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Metamorfose

I. Crisálida

Mirai Akasuki e Hiroshi Kenji entraram apressadamente no laboratório de robótica. Se


tudo corresse bem concluiriam hoje o projeto Talos, um projeto revolucionário na área
da inteligência artificial.
Mirai é uma jovem de vinte e poucos anos que desde pequena manifesta um grande
interesse por ficção científica e inteligência artificial. Uma das alunas mais inteligentes
do Instituto de Tecnologia de Tóquio, onde participou nalguns dos projetos de destaque
da instituição, foi escolhida pelo professor Kenji para sua assistente devido à sua grande
capacidade de programação na área da inteligência artificial.
Kenji é um engenheiro nos seus cinquenta anos que cresceu nas zonas rurais de
Hokkaido e desde pequeno demonstrou ter um talento especial para arranjar e criar
maquinetas. Um prodígio na área da robótica, aos 16 anos apresentou o projeto Hachikoi,
um cão robot de apoio, para pessoas com limitações. Tendo tido a oportunidade de
estudar nas melhores universidades, depressa concluiu que pouco podia evoluir com o
que a universidade tinha para lhe ensinar. Aproveitando a publicidade obtida com o
projeto Hachiko conseguiu financiamento para fundar o laboratório Kurisarida ii cujo
principal objetivo se tornou a construção de um protótipo humano artificial, o projeto
Talos.
Kenji trabalhava no projeto há já bastantes anos e contava agora com a preciosa ajuda
da sua assistente Mirai para finalmente conseguir concluir o seu protótipo. Ao longo dos
anos o laboratório tinha concebido vários órgãos artificiais que tinham contribuído para
progressos notáveis na medicina e na longevidade do ser humano. A colaboração de
muitos cientistas tinha permitido a conceção de um cérebro humano e a sua articulação
com os diversos órgãos. Faltavam apenas as mãos.
A dificuldade da mão reside em ser uma das partes mais importantes e complexas do
corpo humano sendo, a seguir ao cérebro, a parte do corpo que realiza as tarefas mais
elaboradas, desde movimentos delicados e precisos a ações que exijam força. Através
do tato, a mão permite ainda identificar aquilo em que se toca.
Há vários anos que os dois cientistas trabalhavam incansavelmente quer na construção
de mãos artificiais que permitissem reproduzir de alguma forma a complexidade da mão
humana, quer na sua programação e coordenação com o cérebro artificial. Estas últimas
tinham-se revelado particularmente difíceis e as várias tentativas tinham resultado em
fracasso.
No entanto, hoje o entusiasmo era grande pois iriam finalmente ligar as mãos ao resto
do corpo que já tinham construído e ficar a saber se podiam finalmente festejar a
conclusão do primeiro protótipo de um ser humano totalmente artificial. Ligaram as mãos
ao corpo, uma teia intrincada de fios e sensores, e nos seus computadores corrigiram os
últimos códigos da programação. Carregaram na tecla “Enter” e … durante alguns
segundos, que duraram uma eternidade, nada aconteceu. Porém, de repente os dedos
começaram a movimentar-se, e a mão direita alcançou um lápis e escreveu
“konnichiwaiii”. O ser artificial virou-se para os seus criadores e disse inexpressivamente:
-Parece que resultou.

II. Borboleta

A pulseira vibrava insistentemente. Elpisiv apertou-a ligeiramente, ativando o ecrã


holográfico. Surgiu a imagem da conselheira Asami Tanizaki, responsável pelo Ministério
da Saúde do Japão. Tinha havido uma explosão no Hospital Central de Shibuya, em
Tóquio e o Dr. Nobu Kenji, um dos melhores cirurgiões do país, tinha ficado gravemente
ferido tendo que ser-lhe amputada uma das mãos. A conselheira solicitava a ajuda do
Instituto Petaloudav, um dos melhores institutos médicos do Mundo, localizado em
Tessalónica, na Grécia.
Elpis solicitou uma amostra do conjunto de células necessárias à reconstituição da mão
do Dr. Kenji e recolheu-o no Transtâneo (Sistema de Transporte Instantâneo) a caminho
do laboratório de reconstrução orgânica.
Ao ouvir o nome Kenji, Elpis recordou o ilustre professor Kenji do século XXI, que a partir
do laboratório Kurisarida – agora um museu – tinha contribuído de forma determinante
para a existência dos Gōseivi, os seres completamente artificiais que replicavam um ser
humano na perfeição. Confirmou rapidamente que o Dr. Kenji era de facto um
descendente do ilustre professor.
No laboratório Elpis encontrou Méllonvii e avançaram imediatamente para a reconstrução
da mão, utilizando as células fornecidas que colocaram no acelerador citonésico. No
mesmo momento começaram-se a formar ossos, vasos sanguíneos, músculos e
finalmente a pele. Em poucos minutos a nova mão do Dr. Kenji estava pronta para ser
ligada ao corpo. Elpis e Méllon dirigiram-se ao Transtâneo e numa fração de tempo
estavam no Hospital Central de Shibuya, onde eram aguardados. Dirigiram-se à sala de
operações onde de forma rápida e precisa substituíram a mão inutilizada pela mão
reconstruída.
O Dr. Kenji acordou no seu quarto e lentamente começou a movimentar os dedos da sua
mão direita. Era como se o acidente não tivesse acontecido. O Doutor sorriu quando os
seus dois médicos, a Dr.ª Elpis e o Dr. Méllon se aproximaram para avaliar o resultado
da operação. Apenas a ausência de um passado anterior à vida profissional e de um
nome de família permitia distinguir os seus colegas Gōsei de um humano orgânico.

Autores: Alexandre Madeira, Diogo Henriques e Ramiro Fernandes

i Hachiko foi um cão japonês celebrizado pela sua dedicação ao dono, mesmo após a morte deste.
ii Crisálida (jp.)
iii Olá (jp.)
iv Esperança (gr.)
v Borboleta (gr.)
vi Sintético (jp.)
vii Futuro (gr.). Na obra “O Senhor dos Anéis”, “mellon” significa “amigo” na língua dos elfos.

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