. Por ser um título nominativo, somente é
transmissível por endosso em preto. Neste caso, a letra de câmbio pode circular e
ser transferida de uma pessoa para outra através do endosso, porém deve haver
o aceite do sacador. O pagamento poderá ser garantido por aval. Veja um modelo
de letra de câmbio:

FIGURA 6 – MODELO DE LETRA DE CÂMBIO


SIGNIFICA QUE VENCERÁ NO 2º DIA QUE O SACADO ACEITAR
(ASSINAR) A LETRA

N. 01 Vencimento de 2 dias da vista Valor R$ 200,00


No vencimento pagará(ã) Y. Sa(s) por está única via de letra de
Câmbio. à JOÃO DA SILVA
ORDEM DE
ou à sua ordem a PAGAMENTO DE
(Duzentos reais) x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x
importância de
LETRA DE CÂMBIO

A EXPRESSÃO QUANTIA
x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x^x
Aceito (amos)

"LETRA DE CÂMBIO" DETERMINADA


(CLÁUSULA Na praça de Nome da Comarca
CAMBIÁRIA) a apresentação desta cambial poderá ser feita até -- meses da data do saque.
Aceitante(s): (sacado) José da Silva Júnior & CIA LTDA. NOME DO
SACADO/DEVEDOR
Endereço: Rua das Flores, nº99 - apto. 09 - Bl 9 - CEP: 99999-999 - Bairro: Vila Raiz
Cidade: Nome da Comarca Estado: SP
DATA E LOCAL
Documentos: Local e data do saque
DO SAQUE
CNPJ / CPF: 99.999.999/9999-49 Nome da Comarca 09 de novembro de 2003
Outros Dos.:

ASSINATURA
EXEMPLO DE LETRAS DE CÂMBIO SEM ACEITE DO SACADOR
(ASSINATURA), MAS ELA TAMBÉM PODERÁ
VIR COM ACEITE

SUJEITOS
SACADOR SACADO BENEFICIÁRIO

FONTE: <https://www.creditooudebito.com.br/letras-cambio-conceito-exemplos/>.
Acesso em: 31 ago. 2018.

6.2 NOTA PROMISSÓRIA


O conceito e os requisitos da nota promissória são evidenciados pelo art.
54 do DL 2.044/1908 (BRASIL, 2018):

Art. 54. A nota promissória é uma promessa de pagamento e deve


conter estes requisitos essenciais, lançados por extenso no contexto: I.
a denominação de “Nota Promissória” ou termo correspondente, na
língua em que for emitida; II. a soma de dinheiro a pagar; III. o nome
da pessoa a quem deve ser paga; IV. a assinatura do próprio punho da
emitente ou do mandatário especial.

177
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

Os requisitos acima são indispensáveis para a validade do título, porém a


doutrina aponta outros requisitos tidos como não essenciais:

a) a data e o lugar da emissão;


b) a época do vencimento;
c) o lugar do pagamento.

Na ausência dos requisitos não essenciais mencionados, obedece-se às


seguintes regras:

I- Pode o portador inserir a data e o lugar da emissão;


II- Será pagável à vista;
III- Será pagável no domicílio do emitente.

Caso a nota promissória não seja paga em seu vencimento, poderá ser
protestada. Também é possível que o beneficiário efetue a cobrança judicial,
a qual ocorre por meio da ação cambial. No entanto, a parte só pode agir em
juízo se estiver representada por advogado legalmente habilitado. Para valores
menores que 20 salários-mínimos, não é necessário advogado, bastando procurar
um Juizado Especial Cível (antigo Juizado de Pequenas Causas).

NOTA

“A nota promissória está sujeita às mesmas regras da letra de câmbio, desde que
sejam compatíveis com a natureza de promessa de pagamento” (SANCHEZ, 2017, p. 136).

Veja um modelo de nota promissória:

178
TÓPICO 3 | TÍTULOS DE CRÉDITO, RECUPERAÇÃO DE EMPRESAS E FALÊNCIA

FIGURA 7 – MODELO DE NOTA PROMISSÓRIA


Data de Valor da Nota
Dados do Portador/ Vencimentos Promissória
Número da Nota
Favorecido
Promissória

Praça/Local
Dados do de Pagamento Data da
Dados do Devedor/Emitente Emissão
Avalista
FONTE: <https://eagletecnologia.com/blog/vendas/como-vender-com-mais-seguranca-
utilizando-notas-promissorias>. Acesso em: 31 ago. 2018.

Não apresentado o pagamento legal ou fixado do título, conta-se a partir


do término do referido prazo. A prescrição da nota promissória é trienal da
pretensão à execução em face do emitente e seu avalista. Em síntese, a prescrição
da Nota Promissória ocorre nos seguintes prazos:

3 anos: do portador contra o emitente ou avalista.


1 ano: do portador contra o(s) endossante(s).
6 meses: dos endossantes, um contra os outros.

6.3 CHEQUES
O cheque corresponde a um “título revestido de determinadas
formalidades legais contendo uma ordem de pagamento à vista, passada em
favor próprio ou de terceiros”. Este pressupõe a existência de fundos em um
banco denominado sacado, que cumprirá a ordem do emitente. Ou seja, o banco
pagará a quantia representada no cheque, ao beneficiário. Desde 1990, o cheque
não pode ser ao portador, ou seja, deverá ser nominal.

No Brasil, aplica-se ao cheque a Lei Uniforme de Genebra (Decreto


nº 57.663/66, BRASIL, 1966a), além da Lei nº 7.357/85 (BRASIL, 2018), que o
regulamenta e que dispõe, em seu art. 1º, que são requisitos do cheque:

179
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

I – a denominação “cheque” inscrita no contexto do título e expressa


na língua em que é regido; II - a ordem incondicional de pagar quantia
determinada; III – o nome do banco ou instituição financeira que deve
pagar (sacado); IV – a indicação do lugar de pagamento. V – a indicação
da data e do lugar de emissão; VI – a assinatura do (sacador), ou de seu
mandatário com poderes especiais. “Dos requisitos mencionados, na
verdade, não são essenciais o do lugar do pagamento e o da emissão, já
que na falta de tais indicações é considerado o lugar designado junto ao
nome do sacado (banco); designados vários lugares, o cheque é pagável
no primeiro deles; inexistindo indicação, o cheque é pagável no lugar de
sua emissão. Não indicando o lugar da emissão, considera-se emitido o
cheque no lugar indicado junto ao nome do emitente (sacador).

O cheque tem implícita a causa “à ordem”, ou seja, se transmite


normalmente mediante endosso, conforme dispõe o art. 17 da lei nº 7.357/85
(BRASIL, 2018). Este endosso é feito no verso ou anverso do cheque. A figura do
avalista também é possível no cheque, sendo que esta garantia poderá ser lançada
no verso com a expressão “por aval” ou anverso do título.

Quanto às espécies de cheque, têm-se:

a) Cheque Visado;
b) Cheque Administrativo;
c) Cheque Cruzado;
d) Cheque para ser Creditado em Conta.

UNI

Além dos citados, existem muitos outros tipos de cheques, tais como: traveller´s
check, cheque postal, cheque com pluralidade de exemplares etc.

Cheque Visado:

É aquele em que há uma confirmação da existência de fundos para


compensá-lo através de um “visto, certificado ou declaração equivalente”. O
cheque visado é regulamentado pelo art. 7º da Lei nº 7.357/85, (BRASIL, 2018). Em
razão deste visto, o dinheiro correspondente fica reservado na conta do emitente
ou sacador do cheque, durante o prazo de apresentação do cheque.

Cheque Administrativo:

É aquele emitido pelo próprio banco, contra si mesmo. Passado (emitido


ou sacado) contra o próprio sacador (o banco)”. O cheque administrativo deverá
ser necessariamente nominal, por expressa exigência legal (art. 9º., III da Lei do
Cheque) (BRASIL, 2018).

180
TÓPICO 3 | TÍTULOS DE CRÉDITO, RECUPERAÇÃO DE EMPRESAS E FALÊNCIA

Cheque Cruzado:

Neste título de crédito são colocadas duas linhas paralelas em seu anverso,
determinando que o cheque só poderá ser depositado, não sendo assim possível
seu saque em dinheiro. Se houver o nome de um banco entre as duas linhas,
somente no banco indicado é que o cheque poderá ser depositado.

Cheque para ser Creditado em Conta:

Neste tipo de cheque, o emitente identifica a conta do credor para depósito,


não sendo possível seu pagamento em dinheiro.

Para que seja liquidado, o cheque deverá ser apresentado ao banco, dentro
de um determinado prazo, de acordo com o tipo de cheque. Abaixo têm-se os
seguintes prazos, a contar do saque:

• Cheque da “mesma praça” (mesmo município da agência bancária) -> 30 dias.


• Cheque de “praças diferentes” (município diferente da agência emissora) -> 60
dias.

Após o prazo de seis meses, não será mais possível receber o cheque. Após
este prazo, o cheque perde sua força executiva, cabendo apenas ao beneficiário
cobrá-lo judicialmente, através de ação monitória ou de cobrança.

NOTA

O cheque é uma ordem de pagamento à vista (independente da data preenchida


na folha de cheque). Assim, o comprador não possui nenhuma garantia legal de que o
vendedor honrará as datas acordadas para desconto de cada folha de cheque pré-datado.

O ato de sustar um cheque representa uma maneira de tirar a validade do


documento emitido como forma de pagamento. Esta ação é adotada pelo cliente
por razões de roubo ou furto de folha ou talão de cheques. Também é efetuada
quando se tem uma suspeita de fraude, desacordo comercial ou oposição ao
pagamento. Pode ser feita pelo cliente do banco por telefone, agência bancária,
internet banking ou terminais de atendimento. Um banco ou instituição financeira
não pode impedir ou limitar a sustação de um cheque por parte do emitente. No
entanto, é possível cobrar tarifas por esse serviço (REBEL, 2018).

181
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

NOTA

Somente o emissor do cheque pode efetuar a operação de sustar o cheque.

6.4 DUPLICATA
A duplicata é um título de crédito emitido em razão de uma compra e
venda mercantil, representada em uma fatura. A fatura é uma nota do vendedor,
descrevendo a mercadoria, discriminando a sua qualidade, quantidade e lhe fixando
o preço. É, portanto, uma prova do contrato de compra e venda mercantil. Assim, a
duplicata é um título causal, dependendo da existência de uma fatura que legitima
sua omissão. Se isso não acontecer, estaremos diante do que se conhece como
duplicata fria. A duplicata fria, tecnicamente, é chamada de duplicata simulada,
que caracteriza crime. A duplicata se transmite por endosso e seu pagamento pode
ser garantido por aval (ABRAM; DOROW, 2009; AUDTEC, 2018).

Na emissão da duplicata, segundo a Lei nº 5.474/68 (BRASIL, 2018) e Res.


nº 102 do Conselho Monetário Nacional que a disciplina, devem ser observados
os seguintes requisitos:

• A denominação “duplicata”.
• A data de emissão.
• O número de ordem.
• O número da fatura da qual foi extraída.
• Data certa do vencimento ou a declaração de ser a duplicata à vista.
• O nome e o domicílio do vendedor e do comprador.
• A importância a pagar, em algarismos e por extenso.
• A cláusula à ordem (a cláusula “não à ordem” somente pode ser inserida no
título por endossante, e, como o vendedor saca a seu favor, ele, necessariamente,
é o primeiro endossante do título).
• A declaração do reconhecimento de sua exatidão e da obrigação de pagá-la,
a ser assinada pelo comprador, como aceite cambial (o comprador deve ser
identificado com nome, domicílio e documento: RG, CPF etc.).
• A assinatura do emitente (seguindo a indicação de seu nome e domicílio).

A duplicata deverá, segundo a lei, ser enviada para aceite do sacado, o


que corresponde ao reconhecimento da existência da dívida. A sua falta poderá
ser motivo de protesto, assim como, a falta de devolução do título e a falta de
pagamento (ABRAM; DOROW, 2009; AUDTEC, 2018).

Para a cobrança judicial através de ação executiva, a duplicata sem aceite


deverá ser acompanhada do comprovante de entrega de mercadoria e do protesto.
A ação ajuizada nos prazos máximos previstos na Lei nº 5.474/68 (BRASIL, 2018),
em seu art. 18:
182
TÓPICO 3 | TÍTULOS DE CRÉDITO, RECUPERAÇÃO DE EMPRESAS E FALÊNCIA

I- Em 3 anos, contados da data do vencimento do título, contra o


sacado e respectivos avalistas;
II- Em 1 ano, contando da data do protesto, contra os endossantes e
respectivos avalistas;
III- Em 1 ano, contando da data em que haja sido efetuado o pagamento
do título, de qualquer dos coobrigados, uns contra os outros.

A duplicata poderá também ser referente a uma prestação de serviços. Na


Figura 7 tem-se a ilustração de um modelo de duplicata:

FIGURA 8 – MODELO DE DUPLICATA


Número do título
Credor Valor Data de emissão Vencimento

Valor por extenso Devedor Praça de pagamento Espaço para o aceite


(assinatura) do devedor
FONTE: <https://www.jornalcontabil.com.br/duplicata-pode-incluir-soma-de-notas-parciais/#.
W43UB-hKjIU>. Acesso em: 31 ago. 2018.

7 DA RECUPERAÇÃO DA EMPRESA
O instituto da recuperação de empresas tem como objetivo principal
amparar os empreendimentos que passam por dificuldades financeiras. Busca-se
então o restabelecimento e a superação da crise enfrentada, a fim de não cominar
na sua falência, independentemente dos motivos que levaram a chegar a tal
situação. Essa recuperação poderá ser de duas formas: judicial ou extrajudicial.

7.1 DA RECUPERAÇÃO EXTRAJUDICIAL


A recuperação extrajudicial é um acordo privado, entre devedor e credor.
Uma proposta de recuperação apresentada para um ou mais credores, fora da
esfera judicial. Pode ser proposta em qualquer condição, a qualquer credor, desde

183
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

que não haja impedimento legal. A Lei nº 11.101/1995 (BRASIL, 2018) prevê que a
sociedade devedora convoque seus credores ou parte destes (por classe) – exceto
empregados e fisco – propondo-lhes um plano de recuperação. Tal plano se
materializa em um documento que corresponde a um contrato particular e que
será assinado pela parte devedora e os credores (ABRAM; DOROW, 2009).

Este plano determinará a ordem dos pagamentos, priorizando os


trabalhistas, poderá ser apresentado a homologação judicial, passando a obrigar
todos os credores, mesmo os dissidentes (ABRAM; DOROW, 2009). Os juízes
devem relutar em decretar falência, para evitar desemprego e destruição de
ativos. Se o plano for rejeitado pelo juiz, devolve-se aos credores signatários o
direito de exigir seus créditos. (§2º do art.165 da Lei de Falência, BRASIL, 2018).

O devedor, ao requerer o pedido de recuperação extrajudicial, deverá


estar exercendo regularmente as suas atividades há mais de dois anos, atendendo
aos seguintes requisitos, cumulativamente:

1. não ser falido e, se o foi, estejam declaradas extintas, por sentença transitada
em julgado, as responsabilidades daí decorrentes;

2. não ter, há menos de 5 (cinco) anos, obtido concessão de recuperação judicial;

3. não ter, há menos de 8 (oito) anos, obtido concessão de recuperação judicial


com base no plano especial que é a Falência;

4. não ter sido condenado ou não ter, como administrador ou sócio controlador,
pessoa condenada por qualquer dos crimes previstos na lei falimentar.

Não se aplica a recuperação extrajudicial aos titulares de créditos de


natureza tributária: derivados da legislação do trabalho ou decorrentes de acidente
de trabalho. Também não se aplica a recuperação extrajudicial aos titulares da
posição de proprietário fiduciário de bens móveis ou imóveis, de arrendador
mercantil, de proprietário ou promitente vendedor de imóvel, e provenientes
de restituição. O plano de recuperação extrajudicial não poderá contemplar o
pagamento antecipado de dívidas, nem tratamento desfavorável aos credores
que a ele não estejam sujeitos (NORMAS LEGAIS, 2018).

Para a homologação do plano de recuperação extrajudicial, o devedor


deve apresentar a sua justificativa e o documento que contenha seus termos e
condições, com as assinaturas dos credores que a ele aderiram. Também se faz
necessário reunir os seguintes documentos:

• Exposição da situação patrimonial do devedor.

• Demonstrações contábeis relativas ao último exercício social e as levantadas


especialmente para instruir o pedido confeccionadas com estrita observância
da legislação societária aplicável e compostas obrigatoriamente do balanço

184
TÓPICO 3 | TÍTULOS DE CRÉDITO, RECUPERAÇÃO DE EMPRESAS E FALÊNCIA

patrimonial, demonstração de resultados acumulados, demonstração do


resultado desde o último exercício social; relatório gerencial de fluxo de caixa
e de sua projeção.

• Documentos que comprovem os poderes dos subscritores para novar ou


transigir, relação nominal completa dos credores, com a indicação do endereço
de cada um, a natureza, a classificação e o valor atualizado do crédito,
discriminando sua origem, o regime dos respectivos vencimentos e a indicação
dos registros contábeis de cada transação pendente.

O pedido de homologação do plano de recuperação extrajudicial não


acarretará suspensão de direitos. Também não resultará em ações, execuções
e impossibilidade do pedido de decretação de falência pelos credores não
sujeitos ao plano de recuperação extrajudicial. Após a distribuição do pedido
de homologação, os credores não poderão desistir da adesão ao plano, salvo
com a anuência expressa dos demais signatários. O devedor poderá requerer
a homologação em juízo do plano de recuperação extrajudicial, juntando sua
justificativa e o documento que contenha seus termos e condições, com as
assinaturas dos credores que a ele aderiram (NORMAS LEGAIS, 2018).

Depois de receber o pedido de homologação do plano de recuperação


extrajudicial previsto, o juiz ordenará a publicação de edital no órgão oficial e
em jornal de grande circulação nacional ou das localidades da sede e das filiais
do devedor. Este convocará a todos os credores do devedor para apresentação de
suas impugnações ao plano de recuperação extrajudicial, tratadas no artigo 164 §
3º da Lei no 11.101/2005.

O devedor deve comprovar o envio de carta a todos os credores sujeitos


ao plano, domiciliados ou sediados no país. Deve informá-los da distribuição
do pedido, as condições do plano e prazo para impugnação. Os credores terão
prazo de 30 (trinta) dias, contado da publicação do edital, para impugnarem o
plano, juntando a prova de seu crédito. Para opor-se, em sua manifestação, à
homologação do plano, os credores somente poderão alegar:

I. Não preenchimento do percentual mínimo previsto de adesão dos credores:


3/5 (três quintos);

II. Prática de qualquer dos atos previstos no caso de Falência definidos no art. 94,
inciso III e art. 130 ou descumprimento de requisito previsto na Lei Falimentar;

III. Descumprimento de qualquer outra exigência legal.

185
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

7.2 DA RECUPERAÇÃO JUDICIAL


A recuperação judicial tem por objetivo viabilizar a superação de
crise econômico-financeira do devedor, a fim de permitir a manutenção da
fonte produtora, do emprego dos trabalhadores e dos interesses dos credores,
promovendo, assim, a preservação da empresa (ABRAM; DOROW, 2009).

Nesta modalidade, o empresário negocia plano de recuperação com


todos os seus credores, inclusive trabalhadores e fisco, visando, principalmente,
à concessão de prazos e condições especiais para pagamento das obrigações
vencidas ou vincendas. Se em 180 dias não houver acordo, o Judiciário poderá
decretar a falência.

A empresa devedora peticionará ao juiz, requerendo a recuperação,


expondo as causas concretas de sua situação patrimonial e as razões da crise
econômico-financeira que atravessa. Estando cumpridas as exigências legais,
o juiz defere, permite, o processamento de pedido da recuperação judicial,
nomeando um administrador judicial.

Após esta decisão, o devedor deverá apresentar o plano de recuperação


em juízo, no prazo improrrogável de 60 dias, a contar da data da concessão do
processamento, sob pena de decretação da falência. Veja, então, estas fases, na
figura a seguir:

FIGURA 9 – FASES DA RECUPERAÇÃO JUDICIAL

3º. – Apresentação
1º. – Requerimento em 2º. – Deferimento
do plano de
juízo do processamento do processamento
recuperação em juízo
da recuperação judicial ou devolução
sob pena de falência

FONTE: Abram e Dorow (2009, p. 174)

Para isso, o empresário deve estar com as obrigações legais e, no momento


do pedido, a empresa estar exercendo regularmente suas atividades há mais de
dois anos. Na fase de recuperação, não poderá haver pedido de falência, por parte
dos credores.

As microempresas e as empresas de pequeno porte poderão apresentar


plano especial de recuperação judicial. Isso deve ser feito no prazo improrrogável
de 60 dias da publicação da decisão que deferir o processamento da recuperação
judicial. O plano abrangerá, exclusivamente, os créditos quirografários, os
quais serão pagos em até 36 parcelas mensais, iguais e sucessivas, corrigidas
monetariamente e acrescidas de juros de 12% a.a. O pagamento da 1ª parcela
deve ser feito no prazo máximo de 180 dias contados da distribuição do pedido
de recuperação judicial (ABRAM; DOROW, 2009).

186
TÓPICO 3 | TÍTULOS DE CRÉDITO, RECUPERAÇÃO DE EMPRESAS E FALÊNCIA

8 FALÊNCIA
A falência corresponde ao processo judicial pelo qual o empresário é
obrigado a liquidar o seu patrimônio em benefício dos credores. Nesta situação,
se arrecada o patrimônio do falido e verifica-se os créditos da empresa. Apura-
se o ativo empresarial e busca-se solver o passivo. É importante lembrar que a
situação de insolvência é irreversível.

Ao se considerar que o patrimônio representa a garantia dos credores em


situação de crise financeira da sociedade empresária, pressupõe-se que este seja
suficiente para honrar as dívidas contraídas pela empresa. No entanto, quando
este capital não é suficiente para saldar as dívidas assumidas, é dedutível que
a empresa tenderia a pagar primeiramente os credores que já têm os títulos
vencidos ou prestes a vencer.

Com o intuito de evitar a injustiça em relação aos credores que teriam os


créditos vencidos posteriormente, tendo grande chance de serem atingidos pela
inadimplência, criou-se esta tentativa de assegurar a igualdade de oportunidades
de crédito. Assim, a falência é caracterizada quando o empresário não tem
condições de solver suas obrigações, concorrendo de três pressupostos:

1. a qualidade de empresário devedor;


2. a insolvência do devedor;
3. a declaração judicial da falência.

A qualidade de empresário devedor

A falência só cabe contra o empresário individual e conta com a sociedade


empresária. Não contam a empresa pública, sociedade de economia mista,
instituição financeira pública ou privada, cooperativa de crédito, consórcio,
entidade de previdência complementar, sociedade operadora de plano de
assistência à saúde, sociedade seguradora, sociedade de capitalização e outras
entidades legalmente equiparadas às anteriores. (LF, art. 2º, I E II, BRASIL, 2018).

A insolvência do devedor

Dispõe o art. 94 da LF (BRASIL, 2018) que será detectada falência do


devedor que:

I. Sem relevante razão de direito, não paga, no vencimento, obrigação líquida


materializada em título ou títulos executivos protestados cuja soma ultrapasse
o equivalente a 40 salários-mínimos na data do pedido de falência. Os credores
podem se reunir em litisconsórcio a fim de perfazer este limite.

II. Executado por qualquer quantia líquida não paga, não deposita e não nomeia
à penhora bens suficientes dentro do prazo legal;

187
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

III. Pratica qualquer dos seguintes atos, exceto se fizer parte do plano de
recuperação judicial:

a) Procede à liquidação precipitada de seus ativos ou lança mão de meios ruinosos


ou fraudulentos para realizar pagamentos;
b) Realiza ou, por atos inequívocos, tenta realizar, com o objetivo de retardar
pagamentos ou fraudar credores, negócio simulado ou alienação de parte ou
totalidade de seu ativo a terceiro, credor ou não;
c) Transfere estabelecimento a terceiro, credor ou não, sem o consentimento de
todos os credores e sem ficar com os bens suficientes para solver o passivo;
d) Simula a transferência de seu principal estabelecimento com o objetivo de
burlar a legislação ou a fiscalização ou para prejudicar o credor;
e) Dá ou reforça garantia a credor por dívida contraída anteriormente, sem ficar
com bens livres e desembaraçados suficientes para saldar o seu passivo;
f) Ausenta-se, sem deixar representante habilitado e com recursos suficientes
para pagar os credores; abandona estabelecimento ou tenta se ocultar do seu
domicílio, do local de sua sede ou de seu principal estabelecimento;
g) Deixa de cumprir, no prazo estabelecido, obrigação assumida no plano de
recuperação judicial.

Esses são os casos especiais de caracterização dos chamados atos de


falência.

A declaração judicial da falência

Normalmente, a falência é requerida por um dos credores quirografários,


que exibe títulos da dívida vencida (nota promissória, duplicata, cheque etc.)
e a prova de caracterização da impontualidade do devedor, para o que junta
a certidão de protesto. É feito, então, um requerimento que diz o motivo da
falência. O pedido de falência, seja qual for a sua fundamentação, deverá ser
convenientemente instruído para servir de base à decisão do juiz.

Em seguida, é dada ao devedor a oportunidade de se defender:

I. Se o fundamento do pedido de falência for o da impontualidade (art. 94, I,


BRASIL, 2018), dentro do prazo de contestação, o empresário devedor poderá
suspender a falência depositando o valor da dívida acompanhada da defesa.
Evidentemente, feito o depósito, não haverá a declaração da falência, ocasião
em que a ação se converte em cobrança individual. De qualquer maneira,
poderá, o requerido, pagar a dívida dentro desse prazo ou promover a devida
defesa. Ainda dentro do prazo de contestação, o devedor poderá pleitear sua
recuperação judicial (LF, art. 95, BRASIL, 2018);
II. Se fundado o pedido na ocorrência do chamado ato de falência (art. 94,
III, BRASIL, 2018), a defesa do devedor empresário, que recebe o nome de
embargos, deverá ser apresentada também dentro do prazo de contestação.
Será uma defesa com produção mais ampla de prova, devido à complexidade
do fato apresentado.

188
TÓPICO 3 | TÍTULOS DE CRÉDITO, RECUPERAÇÃO DE EMPRESAS E FALÊNCIA

III. Finalmente, cabe ao juiz decretar ou não a falência. Se decretar através de


sentença fundamentada, nomeará o administrador judicial e marcará prazo
para que os credores se habilitem, prazo esse que deverá ser de 15 dias.
Não observado esse prazo, as habilitações de crédito serão recebidas como
retardatárias.

A decretação de falência determina o vencimento antecipado das dívidas


do devedor e dos sócios ilimitada e solidariamente responsáveis. O juízo da
falência é indivisível e competente (todas as ações deverão ser necessariamente
julgadas pelo mesmo juiz) para conhecer todas as ações sobre bens, interesses
e negócios do falido, ressalvadas as causas trabalhistas e fiscais. Todas as ações
terão prosseguimento com o administrador judicial, que deverá ser intimado
para representar a massa falida, sob pena de nulidade do processo. Vejamos o
que dispõe o artigo 81 da Lei nº 11.101/1995 (BRASIL, 2018):

Art. 81. A decisão que decreta a falência da sociedade com sócios


ilimitadamente responsáveis também acarreta a falência destes, que
ficam sujeitos aos mesmos efeitos jurídicos produzidos em relação
à sociedade falida e, por isso, deverão ser citados para apresentar
contestação, se assim o desejarem.

A sentença que acolhe o pedido do credor encerra a primeira fase do processo


falencial, conhecida como etapa pré-falencial. Ato contínuo, desencadeia-se a segunda
fase, a do processo de execução propriamente dito, chamada etapa falencial, que é
constituída por uma série de atos destinados à expropriação dos bens do devedor,
a fim de satisfazer seus credores. A partir do momento em que a sentença transita
em julgado (ou seja, quando dela não cabe mais recurso), ingressa-se no terreno da
execução coletiva, ocasião em que o juiz nomeia o administrador judicial.

O administrador judicial será profissional idôneo, preferencialmente


advogado, economista, administrador de empresas, contador ou pessoa jurídica
especializada. A ele será atribuída a missão especial de arrecadar todos os bens do
empresário falido. Todos os credores quirografários deverão vir ao juízo da falência,
provando os seus direitos, seus créditos. Finalmente, o administrador judicial
promoverá a venda dos bens da massa, através do leilão público, e pagará os credores.

Primeiramente, paga-se a dívida aos credores privilegiados, tais como:


os credores trabalhistas, os tributários, os credores com direitos reais de garantia
etc., do que sobrar, recebem os credores quirografários. Com isso, fica encerrada
definitivamente a insolvência. Pelo exposto, tem-se que a falência é um processo
de execução coletiva em que são apurados o ativo e o passivo, pagando-se os
credores na preferência de seus créditos.

O falido fica inabilitado para exercer qualquer atividade empresarial a


partir da decretação da falência e até a sentença que extingue suas obrigações,
respeitando o disposto no §1º do art.181 da Lei de Falência (BRASIL, 2018). Os
efeitos da falência perdurarão até cinco anos após a extinção da punibilidade,
podendo, contudo, cessar antes pela reabilitação penal, e poderá ser condenado
pela prática de crime falimentar previsto na Lei de Falências em seus arts. 168 a 178.
189
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

LEITURA COMPLEMENTAR

RECUPERAÇÃO JUDICIAL NO BRASIL: AS LIÇÕES DE QUEM


SOBREVIVEU

O que têm a ensinar as pouquíssimas empresas que conseguiram encerrar


processos de recuperação judicial no Brasil

Naiara Bertão

Os donos da fabricante de autopeças Mangels fizeram uma sucessão


pouquíssimo usual em 2014. Decidiram que o gerente de auditoria, o contador
Fabio Mazzini — que estava na empresa havia apenas três anos e não tinha
experiência no setor de autopeças —, comandaria a Mangels no momento em
que ela enfrentava sua maior crise. Fundada em 1928 em São Paulo, a companhia
havia acabado de pedir recuperação judicial. Mazzini assumiu o cargo de diretor
de reestruturação, que passou a funcionar como uma presidência, respondendo
diretamente ao conselho de administração, formado por integrantes da família
Mangels. “Somente depois que assumi fui entender o que era esse cargo e o
que tinha de fazer”, diz Mazzini, que tem 40 anos (seu emprego anterior havia
sido de auditor no grupo Ultra). Além de pouca experiência, Mazzini tinha uma
estatística jogando contra ele. Apenas 6% das empresas que pediram recuperação
judicial no Brasil conseguiram sair dela formalmente. Claro, muitas empresas
são desmembradas durante o processo — e, mesmo que o CNPJ original não
saia formalmente da recuperação, esse também é um cenário tido como vitorioso,
pelo menos do ponto de vista “social”: afinal, suas fábricas seguem produzindo
e gerando empregos. Mas o baixo número de casos com começo, meio e fim
chama a atenção. A Mangels encerrou a recuperação judicial neste ano, depois de
renegociar uma dívida de 430 milhões de reais, que equivale ao faturamento, e de
cortar custos para voltar a dar lucro.

O processo de recuperação judicial, em vigor no Brasil desde 2005, dá


às empresas em dificuldade um tempo para que se reestruturem — os credores
não podem pedir a falência nem a penhora de bens para quitar dívidas. A
contrapartida é que a companhia deve apresentar um plano para melhorar suas
finanças e pagar o que deve, que precisa ser aprovado pela maioria dos credores
e homologado por um juiz. Em dois anos, o juiz volta a analisar a situação da
empresa: se tudo estiver ocorrendo como combinado, ela pode sair da recuperação
e voltar a funcionar normalmente. No Brasil, a taxa de recuperação da dívida, um
indicador que mede quanto foi recuperado de cada milhão de dólares em débitos,
é de 16%. No Chile, está em 33%; nos Estados Unidos, chega a 78%.

As razões que explicam por que a maioria dessas empresas não volta
a funcionar de forma saudável são conhecidas: problemas de gestão, disputas
entre credores, juros na lua, absoluta escassez de crédito e falta de conhecimento
econômico de alguns juízes, que acabam atrasando o processo. Mas há empresas

190
TÓPICO 3 | TÍTULOS DE CRÉDITO, RECUPERAÇÃO DE EMPRESAS E FALÊNCIA

que, como a Mangels, têm conseguido vencer essas dificuldades e sobreviver a


uma recuperação judicial. É o caso das companhias de energia Celpa, Eneva e
Rede, da varejista Casa & Vídeo e de dezenas de empresas de pequeno e médio
porte, como a fabricante de balas e biscoitos Cory e as catarinenses Industrial
Pagé, que fabrica equipamentos para armazenar grãos, e Angelgres, que produz
revestimentos de cerâmica. Saber o que dá certo nunca foi tão importante quanto
agora: a combinação de recessão com juros mais altos levou 1 809 empresas a
pedir recuperação judicial nos últimos 12 meses, um recorde. O que fazer para
não afundar de vez?

Demorar demais para admitir que o problema financeiro é grave é o


erro mais comum de empresários à beira da crise. O medo de ser visto como
“fracassado” faz com que muitos adiem, de forma irracional, o momento de
pedir recuperação judicial. Acabam fazendo isso quando já não há dinheiro para
mais nada. Os especialistas recomendam que uma empresa peça recuperação
enquanto ainda tem dinheiro para pagar salários e impostos e capital de giro
para comprar matéria-prima. Caso contrário, a empresa pode quebrar se tiver
qualquer problema (por exemplo, se deixar de receber de algum cliente). Com
uma dívida de 2,4 bilhões de reais, a geradora de energia elétrica Eneva (antiga
MPX) pediu recuperação judicial antes de chegar a essa situação. “Estabelecemos
o limite de 70 milhões de reais para o caixa. Se batesse essa trava, protocolaríamos
o pedido”, diz Renato Carvalho, sócio da Íntegra, consultoria contratada para
reestruturar a Eneva. A companhia pediu recuperação em dezembro de 2014,
vendeu ativos, fez um aumento de capital de 1,2 bilhão de reais e conseguiu
reestruturar a dívida. Saiu da recuperação em junho e teve lucro de 94 milhões de
reais no último trimestre de 2016.

Muitos planos de recuperação fracassam porque pressupõem que as


empresas conseguirão fazer milagre para sair do buraco. “O excesso de otimismo
só atrapalha”, diz Ivo Waisberg, advogado do escritório Thomaz Bastos, Waisberg,
Kurzweil. Um bom plano, na visão dos especialistas, é o que une a renegociação das
dívidas a um conjunto de ações para melhorar a geração de caixa — e não depende
de uma bala de prata. A empresa de energia Energisa, que comprou o grupo Rede
em 2014, quando estava em recuperação judicial, destacou três executivos e 60
gerentes para pôr em prática 100 projetos. Os objetivos eram corrigir problemas
de gestão, melhorar os parâmetros de qualidade do serviço e tornar o negócio
lucrativo — o que aconteceu em 2016, quando o Rede, dono de oito distribuidoras
de energia, encerrou seu processo de recuperação. A Mangels demitiu metade da
diretoria executiva, cortou motoristas, secretárias e o orçamento de manutenção.
No ano passado, os próprios funcionários se reuniram para pintar a fábrica de
Três Corações, em Minas Gerais. Além disso, a Mangels encerrou sua operação
de peças de aço para a indústria automotiva, que era pouco lucrativa, e negociou
as dívidas com a ajuda do advogado Renato Mange.

As empresas que pedem recuperação judicial precisam fazer concessões.


Além de cortar custos, podem ser obrigadas a vender ativos — ou toda a
companhia — por bem menos do que esperavam. Não se trata de vender os anéis

191
UNIDADE 3 | DIREITO EMPRESARIAL

para ficar com os dedos, mas de vender os dedos para não ir à falência. O plano
dos donos da varejista Casa & Vídeo, que entrou em recuperação judicial em 2009,
era reorganizar a empresa e vendê-la. Quem acabou comprando a companhia foi
o advogado Fabio Carvalho, um funcionário da consultoria americana Alvarez
& Marsal, que fazia a reestruturação da empresa. Ele pagou simbólicos 1.000
reais e assumiu a dívida, na época, de 40 milhões de reais. Com amplos cortes
de despesas e uma mudança na estratégia, conseguiu tirar a Casa & Vídeo da
recuperação judicial — a gestora Polo Capital comprou o controle em 2011 por 50
milhões de reais.

Nenhuma empresa consegue sair da recuperação judicial sem se engajar


numa negociação franca com a maioria de seus credores. Acusações de má-fé
podem fazer o processo demorar muito mais do que a empresa pode aguentar.
Ao pedir recuperação judicial em 2005, a fabricante de balas e biscoitos Cory
negociou individualmente com cada um de seus fornecedores. O objetivo era
convencê-los a continuar financiando a compra de matéria-prima da Cory — em
geral, empresas em recuperação judicial têm de pagar seus fornecedores à vista.
A companhia, que hoje fatura 200 milhões de reais, também negociou com os
credores (a maioria, bancos) o parcelamento de sua dívida de 100 milhões de
reais em 12 anos. “CNPJ conversando com CNPJ não leva a lugar nenhum. O
relacionamento pessoal é o que salva uma empresa”, diz Nelson Castro, fundador
e presidente da Cory. Com uma dívida de 65 bilhões de reais, a operadora Oi
protagoniza a maior recuperação judicial da história brasileira e vive o extremo
oposto disso: uma guerra entre credores e gestores que dá pouca razão para
otimismo. Assim como a Oi, dezenas de grandes empresas pediram recuperação
judicial durante a recessão. Que aprendam alguma coisa com quem foi ao inferno
e voltou.

FONTE: BERTÃO, Naiara. Recuperação judicial no Brasil: as lições de quem sobreviveu. Revista
Exame. Editora Abril, 2017. Disponível em: <https://exame.abril.com.br/revista-exame/recuperacao-
judicial-no-brasil-as-licoes-de-quem-sobreviveu/>. Acesso em: 25 out. 2018.

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RESUMO DO TÓPICO 3

Neste tópico, você aprendeu que:

• O conceito de crédito remete ao significado de confiança, ou seja, a capacidade


de acreditar em algo ou alguém.

• Em seu sentido financeiro, significa dispor recursos financeiros para fazer


frente a despesas ou investimentos. Em outras palavras, é a capacidade de
financiar a compra de bens e serviços.

• As características dos títulos de crédito são: Cartularidade, Literalidade,


Autonomia, Abstração, Circulabilidade, Coobrigação e Executividade.

• Os títulos de crédito são classificados quanto: à causa, ao emitente, à emissão,


à circulação.

• Alguns conceitos muito comuns nos títulos de crédito e que devem ser
compreendidos pelo acadêmico são: o Endosso, o Aval, o Protesto.

• O título cambial vincula o devedor e seus obrigados à obrigação nele


representada. Não obstante, tal vinculação não poderá ser eterna, e não havendo
o adimplemento, o credor deverá ir a juízo para receber o valor constante
do título. Porém, caso o credor fique inerte, não tomando as providências
necessárias ao recebimento do crédito, tem seu direito prescrito.

• Existe uma diferenciação das características e requisitos dos principais títulos


de crédito: Letra de câmbio; Nota Promissória; Cheque; e Duplicata.

• A recuperação da empresa pode ser extrajudicial e judicial.

• Existem alguns requisitos básicos referentes a falência e a caracterização do


estado de falência.

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AUTOATIVIDADE

1 (XII Exame de Ordem Unificado – FGV) Fontoura Xavier sacou letra de


câmbio à ordem no valor de R$ 20.000,00 (vinte mil reais) em face de Sales
Oliveira, pagável à vista na praça de Itaocara, indicando como beneficiário
Rezende Costa. Com base nos dados apresentados e na legislação sobre letra
de câmbio, assinale a afirmativa INCORRETA.

a) ( ) O vencimento da letra de câmbio ocorrerá na data de sua apresentação


pelo beneficiário ao sacado, Sales Oliveira.
b) ( ) Se o sacador, Fontoura Xavier, inserir a cláusula “sem despesas”, será
facultativo o protesto por falta de pagamento.
c) ( ) O beneficiário e portador, Rezende Costa, pode inserir no título a
cláusula “não à ordem” antes de transferi-lo a terceiro.
d) ( ) Se o sacador, Fontoura Xavier, inserir na letra de câmbio cláusula de
juros e sua taxa, essa estipulação será considerada válida.

2 (XI Exame de Ordem Unificado – FGV) Um cheque no valor de R$ 3.000,00


(três mil reais) foi sacado em 15 de agosto de 2012, na praça de Santana,
Estado do Amapá, para pagamento no mesmo local de emissão. Dez dias
após o saque, o beneficiário endossou o título para Ferreira Gomes. Este,
no mesmo dia, apresentou o cheque ao sacado para pagamento, mas houve
devolução ao apresentante por insuficiência de fundos, mediante declaração
do sacado no verso do cheque. Com base nas informações contidas no
enunciado e nas disposições da Lei no 7.357/85 (Lei do Cheque), assinale a
afirmativa incorreta.

a) ( ) O apresentante, diante da devolução do cheque, deverá levar o título


a protesto por falta de pagamento, requisito essencial à propositura da
ação executiva em face do endossante.
b) ( ) O emitente do cheque, durante ou após o prazo de apresentação, poderá
fazer sustar seu pagamento mediante aviso escrito dirigido ao sacado,
fundado em relevante razão de direito.
c) ( ) O prazo de apresentação do cheque ao sacado para pagamento é de 30
(trinta) dias, contados da data de emissão, quando o lugar de emissão
for o mesmo do de pagamento.
d) ( ) O portador, apresentado o cheque e não realizado seu pagamento,
deverá promover a ação executiva em face do emitente em até 6 (seis)
meses após a expiração do prazo de apresentação.

3 (XV Exame de Ordem Unificado – FGV) João Lima Artigos Esportivos Ltda.
celebrou contrato de locação de imóvel comercial, localizado na Galeria
Madureira, para a instalação do estabelecimento comercial da sociedade.
Atingida por forte crise setorial, a sociedade acumulou dívidas vultosas e
não conseguiu honrá-las. Com a decretação da falência, o contrato de locação
comercial firmado pelo locatário:

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a) ( ) ficará extinto de pleno direito, sendo obrigado o locatário a entregar ao
locador o imóvel onde se localiza o ponto.
b) ( ) poderá ser mantido, desde que o locador interpele o administrador
judicial no prazo de até 90 (noventa) dias.
c) ( ) será mantido, mas poderá ser denunciado, a qualquer tempo, pelo
administrador judicial da massa falida.
d) ( ) ficará extinto, salvo se o Comitê de Credores autorizar o administrador
judicial da massa falida a mantê-lo.

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