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Relatório de

monitoramento da política
para a infância e
adolescência no município
de Fortaleza
2010
realização
Expediente
Este é um relatório produzido pelo Cedeca Ceará.
Rua Deputado João Lopes, 83, Centro, Fortaleza - Ceará.
Sítio eletrônico: www.cedecaceara.org.br.

O Cedeca Ceará é uma organização não-governamental sem fins


lucrativos, fundada em 1994, como fruto da articulação de entidades
da sociedade civil, movimentos sociais e instituições voltadas à defesa
da criança e do adolescente. A missão da organização é defender os
direitos de crianças e adolescentes, especialmente quando violados
pela ação ou omissão do poder público, visando o exercício integral e
universal dos direitos humanos. Neste sentido, trabalhamos
associando intervenção jurídica, mobilização social e comunicação
para direitos com vistas à construção de uma sociedade que exercite
plenamente os direitos humanos infanto-juvenis.

Equipe do Cedeca Ceará


que participou das visitas de monitoramento:
Aline Baima, Bruna Gurgel, Carlos Roberto Neto, Clézio Freitas, Isabel
Sousa, Luciana Brilhante, Roberta Medeiros, Sonayra Gleika e Talita Maciel
Relatório de
Equipe do Cedeca Ceará monitoramento
que elaborou os textos deste Relatório: da política para
Aline Baima, Carlos Roberto Neto, Clézio Freitas, Isabel Sousa, Laudenir
Gomes, Luciana Brilhante, Mara Carneiro, Nadja Furtado, Roberta a infância e
Medeiros, Sonayra Gleika e Talita Maciel adolescência no
município de
Fortaleza
Edição: Aline Baima.
Revisão: Aline Baima e Nadja Furtado
2010
Diagramação: gigi castro
Foto da capa: retirada de uma reportagem do Jornal O Povo

Fortaleza, agosto de 2010.


Sumário

Introdução ................................................................................. 3

Programa Crescer com Arte................................................... 4

PETI .......................................................................................... 6

Abrigos de Fortaleza............................................................... 10

Rede Aquarela.......................................................................... 14

Liberdade Assistida................................................................. 16

Conselhos Tutelares .............................................................. 21

Relatório de Considerações finais .............................................................. 25


monitoramento
da política para
a infância e
adolescência no
município de
Fortaleza

2010
Introdução
A realidade enfrentada por crianças e
adolescentes em Fortaleza nos é revelada
cotidianamente, através das notícias veiculadas
nos meios de comunicação, das denúncias que
recebemos no Cedeca, do contato com os
Fóruns, redes e outras Ongs que atuam na área
da infância e com as próprias comunidades.

O grave problema gerado pelo aumento do


consumo de crack, a falta de locais para
tratamento da drogadição, a carência e as más
condições dos abrigos para crianças e No relatório, também constam informações
adolescentes em situação de rua ou vítimas de sobre os orçamentos dos
maus-tratos, os problemas em relação à programas/projetos, obtidos na Lei
aplicação das medidas socioeducativas de Orçamentária Anual. Nessa análise,
liberdade assistida, a situação das crianças e optamos por visitar alguns dos
adolescentes vítimas da exploração do trabalho equipamentos/projetos desenvolvidos pela
infantil e das vítimas de exploração sexual e do Prefeitura Municipal de Fortaleza, por meio
tráfico de seres humanos é bastante conhecida da coordenadoria da Infância da Secretaria
pela sociedade. Para constatá-la, basta uma Municipal de Direitos Humanos, e um
caminhada pelas ruas da cidade ou mesmo projeto que passou recentemente a ser
folhear diariamente as páginas dos jornais. executados pela Secretaria de Assistência
Diante dessas situações, como Centro de Social, a fim de que pudéssemos ter uma
Defesa, precisamos encaminhar o atendimento a amostra significativa da realidade deles.
cada um dos casos que nos chega à rede de Desta forma, foram visitados todos os
proteção à infância. Neste momento – e também Conselhos Tutelares do município, todos os
em muitos casos que nos são relatados – nos núcleos da Liberdade Assistida de
confrontamos com os problemas na política Fortaleza, três unidades do PETI, seis
para a infância e adolescência em Fortaleza e, às unidades do Crescer com Arte, dois abrigos
vezes, até mesmo a falta dela em algumas áreas. (A Casa das meninas e a Casa dos Meninos -
os dois únicos executados pela própria
Analisando a partir do que determina a prefeitura, pois os restantes são
legislação brasileira sobre as políticas para conveniados) e a Rede Aquarela.
crianças e adolescentes e confrontando com as Relatório de
informações divulgadas pela Prefeitura Esperamos que esse relatório possa
Municipal de Fortaleza, decidimos identificar os contribuir com avaliação das políticas para a monitoramento
projetos e programas executados pela PMF na infância e adolescência no Município e que
área da infância e verificar in loco a situação e ele auxilie no controle social e no
da política para
aplicação dos mesmos na prática. Para isso, monitoramento das políticas públicas para a infância e
visitamos os equipamentos, entrevistamos os esse segmento. A pergunta que nos norteou
profissionais envolvidos nos projetos, fizemos foi: a prioridade absoluta na formulação e execução adolescência no
registros fotográficos e aplicamos um de políticas públicas para infância e adolescência na
instrumental de análise, que captou informações cidade de Fortaleza está sendo garantida? município de
como: a estrutura física dos locais de
Equipe do Cedeca Ceará Fortaleza
atendimento do programas, a equipe de trabalho
dos projetos, capacidade e quantidade de
pessoas atendidas, as atividades 2010
sociopedagógicas realizadas, dentre outras
questões que possibilitassem a identificação da
qualidade, efetividade, eficiência e abrangência
dos projetos/programas. As informações
relatadas aqui foram fornecidas pela própria
Prefeitura de Fortaleza, através dos seus 3
funcionários e funcionárias..
Programa Crescer com Arte e Cidadania
Considerações iniciais Sobre vagas
As unidades do programa não têm um
No município de Fortaleza, existem, ao todo,
processo integrado de divulgação.
dez unidades do Crescer com Arte, nas
Algumas o divulgam na comunidade,
Regionais: I, II, III, IV, VI e do Centro. A
através de jornais, eventos em escolas, no
Regional V não possui unidade do programa.
Conselho Tutelar, no Raízes da Cidadania
Dentre as unidades do programa, foram
e através do 'boca-a-boca'; ou então
visitadas seis.
apenas recebem crianças e adolescentes
que são encaminhados por outros
programas, como CAPS, Liberdade
O que é Assistida, CRAS e Conselho Tutelar. Têm
prioridade no atendimento aqueles que
O Crescer com Arte é um programa, são encaminhados por esses programas.
desenvolvido pela Secretaria Municipal de Para o preenchimento das vagas, é
Direitos Humanos, através da Coordenadoria da realizada seleção, que compreende
Infância e Juventude, com o objetivo de principalmente visita domiciliar e
desenvolver ações que estimulem o exercício da entrevista. Algumas unidades têm o
cidadania, o reconhecimento da identidade, o requisito de que a criança ou o adolescente
sentimento de pertença, despertando a esteja estudando. Quando o número de
consciência dos direitos humanos, através de vagas é insuficiente, as unidades registram
oficinas de arte-educação. Durante as a demanda reprimida em lista de espera.
entrevistas, foram apontados também como Percebemos que há uma variação entre a
objetivos do programa a realização do trabalho capacidade das unidades, pois, em três
com arte-educação junto a crianças e delas, foi declarado que a demanda na lista
adolescentes em situação de vulnerabilidade, de espera era muito grande, aliada à alta
para proporcionar-lhes uma vivência rotatividade do público atendido.
socioeducativa, retirar-lhes da ociosidade e
drogadição, combater a violência e realizar um A equipe e as condições de
acompanhamento familiar. trabalho
As unidades contam com números
Relatório de Público atendido oscilantes de profissionais. A Regional II
conta com a maior equipe, com 17
monitoramento profissionais. Já equipes, como a do
da política para O público atendido varia de acordo com as Centro, contam com 09 profissionais.
Consequentemente, também varia
unidades, mas a maioria atende adolescentes,
a infância e alguns atendendo também crianças a partir de 07 bastante o número de atendimentos por
unidade, sendo maior a concentração na
adolescência no anos. O perfil do público atendido compreende
em sua maioria crianças e adolescentes vítimas Regional I, que atende 95 crianças e
adolescentes com uma equipe de 10
município de de violência sexual, em situação de rua e/ou de
profissionais. As equipes recebem
drogadição e adolescentes em cumprimento de
Fortaleza medida socioeducativa em meio aberto (LA). formações temáticas mensais, com
exceção da Regional III que, na entrevista,
É importante destacar que as atividades informou que a Prefeitura não oferece
2010 desenvolvidas pelos cresceres são por vezes nenhuma capacitação.
utilizadas pela SDH como atividades
sociopedagógicas previstas no programa de A maioria das equipes tem como material
atendimento para alguns adolescentes que estão pedagógico de referência apostilas, folders,
cumprindo LA. Ou seja, um projeto é utilizado textos e indicações de livros e CDs, porém,
para atender a demanda de atividades na Regional VI, recebemos a informação
4 de que a equipe não tem acesso a esse tipo
sociopedagógicas de outra política.
de material. Como material de apoio, todas
as equipes contam com materiais de oficina e Em relação ao acompanhamento escolar,
materiais para atividades lúdicas e prática de as unidades variam na compreensão e nas
esportes, aparelhos de som e DVD e televisão. atividades realizadas. Metade das unidades
Nem todas as unidades têm computadores e declarou que não realiza e, entre as que
poucas têm acesso à internet. Nenhuma possui realizam, disseram que fazem reforço
aparelho de fax. Apenas duas possuem escolar ou estudo de caso feito pelos
impressoras, apenas uma funcionando e, em educadores sociais. Uma das unidades
muitas, há computadores e impressoras com visita a escola e traz cópia do boletim
defeito. As unidades fazem rodízio no uso do bimestral e outra unidade vai à escola
carro durante dois dias da semana, com limite de apenas para verificar quando o aluno a
quilometragem. Cinco unidades afirmaram que abandonou. Em metade das unidades
o uso do carro que lhes é disponibilizado é visitadas não há oferecimento de bolsa.
insuficiente para o acompanhamento familiar e Nas outras, são eleitos cerca de 20
escolar. monitores, que recebem uma bolsa de R$
100,00. No acompanhamento familiar, as
Estrutura equipes realizam visitas domiciliares e
reuniões mensais, nas quais são feitos
Analisando o aspecto físico das unidades, a acompanhamentos individuais e estudos
maioria funciona em imóveis próprios, com de caso. Duas unidades oferecem oficinas
exceção da Regional I, na qual o Programa ou capacitações para as famílias, durante as
funciona em um imóvel cedido pela associação reuniões mensais.
da comunidade. As unidades têm, em média, 07
cômodos, com a exceção da Regional I, que tem O tempo máximo de permanência de uma
16 cômodos; e da unidade do Centro, que não criança ou adolescente no programa é de
tem sede. Para atividades de lazer, as unidades 02 anos, mas algumas unidades não
utilizam, em sua maioria, espaços da limitam esse tempo de permanência,
comunidade, como parques e quadras de observando a necessidade individual. Em
escolas. Poucas são as unidades que têm quadra uma unidade visitada, que atende apenas
própria ou quintal. Das seis unidades visitadas, crianças, o tempo limite de permanência é
verificamos, em cinco delas, necessidade de a idade de 12 anos. Quando acontece o
adequações e reformas nas instalações, sendo os desligamento do programa, duas unidades
principais problemas encontrados as afirmaram que encaminham o adolescente
infiltrações, a ventilação, a falta de pintura e a para programas profissionalizantes, como
falta ou precariedade dos bebedouros. o Adolescente Cidadão e Primeiro Passo.
Outras duas unidades dão orientação para
Atividades sociopedagógicas a família para que procure outro projeto Relatório de
ou o Conselho Tutelar, mas não
As atividades desenvolvidas pelas equipes encaminham institucionalmente. Uma monitoramento
consistem em práticas de esportes (futebol,
capoeira), oficinas de música, teatro, dança e
unidade afirmou que não faz
encaminhamento após o desligamento e da política para
artes visuais, sendo que as linguagens variam
entre as unidades. Também são realizadas
outra não informou. a infância e
atividades externas, em eventos como as Percebemos claramente a falta de adolescência no
Semanas de Direitos Humanos e visitas a integração entre os programas de
equipamentos culturais. Metade das instituições atendimento ao público infanto-juvenil, município de
visitadas funciona de segunda a sexta-feira e as
outras funcionam apenas três vezes por semana,
que, após sair de um programa, não tem Fortaleza
encaminhamento institucional para outro
sendo terça e quinta-feira o dia para realização e p o d e m vo l t a r à s i t u a ç ã o d e
de planejamento, capacitações e visitas vulnerabilidade. 2010
domiciliares. Além das atividades do projeto,
apenas duas das unidades visitadas realizam Sobre o Projeto
acompanhamento domiciliar e o atendimento Destacamos no programa alguns casos
da Regional II compreende, além das visitas, peculiares, que demonstram as diferenças
encaminhamento para atendimentos médicos e no atendimento realizado. Na Regional
odontológicos e encaminhamento para o VI, além dos recursos limitados para o 5
Programa Primeiro Passo. desenvolvimento das atividades, o
Prog rama enfrenta um problema de Na Regional III, o programa parou de
territorialidade, que afeta também as crianças e funcionar de novembro de 2009 até março
adolescentes atendidos. O projeto está de 2010, devido à falta de alimentação, o que
localizado numa região muito perigosa, vários continua sendo um problema para a
profissionais já sofreram assaltos e não há unidade, cujo profissional afirmou que a
nenhuma segurança na unidade. Ainda tem um licitação para fornecimento de alimentação
problema que alguns adolescentes precisam ser está parada desde setembro do ano passado.
transportados de carro das suas casas para o Alguns dados orçamentários podem
projeto e vice-versa, pois têm conflitos com representar melhor a execução dessa política
outros adolescentes que moram nas no município, tal como exposto logo em
proximidades do projeto, conflitos de gangues seguida.
vizinhas.
Na unidade do Centro, que está sem sede Execução realizada entre
desde o ano passado devido a problemas
2006 e 2009
burocráticos, o funcionamento é bastante
prejudicado pela falta de estrutura, contando Analisando somente pela ótica do
apenas com uma sala e um banheiro. Segundo o crescimento, os dados orçamentários deste
profissional, a unidade necessita de uma sede equipamento são positivos. Houve uma
com estrutura para a realização das oficinas, queda de 22,98% entre 2006 e 2007, de 410
além de um jardim, galinheiro, galpão e mil para 316 mil, mas, já em 2008, ocorre um
banheiros para adolescentes e funcionários, pois aumento considerável de 141,84%, ou seja, o
tem apenas um banheiro. Para as atividades de recurso executado passa para 765.195 mil
lazer, a unidade usa atualmente o espaço do reais. Em 2009, foi para 863.372,54 mil reais,
parque das crianças. A falta de estrutura faz com aumento de 12,84%.
que as atividades realizadas sejam fragmentadas,
sendo atendidos apenas 30 adolescentes, No entanto, se calcularmos um custo médio
quando a meta é de 80. A unidade não oferece de cada unidade de Crescer com Arte as
almoço. A equipe é a menor entre todas as informações não são tão positivas, pois
unidades, com apenas oito profissionais: dois temos R$ 86.337,254 por ano para cada
arte-educadores pela manhã, dois à tarde, três Crescer, o que significa R$ 7.194,77 por mês
educadores sociais no acompanhamento para a gestão de cada unidade. Considerando
socioeducativo e um agente administrativo. que os custos incluem pagamento de pessoal
Na Regional III, a pessoa entrevistada afirmou (arte educadores e coordenação), estrutura,
que já aconteceu de um adolescente, após passar material pedagógico, material para oficinas e
dois anos no programa, sair e voltar para as ruas, alimentação essa é uma quantia irrisória e
Relatório de sobrevivendo catando lixo para reciclagem.
Além da falta de integração, o programa conta
que não garante de fato a realização das
atividades, o que vem a corroborar com a
monitoramento com recursos escassos, demonstrados na análise feita deste equipamento, quando
limitação dos recursos materiais e humanos, percebemos a falta de estrutura, de materiais
da política para além do não-oferecimento de capacitações aos pedagógicos e precarização dos
profissionais.
a infância e trabalhadores.

adolescência no PETI - Programa de Erradicação do


município de Trabalho Infantil
Considerações iniciais
Fortaleza O PETI compõe o Sistema Único de
Assistência Social (SUAS) e tem três eixos
Em Fortaleza, existem 21 unidades do PETI (5
unidades executadas pela Prefeitura e 16 em básicos: transferência direta de renda a
2010 conveniamento com Ongs). Durante o famílias com crianças ou adolescentes em
monitoramento, foram visitadas 3 unidades do situação de trabalho, serviços de convivência
PETI, nos bairros José Walter, Conjunto e fortalecimento de vínculos para
Palmeiras e Planalto Pici. crianças/adolescentes até 16 anos e
O que é acompanhamento familiar, através do Centro
É um programa de transferência direta de renda de Referência de Assistência Social (CRAS) e
6 do governo federal para famílias de crianças e Centro de Referência Especializado de
adolescentes envolvidos no trabalho precoce. Assistência Social (CREAS).
Objetivo Hoje, Fortaleza acompanha 1.847 crianças
Erradicar as chamadas piores formas de trabalho e adolescentes saídas da situação de
infantil no País, aquelas consideradas perigosas, trabalho infantil. Elas freqüentam a escola
penosas, insalubres ou degradantes. Para isso, o em um turno e participam de atividades
PETI concede uma bolsa às famílias desses socioeducativas no outro período do Em
meninos e meninas, em substituição à renda que visitas realizadas em algumas unidades de
traziam para casa. Em contrapartida, as famílias atendimento do peti, foram encontradas
têm que matricular seus filhos na escola e fazê- as fragilidades que apresentamos a seguir.
los freqüentar a jornada ampliada. Sobre vagas
Público-alvo
Nos 03 (três) PETIs visitados, havia sobra
Famílias com crianças e adolescentes na faixa de vagas, ou seja, as unidades tinham a
etária de 7 a 16 anos incompletos envolvidos em previsão de atender 100 crianças e
atividades consideradas como as piores formas adolescentes e, em nenhuma delas, estas
de trabalho infantil. Essas atividades foram vagas estavam totalmente preenchidas. O
regulamentadas pela Portaria nº 20, de 13 de PETI da Regional V, por exemplo, atende
setembro de 2001, da Secretaria de Inspeção do apenas 30 pessoas. O Estado do Ceará
Trabalho, do Ministério do Trabalho e Emprego. figura no 3º lugar no ranking nacional de
Entre elas, podem ser citadas as atividades em exploração do trabalho infantil. Somente
carvoarias, olarias, no corte de cana-de-açúcar, na Região Metropolitana de Fortaleza,
nas plantações de fumo e nos lixões. estima-se que existem 56 mil crianças e
adolescentes em situação de trabalho
Valor do benefício (dado da Pesquisa Nacional por Amostra
Famílias cujas crianças exercem atividades típicas de Domicílios - Pnad/2008).
da área urbana têm direito à bolsa mensal, no
valor de R$ 40 por criança. As que exercem Como é possível, dado o número de
atividades típicas da área rural recebem R$ 25,00 crianças e adolescentes trabalhadores em
ao mês para cada criança cadastrada. Fortaleza, sobrar vagas? Que prioridade a
O PETI em Fortaleza Prefeitura de Fortaleza e sua rede
socioassistencial estão dando à situação do
Até o final do ano passado, o programa era trabalho infantil?
executado pela FUNCI (Fundação da Criança e
da Família Cidadã), através da coordenadoria de Não há um único modo de ingresso no
políticas de enfrentamento ao trabalho infantil, programa. Na maioria das vezes, as
porém, a partir deste ano (2010), o PETI está crianças e adolescentes do projeto foram
sendo executado pelo Centro de Referência encaminhadas/os pelo Conselho Tutelar, Relatório de
Especializado de Assistência Social (CREAS),
dentro do Serviço de Proteção e Atendimento
das Raízes da Cidadania ou por indicação
de alguma família que está no Programa. monitoramento
Especializado a Famílias e Indivíduos (PAEFI).
Através do CREAS, a SEMAS acompanhará o
Ou seja, não existe divulgação do PETI da política para
nem um esforço, por parte do Poder
trabalho desenvolvido pelas quinze executoras
do Programa – sendo 11 entidades conveniadas e
Público Municipal, na erradicação do a infância e
trabalho infantil. Não há sequer a
quatro unidades da Prefeitura. preocupação em preencher as vagas já adolescência no
As ações do Programa de Erradicação do
existentes no Programa. município de
Trabalho Infantil (PETI) são executadas em
parceria com entidades da sociedade civil
Fortaleza
conveniadas à Prefeitura, através da SEMAS.
2010
A SEMAS montou uma equipe formada por 12
(doze) educadores sociais, 8 (oito) arte-
educadores, 1 (um) assistente social, 1 (um)
pedagogo, além de coordenadora, supervisora
do trabalho de educação social e apoio
administrativo, para dar suporte as ações do 7
programa.
Equipe e condições de trabalho Em alguns PETIS não há aparelho de som
Um problema encontrado no Programa foi com e/ou estão com a televisão sem funcionar,
relação à equipe. Em dois PETIs visitados, não tem materiais didáticos, brinquedos,
constatamos que só trabalham 02 nem carro para visitas domiciliares. No caso
educadoras/es sociais e 01 cozinheira/o para do PETI do José Walter, a equipe organizou
dar conta de desvincular as crianças e um bazar e, com o dinheiro, comprou
adolescentes do trabalho perigoso, penoso, brinquedos e montou uma brinquedoteca.
insalubre e degradante; realizar No entanto, ela está desativada devido à
acompanhamento escolar; proporcionar queda da divisória das salas.
atividades socioeducativas; realizar orientação e
acompanhamento familiar, dentre outras ações.
Ou seja, os objetivos do programa não são
atendidos. Em alguns PETIs, o horário de As atividades
atendimento é reduzido. Não existe um horário sociopedagógicas
de funcionamento unificado entre todos os
PETIS. No do Conjunto Palmeiras, por
exemplo, não há atividades às terças e quintas. O A falta de estrutura das instalações físicas,
PETI da Regional III funciona das 08h às somadas à uma equipe reduzida e à falta de
10h30min e das 13h às 16h30min. Já no PETI recursos pedagógicos, de material de oficina
do José Walter, o funcionamento é das 8h30min dificulta a realização das atividades do
às 11h e das 13h30min às 16h30min. Isso programa. Pelo previsto, as crianças e
demonstra desorganização e falta de unicidade adolescentes deveriam ter, atividades de
do programa. Os/as educadores alegam que c o m p l e m e n t a ç ã o e s c o l a r, l ú d i c o -
essa redução no horário de atendimento é pedagógicas e formação para a cidadania,
devido à falta de estrutura para o trabalho e à com oficinas temáticas, além de esportes e
falta de segurança dentro do equipamento. atividades de lazer.

Os/as educadores afirmam que, na maioria das


vezes, não é feito o acompanhamento escolar, Na prática, não há material de subsídio
que eles/as não têm material de estudo pedagógico para as/os educadores
disponibilizado pela Prefeitura, ficam a mercê realizarem as atividades e tampouco há
dos planejamentos mensais. Dizem, ainda, que material para as oficinas. Quando muito, as
não conseguem realizar um constante diálogo crianças e os adolescentes recebem papel e
com as famílias e que muitas atividades não são lápis, que, dada a qualidade e quantidade, não
de governabilidade do PETI, pois são atividades chegam a durar um mês. Também não
Relatório de dos equipamentos nos quais o Programa está existem materiais para atividades esportivas.
sediado, o que consiste numa dificuldade, pois Para jogar, os os/as meninas/os precisam
monitoramento não trabalham com a realidade concreta desse improvisar umas bolas.
público.
da política para Estrutura
a infância e As instalações físicas são precárias. Os PETIs
não têm equipamento próprio, geralmente
Em alguns casos, por estarem localizados
em uma sede onde funcionam outros
adolescência no dependem das instalações de outros equipamentos, alguns PETIS conseguem
equipamentos públicos, como os CSUs estabelecer parcerias para que as crianças e
município de (Centros Urbano Social) ou algumas associações adolescentes atendidos pelo programas
Fortaleza da sociedade civil (nestas a estrutura é melhor).
Os CSUs têm uma aparência de abandono,
possam usufruir dos espaços e atividades
realizadas por outros projetos. É importante
paredes envelhecidas, com mofo e tintura destacar que, muitas vezes, essas parcerias
2010 caindo. Alguns deles são muito quentes, como o são realizadas por iniciativa dos profissionais
do Conjunto Palmeiras. No que é situado no que estão na execução do programa e não
Conjunto José Walter, há goteiras em todo o teto representam uma política institucional. As
e todas as pias da cozinhas estão com defeito - atividades são, na verdade, um grande
funcionam apenas com um artifício feito pela esforço criativo dos/das educadoras/es para
cozinheira. Além disto, as salas são pequenas, as dar conta de uma jornada de 08h de trabalho,
8 cadeiras estão quebradas e o piso inviabiliza com pouco ou nenhum material ou pessoal
qualquer atividade no chão. de apoio.
A política de enfrentamento ao Existia também outra ação orçamentária
trabalho infantil: do real ao ligada à erradicação do trabalho infantil, o
ideal “fortalecimento do PETI”, 2006-07, com
a qual nunca foi gasto nada. Nos anos
O Estado do Ceará ocupa o 3º lugar no ranking seguintes, o recurso nem entrou. O nível
nacional de exploração do trabalho infantil. de execução da função destinada à
Somente na Região Metropolitana de Fortaleza, erradicação ao trabalho infantil nunca foi
como já citado, estima-se que existem 56 mil acima de 65%. Em 2009, foi de 64,65%,
crianças e adolescentes em situação de trabalho. sendo que o orçamento aprovado na LOA
O município de Fortaleza atende hoje 1.847 2009 foi de R$ 2.206.962,00, mas foi gasto
crianças e adolescentes, em 15 unidades de apenas 1.426.906,40, 64,65%.
atendimento do Programa, sendo que 11 dessas
unidades são convênios com associações da
sociedade civil e apenas 4 são unidades da
Prefeitura.
A política não só é insuficiente como
ineficaz, pois, além de atender um público
A Organização Mundial do Trabalho (OIT) pequeno, o atendimento realizado não
proíbe toda e qualquer forma de abuso e tem qualidade. Não é possível erradicar o
exploração do trabalho infanto-juvenil, os trabalho infanto-juvenil com as atuais
estados que assinam o tratado devem garantir condições desses equipamentos. Para que
com prioridade políticas para erradicar essa uma criança, adolescente ou família seja
for ma de violência contra crianças e convencida a substituir o trabalho pelo
adolescentes, porém, o que constatamos, ao Programa, ele precisa ser, de fato, um
vermos de perto a execução dessa política no diferencial, capaz de atrair e fornecer
município, é que, da forma como o programa outras possibilidades.
vem sendo executado não é possível sequer
amenizar ao problema.

O número de atendidos pelo Programa em Tirar as crianças das ruas, do trabalho para
Fortaleza é ínfimo, diante da quantidade de deixá-las ociosas, em um lugar, sujo, feio,
crianças e adolescentes em situação de trabalho. quente e sem atividades de lazer, não pode
ser considerado uma política de
enfrentamento ao trabalho infantil. Se
Orçamento do Programa fossem atendidas pelos menos as Relatório de
premissas previstas pelo Ministério de
Desenvolvimento Social (MDS), já monitoramento
Os dados orçamentários em relação à execução
da política nos últimos anos também deixam
teríamos um bom começo.
da política para
claro que esta política não vem recebendo a
devida atenção pelo governo municipal. Na
a infância e
execução, realizada entre 2006 e 2009, há uma O ideal seria que, de fato, as ações do adolescência no
queda de recursos aplicados desde 2006. Programa pudessem fazer com que as
crianças não voltassem para o trabalho, município de
frequentassem a escola e que o programa Fortaleza
2006: R$ 2.774.249,74 promovesse condições para que as
famílias tenham uma vida digna, com
acesso às políticas básicas, com condições 2010
2009: R$ 1.426.906,40. - 48,57% de se sustentar. Para isso, o PETI precisa
ser uma política integrada, pois, muitas
vezes, os pais que exploram também têm
De 2008 para 2009: - 5,51% seus direitos violados. É um círculo
vicioso que não será quebrado com
políticas de faz de conta. 9
Abrigos de Fortaleza - Casa dos Meninos
e Casa das Meninas

É no seio da família e da sua comunidade que


os direitos devem ser universalizados. O
Estado deve, portanto, garantir condições
para que as famílias possam garantir a
educação e a efetivação dos direitos dos
seus/suas filhos/as, e não adotar medidas de
institucionalização como primeira medida.

Para quem adota a concepção da


Considerações iniciais institucionalização e da higienização, duas
Em Fortaleza, a prefeitura mantém dois abrigos e são as medidas encontradas: os abrigos e as
custeia mais 144 outras vagas em regime de adoções. Os abrigos funcionando para as
conveniamento com outras entidades. Durante o crianças e adolescentes em situação de rua,
monitoramento, foram visitadas as duas unidades defendidos assim por uma visão higienista,
mantidas pela Prefeitura – a Casa das Meninas e a pelos que consideram essas crianças um
Casa dos Meninos. risco permanente para segurança pública,
pois são as “classes perigosas”. As adoções
O que são também são medidas defendidas por parte
A Casa das Meninas e Casa dos Meninos são da sociedade, que argumenta que “é melhor
abrigos geridos pela Prefeitura Municipal de que esta criança e/ou adolescente seja
Fortaleza, integrados ao Programa Ponte de incluída numa família rica com condições de
Encontro: “programa de abordagem de rua que integra e criá-la, educá-la e dar condições de vida, do
fortalece a rede de proteção a crianças e adolescentes em que continuar a viver em uma família pobre”.
situação de moradia de rua, disponibilizando atendimento A pobreza, muitas vezes, é justificativa para a
psicossocial, ambulatorial e arte-educativo” (sítio perda do poder familiar e desfiliação.
eletrônico da Prefeitura Municipal de Fortaleza- SDH).
Apesar do pressuposto de nos
Algumas considerações sobre o contrapormos a esta visão
Relatório de acolhimento institucional institucionalizadora, defendemos que, em
monitoramento Temos como pressuposto inicial o direito à algumas situações, é necessária a colocação
de crianças e adolescentes em abrigos, em
convivência familiar e comunitária e
da política para compreendemos os abrigos dentro deste direito. caráter excepcional e temporário, o que as
recentes alterações na lei de adoção vieram
a infância e com
Compreendemos que é fundamental rompermos
a cultura da institucionalização de crianças e corroborar quando estabelece um prazo de
adolescência no adolescentes, que tem fortes precedentes 02 anos para a permanência de crianças e
adolescentes nesses espaços. Temos isso
históricos e que ainda hoje se realiza em algumas
município de cidades do país. Essa cultura é estimulada a partir também como direito das crianças e
de uma visão de que, para essas crianças, é uma adolescentes, a partir de um entendimento
Fortaleza oportunidade, pois terão condições de sair de mais alargado do que seja o direito à
uma situação de pobreza nas suas famílias. convivência familiar e comunitária. Frente a
isso, é uma obrigação do Estado que os
2010 abrigos sejam espaços adequados e que
Compreendemos crianças e adolescentes como
sujeitos, que devem ter os seus direitos humanos garantam todos os direitos e o
efetivados na sua integralidade, portanto não se desenvolvimento integral das crianças e
pode, com o argumento da garantia do direito à adolescentes que lá estejam. Elencamos, a
educação, à saúde, negar às crianças e seguir, alguns aspectos sobre a garantia ou
10 adolescentes pobres o direito à convivência violação dos direitos humanos de
familiar e comunitária. adolescentes abrigados/as.
Numa avaliação mais geral, percebemos que não como de saúde, em casos de drogadição; e
existem, em Fortaleza, abrigos públicos para proteção, para aqueles/as ameaçados de
crianças do sexo feminino. As duas casas abrigos morte. Pelo fato de não haver, em
recebem somente adolescentes e um abrigo Fortaleza, um programa que garanta esses
conveniado realiza a política para crianças do direitos dos/das adolescentes , eles são
sexo masculino. O primeiro questionamento que encaminhados/as para as Casas, ficando
fazemos é: privados do convívio familiar e
comunitário.
como garantir direitos de crianças que
necessitam de abrigamento? Fortaleza não tem uma política para tratar a
Outra questão que trazemos é sobre a prevenção drogadição de adolescentes que necessitam
dos conflitos familiares: de uma atenção especializada. O que temos
que política a Prefeitura Municipal em Fortaleza são os CAPS AD, que
funcionam como política complementar
desempenha com o objetivo de garantir o para alguns casos de drogadição, mas não
direito à convivência familiar e são efetivos para a grande epidemia do
comunitária, a partir de ações de crack em Fortaleza. - uma droga com alto
poder de causar vício, que debilita
prevenção às situações de abrigamento? adolescentes e jovens, causando sérios
Sobre os conveniamentos: problemas psiquiátricos e físicos, devendo,
por esta razão, ser tratada como uma
por que a Prefeitura decidiu conveniar questão de saúde pública grave. Existem 6
maior parte do atendimento em abrigos, (seis) CAPS AD em Fortaleza, com uma
ao invés de executar a política, política de atendimento psicológico e
psiquiátrico tanto para adultos como para
articulando-a ao trabalho das adolescentes de 16 e 17 anos. No entanto, o
Secretarias e órgãos da própria que percebemos é que falta uma política
Prefeitura? que alie, nos casos de drogadição, uma ação
ambulatorial, para os momentos de crises e
para os processos de abstinência etc, com o
atendimento psicológico e psiquiátrico.
Além disso, o número de unidades CAPS
AD não suporta a demanda de adolescentes
drogadictos na cidade. Em razão disso, os
CAPS já formam grandes filas de espera
para o atendimento. Existem 02 CAPS
Infantil que tratam crianças e adolescentes,
Relatório de
incluindo a drogadição. monitoramento
Na Casa dos Meninos estavam abrigados 13 da política para
Perfil dos/as adolescentes
(treze) adolescentes, sendo que 9 (nove)
deles foram acolhidos em razão da
a infância e
abrigados/as: abrigos estão dependência química e ameaça de morte e 4 adolescência no
funcionando para atender a (quatro) por estarem morando na rua. Na
inexistência de políticas de Casa das Meninas estavam abrigadas 14 município de
proteção e de saúde para (quatorze). Não nos foram informados o
perfil e as razões da entrada de cada uma,
Fortaleza
crianças e adolescentes
O perfil da maioria do público atendido nos dois mas foi relatado que a maioria delas
abrigos é de adolescentes com necessidade de também estava em situação de drogadição e 2010
tratamento terapêutico para drogadição e/ou ameaça.
necessitando de proteção, por encontrarem-se As equipes dos espaços também nos
ameaçados em suas comunidades. relataram que esta tem sido uma prática do
Juizado da infância: encaminhar
Observa-se com isso que esta sendo aplicada adolescentes drogadictos, que deveriam ter
uma política de abrigamento para atender o atendimento de saúde adequado, para os 11
adolescentes que necessitam de outras políticas, abrigos.
Esta medida tem sido aplicada também a
adolescentes autores de atos infracionais, que
deveriam estar cumprindo medida
socioeducativa. Os entes (Executivo e Judiciário)
transferem a responsabilidade um para o outro e
não buscam ir ao cerne da questão, portanto
ambos devem ser responsabilizados por esta
conduta: a Prefeitura, por não ter espaços
adequados para as condições destes adolescentes,
e o Juizado, por encaminhar os adolescentes para Sobre vagas
os abrigos, na ausência de local apropriado. A Casa das Meninas e a Casa dos Meninos
Os/as adolescentes são “depositados” nestes não estão recebendo a quantidade de
espaços, sem receberem tratamento adequado, crianças e adolescentes prevista (total de 20
simplesmente como forma dos gestores da para cada unidade). Devido aos problemas
política darem alguma resposta àquelas famílias, na estrutura, a capacidade real de
mesmo sabendo que, com esta prática, não abrigamento destes locais é reduzida. Na
estarão resolvendo o problema de fato. Casa das Meninas, por exemplo, são 2 (dois)
quartos apenas. A coordenadora nos
informou que a capacidade real, nas
Na entrevista, a equipe falou que “os abrigos condições atuais do abrigo, é para, no
acabam sendo a extensão dos centros máximo, 14 (quatorze) meninas.
educacionais, pois, de lá os adolescentes chegam e
daqui acabam lá, até completar os 18 anos de
idade”. Estrutura

Quanto às instalações físicas, o que


Sobre a questão da drogadição, entrevistamos verificamos é que as duas Casas funcionam
alguns adolescentes que relataram o momento de em espaços inadequados para o
abstinência da droga. Eles dizem que, muitas funcionamento de um abrigo. São duas
vezes, a abstinência gera transtornos psicológicos grandes casas, com uma boa área não
e, em muitos casos, os adolescentes chegam e vão construída de terreno, no entanto, o prédio
logo embora, por não suportarem aquele tem uma apresentação extremamente
momento sem nenhum amparo ambulatorial. desgastada, tanto na estruturação física
quanto na aparência geral das paredes, dos
quartos, salas e banheiros. As paredes das
duas casas estão sujas, tanto externamente
Relatório de Quanto aos adolescentes ameaçados de morte, os quanto internamente. Os quartos da Casa
monitoramento abrigos buscam suas próprias medidas de dos Meninos têm problemas de ventilação,
proteção: o/a adolescente não pode sair da casa não são arejados. Os guarda roupas
da política para abrigo, não pode participar das atividades individuais estão em péssimas condições
(sem portas e com cupins).
a infância e escolares (a depender do caso, iniciam após um
período de adaptação), não podem receber
adolescência no telefonemas e visitas. Os coordenadores de Nas duas Casas, existe um banheiro interno,
para ser utilizado durante a noite, e os
ambos os espaços afirmam não ter a mínima
município de estrutura de segurança para garantir a vida dos/as banheiros externos para os banhos e uso
abrigados/as ameaçados de morte, pois não diário. No entanto, eles têm péssimas
Fortaleza estão preparados para isso, já que a política não se estruturas, além de serem em pouca
destina a estes casos. As duas casas abrigos quantidade para o número/ capacidade dos
contam com 4 (quatro) vigilantes em abrigos. No abrigo dos meninos, são 2 (dois)
2010
revezamento, portanto, em cada período, trabalha banheiros em condições extremamente
1 (um) vigilante patrimonial. Se o caso de ameaça precárias: com descarga quebrada, paredes
tratar-se de policiais, que é comum, de acordo sujas, pequenos; o das meninas possui 4
com a gestão dos abrigos, o adolescente é (quatro) chuveiros, no entanto alguns
transferido para outro espaço, pois os chuveiros estão quebrados, e há somente 1
12 ameaçadores descobrem logo o local em que os (uma) pia no banheiro coletivo. Os
ameaçados estão, tendo estes que deixar a Casa. banheiros não possuem portas.
As Casas, além dos problemas físicos e de
Inserção na escola
construção, não possuem ambientação. Não
visualizamos nada que personalize o local, que Na Casa dos Meninos, os adolescentes são
indique que moram adolescentes. São poucas as obrigados a estudar à noite, no EJA
marcas identitárias nos espaços. São lugares (Educação de Jovens e Adultos). A Escola
“frios”, sem sofás, sem móveis típicos de uma alega que, por falta de alguns documentos,
casa, o que as torna bastante impessoais e pouco eles não podem ser matriculados no turno
acolhedoras. diurno. Além disso, a supervisão do abrigo
Equipe e condições de trabalho relatou que alguns adolescentes, inclusive,
são atrasados na escolaridade, pois maior
A estrutura para o trabalho dos educadores e da parte são inseridos no nível 1 do EJA,
coordenação é também bastante precária. Cada qualquer que seja a idade ou a série que
casa só possui 1 (um) computador, sem acesso à concluiu antes de entrar no abrigo.
internet, sem fax e com impressoras sem
cartuchos para impressão. A equipe para as duas Quando o adolescente é inserido no abrigo,
Casas é de 13 (treze) educadores sociais, sendo 1 passa por um período de adaptação que
(um) de apoio volante (na casa dos meninos dura cerca de 15 a 30 dias, algumas vezes se
estava sem esse apoio), 1 (um) pedagogo, 1(um) prolongando por um tempo maior.
assistente social, 1(um) auxiliar administrativo, 2 Durante esta fase, o adolescente não é
(dois) serviços gerais, 1 (um) motorista, 2 (duas) matriculado na escola e não pode integrar-
cozinheiras e 4 (quatro) vigilantes. Cada Casa se à comunidade local.
tem um carro disponível, com limite de
combustível. A Casa dos Meninos colocou a Pressão para o desligamento
necessidade de outro carro para as visitas aos aos 18 anos
egressos. Na Casa das Meninas, nos finais de A partir de uma conversa com os meninos e
semana, é dividida a utilização o carro com a a gestão das Casas, consideramos
Rede Aquarela. importante trazer a preocupação quanto
aos adolescentes que completam 18 anos de
Atividades sociopedagógicas idade e saem do perfil de abrigamento.
As atividades pedagógicas acontecem nos
espaços coletivos da casa, como salas e varandas. Percebemos certa tensão de alguns jovens
Não existe uma sala apropriada para as atividades que se aproximam da idade limite do perfil
de oficinas, de rodas de conversas etc. Não há das Casas. Por essa razão, consideramos
equipamentos para oficinas, a não ser o material importante que a gestão atente para as
básico como cartolina, pincel, canetas, papel etc. condições dos/as adolescentes que
As atividades de arte-educação acontecem pelo completam 18 anos de idade e que ainda
perfil de cada arte -educador, não existe um não restabeleceram os vínculos familiares.
plano arte-educativo. Na verdade, a equipe Por princípio, os/as adolescentes não
Relatório de
aproveita as habilidade dos/as educadores/as podem permanecer por longos períodos monitoramento
para realizar algumas oficinas lúdicas. Nas Casas, nos abrigos, sem terem garantidos o direito
não existem salas de atendimento individuais, o à convivência familiar e comunitária, mas da política para
que já foi constatado como necessidade por também faz-se necessário que a prefeitura
parte da Casa abrigo dos Meninos.
a infância e
busque alternativas para assistência à
As atividades de lazer, na Casa das Meninas, são moradia e profissional para esses jovens adolescência no
realizado num espaço ao ar livre, com chão de adquirirem autonomia e visualizarem a
“cimento batido”, onde acontecem as práticas sustentabilidade de uma vida pós-abrigo. O município de
esportivas e oficinas. A coordenadora nos que ocorre é o desligamento compulsório
informou que algumas atividades acontecem em ou a pressão, quando eles completam os 18
Fortaleza
outros espaços da comunidade (equipamentos anos de idade (ou 21 anos de idade, no caso
públicos ou comunitários). daqueles que estão em cumprimento de 2010
Os/as coordenadores/as das Casas Abrigos nos medida socioeducativa). Defendemos a
informaram que já está prevista uma reforma há preservação dos vínculos familiares e
algum tempo, para ampliação e melhoria dos comunitários até um restabelecimento
espaços. Para Casa das Meninas, a reforma está definitivo, caso seja possível, ou
planejada para acontecer no mês de agosto. Não encaminhamento para adoção, caso não
temos informações quanto à reforma da Casa seja possível o restabelecimento com a 13
dos Meninos. família ampliada.
Programa Rede Aquarela

Considerações iniciais atualmente desenvolvendo a proposta na


Barra do Ceará. O trabalho desenvolvido
A análise do Programa foi realizada a partir de por esses núcleos compreende um
entrevista com a equipe do Espaço Aquarela, mapeamento das instituições que atuam
que compreende o núcleo de atenção com crianças e adolescentes na região, a
psicossocial de crianças e adolescentes vítimas sensibilização desses atores para o
de violência sexual e um abrigo. enfrentamento do fenômeno da violência
sexual, a construção de um diagnóstico, a
O que é partir de rodas de debates com as
O Programa Rede Aquarela, vinculado à comunidades, e de um plano operativo local
Coordenadoria da Criança e do Adolescente pelas instituições comunitárias envolvidas
(FUNCI), da Secretaria de Direitos Humanos de no processo, com vistas à formação de uma
Fortaleza, compreende ações na área de comissão executiva local do PAIR.
enfrentamento à violência sexual contra
crianças e adolescentes. Objetivo
O Programa mantém uma equipe na Delegacia
Especializada de Combate à Exploração de O Programa se propõe a desenvolver ações
Crianças e Adolescentes (DECECA), formada com vistas à garantia da proteção de
por uma Assistente Social, uma Advogada e crianças, adolescentes em situação de
duas Psicólogas, que têm por atribuição violência sexual no município e suas
acompanhar os casos, orientando e dando famílias, através do serviço de atendimento
suporte jurídico e psicossocial às vítimas e seus psicossocial e do fortalecimento do
familiares. Os casos que chegam à Delegacia são atendimento em rede.
encaminhados, pela equipe, ao Centro de
Referência Especializada de Assistência Social – Estrutura
CREAS ou para o Espaço Aquarela, outra
estrutura vinculada ao Programa Rede Aquarela.
A estrutura do Espaço Aquarela é
insuficiente para o atendimento da
No Espaço Aquarela, funcionam o núcleo de demanda existente. O núcleo de atenção
atenção psicossocial de crianças e psicossocial tem como meta 80
atendimentos por mês, mas sempre
Relatório de adolescentes vítimas de violência sexual e
um abrigo com capacidade para o acolhimento ultrapassa esse número, chegando a receber
monitoramento de 12 adolescentes do sexo feminino vítimas de até o dobro da sua capacidade. O resultado
disso é uma grande demora na realização do
exploração sexual e tráfico para fins de
da política para exploração sexual, com vistas à garantia do atendimento, chegando a ser marcado até
dois meses após o recebimento da
a infância e atendimento psicossocial e dos
encaminhamentos necessários à rede de demanda.
adolescência no atenção.

município de A equipe é composta por 03 (três)


Educadores, 02 (duas) Assistentes Sociais,
Além disso, o Programa dispõe de uma equipe
Fortaleza multidisciplinar, responsável pela disseminação 01 (uma) Psicólog a e 01 (uma)
da metodologia do Programa de Ações Coordenadora. O número reduzido de
Integradas e Referenciais de Enfrentamento à psicólogos tem como um dos motivos a
2010 Violência Sexual Infanto-Juvenil no Território dificuldade de contratação desses
Brasileiro (PAIR), que tem como foco o profissionais, por conta do valor da
fortalecimento dos territórios a partir da remuneração ser muito baixo. Além disso,
sensibilização e da mobilização das quando eles são contratados, permanecem
comunidades para o enfrentamento da violência por pouco tempo na equipe, prejudicando a
sexual. Já foram realizadas ações nos bairros da continuidade do atendimento e a
14
Serrinha e do Jangurussu, estando a equipe manutenção de vínculos com os atendidos.
Além da equipe reduzida, a carência de material Considerando que a violência sexual contra
de apoio também é um fator que compromete crianças e adolescentes é uma manifestação
diretamente a realização do atendimento a esse perversa das desigualdades de gênero, raça
público. Existe apenas um carro para a realização/ etnia, classe social e de geração que
das visitas, que ainda é dividido com o abrigo marcam a sociedade brasileira, não basta
Casa das Meninas. À época da visita, o diagnosticar o problema e sensibilizar a
atendimento domiciliar estava suspenso, porque população através de ações pontuais e de
o carro estava com defeito, sendo constante esse pouca efetividade para enfrentá-lo.
tipo de situação, bem como a falta de Necessário se faz garantir mecanismos para
combustível. Os computadores não têm acesso à isso, através do fortalecimento da rede de
internet. Faltam papel de fax e toner para a proteção como um todo, a partir da
impressora. realização de políticas integrais, sociais
O Espaço aquarela realiza o atendimento básicas e de proteção social especial,
psicossocial de crianças e adolescentes vítimas intersetoriais e dialogadas, para as crianças e
de violência sexual, provenientes das Regionais adolescentes envolvidos nesse processo.
III, IV e V de Fortaleza. Nos casos provenientes Sobretudo para o enfrentamento das
das Regionais I, II e VI, as vítimas são situações de exploração e tráfico com fins
acompanhadas pelo CREAS. Os serviços não sexuais, é imprescindível que se
são divulgados amplamente para a população, implemente uma rotina de atendimento
sendo a maioria dos casos encaminhada pela diferenciada, proporcionando outras
DCECA, Conselhos Tutelares e Comissões de formas de sociabilidade e fortalecimento da
Notificação e Prevenção aos Maus tratos dos autonomia desses sujeitos. Nesse sentido, a
Hospitais. É muito pequeno o número de conjugação de ações de geração de renda,
atendimentos a partir de demandas espontâneas. como por exemplo, através do incentivo e
apoio a cooperativas locais, que
No caso do abrigo, embora seja apresentado proporcionem às famílias possibilidades
com capacidade para acolher 12 adolescentes, a reais de romper com o ciclo da violência tão
estrutura da casa não suporta esse número, legitimado, e até mesmo naturalizado pela
sendo o espaço bastante restrito, com opinião pública em geral, apresenta-se
capacidade real para atender apenas 07 (sete) como uma das formas de fortalecimento
adolescentes. No período da visita, havia apenas dessa autonomia.
03 (três) adolescentes abrigadas.
O abrigo conta com uma equipe de 04 (quatro) Orçamento do Programa
Educadores, 01 (uma) Assistente Social e 01 A não priorização dessas ações resta
(uma) Psicóloga, que não seria suficiente para o
acompanhamento das meninas se o espaço
evidenciada ainda, quando da análise do
orçamento municipal. Na FUNCI, existe Relatório de
atendesse a capacidade prevista. uma ação específica para o atendimento a monitoramento
Não universalização do crianças e adolescentes vítimas de violência
atendimento sexual, entretanto os valores destinados a da política para
essa ação além de serem reduzidos,
As ações de sensibilização e mobilização atingem
uma pequena parcela da população, com possuem um baixo percentual de execução. a infância e
incidência em apenas três territórios (Serrinha, É o que se observa no orçamento de 2009, adolescência no
Jangurussu e Barra do Ceará). Os núcleos não quando foram gastos apenas R$ 84.078,19,
possuem estrutura própria e a equipe envolvida dos R$ 361.116,00 previstos para referida município de
ação, representando apenas 23,28% do
nas ações junto às comunidades é reduzida.
Embora reconheçamos a importância de se total destinado, havendo uma queda de Fortaleza
trabalhar a partir da realidade cotidiana gastos na ordem de 71,1% em relação à
identificada nos diferentes territórios da cidade, 2008, quando foram gastos R$ 290.000,00. 2010
a partir do olhar dos próprios atores das A partir do cenário apresentado, resta
comunidades, e de se implementar e fortalecer evidente a insuficiência das ações voltadas
uma rede local para o enfrentamento da violência ao enfrentamento da violência sexual no
sexual, consideramos que tais ações devem ser município de Fortaleza. Observamos que,
contínuas e sistemáticas, aliadas a outras apesar dos avanços alcançados nos últimos
estratégias que proporcionem alternativas anos, a partir da formulação de uma política 15
efetivas à superação da situação de violência. específica para o enfrentamento à violência
sexual contra crianças e adolescentes no finalidade, bem como em relação às
Município de Fortaleza, ainda são muitos os interfaces entre os diferentes programas e
desafios a serem superados, sobretudo no que projetos desenvolvidos na perspectiva da
toca à efetiva priorização dessas ações, através promoção e da proteção dos direitos de
da destinação de recursos com essa crianças e adolescentes.
Programa Se Garanta
Considerações iniciais Objetivo
O Programa Se garanta compreende as ações da O p r i n c i p a l o b j e t ivo d a M e d i d a
Liberdade Assistida e da Prestação de Serviço à Socioeducativa é pedagógico. Para tanto,
Comunidade, executadas pela Prefeitura além de cobrar do adolescente as obrigações
Municipal de Fortaleza. Aqui, trataremos exigidas pela medida, a equipe deve tomar
somente da Medida de Liberdade Assistida. Em uma série de outras providências, no sentido
Fortaleza, existem cinco núcleos da LA, de trabalhar seu contexto pessoal, familiar e
presentes nas Regionais I, II, III, V e VI. comunitário, a fim de garantir seus direitos,
Durante o monitoramento, todos os núcleos o que pode incluir encaminhamento para a
foram visitados. educação formal, retirada de documentos,
O que é tratamento de drogadicção, mediação de
A Liberdade Assistida é uma das seis Medidas conflitos familiares etc. Para conseguir
Socioeducativas previstas pelo Estatuto da trabalhar todas estas distintas dimensões da
C r i a n ç a e d o A d o l e s c e n t e. M e d i d a vida do adolescente, é necessário que a
Socioeducativa, por sua vez, é a medida aplicada equipe que acompanha o adolescente seja
como for ma de responsabilização do interdisciplinar, composta minimamente
adolescente considerado culpado pela prática de por profissionais do Serviço Social, da
um ato infracional - atos que, para um adulto, Pedagogia, Psicologia e do Direito.
seriam considerados crime ou contravenção
penal. Regulamentam as Medidas O Estatuto estabelece que as medidas
Socioeducativas, além do Estatuto da Criança e aplicadas a um adolescente considerado
do Adolescente, a própria Constituição Federal, culpado devem ser, prioritariamente, as
e o Sistema Nacional de Atendimento medidas em Meio Aberto, nas quais,
Socioeducativo (SINASE). apesar de estar sendo responsabilizado (e
Algumas considerações sobre punido), o socioeducando permanece no
as medidas socioeducativas seio familiar. E por considerar que, entre as
De acordo com o Estatuto, a principal diferença três esferas de governo – Federal, Estadual e
entre adultos e adolescentes é que estes se Municipal – esta última é a mais próxima da
Relatório de encontram em uma Condição Peculiar de realidade dos adolescentes e de suas famílias,
é que o SINASE recomenda que o
Desenvolvilmento. Isto significa que, ao
monitoramento contrário dos adultos, os adolescentes ainda atendimento das Medidas Socioeducativas
estão formando sua personalidade, seus valores, em Meio Aberto seja feito pelo município,
da política para sua maneira de se relacionar com o mundo, ao passo em que as Medidas em Meio
a infância e ainda estão acumulando as experiências que
norteiam suas decisões. Neste processo de
Fechado são de responsabilidade do
governo do Estado.
adolescência no formação diferenciado, os adolescentes são Na medida de Liberdade Assistida, a vida
muito mais influenciados nos seus processos de social do adolescente é acompanhada,
município de escolha – tanto por outras pessoas quanto pelas sobretudo no que diz respeito à família, à
Fortaleza próprias condições do meio onde vivem. É por
esse motivo que, ao contrário do que ocorre
escola e, se for o caso, ao trabalho. A
legislação é pouco clara sobre quais seriam
com as penas para adultos, para os adolescentes, as obrigações do adolescente na Medida
2010 a punição não é um fim em si mesmo, ou seja, a Socioeducativa, mas, em Fortaleza, o que se
Medida Socioeducativa não tem por objetivo tem cobrado dele é que mantenha boa
“vingar” a vítima do ato infracional. No Sistema frequência escolar, compareça
Socioeducativo a punição só existe enquanto ela semanalmente aos atendimentos técnicos
tiver potencial pedagógico, o que significa que com a equipe interdisciplinar, não esteja fora
ela só é aplicada enquanto, através dela, o de casa depois das vinte e uma horas e, claro,
16 adolescente puder aprender a construir uma que deixe de praticar novos atos
vida distante da prática dos atos infracionais. infracionais.
O que determina o SINASE
O SINASE define que o número de profissionais
da equipe da Liberdade Assistida tem que ser
dado pelo número de adolescentes atendidos, na
proporção de vinte adolescentes para cada
técnico.

Para que este atendimento personalizado possa


ser cuidadosamente acompanhado, é
imprescindível que, para cada adolescente, seja
elaborado um Plano Individual de Atendimento Programa Se Garanta: a
(PIA), no qual a equipe, a partir da realidade do Liberdade Assistida em
socioeducando, possa definir quais são os Fortaleza
procedimentos mais adequados para que a
medida seja efetiva.
Hoje, a Liberdade Assistida Municipalizada
conta com cinco Núcleos de atendimento
O espaço físico onde a medida é desenvolvida descentralizados, localizados nas Regionais
também tem de atender às necessidades da I, II, III, V e VI, não existindo um Núcleo na
equipe, dispondo, segundo o SINASE de “local regional IV, porque esta, segundo a PMF, não
específico para a sua execução, contando com salas de apresenta demanda suficiente que
atendimento individuais e em grupo, sala de técnicos e justificasse sua implantação. Os Núcleos
demais condições para garantir que a estrutura física contam com uma equipe técnica composta
facilite o acompanhamento dos adolescentes e seus de dois assistentes sociais, dois
familiares.” psicólogos, um pedagogo, um assessor
jurídico, além de uma equipe de apoio com
Assessores Comunitários, Educadores
Embora possa ser revista a qualquer tempo em Sociais, Agentes Administrativos,
casos excepcionais, a Medida de Liberdade Serviços Gerais e Motoristas.
Assistida, via de regra, tem duração de seis
meses. Findo este período, a equipe Vê-se, portanto, que, de acordo com as
interdisciplinar tem que enviar um relatório ao regras do SINASE e o número de técnicos
juiz, no qual descreve o comportamento, por equipe, a capacidade de atendimento
progressos e retrocessos do adolescente dentro de cada Núcleo de Liberdade Assistida seria
da medida, para que o magistrado possa tomar de 120 (cento e vinte) adolescentes, Relatório de
uma decisão: colocar o adolescente em uma respeitando-se a proporção de 20
medida mais severa, prolongar por mais seis adolescentes por técnico, ressalvando-se monitoramento
meses sua liberdade assistida ou liberá-lo. A
equipe interdisciplinar, monitorando a vida
que, para os Núcleos I e VI, a capacidade
seria de 140 (cento e quarenta adolescentes),
da política para
familiar, escolar e laboral do adolescente, teria uma vez que suas equipe conta com um a infância e
condições tanto de perceber se o socioeducando técnico a mais (uma pedagoga e uma
estaria descumprindo as obrigações da medida, assistente social, respectivamente). adolescência no
mas sobretudo, personalizar o atendimento ao
máximo, adaptando-o de forma a se adequar às
município de
especificidades da realidade dele. No caso em Fortaleza
que o uso de drogas fosse determinante para a
prática de atos infracionais pelo adolescente, por
exemplo, a equipe poderia encaminhá-lo para um 2010
programa de tratamento de drogadictos; ao
passo em que, para aquele adolescente cujos
conflitos familiares são relevantes, a equipe
poderia trabalhar não só o adolescente, mas a
família, sempre tendo por finalidade permitir
que o adolescente possa escolher não praticar 17
atos infracionais.
Atendimento: capacidade e qualidade
O primeiro destaque que se faz, nesse sentido, é que todos os Núcleos de Liberdade
Assistida Municipalizada encontram-se, hoje, superlotados, conforme se depreende do
quadro abaixo:
Técnicos Capacidade N° de Excedente Quantas
Adolescentes equipes a mais
seriam
necessárias
NÚCLEO I 07 140 547 407 03
NÚCLEO II 06 120 250 130 02
NÚCLEO III 06 120 362 242 03
NÚCLEO V 06 120 340 220 03
NÚCLEO VI 07 140 700 560 05
TOTAL 32 640 2199 1559 16
A análise dos dados deixa claro que a situação O Núcleo III encontrava-se sem assessor
atual dos Núcleos de Liberdade Assistida já jurídico e sem dois psicólogos; o Núcleo V
ultrapassou qualquer limite. O Núcleo que estava sem um psicólogo; e o Núcleo VI,
atende menos adolescente, o da Regional II, já é justamente o que apresenta a maior
responsável por mais que o dobro da sua demanda, estava sem um psicólogo e sem
capacidade, ao passo em que o Núcleo VI um assessor jurídico. Nesta situação, cada
encontra-se em situação extremamente grave, um dos cinco técnicos restantes do Núcleo
atendendo cinco vezes mais adolescentes do que VI estava encarregado de 140 adolescentes,
o permitido pelo SINASE. Daí se depreende ou seja, 120 adolescentes a mais (ou sete
que, mesmo em tese, a capacidade de vezes mais) do que permite o SINASE.
atendimento da Liberdade Assistida do
Município está completamente defasada,
estando muito aquém da demanda que a Atividades
realidade apresenta. sociopedagógicas
Equipe
Para se ter uma idéia do que isso significa, a
última coluna da tabela acima, entitulada
“Equipes a Mais”, exemplifica quantas outras As consequências desta combinação de
superlotação e carência de profissionais são
Relatório de equipes teriam de ser montados iguais às que
existem hoje, em cada Regional, para atender a claras no desenvolvimento das atividades
monitoramento realidade de Fortaleza. Nesse sentido, a Regional da Liberdade Assistida, a começar pelo
contato dos adolescentes com a equipe
01 teria de ter, ao todo, 04 Núcleos de Liberdade
da política para Assistida (03 a mais do que existem hoje); a técnica, que, em todos os Núcleos, só é
feito mensalmente, dada a absoluta
a infância e Regional II, 02 Núcleos (01 a mais), e assim por
diante. Isto significa que a Liberdade Assistida incapacidade de se receber o
socioeducando em um prazo menor. Isso
adolescência no Municipalizada de Fortaleza necessitaria , para
quer dizer que, durante os seis meses de
se adequar às exigências do SINASE, contar
município de com 104 técnicos a mais do que os 32 que duração da medida, a maioria dos
adolescente tem somente seis contatos
Fortaleza existem hoje. Na prática, implicaria em passar
de 05 para 16 Núcleos de atendimento, com a equipe que deveria monitorar seu
apenas para regularizar sua capacidade de compor tamento, encaminhar suas
d e m a n d a s s o c i a i s, p e d a g ó g i c a s,
2010 atendimento em tese.
psicológicas e jurídicas, acompanhar sua
Quando se fala de capacidade de fato, família, tudo com o objetivo de, através da
entretanto, a situação torna-se muito mais grave. reflexão, afastá-lo da prática dos atos
Quando das visitas realizadas durante esta infracionais. Somente nos casos em que o
pesquisa, das cinco equipes, apenas duas adolescente apresenta demandas
específicas e de urgência é que este contato
18 estavam com seu quadro técnico completo
(Núcleos I e II). se dá de for ma mais frequente.
A incapacidade de acompanhar tantos Estrutura
adolescentes é revelada ainda em outros
De todos os Núcleos de Liberdade Assistida,
momentos da medida. No Núcleo III, por
o Núcleo V era o que estava mais próximo de
exemplo, a equipe admitiu não conseguir
apresentar uma estrutura adequada ao
acompanhar devidamente a vida escolar dos
atendimento dos adolescentes, possuindo
adolescentes, uma das ações mais básicas da
duas salas para atendimento individual, uma
Liberdade Assistida, por conta da demanda. Nos
sala de reuniões, uma sala de informática e
Núcleos V e VI, os vale-transportes, necessários
uma sala para atividades diversas. As salas de
para garantir o atendimento, terminam antes do
atendimento, entretanto, não garantem o
tempo, prejudicando o comparecimento do
sigilo do atendimento, tendo em vista que
adolescente aos já escassos atendimentos.
elas são feitas com divisórias, dentro da sala
de reuniões da equipe. O referido Núcleo,
Percebemos, ainda, em se tratando dos
que funciona em um Centro de Cidadania,
profissionais, que a rotatividade dos
também não conta com espaços de lazer,
trabalhadores dentro das equipes é muito
tendo em vista a precariedade do próprio
grande. Em todas elas, havia pelo menos um
espaço onde ele se encontra. Durante a
profissional novo na equipe, sendo que os
entrevista, reportou-se que, no começo do
Núcleos III, V e VI aguardavam novos
ano, a cobertura da quadra de esportes caiu e,
profissionais para ocupar, ao todo, as seis vagas
até então, não havia sido concertada.
desocupadas por técnicos que recentemente
haviam saído. No Núcleo III, inclusive, foi
colocado que, por conta da constante troca de
Todos os outros Núcleos, entretanto,
profissionais, o acompanhamento aos grupos de
apresentavam problemas mais graves quanto
famílias que vinha sendo feito foi paralisado,
à estrutura, a começar pelo fato de nenhum
uma vez que a mudança constante impedia a
deles contar com um espaço
criação de vínculos do facilitador com o grupo,
prioritariamente destinado ao atendimento
além de atrapalhar a sua própria frequência.
da Liberdade Assistida.
Questionados sobre o motivo da rotatividade, os
profissionais colocaram a instabilidade – todos
são terceirizados - as condições precárias de
O Núcleo I, por exemplo, funciona em um
trabalho e o desnível entre os salários oferecidos
espaço alugado, já tendo dividido suas
pela Fundação e os oferecidos em outros
instalações com o Conselho Tutelar da
espaços, inclusive para desenvolver trabalhos
respectiva Regional. Só existem duas salas de
semelhantes.
atendimento, sendo que uma era exclusiva
para atendimento de outra medida, a
Outro fator que preocupa, no tocante ao
Prestação de Serviços à Comunidade, Relatório de
acompanhamento dos adolescentes, é a
Assistida. O espaço é considerado
monitoramento
restando, de fato, uma sala para a Liberdade
deficiência na utilização do Plano Individual de
Atendimento (PIA), cuja importância foi da política para
provisório, pela equipe, apesar de o Núcleo
funcionar aí desde sua criação.
explicada no tópico anterior. Nos Núcleos II, III
e VI as equipes disseram não utilizar o PIA,
a infância e
enquanto o Núcleo V disse personalizar o
O Núcleo II, por sua vez, divide o mesmo
adolescência no
atendimento sem utilizar um instrumental
espaço de funcionamento com as Raízes de município de
específico.
Cidadania, outro projeto da Secretaria
Por fim, em todos os Núcleos, colocou-se a
Municipal de Direitos Humanos, que Fortaleza
funciona apenas pela tarde. Neste turno, o
dificuldade de se encaminhar adolescentes em
atendimento do Núcleo II fica bastante
conflito com a lei para outros órgãos
comprometido. Das três salas de 2010
garantidores de direitos, inclusive dentro da
atendimento que utiliza pela manhã, por
própria rede de atendimento municipal – escolas,
exemplo, a equipe conta com apenas uma
postos de saúde, projetos sociais etc. Isto
pela tarde. As duas salas para atividades
demonstra uma fragilidade na rede de proteção,
coletivas existentes no espaço necessitam de
que ultrapassa os limites do atendimento direto,
reparos para melhorar a iluminação, a
alcançando outras políticas públicas, mesmo 19
ventilação e a proteção contra a chuva.
dentro da área da infância.
O Núcleo III apresenta realidade semelhante: Liberdade Assistida: do ideal
funciona nos fundos de um Centro de para o real
Cidadania. O espaço é improvisado em duas
salas organizadas com divisórias. Como no Obser vando-se os números de
Núcleo V, esta solução arquitetônica não garante descumprimento da Medida de Liberdade
o sigilo do atendimento da única sala do local Assistida Institucional de Fortaleza – dados
destinada para este fim. Segundo a equipe, o pelo número de adolescentes readmitidos
espaço é precário, apresentando infiltração de na medida, por aqueles que vão para o meio
água sempre que chove. Sem ventilação ou fechado e pelos que vão presos como
arejamento, as salas ficam úmidas e mofadas, adultos, nos casos dos jovens entre 18 e 21
compromentendo a saúde dos profissionais e anos – podemos constatar que eles são
dos adolescentes por eles atendidos. bastante altos.

O Núcleo VI é o que apresenta condições mais No Núcleo I, somente em abril, foram 34


críticas de espaço, funcionando nos fundos do adolescentes em descumprimento,
Conselho Tutelar da respectiva regional. É um enquanto, no Núcleo III, em maio, foram
núcleo apertado, sem qualquer condição para 140 (aproximadamente o número de
realização de atividades coletivas, com duas salas adolescentes que o Núcleo deveria
de atendimento pequenas, escuras e sem acompanhar). Nos Núcleos II, V e VI, os
arejamento. A equipe considera que é muito entrevistados não souberam precisar o
difícil para o adolescente sentir-se à vontade número de descumprimentos, mas todas as
num ambiente assim, sobretudo para conversar falas se construíram no sentido de que
sobre um assunto delicado como é a prática do “poucos são os adolescentes que saem da
ato infracional. Segundo os entrevistados, medida nos seis meses”, período em que ela
quando toda a equipe está presente no Núcleo, a deveria, idealmente, findar. Ou, ainda, de
situação fica caótica, sobretudo quando da que “entram muito mais adolescentes dos
presença de pais e adolescentes à espera de que os que saem”, perspectiva que só
atendimento. aponta para um agravamento da situação,
que já é notoriamente crítica.

No tocante aos equipamentos, o que


percebemos é que todos os Núcleos são bem
equipados, contando com televisão, aparelho de Entretanto, sem excluir a responsabilidade
DVD, telefone e carro. Em todos os núcleos, do socioeducando como sujeito de direitos,
entretanto, verificamos também problemas
Relatório de quanto à manutenção e às condições de uso dos
diante da problemática apresentada neste
relatório, não é demais afirmar que, antes
monitoramento equipamentos: os carros, por exemplo, não dos adolescentes, é o município de
estão disponíveis todos os dias da semana (a Fortaleza quem está descumprindo suas
da política para despeito da demanda), sendo quatro dias a regra obrigações para com a medida de
para a maioria dos Núcleos. Os telefones não
a infância e ligam para celular, que é, para muitos
Liberdade Assistida.

adolescência no adolescentes, o único meio de contato. Nos


Núcleos III, VI e V, as impressoras estavam sem
município de cartucho, sendo que, neste último, já há mais de Destaca-se, entre as fragilidades do
um ano; ao passo em que no Núcleo VI, dos três
Fortaleza computadores disponíveis, apenas um
programa, o aspecto improvisado dos
espaços físicos onde funcionam os núcleos
apresentava plenas condições de uso. de atendimento; o sucateamento dos
2010 equipamentos, sobretudo de informática; a
alta rotatividade dos profissionais, e,
Todos os Núcleos reportaram paralisação das principalmente, o enorme descompasso
atividades por conta da falta de vales transporte, entre o tamanho da demanda e a estrutura
tendo o caso mais grave se dado entre dezembro montada para atendê-la; o conseqüente
de 2007 e março de 2008, quando a maioria dos esparso contato do adolescente com a
20 atendimentos foram paralisados por esse equipe que o acompanha; e a desarticulação
motivo em todos os Núcleos. da rede de atendimento municipal.
Como pontos fortes, percebe-se a consciência As conseqüências de um programa de
dos profissionais no tocante ao seu papel Liberdade Assistida falho são graves para a
junto ao adolescente; a composição sociedade – cada vez mais assombrada pelo
interdisciplinar das equipes e o banco de fantasma da violência - e, sobretudo, para o
dados atualizado, mantido pela adolescente em conflito com a lei, para quem
coordenação do programa, que acompanha, a Liberdade Assistida, muitas vezes, é o
mês a mês, o número de adolescentes admitidos, ponto final de uma estrada na qual eles
readmitidos ou liberados, as atividades realizadas vivenciaram várias outras situações de
nos Núcleos e os principais encaminhamentos negação de direitos, da saúde ao lazer, da
tomados (escolarização, tratamento de educação à dignidade.
drogadicção etc).

É difícil compreender, portanto, porque, mesmo


de posse de informações tão precisas, o
programa de Liberdade Assistida Institucional
do município de Fortaleza chegou ao ponto em
que se encontra, sobretudo no tocante à imensa
defasagem das equipes em relação ao número de
adolescentes atendidos.

Conselhos Tutelares
O que são Podemos destacar, entre as funções dos
Conselhos Tutelares, de acordo com o art.
O Conselho Tutelar é um órgão permanente e 136, do Estatuto da Criança e do
autônomo, não jurisdicional, encarregado pela Adolescente: atender as crianças e
sociedade de zelar pelo cumprimento dos adolescentes; atender e aconselhar os pais ou
direitos da criança e do adolescente, definidos na responsáveis; promover a execução de suas
Lei Federal 8.069 de 13 de julho de 1990. De decisões, podendo requisitar serviços
acordo com o ECA (art. 132), há uma disposição públicos nas áreas de saúde, educação,
de um Conselho Tutelar por município, com a serviço social, previdência, trabalho e
atuação de, no mínimo, cinco conselheiros em segurança; providenciar a medida
cada unidade. estabelecida pela autoridade judiciária para o
adolescente autor de ato infracional; expedir
Fortaleza possui seis Conselhos Tutelares, notificações em casos de sua competência,
organizados de acordo com as regionais assessorar o Poder Executivo local na Relatório de
administrativas do Município, as Secretarias,
cada qual composto por cinco Conselheiros
elaboração da proposta orçamentária para
planos e programas de atendimento dos
monitoramento
eleitos para um mandato de três anos (com direitos da criança e do adolescente. da política para
exceção do Conselho Tutelar IV, que, Atuação dos conselhos
atualmente, conta com apenas quatro Sobre a atuação deste órgão de controle, a infância e
conselheiros na ativa). Todos foram visitados.
Os atuais Conselheiros tomaram posse em abril
promoção e defesa dos direitos da infância e adolescência no
adolescência, o CONANDA (Conselho
deste ano. Atualmente, está em curso uma Nacional dos Direitos da Criança e do município de
desvinculação administrativa dos Conselhos Adolescente) expediu a resolução 75/2001,
Tutelares que passariam a ser vinculados à dispondo sobre "parâmetros para a criação e Fortaleza
recém-criada Secretaria Municipal de Direitos funcionamento dos Conselhos Tutelares". Neste
Humanos. documento, lemos: 2010
Art. 4º - Considerada a extensão do
trabalho e o caráter permanente do
Conselho Tutelar, a função de Conselheiro,
quando subsidiada, exige dedicação
exclusiva, observado o que determina o art.
37, incs. XVI e XVII, da Constituição 21
Federal.
No mesmo período, o referido Conselho emitiu
recomendações para elaboração de leis
municipais de criação dos Conselhos Tutelares,
trazendo parâmetros de funcionamento dos
Conselhos, visando contribuir com o
fortalecimento do sistema de garantia de
direitos de crianças e adolescentes.

Por considerar de fundamental importância


para a implementação de uma política de
atendimento eficiente para o município, o
CONANDA recomenda a criação de um
Conselho Tutelar a cada 200 mil habitantes.

Além das possibilidades acima, ressalta-se que Quanto à presença e uso de equipamentos
outras realidades devem ser consideradas para a de tecnologia de informação, necessários ao
criação de mais Conselhos Tutelares, bom funcionamento do Conselho,
prevalecendo, de qualquer forma, o princípio observamos uma situação precária. O
constitucional da prioridade absoluta, Conselho Tutelar da Regional I não tem
notadamente no que tange à destinação computador e, no da Regional IV, o único
privilegiada de recursos para o atendimento e que funciona foi doação de uma
defesa dos direitos da criança e do adolescente. parlamentar. Na Regional VI, nenhum dos
três computadores funciona. Nos das
Identificação e Localização regionais II e IV, dos cinco, apenas um tem
É importante que os Conselhos Tutelares acesso à internet. No Conselho VI, não se
estejam localizados em locais de fácil acesso à tem acesso à internet.
população, com indicação e perto de ponto de
ônibus, de forma que seja pública a sua presença
na regional. De forma geral, os conselhos não se No Conselho Tutelar da regional III, a
localizam em local acessível, central aos bairros impressora para os cinco computadores
da regional que compreendem. Apenas o não funciona há pelo menos um mês.
Conselho da Regional IV está instalado numa Enquanto no da regional II, das duas
área equidistante aos bairros que assiste. O impressoras, uma está quebrada. Os
Conselho da Regional V é o que atende maior conselhos da Regional I, III e V não
número de bairros e/ou comunidades. Todas as possuem impressora. E na Regional VI a
única impressora encontra-se quebrada.
Relatório de fachadas das sedes dos conselhos apresentam
nomes, identificando ser ali o órgão. No entanto, Neste conselho, os conselheiros utilizam
monitoramento em nenhum deles estava acompanhado do recurso pessoal para as despesas com
f o t o c ó p i a s d e d o c u m e n t o s. O s
número de telefone, nem outra faixa que
da política para identificasse o Conselho e/ou visibilizasse o seu conselheiros afirmam que os aparelhos de
computadores não são atualizados, o que
a infância e papel.
justifica o fato de termos encontrado o
Estrutura Sistema de Informação para a Infância e a
adolescência no Adolescência (SIPIA) instalado somente
Os conselhos apresentam dificuldade de
município de acessibilidade. Nos seis conselhos visitados,
em dois conselhos (Regional II e IV),
porém sem utilização. Os conselheiros
Fortaleza havia carência de rampas e de portas largas, afirmam ainda que não há capacitação para
infringindo, assim, a Lei da acessibilidade. No o uso do sistema, desta forma findam por
Conselho da Regional IV, o acesso ao banheiro é não utilizá-lo. O SIPIA é um sistema
2010 por um corredor bem estreito. Na regional V, o nacional de registro e tratamento de
Conselho localiza-se em local muito baixo, informação, criado para subsidiar a adoção
fazendo com que, em dias de chuva, fique de decisões governamentais sobre políticas
alagado. Além disso, as paredes estão com para crianças e adolescentes, garantindo-
cupim e os tetos “fofos”. Há uma reivindicação lhes acesso à cidadania, daí a importância de
por reforma há muito tempo por parte dos os conselheiros informarem os dados
22 conselheiros. A climatização também não é através deste instrumento.
adequada nestes espaços.
Todos os Conselhos possuem telefone, porém Horário de funcionamento
somente os Conselho II e III têm celular. A
situação é agravante na Regional V, cujo único Quanto ao horário de funcionamento, todos
telefone, que é fixo, não funciona em dias de os Conselhos funcionam ininterruptamente
chuva intensa. Quanto ao aparelho de fax, o de 8h às 17h, de segunda à sexta-feira, exceto
Conselho da Regional I não possui e o da os Conselho II e IV, que atende até as 18h,
Regional VI não funciona. com intervalo de 12h às 14h. Segundo os
conselheiros, cada conselho deveria
Além dos problemas de comunicação, existem funcionar com, no mínimo, três conselheiros
outras questões estruturais que afetam o pleno em cada turno, o que não tem acontecido.
funcionamento dos Conselhos. Foi constatado
que todos possuem carros, mas que a presença Em geral, há dias determinados para a visita.
deles não garante a sua utilização. O da regional Todos colocaram o fato de não haver um
II atua com um único carro; uma Kombi regulamento interno que verse sobre o
emprestada, que fica à disposição ate às funcionamento (rodízio, plantão). As
16h30min e que tem o limite mensal de 1.500 km reuniões do colegiado costumam ser
pra trafegar. Cada conselheiro tem uma cota de mensais, porém alguns conselheiros
300 km. Para a realização das tarefas que lhe relataram estarem desestimulados a
competem, como visita domiciliar, por exemplo, participarem deste espaço, devido à falta de
esta cota é insuficiente. No dia 22/06/2010, a materialização dos encaminhamentos
referida cota já tinha se esgotado para uma deliberados, tais como, o aumento de
conselheira. A Regional IV aluga um carro de recursos orçamentários para os Conselhos.
uma locadora, que apresenta motoristas Uma das pautas recorrentes é o problema de
despreparados para este trabalho. Em resumo, estrutura e da eficácia dos atendimentos e
há carência de quilometragem em todos os acompanhamentos realizados. Os poucos
Conselhos. Ademais, os carros são divididos momentos coletivos do Colegiado dos
com outros órgãos públicos, como a Defesa Conselhos, ocorrem, em geral, nas poucas
Civil, a Fiscalização Urbana da Regional e até a formações, que ocorrem de forma irregular,
Defensoria (situação do Conselho VI). Os carros junto à Secretaria de Direitos Humanos.
dos conselhos têm autorização para trafegar
somente na cidade de Fortaleza, o que prejudica Em geral, o procedimento para o
os Conselhos com atuação divisas com atendimento engloba o caminho da triagem
municípios da Região Metropolitana, como na recepção (normalmente por ordem de
Caucaia, e Maracanaú. chegada, exceto em casos urgentes). Em
Equipe e condições de trabalho casos de orientação acerca de registro, a
própria recepcionista encaminha a
Os conselheiros da regional I, II e IV não têm
requisição para o equipamento competente. Relatório de
sala de reunião. As atividades acontecem na copa
ou numa sala de algum conselheiro. As filas no monitoramento
Os conselheiros, depois do procedimento da
escuta, podem fazer encaminhamento para da política para
atendimento em todos os conselhos têm sido
comuns e têm se dado justamente pelo fato de
programas públicos e/ou equipamentos,
bem como agendar uma visita. Neste ponto, a infância e
que, em alguns momentos, só há um conselheiro
pra atender a demanda. Apenas o Conselho II,
é importante destacar que os formulários de adolescência no
IV e V possuem local de espera apropriado.
atendimento mostram-se desatualizados e
burocráticos, segundo os conselheiros. No município de
Apenas a Regional IV possui sala de
atendimento individualizado. Apenas o
Conselho II, o problema é a falta de
Conselho da Regional VI não possui
formulários. Fortaleza
funcionários de apoio, que, em geral é formado
por cerca de 4 empregados terceirizados. O
Conselho VI ficou cinco meses sem o 2010
profissional de serviços gerais e está utilizando,
atualmente, o funcionário do programa
Liberdade Assistida. O da Regional II ficou
fechado 20 dias, no primeiro semestre de 2010,
atendendo só em casos de chamado de urgência.
É importante destacar que há uma profissional 23
de serviço social apenas na Regional V.
A precariedade estrutural dos Conselhos Conclusões e reflexões
repercute na dificuldade de responder, com a
urgência devida, as denúncias recebidas. Desta A realidade dos Conselhos Tutelares já é
forma, visitas domiciliares, bem como o denunciada desde há muito, inclusive,
acompanhamento dos casos encaminhados à através dos meios de comunicação (jornais,
rede de proteção não são feitos de forma programas televisivos), das reivindicações
satisfatória, em conformidade com os objetivos dos conselheiros e de mobilizações públicas.
competentes ao Conselho Tutelar. A questão, portanto, não trata de
desconhecimento do Poder Público em
Os atendimentos nos Conselhos
relação a essa realidade.
As situações mais atendidas envolvem casos de A autonomia funcional e administrativa dos
negligência, violência psicológica, conflitos no Conselhos não pode repercutir numa
âmbito doméstico, falta de vagas nas escolas. estrutura precária para o pleno atendimento
Problemas envolvendo a ocorrência de de seus objetivos. É preciso que os gestores
drogadição são também bastante recorrentes. públicos e a sociedade compreendam a
Os órgãos de atendimento da Prefeitura e do importância e o dever legal do Conselho
Estado mais demandados são escolas, centros Tutelar; cabendo ao Estado
de saúde, como Caps AD, Caps Infantil, promover/apoiar campanhas de valorização
Defensoria Pública. Neste último, os do Conselho Tutelar, investir os recursos
encaminhamentos dizem respeito a guardas necessários a um funcionamento com
judiciais e pensão alimentícia com maior qualidade, possibilitando que os direitos de
constância. crianças e adolescentes sejam de fato
garantidos.
Ao encaminhar os casos para os órgãos da Os Conselhos Tutelares de Fortaleza
Prefeitura, os conselheiros têm tido muitas necessitam além de aporte estrutural,
dificuldades com aqueles que envolvem melhorias na gestão organizativa, de modo a
acompanhamento psicológico, assistência possibilitarem respostas efetivas aos
social, advogado ou assistente administrativo, conflitos que recebem, orientando toda a
em especial nas situações que envolvem crianças comunidade quanto aos procedimentos
e adolescentes em drogadição ou em exploração cabíveis para a defesa dos direitos da
sexual. infância. São necessárias também iniciativas
de formação para os conselheiros, de forma
Isto se deve à ausência de políticas públicas que a compreensão de crianças e
adequadas que recebam a demanda de violações adolescentes como sujeitos de direitos possa
de direitos atendidas pelos Conselhos. Todos os permear sua ação como agente público.
Conselhos relatam um quadro de precariedade
Relatório de da rede de proteção da infância e adolescência Orçamento dos Conselhos
em nossa cidade, em especial quanto à política
monitoramento de saúde mental, drogadição. Além deste ponto, Um dos motivos para os problemas
encontrados na estrutura dos Conselhos
da política para os conselheiros relataram dificuldade de
realizarem o acompanhamento dos casos que pode ser constatado através da análise do
a infância e encaminham, por conta dos problemas de orçamento do município de 2009, pois a
PMF, na ação “manutenção dos conselhos”,
estrutura e da quantidade de atendimentos
adolescência no recebidos. nunca executou, em um nível próximo do
aceitável, o que estava orçado. Ao contrário,
município de se observarmos o nível de execução entre
Fortaleza 2005 e 2008, constataremos que nunca o
gasto total dos conselhos tutelares ficou
acima de 35% de execução em relação aos
2010 recursos previstos. Ano passado, dos R$
627.623,00 planejados para gastar com a
manutenção dos conselhos tutelares, R$
208.351,51 foram efetivamente aplicados,
ou seja, apenas 33,20% de execução. Isso
significa que a cada R$10 que teriam que ser
24 gastos nos conselhos, apenas R$ 3,32 foram
realmente efetivados.
Cabe ressaltar que essa queda de 19,84% entre
2007 e 2008 não se deu na mesma magnitude
entre os conselhos. Para se ter uma idéia, na
questão da execução do orçamento, o conselho
da regional II foi o que obteve o melhor nível de
execução dos recursos, sendo que, com exceção
de 2005 , ela sempre esteve acima de 70%. O da
regional VI foi o segundo melhor em nível de
execução, porém muito abaixo da II. As outras
regionais ficaram muito abaixo desses níveis.

Para demonstrar essa diferença no volume de


recursos aplicados, destacamos que, em 2008,
somando o valor gasto nos conselhos de quatro
regionais (I, III, IV e V), R$ 69.291,78, ainda não
dá o valor gasto somente no conselho da regional
II, R$ 72.328,44.
Considerações finais
Fortaleza é uma cidade com mais de 2,5 milhões É nesse contexto, que precisamos pensar a
de pessoas, das quais quase 800 mil são crianças e política para a infância e adolescência na
adolescentes. 43,7% da população de Fortaleza cidade.
tem incidência de pobreza. Mais de 60% das
crianças de 0 a 6 anos de idade vivem em famílias Por outro lado, o Estatuto da Criança e do
com per capita de até meio salário mínimo. Esta é Adolescente (Lei Federal 8.069/1990), que
a realidade de vários estados e municípios do regulamentou o art. 227 da Constituição
Nordeste brasileiro. Nas famílias que têm Federal de 1988, inspirado pela Convenção
crianças e adolescentes, este percentual é ainda Internacional dos Direitos da Criança
maior. Significa dizer que a pobreza atinge de (aprovada pela ONU em 1989), especifica o
forma diferenciada crianças e adolescentes e que compreende do Princípio da Prioridade
adultos. Outras variáveis também refletem de Absoluta de Crianças e Adolescentes:
forma substancial em um maior ou menor acesso
a direitos, como a raça/etnia, o gênero, a situação Art. 4º - É dever da família, da comunidade,
de deficiência, dentre outras. Um bom exemplo da sociedade em geral e do poder público
disso é o Índice de Homicídios na Adolescência assegurar, com absoluta prioridade, a
(IHA), que nos mostra que um adolescente
saúde, à alimentação, à educação, ao
Relatório de
efetivação dos direitos referentes à vida, à
negro tem 2,6 vezes mais chance de ser
assassinado que um branco. Esse estudo aponta esporte, ao lazer, à profissionalização, àmonitoramento
cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade
que os homicídios se constituem na causa de
45% das mortes na faixa etária de 12 a 18 anos.
e à convivência familiar e comunitária. da política para
Segundo o Mapa da violência 2010, Fortaleza Parágrafo único. A garantia de prioridade a infância e
passou do 16º para o 10º lugar, de 1997 a 2007, compreende:
entre as capitais brasileiras na taxa de homicídios adolescência no
na população entre 0 e 19 anos de idade, um a) primazia de receber proteção e
aumento percentual de 103,9%. Não a pobreza, socorro em quaisquer circunstâncias; município de
mas sim a desigualdade social é um fator
desencadeante da violência e Fortaleza é uma das b) precedência de atendimento nos
Fortaleza
cidades mais desiguais do planeta. De acordo serviços públicos ou de relevância pública;
com relatório da ONU, a cidade é a 2ª mais
c) preferência na formulação e na
2010
desigual do Brasil, junto com Belo Horizonte, e execução das políticas sociais públicas;
está entre as 20 mais desiguais do mundo. O
Ceará é o 3º estado com maior índice de trabalho d) destinação privilegiada de recursos
infantil e ocupou o 7º lugar em número de públicos nas áreas relacionadas com a
denúncias de exploração sexual do Disque 100, proteção à infância e à juventude. (grifo
disque denúncia nacional para casos de violência nosso) 25
contra crianças e adolescentes, em 2009.
Tais documentos legais consolidam, no plano Além disso, somente um abrigo conveniado
legal, um novo olhar para crianças e realiza abrigamento de crianças (0 a 12 anos
adolescentes, que deixam de ser tratados como de idade), porém ainda com o recorte de
meros objetos da tutela estatal e lhes assegura gênero, pois só atende meninos. A
uma condição de sujeito de direitos com todos capacidade real de acolhimento das duas
os direitos dos adultos e ainda outros unidades, 14 adolescentes acolhidos, é
decorrentes da sua condição peculiar de pessoa menor do que a afirmada pela Prefeitura, de
em desenvolvimento. Entretanto, tal avanço no 20. A estrutura de ambas as casas visitadas é
plano legal não significa uma superação do muito precária, com paredes sujas, armários
modelo anterior no lidar com este segmento sem porta, descargas e chuveiros quebrados,
social e no reconhecimento na prática cotidiana etc. Um dado grave é o fato dos/as
de seus direitos. Quando se fala em efetivação de acolhidos/as não terem outra opção que a
direitos, vemos que há um abismo entre a lei e a freqüência à Educação de Jovens e Adultos
realidade (parafraseando o título do livro de no turno noturno.
autoria da professora Ângela Pinheiro: No Programa de Erradicação do Trabalho
“Estatuto da Criança e do Adolescente: por Infantil (PETI), deparamo-nos com uma
que o abismo entre a lei e a realidade”). situação surpreendente: a sobra de vagas nas
03 unidades visitadas, sendo que em uma
Neste monitoramento voltamos nosso olhar delas havia apenas 30% do total das 100
para a política pública destinada a crianças e vagas preenchidas! Também não se
adolescentes no município de Fortaleza. Não de observou uma política com sistemática
todas as políticas voltadas para este segmento, o unificada, de divulgação do programa para
que abrangeria todas as Secretarias de governo, enfrentar essa questão. Talvez a não
mas de alguns programas/projetos geridos pela divulgação das vagas se dê pelo fato de,
Coordenadoria da Infância da Secretaria efetivamente, não haver condições de
Municipal de Direitos Humanos e um que, este atender o que deveria ser a capacidade do
ano, passou à Secretaria Municipal de programa, pois a estrutura material e
Assistência Social, o Programa de Erradicação humana existente não permite que as
do Trabalho Infantil. Tal coordenadoria assim atividades se realizem a contento. Devido a
expressa o seu objetivo: “aperfeiçoar os essa precariedade, os horários de
mecanismos de promoção de direitos, proteção atendimento são reduzidos, o
integral e participação real de meninos e acompanhamento escolar não é realizado em
meninas”. todos os casos, e não há um diálogo
sistemático com as famílias. Não há material
Foram visitados núcleos da Liberdade Assistida pedagógico, de oficinas ou esportivo para a
municipal, unidades do Programa de
Relatório de Erradicação do Trabalho Infantil, do Projeto
realização das atividades pelos educadores.
Os PETIs executados pela Prefeitura não
monitoramento Crescer com Arte, abrigos, Rede aquarela e funcionam em prédios próprios do
Conselhos Tutelares. Estes últimos, embora não programa, utilizando muitas vezes os
da política para possam ser considerados um projeto ou espaços dos CSUs, que estão em condições
programa municipal, atuam na defesa dos
a infância e direitos infanto-juvenis e dependem do
físicas ruins, como quadras e piscinas sem
condições de serem utilizadas, paredes
adolescência no investimento público municipal para o seu mofadas, salas pequenas, goteiras, etc. Essas
funcionamento, razão pela qual se optou por condições demonstram que as ações do
município de incluí-los. PETI não têm ido muito além do repasse do
Em relação ao acolhimento benefício mensal por crianças ou
Fortaleza institucional/abrigos, viu-se uma completa adolescente cadastrado, o que nem de longe
desvirtuação da sua finalidade, pois está sendo assegura a erradicação do trabalho infantil
2010 utilizado como medida de proteção para em Fortaleza. Vale dizer ainda que o recurso
adolescentes ameaçados e em situação de para as bolsas do Peti vêm do Governo
drogadição, o que é feito pelo Judiciário e Federal, cabendo à Prefeitura a contrapartida
Conselhos Tutelares, uma vez que não há outro para garantir as atividades do projeto.
lugar para encaminhá-los. Isso faz com que as A s a tivi d a d es rel a tiva s à m ed i d a
medidas tomadas para a proteção dos socioeducativa de Liberdade Assistida
26 adolescentes ameaçados sejam improvisadas, e xe c u t a d a s p e l o M u n i c í p i o e s t ã o
como não poderem sair da casa. compreendidas pelo Programa Se Garanta.
Seu caráter é pedagógico, devendo ser fazendo com que os atendimentos tenham
trabalhado para cada adolescente um plano que ser temporalmente espaçados. Quanto
individual de atendimento que abranja os ao abrigo, a capacidade real (07 meninas)
contextos pessoal, familiar e comunitário. As também é menor do que a colocada pela
equipes são constituídas de acordo com o Prefeitura (12 meninas), sendo que, no
SINASE no quesito da interdisciplinariedade momento da visita, havia 03 adolescentes
dos profissionais, entretanto, o número de abrigadas. As ações de sensibilização se dão
adolescentes por profissional é infinitamente em 03 bairros da cidade. Constatou-se a
superior ao recomendado. Seriam necessárias carência de profissionais, de recursos
mais 16 equipes para dar conta a contento dos materiais e de estrutura física que dê conta da
2.199 adolescentes acompanhados pela demanda. Pode-se considerar mesmo como
Liberdade Assistida Municipal no período das um projeto-piloto, dada a capacidade de
visitas. Isso faz com que o acompanhamento aos atendimento do programa frente à
adolescentes não tenha a frequência necessária. grandiosidade do problema que ele tenta
A média é que o adolescente seja atendido uma enfrentar (exploração sexual e tráfico de
vez por mês pelo profissional que tenha seres humanos) em Fortaleza.
disponibilidade e que o contato com a família se
dê no ingresso e em mais uma única visita Sobre os Conselhos Tutelares, muito já se
domiciliar. Destaque-se a precariedade do tem falado em relação à precariedade da sua
vínculo dos profissionais que atuam nas estrutura e ausência de condições de
medidas, as condições de trabalho e a baixa atendimento das denúncias de violação de
remuneração, que fazem com que a rotatividade direitos de crianças e adolescentes. Cumpre-
seja bastante grande. Quanto às atividades nos destacar aqui a questão da retaguarda
sociopedagógicas, parte dos adolescentes é necessária a restituição dos direitos
encaminhada ao Crescer com Arte e Cidadania, a recebidos pelos Conselhos Tutelares. Em
exceção de uma das unidades do programa, no todos os Conselhos foi relatada a dificuldade
qual há uma sala para oficina de informática. de aplicar medidas de proteção relativas a
Entretanto, o número de vagas do Programa casos de drogadição e violência sexual e a
Crescer com Arte não consegue, nem de longe, impossibilidade de continuidade no
atender toda a demanda de adolescentes em acompanhamento dos casos. É bastante
cumprimento de medida de liberdade assistida grave também o fato de nenhum dos
pelo Município. Relatou-se ainda a falta de Conselhos utilizarem o Sistema de
lanches e de vale-transporte para os Informação para a Infância e a Adolescência
adolescentes. (SIPIA), sob a justificativa de que não há
computadores em bom estado de
Quanto ao Crescer com Arte, no sítio eletrônico
da Prefeitura não há uma definição para o
funcionamento.
Assim, observamos pontos comuns aos
Relatório de
projeto e seus objetivos, como há para os demais programas analisados: um atendimento da monitoramento
programas. Dos equipamentos visitados, este foi demanda muito maior do que a capacidade
o que apresentou o maior número de prevista, incidindo na qualidade do da política para
profissionais envolvidos por unidade e o
aumento do orçamento dos últimos anos.
atendimento, à exceção do PETI. Na maior
parte dos equipamentos visitados, a equipe
a infância e
Entretanto, quando se faz a relação do número era insuficiente em relação ao número de adolescência no
de profissionais por adolescente e dos valores do pessoas atendidas, há uma grande
orçamento por unidade do programa, percebe- rotatividade de profissionais, devido ao fato município de
se que o custo médio mensal executado fica em
torno de R$ 7.000,00, o que nos leva à
de serem terceirizados, sem boas condições
de trabalho e baixa remuneração. Mesmo
Fortaleza
interpretação de que toda a deficiência de assim, pôde-se observar o compromisso dos
estrutura - falta de sede ou em más condições - , mesmos com o trabalho e, em muitos, a 2010
precarização dos profissinais, falta de material angústia pelas condições de realização das
didático) deve-se à não prioridade no orçamento atividades. Outro problema encontrado com
público. freqüência foi estrutura física bastante
Em relação ao núcleo de atenção psicossocial e precária, criando ambientes pouco
abrigo para crianças e adolescentes vítimas de acolhedores e inapropriados, o que, em
violência sexual do programa Rede Aquarela, o alguns casos, inviabiliza a realização das 27
núcleo atende bem mais que a sua capacidade, atividades. Nas visitas realizadas, uma
constante foi a não existência ou insuficiência decom uma cidade como Fortaleza (em que
material necessário à sua realização, desde residem, aproximadamente 800 mil crianças
material pedagógico, material de oficina, e adolescentes), que tenhamos, para políticas
passando por computadores, impressoras, ditas “prioritárias” na área da assistência à
aparelhos de fax, até vale transporte e lanche criança e adolescente por esta gestão, uma
para o público atendido. Tais deficiências execução de apenas R$ 5.307.201,16. É, no
chegam a inviabilizar o próprio objetivo do mínimo, intrigante esta contabilidade; b) em
programa, como a ausência de segundo, que é irrisório o valor médio
acompanhamento sistemático, no caso de mensal e per capita de cada programa, como
adolescente em cumprimento de medida por exemplo, o crescer com arte com R$
socioeducativa e em situação de trabalho 7.000,00/ mês. Se considerarmos as medidas
infantil. Outra questão preocupante é o fato de socioeducativas em meio aberto, é ainda
muitos adolescentes apesar de estarem sendo mais assustador o valor de R$ 420,00 por ano
atendidos por deter minado programa para cada adolescentes em cumprimento de
governamental, ainda assim, encontrarem-se em medida, ou seja, R$ 33,33/ mês. Não
situação de violação de outros direitos, como no podemos considerar, nem de longe, que
caso dos/as adolescentes abrigados/as que não crianças e adolescentes têm prioridade no
têm o direito à educação devidamente orçamento público da cidade de Fortaleza.
respeitado. Isso diz da necessidade de Num município que tem um orçamento
articulação das políticas públicas para a garantiatotal, para 2010, no valor de R$
dos direitos, o que pressupõe uma articulação 3.856.577.000,00, o orçamento da FUNCI
entre as Secretarias de governo. (Fundação da Criança e da Família Cidadã),
para o mesmo período, é de em R$
Vimos que as características (universalidade, 12.042.175,00, o que significa 0,31% do
indivisibilidade e interdependência) dos direitos orçamento total.
humanos encontram-se prejudicadas no
contexto das políticas municipais de Mesmo esta sendo uma amostragem de
atendimento aos direitos infanto-juvenis. A alguns dos programas desenvolvidos pela
universalidade, à medida que os programas não Prefeitura voltados para crianças e
são de acesso para todas as pessoas, havendo adolescentes, pudemos perceber várias
uma grande demanda não atendida por estes, questões comuns que os perpassam. O que
chegando alguns a caracterizarem-se mesmo se constatou foi uma política para poucos,
como projetos pilotos. A indivisibilidade, já que precarizada, com lacunas, não articulada
os direitos não são acessados na sua totalidade. com as demais políticas públicas do
É o que vemos, por exemplo, quando o Município e voltada para crianças e
atendimento psicossocial para crianças e adolescentes pobres das periferias. Essa
Relatório de adolescentes vítimas de violência não se dá relação entre políticas precarizadas e a
monitoramento numa periodicidade adequada ou quando não há população mais pauperizada, mostra-nos
continuidade no acompanhamento de uma uma visão estigmatizante e de uma política
da política para violação de direitos pelo órgão de defesa. Por que não promove o empoderamento do
fim, a interdependência, que nos diz que só se público atendido e que não o vê, de fato,
a infância e pode exercer plenamente um direito se os como sujeito de direitos exigíveis. Não há
adolescência no demais estão respeitados. Deste modo, esta que se falar, deste modo, em Prioridade
dimensão fica prejudicada quando a criança e o Absoluta de crianças e adolescentes no
município de adolescente tem acesso à arte, mas não se sabe se município de Fortaleza.
o direito à educação (e não apenas a matrícula na
Fortaleza escola) está garantido ou se está abrigado/a,
mas não é garantido o atendimento à saúde, no
2010 que se refere à drogadição.
No geral, podemos observar, quanto ao
orçamento destinado e executado nas rubricas
destes equipamentos, um aumento relativo entre
os anos de 2007 e 2008, mas são necessárias duas
considerações: a) primeiro, que este aumento
28 não significa efetivação de direitos e que é, no
mínimo, uma falta de respeito aos direitos, para