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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

CENTRO DE COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DA TRADUÇÃO

Kátia Lucy Pinheiro

Políticas Linguísticas e suas implementações nas Instituições do Brasil: o tradutor e


intérprete surdo intramodal e interlingual de Línguas de Sinais de Conferência

Florianópolis
2020
Kátia Lucy Pinheiro

Políticas Linguísticas e suas implementações nas Instituições do Brasil: o tradutor e


intérprete surdo intramodal e interlingual de Línguas de Sinais de Conferência

Tese submetida ao Programa de Pós-graduação em


Estudos da Tradução da Universidade Federal de Santa
Catarina para a obtenção do título de Doutor em Estudos
da Tradução.
Orientadora: Profª. Ronice Müller de Quadros Dra.

Florianópolis
2020
Ficha de identificação da obra elaborada pelo autor,
através do Programa de Geração Automática da Biblioteca Universitária da UFSC.
Kátia Lucy Pinheiro
Políticas linguísticas e suas implementações nas instituições do Brasil: o tradutor e
intérprete surdo intramodal e interlingual de línguas de sinais de Conferência

O presente trabalho em nível de doutorado foi avaliado e aprovado por banca


examinadora composta pelos seguintes membros:

Profa. Dra. Silvana Aguiar dos Santos


Universidade Federal de Santa Catarina

Profa. Dra. Cristine Gorski Severo


Universidade Federal de Santa Catarina

Profa. Dra. Marianne Rossi Stumpf


Universidade Federal de Santa Catarina

Profa. Dra Simone Gonçalves de Lima da Silva


Instituto Federal de Santa Catarina

Certificamos que esta é a versão original e final do trabalho de conclusão que foi
julgado adequado para obtenção do título de doutor em Estudos da Tradução.

____________________________
Coordenação do Programa de Pós-Graduação

____________________________
Profa. Dra. Ronice Muller de Quadros Orientador(a)

Florianópolis, 2020.
Este trabalho é dedicado aos meus queridos
pais, meus filhos e comunidade surda.
AGRADECIMENTOS

A Deus e Jesus, Senhor Deus que me fez surda para testemunhar o quanto é importante
ser e respeitar as diferenças.
Aos meus pais, a vocês que me deram a vida e que muitas vezes renunciaram aos seus
sonhos para que eu pudesse realizar o meu. Souberam me fazer uma pessoa forte, disposta para
enfrentar os obstáculos e conseguiram me fazer muito feliz e realizada. A vocês minha eterna
gratidão.
Aos meus irmãos, Saulo e Estêvão, que estão longe geograficamente, mas sempre
perto, no coração.
A Celina e a Zuila, tia e amiga, toda a sua atenção e o seu carinho fizeram e fazem de
mim uma pessoa muito feliz. Desde a minha infância as senhoras são pessoas muito especiais
na minha vida e ocupam um lugar privilegiado no meu coração.
Aos filhos Kevin e Katherine, os aprendizados que adquiri com vocês me auxiliaram
no meu trabalho e me fizeram compreender melhor o sentido da educação.
A Nazaré, toda sua atenção, amiga, agradeço pelo apoio e cuidados com minha família.
A Vanessa Lilia, amiga, agradeço pelo apoio e cuidado com filha no momento dos meus
estudos.
Ao Departamento Letras Libras e Estudos Estudos - Delles da UFC, aos Professores
e funcionários do Centro Humanidades - CH pelo apoio meus estudos e liberação para
afastamentos.
À Secretaria de Acessibilidade – UFC Inclui, minha amiga a Prof. Vanda Leitão, que
me incentiva e contribuiu no trabalho e também o apoio do setor às gravação em Libras para a
minha trabalho de doutorado, incluindo os funcionários e, aos intérpretes, agradeço por
compartilhar comigo conhecimentos, conceitos, ajudando com sinais e palavras, dentre outros.
A amiga e orientadora Profa. Dra. Ronice Müller de Quadros, pela competência e
seriedade com que me orientou neste trabalho. Por toda atenção, carinho e apoio.
Ao ex-orientador prof. Dr. Tarcísio de Arantes Leite, agradeço por ter me orientado
na primeira versão do projeto da pesquisa.
Aos sujeitos tradutores e intérpretes surdos de línguas de sinais, contribuição das
respostas que subsidiaram esta pesquisa e contribuição para política linguística voltada ao
tradutor e intérprete surdo.
Às professoras das bancas de qualificação e defesa, Dra. Silvana Aguiar dos Santos,
Dra. Cristine Gorsoki Severo, Dra. Marianne Rossi Stumpf e Simone Gonçalves de Lima
da Silva, pela leitura e avaliação deste trabalho.
Aos intérpretes e tradutores (Libras e Português) Mariana Farias Lima, Jocelma
Lima, Jefferson Lucinda, Saionara Figueiredo Santos, Marisa G. Berkenbrock, Viviane
Barazzutti, Camila Luz, que contribuíram com a tradução e interpretação da tese e do projeto
de pesquisa.
Aos Tradutores especiais Andréa Michiles e Diego Lial pela tradução durante a
redação da tese, de vídeo em Libras para Português brasileiro escrito.
Aos Intérpretes e Tradutores de Inglês para Português: Fernando Carvalho Parente
Junior, Igor Silva, Emily Arcego, Projeto de extensão em tradução – EXTRAD da Universidade
Federal da Paraíba, obrigada pel contribuição na tradução.
A amiga especial e querida Mairla Pires Costa, que fez a revisão desta tese com
atenção, dedicação, competência e carinho.
Ao ilustrudor, amigo de intimo João Batista Alves de Oliveira Filho, contribuição os
desenhos.
Aos amigos, Mariana Farias Lima, Daniel Almeida de Lima e Marcus Wedyson
Pinheiro, João B. A. de Oliveira Filho, amigos que me apoiam sempre.
In memoriam, aos líderes surdos cearenses idosos, especialmente os irmãos Francisco
Suderland Bastos Mota e Francisco Suarez Bastos Mota. Líder intérprete cearense Ernando
Chaves Pinheiro, sobrenome igual ao meu e Reginaldo de Sousa Silva
As Comunidades Surdas redor ao mundo: ASCE, Feneis, Apilce, Febrapils, Wasli e
WFD. Me comprometo, com mais esta vitória, a contribuir com meus conhecimentos e
capacidades, ajudando a esta comunidade a crescer cada vez mais com o objetivo de fazer com
que outras pessoas na mesma condição que a minha, possam conquistar e sentir tamanha
felicidade.
A primeira questão é apresentada para um intérprete
surdo: “Como uma pessoa surda pode ser um intérprete
em língua de sinais na sua própria comunidade? Não
pode ser. Você é surdo!” (BOUDREAULT, 2005, p. 323);
no entanto, ao mesmo tempo ele relata que “há uma nova
tendência mundial para os intérpretes surdos prestadores
de serviço tornarem-se parte essencial na vida surda”
(BOUDREAULT, 2005, p. 323, Tradução ExTrad)1

1
The first is a question posed to a DI: “How can a Deaf person be a signed language interpreter in your own Deaf
community? It can’t be. You’re Deaf!” (BOUDREAULT, 2005, p. 323); yet at the same time he reports that “There
is a new trend around the world for the Deaf interpreter service provider to be an integral part of Deaf life”
(BOUDREAULT, 2005, p. 323).
RESUMO
Nesta pesquisa buscou-se mapear as políticas linguísticas e suas implementações nas
instituições do Brasil, e investigar a atuação do tradutor e intérprete surdo intramodal e
interlingual de línguas de sinais de conferência. Discutiu-se sobre o campo dos Estudos da
Interpretação de Línguas de Sinais (ETILS), com foco específico no estudo da interpretação de
duas ou mais línguas de sinais pelo intérprete surdo no Brasil e no mundo, com o intuito de
possibilitar a implementação de políticas linguísticas voltadas para os tradutores e intérpretes
surdos de línguas de sinais. No entanto, observamos que no Brasil são poucas as pesquisas que
discutem sobre o tradutor e interprete surdo. O quadro teórico-metodológico envolve,
basicamente, política linguística (CALVET, 2007; RAJAGOPALAN, 2004, 2013; QUADROS,
2014); a articulação entre legislações sobre direitos linguísticos e línguas de sinais (TURI, 1994;
QUADROS, 2004, 2010; SEVERO, 2013; MEULDER, 2016; SILVA, 2017); e tradutor e
intérprete surdo, tradução e interpretação intramodal e interlíngua (JAKOBOSON, 1995;
BOUDREAULT, 2005; STONE, 2008; MOODY, 2009; ADAM, 2014; CAMPELLO, 2014;
GRANADO, 2019; FERREIRA, 2019). Como pergunta dessa pesquisa, temos o seguinte
questionamento: como as políticas linguísticas contemplam o intérprete surdo de Libras para
outras línguas de sinais? O objetivo geral foi analisar as políticas existentes relacionadas com
interpretação e tradução intramodal e interlingual da Libras de/e para outras línguas de sinais
nacionais ou língua de sinais internacional nas conferências regionais, nacionais e
internacionais realizadas por intérpretes surdos. Os objetivos específicos são: 1) averiguar o
papel de intérpretes surdos de Libras para outras línguas de sinais nacionais ou língua de sinais
internacional profissionais (interpretação intramodal e interlingual) no Brasil e no contexto
regional, nacional e internacional nas conferências; 2) analisar como os intérpretes surdos de
línguas de sinais reconhecem as políticas linguísticas nacionais e internacionais, bem como sua
implementação na interpretação de Libras de/e para outras línguas de sinais nacionais ou língua
de sinais internacional e; 3) apresentar uma proposta de política linguística adequada ao
contexto das relações de interpretação de Libras para outra língua de sinais nacionais ou língua
de sinais internacional. Trata-se de uma análise quanti-qualitativa dos dados, por meio de
análise descritiva das listas dos eventos e questionários e entrevistas semiestruturada, e análise
explorativa, através de entrevistas semiestruturada e participante, isto é, autoetnografia. Na
análise descritiva e explorativa foram investigadas as listas de eventos em línguas de sinais que
contavam com a atuaçaõ de tradutores e intérpretes surdos e, análise explorativa, os tradutores
e intérpretes surdos de língua de sinais nacionais para outras línguas de sinais nacionais ou
língua de sinais internacional foram entrevistados, no qual buscou-se identificar a competência
linguística, formação, remuneração, atitude e perfil relacionando com as políticas linguísticas.
O corpus do diário de campo da participante consiste na observação das conferências, além do
corpus contendo: i) as listas dos eventos; ii) o corpus com as respostas dos questionários e
entrevistas dos sujeitos tradutores e intérpretes surdos. Como conclusão, a proposta que se
aspira é a elaboração do projeto de lei ou emenda, situando o tradutor e intérprete surdo, seja
para difundir a formação profissional, planejamento linguístico pela proposição de certificação
e elaboração/oferta de curso de formação e nova remurenação por direito. A contribuição dessa
meta política e política linguística objetiva conquistar a presença dos tradutores e intérpretes
surdos de línguas de sinais em todos os espaços de atuação, em todo o contexto: conferências
regionais, nacionais, internacionais, judiciais, consulados, aeroportos, policiais, saúde,
associações de/para surdos, instituições regionais nacionais e internacionais, Mercosul, ONU,
dentre outros, sem barreiras linguísticas.
Palavras-chave: Políticas Linguísticas. Tradutor e Intérprete Surdo. Línguas de Sinais. Libras.
Tradução e Interpretação Intramodal Interlingual..
ABSTRACT
This research mapped the Linguistic Policies and their implementations in the Brazilian
institutions, and investigated the performance of the deaf translator and interpreter who works
either in the intramodal and interlingual modalities at Sign Language conferences. To enable
the implementation of the Linguistic Policies to the deaf translators and interpreters of Sign
Language, this research also discussed the Sign Language Interpretation Studies (ETILS),
focusing on the interpretation of two or more Sign Languages by the deaf interpreter in Brazil
and worldwide, even though there are few types of research in Brazil that discuss the deaf
translator and interpreter. The theoretical background is based on the Linguistic Policies
(CALVET, 2007; RAJAGOPALAN, 2004, 2013; QUADROS, 2014); the articulation between
the legislation when it comes to Linguistics rights and Sign Languages (TURI, 1994;
QUADROS, 2004, 2010; SEVERO, 2013; MEULDER, 2016; SILVA, 2017); and deaf
translator and interpreter, intramodal and interlanguage translation and interpretation
(JAKOBOSON, 1995; BOUDREAULT, 2005; STONE, 2008; MOODY, 2009; ADAM, 2014;
CAMPELLO, 2014; GRANADO, 2019; FERREIRA, 2019). There was also a question that
guided this research: how do the Linguistic Policies include Libras deaf interpreter who
translates to other Sign Languages? The general objective was to analyze the existing policies
related to Libras intramodal and interlanguage interpretation and translation from/to other
national Sign Languages or international Sign Language at regional, national, and international
conferences conducted by deaf interpreters. The specific objectives are 1) to investigate the role
of the deaf interpreters of Libras for other national Sign Languages or international professional
Sign Language (intramodal and interlanguage interpretation) in Brazil and the regional, national
and international conferences; 2) to analyze how the Deaf Sign Language interpreters recognize
national and international Linguistic Policies, as well as their implementation in the Libras
interpretation from/to other national Sign Languages or international Sign Language; and 3) to
present a proposal with an appropriate Linguistic Policy related to Libras interpretation context
for another national Sign Languages or international Sign Language. Furthermore, the
methodology follows a quantitative and qualitative analysis of the data through descriptive
analysis of the lists of events and questionnaires and semi-structured interviews, and
exploratory analysis, through semi-structured and participant interviews, that is, self-
ethnography. It was investigated in the descriptive and exploratory analysis of the lists of events
interpreted by deaf translators and interpreters. In the exploratory analysis, the deaf translators
and interpreters who generally work translating from national Sign Languages to other national
Sign Languages or international Sign Language were interviewed to identify their Linguistic
Competence, training, remuneration, and also their attitude and profile towards the Linguistic
Policies. The corpus of the field research was based on the participant's diary, which was created
during the observation of the conferences. Besides, there are i) the lists of events; ii) the corpus
with the answers to the questionnaires, and the deaf translators' and interpreters' interviews.
Finally, the proposal looks for the creation of a project, which can be a bill or an amendment
that places the deaf translator and interpreter. Throughout this process, it will be possible to
spread professional training, linguistic planning by certification and preparation/offer of a
training course, and new remuneration by law. This political goal and Linguistic Policy ensure
the presence of deaf Sign Language translators and interpreters in all areas of activity, in all
contexts without language barriers: regional, national, international, judicial, consulates,
airports, police, health, associations of/for deaf people, regional national and international
institutions, Mercosul, among others.
Keywords: Linguistic Policies. Deaf Translator and Interpreter. Sign Languages. Libras.
Intramodal and Interlingual Translation and Interpretation.
LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Banquete em homenagem a Michel de L’Épée – ano 1834 .................................... 54


Figura 2 - Variação linguística da Libras: VERDE .................................................................. 58
Figura 3 - Colégio Nacional ..................................................................................................... 59
Figura 4 - DanceWriting ........................................................................................................... 64
Figura 5 - Reconhecimento legal das línguas de sinais pela legislação (2017) ........................ 77
Figura 6 - Reconhecimento legal das línguas de sinais dos países (2017) ............................... 77
Figura 7 - Cartografia linguística familiar de línguas de sinais do mundo............................... 82
Figura 8 - Cartografia linguística familiar de línguas de sinais nacionais da América do Sul . 94
Figura 9 - Cartografia das legislações das línguas de sinais nacionais - LSN da América do Sul
.................................................................................................................................................. 95
Figura 10 - Sinal de Língua de Sinais Internacional (LSI) ....................................................... 99
Figura 11 - Dicionário do Gestuno ......................................................................................... 103
Figura 12 - Presença dos tradutores e intérpretes de línguas de sinais na European Union (EU)
em 2016 .................................................................................................................................. 121
Figura 13 - Tradutor surdo de Flausino José da Gama (1875) ............................................... 126
Figura 14 - Associações de tradutores e intérpretes de língua de sinais do Brasil ................. 143
Figura 15 - Diferença entre tradução e Interpretação ............................................................. 146
Figura 16 - Interpretação interlingual ..................................................................................... 152
Figura 17 - Interpretação Intralingual ..................................................................................... 153
Figura 18 - Modelo adaptando da Interpretação Relay de Bienvenu e Colonomos ............... 156
Figura 19 - Parte de interpretação relay ................................................................................. 157
Figura 20 - Modelo de Interpretação com espelhamento ....................................................... 158
Figura 21 - Interpreação simultânea na cabine de conferência .............................................. 159
Figura 22 - Classificação linguística de língua de sinais para intérprete de conferência ....... 163
Figura 23 - A primeira situação de Conferência..................................................................... 169
Figura 24 - A segunda situação de Conferência ..................................................................... 170
Figura 25 - A terceira situação de conferência e teleconferência ........................................... 170
Figura 26 - A quarta situação de Conferência - Mesa-redonda .............................................. 171
Figura 27 - Google Forms: questionários para os sujeitos de pesquisa – Intérpretes Surdos 195
Figura 28 - Perfil dos participantes de intérpretes surdos de Libras para outra LSN ou LSI de
nossa pesquisa ........................................................................................................................ 200
Figura 29 - Sinal de FAZER (Libras e LSF) .......................................................................... 237
Figura 30 - Sinal de IRM@ (Libras e LSF) ............................................................................ 237
Figura 31 - Formação específica como tradutor/intérprete .................................................... 253
Figura 32 - Descrição do curso técnico em tradução e interpretação de Libras ..................... 256
Figura 33 - Exames de Prolibras para tradutor e intérprete surdo de Libras e português brasileiro
................................................................................................................................................ 291
Figura 34 - Mapeamento de diversos termos do tradutor, intérprete e guia-intérprete de línguas
orais ........................................................................................................................................ 325
Figura 35 - Registros dos sujeitos da pesquisa competência linguística da língua de sinais (L1,
L2 e L3) .................................................................................................................................. 329
Figura 36 - Raiz de línguas orais humanas e Raiz de língua de sinais internacional ............. 330
Figura 37 - Tradutor e Intérprete Surdo (intramodal ou intermodal) interlingual de língua .. 333
Figura 38 - Mapeamento de tradutor e intérprete surdo presença nas conferências no Mundo
(Libras para outra língua de sinais nacional ou língua de sinais internacional) ..................... 342
Figura 39 - Tradutor e intérprete surdo brasileiros de língua de sinais nacional ou língua de
sinais internacional para Libras nas conferências e diversos contextos ................................. 349
Figura 40 - Tradutor e intérprete surdo americano e alemão nas conferências e diversos
contextos ................................................................................................................................. 349
Figura 41 - Cartografia das legislações das línguas de sinais nacionais e Tradutor e Intérprete
de línguas de sinais ................................................................................................................. 353
Figura 42 - Tipos de cursos de Formação de Tradutores e Intérpretes de Libras/PB............. 361
Figura 43 - Recursos tecnológicos em Libras para outra língua de sinais ou língua de sinais
nacional ou língua de sinais internacional (vice-versa) .......................................................... 366
LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1 - Quais as línguas de sinais nacionais e língua de sinais internacional que mais
frequente intérprete surdo trabalha nas conferências ............................................................. 221
Gráfico 2 - Eventos ou em outras situações ........................................................................... 222
Gráfico 3 - Atuação do Intérprete de língua de sinais - ILS ................................................... 223
Gráfico 4 - Qual é a sua primeira língua de sinais? ................................................................ 230
Gráfico 5 - Qual é a sua língua de sinais como segunda língua? ........................................... 232
Gráfico 6 - Qual é a sua língua de sinais como terceira língua? ............................................ 240
Gráfico 7 - Onde aprendeu em língua de sinais como primeira, segunda e terceira língua ... 243
Gráfico 8 - Fez o curso de formação de ISLSLS? .................................................................. 252
Gráfico 9 - Existe curso de formação para ISLSLS .............................................................. 260
Gráfico 10 - Quais motivos você atribui para a maioria dos intérpretes de uma língua de sinais
para outra língua de sinais serem surdos ................................................................................ 270
Gráfico 11 - Trabalha como intérprete surdo de língua de sinais para outra língua de sinais,
voluntariamente ou é remunerado?......................................................................................... 271
Gráfico 12 - Remuneração é igual a dos intérpretes ouvintes de Libras e Português ............ 274
Gráfico 13 - Há legislação nacional ou internacional sobre tradutor e intérprete surdo de língua
de sinais para outra língua de sinais - ISLSLS ....................................................................... 285
Gráfico 14 - Resultado sobre trabalha como intérprete das línguas de sinais nacionais e língua
de sinais internacional ............................................................................................................ 301
Gráfico 15 - Continua a trabalha como interprete surdo de língua de sinais para outra língua de
sinais - ISLSLS? ..................................................................................................................... 307
Gráfico 16 - Política linguística em relação à presença do intérprete surdo de língua de sinais
para outra língua de sinais ISLSLS no Brasil e nos outros países .......................................... 311
Gráfico 17 - Você considera que o ISLSLS é valorizado no Brasil? ..................................... 314
Gráfico 18 - Interpretação da Libras para outra língua de sinais nacional - LSN ou língua de
sinais internacional das conferências...................................................................................... 346
LISTA DE QUADROS

Quadro 1 - Línguas de sinais do Brasil .................................................................................... 44


Quadro 2 - Sistemas de escritas da língua de sinais ................................................................. 65
Quadro 3 - Exemplos de línguas de sinais................................................................................ 70
Quadro 4 - Decreto 6.949/2009. Promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das
Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, assinado em Nova York, em 30 de março
de 2007 ..................................................................................................................................... 78
Quadro 5 - Línguas de sinais nacionais da América do Sul ..................................................... 87
Quadro 6 - Línguas de sinais nacionais dos outros países do Mundo ...................................... 96
Quadro 7 - Normas ISO para Tradução e Interpretação ......................................................... 116
Quadro 8 - Reconhecimento dos Intérpretes Surdos como Profissionais ............................... 136
Quadro 9 - Tradutores e Intérpretes ........................................................................................ 147
Quadro 10 - Classificação linguística do intérprete de língua de conferência (APIC e AIIC)
................................................................................................................................................ 162
Quadro 11 - Modelo adaptação de diferenças entre ILO e ILS e ISLSs ................................ 167
Quadro 12 - Lei 11.091/2005 e Classificação Brasileira de Ocupações - CBO ..................... 175
Quadro 13 - Lei 12.319/2010, Lei 13.105/2015 e Lei 13.005/2014 ....................................... 178
Quadro 14 - Decreto 5.626/2005 ............................................................................................ 181
Quadro 15 - Lei 12.319/2010 e Lei 13.146/2015 ................................................................... 184
Quadro 16 - Lista dos eventos ................................................................................................ 208
Quadro 17 - Lista complementar dos eventos ........................................................................ 209
Quadro 18 - Perfil dos participantes (questionados) da competência das línguas de sinais
nacionais e língua de sinais internacional como primeira, segunda e terceira língua ............ 226
Quadro 19 - Disciplina de Libras do curso de Fonoaudiologia .............................................. 244
Quadro 20 - Dois cursos de formações para tradutores e intérpretes (Libras e português
brasileiro) e (duas línguas de sinais)....................................................................................... 264
Quadro 21 - Cursos de graduação de Letras Libras bacharelado ........................................... 265
Quadro 22 - Sindicato Nacional dos Tradutores – SINTRA .................................................. 280
Quadro 23 - Dimensões de bilinguismo ................................................................................. 318
Quadro 24 - Diferentes conceitos dos termos de tradutor, intérprete e guia-intérprete de línguas
orais ........................................................................................................................................ 323
Quadro 25 - Competência linguística e competência tradutória e interpretativa ................... 331
Quadro 26 - Tradutor e intérprete de língua: empírico e profissional .................................... 335
Quadro 27 - Tipos dos diversos contextos, da demanda, da remuneração e da contratação .. 336
Quadro 28 - Tradução e interpretação de línguas faladas e língua escrita e línguas de sinais da
SINTRA .................................................................................................................................. 339
Quadro 29 - Modelo adaptação pré-evento, no momento do evento e pós-evento ................ 344
Quadro 30 - Modelo adaptação do perfil de tradutor e intérprete surdo ................................ 347
Quadro 31 - Profissionais tradutores e intérpretes surdos intramodal e interlingual (plurilíngue
e multilíngue) das línguas ....................................................................................................... 351
Quadro 32 - Tradutor e intérprete surdo bilíngue, plurilíngue e multilíngue de línguas de sinais
................................................................................................................................................ 351
Quadro 33 – Complementações (emendas) ou criação da legislação para profissional tradutor e
intérprete surdo ....................................................................................................................... 355
Quadro 34 - Os aspectos das situações de remuneração, voluntário e remuneração e voluntário
................................................................................................................................................ 356
Quadro 35 - As diferenças do curso de língua como língua estrangeira - LE e curso de formação
para tradutor e intérprete surdo ............................................................................................... 358
Quadro 36 - Tipos de cursos de Formação de Tradutores e Intérpretes surdos...................... 362
Quadro 37 - Recursos tecnológicos de línguas de sinais para avaliação ................................ 366
Quadro 38 - Disciplinas novas ou complementares para curso da formação: qualificação
profissional, técnico ou superior ............................................................................................. 370
Quadro 39 - Algumas das disicplinas complementares para curso de letras Libras............... 371
LISTA DE TABELAS

Tabela 1 - Intérpretes profissionais por pares de línguas - AIIC ............................................ 166


Tabela 2 - Gênero dos participantes ....................................................................................... 200
Tabela 3 - Faixa etária dos participantes ................................................................................ 201
Tabela 4 - Formação dos participantes em nível de graduação .............................................. 201
Tabela 5 - Formação dos participantes em nível de Pós-Graduação ...................................... 202
Tabela 6 - Perfil profissional dos participantes da pesquisa ................................................... 203
Tabela 7 - Cursos de Graduação para alunos surdos .............................................................. 266
Tabela 8 - Comparação de honorários de tradutores e intérpretes de línguas de sinais da
Febrapils entre Libras/ outras línguas de sinais e Libras para português brasileiro (2017) ... 275
Tabela 9 - Tabela de valores de referência de tradução da Febrapils ..................................... 278
Tabela 10 - Tabela de referência da interpretação e guiainterpretação de Libras .................. 279
Tabela 11 - Valores de Guia-Interpretação/ ASL/Gestuno/sinais internacionais da SINTRA
................................................................................................................................................ 281
Tabela 12 - Surdos no Prolibras de tradução e interpretação (certificação) ........................... 288
Tabela 13 - Certificação da Prolibras: proficiência na tradução e interpretação da Libras e língua
portuguesa............................................................................................................................... 293
Tabela 14 - Trabalha como intérprete de línguas de sinais .................................................... 300
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
ABNT Associação Brasileira de Normas Técnica
ACATILS Associação Catarinense de Tradutores e Intérpretes de Língua de Sinais
AIIC Associação Internacioal de Intérprete de Conferência
APIC Associação Profissional Intérprete de Conferência
APILCE Associação dos Profissionais Intérpretes e Tradutores de Libras do Ceará
ASCE Associação dos Surdos do Ceará
ASL American Sign Laguage
BSL British Sign Language
CAAE Certificado de Apresentação para Apreciação Ética
CBO Classificação Brasileira de Ocupações
CCHLA Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes
CDI Certified Deaf Interpreter
CIAS Centro de integração da arte e cultura dos surdos
CNCT Catálogo Nacional de Cursos Técnicos de Nível Médio
CNE Conselho Nacional de Educação
CNPQ Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
CNUDN Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Natural
CONEP Comissão Nacional de Ética em Pesquisa
DGS Deutsche Gebärdensprache
DI Deaf interpreter
DDI Developing Deaf Interpreting
DII Deaf Interpreter Institute
DUDL Declaração Universal de Direitos Linguísticos
DUDH Declaração Universal de Direitos Humanos
EAD Educação à Distância
EFSLI European Forum of Sign Language Interpreters
ELiS Escrita das línguas de sinais
ETILS Estudos da Tradução e da Interpretação de Sinais
EU European Union
EUA Estados Unidos da América
EUD European Union of the Deaf
EUMASLI European Master in Sign Language Interpreting
Febrapils Federação Brasileira das Associações dos Profissionais Tradutores e Intérpretes e
Guia-Intérpretes de Língua de Sinais
Feneis Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos
FINSL Finnish sign language
GI Guiaintérprete
GIS Guiaintérprete Surdo
GU Gallaudet University
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IDA International Disability Alliance
ILO Intérprete de língua oral
ILS Intérprete de língua de sinais
INDL Inventário Nacional da Diversidade Linguística
INES Instituto Nacional de Educação de Surdos
I-nS Intérprete não-surdo
IPHAN Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
IS Intérprete Surdos
ISL Irish Sign Language
ISLS Intérpretes Surdos de Língua de Sinais
ISLSLS Intérpretes Surdos de língua de sinais para outra língua de sinais
ISLSN/LSN Intérpretes Surdos de língua de sinais nacionais para outra língua de sinais
nacionais
ISO International Organization for Standardization
KCC Kapi’olani Comunitária College – University of Hawai
L1 Primeira Língua
L2 Segunda Língua
L3 Terceira Língua
L4 Quarta Língua
LBI Lei Brasileira de Inclusão
LE Língua Estrangeira
LGP Língua Gestual Portuguesa
LF Língua falada
LIBRAS Língua Brasileira de Sinais
LIS Lingua dei segni Italiana
LM Língua Materna
LS Língua de Sinais
LSA Lengua de Señas Argentina
LSB Lengua de Señas Boliviana
LSC Lengua de Señas Catalã
LSC Lengua de Señas Colombiana
LSCB Língua de Sinais dos Centros Urbanos Brasileiros
LSCH Lengua de Señas Chilena
LSE Lengua de Signis Española
LSEC Lengua de Señas Ecuadora
LSF Langue des Signes Française
LSI Língua de Sinais Internacional
LSKB Língua de Sinais Urubu-Kaapor
LSM Língua de Sinais Mexicana
LSN Língua de Sinais Nacional
LSP Lengua de Señas Peruana
LSPY Lengua de Señas Paraguaia
LSQ Langue des signes québécoise ou Quebec sign language
LSR Língua de sinais regional
LSU Lengua de Señas Uruguaia
LSV Língua de Sinais Venezuelana
MTE Ministério do Trabalho e Emprego
NCIEC National Consortium of Interpreter Education Centers
NG Nederlandse Gebarentaal
NRCPD The National Registers of Communication Professionais Working With Deaf and
Deafblind People
NZSL New Zealand Sign Language
OGS Österreichische Gebärdensprache
OIT Organização Internacional do Trabalho
OMS Organização Mundial de Saúde
ONG Organização Não-Governamental
ONU Organização das Nações Unidas
P Palestrante
PB Português brasileiro
PGET Programa de Pós-Graduação em Estudos em Tradução
PPGL Programa de Pós-Graduação em Linguística
PL Política Linguística
POET Programa de Pós-graduação em Estudos em Tradução
ProLibras Proficiência em Libras
Prostrad Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução
PUC Pontifícia Universidade de Católica
RID Registry of Interpreters of the Deaf
SEL Sistema de Escrita da Libras
SI Sinais Internacionais
SINTRA Sindicato Nacional dos Tradutores
SW Sign Writing
TCLE Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
TIGISC Tradutor, Intérprete e Guiaintérprete Surdocego
TIL Tradutor e Intérprete de Língua
TILS Tradução e Interpretação em Língua de Sinais
TILSP Tradutor e Intérprete de Libras e Língua Portuguesa
TIO Tradutor e Intérprete Ouvinte
TIS Tradutor e Intérprete Surdo
Tradusp Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução
TUILSU Tecnicatura Universitaria en interpretación Lengua de Señas Uruguay
UFAL Universidade Federal de Alagoas
UFC Universidade Federal do Ceará
UFES Universidade Federal do Espírito Santo
UFG Universidade Federal de Goiás
UFGD Universidade Federal da Grande Dourados
UFPB Universidade Federal da Paraíba
UFRGS Universidade Federal do Rio Grande do Sul
UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro
UFRR Universidade Federal de Roraima
UFSC Universidade Federal Santa Catarina
UFSCar Universidade Federal de São Carlos
UFT Universidade Federal do Tocantins
UFU Universidade Federal de Uberlândia
UnB Universidade de Brasília
VIPARO Vahvasti viittomakielistä vuorovaikutusta ja aitoa ammattilaisuutta
VisoGrafia Escrita Visogramada das Língua de Sinais
Wasli World Association of Sign Language Interpreters
WFD World Federation of the Deaf
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................... 23
1.1 PROBLEMA DE PESQUISA E OBJETIVOS .................................................................. 37
1.2 OBJETIVO GERAL ........................................................................................................... 37
1.3 OBJETIVOS ESPECÍFICOS ............................................................................................. 38
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA I: POLÍTICAS LINGUÍSTICAS DAS LÍNGUAS DE
SINAIS ..................................................................................................................................... 39
2.1 DIFERENTES VERTENTES DE POLÍTICAS LINGUÍSTICAS E AS PESQUISAS
SOBRE POLÍTICAS LINGUÍSTICAS E LÍNGUAS DE SINAIS ......................................... 39
2.2 CENÁRIO INTERNACIONAL: LÍNGUA DE SINAIS ................................................... 51
2.3 CENÁRIO NACIONAL: LÍNGUA DE SINAIS ............................................................... 56
2.4 DEFINIÇÃO DAS LÍNGUAS DE SINAIS COMO PRIMEIRA, SEGUNDA E TERCEIRA
LÍNGUA ................................................................................................................................... 66
2.5 LEGISLAÇÕES LINGUÍSTICAS DAS LÍNGUAS DE SINAIS POR AS IMPLICAÇÕES
.................................................................................................................................................. 74
2.6 GEOPOLÍTICA DAS LÍNGUAS DE SINAIS NACIONAIS NO MUNDO .................... 79
2.6.1 Língua de Sinais Nacionais da América do Sul .......................................................... 83
2.6.2 Língua de Sinais Nacionais dos outros países no mundo ........................................... 96
2.6.3 Língua de Sinais Internacional: uma língua ............................................................... 98
3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA II: OS ESTUDOS SOBRE A ATUAÇÃO DOS
TRADUTORES E INTÉRPRETES SURDOS .................................................................. 112
3.1 CENÁRIO NACIONAL E INTERNACIONAL DO TRADUTOR E INTÉRPRETE ... 112
3.2 CENÁRIO DE FORMAÇÃO E ESTUDOS DE TRADUÇÃO E INTERPRETAÇÃO DAS
LÍNGUAS ............................................................................................................................... 129
3.3 TERMINOLOGIA DO TRADUTOR E INTÉRPRETE DE LÍNGUA E ATUAÇÃO DO
TRADUTOR E INTÉRPRETE SURDO ............................................................................... 144
3.4 TRADUTOR E INTÉRPRETE DE LÍNGUA NA CONFERÊNCIA ............................. 164
3.5 POLÍTICAS LINGUÍSTICAS E PLANEJAMENTO LINGUÍSTICO DO TRADUTOR E
INTÉRPRETE DE LÍNGUA PELAS LEGISLAÇÕES ........................................................ 173
4 PERCURSO METODOLÓGICO ................................................................................... 189
4.1 TIPO DE PESQUISA E NATUREZA DA PESQUISA .................................................. 189
4.2 INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS ............................................................... 194
4.3 OS SUJEITOS DA PESQUISA: INTÉRPRETE SURDO .............................................. 199
4.4 ETAPAS DA PESQUISA ................................................................................................ 204
5 ANALISANDO DE INTÉRPRETE SURDO INTRAMODAL E INTERLINGUAL DE
LÍNGUAS DE SINAIS ......................................................................................................... 207
5.1 ANÁLISE DESCRITIVA DE DADOS DAS CONFERÊNCIAS ................................... 207
5.2 COMPETÊNCIA LINGUÍSTICA DO INTÉRPRETE SURDO DE LÍNGUAS DE SINAIS
NACIONAIS E LÍNGUA SINAIS INTERNACIONAL ....................................................... 225
5.3 FORMAÇÃO DO TRADUTOR E INTÉRPRETE SURDO DAS LÍNGUAS DE SINAIS
.................................................................................................................................................251
5.4 REMUNERAÇÃO DO TRADUTOR E INTÉRPRETE SURDO DAS LÍNGUAS DE
SINAIS NACIONAIS OU LÍNGUA DE SINAIS INTERNACIONAL ............................... 271
5.5 LEGISLAÇÃO, AVALIAÇÃO E CERTIFICAÇÃO SOBRE TRADUTOR E
INTERPRETE SURDO.......................................................................................................... 285
5.6 PERFIL DA PROFISSIONALIZAÇÃO DO INTÉRPRETE SURDO DE DUAS
LÍNGUAS DE SINAIS .......................................................................................................... 299
5.6.1 Trabalha com interpretação e tradução de Libras para outras línguas de sinais
nacionais ou Sinas Internacionais ....................................................................................... 300
5.6.2 A continuidade no trabalho como intérprete surdo de Libras para outras Línguas
de Sinais Nacionais ou Língua de Sinais Internacional .................................................... 307
5.7 POLÍTICA LINGUÍSTICA E ATITUDE NO BRASIL E NO MUNDO ....................... 310
6 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ................................................................................. 323
6.1 A BASE DE COMPETÊNCIA LINGUÍSTICA DAS LÍNGUAS DE SINAIS
RELACIONA COM TRADUTOR E INTÉRPRETE SURDO ............................................. 328
6.2 A ATUAÇÃO DE TRADUTOR E INTÉRPRETE SURDO INTERMODAL,
INTRAMODAL, INTERLINGUAL E INTRALINGUAL NAS LÍNGUAS ORAIS ........... 332
6.3 ATUAÇÃO DE TRADUTOR E INTÉRPRETE SURDO INTRAMODAL E
INTERLINGUAL DE LIBRAS PARA OUTRAS LÍNGUAS DE SINAIS NOS DIVERSOS
CONTEXTOS ........................................................................................................................ 335
6.4 A ATUAÇÃO DE TRADUTOR E INTÉRPRETE SURDO INTRAMODAL E
INTERLINGUAL DE LIBRAS PARA OUTRA LÍNGUA DE SINAIS NACIONAL OU
LÍNGUA DE SINAIS INTERNACIONAL NO CONTEXTO DE CONFERÊNCIA .......... 340
6.5 POLÍTICA LINGUÍSTICA E PLANEJAMENTO LINGUÍSTICO FOCADO
LEGISLAÇÃO DE TRADUTOR E INTÉRPRETE SURDO, LIBRAS, LÍNGUA DE SINAIS
NACIONAL E LINGUA DE SINAIS INTERNACIONAL .................................................. 352
6.6 A REMUNERAÇÃO PARA TRADUTOR E INTÉRPRETE SURDO .......................... 356
6.7 A FORMAÇÃO PARA TRADUTOR E INTÉRPRETE SURDO .................................. 357
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................ 375
REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 379
APÊNDICE A – Descrição ................................................................................................... 403
ANEXO A – Descrição ......................................................................................................... 409
23

1 INTRODUÇÃO

As investigações e estudos acerca do tradutor e intérprete surdo2 são recentes no Brasil.


Ainda não existe uma formação profissional para a qualificação desses sujeitos na área da
tradução e interpretação. De acordo com Silva (2016) “a palavra formação sempre se referindo
à formação profissional ou profissionalização”, e nesse trabalho também terá esse sentido. Para
além da área dos Estudos de Tradução e Interpretação de Línguas de Sinais – ETILS e do campo
de estudo da Política de Tradução, há a pesquisa sobre tradução e interpretação intramodal e
interlingual entre duas línguas de sinais que tem sido realizada por surdos que dominam a Libras
e outras línguas de sinais nacionais (doravante LSNs) ou língua de sinais internacional
(doravante LSI).
Nesse contexto, intramodal envolve os sistemas entre línguas de mesma modalidade (de
uma língua oral-auditiva para outra língua oral-auditiva ou de uma visuo-gestual para outra
língua visuo-gestual), enquanto a intermodal corresponde a interpretação entre línguas duas
modalidades: a visuo-gestual e a oral-auditiva (SEGALA; QUADROS, 2015). O foco da
pesquisa apresentada é, portanto, na tradução e interpretação entre línguas da mesma
modalidade, ou seja, línguas de sinais, visuo-gestuais e interlingual, isto é, diferentes línguas
de sinais, em especial entre uma língua de sinais nacional (doravante LSN) e uma LSI.
Woodward (1996 apud NONAKA, 2004) apresenta um modelo tripartido de variedades
de línguas de sinais, que será também útil para a discussão da presente proposta: as línguas de
sinais nacionais (LSNs) que desfrutam de algum reconhecimento e/ou políticas linguísticas que
as colocam como língua oficial da comunidade surda de seus respectivos países. Dessa forma,
LSN de cada país. A LSI é uma espécie de língua internacional, muitas vezes usada pelos surdos
em conferências, esportes, reuniões, na associação de surdos, na mídia e em diversos outros
contextos, seja eles regional, nacional e internacional, ou em situações informais sendo
utilizada, por exemplo, em reuniões internacionais de surdos.
A qualificação dos surdos para a função de intérpretes, vem se dando numa formação
empírica e baseada na sua competência tradutória e/ou interpretativa3, incluindo a competência

2
O termo surdo será usado referindo-se ao indivíduo que, independentemente do grau de perda auditiva, aceita e
usa a língua de sinais como primeira língua, identificando-se como membro de uma comunidade surda – “[...] um
grupo minoritário com direito a uma cultura própria e a ser respeitado na sua diferença” (MOURA, 2000, p. 72).
3
Embora qualquer falante bilíngue possua competência comunicativa nas línguas que domina, nem todo bilíngue
possui competência tradutória. A competência tradutória é um conhecimento especializado, integrado por um
24

linguística, geralmente ocorrendo, nos contextos de conferências, em interpretações de casos


jurídicos, em interpretações em consulados, em atendimento de saúde, em diversos outros
contextos.
Em minha pesquisa, que é relacionada às Políticas Linguísticas, o foco é nas
interpretações que acontecem no contexto de conferência, no qual ocorram interpretações de
Libras para outra LSN, tais como: língua de sinais americana - ASL, língua de sinais francesa -
LSF, língua de sinais espanhola - LSE, língua de sinais argentina - LSA, língua de sinais
venezuelana - LSV, língua de sinais alemã - DGS, dentre outras, e/ou para LSI. Segundo Silveira
(2017, p. 14) a “pessoa surda tem sua experiência cultural e linguística (em língua de sinais -
LS) e tem capacidade para formar-se como intérprete ou tradutor para atuar com uma língua de
sinais nacional ou língua de sinais internacional para a Libras e vice-versa”.
O meu questionamento segue a linha de raciocínio de refletir se a experiência cultural e
linguística do sujeito surdo é suficiente para transformá-lo num intérprete e tradutor, mesmo
sem a formação específica. Essa grande discussão sobre o intérprete surdo e a tradução e
interpretação intramodal e interlingual entre duas ou mais das línguas de sinais nacionais será
melhor discutida no capítulo III, que traz a temática do tradutor e intérprete surdo, na análise
de dados e no capítulo de discussão desse trabalho.
Hoje, ainda percebemos o número reduzido de intérpretes surdos que realizam
interpretação intramodal e interlingual no Brasil, além da maioria ser voluntária e apenas com
formação empírica. Ou seja, são poucos os profissionais existentes; é necessário o aumento de
profissionais intérpretes surdos de LSNs ou LSI. Sobre o intérprete surdo, Laguna (2015)
afirma:

Faço um parêntese aqui para explicar que entendo por Intérprete empírico como sendo
o sujeito que não se constitui profissionalmente, com uma formação em bases teóricas
e científicas que determinem seu perfil profissional. Ele é um sujeito que circula na
sociedade com um conhecimento prático adquirido pela vivência no cotidiano com os
surdos. A nomeação do intérprete empírico é normalmente atribuída àqueles que vêm
da comunidade surda. (LAGUNA, 2015, p. 13).

O intérprete surdo de uma LSN para outra LSN ou LSI tem atuação empírica até hoje,
mas provavelmente, já poderia ser, há muito tempo um profissional com formação de qualidade.
Para Quadros (2004, p. 27), o profissional intérprete é aquele “que domina a língua de sinais e
a língua falada do país e que é qualificado para desempenhar a função de intérprete. No Brasil,

conjunto de conhecimentos e habilidades, que singulariza o tradutor e o diferencia de outros falantes bilíngues não
tradutores (HURTADO ALBIR, 2003, p. 19).
25

o intérprete deve dominar a língua brasileira de sinais e língua portuguesa” (QUADROS, 2004,
p. 27). Dessa forma, o intérprete surdo também pode ser tradutor de Libras e português
brasileiro4, porém, é mais comum o perfil de intérprete surdo intramodal e interlingual, aquele
que domina Libras e outra LSN ou LSI.
Para a formação dessa categoria profissional é preciso o estudo teórico e das técnicas de
interpretação, garantindo direitos linguísticos à comunidade surda. É importante que o
intérprete surdo de duas LSNs seja um profissional com experiência e competências nas línguas
de sinais e, também, com competência interpretativa e tradutória, conhecimento adquirido em
formações profissionais. Conforme Adam, Aro, Druetta, Duenna e Klintberg (2014, p. 6):

Nossa posição é que, como a maioria dos interpretes surdos - ISs fazem esta forma a
interpretação em uma forma ou outra como profissão, ela é uma parte integrante do
serviço do IS; além disso, os ISs que têm habilidade na tarefa interlinguística são
geralmente capazes de fazer uma interpretação interlingual e vice-versa.5 (ADAM et
al, 2014, p. 6, tradução ExTrad6).

No que se refere à atuação dos intérpretes surdos de Libras para outra LSNs ou LSI
podemos encontrar algumas dificuldades para a profissionalização, devido à falta de cursos de
formação e de um perfil profissional definido. Silveira (2017, p. 17) diz que “no Brasil, muitos
intérpretes surdos não são formados nessa área e sim formados na área de ensino de Libras ou
em outras áreas”. A falta de formação, digamos assim, acaba ocasionando a atuação voluntária
na atividade interpretativa; logo, poucos são remunerados. Os surdos que trabalham como
intérpretes de língua de sinais e têm algum nível de profissionalização são poucos, a maioria
deles continua atuando “sem profissionalização” e com um foco restrito à prática da
interpretação de uma LSN para outra LSN ou LSI.
É importante deixar claro que, para alguns autores, como Steiner (2005), Rónai (1976),
Jakobson (1975), Schleiermacher (1992) e Quadros (2004), há diferenças entre a atividade da
tradução e da interpretação. Esses autores defendem que, na tradução, o tradutor converte um

4
Segundo Bagno (2015, p. 27) “[...] se é verdade que o Brasil a língua falada pela grande maioria da população é
o português brasileiro (que muitos já gostariam de chamar simplesmente de brasileiro), esse mesmo português
brasileiro apresenta um alto grau de diversidade e de variabilidade, não é só por causa da grande extensão territorial
do país”.
5 We argue that, as most DIs do this form of interpreting in one way or another in their professional employment,
it is an integral part of DI work; moreover, DIs who are skilled at interlanguage work are usually able to do
intralanguage interpreting and vice versa (ADAM; ARO; DRUETTA; DUENNA; KLINTBERG, 2014).
6
ExTrad é um projeto de extensão do do Curso de Tradução do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da
Universidade Federal da Paraíba (CCHLA/UFPB) . Disponível em: http://www.cchla.ufpb.br/extrad.
26

texto escrito em uma língua para outro texto escrito em outra língua, enquanto que na
interpretação, se faz uma tradução falada ou sinalizada de uma língua para outra língua falada
ou língua de sinais, em que os textos orais produzidos acontecem de forma síncrona,
presencialmente ou remota, podendo ser simultânea ou consecutiva. Na tradução-
interpretação, termo usado nesta tese, é entendida como atividade de conversão de um texto
escrito para um texto videogravado em língua de sinais, de forma que estão presentes
características da tradução e da interpretação. Esta possibilidade de conversão acontece,
principalmente, em função da modalidade da língua de sinais, que traz implicações para o
processo de conversão.
Outra diferença apontada por Steiner (2005) está relacionada com os tempos
empregados na tradução e na interpretação. No primeiro, o tempo é mais alargado, envolvendo
um período maior de reflexão para a realização da tradução; enquanto o segundo, o tempo é
restrito, pois o ato da interpretação acontece quase que simultaneamente ao ato da produção do
texto fonte (PÖCHHACKER, 2004; RODRIGUES, 2013).
É importante, para além da área dos Estudos da Tradução e da Interpretação, agregar à
essa discussão as contribuições de áreas como a Linguística e a Sociolinguística, para que seja
possível fazer a implementação de políticas linguísticas voltadas para os intérpretes surdos de
língua de sinais. E também o contrário, as áreas da Linguística, Política Linguística e
Sociolinguística podem agregar à discussão, contribuindo para as áreas de Estudos da Tradução
e da Interpretação, é importante a troca de conhecimentos e epistemologias. Dessa forma,
observamos que os estudos evidenciam a importância de garantir a presença do intérprete surdo
de Libras para outra LSN ou LSI como forma de assegurar a compreensão linguística e os
direitos linguísticos dos surdos.
O papel do intérprete surdo de duas LSNs e LSI de acordo com Adam, Aro, Druetta,
Duenna e Klintberg (2014, p. 6, tradução ExTrad) é o seguinte: “[...] as perspectivas sobre o
papel e o trabalho dos intérpretes surdos variam. Uma variação é que os intérpretes surdos são
indicados quando um ou uma cliente utiliza seus próprios sinais ou sinais locais; quando usa
uma língua de sinais estrangeira [...]”7. Dessa maneira, os intérpretes e tradutores profissionais
de línguas de sinais trabalhariam focados em interpretar e intermediar a comunicação entre
clientes surdos brasileiros, surdo estrangeiro, surdo oralizado, surdo fronteiriço, surdo indígena,

7 As discussed, perspectives on the role and work of DIs vary. One is that DIs are assigned when a client uses his
or her own signs or home signs; uses a foreign sign language […] (ADAM; ARO; DRUETTA; DUENNA;
KLINTBERG, 2014, p. 6).
27

surdo imigrante, surdo refugiado, ouvinte brasileiro e estrangeiro. Neste sentido, as LSNs e LSI
são para comunicação ou instrução entre pessoas surdas e/ou ouvintes, permite a oportunidade
de compartilhamento linguístico entre as diferentes comunidades surdas e ouvintes.
A partir dessa reflexão, surgiram os questionamentos para essa pesquisa, que é voltada
para a investigação de políticas linguísticas e suas implementações a cerca da presença do
tradutor e intérprete surdo de língua de sinais para outra língua de sinais nas instituições do
Brasil, considerando a Libras e outras LSNs ou LSI. Sobre a importância das políticas
linguísticas, Calvet (2007) declara que:

a política linguística (determinação das grandes decisões referentes às relações entre


as línguas e a sociedade) e o planejamento linguístico (sua implementação) são
conceitos recentes que englobam apenas em parte essas práticas antigas e atual.
Políticas linguísticas: decisões do poder para influir no uso da língua de um grupo ou
de uma comunidade linguística, campo interdisciplinar entre Sociologia e Linguística.
(CALVET, 2007, p. 11, grifo do autor).

A contextualização da pesquisa, voltada à questão societária e linguística, se dá no


estudo sociológico focado em algumas instituições brasileiras das comunidades surdas
regionais, nacionais e internacional. As primeiras (regionais e nacionais) possuem o direito à
LSN, como a Libras, a DGS (Língua de Sinais Alemã), a LSF (Língua de Sinais Francesa), a
ASL (Língua de Sinais Americana), entre outras; e a segunda (internacional) têm direito ao
acesso à LSI, que podem ser utilizada por qualquer pessoa surda, uma espécie de língua,
comumente usada na Europa em encontros internacionais e nas conferências internacionais, que
podem incluir quaisquer países.
A presença do intérprete surdo de duas línguas de sinais, portanto, é importante para a
instrumentalização e difusão das línguas de sinais para as comunidades surdas e sociedades8 no
Brasil. Dessa forma, precisa-se de política linguística para propor ações e organizar programas
de cursos que englobem temáticas de formação de intérprete surdo dominantes com
competência linguística de duas ou mais LSN ou LSI, com competência tradutória e
interpretativa, perfil, profissional, atitudes, legislações e remuneração. Segundo Boudreault
(2005):

8
Sociedade é um conjunto de seres que convivem de forma organizada. A palavra vem do Latim societas, que
significa “associação amistosa com outros”. O conceito de sociedade se contrapõe ao de comunidade ao considerar
as relações sociais como vínculos de interesses conscientes e estabelecidos, enquanto as relações comunitárias se
consideram como articulações orgânicas dae formação natural. Comunidade Surda faz parte da sociedade.
28

[...] de outro lado, apresenta uma breve descrição de diversos aspectos do trabalho de
interpretação do surdo. Ele elenca situações variadas que podem demandar um surdo
bilíngue com as habilidades tanto na língua oral quanto de sinais; as pessoas surdas
que trabalham entre duas línguas de sinais; ou pessoas surdas que trabalham com uma
única língua de sinais (ex. IS espelhando, facilitando, trabalhando com pessoas
surdocegas. (BOUDREAULT, 2005 apud ADAM; ARO; DRUETTA; DUNNE;
KLINTBERG, 2014, p. 6, tradução ExTrad).9

A Organização Mundial de Saúde (OMS), no ano de 2016, informou que existe 360
milhões de pessoas com deficiência auditiva no mundo. De acordo com a World Federation of
the Deaf – WFD, há 70 milhões de pessoas surdas e mais de 300 línguas de sinais no mundo.
Em 2010, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou a existência de 9,7
milhões de surdos e deficientes auditivos no Brasil.
No mundo globalizado, os surdos brasileiros e estrangeiros, ou seja, o povo surdo
mundial tem contato constante, seja em conferências regionais, nacionais e internacionais, seja
em situações de contatos não formais, do cotidiano; é importante ressaltar que esse contato,
geralmente, acontece por meio da LSI, mas nem todos os surdos conhecem e dominam a LSI.
Por isso, é importante e se faz necessário que surdos possam estudar e se apropriar dos estudos
da tradução e dos estudos da interpretação, possibilitando-os, não somente conhecer sobre
tradução e interpretação, mas também atuarem como tradutores e intérpretes de línguas de sinais
diferentes. Nesse sentido, é fundamental haver ações afirmativas que possibilitem a formação
desses sujeitos. Para isso, é salutar se pensar em legislações que possam favorecer esse cenário.
O movimento surdo brasileiro conquistou algumas legislações importantes. Dentre elas,
estão: a Lei Federal nº 10.436 (BRASIL, 2002), o Decreto nº 5.626 (BRASIL, 2005a) e a Lei
Federal nº 12.319 (BRASIL, 2010a). Além de outras legislações também importantes para o
movimento de pessoas com deficiências, tais como: a Lei Federal nº 13.146 (BRASIL, 2015) e
o Decreto Federal nº 6.949 (BRASIL, 2009).
Para além das legislações citadas, ainda há uma legislação internacional que é a
Convenção Internacional da Pessoa com Deficiência. No que se refere aos intérpretes surdos de
língua de sinais para outra língua de sinais, o decreto 5.626/2005 é a principal delas. Esse
decreto regulamenta a Lei nº 10.436/2002, que em seu art. 19, cap. V “Da formação do tradutor
e intérprete de Libras - Língua portuguesa”, prevê a existência e atuação de: “profissional surdo,

9
[…] on the other hand, presents a concise description of a range of aspects of Deaf interpreting work. He outlines
various language situations that may call for a Deaf bilingual with skills in both a spoken and a signed language;
Deaf people who work between two sign languages; or Deaf people who work within one sign language (i.e., DI
mirroring, facilitating, working with deaf-blind people) (BOUDREAULT, 2005 apud ADAM; ARO; DUNNE;
KLINTBERG, 2014, p. 6).
29

com competência para realizar a interpretação de línguas de sinais de outros países para a
Libras, para atuação em cursos e eventos” (BRASIL, 2005a).
Assim, este decreto garante que os surdos tenham a oportunidade de ter interpretação e
comunicação10 com duas ou mais LSNs ou LSI, através da presença do intérprete surdo de duas
línguas de sinais nas instituições que tiverem participação de pessoas surdas. Entretanto, essa
ainda não é uma realidade brasileira, não existe uma ação do poder público para a implantação
de surdos tradutores/intérpretes nas instituições brasileiras. Não há propostas para organizar
cursos de formação que levem em consideração a constituição do profissional intérprete e
tradutor surdo de língua de sinais para outra língua de sinais, não há legislação que garanta e
reconheça essa profissão.
Por consequência, raramente acontecem contratações desse profissional e ainda não
existe reconhecimento da profissão e nem da necessidade do intérprete surdo de duas LSNs ou
LSI nos contextos de conferência, jurídico, de saúde e outros, onde circulam, muitas vezes,
diferentes línguas de sinais, como as línguas locais (centro-urbanos), de aldeias, regionais,
nacional e internacional, principalmente, no encontro surdo-surdo.
O exame do ProLibras (Proficiência em Libras), que é um exame nacional para a
certificação de proficiência no uso e no ensino de Língua Brasileira de Sinais (Libras) e para a
certificação de proficiência na tradução e interpretação da Libras-português-Libras, certifica
pessoas surdas ou ouvintes, com ensino superior ou ensino médio completo. Os certificados
obtidos pelo ProLibras asseguram a competência no uso e no ensino de Libras ou na tradução
e interpretação desta língua, sendo aceitos por instituições de educação superior ou básica,
conforme regulamentado pelo Decreto nº 5.626/2005 e pela Portaria Normativa nº 20/2010
promulgada pelo Ministério da Educação (MEC) e determinou a realização do exame até 2015.
A Prolibras é somente certificação, ou seja, não é formação, também não contempla a
tradução e interpretação entre duas línguas de sinais. Para o surdo que deseja realizar o exame
para tradução-interpretação, há somente a avaliação para tradutor-intérprete de Libras/
português brasileiro. Sem legislação específica, há uma falta de valorização do tradutor e
intérprete surdo, logo, poucos são contratados pelas instituições, pela falta de reconhecimento,

10
Campello (2014) diz que os surdos usam a Língua de Sinais Brasileira envolvendo o corpo todo, no ato da
comunicação. Sua comunicação é viso-gestual e produz inúmeras formas de apreensão, interpretação e narração
do mundo a partir de uma cultura visual. Perlin e Miranda (2003) defendem que a experiência visual significa usar
a visão como meio de comunicação. Dessa experiência visual surge a cultura surda, representada pela língua de
sinais, pelo modo de ser, de se expressar, de conhecer o mundo, de entrar nas artes, no conhecimento científico e
acadêmico
30

e a maioria torna-se voluntário. Faz-se necessária a implementação de ações afirmativas,


incluindo legislações, referentes à presença do intérprete surdo de LSN para outra LSN ou LSI
e, consequentemente, às formações, às legislações, às atitudes, à remuneração, às línguas de
sinais (competência linguística) e aos diversos contextos, principalmente, da conferência.
O principal aspecto que motiva essa pesquisa é saber como os surdos brasileiros estão
enfrentando as barreiras da comunicação entre as diversas línguas de sinais vivenciadas no país,
como por exemplo, como se dá a comunicação entre o surdo estrangeiro e o surdo brasileiro, as
LSNs, a LSI e a Libras.
A importância da presença do tradutor e intérprete surdo de duas línguas de sinais é para
facilitar a comunicação entre os surdos, dando um fim nas barreiras comunicativas que possam
existir. O intérprete surdo tem a responsabilidade da interpretação pela instrução das línguas
sinalizadas e o tradutor tem a responsabilidade da tradução pela escrita de língua falada e de
língua sinalizada. A valorização dos direitos linguísticos dos surdos e o empoderamento das
línguas de sinais corrobora com a importância de haver um campo de atuação para o intérprete
surdo de língua de sinais para outra língua de sinais não somente nas instituições públicas e
privadas, mas em qualquer espaço e contexto que seja necessário.
É importante destacar que as pesquisas nessa temática ainda são recentes, porém, há
uma quantidade significativa de pesquisadores e autores que começam a trabalhar com essa
temática. Entra eles, Collins (2004), Quadros (2004, 2010, 2014), Boudreault (2005), Moody
(2005), Stone (2008, 2009, 2011), Druetta (2008, 2014), Adams (2010, 2014), Campello (2014),
De Meulder (2016), , Howard (2018), Russel (2018), Ferreira (2019), Granado (2019) e
Rathmann (2010, 2019). Há também pesquisadores discutindo sobre os direitos linguísticos que
contribuem diretamente para a nossa discussão, entre eles, cito Jakobson (1959), Ferguson
(1959), Rajagopolan (2004, 2013) e Severo (2013).
Os questionamentos acima mencionados e a minha experiência pessoal com as línguas
de sinais e como tradutora e intérprete surda foram o que me despertou para esse tema. Enquanto
surda e enquanto participante da comunidade surda e de eventos junto a entidades, como a
Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos – Feneis, a Associação dos Surdos do
Ceará – ASCE (da qual sou associada e sou vice-presidente), a Associação dos Profissionais
Intérpretes e Tradutores de Libras do Ceará – Apilce (da qual sou associada e ex-conselheira do
conselho de Linguística). Participei de bancas para a seleção de tradutores e intérpretes de
Libras/português brasileiro e fui professora de cursos de formação de tradutores e intérpretes
de língua de sinais da Apilce e da Feneis, da Federação Brasileira das Associações dos
31

Profissionais Tradutores e Intérpretes e Guia-Intérpretes de Língua de Sinais – Febrapils


(atualmente sou coordenadora de grupo do trabalho de tradutores e intérpretes surdos e guia-
intérpretes surdos), e outras associações de surdos, em universidades públicas e privadas, entre
outras instituições. Sempre mantive a minha prática militante e vivenciei algumas experiências
com tradução, interpretação e tradução-interpretação de línguas de sinais. A partir disso,
construi o meu histórico de práticas comunicativas e práticas de tradução e interpretação das
línguas de sinais.
A minha primeira experiência com a interpretação entre línguas de sinais
(interpretação11 intramodal e interlingual) foi de forma consecutiva entre LSI e a Libras, em
Belo Horizonte no Encontro Latino-Americano de Surdos, no ano de 2004. Utilizei-me da
língua sinais internacional - LSI para a comunicação com os surdos estrangeiros e, enquanto
coordenadora e mediadora de mesa redonda, sinalizava em LSI e em Libras durante a
conferência (não tinha intérpretes surdos no palco); fiz sinalização de LSI depois Libras e vice-
versa. O público alvo era composto por surdos brasileiros e surdos estrangeiros da América do
Sul, Estados Unidos e Finlândia. Os surdos estrangeiros sempre visitam as associações de
surdos, dessa forma, precisei interpretar, de maneira informal, na interação entre pessoas surdas
brasileiras e pessoas surdas estrangeiras e auxiliar na comunicação entre elas.
Sobre essa experiência, teve duas situações: na primeira, interpretei rápido e obtive êxito
ao repassar de uma língua para outra. Escolhi sinais coerentes e claros para um melhor
entendimento; na segunda experiência, tive mais dificuldade em organizar a estrutura
linguística de uma língua para outra língua, por falta de prática e conhecimento do que é ser
intérprete de duas línguas de sinais.
No ano de 2008, participei como membro da comissão do Encontro de Jovens Surdos do Cone
Sul em Capão da Canoa – RS. Neste evento também me comuniquei com participantes surdos
estrangeiros que possuiam diferentes línguas de sinais como a LSA – Língua de Sinais
Argentina, a LSU – Língua de Sinais Uruguaia, outras LSNs e LSI, me comuniquei com os
estrangeiros (de vários países da América do Sul) e suas várias línguas de sinais, somente com
sinais básicos das línguas de sinais deles, nem todas as pessoas sabem LSI. Comuniquei-me

11
A palavra utilizada pelo autor Jakobson é Tradução, mas fiz a substituição pela palavra interpretação. Para
Jakobson (1959), tradução interlingual ou tradução propriamente dita, que é definida como a interpretação de
uma língua para outra; ou seja, uma interpretação de signos verbais de uma língua para outra língua. A tradução
interlingual se dá entre duas línguas diferentes. A tradução utiliza o escrito. A tradução oral entre duas línguas
chama-se de interpretação interlingual, que pode ser sinalizada, simultânea ou consecutiva.
32

com surdos argentinos misturando sinais das línguas de sinais argentina - LSA e da LSI. Com
surdos uruguaios, misturei sinais da LSU e da LSI. Esse tipo de comunicação difere da função
realizado pelo intérprete.
Participei de algumas conferências internacionais, tentando entender e me aprofundar
na LSI. Assisti atentamente aos palestrantes estrangeiros que tinham intérpretes surdos
brasileiros das duas LSNs e LSI. Foi nessas conferências que agucei a minha curiosidade sobre
o intérprete surdo de línguas de sinais. Como se dava o processo de formação? Qual é o perfil
desse profissional? Como se estabelece a remuneração? E como acontece a apropriação das
diferentes línguas de sinais?
Alguns anos depois, participei de dois eventos que me aproximaram bastante da LSI: o
The 5th Deaf Academics and Researchers Conference em Florianópolis no ano de 2010, e o
Congresso Latino Americano para intérprete e tradutor de língua de sinais no Rio de Janeiro
em 2013. No início, senti um pouco de dificuldade em compreender a linguagem acadêmica,
mas aos poucos fui me apropriando dessa linguagem, depois me aprofundei na linguagem
acadêmica de LSI.
Nos anos de 2012, 2014, 2016 e 2018, tive a oportunidade de participar de dois
congressos: o I e II Congresso Nacional de Pesquisas em Linguística e Língua de Sinais e o III,
IV, V e VI Congresso Nacional de Pesquisas em Tradução e Interpretação de Libras e Língua
Portuguesa, todos os eventos foram realizados pela Universidade Federal de Santa Catarina,
em Florianópolis.
Durante esses eventos, no ano de 2016, fiquei observando o trabalho de interpretação
da equipe de profissionais de intérpretes surdos de Libras e LSI. Essas observações me fizeram
refletir e levantar questionamentos sobre a remuneração do profissional de intérprete surdo de
língua de sinais para outra língua de sinais, se essa remuneração é igual a do Tradutor e
Intérprete de Libras e português brasileiro – TILSP, sobre a competência linguística das línguas
de sinais e sobre organização do evento.
No ano de 2012, participei do Pan-americano de surdos, em São Paulo, onde conheci
surdos argentinos e tive a experiência de vivenciar a língua de sinais argentina - LSA.
Inicialmente nossas conversas ocorriam por meio de uma espécie de línguas de contato entre a
Libras e a LSI. Um amigo argentino, por sua vez, comunicava-se através da LSA com outros
argentinos, enquanto eu observava atentamente, pois tinha interesse em aprender a LSA. Como
estratégia para aprender a língua, mantive contato virtual com um deles através da ferramenta
Skype, para assimilar melhor a língua. Porém, aprender uma língua de sinais e ser tradutor e
33

intérprete de língua de sinais – TILS são coisas diferentes. Ser profissional TILS necessita de
formação profissional para trabalhar com as línguas de sinais. Nós conversávamos em Libras e
LSA e dessa forma, fui aprendendo e desenvolvendo a LSA.
Também participei da comunidade surda argentina e de associações de surdos na
Argentina, principalmente em Córdoba e em Buenos Aires. Precisei me comunicar em LSA
com os argentinos, e conheci a cultura argentina e cultura surda argentina, aprofundei e pratiquei
a LSA no país. Posteriormente, no ano de 2014, acabei atuando como tradutora/intérprete
empírica (voluntária), sem muita experiência, em uma palestra na Universidade Federal do
Ceará, da professora Dra. Ronice Quadros. Interpretei em línguas de sinais (Libras para LSA),
tanto para surdos brasileiros quanto para surdos argentinos.
No ano de 2017, fiz uma interpretação empírica de LSI para Libras e vice-versa no
evento de Artes Surdas, na Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza, na palestra do surdo
francês David de Keyzed no qual estavam presentes intérpretes surdos cearenses, um
deles atua profissionalmente como intérprete há muitos anos, diferente de mim e de outro
intérprete surdo, que tivemos nesse espaço nossa primeira experiência. Fomos desafiados a
interpretar de Libras para LSI e vice-versa.
Em relação ao desafio, ponderamos que tínhamos conhecimento e proficiência na LSI,
mas acreditamos que, para além disso, precisamos de prática e de conhecimentos teóricos para
qualificar a nossa formação nesse processo de interpretação intramodal. É imprescindível o
aumento do número de profissionais intérpretes surdos nos estados para possibilitar a
acessibilidade em todos os espaços e contextos.
Realizei dois cursos voltados para a área de LSI: sobre o uso e técnicas de intepretação,
com carga horário de 40 horas em 2014 e, o curso virtual de sinais internacionais. Este último
foi realizado juntamente com alunos de outras universidades. As aulas deste curso ocorreram
através de vídeoconferências entre quatro instituições superiores: a Universidade Federal de
Santa Catarina (UFSC), a Universidade Federal do Ceará (UFC), a Universidade Gallaudet
(GU), em Washington/EUA e a Faculdade Comunitária Kapi’olani (KCC) no Havaí/Estados
Unidos da América - EUA. A parceria foi estabelecida pelo projeto 4321.12

12
O projeto 4-3-2-1 inclui 4 Universidades, 3 Línguas de Sinais, 2 Países, 1 Visão. A Universidade Gallaudet (GU),
em conjunto com a americana Faculdade Comunitária Kapi’olani (KCC), e duas universidades brasileiras, a
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e a Universidade Federal do Ceará (UFC), iniciou um consórcio
de quatro anos para aprimorar e expandir esforços cooperativos na educação em uma nova área para agregar
atividades no campo da Educação de surdos, a fim de fortalecer e expandir os programas existentes. O projeto
proposto foi para propiciar trocas educacionais diversificadas entre os alunos dos Estados Unidos e do Brasil,
34

Tive também experiências com interpretação intramodal e intraligual (Libras para


Libras ou gestos/sinais caseiros) em eventos e nas associações de surdos. Na minha primeira
experiência na justiça, atuei como intérprete em diversas situações. De acordo com Silveira
(2017), os intérpretes surdos podem atuar como intérpretes em julgamentos, audiências em
tribunal de justiça, por exemplo, ou depoimento em delegacias no atendimento de surdos que
usam sinais caseiros.
Intérpretes surdos que têm contato com diferentes níveis linguísticos de Libras e alta
habilidade para produção gestual mímica são indicados para atuação em interpretação
intralingual, ou seja, dos “sinais caseiros” para Libras, sendo necessário outro intérprete ouvinte
para interpretar da Libras para a língua falada, falando para o profissional em português
brasileiro. A ocasião em que precisei fazer uso de Libras e gestos ao mesmo tempo, foi um
grande desafio mediar a comunicação com surdos presidiários. Senti falta de formação
profissional para interpretar13 gestos, sinais caseiros, Libras e em outras formas de
comunicação, além de conhecimento dos trâmites do judiciário.
Alguns surdos usam Libras, gestos e sinais caseiros para se comunicar. Outros surdos
usam apenas sinais caseiros ou gestos, não usam Libras. Por isso, é importante que o intérprete
de Libras tenha formação tanto para realizar interpretações da língua de sinais, como de outras
formas de comunicação gestual, conhecimento de outras línguas de sinais regionais como
aquelas sinalizadas em pequenas comunidades, ou em aldeias indígenas, ilhas rurais, centro
urbanos, além da formação sobre ética, sobre o judiciário, dentre outros. Assim, as línguas de
sinais regionais, que são usadas nessas pequenas comunidades, necessitam de política
linguística para co-oficialização ou reconhecimento.
Vivenciei uma situação interessante, mas somente anos depois. Percebi que se tratava
de uma situação de interpretação intralingual. Visitei cidades como Farias Brito e Várzea
Alegre, interiores do Estado do Ceará. Em uma dessas cidades conheci um surdo e sua família,
todos sinalizadores de uma língua de sinais regional; não conseguia entender o que eles diziam
e precisei que o surdo me interpretasse o que era dito. Na época eu não tinha consciência que

através de intercâmbios de alunos nas áreas relacionadas com a Educação de Surdos, Ensino de Língua Americana
de Sinais (ASL) e Língua Brasileira de Sinais (Libras), Estudos Surdos, Tradução e Interpretação e Linguística. O
curso foi de 60 horas, no período de outubro até dezembro de 2012.
13
Pereira (2008, p. 143) descreve um intérprete surdo: “No caso em que uma pessoa surda não é falante competente
da Libras e um ILS não consegue estabelecer um entendimento com ela, pode ser chamada outra pessoa surda que,
por meio gestual consiga uma comunicação primária, mas satisfatória e não se trata de uma interpretação
interlíngüe e sim de uma comunicação gestual ou mímica”.
35

aquela situação se tratava de uma situação de interpretação intralingual, não compreendia que
a língua que eles utilizavam era uma língua de sinais regional e encarava apenas como gestos.
Além das esperiências de interpretações entre línguas de sinais, atuei como tradutora do
português brasileiro para Libras, uma tradução que é interlingual e intermodal, na tradução de
editais, divulgações em vídeo, conteúdos em sites, entre outros. Por essas razões, é importante
que a pessoa surda tenha acesso e realize cursos de formação sobre tradução e interpretação,
levando em consideração o papel do intérprete surdo de LSN para outra LSN ou LSI. Trabalhei
também como tradutora/intérprete intermodal de português brasileiro para Libras, e vice-versa,
nos vídeos de publicação e para concurso da UFC, bem como vídeos para a comunidade surda,
disponíveis em diversas mídias.
Os estudos da tradução e da interpretação intramodal e interlingual em LSN ou LSI
ainda são recentes no Brasil, no tocante as pesquisas relacionadas à tradução e à interpretação
realizada por sujeitos surdos, os estudos são recentes e escassos. Considerando esse fato, faz-
se necessário que estudos possam contribuir para a expansão de conhecimento nessa área,
especialmente no que diz respeito ao papel do intérprete e tradutor surdo e à necessidade de
melhorar a qualidade do processo de intérprete surdo de LSN para outra LSN ou LSI. É um
problema que não haver teorias básicas sobre a interpretação intramodal e interlingual, como
por exemplo, da Libras para outra língua de sinais nacional ou língua de sinais internacional.
Para os pesquisadores Rodrigues e Beer,

a intensa emergência de publicações na área abordando a tradução de línguas de sinais


é muito incipiente e recente e, também, [...] a interpretação de línguas tem conquistado
maior visibilidade no campo teórico e acadêmico, como objeto de investigação,
somente a partir de década de 1980. (RODRIGUES; BEER, 2005, p. 24).

Podemos dizer que as pesquisas na área dos Estudos da Interpretação das línguas de
sinais são emergentes no campo teórico e prático. Santos (2013), em um levantamento feito nas
pesquisas realizadas no Brasil, aponta que dentre os cinquenta trabalhos produzidos na pós-
graduação brasileira envolvendo a temática da tradução e/ ou da interpretação de línguas de
sinais, identificados no período de 1990 a 2010, há quarenta e um trabalhos enfocando a
interpretação de línguas de sinais, três trabalhos com temas “gerais ou mistos”, já que se referem
tanto à tradução quanto à interpretação, e seis tendo como foco a tradução de línguas de sinais.
Os trabalhos que decidimos chamar de “gerais ou mistos” são aqueles que tratam das temáticas
da tradução e da interpretação ao mesmo tempo, sem a necessidade de distingui-las ou de se
36

ater a apenas uma delas. Nesse levantamento realizado não foi identificado nenhum trabalho
que tratasse do tema dos intérpretes surdos de duas LSNs ou LSI.
Em outros países, há alguns estudos pioneiros sobre o intérprete surdo de LSN ou LSI,
como os de Robert Adam, Markus Aro, Juan Carlos Druetta, Steven Collins, Melanie Metzger,
Christopher Stone, Patrick Boudreault, Jemina Napier, Bill Moody, Nigel Howard, Christian
Rathmann e dentre outros. No Brasil, há apenas publicações acadêmicas sobre a temática do
intérprete surdo intramodal e interlingual de duas ou mais línguas de sinais, dos autores surdos:
Ana Regina e Souza Campello (2014), Bianca Silveira (2017), Ricardo Barreto de Siqueira
(2015), Letícia Fernandes Garcia Wagatsuma Granado (2019) e João Gabriel Duarte Ferreira
(2019).
A UFSC vem realizando sistematicamente o Congresso Nacional de Pesquisas em
Tradução e Interpretação em Língua de Sinais – que já completa a sua sexta edição. Um dos
objetivos do Congresso é o compartilhamento das pesquisas que vêm sendo realizadas no país,
o que possibilita a construção de um quadro acadêmico-teórico da área da tradução e
interpretação em língua de sinais.
No primeiro semestre do ano de 2018, participei da Conferência Europeia na
Universidade de Hamburgo: o projeto Erasmus+14: Desenvolvimento de Intérprete surdo em
Hamburgo da Alemanha. Nesta conferência participei de cinco workshops e aprendi muitas
coisas, porém ainda há poucos artigos ou livros sobre a discussão acerca do intérprete surdo de
duas línguas de sinais, pois esse é um tema recente. O objetivo do evento era discutir sobre
quem é o intérprete surdo? Nós fizemos muitas reflexões e também discussões sobre a formação
de intérprete surdo de língua de sinais para outra língua de sinais.
Iniciei o doutorado na Pós-Graduação em Estudos em Tradução – PGET no início de
2015 e considero que o campo da tradução e interpretação é uma área relativamente nova aos
meus estudos, em especial o que concerne à política linguística, política de tradução, linguística
geral, estudos em tradução, estudos da interpretação. Pensando em compreender melhor o
contexto tradutório e interpretativo, regional, nacional e internacional, de atuação dos
intérpretes surdos que lidam com as LSNs ou LSI, nas motivações da presença de um intérprete
surdo profissional, ou não profissional, nas conferências e em como acontecem as formações
desses profissionais, foi que se deu a construção dessa tese.

14 O projeto Erasmus Plus sobre "Desenvolvimento de intérpretes de surdos na Europa" é coordenado pela
associação dinamarquesa de surdos (DDA) e tem mais quatro parceiros: Universidade de Hamburgo
(UHH); Universidade de Ciências Aplicadas de Humak (Humak); Instituto Politécnico de Coimbra (IPC) e o
Fórum Europeu de Intérpretes de Linguagem de Sinais (EFLSI).
37

Dessa forma, me coloco à favor de intérpretes surdos de duas LSNs ou LSI,


principalmente que seja bilíngue e, portanto, reivindicando políticas linguísticas que respeitem
a igualdade de direitos. Nesse sentido, essa pesquisa pretende contribuir com o aprofundamento
dessa temática e incitar estudos futuros.
Através dessa pesquisa de doutorado, percebi que há poucos profissionais intérpretes
surdos e quase inexiste cursos de formação para intérprete surdo de LSN para outra LSN ou
LSI; além da falta de um planejamento político-linguístico para que haja a implementação
desses profissionais surdos em instituições, conferências e outros. O planejamento político-
linguístico sobre a presença do intérprete surdo de língua de sinais para outra língua de sinais
pode acontecer de forma explícita: legislação, regulamentação; e implícita: práticas políticas.
Essa visão também é influenciada pelas legislações atuais que prezam pelo intérprete
surdo de duas línguas de sinais para pessoa surda. Nesse contexto, os profissionais intérpretes
surdos de LSN para outra LSN ou LSI são atores que podem influenciar e orientar as políticas
linguística para implementação de programas de formação, de remuneração, de legislação, de
perfil, de atitudes, de competência linguística das línguas de sinais, dos surdos e de status, nesse
contexto, sendo um interessante corpus para pesquisa.

1.1 PROBLEMA DE PESQUISA E OBJETIVOS

Trago, como pergunta dessa pesquisa, o seguinte questionamento:

Como as políticas linguísticas contemplam o tradutor e intérprete surdo de Libras


para outras línguas de sinais nacionais - LSNs ou língua de sinais internacional?

Para responder a essa questão da pesquisa foram elaborados os objetivos a seguir.

1.2 OBJETIVO GERAL

Analisar as políticas existentes relacionadas com interpretação e tradução intramodal e


interlingual da Libras de/e para outras línguas de sinais nacionais ou língua de sinais
internacional - LSI nas conferências regional, nacionais e internacionais realizadas por
intérpretes surdos.
38

1.3 OBJETIVOS ESPECÍFICOS

1) Averiguar o papel de intérpretes surdos de Libras para outra línguas de sinais


nacionais ou língua de sinais internacional profissionais (interpretação intramodal e
interlingual) no Brasil e no contexto regional, nacional e internacional nas conferências;
2) Analisar como os intérpretes surdos de línguas de sinais reconhecem as políticas
linguísticas nacionais e internacionais, bem como sua implementação, quanto a interpretação
de Libras de/e para outras línguas de sinais nacionais ou língua de sinais internacional;
3) Apresentar uma proposta de política linguística adequada ao contexto das relações de
interpretação de Libras para outra língua de sinais nacionais ou língua de sinais internacional.
Esta tese está dividida em sete capítulos. O capítulo 1 trata de Introdução, o capítulo 2
apresenta um levantamento téorico das políticas linguísticas e línguas de sinais entre língua de
sinais regionais, língua de sinais nacionais, língua de sinais internacional, sinais caseiros, língua
de sinais da fronteira e gestos com a relação com tradutor e intérprete surdo que embasa a nossa
investigação. O capítulo 3 apresenta o campo dos Estudos de Tradução e Interpretação das
línguas de sinais e os estudos sobre a competência interpretativa e tradutória intramodal e
interlingual da Libras para outras LSNs ou LSI realizada especificamente por intérpretes surdos.
O capítulo 4 apresenta o percurso metodológico, com cunho quanti-qualitativo a descritvo e
exploratória com base na etnografia, realizado por meio de entrevistas semiestruturadas e
questionários com sujeitos tradutores e intérpretes surdos de conferências regionais, nacionais
e internacionais. O capítulo 5 apresenta a discussão a partir da análise dos dados de forma
descritiva e exploratória do tradutor e intérprete surdo quanto os aspectos da formação,
remuneração, competência linguística, perfil e atitudes em relação a sua atuação e postura
profissional. O capítulo 6 apresenta o corpus analisado e a discussão dos resultados relacionado
à análise de dados, seguido da conclusão. Apresenta-se, então, capítulo 7 traz as considerações
finais, seguido das referências bibliográficas, anexos e apêndices.
39

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: POLÍTICAS LINGUÍSTICAS DAS LÍNGUAS DE


SINAIS

“Fazer história” é re-questionar e


re-combinar os saberes.
(Yves Schwartz, 1994).

Neste capítulo vamos discutir os principais referenciais teóricos sobre a temática geral
das políticas linguísticas, com foco nas línguas de sinais do Brasil e do mundo e da língua de
sinais internacional, língua que embasou a nossa investigação. É importante, no contexto dessa
pesquisa, entender os conceitos e os processos históricos envolvidos quando tratamos das
línguas de sinais e das suas relações no contexto da política linguística. Nos próximos capítulos
também trataremos das políticas linguísticas relacionadas aos tradutores e intérpretes surdos
(LSN para outra LSN ou LSI).
Este capítulo se divide em seis partes: i) temos as diferentes vertentes de políticas
linguísticas e as pesquisas sobre políticas linguísticas e línguas de sinais; ii) apresentamos o
cenário internacional das línguas de sinais; iii) focamos no cenário nacional das línguas de
sinais; iv) trazemos a definição das línguas de sinais como primeira, segunda e terceira língua;
v) explicitamos as legislações linguísticas das línguas de sinais e suas implicações, como
focamos na legislação e dinâmica das LSNs e LSI; vi) discorremos sobre a geopolítica das
LSNs no mundo. Essas seis partes embasam teoricamente as análises da presente pesquisa,
subsidiando as discussões sobre as políticas linguísticas e a tradução e interpretação intramodal
e interlingua.

2.1 DIFERENTES VERTENTES DE POLÍTICAS LINGUÍSTICAS E AS PESQUISAS


SOBRE POLÍTICAS LINGUÍSTICAS E LÍNGUAS DE SINAIS

A política linguística no sentido abstrato não pode ser


caracterizada como certa ou errada, apropriada ou
equivocada; ela simplesmente se dá em todos os lugares
e em todos os tempos, simplesmente porque além de ser
homo loquens o ser humano sempre foi também homo
politicus, como preconizava Aristóteles. Já, em seu
sentido de uma ação concreta, a política linguística é
sempre datada e contextualizada e, relativa a sua data e
seu contexto específico (portanto, situada), e pode ser
caracterizada como bem acertada ou mal pensada,
apropriada ou precipitada e assim por diante.
(Rajagopalan, 2013. p. 29).
40

Procuramos explicitar, ao longo do texto, os conceitos sobre política linguística, para


entender com clareza e fundamentar a relação entre língua, sociedade e política. Vários autores
trazem diferentes interpretações de política linguística. Realizamos uma reflexão pautada sobre
o campo do estudo entre política linguística e línguas de sinais. Mostraremos, também, uma
breve história das políticas linguísticas e do planejamento linguístico.
Na década de 1950 foi apresentado pela primeira vez, por Haugen, o conceito de
language planning, traduzido para o português brasileiro por planejamento linguístico, ao se
tratar da intervenção normativa do Estado na língua, esse foi o primeiro trabalho sobre as
questões linguísticas na Noruega. Fishman, Ferguson e Gupta publicaram em 1968 uma obra
coletiva dedicada aos problemas linguísticos dos países em via de desenvolvimento. Da mesma
forma, Quadros (2014), Meulder (2016) e outros autores de vários países publicaram, em
conjunto, um trabalho dedicado aos problemas linguísticos das línguas de sinais dos países em
via de desenvolvimento, com o objetivo de fazer os registros das línguas de sinais e suas
legislações.
O surgimento do campo disciplinar acerca da política linguística foi paralelo ao
aparecimento da Sociolinguística. Ambos os estudos nasceram na década de 1960 como área
de estudos nos Estados Unidos da América (EUA) e na Europa, no período em que o mundo
passava por uma fase pós-colonial, onde muitos dos países da Ásia e África foram
descolonizados e a discussão sobre as políticas e planejamento linguístico nasceram nesse
contexto de países em desenvolvimento.
Nessa mesma época, nascia também a Sociolinguística, mais precisamente, em 1966
(LIMA, 2018, p. 68). Aqui no Brasil, aproximamente na metade do século XXI inciaram-se as
discussões sobre a recente área de políticas linguísticas. É necessário compreender e reconhecer
a origem e a visão dessa vertente da Linguística, ter clareza que as políticas linguísticas tratam
de relações de poder entre as línguas. Os autores a seguir discutem as políticas linguísticas sobre
as línguas naturais, que se aplicam tanto para as as línguas de modalidade vocal-auditiva, quanto
de modalidade gestual-visual. e seus usos na sociedade. São eles: Haugen (1966), Ferguson
(1959), Calvet (2007), Rajagopalan (2004; 013), Severo (2013), Oliveira (2008; 2013) e Hamel
(1993). Assim, precisamos entender que as políticas linguísticas relacionadas às línguas de
sinais discutem, dentre outros temas, as questões ligadas à interpretação e tradução da LSN ou
LSI.
Sobre os conceitos etimológicos de política e de política linguística, primeiro falaremos
sobre política. A palavra política, de acordo com Mobbio (2000, p. 54), veio do grego politikos,
41

que significa “de, para, ou relacionado a grupos que integram a pólis”, nome do qual derivaram
as palavras como politiké (política em geral) e politikós (dos cidadãos, pertencente aos
cidadãos), que estenderam-se ao latim politicus e chegaram às línguas europeias modernas
através do francês politique. Para o filósofo Aristóteles, a política é a ciência que tem como
objeto a felicidade humana e a ética. Para o filósofo Platão, “o homem é naturalmente um
animal político”. No Brasil, a palavra política significa prática de poder e também é a ciência
da governança de um Estado e nação. A política vista enquanto administração de assuntos
públicos de um Estado. De acordo com o autor Rajagopalan,

a política linguística é a arte de conduzir as reflexões em torno de línguas espeficificas,


com o intuito de conduzir ações concretas de interesse público relativo à(s) língua(s)
que importam para o povo de um nação, de um Estado ou ainda, instâncias
transnacionais maiores. (RAJAGOPALAN, 2013, p. 21).

Uma ação concreta de interesse público para a comunidade surda é o status de Povo
Surdo que, de acordo com Strobel (2008, p. 29), ao falar de Povo Surdo, “estamos nos referindo
aos sujeitos surdos que não habitam no mesmo local, mas que estão ligados por uma origem,
por um código ético de formação visual, independente do grau de evolução linguística, tais
como a língua de sinais, a cultura surda e quaisquer outros laços”. Dessa forma, a pessoa surda
convive na comunidade surda, pode ser brasileira ou não e como minoria linguística, existem
as línguas de sinais na nação ou estado, que leva à constituir uma política conjunta de luta por
valores. Cada comunidade surda utiliza a sua língua de sinais: regional, nacional ou
internacional. Por exemplo, a Libras é uma lingua de sinais nacional da nação brasileira; já a
língua de sinais internacional é uma língua utilizada em eventos, esportes, associações,
assembleia, mídia, consulado, delegacia e reunião na organização das Nações Unidas (ONU)
ou outras entidades de surdos que tem a participação de surdos (e ouvintes) de diversas nações.
O campo das Políticas Linguísticas é o estudo da sociedade, do cidadão e da língua.
Incluem os estudos de línguas minoritárias relacionadas com a política, conforme Rajagopalan
(2004 apud RAJAGOPALAN, 2013, p. 20) questiona “o que é, então, a política linguística? A
primeira coisa que se precisa compreender e reconhecer é que ela é um ramo da política e o
palco ideal para o seu estudo é a ciência política”. De acordo com o autor, a política linguística
não tem nada a ver com linguística, ela tem tudo a ver, isto sim, com a política, entendida como
uma atividade na qual toda cidadão “tem o direito e o dever de participar em condições de
absoluta igualdade, sem se importar com classe econômica, sexo, orientação sexual, idade,
42

escolaridade, e assim por diante” (RAJAGOPALAN, 2013, p. 22). Acreditamos que as políticas
linguísticas integram as duas ciências, a Política e a Linguística. Elas propociam e garantem as
relações entre o poder político e a afirmação das línguas e dos direitos linguísticos de uma
sociedade. A comunidade surda, como minoria linguística, por intermédio de política linguística
conquista e garante direitos para a comunidade surda através de legislação, garantia e registro
das línguas de sinais.
A Linguística é o estudo das línguas, é a ciência que estuda a linguagem humana, logo
também dedica-se ao estudo das línguas de sinais. Quando falamos de política linguística,
relacionado às línguas de sinais, entendemos que estamos falando de luta por direitos
linguísticos do cidadão da comunidade surda, usuário da língua de sinais, que devem ser
assegurados por uma legislação que propicie e implemente ações que tenham impactos
propositivos e positivos, em termos de reconhecimento linguístico, na vida social, educacional
e em outras esferas sociais dos sujeitos surdos.
As diferenças entre política e política linguística são as relações entre a língua e a vida
social e particular, entre a língua de sinais e a vida social nacional e vida social internacional,
enquanto a planificação linguística é a implementação dos meios necessários para a aplicação
de uma política linguística. Nesta pesquisa focamos na implementação das línguas de sinais
pela interpretação em conferências e as políticas linguísticas ajudam a garantir a língua de sinais
para o cidadão surdo.
Na língua inglesa, os termos language policy e language planning são conceitualmente
específicos; em português brasileiro, estes termos, durante muito tempo, foram abarcados pelo
conceito de políticas linguísticas. Hoje tenta-se delimitar o significado de cada termo e definir
o que seja planejamento linguístico, planificação e política linguística. Primeiramente, é
importante explicitar que as palavras políticas linguísticas e planejamento linguístico surgiram
de uma tradução do inglês, de acordo com Lima:

A distinção entre decisão e ação política voltada para as línguas estabelece


conceitualmente termos específicos: language policy e language planning. O conceito
de política linguística abarca os dois termos e durante muitos anos foi usado para as
duas acepções, em inglês a diferenciação é definida explicitamente, já que apresentam
palavras distintas para os três termos: politic, policy e planning. No português
brasileiro não há uma distinção entre politic e policy, as duas palavras são traduzidas
como política, para esse uso específico. (LIMA, 2018, p. 67).

A política (policy) linguística trata das decisões tomadas em torno de uma língua ou que
a afetam e o planejamento (planning) se detém na implementação das decisões, se as mesmas
43

são exequíveis, em quanto tempo e que preparação são necessários para a execução de uma ou
mais decisões tomadas. Importante é que a política linguística e o planejamento das línguas de
sinais estejam organizados para implementação de ações propositivas dessas línguas.
Mostraremos nas seções a seguir sobre as coletas, histórias, registros e patrimônio da língua de
sinais internacional, nacionais e regionais. Tem pesquisadores que discorrem sobre outras
vertentes, ou seja, trazem outras visões sobre políticas linguísticas. Severo (2013) explica sobre
a complexidade do conceito de política linguística:

O conceito de política linguística é complexo e polissêmico. A heterogeneidade deste


campo de saber varia entre os seus alvos e níveis de intervenção, além de sua relação
com o planejamento linguístico, em que este ora é tido como mera aplicação da
política linguística, ora é tido como o seu coração, gerando um desequilíbrio entre as
prioridades teórico-metodológicas adotadas. Além disso, em alguns casos, priorizam-
se aspectos técnicos em detrimento de políticos na atuação sobre questões linguísticas,
[...]. A heterogeneidade do campo ocorre também em relação aos diferentes contextos
sócio-políticos de constituição da disciplina: as tradições americana, europeia e
soviético-russa, por exemplo, não compartilham as mesmas prioridades e enfoques
teórico-metodológicos, o que pode estar vinculado tanto às regras (históricas) de
configuração do campo disciplinar, como à realidade política das línguas nesses
contextos. (SEVERO, 2013, p. 453).

Em síntese, para pensar a política linguística das línguas de sinais, necessita-se conhecer
quais os enfoques metodológicos adotados e também quais as diferenças das histórias das
línguas de sinais, entendendo a relação das políticas linguísticas das línguas de sinais com o
planejamento linguístico dessas línguas. Não foi fácil realizar o levantamento para este trabalho
por causa das poucas pesquisas e também poucas publicações sobre a história das línguas de
sinais regionais, nacionais e internacionais. É importante saber o tempo de existência da língua,
as influências que sofreram, os patrimônios, os processos de colonização resultantes “de um
acontecimento na trajetória de nações com línguas e memórias diferenciadas [...]” (MARIANI,
2004, p. 19). Com muita pesquisa, consegui realizar a coleta dos registros da história de línguas
e sinais.
Outra forma de se pensar as políticas linguísticas é através das políticas públicas,
idealizadas pelas instituições, pelo poder público ou instituições acadêmicas. São exemplos de
ações para proposições afirmativas de políticas linguísticas a realização de conferências que
têm intervenção na comunidade surda acadêmica. Os dois congressos – Congresso Nacional de
Pesquisas em Tradução e Interpretação de Libras e Língua Portuguesa e o Congresso Nacional
de Pesquisas em Linguística de Línguas de Sinais – ambas com foco na pesquisa em língua de
44

sinais. As pessoas utilizam a língua de sinais e isso gera demandas para intervenções sobre as
próprias línguas. As políticas linguísticas se ocupam de formas de garantir que as línguas de
sinais possam estar nos contextos de conferências como uma forma também de garantir a
presença intérprete surdo.
A política linguística das línguas de sinais é uma batalha nos diferentes grupos que lutam
pelo arrasamento ou pelo reconhecimento de línguas, interferindo na configuração linguística
de um país. O pensamento dos estudos científicos linguísticos de línguas de sinais reflete na
política linguística a partir do reconhecimento linguístico, das pessoas surdas, dos grupos
minoritários. Calvet (2007, p. 9) apresenta outro olhar para o conceito da linguística, definindo-
a como estudo das comunidades humanas através da língua. Sobre a cooficialização das línguas
no planejamento linguístico, Oliveira (2013) afirma que:

Cooficialização de línguas no âmbito municipal como nova forma de gestão do


plurilinguismo, e a partir da percepção de que o reconhecimento dos direitos
linguísticos somente dentro das terras indígenas ainda era insuficiente para garantir a
presença das línguas indígenas no Brasil, desenvolveu-se a possibilidade, também
pela primeira vez na história do Brasil independente, de co-oficilizar línguas em nível
municipal. Co-oficializar uma língua significa que o município passa a ser
oficialmente bilíngue, e que seus cidadãos podem construir suas vidas em duas línguas
– a língua oficial da União, o português, mas também a língua co-oficial da
comunidade. (OLIVEIRA, 2013, p. 6).

No Brasil, há o (re)conhecimento e cooficialização das línguas de sinais. Segundo Silva


(2020), apresentam as 19 (dezenove) línguas de sinais no Brasil, conforme apresentado no
quadro a seguir:

Quadro 1 - Línguas de sinais do Brasil


Classificação Classificação da
da língua de comunidade surda Nome da
sinais segundo segundo Autor (ano) Língua de Localização
Quadros e Leite Quadros e sinais
(2014) Silva (2017)
Língua de sinais Centros Ferreira- Libras Todo o
nacionais Urbanos Brito (1984) território brasileiro
Língua de Aldeias Kakamasu Língua de Índios Urubu-
sinais original (1968) e Ferreira- sinais Urubu- Kaapor (Maranhão-
Brito (1984) Kaapor Brasil)
Godoy 2020 Língua de Aldeias no Pará
Sinais Ka’apor Xie, Axingi, Ama’y
ty renda,
Bacurizeiro e
Ximborenda
Azevedo Língua de sinais Índios Sateré-Waré
(2015) Sateré-Waré (Parintis – Manaus)
Giroletti Língua de sinais Índios Kaigang
(2008) Kaigang
45

(Xanxerê- Santa
Catarina – Brasil)
Vilhalva (2012) Língua de Índios Terena –
Sumaio (2014) sinais Terena (Mato Grosso
do Sul – Brasil)
Soares (2018) Língua de Índios Terena
sinais Terena Aldeia de
Cachoeirinha
(Miranda)
Coelho (2011) Língua de Índios Guarani-
Vilhalva (2012) Sinais Guarani- Kaiowá (Mato
Lima (2013) Kaiowá Grosso do Sul –
Brasil)
Barretos (2016) Língua de Índios Akw~e –
Sinais Akwe Xerente
sinais Akwe de (Tocantins – Brasil)
comunicação
Cultural
Stoiany & Nevins Língua de sinais Índios Maxakali
(2017) Maxakali (Minas Gerais –
Brasil)
Damasceno Língua de Índios Pataxó
(2017) Sinais Pataxó (Aldeia Coroa
Vermelha – Bahia)
Língua de Comunidades Pereira (2013) Cena Várzea Queimada
Sinais nativa isoladas (Jaicós – Piauí-
Brasil)
Cerqueira e Acenos Cruzeiros do
Teixeira (2016) Sul (Acre- Brasil
Charlise, Línguas de Pará – Brasil
Formigosa e sinais da
Cruz (2016) Fortalezinha (PA)
Martinod (2012) Língua de Ilha do Marajó
Formigosa (2013) Sinais de Ilha (Ilha
Fusilier (2016) do Marajó de Soure)/Pará –
Brasil
Carliez, Língua de Porto de Galinha
Formigosa e sinais de (Pernambuco
Cruz (2016) Porto de -Brasil
Galinha (PE)
Temóteo (2008) Língua de Sítio Caiçara –
Sinais de Várzea Alegre
Caiçara Ceará – Brasil
Línguas de sinais de Comunidades de Figueira (2016) Língua de Sinais Santana do
Fronteiras Fronteira compartilhadas na Livramento (Brasil)
Fronteira e Rivera (Uruguai)
Santos (2019) Língua de sinais São Gabriel da
emergentes de Cachoeira (AM –
São Gabriel da Brasil)
Cachoeira - AM
Fonte: Silva (2020, p. 93).

No planejamento linguístico há registro de 19 línguas de sinais brasileiras (e seus


regionalismos), mas apenas a Libras é reconhecida legalmente. Infelizmente, não há legislação
46

para as outras 18, nem um movimento no sentido de co-oficializar as línguas de sinais do sertão,
das pequenas comunidades rurais e indígenas. Nesse sentido, alertamos para o possível
desaparecimento dessas línguas de sinais. É urgente que as políticas linguísticas voltadas às
línguas de sinais possam atuar no sentido de evitar esse desaparecimento. Uma ação possível
seria incorporar na legislação vigente, o Decreto nº 5.626/05, por exemplo, ações voltadas a
essas comunidades linguísticas, ou mesmo lutar por uma nova legislação que trataria da
possibilidade de suprir as demandas dos municípios onde essas línguas existem. Na Bolívia,
por exemplo, temos a Lei nº 269/2012 (Ley general de derechos y políticas linguísticas)
(BOLÍVIA, 2012), e ainda, a Declaração Universal de Direitos Linguísticos - DUDL, em seu
artigo 18º: “1. Todas as comunidades linguísticas têm direito a que as leis e outras disposições
jurídicas que lhes digam respeito sejam publicadas na língua própria do território” (DUDL,
1996).
As políticas linguísticas dão garantias às 19 línguas de sinais no Brasil, são línguas de
comunidades surdas, patrimônio cultural imaterial de uma minoria linguística e não se reduzem
apenas a um status linguístico de língua de sinais, mas são compartilhadas e transmitidas em
comunidade a cada geração. Além disso, as diferentes línguas de sinais para manter-se e
desenvolver-se, necessitam de políticas de proteção sociocultural. Não queremos que as línguas
de sinais desapareçam, ao contrário, é importante que haja um maior reconhecimento das
línguas de sinais como patrimônio linguístico e cultural imaterial, como aponta a Declaração
Universal de Direitos Linguísticos - DUDL (1996):

Artigo 10.º 1. Todas as comunidades linguísticas são iguais em direito e artigo 5.º Esta
Declaração baseia-se no princípio de que os direitos de todas as comunidades
linguísticas são iguais e independentes do seu estatuto jurídico ou político como
línguas oficiais, regionais ou minoritárias. Designações tais como língua regional ou
minoritária não são usadas neste texto porque, apesar de em certos casos o
reconhecimento como língua minoritária ou regional poder facilitar o exercício de
determinados direitos, a utilização destes e doutros adjetivos serve frequentemente
para restringir os direitos de uma comunidade linguística. (DUDL, 1996).

Não existe uma única comunidade surda; ela nasce do encontro entre surdos nos
diferentes espaços e contextos. As comunidades surdas são plurais e diversas, pois contam com
a diversidade dos sujeitos surdos participantes, surdos bilíngues ou multilíngues ou
plurilíngues. Quadros, Massuti e Strobel (2014) afirmam que no encontro surdo-surdo, a
aproximação dos surdos tem-se um primeiro passo para o encontro com outras possibilidades
de partilha e de (re)conhecimento entre participantes dessa comunidade. Essa(s) comunidade(s)
47

surda(s) e língua(s) de sinais não são únicas e exclusivas de pessoas surdas, elas podem ter a
participação de ouvintes. De acordo com Strobel:

a comunidade surda de fato não é só de sujeitos surdos, há também sujeitos ouvintes


[...] que participam e compartilham os mesmos interesses comuns em uma
determinada localização”. É importante preservar as variedades linguísticas e as
línguas de sinais nas comunidades surdas para a garantia da linguística surda.
(STROBEL, 2008, p. 31).

Neste sentido, a presença de intérpretes intramodais e interlinguísticos torna-se


necessária para interpretar ou traduzir as línguas de sinais nas comunidades surdas. O
movimento das minorias linguísticas e das comunidades obtiveram vitória por legislações do
Ministério da Cultura, que criou o Decreto Federal nº 7.387/2010, instituindo o Inventário
Nacional da Diversidade Linguística e outras providências (BRASIL, 2010b). Destaca-se o
primeiro artigo:

Art. 1o Fica instituído o Inventário Nacional da Diversidade Linguística, sob gestão


do Ministério da Cultura, como instrumento de identificação, documentação,
reconhecimento e valorização das línguas portadoras de referência à identidade, à ação
e à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. Art. 2o. As
línguas inventariadas deverão ter relevância para a memória, a história e a identidade
dos grupos que compõem a sociedade brasileira. (BRASIL, 2010b).

É urgente a documentação das línguas de sinais no Brasil e no mundo. A geopolítica das


línguas de sinais no Brasil busca projetar, através dos inventários de todas as línguas, um
patrimônio linguístico como imaterial (QUADROS et al, 2019). Atualmente, as cinco pesquisas
em andamento para a construção do Inventário Nacional da Libras fortalecem a pesquisa
linguística da Libras nas diversas regiões do Brasil, são elas: uma na Universidade Federal de
Santa Catarina em Florianópolis - Santa Catarina, sob a coordenação da profa. Dra. Ronice M.
Quadros, outra na Universidade Federal de Alagoas – UFAL em Macéio - Alagoas, sob a
coordenação do prof. Dr. Jair Barbosa, outra na Universidade Federal do Ceará – UFC em
Fortaleza - Ceará, sob a coordenação do prof. Mestre (e Doutorando) Rodrigo N. Machado, na
qual participo como colaboradora, outra no Instituto Nacional de Educação de Surdos – INES
em Rio de Janeiro - Rio de Janeiro, sob a coordenação da Profa. Dra. Ana Regina e Souza
Campello e outra na Universidade Federal do Tocantins – UFT em Palmas - Tocantins, sob a
coordenação do prof. Dr. Carlos Roberto Ludwing.
48

O Inventário Nacional da Língua Brasileira de Sinais15 é parte da Política da


Diversidade Linguística e atua como instrumento oficial de identificação,
documentação, reconhecimento e valorização das línguas faladas pelos diferentes
grupos formadores da sociedade brasileira. Estima-se que mais de 250 línguas sejam
faladas no Brasil entre indígenas, de imigração, de sinais, crioulas e afro-brasileiras,
além do português e suas variedades. Esse patrimônio cultural é desconhecido por
grande parte da população brasileira, que se acostumou a ver o Brasil como um país
monolíngue. (IPHAN, 2017).

O registro e reconhecimento da diversidade das línguas de sinais facilitaria a presença


do intérprete surdo intramodal e interlingual de duas ou mais línguas de sinais nos mais variados
contextos, valorizando a comunicação entre as pessoas. Esses contextos são os de conferências,
área de saúde, jurídica, consulados, comunidades surdas pequenas como em área rural,
indígenas, dentre outros.
Howard (2018) relatou em workshop16 suas experiências de trabalhos como intérprete
surdo de LSI. Como surdo estrangeiro, esteve no aeroporto internacional do Canadá, mas não
tinha como comprovar residência no Canadá. Então, no consulado do aeroporto os funcionários
não sabiam LSI e chamaram um intérprete surdo para facilitar a comunicação entre eles. Outra
experiência relatada foi de um paciente surdo no hospital com uma grave doença, o intérprete
de língua de sinais17 pode dar uma interpretação adequada e o paciente surdo entender, porém,
o intérprete surdo pode realizar uma interpretação com mais detalhes da língua de sinais, mais
gestos para um melhor entendimento, pois o intérprete surdo tem mais subjetividade e
propriedade sobre a cultura surda18. Os benefícios do intérprete surdo vivenciar as identidades
surdas, a cultura surda, o ser surdo (deafhood)19 significa trazer à tona as suas experiências
pelas raízes surdas, o que pode facilitar a interpretação e a compreensão do que é está sendo
enunciado em língua de sinais.

15
A pesquisa online para surdos e ouvintes falantes fluentes de Libras, a Língua Brasileira de Sinais. O
levantamento de dados irá subsidiar futuras análises para o Inventário Nacional da Língua Brasileira de Sinais,
projeto que vem sendo executado em parceria entre o Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política
Linguística (IPOL) e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), por meio de convênio com o Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
16
O autor, em sinais internacionais, trouxe essa discussão essa workshop tema “Co-interpretação: estratégias para
o sucesso de equipes surdos-ouvintes”, período de 01 de outubro de 2018 foi 6º Congresso Nacional de Pesquisas
em Tradução & Interpretação de Libras e Língua Portuguesa e II Congresso Nacional Pesquisas em Linguística de
línguas de sinais da UFSC.
17
Intérprete ouvinte e intérprete surdo são iguais no desenvolvimento do trabalho da tradução e interpretação das
línguas de sinais para outras, porém, o intérprete surdo trabalha a interpretação e subjetividade das pessoas surdas.
18
Cultura surda é o jeito de o sujeito surdo entender o mundo e de modificá-lo a fim de torná-lo acessível e
habitável, ajustando-o com as suas percepções visuais, que contribuem para a definição das identidades surdas e
das “almas” das comunidades surdas. Isto significa que abrange a língua, as ideias, as crenças, os costumes e os
hábitos do povo surdo (STROBEL, 2008, p. 24).
19
De acordo com Ladd (2013, p. 14-15) é “um processo através do qual os indivíduos Surdos chegam a efetivar
sua identidade surda, postulando que aqueles indivíduos constroem aquela identidade em torno de vários conjuntos
de prioridades e princípios ordenados de maneiras diferentes, que são afetados por diversos fatores [...]”
49

Todas as línguas de sinais nacionais ou nativas são importantes para o registro, e implicam na
presença do intérprete surdo e intérprete ouvinte de línguas de sinais, transitando e podendo
escolher entre as comunidades surdas regionais ou nacionais. Assim, compreendo como urgente
a coleta de corpus do inventário das línguas de sinais, principalmente a coleta dos sinais de
Libras, Cena, Pataxo, Terena, Língua de sinais Sateré-Waré, Língua de sinais Kaigang, Língua
de Sinais Guarani- Kaiowá, Acenos, Língua de sinais Fortalezinha, Língua de Sinais de Ilha do
Marajó, Língua de sinais de Caiçara, Língua de sinais de Porto de Galinha, Língua de Sinais
Ka’apor, Língua de sinais Terena, Língua de Sinais Akwe sinais Akwe de comunicação
Cultural, Língua de sinais Maxakali, Língua de Sinais compartilhadas na Fronteira e Língua de
sinais emergentes de São Gabriel da Cachoeira - AM. O registro das línguas de sinais fortalece
a pesquisa linguística, não apenas da Libras, mas de todas as demais línguas brasileiras, nas
diversas regiões do país, contribuindo para a implementação da Lei do inventário nacional.
É relevante destacar que o patrimônio linguístico e cultural adquirido pela história pela
valorização da língua de sinais contribuem muito para intérprete surdo. Retomando a questão
sobre os variados espaços e contextos de atuação dos intérpretes de língua de sinais nacional
(LSN) ou língua de sinais internacional (LSI), algumas pessoas pensam e indicam os eventos
ligados a religião ou a educação como os que mais utilizam a figura desse profissional e
questionam qual seria o “espaço e contextos” para os profissionais intérpretes surdos de LSN
para outras LSN ou LSI nessas conferências.
Há outros contextos de uso da língua de sinais como os específicos na área de saúde, na
área jurídica, nos consulados, nos aeroportos, entre outros, e são espaços de encontro de pessoas
da comunidade surda e podem ser espaços de atuação de intérprete surdo. Por exemplo, na
saúde, se um paciente surdo fica doente, pode ser mais fácil para o intérprete surdo estabelecer
uma comunicação com o surdo enfermo, através do jeito surdo de ser, trabalhando aspectos
visuais e culturais da língua de sinais, do que o intérprete ouvinte que não domine uma
interpretação com aspectos da cultura surda.
Outro exemplo poderia ser na área jurídica, se um presidiário surdo vai para a justiça e
não sabe língua de sinais, a presença do intérprete surdo durante a comunicação seria
fundamental. Outro exemplo, ainda, seria uma situação no aeroporto, na qual, um surdo vai
para um país estrangeiro e a polícia solicita o passaporte, porém eles não estabelecem uma
comunicação, pois precisaria da presença de intérprete surdo de língua de sinais para outra
língua de sinais para comunicação em língua de sinais internacional.
50

As vantagens da presença de intérprete surdo se dá pelos conhecimentos das línguas


sinalizadas e dos estilos linguísticos e pela própria identidade surda podem se sobressair em
relação ao trabalho do intérprete ouvinte. De acordo com Perlin (1998)20: há diferentes
identidades surdas: identidade política, identidades surdas híbridas, identidades surdas
flutuantes, identidades surdas embaraçadas, identidades surdas de transição, identidades surdas
de diásporas e identidades surdas intermediárias. Não existem só essas sete identidades surdas,
há possibilidade que diferentes tipos de identidades surdas existam, portanto, a identidade surda
não é única, o surdo pode ter multidentidades dependendo formação, sociais, classes, raça e
gêneros.
Na verdade, a tentativa de Perlin (1998) de especificar diferentes identidades tem haver
com a discussão sobre identidades surdas multifacetadas que se cruzem e permeiam as
diferentes experiências e práticas linguísticas nas comunidades surdas. Por isso, é importante
nos diversos contextos e espaços a presença do tradutor e intérprete surdo, pois ele conhece o(s)
perfil(s) de cliente(s) surdo(s) e suas várias identidades e poderá fazer uso de estratégias para
traduzir e interpretar das línguas de sinais com estilos linguísticos variados e dar as
informações, passando os conteúdos com mais clareza aos clientes.
As identidades surdas e a cultura surda são vivenciadas na comunidade surda pela
construção da língua de sinais para o Povo Surdo como movimento étnico surdo, no qual há
várias pessoas, negros, brancos, indígenas, etc. De acordo com Lopes:

Filiaram o movimento surdo aos movimentos étnicos, imprimindo assim a


compreensão que pensavam ser a melhor para a surdez, ou seja, entendendo-a como
uma diferença forjada no e pelo grupo social. Ser surdo passou a representar, a partir
dos anos oitenta do século passado, inclusive no Brasil, ser integrante de um grupo
étnico minoritário. (LOPES, 2007, p. 25).

Além disso, as pessoas surdas usam a língua de sinais na vida social, fazem parte de
uma minoria étnica. Então, a minha pesquisa busca, no contexto das conferências, os diferentes
contatos entre as línguas de sinais. Autores como Pratt (1999, p. 31-32) utilizam o termo “zona
de contato” pra se referir ao espaço dos encontros e Lane (1996 apud MASSUTTI (2007, p. 29)
refere-se ao “país surdo” como conceito de lugar, tão importante nas vidas de surdos norte-
americanos. A visão utópica de criação de uma “terra surda” inspirou numerosos cantos
populares na cultura americana surda. O surdo espanhol Felix Jesus Penedo relata que:

20
Sobre as “identidades surdas”, Perlin (1998, p. 54) considera que “o encontro surdo-surdo é essencial para a
construção da identidade surda, é como um abrir o baú que guarda os adornos que faltam ao personagem”.
51

o gestual impera: é um espetáculo semelhante ao de um congresso de surdos. Dois mil


alunos vão pelo campus, comem em restaurante self-service, entram e saem das aulas,
e são de todas as raças, com uma linguagem que lhes permite facilmente entenderem-
se, sem preocupações com leitura labial, pronunciação ou demais algaravias. Há
alegria nos alunos: entendem as matérias e não lhes é exigido o impossível. Não há
para eles a tortura da leitura de textos incompreensíveis. (FENEIS, 1996, s.p. apud
MASSUTTI, 2007, p. 30)

O contexto de conferências é um espaço de língua de sinais da comunidade surda, como


os eventos da área de língua de sinais com participantes surdos, ouvintes, professores,
intérpretes, que utilizam a língua de sinais para comunicação. Destes tempos pra frente, esses
contextos determinam a política linguística em torno das línguas de sinais e a atuação do
intérprete surdo projeta novas perspectivas pelo aumento de pesquisas, teóricas e práticas sobre
o intérprete surdo de língua de sinais para outra língua de sinais.
Para que o intérprete surdo de língua de sinais para outra língua de sinais possa atuar
nos diferentes lugares, como no contexto de conferências, consulados, judiciários e etc., em que
a Libras, as outras 18 línguas de sinais regionais, as outras línguas de sinais nacionais e de
outros países, além da língua de sinais internacional LSI são utilizadas e necessárias às
comunidades surdas brasileiras e de outros países, precisa existir espaços para instrução e
formação da competência tradutória e interpretativa das línguas de sinais.

2.2 CENÁRIO INTERNACIONAL: LÍNGUA DE SINAIS

“Todas as línguas mudam ao longo do tempo”.


(Salles et al, 2004).

Apresentaremos um pouco da história das línguas de sinais e dos surdos, trazendo alguns
registros dos acontecimentos históricos e falando da relação da geopolítica e política linguística
da língua, identidade e cultura. Hamel afirma que:

a política linguística funda um processo histórico de transformações linguísticas e


sociais com a intervenção política, pois implica transformações de formas ou de usos
linguísticos e também transformações nas relações que os indivíduos estabelecem
com sua própria língua ou com outra (HAMEL, p. 12, 1988).

Ao longo do tempo, os surdos travaram batalhas pela valorização das línguas de sinais,
das comunidades e culturas surdas. Traremos essa história sobre língua de sinais e surdos antes
e depois de Cristo. Na Antiguidade, acreditava-se que as pessoas deficientes eram inválidas e
deviam ser sacrificadas. Conforme Guarinello (2007), Aristóteles (384-322 a.C.) acreditava que
52

os surdos21, por não falarem, não atingiam a consciência humana, portanto, não eram
considerados humanos.
A história sobre qual a comunicação é possível ou não para o surdo, não é simples assim,
pois a maioria de pessoas ouvintes acreditavam que o surdo devia se comunicar com as pessoas
ouvintes pela língua falada. A comunidade surda conhece e sabe que o surdo utiliza a língua de
sinais como língua natural. De acordo com Brito (1995), Quadros e Karnopp (2004), Gesser
(2009), Quadros e Leite (2014), Quadros e Campello (2014), a língua de sinais não é mímica
ou pantomimas, ela expressa ideias abstratas e é estudada pelas linguísticas, assim como as
línguas orais.
As primeiras políticas educacionais relacionadas às línguas de sinais surgiram na
Espanha, França e Alemanha, em decorrência das famílias nobres de surdos. Ponce Leon foi o
primeiro professor para surdos, ensinava datilologia e a fala oral para as crianças surdas.
Sacks (1998) afirma que, na França, o Abade Charles Michel de L’Epée (1712-1789) se
destacou como vulto importante na história da educação de surdos. Tendo se aproximado de
surdos que perambulavam nas ruas de Paris, ele aprendeu com eles a utilizar os sinais22 e, alguns
anos depois, essa língua foi denominada de LSF e, posteriormente, objetivando ensiná-los, criou
os “sinais metódicos”, uma combinação do léxico da– LSF com a gramática do francês. O
pioneirismo de L’Epée, no uso da língua de sinais como língua de instrução, representa um
marco na educação de surdos. De acordo com Goldfeld (2002), na Alemanha, no mesmo
período em que L’Epée protagonizava o ensino de surdos na França, Samuel Heinick (1729-
1784) propagava suas ideias educacionais oralistas, que tinha como cerne o ensino da língua
falada e a rejeição à língua de sinais.
A língua de sinais não era difundida na sociedade e também não era reconhecida
enquanto língua materna/ou língua natural dos surdos. Havia uma rejeição das línguas de sinais
por elas serem concebidas apenas como gestos e não como línguas.
Conforme relato de Sacks (1998), em Milão (Itália), no ano de 1880, houve o II
Congresso Internacional de Educadores de Surdos, no qual aconteceu uma votação para definir
o futuro da educação dos surdos, porém os surdos – os maiores interessados – foram excluídos
da votação e o uso da língua de sinais foi oficialmente proibido no ambiente escolar, bem como

21
Na literatura da época, o termo surdo-mudo era utilizado. Atualmente (e de modo particular nesta pesquisa) não
se adota tal terminologia. Aqui usarei “surdo”, por se tratar de um termo amplamente utilizado na comunidade
surda brasileira (SOUSA, 2008).
22
A comunicação por gestos já teve várias denominações (linguagem mímica, mímica, comunicação gestual,
linguagem sinalizada). Nos anos 1960, esse modo de comunicação entre surdos adquire status de língua a partir
das pesquisas do americano William Stokoe, professor da Gallaudet University.
53

o método manual de L’Epée. Com o objetivo de transformar surdos em ouvintes, passou-se,


então, a forçar os surdos a aprenderem a língua falada (língua majoritária) de seu país. Porém,
mesmo com a proibição do uso da língua de sinais nas escolas, os surdos continuaram a utilizá-
la nas associações de surdos e em outros locais públicos. O uso da língua por um grupo de
falantes envolve poder político, de acordo com Faicough (2000):

A questão da linguagem sempre foi de grande importância na política [...]. Diferenças


políticas foram com frequência constituídas como diferenças linguísticas, lutas
políticas sempre foram desavenças entre os partidos políticos sobre linguagem
dominante e tanto a teoria como a pratica da retórica política remontam aos tempos
antigos. A linguagem tem sido, por muito tempo, de grande relevância nas análises
políticas. Mas ela tem se tornado especialmente importante nas últimas décadas,
graças a mudanças sociais que transformaram a política e a governança. (FAICOUGH,
2000 apud RAJAGOLOPAN, 2013, p. 33).

Depois do Congresso de Milão, a imposição da língua falada para a comunidade surda


transformou esse grupo invisível aos olhos da sociedade. Além de tornar impossível o olhar
científico sobre os estudos linguísticos e as línguas de sinais. Thoma afirma que:

é comum que se encontrem discussões sobre a educação de surdos a partir de dois


modelos de representação: a visão clínicoterapêutica entende que o surdo precisa ter
sua deficiência removida através de terapias da fala e sessões de oralização, para que
se pareça o máximo possível com as pessoas ouvintes; segundo, a visão sócio-
antropológica, que acredita que os surdos constituem um grupo minoritário de pessoas
que se agrupam para discutir e opinar sobre suas vidas, por serem sujeitos visuais,
com construções históricas, culturais e linguísticas. (THOMA, 2002 apud MOURÃO,
2016, p. 30)

Nessa época, o planejamento linguístico se limitava a proposição de padronizar as


línguas, sem a preocupação em estabelecer vínculos entre as línguas de sinais e o seu grupo
minoritário de falantes. O controle político (e linguístico) sobre os falantes estabelecia uma
política que primava pela língua falada (língua da maioria), sem se preocupar com questões
linguísticas e culturais de uma minoria linguística. Às comunidades surdas e aos cidadãos
surdos foi negado o direito à língua de sinais. Antigamente, não existia política linguística e
nem planejamento linguístico das línguas de sinais, apenas o prestígio da língua falada como
se fosse a única, já que era a língua majoritária.
Alguns anos depois, em 1834, ex-aluno Berthier de L’Épée, “o Berthier organizava um
banquete a cada ano, como se fosse um aniversário, um evento que era um grande trabalho para
as pessoas surdas”. Além disso, festivais de língua de sinais e elite surdo. Comemoração de
banquete em homenagem a Michel de L’Épée na França:
54

Figura 1 - Banquete em homenagem a Michel de L’Épée – ano 1834

Fonte: Dominique Lerche (2009).

Os banquetes eram importantes celebrações como mostra o autor Paulo Vaz do Carvalho
(2007 apud MOURÃO, 2016, p. 70), que tinham objetivos de: i) fortalecimento da cultura surda
(encontro de surdos, com o objetivo de empoderamento); ii) valorização das línguas de sinais
– movimento em que artistas surdos, contadores de histórias, poetas etc. apresentavam suas
criações, compartilhavam suas obras; iii) ser um local em que se relembrava a história dos
surdos e se fazia uma homenagem ao abade de L´Épée. O busto (estátua) do abade ficava
exposto, para lembrar que a nação surda não começou com o abade, mas ele deixou um legado;
iv) ser um fórum político, uma articulação política, através do convite de artistas,
comunicadores, políticos, pessoas influentes, e também o comité de surdos que fundaram as
associações de surdos, por exemplo, a primeira associação de surdos na França e no mundo, a
“Sociedade Central de Assistência e Educação de Surdos Mudos” (1838). Participaram outras
associações, e outros revelavam os sonhos, planos e lutas, a fim de que os surdos fossem
reconhecidos e; v) ser um local de convívio e boas refeições.

Esse banquete era um território surdo, como comunidade surda. Nesse evento, em
1834, o início do banquete era em homenagem ao Abade Charles Michel de L'Épée,
celebrando o 122° aniversário do seu nascimento. Segundo Carvalho (2007, p. 85),
‘Este banquete tornou-se num evento anual e foi utilizado pelas pessoas surdas como
fórum para publicitar as suas exigências. Foi assim que, no meio da dor e do
sofrimento das injustiças que sentiam na pele, nasceu o movimento surdo.’
(MOURÃO, 2016, p. 69-70).

O termo no dicionário Aulete banquete significa “almoço ou jantar de gala para muitos
convidados; refeição farta” (AULETE, 2012, p. 101). Porém, banquete pode significar não
somente refeição, mas momentos de discussão, troca de opiniões e conhecimentos. Os
55

banquetes em homenagem a L`Épée, ficaram conhecidos mundialmente e tinham como objetivo


disseminar a educação, a política, as políticas linguísticas, a literatura surda, a língua de sinais,
a cultura surda nas diversas comunidades surdas como minoria linguística e a vida social ao
redor do mundo pela garantia da língua de sinais para a pessoa surda.
Será que nesses banquetes utilizavam a LSI (Gestuno ou gestos internacionais ou língua
de sinais universal)? Qual era a língua de sinais utiliza no encontro de surdos de Europa?
Acreditamos que, de início, nos banquetes a comunicação se dava em língua de sinais mundial,
que germinou para língua de sinais universal e hoje se encontra na forma de LSI. Seria
importante uma investigação sobre todo o processo inicial de forma detalhada, dos processos
até chegar no seu desenvolvimento atual.
Na figura 1, percebemos que somente os homens surdos brancos participavam desses
encontros, não havia a participação de mulheres surdas e negros surdos. De acordo com
Carvalho (2007 apud MOURÃO, 2016, p. 71): “Naquela época, no século XIX, as mulheres
não possuíam os mesmos direitos que os homens, raramente iam às festas ou festivais”.
Provavelmente, as mulheres ficavam nos afazeres domésticos. Ainda de acordo com o mesmo
autor:

Em 1883, o banquete abriu as portas para as mulheres surdas, que podiam então
assistir e participar. Algumas pessoas fizeram brindes pela honra de mulheres surdas
estarem finalmente participando, assim como quando o Abade L`Épée encontrou pela
primeira vez duas irmãs surdas e teve contato com a língua de sinais, iniciando assim
a educação de surdos. (CARVALHO, 2007 apud MOURÃO, 2016, p. 71).

No século XXI, há um fortalecimento das pessoas surdas (homens e mulheres) de


diferentes raças, é uma vitória e um grande empoderamento todas as pessoas surdas poderem
vivenciar a língua de sinais, inclusive mulheres surdas, negros e negras surdas têm também
reconhecidas as suas línguas de sinais, além dos países e suas línguas de sinais da América do
Sul e de outros continentes. Concordo com Mourão (2016, p. 71), quando diz: “esses eventos
não eram apenas ‘encontros entre pares’, mas um momento para reafirmar o status de sua língua
e cultura, empoderando suas identidades surdas e culturas”.
Os banquetes realizados por surdos aumentou a visibilidade dessa língua, abrindo as
portas para intercâmbios entre surdos de diferentes países e comunidade surda, através da língua
de sinas internacional. E também nos encontros em homenagem a L’Épée, iam surdos
estrangeiros de toda a Europa para o banquete, dessa forma, como meio de comunicação
utilizavam a língua de sinais interna entre eles. Poderia ter surgido nessas situações intérpretes
56

surdos a partir de experiências empíricas, mesmo sem formação. Hoje já há o reconhecimento


do profissional de intérprete surdo.
Durante quase 100 anos, a comunidade surda foi privada dos seus direitos linguísticos,
do uso da língua de sinais. Somente nos anos 1960, os surdos reconquistaram o reconhecimento
linguístico e o direito a sua língua de sinais com os estudos sobre a Língua de Sinais Americana
– ASL (American Sign Language), quando o linguista americano William Stokoe, da Gallaudet,
publicou uma análise linguística da ASL e mostrou que as línguas de sinais são línguas com
todas as características das línguas orais (GOLDFELD, 2002).
Conclui-se que a história da língua de sinais tem início desde antes de Cristo. Há muitos
anos, o registro, e também, a difusão da LSF foi realizada em alguns países através da
colonização, da mesma forma que anos depois a ASL foi língua colonizadora em outros países
no mundo, rapidamente as línguas de sinais se expandiram no mundo. As comunidades surdas
dos países são ricas linguisticamente mostraremos na seção 1.6 sobre a cartografia da família
de língua de sinais.
Na próxima seção, faremos a contextualização da história da língua de sinais no Brasil,
e veremos a semelhança da nossa história com a história das línguas de sinais no Mundo.

2.3 CENÁRIO NACIONAL: LÍNGUA DE SINAIS

Anteriormente, falamos um pouco sobre a história da língua de sinais no mundo, agora


mostraremos a história da LSN do Brasil. O Brasil ocupa uma superfície de 8.516.000 Km², faz
fronteira ao norte com a Guiana Francesa, com a Guiana, com o Suriname e com a Venezuela,
à oeste com a Bolívia, com a Argentina e com o Paraguai e ao sul com o Uruguai. O Brasil
ocupa a 5ª maior extensão territorial do mundo. O Brasil é enorme em número de habitantes, as
comunidades surdas brasileiras possuem, além da Libras, mais 18 línguas de sinais regionais.
Diante dessa realidade, precisamos da presença de intérpretes surdos que disseminem as línguas
de sinais e para a valorização dessas línguas e cultura surdas.
Saussure (1991) diz que a língua é o aspecto social da linguagem, já que é compartilhada
por todos os falantes de uma comunidade linguística, isso inclui também os sinalizantes das
línguas de sinais. Como diz Quadros (2017), apesar de serem supostamente considerados
falantes e sinalizantes “nativos” do ponto de vista linguístico, o contexto social interfere no
desempenho dessas línguas, que seriam consideradas nativas, primeira língua, indicando
características específicas para a compreensão da linguagem humana. Por exemplo, no Brasil,
a população chega a 205 milhões, quase 10 milhões são de pessoas com deficiência auditiva,
57

dentre elas, pessoas surdas (IBGE, 2010). Há muitas comunidades surdas e muitas línguas de
sinais. Apresentaremos ao leitor a importância da política linguística, da língua de sinais e do
intérprete surdo no contexto brasileiro. Vamos ver a história da criação da língua de sinais:

É uma curiosidade saber a idade da Libras, ou seja, o tempo de existência da mesma


no Brasil. Podemos dizer qua atualmente a Libras tem, no mínimo, cento e cinquenta
anos, a contar do surgimento da comunidade surda do INES em 1857. Contudo, apesar
de não existem registros históricos sobre a Libras no século XIX, podemos supor que
havia o uso de Língua de Sinais mesmo antes dessa época, tendo evoluído a sua
estrutura linguística a partir daí. E somente depois de duas décadas surgiu o primeiro
em papel na forma de dicionário, a Iconographia dos Signaes dos Surdos-Mudos em
1875. (DINIZ, 2011, p. 29-30).

O primeiro registro da língua de sinais no Brasil é datado de 26 de setembro de 1857,


quando também foi fundado no Rio de Janeiro a primeira escola para surdos do Brasil, o
Instituto Nacional de Surdos-Mudos, atualmente denominado de Instituto Nacional de
Educação de Surdos (INES). Alguns anos depois, a partir de 1993, essa língua de sinais passou
a ser denominada de Libras.
No início da educação de surdos no Brasil, tem-se o registro de que a Língua de Sinais
Francesa – LSF era a língua utilizada como língua de instrução na escola, em decorrência do
fundador da escola ser de nacionalidade francesa, portanto, houve influência da LSF na escola
e da língua de sinais produzida por surdos brasileiros nesse período. Os territórios do dormitório
e do recreio23 eram muito utilizados pelos surdos como espaços para o uso e a produção da
língua de sinais, através da contação de histórias, piadas, literatura surda, partilha das
informações24, política entre outros assuntos. De acordo com Skliar (2013, p. 24): “os surdos
criaram, desenvolveram e transmitiram, de geração em geração, uma língua, cuja modalidade
de recepção e produção é visuogestual”. Dessa forma, essa oralidade de língua de sinais é
contada em língua sinalizada por geração em geração: história, piada, literatura e dentre outros.
Além disso, surdos de vários estados foram estudar no INES, os dormitórios eram locais
de convívio das línguas de sinais. De acordo com Ladd (2013 apud MOURÃO, 2016, p. 51),

23
No INES, quando a língua de sinais estava proibida, os alunos surdos passaram a se comunicar de forma
escondida nos refeitórios e dormitórios. Em anos posteriores, esta Língua de Sinais, mesmo praticada às
escondidas, já estaria formada como um sistema linguístico. Então, foi difundida pelo Brasil, já que os alunos do
INES eram oriundos de outros estados brasileiros, além do Rio de Janeiro, e, quando voltavam para suas casas,
levavam a Língua de Sinais adquirida (ROCHA, 2007).
24
Ladd (2013 apud MOURÃO, 2016, p. 51) coloca que essa aprendizagem entre as rodas-das-mãos, não só pela
sinalização, mas também pelas trocas de informações e partilhas, é uma experiência cooperativa e coletiva
desenvolvida a um nível não encontrado nos alunos ouvintes.
58

“existia o famoso território dos “dormitórios” da escola colonizadora, onde podiam se


comunicar em língua de sinais”, ex-alunos surdos (atualmente idosos surdos) que estudaram no
INES, alguns anos depois voltaram as suas terras e influênciaram a Libras nos estados.
A criação de escolas de surdos e associações, ajudou na difusão de novos sinais trazidos
do INES nas diferentes cidades e estados, e assim, cresceu as variações linguísticas da Libras e
regionalismo no Brasil. De acordo com a autora Gesser (2009, p. 39): “A variação pode ocorrer
nos níveis fonológico (pronúncia), morfológico (palavras) e sintático (sentenças) e estão ligadas
aos fatores sociais de idade, gênero, raça, educação e situação geográfica”. Veja imagem
variação linguística da Libras no Brasil.

Figura 2 - Variação linguística da Libras: VERDE

Fonte: Fernandes e Strobel (1998, s. p.)25.

As políticas linguísticas da Libras nos estados, já tem algumas legislações, criação de


escolas de surdos, currículo que considera a língua de sinais e cultura surda, associações de
surdos, garantia a língua de sinais das minorias linguísticas. A história do INES estabelece a
relação mais histórica entre as línguas de sinais nativas do Brasil (LEITE; QUADROS, 2014).
Há também registros do aumento das línguas de sinais utilizadas pelos surdos brasileiros.
Segundo os mesmos autores:

há evidências documentais sobre línguas de sinais originais26 do Brasil, previamente


à emergência da Libras no INES a partir do século XIX. Com relação às línguas de
sinais nativas, no entanto, pelo menos duas línguas já puderam ser minimamente
documentadas: a língua de sinais Urubu-Kaapor, utilizada pela etnia indígena dos
Kaapor, situados no estado do Maranhão, na região norte-nordeste do Brasil; e a língua
de sinais conhecida como “Cena”, falada na cidade de Jaicós, no povoado de Várzea

25
Disponível em: https://cultura-sorda.org/aspectos-linguisticos-da-lingua-brasileira-de-sinais/.
26
Língua de sinais originais: que também eram faladas por pequenas comunidades de surdos previamente à
instituição de uma língua de sinais nacional no país (LEITE; QUADROS, 2014, p. 17). Por exemplo, categoria, o
caso talvez mais marcante já documentado na literatura e o dos sinais usados pelos surdos da Nicarágua antes da
criação das escolas de surdos e que, nessas escolas, passaram a ser reconhecidos como “sinais caseiros refinados”
(COPOLLA; NEWPORT, 2005).
59

Queimada no interior do Piauí, também na região norte-nordeste do país. (LEITE;


QUADROS, 2014, p. 20).

Acreditamos que, anteriormente a criação do INES fazia-se uso da comunicação em


língua de sinais através de línguas emergentes ou regionais, pois cada estado tinha o seu ponto
de encontro de surdos, que se comunicavam a partir de uma língua de sinais nativa, como dizem
Leite e Quadros (2014, p. 17): “faladas em pequenas comunidades pouco ou nada urbanizadas,
em geral distantes dos grandes centros, que apresentam grande incidência de surdez”.

Figura 3 - Colégio Nacional

Fonte: Almanak Laemmert (1856, p. 406 apud SOFIATO, 2011, p. 38).

Antes do INES tinha,

O Collegio Nacional para Surdos-Mudos de ambos os sexos [que] passou a funcionar


em primeiro de janeiro de 1856, nas dependências do Colégio de M. De Vassimon,
no modelo privado. É interessante destacar que as meninas ficariam a cargo de
Madame de Vassimon e suas filhas. Escola Vassimon para meninas surdas e colégio
Ms. Huet para os meninos surdos. (SOFIATO, 2011, p. 37)

Acreditamos que as ‘escolas’ existentes antes do INES já utilizavam os sinais caseiros


ou língua de sinais. As escolas Vassimon e Ms. Huet utilizavam em separado as suas línguas de
sinais e, anos depois, com a mudança para o INES, onde estudariam meninas e meninos, as
duas línguas de sinais (francesa e outra língua de sinais) se misturariam e se modificariam para
o que hoje conhecemos por Libras.
Atualmente, quantas línguas e línguas de sinais existem no mundo? A autora Bortoni-
Ricardo (2014) diz que estima-se que haja entre seis a sete mil línguas. No Ethnologue (2018)
há aproximadamente 7.097 línguas cadastradas, aproximadamente, 142 são línguas de sinais,
incluindo a Libras e a língua indígena brasileira Kaapor Urubu - LSKB, mas ainda falta
60

acrescentar a esse cálculo outras línguas de sinais como a Cena, Pataxo, Terena, Língua de
sinais Sateré-Waré, Língua de sinais Kaigang, Língua de Sinais Guarani- Kaiowá, Acenos,
Língua de Sinais Fortalezinha, Língua de Sinais de Ilha do Marajó, Língua de Sinais de Porto
de Galinha, Língua de Sinais Ka’apor, Língua de sinais Terena, Língua de Sinais Akwe sinais
Akwe de comunicação Cultural, Língua de sinais Maxakali, Língua de Sinais compartilhadas
na Fronteira, Língua de sinais emergentes de São Gabriel da Cachoeira - AM. e a Língua de
Sinais de Caiçara.
No Brasil de hoje há por volta 210 idiomas. As línguas indígenas do país são cerca de
180 línguas autóctones e 30 línguas de comunidades descendentes de imigrantes, portanto,
línguas alóctones, e nessas, incluem-se duas línguas de sinais (Libras e LSKB) (IPOL, 2006,
2007). Libras e LSKB já estão nessa catalogação, porém precisa atualizar as outras 17 línguas
de sinais no Brasil.
As línguas de sinais estão espalhadas em comunidades linguísticas de diferentes países,
e no movimento natural das línguas, cada uma delas se desenvolve com algum nível de
interação com as demais línguas, dado o contato de seus falantes de diferentes línguas. Contato
motivado tanto por relações políticas, culturais e étnicas, como por processos de globalização
e uso das tecnologias. Isso ocorre, também, com a presença do intérprete surdo de duas línguas
de sinais nos contextos de interação. Sobre o status político das línguas Reagan (2010) diz que
“os esforços do governo ou instituição em determinar qual a língua ou línguas são usadas em
esferas particulares […] ocupa-se de questões extralinguísticas (considerações culturais,
demográficas e econômicas)” (REAGAN, 2010, p. 50-51).
Dessa forma, podemos relacionar as línguas de sinais e seu status também com a
política, pois é esta última que organiza questões de regulamentação e legislação para o
intérprete surdo de língua de sinais para outra língua de sinais.
Além da questão política, há a situação de diglossia – diferença de status sociopolítico
entre duas línguas ou dialetos coexistentes em um mesmo território – , na qual, geralmente, há
uma língua dominante e uma língua dominada. No Brasil, essa diglossia pode ser observada
através do contato entre a Libras e o português brasileiro. Calvet (2007, p. 33), ao citar Lluis
Aracil (1965), Robert Lafont (1971), Lambert-Felix Prudent (1981), aponta que esses autores
“afirmavam que a diglossia não era uma coexistência harmoniosa entre variedades linguísticas,
mas uma situação conflituosa entre uma língua dominante uma língua dominada”.
De acordo com o IPHAN, para uma língua ser considerada nessa relação de diglossia,
com mais status de poder e força social, ela precisa ter, no mínimo, 5 mil falantes. Levando em
61

consideração o que diz o IPHAN, que tem o registro da língua de sinais, mas somente de duas
línguas de sinais do Brasil, é importante observar também as demais línguas de sinais já
mencionadas. Sabe-se que, dentre todas, a Libras é a língua que teria mais poder por ser
hegemônica, porque já é utilizada como comunicação há mais de 155 anos e por 9 milhões e
700 mil pessoas surdas ou deficientes no Brasil (IBGE, 2010). Por isso, ela não desapareceu,
tem mais poder do que outras línguas de sinais originais. Quanto ao fato das língua
apresentarem status que podem representar alguns riscos para as línguas de sinais, pois:

em pouco tempo, o desaparecimento de um número incontável de formas de


linguagem gesto-visual. Sem dúvida, já houve o desaparecimento de inúmeras e pelo
nosso desconhecimento e não investimento em pesquisas com estas comunidades e
linguagem, não podemos precisar nem mesmo o número exato ou onde e como se
desenvolveram. Essas formas locais estão sendo tomadas pelas políticas globais de
“inclusão dos surdos” que, geralmente, trabalham com perspectivas hegemônicas
sobre o que seria uma língua e como se daria a educação ou a inserção dos surdos nas
sociedades globalizadas. (NONAKA, 2011 apud PEREIRA, 2013, p. 395).

Como observamos, as relações políticas e sociais propiciam valorização às línguas para


os povos que as utilizam. Uma reflexão, todas as línguas de sinais, enquanto minoria linguística,
vivenciam uma situação glotopolítica27, vivem o risco eminente de desaparecer28.
Línguas de sinais regionais ou nativas, minorias no universo das línguas de sinais,
também vivem essa situação, frente à comunidade falante de uma língua de sinais majoritária,
como a comunidade de falantes da Libras, por exemplo. O português brasileiro tem mais
influência no Brasil, mais poder (hegemônica), nesse sentido, pode acontecer do português
brasileiro influenciar a Libras. De acordo com Lluis Aracil (1965 apud CALVET, 2007, p. 33),
“esse conflito só poderia levar as duas situações: ou a língua dominada desaparece em favor da
língua dominante (o que ele chama de substituição), ou ela recupera suas funções e seus direitos
(o que ele chama de normalização)”. Para evitar que uma língua dominante padronize e
normatize uma língua minoritária em direção a unificação de uma única língua, é preciso
valorizar a língua das minorias, é importante a diversidade e valorização linguística das
minorias.

27
A glotopolítica é essencialmente o problema da minoria (Marcellesi, “De la crise de la linguistique à la
linguistique de la crise: la sociolinguistique” (La Pensée, nº 209, 1980) ou ela ainda “designa os diversos enfoques
que uma sociedade tem da ação sobre a língua, seja ela consciente ou não” (Guespin e Marcellesi, “Pour la
Gltopolitique”, Langages, n. 83, 1986) (CALVET, 2017, p. 17).
28
O multilinguismo também vai continuar, mas uma grande parte das mais ou menos 6.000 línguas de hoje vai
desaparecer rapidamente por causa da pressão das línguas nacionais e internacionais (SPOLSKY, 2016, p. 374).
62

É necessário que o governo reconheça o valor das línguas de sinais para os povos surdos
usuários de diferentes línguas de sinais. Uma maneira de reconhecer a importância dessas
línguas é garantir a presença do intérprete surdo de língua de sinais para outra língua de sinais
nos espaços de surdos, porém, a única legislação que menciona o intérprete surdo é o Decreto
nº 5.626/2010 e quanto a certificação, apenas o Prolibras. É necessária urgemente, a criação de
uma legislação ou complementação através de emenda legislativa, ou ainda um programa ou
currículo de formação profissional para o tradutor e intérprete de língua – TIL incluindo as
línguas de sinais. Igualmente, é necessário a atuação em parceria com equipe de tradutor e
intérprete de língua surdos e ouvintes. Para isso, existe a proposta da criação ou emenda da
legislação para tradutor e intérprete surdo que consta sintetizado no capítulo 5 do referido
decreto (BRASIL, 2005).
Retomando à história da língua de sinais no Brasil e a sua proibição, temos que em 1911,
seguindo a tendência mundial iniciada no Congresso de Milão, o INES abraçou a visão oralista
de educação para os surdos e desde então o método oral (língua falada) passou a reger a
educação de seus alunos. Apesar da língua de sinais ser excluída das salas de aula, ela
continuava a ser usada pelos alunos nos pátios e corredores da escola, ainda que marginalmente
(GOLDFELD, 2002) e continuou a ser utilizada na comunidade surda, nas associações dos
surdos no Brasil e locais públicos de encontros de surdos.
O Brasil seguiu a mesma tendência do resto do mundo. Os surdos tiveram cerceados os
seus direitos linguísticos à língua de sinais durante quase 100 anos, mundialmente, e em várias
décadas no Brasil, o povo surdo foi excluído o seu direito linguístico à língua de sinais e por
meio do poder público com a desvalorização da comunidade surda para a transmissão da língua
de sinais.
Antes de Stokoe, o Bebian Auguste foi o primeiro a falar de gramática de língua de
sinais (fala e escrita) no ano 1825 na França, contudo há poucas publicações sobre isso. Chama-
se sistema Mimographie de Bébian, o método para a escrita da língua de sinais. Segundo
Barreto e Barreto (2015),

[...] a ideia de Bébian era revolucionário: os sinais podem se decompor em cinco


elementos básicos: a forma da mão, sua posição no espaço, o lugar onde se executava
o sinal, a ação executada e a expressão facial usada” (OVIEDO, 2007, p. 3, traduzido
por Leão (2018), os quais eram registrados através da Mimeographie juntamente com
outras grafemas. Observe que Bébian, antes mesmo de Stokoe (1960), já havia
identificado alguns dos fonemas das Línguas de Sinais: Configura ção de mão,
Locação, Movimento e Expressão Facial. (BARRETO; BARRETO, 2015, p. 63).
63

Em 1960, por meio dos estudos linguísticos acerca da ASL realizados por William
Stokoe, a história sobre as línguas de sinais começa a mudar. Os resultados dos estudos do
linguista apontaram para uma organização gramatical e sistêmica das línguas de sinais,
apresentando as mesmas características linguísticas ou paramêtros semelhantes aos estudos
linguísticos relacionados à língua falada. Stokoe sistematizou e publicou uma gramática e um
dicionário da ASL e, através da publicação das suas obras, surgiram diversas outras pesquisas
que objetivaram estudar a importância do uso da língua de sinais na educação e na vida social
do surdo.
No Brasil, na década de 1980, a professora e linguista Lucinda Ferreira Brito inicia os
estudos linguísticos voltados à língua de sinais, inicialmente denominada por ela de Língua de
Sinais dos Centros Urbanos Brasileiros (LSCB). A Libras é considerada a primeira língua da
comunidade surda dos centros urbanos29. Sendo assim,

a língua brasileira de sinais padrão é referida como Libras. Essa denominação foi
estabelecida em assembleia por membros da Federação Nacional de Educação e
Integração do Surdo (Feneis) em outubro de 1993, e tem sido reconhecida pela
Federação Mundial dos Surdos (WFD), pelo Ministério da Educação (MEC) e por
educadores e cientistas do campo. A Libras foi oficializada pelo Senado Federal em
abril de 2002. (ROCHA, 1997, apud GESSER, 2009, p. 36).

O termo Libras surgiu no ano de 1993, anteriormente chamava-se língua de sinais dos
Centros Urbanos Brasileiros (LSCB) e antes dessa nomenclatura, chamava-se apenas língua de
sinais. Não tinha um nome próprio para designar a língua de sinais no Brasil, pois não tinha
conhecimento sobre linguística e política linguística das línguas de sinais no país. Entretanto, a
comunidade surda tem a comunicação em língua de sinais há muitos anos, apenas a língua
recebeu a denominação de Libras.
Outro termo utilizado é LSB (Língua de Sinais Brasileira), sigla utilizada por parte da
comunidade surda. O uso da sigla LSB, faz referência à convenção internacional no uso de
siglas dos nomes de línguas de sinais de outros países, por exemplo: LSF, ASL, BSL, etc. O uso
de 3 (três) letras na formação da sigla do nome da língua reflete a abreviatura do nome por
extenso. O termo Libras e LSB são usados até hoje, no entanto, a maioria utiliza a nomenclatura
Libras, por causa da legislação de 2002 (Lei 10.436, comumente conhecida como Lei de Libras)
e toda a política linguística relativa à língua brasileira de sinais que refere-se à língua por meio

29
Existem os surdos que fazem parte de comunidades indígenas e que usam outras línguas de sinais.
64

da palavra Libras. Elo de pertencimento da comunidade surda, a Libras é patrimônio das


variedades das línguas de sinais. A política linguística dá garantias de respeito ao cidadão surdo
na comunidade surda como minoria linguística.
Sobre o sistema da escrita de sinais da Libras, as pessoas pensam que língua de sinais é
ágrafa. Porém, existe um sistema chamado Sign Writing - SW30, e esse sistema de representação
da língua de sinais pode ser aplicado na representação de qualquer língua de sinais. A ideia de
representar a escrita das línguas de sinais veio a partir do sistema criado por Valerie Sutton em
1974, que chamou atenção na comunidade científica dinamarquesa das línguas de sinais com a
criação de um sistema para registrar as danças de seus alunos. A transcrição dos “sinais da
dança” para “a escrita dos sinais” inicia-se a partir do contato dos pesquisadores da
Universidade de Copenhagen com colaboração de Valerie com base em seus registros gravados.
A figura 4, apresenta um sistema utilizado para registrar danças e foi adaptado para o
uso do SW (em português, chama-se escrita da língua de sinais - ELS). O primeiro encontro de
pesquisadores, Valerie Suton e grupo de pesquisadores, criaram o SW para a ASL, a partir daí
foi difundido para o mundo.

Figura 4 - DanceWriting

Fonte: Stumpf (2008, p. 30)

No Brasil iniciou em 1996, conforme apresenta Nobre (2011, p. 88) “na Universidade
Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, por Antônio Carlos da Rocha Costa, que
juntamente com Márcia Borda e Marianne Stumpf desenvolveram um sistema computacional
e difundiram a escrita SignWriting através do projeto SignNet”. Observou-se que os surdos
expostos ao sistema SignWriting tinham muita facilidade para escrever. Um dos grandes

30
O termo SW se refere ao sistema usado neste trabalho para escrever sinais [...]. Atualmente o SW/SignWriting
é um sistema bastante usado pela Comunidade Surda brasileira (NOBRE, 2011, p. 34)
65

desafios dos pesquisadores no processo de sistematização é tornar a grafia a mais concisa e


clara possível, chama se escrita de sinais (as palavras de português) (STUMPF, 2005).
Inicialmente este sistema escrito era usado à mão livre e, posteriormente, passou a ser
escrito por meio de um software de forma digital. Até hoje, as duas formas de escrever os sinais
são usadas pelos surdos. A escrita de sinais de cada país usa a sua LSN e o mesmo sistema SW,
adaptado à sua língua (de forma análoga aos demais sistemas de escrita, por exemplo, a escrita
alfabética é utilizada em vários países para escrever várias línguas).
As línguas de sinais possuem uma escrita a partir de um sistema de símbolos que permite
representar a língua sinalizada, adaptando à realidade de cada língua. Há 5631 SW nos países
do mundo, por exemplo: escrita de sinais da Libras, escrita de sinais da ASL, escrita de sinais
da língua de sinais britânica (BSL), dentre outros. Futuramente poderíamos ter SW da LSI. No
Brasil, houve uma evolução do SW nos estados, porém tem mais três sistemas de escritas de
sinais no Brasil, são elas: a Escrita de Língua de Sinais (ELiS), o Sistema de Escrita da Libras
(SEL) e a Escrita Visogramada das Língua de Sinais (VisoGrafia), por fim, já existem quatro
sistemas de escrita de sinais no Brasil.

Quadro 2 - Sistemas de escritas da língua de sinais


SignWriting ELiS SEL Visografia
O SignWriting (SW) é A Escrita de Língua de O SEL é um sistema de A escrita
um sistema gráfico- Sinais (ELiS) é um escrita das Línguas de visogramada das
esquemático-visual sistema de escrita das Sinais, de base línguas de sinais ou
secundário das línguas línguas de sinais, de alfabética e linear. Este VisoGrafia é um
de sinais. Silva, Costa, base alfabética e linear. sistema foi criado sistema de escrita de
Bózoli e Gumiero (2018, Este sistema foi criado desde abril de 2009, sinais que vem sendo
p.3) na pesquisa de quando foi proposto desenvolvido desde
mestrado de um projeto de pesquisa 2016 e alterado em
Mariângela Estelita de de Adriana Stella 2017 na pesquisa de
Barros. Silva, Costa, Cardoso Lessa de doutorado de Claudio
Bózoli e Gumiero Oliveira. Silva, Costa, Alves Benassi. Silva,
(2018, p.7) Bózoli e Gumiero Costa, Bózoli e
(2018, p. 12) Gumiero (2018, p.
16)

31
Disponível em: http://www.signwriting.org/about/who/, na opção “Who uses signwriting”.
66

Criação por Valerie Criação por Criação por Adriana Criação por Claudio
Sutton Mariangela E. de S.C.L. de Oliveira A. Bensassi
Apdatação p Brasil por Barros
Marianne R. Stumpf
Fonte: Fonte: Imagem da Fonte: imagem da Fonte: Imagem do
http://www.signwriting. Barros Oliveira Benassi (2015)
org. (2008) (2012)
Fonte: Elaboração própria

Conforme Leão afirma,

é necessário políticas linguísticas para a padronização de um sistema de escrita de


sinais para garantir o acesso e difusão da escrita de sinais no Brasil. O uso da escrita
de sinais valoriza a escrita da Libras como um patrimônio cultural que oportuniza a
comunicação e divulgação do conhecimento. (LEÃO, 2019, p. 68).

Além disso, é importante a difusão da escrita de sinais no Brasil pela língua de sinais
usa (fala e escrita) como outras línguas faladas. Ter planejamento linguístico das línguas de
sinais, tanto língua sinalizada quanto da escrita de sinais, é uma valorização das línguas dos
surdos para comunicação social e desenvolvimento cognitivo.
O profissional de tradutor e intérprete surdo pode trabalhar na tradução da escrita de
duas LSNs ou LSI, e também pode trabalhar na escrita da Libras para a fala em Libras.
Conforme Stenier (2005 p. 282): “traduzimos um signo-palavra por meio de outros signos
verbais no interior da mesma língua”, o tradutor e intérprete surdo trabalha com várias línguas
de sinais, sendo bilíngue, plurilíngue ou multilíngue na interpretação e/ou tradução. Falaremos
sobre línguas de sinais como primeira, segunda e terceira língua em outra seção.

2.4 DEFINIÇÃO DAS LÍNGUAS DE SINAIS COMO PRIMEIRA, SEGUNDA E TERCEIRA


LÍNGUA

“Onde houver seres humanos, haverá língua.”


(SALLES et al 2004, p. 86).

Para introduzir as modalidades das línguas orais (língua falada e língua sinalizada),
mostramos a diferença da língua oral na modalidade oral-auditiva32 e na modalidade visuo-
gestual. Quadros afirma que:

32
Os seres humanos podem utilizar uma língua de acordo com a modalidade de percepção e produção desta
modalidade oral-auditiva (português, francês, inglês etc.) ou modalidade viso-espacial (língua de sinais brasileira,
língua de sinais americana, língua de sinais francesa etc.) (QUADROS; KARNOPP, 2004).
67

uma língua falada é oral-auditiva, ou seja, utiliza a audição e a articulação através do


aparelho vocal para compreender e produzir os sons que formam as palavras dessas
línguas. Uma língua sinalizada é visual-espacial, ou seja, utiliza a visão e o espaço
para compreender e produzir os sinais que formam as palavras nessas línguas.
(QUADROS, 2004, p. 09):

Na modalidade oral-auditiva, por exemplo, temos: o português brasileiro, o inglês, o


francês, o alemão, dentre outros. Na modalidade visuo-gestual temos: a Libras, a LSF, a ASL,
a DGS, dentre outros. É importante mostrar que a língua de qualquer indivíduo deve ser
respeitada, seja ela da modalidade oral/auditiva, ou seja de modalidade visuo-gestual. Quadros
(2004, p. 9) defende que “tanto uma língua falada, como uma língua sinalizada podem ter
representações numa modalidade gráfica visual, ou seja, podem ter uma representação escrita”.
Portanto, temos a escrita de português brasileiro, a escrita de inglês, mas temos também a escrita
de Libras, a escrita da ASL, que chamamos de escrita de língua de sinais. A minha pesquisa é
sobre o intérprete e tradutor surdo de uma única modalidade de língua, a visuo-gestual, é sobre
o profissional que trabalha com a tradução intramodal e interlingual de duas ou mais LSNs ou
LSI.
Apresentarei a seguir a definição da língua de sinais como primeira e segunda língua,
ou até mesmo terceira língua. No Brasil, há uma política monolíngue histórica que procurou
instaurar a ideia de um consenso de que o país fala uma única língua, o português brasileiro.
Quadros (2005) afirma que:

Pensa-se que no Brasil todo falante adquire a língua portuguesa como primeira (L1).
Ignora-se, portanto, que temos falantes de famílias imigrantes (japoneses, alemães,
italianos, espanhóis, etc.), os de várias comunidades indígenas que falam várias
línguas nativas [...] e, também, “falantes”, digo, “sinalizantes” da língua de sinais
brasileira (os surdos e familiares de surdos brasileiros). Todas estas línguas faladas no
Brasil também são línguas brasileiras caracterizando o país que o Brasil realmente é,
um país multilíngue. (QUADROS, 2005, p. 27)

O Brasil está longe de ser um país de realidade monolíngue, independente se for


considerada a língua única do país a língua falada, isto é, o português brasileiro, ou a língua
sinalizada, a Libras. Ambas não são as únicas línguas circulantes no país, porém elas têm maior
status social do que outras línguas, pois está garantido, pela Constituição da República
Federativa do Brasil e por leis federais, o seu uso nos documentos oficiais do país.
O Brasil vive uma realidade multilíngue. Temos as línguas faladas, como o português
brasileiro, as línguas indígenas, as línguas dos imigrantes, etc., e temos as línguas de sinais,
68

como a Libras, a Língua de Sinais Kaapor Brasileira, a Língua de sinais Cena, Terena, Pantaxo,
etc. Algumas pessoas no Brasil vivem uma realidade bilíngue, plurilíngue ou multilíngue, visto
que utilizam, individualmente, duas, três línguas ou mais.
De acordo com o Dicionário de Linguística, “de uma maneira geral, o bilinguismo é a
situação linguística na qual os falantes são levados a utilizar alternativamente, segundo os meios
ou as situações, duas línguas diferentes” (DUBOIS, 1993, p. 87). Sobre o conceito de
plurilíngue e multilíngue:

No âmbito científico, é feita uma distinção entre plurilinguismo e multilinguismo: o


primeiro refere-se às habilidades individuais de um sujeito relacionadas à capacidade
de aprender e usar várias línguas, o segundo, ao invés de vê o fenômeno da
multiplicidade de códigos de comunicação não do ponto de vista da pessoa, mas do
social. O multilinguismo refere-se à presença em uma comunidade de várias línguas
a disposição dos falantes, embora não seja necessariamente conhecidas e usadas por
todos os falantes. (LOUISE, 2013, p. 526, tradução Raniere Aslan)33.

O plurilinguismo envolve um esforço individual do falante em falar mais de uma


língua e o multilinguismo envolve uma situação social, de uma comunidade de pessoas que
falam mais de uma língua. Dessa forma, o tradutor e intérprete surdo escolhe as línguas que
deseja aprender para se tornar um profissional plurilíngue ou multilingue, vai conviver numa
sociedade ou comunidade que possui mais de uma língua, ele pode ter uma aquisição e/ou
aprendizagem das várias línguas.
A assimilação da pluricultura e multicultura, de acordo com o documento de Conselho
da Europa, a respeito da competência plurilíngue e pluricultural “refere-se à habilidade de usar
línguas para propósitos de comunicação e tomar parte em interação intercultural, onde uma
pessoa vista como um agente social tem proficiência, de níveis variados, em diversas línguas e
experiência de diversas culturas” (CONSELHO DA EUROPA, 2001, p. 168).
As pessoas surdas nascem numa situação de esfera de plurilinguismo e multilinguismo,
vivem uma situação de intercultura no Brasil e, porque não dizer, no mundo, uma vez que a
globalização é muito forte. Por exemplo, os surdos utilizam o português brasileiro escrito na
sociedade brasileira e cultura brasileira, mas, usam outra língua de sinais na comunidade surda

33
In ambito scientifico si distingue tra plurilinguismo e multilinguismo: il primo fa riferimento alle competenze
individuali di un soggetto relative alla capacità di imparare e usare più lingue, il secondo invece vede il fenomeno
della molteplicità di codici di comunicazione non dal punto di vista della persona ma da quello sociale. Il
multilinguismo fa riferimento alla presenza all’interno di una comunità di più lingue a disposizione dei parlanti,
anche se non necessariamente conosciute e usate da tutti i parlanti.
69

e cultura surda. O surdo pode ser bilíngue ou trilíngue, convive com duas línguas e duas
culturais, são bilíngues e biculturais.
A construção das diferentes identidades de cada pessoa depende da influência das
línguas e culturas vivenciadas. Segundo Gonçalves e Andrade (2007, p. 64) argumentam,
“desenvolver a competência plurilíngue é valorizar a construção da identidade através do
contato com outras línguas e culturas pela promoção de uma educação para a cidadania de
abertura e respeito pela diferença”, afinal, as pessoas brasileiras utilizam diferentes línguas e
são plurilíngues e multilíngues. No entanto, as legislações não garantem as línguas dos
imigrantes e indígenas, somente os seus registros estão no Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional – IPHAN. De acordo com Oliveira (2008):

Para compreendermos a questão é preciso trazer alguns dados: no Brasil de hoje são
falados por volta de 210 idiomas. As nações indígenas do país falam cerca de 170
línguas (chamadas de autóctones), as comunidades de descendentes de imigrantes
outras 30 línguas (chamadas de línguas alóctones), e as comunidades surdas do Brasil
ainda duas línguas, a Língua Brasileira de Sinais - Libras - e a língua de sinais Urubu-
Kaapór. Somos, portanto, um país de muitas línguas - plurilíngüe - como a maioria
dos países do mundo. Em 94% dos países do mundo são faladas mais de uma língua.
(OLIVEIRA 2008, p. 1).

Atualmente houve um aumento no número de registros das línguas orais (falada e


sinalizada). As línguas de sinais são consideradas as línguas naturais dos surdos. Para Skliar,
natural

não se refere a uma certa espontaneidade biológica. Língua natural, aqui, deve ser
entendida como língua que foi criada e é utilizada por uma comunidade específica de
usuários, que se transmite de geração em geração, e que muda – tanto estrutural como
funcionalmente – com o passar do tempo. (SKLIAR, 1998, p. 26-27).

Portanto, língua natural pode ser entendida como um sistema linguístico genuíno,
legítimo, nascido das necessidades comunicativas de uma comunidade de falantes – ao
contrário das línguas artificiais34 que são “[...] inventadas deliberadamente por uma
determinada pessoa” ou grupo de pessoas (TRASK, 2004, p. 159).
As comunidades surdas são minorias linguísticas e possuem suas línguas naturais
advindas do contato surdo-surdo. É importante o registro dessas línguas, para dar segurança a
sobrevivência e divulgação dessas línguas de sinais nacionais. A língua de sinais não é

34
O esperanto é um exemplo de uma língua oral artificial. O gestuno é um exemplo de uma língua de sinais
artificial. Por serem artificiais, não são línguas maternas de ninguém (SOUSA, 2008). Atualmente, não se
denomina mais gestuno a essa língua de sinais criada, ela agora é conhecida por língua de sinais internacional.
70

universal, é um sistema linguístico particular a cada comunidade falante de um determinado


lugar. De acordo Gesser:

A língua de sinais é universal? Uma das crenças mais recorrentes quando se fala em
língua de sinais é que ela é universal. Uma vez que erra universalidade está acordada
na ideia de que toda língua de sinais é um “código” simplificado apreendido e
transmitido aos surdos de forma geral, é muito comum pensar que todos os surdos
falam a mesma língua em qualquer parte do mundo. Ora, sabemos que nas
comunidades de línguas orais, cada país, por exemplo, tem usa(s) própria(s) língua(s).
Embora se possa traçar um histórico das origens e apontar possíveis parentescos e
semelhanças no nível estrutural das línguas humanas (sejam elas orais ou de sinais),
alguns fatores favorecem a diversificação e a mudança da língua dentro de uma
comunidade linguística, como, por exemplo, a extensão e a descontinuidade
territorial, além dos contatos com outras línguas. (GESSER, 2009, p. 11-12).

No mundo, existem diversas línguas de sinais nacionais. O quadro abaixo apresenta


alguns exemplos:

Quadro 3 - Exemplos de línguas de sinais


Sigla Nome da língua por extenso Tradução para o português brasileiro
LGP Língua Gestual Portuguesa Língua Gestual Portuguesa
ASL American Sign Language Língua de Sinais Americana
BSL British Sign Language Língua de Sinais Britânica
LSF Langue des Signes Française Língua de Sinais Francesa
Fonte: Elaboração própria, baseada em Salles et al (2004, p. 86).

Para Crystal (1997), a língua materna ou primeira língua de uma pessoa diferencia-se
de quaisquer outras línguas que ela possa adquirir segunda, terceira língua (L2, L3, etc). De
acordo com Crystal (1997) a segunda língua é uma língua não-nativa, usada para fins
comunicativos em um determinado país. Pressupõe-se que o falante de uma segunda língua
esteja imerso na cultura da mesma. O termo língua estrangeira é usado para designar também
uma língua não-nativa, mas uma língua que não é rotineira na comunicação de um país.
Segundo Sousa (2008), a língua portuguesa, no entanto, nem sempre é vista como
segunda língua por alguns surdos, mas como uma língua estrangeira. Sobre essa relação, Gesser
(2006, p. 65) levanta uma questão interessante: “o fato de uma língua ser considerada
estrangeira não é apenas por ela ser de outro país, mas também por ela ser considerada “como
uma língua alheia” ao falante.
Embora os surdos brasileiros nasçam no Brasil, ou seja, ele não é estrangeiro, é cidadão
brasileiro nato surdo e faz parte de uma minoria linguística, de uma pequena comunidade. De
acordo com Paiva (2014, p. 177), a aquisição de língua estrangeira é uma “competência
linguística adquirida de forma inconsciente” pelos falantes, o que não se aplica aos surdos
71

brasileiros que usam o português brasileiro, pois não tem essa língua como estrangeira, mas
como segunda língua do país em que nasceram.
De acordo com Gass e Selinker (1994, p. 4) se dá primeiro a “aprendizagem de outra
língua, depois que se aprendeu a língua nativa” como primeira língua. Os surdos são bilíngues
e podem aprender outras línguas de sinais ou língua falada. De acordo com Quadros (1997) e
Lacerda e Turetta (2019), a aquisição de primeira língua como língua materna ou língua natural
ou nativa acontece pela interação com o grupo social, com o ambiente cultural da minoria
linguística. Desta forma, a aquisição de língua de sinais como primeira língua pelos surdos se
dá na comunidade surda e no contato entre duas ou mais pessoas através da comunicação em
língua de sinais e, assim, acontece a assimilação linguística de LSN e da cultura surda. O
português brasileiro é a segunda língua do surdo, é a língua oficial de sua pátria. Como diz
Quadros:

[...] diante da língua massivamente usada na comunidade em geral, a língua primária,


que pode ser até uma segunda língua, língua primária é entendida aqui como a língua
mais usada no dia a dia, enquanto a língua secundária é empregada apenas em
contextos muito restritos. (QUADROS, 2017, p. 7-8).

As pessoas surdas convivem ao mesmo tempo com duas línguas como primeira e
segunda língua, a primeira língua é encontrada nas diversas das comunidades surdas brasileiras,
que pode ser até uma segunda língua mais usada no dia a dia da sociedade e comunidades na
pátria. Sobre a língua de sinais francesa - LSF, a língua de sinais americana - ASL, as outras
línguas de sinais nacionais - LSNs ou e a língua de sinais internacional LSI como terceira língua,
são consideradas tanto língua estrangeira para os surdos brasileiros, como também terceira
língua. A “primeira língua” se diferencia de quaisquer outras línguas que uma pessoa possa
adquirir (CRYSTAL, 1997). Conforme Sousa (2015), a primeira língua:

É uma língua que se adquire em contato espontâneo, sem ensino sistematizado. É


também chamada de “língua materna” (LM), pois, tradicionalmente, está associada às
mães, consideradas as responsáveis por “transmitir” sua língua aos filhos enquanto
bebês. Entretanto, como problematiza Romaine (1995), nem sempre a mãe é a
responsável por esse papel. Assim, o termo “língua materna” acaba perdendo o sentido
inicialmente pretendido (SOUSA, 2015, p. 33).

A maioria dos surdos nasce em famílias composta por ouvintes, nas quais a primeira
língua, a língua materna é o português brasileiro. Nesse sentido, o português brasileiro, a língua
dos pais, não será a língua materna do filho surdo. Infelizmente, isto acontece devido ao fato
72

de que um número significativo de surdos brasileiros e seus familiares ainda não conhecem a
língua de sinais. Wrigley (1996) afirma que mais de 90% dos surdos nascem em famílias
ouvintes. Adriano (2010, p. 34) evidencia um conceito para sinais caseiros, indicando que: “os
sinais caseiros emergem entre familiares de pessoas surdas e são convencionados entre eles
(pais ouvintes e filhos surdos)”. Aqui no Brasil, é comum famílias com surdos, constituídas na
maioria por ouvintes, fazer uso de sinais caseiros nos contextos familiares.
Os tradutores e intérpretes surdos brasileiros, geralmente, conhecem três ou mais
línguas: a sua língua natural, a Libras; a língua falada do seu país, a língua majoritária, no nosso
caso o português brasileiro e; outra língua de sinais, que normalmente é a LSI ou outras LSNs,
depende da realidade de cada surdo.

[...] todos nós começamos uma mediação da língua de dentro da Comunidade Surda
seja como uma criança na escola ou em um clube dos surdos, que é comum entre os
intérpretes surdos (Bienvenu & Colonomos, 1992). Cada um de nós temos uma
formação multilíngue, o quer dizer que conseguimos utilizar diversas línguas para
melhorar o ato de interpretar. (ADAM; ARO; DRUETTA; DUNNE; KLINTBER,
2014, p. 3)35.

Os surdos convivem com a prática do multilinguismo ou plurilinguismo, porém, não é


qualquer pessoa surda que é bilíngue, multilíngue ou plurilíngue que trabalha como intérprete.
Eles não são profissionais, no entanto, alguns surdos querem trabalhar com tradução e
interpretação, pois podem adquirir experiência, habilidade e competência na tradução e
interpretação das línguas de sinais. De acordo com Gonçalves e Andrade (2007):

[...] a competência plurilíngue, destacam estratégias que podem auxiliar os aprendizes


a desenvolvê-la: construir a sua identidade cultural e linguística através da integração
nessa construção da experiência diversificada do outro; e a desenvolver a sua
capacidade para aprender, através de uma mesma experiência diversificada de
relacionamento com várias línguas e culturas. (GONÇALVES; ANDRADE, 2007, p.
70).

Os tradutores e intérpretes surdos têm conhecimento de tradução e intepretação de


línguas de sinais, são sujeitos plurilíngues (escolhem as línguas por própria vontade) para a
construção das línguas de sinais como Libras, língua de sinais americana - ASL, língua de sinais
francesa - LSF, língua gestual portuguesa – LGP, dentre outras. Também têm conhecimento de
estratégias de interpretação das línguas de sinais nos contextos sociais, multilíngues. De acordo

35
Yet we all started language brokering from within the Deaf community either as a child in school or in a Deaf
club, which is common among DIs (BIENVENU; COLONOMOS, 1992). Each of us has had a multilingual
upbringing, which means that we are able to use various languages to enhance the interpreting act.
73

com a Carta Europeia do Plurilinguismo (2005, p. 01): “plurilinguismo a utilização de várias


línguas por um indivíduo; tal noçao se distingue da de multilinguismo, que significa a
coexistência de várias línguas num grupo social”. O intérprete surdo nos contextos,
principalmente, de conferência, utiliza mais ASL e LSI.
Há uma discussão sobre a LSI, se é uma língua franca ou língua humana, com a
possibilidade de construções gramaticais multiculturais, com empréstimos linguísticos de
vários países. Assim, como fazer a interpretação intercultural de Libras para LSI? Que política
linguística e legislações podemos promover para língua sinais internacional? Vamos ver as
respostas sobre isso nos capítulos: seção de 2.6.3 do capítulo 2 e capítulos 5 e 6.
Falaremos também sobre as línguas de sinais das fronteiras do Brasil, visto que temos
fronteira com grande parte do norte do país, com o centro oeste e com o sul, fazemos fronteiras
com 5 (cinco) países, são eles: Venezuela, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai. Conforme
Quadros (2017, p. 2) nas fronteiras também acontecem a aquisição bilíngue (ou até plurilíngue),
mas nem sempre as políticas linguísticas favorecem a manutenção de todas as línguas existentes
nesses espaços. Dessa forma, os surdos fronteiriços não são monolíngues com as línguas
oficiais dos países da América do Sul. Eles são plurilíngues e multilíngues, podem utilizar o
português brasileiro, o espanhol da América do Sul, o guarani, o castelhano, as línguas de sinais
regionais, as línguas de sinais nacionais, as das diversas etnias indígenas, espanholas,
brasileiras, dentre outros contextos, principalmente, de escolas bilíngues (português brasileiro
e espanhol ou guarani) e/ou (Libras e LSU ou LSB ou LSV ou LSA). Um registro de línguas
de sinais fronteira é LibraLSU na fronteira de Santana do Livramento (Brasil) e Rivera (Uuguai)
Vaz afirma que:

A tradução LIBRALSU é uma inferência ao encontro de duas línguas de sinais


utilizadas na fronteira, a LIBRAS e a LSU. Sendo essa uma nomenclatura criada para
língua de sinais que emerge da constituição das relações da Comunidade Surda da
Fronteira. (VAZ, 2017, p. 33).

Todas as línguas de sinais regionais, as línguas de sinais nacionais, ou língua de sinais


internacional, língua de sinais da fronteira, ou língua falada escrita ou sinais caseiros, gestos do
tradutor e intérprete surdo denota o plurilinguismo e multilinguismo, portanto, depende do
tradutor e intérprete surdo escolher as línguas de sinais na qual ele tem competência
interpretativa e tradutória nos contextos. Na seção seguinte apresentamos sobre a legislação das
línguas de sinais.
74

2.5 LEGISLAÇÕES LINGUÍSTICAS DAS LÍNGUAS DE SINAIS POR AS IMPLICAÇÕES

Podemos destacar as discussões sobre as criações das legislações e de onde vieram as


línguas de sinais e o caráter geopolítico das línguas de sinais usadas no Brasil. Ao longo do
tempo as ações das políticas linguísticas geram impactos e difusão do poder e desenvolvimento
das histórias de línguas de sinais. Calvet (2007, p. 160) diz que “de fato, vimos que as políticas
linguísticas funcionam no modo da imitação, que elas tentam reproduzir in vitro o que acontece
milhares de vezes in vivo na história das línguas”, as políticas linguísticas são instrumento das
geopolíticas das línguas, realizada nas ações.
Temos as políticas linguísticas e planejamento linguístico (status, corpus, aquisição e
atitude) de Haugen (1966), escolho o status para evidenciar os registros da legislação da língua
de sinais no Brasil, na América do Sul e no mundo.

Esses níveis foram posteriormente desdobrados por outros estudiosos em: práticas de
planejamento de corpus (codificação, elaboração de alfabetos, gramatização,
sistematização do léxico, manuais literários, entre outros), planejamento do status
(designações e usos da língua pautadas por leis e decretos), planejamento das formas
de aquisição (políticas de ensino e aprendizagem das línguas), planejamento de usos
(políticas de divulgação e uso das línguas) e planejamento de prestígio (avaliação dos
usos linguísticos). (HAUGEN, 1966 apud SEVERO, 2013 , p. 454).

Quanto ao planejamento do status (designações e usos das línguas pautadas por leis e
decretos), buscamos os significados da palavra legislação: “conjunto de leis que se aplicam em
um país”; da palavra lei: “norma ou conjunto de normas que emanam de um poder soberano e
regulam a conduta de uma sociedade” (AULETE, 2012, p. 536) e; da palavra decreto:
“determinação escrita emitida por chefe de Estado ou qualquer poder compentente” (AULETE,
2012, p. 250). Considerando primeiramente a legislação brasileira, posteriormente as
legislações dos outros países e por fim a legislação internacional, buscamos as leis, decretos,
Código Civil, Constituição da República Federativa do Brasil e Portaria referentes as línguas
de sinais.
Fizemos um levantamento das legislações sobre as línguas de sinais minoritárias para
administrar status e as funções sociais das línguas utilizadas pelos falantes. Vamos apresentar
em outra seção algumas intervenções das legislações e da geopolítica das línguas de sinais
nacionais no Brasil utilizadas em conferências brasileiras e internacionais, sendo Libras, língua
de sinais boliviana - LSB, LSU, língua de sinais chilena - LSCH, língua de sinais colombiana -
LSC, e língua de sinais argentina - LSA e ainda das outras LSNs articulação das línguas de
75

sinais da América do Sul pela família de línguas de sinais nacioanis: língua de sinais paraguaia
- LSPY, LSV, língua de sinais equatoriana - LSEC, língua de sinais peruana - LSP, e da língua
de sinais internacional - LSI.
Severo (2013, p. 451), diz que “a Política Linguística é tradicionalmente voltada para
uma prática de caráter estatal-legislativo, debruçando-se, por exemplo, sobre a oficialização de
línguas”. Em relação à política linguística faz parte o reconhecimento e oficialização de línguas.
A língua oficial do Brasil é o português brasileiro, porém, a Libras é instituída por meio legal
(que significa reconhecimento) dessa língua de sinais do Brasil, porém, as outras línguas de
sinais, as nativas não constam no corpo da lei.
Conforme Meulder (2015, p. 498, tradução nossa): “atualmente, cerca de trinta e um
países (dos quais a maioria são estados membros da União Européia) reconheceram a (s) língua
(s) de sinais em legislação sobre status de língua e/ou direitos linguísticos”36. A autora diz que
todas as línguas são reconhecidas, mas haverá uma língua de sinais oficial, conforme a Lei act
2006 e nº 18., de 10 de abril de 2006. Sobre a Língua de sinais da Nova Zelândia,

Parte 2. Língua de Sinais da Nova Zelândia. Reconhecimento. Língua de Sinais da


Nova Zelândia para ser uma língua oficial da Nova Zelândia. O direito de usar a língua
de sinais Nova Zelândia em processos judiciais. Efeito do reconhecimento.
(MEULDER, 2015, p. 498, tradução nossa) 37.

A única língua de sinais oficial da Nova Zelândia é a língua de sinais nova zelandiense
- NZSL, e tem a língua falada da Nova Zelândia como língua majoritária. Aproveitamos para
explicar as diferenças entre os termos reconhecimento e oficialização relacionados à língua e
língua de sinais. No dicionário Aulete (2012, p. 742), a palavra reconhecimento significa:
“admitir, aceitar”, logo, é aceita como língua nacional; a palavra oficial significa: “que provém
de autoridade competente”, é a língua majoritária do país, tem poder de primeira língua da pátria
(AULETE, 2012, p. 625). A língua reconhecida, geralmente, é uma língua minoritária e
também, é uma língua nacional ou língua regional.
Num futuro próximo, poderíamos ter a LSI reconhecida internacionalmente pela ONU
através da legislação de Convenção para pessoas com Deficiência no Decreto nº 6949/2009, no
qual poderia ser implementada uma emenda da legislação internacional (BRASIL, 2009).

36
Currently about thirty-one countries (of which the majority are European Union member states) have recognized
their sign language(s) in legislation on language status and/or language rights (MEULDER, 2015, p. 498).
37
Part 2. New Zealand Sign Laguage. Recognition. New Zealand Sign Laguage to be an oficial laguage of New
Zealand. Right use New Zealand Sign Laguage in legal proceeding. Effect of recognition.
76

Podemos dizer que o reconhecimento é um elemento basilar de constituição do direito


social, das políticas linguísticas, econômicas e culturais. Importante mostrar que o
reconhecimento das línguas de sinais abrange cada vez mais países. Meulder (2015, p. 503)
inclui a Libras no seu artigo, reconhecendo a língua de sinais:

Reconhecimento por meio de uma lei ou lei de língua de sinais. Alguns países
reconheceram sua língua de sinais através de uma lei ou ato de língua de sinais
específicos. Estes incluem a Eslováquia (Lei de 1995 sobre os Sindices), Uruguai
(2001, Lei nº 17.378), Brasil (2012, Lei Federal 10.436 [Lei Libras]), Eslovênia
(2002, Lei sobre o Uso da Língua de Sinais Eslovena), Bélgica, Valónia (2003,
Decreto sobre o Reconhecimento da Língua de Sinais), Chipre (2006, Lei sobre o
Reconhecimento da Língua de Sinais de Chipre [I]), Bélgica, Flandres (2006, Decreto
sobre o Reconhecimento da Língua de Sinais Flamenga ), Bósnia e Herzegovina
(2009, Lei sobre o uso da língua de sinais na Bósnia e Herzegovina), Macedônia
(2009, Lei 105/2009 sobre o uso da língua de sinais), Catalunha (2010, Lei 17/2010
sobre Língua de Sinais Catalã), Finlândia (2015, Lei de língua de sinais) e Sérvia
(2015, Lei sobre o uso da língua de sinais). (MEULDER, 2015, p. 503, tradução
nossa).38

Meulder desenvolveu categorias de tipos de documentos oficiais e relacionou todos os


reconhecimentos das trinta e um línguas de sinais no mundo. O registro mais atualizado de
reconhecimento legal teve um aumento para quarenta e seis línguas de sinais nacionais dos
países do mundo por legislações nacionais de WFD, conforme Murray e Kraus (2017)
apresentadas nas duas figuras 5 e 6:

38
Recognition by Means of a Sign Language Law or Act Some countries have recognized their sign language
through a specific sign language law or act. These include Slovakia (1995 Law on the Sign Language of the Deaf),
Uruguay (2001, Law no. 17.378), Brazil (\2012, Federal Law 10.436 [Libras Law]), Slovenia (2002, Law on the
Use of Slovenian Sign Language), Belgium, Wallonia (2003, Decree on the Recognition of Sign Language), Cyprus
(2006, Act on the Recognition of Cyprus Sign Language 66[I]), Belgium, Flanders (2006, Decree on the
Recognition of the Flemish Sign Language), Bosnia and Herzegovina (2009, Law on the Use of Sign Language in
Bosnia and Herzegovina), Macedonia (2009, Law 105/2009 on the use of sign language), Catalonia (2010, Law
17/2010 on Catalan Sign Language), Finland (2015, Sign Language Act), and Serbia (2015, Law on the Use of
Sign Language).
77

Figura 5 - Reconhecimento legal das línguas de sinais pela legislação (2017)

Fonte: Murray e Kraus (2017)39.

Na figura 5, há 46 legislações nacionais dos países do mundo, percebemos que estava


faltando algumas legislações nacionais da América do Sul dos países Peru, Bolívia, Paraguai e
Venezuela. A figura 6 mostra o reconhecimento legal das línguas de sinais dos países (2017):

Figura 6 - Reconhecimento legal das línguas de sinais dos países (2017)

Fonte: WFD (2017)40.

39
Disponível em: https://wfdeaf.org/news/resources/infographics-legal-recognition-sign-languages-type-
legislation/
40
Disponível em: https://wfdeaf.org/news/resources/legal-recognition-sign-languages-country/.
78

Na figura 6, é possível verificar que, dos 193 países, há 152 sem reconhecimentos legais
das línguas e somente 41 países têm os reconhecimentos legais das línguas de sinais,
percebemos que faltam alguns países da América do Sul. Atualmente, há um número expressivo
de legislações que reconhecem as línguas de sinais, por isso, fica mais fácil localizar os
documentos oficiais com foco nas línguas de sinais, tanto no Brasil, como na América do Sul e
em alguns países.
Os documentos oficiais são positivos para o movimento surdo, pois fortalecem,
desenvolvem e ajudam na difusão de suas línguas, rapidamente. A sociedade continua na luta
pelo conhecimento e pelo direito linguístico. Pierre-Étienne Laporte apresentaria a política
linguística como um quadro jurídico e a reorganização linguística como um conjunto de ações
“que tem por objetivo esclarecer e assegurar determinado status a uma ou mais línguas”
(CALVET, 2007, p. 15). Apresentamos o conjunto das línguas de sinais como status para ação
e organização. Vejamos a primeira coleta do documento oficial internacional no quadro 04.

Quadro 4 - Decreto 6.949/2009. Promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com
Deficiência e seu Protocolo Facultativo, assinado em Nova York, em 30 de março de 2007
Artigo 2. Artigo 21.
Definições. Para os propósitos da presente Liberdade de expressão e de opinião e acesso á
informação.
Convenção:
“Comunicação” abrange as línguas, a Os Estados Partes tomarão todas as medidas
visualização de textos, o braile, a comunicação apropriadas para assegurar que as pessoas com
tátil, os caracteres ampliados, os dispositivos de deficiência possam exercer seu direito à
multimídia acessível, assim como a linguagem liberdade de expressão e opinião, inclusive à
simples, escrita e oral, os sistemas auditivos e os liberdade de buscar, receber e compartilhar
meios de voz digitalizada e os modos, meios e informações e idéias, em igualdade de
formatos aumentativos e alternativos de oportunidades com as demais pessoas e por
comunicação, inclusive a tecnologia da intermédio de todas as formas de comunicação
informação e comunicação acessíveis; de sua escolha, conforme o disposto no Artigo 2
“Línguas” abrange as línguas faladas e de sinais da presente Convenção, entre as quais:
e outras formas de comunicação não-falada.
b) Aceitar e facilitar, em trâmites oficiais, o uso
de línguas de sinais, braille, comunicação
aumentativa e alternativa, e de todos os demais
meios, modos e formatos acessíveis de
comunicação, à escolha das pessoas com
deficiência;
e) Reconhecer e promover o uso de línguas de
sinais
Fonte: Elaboração própria.
79

Nas letras ‘b’ e ‘e’, percebemos o valor dado à língua de sinais, promoção e necessidade
de se facilitar a comunicação, uma riqueza linguística. Fica evidenciada a necessidade da
transmissão para as línguas de sinais no mundo enquanto direito linguístico e cultural,
contemplando uma comunicação sem barreiras. É importante entender que todos os países
devem fortalecer a sua língua de sinais pátria e respeitar nos espaços internacionais, a utilização
e valorização da língua de sinais internacional - LSI. Essa Convenção é um compromisso
relevante que promove a disseminação da legislação para os Estados signatários, a fim de
promover a língua de sinais, facilitando às pessoas surdas a comunicação e garantindo seus
direitos linguísticos.
Não encontramos o registro de legislações internacionais sobre o reconhecimento da
LSI, mas apresentamos o documento oficial – Decreto nº 6.949/2009, que promulga a
Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu protocolo
facultativo. Veja no quadro 4, “artigo 21 e) Reconhecer e promover o uso de línguas de sinais”
(BRASIL, 2009), se o usuário da língua de sinais da comunidade surda regional, nacional e
internacional, utiliza uma língua sinalizada reconhecida, essa língua não é somente a língua da
nação, é também possibilidade de comunicação linguística entre as pessoas no entendimento
dos significados, léxicos, semântica A LSI é considerada língua humana, igual a todas as línguas
faladas e língua sinalizadas entre línguas de sinais regionais, LSN, línguas de sinais da fronteira,
línguas indígenas, línguas emergentes e etc. Dessa forma, o uso da LSI é frequente nos
encontros de surdos nos espaços sinalizados nacionais e internacionais, entre membros de
entidades de surdos, membros de instituições internacionais ou continente ou nacional, em
eventos, reunião, esportes, mídias, policias, jurídicos, em diversos contextos, sendo necessária
a presença de intérpretes em língua de sinais internacional para garantir a comunicação por
direito das pessoas surdas.Primeiramente, explicaremos sobre as línguas de sinais nacionais nas
seções dos próximos capítulos, posteriormente, em outra seção, falaremos sobre língua de sinais
internacional - LSI.

2.6 GEOPOLÍTICA DAS LÍNGUAS DE SINAIS NACIONAIS NO MUNDO

Os surdos são um povo sem terra.


Bernard Mottez (1992).

Esta seção pretende discutir a relação da geopolítica com as línguas de sinais. A área da
“Geografia e Política”, a partir dos trabalhos de Ratzel (1897) e Kjéllen (1905), discute sobre
80

os processos relacionados à política dos estados e à natureza e evolução das relações


internacionais. Atualmente, a “Geografia e Política” vem sendo discutida a partir de um novo
conceito, chamado de Geopolítica. Para Costa:

[...] esse mesmo ponto de partida pode ser adotado para os demais conceitos presentes
no discurso da geografia política, tais como os de sociedade, população, território,
espaço, solo, fronteira, centralização, descentralização, federação, unidade, coesão,
nação, nacionalidade, entre outros. (COSTA, 2013, p. 20).

Explicitaremos, a partir dos mapas e de dados da geopolítica, as características das


línguas de sinais, algumas práticas de descrição e intervenção na relação entre as línguas de
sinais e os sujeitos surdos, trazendo a pessoa surda para o âmbito das discussões das geopolíticas
e das políticas linguísticas sobre população, nação, internacional e espaço das comunidades
surdas (minoria) também nas fronteiras dos países.
O surdo não tem um território próprio. De com acordo Wrigley (1996, p. 11), a “surdez
é um país sem um ‘lugar’ próprio. É uma cidadania sem uma origem geográfica”. Dessa forma,
a maioria das pessoas surdas não tem um lar com uma língua própria, moram com uma família
ouvinte, então o surdo utiliza a língua de sinais, mas seus pais ouvintes usam o português
brasileiro. Como eles se comunicam em casa? O surdo convive com a língua de sinais onde?
Perlin (1998) e Miranda (2001) dizem que os surdos compartilham a língua de sinais e
compartilham as experiências surdas a partir do encontro surdo-surdo, ou seja, esse encontro é
possível na escola, na sociedade civil e em outros locais de encontro, porque a comunicação se
dá a partir das línguas de sinais. Ao pensar no território surdo, podemos dizer que o surdo é seu
próprio lar, é entidade de surdo, rede social e ponto de encontro.
Granado (2019, p. 7) afirma que os Sinais Internacionais não são considerados
oficialmente como uma língua, pois não têm uma comunidade de origem definida.
Discordamos, pois, surdo não tem um território próprio dos surdos, portanto, há a necessidade
de um ponto de encontro, seja ele internacional, nacional ou regional. Então, a LSI é
considerada uma língua como a língua de sinais regional e nacional. Segundo a Declaração
Universal de Direitos Linguísticos – DUDL (1996):

Considerando que diversos fatores de natureza extralinguística (políticos, territoriais,


históricos, demográficos, econômicos, socioculturais, sociolinguísticos e relacionados
com comportamentos coletivos) geram problemas que provocam o desaparecimento,
a marginalização e a degradação de numerosas línguas, e que se torna portanto
necessário que os direitos linguísticos sejam considerados sob uma perspectiva global,
para que se possam aplicar em cada caso as soluções específicas adequadas;
Conscientes de que é necessária uma Declaração Universal dos Direitos Linguísticos
81

que permita corrigir os desequilíbrios linguísticos com vista a assegurar o respeito e


o pleno desenvolvimento de todas as línguas e estabelecer os princípios de uma paz
linguística planetária justa e equitativa, como fator fundamental da convivência social.
(DUDL, 1996).

Dessa forma, o surdo é um sujeito sem território, sem lugar, mas existe um ponto de
encontro, no qual há uma quantidade da população que fala uma língua diferente, as línguas de
sinais (regional, nacional, internacional, da fronteira). A língua de sinais é a língua própria
daquele sem território e é lugar de ponto de encontro entre esses sujeitos. As pesquisas
acadêmicas em eventos são apresentadas em mais de duas línguas de sinais e sempre precisam
da participação do intérprete surdo de língua de sinais para outra língua de sinais. De acordo
com Lacoste (2005):

Por geopolítica, todos sabemos, entende-se toda rivalidade de poderes (e de


influências) sobre territórios. A abordagem geopolítica de uma língua não se limita a
examinar no mapa o alcance de sua extensão e seus limites com outras línguas, a
constatar a coincidência (ou a não-coincidência) com as fronteiras desse ou daquele
Estado. Além disso, é bem raro que uma língua oficial seja a única a ser escrita e
falada pela população de um Estado. Com efeito, em cada Estado, há também outras
línguas que ali são faladas de fato (e não necessariamente escritas) por grupos mais
ou menos importantes, cuja localização suscita, ela também, numerosos problemas.
(LACOSTE, 2005, p. 7).

A síntese acima, nos mostra que apenas um mapeamento das línguas de sinais das
minorias linguísticas da América do Sul e mundial não é suficiente para contemplar um estudo
geopolítico. A seguir, apresentamos o método elaborado por Cooper (1989 apud SEVERO,
2013, p. 455), ao revisar doze conceitos de política linguística, identificou uma questão comum
a todos eles: “Quem planeja o que para quem e como?”, ou seja, quem e para quem – as
instâncias envolvidas no planejamento das políticas linguísticas são diversas, como: os poderes
executivo e legislativo, as esferas jurídica, administrativa, de negócios, educacionais, midiática,
as academias literárias, as organizações civis, entre outros. As políticas linguísticas das línguas
de sinais são planejadas por legislações, pesquisadores educacionais, história das línguas de
sinais e organizações civis que organizam uma forma de criar mapeamentos e genealogia das
línguas de sinais, de onde veio e para quem é essa língua de sinais?
Aproveitamos para organizar um mapeamento da geopolítica das línguas de sinais como
numa cartografia para que se analise o que tem além do mapeamento demográfico do uso da
língua nacional oficial, e das línguas reconhecidas, mas também abrange línguas naturais, como
as nacionais e suas implicações. A difusão de duas cartografias da família das línguas de sinais
82

como nação mundial e nação de América do Sul. Importante a declaração registrada na DUDL
(1996):

A situação de cada língua, tendo em conta as considerações prévias, é o resultado da


confluência e da interação de uma multiplicidade de fatores: político-jurídicos;
ideológicos e históricos; demográficos e territoriais; econômicos e sociais; culturais;
linguísticos e sociolinguísticos; interlinguísticos; e, finalmente, subjetivos. Mais
concretamente, a situação atual caracteriza-se por: Numa perspectiva política,
conceber uma organização da diversidade linguística que permita a participação
efetiva das comunidades linguísticas neste novo modelo de crescimento. (DUDL,
1996).

Para ver como a situação das histórias das línguas de sinais influenciam os espaços de
países da América do Sul e do mundo e como ajudam membros dos povos surdos e comunidade
surda a entenderem a prioridade dessa língua de sinais de surdos, buscamos um artigo do DUDL
(1996):

1.º Esta Declaração entende por comunidade linguística toda a sociedade humana que,
radicada historicamente num determinado espaço territorial, reconhecido ou não, se
identifica como povo e desenvolveu uma língua comum como meio de comunicação
natural e de coesão cultural entre os seus membros. A denominação língua própria de
um território refere-se ao idioma da comunidade historicamente estabelecida neste
espaço. E 3. Para os efeitos desta Declaração, entende-se que se encontram no seu
próprio território e pertencem a uma mesma comunidade linguística as coletividades
que: [...] ou iii. se encontram estabelecidas num espaço geográfico que partilham com
os membros de outras comunidades linguísticas com antecedentes históricos
semelhantes. (DUDL, 1996).

A fim de apresentar a família de ao redor do mundo, vejamos a figura 7:

Figura 7 - Cartografia linguística familiar de línguas de sinais do mundo

Fonte: Site Reddit (2014)41.

41
https://www.reddit.com/r/MapPorn/comments/1rpyr3/map_of_the_principal_sign_language_families_of/.
83

Na análise geopolítica de uma língua colonizadora, a língua de sinais francesa – LSF,


que está representada no mapa pela cor rosa, observamos a globalização e influência dessa
língua, que se espalhou rapidamente por causa da educação de surdos, que disseminou uma
língua de sinais que se tornou emergente para crianças surdas no desenvolvimento de sua língua.
Para pensarmos nas características da geopolítica das línguas de sinais, é necessário
considerar as características da LSF, que influenciou os países nos séculos XVI e XVII como
aconteceu com o inglês. Lacoste (2005) diz que “a língua inglesa, que era língua nacional nos
século XVI e XVII, tornou-se uma língua imperial nos séculos XVII e XIX e, por fim, uma
língua mundial durante a segunda metade do século XIX”. A diferença na forma de
disseminação de língua entre a língua inglesa e a LSF, é que na LSF a disseminação da língua
se deu por sua influência no sistema de educação de surdos e, posteriormente, por
instituições/entidades de surdos nos países. Anos depois, a influência da LSF emergem em suas
línguas de sinais pátria.
A língua de sinais francesa - LSF é considerada a língua mãe da ASL (Língua de Sinais
Americana) dos Estados Unidos da América, da ASL do Canadá, da Libras do Brasil, da Língua
de Sinais Mexicana - LSM do México e de outras línguas consideradas como irmãs dessas
línguas, pois todas tiveram sua “origem” na LSF. A cor cinza no mapa acima significa que o
estudo não foi aplicado. A seguir faremos uma investigação acerca das línguas de sinais da
América do Sul.
Por fim, conhecer a família das línguas de sinais pode ajudar aos tradutores e intérpretes
surdos de LSNs na tradução e interpretação das línguas de sinais, pela expressão facial,
corporal, sinais semelhantes com contexto, por exemplo, a LSF pode ter influências de sinais
de outros países por serem sinais semelhantes ou léxicos iguais, a depender das gramáticas.
Entretanto, o profissional tradutor e intérprete surdo nos diversos contextos, precisa ter
competência tradutória e interpretativa nas duas línguas.

2.6.1 Língua de Sinais Nacionais da América do Sul

Apresentamos um breve histórico da influência e criação das línguas de sinais nacionais


da América do Sul e legislação das línguas de sinais, algumas delas utilizadas em conferências
(Libras, Língua de sinais argentina - LSA, Língua de sinais chilena - LSCH, Língua de sinais
colombiana - LSC, Língua de sinais Uruguaia – LSU, por exemplo). Algumas LSN, como a
84

Língua de sinais boliviana - LSB, Língua de sinais equatorania - LSEC, Língua de sinais
paraguaia - LSPY, Língua de sinais peruana - LSP e Língua de sinais Venezuelana -– LSV não
aconteceram em conferências, porém, poderia ter articulação de todas as LSNs da América do
Sul para cartografia. É importante que todas as línguas de sinais da América do Sul possam se
articular por legislações em torno de políticas linguísticas que considerem também o intérprete
surdo. Conforme afirma Turi:

uma distinção entre as legislações linguísticas estruturais (que intervem no status das
línguas) e as legislações linguísticas funcionais (que intervem na utilização das
línguas). [...] em seguida uma distinção entre as legislações linguísticas oficiais (que
intervem no uso oficial das línguas), legislações linguísticas instituicionais (que
tratam do uso não-oficial das línguas), as legislações linguísticas padronizadoras ou
não-padronizadoras, as legislações linguísticas majoritárias (que protegem as línguas
de uma maioria) e as legislações linguísticas minoritárias (que protegem as línguas de
uma minoria). (TURI, 1994 apud CALVET, 2007, p. 76).

Turi apresenta alguns tipos de legislações linguísticas das línguas de sinais da América
do Sul, entre elas as legislações linguísticas oficiais, as linguísticas instituicionais e as
legislações linguísticas minoritárias, incluindo a legislação linguística de reconhecimento
(reconhecimento das línguas). Falaremos primeiro sobre a Libras e, posteriormente, sobre
outras LSNs da América do Sul.
No Brasil, a primeira legislação é a Lei nº 10.098/2000, no capítulo VII - da
acessibilidade nos sistemas de comunicação e sinalização, em seu art. 19:

Os serviços de radiodifusão sonora e de sons e imagens adotarão plano de medidas


técnicas com o objetivo de permitir o uso da linguagem de sinais ou outra subtitulação,
para garantir o direito de acesso à informação às pessoas portadoras de deficiência
auditiva, na forma e no prazo previstos em regulamento. (BRASIL, 2000).

O termo “linguagem de sinais” é inadequado, pois não é apenas uma linguagem, o


correto é chamar de língua de sinais, porque trata-se de um sistema linguístico completo e
provido de uma gramática. No Brasil, a língua de sinais nacional é a Libras.
Como mencionamos anteriormente, o termo Libras surgiu no ano de 1993, porém, essa
língua no Brasil já existe há aproximadamente 160 anos, data do século XVII na fundação do
INES. As pesquisas foram acontecendo e paralelamente a isso, foram acontecendo movimentos
de luta, organizados pela Feneis e outras instituições de/ou para surdos pela oficialização da
Libras, que aconteceu no dia 24 de abril de 2002, por meio da Lei nº 10.436. De acordo com
essa lei:
85

Art. 1º É reconhecida como meio legal de comunicação e expressão a Língua


Brasileira de Sinais – Libras e outro recursos de expressão a ela associados. Parágrafo
único. Entende-se como Língua Brasileira de Sinais - Libras a forma de comunicação
e expressão, em que o sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura
gramatical própria, constitui um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos,
oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil. (BRASIL, 2002).

A Libras é reconhecida no Brasil como uma LSN, assim como a língua portuguesa.
Porém, ela não é a língua oficial do país, é um tipo de legislação linguística de reconhecimento
como mostra a citação na lei: “É reconhecimento do meio legal de comunicação e expressão”,
chama-se reconhecimento legal.
A Comunidade Surda diz que a língua de sinais é a língua oficial das pessoas surdas e
língua nacional do Brasil, a sociedade diz que a segunda língua reconhecida no Brasil é a Libras.
No texto da lei também diz que: “o sistema linguístico de natureza visual-motora” é a língua
sinalizada, que tem como regra uma estrutura gramatical visual, diferentemente da língua oral.
A lei mostra a Libras como a LSN, assim, todos os estados usam a Libras e as suas variações
linguísticas e regionalismos, assim como o português brasileiro. Dessa maneira, elas são línguas
nacionais, mas o português brasileiro é a língua oficial documentada na Constituição. O
reconhecimento da Libras como língua nacional, garantiu o seu registro no IPHAN.
No artigo 1 da mesma Lei, diz: “oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil”,
deste modo, observamos que o termo comunidades está no plural representando cada
Comunidade Surda Brasileira que utiliza língua de sinais, como são os exemplos das
comunidades regionais (centros urbanos), comunidade surda indígena, comunidade surda rural
e outras comunidades surdas espalhadas pelo país. A lei possibilita o respeito a língua de sinais
e o reconhecimento da diversidade das línguas de sinais, além de assegurar a garantia linguística
dessas línguas.
É dever realizar o registro das línguas de sinais nas comunidades surdas do Brasil,
considerando uma legislação que assegure o direito linguístico, a valorização da língua como
patrimônio social e linguístico. Como diz Rajagopalan (2013, p. 20): “lutar em favor dos
direitos linguísticos de minorias em países ao redor do mundo é, com certeza, uma obrigação e
uma meta muito nobre”.
Ainda sobre a Lei Federal nº 10.436/2002, no parágrafo único: “a Língua Brasileira de
Sinais - Libras não poderá substituir a modalidade escrita da língua portuguesa”. Esse trecho
da lei traz uma grande polêmica para as políticas públicas e comunidades surdas, porque a frase:
“não pode substituir” não está clara e confunde. Provavelmente, não entende-se que as duas
86

línguas (Libras e língua portuguesa) têm o mesmo status de língua. As duas línguas podem ter
status de primeira língua, e no caso da pessoa ser surda, a Libras será a sua primeira língua e o
português brasileiro a sua segunda língua. A maneira que o texto da lei está escrito pode causar
confusão e polêmica.
Infelizmente, o poder que o português brasileiro exerce, como se fosse a única língua da
nação, é enorme e o país se apresenta como um país monolíngue, mas a realidade é muito
diferente. O Brasil possui muitas línguas, além do português e é um país multilíngue. Segundo
Massutti (2007, p. 32):

Ao se afirmar que “Libras não pode substituir o português”, abre se uma zona
fronteiriça de tensão. Assume-se, de uma forma problemática, que a língua portuguesa
é imprescindível, e que, portanto, inegociável como sistema; em outras palavras, um
horizonte que todos devem alcançar em nome da soberania nacional. Evidencia-se que
permissão e controle coabitam, paradoxalmente, em um mesmo plano, com
ambivalências incontornáveis. A língua portuguesa é tomada como referência para as
criações e legalidades, e a língua de sinais é admitida como um meio de comunicação,
mas de certa forma, considerada inferior em relação à língua soberana da nação. A
lógica do mundo sonoro prevalece e demarca seu território político, estabelece sua
prerrogativa de não negociar regimes de validades, empurrando para a subalternidade
o que não reconhece como legítimo, ou se reconhece, o faz com um estatuto que
denuncia uma posição inferiorizada. (MASSUTTI, 2007, p. 32).

É preciso esclarecer para a sociedade e para o poder público o significado e as


implicações de ser surdo, a partir de uma visão socioantropológica, que considera o surdo um
indivíduo que faz parte de uma comunidade linguística minoritária que fala uma língua
diferente da maioria. Dessa forma a língua de sinais precisa ser compreendida como a primeira
língua desse sujeito, a língua que lhe dará condições de acessar e compreender o mundo de
maneira mais natural e o português brasileiro, no caso do Brasil, como a segunda língua, que
terá funções linguísticas diferentes da sua primeira língua. As políticas linguísticas e a
Declaração Universal de direitos linguísticos e humanos precisam valorizar as diversidades, as
línguas humanas e os direitos linguísticos das diversas comunidades de falantes.
No Brasil a Libras é reconhecida como língua, sendo também um patrimônio cultural e
linguístico. A comunicação facilita a produção da Libras, sua modalidade é visuo-gestual, com
sistema linguístico próprio com interface com as línguas de sinais no mundo, contendo estrutura
morfológica, fonológica, sintática, semântica, etc. A gramática da Libras tem sido comprovada
pelas várias pesquisas na área da Linguística das línguas de sinais.
87

Evidenciamos a importância da difusão da língua de sinais em todos os contextos,


incluindo surdos e ouvintes que possam se comunicar, nas escolas, nas famílias, nos encontros
entre amigos, nos diferentes contextos, priorizando sempre a disseminação da língua de sinais.
Da mesma forma, com o intuito de colaborar com intérpretes, sejam surdos ou ouvintes,
é preciso que tenhamos mais pesquisas que disseminem esses conhecimentos, o que mostra a
importância das leis, dos decretos, bem como o fato de valorizar as minorias, por meio de
pesquisas sobre as culturas, por exemplo dos povos indígenas, comunidades mais rurais.
Fatores evidenciados aqui, apontam a inclusão das línguas de sinais mais recentes nas
políticas linguísticas, além da Libras, que foi reconhecida por meio da Lei nº 10.436/2002 e
alguns anos depois do seu reconhecimento, em 22 de dezembro de 2005, foi regulamentada
pelo Decreto nº 5.626:

Art. 1o Este Decreto regulamenta a Lei no 10.436, de 24 de abril de 2002, e o art. 18


da Lei no 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Art. 2o Para os fins deste Decreto,
considera-se pessoa surda aquela que, por ter perda auditiva, compreende e interage
com o mundo por meio de experiências visuais, manifestando sua cultura
principalmente pelo uso da Língua Brasileira de Sinais – Libras. (BRASIL, 2005a).

Sobre a “perda auditiva” mencionada no artigo, a pessoa surda pode perder a audição
antes ou depois do nascimento, em uma idade pré-linguística ou pós-linguística, perdas
causadas por acidente, por exemplo. Não interessa o motivo da surdez, as pessoas surdas têm o
direito linguístico de acesso à Libras ou outras línguas de sinais regionais, línguas que facilitam
a aquisição de cultura e identidade surdas e propicia a experiência visual na comunidade surda.
Já apresentamos sobre a legislação, no Brasil, referente à Libras. Agora, mostraremos o quadro
5 sobre as línguas de sinais nacionais da América do Sul. Na América do Sul, são comprovados
os registros de histórias e (re)conhecimento das LSNs, pesquisadores apresentam as 10 (dez)
LSNs da América do Sul, veja quadro 5:

Quadro 5 - Línguas de sinais nacionais da América do Sul


Classificação Classificação
Documentos Oficiais e tipos de
das línguas de da Surgiu a língua de sinais nacional
legislações linguísticas (oficial,
sinais nacionais comunidade do País
reconhecimento, minoritária).
e sigla surda do país
1 - Língua de Argentina Uma observação histórica diz Não encontramos a legislação
Sinais Argentina respeito à herança da língua de sinais nacional argentina para LSA,
– LSA da Argentina veio língua de sinais embora seja grande a
italiana - LIS e língua de sinais mobilização dessa comunidade
espanhola - LSE: surda lutando para criação da lei
sobre Língua de sinais argentina,
88

Vários autores Druetta (2008) e não há lei federal, mas sim outras
Ponce, (1981) relatam que a origem de alguns municípios e estados
da LSA veio duas línguas de sinais da Argentina, ainda continuam
(italiana e espanhola), chama-se tipo de legislações linguísticas
língua de sinais italiana – LIS e minoritária pelos estados ou
língua de sinais espanhola – LSE. A municípios.
origem da LSA vem da LSI (Língua
de Sinais da Itália) para meninas
surdas, Instituto Nacional de Niñas
Sordomudas. E outra escola para
meninos surdos influência por LSE.
Alguns tempos depois duas línguas
de sinais (LIS e LSE) transforma
para LSA.
2 - Língua Brasil Veio língua de sinais francesa - LSF As três das legislações:
Brasileira de no ano 1855. Transforma a Libras. Lei Federal nº 10.436/2002, o
Sinais – Libras Decreto nº 5.626/2005 e a Lei n
13.146/2015.
São Legislações linguísticas
reconhecimentos.
3 - Língua de Bolívia Uma observação histórica diz As três das legislações:
Sinais Boliviana respeito à herança da língua de sinais lei nº 269/2012. Lei geral de
– LSB da boliviana veio língua de sinais direitos e políticas linguísticas.
americana - ASL: Outra legislação Lei nº 223, ley
de 2 de marzo de 2012. Lei geral
Em 1947, Alberto Santander42 se para pessoas com deficiência.
tornaria a primeira pessoa que E o decreto supremo 0328/2009.
"trouxe" a língua de sinais Língua de sinais boliviana.
americana - ASL (American Sign (tradução nossa).
Language) para a Bolívia.43 Hoje É legislação linguística
transforma para língua de sinais reconhecimento.
boliviana – LSB. (tradução nossa)
4 - Língua de Colômbia Uma observação histórica diz Lei nacional: nº 982/2005,
Sinais respeito à herança da língua de sinais Diário Oficial Nº 45.995 de 09
Colombiana – da colombiana veio língua de sinais de agosto de 2005. Pelo qual são
LSC española - LSE, língua de sinais estabelecidas normas tendentes à
francesa - LSF e língua de sinais equalização de oportunidades
americana - ASL: para surdos e surdocegos e
(Patricia Ovalle, comunicación outras disposições44.
personal, 2014 apud Muñoz (2015):

42
Santander estudou no Gallaudet College em Washington, EUA, qualificando-se como Mestre em Educação de
Surdos. Ele dirigiu o Instituto de Educação Especial em La Paz. Trinta anos depois, os Powlison e Catalina Sinclair
seria o segundo a "trazer" o ASL, para La Paz, Cochabamba e Riberalta. Bolívia e os sinais Antes de 1947, os
Surdos gostam de qualquer lugar do mundo iria desenvolver suas próprias formas de comunicação através dos
sinais inventados por-se em seus contextos de comunicação e relacionamento social. Começando em 1947 com a
chegada de Alberto Santander, o ASL espalhou uma linguagem com suas próprias características, tanto a nível
linguístico, como a nível cultural.
43
Personajes que trajeron el American Sign Language a Bolivia En 1.947 Alberto Santander (81) se convertiría
en la primera persona que “trajo” el American Sign Language – ASL (Lengua de Señas Americana) a Bolivia.
Santander estudió en el Gallaudet College de Washington EEUU, titulándose como Master en la Educación del
Sordo. Dirigió el Instituto de Educación Especial en La Paz. Treinta años después, los Powlison y Catalina
Sinclair (82) serían los segundos en “traer” el ASL, a La Paz, Cochabamba y Riberalta. Bolivia y las señas Antes
de 1.947 los Sordos como en cualquier parte del mundo desarrollarían sus propias formas de comunicación a
través de las señas inventadas por ellos mismos en sus contextos de comunicación y relacionamiento social. A
partir de 1.947 con la llegada de Alberto Santander se difundió el ASL una lengua con características propias,
tanto en el nivel ligústico, como en el cultural.
44
Por la cual se establecen normas tendientes a la equiparación de oportunidades para las personas sordas y
sordociegas y se dictan otras disposiciones.
89

A língua de sinais colombiana - Essa legislação não é língua de


LSC, é uma língua relativamente sinais, é pessoa surda. Era a lei nº
nova [...]. Esta língua tem recebido 324/1996, que foi revogada.
as influências significativas da É parte do reconhecimento
língua de sinais americana - ASL linguístico.
(Torres, 2010) da Língua de sinais
francesa - LSF (Ramirez, 1998) e da
língua de sinais espanhola - LSE
(tradução nossa).
5 – Língua de Chile Uma observação histórica diz Legislações da língua de sinais
sinais chilena - respeito à herança da língua de sinais chilena.
LSCH da chilena veio língua de sinais Lei 20422/2010: A lei estabelece
francesa - LSF e língua de sinais normas sobre igualdade de
americana - ASL e língua de sinais oportunidades e inclusão social
alemã - DGS: de pessoas com deficiência. A
língua de sinais é reconhecida
Parks, Parks e Williams (2011, p. como um meio natural de
13): [...] indicaram que a língua de comunicação para a comunidade
sinais americana (ASL) não teve surda.
influência significativa na língua de
sinais chilena - LSCh (embora É legislação linguística de
alguns contatos indiquem que reconhecimento.
ambos compartilham uma conexão
histórica com a Língua de Sinais
Francesa). Esta informação diverge
de Puente, Alvarado e Herrera
(2006), que relataram "algumas
fortes semelhanças" entre a Língua
de Sinais Chilena e a Língua de
Sinais Americana. Hurst e Hurst
(manuscrito) foram informados de
que a Língua de Sinais Chilena tem
suas raízes na Língua de Sinais
Alemã. [...] embora inicialmente
começaram com ASL, informantes
surdos em Santiago relatam que eles
passaram a usar LSCh
posteriormente45. (Tradução
Fernando Parente).
Hoje se chama Escola Anne Sullivan
para Crianças Surdas. Os primeiros
professores desta escola foram os
franceses que trouxeram a língua de
sinais usada na França na época.
Atualmente ainda existem

45
[…] all but two indicated that American Sign Language (ASL) has had no significant influence on LSCh
(although some contacts indicate that they both share a historical connection with French Sign Language). This
information contrasts with both Puente, Alvarado, and Herrera (2006), who reported “some strong similarities”
between Chilean Sign Language and American Sign Language seen in the Escuela Dr. Jorge Otte Gabler deaf
school in Santiago (p. 302) and Mendosa (personal communication 2009) who indicated that missionaries from
the USA used ASL in their deaf schools which impacted the language. Hurst and Hurst (unpublished) were told
that Chilean Sign Language has its roots in German Sign Language. […] and although they initially started with
ASL, deaf contacts in Santiago indicate that they switched to using LSCh later.
90

semelhanças, atingindo apenas 40%


da língua de sinais chilena46
6 – Língua de Equador Uma observação histórica diz Lei sobre pessoas com
Sinais respeito à herança da língua de sinais deficiência. Lei orgânica sobre
Equadoriana – da equadoriana veio língua de sinais deficiência, LOD, nº 796/2012
LSEC americana - ASL e língua de sinais em Equador. Artículo 70.-
espanhola - LSE: Língua de sinais.- Se reconhoce
a língua de sinais equatoriana
Eberle, Parks, Eberle e Parks (2012. como língua própria e meio de de
P. 1): Os resultados iniciais indicam comunicação da pessoas com
que a língua de sinais equadoriana deficiência auditiva. (tradução
(LSEC) [...], com influência nossa) É legislação linguística
histórica significativa dos antigos reconhecimento.
sinais equatorianos, da língua de Constituição de equador de
sinais americana (ASL) e de uma 1998. Artigo 47. Seção sexta –
variedade de língua de sinais da Pessoas com deficiência [...]
Espanha. (tradução nossa) meios e formas alternativos de
comunicação, entre a língua de
sinais para pessoas surdas.
(tradução nossa)
7 - Língua de Paraguai Uma observação histórica diz As quatro das legislações:
Sinais Paraguaia respeito à herança da língua de sinais Lei n° 4251/2011. De Línguas
– LSPY da paraguaia veio língua de sinais
uruguaia - LSU: Lei 4336/2011 – língua de sinais.
Artigo. 1. b) Reconhecer a
Park e Park (2015): [...] O Centro de línguagem de sinais ou
Surdos do Paraguai - CSP, que tende visuogestual utilizado por as
a atrair surdos mais velhos, eles pessoas com deficiência
podem usar sinais mais semelhantes auditiva, como meio de
à língua de sinais uruguaia. Isso expressão e comunicação com os
pode ser devido ao fato de que a demais membros da sociedade.
educação para surdos no Paraguai (tradução nossa).
foi influenciada muito cedo por
educadores e pessoas que usam Lei 3540/2008 - Aprovação da
sinais no Uruguai e que a geração Convenção sobre os Direitos das
mais velha manteve essas Pessoas com Deficiência e do
influências no CSP47 (tradução Protocolo Facultativo da
nossa) Convenção sobre os Direitos das
Pessoas com Deficiência
Lei n° 6530/2020 - que otorga
reconhocimento oficial a língua
de sinais paraguaia (LSPy)
É legislação linguística de
reconhecimento.
8 - Língua de Peru Uma observação histórica diz Lei nº 29535/ano 2010. Lei que
sinais peruana – respeito à herança da língua de sinais concede reconhecimento oficial
LSP da peruana veio língua de sinais à língua de sinais peruana.
americana – ASL e língua de sinais (tradução nossa)
espanhola - LSE:

46
hoy es llamada Escuela de Niños Sordos Anne Sullivan. Los primeros profesores de esta escuela fueron
profesores franceses que trajeron la lengua de señas usada en Francia en ese tiempo. Actualmente aún hay
similitudes, que alcanzan apenas al 40% de la lengua de señas chilena.
47
Algunas personas creen que las personas sordas de mayor edad y el CSP, que tiende a atraer a las personas
sordas mayores, posiblemente usen señas más parecidas a la Lengua de Señas Uruguaya. Puede ser que esto sea
debido a que la educación para sordos en Paraguay fue influenciado muy temprano por los educadores y personas
que usan señas en Uruguay y a que la generación mayor ha mantenido estas influencias en la CSP.
91

Clark (2017, p. 224): [...] “Essas É legislação linguística de


instituições trouxeram sinais da reconhecimento.
Espanha e dos Estados Unidos,
agruparam estudantes para formar
comunidades sinalizantes, e
ajudaram a estabelecer e difundir
uma Língua de Sinais Peruana
padronizada”.48 (traduzido por
Fernando Parente)
9 - Língua de Uruguai Uma observação histórica diz A primeira legislação do país de
Sinais Uruguaia respeito à herança da língua de sinais Uruguai da América do Sul foi a
– LSU da uruguaia veio LSA e Libras: aprovada e dispor a lei da língua
de sinais uruguaia - LSU. Lei nº
Parks e Williams (2013, p. 2, 17.378/2001.
tradução Fernando Parente): “A É legislação linguística
língua de sinais uruguaia - LSU reconhecimento.
supostamente compartilha
semelhanças com as línguas de
sinais da Argentina e do Brasil, mas
à medida que as comunidades surdas
desenvolveram identidades surdas
nacionais únicas, suas línguas de
sinais também se distanciaram e se
tornaram línguas de sinais
distintas”.49
10 - Língua de Venezuela Uma observação histórica diz Não tem legislação nacional,
Sinais respeito à herança da língua de sinais porém, única a Constituição da
Venezuelana – da venezuelana veio língua de sinais República Boliviana da
LSV espanhola - LSE: Venezuela nº 36.860 de
dezembro de 1999, o artigo 81,
Oviedo, Rumbo e Perez (2004, s. p.) [...] As pessoas surdas ou mudas
dizer que em 1950, José Auquero têm o direito de se expressar e se
Urbano surdo espanhol50 veio para comunicar por meio da língua de
Caracas da Venezuela por sinais.
imigração, fundador e primeiro É parte legislação linguística
presidente da associação dos Surdos reconhecimento.
de Caracas em abril de 1950.
Influencia a língua de sinais
venezuelana - LSV por língua de
sinais espanhola - LSE. (tradução
nossa)
Fonte: Elaboração própria.

48
These institutions have brought in signs from Spain and the United States, grouped students together to form
signing communities, and helped to establish and spread a standardized Peruvian Sign Language (see the section
on education). (CLARK, 2017, p. 224).
49
LSU reportedly shares similarities with the sign languages of Argentina and Brazil, but as the deaf communities
have developed unique national deaf identities, their sign languages have also diverged into distinct sign
languages (PARKS; WILLIAMS, 2013, p. XX).
50
En 1950, varios miembros de la primera generación de alumnos de esas instituciones fundaron la Associación
de Sordomudos de Caracas, bajo la dirección de José Auquero Urbano, un inmigrante que había sido líder de los
sordos madrileños. La influencia de las señas traídas por Arquero Urbano volvió a transformar la LSV, según
relatan viejos testigos de aquella época. Por este relato, muchos sordos venezolanos asumen hoy que ese sordo
español fue el creador de la LSV (que se diferencia sensiblemente de la lengua usada por los sordos de España)
(OVIEDO; RUMBO; PEREZ, 2004, s. p.).
92

Foi possível perceber que não são todos os países que apresentam legislações aqui na
América do Sul, a maioria dos países da América do Sul, já possuem muitas legislações de
reconhecimentos pelos direitos linguísticos dos surdos. Os países da América do Sul, a maioria
tem suas legislações. O achado mais interessante se refere ao Brasil, Paraguai e a Bolívia. Na
Bolívia, país onde encontramos três legislações sobre a LSB, distinguindo entre a lei de
políticas linguísticas para garantia e valorização dessa língua, enquanto patrimônio cultural e
linguístico.
No quadro, observa-se que a Argentina não tem legislação nacional para língua de sinais
argentina, entretanto, o Intérprete Surdo, Juan C. Druetta, foi vice-presidente da Wasli (World
Association of Sign Language Interpreters (em português brasileiro “Associação Internacional
de Intérprete de Língua de Sinais”) e, conhecido no mundo pelo seu forte envolvimento no
movimento surdo argentino, continua lutando para a criação da legislação de LSN. Percebemos
que também faltou legislação federal para o reconhecimento da LSV, portanto, somente a
Constituição da República Boliviana da Venezuela nº 36.860 de dezembro de 1999, colocou
língua de sinais sem o termo venezuelana (VENEZUELA, 1999).
Vejamos a história da legislação na Colômbia. A primeira legislação sobre a pessoa
surda e língua de sinais foi do ano 1996, pela Lei nº 324 (COLÔMBIA, 1996). Alguns anos
depois essa legislação foi cancelada porque era somente para pessoa surda que usa língua de
sinais e anos depois voltou a legislação no ano de 2005, a Lei nacional nº 982/2005. Nela foi
organizada as diferenças das pessoas surdas e pessoa surdacega e as combinações que podem
ser utilizadas para a comunicação, como por exemplo, o uso de língua de sinais e língua de
sinais tátil ou em língua espanhola, por meio do tadoma, dentre outros (COLÔMBIA, 2005).
Há um prejuízo à língua de sinais e a comunidade surda colombiana, pois está perdendo o direito
de reconhecimento da sua língua por nove anos, tendo aprovada a lei que reconhece os diversos
tipos de bilinguismo para surdos somente no ano de 2005. A política linguística dá uma garantia
para as comunidades de pessoas surdas e com deficiências auditivas pelos direitos às diversas
línguas faladas e língua de sinais.
Percebemos que a valorização das legislações garante o reconhecimento ou a
oficialização das línguas de sinais nas comunidades surdas nacionais, e isso é positivo porque
há uma valorização das políticas linguísticas relacionadas a essas línguas e garante um
resguardo enquanto patrimônio cultural, portanto, de acordo com Calvet (2007, p. 11) “a
intervenção humana na língua ou nas situações linguísticas não é novidade: sempre houve
indivíduos tentando legislar, ditar o uso correto ou intervir na forma da língua.” Falta
93

implementação de legislações em alguns países da América do Sul. Esses países precisam criar
suas legislações urgentemente, para que seja possível garantir os direitos linguísticos dos surdos
e as políticas linguísticas relacionadas às línguas sejam implementadas.
Retormando o quadro 5, conforme Mori (2014, p. 53) é reconhecida como oficial uma
única língua, aquela utilizada no contexto das diversas atividades oficiais: o castelhano nos
países da fala espanhola, e o português brasileiro, no caso específico do Brasil. É possível a
comunicação através da língua espanhola entre os nove países da América do Sul. O português
brasileiro e o espanhol, línguas faladas da mesma família, e é possível estabelecer uma
comunicação. Ao contrário, a maioria das línguas de sinais nacionais da América do Sul,
apresentam muitas diferenças, não são parecidas e pode haver muita dificuldade na
comunicação. Entre eles também maioria que não há comunicação por língua de sinais
internacional - LSI. Por isso, a situação comunicacional sempre tem a presença do intérprete
surdo empírico para interpretação das duas LSN ou LSI.
Há diferentes níveis de intervenção na política linguística. Cada gestão, dos diferentes
países, resolve como garantir as suas línguas e línguas de sinais pela história, movimentos,
ideologias linguísticas, regras políticas e o caminho para as práticas linguísticas. Concordamos
com a perspectiva de Spolsky (2004), que aponta a ideia de aproximação e das práticas e das
políticas, no qual a política linguística e os diferentes níveis que a constitui (gestão, incluindo
as políticas explícitas e oficiais; crenças e ideologias implicando nos usos das línguas e; práticas
linguísticas, interferindo nos modos que as interações ocorrem) são elementos a serem
considerados quando tratamos desse tema (SEVERO, 2013, p. 454).
Alguns países não têm legislação sobre o reconhecimento ou oficialização das línguas
e línguas de sinais. Nesse sentido, é importante a garantia e a valorização das línguas das
minorias. Calvet (2007, p. 11) afirma que “o poder político sempre privilegiou essa ou aquela
língua, escolhendo governar o Estado uma língua ou mesmo impor à maioria a língua de uma
minoria”. No Brasil e em alguns países há uma rica história das línguas de sinais, é uma
valorização das línguas pela língua viva na comunidade surda para comunicação da língua de
sinais como patromônio linguístico, e também da presença do tradutor e intérprete surdo para
instrução das línguas de sinais para a comunidade surda e sociedade.
Apresentamos o resumo de legislações das línguas de sinais e histórias de LSN
anteriores como mostramos no quadro 5: línguas de sinais nacionais da América do Sul.
Aproveitamos para organizar um mapeamento da geopolítica das línguas de sinais como numa
94

cartografia para que se analise o que tem além do mapeamento demográfico do uso da língua
nacional oficial, e as reconhecidas, mas também abrange línguas naturais, como as nacionais e
suas implicações. A difusão cartográfica da família e de legislações das línguas de sinais como
nação da América do Sul é muito relevante, e não foi fácil organizar essa estrutura. Como diz
Costa (2013, p. 15): “daí decorre uma dificuldade estrutural para qualquer trabalho que pretenda
resgatar e examinar criticamente o pensamento aí gerado, [...] padrões de análise que permitam
tão somente a busca de um encadeamento lógico e histórico em sua evolução”.
O contexto geográfico evidencia que, na particularidade de cada país, existe a variedade
que a língua de sinais assume de um país para outro, a natureza da formação demográfica e a
colonização de outras línguas de sinais acontece na história e nos espaços temporais. Como diz
Costa (2013, p. 16), “o estudo de um autor de uma determinada nação ou país, relacionado ou
não aos objetivos de determinado Estado ou grupo de Estado, mas de todo modo produzindo
uma geografia política marcada por contexto político e territorial”. A justificativa para essa
redefinição de prioridade tem base não apenas linguística, mas socio-histórica e política
linguística. Apresentamos a cartografia linguística familiar das línguas de sinais nacionais na
figura 8 e a cartografia legislações nacionais da América do Sul na figura 9:

Figura 8 - Cartografia linguística familiar de línguas de sinais nacionais da América do Sul

Fonte: Elaboração própria.51

51
Ilustração de João Batista Alves de Oliveira Filho.
95

Figura 9 - Cartografia das legislações das línguas de sinais nacionais - LSN da América do Sul

Fonte: Elaboração própria.52

A maioria das línguas de sinais da Europa e da América do Sul foram as que mais
exerceram influência sobre as línguas coloniais. Apesar das línguas de sinais dos colonizadores
exercerem influência em muitos os países, é interessante saber que uma língua de sinais da
América do Sul, a Língua de Sinais Uruguaia - LSU sofreu influência da língua colonial do
Paraguai. Igualmente a Libras e a língua de sinais argentina - LSA foram influência para a LSU.
Na América do Sul, o desenvolvimento das línguas de sinais iniciou nas escolas de
surdos e nos espaços relogiosos. Como vimos, percebemos que a organização da geopolítica e

52
Ilustração de João Batista Alves de Oliveira Filho.
96

da política linguística das línguas de sinais da maioria dos países da América do Sul sofreram
a influência das línguas de sinais de países “colonizadores”.
Finalizando, é importante mostrarmos as informações sobre família e legislações das
línguas de sinais nacionais da América do Sul para ajudar na presença do tradutor e intérprete
surdo das línguas de sinais para a comunicação entre as pessoas surdas. Próxima seção
falaremos sobre as línguas de sinais nacionais de outros países no mundo.

2.6.2 Língua de Sinais Nacionais dos outros países no mundo

Apresentamos um breve histórico da influência e criação das LSNs dos outros países do
mundo e legislação das línguas de sinais. Algumas delas, utilizadas em conferências, são: ASL,
LSF, DGS e LSE.

Quadro 6 - Línguas de sinais nacionais dos outros países do Mundo


Documentos Oficiais e
Classificação Classificação
tipos de legislações
das línguas de da Surgiu a língua de sinais
linguísticas (oficial,
sinais nacionais comunidade nacional do País
reconhecimento,
e sigla surda do país
minoritária)
1 - Língua de Estados Unidos Uma observação histórica diz Não haverá a legislação
Sinais americana – respeito à herança da ASL veio nacional americana para
Americana – EUA língua de sinais francesa - LSF: ASL nem a inglês e nem
ASL outras línguas. È uma
Guarinello (2007), em 1817, consciência pelo respeito
Thomas Hopkins Gallaudet, das americanas no Estados
professor americano encontrou- Unidos da América -
se com Laurent Clerc, “um dos EUA.
melhores alunos do Abade
L’Epée”, fluente na língua de
sinais francesa, que a ensinou a
Gallaudet, que por sua vez o
ensinou o inglês. Neste mesmo
ano, Clerc e Gallaudet seguiram
para os Estados Unidos, onde
fundaram a primeira escola
permanente para surdos depois
fundada Gallaudet University53.
Transforma para língua de sinais
americana - ASL.

53
Esta Universidade de Gallaudet (Gallaudet University) que é a única universidade do mundo cujos programas
são desenvolvidos para pessoas surdas. Está localizada em Washington, a capital dos Estados Unidos da América.
É uma instituição privada/pública. A primeira língua oficial de Gallaudet é a American Sign Language (ASL), a
língua de sinais dos Estados Unidos e o inglês é a segunda.
97

2 – Língua de Espanha O primeiro dicionário da LSE é o A lei espanhola, Lei nº


sinais espanhola Dicionário de Imitação e 27/2007,55 que é
- LSE Dactilologia publicado em 1851, reconhecida e os meio de
por Francisco Fernández de apoio à comunicação oral
Villabrille, [...], que, no entanto, de pessoas, deficiência
é principalmente uma tradução auditiva e surdocegos. A
em espanhol do “Dictionnaire língua de sinais catalana,
mimique et dactilologique” de que é a língua do povo da
Alejandro Blanchet, [...], Catalunha que optou por
publicado em 1850, o que nos esta forma de
leva a pensar que o corpo comunicação. (tradução
principal de origem nossa)
dialectológica e lexical da LSE É legislação de
vem da língua de sinais francesa reconhecimento
(LSF), pelo menos em sua linguístico.
variedade dialética de Paris e
meados do século XIX, que
segue sua própria evolução
natural em escolas e associações
de surdos.54
3 – Língua de França Língua de sinais francesa é Na França, a LSF (la
sinais francesa – língua nativa, não foi recebe a langue des signes
LSF língua colonial. No Século VII, française), a aprovação da
passados 250 anos da “Lei nº 2005-102” para
transmissão da língua de sinais igualdade de direitos e
francesa para outros países, oportunidades, a
como língua que auxiliou na participação e cidadania
influência colonial de língua de de pessoa com deficiência
sinais nos outros países. (FRANÇA, 2005,
tradução nossa). É
legislação de
reconhecimento
linguístico.
4 – Língua de Alemanha A DGS é língua nativa como a Lei de direitos iguais para
sinais alemã – LSF. Fronteira da Alemanha são pessoas com deficiência,
DGS Áustria, Luxemburgo e Suiça, data de publicação: 27 de
elas também são línguas nativas abril de 2002, parágrafo 6:
das pessoas surdas alemãs. Não Língua de sinais e
tem publicação sobre a história comunicação de pessoas
da criação da DGS. Por isso com deficiências e
conversamos com pessoas surdas linguísticas (1) A língua de

54
Em español: […] el primer diccionario de la LSE es el Diccionario Mímico y Dactilológico publicado en 1851
por Francisco Fernández de Villabrille, profesor del Colegio Nacional de Sordomudos de Madrid, que, no
obstante, es en su mayor parte una traducción al castellano del Dictionnaire mimique et
dactilologique de Alejandro Blanchet, profesor del Instituto Nacional de Sordomudos de París (Saint Jacques),
publicado en 1850, lo que da pie a pensar que el principal cuerpo de origen dialectológico y léxico de la LSE
procede de la lengua de señas francesa (LSF), al menos en su variedad dialectal de París y de mediados del siglo
XIX, que luego sigue su propia y natural evolución en los colegios y asociaciones de sordos. Disponível em:
https://es.wikipedia.org/wiki/Lengua_de_signos_espa%C3%B1ola.
55
La por la que se reconocen las lenguas de signos espanolas y se regulan los médios de apoyo a la comunicacion
oral de las personas, com discapacidad auditiva y sordociegas. La lengua de signos catalana, que es la lengua
própria de las personas de Cataluña que han optado por esta modalidade de comunicación [...].
98

alemãs, elas me contaram o que sinais alemã é reconhecida


escrevemos na tabela. como língua autônoma. É
legislação linguística
reconhecimento
Fonte: Elaboração própria.

Veja ordem 1 do quadro 6. Neste país não tem legislação nacional para língua falada ou
língua sinalizada, demonstrando o respeito às pessoas surdas e por suas línguas. Conforme
Skliar (2013, p. 23): “Sabe-se que a Língua de Sinais Americana (ASL) é a terceira língua de
maior uso dentro dos Estados Unidos”. Portanto, notamos que a ausência de uma política
linguística que reconhece a língua inglesa, ou que reconheça a língua de sinais americana
explicita a consciência sobre a diferença linguística existente no país. Entendemos que a política
americana é diferente da política dos outros países, pois é o único que não criou legislações
específicas para oficializar a língua de sinais nacional, e portanto, as práticas de aceitabilidade
e de valorização das populações americanas, por exemplo, o grupo das pessoas surdas
americanas que usam ASL, que usam inglês americano ou usam o espanhol.
Observemos a ordem 3 do quadro 6, na França a aprovação da Lei nº 2005-102 (La loi
n°2005-102 du), ocorreu no dia 11 de fevereiro de 2005. Se comparado ao Brasil, foi com
atraso, aqui foi aprovada antes. A LSF não teve influência colonial, pelo contrário, a LSF que
influenciou alguns países do mundo, portanto, é língua de sinais original.
Importante que ordem 2, na Espanha, tem duas línguas de sinais (espanhola e catalã),
país que tem legislações, desssa maneira, facilita a presença do intérprete surdo para
interpretação intramodal e interlingual de LSE e língua de sinais catalã - LSC (e vice-versa) no
mesmo país. Na ordem 4, na Alemanha, já tem legislação para reconhecer a DGS, mas falta
registro histórico sobre a criação da língua.
Por fim, é importante o registro de todas as línguas de sinais nacionais de cada país, e
isso depende da política para planejamento linguístico por criação da legislação. A legislação
pode garantir a todas as LSNs a tradução ou interpretação para o uso de línguas de sinais
diferentes, isso com a ajuda profissional do tradutor e intérprete surdo e com interações nas
comunidades surdas e contextos sociais de instituições públicas e privadas.

2.6.3 Língua de Sinais Internacional: uma língua

Durante séculos, estudiosos de todos os países


procuraram por uma língua universal e falharam. Bem,
existe ao seu redor e é a língua de sinais!
Ferdinand Berthier (1850 apud Moody 2002, p. 1,
tradução nossa).
99

Nesta última seção falaremos sobre a política linguística, traremos sobre alguns
conhecimentos das vertentes das línguas de sinais mundial, de acordo com Moody (2002, p. 1,
tradução nossa) “[...] tem vários nomes ao longo da história: língua de sinais universal, gestos
internacionais, gestuno ou sinais internacionais”. Hoje complementa-se com mais dois termos:
sistema de sinais internacionais e língua de sinais internacional, de acordo com alguns registros.
Já falamos sobre as políticas linguísticas relacionadas às línguas de sinais que inclui a
LSI, nas seções anteriores. Vamos agora fazer alguns complementos. Moody (2002), Granado
(2019), WFD, dentre outros, indicam que há uma discussão sobre se os sinais internacionais ou
LSI são uma língua, língua franca, pidgin e gesto. Então, inicialmente faremos um breve
histórico dos tipos de línguas de sinais mundiais, registros e seus conceitos.
Os termos utilizados para nomear a língua de sinais mundial, de acordo com a evolução
dos tempos foram: língua de sinais universal, gestos internacionais, gestuno, sinais
internacionais, sistema de sinais internacionais e língua de sinais internacional. Temos poucos
registros históricos delas, e embora os termos na língua falada tenham mudado, o sinal aplicado
ao termo, permanece o mesmo desde de banquete de surdos em 1834 até hoje. Vejamos o sinal
de LSI na figura 10:

Figura 10 - Sinal de Língua de Sinais Internacional (LSI)

Fonte: Oliveira Filho (2019).


100

Na imagem observamos o sinal utilizado para a Língua de Sinais Internacional – LSI,


que surgiu no século XIX e desde então tem sido usado por pelo menos os últimos 150 anos
(MOODY, 2002, p. 1). Portanto, hoje já fazem mais de 180 anos do encontro de surdos no
banquete em 1834 na França. Provavelmente seu surgimento e a utilização na língua de sinais
internacional se deram por lá (Europeia ocidental), e foi difundido aos outros países no Mundo.
Conforme Phillipson (2002, p. 02) que diz, que “o senso comum entende o termo ‘língua
internacional’ como a língua que pessoas de diversas origens ou nações utilizam entre si. Neste
sentido, há muitas línguas internacionais utilizadas em todos os continentes”. Dessa forma,
existe diferenças na língua de sinais internacional de cada continente ocidental ou oriental. São
plenamente diferentes por serem influenciados pela cultura, política, linguística, economia, etc.
Na Europa, já é costume das pessoas surdas europeias frequentarem várias cidades da
Europa para participar de eventos, na esfera esportiva, reuniões, festivais, mídias e outros
contextos, e utilizarem para se comunicar em LSI e isso ocorre já há mais de dois séculos. A
interação influenciada pela globalização, ao contrário da América do Sul (ocidental) onde há
pouquíssimos encontros de surdos para que propicie a comunicação em LSI ocidental e
sulamericana, surgindo apenas no século XX.
A maioria dos surdos fronteiriços ou sul-americanos utiliza as línguas de sinais
nacionais da América do Sul para que aconteça à comunicação pelas línguas de sinais nas zonas
de contato das fronteiras. Vamos fazer um resgate da história de como elas são realizadas, isto
é, como acontece essa situação linguística das zonas de fronteira da América do Sul. Falaremos
especialmente sobre os contatos linguísticos das LSNs entre pessoas das fronteiras estrangeiras
e onde ocorre o espaço sinalizado, bem como a situação das práticas linguísticas nessas regiões.
Zona de fronteira dos países ou nações é a zona de contato de língua onde se prática a
mistura dos sistemas linguísticos das duas línguas de sinais. De acordo com Calvet (2002, p.
33), quando em indivíduo se confronta com duas línguas que utiliza vez ou outra, pode ocorrer
que elas se misturem nesse discurso e que ele produza enunciados “bilíngues”. Dessa forma,
surdos fronteiriços sulamericanos utilizam três línguas misturadas para produzir enunciado. Por
exemplo, quando acontecem contatos linguísticos entre surdos fronteiriços da Argentina e
Brasil nesse momento poderá ocorrer uma mistura entre a LSA, a Libras e também, às vezes, é
inclusa a LSI (ocidental e sul-americano).
Citamos outro exemplo entre surdos fronteiriços do Brasil e Uruguai, ou seja, a LSU se
mistura com a Libras e LSI, sendo que o encontro de surdo-surdo sul-americanos não se faz
muito frequente. Lembrando que a comunicação que inclui a LSI ocidental sul-americano é
101

diferente da que é utilizada pelo encontro surdo-surdo na Europa. Lá se utilizam a LSI ocidental
europeia de forma rotineira, no meios de transporte, nos trens que fornecem acesso rápido a
países vizinhos, pois o tamanho dos países da Europa difere geograficamente dos países da
América do Sul. E também com respeito à América do Sul, o ambiente em que ocorre com mais
frequência o uso da LSI é no contexto de conferência, esportes e acampamentos e, em outras
situações, observamos que os surdos asiáticos usam a LSI oriental asiática em distinção da LSI
ocidental (América e Europa).
Dito isso, percebemos que hoje já ocorre um crescimento da LSI ocidental e oriental no
mundo. Cada LSI do continente ou do país é diferente nos aspectos linguística, políticos,
econômicos e culturais. Além disso, é importante ressaltar a presença dos tradutores e
intérpretes do próprio lugar para trabalhar com a tradução e interpretação de duas línguas de
sinais, dependendo do contexto e espaço sinalizado. Isso acontece porque o modo como a língua
é constituída e assumida por um povo surdo é diferenciado, ocorrendo no seu espaço em que é
sinalizado. Podemos concluir que a LSI é utilizada frequentemente em espaços sinalizados em
diversos contextos. Retomando os conceitos dos tipos de línguas de sinais mundial, o primeiro
termo (gestos internacionais), conforme afirma Moody,

o maior problema nos “gestos internacionais” foi o problema de construção lexical:


além de um léxico limitado de sinais muito conhecido por ser “internacional”, sinais
complementares poderiam ser ou emprestados de línguas de sinais nacionais e
entendidos no contexto, ou “atuados” pantomimicamente ou com classificadores,
como exigido. (MOODY, 2002, p. 21, tradução Igor Silva).

Antes, a escolha de léxicos era limitada e utilizava-se da pantomina com classificadores.


Hoje, com o passar do tempo, anos depois transformou de Gestuno para a escolha de léxicos
com gestos.
O termo “gestos internacionais” mudou para Gestuno e de acordo com Baker-Shenk e
Cokely (1981) o Gestuno é igual ao Esperanto, que não pode ser considerada uma língua por
várias razões: (1) não possui gramática própria; (2) não existem usuários nativos do Gestuno;
(3) pouquíssimas pessoas são fluentes nesta modalidade de comunicação, somente quando há
oportunidade de usar ou praticar. Por isso, o Gestuno não era considerado uma língua.
Rosenstock e Napier (2016, p. 4) definem o conceito de Gestuno como sendo “referenciado aos
gestos e ao senso de unidade”. Gesto é a forma expressão do ser humano com as mãos e com o
corpo, não possui uma gramática como a língua de sinais. Veja a explicação da autora Gesser:
102

[...] o gestuno (língua de sinais) são exemplos de línguas “artificiais”, cujo objetivo
maior é estabelecer a comunicação internacional. Esse tipo de língua funciona como
uma língua auxiliar ou franca. O gestuno, também conhecido como língua de sinais
internacionais, é, da mesma forma que o esperanto, uma língua construída, planejada.
(GESSER, 2009, p. 12).

A citação acima é conflitante com o que dizem outros autores, eles dizem que os sinais
internacionais - SI é língua e não é planejada. De acordo com Granado:

Lembrando, mesmo que seja usado para comunicação entre os limites de línguas de
sinais diferentes e tendo empréstimos de várias línguas de sinais, sinais internacionais
- SI não pode se comparar com o Esperanto56 porque não é uma língua planejada, com
um léxico estabelecido e um conjunto fixo de regras gramaticais (ADAM, 2012, p.
853). Hansen (2016, p. 15) complementa que sinais internacionais - SI não é o tipo da
língua universal, “entendida da mesma maneira e na mesma medida por sinalizadores
em todo o mundo. (GRANADO, 2019, p. 214).

O Esperanto e a língua universal são distintos em relação aos Sinais Internacionais ou


língua de sinais internacional. Portanto, o Esperanto é raramente utilizado nos contextos, a
maioria das pessoas utiliza inglês com intérprete, ao contrário, a LSI que é frequentemente
utilizada nos diversos contextos e encontro surdo-surdo estrangeiro e surdo-ouvinte estrangeiro
para comunicação LSI . Além disso, o termo Gestuno deixou de ser utilizado e passou-se a ser
denominado Sinais Internacionais. De acordo Hansen (2016, p. 15 apud GRANADO, 2019, p.
32), complementam que Sinais Internacionais não é o tipo da língua universal, “entendida da
mesma maneira e na mesma medida por sinalizadores em todo o mundo” isso significa dizer
que os Sinais Internacionais - SI utilizados ao redor do mundo, é uma mistura de línguas de
sinais.
Falaremos sobre publicação dos dicionários de “Gestuno” e seus registros históricos.
Em 1976, o Gestuno foi usado pela primeira vez no congresso da WFD na Bulgária, e era
incompreensível para os participantes surdos (MOODY, 2008 apud GRANADO, 2019, p. 213).
Encontramos publicações e registros nos dicionários de Sinais Internacionais - SI e Gestuno por
WFD datado em 1959, ou seja, há 60 anos. Os autores Supalla e Webb esclarecem que:

Apesar de sua história como uma língua de contato internacional entre língua de
sinais, sinais internacionais é geralmente considerado por seus usuários como

56
Atualmente, a língua auxiliar planejada mais falada é o esperanto. O russo Ludwik Lejzer Zamenhof,
oftalmologista e filólogo, publicou, em 1887, a versão inicial do idioma, com o objetivo de criar uma língua de
aprendizagem muito fácil, que funcionasse como língua franca internacional para os povos de todos os cantos do
mundo. Sabe-se, entretanto, que nenhuma nação adotou o esperanto como sua língua, mas registra-se um uso por
uma comunidade de mais de 1 milhão de falantes. A língua é empregada em várias situações e os adeptos do
movimento esperantista implementam e desenvolvem cursos do esperando em alguns sistemas de educação
(SANTIAGO, 1992).
103

incompleto e limitado em comparação com suas línguas de sinais nativas. Sua taxa de
expressão é muito visível e o conteúdo é limitado. Em resposta a essas limitações,
houve um esforço para expandir e padronizar seu léxico nas décadas 1960 e 1970,
paralelo ao movimento para estabelecer o esperanto como uma língua falada
universalmente. Comitês foram estabelecidos para reformular os sinais internacionais
como Gestuno, para qual foram publicados vários dicionários (Word Federation of
Deaf, 1959, 1965; British Deaf Association, 1975). No entanto, esse movimento foi
dificultado por vários fatores, como por exemplo, a forte preferência dos usuários pela
sinalização natural-espontânea e as reações nacionalistas à seleção de formas lexicais
de outras línguas de sinais.57 (SUPALLA; WEBB, 1995, p. 335, tradução Igor Silva).

Podemos afirmar também que a publicação citada acima, datada de 1975, sobre o
Gestuno, onde menciona o que é o Gestuno: é a língua sinalizada internacional dos surdos pela
Associação Britânica de Surdos, em cooperação com a Federação Mundial dos Surdos.
Vejamos o dicionário de Gestuno na figura 11:

Figura 11 - Dicionário do Gestuno

Fonte: Moody (2002, p. 15).

Hoje, esse dicionário não é mais usado, usam-se outros dicionários com recursos
tecnológicos atualizados como vídeo digital. Em outra publicação antes no dicionário de
Gestuno da década 1960 e 1970. Wallvik menciona que:

57
Despite its history as an international contract language between signed languages, then, international sign is
generally considered by its users as incomplete an limited as compared to their native sign languages. Its rate of
expression is very show, and the content is limited. In response to these limitations, there was an effort to expand
and stardardize its lexicon during the 1960's and 1970's, parallel to the movement to establish Esperanto as a
universal spoken language. Committees were established to re-package international sign as Gestuno, for which
several dictionaries have been published (World Federation of the Deaf, 1959, 1965; British Deaf Association,
1975). however, this movement was hindered by several factors, for examples, the strong preference among users
for natural spontaneous signing and the nationalistic reactions to the selection of lexical forms from other signed
languages (SUPALLA; WEBB, 1995, p. 335).
104

Na verdade, na seção de surdos do congresso de 1900 em Paris, um dos delegados


finlandeses, Julius Hirn, propôs que todas as associações de surdos representados
formem um comitê para coletar os sinais usados por cada comunidade surda, a fim de
estabelecer um comitê internacional para padronizar uma língua de sinais
internacional. Um manual de Sinais Internacionais e um “alfabeto manual”
internacional seriam então criados. A proposta de Hirn foi aceita sem discussão.
Embora tenha havido algum desenvolvimento nos países nórdicos, Hirn morreu em
1910 e não temos nenhum registro do manual publicado. (WALLVIK, 2001 apud
MOODY, 2002, p. 12, tradução Igor Silva)

Na situação que ocorreu no congresso de 1900 observa-se que houve um registro de


alfabeto manual da LSI ocorrida pelo empréstimo linguístico da uma língua de sinais da Europa.
Infelizmente, não sabemos qual foi a língua e o registro foi perdido. Sabemos que hoje é
utilizado o alfabeto manual de LSI pelo empréstimo linguístico do alfabeto manual da ASL e
LSF (algumas letras do alfabeto manual da ASL e algumas letras do alfabeto manual da LSF).
Na década de 1960 e 1970, em que os SI ou Gestuno eram registrados nos dicionários
(papel) com a escrita em inglês, essa estratégia de registro não houve sucesso. Pois sempre
ocorrem mudanças nos sinais, além do fato que a forma estática dos registros dos sinais, não
permitia que fosse percebido de forma clara o movimento e expressão facial e corporal. Como
também não foi estabelecido uma gramática definida, conduziram-se a outras sugestões, de que
seria melhor, haveria uma qualidade e entendimento da língua de sinais em formato de vídeo
digital, pois havia condição de registro do movimento, expressão facial e corporal. Por isso,
esse contato linguístico da LSI ocorre pelo convívio entre as pessoas estrangeiras da
comunidade surda nos espaços sinalizados nos diversos contextos ou nas redes sociais, com a
utilização de webcam e outras mídias e nesses casos tem mais sucesso do que o uso de materiais
impressos.
Retomando ao fato de utilizarem o termo pidgin e língua franca para se referir aos SI.
Moody (2002, p. 23) nos diz que considera pidgin como uma língua de contato, com uma
mistura de duas ou mais línguas em contato, em situações específicas. Por exemplo, uma pessoa
adquiriu duas ou mais línguas de sinais pela comunicação, assimilando Libras, ASL, LSA para
comunicação em sinais internacionais, mas o conceito completo não está claro. Sobre língua
franca, de acordo Granado (2019, p. 34), pode-se dizer que “referente às distintas perspectivas
dos autores mencionados sobre o termo “Sinais Internacionais”, os conceitos e os argumentos
embasados, pode ser considerado basicamente uma língua franca, com uma mistura de diversas
línguas de sinais nacionais.
Há uma concordância quando se menciona que ocorre uma mistura das línguas de sinais
nacionais, mas não somente esse fato ocorre. Hoje observamos sua transformação com
105

complementos de empréstimos linguísticos das LSNs na LSI, como o alfabeto manual de ASL
e da LSF, iconicidade, expressão facial e corporal, gestualidade, classificadores, estilo
linguístico, ou ainda, uso de mouthing ou mouth gestures, (termos em inglês, explicados na
citação abaixo), dentre outros. De acordo com Rodrigues e Medeiros,

(i) os mouthings, compreendidos como aqueles movimentos da boca, presentes nas


línguas de sinais, que são derivados da pronúncia das línguas orais, que são um tipo
de palavra visual; e (ii) os mouth gestures, definidos como aqueles movimentos
próprios da boca, componentes orais presentes nas línguas de sinais, que não possuem
correspondência direta com a pronúncia das línguas orais, e que são um tipo de gesto
idiomático inerente às línguas de sinais. (RODRIGUES; MEDEIROS, 2016, p. 7).

Com respeito à gramática da LSI, foi definida recentemente. Já o uso dos sinais é
escolhido a partir de várias línguas de sinais nacionais, a escolha lexical é realizada a partir dos
contextos de comunicação e sempre mudam os sinais lexicais dependendo do contexto, se é
conferência, esporte, reunião, encontro de surdo-surdo, encontro surdo-ouvinte ou país que a
língua é utilizada.
O status linguístico da língua de sinais em legislação é reconhecida pelo Decreto Federal
nº 6.949/2009 que, desde o século XIX até hoje, é utilizada por mais de 200 anos. A LSI nos
seus diversos contextos tem seu reconhecimento pela comunidade surda, por seus direitos
linguísticos, pois nunca desapareceu através dos tempos, e poderia, de modo contínuo, se
transformar e ser considerada uma língua humana por seu contato linguístico de forma
completa.
O termo Sinais Internacionais mudou para Língua de Sinais Internacional, sendo a forma
de língua de sinais usada por surdos estrangeiros em todo o mundo com uma cultura surda
internacional, composta por várias culturas de diversos países, podendo ser denominada de
pluriculturais surdas e de culturas de nações mundial. Atualmente já observamos o aumento do
léxico, com gramática definida recente, expressões linguísticas de piada, humor denotando a
presença de multiculturalidade. Surgiu com o termo língua de sinais universal. No início, no
banquete do ano de 1834 e nos esportes de surdos do ano de 1924. Hoje o termo utilizado é
LSI. De acordo com Moody:

[...] uma cultura internacional de surdos, sejam indivíduos surdos que viajam
informalmente ao redor do mundo como turistas ou grupos surdos que participam de
conferências internacionais formais. O Comitê Internacional de Esportes de Surdos
(CISS – Comité International des Sports des Sourds) foi fundado na França em 1924
e a Federação Mundial de Surdos (WFD – World Federation of the Deaf) foi
106

estabelecida em Roma em 1951. Essas duas principais organizações internacionais de


surdos continuaram a tradição de patrocinar organizações internacionais regulares.
surdos através dos Jogos Mundiais de Surdos da CISS e dos Congressos Mundiais de
Surdos da WFD. Uma terceira organização internacional de surdos, o Workshop
Internacional de Pesquisadores Surdos, foi estabelecido em 1985 para reunir
regularmente pesquisadores de surdos e as três organizações internacionais surdas
realizam suas reuniões de negócios em Sinais Internacionais. (MOODY, 2002, p. 14,
tradução Igor Silva)

Atualmente, observamos a utilização nos mais diversos contextos, desde sociais,


comunitários, regionais, nacionais, internacionais, de instituições privadas e públicas.
Conforme Moody (2002 apud MOURÃO, 2018), nos seus registros históricos de Bertier
(1834), WFD e demais, mostram que seu surgimento ocorreu no contexto de conferências, de
esportes e de reuniões. Desde esse período veem aumentando em mais diversos contextos o uso
da LSI. Além disso, já existe há mais de dois séculos, sendo utilizada nos movimentos surdos
internacionais que se reúnem para lutar por seus direitos linguísticos e pela LSI, para que a
comunicação ocorra sem barreiras e pelo direito de receber informações.
Acaba entrando na esfera política, pois através da política linguística podemos promover
a valorização da LSI. Juridicamente falando, já mencionamos anteriormente que existe o
Decreto nº 6.949/2009 no Brasil, que reconhece e promove o uso de língua de sinais. (BRASIL,
2009). Isso significa para todos os efeitos como sendo: língua de sinais regional, língua de sinais
nacional, língua de sinais internacional, sinais caseiros, língua de sinais da fronteira e outras
equivalentes.
Nesse sentido, precisamos promover, implementar ou complementar através de uma
emenda na legislação internacional, que seja realizada uma mudança da frase para a
“reconhecida língua de sinais internacional”. Além disso, o movimento surdo e comunidade
surda mundial já conquistaram na esfera política, jurídica e direito linguístico, relacionando
com a política linguística. Portanto, deve-se registrar o status linguístico da LSI de ser
considerada uma língua.
O planejamento linguístico da LSI através de registro para o patrimônio linguístico e
cultural, na temática “Corpus da língua de sinais internacional”, já consta em documento oficial
(Decreto Federal nº 7.387/2010) que institui o Inventário Nacional da Diversidade Linguística
e dá outras providencias pelo Ministério da Cultura, no Brasil. Que poderia servir de modelo, o
decreto, para implementar um inventário internacional da diversidade linguística na ONU ou
Unesco com o intuito de promover uma documentação, e reconhecimento bem como a
valorização da LSI, referente à identidade, memória, história e a identidade dos grupos que
compõem a sociedade mundial (BRASIL, 2010b).
107

Além disso, se aprovado um inventário internacional da LSI poderia colaborar com os


registros linguísticos para o patrimônio cultural. É importante que haja pesquisadores nas áreas
de Linguística, Antropologia, Políticas Linguísticas, Educação, Tradução e Intepretação e etc.,
que possam fazer um projeto para coletar dados e contribui para academia e a comunidade surda
mundial.
Vamos falar sobre alguns aspectos gramaticais da LSI. A primeira é sobre empréstimos
linguísticos da língua de sinais. Em seus estudos dos sinais internacionais, o linguista britânico
Bencie Woll apareceu no jornal internacional sobre a linguística de língua de sinais de 1990.
Para o estudo intitulado “Perspectivas Internacionais sobre Língua de Sinais e Comunicação”,
Woll (1985 apud MOODY, 2002, p. 21-22) coletou dados de cinco oradores surdos no primeiro
workshop internacional para pesquisadores surdos em Bristol:

Na coleta de dados de comunicação [...], Woll observa que, além dos sinais
emprestados diretamente de seus próprios idiomas, os sinais considerados
“internacionais” ou mímicos também eram necessários para uma comunicação bem-
sucedida em sinais internacionais. Ela então analisou as apresentações dos quatro
sinalizantes da BSL no workshop (pelo qual estava confiante de que poderia distinguir
entre empréstimos da BSL, sinais “internacionais” e “mímica”): ela observou que 69-
80% dos sinais usados nas apresentações eram empréstimos da BSL, 13-21% eram
sinais “internacionais” ou inventados (sinais inventados e entendidos apenas em um
ato de comunicação específico) e apenas 6-11% eram ações simuladas, mímicas. Uma
alta porcentagem dos sinais usados pelos sinalizantes da BSL era de empréstimos da
BSL (69-80%), mas deve-se notar também que o workshop foi realizado na Inglaterra
e os surdos em um internacional [...].58 (WOLL, 1985 apud MOODY, 2002, p. 21-22,
tradução nossa).

Além disso, empréstimos linguísticos das LSNs influenciam a LSI ou o contrário,


empréstimos linguísticos da LSI influenciam as LSNs, de acordo com Machado (2016, p. 32):

A origem do empréstimo linguístico veio em decorrência do contato linguístico entre


falantes de línguas diferentes. Esse contato pode ser face a face, tais como o contato
de territórios entre fronteiras, contato entre falantes de línguas diferentes em
congressos, relações comerciais, eventos turísticos e ou culturais; ou pode ser através
do acesso a livros estrangeiros, internet, filmes, etc. Os Empréstimos Linguísticos
podem acontecer também através do desenvolvimento de novas ciências e
tecnologias. Ele preenche as lacunas lexicais existentes em uma língua receptora, pode

58
Woll notes that in addition to signs borrowed directly from their own languages, signs deemed “international”
or mime were also necessary for successful communication in International Sign. She then analyzed the
presentations of the four BSL signers at the workshop (for which she was confident she could distinguish between
BSL borrowings, “international” signs, and “mime”): she noted that 69-80% of the signs used in the presentations
were borrowings from BSL, 13-21% were either “international” signs or nonce signs (signs invented for and
understood only in a particular communication act), and only 6-11% were mimed actions. A high percentage of
the signs used by the BSL signers were BSL borrowings (69-80%), but it should also be noted that the workshop
was held in England, and deaf people in an international.
108

enriquecer o vocabulário da língua e ajudá-la a desenvolver-se na interação social.


(MACHADO, 2016, p. 32).

Na produção de LSI das pessoas surdas ou pessoas ouvintes estrangeiras na comunidade


surda mundial, começam a utilizar o que receberam de empréstimos linguísticos das LSNs
provocando o aumento dos léxicos/sinais, segundo o mesmo autor (2016, p. 32) que se
“tornarão empréstimos linguísticos por meio de alterações fonológicas, morfológicas e
ortográficas nas línguas de chegada” e, dessa forma, incluindo a semântica. Os léxicos, podem
mudar de uma língua para outra, de uma língua morta dos sinais da LSI para a língua viva. Esse
tipo de processo de mudança ocorre desde 1834. Podemos falar também sobre o empréstimo
linguístico, que ele pode ocorrer da língua falada do inglês para LSI, através da soletração em
inglês e do mouthing e mouth gestures. Além disso, a LSI recebe de forma representantiva o
empréstimo lingustico do inglês, assim como a Libras recebe empréstimo linguístico do
português.
Podemos citar como a segunda publicação na área de Linguística dos sinais
internacionais por Supalla e Webb (1995) a pesquisa “The grammar of international sign: A
new look at pidgin languages”, que traduzido para o português brasileiro é “A gramática dos
sinais internacionais: Uma nova visão da língua pidgin”. Outra publicação é de Rosenstock
(2008), intitulada “The Role of Iconicity in International Sign”, que traduzido para português
brasileiro é “O papel da iconicidade de sinais internacionais”. Da mesma autora, publicado em
2004, uma outra intitulada “An investigation of international sign: analyzing structure and
comprehension”, traduzido em português brasileiro, “Uma investigação dos sinais
internacionais: analisando estrutura e compreensão”, que é uma dissertação da Universidade
Gallaudet.
Não encontramos mais publicações nas áreas de linguísticas depois de 2008.
Evidenciando, portanto, a importância de mais pesquisas na área de Linguística de LSI. Para
isso, temos que implementar o inventário internacional da LSI para difusão e crescimento nas
áreas de Línguística, Educação, Antropologia, Tradução e Interpretação, Sociolinguística e
dentre outras, que poderiam contribui para os estudos sobre a língua de sinais internacional -
LSI.
No Brasil, sobre os termos utilizados pelos pesquisadores surdos brasileiros, temos
recentemente, Campello (2014) que usa dois termos “língua de sinais internacionais” e “sistema
de sinais internacionais”; Machado (2016), Mourão (2016) e Amorim (2020) que usam o termo
“língua de sinais internacionais”. Já Ferreira (2019) usa os dois termos “sistema de sinais
109

internacionais” e “sinais internacionais” e Silveira (2015; 2017); Reis (2013) e Granado (2019)
usam o termo “sinais internacionais”. Os três termos são utilizados: língua de sinais
internacional – LSI, sinais internacionais – SI ou ainda, sistema de sinais internacionais. Desde
o século XX, até hoje ainda existe uma discussão sobre qual termo seria o principal, se sinais
internacionais ou língua de sinais internacionais.
Percebemos, ao verificar as pesquisas mencionadas, que os termos “Língua de Sinais
Internacional” ou “Sinais Internacionais” ainda são pouco discutidos. Nos estudos publicados,
Sinais Internacionais “também pode ser a língua franca para quebrar as barreiras linguísticas”
(HANSEN, 2016, p. 21) em uso nas conferências internacionais. Mesmo assim, língua de sinais
internacionais é considerada uma língua humana utilizada para quebrar as barreiras linguísticas
nos diversos contextos que possuem características pluriculturais, pois não existe um território
único da comunidade surda, assim, há uma pluralidade de comunidades surdas nos países do
mundo, chamada de comunidade surda mundial por Schetrit (2016). Também pode ser
considerada língua pela existência de todo processo de apropriação multicultural e assimilação
dos aspectos culturais dos países, bem como por sua distribuição geográfica do mundo e por
seu espaço sinalizado da comunidade surda mundial. Por fim, LSI conquistou seu
reconhecimento na esfera política, jurídica e direito linguístico. De acordo com Moody:

este termo ‘Língua de Sinais Internacionais’ não é usado mais, a World Federation of
the Deaf (WFD) não votou em uma proposta para reconhecer Sinais Internacionais
como uma língua, isso aconteceu provavelmente porque os pesquisadores em
linguística e usuários de Sinais Internacionais não aprovaram essa ideia. (MOODY,
2008, p. 26, tradução Letícia Granado).

Ainda há uma discussão em andamento pelos membros da WFD e pesquisadores de


Linguísticas. Pegando o sentido contrário, junto as pesquisas do campo das Políticas
Linguísticaa, podemos afirmar, que há reconhecimento e valorização da LSI para comunidade
surda mundial. É importante que a WFD tenha pesquisa atualizada sobre LSI nos campos da
Linguística, Antropologia, Política Linguística, dentre outros.
Então, para aprender ou ter contato linguístico com a LSI o futuro tradutor e intérprete
surdo precisa ter contato com as pessoas estrangeiras da comunidade surda para ir assimilando
e aprendendo as formas gramaticais de outras línguas de sinais, sua expressão facial e corporal,
110

sua característica multicultural, seu cheiro59. É preciso estar conectado à comunidades surdas
nacionais e a comunidade surda mundial.
De acordo com Ronice Quadros (2014, informação verbal), “há a necessidade de
conviver, de estar junto aos surdos”. De acordo com a autora, é preciso “cheirar surdo”. Parece
estranho essa expressão, mas esse “cheirar surdo” refere-se à proximidade, ao estar junto ao
surdo constantemente. Isso é importante para assimilar as diferentes formas de uso da língua de
sinais, nas diferentes línguas de sinais e, na convivência, ir adquirindo conhecimentos culturais
para ganhos profissionais. Por fim, para que possa ocorrer uma boa interpretação intercultural
e compreensão dos conhecimentos em línguas de sinais, incluindo a LSI para os públicos em
seus diversos contextos.
Temos evidências de que a presença de tradutor e intérprete surdo de LSI em eventos
como: WFD, Deaflympics60, Pan-Americano de Surdos, ONU, European Union – EU,
(traduzido para o português brasileiro “União Europeia”), European Union Deaf – EUD,
(traduzido para o português brasileiro “União Europeia de Surdos”) e, eventos regionais
nacionais e internacionais, reuniões, mídias, rede social, jurídicos, turismo, saúde, policiais
delegacias, entidade de surdos e dentre outros, já ocorre há muitos anos.
Existe o profissional que trabalha com a língua de sinais internacional – LSI e tem seu
status linguístico pela comunidade surda mundial. A sua presença e a presença da LSI existe
em diversos contextos e percebemos seu movimento ocorrendo de forma crescente. Todas as
línguas de sinais sejam regional, nacional, internacional, sinais caseiros, da fronteira são
trabalhadas na tradução e interpretação intercultural. Assim, a LSI é uma língua, pois possibilita
a interpretação intercultural de LSI para outras línguas orais (língua sinalizada e língua falada)
e/ou vice versa.
Conclui-se, que a língua de sinais internacional - LSI é considerada uma língua humana
e com assimilação das diversas culturas dos países mundo a fora como pluriculturais e
multiculturais, mas é a segunda língua ou terceira língua dos surdos. Os tradutores e intérpretes
surdos em LSI podem trabalhar com competência tradutória e interpretativa (interpretação,
tradução e tradução-interpretação) para verter os discursos e para que a comunicação aconteça
em seus diversos contextos, não ocorrendo barreiras linguísticas.
Observamos que as implicações das práticas linguísticas das línguas de sinais e alguns
registros delas no Brasil apontam para algumas LSNs da América do Sul e algumas LSNs do

59
Cheiro surdo – Precisa interagir, se identificar com a comunidade surda.
60
Surdolimpíadas.
111

mundo. Também apontamos a necessidade de ação para um inventário internacional da LSI,


com o objetivo de contribuir para sua memória, documentação e nos estudos linguísticos. É
positiva a oportunidade de vermos as muitas línguas de sinais e a presença dos tradutores e
intérpretes surdos nas conferências regionais, nacionais e internacionais e diversos contextos
no Brasil e mundo. Esses dois fatores contribuem para comunicação e para valorização
linguística.
Falaremos no próximo capítulo sobre a Fundamentação Teórica: os estudos sobre a
atuação dos tradutores e intérpretes surdos.
112

3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: OS ESTUDOS SOBRE A ATUAÇÃO DOS


TRADUTORES E INTÉRPRETES SURDOS

Neste capítulo apresentamos a investigação dos processos que refletem sobre o que é
social e o que é político nas questões relacionadas aos profissionais tradutores intérpretes surdos
de língua de sinais para outra língua de sinais. Abordamos algumas teorias e conceitos da
tradução e interpretação das línguas de sinais, como questões ligadas ao perfil profissional, à
formação, à legislação, à remuneração, aos direitos linguísticos, dentre outros relacionados à
política linguística.
O tradutor e intérprete surdo é um profissional capaz de compreender e traduzir com
competência tradutória e interpretativa o significado das ideias expressas em línguas diferentes
de forma intramodal e interlingual, fazendo a relação entre os conceitos elaborados em diversas
línguas.
Este capítulo se divide em cinco partes, a saber: 1) Cenário nacional e internacional do
intérprete e tradutor, no qual começaremos com um breve histórico dos intérpretes surdos no
Brasil e no mundo; 2) Cenário de formação e estudos de tradutor e intérprete das línguas da
atuação dos surdos, em seguida focando na questão do intérprete surdo de língua de sinais para
outra língua de sinais, por ser a perspectiva adotada na presente pesquisa; 3) Terminologia do
tradutor e intérprete de línguas, onde começaremos com os conceitos nas áreas de Tradução,
Interpretação e Tradução-Interpretação; 4) Tradutor e intérprete de língua da conferência, no
qual apresentamos este profissional e; 5) Um panorama sobre a política linguística da presença
do intérprete das línguas de sinais na legislação.

3.1 CENÁRIO NACIONAL E INTERNACIONAL DO TRADUTOR E INTÉRPRETE

“os intérpretes surdos surgiram há muitos anos e nós não percebemos”.


Granado (2019)

No capítulo anterior citamos os aspectos da política linguística em relação às línguas


sinalizadas e às línguas faladas, trouxemos o contexto de como as muitas línguas de sinais
ajudam ao profissional tradutor e intérprete surdo a ter competência tradutória e interpretativa.
Buscamos breves históricos, importantes nas políticas linguísticas que envolvem as línguas de
sinais por ação da tradução, interpretação e tradução-interpretação nos países.
113

A definição do intérprete surdo, conforme o Deaf Interpreter Institute61 do NCIEC –


National Consortium of Interpreter Education Centers (traduzido em português brasileiro
“Consórcio Nacional de Centros de Ensino de Interpretação”), nos Estados Unidos da América:
“Um Intérprete Surdo é um especialista que presta serviços de interpretação, tradução e
transliteração na ASL e outras formas de comunicação visual e tátil usadas por indivíduos
surdos, com deficiência auditiva e surdos-cegos” (NCIEC, 2020, tradução nossa).
A ASL é a língua de sinais nacional dos EUA, porém, discordamos que é a única língua
do país. Poderia o tradutor e intérprete surdo trabalhar com a tradução e interpretação
interlingual entre as línguas de sinais, como por exemplo: língua de sinais regional, língua de
sinais nacional, língua de sinais internacional, gestos, sinais caseiros, língua de sinais da
fronteira e intraligual de língua de sinais (mesma língua). No site do Instituto de Intérprete
Surdo: “[...] os intérpretes surdos trabalham mais frequentemente em conjunto com intérpretes
ouvintes em audiência, essa audiência pode ser conferência e/ou justiça” (DDI, 2019).
Apresentamos a contextualização em relação a um breve histórico de tradutor e
intérprete surdo. Então, primeiro falamos de uma maneira mais geral sobre tradutor e intérprete
de língua, depois de maneira mais específica sobre tradutor e intérprete surdo. Vejamos uma
reflexão sobre o mito da torre de Babel,

Naquele tempo toda a humanidade falava uma só língua. 2/4 Ora, deslocandose e
espalhandose em direcção do oriente, os homens descobriram uma planície na terra
de Babilônia e depressa a povoaram. E começaram a falar em construir uma grande
cidade, para o que fizeram tijolos de terra bem cozida para servir de pedra de
construção e usaram alcatrão em vez de argamassa. E nessa cidade projectaram
levantar um templo com a forma de uma torre altíssima que chegasse até aos céus,
qualquer coisa que se tornasse um monumento a si próprios. “Isto”, disseram,
“impedirá que nos espalhemos ao acaso pela terra toda”. 5 O Senhor desceu para ver
a cidade e a torre que estavam a levantar: 6/7 “Vejamos: se isto é o que eles já são
capazes de fazer, sendo um só povo com uma só língua, não haverá limites para tudo
o que ousarem fazer. Vamos descer e que a língua deles comece a diferenciarse noutras
línguas, de forma que uns não entendam os outros.” 8/9 E foi dessa forma que o Senhor
os espalhou sobre toda a face da terra, tendo cessado a construção daquela cidade. Por
isso ficou a chamarse Babel, porque foi ali que o Senhor diferenciou a língua dos
homens, e espalhouos por toda a terra. (GÊNESIS 11:1-9).

61
Deaf Interpreter Institute: A Deaf Interpreter is a specialist who provides interpreting, translation, and
transliteration services in American Sign Language and other visual and tactual communication forms used by
individuals who are Deaf, hard-of-hearing, and Deaf-Blind. Disponível: http://www.diinstitute.org/what-is-the-
deaf-interpreter/.
114

A minha reflexão sobre o mito da torre de Babel, se tivéssemos só uma língua, nós não
teríamos nem intérpretes e nem tradutores. Mas, no momento da organização das línguas elas
se espalharam em línguas diferentes, se organizaram e se dividiram em grupos diferentes de
línguas orais (faladas e sinalizadas). Dessa forma, cria-se um potencial para o desenvolvimento
do profissional intérprete e tradutor de línguas (línguas sinalizadas e línguas faladas). Nesse
sentido, o que temos hoje, seria a construção da história de tradutor e intérprete de língua, desde
o surgimento de Gênesis até os dias de hoje, ao pensar em todos os tradutor e intérprete de
língua, incluindo os tradutores e intérpretes surdos.
Um questionamento que fazemos é: como surgiu a história mundial e brasileira sobre os
tradutor e intérprete surdo das línguas de sinais ou da língua de sinais internacional?
Averiguamos as teorias e práticas na história, infelizmente, encontramos pouquíssima história
sobre os tradutor e intérprete surdo. De acordo com Bowen et al (2003, p. 257), “no passado os
intérpretes foram não só testemunhas da história, mas participaram no seu desdobramento”.
Não buscamos testemunhas, somente analisamos referências bibliográficas e documentos,
como registros antigos dos contextos vividos. Aproveitamos um breve histórico geral sobre o
tradutor e intérprete de línguas orais (falada e sinalizada) depois partimos para as pesquisas
sobre o tradutor e intérprete surdo.
O mais antigo registro da atuação de intérpretes ouvintes surgiu, de acordo com Kurz
(1985), nas inscrições encontradas nos túmulos dos príncipes de Elefantina, no Antigo Egito,
que datam do terceiro milênio a. C. (KURZ, 1985 apud LUCIANO, 2005, p. 9). A primeira
referência aos intérpretes se encontra também nos textos do historiador Heródoto,
aproximadamente 485-425 a. C. Nesses textos os intérpretes são chamados de “hermeneutas”,
se tratando de uma antiga palavra grega que significa “interpretar”, do Deus Hermes,
mensageiro da palavra dos deuses para os mortais (BERTONE, 1989 apud LUCIANO, 2005).
A interpretação é uma atividade antiga, realizada há muito tempo por causa do contato
entre povos (seja de ordem militar, comercial ou religiosa). É preciso, também, a interpretação
entre as línguas faladas e as línguas sinalizadas para que não haja barreiras linguísticas entre o
povo surdo e outros povos.
Vamos falar sobre a história do intérprete e da interpretação, da existência dessa prática
e desses “profissionais” desde a pré-guerra e pós-guerra, no Egito Antigo, nas relações
comerciais, no Império Romano, nas invasões bárbaras, nas primeiras e segundas guerras
mundiais, na ONU, na Organização Internacional do Trabalho - OIT, na relação colonial dos
patrões com escravos, índios, refugiados, religiosos, etc, as pessoas aprendiam a língua do
115

‘estrangeiro’ por contato e depois realizava funções de intérprete, de mediação entre falantes,
mesmo sem formação para tal.
Essa situação começa a mudar a partir da Primeira Guerra Mundial, pois, segundo
Pagura (2003), houve o Congresso de Viena (1814-1815), com a participação dos Estados
Unidos, e interpretações realizadas, desde então, em francês e inglês. Pagura cita Paul Mantoux
como um dos primeiros intérpretes das conferências e que atuou, também, no Tratado de
Versalhes. Nessa época, era comum, além das guerras em nome das religiões e, por
consequência, a evangelização dos povos, a necessidade da intermediação cultural e linguística.
Todos esses intermediadores linguísticos e culturais atuavam sem muito conhecimento do
processo de interpretação, mas se inseriam nas comunidades a fim de aprenderem a língua para
passar os ensinamentos bíblicos; caso não houvesse esse processo, o risco que se corria e o
“truncamento” das informações era bem maior do que aquele ensinado na língua “nativa”
(SANTOS; MASUTTI, 2008).
A política linguística identifica que os intérpretes têm um trabalho mais forte no
contexto da religião, por causa da crescente participação de fiéis nas igrejas, aproveita-se da
presença dos tradutores e intérpretes de línguas para repassar os conhecimentos da Bíblia, mais
do que em outros contextos. O aumento de profissionais intérpretes das línguas orais (faladas e
sinalizadas) para facilitar a comunicação entre os povos, se deu rapidamente a partir dos pós-
guerras mundiais.
A participação de línguas diferentes em conferências foi relatada por Pagura (2010, p.
43), no qual a primeira interpretação simultânea foi no ano de 1928, na Conferência da OIT.
Alguns anos depois, em 1953, foi criada a Associação Internacional de Intérprete de
Conferência - AIIC, quando a interpretação de conferências ainda era uma profissão
incipiente. Atualmente, mais de 2.900 membros em mais de 100 países com um secretariado
em tempo integral em Genebra, promove a ética e qualidade profissional de intérpretes das
línguas faladas e línguas sinalizadas, há registros desses profissionais nas conferências pelo
mundo.
No Brasil, tem a Associação Profissional de Intérprete de Conferência - APIC, nascida
da necessidade de reunir em um órgão de classe os profissionais ativos do campo da
interpretação simultânea e consecutiva, que anteriormente era denominada Associação Paulista
116

de Intérpretes de Conferência62 – foi criada em julho de 1971 por oito intérpretes de São Paulo,
seguindo os moldes da AIIC – com sede em Genebra. Não tem registro na APIC de profissionais
tradutor e intérprete de língua de sinais, Libras para português brasileiro e Libras para outras
línguas de sinais.
Em Londres, a criação de International Organization for Standardization – ISO (em
português brasileiro “Organização Internacional para Padronização”) foi em 194663. A ISO é
uma organização internacional não governamental independente com uma adesão de 164
órgãos nacionais de normalização, essas padrões internacionais fornecem especificações de
classe mundial para produtos, serviços e sistemas, para garantir qualidade, segurança e
eficiência e são fundamentais para facilitar o comércio internacional. Buscamos códigos dos
partes da ISO para tradução e interpretação. Vejamos o quadro.

Quadro 7 - Normas ISO para Tradução e Interpretação

Ordem Denominação Número código do ISO


1 Tradução ISO/TC 37 SC 5/ WG1
2 Interpretação ISO/TC 37 SC 5/ WG2
3 Interpretação simultânea (estandes permanentes) ISO 2603:2016
4 Interpretação simultânea (Cabines Movéis) ISO 4043:2016
5 Projeto de interpretação (Orientação geral) ISO/TS 11669:2012
6 Interpretação – Diretriz para Interpretação Comunitária ISO 13611:2014
7 Serviços de tradução (requisitos para serviços de tradução). ISO 17100:2015 e amds 1:2017
Serviço de tradução (pós-edição de tradução automática) e
8 ISO 18587:2017
(requisitos)
9 Serviços de Interpretação (requisitos gerais e recomendações) ISO 18841:2018
10 Interpretação Simultânea (Qualidade e transmissão de entrada ISO 20108:2017
de som e imagem – Requisitos).
11 Interpretação Simultânea (Equipamentos – Requisitos). ISO 20109:2016
12 Serviços de Interpretação (Interpretação juridica-Requisitos). ISO 20228:2019
13 Sistemas de conferências (equipamentos – requisitos) ISO 22259:2019
Fonte: Elaboração própria (tradução nossa).

62
Já na década de 1980, com o crescimento da associação para o Rio de Janeiro e Brasília, a APIC adotou seu
nome atual – Associação Profissional de Intérpretes de Conferência, tornando-se uma referência nacional no setor.
63
A história da ISO começou em 1946, quando delegados de 25 países se reuniram no Instituto de Engenheiros
Civis em Londres e decidiram criar uma nova organização internacional "para facilitar a coordenação internacional
e a unificação dos padrões industriais". Em 23 de fevereiro de 1947, a nova organização, ISO, iniciou oficialmente
as operações. Hoje temos membros de 164 países e 783 comitês e subcomitês técnicos para cuidar do
desenvolvimento de padrões. Mais de 135 pessoas trabalham em tempo integral para a Secretaria Central da ISO
em Genebra, na Suíça.
117

Importante que as entidades de tradutor e intérprete de língua sigam os 13 (treze)


códigos da ISO pela qualidade profissional, conhecimento, formação e outros. Alguns códigos
têm relação com o tradutor e intérprete de língua e tradutor e intérprete surdo, conforme
apresentamos nas outras seções.
Apresentamos a historiografia de intérprete surdo da LSI ou LSN no mundo e no Brasil.
Há uma dificuldade de encontrar nos registros históricos, e também há dificuldade em realizar
coleta de dados na história da interpretação, no mundo e no Brasil, conforme Santos (2006):

Precisar a data e o lugar dos primeiros ILS se constitui em uma tarefa difícil de ser
realizada. Por um lado, essa dificuldade se dá pelos raros documentos escritos que
tratam sobre a história dos ILS. Por outro lado, antigamente, a atividade de interpretar
não era reconhecida enquanto profissão, dificultando saber quem eram essas pessoas.
(SANTOS, 2006, p. 56).

Sim, há uma dificuldade em encontrar a linha do tempo da história dos tradutor e


intérprete surdo, incluindo tradução e interpretação intramodal e interlingual de LSN para outra
LSN ou LSI. De acordo com Rosa (2005 apud LAGUNA, 2015, p. 40), “a história dos
intérpretes orais64, apresenta alguns aspectos semelhantes na história dos intérpretes de língua
de sinais, tais como iniciação da maioria dos intérpretes, antes empíricos, depois profissionais”.
Observamos, dessa forma, que igualmente aos tradutores e intérpretes de línguas e os tradutores
e intérpretes surdos iniciaram na profissão empiricamente, somente depois veio o
reconhecimento como profissional. Os surdos, na comunidade surda, precisam da interpretação
há muitos anos, o importante é a mediação de duas línguas de sinais para haver a comunicação.
De acordo com Vasconcellos (2010):

[a]s atividades de tradução e interpretação sempre foram exercidas por indivíduos na


função de mediadores em interações em que a barreira linguística impediria a
comunicação, seja de textos escritos ou textos orais, no contexto de uma prática
oficiosa. Com o passar do tempo, esses tradutores e/ou intérpretes se transformaram
no profissional “tradutor/intérprete” e as artes da tradução/interpretação foram,
lentamente, consolidando-se como um conjunto de competências passíveis de
ensino/aprendizagem, passando a constituir o ramo aplicado do campo disciplinar
hoje conhecido como Estudos da Tradução. (VASCONCELLOS, 2010, p. 123).

O tradutor e intérprete surdo surgiu também de uma atuação empírica, com o passar do
tempo se transformou em profissional. Realizamos um breve histórico sobre o tradutor e

64
Refere-se aos intérpretes de línguas faladas, excluindo-se as línguas sinalizadas.
118

intérprete surdo. Os espaços religioso, comercial, militar e educacional proporcionaram o


surgimento da figura do profissional intérprete e tradutor ouvinte no mundo, ao mesmo tempo,
a figura do tradutor e intérprete surdo também surgiu em dois momentos. Num primeiro
momento, o intérprete de língua de sinais atuava no ambiente religioso para o surdo,
principalmente da comunidade cristã e num segundo momento, na área da Educação.
A história dos intérpretes surdos se deu a partir da prática da interpretação juntamente
com o intérprete ouvinte em igreja na Inglaterra, conforme afirmam Stone, Walker e Parsons
(2011). Os autores dizem que, no século XVII, surgiu o intérprete e tradutor surdo,
provavelmente, da BSL, já que o registro se dá na Inglaterra, no qual a língua de sinais é a
língua de sinais britânica - BSL.
Dessa forma, serão apresentados: i) o procedimento que levou ao reconhecimento
profissional e o cadastramento junto ao NRCPD (traduzido em português brasileiro “Registros
Nacionais de Profissionais de Comunicação que trabalham com pessoas surdocegos e surdas”)
e; ii) o consórcio de intérprete surdo e seu trabalho para assegurar que os intérpretes surdos
possam cadastrarem-se regularmente como seus colegas ouvintes, não mostrou quantidades de
intérpretes surdos.
Os intérpretes surdos de língua de sinais, de acordo com os registros, começaram a atuar
na interpretação empírica no século XVII, mas provavelmente, antes século XVII, essa atuação
já existia, porém falta registro dos percursos da historiografia. De acordo com Granado (2019,
p. 34): sobre a “história dos intérpretes surdos: eles já existiam muitos anos atrás, antes
Congresso de Milão em 1880, com suas diversas experiências de tradução (tradução de sinais
caseiros, gestos e tradução de escrita para língua de sinais)”.
Os intérpretes surdos atuam até os dias de hoje. A partir do século XXI que houve o
reconhecimento do intérprete surdo enquanto profissional. No início do ano de 2003 foram
reconhecidos pela WFD e Wasli e somente mais recentemente, na década de 2000, se tem
pensado na formação desse profissional. Havia registro da conferência internacional, que
mostrou o registro “em 1976, [no qual] o Gestuno foi usado pela primeira vez no congresso da
WFD na Bulgária, e era incompreensível para os participantes surdos” (MOODY, 2008 apud
GRANADO, 2019, p. 213), comprovando que havia barreira linguística de comunicação,
necessitava-se da presença de uma equipe de intérprete surdo e ouvinte de língua. Em mais um
registro da conferência, Moody relata que:

Lembro-me da primeira conferência da WFD, em 1979, que proporcionou a


interpretação formal do GESTUNO em Copenhague. Percebemos que os sinais no
119

livro não seriam facilmente compreendidos pelos participantes, então mudamos para
usar SI que aprendemos com pessoas surdas em nossas viagens. (MOODY, 2008, p.
25 apud GRANADO, 2019, p. 32).

Percebemos que continuava a interpretação de Gestuno na tentativa de mediação entre


as pessoas e para facilitar a comunicação para o público surdo, mas não deu certo pois os
significados e compreensão da temática ficavam comprometidos, resolveu-se que a solução
seria os surdos terem contato com surdos ao redor do mundo para assimilar diversas línguas de
sinais, culturas das diversas comunidades surdas, e que isso facilitaria a comunicação em LSI.
O profissional tradutor e intérprete surdo que atuam com LSI, precisa ter contato com o
mundo e ter competência tradutória e interpretativa, pode trabalhar nos diversos contextos.
Porém, a LSI não é igual a LSN, pois a LSN é a língua de sinais própria do país, que envolve a
cultura, a política, a economia e etc. desse povo. Por exemplo, a ASL americana e a ASL
canadense, supostamente é a “mesma” língua de sinais, mas tem usos distintos, são diferentes
na forma e também há diferenças das culturas americanas e canadenses, se for intérprete surdo
de ASL americana para LSI ou outra LSN ocorre uma interpretação intercultural; certamente,
deverá haver outro profissional intérprete surdo de ASL canadense para LSI ou outra LSN, e
dessa forma, também há interpretação intercultural.
De acordo com Hanser (2016 apud GRANADO, 2019, p. 32) “a tentativa de aplicar o
Gestuno resultou em um desastre comunicativo porque os intérpretes não fizeram o uso do
espaço, ação construída ou expressão facial”. Também acreditamos, que os intérpretes possam
ter feito uso do sinal por sinal, o que provoca sentenças sem sentidos. A competência
interpretativa é dar sentido e compreensão ao texto e contexto da temática abordada.
De acordo com Aubert (1991 p. 186) “isto é, "não a palavra a partir da palavra e sim
exprimir o sentido a partir do sentido, não a forma mas a mensagem, constituem de fato a
essência do interpretar”. Logo, no contexto das conferências, é importante ter conhecimento,
ter competência interpretativa nas línguas de atuação para evitar realizar sinal por sinal, precisa
captar o sentido da língua fonte65 e transpô-la para a língua alvo. Além disso, a LSI faz uso de
várias LSNs convencionando os léxicos, expressão facial, corporal, gramática, e etc. Na
conferência internacional da OIT, vários líderes de diversos países do mundo e várias pessoas
estrangeiras tiveram dificuldade de comunicação, segundo Pagura:

65
Lingua fonte: É a lingua que o intérprete ouve ou vê para, a partir dela, fazer a tradução e interpretação para a
outra língua (a língua alvo). Lingua alvo: É a lingua na qual será feita a tradução ou interpretação (QUADROS,
2004, p. 9).
120

Essas experiências se deram, sobretudo, no âmbito da Organização Internacional do


Trabalho, organização pertencente à família de organizações da Liga das Nações e que
existe hoje em dia no âmbito das organizações da ONU. Também com sede em
Genebra, na Suíça, essa organização reunia líderes sindicais e empresários de diversos
países do mundo, muitos deles falantes de idiomas diferentes do inglês e do francês,
e sem domínio de qualquer língua estrangeira. Nesse contexto, a interpretação
consecutiva se torna extremamente demorada, uma vez que um discurso feito em uma
língua tem de ser traduzido para diversas outras, uma de cada vez. Foi dessa
necessidade de economia de tempo que surgiu a ideia da interpretação simultânea, já
nos anos de 1924 e 1925. (PAGURA, 2005, p. 193).

A interpretação consecutiva causa demora em reuniões, por isso, adotou-se a


interpretação simultânea como modalidade mais eficaz de interpretação e tornou-se importante
aumentar a contratação dos tradutores e intérprete das diversas línguas. Parecido com essa
situação da European Union - EU, em entrevista em 2015 (tempo do vídeo, 5:50 a 9:3066), com
entrevistador da European Union of the Deaf - EUD, o entrevistado contou com a presença de
intérpretes, iniciando com 4 surdos estrangeiros (o britânico John Young, o holandês Johan
Wesemann, o italiano Manlio Marcioni e o alemão Wolfgang Czempin) que ingressam na EU
e na EUD no ano 1985. Não tinham intérpretes lutando pela contratação de profissionais,
pretendia-se contrarar intérpretes de LSI, mas um surdo não concordou, assim, teve a presença
da dupla de intérpretes de língua de sinais nacionais (BSL, língua de sinais holandesa - NG,
LIS e DGS) para 4 surdos diferentes, quando finalmente, conseguiram a contratação (EUD,
2015, tradução nossa). O objetivo era contratar tradutores e intérpretes de língua de sinais para
reuniões, conferências, audiências, bem como para traduzir diversos tipos de documentos.
Hoje no ano de 2019 foram contratados 140 (cento e quarenta) intérpretes (língua falada
e língua sinalizada) na EU. Fundada em 1985, a EUD tem representantes surdos que trabalham
na comissão da União Europeia de Bruxelas, e aproveitando a fundação da EUD neste ano, foi
publicado posteriormente em 1988 o documento sobre o reconhecimento de língua de sinais
nacionais na Europa , fato que marcou a história da EU e da EUD:

Ocorreu uma Conferência histórica sobre o ‘Multilinguismo e igualdade de direitos


na EU (União Européia): o papel das línguas de sinais’ organizada pela MEP (Membra
do Parlamento Europeu) eurodeputada Helga Stevens no hemiciclo do Parlamento
Europeu, em Bruxelas. Mais de 832 pessoas, a maioria surdos, de toda a Europa e de
outros países, vieram discutir sobre este importante tema. A fim de tornar isso
possível, houve interpretação em 31 línguas de sinais nacionais e regionais europeias,
uma língua de sinais não europeia e as 24 línguas faladas da UE! Envolvendo o
trabalho no total de 145 intérpretes! Nunca antes, tantos intérpretes de língua de sinais

66
Video em língua de sinais internacional com entrevistado surdo britânico ex-primeiro presidente de EUD John
Young e entrevistador Diretor executivo de EUD Mark Wheatley. Entrevista concedida por Young, John.
Entrevistador: Wheatley, Mark. Disponível em: https://www.eud.eu/about-us/about-us/euds-documentary-40-
mins/.
121

haviam sido reunidos em uma única sala! Uma visão impressionante de fato!67 (EUD,
2016, tradução Fernando Parente).

Momento que marcou a história, registro do dia 28 de setembro de 2016. Vejamos a


figura 12.

Figura 12 - Presença dos tradutores e intérpretes de línguas de sinais na European Union (EU) em 2016

Fonte: EUD (2016).

Nessas conferências a presença das línguas de sinais foi maior que as línguas faladas,
isso é muito positivo. A maioria das discussões parlamentares da EU por política linguística e
o status linguístico são relacionadas às LSNs e regionais, em comparação com as línguas
faladas. Foi importante o modelo de EUD e EU para planejamento linguístico, porém é
necessário ampliar a proposta para o ingresso dos representantes das pessoas surdas sul-

67
A historic conference on “Multilingualism and equal rights in the EU: the role of sign languages” organised by
MEP Helga Stevens took place in the hemicycle of the European Parliament in Brussels. More than 832 persons,
the majority of them deaf, from all over Europe and beyond, came to discuss about this important topic. In order
to make this possible, interpretation into 31 European national and regional sign languages, one non-European
sign language and the EU’s 24 spoken languages was provided by in total 145 interpreters! Never before, so many
sign language interpreters had assembled in one room, it was an impressive sight indeed!
122

americanas, com participação, por exemplo, no Mercosul68, e assim, ter representantes surdos
sul-americanos que poderiam promover os direitos humanos e línguas de sinais da América do
Sul, e também presença do tradutor e intérprete de língua (surdo e ouvinte).
Na Europa é forte o grupo de intérpretes surdos, dessa forma, representam a maioria dos
profissionais no campo da interpretação em língua de sinais no mundo. Nos congressos
internacionais como Congresso World Federation of the Deaf, Congresso World Association of
Sign Language Interpreters, congressos continentais, nacionais e regionais, membros ou
palestrantes na apresentação do trabalhos sinalizados em LSI (sendo a maioria) e LSN (a
depender do local) e também durante apresentações orais em LSI como palestras, reuniões e
encontro das pessoas surdas e ouvintes, na maioria das vezes nos contextos conferências. De
acordo com Wit e Sluis,

as associações internacionais com apoio em todo o mundo, tais como o EFSLI


(European Forum of Sign Language Interpreters), a EUD (European Union of the
Deaf), a WASLI (World Association of Sign Language Interpreters) e a WFD (World
Federation of the Deaf) incentivaram-se a realização do reconhecimento formal,
criando um registro para os intérpretes de International Sign (SI). (WIT; SLUIS, 2016,
p. 110 apud GRANADO, 2019, p. 60).

Dessa forma, não é só o registro do intérprete em LSI, pois atualmente necessita do


reconhecimento e registro de profissional de intérprete surdo também da LSN e as línguas de
sinais regionais, pois precisa-se da interpretação de LSI para outra LSN para pessoas
estrangeiras, principalmente por conta da globalização e inclusão social para comunicação
visual. Já há visibilidade dos novos profissionais de interpretação e também o crescimento mais
das entidades para tradutor e intérprete de língua de sinais e comunidade surda no mundo, por
exemplo, o Deaf Interpreter Institute – DII, nos EUA.
Na Finlândia existe a empresa Viparo – Vahvasti viittomakielistä vuorovaikutusta ja
aitoa ammattilaisuutta (em português brasileiro Interação em línguas de sinais e profissional
real). O objetivo da Viparo é oferece negócios e estudo de interpretação na Finlândia e no
exterior e, além de intérpretes que atuam com a língua de sinais finlandesa – FINSL, tem
também profissionais fluentes em sueco, inglês, língua de sinais finlandesa sueca, ASL e SI
(VIPARO, 2019, tradução nossa).

68
O Mercosul é a abreviação de Mercado Comum do Sul, um bloco econômico sul-americano, que se iniciou em
26 de março de 1991, com a assinatura do Tratado de Assunção pelos governos de Argentina, Brasil, Paraguai e
Uruguai. Infelizmente, não havia nenhum representante surdo do Mercosul.
123

Apresentamos as entidades de/para surdos que se relacionam com tradutor e intérprete


de língua de sinais no mundo e no Brasil. Fundada em 23 de setembro de 1951, a WFD é
reconhecida pela ONU, como entidade internacional representativa de aproximadamente 70
milhões de pessoas surdas no mundo. Trabalha para a ONU e tem membros na International
Disability Alliance – IDA (traduzido para português brasileiro “Aliança Internacional de
Deficiência”), que atuam sobre a defesa dos direitos humanos dos surdos e a Convenção sobre
os direitos das Pessoas com Deficiência. A reunião do grupo AD HOC foi no México, no ano
de 2005, em que foi definitivamente aprovada pela assembleia geral da ONU em 2007. O
Congresso da WFD acontece a cada quatro anos no mês de julho, onde há discussão sobre vários
assuntos acerca de Linguística, Direitos Humanos, Cultura Surda, Bilinguismo para Surdos,
Comunidade Surda, dentre outros. Segundo o site da WFD luta para “promover direitos
humanos e línguas de sinais em todo mundo” (WFD, 2019).
O reconhecimento da WFD pela ONU foi importante porque possibilitou a participação
de representantes surdos na luta pelos direitos dos surdos, além do reconhecimento do ser surdo
e da língua de sinais, o que propiciou apoio às associações de surdos espalhadas pelo mundo e
a garantia das línguas de sinais, nacional, regional e LSI, assegurando a presença do intérprete
de língua de sinais.
No congresso da ONU, os representantes surdos participam com a presença de intérprete
(surdo e ouvinte) de LSI e LSN. A WFD fez a divulgação no site da entidade, acerca da
utilização da LSI, em todos os assuntos abordados nas reuniões, principalmente, na defesa dos
direitos linguísticos da comunidade surda enquanto minoria linguística. No mundo inteiro a
WFD e os intérpretes ouvintes de LSN e LSI também das línguas faladas valorizam o intérprete
surdo de LSN ou LSI. Na América do Norte e na Europa há muitos anos acontece o trabalho
dos intérpretes surdos.
Em 1999, em Brisbane, Austrália, 150 intérpretes representantes de 30 países
participaram do Congresso da WFD. Neste encontro, foi estabelecido um grupo de trabalho
para: (i) ampliar o projeto de um estatuto para a criação de uma entidade representativa; (ii)
compartilhar o documento com os participantes do Congresso da WFD e com outros países
contatados; (iii) solicitar cartas formais de associações nacionais de apoio a criação de uma
entidade internacional e; (iv) se preparar para uma nova reunião no congresso de 2003 que seria
realizado em Montreal, no Canadá.
124

Em 23 de julho de 2003, em Montreal, Canadá, durante o 14º Congresso Mundial da


Federação Mundial de Surdos, 60 intérpretes representando 20 nações, juntamente com a
Secretária Geral da WFD, Carol Lee Aquiline, estabeleceram a criação da World Association of
Sign Language Interpreters Wasli (em português brasileiro “Associação Mundial de Intérpretes
de Língua de Sinais”). O representante da África do Sul concordou em sediar a primeira
Conferência da Wasli que aconteceria em 2005 (WASLI, 2020). Foi no congresso mundial da
WFD que começou a presença de intérprete surdo como profissional, e assim, propagou o
intérprete surdo pelo mundo, crescendo bastante até hoje.
A Wasli, entidade representante das associações de intérpretes e tradutores de língua de
sinais no mundo, é parceira da WFD. O Congresso da organizado pela instituição acontece a
cada quatro anos e discute sobre vários assuntos da área profissional, remuneração, ética, perfil,
estudo de tradução e interpretação, formação, avaliação, dentre outros, no mesmo caminho da
WFD, acontecendo na semana anterior desse evento.
Na Europa, a European Forum of Sign Language Interpreters – EFSLI, foi em Bruxelas
(Bélgica), fundada no final de agosto de 1993. O objetivo do EFSLI é oferecer um fórum para
discussão e troca de informações entre seus membros e intérpretes em geral. Portanto, todos os
anos, é organizado um seminário ou conferência que inclui participantes de todas as nações
europeias e convidados de todo o mundo, e também inclui EFSLIDI que é uma rede estabelecida
de intérpretes de surdos na Europa e está sob o comando da Presidente Surda Sofia Isari.
A reconstrução dessa história traz uma nova informação sobre como os intérpretes
surdos transformaram a sua atuação empírica em atividade profissional de intérprete surdo ao
redor do mundo. As associações de tradutor e intérprete de língua de sinais ajudaram a
promover o reconhecimento do profissional de tradutor e intérprete surdo no mundo.
As pesquisas referentes ao intérprete surdo no Brasil ainda são recentes, há uma
quantidade maior e crescente dessas pesquisas fora do Brasil. Os intérpretes surdos de duas
línguas de sinais, especificamente, já trabalham como profissionais no mundo todo há muito
tempo. No Brasil, intérpretes ouvintes iniciaram nas esferas de atuação religiosa, militar,
comercial, ao contrário tradutor e intérprete surdo, que iniciou suas atividades na área da
Educação. A partir da fundação do INES em 1857 que havia o repetidor Surdo, atuando nessa
área. Não encontrarmos registros históricos de interpretação na área religiosa feita por
intérpretes surdo.
125

Conforme Campello (2014, p. 146), “O papel de tradutor e intérprete surdo de Língua


de Sinais Brasileira e seu exercício já vêm desde 1875, quando Flausino Gama69 era “repetidor”
(FELIPE, 2000) na sala de aula do Imperial Instituto de Surdos Mudos […]”. O primeiro
registro de tradutor de Gama, não achamos percurso antes de 1875. O significado de repetidor,
de acordo com o dicionário Aulete online, é “indivíduo que repassa informações que recebeu:
um repetidor de instruções”; “professor que repete as lições aos alunos (AULETE, 2019). De
acordo com Rocha (2007), o repetidor tinha que assistir à aula e depois repetir as lições do
professor aos alunos que tinha sob a sua responsabilidade. Outra definição de repetidor, segundo
Laguna (2015, p. 14) “[...] a atuação do repetidor era similar à de um TILS [tradutor e intérprete
de língua de sinais] e que suas práticas incidem sobre a atuação dos tradutores-intérpretes no
presente”. Assim, o repetidor tem diversas funções de trabalho, tendo a prioridade nas funções
de professor e intérprete, mas também, de acordo Sofiato, realizam mais funções.
Sofiato (2011, p. 49) relatou que “o professor repetidor tinha muitas funções dentro do
Instituto”, Dessa forma, vários autores nomearam essa atividade de muitas funções: de repetidor
pelo instrutor, tradutor, autor, produtor, dentre outros. Então, uma dessas funções de repetidor,
chama-se tradutor, o tradutor/interpretação surdo. Flausino da Gama que fez a tradução de
língua francesa do dicionário de iconografia para português brasileiro. Veja duas imagens dos
sinais (LSF e Libras) na figura 13.

69
Flausino José da Gama era filho de Anacleto José da Costa Gama. Surdo congênito, entrou para o INES no dia
1º. de julho de 1869. Exerceu a função de repetidor no período de 1871/1878. No ano de 1875, Flausino manifestou
desejo, junto ao diretor Tobias Leite, de desenhar o que seria o primeiro dicionário de língua de sinais produzido
no Brasil. O original pertence ao acervo da Biblioteca Nacional. No ano de 1871, quatro anos antes desta
importante realização, constava no relatório enviado ao Conselheiro João Alfredo Corrêa de Oliveira, Ministro e
Secretário de Estado dos Negócios do Império, por Tobias Leite, elogio ao trabalho de Flausino como repetidor,
atribuindo a ele o sucesso obtido pelos alunos. Rocha (2009, p. 42) explica que seu interesse era de ter seus ex-
alunos atuando como professores. O professor repetidor tinha muitas funções dentro do Instituto. Como aponta
Rocha (2007), o repetidor tinha que assistir à aula e depois repetir as lições do professor aos alunos que tinha sob
a sua responsabilidade. Também era de sua incumbência o acompanhamento dos alunos no recreio e o seu retorno
à sala de aula, após o término do mesmo. Além disso, acompanhava os visitantes do Instituto, pernoitava com os
outros alunos, corrigia os exercícios dados pelo professor e fazia a sua substituição quando necessário. Quanto à
sua nomeação, esta ocorria se mostrasse conhecimento e capacidade na disciplina escolhida para tal designação.
Dessa forma, cada disciplina tinha o seu repetidor. Essa atribuição de repetidor remete-nos à atuação dos alunos
no método Lancaster. Consta que essa função foi se modificando devido a alterações regimentais, e que nos
primeiros anos do Instituto era exercida por alunos. De acordo com as informações contidas no Almanak
Laemmert, Flausino iniciou o seu trabalho de repetidor em 1871, aos vinte anos, e teria encerrado suas atividades
em 1878, aos vinte e sete anos de idade.
126

Figura 13 - Tradutor surdo de Flausino José da Gama (1875)

Língua de sinais francesa – LSF Língua brasileira de sinais – Libras


Quadros e Campello (2010). Fonte: Gama (2011, p. 24).

Esse é o primeiro registro histórico que se tem de tradutor e intérprete surdo (Libras e
português brasileiro). Rocha (2009, p. 99) apresentada um breve registro sobre o repetidor de
classe: “dois ex-alunos – INES passaram a ocupar o cargo de repetidor: Flausino José da Gama
no período de 1871/1878 e do seu substituto e Gustavo Gomes de Mattos, no período de
1880/1889”. No ano de 1879 não houve atuação de repetidor surdo. Somente 120 (cento e vinte)
anos depois se voltou a ter registro da atuação de intérprete surdo, mas cabe ressaltar que as
primeiras iniciativas em conferências, como a presença de palestrante surdo estrangeiro, a
presença de intérprete surdo, mesmo em uma esfera profissional, são ações importantes.
Segundo Campello:

Em 1993 há o reconhecimento do uso do Intérprete Surdo da modalidade interlingual


(no sentido de JAKOBSON, 1992)1 no espaço acadêmico. Isso acontece na
Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ, quando foram promovidos os cursos
no pré – II Congresso Latino Americano de Bilinguismo (Língua de Sinais / Língua
Oral) para Surdos. Os cursos elaborados pelos professores Surdos: americano Ken
Mikos e sueco Mats Jonsson foram traduzidos / interpretados pelo intérprete Surdo de
ASL/Libras, Nelson Pimenta de Castro. (CAMPELLO, 2014, p. 146).

Durante a década 1990, poucos eram os intérpretes surdos empíricos que interpretavam
nas conferências, e ainda sem visibilidade. Campello relata que:
127

Também tivemos este tipo de atuação em 2010, por ocasião do V Congresso Deaf
Academics, realizado na UFSC. Nesta ocasião, tivemos vários intérpretes surdos
fazendo a interpretação simultânea da ASL para a Libras, assim como também da LSI
para a Libras. (CAMPELLO, 2014, p. 146-147).

Intérpretes surdos podem realizar a interpretação simultânea ou consecutiva da LSN


para outra LSN ou LSI. A partir do ano de 2010 mais intérpretes surdos passaram a trabalhar
nas várias conferências científicas, e assim começam a ganhar visibilidade e reconhecimento
no Brasil. A maioria desses intérpretes surdos eram os próprios acadêmicos e pesquisadores dos
eventos. Lacerda declara que, “atualmente, a interpretação não está restrita apenas as
negociações diplomáticas como no passado, e o intérprete vem sendo convocado a atuar nas
mais diversas áreas da atividade humana contemporânea (negócios, turismo, eventos científicos
entre outros)” (LACERDA, 2013, p. 17).
Considerando essa breve contextualização, o primeiro registro de intérprete surdo na
interpretação consecutiva intramodal e interlingual de duas LSNs (Libras e ASL vice-versa) foi
no pré-Congresso Latino Americano de Bilinguismo (Língua de Sinais / Língua Oral) para
Surdos no Rio de janeiro. Provavelmente, antes do ano de 1993, havia intérprete surdo de duas
línguas de sinais nas associações de surdos no Brasil por conta dos esportes praticados pelos
surdos, dentre outros. Iinfelizmente, não há registros, mas futuramente outros pesquisadores
podem coletar esses registros.
Faz-se oportuno apresentar registros de intérprete surdo atuando na interpretação-
tradução de português brasileiro para Libras, como acontece, por exemplo nos cursos de Letras
Libras em Educação à Distância – EaD da Universidade Federal de Santa Catarina UFSC e de
outras instituições. A criação do primeiro curso de Letras Libras EaD foi no ano de 2006, onde
os tradutores surdos de português brasileiro para Libras atuaram. Conforme afirma Campello:

As traduções realizadas por Surdos no Curso de Letras Libras EaD e as interpretações


realizadas por Surdos de uma língua de sinais internacional (ASL ou LSI) apresentam
características específicas que diferenciam das traduções e interpretações realizadas
pelos intérpretes de Libras. [...]. No entanto, não há muitas produções nestes campos
de tradução e interpretação de línguas de sinais. Os trabalhos de Segala (2010) e Souza
(2010) são os primeiros a analisar as formas de tradução que se apresentam no
contexto específico do Curso de Letras Libras EaD, da UFSC, em que tradutores
surdos atuam sistematicamente na tradução de todos os textos em que a língua fonte
é a Língua Portuguesa e a língua alvo é a Língua Brasileira de Sinais (Libras).
(CAMPELLO, 2014, p. 144).
128

Vejamos o que aconteceu nos momentos de atuação de tradutor surdo, especificamente


no trabalho de tradução-interpretação entre Libras e português brasileiro para os vídeos dos
DVD de conteúdos teóricos das disciplinas do curso de Letras Libras da UFSC. Conforme
Machado (2016), nos vídeos das disciplinas do curso foram observados empréstimos
linguísticos de LSI para Libras, porque o profissional surdo que fez a tradução, participou como
intérprete várias vezes em evento promovido pela Universidade, em contato com palestrantes
estrangeiros surdos ou ouvintes, e dessa forma, fez uso do empréstimo linguístico.
Os tradutores-intérpretes surdos (Libras e português brasileiro) podem aprender LSI
desde que participem das interações com as pessoas estrangeiras, e tenham aquisição de outra
língua de mesma modalidade. A aprendizagem dessa língua se dá nos mesmos parâmetros da
sua primeira língua, o uso da expressão facial e corporal influencia na aprendizagem das
estruturas das frases, evidenciando a semelhança de duas línguas de sinais. Quando vai trabalhar
como tradutor-intérprete na tradução-interpretação do português brasileiro para Libras,
acontece espontaneamente o empréstimo linguístico de LSI para Libras.
Após a criação do curso de Letras Libras Bacharelado, em 2008, os conteúdos e
discussões relacionados a atuação e/ou currículo de formação do intérprete surdo não foram
abordados de maneira direta. Alguns anos depois, no ano de 2010, participei do 5th Deaf
Academics, na Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis – SC. Estiveram
presentes vários intérpretes surdos fazendo a interpretação simultânea intramodal e interlingual
da ASL para a Libras (e vice-versa), e também da LSI para a Libras (e vice-versa). Essa é uma
marca histórica dessa conferência, que teve mais de 500 inscritos, a maioria eram alunos do
Letras Libras, incluindo eu. Fomos assistir as palestrantes e pudemos observar os intérpretes
surdos de duas línguas de sinais (Libras e LSI) e (Libras e ASL) atuando. Foi importante ver o
intérprete surdo sendo valorizado profissionalmente.
As atividades de tradução e interpretação da pessoa surda de LSN ou LSI tem demandas
em reuniões, sala de aula e conferências, em consequência da barreira linguística existente para
pessoas surdas. Com o crescimento da sociedade, deve-se motivar a presença de tradutor e
intérprete surdo nos vários contextos. São as reflexões elaboradas no campo disciplinar hoje
conhecido como História de Tradutor e Intérprete Surdo de Línguas de Sinais.
Um registro e reconhecimento importante para a atuação do tradutor e intérprete surdo,
e uma marca histórica para o Instituto Nacional de Educação de Surdos - INES, 138 anos depois
de sua fundação, foi registro do tradutor Flausino da Gama, no ano de 2013. A contratação de
profissional tradutor e intérprete surdo por meio de concurso com dois editais abertos (Edital
129

de abertura de concurso público nº 09/201270 e edital nº 29/201371) para concurso público. O


primeiro edital tinha vagas, sendo aprovada uma surda para a função de tradutora e intérprete
de Libras e na segunda vaga foi aprovada outra surda. Provavelmente, há outras instituições
com mais surdos, mas não temos essa informação e, por questão de limitação de tempo para
pesquisa, não iremos coletar esses dados, podem ser objeto de outro(a) pesquisador(a) que tenha
interesse. A realização do concurso é importante e necessária, gerando um modelo a ser seguido
e ampliando o número de vagas para tradutor e intérprete surdo nas instituições públicas e
privadas.
O contexto da história de tradutor e intérprete surdo, teve início com o trabalho do
tradutores e intérpretes surdos de forma empírica e hoje há profissionais com experiências nos
diversos contextos há muitos anos, portanto, o reconhecimento profissional dos tradutores e
intérpretes surdos no mundo desde a década de 1990, e no Brasil a partir do ano de 2010.
Acreditamos que os tradutores e intérpretes surdos começaram os primeiros trabalhos nos
contextos da educação, esportes, das conferências acadêmicas, das conferências de direitos
humanos e da justiça, mídias, dentre outros diversos contextos.

3.2 CENÁRIO DE FORMAÇÃO E ESTUDOS DE TRADUÇÃO E INTERPRETAÇÃO DAS


LÍNGUAS

[...] diz que o trabalho de um intérprete surdo - IS não é


novo: desde quando as pessoas surdas se comunicam
umas com as outras usando a língua de sinais, eles
também têm atuado como mediadores linguísticos.
(ADAM; ARO; DRUETTA; DUNNE; KLINTBER,
2014, tradução nossa).72

O objetivo dessa seção é apresentar sobre a evolução histórica da formação do tradutor


e intérprete de língua. O tradutor e intérprete surdo tem trabalho recente, e há poucos registros.
No entanto, o tradutor e intérprete surdo trabalha transmitindo discursos nas LSN e/ou LSI, na
comunicação entre pessoas surdas, surdacegas e pessoas estrangeiras desde a antiguidade até
os dias de hoje.

70
Disponível em: https://www.concursosnobrasil.com.br/concursos/edital/edital-ines.html.
71
Disponível em: https://www.pciconcursos.com.br/concurso/ines-instituto-nacional-de-educacao-de-surdos-
144-vagas.
72
[…] perspectives on the role and work of DIs vary. One is that DIs are assigned when a client uses his or her
own signs or home signs; uses a foreign sign language; is deaf-blind or has limited vision; uses signs particular
to a region or to an ethnic or age group not known to the non- DI; or is in a mental state that makes ordinary
interpreted conversation difficult (ADAM; ARO; DRUETTA; DUNNE; KLINTBER, 2014).
130

A Política linguística já reconhece as línguas de sinais no mundo. Na América do Sul e


no Brasil há atualmente o reconhecimento profissional de tradutor e intérprete surdo, nesse
sentido, é importante discutir a formação para tradutor e intérprete surdo.
Precisamos resgatar alguns registros da formação e dos estudos de tradução e
interpretação, apontando as implicações advindas da pouquíssima profissionalização de
intérprete surdo nas políticas linguísticas e a estruturação das instituições e entidades
responsáveis pelos tradutores e intérpretes surdo de língua de sinais. Os registros destacam
algumas investigações da formação dos tradutores e intérpretes de língua falada que iniciaram
antes do século XX.
Já no campo da Interpretação e Tradução em Língua de Sinais é recente. A profissão de
tradutor e intérprete de língua sinalizada e língua falada surgiu nos anos 1980 e o tradutor e
intérprete surdo nos anos 2000. Atualmente, a pessoa ouvinte e o surdo que são tradutores e
intérpretes de língua, escolhem as línguas falada ou sinalizada para trabalhar, e decidem se vão
desenvolver competência para a tradução ou para a interpretação.
Iniciamos apresentando a história de formação de tradutores e intérpretes de língua no
mundo. De acordo com Lacerda (2013), os maiores cursos de formação de intérpretes
encontram-se na Europa, espalhados por diversos países. Além dos cursos existentes no Canadá
e EUA. No Brasil, somente na metade do século XX, os cursos de formação de tradutores e
intérpretes ganharam autonomia e se desvencilharam dos cursos de Letras, podendo assim
terem suas áreas de estudo, pesquisa e atuação fortalecidas.
Os estudos na área da Tradução tiveram início na década de 1970 com a criação das
disciplinas Teoria da Tradução e Estudos da Tradução e da Interpretação. Segundo Holmes
(1972, p. 5), no texto The Name and Nature of Translation Studies, distanciou-se das “teorias”
da tradução, que podem não ser apropriadas para uma investigação de textos literários, e cunhou
o termo “Estudos de tradução” para uma abordagem não aliada e nova (Holmes, 1972, p. 5-8).
Igualmente Gentzler (2009), afirma que os estudos sobre tradução superaram todas as
expectativas nos últimos 30 anos. Hurtado Albir (2005) explica que o termo “competência
tradutória” começou a ser utilizado na década de 1980, há pouco tempo atrás na área dos
Estudos da Tradução e Interpretação. A mesma autora diz que: “esses modelos, consoante a
autora, consideram como componentes da Competência Tradutória: conhecimentos
linguísticos, textuais, temáticos, culturais, de documentação etc.” (HURTADO ALBIR, 2005,
p. 23). Para isso, todos os profissionais tradutores e intérpretes de língua, incluindo os tradutores
131

e intérpretes surdos, trabalham estratégias para desenvolver a competência tradutória ou


interpretativa como competência bilíngue.
Sobre a criação da área de Tradução e Interpretação de língua de sinais no mundo, a
Gallaudet University é a única universidade cujos programas são desenvolvidos para pessoas
surdas.73 Nascimento (2016) discute sobre os aspectos significativos e determinantes para o
protagonismo norte-americano na educação de surdos, nas políticas públicas para essa minoria,
nas pesquisas sobre as línguas de sinais e no surgimento da profissionalização e consolidação
do campo de trabalho para tradutores e intérpretes das línguas de sinais em todo o planeta.
Visitei a University Gallaudet no ano de 2014. Nessa visita, conheci o coordenador surdo dos
intérpretes Steven Collins, fui nas duas salas de aula dos intérpretes de língua de sinais: na
primeira, estudavam a disciplina sobre os aspectos relacionados ao guia-intérprete para
surdocegos, e na segunda sala de aula, a disciplina era de filosofia da interpretação.
Winston e Cokely (2009) contam que a primeira organização de registro profissional
para intérprete de língua de sinais - ILS no mundo, o Registry of Interpreters of the Deaf (RID),
foi fundada nos EUA em 1964 e, em 1972 teve o primeiro sistema de avaliação e certificação
para intérprete de língua de sinais do mundo. Logo, essa certificação para intérpretes surdos
oferece a Certified Deaf Interpreter (CID, em português brasileiro “Certificação para Intérprete
Surdo”:

Os detentores desta certificação são surdos ou deficientes auditivos e demonstraram


conhecimento e compreensão da interpretação, surdez, comunidade surda e cultura
surda. Os titulares têm treinamento especializado e / ou experiência no uso de gestos,
mímica, adereços, desenhos e outras ferramentas para melhorar a comunicação. Os
detentores possuem fluência nativa ou quase nativa na língua de sinais americana e
são recomendados para uma ampla gama de tarefas em que um intérprete surdo ou
com deficiência auditiva seria benéfico. Essa credencial está disponível desde 1998.
O processo de certificação do CDI começa com um exame de conhecimento do CDI
de múltipla escolha. Os candidatos são elegíveis para o exame de conhecimento do
CDI se atenderem ao requisito de treinamento de 40 horas. Os candidatos que
passaram no exame de conhecimento dentro de 5 anos e que cumprem os requisitos
educacionais da RID podem, então, fazer o exame de desempenho do CDI. O CDI
Performance Exame é uma avaliação de videocassete.74 (RID, 2019, tradução
Fernando Parente).

73
Está localizada em Washington-DC, capital dos Estados Unidos da América. É uma instituição pública-privada.
Fundada da Universidade de Gallaudet em 1864, já tem 155 anos. A língua de instrução oficial utilizada na
Gallaudet é a ASL, tendo o inglês americano como a segunda língua que circula no espaço acadêmico.
74
Holders of this certification are deaf or hard of hearing and have demonstrated knowledge and understanding
of interpreting, deafness, the Deaf community, and Deaf culture. Holders have specialized training and/or
experience in the use of gesture, mime, props, drawings and other tools to enhance communication. Holders
possess native or near-native fluency in American Sign Language and are recommended for a broad range of
assignments where an interpreter who is deaf or hard-of-hearing would be beneficial. This credential has been
available since 1998. The CDI certification process begins with a multiple-choice CDI Knowledge Exam.
132

Há diferenças entre certificado e certificação, definição de certificado do dicionário


Aulete: “documento que declara algo” (AULETE, 2012, p. 172). A definição de certificação
“ato ou efeito de certificar, afirmar a veracidade de um fato”; “ato ou efeito de certificar-se, de
obter comprovação de que algo é verdade”; “ato de emitir certidão” (AULETE, 2019).
Os EUA começaram o teste de CDI desde 1988, para avaliar o intérprete surdo em testes
de competência interpretativa de fluência nativa em ASL e/ou domínio de ASL para profissional
de intérprete surdo por certificação. Conforme Ferreira:

apenas 213 intérpretes surdos foram localizados com certificação (CDI). Há exames
com 40h, não é uma formação, é somente uma certificação, como o Prolibras. Tem
também a certificação de intérprete surdo em sinais internacionais - SI da WASLI
para avaliação de teses da WASLI. Há três tipos de certificações de CDI (EUA),
Prolibras (Brasil) e WASLI (Internacional), esses não são formação. (FERREIRA,
2019, p. 41).

No Brasil o Decreto Federal nº 5.626/2005 que aponta o exame do Prolibras como


certificação de tradutor e intérprete surdo de Libras para outra LSN de outros países, mas não
fornece certificação para tradutores e intérpretes surdos brasileiros de Libras para outras línguas
de sinais ou LSI (BRASIL, 2005a). Esse exame já tem 15 anos, entretanto, tem certificação de
tradutor e intérprete de Libras para português brasileiro e vice-versa, mas não tem
regulamentação no mesmo decreto para a certificação de tradução e interpretação de outras
línguas faladas.
Falaremos sobre o registro de tradutor e intérprete surdo e o Prolibras na análise de
dados do capítulo 5 de análise de dados na seção 5.3. que trata da legislação de tradutor e
intérprete de língua. É importante a ação de implementar a certificação de tradutor e intérprete
surdo de Libras para outras LSN ou LSI. Há informação sobre o curso de formação do intérprete
surdo no mundo e no Brasil, para alguns autores:

Tornou-se visível que “a nova geração de intérpretes Surdos atualmente [eram] para
profissionais por causa da carência de caminhos para qualificação e regulamentação”
(COLLINS e WALKER, 2006: 20). Além disso, apesar de o papel histórico dos
intérpretes, estar se tornando mais conhecido (STONE, 2009), houve ainda uma
necessidade fundamental de ter um modelo teórico do processo de interpretação do
surdo, que é portanto utilizada no treinamento. (FORESTAL, 2005 apud STONE;
WALKER; PARSONS, 2011, p. 3).

Candidates are eligible for the CDI Knowledge Exam if they meet the 40 hour training requirement. Candidates
who have passed the knowledge exam within 5 years and meet RID’s educational requirement may then take the
CDI Performance Exam. The CDI Performance Exam is a videotape assessment.
133

Por isso precisamos do curso de formação para a aquisição de conhecimentos teóricos e


práticos para o aperfeiçoamento de tradutor e intérprete surdo. Em relação ao âmbito da
formação de intérpretes, a WFD destaca, conforme Nascimento (2016):

Esta entidade se destaca, além da defesa dos direitos comunicacionais e sociais das
comunidades surdas, em relação ao campo da interpretação interlíngue por que
protagoniza à discussão, presença e formação de intérpretes surdos de língua de sinais
que atuam mobilizando diferentes línguas de sinais ou, ainda, interpretando de/para
os sinais internacionais. (NASCIMENTO, 2016, p. 51).

A seguir trazemos informações sobre o histórico dos registros de formações do tradutor


e intérprete surdo na Europa e América do Norte. A primeira formação de tradutor e intérprete
surdo na Europa foi desenvolvida por algumas entidades de/para tradutor e intérprete surdo e
segue padrão ISO que estabelece princípíos de qualidade e ética profissional.
No Reino Unido, pesquisadores britânicos com foco na língua de sinais britânica - BSL
e inglês incluíram língua de sinais irlandensa - ISL e a língua de sinais americana - ASL, com
o objetivo de trabalhar o papel do tradutor e intérprete surdo no trabalho da tradução e
interpretação, conforme Stone, Walker e Parsons (2011):

O Consórcio de intérpretes surdos queria capitalizar sobre as evidências emergentes e


o desejo político para ajudar na formação e cadastramento dos intérpretes surdos.
Nosso objetivo era permitir que praticantes nestes campos alcançassem o
reconhecimento formal como profissionais com relação de igualdade com aqueles que
já podiam ser inscritos. [...] consórcio de intérpretes surdos identificaram três claras
áreas de trabalho dos intérpretes surdos que exigiam ações: - 1ª ação – interpretação
em ambas as direções entre duas línguas de sinais. - 2ª ação – tradução/ interpretação
em única direção de texto em inglês para BSL. - 3ª ação – mudança intralingual.75
(STONE; WALKER; PARSONS, 2011, p. 4, tradução EXTRAD).

Dessa forma, qualquer país que tem profissional de tradutor e intérprete surdo, pode
realizar a adaptação da 2º ação de tradução/interpretação em única direção de texto em língua
falada escrito para língua de sinais de cada país. Mostramos uma das três ações do trabalho do
Consórcio:
1ª ação –interpretação em ambas as direções entre duas línguas de sinais: Aqui, o
papel do intérprete surdo é o mesmo que aquele codificado no NOSI76. Cursos

75
The Deaf interpreter consortium wanted to capitalise on the emerging evidence and political will to support
DIs’ training and registration. Our aim was to enable practitioners in these fields to attain formal recognition as
professionals on an equal footing with practitioners who are already able to register. Previous work undertaken
by the DI consortium had identified three clear areas of DI work that required action: - Action 1 - two-way
interpreting between two sign languages - Action 2 - one way translation/interpreting English text to BSL - Action
3 - intra-lingual modification.
76
National Occupational Standards in Interpreting.
134

garantem qualificações em duas línguas de sinais naturais do Reino Unido (língua de


sinais britânica - BSL e língua de sinais irlandesa - ISL), e há exigência não só para a
interpretação BSL/ISL mas também outras línguas de sinais tal como língua de sinais
americana - ASL. A partir de 2011, a nova qualificação de interpretação foi
credenciada para o QCF (qualificação e estrutura de crédito) e está disponível como
Curso Nível 6, Diploma em Interpretação de Língua de Sinais (INT6). O Consórcio
de intérpretes surdos - ISs é influente no desenvolvimento da qualificação para
garantir que os intérpretes surdos recebam uma oportunidade igual para se tornarem
qualificados, e conquistem um caminho para o registro.77 (STONE; WALKER;
PARSONS, 2011, p. 4, tradução EXTRAD).

O papel do intérprete surdo não é só traduzir da língua de sinais britânica - BSL para
língua de sinais irlandesa - ISL, pode também traduzir para língua de sinais americana - ASL,
Dessa forma, o intérprete surdo brasileiro não traduz só da Libras para língua de sinais
internacional - LSI, pode também traduzir da ASL ou de outra língua de sinais nacional -LSN.
Portanto, todos os intérpretes surdos podem ter diferentes domínios das línguas de sinais e
diferentes competências interpretativas, não é qualquer língua de sinais para interpretar, pois é
necessária a formação profissional competência tradutória e interpretativa. Buscamos as
entidades e instituições públicas e privadas para identificar os cursos de formação do intérprete
surdo. Na Inglaterra, tem curso de intérprete de língua de sinais:

Cursos aprovados para intérprete de língua de sinais. Para se tornar um intérprete de


língua de sinais registrado, você precisa mostrar que é altamente qualificado em uma
língua sinalizada como língua de sinais britânica - BSL, língua de sinais irlandesa -
ISL, ou língua de sinais americana - ASL, e numa segunda língua, que pode ser outra
língua sinalizada ou uma língua oral. Uma dessas línguas deve ser nativa do Reino
Unido ou da Irlanda. Você deve possuir uma dessas qualificações de interpretação.78
(NRCPD, 2019, tradução Fernando Parente).

Os tradutores e intérpretes surdos britânicos têm curso de interpretação de línguas de


sinais para a tradução de línguas, como a língua de sinais britânica - BSL, língua de sinais
irlandesa - ISL ou língua de sinais americana - ASL, e também tem curso de interpretação da
BSL para o inglês britânico79. No curso MA Interpreting da Universidade de Wolverhampton,
não encontramos registro de pessoa surda que fez o curso.

77
Action 1 – two-way interpreting between two sign language. Here the role of the Deaf interpreter is the same as
that codified in the NOSI. Signature awards two language qualifications for sign languages indigenous to the UK
(BSL and ISL), and there is demand not only for BSL/ISL interpreting but also other sign languages such as ASL.
As of the year 2011, the new interpreting qualification has been accredited to the QCF and is available as the
Signature Level 6 Diploma in Sign Language Interpreting (INT6). The Deaf interpreter consortium has been
influential in the design of the qualification to ensure that DIs are given an equal opportunity to become qualified,
and gain a route to registration.
78
Approved courses for sign language interpreter. To become a Registered Sign Language Interpreter you need
to show us that you are highly skilled in a signed language like BSL, ISL or ASL and second language that can be
another signed language or a spoken language. One of those languages must be native to the UK and Ireland. You
must hold one of these interpreting qualifications.
79
Veja link: https://www.nrcpd.org.uk/approved-courses.
135

Na Alemanha, há o curso de Formação Profissional Universitária de Intérprete Surdo


da Universidade Hamburgo, que já está na terceira turma. Terá a quarta turma no ano de 2020,
com foco no tradutor e intérprete surdo de língua sinalizada e língua falada escrita, com duração
de dois anos, e inclui teorias e prática, com portfólio e avaliação como teste.
Na Áustria, o modelo de curso é o mesmo do curso da Universidade Hamburgo, muda
apenas o nome, Curso Universitário Interpretação e Tradução na Universidade Salzburg, esse
curso universitário é para estudantes surdos e ouvintes, com o objetivo de formar profissional
intérprete e tradutor para a Österreichische Gebärdensprache - OGS (em português brasileiro,
língua de sinais austríaca), sinais internacionais e alemão.
Em outros países da Europa, como a Finlândia, a Alemanha e a Escócia, conforme
Hessmann et al (2011) fizeram parceiras para ofertar uma pós-graduação internacional que visa
contribuir para o desenvolvimento do campo profissional de interpretação entre pessoas surdas
e ouvintes, chamada EUMASLI (European Master in Sign Language Interpreting). Esse
programa é uma colaboração entre três universidades: 1) Magdeburg-Stendal University of
Applied Science (Alemanha); 2) Humak University of Appl ied Sciences (Helsinque e Kuopio,
Finlândia); e 3) Heriot -Watt University (Edimburgo, Escócia). Os programas desses três países
foram positivos para o curso de formação de tradutor e intérprete de língua e para o
desenvolvimento das línguas de sinais e sinais internacionais.
Ainda na Europa, no ano de 2011 na Polônia, um país europeu central teve um curso de
treinamento sob demanda no EFSLI (European Forum of Sign Language Interpreters) em 2011,
que reuniu os intérpretes surdos e os intérpretes ouvintes no curso de formação (HUMMEL;
KALATA-ZAWLOCKA, 2014, p. 15 apud GRANADO, 2019 p. 39). Pensamos que todos
aprenderam muitas informações novas relacionadas às boas práticas em termos de cooperação
entre os intérpretes ouvintes e os intérpretes surdos. Os formandos tiveram uma oportunidade
de adquirir este conhecimento não só com a base em apresentações teóricas, mas também em
uma disciplina das atividades práticas. Antigamente, tinha a formação somente de candidatos
ouvintes, com o tempo os tradutores e intérpretes surdos, candidatos surdos, passaram a
participar juntamente com os ouvintes.
O projeto Developing Deaf Interpreting – DDI (traduzido para o português brasileiro
“Desenvolvendo a Interpretação de Surdos”), apoiado pelo programa Erasmus+, tem cinco
parceiros nas universidades da Europa e Organização Não-Governamental - ONG. O objetivo
do projeto é: “desenvolver um levantamento de intérpretes na Europa, realizaremos vários
136

estudos de interpretação de surdos, estes devem criar mais conhecimentos e compreensão da


profissão, e desenvolveremos um conjunto de recomendações para um currículo para a
formação de intérpretes surdos”80 (DDI ERASMUS, 2018, tradução nossa). Esse projeto
começou em 2016, realizando pesquisas sobre esse campo de atuação. O relatório finalizado
em dezembro do mesmo ano forneceu uma visão geral da situação atual da profissão de
intérprete surdo na Europa. Os dados levantados foram: i) o número de intérpretes surdos em
cada país; ii) oportunidades de formação para os intérpretes surdos em cada país; iii) o trabalho
realizado por intérpretes surdos; iv) o acesso dos intérpretes surdos às Associações Nacionais
dos Intérpretes de Língua de Sinais e; v) reconhecimento da profissão de Intérpretes Surdos
(GRANADO, 2019, p. 43).
Os membros do projeto DDI foram buscar dados na maioria dos países da Europa,
mostrando o reconhecimento dos Intérpretes Surdos como profissionais. Segundo Granado,

Este reconhecimento varia de país para país e as três normas seguintes parecem ter
um forte impacto no nível de reconhecimento e consciência da interpretação de surdos
como uma profissão: 1) uma educação formal, com intérpretes públicos, para os
estudantes surdos; 2) um sistema público de registro ou autorização de intérpretes
surdos; e 3) financiamento público da interpretação de surdos. Este projeto coletou
dados de diversos países, resultando em seis: Áustria, Estônia, Finlândia, França,
Alemanha e Reino Unido, sendo que todos têm as três normas do sistema da
interpretação para os surdos. (GRANADO, 2019, p. 43-44).

Apresentação do quadro dos níveis de reconhecimento à profissão dos intérpretes surdos


da citação da cima. Veja o quadro 8:

Quadro 8 - Reconhecimento dos Intérpretes Surdos como Profissionais


Grau baixo de Reconhecimento bom Alto grau de
Sem reconhecimento
reconhecimento (ponto certo) reconhecimento
Não há/pouquíssimo Os países desta categoria Os países desta categoria Os países desta categoria
financiamento destinado dispôem de algum têm: financiamento têm: financiamento
à interpretação de financiamento destinado público de interpretação público de interpretação
surdos, sem formação, à interpretação de surdo de surdos, têm/tinham de surdos, oportunidades
sem registro. e/ou registro de oportunidades de de formação
intérpretes surdos. formação para os estabelecidas para
intérpretes surdos; e/ou intérpretes surdos e
registro de intérpretes registro de intérpretes
surdos. surdos.
Grécia Sérvia Dinamarca Áustria
Hungria Bélgica Noruega Finlândia
Itália Holanda França Alemanha
Croácia República Theca Islânia Reino Unido

80
We will carry out a survey of the situation of deaf interpreters in Europe, we will undertake several studies of
deaf interpreting that should create more knowledge and understanding of the profession, and we will develop a
set of recommendations for a curriculum for deaf interpreter training.
137

Letônia? Polônia Suécia Lituânia


Rússia? România Irlanda Estônia
Malta Espanha Portugual
Geórgia Eslovênia
Suiça
Fonte: Lindsay (2016 apud GRANADO, 2019, p. 44).

Analisamos o quadro, há 31 (trinta e um) países da Europa, os dados da pesquisa que


foram coletados mostram o número de intérpretes dos 28 (vinte e oito) países europeus. Há, no
mínimo, 190 (cento e noventa) e, no máximo, 310 (trezentos e dez) intérpretes surdos que estão
trabalhando recentemente. Os três principais países (Alemanha, França e Reino Unido) têm
maiores números de intérpretes surdos, com mais de 16 intérpretes surdos (GRANADO, 2019,
p. 45).
Nos países da América do Norte, em especial nos EUA, a equipe dos intérpretes surdos
do National Consortium of Interpreter Education Centers (NCIEC) levantou a quantidade dos
intérpretes surdos em 2007, em diversas áreas de interpretação – totalizando 197 (cento e
noventa e sete) profissionais. É importante coletar a quantidade de tradutores e intérpretes surdo
no Brasil e na América do Sul. Isso mostra ao mundo as informações sobre tradução,
intepretação, política linguística e comunidade surda (BRÜCK; SCHAUMBERGER, 2014
apud GRANADO, 2019, p. 45).
Precisamos fazer o registro de tradutor e intérprete surdo na América do Sul, mas
infelizmente não há entidade sulamericana que represente esse profissional. É necessária,
portanto, a implementação de um projeto para o reconhecimento de tradutor e intérprete surdo
nessa região. Só existe o registro de um intérprete surdo, que chama-se Juan Carlos Druetta. É
um profissional argentino com certificação e reconhecido pela Wasli, único na América do Sul.
Não encontramos bibliográficas sobre registros de quantidades de tradutor e intérprete surdo
nessa região logo, há somente no Brasil, a quantidade registrada de 31 (trinta e um) intérpretes
surdos intramodal e interlingual de Libras para outra LSN e LSI, e 109 (cento e nove)
certificações de Prolibras de tradutor e intérprete surdo de Libras para português brasileiro, e
vice-versa.
Reis (2013) diz que considera que a atuação de Intérpretes Surdos de Sinais
Internacionais vem acontecendo no Brasil há alguns anos, contudo ainda como voluntários e
sem reconhecimento profissional. Depois de 2013 o reconhecimento do profissional intérprete
surdo vem acontecendo, a atividade passa a ser remunerada, não apenas a interpretação da
138

língua de sinais internacional - LSI, mas também das várias línguas de sinais nacionais LSN e
língua de sinais regionais em diversos contextos.
No Canadá, Stone e Russell (2011) dizem que os intérpretes surdos são reconhecidos
em uma interpretação entre duas línguas (ASL – American Sign Language e LSQ – Langue de
Signes Quebecoise). Canadá é um país bilíngue, possui duas línguas faladas oficiais, que são:
o inglês canadense e o francês canadense; possui também duas LSNs, são elas: ASL canadense
e LSQ. Há o registro de 40 intérpretes surdos.
No Uruguai, surgiu no ano de 2009, cursos de formação para intérprete e tradutor de
LSU (língua de sinais uruguaia) e espanhol, curso de Tecnicatura Universitaria en
interpretación Lengua de Señas Uruguay – TUILSU (traduzido em português brasileiro
“Técnica Universitária em Interpretação Língua de Sinais Uruguaia”) e o curso Tecnólogo en
interpratación y traducción LSU - Espanhol da Facultad de Humanidades y Ciências de la
Educación da Universidad de la Republica (traduzido em português brasileiro “Tecnólogo em
Interpretação e Tradução LSU - Espanhol da Faculdade de Humanidades e Ciências da
Educação da Universidade da República”. Esses cursos são para candidatos surdos e ouvintes.
Em 2017, no III Encontro Latino-Americano de Tradutores e Intérpretes de Língua de
Sinais e Guia-Intérpretes para surdocego, ocorrido no Panamá, a WASLI e outras instituições
parceiras elaboraram um documento – uma declaração, sobre a formação de intérprete surdo.
Participaram desse encontro alguns delegados brasileiros da Federação Brasileira das
Associações dos Profissionais Tradutores e Intérpretes e Guia-Intérpretes de Língua de Sinais
(Febrapils). Nesse documento consta que “Incentivarão a formação de tradutores e intérpretes
surdos de língua de sinais em seus respectivos países e sua participação nas organizações
membros da Wasli na América Latina e no Caribe.” (Wasli, 2017), oportunidade de promover
cursos de formação para tradutor e intérprete surdo de língua de sinais.
No Brasil, conforme Martins (2007, p. 173, “os cursos destinados a preparar tradutores,
que começaram a surgir no Brasil a partir do final dos anos 1960, são até hoje genericamente
denominados ‘cursos de tradução’. Os primeiros registros de cursos de formação para
tradutores/intérpretes de línguas orais no Brasil datam no final da década de 1960 e em
programas de formação de intérpretes que encontravam-se na Pontifícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro (PUC - RJ) e na Associação Alummi, em São Paulo.
Mais tarde, surgiram cursos que articulavam a formação de tradutores e intérpretes,
como o da Faculdade Ibero-Americana (atualmente Unibero), em São Paulo. Destaca-se ainda
a criação, em 1999, do Curso de Formação de intérpretes de Conferência de Língua Inglesa da
139

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC - SC). Há diversos cursos de tradutor e
intérprete oferecidos no Brasil por universidades, muitos com autonomia, outros vinculados a
cursos de Letras (LACERDA, 2013).
Estudos interessados em conhecer o estado da arte sobre as pesquisas na área de
Tradução e Interpretação no Brasil indicam que, nas décadas entre 1980 e 2000, as produções
acadêmicas foram tímidas, mas importantes, porque revelam interesse crescente por essa área,
com estudos qualificados desenvolvidos em programas de mestrado e doutorado (PAGANO;
VASCONCELOS, 2003). Então, a criação do Programa de pós-graduação stricto sensu em
Estudos da Tradução da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), surgiu no ano de
2004.
As autoras Pagano e Vasconcelos (2003) ilustram que “no mapa proposto pelas
pesquisadoras81, a tradução/interpretação de língua de sinais ainda não é mencionada.”
(SANTOS, 2013) fez o mapeamento da produção acadêmica brasileira da área de tradutor e
intérprete de língua de sinais, o título de sua tese é “Tradução/Interpretação de língua de sinais
no Brasil: uma análise das teses e dissertações de 1990 a 2010”. Em sua pesquisa, a
pesquisadora não menciona dissertações e teses na área de tradutor e intérprete surdo nesse
período.
Ferreira (2019, p. 46) levantou quantos “surdos na pós-graduação em Estudos da
Tradução da – PGET da UFSC, Nível de Mestrado são 7 MATRICULADOS e 20 EGRESSOS
e nível de Doutorado são 6 matriculados e 1 doutorado.” Recentemente, formou-se mais um
doutor, agora são 2 (dois) doutores formados na PGET. Encontramos somente duas (2)
dissertações de pessoas surdas mestres da PGET, são pesquisas sobre o intérprete surdo
intramodal e interlingual em duas línguas de sinais, mas essa tese não foi mencionada
anteriormente. Provavelmente a nossa pesquisa seja a primeira tese sobre o intérprete surdo de
duas ou mais línguas de sinais. O mesmo autor, em outro levantamento de surdos na POET em
nível de mestrado: 2 matriculados e 2 egressos, nenhum em nível de doutorado. A quantidade
de surdos na PROSTRAD em nível de mestrado tem 9 matriculados e 1 egresso e na TRADUSP
não há registro de surdos matriculados ou formados.
Buscamos o registro de autores surdos formados, mestres e doutores, na área de tradução
ou interpretação no período de 2010 a 2019, nos Programas de Pós-graduação em quatro

81
PAGANO, A.; VASCONCELLOS, M. L. B. Estudos da Tradução no Brasil: reflexões sobre teses e dissertações
elaboradas por pesquisadores brasileiros nas décadas de 1980 e 1990. Revista Delta, v. 19, São Paulo, 2003.
140

universidades públicas federais que ofertam mestrado e doutorado82. Apresentamos um total de


23 mestres e dois doutores surdos, 18 mestrandos e 2 doutorandos na área de Estudos da
Tradução até hoje. Apesar de encontradas poucas referências sobre a formação do tradutor e
intérprete surdo intramodal no Brasil, é possível entender, com base nas considerações dos
autores apresentados acima o quanto é importante a divulgação das informações para a
sociedade e no meio acadêmico. Percebemos que, nos últimos anos, as pesquisas com a
tradução e interpretação de Libras e português brasileiro estão aumentando no campo dos
Estudos da Tradução, principalmente, tratando do par linguístico Libras e LSN ou LSI, embora
os estudos sejam recentes. Há outras formações de pós-graduação, de acordo com Lima:

No nível Superior, temos ainda os cursos de pós-graduação, que se dividem em Lato


Sensu - especializações e stricto sensu – mestrado e doutorado. No nível stricto sensu,
ainda não há programas de pós-graduação específicos em Libras; contudo, nos
programas das áreas de Linguagem, Linguística, Linguística Aplicada e Estudos da
Tradução e afins, encontramos várias pesquisas realizadas que tratam da Tradução e
Interpretação de línguas de sinais. (LIMA, 2018, p. 56).

De acordo com Campello (2004), o primeiro curso de Pós-Graduação em Estudos da


Tradução iniciou em 200483 na Universidade Federal de Santa Catarina, no qual teve a única
turma para alunos surdos (incluindo eu) onde foi ofertada a disciplina “Tópicos Especiais:
Seminário em prática da Interpretação (2017)” com a Profª. Dra. Flaviane Reis e Prof. Dr.
Markus J. Weininger. Aconteceram discussões teóricas sobre o intérprete surdo e intérprete
surdo de duas língua de sinais, no âmbito da Epistemologia. As pesquisas sobre o intérprete
surdo são crescentes e importantes para fomentar as discussões sobre a formação do intérprete
surdo. O avanço das pesquisas na áreas de Tradução e Interpretação de língua de snais e outros
campos das línguas faladas é uma conquista, como afirma Nogueira (2016):

Temos visto, nos dias atuais, uma aproximação dos ILSs com os ILOs, não só em
questões relacionadas à profissão, mas também em um novo cenário, isto é, o de
pesquisas e a filiação dessas pesquisas ao campo dos Estudos da Tradução. Como
podemos perceber nos últimos eventos realizados pela Associação Brasileira de

82
A existência de programas de pós-graduação em Estudos da Tradução em quatro universidades federais: (i)
Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução (PGET) — mestrado e doutorado —, da Universidade
Federal de Santa Catarina (UFSC); (ii) Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução (PROSTRAD) —
mestrado —, da Universidade de Brasília (UnB); (iii) Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução
(POET) — mestrado —, da Universidade Federal do Ceará (UFC); e (iv) Programa de Pós-Graduação em Estudos
da Tradução (TRADUSP) — mestrado e doutorado —, da Universidade de São Paulo (USP) (FERREIRA, 2019,
p. 46).
83
Entrevista concedida para o Projeto ACATILS – Associação Catarinense de Tradutores e Intérpretes de Língua
de Sinais no vídeo de Youtube, Silvana dos Santos e Ana Regina e Souza Campello, disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=V-UjNz-8zDw
141

Tradutores e Intérpretes (Abrates) e a Associação Brasileira de Pesquisadores em


Tradução (Abrapt), que contaram com apresentações e espaços relacionados à
tradução e interpretação de Libras. (NOGUEIRA, 2016, p 44)84.

As associações brasileiras são importante para o desenvolvimento do trabalho dos


intérpretes de línguas de sinais e intérpretes de línguas orais e contribuem com o
aperfeiçoamento científico e acadêmico desses profissionais. Além das associações, temos
também o sindicato para tradutores e intérpretes como o SINTILSP – Sindicato dos Tradutores
e Intérpretes de Libras e Língua Portuguesa do Estado de São Paulo.
Em 2014, a Profª. Dra. Ana Regina de Souza e Campello, fundadora presidente da
Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (doravante Feneis), foi entrevistada
pela Profª. Dra. Silvana dos Santos Aguiar, membro da Associação Catarinense de Tradutores e
Intérpretes de Língua de Sinais (doravante ACATILS). Ela contou a trajetória histórica dos
intérpretes de língua de sinais no Brasil (2014, tempo do vídeo 10:48 a 12:1185).
No fim da década de 1980, a Feneis organizou o I Encontro de Intérpretes do Brasil.
Nesse encontro, que aconteceu no ano de 1988, foi criado o departamento de tradução e
interpretação de língua de sinais da Feneis, instituição que, na época, tinha como diretora
Ronice Müller de Quadros. Ainda neste encontro, foram criadas as primeiras propostas de
código de ética e de tabela de honorários. Nessa época, não havia legislação, nem formação
específica para tradutores intérpretes de Libras, dessa forma, para reconhecer o tradutor e
intérprete de língua de sinais, a Feneis realizava avaliações através de bancas, formadas por
surdos, geralmente diretores da Feneis, que reconheciam ou não os usuários da Libras como
fluentes ou não na língua de sinais e os atribuía o status de tradutores e intérpretes da Libras.
Alguns anos depois da criação do setor, a partir de movimentos dos intérpretes de Libras,
foram criadas algumas associações de tradutores e intérpretes de língua de sinais em alguns
Estados do Brasil, primeiro houve a criação da Associação de Tradutores e Intérpretes de Língua
de Sinais de São Paulo. Segundo Santos e Zendamela,

os movimentos em torno das entidades representativas de tradutores e intérpretes de


línguas de sinais tiveram início no ano de 2004, no qual foi criada da Associação dos
Profissionais Tradutores/Intérpretes e Guia-intérpretes de línguas de sinais do Estado
de São Paulo, fundada por Ricardo Sander. (SANTOS; ZENDAMELA, 2015, p. 110).

84
O autor usa ILSs para indicar “Interpretação de Línguas de Sinais” e ILOs para “Interpretação de Línguas Orais”.
85
Entrevista concedida para ACATILS. CAMPELLO, Ana Regina de Souza e. Entrevista I. [jul. 2014].
Entrevistador: Silvana Aguiar dos Santos. Florianópolis, 2014. 1. Florianópolis: ACATILS, 2014.
142

Depois outras associações de tradução e interpretação de língua de sinais surgiram no


Brasil. No ano de 2007 aconteceu outro Encontro Nacional de Tradutores e Intérpretes de
Língua de Sinais, onde surgiu a proposta para a criação da Febrapils (Federação Brasileira das
Associações dos Profissionais Tradutores e Intérpretes e Guia-Intérpretes de Língua de Sinais)86
e no início de agosto de 2008 foi criada a Federação. Após a criação da Febrapils, outras
associações de tradutores e intérpretes de língua de sinais foram criadas e filiadas a Febrapils.
Agora a Feneis e a Febrapils têm uma parceria, conforme estabelece o texto a seguir:

Carta de Parceria Feneis e Febrapils Durante a Assembleia Geral Ordinária da


Febrapils, realizada no Instituto Singularidades, na cidade de São Paulo, nos dias 18
e 19 de junho de 2016, foi firmada a parceria entre Feneis e Febrapils com o objetivo
de construir, em conjunto, estratégias que revertam em benefícios para tradutores,
intérpretes e guia-intérpretes, assim como das pessoas surdas e surdocegas; além de
difundir e dar visibilidade ao par linguístico Libras – Português. (FEBRAPILS, 2016).

Como vimos, as associações de tradutores e intérpretes são uma conquista para a


comunidade surda, elas trabalham em parceria com as entidades de surdos na luta de uma
direitos linguísticos para as pessoas surdas e surdocegas em todos os contextos, também
contribuem para o reconhecimento do profissional tradutor e intérprete ouvinte e surdo de
língua de sinais. Apresentamos na figura abaixo, as 15 (quinze) associações de tradutores e
intérpretes de língua de sinais no Brasil:

86
É uma entidade profissional autônoma, sem fins lucrativos ou econômicos, fundada em 22 de setembro de 2008,
de duração indeterminada, com personalidade jurídica de direito privado, qualificável como de interesse público e
pertencente ao território brasileiro.
143

Figura 14 - Associações de tradutores e intérpretes de língua de sinais do Brasil

Fonte: Site de Febrapils (2019).

Estas 15 (quinze) associações de tradutores e intérpretes de língua de sinais expostas


nesse quadro são as associações ativas no Brasil no ano 2019. Alguns tradutores e intérpretes
surdos são sócios nas associações de intérpretes e filiados a Febrapils. Algumas delas, em
parceria com a Febrapils ofertam cursos técnico ou de formação continuada para tradutores e
intérpretes de língua de sinais e português brasileiro para promover a qualidade na formação
profissional. A Febrapils fez esse mapeamento nacional em 2019, através de um questionário,
com o objetivo principal de obter um mapeamento que apresente dados gerais e atuais da
categoria de tradutores e intérpretes e guia-intérpretes atuantes no Brasil.
A formação do tradutores e intérpretes de língua de sinais e português brasileiro vem
aconteendo na atividade prática e aos poucos são oferecidos os cursos voltados para formação
inicial ou continuada. A Feneis tinha cursos para formação de tradutores e intérpretes de língua
de sinais, no entanto não ofertava curso de formação pra tradutores e intérpretes surdos, mesmo
sendo uma entidade de surdos. A maioria dos intérpretes surdos pratica a interpretação nas
conferências e esses mesmos intérpretes surdos oferecem cursos de SI (hoje língua de sinais
internacional) e ASL para alunos interessados em aprender essas línguas de sinais para a
comunicação com estrangeiros, porém, infelizmente não tem curso para a formação de
tradutores e intérpretes surdos.
144

Essa vivência prática de modos de versar de uma língua para outras, deve somar à
formação teórica sobre as línguas, sobre aspectos linguísticos e culturais entre outros
(PAGURA, 2003). A formação na área de interpretação de línguas de sinais para a formação de
tradutor e intérpretes surdos de língua de sinais para outra língua de sinais necessitaria acontecer
pela prática de interpretar, constituída a partir de experiências e de conhecimentos teóricos de
intérpretes surdos de língua de sinais para outras línguas de sinais no Brasil e no mundo. Um
surdo pode ser um bom intérprete desde que se forme para tal e desenvolva atividades que o
capacitem continuamente. Conforme Denmark, (2007 apud STONE et al (2012) diz que:

Os surdos têm sido capazes de alcançar qualificações de língua de sinais em um nível


profissional, como o exame inicial Fase III (1982 – 1987), que incluiu alguns de
interpretação e tradução. Naquela época essa qualificação permitiu que alguns
intérpretes surdos cadastrassem-se como meio profissionais (intérpretes estagiários
registrados), apesar de não haver uma proposta de progressão para o estatuto
profissional completo. (DENMARK, 2007 apud STONE et al, 2012, p. 1).

Como já dissemos, o intérprete surdo profissional é recente no Brasil, porém vem


atuando de forma empírica e voluntária, e alguns já são formados em cursos graduação e pós-
graduação em Estudos da Tradução.
Discutimos até aqui sobre a formação de tradutores e intérpretes surdos de línguas de
sinais e sobre quais os desafios devido aos poucos registros e informações. É necessário
pensarmos e desenvolvermos cursos de formação que levem em consideração essa categoria
profissional, pensando o perfil, o currículo e a sua condição de atuação. A contratação e
remuneração também são importantes, além do surgimento de políticas linguísticas que
estabeleçam a criação de programas de formação de intérpretes surdos de língua de sinais para
outra língua de sinais. É urgente se fazer propostas para a formação de intérpretes surdos de
duas línguas de sinais para as instituições, contemplando os contextos de conferências, justiça,
que aconteçam em todas as regiões do país, inclusive em cidades pequenas, tornando a língua
acessível e facilitando uma comunicação sem barreiras linguísticas.

3.3 TERMINOLOGIA DO TRADUTOR E INTÉRPRETE DE LÍNGUA E ATUAÇÃO DO


TRADUTOR E INTÉRPRETE SURDO

O tradutor é livre para expressar o sentido do original


em qualquer estilo e variedade idiomática que escolher?
Ronald Knox ([199-] apud STENIER 2004, p. 261)

O termo “Tradutor e Intérprete de Língua” (TIL) já é uma nomenclatura cristalizada,


145

podendo indicar a atuação tanto com a língua sinalizada ou a língua falada. No entanto, em
nossa pesquisa, nós escolhemos trabalhar com o termo intérprete surdo de LSN ou LSI, dessa
forma, utilizamos a nomenclatura intérprete surdo de língua de sinais para outra língua de sinais
especificamente para a escrita desta tese.
Há diferenças nas funções do tradutor e intérprete de língua da pessoa surda e da pessoa
ouvinte. Quem trabalha como intérprete ou tradutor de língua (surdo ou ouvinte) são designados
pelo mesmo termo (tradutor e intérprete de língua), porém, as funções desenvolvidas por eles
são diferentes e específicas a cada um, de acordo com a necessidade de modalidade de língua.
O conhecimento de mundo adquirido por meio de estudo, ciência é importante para a
compreensão dos significados e conceitos, não somente o conhecimento, mas também a
aprendizagem de uma área específica. As primeiras diferenciações entre o conceito de tradutor
e intréprete surdo e tradutor e intérprete ouvinte (ou intérprete não-surdo – INS), foram feitas
por Stone (2009). O autor argumenta que “estas diferenças podem identificar se o
intérprete/tradutor surdo empreende o mesmo trabalho, um trabalho diferente, ou define o papel
de um intérprete ‘surdo’ como diferente dos intérpretes ‘ouvintes’ (STONE, 2009, p. 80). Então,
a diferença entre intérpretes ouvintes e surdos está nas influências das diferentes culturas e
culturas surdas, identidades e relação com suas línguas nativas (sinalizada e falada).
Pagura (2003) defende a ideia da diferença entre a atuação do tradutor e do intérprete,
embora discuta que ainda é bastante comum encontrar referências ao “tradutor/intérprete”,
termo presente em alguns documentos oficiais da década de 1970 no Brasil. No entanto, os
trabalhos teóricos sobre tradução são vários, e os sobre interpretação estão em menor número.
A diferença entre tradução e interpretação é que, na tradução é feita a conversão de um texto
escrito em outro texto escrito, e na interpretação o intérprete é parte de uma comunicação oral
(língua falada ou língua sinalizada) para outra comunicação oral (falada ou sinalizada).
Schleiermacher que aponta que é no Império Romano que os estudos sobre tradução começam,
quando os tradutores pesquisavam sobre a língua estrangeira (língua-alvo), “mergulhando
nela”, a fim de que a mensagem pudesse ser compreendida (SCHLEIERMACHER, 1992).
Sob a perspectiva desse autor, os intérpretes surdos terão de mergulhar na língua de
sinais nacional (LSN) e língua de sinais internacional (LSI) para serem capazes de traduzir outra
LSN ou LSI, essa tradução possibilitará que o surdo, usuário da tradução, entenda a língua e o
conhecimento transmitido. Acreditamos que a investigação sobre o intérprete surdo de língua
de sinais para outra língua de sinais nas pesquisas é essencial para a questão da interpretação
146

entre línguas de sinais, além de ser importante também para aprofundar questões acerca da
profissionalização do intérprete, evidenciando questões sobre a sua atuação e ao seu perfil
profissional.
Na tradução-interpretação o tradutor-intérprete pode transformar um texto escrito em
outra comunicação oral (língua sinalizada e língua falada). De acordo com Quadros (2004, p.
20): “Tradutor-intérprete de língua de sinais - Pessoa que traduz e interpreta a língua de sinais
para a língua falada e vice-versa em quaisquer modalidades que se apresentar (oral ou escrita)”.
A maioria dos tradutores e intérpretes surdos brasileiros realizam traduções-interpretações
intermodal e interlingual de português brasileiro para Libras mais do que traduções e
interpretações intramodal e interlingual. De acordo com Rodrigues (2013):

O intérprete, diferentemente do tradutor, precisa dar conta de uma série de


processos simultânea e ininterruptamente. Vale destacar, também, o fato que o
domínio do texto oral e do texto escrito pressupõe diferentes habilidades, sendo
que o intérprete precisa não somente conhecer a língua, mas dominar as
sutilezas, nuances e especificidades da expressão oral das línguas em que atua,
ainda que não domine bem a escrita dessas línguas. (RODRIGUES, 2013, p.
38).

O autor explica as diferenças de tradução e interpretação, de forma que o intérprete


surdo trabalha com a interpretação sinalizada entre língua de sinais. Na figura 15 apresentamos
a um esquema elaborado por Pereira sobre tradução e interpretação (2008, p. 137):

Figura 15 - Diferença entre tradução e Interpretação

Fonte: Pereira (2008, p. 137).

Na imagem acima, percebemos as diferenças da tradução que tem como língua meta a
escrita e da interpretação que tem por língua meta a língua falada ou língua sinalizada. Nogueira
(2016) reúne diversas características da tradução e da interpretação. Vejamos no quadro abaixo:
147

Quadro 9 - Tradutores e Intérpretes


Tradutores
Possuem uma quantidade maior de tempo; podem recorrer ao texto base na língua-fonte quantas
vezes for necessário: podem revisar o trabalho de tradução, retomando partes já traduzidas em
qualquer momento, pois, normalmente o texto a ser traduzido está na modalidade escrita ou em
algum outro suporte que possibilita a retomada de determinadas partes ou do texto completo; podem
adiantar a tradução, antecipando partes mais complexas, a fim de posteriormente resolver problemas
tradutórios ou adiantar a leitura do texto visando compreender o objetivo do autor; podem recorrer
a materiais de apoio diversos, como dicionários, enciclopédias, texto paralelos, especialistas e, até
mesmo, outros colegas tradutores.
Intérpretes
Necessitam tomar muitas decisões imediatas em relação ao sentido do texto e as escolhas lexicais;
normalmente estão próximo ao locutor do discurso, pois os intérpretes trabalham com a oralidade; a
primeira produção dos intérpretes normalmente é a produção final; dificilmente conseguem fazer
correções que não sejam percebidas pelo público alvo; normalmente, não recorrem ao uso de
materiais de apoio durante a interpretação; frequentemente, existe um período de preparação antes
do ato da interpretação.
Fonte: Nogueira (2016, p. 38).

Nas reflexões do quadro acima, podemos relacionar a atividade do tradutor e intérprete


surdo brasileiro ou estrangeiro que trabalha com a tradução-interpretação intermodal e
interlingual. Por exemplo, a tradução do texto de português brasileiro escrito para interpretação
a Libras em vídeo como a língua alvo, e vice-versa, de acordo com Siqueira (2015): “[...] Ainda
que o texto chegue à língua alvo na modalidade sinalizada, o mesmo pode ser classificado como
tradução-interpretação se o produto final for um registro filmado resultante de um trabalho
reflexivo, revisto e corrigido”.
Dessa forma, o texto em inglês escrito pode ser língua alvo traduzida da língua sinais
internacional - LSI ou da língua de sinais americana - ASL, da língua de sinais britânica - BSL
ou de qualquer outra língua, assim como textos traduzidos, em vídeo, para as línguas sinalizadas
podem ser também língua alvo traduzidas de outras línguas. Esse tipo de tradução-interpretação
possibilita a publicação no YouTube, em sites, vídeos acadêmicos, mídias e redes sociais.
Resumindo, os tradutores e intérpretes surdos podem trabalhar somente com tradução ou
interpretação ou com tradução-interpretação. Conforme Segala:

Ser tradutor não é ser aquele que sabe duas línguas e que simplesmente transpõe uma
língua para outra; também não é só aquele que reconstrói significados. Esse
profissional precisa conhecer e saber a cultura, a linguística das línguas fonte e alvo,
além de ter experiência na vida social. (SEGALA, 2010, p. 7).

Não é somente traduzir sinal por sinal e seus significados, precisa ter compreensão e
conhecimento das informações transmitidas do texto língua fonte para a língua alvo, também é
148

preciso esclarecer o sentido das contextualizações dos conhecimentos de política, econômicos


e culturais dos países e línguas envolvidos no contexto da tradução. Ser intérprete, também não
é somente traduzir sinal por sinal simultaneamente, é preciso reconstruir a compreensão de fala
da pessoa que faz o discurso para que seja possível que a informação seja transmitida.
Sobre o tradutor-intérprete surdo, ele pode trabalhar com a tradução-interpretação de
língua falada ou de textos escritos para a língua de sinais (por exemplo, texto de português
brasileiro para Libras na TV ou mídia). Por fim, de acordo com Stone (2009, p. 80) “Intérpretes-
Tradutores Surdos definiram o trabalho, e como eles se definiram como intérprete”, o tradutor
e intérprete surdo pode trabalhar em várias possibilidades de tradução e interpretação ou pode
escolher o tipo de trabalho a ser traduzido. Retomando a fala sobre intérprete surdo e intérprete
não-surdo (I-nS), conforme Adam, Aro, Dunne e Klintber (2010):

[...] As similaridades que foram discutidas incluem a necessidade de ser bilíngue


(exigência mínima), o fato de que o processamento de língua, (seja inter ou
intralíngual) [...] As diferenças que foram discutidas incluem o fato de que intérpretes
surdos são surdos o tempo todo (enquanto os intérpretes não-Surdos podem ir para
casa depois as tarefas de interpretar e “ser ouvinte/ parte da maioria”); os instérpretes
surdos e os Intérpretes ouvintes têm acessos diferentes com a cultura surda de modo
que os primeiros têm mais confiança sobre seu lugar naquela cultura do que os
últimos; os intérpretes surdos são modelos para outros membros da comunidade surda.
(ADAM; ARO; DUNNE; KLINTBER, 2010, p. 7, tradução EXTRAD)87.

Conforme citação dos autores acima, os intérpretes surdos e intérprete não-surdo (I-nS)
possuem diferenças na maneira de desenvolver seus trabalhos de tradução, eles têm visão de
mundo e acesso diferentes à cultura surda. Segundo Rosa:

No Brasil a atividade de interpretação ocorre com maior frequência nas instituições


religiosas; aliás, nesses lugares, a atuação do intérprete de língua de sinais tem sido
uma prática há décadas, mais exatamente desde o início dos anos 80, o que explica
que os melhores intérpretes de língua de sinais – salvo os filhos de pais surdos – são
oriundos das instituições religiosas. (ROSA, 2005, p. 92).

Assim, dentro da comunidade surda, o contato direto com a família e os amigos criaram
redes informais de monitoramento e apoio. Igualmente ocorreu na história dos intérpretes

87
Similarities that were discussed include the need to be bilingual (minimum requirement), the fact that language
processing (whether interor intralingual) takes place, the need to abide by a code of conduct, na expectation of
professionalism, performance of a specific role in relation to the Deaf and the hearing clients, and the types and
range of work undertaken. Differences that were discussed include the fact that DIs are Deaf all of the time
(whereas non-Deaf interpreters can go home after interpreting assignments and “be hearing/part of the
majority”); DI and hearing interpreters have dissimilar access to information; DI and hearing interpreters have
a different relationship with Deaf culture in that the former have more confidence in their position in that culture
than do the latter; DIs are role models for other members of the Deaf community (ADAM; ARO; DUNNE;
KLINTBER, 2010).
149

surdos que criaram redes informais de apoio na comunidade surda nacional fazendo contato
com outra comunidade surda nacional.
Vários autores, Nigel Horwad (canadese), Debra Russel (canandese), Juan Druetta
(argentino), Christian Rathmann (alemão), Sonia Oliveira, Tiago Nogueira e Ronice Quadros88
dizem que é importante que intérprete surdo e intérprete não-surdo trabalhem juntos,
coletivamente, é importante essa parceria porque gera mais qualidade profissional. De acordo
com Adam (2014), podemos citar as diferenças dos códigos de conduta na interpretação entre
os intérpretes surdos e os intérpretes ouvintes:

Intérpretes surdos e ouvintes estão situados de forma diferente em relação aos seus
hábitos (BOURDIEU, 1991) (ex.: onde os intérpretes surdos e ouvintes estão
culturalmente colocados dentro de uma comunidade de uma língua minoritária); 2)
Intérpretes surdos e ouvintes interpretam diferentes nuances da língua de forma
diferente. (ex.: intérpretes de surdos têm uma melhor compreensão das nuances de
língua de sinais, e intérpretes ouvintes têm uma melhor compreensão das nuances de
língua oral); 3) A fala não é sempre uma parte central do trabalho do intérprete surdo.
(ADAM et al, 2014, p. 7).

As funções dos tradutores e intérpretes de língua surdo e ouvinte são diferentes,


portanto, é importante o desenvolvimento da política linguística nas instituições para haver uma
conscientização e estabelecimento dessas diferenças. A presença do tradutor e intérprete de
língua em uma situação de comunicação vai depender do contexto em que aparece a pessoa
surda e qual língua é falante.
Algumas profissões de tradutor e intérprete ouvinte de língua ainda não são
reconhecidas, no entanto, outras foram reconhecidas recentemente, e, por essa razão, essas
atividades são desempenhadas por profissionais oriundos de diferentes áreas, a maioria dos
tradutores e intérpretes ouvintes são atuantes na área da: Educação, saúde, religião,
conferências, dentre outros; a maioria dos tradutores e intérpretes surdos são atuantes na:
comunidade surda ou de entidades de/para surdos, conferências, mídias sociais, dentre outros.
Stone (2009) explica o conceito de norma surda:

[...] pode-se mencionar que a abordagem de Stone (2009) da atividade tradutória e do


ato de interpretar está permeada de uma forte influência de aspectos culturais e
também políticos, principalmente, em relação à língua alvo, que por ser uma língua
de sinais, é utilizada por uma comunidade surda, a qual, segundo ele, por vários anos

88
Os autores, em Libras (brasileiros) e em língua de sinais internacional (estrangeiros) presentes como intérprete
de Libras/LSI, trouxeram essas discussões durante suas palestras, realizada nos dias 03 a 05 de outubro de 2018,
durante o 6º Congresso Nacional de Pesquisas em Tradução e Interpretação de Libras e Língua Portuguesa da
UFSC.
150

existiu enquanto entidade histórica ás escondidas da comunidade convencional, mas,


atualmente, tem se desenvolvido, ainda que à sombra de seus colonizadores. Isso é
tanto que, Stone conclui claramente que, uma norma surda de tradução nasce de uma
comunidade coletiva e heterogênea, na qual os diferentes membros contribuem com
habilidades para o coletivo e os tradutores e intérpretes ouvintes e surdos pertencem
à mesma comunidade. (STONE, 2009, p. 165, nossa tradução).

A instituição de uma norma surda é também uma luta cultural, linguística, política e de
política linguística. A grande parte das atividades de interpretação dos intérpretes surdos de
língua de sinais para outras línguas de sinais ocorre com maior frequência nas instituições de
surdos, entidades de surdos, tais como: nas associações de surdos, em reuniões com surdos
estrangeiros, em conferências, etc. As discussões nas comunidades ou sociedades ou academia
sobre os conhecimentos culturais, o nível de narrativa como produção ou expressão de fala são
importantes. De acordo com Luklin:

Escutar uma comunidade que usa um código linguístico distinto do nosso, buscando
uma imersão nos aspectos culturais que cercam o diálogo, o monólogo, as narrativas
em grupo, as arquiteturas da justiça e do rumor, as expressões peculiares, a gíria, a
definição de gêneros, não é tarefa que possa ser cumprida pelo sentido exclusivo do
ouvir. O olhar passa a ser fundamental. Ela colabora para o descentramento do sujeito
moderno obrigando o uso do corpo de forma diferente dos nossos códigos cotidianos.
Implica uma mobilidade dos olhos, da cabeça, do rosto, das mãos, dos braços,
organizados de forma diferente. Solicita uma agilidade de percepção, uma plasticidade
do cérebro. (LUKLIN, 2005 apud CAMPELLO, 2014, p. 148).

Nesses contextos, a atuação do intérprete surdo de língua de sinais tem sido uma prática
há décadas, a habilidade de tradução e interpretação é adquirida por vivência empírica. Pagura
(2003, p. 210) afirma que “as modalidades de tradução-interpretação envolvem um processo de
‘conversação de uma mensagem de um idioma para outro e de uma cultura para outra’ já a
habilidade de tradução e interpretação como competência tradutória das línguas tem relação
com o conhecimento e cultura”.
Os intérpretes surdos de língua de sinais para outra língua de sinais estão ligados mais
ao contexto comunitário internacional, à comunidade surda internacional e nacional, à aquisição
das línguas de sinais pelo contato com diversos surdos, inclusive com pessoas surdas
estrangeiras. Assim ele deve conhecer, mesmo que resumidamente, as culturas surdas dos
diversos países. Marques (2007) esclarece que, o intérprete de língua de sinais como uma pessoa
integrante das comunidades surdas, tem habilidades vão além de uma simples interpretação,
visto que se faz importante uma preparação específica para dominar tanto as línguas envolvidas
como os aspectos culturais que fazem parte da língua.
A pessoa surda que faz interpretação entre duas línguas de sinais para indivíduos
151

estrangeiros, no intuito de contribuir e auxiliar na comunicação emergente e na transmissão de


informações, geralmente, domina duas línguas de sinais por experiência prática e não tem
formação de interpretação em línguas de sinais, por faltar políticas linguísticas no Brasil que o
prepare. Os tradutores e intérpretes surdos estão sendo cada vez mais reconhecidos na
comunidade surda, revelando a grande importância de incluí-los no campo de Tradução e
Interpretação de línguas.
Para a pessoa surda, o povo surdo e a comunidade surda efetivarem o direito à
informação em línguas de sinais, é imprescindível o reconhecimento do profissional intérprete
surdo de Libras ou outras LSNs ou LSI, que é quem possibilita a comunicação entre o surdo
brasileiro e surdo estrangeiro, e o surdo estrangeiro e ouvinte. Sobre o papel do intérprete surdo,
Napier et al (2006) afirma que:

[...] as perspectivas sobre o papel e o trabalho dos intérpretes surdos variam. Uma
variação é que os intérpretes surdos são indicados quando um ou uma cliente utiliza
seus próprios sinais ou sinais locais; quando usa uma língua de sinais estrangeira;
quando é surdocego ou tem a visão comprometida; quando utiliza sinais particulares
de uma região, de uma etnia ou de uma faixa etária não conhecida para I-ns; ou quando
está em um estado mental que torna difícil uma simples interpretação de uma
conversa.89 (NAPIER et al, 2006 apud ADAM; ARO; DRUETTA; DUNNE;
KLINTBERG, 2014, p. 6, tradução ExTrad).

Os intérpretes surdos podem trabalhar com diferentes línguas de sinais nos mais
diversos níveis linguísticos das pessoas surdas, para isso precisam ter proficiência na língua
para conhecer as suas diversas variedades faladas nas diferentes regiões e nos diferentes
contextos, além de conhecerem sobre o trabalho de interpretação para surdos.
Deste modo, um intérprete ajuda o outro, no conhecimento linguístico e cultural. Napier
explicita um pouco sobre a terminologia “intérprete surdo”:

A terminologia utilizada para descrever os intérpretes surdos em língua inglesa varia


de acordo com a literatura. Além de “deaf interpreters” (intérpretes surdos), eles
também são chamados de “interpreters relay” (intérprete relé)90, “deaf relay

89
[…] perspectives on the role and work of DIs vary. One is that DIs are assigned when a client uses his or her
own signs or home signs; uses a foreign sign language; is deaf-blind or has limited vision; uses signs particular
to a region or to an ethnic or age group not known to the non-DI; or is in a mental state that makes ordinary
interpreted conversation difficult.
90
Define interpretação relé como aquela que serve como um “comunicador intermediário entre um inteprete não
surdo - I-ns e um cliente surdo; apresentador surdo e um cliente surdocego ou um inteprete não surdo - I-ns e um
cliente surdocego (ver também Bienvenu & Colonomos, 1992, para uma descrição das funções de um intérprete
surdo) (ADAM; ARO; DRUETTA; DUNNE; KLINTBERG, 2014).
152

interpreters” (intérpretes relay surdos), “intermediaries” (intermediários), “mirror


interpreters” (intérpretes espelho), e etc.91 (NAPIER, 2006, p. 143, tradução nossa)

Citamos alguns aspectos sobre os tradutores e intérprete surdo, apresentados por Napier
e complementamos com outros aspectos específicos da interpretação: intermodal, intramodal,
interlingual, intralingual, simultânea, consecutiva, relay, espelhamento, cabine de
interpretação, guia-intérprete e interpretação intercultural, todos acontecem nas conferências
regionais, nacionais e internacionais.
As pesquisas sobre tradução e interpretação interlingual realizadas entre línguas
diferentes, com línguas de sinais diferentes, por exemplo, pode ocorrer quando uma língua fonte
é uma LSN ou LSI, tendo como língua-alvo uma língua de sinais, por exemplo, a Libras. A
tradução e interpretação intralingual é realizada na mesma língua, por exemplo, pode ocorrer a
partir da língua-fonte Libras acadêmica para a língua-alvo Libras utilizada na sociedade ou
comunitária.
Segundo Jakobson (1975), a tradução pode ser categorizada em três tipos, são elas:

1) A tradução intralingual, ou reformulação, consiste na interpretação dos signos


verbais por meio de outros signos da mesma língua. 2) A tradução interlingual, ou
tradução propriamente dita, consiste na interpretação dos signos verbais por meio
de alguma outra língua. 3) A tradução intersemiótica, ou transmutação, consiste na
interpretação dos signos verbais por meio de sistemas de signos não-verbais.
(JAKOBSON, 1975, p. 64-65, grifo nosso).

Vejamos a figura 16 sobre interpretação interlingual com duas modalidades diferentes


(oral-auditiva e visuo-gestual).
Figura 16 - Interpretação interlingual

Fonte: Elaboração própria.92

91
The terminology used to describe Deaf interpreters varies across the literature. In addition to “deaf
interpreters,” they have also been called “relay interpreters,” “deaf relay interpreters, “intermediaries,” “mirror
interpreters”, and soon. (NAPIER et al, 2006, p. 143).
92
Ilustração de João Batista Alves de Oliveira Filho.
153

As duas imagens são diferentes: a primeira coluna tem duas línguas faladas diferentes
uma interpretação interlingual (por exemplo, inglês e português brasileiro), trata-se de
interpretação interlingual na mesma modalidade; a segunda coluna tem duas línguas sinalizadas
diferentes, uma interpretação interlingual entre LSNs (por exemplo, Libras e LSI ou ASL), as
interpretações entre línguas de uma mesma modalidade oral-auditiva ou visuo-gestual,
chamamos de interpretação intramodal e as interpretações entre línguas de modalidades
diferentes, como é o caso da interpretação de uma língua oral-auditiva para uma língua visuo-
espacial ou vice-versa, chamamos de interpretação intermodal. A figura 17 é sobre interpretação
intralingual:

Figura 17 - Interpretação Intralingual

Fonte: Elaboração Elaboração própria.93

Por exemplo, aqui no Brasil, a Libras como LSN, pode fazer uso da interpretação
intralingual, em contextos de conferência, na utilização da língua regional ou no interior, ou na
justiça, ou na saúde, a pessoa surda pode utilizar a Libras e suas variações linguísticas ou mesmo
aquele surdo que sabe pouco Libras e precisa da presença do tradutor e intérprete surdo para
interpretar da Libras básica para a Libras acadêmica ou outras áreas específicas, a depender do
contexto, e também para a interpretação intralíngua português padrão para português rural e
vice-versa.
Por fim, as situações de conferências da minha pesquisa são, principalmente, de
interpretação interlingual da Libras para outras LSNs e LSI. As pesquisas sobre tradução e
interpretação intermodal vieram para complementar os tipos de tradução de Jakobson (1975).
Sobre a interpretação intermodal, Segala e Quadros (2015) afirmam que:

93
Ilustração de João Batista Alves de Oliveira Filho.
154

Na verdade, a proposta capta a especificidade dos aspectos na tradução intralingual,


tradução interlingual e intersemiótica que inclui uma língua de sinais. Ou seja, a
tradução intermodal está imersa nesses três diferentes tipos de tradução identificados
por Jakobson. [...], vamos tratar essa tradução intermodal como um quarto tipo,
conforme proposto por Segala (2010), mas salientamos que é uma tradução que
envolve línguas, ou seja, sistemas verbais (tradução interlingual) e outros sistemas
não-verbais (tradução intersemiótica). Importante esclarecer que a Libras, assim como
outras línguas de sinais, configuram um sistema verbal, apesar de se apresentarem na
modalidade visual-espacial. (SEGALA; QUADROS, 2015, p. 358-359).

A interpretação intermodal é a interpretação entre duas modalidades: a visuo-gestual e


a oral-auditiva, por exemplo, Libras para português brasileiro. Aprofundada mais um quinto
tipo de tradução intramodal, de acordo com autores de Segala e Quadros (2015) “[...] os
princípios, abordagens e técnicas já desenvolvidas para os sistemas intramodais (de uma língua
oral-auditiva para outra língua oral-auditiva ou de uma visuo-gestual para outra língua visuo-
gestual), por exemplo, português brasileiro para inglês ou Libras para SI. Minha pesquisa é
sobre a relação do tradutor e intérprete surdo intramodal (modalidade visuo-gestual) e
interlingual, da Libras para outra LSN ou LSI (ou vice-versa). Vejamos a figura 18 sobre a
interpretação intramodal:

Figura 18 - Interpretação Intramodal.

Fonte: Elaboração Elaboração própria.94

Sobre a interpretação simultânea, Russo (2010) nos fala sobre essa terminologia de
interpretação simultânea:

A Interpretação Simultânea é uma habilidade cognitiva complexa usado para servir de


comunicação entre falantes de diferentes línguas e culturas. Ela implica na
transposição oral de uma mensagem em um idioma de origem para uma língua-alvo,

94
Ilustração de João Batista Alves de Oliveira Filho.
155

enquanto a mensagem está a ser entregue. Por isso, o intérprete tem que ouvir o orador
e ao mesmo tempo produzir sua própria fala. (RUSSO, 2010, p. 333).

Obviamente que, principalmente, as conferências, quase sempre a interpretação é


simultânea com 3 (três) ou mais intérprete surdo, com troca a cada 20 (vinte) minutos, sem
intervalo. As pesquisas sobre tradução e interpretação consecutivas, de acordo com Granado
(2019, p. 47), “é quando os intérpretes transmitem a mensagem para o auditório depois da pausa
na fala/sinalização do palestrante, e isso acontece em algumas vezes inclusivamente nas
reuniões, debates e, pode também ocorrer até nos workshops.”
Sobre a interpretação consecutiva, a definição da AIIC (2012) é que “o intérprete,
situado ao lado do orador, interpreta para um determinado idioma, e após o orador, o discurso
deste último. O comprimento do discurso pode variar e o intérprete pode ser levado a tomar
notas durante a intervenção do orador”. Essa atuação combina com conferência, assembleia,
justiça, dentre outros. Além disso, o tradutor e intérprete surdo pode fazer o trabalho com as
duas interpretações, simultâneas e consecutivas, sendo utilizadas em reuniões, conferências,
dentre outros, depende da situação.
Apresentamos a interpretação relay conforme Bienvenu e Colonomos (1992), é uma
interpretação indireta, significa que o intérprete fará a interpretação a partir da interpretação
simultânea de outro intérprete. Por exemplo, temos uma interpretação relay quando ocorre a
interpretação simultânea do inglês para o português brasileiro, e a partir dessa interpretação
temos a interpretação para a Libras.
156

Figura 18 - Modelo adaptando da Interpretação Relay de Bienvenu e Colonomos

Fonte: Bienvenu e Colonomos (1992).

Na figura acima vimos a demonstração das diferentes situações acontecidas por


interpretação relay nas conferências nacionais e internacionais no Brasil recebidas pelos surdos,
é a Libras para outra língua de sinais nacional - LSN ou língua de sinais internacional - LSI.
Também já aconteceu língua de sinais argentina - LSA, língua de sinais americana - ASL, língua
de sinais alemã - DGS, língua de sinais venezuelana - LSV, língua de sinais francesa - LSF,
língua de sinais espanhola - LSE e dentre outros. Conforme Granado (2019):

Interpretação relay em três línguas: Na interpretação simultânea intramodal, conforme


demonstrada a figura [...], geralmente quando se tem um palestrante ouvinte, que
utiliza a voz, por exemplo, português como língua-fonte (1), e o intérprete ouvinte
interpreta para Libras como a língua-alvo (1) e como a língua-fonte (2), e o intérprete
interlingual surdo, que interpreta para Sinais Internacionais como língua-alvo (2) e,
em seguida, o intérprete intralingual surdo faz a replicação da mensagem-alvo,
transmitida pelo intérprete interlingual. (GRANADO, 2019, p. 53).
157

Veja a figura 19 sobre a interpretação relay:

Figura 19 - Parte de interpretação relay

Fonte: Elaboração da Granado (2019).

A figura 19, traz o papel do intérprete de “apoio”, que é esse suporte realizado entre os
intérpretes de uma mesma equipe na conferência. Silva (2013) define que: “uma equipe de
interpretação refere-se a situações em que dois ou mais intérpretes estão trabalhando juntos com
o objetivo de realizar uma interpretação, no qual um intérprete apoia o outro”. Dessa forma, a
equipe de intérprete surdo sempre tem o apoio do intérprete surdo-feed na conferência.
Intérprete-feed, de acordo com Almeida e Russo (2014, p. 2) quer dizer que se tem intérpretes
provendo interpretação para outros intérpretes. A função do intérprete de apoio de acordo Albres
e Santiago (2012):

No caso dos intérpretes de Língua de Sinais, em conferências, sua posição é aparente,


pois fica de frente para o público e ao lado do conferencista. Também deve trabalhar
em dupla. Enquanto um desenvolve a função de intérprete da vez o outro deve sentar-
se à frente e trabalhar como intérprete de apoio. Fica observando a interpretação e
caso o intérprete da vez tenha alguma dificuldade pode sinalizar indicando um sinal
ou ideia para que o intérprete da vez possa retornar à interpretação. (ALBRES;
SANTIAGO, 2012, p. 52).

É importantíssima a presença de uma equipe de tradutor e intérprete de língua em


conferência e também equipes de intérprete surdo. De acordo com Hoza (2010):
158

A necessidade das equipes de intérpretes de trabalhar em conjunto para garantir


equivalência na mensagem na língua-alvo requer que as equipes determinem quando
e como fornecer suportes. Os autores salientam a necessidade de discutir estilos de
apoio com antecedência. Essa discussão inclui se o intérprete “ativo” prefere apoio de
conceitos inteiros ou únicas palavras / sinais, ou se o intérprete “ativo” prefere outras
sugestões, como um aceno de cabeça com indicações visuais que o intérprete está no
caminho certo com a interpretação. (HOZA, 2010, p. 6 apud NOGUEIRA, 2016, p.
89-90).

Para finalizar, a equipe dos intérpretes surdos trabalham junto para o apoio de sinais,
soletração, posição visual (indica direita e esquerda, indica cima e baixo), números, ajuda a
complementar mensagem, dentre outros. A interpretação com espelhamento é realizada pelos
intérpretes surdos, o significado da interpretação com espelhamento. Conforme Granado
(2019), o intérprete surdo interlingual: (1) faz a recodificação semântica básica na língua-alvo
e o intérprete surdo intralingual (2) faz a finalização com prosódia, e sempre deve ter um
intérprete surdo de apoio, conforme apresentado na figura 20:

Figura 20 - Modelo de Interpretação com espelhamento

Fonte: Granado (2019, p. 55).

Na realidade prática no contexto de conferência nacional no Brasil, de acordo com


Granado:
159

a função do intérprete interlingual (sentado) é interpretar a mensagem de língua-fonte


para a língua-alvo; a função do intérprete intralingual (em pé) é replicar a mensagem-
alvo, copiando a mensagem do que o intérprete interlingual interpreta e; a função do
intérprete de apoio é acompanhar a interpretação, gerenciar, corrigir e complementar.
(GRANADO, 2019, p. 55).

Quando há um palestrante estrangeiro que fala língua sinalizada em língua de sinais


nacional ou língua de sinais internacional, temos a presença de 3 ou 4 intérpretes surdo numa
situação de conferência brasileira: 2 (dois) intérprete(s) surdo(s) ficam sentados na audiência
da conferência, fica 1 (um) intérprete surdo (interlingual das outras LSNs ou LSI para Libras)
e 1 (um) intérprete surdo no suporte (intérprete surdo de apoio); 1 (um) intérprete surdo fica no
palco com o trabalho de interpretação intramodal de Libras para Libras simultânea.
Há pesquisas sobre a atuação de intérprete de língua dentro de cabine de interpretação
em conferência. O primeiro registro de interpretação simultânea intermodal e interlingual de
línguas faladas em cabine foi no século XX. No século XXI, temos os primeiros registros da
utilização de cabines para a interpretação simultânea intermodal e interlingual de língua
sinalizada para língua falada, dados apresentados por Nogueira (2016) que pesquisou sobre o
uso de cabines de interpretação de língua de sinais de conferência no IV Congresso Nacional
de Pesquisas em Tradução e Interpretação de Libras e Língua Portuguesa, no ano de 2014. Foi
a primeira vez que houve utilização de cabine de interpretação de língua de sinais no Brasil.
Vejamos as imagens na figura 21:

Figura 21 - Interpreação simultânea na cabine de conferência


Cabine para intérprete intermodal de suas línguas Cabine para intérprete intermodal de língua de sinais
faladas para língua falada
Réus e, ao lado, os intérpretes em Nuremberg.

Fonte: Pagura (2010, p. 49 apud NOGUEIRA (2016, Fonte: Nogueira (2016, p. 137).
p. 72).
160

Em síntese, as cabines para intérprete de línguas são similares, porém, tem uma distinção
na disposição dos profissionais dentro das cabines e pelo uso das línguas e tecnologias.
conforme Pagura (2003, p. 211):

Nessa modalidade, os intérpretes – sempre em duplas – trabalham isolados numa


cabine com vidro, de forma a permitir a visão do orador e recebem o discurso por
meio de fones de ouvido. Ao processar a mensagem, re-expressam na língua de
chegada por meio de um microfone ligado a um sistema de som que leva sua fala até
os ouvintes, por meio de fones de ouvido ou receptores semelhantes a rádios portáteis.
Essa modalidade permite a tradução de uma mensagem em um número infinito de
idiomas ao mesmo tempo, desde que o equipamento assim o permita. (PAGURA,
2003, p. 211).

A distinção entre intérprete intermodal de duas línguas faladas e intérprete intermodal


de língua falada e língua sinalizada na cabine de conferências, é que, ao

contrário dos ILOs (intérprete de línguas orais), que sempre atuam com essa
modalidade dentro da cabine de interpretação, é possível que com os ILSs (língua de
línguas de sinais), por estarem trabalhando com línguas de modalidades diferentes
(aqui o Português e a Libras), eles estejam no palco próximo ao orador, ou logo à
frente do palestrante sentado na plateia, quando estão interpretando para a língua oral.
(NOGUEIRA, 2016, p. 80).

Dessa forma, na interpretação com línguas de sinais, o palestrante estrangeiro e o


intérprete surdo ficam no palco e os intérpretes ouvintes de Libras e Português brasileiro ficam
na cabine de conferência, Nogueira (2016) fala sobre o uso de equipamentos:

Equipamentos para cabine de interpretação simultânea para Intérpretes de


Libras/Português - Cabine com isolamento acústico, para eliminação de qualquer
ruído ou movimentação. - Central de interpretação (microfone, fones e receptores) -
Sistema de Rádio frequência VHF ou Sistema Infravermelho para transmissão Câmera
filmadora para transmissão do palestrante - Monitor 32’- ligado a câmera de
transmissão do palestrante (ou ligada na mesa de corte, quanto tiver mais de 2
câmeras). - Sistema de sonorização do auditório, ligado ao monitor de 32’ na cabine.
(NOGUEIRA, 2016, p. 213).

É importante o uso de equipamento para eventos, pela qualidade profissional do trabalho


do tradutor e intérprete de línguas orais (faladas e sinalizadas). Antes da criação da cabine de
interpretação para a língua sinalizada tínhamos o palestrante em língua de sinais e o intérprete
ficava sentado a sua frente para interpretar a conferência, segundo Rodrigues (2013):

É relevante destacar que a IS (interpretação simultânea) realizada por ILS, não usa,
na maioria dos casos, equipamentos especiais, salvo em casos de grandes eventos, nos
quais a imagem do intérprete é veiculada em telões ou em casos
161

vocalização/verbalização (interpretação da LS para o Português), nos quais são usados


os equipamentos de som, quando necessário. (RODRIGUES, 2013, p. 39).

Antigamente até os dias de hoje há o uso da interpretação sem a cabine, no entanto, a


implementação de uso de equipamento da cabine de conferência regional, nacional e
internacional contribui bastante para uma melhor atuação. Novas pesquisas sobre terminologia
de Guia-intérprete para cliente surdocego acontece situação no contexto de conferência
brasileira. Segundo Almeida, Marques, Corrêa e Lima (2012):

O guia-intérprete é o profissional que domina diversas formas de comunicação


utilizadas pelas pessoas com surdocegueira, podendo fazer interpretação ou
transliteração. Transliteração é quando o guia-intérprete recebe a mensagem em uma
determinada língua e transmite à pessoa surdocega na mesma língua, porém usa uma
forma de comunicação diferente acessível ao surdocego, por exemplo: o guia-
intérprete ouve a mensagem em língua portuguesa e transmite e Braille. Interpretação
é quando o guia-intérprete recebe a mensagem em uma língua e deve transmiti-la em
outra língua, por exemplo, o guia-intérprete ouve a mensagem em língua portuguesa
e transmite em LIBRAS tátil. (ALMEIDA; MARQUES; CORRÊA; LIMA, 2012, p.
2).

Ferreira (2019) faz uma síntese sobre a interpretação intramodal e intralingual de Libras
para Libras tátil para os surdoscegos no contexto de conferência, “embora as línguas de sinais
sejam de modalidade gestual-visual, a língua de sinais tátil não depende de recepção visual, ao
contrário, direciona-se à recepção tátil. Se considerarmos a existência de uma modalidade
gestual-tátil” (MEIER et al, 2004 apud FERREIRA, 2019. p. 54). Na definição de interpretação
intercultural:

ambas as áreas trabalham com o contato entre diferentes culturas, contato este que
tem como mediador a tradução. Além disso, é importante lembrar que a tradução exige
um profundo conhecimento das culturas alvo e fonte assim como da história dos povos
em questão. (VALENTE, 2010, p. 324).

O tradutor e intérprete surdo conhecem as culturas das línguas envolvidas nas


interpretações, podem interpretar interculturas de Libras para outra LSN, entretanto, na
interpretação intercultural de Libras para LSI, como seria essa interpretação, uma vez que a LSI
tem cultura(s) própria(s) relacionada(s) a(s) língua(s), como vai interpretar? Ainda é cedo para
afirmar qualquer coisa sobre interpretação intercultural de Libras para LSI, pois ainda não há
pesquisas sobre tal objeto de estudo. Futuramente, podemos fazer essa discussão sobre
interpretação intercultural com intramodal e interlingual ou intralingual.
162

Os aspectos de interpretação, tradução e tradução-interpretação nos contextos depende


da situação dos espaços. Se for uma demanda grande de clientes surdos, deve ter a presença de
uma equipe coletiva de intérpretes (surdos e ouvintes) e guia-intérpretes para suprir a demanda
da pessoa surda e pessoa surdacega. Se a demanda for pequena, precisa de uma contratação
menor de tradutor e intérprete de língua, depende do lugar, do cliente surdo e das línguas a
serem utilizadas. Cada situação tem necessidade diferentes com seu respectivo contexto, por
exemplo, audiência no âmbito da justiça é diferente da audiência de conferência.
A seguir temos um quadro com a classificação linguística do tradutor e intérprete de
língua com enfoque em conferência da APIC e AIIC. Vejamos o quadro:

Quadro 10 - Classificação linguística do intérprete de língua de conferência (APIC e AIIC)


APIC AIIC
As línguas de trabalho dos membros da
Associação serão classificadas em três
categorias, denominadas 'A', 'B' e 'C', como
definidas a seguir:
Língua A A classificação linguística A indica o línguas ativas:
idioma considerado a língua materna do A: É a língua nativa do/da intérprete (ou outro
intérprete. idioma estritamente equivalente a uma língua
nativa), na qual o/a intérprete trabalha a partir de
todos os seus outros idiomas nos dois modos de
interpretação, simultânea e consecutivamente.
Todos os membros devem ter pelo menos uma
língua 'A', porém pode apresentar mais de uma.
Língua B O idioma B é aquele sobre o qual o línguas ativas:
intérprete tem comando pleno e fluente, B: Uma língua que não seja o idioma nativo
sem que seja sua língua materna. do/da intérprete, da qual tenha domínio perfeito
De modo geral, é preferível que o e na qual ele/ela trabalhe a partir de um ou mais
intérprete trabalhe de seu idioma B para o de seus outros idiomas. Alguns/algumas
idioma A. intérpretes trabalham em um idioma 'B' em
apenas um dos dois modos de interpretação.
Língua C Há ainda a classificação de idioma C, em línguas passivas:
que a compreensão do idioma é C: Idiomas dos quais o/a intérprete possui uma
suficientemente boa para garantir a compreensão completa e do qual trabalha [para
interpretação para os idiomas B ou A, não outra língua].95 (tradução Fernando Parente)
estando o intérprete, contudo, habilitado a
traduzir para esta língua C, também
chamada de idioma passivo."
Fonte: Elaboração própria.

95
“The working languages of members of the Association shall be classified in three categories, called 'A', 'B' and
'C', which shall be further defined as follows: Active languages: A: The interpreter's native language (or another
language strictly equivalent to a native language), into which the interpreter works from all her or his other
languages in both modes of interpretation, simultaneous and consecutive. All members must have at least one 'A'
language but may have more than one. B: A language other than the interpreter's native language, of which she
or he has a perfect command and into which she or he works from one or more of her or his other languages.
Some interpreters work into a 'B' language in only one of the two modes of interpretation.Passive languages: C:
Languages, of which the interpreter has a complete understanding and from which she or he works”
163

A APIC diz que é preferível que o intérprete trabalhe com a tradução da língua B para a
língua A. Quando o intérprete de língua B interpreta da segunda língua para a língua A que deve
ser a sua primeira língua. No caso do intérprete surdo brasileiro no contexto de conferência,
deve interpretar da língua B como a língua de sinais americana - ASL ou língua de sinais
francesa - LSF ou português brasileiro para Libras como primeira língua; em outras situações
pode acontecer a tradução da língua A para B, mas, só raramente. Também a língua B pode ser
uma língua ativa. A língua C é a terceira língua, serve principalmente para a partir da sua boa
compreensão traduzir para a língua A, porém ela é passiva, significa que não faz a tradução de
retorno. A figura 22 abaixo ilustra.

Figura 22 - Classificação linguística de língua de sinais para intérprete de conferência

B C
Fonte: Elaboração própria.

Sobre o contexto brasileiro, Ferreira (2019, p. 49) que comenta que “observamos uma
situação interessante em relação à atuação dos tradutores surdos que traduzem [...] também à
atuação dos intérpretes surdos intramodais que, em sua maioria, interpretam de uma língua de
sinais estrangeira96 para a sua língua de sinais materna, no caso, para a Libras”. Dessa forma, o
tradutor e intérprete surdo está inserido, em sua maioria, no contexto de conferência e realiza a
interpretação de B para A, em pouquíssimas ocasiões acontece a interpretação de A para B.
Outra situação em contexto comunitário ou social ou acadêmico pode acontecer
interpretação de português brasileiro escrito para Libras, também uma tradução de língua B
para A, portanto, a interpretação de Libras para português brasileiro escrito, acontece raramente,
o que seria uma interpretação de A para B. Os autores Pagura (2003) e Freire (2008) “explicam
que a melhor prática é contar com intérpretes atuando na tradução direta, ou seja, da língua

96
Língua de sinais nacional da língua de sinais estrangeira.
164

estrangeira para a sua língua materna (i.e., da língua B para a língua A), a qual é partilhada pelo
público alvo” (FERREIRA, 2019, p. 49).
A respeito da “direcionalidade, é historicamente mais frequente que os intérpretes de
línguas orais trabalhem da sua L2 para a sua L1, isto é, de sua língua estrangeira ou segunda
para a sua língua materna ou primeira” (CARNEIRO, 2017, p. 11 apud FERREIRRA, 2019, p.
49). Para isso, cada profissional surdo ou ouvinte tem diferentes funções de tradutor e intérprete
de língua e de classificação linguística. Por fim, essa atuação de intérprete surdo pode acontecer
nos contextos de conferências, justiça, na saúde, no turismo, no esporte em reuniões nas
instituições públicas e privadas para escolher o aspecto de interpretação. E também tradutor e
intérprete surdo deve escolher a classificação linguística de língua A, B e C a fim de desenvolver
a competência tradutória e interpretativa e dessa maneira, atuar com maestria. Aproveitamos a
próxima seção para tratar sobre o objeto específico da minha pesquisa com enfoque no contexto
de conferência.

3.4 TRADUTOR E INTÉRPRETE DE LÍNGUA NA CONFERÊNCIA

Nas seções anteriores abordamos sobre a história, a formação, estudos sobre tradução,
interpretação e tradução-interpretação, a terminologia e o perfil profissional do tradutor e
intérprete surdo. No texto, partimos do geral para o específico da minha pesquisa, aprofundando
temas a respeito do tradutor e intérprete surdo intramodal e interlingual de LSN para outra LSN
ou LSI no contexto de conferência.
A seguir apresentamos a definição de conferência. O termo conferência vem do latim
conferentĭa, conforme o dicionário Aulete online, temos a seguinte definição para conferência:
“Reunião para debater assunto importante, geralmente de interesse internacional” (AULETE,
2020). No dicionário dos Estudos da Tradução, de Shuttleworth e Cowie (2014), o significado
de interpretação de conferência é:

[...] um termo usado para se referir ao tipo de interpretação que ocorre em conferências
internacionais, bem como em outros contextos de alto nível, tais como palestras,
transmissões de televisão ou reuniões de cúpula; como tal, é uma das formas de
interpretação, que é definida de acordo com o contexto em que é usada. Os intérpretes
de conferência precisam ser proficientes em uma variedade de técnicas de
interpretação, pois embora a interpretação simultânea seja o principal modo utilizado,
há também situações ocasionais para a interpretação consecutiva ou até mesmo a
interpretação sussurrada. (SHUTTLEWORTH; COWIE 2014, p. 26).
165

No contexto de conferência internacional, e/ou nacional e/ou regional, se tivermos a


audiência de grupos de pessoas surdas e ouvintes, necessitamos da presença de intérprete surdo
que pode atuar na interpretação simultânea; se tivermos minicurso, workshops ou reuniões,
precisamos da presença do intérprete surdo na interpretação consecutiva, seja nas áreas
acadêmicas, seja na pesquisa de línguas de sinais e da pessoa surda em contextos da área da
Educação, da Linguística, da Tradução e Interpretação, da Antropologia, da Saúde, da Justiça,
dos Direitos Humanos, da Cultura, dentre outros, ou ainda, interpretação envolvendo
atendimento ao cidadão. Concluímos que a interpretação de conferência acontece em sua
maioria na área acadêmica, por causa das pesquisas realizadas nas áreas citadas acima. Segundo
Barbosa (2014):

Entre estes espaços alcançados, o contexto de conferência é o que tem se destacado,


pelo fato de as pessoas surdas terem a oportunidade de dialogar com outras instâncias
sociais sobre questões que dizem respeito à própria Comunidade Surda. Este diálogo
começou a se tornar possível em conferências sobre a educação, direitos humanos,
direitos linguísticos, entre outros, nas quais há algumas décadas a presença do ILS
nem sempre existia. A partir da obrigatoriedade respaldada pelo Decreto 5.626, que
garante o acesso das pessoas surdas a diferentes âmbitos sociais, os profissionais
começaram a ser contratados para esse tipo de trabalho, a Interpretação de
Conferência. (BARBOSA, 2014, p. 66).

Deste modo, a pessoa surda tem o direito de participar nas conferências nas áreas que
ela escolher, devendo sempre ter a presença do tradutor e intérprete de língua específico da
língua de sinais. Conforme a Lei nº 10.098/2000, no capítulo IV, que trata ‘Da Acessibilidade
nos Edifícios Públicos ou de uso coletivo’, o art. 12 diz:

os locais de espetáculos, conferências, aulas e outros de natureza similar deverão


dispor de espaços reservados para pessoas que utilizam cadeira de rodas, e de lugares
específicos para pessoas com deficiência auditiva e visual, inclusive acompanhante,
de acordo com a Associação Brasileira de Normas Técnica - ABNT, de modo a
facilitar-lhes as condições de acesso, circulação e comunicação. (BRASIL, 2000).

Assim, quaisquer dos contextos de conferências, teatros, aulas para pessoa surda precisa
ter acesso de comunicação. Para a definição de comunicação no dicionário Aulete online, temos
o seguinte significado: “Conceito, capacidade, processo e técnicas de transmitir e receber ideias,
mensagens, com vistas à troca de informações, instruções etc. ” e “Ação ou resultado de
comunicar(-se), de transmitir e receber mensagens” (AULETE, 2020). Para a pessoa surda
receber as informações e os conhecimentos transmitidos pelas palestras nas diversas temáticas
das conferências, deve ter a presença do tradutor e intérprete de língua de sinais. Dessa forma,
166

nas conferências com palestrantes estrangeiros ou participantes estrangeiros, deve ter a presença
de intérprete surdo das línguas de sinais.
Há uma associação internacional de tradutor e intérprete de língua que se chama
Associação Internacional de Intérpretes de Conferência – AIIC, que “reúne cerca de 3.000
intérpretes profissionais de todos os continentes”97 (AIIC, 2011, s. p. tradução nossa). Esta
associação já reconhece a LSN, a valorização do profissional de tradutor e intérprete de língua
de sinais no mundo, incluindo o Brasil. Há registro de intérprete de língua falada e língua de
sinais por tipos de classificações de línguas A, B e C (veja o quadro 9). Buscamos somente
intérprete de língua de sinais na AIIC, cada intérprete trabalha em conferência de língua B para
outra língua A. Vejamos a tabela 1:

Tabela 1 - Intérpretes profissionais por pares de línguas - AIIC


Ordem De língua Para língua Quantidade Intérpretes mora País
A ASL Holandês 1 Holanda
B ASL NG (Holandesa) 1 Holanda
C ASL Inglês 5 1 – França, 2 – Inglaterra,
1 – EUA e 1 – Escócia
D BSL ASL 1 França
E BSL Inglês 2 França e Inglaterra
F LSC (Colombiana) Espanhol 1 Medelín, Colômbia
G Holandês LSH (holandesa) 1 Holanda
H Holandês LSF (flamenga) 1 Bélgica
I LSH Holandês 1 Holanda
J LSH Inglês 1 Holanda
K Inglês ASL 1 Inglaterra.
L Inglês BSL 1 Inglaterra
M Inglês LSH 1 Holanda
N Inglês LSF (flamenga) 1 Bélgica
O LSF (fleminsh) Holandês 1 Holanda
P Espanhol LSC 1 Colômbia
Q LSF Holandês 1 Bélgica
Fonte: Elaboração própria.

Observamos o registro de quantidades de intérprete de língua de sinais, a maioria


intermodal e interlingual. Encontramos nas conferências, dois registros de ordem B, duas LSNs
em língua de sinais americana - ASL para língua de sinais holandesa - NG e ordem D, duas
LSNs em ASL para língua de sinais britânica - BSL com interpretação intramodal e interlingual.

97
“brings together around 3,000 professional interpreters from every continent”. Disponível em:
https://aiic.net/node/2385/what-we-do/lang/1.
167

É positivo encontrar a interpretação intramodal e interlingual de LSN para outra LSN,


isso permite futuramente o crescimento do registro de profissional intérprete surdo de língua de
sinais nacional ou língua de sinais internacional no mundo, incluindo a América do Sul. É
importante saber quem são os públicos surdos, se é composto por acadêmicos, políticos,
pesquisadores, representantes, dentre outros.
Conforme Rodrigues e Burgos (2001, p. 30) apresentado por Pereira (2008, p. 33) temos
o quadro de intérprete de língua oral – ILO e intérprete de língua de sinais – ILS visualizando
uma comparação, apresentando diferenças entre esses dois profissionais. Vejamos no quadro
abaixo 11:

Quadro 11 - Modelo adaptação de diferenças entre ILO e ILS e ISLSs


Intérprete de língua de sinais - Intérprete surdo de línguas de
Intérprete de língua oral – ILOs
ILSs sinais - ISLSs
1 - Interpretam de/para as línguas 1 - Interpretam de/para alguma 1 - Interpretam de/para alguma
orais. língua de sinais. língua de sinais.
2 - Seus clientes são pessoas 2 - Seus clientes são pessoas surdas 2 - Seus clientes são pessoas
ouvintes de diferentes entornos e ouvintes do mesmo entorno surdas, pessoas surdacega e
geográficos. geográfico. ouvintes de diferentes entornos
geográficos.
3 - Seu campo de trabalho limita- 3 - Seu campo de trabalho é tão 3 - Seu campo de trabalho é tão
se, normalmente, a encontros amplo quando as necessidades amplo quando as necessidades
internacional. comunicativas e de informação de comunicativas, de informação de
seus clientes seus clientes e encontros
internacionais.
Fonte: Rodriguez e Burgos (2001, Fonte: Rodriguez e Burgos (2001,
Fonte: autoria própria
p. 30) 98 p. 30)
Fonte: Elaboração própria.

O quadro acima mostrou a distinção do trabalho do intérprete de língua oral – ILO e


intérprete de língua de sinais – ILS. Complementamos mais uma coluna sobre o intérprete surdo
de língua de sinais - ISLSs. Nesse contexto, a interpretação ofertada aos clientes precisa ser
com um par linguístico de diferentes línguas e diferentes modalidades ou línguas diferentes de
mesma modalidade. Na interpretação com intérprete ouvinte de língua falada, intérprete ouvinte
de língua de sinais e intérprete surdo de língua de sinais há poucas distinções das funções de
interpretação nas conferências. A política linguística de tradutor e intérprete de língua já está no
planejamento linguístico da AIIC e já tem registros dos profissionais que atuam no setor de
conferências:

98
Tradução Pereira (2008, p. 33).
168

AIIC auxilia os organizadores de conferências a encontrar intérpretes profissionais


através de seus diretórios online de membros, e de intérpretes-consultores verificados.
2) AIIC procura definir e promover o reconhecimento da Profissão de Intérprete de
Conferência. 3) AIIC promove boas práticas de formação através de suas
recomendações de Melhores Práticas para a Formação de Intérpretes e seu Diretório
de Instituições de Ensino. 4) AIIC também promove formação continuada através de
cursos para intérpretes profissionais e formadores. 5) AIIC oferece direcionamento a
jovens interessados em interpretação ou novatos na profissão. 6) AIIC sonda os
usuários de serviços de interpretação e realiza um estudo detalhado de suas
expectativas. 7) AIIC atende às necessidades da indústria de conferências através de
seu setor de mercado privado, que fornece consultoria especializada para organização
de conferências, e promove o papel do intérprete consultor. 8) AIIC se comunica com
a comunidade de intérpretes em conferências e através de seu site, pela revista virtual
“Communicate!” e sua presença nas mídias sociais. 9) A AIIC promove o uso de
línguas em um mundo multilingue através de seus projetos e seu envolvimento com
organizações internacionais (veja a declaração sobre multilinguismo).99 (AIIC, 2020,
s. p., tradução Fernando Parente).

A política linguística deve promover o planejamento linguístico que considera o tradutor


e intérprete de língua e assim, propiciar aos profissionais tradutores e intérpretes de língua uma
formação no par linguístico, o que dá aos clientes uma comunicação sem barreiras linguísticas.
As políticas linguísticas reconhecem a profissão e a qualidade profissional dos intérpretes de
línguas, a equipe de tradutores e intérpretes de língua (surdos e ouvintes) que participam na pré-
conferência, conferência e pós-conferência, o que permite uma coletividade e uma melhor
habilidade de interpretação e comportamento ético. De acordo Granado (2019, p. 159): “Assim,
os intérpretes surdos sempre devem trabalhar com outros intérpretes surdos e ouvintes, para
apoiarem um ao outro, de maneira que melhore a qualidade do trabalho”.Os oito (8) setores,
citados acima, promovem os intérpretes de língua falada e língua sinalizada, a Associação
Internacional de Intérprete de Conferência – AIIC:

reconhece que a interpretação da qualidade depende de mais do que o conhecimento


e as habilidades de um intérprete individual. As condições de trabalho, o espírito
de colegialidade numa profissão em que raramente se trabalha sozinho e a qualidade
dos equipamentos de conferência e interpretação simultânea em um campo muitas
vezes dependente de tecnologia são apenas alguns dos fatores que afetarão o
desempenho do intérprete. (AIIC, 2011, s. p., tradução nossa).

99
Em inglês: 1) AIIC helps conference organisers find professional interpreters through its online directories of
members and vetted consultant interpreters. 2) AIIC seeks to define and foster recognition of the Profession of
Conference Interpreter. 3) AIIC promotes good training practices through its Best Practice recommendations for
Interpreting Schools and its Schools Directory. 4) AIIC also promotes life-long learning by organising training
courses for professional interpreters and trainers. 5) AIIC advises young people interested in interpreting or just
starting out in the profession. 6) AIIC listens to users of interpretation services and has carried out a detailed
study of their expectations. 7) AIIC caters to the needs of the conference industry through its private market sector,
which provides expert input for the organisation of conferences and promotes the role of the consultant interpreter.
8) AIIC communicates with the interpreting community at conferences and through its web site,
webzine Communicate! and its presence on social media. 9) AIIC promotes the use of languages in a multilingual
world through its projects and its involvement with international bodies (see the declaration on multilingualism).
Disponível em: https://aiic.net/.
169

Não é somente a qualidade da competência interpretativa das línguas, mas há a


necessidade de qualidade da iluminação no contexto de conferência, uma boa equipe de tradutor
e intérprete de língua de sinais, boas tecnologias, dentre outros aspectos. Apresentamos as
figuras dos aspectos de contexto de conferência na situação de intérprete surdo que envolve
língua de sinais nacional ou língua de sinais internacional com equipe e qualidade no auditório.
Veja a figura 23 a seguir.

Figura 23 - A primeira situação de Conferência

Fonte: Elaboração própria.100

Na imagem 23, da primeira situação de conferência (regional, nacional ou


internacional), um palestrante P, produz a fala em determinada língua fonte, por exemplo, o
português brasileiro, o intérprete ouvinte faz a interpretação da língua falada para LSN, o
intérprete surdo-feed– intérprete surdo vê a interpretação da LSN e realiza a interpretação para
outra LSN ou para LSI – outro intérprete surdo vê a interpretação da LSN ou LSI e realiza a
interpretação para língua de sinais internacional ao público. O guia-intérprete realiza a
interpretação, intermodal, interlingual e/ou intramodal, para a língua de sinais nacional para o
público surdocego a partir da escuta da língua falada ou a partir da língua sinalizada. O espaço
do auditório precisa ter boa iluminação e uma equipe competente. Mostramos outro exemplo
de situação da conferência na figura 24:

100
Ilustração de João Batista Alves de Oliveira Filho.
170

Figura 24 - A segunda situação de Conferência

Fonte: Elaboração própria.101

A imagem 24 é uma segunda situação de conferência (regional, nacional ou


internacional), um palestrante P produz em língua de sinais, o intérprete surdo-feed – intérprete
surdo vê língua de sinais e interpreta para outra língua de sinais, por exemplo a Libras, o
intérprete surdo recebe da Libras e realiza o espelho da interpretação em Libras ao público
surdo. Na cabine, o intérprete ouvinte vê a Libras e realiza a interpretação para o português
brasileiro ao público ouvinte. O guia-intérprete escuta do português brasileiro e interpreta para
a língua de sinais (Libras) ou ver da Libras e interpretar para Libras ao público surdocego.
Mostramos na figura 25 sobre teleconferência e intérprete surdo:

Figura 25 - A terceira situação de conferência e teleconferência

Fonte: Elaboração própria.102

101
Ilustração de João Batista Alves de Oliveira Filho.
102
Ilustração de João Batista Alves de Oliveira Filho.
171

A imagem 25 represente uma terceira situação de conferência (regional, nacional ou


internacional), com um momento da teleconferência em língua de sinais. Teleconferência é uma
conferência que acontece à distância, podendo ser através de um sistema de vídeo ou de áudio,
incluindo a captação visual em língua de sinais. Na situação da conferência, o palestrante realiza
uma fala sinalizada em LSI, o intérprete surdo-feed interlíngue interpreta para a Libras e o
intérprete surdo repassa a interpretação intralingual da Libras para o público. O guia-intérprete
escuta do português brasileiro e interpreta para a língua de sinais (Libras) ou vê da Libras e
repassa para a Libras para o público surdocego. Todas as ilustrações mostraram situações de
conferências e teleconferências. De acordo com Reis e Machado (2016):

a atuação dos intérpretes surdos nos contextos observados, com os intérpretes-feed,


nas possibilidades intralingual e interlingual. Especificamente, reconhece que, no
processo de interpretação simultânea, o espaço cultural que ocupa o intérprete surdo
no momento da interpretação intralingual e na interpretação entre línguas de sinais na
situação da interpretação interlingual. (REIS; MACHADO, 2016, p. 1).

Há também a situação de mesa-redonda, nas quais representantes surdos e ouvintes


participam durante as conferências, pode acontecer em situações de conferência acadêmica ou
em outras situações como em eventos de artes surdas como Folclore Surdo e Cultura Surda.
Veja a figura 26 abaixo:

Figura 26 - A quarta situação de Conferência - Mesa-redonda

Fonte: Elaboração própria.103

103
Ilustração de João Batista Alves de Oliveira Filho.
172

A imagem 26 é uma quarta situação de conferência (regional, nacional ou internacional),


uma mesa-redonda com um ou mais representantes surdos estrangeiros e um ou mais
representantes surdos brasileiros, quando um representante estrangeiro fala em LSI ou algum
representante brasileiro fala em Libras, é necessária a presença do intérprete surdo porque não
dá pra vê a sinalização realizada por quem estar falando, pois a mesa fica numa posição reta, o
que não permite a visualização, por isso presença do intérprete surdo para realizar a
interpretação. Observamos nas conferências nacional e internacional, em pré-congressos, que é
importante a equipe de tradutor e intérprete de língua conversar com os palestrantes, de acordo
com Granado:

os intérpretes surdos têm interesse em transmitir os conteúdos para a audiência


brasileira precisam conhecer primeiramente o palestrante estrangeiro e seu país de
origem, cultura, língua e um pouco de história dele, e assim, a interpretação poderia
ser mais flexível e criativa. (GRANADO, 2019, p. 159).

É preciso saber as informações do autor e sua temática, essas informações


importantíssimas para ajudar no desenvolvimento da competência interpretativa dos domínios
das línguas e línguas de sinais. De acordo com Nogueira (2016, p. 183) a “fase pré-conferência
tem uma característica diagnóstica e preventiva, na qual os intérpretes e a coordenação da
equipe verificam, planejam e buscam realizar ações que contribuam para o momento da
interpretação”.
A presença e contratação profissional de intérprete surdo em contextos de conferência
brasileira está aumentando. De acordo com AIIC, que é a única associação internacional de
intérpretes de conferência104 (tradução nossa), incluindo intérpretes de línguassinalizadas com
competência interpretativa das LSN ou LSI comprovada, é importante registrar os profissionais
de intérpretes surdos no site da AIIC. Afinal, o intérprete surdo das LSN e LSI trabalham em
diversas conferências regionais, nacionais e internacionais. Na próxima seção falaremos sobre
política linguística relacionando as legislações sobre os profissionais tradutor e intérprete de
língua e tradutor e intérprete surdo.

104
The International Association of Conference Interpreters (AIIC) is the only global association of conference
interpreters.
173

3.5 POLÍTICAS LINGUÍSTICAS E PLANEJAMENTO LINGUÍSTICO DO TRADUTOR E


INTÉRPRETE DE LÍNGUA PELAS LEGISLAÇÕES

Nas seções acima, fizemos um resumo sobre o direito do tradutor e intérprete surdo, à
luz das legislações, da formação profissional e remuneração, discutindo a importância de uma
política linguística para fazer o planejamento linguístico para complementar a legislação sobre
tradutor e intérprete de língua incluindo o tradutor e intérprete de língua de sinais e português
brasileiro.
Nesta seção nos basearemos para a discussão nos documentos oficiais específicos das
legislações brasileiras e internacionais sobre tradutor e intérprete de língua, estendendo a
discussão ao profissional tradutor e intérprete surdo. Considerando, inicialmente, as políticas
linguísticas e a legislação brasileira, posteriormente as legislações dos outros países e, por fim,
a legislação internacional, buscamos as leis, decretos, Código Civil, Constituição da República
Federativa do Brasil, Portaria e entre outros documentos para relacionar com o profissional em
estudo, o intérprete surdo de línguas de sinais. Não buscamos coletar legislações estaduais,
municipais.
O primeiro registro da legislação sobre tradutor e intérprete é o Decreto nº 13.609, de
21 de outubro de 1943, que trata sobre a presença do tradutor e intérprete no Brasil: “Estabelece
novo regulamento para tradutor público e intérprete comercial no território da República”
(BRASIL, 1943). Esse decreto é uma grande conquista para a comunidade surda, sobretudo
para os que tinham a intenção de ser intérpretes e tradutores, são as legislações estabelecidas
até hoje.
O segundo documento oficial foi a Constituição da República Federativa do Brasil de
1988, seguido pela Lei nº 10.098/2000, o Decreto nº 5.262/2005; o Decreto nº 6949/2009, a Lei
federal nº 12.319/2010; a Lei federal nº 13.005/2014 e a Lei federal nº 13.146/2015. Há mais
legislações para o tradutor e intérprete de língua de sinais e português brasileiro do que para o
intérprete surdo de língua de sinais para outra língua de sinais, pois a demanda de inclusão
social de surdos necessita da comunicação entre a Libras e o Português brasileiro. É recente a
demanda dos surdos incluindo as necessidades de comunicação de/para LSNs e/ou LSI.
Para incluir o povo surdo na sociedade, é importante a presença do tradutor e intérprete
de língua de sinais e português brasileiro, porém, também é importante a presença do intérprete
surdo de língua de sinais para outra intérprete de língua de sinais para comunicação entre Libras
e outras línguas de sinais nacionais ou língua de sinais internacional.
174

De 2000 para cá, os termos do Decreto nº 5.626/2005 estão sendo discutidos e


compreendidos para implementação pelos órgãos e instituições competentes. Essas legislações
tratam, também, do intérprete surdo de língua de sinais, pelo direito das pessoas surdas ao
acesso as informações através da Libras e de outras LSNs, do direito dessa comunidade surda,
da formação de intérprete surdo. Assim, é fundamental compreender o que ela prevê para
adequar eventos, universidades, órgãos públicos e outras instituições. Em seguida temos o
corpus referente às legislações brasileiras que tratam do tradutor e intérprete de língua e finaliza
até tradutor e intérprete surdo.

a) Profissional de Tradutor e Intérprete de Línguas Faladas e Línguas Sinalizadas

De acordo com a Declaração Universal de Direitos Linguísticos – DUDL, no art. 52.º:


“Todos têm direito a exercer as suas atividades laborais ou profissionais na língua própria do
território, exceto se as funções inerentes ao posto de trabalho exigirem a utilização de outros
idiomas, como no caso dos professores de línguas, dos tradutores, ou dos guias turísticos”
(DUDL, 1996). Em todos os contextos, públicos e privados, em território nacional deve-se
exigir a presença do profissional tradutor e intérprete de línguas para o desempenho da função
na tradução das diferentes língua falada e língua sinalizada, como determinam os documentos
oficiais das legislações brasileiras e internacionais relacionados às línguas de sinais.
Nesta seção discorremos sobre as legislações internacionais e brasileiras com o foco no
profissional tradutor e intérprete de língua e línguas de sinais no mundo. Especialmente o
Decreto nº 6949/2009, que trata sobre a Convenção Internacional dos Direitos das Pessoas com
Deficiência pela International Disability Alliance – IDA105 (traduzido para o português
brasileiro Aliança Internacional de Deficiência): é o direito de toda a comunidade das pessoas
com deficiência auditiva, principalmente, a pessoa surda., conforme Sobre o referido decreto:

Promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência


e seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova York, em 30 de março de 2007. Art.
9º Acessibilidade. 2.Os Estados Partes também tomarão medidas apropriadas para: e)
Oferecer formas de assistência humana ou animal e serviços de mediadores, incluindo
guias, ledores e intérpretes profissionais da língua de sinais, para facilitar o acesso
aos edifícios e outras instalações abertas ao público ou de uso público. (BRASIL,
2009).

105
O objetivo da Aliança é promover a implementação efetiva e integral da Convenção da ONU em todo o mundo,
bem como a conformidade com a Convenção da ONU no sistema das Nações Unidas, através do envolvimento
ativo e coordenado de organizações representativas de pessoas com deficiência. Disponível em:
http://www.internationaldisabilityalliance.org/.
175

Os representantes surdos que integram há anos a Federação Mundial de Surdos na


Organização das Nações Unidas - ONU, bem como os representantes surdos da comissão de
pessoas com deficiências da Aliança Internacional de Pessoas com Deficiência - IDA versam
sobre a criação da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência,
indicando o respeito pelo profissional intérprete de língua de sinais, assinalando a necessidade
de realmente “ser profissional”, demonstrando a defesa pela profissionalização dos intérpretes
surdos e ouvintes.
Para atuar como tradutor e intérprete de língua de sinais, não basta saber língua de sinais,
precisa ser profissional e ter competência tradutória e interpretativa, além de domínio das
línguas faladas e línguas de sinais. No Brasil, a profissão de tradutor e intérprete de língua está
no Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) no Classificação Brasileira de Ocupações (CBO),
sob o n° 2614 – código que define a profissão de Intérprete de língua de sinais; guia-intérprete;
intérprete de Libras; tradutor de Libras e tradutor-intérprete de Libras – tendo como descrição
sumária a seguinte transcrição:

Traduzem, na forma escrita e/ou oral, textos e imagens de qualquer natureza, de um


idioma para outro, considerando as variáveis culturais, bem como os aspectos
terminológicos e estilísticos, tendo em vista um público-alvo específico. Interpretam
oralmente e/ou na língua de sinais, de forma simultânea ou consecutiva, de um idioma
para outro, discursos, debates, textos, formas de comunicação eletrônica, respeitando
o respectivo contexto e as características culturais das partes. Tratam das
características e do desenvolvimento de uma cultura, representados por sua
linguagem; fazem a crítica dos textos. Prestam assessoria a clientes. (BRASIL, 2010c,
p. 385).

Sobre a profissão registrada na CBO, o profissional pode transitar tanto pela tradução,
como pela interpretação ou ainda pela tradução-interpretação, trabalhando com a língua
sinalizada para outra língua falada ou língua sinalizada nos variados contextos do Brasil. Para
a valorização da profissão há algumas iniciativas. Vejamos o quadro dos documentos oficiais:
a Lei nº 11.091/2005 (BRASIL, 2005b) e o Classificação Brasileira de Ocupações – CBO
(BRASIL, 2010c).

Quadro 12 - Lei 11.091/2005 e Classificação Brasileira de Ocupações - CBO


CBO – Classificação Brasileira de Ocupações
Lei 11.091/2005 (BRASIL, 2005b)
(BRASIL, 2010c)
Dispõe sobre a estruturação do plano de Plano único de classificação e retribuição de
Carreira dos Cargos Técnicos-Administrativos cargos e empregos descrição do cargo nível de
em Educação, no âmbito das Instituições
176

Federais de Ensino vinculadas ao Ministério da classificação: d denominação do cargo: tradutor e


Educação, e dá outras providências ANEXO II intérprete de linguagem de sinais.
(Redação dada pela Lei nº 11.233 de 2005). código cbo: 0.31.90
Distribuição dos cargos por nível de requisito de qualificação para ingresso no cargo:
classificação e requisitos para ingresso. Cargos • Escolaridade: Ensino Médio Completo e
Técnico-Administrativos em Educação: nível de proficiência em Libras.
classificação D, Denominação do cargo: • Outros:
Tradutor e Intérprete de Linguagem de Sinais, • Habilitação profissional:
Requisitos para ingressos: Médio completo + Descrição sumária do cargo:
proficiência em LIBRAS: nível de classificação • Traduzir e interpretar a linguagem dos sinais.
E, Denominação do cargo: Tradutor e Intérprete, Responsabilidades:
Requisitos para ingressos: Curso Superior em • Pelo serviço executado;
Letras. Providências. • Pelo material de consumo, equipamentos e
material permanente a sua disposição.
Descrição de atividades típicas do cargo:
• Traduzir e/ou interpretar textos.
• Traduzir e/ou interpretar palestras,
conferências, discursos, eventos similares.
• Prestar serviço de tradução e interpretação em
situações nas quais por diferença de língua seja
necessária sua presença como: Escolas,
Hospitais, Logradouros Públicos, Veículos e
meios de Comunicação, Tribunal de Júri, Igrejas.
• Executar outras atividades de mesma natureza e
nível de dificuldade.
Fonte: Elaboração própria.

A primeira coluna mostra a estruturação do Plano de Carreira dos Cargos Técnicos-


Administrativos em Educação, no âmbito das Instituições Federais de Ensino vinculadas ao
Ministério da Educação pela Lei nº 11.091/2005 (BRASIL, 2005b). O cargo de tradutor e
intérprete de língua de sinais já foi criado há 14 anos, e existe uma polêmica sobre o nível que
o cargo deve ser classificado, se nível D ou nível E, pois, ao ingressar na universidade, o
profissional pode trabalhar no setor administrativo, mas pode trabalhar também em salas de
aula do Ensino Superior. Falta um maior esclarecimento sobre a lei e sobre as funções que
poderiam ser desempenhadas por cada nível de classificação profissional.
A Lei nº 11.233/2005, apresenta a distribuição dos cargos por nível de classificação e
requisitos para ingresso nas instituições federais. O cargo Técnico-Administrativo em
Educação, nível de classificação D, tem como denominação do cargo “Tradutor e Intérprete
de Linguagem de Sinais” e o requisitos para ingresso são: ensino médio completo e proficiência
em Libras, e ingressa somente no setor administrativo. Já o cargo Técnico-Administrativo em
Educação, nível de classificação E, tem a denominação do cargo: “Tradutor e Intérprete”, e os
requisitos para ingresso são: ensino superior completo em Letras, e é o profissional que atua na
177

sala de aula da graduação, pós-graduação, em conferência acadêmica, em grupo de pesquisa


dos projetos, dentre outros (BRASIL, 2005d).
Infelizmente, há poucos contratos efetivos de nível E. O Movimento Surdo apoia que o
tradutor e intérprete de língua de sinais e português brasileiro tenha direito aos concursos de
nível E para termos profissionais competentes, que prestam serviços com maior qualidade e
com conhecimentos acadêmicos compatíveis com o ensino superior.
A segunda coluna apresenta o cargo profissional somente em nível do ensino médio, o
que dificulta a atividade laboral, visto que o profissional que possui somente o ensino médio
pode ter dificuldade em atuar no ensino superior, pois o traduzir e/ou interpretar textos
acadêmicos exige um maior grau de conhecimentos, um profissional sem uma formação que
lhe dê condições, experiência e o conhecimento acadêmico, pode encontrar dificuldades e até
ficar impossibilitado de realizar essa função.
Assim, pode ser um problema se tivermos situações do profissional precisar, por
exemplo, traduzir e/ou interpretar palestras, conferências, discursos, eventos similares, para um
cliente surdo doutor e esse profissional intérprete ser formado apenas no ensino médio.
Certamente, haverá um prejuízo ao surdo, pois o profissional pode não alcançar o nível
acadêmico exigido para a ocasião. Por essa razão, o movimento surdo e os tradutores e
intérprete de língua de sinais estão lutando pela inclusão de uma emenda que modifique a
classificação dos cargos de tradutor e intérprete nos concursos públicos para atuação em
instituições federais, alterando o atual cargo nível D para nível E. Porém, esse processo ainda
tramita entre os deputados federais e senadores para aprovação.

b) Profissional de Tradutor e Intérprete de Libras, Português brasileiro e outras Línguas


de Sinais no Brasil

Na subseção anterior, explicitamos uma legislação geral e nesta seção buscamos as


legislações focadas no profissional tradutor e intérprete de língua em maior evidência dentre as
línguas pesquisadas, a maioria dos profissionais é tradutor e intérprete de Libras do português
brasileiro, há pouquíssimos sobre o tradutor e intérprete surdo das línguas de sinais.
De acordo com Garcez e Schulz (2016, p. 1) “não só a gestão da linguagem, mas também
as práticas de linguagem, e as crenças e valores que circulam a respeito delas. Tome, por
exemplo, a situação do cidadão das classes confortáveis brasileiras”. Podemos pensar a prática
de linguagem como a língua de sinais para o cidadão surdo no Brasil pela sua situação real. A
178

língua de sinais mais usada é a Libras, mas precisa ter o português brasileiro interpretado para
outras LSNs, regionais, gesto, dentre outros com a presença do tradutor e intérprete surdo. De
acordo com Dorigon (2016, p. 350):

Questões relativas a planejamento de status incluem oficialização, nacionalização,


renascimento e difusão de uma língua, entre outros. A planificação linguística, ou seja,
a política linguística posta em prática, era vista como uma ciência objetiva e neutra,
como instrumento de melhoria de determinadas línguas, implementada
tradicionalmente pelo estado-nação. Nesse processo, cada Estado deveria desenvolver
a sua língua, e promover o multilinguismo significava prejudicar as nações.
(DORIGON, 2016, p. 350).

A prática das línguas implementadas nas instituições públicas e privadas com a presença
do tradutor e intérprete surdo contribui para promover a comunicação através das línguas de
sinais entre o cidadão surdo e ouvinte, o que favorece a diminuição das barreiras linguísticas.
Nossa discussão versa sobre a difusão das legislações brasileiras a respeito do uso das línguas
de sinais e da presença de tradutor e intérprete de língua (surdo e ouvinte) nos vários espaços
da sociedade.
Na primeira promulgação do documento oficial da Constituição da República
Federativa do Brasil de 1988, em seu art. 9, diz que, para a acessibilidade:

Os Estados Partes também tomarão medidas apropriadas para: e) Oferecer formas de


assistência humana ou animal e serviços de mediadores, incluindo guias, ledores e
intérpretes profissionais da língua de sinais, para facilitar o acesso aos edifícios e
outras instalações abertas ao público ou de uso público. (BRASIL, 1988).

Ou seja, não é qualquer pessoa que sabe língua de sinais que pode trabalhar como
intérprete de língua de sinais. Além de ser um profissional bilíngue, deve ter competência
tradutória e interpretativa. Apresentamos as legislações brasileiras sobre o profissional
intérprete e tradutor de Libras, português brasileiro e outras línguas de sinais. Vejamos o quadro
13:.

Quadro 13 - Lei 12.319/2010, Lei 13.105/2015 e Lei 13.005/2014


Lei 12.319/2010 Lei 13.105/2015 Lei 13.005/2014
Regulamenta a profissão de Código de Processo Civil. Plano Nacional de Educação – PNE,
Tradutor e Intérprete da Seção IV. Do Intérprete e
Língua Brasileira de Sinais – do Tradutor.
Libras.
179

Art. 1o Esta Lei regulamenta Art. 162. O juiz nomeará Meta 4, 4.13) apoiar a ampliação das
o exercício da profissão de intérprete ou tradutor equipes de profissionais da educação
Tradutor e Intérprete da quando necessário para: para atender à demanda do processo
Língua Brasileira de Sinais – de escolarização dos (das) estudantes
LIBRAS II – verter para o português com deficiência, transtornos globais
as declarações das partes e do desenvolvimento e altas
das testemunhas que não habilidades ou superdotação,
conhecerem o idioma garantindo a oferta de professores
nacional; (as) do atendimento educacional
especializado, profissionais de apoio
ou auxiliares, tradutores (as) e
intérpretes de Libras, guias-
intérpretes para surdos-cegos,
professores de Libras,
prioritariamente surdos, e
professores bilíngues;
Art. 2o O tradutor e III – realizar a
intérprete terá competência interpretação simultânea
para realizar interpretação dos depoimentos das partes
das 2 (duas) línguas de e testemunhas com
maneira simultânea ou deficiência auditiva que se
consecutiva e proficiência comuniquem por meio da
em tradução e interpretação Língua Brasileira de
da Libras e da Língua Sinais, ou equivalente,
Portuguesa. quando assim for
solicitado.
Fonte: Elaboração própria.

Na primeira coluna, podemos observar que a legislação foca na profissão de tradutor e


intérprete das duas línguas: Libras e português brasileiro, o que é positivo, mas poderia ter
evidenciado o profissional tradutor e intérprete surdo que trabalha com Libras e português
brasileiro, não precisava rotular o sujeito em pessoa surda e ouvinte. No entanto, ficou faltando
incluir outra língua de sinais e outras línguas faladas. Acreditamos que é porque são discussões
recentes. Essa problemática poderia ser resolvida por uma emenda à lei, colocando a figura do
tradutor e intérprete de língua e incluindo a Libras, o português brasileiro e outras línguas de
sinais. Por isso é importante o afinco por parte da comunidade surda na luta para a
complementação legal para a profissão de tradutor e intérprete de língua.
Na segunda coluna, o termo “equivalente” significa “que equivale a, que tem o mesmo
valor ou as mesmas dimensões, mesma força, os mesmos atributos, a mesma funcionalidade de
(outra coisa)” (AULETE, 2020). Vemos, portanto, que é colocado Libras ou equivalente, para
os contextos em que os tradutor e intérprete surdo atuam na tradução e interpretação para Libras,
no português brasileiro escrito, escrita de sinais, sinais caseiros, gestos, línguas de
180

sinaisregionais, , língua de sinais nacional, , língua de sinais internacional, línguas de sinais da


fronteiras, língua rural dentre outras possibilidades, trabalhando também em parceria com o
intérprete de Libras ouvinte em contexto jurídico.
No art. 20 da DUDL, “De qualquer maneira, todos têm direito a serem julgados numa
língua que sejam capazes de compreender e possam falar, ou a obterem gratuitamente um
intérprete” (DUDL, 1996). Na justiça, qualquer pessoa surda tem o direito a não pagar pelo
serviço do intérprete, logo, fica sob a responsabilidade da justiça o pagamento do profissional
intérprete. Infelizmente, a maioria dos clientes surdos pagam seus próprios tradutores e
intérpretes de língua.
Apresentamos a seguir sobre Sindicato Nacional dos Tradutores – SINTRA, a Portaria
nº 3.264, de 27 de setembro de 1988, publicada no Diário Oficial em 3 de outubro de 1988
(BRASIL, 1988). Fundado no dia 30 de novembro de 1988, no Rio de Janeiro, é, desde sua
inscrição no Ministério do Trabalho e Previdência Social, o órgão que representa os tradutores
e intérpretes em todo o território nacional.
O sindicato teve o seu estatuto alterado em Assembleia Geral Extraordinária de 19 de
janeiro de 2018, no capítulo I: “do Sindicato e seus fins art. 3º – O SINTRA sugerir á listas de
referência dos preços praticados no mercado e estabelecerá os pisos salariais, quando
necessário, devidos aos tradutores e intérpretes, levando em conta as diferenças regionais”
(SINTRA, 2018). O direito e a garantia do tradutor e intérprete de língua ser remunerado e
profissional, devendo ter uma tabela de referência de valor para os tradutores e intérpretes de
língua de sinais registrada no SINTRA, apresentamos essa tabela com tradutor e intérprete
surdo no capítulo 4.
Na terceira coluna, observamos que o termo “prioritariamente surdos” com cargo de
“professores de Libras”; no cargo tradutor ou intérprete ou guia-intérprete pode ser surdo ou
ouvinte, que trabalha nas escolas. Por fim, a única legislação, a Lei federal nº 13.105/2015 que
trata de duas línguas de sinais (Libras e ou equivalente por outra língua de sinais) e as Leis
federais nº 12.319/2010 e nº 13.105/2015, portanto, é um privilégio que existem essas leis,
contudo ressaltamos a importância de acrescentar “intérprete de língua de sinais para outra
intérprete de língua de sinais” nestas legislações.
181

c) Formação de Profissionais Tradutores e Intérpretes de Libras e Português brasileiro

No Brasil, a maioria das legislações sobre a formação de tradutor e intérprete de Libras


– português brasileiro, tem favorecido o crescimento dos cursos para tradutor e intérprete de
Libras e português brasileiro, para facilitar a comunicação e informação entre surdos e ouvintes.
Felizmente a comunidade surda brasileira tem, de maneira mais acessível, as informações
relacionado a todos os direitos linguísticos. Abaixo as legislações, a Lei federal nº 10.098/2000:

Estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das


pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras
providências. Da acessibilidade nos sistemas de comunicação e sinalização. Art. 18.
O Poder Público implementará a formação de profissionais intérpretes de escrita
em braile, linguagem de sinais e de guias-intérpretes, para facilitar qualquer tipo
de comunicação direta á pessoa portadora de deficiência sensorial e com dificuldade
de comunicação. (BRASIL, 2000).

Sobre essa legislação que menciona a formação, consideramos que é um fato positivo
que a formação de profissionais de linguagem106 de sinais pode ser de qualquer língua de sinais
para outras línguas faladas, sejam de sinais ou LSI. Do ano de 2000 até hoje, infelizmente não
foram implementados cursos para tradutor e intérprete surdo, pois ainda é recente a presença
de tradutor e intérprete surdo em alguns contextos, o que evidencia a urgência em se organizar
cursos de formação para os intérpretes surdos.
O Decreto nº 5.626/2005 rapidamente propiciou a criação do curso formação para
tradutor e intérprete de língua (Libras e português brasileiro), um único artigo lançou uma
semente para se pensar formação de tradutor e intérprete surdo. Hoje podemos ter, num futuro
próximo, a implementação do curso de formação e certificação para tradutor e intérprete surdo.
Vejamos alguns artigos do Decreto federal nº 5.626/2005 (BRASIL, 2005a).

Quadro 14 - Decreto 5.626/2005


CAPÍTULO V. DA FORMAÇÃO DO TRADUTOR E INTÉRPRETE DE LIBRAS - LÍNGUA
PORTUGUESA
Art. 17. Art. 18. Art. 19. Art. 20.
A formação do tradutor Nos próximos dez anos, a Nos próximos dez anos, a Nos próximos dez anos,
e intérprete de partir da publicação deste partir da publicação deste a partir da publicação
Libras - Língua Decreto, a formação de Decreto, caso não haja deste Decreto, o
Portuguesa deve tradutor e intérprete de pessoas com a titulação Ministério da Educação
efetivar-se por meio de Libras - Língua exigida para o exercício ou instituições de ensino
curso superior de Portuguesa, em nível da tradução e superior por ele

106
Linguagem: antiga palavra. Atualmente, usa a língua.
182

Tradução e médio, deve ser realizada interpretação de credenciadas para essa


Interpretação, com por meio de: Libras - Língua finalidade promoverão,
habilitação em Libras - Portuguesa, as anualmente, exame
Língua Portuguesa. instituições federais de nacional de proficiência
ensino devem incluir, em em tradução e
seus quadros, interpretação de
profissionais com o Libras - Língua
seguinte perfil: Portuguesa.
I - cursos de educação I - Profissional ouvinte, de Parágrafo único. O
profissional; nível superior, com exame de proficiência
II - cursos de extensão competência e fluência em em tradução e
universitária; e Libras para realizar a interpretação de
III - cursos de formação interpretação das duas Libras - Língua
continuada promovidos línguas, de maneira Portuguesa deve ser
por instituições de ensino simultânea e consecutiva, realizado por banca
superior e instituições e com aprovação em examinadora de amplo
credenciadas por exame de proficiência, conhecimento dessa
secretarias de educação. promovido pelo Ministério função, constituída por
Parágrafo único. A da Educação, para docentes surdos,
formação de tradutor e atuação em instituições de linguistas e tradutores e
intérprete de Libras pode ensino médio e de intérpretes de Libras de
ser realizada por educação superior; instituições de educação
organizações da superior.
sociedade civil II - Profissional ouvinte,
representativas da de nível médio, com
comunidade surda, desde competência e fluência em
que o certificado seja Libras para realizar a
convalidado por uma das interpretação das duas
instituições referidas no línguas, de maneira
inciso III. simultânea e consecutiva,
e com aprovação em
exame de proficiência,
promovido pelo Ministério
da Educação, para
atuação no ensino
fundamental;
III - Profissional surdo,
com competência para
realizar a interpretação de
línguas de sinais de
outros países para a
Libras, para atuação em
cursos e eventos.
Parágrafo único. As
instituições privadas e as
públicas dos sistemas de
ensino federal, estadual,
municipal e do Distrito
Federal buscarão
implementar as medidas
referidas neste artigo
como meio de assegurar
aos alunos surdos ou com
deficiência auditiva o
acesso à comunicação, à
informação e à educação.
Fonte: Elaboração própria.
183

Neste quadro mostramos os artigos 17 a 20 do Decreto nº 5626/2005d. A primeira


coluna (artigo 17): a formação do tradutor e intérprete de Libras - Língua Portuguesa deve
efetivar-se por meio de curso superior de Tradução e Interpretação, com habilitação em Libras
- Língua Portuguesa, por isso, criação do curso de Letras Libras Bacharelado. Veja no art. 20
que, obviamente, a pessoa surda deve estudar no curso de Letras libras Bacharelado para
realizar sua a formação como tradutor e intérprete surdo de Libras e português brasileiro.
A segunda coluna traz o art. 18, que fala sobre o prazo de dez anos a partir de 2005 para
efetivar as possibilidades de formações que podem ser: i) cursos de educação profissional ou;
ii) cursos de extensão universitária ou; iii) cursos de formação continuada promovidos por
instituições de ensino superior e instituições credenciadas por secretarias de educação.
Oportunidade que propicia o surgimento de curso de formação para tradutor e intérprete surdo.
O art. 19 aparece na terceira coluna, que traz o inciso: “III - Profissional surdo, com
competência para realizar a interpretação de línguas de sinais de outros países para a Libras,
para atuação em cursos e eventos” (BRASIL, 2005). O Exame Nacional de Proficiência – o
ProLibras, não oportunizou em quinze anos, nenhuma certificação para os intérpretes surdos de
língua de sinais para outra língua de sinais, mesmo havendo o ProLibras, que poderia ser uma
oportunidade de certificação para esses profissionais. Faltou política pública de reconhecimento
e valorização dos intérpretes surdos de línguas de sinais para outra língua de sinais. Mais
recentemente, é que se discute a criação de propostas de legislação com foco no tradutor e
intérprete surdo, questões que outras legislações não discutem.
Embora seja positivo o fato de por dois anos seguidos termos tradutor e intérprete surdo
realizando a prova de Libras para Português brasileiro, que chama-se “Certificação de tradutor
e intérprete surdo da Libras/português brasileiro”. Essa certificação não é formação, foi
promovida por uma situação emergencial, para fins de comprovação para ingresso em emprego,
mas hoje é urgente que se promova cursos para formação de tradutores e intérpretes surdos de
todas as línguas faladas escritas e línguas sinalizadas.
É importante trazer questões de registros de tradutor e intérprete surdo (Libras e
português brasileiro), e (duas ou mais LSNs ou LSI) apesar de ser uma discussão recente, é
importante ampliá-la, sobretudo, quanto aos registros de intérprete surdo de língua de sinais
para outra língua de sinais profissionais de uma mesma modalidade.
Seria uma conquista importante e por direito, se o Prolibras considerasse a certificação
do profissional surdo intérprete de Libras para outra LSN ou LSI. A certificação do Prolibras
184

foi a partir do ano de 2005 e deveria se estender até o ano de 2015, mas nunca considerou a
certificação desse profissional. Porém, houve certificação do Prolibras para o intérprete surdo
de Libras para português brasileiro e vice-versa durante dois anos.
A quarta coluna apresenta o art. 20, que fala dos exames de credenciamento promovidos
pelo Ministério da Educação ou instituições de ensino superior como universidades, como por
exemplo, o Prolibras, realizado anualmente. Cita-se somente Libras e português brasileiro, mas
pode-se colocar no currículo disciplinas sobre o tradutor e intérprete surdo que atua com a
Libras para outra LSN ou LSI. Assim, na certificação ou na formação pode colocar inclui
tradutor e intérprete surdo, o que evitaria as nomenclaturas Libras e português brasileiro.
Outro documento oficial é o relatório sobre a Política Linguística de Educação Bilíngue
– Língua Brasileira de Sinais e Língua Portuguesa das Portarias nº 1.060/2013 e nº 91/2013 do
MEC/SECADI, seção 6 de Formação inicial e continuada de professores, tradutores e
intérpretes de Libras apresentada no texto: “é fundamental para formar profissionais para
atuarem na educação básica. Essas formações devem ser garantidas em nível superior
(licenciatura e bacharelado) [...] (que forma tradutores e intérpretes de Libras e Língua
Portuguesa)” (BRASIL, 2013). Outras legislações desde o ano de 2010 abordam sobre a
formação de tradutor e intérprete de língua e que se relacionam tradutor e intérprete de Libras
e português brasileiro. Vejamos o quadro 15.

Quadro 15 - Lei 12.319/2010 e Lei 13.146/2015


Lei 12.319 (BRASIL, 2010) Lei 13.146 (BRASIL, 2015)
Regulamenta a profissão de Tradutor e Intérprete da Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com
Língua Brasileira de Sinais – Libras Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência)
Art. 4o A formação profissional do tradutor e Capítulo IV. Art. 28. Incumbe ao poder público
intérprete de Libras - Língua Portuguesa, em nível assegurar, criar, desenvolver, implementar, incentivar,
médio, deve ser realizada por meio de: acompanhar e avaliar:
I - cursos de educação profissional reconhecidos pelo XI – formação e disponibilização de professores para
Sistema que os credenciou; II - cursos de extensão o atendimento educacional especial\ado, de
universitária e; III - cursos de formação continuada tradutores e intérpretes da Libras, de guias
promovidos por instituições de ensino superior e intérpretes e de profissionais de apoio;
instituições credenciadas por Secretarias de
Educação.
Parágrafo único. A formação de tradutor e intérprete
de Libras pode ser realizada por organizações da
sociedade civil representativas da comunidade surda,
desde que o certificado seja convalidado por uma das
instituições referidas no inciso III.
Fonte: Elaboração própria.

A primeira coluna apresentam trechos da Lei nº 12.319/2010 e do Decreto nº


5.626/2005. A segunda coluna é a mais recente, Lei nº 13.146/2015 que, no seu art. 28:
185

“Incumbe ao poder público assegurar, criar, desenvolver, implementar, incentivar, acompanhar


e avaliar [...] XI – formação e disponibilização de professores para o atendimento educacional
especializado, de tradutores e intérpretes da Libras, de guias intérpretes e de profissionais de
apoio” (BRASIL, 2015. O Poder público municipal, estadual ou federal deve implementar ou
incentivar a formação de tradutor e intérprete em Libras, podendo ser tradutor de Libras para
qualquer outra língua falada ou língua sinalizada. Nossa comunidade surda ou entidade de/para
surdos com tradutor e intérprete surdo continua na luta para pedir o curso de formação de
tradutor e intérprete surdo.
Em 2011, a Presidente da República Dilma Rousseff assinou o Decreto nº 7.612, que
institui o Plano Nacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência – Plano Viver Sem Limite
e também, a cartilha do Plano (BRASIL, 2013), que subsidiou delinear ações do Governo
Federal para a promoção da inclusão de pessoas com deficiências em todo o país.

Institui o Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência – plano viver sem
limite. Também a cartilha de plano viver sem limite (Brasil 2013). Para tornar
realidade a educação bilíngue no Brasil, o Viver sem Limite prevê a criação de 27
cursos de Letras/Libras – Licenciatura e Bacharelado e de 12 cursos de Pedagogia
na perspectiva bilíngue. Por meio do plano, serão criadas 690 vagas para que as
instituições federais de educação contratem professores,tradutores e intérpretes de
Libras. (BRASIL, 2011).

Pelo Plano Viver Sem Limite, tivemos a criação de 27 (vinte e sete) cursos de Letras
Libras – Licenciatura e/ou Bacharelado, para formação tanto de professores de Libras, quanto
de tradutores e intérpretes de Libras/ português brasileiro. Às universidades, foi oferecida a
escolha do curso presencial, entre 27 cursos presenciais de Letras Libras em licenciatura ou em
bacharelado, a maioria escolheu o de licenciatura. Infelizmente, no Nordeste, não existe
nenhum curso presencial do curso de Letras Libras Bacharelado em universidades públicas, e
não há previsão de implantar a oferta desse curso.
Já o curso de Letras Libras Licenciatura é ofertado, por exemplo, pela Universidade
Federal do Ceará, com 14 vagas para professores e outras vagas para intérpretes. Atualmente,
há nove cursos de bacharelado em Letras Libras: dois cursos na Universidade Federal de Santa
Catarina - UFSC, sendo um presencial e outro à distância; um curso na Universidade Federal
do Rio Grande do Sul (UFRGS); um curso na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar),
um curso na Universidade Federal de Rio de Janeiro (UFRJ), um curso na Universidade Federal
de Roraima (UFRR), um curso na Universidade Federal de Espírito Santo (UFES), um curso
186

na Universidade Federal de Goiás (UFG) e uma na Universidade Federal da Grande Dourados


(UFGD), todos presenciais.
Os quadros 12, 13, 14 e 15 contém artigos das legislações brasileiras que discorrem
sobre a implementação dos cursos de formação de tradutores e intérpretes. Antes das leis,
tínhamos apenas cursos livres, porém, depois do Decreto nº 5626, inicia-se em 2008 o primeiro
curso superior de Letras Libras Bacharelado, na modalidade EaD, na qual é ofertada até hoje.
Na modalidade presencial foi implementado a partir de 2010, em sete universidades federais.
Como apontamos acima, no Nordeste não há curso de Letras Libras Bacharelado
presencial. É urgente e necessária a criação desse curso na região. Alguns alunos surdos já são
formados e/ou graduandos do curso de Letras Libras Bacharelado (Libras e português
brasileiro). Falamos sobre isso na seção 5.3. na análise de dados.
A respeito da formação, percebi como positiva a legislação para tradutor e intérprete
surdo com formação de tradutor e intérprete surdo de LSN ou LSI no Brasil. Não encontrei
legislações nacionais, somente o reconhecimento do trabalho de equipe do tradutor e intérprete
de língua de sinais com tradutor e intérprete surdo em parceria com um intérprete ouvinte para
atuação nos contextos na conferência, na área judicial e da saúde. Identificamos somente a Carta
Canadense de Direitos e Liberdades 107, documento elaborado por um comitê, com versão final
aprovada em 1982 e que fala sobre o serviço de intérpretes surdos (CANADÁ, 2019). Em minha
opinião, sobre o contexto brasileiro, não precisaria complementar por meio de uma emenda
legislativa; bastaria um documento de reconhecimento de profissão expedido por instituições
de tradutores e intérpretes, como a Febrapils, reconhecendo a equipe de tradutor e intérprete de
língua.
No Brasil, falta formação e legislações sobre os aspectos de atuação do tradutor e
intérprete surdo (Libras para outras línguas de sinais). Em outros países há, ao contrário do
Brasil, interesse na formação de intérprete surdo, como já explicitamos nas seções anteriores.
É importante a presença do tradutor e intérprete surdo nos vários contextos para realizar
o serviço profissional de tradução, pelo direito à igualdade em relação aos outros tradutor e
intérprete de língua. É necessário o desenvolvimento de política linguística para fazer o
planejamento linguístico para profissionalização do tradutor e intérprete surdo no Brasil e no

107
In the case of deaf persons in particular, section 14 must be interpreted in light of the principle of equality in
section 15 of the Charter. Deaf persons have the right to interpreter assistance that ensures a high degree of
linguistic comprehension, and that is adapted to the person’s linguistic needs and competence. The provision of
sign language interpretation will usually suffice, but sometimes the services of a “deaf interpreter” may also be
required (Trottier, supra, at paras. 49-56). Disponível em: https://www.justice.gc.ca/eng/csj-sjc/rfc-dlc/ccrf-
ccdl/check/art14.html.
187

mundo. Observando a trajetória histórica descrita anteriormente, é perceptível que as políticas


linguísticas de desenvolvimento linguístico dos surdos são recentes, feitas pela existência de
poucas informações sobre tradutor e intérprete surdo das LSNs e LSI.
Há poucos registros de que, no Brasil, existam intérprete surdo de LSN ou LSI que
trabalhem com remuneração adequada e formação. A maioria é voluntário e atua,
especificamente, para auxiliar pessoas surdas que estejam numa situação urgente de
comunicação entre duas ou mais de línguas de sinais. A maioria não tem formação em Letras
Libras e nem certificação de Prolibras de tradutor e intérprete surdo de duas LSNs.
Esse relatório se mostrou importante, já que exalta a urgência da implementação de
serviços de intérprete surdo que englobem as línguas de sinais, evitando a continuação do
voluntariado, que causam atrasos nas conquistas das línguas de sinais, tanto da Libras quanto
das outras LSNs ou LSI.
Sobre as políticas de status, Gancez e Schulz (2016, p. 9) afirmam que “dizem respeito
às funções das línguas nos seus âmbitos de uso. Uma língua pode ser veículo de interação
apenas no âmbito familiar e comunitário, sem ter funções previstas no funcionamento de
instituições e do Estado em geral”. A comunidade surda é minoria linguística e não tem território
próprio, mas é preciso respeito às línguas de sinais da pessoa surda, há uma variedade de línguas
de sinais: línguas de sinais regionais, línguas de sinais nacionais, língua de sinais internacional,
gesto, língua de sinais da fronteira, dentre outras.
Portanto, o principal é o reconhecimento da Libras por legislação e por respeito às
comunidades surdas brasileiras espalhadas pelo Estado. Os mesmos autores dizem que
“Políticas linguísticas de status recentemente alteraram essa situação na medida em que, ao
serem cooficializadas em nível municipal” (GANCEZ; SCHULZ, 2016, p. 10). Assim, “essas
línguas passam a ser não apenas reconhecidas, mas também legitimadas como línguas em que
o cidadão pode demandar o Estado” (MORELLO, 2012, apud GANCEZ; SCHULZ, 2016, p.
10). Por isso, é importante cooficializar as línguas de sinais regionais, assim como as línguas
de sinais índígenas, rural e urbana, para que, dessa forma, se legitimem as línguas dos cidadãos
indígenas e povoados rurais. Precisamos da presença e oficialização de tradutor e intérprete
surdo para interpretar as várias línguas de sinais brasileiras e no mundo.
Na luta pelas políticas linguísticas no Brasil, é importante a integração entre federação,
estado e município, nos novos domínios, para desenvolver justificativas para as línguas de
sinais, para as políticas linguísticas, para o planejamento de ações e orientações nas instituições
188

para valorização da presença do intérprete e tradutor surdo de LSN ou LSI, além de contribuir
para a proposição de novas legislações ou acréscimento de emendas. Essa articulação pode
facilitar a relação entre surdo brasileiro e surdo estrangeiro e, entre ouvinte e surdo estrangeiro
que, com o auxílio dos intérpretes profissionais, pode evitar conflitos desnecessários. Por um
lado, é clara a necessidade de mudança de estrutura das políticas governamentais, de novos
gestores e de intervenções nas práticas que impõe a língua de sinais como único sistema de
comunicação. É urgente pensar em novas estratégias de abordar a linguística das línguas de
sinais para o intérprete.
No entanto, apesar do intenso e contínuo debate sobre a maneira correta de organizar
questões relacionadas ao intérprete surdo, às línguas de sinais e à comunicação, percebemos
muitos conflitos nas políticas linguísticas brasileiras e em suas implementações. Portanto, essa
pesquisa surge a partir dessas inquietações, visando discutir academicamente sobre a relevância
da língua de sinais para as comunidades surdas do Brasil e de seu uso nas políticas linguísticas
sobre o bilinguismo para as pessoas surdas. Minha pesquisa de doutorado também quer suscitar
a continuação de pesquisas sobre o tema, pela necessidade de se contribuir na divulgação do
intérprete surdo de LSN e LSI para os surdos brasileiros, os surdos e ouvintes estrangeiros e
nas instituições brasileiras.
189

4 PERCURSO METODOLÓGICO

O objetivo neste capítulo é apresentar o percurso metodológico da presente pesquisa,


que está apresentado em quatro partes:
1ª) Tipo de pesquisa e a natureza da pesquisa;
2ª) Instrumentos usados na coleta dos dados;
3ª) Os sujeitos da pesquisa; e finalmente
4ª) Etapas da pesquisa.

4.1 TIPO DE PESQUISA E NATUREZA DA PESQUISA

Nesta seção faremos um detalhamento dos procedimentos de pesquisa e também


explicitaremos as escolhas metodológicas que permitiram a produção dos dados sobre as
experiências dos sujeitos intérpretes surdos das línguas de sinais, e como a trajetória desse
profissional influenciou a sua constituição do intérprete intramodal e interlingual e como isso
se relaciona com a política linguística. A Política Linguística da língua de sinais no Brasil ainda
se apresenta como desafio aos profissionais intérpretes surdos das LSNs ou LSI, por ainda não
haver modelos estabelecidos que norteiem formações, perfil, atitudes, competência linguística
das línguas de sinais, remuneração, trabalho e direitos linguísticos nesse âmbito.
Trata-se de um estudo descritivo-exploratório de abordagem quanti-qualitativa. É
considerada descritiva e exploratória, a partir das informações e registros acerca dos sujeitos
intérpretes surdos e de sua história e relação com as línguas de sinais, como esses sujeitos lidam
com o fato de serem falantes de duas ou mais línguas de sinais e atuarem como intérprete surdo
de duas LSNs ou LSI, com ou sem formação específica, visto que envolve a valorização, a partir
das legislações, a qualidade da remuneração, e como tudo isso dialoga com a política
linguística.
O foco da tese é investigar quais problemas influenciam as políticas linguísticas nas
instituições brasileiras para implementações do profissional tradutor e intérprete surdo nos
contextos institucionais, analisando os aspectos das políticas das línguas de sinais, formação,
remuneração, atitude, trabalho, competência linguística das línguas de sinais, legislações e
perfis. A principal contribuição desta tese é repensar o planejamento linguístico sobre a
190

implementação da política linguística para intérprete surdo de duas LSNs ou LSI nas
instituições.
Em relação à natureza da pesquisa, esta é considerada como aplicada, visto que pretende
discutir e apresentar propostas acerca da presença do intérprete surdo de LSN para outra LSN
ou LSI, destacando seu contexto brasileiro e possíveis programas de implementação de políticas
linguísticas que observem o direito linguístico (no caso domínio de duas ou mais LSNs ou LSI),
a formação, a atitude, o perfil e a remuneração desses profissionais nos âmbitos linguístico,
profissional (interpretação intramodal) e político (especificamente dentro das políticas
linguísticas).
Quanto aos objetivos a alcançarmos, são três específicos a que a pesquisa se propõe: i)
averiguar o papel de intérpretes surdos de Libras para outra línguas de sinais nacionais ou língua
de sinais internacional profissionais (interpretação intramodal e interlingual) no Brasil e no
contexto regional, nacional e internacional nas conferências; ii) analisar como os intérpretes
surdos de línguas de sinais nacionais reconhecem as políticas linguísticas nacionais e
internacionais, bem como sua implementação, quanto a interpretação de Libras de/e para outras
línguas de sinais nacionais ou língua de sinais internacional, iii) apresentar uma proposta de
política linguística adequada ao contexto das relações de interpretação de Libras para outra
língua de sinais nacionais ou língua de sinais internacional.
Para Gil (2007), com base nos objetivos, é possível classificar as pesquisas em três
grupos: exploratória, descritiva e explicativa. De acordo com os objetivos deste estudo,
podemos afirmar que esta pesquisa é caracterizada como descritiva, pois com intuito de nos
familiarizarmos com o objeto em questão e buscando torná-lo mais compreensível, faremos uso
de autoetnografia, questionário e entrevista semiestruturada com pessoas que tiveram
experiências práticas com o problema investigado. Uma vantagem desse tipo de pesquisa é
permitir que o investigador aumente a sua experiência em torno de determinado problema.
Logo, a fim de coletar informações sobre o problema, utilizaremos esses dois intrumentos,
estabelecendo assim prioridades na busca de soluções (TRIVIÑOS, 1987).
Ainda caraterizando o presente estudo, de posse das informações sobre o que
pretendemos pesquisar, descrevemos os fatos e fenômenos relacionados ao campo do intérprete
surdo de LSN para outra LSN ou LSI – respondendo questões: como, quantos, quem, para
quem, onde, e por que e, especificamente, o que envolve o intérprete surdo e as questões
linguísticas que o cercam (multilinguismo e plurilinguismo), visando a apresentação de uma
191

proposta de política linguística adequada ao contexto das relações de interpretação intramodal


de Libras para outra LSN ou LSI.
Segundo Muylaert (2014, p. 195), nas entrevistas narrativas da pesquisa qualitativa: “o
importante é o que está acontecendo no momento da narração, sendo que o tempo presente,
passado e futuro são articulados, pois a pessoa pode projetar experiências e ações para o futuro
e o passado pode ser ressignificado ao se recordarem e se narrarem experiências”.
Quanto aos critérios apresentamos os escolhidos para participar da pesquisa, elegemos:
a) ser intérprete surdo brasileiro e atuar com interpretação da Libras para outras LSNs ou LSI
(vice-versa) de modo intramodal e interlingual em conferência regional ou nacional ou
internacional no Brasil e no mundo; b) ser intérprete surdo estrangeiro e atuar com interpretação
de LSNs ou LSI para Libras (vice-versa) de modo intramodal e interlingual em conferência
regional, nacional ou internacional no Brasil e no mundo; c) ser intérpretes surdos que usa
línguas de sinais brasileiras e que atuam no Brasil.
Os critérios usados para a escolha dos sujeitos representantes dos intérpretes surdos de
LSN para outra LSN ou LSI, são os seguintes: i) eles têm formação em interpretação de forma
empírica, atuando na interpretação de LSN para outra LSN ou LSI e; ii) são participantes em
conferências, já tendo participado ativamente de várias conferências, tanto nacionais quanto
internacionais, tais como seminários, congressos, oficinas, festivais, entre outros. Alguns foram
e/ou são atualmente envolvidos em atividade nas associações de surdos, entidades de/para
surdos e a maioria são professores no ensino de língua de sinais nacionais como a Libras, LSI
e ASL e também são docentes na area de Tradução e Interpretação intramodal e intermodal das
LSNs e LSI.
No mundo há intérpretes ouvintes que utilizam mais de uma LSN ou LSI (intramodal e
interlingue), não encontramos intérpretes ouvintes brasileiros que utilizem mais de uma LSN
ou LSI no Brasil, porém, há uma participação significativa do intérprete surdo de LSN para
outra LSN ou LSI em conferência regional, nacional e internacional no Brasil. Isso facilitou
muito para que tivéssemos uma quantidade de 30 sujeitos para a pesquisa na tese e, dessa forma,
optamos por não incluir intérpretes ouvintes de língua de sinais para outra língua de sinais.
Sobre as línguas de sinais regionais, nacionais e internacionais, há uma quantidade de
línguas de sinais regionais. O primeiro grupo que levantei, são as línguas de sinais indígenas: a
língua de sinais Kaapor brasileira, língua de sinais Pataxo, língua de sinais Terena, Língua de
sinais Sateré-Waré, Língua de sinais Kaigang, Língua de Sinais Guarani- Kaiowá, Acenos,
192

língua de sinais Fortalezinha, Língua de Sinais de Ilha do Marajó e a língua de sinais de Porto
de Galinha, Língua de Sinais Ka’apor, Língua de sinais Terena, Língua de Sinais Akwe sinais
Akwe de comunicação Cultural e Língua de sinais Maxakali, o segundo grupo, são as línguas
de sinais rurais, como a Língua de Sinais de Caiçara e a Língua de sinais Cena e o terceiro
grupo, as línguas de sinais da fronteira, língua de sinais emergentes de São Gabriel da Cachoeira
– AM e o quarto grupo que são os sinais caseiros e gestos. Escolhemos para a pesquisa um
quinto grupo: as línguas de sinais nacionais: a Libras, a língua de sinais americana (ASL), a
língua gestual portuguesa (LGP), a língua de sinais francesa (LSF), a língua de sinais britânica
(BSL) e a LSA e; sexto grupo: língua de sinais mundial, como a língua de sinais internacional
– LSI.
Quanto às referências bibliografias, verificamos coletamos documentos históricos do
campo de estudo sobre intérprete surdo de LSN para outra LSN ou LSI, e sobre outras línguas
de sinais, especificamente os que versam sobre os surdos no Brasil e no mundo. Destacamos,
porém, que estão inclusos nesse campo de estudo, a formação, a atitude, a remuneração, o perfil,
as legislações e as competências linguísticas das línguas de sinais. Quanto à autoetnografia,
Adams, Jones e Ellis (2015) definem como:

um método de pesquisa que: 1) utiliza a experiência pessoal do pesquisador para


descrever e criticar crenças culturais, práticas, e experiências; 2) reconhece e valoriza
as relações do pesquisador com os outros; 3) utiliza uma profunda e cuidadosa
autorreflexão – habitualmente referida como “reflexividade” – para nomear e
interrogar as intersecções entre o eu e a sociedade, o particular e o geral, o pessoal e
o político; 4) mostra “pessoas no processo de descoberta sobre o que fazer, como
viver, e o significado de suas lutas”; 5) equilibra o rigor intelectual e metodológico,
emoção, e criatividade; [e] 6) busca por justiça social e por uma vida melhor.
(ADAMS; JONES; ELLIS, 2015, p. 1-2, tradução Alfonso Benetti).

Já contamos, na introdução deste trabalho, sobre a minha experiência de tradutora e


intérprete surda intermodal e intramodal, interlíngua e intralíngua de línguas de sinais e língua
falada. Eu participo como intérprete das línguas de sinais com dois dos sujeitos de pesquisa nas
conferências, também interpreto as línguas de sinais nas entidades de/para surdos, outros
contextos e tenho prática empírica e profissional como sujeito da pesquisa.
Quantos aos procedimentos, o primeiro procedimento foi a pesquisa de campo, já que
utilizamos a coleta de dados como mapeamento de eventos regionais, nacionais e internacionais
com profissionais intérprete surdo de LSN para outra LSN ou LSI, buscamos os eventos com
base no levantamente de Silveira (2017) e fizemos uma lista complementar atualizada.
193

O segundo procedimento da pesquisa foi o uso da entrevista com informantes intérpretes


surdos de LSN para outra LSN ou LSI para receber as informações das experiências práticas
relacionadas às políticas linguísticas em situações que possuem a prensença do intérprete surdo
de LSN para outra LSN ou LSI.
O terceiro procedimento da pesquisa quantitativa descritiva foi o uso do questionário
através de vídeogravação em Libras no Google Forms para receber as informações das
experiências práticas relacionadas as políticas linguísticas em situações que possuem a presença
do intérprete surdo. Neste terceiro procedimento, também consideramos uma análise
quantitativa complementar a análise qualitativa dos dados. O objetivo da análise quantitativa
foi de apresentar os dados quanto a sua distribuição entre os entrevistados.
Foi na realização dos três procedimentos, portanto, que descobrimos que um dos
informantes estudava no curso de Letras Libras Bacharelado e alguns sujeitos da pesquisa têm
os certificações de Prolibras (tradução e interpretação de Libras/língua portuguesa). Fizemos
mais dois procedimentos complementares. O quarto procedimento da pesquisa quanti-
qualitativa descritiva foi a pesquisa no site do Prolibras, que traz informações sobre
certificações em interpretação e tradução de Libras e Língua Portuguesa (português brasileiro),
no qual buscamos os nomes de sujeitos que já fizeram os exames.
O quinto procedimento da pesquisa qualitativa foi o uso de instrumento de contato com
professores das universidades federais sobre quantidades de alunos surdos que ingressam no
curso de Letras Libras Bacharelado de cada universidade.
Quanto ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido - TCLE, com o intuito de
legitimar a aprovação deste projeto para o desenvolvimento da pesquisa, bem como defender
os interesses dos participantes, em sua integridade e dignidade, contribuindo para o
aprimoramento deste estudo dentro de padrões éticos e considerando a relevância social do
mesmo, encaminhamos para os participantes, o TCLE, com base na Resolução nº 466 de 2012
e nº 510 de 2016 do Conselho Nacional de Saúde, que regulamenta as pesquisas com seres
humanos e os cuidados éticos a serem seguidos (BRASIL, 2012, 2016).
Tivemos a aprovação do protocolo do parecer pelo Comitê de Ética em pesquisas –
CONEP por meio da Plataforma Brasil sob o nº de CAAE 95223718.9.0000.0121, onde
solicitamos autorização para realização desta pesquisa junto aos sujeitos entrevistados.
Ressaltamos que todos os sujeitos da pesquisa são maiores de idade. Este termo é o documento
194

que informa e traz esclarecimentos sobre a pesquisa e explicando seus objetivos, para que o
participante possa decidir sobre a participação no projeto de pesquisa.
Os vinte e oito (28) intérpretes surdos de LSN para outra LSN ou LSI aceitaram
responder os questionários e serem entrevistados, correspondendo a 100% dos sujeitos
convidadados. Tive dificuldade de comunicação por email e WhatsApp com dois (2) que não
não me responderam e nem responderam o questionário.
Para apresentação dos questionários e das entrevistas, fizemos as mesmas questões
elecandas nos roteiros, e os critérios para a seleção das questões foram embassados por
procedimentos éticos. Os informantes da pesquisa, os intérpretes surdos de LSN para outra LSN
ou LSI, antes de responderem o questionário e participarem da entrevista receberam o TCLE.
No próximo capítulo, começaremos a análise dos dados de línguas de sinais e das
respostas dos profissionais intérpretes surdos. Na análise, aponto também os resultados e seus
paradigmas, a organização das categorias descritiva e exploratória; o processo de políticas
linguísticas e formação da competência linguística das línguas de sinais, a interpretação das
línguas de sinais, a formação profissional, o perfil, a legislação, as atitudes e a remuneração.

4.2 INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS

Quanto aos instrumentos, escolhemos sujeitos sem vínculo com instituições. Dada à
caracterização e os objetivos desta pesquisa, foram utilizados diário de campo, câmera de vídeo,
roteiro para entrevista semiestruturada e questionário, elegemos o uso dos seguintes
instrumentos para a coleta de dados:

a) Questionários e entrevistas

O questionário foi elaborado com perguntas por vídeogravação no Google Forms, e


anotação no diário de campo sobre gráficos dos respostas dos questionários, entrevistados e
depoimentos da minha experiência relação com sujeitos. Em relação ao questionário, Manzini
(1990/1991, p. 154) o define conforme apresentamos abaixo:

É um instrumento de coleta de dados, constituido por uma série ordenada de


perguntas, que devem ser respondidas por escrito e sem a presença do entrevistador.
Em geral, o pesquisador envia o questionário ao informante, pelo correiro ou por um
portador; depois preenchido, o pesquisado devolve-o do mesmo modo. (MANZINI,
1990/1991, p. 154).
195

Nesse caso, o questionário será elaborado para ser respondido em português brasileiro
escrito, e em Libras no Google Forms com vídeo em Libras. Também foram esclarecidas
algumas dúvidas com os participantes pelo WhatsApp, para complementar respostas. O
questionário também teve como característica ser fechado, e contamos com a participação de
27 (vinte e sete) intérpretes surdos.
Os sujeitos da pesquisa tratam de uma situação muito particular: são 25 intérpretes
surdos, que responderam perguntas sobre o fenômeno “política linguística de intérprete surdo
de intérprete de língua de sinais para outra intérprete de língua de sinais”. Dois (2) questionários
não foram respondidos. Ficaram 25 sujeitos participantes, que receberam o link. Vejamos o
print do questionário na figura 27:

Figura 27 - Google Forms: questionários para os sujeitos de pesquisa – Intérpretes Surdos

Fonte: Elaboração própria.

Sobre entrevista semiestruturada, Manzini (1990/1991, p. 154) a define conforme


apresentamos abaixo:

[...] a entrevista semi-estrutura está focalizada em um assunto sobre o qual


confeccionamos um roteiro com perguntas principais, complementadas por
outras questões inerentes ás circunstâncias momentâneas á entrevista. Para
autor, esse tipo de entrevista pode fazer emergir informações de forma mais
livre e as respostas não estão condicionadas a uma padronização de
alternativas. (MANZINI 1990/1991, p. 154).
196

A entrevista semiestruturada também é conhecida como semidiretiva ou semiaberta.


Neste estudo, fizemos uso deste instrumento nas entrevistas com 3 (três) intérpretes surdos
brasileiros, questionando sobre suas participações em interpretação de LSN para outra LSN ou
LSI em conferências e em outras situações.
Nas entrevistas e nos questionários utilizo perguntas abertas e fechadas. De acordo com
Günther (2006, p. 202), “a diversidade nas peças deste mosaico inclui perguntas fechadas e
abertas, implica em passos predeterminados e abertos, utiliza procedimentos qualitativos e
quantitativos”. A apresentação dos roteiros de questionários e entrevistados está no apêndice A
e B. Nos anexos estão os questionários e as entrevistas, contudo, as respostas das entrevistas
foram produzidas em Libras como narrativa.

Na entrevista narrativa, pede-se ao informante que forneça, em uma narrativa


improvisada, a história de uma situação interesse de que o entrevistado participou [...]
A tarefa do entrevistador é fazer com que o informante conte a história da área de
interesse em questão como uma história consistente a partir de todos os
acontecimentos relevantes, desde o início, até o fim. (HERMANNS, 1995, p. 183).

Esta entrevista narrativa é relevante: por vezes a narrativa pode trazer acontecimento da
vida profissional ou as experiências do próprio sujeito da pesquisa através da produção da
narrativa sobre a vida profissional como intérprete surdo e línguas de sinais. Por fim, as
respostas das entrevistas e dos questionários foram produzidas em sinais (videogravação) e
escrita com as narrativas sobre suas experiências empíricas de interpretação relacionados com
a política linguística, a fim de conhecer suas experiências.

b) Diário de Campo

Os diários de campo foram gravados em Libras e, posteriormente, eu escrevi em


português brasileiro como segunda língua em cadernos ou digitados no Microsoft Word. Por
razão de realizar registros escritos e digitais, o diário de campo foi um instrumento importante
para a coleta dos dados necessários à minha pesquisa.
A primeira fase foi durante cinco dias, não sequenciados, com o grupo de profissionais
intérpretes surdos no V Congresso Nacional da Pesquisa da Tradução e Interpretação da Libras
e Língua Portuguesa e I Congresso Nacional da Pesquisa de Linguística da Língua de Sinais na
Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, em Florianópolis, no ano de 2016. Durante o
pré-congresso, visitamos e participamos de reunião coletiva e geral com a equipe de tradutores
e intérprete de língua surdos e ouvintes, a fim de observar e anotar sobre as discussões e
197

interações ocorridas naquele ambiente. As anotações incluíram aspectos relevantes, como


relação ao intérprete ouvinte e intérprete surdo, sobre a interpretação das línguas, remuneração
ou voluntário, públicos alvos, trabalho em equipe, equipamentos e recursos de preparação
(como os slides dos palestrantes em outras línguas), dentre outros.
Nos congressos, participei em grupos de três intérpretes surdos que atuaram de LSN
para outra LSN ou LSI, com o objetivo de observar e anotar a interação, interpretação, escolha
de dupla e suporte, remuneração, dentre outros. Pós-congresso não houve encontro com a
equipe para avaliação e discussão sobre atuação dos profissionais, infelizmente. Ressaltamos
que é importante que estejam todos os profissionais que trabalharão no evento estejam presentes
antes, durante e pós o congresso para qualidade e melhoramento da equipe.
Na segunda fase, verificamos os sites e Currículo Lattes dos sujeitos para desenvolver
os quadros 16 e 17 dos mapeamentos nos eventos regionais, nacionais e internacionais pelas
datas, nome de eventos com presença de intérpretes surdos de LSN para outra LSN ou LSI.
Na terceira fase, analisamos a relação desses intérpretes surdos existentes no Brasil e as
práticas institucionalizadas no campo de Intérprete Surdo de LSN para outra LSN ou LSI
comparando com o que está acontecendo em outros países (os países da Europa, Canadá,
Estados Unidos da América), considerando os direitos linguísticos, formação, remuneração e
perfil, uma vez que há uma política de reconhecimento do estatuto do intérprete surdo de língua
de sinais para outra língua de sinais.
Na quarta fase, participei nas atividades de workshops na Universidade Hamburgo na
Alemanha. Os cincos primeiros dos doze workshops do evento European Conference em
Hamburg University, no período de 25 a 26 de maio de 2018, organizado por The Eramus+
Project: developing deaf interpreting, foram: i) Translation (Tradução) do professor Dr.
Christian Rathmann (intérprete e tradutor); ii) Conference Interpreting (Interpretação de
Conferência) dos professores intérpretes Dr. Christofher Stone e Sofia Issari; iii) Lobbying for
Deaf Interpreters (Fazendo ‘lobby’ para intérpretes surdos), organizado pelo presidente da
European Union of the Deaf - EUD e Professor Dr. Makku Jokinen; iv) How are Curriculum
Learning Outcomes Put into Action? (Como os resultados de aprendizagem do currículo são
postos em prática?), organizado pelos professores Outi Mäkelä e Liisa Halkossari e v) Deaf
Interpreters on TV: A Fact or a Mirage (Intérpretes Surdos na TV: um fato ou uma miragem),
organizado pelos professores Amilcar Furtado e Isabel Correia.
198

Anotamos nos diários sobre os vários temas e também o objetivo da European


Conference em Hamburg University foi: Discutir sobre quem é tradutor e intérprete surdo, o
reconhecimento de intérprete surdo, o perfil de intérprete surdo e tradutor surdo, o profissional
de intérprete surdo de língua de sinais para outra língua de sinais.
Na quinta fase, após participação na European Conference, visitei as universidades:
Hamburg University em Hamburgo, Hambould University em Berlim na Alemanha, onde
pesquisei sobre o curso técnico para formação de intérprete surdo, no qual anotei informações
sobre as disciplinas, certificação, atuação, perfil, remuneração, políticas linguísticas, dentre
outros. O curso técnico de intérprete surdo começou na Hamburg University.
Participamos no workshop intitulado “cointerpretação: estratégias para o sucesso de
equipes surdos-ouvintes”, com o professor canadense surdo Nigel Horward no VI Congresso
Nacional de Pesquisas em Tradução e Interpretação de Libras e II Língua Portuguesa e
Congresso Nacional Pesquisas em Linguística de Línguas de Sinais.
Na sexta fase participei do curso sobre intérprete surdo na UFSC com o professor
alemão surdo Dr. Christian Rathmann. Fiz anotações sobre tradução e interpretação e tradução-
interpretação da língua de sinais, nível de tradução, classificação da interpretação da língua de
sinais (A, B e C), remuneração, perfil, política e política linguística, dentre outros.
Na sétima fase escrevemos a tabela 9 de certificação de Prolibras com informantes da
pesquisa108. Na oitava fase realizamos anotação sobre as quantidades dos alunos surdos que
ingressam no curso de Letras Libras Bacharelado das universidades federais presenciais
(Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, Universidade Federal de Rio de Janeiro -
UFRJ, Universidade Federal de Roraima - UFRR, Universidade Federal de São Carlos -
UFSCar, Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, Universidade Federal de
Espírito Santo - UFES, Universidade Federal de Goiás - UFG e Universidade Federal da Grande
Dourados - UFGD, e no curso de Letras Libras Bacharelado na modalidade EaD (UFSC e em
duas universidades privadas – a Pontifícia Universidade Católica - PUC Minas e a Unisselvi).
Na oitava fase analisamos as videogravações de Libras dos sujeitos entrevistados.
Recebemos as informações, assistimos aos vídeos várias vezes pra anotação e tradução de
Libras para português brasileiro, realizada por tradutores, para a redação no capítulo de análise
de dados.

108
Disponível: https://coperve.ufsc.br/prolibras/.
199

Na última fase examinamos os gráficos gerados no Google Forms. Anotamos várias


vezes informações para desenvolver textos na etapa de análise e escolhemos algumas das 36
questões que combinam com a temática de contextos sociais, de conferências e outros
contextos, proficiências das LSN e LSI, formação, remuneração, trabalho e atitude e políticas
linguísticas.

4.3 OS SUJEITOS DA PESQUISA: INTÉRPRETE SURDO

A apresentação dos dados traz a construção do perfil dos sujeitos intérpretes surdos desta
pesquisa. Buscamos surdos que trabalham como intérprete de LSN para outra LSN ou LSI.
Inicialmente, tínhamos três (3) sujeitos de pesquisa que atuam como intérpretes em
conferências, na pesquisa eles são denominados de sujeitos A, B e C. Deixei sob sigilo os nomes
dos sujeitos pesquisados, organizando por ordem alfabética (A a Aa), separando os sujeitos
entrevistados (A a C) e que responderam ao questionário (D a Aa). Escolhi as letras do alfabeto
pela quantidades dos sujeitos da pesquisas. Iniciamos a pesquisa realizando a entrevista com os
3 (três) intérpretes surdos e, a partir desse primeiro momento, obtive com eles os nomes de mais
22 (vinte e dois) prováveis sujeitos para a pesquisa, procurei os contatos de emails e de
WhatsApp para um primeiro contato. Falamos com os 22 (vinte e dois) sujeitos, alguns deles
nos indicou mais 5 (cinco) prováveis sujeitos para a formação desse corpus de pesquisa.
Inesperamente, chegamos a um total de 31 (trinta e um) sujeitos, estando eu incluída nesse total.
Decidi participar da pesquisa e responder aos questionários, visto que faço depoimentos
de algumas de minhas experiências como uma autoetnografia na análise de dados. Somente 25
(vinte e cinco) sujeitos responderam ao questionário e 3 sujeitos foram entrevistados,
perfazendo um total de 28 sujeitos intérpretes surdos pesquisados. Realizado o levantamento
dos dados, iniciamos a descrição das primeiras respostas as perguntas que auxiliaram a traçar o
perfil dos sujeitos. Abaixo segue a figura 28 sobre os perfis dos sujeitos da pesquisa.
200

Figura 28 - Perfil dos participantes de intérpretes surdos de Libras para outra LSN ou LSI de nossa pesquisa

Fonte: Elaboração própria.109

Na figura acima, os 28 sujeitos surdos pesquisados estão localizados nos estados do


Brasil, como segue: 2 no Ceará, 4 no Distrito Federal, 1 em Góias, 4 em São Paulo, incluindo
um surdo americano que mora lá, 2 em Minas Gerais, 4 no Rio de Janeiro, 2 no Paraná, 5 em
Santa Catarina e 1 no Rio Grande do Sul. Temos ainda sujeitos pesquisados nos países da
Europa, 1 da Alemanha e 1 surda brasileira que mora na Finlândia. Alguns estados do Brasil
ficaram de fora por falta de profissional de tradutor e intérprete surdo nesses locais.
Buscamos os intérpretes surdos das LSNs e LSI, observamos que, muito provavelmente,
não há intérpretes surdos de das línguas de sinais em todos os estados. Futuramente, há a
possibilidade de aumentar o número de intérpretes surdos em todos os estados, através da
criação de curso de formação ou criação de uma certificação para a atuação nos estados.
As questões do questionário e as entrevistas realizadas foram consideradas para traçar o
perfil dos sujeitos pesquisados. Abaixo temos a tabela 2 sobre o gênero dos pesquisados:

Tabela 2 - Gênero dos participantes

GÊNERO QUANTIDADES PORCENTAGEM


Feminino 12 42,86%
Masculino 16 57,14%
Fonte: Elaboração própria.

Os dados referentes ao gênero encontram-se na primeira fase do questionário e da


entrevista, onde temos os dados pessoais. A maioria dos participantes é do sexo masculino,

109
Ilustração de João Batista Alves de Oliveira Filho.
201

(57,14%) e os demais são do sexo feminino (42,86%). Veja, abaixo, a tabela 3 sobre a faixa
etária:

Tabela 3 - Faixa etária dos participantes


FAIXA ETÁRIA QUANTIDADES PORCENTAGEM
18 a 25 1 3%
26 a 35 12 43%
36 a 45 12 43%
45 ou mais 3 11%
Fonte: Elaboração própria

Os dados referentes a idade dos participantes, temos: 3% têm 18 a 25 anos; 43% dos
participantes têm 26 a 35 anos; 43% dos participantes têm 36 a 45 anos; e 11% dos participantes
têm a partir de 46 anos. Verificamos os intérpretes surdos da 4ª faixa etária permite que eles
tenham mais experiências com a interpretação empírica intramodal e interlingual porque
trabalham há muitos anos, desde a década 1990.
Procuramos saber um pouco sobre os sujeitos com quem trabalharíamos, buscando
conhecer as suas histórias, enquanto a profissão, formação e outros.

Tabela 4 - Formação dos participantes em nível de graduação


Com outra
FORMAÇÃO QTS dos
FORMAÇÃO QTS
Graduação participantes
Graduação
Letras Libras 8 Pedagogia 2
Licenciatura Geografia 1
Cinemática 1
Gastronomia 1
Ed. Artista 1
Eng. Cívil 1
Letras Libras bacharelado 1
Sistema de informática 1
Letras Libras 10 - -
Licenciatura
Pedagogia 1 Biblioteconomia 1
Pedagogia 5 - -
Ciências de Mídia e 1 - -
Letras/Português.
Tecnologia em Informação 1 - -
Serviço Social 1 - -
História 1 - -
Fonte: Elaboração própria.
202

Os dados analisados mostram que a formação dos sujeitos é, em sua maioria, em


Licenciatura em Letras Libras, representando um total de 18 (dezoito) dos 28 (vinte e oito)
respondentes à pesquisa. Os participantes que possuem outra graduação além do curso de Letras
Libras, oito (8) são formados nos seguintes cursos: 1 (um) é formado em Letras Libras
Bacharelado, 2 (dois) são formados em Pedagogia, 1 (um) em Sistemas de Informação, 1 (um)
em Cinemática, 1 (um) em Educação Artística, 1 (um) em Engenharia Civil, 1 (um) em
Gastronomia e 1 (um) em Geografia. O único sujeito formado em dois cursos que não é Letras
Libras, é formado em Pedagogia e Biblioteconomia.
Os demais se disporam da seguinte forma: 5 (cinco) são formados em Pedagogia, 1 (um)
em Serviço Social, 1 (um) em Ciência de Mídia e Letras/Português , 1 (um) em História e 1
(um) no curso de Tecnologia em Informação.
Constatamos que há apenas um participante formado em Letras Libras Licenciatura e
atualmente, está cursando Letras Libras Bacharelado. Seria importante que todos os sujeitos da
pesquisa tivessem formação na área da interpretação e tradução intramodal e intelíngual para
melhor conhecimento e qualidade profissional.
Veremos no decorrer do levantamento a formação em nível de pós-graduação dos
sujeitos. Alguns deles são formados em mestrado e doutorado ou com estudos em andamento.
Veja a tabela sobre formação em Pós-graduação dos sujeitos da pesquisa.

Tabela 5 - Formação dos participantes em nível de Pós-Graduação


FORMAÇÃO Outras FORMAÇÃO QTS
Pós-Graduação Pós-Graduação
Mestrado em Estudos da Tradução - 5
Mestrado em Estudos da Tradução Doutorado em Estudos da Tradução 1
Mestrado em Estudos da Tradução Doutorando em Estudos da Tradução 1
Mestrado em Tradução - 1
Mestrado em Linguística Doutorando em Letras e Linguística 1
Mestrado em Educação Doutorado em Educação 3
Mestrado* - 1
Doutorado em Informática na Pós-doutorado em Neurolinguística 1
Educação
Mestrado em Linguística Doutorando em Linguística 1
Doutorado em Educação - 1
Doutorado em Linguística Aplicada - 1
Fonte: Elaboração própria.
203

Verificamos que a maioria dos sujeitos estudam na Pós-graduação e há um (1) sujeito


que possui título de pós-doutor em Neurolinguística, com Doutorado em Informática na
Educação. Um (1) possui título de mestrado e doutorado em Estudos da Tradução, um (1) que
possui título de mestrado e doutorado em andamento em Estudos da Tradução, cinco (5)
possuem títulos de mestre em Estudos da Tradução, um (1) possui título de mestre em
Linguística com doutorado em andamento em Letras e Linguística, três (3) possuem título de
mestrado e doutorado em Educação, um (1) possui doutorado em Linguística Aplicada, um (1)
possui título de doutorado em Educação. Estudos em andamento: um (1) mestrando em Estudos
da Tradução, um (1) mestrando em Tradução, um (1) mestrando que não identificou a área de
estudo, um (1) doutorando em Linguística. Conforme Silveira (2017) afirma “no Brasil, muitos
intérpretes surdos não são formados nessa área e sim formados na área de ensino de Libras ou
em outras áreas”, porém, ao contrário do que diz a autora, apenas um participante é formado
em Letras Libras Bacharelado e em cursos de pós-graduação de área de Tradução. De acordo
com Lima (2018):

No nível Superior, temos ainda os cursos de pós-graduação, que se dividem em Lato


Sensu - especializações e stricto sensu – mestrado e doutorado. No nível stricto sensu,
ainda não há programas de pós-graduação específicos em Libras; contudo, nos
programas das áreas de Linguagem, Linguística, Linguística Aplicada e Estudos da
Tradução e afins, encontramos várias pesquisas realizadas que tratam da Tradução e
Interpretação de línguas de sinais. (LIMA, 2018, p. 56).

Sobre os participantes surdos que tivessem concluído no mínimo a graduação até Pós-
doutorado, entendo que é importante adquirir conhecimentos sobre tradução e interpretação,
além de desenvolver competências para ser um profissional tradutor e intérprete de língua de
sinais como intérprete surdo de LSN para outra LSN ou LSI. O último levantamento apresenta
o perfil profissional dos sujeitos da pesquisa. Veja a tabela 6:

Tabela 6 - Perfil profissional dos participantes da pesquisa


CARGO QUANTIDADE
Professor Universitário, Professor Superior Magistério, 13
Professor Instituto Federal, Professor bilíngue e Professor
Professor universitário e linguista 1
Professor e tradutores e intérpretes 6
Estudante e tradutor 1
204

Bolsista de pesquisa da Libras 1


Consulta de Libras/ Intérprete e Tradutor 1
Estudante 1
Bancário e Assistente Administrativa 1
Fonte: Elaboração própria.

Os dados analisados sobre a profissão e cargo dos sujeitos pesquisados mostram que a
maioria dos sujeitos tem formação docente e são professores universitários. Pelo Decreto nº
5.626/2005, no art. 7º:

Art. 7º Nos próximos dez anos, a partir da publicação deste Decreto, caso não haja
docente com título de pós-graduação ou de graduação em Libras para o ensino dessa
disciplina em cursos de educação superior, ela poderá ser ministrada por profissionais
que apresentem pelo menos um dos seguintes perfis: I - professor de Libras, usuário
dessa língua com curso de pós-graduação ou com formação superior e certificado de
proficiência em Libras, obtido por meio de exame promovido pelo Ministério da
Educação; II - instrutor de Libras, usuário dessa língua com formação de nível médio
e com certificado obtido por meio de exame de proficiência em Libras, promovido
pelo Ministério da Educação; [...] § 1º Nos casos previstos nos incisos I e II, as pessoas
surdas terão prioridade para ministrar a disciplina de Libras. (BRASIL, 2005).

A maioria dos sujeitos da pesquisa trabalham com o ensino de Libras nas universidades
e institutos federais. Reis (2015) fez um levantamento da quantidade de professores surdos
efetivos na Educação Superior, inicialmente elencou 174 professores, mas atualmente, nun
recente levantamento, a autora contabilizou um total 301 professores surdos110. Há também
outras profissões exercidas pelos nossos sujeitos de pesquisa, há bolsista, bancário, consultor
de Libras. Porém, todos os sujeitos são intérpretes e tradutores surdos das línguas de sinais e
línguas faladas escritas. A profissão de tradutor e intérprete de língua de sinais tem visibilidade
recente no Brasil, principalmente na figura da pessoa surda, por isso há a necessidade do
aumento dessa profissão.

4.4 ETAPAS DA PESQUISA

A coleta de dados foi realizada pela ferramenta Google Forms, na qual disponibilizamos
o questionário que foi enviado aos participantes da pesquisa. Apresentamos os dados através de
porcentagem e, a partir daí, desenvolvemos alguns gráficos possíveis para mostrar como

110
Atualizados dos professores surdos efetivos. Disponível em:
https://docs.google.com/document/d/1ID82YNAptVr_kPryQrEU0nmKzJYQ_5AfJLSPuhrq8dM/edit (REIS,
2015)
205

verificamos as respostas sobre o perfil dos sujeitos de intérpretes surdos de LSN para outra LSN
ou LSI.
A coleta foi feita em três momentos:
i) primeiro momento: nos dois primeiros meses, averiguamos as conferências
nacionais e internacionais no Brasil, subdividas em duas etapas (peguei a lista de eventos da
Silveira (2017) e atualizei a lista de eventos Currículo Lattes dos participantes e nos sites das
instituições públicas e privadas);
ii) segundo momento: organizei as perguntas (roteiro de entrevista no anexo B) para
apresentar aos sujeitos intérpretes surdos, principalmente, a entrevista. A aplicação do
questionário foi mais fácil, pois existia uma distância geográfica maior entre a pesquisadora e
os participantes, por isso a aplicação foi pelo Google Forms. No entanto, enquanto
pesquisadora, participante da comunidade surda e intérprete surda, senti dificuldade em me
tornar distante do objeto de estudo e observá-lo, apenas, com o olhar da pesquisadora. Tive que
tomar esse distanciamento para não deixar que a minha subjetividade afetasse e interferisse nos
dados da pesquisa;
iii) terceiro momento: entrevistei o intérprete surdo de LSN para outra LSN ou LSI
(sujeito A da pesquisa), no período de agosto de 2018, em Fortaleza a entrevista do sujeito B
foi realizada em Florianópolis no período de outubro de 2018; e o último sujeito C foi realizada
em Brasília no período de agosto de 2019. Todas as entrevistas foram gravadas em Libras
(Anexo A, B e C). As questões eram relacionadas à sua língua de sinais, formação e experiência
como intérprete surdo de LSN para outra LSN ou LSI. A coleta de dados se deu a partir da
entrevista semi-estruturada, por meio de narrativas, porém, para deixar o discurso deles mais à
vontade, solicitamos que expressassem sobre as informações e interesses pelo trabalho, falando
sobre suas experiências como intérprete surdo de LSN para outra LSN ou LSI. Mostramos as
trajetórias e experiências empíricas de cada um dos entrevistados. Minhas análises foram
focadas nas experiências vividas e atuais. Nesse sentido, eles têm uma história, uma experiência
de vida para dar as respostas na produção de narrativas. Segundo Muylaert (2014, p. 195), as
entrevistas narrativas: “[...] o importante é o que está acontecendo no momento da narração,
sendo que o tempo presente, passado e futuro são articulados, pois a pessoa pode projetar
experiências e ações para o futuro e o passado pode ser ressignificado ao se recordarem e se
narrarem”. Além disso, para a produção de narrativas é importante produção empírica como a
experiência pelas memórias das situações vivenciadas. Os entrevistados podem ter visões
206

diferentes da atividade do intérprete surdo, têm lugares de fala diferenciados, têm seus próprios
tempos e histórias pessoais. Assim, as entrevistas produziram narrativas que nos permitiu
conhecer histórias diferentes dos sujeitos, cada um dos 3 (três) entrevistados nos ajudou a
construir o caminho e as reflexões para contribuir na pesquisa;
iv) quarto momento: enviamos, por vídeogravação, os formulários do questionário no
Google Forms para os 27 (vinte e sete) sujeitos do Brasil. Foi respondido primeiro no Google
Doc (Apêndice A). Houve interpretação das perguntas para a Libras e Português brasileiro pela
pesquisadora, mandamos emails para eles com o link do formulário Google Forms, após cinco
meses do envio do email, 25 (vinte e cinco) sujeitos responderam. Verificamos os dados
pessoais, as línguas de sinais como primeira, segunda e terceira língua e a formação, alguns
enviaram respostas incompleta, mandamos mensagens para eles solicitando que preenchessem
as perguntas, alguns deles responderam com mais clareza.
Os dados dos formulários foram registrados de forma gráfica e em vídeos para
contemplar a condição linguística dos sujeitos da pesquisa, assim como atender às exigências
do programa de pós-graduação ao qual esta pesquisa está vinculada. Para realização da pesquisa
bibliográfica utilizei livros, teses, dissertações, sites, DVDs e/ou CDs que abordam a temática
em estudo. Todos os dados foram registrados por meio de vídeos e traduzidos da Libras para o
português brasileiro, por intérprete de língua de sinais e português brasileiro.
Foi necessário realizar a tradução de materiais produzidos nas entrevistas semiestrturada
de uma língua de sinais para outra língua escrita como português brasileiro. Para garantir a
tradução do material de todos os entrevistados para a escrita desta tese em português brasileiro,
realizei os seguintes procedimentos. Primeiramente, fiz contato com um Intérprete e tradutor
de Libras e Português ― para fazer a tradução de Libras para o português brasileiro escrito dos
3 (três) entrevistados. A tradução dos entrevistados em Libras para o português brasileiro escrito
está nos Anexos A, B e C. A tabela dos questionados do Google Forms está no Anexo D.
207

5 ANALISANDO DE INTÉRPRETE SURDO INTRAMODAL E INTERLINGUAL DE


LÍNGUAS DE SINAIS

Este capítulo destina-se à análise de corpus em que a apresentação está dividida em 7


(sete) seções categorizadas da seguinte forma:
1) Análise descritiva de dados das conferências;
2) Competência linguística do intérprete surdo de LSNs e língua sinais internacional;
3) Formação do tradutor e intérprete surdo das línguas de sinais;
4) Remuneração do tradutor e intérprete surdo das LSNs ou língua de sinais
internacional;
5) Legislação, avaliação e certificação sobre tradutor e intérprete surdo;
6) Perfil da profissionalização do intérprete surdo de duas línguas de sinais;
7) Política linguística e atitude no Brasil e no Mundo.

5.1 ANÁLISE DESCRITIVA DE DADOS DAS CONFERÊNCIAS

Nessa seção, apresentamos os eventos do tipo conferência, de caráter regional, nacional


e internacional, que dispunham da presença de intérpretes surdos nas modalidades intramodal
e interlingual das línguas de sinais, desde a década de 1990 até o momento atual.
Os contextos de conferência são realizados predominantemente em auditório. A
tradução e interpretação acontecem em atividades de workshop, oficinas/minicursos, reuniões,
dentre outros. Os temas são diversos, como: acadêmicos, culturais, artísticos, de associações,
jovens, direitos humanos, esportes e etc. As línguas de sinais presentes nas conferências
regionais, nacionais e internacionais levantadas no Brasil são: Libras, LSC, LSE, ASL, LSF,
DGS, LSU, LSA, LSV, LSCH e a LSI.
O quadro 16 apresenta a lista dos eventos do tipo conferências regionais, nacionais e
internacionais que foram utilizados durantes a análise. Como fonte, foi utilizado o corpus dos
registros de intérpretes surdos e as línguas de sinais desenvolvida na pesquisa historiográfica
de Silveira (2017, p. 26), no qual explica que sua pesquisa é “com base no exercício dos surdos
como intérpretes em eventos que vem acontecendo ao longo dos anos. E apresentamos a seguir
um quadro com a síntese dos dados coletados de eventos”.
208

Quadro 16 - Lista dos eventos


Línguas
Nº Ano Evento Local
envolvidas
1 1999 2º Congresso Latino Americano de Porto Alegre – RS LSE – Língua
Educação Bilíngue para Surdos UFRGS de Sinais
Espanhola e
Libras
2 2006 I Encontro de Jovens Surdos do Rio Grande Capão Canoa – RS SI e Libras
do Sul
3 2009 Seminário Internacional Brasil/Portugal: Brasília – DF SI e Libras
Pesquisa Atuais na área de surdez.
Possibilidades de escrita pelos surdos
4 2010 V Deaf Academics Florianópolis – SC. SI e ASL e
UFSC Libras
5 2011 I Encontro de alunos ASL e SI I Meeting of Uberlândia – MG. ASL e SI
ASL and SI students UFU
6 2011 Festival Brasileiro de Cultura Surda Porto Alegre RS ASL, SI e
http://www.ufrgs.br/culturasurda/# UFRGS Libras
7 2012 Conferência da ONU: Rio + 20 Rio de Janeiro SI, ASL e
http://www.rio20.gov.br/ Libras
8 2012 III Congresso Nacional de Pesquisas em Florianópolis – SC ASL e SI e
Tradução e Interpretação de Libras e Língua Libras
Portuguesa
http://www.congressotils.com.br/
9 2013 II Encontro latino-americano de tradutores Rio de Janeiro – RJ SI e Libras
intérpretes e guiaintérpretes – ELATILS
http://2elatils.com.br/site/
10 2013 Abertura do Curso Letras Libras Florianópolis – SC SI e Libras
11 2013 XI Congresso Internacional da Abrapt e V Florianópolis – SC SI e ASL
Congresso Internacional de Tradutores
https://abrapt.wordpress.com/category/ xi-
congresso-abrapt/
12 2013 II Encontro da FEBRAPILS – Federação Rio de Janeiro – RJ SI e Libras
Brasileira de Intérpretes e Tradutores de
Língua de Sinais
13 2013 Palestra A Antropologia Visual e Identidade Brasília – DF UNB SI e Libras
Surda: o mundo dos surdos em antropologia
da arte – APILDF Associação de
Profissionais de Intérpretes de Libras do
Distrito Federal
https://www.facebook.com/apildf
14 2013 Palestra em francês sobre Antropologia Florianópolis – SC SI e Libras
instituto visual e Identidade Surda: o mundo UFSC
dos surdos em antropologia e arte do Oliver
Shetrit
15 2013 Palestra com o Prof. Steve Collins da São Carlos – SP ASL e Libras
Gallaudet UFSCar
16 2014 Congresso Nacional de Pesquisas em Florianópolis – SI e Libras
Tradução e Interpretação de Libras e Língua UFSC
Portuguesa.
http://www.congressotils.com.br
209

17 2014 XIII Congresso Internacional e XIX Rio de Janeiro – RJ SI e Libras


Seminário Nacional do INES Instituto
Nacional de Educação de Surdos
18 2015 I Encontro de Surdos e Surdas Goiânia – GO SI ASL e
http://www.1enssgo.com.br/site/ Teatro Madre Libras
Esperança Garrido
19 2015 Simpósio Caminhos da Inclusão: Saberes Rio de Janeiro – RJ SI ASL e
Científicos e Tecnológicos. Sua Importância – UFRJ Libras
para o Desenvolvimento do Indivíduo
Surdo.
http://www.bioqmed.ufrj.br/caminhos_d
a_inclusao.
20 2015 Congresso do INES Rio de Janeiro – RJ SI e Libras
Fonte: Silveira (2017, p. 27).

Para complementar, apresentamos mais um quadro com uma lista atualizada de eventos
que foram utilizados na análise. Para compor esta lista, buscamos em sites a historiografia de
intérpretes surdos e, através da Plataforma Lattes (currículo dos sujeitos), identifiquei quais
foram suas participações em eventos. Também inclui eventos que eu participei. É possível que
mais eventos possam integrar esta lista, entretanto, não é possível inserir estas informações,
devido a falta de registros nas fontes definidas (Plataforma Lattes e sites).

Quadro 17 - Lista complementar dos eventos


Línguas
Nº Ano Evento Local
envolvidas
21 1993 Pré – II Congresso Latino Americano de Rio de Janeiro – RJ ASL e Libras
Bilinguismo (Língua de Sinais / Língua
Oral) para Surdos.
22 2004 Encontro latinamericano de Surdos Belo Horizonte - ASL, LSI e
MG Libras
23 2014 Evento de Letras Libras UFC, Fortaleza – Libras e LSA
CE
24 2014 Folclore Surdo UFSC, LSI e Libras
Florianópolis - SC
25 2015 Conferência da América Latina e do Caribe. São Paulo - SP LSI e Libras
“Avanço da convenção sobre os Direitos
Humanos das Nações Unidas através da
agenda 2030.”
26 2016 V Congresso Nacional em Pesquisa em Florianópolis – SC. LSI e Libras
Tradução e Interpretação em Língua de UFSC
Sinais
27 - Eventos acadêmicos no exterior Alemanha Libras e DGS
28 2016 III Congresso Internacional de Professores Florianópolis – SC LSC, LSA, LSI
de Línguas Oficiais do MERCOSUL e III UFSC e Libras.
Encontro das Associações de Professores de
Línguas Oficiais do MERCOSUL
210

29 2016 Congresso do INES111 - COINES Rio de Janeiro – RJ LSI e Libras


30 2016 Folclore Surdo Florianópolis – SC. LSI e Libras
UFSC
31 2016 Mini-conferência: Didática e Ensino da Florianópolis – SC. ASL e Libras
Tradução e Interpretação da Língua de UFSC Consecutiva
Sinais: Formação e Certificação de ILS nos
EUA.
32 2017 Artes Surdas Fortaleza – CE. LSI e Libras
UFC
33 2017 Congresso do INES - COINES Rio de Janeiro – RJ LSI e Libras
34 2017 Semana de Letras – Libras Boa Vista – LSV e Libras
Roraima. UFRR
35 2018 Evento do INES. Tema: WDFY Rio de Janeiro LSI e Libras
INES
36 2018 VI Congresso Nacional de Pesquisas em Florianópolis – SC LSI e Libras
Tradução e Interpretação de Libras e Língua UFSC LSA e LSC
Portuguesa e II Congresso Pesquisas em
Linguística da língua de sinais. V Encuentro
de Sordos e Intérprete de Lengua de Señas.
37 2018 Congresso do INES Rio de Janeiro – RJ LSI e Libras
38 2019 Mini-evento: Avaliação dos Projetos do Florianópolis – SC LSI e Libras
Corpus da CNPQ UFSC
39 2019 Semana de Letras Libras Fortaleza – CE LSI e Libras
UFC
40 2019 Congresso da Wasli Paris – França LSI e Libras
41 2019 Congresso do INES – COINES Rio de Janeiro – RJ LSI e Libras
42 2019 5th World Deaf Swimming Championships São Paulo - SP LSI e Libras
43 2019 LiteraSurda São Paulo - SP LSI e Libras
Elaboração: Adaptado de Silveira (2017).

Analisando os quadros (16 e 17) da lista de eventos com a presença de intérprete surdo
de Libras para outra LSN ou LSI, em diversas instituições do Brasil, observamos que as cidades
do Brasil com maiores ocorrências são: Florianópolis – SC (maioria dos eventos com intérprete
surdo de duas línguas de sinais), Rio de Janeiro – RJ, São Paulo – SP, São Carlos – SP, Fortaleza
– CE, Porto Alegre – RS, Canoa Capão – RS, Goiânia – GO, Brasília – DF e Uberlândia – MG
e fora do Brasil temos os países: França e Alemanha. Vale ressaltar que existiram ainda mais
conferências que não encontramos mais informações, pois infelizmente os seus registros estão
incompletos nos sites e no Currículo Lattes.
Stone e Russel (2014, p. 140) dizem que a prática de surdos que trabalham como
intérpretes está crescendo basstante, o que tem muita importância e prevalência para pensarmos
a atuação desse profissional. Vemos aqui no Brasil que os intérpretes surdos estão sendo mais
solicitados para trabalhos em conferências regionais, nacionais e internacionais do que outros

111
Congresso de INES – COINES, todo ano esse evento, gratuita de inscrição a partir 2016.
211

diversos contextos. Vale ressaltar que a presença de intérprete de línguas de sinais em


conferência não ocorre apenas em contextos nacionais e internacionais, afinal, elas podem
acontecer também no âmbito das conferências regionais.
Verificamos que, no quadro 16, teve como base informações fornecidas por surdos
tradutores e intérpretes, que nos responderam sobre o evento 5th Deaf academic, que já houve
casos de contratação de, aproximadamente, 6 intérpretes surdos de LSN para outra LSN ou LSI
(ASL e LSI para Libras). Esse evento foi marcante para a visibilidade do profissional tradutor
e intérprete surdo brasileiro na conferência internacional. Um deles, atuou como coordenadora
da equipe, resolvendo questões de planejamento, organização de escala de trabalho, reuniões
para orientação, dentre outros.
A importância de inclui a coordenação de tradutor e intérprete surdo no evento, de
acordo Rathmann (informação verbal) em conferências perpassa atividades de
acompanhamento dos profissionais que atuam em equipe, gerenciando de tempo, horários de
trabalho, etc. Dessa forma, se o evento conta com muitos palestrantes estrangeiros, precisa da
coordenação de tradutor e intérprete surdo.
Verificamos que os eventos nº 29, 33 e 41 não consta a informação sobre a quantidade
de intérpretes surdo de LSN para outra LSN ou LSI nas conferências. Normalmente, há
presença de 3 ou 4 intérprete de língua de sinais em cada evento. Já houve casos da contratação
de, aproximadamente, 9 intérpretes surdos de LSN para Libras e LSI para Libras (Congresso
do INES – COINES). Os intérpretes surdos de duas línguas de sinais não atuam durante toda a
conferência, somente quando há palestrante estrangeiro. Um quadro exibe os horários das
palestras que serão interpretadas por intérprete surdo de língua de sinais para outra língua de
sinais e a maioria são contratados 3 e 4 intérpretes surdos que atuam de LSN para outra LSN
ou LSI na conferência.
Pelas averiguações realizadas nos quadros 16 e 17, percebe-se que no ano de 1993 os
intérpretes surdos nas modalidades intramodal e interlingual de duas línguas de sinais, iniciaram
suas participações em eventos, com maior número em 2000. Desde então, a participação desses
profissionais é crescente, porém, a maioria dos tradutores e intérpretes surdos tem formação
empírica e, após o ano de 2006, ocorreu uma maior expansão, devido a fundação do curso de
Licenciatura em Letras Libras, e também em 2008 iniciou-se o curso de Bacharelado em Letras
Libras e, a partir desse momento, as pesquisas acadêmicas foram avançando em áreas como:
212

Linguística, Sociolinguística, Interpretação e Tradução, Antropologia e Políticas Linguísticas


relacionadas à língua de sinais nas conferências.
Cresceu o interesse pelas línguas de sinais e aumentou a presença do profissional
tradutor e intérprete, tanto dos que atuam pelo conhecimento adquirido de forma empírica como
os já profissionais tradutores intérpretes surdos de duas línguas de sinais. Eles eram voluntários
e esse paradigma mudou, tornando-se profissionais remunerados, graças ao crescimento desta
demanda. Atualmente, já existe reconhecimento do profissional de intérprete surdo de LSN para
outra LSN ou LSI no Brasil recentemente e no mundo. Temos que ressaltar que esse profissional
atuava sem formação mas, com o reconhecimento de seu trabalho pela comunidade surda, pelo
fato dos profissionais tradutores e intérpretes já atuarem de forma rotineira, traduzindo e
interpretando junto a comunidade surda.
Em uma autoetnografia (veja evento nº 28), participei de um congresso em
Florianópolis, onde pude “sentir na pele” a experiência de não ter intérprete surdo de LSN para
outra LSN ou LSI durante o evento. Era uma conferência muito relevante, devido o tema
abordado, a saber: “Valorização das línguas faladas e línguas de sinais: relações políticas
linguísticas e Mercosul na América do Sul”. Fui como palestrante junto com outros dois
convidados: um colombiano e outro surdo argentino. O rapaz colombiano apresentou sua fala
em língua de sinais colombiana, misturada com a língua de sinais internacional e com a Libras.
O outro palestrante, argentino surdo, utilizou LSI misturado com elementos da Libras e,
infelizmente, não utilizou a língua de sinais argentina.
Não dar o valor devido ao utilizar a língua de sinais argentina e língua de sinais
colombiana, prejudica o reconhecimento linguístico das LSNs da América do Sul. O intérprete
ouvinte recebia as informações a partir de uma mistura da Libras, língua de sinais colombiana
e língua de sinais internacional para depois interpretá-las para o Português brasileiro. É
complexo para interpretação simultânea esta tarefa. Não havia intérprete surdo de Libras para
outras LSNs da América do Sul, embora o público fosse composto por brasileiros e estrangeiros,
surdos e ouvintes.
A presença de intérprete surdo das LSNs, para que as informações e conhecimentos
acadêmicos sejam plenamente difundidos para o público são extremamente importantes. Além
disso, a atuação de palestrante da América do Sul utilizando a LSN de seu próprio país em
conferências no Brasil ou na América do Sul e com a interpretação de Libras para LSN da
América do Sul realizada por intérpretes surdos é fundamental. Por exemplo: da Libras para
213

língua de sinais argentina ou língua de sinais colombiana, ou LSN da América do Sul para
língua de sinais internacional ocidental da América do Sul, serve para a valorização das LSNs.
Em outro caso de análise explorativa (evento nº 38), fui convidada, juntamente com dois
intérpretes surdos de língua de sinais internacional – LSI para Libras, para atuar como intérprete
surdo de apoio. O pedido foi feito às vésperas do evento, algo muito comum para os que
trabalham como intérprete surdo de LSN para outra LSN ou LSI. É muito complicado para a
equipe de intérpretes essa situação, pois prejudica a obtenção de informações prévias sobre a
temática e perfil do palestrante. De acordo com Nogueira (2016):

Para facilitar o acesso dos intérpretes aos materiais enviados pelos palestrantes,
optamos por utilizar uma pasta compartilhada com toda a equipe no Google Drive,
plataforma on-line disponível para compartilhamento de arquivos. Cada membro da
equipe ficou responsável por estudar o material individualmente. (NOGUEIRA, 2016,
p. 115).

Para isso, os intérpretes surdos recebem o material do palestrante no pré-evento, e em


reunião, por exemplo, rapidamente resolvem em equipe o andamento do trabalho. Após leitura
do conteúdo, definem quem serão as duplas de interpretação, além de outros assuntos. Para que
a equipe de tradutor e intérprete de língua de sinais realize um trabalho profissional de
interpretação, é necessário que haja um momento prévio de preparação entre os mesmos. O
tempo de recebimento com antecedência do material varia. Pode ser de uma semana ou em até
48 horas antes do evento. Receber esse material nesse prazo recomendável é de suma
importância para um bom desenvolvimento do trabalho.
Conforme se observa no item de nº 31 do quadro 17, havia uma única palestrante,
americana, ouvinte e usuária da ASL na mini-conferência. Estavam presentes 4 (quatro)
profissionais intérpretes surdos de ASL e Libras. A palestrante não queria usar a interpretação
simultânea, mas somente a interpretação consecutiva. Percebeu-se que houve complicações por
conta do tempo. Eu estava entre os participantes e assisti a apresentação em ASL sem entender
o conteúdo que durou entre 5 a 10 minutos. Esperávamos que os intérpretes surdos fizessem a
interpretação de ASL para Libras, porém, não foi o que aconteceu de início. Alguns
participantes comentaram que ficaram incomodados e impacientes. Houve reclamações por
causa do tempo de espera pela interpretação. O alívio só veio quando finalmente houve a
interpretação.
214

É importante esclarecer que a interpretação consecutiva é uma modalidade mais


indicada em contextos de reunião, sala de aulas, dentre outros, com tempo curto. O tempo
recomendado da enunciação da língua fonte para a língua alvo nesse tipo de interpretação, a
consecutiva, é de um (1) ou dois (2) minutos para que não gere uma demasia de informações e
também para que não ocorra descontentamento por parte da plateia, que pode se sentir
incomodada pela espera se o tempo for prolongado e reclamar.
Conforme se verifica no item de nº 34 (quadro 17), temos uma situação diferente das
outras. Thaisy Brites (informação verbal)112 relata que, na fronteira Venezuela/Brasil, devido
aos problemas que esse país vem enfrentando, os venezuelanos surdos refugiados estão
morando há 2 anos no estado de Roraima do Brasil, sendo atendidos por uma instituição sem
fins lucrativos e por surdos brasileiros. Neste contato, ocorre a assimilação da língua de sinais
Venezuela – LSV como segunda língua pelos brasileiros, e também os venezuelanos aprendem
a Libras como segunda língua.
Na ocasião do evento regional da semana de Letras Libras da Universidade Federal de
Roraima, 3 intérpretes surdos (um brasileiro e dois venezuelanos) estiveram presentes no evento
realizando a interpretação de Libras para língua de sinais Venezuela - LSV e vice versa. Os
desdobramentos desta situação, poderiam levar, no presente ou no futuro, a um cenário em que
tradutor e intérprete surdo possam interpretar as LSNs dos países que fazem fronteira na
América do Sul. Nesses casos, chamamos de língua de sinais de fronteiras, que seriam, por
exemplo: Brasil/Uruguai (Libras-LSU), Brasil/Paraguai (Libras-LSPY), Brasil/Argentina
(Libras-LSA), Brasil/Bolívia (Libras-LSB) e Brasil/Venezuela (Libras-LSV).
Conforme observamos o evento nº 35 do quadro 17, ocorreram 3 (três) congressos
simultaneamente em uma semana. Nos eventos, houve a presença dos intérpretes surdos de
Libras para LSI (e vice-versa), tradutor e intérprete ouvinte de Libras para português ou
espanhol, intérprete de espanhol para língua de sinais argentina - LSA, intérprete de espanhol
para LSCH e presença de guia-intérprete. Não houve presença de intérpretes surdos de língua
de sinais argentina - LSA ou LSCH para Libras.
Uma situação que ocorreu durante o evento, foi quando o palestrante surdo argentino
sinalizou em língua de sinais argentina - LSA no auditório e havia a presença de intérprete relay
(tradutor e intérprete ouvinte de LSA para espanhol, outro tradutor e intérprete ouvinte de

112
A autora, utilizando a Libras, trouxe essa discussão na palestra intitulada: “Interpretes intramodais na fronteira
Brasil-Veneuela”, período de 29 de agosto de 2019, foi 1º Congresso Interpretação colóquio estudos de
interpretação da Libras, na UNB. Disponível em: https://www.sympla.com.br/i-conei--ii-cilsc__517465.
215

espanhol para português brasileiro, outro tradutor e intérprete ouvinte de português brasileiro
para Libras). Todos os tradutores e intérpretes ouvintes realizavam a interpretação simultânea,
portanto, havia poucos minutos de atraso para o repasse entre as línguas (faladas e sinalizadas).
Foi uma interpretação “lag time”, português brasileiro “tempo de atraso” (COKELY, 1986,
tradução nossa). Conforme Cokely (1986, p. 03) “o tempo entre a entrega de uma mensagem
original e a entrega da versão interpretada dessa mensagem”, o mesmo autor complementa,
esclarecendo o significado:

Devido às demandas cognitivas do processo de interpretação, intérpretes não podem


começar a interpretar imediatamente quando o falante começa a proferir a mensagem
na língua fonte (LF). Devem esperar até que tenham ouvido uma parte suficiente da
mensagem na LF antes de começar a produzir a língua alvo (LA). Este período de
tempo entre a produção na língua fonte (LF) e a versão para a língua alvo (LA) é
chamado de “lag time” [em inglês, tempo de atraso] ou “décalage” da interpretação.113
(COKELY, 1986, p. 03, tradução Fernando Parente).

Cada palestrante sinaliza a sua fala e, neste momento, o tradutor e intérprete de língua
realiza a interpretação simultânea com uma diferença de poucos segundos depois. Devido o
tempo de latência dos tradutores e intérpretes de língua entre a mensagem língua de sinais, é
possível que aconteça a omissão de informações. Uma reflexão que posso acrescentar, diz
respeito a um trabalho que eu realizei como intérprete de língua de sinais argentina - LSA para
Libras junto a outro tradutor e intérprete surdo, acompanhada de um tradutor e intérprete
ouvinte de Libras para português brasileiro. Infelizmente estava sozinha, assim não foi possível
realizar a interpretação de 50 minutos e mais o tempo para debate, pois há muito desgaste mental
e a perda de informações é inevitável. O ideal seria que houvesse a presença de 2 ou 3 dos
intérpretes surdos de LSA para Libras.
Observamos nos quadros 16 e 17 que a maioria dos eventos são acadêmicos, sendo os
temas voltados para as artes e cultura surda. Estamos diante de um crescimento de conferências
em novas áreas, como a área de Direitos Humanos e da Política. O evento nº 25, a Conferência
da América Latina e do Caribe em São Paulo, podemos observar, como menciona B:

113
Lag Time Because of the cognitive demands of the interpretation process, interpreters cannot immediately
begin interpreting when the speaker begins uttering the source language (SL) message. They must wait until they
have heard a sufficient portion of the SL message before beginning to produce the target language (TL) rendition.
This period of time between the SL utterance and the TL rendition is the interpreter's lag time or decalage
(COKELY, 1986, p. 3).
216

B: o presidente da WFD Colin Allen veio ao Brasil participar de um evento em São Paulo e fui chamada para
ser sua intérprete. Era um evento, que reunia pessoas com deficiência, organizado pela chamada IDA
(International Disability Alliance). Junto comigo foram outros três intérpretes: eu, Rodrigo Machado, Diego
Barbosa e Mariana Lima.

O cliente na conferência era o presidente de World Federation of the Deaf, Collin Allen.
Ele utilizava LSI e contou com a presença de tradutor e intérprete de língua de sinais do Brasil.
As línguas envolvidas eram LSI, português brasileiro, Libras e inglês na modalidade escrita. A
equipe brasileira na conferência para interpretação de Libras para LSI, era composta por 4
(quatro) intérprete de língua de sinais, incluindo intérpretes surdos e ouvintes (2 surdos e 2
ouvintes). Para isso, um cliente combina com 3 ou 4 profissionais a contratação para atuar na
conferência devido a duração de 3 dias do evento. No futuro, podem ocorrer conferências
envolvendo os países que fazem fronteira na América do Sul ou compõe o MERCOSUL.
Na ordem nº 6 do quadro, podemos observar que a presença de intérprete surdo de duas
línguas de sinais não é exclusiva nas conferências e pode acontecer de profissional surdo fazer
tradução de Libras ou LSI para português brasileiro ou inglês e vice-versa em trabalhos que
serão apresentados nas conferências. Segundo Mourão:

publicou artigos para divulgação desses achados. No mesmo projeto, realizou-se o


Festival Brasileiro de Cultura Surda, em novembro de 2011, na Universidade Federal
de Grande Rio Grande do Sul, com convidados e palestrantes brasileiros e
estrangeiros, inclusive com participação e apresentação de trabalhos e minicursos,
onde todos os interessados puderam participar através do uso da Língua de Sinais
Brasileira (LIBRAS), língua de sinais internacional, português e/ou inglês.
(MOURÃO, 2016, p. 21).

Não é somente a interpretação que pode ser feita pelo surdo, pois há momentos que as
traduções de resumos para conferências acadêmicas são solicitadas. Um dos intérpretes surdos
comenta sobre o trabalho de tradução para evento acadêmico:

A - Também realizei muitos trabalhos de tradução, caso queira saber. Quando trabalho nos congressos
acadêmicos, muitas pessoas me procuram para fazer traduções dos resumos de trabalhos que devem ser
submetidos. As regras exigem que os resumos devem ser entregues por escrito ou em Língua de Sinais
Internacional. Dessa forma, sou contratado para fazer esta tradução. É um trabalho realizado fora da
organização do evento.Eu peço para que o interessado me envie o resumo em Libras e eu realizo a tradução
para Língua de Sinais Internacional, assim os trabalhos são submetidos e muitos conseguem ser aprovados.
Recentemente recebi um pedido diferente. Uma pessoa iria palestrar em um congresso internacional fora do
país. Como ela não dominava a Língua Sinais Internacional, pediu minha ajuda. Combinei com ela para que
enviasse um vídeo com a sua apresentação, Dessa forma, pude fazer a tradução para a Língua Sinais
Internacional. Também passei para ele algumas “dicas” com sinais-chave que poderiam ser úteis em sua
apresentação.
217

No Brasil, clientes brasileiros que não sabem utilizar a LSI, procuram o tradutor surdo
para tradução de sua apresentação em Libras ou língua falada escrita para língua de sinais
internacional, além disso, solicitam dicas de sinais-chaves114 da LSI para uma apresentação
internacional. Observamos que a resposta do sujeito A me levou a uma reflexão de que não
existe somente atuação como intérprete surdo de conferência, pois é possível que o mesmo
também atue como tradutor, ou seja, o surdo pode trabalhar, simultaneamente, como Intérprete
e Tradutor ou separadamente (somente como intérprete ou somente como tradutor), dependendo
da situação. Conforme o Mourão (2016):

Nos encontros internacionais de surdos, por exemplo, banquetes, eventos esportivos


(olimpíadas de surdos, copa de futebol de surdos etc.), congressos e outros, existe
comunicação entres os surdos, por meio de sinais internacionais. O Congresso
Mundial de Surdos, organizado pelos membros da Federação Mundial de Surdos
acontece a cada quatro anos, em diferentes países. Na 17ª edição em 2015, reuniram-
se membros e 1.312 participantes de 97 países, em Istambul, na Turquia. Participam
renomados palestrantes surdos, pesquisadores surdos e ouvintes, intérpretes de línguas
de sinais. Há exposições (vários gêneros), eventos culturais para todos interessados
em várias áreas profissionais, estudantes e pesquisadores, entre outras atividades.
(MOURÃO, 2016, p. 76).

Em vários momentos, os clientes brasileiros não sabem utilizar s língua de sinais


internacional ou outras LSNs, Dessa forma, eles procuram os serviços profissionais dos
tradutores surdos. É importante a tradução de Libras para língua de sinais internacional ou LSN;
ou Libras para inglês ou espanhol, (e vice-versa) em resumos acadêmicos, na valorização dos
participantes durante as conferências, para apresentação de trabalhos e para o fim da barreira
linguística das línguas de sinais. A oportunidade de ser um tradutor surdo, possibilita realizar a
tradução das línguas faladas e das línguas sinalizadas. Podem atuar em conferências nacionais
e internacionais. Nestas ocasiões, haverá línguas faladas na modalidade escrita ou fala
interpretada para uma língua de sinais.
Conforme Mourão (2016, p. 101), sobre o Festival Clin d`Oeil: “nesse evento, é
impossível perceber quem é surdo e quem é ouvinte, uma vez que todos sinalizam, utilizando
suas línguas de sinais internacionais”. Conforme escrito na programação do próprio festival,
são onze línguas escritas, tais como: francês, inglês, hebraico, japonês, alemão, espanhol,

114
Palavra-chave é palavra principal da pesquisa, o termo está relacionado com a língua falada. O termo “sinal-
chave” é sinal principal da pesquisa, visto que sinal está relacionado com as línguas de sinais.
218

italiano e outras. Existe ainda a tradução para línguas de sinais em cada uma dessas línguas no
site do festival.
Esta situação já aconteceu comigo, quando no site 8SIGN, precisei mandar um resumo
para a apresentação de um trabalho. Poderia escolher a Libras, LSI, Português brasileiro ou
inglês. Na 8º International Conference of Sign Language Users - 8SIGN em Florianópolis – SC
Brasil no ano 2017, clientes brasileiros procuraram tradutores surdos para tradução. Destaque
para o que foi mencionado pelo sujeito B:

B- O período que trabalhei como voluntária na Feneis também me ajudou. Às vezes recebia e-mails do
presidente de Feneis, com textos ou informes em inglês. Era um hábito ler os e-mails, traduzi-los para o
português e depois enviá-los de volta. Foi também em 2002 ou em 2003 que, durante a organização do encontro
Latino Americano da WFD, fiz bastante tradução. Meu nome não consta oficialmente como tradutora, pois a
WFD enviava e-mail para presidente de Feneis e ele me pedia para traduzi-los e também escrever as respostas.
Tive bastante prática com tradução.

Um cliente brasileiro que não sabe ler inglês, procurou o tradutor surdo para a tradução
do texto escrito em inglês para o português brasileiro ou Libras (e vice-versa). A atividade de
tradução que começou de forma empírica e se tornou uma prática profissional. O tradutor surdo
é aquele que domina uma LSN ou LSI e também possui competência na língua falada escrita,
como o português brasileiro e o inglês, além de conhecimentos acadêmicos específicos. De
acordo Boudreault (2005) afirma que:

há muitas possibilidades de interpretação informal dentro da comunidade surda, onde


alguns membros da comunidade possuem numerosas habilidades para atuar como
facilitadores de comunicação. O contexto pode ser dentro de uma escola de surdos,
no local de trabalho ou, ao se encontrar com pessoas ouvintes profissionais como
advogados, médicos, etc. Este processo dos intérpretes surdos pode envolver em
expressar, gesticular, escrever ou usar outras línguas de sinais. (BOUDREAULT,
2005, p. 324).

Aprensentando uma síntese do sujeito B: possui experiência com as línguas de sinais


desde criança, graças as escolas de surdos e nas associações de surdos. Conseguiu emprego
como membro na Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos – Feneis, atuando
como facilitadora, ajudando as pessoas surdas na comunicação ao traduzir ou interpretar os
sinais/gestos para o português brasileiro ou outras línguas faladas. De acordo com Granado
(2019):

Considerando que a maioria dos intérpretes surdos possui a experiência de traduzir


e/ou interpretar desde cedo, as suas experiências podem depender das situações: 1)
ajudar os colegas surdos na sala de aula, interpretando de uma forma mais clara, para
219

facilitar o entendimento do conteúdo; 2) interpretar para os surdos não-oralizados,


acompanhando-os nas consultas médicas, bancos e outros; 3) interpretar para os
surdos estrangeiros, na forma consecutiva ou simultânea, de Libras para Sinais
Internacionais, dependendo da situação e, também pode ocorrer a vice-versa, no caso,
para os surdos brasileiros que não conhecem SI; e outras experiências pessoais, em
diversas situações. (GRANADO, 2019, p. 35).

Os tradutores e intérpretes surdos já atuam empiricamente115 como intérpretes e


tradutores informais há muitos anos, até se tornarem profissionais. Não é apenas o intérprete
surdo que pode se tornar um tradutor/intérprete de línguas - TIL, não precisa de um “rótulo”
que deve ser ouvinte ou surdo. É um profissional tradutor e intérprete de línguas que escolhe
uma função diferente dos outros profissionais tradutores e intérpretes, escolhendo a língua
falada e/ou língua sinalizada para sua competência tradutória.
Creio ser relevante fazer chegar a surdos e ouvintes a informação do trabalho realizado
por tradutores surdos em artigos científicos ou resumos, nas mais diversas modalidades. Do
inglês para a Libras, do Português brasileiro para LSI ou ASL, ou ainda, outra língua de sinais
ou língua falada na modalidade escrita.
Retomando a citação de A e B acima, analisamos que as respostas dos sujeitos são
diferentes. Enquanto o sujeito A foi remunerado, o sujeito B fez seu trabalho voluntariamente.
As situações distintas ajudam a compreender esta diferença, por exemplo: a Feneis é uma
instituição sem fins lucrativos, dessa forma, o sujeito B desejou oferecer de forma voluntária
seu trabalho na tradução do inglês para Libras. De modo geral, sobre a prática do tradutor surdo,
as respostas apontam que eles realizam a tradução em LSI e são remunerados por instituições
ou empresas, sendo que, em alguns casos, os solicitantes não possuem fins lucrativos. Dessa
maneira, eles podem realizar o trabalho de forma voluntária. Há mais detalhe sobre este assunto
(remunerado x voluntário) na seção 5.4.
Outro detalhe que observamos diz respeito ao tipo de evento de maior demanda na
atuação como intérprete surdo. Em primeiro lugar temos os eventos ligados à Linguística,
seguidos pela área de Interpretação e Tradução e Educação de Surdos. De acordo com Silveira

115
Ferreira (2019, p. 25-26) diz que “atualmente, nota-se a atuação cada vez mais crescente de surdos como
intérpretes, tradutores e guias-intérpretes em contextos comunitários, em instituições educacionais, em eventos
nacionais e internacionais e, inclusive, em espaços acadêmicos. Contudo, sua atuação parte, basicamente, de sua
fluência nas línguas envolvidas no processo tradutório/interpretativo e não do fato de serem profissionais do ramo.
O que acontece é que, sem uma formação acadêmica específica para atuar como tradutores/intérpretes/guias-
intérprete, esses surdos têm assumido esses postos de trabalho e se 26 “formado” por meio da prática, de maneira
empírica, assim como ocorreu com os primeiros intérpretes ouvintes de línguas de sinais (QUADROS, 2004;
SANTOS, 2010; RODRIGUES, BEER, 2015)”.
220

(2017: a comunidade surda, possui maior frequência nos contextos acadêmicos e, de forma
inédita. Veja o evento nº 7, que é sobre desenvolvimento sustentável no evento Rio + 20
(Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Natural - CNUDN)116. De acordo com
Rodrigo N. Machado117:

Marcou a história que 9 (nove) profissionais tradutor e intérprete de língua de sinais


na conferência: dois (2) intérpretes surdos brasileiros de Libras e língua de sinais
internacional (Flaviane Reis e Rodrigo Nogueira Machado), um surdo canadense,
intérprete surdo de língua de sinais internacional (Nigel Horward), um intérprete
ouvinte brasileiro de Libras e português brasileiro (Anderson Almeida) e mais 5
(cinco) intérpretes ouvintes estrangeiros, intérpretes de língua de sinais internacional
e inglês. (MACHADO, 2017, informação verbal).

Assim, um novo contexto de atuação de intérprete surdo surgiu. O Congresso


internacional da IDA (Aliança Internacional de Deficiência) da ONU no Brasil, contou com a
participação de jovens surdos, entidade para surdos como Febrapils, Mercosul e pessoas das
mais diversas áreas acadêmicas, como: Educação, Linguística, Tradução e Interpretação,
Cultura Surda, Artes Surdas (Folclore Surdo, por exemplo) e Encontros dos Surdos. A presença
de intérpretes surdos realmente foi importante nesta conferência, garantindo o direito linguístico
em todas as informações através da LSI, das LSNs de outros países e da Libras em todos os
contextos.
Observamos que, no evento nº 40, no congresso da Wasli, o palestrante brasileiro
sinaliza em Libras, um intérprete surdo brasileiro está traduzindo da Libras para LSI
(interpretação interlingual) e outro intérprete surdo estrangeiro para LSI (interpretação
intralingual e feed [espelhamento] para LSI). Considero muito positivo que um intérprete surdo
brasileiro participou do trabalho como intérprete em um congresso internacional fora do Brasil.
Na maioria dos registros que encontrei, relacionados aos intérpretes surdos nas
conferências regionais, nacionais e internacionais no Brasil, os trabalhos foram de interpretação
da Libras para LSI (maioria), para ASL, para LSE e para LSA, LSV (todas também com
interpretação no sentido contrário). No evento nº 28, envolvendo a DGS não foi possível
apresentar nomes e datas em sua lista, pois a informação é sigilosa. Só houve trabalho com
interpretação da Libras para DGS na acadêmica e também os surdos brasileiros utilizar em LSI
para públicos alvos surdos alemães saber LSI em alguns locais da Alemanha. Ainda há

116
Foi realizada de 13 a 22 de junho de 2012, na cidade do Rio de Janeiro. A Rio+20 foi assim conhecida porque
marcou os vinte anos de realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento
(Rio-92) e contribuiu para definir a agenda do desenvolvimento sustentável para as próximas décadas.
117
Notícia fornecida por Rodrigo N. Machado no III Encontro de TILS do Ceará – Apilce, em Maracanau-CE, em
julho de 2017.
221

necessidade de coletar outros exemplos de situações que envolvam o intérprete surdo e o uso
de duas ou mais línguas de sinais para complementtar os registros.
Nos resultados encontrados, observamos que não são apenas intérprete surdo intramodal
interlingual de LSN para outra LSN ou LSI de conferência, pois há casos em que pode se tratar
de tradutor surdo intermodal interlingual de LSN para língua falada escrita. Existem registros
de várias línguas de sinais traduzidas por intérprete surdo para Libras e também para outras
LSNs como: ASL, DGS, LSE, LSC, LSA e LSV ou LSI em conferências regionais, nacionais e
internacionais, no Brasil e nos outros países. No gráfico 1 apresento o total:

Gráfico 1 - Quais as línguas de sinais nacionais e língua de sinais internacional que mais frequente intérprete
surdo trabalha nas conferências

Quais as LSN e LSI que mais frequente intérprete surdo trabalha nas conferências

a) Libras e LSE b) Libras e LSI c) Libras e ASL d) Libras, LSI e ASL


e) Libras e LSA f) Libras e LSV g) Libras e DGS

2% 7% 3%
2%

19%
58%
9%

Fonte: Elaboração própria

É possível observar para resultados encontrados, a maioria que intérprete surdo


trabalham Libras para outras LSNs ou língua de sinais internacional nas conferências regionais,
nacionais e internacionais. A porcentagem maior é Libras e LSI, a segunda é Libras, LSI e ASL
e terceiro é Libras e ASL. Outros mais raramente são Libras para LSA, LSE, LSV e DGS.
Percebe-se a falta de Libras para outras LSNs da América do Sul, pois tem aumentado as
conferências na América do Sul e, por isso, é importante incentivar que nelas tenha a presença
de tradutor e intérprete surdo das LSNs.
Vamos falar sobre os sujeitos da pesquisa de intérprete surdo de duas línguas de sinais
e sua presença em eventos ou outros lugares/situações de atuação. Veja o gráfico a seguir:
222

Gráfico 2 - Eventos ou em outras situações

24) Trabalha como ISLSLS somente em eventos ou em outras situações, quais?


25 respostas

a) Somente em eventos
44%
b) Vários Lugares
56%

Fonte: Elaboração própria.

Tais dados observados no gráfico 2 de eventos: a) somente em eventos representam 46%


das respostas e; b) vários lugares representam 54%. Analisando as porcentagens, quase metade,
demonstram a possibilidade de atuação em eventos do que atuação de intérprete surdo de duas
língua de sinais em contextos como: jurídico, mídia, esporte, turismo, saúde, nas associações,
dentre outros. Veja que eles respondem quais são os eventos e situações:

D.: Eventos, simpósios, e encontros formais / informais.


F.: Eventos, Seminário, Congresso e etc...
G.: Na verdade, a maioria de vezes foi nos eventos, mas já interpretei em algumas situações como delegacia,
hospital, e outros.
H: Oficina, palestra e vários lugares, como associação.
J: Também vários lugares do Rio de Janeiro para guia-turismo.
M: Congressos, eventos e guia-intérprete de turístic.
N: Juízo, Área de Saúde, com surdos de necessários especiais linguísticos.
W.: mediação com outros estrangeiros, curta interpretação.
X.: Lazer, reunião, leitura de inglês para Libras, evento. Alguns americanos me pediram pra eu traduzir de
português/Libras para ASL.
Y: Turismo, associação, negócio videoconferência e eventos.
Aa: Encontros, eventos e família.

A seguir, veremos as respostas (questionários) que compõe o dado “vários lugares”


apresentado no gráfico anterior: 1) eventos, representando a maioria, como por exemplo,
simpósios, encontros, seminário, congresso, reunião, encontro formal e informal118, oficinas e
videoconferência119 e que acontecem em momentos durante a conferência ou nos mini-cursos

118
Encontro formal e informal: encontro formal é instituição como empresa, conferencias, jurídicos e etc. Encontro
informal, casa, associação de surdos, restaurantes, etc.
119
Videoconferencias: é o vídeo ao vivo para conferências ou mini-cursos ou oficinas ou workshops ou reunião.
Uma pessoa palestrante não vem na conferência, apresentação ao vivo no vídeo.
223

e workshops; 2) áreas jurídicas: delegacia, fórum ou tribunal de justiça; 3) área da saúde:


hospitais; 4) entidade de/para surdos: associação de surdos; 5) turismo: guia-intérprete para
turistas; 6) tradução (língua falada escrita ou língua de sinais para outra língua de sinais: inglês
para Libras [para brasileiros] ou português brasileiro/Libras para ASL [para estrangeiros]); 7)
negócios; 8) família (surdos de nacionalidades diferentes, necessitam se comunicar através de
LSI ou ASL ou língua de sinais). As situações podem ser complementares ao registro de
contextos, são elas: 9) esportes; 10) teatro, 11) artes, 12) acadêmica e 13) mídia. São locais
públicos onde os tradutores e intérpretes fazem o intermédio da comunicação entre as duas
línguas de sinais e língua de sinais para língua falada.
Percebe-se que maioria é interpretação de Libras para outras LSN ou LSI nos diversos
contextos, entretanto, abra-se espaço também para um novo profissional tradutor de português
brasileiro e Libras para ASL. Além disso, os resultados encontrados demonstram que
profissionais tradutores e intérpretes surdos trabalham com tradução, interpretação e tradução-
interpretação de Libras para outra LSN ou LSI ou língua falada escrita nos diversos contextos.
Em uma comparação com Rodrigues (2010), podemos observar os contextos em que os
intérpretes ouvintes atuam ou já atuaram. O seu trabalho apresenta dados interessantes. Os que
se destacam são o contexto religioso e familiar com mais de 90% e, logo em seguida, se
destacam também os contextos educacional e o de conferência com 85%, para quais os
intérpretes declaram já terem realizado algum tipo de interpretação. Observe o gráfico de
Rodrigues (2010):

Gráfico 3 - Atuação do Intérprete de língua de sinais - ILS

Fonte: Rodrigues (2010, p. 4).


224

Observamos no gráfico 3 que a maioria dos trabalhos são realizados no contexto


religioso e familiar, sendo que “de Conferência” e “Educacional” aparecem apenas em terceiro.
Comparando os contextos de atuação dos intérpretes ouvintes e surdos de língua de sinais,
percebemos que há diferenças. Analisando o corpus levantado nessa pesquisa, no gráfico 1 e na
citação dos sujeitos questionados, constatamos que os tradutores e intérpretes surdos atuam
mais em contextos do tipo conferência do que em outros contextos. Os clientes surdos que vêm
ao Brasil, necessitam da presença de intérprete e tradutor surdo nos diferentes contextos para
auxiliar na comunicação com as LSNs ou língua de sinais internacional, principalmente nos
contextos acadêmicos. Há, entretanto, pouquíssimos registros de atuação em áreas como:
Direitos Humanos, Artes Surdas e outros. No futuro, espera-se uma ampliação deste trabalho
para conferências nas mais diversas áreas do conhecimento.
Outra pergunta feita para um dos sujeitos entrevistados, foi a seguinte questão: “Você
trabalha apenas em eventos? existem outras situações em que você atua como intérprete
de Línguas de Sinais?”. Eis a resposta do sujeito A mencionado:

A- Normalmente, os eventos são congressos…


KL- Apenas congressos acadêmicos?
A- Já atuei no Encontro de Jovens, congressos acadêmicos, como você já citou, em um evento sobre Cultura
Surda em Porto Alegre… Acho que basicamente foram estes na categoria de eventos.

O sujeito A afirma que costuma participar apenas de eventos, da mesma forma que
outros 46% dos sujeitos questionados. O sujeito B e C, faz uma afirmação diferente:

B - Já trabalhei sim em congressos, também interpretei em sala de aula quando tivemos professores visitantes
ministrando para nossos alunos, em reuniões ajudando na intermediação…
K - Que tipo de reuniões? Aqui da universidade? ou da reitoria?
B - Sim da universidade e também da reitoria, reunião de coordenadores, por exemplo. Lembro que em 2009
tivemos a visita de uma comitiva de Portugal que veio conhecer o projeto do curso de Letras Libras a
distância, pois eles queriam implantar o projeto lá. Na comitiva havia um professor Surdo e outro ouvinte. As
duas universidades iriam firmar uma parceria. Chamei um intérprete de Libras para me ajudar e eu fazia a
interpretação para língua gestual portuguesa - LGP.Minhas atuações são em congressos, sala de aula,
reuniões… Também gravo vídeos algumas vezes.

C – Existem outros. Além de congressos, já tive oportunidade de trabalhar em várias reuniões, fui chamada
para interpretar em uma entrevista, pois o convidado e o entrevistador não se comunicavam, também já fiz
tradução para língua de sinais internacional de um vídeo que seria distribuído mundo a fora. Que me lembre
foram essas as atividades que já participei.

Não atuam apenas em conferências ou congressos, já esteve em sala de aula, reuniões


acadêmicas e em vídeos em línguas de sinais, em posição de entrevistado e de entrevistador e
225

também outras mídias. Suas respostas foram semelhantes a outros 54% dos sujeitos
questionados. Stone e Russell (2014) afirmam que veem as grandes oportunidades de trabalho
para os intérpretes surdos que fornecem a interpretação de plataforma em conferências
internacionais, ou fornecem a interpretação em transmissões de notícia na televisão. Por isso, o
campo de atuação não se limita a conferências internacionais. Eles (sujeitos) afirmam atuar em
vários lugares como todos contextos sociais. Não atuam apenas em congressos de contexto
acadêmico, de jovens surdos, de associações de surdos, da ONU e dentre outros. É importante
que haja uma globalização das línguas de sinais e língua falada, das culturas surdas, de
conhecimentos e informações.
Concluímos que são necessárias mais políticas públicas e políticas linguísticas, que
visem a contratação de tradutor e intérprete surdo intramodal e interlingual Libras para outras
LSNs ou língua de sinais internacional e tradutor e intérprete surdo intermodal e interlingual
Libras para língua falada e, dessa forma, retirar as barreiras linguísticas dos surdos em todos os
contextos.

5.2 COMPETÊNCIA LINGUÍSTICA DO INTÉRPRETE SURDO DE LÍNGUAS DE SINAIS


NACIONAIS E LÍNGUA SINAIS INTERNACIONAL

De acordo com a proposta quanti-qualitativa descritiva e explorativa, apresenta-se o


reconhecimento dos intérpretes surdos das LSNs e LSI. Apresentamos este trabalho como uma
contribuição fundamental para o desenvolvimento das pesquisas linguísticas das línguas de
sinais, envolvendo os intérpretes surdos, nas conferências regionais, nacionais e internacionais.
Os dados coletados a partir do registro de planejamento linguístico das LSNs são: Libras, ASL,
LSF, LSV, DGS, LSU, LSA, LSE e LSC na categoria de línguas com reconhecimento. Também
há o registro de língua de sinais internacional, pois consideramos importante utilizar língua de
sinais internacional por ser mais frequente nas conferências ao redor do mundo do que em
outros contextos.
Ao todo são 28 sujeitos surdos bilíngues (de duas línguas do próprio país) na pesquisa
de intérprete de língua (questionados e entrevistados). São 26 sujeitos brasileiros na pesquisa
das línguas Libras e português brasileiro, 1 sujeito norte-americano na pesquisa das línguas
(ASL e inglês), 1 de sujeito alemão na pesquisa das línguas (DGS e alemão).
Dubois (1993) e Grosjean (1997) relatam que ser bilíngue é ter domínio em duas línguas
com a mesma fluência, portanto, essa pesquisa trata somente das línguas de sinais com
226

intérpretes surdos que trabalham com a interpretação de duas ou mais línguas de sinais. Tivemos
a oportunidade de saber dos tradutores e intérpretes surdos entrevistados e questionados,
quantas e em quais línguas de sinais são fluentes. As informações foram obtidas através da
coleta de informações de 25 indivíduos que responderam os questionários e 3 que foram
entrevistados.
Nossa análise inicia-se com os dados da 2º fase de perguntas (roteiro de questões
dividido em 1º a 3º fases: dados pessoais, as línguas de sinais e profissional de intérprete surdo)
que são relativas às línguas de sinais como primeira, segunda e terceira língua. Os dados
coletados nos questionários e entrevistas ajudam a traçar o perfil do intérprete surdo de LSN
para outra LSN ou LSI. Escolhemos as respostas das seguintes questões: 8) Qual é a sua
primeira língua de sinais? 11) Qual é a língua de sinais como segunda língua? e 14) Qual é a
língua de sinais como terceira língua? Havia a possibilidade de escolher múltiplas respostas da
questão 14º, se for o caso, está incluído no quadro 18 abaixo.

Quadro 18 - Perfil dos participantes (questionados) da competência das línguas de sinais nacionais e língua de
sinais internacional como primeira, segunda e terceira língua
8) Língua de sinais 11) Língua de sinais 14) Língua de sinais
Ordem de
como primeira língua como segunda língua como terceira língua
númerica
(L1) (L2) (L3)
D. Libras ASL LSI e LSE
E. Libras LSI LSF
F. Libras LSI ASL
G. Libras ASL LSI, BSL e LIS
H. Libras ASL LSI
I. Libras LSI ASL
Língua Portuguesa
J. Libras LSI
Brasileira
K. Libras ASL LSI
L. Libras ASL LSI
M. Libras LSI ASL
N. DGS Libras LSI e ASL
O. Libras LSI ASL
P. Libras ASL LSI
Q. Língua caseira* Libras LSI
R. Libras LSI FINSL
S. Libras ASL LSI
T. ASL Libras LSI
U. Libras LSI ASL
V. Libras LSI ASL
227

W. Libras ASL LSI


X. Libras ASL LSI
Y. Libras ASL LSI
Z Libras LSI ASL
Ç Libras LSI ASL
Aa Libras ASL LSI
Fonte: Elaboração própria.

Conforme o quadro 18, são apresentados dados informando somente as línguas de sinais
como primeira, segunda e terceira língua, sendo elas: Libras, sinais caseiros (língua caseira),
gestos, ASL, DGS, LSE, LSF, BSL, LIS, FINSL, LGP, LSI e LSA, sendo a LSA minha segunda
língua, a que considero possuir fluência. Percebe-se que não são apenas LSI e ASL que
despertam interesse nos sujeitos, existem outras LSNs de domínio dos mesmos. Entretanto,
observamos que a maioria não possui interesse em línguas de sinais nacional dos países sul-
americanos. Falta promover pessoas surdas brasileiras a aquisição das LSNs da América do
Sul como segunda língua para comunicação com outros surdos sul-americanos ou profissionais
tradutores e intérpretes surdos.
Aparentemente, as LSNs originárias dos Estados Unidos da América e da Europa
possuem mais prestígio e poder do que de países da América do Sul. Falta reconhecimento e
valorização das LSNs da América do Sul. Também verificamos a importância das pessoas
surdas e tradutores e intérpretes utilizarem a língua de sinais internacional ocidental da América
do Sul como facilitador da comunicação, como uma forma de trocas culturais advindos dessa
região continental, no qual as experiências pode proporcionar melhorias de qualidade de
competência interpretativa de línguas de sinais nos seus diversos contextos.
O sujeito Q escreveu “língua caseira”, no entanto é relevante lembrar que o termo
correto seria: sinais caseiros. A autora Adriano (2010) que criou o termo e nessa minha pesquisa
convencionamos utilizar “sinais caseiros”, por isso o uso de aspas, ao se referir a esse conceito.
É possível verificar que um dos sujeitos da pesquisa, o sujeito J, respondeu que a língua de
sinais como segunda língua, é a “língua portuguesa brasileira”. Neste caso, se trata de língua
falada escrita. Não perguntamos em minha pesquisa, nada relacionado a língua falada como,
por exemplo: português brasileiro, inglês americano, francês, etc.
Como mencionado, considerei necessário saber informações para esclarecer sobre essa
questão, que pudesse ampliar minha reflexão. Assim, para levantar respostas de outras pessoas
228

surdas que não participaram da pesquisa, perguntei de maneira informal aos surdos brasileiros
no Ceará, Pernambuco e Santa Catarina as perguntas 8º, 11º e 14º e, a maioria respondeu que a
primeira língua é a Libras e segunda língua é o Português brasileiro. Ficamos pasmas, pois no
meu pensamento e organizei novamente outra frase (mesmo sentido), reformulando a pergunta
para confirmar se eles entenderam. Quando perguntei novamente com clareza a questão 11º
(língua de sinais como segunda língua?), complementei informando que “não fizemos a
pergunta da língua falada na forma escrita”, então eles foram pensando, demorando e
conseguiram responder (alguns informaram ASL e outros LSI).
Aproveitamos e fizemos uma pergunta complementar (fora das perguntas na lista): Por
que você respondeu “português brasileiro”? A maioria disse que é costume entre os surdos
bilíngues ter a ideia de que a primeira língua é a Libras e segunda língua é o Português
brasileiro. Descobrimos que os surdos, em grande parte, possuem um conceito fixo sobre ser
bilíngue. Conforme afirma: “Para situar o leitor quanto à abordagem bilíngue, recorro a
Goldfeld (2002, p. 42): “O bilinguismo tem como pressuposto básico que o surdo deve ser
bilíngue, ou seja, deve adquirir como língua materna a língua de sinais, que é considerada a
língua natural dos surdos e, como segunda língua, a língua oficial de seu país.”
Dessa forma, surdos de nascença bilíngues brasileiros se referem à primeira língua
sendo a Libras pela modalidade visuo-gestual, e segunda língua a majoritária do país, neste
caso, o português brasileiro escrito. Devido ao costume, ser bilíngue significa ter primeira e
segunda língua como um conceito fixo. É importante ressaltar que o conceito de bilíngue
estudado de forma mais aprofundada, é diferente do consenso comum da maioria das pessoas.
Entretanto, alguns surdos podem ter influências das línguas (falada e sinalizada) no lar, escola,
associação de surdos e nas interações sociais, por exemplo: um pai surdo americano e uma mãe
surda brasileira, irão expor ao filho duas línguas de sinais como primeira língua e, depois de
algum tempo, é possível que influenciem o aprendizado de língua de sinais internacional como
segunda língua. Outra possibilidade é a de um surdo que receba influência do português
brasileiro como primeira língua e depois da Libras como segunda língua, entre outros exemplos.
Além dos resultados encontrados, sujeitos da pesquisa são bilíngues (primeira e segunda
língua), em que a aquisição da primeira e segunda língua, de acordo Gass e Selinker (1994, p.
4 apud PAIVA, 2014, p. 177) diz sobre a Aquisição de segunda língua: “Aprendizagem de
outra língua, depois que se aprendeu a língua nativa”. Portanto, os tradutores e intérpretes
surdos tem aquisição da primeira e da segunda língua do próprio país, diferente da língua
estrangeira. O mesmo autor no glossário informa que: “Aquisição de LE (língua estrangeira):
229

competência linguística adquirida de forma inconsciente” (2014, p. 177). Os sujeitos da


pesquisa já são bilíngues do próprio país e têm mais outras línguas de sinais como língua
estrangeira, ou segunda, ou terceira língua. Eles aprenderam em cursos de outras línguas de
sinais como língua estrangeira, pelo encontro com surdos ou outros espaços sinalizados.
Para reflexão, por exemplo, se pessoa surda faz curso de ASL no Brasil, mas não tem
conhecimento dos aspectos culturais da ASL. Pode ser que possa adquirir os conhecimentos de
vocabulários, mas pode ter limitação para comunicação e, se tiver trabalhando como tradutor e
intérprete surdo, pode não executar bem seu trabalho de tradução e interpretação intercultural.
Provavelmente será difícil seu trabalho de interpretar por falta conhecimentos dos aspectos
culturais como também a falta de fluência das línguas de sinais. É diferente para o tradutor e
intérprete ouvinte brasileiro, que irá trabalhar com o par linguístico, português brasileiro e
Libras no Brasil, que tem a influência de aspectos culturais similares, facilitando a tradução e
interpretação intercultural.
Observamos que os tradutores e intérpretes devem manter contato linguístico com
pessoas surdas estrangeiras para que haja um maior contato com as línguas de sinais e também
maior assimilação de conhecimento de cultura, economia e política, de forma contínua,
colaborando com seu trabalho de interpretação e tradução intercultural.Existem diferentes
níveis de domínio das línguas orais (língua falada e língua sinalizada) por parte das pessoas.
Essa exposição acontece em vários contextos e por diversas razões, como: familiar, nas cidades,
econômicos, políticos, escolar, comunidade surda e entre outros. Porém, a minha pesquisa,
possui foco nas línguas de sinais como primeira, segunda e terceira língua de modalidade visuo-
gestual utilizada por profissionais de intérprete surdo. Reitero que os sujeitos da pesquisa são
bilíngues, usuários dos pares linguísticos: Libras e português brasileiro, DGS e alemão e ASL
e inglês americano.
Além dos resultados encontrados, informo que os tradutores e intérpretes surdos são
bilíngues (língua de sinais nativa e língua majoritária do próprio país) e plurilíngues (para três
ou mais língua de sinais) e não são, necessariamente, profissionais para exercer a função de
tradutor e intérprete de língua. Por fim, nos gráficos abaixo se apresentam os cálculos dos
resultados encontrados nos gráficos relativos as línguas de sinais como primeira, segunda e
terceira língua divididos em subseções.
230

a) Línguas de Sinais como primeira língua

Nesta subseção, apresentamos um enfoque competência linguística na língua de sinais


como primeira língua de intérprete surdo de LSN para outras LSN ou LSI. A investigação
aplicada neste contexto contribuiu para a construção de uma análise acerca das línguas de sinais.
Cada pessoa surda já nasce como um ser bilíngue, tendo como a primeira língua de sinais a
língua falada ao mesmo tempo em que adquire a língua falada do próprio país ou outra língua
de sinais. Vejamos o gráfico 4 com as respostas dos sujeitos pesquisados, gerados no Google
Forms e apresentados a seguir:

Gráfico 4 - Qual é a sua primeira língua de sinais?

8) Qual é a sua primeira língua de sinais?


25 respostas

4% 4%
4%
a) Libras
b) L. Caseira
c) DGS
d) ASL

88%

Fonte: Elaboração própria.

Conforme ilustrado acima, os dados mostram os diferentes níveis de domínios das


línguas de sinais como primeira língua dos 25 sujeitos surdos brasileiros e estrangeiros: 23
(vinte e três) sujeitos de intérprete surdo de duas línguas de sinais são brasileiros, 2 (dois)
sujeitos são estrangeiros de intérprete surdo de duas línguas de sinais. Assim, verificamos como
resultado, que a maioria dos sujeitos pesquisados consideram a Libras como sua primeira
língua, correspondendo a 88% do total. Dos 23 brasileiros, apenas um respondeu que considera
a língua caseira (sinais caseiros) como sua primeira língua, ou seja, 22 (vinte e dois) sujeitos
brasileiros da pesquisa dominam a língua de sinais (Libras) e a consideram sua primeira língua.
Complementando o assunto, apresento outras respostas dos sujeitos brasileiros entrevistados.
Eles comentam:
231

A: Libras
B: Gestos e sinais caseiros desde criança depois, aos 9 (nove) anos de idade, comecei a utilizar Libras
C: Comecei a usar a Libras com 15 anos, porém, quando criança, eu era oralizada e utilizava alguns gestos
para me comunicar. Usava alguns sinais da Libras nesse período, mas a fluência mesmo eu adquiri a partir
dos 15 anos.

Afirmamos que os sujeitos tem como primeira língua os gestos ou sinais caseiro, ou
LSN. Continuando a análise do mesmo gráfico, os dados dos sujeitos surdos mostram entre os
estrangeiros: 1 (um) alemão surdo usuário da língua de sinais alemã – DGS com 4% e 1
americano surdo usuário da língua de sinais americana – ASL com 4%. De modo geral,
observamos que os dois grupos de participantes (que responderam o questionário e que foram
entrevistados) demostram que o tipo da língua de sinais utilizada pelos surdos são os sinais
caseiros como primeira língua. Veja o sujeito B (citação do sujeito acima) e também o que
mencionou sujeito Q:

Q. língua caseira

Nas respostas seguintes, que apenas envolve a língua caseira (sinais caseiros) utilizados
desde cedo pela criança surda, o sujeito Q foi questionado Onde aprendeu (questão 10º) e a
sua resposta foi a escolha do item “família”. Seus relatos sugerem que, provavelmente, sua
família era surda ou família de ouvintes sinalizantes por língua caseira (sinais caseiros),
combinação dos sinais familiares e dos surdos. O sujeito foi estimulado pela língua caseira
(sinais caseiros) utilizada para a comunicação com surdos. O mesmo pode ser dito em relação
ao sujeito B entrevistado.
Na questão 9º (“Com qual idade começou a aprender a sua primeira língua de sinais?”),
a resposta do sujeito Q foi a letra ‘a’ (0 a 6 anos de idade). De acordo com Adriano (2010), os
gestos usados pelas crianças em situação de isolamento linguístico, isto é, sem contato com
uma língua de sinais, são convencionados pela família, amigos e vizinhos da pessoa surda.
Juntamente com ela, visando uma comunicação básica para interagir e suprir suas necessidades
de subsistência, são chamados por Adriano (2010) de sinais caseiros. Por essa razão, chegamos
à conclusão de que esses sinais caseiros, usados por cada surdo, não possibilitou o contato com
a Libras e/ou outros surdos sinalizantes no seu convívio. Trata-se de um modo próprio de
“sinalizar”.
232

Para além dos resultados encontrados, pessoas surdas de intérpretes na comunidade


surda nacional, bem como de outros países e suas respectivas LSNs, comprovadamente
apresentam 90% de primeira aquisição da linguagem em LSNs e 10% em sinais caseiros ou
gestos desde criança surda ou jovem surdo. Vejamos a próxima subseção: língua de sinais como
segunda língua.

b) Língua de Sinais Nacionais como segunda língua

Na subseção anterior, já explicamos sobre a língua de sinais como primeira língua.


Nessa segunda subseção que apresentamos, o enfoque é na competência linguística da língua
de sinais como segunda língua ou língua estrangeira dos sujeitos de intérprete surdo. Informo
que retiramos a língua portuguesa brasileira, pois a mesma não faz parte da pesquisa sobre a
língua falada na forma escrita. Tratamos especificamente das línguas de sinais como primeira,
segunda e terceira língua. Portanto, dos 25 sujeitos da pesquisa, ficaram 24 sujeitos, como
mostrado no gráfico abaixo. Na segunda coluna do quadro 18, é possível observar a listagem
das categorias analisadas, desde o sujeito D até Aa. Mostramos os resultados encontrados no
gráfico 5 abaixo:

Gráfico 5 - Qual é a sua língua de sinais como segunda língua?

11) Qual é a sua língua de sinais como segunda língua?


24 respostas

12,50%

a) SI
b) ASL
41,67%
c) Libras
45,83%

Fonte: Elaboração própria.

Conforme gráfico 5, é possível observar na categoria das línguas de sinais como segunda
língua que, do total, 45,83% corresponde a ASL (língua de sinais americana) e 41,67% para
LSI, mostrando quase um empate para surdos brasileiros (ASL e LSI). Situação diferente com
12,5% para Libras, no caso sendo duas pessoas surdas estrangeiras e uma pessoa surda brasileira
233

(sujeito Q). O destaque para a ASL, provavelmente se deve ao grande número de acadêmicos e
pesquisadores americanos, fazendo com que acadêmicos e pesquisadores de outros países
precisem aprender essa LSN. A relação entre eles estão registradas em eventos nos quadros 16
e 17.
A LSI é a segunda mais utilizada em número de conferência, em entidades de surdo, em
instituição internacional, nacional e regional, continental, no âmbito esportivo, em mídias, nas
redes sociais e em outros diversos contextos. O contato existe e gera aquisição ou aprendizagem
da LSI na comunidade surda mundial, transnacionais e globalização. De acordo Schetrit (2016):

Do local à internacionalização dos surdos, há apenas um passo. Como o


compartilhamento entre pares (alteridade), o desenvolvimento de relações
transnacionais entre surdos construiu uma espécie de "comunidade mundial de
surdos", através da necessidade de se encontrar "entre si". É a versão moderna dos
banquetes de F. Berthier, do século XIX, que utiliza novas tecnologias de
comunicação, como mensagens, fóruns de "bate-papo", webcams, FaceTime, Skype,
Facebook, todas essas formas de redes sociais. oferecendo um relacionamento
individual e a possibilidade de conversas visuais com outras pessoas em uma
simplicidade de registros e comunicação incomparável à distância. Sem mencionar a
memória armazenada dessas trocas quando elas digitadas ou filmadas.120
(SCHETRIT, 2016, p. 190, tradução nossa).

Retomando a análise a partir do sujeito Q, este mostrou que a sua língua de sinais como
primeira língua eram língua caseira (sinais caseiros). Agora, falando sobre língua de sinais
como segunda língua, o sujeito Q escolheu a letra ‘f’ (Libras) como resposta a 11ª questão, a
saber: “Qual é a língua de sinais como segunda língua?”. As respostas posteriores foram as
seguintes: Letra ‘a’ (Encontro de Surdo) para a questão 13º (Onde aprendeu a segunda língua
de sinais?), letra ‘b’ (de 7 a 13 anos de idade) para a questão 12ª (Com qual idade começou a
aprender uma segunda língua de sinais). De acordo com seu relato, passou pela infância e, quase
na puberdade, teve a aquisição e aprendeu a Libras como segunda língua. Esse sujeito recebeu
a influência, primeiramente, de duas línguas de sinais (língua caseira e Libras).
É possível acreditar que muitos tradutores e intérpretes surdos, quando crianças, já
utilizavam sinais caseiros com a família e ouvintes ou surdas. Após algum tempo, rapidamente

120
Du local à l’internationalisation des sourds, il n’y a qu’un pas. Car le partage entre pairs (altérité), le
développement de liens d’amitié trans-nationaux entre sourds ont construit une sorte de « communauté sourde
mondiale », au travers du besoin de se retrouver entre « soi ». C’est la version moderne des banquets de F.
Berthier du 19ème siècle, qui utilise les nouvelles technologies de communication, tels les messageries, les forums
de « chat », les webcams, FaceTime, Skype, Facebook, toutes ces formes de réseaux sociaux offrant à la fois un
vis-à-vis à deux et la possibilité de conversations visuelles à plusieurs dans une simplicité de rapports et de
communication incomparable à distance. Sans parler de la mémoire stockée de ces échanges quand ils sont
effectués en pianotant sur les messageries ou filmés.
234

tiveram a aquisição de uma língua de sinais, como Libras, na comunidade surda. Facilmente
entendemos a diferença do tipo de linguagem entre os sinais caseiros ou gestos e as diversas
LSNs, incluindo a língua de sinais internacional, língua de sinais da fronteira, língua de sinais
regionais e etc. Nos resultados encontrados sobre a aquisição de linguagem, temos informações
sobre o plurilíngue e multilíngue, a assimilação da língua falada e língua sinalizada nos
territórios e em diversas comunidades surdas ou outros contextos ou externo do país.
De acordo com o Conselho Europeu (no contexto da Convenção Cultural Europeia) “o
plurilíngue é tratado como um multilinguismo no nível individual (diz respeito ao repertório
linguístico de cada individuo) enquanto o multilinguismo propriamente e dito é tratado no nível
social, ou seja, o uso de várias línguas num mesmo território ou comunidade” (CONSELHO
EUROPEU, 2007, tradução nossa).
Não há como o indivíduo possuir unicamente a língua de sinais. Sempre viverá com
outra língua majoritária, língua minoritária e língua estrangeira. As razões para isto são
explicadas pelo fato de que cada o sujeito desta pesquisa possui diferentes línguas que o
influenciam. As línguas (faladas e sinalizadas) nos territórios, nas comunidades surdas, na
educação, na economia, na cidade e entre outros contextos, fazem com que a pessoa surda
cresça com várias línguas e culturais, tornando-se plurilíngue e multilíngues; pluriculturais e
multiculturais.
Outra questão apresentada aos entrevistados foi a seguinte: “língua de sinais como
segunda língua (L2)?”. A partir das respostas, organizamos o texto que se segue, em que são
apresentados alguns excertos com as narrativas dos surdos. Eles descrevem ou identificam
diferenças relativas as informações que têm sobre essa temática e dizem se é possível fazer essa
distinção a partir da experiência que cada um acumulou em sua trajetória de vida. O segundo
Skliar (2013):

Os surdos começam a se narrar de forma diferente, a serem representados por outros


discursos, a desenvolverem novas identidades surdas, fundamentadas na diferença. Os
contatos que os surdos estabelecem entre si proporcionam uma troca de diferentes
representações da identidade surda. Através de um conjunto de significados,
informações intelectuais, artísticas, éticas, estéticas, sociais, técnicas, etc. podem-se
caracterizar as identidades surdas presentes num grupo social com uma cultura
determinada. (SKLIAR, 2013, p. 12).

Analisando as respostas dos sujeitos entrevistados na questão (11) “Qual é a sua língua
de sinais como segunda língua (L2)?”, faço minha reflexão (hipótese) a respeito dos sujeitos
intérpretes surdos que responderam língua de sinais internacional como segunda língua.
235

Percebemos meu equívoco ao colocar língua de sinais internacional como opção de segunda
língua, ao entrevistar três sujeitos pessoalmente. Ao questioná-los qual seria sua segunda língua,
esperava receber LSI como resposta.
O sujeito A respondeu a BSL, LSF e LSI, que não sabia do meu equívoco de ter colocado
como segunda língua a LSI, mas escolheu mesmo de forma insegura a LSF e LSI. O sujeito B
respondeu LSF e outro sujeito C respondeu ainda com incerteza LSI, pois a ASL tem forte
influência na LSI.
Não havia atentado para o fato de que língua de sinais internacional não pode ser
considerada uma LSN, pois não é utilizada como língua materna em nenhuma comunidade
surda do próprio do país, A meu ver, podendo ser caracterizada como uma língua de sinais
internacional na comunidade surda mundial.
O que pode ter acontecido, provavelmente, é que os sujeitos da pesquisa, pensaram que
a LSI não é língua ou que seria uma língua franca, por falta conhecimento atualizado ou por
seguir a proposta do WFD que diz que ainda não podemos confirmá-la como língua.
Atualmente, é considerada uma língua humana por conta do seu tempo de existência de 250
anos sendo utilizada e por já ter uma linguística de LSI e também por ser muito utilizada nos
espaços sinalizados em âmbito mundial e nacional. Vejamos um exemplo para esclarecer o
contexto, o sujeito A narrou:

A.- (parado, pensando….) Bem... sabe, Não sei exatamente onde e se era exatamente a Língua de Sinais
Internacional. Na minha viagem para Europa, em 2005, tive contato com vários surdos e de variadas formas.
Meu primeiro contato, ao chegar na França, foi com a língua de sinais francesa - LSF, porém, as pessoas
com quem conversei usavam LSF e Língua de Sinais Internacional para se comunicar comigo. Por esta razão,
não sei ao certo quando eles alternavam entre uma língua e outra. De qualquer modo eu conseguia
compreender. Depois viajei para a Inglaterra e lá tive contato com a língua de sinais britânica - BSL. Língua
bastante difícil, mas também usamos a Língua Sinais Internacional para facilitar a comunicação. Não sei
dizer exatamente qual a minha segunda língua, mas, de uma maneira geral, posso dizer que são a Língua de
Sinais Internacional.
KLP- Então você sente que sua segunda língua (L2) é a LSF juntamente com a Língua de Sinais
Internacional, bem como a BSL combinada com Língua de Sinais internacional?
A.- Sim, o primeiro contato foi a língua de sinais francesa - LSF, juntamente com Língua de Sinais
Internacional, mas veja bem: Eu não conhecia muito bem a Língua Sinais internacional. Minha experiência
visual ajudou a compreender o que estava sendo dito, mas não sei em quais momentos foi sinalizado para
mim puramente LSF ou Língua de Sinais Internacional. Eu não conseguia diferenciar.

Por meio dessa narrativa do sujeito A, é possível perceber nas respostas dele uma certa
hesitação para responder, pois não é costume entre as pessoas surdas responder uma LSN como
segunda língua. Normalmente, o costume é afirmar que possuem a Libras como primeira língua
e Português brasileiro como segunda língua. Por isso, houve demora na resposta sobre qual é a
236

língua de sinais como segunda língua. Durante a resposta, também demorou a afirmar se
classificaria língua de sinais internacional ou outra LSN.
O sujeito A, assimilou as línguas de sinais pelo contato com surdos estrangeiros em
outros países, entre eles a França e a Inglaterra. O sujeito é: i) bilíngue (Libras e português
brasileiro); ii) plurilíngue (bilíngue e mais línguas de sinais como LSF, LSI) e; iii) multilíngue
(assimilação das LSNs como BSL, LSF e LSI) nos territórios. Quando se entra em contato com
surdos estrangeiros, rapidamente ocorre a assimilação da língua de sinais e conhecimento das
diversidades culturais. Caso semelhante ocorreu com o sujeito B, pois ele demorou um pouco
para formular sua resposta (no vídeo em Libras, o mesmo abaixa a cabeça, indicando estar
organizando sua resposta). Vejamos o exemplo que esclarece a situação:

B.: A primeira L2 que aprendi foi a língua de sinais francesa - LSF. Em 2005 me mudei para aquele país, por
conta dos meus estudos no Doutorado. Quando cheguei lá, me convidaram a ensinar Sign Writing - SW para
crianças surdas. Fiquei apreensiva e a partir daí comecei a buscar aprender mais daquela língua. Onde eu
trabalhava fazendo minha pesquisa, havia uma moça surda com quem conversava sempre para aprender LSF
usando Língua de Sinais Internacional como apoio. Aprendi também sobre a gramática da língua. Por
exemplo: o sinal (Libras) de FAZER no Brasil temos apenas uma forma para ele e é usado em diferentes
situações. Na LSF existem duas formas para o nosso conceito do verbo “fazer”. Na frase: “O que você faz
durante a noite?” é usado uma forma do sinal. Ao responder: “Eu trabalho” o interlocutor pode perguntar
novamente: “fazendo o que?” Neste caso o sinal de “fazer” é diferente. Na Libras teríamos a mesma forma
para ambas as sentenças.Aprendi essa e outras diferenças entre a Libras e a LSF. Outro exemplo interessante
é com o sinal de IRMÃO. No Brasil existe apenas um sinal que é comum de dois gêneros. Na LSF existe um
sinal para cada gênero. As vezes me perguntavam se tinha irmãos e isso me deixava confusa pois eu não
entendia que estavam me perguntando especificamente se eram irmãos ou irmãs.Então, para mim esta é minha
segunda língua - L2.

Percebemos diferenças nas falas dos sujeitos A e B. O segundo relatou que as gramáticas
da LSF e da Libras são diferentes, de acordo com Lyons (1981, p. 105): “para os nossos fins no
presente momento, elas podem ser consideradas como cadeias de palavras, bem formadas (ou
seja, sequenciais bem formadas), ou de formas vocabulários [...]”. Nesse caso, o sujeito
apresentou exemplos comparando os sinais de Libras e LSF. Mostramos as figuras 29 e 30
abaixo para ilustrar:
237

Figura 29 - Sinal de FAZER (Libras e LSF)


Fazer (Libras) 1. Fazer (LSF) 2. Fazer (LSF)

Ilustração João Batista https://sites.google.com/site/lang Ilustração Fabrice Tourmez


Alves de Oliveira filho uesignes/que_faire.jpg
Fonte: Elaboração própria.

A primeira coluna apresenta o sinal de FAZER (Libras) um sinal com forma específica
na primeira e na segunda coluna, enquanto na terceira coluna, mostramos o sinal de FAZER
(LSF). Dois sinais com formas diferentes. Na figura 30 temos o sinal de IRM@ na Libras e
LSF. O sinal de IRM@ em Libras é um sinal com flexão de gênero, por exemplo, o sinal de
IRM@ + MULHER (irmã) ou sinal de IRM@ + HOMEM (irmão). No caso da LSF temos o
sinal de IRMÃO e ou sinal de IRMÃ (LSF), veja a figura 30:

Figura 30 - Sinal de IRM@ (Libras e LSF)


Sinal de IRM@ (Libras) Sinal de Irmã e Irmão (LSF)

Ilustração Oliveira filho Fonte: Delaforte (2007)


Fonte: Elaboração própria.

Interessante o detalhe que o sujeito B explicou as diferenças gramaticais entre a LSF e


Libras, mas não explicou sobre a gramática de LSI, nem sobre o que é um sistema linguístico.
De acordo Lyons:

um sistema linguístico é um fenômeno social, ou instituição que, em si mesma, é


puramente abstrata, na medida em que não apresenta uma existência física, mas que
238

em determinada ocasições é atualizada no comportamento linguístico dos indivídios


integrantes de uma comunidade linguística. (LYONS, 1981, p. 21).

Então, ficou faltando explicar sobre a gramática de língua de sinais internacional. Os


autores Woll (1985), Supella e Webb (1995), Rosenstock (2008, 2004) e Rosenstock e Napier
(2017) explicam sobre a gramáticas de sinais internacionais, propondo que outras pessoas
possam fazer pesquisas sobre o tema. Sobre esse tema (gramática de LSI), provavelmente
ocorrerá mais complementos sobre os tipos na gramática de LSI. Dessa forma, concluímos que
não há conhecimentos teóricos sobre a linguística da língua de sinais internacional.Exemplos
destas situações são os encontros de surdos nas entidades de surdos, instituições e conferências.
Vejamos agora o último sujeito C entrevistado:

C- Na verdade, posso dizer língua de sinais internacional - LSI, mas será que dá para dizer que é uma língua?
(... expressão corporal: não tenho certeza...) Também conheço ASL (que inclusive influência bastante LSI),
mas eu utilizo bem mais é a LSI.
KL: Para termos certeza, você considera LSI ou ASL como sua segunda língua (L2)?
C: LSI, esta seria minha primeira opção.

Apenas um sujeito confirma em sua resposta que utiliza língua de sinais internacional
como segunda língua, mas que não sabe se é considerada uma língua ou não. Provavelmente,
considera língua de sinais internacional como equivalente a segunda língua. É possível analisar,
nas respostas dos entrevistados, a distinção das experiências por influência das línguas faladas
e língua de sinais e dos aspectos culturais nos contextos da família, escola, vida na cidade,
política, universidade, dentre outros.
Quando os sujeitos A e B respondem que a LSNs, como LSF, LGP e BSL, mais do que
a LSI como segunda língua. Então, realizamos uma pergunta extra para o sujeito B: Percebi que
você aprendeu algumas LSNs, mas e a língua de sinais internacional? veja sua resposta:

B. Exato! uso como estratégia de comunicação.

A língua de sinais internacional é encarada como uma estratégia de comunicação,


costumamos vê essa fala que é usada apenas para comunicação. Esse assunto teórico é antigo e
precisamos discutir e atualizar, trazendo novas ideias com relação ao tema. Sabemos que possui
um sistema linguístico evidenciado em uma pesquisa, a gramática dos sinais internacionais,
desde Supalla e Webb (1995), Woll e Brauti (1995), Rosenstock (2008), Rosenstock e Napier
(2017), e não encontramos mais autores abordando o assunto. Nesta pesquisa não será possível
239

aprofundar nessa discussão, pois está voltada para política linguística, e tem uma raiz na
oralidade.
Os sistemas linguísticos das línguas faladas, por exemplo, também possuem oralidade
presentes na contação de histórias, piadas etc. Desta forma, a língua de sinais internacional
poderia ser investigada por meio dos registros desses gêneros produzidos pela comunidade
surda mundial. Exemplos de conteúdos que passam de geração a geração, assim como em várias
das LSNs.
De acordo Skliar (2013, p. 24) Os surdos criaram, desenvolveram e transmitiram, de
geração em geração, uma língua, cuja modalidade de recepção e produção é visuogestual.
Assim, a língua de sinais deve ser entendida como um processo e um produto construído
histórica e socialmente pelas comunidades surdas.
Minha reflexão, me leva a levantar as seguintes perguntas a respeito da língua de sinais
internacional: Onde os surdos criaram língua de sinais internacional? Como é o
desenvolvimento de oralidade de geração a geração? Onde surge o humor, a piada própria dessa
língua? Onde a língua de sinais se situa para ser um produto histórico? Onde podemos inserir o
processo da língua de sinais internacional na comunidade surda e nas políticas da sociedade de
cada território? Seria interessante encontrarmos as respostas destas perguntas, esperamos que
pesquisadores que tenha interesse no tema e oportunidade, possam abraçar a pesquisa e
promover discussão das teorias.
Observamos que o questionário com participação de 25 sujeitos onde foram feitas
perguntas aos sujeitos, já continham a resposta nas questões de segunda e de terceira língua
apontando língua de sinais internacional. Por fim, os resultados encontrados dos sujeitos
entrevistados, revelam que a aquisição da segunda língua é uma LSN e LSI. Vejamos a próxima
subseção: língua de sinais como terceira língua.

c) Língua de Sinais como terceira língua

Nas duas subseções anteriores, foram apresentadas as línguas de sinais como primeira e
segunda língua. Esta subseção possui enfoque na língua de sinais como terceira língua. Os 25
(vinte e cinco) sujeitos da pesquisa, na 14ª questão, foram apresentados a um item de múltipla
escolha: “Qual é a língua de sinais como terceira língua? Podemos observar que as línguas de
sinais como segunda língua são somente 4 (quatro) línguas de sinais (ASL, língua de sinais
240

internacional – LSI, língua de sinais francesa e Libras), diferentes LSNs como terceira língua
são 7 (sete) LSNs e LSI. Vejamos o gráfico 6 abaixo:

Gráfico 6 - Qual é a sua língua de sinais como terceira língua?

14) Qual é a sua língua de sinais como terceira língua?


25 respostas
a) SI
3,57% 3,57% 3,57% b) ASL
3,57% c) BSL
3,57% d) LSF
50,00% e) LSE
32,14%
f) FINSL
g) LIS

Fonte: Elaboração própria.

Retiramos da figura acima as LSNs que não foram marcadas, no caso, a Libras. Os 2
(dois) sujeitos selecionaram outras opções: FINSL e LIS. Acrescentamos outras LSNs no
gráfico. A LSN como terceira língua são: ASL, BSL, LSF, LSE, FINSL e LIS; e LSI. Foi
possível observar nesse gráfico que 50% para LSI (representando a maioria). A outra metade é
dividida em 32,14% para ASL (língua de sinais americana), em segundo lugar e 3,57% para
LSF, BSL, LSE, LGP, LIS, FINSL, em terceiro.
A língua de sinais que representa a maioria como terceira língua é LSI (língua de sinais
internacional). Além disso, a mesma língua de sinais é a mais utilizada como segunda língua,
no caso, ASL e LSI. Os sujeitos intérpretes de línguas de sinais (tabela 10 - Trabalha como
intérprete de línguas de sinais da outra seção 5.6.1) escolheram a opção que indicava o par
linguístico língua de sinais internacional e Libras como principal trabalho. Desta forma,
percebemos que eles escolhem língua de sinais internacional como terceira língua e trabalham
com língua de sinais internacional e Libras. A maioria não trabalha como outras LSNs como
segunda língua e Libras. Pode ser que exista mais conhecimento na língua de sinais
internacional, por utilizá-la com mais frequência. Como o sujeito A relatou:

A. Pra ser sincero, eu considero que tenho mais fluência na produção e compreensão, segurança, flexibilidade
e adaptação no uso da Língua de Sinais Internacional. Talvez..., em relação a uma terceira língua (L3), a
LSF seja uma língua que eu tenha mais facilidade de compreensão. Acredito que a BSL ficaria em quarto
lugar.
241

Percebo pela resposta do sujeito A que, por haver muitas línguas de sinais ao qual teve
contato, ele teve mais facilidade em assimilar rapidamente a língua de sinais internacional. O
sujeito teve hesitação na hora de ordenar o domínio das línguas de sinais. Segundo ele, acredita
que pode ter duas línguas como primeira língua, duas (segunda e terceira língua), ou ainda, uma
quarta língua. Os sujeitos da pesquisa utilizam duas ou mais línguas de sinais (língua
estrangeira). São eles mesmos quem escolhem quais as línguas de sinais para segunda língua,
ou ainda, terceira, quarta, quinta língua (L3, L4, L5 e etc). Os resultados encontrados, indicam
que são plurilíngues, podem ler, visualizar, possuem compreensão e produção das línguas, não
são profissionais intérprete surdo e possuem domínio das línguas de sinais.
Do mesmo modo, cada um deles teve uma diferente forma na aquisição da linguagem,
causando assim, uma facilidade na assimilação das várias línguas de sinais. A semelhança com
o sujeito B é apresentada abaixo:

B. Em 2013, por conta do pós-doutorado, me mudei para Portugal e tive contato com a língua gestual
portuguesa - LGP. Lá também trabalhei ensinando o Sign Writing - SW e, por isso, passei a frequentar
bastante a associação de surdos para aprender a língua. Eu também estava com meu bebê e contratei uma
babá surda para me ajudar, assim fui tendo mais contato com a língua. Alguns exemplos de diferenças entre
nossas línguas: O sinal de SE na Libras é usado para passar a ideia de uma condição. Na LGP existem duas
formas diferentes, uma onde o sinal é realizado com expressão facial de boca aberta e a outra com a boca
fechada. Caso o assunto seja referente a um evento real, usa-se o sinal com a boca fechada, caso seja um
evento hipotético, o sinal é feito com a boca aberta. Um aspecto interessante da gramática dessa língua que
eu considero minha terceira língua (L3).

Mais uma vez, vemos uma explicação sobre a gramática da LGP, como terceira língua,
ser diferente da gramática da Libras. O mesmo já havia sido explicado por ocasião do
comentário sobre a gramática da LSF como segunda língua.

C: Não chego a ser fluente, mas consigo entender razoavelmente língua de sinais francesa - LSF. Posso dizer
que adquiri a língua.

Sabemos que a LSF é uma língua e vários autores (DINIZ, 2011; CAMPELLO;
QUADROS, 2010; MACHADO, 2016) dizem que a LSF deu a influência de colonial para o
Brasil. Anos depois transforma-se na Libras, por isso entendem LSF porque alguns léxicos são
iguais, isto é, são os mesmos sinais (LSF e Libras), pode a família de língua de sinais e também
expressão facial e corporal.
Nesse sentido, todos os sujeitos que atuam como intérprete surdo de duas línguas de
sinais, utilizam com maior propriedade plurilíngue as línguas de sinais, pois convivem com
242

surdos e ouvintes estrangeiros e viajam aos países para assimilar as mais variadas LSNs e a
língua de sinais internacional, aumentando assim, suas identidades plurilingues das línguas de
sinais e identidade multicultural.
Desta forma, “a competência plurilíngue e pluricultural refere-se à habilidade de usar
línguas para propósitos de comunicação e tomar parte em interação intercultural, onde uma
pessoa vista como um agente social tem proficiência, de níveis variados, em diversas línguas e
experiência de diversas culturas” (CONSELHO DA EUROPA, 2001, p. 168). O sujeito constrói
sua identidade com as línguas e experiências através das interações interculturais nos contextos
sociais das comunidades surdas nacionais.
Eles já possuem as subjetividades plurilíngues através das LSNs e a língua de sinais
internacional. Nesse sentido, questionamos como se dá a construção da cultura da língua de
sinais internacional? No meu entendimento, assimilar as LSNs dos diferentes países e assimilar
cada cultura, apoia uma formação multicultural na língua de sinais internacional.
Sobre assimilação multicultural, Fishman diz que “o reconhecimento de domínios
sociais como possibilidade de perceber um sujeito bilíngue em um contexto situacional no qual
ele pode alternar as línguas que se apresentam” (SOUZA, 2014, p. 99. Desta forma, o sujeito
bilíngue, prefiro considerá-lo sujeito plurilíngue, pois domina pelo menos três línguas de sinais,
bem como os contextos sociais na comunidade surda. Conforme Bhabha (1994):

as culturas migrantes dos ‘espaços em transição’ – a posição da minoria – dramatizam


a impossibilidade da tradução de culturas; e assim sendo, levam a questão da
apropriação de culturas além do sonho assimilacionista, ou [...], de uma 'total
transmissão do assunto sujeito'; e em direção ao encontro com o processo ambivalente
de divisão e hibridização que marcam a identificação com diferenças culturais).
(BHABHA, 1994, p. 321).

No contexto desta síntese, é importante saber mais sobre os sujeitos através dos seus
contatos nas comunidades surdas, o encontro de surdo-surdo em um espaço sinalizado. Este
complemento foi feito através das perguntas da questão 10º, 13º e 16º: “Onde aprendeu as
línguas de sinais como primeira, segunda e terceira língua”, conforme abaixo.
243

Gráfico 7 - Onde aprendeu em língua de sinais como primeira, segunda e terceira língua

10) Onde aprendeu? 13) Onde aprendeu? 16) Onde aprendeu?


25 respostas 25 respostas 25 respostas
a) Família a) Encontros com Surdos a) Encontros com Surdos
b) Escola de Surdos b) redes Sociais b) redes Sociais
c) Associação de Surdos c) Midias Sociais c) Midias Sociais
d) amigos d) Cursos d) Cursos
e) outros e) Eventos e) Eventos
4,35
4,35 % 2,27
%
8,70 %
% 20,83
30,43 22,73 34,09
% 39,58
% % %
14,58 %
% 20,45
52,17 % 20,45
% %
12,50 12,50
% %

Fonte: Elaboração própria.

Conforme gráficos acima, é possível observar 3 (três) diferentes contextos onde


percebemos como os intérpretes surdos tiveram seus contatos linguísticos, influenciando nos
níveis da aquisição e aprendizagem da língua dos mesmos. A primeira coluna mostra onde o
sujeito aprendeu sua primeira língua. Em primeiro lugar temos a letra ‘b’ Escola de Surdos com
52,17% do total. É possível que houvesse um professor surdo para transmitir a língua de sinais
para os alunos surdos (alguns dos sujeitos), pois é comum a contratação de instrutores121 e
professores surdos nas escolas de surdos no Brasil. O motivo dessas contratações se dá devido
a maioria dos lares dos surdos serem compostos por pais ouvintes, por isso, a aquisição da
língua ocorre na escola de surdos, pela comunicação entre surdo-surdo. Em seguida temos a
letra ‘e’ com um total de 30,43%. Vejamos como os 3 sujeitos questionados responderam a
pesquisa, a respeito dos contextos em que aprenderam a língua de sinais como primeira língua.
Abaixo alguns relatos dos sujeitos:

G: na UFSC.
H: Fono e pastoral do surdo.

121
Antigamente, na década de 90, inicialmente o instrutor de Libras ingressa nas escolas de surdos e cursos de
Libras em entidades de surdos (Feneis e Associações de Surdos), não havia curso de Letras Libras. Atualmente,
temos Professores de Libras com formação em Letras Libras licenciatura.
244

I: Na época a escola para surdo não usava a LIBRAS, mas eu aprendi com crianças e adultos surdos que
usavam sua língua na hora de lanche, além de depois da saída da escola convivem com colegas da escola no
ônibus e metrô.

Um dos sujeitos da pesquisa afirmou que a aprendizagem da língua ocorreu tardiamente,


na universidade. O contato com a língua de sinais, começou entre os 13 aos 21 anos de idade
(no questionário Google Forms). A Universidade Federal de Santa Catarina é referência no
Brasil onde podem se encontrar muitos surdos nas salas de aulas. É neste espaço que ocorreu a
aquisição da língua de sinais, pelo contato entre surdo-surdo. Ao contrário do que se espera, foi
a fono que ensinou Libras para o sujeito surdo da pesquisa, provavelmente, o profissional fono
conhecia a respeito da Libras, por conta da Lei nº 10.436/2002 e Decreto federal nº 5.626/2005:

Quadro 19 - Disciplina de Libras do curso de Fonoaudiologia


Lei federal nº 10.436/2002 Decreto federal nº 5.626/2005
Art. 4o O sistema educacional federal e os sistemas CAPÍTULO II. DA INCLUSÃO DA LIBRAS
educacionais estaduais, municipais e do Distrito COMO DISCIPLINA CURRICULAR. Art. 3º A
Federal devem garantir a inclusão nos cursos de Libras deve ser inserida como disciplina curricular
formação de Educação Especial, de obrigatória nos cursos de formação de professores
Fonoaudiologia e de Magistério, em seus níveis para o exercício do magistério, em nível médio e
médio e superior, do ensino da Língua Brasileira superior, e nos cursos de Fonoaudiologia, de
de Sinais - Libras, como parte integrante dos instituições de ensino, públicas e privadas, do
Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs, sistema federal de ensino e dos sistemas de ensino
conforme legislação vigente. dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios.
Fonte: Elaboração própria.

Todos os cursos de Fonoaudiologia nas universidades devem oferecer a disciplina de


Libras como obrigatória em seus currículos. Desta forma, alguns fonoaudiólogos dominam a
Libras e podem realizar o atendimento às pessoas surdas comunicando-se através da Libras. A
segunda coluna apresenta as respostas da pergunta: Onde aprendeu sua segunda língua?. Em
primeiro lugar ficou com o item “A” (Encontro com Surdos), representando 39,58% do total.
Em relação a terceira coluna, o mesmo item “A” ficou em primeiro. As pessoas surdas
realizam frequentemente, na comunidade surda, encontros em diversas cidades, estados e
países. Surdos estrangeiros vão para comunidade surda de outro país e utilização por
comunicação uma língua de sinais, como a LSN ou a LSI, mesma coisa aconteceu com o sujeito
I na aquisição da Libras como primeira língua. Foi em encontros no lanche, ônibus e metrô. É
muito comum que os encontros de surdos, adquirindo a língua de sinais, ocorram, a maioria das
vezes, na escola de surdos, no ponto de ônibus e na estação de metrô. Alguns surdos têm
facilidade na assimilação da(s) LSNs ou língua de sinais internacional como segunda e terceira
língua. Encontro com surdos se refere a qualquer lugar ou contexto em que aconteça interação
245

com a comunidade surda. Quais são os contextos da língua de sinais como segunda língua?
Vejamos o que alguns sujeitos relatam:

G: na Gallaudet University
H: Intercâmbio 6 meses
I: webcam CAMFROG
N: conviver no país de usuário de Libras
U: Internet – Site Frontrunners
W: Escola de surdos foi influenciado pelo ASL quem foram fundadores casal americanos
Z: primeiro aprendi SI é no Camfrog
Aa: Me casei com americano surdo

O contato linguístico através de uma LSN ou LSI é fundamental para a assimilação e


aquisição da língua. Na Gallaudet University, alunos de Letras Libras realizaram um
intercâmbio de 6 (seis) meses por meio do projeto 4321. Na Gallaudet University utiliza-se a
ASL (língua de sinais americana) e o inglês americano. Lá é ofertado o ensino de ASL para
surdos e ouvintes estrangeiros122. O contato diário em salas de aula, com amigos americanos e
dentre outros, foi fundamental para essa aquisição. Camfrog é um aplicativo web que utiliza
uma câmera para auxiliar a comunicação com surdos estrangeiros, Desta forma, contribuindo
para a assimilação da LSN ou LSI. Um surdo brasileiro casou-se com um surdo americano,
onde se observa a comunicação entre duas LSNs.
Alguns surdos estrangeiros convivem na comunidade surda brasileira e tiveram a
assimilação da Libras como segunda língua. Quais os contextos em que se usa a língua de sinais
como terceira língua, vejamos o que alguns sujeitos relatam:

R: Contato com família


Y: Frontunners

Um surdo brasileiro teve contato com famílias de outro país, assimilando outra língua
de sinais ou a língua de sinais internacional. Outro sujeito questionado, afirmou que participou
do projeto Frontunners (curso para líderes surdos), que treina aos jovens líderes surdos de
diferentes países. Sediano na Dinamarca, é um programa de treinamento de cada um ano, e foi

122
Alunos surdos fazem o curso de ASL como terceira língua. É utilizado um método diferente para o aluno
ouvinte, pois o aluno surdo já possui conhecimento a respeito da subjetividade da Cultura Surda. O conceito
conhecido como Deafhood, significa entender e se expressar ao mundo por meio de um profundo uso da expressão
fácil e corporal. Ao contrário do aluno ouvinte, que aprende ASL como terceira língua, mas necessita de mais
aprofundamento a respeito da cultura surda e de conhecimento das mais diversas características das línguas de
sinais.
246

lá que adquiriu domínio da língua de sinais internacional. A mesma situação ocorreu com o
sujeito A entrevistado:

A: Morando no sul do país, também tive contato com surdos da Argentina e Uruguai, devido a viagens de
campeonatos que participei. Não utilizava a língua de sinais internacional, porém nos comunicavamos
através da língua de sinais argentina - LSA, Espanhol, na modalidade escrita, e outros recursos. Essas
experiências já me ajudavam a realizar a tarefa mental de traduzir. [...]Minha maior evolução foi quando
viajei para Europa por dois meses junto com meu irmão. Nossa primeira parada foi na França. Encontramos
com a comunidade surda local e nos comunicavamos em Língua de sinais começando a aprender língua de
sinais francesa - LSF. Depois viajamos para Inglaterra e lá tivemos contato com a língua de sinais britânica
- BSL. A Língua de Sinais Britânica é muito difícil! ela não se assemelha em nada com a Libras (diferente da
LSF que é um pouco parecida), por isso, tivemos muita dificuldade. Passamos em torno de um mês na
Inglaterra tendo contato diário com surdos e, aos poucos, fomos nos acostumando e conseguindo nos
comunicar. [...]. Posteriormente, participei de um curso na Dinamarca para jovens surdos de todo o mundo.
O curso teve duração de quatro meses e foi lá onde realmente eu adquiri fluência em Língua de Sinais
Internacional. O curso se chamava FRONTRUNNERS e tinha o objetivo de formar jovens surdos do mundo
inteiro para se tornarem líderes que pudessem ajudar a melhorar as condições da comunidade surda no que
diz respeito à educação, cultura, política, valorizar o Ser surdo de uma maneira geral e fortalecer a identidade
surda em seus participantes. Neste curso, todas as palestras, atividades e aulas eram ministradas em Língua
de Sinais Internacional e em Inglês, na modalidade escrita. Ao todo haviam 14 surdos de 11 países diferentes,
sendo que alguns possuíam dois representantes e outros apenas um (caso do Brasil). Com surdos de tantas
nacionalidades diferentes, a forma escolhida para se comunicar foi através a língua de Sinais Internacional.
24 horas por dia tendo contato com esta língua para tudo: Comer, estudar, passear, brincadeiras, etc.
Durante todos esses meses não utilizei a Libras. Eu utilizava apenas a Língua de Sinais Internacional. Após
todo esse tempo, ficou muito confortável para mim utilizar essa língua.

O sujeito A, no curso Frontrunners, teve contato diário com pessoas estrangeiras e


participou de cursos práticos com atividades que facilitavam o rápido aprendizado da
comunicação em LSI, aprofundando a tarefa mental de interpretar e de traduzir. Também como
o sujeito C relatou:

C: Meu interesse começou a partir de eventos internacionais. No início, através do projeto Frontrunners, o
mesmo que Rodrigo Machado participou, comecei a ter contato com jovens surdos de Conesul. Depois disso
viajei pela Europa, tive contato com outros surdos, participei de congressos SIGN internacional, etc. Tudo
isso me ajudou a adquirir a língua de sinais internacional.

Percebe-se que esse único sujeito participa frequentemente nos eventos internacionais,
já que assimilou profundamente a língua de sinais internacional, para isso experiência para
interpretação das LSNs nas conferências internacionais.
Retormando a citação acima do sujeito A, os participantes são sulamericano, em que 9
(nove) países falam espanhol e apenas no Brasil se fala a português brasileiro. Os surdos
brasileiros que moram no sul do Brasil realizam viagens aos países fronteiriços da região.
Sabem utilizar o espanhol na modalidade escrita e outras LSNs, como a língua de sinais
uruguaia - LSU e língua de sinais argentina - LSA, por exemplo. Eu já tive a experiência de
viajar para a Argentina e consigo utilizar com domínio a língua de sinais argentina – LSA e
247

também obtive conhecimentos da cultura argentina e da cultura surda argentina. Além disso,
possuo uma razoável compreensão do espanhol para me comunicar nos países da América do
Sul, facilitando a tarefa mental de interpretar ou traduzir.
Infelizmente, a maioria dos surdos não se comunicam através de LSI ocidental da
América do Sul, pois utilizam a comunicação línguas de sinais da fronteira entre as LSNs como,
por exemplo, a Libras, LSU, LSA, LSPY, LSC, LSP, LSV, LSEC, LSCH e LSB. Na Europa,
pelo contrário, costuma-se usar língua de sinais internacional ocidental (europeia). O único
registro que temos de intérprete surdo de LSN para outra LSN na América do Sul é de Libras e
LSV e Libras e LSA. Eu já realizei uma interpretação, nesse contexto, porém, foi apenas uma
atuação informal, aplicando meus conhecimentos empíricos. Somente encontrei registros de
intérpretes de LSN para LSI, ASL, LSF e LSE. Não encontrei relatos de intérpretes de Libras
para LSU, LSC ou dentre outras LSNs na América do Sul.
Pouquíssimos intérpretes surdos trabalham com a interpretação de duas língua de sinais
na América do Sul, os que fazem este trabalho, em sua maioria, atuam na fronteira,
principalmente de países como: Brasil/Uruguai, Brasil/Argentina, Brasil/Paraguai,
Brasil/Bolívia e Brasil/Venezuela. Por falta de prática em todos os contextos e ausência de
pesquisas acadêmicas na América do Sul, a maioria dos sujeitos surdos de tradutor e intérprete,
com frequência, mantém contato com pessoas estrangeiras. De acordo Grosjean (2010) são
bilíngues, plurilíngues e multilíngues:

Bilíngues já nascem sendo tradutores. Errado. Mesmo que bilíngues possam traduzir
coisas simples de uma língua para outra, muitas vezes têm dificuldades com domínios
mais especializados. A reação que as pessoas têm é quase sempre: “Mas eu pensei que
você era bilíngue!”. Na verdade, os bilíngues usam suas línguas em diferentes
situações, com pessoas diferentes, em diferentes domínios da vida (isso é chamado de
princípio da complementariedade). A menos que tenham aprendido suas línguas
formalmente (na escola, por exemplo), ou tenham sido instruídos para serem
tradutores, frequentemente não têm equivalentes em traduções na outra língua
(GROSJEAN, 1982, p. 02, tradução Fernando Parente).

Não existe sujeito bilíngue que já nasce um tradutor ou intérprete surdo. É importante
que exista o contato com diversas pessoas estrangeiras e nacionais, e de diversos países para
que haja a assimilação das línguas e culturas e sua formação como tradutor e intérprete surdo,
fazendo surgir a competência interpretativa e tradutória de qualidade.
A observação dos dados neste processo envolvendo as LSNs e língua de sinais
internacional, de acordo com Moody (2008 apud GRANADO, 2019, p. 46) “para se tornar um
248

intérprete de sinais internacionais, é necessário ser fluente, principalmente em língua de sinais


do seu país, mas é preferível conhecer duas a quatro línguas de sinais”. Assim, nos esclarece
que o aprendizado de várias línguas de sinais, fornece um ganho inconsciente de conhecimentos
que facilitam a atividade de interpretar e traduzir nas línguas de sinais, fornecendo mais
informações cruciais na compreensão dos conteúdos.
Ainda sobre a questão da aprendizagem ou aquisição da LSN, por exemplo, a língua de
sinais americana – ASL, é necessário o conhecimento cultural da comunidade surda note-
americana, dos aspectos econômicos, das políticas no país em questão, no caso, dos Estados
Unidos da América - EUA. Diferente da ASL canadense, se quiser se tornar intérprete do par
linguístico Libras/ASL canadense, é necessário conhecer o país Canadá e os aspectos culturais
dessa nação. Isto não significa se tornar um intérprete de LSI, mas é se tornar um intérprete de
ASL americana ou ASL canadense.
Continuando a análise das respostas do sujeito “A”, o mesmo afirma que a Libras não é
igual BSL e parecida com a LSF, pois são da mesma família sul da Europa e América de língua
de sinais, como por exemplo: ASL, Libras, LSF dentre outras. A BSL pertence a outra família,
originada ao norte e oeste da Europa, por isso, o sujeito diz ter tido dificuldade em compreender
a BSL rapidamente e que foi necessária muita prática. Temos aqui uma comprovação de que se
trata de uma legítima língua como terceira língua, por possuir uma gramática e um sistema
linguístico distinto, não se tratando de uma comunicação básica, como é o caso da LSI.
Após todas as análises das sínteses anteriores, concluímos que há evidências que os
sujeitos da pesquisa de intérprete surdo de língua de sinais para outra língua de sinais, dominam
LSNs, língua de sinais internacional e ainda línguas faladas na modalidade escrita. Conforme
o Conselho Europeu (2007), sobre o multilinguismo:

é um termo geral, usado para aprendizado/uso de mais de duas línguas. Quando o


termo ‘plurilinguismo’ foi criado, ensou-se em diferenciar assim: o ‘multilinguismo’
se dá no nível social (a comunidade, uma região territorial exige o uso de várias
línguas) é o ‘plurilinguismo’ se dá no nível individual (a pessoa tem vontade, ou
iniciativa, de aprender/adquirir várias línguas que não são faladas no seu território).
(CONSELHO EUROPEU, 2007).

Podemos afirmar que os intérpretes/tradutores surdos são bilíngues, multilíngues e


plurilíngues. Um exemplo deste multilinguismo pode ser visto naqueles surdos que dominam o
par linguístico Libras/Português brasileiro no Brasil, pois, dentro deste território, passam pela
aquisição da língua de sinais como primeira língua e do Português brasileiro como segunda
língua no contexto de aprendizagem em sala de aula. Ao mesmo tempo, se tornam plurilíngues
249

por iniciativa própria, pois adquiriram/aprenderam, principalmente a LSI, a ASL e o inglês


escrito.
Outro exemplo, podemos observar com os surdos americanos, afinal nos EUA se fala
ASL e inglês em seu território, e, ao mesmo tempo, podem ser plurilíngues por iniciativa
própria, graças a aquisição/aprendizado, principalmente, da LSI, Libras, de outras línguas de
sinais e outras línguas faladas na modalidade escrita. O mesmo podemos dizer a respeito da
língua DGS e do alemão, na Alemanha, dentre outros exemplos.
Segundo Vildomec (1963 apud SOUSA, 2015): o “bilinguismo” é referente ao domínio
de duas línguas e “multilinguismo” é referente à familiaridade com mais de duas línguas. Desta
forma, podemos dizer que todos os surdos brasileiros são multilíngues (referente a familiaridade
com a primeira língua, sendo uma língua de sinais como Libras ou língua caseira, e a segunda
língua pode ser uma língua de sinais como a Libras e ao mesmo tempo a língua majoritária, no
caso, o português, como a terceira língua. Os surdos também podem ser considerados
plurilíngues, ou seja, o surdo é multilíngue no Brasil, nos EUA ou na Alemanha, pois assimila
as várias línguas de sinais do seu território, seja ela a língua utilizada no lar, com a família, ou
aquela adquirida junto à comunidade surda e com a sociedade: brasileira, americana ou alemã.
Por fim, tradutor e intérprete surdo de língua de sinais para outra língua de sinais são
plurilíngues e multilíngue.
O sujeito “B” complementou um pouco mais sobre como se dá a comunicação entre um
surdo brasileiro e um surdo estrangeiro. Suas palavras são um pouco diferentes do sujeito “A”,
vejamos a narrativa do sujeito B:

B.: No ano 2000 participei do encontro e acampamento de jovens da WFD. A Feneis me perguntou se tinha
interesse e eu aceitei, mesmo sabendo que evento deveria ser pago individualmente. Éramos três brasileiros.
Eu e outros dois rapazes. O evento reuniu cerca de 85 pessoas de dezessete países durante uma semana. Lá
eu tive um choque, pois não podia me comunicar em Libras e aos poucos fui aprendendo alguns sinais. Por
sorte um amigo de portugal estava lá e, como ele também sabia português (Portugal), me ajudou a aprender
mais de língua de sinais internacional - LSI. Meu colegas brasileiros ficaram bem nervosos, mas eu os
acalmava mostrando que éramos todos surdos e conseguiríamos nos comunicar. No final do evento estávamos
apaixonados pela LSI. Essa foi minha primeira experiência com LSI. Lá eu me vi obrigada a pôr em prática
a língua de sinais internacional, afinal se fossem apenas palestras que eu deveria assistir seria mais cômodo,
porém eu precisava me apresentar em algumas atividades, como por exemplo: dinâmicas, atividades
esportivas, teatro, etc.Quando recebia um tema para apresentação, eu ensaiava muito antes de participar. É
uma situação bem diferente de uma conferência onde você se encontra em uma posição passiva em relação à
língua. [...]Eu era sempre desafiada a me expressar em LSI.

Muitas pessoas no evento citado, deveriam apresentar seus trabalhos, realizar palestras
ou participar de reuniões utilizando LSI. Por conta disto, deveriam treinar LSI antes de se expor.
250

Este intérprete surdo se viu numa situação diferente de simples palestras, pois, sem fluência
para interpretar, não tinha domínio pleno para usar LSI, segundo Moody (2008 apud
GRANADO, 2019, p. 46) “para se tornar um intérprete de sinais internacionais - SI, é
necessário ser fluente, principalmente em língua de sinais do seu país, mas é preferível conhecer
duas a quatro línguas de sinais”. Uma pessoa que é fluente em mais de uma LSN, é capaz de
trabalhar como intérprete de LSI? A resposta é não, pois tradutor e intérprete surdo necessitam,
além de possuir domínio de duas ou mais LSNs, ter fluência no uso de língua de sinais
internacional, com competência tradutória e interpretativa das línguas de sinais e saber trabalhar
em equipe (de surdos e ouvintes) para ser um profissional. Além disso, é desejável que a pessoa
tenha domínio de uma LSN para outra LSN para que possa atuar de forma competente.
Observando o sujeito B, a partir do que disse vários autores, quando diz que o encontro
surdo-surdo ou surdo-ouvinte pelo mundo se dá através da interação mediada pela comunicação
em LSI. O contato com pessoas estrangeiras, utilizando a língua de sinais internacional, facilita
a assimilação das diversas das LSNs, bem como ajuda na percepção das várias gramáticas,
expressões das LSNs, das diversas culturas e também dos conhecimentos políticos, econômicos
e das subjetividades das comunidades surdas de diferentes países. Facilitando a tradução ou
interpretação e fornecendo aprofundamento dos conteúdos da língua.
Analisamos cada um dos tradutores e intérpretes de línguas nativas com domínio de
outras línguas sinalizadas ou língua falada. Assim, podemos afirmar que o intérprete surdo de
LSN para outras LSN ou LSI é entendido pela a interpretação intercultural123 e plurilíngue das
línguas de sinais. De acordo com Valente,

ambas as áreas trabalham com o contato entre diferentes culturas, contato este que
tem como mediador a tradução. Além disso, é importante lembrar que a tradução exige
um profundo conhecimento das culturas alvo e fonte assim como da história dos povos
em questão. (VALENTE, 2010, p. 02).

Os intérpretes surdos fazem a interpretação das LSNs (em qualquer direção) e precisam
conhecer as respectivas culturas envolvidas. De acordo Stenier (2005, p. 279), “a primeira
ordem de tradução nos familiariza com culturas estrangeiras e o faz por meio de uma
transferência ‘no nosso próprio sentido’. Tradutores e intérpretes surdos devem possuir
conhecimentos das culturas de outros países para facilitar seu trabalho de interpretação e
tradução.

123
A tradução intercultural é a influência dos Estudos Culturais na verdade (BASSNETT, 1999).
251

Como estamos falando de interpretação intercultural, o meu questionamento é onde está


a cultura de língua de sinais internacional? Tem raiz em um sistema linguístico que passa de
geração a geração e oralidade. Uma reflexão que podemos ter é a respeito de como fazer a
interpretação intercultural de LSI para outras LSNs. Faltam pesquisas que aprofundem a
questão da interpretação e tradução de língua de sinais internacional. Pode ser que outro
pesquisador se interesse na temática e possa contribuir com essa questão.
Há uma ideia que aponta para a impossibilidade dessa tradução intercultural, de acordo
com o autor Bhabha (1994 apud VALENTE; GUARISCHI, p. 162), segundo ele: “a tradução
tem extrema relevância e é uma forma de mediar relações interculturais entre países, além de
ser uma ponte para a transmissão cultural entre nações”. De acordo com o autor, em nosso
mundo globalizado e cheio de modificações, existe a constante necessidade de adaptação, e esta
acontece, muitas vezes, por meio da tradução, não só em se tratando de linguagem, mas também
em relação ao sujeito em questão.
Apesar do exposto anteriormente, existem situações a serem consideradas, por exemplo:
palestrantes estrangeiros que vêm ao Brasil é apresentado antes ao tradutor e intérprete surdo.
Este profissional irá conhecer o perfil, a LSN ou LSI, a cultura do palestrante, aspectos
políticos, econômicos e o tema abordado na palestra, para assim, ter conhecimento e realizar
com clareza uma interpretação intercultural. Esta possibilidade ajuda na assimilação de diversas
culturas para apoio aos tradutores e intérpretes surdos de língua de sinais internacional. De
acordo com Bassnett (1999), o olhar para a tradução significa estar profundamente
comprometido com questões relativas à interação cultural, isso porque a tradução é um processo
inserido em sistemas políticos e culturais assim como na história. Para isso, o intérprete precisa
também estar inserido no contexto em que está trabalhando.
Os resultados encontrados basicamente são: cada tradutor e intérprete surdo possui
diferentes níveis de fluência em uma LSN ou LSI como primeira, segunda e terceira língua,
atuam em diferentes contextos como, por exemplo, encontros de surdos e em outros contextos.
Eles são fluentes em LSN ou LSI sem competência tradutória e interpretativa.

5.3 FORMAÇÃO DO TRADUTOR E INTÉRPRETE SURDO DAS LÍNGUAS DE SINAIS

A presente seção tem o objetivo de descrever a formação e as práticas realizadas pelos


tradutores e intérpretes surdos de LSN para outras LSN ou LSI no Brasil e no mundo. Neste
momento ainda há pouquíssimas informações sobre os sujeitos que fizeram algum curso de
252

tradutores e intérpretes surdos de LSN e LSI. Iremos apresentar as respostas dos 25 sujeitos
para a questão 21 (Fez algum curso de formação de intérprete surdo de duas línguas de sinais –
ISLSLS?). Observe o gráfico 8:

Gráfico 8 - Fez o curso de formação de ISLSLS?

21) Fez o curso de formação de intérprete surdo de ISLSLS?


25 respostas

a) Sim
24%
b) Não
76%

Fonte: Elaboração própria.

Conforme o gráfico acima, é possível verificar que a maioria (76% do total) respondeu
“não”. Os resultados encontrados deixam claro que a maioria dos sujeitos entrevistados não
possui cursos de formação (técnico ou graduação) de tradutor e intérprete surdo de LSN para
outra LSN ou LSI. Podemos supor que a maioria possui uma formação prática empírica de
tradutor e intérprete plurilíngue. De acordo com Granado (2019, p. 35): “encontramos poucos
intérpretes surdos, sendo experientes e/ou novatos, e estes em geral não possuem a formação
superior na área de interpretação e tradução”.
Ferreira, nos mostra na figura 31 de seu trabalho sobre a formação específica como
tradutor/intérprete e atuação dos surdos no perfil de tradutor e intérprete surdo de ASL (língua
de sinais americana) e LSI (língua de sinais internacional) brasileiros. Ao todo são 16
participantes da pesquisa de Ferreira (2019, p. 70), enquanto os meus sujeitos da pesquisa são
28 participantes. Vejamos as respostas na figura abaixo:
253

Figura 31 - Formação específica como tradutor/intérprete

Fonte: Ferreira (2019, p. 70).

Percebemos pela figura 31 que, em três tipos de formação, nenhum dos participantes
afirmou ter realizado. São elas: 4) Curso sequencial ou tecnólogo em tradução e interpretação,
5) Graduação em Letras Libras bacharelado, tradução e interpretação e 8) Pós-graduação –
Doutorado em Estudos da Tradução/Linguística Aplicada. O autor mostrou em sua pesquisa
que os tradutores e intérpretes surdos participantes não estão formados, entretanto, dos meus
sujeitos entrevistados, foram formados ou estão estudando nos cursos de graduação Letras
Libras Bacharelado e Pós-graduação em Estudos de Tradução.
Isto significa que os que estão na graduação serão formados e atuarão como
profissionais e tendem a seguir essa profissão e os que estão estudando na Pós-graduação
estarão habilitados para atuar como pesquisadores. De acordo com as tabelas 4, 5 e 7 (a seguir)
sobre estudantes e formados no curso de Bacharelado em Letras Libras. Concordo com Granado
(2019) e Ferreira (2019) quando afirmam que, provavelmente, está faltando disciplinas teóricas
e práticas sobre tradução e interpretação de duas línguas de sinais que discutam os aspectos de
modalidade (neste caso, intramodal) e sobre processos de tradução e interpretação interlingual,
bem como, sobre o perfil de tradutor e intérprete surdo.
Faltam pesquisas na área de currículo e também faltam disciplinas sobre tradução e
interpretação intramodal interlingual com foco no tradutor e intérprete surdo. No momento não
tenho condições de complementar este assunto, devido a limitação da minha pesquisa. É
possível que outro pesquisador tenha interesse em se aprofundar neste tema.
Nos resultados obtidos dos sujeitos da pesquisa, eles respondem sobre formação
complementar e atualização de seus estudos na área de tradutor e intérprete surdo. As respostas
254

comprovam que, até recentemente, eles vêm estudando e se formando na área de tradutor e
intérprete de língua. Para complementar o gráfico apresentado anteriormente, vejamos as
respostas dos entrevistados da questão 21º (Fez o curso de formação de intérprete surdo de
LS/LS?):

A - Não, nunca.

B - Não nunca fiz. Uma vez fiz um minicurso de quatro horas de duração. Foi aqui na Universidade Federal
de Santa Catarina - UFSC ministrado pelo professor Christian Rathmann. Já assisti também muitas palestras
sobre o tema, mas um curso específico nunca fiz.

C: Sim, já participei de dois cursos.O primeiro curso foi em Florianópolis, ministrado por um professor
convidado. Seu nome era Juan C. Druetta. O segundo foi um curso para aprofundar temas a respeito da
atuação profissional, ministrado pelo professor Nigel Horward, em um workshop no Rio de Janeiro. Participei
como aluna nos cursos nestes dois que citei, porém, houve uma terceira e quarta oportunidade em que estava
trabalhando como intérprete e me beneficiei do conteúdo ministrado.
KL – Esse detalhe na sua resposta é bem interessante. O primeiro curso que você citou ministrado pelo
professor Juan C. Druetta, possuía qual carga horária? Era um minicurso, disciplina...
C: Não lembro muito bem, pois já faz bastante tempo. Foi em 2008 que fiz o curso.Se não me engano era um
workshop. O primeiro que fiz teve duração de dois dias e o segundo três dias.

Percebe-se que os entrevistados A, B e C não fizeram curso de formação técnica ou


graduação. O máximo que sujeitos B e C fizeram se resume em minicursos e workshops. Em
seus relatos, a duração foi de 4 horas para o sujeito B e de até 3 (três) dias para o sujeito C. É
um tempo de curso curto, sendo o conteúdo teórico mais presente. Notamos que os professores
dos minicursos e workshops são surdos estrangeiros (alemão, argentino e canadense), que
sempre dão aulas teóricas e práticas com conteúdo atualizado. Vejamos o sujeito C narrou sobre
cursos que participar como a prática competência em seu trabalho e ensino:

C: Na verdade, considero que a prática contribuiu pouco. Tive muitas oportunidades de aprender sobre o
funcionamento de vários aspectos, como por exemplo: Atividade profissional, processo tradutório, postura
corporal e expressões faciais, comportamento ético, uso da direção do olhar, entre outros que pude aprender.
Eu mesma atuando profissionalmente, tive poucos momentos. Além disso eu já ministrei diversas formações
na área de tradução feed da Libras
KL: Você também é formadora?
C: Exato. Ensino sobre a tradução feed da Libras/Libras, tradução feed da LSI/Libras e vice-versa. Ministro
essas aulas com menos conteúdo teórico e bem mais prática.

Observada como é importante criar mais oportunidades de aprender em cursos para


formar tradutores e intérpretes surdo para interação com outros tradutores e intérpretes surdo, e
assim, que aconteçam trocas de experiências, conhecimentos teóricos e atividades a fim de
promover maior aprendizado. O sujeito C comentou que precisa ter prática dos seguintes
conteúdos: processo tradutório e interpretativo para desenvolver competência, expressão facial
255

e corporal, conhecimentos e práticas das atividades das diversas de gramáticas das LSNs no
mundo, postura ética, uso da direção do olhar e etc.
Esses tradutores e intérpretes surdo já trabalham ou continuam como intramodal e
interlingual e intralingual, importância ensina nos conteúdos aos profissionais tradutores e
intérpretes surdos ou alunos na formação técnico ou superior.
Temos aqui a oportunidade de oferecer para tradutor e intérprete surdo uma formação
com mais de 2 anos de duração, conforme o documento sobre a formação de tradutor e intérprete
surdo orienta. A resolução nº 04 do Conselho Nacional de Educação (CNE), apresenta o
Catálogo Nacional de Cursos Técnicos de Nível Médio - CNCT, onde vemos o técnico em
Tradução e Interpretação de Libras. Vejamos as informações disponíveis no catálogo, na figura
32.
Este catálogo apresenta o curso técnico em tradução e interpretação da Libras com
duração de 1200 horas/aulas. No item de possibilidades de certificação intermediária em cursos
de qualificação profissional no itinerário formativo, observamos: Guia Intérprete, Intérprete
Gestuno, Tradutor de Libras, Intérprete de língua de sinais. Temos a possibilidade para a
implementação do curso técnico para intérprete surdo no Brasil, abrindo a possibilidade de
termos profissionais com formação de qualidade com competência tradutória e de interpretação
e o domínio das línguas orais (falada e de sinais).
256

Figura 32 - Descrição do curso técnico em tradução e interpretação de Libras

Fonte: Catálogo Nacional de Cursos Técnicos de Nível Médio – 3ª edição (2016)

De acordo com EUD (2012 apud WIT; SLUIS, 2016, p. 108) apud GRANADO, 2019,
p. 60): “A formação profissional em uma área específica da interpretação em International Sign
ainda não existe por não ser uma língua oficial, mas é “amplamente utilizado em reuniões
internacionais onde os participantes não compartilham uma língua de sinais em comum”. É
verdade que língua de sinais internacional não existe como uma língua oficial, entretanto, existe
o reconhecimento de língua de sinais pelo Decreto federal nº 6.949/2009, que “promulga a
Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo
Facultativo, assinados em Nova York, em 30 de março de 2007 e pela comunidade surda
mundial e do povo surdo”, bem como também existe uma área específica que trata de tradução
e interpretação de LSI.
257

É importante a discussão sobre os conteúdos teóricos que envolvem a competência


interpretativa de língua de sinais internacional, LSNs e outras línguas de sinais para a formação
dos tradutores e intérpretes surdos no Brasil.
Conforme figura 8, é possível notar-se que apenas 24% dos sujeitos intérpretes surdos
responderam “sim”. Esta pergunta serviu de ponte para a questão 22º (Se sim, onde fez o curso
de formação de intérprete surdo de língua de sinais para outra língua de sinais - ISLSLS). Os 7
sujeitos intérprete surdo de língua de sinais para outra língua de sinais responderam: D:
Gallaudet Unversity, E: Brasília, Na UFSC, N: Universidade de Hamburgo, Alemanha, e T.:
em EUA, Aa: Gallaudet University. Uma falha minha nesta pergunta foi não ter pedido para
que informassem o nome do curso, por isso, fiz mais perguntas a eles por meio do WhatsApp124.
Perguntei o nome do curso, carga horária das aulas e etc. O sujeito D e Aa responderam
Gallaudet University no questionário, então perguntei a um deles para complementar a resposta
com o nome do curso. O sujeito D respondeu:

D: curso de 40 horas promovido pelo NAD – (Nationals Association of Deaf) traduzida da Associação
Nacional dos Surdos em parceria com a ONG RID (Register of Interpreters for the Deaf) local em Gallaudet
University, Washington – DC - Estados Unidos.

Neste caso, o sujeito D, brasileiro, fez um curso de somente 40h/a, enquanto que o
sujeito de N, estrangeiro, estudou e um curso de formação técnica com duração de 2 anos em
uma universidade na Alemanha. Conversei novamente com o sujeito N pelo WhatsApp e Skype.
Abaixo vemos sua resposta no WhatsApp:

N: Universidade de Hamburgo - Alemanha, o curso de Formação profissional universitária de intérprete


surdo, segunda turma no ano 2012 a 2014.

A formação na universidade não é oferecida por uma entidade à parte, mas sim pela
instituição superior. Também pesquisei no site da Universidade de Hamburgo e na instituição
há três combinações possíveis de línguas para o trabalho de tradução, interpretação e tradução-
interpretação: LSA e Língua de Sinais de outro país como outra LSN; LSA e LSI ou LSA e

124
WhatsApp, fundado no ano de 2009, é um recurso que possibilita respostas para mensagens individuais ou em
grupos, sendo possível o envio de fotos e vídeos. O nome é a junção do termo “What's up?”, que significa algo
como “o que está havendo?” ou “o que está rolando?”. Além disso, para escolher o nome do programa, eles
aproveitaram a sonoridade da palavra “app”, que soa similar a “up” (para cima) e é a abreviação de “application
program” (aplicativo). Disponível em: https://www.techtudo.com.br/noticias/noticia/2016/07/o-que-significa-
whatsapp-conheca-o-aplicativo-mais-usado-do-brasil.html.
258

Alemão escrito. O curso dura aproximadamente 2 anos e possui 90 créditos. Os sujeitos T e Aa,
brasileiro, escreveram:

T: em EUA
Aa: Gallaudet University

Nota-se que muitos surdos fazem cursos de curta duração. A maioria é realizada nos
EUA, pois há muitos anos que lá são promovidos cursos para tradutor e intérprete surdo com
uma formação atualizada. É importante que, ao finalizar um curso de formação para tradutor e
intérprete surdo o profissional continue se atualizando com novos conhecimentos.
Os resultados obtidos indicam que, a maioria dos que realizaram curso de formação fora
do Brasil, fizeram um curso curto e de nível técnicos. No Brasil, os alunos surdos, incluindo eu,
alguns serviram e outros que não serviram como sujeitos desta pesquisa, participamos juntos
de um workshop de carga horaria de apenas 4 horas/a, institulado: “Co-interpretação:
estratégias para o sucesso de equipes surdos-ouvintes”, com o professor canadense e surdo
Nigel Horward no VI Congresso Nacional de Pesquisas em Tradução & Interpretação de Libras
e II Língua Portuguesa e no Congresso Nacional Pesquisas em Linguística de Línguas de Sinais,
em 2018.
Outro curso voltado para a formação destes profissionais foi a oficina de intérprete surdo
na Universidade Federal de Santa Catarina, com o professor Christian Rathmann. As aulas, das
quais eu também participei, eram voltadas somente a alunos surdos com carga horária de 20h/a
no mês de abril de 2019. O conteúdo era composto por informações teóricas e práticas sobre
interpretação, tradução e tradução-interpretação intermodal de língua de sinais e língua falada
escrita, além de interpretação intramodal de duas línguas de sinais. Na ocasião, o grupo de
alunos discutiu sobre a necessidade da criação de uma formação específica (em nível técnico e
graduação Letras Libras bacharelado), disciplinas e um currículo.
É importante que as disciplinas para uma boa formação, abordem os seguintes aspectos:
prática de interpretação, tradução e tradução-interpretação intermodal, intralingual e
interlingual das duas línguas de sinais e língua falada para língua de sinais, mídia e vídeo em
língua de sinais, memória, Sociolinguística (enfatizando características de pessoas surdas,
ouvintes e estrangeiras com estilo linguístico), dentre outros temas que tenham relação com
competência tradutória.
De acordo com Hurtado Albir (2005, p. 26), a competência tradutória “ocorre de
maneira guiada no contexto do sistema educacional, entre duas bases: enfoque no conteúdo e
259

na aprendizagem do conteúdo”. Acredito que esse conteúdo possa ajudar a fornecer os


conhecimentos necessários ao contexto de trabalho da realidade de tradutor e intérprete surdo
em conferências e outros espaços também contextos.
Voltando a análise do gráfico 8 e nas citações dos sujeitos questionados, a maioria
afirmou não terem realizado formações por período superior a 2 anos. Apenas o sujeito N,
estudou fora do Brasil, onde continua até agora. De acordo com Boudreault (2005, p. 350):
“indivíduos surdos não devem se tornar intérpretes “no trabalho” ou apenas fazer alguns
workshops, ou ser orientados brevemente e passar em um exame de certificação. Eles precisam
de treinamento mais extenso e rigoroso para atingir o nível de excelência desejado no campo
de interpretação”, Para o autor, o profissional tradutor e intérprete surdo deve possuir
treinamento com formação adequada para alcançar um nível de excelência. Os resultados
encontrados, indicam a necessidade de cursos de formação de intérprete surdo (nível técnico e
de graduação) para a construção de bases teóricas e práticas. Vejamos a resposta do sujeito B,
onde fizemos a seguinte pergunta aos entrevistados: “Aproveitando esta sua fala, gostaria de
saber se você considera relevante que intérpretes surdos façam um curso de formação”. Veja a
resposta do sujeito A:

A- Eu creio que sim e, entendo que algumas pessoas questionem o fato de que eu consigo atuar mesmo sem
uma formação, nem antes e nem agora existe um programa de incentivo (por parte das universidades, por
exemplo) para a formação de tradutores e intérpretes surdos. No momento atual, creio sim ser importante.
Apesar de nunca ter feito nenhum curso de formação, sei que existem aspectos importantes a serem
abordados, por exemplo: postura ética, posicionamento, a identidade, etc. Muitas destas questões eu conheci
graças ao curso que mencionei anteriormente na Dinamarca e também devido meu contato com outros
profissionais. Soma-se a isto o meu interesse pessoal em sempre estar pesquisando e buscando informações
sobre o assunto. Pois bem... acredito que seja sim importante a formação de intérprete surdo, para que
possamos ter mais reconhecimento da profissão. No começo deste tipo de trabalho, tudo foi muito amador,
porém com o aumento da demanda, é importante que tenhamos uma formação para atuação nas mais
diferentes áreas.

Percebemos que tradutores e intérpretes surdos empíricos e profissionais raramente


trabalharam como tradução e interpretação de LSN para outra LSN ou LSI, pois existia pouca
demanda, porém, atualmente com o aumentou da demanda, cresceu a procura por profissionais
empíricos tradutores e intérpretes surdos. A formação continuada é procurada para obter
conhecimentos novos e informações atualizadas sobre as teorias e práticas utilizadas. Os
principais temas procurados envolvem postura ética, nível de identidade, dentre outros.
260

Vejamos a resposta do sujeito A para a seguinte pergunta: “Eles aceitavam, pois, embora
você não fosse formalmente certificado, eles confiavam na sua experiência, por isso sempre o
convidaram, certo?”. O sujeito A respondeu:

A. Exatamente! e por isso sou frequentemente convidado para fazer trabalhos de interpretação, entretanto,
eu sinto que necessito de um curso de formação (mesmo que esteja sempre discutindo o tema com colegas)
que seja específico da área, pois nunca fiz.

Além das perguntas que buscavam, na troca de informações e discussões pela qualidade
profissional com colegas, saber a opinião dos sujeitos a respeito da necessidade de fazer uma
formação específica, também perguntamos para os sujeitos se eles tinham informações sobre a
possibilidade de haver curso de formação promovido pela Wasli ou Federação Brasileira das
Associações dos Profissionais Tradutores e Intérpretes e Guia-Intérpretes de Língua de Sinais -
Febrapils. Vejamos o gráfico 9:

Gráfico 9 - Existe curso de formação para ISLSLS

31) Você sabe se existe curso de formação para ISLSLS na Wasli e/ou
Febrapils?
25 respostas

a) Sim
48%
52% b) Não sei

Fonte: Elaboração própria.

Conforme gráfico mostra, quase metade das respostas, com 52%, para ‘b’ (não sei) e
48% para ‘a’ (sim). Portanto, a maioria dos sujeitos da pesquisa, não sabe se haverá curso de
formação. Isto indica que há um problema com a divulgação, levando os sujeitos a falta das
informações. Vejamos as respostas de uma parte dos sujeitos questionados (D, G, M, R e X) e
entrevistados (A, B e C) abaixo. Eles nos deram algumas informações complementares:

D. UFSC, CIAS e UFSCAR.


G.: Principalmente de Wasli. E há instituições estrangeiras como Gallaudet University. RID, EFSLI e outras.
M.: Na Europa.
R.: EUMASLI, Humak, EFSLI, EfsliDi
261

X: sim existe por que eu participei na área da interpretação/tradução como associação dos intérpretes nos
EUA, eu aprendi sobre regras na RID (Registry of the Interpreter for the Deaf)

A- Sim, na Alemanha. Na universidade de Hamburgo, agora não tenho certeza, mas o Christian Rathmann,
era responsável pelo andamento de um curso de tradução e interpretação entre Línguas de Sinais. Este curso
na Alemanha era voltado para surdos e abordava DGS (língua de sinais alemã), Língua de Sinais
Internacional, entre outras Línguas de Sinais.
K - Então este é o único curso que você conhece?
A- No mundo inteiro, apenas este. Existem algumas associações de intérpretes de Línguas de Sinais como a
ESFLI, por exemplo, mas não sei se eles promovem alguma formação. Realmente só conheço este na
Alemanha que oficialmente é voltada para intérpretes surdos.

B – Sei que existe na Universidade Gallaudet, também no Uruguai existe formação de tradutores surdos. Na
Argentina existe um professor surdo que está desenvolvendo um curso de formação a partir do modelo
uruguaio. Na Europa existe um programa que agora não me recordo do nome, mas é uma iniciativa de cinco
universidades que juntas promovem um curso de formação, pago, no período de férias, sendo que alunos
surdos também participam. As universidades são na Irlanda e outras que não recordo. Na Inglaterra existe
um bacharelado para formação de intérpretes surdos, Na Alemanha também existe, Em Portugal existe o
curso de formação de intérpretes, mas surdos não participam, pois eles cursam a formação de professores de
língua gestual portuguesa - LGP. São poucos… No Brasil temos o bacharelado em Letras Libras e muitos
surdos se interessam, mas infelizmente o mercado de trabalho para eles ainda é muito escasso. Percebo que
muitos se interessam, mas não há onde trabalhar após formado.

C- Sim. O RID, nos Estados Unidos, o EFSLI e a EUMASLI. Estados Unidos e Europa são os locais onde
existem mais possibilidades. A Austrália recentemente iniciou um movimento nesse sentido com a AUSLAN.
Entretanto, as duas principais regiões são as que citei anteriormente.

A formação de tradutor e intérprete surdo pelo mundo tem crescido em um ritmo maior
do que no Brasil. É necessário aumentar a oferta de formação de tradutor e intérprete surdo no
Brasil. As instituições e entidades que detém os conhecimentos e informações a respeito, são
apresentadas com mais detalhes no capítulo 3. Logo abaixo, vemos a continuação das
informações complementares citadas pelos entrevistados.

K- No Brasil não há nada desta natureza, correto?


A- Não.

KL - Sabe dizer se aqui no Brasil já existe algum curso de formação para intérprete surdo de Línguas
de Sinais?
B - Já tivemos um curso ministrado pela professora Flaviane Reis, juntamente com o professor Markus
Johannes. Weininger). Os dois preparam um curso de uma semana sobre tradução de línguas de sinais.
Infelizmente eu não pude participar, pois chocava com minha agenda, mas muitos alunos participaram. Fiquei
sabendo que foi muito bom e todos os participantes gostaram bastante, pois os ajudou inclusive em suas
pesquisas.
Não fiquei sabendo de nenhum outro curso. A maioria se refere a curso de Sinais Internacionais ou de ASL,
porém nenhum voltado especificamente para a interpretação. Talvez a Flaviane Reis saiba, mas eu
desconheço.
262

Esta disciplina (intensiva) de interpretação de língua de sinais ofertada na UFSC teve


duração de uma semana. Ela serviu para dar bases teóricas e pequenas práticas, mas não pode
ser considerado como formação técnica ou de Ensino Superior mais duração como 2 anos.
Percebe-se que a maioria tradutor e intérprete surdo trabalha como experiência do trabalho do
que formação, de acordo Santos (2010):

a formação “empírica” de intérpretes de língua de sinais (ILS) por meio de cursos


livres e de extensão, focando a prática deste profissional a partir das suas experiências
de trabalho. Estes cursos localizavam-se na área da educação, por ser este o campo
que discutia mais diretamente as questões que se relacionavam com a surdez, o
bilinguismo, a inclusão, os movimentos sociais surdos, a acessibilidade, entre outros
fatores típicos deste espaço. (SANTOS, 2010, p. 147).

A importância do tradutor e intérprete surdo fazer curso no espaço como acadêmico ou


técnico é relevante para a discussão nas áreas de Tradução e Interpretação. Um aspecto
interessante que merece comentários é que a maioria dos intérpretes surdos trabalham como
instrutor ou professor de LSI ou ASL, oferecendo seus serviços para alunos em minicursos,
oficinas e workshops. O autor Druetta (2018)125 levanta a seguinte questão: vale a pena aprender
LSI (língua de sinais internacional)? É melhor um ambiente de ensino formal ou contato real
com usuários? Em sua resposta, Druetta afirma que não é bom aprender LSI em cursos livres,
mas que o ideal é o contato com estrangeiros onde existe a comunicação pela LSI, pois
frequentemente podem haver trocas de sinais antigos por novos. McCleary (2008) relata que a
importância da mudança na língua:

As línguas também podem mudar – e precisam mudar – rapidamente, sem tanta


demora! Não na gramática, mas sim no vocabulário. Ou seja, a gramática de uma
língua não deve mudar rapidamente, mas o vocabulário – o conjunto de palavras –
pode, e deve, mudar. A mudança lexical é muito importante, principalmente em
culturas dinâmicas, como a nossa, em que o conhecimento científico e tecnológico
cresce dia a dia. Não se pode esperar que a língua que era perfeita para falar sobre os
fatos e os objetos do mundo de 1800 seja igual à língua de que precisamos para falar
sobre os fatos e os objetos do mundo de hoje! Quando a sociedade muda, quando a
tecnologia muda e quando as ideias mudam, a língua tem que acompanhar.
(McCLEARY, 2008, p. 32).

125
O autor, utilizando os sinais internacionais, com a presença de intérprete de Libras/SI, trouxe essa discussão na
palestra intitulada: “Interpretes Sordos Equipo de trabajo com FMS e WASLI”, período de 04 de outubro de 2018
foi 6º Congresso Nacional de Pesquisas em Tradução e Interpretação de Libras e Língua Portuguesa da UFSC.
Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=yOsTBgQWLr8&list=PL5T5GeHxQjUxP49nZ27qKNZ-HjUxT0YO9.
263

Em todas as línguas, inclusive a LSI, poderá ocorrer mudança nos sinais, e vai depender
também da língua de sinais internacional (ocidental ou oriental ou continente ou nação)
envolvida. O contato direto é a melhor forma de aprendizado, pois absorvemos aspectos da
cultura, questões mais subjetivas, além de fazer novos amigos, dentre outras vantagens. Ainda
para o autor Druetta (2018, informação verbal)126:

Não concordo que alunos façam curso de sinais internacionais - SI, pois existem
aspectos dos sinais internacionais - SI que não são ensinados. Se aprende SI Dessa
forma, e depois há o contato com estrangeiros, não consegue manter uma boa
comunicação, pois o contato com diversas línguas de sinais e culturas, muda os sinais
e os sentidos constantemente. É importante o contato com diferentes pessoas para que
haja o desenvolvimento da aprendizagem de sinais internacionais. (DRUETTA, 2018,
tradução nossa).

Os cursos de LSN como segunda ou terceira língua, por exemplo, ASL, LSF e dentre
outros, possuem aspectos de ensino de língua como segunda língua ou língua estrangeira.
E também importância que ensina o curso de ASL (língua de sinais americana) no Brasil
para conhecimento. De acordo Paiva (2014, p. 181), a “Língua Estrangeira: [é] língua falada
fora do contexto onde vive o aprendiz (por exemplo: brasileiros aprendendo inglês no Brasil)”.
Aprender a LSN como segunda língua para alunos pelos conhecimentos, mas não é para
tradutor e intérprete surdo, entretanto, se trabalhar como competência tradutória e interpretativa
intercultural, poderiam fazer uma assimilação da aquisição ou aprendizagem de LSN como
segunda língua com cultura para facilita de trabalha como fazer tradução e interpretação
intercultural. O sujeito C menciona:

C- Sim. Em audiências jurídicas, por exemplo. Eles não aceitam intérpretes surdos. Eles chamam intérpretes
ouvintes que tem muita dificuldade em entender o depoimento do surdo, devido o mesmo utilizar muitos gestos.
Um intérprete surdo, fluente em Libras tem mais facilidade neste trabalho. A preferência deveria ser por um
profissional surdo que possui mais habilidade nesses casos, mas infelizmente o judiciário não compreende
essas questões.

A maioria dos contextos de atuação, incluindo o jurídico, percebemos que falta


informação a respeito do tradutor e intérprete surdo e faltam também orientações que ajudem a
divulgar sobre esse profissional e sobre as línguas de sinais (Libras e outras línguas de sinais
como as LSRs, LSI e etc.), que poderia ser por meio de cartilhas, palestras, dentre outros. O

126
Entrevistado com entrevistador diretoria de WASLI. Site de WASLI Site da WASLI com entrevistadora José
Ednilson Gomes de Souza-Junior e entrevistado Juan Carlos Druetta. Entrevista concedida por DRUETTA, J. C.
Entrevista I. [OUT. 2018]. Entrevistador: José Ednilson Gomes de Souza-Junior, 2018.
264

tradutor e intérprete surdo tem conhecimentos aprofundados na tradução e interpretação


intralingual e interlingual, e no estilo linguístico das línguas de sinais, sinais caseiros, gestos e
equivalentes.
Os dados abaixo são retirados dos comentários dos sujeitos da pesquisa (questionário e
entrevista). São escassas as informações sobre formação nas instituições ou entidades de ensino
no Brasil e no mundo. Alguns sujeitos deram informações referentes a formações para tradutor
e intérprete surdo de Libras e português brasileiro e também sobre formações de tradutor e
intérprete surdo em tradução intramodal e interlingual de línguas de sinais. Vejamos estas
informações apresentadas de maneira geral no quadro 20.

Quadro 20 - Dois cursos de formações para tradutores e intérpretes (Libras e português brasileiro) e (duas
línguas de sinais)
Formação de tradutor e intérprete surdo de Formação de tradutor e intérprete surdo das
Libras e português brasileiro línguas de sinais
Curso Instituição ou Entidade Curso Instituição ou Entidade
ou país
Curso de Letras Libras Universidade Federal de Disciplina intensiva para Universidade Federal de
bacharelado Santa Catarina – UFSC interpretação de língua de Santa Catarina – UFSC
sinais
Não achamos registros CIAS, nome de sigla é Não achamos registro site Associação Internacional
nas bibliográficas e site Centro de Integração de da Wasli sobre curso de de Intérprete – Wasli
de CIACS Arte e Cultura Surda tradutor e intérprete
https://ciacs.webnode.c significa é associação surdo. Somente a
om sobre curso. surdos artistas. certificação de Intérprete
surdo em Sinais
internacionais.
Curso de Letras Libras Universidade Federal de Vários tópicos TILS, Gallaudett Universit
bacharelado São Carlos – UFSCAR minicursos, oficina, curso
livre, técnico dentre
outros.
Vários tópicos TILS, Registry of the Interpreter
mini-curso, oficina, curso for the Deaf – RID
livre, técnico dentre
outros.
Vários tópicos TILS, Forum Europa de
mini-curso, oficina, curso intérpretes de língua de
livre, técnico dentre sinais – EFSLI
outros.
Mestrado Interpretação Humak
de língua de sinais na
Europa - EUMASLI127
Oferece treinamento para EfsliDI na Europa
tradutor e intérprete surdo
pelos minicursos,
oficinas e workshops
também conference.
Oferece a formação de Uruguai
tradutores surdos.

127
Europen Master in Sign Language Interpreting.
265

Modelo adaptado do Argentina


curso Uruguay, chama se
formação de tradutores
surdos.
Formação Universitária Universidade de
de Intérprete Surdo Hamburgo
Provavelmente, curso de Inglaterra
tradutor e intérprete de
língua de sinais na
Universidade de
Wolverhampton MA
Interpretação
Não encontramos nome Irlanda
do curso
Fonte: Elaboração própria.
Alguns informaram os nomes do curso, mas não mostram quais os nomes das
instituições. No Uruguai já tem nome do curso de formação de tradutores surdos,
provavelmente o Instituto de la Comunidad Sorda del Uruguay (traduzido em português
brasileiro Instituto da Comunidade Surda de Uruguai), em Montevidéu. Também informaram o
país e não mostraram os nomes do curso e instituições. Na Inglaterra e Irlanda, provavelmente
são cursos ofertados pela University of Wolverhampton MA Interpreting.
A partir desse episódio, constatei a grande necessidade de termos implementada a
formação para o tradutor e intérprete surdo nos contextos acadêmicos. A criação do curso de
Bacharelado em Letras Libras no ano 2008 até hoje existe como uma opção na modalidade
educação a distância, ofertado pela UFSC. Posteriormente, tivemos a criação do curso
presencial na mesma instituição. Outros cursos de Bacharelado em Letras Libras na modalidade
presencial foram criados em mais 6 instituições: Universidade Federal de Rio de Janeiro -
UFRJ, Universidade Federal de Roraima - UFRR, Universidade Federal de São Carlos -
UFSCar, Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFGRS, Universidade Federal de
Espírito Santo - UFES e Universidade Federal de Goiás - UFG. Vejamos o quadro 21 que
apresenta a relação de cursos de Bacharelado em Letras Libras nas Universidades (LIMA, 2018,
p. 55-56).

Quadro 21 - Cursos de graduação de Letras Libras bacharelado


Situação
Curso Instituição Início Grau Modalidade
em 2018
Comunicação PUC Minas 2006.2 Tecnólogo Presencial Ativo
Assistiva
Letras Libras UFSC 2008.1 Bacharelado Distância Ativo
Letras Libras UFSC 2009.2 Bacharelado Presencial Ativo
Letras Libras UFRJ 2013.2 Bacharelado Presencial Ativo
266

Letras: Tradução e UFG 2014.1 Bacharelado Presencial Ativo


Interpretação em
Libras/Português
Letras-Libras UFES 2014.1 Bacharelado Presencial Ativo
Bacharelado em
Tradução e
Interpretação
Letras Libras UFRR 2014.2 Bacharelado Presencial Ativo
Tradução e UFSCar 2014.2 Bacharelado Presencial Ativo
Interpretação em
Língua Brasileira de
Sinais – Libras/Língua
Portuguesa
Letras Tradutor e UFRGS 2015.2 Bacharelado Presencial Ativo
Intérprete de Libras
Fonte: Lima (2018, p. 55-56).

A criação dos cursos de Letras Libras nas universidades federais, ainda é muito recente.
Esta iniciativa começou no ano de 2008 e necessita de aplicação em mais universidades
espalhadas pelo Brasil. Os dados mais recentes, apontam o surgimento do curso em mais duas
universidades, são elas: Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD e UNISSELVI.
Estas duas instituições estão inseridas na tabela 07 - Cursos de Graduação para alunos surdos.
Um dos sujeitos desta pesquisa está estudando em curso Educação à Distância - EaD de
Bacharelado em Letras Libras da UFSC no Pólo do Instituto Federal de Minas Gerais - IFMG,
na cidade Ribeirão das Neves – Minas Gerais (sua resposta se encontra na tabela 4 (2º Formação
Pós-Graduação dos Participantes). Aproveitamos a oportunidade e buscamos mais informações
sobre a quantidade de alunos surdos que ingressaram nas universidades (veja tabela 07 a seguir).
Estas informações foram obtidas através do contato com os professores das universidades
constantes na tabela. Na maioria destas universidades, os alunos estudam nos cursos de
Bacharelado em Letras Libras.

Tabela 7 - Cursos de Graduação para alunos surdos


Qts alunos Ano de ingresso
Curso Instituição Início Grau
surdos e formados
1 - Comunicação Assistiva PUC Minas 2006.2 Tecnólogo 0 Nada consta
2 - Letras Libras UFSC 2009.2 Bacharelado 1 Ingressa em 2012
Presencial e formada em
2017
3 - Letras Libras Educação UFSC 2016.2 Bacharelado 2 Ingressam em
á Distância 2016 e atual
4 - Letras Libras UFRJ 2013.2 Bacharelado 2 Ingressam em
2016.1 e atual
267

5 - Letras: Tradução e UFG 2014.1 Bacharelado 2 Ingressam em


Interpretação em 2018 e atual
Libras/Português
6 - Letras-Libras UFES 2014.1 Bacharelado 8 3 - Ingressam em
Bacharelado em Tradução ano 2016 e (2
e Interpretação formados em
2019)
2 - Ingressam em
ano 2018 e atual
3 – Ingressam em
2015.1 e
Formados em ano
2018.1
7 - Letras Libras UFRR 2014.2 Bacharelado 3 1 - Ingressa em
2014 e formada
em 2018.
1 - Ingressa em
2014 e atual.
1 - Ingressa em
2017 e atual
8 - Tradução e UFSCar 2014.2 Bacharelado 1 Ingressa em 2016
Interpretação em Língua e atual
Brasileira de Sinais –
Libras/Língua Portuguesa
9 - Letras Tradutor e UFRGS 2015.2 Bacharelado 1 Ingressa em 2019
Intérprete de Libras e atual
10 - Letras Libras – UFGD 2019.1 Bacharelado 0 Nada consta
Bacharelado.
EAD.
11 - Letras Libras – Unisselvi 2019 Bacharelado - -
Bacharelado. EAD
Fonte: Elaboração própria.

Conforme a tabela 7, verificamos neste levantamento a quantidade de alunos surdos nas


7 (sete) universidades federais pelos 8 (oito) cursos de Bacharelado em Letras Libras. Ao todo
já são 20 (vinte) dos alunos surdos formados e estudandos e as 3 (três) universidades que
provavelmente não tem alunos surdos estudam desse curso. Esta recente formação profissional
de intérprete e tradutor é importante para dar visibilidade ao tradutor e intérprete surdo. Ainda
na mesma tabela, vemos na Unisselvi, instituição privada, a criação do curso EaD em Letras
Libras – Bacharelado. A oferta deste curso é recente em todos os estados do Brasil, por isso
ainda não houve tempo para um levantamento mais completo da quantidade de alunos surdos
nos cursos oferecidos pela Unisselvi.
Observem na ordem a linha 3 de tabela 7, em relação ao curso, um dos professores
concursados do curso presencial de Bacharelado em Letras Libras forneceu a informação verbal
que 11 (onze) alunos surdos ingressam no curso na turma de 2016.1, desses alunos, 7 mudam
para licenciatura, 2 desistiram, e ficaram 2 surdos que estão cursando acharelado até os dias de
268

hoje. Em outra turma de 2018.2, tivemos 2 alunos surdos que resolvem mudar para licenciatura.
Alguns desistiram e outros mudaram de bacharelado para licenciatura. Seria de grande
relevância que outro(a) pesquisador(a) tivesse interesse nessa investigação apresentando na
pesquisa os motivos pelas quais ocorreram a permuta, isso contribuiria para entendimento das
motivações dos surdos em seus estudos, na graduação e ajustes para desenvolvimento do curso
de Bacharelado em Letras Libras.
Não faz parte dos objetivos desta pesquisa a análise do Currículo dos cursos, portanto,
nesta oportunidade damos pouca ênfase nas informações sobre currículo. Os cursos de
formação de tradutor e intérprete de língua possuem foco na interpretação/tradução das línguas:
português brasileiro e Libras. De acordo com Ferreira (2019):

Um breve olhar sobre os cursos superiores para formação de tradutores e intérpretes


de línguas de sinais que existem no Brasil mostra que os currículos desses cursos são
direcionados apenas para os ouvintes, ou seja, o perfil esperado do ingressante nesses
cursos é de um ouvinte que tem o Português como sua língua materna e que atuará na
tradução e/ou interpretação entre a Libras, de modalidade gestual-visual, e o
Português, de modalidade vocal-auditiva, tanto realizando a tradução da Libras para
o Português e do Português para a Libras quanto a sinalização e/ou a vocalização em
diversos contextos comunitários e de conferência. (FERREIRA, 2019, p. 19).

Desta forma, percebemos que a existência do curso de Bacharelado em Letras Libras


teve como objetivo projetar que os tradutores e intérpretes surdos, para que os mesmos
pudessem trabalhar com tradução e interpretação de Libras e português brasileiro. Porém, falta
o perfil do surdo que tem a Libras como sua a língua nativa ou primeira língua e que atuará na
tradução e/ou interpretação de Libras para outras línguas de sinais, língua falada escrita como
o português brasileiro escrito e outras línguas faladas estrangeiras, realizando tanto a tradução
de duas escritas de línguas de sinais e vice-versa, tradução-interpretação da Libras para o
português brasileiro escrito e do português brasileiro escrito para a Libras ou Libras para escrita
de línguas de sinais e vice-versa ou ainda, a escrita de língua de sinais para português brasileiro
ou outras línguas faladas estrangeiras e interpretação da Libras para outra LSN ou LSI ou
línguas de sinais regionais ou gestos, sinais caseiros ou língua de sinais da fronteira, dentre
outros (e vice-versa).
Percebemos a necessidade de implementar uma mudança de currículo do curso de Letras
Libras, de forma que se contemple o perfil de ouvinte e de surdo, considerando as diferenças
das funções e criando disciplinas específicas para cada, também diversas das línguas orais
(falada e de sinaliza) por exemplo, inclui Libras, português brasileiro, outras LSNs, língua de
sinais internacional, língua de sinais regional, gestos, sinais caseiros, língua de sinais da
269

fronteira, língua de sinais indígena, inglês, espanhol e dentre outros. O mais importante é
trabalhar a competência tradutória e interpretativa com as línguas sinalizadas e línguas faladas
para comunidade surda no Brasil e no mundo. Não houve esclarecimento se há no currículo
disciplinas sobre o intérprete surdo de tradução intramodal e interlingual de duas línguas de
sinais. Segundo Granado (2019, p. 24):

O curso de Letras Libras em bacharelado inicialmente foi criado exclusivamente para


os ouvintes que querem tornar-se intérprete profissional, como profissão oficialmente
reconhecida com formação superior. Depois, Letras Libras em bacharelado foi
abrindo aos poucos para os candidatos surdos, com algumas limitações por causa de
algumas disciplinas que são específicas na prática com a interpretação sinal-oral e
vice-versa e poucos se inscreveram nesse curso. Apesar de muitos intérpretes surdos
não possuírem ainda uma formação superior na área de tradução/interpretação de
Libras, eles podiam ter um certificado provisório (validação) que é chamado de
ProLibras, que é um exame de proficiência para comprovar a fluência em Libras para
1) ensino de Libras; e 2) interpretação e tradução de Libras. Por meio da aprovação
em um teste de ProLibras, os intérpretes recebiam o certificado provisório que vale
por 10 anos. Porém, esse período de transição acabou e ainda não foram discutidas
novas formas de preparação dos profissionais surdos para a atividade da interpretação
intramodal. (GRANADO, 2019, p. 24).

Baseado na citação acima, sabemos que a certificação do ProLibras já encerrou o seu


prazo de vigência, portanto, é necessário que se pense em um planejamento linguístico das
disciplinas das áreas de tradutor e intérprete surdo intramodal no currículo dos cursos de
Bacharelado em Letras Libras ou nas disciplinas do cursos de técnicos voltados para formação
de tradutor e intérprete surdo. De acordo Reis (2013):

O curso de Letras Libras em bacharelado precisa incluir as novas disciplinas para que
os intérpretes surdos possam praticar por um tempo determinado. Assim, eles terão
oportunidade de aprender e praticar junto com os profissionais, adquirindo os novos
conhecimentos e ganhando novas experiências nesta área. Precisamos demonstrar a
importância da inclusão dos intérpretes surdos no campo de tradução e/ou
interpretação de Libras, que ‘sejam reconhecidos como intérprete profissional quanto
aos intérpretes ouvintes de Língua de Sinais Brasileira.’ (REIS, 2013, p. 160).

É importante ressaltar que não se pode limitar o foco da formação abordando apenas o
assunto tradutor e intérprete surdo. Áreas como a interpretação intramodal e interlingual são
essenciais, pois as línguas envolvidas na atuação do tradutor e intérprete surdo possuem a
mesma modalidade (visuo-gestual) e são duas línguas de sinais distintas (interlingual). Aspectos
que abordem o trabalho em equipe (de surdos e ouvintes), também devem ser considerados.
Ideal seria que outro(a) pesquisador(a) possa dar continuidade a estes estudos, aproveitando
270

esse tema em uma pesquisa que possa contribuir como referencial teórico de novos currículos,
pois, devido a limitação da minha pesquisa, não há espaço para abordar este assunto.
Vejamos o gráfico 10, que apresenta os motivos de tradutor e intérprete surdo de LSN
para outra LSN ou LSI serem, em sua maioria, surdos, na visão dos entrevistados:

Gráfico 10 - Quais motivos você atribui para a maioria dos intérpretes de uma língua de sinais para outra língua
de sinais serem surdos

36) Quais motivos você atribui para a maioria dos intérpretes de uma língua
de sinais para outra língua de sinais serem surdos?
25 respostas
2,17%
a) interesse pessoal

b) Domínio em mais de uma LS


19,57%
34,78% c) Falta de mercado de trabalho
remunerado
30,43% d) Falta de formação especifica

e) Reconhecer o Trabalho
13,04%

Fonte: Elaboração própria.

O gráfico apresenta a porcentagem de 34,78% para a letra ‘d’ (falta de formação


específica - ISLSLS), demonstrando o interesse da maioria em fazer formação de intérprete
surdo de duas línguas de sinais. Logo em seguida, com 30,43%, aparece o item ‘b’ (Domínio
em mais de uma LS), com 19,57% temos a letra ‘a’ (interesse pessoal), a letra ‘c’ com 13,04%
em quarto lugar (falta de mercado de trabalho remunerado) e em último lugar, com 2,17%
aparece a letra ‘e’ (para reconhecer o trabalho). Os resultados encontrados nessa amostra
comprovam que a maioria considera a falta de formação específica o principal motivo, pois os
conhecimentos de teóricos e práticos, além da interação com outros estudantes surdos, são
importantes para formação profissional de um tradutor e intérprete surdo que irá trabalhar em
equipe. Em segundo lugar, os entrevistados apontam o domínio de mais de uma língua de sinais.
A prática constante da língua de sinais, contribui na ampliação do léxico, domínio da variação
linguística do país, dentre outros aspectos importantes na aquisição de uma nova LSN. A falta
remunerada adequada aparece em quarto lugar, indicando a importância de equiparar a
atividade com outras profissões semelhantes, incluindo na garantia de direitos.
Levando em consideração os dados apresentados na seção da acima, mais do que apenas
oferecer oportunidade para tradutor e intérprete surdo, é necessário investir em formação, tanto
271

em nível técnico quanto de graduação. Outros tipos dos cursos, como de extensão, cursos livres,
dentre outros, também são bem-vindos. Afinal, políticas linguísticas devem valorizar todas as
línguas orais (sinalizada e falada) e garantir a qualidade profissional dos tradutores e intérpretes
surdos. Apresentamos os resultados para a proposta da criação a proposição no próximo
capítulo. Na próxima seção, iremos discorrer sobre a remuneração dos tradutores e intérpretes
surdos de Libras para LSN ou LSI.

5.4 REMUNERAÇÃO DO TRADUTOR E INTÉRPRETE SURDO DAS LÍNGUAS DE


SINAIS NACIONAIS OU LÍNGUA DE SINAIS INTERNACIONAL

Nesta seção apresentamos os dados sobre a atuação do tradutor e intérprete surdo das
línguas de sinais nacionais ou língua de sinais internacional, no que diz respeito a remuneração
ou voluntariado de seu trabalho bem como seus direitos como profissional. Tradutor e intérprete
surdo é um profissional e deve ser devidamente remunerado, pois há exigência de habilidades
e competências para desenvolver a atividade. Atuando como voluntários ou em novas formas
de remuneração, possibilita um ganho de qualidade e competência na tradução e interpretação
das LSNs ou língua de sinais internacional. Para realizar esta etapa da pesquisa, buscamos
informações sobre o sistema de remuneração em instituições ou entidades de tradutor e
intérprete de língua de sinais pelo serviço de tradutor e intérprete surdo. Apresentamos nos
gráficos, citações dos sujeitos da pesquisa e tabelas da Febrapils e SINTRA. Vejamos o gráfico:

Gráfico 11 - Trabalha como intérprete surdo de língua de sinais para outra língua de sinais, voluntariamente ou é
remunerado?

25) Trabalha como interprete surdo de língua de sinais para outra língua de sinais -
ISLS/LS voluntariamente ou é remunerado?
25 respostas

a) Somente voluntário
28%
b) Somente com remuneração
68% c) Voluntário e Remunerado
4%

Fonte: Elaboração própria.


272

Conforme gráfico 11, observamos os seguintes percentuais: Com 68%, letra ‘c’ -
Voluntário e Remunerado, representa a maioria das respostas. A atuação remunerada ou
voluntária depende de vários fatores como, por exemplo, o contexto e as organizadoras que
podem ser instituições públicas ou privadas, além da possibilidade de se tratar de entidades
de/para surdos. Com 28% temos a letra ‘a’ - Somente voluntário. É costumeiro realizar trabalhos
voluntários nas comunidades surdas. Com 4% para a letra ‘b’ - somente com remuneração. Eles
têm o direito de receber remuneração como um profissional tradutor e intérprete surdo de LSN
ou LSI em condições de igualdade com outros profissionais tradutores e intérpretes de língua,
além das mesmas garantias de qualidade de vida. Acreditamos que futuramente, com o
crescimento da valorização dos profissionais tradutor e intérprete surdo, todos receberam direito
a remuneração, devido ao aumento da demanda em conferências e outros diversos contextos.
De acordo com Collins e Walker (2006):

Antes de 2007, as pessoas surdas frequentemente trabalhavam como intérpretes,


tradutores e mediadores linguísticos na comunidade, sem qualquer proteção ou
direitos a remuneração. Apesar das pessoas surdas realizarem este trabalho em
inúmeras situações, até o presente tem havido apenas reconhecimento parcial pelos
seus trabalhos inestimáveis.128 (COLLINS; WALKER, 2006 apud STONE;
WALKER; PARSONS, 2011, p. 01).

Antes de 2007, não eram reconhecidos e não havia visibilidade para ser profissional
tradutor e intérprete surdo. Os tradutores e intérpretes surdos trabalharam no apoio na tradução,
interpretação e tradução-interpretação apenas com seu conhecimento empírico e pelo
sentimento de compaixão e voluntariado. Seu único interesse era em ajudar a comunidade e a
sociedade. Hoje vivemos uma quebra de paradigma, devido a mudança para um caráter
profissional de tradutor e intérprete surdo que deve possuir o direito a remuneração. Cada
profissional tradutor e intérprete surdo é livre para aceitar atuar como voluntário ou de forma
remunerada, dependendo da situação, requisitada pelas instituições ou entidades que buscam o
serviço. Na entrevista com os sujeitos, observamos comentários semelhantes:

A- No caso dos trabalhos de tradução, a maioria é remunerada. Apenas alguns casos são voluntários. Nos
trabalhos de interpretação também recebo, na maioria das vezes. Nas poucas vezes em que faço
voluntariamente, a organização se compromete a pagar as minhas passagens, hotel e alimentação, mas não
sou remunerado pelo serviço.

B - Sempre que participo de congressos, são remunerados. No caso das reuniões ou em sala de aula eu faço
voluntariamente. Os eventos sempre são firmados contratos e recebo minha remuneração.

128
Prior to 2007, Deaf people have often worked as interpreters, translators and language brokers in the
community, without any protection or rights to remuneration. Although Deaf people have been undertaking this
work in a variety of situations, to date there has only been partial recognition of their valuable work.
273

C - No início, o trabalho era voluntário, mas depois comecei a ser remunerada. Ás vezes ainda surgem
ocasiões em que faço voluntariamente.
KL – O que te motiva a aceitar trabalhos voluntários?
C – No começo eu os fazia para adquirir experiência. Hoje em dia apenas em ocasiões urgentes em que me
pedem, devido uma reunião de última hora, por exemplo. Em eventos de grande porte, faço todos os acordos
com antecedência para ser remunerada.

Ambos entrevistados respondem que a maioria dos trabalhos é remunerada e que em


alguns casos o trabalho é feito de forma voluntária. Na maioria dos trabalhos de tradução,
recebem a devida remuneração, pois sabemos da responsabilidade envolvida na tradução de
duas línguas (sinalizada e falada) ou interpretação de duas línguas de sinais, o tempo longo que
pode ser necessário e etc. Nos casos de congressos, a maioria é remunerado por instituição ou
empresa privada, fornecendo uma remuneração aos tradutores e intérpretes surdos iguais aos
outros tradutores e intérpretes ouvintes.
No caso de trabalhos voluntários, algumas situações e contextos se observam. Em
alguns casos, se for ser trabalhar como voluntário na tradução ou interpretação, e deve atuar em
outra cidade, tem direito de ser custeado nas despesas com deslocamento, hospedagem e
alimentação; e às vezes, a contratação acontece urgentemente. Assim, é necessário o direito de
remuneração do tradutor e intérprete surdo para evitar que o serviço voluntário se perpetue,
quebrando esse paradigma e fazendo com que obtenham igualdade aos outros tradutores e
intérpretes de língua. As politicas linguísticas vem a promover as línguas de sinais, elas já
possuem reconhecimento, dessa forma, deve-se buscar o mesmo para a profissão de tradutor e
intérprete surdo.
Trabalhos voluntários também são relatados em reuniões ou em sala de aula. Estes são
executados de forma voluntária devido a urgência na interpretação e, normalmente, dura pouco
tempo. Independente da duração das aulas ou reuniões, o profissional deve ser remunerado. Por
fim, tradutor e intérprete surdo deve utiliza as duas tradução e interpretação por igualdade
direito de recebe remuneração.No próximo gráfico apenas 20 dos 25 sujeitos responderam a
esta pergunta.
274

Gráfico 12 - Remuneração é igual a dos intérpretes ouvintes de Libras e Português

27) Se for remunerado, a remuneração é igual a dos Intérpretes ouvintes


de Libras e Português?
20 respostas

a) Sim

b) Se não, é menos remunerado do que os


30% demais intérpretes
50% c) Se não, é mais bem remunerado do que
15% os demais intérpretes
5% d) Outros:

Fonte: Elaboração própria.

Conforme gráfico 12, é possível observar os dados referentes a letra ‘a’ - Sim com 50%
(maioria das respostas), afirmando que a remuneração é igual entre tradutor e intérprete surdo
e ouvinte, por uma questão de igualdade e respeito aos profissionais. Na letra ‘d’- Outros com
30%, vejamos o que responderam logo abaixo:

G: Teve alguns casos, em que foram menos


J: Depende de comissão ou empresa ou instituição mas TILS – SI é barato do que mais caro de tradutor e
interprete de qualquer idioma
L: Depende
Q: Depende
U: Não sei responder
X: Depende, se exemplo congresso INES, sim igual remunerado entre ouvinte e surdo. Se for simples, ou lazer
então depende de um acordo com a remuneração.

Identificamos acima que, na maioria dos casos, depende dos contextos como, por
exemplo: conferência, lazer, organizado por instituição e/ou empresa, etc. O sujeito J relatou
que SI é mais barato do que outras línguas, devido ao desconhecimento de que LSI e é
semelhante as outras línguas no que diz respeito a valorização, competência interpretativa e
tradutória. O mesmo motivo é usado para explicar os números do gráfico na letra ‘b’ - Se não,
é menos remunerado do que os demais intérpretes? com 15%. Em sentido contrário, temos o
relato do sujeito X que afirma que, em de conferências e congressos INES (Coines), se valoriza
o trabalho remunerando igualmente surdos e ouvintes. A seguir, apresento abaixo as
remunerações da Febrapils e SINTRA.
275

Tabela 8 - Comparação de honorários de tradutores e intérpretes de línguas de sinais da Febrapils entre Libras/
outras línguas de sinais e Libras para português brasileiro (2017)
Intérprete de Libras/ outras línguas de sinais Intérprete de Libras/ português

Fonte: Elaboração própria.

Vale notar que, comparando as duas colunas, os valores de Febrapils são os mesmos
para todas as línguas orais (sinalizada e falada). Observamos que o valor pago aos tradutores e
intérpretes surdos depende de fatores como a duração e a diária em diversos contextos. As
instituições ou empresas contratantes devem seguir a tabela de valores referenciais da Febrapils
ou SINTRA. No gráfico anterior, a letra ‘c’ - Se não, é mais bem remunerado do que os demais
intérpretes? obteve um total de 5% das respostas, ou seja, pouquíssimas vezes ocorre de o
tradutor e intérprete surdo ser melhor remunerado do que outros.
No trecho abaixo, o sujeito A, explica sua experiência de trabalho e os momentos em
que é melhor ou pior remunerado, a depender do contexto de atuação. Eles dizem:

A- Exatamente! O valor da remuneração não é o único fator que eu considero na hora de aceitar um serviço.
Eu acredito que meu trabalho também serve para valorizar o campo de atuação e serve para mostrar a minha
competência. Mesmo pagando pouco, acabo aceitando convites de trabalho, pois, além da experiência que
eu ganho, também é uma oportunidade de estar em contato com outros surdos que podem ajudar no meu
aprendizado. Sendo assim, o valor pago não é o mais importante. Algumas vezes recebo mais, outras vezes
recebo menos. Já tive a curiosidade de ver os valores de tabela da Febrapils e percebi que já recebi
pagamentos acima e abaixo da tabela. A ocasião em que recebi a remuneração mais alta foi em um evento
internacional chamado IDA. Organizado pela ONU e que trata das pessoas com deficiência. O Presidente
(WFD) Colin Allen veio ao evento em São Paulo. Este evento ocorre em várias cidades pelo mundo e, na
ocasião, fomos convidados para atuar como intérpretes juntamente com Marianne R. Stumpf, Mariana Farias
Lima e Diego Barbosa. O Presidente Colin Allen apresentou sua fala em Língua de Sinais Internacional e
trouxe com ele dois intérpretes que atuaram conosco na equipe fazendo o revezamento durante o evento. A
remuneração que recebi foi bem acima da tabela que a Febrapils disponibiliza. Na organização do evento,
eles seguem algum outro critério internacional de remuneração que desconheço. O valor do pagamento foi
apresentado e eu aceitei. Em outras ocasiões, o valor para atuar foi bem menor, mas aceitei sem problemas,
pois achei importante mostrar meu trabalho.
Outra situação foi no congresso de tradução e interpretação da UFSC. Lá eu recebi apenas a isenção do
valor da inscrição. Passagem aérea e demais despesas foi por minha conta. Meu principal objetivo foi, além
de divulgar meu trabalho, ter mais conhecimento na área de tradução/interpretação. Acredito que
futuramente, com o aumento da demanda, a situação mude, mas até lá vou divulgando meu trabalho.
276

C: Os contratos variam muito de empresa para empresa. Algumas pagam um valor alto e outras pagam bem
menos. No evento Rio +20 que participei, o contrato possuía um valor altíssimo, enquanto outras empresas
costumam contratar por um valor bem menor.

Notamos que a valorização da atuação e a possibilidade de divulgar a própria


competência de interpretação tem mais peso na hora de escolher um trabalho do que
simplesmente a remuneração. Os profissionais tradutores e intérpretes surdos demonstram sua
qualidade e competência no Brasil e no mundo, de forma que possam estar em igualdade com
outros tradutores e intérpretes de língua falada. Atualmente, a mudança pretendida é pela
igualdade de direitos de remuneração. Em certos casos, recebe menos ou mais valor de
remuneração, dependendo dos contextos.
O sujeito A e C relatam que o valor mais alto recebido foi em uma conferência
internacional (ONU) e Rio + 20. Devido ao porte do evento internacional, os valores acordados
para os tradutor e intérprete surdo e ouvinte foram elevados. A remuneração neste caso foi acima
da tabela de valores da Febrapils. Creio que seja relevante atualizar os valores de remuneração
entre eventos nacionais e internacionais na tabela da Febrapils e do SINTRA. De acordo com
Rajagopalan (2004):

A atuação política do linguística, como a de qualquer outro intelectual junto à


sociedade, não deve ficar restrita aos interesses de ordem puramente indicalista ou,
“comporativista”, como diz Lopes da Silva [neste volume], p. 81, tais como
reconhecimento profissional, maior respeito, remuneração à altura etc. [... mas]
devemos também lutar para que os nossos esforças políticos tenham efeitos concretos
na sociedade, efeitos que sejam do interesse do povo como um todo, e não de uma
classe só [...] fazer com que os cidadãos de se posicionar sobre assuntos relativos à
língua, sobretudo aqueles que diretamente afetam suas vidas. (RAJAGOPALAN,
2004, p. 186-187).

Por estas razões, é importante refletir sobre a necessidade de dar visibilidade e


reconhecimento do trabalho e competência do profissional tradutor e intérprete surdo por
respeito à remuneração no Brasil, ao povo surdo, a comunidade surda e a toda sociedade,
promovendo o acesso aos conteúdos e informações sem barreiras linguísticas. Por estas razões,
reafirmamos a importância de receber a remuneração devida.
No último trecho da entrevista com o sujeito A, ele afirma que o aumento das demandas
futuras poderiam levar à mudanças que tornariam as condições mais igualitárias com os outros
tradutor e intérprete de língua. De qualquer forma, a divulgação do trabalho faz parte de uma
política de valorização do trabalho do tradutor e intérprete surdo, uma oportunidade mostrar
para as instituições o reconhecimento merecido do profissional tradutor e intérprete surdo. Para
277

termos mais informações sobre os valores da Febrapils e SINTRA, vejamos as respostas dos
sujeitos entrevistados que apresentam alguma distinção nas respostas:

A- Até agora, nunca procurei colegas para saber o valor que eles cobram e fazer essa comparação. Eu apenas
aceito o valor que é proposto.

B - Sim! nos congressos recebemos a mesma remuneração. Seguimos igualmente a mesma tabela.
KL- Que tabela seria essa?
B - Tabela da FEBRAPILS.
KL - Quando você chamada para trabalhar em algum evento. O pagamento é feito seguindo esta tabela ou
você mesma define o valor?
B - Sempre sigo o valor da tabela da FEBRAPILS, embora, às vezes, a organização do evento diga que não é
possível pagar, então negociamos e posso baixar o preço.
C: Hoje com a experiência adquirida, aprendi a seguir a tabela da Febrapils. Lá existem normas a serem
seguidas e valores específicos dependendo das línguas envolvidas na interpretação. Agora sempre que entro
em negociação com alguma empresa, digo para seguirem os valores definidos pela entidade. Apenas repasso
a eles o site da Febrapils e entrego minha proposta.

Percebemos que o sujeito A decide por conta própria se aceita o valor proposto. Afirma
que não tem parâmetros para realizar a cobrança dos valores e desconhece a tabela do SINTRA
e Febrapils, pois o costume em ser voluntário há anos fez com que não saiba o valor justo a ser
cobrado e nem procure colegas de profissão para tirar essa dúvida. O sujeito B vai no sentido
oposto, recebendo remuneração nos congressos de acordo com a tabela da entidade, afinal, é
direito receber pelo trabalho de interpretação e pela responsabilidade de intermediar duas
línguas, que se equipare os valores a outros intérpretes de todas as línguas.
Acreditamos ser importante que se acompanhe a tabela da Febrapils. Consideramos que
é o valor justo para o profissional tradutor e intérprete surdo, que deve se acostumar a seguir os
valores estabelecidos pela entidade. Entretanto, sabemos que é possível negociar um preço justo
que se enquadre melhor a depender da situação. Aproveitamos o assunto para fazer mais uma
pergunta para um dos sujeitos: Como você se baseia? Segue alguma tabela ou faz a negociação
em cada caso?

A- Apenas me sugerem um valor a ser pago e eu aceito. Na verdade, é tudo muito novo. A profissão, os
contextos de atuação, etc. Não tenho por onde me basear. Por exemplo: A tradução de vídeos. A cobrança
deve ser feita por minuto ou por quantidades de sinais ou palavras? tudo é muito recente neste trabalho.
Alguns intérpretes podem seguir a tabela de honorários da Febrapils, que já se encontra bem completa, de
certa forma. Entretanto, no meu caso, como adaptar essa tabela ao meu trabalho? eu sou um dos poucos que
faz este trabalho e colegas para quem eu pergunto também não sabem me dizer. Assim, eu acabo aceitando o
trabalho se considero que o valor seja bom.
278

Tradutor e intérprete surdo está em processo de reconhecimento profissional no Brasil,


por isso, são recentes as informações sobre o valor a ser cobrado. Neste vídeo em língua de
sinais, o profissional tradutor e intérprete surdo trabalha com o português brasileiro escrito,
traduzindo-o para a Libras ou, no sentido inverso, da Libras para o português escrito. O valor a
ser cobrado pode levar em consideração, por exemplo, a quantidade de palavras do português
brasileiro escrito ou a quantidades de sinais de Libras. Encontrei na tabela da Febrapils
informações sobre o valor cobrado pela quantidade de sinais, devido ser uma modalidade
recente. Vejamos tabela de valores de referência da Febrapils na tabela 9:

Tabela 9 - Tabela de valores de referência de tradução da Febrapils

Fonte: Febrapils (2017).

Valendo-se disso, já está pronto o valor de tradução e não precisa mais complementares
dos valores. Tenho experiência em utilizar os serviços de intérpretes ouvintes para realizar a
tradução, da Libras para o Português escrito dos meus vídeos. Costumo pagar por minuto da
Libras para o Português, o valor de 12 reais. Hoje, a nova tabela de Febrapils, valor aumenta
279

12 (doze) reais para 20 (vinte) reais, importante a seguir a tabela da Febrapils na figura 46 e
creio que as instituições precisam segui-la a para valorizar o profissional.
Explicamos anterior sobre tabela de tradução e explicamos sobre tabela de remuneração
da interpretação da Febrapils, vejamos na tabela 10, que estabelecerá uma remuneração de
intérprete de língua de sinais para outra língua de sinais.

Tabela 10 - Tabela de referência da interpretação e guiainterpretação de Libras

Fonte: Febrapils (2017)129.

Esta é a tabela de remuneração da Febrapils que foi aprovada em assembleia geral no


dia 21 de abril de 2017. Os dois “menus” da tabela Febrapils, apresentam valores para: 1-
Interpretação de Libras/português e português/Libras e 2 - Guia-interpretação
Libras/Português-português/Libras e/ou interpretação Libras/ outras línguas de sinais. Tendo
apresentado esta comparação entre Libras para língua de sinais e Libras para português
brasileiro, podemos observar que os valores são iguais nos contextos de conferencias e sociais,

129
Disponível em: http://febrapils.org.br/tabela-de-honorarios/.
280

mas são diferentes em contextos artísticos culturais, jurídicos, clínicos, lazer, turismo,
empresariais e serviços públicos e/ou acompanhamentos em serviços sociais.
Percebe-se que, no segundo “menu” do quadro, a interpretação de Libras para língua de
sinais está prevista somente nos contextos de conferência e sociais. É necessário colocar essa
modalidade em todos os contextos, pois comprovamos que os sujeitos da pesquisa relatam
trabalhos nos mais variados contextos, apenas os guia-intérpretes trabalham estão previstos para
trabalhar em todos os contextos.
Os resultados obtidos mostram que é importante colocar os valores para interpretação
Libras para outra língua de sinais em todos os contextos previstos na tabela (artísticos e
culturais, jurídicos, clínicos, lazer e turismo, empresariais, serviço públicos e provas).