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O papel dos muçulmanos no Ocidente

por Roberto Cattani

Como muçulmano cidadão de um país ocidental e cristão, acredito que cabe aos
muçulmanos fora do mundo islâmico fazer a ponte para a compreensão e o diálogo entre os
mundos ocidental e muçulmano neste momento crucial. E também nos cabe, a nós que
temos a dificuldade e o perigoso privilégio de viver fora do nosso contexto religioso,
representar uma voz independente e isenta dentro do mundo islâmico, tanto do ponto de
vista político quanto espiritual; uma voz que dificilmente poderia surgir entre as elites
políticas, intelectuais e espirituais dos acuados regimes e governos autoritários do mundo
islâmico, ou tampouco entre os povos muçulmanos oprimidos, desinformados e muitas
vezes fanatizados.

"Assim como faria uma mãe, a ummah, a comunidade dos fiéis muçulmanos, condena
seus rebentos terroristas, mas, por reflexo, os protege tão logo estão em perigo", escreveu o
psicanalista Daniel Sibony. A reunião de líderes religiosos e acadêmicos sunitas e xiitas em
Amã, no começo de agosto, emitiu um sinal bastante claro de repulsa e condenação do
terrorismo que se diz “islâmico”. Foi talvez a primeira vez que as autoridades muçulmanas
do mundo inteiro tomaram uma posição clara e definida a respeito do terror em nome de
Alá, uma conseqüência importante dos atentados do 11 de setembro e dos atos desmedidos
e criminais da al-Qaeda. Mas é ainda muito pouco depois de décadas de omissão, e frente
aos desafios que estão surgindo dentro do mundo muçulmano, e que envolvem diretamente
os próprios fundamentos do poder e do governo exercido, formalmente ou idealmente, em
nome do Corão. É claro que o mundo, assim como a ummah, precisa agora, e cada vez
mais, de respostas e diretivas mais fortes, e de uma política mais clara, sem ambigüidades.

A hostilidade (blanda) dos governos árabes e muçulmanos contra o terrorismo não


surge de uma leitura do livro sagrado aplicada ao mundo, de um moderantismo real e
profundo, ou de uma repulsa da violência (à qual a maior parte desses governos recorre
aberta ou ocultamente): surge do medo do oposto do moderantismo — o medo do
fanatismo militante, seja religioso seja político, do qual al-Qaeda é ao mesmo tempo a
expressão mais extremada e a ponta do iceberg.

Que sejam monarquias absolutas semi-feudais (Arábia Saudita, Emirados, Qatar,


Kuwait, Marrocos, Jordânia), ou sistemas de poder autocrático ainda que pretensamente
democráticos (Egito, Argélia, Tunísia, Paquistão, Malásia, Indonésia), os regimes do
mundo muçulmano convivem há décadas com o pavor que a população mais pobre ou as
elites intelectuais acabem se deixando envolver pelo apelo cada vez mais forte do
radicalismo islâmico, e que todos os seus regimes acabem da mesma forma que aquele do
Shah do Irã com a revolução khomeinista.

Na tentativa de sobreviver a suas debilidades e impopularidades congênitas, esses


regimes islâmicos não têm condição de combater o extremismo de outra forma que com a
repressão brutal e secreta, sem nenhuma tentativa de moderação ou de esclarecimento.
enhum deles tenta se opor ou confrontar ao fundamentalismo no plano político,
ideológico, religioso ou até cultural, tentando, por exemplo, encorajar o debate na
sociedade a favor de uma versão moderada do próprio Islã e de uma forma de governo que
aplique a lei islâmica sem cair em excessos que não nada têm de corânico. A atitude geral
é tentar aderir formalmente a um Islã de fachada, e ir adequando a legislação às pressões
dos fundamentalistas, tomando uma interpretação literalista da Sharī’ah, a lei
consuetudinária herdada da prática do Profeta Muhammad.

Os líderes muçulmanos, assim como a própria OCI, estão constantemente obrigados a


realizar a façanha de defender o Islã da imagem cada vez mais negativa que este vem
assumindo no resto do mundo; e ao mesmo tempo apresentar aos seus súditos uma
aparência de posição forte frente ao Ocidente, suficientemente plausível para diferenciá-la
das atitudes ocidentais e para angariar a simpatia popular tirando-a dos extremistas.

As autoridades religiosas islâmicas tradicionais não se comportam de forma muito


diferente. A maioria prefere restringir-se a decretos sobre questões dogmáticas e sem muita
aderência à realidade, e calar-se frente à situação política e social, mesmo nos aspectos que
abarcam os princípios religiosos. Poucos são aqueles que ousam se posicionar a respeito de
problemas que podem colocá-los numa situação delicada frente aos regimes ou frente aos
mais fanáticos e extremistas. Quantos foram os sábios e eruditos muçulmanos que
expressaram uma opinião — qualquer opinião, pro ou contra — sobre a fatwa (decreto
religioso) dos aiatolás iranianos que condenou Salman Rushdie, ou sobre os ataques
suicidas aos gritos de “Allahu akbar!” das últimas décadas?

“Quando uma pessoa explode a si mesma contra os que estão combatendo, então é um
mártir. Mas quando faz isso entre mulheres, crianças e idosos, ou em geral pessoas não
envolvidas no combate, então não é considerada mártir — ou pior, receio que seja
considerado suicida”, escreveu uma importante (e corajosa) autoridade muçulmana sunita,
o xeque egípcio Mohammad Sayed al-Tantawi, reitor da universidade al-Azar do Cairo, um
dos promotores da reunião de Amã. No Islã, aqueles que tiram sua própria vida são
considerados apóstatas da religião e são condenados à danação eterna. Mas Al-Tantawi
permanece uma voz isolada no panorama islâmico.
Por outro lado, as multidões de praticamente todos os países muçulmanos, sem
nenhum acesso à informação, vivem dos impulsos que lhe são fornecidos de cima. O que
chega até os súditos dos regimes é a informação constantemente manipulada ou forjada
pela mídia de regime. A realidade do mundo assim como o conhecemos não tem nada a ver
com o que esse terço da humanidade sabe e pensa do mundo — sem meios para saber e
conhecer mais. Assim, as TVs e vários jornais do mundo árabe podem acusar Israel, como
aconteceu de fato, pelos atentados do 11 de setembro, ou os americanos pela chacina de
cristãos no Paquistão; em suma, acusar o mundo ocidental e cristão por inúmeros
acontecimentos onde as vítimas são árabes ou muçulmanas. A palavra de ordem é nunca,
nunca a comunidade muçulmana, ou indivíduos, ou governos muçulmanos terem de
assumir a responsabilidade por atos negativos. A culpa é sempre do outro, no sentido
político, antropológico e psicológico.

Como escreveu recentemente o jornal ‘Le Monde’, “essas visões maquiavélicas e


frutos de manipulação são o sintoma de uma profunda regressão política e intelectual.
Edward Said, o célebre professor palestino da Universidade de Columbia, mostrou o quanto
esses delírios da imaginação, veiculados por uma intelligentsia que renunciou maciçamente
ao seu papel crítico, participam de uma "submissão" do espírito a poderes constituídos
autoritários e ao estranhamento engendrado pela perda da noção de responsabilidade, a
qual, por sua vez, é um dado central do fatalismo islâmico - e de sua vulgata fanática” (mas
Said era um intelectual árabe leigo, não muçulmano, N.d.A.).

O fato de uma parte da população muçulmana se inflamar hoje em favor de demagogos


obscurantistas constitui um drama e um imenso perigo (primeiro, para ela mesma). Mas o
fato de inúmeros intelectuais alimentarem ou caucionarem esse obscurantismo constitui um
crime. Isso porque, cinqüenta anos depois das independências, o que sobrou, uma vez
reduzidos ao nada os movimentos comunista e nacionalista, portadores de emancipação
laica mas que falharam lamentavelmente? Sobrou uma visão do mundo das elites
intelectuais na qual as desgraças que se abatem sobre seus povos provêm, sempre, do outro.
Eles mesmos, não têm nenhuma responsabilidade nisso.

"Somos vítimas, não temos nenhuma espécie de responsabilidade no que aconteceu":


este é o estado de espírito que mais se propagou, já faz muito tempo agora, em todas as
camadas da sociedade árabe, explicava recentemente, para denunciar os perigos dessa
tendência, o autor do editorial do jornal "Al Hayat". Essa "desresponsabilização"
sistemática propicia o terreno favorável para todos os delírios da imaginação que tomaram
conta da população muçulmana. No Egito, certa imprensa transformou numa profissão a
tarefa de explicar que “todo o ‘mal’ - Aids, drogas, prostituição, homossexualismo,
corrupção... – tudo vem de Israel”. Para o resto do mundo muçulmano, todo o mal vem dos
Estados Unidos. O jogo é fazer de conta que não há podridão nas sociedades árabes e
muçulmanas, a não ser que algo as influencie de fora e as leve ao mal.

A omissão ou submissão das autoridades religiosas moderadas ou espirituais abre


espaço para as lideranças mais fanáticas. Estas já representam uma rede bastante
organizada dentro do mundo muçulmano e até no mundo ocidental, uma rede que não
colabora diretamente com o terrorismo, mas que lhe fornece apoio ideológico e material, e
aspirantes ao martírio já doutrinados e fanatizados. Para estes grupos, muito ativos dentro
das comunidades islâmicas dos países ocidentais, “o Islã não é uma religião, é uma
missão”, como costuma afirmar nos seus sermões o xeque Omar Bakri, um dos muitos
pregadores que percorrem o Ocidente para exortar os muçulmanos a evitar qualquer
integração com o país onde vivem.

Já que para esses fundamentalistas o Islã não é uma religião, o fim justifica os meios,
mas também os meios justificam o fim, e eles estão constantemente distorcendo as palavras
do Livro Sagrado e do Profeta Muhammad, para adequá-las aos seus discursos e objetivos,
assim como o faz Osama bin Laden. Um exemplo para todos: “a democracia é o Homem
que quer substituir-se a Deus” é uma das palavras de ordem desses grupos fanatizados.
Quem esteja familiarizado com a vida do Profeta e com os primeiros tempos do Islã, sabe
perfeitamente quão democrática era a sociedade muçulmana dos primórdios, em princípio e
na prática, e como é democrática a sociedade beduína do deserto, que sempre representou o
ideal social e moral para o mundo árabe e muçulmano. Como muitos fanáticos ao longo da
história, esses fanáticos muçulmanos desconhecem sua própria história e cultura, rejeitam
as instituições libertárias nas quais vivem, e condenam os princípios de tolerância e
pluralidade dos quais se aproveitam para suas pregações intolerantes e despóticas.

O que se perde em tudo isso é exatamente a noção da religião e da religiosidade.


Praticar o Islã (ou qualquer outra religião) não pode ser uma imposição, nesse início de
milênio onde manter a fé no meio de acontecimentos cada vez mais demoníacos já requer
um esforço de sublimação interior para cada indivíduo.

O Islã em si precisaria agora de um debate sério, aprofundado, não dogmático, sobre a


responsabilidade que as crenças islâmicas carregam na formação de um universo marcado
por um fanatismo maniqueísta e uma violência latente, cada vez mais perigosos. Há mil
explicações possíveis para o impasse atual, incluindo as humilhações impostas aos povos
árabes e orientais em geral nos últimos séculos, a recusa da cultura muçulmana de
adaptação ao progresso atual, os preceitos de uma prática religiosa que almeja o controle da
vida cotidiana em todos seus aspectos, e assim por diante. Mas este possível debate fica
abafado ou amordaçado no mundo muçulmano, porque não há espaço político ou cultural
para uma abertura e um crescimento responsáveis, na consciência individual e coletiva.

Os muçulmanos que vivem e foram criados dentro do mundo ocidental (embora os


descendentes de árabes muçulmanos no Brasil sejam mais de um milhão, os que praticam o
Islã de forma assídua não passam de vinte mil) desfrutam não só de uma liberdade religiosa
total e completa, mas também de uma liberdade quase absoluta de opinião e de expressão.
São eles, somos nós, fiéis muçulmanos sem nenhum regime que nos obrigue a uma
devoção forçosa e obscurantista, que podemos e devemos rejeitar a imagem e a prática de
um Islã identificado com o poder, as limitações e as imposições, em nome da consciência
serena do que Deus exige verdadeiramente de nós, e encaminhar o debate e a abertura. O
Islã é uma religião profundamente libertária, pois deve ser vivida como uma escolha, dia
após dia, da submissão frente a Deus, e não frente à lei humana, mesmo que pretensamente
religiosa: como dizia o Profeta Muhammad, não há e não pode haver opressão em termos
de religião. E’ exatamente o oposto do que pretendem os fanáticos do tipo Taliban ou os
que pregam a violência em nome de Deus, Clemente e Misericordioso.