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UNIVERSIDADE FEDERAL DO MATO GROSSO

INSTITUTO DE GEOGRAFIA, HISTÓRIA E DOCUMENTAÇÃO - IGHD

VITOR GODOY DE MELO

ANÁLISE DO LOTEAMENTO PARQUE UNIVERSITÁRIO EM FERNANDÓPOLIS-SP

Cuiabá
2021
UNIVERSIDADE FEDERAL DO MATO GROSSO
INSTITUTO DE GEOGRAFIA, HISTÓRIA E DOCUMENTAÇÃO - IGHD

VITOR GODOY DE MELO

ANÁLISE DO LOTEAMENTO PARQUE UNIVERSITÁRIO EM FERNANDÓPOLIS-SP

Relatório do desenvolvimento da pesquisa


apresentado ao curso de graduação em
Geografia, na disciplina de Geografia Urbana,
pertencente a instituição de ensino UFMT, sob a
orientação da professora Sônia Regina Romancini
para a obtenção parcial de nota.

Cuiabá
2021
INTRODUÇÃO

O presente projeto de pesquisa foi motivado pela escassez de registros e


análises da produção do espaço urbano da cidade de Fernandópolis, no interior do
estado de São Paulo, bem como de seus bairros. Concentrando-se no bairro Parque
Universitário, no qual a família do pesquisador reside há 8 anos, tempo pelo qual pôde
observar pontos conflitantes e problemáticos.
Assim como objetivo geral, almeja-se contribuir para o registro e à crítica do
espaço urbano fernandopolense, colaborando para um melhor entendimento da
produção desse espaço urbano.
Adotou-se como objetivos específicos ao analisar o Parque Universitário :
● identificar suas características gerais enquanto projeto e obra executada,
considerando suas particularidades;
● analisar suas transformações articulando-as com aspectos funcionais,
técnicos, sociais e locais.
Para tanto, fez-se necessário a adoção de certos procedimentos, como
pesquisas em materiais bibliográficos impressos e digitais, em documentos de cartório
de registro de imóveis e da prefeitura municipal e em publicações antigas e atuais de
veículos de comunicação locais e regionais, evitando o contato presencial entre
pessoas ao atender a recomendação de inúmeras entidades, entre elas a Organização
Mundial da Saúde (OMS) na busca de diminuir a disseminação do coronavírus,
causador da pandemia de Covid-19.
Durante o processo de pesquisa e embasamento teórico, encontrou-se algumas
dificuldades em encontrar material sobre o espaço urbano da cidade, bem como sua
documentação. Logo, mostra-se de grande interesse a caracterização do município,
buscando ainda, a inserção do leitor no contexto local.

Fernandópolis - breve histórico e caracterização

A imagem abaixo traz a demarcação da cidade de Fernandópolis (em amarelo)


no território paulista, distante 550 km da capital, São Paulo (em cinza claro) e, cerca de
80 km das divisas com os estados do Mato Grosso do Sul e Minas Gerais.
Fonte: IBGE - Cidades Estados

Até o final do século XIX, os sertões da Alta Araraquarense, no noroeste


paulista, permaneciam incultos pela inexistência de vias de comunicação, que se
faziam necessárias pela grande criação de gado no sul do Mato Grosso e em Minas
Gerais cujas tropas precisavam seguir um longo percurso via Uberaba-MG para
alcançar Barretos-SP, ponto de forte comercialização.
Assim, na década de 1890, por iniciativa e interesses privados foi aberta a
estrada Boiadeira (estrada do Taboado), ligando Paranaíba (MT) à Barretos, por meio
de Rio Preto-SP, passando pelo porto do Taboado, até então na divisa com Mato
Grosso, atualmente Mato Grosso do Sul. (FERNANDÓPOLIS, 1996)
Os latifúndios que deram origem a cidade de Fernandópolis foram beneficiados
pela abertura da via terrestre, que era a única, de acesso a essa região paulista e que
possibilitou a entrada os precursores dos povoados que começaram a fixar-se a partir
do levantamento topográfico realizado pelo Estado, em 1918.
“Na sequência, a ferrovia, o café e o desenvolvimento da agricultura
consolidaram a região e aceleraram o processo de povoamento através de contínua
migração”. (FERNANDÓPOLIS, 2020)
Entre as primeiras famílias que se estabeleceram, estão os Pereira, os Arnaldo
da Silva e os Cáfaro, que adquiriram terras e iniciaram suas lavouras de café nas
proximidades das fazendas Santa Rita e Marinheiro e que viriam a fundar o patrimônio
Vila Pereira em 1939. Bem como os Barozzi, que fundaram outro, denominado
Brasilândia em 1938.
Essas vilas pertenciam ao município de Tanabi, na época, o maior do estado.
Logo surgiram as rivalidades entre elas, na disputa pela liderança no progresso
almejando a elevação a município na reformulação da divisão territorial e administrativa
do Estado São Paulo prevista para 1945.
Para alcançar tal objetivo é sugerido, em 1943, pelo interventor federal Fernando
Costa, a unificação das vilas Pereira e Brasilândia para que juntas pudessem ser
reconhecidas como um município. Sendo assim, Fernandópolis é a resultante da união
desses dois patrimônios ditos rivais, cujo escolha do nome, obviamente, se deu por
homenagem ao interventor.
Por anos a cultura do café encabeçou a economia local, mas ao longo das
décadas, e pela diversidade do solo, outras foram se destacando, como a de algodão,
milho, amendoim e laranja.
Atualmente, a cidade encontra-se na busca de tentativas para ampliar seu
desenvolvimento, entre elas o recente reconhecimento como pólo turístico, incentivado
pelas águas termais provindas do aquífero guarani. E, também a frustrada Zona de
Processamento de Exportação - ZPE que não se consolidou.
Para trazer informações de forma objetiva, organizou-se os dados mais
recentes, disponibilizados no site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas na
tabela abaixo:

Descrição Quantificação / Classificação Observação/Fonte

Área territorial 549.797 km² IBGE 2020

População 64.696 habitantes / 69.402 hab. Censo 2010 / estimada 2020

Densidade demográfica 117,62 hab/km² IBGE 2010

Esgotamento Sanitário 98,1% IBGE 2010


adequado

Arborização de vias 98,5% IBGE 2010


públicas
Urbanização de vias 24,1% Censo 29
públicas

Bioma Mata Atlântica Transição entre Mata


Atlântica e Cerrado. IBGE
1993

Hierarquia urbana Centro Subregional A (3A) REGIC / IBGE 2018


Município integrante do Arranjo
Pop. de Fernandópolis/SP

Região de Influência Arranjo Populacional de São REGIC / IBGE 2018


José do Rio Preto/SP - Capital
Regional B (2B)

A economia da cidade gira em torno de Serviços e comércios (67,69%), das


Indústrias (29,35%) e, também, da Agropecuária (2,97%), que embora pequena é
responsável pelo dinamismo econômico, proveniente da produção agrícola em culturas
temporárias, imperando as de cana de açúcar, permanentes, com a laranja e outros
citros e, ainda a bovinocultura de corte e leite.

Ademais, de acordo com Fernandópolis (2021), diariamente o município recebe


um grande fluxo à procura de serviços e educação, destacando-se nessa área, de nível
técnico, a Escola Técnica Estadual Prof°. Armando J. Farinazzo, e de nível superior, a
Fundação Educacional de Fernandópolis e a Universidade Brasil, ambas instituições
privadas com cerca de 4000 alunos cada e forte influência regional, atingindo a estados
vizinhos, como Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Goiás.

Da somatória de estudantes, considerável quantidade mora em Fernandópolis


por temporada, o que intensifica o movimento e consumo durante os períodos letivos.
Atuando inclusive no valor dos aluguéis e de imóveis em bairros mais próximos às
faculdades, como é o caso do bairro, objeto de análise do presente estudo, o
Loteamento Parque Universitário.
Fonte: Google Earth

O mapa acima mostra a malha urbana de Fernandópolis, evidenciando:

● em vermelho: a rodovia Euclides da Cunha (SP-320) que incorporou alguns


trechos da antiga estrada boiadeira;
● em laranja: a principal avenida da cidade, Avenidas Expedicionários Brasileiros,
na porção abaixo da SP-320,e sua continuação, para além da referida rodovia,
denominando-se, a partir daí, como Avenida Augusto Cavalin, que se confunde
com a rodovia estadual SP-527;
● em amarelo: também uma das principais avenidas, Av. dos Arnaldos, antiga
avenida 4, que representa um dos eixos de crescimento da cidade, fazendo
limite ao bairro analisado;
● em magenta: a delimitação do loteamento Parque Universitário no tecido urbano
de Fernandópolis;
● nos círculos brancos: localização das duas instituições de ensino superior
mencionadas, na porção norte, a FEF e, na sul, a UniBrasil, praticamente vizinha
do bairro estudado.
Para melhor ilustrar a espacialidade de Fernandópolis, elencou-se algumas
imagens, que estão disponíveis, no site da prefeitura municipal:

Fonte: Site da Prefeitura Municipal de Fernandópolis

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Buscando melhor organização da pesquisa, dividiu-se em tópicos as diversas


informações levantadas, bem como os aspectos analisados:

Parque Universitário

O Parque Universitário se localiza na porção sul do município de Fernandópolis,


com limites bem marcantes como:
● o ribeirão Santa Rita, cujo entorno é protegido por legislação federal,
considerado Área de Preservação Permanente (APP);
● a Avenida dos Arnaldos, uma dos eixos de crescimento da cidade, classificada
como Via interbairros pela legislação urbana;
● a rodovia municipal, vicinal Carlos Gandolfi, que dá acesso a Universidade
Brasil, Usina Coruripe e aos municípios de São João das Duas Pontes e Estrela
d’Oeste, ladeada pelos trilhos da ferrovia, linha tronco da antiga Estrada de
Ferro Araraquara
● Área de propriedade privada, no limite da urbanização do município, cujo uso se
volta, predominantemente, ao plantio de cana de açúcar.

A imagem a seguir, exibe o Loteamento Parque Universitário, ressaltando bem


os limites mencionados, como a Avenida dos Arnaldos (em amarelo) e a rodovia Vicinal
Carlos Gandolfi, paralela a linha férrea.

Fonte: Google Earth

Histórico e informações gerais

A primeira menção da área onde viria a ser implantado o loteamento


confunde-se com a do município, como visto na citação e no croqui abaixo
Após a fundação das “vilas” Brasilandias e Pereira, os moradores
da região, imbuídos da necessidade de desbravar para
comunicar, abrem caminhos em direção ao rio Grande, seguindo
a margem direita do córrego Santa Rita (...). Estava feita a
ligação com Minas Gerais. (FERNANDÓPOLIS, 1996, p.16)

Fonte: Livro Nossa História, Nossa Gente, 1996

Essas demarcações representam as regiões pioneiras da colonização dos


sertões da Alta Araraquarense, inicialmente distribuídas em latifúndios que com
decorrer do tempo são parcelados, em formas de glebas dando origem aos vários
povoados e vilas que surgiram ao longo das proximidades com a estrada boiadeira,
posteriormente unindo-se para criação e instalação das cidades existentes.
Ainda é possível encontrar porções menores dessas grandes propriedades,
como a que, atualmente abriga o bairro, constando em sua identificação, de janeiro de
1995, “propriedade rural encravada na Fazenda Santa Rita, com denominação especial
de Fazenda União (…)” (FERNANDÓPOLIS (SP), 1997, p. 01), de propriedade
majoritária da Família Arakaki.
Enquanto loteamento, o Parque Universitário foi registrado, em 27 de novembro
de 1997, a partir do parcelamento da Fazenda União que fora incorporada ao perímetro
urbano vinte e dois dias antes, com data de 05 de novembro de 1997. Nesse ponto,
questiona-se: coincidência? Certamente, que não, mas apesar do jogo de interesses o
projeto do loteamento foi aprovado, determinando-se um cronograma para a execução
das obras de arruamento e infraestrutura, cuja conclusão era prevista para o final de
1999.
O projeto original, de autoria do arquiteto José Carlos de Lima Buena, era
composto por cerca de 1467 lotes residenciais distribuídos em 56 quadras, com
previsão de população na casa dos 7300 habitantes. Os demais dados relacionados
são expostos no quadro de áreas abaixo:

Quadro de áreas

Área Total 993.506,66 m² / 99,35 ha 100%

Densidade Bruta prevista 139 hab/ha -

Área Non Aedificandi 48.833,27 m² / 4,88 ha 4,92%

Sistema Viário 266.586,08m² / 26,65 ha 26,83%

Área Residencial 527.671,24 m² / 52,76 ha 53,11%

Área Institucional 51.063,76 m² / 5,10 ha 5,14%

Sistema de Lazer (verde) 99.352,31 m² / 9,93 ha 10%

Área Comercial não foram previsto lotes para uso exclusivamente


comercial

Plana (0-5%) 67,76%


Declividade
Inclinada (5-10% 32,24%

Fonte: Cartório de Registro de Imóveis e Anexos de Fernandópolis. RG - Livro nº 2 -


R.3 M.29887
Problemáticas

Projeto e Execução

Por meio de análise dos mapas e informações obtidas em documentos


constantes em cartório e em conversas via email e telefone, com funcionários da
prefeitura, levantaram-se problemáticas relacionadas ao projeto de urbanismo
aprovado e ao processo de execução do loteamento. Entre eles:

● A destinação de áreas residuais como sistema de lazer do bairro, resultantes da


adequação do traçado às APPs, que evidentemente não são apropriadas para o
uso público e foram executadas sequer com calçadas, obrigado o pedestre a
dividir o percurso com os veículos;
● A designação dos terrenos institucionais em porções mais favorecidas ou
privilegiadas, próximas às avenidas em detrimento do sistema de lazer, que, por
vezes não são plenamente ocupadas com o interesse público, sendo ainda,
previsto em legislação municipal a doação de parte destes terrenos institucionais
para propriedade privada, quando “comprovado o interesse público”.

Um exemplo é a implantação da escola adventista no bairro, trazida abaixo, foi


uma dessas doações, na qual é possível se contestar o interesse público, uma vez que
para matricular-se é necessário o pagamento de mensalidades.

Fonte: Site Escola Adventista. Disponível em:


https://fernandopolis.educacaoadventista.org.br

● A superficialidade como é tratada a topografia local, que embora levemente


inclinada não recebeu devida atenção, criando-se longas ruas perpendiculares
às curvas de nível. Isso gera pontos críticos, com acúmulo de água e de
resíduos, próximos à cota mais baixa, principalmente em épocas chuvosas
comprovando a problemática apontada por Mascaró (2015) para esses tipo de
implantação;
● Os erros durante as obras de arruamento, que deslocou algumas vias devido às
incorretas medidas de distâncias com as APPs.
● Falhas no cálculo e na execução da infraestrutura, como na instalação de
iluminação pública das vias maiores, que foi entregue com iluminação
atendendo apenas um de seus lados e principalmente, como na de drenagem e
condução das águas pluviais que recentemente passou por reformas e
adequações em alguns trechos, como nos mostrados a seguir:

Fonte: Acervo do autor

Zoneamento

Em relação ao zoneamento urbano, está alocado, predominantemente, na Zona


1 (Z1) com faixas de 50m paralelas à avenida dos Arnaldos e à avenida Aldo Livoratti,
no Corredor Comercial 2 (CC2). (FERNANDÓPOLIS,1986). Como representado em
seguida:

Fonte: Prefeitura de Fernandópolis

Ao analisar esse recorte do zoneamento, pode-se afirmar que a parte constante


na CC2 lindeira às APP e ao córrego Santa Rita aponta para uma contradição na
própria legislação, uma vez que se permite um maior adensamento, chegando até 4,5
vezes a área do terreno, ao lado de uma área de preservação com proteção federal,
não ocupável, podendo trazer danos em relação ao proteção do córrego pelo aumento
do fluxo de veículos pequeno e grandes e, também prejudicar, ainda mais, o sistema de
drenagem pluvial do bairro, que já encontra-se defasado pela multiplicação do número
de lotes e diminuição das áreas permeáveis dentro dos terrenos, além de outras falha
nos processos de projeto e execução.
Fonte: Acervo do autor

Além disso, como observado nas fotos acima, do trecho em questão, seriam
necessárias obras de adequação da via que atende à essa CC2, assim como, sua
infraestrutura, uma vez que apresenta padrão de via local. Para alívio imediato, a maior
parte dos lotes voltados à ela estão ocupados por residências, mas isso não garante a
permanência desse uso menos conflitante. Logo, torna-se necessário a revisão da
localização dessa zona, Corredor Comercial 2. Ainda que permaneça no bairro, mas de
modo que possibilite melhor aproveitamento de espaço e infraestrutura existente,
apresentando mais coerência com o adensamento permitido.
Para tanto, sugere-se o remanejamento desse Corredor Comercial 2 para a Rua
Eladia Esser, que atravessa a porção central do bairro, com praticamente o dobro da
largura e infraestrutura disponível que as outras ruas locais.
Por si só, essa tipologia já atrai a instalação de comércios, que preferem ruas
mais movimentadas e com acesso facilitado, como é o caso da sugerida, que faz a
principal articulação de fluxos do bairro.

Rua Eladia Esser nas proximidades da Av. dos Arnaldos. Fonte: Google Street View

Rua Eladia Esser em porções mais adentro do bairros Fonte: Acervo do autor

Dessa forma, o recorte do zoneamento urbano proposto foi esboçado sobre a


imagem de satélite do bairro, buscando facilitar o entendimento. Assim, ficariam como
Z1, toda a parte azul, sendo ocupada por CC2 as porções em amarelo (Av. dos
Arnaldos) e em laranja (Rua Eládia Esser).
Nota-se uma linha tracejada roxa, essa seria uma alternativa para uma zona de
corredor comercial, para os próximos anos, justamente por apresentar as mesmas
características da Rua Eládia Esser. E, além disso, por estar previsto um anel viário
futuro que conectará várias partes da cidade de forma direta. Nessa região, passará
próxima ao limite do Parque Universitário e a UniBrasil, incorporando o trecho da
vicinal Carlos. Dessa maneira, a tracejada roxa busca articular não só o bairro em
questão a essa obra planejada, como também, servir de elemento integrador com os
bairros vizinhos, do outro lado do Ribeirão Santa Rita, que já se mostra necessária.

Fonte: Google Earth

Áreas livres e Equipamentos públicos

Apesar de contar com quase 10 ha de áreas livres públicas, a maioria não é


utilizada para essa finalidade e permanece vazias. Enquanto isso, as pistas para
caminhada e ciclismo, que se espremem nas vias duplas (centrais e fundo), entre o
leito carroçável e o canteiro central, sustentam todo o lazer do bairro, sendo apoiada
por uma pequena academia ao ar livre rodeada por alguns bancos, exposta à insolação
direta e pouco convidativa.
Fonte: Acervo do autor

Outra pendência analisada é em relação à equipamentos públicos, de apoio à


saúde e à educação, que têm à sua disposição mais de 5 ha, mas que apresenta uma
tímida ocupação, sendo essa por uma creche municipal e unidade básica de saúde. O
que também é constatado pela inexistência de pontos de ônibus e calçadas
continuamente acessíveis.
Essa ausência, faz com que os próprios moradores improvisam espaços de
convivência e de lazer, se apropriando de áreas próximas às APPs e dos canteiros
centrais de vias para criá-los, mas que infelizmente tem uma pequena durabilidade,
justamente por exigir manutenção e cuidados periódicos, o que não impede esses
usuários de propor novas intervenções, que são exibidas abaixo:
Fonte: Acervo do autor

Desmembramento e Adensamento

Outra problemática analisada é a multiplicação da quantidade de lotes


inicialmente proposta pelo arquiteto responsável, 1467 unidades e que, agora é
praticamente impossível a contabilização senão à de um levantamento específico.
Isso se deve, muito provavelmente, pela proximidade com universidade brasil, o
que incentiva a escolha do bairro para a moradia de muitos estudantes, evidenciado
ainda pelo surgimento de novas tipologias no bairros, os edifícios de pequenos
apartamentos ou kitnets, como exemplificado nas imagens abaixo:

Fonte: Acervo do autor

Mais um fator que contribuiu significativamente para os desmembramentos e


adensamento foi a ampliação nos últimos anos do antigo programa social do governo
federal, Minha casa, minha vida, de incentivo à compra da casa própria, facilitando seu
financiamento para as famílias de renda baixa e média baixa.
Assim, proprietários de vários terrenos e construtores locais viram a
oportunidade de multiplicar seus lucros, ao dividir um lote inteiro em dois ou três, até
então, permitido pela legislação, desde que com largura mínima de 5m de testada.
Essas ações trouxeram tipologias muito próximas, e até mesmo idênticas, geradas pela
construção simultânea de uma série de residências e resultando em uma certa
monotonia no bairro, que pode causar conflitos ao se dificultar a localização de
determinado local por pessoas que não moram no bairro e de novos moradores. Da
mesma forma que pode causar confusão em serviços de entregas e correspondências.
Portanto, como visto, a própria prefeitura tem sua parcela de responsabilidade,
que embora tenha revisto e alterado, para maior, essa medida mínima de testada do
lote, não se aproximou das problemáticas já criadas na intenção de solucioná-las, mas
sim tratá-la de modo genérico como faz com os demais bairros.
Prova disso é o mapa constante na secretaria municipal de obras, que traz o
desenho original do loteamento, que desde o início de sua execução, passou por
alterações muito consideráveis, mas que ainda não foi atualizado na base geral que
serve para todas as outras secretarias, como também para levantamentos e
planejamento urbano.
Logo, a fim de verificar tal adensamento para efeitos de demonstração e debate,
elencaram-se três quadras vizinhas, que se encontram praticamente ocupadas por
completo, para fazer uma comparação do número de lotes originalmente executados e
o que parcelado atualmente.

Fonte: Prefeitura Municipal de Fernandópolis e Google Earth, respectivamente


Da esquerda para à Quadra 2A Quadra 2B Quadra 2C
direita

Nº lotes projetados 34 34 34

Nº residências existentes 50 57 49

Nº lotes vazios 05 01 06

Aumento de (%) 61,76% 70,59% 61,76%

Fonte: produzida pelo autor

A tabela confirma o referido adensamento, constatando-se uma adição de


52,94% da população prevista para essas três quadras levantadas, que a princípio era
de 357 habitantes e, agora, é de 546 habitantes, levando em consideração o número
de 3,5 residentes por domicílio no município, de acordo com os dados fornecidos pelo
IBGE.
Para mais, essa problemática criou novas e acentuou outras já existentes, como:
● da Infraestrutura, no sistema de drenagem de águas pluviais e esgotamento
sanitário, com registro na prefeitura de relatos de moradores com problemas de
entupimento e retorno de esgoto, provavelmente devido ao aumento do número
de residências previstas que impactam no seu dimensionamento;
● da falta de arborização dos passeios públicos, que devido a redução da largura
dos terrenos, acabam ficando somente em desenhos de projeto
● da escassez de espaços de uso públicos, que tem ainda, uma maior demanda.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A realização desta pesquisa contribuiu demasiadamente para inúmeras questões, entre


elas:
● A produção do conhecimento prático em geografia urbana, possibilitando uma
melhor interpretação e aplicação do conteúdo teórico abordado na disciplina
homônima;
● Um conhecimento mais aprofundado sobre o bairro em questão, muito
importante no processo da formação e consolidação da memória coletiva e do
vínculo com o lugar
● A aproximação mais íntima do autor com seu bairro, influenciando inclusive na
escolha da temática que será abordada em seu trabalho final de curso, na área
de arquitetura e urbanismo (Parque Linear do Ribeirão Santa Rita).

Durante o desenvolvimento da presente análise, foram encontradas dificuldades


em relação à identificação de material específico sobre a cidade e, principalmente
sobre o bairro, mas que não impediram sua continuidade, sendo contornadas com o
auxílio de mapas, imagens de satélites, documentos em cartório, pontuais artigos
online e conversas com profissionais direta ou indiretamente relacionados às questões
urbanísticas do município de Fernandópolis.
Pode-se afirmar que a prefeitura municipal é falha ao ser permissiva na
aprovação e execução de projetos, bem como na não proposição junto à câmara dos
vereadores, de uma legislação urbana mais condizente, responsável e que dificulte a
decisão do rumo da cidade pelo mercado, que agora, passa lotear novas parcelas em
praticamente todas direções da cidade.
Assim, nas imediações do Parque Universitário tem aumentado o surgimento de
condomínios fechados horizontais, que trazem prejuízos imensuráveis à cidade e aos
seus habitantes.
É preciso melhor desenvolver zonas que já estão urbanizadas, promovendo uma
maior oferta de serviços, equipamentos públicos e qualidade de vida para essas
pessoas que habitam não só o Parque Universitário, que deve-se reconhecer ainda,
seus privilégios, mas também as outras dezenas de bairros que apresentam inúmeras
e mais acentuadas problemáticas e carências. Recomenda-se ainda, a adoção de
medidas para controle da especulação imobiliária, como o IPTU progressivo.
Para mais, é essencial que se priorize a mobilidade urbana, e aí não só a de
veículos, como é feito. E sim todo um sistema voltado ao transporte coletivo, ao
pedestre e aos ciclistas, de modo a propor intervenções urbanísticas para integração
dos bairros, como por exemplo o Parque Universitário e os bairros do outro lado do
Ribeirão Santa Rita, Morada do Sol, Jardim Pôr do Sol, entre outros.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DURÃO, VITOR C. M. A IMPORTÂNCIA DA ANÁLISE URBANA EM INTERVENÇÕES


NA CIDADE EXISTENTE: TRANSFORMAÇÃO DO TERRITÓRIO DE LISBOA E
OCUPAÇÃO DO SOLO. XIII JORNADAS DA ASSOCIAÇÃO DOS URBANISTAS
PORTUGUESES, PÓVOA DO VARZIM, maio 2010. Disponível em:
https://www.academia.edu/934180/A_import%C3%A2ncia_da_an%C3%A1lise_urbana
_em_interven%C3%A7%C3%B5es_na_cidade_existente#:~:text=Por%20outro%20lad
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abr. 2021

FERNANDÓPOLIS (SP). Cartório de Registro de Imóveis e Anexos de Fernandópolis.


Registro Geral - Livro nº 2 - R.3 M.29887. Registro em: 27 nov. 1997.

FERNANDÓPOLIS. Lei Nº 1082, de 06 de janeiro de 1986. Estabelece normas de


ocupação do território do município de Fernandópolis e dá outras providências.
Fernandópolis: Prefeitura Municipal (1986).

FERNANDÓPOLIS Prefeitura Municipal. Histórico, 2020. Disponível em:


https://www.fernandopolis.sp.gov.br/a-cidade/historico. Acesso em abril e maio de 2021.

FERNANDÓPOLIS, Prefeitura Municipal. Nossa história, nossa gente. Fernandópolis,


São Paulo, 1996.

FERNANDÓPOLIS Prefeitura Municipal. Site da Prefeitura Municipal de


Fernandópolis, 2021. Disponível em: https://www.fernandopolis.sp.gov.br/a-cidade.
Acesso em abril e maio de 2021.

IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Cidades: Fernandópolis.


Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sp/fernandopolis. Acesso em abril e
maio de 2021.

MASCARÓ, Juan Luis. Loteamento Urbanos. 2. ed. Porto Alegre, Rio Grande do Sul:
Masquatro Editora, 2005.

SILVA, Vicente de Paulo da. O bairro na pequena cidade: para além da identidade, o
conflito. Geo UERJ, Rio de Janeiro, 18 maio 2015. Nº.28, p. 26-43, DOI
10.12957/geouerj.2016.16483. Disponível em:
https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/geouerj/article/viewFile/16483/16428.
Acesso em: abr. 2021.

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