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ARTIGO

Sociedade, Estado e política social: contribuição à crítica da alienação


política

Society, State and social policy: contribution to the critique of political alienation

Wécio Pinheiro ARAÚJO*

Resumo: Analisa a relação entre o Estado e a sociedade a partir de mediações entre a


crítica marxiana à Filosofia do Direito de Hegel e o contexto contemporâneo no qual
se efetivam as políticas sociais. Discute a questão do compromisso do Estado Moder-
no na sua cisão entre um elemento político (princípio formal) e outro não político
(princípio material), configurando um processo de alienação entre o político e o ma-
terial, e culminando numa contradição seminal entre Estado e sociedade. Objetiva
contribuir com uma articulação teórico-metodológica capaz de ampliar algumas teses
clássicas da teoria social crítica no intuito de compor uma análise mais próxima da-
queles fenômenos do nosso tempo. Conclui que a crítica dessa contradição, ao anali-
sar a superestrutura política sem dissociá-la da sua base social (material), é a condi-
ção de toda crítica política e das políticas sociais.
Palavras-chave: Sociedade. Estado. Alienação Política. Política Social.

Abstract: Analyze the relation between State and society from mediations between
the Marxian critique of Hegel's Philosophy of Law and contemporary context in
which social policies are effected. It discusses the issue of commitment of the Modern
State in its split between a political element (formal principle) and other non-political
(material principle), setting a process of alienation between the political and material,
and culminating in a seminal contradiction between State and society. The objective
is to contribute to a joint theoretical and methodological able to expand some
classical theories of critical social theory in order to make a closer analysis of those
phenomena of our time. We conclude that the criticism of this contradiction by
analyzing the political superstructure without breaking it from its social base
(material) is the critical condition of all political and social policies.
Keywords: Society. State. Political Alienation. Social Policy.

Recebido em 01/10/2010. Aprovado em 27/06/2011

*
Bacharel em Serviço Social pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB); cursou parte da graduação
na Universidade Técnica de Lisboa (UTL – Portugal). Mestrando/pesquisador do Programa de Pós-
Graduação em Serviço Social – PPGSS/UFPB.
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Sociedade, Estado e política social...

1 Introdução

E
ntende-se aqui a ordem sócio- Utilizou-se como metodologia a pesquisa
política partindo do primado da- bibliográfica3 e a pesquisa eletrônica, a-
quela ordem social (sócio- brangendo um amplo leque de referên-
metabólica ) que está na base da ordena-
1
cias. Resgata-se uma série de teóricos
ção dos fenômenos políticos na moder- (críticos) acerca do nosso tema, com ên-
nidade, estes concebidos ontologicamen- fase no legado marxiano. E, sobretudo, o
te2 como indissociáveis daquelas relações método dialético articula-se aqui como
fundamentais à sociedade e suas impli- progressivo movimento ascensional do
cações na configuração do contexto ca- pensamento que se eleva do abstrato ao
racterístico no qual aparecem as políticas concreto4, apesar de reconhecer o concre-
sociais em determinado estágio do de- to enquanto ponto de partida real, da
senvolvimento capitalista. Toma-se o intuição e da representação imediatas.
pressuposto da primazia da sociedade na Entretanto, este concreto só aparece ao
compreensão das políticas sociais, dado pensamento como um processo de sínte-
que encontram-se na sociedade civil os se de várias determinações. Daí o porquê
fundamentos do próprio Estado, assim de não se contentar em reproduzir as
como encontram-se no modo de produ- diversas determinações imediatas da
ção social das condições materiais de vida social sem relacioná-las com a tota-
existência os fundamentos da própria lidade – sendo esta última, impossível de
sociedade. A partir disto, inicia-se a aná- ser captada na imediatez dos fenômenos
lise e sua exposição. pelo pensamento. Assim, tendo como
objeto de estudo aquelas relações de na-
tureza íntima das políticas sociais, im-
põe-se aqui enquanto questão de méto-
do, abordar o veio mediato desses fenô-
1 Sociometabólico: termo inaugurado por Istvan
Mészáros, no que diz respeito ‚[...] ao intercâm- 3 Tendo em seu universo toda bibliografia articu-
bio produtivo dos seres humanos com a natureza lada no curso da disciplina Política Social e Servi-
e entre si [...]‛, a partir da concepção marxiana ço Social no Brasil e no Nordeste, durante o perí-
(MESZÁROS, 2002, p. 94-132). odo letivo 2010.1, lecionada pela Profa. Dra.
2 Não se leia ontologia no sentido tradicional de Cláudia Maria Gomes no Programa de Pós-
base metafísica, ao contrário, nos filiamos à Graduação em Serviço Social da UFPB, assim
corrente originalmente marxiana, pioneira na como outras referências bibliográficas elencadas
crítica ao próprio idealismo filosófico e pelo autor.
fundadora de uma forma inédita de se pensar 4 Marx (2005b) ressalta sua compreensão teórico-

ontologicamente; isto é, numa forma de proceder metodológica acerca da questão, a saber: ‚O


do pensamento simultaneamente crítica e concreto é concreto porque é a síntese de muitas
dialética, de orientação praxiológica na qual a determinações, isto é, unidade do diverso. Por
teoria pauta-se numa perspectiva derivada das isso, o concreto aparece no pensamento como o
relações concretas e indissociáveis entre a práxis processo da síntese, como resultado, não como
(atividade prática dos homens) e os processos ponto de partida, ainda que seja o ponto de
históricos e sociais que juntamente configuram as partida efetivo e, portanto, o ponto de partida
condições objetivas da existência humana. também da intuição e da representação‛.
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menos visando desvelar sua essência no econômicas, o que não raro ocorre na
tocante às raízes daquela alienação polí- produção teórica contemporânea da aca-
tica consubstanciadora desse complexo demia como uma espécie de tendência
dinâmico estrutural-conjuntural que i- unânime, quase generalizada. Inversa-
ninterruptamente move-se entre essên- mente, engessar-se na análise exclusiva-
cia, fenômeno e aparência5. mente econômica seria afogar-se em de-
terminismos e/ou reducionismos de cará-
2 Estado político e Estado não político ter economicista.

‚Do mesmo modo que a religião não cria Deveras, a política social no âmbito em
o homem, mas o homem cria religião, que a concebemos hoje não chegou a ser
assim também não é a constituição que um tema de Marx, o que não nos impede
cria o povo, mas o povo a constituição‛ de resgatar valiosas indicações nos cons-
(Marx, 2005a). trutos marxianos e marxológicos para
Pretende-se aqui introduzir uma análise sua abordagem. Objetiva-se exatamente
teórico-crítica aos radicais sócio-políticos contribuir numa articulação teórico-
das políticas sociais, de caráter mais ge- metodológica capaz de ampliar algumas
nérico, num viés que permita relacionar teses clássicas da teoria social crítica com
reprodução social, sociedade e Estado. vistas a compor uma análise mais pró-
Inicia-se a exposição pela crítica da no- xima daqueles fenômenos do nosso tem-
meada ordem sócio-política (dita demo- po. Interessa analisar a superestrutura
crática) que está na base das políticas so- política sem dissociá-la da sua base soci-
ciais e em alguns de seus aspectos, suces- al, suas peculiaridades, sua ‚espécie‛,
sivamente articulando-se com seus fun- seu caráter genérico e como este contri-
damentos sociais e econômico-políticos, bui na formação das políticas sociais6 no
reconhecendo que uma crítica meramen- Estado, seja na sua relação com a socie-
te política seria permanecer no âmbito dade civil organizada; seja no atendi-
reducionista da análise politicista – ou mento disponível para o cidadão que,
seja, seria reproduzir teoricamente a ali- individualmente, procura um serviço
enação política que pretendemos criticar prestado pelo Estado por meio de uma
–, descolada das determinações sociais e política pública setorial e toda sua estru-
tura de ação. Trata-se de buscar captar o
5 É oportuno resgatar quando Lukács (1979 apud ser mediato das políticas sociais; aquilo
PONTES, 2008) chama a atenção de como para que está na essência para além da sua
Hegel, pai da concepção dialética credora do
imediaticidade.
pensamento marxiano, a essência ‚[...] não é en-
tendida nem como algo transcendente, nem co-
mo produto de um processo mental de abstração,
mas, ao contrário, como momento de um com-
plexo dinâmico no qual essência, fenômeno e 6 Para compreensão da formação das políticas
aparência convertem-se ininterruptamente uns sociais no Brasil, são imprescindíveis, assim co-
nos outros, onde as determinações reflexivas mo entendemos, as contribuições de nomes co-
mostram possuir um caráter primariamente onto- mo: Faleiros (2007), Boschetti (2008), Mota (2008),
lógico‛. Vianna (2008), entre outros.
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Resgatam-se alguns construtos da análi- Essa cisão e oposição entre o povo e o


se marxiana para destacar na ordem só- Estado, entre o trabalhador e o cidadão,
cio-política – e naquilo que nomeada- segundo Marx (2005a), encontra-se nas
mente é conhecido por democracia – algo bases do Estado moderno, e é em Hegel
passível de questionamentos críticos, que aparece sob o véu da especulação –
dado que nos aparece, não raro, como tema que Marx irá analisar na sua obra
uma abstração, um Estado político7, de um da Crítica da Filosofia do Direito de Hegel,
lado, e, de outro, a denominada sociedade da qual claramente é devedor este traba-
civil, sem percepção alguma da república lho, como poderá observar o leitor. Por
política, isto é, da democracia meramente isso, é fundamental para uma apreciação
como uma espécie particular de governo crítica, introduzir – revalidando-as histo-
(MARX, 2005a, p. 50-52) que denomina ricamente – algumas teses marxianas
de maneira acrítica, apontando-a en- enquanto bases para uma crítica a partir
quanto sinônimo de jargões como gover- de uma concepção dialética, baseada no
nabilidade, participação, inclusão, alternân- ser humano concreto e como se desen-
cia de poder, cidadania8, etc. Numa palavra, volveu historicamente enquanto ser soci-
abstraem-se as relações sócio- al. Propõe-se aqui apontar como essa
metabólicas e a alienação política impli- pseudodemocracia, meramente política,
cada a partir dessas relações, para, de um tal como tentamos desvendar nesta a-
salto, discutir uma democracia passiva, bordagem crítica, revela-se ponto-chave
baseada igualmente em direitos passivos, para compreender o surgimento e corro-
dando lugar à alienação política no mo- boração das políticas sociais no interior
mento em que o povo, ao se submeter, do capitalismo da sua fase monopolista
perde seu estatuto fundante no Estado, em diante. E isto sem relegar os funda-
reafirmando-se a separação entre Estado mentos encontrados pela crítica da eco-
(Constituição) e sociedade civil (povo), nomia política, que na concepção de
respectivamente, Estado político e Estado Marx não se engessa no economicismo
não político na terminologia marxiana. e/ou no determinismo econômico.

Não existe Estado político (princípio for-


7 Termo designado inicialmente por Marx
(2005a), na sua Crítica da filosofia do direito de mal, instituição) sem Estado não-político
Hegel, para se referir ao Estado formal, (princípio material, realidade) – fato es-
meramente político, representado na camoteado na alienação da ordem sócio-
Constituição e em instituições separadas do povo política, nomeada democrática, apenas
– o Estado real, segundo ele – em relação à sua
enquanto uma espécie particular de go-
própria essência, que se vê então hispotasiado na
esfera política. verno – o que explicaremos melhor ao
8 Destaca-se a importância, quanto ao que nomei- longo do texto. A partir da história e do
a-se cidadania, de estudos clássicos e contempo- conhecimento acumulado historicamen-
râneos utilizados durante nossa pesquisa no cur- te, pode-se dizer que é fato empiricamen-
so da disciplina lecionada pela Profa. Dra. Cláu-
te verificável, a saber: a sociedade, orga-
dia Gomes – a saber, célebres trabalhos de auto-
res como Marshall (1967), Barbalet (1989), Cignol- nizada ou não-organizada, é o pressu-
li (1985) e Santos (1987), entre outros. posto histórico do Estado, assim como a
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existência o é da ideia – isto é, o modo monarquia: ‚Na monarquia temos o po-


como o ser humano produz e reproduz vo da constituição; na democracia temos
suas condições materiais de existência e a constituição do povo.‛ (MARX, 2005a,
as relações sociais surgidas a partir deste p. 50). Mais ainda, enfatiza essa demo-
ato histórico é o momento precursor de cracia enquanto razão política capaz de
toda humanidade, da mesma forma co- resolver o enigma de todas as constitui-
mo conhecemos hoje, nas suas acepções ções:
políticas, jurídicas etc. O ser humano fez-
se primeiramente na história, socialmen- A democracia é o enigma resolvido de to-
te; e não há indicativos nos fatos capazes das as constituições. Aqui, a constituição
não é somente em si, segundo a essência,
de apontar que possa vir a deixar de sê- mas segundo a existência, segundo a reali-
lo. O fato primário é irrefutável, tão ób- dade, em seu fundamento real, o homem
vio quanto relegado por algumas teorias real, o povo real, e posta como a obra pró-
ou ideologias, podendo parecer truísmo: pria deste último (MARX, 2005a, p. 50).
não há história sem seres humanos vivos;
e somente socialmente é que podem vi- Tem-se a compreensão do Estado como
ver os seres humanos. Qualquer forma- uma instituição que depende de suas
ção política, econômica, ética, jurídica condições históricas, em vez de fazê-las
etc. é posterior e, consequentemente, não surgir e aglutiná-las sob seu mando por
pode ser entendida ignorando a prima- qualquer processo alheio meramente
zia do ser social. Enxergar isto é criticar ideológico ou metafísico. Assim o com-
toda forma superficial ou mistificada de preendia Marx (2005a) e como demons-
análise da sociedade humana – microni- tra na sua Crítica da filosofia do direito de
zada, exclusivamente conjuntural ou i- Hegel, em termos genéricos, contra a es-
mediatista – como simultaneamente é peculação idealista: ‚Família e sociedade
fundamento válido para análise crítica civil são os pressupostos do Estado; elas
de qualquer forma de sociedade humana são os elementos propriamente ativos;
real, salvo no plano da imaginação, da mas, na especulação, isso se inverte‛
abstração em pura reflexão (leia-se meta- (MARX, 2005a, p. 30) – salientando, as-
física e idealismos) ou na fantasia religio- sim, que família e sociedade civil sempre
sa. estarão historicamente determinadas e
A democracia verdadeira, que traria efe- culturalmente condicionadas.
tivamente racionalidade política para o
real, na teoria marxiana, seria a existên- A anatomia das relações da sociedade
cia humana no Estado – por meio da par- civil, historicamente, somente pode ser
ticipação de todos os elementos da cole- encontrada partindo-se do sócio-
tividade na política –, isto é, a política metabolismo humano , isto é, da forma
9

existindo em razão do homem, e não o


homem existindo em razão da política.
9 Nomeia-se de sócio-metabolismo humano a
forma de existência de uma espécie que se cons-
De outro modo, se reduz numa demo-
truiu socialmente, pois assim se fez historicamen-
cracia meramente como espécie de um go- te; todas as dimensões deste ser humano históri-
verno. Marx exemplifica sua crítica com a co têm suas raízes na dimensão social, nutrem-se
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como os homens produzem suas condi- Essa concepção genérica (teórica) foi
ções materiais de existência e que tipo de concebida historicamente, só que não a
sociedade se desenvolveu a partir deste partir de dogmas, hipóstases ou ideolo-
modo de produção social10; do contrário, gias, mas por pressupostos históricos do
família e sociedade civil perdem-se como homem enquanto ser social – uma onto-
abstrações, meramente especulativas. logia dialética – e retomada num mo-
mento histórico inicial do ser humano,
2.1 A relação entre a concepção sócio- desde que começa a produzir seus meios
metabólica e a ordem sócio-política de vida, suas condições materiais de e-
Já é óbvio, tanto quanto sublinhamos, xistência – primeiro fato histórico que
que não é o Estado que cria a sociedade11. parte, segundo Marx e Engels (2004;
2007), de outro pressuposto também ab-
vitalmente dela, pois seu produzir-se e reprodu- solutamente histórico12. Logo, isso permi-
zir-se materialmente é condição vital, sendo este te reiterar: ‚O fato é que o Estado se pro-
essencialmente social, isto é, sócio-metabolismo.
duz a partir da multidão, tal como ela
Reiteramos: Mészáros utiliza o termo na concep-
ção da ‚Ordem da Reprodução Sociometabólica existe na forma dos membros da família
do Capital‛ (MÉSZAROS, 2002, p. 94). e dos membros da sociedade civil. A es-
10 Cabe salientar diante de alguns críticos que
peculação enuncia esse fato como um ato
tentam fazer parecer arcaica ou ultrapassada tal da Idéia, não como a idéia da multi-
descoberta científica: a descoberta deste fato his-
dão...‛ (MARX, 2005a, p. 31). E a multi-
tórico e a análise que o toma como fundamento
teórico essencial não invalidam outras análises dão, tal como ela existe, se desenvolveu a
posteriores nem são por qualquer delas invalida- partir destes fundamentos naturais e só-
das; ao contrário, abarca-as como fundamento cio-históricos supracitados, que não po-
teórico-crítico. Não trataremos disso agora, con- dem ser ignorados, a não ser no forma-
siderando que apenas à erudição turista do leitor
lismo da especulação. As categorias ge-
contemporâneo não ficará entendido. Sugere-se,
entre tantas, a obra recente: Lessa (2007) e sem néricas família e sociedade civil não exis-
perder de vista a indispensável obra clássica na tem fora de um contexto histórico ou da
colocação pioneira de tais construtos: Marx; En- própria concepção geral obtida da histó-
gels (2007). ria, tomando como pressuposto o fun-
11 Para correta compreensão: Também é equívoco
damento natural da vida humana e de
acerca da compreensão marxiana de Estado dizer
que este é simplesmente uma agência a favor dos como ela começou a se reproduzir soci-
interesses burgueses; como alguns marxistas almente; do mesmo modo, para categori-
(incluindo ex-marxistas) e não marxistas tentam
atribuir a Marx, repetindo anacronicamente um ções gerais de reprodução do capital, e da produ-
trecho sem contexto do Manifesto do Partido Co- ção, isto é, da acumulação capitalista‛ – a qual
munista, no qual, como esclarece o próprio Marx, afigura-se como uma afirmação lógica, coerente e
está sendo feita uma afirmação sob determinada válida, porém não define Estado, porque não
forma histórica, num momento histórico, portan- pretende, salvo que não seja dialética; apenas faz
to, uma afirmação circunstancial. Não nos esque- uma observação histórica a partir da concepção
çamos: Marx falava do Estado capitalista naquele crítica de uma determinada forma histórica do
estágio do seu desenvolvimento histórico. Pode- Estado concebido dialeticamente.
mos encontrar uma citação análoga e contempo- 12 ‚O primeiro pressuposto de toda história hu-

rânea em Faleiros (2007, p. 65): ‚O Estado capita- mana é, naturalmente, a existência de indivíduos
lista é uma garantia de manutenção das condi- humanos vivos‛ (MARX; ENGELS, 2007, p. 87).
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as como Estado ou políticas sociais. As- dade a partir da conquista anterior. Com
sim, sempre temos que manter os pés no isso, os seres humanos se fizeram e se
solo real da história, seja para obter uma fazem nesta dinâmica sócio-metabólica
categoria genérica, mais abstrata, seja de interações entre necessidades e satis-
para levar essa categoria do abstrato ao fações, entre problemas e soluções. To-
concreto, ao fato histórico no qual pre- davia, nenhum dos elementos supracita-
tendemos implementar uma análise cien- dos existe isoladamente ou pode ser iso-
tífica. Desse modo, importa salientar a lado – salvo em caráter de mera demons-
descoberta científica e pioneira de Marx tração didática –, sendo, portanto, indis-
que permanece válida, nos seguintes sociáveis. Tudo isso a partir do homem
termos, a saber: o homem se fez como ser juntamente com suas formas de trans-
sócio-metabólico e se criou como ser so- formar a natureza – e ser transformado
cial por meio do trabalho13; e todas as também nesta interação – objetivando
relações (sociais, econômicas, políticas, suprir necessidades próprias. Seu traba-
ideológicas, culturais etc.) e formações lho, sua indústria, sua tecnologia, a ciên-
históricas que se possa conceber ao longo cia, a política, a economia etc. somente
das eras de seu crescimento e de seu de- existem mutuamente formando uma to-
senvolvimento são derivadas desse fa- talidade de relações. Dessa maneira, che-
zer-se humano essencialmente social, gamos ao ponto em que os seres huma-
dessa ontologia social, histórica e dialéti- nos dependem de modo imprescindível
ca14. Em outras palavras, esse nomeado de tais relações de produção e reprodu-
ser social fez-se e continua a fazer-se exa- ção da vida social e do conhecimento nas
tamente por esse homem que se relacio- suas variadas formas, da mesma forma
na com a natureza e com os outros ho- que sem os homens nada disto existiria;
mens e, a cada avanço, faz surgir, inde- fato irreversível. Fizemo-nos a tal ponto
pendente da sua própria vontade, mais e seres sócio-metabólicos que já não po-
novas relações, de caráter diverso (seja demos existir de outra forma, salvo por
este social, político, econômico etc). A meio da especulação ou imaginação.
cada solução, um novo problema; a cada Numa palavra, o homem, ao longo da
necessidade suprida, uma nova necessi- história, se fez irreversivelmente um ser
sócio-metabólico.
13 Não se implementa aqui uma dedução direta a
partir da ontologia do ser social fundamentada Retomando o Estado, este factualmente
no trabalho para, de um salto, inferir conclusões nunca foi e não é o demiurgo da socie-
acerca da relação Estado, sociedade e políticas
dade civil, como queria Hegel, porque o
sociais; o que seria, além de equivocado, também
de um proceder teórico-metodológico grosseiro. homem é esse sujeito histórico absoluto
Ao contrário, tem-se no primado social do ser como estamos a demonstrar; no idealis-
humano – e de como se produziu historicamente mo hegeliano, a condição torna-se condi-
– o fundamento de uma análise de fundo ontoló- cionado, o determinante em determina-
gico-dialético no intuito de resgatar aquela análi-
do, os sujeitos em objetos. Fato comum
se construída por Marx na sua crítica a Hegel.
14 Ver os três aspectos históricos apontados por no teoricismo ou nas representações que
Marx e Engels (2007, p. 32-34). a mente idealista faz de si mesmo e do
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mundo: ‚[...] o Estado político não pode servir de paradigma formal à análise crí-
ser a base natural da família e a base arti- tico-dialética, porque tais conceitos não
ficial da sociedade civil; elas são, para têm capacidade de representar minima-
ele, conditio sine qua non.‛ (MARX, 2005a, mente a realidade, que não é estática,
p. 30, grifo nosso). Deveras, o ser huma- nem objeto do mundo das ideias. Ao con-
no ignorante ou alienado da sua própria trário, é dialética, em constante trans-
história, baseado somente numa história formação e imbricada num complexo
das ideias, consequentemente, não en- dinâmico entre essência, fenômeno e a-
xergará outra coisa senão representações parência (salvo se fosse empreendida
dessas ideias, sejam elas de caráter filo- uma análise meramente filosófica, o que
sófico, religioso, político etc. E, de outro não é o intuito). Nesse sentido, a crítica
modo, o ser humano, alheio à própria passa pela superação crítica dos próprios
condição existencial enquanto ser sócio- conceitos, da reflexão pura e do enges-
metabólico, certamente verá numa repre- samento teórico em paradigmas ou mo-
sentação formal e abstrata, como o Esta- delos conceituais.
do (Estado político) que conhecemos, um
demiurgo inquestionável e naturalmente 3 O compromisso do Estado moderno
posto sobre sua condição na sociedade.
Na ordem sócio-política capitalista, pre-
A condição absolutamente necessária da senciamos a reedição desse Estado político
existência humana como ser social reve- que exclui as outras esferas onde está o
lada dialeticamente na história é o pro- seu fundamento real, o homem real, o povo
cesso de trabalho (ontologia social) como real (MARX, 2005a), ou seja, a existência,
atividade consciente objetiva que produz que é uma realidade social. No capita-
as condições materiais da vida humana, lismo, vemos a reedição na política de
intervindo e modificando a natureza e o velhas representações históricas, segun-
próprio ser humano numa relação meta- do os interesses dominantes, para favo-
bólica dos homens entre si e com a natu- recer as relações sociais adequadas ao
reza. A família, no início, constitui a úni- seu modo de produção – que acumula
ca relação social; ao longo do desenvol-
vimento da humanidade, segundo novas tratarmos aqui neste momento, dado que
relações sociais e de acordo com seu partimos da crítica marxiana a alguns construtos
crescimento enquanto espécie, aparecem hegelianos, e não exatamente dos pormenores
novas formas de consciência deste ser acerca da categoria sociedade civil no debate
marxista contemporâneo. Nos limites deste
sócio-metabólico: culturais, jurídicas,
artigo, tentamos chamar a atenção para como o
políticas etc. – assim, nenhum conceito Estado capitalista engendra o homem enquanto
de família, sociedade civil15 ou Estado pode parte de sua ordem político-estamental,
destituindo-o de sua essência genérica (social), e
15 Sobre a categoria sociedade civil se mantém como isso repercute na gênese das políticas
imprescindível a obra do italiano Antonio sociais. No entanto, não negamos que seria
Gramsci (1891-1937). Na sua concepção, o Estado provável apurar a discussão com o legado
(capitalista) exerce o poder tanto mediante a gramsciano num momento posterior que se
força quanto o consentimento. Não é o caso de pudesse alongar a partir desta produção.
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riqueza concentrando-a, consequente- metabólico), onde se produz e reproduz


mente, gerando factual desigualdade a vida materialmente.
social. A própria democracia, como Esta-
do político, numa forma abstrata e distan- Por conseguinte, o Estado moderno, des-
ciada do povo, é mais um negócio para o velado criticamente, engendra o povo
capital do que qualquer outra coisa na como parte da Constituição, e não como
sua relação com o trabalho, na qual ele se sua causa real; o Estado moderno é aque-
depara com o surgimento histórico da le Estado político separado do Estado real,
questão social16. As formas de represen- o povo; que separa o homem real do
tatividade, assim como as relações de homem político, gerando um homem
poder corroboradas nesta ordem sócio- dicotômico, fragmentado no seu ser, en-
política, favorecem a dominação consen- tre o político e o social (não político); con-
sual do capital sobre as demais relações sequentemente, na sociedade, a realidade
no conjunto da sociedade. Numa pala- política (a Constituição e os direitos) não
vra, não há democracia de fato, pois esta se efetiva na realidade social – esta últi-
seria uma democracia social, e não so- ma é excluída pela primeira da esfera
mente política; ‚[...] o enigma resolvido estatal, que também já se encontra sepa-
de todas as constituições [...]‛ a que se rada do povo que foi convertido em pre-
refere Marx (2005a). Como Estado não dicado do Estado, ‚um Senhor‛ prove-
político, o povo é destituído de sua essên- dor ou repressor das massas. Logo, as
cia genérica (leia-se: social) e reduzido a refrações da questão social, advindas
uma multidão amorfa que recebe uma concretamente da realidade social na sua
forma política daquele Estado político, essência, são concebidas como problemas
formal. Quando integra o Estado, o povo de caráter meramente político, que, para
o faz como sociedade civil e não como ele serem resolvidos, necessitam de um re-
mesmo, na sua inteireza, se detém orga- conhecimento formal nesse Estado políti-
nizado sob a ordem político-estamental. co, de um tratamento jurídico-
Numa sociedade capitalista, onde não se institucional ou, mais propriamente, de
conhece democratização dos bens soci- uma política pública. Ou seja, um dispo-
almente produzidos, como poderá haver sitivo político legal que trate o problema
plena democratização na esfera política? social como se ele fosse ‚[...] ausência de
No mundo político, acabam por se re- uma qualidade política, estatal [...]‛ –
produzir as desigualdades da esfera cri- como destaca Rubens Enderle (tradutor),
adora da política, o mundo social (sócio- na sua Apresentação para a obra de Marx
(2005a) – ou meramente um direito social
reconhecido na constituição, porém não
16Sobre uma análise histórica e crítica do fenô- integralmente na prática. Os problemas
meno questão social, é mais do que suficiente indi- sociais são admitidos enquanto proble-
car um dos textos mais competentes produzido mas de ordem política – em que a pró-
por um pensador brasileiro acerca do tema, a
pria política tem uma forma abstrata,
saber: Cinco notas a propósito da “questão social”, do
Dr. José Paulo Netto (PAULO NETTO, 2005, p. vulgar, afastada do prático-sensível – e,
151-162). desse modo, são pensadas as devidas
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Sociedade, Estado e política social...

soluções por meio de estratégias políticas mais antigo que o capital, isto é, foi de-
do Estado, que assume para o capital mandado para proteger e administrar,
este investimento que não é rentável (lei- segundo interesses privados, o sobre-
a-se: aquele gasto sem retorno direto pa- produto social. ‚O Estado, em seus pri-
ra o capital ou os conhecidos gastos públi- mórdios, é eminentemente despótico e,
cos), como esclarece Faleiros (2007): por muito tempo, foi um meio de obstru-
ção às relações capitalistas nascentes (os
O Estado capitalista é uma garantia de confiscos, por exemplo)‛ (BEHRING,
manutenção das condições gerais da re- 2007, p. 135). O capitalismo negou o Es-
produção do capital e da produção, isto é,
tado absolutista, criando o Estado bur-
da acumulação capitalista. Ele assume os
investimentos não rentáveis para o capital, guês, na medida em que derruba as a-
assume os investimentos que demandam marras despóticas que impedem o de-
recursos que superam a disponibilidade senvolvimento do regime capitalista,
dos capitalistas, transforma os recursos para construir então suas relações ‚[...]
públicos em meios de favorecer e estimular
livres [...]‛ de troca (BEHRING, 2007, p.
o capital [...] (FALEIROS, 2007, p. 65).
136).
Ou como sublinha Mészaros (2002):
O Estado, embora não mais despótico,
A formação do Estado moderno é uma e- ainda aparece como estranho ao povo,
xigência absoluta para assegurar e prote- como algo alheio. Os nomeados espaços
ger permanentemente a produtividade do de participação são meramente reivindica-
sistema. *<+ Em sua modalidade histórica
tivos, o que não é de estranhar numa
específica, o Estado moderno passa a exis-
tir, acima de tudo, para poder exercer o democracia representativa; um espaço
controle abrangente sobre as forças centrí- ou dimensão meramente política, divor-
fugas insubmissas que emanam de unida- ciada do sentido social. Nele o povo não
des produtivas isoladas do capital, um sis- tem força material, porque o povo vive
tema reprodutivo social antagonicamente
na precariedade material das próprias
estruturado (MÉSZAROS, 2002, p. 106-
107). condições de existência e não participa
da organização do modo de produção;
O Estado, no seu papel coercitivo, foi define-se como Estado capitalista e não
amplamente estudado pelo marxismo por qualquer instância diretamente po-
clássico e nas suas medidas integradoras pular – seria uma espécie de espaço hu-
e de consenso – por Gramsci, em particu- manista do capital, ou de cidadania na ló-
lar – (BEHRING, 2007, p. 134-135). Entre- gica dos direitos; o responsável, entre
tanto, importa também sua função de tantas coisas, pela regulamentação e pe-
‚[...] providenciar as condições gerais de las medidas em favor da justiça social,
produção [...]‛, desvendada apropria- que não é tarefa ou obrigação do capital,
damente por Mandel (1982) em sua aná- mas é pré-requisito geral e social desse
lise sobre o Capitalismo Tardio. Ele, por modo de produção, que ‚[...] age, portan-
sua vez, explora este domínio funcional to, sem nenhum cuidado contra a saúde
do Estado e ressalta que este é anterior, e a vida do trabalhador, e não é obrigado
a tomar cuidado pela sociedade [...]‛,
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Wécio Pinheiro Araújo

como acertadamente afirmou Marx (1959 so). Ou como sublinha Mészáros: ‚a for-
apud FALEIROS, 2007). Nesse amplo mação do Estado moderno é uma exi-
domínio funcional do Estado capitalista, gência absoluta para assegurar e prote-
Mandel (1982) inclui essencialmente: ger a produtividade do sistema‛ (MÉS-
ZAROS, 2002, p. 106). Esse compromisso
*<+ assegurar os pré-requisitos gerais e configura-se na mediação delegada ao
técnicos do processo de produção efetivo Estado para tratar a cisão entre o traba-
(meios de transporte ou de comunicação,
lhador e o cidadão (abstrato), velha re-
serviço postal, etc.); providenciar os pré-
requisitos gerais e sociais do mesmo pro- presentação histórica reeditada e manti-
cesso de produção (como, por exemplo, da pelo capital na composição daquela
sob o capitalismo, lei e ordem estáveis, um ordem sócio-política favorável e funcio-
mercado nacional e um estado territorial, nal à acumulação.
um sistema monetário); e a reprodução
contínua daquelas formas de trabalho inte-
lectual que são indispensáveis à produção
Aparece-nos na nomeada democracia,
econômica, embora elas mesmas não fa-
çam parte do processo de trabalho imedia- como no caso brasileiro, um Estado políti-
to [...] (MANDEL, 1982 apud BEHRING, co separado, transcendente e que não
2007, p. 135). coincide socialmente com as esferas da
Não é de surpreender esse fenômeno família e da maior parte da sociedade,
estatal meramente político (representati- isto é, com os trabalhadores e como estes
vo) com relação ao povo não ter o ho- comparecem na dinâmica intrínseca ao
mem real como seu sujeito, mas como modo de produção e reprodução social
parte alienada desse Estado. Todavia, vigente. Resulta daí a cisão do homem
enquanto contradição entre Estado e so- captada pela argúcia marxiana: cidadão
ciedade civil, essa inversão acaba por (homem político formalizado, o eleitor,
apresentar, de forma mistificada, o Esta- detentor de uma cidadania abstrata, irre-
do como demiurgo da sociedade civil; o al) e trabalhador – subalterno (homem
que parecerá plenamente coerente ao em seu fundamento real, social, na reali-
inquestionável cidadão – termo para desig- dade da sua existência concreta). O ho-
nar aquele que socialmente não questio- mem particular e concreto da sociedade
na, nem se questiona, e não é questiona- civil aparece separado do homem uni-
do –, homem alienado, estranhado poli- versalizado nos direitos e na Constitui-
ticamente porque também se desconhece ção (o cidadão). Reiteramos: o povo não
socialmente, isto é, fragmentado em par- integra o Estado inteiramente como po-
tes – feito objeto pelo regime vigente, ao vo, mas como uma multidão (elemento
perder sua condição de sujeito, enxer- não político) amorfa que recebe sua for-
gando somente a aparência dos fatos, ma política (sociedade civil) desse pró-
enquanto apenas representa papéis na prio Estado. Nessa relação, mantém-se
ordem sócio-política. Nos termos de um ser político alienado, coisificado, ex-
Marx, ‚O Estado moderno é um com- teriorizado na sua condição de sujeito; o
promisso entre o Estado político e o não homem que trabalha desconhece sua
político‛ (MARX, 2005a, p. 51, grifo nos- condição política real (subalterna, alie-
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nada), visto que esse mesmo homem,


que também vota e/ou reivindica para Desde a acertada caracterização marxia-
participar do mundo político, está alheio na mais conhecida do Estado como o
à realidade exploratória da sua vida so- representante majoritário da burguesia –
cial, e já não é mais o trabalhador (homem o comitê executivo dos interesses capitalis-
real) quando acede à política ou ao Esta- tas coletivos, resguardando as condições
do (Estado político), mas apenas momen- externas da produção sob o regime do
taneamente o eleitor e/ou o cidadão for- capital e somente operando intervenções
mal, abstrato. eventuais ou emergenciais –, chegamos
ao momento em que suas funções deve-
3.1 O redimensionamento da ordem rão ser alargadas para atender às novas
sócio-política na era monopólica do ca- demandas políticas e econômicas do
pital modo de produção capitalista. Entretan-
to, chamamos a atenção também para
A era monopolista vem conferir um ajus- outra caracterização de Marx (2005a),
te que visa alcançar a maximização dos não menos certeira, do Estado moderno
lucros por meio do controle dos merca- como um peculiar compromisso entre o
dos. Propondo esses caracteres supraci- Estado político e o não político, fato que sus-
tados em nível econômico-social, caracte- tenta a alienação política do povo en-
riza-se que no capitalismo quanto elemento não político de uma
ordem sócio-política complexa na qual
*<+ a idade dos monopólios altera signifi- participa por meio de vias permitidas e,
cativamente a dinâmica inteira da socieda- sobretudo, recebe sua forma política de
de burguesa: ao mesmo tempo em que po-
ser dessa própria ordem, que cinde o
tencia as contradições fundamentais do
capitalismo já explicitadas no estágio con- indivíduo entre o ser político (indivíduo
correncial e as combina com novas contra- formal, reconhecido no Estado, portador
dições e antagonismos, deflagra complexos de direitos, o homem institucionalizado
processos que jogam no sentido de con- no cidadão) e o ser não político (indiví-
trarrestar a ponderação dos vetores nega-
duo concreto, na sua existência material,
tivos críticos que detona. Com efeito, o in-
gresso do capitalismo no estágio imperia- trabalhador, claramente aquele que não
lista assinala uma inflexão em que a totali- possui a propriedade privada dos meios
dade concreta que é a sociedade burguesa de produção). O capital apura em sutile-
ascende à sua maturidade histórica, reali- za sua capacidade de captura da subjeti-
zando as possibilidades de desenvolvi-
vidade política da multidão – eminente-
mento que, objetivadas, tornam mais am-
plos e complicados os sistemas de media- mente aquelas classes subalternas – nesse
ção que garantem sua dinâmica (PAULO compromisso, e ao Estado são historica-
NETTO, 2005, p. 20)17. mente acrescentadas funções sutis e indi-
retas significativas para dar suporte a
17 Segundo Paulo Netto (2005, p. 20), o exame essa ordem sócio-política que assegura
histórico do trânsito do capitalismo concorrencial
condições favoráveis ao desenvolvimen-
ao monopolista já foi suficientemente elaborado.
Para uma síntese mais que bastante deste trânsi- to capitalista. Presenciamos uma fusão
to, confronte Mandel (1969). das acepções marxianas, que, obviamen-
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te, evoluem historicamente além dos li- Segundo Paulo Netto (2005), além da
mites do próprio Marx e do seu tempo, manutenção das condições externas da
mas que, substancialmente, ainda nos produção capitalista, a intervenção esta-
servem de fundamento teórico genérico, tal incidirá na organização e na dinâmica
como apontado. A própria legitimação econômicas, desde dentro e de forma
desse Estado por meio dos caminhos da contínua e sistemática. Logo, as funções
democracia política, não por acaso, é útil políticas do Estado estruturam-se orga-
e necessária para manter as contradições nicamente com as suas funções econômi-
substanciais que se desenvolvem na or- cas. Neste período histórico é claramente
dem da produção e reprodução da vida verificável a demanda de uma nova mo-
social sem que cause tensões sócio- dalidade de intervenção do Estado, de-
políticas capazes de ameaçar o status quo. corrente fundamentalmente da necessi-
Complexos sistemas de mediação são dade de que o capitalismo monopolista
requisitados para garantir a dinâmica tenha um braço extraeconômico para
capitalista, configurando uma ordem assegurar seus objetivos estritamente
sócio-política onde convergem funções econômicos.
políticas e econômicas na esfera estatal.
Desde já, pode-se prever a funcionalida- Nesse contexto, o Estado desenvolverá
de patente que terão as políticas sociais uma multiplicidade de funções para as-
enquanto canal estratégico de adminis- segurar aquelas condições indispensá-
tração político-institucional daqueles veis à acumulação e à valorização do ca-
problemas refratários da questão social, pital monopolista, o que justificará a re-
por meio do Estado18. funcionalização e o redimensionamento
da esfera estatal (PAULO NETTO, 2005,
p. 24).
18 Note-se que o Estado sofre reformas advindas
de orientações de caráter eminentemente econô-
mico. Vale destacar o exemplo observado por No que tange à questão social, esta é tra-
Behring (2003), que defende a tese contemporâ- tada de forma fragmentada e parcializa-
nea de uma contrarreforma do Estado brasileiro da, e o peso das políticas sociais é evi-
entrelaçada com uma remodelação da visão filan-
dente, pois no nível estritamente político
trópica do modelo de intervenção nas sequelas
da questão social, culminando numa ampla par- elas funcionam como um vigoroso su-
ceria entre o Estado e a sociedade civil (terceiro porte da ordem sociopolítica: ‚*<+ ofere-
setor). Tais inflexões refletem claramente orienta- cem um mínimo de respaldo efetivo à
ções advindas de organismos multilaterais (Fun-
do Monetário Internacional, Banco Mundial,
Organização Mundial do Comércio etc.), configu- cas sociais é aquela do ‚[...] fetichismo da assis-
rando políticas de racionalização de custos pelo tência [...]‛, observado por Mota (2006), quando
Estado e medidas que priorizam tanto a focaliza- destaca a redução dos direitos num processo que
ção de recursos em determinados problemas transfigura a proteção social na passagem do
sociais, quando a reedição da centralidade da direito à assistência e à assistencialização do di-
família em lugar do indivíduo portador de direi- reito. Mais ainda, sobre a questão família e políti-
tos e o destaque para as ações das organizações cas públicas, ver artigo da Profa. Maria do Carmo
sem fins lucrativos (ONGs). Outra manifestação Brant de Carvalho (CARVALHO, 2003).
empiricamente verificável no âmbito das políti-
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Sociedade, Estado e política social...

imagem do Estado como ‘social’, como crítica marxiana à filosofia do Direito de


mediador de interesses conflitantes‛ Hegel. Nele fica oculta a sua essência de
(PAULO NETTO, 2005, p. 31). Não raro, classe, pois na sociedade civil, num
o Estado convergirá em antecipações no mesmo homem individualmente habitam
atendimento daquelas demandas sociais um trabalhador despolitizado, suas par-
oriundas das classes subalternas; enfren- ticularidades reais estão excluídas da
tará as refrações da questão social procu- política e do Estado; juntamente com um
rando administrar suas sequelas imedia- cidadão abstrato, que não coincide com o
tas e mais aparentes (conjunturais); e homem real, o trabalhador. Este último,
consequentemente, receberá adesão da- compondo o povo enquanto Estado não
queles setores e segmentos cujas deman- político, tem vedada a condição de sujei-
das incorpora, permitindo àqueles que to, sendo ele próprio objeto de controle,
conquistam algum atendimento, que se restando-lhe a participação na vida polí-
reconheçam como representados nele. tica de forma abstrata, meramente repre-
Nos termos de Paulo Netto (2005), são sentativa, e que na verdade, mantém os
‚*<+ sistemas de consenso variáveis, rumos da sociedade no ritmo do movi-
mas operantes‛. Por exemplo, respostas mento capitalista, principalmente no to-
positivas a demandas das classes subal- cante a sua relação com a força de traba-
ternas podem ser oferecidas na medida lho, na qual o capital se depara com o
exata em que elas mesmas podem ser surgimento histórico da questão social.
controladas e refuncionalizadas para o
interesse (direto ou indireto) do capital. 4 Conclusões

O que se quer destacar, nesta linha argu- A crítica dessa ordem sociopolítica, se-
mentativa, é que o capitalismo monopolis- gundo apresentamos, é a condição de
ta, pelas suas dinâmicas e contradições,
toda crítica política e das políticas soci-
cria condições tais que o Estado por ele
capturado, ao buscar legitimação política ais. O fundamento dessa perspectiva crí-
através do jogo democrático, é permeável à tica – em paráfrase ao próprio Marx – é o
demanda das classes subalternas, que po- seguinte: não é o Estado que faz o ho-
dem fazer incidir nele seus interesses e rei- mem, mas o homem que faz o Estado;
vindicações imediatos. E que este processo
analogamente, não é a condição de cida-
é todo ele tensionado, não só pelas exigên-
cias da ordem monopólica, mas pelos con- dão que legitima o trabalhador, mas a
flitos que esta faz dinamitar em toda a es- condição de trabalhador que legitima o
cala societária. É somente nestas condições cidadão – porém, na alienação política, o
que as seqüelas da ‚questão social‛ tor- trabalhador deve estar alheio a sua real
nam-se – mais exatamente podem tornar-
condição social. Ao modo como analisa-
se – objeto de uma intervenção contínua e
sistemática por parte do Estado (PAULO mos, revela-se como na sociedade bur-
NETTO, 2005, p. 29). guesa o objeto criado (o Estado) adquire
uma forma independente que subjuga o
Essa ordem sócio-política reedita, com seu criador (o homem), alienando-o.
novas delineações históricas, aquele Es- Agora, desmistificado é Estado político,
tado político analisado genericamente pela separado do Estado real, o homem real – o
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indivíduo social, o trabalhador, o povo – que ele se contenta com a aparência des-
que é transfigurado em Estado não- sa solução e a faz passar pela coisa mes-
político. Outorga-se uma condição essen- ma [<]‛ (MARX, 2005a, p. 93).
cialmente contraditória ao próprio Esta-
do moderno, assim como às políticas pú- O Estado político supracitado se oculta,
blicas; à mesma medida que inclui o ho- em sua essência, pelos mesmos fenôme-
mem real (o trabalhador), ao reconhecer nos que o revelam na sua aparência –
algumas de suas demandas, simultane- armadilha na qual, segundo Marx, foi
amente, o faz por meio da negação do apanhado Hegel ao contentar-se na per-
seu próprio ser (social), gerando um ser cepção da contradição apenas na sua ex-
político (o cidadão) separado e estranha- terioridade –, isto é, a alienação do ho-
do do ser social. Na conjuntura hodierna mem enquanto ser social (trabalhador)
na qual se efetivam as políticas públicas, feito Estado não político, que não se reco-
o trabalhador explorado sob o capital nhece politicamente, salvo num ser polí-
pode adquirir direitos sociais e até exer- tico (cidadão abstrato) alheado de sua
cer alguma participação política no Esta- condição social; trabalhador despolitiza-
do; no entanto, não pode deixar de ser do criticamente que está por trás deste
explorado socialmente (materialmente). cidadão abstrato, um homem acritica-
Mantém-se um indivíduo explorado, mente politizado (pseudopolitizado). Ao
portador de direitos sociais, os quais, o homem que tem oculto em si, e de si
Estado tenta garantir por meio das polí- mesmo, uma cisão no seu próprio ser,
ticas sociais. A rigor, a contradição clás- entre o social (excluído enquanto Estado
sica é apurada em sutilezas da ordem não político) e o político (alienado en-
sociopolítica contemporânea para corro- quanto Estado político), resta ser social-
borar em cada indivíduo na sociedade mente controlado sob a ilusão de exercer
aquilo que deve ser garantido na totali- algum controle social, num complexo
dade das relações sociais. Numa palavra, mecanismo de alienação sociopolítica
a separação entre o Estado político e o Es- que endossa um Estado igualmente cin-
tado não político se configura de tal ma- dido, entre o político (princípio formal) e
neira que só pode ser percebido adequa- o não político (princípio material e da
damente como uma contradição sui gene- exploração social).
ris. Nesta, conforme destacou Marx ain-
da na sua crítica a Hegel, ‚[...] o elemen- Nessa ordem sociopolítica, somente a-
to político-estamental não é, precisamen- quelas demandas sociais do Estado não
te, outra coisa senão a expressão fática da político (o povo, a sociedade civil) reco-
relação de Estado e sociedade civil, sua nhecidas formalmente no Estado político
separação‛ (MARX, 2005a, p. 93) – isso, (a Constituição, as instituições, os direi-
após desvelar a grandeza e o equívoco tos) terão alguma probabilidade de obter
hegelianos: ‚O mais profundo em Hegel resposta na forma de políticas públicas
é que ele percebe a separação da socie- (sociais), segundo seus limites e sua na-
dade civil e da sociedade política como tureza contraditória, que refletem a pró-
uma contradição. Mas o que há de falso é pria contradição nuclear no que tange à
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Sociedade, Estado e política social...

relação entre Estado e sociedade aqui CIGNOLLI, Alberto. Estado e força de


discutida. Na arena política, tal dinâmica trabalho: introdução à política social no
essencialmente supõe muito mais a for- Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1985.
ma como as forças são postas no conflito
de interesses (luta de classes), do que FALEIROS, Vicente de Paula. A política
alguma formalização meramente abstra- social no estado capitalista: funções da
ta de conteúdo (jurídico, político, institu- previdência e assistência sociais. 10. ed.
cional) dessas demandas. A manutenção São Paulo: Cortez, 2007.
da alienação entre o político e o material
numa ordem sociopolítica, assim como LESSA, Sérgio. Trabalho e Proletariado
foi demonstrada, exerce papel essencial e no capitalismo contemporâneo. São
decisivo na reprodução das relações so- Paulo, Cortez, 2007.
ciais vigentes a partir do seu vínculo in-
dissociável com a ordenação da esfera MANDEL, Ernest. O capitalismo tardio.
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