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ENVIR(H2O)MENTAL

Em 2030, Gustavo Albuquerque fundou o Museu da Ciência Inacabada, onde


estão exibidos protótipos de insignes criações de célebres cientistas e
inventores. Cinco anos mais tarde, já se tinha tornado uma atração nacional. O
dono sempre mostrou grande orgulho na sua obra e era muito dedicado à sua
coleção.
Numa manhã chuvosa de março, recebeu a notícia de que o seu pai estava
adoentado e cada vez mais débil. Receoso de que algo pior pudesse acontecer
e, sem pensar duas vezes, decide fazer as malas e regressar à sua terra natal.
Lá, vai reencontrar a sua família após vários anos a viverem afastados.
Gustavo está preocupado com o que possa acontecer, mas, pelo caminho,
distrai-se com as doces lembranças da sua infância. Todavia, assim que
transpõe a placa onde se lê “Barrinha-a-Nova”, apercebe-se de que todas as
viçosas planícies e os aprazíveis rios e lagos se encontravam assustadoramente
poluídos, sombrios, sem vida.
Fica feliz por chegar a casa dos seus pais e revê-los, porém rapidamente
compreende que estes estão tristes. Tinham vindo do hospital nessa manhã
devido à queda do pai nas escadas ao sair da frutaria. Felizmente foi só um
susto, mas o médico alertou para que estes episódios se tornariam mais
frequentes com a idade.
Após saber do sucedido, ficou mais descansado quanto à saúde do progenitor,
mas ainda não compreendia o estado da aldeia. Decidiu então perguntar-lhes:
- Mãe, o que se passou com a aldeia? Desde que fui embora que parece que se
tornou mais degradada…
- Dois anos depois de saíres, uma empresa multimilionária instalou aqui uma
central. A poluição do ar e da água aumentou bastante – respondeu esta - Quem
sabe disso melhor do que eu é o teu pai...
O filho dirigiu-se então ao Sr. Albuquerque e pediu-lhe que explicasse a situação.
Este esclareceu-o:
- Aqueles patifes…! Instalaram aqui minas... escavações! E queimam
combustíveis fósseis como nunca vi! Pior ainda, é a população que deita lixo no
lago e ninguém faz nada quanto a isso! Lembras-te de como era límpida a água
quando íamos lá pescar? Que saudades desses tempos…
Estas palavras ecoaram na cabeça de Gustavo durante a viagem de regresso e,
no dia seguinte, decidiu fazer algo para recriar uma das suas memórias mais
marcantes com o seu pai. Motivado, retorna ao seu museu com o intuito de salvar
o ecossistema da sua terriola.
Ao passar pelas invenções expostas, deparou-se com uma que lhe gerou
especial interesse: o modelo exemplar de uma tartaruga biónica que tinha como
finalidade combater a poluição no meio aquático, preservando o ambiente.
Determinado, resolve dar vida a este projeto e aprimorá-lo.
Só com os progressos científicos recentes e após exaustivos dias de tentativa e
erro, conseguiu projetar tudo o que era necessário.
Seguiram-se mais uns longos dias de criação e aperfeiçoamento do seu sistema
de segregação atómica (1), até que, finalmente, Gustavo Albuquerque conseguiu
dar ao mundo a primeira tartaruga robótica.
No dia seguinte, apesar de cansado, não conseguia parar de se questionar se a
tartaruga realmente cumpriria o seu propósito. Resiliente, passou mais quatro
horas a criar um ambiente de simulação. O seu projeto foi um sucesso, e então,
orgulhoso e mais esperançoso, adormeceu.
Os dias passavam e o número de tartarugas ia aumentando a um ritmo
formidável. Quando alcançou a sua equipa de tartarugas biónicas, voltou o mais
rápido que pôde para o lago.
Já no lago, soltou a divina criação, observou durante quinze minutos e ficou
boquiaberto. Esse tempo bastou para ver o poder da sua invenção. Não só
conseguia reconverter os poluentes em substâncias utilizáveis e limpas, como
também monitorizava, através de um relatório, vários parâmetros qualitativos da
água: caráter químico, temperatura, turvação…
A água encontrava-se muito mais limpa e cristalina, parecia um milagre. Excitado
com os progressos, mas ciente de que a sua tarefa estava longe de ser
concluída, resolveu voltar a casa dos pais enquanto as suas trabalhadoras
continuavam a agir sobre as águas poluídas do lago.
Quando chegou, surpreendeu o seu pai e a restante família com as novidades,
estes aplaudiram o seu esforço e decidiram fazer um piquenique ao pé do lago.
Apesar de receber vários elogios, depressa Gustavo desanimou, pois
apercebeu-se de que quem passava pelo lago continuava a polui-lo: jovens que
jogavam futebol e deitavam as latas de refrigerante ao lago, famílias que durante
os seus piqueniques deixavam papéis e embalagens, indústrias que libertavam
lá os resíduos de forma descuidada…
Assim, compreenderam que todo o esforço das tartarugas seria inútil se a
população não se consciencializasse. Por mais que Gustavo se empenhasse,
sozinho não conseguiria completar a sua missão. Mesmo depois de todo o
trabalho que teve, o lago não poderia voltar ao que era.
Os pais, reparando no desânimo que assolou o filho, interrogaram-no:
- Gustavo, o que se passa? Não te sentes orgulhoso ? Todos nós ficamos
pasmados com a tua inovação!
- Estou… Nunca tinha explorado nenhum dos projetos do meu museu… -
respondeu o filho – Mas, na verdade, tudo o que eu queria era poder pescar com
o pai outra vez… São as melhores memórias que tenho e com tudo o que se
está a passar só ansiava voltar a esses tempos… As tartarugas fazem a sua
parte, mas se as pessoas não fizerem a delas não há volta a dar…
Na manhã seguinte, ainda o sol não estava bem visível e os pais já estavam a
pé. Tinham passado a noite em claro a pensar em como concretizar o desejo do
filho. Quando o sol chegou ao ponto mais alto, dirigiram-se para a câmara
municipal com uma proposta rapidamente aprovada: criar uma associação
ambientalista e de combate à poluição, a ENVIR(H2O)MENTAL.
Esta organização, aliada à mente brilhante de Gustavo, excedeu quaisquer
expectativas e daquele pequeno lago partiram para diversos locais...
Afinal, o esforço comunitário não foi em vão e pai e filho, unidos por uma causa
maior, puderam, finalmente, reviver velhos tempos.
Todos nós devemos também unir-nos e proteger o nosso planeta (mesmo que
sem a ajuda de tartarugas biónicas)!

Nota (1) - O sistema de segregação atómica consiste na análise da estrutura química das
substâncias em contacto e posterior separação dos átomos para que estes possam ser
reaproveitados como substâncias limpas. A energia para quebrar as ligações provém do Sol.

Autores: Cassandra Oliveira, Mafalda Correia, Nádia Guedes, Patrícia


Marques, Rodrigo Coelho, Rui Santos

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