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ESCATOLOGIA APOSTÓLICA

A escatologia que Jesus Cristo ensinou para os seus discípulos

L. Henrique Schmitt

ESCATOLOGIA APOSTÓLICA

A escatologia que Jesus Cristo ensinou para os seus discípulos

Categoria: Profecia / Escatologia / Teologia / Bíblia

Copyright © 2018, L. Henrique Schmitt. Todos os direitos reservados

Revisão: Thatyane Furtado (1ª Edição)

Projeto de Capa e Diagramação: Márcio A. Studzinski

Impressão e Acabamentos: Rotermund

1ª Edição, 1000 exemplares, Abril de 2018 pela ACA – Academia


Apostólica
Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por
quaisquer meios,

salvo em breve citações, com a indicação da fonte.

Todas as citações bíblicas foram extraídas das versões:

ARA, Almeida Revista e Atualizada SBB ©1993

ARC, Almeida Revista e Corrigida da SBB © 2009

NVI, Nova versão Internacional © 2000 Editora Vida

Salvo indicação em contrário.

Dados internacionais de catalogação na publicação (CIP)

SCH355e Schmitt, Luiz Henrique

Escatologia Apostólica, A escatologia que Jesus Cristo ensinou para


os seus discípulos

Luiz Henrique Schmitt – Teutônia, RS

Edição do Autor, 2018.

4,33 MB

1. Cristandade e teologia cristã. 2. Escatologia.

I. Schmitt, Luiz Henrique. II. Título.

CDD 236 / 230

CDU 27-23 = 134.3 (81)


Índice para Catálogo Sistemático: 1. Cristandade e Teologia Cristã:
230 / 2. Escatologia: 236

DEDICATÓRIA

Em memória aos meus pais, Alberto Vendelino Schmitt e Ivone Lacy


Schmitt, pelos seus exemplos de trabalho e caráter, por me
incentivarem sempre a nunca esmorecer, o que moldou a minha
juventude. A eles minha honra, neste momento singular de minha vida.
Saudades!

“Tu os constituíste reino e sacerdotes para o nosso Deus, e eles


reinarão sobre a terra”.

Apocalipse 5:10
AGRADECIMENTOS

Para minha amada esposa Linda, companheira, mais que uma


ajudadora, gratidão eterna pelo seu amor, paciência e incentivo nas
horas mais difíceis de nossa caminhada. Amor eterno de minha vida,
presente de Deus!

Aos meus filhos amados Felipe, Maurício e Cíntia, e aos que- ridos
filhos e filhas agregados, noras e genro, agradeço por vocês estarem
cumprindo seus propósitos e pelos meus lindos netos, os quais são a
expressão do amor do Abba e um novo frescor para minha vida.

Ao querido Ricardo Wagner, apóstolo da Rede Apostólica Cristã


(RAC), pelo seu constante incentivo e por acreditar numa escatologia
otimista. Vocês são referência para o nosso ministério!

Ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, de quem é unicamente toda a


honra, a glória e o louvor para todo o sempre! Obrigado pela Tua
graça!

“Os pobres comerão até fi carem satisfeitos; aqueles que


buscam o Senhor o louvarão! Que vocês tenham vida longa!
Todos os confi ns da terra se lembrarão e se voltarão para o
Senhor, e todas as famílias das nações se prostrarão diante
Dele.”

Salmos 22:26-28
SUMÁRIO

AGRADECIMENTOS

PREFÁCIO

INTRODUÇÃO

1. ESCATOLOGIA APOSTÓLICA E DISPENSACIONALISMO

1.1 PERSPECTIVA HISTÓRICA

1.2 ORIGEM DO DISPENSACIONALISMO

1.2.1 Uma época de novas doutrinas


1.2.2 Um resumo do último século

1.3 ORIGEM DA ESCATOLOGIA APOSTÓLICA

1.3.1 A visão preterista na história da igreja

2. A INTERPRETAÇÃO PRETERISTA PARCIAL DE MATEUS 24

2.1 COMO ENTENDER MATEUS CAPÍTULO 24

2.1.1 Jesus, o Templo e o Contexto de Mateus 24

2.1.2 O Juízo sobre Israel no ano 70 d.C.

2.1.3 Jesus responde as perguntas dos discípulos

2.1.4 Quando sucederão estas coisas?

2.1.5 Aviso de Destruição – Mateus 24:15-20

2.1.6 Quem é abominação da desolação?

2.1.7 Qual será o sinal da tua vinda?

2.1.8 E quanto ao fim dos tempos (do mundo)?

2.1.9 As parábolas do final dos tempos

3. AS PROFECIAS ESCATOLÓGICAS E ELEMENTOS DO


APOCALIPSE

3.1 A PROFECIA DE DANIEL 2, A MENSAGEM DO REINO

3.1.1 O Entendimento Futurista do Reino de Deus

3.1.2 O entendimento Preterista parcial do Reino de Deus

3.2 A PROFECIA DE DANIEL 9: AS 70 SEMANAS


3.2.1 A Visão Futurista da Septuagésima Semana

3.2.2. A Visão Preterista Parcial da Septuagésima Semana

3.3 AS PROFECIAS SOBRE O ANTICRISTO

3.3.1 João e o Anticristo

3.4 ELEMENTOS-CHAVE EM APOCALIPSE

3.4.1 Panaroma Geral

3.4.2 A Marca da Besta

4. QUESTÕES CRUCIAIS

4.1 ESCATOLOGIA APOSTÓLICA E AS REFERÊNCIAS


TEMPORAIS DO NT

4.2 O ARREBATAMENTO

4.2.1 A Visão Futurista do Arrebatamento

4.2.2 A Visão Preterista Parcial do Arrebatamento

4.3 O MILÊNIO

4.4 A DATAÇÃO DO LIVRO DE APOCALIPSE

4.4.1 Evidências para uma data mais antiga

4.5 O MUNDO ESTÁ PIORANDO OU MELHORANDO?

CONCLUSÃO

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
PREFÁCIO

Quando Jesus veio a esta terra, ele não usou nenhuma linguagem
religiosa. A linguagem que Jesus usou durante todo o tempo que
esteve com os homens foi uma linguagem governamental, militar,
econômica e financeira. Quando falou de seu objetivo máximo, não
disse que veio estabelecer uma nova religião, um novo sistema de
valores ou um novo modelo sociológico, mas sim que veio estabelecer
um Reino (em grego, basiléia, usada 161 vezes no Novo
Testamento). Quando comissionou seus líderes, não usou os rótulos
pelos quais os líderes religiosos da época eram chamados (rabis,
mestres, profetas, sacerdotes), mas os chamou de apóstolos ― um
vocábulo originalmente usado pelos fenícios para denominar um
almirante que saía com todo aparato em inúmeras embarcações para
formar novas colônias, sendo posteriormente usado pelos romanos
para se referir ao líder que avançava sobre os novos territórios para
sua conquista. Quando Jesus falou como seria chamado o grupo que
avançaria no estabelecimento do seu Reino, os chamou de igreja
(ekklésia no grego), vocábulo que na época era usado para
descrever a assembleia que governava as cidades romanas (Atos
19:32,39,41). Quando Jesus iniciou sua jornada, falou que aquilo que
viera anunciar era o evangelho (euaggelion no grego), palavra que os
imperadores usavam nas guerras para anunciar ao povo a boa notícia
de que haviam vencido a batalha.
Em função desse linguajar, o povo hebreu, que então estava sendo
governado pelos Romanos, esperava que Jesus fosse o libertador de
Israel, assim como Moisés libertou os hebreus da escravidão do
Egito. Essa ideia foi reforçada quando Jesus apareceu manifestando
sinais entre o povo, como Moisés havia feito, levando muitos zelotes
(os revolucionários da época, contrários ao Império Romano) a
seguirem Jesus, a ponto de um deles tornar-se um dos 12 apóstolos
(Simão, o zelote). Não foi por menos que os discípulos que estavam
indo a caminho de Emaús depois da crucificação de Jesus,
desanimados pela morte de seu líder, ao serem indagados, disseram:
“a nossa esperança era que fosse ele quem iria libertar o povo de
Israel” (Lucas 24:21).

Jesus veio a esta terra com um intento muito maior do que implantar
novas instituições religiosas que disputariam espaço com outras
religiões entre os homens. Jesus veio estabelecer seu Reino sobre
toda a Terra. No Apocalipse diz que isso se concretizará quando “os
reinos do mundo vieram a ser de nosso Senhor e do seu Cristo, e
ele reinará para todo o sempre” (Apocalipse 11:15).

Estranhamente, a visão profética tradicional dos eventos futuros


(chamada de escatologia) leva a entender que o plano de Jesus não
foi eficaz, uma vez que Ele terá que retornar para concluir o trabalho,
pois seu exército, juntamente com o Espírito Santo e todas as armas
que ele deixou à disposição para esse trabalho, não foram eficazes
para levar a missão a cabo. Livros e filmes que são baseados nessa
escatologia tradicional, como “Deixados para Trás” e tantos outros
que fizeram grande sucesso inclusive na sociedade não evangélica,
ao invés de impulsionarem a igreja para avançar no estabelecimento
do Reino, causaram mais temor e medo do que ajudaram na
expansão do Reino. O que me deixa impressionado é que cristãos
das igrejas históricas, que não creem nas manifestações carismáticas
deste tempo, são os maiores defensores dessa escatologia
espantosamente mística e cheia de eventos estranhamente
sobrenaturais.
Vim a conhecer a escatologia apostólica no ano de 2005, o que me
deixou muito mais confortável dentro daquilo que via como estimulante
para todo o trabalho de guerra espiritual, transformação social e
estabelecimento do Reino. Senti-me extremamente em paz com a
reinterpretação das passagens bíblicas, fazendo conexão com a
pregação do Reino que Jesus e os apóstolos fizeram.

Hoje temos uma produção brasileira sobre o tema, o que me estimula


muito. Meu amigo pessoal, Luiz Henrique (sei que tenho a liberdade
de chamá-lo assim), um teólogo estudioso da Palavra por excelência
e igualmente apaixonado pela restauração da igreja, fez um tremendo
trabalho sobre o tema. Este é o primeiro livro genuinamente produzido
por um brasileiro sobre o assunto.

O autor conseguiu, em sua abordagem, abranger os posicionamentos


adotados pelos poucos autores de livros que falam sobre o tema e
ainda agregar valor pela sua capacidade analítica e descritiva. As
incontáveis referências dão uma credibilidade à obra que a valorizam
e confirmam sua abordagem e posicionamento. Tenho certeza de que
este material será o norteador da escatologia para o movimento
apostólico brasileiro e latino-americano. Não será apenas mais um
livro, mas será o manual para todos aqueles que estão imergindo no
movimento apostólico.

Parabéns, L. Henrique Schmitt!

Ricardo Wagner, apóstolo

Rede Apostólica Cristã (RAC)


INTRODUÇÃO

Este livro foi compilado a partir de uma pesquisa acadêmica realizada


pelo autor na área de Escatologia e, portanto, tem como escopo o
estudo das profecias concernentes ao fim desta era e à volta de
Cristo. A visão escatológica que é apresentada neste livro “revela que
o Reino de Deus crescerá e avançará até encher a terra. A Igreja se
levantará em unidade, maturidade e glória antes da volta de Jesus”1.

Esta interpretação escatológica, que passaremos a chamar de


ESCATOLOGIA APOSTÓLICA, é bastante recente (muito embora os
seus fundamentos tenham sido consolidados antes da reforma
protestante e constituíram a interpretação mais adotada pela igreja
em geral até o final do século XIX); trata-se de uma escatologia mais
otimista, denominada no meio acadêmico de PRETERISMO
PARCIAL.

Essa visão escatológica também fornece os alicerces a um


movimento de mudanças significativas que começaram a acontecer na
década de noventa, tanto dentro quanto fora dos muros da igreja
evangélica, onde mais e mais líderes e denominações começaram a
trabalhar unidos para cumprir o mandato da Grande Comissão e
mobilizar a igreja ao redor do mundo à oração e intercessão unida e
com propósitos, com o evangelho produzindo um impacto tangível em
toda a comunidade. Isso passou a ser conhecido como
“Comunidades Transformadas” ou “Transformações”2.

Este livro tem como objetivo geral apresentar uma análise da


interpretação escatológica preterista parcial pensada e estruturada
numa visão apostólica, a qual o autor denomina de ESCATOLOGIA
APOSTÓLICA, em comparação com a interpretação futurista ou
dispensacionalista. Com isso, o autor pontuará as diferenças
fundamentais entre estas duas visões escatológicas e buscará
responder as seguintes questões:

1 ) O que é e quais as vantagens em se dotar uma cosmovisão


escatológica preterista parcial?

2 ) Quanto à interpretação do sermão escatológico de Jesus,


qual é a sua importância para o entendimento dos tempos do
fim?

3 ) A tribulação, ou “grande tribulação”, já aconteceu?

4 ) Devemos esperar um futuro anticristo?

5 ) Como será a volta de Jesus?

6 ) O milênio é futuro ou presente?

7 ) Por que devemos ser otimistas? O mundo está melhorando


ou piorando?

8 ) De quais maneiras a visão escatológica influencia a vida e


missão da Igreja?

Os objetivos específicos deste livro são a comparação do sermão


escatológico de Jesus (Mateus 24) com as visões escatológicas em
estudo, buscando o entendimento sobre os tempos e cumprimentos
dessas profecias. Esta análise também visa esclarecer se haverá
“sinais” que preanunciarão a volta de Jesus. Este livro ainda
apresenta uma análise dos textos escatológicos do livro de Daniel,
Capítulos 2 e 9, fazendo uma harmonização com os textos de Mateus
24 e Apocalipse 4:22.

Devido à predominância do ensino da teologia dispensacionalista na


maioria dos seminários, muitos teólogos e autores modernos têm
anunciado que é necessária uma transformação teológica na Igreja
antes que possamos experimentar uma transformação maior na
sociedade. De fato, a nossa escatologia determinará nossa
protologia3. Como diz John J. Eckhardt, “precisamos de uma reforma
na área da escatologia, pois um entendimento claro sobre o
conhecido sermão profético de Cristo no Monte das Oliveiras coloca
as coisas em ordem e corrige algumas correntes que colocaram as
palavras de Jesus fora do contexto”4. É instigante e provocador o
argumento do Dr. Efraim Avelar5, escrevendo o prólogo do livro de
Hector Torres:
Se a escatologia tradicional dispensacionalista fosse benéfica, seguramente não
pensaríamos na necessidade de uma nova visão escatológica; o que tem acontecido é
que esta escatologia tem sido prejudicial porque tem fomentado o conformismo e o
fatalismo [...] já que o panorama que se apresentava era o de um mundo entregue ao
Anticristo onde o diabo era o ganhador e Deus apresentado como perdedor, porque tinha
que recolher a sua igreja que havia sido incapaz e impotente de transformar o mundo e
levar o evangelho até os confins da terra. [...] É urgente uma nova escatologia de Reino
queanime à Igreja a incursionar em campos como educação, a políticaas artes, a
sociedade civil, a economia, os meios de comunicação demassa e outras áreas de
influência. (TORRES, 2012, p.11-12)

Normalmente, as pessoas em geral e os próprios crentes têm


dificuldades com as questões escatológicas, principalmente o Livro de
Apocalipse. Observa-se que, numa linguagem popular, o termo
“apocalipse” é empregado como sinônimo de “fim do mundo” ou
“juízo final” ou “destruição total”; na verdade é o livro bíblico que tem
sido mais mal compreendido e mal aplicado, mas que traz uma
mensagem importante de profundo consolo e orientação para a
teologia e para a Igreja Cristã de todos os tempos.

O autor Jonathan Welton ainda argumenta que o entendimento sobre


o “fim dos tempos” determina como as pessoas veem suas vidas e
como as planejam a longo prazo, como constroem o seu legado e
criam seus filhos para uma vida de serviço a Deus e assim por diante.
Uma visão correta sobre o “fim dos tempos” será uma libertação do
medo, pois fará com que se tenha uma paixão renovada pelo que
Jesus fez, ao invés de uma obsessão pelo anticristo6.

Sobre a leitura do Livro de Apocalipse, o reformador Martinho Lutero,


assim como Nicolau de Lira, viu em Apocalipse visões que apontavam
para eventos do passado da vida da Igreja Cristã. Lutero trouxe uma
contribuição importante na compreensão de Apocalipse ao dizer que a
leitura do livro proporcionava ao leitor uma mensagem de alerta e
conforto. Embora mostrando em seu comentário “Prefácio ao
Apocalipse de São João”, de 1546, que o diabo ataca e confunde a
Igreja, semeando o erro e a heresia, Lutero vai mais longe, dizendo
que dele podemos tirar “consolo, para que saibamos que nenhum
poder nem mentira, nenhuma sabedoria nem santidade, aflição ou
sofrimento haverão de oprimir a cristandade e sim que ela, no final,
impor-se-á e vencerá”7.

Não são poucas as motivações que levaram o autor deste livro a


escolher esse tema e desenvolver o seu interesse, porém a principal
delas certamente está ligada ao fato de ele ter se convertido a Cristo
num movimento pentecostal e neopentecostal e ter sido ensinado
numa escola escatológica dispensacionalista. Parece paradoxal, mas
sempre será de crescimento e aprendizado quando se tem a
curiosidade de conhecer e entender aqueles que pensam diferente e
humildade de aplicar a “regra dos bereanos”8.

A cosmovisão de um mundo cada vez pior, de uma igreja fraca e as


esquisitices evangélicas sobre identificar e correlacionar os eventos
catastróficos e políticos do momento com o anticristo e a eminente
volta de Jesus sempre foram questionamentos sinceros que deveriam
encontrar respostas sinceras. Entre a aridez do hiper-calvinismo e do
seu preterismo clássico e a obstinação pentecostal com seu
dispensacionalismo das várias vindas de Jesus, este livro pretende
mostrar que a ESCATOLOGIA APOSTÓLICA é um rio navegável.
O livro está estruturado em quatro capítulos. O primeiro capítulo tem
como objetivo apresentar uma perspectiva histórica das duas visões
escatológicas, com suas origens e desenvolvimentos, bem como
comparar as suas diferentes cosmovisões referentes ao futuro
desenrolar escatológico. O segundo capítulo é o capítulo cen-tral e o
mais importante, pois tratará de estabelecer um estudo mais
aprofundado das profecias escatológicas de Jesus. A ênfase principal
está no estudo do sermão escatológico de Jesus (Mateus 23 e 24),
notadamente Mateus 24, que é a base para todo o entendimento
Preterista Parcial.

No terceiro capítulo serão estudadas as mensagens proféticas do


livro de Daniel sobre o avanço do Reino e das setenta (70) semanas
(Daniel 2 e 9). Também será objeto de estudo o tema do Anticristo.
Serão estudadas as interpretações de alguns elementos principais do
Livro de Apocalipse, numa perspectiva Preterista Parcial.

Por último, o quarto capítulo irá tratar de expor as questões cruciais


que geram polêmicas e têm perspectivas muitas vezes opostas às
interpretações escatológicas tradicionais, como a doutrina do
Arrebatamento e do Milênio, e também trará um enfoque histórico e
hermenêutico sobre a datação e objetivos do Livro de Apocalipse.

Este livro é diferente de praticamente tudo o que o leitor já leu entre a


farta literatura sobre escatologia disponível, por isso recomendamos
que sua leitura seja livre dos paradigmas pré-concebidos e seja feita
com olhos espirituais. Seu conteúdo não se trata de uma “nova
revelação”, e sim de uma constatação do que temos visto e ouvido
sobre “A Nova Reforma Apostólica”, que está, sem dúvida, trazendo
a restauração de verdades que foram perdidas antes e após a
reforma. Por isso não tenha pressa, mas avance com determinação
por esse rio ao qual temos chamado de ESCATOLOGIA
APOSTÓLICA. Por favor, não crie barreiras com a terminologia!
ESCATOLOGIA APOSTÓLICA é interpretação Preterista Parcial das
profecias e do Apocalipse, tudo isso aplicado à Igreja, cujo fim é
cumprir a Grande Comissão, avançando sobre as portas do inferno,
preparando a volta do Senhor Jesus Cristo e, finalmente, reinando
com Ele na Terra.

Capítulo 1

ESCATOLOGIA APOSTÓLICA E
DISPENSACIONALISMO

1.1 PERSPECTIVA HISTÓRICA


A maioria dos grandes líderes da Igreja que viveram antes do século
XX postulavam uma escatologia vitoriosa. Entretanto, durante o último
século, as pessoas do mundo ocidental tornaram-se cada vez mais
céticas e pessimistas quanto ao futuro. Durante a Primeira Guerra
Mundial, os habitantes da Europa começaram a dotar uma visão
negativa do mundo; nos Estados Unidos, fizeram o mesmo durante a
Grande Depressão, a Segunda Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã.
Da mesma forma em que o mundo era confrontado com os desafios e
a maldade do ser humano, as pessoas adotavam uma visão
pessimista do futuro.
Foi dentro desse contexto e períodos de grandes provações que
surgiu a visão e interpretação de uma escatologia também
pessimista. A cosmovisão cristã, de uma forma geral, passou a crer
que o mundo está gradualmente sendo tomado pela influência de
líderes maus e que por fim Satanás assumirá o controle do sistema
econômico e religioso do mundo. Os pregadores e mestres que
adotaram essa visão pessimista do fim dos tempos passaram a
ensinar que uma figura do anticristo logo se levantaria, faria aliança
com Israel e em seguida enganaria a maior parte da humanidade.
Eles também ensinaram sobre uma grande tribulação vindoura,
durante a qual Deus derramará a Sua ira, julgando e destruindo a
Terra.

1.2 ORIGEM DO DISPENSACIONALISMO


Segundo o autor Jonathan Welton, a maioria dos professores da
bíblia e teólogos, durante todo o tempo da história cristã, tinham uma
visão semelhante sobre o final dos tempos, mesmo que nos últimos
séculos a igreja ocidental tenha passado a ensinar muitas visões
diferentes. Em termos práticos, de 30 d.C. até os anos 1500, a
maioria da cristandade tinha uma visão otimista para o futuro, ou seja,
o Reino de Deus estava crescendo e que continuaria assim até o
retorno final de Cristo:
É evidente que [...] toda a forma de adoração será destruída, exceto a religião de Cristo,
que será a única a prevalecer. Ela deveras um dia triunfará, e os seus princípios
tomarão posse da mente dos homens cada vez mais a cada dia(Orígenes Contra Celso,
1660, 8:68 apud EBERLE,2013, p.18).

A fragmentação dos pontos de vista escatológicos começou após a


reforma protestante em 1517, sendo que a Igreja Protestante rejeitou
a interpretação futurista por mais de dois séculos, mas essa visão
acabou ressurgindo em 1830. Isso levou à crença moderna da
maioria da Igreja:

■ Um arrebatamento secreto;

■ Um governador mundial único, o “anticristo”;

■ Uma tribulação global de 7 anos;

■ A segunda vinda de Jesus em duas partes.

Antes dos anos 1500, nenhum desses quatro pontos era entendido da
forma como é normalmente ensinado hoje. Percebe-se que o
entendimento moderno dispensacionalista é baseado mais em uma
tradição que começou nos anos 1800 do que uma visão ortodoxa e
bíblica. Os pais da Igreja dos primeiros 1500 anos tinham um
entendimento bíblico que era bem diferente do moderno. O
dispensacionalismo ou visão futurista, como também será denominado
neste livro, começou a ser talhado depois da reforma protestante de
1517. Esta mudou muitas coisas e trouxe a restauração da verdade,
da salvação pela graça, mas, sem querer, acabou influenciando na
mudança das crenças sobre o “fim dos tempos”. Martinho Lutero e os
reformadores levantaram-se contra a Igreja Católica Romana e, com
isso, a chamaram de “Besta da Babilônia” e “A Besta”.

Contra isso, em 1585, um teólogo jesuíta de nome Francisco Ribera


(1537-1591) publicou um livro de 500 páginas que colocava as
passagens de Daniel 9:24-27, Mateus 24 e Apocalipse 4 a 19 em um
futuro distante. Esse foi o primeiro pensamento desse tipo e se tornou
o fundamento das visões modernas sobre o “fim dos tempos”. O
significado dessa nova interpretação é que, ao invés de ver essas
passagens como cumpridas, agora Ribera dizia que elas ainda se
realizariam no futuro. Falando historicamente, a nova visão de Ribera
não mudou muita coisa, não chegou a influenciar o pensamento
protestante ou a vida da igreja. Na verdade, seu livro ficou perdido até
1826, quando Samuel Maitland, bibliotecário do Arcebispo de
Cantebury, redescobriu o manuscrito esquecido de Ribera e o
publicou só como curiosidade9.

Para o autor Dr. Hector Torres, a iniciativa de Francisco Ribera e de


outros mestres Jesuítas em formular um sistema católico de
interpretação profética fez parte da chamada contrarreforma no
século XVI, que incluiu alguns pontos principais:

■ O reconhecimento da Ordem de Jesus (os jesuítas)em 1534;

■ O Concílio de Trento e seus decretos oficiais (entre eles:


proibir a leitura e posse da bíblia e declarar hereges os
protestantes), em 1545;

■ Um sistema católico de interpretação profética;

■ O índice da fé (os dogmas da fé católica romana).

Segundo a bibliografia disponível, ainda existem outros caminhos que


levam à origem do dispensacionalismo. Um outro jesuíta de nome
Roberto Bellarmine ampliou a interpretação dos escritos de Ribera, o
que chegou a ser conhecido como um tipo de futurismo com o título
de “Ensinamentos Polêmicos de Pontos Discutidos das Crenças
Cristãs Contra os Hereges Contemporâneos”, então a teoria de
Ribera permaneceria perdida até que um outro jesuíta chileno, Manoel
Lacunza (1731-1801) escreveu dois volumes com o título “A Vinda do
Messias em Glória e Majestade”.

O ensino principal de Lacunza era que a volta de Jesus Cristo não


aconteceria de uma só vez, mas em duas partes; na primeira parte a
Igreja seria arrebatada para que pudesse escapar do reino do futuro
Anticristo e da grande tribulação. Este trabalho foi traduzido para a
língua inglesa em 1827 por Edward Irving10 que passou a incluir estes
ensinamentos e a doutrina do milenarismo. Foi através de Irving que
as teorias de Lacunza foram passadas à liderança dos “Irmãos de
Playmont”11, que tinham como principal líder na época John Nelson
Darby que era anglicano. Darby levou as teorias adiante e permitiu
que chegasse ao coração do protestantismo na época. (TORRES,
2012, p.32-33). De fato, todos os caminhos que levam à origem da
teoria dispensacionalista e futurista moderna desaguam no nome de
John Nelson Darby, citado por diversos autores como o “pai do
dispensacionalismo moderno”.

Uma outra fonte interessante e curiosa ligada ao ensino de um


arrebatamento pré-tribulacional é citada no livro de Brian Schwertley,
que diz:
O ensino de um arrebatamento secreto pré-tribulacional é uma doutrina que nunca
existiu antes de 1830. O arrebatamento prétribulacional veio à existência mediante uma
exegese cuidadosa da Escritura? Não! A primeira pessoa a ensinar a doutrina foi uma
jovem chamada Margaret Macdonald. Margaret não era teóloga nem expositora bíblica,
mas uma profetiza da seita Irvingita - Igreja Católica Apostólica.(SCHWERTLEY,
2007)12

Sobre essa profetiza, um jornalista cristão chamado Dave McPherson


que escreveu um livro sobre a origem do arrebatamento secreto diz:
“Temos visto que uma jovem escocesa chamada Margaret Macdonald teve uma
revelação particular em Port Glasgow, Escócia, no começo de 1830, de um grupo seleto
de cristãos seria capturado para encontrar Cristo nos ares, antes dos dias do Anticristo.
Uma testemunha ocular, Robert Norton M.D., preservou o relato escrito a mão por ela
da sua revelação de um arrebatamento pré-tribulacional em dois de seus livros, e disse
que foi a primeira vez que alguém dividiu a segunda vinda em duas partes ou estágios
distintos. As visões e manifestações desta jovem eram bem conhecidas ente os Irmãos
de Playmont, inclusive sua concepção profética foi matéria na edição de setembro de
1830 de um jornal trimestral (The MorningWatch), que foi publicado pelos Irvingitas entre
1829 e 1832. Os primeiros discípulos desta interpretação a chamavam de uma nova
doutrina”13.

John Nelson Darby tomou o novo ensino de Margaret MacDonald


sobre o arrebatamento, fez algumas mudanças (ela ensinava um
arrebatamento parcial de crentes, enquanto ele ensinava que todos
os crentes seriam arrebatados) e incorporou-o em seu entendimento
dispensacionalista da Escritura e profecia. Darby gastaria o resto de
sua vida falando, escrevendo e viajando para divulgar essa nova ideia
do arrebatamento secreto. Os Irmãos de Plymouth admitiam
abertamente e até mesmo se orgulhavam do fato de que, entre os
seus ensinos, alguns eram totalmente novos, que nunca tinham sido
ensinados pelos pais da igreja, escolásticos medievais, reformado-res
protestantes e muitos outros comentaristas.

Quando o livro de Ribera reapareceu, um pequeno grupo de


ultraconservadores, liderado por John Darby, começou a levar o livro
de Ribera a sério e foram influenciados por ele. Darby e seu
contemporâneo, Edward Irving, começaram a falar dessa teologia do
“fim dos tempos” e começaram a atrair muitos seguidores. Em
resumo, Darby teve a influência de Irwing e o grande apoio de Cyrus
I. Scofield14. Estes foram seguidos por Lewis S. Chafer15 e Charles
C. Ryrie16, os quais estabeleceram o ensino de que a pré-tribulação
era a escatologia normativa. Seu ensino central é que Jesus Cristo
regressaria numa vinda em duas partes, uma secreta, denominada de
rapto ou arrebatamento para levar os crentes durante o período da
tribulação, e, depois de sete anos (ou três anos e meio, conforme
uma variante dessa interpretação), Cristo voltaria à Terra com os
santos para derrotar o Anticristo e suas forças e então estabelecer o
Reino Milenar de Deus na Terra.

O mais importante discípulo de Darby foi C. I. Scofield, que o


conheceu numa das suas viagens aos Estados Unidos numa igreja
presbiteriana. Scofield era aluno do pastor James H. Brooks, ministro
dessa igreja. Mais tarde, Scofield publicou os conceitos de Darby em
sua famosa Bíblia de Referência Scofield, que foi originalmente
publicada em inglês em 1909, reeditada em 1917 e revisada em
1967, e que desde então tem sido traduzida para várias outras
línguas. Essa bíblia foi a mais popular do seu tempo, porque foi uma
das primeiras a ter um comentário completo, e rapidamente se tornou
a base para os seminaristas da época. Isso continuou sem
impedimentos até que o movimento “última chuva” (Later Rain
Movement, em inglês), em 1948, que discordava das afirmações da
Bíblia de Referência Scofield, de que os Dons haviam cessado,
promoveu uma mudança. Os pentecostais retiraram essas passagens
dos comentários, mas ainda assim engoliram os ensinamentos de
Ribera, sem perceber.
Então, em 1961, Finis Dake publicou a Bíblia Anotada de Referência
Dake, que continuou a promover o mesmo “Darbyismo” que a bíblia
Scofield, e as Bíblias de Estudo Ryrie e MacArthur deram
continuidade aos conceitos dispensacionalistas de Darby.

Com relação aos ensinamentos de Darby, o teólogo George E. Ladd


escreveu:
Esta interpretação futurista com o seu Anticristo pessoal e três anos e meio de
tribulação não criou raízes na igreja protestante até o princípio do século dezenove. O
primeiro protestante que a adotou foi S.R. Maitland(LADD apud TORRES, 2012, p.35).

Então podemos ver, conforme ensina o Dr. Jonathan Welton, que,


quando Lutero se levantou contra Igreja Católica Romana, liderando a
reforma protestante, isso acabou gerando uma reação que fez um
sacerdote jesuíta (Ribera) escrever uma nova doutrina, com o intento
de refutar um ponto crucial levantado pelos protestantes contra o
papado e a igreja de Roma (ensino protestante em que o papado era
o Anticristo), dando início à crença de que certas profecias ainda não
haviam sido cumpridas.17

1.2.1 Uma época de novas doutrinas

É importante considerar a época do ministério de John Nelson Darby.


Durante os anos 1830, o Espirito Santo, através de um grande
avivamento, estava instigando as igrejas americanas a viver em
grande busca e fervor. Concomitante a esse avivamento, o diabo
estava trabalhando pesado, soltando distorções e falsos ensinos na
Terra. Desde o fim dos anos 1700 até o fim dos anos 1800, grandes
falsas doutrinas e mentiras foram liberadas na Igreja, por exemplo:
Joseph Smith fundou o Mormonismo em 1830 (em Palmira, um
subúrbio de Rochester, Nova Iorque, onde Charles Finney estava
liderando cultos de avivamento ao mesmo tempo); Charles Taze
Russell fundou os Testemunhas de Jeová no fim dos anos 1870; As
irmãs Fox fundaram o Espiritualismo em 1848 (que depois de tornou
o berço da Nova Era); A primeira Igreja Universalista (em inglês é
“unitarianism church”) começou em Boston em 1785; Mary Baker
Eddy fundou a religião chamada Ciência Cristã em 1879 (que era
uma mistura de Mesmerismo e metafísica).

Nessa época, John Nelson Darby também apareceu com seus novos
ensinos sobre o “fim dos tempos”. Desde que C. I. Scofield publicara
as crenças de Darby em seus comentários bíblicos, o “Darbyismo”
aparentemente se tornou o ensino padrão sobre o “fim dos tempos”
para muitos professores. Porém, muitos não consideraram ou não
sabiam de onde eles haviam vindo.

1.2.2 Um resumo do último século

Depois que a bíblia de Referência Scofield foi publicada em 1909, a


Terra passou por uma época profundamente traumática: Primeira
Guerra Mundial, Depressão e Segunda Guerra Mundial. Quando
esses 40 anos tinham acabado, o pessimismo já havia se enraizado
profundamente no pensamento americano.

Então quando, em 1948, Israel virou um país, muitos disseram que


Mateus 24:32-33 significava que, quando Israel se tornasse uma
nação outra vez, o fim estaria próximo:
“Aprendei, pois, esta parábola da figueira: quando já os seus ramos se tornam tenros e
brotam folhas, sabeis que está próximo o verão. Igualmente, quando virdes todas estas
coisas, sabei que ele está próximo, às portas.” (Mateus 24:32-33)

No verso seguinte é dito “Em verdade vos digo que não passará esta
geração sem que todas estas coisas aconteçam” (Mateus 24:34). Já
que a bíblia ensina que uma geração são 40 anos, isso levou milhões
de cristãos a acreditarem e ensinarem que o arrebatamento
aconteceria em 1988. Isso abriu as portas para que Edgar
Whisenant18 vendesse 4,5 milhões de cópias de seu livro “88 Razões
pelas quais Jesus voltará em 1988”. Whisenant foi citado como tendo
dito que “só se a bíblia estiver errada, eu estarei errado; e digo isso
para todos os pregadores da cidade”, e “se houvesse um rei nesse
país e eu pudesse apostar minha vida, apostaria no RoshHashanah
de 1988”.

É importante dizer que as previsões de Whisenant foram levadas a


sério por uma parte da comunidade cristã evangélica. Conforme o
grande dia se aproximava, programações regulares na Rádio
Trindade Cristã (tradução de Christian Trinity Broadcast Network,
TBN) eram interrompidas para dar instruções especiais de como se
preparar para o arrebatamento. Quando o arrebatamento predito não
aconteceu, Whisenant continuou com mais livros, com predições para
muitas datas, em 1989, 1993, 1994 e 1997.

Nesse ponto, alguns dos professores da época tinham começado a


redefinir o que geração significava. Diziam que o relógio havia
começado em 1948, mas, já que uma geração de 40 anos estava
errada, diziam que uma geração teria 70 ou até 100 anos.

Em 1970, Hal Lindsey escreveu “A Agonia do Grande Planeta Terra”.


Esse livro vendeu em torno de 35 milhões de cópias e afetou
profundamente uma geração de pastores e líderes que cresciam no
movimento “Jesus People”19 do início dos anos 1970. Esse livro
alimentou “uma geração que acredita mais nas mitologias de Lindsey
do que entende o que a bíblia e a história ensinam na realidade”20.
Nesse livro, Hal Lindsey conclui que, desde que os Estados Unidos
não são mencionados em Apocalipse, os EUA não seriam um grande
participante na cena mundial quando a Grande Tribulação
acontecesse. Baseado em sua interpretação de vários textos bíblicos,
também presumiu que a Comunidade Econômica Europeia (a União
Europeia) se tornaria o que ele chamou de “Estados Unidos da
Europa”. Essa união teria 10 membros e se transformaria, de acordo
com Lindsey, no Império Romano revivido e governado por um
anticristo, necessário para o cumprimento da profecia bíblica.
Atualmente, a União Europeia tem 27 membros.

Após isso, Lindsey lançou outro livro, intitulado “Os Anos 80:
Contagem Regressiva para o Juízo Final” (The 1980s: Countdown to
Armageddon, em inglês). Nesse livro Lindsey dava a entender que a
batalha do Armagedom aconteceria logo.
Ele foi longe o bastante para dizer, “a década de 1980 pode muito bem ser a última
década da história como a conhecemos” e ele sugeriu que os EUA seriam destruídos
por um ataque soviético surpresa. Não era de surpreender que, por causa da insistência
de Lindsey de que os anos 1980 terminariam em uma Grande Tribulação, o livro foi
silenciosamente parando de ser impresso no início dos anos 90. Lindsey, entretanto, não
desistiria. No início dos anos 90, publicou Planeta Terra – 2000 d.C. (em inglês o título é
Planet Earth – 2000 A.D.), que alertava cristãos de que não deveriam planejar estar
vivendo na Terra nos anos 2000(WELTON, 2014, p.20).

Em seus muitos livros, Lindsey assumiu que a Guerra Fria continuaria


até o fim e, na verdade, teria um papel significativo no desenrolar dos
eventos do “fim dos tempos”. Ele até disse que a Rússia seria o
famoso Gogue de Apocalipse 20:8. Lindsey achava que a cultura
hippie dos anos 60 e 70 se tornaria a cultura dominante dos EUA,
finalmente levando à imoralidade e falsa religião que se levantaria no
“fim dos tempos”, como “predito” em muitas passagens bíblicas.
Claramente, nenhuma dessas profecias aconteceu e muitas se
mostraram erradas por causa das datas preditas, porém Lindsey
ainda é considerado um grande profeta moderno por muitos.

Em 1995 foi lançado o primeiro livro da série “Deixados para Trás”,


que foram os mais lidos pelo grande público. Essa série foi escrita
por Tim LaHaye e Jerry B. Jenkins. Por causa da paranoia e medo do
ano 2000, os cristãos entraram em uma “febre do arrebatamento”.
Quando o ano 2000 chegou, o mundo não havia acabado, e o saldo
da especulação foi de 60 milhões de cópias de “Deixados para Trás”
que haviam sido vendidas (assim como os três filmes longas-
metragens, semelhantes em natureza e teologia à série do Ladrão
da Noite, nos anos 1970). Conforme escreve o Dr. Harold Eberle
(2013, p. 16): “Esses livros e os ensinamentos associados a eles se
tonaram tão comuns e aceitos na Igreja moderna que a escatologia
negativa tornou-se a visão mais popular entre os cristãos”.

É importante ressaltar que essa visão passou a ser realmente popular


no cristianismo, a partir dos últimos 70 anos, e que atingiu o seu ápice
de aceitação antes do final do último milênio, uma época em que os
cristãos em geral ficaram fascinados com a possibilidade de o mundo
acabar no ano 2000.

Nas palavras de Jonathan Welton (2014), estamos no novo milênio e


é tempo de se começar a questionar profundamente as visões
modernas do “fim dos tempos”:
Se um alguém tem falado há 40 anos que o mundo vai acabar daqui a pouco tempo,
devemos parar de prestar atenção. Se alguém indicou como sendo o anticristo mais de
40 pessoas diferentes, devemos ignorá-lo. O fato de que esses professores usam
ternos e aparecem na TV não faz deles menos errados do que o cara maluco que fica
na esquina segurando um aviso de que “o fim está próximo!”. Se um professor é um
alarmista paranoico sobre os anos 2000, não devemos temer suas outras afirmações
futuristas sobre o “fim dos tempos”(WELTON, 2014, p.21).

Agora que estamos bem avançados no novo milênio, os cristãos


estão erguendo os olhos para o futuro:
Muitos líderes estão descobrindo que a Bíblia nos dá uma visão mais otimista do que se
havia acreditado anteriormente. Eles estão adotando uma ESCATOLOGIA
APOSTÓLICA, a qual ensina que Satanás não irá reinar sobre este mundo, mas sim
Jesus Cristo e a Sua Igreja (EBERLE, 2013, p.16).

Em resumo, a ideia de que as palavras de Jesus em Mateus 24, as


profecias de Daniel e o Livro de Apocalipse estão todas se referindo
a eventos futuros é um conceito novo, que apareceu como uma
reação à Reforma. Esse conceito ficou incrustrado profundamente na
comunidade evangélica em geral, mas não tem base na história da
Igreja nem na Bíblia.

O teólogo George Eldon Ladd, em seu livro bem conhecido “O


Evangelho do Reino”, enfatiza inúmeras vezes a posição da Igreja
como sendo a detentora do Evangelho do Reino. Ele afirma que
mesmo que o mundo seja um cenário de conflito em que as forças do
maligno atacam o povo de Deus, o evangelho do Reino avança e
assalta o reino de Satanás. Ele declara que o evangelho do Reino é a
proclamação do que Deus tem feito e fará; é a vitória de Deus sobre
os seus inimigos. Trata-se da boa nova que Cristo voltará a fim de
destruir para sempre os seus inimigos. O evangelho do Reino é um
evangelho de esperança e de boas novas daquilo que Deus já fez.
Ele já quebrou o poder da morte, derrotou Satanás e destronou o
reinado do pecado (LADD, 2008, p. 138, grifo nosso).
Contudo não há espaço para pessimismo absoluto. Alguns estudos proféticos dão-nos a
impressão de que no fim da era, os últimos dias, serão caracterizados pela perversidade
absoluta. Às vezes exagera-se na ênfase do caráter perigoso dos últimos dias (2
Timóteo 3.1). Dizem que a igreja visível ficará totalmente impregnada pela doutrina
perversa [...] Nesse retrato dos últimos dias, o povo de Deus deve esperar apenas
derrota e frustração. O mal deve reinar. A era da igreja terminará com a vitória sem
paralelos do mal. Às vezes, o caráter perverso dos últimos dias é tão enfatizado que
ficamos com a impressão (com certeza involuntária) de que quanto mais depressa o
mundo deteriorar, melhor, pois mais depressa o Senhor retornará (LADD, 2008, p.147,
grifo do autor).

1.3 ORIGEM DA ESCATOLOGIA APOSTÓLICA


Quando nos deparamos com o termo “preterista”, é necessário que
se faça uma breve explicação, pois existem algumas variantes
importantes da interpretação escatológica preterista. A interpretação
escatológica apresentada neste livro é conhecida no meio acadêmico
como o PRETERISMO PARCIAL. Primeiramente, iremos definir o que
é preterismo e, em seguida, serão apresentadas as suas variantes a
partir do entendimento de diversos autores e mestres.

R. C. Sproul define preterismo como “um ponto de vista escatológico


que coloca muitos ou todos os eventos escatológicos no passado,
especialmente durante a destruição de Jerusalém em 70
d.C.”(SPROUL, 2016).
Preterismo é a ideia de que algumas ou todas as profecias foram
cumpridas na geração que estava viva quando Jesus pregou, isto é,
elas foram cumpridas no passado. Ele toma a inspiração divina da
Bíblia de forma séria e literal. Algumas pessoas têm alegado que
certas profecias de Jesus estavam erradas, o que verdadeiramente é
absurdo; os preteristas contraatacam esses argumentos, pois creem
que as profecias de Jesus de fato foram cumpridas nesta (isto é, na
dele) geração, mais notavelmente pela destruição de Jerusalém em
70 d.C. (TAYLOR, 2006). O preterismo interpreta os seguintes
versículos-chave literalmente:
“Quando forem perseguidos num lugar, fujam para outro. Eu lhes garanto que vocês
não terão percorrido todas as cidades de Israel antes que venha o Filho do homem.”
(Mateus 10:23, NVI)

“Garanto-lhes que alguns dos que aqui se acham não experimentarão a morte
antes de verem o Filho do homem vindo em seu Reino.” (Mateus 16:28 NVI)

“E, assim, sobre vocês recairá todo o sangue justo derramado na terra, desde o
sangue do justo Abel, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem vocês
assassinaram entre o santuário e o altar. Eu lhes asseguro que tudo isso sobrevirá
a esta geração.” (Mateus 23:35-36 NVI)

“Eu lhes asseguro que não passará esta geração até que todas estas coisas
aconteçam.” (Mateus 24:34 NVI)

“Mas Jesus permaneceu em silêncio. O sumo sacerdote lhe disse: “Exijo que você jure
pelo Deus vivo: se você é o Cristo, o Filho de Deus, diga-nos”.“Tu mesmo o disseste”,
respondeu Jesus.“Mas eu digo a todos vós: Chegará o dia em que vereis o Filho do
homem assentado à direita do Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu.”(Mateus
26:63-64 NVI)

É muito importante distinguir entre o preterismo parcial (ou


moderado) e o preterismo completo (ou radical, ou ainda
hiperpreterismo). O preterismo parcial diz que algumas profecias
foram cumpridas na geração dos dias de Jesus, enquanto o
preterismo completo diz que todas as profecias foram então
cumpridas. O preterismo completo diz que a segunda vinda
(parousia), a ressurreição, o arrebatamento, o dia do Senhor e o dia
do juízo ocorreram no ano 70 d.C. De maneira contrária, o preterismo
parcial diz que Cristo veio em julgamento sobre Jerusalém em 70 d.C.
e que esse foi um dia do Senhor e não o dia do Senhor (TAYLOR,
2006, grifo nosso). O maior ponto fraco do preterismo completo é
que os que adotam essa visão fazem uma hermenêutica bíblica
partindo do pressuposto de que todas as profecias sobre o fim dos
tempos já se cumpriram; logo eles precisam tentar entender como
cada passagem se cumpriu no passado. Os futuristas igualmente
abordam os textos escatológicos com base numa suposição
fundamental ― de que todas as profecias pertinentes se cumprirão
no futuro. Ambos os sistemas de interpretação esbarram no mesmo
problema: eles precisam fazer com que todas as passagens se
encaixem em sua pressuposição, mesmo que antagônicas (EBERLE,
2013, grifos nossos). Como bem observa Eberle, a hermenêutica do
preterismo parcial é equilibrada, pois:

[...] os mestres que adotam a visão preterista parcial não são


obrigados a encaixar nenhuma passagem específica no futuro
ou no passado. Eles tentam entender cada passagem em seu
próprio contexto e ambiente histórico. Os preteristas parciais
procuram indicações dentro do texto para identificar se uma
passagem profética está prestes a se cumprir “muito em breve”,
ou “dentro daquela geração” ou “daqui a muito tempo”. Em
seguida eles consideram o registo histórico para ver se existe
algum evento histórico claro que corresponda àquela passagem
profética. Desse modo os preteristas parciais permitem que
tanto a Bíblia quanto a História falem por si mesmas. Esse
padrão permite um entendimento dos textos bíblicos sem a
necessidade de forçar passagens obrigando-as a se encaixar
dentro de expectativas predeterminadas (EBERLE, 2013, p.79).

Figura 01 - Comparação entres as visões escatológicas


Figura 02 - Comparação entres as visões Preteristas, Completa e
Parcial
1.3.1 A visão preterista na história da Igreja

Um dos preteristas antigos mais conhecido e acessível é Eusébio


(260-340 d.C.), o “pai da história da igreja”. Em seu clássico “História
Eclesiástica”, ele detalha as desgraças de Jerusalém em 70 d.C.
Após uma longa citação do livro Guerras dos Judeus de Josefo,
Eusébio escreve que “é apropriado adicionar aos seus relatos a
verdadeira predição do nosso Salvador, na qual ele predisse esses
próprios eventos” (3:7:1-2). Ele então se refere ao Discurso do
Monte das Oliveiras, citando Mateus 24:19-21 como sua principal
referência e mais tarde Lucas 21:20,23,24. Ele conclui:
Se alguém compara as palavras do nosso Salvador com outros relatos do historiador
com respeito à guerra toda, como pode não se maravilhar e admitir que a presciência e
a profecia do nosso Salvador foram verdadeiramente divina e maravilhosamente
estranhas? (3:7:7)(EUSÉBIO apud GENTRY, 2014).

O Dr. Harold R. Eberle, em sua exposição sobre o cumprimento do


juízo de Deus sobre a nação de Israel em 70 d.C., apresenta uma
citação de Eusébio:
Tudo isto ocorreu desta forma, no segundo ano do reinado de Vespasiano [ano 70 d.C.],
de acordo com as previsões de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (Ecclesiastical
History, 3:7) (EUSÉBIO apud EBERLE, 2013).

Outro documento antigo aplicando Mateus 24 ao ano 70 d.C. são as


Homilias de Clemente (século II):

Profetizando com respeito ao tempo, ele disse: ‘Não vedes todas estas construções?
Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derribada
(Mateus 24:2); e esta geração não passará até que a destruição comece (Mateus
24:34)...’. E de maneira similar ele falou em claras palavras as coisas que estavam perto
de acontecer que podemos ver agora com nossos olhos, para que o cumprimento
pudesse estar entre aqueles a quem as palavras foram pronunciadas (CH 3:15)
(CLEMENTE, apud GENTRY, 2014).

Clemente de Alexandria (150-215 d.C.) discute a septuagésima


semana de Daniel como um evento passado:
Metade da semana Nero existiu e na cidade santa de Jerusalém colocou a abominação;
e na outra metade da semana ele foi tirado, bem como Óton, Galba e Vitélio. E
Vespasiano subiu ao poder supremo, destruiu Jerusalém e desolou o lugar santo
(Miscelâneas 1:21) (CLEMENTE, apud GENTRY, 2014).

Para Kenneth L. Gentry Jr., o pré-milenista Tertuliano (160225 d.C.)


escreve sobre a conquista romana: “e assim, no dia dos ataques
deles, os judeus cumpriram as setenta semanas preditas em Daniel”
(Uma Resposta aos Judeus, 8). Segundo Gentry, também o Livro de
Apocalipse é aplicado ao ano 70 d.C. por muitos na antiguidade. Um
autor do quinto século de nome André da Capadócia escreveu um
livro chamado “Interpretação do Apocalipse”; nele, André observou
que “não estão errados aqueles que aplicam essa passagem ao
cerco e destruição de Jerusalém por Tito” (Apocalipse 6:12). Mais
tarde ele comentou: “essas coisas são explicadas por alguns como
sendo aqueles sofrimentos que foram infringidos pelos romanos
sobre os judeus” (Apocalipse 7:1). De acordo com o famoso
historiador da igreja, Henry Wace, o comentário de André da
Capadócia é “a exposição sistemática mais antiga do Livro de
Apocalipse na igreja grega”. O próprio André nos informa que ele o
escreveu para “desvelar o significado do Apocalipse e fazer a
aplicação adequada das suas predições aos tempos que se
seguiram”21.

Aretas da Capadócia (século VI) também nos fornece um comentário


sobre Apocalipse que, de acordo com o historiador Henry Wace,
“professa ser uma compilação” e não uma “mera reprodução da obra
do seu predecessor, embora incorporasse uma grande porção dos
conteúdos daquela obra”. Aretas aplica especificamente várias
passagens em Apocalipse ao ano 70 d.C. (Apocalipse 6-7).
Kenneth L. Gentry Jr. ainda menciona alguns autores e mestres
preteristas do século XV ao século XIX e algumas citações deles. O
jesuíta espanhol Alcasar (1614) sistematizou grandemente a
abordagem preterista do Apocalipse. Aproximadamente nesse
mesmo momento, grandes preteristas surgiram, tais como Hugo
Grotius (1583-1645) e Jean Leclercq (1657-1736). De fato, um dos
maiores intelectos da Assembleia de Westminster22 foi um forte
preterista: John Lightfoot (1601-1675), que, em seu Comentário sobre
o Novo Testamento do Talmude ao Hebraico (1674), ofereceu uma
excelente exposição preterista de Mateus 24, com alusões à
passagem de 2 Tessalonicences 2. Desse texto de Tessalonicenses
ele argumenta que “quem restringe”, descrito nessa epístola, “deve
ser entendido como o imperador Cláudio, perdendo a paciência e
restringindo os judeus”.

Chegando ainda mais perto dos nossos dias, o grande erudito da


hermenêutica, Milton S. Terry (1840-1914), publicou muita coisa sobre
o esquema preterista. Suas convicções preteristas aparecem
abundantemente tanto em seu texto clássico Hermenêutica Bíblica
(1885; rep. 1974) como em sua obra separada “Apocalipse Bíblico”
(1898; rep. 1988). O renomado historiador da igreja, o suíço Philip
Schaff (1819-1893), também publicou uma visão preterista do
Apocalipse em seu clássico “História da Igreja Cristã”. Um dos
melhores comentários preteristas sobre Apocalipse já publicados,
segundo o autor Gentry (2014), foi o “Comentário sobre o
Apocalipse”, do americano congregacionalista Moses Stuart (1780-
1852). O ainda popular comentário sobre o Apocalipse do erudito
metodista Adam Clarke (1762-1832) segue muito do
comprometimento de Lightfoot a um foco sobre o ano 70 d.C., como
o faz aquele encontrado na obra intitulada “Os Dias Primitivos do
Cristianismo”, do renomado historiador anglicano F. W. Farrar (1831-
1903). A obra “A Mensagem de Patmos” (1921, rep. 1989), de David
S. Clark, pai do apologista presbiteriano Gordon H. Clark, também foi
republicada recentemente.
Entrando em nossa própria geração, várias exposições reformadas
ou evangélicas têm ajudado a abastecer o reavivamento atual do
preterismo, principalmente o preterismo parcial. O livro A Escatologia
de Vitória (1971) de J. Marcellus Kik desenvolveu o Discurso do
Monte da Oliveira em grande detalhe para o estudo do preterismo.
Obras ainda mais recentes incluem: A Grande Tribulação (1987) de
David Chilton, Loucura dos Últimos Dias (1991) do autor Gary DeMar.

A primeira fase do avivamento atual dos comentários preteristas


sobre Apocalipse inclui o livro ”O Tempo está Próximo” (1966) de Jay
E. Adams e “Examinai as Escrituras: de Hebreus a Apocalipse”
(1978) de CornelisVanderwaal. Mais recentemente temos “Os Dias
de Vingança” (1987) de David Chilton, “Apocalipse: Quatro Visões”
(1996) de Steve Gregg, e o livro “Os Últimos Dias Segundo
Jesus”(1998), de R. C. Sproul, que emprega o preterismo como uma
ferramenta apologética na defesa da integridade das profecias de
Jesus (Oliveira) e de João (Apocalipse).

Capítulo 2

A INTERPRETAÇÃO PRETERISTA PARCIAL DE


MATEUS 24
Neste livro estão sendo analisadas as principais profecias
escatológicas da escritura à luz da hermenêutica Preterista Parcial.
Especificamente neste segundo capítulo será dada ênfase às
profecias de Jesus, principalmente o sermão escatológico de Mateus
24 e seus contextos de Mateus 23 e Mateus 25. Haveria, com
certeza, outros textos a serem analisados, mas de uma forma geral
os autores consideram essas passagens de maior relevância.
Notadamente, o capítulo 24 de Mateus e seus textos paralelos (Lucas
21 e Marcos 13) são os textos mais importantes para que se entenda
a escatologia ensinado pelo Senhor Jesus Cristo. Conforme veremos
neste capítulo, com relação às perguntas feitas pelos discípulos em
Mateus 24:3, a maneira como você interpreta (entende) as respostas
de Jesus determina o que você acredita sobre o fim dos tempos, a
tribulação, o anticristo e o desenrolar dos acontecimentos futuros.

Uma parte significativa dos cristãos, ainda hoje, interpreta as


perguntas e respostas do Senhor de um ponto de vista do futuro,
antes do fim do mundo.

2.1 COMO ENTENDER MATEUS CAPÍTULO 24


O capítulo 24 do evangelho de Mateus é conhecido na cristandade
em geral como o texto que fala sobre a Segunda Vinda de Cristo.
Essa passagem também ficou conhecida como o “Pequeno
Apocalipse”, “Sermão Profético” ou ainda “Sermão do Monte”,
porque Jesus ensinou aos seus discípulos enquanto eles estavam
reunidos no Monte das Oliveiras. Quem, ao ler Mateus, Capítulo 24,
na parte que fala sobre guerras, terremotos, epidemias, falsos cristos
e falsos profetas, nunca chegou a compará-la aos nossos dias atuais
e às últimas notícias dos jornais? Quem nunca ouviu diversas
pregações e estudos sobre o tema que não enquadravam o texto nos
dias atuais? Sem dúvida, esse capítulo de Mateus ficou gravado na
mente de muitos como o capítulo que fala de nosso tempo ou como
sendo os últimos dias que supostamente antecedem a segunda vinda
de Cristo. Todavia, nem sempre a interpretação de Mateus 24 foi
assim. Desde os tempos mais remotos, diversos pais da igreja
aplicaram Mateus 24, pelo menos uma grande parte do texto (Mateus
24:1-35), não ao fim do mundo e à segunda vinda de Jesus, mas ao
fim da “era judaica” e a destruição da cidade de Jerusalém e de seu
templo. O capítulo 24 de Mateus, em sua grande parte, segundo a
interpretação Preterista Parcial, não ensina sobre a Segunda Vinda
de Cristo e os sinais que a antecederiam, pelo contrário, o assunto ali
em questão é sobre a “vinda de Jesus em julgamento contra
Jerusalém”, que aconteceu dentro daquela geração dos primeiros
discípulos de Jesus. Isso pode ser “estarrecedor” para alguns!

Em Mateus 24:3, os discípulos fizeram algumas perguntaschave a


Jesus; segue a transcrição dessas perguntas em duas traduções
bíblicas da língua portuguesa:
E, estando assentado no Monte das Oliveiras, chegaram-se a ele os seus discípulos em
particular, dizendo: dize-nos, quando sucederão essas coisas, e que sinal haverá da tua
vinda e do fim do mundo?(Mateus 24:3 ACF).
“No monte das Oliveiras, achava-se Jesus assentado, quando se aproximaram dele os
discípulos, em particular, e lhe pediram: “dizenos quando sucederão estas coisas e que
sinal haverá da tua vinda e da consumação do século.” (Mateus 24:3 ARA).

Depois que os discípulos fizeram suas perguntas a Jesus, conforme o


versículo acima, Ele começa a respondê-las, falando sobre ter
cuidado porque viriam falsos líderes afirmando serem o Cristo e
continuou falando sobre guerras, terremotos, fome e perseguições e
um esfriamento, pessoas decaindo da fé. Jesus também falou sobre
o evangelho sendo pregado em todo o mundo, o que seria seguido
por destruição, tribulação e pessoas sendo arrebatadas.
Os cristãos que creem numa visão futurista (dispensacionalista)
acreditam que as respostas do Senhor estão relacionadas a eventos
e episódios que irão acontecer no futuro, pouco antes do fim do
mundo. Os cristãos que acreditam na visão preterista parcial de
ESCATOLOGIA APOSTÓLICA chegam a conclusões bem diferentes
quando estudam Mateus 24 e identificam claramente as perguntas
que foram feitas a Jesus, pelos seus discípulos, no versículo 24:3.

É possível observar que em algumas traduções o versículo 24:3


termina com a expressão “fim do mundo” (Almeida Corrigida Fiel,
por exemplo), isto porque a palavra grega que é usada no original é
αιων (aion), que pode tanto ser traduzida como “era” ou “mundo”.
Usando o termo “mundo”, os mestres futuristas tendem a resumir as
perguntas feitas pelos discípulos a uma investigação sobre a segunda
vinda de Jesus e o fim do mundo. Dessa forma, quando Jesus dá as
suas respostas nos versículos que se seguem, os futuristas pensam
que todas as Suas Palavras estão relacionadas aos acontecimentos
que estão por vir, num curto período de tempo, que seria antecedente
ao fim do mundo. Assim escreve Thomas Ice23, um reconhecido
mestre futurista, sobre as três perguntas dos discípulos em Mateus
24:3:
[...] Todos os acontecimentos descritos em Mateus 24 e em Marcos 13 (bem como em
Lucas 21:25-28) se cumprirão na tribulação que há de vir no futuro. Portanto, a primeira
pergunta que os discípulos fizeram a Cristo no discurso do Monte das Oliveiras dizia
respeito à destruição de Jerusalém no ano 70 d.C. O relato do cumprimento dessa
predição foi registrado somente em Lucas 21. Os textos de Mateus 24 e 25 e Marcos 13
tratam apenas da última pergunta que os discípulos fizeram a Jesus, cuja resposta
profetiza acontecimentos que, em relação aos dias atuais, ainda são futuros. (ICE, 2016)

De outra forma, muito distinta, os mestres que ensinam a visão


preterista parcial no âmbito da restauração apostólica atual da igreja
começam argumentando que, em Mateus 24:3, os discípulos fizeram
três (3) perguntas a Jesus e não apenas uma ou duas. Quando se
reconhece que são perguntas diferentes, isso acaba mudando
drasticamente a maneira de como se entende as respostas que Jesus
dá nos versículos que se seguem. Conforme argumenta o Dr. Hector
Torres, “reconhecer estas três perguntas e consequentemente as
três diferentes respostas do Senhor nos permitirá entender com
clareza os tempos de cada uma delas”24. Primeiramente, quais são
as três perguntas-chave de Mateus 24?

Pergunta no 1: “Quando sucederão estas coisas?”

Pergunta no 2: “Que sinal haverá da tua vinda?”

Pergunta no 3: “E quanto à consumação do século?” ou “o fim


do mundo?”

A resposta que o nosso Senhor Jesus dá à primeira pergunta está em


Mateus 24:4-28. Em seguida, Ele responde a segunda pergunta em
Mateus 24:29-35. E por fim, Jesus responde a pergunta sobre o fim
da era (ou o fim do mundo), em Mateus 24:36-46.

Serão analisados cada um desses versículos mais adiante; antes,


porém, de prosseguir com a análise do texto de Mateus 24 na
interpretação Preterista Parcial, é necessário colocar esse texto no
contexto do capítulo anterior (Mateus 23), para que se possa
entender mais claramente do que Jesus está falando.

2.1.1 Jesus, o Templo e o Contexto de Mateus 24


“E, quando Jesus ia saindo do templo, aproximaram-se dele os seus discípulos para lhe
mostrarem a estrutura do templo. Jesus, porém, lhes disse: Não vedes tudo isto? Em
verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja
derrubada.”(Mateus 24.1,2)

Para que se tenha um melhor entendimento sobre o Sermão


Escatológico de Jesus em Mateus 24, é necessário compreender o
seu contexto e ler atentamente o capítulo 23 do evangelho de
Mateus. Nesse capítulo, Jesus fez terríveis declarações contra os
escribas e fariseus (a religião judaica). As declarações e
repreensões são tão fortes, como veremos a seguir, que os
discípulos possivelmente ficaram chocados com os juízos liberados
por Jesus. É nesse contexto que eles ouvem mais uma terrível
declaração da parte de Jesus, desta vez sobre o templo de Salomão.
É preciso entender que o templo era como se fosse Deus na Terra
para eles; ali era o centro de tudo, de todas as atividades festivas e
religiosas de Israel. Era a “Casa de Deus” entre eles.

Mateus 23 nos fala sobre um dia em que Jesus estava pregando no


templo em Jerusalém. Em primeiro lugar, Jesus advertiu as multidões
e os seus discípulos que tomassem cuidado com os escribas e
fariseus (Mateus 23.1-12). Em seguida parece que Jesus deixa os
discípulos de lado e passa a dirigir Suas palavras diretamente para
aqueles líderes religiosos. Fica claro o tom da mensagem ao
observarmos as primeiras palavras de cada versículo que se segue.
São muito duras as palavras de Jesus:
“Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que fechais aos homens o reino
dos céus; pois nem vós entrais, nem aos que entrariam permitis entrar. Ai de vós,
escribas e fariseus, hipócritas! Porque devorais as casas das viúvas e sob pretexto
fazeis longas orações; por isso recebereis maior condenação. Ai de vós, escribas e
fariseus, hipócritas! Porque percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e,
depois de o terdes feito, o tornais duas vezes mais filho do inferno do que vós. Ai de
vós, guias cegos! Que dizeis: Quem jurar pelo ouro do santuário, esse fica obrigado ao
que jurou.” (Mateus 23.13-16 ARA, grifo nosso)

Jesus estava fazendo uso de um discurso muito duro aos líderes


religiosos, bem ali, dentro do templo deles, o epicentro da religião
Judaica. Seguem ainda mais alguns versículos:
“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque dais o dízimo da hortelã, do coentro
e do cominho, e tendes omitido o que há de mais importante na lei, a saber, a justiça, a
misericórdia e a fé; estas coisas, porém, devíeis fazer, sem omitir aquelas. Guias
cegos! Que coais um mosquito, e engolis um camelo. Ai de vós, escribas e fariseus,
hipócritas! Porque limpais o exterior do copo e do prato, mas por dentro estão cheios
de rapina e de intemperança. Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo, para que
também o exterior se torne limpo. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque
sois semelhantes aos sepulcros caiados [...] assim também vós exteriormente pareceis
justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade. Ai de
vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque edificais os sepulcros dos profetas e
adornais os monumentos dos justos.” (Mateus 23.23-29, grifo nosso)
Parece que Jesus vai intensificando Sua repreensão até chegar a um
clímax no qual Ele passa a declarar um juízo severo contra aqueles
que o ouvem:
“[...] Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno?
Portanto, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas; a uns deles matareis e
crucificareis; e a outros deles açoitareis nas vossas sinagogas e os perseguireis de
cidade em cidade. Para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado
sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até ao sangue de Zacarias, filho de
Baraquias, que matastes entre o santuário e o altar. Em verdade vos digo que todas
estas coisas hão de vir sobre esta geração.” [...] (Mateus 23. 32-36 ARA, grifo nosso)

Isto é uma declaração de Jesus sobre o juízo vindouro de Israel. É


interessante que Ele se referiu ao sangue de toda pessoa justa,
desde Abel até Zacarias; isto é muito significativo, pois na bíblia
hebraica Abel está no primeiro livro e Zacarias está no último livro.
Isto quer dizer que Jesus está afirmando àqueles líderes religiosos
que o julgamento pelo sangue de toda pessoa justa, desde o início do
Seu Livro até o fim dele, viria sobre eles e na geração deles. Um juízo
havia sido decretado! É de conhecimento comum que a bíblia diz que
uma geração tem quarenta anos de duração (exemplo, o povo
hebreu vagou pelo deserto por quarenta anos até que uma geração
passou). Logo se conclui que, se as palavras de Jesus fossem se
realizar literalmente, é de se esperar que aquele julgamento do
Capítulo 23 de Mateus, que Ele declarou sobre os líderes religiosos
que estavam ouvindo as Suas palavras, se cumprisse dentro dos
quarenta anos seguintes.

Em Mateus 23.37-38, Jesus continuou o Seu discurso para dizer de


forma mais clara de como aquele grande juízo iria ocorrer. Nesses
versículos, Ele clamou:
“Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados!
Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos
debaixo das asas, e tu não quiseste! Eis que a vossa casa vai ficar-vos deserta.”
(Mateus 23. 37-38 ARA, grifo nosso)

Jesus declarou essas palavras enquanto estava no Templo em


Jerusalém. Ele bradou aos escribas e fariseus, dizendo que a
destruição viria sobre eles, sobre a sua cidade e sobre o seu templo.
Como diz Jonathan Welton, “isso foi realmente assustador para os
discípulos de Jesus, que o seguiram para fora do Templo, para
perguntar as seguintes coisas”25:
“E, quando Jesus ia saindo do templo, aproximaram-se dele os seus discípulos para lhe
mostrarem a estrutura do templo. Jesus, porém, lhes disse: Não vedes tudo isto? Em
verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada. E,
estando assentado no Monte das Oliveiras, chegaram-se a ele os seus discípulos em
particular, dizendo: Dize-nos, quando serão essas coisas, e que sinal haverá da tua
vinda e do fim do mundo?” (Mateus 24.1-3 ARA)

2.1.2 O juízo sobre Israel no ano 70 D.C.

Como foi visto anteriormente, as palavras de Jesus teriam que se


cumprir por volta do ano 70 d.C. Historicamente, alguma coisa
aconteceu? Sim, exatamente no ano 70 d.C. Jerusalém foi destruída.
Quarenta anos depois que Jesus declarou o Juízo sobre Jerusalém,
(Mateus 23), a história relata que vinte mil soldados romanos, sob o
comando do general Tito, sitiaram a cidade de Jerusalém e cortaram
toda a entrada de suprimentos por quatro meses para que o povo
morresse de fome. Então os soldados invadiram a cidade e mataram
impiedosamente mais de um milhão de Judeus. Os soldados
incendiaram e destruíram o templo e levaram 97 mil judeus cativos
(JOSEFO, 1995).

O historiador Hans Borger, quando relata a queda de Jerusalém em


seu livro “Uma História do Povo Judeu”, acrescenta uma informação
muito interessante quanto ao tempo (data) em que ocorreu o Juízo:
Historiadores divergem sobre se Tito deu ordem para incendiar o Templo. Josefo,
suspeito, diz que Tito e Tibério J. Alexandre eram contra e que teria sido ato espontâneo
de um soldado. De qualquer maneira, o Santuário foi totalmente consumido pelo fogo.
Era o ano 70 da Era Comum, pelo calendário judaico o dia 9 de Av, igual à data em que
656 anos antes o Primeiro Templo fora destruído por Nabucodonosor(BORGER,
2004, p.225, grifo nosso).
Não é nem necessário “espiritualizar” a coincidência das datas em
que ocorreram as destruições dos Templos, apenas podemos concluir
que o Senhor Jesus foi preciso em sua profecia e que realmente 70
d.C. foi o juízo do Senhor sobre a nação judaica.

Naquele tempo, a população judia foi dizimada e historicamente quase


nada se sabe da vida dos judeus no período de 70 anos seguintes.
Foi somente por volta do ano 130-135 d.C. que eles começaram a se
reunir novamente para então tentar uma última rebelião contra Roma.
Então, depois de três anos de guerras, os romanos conseguiram
esmagar essa rebelião, matando 580 mil judeus, e Israel deixou de
ser reconhecida como nação até o ano de 1948. Foi também nesse
período que o comandante romano ordenou que o templo de
Jerusalém fosse completamente demolido e que cada pedra fosse
levada embora e que a terra na qual o templo havia estado fosse
arada. Cumpriu-se totalmente o juízo profético de Jesus, exatamente
como seria26.

Os historiadores têm um vasto material e documentos daquele


período que nos dão informações precisas e confiáveis sobre a
destruição do templo e de Jerusalém. Entretanto, a maior parte da
informação vem de Josefo, um historiador judeu (não cristão) que foi
empregado pelo governo romano durante aquele período para
observar e relatar o que havia acontecido. Um dos registros de
Josefo diz o seguinte:
Quando eles (os soldados romanos) entraram nas casas para saqueá-las, encontraram
dentro delas famílias inteiras de homens mortos [...] o que significa que haviam sido
mortos pela fome; então eles ficaram horrorizados com essa visão e saíam sem tocar
em nada. Mas embora tivessem essa piedade por aqueles que haviam sido destruídos
daquela forma, não tinham o mesmo sentimento por aqueles que estavam vivos, pois
matavam todos os que encontravam e obstruíam as vielas com seus corpos mortos,
fazendo toda a cidade escorrer sangue, a tal ponto que o fogo de muitas das casas era
apagado pelo sangue daqueles homens (JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus, 494
1995).

Sobre alguns dos pais da igreja que têm escritos sobre a queda de
Jerusalém, podemos mencionar Orígenes de Alexandria e Eusébio:
Desafio a qualquer um me provar estar errado quando digo que toda a nação judia foi
destruída em menos de uma geração pelas aflições que lhe causaram a Jesus. Por isso
creio que foram quarenta e dois anos da crucificação de Jesus à destruição de
Jerusalém (ORÍGENES conta Celsus, IV: XXII).
Tudo isto ocorreu dessa forma, no segundo ano do reinado de Vespasiano [ano 70 d.C.],
de acordo com as previsões do nosso senhor e Salvador Jesus Cristo(EUSÉBIO,
História Eclesiástica, III:7).

2.1.3 Jesus responde as perguntas dos discípulos

Como já vimos anteriormente, o termo “essas coisas” refere-se à


destruição do templo. Jesus declarou que o Templo inteiro seria
destruído e, saindo de lá com os seus discípulos e indo para o Monte
das Oliveiras, “[...] se achava Jesus assentado [...]” (Mateus 24:3). O
Monte das Oliveiras é a colina que fica próxima ao monte do templo
em Jerusalém, na verdade, podemos dizer em frente a ele, então
Jesus e seus discípulos estavam assentados olhando de frente para o
templo de onde haviam acabado de sair27.

Tente se colocar agora no lugar dos discípulos. Se você estivesse ali


sentado com Jesus em frente ao magnífico templo depois de ter
escutado toda sua declaração de juízo feita momentos antes (Mateus
23), o que você teria perguntado? Pode-se levar em conta, sem
receio de cometer algum erro hermenêutico, que os discípulos tinham
em mente o julgamento que Jesus havia acabado de decretar sobre
Jerusalém e o Templo, em Mateus 23.

Então, eles perguntaram: “Dize-nos, quando sucederão estas


coisas...?” (Mateus 24.3). Na verdade, eles estavam perguntando:
“quando Jerusalém e o Templo serão destruídos?”.
Os discípulos perguntaram primeiramente sobre o tempo da destruição do Templo [...]
(SPURGEON, 1974, p.212)
O que significa “dentro de uma geração”?

É preciso ter em mente qual o período de tempo específico de que


Jesus falava. Na verdade, ele afirmou que Jerusalém e o Templo
seriam destruídos dentro do prazo de uma geração (Mateus 23:36 e
Mateus 24:34). A maioria dos mestres da bíblia diria que podemos
aceitar estas palavras de Jesus em Mateus 24:34 literalmente:
“Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas estas coisas
aconteçam. O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de
passar.”(Mateus 24.34,35 ARC, grifo do autor)

A palavra utilizada para geração no original grego é γενεα (genea),


que aparece cerca de trinta e quatro (34) vezes no Novo Testamento.
Alguns mestres futuristas forçam a definição dessa palavra como
“raça” e isso não concorda com a definição comumente reconhecida e
aceita, pois, em nenhuma passagem na qual aparece essa palavra,
ela é interpretada como raça28. Jesus utiliza essa expressão em
inúmeras passagens do Novo Testamento justamente para especificar
a GERAÇÃO DOS DISCÍPULOS, ou seja, aquela geração que estava
viva na época, (alguns exemplos: Mateus 11:16; Mateus 12:41,42;
Mateus 23:36; Marcos 8:12; Lucas 7:31; Lucas 11:3032; Lucas
11:50-51; Lucas 17:25). Quando estudamos todos esses versículos,
podemos ver que a referência é clara sobre aquela geração do
primeiro século, logo não há porque γενεα (genea) tenha que ter um
significado diferente em Mateus 24.3.
De tanto ouvir a expressão “esta geração” com esse significado, porque os discípulos
haveriam de entender de modo diferente? Note que em nenhum momento eles
interrompem o discurso de Jesus. Não houve dúvidas ou controvérsias em suas
mentes. Eles entenderam perfeitamente o que muita gente hoje em dia faz de tudo para
não entender. Porque exatamente em Mateus 24.34 “esta geração” precisa de um
significado especial da parte de alguns, sendo que essa palavra é usada no seu sentido
comum nas demais vezes que aparece no Novo Testamento? (RAYMUNDO, 2016,
p.79)
Sobre o cumprimento profético de Mateus 24, o autor Jonathan
Welton escreve que essa é a passagem que prediz terremotos,
fomes, pestilências, falsos mestres e Jesus vindo sobre as nuvens, e
conclui:
Entretanto, conforme estudava Mateus 24, descobri que, durante a história da Igreja, a
maioria dos cristãos acreditava que todo o capítulo 24 de Mateus havia se cumprido
com a destruição de Jerusalém em 70 d.C. Na verdade, muitos dos conhecidos líderes
da Igreja ensinavam isso (WELTON, 2014, p.37).

Segundo o Dr. Hector Torres, o reformador João Calvino comenta o


seguinte sobre o tempo da destruição do templo:
Cristo lhes informa que, antes de concluir uma geração, eles haveriam por experiência o
que Ele lhes havia declarado. Porque em menos de cinquenta anos a cidade foi
destruída, o templo erradicado e todo o território, reduzido a um horrível
deserto(CALVINO apud TORRES, 2012, p.51).

2.1.4 Quando sucederão estas coisas?

Jesus responde essa primeira pergunta dos discípulos em Mateus


24:4-28, conforme já afirmamos anteriormente. Agora, o nosso
objetivo é detalhar as respostas de Jesus, em cada um dos grupos
de versículos.

Jesus respondeu a primeira pergunta com oito sinais da destruição


vindoura:

1) Falsos messias (Mateus 24:4 e 5, 23 a 26);

2) Guerras e rumores de guerras, nação se levantando contra nação


(Mateus 24: 6 a 7);

3) Fomes e pestes (Mateus 24: 7);

4) Terremotos (Mateus 24: 7);


5) Perseguição de crentes (Mateus 24: 9);

6) Apostasia e falsos profetas (Mateus 24: 10-12);

7) Amor se esfriando (Mateus 24: 12);

8) Evangelho pregado em todas as nações (Mateus 24:14).

1º Sinal: Falsos Messias


“E Jesus, respondendo, disse-lhes: Acautelai-vos, que ninguém vos engane; Porque
muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo; e enganarão a muitos.” (Mateus
24:4-5, ACF)

Os cristãos que ouviram apenas a visão futurista sobre o sermão


escatológico de Jesus sempre colocarão essas palavras no futuro, ou
próximo ao fim do mundo, como diz o Dr. Harold Eberle: “eles [os
cristãos] estão olhando ao redor, procurando algum líder mau ou
vários líderes que comecem a afirmar serem o Cristo”29. Porém,
Jesus estava respondendo a pergunta relacionada a quando
Jerusalém e o Templo seriam destruídos. Como isso de fato
aconteceu em 70 d.C., quarenta anos após Jesus ter profetizado, é
fácil concluir que o que Jesus disse nesses versículos iria se cumprir
em breve. Ou seja, muitos surgiriam afirmando ser o Cristo. Isso fica
muito claro como evidência interna da escritura conforme Lucas 21:8;
nesse texto Jesus estava claramente advertindo os seus ouvintes
para que tivessem cuidado quanto a algo que estava para acontecer
em breve: “isto sem dúvida não se refere a algo que aconteceria
centenas ou milhares de anos mais tarde”.
“Ele respondeu: “Cuidado para não serem enganados. Pois muitos virão em meu nome,
dizendo: “Sou eu!“ e o “tempo está próximo” . Não os sigam.” (Lucas 21:8, NVI, grifo
nosso)
A história tem muitas evidências que isso aconteceu realmente num
tempo próximo, pois, logo depois da morte de Jesus, muitos líderes
se levantaram, capturando o coração do povo Judeu, conforme
escreveu o autor Jonathan Welton:
[...] Dentro de um ano após a ascensão de nosso Senhor, Dositheus, o Samaritano, se
levantou, tinha coragem suficiente para afirmar que era o Messias de quem Moisés
falara, enquanto seu discípulo Simon Magus levou multidões a crerem que ele, em
pessoa, [...]”. Por volta de três anos pós isso, outro impostor samaritano apareceu e
declarou que mostraria para as pessoas os utensílios sagrados que diziam que haviam
sido colocados por Moisés no Monte Gerizim. [...] Enquanto Cuspius Fados era
procurador na Judéia, outro enganador se levantou, de nome Theudas. Esse homem
chegou tão longe a ponto de persuadir uma enorme multidão a pegar todos os seus
bens e o seguirem até o Jordão, prometendo a eles que o rio se dividiria ao seu
comando. Fadus, entretanto, os perseguiu [...]. Sob o governo de Felix, impostores se
levantavam diariamente na Judéia e persuadiam as pessoas a seguirem-no ao deserto,
garantindo que haveria sinais e maravilhas [...]. Desses, Felix, de tempos em tempos,
prendia muitos e os sentenciava à morte por volta desse período (55 d.C.). Um impostor
egípcio se levantou e arrebanhou 33 mil seguidores e os persuadiu a irem com ele até o
Monte das Oliveiras, dizendo que de lá eles veriam os muros de Jerusalém caírem ao
seu comando [...]. Na época de Porcius Festus (60 d.C.), outro grande impostor seduziu
as pessoas, prometendo livramento do jugo romano se o seguissem até o deserto. [...]
Em resumo, impostores que diziam ter um comissionamento divino continuamente e
fatalmente enganavam as pessoas, ao mesmo tempo justificando o aviso e cumprindo a
predição de nosso Senhor, [...] é a única explicação para essas estranhas e famosas
revoltas, que naturalmente lembram ao leitor a seguinte profecia de nosso Senhor:
“Então se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo! Ou: Ei-lo ali! Não acrediteis; porque se
hão de levantar falsos cristos e falsos profetas, e mostrarão tais sinais e milagres que,
se fora possível, enganariam até os escolhidos. Vede que de antemão vo-lo tenho
declarado. Se, pois, vos disserem: Ei-lo que está no deserto! Não saiais: Ei-lo no interior
da casa! Não acrediteis...”(Mateus 24:23-26) (WELTON, 2014, p.43,44)

Poderemos citar alguns pais da igreja e lideres pós-reforma,


porquanto tinham uma posição preterista com relação ao
aparecimento de falsos cristos:
Depois que o Senhor foi elevado ao céu, os demônios levantaram determinado número
de homens que afirmaram-se deuses(EUSÉBIO, A História da Igreja, 1965, II:13).
Porque muitos apareceram, quando a destruição era iminente sobre Jerusalém, dizendo
que eram Cristo(BEDA, o Venerável, citado no Golden Chain, de Tomás de Aquino,1956).
Um grande número de impostores apareceu antes da destruição de Jerusalém,
divulgando que eram ungidos de Deus [...](SPURGEON, Charles. O Evangelho do Reino,
1974, p.213).
E, realmente, nunca apareceram tantos impostores no mundo como alguns anos antes
da destruição de Jerusalém, sem dúvida porque aquele era o tempo em que os judeus
em geral esperavam o Messias(WESLEY, John. Notas explanatórias sobre o Novo
Testamento. Dezembro 2007. Disponível em:
<www.preteristarchive.com/StudyArchive/w/wesley-john.html>).

2º Sinal: Guerras e Rumores

“Vocês ouvirão falar de guerras e rumores de guerras, mas não tenham medo. É
necessário que tais coisas aconteçam, mas ainda não é o fim.” (Mateus 24:6-7, NVI)
“Então lhes disse: ‘Nação se levantará contra nação, e reino contra reino [...]’ (Lucas
21:10, NVI).

Jesus profetizou sobre guerras futuras, e é interessante que na época


não havia sinais de “guerras e rumores de guerras” e o poder de
Roma parecia estar estável, forte e permanente. Pode-se dizer que
historicamente aquele período era mencionado como a Pax
Romana30. É certo que os inimigos de Roma não falariam sobre
aquele período dessa forma tão “branda”, mas efetivamente Roma
estava estabelecida naquela região do mundo. Foi nesse período que
Jesus profetizou sobre as guerras vindouras. Conforme os escritos
históricos, principalmente os de Flávio Josefo, que tem cento e
cinquenta páginas desse período:
Cento e cinquenta páginas do trabalho de Josefo, que contém a história desse período,
estão manchadas com sangue. Para citar algumas coisas em particular, por volta de
três anos após a morte de Cristo, uma guerra irrompeu entre Herodes e Aretas, rei da
Arábia Pétrea (em inglês/latim Arabia Petraea), na qual o exército do primeiro foi
derrotado. Isso foi “reino se levantando contra reino.” (WELTON, 2014, p.45)

Todas as guerras, pestes, fomes e grandes terremotos ocorridos


naquele momento estão documentadas nos livros dos historiadores
Flávio Josefo e outros. “Os Anais de Tácito, por exemplo, que
cobrem a história de 14 d.C. à morte de Nero em 68 d.C.,
descrevem o tumulto do período com fases intituladas ‘distúrbios na
Alemanha’, ‘comoções na África’, ‘comoções na Trácia’, ‘insurreições
na Gália’, ‘intriga entre os partos’, ‘guerra na Bretanha’ e ‘guerra na
Armênia’”. Guerras foram travadas de uma extremidade do império à
outra, e tudo isso começou a acontecer durante a chamada “Pax
Romana”.

As palavras de Jesus se cumpriram dentro daquela geração, guerras


se iniciaram em todo o império e os judeus viviam sob um clima de
medo constante. Vamos encontrar na literatura histórica 50 mil judeus
sendo mortos na Selêucia e 20 mil na Cesária. No ano de 66 d.C., os
judeus afligidos pelos romanos se rebelaram, mas os romanos
mataram 50 mil judeus, não poupando nem crianças nem idosos,
depois disso, ainda conforme Welton (2014, p. 46), não menos de 40
mil judeus pereceram. Dentro de um período de dezoito meses,
quatro imperadores de Roma foram violentamente assassinados. A
guerra civil tomou conta de Roma, foi um tempo de grande tumulto e
havia rumores constantes de novas rebeliões.

3º Sinal: Haverá Fomes e Pestes


Porquanto se levantará nação contra nação, e reino contra reino, e haverá fomes, e
pestes, e terremotos, em vários lugares (Mateus 24:7, ACF).

A fome ocorreu durante a geração dos discípulos. A bíblia nos fala de


uma grande fome em toda a terra habitada nos dias do imperador
Claudio César, e a Judeia foi severamente golpeada pela fome.
“E, levantando-se um deles, por nome Ágabo, dava a entender pelo Espírito, que haveria
uma grande fome em todo o mundo, e isso aconteceu no tempo de Cláudio César. E
os discípulos determinaram mandar, cada um conforme o que pudesse, socorro aos
irmãos que habitavam na Judéia.”(Atos 11:28,29, ACF, grifo do autor)

A fome foi tão severa na região da Judeia que podemos ler em dois
trechos diferentes do Novo Testamento os cristãos levantando ofertas
para enviar dinheiro para os crentes que estavam sofrendo naquele
lugar (Atos 11:29-30 e 1 Coríntios 16:1-3). O historiador Josefo
escreveu sobre a devastação e a fome daqueles dias:
A fome foi dura demais, superando todas as outras paixões humanas, e ela é tão
destrutiva [...] a tal ponto que os filhos arrancavam as próprias porções que seus pais
estavam comendo de suas bocas, e o que era ainda mais digno de compaixão era ver
as mães fazerem o mesmo com seus filhinhos; e quando aqueles que eram mais
queridos estavam perecendo sob suas mãos, elas não tinham vergonha de lhes tirar as
últimas migalhas que poderiam preservar a sua vida [...] mas os que eram culpados de
incitação vinham sobre eles imediatamente por todos os lados e arrancavam delas o
que eles haviam tirado de outros; pois quando viam alguma casa fechada, isso era para
eles um sinal de que o povo ali dentro havia conseguido alguma comida; e
imediatamente arrombavam as portas, entravam correndo e tomavam pedaços do eles
estavam comendo, quase que de dentro de suas gargantas, à força; os velhos, que
seguravam com firmeza a sua comida, eram espancados, e se as suas mulheres
escondessem o que tinham dentro de suas mãos, seus cabelos eram arrancados por
fazerem isso; nem havia qualquer clemência demonstrada seja pelos idosos ou pelos
bebês, mas eles levantavam as crianças do chão enquanto arrancavam os bocados
que elas haviam conseguido, e as atiravam no chão.(JOSEFO, A Guerra dos Judeus,
1998, v: x:3)

Eusébio de Cesaréia (considerado o pai da história da igreja), em


seu escrito clássico, A História Eclesiástica, também cita a fome
daqueles dias:
1) Caio, porém, não chegou a cumprir os quatro anos de exercício do comando.
Sucedeu-o como imperador Cláudio, sob o qual se abateu sobre o mundo uma grande
fome (e isto nos transmite em suas histórias mesmo os escritores mais alheios a nossa
doutrina) e cumpriu-se a predição do profeta Ágabo, segundo os Atos dos Apóstolos, de
que era iminente uma grande fome sobre todo o mundo. 2) Lucas descreveu nos Atos a
grande fome dos tempos de Cláudio, e depois de narrar como os irmãos de Antioquia
enviaram socorro aos irmãos da Judéia por meio de Paulo e Barnabé, cada qual
segundo suas possibilidades [...](EUSÉBIO, A História Eclesiástica, 2002, II:8, p.38).

Durante a mesma época, houve grandes pestilências em Roma


durante o reinado de Nero. Foram tão graves que os historiadores
dizem que não menos de 30 mil pessoas morreram afetadas por
essas pestes. Josefo também relata uma grande pestilência na
Babilônia no ano 40 d.C., e Tácito descreve uma peste na Itália no
ano 66 d.C. (TORRES, 2012).

Jesus falou de “pestilências” (Lucas 21:11). Pestes estão


relacionadas com a fome; pode ser, portanto, razoavelmente possível
que esse terrível flagelo tenha acompanhado as fomes, que foram
relatadas anteriormente. A história, entretanto, distingue
particularmente dois eventos dessas calamidades que ocorreram
antes da guerra dos judeus e da destruição de Jerusalém.

O primeiro aconteceu na Babilônia, por volta de 40 d.C., e se


espalhou de forma tão alarmante que multidões de Judeus fugiram
daquela cidade para Selêucia, em busca de segurança, como já foi
falado. O segundo ocorreu em Roma, em 65 d.C., e levou multidões à
morte. Tácito e Suetônio também relatam que calamidades similares
prevaleceram nessa época em várias partes do Império Romano.
Depois que Jerusalém fora cercada pelo exército de Tito, as pestes
logo apareceram para agravar as misérias e aumentar o horror
daquele cerco. Essas pestes foram certamente ocasionadas pelas
multidões que estavam aglomeradas na cidade, em parte por causa
da putrefação dos mortos não enterrados e também em parte pela
fome.

4º Sinal: Haverá Terremotos

Quanto aos terremotos profetizados por Jesus, a história nos diz que
os anos que antecederam a queda de Jerusalém, no ano 70 d.C.,
foram um tempo de intensa atividade sísmica, conforme vários relatos
dos historiadores e pais da igreja.

No reinado de Nero, houve um terremoto em Laodiceia. Tacitus


também o relata. É provavelmente mencionado também por Eusébio
e Paulo Orosius (historiador e teólogo cristão do 3o século), que
adicionam que Hierápolis e Colossos, assim como Laodiceia, foram
destruídas por terremotos. Houve outro em Campania, durante o
mesmo reinado (dos quais tanto Tacitus quanto Seneca falam), e
outro em Roma, durante o reinado de Galba, relatado por Suetonius
(escritor romano do 1o século). A todos esses devem ser
adicionados os terremotos que ocorreram durante a horrenda noite
quando os Idumeus (descendentes de Esaú) foram excluídos de
Jerusalém, um pouco antes de o cerco a Jerusalém começar. Josefo
diz que “uma grande tempestade caiu sobre eles durante a noite;
ventos violentos, acompanhados pelas chuvas mais fortes, com
raios constantes e os mais tremendos trovões, com horrendos
estrondos de terremotos. Parecia que as fundações do mundo
tinham sido confundidas para destruir a humanidade; e as pessoas
podem certamente imaginar que esses eram sinais para o que
estava por vir!”31. Outro teólogo, Henry Alford, escreveu sobre os
terremotos desse período.

Os principais terremotos que ocorreram entre a profecia de Jesus em


Mateus 24:7 e a destruição de Jerusalém em 70 d.C. foram:

1) o grande terremoto em Creta, em 46 ou 47 d.C.;

2) um em Roma no dia em que Nero assumiu sua toga masculina, em


51 d.C.;

3) um em Apamea, na Fríngia, mencionado por Tacitus, em 53 d.C.;

4) um em Laodiceia, na Frígia, em 60 d.C.;

5) um em Campania.

O comentarista Edward Hayes Plumptre escreve: “talvez nenhum


outro período na história mundial foi tão marcado por essas
convulsões como o que se passou entre a crucificação e a
destruição de Jerusalém”.

Muitos terremotos são mencionados no Novo Testamento, incluindo o


que ocorreu na morte de Jesus (Mateus 27:51 e 52) e depois em sua
ressurreição (Mateus 28:2). Terremotos também ocorreram quando o
prédio foi sacudido em Atos 4:31 e quando Paulo e Silas foram
libertos de Filipos (Atos 16:26).
O Princípio das Dores
“Mas todas essas coisas são o princípio das dores. Então sereis entregues à tortura, e
vos matarão; e sereis odiados de todas as nações por causa do meu nome.”(Mateus
24:8,9, ARA)

Normalmente, os cristãos condicionados à visão futurista, quando se


deparam com os desastres naturais dos nossos dias, tendem a
afirmar que se tratam de sinais da volta iminente de Jesus. dade, Ele
foi muito claro no sentido de dizer que os sinais aconteceriam dentro
daquela geração, e estes sinais não eram sinais do fim do mundo,
mas apenas “o princípio das dores”. Essas dores de parto iriam
preceder a destruição de Jerusalém e do Templo.
Ele fala sobre os prelúdios aos problemas dos judeus. “Tudo isso é o princípio das
dores”, isto é, dos problemas que lhes sobrevirão.(CRISÓSTOMO, 2002, ib:190, apud
EBERLE, 2013, P.36)

Conforme registra George E. Ladd32 (2003), em sua Teologia do


Novo Testamento, sobre as tribulações que Jesus descreve no seu
discurso escatológico, este autor argumenta que esta tribulação não
tem caráter apocalíptico, e sim que o motivo deste discurso é
diferente deste. Trata-se do contraste entre o caráter da era presente
e do Reino de Deus, e o conflito entre os dois, Deus não abandonou a
era presente aos poderes do mal.
Entretanto, este não é o motivo do discurso do Monte das Oliveiras. As tribulações que
Jesus descreve não são realmente sinais do fim que se aproxima. De fato, Ele declarou
expressamente que, quando estes sinais aparecerem “ainda não será o fim” (Marcos
13:7). Longe de serem os sinais pelos quais o fim dos tempos pode ser calculado,
esses são sinais que o tempo foi postergado [...] (LADD, 2003, p.266).

A opinião do teólogo Dr. Wayne Grudem em sua “Teologia


Sistemática”é:
Mais uma vez, embora pensemos que as palavras de Jesus indicam a probabilidade de
perseguição ainda mais próximos no futuro, é difícil ter certeza disso. Parece apropriado
concluir que é improvável, mas possível que a previsão da grande tribulação já tenha
sido cumprida(GRUDEM, 2011, p.1723)

5º Sinal: Perseguição de Crentes

A próxima predição de nosso Senhor é relacionada à perseguição de


seus discípulos. Os textos paralelos ao texto de Mateus 24:9 também
são esclarecedores quanto à perseguição:
“Mas antes de todas estas coisas lançarão mão de vós, e vos perseguirão, entregando-
vos às sinagogas e às prisões, e conduzindo-vos à presença de reis e presidentes, por
amor do meu nome.” (Lucas 21:12, ARC)
“Mas olhai por vós mesmos, porque vos entregarão aos concílios e às sinagogas; e
sereis açoitados, e sereis apresentados perante presidentes e reis, por amor de mim,
para lhes servir de testemunho.” (Marcos 13:9, ARC, grifo nosso)

No livro de Atos dos Apóstolos encontramos inúmeras passagens


com relatos detalhando perseguições aos discípulos, conforme Jesus
tinha declarado (Atos 4:3,7,13,18; Atos 5:18,27,29-32,40,41; Atos
6:9,10,12; Atos 7:54-60; Atos 8:1-4; Atos 16: 22,23 e 28). Conforme
argumenta Torres (2012), nesses e ainda noutros versículos pode ser
visto tudo o que aconteceu com os discípulos, em termos de
perseguição. Aprisionamentos, açoites tribulações e perseguições
diversas por amor ao nome de Jesus.

Os apóstolos Pedro e João, primeiro foram presos e depois,


juntamente a outros apóstolos, chicoteados perante o concílio judeu.
Estevão, depois de confundir o conselho judeu (Sanearem) com sua
irresistível eloquência, foi apedrejado até a morte. Herodes Agripa
“estendeu suas mãos para afligir alguns da Igreja”, decapitou Tiago,
irmão de João, e prendeu outra vez Pedro, também o sentenciando à
morte. O apóstolo Paulo implorou ante o conselho dos judeus e Felix,
o governador romano, que tremeu em seu assento de juiz, enquanto o
intrépido prisioneiro “o persuadia sobre a justiça, a temperança e o
julgamento que viriam.”. Dois anos depois, foi levado perante o
tribunal de Festus (que havia sucedido Felix no governo). O jovem rei
Agripa estava presente e, enquanto o governador zombava,
ingenuamente reconheceu a força da eloquência do apóstolo e, quase
convencido, exclamou: “você quase me persuadiu a ser cristão”. Por
fim, ele foi até o Imperador Nero, em Roma. Também foi levado com
Silas até os governantes em Filipos, onde ambos foram chicoteados e
encarcerados. Paulo também foi aprisionado por dois anos na Judéia
e depois em Roma, também por dois anos. Foi chicoteado pelos
judeus cinco vezes, por três vezes espancado com bastões e uma vez
apedrejado33.

A perseguição se tornou mais intensa no ano 64 d.C. Segundo a


história, esse foi um período em que ocorreu o grande incêndio da
cidade de Roma, no qual mais de um terço da cidade foi destruída.
Comparativamente, esse evento foi muito maior e devastador do que
a destruição das Torres Gêmeas em Nova York (2001). Nero, o
imperador, culpou os cristãos por esse incêndio terrível, então iniciou
o que os historiadores chamam de “A Grande Perseguição”. O
historiador Tácito (55-120 d.C.) escreveu a maneira como milhares de
cristãos foram torturados ao serem cobertos com peles de animais e
depois estraçalhados até a morte por animais ferozes, e muitos foram
pregados em cruzes ou cobertos de piche e depois incendiados a fim
de iluminar os jardins de Nero, enquanto ele recepcionava convidados
à noite.

6º e 7º Sinal: Falsos Profetas e Apostasia


“Nesse tempo muito serão escandalizados, e trair-se-ão uns aos outros, e uns aos
outros se odiarão. E surgirão muitos falsos profetas, e enganarão a muitos. E, por se
multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará.”(Mateus 24:10-12 ARC)
Logo após a morte de Jesus começaram a entrar em cena os falsos
profetas. Por diversas vezes o apóstolo Paulo advertiu seus
seguidores para tomarem cuidado com os falsos profetas. O apóstolo
João escreve que “muitos falsos profetas têm saído pelo mundo a
fora” (1 João 4:1), e isso temporalmente significa que estava
acontecendo na geração do apóstolo. De forma semelhante, o
apóstolo Pedro afirmou aquilo que tinha ouvido da boca de seu
Mestre:
“Mas houve também entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá falsos
mestres, os quais introduzirão encobertamente heresias destruidoras, negando até o
Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesma repentina destruição.”(2 Pedro 2:1
ARA)

O principal grupo de falsos profetas preditos pelo Senhor foram os


judaizantes. Eles ensinavam que os gentios tinham que se tornar
judeus prosélitos e aderir à Lei de Moisés, do mesmo modo que
professavam a fé em Cristo. Certamente nas cartas do apóstolo
Paulo aos Coríntios (2 Coríntios 11:13-15), aos Gálatas conforme
(Gálatas 1:6-9) e na carta à Timóteo em (2 Timóteo 2:16-18), ele
está fazendo referência, possivelmente, a esses judaizantes.

Mais tarde vieram os gnósticos, que surgiram logo após o evangelho


ter sido levado aos gregos, conforme argumenta o Dr. Harold Eberle,
cerca de um terço da cristandade estava envolvida no gnosticismo,
por volta do ano 150 d.C. Isso é muito significativo quando se imagina
como seria hoje em dia se um terço dos cristãos ao redor do mundo
adotasse determinado ensino herético. E foi isso exatamente o que
aconteceu durante aqueles primeiros dias, nos quais a Igreja estava
lutando para sobreviver.

Existe uma diferença entre falsos cristos e falsos profetas. O primeiro


é um ente político e se aparece como um messias salvador. Os falsos
profetas se concentram mais na parte religiosa. A enxurrada de falsos
profetas foi tamanha que muitos, esfriando-se na fé por abraçarem
doutrinas estranhas, acabaram por apostatar-se. Enquanto muitos
hoje em dia esperam por uma grande apostasia nas igrejas, ela já
aconteceu em escala surpreendente ainda no primeiro século da era
cristã. A história mostra como foi difícil ser cristão naqueles dias34.

8º Sinal: O evangelho será pregado no mundo inteiro


“E este evangelho do reino será pregado no mundo inteiro (em todo o mundo), em
testemunho a todas as nações, e então virá o fim.” (Mateus 24:14, ARA)

Os crentes que são ensinados na visão futurista ou dispensacionalista


sabem que esse versículo é citado geralmente para encorajar os
cristãos a irem pregar o evangelho em todo o mundo, a fazerem
missões transculturais, afim de que Jesus Cristo possa voltar. Muito
embora se saiba que isso é necessário, e fazer discípulos de todas
as nações foi a última ordem de Jesus, ainda na terra (Mateus 28:18-
20), iremos mostrar uma outra maneira de entender essa passagem
bíblica. Jesus disse que todos os acontecimentos que ele profetizou
ocorreriam naquela geração, quando se acredita nas palavras de
Jesus de modo literal, então é necessário procurar compreender
como esse versículo podia ter se cumprido no primeiro século.

Um estudo sério das escrituras deve aplicar os princípios da


hermenêutica. Como disse Martinho Lutero, “a Bíblia é sua própria
intérprete”. Quando seguimos esse princípio, nossa interpretação das
Escrituras é regulada pelas próprias Escrituras, não por algo externo
a elas. Toda vez que lemos algo difícil de entender na Bíblia devemos
buscar o que é dito em outra passagem para obter maior clareza,
pois, de modo geral, haverá um texto bíblico que explique de maneira
mais simples aquilo que nos parece difícil de entender. No caso do
cumprimento de Mateus 24.14, é necessário descobrir se existem
outras passagens que falam sobre o evangelho ser pregado por todo
o mundo. Numa análise mais cuidadosa, é possível encontrar cinco
(5) passagens no Novo Testamento que tratam desse assunto. É bem
interessante que todas as passagens dão a entender claramente
como o evangelho foi proclamado a todas as nações (terra habitada
ou ainda império romano), naquela geração dos apóstolos. A seguir
a lista dos versículos:

Na carta de Paulo aos Romanos:


“Primeiramente dou graças ao meu Deus, mediante Jesus Cristo, por todas vós, porque
em todo o mundo é anunciada a vossa fé.”(Romanos 1:8, ARA)
“Mas pergunto: Porventura não ouviram? Sim, por certo: Por toda a terra saiu a voz deles,
e as suas palavras até os confins do mundo.”(Romanos 10:18, ARA)
“Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar, segundo o meu evangelho e a pregação
de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério guardado em silêncio desde os
tempos eternos, mas agora manifesto e, por meio das Escrituras proféticas, segundo o
mandamento do Deus, eterno, dado a conhecer a todas as nações para obediência da
fé.”(Romanos 16:25-26, ARA)

Na carta de Paulo aos Colossenses:


“[...] por causa da esperança que vos está reservada nos céus, da qual antes ouvistes
pela palavra da verdade do evangelho, que já chegou a vós, como também está em
todo o mundo, frutificando e crescendo, assim como entre vós desde o dia em que
ouvistes e conhecestes a graça de Deus em verdade.”(Colossenses 1:5-6, ARA)

E agora, a declaração mais clara do apóstolo Paulo, sobre o assunto:


“[...] se é que permaneceis na fé, fundados e firmes, não vos deixando apartar da
esperança do evangelho que ouvistes, e que foi pregado a toda criatura que há debaixo
do céu, e do qual eu, Paulo, fui constituído ministro.”(Colossenses 1:23, ARA)

Será que o apóstolo Paulo poderia ter afirmado isso de maneira mais
clara? Acreditamos que não. Entende-se que o evangelho tinha sido
proclamado “a toda criatura debaixo do céu”. É certo ainda que se
pode entender o real significa da palavra “todo o mundo”traduzida em
Mateus 24:14. Sobre isso, seguem alguns argumentos que
consideramos convincentes.

As pessoas nos dias de hoje, quando leem esse versículo, tendem a


interpretar a expressão “todo o mundo” como se tratando do planeta
Terra. Mas a palavra “mundo” aqui não é uma referência ao planeta
inteiro. Se fosse uma referência ao planeta Terra teríamos que
encontrar no original grego a palavra κοσμος (kosmos) que seria uma
referência a todo o mundo físico. A palavra traduzida por mundo aqui
em questão é οικουμενη (oikoumene) e literalmente significa “terra
habitada”. É dessa palavra que se origina a palavra “ecumenismo”. A
palavra grega oikoumene:
[...] encontra sua raiz no substantivo oikós (casa, habitação) e no verbo oiken (habitar).
Já os autores clássicos, como Heródoto, usaram oikoumen para designar a terra
habitada. Dentro, porém, dos estreitos conceitos geográficos do mundo antigo, o termo
passou a significar mais especificamente a terra conhecida, primeiramente pelos gregos
e depois pelos romanos. Num novo estreitamente do conceito, essa terra habitada e
conhecida foi identificada, em primeiro lugar, com o Império Helênico de Alexandre
Magno e depois com o Império Romano. A oikoumene passou, pois, a significar o
mesmo que a humanidade unificada por um elemento cultural (o helenismo) ou jurídico
(o Império Romano).” (HORTAL apud RAYMUNDO, 2016, p.32).

Por isso, para aqueles primeiros discípulos, “oikoumene” não era


uma referência ao planeta Terra, mas ao Império Romano de seus
dias. Em resumo, o que Jesus quis dizer é que um dos sinais de sua
vinda em julgamento contra Jerusalém era que o evangelho do Reino
seria pregado em todas as nações dentro dos limites do Império
Romano, para depois vir o fim daquela era. E, no contexto de Mateus
24, nenhuma pessoa pode fugir do fato de que o versículo 34 diz:
“Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas
estas coisas aconteçam”. Por causa desse versículo, o cumprimento
da pregação do evangelho do Reino à todas as nações fica preso
àquela geração do primeiro século. Se não se interpretar a
“oikoumene” dentro de seu contexto histórico, haverá problemas para
explicar os outros versículos, que claramente afirmam que o
evangelho já havia sido pregado em todo o mundo. Então, conclui-se:
“seja como for que as vejamos, as palavras de Jesus se cumpriram
dentro da geração dos primeiros discípulos. Eles realmente viraram
o mundo de cabeça para baixo”35.

Alguns dos Pais Apostólicos interpretaram essas passagens da


mesma forma que estamos interpretando:
O ensinamento da nova aliança alcançou todas as nações, e de uma só vez os
romanos sitiaram Jerusalém e destruíram a cidade e o Templo(EUSÉBIO, A Prova do
Evangelho, 1920, I:6 apud TORRES, 2012, p.51).
Vocês pregarão em todos os lugares [...] então ele acrescentou: “Este evangelho do reino
será pregado em todo o mundo, como testemunho a todas as nações, e então virá o fim”.
O sinal definitivo desse tempo do fim será a queda de Jerusalém (Antigo comentário
cristão, 2002, Ib:191 apud EBERLE, 2013, p.41).
De Jerusalém saíram pelo mundo homens, em número de doze [...] pelo poder de Deus
eles proclamaram a toda raça de homens que haviam sido enviados por Cristo para
ensinar a todos a Palavra de Deus (JUSTINO, Os pais antenicenos, 1989, Primeira
Apologia, XXXIX apud EBERLE, 2013, p.41).

O Dr. Harold Eberle ainda cita Charles Spurgeon36, que, na sua


exposição do evangelho de Mateus, declara o seguinte:
Houve um intervalo suficiente para a plena proclamação do Evangelho pelos apóstolos e
evangelistas da Igreja Cristã primitiva, bem como para a congregação daqueles que
reconheciam o Cristo crucificado como o verdadeiro Messias. Depois veio o terrível fim
que o salvador previu e predisse, cuja expectativa extraiu de Seus lábios e de Seu
coração o triste lamento que se seguiu à Sua profecia sobre a condenação que
aguardava a Sua capital culpada. (SPURGEON apudEBERLE, 2013, p.41)

2.1.5 Aviso de destruição (Mateus 24:15-20)

Nesse contexto, Jesus disse aos discípulos que depois que fosse
pregado o evangelho em todo mundo conhecido, eles teriam que
estar prontos para fugir da Judéia, porque o juízo e a destruição
estavam prestes a acontecer. Segue o texto bíblico:
“Quando, pois, virdes que a abominação da desolação, de que falou o profeta Daniel,
está no lugar santo (quem lê, que entenda), então, os que estiverem na Judéia, que
fujam para os montes; e quem estiver sobre o telhado não desça a tirar alguma coisa de
sua casa; e quem estiver no campo não volte atrás a buscar as suas vestes. Mas ai
das grávidas e das que amamentarem naqueles dias. E orai para que a vossa fuga não
aconteça no inverno nem no sábado.” (Mateus 24:15-20)

Esse texto normalmente é interpretado pelo dispensacionalismo como


sendo um evento futuro, que se cumprirá antes do fim do mundo.
Geralmente a visão futurista dispensacionalista entende a
“abominação da desolação” como sendo o anticristo que entrará num
futuro templo (que será ainda construído) em Jerusalém e que ali
colocará uma imagem ou ídolo de si mesmo e se declarará Deus.
Então, após isso, seria o início de uma “Grande Tribulação”.

Para que se possa entender essa passagem do ponto de vista


preterista parcial, é muito importante observar a regra hermenêutica
do “referente”, conforme postula o autor Linden:
A maior parte dos erros no ensino da Escatologia tem origem em uma hermenêutica
falha. É preciso reconhecer que as divergências não estão tanto no campo do
“significado” de vocábulos do texto, mas ao que eles se referem (“referente”). E ao se
investigar qual seja o referente, os princípios hermenêuticos se mostram de fundamental
importância.(LINDEN, 2013, p.68)

A observância cuidadosa dessa importante regra hermenêutica fará


com que se entenda que Jesus está falando de eventos trágicos que
acontecerão, não em todo do mundo, mas ali em Jerusalém e na
região da Judéia. Isso fica muito claro porque Ele está falando aos
Seus discípulos e respondendo àquela primeira pergunta “quando
sucederão estas coisas?” (ou seja, quando Jerusalém e o Templo
serão destruídos?). Jesus, nesse ponto, diz que, quando o
“abominável da desolação” estiver no lugar santo, o povo (da Judéia)
deverá fugir para as montanhas. Jesus não diz que o povo (do mundo
todo) deveria fugir. O texto bíblico é muito claro, além disso Jesus
estava advertindo especificamente os Judeus, pois disse para seus
ouvintes orarem para que a sua fuga não fosse num sábado
(Shabat)37, pois não lhes seria permitido trabalhar ou correr, mesmo
no caso de uma tragédia iminente. Jesus também disse que as
pessoas que estivessem nos eirados não deveriam entrar nas suas
casas para pegar os seus pertences. Isso também tipifica e indica
que Jesus falava sobre pessoas daquela região, pois é sabido que as
casas em Jerusalém normalmente eram construídas de maneira que
as pessoas pudessem se reunir na parte de cima delas (eirado).
Jesus estava falando de algo terrível que estava para acontecer em
breve, naquela geração, na Judéia, e não há nada no texto bíblico que
indique um evento de ordem mundial38. Importante é também citar os
textos das passagens paralelas de Marcos 13:14 e Lucas 21:20-21,
nos quais se conclui que, em Mateus 24:15-16 e nos paralelos, Jesus
afirma claramente que é o povo da Judéia que deve fugir de
Jerusalém e, se estivessem fora da cidade, não deveriam entrar nela,
por virem o “abominável da desolação”.
“Ora, quando vós virdes a abominação da desolação estar onde não deve estar (quem
lê, entenda), então os que estiverem na Judeia fujam para os montes.”(Marcos 13:13.14,
ARA).
“Mas, quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei então que é chegada a sua
desolação. Então, os que estiverem na Judeia fujam para os montes; os que estiverem
dentro da cidade, saiam; e os que estiverem nos campos não entrem nela.”(Lucas 21:20-
21, ARA)

Na sequência, será examinado outro “referente”, ou seja, a quem ou


ao que Jesus estava se referindo quando advertiu os discípulos sobre
“[...] quando virdes [...]”.

2.1.6 Quem é a abominação da desolação?

Como já mencionado anteriormente, os mestres futuristas


(dispensacionalistas) supõem que a “abominação da desolação” seja
o anticristo, que colocará um ídolo num futuro templo e se declarará
Deus. Os futuristas insistem que o “abominável da desolação”
aguarda um futuro cumprimento após o chamado arrebatamento
secreto da igreja. Afirmam também que esse anticristo, segundo
alguns, viria do Mercado Comum Europeu, uma espécie de Império
romano revivido. Esse entendimento é infundado, pois é fácil observar
que o “anticristo” nunca é mencionado em Mateus 24 (nem em
qualquer outro evangelho, e sim nas cartas de João, mas
especificamente sobre esse tema iremos retornar no próximo
capítulo).

Então, Jesus não estaria falando de um anticristo que viria milhares


de anos depois, mais sim de uma “abominação” que seria vista
quando eles ainda estivessem vivos. Na passagem de Mateus 24:15
podemos ver qual é o local ou lugar onde a “abominação” deveria
aparecer, referido como “lugar santo” e como, na passagem paralela
de Lucas 21:20, está referido como “Jerusalém”. Qual evangelho
está correto? Parece que ambos os textos logicamente estão
corretos. Utilizando-se de uma exegese simples para confirmar esse
fato, veremos que o termo “lugar santo” foi traduzido a partir das
palavras gregas τοπος (topos) e αγιος (hagios), terminologia que
não é utilizada em nenhum lugar na bíblia como referindo-se ao
Templo ou parte qualquer do Templo. A palavra αγιος (hagios)
significa “santo” e a palavra τοπος (topos) refere-se a uma
localidade. Corroborando a descrição no evangelho de Lucas, conclui-
se que Jesus estava se referindo a Jerusalém, na passagem de
Mateus 24:1539.

Sobre a “abominação da desolação” Welton argumenta que, em


Mateus 23, lemos sobre Jesus no Templo, declarando julgamentos e
“ais” contra o sistema israelita (escribas e fariseus) de Sua época.
Jesus declara destruição sobre eles e sobre Jerusalém. Então, em
Mateus 24:15, Jesus se referiu ao último verso de Daniel 9: “Quando,
pois, virdes que a abominação da desolação, de que falou o profeta
Daniel, está no lugar santo; quem lê, atenda”(Mateus 24:15).

A última metade desse versículo, Daniel 9:27, a que Jesus estava se


referindo, diz: “[...] e sobre a asa das abominações virá o assolador,
e isso até à consumação; e o que está determinado será derramado
sobre o assolador” (Daniel 9:27). Deve-se entender, pelo que Jesus
está dizendo em Mateus 24:15, que, quando Seus ouvintes no
primeiro século vissem a “abominação da desolação”, deveriam fugir
da Judéia para as montanhas. Felizmente para todos, Jesus disse
exatamente o que era a abominação no Evangelho paralelo de Lucas:
“Mas quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei então
que é chegada a sua desolação” (Lucas 21:20).

O exército romano, que cercou Jerusalém e trouxe desolação


extrema sobre ela no ano 70 d.C., era a grande abominação40.
George E. Ladd faz a seguinte referência sobre a expressão usada
nesse texto de Mateus 24:15, que define a “abominação da
desolação”:

George R. Beasley Murray 41 estabeleceu uma forte base para que se compreenda a
expressão como uma referência à profanação dos recintos sagrados pelos exércitos
romanos, que portavam sua insígnia pagã. De qualquer forma, algumas das
advertências [de Jesus] ajustam-se melhor à situação histórica do que à escatológica.
As advertências para fugir em direção às montanhas [...], pedir que a tribulação não
ocorresse no inverno [...], podem estar relacionadas a uma situação histórica, mas
somente com muita dificuldade poderiam ser vinculadas a uma tribulação de caráter
mundial, infligida por um anticristo escatológico, em Lucas a mesma expressão tornou-
se “Jerusalém cercada de exércitos” [...] A grande tribulação e abominação da
desolação devem ser entendidas historicamente como referindo-se ao cerco de
Jerusalém, e à destruição do templo por Tito em 66-70 DC(LADD, 2003, p.262) .

R. C. Sproul acrescenta mais informações e complementa o tema do


abominável da desolação com dois episódios históricos que podem
estar relacionados à profecia de Jesus e poderiam ser uma
interpretação possível. Um deles refere-se a um evento ocorrido em
40 d.C., quando o imperador romano Calígula ordenou que uma
estátua dele mesmo fosse construída e colocada no interior do
templo. Pode-se imaginar como isso provocou o povo de Israel. Pela
bondade da providência de Deus, Calígula morreu antes que essa
profanação acontecesse. Um segundo episódio ocorreu no ano 69
d.C., ou seja, um ano antes da destruição de Jerusalém: a seita dos
Zelotes tomou à força o templo e o transformou em uma espécie de
base militar, com vistas à resistência da eminente invasão do exército
romano. Quando os zelotes tomaram o templo, cometeram todo o
tipo de atrocidades em seu interior, não mostrando respeito à
santidade de Deus. Segundo Sproul, o historiador Josefo descreveu
esses fatos como uma “horrível profanação”.

A presença dos brasões romanos no cerco à Jerusalém é uma


interpretação possível segundo Sproul, que argumenta que, quando
os exércitos romanos marchavam, carregavam suas bandeiras com
os brasões romanos estampados nelas. Os Judeus consideravam
idólatras essas imagens: “a presença desses brasões no templo teria
sido considerada uma abominação” (SPROUL, 2015, p. 27, 28).
Torres ainda argumenta o fato de os cristãos da época, ao verem que
Jerusalém estava rodeada pelos exércitos romanos e que a
destruição da cidade era iminente, entenderam que era o momento de
sair e fugir. Porém como poderiam sair se a cidade estava
completamente cercada? Isto foi o que aconteceu:

De repente e sem haver razão alguma, Cestius retirou o seu


exército e foi embora. Isso deu ânimo aos judeus e estes
perseguiram o exército que se retirava, causando-lhe um
grande estrago (JOSEFO, A guerra dos Judeus, 19.5-8).

Torres citando Thomas Newton42 e Adam Clark43, descreve o que


aconteceu com os cristãos que viviam em Jerusalém durante este
breve intervalo de trégua do exército romano:
Aprendemos da história eclesiástica, que neste tempo, todos os crentes em Cristo
partiram de Jerusalém a várias regiões além do Jordão, pelo qual todos
maravilhosamente escaparam da tragédia de seuscompatriotas e não lemos em
nenhum documento que sequer um deles tenha perecido durante a destruição de
Jerusalém (NEWTON apud TORRES, 2012, p.58).
É surpreendente que nem sequer um cristão pereceu durante a destruição de Jerusalém,
embora muitos deles morassem ali durante o tempo em que Cestius Gallus devastou a
cidade. Verdadeiramente um prodigioso escape. Que confirmação das palavras do nosso
Salvador! Um surpreendente cumprimento de Sua profecia (CLARK apud TORRES,
2012, p.58).

Conforme a exposição acima, éfácil concluir que Mateus 24:15 e


versos seguintes se cumpriram em 69-70 d.C., e conforme argumenta
Raymundo (2016, p.42) “Isto marcou o início de um período de três
anos e meio de grande tribulação nunca visto antes na história dos
judeus”. Todos os historiadores confirmam, no verão do ano 70 d.C.,
os sacrifícios de animais cessaram, pois, o templo foi completamente
destruído.

Antes de fazer a análise das respostas à segunda pergunta do


Senhor, seguem algumas observações finais sobre a primeira
pergunta dos discípulos.
Eberle (2013, p.55) diz que “toda a ênfase é pouca sobre a
importância do acontecimento da destruição de Jerusalém e o
Templo”, para os Judeus da época.

Jerusalém, a “cidade santa”, foi arrasada, o monte Moriá, sobre qual


estava o templo, era o local previsto para Abraão sacrificar Isaque
(Gênesis 22:2). Também foi o lugar onde Deus apareceu a Davi (2
Crônicas 3:1) e foi o lugar sobre o qual Salomão havia construído o
primeiro templo. O templo era o lugar em que os sumos sacerdotes
ofereciam sacrifícios pelos pecados do povo, era o centro da vida
judaica, um lugar profundamente sagrado; num certo sentido, com a
destruição, eles foram “separados de Deus”, perderam sua identi
dade, pois seu sistema religioso judaico foi abolido e substituído pelo
que é chamado hoje de “nova aliança”. Isso se torna claro ao ler o
texto de Hebreus 8:13: “chamando ‘nova’ esta aliança, ele tornou
antiquada a primeira; e o que se torna antiquado e envelhecido está
a ponto de desaparecer”.

Essa transição do velho para o novo está no centro da história e da


bíblia, sendo um ponto fundamental no plano de Deus através das
eras e, conforme temos argumentado até aqui, quando o templo de
Jerusalém foi destruído, foi isso que determinou o fim do antigo
sistema religioso. Lei e Graça coexistiram durante os 40 anos desde
a morte de Jesus Cristo até o cumprimento de suas profecias sobre
Jerusalém e o Templo.

2.1.7 Qual será o sinal da Sua vinda?

Jesus responde essa segunda pergunta dos discípulos em Mateus


24:29-35, conforme já citado anteriormente.
Para os mestres dispensacionalistas, essa pergunta é entendida
como sendo sobre a Segunda Vinda do Senhor Jesus. Normalmente a
escatologia futurista diz que Jesus voltará à Terra (2a vinda) depois
que todos os sinais citados em Mateus 24:4-22 ocorrerem. Assim
escreve o autor futurista Thomas Ice, que chega a argumentar que o
Mateus, Capítulo 24, não se refere à destruição de Jerusalém.
Em suma, o texto de Mateus 24:30 retrata uma manifestação visível do sinal do Filho do
Homem, o arrependimento da nação de Israel e a volta triunfante de Cristo para
estabelecer Seu reino no planeta Terra. A informação acima nos mostra a razão pela
qual a próxima vinda de Jesus não será uma vinda identificada por um sinal que não dá
sinal, como no caso do pretenso sinal representado pela chegada do exército romano na
interpretação preterista. Ao invés disso, a volta de Cristo acontecerá de forma visível,
pessoal e corpórea, num reflexo do que ocorreu na ascensão de Jesus ao céu. O
capítulo 24 de Mateus não se refere à destruição de Jerusalém, mas, sim, à vinda do
Senhor. Ninguém registrou a Segunda Vinda de Cristo no ano 70 d.C., nem mesmo o
historiador Josefo (ICE, 2016, p.149).

Entretanto, como já foi demonstrado até aqui, todos os sinais


descritos em Mateus 24:4-22, podemos dizer com clareza, tiveram o
seu cumprimento em 70 d.C., conforme a interpretação preterista
parcial argumenta.

Para comentar e analisar a resposta do Senhor à segunda pergunta


dos discípulos, é necessário que se entenda o que eles quiseram
realmente dizer quando perguntaram: “Qual será o sinal da Sua
vinda?” (Mateus 24:3). Quando se lê essa pergunta nos dias de hoje,
é compreensível que se tenha o entendimento bem diferente do que
os discípulos tinham há mais de dois mil anos. Eberle argumenta que
os discípulos, naquele contexto, não estavam pensando numa
segunda vinda escatológica de Jesus, e que na verdade eles nem
ainda estavam convencidos de que Jesus iria morrer (Mateus 16:21-
23) e muito menos que Ele voltaria à Terra algum dia; se isso parece
lógico, os discípulos não poderiam estar perguntando sobre a
segunda vinda44.

Sobre o que então os discípulos estavam perguntando? O que


significa “vinda” de Jesus? Sobre esse significado, alguns mestres
preteristas têm entendimentos um pouco diferentes. Existem
basicamente duas linhas de interpretação sobre o significado da
“vinda” de Jesus em Mateus 24; uma interpretação afirma que essa
“vinda”se trata da entrada de Jesus no Seu Reino em cumprimento
aos seguintes textos:
“Em verdade vos digo, alguns dos que aqui estão de modo nenhum provarão a morte
até que vejam vir o Filho do homem no seu reino.” (Mateus 16:28, ARA)
“Disse-lhes mais: Em verdade vos digo que, dos que aqui estão, alguns há que de modo
nenhum provarão a morte até que vejam o reino de Deus já chegando com
poder.”(Marcos 9:1, ARA)

A primeira interpretação é que, naquele momento da história, os


judeus estavam esperando um Messias (essa era a esperança
primordial deles), eles estavam procurando um Messias que viesse e
estabelecesse um reino que era aguardado, no qual os judeus teriam
o domínio e reinariam para sempre. Fazer uma hermenêutica levando
em conta esse conceito do aguardo de um Reino Messiânico
prometido pode realmente mudar o entendimento acerca do
pensamento e consequentemente da pergunta dos discípulos. Eberle,
para exemplificar essa ideia, cita o pedido da mãe dos filhos de
Zebedeu:
“Aproximou-se dele, então, a mãe dos filhos de Zebedeu, com seus filhos, ajoelhando-
se e fazendo-lhe um pedido. Perguntou-lhe Jesus: Que queres? Ela lhe respondeu:
Concede que estes meus dois filhos se sentem, um à tua direita e outro à tua esquerda,
no teu reino.”(Mateus 20:20-21, ARA)

Então, quando os discípulos estavam perguntando a Jesus “qual será


o sinal da tua vinda”, eles estavam perguntando: “quando entrarás no
Teu Reino?”, ou ainda “quando assumirás a Tua posição e Te
revelarás como Rei?”. Quando isso aconteceu? Quando Jesus
morreu e ressuscitou dos mortos e subiu ao céu Ele assentou-se em
um trono à destra de Deus. Toda a autoridade lhe foi dada, tanto no
céu como na Terra. Jesus entrou no Seu Reino no instante em que
subiu ao céu e sentou-se a destra do Pai, e isso aconteceu há quase
dois mil anos, na geração em que os discípulos viviam45.
É evidente que, quando Cristo fala sobre a Sua Vinda, sobre Ele ser revelado, sobre a
Sua entrada no Seu Reino ou sobre a vinda do Seu Reino, Ele diz respeito à Sua
aparição naquelas grandes obras do Seu Poder, Justiça e Graça, que devem ocorrer na
destruição de Jerusalém e em outras providências extraordinárias que devem ocorrer
nessa ocasião(EDWARDS, Jonathan. A História da Redenção. 1199, 1776, Dezembro
2007).

Outros autores e mestres preteristas, porém, dão uma segunda


interpretação para o objeto da segunda pergunta dos discípulos: esta
vinda de Jesus não foi apenas o fato de Cristo receber autoridade
sobre um Reino, mas também a sua “vinda em julgamento” sobre
Israel.

Na verdade, iremos encontrar seis (6) tipos de “Vinda de Cristo” que


são relatadas nas escrituras, e que são maneiras de como Jesus se
manifesta ao mundo.

1) A vinda em Teofanias, por exemplo em Gênesis 17:1.

2) A Sua encarnação, por exemplo, em Mateus 2:6 e 1 João 3:5.

3) A última vinda no Final dos Tempos (Atos 1:11, 1


Tessalonicenses 4:13-17, Hebreus 9:28).

4) A vinda ao Pai: A Ascensão (Daniel 7:13).

5) A vinda do Espírito Santo (João 14:16-18).

6) A vinda em julgamento.

O sexto tipo de vinda, aqui é a chamada “vinda em julgamento”. A


bíblia fala muito sobre esse tipo de vinda:
“Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e,
se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas.”
(Apocalipse 2:5, grifo nosso).

Aqui refere-se especificamente à igreja de Éfeso, o Senhor garante


que viria a essa igreja numa espécie de vinda “condicional” (pois
dependeria do arrependimento ou não). É claramente uma vinda em
julgamento, não a Segunda Vinda. No Antigo Testamento podese
encontrar muitas referências a esse tipo de vinda. Veja o que se diz
em uma sentença contra o Egito em Isaías 19:1:
“Peso do Egito. Eis que o SENHOR vem cavalgando numa nuvem ligeira, e entrará no
Egito; e os ídolos do Egito estremecerão diante dele, e o coração dos egípcios se
derreterá no meio deles.” (Grifo nosso)

Esse tipo de vinda em julgamento é conhecido como “vinda nas


nuvens” e são emblemas proféticos no Antigo Testamento. Em Joel
2:1, 2 podemos encontrar uma vinda assim contra Israel:
“Tocai a trombeta em Sião, e clamai em alta voz no meu santo monte; tremam todos os
moradores da terra, porque o dia do SENHOR vem, já está perto; Dia de trevas e de
escuridão; dia de nuvens e densas trevas, como a alva espalhada sobre os montes;
povo grande e poderoso, qual nunca houve desde o tempo antigo, nem depois dele
haverá pelos anos adiante, de geração em geração.”(Grifo nosso)

Nos Salmos 18:7-15 e 104:3 também podem ser encontradas mais


referências sobre esse tipo de vinda em julgamento.

A vinda em julgamento contra Israel é o tema de Mateus 24:


Não tenho dúvidas de que, quando os discípulos fizeram a Jesus a pergunta “e que sinal
haverá da tua vinda?”, eles tinham em mente uma vinda em julgamento, pois a
declaração de que “não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada” remete a
um juízo vindouro. [...] embora essas vindas sejam comuns na Escritura, infelizmente, a
maioria dos cristãos nunca ouviram falar delas. O conhecimento a respeito delas é
importante, pois nos ajuda a esclarecer muitos pontos aparentemente obscuros sobre a
vinda de Jesus na profecia bíblica(RAYMUNDO, 2016, p.20).

Outros mestres Preteristas também argumentam que os discípulos


não tinham nem ideia de que Jesus estava para morrer e ressuscitar,
e não seria lógico que perguntassem sobre algo que aconteceria
quando da Sua segunda vinda, milhares de anos no futuro. Os
discípulos ainda estavam em “choque” com tudo o que Jesus
declarara em Mateus 23, e parece mais lógico terem perguntado algo
ainda relacionado com a primeira questão, ou seja, a destruição de
Jerusalém e do Templo46.
Os sinais do Juízo

Jesus inicia respondendo à segunda pergunta dos discípulos em


Mateus 24:29-30:
“Logo depois da tribulação daqueles dias, escurecerá o sol, e a lua não dará a sua luz;
as estrelas cairão do céu e os poderes dos céus serão abalados. Então aparecerá no
céu o sinal do Filho do homem, e todas as tribos da terra se lamentarão, e verão vir o
Filho do homem sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória.” (Mateus 24:29-30,
ARA)

Jesus diz que “logo depois” da destruição de Jerusalém, os discípulos


saberiam que Ele havia entrado no Seu Reino. Essa expressão “logo
em seguida”, do grego δεευθεως (de eutheos), tem o significado de
imediato e não poderia relatar o que aconteceria dois mil anos depois.
Mas o que dizer do versículo 29, que diz: “escurecerá o sol, e a lua
não dará a sua luz; as estrelas cairão do céu e os poderes dos céus
serão abalados”. Muitos críticos e céticos vão querer usar esse
versículo para argumentar: “Sim a destruição aconteceu, o Templo
foi arruinado, os judeus foram dispersos por todo o mundo. Mas o
sol ainda está brilhando e lua está no céu à noite, e este quadro de
calamidades e perturbações astronômicas que acompanhariam a
vinda do Filho do Homem não aconteceu. Portanto, a predição de
Cristo falhou e não se realizou”. Sproul segue sua argumentação
dizendo que a “situação fica pior” quando se lê os versículos 33 e 34.
“Igualmente, quando virdes todas essas coisas, sabei que ele está próximo, mesmo às
portas. Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas essas
coisas se cumpram.” (Mateus 24:33,34, ARA)

Muitos estudiosos (dispensacionalistas) chegam em interpretações


bem estranhas sobre essa passagem; segundo Sproul, eles tentam
remover essa parte da predição de Jesus do contexto em que ela se
acha. Esse autor argumenta que parece claro que Jesus pretendia
que seus discípulos entendessem todas essas coisas como uma
única unidade47.
Já o autor Eberle acrescenta que precisamos encontrar o
cumprimento desse versículo (Mateus 24:29) “logo em seguida”, ou
seja, logo após a tribulação, no ano 70 d.C., e o conhecimento e a
familiaridade com certas expressões idiomáticas judaicas são
facilitadores para que se faça uma hermenêutica saudável desse
versículo. Os elementos celestes, o sol, a lua e as estrelas eram
frequentemente usados para se referir às autoridades
governamentais. Para isso, o autor cita alguns exemplos do Antigo
Testamento e de Apocalipse 12:1. Na história de José, ele teve um
sonho no qual o sol, a lua e as estrelas se curvavam diante dele
(Gênesis 37:9). Quando

José contou o sonho a sua família, conforme o texto bíblico, eles


entenderam que José seria elevado acima das autoridades
governamentais. Em Apocalipse 12:1, uma mulher tem o sol e a lua
sob os seus pés e uma coroa de estrelas sobre a sua cabeça, que
significa que ela possuía grande autoridade. É comum na terminologia
bíblica dizer que a fama e a glória de grandes cidades brilhavam
como o sol, a lua e as estrelas; quando determinada cidade era
destruída, podia-se dizer que o sol, a lua ou as estrelas escureciam.

No livro de Ezequiel encontra-se um exemplo dessas figuras de


linguagem, no julgamento e na destruição vindoura do Egito.
“Quando eu o extinguir, cobrirei o céu e escurecerei as suas estrelas; cobrirei o sol com
uma nuvem, e a lua não dará a sua luz. Todas as estrelas que brilham nos céus, eu as
escurecerei sobre você, e trarei escuridão sobre a sua terra, palavra do Soberano
Senhor.” (Ezequiel 32:7-8, NVI)

Essa destruição, que foi profetizada por Ezequiel, de fato aconteceu


ao Egito, mas o sol, a lua e as estrelas não escureceram literalmente.
Isso pode ser entendido quando se percebe que os profetas utilizam
uma “linguagem apocalíptica”. Tal terminologia utilizada por Jesus era
uma expressão idiomática judaica referente à destruição vindoura e à
transferência de autoridade. Eberle considera ainda mais alguns
exemplos, como o decreto de Isaías sobre a destruição de uma
região ao sul de Israel, conhecida como Edom:
“E todo o exército dos céus se dissolverá, e o céu se enrolará como um livro; e todo o
seu exército desvanecerá, como desvanece a folha da vide e da figueira. Pois a minha
espada se embriagou no céu; eis que sobre Edom descerá, e sobre o povo do meu
anátema, para exercer juízo.”(Isaías 34.4-5, ARA)

Naquela época da história não aconteceu literalmente com os astros


celestes, o que que fora predito. Os exércitos do céu não caíram
literalmente como folhas de uma figueira, mas, Edom foi destruída.

O exemplo da declaração do juízo de Deus sobre a Babilônia,


decretada pelo profeta Isaías:
“Pois as estrelas do céu e as suas constelações não deixarão brilhar a sua luz; o sol se
escurecerá ao nascer, e a lua não fará resplandecer a sua luz.”(Isaías 13:10, ARA)

Da mesma forma, quando do julgamento da Babilônia, não houve


registro de que estrelas e constelações tenham deixado de brilhar, o
sol ter escurecido ao amanhecer e a lua, à noite, não tenha brilhado.
Mas a destruição veio.

Se o princípio hermenêutico de que a bíblia interpreta a si mesma é


valido, conclui-se que Jesus estava usando uma linguagem
apocalíptica para declarar a destruição. Assim como os profetas
Isaías e Ezequiel declararam juízos contra o Egito, Edom e a
Babilônia, Jesus, como profeta, também declarou a destruição sobre
Jerusalém. Eberle argumenta que os discípulos teriam reconhecido
essa fraseologia48.

O autor David Chilton, em seu livro “A Grande Tribulação”, também


segue a mesma linha de interpretação sobre os sinais dos juízos
descritos em Mateus 24:29:
Temos que destacar que nenhum destes eventos literalmente aconteceu. Deus não
tinha a intenção de que alguém interpretasse literalmente estas declarações.
Poeticamente, contudo, todas estas coisas aconteceram: com respeito a estas nações
más, “se apagaram as luzes”. Isto é sensivelmente uma linguagem figurativa, que não
nos surpreenderia se todos nós conhecêssemos melhor a Bíblia e apreciássemos seu
caráter literário. Portanto, o que Jesus está dizendo em Mateus 24, com uma
terminologia que seus discípulos imediatamente entenderam, é que a luz de Israel seria
apagada; a nação do pacto deixaria de existir. Ao findar a tribulação, o antigo Israel terá
desaparecido (CHILTON, 2011, p.29).
O sinal do Filho do Homem

Os mestres futuristas, ao interpretarem estas palavras “Então


aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem”, visualizam Jesus
aparecendo do céu. Mas, conforme Eberle argumenta, é um “sinal”
que aparecerá, e não Jesus. Um sinal pode ser um tipo ou
semelhança de um cartaz que anuncia ou declara alguma coisa. Mais
uma vez, a leitura cuidadosa nos fará entender que não é Jesus quem
aparecerá, mas o sinal. E para que serve um sinal? Um sinal serve
para ser visto, para indicar alguma coisa ou algum fato.

E o que esse sinal indicará? Indicará que o Filho do Homem está no


céu, sentado em seu trono!

Welton e outros autores entendem que historicamente existiram sinais


reais nos céus sobre a cidade de Jerusalém:
Nosso Senhor prosseguiu: “haverá terrores e grandes sinais do céu.” (Lucas 21:11).
Josefo juntou os principais desses sinais e começou seu relato com uma reflexão sobre
a estranheza do fato de seus conterrâneos darem crédito a impostores e falsos relatos
enquanto ignoravam esses sinais divinos que foram confirmados, como Josefo fala que
foram, pelos seguintes sinais extraordinários: 1) “Um meteoro, que lembrava uma
espada, ficou sobre Jerusalém o ano inteiro”. Não podia ser um cometa, porque estava
parado no ar e foi visto durante 12 meses. Uma espada, também, apesar de não
representar muito bem um cometa, é um bom sinal de destruição. 2) “No oitavo dia do
mês Zanthicus (antes da festa dos pães sem fermento), na nona hora da noite, uma luz
ao redor do altar e das construções vizinhas, igual à luz do dia, brilhou durante meia
hora”. Não podia ser o efeito de um trovão, nem uma aurora boreal, porque estava
confinada a uma área em particular e a luz brilhou continuamente durante 30 minutos
(WELTON, 2014, p.52).
Todas as Tribos [...] O Filho do Homem em Glória
“Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem, e todas as tribos da terra se
lamentarão, e verão vir o Filho do homem sobre as nuvens do céu, com poder e grande
glória.” (Mateus 24:30, ARA, grifo nosso)

Qual o real significado de “todos os povos (tribos) da terra se


lamentarão”? Segundo a grande maioria dos mestres preteristas, o
problema está na exegese da tradução do termo γη (ge) como sendo
“terra” num sentido de planeta Terra. Quando essa palavra (ge)é
traduzida em outras passagens no Novo Testamento, ela é mais
comumente traduzida como “nação”. Eberle argumenta que essa
palavra geralmente é usada quando se refere à terra prometida dos
Judeus. Por isso, a interpretação mais correta aqui é que todas as
tribos de Israel se lamentarão.

Isso, apropriadamente, nos leva para o próximo elemento na profecia


de Jesus sobre a destruição de Jerusalém: “E então, se lamentarão
as tribos da terra, e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens
do céu, com poder e grande glória”. A palavra “tribos” aqui, como já
foi descrito acima, tem referência principal às tribos da terra de
Israel, e é provável que a “lamentação” tenha dois sentidos: primeiro,
lamentariam com dor a causa de seu sofrimento e a perda da sua
terra; segundo, lamentariam futuramente em arrependimento por seus
pecados, quando se converterem de sua apostasia (Romanos 11).

Porém, como veriam Cristo vindo sobre as nuvens? Segundo o autor


Chilton, esse é um símbolo importante do poder e glória de Deus,
usado constantemente na Bíblia. Por exemplo, pense você na “coluna
de fogo e nuvem” por meio da qual Deus salvava os israelitas e
destruía seus inimigos na libertação do Egito (Êxodo 13.21-22; 14.19-
31; 19.16-19).

Na realidade, através do Antigo Testamento, Deus estava vindo


“sobre as nuvens”, salvando seu povo da destruição por parte de
seus inimigos49.
“Põe nas águas as vigas das suas câmaras; faz das nuvens o seu carro, anda sobre as
asas do vento.” (Salmos 104:3, ARA)

Quando Isaías profetizava do juízo de Deus sobre o Egito, escreveu:


“Profecia acerca do Egito. Eis que o SENHOR vem cavalgando numa nuvem ligeira, e
entra no Egito; e os ídolos do Egito estremecerão diante dele, e o coração dos egípcios
se derreterá no meio deles.” (Isaías 19:1, ARA)

O profeta Naum falava de modo semelhante da destruição de Nínive


por Deus:
“O Senhor é tardio em irar-se, e de grande poder, e ao culpado de maneira alguma terá
por inocente; o Senhor tem o seu caminho no turbilhão e na tempestade, e as nuvens
são o pó dos seus pés.” (Naum 1:3, ARA)

A vinda do Senhor “sobre as nuvens dos céus” é um símbolo bíblico


muito comum de sua presença, juízo e salvação. Ainda mais, Jesus
está se referindo a um evento específico associado com a destruição
de Jerusalém e no final do antigo pacto. Veja que Jesus mencionou
este fato outra vez, mais adiante, em seu julgamento, quando o
Sumo-Sacerdote lhe perguntou se era ele o Cristo, e Jesus
respondeu:
“Respondeu-lhe Jesus: É como disseste; contudo vos digo que vereis em breve o Filho
do homem assentado à direita do Todo-poderoso, e vindo sobre as nuvens do céu.”
(Mateus 26:64, ARA)

Segundo Chilton e outros autores, Jesus não se referia a um evento


milhares de anos no futuro, mas sim a algo que seus contemporâneos
– “esta geração” – veriam em sua vida. A Bíblia diz exatamente
quando Jesus veio com as nuvens do céu:
“Tendo ele dito estas coisas, foi levado para cima, enquanto eles olhavam, e uma
nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos.” (Atos 1:9, ARA)
“Ora, o Senhor, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu, e assentou-se à direita de
Deus.”(Marcos 16:19, ARA)

Era este evento, a Ascensão à destra de Deus, que Daniel profetizou


quando viu Jesus Cristo assumindo a Sua posição à destra do Pai em
uma visão:
“Eu estava olhando nas minhas visões noturnas, e eis que vinha com as nuvens do céu
um como filho de homem; e dirigiu-se ao ancião de dias, e foi apresentado diante dele. E
foi-lhe dado domínio, e glória, e um reino, para que todos os povos, nações e línguas o
servissem; o seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e o seu reino tal, que
não será destruído.” (Daniel 7:13,14, ARA)

A destruição de Jerusalém era um sinal de que o Filho do homem, o


segundo Adão, estava no céu, governando o mundo e dispondo-o
para seus próprios propósitos. Em sua ascensão, havia vindo sobre
as nuvens do céu para receber o Reino de Seu Pai; a destruição de
Jerusalém era a revelação dessa realidade. Em Mateus 24, portanto,
Jesus não estava profetizando que viria literalmente sobre as nuvens
no ano 70 d.C. (ainda que de certo modo veio figurativamente). Sua
“vinda sobre as nuvens”, de modo literal, como cumprimento

de Daniel 7, aconteceu no ano 30 d.C., no início da “última geração”.


Porém, no ano 70 d.C., as tribos de Israel viram a destruição da
nação como resultado de Cristo ter ascendido ao trono no céu, para
receber Seu Reino50.

Anjos reunindo os eleitos


“E ele enviará os seus anjos, com grande clangor de trombeta, os quais reunirão os
seus escolhidos, dos quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus.” (Mateus
24:31, ARA)

Para muitos leitores e mestres da Bíblia, esse versículo só pode


estar se referindo à Segunda vinda de Cristo, no final da História. Mas
não foi isso que Jesus estava dizendo que significava, pois, apenas
três versículos em seguida desse, Jesus afirmou que “não passará
esta geração sem que tudo isto aconteça”. Como deve ser
interpretado, então, Mateus 24:31?
O toque de uma trombeta significava para os judeus que um decreto real estava sendo
proferido. E qual era esse decreto? Era a hora de liberar os anjos de Deus para que
saíssem e reunissem o Seu povo de todas as nações. Ao mesmo tempo os discípulos
de Jesus foram comissionados para irem e pregarem o Evangelho, fazendo discípulos
de todas as nações. A nação judaica já não era mais o único povo a quem era permitido
entrar em um relacionamento de aliança com Deus, Jesus havia se tornado o Bom
Pastor que estava reunindo Suas ovelhas em todo o mundo(EBERLE, 2013, p.66).

A palavra “reunir” ou “ajuntar” utilizada nesse versículo é significativa,


pois quer dizer literalmente “para a sinagoga”. Os anjos, que são os
mensageiros de Cristo, estariam reunindo os seus escolhidos na Sua
nova sinagoga. O fim do antigo templo seria significativo para acelerar
a construção do novo templo, que, sabe-se, é a Igreja. É um fato
histórico reconhecido que a Igreja iniciou o seu crescimento vigoroso
depois da queda de Jerusalém.

Chilton argumenta de forma semelhante dizendo que pelo contexto é


provável que Jesus estivesse falando do evangelismo e da conversão
mundial das nações que ocorreria através da destruição de Israel.

Os usos da palavra ajuntarão (επισυναγω - episunago) é significativo


nesse sentido. A palavra, literalmente, é um verbo que significa
“sinagogar”; o significado é que, com a destruição do Templo e do
sistema do velho pacto, o Senhor envia seus mensageiros para juntar
os eleitos em Sua Nova Sinagoga. Jesus está repetindo o dito de
Moisés, que havia prometido:
“Ainda que os teus desterrados estejam para a extremidade do céu, desde ali te ajuntará
o SENHOR, teu Deus, e te tomará dali.” (Deuteronômio 30:4, ARC)

Esses textos não estão relacionados com o arrebatamento, e sim têm


a ver com a restauração e estabelecimento da Casa de Deus, a
congregação organizada do povo do pacto. Isso chega a ser ainda
mais enfático quando lembramos o que Jesus disse momentos antes
desta mensagem:
“Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados!
Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos
debaixo das asas, e tu não quiseste! Eis que a vossa casa vos ficará deserta.” (Mateus
23:37-38, ARC)

Devido a Jerusalém ter apostatado e se recusado a ser “sinagogada”


por Cristo, seu Templo foi destruído, e uma Nova Sinagoga foi
formada: a Igreja. Desde cedo, o Novo Templo foi criado no dia de
Pentecostes, quando o Espírito começou a morar na Igreja. Mas a
realidade da existência do Novo Templo só seria evidente quando o
andaime do velho Templo e o sistema do velho pacto fosse tirado.

As congregações cristãs imediatamente começaram a chamar-se


também de “sinagogas” (que é a palavra usada em Tiago 2:2),
enquanto chamavam as reuniões dos judeus de “sinagogas de
Satanás” (Apocalipse 2:9; 3:9). Todavia, eles anelavam o Dia do Juízo
sobre Jerusalém e o Antigo Templo, quando a Igreja seria revelada
como o Templo e Sinagoga verdadeira de Deus, porque o sistema do
Antigo Pacto era “antiquado” e “próximo a desaparecer”(Hebreus
8:13). O escritor aos hebreus lhes instava que tivessem esperança:
“[...] não abandonando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes
admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando
aquele dia.”(Hebreus 10:25, ARA)

A promessa do antigo testamento que Deus “sinagogaria” ou


habitaria com Seu povo tem uma mudança importante no Novo
Testamento. Em vez da forma simples da palavra, o termo usado por
Jesus em Mateus 24:31 tem a preposição grega epi (επι - nota do
tradutor) como prefixo. Essa é uma expressão predileta do Novo
Testamento, que intensifica a palavra no original. O que Jesus disse,
portanto, é que a destruição do Templo no ano 70 DC, o revelará rá
Sua Igreja diante do mundo como a super sinagoga, completa e
verdadeira.
A expressão “desde os quatro ventos” é uma referência ao mundo inteiro. De fato, a
expressão “os quatro cantos da Terra” são comuns ainda hoje. Jesus destaca o fato de
que, sob o Novo Pacto, seus eleitos são reunidos de todos os lugares (CHILTON, 2011,
p. 33-34).

A parábola da figueira
“Aprendei, pois, esta parábola da figueira: quando já os seus ramos se tornam tenros e
brotam folhas, sabeis que está próximo o verão. Igualmente, quando virdes todas essas
coisas, sabei que ele está próximo, às portas.” (Mateus 24:32-33, ARC)

Na interpretação preterista parcial, o objetivo dessa parábola é que


os discípulos estivessem atentos para saber quando iriam acontecer
aqueles eventos terríveis que marcariam o fim de Jerusalém. O
problema é que muitos hoje em dia acreditam que a “figueira”
simboliza a nação de Israel51 e alguns afirmam que a renovação de
seus ramos aconteceu quando Israel voltou a ser uma nação
novamente em 14 de maio de 1948. A figueira não simboliza Israel.
Não há um versículo bíblico que comprove isto. Se há uma árvore que
representa Israel com certeza é a oliveira, conforme Romanos 11:17,
24.

Se nós interpretarmos a parábola da figueira no texto paralelo de


Lucas, o seu entendimento é ampliado, pois mais luz é lançada sobre
essa questão:
“Propôs-lhes então uma parábola: Olhai para a figueira, e para todas as árvores; quando
começam a brotar, sabeis por vós mesmos, ao vê-las, que já está próximo o verão.
Assim também vós, quando virdes acontecerem estas coisas, sabei que o reino de
Deus está próximo.”(Lucas 21:29-31, ARC)

Observa-se que a versão de Lucas, nesse ponto, é mais completa,


pois apresenta uma fala mais abrangente de Jesus ao acrescentar “e
para todas as árvores”. Com isso, o significado da parábola da
figueira torna-se simples no entendimento. A ideia é que, da mesma
forma que as árvores dão sinais de que o verão está próximo, então
haveriam para os discípulos sinais óbvios de que a destruição de
Jerusalém estava próxima. Os mais óbvios foram os oito sinais que
até então estudamos no início deste capítulo.

Nessa passagem paralela sobre a figueira, no evangelho de Lucas, o


enfoque de Jesus não era informar que o tipo de árvore (figueira)
era uma representação, mas que o fato de as árvores florirem na
primavera seria algo tão óbvio quanto os sinais que precederiam a
destruição52.
Sobre esse aspecto, a “Teologia Sistemática” de Wayne Grudem53
diz:
[...] Não, a “figueira” do versículo 32 não deve ser entendida como um símbolo profético
para um momento particular na história, como o renascimento de Israel como uma
nação, porque Jesus usou simplesmente como uma ilustração da natureza: quando a
figueira brota folhas, sabeis que o verão está chegando, de forma semelhante, quando
estes sinais (vv. 5-31) acontecerem, você sabe que o Filho do Homem vai voltar em
breve (GRUDEM, 2011, p.1831).

2.1.8 E quanto ao fim dos tempos (do mundo)?

É exatamente nesse ponto, em que Jesus começa a responder a


terceira pergunta dos discípulos, que os mestres preteristas têm um
entendimento divergente em sua interpretação. Um grupo afirma que
Jesus, em Mateus 24:36, não muda de assunto e o discurso segue
até o final, tratando-se da vinda de Jesus em julgamento sobre Israel,
dentro da geração dos discípulos. Outro grupo entende que a terceira
pergunta é sobre o “fim do mundo” mesmo, logo eles têm a
interpretação dos versículos de Mateus 24:36 [...] até Mateus 25:4,
como sendo relativos à segunda vinda de Jesus. De fato, essas duas
maneiras de interpretar o restante o sermão escatológico de Jesus
não influencia negativamente a visão da ESCATOLOGIA
APOSTÓLICA.

A seguir, faremos a interpretação das respostas de Jesus,


considerando que essa terceira pergunta está relacionada ao “final
dos tempos” ou “fim do mundo”, segundo o que nós cremos ser
coerente com as escrituras.
“Porém daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, mas
unicamente meu Pai.” (Mateus 24:36, ARC, grifo nosso)

Jesus respondeu a terceira pergunta dos discípulos em Mateus 24:36


até Mateus 25:46; trata-se de um longo discurso em que Jesus
responde a pergunta sobre o fim dos tempos ou fim da era. Podemos
ver que, a partir do versículo de Mateus 24:35, “Passará o céu e a
terra, mas as minhas palavras jamais passarão”, é o momento que
Jesus começa a responder a terceira pergunta, pois foi nesse ponto
que Jesus começou a falar sobre o fim das eras, já que, até Mateus
24:34, tudo que precedia esse versículo aconteceria naquela
geração. Agora Jesus “muda o tom”, Ele está enfatizando que as
Suas palavras certamente se realizarão, mas também está afirmado
e declarando sobre o fim – o céu e a terra chegando ao fim. Foi
nesse ponto que Jesus começou a responder a terceira pergunta,
isso também se comprova à medida que Jesus começa falando sobre
“o dia e a hora”.

Quando a bíblia usa a terminologia “dia e hora” ou “grande dia” ou


“último dia”, e ainda em alguns contextos “o dia”, ela não se refere a
um dia do juízo [qualquer dia], mas sim ao grande juízo final,
quando Deus chamará todas as pessoas para prestarem contas, no
final desta era, por exemplo, nesses versículos54:
“Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E
em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitos
milagres?” (Mateus 7:22, ARA)
“Digo-vos que naquele dia haverá menos rigor para Sodoma, do que para aquela cidade.”
(Lucas 10:12, ARA)
“E a vontade do que me enviou é esta: Que eu não perca nenhum de todos aqueles que
me deu, mas que eu o ressuscite no último dia.” (João 6:39, ARA)
“No dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por Cristo Jesus, segundo o
meu evangelho.” (Romanos 2:16, ARA)
“[...] a obra de cada um se manifestará; pois aquele dia a demonstrará, porque será
revelada no fogo, e o fogo provará qual seja a obra de cada um.”(1 Coríntios 3:13, ARA)
“Seja entregue a Satanás para destruição da carne, para que o espírito seja salvo no dia
do Senhor Jesus.” (1 Coríntios 5:5, ARA)
“[...] tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a
aperfeiçoará até o dia de Cristo Jesus.” (Filipenses 1:6, ARA)
“[...] para que aproveis as coisas excelentes, a fim de que sejais sinceros, e sem ofensa
até o dia de Cristo.”(Filipenses 1:10, ARA)
“Quando naquele dia ele vier para ser glorificado nos seus santos e para ser admirado
em todos os que tiverem crido (porquanto o nosso testemunho foi crido entre vós.” (2
Tessalonicenses 1:10, ARA)
“O Senhor lhe conceda que naquele dia ache misericórdia diante do Senhor. E quantos
serviços prestou em Éfeso melhor o sabes tu.” (2 Timóteo 1:18, ARA)
“[...] não abandonando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes
admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando
aquele dia.”(Hebreus 10:25, ARA)
“Virá, pois, como ladrão o dia do Senhor, no qual os céus passarão com grande
estrondo, e os elementos, ardendo, se dissolverão, e a terra, e as obras que nela há,
serão descobertas.” (2 Pedro 3:10, ARA)
“Aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação,
ele os tem reservado em prisões eternas na escuridão para o juízo do grande dia.”(Judas
1:6, ARA)

Aquele dia do Juízo final é o assunto sobre o qual Jesus fala no


restante do capítulo 24 de Mateus e em todo o capítulo 25. Jesus
compara o dia do grande Juízo através das seis (6) parábolas, que
seguem do texto de Mateus 24:37 até Mateus 25:30. Jesus termina
seu ensinamento falando sobre o Filho do Homem vindo em glória
com todos os anjos, e então as nações sendo reunidas perante Ele
(Mateus 25:31-46). Serão examinadas cada uma dessas parábolas
que falam sobre um juízo vindouro e a volta do Juiz.

Daquele dia e a hora ninguém sabe

A maioria dos mestres e comentaristas concordam que o ponto chave


dessa passagem é que o dia do Senhor será uma surpresa. O próprio
Jesus não sabe quando esse dia acontecerá, os anjos não sabem
também, somente o Pai sabe; assim Jesus prosseguiu explicando que
o dia do Senhor virá sem aviso.
Há uma mudança manifesta nas palavras do nosso Senhor aqui, queindica claramente
que elas se referem à Sua última grande vinda para o juízo.(SPURGEON, 1974, p.218
apud EBERLE, 2013, p.71)
Ao prestar atenção na resposta do Senhor Jesus para essa que se
considera a terceira pergunta, vemos que tal resposta é bem
diferente das respostas às outras duas perguntas:

■ Com respeito à destruição de Jerusalém e o Templo, Jesus


disse que, entre outras coisas, haveria tempo para pregar o
evangelho, e então os exércitos destruiriam Jerusalém.

■ Com relação à entrada do Senhor no Seu Reino, Jesus disse


que o primeiro sinal visível seria a destruição de Jerusalém e do
próprio Templo.

■ Mas, com relação ao fim dos tempos, Jesus disse: “ninguém


sabe, nem os anjos dos céus, nem o filho”.

Nota-se um elemento surpresa que aparece no cumprimento da vinda


escatológica no final dos tempos, e isso foi o tema fundamental de
cada uma das seis (6) parábolas que Jesus contou a seguir,
ilustrando o fi nal dos tempos.

Os mestres dispensacionalistas tradicionais têm uma visão diferente,


para não dizer esquisita, quanto a essa questão do versículo 36. A
seguir, o que diz o Dr. Thomas Ice:
Nessa passagem, Jesus é referido como “o Filho”. Quando usa termos como “o Filho”
ou “o Filho do Homem”, a exemplo do que ocorre no versículo subsequente, o Novo
Testamento salienta Sua humanidade e encarnação. Essa passagem não diz “que
ninguém nunca há de saber. Isso Jesus realmente não disse”. Concordo com a maioria
dos comentaristas ao afi rmarem que, durante o período de Sua encarnação como Filho
do Homem, não foi concedido a Jesus (ou a Ele não foi revelado) saber o tempo exato
de Sua volta. Porém, não tenho a menor dúvida de que, após Sua ascensão ao céu,
Jesus sabe o dia e a hora de Sua volta(ICE, 2016, p.180, grifo nosso).

Essa ideia defendida por Thomas Ice faz sentido para o futurismo
dispensacionalista, porque a interpretação deles precisa harmonizar
esse versículo, que diz claramente que “ninguém sabe” o “dia e
hora”, com as suas convicções futuristas sobre manifestações e
sinais que antecedem a volta de Jesus, os quais já vimos
anteriormente (ver 2.1.4) e, como se demonstrou, foram sinais que
antecederam o Juízo sobre Jerusalém em 70 d.C., portanto, já
cumpridos.

Figura 03 - Comparação entres as visões escatológicas

2.1.9 As parábolas do final dos tempos

Jesus, na continuação de seu discurso escatológico, passa a ilustrar


o dia do grande Juízo, com uma série de seis (6) parábolas que se
iniciam em Mateus 24:37 e vão até quase o final do capítulo 25.
Como já foi citado, nem todos os mestres preteristas parciais irão
adotar a mesma interpretação para essas passagens, pois alguns
vão dizer que ainda se referem à dispensação dos Judeus e ao juízo
imposto a eles no ano 70 d.C., embora postulem outros textos como
sendo verdadeiramente referências à segunda vinda de Jesus.
É verdade que Jesus retornará em seu corpo ressurreto, para ressuscitar os mortos e
fazer o julgamento final. Mas a maioria da linguagem de “fim dos tempos” usada no
Novo Testamento era se referindo a maior coisa da história dos judeus – que estava a
prestes de acontecer. Os judeus do primeiro século não estavam preocupados com o
fim do mundo; essa é uma obsessão moderna que quase não tinha relevância para
eles(WELTON, 2012, p.96)

Como foi nos dias de Noé


“E, como foi nos dias de Noé, assim será também a vinda do Filho do Homem.
Porquanto, assim como, nos dias anteriores ao dilúvio, comiam, bebiam, casavam e
davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam,
até que veio o dilúvio, e os levou a todos, assim será também a vinda do Filho do
Homem.” (Mateus 24:37-39, ARC)

Jesus parece querer imprimir na mente dos discípulos e na nossa


mente também que o dia do Juízo final virá de surpresa. Assim como
nos dias de Noé, as pessoas estão comendo, bebendo, casando e
dando-se em casamento; então, de repente, Jesus aparecerá, e o dia
do Juízo terá chegado. Os maus não entenderam, até que veio o
dilúvio, mas quando finalmente aconteceu, todos compreenderam.
Simples assim! Foi surpresa, mas não foi algo secreto, todos viram,
os que criam e os que não criam55.

Como dois homens no campo


“Então, estando dois no campo, será levado um, e deixado o outro; estando duas
moendo no moinho, será levada uma, e deixada outra. Vigiai, pois, porque não sabeis a
que hora há de vir o vosso Senhor.” (Mateus 24:40-42, ARC)

O ponto principal que podemos ver nessa passagem é que o dia do


grande Juízo virá repentinamente e, portanto, as pessoas devem
estar preparadas. Isso fica evidente na expressão “vigiai”.
Como ladrão na noite
“Mas considerai isto: se o pai de família soubesse a que vigília da noite havia de vir o
ladrão, vigiaria e não deixaria que fosse arrombada a sua casa. Por isso, estai vós
apercebidos também, porque o Filho do Homem há de vir à hora em que não penseis.”
(Mateus 24: 43-44, ARC)

O dia do grande julgamento chegará sem aviso e quando não se


espera. Portanto, deve-se estar pronto (preparado) em todo o tempo.

Como um senhor que retorna


“Quem é, pois, o servo fiel e sensato, a quem seu senhor encarrega dos de sua casa
para lhes dar alimento no tempo devido? Feliz o servo a quem seu senhor encontrar
fazendo assim quando voltar. Garanto-lhes que ele o encarregará de todos os seus
bens. Mas suponham que esse servo seja mau e diga a si mesmo: ‘Meu senhor, se
demora’, e então comece a bater em seus conservos e a comer e a beber com os
beberrões. O senhor daquele servo virá num dia em que ele não o espera e numa hora
que não sabe. Ele o punirá severamente e lhe dará lugar com os hipócritas, onde haverá
choro e ranger de dentes.” (Mateus 24:45-51, NVI)

Há verdadeiramente muitas lições que podem ser aprendidas nessa


parábola, mas a verdade central e fundamental é que o dia do juízo
chegará de surpresa, sem qualquer aviso, e por essa razão o leitor é
exortado a continuar sendo diligente nos serviços, suas atividades e
viver uma vida reta.
Como dez virgens esperando
“O Reino dos céus, pois, será semelhante a dez virgens que pegaram suas candeias e
saíram para encontrar-se com o noivo. Cinco delas eram insensatas, e cinco eram
prudentes. As insensatas pegaram suas candeias, mas não levaram óleo consigo. As
prudentes, porém, levaram óleo em vasilhas juntamente com suas candeias. O noivo
demorou a chegar, e todas ficaram com sono e adormeceram. “À meia-noite, ouviu-se
um grito: ‘O noivo se aproxima! Saiam para encontrá-lo! ’ “Então todas as virgens
acordaram e prepararam suas candeias. As insensatas disseram às prudentes: ‘Deem-
nos um pouco do seu óleo, pois as nossas candeias estão se apagando’. “Elas
responderam: ‘Não, pois pode ser que não haja o suficiente para nós e para vocês. Vão
comprar óleo para vocês’. “E saindo elas para comprar o óleo, chegou o noivo. As
virgens que estavam preparadas entraram com ele para o banquete nupcial. E a porta
foi fechada. “Mais tarde vieram também as outras e disseram: ‘Senhor! Senhor! Abra a
porta para nós! ’ “Mas ele respondeu: ‘A verdade é que não as conheço! ’” Portanto,
vigiem, porque vocês não sabem o dia nem a hora!(Mateus 25:1-13, NVI, grifo nosso)

Nessa passagem, Jesus contou a parábola das dez virgens que


estavam esperando que o seu noivo viesse para levá-las. Cinco das
virgens eram insensatas (néscias) e não estavam aprontadas para a
volta do noivo, enquanto as outra cinco eram prudentes (sábias) e
estavam preparadas para o noivo. A lição mais óbvia é certamente e
novamente que o povo de Deus, a Igreja, precisa estar pronta,
porque o noivo (Jesus) pode voltar a qualquer momento.

Como servos com talentos

“E também será como um homem que, ao sair de viagem, chamou seus servos e
confiou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois, e a outro um; a cada
um de acordo com a sua capacidade. Em seguida partiu de viagem. [...] Depois de
muito tempo o senhor daqueles servos voltou e acertou contas com eles. O que tinha
recebido cinco talentos trouxe os outros cinco e disse: ‘O senhor me confiou cinco
talentos; veja, eu ganhei mais cinco’. “O senhor respondeu: ‘Muito bem, servo bom e fiel!
Você foi fiel no pouco; eu o porei sobre o muito.Venha e participe da alegria do seu
senhor! [...]”Por fim veio o que tinha recebido um talento e disse: ‘Eu sabia que o senhor
é um homem severo, que colhe onde não plantou e junta onde não semeou. Por isso,
tive medo, saí e escondi o seu talento no chão. Veja, aqui está o que lhe pertence’. “O
senhor respondeu: ‘Servo mau e negligente! Você sabia [...] ‘Tirem o talento dele e
entreguem-no ao que tem dez. Pois aquem tem, mais será dado, e terá em grande
quantidade. Mas a quem não tem, até o que tem lhe será tirado. E lancem fora o servo
inútil, nas trevas, onde haverá choro e ranger de dentes”.(Mateus 25:14-30, NVI, grifo
nosso)

Jesus contou essa parábola sobre os talentos. Um homem confiou


seus bens a três servos e distribuiu talentos em quantidades
diferentes para cada um dos servos. Quando o senhor voltou, exigiu
que cada servo prestasse conta de como havia utilizado ou
administrado os talentos, e então o senhor os recompensou de
acordo com o resultado.

A lição principal do juízo vindouro nessa parábola é óbvia na


expressão “nas trevas, onde haverá choro e ranger de dentes”. Há
uma indicação temporal importante no versículo 19, que diz: “depois
de muito tempo”. Essa demora é muito diferente daquela do juízo
sobre Jerusalém que ocorreria naquela geração.

O grande Dia do Juízo

Nos versículos finais de Mateus, Capítulo 25, Jesus preparou uma


espécie de descrição e resumo do grande dia do juízo vindouro.
“Quando o Filho do homem vier em sua glória, com todos os anjos, assentar-se-á em
seu trono na glória celestial. Todas as nações serão reunidas diante dele, e ele separará
umas das outras como o pastor separa as ovelhas dos bodes. [...]”Então o Rei dirá aos
que estiverem à sua direita: Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o
Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, [...] “Então
os justos lhe responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou
com sede e te demos de beber? [...] O Rei responderá: ‘Digo-lhes a verdade: o que
vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’.”Então ele dirá aos
que estiverem à sua esquerda: Malditos, apartem-se de mim para o fogo eterno,
preparado para o diabo e os seus anjos.Pois eu tive fome, e vocês não me deram de
comer; tive sede, e nada me deram para beber; [...] “Eles também responderão: Senhor,
quando te vimos com fome ou com sede ou estrangeiro ou necessitado de roupas ou
enfermo ou preso, e não te ajudamos? ’Ele responderá: ‘Digo-lhes a verdade: o que
vocês deixaram de fazer a alguns destes mais pequeninos, também a mim deixaram de
fazê-lo’. “E estes irão para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna.” (Mateus
25: 31-46, NVI)
Da mesma forma, essa parábola tem muitos ensinamentos, e um
deles, que seguidamente pode ser mal interpretado, trata-se de quem
são os “pequeninos” citados por Jesus, no versículo 45. Muitos até
acreditam que estes são pessoas as quais como cristãos devemos
auxiliar, ajudar e prestar socorro, porém, como a parábola trata do
final dos tempos e do castigo eterno, fica claro que os “pequeninos”
são os enviados para pregar o evangelho. Veja o texto a seguir:
“E se alguém der mesmo que seja apenas um copo de água fria a um destes
pequeninos, porque ele é meu discípulo, eu lhes asseguro que não perderá a sua
recompensa.” (Mateus 10:42, NVI)

Mas, novamente, a lição principal da passagem é muito clara: Jesus


voltará para julgar os justos e os injustos, num tempo vindouro, não
sabido, normalmente identificado como: a segunda vinda de Jesus.

Capítulo 3

AS PROFECIAS ESCATOLÓGICAS E
ELEMENTOS DO APOCALIPSE
Neste terceiro capítulo, serão estudadas as mensagens proféticas do
livro de Daniel sobre o avanço do Reino e das setenta (70) semanas.
Também será objeto de estudo o tema do Anticristo. Serão vistas as
interpretações de alguns elementos principais do livro de Apocalipse,
numa perspectiva Preterista Parcial e um enfoque histórico sobre a
datação e objetivos do livro de Apocalipse.

3.1 A PROFECIA DE DANIEL 2: A MENSAGEM DO


REINO
O entendimento acerca do Reino de Deus e também de como este se
manifesta e a sua temporalidade são fatores primordiais para que se
possa entender o pensamento que molda a visão da ESCATOLOGIA
APOSTÓLICA. Para isso, neste ponto estudaremos a mensagem
profética do texto de Daniel 2:31-45.

Daniel, Capítulo 2, narra a história relacionada ao sonho de


Nabucodonosor e a interpretação dada por Daniel. Deus revelou o
futuro e Daniel foi capaz de dizer ao rei Babilônico qual havia sido o
seu sonho e dar a sua interpretação. Nesse sonho, Nabucodonosor vê
uma estátua gigante feita de diferentes metais ser atingida nos pés
por uma pedra que fora cortada sem o auxílio de mãos (Daniel
2:31,35,44). Conforme o relato bíblico, essa pedra não era uma
pedra normal, pois “a pedra que feriu a estátua se tornou uma
grande montanha e encheu toda a terra”.

Em seguida Daniel revelou ao rei Nabucodonosor o que o sonho


significava:
“Tu, ó rei, [...] tu és a cabeça de ouro. Depois de ti se levantará outro reino, inferior ao
teu; e um terceiro reino, de bronze, o qual terá domínio sobre toda a terra. [...]um quarto
reino, forte como ferro, [...]” (Daniel 2:37-40)
Daniel disse ao rei que as quatro partes da estátua representavam
quatro reinos, um seguido ao outro. Daniel também disse à
Nabucodonosor que o reino dele (Babilônia) era o primeiro reino. A
grande maioria dos mestres e comentaristas concordam que as
quatro partes da estátua, que significam os quatro reinos, referem-se
historicamente aos impérios que existiram consecutivamente naquela
região:

Babilônico – Cabeça de ouro.

Império Medo-Persa – Peito e braços de prata.

Império Grego – Ventre e os quadris de bronze.

Império Romano – Pernas de ferro e pés de ferro e barro.

Outras passagens no próprio livro de Daniel falam mais sobre esses


quatro reinos. O reino Medo-Persa é identificado como sendo o
segundo reino em Daniel 5:28 e 8:20, e em Daniel 8:21 é identificado
o terceiro reino, o império grego.

Daniel então explicou o significado da rocha no sonho de


Nabucodonosor, que esmagou os pés da estátua, e todos esses
reinos, e se transformou numa montanha que encheu a Terra.
“Mas, nos dias desses reis, o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais
destruído; nem passará a soberania deste reino a outro povo; mas esmiuçará e
consumirá todos esses reinos, e subsistirá para sempre.” (Daniel 2:44, ARA)

Daniel revelou que a rocha virá à Terra, esmagará todos os outros


reinos e trará o Reino de Deus. Então o Reino de Deus crescerá
como uma montanha que encherá a Terra. Conforme argumenta
Kenneth L. Grentry:
A pedra cortada sem auxílio de mãos representa o reino messiânico de Deus. Que a
pedra golpeia o pé da estátua significa que o reino messiânico será estabelecido no
tempo do último império (GENTRY, 2014, p.38).
Esse quarto reino que foi dividido, representado por barro e dedos de
ferro, ocorreu quando o Império Romano foi dividido em 10
províncias, sob Augusto César, que reinou de 27 a.C. a 14 d.C.
Durante o reinado de Augusto, os 10 dedos foram estabelecidos, e
Jesus veio como uma rocha e bateu nesses dedos em 3 d.C. Como
profetizado por esse sonho, durante o Império Romano dividido,
Jesus veio e estabeleceu Seu Reino como a rocha que encheria a
Terra. Isso é consistente com outras passagens da escritura, nas
quais Jesus é referido como a pedra de esquina e a pedra que os
construtores rejeitaram (Lucas 20:17), assim como a rocha que
seguiu os judeus no deserto (1 Coríntios 10:4). Jesus também disse a
Pedro que sobre essa rocha (a revelação de que Jesus é o
Messias), Ele edificaria Sua Igreja (Mateus 16:18). Claramente
podemos ver que a rocha nesse sonho fala de Jesus56.

Na verdade, tanto os mestres futuristas quanto os mestres preteristas


entendem que a rocha do sonho de Nabucodonosor é uma referência
a Jesus Cristo vindo ao mundo para estabelecer o Reino Eterno de
Deus. Porém, as duas visões discordam no tempo, sobre quando a
rocha virá à Terra e quando o Reino de Deus será estabelecido. A
seguir faremos uma exposição das duas visões.

3.1.1 O entendimento futurista do Reino de Deus

A grande maioria dos teólogos futuristas (dispensacionalistas) dizem


que o Reino de Deus será trazido à Terra no futuro. Eles afi rmam que
na Segunda Vinda de Jesus Cristo, depois de uma tribulação de sete
anos, Jesus virá e trará o Reino do céu à Terra. Então o Reino de
Deus permanecerá na Terra por mil anos.
Figura 04 - Linha do Tempo de Daniel 2 (Visão Futurista)

3.1.2 O entendimento preterista parcial do Reino de Deus


Os mestres que ensinam a visão preterista parcial, quer sejam
partidários do pós-milenarismo ou mesmo aqueles que adotam o pré-
milenarismo, como entendimento do reino e a volta de Jesus, ambos
acreditam e vão postular que Jesus foi entronizado sobre o Reino de
Deus há dois mil anos, exatamente quando Ele subiu ao céu e sentou-
se à destra de Deus. Desde aquele dia o Reino tem crescido na
Terra, e fi nalmente encherá toda a Terra como fi gura a montanha no
sonho de Nabucodonosor57.

Figura 05 - Linha do Tempo de Daniel 2 (Visão Preterista Parcial)


A ESCATOLOGIA APOSTÓLICA ensina que o Reino de Deus cresce
e enche a Terra; entretanto, o mal permanecerá na Terra até a
segunda vinda de Jesus. Isso pode ser ilustrado com a parábola que
Jesus contou sobre o trigo e o joio (Mateus 13:24-43). Ali fica muito
claro que as ervas daninhas (joio) foram também semeadas e
também cresceram. À medida que Jesus explica a parábola, fica
muito claro que o bem e o mal estão crescendo na Terra. Tanto o
bem quanto o mal têm permissão para crescerem juntos até que um
dia Jesus volte e separe um do outro.

Em outra parábola, Jesus comparou o Reino com uma semente de


mostarda que cresceu até se tornar a maior árvore de um jardim.
Semelhantemente, o Reino de Deus tem crescido e um dia será a
maior e mais influente “entidade” na Terra, embora existam outras
plantas que não pertencem ao Reino de Deus (Mateus 13:31-32). O
autor Jonathan Welton, com relação ao crescimento do Reino,
argumenta:
Jesus declarou que Seu Reino havia chegado como a menor das sementes e cresceria
até ser a maior árvore do jardim, e que ele veio como uma medida de fermento que
fermentaria toda a massa (Mateus 13:31 a 33). Alguns ensinaram que o Reino de Jesus
algum dia chegará no futuro e será estabelecido de uma vez, com domínio completo,
mas Jesus ensinou que Seu Reino seria estabelecido gradualmente (WELTON, 2014,
p.176).

Parece ser isso que temos visto acontecer historicamente desde que
Jesus sentou-se no seu trono; o cristianismo teve início em uma
pequena região do Oriente Médio com um líder, doze apóstolos e
alguns seguidores. Hoje, dois mil anos após, o cristianismo é a maior
religião em toda a Terra. Existem mais de seis bilhões de pessoas no
planeta, e mais de dois bilhões se identificam como cristãos hoje.
“Extrapolando os dados do relatório de 1990 da Statistics Task Force da Comissão de
Lausanne para Evangelismo Mundial, Jonathan Welton e Jim Wies observaram o
seguinte:“No ano 100 AD, 1/360 da população mundial era cristã. Por volta do ano 1000
AD, 1/220 da população mundial era cristã. Em 1500, a percentagem de cristãos
aumentou para 1/69 da população mundial. Por volta de 1900, com uma população
mundial de pouco mais de um bilhão, o cristianismo tinha subido para 1/27 da
população. Em 1990, a percentagem de cristãos aumentou para 1/7 da população
mundial. Como já foi dito, estima-se agora que há sete bilhões de pessoas no planeta
Terra e que um total de um terço deles (uma em cada três pessoas no mundo) são
seguidores de Jesus!”(KING, J.D. Você Foi Enganado ao Crer no Mito de que o Mundo
Está Ficando Cada Vez Pior? Revista Cristã UC. Londrina, n. 021, Setembro 2015)

A interpretação de Daniel do sonho do rei Nabucodonosor revela que


a Rocha chegaria à Terra na época do quarto reino, que foi o Império
Romano. A Rocha cresce e se torna o Reino de Deus e destrói o
Império Romano.
A visão futurista entende que será necessário haver algum tipo de
Império Romano que esteja em posição de governo quando da volta
de Jesus. Outros mestres futuristas dizem que deve haver um Império
Romano revificado na Terra nessa época. Alguns estão olhando para
as Nações Unidas ou para a União Europeia ou ainda para algum tipo
de confederação de nações muçulmanas e identificando nelas algum
indício desse Império Romano revificado. Outros ainda dizem que a
Igreja Católica Apostólica Romana é o Império Romano que a Rocha
em breve virá e esmagará.

Sobre essa teoria dispensacionalista de um futuro Império Romano, o


Dr. J. Dwight Pentecost, em seu livro “Manual de Escatologia”,
citando F. C. Jennings, afirma:
[...] somos forçados a reconhecer que as fronteiras do império serão as fronteiras do
cristianismo nominal, mas completamente apóstata; e, vice-versa, as fronteiras da igreja
apóstata serão exatamente as fronteiras do império. Com isso assegurado e claro,
conclui-se, sem qualquer dúvida, que o Império Romano reavivado compreenderá [...]
todos os países, por todo lugar em que haja qualquer vestígio do cristianismo apóstata e,
logo, incluirá a América do Norte e a do Sul (F. C. JENNINGS, The boundaries of the
revived Roman Empire, Our Hope, XLVII: 387-9, Dezembro 1940, apud PENTECOST,
2014).

Os mestres dispensacionalistas visualizam o anticristo exercendo um


papel central no fim dos tempos e por isso essa interpretação
costuma colocar tal governante maligno como sendo um líder de
influência mundial num suposto reino romano futuro que será
destruído pela rocha. Essa convicção os torna também muito críticos
e desconfiados com relação à Igreja Católica Romana.

Diferentemente, os preteristas parciais não estão preocupados em


identificar um Império Romano revificado, pois simplesmente
acreditam que a rocha veio à Terra há dois mil anos. Jesus veio,
inaugurou e estabeleceu o Reino de Deus durante o primeiro século,
quando realmente o Império Romano esteve no poder, e assim o
Reino de Deus já destruiu o Império Romano e continua a crescer em
toda a Terra.
Eberle pondera que, apesar da imensa maioria dos cristãos entender
que o Reino de Deus consiste de “justiça e paz e alegria no Espírito
Santo” (Romanos 14:17) e que é necessário buscar esse Reino de
Deus em primeiro lugar e as demais coisas vão ser acrescentadas
(Mateus 6:33), muitos cristãos que acreditam na escatologia futurista,
mesmo reivindicando esses benefícios, acabam entrando em
contradição, vacilando entre dois pensamentos, pois no instante
seguinte acabam dizendo que o Reino de Deus só estará disponível
na segunda vinda de Jesus. Portanto, vacilam entre duas crenças.

Em contrapartida, o cristão que adota a visão preterista parcial


saberá sem dúvida que o Reino está aqui e está crescendo e
avançando a cada dia e, quando Jesus Cristo voltar, Ele subjugará
todo o mal que ainda restar e estabelecerá a Sua perfeita vontade em
todo o mundo. Consequentemente, se o Reino de Deus está
avançando progressivamente na Terra, então poderá se dizer com
confiança que o Reino de Deus está aqui e está crescendo e
transformando o mundo58. Finalmente, sobre a influência do Reino de
Deus, Kenneth L. Grentry escreveu:
O Antigo Testamento antecipa a vinda, o desenvolvimento e a vitória na história do reino
messiânico. Essa esperança é rastreável desde os primeiros dias das relações de
aliança de Deus com o homem. Os pactos divinos do Antigo Testamento enquadram-se
na esperança de domínio da aliança, enquanto os profetas preenchem essa expectativa
messiânica. Existe a certeza da expectativa da concordância universal do homem ao
governo do Messias. Este governo é estabelecido no reino espiritual, mas não se limita
a ele. Seu Governo terá efeitos objetivos em todas as áreas da vida - não apenas a
alma, a família e a igreja local. A redenção de Cristo é tão abrangente quanto o pecado
é, e mais poderosa. A ressurreição corporal de Cristo foi mais poderosa do que a morte.
Assim são os efeitos objetivos de Sua ressurreição na história. Será interessante que
algum expositor amilenista ou dispensacionalista alguma vez decida fazer uma
discussão detalhada da doutrina da ressurreição de Cristo e da ascensão corporal em
relação à visão da derrota do cristianismo na história. Aqui está a pergunta que o
amilenista ou dispensacionalista deve responder: como é que a vitória de Cristo sobre a
morte na história não transformará a cultura?(GENTRY, Kenneth L. He Shall Have
Dominion. Texas: Institute for Christian Economics, 1992, p. 209, Tradução Livre do
Autor).
3.2 A PROFECIA DE DANIEL 9: AS 70 SEMANAS
Esta profecia das setenta semanas de Daniel (Daniel 9:24-27) é uma
intrigante e famosa passagem da bíblia cujo caráter escatológico e
sua estrutura temporal fornecem informações importantes para toda a
escatologia bíblica do Novo Testamento.

Fazendo um breve contexto da profecia em si, pode-se ver em Daniel


9 o profeta orando pelo seu povo, os judeus e, naquele tempo da
História, o povo de Israel está no cativeiro da Babilônia e a sua
cidade santa, Jerusalém, em ruínas. O profeta Daniel sabe que Deus
libertará o Seu povo desse cativeiro, pois isso já havia sido
profetizado anteriormente (Daniel 9:2). Daniel passa a confessar os
pecados do povo e a pedir misericórdia (Daniel 9:3-19). Então Deus
envia o anjo Gabriel até Daniel e este diz a ele o que acontecerá no
futuro. As palavras de Gabriel revelam o futuro dos judeus e de
Jerusalém, e alguns fatos significativos sobre o futuro de todo o
mundo.

Para entender essa profecia, é necessário que se tenha


conhecimento de sua estrutura de aliança. A oração de Daniel que
culmina na profecia está “saturada” com expressões que são das
promessas Mosaicas, principalmente as de Deuteronômio. A clara
estrutura de aliança dessa profecia necessariamente necessita de um
foco no cumprimento por Cristo durante seu ministério.
A primeira fase das 70 semanas é de “sete semanas” ou literalmente, “sete setes”
(Daniel 9:25), que resulta em um valor de 49. Na lei cerimonial do Velho Testamento, 49
anos leva ao ano do Jubileu, que é o quinquagésimo ano (Levítico 25:8). Esse é um
tempo de grande celebração, no qual os escravos são libertos e há o retorno das terras
perdidas por causa de dívidas aos seus proprietários em toda Israel. Isso tem um teor
de aliança muito forte e se relaciona diretamente ao significado redentivo da passagem.
O período total de setenta setes também se relaciona à aliança: setenta é igual a dez
desses períodos de sete semanas, significando um Jubileu elevado à décima potência.
O número dez significa plenitude, o número de dedos nas mãos humanas. Então, as
setenta setes (semanas) parecem apontar para um Jubileu redentivo completo. Isso
deve apontar por sua vez, para Cristo, que traz esse Jubileu completo e a completa
redenção (Lucas 4:17-21; Isaías 61:1-3; Mateus 24:31) e que é o ponto culminante da
profecia de Daniel (Daniel 9:25, 26, 27). Consequentemente, as 70 semanas demarcam
o período em que “a redenção Messiânica seria terminada” (GENTRY, 2014, p.8).
Quanto ao valor cronológico desse período de setenta semanas,
tantos os mestres futuristas ou a visão preterista parcial concordam
que parecem representar um período de 70 vezes sete anos, ou seja,
490 anos. Apesar de ser construída por símbolos sabáticos,
representa um período histórico de tempo, ao contrário dos que
pensam que ela representa um período indefinido. Mesmo em uma
leitura superficial, essa profecia parece ser bem precisa em sua
cronologia. Daniel nos dá uma medida e fracionamento cuidadosos
desse número. Isso também se encaixa com a preocupação
cronológica de Daniel nas profecias macabéias, em Daniel 8 e 12.
Além disso, existe ampla justificativa contextual e em outras partes da
bíblia para “dias” querendo dizer anos (Gênesis 29:27, Levítico 25:8,
Números 14:34, Ezequiel 4:4-6).

Ao se estudar a profecia das 70 semanas de Daniel é importante que


seja considerado cuidadosamente Daniel 9:24. Este versículo informa
o objetivo final da profecia:
“Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo, e sobre a tua santa Cidade,
para cessar a transgressão, e para dar fim aos pecados, e para expiar a iniquidade, e
trazer a justiça eterna, e selar a visão e a profecia, e para ungir o Santíssimo.”(Daniel
9:24, ARA)

O assunto principal de Daniel 9:24-27 é messiânico. O Templo


construído depois do cativeiro babilônico será destruído depois das
70 semanas (versículo 27). Daniel não o menciona novamente, e
essa profecia não dá espaço para especulações sobre sua
reconstrução futura para o milênio e, em segundo lugar, nos
versículos que se seguem ao “ungir o santíssimo”, Daniel mencionou
o Messias duas vezes (Daniel 9:25 e 26). Contrário à interpretação
de alguns dispensacionalistas, o Templo não é ungido em nenhum
lugar nas Escrituras, seja o original, de Salomão, ou de Zorobabel, da
visão de Ezequiel, ou o Templo expandido por Herodes. Então,
mesmo alguns dispensacionalistas reconhecem (como J. Dwight
Pentecost) que Jesus está “em vista” nessa profecia.
A palavra “Santíssimo” fala do Messias, que “será chamado santo,
Filho de Deus”(Lucas 1:35). Isaías profetiza sobre Cristo no último
jubileu redentivo:
“O Espírito do Soberano Senhor está sobre mim porque o Senhor ungiu-me para levar
boas notícias aos pobres. Enviou-me para cuidar dos que estão com o coração
quebrantado, anunciar liberdade aos cativos e libertação das trevas aos prisioneiros,
para proclamar o ano da bondade do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus; para
consolar todos os que andam tristes.” (Isaías 61:1-2, Lucas 4:17-21).

Fora decretado para os judeus e sua cidade santa setenta semanas


de favor, ou seja, 490 anos de favor de Deus. A medida que o anjo
Gabriel continuou falando com Daniel, ele dividiu os 490 anos em três
períodos. Primeiramente falou sobre sete semanas (7x7 = 49 anos),
depois falou de 62 semanas (62x7 = 434 anos) e finalmente falou
sobre a última semana (1x7 = 7 anos); naturalmente, somando-se
esses três períodos, temos 490 anos.

As 69 semanas de Daniel

Veremos a seguir como interpretar o versículo 25, referente às


primeiras 69 semanas (sete semanas e 62 semanas somadas).
“Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém até o
ungido, o príncipe, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas; com praças e
tranqueiras se reedificará, mas em tempos angustiosos.”(Daniel 9:25, ARA)

Esse versículo indica o tempo preciso para a vinda do messias a


partir do decreto para reconstruir Jerusalém; haveria sete semanas e
sessenta e duas semanas, ou seja, sessenta e nove semanas ou 483
anos. Em 457 a.C., Artaxerxes, o rei da Pérsia, decretou que os
judeus poderiam ser livres e voltar para sua terra natal e reconstruir
Jerusalém e o Templo (Esdras 7:12-26). Se forem somados 483 anos
a essa data, chegamos em 27 d.C. Os historiadores afirmam que
Jesus nasceu no ano 4 a.C.59, o que significa que Ele tinha 30 anos
no ano 27 d.C.

Este foi o ano em que Jesus foi batizado nas águas e uma voz veio do
céu dizendo “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”
(Mateus 3:17). Depois de um período de jejum no deserto, Jesus
revelou-se como o Messias e iniciou o Seu ministério publicamente.
Até aqui, a profecia do anjo Gabriel foi notavelmente precisa.
Prosseguiu declarando o que aconteceria depois que o messias
viesse: “Depois das sessenta e duas semanas, será morto o Ungido
e já não estará; e o povo de um príncipe que há de vir destruirá a
cidade e o santuário, e o seu fim será num dilúvio, e até ao fim
haverá guerra; desolações são determinadas.”(Daniel 9:26)

Esse versículo nos diz que Jesus foi morto. Ele foi “cortado”da terra
dos viventes, em seguida a texto diz que o povo do príncipe viria e
destruiria a cidade e o santuário. É importante observar que a
terminologia usada nessa profecia tem um paralelo notável com a
terminologia que Jesus Cristo utilizou no sermão do monte (Mateus 24
e Lucas 21): desolações, o fim e a destruição como um diluvio. Como
já vimos no capítulo 2, Jerusalém e o Templo foram destruídos no ano
70 d.C.

A septuagésima semana de Daniel

De uma maneira geral, tanto os dispensacionalistas quanto os


preteristas parciais concordam sobre o entendimento dessa profecia,
quanto às primeiras 69 semanas (483 anos) do favor de Deus sobre
Israel. É sobre os sete anos restantes, a última semana, que eles
discordam. A visão futurista e a preterista parcial (historicista como
também é conhecida, no que tange à interpretação de Daniel 2 e
9)têm intepretações completamente diferentes daquilo que passou a
ser conhecido como a “Septuagésima Semana de Daniel”.

Conforme argumenta o autor Eberle:


Aqueles que sustentam a visão futurista acreditam que Deus ainda não deu aos Judeus
os seus últimos sete anos de favor e, portanto, concluem que a septuagésima semana
terá que acontecer no futuro. Em contrapartida, os preteristas parciais ensinam que a
septuagésima semana de Daniel já ocorreu e que, portanto, não estamos esperando
que ela se cumpra [...] (EBERLE, 2013, p.98)

3.2.1 A visão futurista da septuagésima semana

A visão dispensacionalista afirma que, antes do fim do mundo, Deus


derramará o Seu favor sobre os judeus e permitirá que eles voltem à
Terra Prometida, quando então terão sete anos de favor, durante os
quais Deus cumprirá as promessas que ainda restam, levantando a
nação de Israel com grande autoridade no mundo. E ainda durante
essa última semana os judeus reconstruirão o Templo em Jerusalém e
restaurarão o seu antigo sistema religioso de sacrifícios. É com essa
revelação e intepretação na última semana em mente que a
hermenêutica futurista insere o último versículo de Daniel 9.
Ele fará firme aliança com muitos, por uma semana; na metade da semana, fará cessar
o sacrifício e a oferta de manjares; sobre a asa das abominações virá o assolador, até
que a destruição, que está determinada, se derrame sobre ele(Daniel 9:27, ARA, grifo
nosso).

Os mestres futuristas entendem que o pronome “Ele” mencionado


nesse versículo se refere ao anticristo, e que o anticristo em algum
momento no futuro fará uma aliança com os judeus prometendo-lhes
paz e segurança. Essa aliança marca o início da septuagésima
semana de Daniel, mas, no meio desse período se sete anos, o
anticristo romperá o seu acordo, se voltará contra os judeus e porá
fim à prática religiosa que fora restaurada. Então os mestres
futuristas entendem que Deus, a partir desse momento, começará a
derramar a Sua ira sobre a Terra, destruindo grande parte dela, mas
derradeiramente destruindo o anticristo e todos que o seguirem.

Existe uma grande lacuna de mais de dois mil anos entre as 69


semanas do favor de Deus e a septuagésima semana. Esse intervalo
é explicado pelos dispensacionalistas como sendo a era da igreja e
que Deus está com sua atenção voltada para os gentios e tratando
com eles, mas em algum momento no futuro Ele voltará Sua atenção
novamente para os judeus e cumprirá as promessas feitas a estes.

Os dispensacionalistas lamentavelmente não entendem a confirmação


da Aliança no versículo 27, e a aplicam para um futuro muito distante,
como sendo realizada por um líder maligno que mais tarde quebra a
aliança política com Israel; como exemplo, segue a citação de John F.
Walvoord (um mestre dispensacionalista):
“[...] isso se refere ao líder mundial, que virá no começo da última semana (sete anos),
que conseguirá obter o controle sobre 10 países no Oriente Médio. Ele fará uma aliança
com Israel por um período de sete anos.Como Daniel 9:27 indica, no meio desse
período de sete anos, ele quebrará essa aliança e terminará o sacrifício que será feito
em um templo reconstruído e se tornar um perseguidor ao invés de protetor,
preenchendo a profecia do tempo de afl ição de Israel (Jeremias 30:5-7).”(GENTRY,
2014, p.30)

Gentry cita também Pentecost:


“Essa aliança será feita com muitos, ou seja, com o povo de Daniel, a nação de Israel.Ó
príncipe que virá´ (Daniel 9:26) será a pessoa que fará essa aliança, porque essa
pessoa é quem antecede a palavra “ele” no verso 27. Como um líder que se levantará
no futuro, será o cabeça do quarto império (o pequeno chifre da quarta besta, Daniel 9:7-
8).”(GENTRY, 2014, p.30)

A seguir é demonstrada, em uma linha de tempo simplifi cada, como


os futuristas interpretam as 70 semanas de Daniel e, principalmente,
a septuagésima semana:
Figura 06 | Linha do Tempo de Daniel 9 (Visão Futurista)

3.2.2 A visão preterista parcial da septuagésima semana

A visão preterista parcial tem um entendimento muito diferente da


septuagésima semana de Daniel; na verdade, há uma diferença
apenas, e esta é crucial: não há intervalo de tempo entre as 69a e
70a semanas. Os mestres preteristas ou historicistas explicarão que
a passagem de Daniel 9 não tem uma lacuna declarada ou
subentendida. Segundo Eberle (2013, p. 100), “a leitura natural de
Daniel, Capítulo 9, nos leva a crer que a septuagésima semana se
segue imediatamente após a sexagésima nona semana”.

Esse entendimento também parece ter sido o da maioria da Igreja


Histórica, conforme citação da Epístola de Agostinho:
Pois não suponhamos que a comutação das semanas de Daniel tenha sofrido
interferência [...] ou que não estivessem elas completas, mas tivessem de ser
completadas posteriormente no fim de todas as coisas, pois Lucas testificou muito
claramente que a profecia de Daniel se cumpriu no momento da derrocada de
Jerusalém ( Epístola de Agostinho, 199:31, citada em Golden Chain e Tomás de Aquino,
1956).

Para o escritor Jonathan Welton, Daniel, Capítulo 9, prediz as datas


exatas da chegada do Messias e de sua morte, do final da Velha
aliança e da confirmação da Nova Aliança. Prediz também sobre a
Destruição de Jerusalém. Ele argumenta que a destruição de
Jerusalém é parte da profecia Messiânica. A vinda de Jesus imergiu
Jerusalém em um batismo de fogo e Jesus abalou o velho sistema,
deixando apenas o inabalável Reino. Ainda argumenta que, para a
Igreja Primitiva, os “últimos dias” significavam os tempos entre 30 e
70 d.C.60

Eberle traz uma interpretação concisa da profecia de Daniel 9, que


representa o pensamento preterista parcial em sua grande maioria,
quer seja ele da teologia reformada e pós-milenaristas ou ainda de
mestres evangélicos com uma visão pré-milenarista. Ele argumenta
que, se os últimos sete anos do favor de Deus para com Israel
tiveram início imediatamente (sem lacuna entre as semanas), esse
tempo começou em 27 d.C., o ano em que Jesus foi batizado nas
águas e iniciou Seu ministério publicamente. Se então o ano 27 d.C. é
o início da septuagésima semana de Daniel, será necessário explicar
como foram cumpridas as palavras de Gabriel quando ele disse: “Ele
[...] na metade da semana, fará cessar o sacrifício e a oferta de
manjares”. Como já foi exposto anteriormente, o pronome “ELE”
mencionado nesse versículo é Jesus Cristo e não o anticristo. Nos
dois versículos anteriores (Daniel 9:25,26), o Messias era o tema
principal, portanto, é natural concluir que o “ELE” referido nesse
versículo tem com referente o Messias, Jesus Cristo. Para se
entender o cumprimento disso, tem que ser observado que o
ministério de Jesus teve três anos de meio de duração:
Ora, diz-se que o período integral de ensinamentos e operação de milagres do nosso
Salvador foi de três anos e meio, o que corresponde a meia semana. O evangelista
João, no seu evangelho, deixa isso claro aos olhos atentos (EUSÉBIO, A prova do
Evangelho, 1920, VIII: I apud EBERLE, 2013, p. 101).

No final desses três anos e meio de ministério, Jesus foi crucificado,


deu a sua vida numa cruz. Nessa páscoa, Jesus tomou a última ceia
com os Seus discípulos e, conforme registram as escrituras, Ele
tomou o pão e disse: “Isto é o meu corpo” e em seguida Ele tomou o
cálice e disse: “Este é o cálice da nova aliança no Meu sangue”(1
Coríntios 11:24,25). Depois de compartilhar essa última refeição,
como se sabe, Jesus cumpriu suas palavras, morrendo na cruz. É
nesse evento que Ele pôs fim ao sacrifício e às ofertas de manjares
(Daniel 9:27). Isso está explicado em Hebreus, Capítulos 8 e 9, nos
quais é descrito que Jesus tornou obsoleto o sistema religioso
judaico. Uma nova aliança havia sido estabelecida e o antigo sistema
havia sido abolido. A partir do sacrifício derradeiro de Jesus, não
havia necessidade de outros sacrifícios. A escatologia preterista
parcial então acredita que Jesus pôs um fim aos sacrifícios há
aproximadamente dois mil anos.

Isso explica os primeiros três anos e meio da última semana de


Daniel, mas ainda há um segundo período, de 3,5 anos, a parte final
na qual os judeus deveriam experimentar o favor de Deus e
cumprimento das suas promessas do período de sete anos. O
Messias foi enviado na metade desse período, mas e quanto ao
restante, os 3,5 anos depois da morte de Jesus?

O argumento preterista é que chegaremos a um outro evento


histórico, três anos e meio após a morte do Senhor. Embora isso não
possa ser provado, muitos acreditam que a morte do primeiro mártir
Estevão (apedrejado até morrer)(Atos 7:59-60) ocorreu exatamente
3,5 anos depois da crucificação de Jesus. Isto aconteceu depois de
Estevão fazer uma declaração clara de quem era Jesus e os líderes
religiosos terem rejeitado o Messias. Conforme argumenta Eberle
(2013, p. 102), “esse evento foi especialmente significativo, porque o
sumo sacerdote estava entre aqueles que rejeitaram o nosso
Senhor” (conforme Atos 7:1).

Segue abaixo a transcrição de Kenneth L. Gentry sobre o


cumprimento da septuagésima semana de Daniel:
Apesar de Daniel claramente especificar o evento que serviria como término da 69a
semana, ele não especifica o fim da 70a. Aparentemente, um evento exato ao final da
70a semana não é tão importante que necessite ser conhecido. Porém, de forma
interessante, quando Estevão foi apedrejado, o primeiro mártir de que se tem
conhecimento, a proclamação da aliança começa a se voltar para os gentios. O
apóstolo aos gentios aparece na cena da morte de Estevão, quando a perseguição dos
judeus contra os cristãos estoura: “E também Saulo consentiu na morte dele. E fez-se
naquele dia uma grande perseguição contra a igreja que estava em Jerusalém; e todos
foram dispersos pelas terras da Judéia e de Samaria, exceto os apóstolos” (Atos 8:1).
Atos nos informa que a Missão de Paulo era a de levar a fé além do estreito foco nos
judeus: “este é para mim um vaso escolhido, para levar o meu nome diante dos gentios,
e dos reis e dos filhos de Israel” (Atos 9:15). A conversão de Paulo pouco depois do
apedrejamento de Estevão ocorre por volta de 34 ou 35 d.C. Essa confirmação da
Aliança ocorre “no meio da semana” (versículo 27). Eu mostrei acima que a 70a semana
da aliança começa com o batismo de Jesus. Então, depois de 3 anos e meio de
ministério ― o meio da 70ª semana ― Cristo é crucificado. A profecia diz que, pela sua
confirmação conclusiva da Aliança, o Messias “fará cessar o sacrifício e a oblação”
(Daniel 9:27). Ele faz isso ao oferecer a si mesmo como sacrifício pelo pecado: “Mas
agora na consumação dos séculos uma vez se manifestou, para aniquilar o pecado pelo
sacrifício de si mesmo” (Hebreus 9:26; 7:11-12; 18:22). Consequentemente, em sua
morte, o véu do Templo se rasga de cima a baixo (Mateus 27:51). Essa é uma
evidência miraculosa de que Deus revogou legalmente o sistema sacrificial (Mateus
23:38). Cristo é o Cordeiro de Deus (João 1:29; 1 Pedro 1:19) que abre o Santo dos
santos ao seu povo (Hebreus 4:14; 9:12, 24-26; 10:19-22) (GENTRY, 2014, p.21).

Ainda sobre o cumprimento da última semana de Daniel, outros


autores argumentam que há diversas passagens no Novo Testamento
que definem que existia um “tempo” estabelecido no qual Cristo
morreria. Por exemplo, João 7:6, 30, Mateus 26:18, 45 e João 17:1.
Essas e outras passagens bíblicas indicam com clareza que havia um
tempo estabelecido para a morte de Jesus. Ele veio para cumprir as
escrituras e existe somente uma passagem no Antigo Testamento que
profetizava a sua morte diretamente ― a profecia em Daniel 9 ―, de
que o Messias seria tirado no meio da semana, no final de seu
ministério de três anos e meio.

Quanto ao restante da meia semana, ou os três anos e meio, assim


também escreve o autor Dr. Héctor Torres:
O que dizemos então dos segundos três dias e meio da semana? Daniel 9:27 declara
que confirmaria o pacto com muitos. Depois da ressurreição de Jesus, os discípulos
seguiram pregando exclusivamente aos judeus durante três anos e meio. A razão óbvia
é que, embora eles houvessem sido enviados a pregar o evangelho a toda a criatura e
por todo mundo, sem sabê-lo estavam cumprindo o período profetizado por Daniel para
Israel(TORRES, 2012, p.113).

Tendo isso em mente, podem ser entendidas as seguintes passagens


bíblicas em seu contexto profético de cumprimento da última semana
de Daniel:
“Porque não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para salvação de
todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego.” (Romanos 1:16, ARA, grifo
nosso).
“Vós [Israel] sois os filhos dos profetas e do pacto que Deus fez com vossos pais, [...], e a
vós primeiramente vo-lo enviou para que vos abençoasse, desviando-vos, a cada um,
das vossas maldades.” (Atos 3:25,26 ARA, grifo e ênfases nossa)
“Então Paulo e Barnabé, falando ousadamente, disseram: Era mister que a vós se
pregasse em primeiro lugar a palavra de Deus; mas, visto que a rejeitais, e não vos
julgais dignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os gentios.” (Atos 13:46, ARA,
grifo nosso)

Torres conclui sua argumentação dizendo: “no sentido real da


palavra, o ministério dos discípulos foi uma continuação do
ministério de Cristo. Isso tem se entendido até o dia de hoje”61.

É a partir desse entendimento que os preteristas parciais interpretam


a septuagésima semana de Daniel como já tendo se cumprido.
Iniciando-se no dia em que Jesus se revelou como Messias, no ano
27 d.C., os judeus tiveram sete anos de favor: três anos e meio
durante os quais Jesus andou entre eles, e depois mais três anos e
meio durante os quais os discípulos pregaram as boas novas para os
Judeus. Os Judeus receberam o maior favor de Deus que já foi
oferecido à humanidade, eles foram os primeiros a terem acesso ao
Messias, o salvador do mundo, e também foram os primeiros a ouvir
as boas novas. Sabe-se que na realidade eles foram escolhidos por
Deus para serem o povo para o qual o Messias veio ao mundo e
foram os mais privilegiados entre todos os povos porque Deus
ofereceu salvação a eles em primeiro lugar.

Figura 07 | Linha do Tempo de Daniel 9 (Visão Preterista Parcial)


Quanto se passa a crer na visão preterista parcial aplicada aos
capítulos 2 e 9 do livro de Daniel, então terá que se adotar muitas
ideias que podem ser novas para uma boa parte dos cristãos. Mas
existem duas ideias que representam pontos chaves principais:

1) Em primeiro lugar é preciso entender que o Reino de Deus pode


ser experimentado pelos cristãos, agora. O Reino está crescendo na
Terra e virá sobre ela em pleno poder na Segunda Vinda de Jesus;

2) Em segundo lugar, é necessário entender que não haverá um


período de 7 anos futuros de favor para os judeus, muito embora
ainda tenham a promessa de um despertamento espiritual futuro (os
preteristas defendem o conceito de Deus fazendo um “novo
homem”62): judeus e gentios adorando e servindo a Deus juntos,
conforme Efésios 2:13-22, entretanto, as setenta semanas de Daniel
já passaram.

3.3 AS PROFECIAS SOBRE O ANTICRISTO


A ideia de que a sociedade está caminhando em direção a uma
completa corrupção e um possível líder mundial, um governante
maligno, é muito comum no meio evangélico, e muitos ditadores
tentaram até fazer disso uma realidade. Mas isso leva à pergunta: o
que a bíblia diz sobre o “anticristo”?

A ideia do anticristo, como é comumente ensinada, vem


primariamente de uma compilação de quatro passagens das
Escrituras. Então, neste tópico, serão examinadas essas quatro
passagens, que à luz da interpretação da escatologia apostólica,
chega à conclusão de que nenhum futuro tirano foi profetizado na
bíblia.

A palavra “anticristo” é mencionada nas seguintes passagens do Novo


Testamento: 1 João 2:18, 1 João 2:22, 1 João 4:1-3 e 2 João 1:7.

Isso é interessante, pois muitos cristãos que foram ensinados de


acordo com a visão futurista pensam que o Livro de Apocalipse é
sobre o anticristo vindouro e sua atividade no mundo durante os
últimos dias. Na verdade, a palavra “anticristo” não é mencionada
nenhuma vez no Livro de Apocalipse. Parte dessa crença está ligada
ao fato de que a interpretação futurista dispensacionalista iguala o
anticristo à besta mencionada em Apocalipse 13:1-4.

A interpretação preterista parcial entende que a besta é associada ao


Império Romano e não vê base justificável para comparar com o
anticristo, que é mencionado nas passagens das cartas de João.

Assim escreve Welton, resumindo esse assunto:


Apocalipse cap. 13 fala da Besta, que durante a maior parte da história da Igreja foi
ensinada como sendo o Império Romano do primeiro século. Apocalipse cap. 17 fala de
outra besta, que também durante a maior parte da história da Igreja foi tida como sendo
o Imperador Nero. Concordo que essas são duas excelentes explicações(WELTON,
2012, p.123).

Os futuristas também gostam de associar o anticristo à figura


mencionada em Daniel 9:27, que pôs fim ao sacrifício e às ofertas de
manjares. Mas, como já foi discutido no capítulo 3 [3.2.1], vimos que
o referente não se trata de nenhum anticristo. Ainda, os futuristas
gostam de ver o anticristo em Mateus 24:15, passagem na qual Jesus
se referiu à “abominação da desolação”. Como já foi analisado
exaustivamente no capítulo 2 [2.1.6], sabe-se que essa referência é
entendida com maior precisão como sendo os exércitos romanos que
cercaram Jerusalém (Lucas 21:20 diz isso exatamente).

Ainda existe outra passagem bíblica que a interpretação futurista


costuma utilizar para ensinar a respeito do anticristo. Ela está
posicionada em 2 Tessalonicenses 2:3-10, na qual Paulo fala sobre o
homem da iniquidade (também chamado homem do pecado ou filho
da perdição). Essa passagem também não tem referência a um
anticristo futuro. Existem fartos argumentos preteristas sobre a
identificação desse “personagem”. Como não é nosso objeto aqui
detalhar esse assunto, apenas faremos uma breve referência à
síntese da interpretação preterista parcial.

A identidade do homem da iniquidade pode ter três (3) respostas


diferentes consideradas aceitáveis com significativa credibilidade:

1) Imperador Nero – cumprimento realizado;

2) João Levi de Gischala (líder entre os zelotes)– cumprimento


realizado; 3) O homem carnal (não uma pessoa, mas a
humanidade) – cumprimento durante o período do milênio (dentro da
visão pós-milenista).

3.3.1 João e o Anticristo

Para que se possa entender o termo “anticristo”, devemos primeiro


entender o contexto das cartas de João. O principal ministério do
apóstolo João foi desenvolvido na Ásia Menor, que era o centro do
Gnosticismo, uma espécie de versão desviada do Cristianismo. Eles
ensinavam que o que era espiritual era bom e o que era
físico/emocional era ruim, portanto Jesus não poderia ter vindo à
Terra em um corpo físico, mas sim como um ser etéreo, espiritual.
Esse ensino é completamente herético, porque nega a verdade de
Jesus ter derramado seu sangue humano para a remissão dos
pecados.

Sobre a influência do gnosticismo no primeiro século, Eberle escreve:


O Gnosticismo do primeiro século era muito forte. Um dos principais
líderes dessa seita era um homem chamado Cerinto. Era um judeu
que vivia na Ásia Menor e que afirmava que um espírito celestial
chamado “o Cristo” viera sobre Jesus no Seu Batismo e o deixara na
crucificação. Jesus tinha trazido ensinamentos secretos que
permitiriam que as pessoas vencessem a escravidão do mundo
físico, mas os costumes judaicos também tinham que ser
observados. Aqueles que se provassem fiéis a esses ensinamentos
e observâncias viveriam literalmente durante mil anos de prazeres
sensuais. Esses ensinamentos de Cerinto floresceram por toda a
Ásia menor (EBERLE, 2013, p.216).

Esse era o ambiente no qual o apóstolo João ensinava nas Igrejas. A


História conta que até o ano 150 d.C., um terço de todos os cristãos
estava sob a influência do Gnosticismo. Era um ensino falso
devastador e também foi uma grande preocupação para os pais da
Igreja. João estava na linha de frente dessa batalha na década de 60
d.C., e isso teria influenciado inclusive, além das cartas, o que parece
mais obvio, a escrita do próprio Evangelho. A ênfase da deidade de
Jesus e sua encarnação são, sem dúvida alguma, uma frontal
refutação ao Gnosticismo vigente na época. O apóstolo João
confronta clara e vigorosamente as teorias do Gnosticismo em suas
duas cartas (1 João 1:1,2).

Esse é o pano de fundo histórico para que se possa entender os


textos sobre o anticristo em 1 João e 2 João:
“Amados, não creiais a todo espírito, mas provai se os espíritos vêm de Deus; porque
muitos falsos profetas têm saído pelo mundo. Nisto conheceis o Espírito de Deus: todo
espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não
confessa a Jesus não é de Deus; mas é o espírito do anticristo, a respeito do qual
tendes ouvido que havia de vir; e agora já está no mundo.” (1 João 4:1-3, ARA, grifo
nosso)

O ensino fundamental dessa passagem, que o apóstolo João


ministrava aos cristãos do primeiro século que estavam sendo
influenciados pelo Gnostismo, é que os verdadeiros profetas e
mestres confessarão que “Jesus Cristo veio em carne” e os falsos
mestres e falsos profetas negarão esse fato ou então negarão que
Jesus veio de Deus. Esse é o espírito ao qual João se referiu como o
“anticristo”, pois a exegese é simples: João não fala de uma pessoa,
mas de quem não confessa que Jesus veio em carne, portanto, esse
é o espírito do anticristo.

Quando esse anticristo esteve operando, segundo as palavras de


João? O versículo é claro: “[ele] agora já está no mundo”. Ou seja,
ele estava ativo no primeiro século no tempo de João. Mais
especificamente podemos concluir que João estava atribuindo a
atividade do anticristo aos “muitos falsos profetas [que] têm saído
pelo mundo”.

Os dispensacionalistas têm dificuldade em aceitar essas referências


de tempo, devido ao pressuposto futurista de que é necessário
encaixar cada passagem sobre o fim dos tempos na suposição de
que tudo vai se cumprir no futuro. O preterismo parcial não tem
preocupação com essa limitação hermenêutica, apenas não é
obrigado a encaixar nenhuma passagem no passado ou no futuro.
Nós procuramos entender a passagem em seu contexto e ambiente
histórico. Os preterista parciais procuram indicações dentro do texto
e as relacionam com o momento histórico a qual a passagem se
aplica; em seguida é verificado se existe algum evento ou fato
histórico claro (como nesse caso do gnosticismo) que corresponda à
referência bíblica.

Adotando essa perspectiva quando se lê a passagem, observaremos


duas referências de tempo claras no texto de 1 João 4:1-3:1.

1. “Têm saído pelo mundo”;

2. “Já está no mundo”.

Não há dúvidas de que João escrevia sobre um anticristo que estava


ativo durante o período em que o apóstolo esteve vivo.
No versículo seguinte, João não dá uma definição do anticristo, porém
ele amplia o entendimento, pois há muitos anticristos, não apenas um.
Além disso, o versículo ainda diz que os anticristos já haviam
aparecido:
“Filhinhos, esta é a última hora; e, conforme ouvistes que vem o anticristo, já muitos
anticristos se têm levantado; por onde conhecemos que é a última hora.” (1 João 2:18,
ARA grifo nosso)

A passagem de 1 João 2:22, acrescenta alguma coisa a mais no


entendimento:
“Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Esse mesmo é o
anticristo, esse que nega o Pai e o Filho.” (1 João 2:22, ARA)

Essa descrição do anticristo é semelhante àquela que já foi estudada.


O anticristo é aquele que nega que Jesus é o Cristo, negando
também o Pai e o Filho.

O quarto e último versículo que fala do anticristo é:


“Porque já muitos enganadores saíram pelo mundo, os quais não confessam que
Jesus Cristo veio em carne. Tal é o enganador e o anticristo.”(2 João 1:7, ARA, grifo
nosso)

Observando essa descrição do anticristo, pode-se perceber como o


apóstolo João está lutando claramente contra o ensino herético do
gnosticismo do primeiro século. Ou seja, João estava falando sobre
um enganador (ou um espírito enganador) que agia na Igreja naquela
época. Isso é tudo, e definitivamente não há outras passagens que
usem a palavra ou façam referência ao “anticristo”.

Para os cristãos que fazem uma hermenêutica considerando o


contexto histórico dos escritos de João, fica claro que ele está
falando dos mestres (falsos) gnósticos, contra os quais estivera
confrontando durante o seu ministério. Essa constatação pode ser
muito perturbadora para cristãos que foram ensinados na visão
futurista (dispensacionalista), e pode ser um desafio desapegar-se
de um ensino tradicional, que agora é posto em cheque63.
Outros mestres explicam de forma pouco diferente os versículos
estudados. Jonathan Welton destaca os seguintes pontos importantes
com relação às passagens sobre o anticristo:
O anticristo não é e nunca foi uma pessoa; é um sistema espiritual de falso ensino,
especialmente o Gnosticismo. Jesus é o perfeito cumprimento de Daniel 9, não há
anticristo nessa passagem. O homem do pecado foi um indivíduo do primeiro século; o
que o segurava foi outro ― especialmente João Levi e o Sumo Sacerdote Ananus. A
besta do apocalipse é o império Romano, especialmente sob Nero. Não há nada na
Bíblia que aponte para um futuro com um governo mundial, como foi popularizado no
último século (WELTON, 2012, p.128).

3.4 ELEMENTOS-CHAVE EM APOCALIPSE


Como o nosso objetivo neste livro não é estudar o Livro de Apocalipse
em si, nos limitaremos nesse ponto àquilo que é mais importante para
fundamentar a interpretação preterista parcial do final dos tempos
com relação ao que se definiu até aqui, como uma ESCATOLOGIA
APOSTÓLICA.

O Livro de Apocalipse tem despertado a atenção e a curiosidade dos


cristãos ao longo das eras, pois sua linguagem altamente simbólica
tem sido um enigma para muitos crentes e descrentes. Além disso, o
Livro de Apocalipse tem sido alvo de diversas distorções e
gravíssimos erros de interpretação, pois muitas pessoas, senão a
maioria, procuram nele explosões atômicas, implantes de chips
(suposta marca da besta), aviões de guerra etc., ou seja,
transformaram o Apocalipse num verdadeiro filme de “Guerra nas
Estrelas”. Mas o propósito do Livro de Apocalipse não é mostrar um
cenário futurista de ficção e fantasia conforme a imaginação de
alguns. O Apocalipse também não é um livro enigmático como os
escritos de Nostradamus, mas sim foi escrito para as sete igrejas da
Ásia no primeiro século, e sua mensagem foi transmitida de maneira
simbólica, por causa do clima de perseguição aos cristãos. Uma vez
que foi escrito para aqueles leitores do primeiro século, é de se supor
que eles tenham entendido o Livro de Apocalipse, pois as sete igrejas
da Ásia eram compostas de crentes judeus64.

Aqui está um dos grandes segredos para se entender o Apocalipse,


segundo o autor Hank Hanegraaff:
O real decodificador para o apocalipse [...] é o Antigo Testamento. Na verdade, mais de
dois terços (2/3) dos quatrocentos e quatro (404) versículos de Apocalipse aludem a
passagens do Antigo Testamento. A razão pela qual frequentemente não vemos nelas
nem pé nem cabeça, é que não aprendemos suficientemente a ler a Bíblia da forma
como ela merece. Quando nossas interpretações estão presas às sensações mais
quentes, e não à Sagrada Escritura, não somos capazes de captar nada – e geralmente
erramos o alvo (HANEGRAAFF, 2208, p. XVI).

A regra da interpretação bíblica diz que são as passagens claras das


Escrituras que devem lançar luz sobre as passagens obscuras.
Assim, aliados ao conhecimento do Antigo e Novo Testamentos, será
possível interpretar corretamente o Livro de Apocalipse. Outro fator
que ajuda a complicar ou dificultar mais ainda o entendimento sobre o
Apocalipse é o fato de que qualquer livro, quando retirado de seu
contexto original, automaticamente torna-se difícil de entender. De
todos os livros da Bíblia, nenhum foi mais removido de seu contexto
histórico do que o Livro de Apocalipse.

3.4.1 Panorama Geral de Apocalipse

O capítulo um do Livro de Apocalipse é uma introdução na qual Jesus


se revela à João na ilha de Patmos. Jesus também declarou o
propósito do Seu aparecimento, “[...] para mostrar aos seus servos
as coisas que em breve devem acontecer” (Apocalipse 1:1). Então
Jesus comissionou João para escrever as coisas que seriam
reveladas (Apocalipse 1:9). Conforme expõe Eberle, com relação ao
capítulo 1 do livro, a visão futurista e preterista parcial concordam
quanto ao seu significado, contudo, a única coisa com a qual não
concordam é sobre a expressão “em breve”: Os preteristas parciais
dizem que os acontecimentos profetizados em Apocalipse começaram
a se desenrolar durante o período do primeiro século, no entanto os
futuristas dizem que as profecias só começam a se cumprir pelo
menos, dois mil anos depois.

Os capítulos 2 e 3 são sete cartas às igrejas que existiram no


primeiro e segundo séculos. A cada igreja, Jesus tinha uma
mensagem a entregar.

Nos capítulos 4 e 5, pode-se ler que João foi levado ao céu, para ver
a sala do trono de Deus. Ali, Jesus está sentado à destra do Pai e
Ele é revelado como “Aquele que é digno”.

Nos capítulos 6 a 18, o Reino de Deus é progressivamente estendido


sobre todo o mundo, até que todos os reinos deste mundo se tornem
reinos de nosso Deus.

Dentro da expansão desse Reino, há três profecias principais sobre


juízos que teriam que se cumprir. O primeiro juízo está referenciado
em Apocalipse, Capítulos 7 a 11, que versam sobre os judeus: o reino
sendo retirado deles (Mateus 21:33-43) e a destruição de Jerusalém
e do templo. Tudo isso já foi largamente explanado neste livro (ver
capítulo 2).

Um segundo julgamento, que está descrito em Apocalipse, Capítulos


12 a 14, é sobre o Império Romano, que teria que se cumprir para a
expansão do Reino de Deus. Isso já também foi estudado neste
capítulo anteriormente. Foi visto que a profecia de Daniel 2 diz que a
Rocha viria à Terra e esmagaria todos os outros reinos (Daniel 2:31-
45). Essa Rocha, que é Cristo, veio há cerca de dois mil anos e
esmagou o Império Romano.

Em terceiro lugar é visto que o Reino de Deus deve se expandir até


que encha toda a Terra como Daniel profetizou (Daniel 2:35,44).
Figura 08 | Linha do Tempo de Daniel 9 (Visão Historicista do
Livro)

Todos os três eventos profetizados têm paralelos no Livro de


Apocalipse:

a) Com relação aos judeus;

b) Com relação ao Império Romano;

c) Com relação à toda a Terra;


O capítulo 19 de Apocalipse mostra a segunda vinda de Jesus e as
bodas do Cordeiro com a Sua Noiva. O capítulo 20 mostra o Reino de
Jesus Cristo e o Seu juízo final sobre os maus. Os capítulos 21 e 22
descrevem as recompensas que esperam aqueles que têm os nomes
inscritos no Livro da Vida. Haverá um novo céu e uma nova Terra. Em
meio a essa revelação, a Nova Jerusalém descerá à Terra, de onde
Jesus governará para sempre. Aleluia!

3.4.2 A marca da besta

O apóstolo João citou um número pelo qual a besta poderia ser


identificada: 666.
“E fez que a todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, lhes fosse
posto um sinal na mão direita, ou na fronte, para que ninguém pudesse comprar ou
vender, senão aquele que tivesse o sinal, ou o nome da besta, ou o número do seu
nome. Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento, calcule o número da besta;
porque é o número de um homem, e o seu número é seiscentos e sessenta e
seis.”(Apocalipse 13: 16-18, ARA)

Segundo esse texto, o apóstolo João diz que pessoas de todos os


seguimentos sociais deveriam ter tal marca se quisessem continuar
desfrutando da liberdade de comprar e vender. É bem provável que o
pano de fundo aqui seja o “charagma” imperial. Deissmann, em seus
“Bibles Studies”, afirma que os papiros dos primeiros séculos nos
fornecem evidências de que os documentos comerciais oficiais tinham
de ter o nome e a imagem do imperador estampados. Tal prática era
conhecida como “charagma”, que é a palavra encontrada no texto e
traduzida em nosso idioma por “marca”ou “sinal”. Há um precedente
histórico interessante registrado em Macabeus 3:29, no qual é
relatado que Ptolomeu Filadelfo compeliu alguns judeus alexandrinos a
receberem a marca do deus Dionísio, para identificá-los como sendo
seus devotos. Não era incomum que alguns religiosos se deixassem
marcar com símbolos ou nomes da divindade de sua devoção.
O argumento é que, João usa essa prática pagã como analogia do
poder exercido pelas bestas nas esferas econômica, social e,
sobretudo, religiosa. Assim como os cristãos fiéis a Cristos teriam a
“marca” de Deus em suas frontes, em contrapartida, os adoradores
da besta teriam também a sua marca. Talvez haja aqui um trocadilho
proposital. João pode estar falando, ao mesmo tempo, das sanções
econômicas do Império para com aqueles que não prestassem culto
ao imperador e daqueles que conscientemente se subordinaram ao
poder da Roma Imperial. Por exemplo, quando João fala da marca na
mão direita ou na testa que deveriam ser exibidas pelos que fossem
leais ao poder imperial, talvez tivesse em mente a prática judaica de
usar os “tephillin” ou “filactérios65”, na mão e na testa. Jesus
denunciou os escribas e fariseus, dizendo que tudo quanto faziam era
“a fim de serem vistos pelos homens”. E para chamarem mais a
atenção de todos, eles alargavam os seus filactérios e
encompridavam as franjas das suas vestes (Mateus 23:5).

Outra possível interpretação é que o “sinal” da besta, contendo a sua


imagem, era a moeda corrente naqueles dias, que trazia a efígie do
imperador. Sem ela, nada poderia ser comprado ou vendido. Um
ditado que circulava entre os rabinos dizia: “sempre que corre o
dinheiro de qualquer rei, esse rei é Senhor”. As moedas circulantes
da época, além da imagem de César, traziam a frase “César é o
Senhor”. Tal inscrição era um insulto aos cristãos do primeiro século.
Mesmo os sacerdotes reconheciam que tais moedas insultavam a
Deus e, por isso, não poderiam ser usadas na compra de animais
para o sacrifício no Templo. Daí a presença de cambistas no Templo,
para trocar as moedas romanas por moedas judaicas. Josefo conta
que o lucro obtido nesse comércio era imenso, e que essa prática era
comum. Muitos cambistas se aproveitavam da ignorância das
pessoas para ludibriá-las, cobrando-lhes mais do que o justo. Foi por
isso que Jesus expulsou-os do Templo.

Trazer na bolsa algumas moedas com a efígie do imperador não era


o mesmo que ter o sinal da besta. O problema era quando a pessoa
era marcada pela ambição material e fazia do dinheiro o grande alvo
de sua existência. Tal dilema era encarado com tamanha seriedade
pela igreja primitiva que, quando Ananias e Safira foram capazes de
mentir ao Espírito Santo para poupar parte daquilo que fora
conseguido com a venda de uma propriedade, o juízo de Deus caiu
sobre eles, e ambos expiraram diante dos apóstolos (Atos 5). Não
era a Deus que eles serviam, mas a Mamon. Eles não tinham o selo
de Deus, e sim a “marca da besta”. Somente os que tivessem o selo
de Deus em suas vidas poderiam falar como Paulo: “Mas o que para
mim era lucro, considerei-o perda por causa de Cristo” (Filipenses
3:7)66.

Quanto ao número da besta, é fato conhecido que o nome de Nero


equivale a 666 e o cálculo é feito a partir do valor das letras gregas,
“Neron Kesar”, transliteradas do hebraico, de acordo com o valor das
letras hebraicas; o que dá o total de 666.

Segundo R. H. Charles, isso se dá pelo fato de João escrever em


grego, enquanto pensa em hebraico. Achados arqueológicos
comprovam que Nero era conhecido pelo valor numérico do seu nome
(666). Quando o nome Nero César é passado para o hebraico, temos
Neron Kesar (nrwnqsr: não há vogais no hebraico). Basta, então,
fazer o cálculo de acordo com o valor numérico de cada letra.

n = 50, r = 200, w = 6, n = 50, q = 100, s = 60 e r = 200. Total =


666

Como se não bastassem as evidências, vale dizer que todos os


escritores cristãos primitivos que falaram sobre o Apocalipse,
começando por Irineu, conectavam a besta do Apocalipse com Nero
ou algum outro imperador romano. Devemos compreender que Nero
foi a porta de entrada oficial de Satanás no Império Romano, embora
acreditemos que ele já agisse ali desde a sua fundação. Porém, a
partir de Nero, Roma seria o instrumento oficial do diabo para
perseguir os santos (os filhos da mulher). Portanto, a besta do
Apocalipse é tanto Nero quanto o Império como um todo, incluindo os
imperadores que o sucederam.
Na verdade, esses ensinamentos dispensacionalistas sobre um futuro
anticristo e sua possível conexão com a besta do apocalipse e o
número 666, e a sua marca como sendo um tipo de controle, pois o
anticristo exigirá que cada pessoa receba um chip na testa ou na mão
direita, não fazem sentido, pois a palavra “anticristo” nunca é
mencionada no Livro de Apocalipse, e sim nas cartas de João (como
já foi demonstrado no item 3.3.1 deste capítulo). Segundo o Dr.
Harold Eberle, o ensinamento futurista não é equilibrado com relação
à marca da besta. Existem inúmeros escritos e tratados sobre essa
marca da besta, porém muitos poucos autores cristãos que escrevem
sobre a marca de Deus. Então deveria ser patente saber que a
marca de Deus, o selo de Deus e o nome de Deus que estão escritos
da fronte de Seu povo, são mencionados no Livro de Apocalipse
exatamente o mesmo número de vezes que a marca da besta.
Ambos, a marca da Besta e a marca de Deus, são mencionados sete
vezes em Apocalipse.

Como cristãos, “deveríamos estar mais interessados da marca de


Deus que está viva hoje e ativa em nossa vida do que na marca de
uma Besta que nem sequer sabemos que existe?”.

Eberle ainda diz que pode ser tolice argumentar que a marca da
besta é um chip ou algo literal e querer espiritualizar a marca de
Deus, pois se uma for literal a outra também será, se uma for
espiritual a outra também será. Os preteristas parciais acreditam que
ambas as marcas precisam ser entendidas em um sentido espiritual.
As pessoas que se dedicam às obras de Satanás terão a marca do
mal em seus pensamentos e nas obras de suas mãos. Os que se
entregam a Deus terão a marca de Deus em sua mente e nas obras
das suas mãos. O selo de Deus sobre o Seu povo é o Seu Espírito67.
Capítulo 4

QUESTÕES CRUCIAIS

4.1 ESCATOLOGIA APOSTÓLICA E AS


REFERÊNCIAS TEMPORAIS DO NOVO
TESTAMENTO
Segundo R. C. Sproul, talvez o mais importante estudioso da escola
preterista seja J. Stuart Russell, que antecipou muitas das teorias que
seriam apresentadas por estudiosos do século XX, e sua principal
preocupação era as referências temporais da escatologia do Novo
Testamento, particularmente com respeito ao discurso de Jesus sobre
a vinda do reino e o sermão proferido no Monte das Oliveiras. No
resumo que apresenta no final do seu livro, Russel afirma: “sem voltar
aos motivos já analisados, pode ser suficiente aqui recorrer a três
declarações distintas e decisivas de nosso Senhor em relação ao
tempo de sua vinda, cada uma delas acompanhada de uma
afirmação solene”(SPROUL, 2016, grifo do autor).
“Por que em verdade vos digo que não acabareis de percorrer as cidades de Israel, até
que venha o Filho do Homem.” (Mateus 10:23).
“Em verdade vos digo que alguns há, dos que aqui se encontram, que de maneira
nenhuma passarão pela morte até que vejam vir o Filho do Homem no seu reino.” (Mateus
16:28).
“Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que tudo isto aconteça.”
(Mateus 24:24).

O claro significado gramatical dessas declarações foi amplamente


discutido no livro de Russell. Nenhum tipo de força pode extrair delas
outro significado que não fosse óbvio e inequívoco, a saber, que uma
segunda vinda do Senhor aconteceria dentro dos limites da atual
geração (no segundo capítulo deste livro foram dados o enfoque e a
análise dessas profecias). A tese central de Russell e também de
todos os preteristas é que as referências temporais do Novo
Testamento com respeito à parúsia apontam para o cumprimento
dentro da época em que viveram pelo menos alguns dos discípulos de
Jesus. Outros sustentam que houve um primeiro cumprimento no ano
70 d.C., com um segundo e final cumprimento dentro de um futuro
ainda desconhecido. Não importa o que mais se possa dizer do
preterismo, não se pode negar duas coisas:
(1) o preterismo concentrou sua atenção nas referências temporais da escatologia do
Novo Testamento;
(2) salientou a importância da destruição de Jerusalém para a história da
redenção(SPROUL, 2016, grifo nosso).

As teorias escatológicas contemporâneas, especialmente aquelas que


se encontram dentro do dispensacionalismo, estão fortemente
interessadas no significado dos eventos que envolvem o Israel
moderno e a cidade de Jerusalém.

Karl Barth salientou certa vez que o cristão moderno precisa ler a
Bíblia e o jornal ao mesmo tempo. A dramática volta dos judeus à
Palestina, a criação do estado de Israel em 1948 e a retomada de
Jerusalém em 1967 provocaram um entusiástico interesse pela
escatologia. A questão persiste: qual é o significado do Israel
moderno e de Jerusalém para a profecia bíblica? O preterismo
parcial esclarece essa questão de forma muito equilibrada.

Qualquer que seja a visão que possamos ter da moderna Jerusalém,


é essencial que seja examinado o significado de sua destruição e do
templo pelos romanos no primeiro século. A reconstrução de
Jerusalém ou do templo só tem importância à luz de sua primeira
destruição. Qualquer que seja o ponto de vista da escatologia que for
adotado, deve-se com certeza considerar com seriedade a
importância da destruição de Jerusalém e do templo, no ano 70 d.C.,
para a história da redenção.

As profecias sobre a vinda do reino de Deus e da parúsia de Cristo


estão biblicamente ligadas às profecias do dia do Senhor. De certo
modo, esse dia é considerado como o dia do julgamento divino e do
derramamento da ira de Deus. Esses conceitos estão interligados e
devem ser considerados conjuntamente.

A partir do iluminismo, a igreja em geral passa a sofrer com “crises”


relacionadas à confiabilidade das Escrituras. Existe no pós-
modernismo um “espírito de ceticismo”, que também é resultado
direto das críticas levantadas contra a Bíblia. No início do século XX,
o teólogo holandês Abraham Kuyper lamentou que a crítica da Bíblia
tenha se degenerado em um ato de vandalismo contra a Bíblia.
Assim, a tarefa em nosso tempo é responder aos críticos que
desprezam as Escrituras e mostram um Jesus Cristo baseado em
suas próprias concepções.

O único cristo é o Cristo da Bíblia. Todos os outros cristos


revisionistas são apenas disfarces do anticristo. Em razão da crise na
confiabilidade da veracidade e autoridade das Escrituras e das
subsequentes crises envolvendo o verdadeiro Jesus histórico, a
escatologia precisa lidar com as divergências em relação às
referências temporais no Novo Testamento.

4.2 O ARREBATAMENTO
A doutrina da Segunda Vinda de Jesus e o arrebatamento não são
ensinamentos estranhos aos cristãos futuristas ou preteristas
parciais. Ambos acreditam que Jesus voltará em poder e glória,
aparecerá no céu e julgará o mundo. Mas, como será visto neste
ponto, a divergência está relacionada ao COMO e ao QUANDO
esses eventos acontecem.

4.2.1 A visão futurista do arrebatamento

Em termos gerais, a visão futurista entende o arrebatamento


conforme se descreverá a seguir. Muito em breve Jesus voltará e
aparecerá secretamente no céu, de modo que somente os crentes
poderão vê-lo. Nesse evento, todos os crentes serão “arrebatados”
para encontrar o Senhor nos ares. Será o dia do “Deixados para
Trás” (ver capítulo 1, item 1.2.2). Jesus levará todos os crentes para
o céu por sete anos e, durante esse período no céu, eles desfrutarão
do banquete das bodas do Cordeiro, que é a festa de casamento
entre Jesus e a Sua Noiva. Durante esses sete anos, o anticristo
governará a Terra e a maioria da humanidade o seguirá. Nesse
período ainda haverá uma grande tribulação enquanto os eventos de
Apocalipse 4 a 18 ocorrem e Deus derrama a Sua cólera, destruindo
grande parte da Terra, inclusive um terço das pessoas.

Segundo Keith Sharp, há seis partes principais na doutrina pré-


milenarista dispensacionalista do arrebatamento:
1. A “segunda vinda” de Cristo é diferente de, e vem após, o “arrebatamento”: [...] nós
acreditamos que a Bíblia distingue entre o arrebatamento e a segunda vinda de Cristo e
[...] não acontecerão simultaneamente. (Lindsey, 131);
2. O arrebatamento será secreto: “[...] no arrebatamento, apenas os cristãos O verão — é
um mistério, um segredo. Quando os crentes vivos são levados, o mundo será
mistificado.” (Ibid. 131);
3. Apenas os justos serão ressuscitados na época do arrebatamento: “os injustos serão
ressuscitados no final ‘do milênio’” (Ibid. 130-31);
4. A igreja estará no céu por um período de sete anos (durante a Grande Tribulação): “[...]
sua presença durante esse período dos últimos sete anos na história depende
completamente de você” (Ibid. 127);
5. Os acontecimentos na Terra continuarão: “Esses crentes serão removidos da Terra
antes da Grande Tribulação — antes daquele período da mais terrível pestilência,
matança e fome que o mundo jamais conheceu” (lbid);
6. Muitos serão levados a Cristo após tudo isso: “Nós precisamos entender que durante a
Tribulação de sete anos haverá pessoas que se tornarão crentes naquela época” (Ibid.
132) (LINDSEY68, 1973 apudSHARP, 2014, p.43).

Para Eberle, existe uma confusão consequente da interpretação


dispensacionalista, pois esses mestres afirmam que o arrebatamento
é a Segunda Vinda de Jesus, porém é apenas a “parte 1” da Segunda
Vinda, uma vez que sete anos depois, no fim do banquete celestial e
da tribulação na Terra, a “parte 2” da Segunda Vinda acontecerá. Os
mestres futuristas dizem que Jesus virá mais uma vez ainda, mas
agora trazendo todos os crentes consigo. Essa segunda parte não
será em segredo, mas todo o olho o verá. Ele virá para julgar, e o
Seu exército vencerá os inimigos na batalha do Armagedom.

Existem entre os dispensacionalistas pequenas ou menos importantes


diferenças de interpretação, mas essa que foi descrita acima é a
mais popular ― arrebatamento pré-tribulação. Já estudamos quanto a
origem e surgimento dessa doutrina (capítulo 1, item 1.2) e como se
tornou essa a visão moderna e popular no meio evangélico em
geral69.

4.2.2 A visão preterista parcial do arrebatamento

A visão escatológica que postulamos entende que Jesus continuará a


edificar a Sua igreja (Mateus 16:18) e, mesmo que os cristãos
enfrentem muitas provações e perseguições, eles terão mais
sucessos do que fracassos. Essa edificação progressiva do Reino
(conforme visto no capítulo 3, item 3.1.2) continuará até o “último
dia”, que somente Deus Pai sabe quando será e será um dia que,
sem qualquer aviso, Jesus Cristo voltará nas nuvens e todo olho o
verá. Todos os crentes (vivos e mortos) serão tomados para
encontrá-lo quando Ele voltar.

Nesse arrebatamento, os cristãos não serão levados para o céu por


sete anos. Segundo o preterismo parcial, os crentes serão tomados,
recolhidos, “assim como uma galinha recolhe os seus pintinhos
debaixo de suas asas”; Jesus protegerá o Seu povo enquanto
expurga a Terra do mal, e depois trará os crentes à Terra com Ele, ou
seja, os crentes não serão levados para o céu, mas serão recolhidos
para encontrar com o Senhor nos ares e depois continuarão com Ele
quando voltar à Terra para governar e reinar.

Segundo o argumento dos mestres preteristas parciais, a sua visão


do arrebatamento é mais bíblica que a visão futurista. Existem
diversas passagens bíblicas que falam ou pressupõem a volta de
Cristo, mas existem três passagens principais e uma quarta
passagem, controversa. As duas primeiras passagens falam sobre os
cristãos recebendo corpos glorificados e não tratam do aspecto do
arrebatamento. Como tanto futuristas quanto os preteristas parciais
defendem que os crentes serão instantaneamente transformados na
ocasião do arrebatamento, logo estes versículos podem ser utilizados
para sustentar as duas visões:
“Eis aqui vos digo um mistério: Nem todos dormiremos, mas todos seremos
transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta;
porque a trombeta soará, e os mortos serão ressuscitados incorruptíveis, e nós
seremos transformados.” (1 Coríntios 15:51,52, ARA)
“Mas a nossa pátria está nos céus, donde também aguardamos um Salvador, o Senhor
Jesus Cristo, que transformará o corpo da nossa humilhação, para ser conforme ao
corpo da sua glória, segundo o seu eficaz poder de até sujeitar a si todas as coisas.”
(Filipenses 3:20-21, ARA)

A terceira passagem, que é mais utilizada para ensinar sobre o


arrebatamento é 1 Tessalonicenses 4:13-18, com ênfase nos
versículos 16 e 17:
“Porque o Senhor mesmo descerá do céu com grande brado, à voz do arcanjo, ao som
da trombeta de Deus, e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós,
os que ficarmos vivos seremos arrebatados juntamente com eles, nas nuvens, ao
encontro do Senhor nos ares, e assim estaremos para sempre com o
Senhor.”(1Tessalonicensess 4:16-17, ARA)

Essa é uma passagem-chave, a única que fala que os que ficaram


vivos serão arrebatados para se encontrar com o Senhor nos ares.
Porém, o texto não diz que os crentes serão arrebatados ao céu por
sete anos, mas sim que serão arrebatados para se “encontrarem”
com o Senhor nos ares. A expressão para “encontrarem” é:
απαντησις (apantesis, em grego), que é utilizada também quando
Paulo estava viajando para Roma (Atos 28:15-16): “[...] tendo ali os
irmãos ouvido notícias nossas, vieram ao nosso encontro [...]”. Os
discípulos se encontraram com Paulo, mas ele não mudou de direção,
continuou indo para Roma, com os discípulos os acompanhando. A
mesma palavra “encontrar” é usada duas vezes na parábola das dez
virgens (Mateus 25:1-13), e nessa parábola podemos ler que cinco
virgens sábias saíram para encontrar o noivo. Elas não foram com ele
para outro lugar, as virgens sábias encontraram-se com ele e lhe
deram boas-vindas.

Segundo o preterismo parcial, é nesse mesmo sentido que os crentes


encontrarão o Senhor nos ares, não para voarem e irem embora com
Ele para o céu, mas para lhe darem boas-vindas e depois
acompanharem-no de volta à Terra; em resumo, Jesus está realmente
voltando à Terra.

Jonathan Welton escreve o seguinte sobre a passagem de 1


Tessalonicenses 4:13-18:
Antes da invenção do arrebatamento, nos anos 1830, todos os comentaristas
interpretavam 1 Tessalonicenses 4:13 a 18 como se referindo à ressurreição. Por
exemplo, o comentário de Matthew Henry sobre essa passagem, escrito em 1721, diz:
“Eles serão ressuscitados e despertos de seus sonos, porque Deus os levará consigo,
v. 14. Eles então estão com Deus e estão melhor onde estão agora do que onde
estavam antes; e quando Deus vier, vai trazê-los consigo. A doutrina da ressurreição e
segunda vinda de Cristo é um grande antídoto contra o medo da morte e um pesar
excessivo pelos amigos cristãos que morrem [...]”(WELTON, 2012, p.29).
Existe ainda uma passagem controversa com relação ao
arrebatamento que os mestres futuristas, segundo Eberle e Torres,
utilizam de maneira totalmente incorreta para interpretar a “ficção-
científica” e o “romancismo apocalíptico” deles. Trata-se da
passagem “Deixados para Trás” encontrada em Mateus 24.
“Como foi nos dias de Noé, assim também será na vinda do Filho do homem [...] Dois
homens estarão no campo: um será levado e o outro deixado. Duas mulheres estarão
trabalhando num moinho: uma será levada e a outra deixada. Portanto, vigiem, porque
vocês não sabem em que dia virá o seu Senhor.”(Mateus 24: 37, 40-42, NVI)

Lembrando que, quando foi discutido o capítulo 24 de Mateus na


hermenêutica preterista parcial, foi explicado que essa passagem não
está falando de um arrebatamento secreto dos cristãos, mas da
segunda vinda de Jesus, quando Ele eliminará os incrédulos da
Terra70.

Então a correta interpretação desse versículo, segundo os mestres


preteristas parciais, toma um sentido inverso da interpretação
futurista, dos que são “arrebatados”. Jesus afirma que assim como foi
nos dias de Noé, assim também será na vinda dEle, ou seja, nos dias
de Noé o juízo veio e exterminou os ímpios (injustos), e Noé e sua
família foram “deixados para trás”, para herdar a Terra. Se for
aplicado esse princípio e considerando que Jesus voltará em sua
segunda vinda para julgar a Terra, então pode-se deduzir que os
cristãos serão protegidos nos braços de Jesus, como Noé e os seus
foram protegidos na arca.

Os ímpios serão eliminados, enquanto os justos serão “deixados para


trás”, para governar e reinar com Jesus na Terra. Foi exatamente isso
que Jesus ensinou aos Seus discípulos em Mateus 13, na parábola
do joio e do trigo:
“Assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim também acontecerá no fim
desta era. O Filho do homem enviará os seus anjos, e eles tirarão do seu Reino tudo o
que faz tropeçar e todos os que praticam o mal. Eles os lançarão na fornalha ardente,
onde haverá choro e ranger de dentes. Então os justos brilharão como o sol no Reino do
seu Pai. Aquele que tem ouvidos, ouça.” (Mateus 13:40-43, grifo nosso)
Jesus é muito claro. São os ímpios que serão removidos, recolhidos,
tomados, e os justos são deixados para trás, para brilharem como o
sol.

Ao contrário do que os dispensacionalistas ensinam, os preteristas


apostólicos querem ser “deixados para trás”, para governar e reinar
com Jesus em Seu Reino plenamente estabelecido na Terra, e isso
pode ser um milênio literal ou não; sobre esse assunto faremos uma
análise no próximo tópico.

4.3 O MILÊNIO
Apesar de a redenção e a esperança serem temas interligados ao
longo da Bíblia toda, os cristãos têm compreendido esses temas de
maneiras diferentes. Mesmo estando a esperança de redenção
enraizada na revelação divina encontrada na Escritura, os teólogos
acabaram se dividindo em quatro pontos de vista diferentes em
relação a esses temas gloriosos.

Essas abordagens passaram a ser conhecidas como interpretações


“milenaristas”: pré-milenarismo histórico, pós-milenarismo,
amilenarismo e dispensacionalismo.O conceito do “milênio” é
derivado de Apocalipse 20:1-6, que menciona o reino de Cristo de
“mil anos” (latim: mille + annum)71.

Na opinião de Gentry e outros teólogos, as quatro escolas


milenaristas são sistemas teológicos cristãos comprometidos com a
expectativa da esperança final de redenção. Portanto, todas as
visões estão unidas na expressão da mesma esperança final: Deus,
por fim, dominará o pecado e Satanás e estabelecerá a ordem eterna
da perfeição gloriosa. Entretanto, elas diferem sobre como entender
o impacto da esperança de redenção na história antes do novo céu e
da nova Terra finais. A despeito do acordo acerca da vitória divina
final na eternidade, três dos sistemas são historicamente pessimistas,
e um é otimista.

Os três sistemas pessimistas são o pré-milenarismo histórico, o


amilenarismo e o dispensacionalismo. O sistema otimista é o pós-
milenarismo.

Segundo Eberle e outros autores, é possível ainda um segundo


sistema otimista com relação ao Reino de Deus e à esperança final.
Esse sistema acontece quando um preterista parcial adota o pré-
milenismo histórico, resultando disso uma visão muito interessante,
pois também se torna uma visão não pessimista, ou seja, de uma
ESCATOLOGIA APOSTÓLICA, vitoriosa!

Ambas as interpretações do milênio, o pós-milenarismo e a


combinação do sistema Pré-Milenista Histórico Preterista Parcial são
visões vitoriosas72.

Em resumo, a interpretaçãopreterista parcial acredita que o Reino de


Deus foi estabelecido na Primeira Vinda de Jesus e que está
crescendo na Terra como as sementes no solo ou como o fermento
na massa de farinha. É a Rocha de Daniel que está crescendo e que
continuará a crescer até que encha toda a Terra (Daniel 2). O Reino
está aqui e é progressivo do sentido de avançar continuamente na
Terra.

Essa diferença entre o pré-milenismo dispensacional futurista e o pré-


milenismo histórico dos preteristas é crucial, pois os preteristas
creem que o Reino de Deus tem estado em ação crescendo na Terra
e disponível desde os últimos dois mil anos.

É importante ressaltar que os preteristas parciais que adotam o pré-


milenismo histórico também fazem uma distinção entre o Reino agora
e o Reino durante um reinado futuro, que pode ser de 1000 anos ou
qualquer tempo (não literal, pois isso não é fundamental para o
preterismo parcial). Atualmente Deus, o Pai, está governando sobre o
Reino. Durante o futuro milênio, Jesus estará governando sobre ele.

Figura 09 | Linha do Tempo (Visão Pré-Milenista Histórica


Preterista Parcial - Escatologia Apostólica)
Esse entendimento com relação ao milênio se torna claro quando se
lê a explicação do apóstolo Pedro no dia de Pentecostes, com
respeito a como Jesus subiu ao céu, e depois o Pai falou ao Seu
Filho:
“Pois Davi não subiu ao céu, mas ele mesmo declarou: ‘O Senhor disse ao meu
Senhor: Senta-te à minha direita até que eu ponha os teus inimigos como estrado para
os teus pés.” (Atos 2:34-35, NVI)

Jesus está sentado à destra de Deus Pai, desde Sua ascensão, mas
é o Pai quem tem estado ativamente subjugando inimigos e
estabelecendo (conjuntamente com o Espírito Santo e a Igreja) o
Reino de Deus. O apóstolo Paulo disse a mesma verdade em 1
Coríntios 15:25:
“Pois é necessário que ele [Jesus] reine até que [Deus Pai] haja posto todos os inimigos
debaixo de seus pés.” (1 Coríntios 15:25, ARA)

Nos versículos seguintes, Paulo confirma que é Deus Pai quem está
fazendo todas as coisas se curvarem a Jesus:
“Pois se lê: Todas as coisas sujeitou debaixo de seus pés. Mas, quando diz: Todas as
coisas lhe estão sujeitas, claro está que se excetua aquele que lhe sujeitou todas as
coisas. E, quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o próprio Filho
se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos.”
(1 Coríntios 15:27,28, ARA)

Os mestres defensores dessa escola Pré-Milenista Histórica


Preterista Parcial enfatizam o ponto de vista de que Deus Pai primeiro
está vencendo todos os inimigos, antes de entregar o Reino ao Seu
Filho. Segundo Eberle:
Esse é o motivo pelo qual em Apocalipse capítulos 4 a 18 é o Pai que vemos
executando os juízos. É o livro de decretos do Pai que é aberto. É o Pai que envia anjos.
É o Pai cujas as taças de cólera são derramadas. As únicas coisas que vemos Jesus
fazer ao longo desses capítulos são: desatar os selos do livro do Pai (Capítulo 6) e fazer
uma colheita de almas (Apocalipse 14:14-16). O Reino não é entregue a Jesus até
depois da festa das bodas no capítulo 19. Somente então o Reino é dado à Jesus e à
Sua Noiva. (EBERLE, 2013, p.192)

Em resumo, do exposto,podemos concluir que os mestres que


ensinam e adotam a visão Preterista Parcial, tanto podem harmonizar
sua escatologia com a escola do pré-milenismo histórico ou com a
escola do pós-milenismo.

4.4 A DATAÇÃO DO LIVRO DE APOCALIPSE


Uma das disputas sobre o Livro de Apocalipse é com relação à data
de sua escrita. Segundo Kenneth L. Gentry Jr., as principais visões
sustentadas pelos eruditos do Novo Testamento são:
(1) a visão da data antiga, que mantém que João escreveu o Apocalipse durante o
reinado de Nero César (54 d.C. a 68 d.C.), antes de agosto do ano 70 d.C., quando
houve a destruição do templo;
(2) a visão da data mais recente, que argumenta que João compôs sua obra por volta de
95-96 d.C., nos últimos dias do principado de Domiciano César, que foi assassinado em
18 de setembro de 96 d.C.

Ainda de acordo com Kenneth L. Gentry, por muito tempo os


comentários populares têm posto de lado a evidência para a data
antiga de Apocalipse. A despeito da opinião majoritária dos
estudiosos atuais, as evidências de uma data antiga para Apocalipse
são mais claras e convincentes pela maioria esmagadora dessas
evidências.

Conforme afirma o autor Jonathan Welton:


A razão primária para alguns professores afirmarem que Apocalipse foi escrito por volta
do ano 96 d.C. é porque João disse em Apocalipse 1:9, que ele estava na ilha de
Patmos na época em que recebeu a revelação. Há alguma evidência histórica de que
João foi exilado para Patmos sob o reino de Domiciano, entre os anos 81 a 96 d.C.
Portanto, o livro deve ter sido escrito durante esse tempo – ao menos, assim alguns
afirmam. Na verdade, também há documentos históricos que nos dizem que João foi
exilado para Patmos em uma época muito anterior. Aqui vou compartilhar as evidências
de que o Apocalipse foi escrito antes do ano 68 d.C. (WELTON, 2012, p.216)

A maioria dos mestres preteristas vão afirmar que o livro de


Apocalipse trata da destruição de Jerusalém e do Templo em 70 d.C.,
e se o livro foi escrito depois de 70 d.C., teremos que dizer que o livro
de Apocalipse errou quando disse que os seus eventos ainda estavam
no futuro. Isto colocaria por “água a baixo” a hermenêutica preterista.

O entendimento que as profecias de Apocalipse estavam para


acontecer no futuro fica muito claro pelas palavras “brevemente” e “o
tempo está próximo” (Apocalipse 1:1,3). O livro é realmenteuma
profecia (Apocalipse 1:3). Com certeza, o livro tem que ter sido
escrito antes do ano 70 d.C. para não comprometer com a doutrina
da inspiração bíblica. Sabemos que teólogos liberais datam o livro
para depois de 70 d.C., mas eles não estão comprometidos com a
doutrina da inspiração e nem tampouco com a crença no
sobrenatural.

Não em sido fácil defender uma data mais recente para o Apocalipse,
até mesmo aqueles que são adeptos de uma data recente admitem
isso. Eruditos de peso também colocam uma data mais antiga para o
Apocalipse: “Por outro lado, deve ser mencionado o fato que vários
mestres de notabilidade preferem data mais recuada, ou no reinado
de Nero (Lightfoot, Westcott, Hort), ou no reinado de Galba, 68 A.D.
(assim Torrey)73”.

Kenneth L. Gentry fez uma lista de teólogos eruditos da ala


conservadora e liberal que defenderam uma data mais antiga do
Apocalipse, por ter gente da ala liberal é um argumento forte, visto
que eles têm preferência por colocarem os livros da Bíblia numa data
mais recente:
“Jay E. Adams, Luis de Alcasar, Karl August Auberlen, Greg L. Bahnsen, Arthur S.
Barnes, James Vernon Bartlet, F. C. Baur, Albert A. Bell, Jr., Willibald Beyshclag,
Charles Bigg, Friedrich Bleek, Heinrich Bohmer, Wilhelm Bousset, F. F. Bruce, Rudolf
Bultmann, W. Boyd Carpenter, David Chilton, Adam Clarke, William Newton Clarke,
Henry Cowles, W. Gary Crampton, Berry Stewart Crebs, Samuel Davidson, Edmund De
Pressense, P. S. Desprez, W. M. L. De Wette, Friedrich Dusterdieck, K. A. Eckhardt,
Alfred Edersheim, George Edmundson, Johann Gottfried Eichhorn, G. H. A. Ewald, F. W.
Farrar, Grenville O. Field, George P. Fisher, J. A. Fitzmeyer, J. Massyngberde Ford,
Hermann Gebhardt, James Glasgow, R. M. Grant, James Comper Gray, Samuel G.
Green, Heinrich Ernst Ferdinand Guerike, Henry Melville Gwatkin, Henry Hammond,
Hartwig, Karl August von Hase, B. W. Henderson, Johann Gottfried von Herder, Adolf
Hilgenfeld, David Hill, H. J. Holtzmann, John Leonhard Hug, William Hurte, A. Immer,
Theodor Keim, Theodor Koppe, Max Krenkel, Johann Heinrich Kurtz, Victor Lechler,
Francis Nigel Lee, Gottfried C. F. Lucke, Ghristoph Ernst Luthardt, James M.
Macdonald, Frederick Denison Maurice, Charles Pettit M’llvaine, John David Michaelis,
Theodor Mommsen, A. D. Momigliano, Charles Herbert Morgan, C. F. D. Moule, John
Augustus Wilhelm Neander, Bishop Thomas Newton, A. Niermeyer, Alfred Plummer,
Edward Hayes Plumtree, T. Randell, James J. L. Ratton, Ernest Renán, Eduard Wilhelm
Eugen Reuss, Jean Reville, J. W. Roberts, Edward Robinson, John A. T. Robinson, J.
Stuart Russell, W. Sanday, Philip Schaff, Johann Friedrich Schleusner, J. H. Scholten,
Albert Schwegler, J. J. Scott, Edward Condón Selwyn, Henry C. Sheldon, William Henry
Simcox, D. Moody Smith, Arthur Penrhyn Stanley, Edward Rudolf Stier, Moses Stuart,
Milton S. Terry, Friedrich August Gott reuTholuck, Cornelius Vanderwaal, Gustav
Volkmar, Foy E. Wallace Jr., Arthur Weigall, Bernhard Weiss, J. J. Wetstein, Karl
Wieseler, Charles Wordsworth, Herbert B. Workman, Robert Younge C. F. J. Zullig”74.

A lista de eruditos acima, evidentemente não prova que o livro de


Apocalipse data de antes do ano 70. Mas, mas pode mostrar que
teólogos de calibre intelectual não se sentem à vontade com a tese
de uma data mais recente.

4.4.1 Evidências para uma data mais antiga

Estão disponíveis os documentos de uma das versões mais antigas


do Novo Testamento, que é chamado de “O Siríaco”75. A versão
siríaca do segundo século, chamada de Peshitt o, diz o seguinte na
primeira página de Apocalipse:

Traduzindo:
“Outra vez a revelação que esteve sobre o santo João, o Evangelista de Deus, quando
estava na ilha de Patmos, onde foi preso pelo imperador Nero”.

A partir do conhecimento que Nero Cesar reinou no Império Romano


do ano 54 d.C. a 68 d.C. Portanto, João tinha que estar nessa ilha
durante esse período. Uma das versões mais antigas da Bíblia nos
diz quando o Apocalipse foi escrito. Somente esse fato já é um
argumento bem forte.
No mínimo, as evidências externas para a datação de Apocalipse
baseadas nos escritos dos Pais da Igreja, são equívocas. Mas o
peso detalhado das mais antigas testemunhas claras lança uma
tendência para uma data mais antiga, segundo estudos de Gentry.

Um dos motivos pelos quais é defendido uma data recente para a


escrita de Apocalipse, é o liberalismo. Segundo Gentry, “à medida
que o liberalismo cresceu nos anos de 1800, houve uma
considerável pressão para determinar datas mais recentes para
muitos dos livros do Novo Testamento. Isso fortaleceu o argumento
dos liberais que os redatores tinham adicionado, modificado ou
deletado porções da Bíblia. Contudo, no final dos anos 1800, a
evidência para uma data mais antiga do Apocalipse foi considerada
tão convincente que a grande maioria dos eruditos favoreceram uma
data antiga. Desde então, contudo, a opinião tem mudado para uma
data mais recente com pouca razão aparente para fazê-lo”76.

As evidências internas

Existem as chamadas “evidências internas”, que são os textos da


própria escritura, estas sim são mais confiáveis, pois como sabemos
a “bíblia explica a própria bíblia”. Quando usamos essas referências
nós mesmos vamos poder tirar as nossas conclusões.

Uma das referências internas é o texto de Apocalipse 17:10:


“E são também sete reis: cinco já caíram, e um existe; outro ainda não é vindo; e,
quando vier, convém que dure um pouco de tempo.”(Apocalipse 17:10, ARC)

Esta passagem descreve uma sequência de sete (7) imperadores de


Roma e nos relata exatamente quantos reis já tinham reinado e qual
estava no poder e ainda fala que um outro duraria pouco tempo. Este
versículo está totalmente harmonizado com a realidade histórica com
o Império Romano do primeiro século. Vejamos, a sequência dos sete
(7) primeiros imperadores do Império Romano é a seguinte:

■ Júlio César (49 a.C a 44 a.C.)

■ Augusto (27 a.C. a 14 d.C.)

■ Tibério (14 a 37 d.C.)

■ Calígula (37 d.C. a 41 d.C.)

■ Cláudio (41 a 54 d.C.) - aqui se encaixa o trecho “cinco já


caíram”

■ Nero (54 a 68 d.C.) - aqui se encaixa o trecho “um existe”

■ Galba (Junho de 68 d.C. a janeiro de 69 d.C., um reinado de


6 meses) - aqui se encaixa o trecho “outro não é vindo... dure
um pouco de tempo”.

Dos primeiros sete reis, cinco tinham vindo (Júlio César, Augusto,
Tibério, Gaio e Cláudio), um estava no poder (Nero) e um ainda
apareceria (Galba), mas só permaneceria por pouco tempo (6
meses). O César no poder na época do livro de João era o sexto
César, Nero. Isso atesta impressionantemente uma datação mais
antiga para o Livro de Apocalipse, no período do reinado de Nero, ou
seja, entre 54 d.C e 68 d.C.

Outra evidencia interna impressionante é a citação que Templo ainda


é existente em Apocalipse 11. Esse é um dos mais fortes pontos de
J. A. T. Robinson para datar os Evangelhos antes de 70 a.C., e
dificilmente seria ignorado aqui.

Vejamos a passagem bíblica de Apocalipse, que fala do Templo:


“E foi-me dada uma cana semelhante a uma vara; e chegou o anjo, e disse: Levanta-te,
e mede o templo de Deus, e o altar, e os que nele adoram. E deixa o átrio que está fora
do templo, e não o meças; porque foi dado às nações, e pisarão a cidade santa por
quarenta e dois meses.” (Apocalipse 11: 1,2 ARA)

A questão chave a ser considerada é a seguinte: a que templo João


se refere? Algumas pistas nos apontam onde vamos chegar. Em
primeiro lugar, ele nos dá o lugar geográfico do Templo: Jerusalém.
Pelo menos é o que podemos deduzir da expressão “cidade santa”.
De acordo com as Escrituras, essa expressão é uma referência à
Jerusalém. O profeta Isaías disse: “Desperta, desperta, veste-te da
tua fortaleza, ó Sião; veste-te das tuas roupas formosas, ó
Jerusalém, cidade santa.” (Isaías 52:1, Daniel 9:24; Mateus 4:5,
27:53). O versículo 8 de Apocalipse 11 deixa claro que a Cidade
Santa é Jerusalém:
“E jazerão os seus corpos mortos na praça da grande cidade que espiritualmente se
chama Sodoma e Egito, onde o nosso Senhor também foi crucificado.”(Apocalipse 11:8
ARA)

A Cidade onde Jesus foi crucificado foi Jerusalém, portanto, mento de


que o Templo a que João se refere é o templo de Herodes, vamos
pegar Apocalipse 11:2 e comparar com Lucas 21:24 e vamos
encontrar um paralelo impressionante:
“E deixa o átrio que está fora do templo, e não o meças; porque foi dado às nações, e
pisarão a cidade santa por quarenta e dois meses”. (Apocalipse 11:2)
“E cairão ao fio da espada, e para todas as nações serão levados cativos; e Jerusalém
será pisada pelos gentios, até que os tempos dos gentios se completem.” (Lucas 21:24)

O paralelo entre ambas as passagens não é mera coincidência. João


está falando a mesma coisa que Jesus falou acerca da destruição de
Jerusalém e da queda do Templo de Herodes. Ambos os textos falam
que a cidade santa será pisada pelos gentios. É difícil não ver em
Apocalipse um paralelo forte com o discurso de Jesus acerca da
destruição do Templo de Jerusalém. João não está aqui falando de
um futuro Templo judaico, como pensam os futuristas, em nenhum
momento João dá a entender isso.

Ora, se as evidências textuais levam ao Templo de Herodes em


Jerusalém, então essa profecia deve ter sido proferida antes de 70
d.C. Pois o Templo que ficava localizado em Jerusalém era o Templo
judeu. João está falando do Templo judeu como se ele ainda
estivesse de pé em seus dias. De fato, em nenhum lugar do
Apocalipse é dito que o Templo judaico já estava derrubado. Se o
templo judeu já estivesse arruinado na época em que João escreveu o
Apocalipse, seria muito estranho ele não ter feito alguma menção a
tal evento tão significativo para João, que era um judeu e sabia do
poder simbólico que o Templo tinha.

O mestre futurista Thomas Ice, tenta refutar esse poderoso


argumento da forma como segue:
“Em refutação… argumento dos Preteristas, deve ser lembrado que no Livro de
Apocalipse João está recebendo uma visão sobre coisas futuras. Ele é transportado de
alguma forma para que o tempo futuro, a fim de ver os eventos como eles vão se
desdobrar. A palavra ‘viu’ é usada 49 vezes em 46 versículos em Apocalipse porque
João está testemunhando eventos futuros através de uma visão”77.

Thomas Ice tem razão quando diz que os eventos do Apocalipse são
para o futuro, isso os preteristas estão de acordo que do ponto de
vista da época de João os eventos eram futuros. Mas Thomas Ice
equivoca-se num ponto sério: na visão que João teve sobre o Templo
de Jerusalém, ele estava tendo uma visão da reconstrução de um
futuro Templo ou estava falando de uma futura destruição do Templo
vigente? O foco do texto é mostrar a futura destruição do Templo. O
texto não trata de um futuro Templo reconstruído. Com base nessa
passagem de Apocalipse 11:2, o erudito J. A. T. Robinson, em sua
obra Redatingthe New Testament sustentou que todo o livro de
Apocalipse é anterior ao ano 70 d.C. (Redatingthe New Testament
[Philadelphia, 1976] 238-42).

Conforme a interpretação e hermenêutica preterista podemos citar


ainda as passagens relacionadas à época, essas indicam claramente
que os eventos profetizados ocorreriam em tempo futuro próximo.

Vejamos alguns textos:


“Revelação de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as
coisas que brevemente devem acontecer; e pelo seu anjo as enviou e as notificou a
João, seu servo.”(Apocalipse 1:1, ARC, grifo nosso)
“Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam
as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo.” (Apocalipse 1:3, ARC,
grifo nosso)

O objetivo desse capítulo não é aprofundar esse assunto que pode


parecer controverso. Na verdade, poderíamos indicar grandes obras
que já foram escritas sobre o Livro de Apocalipse que detalham muito
mais a questão da datação do livro78. Mas por causa da esmagadora
maioria das evidências, a conclusão mais lógica e historicamente
sensata é esta que eu chego: acredito firmemente que o Livro de
Apocalipse foi escrito por João durante o reinado de Nero, e antes de
sua morte em 68 d.C. e muitos dos eventos profetizados (não todos),
na verdade se referiam, à destruição de Jerusalém, no ano 70 d.C.

4.5 O MUNDO ESTÁ PIORANDO OU


MELHORANDO?
Outro paradigma que precisa ser quebrado quando se tem uma
interpretação preterista parcial de Mateus 24, e demais profecias, é a
cosmovisão de que o mundo está cada vez mais, piorando. Isso está
conectado diretamente com a escatologia futurista, que é
extremamente pessimista, conforme já foi largamente explanado.

A visão preterista parcial desenvolve uma escatologia otimista e uma


cosmovisão diferente daquela que é tradicionalmente aceita no meio
cristão evangélico. A exegese e a hermenêutica preterista parcial
estão afirmando que o mundo está melhorando, pois o Reino de Deus
está avançando, Jesus Cristo é o Senhor e as “portas do inferno não
prevalecerão contra ela [igreja]” (Mateus 16:18).

Um texto muito usado por aqueles que querem refutar uma afirmação
desse tipo, de que o mundo está melhorando, é a passagem de Paulo
a Timóteo em 2 Timóteo 3:1-9. Nesse texto Paulo fala de “tempos
difíceis” por causa de certo tipo de pessoas que resistem à verdade
(ímpios). Realmente, isso tudo nos trarão aflições (conforme a
declaração de Jesus nos evangelhos: “no mundo tereis aflições,
mas tende bom ânimo, eu venci o mundo”). O próprio texto no seu
contexto, a seguir em 2 Timóteo 3:12, afirma que os que desejam
viver piamente em Cristo Jesus padecerão perseguições. Logo, o
assunto aqui é perseguição e oposição à pregação do evangelho, e
isso sempre existirá. Vejamos, no entanto, ao final do próprio texto
em análise, o que o apóstolo Paulo declara a respeito daqueles que
poderão tornar os “últimos dias [...] tempos difíceis”.
“Não irão, porém, avante; porque a todos será manifesta a sua insensatez, como
também o foi a daqueles.” (2 Timóteo 3:9, RA)

Nós sabemos que o reino do inferno não vai prosperar.


“Pois também eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e
as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” (Mateus 16:18, RC)

Gostaria de recomendar de forma veemente aos leitores, uma


pesquisa séria a respeito de diversos aspectos relativos a índices
sobre violência, guerras, pobreza, expectativas de vida, na esfera
global e o crescimento do cristianismo a nível mundial. Trata-se de um
e-book de autoria de J. D. King, intitulado “Você foi enganado ao crer
no mito de que o mundo está ficando cada vez pior?”, editado,
adaptado e traduzido por César Francisco Raymundo, da Revista
Cristã UC, em 2015, e também pode ser acessado e baixado
gratuitamente no seguinte endereço:

www.revistacrista.org/literatura_Revista021.html#.WtDTKC7waUl

CONCLUSÃO
Este livro, fruto de uma extensa pesquisa bibliográfica, abordou a
visão da chamada ESCATOLOGIA APOSTÓLICA, que é mais
conhecida nos meios acadêmicos como a interpretação Preterista
Parcial, em contraste com a tradicional interpretação escatológica
Futurista Dispensacionalista que ainda é (acredito que não por muito
tempo ainda) a mais conhecida no meio evangélico atual.

A ESCATOLOGIA APOSTÓLICA é uma interpretação mais otimista e


tem se tornado um dos alicerces de um movimento de mudanças
significativas que começaram a acontecer na década de noventa,
dentro dos muros da igreja evangélica. Enquanto muitos eruditos
nomearam as mudanças com o termo “pós-denominacionalismo”, o
Dr. C. Peter Wagner79 as chamou de “a nova reforma apostólica”. Na
atualidade, esse movimento está emergindo por todas as nações e
cidades do mundo cristão.

Na pesquisa mais detalhada do desenvolvimento histórico dessas


doutrinas, considerando as suas origens e desdobramentos, foi
possível identificar que a visão Preterista Parcial encontra sua base
na igreja primitiva, em alguns pais da igreja e também no período
pós-reforma. A visão futurista dispensacionalista é muito recente,
como se pode estudar, e teve o seu ápice no último século, nos
últimos 70 anos, muito disso em virtude das grandes guerras
mundiais, grande depressão nos Estados Unidos e também a guerra
do Vietnã.
À medida que o mundo era confrontado com os desafios e maldades
do ser humano, os cristãos em geral começavam a adotar também
uma visão pessimista do futuro, e isso é o “prato cheio”do
dispensacionalismo. Mas os tempos estão mudando, uma visão mais
otimista do final dos tempos está em pleno desenvolvimento nas
últimas duas décadas (alguns vão dizer nos últimos 30 anos). Isso
não parece ser apenas um retorno à visão da igreja primitiva ou de
alguns principais reformadores, pois muitos líderes e mestres têm
nestes últimos tempos descoberto (ou redescoberto) que a Bíblia de
fato revela uma visão mais otimista para o final dos tempos.

Ao aceitar a interpretação preterista parcial de Mateus 24, muitos


cristãos terão que adotar ideias que possivelmente lhes parecerão
novas. Uma delas, talvez a mais importante, é que não haverá sinais
precedendo a segunda vinda de Jesus ou o fim do mundo. Jesus
não sabia e não falou sobre nenhum sinal, por isso, mais ninguém
poderá querer saber a respeito desses sinais. Como se argumentou
no segundo capítulo deste livro, a visão preterista parcial entende os
sinais relatados em Mateus 24, e em seus textos paralelos de Marcos
13 e Lucas 21, como avisos do cumprimento das profecias de Jesus
em Mateus 23 e textos paralelos, relativas à vinda de Jesus em juízo
sobre Israel e à destruição de Jerusalém e do templo. Jesus foi
enfático sobre esse ponto, quando contou pelo menos seis (6)
parábolas diferentes para realmente asseverar que os seus discípulos
tinham entendido que esse acontecimento (segunda vinda), seria uma
surpresa total para todos, exceto para o Pai.

Isso desconstrói totalmente a teoria futurista dispenscionalista que


adota uma visão baseada numa expectativa negativa sobre a
Segunda Vinda, falando sobre guerras, fome e terremotos
crescentes, falsos líderes religiosos e apostasia geral na Igreja. Na
verdade, como vimos no capítulo dois, todos esses sinais precederam
a destruição de Jerusalém no ano 70 d.C. Corroboro com a afirmativa
do Dr. Harold Eberle, que diz: “quando Jesus voltar em algum
momento futuro, você estará comendo e bebendo, dirigindo o seu
carro, dormindo em sua cama ou trabalhando no seu emprego.
Então, de repente, Jesus Cristo aparecerá no céu. Sem aviso e sem
sinais”.

Cabe ressaltar que esse entendimento preterista parcial de Mateus


24 é apoiado por uma parte significativa do Corpo de Cristo em todo
o mundo, quer sejam cristãos da tradição reformada ou calvinista, e
está encontrando força e avançando em meio ao movimento
neopentecostal e a chamada nova reforma apostólica80.

Assim também, ao se acreditar na visão Preterista Parcial sobre as


profecias de Daniel 2 e Daniel 9, isso resultará na adoção de uma
ESCATOLOGIA APOSTÓLICA, pois esse é o entendimento de que o
Reino de Deus pode ser experimentado agora pelos cristãos e que
esse Reino está crescendo na Terra (até enchê-la) e que será
estabelecido com todo o poder (pleno poder) na Segunda Vinda de
Jesus.

Certamente o ponto mais crucial para se entender e aceitar a visão


Preterista Parcial é que não haverá uma grande tribulação futura de
sete anos. Esse certamente é um ponto polêmico que foi amplamente
desenvolvido no decorrer deste livro, e, como foi argumentado, a
afirmativa preterista é biblicamente mais coerente. Ainda interligada a
esse ponto da grande tribulação, está a doutrina do arrebatamento ou
“rapto” da Igreja, que, segundo o ensino dispensacionalista,
acontecerá antes da tribulação de sete anos, o que livrará a igreja da
Grande Tribulação. Esse ponto é considerado pelos preteristas como
um “escapismo”, como estudamos no capítulo quatro deste livro.

Finalmente, pode-se afirmar que a visão futurista está comprometida


com a convicção de que o mundo está piorando cada vez mais, de
que seus mestres e teólogos propagam as ideias fantásticas de “um
mundo de caos” ou um “armagedon nuclear”. Essas frases e ideias
são parte do ensinamento futurista, porque eles estão convictos de
que as coisas estão piorando e de que o mundo está prestes a se
autodestruir. Portanto, é difícil abrir mão da visão futurista sem
também deixar de lado a visão pessimista do mundo e do futuro.
Na verdade, ao se olhar de forma mais ampla a história, comparando-
se o mundo de hoje com o que era no passado, honestamente chega-
se à conclusão de que os “bons tempos” do passado não foram
assim tão bons. Quando Jesus veio à Terra, havia apenas uma
pequena nação localizada no Oriente Médio que tinha uma revelação
acerca do único Deus verdadeiro. Todo o restante do mundo estava
perdido nas trevas. Como o apóstolo Paulo escreveu, “Outrora vós
gentios [...] estáveis sem Cristo [...] não tendo esperança e sem
Deus no mundo.” (Efésios 2:11-12)

Essa era a condição do mundo habitado há dois mil anos. Mas como
Ernest Hampden Cook escreveu:
O fato é que por pior que mundo ainda esteja agora, moralmente ele está muito melhor
do estava quando Jesus nasceu em Belém da Judéia [...] Poucas pessoas nos dias de
hoje tem uma concepção adequada da miséria e da degradação que naquela época
eram o destino comum de quase toda a humanidade, em razão da monstruosa maldade
daqueles tempos, das guerras contínuas, das crueldades do despotismo político e da
escravidão que predominava em todos os lugares. (COOK, 1895, p.xvi, apud EBERLE,
2013, p.85)

A realidade hoje é muito diferente, o mundo está sendo abençoado, o


evangelho está sendo pregado em todos os cantos da Terra. O
Cristianismo está explodindo em crescimento por todo o mundo.
Estatísticas apontam para mais de 200 mil conversões a cada dia, ao
senhorio de Jesus. Somente na China há mais de 20 mil conversões à
Cristo por dia, e os números na América do Sul são de 35 mil por dia.
Aquela pequena semente que entrou na Terra na pequena nação de
Israel está crescendo como nunca. O Cristianismo, com mais de dois
bilhões de pessoas adotando a sua cosmovisão hoje em dia, é o
bloco mais influente da humanidade.

É sabido que, naturalmente, ainda muitas coisas trágicas acontecem


no mundo e há um longo caminho a percorrer antes de podermos
dizer que está tudo maravilhoso, mas não se pode negar que as
coisas estão melhores hoje do estavam quando Jesus veio à Terra, há
dois mil anos.
A conclusão à qual chegamos (assim espero, amado leitor) é que a
ESCATOLOGIA APOSTÓLICA é uma visão biblicamente séria, sua
hermenêutica é impecável, sendo uma interpretação otimista que
motiva a igreja a avançar e cumprir de fato com a “grande comissão”
deixada por Jesus de discipular as nações da Terra (Mateus 28), e
essa visão tem sido cada vez mais adotada nesta era pós-moderna.

O Reino de Deus avança e continuará a avançar, por meio da Igreja e


do Espírito Santo, até o retorno glorioso de Jesus Cristo.
“Pois também eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e
as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E eu te darei as chaves do Reino dos
céus, e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra
será desligado nos céus.” (Mateus 16:18-19, ARA)

Meu sonho e desejo é que esta visão escatológica, mais otimista e


vitoriosa, possa inspirar a igreja a fazer planos para o futuro, avançar
com coragem, investir na próxima geração e acreditar que coisas
maiores da parte de Deus ainda estão por vir. Satanás não está
assumindo o controle deste mundo. Jesus Cristo é o Senhor, Ele
governará até que todos os inimigos sejam colocados debaixo dos
Seus Pés. Aleluia!

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1 EBERLE (2013).
2 Série de documentários produzidos por George Otis Jr. sobre
comunidades transformadas pelo poder da oração e da intercessão,
em todo o mundo.
3 Protologia: Estudo das primeiras coisas. Estudo do propósito
fundamental de Deus para a humanidade (MATTERA, apud TORRES,
2012, p.6).
4 (ECKHARDT, apud EBERLE, 2013, p.5).
5 Universidade Cristã de Teologia Gênesis de Queltzaltenango,
Guatemala.
6 WELTON, 2014.
7 Obras de Lutero, 8:162, LINDEN, 2016 p. 26.
8 Uma referência a ser diligente e examinar nas escrituras quanto
aquilo que se lê ou se escuta.
9 WELTON, Jonathan. Sem Arrebatamento Secreto: Um Guia
Otimista para o Fim do Mundo. Tradução de Thiago RBM. Londrina:
Última Chamada, 2014.
10 Edward Irving foi uma das mais célebres e controvertidas
personalidades religiosas do século 19 (1792-1834). Pregador
eloquente e imensamente popular, pastor devotado e amado pelo seu
re-banho, homem de profunda piedade cristã, ele veio a envolver-se
em controvérsias teológicas que acarretaram a sua deposição do
ministério presbiteriano e a subsequente formação de uma nova
confissão religiosa, a Igreja Católica Apostólica. (INSTITUTO
Presbiteriano Mackenzie. Disponível em
<www.mackenzie.br/6981.html>. Acesso em: 20 de outubro de 2016).
11Foi precisamente a comunidade em Plymouth que ficou a ser mais
conhecida, porque em 1830, John Nelson Darby (1800-1882) tendo-
se deslocado a essa localidade, os convenceu a se associarem a ele
para a proclamação e expansão dos princípios que tinha encontrado
nas Escrituras. Existiam na Irlanda e na Inglaterra outras
comunidades prósperas de cristãos que alegavam ser “Irmãos” e
mantinham pontos de vista semelhantes. Essas comunidades também
aderiram à influência de Darby, tornando a comunidade de Plymouth a
mais conhecida e Darby a ser chamado o fundador do
Plymouthianismo. (Disponível em
www.irmaos.net/historia/plymouth.html Acesso em: 20 de outubro de
2016).
12 Extraído e traduzido do livreto “Is the Pretribulation Rapture
Biblical?”, de Brian Schwertley, em 2007 por Felipe Sabino de A.Neto.
13 MACPHERSON, Dave. The Incredível Cover-Up: The True Story of
the Pre-Trib Rapture. Plainfield, NJ: Logos Internacional, 1975, p.93.
Os seguintes estudiosos são citados por Mac-Pherson como
concordando com a afirmação dele de que o pré-tribulacionismo é
uma dou-trina totalmente mo-derna, que se originou por volta de
1830: Samuel P. Tregelles, Alexander Reese, Floyd E. Hamilton,
Oswald T. Allis, D.H. Kromminga, George E. Laddand J. Barton
Payne. MacPherson também cita vários estudiosos
dispensacionalistas e pré-tribulacionistas que admitem que a teoria
pré-tribu-lacionista é de fato uma nova doutrina: W. E. Blackstone, H.
A. Ironside, Charles C. Ryrie, Gerald B. Stantonand John F. Walvoord.
14 Cyrus Ingerson Scofield (1843 –1921) foi um teólogo norte-
americano, ministro religioso e escritor cujo livro best-seller, Bíblia de
Referência Scofield, popularizou o futurismo e o dispensacionalismo
entre os fundamentalistas cristãos.
15 Lewis Sperry Chafer (1871 - 1952) foi um teólogo norte-americano.
Ele fundou e serviu como o primeiro presidente do Seminário
Teológico de Dallas e foi um proponente influente do cristianis-mo
dispensacionalista no início do século XX.
16 Charles Caldwell Ryrie (1925 - 2016) foi um estudioso da Bíblia
americano e teólogo cristão. Ele atuou como professor de teologia
sistemática e decano de doutorado no Seminário Teológico de Dallas.
Ele é considerado um dos teólogos mais influentes do século XX. Ele
era o editor da Bíblia de Estudo Ryrie pela Moody Publishers, que
contém mais de 10.000 notas explicativas de Ryrie. Publicada pela
primeira vez em 1978, já vendeu mais de 2 milhões de cópias. Ele era
um defensor notável do dispensacionalismo pré-milenial clássico.
17 (WELTON, 2014, p.18).
18Edgar C. Whisenant (1932 - 2001), era um ex-engenheiro da NASA
e estudante da Bíblia que previu que o arrebatamento ocorreria em
1988, em algum momento entre 11 de setembro e 13 de setembro.
19 O Movimento Jesus (Jesus Movement ou Jesus People Movement)
começou no ano de 1967, em Califórnia – EUA, e continuou até
aproximadamente 1973. O movimento foi um avivamento fo-calizado
principalmente nos adolescentes e jovens da “contracultura” norte-
americana que surgiu no fim da década de 1960.
20 (WELTON, 2014, p.20).
21 GENTRY, 2014.
22 A Assembleia de Westminster (1643-1649) constituiu o ponto
culminante da elaboração con-fessional reformada. Os documentos
teológicos que dela resultaram, a Confissão de Fé e os Ca-tecismos
Maior e Breve, tornaram-se os padrões doutrinários mais aceitos
pelos reformados ao redor do mundo. A famosa assembleia foi uma
das principais contribuições dos puritanos, os cal-vinistas ingleses.
23 Thomas Ice é diretor-executivo do Pre-TribResearch Center
(Centro de Pesquisas Pré-Tribulacionistas) e professor de Teologia
na Liberty University. Ele é Th.M. pelo Seminário Teológico de Dallas
e Ph.D. pelo Seminário Teológico Tyndale. Editor da Bíblia de Estudo
Profética e autor de aproximadamente 30 livros, Thomas Ice é
também um renomado conferencista.
24 Torres (2016, p. 41).
25 Welton (2014, p.41).
26 O muro ocidental atual, também chamado de “Muro das
Lamentações” em Jerusalém, nunca fez parte do templo que existia
nos dias de Jesus. Ele era parte do parapeito que o rei Herodes havia
construído ao redor do templo.
27Ver citação no texto paralelo de Marcos 13, no qual o Sermão do
Monte também está registrado. No versículo três é dito
especificamente que Jesus e seus discípulos estavam de frente para
o Templo quando eles fizeram a primeira pergunta.
28 TORRES, 2012, p. 59.
29 HEBERLE, 2013, p.31
30A Pax Romana, expressão latina para a “Paz Romana”, é o longo
período de relativa paz, gerado pelas armas e pelo autoritarismo,
experimentado pelo império romano.
31 JOSEFO, apud WELTON, 2014, p. 41.
32 George Eldon Ladd (1911-1982) era um ministro Batista e
professor de Novo Testamento, exegese e teologia no Seminário
Teológico Fuller em Pasadena, Califórnia. A obra prima de Ladd é sua
Teologia do Novo Testamento, utilizada por milhares de seminaristas
desde a sua publicação em 1974. Ladd foi um dos notáveis
defensores modernos do pré-milenismo histórico e, muitas vezes,
crítico do modelo dispensacionalista em vários de seus pontos.
33 WELTON, 2014.
34 RAYMUNDO, 2016.
35 EBERLE, 2013, p. 40.
36 Charles Haddon Spurgeon (1834 —1892) foi um pregador batista
reformado britânico. Converteu-se ao cristianismo em 6 de janeiro de
1850, aos quinze anos deidade. Aos dezesseis, pregou seu primeiro
sermão; no ano seguinte tornou-se pastor de uma igreja batista em
Waterbeach, Condado de Cambridge Shire (Inglaterra). Em 1854,
Spurgeon, então com vinte anos, foi chamado para ser pastor da
capela batista de New Park Street, Londres, que mais tarde viria a
chamar-se Tabernáculo Metropolitano. Desde o início do ministério,
seu talento para a exposição dos textos bíblicos foi considerado
extraordinário. Sua excelência na pregação das Escrituras Bíblicas lhe
rendeu os títulos de “O Príncipe dos Pregadores” e “O Último dos
Puritanos”.
37 Observância do Shabat na religião judaica implica abster-se de
atividades de trabalho, muitas vezes com grande rigor, e se engajar
em atividades repousantes para honrar o dia. Posição tradicional do
judaísmo é ininterrupta do sétimo dia de Shabat originado entre o
povo judeu, como sua primeira e mais sagrada instituição.
38 EBERLE, 2013; TORRES, 2012.
39 EBERLE, 2013, p. 45.
40 WELTON, 2014.
41 George R. Beasley Murray (10 de outubro de 1916 - 23 de
fevereiro 2000) foi um erudito e professor de Interpretação do Novo
Testamento no Southern Baptist Theological Seminary. Ele recebeu
seu DD do Jesus College, Cambridge.
42 Newton, Thomas. Dissertações das Profecias. p. 389. Eusébio.
História Eclesiástica. Livro 3, Capítulo 5.
43 Comentário de Clark, Vol.1 Mateus-Atos, p. 228.
44 EBERLE, 2013.
45 EBERLE, 2013.
46 WELTON, 2014, p. 91, 92.
47 SPROUL, 2015, p.38.
48 EBERLE, 2013, p.63.
49 CHILTON, 2011, p. 31.
50 CHILTON, 2011, p. 31-32.
51 Para a interpretação dispensacionalista, essas parábolas ou
ilustrações proferidas por Jesus são as seguintes:primeira, a
ilustração da figueira (24.32-35); segunda, a comparação ilustrativa
com os dias de Noé (24.36-39); terceira, a comparação ilustrativa
entre os dois homens e entre as duas mulheres (24.40-41); quarta, a
ilustração do pai de família vigilante (24.42-44); e quinta, a ilustração
do servo fiel e prudente (24.45-51). Essas cinco parábolas são
ensinamentos importantes que dizem respeito à nação de Israel. Em
realidade, eu vou ainda mais longe para dizer que todas as parábolas
do Novo Testamento estão diretamente relacionadas com Israel (ICE,
Thomas. Jesus e o Fim dos Tempos. 2016, p. 168).
52 WELTON, 2014, p. 86.
53Wayne A. Grudem (1948) é um teólogo protestante e autor, Ph.D.
pela Universidade de Cambridge, é titular do Departamento de
Teologia Bíblica e Sistemática na Trinity Evangelical Divinity School,
nos Estados Unidos, uma das mais bem reputadas escolas teológicas
daquele país. Grudem publicou várias literaturas, dentre as quais se
destaca o “Livro de Teologia Sistemática”.
54 Os termos que se referem à volta do Senhor nesta lista dos
versículos abaixo têm grifo nosso.
55 TORRES, 2012, p.119
56 WELTON, 2012, p. 174.
57 EBERLE, 2013, p. 91.
58 EBERLE, 2013, p. 94.
59 Esse ano de nascimento, 4 a.C., é sustentado pelos historiadores
em geral devido ao fato de terem sido cometidos erros no nosso
calendário moderno (desenvolvido primeiramente em 525 D.C.), e
Mateus 2:1 nos diz que Jesus nasceu durante o reinado de Herodes,
que morreu em 4 a.C.
60 WELTON, 2014, p. 171.
61 TORRES, 2012, p. 114.
62 Esse assunto não é tratado em detalhes neste livro, por não se
tratar de um fator preponderante na interpretação Preterista Parcial.
63 EBERLE, 2013, p. 218-220; TORRES, 2012, p. 86-90.
64 RAYMUNDO, 2015, p. 12.
65Filactérios eram cápsulas usadas no braço esquerdo, próximo ao
coração e sobre a testa. Os judeus honravam essas cápsulas tanto
quanto as Escrituras, e chegavam a imaginar que o próprio Deus as
usava.
66 FERNANDES, 2014, p. 20.
67 EBERLE, 2013, p. 156.
68 LINDSEY, Hal. The Late Great Planet Earth, 1973.
69 EBERLE, 2013, p. 232; TORRES, 2012, p. 117.
70 Alguns preteristas parciais, principalmente os Reformados e pós-
milenistas, têm um entendimento diferente dessa passagem e do
restante do cap. 24 de Mateus; estes interpretam esses versículos
todos como ainda sendo o contexto da destruição de Jerusalém e do
templo em 70 D.C.
71 Infelizmente, esta passagem passou a dominar o debate sobre a
escatologia bíblica. O caráter infeliz jaz no fato de o termo “milênio”
ocorrer apenas nesta única passagem da Escritura, e justamente no
livro mais repleto de símbolos.
72 EBERLE, 2013, p. 191.
73BEASLEY-MURRAY, G. R. em: DAVIDSON, F. (Editor). O Novo
comentário da Bíblia. São Paulo, Vida Nova, 1997, p. 1449.

74 GENTRY, Kenneth Jr. A Importância da Data do Apocalipse.


Disponível em: www.monergismo. com/textos/preterismo/importancia-
dataap_gentry.pdf
75 Antigo manuscrito dos evangelhos escritos em língua siríaca. O
siríaco é um dialeto do aramaico, uma das línguas ofi ciais do Império
Persa. Era falado no norte da Mesopotâmia e na região da antiga
Antioquia, onde muitas pessoas aceitaram as boas novas no primeiro
século (alguns datam do segundo século).
76 Artigo: A Datação do Apocalipse. Autor: Jack Van Deventer.
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto. Site: www.monergismo.com
77 ICE, Thomas. Dating the Book of Revelation.
78A Grande Tribulação, por David Chilton; Dias de Vingança, por
David Chilton; Apocalipse, por Gordon Fee.
79 C. Peter Wagner,PhD (1930-2016), em Teologia, Missiologia e
Religião, pelo Seminário Teológico Fuller, pelo Seminário Teológico de
Princeton e pela Universidade de Carolina do Sul. Serviu como
missionário na Bolívia por 16 anos, foi professor do Seminário Fuller
por trinta anos. Autor de mais de 70 livros.
80Nova reforma apostólica foi um temo cunhado por C. Peter Wagner
(1930-2016) para designar o movimento de restauração dos dons
ministeriais de Efésios 4:11, principalmente dos profetas e apóstolos,
na igreja moderna.

Table of Contents
Título
Créditos
Dedicatória
Agradecimentos
Sumário
Prefácio
Introdução
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Conclusão
Referências

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