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Europa Oriental, segunda servidão e economia-


mundo
Cyro de Barros Rezende Filho

(REZENDE, C. A Europa Oriental e especialização produtiva.


In: IDEM. História econômica geral. São Paulo: Contexto, 2010.
p. 112–114.)

Transcrição por Guilherme Giotti Sichelero.

O estabelecimento de uma economia-mundo durante o século XVI


acelerou um processo duplo que já ocorria na Europa Oriental,
desde a reconversão agrícola encetada na Ocidental, em finais do
século XIV e início do século XV: a crescente especialização no
cultivo de cereais para exportação e a generalização do emprego do
trabalho compulsório camponês.

Não há dúvida de que a especialização produtiva e o trabalho


compulsório foram fenômenos paralelos. Durante a depressão do
século XIV, os grandes proprietários de terras cancelaram as
concessões feitas à população camponesa na época do povoamento
da região, ao mesmo tempo em que procuraram intensificar o
volume de suas produções tradicionais (cereais, madeiras, ceras).
Esta atitude dos grandes proprietários pode ser vista tanto como
uma forma de tentar superar a depressão econômica, como uma
reação ao monopólio da comercialização que as cidades
hanseáticas praticavam, graças ao controle que exerciam sobre
todos os portos da área báltica. Logo, a Alemanha a leste do rio
Elba, a Polônia, a Boêmia, a Silésia, a Hungria e a Lituânia estavam
exportando maciçamente seus produtos tradicionais — de baixo
valor unitário -, e importando tecidos, sal e vinhos, o que
configurou claramente uma relação de trocas desiguais.

Durante o século XVI, com o estabelecimento da economia-


mundo, essa relação econômica intensificou-se, e a inflação
provocada na Europa Ocidental pelo afluxo de enormes
quantidades de metais preciosos da América tornou a produção de

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cereais muito atrativa, levando a um aumentou de seu cultivo e à


generalização do trabalho compulsório camponês, inclusive na
Rússia.

A questão central foi que o estímulo econômico que a região


recebeu foi externo, incidindo sobre uma área eminentemente rural,
carente de grandes cidades, de produção manufatureira
significativa, e de um forte componente burguês. E quanto mais
esse estímulo cresceu, oferecendo um grande mercado consumidor
(em inícios do século XVI, já a Holanda importava 100% de seus
cereais da Europa Oriental, que era também responsável por pelos
menos 50% das importações cerealíferas da Dinamarca e
Inglaterra), mais o poder de coerção dos grandes proprietários de
terras cresceu, pela falta de opções que se apresentava ao
camponeses. O resultado, perceptível desde o inícios do século
XVI, foi a generalização do trabalho compulsório no campo, no
que tem sido erroneamente chamado de “reação senhorial” ou de
“segunda servidão”.

Não se tratou em absoluto de um renascimento do sistema


funcional, pois ele já perdera desde o século XIV sua característica
essencial de funcionalidade. Além disso, o processo de
compulsoriedade do trabalho estendeu´se a áreas que nunca o
conheceram, nem ao menos marginalmente. Tratou-se de uma nova
forma de trabalho compulsório, apenas compreensível dentro da
economia-mundo, o trabalho compulsório em cultivos comerciais.

Agora, produzia-se para o mercado externo quantidades crescentes


de gêneros alimentícios (cereais: notadamente trigo e aveia) e
matérias-primas (madeiras, cânhamo, breu, graxa, cera), em
grandes propriedades rurais e sob uma forma de trabalho
compulsório, o que caracteriza uma economia de tipo colonial.

Embora não houvesse qualquer relação de dependência política,


das áreas da Europa Oriental com relação à Ocidental, como no
caso americano, a dependência econômica da primeira para a
segunda foi patente, fosse com relação à comercialização externa
da maior parte de sua produção, fosse com relação ao transporte

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dessa produção por mercadores estrangeiros, hanseáticos,


holandeses e ingleses.

E essa dependência econômica da Europa Oriental transformou-a e


uma região periférica da economia-mundo, no verdadeiro celeiro
Ocidental, e importante fator da acumulação primitiva de capitais.