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UMMAH E IDENTIDADE NA COMUNIDADE SUNITA DO RIO DE JANEIRO como Al-Afghani e Al-Maududi, ummah é a sociedade islâmica ideal6.

Esse conceito já
teve vários significados na história islâmica:7
Delano de Jesus Silva Santos
• a pequena comunidade de muçulmanos na época do início do Islã.
(Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF)
• no período colonial esse vocábulo veio a significar grupo étnico.
RESUMO
• depois da independência o significado do termo veio a ser o de pertença a movimentos
A presente comunicação visa abordar o conceito de ummah como representação do Islã islâmicos.
universal e normativo e as implicações dessa noção para os muçulmanos sunitas do Rio de
Janeiro que se reúnem na Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio de Janeiro – SBMRJ. • sentido geográfico de nação-estado.
Ainda que de forma introdutória, este trabalho é o início de uma pesquisa etnográfica que • comunidade islâmica universal.
está sendo realizada na referida comunidade que busca compreender como o conceito de
um Islã universal, a ummah, opera nas ações de uma comunidade local como definidor de A ummah8, como comunidade de crentes fiéis a Deus ligados não pelo sangue, mas
uma identidade islâmica. Para isso, a observação participante das principais reuniões (com sim pela fé, se consolidou nos primórdios do Islã. Muhammad começou sua pregação em
especial atenção aos sermões do Sheikh às sextas-feiras), leitura de publicações produzidas
pela SBMRJ e conversas com membros e líderes da comunidade fazem parte integrante Meca e percebeu que os fracos não eram tratados com dignidade. Ele tomou para si os
dessa pesquisa. grandes problemas tanto de ordem religiosa quanto moral que o povo de Meca atravessava.
Palavras-chave: Islã, ummah, identidade, muçulmanos. Algumas pessoas ao ouvir sua mensagem se converteram e entre elas estava sua esposa
Khadija e um escravo chamado Bilal que depois se tornaria o primeiro muezim, aquele que
De acordo com Talal Asad, o conceito de Islã como objeto de estudo antropológico
chama os fiéis para a oração. Muhammad não foi aceito em Meca como o profeta enviado
não é uma questão simples,1 ele diz ainda, “Qualquer um que trabalhe com uma
por Deus. Ele encontrou nessa cidade “[...] primeiro desconfiança; mais tarde franca
antropologia do Islã será consciente de que há considerável diversidade nas crenças e
hostilidade”.9
práticas dos muçulmanos.”2 Assim, não é possível fazer estudos sobre o Islã considerando
Os convertidos, ou revertidos10, ao novo movimento tinham Muhammad como
essa religião como se fosse uma unidade totalizante que organiza vários aspectos da vida
profeta e este pediu para todos os que o seguiam que tivessem um novo tipo de
social3. Pace afirma que “Os diversos tipos de Islã estão espalhados pelo mundo.”4
relacionamento, não mais por meio de vínculos tribais, mas sim pela submissão a Deus. Ele
Mesmo diante de tal diversidade, o Islã se constitui em uma fonte de significado e
rompeu com a idéia tradicional de pertença e identidade e estabeleceu que todos os que se
identidade que oferece aos seus adeptos apoio coletivo e justificativa moral de práticas
submetiam a Deus deveriam formar um povo unido pela mesma fé em um único Deus.
sociais.5 Existe nessa religião o conceito de um Islã ideal, normativo e universal que pode
Perseguido em Meca, Muhammad sentiu a necessidade de uma estratégica mudança
ser mais bem expresso por ummah. De acordo com pensadores muçulmanos modernos tais
geográfica porque sua permanência na cidade se tornou insustentável.

6
WAHID, Abduraham. Islam, Nonviolence and National Transformation. In: PAIGE, Glenn D.; SATHA-
ANAD, Chaiwat; GILLIATT, Sarah. Islam and Nonviolence. Honolulu: Center for Global Nonviolence,
1
ASAD, Talal. The Idea of an Anthropology of Islam. Occasional Papes Series. Washington D.C.: 2001, p.53.
7
Georgetown Univ. Center for Contemporary Arab Studies, 1986, p. 1. Ibid., 53, 54.
2 8
Ibid., p. 5. PACE, Enzo, 2005, p. 62. Esta palavra, de acordo com Pace, significa “[...] tanto a idéia da unidade
3
Ibid., p. 1. espiritual como a da diversidade social, ambas possíveis na comunidade dos crentes [muçulmanos].”
4 9
PACE, Enzo. Sociologia do Islã. Petrópolis: Vozes, 2005, p. 281. Ibid., p. 36.
5 10
PINTO, Paulo G.H.R. “Embodied Morality and Social Practice in Syria.” Popular Piety, ISIM Review 17, Na concepção Islâmica todas as pessoas nascem muçulmanas, mas muitos se desviam por fatores culturais,
Spring 2006, p. 14. geográficos e religiosos, mas quando se convertem ao Islã voltam para sua verdadeira origem.

1 2
No ano 620 uma delegação da cidade de Yathrib, que mais tarde seria denominada As vitórias dos muçulmanos em Medina lhes renderam mais aliados e, como conseqüência
Medina, chegou a Meca e se converteu ao Islã. Em 622, Muhammad e umas 70 famílias de disso, “Muitas tribos queriam aliar-se à ummah, e Maomé começou a construir uma
muçulmanos deixaram Meca e foram para Medina. Essa é a hégira (hijrah), ou migração, confederação tribal poderosa, cujos os membros juraram não se atacar mutuamente e a lutar
que indica o começo da era islâmica. contra os inimigos uns dos outros.”16 Em 630 Muhammad, com 10.000 homens, marcha
para Meca e os coraíxitas admitem a derrota, mas nenhuma gota de sangue foi derramada.
A hégira não foi uma mera mudança de endereço. Na Arábia pré-islâmica, a
tribo tinha um valor sagrado. Voltar as costas para o seu próprio grupo A Caaba foi consagrada somente a Deus, assim todos os deuses daquele lugar de adoração
consangüíneo e juntar-se a outro era algo desconhecido, uma atitude foram destruídos. Muhammad morre em 632 e na época do seu falecimento “[...] quase
essencialmente sacrílega, e os coraíxitas não podiam tolerar essa defecção.
Eles juraram exterminar a ummah em Yathrib. Maomé tornara-se o chefe de todas as tribos da Arábia tinham se associado à ummah como confederadas ou como
um conjunto de grupos tribais que não mais estavam ligados pelo sangue,
mas que compartilhavam de uma ideologia, uma inovação espantosa na muçulmanas convertidas.”17
sociedade arábica.11 Os momentos iniciais do Islã são simbolicamente paradigmáticos. Foi o período da
austeridade até à formação de um grupo coeso e forte tendo como principal fator de
A ummah, em Medina foi fortalecida. Uma nova forma de convivência social foi
integração a religião. Atacar uma tribo de muçulmanos significava atacar muçulmanos de
formada a partir da visão de unidade de Muhammad. Este conceito de ummah “É a idéia de
outras tribos. A ummah revela uma doutrina vital para se compreender o Islã: a da
uma ética universal, portanto, que rompe com o princípio de identificação étnica que valia
concepção da unidade do gênero humano. Essa doutrina é uma conseqüência direta do
na sociedade tradicional”.12 As lutas não teriam mais caráter tribal porque as tribos em
princípio da unidade de Deus18. O Alcorão enfatiza essa unidade e afirma que a ummah é
Medina não podiam mais ser rivais. Elas agora estavam unidas por outra ordem, a divina.
uma só: “A vossa comunidade é uma só e eu sou o vosso Mestre [...]”19
As tribos lutavam pela causa de Deus, não por seus interesses próprios. “A ummah,
Em seu discurso, Muhammad profere as seguintes palavras sobre a irmandade dos
portanto, como diversas vezes foi ressaltado pelos especialistas do Islã, é um modelo ideal
muçulmanos: “Sabei que todo muçulmano é irmão do outro, e que os muçulmanos são
de sociedade política e religiosa que as concretas formações histórico-sociais devem ter
irmãos”.20 Além dessa consciência de uma irmandade, os principais ritos também dão aos
sempre diante dos olhos [...]”13, a ummah em Medina se tornou “[...] o padrão da sociedade
muçulmanos o sentimento de unidade e pertença a uma comunidade global. Não são ritos
muçulmana perfeita”14. A primeira mesquita foi construída em Medina e era nela que as
realizados por alguns crentes, mas por todos os fiéis muçulmanos espalhados pelo mundo
questões sociais e políticas da cidade eram resolvidas. A vida da ummah em Medina era
estabelecendo desse modo, o princípio de unidade da ummah.
unificada.
Nessa concepção não existe nem pobre nem rico, escravo ou livre ou diferença de
Quando Muhammad chegou a Medina a quibla, direção da salat (oração), era
raças. Esse conceito de uma comunidade formada por pessoas de várias tribos, línguas e
voltada para Jerusalém, mas como a maior parte dos judeus não aceitou a liderança de seu
nações é aplicado principalmente nas orações onde há o que Ali21 chama de “nivelamento”
novo líder, ele mudou a quibla para Meca que se constituiu num desligamento do judaísmo
porque ali todos são iguais não havendo diferença de classes.
e do cristianismo voltando-se para a origem do próprio monoteísmo representado pela
figura de Abraão15 que, segundo a tradição islâmica, foi adorador do Deus único na Caaba.
16
ARMSTRONG, Karen, op. cit. p. 61.
17
Ibid., p. 65.
11 18
ARMSTRONG, Karen. Islã. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 54. ALI, Mohammed. Maomé – Biblioteca do Pensamento Vivo vol. 16. São Paulo: Livraria Martins Editora,
12
PACE, Enzo. 2005, 54. 1955, p. 15.
13 19
Ibid., p. 63. Suras 23.52-54; 21.92-93.
14 20
ARMSTRONG, Karen, op. cit., p.54. HOURANI, Albert. Uma História dos Povos Árabes. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 39.
15 21
Ibid., p. 59. ALI, Mohammed. 1955, p. 95.

3 4
No Alcorão o termo ummah refere-se à comunidade no sentido religioso; um grupo ponto de representar tanto um Islã universal, independente dos governos muçulmanos
22
de pessoas sujeitas ao plano divino , nesse sentido, um profeta foi enviado para cada transitórios28, como também de se constituir em uma identidade coletiva.
ummah (Sura 16:36). De acordo com o professor de Estudos Islâmicos da Colorado A ummah, segundo o pensamento islâmico, existe nos dias atuais marcados pela
University, Frederick Denny, o último período em Meca e os momentos iniciais em Medina globalização da sociedade. O processo de globalização intensifica as relações sociais29 o
marcam a época em que Muhammad alcançou um conceito mais maduro de ummah como que facilita a transformação local. De acordo com Riaz Hassan30, o mundo global revela
sendo o de uma comunidade muçulmana genuína.23 que o Islã é formado de diferentes culturas e interpretações do Alcorão. Desse modo, pode-
Este vocábulo aparece relacionado a alguns temas no Alcorão tais como: se perceber que a ummah islâmica é plural e híbrida e isso, consequentemente, causa o
Unidade: Sura 43:33. Aqui está implícito o conceito de unidade da humanidade e em conflito de conceitos entre hibridade e autenticidade proporcionando espaço para o
23:52-54 significa a comunidade religiosa, unida pelas crenças, que Deus pretendia formar, encontro com o Outro e isso faz com que fronteiras religiosas, raciais e étnicas sejam
mas que se dividiu em Cristãos e Judeus.24 definidas ou redefinidas.
Mensageiros: são os agentes de Deus que foram enviados para cada ummah (Suras 2:134; [...] a mundialização coloca em questão, pelo acesso maciço aos transportes
e às comunicações, as fronteiras territoriais locais e a relação entre lugares e
2:141.25 Na Sura 2:143, nesse contexto, aparece o termo ummah wasat que diz respeito a identidades. Por outro, a circulação rápida das informações, das ideologias e
uma comunidade exemplar, uma testemunha para a humanidade. das imagens acarreta dissociação entre lugares e culturas. Nesse quadro, os
sentimentos de perda de identidade são compensados pela procura ou
A ummah wasat é um conceito de Medina formulado pelo Alcorão quando criação de novos contextos identitários.31
o conceito de ummah como comunidade religiosa alcança seu mais elevado
estágio, [...] o conceito de ummah no período de Medina parece ter se Os grupos religiosos, dentro desse contexto, vão à procura de refúgio em universos
tornado o termo que mais exclusivamente se aplica aos muçulmanos como
ummah por excelência. [...] A ummah wasat é testemunha para o resto da simbólicos para que possam continuar imaginando uma realidade social unida e coerente
humanidade, e Muhammad é a testemunha para os muçulmanos da vontade
de Deus: de Deus para Muhammad, para a ummah, para o resto da
que cada vez mais se torna diferenciada e fragmentada.32 A busca pela autenticidade ou
humanidade.26 uma identidade muçulmana ‘pura’ é a resposta para que haja o restabelecimento da ordem
Muçulmanos: Somente no período de Medina o conceito de ummah é aplicado social. Alguns movimentos entendem que a identidade islâmica está em risco pela
exclusivamente aos muçulmanos. Suras 2:127-129 descrevem a ummah como comunidade hibridade religiosa e tentam recuperar as práticas e crenças islâmicas do passado 33.
submissa a Deus. Uma comunidade moral, obediente e ideal. “A melhor nação (ummah)” O conceito de ummah, ou seja, a comunidade imaginada que mantêm a unidade
(Sura 3:110) já criada que segue o modelo de submissão de Abraão.27 religiosa dos muçulmanos, busca englobar e integrar as diferenças étnicas e culturais dos
A ummah formada no início do Islã é um arquétipo da comunidade dos muçulmanos fiéis oferecendo um forte sentimento de unidade. A concepção de ummah pode ser
e a ela eles sempre irão, de uma forma ou de outra, fazer referência. Para o muçulmano, a abordada sociologicamente como comunidade e identidade coletiva.34 Como comunidade,
ummah proporciona um sentimento de pertença a uma comunidade que é aberta a todos os
que crêem em Deus e no seu enviado, Muhammad. O conceito de ummah se desenvolveu a
28
HASSAN, Riaz. ‘Globalisation’s Challenge to the Islamic Ummah’, In: Asian Journal of Social Science,
vol. 30 , Nº 2, 2006, p. 312, 315
22 29
DENNY, Frederick Mathewson. “The Meaning of Ummah in the Qur’an.” History of Religions, Vol. 15, nº GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. São Paulo: Editora UNESP, 1991, p. 69.
30
1, 1975, p. 34. HASSAN, Riaz, op. cit., p. 319.
23 31
Ibid., p. 45. AGIER, Michel. ‘Distúrbios Identitários em Tempos de Globalização.’ MANA 7(2): 2001, p. 7.
24 32
Ibid., p. 48, 49. PACE, Enzo. ‘Religião e Globalização. In: Ari Pedro Oro e Carlos Alberto Steil (Orgs) Religião e
25
Ibid., p. 52, 53. Globalização. Petrópolis: Vozes, 1999, p. 31, 32.
26 33
Ibid., p. 55. HASSAN, Riaz, op. cit., p. 319.
27 34
Ibid., p. 69, 70. Ibid., p. 314.

5 6
os muçulmanos procuram manter uma certa homogeneidade e como identidade coletiva, relacionamento com as religiões locais? Quais as implicações, em termos práticos, dessa
35
eles se identificam com os valores e propósitos comuns . noção de um Islã universal (a ummah submissa à vontade de Deus) para a SBMRJ nos
[...] O Islã dava aos homens uma identidade pela qual definir-se em relação relacionamentos entre as diferentes etnias e com o Islã de uma forma global? Assim, o
aos outros. [...] sabiam que pertenciam a uma coisa mais ampla: a
comunidade de fiéis (a ummah). Os atos rituais que realizavam em comum, objeto de estudo para esta pesquisa é a formação da identidade muçulmana, segundo o
aceitação de uma visão partilhada do destino humano neste mundo e no conceito de ummah, na comunidade sunita do Rio de Janeiro a qual congrega pessoas de
próximo, ligavam-nos uns aos outros e sepavaram-nos dos de outras fés. 36
diferentes etnias e mantêm contatos com organizações islâmicas internacionais.
Sobre a questão da construção da identidade, é necessário procurar conhecer como a
Devido esta pesquisa se encontrar em seu estágio inicial, os dados aqui apresentados
comunidade sunita do Rio de Janeiro, constrói uma identidade muçulmana na atualidade
estão longe de ser conclusivos (se é que um dia serão). O que se pretende demonstrar, ainda
dado o fato de que a sociedade moderna está passando por processos de descontinuidade e
que de forma preliminar, é como os membros da SBMRJ vivenciam o conceito de ummah
deslocamento37 não existindo, portanto, identidades estáveis e inflexíveis.
em suas práticas disciplinares43 e como essa concepção regula os relacionamentos entre as
diferentes etnias e com o Islã pensado como religião universal.
“[...] a identidade é realmente algo formado, ao longo do tempo, através de
processos inconscientes, e não algo, inato, existente na consciência no A comunidade muçulmana sunita do Rio de Janeiro se reúne em uma sala na Rua
momento do nascimento. Existe sempre algo ‘imaginário’ sobre sua
unidade. Ela permanece sempre incompleta, está sempre ‘em processo’, Gomes Freire no centro da cidade do Rio de Janeiro.44 Grande parte dos membros da
sempre sendo formada”.38 SBMRJ se reúne para ouvir o sermão (Kithub) do Sheikh às sextas-feiras, período que
O senso de pertença e identidade é formado quando a tradição é inventada, a qual é antecede a oração. Além das orações e sermões, a SBMRJ organiza, tanto para os
reforçada por ritos que inculcam valores e normas de comportamento bem como um mito muçulmanos como ao público em geral, cursos sobre o Islã e língua Árabe. Mesmo
fundacional, que localiza a origem de um povo39. Dessa maneira, o rico legado de morando em Juiz de Fora é possível fazer visitas regulares a SBMRJ e às sextas e comecei
memórias, o desejo de viver em conjunto e a vontade de perpetuar a herança recebida, a desenvolver a observação participante das reuniões. Já tive a oportunidade de conversar
constituem em princípios básicos para que haja a unidade imaginada de um povo . 40 com o Sheikh e outros membros da comunidade e também sou assinante da nova revista,
Contudo, está havendo um distanciamento da idéia sociológica de sociedade como um Nurul Islam – A Luz do Islam, que é publicada trimestralmente pela SBMRJ obtendo, desse
41 42 modo, dados importantes sobre a comunidade. Pude observar, nas poucas visitas que fiz,
sistema bem delimitado com a chegada da globalização que abala essa unidade
imaginada. que a comunidade é composta por pessoas provenientes de diversas etnias: brasileiros
A comunidade sunita que se reúne na Sociedade Beneficente do Rio de Janeiro – convertidos ao Islã (que são a maioria), árabes, africanos e indianos. Os sermões do Sheikh
SBMRJ está buscando uma autenticidade islâmica ou está havendo hibridade no são pronunciados em Português, mas a língua Árabe é usada nas recitações do Alcorão
(seguidas de tradução para o Português), nas orações e, quando o nome de Mohammad é
35
HASSAM, Riaz, 2006, p. 314. pronunciado, a frase “que a paz esteja com ele” é dita em Árabe também. O Árabe é usado
36
HOURANI, Albert, op. cit., p. 89, 90
37
HALL, Stuart. A identidade Cultural na Pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2005, p. 16.
38
Ibid., p. 38.
39
HALL, Stuart, 2005, p. 54.
40
Ibid., 58.
41 43
Ibid., 67. ASAD, Talal. Genealogies of Religion: Discipline and reasons of power in christianity and islam.
42
PACE, Enzo, 1999, p. 27, 31, 32. Mundo globalizado ou globalização para Pace significa: o Outro está Baltimore: John Hopkins University Press, p. 125. Para Talal Asad, as práticas disciplinares “incluem os
perto de nós, em espaços geográficos que não pertencem a uma determinada cultura; é uma tendência à perda vários modos pelos quais os discursos religiosos regulam, informam e constroem o self religioso.”
44
de identidade, ou desenraizamento e grande mobilidade; fragilização tanto dos limites simbólicos quanto dos Uma nova propriedade foi adquirida no bairro da Tijuca onde está sendo construída a mesquita da qual o
sistemas de crenças e pertença a instituições religiosas de origem. primeiro andar já está pronto.

7 8
especificamente para uso religioso, contudo, esse idioma é “[...] valorizado como parte da SBMRJ.48 Ainda assim, é possível observar que fronteiras identitárias são estabelecidas
identidade muçulmana [...].”45 quando árabes e seus descendentes começam a conversar em Árabe na comunidade, pois,
É necessário levar em consideração que Muhammad foi um Árabe, falou o Árabe e desse modo demarcam fronteiras simbólicas excluindo das conversas aqueles que não
recebeu a revelação do Alcorão nessa língua. Visto que uma tradução do Alcorão não tem o falam o idioma. Um dos membros da SBMRJ chamada Ahmed me disse “para conhecer
mesmo valor que em Árabe, (a leitura do Alcorão, que é feita em voz alta, é associada ao mesmo o Alcorão tem que saber Árabe e para conversar com os árabes daqui [da SBMRJ]
som que é produzido) a recitação e a memorização dos textos do Alcorão nessa língua são também porque senão você fica perdido quando conversamos”. Isso foi importante porque
de extrema importância religiosa para o muçulmano. A SBMRJ promove concursos de percebi que para minha pesquisa o conhecimento do Árabe se tornou essencial.
memorização do Alcorão e cursos de Árabe; também é exigido que os líderes religiosos Os rituais são de grande valor para definir a identidade da ummah na SBMJR. Um
conheçam profundamente esse idioma. Essas considerações são importantes para identificar homem chamado Kalil me disse (na ocasião da minha primeira visita à SBMRJ) “Aqui
que a linguagem religiosa da ummah islâmica é o Árabe. Essa língua marca, religiosamente, todos chegam e sentam-se em qualquer lugar para orar, não existe lugar especial para
fronteiras identitárias por ser largamente utilizada nas atividades religiosas dos ninguém, pois, todos os muçulmanos são iguais.” As orações coletivas dão sentimento de
muçulmanos. pertença à comunidade global dos muçulmanos, a ummah. O jejum de Ramadan também
Sobre a presença árabe, Vera Marques, destaca como os árabes da comunidade oferece esse sentimento de unidade:
muçulmana de São Bernardo do Campo (onde convertidos sem ascendência árabe é a Além de ser um período sagrado, o Ramadan é um mês de imensa alegria
para o muçulmano. Diariamente, os seguidores do Islam em todas as partes
minoria), impõem sua cultura, podendo até mesmo confundir a própria religião com seus do mundo estão interligados pelo significado ímpar dessa fase de extrema
traços culturais, proporcionando uma certa resistência nos convertidos brasileiros em adoração a Allah.49

relação aos muçulmanos de ascendência árabe, “É possível perceber um certo desconforto Uma pesquisa sobre a consciência de ummah conduzida pelo sociólogo Riaz
dos convertidos com o que chamam de ‘arabização’, processo de difícil solução, uma vez Hassam da Flinders University tendo como um dos parâmetros para essa consciência o
que a religião, tendo sido fundada no mundo árabe e trazida por imigrantes árabes, tende a jejum do Ramadan, revelou que a consciência de ummah é parte integral da identidade
carregar consigo muitos traços culturais”. 46
No entanto, um estudo realizado por Sílvia muçulmana nos países pesquisados.50 A comunidade global de muçulmanos é identificada
Montenegro indica o oposto na comunidade muçulmana sunita do Rio de Janeiro, ou seja, o como uma irmandade que pratica os mesmos rituais. Esse tipo de identidade coletiva está
que está se buscando é uma tentativa de não identificar o Islã com a cultura árabe nessa presente na consciência dos muçulmanos; na religiosidade que inclui crenças e prática de
comunidade, “A Sociedade Muçulmana do Rio de Janeiro não se identifica com uma rituais.
‘identidade árabe’. Ao contrário, adere a um tipo de islamismo que se opõe a que essa Esta consciência molda a imagem do ‘self’ e também do ‘outro’. Permite
que muçulmanos se identifiquem com outros muçulmanos que estão
47
tradição religiosa possa se associar com uma identidade étnica”. Para esta mesma autora o sujeitos a opressão, violência e injustiças pelo ‘outro’. Esta é a razão porque
o conflito na Palestina e as políticas pró-Israel do Ocidente, especialmente
movimento anti-arabismo é uma conseqüência direta da noção de ummah que ocorre na os Estados Unidos, criou um intenso sentimento anti-americano em países
muçulmanos.51

45 48
CHAGAS, Gisele Fonseca. Conhecimento, Identidade e Poder na Comunidade Muçulmana Sunita do Rio MONTENEGRO, Silvia Maria, 2002, p. 71, 72.
49
de Janeiro. Dissertação de Mestrado. Niterói: UFF/PPGA, 2006, p. 58. CELINO, Fernando. Ramadan: muçulmanos celebram o mês sagrado em clima de festa e harmonia. In:
46
MARQUES, Vera Lúcia Maia. Conversão ao Islam: olhar brasileiro, a construção de novas identidades e Nurul Islam, nº 1, Dezembro, 2007, p. 9. Fernando Celino é jornalista e colunista da revista Nurul Islam
o retorno à tradição. Dissertação de Mestrado de Pós-Graduação em Antropologia Social da PUC/SP, 2000, publicada pela SBMRJ e membro desta comunidade.
50
p. 70. HASSAM, Riaz, 2006, p. 315-316. Na referida pesquisa 6,300 muçulmanos foram entrevistados em sete
47
MONTENEGRO, Silvia Maria, ‘Identidades Muçulmanas no Brasil: entre o arabismo e a islamização.’ países islâmicos sobre crenças e práticas do Islã.
51
Lusotopie, 2002/2, p. 66. Ibid., p. 317.

9 10
BIBLIOGRAFIA
Outro aspecto que define a fronteira identitária da SBMRJ é o sermão do Sheikh.
Um de seus sermões que tive a oportunidade de ouvir foi sobre o sufismo. Ele iniciou o
AGIER, Michel. ‘Distúrbios Identitários em Tempos de Globalização.’ Mana 7(2): 2001.
sermão elogiando líderes (entre eles Junayd) do movimento sufi no seu início, e disse que
só depois houve desvios doutrinários com o advento de Halaj e Ibn Arabi. Ele disse ainda ALI, Mohammed. Maomé – Biblioteca do Pensamento Vivo vol. 16. São Paulo: Livraria
Martins Editora, 1955.
que um dos erros doutrinários mais sérios do sufismo é o falso conceito de unidade, pois,
para os sufis, o fiel está unido a Deus não se fazendo distinção entre criador e criatura. ARMSTRONG, Karen. Islã. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

Outro erro mencionado pelo Sheikh foi a total submissão que deve ser prestada aos líderes ASAD, Talal. Genealogies of Religion: Discipline and reasons of power in christianity and
religiosos desse movimento. Com isso, pude perceber que para o muçulmano da SBMRJ, islam. Baltimore: John Hopkins University Press, 1993.

os sufis não fazem parte da ummah, visto que foi afirmado, durante o sermão, que eles não ________. The Idea of an Anthropology of Islam. Occasional Papers Series. Washington
tem relação com o Islã marcando uma linha divisória entre o ‘verdadeiro’ e o ‘falso’ Islã. D.C.: Georgetown Univ. Center for Contemporary Arab Studies, 1986.

Dessa maneira, a SBMRJ como representante do Islã suni, procura ser a representatividade CHAGAS, Gisele Fonseca. Conhecimento, Identidade e Poder na Comunidade Muçulmana
do ‘verdadeiro’ Islã.52 As relações internacionais que a SBMRJ mantêm com o Islã global Sunita do Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado. Niterói: UFF/PPGA, 2006.

também são uma forma em que a noção de ummah é articulada. Um exemplo disso é a DENNY, Frederick Mathewson. “The Meaning of Ummah in the Qur’an.” History of
visita de Sheikhs à SBMRJ para palestras e conferências.53 Dentro dessa perspectiva Religions, Vol. 15, nº 1, 1975.

internacional, a SBMRJ enviou dois jovens, Nader e Victor, para estudar o Islã na GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. São Paulo: Editora UNESP,
Universidade Internacional da África no Sudão. Eles receberam a incumbência de manter a 1991.

SBMRJ informada sobre acontecimentos importantes relacionados ao Islã: HALL, Stuart. A identidade Cultural na Pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A Editora,
Eles também nos enviarão algumas matérias publicadas nos jornais 2005.
sudaneses, sempre que os assuntos abordados tiverem relevância para o
Islam, de modo que passaremos a abrir ainda mais nossos horizontes sobre HASSAN, Riaz. ‘Globalisation’s Challenge to the Islamic Ummah’, In: Asian Journal of
o que acontece no mundo islâmico. Afinal, como disse o profeta Social Science, vol. 30 , nº 2, 2006.
Muhammad (SAAW): “Não é crente aquele que não se importa com os
assuntos dos muçulmanos.54 HOURANI, Albert. Uma História dos Povos Árabes. São Paulo: Companhia das Letras,
2006.
A idéia de um Islã universal, a ummah, define a identidade muçulmana na SBMRJ e
regula as ações dessa comunidade. Visto que há uma constante busca pela autenticidade; MARQUES, Vera Lúcia Maia. Conversão ao Islam: olhar brasileiro, a construção de
novas identidades e o retorno à tradição. Dissertação de Mestrado de Pós-Graduação em
esse conceito também opera nos discursos tanto de líderes quanto dos membros, pois, Antropologia Social da PUC/SP, 2000.
tentam transmitir a idéia de um Islã unificado, mas que na prática ainda se revela
MONTENEGRO, Silvia Maria, ‘Identidades Muçulmanas no Brasil: entre o arabismo e a
fragmentado devido as fronteiras étnicas e lingüísticas na própria comunidade. islamização.’ Lusotopie, 2002/2.

NURUL ISLAM – A LUZ DO ISLAM, revista trimestral publicada pela SBMRJ.


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53
Recentemente a SBMRJ recebeu a visita do Sheikh Sami Bilal do Kuwait nos dias 29, 30, 31 de julho de Religião e Globalização. Petrópolis: Vozes, 1999.
2008.
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Trecho de uma entrevista citado na revista Nurul Islam, dezembro, 2007, nº 1, p. 5.

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________. Sociologia do Islã. Petrópolis: Vozes, 2005.

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