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Prefácio

O protestantismo brasileiro tem uma curta história de vida, ainda


mais se comparado com os países europeus onde o movimento
nasceu e floresceu. Nem por isso deixa de ter suas idiossincrasias.
Nas últimas duas décadas, em especial, quando os evangélicos
experimentaram sua onda de maior crescimento quantitativo,
começaram a surgir sinais preocupantes.
Com essas preocupações foram levantadas algumas questões
importantes. Seria viável imaginar que o crescimento numérico do
protestantismo brasileiro provoque transformações sociais e
econômicas, promovendo mais justiça social? Por que boa parte das
igrejas concentra sua atuação nos próprios limites geográficos,
esquecendo-se dos que ainda precisam ouvir as boas-novas de
salvação?
Compreendendo essa realidade difusa e complexa, Rubens Muzio
traça um plano de trabalho bem elaborado em O DNA da liderança
cristã. Este livro tem objetivo claro e muito bem definido: reposicionar
a liderança e a igreja evangélicas de nosso país nos fundamentos
cristocêntricos do evangelho, permitindo assim que a missio Dei seja
experimentada no dia-a-dia de nossas comunidades.
Já no início, o texto nos leva a reconhecer que vivemos num
tempo de profundas mudanças, e não podemos simplesmente
categorizá-las filosófica ou sociologicamente. O autor identifica
alguns paradigmas no trabalho daqueles que estão investidos de
liderança nas igrejas. Sem dúvida alguma, cada um de nós se verá
numa ou mais dessas categorias, como num espelho.
O que vem a seguir é o que mais me surpreende. Ao contrário de
muitos, que buscam as respostas para o desenvolvimento de uma
boa liderança eclesial nas ferramentas de planejamento estratégico,
no marketing ou nos modelos de crescimento de igreja, Muzio opta
por outro caminho. Um velho caminho. Por meio do que chama
“eventos redentores de Jesus” e suas implicações, ele traça a
essência de uma igreja e uma liderança que cumprem cabalmente a
missio Dei. E usa a expressão “missional”, ainda pouco familiar entre
nós.
Como desenvolver essa perspectiva missional cristocêntrica no
âmbito ministerial? O livro mostra que uma igreja e uma liderança
missional são reconhecidas não só por valorizar o que chamamos
de “obra missionária”. Elas experimentam a encarnação, a morte, a
ressurreição, a ascensão e a segunda vinda de Cristo como partes
inerentes de seus ministérios.
Muzio nos auxilia a compreender o contexto brasileiro com todas
as suas nuances: forte sincretismo religioso, pobreza e injustiça
social, evangélicos na mídia, corrupção em boa parte da sociedade.
Com abordagem bíblico-teológica pertinente e fundamentada em
reconhecidos missiólogos, esta obra leva o leitor a reconhecer a
missão integral como fator preponderante para a transformação de
nossa nação.
Do alto da experiência que adquiriu como pastor de igreja local e,
nos últimos anos, como missionário da Sepal e professor de
instituição teológica, meu amigo e companheiro de ministério
Rubens Muzio nos presenteia com um texto que certamente
abençoará a igreja evangélica brasileira e, especialmente, sua
liderança. Boa leitura.
OSWALDO PRADO
Missionário da Sepal
Introdução

Acredito que as peculiaridades e os contrastes entre dois momentos


importantes de minha vida afetaram meu pensamento e modelaram
meu estilo ministerial. Como pastor da Igreja Presbiteriana Rocha
Eterna, em Tatuí, no interior de São Paulo, aprendi muitas
estratégias de crescimento e busquei excelência administrativa e
gerencial. Tornei-me (perdoe-me a palavra) um profissional nos
negócios da igreja. Presenciei um crescimento de quase 400% num
período apenas de cinco anos.
A despeito do sucesso aparente, minha vida espiritual e familiar
não progrediu com a mesma velocidade. Estava ocupado demais
para me tornar melhor cristão, marido e pai. Em 1999, recebi o
convite para pastorear uma igreja multiétnica em Toronto, no
Canadá. Imediatamente percebi que meu ministério seria
predominantemente missionário numa cidade com mais de 140
grupos étnicos. Nas salas de aula onde meus filhos aprenderam
inglês, pelo menos dez línguas eram faladas em pequenos grupos
de quinze a vinte alunos. Toronto foi, para nós, uma grande Babel
urbana.
A princípio, pensei que minha formação acadêmica e a experiência
pastoral tão positiva iriam me garantir sucesso no Canadá. Afinal,
tivera bom treinamento, conhecia as melhores técnicas de mercado e
excelentes ferramentas gerenciais. Pensei que os planos de ação, o
estabelecimento de alvos, as pesquisas bem elaboradas, os
programas organizados cuidadosamente, o trabalho duro e a boa
vontade produziriam a qualidade e a quantidade dos resultados
esperados. Nada mais longe da verdade. A pequena igreja
canadense rejeitou o modelo multicultural, adoeceu, envelheceu e
morreu, como muitas outras igrejas daquele país. Os anos 2000 e
2001 foram críticos para nossa família, e demandaram imenso
esforço físico e emocional.
No entanto, graças ao Senhor, apesar do fracasso aparente,
entrei numa nova dimensão e assumi um vigor espiritual nunca
antes experimentado. A Palavra de Deus me consolou. Minha vida
de oração se fortaleceu, assim como meu prazer nas verdades
espirituais e minha alegria com tudo aquilo que Deus fez por mim.
Minha fé fora amadurecida.
Naquele momento de transição, enquanto pensava em aceitar ou
não o convite para plantar uma nova igreja (o que exigiria minha
permanência por, pelo menos, mais cinco anos no Canadá), fui
convidado a integrar a equipe do Serviço de Evangelização para a
América Latina (Sepal). Após muita reflexão e oração, decidi
retornar e servir à igreja no Brasil.
Minha peregrinação pessoal me levou a pensar longamente sobre
as intenções do ministério cristão. Por que fazemos o que fazemos?
Percebi que motivação é um importante aspecto na atividade
humana. Muito mais do que saber o que fazer, devemos
compreender por que o fazemos. Quando as razões são claras e os
propósitos, seguros, perseveramos, apesar de toda oposição.
Devemos pensar missionariamente. A igreja no Brasil precisa de
um modelo de liderança saudável que seja estruturado com base
numa perspectiva missiológica inovadora e integral. A maior parte
dos modernos paradigmas de liderança enfatiza estratégias
gerenciais e métodos de marketing sem que as verdadeiras
motivações sejam reveladas, e os porquês e as intenções do
coração sejam examinados. Talvez por isso recebamos tantas
notícias sobre o comportamento imoral ou ilegal de líderes
evangélicos.
As verdadeiras respostas para a liderança evangélica não estão
contidas nas arenas da administração, do marketing e da sociologia,
mas numa missiologia contextualizada e na teologia bíblica. Neste
livro, tenho a intenção de propor um modelo missional de liderança
para a igreja evangélica brasileira. Quero encorajar pastores a
enxergar como empreitada missionária sua liderança nas cidades
onde vivem.
No primeiro capítulo, descrevo sete dos principais paradigmas da
liderança pastoral que influenciam as igrejas brasileiras. São
modelos de liderança influenciados pelas ciências da administração,
do marketing, da psicologia e da sociologia, entre outras, na busca
pelo crescimento das igrejas.
Entendo que, antes de propor um novo estilo de liderança, seja
importante falar sobre a natureza missionária (missional) da igreja e
da liderança. Faço isso no segundo capítulo do livro. Defendo que a
revelação de Jesus e os principais eventos de sua vida constituam o
supremo modelo de liderança. Em Cristo, encontramos a lógica
completa, bem como as motivações corretas para a liderança
missional.
No terceiro e no quarto capítulos, procuro delinear um modelo de
liderança mais apropriada ao contexto brasileiro, abrangendo
questões relacionadas à nossa identidade como cristãos brasileiros,
o ambiente que nos cerca, o contexto em que vivemos e nossa
maneira de conduzir o ministério e cumprir a missão proposta por
Jesus Cristo. A igreja existe como sinal das possibilidades e
potencialidades do reino de Deus na terra. Ela é instrumento da
missão de Deus.
Missiologia (estudo da missão) e eclesiologia (estudo da igreja)
não deveriam existir como disciplinas estanques, separadas
funcionalmente. Para muitas igrejas, missões representa apenas um
entre tantos comitês ou departamentos. Não faz parte do DNA, ou
seja, da estrutura e da essência dessas congregações ou
denominações. Talvez por isso, muitas ainda não entendam sua
natureza missional.
Utilizo a expressão “igreja-em-missão” em referência ao povo
chamado e enviado ao mundo com uma missão. A igreja-em-missão
é o instrumento de Deus para concretizar sua missão. Missio Dei é a
expressão teológica cunhada para expressar o fato de que não se
trata de iniciativa meramente humana: é ação de Deus. Todo e
qualquer estilo de liderança cristã deve, portanto, considerar a
identidade missiológica da igreja.
Também faço uso do termo “missional” porque a palavra
“missionária” perdeu parte de seu sentido original. Para a maioria
das pessoas, missionário é aquele enviado para campos e culturas
longínquas, além-mar. Na verdade, todas as áreas e todos os
ministérios da igreja possuem uma dimensão missional. Com este
neologismo, procuro enfatizar a vocação da igreja como povo
chamado e enviado por Deus.
Convido pastores e líderes a pensar missionalmente suas igrejas.
Convido os cristãos a se enxergar como missionários para a cidade,
gente que conhece a cultura e estuda o contexto como campo
missionário. Oro para que este livro nos torne melhores missionários
para nossas cidades.
RUBENS RAMIRO MUZIO
1-Modelos contemporâneos de liderança

Paradigmas de liderança para um novo tempo

Num mundo que passa por grandes transformações em períodos


muito curtos, o espaço para a sobrevivência de padrões absolutos é
cada vez menor e mais impreciso. Liderar e construir pontes entre
uma época e outra não é fácil, e a própria igreja enfrenta essa
dificuldade. Como afirmou Alan Roxburgh, com propriedade, as
comunidades cristãs perderam contato com as profundas mudanças
no contexto cultural e social dos últimos 25 anos. A consequência é
evidente: nós, cristãos, estamos mal preparados para transmitir o
evangelho a este novo universo que se forma ao redor.
A sociedade está rompendo com os princípios tão caros ao
iluminismo, que contribuíram para o projeto da modernidade e, a
partir do fim da Idade Média, alteraram a cosmovisão europeia nos
campos da religião, da economia e da filosofia. Foram mudanças
sociais que resultaram no desenvolvimento das ciências exatas,
como a Física e a Matemática, da lógica, do empirismo e da
observação. Nesse cenário cultural racionalista e científico,
predominou a influência de Newton e Descartes na produção de
uma visão analítica e desagregadora da vida.
No entanto, o mundo tomou outros rumos. Agora se encaminha
para um contexto novo e desconhecido. Para Craig Van Gelder, o
próprio uso do prefixo pós em pós-modernidade denota que não há
clareza na direção para onde as transformações culturais levarão a
sociedade humana. Pós é o que vem depois de alguma coisa e
determina o rompimento das fronteiras anteriores. Identifica-se apenas
como algo que sucede a modernidade. Ele afirma:

Descrever a condição da pós-modernidade e procurar teorizar a


respeito dela tem produzido um novo vocabulário que pode soar
estranho no início. Conceitos como indeterminação,
desconstrução, diversidade, descentralização e não-estético
desafiam o vocabulário da modernidade, o qual enfatiza
previsão, certeza, absolutos, centralização e o privilégio de um
[i]
determinado estilo como cultura preferida.

Utilizando a metáfora da esponja lançada na água, os evangélicos


brasileiros, tal qual esponjas secas, apropriam-se de mecanismos
científicos, realistas, empíricos e lógicos da modernidade e da pós-
modernidade para conquistar credibilidade diante da cultura
moderna. Dar provas da existência de Deus, da veracidade da Bíblia
e da historicidade da morte e ressurreição de Cristo, entre outras
afirmações da fé cristã, tornou-se imperativo. Por isso, muitos
ministérios, programas e modelos pastorais são desenvolvidos a
partir da teoria, da metodologia e das plataformas modernas de
organização. Mas é necessário que a igreja saiba em que tipo de
água está se encharcando.
Lembro-me de um amigo cujo filho, ao ser questionado a respeito
do trabalho do pai, disse o seguinte: “Meu pai não faz nada. Ele é
pastor”. Nas últimas décadas, a identidade simbólica do pastor
enfraqueceu-se, justificando algumas questões: o que significa “ser
pastor”? O que um pastor faz? Qual é sua função social?
Por conta disso, muitos dos paradigmas atuais são emprestados
de símbolos sociais com maior proeminência. O pastor passa a ter
função terapêutica, como numa metáfora baseada na medicina. A
metáfora institucional pode transformá-lo em capelão. O líder vira
treinador, técnico ou couch quando se vale do jargão esportivo. É
considerado empreendedor, estrategista ou marqueteiro quando sua
imagem é formada a partir dos livros de negócios.
Além da Bíblia (e, por vezes, muito mais do que ela), pastores
leem administração e marketing e memorizam estratégias de
negócio e os mais novos princípios de liderança escritos pelos
CEOs das empresas americanas e europeias. Ser chamado “pastor”
não é suficiente. É melhor ser “doutor” também, como se vê em
alguns boletins eclesiásticos: “Pr. dr. Fulano de Tal”.
Esse líder do século XXI precisa, é claro, de habilidades em
muitas áreas para enfrentar as exigências de seu cargo. O consultor
americano Loren Cad continua a crer que os pastores são
fundamentais para o futuro da igreja. “Eles são urgentemente
necessários para lançar as bases das novas estruturas nas quais os
leigos se reunirão para serem formados e enviados. Eles são
essenciais no treinamento dos líderes do futuro.” Há um chamado
profético para um ministério mais proativo e orientado para a
missão. Ele requer líderes que trabalhem como catalisadores no
[ii]
progresso missional e no processo de mudança.
Na verdade, não é possível resolver os problemas pastorais
impondo padrões antigos a situações modernas. No entanto, o
sentido da palavra “pastoral” migrou para outras formas mais
seculares de ministério. O título perdeu seu poder, e a função de
sacerdote, seu verdadeiro sentido. Tais palavras não se encaixam
nas hierarquias da sociedade moderna. No item “profissão” da
declaração do Imposto de Renda ou de qualquer outro formulário,
não existem as categorias “pastor” e “missionário”.
Sabe-se que muitos estilos de liderança nasceram a partir do
diálogo entre as tradições bíblicas e a estrutura social e política em
determinados períodos da história. Os profetas surgiram durante o
processo de humanização e assimilação de culturas pagãs. O mártir
apareceu quando os cristãos encontravam-se em minoria, dentro de
um ambiente hostil.
Luciano Cárdenas afirmou que na Bíblia não há estruturas fixas
para a missão, mas pluralidade de respostas a circunstâncias
[iii]
diferentes e necessidades específicas. Nela existem valores e
princípios os quais, quando praticados, podem abençoar a cidade
onde a igreja está inserida como comunidade escatológica, como
sinal e instrumento do reino de Deus. O modelo bíblico de missão,
devidamente entendido e interpretado, pode servir de luz, orientação
e estímulo para o ministério integral contemporâneo da igreja. David
Bosch diz:
Isto significa que mesmo uma sociedade pluralista ou secularista
permanecerá dependente do testemunho e da existência dos
crentes, daqueles com integridade e boa conduta. Somente uma
visão moral compartilhada poderá manter a sociedade unida. Se
continuarmos a contribuir com esta visão, nossa missão será
uma bênção para todos. Sabedores da realidade do pecado no
indivíduo e na vida comunitária, permanecemos antiutópicos,
sóbrios, vigilantes e não nos enganamos com a crença de que
construiremos uma sociedade perfeita aqui na terra. Agindo
assim, nos desesperaremos quando houver uma reviravolta e
quando o sistema social ou político permanecer frágil e sob
pressão. Desta forma, faremos o melhor pela paz da cidade
quando convidarmos as pessoas à verdadeira conversão —
“uma conversão que inclui responsabilidade social e visão moral
[iv]
de sociedade”.

Algumas das principais tendências da igreja brasileira afetaram de


[v]
maneira significativa a forma de atuação de pastores e líderes.
Fundamentadas em premissas da modernidade, essas tendências
são impostas pelos novos conceitos da pós-modernidade. Esses
paradigmas da liderança pastoral são influenciados, em diferentes
graus, por fatores culturais internos e externos, pelas novas formas
de espiritualidade oriental e pela pluralidade religiosa das religiões
que surgiram recentemente e pelas igrejas neopentecostais. A
administração, a psicologia, a sociologia e o marketing exportaram
pressupostos que fundamentaram essas tendências e determinaram
o estilo e o perfil de várias igrejas, pastores e líderes.
O paradigma da repetição
Um primeiro paradigma que afeta os diversos estilos de liderança é
a repetição. Ela produz o pastor-clone ou pastor-repetidor. A
despeito do fato de o protestantismo ter sido trazido ao Brasil há
mais de um século e meio, produzindo uma igreja autóctone e
vigorosa, a liderança continua reproduzindo as culturas trazidas
pelos missionários e os valores implantados pelas missões
estrangeiras. A maioria das igrejas na América Latina adota teo-
logias importadas e estilos de ministério transmitidos por seus
fundadores, ou mesmo copiados.
Ao visitar uma livraria evangélica, é fácil notar que muitos livros
são traduções de títulos estrangeiros, principalmente os norte-
americanos. Não se pode negar que vários desses autores
escrevem com competência sobre temas que precisam ser tratados
também por nossas igrejas. No entanto, muitos deles enfatizam
demais o lado pragmático e tecnocrático da cultura de seu país.
Mesmo assim, por lhes faltar um enfoque contextualizado e
encarnacional, são assimilados sem maior contestação.
Em se tratando de ministérios, a clonagem é fácil. Basta entrar na
Internet para que o pastor tenha acesso a centenas de modelos
importados com instruções de “como fazer”. São inúmeras
ferramentas ministeriais em kits, autênticos pacotes bolados para
serem reproduzidos. Milhares de pastores importam ou reproduzem
modelos eclesiásticos de igrejas como a Willow Creek, liderada por
Bill Hybels; a Saddleback Church, dirigida por Rick Warren; e o G-12
de César Castellanos, líder da Missão Carismática Internacional,
com sede na Colômbia.
Uma das características dessa postura em relação aos modelos
importados é a tolerância a certo paternalismo exercido pelas igrejas
de origem, o qual desestimula e marginaliza iniciativas autóctones.
Somos uma igreja que importa teologia, seminários e até currículos,
como já disse o pastor e teólogo Valdir Steuernagel: “Vivemos e
consumimos traduções. Poucas coisas são produzidas aqui. E
[vi]
destas, pouco existe de autêntico”. Grande parte da literatura
teológica brasileira não passa de publicações de sermões
estrangeiros e estudos bíblicos traduzidos.
Na América Latina, o primeiro modelo de liderança pastoral
clonado foi o missionário estrangeiro. Ser cristão significava copiar
atitudes e comportamentos dos missionários. De forma deliberada
ou não, eles transmitiam, junto com o evangelho, a cultura de seus
países de origem. De acordo com Emílio Castro, isso produzia (e
ainda produz) uma espécie de ruptura entre o novo convertido e seu
[vii]
contexto cultural. Ser cristão exige, com frequência, rejeição à
cultura brasileira, à música, à linguagem, às roupas, à comida, às
festas e até mesmo às pessoas.
Apesar de o Brasil e a América Latina produzirem consultas,
conferências e textos de conteúdo teológico com abordagem local e
legítima, predomina a inclinação por assimilar tendências e teorias
estrangeiras, o que Orlando Costas chama de “transplantes
[viii]
teológicos”. Um nome estrangeiro num folder ou filipeta de
propaganda parece garantir mais audiência em conferências e
congressos.
José Rubens Jardelino também reconhece que nossa visão
pastoral ainda se baseia no modelo anglo-saxão do protestantismo
de missão: “Acreditamos poder afirmar que a pastoral protestante
ainda não saiu da fase missionária, não conseguiu superar a
[ix]
dependência dos modelos da igreja-mãe”.
Por muito tempo, o modo de vestir dos pastores brasileiros
também refletiu a clonagem da cultura estrangeira. Ainda hoje,
muitas igrejas, ignorando o calor tropical, exigem que seus líderes
usem terno e gravata aos domingos. Os pastores mexicanos, por
exemplo, vestem-se de preto quase o tempo todo.

Identidade em formação
Apesar de alguns sinais de mudança nas últimas décadas, as
perguntas de Valdir Steuernagel continuam pertinentes: por que, em
nossas igrejas, há tão pouca música nativa e tanta influência
estrangeira? Por que, sob o sol tropical, usam-se terno e gravata para
ir aos cultos? São esses aspectos inerentes ao evangelho ou reflexo
de um estilo importado de evangelização? É evangelho ou é cultura?
[x]
Em parte, isso acontece porque a igreja brasileira ainda está
formando sua identidade, e o fenômeno da globalização estimula a
continuidade da importação de modelos eclesiásticos e teológicos.
Num artigo muito interessante, Ruth Valério analisa como a
globalização tem produzido um verdadeiro “Disney McWorld”,
expressão cunhada a partir da relação social do entretenimento das
empresas de Walt Disney com o gerenciamento e marketing da rede
de lanchonetes norte-americana McDonald’s.
Embora nem todas as corporações internacionais sejam norte-
americanas, na mente de muitos a globalização é sinônimo de
americanização.
Isso certamente é verdadeiro em relação à igreja. Como Peter
Harris afirma: “quando você vai à igreja numa grande cidade, em
qualquer parte do mundo, a chance é grande de estar em Los
Angeles, com toda a semelhança cultural existente na teologia ou
formas de culto, qualquer que seja a língua falada”.
As ferramentas da Internet e o poder econômico possibilitaram a
disseminação de modelos ministeriais estrangeiros, principalmente
originários dos Estados Unidos, por meio de literatura e cursos.
Dentro e fora da igreja se consomem e copiam músicas, filmes e
moda. O preço que o Brasil e a América Latina pagam, com
frequência, é a recusa em desenvolver recursos que reflitam mais
[xi]
adequadamente a identidade cultural da igreja local.
A maioria dos ministérios paraeclesiásticos, como Serviço para
Evangelização da América Latina (Sepal), Jovens com uma Missão
(Jocum) e várias outras agências, editoras e organizações, também
nasceram fora do Brasil. Muitos deles procuram assumir uma
identidade bicultural e se adaptar à cultura brasileira. Contudo, em
vários casos é mais fácil construir uma casa nova do que reformar a
antiga. Aqueles que mantêm a mentalidade estrangeira sem buscar
contextualização correm o risco de desaparecer.
Como isso tudo afeta o pastor brasileiro? O pastor-clone acaba
investindo boa parte de seu tempo na busca de uma fórmula ou
receita mágica, ignorando a cultura nacional, as tradições locais e
seu contexto. O missiologista urbano Ray Bakke chama isso
[xii]
“mentalidade de franquia do McDonald’s”.
Muitos pastores são atraídos por movimentos ministeriais que
alardeiam a promoção do crescimento da igreja. Com isso, adaptam
a visão e os planos para se adequar e copiar modelos como o da
Igreja Willlow Creek, de Bill Hybels. Outras congregações procuram
seguir à risca as orientações de Rick Warren, líder do movimento
Igreja com Propósitos, na esperança de encontrar uma receita que
funcione de tal forma que possam repetir o sucesso divulgado em
livros e cursos.
Várias igrejas também se valem de técnicas de mercado. Em
geral, esses modelos eclesiásticos procuram saber por que as
pessoas não frequentam a congregação, o que dificulta a
participação de não-cristãos, como atrair as pessoas do bairro etc.
sem, contudo, compreender claramente sua missão: ser sinal do
reino de Deus. A preocupação com o crescimento não deixa de ser
saudável, e produz ferramentas e mecanismos úteis para conhecer
melhor o mundo e o contexto no qual a igreja está inserida. O
perigo, porém, está na tentativa de importar técnicas e clonar
modelos. Cada igreja tem sua impressão digital.

Vários países num país


Presumir que os protótipos estrangeiros funcionarão melhor do que
os nacionais, adotando-os sem critério, é sempre um problema. A
reprodução de um modelo só porque deu certo em outro lugar,
principalmente sem adaptação ao contexto local, pode trazer
resultados desastrosos. Populações e grupos sociais variam, bem
como suas características culturais.
Há vários países dentro do Brasil, e várias cidades dentro das
nossas. Assim como elas não podem ser vistas de maneira
uniforme, ministérios não devem ser padronizados. Não se pode
falar sobre modelos e estratégias que funcionam em cidades cultural
e contextualmente diferentes sem, ao menos, pensar a respeito do
que a igreja foi chamada para ser e qual a sua essência. A ação do
Espírito Santo de Deus é forte demais, imprevisível demais e
independente demais para ser clonada.
O paradigma de repetição gera outros problemas para a
identidade dos pastores e líderes brasileiros. Alberto Guang Tapia
destaca pelo menos dois deles. Em primeiro lugar, o significado da
obra pastoral é confuso. Não se sabe ao certo a diferença entre
herança cultural e revelação bíblica, ou seja, o que é normativo em
termos culturais ou bíblicos. Além disso, a maioria das igrejas,
pastores e líderes se convence de que o modelo adotado é a única
maneira da ação pastoral, ignorando a criatividade de novas
[xiii]
gerações e novos ministérios autóctones e nativos. Para
alcançar as diversas tribos modernas e as gerações emergentes é
necessário buscar novos programas contextualizados e ministérios
[xiv]
pós-modernos.
A tendência à repetição também afeta a autoestima e a
identidade da igreja brasileira. Igrejas e ministérios do hemisfério
norte (“superior”) ainda tentam controlar e administrar igrejas e
ministérios do hemisfério sul (“inferior”). René Padilla explica que,
em muitos casos, a obra missionária continua sendo realizada a
partir de uma posição de poder político e econômico. Em assuntos
de cultura e raça, parece haver a suposta superioridade de um
cristianismo identificado com a raça branca e o Primeiro Mundo.
Muitas igrejas, instituições e movimentos cristãos no Terceiro
Mundo continuam funcionando nessa situação colonial,
dependentes de pessoal estrangeiro e sujeitos ao controle externo.
Apesar do progresso que se fez na direção da independência, os
cristãos dos chamados “países em desenvolvimento” estão presos a
um modelo persistente de imperialismo econômico e cultural, ainda
[xv]
que sua aparência externa tenha mudado.
A liderança missional brasileira deve, portanto, ser mais
independente em sua teologia e contextual em seus ministérios,
adaptando-se à realidade do povo do país. Além disso, recursos,
talentos, modelos ministeriais e história devem expressar a
autonomia, a criatividade e a originalidade da cultura nacional.
O paradigma do profissionalismo
Samuel Escobar propõe um teste para saber se um ministério está
assumindo características de atividade profissional: é quando o líder
está diante do desafio de “caminhar a segunda milha” — ou seja, ir
além de sua função institucional — e se recusa a fazê-lo,
transferindo a responsabilidade a outro. Quando essa é a primeira
reação, então o limite já foi ultrapassado.
Como disse o teólogo Orlando Costas: “Quando se fala em
nossos círculos de teologia pastoral, se pensa de imediato no pastor
e em seu cuidado com a igreja. O pastor é, por sua vez, visto em
[xvi]
termos profissionais”. O pastor-profissional é um especialista
formado para desempenhar determinadas tarefas administrativas e
funções técnicas.
A obra pastoral se reduz a pessoas exercendo responsabilidades
específicas. Muitos veem os pastores como meros funcionários da
igreja. Líderes que servem em tempo integral no ministério são
tentados a fazer as coisas mecanicamente apenas por serem pagos
para isso.
Valdir Steuernagel lembra que, ao longo da história, as igrejas se
institucionalizaram e, com isso, a liderança e a ação missionária se
concentraram gradativamente nas mãos do pastor. Ele passou a ser
uma pessoa indispensável. Começou a ser exigida dele uma
formação teológica elevada, e com isso se tornou o profissional do
[xvii]
verbo divino, claramente diferenciado do leigo.
Dessa forma, a figura do pastor-profissional nasceu como
consequência da necessidade de fundamentar tudo e todos na
ciência e na razão, conceito próprio do Iluminismo. Em vez de focar
o místico, o pedagogo, o piedoso e o profeta como parâmetros, os
modelos de liderança se basearam nas descobertas científicas.
Para conseguir espaço e identidade na sociedade atual, é
necessário que o líder religioso seja extremamente profissional em
tudo o que faz.
Neste sentido, o ofício do pastor-profissional passa a ser igual a
qualquer outro. Ele é um profissional entre profissionais. Como
acontece nas demais profissões, o sucesso e a realização pessoal
serão alcançados por aqueles que possuírem as melhores mentes,
os melhores dons e as melhores habilidades. Dedicação e trabalho
duro são os fatores determinantes de sucesso e crescimento. A
suficiência de Cristo e a dependência da ação do Espírito na
liderança ficam em segundo plano.
Embora fé e religião sejam fundamentais para a sociedade, a
igreja passou a exigir uma liderança no mesmo nível acadêmico de
advogados ou médicos. Assim como na educação as universidades,
baseadas no racionalismo científico, preparam profissionais,
acredita-se que os seminários devam fazer o mesmo com os
sacerdotes que os cursem.
Na realidade, esse modelo de pastor-profissional influencia o
currículo e determina o ethos (atitudes e crenças) das faculdades
teológicas, designação que os institutos bíblicos e seminários têm
usado preferencialmente — afinal, dá mais prestígio se dizer
professor ou aluno de faculdade do que de seminário.
Boa parte da igreja brasileira de hoje se caracteriza por forte
clericalismo e negligência quanto ao sacerdócio universal dos
cristãos (doutrina fundamental do protestantismo), subestimado
diante da ordenação oficial. Em muitas estruturas denominacionais,
a liderança requer uma série de requisitos claramente delineados
dentro de uma formação teológica denominacional que prepara
unicamente para o ministério profissional.
Para diversas instituições e denominações, a titulação passou a
ser uma espécie de exigência para o exercício da liderança
evangélica. O pastor-profissional, por sua vez, acredita que ter
diploma reconhecido pelo Ministério da Educação, terminar um
mestrado ou usar o título de “doutor” antes do nome pode significar
um tipo de reconhecimento que o simples sacerdócio parece não
suprir mais. Ser o “reverendo” é, em sua opinião, uma referência de
liderança ultrapassada.
O paradigma do pastor-profissional funciona somente quando o
cristianismo encontra-se no centro da cultura, o que nunca foi o
caso no Brasil. Mas a impressão permanece. Num contexto social
que não reconhece, não honra ou não necessita da função pastoral,
exceto nos rituais de batismo, casamento e funeral, esse pastor
busca afirmação social assimilando o perfil do profissional
qualificado e que gera resultados. Ele precisa colecionar
habilidades de conselheiro eficaz e administrador capaz para
receber aceitação.

Tempo de especialistas
Uma das características das sociedades modernas e pós-modernas
é a constante e crescente especialização de pessoas e instituições.
No Brasil, por exemplo, o conceito de médico de família não é tão
popular e funcional quanto em países como Canadá e Cuba. Aqui,
estudantes de medicina devem investir dois a quatro anos numa
área de especialização, mesmo a clínica geral. É interessante notar
como a maioria dos brasileiros, que poderia ser tratada pelo clínico
geral, procura especialistas de olhos, garganta, pulmão, coração e
assim por diante.
Consciente ou inconscientemente, uma das motivações para
profissionalismo é a possibilidade de ganhar dinheiro. Afinal, o
pastor é pago para pregar, visitar, aconselhar, administrar e assim
por diante. Alberto Tapia entende que, neste tipo de relação, o
ministério do líder se limita a fazer que a congregação frequente
com regularidade os cultos, contribua financeiramente e aceite
[xviii]
visitas pastorais em circunstâncias especiais.
Outra característica importante da modernidade que influencia o
pastor-profissional é o dualismo entre o público e o privado. O mundo
público é o do trabalho, da rua, da razão, das leis. O privado é o da
casa, dos sentimentos, dos valores familiares, das opiniões pessoais
e religiosas. O mundo sobrenatural é o dos espíritos, dos milagres,
dos sentimentos e dos valores pessoais. O mundo natural, sim,
controla as ciências e lida com a realidade material.
Para Rubem Amorese, essas diferenças geram um conflito que
obriga a uma retirada estratégica para um espaço preservado,
inviolável, protegido de intromissões. “Ali, a intimidade, o hobby, as
preferências íntimas, a religião, os valores de família, a
[xix]
individualidade, o verdadeiro self pode expressar-se”.
Esse dualismo criou mais e mais privatização do indivíduo e
subjetividade da fé. A pessoa escolhe o que deseja, qual igreja
frequentar, qual mandamento seguir, qual batismo receber, pelos
motivos que decidir e bem entender. Há uma crescente e
incomunicável separação entre o mundo público e o privado.
No mundo público imperam leis e regras de convívio, leis de
mercado, culturas de negócios e leis macro-sociais. Nesse
âmbito as pessoas se regem por padrões cada vez mais formais
de convivência, de comportamento, de sucesso etc. Cada vez
mais esse espaço torna-se impessoal, laico, secular, impiedoso,
[xx]
massificado.

No mundo público do pastor-profissional, ele precisa aprender a


não demonstrar emoções e opiniões, a ter jogo de cintura e
raramente ser sincero. Contudo, no seu mundo privado, da família e
dos amigos mais íntimos, é diferente: há liberdade para a
intimidade, amizades descontraídas, mau humor, ressentimentos e
idiossincrasias.
Roberto DaMatta diz que somos uma pessoa em casa, outra na
rua e ainda outra no mundo. Mudamos porque em cada um desses
[xxi]
ambientes somos submetidos a valores e visões diferenciados.
Se a religião é privativa da alma e exclusiva do mundo interior da
casa, as questões éticas e morais tornam-se extremamente
subjetivas e pessoais. Um pastor pode dirigir um belíssimo culto no
domingo à noite, pregar muito bem e administrar com excelência
sua congregação, ainda que, durante a semana, magoe a família,
crie intrigas, envolva-se em falcatruas e veja pornografia na Internet.
Desde que esteja produzindo resultados para a igreja e cumprindo
suas obrigações ministeriais, poucos se importam com a vida de
seus líderes, sua intimidade com Deus ou seu caráter.

Os leigos e a liderança
Igrejas em células e outros modelos ministeriais têm demonstrado
que, em vez da onipotência do pastor-profissional que conduz os
ministérios e supervisiona toda a congregação, existe uma liderança
múltipla no coração da igreja. Nessas comunidades, os líderes de
células assumem funções pastorais, ministrando aos membros em
suas necessidades durante reuniões similares a grupos de terapia.
Uma das questões mais complexas será estabelecer as diferenças e
limites funcionais entre os líderes de células e os pastores de tempo
integral que servem no staff profissional da igreja.
A bem da verdade, o leigo sente-se ofuscado pelo profissional da
religião. Os dons de liderança presentes nos membros não
ordenados são frequentemente desprezados por outros
participantes do ministério, prerrogativa do pastor, legítimo
despenseiro dos recursos espirituais. O consultor evangélico
americano Kennon Callahan afirma que a igreja deve enfrentar o
fato de que os dias do pastor-profissional estão contados. Chegou a
hora do pastor-missionário.
Com a pós-modernidade, o paradigma do profissionalismo está
iniciando uma trajetória de declínio em todas as frentes. Da mesma
forma, o médico, o advogado, o empresário e o político estão sendo
pressionados a pensar menos em procedimentos e programas e
mais em relacionamentos e pessoas.
O pastor, acima de todos, é chamado para ser mais humano e
amoroso com o próximo (como Jesus foi), íntegro nos valores,
defensor da ética protestante e servidor não do deus Mamon, do
dinheiro e das riquezas, mas do Deus Altíssimo. O pastorado não é
mera profissão: é um chamado para servir ao Rei. Ser pastor é ser
vocacionado para profetizar mensagens que, por vezes, serão
impopulares e desagradáveis.
O pastor é um evangelista — não porque recruta membros para
sua organização local, mas porque fala corajosamente sobre os
sinais do reino na vida, na cidade e na história, pregando com
seriedade e integridade toda a Palavra e vontade de Deus para a
humanidade decadente. Ele não sabe todas as coisas, mas sabe
para onde estamos indo, e convida homens e mulheres a seguirem
juntos em direção ao reino da luz.
O paradigma do empresariado
Richard Halverson afirmou que, quando os gregos receberam o
evangelho, converteram-no em filosofia; quando os romanos o
receberam, transformaram-no em governo; quando os europeus o
receberam, fizeram dele cultura; e quando os americanos o
[xxii]
receberam, virou negócio.
Halverson provavelmente não teria como calcular as implicações
e resultados desse empreendimento ao chegar aos países latinos.
No Brasil, especialmente nos últimos 25 anos, muitas igrejas
funcionam como verdadeiras empresas, e seus líderes se
comportam como gerentes ou executivos. As estruturas de várias
congregações passaram a ser orientadas para a produtividade.
Muitas igrejas brasileiras avaliam seu desempenho a partir de
estatísticas e se valem de estratégias de comunicação de massa.
Essa tendência é mais visível nas chamadas megaigrejas. No
clássico Teatro, templo e mercado: organização e marketing de um
empreendimento neopentecostal, Leonildo Silveira Campos
descreve algumas das características dessas megaigrejas:

• Constroem templos para abrigar grandes públicos.


• Acumulam poder financeiro.
• Centralizam a administração.
• Demonstram mais dinamismo que as igrejas tradicionais.

Por isso, Campos crê que essas megaigrejas reúnem vários


ministérios ou formas de prestação de serviços que, por causa dos
movimentos pareclesiásticos, haviam se desvinculado das igrejas
convencionais. Assim, o aparecimento dessas instituições religiosas
se relaciona com a adoção de inovações importantes nas formas de
distribuir o “produto religioso”.
Ele também compara a imagem do templo ao shopping center,
com suas avenidas separando as áreas de serviços e os dias de
“promoção” — sem dúvida, uma metáfora interessante para mostrar
tamanha mudança nas estratégias empregadas nos processos de
[xxiii]
distribuição dos “produtos religiosos”.
Darrel Guder, no seu livro Missional Church [Igreja missional],
apresenta vários traços desses movimentos de caráter
empreendedor que afetam a igreja na atualidade. Embora o livro
tenha sido escrito para o contexto da América do Norte, vários
elementos funcionam para pastores e líderes brasileiros, o que
reafirma a tendência à cópia e repetição dos modelos estrangeiros.
São eles:
Edificação denominacional: é a propensão de caminhar na direção
da consolidação e do fortalecimento da denominação. A ênfase está
na robustez de suas estruturas internas. O que é melhor para a
denominação será melhor para os membros, que são orientados (ou
mesmo pressionados) a sustentar juntas, seminários teológicos e
associações. É vedada ou reduzida a participação de quem possua
formação ou experiência extradenominacional, considerada por
muitos como pecado equivalente à relação extraconjugal. O
princípio básico é do investimento de tempo dentro da
denominação. Muitos pastores de megaigrejas demonstram a
mesma atitude: a busca do próprio interesse.
Revitalização da igreja: trata-se da tendência ao revigoramento e
ao avivamento das estruturas eclesiásticas já existentes com o
objetivo de tornar o ministério mais relevante. A ideia é alterar a
configuração interna da organização, focando mudanças no estilo
de culto, na programação e nas reuniões de oração. Há, porém,
duas questões: os problemas sistêmicos da igreja são abordados? A
natureza e a finalidade da igreja são estudadas?
Crescimento da igreja: uma maneira de alcançar pessoas fora da
igreja e incorporá-las, fazendo-as membros da igreja local — afinal,
a igreja precisa crescer! Busca também plantar igrejas dentro de seu
ambiente cultural e étnico, evitando que as pessoas cruzem
barreiras culturais e sociais. Segundo Guder, este movimento de
crescimento falha por não examinar com profundidade algumas
questões:
• Antropologicamente, sua tendência é assumir a neutralidade da
cultura (negando, assim, seu aspecto malévolo e pecaminoso) e
aceitar as necessidades do mundo como regra geral e
normativa, negligenciando as necessidades espirituais reais.
• Sociologicamente, trata da cultura como produto comercial. A
finalidade da igreja deve se identificar com o não-cristão,
respondendo a suas questões e conquistando-o.
• Eclesiasticamente, costuma enxergar a igreja como simples
organização social, que pode ser administrada como uma
[xxiv]
fábrica com matrizes e filiais.

A cultura global induz o pastor-empresário a enxergar sua igreja


como organização, e não organismo, tratando-a em termos de
estruturas organizacionais e planejamento estratégico. Ela é
administrada como se fosse dividida em departamentos e estruturas
seculares que necessitam apenas de bom gerenciamento. O
funcionamento da igreja (sua eclesiologia operacional) baseia-se em
conceitos de gestão de empresas. Como consequência, a igreja perde
a visão de sua real identidade como comunidade social.
O paradigma empresarial reduz a igreja a uma série de ministérios
administrados pela habilidade de um bom gestor. O risco é grande de
que pastores e líderes passem a depositar confiança excessiva nas
próprias habilidades administrativas e no uso do conhecimento de
gerência de empresas como solução para os problemas da igreja.

Materialismo e capitalismo
O materialismo é uma das características do líder empresarial. Max
Weber, em seu livro The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism
[A ética protestante e o espírito do capitalismo], demonstra que, a
partir da Renascença, houve uma mudança de mentalidade: a
[xxv]
ênfase “neste mundo” em detrimento do “outro mundo”. O
próprio protestantismo incorpora esta mudança depois da Reforma.
Hoje, mais do que nunca, a igreja demonstra o enfraquecimento da
espiritualidade cristocêntrica e transformadora defendida na época
dos grandes avivamentos e dos movimentos pietista e puritano.
Com o passar do tempo, o ascetismo foi substituído pelo
hedonismo.
O materialismo entrou de maneira furtiva, com sua ênfase num
evangelho de prosperidade (health and wealth gospel). Riqueza,
conforto e bens materiais tornaram-se evidências da bênção de
Deus sobre os cristãos verdadeiros.
Negócio e empreendimento tornaram-se referências para
determinar a identidade e o sucesso da igreja. Nos Estados Unidos,
os bispos da Igreja Metodista Unida referem a si mesmos como
CEOs (abreviatura de chief executive officer, que identifica o diretor
executivo de uma organização ou empresa). Certos regulamentos
denominacionais mais parecem manuais de funcionários do que
livros de disciplina e doutrina cristã.
Pastores-gerentes valorizam e ambicionam MBAs e cursos que
dão prestígio, como os da Fundação Getúlio Vargas. Administração,
planejamento estratégico e gestão são considerados ferramentas
indispensáveis; Peter Drucker, Ken Blanchard e George Barna são
gurus, santos contemporâneos a serem seguidos.
A modernidade exige líderes qualificados para alcançar
resultados, especialmente em duas áreas: aumento do número de
fiéis e da arrecadação. Cabe notar, contudo, que o paradigma do
pastor-gerente surgiu como consequência da desorganização legal
e do amadorismo administrativo de várias igrejas latino-americanas.
A despeito das tentativas de espiritualizar esse fato com
justificativas como “liberdade no Espírito” e “dependência de Deus”,
as igrejas simplesmente não sabem como planejar com excelência,
alocar recursos, estabelecer alvos, enfim, como fazer
gerenciamento eclesiástico.

Organização e organismo
A igreja vive sempre na tensão entre um período histórico particular
e o respectivo contexto cultural. Ela reflete sua natureza híbrida,
mistura entre organismo e organização. Por um lado, define-se
como instituição criada por Deus, comunidade com cultura e língua
próprias, família escolhida pelo Senhor, povo de propriedade
exclusiva. Por outro lado, é organização estruturada por homens e
mulheres com o propósito de viver uma vida em comum,
cooperando uns com os outros de forma administrativa. Como tal, a
igreja confessa ser humana e divina, uma organização social e uma
comunidade espiritual. A questão é: quanto da organização se
encaixa no organismo chamado igreja?
Devemos reconhecer que o alvo da gestão empresarial é o
controle dos processos de uma realidade social complexa para fins
específicos que, muitas vezes, visam o crescimento e a projeção da
própria organização, e não do reino de Deus. Ou seja, a empresa
quase sempre quer vender mais, aumentar a clientela e ganhar mais
dinheiro.
Desde Barth e Bonhoeffer, tornou-se popular afirmar o perigo de a
vida cristã degenerar-se em religião: um sistema que controla Deus
e gerencia sua vontade. Como muitos têm afirmado, cristianismo
não é mera religião. O fato de muitos frequentadores das igrejas-
empresas serem “crentes-clientes” as leva a atrair pessoas mais
interessadas na obtenção de favores de Deus do que no
conhecimento e no relacionamento com o Senhor.
A igreja deixa de ser o ajuntamento de pessoas enviadas numa
missão ao mundo para se tornar empresa ou fábrica de produtos
religiosos. Muitas congregações deixam de experimentar comunhão
profunda e vitalidade espiritual nas suas estruturas administrativas,
apesar de perfeitamente organizadas.
A pergunta que precisamos fazer é: a ideia de igreja-empresa
corresponde ao conjunto de imagens e figuras de linguagem
utilizadas na Bíblia, especialmente no Novo Testamento: igreja-
povo, igreja-família, igreja-luz, igreja-serva, igreja-embaixadora e
assim por diante? O que agrada ao Senhor é serviço obediente,
aceitação da sua cruz, testemunho vivo de sua morte e
ressurreição. Esta é a razão pela qual Deus nos enviou como luz do
mundo: para que as pessoas experimentem nossas boas obras e
glorifiquem o Pai que está nos céus (Mt 5:16).
A tarefa da igreja é reler o evangelho e vivê-lo como capacitador
para o ministério de encarnação e serviço da igreja no mundo.
Precisamos ser críticos dessa metodologia gerencial, que defende
crescimento numérico como componente principal da missão cristã.
Diante desse triunfalismo estatístico e da tirania do controle dos
dados, o sucesso do avanço evangélico na América Latina deve ser
interpretado quanto à sua capacidade de transformação da
sociedade e contribuição para a justiça, a paz e as relações sociais.
Um novo chamado para a teologia contextual da missão integral
está se desenvolvendo: devemos integrar o zelo evangelístico à
nossa paixão pela missão integral.
Uma boa leitura missiológica do Novo Testamento deixa claro que
nenhuma igreja deve existir num contexto de estrutura sólida, de
instituição humana. A igreja primitiva desenvolveu-se como um
organismo vivo e encontrou expressão numa variedade de
diferentes estruturas organizacionais.
Charles Van Engen integra esses elementos de forma sábia ao
dizer que uma personalidade espiritual, emocional e mental sadia
dos líderes gera saúde das congregações missionais. Sua destreza
administrativa provê a estrutura para o avanço missional. Seus
membros fornecem as mãos, os pés e os dons espirituais
[xxvi]
necessários para realizar as intenções missionais da igreja.
Howard Hauerwas e William Willimon escreveram um livro muito
controvertido chamado Resident Aliens [Estrangeiros residentes], no
qual afirmam que o paradigma empresarial é mais um reflexo do
fato de a congregação viver numa sociedade de compra e venda.
Toda igreja é tentada a ter a mesma cara da outra porque não quer
correr o risco de errar e perder membros. Suspeitamos que é
também a razão pela qual, apesar das diferentes teologias e
ordenações, os vários ministérios da igreja são indistinguíveis.
Ao visitar igrejas, participar de várias liturgias e ouvir sermões,
não é possível perceber a diferença entre metodistas,
presbiterianos, batistas, pentecostais, anglicanos e católicos.
[xxvii]
Sociologicamente, todas são muito parecidas.
Hauerwas e Willimon acreditam que a igreja deveria buscar ser
um lugar claramente visível ao mundo, onde as pessoas são fiéis a
suas promessas, amam seus inimigos, falam a verdade, honram o
pobre, sofrem pela justiça e testificam do maravilhoso poder criativo
de Deus. Na verdade, a igreja não é uma ideologia ou um sistema.
É o próprio evangelho.
A tendência do pastor-gerente é permitir que a manutenção
substitua a missão da igreja como princípio prioritário da vida
comunitária. Igrejas que praticam a manutenção — estruturas
criadas apenas com capacidade de sobrevivência — são
missiologicamente questionáveis. A missão de Deus é levada a
cabo por meio do chamado do povo de Deus, povo este separado
exclusivamente para a realização de seus propósitos. Uma igreja
missional sempre incluirá estrutura e organização, mas ninguém
deveria vê-las como parte da essência da igreja.
O paradigma empresarial pode verdadeiramente auxiliar pastores
e líderes na estruturação da missão e na organização da igreja-
organismo. Na verdade, o elemento organizacional deve servir, e
não determinar a natureza da igreja. É necessário, portanto, que a
missão vital, o ser igreja, esteja alinhado com temas como a Grande
Comissão e a vinda do reino. Neste caso, a estrutura e a
organização têm como intenção e motivação existir somente para a
glória de Deus.
O paradigma da tecnologia
Um dos aspectos mais interessantes da modernidade é sua
proposta tecnológica para a organização. Quem seríamos nós sem
carro, celular, computador, micro-ondas, geladeira e televisão? A
sociedade moderna é herdeira das revoluções científicas e
tecnológicas iniciadas há séculos. O ser humano aprendeu a
controlar parte considerável do ciclo da vida.
A própria natureza, em certo sentido, é dominada pela vontade do
ser humano. Não é sem razão que Peter Berger afirma
taxativamente serem a fábrica e a burocracia as duas principais
características da ordem social moderna: na primeira, as pessoas
controlam a natureza; com a outra, elas reduzem seres humanos a
[xxviii]
máquinas. No mundo de hoje, é fácil verificar que a
tecnologia e suas máquinas exercem grande importância nas
relações humanas, sociais e até espirituais.
Nas últimas duas décadas, as igrejas latinas foram alvo de várias
propostas de liderança apresentadas como solução para melhorar a
administração e a eficiência organizacional. Modelos lançados na
América do Norte e na Europa chegaram e foram imediatamente
copiados, como o avivamento das décadas de 1960 e 1970, o
crescimento de igrejas das décadas de 1970 e 1980 e o movimento
de eficiência e excelência da década de 1990.
Van Gelder mostra como pastores e líderes abraçam facilmente
os vários movimentos seculares que surgiram nos últimos vinte
anos, que buscam efetividade e eficiência. Alguns deles são:
• Culturas denominacionais. Procura analisar as transformações
impostas pelo tempo do ponto de vista teológico da igreja.
Como, por exemplo, as mudanças litúrgicas estão ajudando ou
não a igreja?
• Estudos congregacionais. Usa teorias e ferramentas das ciências
sociais para avaliação e explicação do contexto e das
características institucionais da igreja. Comissões preparam
questionários detalhados que medem a saúde da congregação.
• Crescimento e declínio da igreja local. Mede e avalia os padrões
de crescimento e declínio dentro das igrejas e sistemas
denominacionais. O crescimento ou o declínio no número de
membros faz que se focalize a atenção na evangelização dos
não-cristãos e na interação com os membros insatisfeitos das
igrejas vizinhas.
• Reinvenção da denominação. Aplica a reengenharia secular
para o sistema denominacional, visando reestruturar a
instituição, revitalizando seus comitês e departamentos com um
bom planejamento estratégico.
• Avaliação de qualidade. A teoria de gestão de qualidade total é
aplicada ao contexto da igreja.
• Gestão de sistemas. Tenta melhorar a administração da igreja
por meio da análise de todo o sistema e da coordenação de
[xxix]
todos os seus elementos.
A típica resposta da igreja à necessidade de enfrentar suas crises
é a análise do problema e a busca de uma solução — a mentalidade
problema-resposta. Essas soluções tendem a ser metodológicas. O
pastor-técnico é influenciado pela tecnologia e preocupa-se
especialmente com o caráter funcional da igreja, ou seja, suas
funções e seus ministérios. O importante é diagnosticar as
fraquezas da igreja e depois aplicar técnicas e ferramentas
adequadas para corrigir o problema e revitalizar o ministério.
Esses movimentos tendem a se utilizar de centenas de ferramentas,
testes e avaliações técnicas que visam a excelência, a saúde e a
qualidade da igreja, como uma espécie de certificado ISO 9001
eclesiástico. A igreja é avaliada por aquilo que faz, e não por aquilo que
é.
Tais versões das ferramentas ministeriais podem contribuir para
uma compreensão mais ampla da estrutura das igrejas brasileiras e
sua organização.
Uma prática de administração que muitos líderes utilizam é a
definição da missão e foco na visão da igreja como resposta ao
contexto em transição e à cultura em mudança.
Embora com diferentes ênfases, essas tendências procuram rever
o foco da igreja e de seus programas. A simples mudança dos
ministérios da igreja é encarada como resposta às transformações
no contexto social, determinando crescimento.
A questão que se levanta é: ao concentrar a atenção sobre si
mesma, pode a igreja perder o foco de sua missão?

O pastor-técnico
Segundo Valdir Steuernagel, a função de pastor pode ser um fardo
pesado, particularmente nas igrejas históricas. Ele é alguém
diferente dos outros; sua profissão é distinta, bem como seu
comportamento. Por conta disso, o princípio do sacerdócio de todos
os cristãos é suplantado e sufocado pelo status dos especialistas do
[xxx]
verbo divino.
Antigamente, as igrejas brasileiras escolhiam seus pastores pelo
sermão que pregavam, bem como por seus dons espirituais e sua
capacidade de relacionamento. Hoje em dia, o comitê de sucessão
pastoral convida o candidato observando especialmente se o
currículo está ou não recheado de diplomas, conhecimento técnico e
experiência profissional. Mas até que ponto essa pessoa é
especialista na área de necessidade fundamental da igreja? Será
ele capaz de melhorar a estrutura interna e aumentar a eficácia da
organização?
O papel desse pastor-técnico é geralmente restrito ao
desenvolvimento administrativo e ao crescimento numérico. Sua
eficiência ministerial é analisada dentro das quatro paredes da
igreja. Atividades internas, como cultos, ministérios, grupos
pequenos, células, programas, cursos e reuniões administrativas,
consomem mais de 90% de todo o tempo hábil do pastor-técnico. O
líder é o especialista que supervisiona a qualidade dessas diversas
atividades religiosas.
Em geral, pouco interesse é demonstrado pela vida íntima do
líder: sua espiritualidade (vida de oração, meditação, santificação),
sua família (qualidade do relacionamento com a esposa e os filhos)
e sua personalidade (caráter, comportamento, estrutura psicológica
etc.). Não é à toa que muitos, apesar de altamente talentosos e
geradores de bons resultados numéricos, abandonam o ministério,
desanimados e desorientados diante dos problemas da igreja.
O pastor-técnico acredita que pode manipular o ambiente ao seu
redor e chegar aos resultados desejados, desde que saiba utilizar
técnicas e ferramentas ministeriais de forma correta. Pensa que, ao
usar os instrumentos certos junto com boa dose de esforço e
dedicação, a receita funcionará e a igreja crescerá.
É a ilusão de que o reino de Deus pode ser alcançado e
promovido através da capacidade humana.
A opinião de muitos pastores e líderes é que existem técnicas
certas para cumprir a missão da igreja local em seu contexto —
estratégias e métodos infalíveis para se chegar ao objetivo desejado
pela igreja. Essa postura pode levar à sensação de autossuficiência,
segundo a qual o crédito para o crescimento da igreja é mais
direcionado ao planejamento e ao esforço humano do que à ação de
Deus e ao poder do Espírito Santo.
Isso é resultado da suposição tradicional de que a igreja conhece
bem a cultura ao seu redor, por isso só precisa se empenhar na
utilização de certas técnicas e métodos para recrutar pessoas para
sua igreja. Evangelizar significa apenas recrutar novos membros. Se
tal mentalidade gera sensibilidade maior pela vida dos não-cristãos
e valoriza a missão da igreja fora dos limites do templo, também é
armadilha ao criar a fantasia de que técnicas e programas proverão
o milagre da multiplicação numérica. Nesta tentativa de ser
relevante, a igreja passa apenas a reproduzir a cultura ao redor,
perdendo, assim, sua visão missional.
Esta mentalidade se comprova nos numerosos seminários,
conferências e workshops que oferecem aos líderes evangélicos
métodos, técnicas e habilidades nada diferentes do que se vê em
ambientes corporativos, por exemplo. Alguns líderes, considerados
gurus do sucesso, atraem para seus eventos centenas de acólitos,
que aprendem uma variedade de técnicas ditas “infalíveis” para
fazer suas igrejas crescerem rapidamente.
Para atrair novos alunos, as próprias faculdades teológicas e os
institutos bíblicos também tendem a assimilar esse paradigma
tecnológico, ajustando seus cursos para a divulgação de técnicas e
métodos de sucesso eclesiástico. Sem estas ferramentas, supõe-se
que o resultado seja o fracasso pastoral.
Na modernidade, a tecnologia tornou-se elemento fundamental da
identidade social das pessoas e da sociedade. Estratégias e métodos
são valores culturais desta racionalidade. São árbitros da eficiência e
delimitadores do propósito. Ou seja, se funciona, então é verdadeiro.
Paul Hiebert expõe sua preocupação quanto às implicações dessa
mentalidade tecnológica dentro da igreja evangélica:

Esta cosmovisão burocrática está invadindo o cristianismo


ocidental. Ordem, organização, planejamento, controle e
produção são valores comuns em muitas igrejas americanas e
agências missionárias. Orar, esperar no Senhor e buscar sua
direção são utilizados somente na abertura de nossos encontros
de planejamento ou relegados ao idoso e ao marginalizado.
[xxxi]

A perspectiva da redenção
A análise meramente técnica da igreja deixa sem resposta várias
questões sobre a sua natureza, seus ministérios e sua organização
do ponto de vista bíblico e missional. Por mais que procure ajudar a
congregação, o pastor-técnico falha por negligenciar suas
realidades mais profundas: o plano redentor de Jesus Cristo, as
dinâmicas de transformação na vida cristã, a mortalidade da carne,
a devoção interior, a espiritualidade, a oração, o dinamismo e a
relevância da Palavra e muitos outros temas caros ao cristianismo.
Mesmo nestas áreas, o pastor-técnico tem uma ou duas palavras-
chave e várias fórmulas prontas.
Na falta de uma teologia boa e clara, inúmeros pastores e líderes
deixam-se reger por fortes pressões para conquistar melhores
programas e ministérios, como se a igreja fosse uma organização
humana. No entanto, igreja tem a ver com pessoas transformadas
pelo poder redentor do evangelho de Cristo, com propósitos
redentores, com agenda redentora, com padrões redentores de vida
e família.
O uso das ciências sociais deve manter-se em perspectiva dentro
de uma estrutura teológica e relacionado com a presença redentora
de Deus dentro da igreja. Portanto, é crucial que consideremos a
natureza da igreja antes de prosseguir na definição de seus
ministérios e organização. Para fazer isso, devemos começar com
[xxxii]
uma perspectiva teológica.
Ricardo Escobar, diretor para a América Latina da Missão OC-
Sepal, defende o uso das ferramentas e estratégias como
categorias neutras que devem ser submetidas à atuação do Espírito
Santo. Ele utiliza a metáfora do barco: as ferramentas e técnicas
ministeriais são como velas, e o Espírito é como o vento. Suas
brisas são poderosas, espontâneas, incontroláveis e criativas.
Nunca se sabe para onde ele se moverá. Os líderes devem se valer
das velas para aproveitar o vento da melhor maneira e, assim,
seguir na direção certa.
Contudo, por melhores que sejam as velas, tudo depende do
vento do Espírito. E aí pode ser identificado um problema sério: em
vez de usar os dons do Espírito para um testemunho encarnacional
para o mundo, os pastores-técnicos planejam e elaboram
estratégias para aumentar o número de membros e as ofertas.
Recorrem às mais sofisticadas ferramentas e aos mais modernos
brinquedos da tecnologia a fim de conseguir templos cheios e
[xxxiii]
pessoas satisfeitas.
Quando a igreja vive no mundo apenas como empresa ou
organização que funciona apenas em função das velas (conjunto de
métodos, estratégias e ministérios de administração), seus pastores
e líderes se esquecem de que foram chamados para serem povo
redimido de Jesus, criado pelo Espírito para viver como comunidade
missional. O Espírito, e somente ele, pode mover o barco e revelar a
insondável obra de seu Rei.
O paradigma do consumo e do marketing
Jacques Le Goff está correto ao afirmar que, na época atual, toma
corpo a “mentalidade de mercado”, cujas características, segundo
Leonildo Campos, são: utilitarismo; valorização dos conhecimentos
práticos, e não os teóricos; percepção das diversidades que
deveriam ser atendidas, em oposição à ideia teológica de totalidade;
busca do concreto, do material e do mensurável; racionalização do
tempo, por meio da elaboração de um calendário profano, atrelado
às necessidades do orçamento, e não mais regulado pelas festas e
liturgias da igreja; contabilidade meticulosa e cercada de segredo.
Tudo isso gera “uma moral terra-a-terra, feita de pendência e senso
prático, ligada à preservação do dinheiro, da propriedade, da família
[xxxiv]
e da saúde”.
Apesar de não ser o marketing a meta principal, muitas igrejas e
líderes passaram a agir sob a influência de uma mentalidade de
controle de mercado. Igrejas estão se tornando uma simbiose entre
comércio e religião, nas palavras de Campos. Pastores são
confundidos com marqueteiros, e evangelistas descritos como
“vendedores” habilidosos. Quais são os aspectos positivos e
negativos dessa integração entre religião e marketing? Quais são as
implicações para a identidade da igreja, seus pastores e líderes?
É óbvio que a simples utilização das palavras “igreja” e
“marketing” dentro da mesma frase ainda causa estranheza e um
temor exacerbado em muitos pastores e líderes brasileiros. É
necessário, porém, ter em mente que o fenômeno da globalização é
marcado pelo domínio da lógica do mercado livre.
A questão primordial é: a igreja tem consciência dos riscos de ser
governada por tal lógica? Afinal, muitas instituições religiosas,
agências missionárias e faculdades teológicas abandonaram os
sistemas tradicionais de orçamento e entraram para o clube
daqueles que investem em marketing e identidade visual. O grande
desafio da igreja será identificar o espaço e o tempo para ser
oikonomia tou theou — povo de Deus — dentro desta sociedade de
mercado. Nenhuma outra questão é tão urgente para ser discutida
[xxxv]
pelos pastores e líderes.
Durante a conferência da Comissão de Missões da World
Evangelical Alliance, em junho de 2003, no Canadá, Ruth Valério,
uma das palestrantes, fez esta análise:

Escrever este artigo me leva a refletir sobre os países que


toquei hoje. Meus jeans vieram de Marrocos; o teclado do meu
computador foi feito na Alemanha, enquanto o monitor foi
fabricado na China. Temos uma jovem japonesa morando
conosco, tirando uma folga de seu trabalho para viajar ao redor
do mundo. Falei hoje com amigos na Tanzânia. Minha camiseta
veio de Portugal, meu café, da Costa Rica e as bananas que
[xxxvi]
comi vieram das ilhas do Pacífico Sul.

O sistema econômico determina as políticas nas áreas social,


cultural e educacional. É por meio dele que a sociedade deve
enfrentar a pobreza, a injustiça social, o desequilíbrio no
ecossistema, a falência da previdência, a corrupção política e assim
por diante. Como, então, direcionar as forças da globalização para
a promoção da justiça e da paz social, já que, na prática, ela
incentiva a globalização da pobreza, como acontece em muitos
[xxxvii]
países?

Espiritualidade global
Sabe-se que, numa cultura de mercado, necessidades são
inventadas para estimular o consumo. Não pode ser saudável uma
sociedade em que as pessoas trabalham cada vez mais com o
objetivo de comprar coisas das quais não precisam. Trata-se de
uma inversão de valores: enquanto os meios de comunicação
prometem felicidade àqueles que vivem no ritmo da moda e se
espelham no estilo de vida dos ricos, a realidade é bem diferente e
mais cruel.
Além do consumismo, a pluralidade é intrínseca à modernidade e
à pós-modernidade e apresenta vários aspectos positivos. O
evangelho, por exemplo, nasceu dentro do contexto judaico, num
mundo pluralista, em competição com várias religiões rivais.
Expandiu-se num ambiente helenístico, oficializou-se durante o
Império Romano e se estabeleceu em diversas culturas pagãs,
apesar da perseguição e dos obstáculos.
Tanto o multiculturalismo global quanto o policulturalismo
brasileiro devem ser abraçados como projetos de Deus. É a
realidade do reino, a partir da qual povos, raças, tribos e nações se
reunirão para servir e adorar o Senhor Jesus Cristo.
No entanto, numa espiritualidade globalizada, o sistema de
crenças e práticas da fé cristã é visto simplesmente como alternativa
entre novas e velhas espiritualidades, terapias, aconselhamentos e
práticas meditativas que afirmam ser capazes de conectar a pessoa
com o seu eu autêntico ou algum tipo de consciência cósmica.
[xxxviii]
Nenhum grupo pode se considerar dominante.
Há, portanto, uma espécie de competição presente no campo
religioso. Por conta disso, para se destacar da concorrência,
organizações e igrejas passaram a desenvolver estratégias de
marketing, como a criação de identidade visual e institucional, entre
outros recursos.
Com tanta oferta religiosa, uma das maiores dificuldades para
pastores e líderes talvez seja afirmar que o cristianismo é a única
opção. Na mente de muitos brasileiros, há pouca diferença entre as
diversas igrejas, denominações e religiões. As disputas internas do
universo evangélico são pouco conhecidas nos fóruns públicos.
No Brasil, a maioria dos brasileiros ainda crê que “todos os
caminhos levam a Roma”, ou seja, a Deus. A pluralidade cultural,
[xxxix]
religiosa e social é celebrada, aprovada e encorajada.
Defender as igrejas evangélicas, neste contexto, pode soar como
menosprezo à fé católica e a outras espiritualidades não
protestantes e não-cristãs, o que é considerado inaceitável. Numa
sociedade de agenda multicultural, supõe-se que a rejeição ao
[xl]
pluralismo religioso signifique intolerância.
Desta forma, a igreja evangélica é vista apenas como mais uma
instituição que provê bens e serviços num mercado cada vez mais
competitivo. No entanto, para Leonildo Campos, esse pluralismo
religioso brasileiro auxiliou muito a Igreja Universal do Reino de
Deus em sua propaganda, direcionada a católicos, protestantes,
kardecistas, umbandistas e adeptos de outros cultos.
Muitas dessas pessoas pertencem à população flutuante que
transita entre as várias expressões de espiritualidade e estão à
procura de resultados imediatos. A adesão às religiões que
professam, quando o fazem, costuma ser meramente nominal.
A estratégia da Universal é localizar essas pessoas insatisfeitas,
atraindo-as a novas experiências religiosas.
Usando metáforas gastronômicas, Campos destaca o aumento no
número de pessoas dispostas a se valer de um cardápio religioso.
Preferem, segundo Jean-Paul Willaime, uma religião “à la carte”:
elas se sentem bem onde podem escolher o prato e na quantidade
[xli]
desejada naquele momento.
Para Rubem Amorese, uma das facetas mais marcantes dessa
sociedade-supermercado é a horizontalização dos valores
simbólicos dos produtos que competem na “prateleira”, ou seja, não
existe um produto intrinsecamente melhor que outro, nem algum a
partir do qual os demais tenham sua qualidade e seu custo
comparados. Todos são competidores, com vantagens e
[xlii]
desvantagens.
Nesta vasta oferta de expressões de espiritualidade, muitos
pastores e líderes de igrejas brasileiras adotaram a mentalidade de
marketing, adequando sua mensagem às demandas e aos gostos
do público. Suas igrejas se identificam com qualquer organização da
sociedade que procura garantir uma fatia (ou share) de mercado.
Influenciados por esse paradigma, usam terminologias e métodos
empresariais e tratam seus ministérios como um empreendimento
religioso. Quando as igrejas são administradas de maneira
corporativa, seus membros tornam-se crentes-clientes. Elas passam
a desenvolver estratégias de propaganda e marketing para garantir
fidelização dos consumidores de seu produto: bens e produtos
religiosos, no atacado e no varejo. Nessas circunstâncias, é cada vez
mais difícil viver como comunidade chamada e enviada ao mundo.
George Hunsberger descreve essa mentalidade “vendedor-
consumidor” nos Estados Unidos da seguinte forma:

Algo chamado “igreja” tem a função de servir a algo chamado


“membresia”. Nesse modelo de vendedor, os membros da
congregação são reduzidos a consumidores de serviços. Staff e
líderes são os gerentes de produção e equipe de vendas, o
objetivo é tornar-se membro (cliente). O evangelho e o
treinamento dos membros tornam-se produtos empacotados
para a venda. A relação entre igreja e membros é modelada de
acordo com os padrões de relacionamento entre vendedor-
[xliii]
consumidor e produtor-cliente.

Estamos falando de produtos e programas evangélicos que, na


prática, são orientados pelo mercado, apesar de estamparem selo
de garantia, pureza e integridade bíblica. Leia as palavras de
Eugene H. Peterson:

Os pastores se transformaram em um grupo de gerentes de


lojas, sendo que os estabelecimentos comerciais que dirigem
são as igrejas. As preocupações são as mesmas dos gerentes:
como manter os clientes felizes, como atraí-los para que não vão
às lojas concorrentes que ficam na mesma rua, como embalar os
produtos de forma que os consumidores gastem mais dinheiro
com eles.
Alguns pastores são ótimos gerentes, atraindo muitos
consumidores, levantando grandes somas em dinheiro e
desenvolvendo uma excelente reputação. Ainda assim, o que
fazem é gerenciar uma loja. Religiosa mas, de toda forma, uma
loja. Esses empreendedores têm sua mente ocupada por
estratégias semelhantes às de franquias de fast-food e, quando
dormem, sonham com o sucesso que atrai a atenção da mídia.
[xliv]

Muitos estudantes de teologia começam a perceber que, logo


após serem ordenados, administrarão igrejas como a empresas ou
lojas espirituais que competem entre si no mercado religioso do
bairro. Serão gerentes ou representantes de vendas, promotores
responsáveis pela produção de seus programas e serviços.
Colocarão em prática uma evangelização que segue a cartilha do
marketing.
Verão as pessoas alcançadas como clientes ou consumidores,
com necessidades e desejos que deverão ser saciados. A missão e
a visão de suas igrejas serão semelhantes a um projeto corporativo.
Mas como conseguirão conciliar a espiritualidade e o ministério
pastoral com a agilidade do mercado e a criatividade de um
vendedor?
Diante de tantas opções na prateleira, o crente-cliente se sente
livre para escolher a melhor igreja ou religião. Para isso, se vale de
critérios semelhantes aos utilizados na escolha de um restaurante
ou pizzaria: prazer, sabor, gosto, qualidade do produto e
atendimento, promoções, boa propaganda e assim por diante. O
envolvimento se resume ao tempo de passagem pelo
estabelecimento ou da relação com a fábrica do produto.
Para serem eficazes, as igrejas-empresas exigem um grande
número de clientes — massa crítica necessária. Tamanho e
recursos são importantíssimos. Pequenas congregações oferecem
cardápios limitados: da mesma maneira que a quitanda não pode
competir com o supermercado, as pequenas igrejas levam
[xlv]
desvantagem diante das megaigrejas. Nessa concorrência, a
utilização de veículos de difusão em massa, como rádio, TV,
Internet, revistas e jornais, entre outros, tornou-se um recurso
poderoso.

Evangelho de baixo custo


É claro que os motivos das igrejas corporativas podem expressar
um desejo genuíno de alcançar almas com a mensagem do
evangelho. Neste sentido, a mentalidade de marketing enfatiza a
missão da igreja fora dos limites do templo. Contudo, para satisfazer
os desejos espirituais de uma cultura consumista, corre-se o risco
de vender o evangelho a custo baixo, a chamada “graça barata”
descrita por Bonhoeffer.
O teólogo evangélico Hauerwas tem razão ao afirmar que a
mentalidade de mercado limita e distorce o conceito do ministério
pastoral. A igreja deve ser uma comunidade capaz de confrontar a
inversão de valores; porém, é quase impossível falar em proposta
de transformação de vida quando se convive com o receio de
desagradar o cliente potencial. “A chamada igreja tornou-se uma
igreja voluntária, cuja característica principal é ser uma congregação
[xlvi]
amigável.”
Como convencer a sociedade sobre a ilusão do consumo? Como
mostrar que as maravilhas propagandeadas pela modernidade são
uma ínfima porção, se comparadas à vida abundante esperada em
Cristo no banquete messiânico, antecipado na terra para os que
vivem em comunhão com o Salvador? Será que a igreja existe
apenas para ajudar seus membros a descobrir seus dons, expandir
seus ministérios, enfim a ajudar uns aos outros a terem uma vida
melhor aqui na terra? Ou seus propósitos são mais amplos dentro
da cosmovisão da vinda do reino de Deus em Cristo?
A cultura de mercado incentiva as pessoas a uma participação
flutuante, precária, clientelista e consumidora, em vez de gerar uma
participação comunitária, comprometida, confessional e
santificadora. Ela separa a igreja dos seus membros. Se, por um
lado, temos uma empresa que oferece bens e serviços religiosos,
por outro vemos os consumidores pesquisando as melhores opções
e escolhendo tais produtos.
Muitos são incapazes de se integrar à comunidade. Seus
interesses são meramente utilitaristas. Estão envolvidos com a
igreja apenas em função dessa relação cliente-empresa e sequer
conseguem entender o amor e a graça de Deus, a dependência do
Espírito, o negar-se a si mesmo e o seguir a Jesus.
O discipulado, porém, não é simplesmente a proclamação da
mensagem nos meios de comunicação, a adição de nomes ao rol de
membros da igreja ou o consumo de um produto espiritual. Ele está
relacionado com a iniciação no reino de Deus como cidadão e
representante do evangelho capaz de transformação de vidas e
comunidades. Dificilmente esta visão se concretizará numa
sociedade onde homens e mulheres sejam tratados (e vejam a si
mesmos) como simples consumidores da fé.
A evangelização envolve proclamação, discipulado, batismo,
participação pública na ceia do Senhor e outros símbolos da fé
cristã cuja finalidade é transformar-nos gradativamente em membros
de uma nova comunidade, de uma nova raça, de um povo de
propriedade exclusiva de Deus que vive a cultura alternativa do
reino. Francis Schaeffer acreditava que este era o testemunho mais
convincente da igreja:
A não ser que as pessoas vejam em nossas igrejas não
somente a pregação da verdade, mas também a prática da
verdade, a prática do amor e a prática da beleza; a não ser que
eles vejam a fé sendo praticada em nossas comunidades,
deixem-me dizer isso claramente: eles não nos ouvirão e eles
[xlvii]
não deveriam nos ouvir mesmo.

Diante disso, igrejas com programas, reuniões, cursos e


encontros para todos os dias da semana representam justamente o
oposto do que significa uma igreja missional. Elas só podem ser
saudáveis quando representam um corpo de pessoas, não uma
série de atividades; somente quando o corpo de Cristo existe como
comunidade espalhada nas esferas da comunidade e nas várias
[xlviii]
tramas da sociedade.
A filosofia de mercado, a princípio, parece atraente à igreja, mas,
com o tempo, aprofunda nossa incapacidade de responder de
maneira profética e eficaz às questões sociais, além de gerar o
sentimento de inutilidade. Com isso, o risco é grande de, cada vez
mais, as pessoas perguntarem para que, afinal de contas, serve a
igreja?
De forma alguma isso significa que o marketing, enquanto área de
estudo social, seja negativo ou pecaminoso. Contudo, a igreja que
se orienta primordialmente por seus princípios pode levar pastores e
líderes a fantasiar sucesso, achando que o domínio de técnicas e
programas produzirá grandes resultados. Procurando ser
relevantes, acabam apenas espelhando os valores que os cercam e
capitulam diante da cultura do individualismo. Na busca de espaço
social, perdem sua voz profética.

O paradigma do entretenimento
Shakespeare afirmou, certa vez, que o mundo é um grande teatro —
e isso 400 anos antes de Hollywood, Disneyworld e tantas formas
de entretenimento. A tecnologia moderna possibilita a reprodução
perfeita de músicas e filmes em CDs, DVDs, MP3 e muitos outros
formatos. A Internet facilita a divulgação, a distribuição e o
compartilhamento de informações em escala mundial e tempo real.
A diversão nunca foi tão acessível.
Esta onda também alcançou o cristianismo. Intimamente ligado ao
paradigma do mercado, um novo modelo de igreja ganhou espaço a
partir da multiplicação de eventos que reúnem grupos musicais
populares e pregadores carismáticos para encontros focados em
celebração e festa. Este tipo de igreja, mais moderna e orientada ao
cliente, é como uma estação de rádio ou um canal de TV que muda
a programação e a grade de horário para se tornar mais atraente. O
objetivo é ser relevante e contextualizada. O pastor-ator, com jeito
de mestre-de-cerimônias, conduz um culto-espetáculo.
Essa tendência da igreja ao entretenimento ganhou visibilidade
nacional nas décadas de 1980 e 1990, principalmente quando a
Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), controlada pelo bispo Edir
Macedo, adquiriu por 45 milhões de dólares a terceira maior rede de
televisão brasileira, a Record. Além disso, a igreja continuava
assumindo o controle de emissoras de rádio em vários Estados do
país. Pela primeira vez, um grupo religioso de linha protestante
assumia o controle de uma rede de comunicação que cobria
praticamente todo o Brasil.
O interesse dos evangélicos nos meios de comunicação inspira-se
nos televangelistas americanos e na chamada “igreja eletrônica”. De
acordo com Leonildo Silveira de Campos, o interesse dos
pentecostais nos meios de comunicação de massa iniciou-se com
Aimee Semple Mcpherson, fundadora da Igreja Quadrangular, em
1924. Em 1925, já havia 600 emissoras evangélicas de rádio nos
Estados Unidos. Isso demonstra a rapidez com que os evangélicos
norte-americanos reconheceram a importância dos meios de
[xlix]
comunicação para a evangelização.
A necessidade de captação de recursos financeiros para manter
programas de rádio e TV, bem como a construção de templos
adequados a essa finalidade, levou os evangélicos a assimilar com
facilidade as estratégias de mercado usadas pelos dirigentes das
igrejas e denominações. Uma das conclusões a que Campos chega
a respeito da trajetória da Igreja Universal do Reino de Deus, e que
engloba neopentecostais em geral, é a seguinte:
Nos programas radiofônicos e televisivos neopentecostais, as
articulações entre “templo” e “mercado” se tornam tão visíveis
que até permitem o emprego das palavras “publicidade” e
“propaganda” como sinônimos. De fato, as técnicas publicitárias e
de marketing dominam as relações da Igreja Universal, produtora
de bens simbólicos e serviços religiosos, com um público carente
de tais bens e serviços. É através de estratégias de marketing e
do esforço de propaganda que ela busca atrair a atenção, reunir
o seu público, divulgar suas doutrinas e lidar com as aflições do
povo. Seu sistema de mídia está direcionado para persuadir e
convencer os destinatários, a despertar a atenção do público-alvo
para os produtos anunciados e desencadear o desejo de adquiri-
los nos “verdadeiros” pontos de venda, onde são encontrados,
[l]
sem imitação.
Apesar de alguma oposição à utilização de recursos de
propaganda e marketing, vários grupos evangélicos brasileiros estão
fazendo uso da mídia (imprensa, rádio, televisão, revistas, Internet
etc.) para evangelizar os não-cristãos, bem como para entreter os
convertidos. Os paradigmas da cultura de mercado, da tecnologia e
do entretenimento se cruzam com frequência: o pastor-marqueteiro,
o pastor-técnico e o pastor-mestre-de-cerimônias são diversas
facetas de um mesmo tipo de liderança.
Em níveis diferentes de profissionalização ou amadorismo, de
acordo com seus orçamentos, esses pastores-apresentadores se
valem da cultura do espetáculo para fazer crescer suas igrejas, atrair
novos fiéis e defender sua doutrina no disputadíssimo universo
eclesiástico brasileiro. Os líderes tornaram-se grandes
comunicadores que aprenderam novas maneiras de transmitir o
evangelho, fazendo releituras de seu conteúdo e apresentando
formas de religiosidade mais nativas, combinadas com modernas
técnicas de marketing.
Aparentemente, o paradigma do marketing levou ao
fortalecimento das novas denominações pentecostais e igrejas
locais, com organizações mais flexíveis e arejadas. Da mesma
forma, o culto evangélico é influenciado pelo elemento do
entretenimento, da dramatização, do espetacular. O pluralismo
religioso levou ao surgimento de várias opções contemporâneas de
igrejas independentes, de todas as tribos e para todos os gostos —
muitas vezes, porém, sem posicionamentos doutrinários claros.
Muitos cultos de igrejas evangélicas assemelham-se a
apresentações teatrais, autênticos espetáculos para a plateia.
Vários elementos novos foram introduzidos na liturgia (atualmente
chamada “programação”), como apresentação de bandas de rock e
pop, coreografias, multimídia, música de fundo durante a
mensagem, peças de teatro e outros artifícios que visam tornar o
culto mais agradável e celebrativo.
Alguns usam efeitos luminosos e conjuntos musicais de alto nível,
como os televangelistas e as igrejas norte-americanos. As diversas
partes da liturgia (ou do programa) devem se integrar à mensagem,
e o astro principal do espetáculo é o pastor. Ele funciona como um
diretor do show, do qual toda a equipe depende e em função do qual
todos trabalham.
Mas o que acontece ao se analisar o nível de conhecimento
bíblico? Enquanto escrevia este capítulo, coordenei um festival de
música cristã com a participação de dezenas de grupos evangélicos
e mais de 1.200 jovens. Fui convidado a fazer a oração final.
Convidei todos a dar as mãos e orar juntos o pai-nosso. Fiquei
surpreso ao notar que quase nenhum deles me acompanhou.
Simplesmente deixaram de fazer a oração ensinada por Jesus.
Em detrimento da reflexão e da racionalidade, a igreja moderna e
pós-moderna valoriza o espetáculo audiovisual. As igrejas
neopentecostais, por exemplo, sacramentalizaram elementos banais
e destituídos de valor ritual, fazendo surgir uma multidão de objetos
que aparentam ter força de sacramento. O pastor preside um ritual.
Na Idade Média, os cristãos valorizavam e comercializavam
supostos pedaços da cruz de Cristo, a lança de São Jorge, os ossos,
as roupas e outros pertences dos santos. Nas igrejas brasileiras,
algumas negociam a “rosa abençoada”, o “óleo ungido”, a “água
abençoada”, as “pedras do Sinai”, o “pão de Israel”, o “sal da
libertação”, a “água do rio Jordão”, a “areia do Sinai” e assim por
diante.
Os elementos de antigos cultos da natureza e símbolos universais,
como água, ar, fogo, terra, madeira, plantas e animais, assumem
sacralidade. Em troca de ofertas materiais, esses elementos são
utilizados e distribuídos com garantia da bênção espiritual. Para outros,
esses objetos são pontos de contato espiritual e podem despertar a fé
como meio para a manifestação da graça de Deus. O pastor-
apresentador, com muita criatividade, faz-se mediador desse processo.
O calendário da igreja é extremamente elaborado e padronizado,
com enfoque nas campanhas (como as chamadas “correntes de fé”,
“doze semanas de oração pela família”, “sete semanas da
prosperidade” etc.). Campos acredita que, enquanto o
protestantismo dessacralizou a missa católica, eliminando símbolos,
luzes, cores e vestes, desencantando o culto, a Igreja Universal
propõe um meio-termo. Isso propicia a transformação do culto num
espetáculo do qual os fiéis participam intensamente:

Talvez pudéssemos aqui relembrar o padre Vieira que, embora


lamentando a aproximação entre o púlpito e o teatro, afirmava
que muitos sermões de sua época eram “comédia, porque os
ouvintes vêm à pregação como à comédia; e há pregadores que
vêm ao púlpito como comediantes”. Vieira, nesse mesmo
sermão, referia-se à ideia corrente de que haviam acabado as
comédias em Portugal, a qual ele contestava, dizendo: “Não se
[li]
acabaram, mudaram-se; passaram do teatro ao púlpito”.

Domínio sobre o público


O perfil do pastor-apresentador deve conciliar o treinamento em
relações humanas com a simpatia e o carisma de um showman, de
um bom animador de auditório. Seja qual for seu estado interior,
deve sempre aparentar felicidade e conduzir a igreja a participar
alegremente da festividade do culto. O objetivo é manter domínio
sobre as emoções de um auditório submisso.
Esse pastor-mestre-de-cerimônias utiliza recursos da arte
dramática para provocar reações e estímulos nas pessoas.
Dominando as melhores técnicas, sabe trabalhar com as emoções do
público. Além disso, é cuidadoso com sua presença no altar-palco,
preocupando-se com variações de expressão corporal e tons de voz,
atento aos gestos e a seu desempenho diante do microfone e,
eventualmente, das câmeras. Enquanto isso, os líderes das igrejas
consideradas “tradicionais” são criticados por manter uma postura
séria durante os cultos, com o agravante da supervalorização da
racionalidade. “Muita doutrina e pouco coração” é a crítica que
sofrem.
Os templos protestantes brasileiros tendem a excluir todo conteúdo
estético e simbólico. O próprio calendário sacro, as cruzes e as velas
desapareceram há muito tempo devido ao sentimento anticatólico dos
primeiros missionários que chegaram às terras brasileiras, embora
suas igrejas na Europa e na América do Norte ainda façam uso
desses elementos. Sobrou apenas um palco vazio e um pregador
sozinho falando atrás de um púlpito de madeira envernizada. Diante
da urgência estética da cultura moderna, muitos deles enfrentam
estagnação e declínio, e suas igrejas perdem vários membros.
Isso acontece também por conta da falta de sensibilidade de
alguns líderes diante da expectativa das pessoas que frequentam as
igrejas, muitas das quais sentem-se como participantes de cultos
formais que se assemelham a funerais espirituais. Neste sentido, o
paradigma do entretenimento tem ajudado a superar a frieza
litúrgica de muitos protestantes, bem como trazer de volta a
originalidade e a criatividade com forte carga lúdica, festiva e
celebrativa.
A influência do entretenimento é grande também na estética dos
templos evangélicos brasileiros surgidos nas últimas décadas. Parte
considerável deles está instalada em salões comerciais, antigos
galpões industriais, cinemas, casas de espetáculos e teatros que
fecharam suas portas. O motivo, em parte, está relacionado ao fato
de nossas igrejas não necessitarem apenas de púlpito, mas de palco
e equipamentos de som sofisticados, como caixas amplificadas,
mesa de som, microfones e vários instrumentos musicais.
Além disso, é necessário espaço amplo para permitir à plateia se
movimentar, cantar, cumprimentar-se, fazer filas, ajoelhar-se,
responder aos apelos e outras mobilizações durante o culto. O
pastor-apresentador cria, então, um cenário de teatro, de
apresentação, de atuação mágica, de entretenimento, de show, de
milagre.
Nas novas igrejas, o destaque é grande para o palco e seus
ocupantes, e não para a palavra. A centralidade não está mais nas
Escrituras, mas nos rituais de cura, exorcismo, milagres, risos, “cair
no espírito” etc. Talvez a mais grave crítica dos protestantes
históricos e tradicionais seja a de que essa ênfase nos rituais e nas
experiências místicas e emocionais acabe lançando a Bíblia, tão
central para os evangélicos, numa posição secundária.
Outro movimento que exerce influência forte entre os líderes que
aderiram à cultura do espetáculo na liturgia é o da chamada “batalha
espiritual”. O foco desse grupo é a guerra entre o bem e o mal, entre
poderes do mundo espiritual. Muitas igrejas brasileiras estão
envolvidas nesse movimento, mapeando cidades, confrontando o
espiritismo de forma direta e expulsando demônios nos cultos
públicos.
Protegidos por um “ministério de libertação”, muitos cristãos
encontram-se inseguros e assombrados pelas forças do mal, receosos
de que o Diabo invada suas casas. Proíbem seus filhos de ouvir
determinados gêneros musicais ou de assistir a programas infantis da
Disney. Isso, porém, não os livra das demonstrações de desamor, ira,
culpa e ressentimento. Esquecem que os santos e sábios sempre
falam que o maior inimigo do ser humano é o próprio eu, e não
Satanás.
Cabe esclarecer, a esta altura, que não se trata de descrença na
realidade da batalha espiritual. Há, é claro, necessidade urgente de
enfrentar principados e potestades espirituais. Nesta luta, porém, há
vitória garantida na cruz redentora de Cristo. É importante que
estejamos convictos, seja no âmbito da vida pessoal ou no
relacionamento com a igreja, de que Jesus Cristo é o Rei dos reis,
Senhor dos senhores, Alfa e Ômega, o Deus Altíssimo, vencedor de
todas as batalhas.
É importante lembrar que os métodos do reino de Deus são
baseados no amor, na redenção, na paz e na reconciliação, e não
em cruzadas e inquisições. Afirmar, do alto do altar, que todos os
problemas que enfrentamos são demoníacos e lançar toda culpa no
Diabo é uma postura simplista. O dever do líder é fortalecer os
corações dos fiéis com a certeza de que o Senhor está cuidando de
nós e fará com que todas as coisas cooperem para o bem daqueles
que amam a Deus sinceramente (Rm 8:28).
Um dos graves problemas da cultura de espetáculo nas igrejas é
a dificuldade de se reconhecer que o culto não se concentra apenas
nas necessidades e nos desejos das pessoas que dele participam: é
um ato dedicado a Deus, sua glória e exaltação, e como gratidão
por tudo o que ele é e faz.
Em várias passagens bíblicas, Jesus alerta seus discípulos
quanto ao perigo de reduzir a obediência a um sistema religioso
com rituais e cerimônias controlados pela vontade humana. O pastor
deve ser cuidadoso para não forjar emoções e manipular
sentimentos durante o culto. O Senhor examina o coração sincero e
sabe quando o líder é autêntico.

O ético e o estético
O entretenimento enfatiza o estético e despreza o ético. É mais fácil
falar do que fazer; é mais simples cantar do que colocar em prática.
Enquanto muitos apreciam o teatral e o espetacular, poucos
praticam o evangelho e se revelam convertidos de fato a uma vida
de discipulado em Cristo.
Jesus não pleiteou um estilo de vida de ostentação, nem um
ministério marcado pela fama. Ele nunca usou o dinheiro como meio
de influência. Renunciou à aparência e ao glamour do espetacular,
do uso indiscriminado de milagres como forma de seduzir o povo e
divulgar seu ministério. Pelo contrário: Cristo evitou fazer muitos
milagres e insistia que se guardassem em segredo alguns deles (Mt
8:4-9,29-31; 12:15-16; 13:58; Jo 5:13). Como missionário, Jesus não
elegeu um estilo de vida especial ou sobre-humano, como se fosse
um asceta rigoroso ou eremita. Ele se propôs a viver como a gente
[lii]
simples de seu tempo.
O culto-entretenimento raramente produz um conflito de identidade
na igreja. O pastor-apresentador tende a confundir as pessoas sobre
quem são: clientes, espectadores ou membros do corpo de Cristo e
discípulos de Cristo? A congregação perde sua identidade como
comunidade da aliança. Sua transformação em clube, e do templo em
casa de shows, converte os membros em simples plateia.
Não há dúvidas de que assistir a um culto transmitido pela
televisão ou ouvir um programa de rádio sentado no sofá pode
inspirar e confortar. Mas TVs e rádios não permitem que mentes e
corações estejam envolvidos no complexo e rico estilo de vida de
uma comunidade cristã que celebra, ora e adora.
A igreja precisa retomar sua identidade como povo de Deus,
comunidade enviada ao mundo com uma missão. As pessoas se
reúnem para adorar a Deus. O culto não é entretenimento para o
público. Não somos meros espectadores do programa religioso, mas
irmãos e irmãs reunidos para, juntos, celebrar a Deus.
O paradigma da psicologização
Observe a descrição que Rubem Amorese faz a respeito do perfil de
muitos cristãos nesta era de modernidade:
Doutrinariamente é uma colcha de retalhos amealhados das
inúmeras fontes disponíveis (ele montou seu kit religioso). Ele é
insubordinado (no sentido de que não tem superior), superficial
(social e doutrinariamente), inadmoestável (ser admoestado por
quem? Quem ousaria invadir seu espaço para, arrogantemente,
criticá-lo?), extremamente vulnerável em sua fé (por falta de
lastro doutrinário consistente), carente de afeto verdadeiro e de
“colo” comunitário (ao mesmo tempo em que se mantém arredio
e independente, tentando preservar “seu espaço” contra as
indiscrições alheias). É psicologicamente caótico (depois de
vários divórcios pessoais e rachas eclesiásticos), afetivamente
deficiente (está machucado demais para confiar de novo) e tem
sérias dúvidas se vale a pena prosseguir na fé (o que significa
[liii]
isso hoje?).

Usando, talvez, termos pesados e fazendo observações graves,


Amorese aponta para o uso de outro paradigma que afeta o líder
brasileiro: a psicologização. Não se trata de menosprezar a
psicologia como área do conhecimento humano, ou a psiquiatria
como prática médica. Ambas trazem luz e ajudam muitas pessoas a
se conhecer melhor. Contudo, originam-se de pressupostos
humanistas. O trabalho dos líderes cristãos é espiritual e se baseia
na graça redentora, no amor de Deus e no conhecimento bíblico das
dinâmicas de transformação e restauração das vidas.
O propósito deste capítulo é mostrar a influência do psicologismo
popular na incessante busca da felicidade (hedonismo) e da satisfação
pessoal, o individualismo e o egoísmo crescente, o consumismo como
forma de prazer e a autorealização apregoada pela cultura de
mercado. Recentemente, esses valores se tornaram paradigmas na
construção da identidade pastoral e na busca de sucesso ministerial.
A modernidade contribuiu para o individualismo exacerbado. Na
maior parte do tempo, as pessoas se concentram nos próprios
interesses. São impulsionadas pela busca de realização e
valorização pessoal. Se, por um lado, isso pode indicar uma
personalidade equilibrada, por outro costuma sinalizar
individualismo e egoísmo.
A pós-modernidade fortaleceu a dimensão terapêutica da cultura
global. Percebe-se uma transição da ênfase protestante na salvação
exclusivamente em Cristo para uma cultura de salvação na terapia e
na autorealização. Jesus e sua graça não são mais suficientes para
este mundo complexo. Precisamos da autoajuda. Exemplo disso é a
preocupação quase obsessiva com a saúde física e emocional. A
busca constante pela cura e uma vida livre da dor comprometeu a
compreensão sobre pecado e salvação.
O que acontece quando o cristianismo é psicologizado? A
identidade pastoral é enquadrada em diversas categorias
psicológicas. O líder de hoje estimula a maximização do potencial
humano. O importante é sentir prazer, felicidade e satisfação. A
pressão é enorme para concentrar os ministérios na prática
psicoterápica (ou pseudoterapêutica).
Os estilos de liderança presentes neste paradigma se aproximam
do pastor-capelão, do pastor-conselheiro e do pastor-terapeuta, que
tendem a produzir um enfoque eclesiástico antropocêntrico,
demarcado pela necessidade humana. Neste caso, uma boa
liderança pastoral define-se em termos psicológicos. Pastores
tornam-se clínicos ou conselheiros responsáveis apenas pelo
tratamento das crises, e a direção espiritual se resume à solução
dos problemas pessoais e sociais.
Pastor é o amigo da família pago para solucionar crises e
inseguranças. O líder-capelão deixa de utilizar o aconselhamento
pastoral como momento de encontro com a pessoa de Deus,
obediência aos valores do reino e busca de sua vontade a partir do
arrependimento e da fé. O atendimento, semelhante a uma sessão
de terapia, baseia-se em princípios de uma psicologia amadora, em
vez da boa teologia bíblica.

Ministério como capelania


Neste contexto, a igreja é compreendida como capela. O ministério
pastoral assume ares de capelania para os membros, ávidos por
respostas para suas crises pessoais. Ao dirigir o culto, a principal
preocupação do pastor é que todos se sintam bem, sejam curados e
saiam satisfeitos do santuário. Suprir as necessidades imediatas
dos membros e visitantes tornou-se item prioritário na agenda do
líder. Alan Roxburgh afirma:
Esta suposição gera eclesiologias do tipo comercial. Sendo o
evangelho visualizado em termos de experiência privativa,
individual e subjetiva, líderes se esforçam para formar uma
identidade religiosa baseada na mistura dos indivíduos, cada
um com seu próprio sentimento sobre como as necessidades
espirituais podem ser supridas. A direção é determinada pelas
[liv]
necessidades de ambos: membros e visitantes.
Por mais que o líder tente agradar cristãos e não-cristãos, muitos
continuam sua peregrinação entre igrejas, reclamando que suas
necessidades não foram supridas, discordando das decisões do
pastor ou se magoando com outras pessoas. Como a inclusão entre
os membros da igreja é decisão estritamente opcional, os crentes-
clientes procuram quem ofereça o serviço que melhor se adapte às
suas necessidades.
Para Rodney Clapp, esse cristianismo psicologizado, com sua
ênfase no individualismo, no subjetivismo e no terapêutico, é um
cristianismo gnóstico. Ele afirma que é fácil reconhecer esse
sincretismo, por exemplo, na África ou na Indonésia, mas também
diz que estamos cegos a nosso próprio gnosticismo constantiniano.
[lv]
Os líderes cristãos estão adotando uma fé neutra, totalmente
psicologizada, que professa: Deus existe para suprir necessidades.
Essa fé moderna revela-se como gnóstica porque vive para sua
própria vontade, mesmo tendo aparência de desejo espiritual. Pode
ser facilmente percebida no individualismo e no egocentrismo da
maioria das músicas durante o período de adoração comunitária.
Usam-se pronomes de primeira pessoa (“eu” e “meu”) em
detrimento de expressões de comunidade (“nós” e “nosso”). Por
mais inspirativa, contemporânea e harmônica que seja, tal liturgia
parte de premissas humanistas e distorcidas quanto ao viver
comunitário do povo de Cristo.
Não somente os cânticos, mas também os púlpitos demonstram
esta psicologização. Os pastores e pregadores brasileiros são
tentados a substituir a tradicional linguagem bíblica pela linguagem
proposta pela psicologia. As pregações mais populares não são as
exposições sólidas e profundas dos textos bíblicos, mas os cursos
de “cinco passos para uma vida feliz e cheia de paz”, “seis princípios
para um casamento feliz e ideal”, “sete passos para uma vida
profissional bem-sucedida e próspera”. Tudo isso acentua um
evangelho reducionista e secularizado que apenas supre
necessidades individuais e materiais, e enfraquece a relação
pessoal com Deus em Cristo.
A pregação tende a afirmar que todos os problemas serão
solucionados e todas as necessidades serão supridas se as
pessoas passarem a frequentar aquela igreja. Contudo, a
mensagem não explica claramente o drama da cruz, a teologia do
martírio e do sofrimento, o preço do discipulado. A busca a Deus
acontece apenas em ocasiões especiais ou quando a crise se
agrava.
É comum encontrarmos cristãos que passaram por mais de uma
conversão, ou melhor, por duas ou três fases. No primeiro momento,
“aceitam” Jesus para terem os seus problemas resolvidos. Meses ou
anos depois, num segundo momento, reconhecem seu estado de
pecado, arrependem-se e entregam, de fato, suas vidas a Deus,
iniciando o verdadeiro discipulado. Muitos, porém, nunca chegam a
essa segunda etapa da conversão.
É certo que a linguagem da psicologia pode ser utilizada como
uma segunda língua para o púlpito por definir circunstâncias
emocionais e atitudes do coração que o jargão teológico não
abrange. No entanto, esta linguagem nunca deve substituir a
linguagem bíblico-teológica da reconciliação objetiva, da justificação
legal, da paz com Deus, do plano redentor da cruz, da graça, da
comunidade escatológica, da missão integral e assim por diante.

Um deus diferente
Os modelos terapêuticos de liderança também encontram guarida
nas faculdades teológicas e institutos bíblicos, que treinam muito
mais líderes-capelães que pastores e pregadores do evangelho.
Orlando Costas lembra que a própria carência de produção literária
pastoral latino-americana resultou na simplificação da teologia
[lvi]
pastoral, reduzindo-a ao enfoque meramente psicológico.
Os currículos sugerem que o estudo teológico e exegético não é
tão relevante. Os cursos em aconselhamento e administração são
mais frequentados. Os debates seculares e as semanas teológicas
demonstram insegurança em relação à verdade bíblica. Neste
ambiente, teóricos como Freud, Jung e Skinner gozam de mais
créditos do que os apóstolos.
Infelizmente, o cristianismo psicologizado projeta a figura de um
deus bem diferente do Deus bíblico: apenas reflexo de desejos e
vontades humanos. A fé é mero canal para acessar esse deus ex-
machine, caixa automático, o velhinho que está no céu para
satisfazer as necessidades individuais.
Essa situação gera graves distorções na identidade da igreja. A
tendência moderna de vê-la em termos de pessoas em busca de
saúde mental, extremamente vulneráveis às mais diversas crises,
está “distante da visão da igreja como comunidade de fiéis às
[lvii]
promessas de Deus”.
Salvação se tornou algo da ordem do privado. A tendência é crer,
ter fé e aceitar o evangelho como atitudes interiorizadas e
individualizadas. A pessoa aceita Jesus, frequenta a igreja no
domingo, mas, essencialmente, vive um evangelho alheio à cultura
e à história, sem implicações comunitárias, relacionais e sociais.
Esse tipo de individualismo está presente nas propostas
evangelísticas que convidam e insistem para que as pessoas
“aceitem Jesus”, que não é expressão bíblica. Igrejas e líderes fazem
sucesso quando propõem solução às necessidades, carências e
desejos de prosperidade e bênçãos do grupo-alvo. Esta
individualização da fé cristã pode conduzir a uma espécie de
espiritualidade amorfa, intimista e subjetiva, que nada mais é do que
uma relação entre dois seres isolados: um indivíduo e “um deus”,
ambos vivendo distantes do comunitário, do contextual, do temporal,
do pessoal e do social.
David Lowes Watson destaca que a experiência religiosa
individualista é um verdadeiro narcisismo mascarado de salvação
individual. Na igreja evangélica brasileira, a salvação foi privatizada,
o discipulado foi espiritualizado e os principados e potestades deste
[lviii]
mundo continuam longe de ser desafiados.
Uma vez psicologizado, o líder deixa de se preocupar com a
transformação do mundo ao redor — se é que alguma vez esteve
preocupado com isso. O foco não é a transformação social, apenas
a adaptação individual: adaptar-se o melhor possível, o mais
confortavelmente possível ao ambiente, estando em paz com as
emoções, ajustando-se às circunstâncias.
A liderança psicologizada, diante das mudanças e dos problemas
sociais, apenas procura enquadrar-se a novos estilos e mecanismos
sociais, alinhando-se com os poderes do mundo. Assim, evita-se ao
máximo o confronto e a tensão entre a igreja e o mundo social,
político e econômico.
Portanto, a fé psicologizada tende a ser resistente ao discipulado
da nação e à missão integral. Como pode a fé tornar-se algo tão
personalizado a ponto de questionar a propagação ousada do
evangelho e o convite a não-cristãos para integrar este povo? A
igreja não apenas deixa de ser relevante à cultura, como também
deixa de ser cultura. Ser e agir como nação que tem uma cultura
própria vai contra essa fé extremamente individualizada e
privatizada dos cristãos modernos e pós-modernos.
Além disso, os paradigmas acabam deslocando o centro da
identidade da igreja do Reino para as tendências da cultura
circunvizinha. Com ênfase nos modelos de crescimento, no
marketing, na empresa, no entretenimento, na psicologia, na
sociologia, a igreja acaba refletindo sua consciência de
marginalidade. Os líderes sentem-se impotentes e inúteis diante das
mudanças e buscam então alcançar novamente a posição de
destaque social necessária à autoimagem pastoral. Apesar de
atraentes e prometerem sucesso, estes paradigmas tendem a
aprofundar a crise de impotência e inutilidade pastoral.
2_Fundamentos bíblicos teológicos para um
modelo missional de liderança
Em busca de um modelo

Da mesma forma que uma casa recebe energia elétrica por meio de
cabos e fios ligados à rede, os princípios bíblicos estão conectados
à mente de Deus. Pastores e líderes devem ser capazes de
conectar sua vida e experiência à Bíblia, de onde flui a energia para
acender a luz que permite enxergar a realidade. Para que o
ministério seja eficaz e frutífero, o líder precisa compreender a arte
da liderança a partir das Escrituras.
Teria a Palavra de Deus apenas um modelo ideal de liderança? A
resposta é “não”. É possível identificar estilos de liderança
diferentes, dependendo dos textos selecionados, dos contextos
escolhidos para elaboração dos modelos, das estruturas e ideias e
da própria eclesiologia, ou seja, o estilo de ser da denominação ou
da igreja. Quando utilizamos as expressões “sal da terra” e “luz do
mundo”, não estamos apenas mostrando o que a igreja faz, mas
também como sua liderança deve ser.
O Novo Testamento se vale de dezenas de metáforas para
descrever a identidade da igreja e sua liderança nos dias de hoje. É
o que acontece com as histórias e parábolas de Jesus que
descrevem o reino de Deus. Jesus descreve o reino como uma
pequena semente que, silenciosa, cresce e produz uma grande
colheita (Mc 4:26-29). Ele aparece no mundo como algo pequeno e
insignificante, tal como o grão de mostarda que, ao crescer, gera
uma árvore frondosa na qual os pássaros fazem seus ninhos (Mc
4:30-32). É como o homem rico que confia suas propriedades aos
servos e sai numa longa viagem sem data prevista para retorno (Mc
13:34-36). Ou seja, o reino de Deus é parcialmente visível hoje na
igreja como antecipação (ou degustação) de algo que virá.
A questão é: ao isolar e enfatizar uma metáfora, não há risco real de
seu significado se esvaziar? A igrejasal do século XXI também age
como igreja-perfume ou igreja-aroma (2Co 2:15)? No Antigo
Testamento, a palavra “aroma” descrevia os sacrifícios de animais (Gn
8:21; Êx 29:18; Lv 1:9; Nm 15:3). Paulo também se utiliza desta
palavra em Romanos 12:1: “... sacrifício vivo, santo e agradável a
Deus...”. A arma mais poderosa da igreja para influenciar os valores
do mundo é a doce fragrância de Cristo no caráter dos seus servos.
A igreja também é descrita como prédio ou organismo que cresce
com a força vital de Cristo, expandindo-se para todos os lados e ao
longo da história. Não apenas os judeus, mas também os gentios são
chamados povo de Deus, escolhido, remanescente (1Pe 2:9-10; Ef
2:12). A igreja, “nova criação” (2Co 5:17), declara a promessa de
renovação de todo o universo que se encontra na Bíblia.
A igreja representa a alegria antecipada dessa nova humanidade,
[lix]
testemunha da recriação de Deus em Cristo. Como comunhão
da fé (At 4:23-31), ela se manifesta na família de cristãos,
testemunhas de uma comunidade de cuidado, sustento,
encorajamento e pertencimento; como corpo de Cristo (Ef 4:1; 1Co
12; Rm 12), revela diversidade de ministérios, dons e funções.
Contudo, a igreja não é meramente prédio, instituição, grupo de
clientes, rede de ministérios, confraria ou entidade organizadora de
atividades, mas uma comunidade social constituída de homens e
[lx]
mulheres reconciliados com Deus e uns com os outros.
Em Images of the Church in the New Testament [Imagens da
igreja no Novo Testamento], Paul Sevier Minear afirma que nossa
visão pode se estreitar quando a concentramos em apenas duas ou
três metáforas, pois a Bíblia tem quase uma centena delas. O
melhor seria tratá-las como complementares e inter-relacionadas.
Tal diversidade reflete a identidade complexa da igreja quanto à sua
natureza, sua essência, seus ministérios e sua organização. O bom
líder mostra maturidade quando aplica as diversas metáforas
bíblicas de forma integrada na vida da igreja e no seu estilo de
liderança.

Cristo é o modelo
Como desenvolver um modelo de liderança saudável que encampe
todos os paradigmas bíblicos? Como chegar a uma eclesiologia que
descreva a natureza da igreja de forma coerente com o contexto
brasileiro? Qual seria a estrutura teológica e o referencial teórico
que poderia refletir essa complexidade das Escrituras Sagradas?
Este capítulo propõe um modelo de liderança baseado nos eventos
da vida de Jesus Cristo: encarnação, morte, ressurreição, ascensão
e segunda vinda.
Essa não é uma ideia inovadora. David Bosch, em Missão
[lxi]
transformadora: mudanças de paradigma na teologia da missão,
[lxii]
e John Stott, em The Contemporary Christian, destacaram a
importância da celebração dos principais eventos na vida de Jesus e
notaram suas implicações missiológicas.
Precisamos focalizar a pessoa total de Cristo (totus Christus).
Uma correta compreensão de sua encarnação, morte, ressurreição,
ascensão e volta influenciará decisivamente no desenvolvimento de
uma eclesiologia robusta e, consequentemente, na formação de um
conceito correto de liderança ministerial.
A filosofia grega inclinou-se para a encarnação de Cristo. A teo-
logia latina destacou a morte e o significado da cruz. Para Kähler,
por exemplo, o evangelho é a história da paixão com uma extensa
[lxiii]
introdução. Várias teologias latino-americanas destacavam a
humanidade de Cristo: ele não apenas morreu e ressuscitou, mas
também viveu na Palestina em determinado período histórico.
Stanley Hauerwas comparou um seminarista ao estudante de
Medicina: “O que a anatomia é para a cirurgia médica, a cristologia
[lxiv]
é para o cristianismo”. Com frequência, estudantes de Medicina
preferem os cursos de cirurgia plástica, medicina oriental ou
psiquiatria, em vez de anatomia. Contudo, o currículo de qualquer
faculdade exige vários créditos dentro do departamento de
anatomia. Ninguém conseguirá ser um bom médico se for reprovado
nesta disciplina.
Da mesma forma, o fundamento absoluto do cristianismo não é
sua moralidade, sua lógica perfeita, sua filosofia de vida ou suas
doutrinas. O centro do cristianismo é a pessoa de Cristo, o Filho de
Deus, e todos os eventos centrais de sua vida: encarnação, morte,
ressurreição, ascensão e segunda vinda.
A essência do cristianismo não é a Bíblia, os credos da igreja ou
as estruturas institucionais, mas o próprio Jesus Cristo, Deus-
homem. Esta é a estrutura que rege a identidade da igreja e nosso
modelo de liderança ministerial. A liderança cristã é a única que
encontra seu caminho, sua verdade, seu modelo e sua essência na
pessoa de Cristo.
O Novo Testamento narra a vida, a morte e a ressurreição de
Jesus como ações que revelam a paixão de Deus pela humanidade,
cujo propósito é sua própria glorificação (Cl 1:27; Ef 1). A
mensagem do evangelho é o próprio Cristo (1Co 1:23; 5:7; 15:3).
Em Romanos 8:33-34, Paulo levanta duas questões de caráter
forense: “Quem fará alguma acusação contra os escolhidos de
Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? Foi Cristo
Jesus que morreu; e mais, que ressuscitou e está à direita de Deus,
e também intercede por nós”. Paulo, em Filipenses 1:21, fala de
uma das implicações dessa realidade: “Porque para mim o viver é
Cristo e o morrer é lucro”.
Nos eventos da vida de Jesus, Deus revela seu propósito para a
redenção de toda a criação. São pistas de Deus para a
compreensão do sentido da vida e de nosso propósito neste mundo.
Lesslie Newbigin afirmava que Jesus é esta chave para entender a
história, da qual ele é a essência da vida, a fonte, o centro e o
[lxv]
objetivo. A revelação de Deus em Cristo é o ponto de partida
para que pastores e líderes possam compreender o encontro do
evangelho com a cultura, bem como sua identidade, o propósito de
sua vida e seu estilo de liderança.
Crendo nessa dimensão missional da cristologia foi que John Stott
disse: “Cristo é a fonte e caminho, o coração e alma, o alicerce e
[lxvi]
alvo de toda missão”. Cristianismo só faz sentido a partir de
tudo o que aconteceu na vida, na morte e na ressurreição de Jesus
[lxvii]
de Nazaré.
Em 1Coríntios 15:14, Paulo afirma o seguinte: “E, se Cristo não
ressuscitou, é vazia a nossa pregação, como também é vazia a fé
que vocês têm”. Sem Jesus não há cristianismo, igreja ou missão;
não existe modelo de liderança eficaz, por mais convincentes que
sejam suas técnicas e estratégias. Todo e qualquer estilo de
liderança deve ser gerado e moldado a partir da revelação integral
de Cristo.
Consequentemente, a mensagem do evangelho não se enquadra
numa tabela de crenças geradas pela observação de filosofias
humanas e experiências religiosas. O evangelho é “boas-novas”, o
anúncio de um nome: Jesus. A pessoa de Jesus é “boa-nova” de
significado público, e que precisa ser declarada a todos.
Nosso compromisso não é com uma causa ou ideologia, mas com
uma pessoa. O caráter cristão que defende os valores do reino e
age em prol de justiça, paz social, libertação dos oprimidos e cura
origina-se em nosso compromisso com Cristo. Este compromisso é
continuamente renovado através da repetida aceitação de sua morte
[lxviii]
e ressurreição.
O mundo não foi mais o mesmo depois de Jesus. Pelo contrário, o
evangelho promoveu mudanças na história, movendo-se como ondas
de influência em expansão, afetando todas as dimensões e esferas
da vida. É claro que a intenção de Jesus não era criar um sistema
religioso. Seu ensino não foi meramente intelectual. Sua mensagem
veio em forma humana, encarnada em vida e ação, com lágrimas,
sangue e suor. Por essa razão, a mensagem do evangelho não
poderia ser reduzida a abstrações, teorias, estratégias e sistemas. A
mensagem de Deus é o próprio Jesus Cristo.
Como C. S. Lewis disse certa vez, Jesus falou e agiu de tal forma
que nossas alternativas seriam segui-lo ou considerá-lo louco. Não
há outra opção. Ou vivemos como ele viveu, integrando-nos ao seu
projeto, ou viramos as costas. Portanto, somente um estilo de
liderança modelado na pessoa de Jesus encontrará amor no
ministério, reconciliação nas intrincadas relações humanas, perdão
das ofensas, serviço num mundo individualista e restauração do
projeto de Deus para a humanidade. Todos aqueles que agem
pastoral e missionalmente em qualquer parte do mundo devem
seguir Jesus, imitando, tanto quanto possível, a personalidade e o
estilo de vida do Mestre.
Liderança influenciada pela encarnação
O que significa “encarnação”? Em João 1:14, lemos que Jesus
tornou-se carne e habitou (fez seu tabernáculo) entre nós. “Tornar-
se carne” mostra sua identificação com a humanidade. Ele se tornou
igual a todos nós. Jesus Cristo, o eterno Logos, o próprio Deus, veio
à terra como humano. Neste versículo, “carne” (carnalis, em latim)
não significa fraqueza e pecado, mas natureza humana.
Em Cristo, Deus revelou-se imanente, o sempre presente Deus
que cuida e intervém na vida humana. Em vez de agir de forma
transcendente, virtual, ele decidiu viver entre homens — não como
Deus, mas restringindo-se a todas as limitações do corpo humano.
Jesus “esvaziou-se” de seus interesses, sua glória e majestade e
tomou a forma de um servo humilde. Paulo fala dessa humanidade
em Filipenses 2:5-8:
Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora
sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a
que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser
servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo
encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi
obediente até a morte, e morte de cruz!

É neste ato de intromissão de Deus na história humana que a


[lxix]
missão realmente começa. A encarnação de Jesus é o clímax
de um longo processo em que o Senhor atravessa as portas da
eternidade e penetra na história da humanidade. Por milhares de
anos, Deus visitou homens e mulheres em teofanias, profecias e
revelações. Na “plenitude dos tempos”, ele transpôs tempo e
matéria, virando gente. Ele é Emanuel, Deus conosco.
Como aquela ilustração que conta a história de um homem que
vira formiga para se comunicar com as formiguinhas no fundo do
quintal, Jesus aceitou as limitações das leis naturais estabelecidas
em sua própria criação para que pudesse reconciliar o mundo e
restaurar seu relacionamento com todos. A maravilhosa disposição
de Deus para comunicar sua glória através do frágil corpo humano é
[lxx]
a instância mais espetacular de identificação cultural na história.
A encarnação de Jesus teve caráter missional. As circunstâncias
de seu nascimento não foram acidentais ou casuais. Ele nasceu
numa manjedoura, viveu num período histórico previamente
estabelecido por Deus na região da Palestina. Nenhum de nós
poderia optar por pai e mãe, lugar de nascimento, cidade e país de
origem, raça ou classe social. Jesus, contudo, decidiu nascer na
pequena vila de Belém, numa família modesta, num período
histórico desvantajoso, especialmente se comparado com todas as
facilidades do mundo de hoje. Suas prioridades não eram os bens
materiais nem as comodidades.
Cada detalhe de seu nascimento e de sua infância foi escolhido.
Durante o período anterior ao lançamento público de seu ministério,
aos trinta anos de idade, ele avaliou o comum, viveu o habitual,
cuidou das tarefas simples do lar e dos negócios familiares.
Conheceu vizinhos, fez vários amigos, brincou, subiu em árvores
etc.
Jesus iniciou seu ministério como pregador itinerante das boas-
novas do reino. Viveu entre o povo devotando-se à sua tarefa
redentora, profética e diaconal. Sempre procurou a “ovelha perdida”
dentro do coração do aflito, do desanimado, do desencorajado e do
enfermo. Mostrou a profundidade do seu compromisso
encarnacional com a humanidade ao se identificar com as condições
humanas, sentindo suas falhas e fraquezas e capacitando seus
[lxxi]
discípulos na realização da mesma missão (2Co 5:21).
Jesus mergulhou na cosmovisão da época. Cresceu e viveu como
judeu, assimilou a cultura do Oriente Médio, conheceu seus valores,
estudou a Torá, compreendeu suas crenças, engajou-se em
diversos assuntos relevantes. Demonstrou compaixão (em Mt 9:36,
ter compaixão significa ser movido pela dor nas entranhas) do órfão
abandonado, da viúva injustiçada, do estrangeiro excluído, do cego
desamparado, do enfermo desesperançado. Ele identificou seu
ministério com as palavras de Isaías 61:1-2:
O Espírito do Soberano, o SENHOR, está sobre mim, porque o
SENHOR ungiu-me para levar boas notícias aos pobres.
Enviou-me para cuidar dos que estão com o coração
quebrantado, anunciar liberdade aos cativos e libertação das
trevas aos prisioneiros, para proclamar o ano da bondade do
SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; para consolar
todos os que andam tristes.

Jesus mostrou que devemos nos encontrar missionariamente com


a cultura. Com exceção do pecado moral e estrutural, ele em tudo foi
tentado, mas não pecou (Hb 4:15), assumiu a condição humana e
cultural em sua totalidade. O Deus-homem entrou no mundo, viveu
uma vida de serviço e sacrifício, enfrentou tentações, experimentou
luto, raiva e angústia e morreu uma morte humana.
As implicações são grandes. Tal postura de Cristo demonstra que
as condições históricas, culturais e sociais das pessoas e cidades
são relevantes quando se trata da missão da igreja. Elas devem ser
incorporadas como elementos essenciais na compreensão do nosso
ministério. Se a dimensão encarnacional é desprezada, caímos na
armadilha de ler a Bíblia como um documento atemporal e lendário,
mera coleção de princípios morais de autoajuda. Perdemos também
contato com a realidade do Cristo sempre presente, que interage e
encontra pessoas em sua realidade, fala a linguagem do povo,
utiliza imagens e ilustrações relevantes à cultura e fala sobre temas
que fazem sentido aqui e agora.
Enfim, Jesus não deixou simples receitas, fórmulas ou métodos aos
seus discípulos. Ele mesmo é o modelo de identificação total que
precisamos seguir e ao qual devemos obedecer. Mostra como
devemos traduzir a mensagem do evangelho em relacionamentos
amorosos e ações sociais que refletem a atitude de serviço e
solidariedade.
Pastores e líderes enfrentam o desafio de comunicar o evangelho
dentro da realidade urbana brasileira, caracterizada pela violência
generalizada, pela péssima distribuição de renda, pela cultura da
impunidade (que aumenta o sentimento de injustiça social), pelo
sensualismo, pelo individualismo e pela superficialidade espiritual.
Como podemos obedecer a Jesus e desenvolver um estilo de
liderança encarnacional? Como encontrar as pessoas em situações
concretas? Como podemos nos relacionar melhor com elas,
entrando em seu contexto, compreendendo suas circunstâncias e
entendendo suas fraquezas e inseguranças com o mesmo
sentimento de graça que havia em Jesus?
Jesus nos preparou para essa missão encarnacional. Todo e
qualquer modelo de ministério encarnacional deve atrair a atenção
unicamente para Jesus, nunca para si mesmo. D.T. Niles faz muito
bem em nos lembrar que a igreja é como um mendigo que conta
[lxxii]
para outro: “Sei onde tem comida”. A distinção entre igrejas
missionais e campos missionários não faz mais sentido. O mundo é
um grande campo missionário que precisa encontrar o sentido da
vida em Jesus Cristo.
Infelizmente, sentimo-nos cada vez mais confortáveis e adaptados
a este mundo. Perdemos a noção de que nossa passagem por aqui
é efêmera. Estamos em constante tensão com os valores do
capitalismo, do materialismo, do consumismo, do individualismo e
do sensualismo da cultura moderna. Esquecemos que o cristianismo
ainda exerce uma função periférica, às margens das principais
decisões das pessoas.
Faz bem lembrar que as igrejas estão, de uma maneira ou de
outra, em situação de diáspora e exílio e que nossa identidade de
[lxxiii]
peregrinos nos distancia do centro do poder social.
Precisamos desenvolver uma teologia ministerial que reconheça os
conceitos bíblicos de peregrinação e exílio.

Peregrinação
Somos o povo de Deus que se move com Jesus Cristo para a terra
prometida. Devemos nos lembrar da história dos judeus peregrinos
no deserto (Gn 17:8; 37:1; 47:9) e revivê-la em nossos dias.
Naquela árdua caminhada de quarenta anos após a libertação da
escravidão do Egito, o povo se revoltou e protestou: “Não há
comida, nem água! É melhor servir aos egípcios do que morrer no
deserto” (Êx 15:24; 16:15; 17:2-3). Deus, por meio de Moisés,
proveu comida para o faminto e água para o sedento. Foram
levantadas várias questões relacionadas à propriedade de terra, ao
governo nacional, à independência política, à liberdade, aos direitos
humanos e à cidadania (Lv 6–14).
Peregrinação é tempo marcado pela tensão entre obediência e
desobediência aos valores do novo reino, entre confiança e
incredulidade, entre adoração e murmúrio, entre esforço pela
sobrevivência e consciência radical do apoio e da soberania de
Deus. Somos povo de Deus, chamados para herdar a terra. Mas
entre o Egito e a realização da promessa encontra-se o deserto.
Sem a peregrinação no deserto, não existirá terra prometida.
Muitos saem do deserto, mas nunca chegam ao destino. Para
alcançar a terra que mana leite e mel (Êx 3:8), precisamos
abandonar nossos desejos pelos prazeres do Egito e enfrentar os
temores e as fraquezas do deserto. Num ato de fé em Cristo e
obediência à sua Palavra, quebramos as cadeias que nos
escravizavam e marchamos para o deserto, confiantes. Contudo,
nunca chegaremos lá sem antes passar pela peregrinação.
Considere o texto encontrado em Deuteronômio 8:1-10:
Tenham o cuidado de obedecer a toda a lei que eu hoje lhes
ordeno, para que vocês vivam, multipliquem-se e tomem posse
da terra que o SENHOR prometeu, com juramento, aos seus
antepassados. Lembrem-se de como o SENHOR, o seu Deus,
os conduziu por todo o caminho no deserto, durante estes
quarenta anos, para humilhá-los e pô-los à prova, a fim de
conhecer suas intenções, se iriam obedecer aos seus
mandamentos ou não. Assim, ele os humilhou e os deixou
passar fome. Mas depois os sustentou com maná, que nem
vocês nem os seus antepassados conheciam, para mostrar-lhes
que nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que
procede da boca do SENHOR. As roupas de vocês não se
gastaram e os seus pés não incharam durante esses quarenta
anos.
Saibam, pois, em seu coração que, assim como um homem
disciplina o seu filho, da mesma forma o SENHOR, o seu Deus,
os disciplina. Obedeçam aos mandamentos do SENHOR, o seu
Deus, andando em seus caminhos e dele tendo temor.
Pois o SENHOR, o seu Deus, os está levando a uma boa
terra, cheia de riachos e tanques de água, de fontes que jorram
nos vales e nas colinas; terra de trigo e cevada, videiras e
figueiras, de romãzeiras, azeite de oliva e mel; terra onde não
faltará pão e onde não terão falta de nada; terra onde as rochas
têm ferro e onde vocês poderão extrair cobre das colinas.
Depois que tiverem comido até ficarem satisfeitos, louvem o
SENHOR, o seu Deus, pela boa terra que lhes deu.

Isso sintetiza o estilo do cristão peregrino que vive no


descampado, no desabitado da terra. Durante quarenta anos, Deus
testou os israelitas. A melhor prova para o amor e a devoção é a
crise e a provação no deserto. “… a fim de conhecer suas intenções,
se iriam obedecer aos seus mandamentos ou não” (Dt 8:2).
Foram anos de confiança radical em Deus, de acordo com o
versículo 3: “Assim, ele os humilhou e os deixou passar fome. Mas
depois os sustentou com maná, que nem vocês nem os seus
antepassados conheciam, para mostrar-lhes que nem só de pão
viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca do
SENHOR”.
Deus mesmo permite que passemos por situações nas quais não
há alternativa, a não ser total dependência dele. Os israelitas não
poderiam produzir a própria comida ou bebida. Eles dependiam da
providência do Senhor. Foram anos de proteção e preservação
divina: “As roupas de vocês não se gastaram e os seus pés não
incharam durante esses quarenta anos” (v. 4).
O deserto também é tempo de promessas maravilhosas, como as
de Deuteronômio 8:7-9: boa terra, abundância de águas, fontes e
nascentes, fartura de cereais (trigo e cevada), profusão de frutas
(uvas, figos, romãs), óleo de oliva, mel e minerais (ferro e cobre).
“Depois que tiverem comido até ficarem satisfeitos, louvem o
SENHOR, o seu Deus, pela boa terra que lhes deu” (v. 10).

A metáfora do tabernáculo
Como Israel, a igreja é peregrina. A própria imagem do tabernáculo
contrasta com o templo (ou santuário) do Novo Testamento.
Santuários lembram prédios e construções que servem para
organizações rígidas. Com o passar dos séculos, a igreja encontrou
sua identidade no templo, no prédio. “Vamos para a igreja”, dizemos
com frequência.
Igreja encarna o imutável, o rígido, o estável, a estrutura
permanente. Quando os fiéis se veem como consumidores de
produtos religiosos, a noção de templo como estrutura fixa é um
problema. No entanto, se compreendem seu ministério
encarnacional e sua condição de comunidade peregrina, capacitada
para servir, a dimensão do templo não é um obstáculo para a
[lxxiv]
missão.
No Antigo Testamento, a metáfora do tabernáculo (Êx 26) indica
mobilidade, desapego e provisão divina. Aonde Deus levasse seu
povo, ali eles armavam suas barracas. O movimento de igrejas nos
lares aproxima-se desta concepção. É difícil, mas não impossível,
transformar uma megaigreja em igreja peregrina.
A questão tem menos a ver com o tamanho do prédio e o número
de pessoas e mais com sua identidade como igreja-em-missão.
Pastores e líderes são fundamentais no estabelecimento dessa
identidade missional, a igreja-em-movimento que nunca se sente
totalmente confortável no seu contexto e cultura por saber que seu
destino ultrapassa tempo e história.
Ser igreja-peregrina não significa ser removida do mundo,
evitando sua realidade histórica e social. Peregrinos não são desta
terra, como Jesus não era deste mundo. Contudo, eles permanecem
na terra, libertos de seu domínio, mas atuantes na obediência e
ativos em fé e amor.
No Novo Testamento, a peregrinação é abordada várias vezes.
Jesus prova ser um autêntico peregrino, deixando lar e família,
viajando vários anos e pregando em mais de duzentas cidades. Ele
mesmo diz: “As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus
ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça” (Mt
8:20).
Jesus vivia em outra dimensão: a dimensão do Reino. Para
aqueles que querem se integrar ao seu projeto e seguir a Cristo
como peregrinos, suas decisões, objetivos e estratégias irão além
da segurança das instituições eclesiásticas e da zona de conforto
oferecida pela sociedade.
A metáfora do povo peregrino que se move em direção ao reino
está presente também em outras passagens do Novo Testamento
(Mt 8:20; Jo 17:14; Ef 2:19; Fp 3:20; Hb 11:9-13), e embute a ideia
de estrangeiro, exilado, imigrante e viajante, gente que não tem
residência neste mundo. Ao descrever a condição da igreja neste
mundo em sua primeira carta, Pedro refere-se à diáspora de
[lxxv]
estrangeiros e peregrinos (1Pe 2:11).
Portanto, a igreja é comunidade peregrina e vive para
testemunhar do reino dentro de seu contexto. Pastores e líderes
precisam inspirar esse senso de dupla cidadania no povo brasileiro,
comunidade a caminho da terra prometida, povo peregrino que
professa e vive um estilo alternativo de vida.

Exílio
Alguns dos melhores textos proféticos foram produzidos durante
períodos de exílio. A história de José mostra como o líder pode
cooperar com o governo e a sociedade local sem perder sua
identidade. O livro de Ester mostra a coragem de uma bela mulher
disposta a morrer e confrontar o mal estrutural dominante em defesa
do bem-estar e da felicidade de seu povo.
O livro de Jó ajuda-nos a refletir a respeito da realidade mais
ampla e reconstruí-la quando vivemos num mundo
inexplicavelmente perigoso e trágico, onde a presença de Deus e
seu plano universal têm prioridade sobre nossos projetos pessoais e
familiares. O livro de Daniel revela um jovem de caráter,
espiritualmente íntegro, pressionado pelas forças políticas malignas
de um grande império e mantendo firmes seus valores. Com muita
negociação, numa atitude de contracultura cristã e claro senso de
identidade, ele é capaz de exercer liderança com sucesso e
influenciar milhões de pessoas.
Trabalhei na plantação de uma igreja multiétnica de fala inglesa
em Toronto, no Canadá. Durante aquele período, sentindo saudades
do Brasil, senti a força do texto do salmo 137:
Junto aos rios da Babilônia nós nos sentamos e choramos com
saudade de Sião. Ali, nos salgueiros penduramos as nossas
harpas; ali os nossos captores pediam-nos canções, os nossos
opressores exigiam canções alegres, dizendo: “Cantem para
nós uma das canções de Sião!” Como poderíamos cantar as
canções do SENHOR numa terra estrangeira?
Que a minha mão direita definhe, ó Jerusalém, se eu me
esquecer de ti! Que a língua se me grude ao céu da boca, se eu
não me lembrar de ti, e não considerar Jerusalém a minha
maior alegria! Lembra-te, SENHOR, dos edomitas e do que
fizeram quando Jerusalém foi destruída, pois gritavam:
“Arrasem-na! Arrasem-na até aos alicerces!”
Ó cidade de Babilônia, destinada à destruição, feliz aquele
que lhe retribuir o mal que você nos fez! Feliz aquele que pegar
os seus filhos e os despedaçar contra a rocha!

Cheio de saudade de minha Jerusalém brasileira, não conseguia


me esquecer das suas músicas, comidas, cheiros e pessoas. Até
experimentei a ira dos versículos 7-9. Tal sentimento do exilado não
é só em função da distância geográfica, mas também das diferenças
sociais, morais, culturais e históricas.
O texto do salmo 137 é um exemplo de como o povo de Deus
respondeu ao exílio. Como cantar canções nativas vivendo numa
terra estranha? Exílio pressupõe deixar para trás propriedades e
lares, separar-se da família, ver o fim dos direitos e privilégios
sociais, perder até mesmo a identidade. O luto causado pela
destruição de Jerusalém é profundo: os tesouros foram saqueados;
os símbolos de fé, perdidos e desprezados; o templo, destruído; o rei,
exilado; o reino, espoliado; a aliança com Deus, esquecida; e a fé,
debilitada.
Esse sentimento de perda invade a igreja missional pela distância
que ela mantém do centro da sociedade. O mesmo sentimento afeta
pastores e líderes pela falta de uma clara identidade social. Muitas
igrejas sentem-se órfãs e hostilizadas, e não hospedadas, e
expressam sua tristeza com ressentimentos e divisões. Muitos
pastores e líderes solitários passam pela experiência da perda da
estrutura denominacional, que proporcionava a eles sentido,
significado e coerência.
O cristão também pode experimentar o deslocamento, o senso do
não-pertencimento, a sensação de nunca se sentir em casa e não
possuir lugar para descansar e repousar a cabeça. O salmista não
se esquece da nostálgica e romântica visão de Jerusalém nos
versículos 5 e 6: “Se eu me esquecer de ti […] se eu não me
lembrar de ti, e não considerar Jerusalém a minha maior alegria!”.
Ele se compromete a manter Jerusalém em sua memória o tempo
todo.
Nunca nos sentiremos totalmente em casa neste mundo. Vivemos
uma existência de orfandade e isolamento, desligados deste lar e
desejando a Nova Jerusalém. A própria concepção de que os
cristãos poderiam sentir-se em casa neste mundo é errônea. Como
Hugo de São Vítor afirmou: “O homem que acha doçura somente
em sua pátria é um tenro iniciante; aquele para quem todas as
terras são iguais à sua pátria já é forte; mas perfeito é aquele para
[lxxvi]
quem todo o mundo é terra estranha”.
As narrativas exílicas, porém, são bilíngues. Imigrantes aprendem
a nova linguagem do império e estão dispostos a usá-la, mas nunca
se esquecem dos ritmos de sua cultura materna, ou quem são, a
quem pertencem e a que Deus servem. Há sempre uma esperança
de restauração. A assimilação da cultura dominante é forte ameaça
na vida do exilado.
A vingança é outro sentimento que aparece neste processo. A
tristeza, o lamento e a sensação de perda vividos durante o exílio
podem evoluir em raiva, ódio e revanche, como nos versículos 7 e 8:
“Arrasem-na! Arrasem-na até aos alicerces! […] feliz aquele que lhe
retribuir o mal que você nos fez!”. O salmista deseja que Deus
retribua o que os babilônicos fizeram a Jerusalém.
Sem dúvida, o final mórbido desses versículos, típico em alguns dos
salmos imprecatórios, oferece obstáculos ao nosso discurso de amor
ao próximo e paz na terra. Não podemos nos engajar em justificativas,
desculpas tolas ou fingimentos. Talvez não utilizemos mais a
linguagem primitiva de 3 mil anos atrás, mas todo cristão verdadeiro já
sentiu doses de raiva e ódio diante, por exemplo, da injustiça social, da
violência urbana, da miséria e da corrupção política.
Todo ano, os judeus de Nova York relembram a destruição de
Jerusalém, em 587 a.C. Também precisamos reconhecer que a
igreja do século XXI está vivendo circunstâncias semelhantes ao
exílio. Precisamos lamentar a crise de fé atual, compreendendo
perdas, tristezas, ressentimentos e ira que causam o deslocamento
social da igreja e afetam seu senso de identidade.
O salmo 137 pode ser um ato de aceitação, ou mesmo de
celebração da nova realidade. O salmista começa a entender a
realidade inevitável: as novas canções de Sião, entoadas nas terras
do exílio, serão diferentes das antigas, cantadas na terra natal.
Precisamos pedir a direção do Espírito e saber ouvir as canções do
Senhor entoadas em terra estranha.
Jeremias 29:4-7 é um dos textos mais provocativos ao expressar
a resposta de Deus ao povo no exílio:
“Assim diz o SENHOR dos Exércitos, o Deus de Israel, a todos
os exilados, que deportei de Jerusalém para a Babilônia:
‘Construam casas e habitem nelas; plantem jardins e comam de
seus frutos. Casem-se e tenham filhos e filhas; escolham
mulheres para casar-se com seus filhos e deem as suas filhas
em casamento, para que também tenham filhos e filhas.
Multipliquem-se e não diminuam. Busquem a prosperidade da
cidade para a qual eu os deportei e orem ao SENHOR em favor
dela, porque a prosperidade de vocês depende da prosperidade
dela’. Porque assim diz o SENHOR dos Exércitos, o Deus de
Israel: ‘Não deixem que os profetas e adivinhos que há no meio
de vocês os enganem. Não deem atenção aos sonhos que
vocês os encorajam a terem’.”

Jeremias choca seu povo com a visão dos dois cestos de figos.
Os figos maus representam aqueles deixados para trás, enquanto
os figos bons representam os exilados (Jr 24:1-9). Como eles
poderiam viver numa terra que não era deles, sob governantes
ímpios, entre pessoas que não os amavam e cuja cultura e
linguagem eles não compartilhavam e compreendiam? Esta é a
mesma pergunta que a igreja está fazendo nos dias de hoje. A partir
desse pano de fundo, surge uma série integrada de princípios
práticos:
• Construam casas e habitem nelas.
• Plantem jardins e comam de seus frutos.
• Casem-se e tenham filhos e filhas.
• Busquem o bem-estar da cidade.
• Orem pela paz da cidade.

A experiência de Israel durante o exílio nos ensina como viver


nossa identidade missional fora das quatro paredes do templo. Deus
tem suas razões para nos levar ao exílio. Não somos vítimas de um
destino frio e impessoal. O exílio faz parte do plano de Deus.
Jeremias deixa claro que existe um elemento de vocação e
providência no exílio. Nele temos oportunidade de nos reorientar
para Deus e reconstruir nossa identidade pastoral. Exílio é contexto
missional, onde uma nova postura ministerial é necessária. Deus
está agindo na história e movendo-se na realização de sua missão
(missio Dei). Como missionários do exílio, não chegamos ao lar
ainda. Apontamos para a perda, para o deslocamento, para a
tristeza e para a ira com um novo senso a respeito do chamado de
Deus em direção ao reino e da presença da sua graça na vida e no
trabalho durante o exílio.

O bem-estar da cidade
Pastores e líderes sentem-se privilegiados por acreditar que a atuação
de Deus se restringe à igreja. Ela é, de fato, o local onde Deus está
presente, mas o exílio nos lembra que técnicas para aumentar o rol de
membros e estratégias para restauração interna não costumam
funcionar do lado de fora. O local da missão de Deus é o mundo como
um todo. Como dizia João Wesley, “o mundo é minha paróquia”.
Precisamos buscar o bem-estar da cidade e orar pela restauração
da paz. Isso não surge apenas a partir das expectativas de sucesso
econômico e restauração social. Na verdade, nasce do
reconhecimento de que nosso ministério de serviço aponta e
anuncia realidades muito maiores.
A igreja ora pela volta do Príncipe da paz, o justo juiz? Exige o fim
da injustiça e busca a paz social? Em Atos, os novos convertidos
faziam isso com excelência, compartilhando vidas e propriedades,
cuidando uns dos outros, satisfazendo as necessidades básicas de
todas as pessoas, inclusive as viúvas estrangeiras (gregas).
O zelo com o bem-estar da sociedade não deve ser traduzido como
poder político. Exilados não buscam posições de poder e fama. A
igreja deve apontar para o Senhor dos senhores e Rei dos reis, Jesus,
declarando a todos que somente ele é Deus, rege as nações e reina
em todo o mundo. O domínio do Altíssimo transcende todos os limites
territoriais, as linhas imaginárias que separam as nações.
Por isso, a igreja busca o bem-estar da cidade ao modelar um
caminho de vida alternativo, uma contracultura social. A própria
igreja desempenha o papel de cidade (a pólis) alternativa. O
principal papel político da igreja é a formação de um povo que vive
plenamente todas as implicações e paga o preço do discipulado.
Hauerwas e Willimon nos convidam a enxergar a igreja com os
olhos do imigrante residente (resident alien): uma colônia que se
[lxxvii]
aventura numa sociedade incrédula.
Pastores e líderes vivem esse estilo de vida alternativo, que
ensina a falar e agir, lutar e amar, discutir e perdoar, enfim, enxergar
o mundo da mesma forma que Jesus o fez? A encarnação, bem
como o estilo alternativo de vida proposto durante os períodos de
peregrinação e exílio, nos desafia a buscar um modelo que
manifeste os valores da liderança de Jesus em nossa nação.
Liderança que reflete o sacrifício de Jesus Cristo
Sem a cruz, o cristianismo é apenas mais uma forma de experiência
religiosa ou espiritualidade do tipo nova era. Em João 12:24, Jesus
aponta para a importância de sua morte: “Digo-lhes
verdadeiramente que, se o grão de trigo não cair na terra e não
morrer, continuará ele só. Mas se morrer, dará muito fruto”. Paulo
afirma que o amor de Deus por nós é comprovado e confirmado na
morte de Cristo pelos pecadores (Rm 5:8 e 2Co 5:14).
Jesus morreu em lugar de homens e mulheres “uma vez por
todas, o justo pelos injustos, para conduzir-nos a Deus. Ele foi morto
no corpo, mas vivificado pelo Espírito” (1Pe 3:18). Para o teólogo J.
M. E. Ross, o versículo 18 é um sumário tão objetivo quanto rico
[lxxviii]
sobre o significado da cruz. Pedro condensa elementos como
redenção reconciliadora, justificação substitutiva e suficiência plena
de Cristo numa pequena frase.
O bispo Lesslie Newbigin, da Índia, conta uma história que talvez
seja a mais crucial em sua caminhada como cristão. Enquanto
estudante universitário, cheio de ideais, ele investiu três meses de
férias trabalhando numa área pobre no sul de Gales, num clube de
recreação para jovens:

Na última semana de nossa estada, levamos cerca de sessenta


jovens para acampar próximo ao mar em Llantwit Major. As
coisas não foram bem. Uma noite, a moçada conseguiu entrar
no acampamento com uma grande quantidade de bebida.
Imediatamente, começaram a embebedar-se e brigar entre si.
Eu não tinha a menor ideia de como resolver a situação.
Quando, tarde da noite, conseguimos um pouco de paz, entrei
na minha barraca com uma sensação de derrota total. Não era
capaz de contribuir com nada. Deitado e acordado, tive uma
visão, talvez resultado de um livro de William Temple que lera
semanas antes. Era a visão de uma cruz ocupando toda a
distância entre o céu e a terra, entre ideais e realidades
presentes, e com seus braços abarcando todo o mundo.
Essa cruz chegava ao fundo da miséria humana mais sórdida
e desesperada. E ainda assim, prometia vida e vitória. Naquela
noite, como nunca antes, tive certeza de que aquele era um
[lxxix]
sinal a seguir para que o mundo fizesse sentido para mim.

Este foi, provavelmente, o momento decisivo em seu chamado,


enviando-o de volta a Cambridge como um cristão comprometido.
Há um vácuo, um espaço vazio entre o lugar onde moramos e a
visão gloriosa do reino, uma lacuna que separa a cidade dos
homens da cidade de Deus. A cruz é a realidade que ocupa todas
as dimensões da história humana (1Co 1:18).
Na cruz, o ser humano é lembrado da tragédia da vida. A morte
revela que nossos modelos são falhos, nossos resultados são
ambíguos, nosso sucesso é passageiro, nossa fama é transitória e
nenhum deles leva à perfeição que buscamos. Morte é o sinal
externo que comprova que nenhuma das nossas realizações se
[lxxx]
encaixa no reino de Deus. A morte ridiculariza todos os
resultados humanos. Aqui, aliás, temos a prova da falência dos
melhores programas de igreja e projetos sociais: quantos desses
planos desapareceram nas ruínas da história, à espera do
julgamento final?
Apesar de desesperadora, essa visão nos aponta para a fé em
Cristo. Em outras palavras, nossa esperança não se encontra nos
frutos do trabalho humano e no desenvolvimento científico, mas na
morte de Jesus. A cruz é a única opção, a única alternativa que
conecta céus e terra, que une ideal e realidade. É a combinação
perfeita entre a ira de Deus e seu amor e sua misericórdia. Ela é o
marco histórico que revela dois atributos divinos: a justiça de Deus
diante do pecado e a profundidade de seu amor compassivo. O
apóstolo Paulo disse isso em Colossenses 2:13-15:
Quando vocês estavam mortos em pecados e na incircuncisão
da sua carne, Deus os vivificou com Cristo. Ele nos perdoou
todas as transgressões, e cancelou a escrita de dívida, que
consistia em ordenanças, e que nos era contrária. Ele a
removeu, pregando-a na cruz, e, tendo despojado os poderes e
as autoridades, fez deles um espetáculo público, triunfando
sobre eles na cruz.

A cruz revela simultaneamente a quantidade do nosso pecado


contra Deus e a quantidade de seu amor para conosco. Ela é o
lugar onde todo ser humano, sem exceção, é aceito como amado de
Deus, tornando-se objeto de sua graça. A cruz é o lugar da
expiação, onde o pecado é perdoado. O único centro da história da
humanidade. A igreja é portadora desta visão, e somente ela pode
[lxxxi]
levar as nações à verdadeira unidade de propósito.
Como portadora do evangelho, a igreja sabe que a reconciliação
está no centro da vitória que Cristo conquistou na cruz. Muitos
estudiosos da Bíblia afirmam que o tema mais importante da história
da salvação, o rio que flui desde o início do Antigo Testamento até o
fim do Novo, é a mensagem da reconciliação.
Por muito tempo, a igreja tem enfatizado a dimensão individual da
salvação como central ao evangelho. Embora este conceito seja
importante, a palavra “reconciliação” abre portas para um evangelho
muito mais amplo e sadio. Segundo o apóstolo Paulo Deus
reconciliou consigo o mundo (2Co 5:19). A reconciliação aconteceu
quando Jesus carregou sobre si os pecados da humanidade na cruz.
Somos incapazes de salvar a nós mesmos. Nunca poderemos,
por meio de nossos esforços e atividades religiosas, resgatar a
imago Dei perdida na queda. A inimizade e o distanciamento de
Deus marcam nossa vida. A reconciliação é o caminho que Deus
usa para interagir com aqueles que o rejeitaram. Em Cristo, a
rebelião humana contra o Criador é desmascarada, julgada e
perdoada.
Reconciliação consiste na recriação, e influencia todas os aspectos
da criação, incluindo homens e mulheres. Ela afeta o propósito de
Deus para o universo. Quando compreendemos isso de fato, nosso
estilo de liderança passa a incluir necessariamente a ênfase no
ministério da reconciliação da igreja em cada âmbito da realidade
(criação), seja ela social, urbana, histórica, econômica ou política.

A cruz simboliza o sofrimento


O sofrimento é um aspecto do cristianismo evidentemente
negligenciado, mas indispensável na compreensão de nossa missão
neste mundo. Quando Jesus enviou seus discípulos em missão,
mostrou-lhes suas mãos e seus pés (Lc 24:39-40). Eles
compartilhariam não somente sua missão, mas também sua paixão.
[lxxxii]
Pastoreei uma igreja em Tatuí, no interior de São Paulo, que
cresceu e se desenvolveu bastante. Pensava, pretensiosamente,
que possuía as melhores técnicas, estratégias e ferramentas para
fazer a igreja crescer. Achei que meu aparente sucesso em Tatuí
garantiria o mesmo resultado em Toronto, no Canadá.
Estava completamente enganado. Todo o meu conhecimento e a
experiência adquirida no Brasil serviram pouco na sociedade pós-
moderna, multicultural e pós-cristã canadense. Infelizmente, aquela
igreja, como várias outras no Canadá, sofreu declínio e fechou. Nada
pude fazer. Naquele período, enfrentei uma das maiores crises em
meu ministério. A dor do luto da morte da igreja foi insuportável, e
ainda é indescritível.
Aquele foi um pequeno preço, se comparado a experiências como
a do missionário William Carey, que partiu para a Índia em 1793. Ele
perdeu seu filho de cinco anos e sua esposa enlouqueceu e morreu.
Carey labutou sete anos pelo primeiro convertido e perdeu anos de
textos traduzidos em várias línguas num incêndio que destruiu sua
casa publicadora.
Pense em Robert Morrison, o primeiro missionário enviado para a
China, em 1807, que perdeu sua jovem esposa. E de Adoniram
Judson, considerado o primeiro missionário americano estrangeiro.
Mudou-se para a Birmânia (hoje Miamar) em 1814. Perdeu um filho de
seis meses de idade. Aprisionado por um ano e meio, viu a mulher
adoecer e morrer. Ele esperou cinco anos pelo primeiro convertido.
No século XX, o pastor Dietrich Bonhoeffer, enquanto prisioneiro
do regime nazista, escreveu o livro The Cost of the Discipleship.
Para ele, o sofrimento era tema central no cristianismo. A cruz nos
encontra no começo de nossa comunhão com Cristo. Quando o
Filho de Deus chama um homem, diz Bonhoeffer, oferece a ele:
[lxxxiii]
“Venha e morra”.
Bonhoeffer estava simplesmente parafraseando Marcos 8:34: “Se
alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua
cruz e siga-me”. Precisamos nos conscientizar e aceitar que traição,
rejeição, ataques, críticas, crucificação e morte frequentemente
seguirão os discípulos de Jesus.
Marcos 8:31 aponta para o inevitável destino de Jesus: “Então ele
começou a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do homem
sofresse muitas coisas e fosse rejeitado pelos líderes religiosos,
pelos chefes dos sacerdotes e pelos mestres da lei, fosse morto e
três dias depois ressuscitasse”.
A tradição dos primeiros séculos afirma que Pedro, quando
martirizado, sentiu-se indigno de morrer como Jesus, exigindo ser
crucificado de cabeça para baixo. Ele afirma em sua primeira epístola,
capítulo 4, versículo 1: “Portanto, uma vez que Cristo sofreu
corporalmente, armem-se também do mesmo pensamento, pois
aquele que sofreu em seu corpo rompeu com o pecado”. Esta é a
única vez que a palavra grega traduzida por “armem-se” aparece em
todo o Novo Testamento e se refere à armadura de um soldado.
Sofrimento é experiência normal. Mais do que isso: é vocação. O
caminho da missão passa pela estrada da provação, onde encontra
seu verdadeiro sucesso. Cedo ou tarde, a missão leva à paixão.
Afinal, toda missão resulta em alguma forma de cruz. Em termos
bíblicos, o servo deve sofrer e ser crucificado. Podemos, então,
[lxxxiv]
entender a missão somente com o formato da cruz.
Não seria correto dizer que, na cruz, nossa busca por conforto,
prosperidade, segurança e sucesso ministerial assumem uma nova
dimensão? Jesus é Cristo em virtude de sua aflição e crucificação.
Da mesma forma, o discípulo é discípulo somente à medida que
compartilha os sofrimentos de seu mestre, e a igreja só é igreja
quando se torna co-participante do sofrimento de Cristo.
Quando Jesus chama seus discípulos, ele os convida a seguir seu
exemplo de sofrimento e morte. O líder missional vive de acordo
com o caminho da cruz. Ao contrário de uma trajetória de privilégios
e sucesso, a igreja fiel pode esperar a cruz como regra geral do
discipulado, assim como resultado de seu testemunho.
A própria palavra “testemunha” (martiria, no grego) significa
aquele que descreve sua experiência pessoal sobre algo que lhe
aconteceu, ou a outra pessoa. “Mártir” tornou-se sinônimo de
sofrimento quando as primeiras pessoas que testemunharam a
ressurreição de Cristo começaram a ser aprisionadas e mortas.
Arriscando-se a falar de Jesus e viver como discípulos, abraçaram
o mesmo destino. A disposição (ou mesmo a inclinação) de sofrer
pela causa de Cristo é o que evidencia nosso caráter missional.
Para John Stott, o chamado à aflição e à crucificação como
condição para um bom ministério soa extravagante e anormal diante
do mundo ocidental. O ambiente de classe média de grande parte
de nossas igrejas está longe da imagem de uma arena de
perseguição. Onde está a disposição para sofrer por Cristo hoje? A
tendência ao triunfalismo deixa pouco espaço para a tribulação.
Esse falso evangelho da prosperidade, que promete saúde e
riqueza sem limites, nos cega para os desafios bíblicos da
[lxxxv]
adversidade. Quanto mais próximos estivermos da
mentalidade do Novo Testamento, maior será a realidade do
sofrimento em nossa vocação. Haverá mais dor e sofrimento para
aqueles que viveram a fidelidade e a piedade. Sofrimento é
chamado cristão.
De fato, o sucesso ministerial pode esconder fracasso espiritual e
pessoal, da mesma forma que fracasso ministerial pode resultar em
sucesso espiritual. John Piper nos lembra que não devemos julgar
de maneira precipitada os aparentes fracassos e as supostas táticas
de recuo da igreja. Quando se veem as coisas com os olhos de
Deus, o mestre estrategista, o recuo pode significar o
remanejamento de tropas para maior avanço
e melhor
[lxxxvi]
demonstração de sua sabedoria, seu poder e seu amor.
O verdadeiro sucesso virá da espera no Senhor, da persistência e
perseverança diante de desespero, oposições, ansiedades e
tentações. Em vez de causa para desânimo, os anos que passei no
Canadá proporcionaram nova perspectiva missional, paixão pela
igreja e nova visão pastoral, além de crescimento e maturação. O
sucesso está na vida com Cristo, e não nas efêmeras realizações
ministeriais e pastorais. Missão é terapia na alma do líder.

Missionário-vítima
Tudo isso significa que nosso modelo de liderança deve demonstrar
humildade. Newbigin sugere a figura da testemunha depondo diante
do tribunal do mundo, que julga a veracidade do cristianismo. Até a
declaração do veredicto, a função da testemunha não é tirar
conclusões, mas reportar o que viu e ouviu. Ninguém poderá
[lxxxvii]
contra-argumentar a realidade daquilo que testemunhou.
Abertura, diálogo, humildade, aceitação e vulnerabilidade serão
sempre marcas do evangelho. Paulo, em 2Coríntios 12:9-10,
enfatiza a fragilidade e a fraqueza do missionário:

Mas ele me disse: “Minha graça é suficiente para você, pois o


meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Portanto, eu me gloriarei
ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder
de Cristo repouse em mim. Por isso, por amor de Cristo,
regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas
perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou
forte.

David Bosch, pastor-teólogo sul-africano que viveu durante o


apartheid, regime de segregação racial, chama o cristão
“missionário-vítima”. Ele cita o bispo Desmond Tutu, Prêmio Nobel
da Paz, ao falar de seu temor de que todos tenhamos sido tão
seduzidos pelo sucesso ético que nos esquecemos do fato de o
próprio sentido real da igreja estar relacionado à sua condição de
comunidade fracassada. A igreja deve seguir o modelo de
missionário-vítima, aquele chamado para ser a fonte de bênção para
a sociedade sem que seu destino seja controlá-la. Ele sabe que o
[lxxxviii]
evangelho deixa de ser evangelho quando é imposto.
Este é o plano de ação mais apropriado: testemunhar a respeito
do perfume de Cristo presente em nós. A fé cristã é baseada na
graça recebida, não merecida, e que se encontra no centro da cruz.
Portanto, quando nos encontramos com aqueles que não são
cristãos ou membros de nossas igrejas, não precisamos mostrar
excesso de confiança, mas vulnerabilidade e autenticidade. Nossa
convicção não precisa ser abalada quando ameaçados pela
contradição.
No Novo Testamento, liderança tem pouco a ver com poder e
autoridade (cp. Mt 23:11 e Lc 22:24,26). As igrejas fundadas por
Paulo refletem a variedade dos modelos organizacionais e estilos de
liderança. Elas são sempre descritas como grupos sociais com
participação efetiva dos membros no ministério e liderança
compartilhada (At 15:22). Precisamos transmitir a mensagem da
cruz sem arrogância ou a impressão de que nosso modelo de igreja
ou visão ministerial é melhor do que o da outra igreja ou pastor.
O líder missional age como aquele que carrega um guia das ruas
de uma grande cidade. Ele consulta o mapa, aponta a direção e
[lxxxix]
orienta o caminho. As pessoas apreciam muito quando
damos boas sugestões de ruas para que cheguem ao destino certo.
Contudo, quando a igreja impõe e comercializa mapas, recrutando
ou cooptando grupos e prescrevendo receitas de como as pessoas
devem agir, ela transmite a mensagem de superioridade e soberba.
Isso reduz evangelismo a proselitismo, ou seja, tornar-se membro
da “minha” igreja. Convida também as pessoas a abraçar verdades
teóricas, e não práticas. Desenhar um mapa e apontar a direção
para aqueles que não têm certeza de que estejam realmente
perdidos é diferente. Qualquer atitude que transmita a mensagem
“sou melhor que você” causará resistência e rejeição. O melhor
convite é aquele que diz: “Vamos caminhar juntos?”.
A igreja precisa ser humilde o suficiente para assumir sua
condição de aprendiz. Deve prestar atenção na variedade de
experiências e descobertas humanas a fim de conseguir aplicar na
prática o que significa a afirmação: “Jesus é Senhor e Rei de toda a
raça humana”. Mas ela também precisa ser corajosa e ousada em
[xc]
testemunhar que ele é o único Senhor e Rei de todo o universo.
Sem a necessidade do rótulo “apologéticos”, somos seguidores do
caminho de Jesus. Ele deve ser apresentado a todos os povos
como o Caminho, a Verdade e a Vida. Evangelismo é o anúncio
mundial de que o Reino de Deus está chegando. Em 1983, David
Lowes Watson, no seu livro The Church as Journalist [A igreja como
jornalista], sugere que precisamos mudar do modelo de vendedores
para o de jornalistas. O evangelismo necessita de uma nova raiz
que não seja o vendedor ou comerciante, pois o evangelho não se
enquadra no conceito de produto de mercado.
O líder missional está bem informado sobre o mundo no qual se
encontra e sobre as pessoas com quem está compartilhando. O
evangelho é apresentado de tal forma que mostra as boas-novas da
salvação. Muitas vezes, em vez de compartilhar esse cristianismo
puro e simples, os líderes cristãos se envolvem em brigas e
confusões, ou então se jactam ao descrever seu próprio ministério e
[xci]
as realizações pessoais. É tempo de mudança.
Voltando à visão que Newbigin teve da cruz que ocupa toda a
distância entre o céu e a terra:
No final [da vida], eu retorno ao começo, àquela visão que me foi
dada durante aquela noite estressante no acampamento dos
mineiros no sul de Gales. Ainda vejo a cruz de Jesus como o
único lugar na história de toda a cultura humana onde os grandes
mistérios do pecado e perdão, escravidão e liberdade, conflito e
paz, morte e vida são completamente tratados. Embora tudo isso
seja enigmático, imprevisível e fuja à minha compreensão, eu
encontro na cruz — como sempre tenho encontrado durante os
últimos cinquenta anos — o ponto a partir do qual nossas cargas
são levadas e há luz para o caminho, mesmo que a sigamos
vacilantes. Eu sei que esta estrela-guia permanecerá e sua luz
brilhará até a morte e no final de todas as coisas. E isso é
[xcii]
suficiente.

Vivemos esse evangelho somente quando nos identificamos como


comunidade que vive diariamente sob o impacto da cruz. Quando a
igreja se esvazia, sacrificando-se, amando com sinceridade,
perdoando e curando, humilhando-se com vulnerabilidade e
morrendo diariamente, ela conquista e atrai como Jesus: “‘Mas eu,
quando for levantado da terra, atrairei todos a mim’. Ele disse isso
para indicar o tipo de morte que haveria de sofrer” (Jo 12:32-33).
Liderança que reflete a ressurreição de Jesus Cristo
A ressurreição é tema central na missão da igreja. No oriente, a
[xciii]
ressurreição de Cristo é o ato redentor de Deus por excelência.
A mensagem do evangelho é estéril sem ela. “E, se Cristo não
ressuscitou, é inútil a nossa pregação, como também é inútil a fé
que vocês têm” (1Co 15:14; v. tb. Rm 8:11 e Cl 3:1).
Sem a ressurreição, a mensagem da cruz é incompleta e ilusória.
Enquanto na cruz a missão reflete o sacrifício, o perdão, a fraqueza
e o sofrimento do Cristo, na ressurreição ela demonstra a vitória, a
grandeza, a vida e o poder do Messias. A jornada não termina com a
morte. Ela apenas abre passagem para a vida eterna.
Portanto, olhando sob o ponto de vista da ressurreição, a missão
da igreja não representa apenas um “mandato missionário”, um ato
de obediência, uma responsabilidade a ser cumprida. A missão
começou como uma bomba nuclear, repleta de radiação espiritual,
[xciv]
lançada sobre a comunidade reunida no domingo de Páscoa.
O resultado da explosão foi alegria no Espírito Santo. A notícia de
que o Cristo crucificado estava vivo não podia ser reprimida. Quem
poderia silenciar tal fato? Quem conseguiria ocultar esta
informação? A missão da igreja nas páginas do Novo Testamento
era mais como uma explosão extraordinária, não letal, mas vital:
Jesus vive. Ele ressuscitou.
Talvez por isso, em suas cartas, Paulo não parece preocupado em
forçar seus leitores a se envolver no trabalho de missões, nem
procura estabelecer metas ou desafios missionários. Para ele, isso
seria sequência natural do processo pelo qual passa o novo
convertido. Aquele que experimenta a ressurreição de Jesus não
consegue ocultar seu testemunho ou reprimir a proclamação desta
verdade, mesmo que seja lançado aos leões ou esquartejado por
gladiadores.
Portanto, na ressurreição a igreja promove o Cristo crucificado
como Rei e Senhor. Desde o início de seu ministério, Jesus deixou
claro que controla, governa e reina sobre todo o universo.
Principalmente por meio de parábolas, Jesus desafia seus
discípulos a compreender a vida através do mistério do reino em
missão. O reino de Deus está próximo, mas seus resultados visíveis
não podem ser gerenciados, por melhores que sejam as estratégias
de sucesso.
A ressurreição ressalta a presença do reino. Mateus, Marcos e
Lucas sustentam que o reino desfruta de uma posição central no
ministério da igreja. Várias passagens e parábolas são dedicadas a
este tema (Mt 5:19; 6:33; 9:35; 13:24,31; 18:3; Mc 9:1; 10:15,17; Lc
6:20; 9:2,11; 12:31, entre outras referências). Jesus veio trazer o
reino de forma mais extraordinária e perceptível.
Somente após a ressurreição de Cristo os discípulos
compreenderam a dimensão de sua obra redentora. Paulo e Pedro,
de maneira especial, entenderam o plano de Deus: o surgimento de
um novo povo em Cristo, a inauguração de uma nova era, uma nova
humanidade, uma nova sociedade na qual Jesus é Senhor e
fundador. Este tema fica claro em Mateus 16:13-21:
Chegando Jesus à região de Cesaréia de Filipe, perguntou aos
seus discípulos: “Quem os outros dizem que o Filho do homem
é?” Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista;
outros, Elias; e, ainda outros, Jeremias ou um dos profetas”. “E
vocês?”, perguntou ele. “Quem vocês dizem que eu sou?”
Simão Pedro respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”.
Respondeu Jesus: “Feliz é você, Simão, filho de Jonas!
Porque isto não lhe foi revelado por carne ou sangue, mas por
meu Pai que está nos céus. E eu lhe digo que você é Pedro, e
sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades
não poderão vencê-la. Eu lhe darei as chaves do Reino dos
céus; o que você ligar na terra terá sido ligado nos céus, e o
que você desligar na terra terá sido desligado nos céus”.
Então advertiu a seus discípulos que não contassem a
ninguém que ele era o Cristo. Desde aquele momento Jesus
começou a explicar aos seus discípulos que era necessário que
ele fosse para Jerusalém e sofresse muitas coisas nas mãos
dos líderes religiosos, dos chefes dos sacerdotes e dos mestres
da lei, e fosse morto e ressuscitasse no terceiro dia.

Cristo é o Messias, o ungido de Deus. O famoso pronunciamento


de Pedro, “tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, testifica não
somente a divindade de Cristo, mas também a finalidade de seu
ministério. A partir desse momento, Jesus começa a ensinar a
respeito de sua crucificação e sua ressurreição. Johannes Blauw
chama a ressurreição o “grande apogeu” na missão da igreja. Com
a Páscoa, uma nova era começou; um novo governante foi
entronizado. Missão é a ordem de comando: “Venham, Jesus Cristo
[xcv]
é o Senhor de toda a terra”.
Líderes missionais devem viver pela fé neste Cristo como Senhor
e Rei não apenas da igreja, mas também de todo o mundo, Seu
domínio não se aplica apenas à vida religiosa, mas a todas as
esferas da vida humana em todos os povos e as nações da terra.
Ele não é apenas meu salvador, mas o salvador do mundo. Se a
ressurreição é verdadeira, então esta verdade se aplica a toda
humanidade e não pode ser encoberta de ninguém.
A afirmação “sobre esta pedra edificarei a minha igreja” serve
como ponto de partida na formação da igreja-em-missão.
Começando em Pentecostes, a igreja de Cristo é edificada como
comunidade de fé na ressurreição. Jesus oferece a possibilidade de
entrar numa nova dimensão: viver o reino eterno mesmo residindo
neste velho mundo. Aqueles que aceitam a soberania de Deus
submetem-se ao seu reinado, e enquanto obedecerem à sua
vontade, encontrarão sentido na vida.
“As portas do inferno não prevalecerão contra ela.” A igreja será
forte. O reino das trevas não resistirá ao seu crescimento. Somos
testemunhas da ressurreição, assim como do estabelecimento do
reino. Jesus avisou que a vitória sobre a morte, o pecado e o mal
aconteceria através de sua ressurreição. Desde o começo de seu
ministério, na tentação de Satanás no deserto, ele demonstrava o
calibre da luta, o tamanho da batalha espiritual que estava em jogo
na história humana.

Igreja na ofensiva
A igreja é chamada para a mesma guerra espiritual contra o mal
moral (indivíduo) e estrutural (sociedade). Ser parte do reino é
reconhecer quem está no controle e quem deveria estar. Tudo
pertence a Deus, e adoração é prerrogativa divina. João expressa
isso no livro de Apocalipse, capítulo 11, versículo 15: “O reino do
mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará
para todo o sempre”.
No tempo de Deus, essa promessa se concretizará plenamente.
Abraham Kyper, primeiro-ministro holandês, afirmou o senhorio de
Cristo da seguinte forma: “Não existe uma polegada sequer de toda
a criação que Jesus não esteja proclamando: ‘Isto é meu. Isto
[xcvi]
pertence a mim’”.
Moisés, Davi, Paulo e, principalmente, Jesus previram uma igreja
sobrepujando principados e potestades, conquistando novas
fronteiras com sua missão integral. Este chamado missional
transmite a mensagem reconciliadora para toda a humanidade e
redentora para todo o ser humano.
Barth insiste que, neste mundo reconciliado em Cristo, não há
[xcvii]
área secular que tenha sido totalmente abandonada por Deus.
A nossa tarefa, assim sendo, é inserir integralmente a igreja
missional na sociedade, recuperando seu direito de viver no mundo
sob o domínio de Deus. A igreja assume uma posição ofensiva
contra o reino das trevas, reivindicando todos os territórios perdidos
na sociedade, na história, em todos os campos do conhecimento e
em todas as áreas de relacionamentos. Contudo, a vitória final virá
com custo elevado, suor e sangue. Em Mateus 12:26-28, Jesus
identifica o regente deste reino rival, Belzebu.
Se Satanás expulsa Satanás, está dividido contra si mesmo.
Como, então, subsistirá seu reino? E se eu expulso demônios
por Belzebu, por quem os expulsam os filhos de vocês? Por
isso, eles mesmos serão juízes sobre vocês. Mas se é pelo
Espírito de Deus que eu expulso demônios, então chegou a
vocês o Reino de Deus.
Embora tenha derrotado e aprisionado Satanás, Jesus alertou que
o seu reino continuaria em direto confronto com poderes humanos e
diabólicos. A serpente, embora mortalmente ferida, ainda resiste à
expansão do domínio de Cristo na terra. Espera-se que sua igreja
sofra retaliações por operar com diferentes valores, viver a partir de
uma diferente fonte de poder e ser guiada por padrões e
expectativas alternativos.
Somos chamados a viver, aqui e agora, uma vida capacitada pela
ressurreição de Cristo como sinal de oposição aos poderes da
morte, ao pecado e aos inimigos de Deus. A boa notícia é que a
vitória final sobre todos eles é garantida, e a transformação deste
mundo é assegurada na ressurreição. A presença dinâmica do Deus
soberano, criador e sustentador de tudo, apaga o pecado e traz
perdão; seu poder redentor confronta o mal e restaura a vida.
Uma das razões pelas quais tantos de nós desistem no meio do
caminho e sofrem quedas das quais não conseguem se levantar é a
negligência no cumprimento do papel de soldado em alerta e a falta
de senso de urgência diante do inimigo. Estamos vivendo
confortavelmente neste mundo. Embora o reino não seja igual à
igreja, nela ele assume formas mais visíveis e concentradas. A
igreja não é apenas uma agência do reino, mas sua matriz.
Howard Snyder nos lembra que somos chamados para ser povo
do reino, e não povo da igreja. O povo do reino busca o reino e a
justiça em primeiro lugar. O povo da igreja geralmente coloca as
atividades e ministérios da igreja acima das preocupações com
justiça, misericórdia e verdade, e pensa em maneiras de trazer mais
pessoas do mundo para seu rol de membros. O povo do reino pensa
em como levar a igreja para fora, no mundo. O povo da igreja está
preocupado em como o mundo pode mudar a igreja. O povo do reino
[xcviii]
trabalha para que a igreja mude o mundo.
Além disso, de acordo com Mateus 16:19, a igreja detém as
chaves do reino dos céus. Isto não significa que a igreja é um fim
em si. Muitos modelos eclesiais que enfatizam crescimento
numérico e resultados mensuráveis podem cair no engano de tomar
a missão de Jesus em suas próprias mãos.
A teologia do Reino tem sido trocada por diversas formas de
eclesiocentrismos: o projeto da igreja, não a missão do Reino, torna-
se o alvo final. Pela falta de uma boa teologia do reino, muitas
denominações e megaigrejas se isolaram, auto-suficientes na
construção de seus próprios impérios pessoais e guetos religiosos.
Penso que a confusão na relação entre os conceitos de reino e
igreja seja a base de muitos dos problemas enfrentados pelo
cristianismo nos dias de hoje. Um dos perigos a serem evitados é a
separação radical entre uma coisa e outra. É óbvio que não
podemos confundi-las, mas também não devem ser separadas.
Em todo o Brasil e ao redor do mundo, os cristãos oram: “Venha o
teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como nos céus”.
Quando dizemos “venha o teu reino”, oramos também para que as
questões materiais (política, economia, temas sociais, dignidade,
urbanização, cidades, história, ecologia etc.) se encaixem nas
“questões espirituais”.
Jesus não nos chamou apenas para que tivéssemos
pensamentos ou sentimentos profundos por ele. Ele nos convocou
para que nos tornássemos seus discípulos. O Filho de Deus não
busca espíritos desencarnados, mas convida todos para que entrem
no seu reino, curem pessoas, expulsem demônios e proclamem o
evangelho integral. O reino apresenta uma nova estrutura que se
caracteriza pela justiça pública, igualdade, paz social e amor. O
[xcix]
reino de Deus está entre nós.
Participamos na grande obra de trazer o máximo possível do reino
de Jesus Cristo à terra. Roger Mitchell chama a isso “elemento
reino”. “A obra do reino não é tanto tirar as pessoas da terra e levá-
las para o céu, mas trazer o quanto pudermos do céu a esta terra e
às pessoas. O reino avança quando a igreja se compromete com
justiça, paz, retidão e amor. Ações positivas neste mundo não são
secundárias, mas centrais à missão. Embora a igreja seja
imperfeita, tem o potencial de refletir, em seus ministérios e
programas, muitos dos valores do reino.
C. S. Lewis nos lembra que, em última análise, há apenas dois tipos
de pessoas: aquelas que dizem para Deus: “Tua vontade seja feita”; e
[c]
aquelas às quais Deus dirá: “Sua vontade seja feita”. “Venha o teu
reino” demonstra quão importante para Jesus é a ênfase no reino de
Deus. Acima de tudo, o evangelho anuncia que o reino é presente, mas
ainda se encontra no futuro, esperando sua realização em Cristo.
A ressurreição de Jesus é relevante porque não foi qualquer
homem que morreu, mas aquele que levou sobre si a história de
Israel. Para os israelitas, a ressurreição deveria funcionar como
símbolo da reconstituição da nação, o retorno dos peregrinos e
exilados e, acima de tudo, sua própria redenção. Por isso, a
expressão “povo peregrino” é extremamente apropriada: cristãos
veem a si mesmos como continuação de Israel. A igreja é um povo
peregrino que vive um estilo de vida alternativo — em última análise,
trata-se de uma alternativa para o mundo.
Provavelmente o maior perigo em utilizar o conceito de
“comunidade alternativa” seja que a igreja se torne uma
comunidade paralela, isolada, dissociada de qualquer
responsabilidade social e transformação cultural. “Comunidade
alternativa” não deve identificar apenas a igreja reunida no templo,
mas também o povo de Deus disperso pelo mundo. Este tipo de
eclesiologia deve orientar pastores, líderes e estruturas
eclesiásticas na capacitação de seus membros em relação ao seu
chamado na sociedade.
Portanto, a igreja é sinal da formação desta nova sociedade de
Deus. A força vital do reino já flui nas veias da igreja. Embora ela
não seja o único veículo da missão, possui a peculiaridade de
representar essa comunidade de cristãos que demonstra os
valores do reino a todas as nações.
Newbigin está correto quando afirma que a igreja local é a única
[ci]
que pode ser intérprete (hermenêutica) do evangelho. Neste
mundo fragmentado, cínico e mentiroso, as pessoas precisam de
uma voz confiável. Elas devem interpretar o evangelho através da
vida dos verdadeiros cristãos. Talvez a maior contribuição da igreja
para uma nova ordem social é ser ela mesma essa nova ordem,
essa comunidade que vive o futuro na terra.
Na esperança de indicar o que o mundo pode “ser ou não ser”, a
igreja age como comunidade que propõe novos paradigmas. Ela
não apenas tem ética social — a igreja é a própria ética social
quando funciona como instituição cristológica, como organização
[cii]
que encarna a pessoa e a obra de Cristo.
Não seria maravilhoso encontrar uma igreja que vive essa
realidade social alternativa? Não causaria admiração uma igreja
cuja missão fosse realmente ensinar seus membros a falar, agir,
lutar, amar e enxergar o mundo de forma cristocêntrica? Precisamos
trabalhar com persistência para trazer a presença de Cristo, com
todo o seu amor, sua beleza e sua doçura, a todas as esferas da
vida. A igreja representa o reino como sua comunidade, serva e
mensageira. Ela é a comunidade da nova aliança em Cristo, e foi
gerada pelo reino para mostrar seu caráter tangível em forma
humana e social.
Liderança que aponta para a ascensão de Jesus Cristo
O calvinismo sempre enfatizou a exaltação de Cristo (Lc 24:51).
Para o braço reformado do cristianismo, a igreja encontra-se entre
ascensão e escatologia, entre a partida de Jesus e seu retorno. Em
Atos 1:11, a mensagem dos anjos foi: “Galileus, por que vocês estão
olhando para o céu? Este mesmo Jesus, que dentre vocês foi
elevado aos céus, voltará da mesma forma como o viram subir”. Ele
foi visto subindo e será visto descendo. O espaço entre a ascensão
e o retorno, entre a primeira e a segunda vinda de Cristo, deve ser
preenchido pelo testemunho da igreja.
Para que isso ocorresse, o Espírito desceu na festa de
Pentecostes. A partir daí, a igreja entra no mundo como comunidade
do Espírito: “Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer
sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a
Judéia e Samaria, e até os confins da terra” (At 1:8).
O versículo 8 é uma espécie de contraponto ao que o precede.
Em vez de se preocupar com tempos e datas, a igreja deve
testemunhar até os confins da terra. E para que possa testemunhar,
ela precisa ser capacitada pelo Espírito Santo. Seu testemunho é
acompanhado por milagres e maravilhas. Os eventos depois de
Pentecostes provam que o Espírito Santo capacitou os apóstolos
para que pudessem testemunhar de Jesus Cristo com poder.
Muitos movimentos carismáticos acreditam que o Pentecostes é o
evento mais importante do plano redentor. Seus líderes afirmam que
vivemos na “era do Espírito”. Portanto, o tempo em que vivemos,
período entre a ascensão e a volta de Cristo, é de viver a missão
pneumatológica: o Espírito Santo é Espírito missional. Sem ele, a
missão será impossível. Como disse Orlando Costas:
A igreja é também a comunidade do Espírito. Como tal, é
gerada pela sua graça e separada para o serviço pelo seu fogo
purificador, que a faz ser um companheirismo (comunhão) de
pecadores regenerados e santificados. O Espírito Santo é o
sistema nervoso que torna eficaz o senhorio de Cristo sobre seu
corpo, que o preserva e mantém pelo seu poder. Assim, faz com
que seja sua morada, o lugar onde se manifesta de forma mais
visível a sua presença no mundo e onde se possibilita o
encontro entre Deus e a humanidade. Sem o Espírito, a igreja
morre em si mesma. Sem a igreja, é impossível a continuidade
[ciii]
da missão de Jesus Cristo.

Rolland Allen, missionário anglicano que serviu por breve tempo


na China no fim do século XIX, foi a primeira pessoa a desenvolver
uma eclesiologia missiológica centrada no Espírito Santo. Sem
dúvida, Allen merece atenção, posto que seus escritos foram
produzidos anos antes do movimento carismático iniciado na rua
Azusa, nos Estados Unidos.
Não há nada realmente extraordinário na teologia de Allen em
comparação a outros missiólogos. O único elemento inovador que o
destaca de tantos outros pensadores da época é o lugar prioritário
que ele destina ao Espírito Santo na missão da igreja. Allen acusou
os evangélicos de restringir o Espírito Santo ao campo da
santificação de indivíduos.
De acordo com o Novo Testamento e a história da igreja, o
Espírito Santo é aquele que trabalha no coração de homens e
mulheres através da realização de grandes feitos e geração de
sinais e maravilhas. O Espírito Santo é Espírito da missão (At 13:2-
4), do testemunho (martüria) e do envio (apostoleo). Ele guia
soberanamente o missionário em sua caminhada, fornecendo-lhe
diretrizes (At 1:8; 2:4,38; 8:29; 10:19; 13:52).
Por que muitos cristãos não evangelizam? Talvez pelo
relacionamento inseguro e superficial que mantêm com o Espírito
Santo. Eles não creem na sua missão o suficiente para alterar suas
prioridades na vida. Como os discípulos poderiam realizar a Grande
Comissão instituída por Cristo? O Espírito é quem os capacita (Rm
8:9,11,13-14; Gl 5:16-25). O Espírito é quem labuta pelo discipulado
das nações (2Tm 1:14).
O mundo está sendo evangelizado pelo Espírito de Deus, e não
pelo desenvolvimento tecnológico, pelos recursos humanos e
financeiros, pela Internet ou pelas estruturas organizacionais.
Conversão é ato sobrenatural, exclusivo do Espírito Santo. Ele é
soberano neste assunto e a única explicação para a expansão do
evangelho no primeiro século. Ele mesmo compeliu a igreja a
buscar compassivamente o perdido e pregar intensamente o
evangelho.
Muitos hoje creem que a Grande Comissão será totalmente
cumprida ainda nesta geração. Na Conferência Missionária Mundial,
realizada em Edimburgo, na Escócia, em 1910, John Mott listou
quatro requisitos para o cumprimento da Grande Comissão:
• Um plano adequado.
• Uma base missionária adequada.
• Uma igreja eficazmente plantada no campo missionário.
[civ]
• O quarto requisito ele chamou de “fator supra-humano”.
Embora missionários, agências e líderes possam ter opiniões
diferentes quanto a planos, métodos e modelos, todos compartilham
da convicção de que a evangelização global é empreendimento
divino. O Espírito de Deus é o grande missionário, e somente com
seu domínio sobre o campo e os trabalhadores da seara poderemos
esperar sucesso na tarefa de tornar Cristo conhecido por todos os
povos. Ele mesmo gerou o impulso missionário inicial. Nos dias de
hoje, a verdadeira obra missionária deve ser dirigida e sustentada
por ele.
Isso é revelador, especialmente num tempo em que dependemos
muito de planos de ação, do estabelecimento de objetivos e alvos
específicos, das centenas de estratégias e métodos para produzir
crescimento. A igreja-em-missão depende do Espírito. Por outro
lado, descrições populares e místicas, extraídas das experiências
subjetivas dos cristãos, minimizaram o engajamento e o
envolvimento do Espírito Santo nos eventos históricos e sociais. Ou
seja, quando a ação do Espírito se limita a visões de anjos, línguas,
choros, unções ou sensações de êxtase, eliminamos sua ação
visível, imanente, palpável e empírica.

Dependência total
O Espírito Santo exerce um impacto global muito maior do que
nossas experiências religiosas. Ele é o poder vital, doador e
dinâmico da igreja; o Senhor, mestre, guia e inspirador da
[cv]
comunidade cristã. Precisamos enfatizar que a missão começou
com a vinda do Espírito de Deus em poder e glória, e não com uma
ação humana planejada por um grupo de judeus na Palestina após a
morte de Jesus. Paulo fala sobre essa função do Espírito em
Romanos 8:9,26:
Entretanto, vocês não estão sob o domínio da carne, mas do
Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vocês. E, se
alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo. […]
Da mesma forma o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois
não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por
nós com gemidos inexprimíveis.

A ideia principal no termo grego traduzido por “interceder” é “dar


as mãos”, “entrar em aliança”, “ajudar”. O Espírito caminha junto
com as pessoas de maneira extraordinária (1Co 12:11). A igreja está
em completo débito com o Espírito no que diz respeito a sua origem,
sua estrutura e organização, seu crescimento, seu desenvolvimento
e sua sobrevivência na história. Sem o Espírito, o melhor
planejamento estratégico fracassará. Devemos administrar,
organizar, planejar, treinar e liderar conscientes de nossa
dependência do seu poder e presença.
Temos um coração sensível à presença do Espírito Santo?
Decidimos nossas estratégias a partir dos melhores projetos e
planejamentos ou segundo os planos de ação que o Espírito nos
inspira? Tomamos nossas decisões eclesiásticas ao verificar as
conclusões das pesquisas, a voz da maioria ou quando ouvimos
claramente a voz do Espírito? Guder se refere a isso como a
[cvi]
natureza “pneumocrática” da igreja. Muitas igrejas precisam
avaliar se o processo de decisão utilizado em suas assembleias e
comissões é controlado pelo Espírito de Deus ou por outros
espíritos.
Não podemos nos contentar com menos que isso, nem confinar a
presença do Espírito ao crescimento pessoal, aos dons espirituais e
às experiências religiosas transcendentais. Não podemos negar ao
Espírito a liberdade de fazer o que ele foi enviado a fazer:
testemunhar, evangelizar, ser missionário, ser o curador das feridas,
aquele que abre os olhos do cego, faz com que o surdo ouça e sara
a língua do mudo. Ele é o único que pode fazer homens e mulheres
crerem em Jesus como Salvador de suas vidas e Senhor das
nações.
A comunidade do Espírito nos lembra o tempo todo que Deus
entrou e continua intervindo na vida da igreja para que os cristãos
tenham poder para testemunhar. A igreja é o santuário de Deus no
Espírito (Ef 2:22), como um movimento do Espírito em direção ao
mundo em sua rota para o futuro. Quando identificamos a igreja
como essa comunidade do Espírito, estamos afirmando seu caráter
[cvii]
como comunidade missional, pois ele é Espírito missional.
Assim, como essa comunidade age entre o período da ascensão e
da parousia (volta de Cristo)? Como podemos viver essa identidade
missional pneumatológica? Não adianta apenas praticar
comportamentos sociais aprovados ou seguir uma série de leis e
princípios morais. Isso os muçulmanos e hindus fazem. Da mesma
forma, não daria certo seguir uma lista de princípios éticos e políticos.
A identidade missional do Espírito acontece na vida de uma
comunidade que lembra, ensaia e vive seguindo a história de Jesus
contada pela Bíblia. Esta lembrança, para Newbigin, acontece
primeiro por meio da leitura e da reflexão bíblicas, bem como da
[cviii]
repetição das ordenanças do batismo e da ceia.
Embora os teólogos e as denominações não concordem a
respeito do “como”, “quando” e “quem” do batismo, sua função
principal permanece: ele é ato de entrada na comunidade do povo
de Deus. A questão principal não é idade, nem a forma ou a
quantidade de água. No batismo, lembramos que a igreja funciona
como grupo social que recebe e integra homens e mulheres dentro
do corpo de Cristo. No batismo também testemunhamos diante do
mundo que Deus está chamando, transformando e enviando
pessoas para uma missão.
Na celebração da ceia, convidamos as pessoas a conhecer essa
nova identidade social. Há uma nova maneira de comer, beber e
viver neste mundo. A igreja encarna um novo tipo de ética social.
Misericórdia, justiça e amor fazem parte desta nova vida.
Chamamos à mesa homens e mulheres de todas as raças, nações,
classes e castas.
A ceia reflete a morte e a ressurreição de Cristo num ato social e
cultural. Quando participamos da mesa, antecipamos a consumação
da obra que ele começou. A igreja aguarda com expectativa o
banquete de casamento do Cordeiro de Deus. Ela deve ser a prévia
da obra reconciliadora de Cristo no mundo.
Como já mencionado, o reino de Deus gerou a formação de uma
nova comunidade social. A igreja é a nova ordem social, a nova
humanidade, a comunidade alternativa guiada pelo Espírito. Ele nos
ensina a relembrar, praticar e viver guiados pela própria história de
Jesus.
Precisamos compreender essa natureza comunitária da igreja. O
cristão não é cristão fora dessa comunidade social. Não devemos
entender a vida cristã de forma isolada, independentes uns dos
outros. Muitos cristãos falharam em seguir a Deus sem o apoio de
uma comunidade. O Deus trino é um Deus relacional. A igreja é a
comunidade de relações humanas. O conde Zinzendorf sempre
defendeu que não há cristianismo sem comunidade. Cristianismo
não busca organização e estrutura, mas formar comunidades. Além
disso, para os irmãos moravianos, comunidade que não coopera em
[cix]
missão não é comunidade de forma alguma.
Deus não se faz conhecido de maneira etérea e privativa. Pelo
contrário: ele se revela por meio de uma comunidade do Espírito,
um povo santo que testemunha seu nome, carregando a promessa
de redenção para todas as nações. Missão envolve comunidade.
Jesus não escreveu um livro ou produziu um manual. Ele formou
uma comunidade. As igrejas devem lembrar-se dos eventos de sua
história redentora e praticar suas palavras e obras.
Seguir a Cristo não é conceito abstrato, comportamento moral,
princípio social ou posicionamento político. Discipulado é relembrar,
ensaiar e viver a história de Jesus dentro de uma comunidade
social. Damos continuidade à missão de Jesus: “Assim como me
enviaste ao mundo, eu os enviei ao mundo” (Jo 17:18). O propósito
da missão não é retirar as pessoas de dentro da história para viver
uma fé metafísica e transcendental. Deus enviou sua igreja para
servir de forma apostólica, comissionada como povo que carrega o
nome de Cristo na história. Isso não pode ser apenas interpretado
de forma individual.
O jornalista Rodney Clapp nos lembra que a única coisa especial
a respeito do povo de Deus é que ele é o povo de Deus. Esse povo
não é mais virtuoso, mais numeroso, mais inteligente ou mais bonito
que outras nações do mundo. Ele é excepcional apenas por que foi
[cx]
atraído pelo Deus soberano de todo o universo.
A igreja está longe de ser perfeita. Devemos ter consciência de
nossa fragilidade, nossas imperfeições e nossos pecados. Ao
mesmo tempo, a igreja reconhece sua identidade como comunidade
social, povo de Deus e corpo de Cristo que traz consigo o mistério
do reino de Deus na história. Ao contrário de sermos excluídos da
história do mundo, fazemos parte dela, e por meio dela carregamos
os segredos do reino do Cristo crucificado e ressurreto.
Portanto, a igreja não consiste apenas num prédio ou santuário.
Não é também primariamente uma instituição. A igreja é um grupo
social, uma comunidade de crentes em Cristo. Ela não é o conjunto
de programas, atividades e eventos. Não é uma simples coleção de
indivíduos, mas uma comunidade de pessoas que amam a Deus e
ao próximo.
Liderança que anuncia a segunda vinda de Jesus Cristo
Como vimos, a essência da liderança deve buscar inspiração nos
principais acontecimentos da vida de Jesus Cristo. A encarnação e a
morte foram eventos visíveis a todos os cristãos e não-cristãos.
Embora a ressurreição e a ascensão de Jesus façam parte da
história, elas foram testemunhadas apenas por um grupo restrito de
discípulos. Cristo está vivo, e agora reina vitorioso sobre todos os
principados e potestades. Todos os seus inimigos se submeterão a
ele.
No Pentecostes, seus discípulos foram chamados a testemunhar
deste reino de Deus durante certo período. Esse tempo reservado
para arrependimento não durará para sempre. Cristo voltará
novamente, e sua majestosa glória se manifestará a toda a criação.
Portanto, a segunda vida de Cristo delimita o período missionário
iniciado no Pentecostes. A igreja representa a comunidade
escatológica da redenção.
Jesus prometeu que o fim não viria até que o evangelho do reino
fosse pregado a todas as nações (Mt 24:14). Esta seção profética
dos evangelhos já foi chamada “pequeno apocalipse”. Haverá
guerras, sofrimento, perseguição e outras tribulações que muitos
interpretarão como sinais dos tempos. Falsos cristos edificarão seus
impérios. Falsos profetas oferecerão as bênçãos de uma nova era
diferente da história de Jesus. Entretanto, isso não é o fim. O
evangelho precisa ser pregado a todas as nações. Todos devem ter
a oportunidade de se arrepender e crer na realidade do reino de
Deus.
O “atraso” deve ser reconhecido como sinal da paciência de Deus.
A porta de oportunidade para arrependimento e fé ainda está aberta.
Muitos discípulos creram que Jesus voltaria ainda no primeiro
século. A ampliação da expressão “últimos dias” para milhares de
anos mostra que Deus tem sido extremamente paciente, apesar da
pecaminosidade, da incredulidade, do mundanismo e das fraquezas
do mundo.
Da mesma forma, a igreja deve continuar a testemunhar com
perseverança e paciência. Uma nova visão do mundo foi
profetizada: não haverá mais morte, luto, choro ou dor. A presença
de Cristo enxugará toda lágrima dos olhos. Em Apocalipse 22:1-5,
João descreve a cena desta forma:
Então o anjo me mostrou o rio da água da vida que, claro como
cristal, fluía do trono de Deus e do Cordeiro, no meio da rua
principal da cidade. De cada lado do rio estava a árvore da vida,
que frutifica doze vezes por ano, uma por mês. As folhas da
árvore servem para a cura das nações. Já não haverá maldição
nenhuma. O trono de Deus e do Cordeiro estará na cidade, e os
seus servos o servirão. Eles verão a sua face, e o seu nome
estará em suas testas. Não haverá mais noite. Eles não
precisarão de luz de candeia, nem da luz do sol, pois o Senhor
Deus os iluminará; e eles reinarão para todo o sempre.

“As folhas da árvore servem para a cura das nações.” A palavra


“terapia” é derivada do termo grego traduzido por “cura” neste
versículo. As nações precisam de terapia: árabes e judeus,
brasileiros e paraguaios, ingleses e irlandeses, chineses e
japoneses devem perdoar-se mutuamente e serem curados de seus
pecados.
Ou, como disse Paulo em Gálatas 3:26-28, “todos vocês são filhos
de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo
foram batizados, de Cristo se revestiram. Não há judeu nem grego,
escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo
Jesus”. As muitas diferenças humanas que separam o melhor do
pior, o bonito do feio, o superior do inferior, o rico do pobre, o
sucesso do fracasso perderão seu significado.
O lobo viverá com o cordeiro, o leopardo se deitará com o bode,
o bezerro, o leão e o novilho gordo pastarão juntos; e uma
criança os guiará. A vaca se alimentará com o urso, seus filhotes
se deitarão juntos, e o leão comerá palha como o boi. A
criancinha brincará perto do esconderijo da cobra, a criança
colocará a mão no ninho da víbora. Ninguém fará nenhum mal,
nem destruirá coisa alguma em todo o meu santo monte, pois a
terra se encherá do conhecimento do SENHOR como as águas
cobrem o mar.
Isaías 11:6-9

Mas a terra se encherá do conhecimento da glória do SENHOR.


Habacuque 2:14

Muito mais do que o conhecimento intelectual de Deus, as


pessoas viverão de acordo com os princípios e valores da Palavra.
Talvez um dos primeiros passos para recuperar a identidade da
igreja seja a doutrina da escatologia. O evangelho é boas-novas do
[cxi]
reino, e o reino é um conceito escatológico.
O clímax da história é o evento escatológico, momento em que os
incalculáveis atributos de Deus — graça, poder, majestade, amor e
sabedoria — serão revelados de maneira plena. Até lá, estamos
somente a caminho. Não há espaço para ansiedade e vaidade,
apenas para fidelidade no testemunho do Jesus crucificado e
ressurreto. O propósito da história cósmica foi revelado nele. A
lógica da missão é esta: o verdadeiro sentido da história humana foi
[cxii]
descoberto em Cristo.
Infelizmente, com o colapso espiritual e social da sociedade,
caímos na prática de uma escatologia privatizada, baseada em
recompensas pessoais para boas obras na vida após a morte. As
igrejas se concentraram apenas na busca espiritual que afeta as
decisões eternas. Este mundo é considerado lugar do mal, do
pecado e do sofrimento, sem esperança. O enfoque escatológico,
quando presente, é sempre voltado para o futuro.
Isso, com certeza, compromete o senso missional da igreja ao
lidar com a questão da transformação social. A escatologia
privatizada nos encorajou a virar as costas aos conflitos da
sociedade. Ficamos tão desapontados com a injustiça e a
pecaminosidade que nossa melhor opção foi criar uma espécie de
piedade privativa e nos fechar numa sociedade particular chamada
“igreja”.

A igreja como sinal


A escatologia revela o caráter já-mas-ainda-não do reino. A fé cristã
é escatológica, sempre se inclinando para o futuro. Jesus não está
satisfeito com as coisas como elas são. Ele sabe que as pessoas
foram criadas para um propósito maior, com sentido na vida. O
aspecto futuro do reino ilumina e energiza o tempo presente da
nossa missão e de nosso ministério.
A igreja-em-missão se caracteriza como sinal da vinda do
Messias. Ele já está aqui fazendo milagres, proclamando o
evangelho, reconciliando famílias, curando almas, sarando
comunidades, mas seu reino ainda não está plenamente
estabelecido. O futuro impulsiona o avanço da igreja, que, em
esperança, tenta torná-lo o mais real possível no presente. Somos
chamados a trazer o máximo dos céus à terra. Na nova criação,
tempo e eternidade se fundirão numa mesma dimensão.
O poder redentor de Deus penetrou no tempo, no espaço e na
história. Neste mundo pecaminoso, a presença da igreja demonstra
que o céu já começou em termos da alegria, presença e poder do
Espírito Santo. Isso já se concretizou, mesmo que o pecado ainda
não tenha sido removido e o poder do mal, julgado. Neste intervalo
entre a primeira e a segunda vinda de Cristo, existimos para levar
essa missão a todas as nações e chamar todos os povos à redenção.
Portanto, a motivação para a missão é baseada nesta tensão entre
duas forças: a alegria de viver uma nova era em Cristo, sabendo que
ele já reina sobre terra e mar, e a compreensão de que seu reino está
oculto de muitos que ainda não se encontraram com Deus. É claro,
na teologia do Novo Testamento, que a missão é resposta para a
triunfante visão do futuro com Deus. O triunfo divino está próximo e
transcende quaisquer especulações cronológicas.
Precisamente por isso, nos movemos em direção ao amanhecer
da indubitável vitória de Deus, recusando a conformidade com este
mundo — pelo contrário, permitimos que nossa mente e todo nosso
ser sejam transformados (Rm 12:1-2). Somente faz sentido aceitar
nossa missão neste mundo quando entendemos que nosso esforço
[cxiii]
será recompensado por Deus em breve.
A questão do sentido e do objetivo da história não pode ser
evitada. A vinda de Jesus nos dá coragem para assumir uma nova
atitude diante da história e da sociedade. A escatologia é a única
[cxiv]
opção capaz de conferir real significado à história humana. O
sentido da história contemporânea encontra-se entre a ascensão e a
volta de Cristo. Este é o período quando seu reino, ao lado direito de
Deus, é uma realidade oculta. Embora ocorram milagres e sinais, a
completa revelação do poder e da glória de Deus é retardada para
que todas as nações e grupos sociais possam ter a oportunidade de
[cxv]
se arrepender e crer em liberdade.
Saber o fim da história ajuda a igreja a perseverar e persistir,
mesmo diante da oposição, e dá sentido à sua ação presente dentro
da sociedade. As Escrituras comunicam uma dinâmica e progressiva
visão da história do mundo. Sua visão é eminentemente otimista e
esperançosa. A palavra final é “vida”, e não “morte”. A ação final é
comunhão e unidade, em vez de dispersão e frustração.
Nunca faremos diferença neste mundo se não oferecermos uma
visão positiva e integral do destino humano dentro do reino de Cristo.
Se nossos pastores e líderes forem pregadores legalistas e profetas
pessimistas da condenação, a missão será reduzida apenas ao
resgate de um grupo seleto. A missão é de esperança, cura,
transformação, reconciliação e restauração de todas as coisas em
[cxvi]
Cristo.
3 Um estilo brasileiro de liderança missional

Identidade pastoral e a missio Dei

Quais seriam os principais enfoques pastorais e paradigmas


ministeriais para os dias de hoje? Que formas o ministério das
igrejas assumiria diante dos diversos temas apresentados nos
capítulos anteriores? Quais seriam os objetivos e as estratégias da
missão da igreja no Brasil?
Para responder a essas perguntas, é necessário compreender
melhor não apenas os sete paradigmas mencionados no início desta
obra — diversas forças e tendências que pressionam o líder
brasileiro e modelam o ministério das igrejas —, mas também a
realidade nacional a partir da perspectiva do evangelho. Uma
análise em caráter missional do homem brasileiro exige a leitura da
história, do crescimento da igreja e do contexto geográfico e social
do país em função do sentido que faz em Jesus Cristo.
Isso só é possível tomando como base a eclesiologia missiológica
apresentada aqui. Jesus é sempre o modelo usado pela igreja para
decifrar e interpretar a situação dos pastores e líderes, inclusive no
contexto cultural nacional. Ele abre as portas para a análise social e
científica do ser humano. Ele se preocupa com toda e cada pessoa.
A proposta deste capítulo é apresentar e descrever, de forma
objetiva, um modelo de liderança que capacite igrejas e pastores a
se tornarem missionários na cidade e na comunidade. Tal modelo
deve, inevitavelmente, abranger os seguintes temas:
• Quem somos
Padrão bíblico
• Onde estamos
Padrões histórico e contextual
• Em que ambiente estamos
Padrão cultural
• O que e como devemos fazer
Padrão prático

No diagrama abaixo, esses padrões são organizados de maneira


a ilustrar uma proposta de planejamento da igreja local e do
ministério pastoral:

• Quem somos

• Onde estamos O que e como


devemos fazer
• Em que ambiente estamos

Na mobilização de pastores e líderes missionais, é fundamental


estabelecer e manter essa ordem. Primeiro, é necessário saber
quem somos, ou seja, determinar a identidade e o propósito da
igreja. Em segundo lugar, devemos determinar onde estamos no que
se refere à história e ao contexto social. A etapa seguinte é a análise
do ambiente, entendido aqui como retrato da especificidade cultural
da cidade ou da comunidade e sua interação com a diversidade de
culturas brasileiras. Por fim, chegamos a um quadro que norteará a
caminhada da liderança e da igreja-em-missão em termos práticos.

Quem somos
O primeiro passo para que a liderança de caráter missional se
consolide será sempre o conhecimento de sua identidade. Tanto a
liderança pastoral quanto a igreja-em-missão devem ser observadas
e avaliadas a partir de um olhar missiológico, ou seja, devem refletir
a missão em toda a sua teoria de liderança e em toda a sua
eclesiologia. No capítulo anterior, vimos que Jesus, em diversos
eventos salvíficos, lança os fundamentos para a formação da
identidade do líder missional. Para nós, as implicações são
importantes.
Pastores e líderes vivem tempos de extrema ansiedade, confusão
e estresse. Diante da influência dos paradigmas culturais
mencionados no primeiro capítulo, há certa insegurança quanto à
definição de uma identidade pastoral. Em meio à diversidade da
igreja brasileira, é possível encontrar aqueles que se desapontaram
com a vida congregacional, perderam o primeiro amor pelo
ministério e desistiram de investir a vida no reino.
Além disso, apesar do grande crescimento quantitativo dos
evangélicos brasileiros, muitas igrejas ainda estão longe da saúde e
da transformação exigidas pelo discipulado em Cristo, e vivem uma
forma de subcristianismo marcado pela superficialidade. Estamos
longe daquilo que Mariano Artega afirma ser função do cristianismo:
“Promover uma cosmovisão bíblica a partir da qual se possa ler a
[cxvii]
realidade tirana, interpretá-la, denunciá-la e transformá-la”.
Somos motivados pelos sonhos. Se não nos fortificamos com
propósitos de vida irresistíveis e fascinantes, nos arriscamos a
desanimar, como acontece a tantos pastores e líderes.
Toda liderança cristã deve ser fortalecida dentro de uma
perspectiva missional para alcançar a noção de sua identidade
como igreja-em-missão no contexto onde se encontra. Os conceitos
de missão e liderança caminham lado a lado na Bíblia. Temos um
Deus missional e, portanto, assim deve ser o seu povo.
O pastor brasileiro tem sangue missional correndo nas veias, em
seu caráter, em sua essência, e deve pensar, viver e aplicar os
princípios missiológicos nas cidades como um missionário
transcultural faria nas selvas africanas ou nos centros urbanos do
Leste Europeu. Tal cultura deve contagiar a igreja em todas as
dimensões, atividades e ministérios.
A liderança missional é diretamente influenciada pela doutrina
cristã sobre a encarnação, a morte, a ressurreição, a ascensão e a
segunda vinda de Cristo (já vimos isso no segundo capítulo). Esses
são e (sempre serão) temas centrais para a igreja-em-missão:
No centro da liderança missionária, como chave-mestra do
ministério pastoral, encontra-se a encarnação do Verbo, sua vida,
sua morte, sua ressurreição, sua ascensão e seu retorno. O
conteúdo do evangelho é Jesus Cristo na plenitude de seu
ministério como Deus encarnado. A liderança missionária é reflexo
da revelação de Jesus Cristo. Como consequência, o líder guia a
comunidade do povo peregrino de Deus como sinal e testemunha
daquilo que aconteceu ao mundo por causa da encarnação de
[cxviii]
Jesus Cristo.
O evangelho é isso e nada mais. O ponto inicial da liderança
missional deve ser o evangelho em si. Cristo é a referência, o
modelo, a lente através da qual olhamos o ministério. Nele, bem
como nos diversos eventos de sua vida, encontramos todos os
elementos científicos e embasamentos teológicos necessários para
a identidade do líder brasileiro.
Somente esta centralidade na pessoa de Jesus pode decifrar a
situação da liderança pastoral. Este cristocentrismo não apenas
abre caminho para a análise da realidade histórica, social e cultural,
como também descortina a preocupação indistinta de Deus de
promover a reconciliação com todos os seres humanos e com o
todo dos seres humanos.
A vida de Jesus é a atividade pastoral modelar; é pauta e critério
para todas as circunstâncias. Nada que se diga pode ser
interpretado sem o reconhecimento da dimensão cristocêntrica do
ministério pastoral. O modelo pastoral de Jesus é aplicável ao
pastor e a toda a congregação. Jesus Cristo projeta-se no futuro
desde o presente. Isso nos leva a crer que o modelo, a plataforma, a
figura e o estilo pastoral de Jesus podem ser vividos em
[cxix]
circunstâncias completamente distintas.
A liderança missionária sempre começa pelo evangelho das boas-
novas, procurando comunicar sua essência e seu conteúdo.
Evangelho, no grego koiné, não sugere transmissão de verdades,
princípios ou valores; em vez disso, focaliza o relato de um evento
ou acontecimento de significado especial: vitória na batalha,
[cxx]
ascensão ao trono, realização política.
Jesus tem uma missão clara: buscar primeiramente o reino de
Deus e sua justiça. Ele também foi enviado por Deus para pastorear
seu rebanho de maneira eminentemente missionária. Conhece suas
ovelhas pelo nome (as que estão dentro e fora do aprisco). Ele se
preocupa com a totalidade da situação em que elas vivem.
Cristo se apropria do programa do servo sofredor de Isaías (Lc
4:18-19) e se interessa pela transformação e pela restauração do
preso, do sedento, do desnudo e do esfomeado. Cuida dos órfãos,
das viúvas, dos pobres, da sanidade dos quebrantados de coração,
do perdão aos pecadores e publicanos, da restauração dos caídos e
da ressurreição dos mortos. Portanto, Jesus nos permite ver o ser
humano (inclusive o brasileiro) em sua situação heterogênea,
[cxxi]
pluricultural, social e existencial.
Contudo, o evangelismo pessoal de hoje (de conteúdo
antropocêntrico, que focaliza o suprimento de necessidades e do
“aceitar Jesus”) não expressa exatamente a essência do chamado
de Jesus na sinagoga, como expressado em Lucas 4:18-19:
O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para
pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar
liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para
libertar os oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor.

No cerne do evangelho pregado em muitos púlpitos encontra-se o


anúncio de Jesus como fonte de suprimento das necessidades
humanas. Em vez do chamado essencialmente profético descrito
em Lucas, a evangelização se vale apenas do convite para perdão
pessoal, salvação e reconciliação.
Há o risco de que essa mensagem se aproxime do gnosticismo.
Quando isso acontece, as boas-novas proféticas de Cristo — sua
defesa da justiça social e do auxílio aos pobres e às vítimas do
mundo — são redirecionadas a outros ministérios da igreja (isso,
quando eles existem) e entendidas, no máximo, como consequência
do evangelismo, e não como parte integrante do evangelho vivido
[cxxii]
no mundo.
Como vimos, a tendência pela aceitação dos paradigmas
modernos é grande. Pastores e líderes tornaram-se, primeiramente,
administradores, gerentes, técnicos, vendedores, marqueteiros,
profissionais do mercado de consumo religioso. Para superar esses
modelos, o líder missional deve trabalhar na formação de uma
comunidade semelhante a Cristo em todos os seus projetos e
ministérios. Tal como os primeiros discípulos foram chamados
“cristãos” na igreja de Antioquia pela semelhança que guardavam
com o Senhor Jesus, a igreja missionária encarna a pessoa de
Cristo em sua beleza e sua pureza onde quer que esteja em termos
históricos, culturais e sociais.
Nas palavras de Newbigin, “a igreja é a incorporação provisória da
[cxxiii]
humanidade em Jesus Cristo”. Isso não significa que os
eleitos são os salvos e o restante está perdido. Ser eleito em Cristo
— e não existe outra eleição — significa ser incluído em sua missão,
levando ao mundo os propósitos salvíficos; significa ser sinal,
agente e prelúdio do reino eterno.
Nessa igreja-em-missão, todos são ordenados ao ministério
missionário no ato do batismo. Todos são escolhidos para ser
mensageiros do reino de Deus em Cristo na terra, e não apenas
para receber o bilhete de passagem do ônibus celestial. Todos são
convocados para ir e dar frutos.
Nessa igreja-em-missão, dons espirituais não servem só para o
voluntarismo da rede ministerial e outras atividades internas da
igreja. Por meio dos dons e talentos que possuem, os cristãos são
vocacionados à obra missionária e participam da expansão do reino
de Deus em toda a terra. A função do Espírito Santo é mobilizar e
capacitar a liderança na formação de uma comunidade missionária
que serve em Jerusalém, na Judeia, em Samaria e até os confins da
terra.
A liderança missional é impactada pela formação de uma
comunidade pós-Pentecostes. Não interessa tanto quais são os
modelos específicos de estrutura organizacional utilizados; importa é
que o Espírito precisa equipar seus líderes no direcionamento da
igreja local para o envolvimento missionário com o contexto social em
que ela está situada. O Espírito precisa orientar a igreja para que ela
[cxxiv]
atraia a futura comunidade messiânica à realidade presente.
A função mais importante desses líderes missionários não é a
produção de programas para impressionar os membros da
congregação e ministérios criativos para atrair os não-cristãos, mas
gerar um grupo de discípulos de Cristo a partir da ação do Espírito
Santo. Eles são responsáveis por recuperar as práticas que se
tornaram alheias à igreja de hoje. As ovelhas que realmente ouvem
a voz do Espírito compreenderão claramente.
Jesus, a chave da história
Para Charles Darwin, Adolf Hitler, Sigmund Freud, Karl Marx,
Emmanuel Kant, Mao Tsé-Tung e tantos outros pensadores e líderes
influentes, o centro da história do mundo estava distante da pessoa de
Cristo. O pastor missionário, por sua vez, considera Jesus Cristo a
base da história e, portanto, a chave do ministério bem-sucedido.
O cristianismo genuíno produz uma visão: um futuro fascinante,
uma era brilhante e perfeita. Isso gera tensão entre o mundo visível
e efêmero e o mundo invisível e eterno. Onde quer que o evangelho
seja pregado, levantam-se as questões: Qual é o sentido da história
humana? Existe um rumo para a trajetória da humanidade? A igreja-
em-missão busca o sentido da história em Cristo.
A história nunca encontrará significado em si mesma, nem no
desenvolvimento tecnológico, nas civilizações e realizações, nos
sonhos e nas frustrações ou nas guerras, vitórias e derrotas. A
história da civilização humana encontra sentido somente no plano da
redenção em Jesus Cristo, projetado e realizado pelo Deus Altíssimo.
O líder missional está sempre chamando a atenção para a
evidência do Cristo crucificado e ressurreto. O sentido da história
não está nela mesma, mas em Jesus e em suas promessas. O
clímax da história bíblica, que se dá na morte e na ressurreição de
Cristo, traz implicações concretas e práticas para a história humana.
O verdadeiro sucesso não está nas dimensões de nossos projetos,
mas na vinda do reino.
A história da salvação não pode ser tratada com simples
assentimento intelectual. Ela não se limita a uma afirmação
doutrinária ou um credo religioso. Por nosso viver e testemunho,
damos continuidade à vida dos personagens bíblicos e santos do
passado. O povo missionário de Deus é chamado para ser
instrumento e testemunha desta trajetória. A liderança missional
auxilia a comunidade a enxergar sua missão e seu testemunho
como sendo a própria extensão da história bíblica.
A vida, a morte, a ressurreição, a ascensão e a volta de Cristo
devem nortear todos os ministérios e programas da igreja missional,
bem como controlar os projetos ministeriais, o planejamento
eclesiástico, a organização estrutural e as estratégias pastorais do
líder missional.
O sentido da história humana foi revelado, e o líder missional a
compara, com frequência, à igreja. Ele lê, relembra e interpreta a
história da igreja como parte ativa da história da redenção.
Invariavelmente, ele reorienta a visão e refocaliza os propósitos da
igreja para se alinharem a essa história cristocêntrica, verdadeira e
universal. Não é opinião particular e privada. Ela deve ser divulgada
e comunicada abertamente.

Compreendendo nossa essência missional


Sem dúvida, um dos maiores obstáculos na elaboração de um
modelo de liderança missional é nossa dificuldade em compreender
o que é e o que não é missão. De que se trata? Aonde ela leva a
sociedade? Em que sentido a igreja deve e pode ser agente dessa
missão? Será que o melhor serviço que um missionário pode prestar
à Ásia, à África ou à América Latina não seria voltar para casa?
[cxxv]
Quando as pessoas pensam e falam sobre “missão” ou “missões”,
geralmente querem se referir a “pessoas do lado de lá”, em lugares
distantes, do outro lado do mundo; gente que não conhece Jesus.
Missão é a obra de evangelização desses missionários que buscam
trazer os mais de 3.500 povos não-alcançados (entre os 13 mil
existentes) para o conhecimento de Cristo.
Missão ou missões consiste num conceito geralmente limitado aos
projetos coordenados por profissionais chamados “missionários” que
a igreja apoia numa região distante. Missões são os esforços para
estabelecer a igreja fora da esfera de ação do cristianismo
evangélico. Missões é o que acontece “lá”. Evangelização é o que
acontece “aqui”. Na verdade, não há base bíblica para tal dicotomia.
A igreja nunca pode se sentir “em casa” longe do campo missionário.
Quando falamos em “missão local”, é comum a expressão ser
interpretada como projetos assistenciais e humanitários de ajuda às
favelas e envio de cestas básicas aos bairros pobres da cidade. Ou
então, pode sugerir métodos e técnicas de evangelismo da
comunidade para atrair não-cristãos e “desviados” aos cultos e às
reuniões com o interesse de torná-los membros da congregação. Ou
seja, missões “lá” significa enviar missionários aos não alcançados.
Missões “aqui” quer dizer ajudar o pobre e recrutar novos membros.
Tudo começou quando William Carey, o pai das missões
modernas, escreveu seu famoso tratado, em 1792. Ele afirmou que
missões é uma função especializada da igreja. Há um mandato
bíblico para os cristãos, cuja responsabilidade é obedecer à Grande
Comissão. No cumprimento da tarefa de missões mundiais, a igreja
delega seu trabalho àqueles que foram especialmente chamados e
treinados como “missionários”. O chamado movimento missionário
moderno, organizado pelas sociedades missionárias, tinha por
objetivo levar a mensagem do evangelho a outros lugares do mundo
além das nações anglo-saxônicas. Em vez de ocupar o centro da
identidade da igreja, a obra missionária tornou-se apenas uma das
várias tarefas ou funções essenciais.
A partir do estreitamento e da limitação do termo, ele passou a
encampar estruturas e organizações paraeclesiásticas e conselhos
missionários responsáveis por oração, envio, treinamento e
investimento financeiro. Também descreve as incursões
missionárias de curto e longo prazo, eventos e conferências que
alimentam o fervor missionário das igrejas e conselhos que
administram a vida daqueles que partem para terras distantes.
Torna-se necessária, portanto, uma mudança radical no
entendimento da missão. Essa nova visão da “era da missão”
começa com a missio Dei: o Deus Trino é um Deus missionário. Ele
realiza seu plano da salvação reunindo um povo e estabelecendo a
igreja como sinal, instrumento e prelúdio de seu reino na terra. O
conceito de missio Dei é uma revisão crítica e teologicamente
saudável na história do movimento de missões.
Nas palavras de Stephen Neill, “a era das missões chegou a seu
fim; começou a era da missão”. Missão envolve toda a tarefa da
igreja, enviada ao mundo para viver o reino de Deus. O termo não
deve ser interpretado como função, ministério, programa ou
comissão da igreja. Segundo René Padilha, se é verdade que, como
expressou Emil Brunner, a igreja existe para a missão como o fogo
existe para queimar, segue-se que já não cabe a tradicional
[cxxvi]
distinção entre “igrejas que enviam e igrejas que recebem”.
A igreja é essencialmente missional. A palavra “missional”, aliás,
pode ajudar muito nessa mudança de paradigma: de igreja
missionária, que enxerga missões apenas como uma de suas
muitas funções, para igreja missional, que abraça a missão como
parte de sua essência e sua natureza. A palavra “missionária”,
desgastada e reduzida, talvez precise de uma revisão.
Igrejas, pastores e líderes são missionais. Com essa nova visão, a
missão deixa de ser um conceito geográfico, tornando-se mais
global e ampla. Ela está presente em todos os continentes. A cidade
é campo e base missionária ao mesmo tempo. A igreja local é
chamada para realizar a missão em seu próprio contexto.
Há, porém, o risco de a adoção de uma definição muito ampla
causar problemas. Stephen Neill afirmou: “Se tudo é missão, logo
[cxxvii]
nada é missão”. Vitor Westhelle tenta ligar esses dois
aspectos de outra maneira, dizendo que “a missão possui a igreja
[cxxviii]
cristã”. Esta definição tem dupla força. Em primeiro lugar,
compreende-se que a igreja e seus ministérios não expressam um
fim em si. Eles são local e meio para alcançar o propósito final de
Deus: a vinda integral e genuína de seu reino à terra, a missio Dei.
Em segundo lugar, dizer que a missão “possui” a igreja também
significa conceber uma missão maior que a igreja.
[cxxix]
Baseado no Kairos Document, encabeçado por um grupo
de teólogos da África do Sul, David Bosch descreve cinco modelos
históricos que podem ser chamados de “constantinista”, “pietista”,
“reformista”, “liberacionista” e “anabatista”. Essas categorias não
descrevem apenas a relação entre igrejas e governos, como
originalmente sugerido por David Bosch, mas também podem servir
como plataformas para avaliação das diversas formas de
relacionamento entre a igreja, a cultura e a missão. Elas são formas
de pensamento que influenciaram a igreja em diferentes períodos.
Os cinco modelos apresentam vantagens e desvantagens. Nenhum
deles deve ser visto isoladamente.
O primeiro modelo é chamado de constantinista. Ele pressupõe
uma relação íntima entre igreja e estado (teologia estatal). Líderes
formados nessa corrente admiram o status quo e os valores que ele
preconiza, as tendências, o estilo de vida, as relações e a
estratificação social. Procuram manter-se próximos ao centro da
cultura. É estabelecida uma relação íntima entre trono e altar,
semelhante ao período em que Constantino oficializou a religião
cristã, no século IV.
O segundo é o modelo pietista: completa separação entre religião
e estado. A missão está estritamente interessada nas necessidades
espirituais das pessoas. Questões sociais, políticas, econômicas e
culturais não são da alçada da igreja. Líderes com essa mentalidade
podem até construir hospitais, creches e escolas, mas sua principal
função é atrair membros à igreja valendo-se das mais variadas
técnicas evangelísticas. Não trabalham para transformar o mal
estrutural da sociedade.
O terceiro modelo é o reformista. Em sua maioria, os reformistas
procedem de igrejas protestantes históricas e evangelicais.
Enxergam a missão da igreja como sendo essencialmente a
salvação de almas e a plantação de igrejas. Isso também contribui
para o fortalecimento dos valores sociais e morais. Há algo de muito
atraente neste modelo. Ele impulsiona justiça, liberdade e
prosperidade.
No entanto, os reformistas tendem a permanecer à mercê da boa
vontade do governo. Além disso, esses líderes funcionam melhor
quando participam das classes mais privilegiadas da nação. Bosch
acredita que a posição reformada, apesar de convincente do ponto
de vista cristão por sua aparência espiritual, não consegue detectar
imediatamente o mal estrutural presente nas culturas e sociedades
humanas.
O quarto modelo é chamado de liberacionista. Ele advoga a
confrontação direta com as forças do mal, em vez da reconciliação.
Missão significa opção preferencial pelo pobre e oprimido. Suas
atividades são missionárias e evangelísticas, não no sentido de
conversão dos não-cristãos à fé evangélica, mas de restauração da
credibilidade do evangelho no meio dos menos privilegiados e dos
marginalizados, mobilizando-os na luta contra a injustiça. A função
principal da igreja é o confronto e a denúncia da cultura,
promovendo libertação da opressão.
O quinto modelo é o anabatista, em homenagem ao ramo
anabatista, descendente da Reforma do século XVI. A tarefa
principal da igreja é simplesmente ser igreja, uma verdadeira
comunidade de cristãos comprometidos que, por sua própria
existência e seu exemplo, desafia a sociedade e a cultura. Missão
significa implantação de igrejas que abracem esse padrão de
conduta. A igreja é um tipo de anticorpo na sociedade, vivendo
como comunidade alternativa, engajada num estilo de discipulado
radical.

Um diálogo entre os modelos


Missão integral é uma expressão que abrange as duas dimensões
do evangelho: a ação espiritual e a ação social. No encontro do III
Congresso Latino-Americano de Evangelização (Clade III), foi
popularizado este mote: “O evangelho todo para todos os povos”.
Essa mensagem da salvação aplicada ao ser humano como um
todo (físico, moral, intelectual, social, político e espiritual) supera as
barreiras étnicas e culturais. Em outro momento, a visão do
movimento AD2000, na última década do século passado, focalizou
apenas as implicações missionárias do evangelho: “Uma igreja para
todos os povos e o evangelho para cada pessoa”.
Sem dúvida, a tensão entre as dimensões espiritual e social
tornou-se um dos principais problemas missiológicos dos últimos
cinquenta anos, levando o tema para a mesa de debate do histórico
Congresso de Evangelização em Lausanne, realizado em 1974. E a
discussão continua contrapondo muitos líderes. Enquanto alguns
defendem que a função da igreja é proclamação e evangelização,
outros advogam a prioridade da promoção de justiça social e ação
comunitária.
Seria justo privilegiar o modelo liberacionista? Por décadas, a
teologia da libertação fez essa opção pela dimensão social e
externa do evangelho, que era visto como programa moral, uma
plataforma política de reforma social que buscava o estabelecimento
de um sistema justo, governado a partir de princípios cristãos. A fé
deveria servir ao pobre e lutar pela justiça, sem que isso
demandasse um relacionamento pessoal com Jesus Cristo. O
teólogo católico Segundo Galilea afirma o seguinte:
A libertação e a evangelização dos pobres constituíram o
primeiro êxodo missionário de uma igreja que sai de suas
fronteiras. Comunidades religiosas, sacerdotes,
evangelizadores leigos vão deixando “seu mundo” social e
institucional para inserir-se no mundo “dos outros”, dos pobres.
Este é um fato missionário: pobres e marginalizados coincidem
em boa parte. Os pobres estão também marginalizados da
igreja, e sua religiosidade não é suficiente para integrá-los nela
[cxxx]
à “nossa” maneira.
Tendo em vista que a miséria caminha ao lado da
descristianização, a função da igreja seria a opção preferencial
pelos pobres, que, além de significar o compromisso com a
promoção de justiça e libertação integral dos pobres e oprimidos,
também abrange a evangelização das populações afastadas,
embora basicamente constituídas de cristãos. Quase toda a igreja
evangélica rejeitou e desprezou a ênfase do liberacionismo num
evangelho mais humanitarista, com ares marxistas e limitado a
projetos sociais. Entretanto, várias premissas da teologia
liberacionista são baseadas em temas bíblicos e necessitam de
atenção na mensagem cristã para a América Latina.
Para a maioria das igrejas evangélicas brasileiras, a ênfase está
na dimensão espiritual (modelo pietista). Ser cristão significa apenas
“aceitar” Jesus, confessar doutrinas e assimilar valores religiosos. A
salvação é vista de forma espiritualista e individualista. Historiadores
de missões, como Latourette, Neill e Justo Gonzalez, reconhecem
que as missões protestantes na América Latina, em sua maioria,
foram originadas e moldadas pelo avivamento pietista.
O pietismo, por sua vez, foi caracterizado pelo despertamento
espiritual, e evocava, acima de tudo, a conversão de indivíduos ao
evangelho. Essa tendência acelera-se no século XX com as
missões independentes, chamadas de faith missions. A maioria de
seus missionários eram pré-milenistas na escatologia, pietistas na
visão de cristianismo e separatistas na atitude básica com relação
[cxxxi]
aos grupos eclesiásticos e à sociedade em geral. Sem dúvida,
esta é uma das razões pelas quais as igrejas e os pastores foram
incapazes de se engajar na luta contra a pobreza e injustiça social
na América Latina. A evangelização foi, assim, reduzida à ação
individualista, escapista e privativa. Steuernagel afirma o seguinte:
A tentação de reduzir o Evangelho de Jesus Cristo meramente
ao nível espiritual está presente em toda ação eclesiástica no
Brasil. De certa forma, este é o caminho mais fácil e menos
incômodo. Possibilita uma vida cristã mais tranquila, uma vez
que não mexe com as estruturas dentro das quais o indivíduo
está inserido como parte de um povo que tem sua história
[cxxxii]
peculiar.
A igreja autêntica tem marcas próprias. É aquela em que a
Palavra é pregada, os sacramentos (ordenanças) são administrados
e a disciplina é praticada. Com o tempo, essas marcas, definidas
pela Reforma, limitaram a definição de igreja ao lugar onde se adora
a Deus, em vez de ser o povo que o serve. A fim de tornar-se
diferente da Igreja Romana, ela deixou de lado a ênfase na unidade,
na santidade, na catolicidade e na apostolicidade do corpo de
Cristo, marcas presentes no Credo de Nicéia.
O pentecostalismo brasileiro, plantado como muda da árvore
norte-americana, cresceu no início do século XX também como
movimento dissociado de qualquer compromisso sociopolítico. O
batismo com o Espírito Santo, a crença pré-milenista, os cultos
cheios de emoção, as curas e línguas estranhas formavam um
pacote fechado que não incluía o engajamento social. Apesar de ter
nascido e crescido dentro das classes sociais mais desfavorecidas,
o pentecostalismo brasileiro manteve-se, por muito tempo, como
movimento que apregoava a conversão pessoal e particular e uma
espiritualidade exclusivamente celeste. Seus olhos estavam
fechados para a pobreza, a violência e outros males da sociedade
brasileira.

Em busca do equilíbrio: cuidado espiritual e ação social


Essa tensão entre o cuidado espiritual e a ação social é como um
pêndulo que balança de um lado para outro na história da igreja. Por
um lado, defende-se que a fé é mais importante que as obras. A
ênfase está na salvação. Por outro lado, há quem insista que as
obras são mais importantes, ou seja, as ações são expressões
dessa graça, muitas vezes dissociada da experiência da fé.
Existe uma longa história de antagonismo entre as dimensões
social e espiritual. Por séculos, a dimensão espiritual foi vista como a
única maneira pela qual Deus trabalha na igreja. Por conta disso,
buscam-se, principalmente, os benefícios pessoais de uma salvação
individual. A igreja se transformou na organização que gerencia a
salvação, e seus líderes são os administradores dos rituais e das
disciplinas. Graça e poder são controlados pelos pastores.
A preocupação da maioria dos cristãos é com a salvação
individual e sua participação nos programas religiosos. Jesus
oferece a passagem para o trem celestial. Salvação é a chegada à
estação final. O importante é não sair do trem durante a viagem.
Surge uma espiritualidade passiva, baseada na confissão da
verdade sem, contudo, fundamentar-se na prática das boas obras.
Durante as últimas décadas, milhões de pessoas chegam-se a
Cristo e louvam a Deus em assentos confortáveis e templos
modernos, sem questionar se a fé cristã tem algo a ver com a
periferia pobre e miserável a alguns quilômetros de distância.
Assim, a acusação de que a maioria das igrejas brasileiras se
estrutura de acordo com as classes sociais é pertinente. Por várias
décadas, as igrejas históricas, tradicionais, oriundas dos movimentos
imigratórios e das sociedades missionárias, marcaram presença
considerável nas classes média e alta. Enquanto isso, o
pentecostalismo alojou-se entre as classes média-baixa e baixa.
Recentemente, o neopentecostalismo encontrou refúgio também
entre os mais abastados, com sua ênfase na teologia da prosperidade
e a construção de santuários luxuosos nas principais capitais
brasileiras.
É bem verdade que o protestantismo brasileiro está crescendo
numericamente. Toda denominação planeja abrir igrejas em todas
as cidades do Brasil. Em grande parte, a missão evangélica visa
apenas transpor barreiras geográficas, enquanto relega a segundo
plano a tarefa de derrubar as barreiras sócio-econômico-culturais
[cxxxiii]
que dividem o povo em estratificações e mundos distintos.
Mas estamos crescendo proporcionalmente em maturidade
espiritual?
Esse incentivo à fé pessoal em Cristo sem nenhum envolvimento
social demonstra ausência do conceito de integralidade. A igreja
serve apenas como agência da salvação. Podemos nos esquecer
da realidade social em troca da gratificação celestial? Qualquer
pessoa com o mínimo de conhecimento sobre o planeta, seus
recursos, a pobreza e a miséria, as atrocidades e crueldades, bem
como seus hábitos ecológicos compreende que um evangelho que
oferece apenas salvação pessoal é uma enganosa representação
[cxxxiv]
do Jesus Encarnado. Os resultados do estabelecimento do
reino de Cristo devem ser visíveis no universo criado por Deus.
A igreja tem essa tendência de separar as boas-novas do reino das
providências divinas. A “minha” salvação é um evento particular,
desconectado da vinda do reino sobre o restante do mundo. O plano
da redenção serve apenas para determinado número de almas, e
não se aplica à restauração de toda a humanidade.
Mas teria Deus prometido a renovação da criação ou somente a
regeneração de alguns indivíduos? Uma nova criatura ou um novo
céu e uma nova terra? Fé e obras são inseparáveis. A palavra não
pode estar contra a ação dentro de uma comunidade capacitada
pelo Espírito. As palavras explicam as ações, e as ações legitimam
[cxxxv]
as palavras.
O programa de desenvolvimento da Organização das Nações
Unidas (ONU) confirmou que, nos últimos trinta anos, os mais
pobres do mundo ficaram com apenas 2,3% da receita financeira
mundial. Agora, eles recebem apenas 1,4%, e este percentual
[cxxxvi]
continua caindo. Durante a inauguração da chamada “era do
desenvolvimento”, estima-se que a distância da receita financeira
dos países mais ricos em relação aos bilhões de pobres aumentou
[cxxxvii]
mais de 500%.
O Brasil vive uma crise que se arrasta por muito tempo,
provocada pela concentração de renda, pelo aumento nos índices
de desemprego e subemprego, pela pressão econômica sobre a
classe média, pelo descaso com minorias, pobres, mulheres e
crianças, pela violência descontrolada nos centros urbanos e outras
mazelas. Essas questões sociais causam insegurança e ansiedade,
e a esperança de que esses problemas sejam solucionados, pelo
menos a médio prazo, é bem remota.
Não haveria ocasião mais apropriada para a prática da fé quanto
agora, quando as palavras sem ação caíram no descrédito.
A salvação de almas sem o cuidado com as necessidades básicas
e a dignidade do ser humano não representa o verdadeiro
cristianismo. Células e grupos familiares que estudam a Bíblia e, ao
mesmo tempo, negligenciam a compaixão e a ação social são
narcisistas. De que adiantam os aplausos aos méritos da fé sem a
aplicação da verdade do evangelho à justiça social? Como disse
Padilla:
A missão envolve a vida de todo cristão em sua atividade diária;
inclui testemunho e consequentemente o estilo de vida. É tarefa
dos líderes da igreja valorizar a missão dos leigos em seu
trabalho secular e por meio dele: no trabalho bem feito, no
exercício responsável da profissão, no serviço ao necessitado,
no cuidado da criação, no estilo de vida cristão na família e em
[cxxxviii]
todo lugar.

O bispo Wickam, missionário entre trabalhadores de fábricas na


Inglaterra, dizia que os ingleses estiveram alienados do evangelho
por tanto tempo, e a igreja aliada ao status quo e às forças
opressivas por tantas gerações, que seria necessária uma geração
inteira para convencer os cristãos a se engajarem nos problemas
sociais sem usar palavras. O discurso com seus slogans e seu
jargão evangélico, inevitavelmente, despertaria imagens
[cxxxix]
equivocadas. O direito de falar seria conquistado com nosso
santo silêncio.
Se entendemos de fato o que significa arrependimento na Bíblia,
não podemos separar conversão e ação social. Arrependimento inclui
abandono de toda forma de pecado, inclusive o mal estrutural. Foi no
contexto do apartheid, da brutalidade policial e da repressão social
da África do Sul que David Bosch nos lembrou: pastores e líderes
têm certeza de que foram chamados ao ministério não só para
proclamar Cristo como Salvador e convidar as pessoas a confiar
nele, mas também para convencê-las de que o pecado é pessoal e
estrutural; que o dualismo é contrário ao evangelho; e que o
[cxl]
ministério deve ser extenso, e não apenas profundo.
Para Bosch, evangelismo significa alistar pessoas para o reino de
Deus, libertando-as de si mesmas, de seus pecados e de seus
antagonismos a fim de que sejam livres para Deus e para o próximo.
Isso leva a uma vida de abertura, vulnerabilidade, integralidade e
amor. Ganhar pessoas para Jesus é ganhar sua lealdade para com
[cxli]
as prioridades de Deus. Em outro momento, ele nos lembra de
que a missão não pode ser confundida com o missionário. O
movimento missionário da igreja é somente uma forma de manifestar
a natureza externa e orientada do amor de Deus. Missão significa
[cxlii]
serviço, cura e reconciliação da humanidade ferida e dividida.
Lesslie Newbigin vê a conversão como transformação que gera
participação na realidade nascente do reino de Deus entre nós. Esta
mudança interna imediata e intrínseca envolve o padrão de conduta
e o companheirismo visível. Envolve membresia numa comunidade
[cxliii]
e decisão de agir de determinada maneira.
Ser cristão envolve paixão por Deus e compaixão pelas pessoas.
O evangelho individual sem o evangelho social é como uma alma
sem corpo, um fantasma. O evangelho social sem o evangelho
individual é como o corpo sem alma, um cadáver. Cadáveres e
[cxliv]
fantasmas não são metáforas divinas para a igreja.
A transformação da sociedade ocorre quando os dois lados são
contemplados. Pessoas e comunidades necessitam experimentar o
efeito transformador do evangelho feito carne não apenas
internalizado no íntimo de sua vida, mas também em sua situação
social, econômica e cultural. Orlando Costas nos desafia a uma ação
evangelizadora que corresponda às demandas do reino que anuncia:
Necessitamos, pois, uma evangelização que convide as massas
majoritárias a seguir a Cristo, fazendo sua a sorte do próximo e
procurando transformá-la por meio de obras de justiça e
misericórdia. Uma evangelização que anuncia não só novo céu,
mas também, nova terra; que desperte nas multidões a
imaginação, que lhes amplie a visão e lhes permita ver pela fé
uma era de justiça, amor e paz na América Latina. Uma
evangelização que abra um canal na vida das massas, através
do qual o evangelho possa penetrar, achar raízes e saturar as
estruturas sociais, econômicas, políticas, culturais e
psicológicas do povo latino-americano. Uma evangelização que
creia numa religiosidade autêntica, biblicamente evangélica,
[cxlv]
libertadora e criativa.
Precisamos celebrar essa integridade do evangelho completo e
multidimensional, o fazer e o ser. A dimensão interna é vertical e se
concentra no aprofundamento espiritual. Somos chamados para
crescer no conhecimento e no amor ao Senhor. A dimensão externa
é horizontal e focaliza o viver a vocação cristã reconciliadora na
sociedade.

Um diálogo entre os modelos constantinista e anabatista


Sob o poder dos imperadores Constantino e Theodosius, a igreja foi
estabelecida como religião oficial do Império Romano no século III
d.C. Antes de Constantino, ela vivia como comunidade alternativa
dos seguidores de Cristo, com história própria e em constante
tensão com os poderes e as culturas vigentes.
Após Constantino, a igreja sai de sua posição inferiorizada e
marginalizada para se transformar no centro das atenções,
assumindo posição de domínio. Ela deixa de ser economicamente
fraca e pobre e se torna muito rica. David Bosch entende isso como
a grande falha da igreja primitiva: ela deixou de ser um movimento e
[cxlvi]
virou uma instituição.
Ao se tornar religião oficial, o cristianismo assumiu o centro da
história, acompanhando o desenvolvimento econômico, militar,
tecnológico e cultural da Europa. Antes minoria oprimida, agora era
maioria opressora; a seita ilegal transformou-se em religião oficial do
Império Romano e peça-chave na manutenção do status quo de
muitos impérios e governos posteriores.
Durante toda a Idade Média e até a Primeira Grande Guerra, os
amigos e inimigos do estado eram também amigos ou inimigos da
igreja, que se associava a poderes seculares e compartilhava com
eles os interesses — tendência identificada em culturas onde ser um
bom cristão significava quase o mesmo que ser um bom cidadão. A
própria Reforma Protestante não rejeitou a constantinização. Sua
preocupação central era corrigir os erros e as distorções da teologia
medieval, especialmente no que dizia respeito à salvação pela fé e à
autoridade das Escrituras.
Para Gustavo Gutiérrez, a mentalidade constantinista acentuou-se
na América Latina porque Espanha e Portugal não viveram a crise
da cristandade que sacudiu o restante do continente europeu
[cxlvii]
durante o século XVI. O cristianismo que desembarca nas
Américas com os navios portugueses e espanhóis é constantinista.
“A espada do colonizador português e a cruz como símbolo da igreja
[cxlviii]
pisaram juntos em solo brasileiro.” Os monarcas portugueses
pensavam em criar no Brasil um estado cristão, tendo como religião
oficial o catolicismo.
Na América Latina, a igreja católica utilizou-se do cristianismo
como forma de domínio cultural e negação das raízes históricas dos
índios e africanos. A tarefa da igreja era submeter as esferas
políticas à cristandade. Não eram nações e reis que dominavam,
mas cardeais e papas. Para os colonizadores, os “pagãos” deveriam
ser “cristianizados”. Em nome de Deus, muitos índios foram
obrigados a adotar a religião cristã ou mortos, quando rejeitavam a
catequização. Ser cristão, em última análise, era adotar a cultura
[cxlix]
portuguesa.
Os jesuítas não compraram essa ideia e se colocaram ao lado dos
índios. Foram expulsos do Brasil pelo Marquês de Pombal. Os
índios, por sua vez, resistiram à escravidão e à exploração
portuguesa. Foram dizimados aos milhões. Historicamente, o Brasil
foi conquistado à força pelo catolicismo português.
As implicações desse processo sobre o protestantismo brasileiro
foram grandes. Num país onde, conforme Camargo, historiador
católico, as palavras “brasileiro” e “católico” são sinônimos, o
protestantismo “herege” certamente pareceu estranho e ameaçador.
Steuernagel nos lembra:
O catolicismo brasileiro do período português era uma “religião
obrigatória”, e não podia deixar de ser, pois protestantismo
significava adesão à Holanda ou à Inglaterra; judaísmo
significava aliança com comerciantes do norte; “feitiçaria”
significava rejeição ao sistema colonial em nome da religião
[cl]
ancestral indígena ou africana.
Da mesma forma, as missões protestantes na América Latina
revelaram-se empreendimentos carregados de cultura estrangeira.
Até hoje é difícil para as igrejas se fundamentarem na Reforma para
o desenvolvimento de uma teologia de missão: o modelo reformado é
insuficiente porque deriva de uma sociedade cristã medieval.
Dentro desse contexto, a igreja tende a se adaptar aos valores
culturais dominantes. Como a esponja seca absorve a água quando
jogada num balde, a igreja assimila valores e tendências culturais ao
redor. Não é de estranhar, portanto, que nosso pensamento acerca
da missão seja estimulado muito mais pelos questionamentos de
igrejas e líderes do Terceiro Mundo.
Nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa há uma consciência
cada vez maior de que a longa história da religiosidade oficial,
iniciada com Constantino há mais de 1.700 anos, está chegando ao
fim. A chamada “civilização ocidental” parece estar crucificando
esse modelo. Países do hemisfério norte comportam-se como
sociedades pós-cristãs, e até mesmo anticristãs.
No hemisfério sul, a igreja evangélica, que sempre se manteve na
periferia da sociedade, responde por quase 80% do número de
evangélicos no mundo neste século. Contudo, ela expande a
constantinização, aproximando-se daqueles que detêm o poder
cultural, econômico e político. Talvez procurando sublimar o
complexo de inferioridade e marginalidade, muitos líderes latinos (e
o Brasil não é exceção) tentam alcançar o centro da atenção e
ampliar a influência social.
As denominações e associações de pastores se orgulham de
eleger deputados ou senadores. A mídia se interessa pelas opiniões
do pastor sobre vários assuntos. A mesma igreja que antes criticava
a relação entre igreja e estado agora nutre a expectativa de
participar das principais decisões.
Há vantagens nisso, mas o preço pode ser muito alto. Quem a
igreja elegerá para governar a cidade? Pastores de grandes igrejas,
mas irrelevantes na sociedade? Crentes empresários,
despreparados nas ciências políticas? Representantes dos
interesses denominacionais? Nesse contexto de “relações
perigosas”, é difícil saber onde começa e onde termina a tarefa
daqueles convocados a guiar o rebanho.
Precisamos estabelecer novo diálogo entre o modelo missional de
Jesus Cristo e os diversos paradigmas de liderança da igreja atual.
Jesus se projeta como o supremo modelo, o sistema, a figura e o
estilo pastoral. Para realizar a mesma tarefa que Cristo realizou em
seu tempo e promover a restauração do homem em sua plenitude
como filho de Deus, devemos nos perguntar que estilo de liderança e
[cli]
forma de pastorado correspondem aos dias de hoje.
Nunca existirá uma nação 100% cristã! Jesus nunca projetou um
império global como o que Constantino imaginou, nem planejou que
o cristianismo se tornasse um sistema filosófico. Deus não deseja
que a igreja se envolva em conchavos com a política ou flerte com o
poder. Sua intenção nunca foi a criação de uma igreja com validade
vencida, manobrada para as margens por causa de sua
inadequação e neutralidade social, vida acultural e teologia
atemporal.
Em Cristo e cultura, H. Richard Niebuhr apresenta os dois termos
como sistemas e conceitos paralelos: Cristo a favor da cultura,
contra a cultura e transformando a cultura. Entretanto, comparar
Cristo e cultura não faz sentido. A igreja é, biblicamente falando,
uma cultura distinta, uma nação com linguagem e valores próprios.
Ela não controla essa sociedade. Constantinismo é suicídio
teológico e homicídio social. A visão constantinista nega a tensão
entre a igreja e o mundo que a cerca. É preciso ver a igreja como
imigrante e estrangeira e não esquecer as metáforas bíblicas do
exílio e da peregrinação.
A igreja é uma polis alternativa, um grupo social da contracultura.
Somos estrangeiros de posse do green card, vivendo como colônia
[clii]
de imigrantes dentro de uma sociedade longe de Deus.
Qualquer tentativa de construir um império cristão distancia a igreja
de sua vocação missional. Por mais de três séculos, a cristandade
europeia foi progressivamente arrastada de sua posição de
proeminência e centralidade cultural para a marginalidade. A igreja
foi relegada ao âmbito privativo, e não é mais vista como sinônimo
de eficácia e eficiência.
Sem dúvida, o que impede a igreja de se tornar mais missional é
sua preocupação excessiva com o estabelecimento do “reino deste
mundo”, em vez de revelar-se como sinal e instrumento do reino
invisível de Deus. Ela se esquece de um fato primordial: seguir a
Jesus não significa apenas aceitar sua mensagem ou filosofia de
vida; também quer dizer entrada no reino de Deus, participação num
grupo social que promove um estilo de vida alternativo no mundo
que encampa todas as dimensões da vida humana.
A igreja não deve apenas ser relevante na cultura. Ela mesma
reflete uma cultura própria que desenvolve uma história singular,
com desdobramentos no tempo e ao redor do mundo. A igreja não
existe para ela mesma. Seu testemunho sinaliza o reino de Deus.
Todos os cristãos são ordenados ao ministério no batismo. Todos
recebem dons para participar na edificação do reino. Todos devem
se submeter a essa mesma vocação missional. Somente quando a
igreja vive a cultura do reino dentro da policultura da cidade de
forma excepcional, e não conformista, pode desafiar com autoridade
o mal estrutural e social.
A história de Israel nos ensina muito sobre a identidade cultural da
igreja. O povo estava determinado a ser uma cultura pública e
política. Clapp vividamente descreve a centralidade do templo na
história dos judeus:
Em Israel, o templo assumiu importância social, espiritual,
política, econômica e cultural. Na América de hoje, isso seria
equivalente ao ajuntamento de toda uma gama de instituições
político-culturais: a Casa Branca, a Câmara dos Deputados, a
Catedral Nacional, a bolsa de valores de Wall Street e
[cliii]
Hollywood.

Tal qual Israel, nossas igrejas devem refletir um estilo de vida


alternativo. Isso inclui uma forma singular de comer (a ceia),
comportamentos alternativos (discipulado), ética alternativa
(moralidade judeu-cristã), uma compreensão peculiar de liderança
(líder-servo), maneiras diferenciadas de lidar com o conflito (perdão
e reconciliação), formas sacrificiais de relacionamento (amor ao
próximo, como Jesus nos amou) e assim por diante.
A igreja tem um vocabulário alternativo proclamado nas Escrituras
(kerigma), atitudes alternativas de serviço e ação social (diakonia),
rituais alternativos de viver comunitário (koinonia) e vida alternativa
de testemunho (martiria). A missão da igreja estará sempre ligada à
sua tarefa de ser culturalmente bilíngue, aprendendo a linguagem
da fé e traduzindo sua história para dentro da linguagem do seu
contexto.
Liderança missional na história, no contexto e na cultura
Não se pode ignorar a importância da observação histórica e a
relevância do contexto na busca de uma identidade missionária para
a liderança brasileira. O líder missional precisa compreender e
realizar pesquisas, analisar e interpretar a situação histórica
concreta e o contexto social. Assim, terá condições de traçar
diretrizes para uma ação comprometida com cada pessoa.
Essa análise geral ajuda a destacar a potencialidade da igreja e
os recursos disponíveis para responder às necessidades específicas
impostas sobre ela. Sem isso, o líder é como um semeador que
trabalha com os olhos vendados, sem conhecer o terreno, ou a um
[cliv]
médico que receita sem fazer um diagnóstico.
A pesquisa (coleta de informações para uso na tomada de
[clv]
decisões) é elemento fundamental para que o pastor faça a
hermenêutica da cidade e tenha a noção de quem é, onde está,
aonde vai. Sem dispor de informações qualitativas e quantitativas, o
risco de tomar uma decisão errada é muito maior. A pesquisa é um
instrumento para o cumprimento da missão e tem auxiliado igrejas e
organizações a medir as dimensões de sua tarefa no mundo.
É necessário fazer uma análise externa e específica do contexto
da região onde a igreja se localiza para identificar as necessidades
mais prementes da comunidade ao redor. É a partir dela que o líder
missional desenvolve uma consciência crítica da realidade na qual
vive e à qual é enviado a cumprir a missão.

O que significa ser brasileiro num país globalizado?


Compreender as transformações culturais provocadas pela
globalização e pela pós-modernidade é imperativo. Fazer o
ministério sem entender a cultura é como caminhar no escuro total.
Emílio Castro nos lembra que, pelo menos em teoria, todos estão de
acordo que o ministério pastoral deve ser relacionado às pautas
culturais e ambientais. A menos que esse axioma seja uma
realidade prática em nosso continente, nossa pastoral será
[clvi]
deficitária.
O evangelho é inerentemente contextual; é comunicado e
transmitido pela história e traduzido na cultura. Portanto, fazer
missão no mundo pós-moderno envolverá a construção de pontes
entre o evangelho e a cultura. Em todo encontro missiológico
significativo com a cultura brasileira será necessário compreender
as relações complexas entre a autoridade do Evangelho, sua crítica
específica a cada aspecto da cultura e a atitude da igreja diante de
ambos.
É importante que o líder missional conheça o Brasil e o brasileiro
modernos, empobrecidos por diversas razões externas e internas,
alvos do poder político e do capital. Ele precisa compreender o pano
de fundo para compor uma cosmovisão abrangente. Pastores e
igrejas devem reconhecer o fato de que herdaram uma história e se
encontram inseridos nesta cultura brasileira polimorfa, com suas
qualidades e defeitos.
O modelo encarnacional leva a liderança a sempre assumir uma
forma específica, de acordo com o contexto. Isso aconteceu com o
povo de Israel durante o exílio na Babilônia. Os sacerdotes e líderes
haviam sido treinados a partir dos modelos ministeriais de
Jerusalém, mas agora se encontravam numa situação diferente.
Pastoreavam suas comunidades na Babilônia, no contexto social
medo-persa. Novos modelos e ministérios eram necessários diante
da nova realidade. Eles precisavam de líderes como Daniel, Isaías e
Jeremias, que pensassem profundamente sua fé e sua teologia.
Alguns dos mais belos textos das Bíblia foram escritos naquele
período.
James V. Browson afirma que um dos fenômenos mais marcantes
do cristianismo no primeiro século foi sua facilidade de cruzar
barreiras culturais e se implantar em novos lugares. Mais da metade
do Novo Testamento foi escrita por pessoas engajadas e
entusiasmadas com o empreendimento missionário. O dinamismo
da igreja nascente com relação à missão foi uma energia poderosa
que impulsionou o evangelho, cruzando todas as barreiras culturais
[clvii]
e os contextos sociais.
O apóstolo Paulo nunca definiu a igreja ideal ou perfeita em suas
epístolas. Em cada carta, os modelos, métodos e estilos da igreja
funcionam de acordo com a cultura, a situação e o contexto
específicos. O evangelho é interpretado e representado nas formas
e nos sistemas da igreja, tendo em vista esse diálogo interior com a
cultura. A missão dos pastores e líderes sempre será a de promover
esse diálogo entre o evangelho de Deus e a cultura humana de
modo que a igreja não represente apenas um ponto de vista
divergente ou antagônico, mas demonstre a restauração e a graça
de Deus sobre o mundo.
Uma realidade policultural
Igrejas experimentam, enxergam, pensam, conhecem, sentem,
agem e reagem de acordo com sua história e sua cultura. Elas não
odeiam nem amam a cultura, da mesma forma que os peixes não
podem odiar ou amar a água — apenas vivem nela. Cultura é
ambiente, e ninguém pode escapar disso. O Brasil é um país
policultural, e para que a igreja se torne missional, é preciso
compreender algumas características da identidade brasileira, as
heranças culturais que influenciam a formação do povo e que se
mesclam na sua religiosidade.
Da cultura indígena encontrada nas terras de Cristóvão Colombo
herdou-se o animismo pagão: todos os seres da natureza são
dotados de vida e capazes de agir com um propósito. Coisas e
pessoas possuem espíritos capazes de ações malévolas ou
benignas. Herdamos também dos índios o messianismo utópico da
terra prometida, a “terra sem mal”. Como diria DaMatta:
... lá não haveria mais sofrimento, miséria, poder e
impessoalidades desumanas. Todos seriam reconhecidos como
pessoas [...] O outro mundo tem muitas formas e são vários os
caminhos de se chegar até ele no Brasil. Mas, por detrás de
todas as diferenças, sabemos que lá, nesse céu à brasileira, é
possível uma relação perfeita de todos os espaços. Essa, pelo
menos, é a esperança que se imprime nas formas mais
[clviii]
populares de religiosidade.

Da cultura portuguesa herdou-se um realismo frio como gelo. As


coisas são o que sempre foram, e como tais devem ser mantidas.
De mãos dadas ao realismo, outro componente da cultura
portuguesa é o fatalismo, herdado dos muçulmanos durante sua
conquista europeia. Segundo Leonildo S. Campos:
O fatalismo islâmico casou-se bem com o realismo português
expresso na dolência do fado, no “se Deus quiser”, no “o que
será, será”. O que é, é, e não há o que mudar. A música popular
sertaneja, as modinhas e as modas de viola manifestam o
continuísmo do fado na arte musical típica brasileira, paralela à
influência africana. Os dramas, as tragédias e a infelicidade no
[clix]
amor são expressões da “moira” em nossa cultura.

A utopia do paraíso terrestre é característica ibero-americana.


Sérgio Buarque de Holanda defende que, ao contrário dos
espanhóis, que sonhavam com a construção de um mundo novo, os
[clx]
portugueses desejavam instalar-se na utopia já realizada.
Também exportaram para a colônia brasileira o panteão dos santos.
Há santos para todo tipo de necessidade humana. Eles protegem,
confortam, alimentam, casam e ajudam a desempenhar todas as
profissões possíveis.
Da diversificada cultura africana, entre outras coisas, herdou-se o
culto aos antepassados, destacando-se a importância do enterro e
de rituais de separação entre os vivos e os mortos. Traço
significativo desse culto aos ancestrais é a crença generalizada de
que os espíritos dos mortos podem voltar e influenciar seus
parentes vivos. Em áreas de cultura rural, costuma-se assinalar,
com uma cruz rústica, às vezes em cima de pequenas capelas, o
[clxi]
lugar em que alguma pessoa morreu de maneira violenta.
Também da cultura africana, em casamento com a cultura branca
europeia, brota a relação com a magia e a crença nos poderes
sobrenaturais. O português colonizador, religioso e supersticioso,
aceitou a influência dos poderes mágicos dos misteriosos africanos.
Apesar de escravos, eles controlavam o mundo dos espíritos com
suas ervas e mandingas.
Paralelamente a esse mundo da África dos escravos, tambores,
terreiros e rituais, vingou o espiritismo franco-kardecista de culto aos
mortos. O contato entre homens e deuses, vivos e mortos, corpos e
espíritos, enfim, as relações entre as coisas deste mundo e do além
seriam naturais e extremamente comuns, numa “intrigante mistura
[clxii]
de catolicismo com religiões afro-populares”.
Diante desse caldo cultural, a igreja católica catequiza o brasileiro,
legitimando o sincretismo através de festas e rituais. Campos
expressa bem essa complexa realidade policultural num esplêndido
resumo. A cultura brasileira é marcada por
... um certo realismo fatalista, um misto de espera messiânica,
mesmo que mal definida e expressa na crença de que as coisas
vão melhorar, e um senso místico de que o mundo é controlado
por forças desconhecidas, mas que podem ser manejadas,
especialmente por pessoas qualificadas para isso (profetas,
pastores, xamãs de toda espécie etc.), e até mesmo pela fé
individual. Parece haver um universo mágico que perpassa a
sociedade em que espíritos benéficos e maleados são
exorcizados por heróis construídos pela mídia nas classes
privilegiadas e por lideranças religiosas nas camadas periféricas
[clxiii]
da sociedade.

O Brasil é profundamente religioso. O que parece distinto na


realidade brasileira, em comparação com outros países, é que todas
as formas de religiosidade são complementares e se mesclam.
Assim, se no Natal vamos sempre à Missa do Galo, no dia 31
de dezembro vamos todos à praia vestidos de branco, festejar o
nosso orixá ou receber os bons fluidos da atmosfera de
esperança que lá se forma. Somos todos mentirosos? Claro que
não! Somos, isso sim, profundamente religiosos [...] Tudo aqui
se junta e se torna sincrético, revelando talvez que, no
[clxiv]
sobrenatural, nada é impossível.

O povo brasileiro é sincretista, integrando tradições e fundindo


diversas culturas na religião. Apesar de esta informação não
aparecer em pesquisas e censos, uma parte significativa da
população brasileira participa direta ou indiretamente de grupos
religiosos em que a crença em espíritos e sua manifestação pública
é característica recorrente. Enquanto a maioria dos brasileiros se
[clxv]
considera oficialmente católica romana, a frequência com que
se recorre a centros espíritas e terreiros é grande. Transe,
possessão, mediunidade, espíritos e orixás se comunicam e
incorporam nas reuniões de umbanda, candomblé, espiritismo e até
dentro de reuniões pentecostais.
A possibilidade de o povo evangélico misturar o cristianismo com
o espiritismo é risco presente e real. O próprio pentecostalismo na
América Latina acabou assimilando práticas mágicas indígenas, pré-
colombianas e africanas trazidas pelos escravos, pelo fato de ter
lutado tanto contra sua influência nas religiões católica e espírita.
Campos define o pentecostalismo pós-moderno assim:
Assim, como a classe operária foi ao paraíso da sociedade de
consumo, o pentecostalismo encontrou formas de acomodação
no interior da velha cultura latino-americana e da nova
sociedade de consumo, incorporando, no decorrer desse
processo, símbolos, discursos e forças que emanam da
religiosidade popular de origem ibérica, nativa dos indígenas e
africanos, mesclada com o fundamentalismo dos televangelistas
norte-americanos. Em suma, os pentecostais de classes
populares e médias passaram a historicizar a ideia do milênio,
[clxvi]
sob o suporte ideológico da “teologia da prosperidade”.

A utilização de expressões sincretistas, como “rosa ungida”,


“manto consagrado”, “fogueira santa”, “água abençoada” e “óleo de
Israel” são comuns em vários cultos evangélicos. Muitos cristãos
creem que esses objetos são capazes de proteger a casa e liberar
os males que os cercam.
Ao assumir esse discurso, os evangélicos abrem mão da tradição
teológica. Palavras como “declarar” tornam-se mais populares que
“interceder”; “tomar posse” parece ser mais eficaz que “esperar em
Deus”. Será que, fazendo isso, não estamos deixando de confiar no
Senhor como único doador e mantenedor da vida?
Isso demonstra o enfraquecimento da rígida separação entre fé
cristã e paganismo. A igreja está perdendo a identidade. Valdir
Steuernagel alerta sobre esse perigo.
É importante ressaltar que encarnar-se não significa “vender sua
posição”, nem ceder na verdade, mas justamente aproximar-se
da realidade com essa verdade numa perspectiva de
transformação. Não é encarnação, por exemplo, o fato de
divindades do catolicismo serem usadas nos cultos afro-
brasileiros como já visto. Não é encarnação ver atrás de uma
imagem uma divindade de macumba, e, isto sim, ausência e/ou
perda de identidade. Por isso, é preciso estabelecer os pontos
limítrofes entre “encarnação” e “venda de posição”; entre “cair
num convento” e perder a identidade na “assimilação” de valores
[clxvii]
estranhos ao Evangelho.

René Padilla destaca que, após a Segunda Grande Guerra, os


maiores avanços do evangelho aconteceram entre os povos
animistas e as classes menos privilegiadas. Apesar do secularismo,
além do crescimento do espiritismo no Brasil houve o florescimento
do ocultismo e das religiões asiáticas, o ressurgimento do islamismo
em áreas da África, Malásia, Paquistão, do budismo na Tailândia,
Vietnam, Camboja, do hinduísmo e do xintoísmo no Japão. Então,
ele conclui:
O quadro geral do avivamento religioso num momento em que o
mundo se está unificando sob o impacto da tecnologia ocidental
mostra que no ser humano há um “vazio metafísico” que a
tecnologia moderna não pode preencher. Os movimentos
massivos em direção ao cristianismo, assim como outros
movimentos religiosos que estão crescendo num ritmo
fantástico no Terceiro Mundo, parecem ser simultaneamente
resultados do impacto da civilização ocidental e uma reação a
[clxviii]
ela.
O neopentecostalismo
Em meio a tudo isso, surge uma nova corrente teológica chamada
neopentecostalismo. Embora o nome não seja aceito por
unanimidade pelos pesquisadores, os sociólogos brasileiros em geral
têm utilizado essa expressão para descrever um modelo de igreja
pentecostal mais leve, menos legalista, com menos proibições éticas
e culturais e maior ênfase na prosperidade e no bem-estar pessoal.
No Brasil, os grupos religiosos que mais crescem são aqueles nos
quais predomina a experiência mágica combinada a cultos em que
se prometem cura e proteção, sucesso financeiro e solução de
problemas afetivos. “Vende-se a solução de problemas terrenos,
[clxix]
não a busca do transcendental.” O neopentecostalismo é um
fenômeno social que incorpora elementos de antigas religiosidades
populares, misturando-os com elementos católicos e protestantes,
produzindo uma salada sincretista.
Certamente por isso, o secularismo não avançou tão rapidamente
dentro da cultura brasileira como se espalhou na Europa e América
do Norte. Lá, as instituições religiosas enfrentam declínio. Desde a
década de 1960, com a secularização da sociedade, os
especialistas previam o declínio do cristianismo e de outras
religiões. O fim do século XX seria marcado pelo ateísmo. No
entanto, a espiritualidade continua em franco crescimento. Há 50
anos, as grandes igrejas estavam na Europa e na América do Norte.
No início do século XXI, são as igrejas do hemisfério sul que
crescem com maior vigor.
No entanto, sem anunciar sua conversão ao secularismo, mais e
mais brasileiros, católicos e evangélicos se comportam como
pessoas para quem Deus e os valores cristãos não interferem na
maior parte de suas decisões. Passo a passo, tornam-se menos
cristãos e mais seculares. Assim, é necessário questionar o que, na
realidade, cresce no Brasil.
Sabe-se que muitos católicos e evangélicos foram
superficialmente evangelizados e praticam um subcristianismo que
não traduz a essência do evangelho: cultos de entretenimento e
suprimento de necessidades e evangelismo do tipo “aceite Jesus e
entre na célula” com discipulado em doze lições. A semente do
evangelho não tem penetrado nos solos mais íntimos da mente e do
coração, onde se encontram os valores culturais, as emoções
reprimidas e a vontade de transformação. Padilha afirma o seguinte:
“Quando se faz isto, fica claro que o crescimento numérico da igreja
no Terceiro Mundo é somente o lado luminoso de um quadro que
também tem um lado obscuro, representado pelos problemas que
[clxx]
colocam a igreja frente a um grande desafio”.
É fundamental prestar atenção à cultura brasileira, bem como à
cultura global. Já custou demais à igreja presumir que pastores e
líderes conhecem sua cultura. Somente uma análise acurada das
estruturas sociais que afetam a comunidade pode capacitar a igreja
a manter sua missiologia contextual. Aqueles que tiverem dificuldade
de contextualizar seus ministérios e ajustar sua metodologia aos
valores culturais declinarão em saúde, qualidade e quantidade.
Há, porém o risco de a cultura aprisionar o evangelho.
Aculturação é o processo de sentir-se em casa na cultura. Nesse
caso, a igreja sutilmente assimila e abraça os valores culturais. O
evangelho capitula aos poucos diante das pressões sociais,
perdendo sua essência. A cultura define a identidade do evangelho,
que degenera em mera religiosidade.
Muitos teólogos afirmam que, no século XX, o cristianismo
reduziu-se a religião, uma instituição dentro do complexo sistema
social, uma entre muitas engrenagens da máquina da sociedade.
Algumas vezes, o cristianismo exerce uma função moral ou
comunitária, ajudando as pessoas a ser melhores cidadãs ou
cooperando com a comunidade. Em outras oportunidades, ele se
seculariza, submetendo-se aos poderes e valores mais marcantes
da época, como a busca pela felicidade e prosperidade material
própria do capitalismo.
O grande desafio para os líderes missionais é fazer que o
evangelho atue dentro da cultura sem que seja distorcido por ela. O
desafio é encarnar o evangelho dentro de um contexto histórico e
social específico, com tradições, regras e valores, sem perder a
identidade e a essência. Quando o evangelho entra na cultura, ele
começa a transformá-la e influenciá-la. Ao mesmo tempo, a cultura
reage e tenta diluir, deslocar e distorcer o evangelho. Enquanto se
engaja na cultura, a igreja vive a tensão contínua de perder seu
propósito de intérprete do evangelho. Hendrick expressa esse
conflito de maneira muito clara:

O chamado do evangelho para seguir Jesus certamente


significa que decidiremos nos deportar de certas lealdades
sociais e culturais. Uma igreja missionária entende que essa
quebra de valores, pressuposições e normas culturais irá
constantemente levá-la a compreender como tem se
acomodado ingenuamente a seu contexto, a buscar perdão
onde necessário e orar por liberdade dos caminhos culturais
[clxxi]
que debilitam sua fidelidade.

Os pastores missionais na cidade precisam de formas


alternativas de liderança que encarnem princípios missiológicos
aplicados pelos missionários transculturais. Os mesmos
princípios devem ser aplicados às cidades brasileiras,
verdadeiro campo de colheita pós-moderno.
4_Implementação e avaliação do modelo
missional

Liderança missional prática e estratégica


O objetivo deste livro é buscar direcionamentos práticos para o líder
missional. Antes, porém, foi necessário conhecer melhor nossa
razão de ser como igreja-em-missão, além de compreender em que
situação estamos em termos de cultura, história e sociedade. Feito
isso, estamos prontos para pensar no futuro.
A igreja faz aquilo que ela é. A partir de sua identidade,
caminhando pelas observações históricas e sociais, bem como
pelas análises culturais e espirituais, o líder missional pode planejar
um conjunto de ações organizadas que auxiliem a igreja a cumprir
integralmente sua missão na cidade.
Mesmo que não seja especialista em planejamento, o líder
missional precisa formular ações concretas. Deve, entretanto,
lembrar que todo e qualquer planejamento estratégico está
subordinado ao Espírito Santo. Na obra missional da igreja, a ação
do Espírito é sempre soberana e suprema. O crescimento integral
das igrejas não se fundamenta em regras de mercado. Costas
coloca isso de maneira elegante:
Ele [o Espírito Santo] é o nervo e motor do crescimento da
igreja. Estimula os órgãos do corpo, coloca-os em ação,
controla e acelera o processo de expansão em todas as
dimensões e em todos os níveis. Sem o Espírito, a igreja
estanca, debilita e morre. Daí a necessidade de estar saturada
de sua presença, aberta à sua direção e submissa à sua
[clxxii]
vontade.

Embora o planejamento seja importante, ele não é determinante


para o crescimento da comunidade de fé. Somente a presença
dinâmica e a vitalidade do Espírito Santo são elementos decisivos
para o desenvolvimento integral da igreja local. Obviamente, isso
não descarta a responsabilidade da igreja de se organizar com
excelência e se valer de um plano de ação bem elaborado. De que
nos serviriam a pesquisa e a análise se não nos conduzissem a um
plano de ação, à formulação de objetivos concretos e ações
específicas?

Análise interna: a realidade da igreja local


É necessário que o líder conheça a realidade específica e interna da
igreja local. Uma das melhores e mais eficazes maneiras de realizar
essa análise será a utilização das categorias que Orlando Costas
utiliza para definir o crescimento integral. Ele propõe a seguinte
definição de crescimento da igreja: “É um processo de expansão
integral e normal, que se pode e deve esperar da vida e da missão
da igreja como comunidade do Espírito, corpo de Cristo e povo de
[clxxiii]
Deus”.
Segundo Costas, o termo “crescimento” indica mobilidade. Não se
trata de fenômeno simples de ser entendido, pelo contrário. Ele
ocorre em níveis distintos e de diferentes maneiras. Onde há
crescimento, há aumento, desenvolvimento, expansão, ampliação,
inchaço. Há também diferentes tipos de crescimento: demográfico,
biológico, emocional, psicológico, cultural, econômico, social,
institucional. E dentro de cada um desses aspectos existem as
qualidades de crescimento: positivo ou negativo, bom ou ruim,
saudável ou patológico.
Como organismo vivo, a igreja está capacitada a crescer de
maneira normal e consistente. O crescimento faz parte de sua vida.
Deixar de crescer seria deixar de existir. Contudo, ocorre também o
risco da deformação, do crescimento da erva daninha. Todo
organismo vivo cresce, mas nem todo crescimento é saudável.
Na igreja, o crescimento quantitativo exige crescimento qualitativo.
É um processo integral, indissociável, que deve se manifestar em
todos os níveis: dos leigos aos líderes, dos grupos pequenos
informais aos conselhos formais, das congregações pequenas às
megaigrejas, nas agências pareclesiásticas e também nas
estruturas denominacionais. Como o crescimento é um processo
multidimensional e a igreja, uma realidade dinâmica e completa, é
interessante apresentar uma teoria de crescimento integral.
As igrejas tendem a crescer desproporcionalmente, enfatizando
ou se concentrando em determinada dimensão em detrimento de
outra. São quatro dimensões que brotam desse crescimento
integral: numérica (a reprodução de seus membros), orgânica
(desenvolvimento da vida orgânica), conceitual (aprofundamento na
compreensão da fé) e diaconal (serviço eficaz no mundo). O líder
missional deve cuidar para que sua igreja cresça simultaneamente
em todas as quatro dimensões (veja o quadro da página a seguir).

Crescimento numérico
É a multiplicação que o povo de Deus experimenta ao proclamar o
evangelho, convidando homens e mulheres ao arrependimento de
seus pecados e à fé em Jesus Cristo, incorporando-os numa
comunidade local. A dimensão numérica tem a ver com a vida e os
conflitos pessoais de multidões de homens e mulheres que vivem
alienados de Deus, de si mesmos e de seu próximo, e que precisam
de reconciliação e incorporação ao povo que Deus está formando
em toda parte da terra. São milhões cuja condição espiritual desafia
constantemente a igreja e de quem ela se considera em dívida por
[clxxiv]
causa do evangelho.
É a dimensão mais explorada e mais desejada pelos cristãos. É a
primeira pergunta feita nas conferências: “Quantos membros sua
igreja tem?”. Note os exemplos a seguir. Ao analisar a dimensão
numérica, busca-se determinar quantas pessoas estão sendo
acrescentadas à igreja por conversão, batismo e transferência,
dentro de um quadro de crescimento numérico.

Em relação ao perfil da igreja nos últimos anos:


2015 2016
Aproximadamente qual era o
número de membros ativos em:
Aproximadamente qual era o
número de células e grupos
familiares em:

Aproximadamente quantas
congregações foram iniciadas em:

Aproximadamente quantos
pastores, tempo parcial ou integral,
havia em:
Aproximadamente quantas
pessoas se tornaram membros em:
Aproximadamente quantas
pessoas deixaram de ser membros
em:
Aproximadamente quantas pessoas
vieram de outras igrejas e
transferências, em:

Além dessa informação quantitativa, procura-se avaliar o nível de


espiritualidade e fidelidade da igreja no processo de crescimento (ou
decadência) e quais razões e fatores levam a isso.
Quais têm sido as ações mais frutíferas e quais os fatores que Deus
mais tem usado para produzir crescimento na igreja nos últimos
anos?

01. Evangelismo pessoal.


02. Evangelismo público e eventos.
03. Capacitação de líderes.
04. Visitas.
05. Social.
06. Curas e sinais.
07. Acampamentos e integração.
08. Eventos, cursos e seminários.
09. Grupo nos lares e células.
10. Ensino.
11. Oração.
12. Outras (quais?).

A dimensão numérica também abarca as atividades de


evangelismo, os métodos empregados e os resultados obtidos.
Quais destas ferramentas de comunicação a igreja usa para divulgar
sua presença na região?

01. Promoção de atividades sociais.


02. Cartazes, folders.
03. Programas de rádio e televisão.
04. Faixas, placas luminosas, banners.
05. Site na Internet.
06. Eventos públicos evangelísticos.
07. Outras (quais?).

Crescimento orgânico
Encampa o desenvolvimento interno do organismo-igreja, o tipo de
liderança, a distribuição por sexo, idade, ocupação; a participação
nos cultos, os recursos financeiros, os grupos de interesse e
afinidade, os grupos familiares e células etc. A dimensão orgânica
tem a ver com questões de cultura e contextualização, formação e
mordomia, comunhão e celebração.
Como organismo vital, a igreja não pode se contentar com a
simples multiplicação de suas células. Ela deve se preocupar com o
bom funcionamento de todas as partes, em conformidade com seu
sistema de vida. Estas precisam ser fortalecidas, cuidadas,
estimuladas e bem coordenadas para que o corpo possa funcionar
[clxxv]
adequadamente e o trabalho não seja em vão.
A dimensão orgânica identifica as variações ao longo de um
período com relação às contribuições financeiras, ao número e à
distribuição de líderes, aos tipos de programas e às experiências
litúrgicas e de convivência. Organização eficiente tem alto nível de
envolvimento, por parte dos membros, nos ministérios.
O crescimento orgânico compreende as diversas formas de
governo. Ele tem a ver com o sistema de relações entre os
membros: sua forma de governo e sua estrutura ministerial.
Sabemos que parte do sucesso de uma igreja depende do bom
funcionamento de seu governo e de suas estruturas. Além disso, à
medida que a igreja cresce organicamente, crescem também sua
compreensão e sua participação nas finanças.
Onde há crescimento orgânico, há crescimento de liderança e
constante treinamento de mais pessoas. Todas as áreas da igreja
precisarão de novos líderes. Será também necessário identificar o
tipo de atividade na qual investir melhor o tempo e os recursos, o
nível de intensidade da vida comunitária, a vida devocional dos
membros, a participação pessoal e ativa nas atividades da igreja
etc.

Em que outras atividades você tem investido tempo para o


fortalecimento da igreja, tanto pessoal quanto coletivamente?

01. Oração.
02. Leitura devocional da Bíblia.
03. Preparação de líderes.
04. Visitas.
05. Ensino.
06. Aconselhamento.
07. Planejamento estratégico.
08. Eventos especiais.
09. Estudo (formal ou não).
10. Outras (quais?).

Como se troca de pastor na sua igreja?

01. Pela escolha do antigo pastor.


02. Por eleição.
03. Por indicação de líderes.
04. Por profecia.
05. Outras (quais?).
Sua igreja realiza reuniões administrativas com a participação dos
membros?

Não ( ) Sim ( )

A igreja precisa crescer nos seus esforços missionais, na sua


participação na obra missionária urbana e na contribuição com
outros obreiros e missionários no campo transcultural.
Em relação a missões, a igreja:

01. Possui conselho, secretaria ou departamento missionário?


02. Realiza conferências periódicas de missões?
03. Intercede por missionários nos cultos e/ou grupos?
04. Gostaria de mais informações sobre missões?
05. Possui parcerias com juntas e/ou agências missionárias
(quais)?
06. Contribui financeiramente para o sustento de missionários?
Quantos no Brasil? E no exterior?
07. Estes missionários atuam em quais áreas e ministérios?

Crescimento conceitual
Refere-se à expansão da inteligência da fé — o grau de consciência
que a comunidade eclesial tem sobre sua existência e razão de ser.

Qual é a ênfase mais importante de sua igreja atualmente?

01. Evangelização e crescimento.


02. Pregação da Palavra.
03. Missões (envio).
04. Social.
05. Avivamento.
06. Adoração e louvor.
07. Pastoral.
08. Formar lideranças.
09. Comunhão.
10. Discipulado.
11. Compromisso.
12. Outras (quais?).

A partir do momento em que a igreja compreende sua finalidade no


reino de Deus e seu propósito na sociedade, é impelida a agir como
instrumento de transformação, tendo como fim último a glória de
Deus. Costas afirma que essa dimensão dá à igreja firmeza
intelectual para enfrentar todo tipo de falsa doutrina, bem como
capacidade crítica para evitar a fossilização e garantir a criatividade
evangelizadora, orgânica e ética da igreja.
A dimensão conceitual acentua a necessidade que a igreja tem de
compreender e ampliar sua convicção sobre a fé cristã, bem como
pensar criticamente sobre ela. É somente na descoberta de sua
identidade que ela pode realizar a tarefa que lhe cabe. Crescer
conceitualmente significa avaliar, à luz da fé e da realidade, as
imagens que a igreja forja de si mesma, de sua missão e de seu
mundo.
Outro aspecto conceitual é o conhecimento das Escrituras. É
importante avaliar a capacidade teológica da igreja em relação às
doutrinas essenciais da fé. Nessa dimensão, busca-se mensurar a
variação entre o conhecimento bíblico, eclesial e teológico dos
crentes segundo sua idade na fé, além da relação entre
conhecimento e prática. Além disso, é preciso identificar o conteúdo
da reflexão, os valores e conceitos sócio-teológicos predominantes
na escola dominical, os sermões, os estudos bíblicos etc.
Crescimento conceitual também diz respeito à compreensão do
mundo ao redor. Não há como cumprir a missão ou compreender o
papel da igreja sem a preocupação social.

Crescimento diaconal
Compreende todas as esferas de ação da igreja no serviço ao
próximo, resultando em serviço ao mundo. O serviço cristão é
fundamentado e impulsionado pelo amor de Cristo. A igreja
demonstra o amor redentor de Jesus Cristo por meio de sua
diaconia. Assim, todas as atividades evangelísticas e os diversos
ministérios da igreja conduzem ao serviço de amor ao próximo. É
isso que legitima a missão integral. Somente quando a igreja vive e
pratica esse evangelho é respeitada pela sociedade.
A dimensão diaconal está relacionada com o aspecto ético da
igreja e de sua missão. Isso implica avaliação da eficácia do
ministério libertador e reconciliador à luz dos resultados concretos
no serviço prestado ao mundo. Tem a ver com o papel da igreja
como comunidade a serviço dos outros e o envolvimento de seus
membros nas lutas e nos problemas da sociedade.

Sua igreja desenvolve ou participa de algum projeto social? Qual?

01. Creches e/ou pré-escolas (0 a 6 anos).


02. Casa-lar — Para qual faixa etária?
03. Atendimento ambulatorial.
04. Atendimento a dependentes químicos.
05. Internação.
06. Asilos.
07. Apoio socioeducativo (7 a 12 anos).
08. Sopão.
09. Alfabetização de adultos.
10. Ensino profissionalizante.
11. Distribuição de cestas básicas.
12. Nenhum.

A diaconia cresce à medida que seus membros estão presentes


na estrutura da sociedade, participando de seus problemas,
conflitos, temores e esperanças. Costa nos lembra que, sem essa
dimensão, a igreja perde autenticidade e credibilidade, pois somente
quando consegue tornar concreta e visível sua vocação de amor e
serviço é que ela pode esperar ser ouvida e respeitada.
Até que ponto o serviço da igreja ajuda a aliviar a dor humana e a
transformar as condições sociais? Crescimento diaconal inclui
reflexão bíblico-teológica e crítica social (que mudanças são
produzidas e como se justificam à luz das Escrituras), bem como
envolvimento e participação da igreja na sociedade. Quanto maior a
intensidade e a penetração do serviço da igreja na prevenção e na
terapia das necessidades sociais de seu contexto, maior será seu
crescimento diaconal.

Sua igreja desenvolve atividades regulares de auxílio a pessoas que


passam por dificuldades? Quais?
01. Cesta básica.
02. Pagamento de contas de água, gás ou energia elétrica.
03. Pagamento de aluguel.
04. Medicamentos.
05. Outras (quais?).
06. Nenhuma.

Ela participa de alguma das seguintes organizações?

01. Conselhos de pastores.


02. Associação de moradores.
03. Associações esportivas ou culturais.
04. Partido político. Qual?
05. Campanha contra a fome.
06. Conselho municipal (qual?).
07. Obra assistencial.
08. Outras (quais?).
09. Nenhuma.

Essas e muitas outras perguntas podem auxiliar os pastores a


conhecer muito melhor como estão as suas congregações e analisar
a igreja local no que diz respeito ao crescimento numérico, à
situação financeira, ao perfil da liderança, à participação ativa e
relevante na vida da comunidade, ao envolvimento dos membros e
dos não-cristãos nos cultos, à visão ministerial, aos projetos sociais
e à avaliação pessoal dos membros quanto à participação em
missões locais e transculturais. Quando combinadas, comparadas e
interpretadas corretamente, podem lançar luz sobre a saúde da
igreja. Como Costas afirma:
Uma análise congregacional fica incompleta, não obstante, sem
um diagnóstico paralelo da realidade sócio-histórica em que a
congregação vive e exerce seu ministério. Isto indica uma
compreensão mínima de seu desenvolvimento histórico; dos
fatores e processos econômicos, políticos, sociais, culturais e
religiosos que lhe têm dado forma. [...] Na escala social, tem de
haver uma identificação cuidadosa dos valores sociais e
religiosos da comunidade circundante, seu estilo de vida e seus
interesses principais. Isto permitirá a construção de pontes para
[clxxvi]
uma comunicação mais eficaz.

As diversas dimensões do crescimento levam a um constante


questionamento e à auto-avaliação quanto à relevância e ao poder de
impacto da igreja no mundo, na comunidade e nas relações humanas.
É necessário estudar o nível de participação de cada membro nos
ministérios, a história da igreja, os métodos mais eficazes, as
experiências que mais contribuíram para o crescimento integral e,
assim, orar e buscar a própria transformação.
A liderança missional mobiliza os membros da igreja no serviço e no
ministério não apenas para provar a utilidade interna dos cristãos, mas
para o bem da própria organização. Compartilhar e viver o evangelho
integral também deve ultrapassar o propósito de crescimento e
recrutamento de novos membros. O evangelho deve oferecer nova vida
e novas possibilidades a pessoas às quais Deus demonstra seu amor.
Quando cresce integralmente, a igreja missional se torna sinal e
instrumento da vinda de Cristo, apontando para além de si mesma —
para o reino de Deus. Mesmo sem pretender curar todas as
enfermidades ou mudar todas as pessoas, ela deve modelar, aqui e
agora, a verdade e o propósito de Deus, mesmo que de forma
imperfeita. A igreja demonstra uma nova ordem social, uma cultura
alternativa em sua maneira de viver.

Análise do contexto e da realidade da região


É necessário que o líder missional conheça não apenas a realidade
histórica da igreja no país e a realidade interna da igreja local, mas
também o contexto externo no qual exerce o ministério. Pastores e
líderes devem adquirir consciência crítica da realidade na qual
vivem e à qual são enviados a fazer missão.
A igreja não existe num vazio, nem surge do nada. Ela está
inserida na comunidade. É afetada e influenciada por ela, e a
recíproca deve ser verdadeira. Qualquer análise eclesiástica é
incompleta sem a noção da realidade dentro da qual a igreja está
presente. Com base numa visão missional de liderança pastoral,
aqui estão algumas propostas de estratégias.

Adquirir e montar um mapa estratégico de missões urbanas


O líder missional deve comprar um mapa da cidade, impresso ou
eletrônico, o maior que conseguir, para inserir as informações mais
significativas da cidade, do bairro e da igreja. É importante que esse
mapa contenha as divisões socioeconômicas, geopolíticas e
urbanas da cidade ou da região. Os limites dos bairros ou das
regiões devem ser verificados e checados, de preferência, com
órgãos públicos responsáveis pelo planejamento urbano.
Utilizando-se desse mapa estratégico, o líder missional pode
facilmente descobrir as regiões que estão crescendo e as que estão
envelhecendo. O crescimento da igreja tende a acompanhar a
explosão ou a decadência demográfica, residencial e comercial de
uma região. Em geral, os movimentos de crescimento evangélico
nas cidades acompanham os movimentos sociais de migração.
Aqueles que, por alguma razão, buscam mudanças e estão em
transição são mais receptivos à mensagem do evangelho.
Devemos tratar nossa região ou cidade como um campo
missionário, convidando pessoas a seguir Jesus, desafiando formas
de comportamentos que deterioram seres humanos e ensinando
valores e conceitos que espelhem a cosmovisão e a ética cristã. É
importante ler os mapas a partir de uma perspectiva da história de
Jesus e suas implicações sobre toda a criação.

Coletar dados disponíveis sobre a realidade religiosa, histórica,


social e cultural da cidade ou do bairro
O evangelho das boas-novas vem em primeiro lugar. Depois dele, a
realidade histórico-social e os contextos geográfico, cultural e
espiritual da cidade constituem base para nosso método
hermenêutico. Um modelo de liderança missional deve avaliar
realisticamente o contexto no qual a mensagem de Cristo deve ser
proclamada.
Para isso, o líder missional deve visitar órgãos e departamentos
públicos, centros acadêmicos específicos de estudos sociológicos,
IBGE, universidades, comissões de planejamento municipais,
jornais e outras organizações não governamentais, formando,
assim, as bases para um banco de dados sobre a cidade.
É necessário que o líder missional tenha conhecimento razoável
de forças, processos, valores da economia, política, sociedade,
cultura e religiosidade que modelaram a cidade ou região. Sem
muito trabalho, o pastor missional pode coletar gráficos e textos que
descrevam as pirâmides populacionais, moradias, densidade
demográfica, nível de emprego e desemprego, pobreza, violência,
preferências religiosas e várias outras categorias de informação.
Desde o início da pesquisa, é recomendável que o líder se cerque
de especialistas (de preferência cristãos) que já estejam atuando na
área de pesquisas sociais. Eles conhecem bem a diferença entre o
que é falado nos púlpitos no domingo e o que acontece nas ruas no
restante da semana.
A igreja missional está em áreas de enfrentamento. Tendo
propósito claro em relação ao reino de Deus, a liderança missional
deve buscar a expressão do evangelho de forma a dialogar com o
contexto histórico, social e cultural, entendê-lo e interpretá-lo. Só
assim a igreja é capaz de dar testemunho relevante. As perguntas a
seguir, para discussão em grupo, permitem compreender o
significado espiritual dos fatos demográficos e as tendências da
igreja.

01. Que tendências representam as maiores oportunidades para


penetração ou entrada do evangelho em nossa cidade?
02. Há alguma crise que pode tornar-se foco das orações e
intercessões da igreja?
03. Até que ponto as igrejas e organizações cristãs sofrerão com
as mudanças?
04. Onde a igreja continuará a crescer?
05. Alguma subcultura ou grupo social em especial manifesta um
nível incomum de opressão satânica? Quais são os casos
mais marcantes?
06. Quais subculturas ou grupos são mais pobres, vulneráveis e
necessitados?
07. Quais são as oportunidades para parcerias?
08. Que grupos sociais precisam de mais ajuda?
09. Que temas preocupam mais em cada região da cidade?
10. O que essas tendências revelam sobre a natureza do mal que
assola a cidade?
11. Os ministérios e programas da igreja ou organização são
[clxxvii]
capazes de atender às necessidades da cidade?

O líder missional deve compreender as instituições que moldam o


destino da sociedade e da comunidade. Quais são as principais?
Como estão estruturadas? Como afetam a vida diária? Como se
relacionam com as exigências da fé cristã e a vocação missional da
igreja? É interessante dialogar com pastores de outras
congregações e apresentar um plano de ação para trabalhos de
cooperação.
Há, ainda, informações que podem ser levantadas a partir do
contato direto com os líderes de bairro e entidades representativas.
Pesquisas e reportagens nos jornais podem ajudar na compreensão
de tendências, costumes e valores. Algumas informações podem
ser muito valiosas:
01. Quantas crianças há na região?
02. Quantos pais ou mães solteiros?
03. Quantos idosos e aposentados?
04. Onde estão os pobres? Onde estão os ricos?
05. Quais são e onde estão os diferentes grupos étnicos?
06. Quais são os níveis de escolaridade e profissional da
população?
07. Qual será a população da cidade ou do bairro daqui a cinco
anos? E daqui a dez anos?
08. Que tipo de desenvolvimento urbano está em processo?

Mapear igrejas, instituições e projetos sociais


Uma das pesquisas de que pastores e líderes podem se valer é o
mapeamento cartográfico da cidade. Isso ajuda a conhecer quem
são os evangélicos e onde estão localizadas as igrejas e os templos
religiosos em cada bairro e/ou região da cidade. Pesquisadores
cristãos do departamento de Geoprocessamento da Universidade
Estadual de Londrina (UEL) fizeram um trabalho desse tipo na
[clxxviii]
cidade. Em seguida, passaram à fase de interpretação dos
dados, relacionando as igrejas e o número de habitantes em cada
[clxxix]
bairro da cidade, de acordo com o censo do governo. Entre
outras características, eles identificaram:

01. Um centro rico com baixa presença de templos. Há mais


chefes de família com renda superior a vinte salários mínimos
mensais.
02. Parte da periferia pobre com presença marcante de templos
católicos disputando terreno com os templos evangélicos
pentecostais. A condição socioeconômica é precária e há alto
índice de analfabetismo entre os jovens.
03. Outra parte da periferia com realidade socioeconômica
mediana e presença marcante de igrejas evangélicas
históricas. Os índices socioeconômicos estão mais próximos
das médias encontradas em Londrina.
04. Uma terceira parte da periferia pobre com forte presença de
igrejas evangélicas pentecostais. Os índices socioeconômicos
avaliados são sempre piores do que a média municipal.
Grande contingente de jovens em idade escolar.
05. Áreas de contrastes socioeconômicos sem igrejas evangélicas
identificadas. São bairros com núcleos urbanos envolvidos por
instituições de pesquisa e ensino.
06. Outras áreas de contrastes socioeconômicos, mas com igrejas
evangélicas pentecostais e regiões em processo de
valorização imobiliária.

Hora de agir
Tudo isso parece uma tarefa grande demais e, de fato, é. Porém, a
liderança missional não se pode permitir deixar de investir em sua
missão e pagar o preço. E, ao conhecer as necessidades do mundo,
ela deve modificar sua agenda missionária para servir à comunidade
ao redor. A igreja precisa adaptar sua mensagem e seu ministério
para responder a necessidades e situações concretas. E isso é
especialmente verdadeiro quando se fala em América Latina.
Assim, os cristãos poderão perguntar como estão as condições de
vida e justiça social, identificar as causas dos problemas e agir. Será
difícil falar em avivamento e transformação no Brasil enquanto
tantas igrejas continuam a adotar um estilo de vida de ostentação e
prosperidade. Vale lembrar que parte considerável do povo
brasileiro ainda vive em situação de miséria. René Padilla nos
lembra que a pobreza do Terceiro Mundo coloca um ponto de
interrogação sobre o estilo de vida das pessoas (e especialmente
[clxxx]
dos cristãos) no mundo ocidental.
Uma das melhores expressões para descrever a liderança
pastoral no contexto brasileiro seria a do missionário-diácono. De
acordo com Carlos Gattinoni, diakonia indica trabalho sério e
vigoroso. Dia significa “através”, e konos refere-se à tarefa do
condutor de camelos que passa no meio de uma multidão a pé,
enquanto o dono está sentado no lombo do animal. Pastores e
líderes não podem perder a simples e humilde dimensão desse ato,
que capta a natureza íntima da liderança missional.
A primeira crise experimentada pela igreja primitiva estava
relacionada às necessidades das viúvas convertidas. Embora
reconhecessem a prioridade da oração e do serviço (diakonia) da
palavra, os apóstolos buscaram líderes que pudessem servir
(diakonein) às mesas. É interessante destacar que, logo em
seguida, os mesmos garçons serviram em funções missionárias:
Estêvão, como pregador e evangelista; Filipe, como evangelista e
avivalista; e assim por diante.
É evidente a relação dinâmica e direta entre serviço e missão.
Diaconia descreve a obra de servir a Cristo continuamente por meio
do ministério com a mesma intenção de ser servo como ele foi.
Serviço é fruto visível da atividade missionária de uma igreja
missional; é a realização do mandamento “amar ao próximo como a
si mesmo”. A igreja-em-serviço mostra amor com palavras e
também com obras de justiça e misericórdia. Servimos, num lugar
concreto, a pessoas reais, tal qual Jesus preocupou-se com o ser
humano integral: o corpo físico e as enfermidades de alma.
A convicção de que Deus está preocupado com a totalidade do
ser humano parte da seguinte perspectiva: o reino está entre nós.
Devemos sinalizar a vitória de Deus sobre a exploração, a injustiça,
a exclusão social, o racismo, a miséria, o sofrimento e a violência. A
igreja precisa deixar a periferia das decisões sociais mais
importantes para se tornar líder e pioneira no trabalho de
transformação do mundo. Lutamos por mais justiça onde a justiça
absoluta não pode existir. Vivemos pela graça, como devedores da
[clxxxi]
caridade de Deus.
Esse é o coração do problema. A atitude de Jesus ao desafiar os
poderes que governam este mundo não foi secundária em seu
ministério. A luta contra principados e potestades era central. Sem a
vitória sobre o príncipe das trevas e o mal estrutural, não poderia
haver evangelho integral. Portanto, o desafio diácono-social da
igreja também abrange os cristãos mais prósperos, com seus
valores e seus ideais, suas ambições, seus sonhos e seu estilo de
vida. Como afirmou Leonildo Campos:

A busca do novo céu e da nova terra fora do mundo e da


história é uma opção limitada, e não mais atrai a totalidade dos
excluídos econômica e socialmente. Há, neste momento, uma
massa emergente de indivíduos que se sentem à margem do
mercado, querem usufruir do conforto proporcionado pelo
consumo e, por tal motivo, optam por uma ética centrada no
“aqui-e-agora”. Tendem estes a abandonar todo templo que
proponha uma “comunidade renunciante” e preferem outras
alternativas que lhes acenem com uma “comunidade
[clxxxii]
integradora”.

A resposta a este desafio diácono-social não pode ser dada


somente em termos de caridade, assistencialismo e programas de
ajuda. Precisa se materializar no compartilhamento de riquezas e no
serviço por meio dos dons para atender às exigências de justiça
social e paz na comunidade. A verdadeira igreja missional não vive
em busca de sucesso e crescimento, mas age de acordo com a
paixão de Deus por justiça, paz e desejo de restauração da criação.
Não é possível a uma igreja transformada pelo genuíno amor de
Cristo isolar-se da dor e do sofrimento deste mundo. Pior: é
vergonhoso que tal igreja se recuse a gerar respostas práticas à
crise, distanciando-se de ações comunitárias restauradoras. O papel
da igreja é central. Seu envolvimento na arena pública é confissão
de sua missão. Ela é chamada para encarnar a justiça e manifestar
o amor de Deus. Como Abraham Heschel nos lembra, o centro do
que significa ser profeta é compartilhar o pathos de Deus: cuidar
daquilo que Deus cuida, sentir as coisas que Deus sente, ser
motivado pelas coisas que motivam Deus, amar as coisas que Deus
ama.
Isso tudo pode nos ajudar a colocar osso e carne sobre o
esqueleto seco dos dados demográficos e estatísticos, afetando a
visão, as estratégias e os recursos da igreja e colocando-a em
marcha pelo reino de Deus. O plano de ação envolve alguns
passos:

Visão e Valores

Objetivos e Estratégias

Implementação e Avaliação

Visão e valores
Sempre há o perigo de, após a coleta e a análise das informações, o
processo ser abortado. Ninguém sabe exatamente o que fazer com
essa pesquisa. Esse é o momento da interpretação: como relacionar
as descobertas com o futuro, com a visão de Deus para a igreja?
Nessa altura do processo, o líder missional deve se perguntar:
01. Quais são os valores centrais da igreja?
02. Qual é nossa finalidade nesta cidade?
03. Como a igreja pode cumprir a vontade do Senhor na região
em que está localizada?
04. Qual é a visão de evangelização integral que o Espírito Santo
deu a nossa igreja?
05. O que o Senhor deseja que eu faça?
06. Para onde a igreja está indo?
É fundamental uma leitura constante do momento específico da
missão de Deus na história concreta do ser humano. Assim, a ação
da igreja segue as orientações de Deus e cumpre sua missão na
terra. Para onde Deus está se movendo? O que Deus está fazendo
na história? Todo e qualquer plano de ação deve ser iniciado com
leitura da história a partir da perspectiva da vontade de Deus para
sua criação.
Portanto, centrada na Palavra, coberta por intercessão
estratégica, com uma missiologia contextualizada, sem desprezo
pelas informações coletadas, é necessário que a igreja e seus
líderes relembrem seus valores fundamentais, busquem
discernimento no Espírito Santo e conheçam a vontade do Senhor
para a cidade. É hora de envolver todos quanto possível num
processo de reflexão, decisão e ação. Um exemplo de plano de
ação seria reservar espaços na agenda da igreja para:
• Orar juntos.
• Compartilhar vitórias e lutas.
• Estudar o contexto e a cultura.
• Ouvir Deus falando por intermédio das Escrituras.
• Buscar discernimento e obediência.
[clxxxiii]
• Engajar-se em ministérios de cooperação.

Veja, a seguir, outro excelente exercício que pode ser utilizado


pelo líder missional para se identificar a visão, a essência das coisas
que inspiram e motivam a igreja-em-missão:
• Identificar os conceitos bíblicos fundamentais para o ministério
da igreja.
• Fazer uma lista dos principais valores da igreja.
• Certificar-se de que cada afirmação pode ser facilmente
traduzida em ações.
• Agrupar as frases similares, dando destaque às mais
importantes.
• Fazer uma lista preliminar de quatro a sete valores centrais.
• Verificar a integralidade (sistema): será que essa lista reflete com
fidelidade todos os aspectos essenciais da igreja e do
ministério?
• Descrever atitudes específicas que traduzirão em ações os
[clxxxiv]
valores centrais.
Este tipo de encontro exigirá tempo para reflexão e muito diálogo
entre os participantes. A fim de chegar a um consenso sobre como a
igreja pode cumprir sua parte na missão de Deus, é preciso adquirir
compreensão de forças sociais, processos culturais e valores que
modelam a sociedade e a igreja local. Outro excelente modelo que
ajuda a compreender o papel da igreja em sua cidade foi chamado
de igreja-comunidade e desenvolvido por David Britt, no livro
[clxxxv]
Planting and Growing Urban Churches:
Igreja Local

Estrutura / Competência
Institucional
Congruência Crescimento
Saudável

Membros em potencial
Culturas
Cosmovisão
Estruturas Comunitárias
Contexto

Quando os símbolos religiosos e valores culturais da igreja local


estão em harmonia com os da comunidade local, o evangelho
recebe mais atenção e receptividade. A diferença entre este e outros
modelos tradicionais de crescimento de igreja é sua relação de
congruência e identificação entre os valores da igreja local e os
valores do contexto que envolve a igreja. Vários pesquisadores
afirmam que essa é uma das razões pelas quais várias igrejas
neopentecostais brasileiras cresceram muito mais rápido que as
denominações históricas e tradicionais: elas assimilaram melhor o
jeitinho brasileiro de ser cristão, respeitando suas origens culturais e
religiosas.
É importante salientar que toda tentativa de congruência com a
sociedade deve se limitar a valores não essenciais ao evangelho.
Não podemos nos identificar com o mundo sob prejuízo da perda de
nossa identidade cristã.

Estabelecimento de objetivos e estratégias (plano de ação)


Partindo de uma visão clara e do estabelecimento dos valores, a
igreja missional deve montar seu plano de ação, ou seja, identificar
os objetivos principais (alvos), e as estratégias (como alcançar os
objetivos). Faz-se necessário também o estabelecimento de
estratégias específicas, de acordo com a visão dada por Deus. A
partir desta visão, as igrejas e pastores poderão gerar um plano de
ação com vistas à prática dessa mensagem de forma mais
direcionada e específica.

Plano de ação
(Objetivos + estratégias)

Objetivos e estratégias têm relação direta com os recursos


disponíveis, as oportunidades ao redor e as necessidades mais
urgentes. É importante perguntar sempre que estratégia ajuda mais a
chegar ao objetivo proposto com os recursos e as oportunidades de
que se dispõe? Os obstáculos ao avanço missional devem ser
antecipados — o terreno, por vezes, é árido, e deve ser devidamente
preparado.
Este plano não deve se tornar apenas um relatório de fim de
planejamento ou mais um documento de conclusão de conferência.
Sabe-se que homens e mulheres desenvolvem grandes visões, mas
encontram dificuldade na implementação e na realização prática
desses projetos. É necessário elaborar estratégias eficazes em
diferentes circunstâncias.
Além disso, o plano de ação não precisa utilizar termos técnicos,
nem ser monótono. Somente os dados de grandes implicações
estratégicas devem ser apresentados. É necessário explicar essas
implicações e sugerir as melhores opções. A tomada de decisão
deve ser confiada aos líderes e à orientação do Espírito.
Uma das maneiras mais eficazes para a geração de um plano de
ação é a utilização das quatro dimensões do crescimento integral de
Orlando Costas já mencionadas: numérica, orgânica, conceitual e
diaconal. Cada uma pode ser convertida em objetivos gerais e
estratégias específicas.
Outro exercício muito eficiente no desenvolvimento de um plano
de ação para a igreja local concentra-se na elaboração de uma
estratégia urbana de evangelização e implantação de igrejas:
01. Quantas são e onde estão as igrejas evangélicas na cidade?
02. Quais os bairros mais e menos alcançados com a presença
evangélica?
03. Que segmentos da população demonstram maior
receptividade em cada região da cidade?
04. Quais são mais vulneráveis às seitas e aos cultos não
evangélicos?
05. Que grupos urbanos precisam ser alcançados com maior
urgência?
06. Quais são as principais áreas da cidade onde se devem
implantar novas igrejas?
Pastores e líderes missionais devem buscar equilíbrio entre os
momentos em que a igreja está reunida para adoração, oração e
ordenanças e aqueles em que está espalhada, vivendo e
trabalhando num contexto social. De acordo com Emílio Castro, o
pastor deve sempre se engajar “dentro” e “fora” da igreja:

Dentro
01. Compreender o contexto em que vivem os membros da igreja
de tal maneira que possa discernir como as circunstâncias os
condicionam e determinam.
02. Entender as motivações e atitudes dos fiéis.
03. Explicar a ação libertadora de Deus na história e como cada
[clxxxvi]
membro deve se engajar num nível de ação possível.

Fora
01. Solidarizar-se com a comunidade e abrir portas para o diálogo
e a possibilidade do serviço pastoral.
02. Interpretar em que direção se deve orientar a sociedade.
03. Ser agente de reconciliação.
04. Estar presente pastoralmente entre os grupos de avanço da
sociedade.
[clxxxvii]
05. Interceder permanentemente pela comunidade.
Costas afirma isso de outra forma. Para ele, a igreja possui dois
movimentos muito claros: centrípeto e centrífugo. O centrípeto (de
fora para dentro) refere-se às atividades internas da igreja. O
centrífugo refere-se ao movimento de dentro para fora, implícito na
[clxxxviii]
Grande Comissão.
No ministério do pastor missional, as funções de “dentro” e de
“fora”, “centrípeto” e “centrífugo” possuem caráter complementar.
Uma completa a outra. A ação pastoral de “dentro” (descobrimento
de dons, serviço, educação cristã, aconselhamento e administração)
comissiona e envia a igreja para exercer as funções de “fora”
(oração pela cidade, visão da realidade, ações concretas e
mensuráveis que ajudem a medir a presença do reino de Deus na
terra).

Implementação e avaliação
Estabelecido o plano de ação, com objetivos e estratégias, os líderes
missionais precisam implementar e executar o plano. Sem isso, se
perde o rumo da visão e o ritmo de crescimento. Todo o esforço do
plano de ação redundará em fracasso e ineficácia. E, mesmo
quando colocado em prática, precisa ser avaliado com regularidade.
A falta de revisão de objetivos e estratégias pode acarretar
frustração e atraso no avanço da missão da igreja na cidade.
Enfatizando primordialmente a implantação de igrejas em grupos
étnicos e regiões menos alcançadas da cidade, os líderes
missionais podem refletir especificamente sobre seus alvos para os
anos seguintes. Tanto em âmbito local quanto denominacional,
devem responder às seguintes questões:
01. Quantas igrejas serão implantadas em cinco anos?
02. Quantas igrejas serão implantadas em três anos?
03. Quantas igrejas serão implantadas até o ano que vem?
04. Quais são os modelos bíblicos de implantação e
evangelização que a igreja ou denominação se sente mais
confortável para utilizar?
05. O que se pode fazer para incentivar a igreja a plantar outras
congregações?
06. Quais serão os bairros prioritários para implantação de
igrejas?
07. Quais serão os projetos e ministérios desenvolvidos nestes
bairros?
08. Quais serão e onde serão desenvolvidos os projetos sociais
prioritários?
09. Com quais igrejas ou denominações é possível dialogar e
estabelecer parceria?
10. Que passos a liderança da igreja ou da denominação deve dar
para aumentar a prioridade na implantação de igrejas
saudáveis?
11. O que o grupo pode fazer para alcançar maior consenso
diante desses objetivos?
12. Como potencializar o compromisso e a paixão dos membros
da igreja para alcançar os não-cristãos?
13. Como desenvolver estratégias de oração que capacitem
movimentos de implantação de igrejas?
14. Quanto começar a investir nesta visão? Que percentagem do
orçamento isso representa?

Note que o objetivo dessas perguntas é gerar maior compromisso


do grupo com a visão missional, inclusive com envolvimento pessoal
em todo o projeto. Uma maneira de fazer o processo funcionar é
valer-se de dinâmicas de grupos pequenos para debate e diálogo.
Isso ajuda o grupo a arregaçar as mangas e se envolver mais
diretamente na visão. Outra boa ferramenta para planos de ação é a
seguinte:
01. Resuma o plano de ação que pretende realizar em poucas
frases, de preferência em um único parágrafo.
02. O que você pretende realizar a partir desse plano? Quando
você pretende começar e quais serão os prazos para colocar
esse plano em prática?
03. Quais serão os passos específicos para realizar esse plano?
04. O que pode afetar o desenvolvimento do plano? Como obter
essas informações antes de começar a colocar em prática o
plano de ação?
05. Com que recursos você poderá contar (tempo, energia,
capacidade, compromisso, experiência, pessoas etc.)? De que
outros recursos precisará?
06. Que limitações ou barreiras podem surgir no desenvolvimento
do plano? Quais podem ser contornadas ou eliminadas?
07. Que tarefas, ações ou estratégias específicas devem ser
iniciadas, e de acordo com qual agenda, para que o plano de
ação funcione?
08. Implemente! Realize!
09. Avalie. Você conseguiu? Quanto sucesso obteve? Encontrou
dificuldades inesperadas? Tem alguma informação nova que
pode ajudar a reciclar e renovar o processo de planejamento?
[clxxxix]
Qual será seu próximo plano de ação?
A avaliação é o momento da revisão de objetivos, da verificação
do andamento de cada estratégia, de cada aspecto do
planejamento, de cada resultado por meio de um monitoramento
contínuo, pragmático e funcional. É a oportunidade de observar se o
programa é muito rígido ou complicado e ajustar os objetivos e
estratégias, quando necessário. Também é uma boa chance de
estimular e apoiar a equipe. Veja esta ferramenta eficaz que pode
[cxc]
ser utilizada para a avaliação do ministério:

Programa
Data:
desenvolvido:
Valor central:
Objetivos mensuráveis:
Observações e reflexão
1. Vitórias significativas:
2. Resultados mensuráveis:
3. Lições aprendidas:
4. Análise orçamentária:
5. Recomendações:

Como já observamos, há uma dicotomia no mundo moderno que


tenta separar as coisas que acontecem dentro da igreja das coisas
que acontecem fora dela. As de dentro incluem ministérios,
programas e atividades espirituais e sociais que servem para
fortalecer a organização. As de fora compreendem questões
familiares, profissionais, seculares, a rede social, os
relacionamentos e tudo o que aparentemente não tem relação direta
com a vida da igreja. Isso prova ser uma falácia que vai contra o
modelo encarnacional do ministério de Jesus, de acordo com
George Hunsberger:
A dinâmica do ser chamado para fora das esferas sociais do
mundo e pressionado para dentro delas representa o caráter
encarnacional da igreja missional. A vida e o trabalho diários
são os lugares onde nossa vocação missional mais vividamente
acontece. A igreja missional é melhor imaginada não somente
como aquela que é destilada, extraída, precipitada para fora de
seu contexto social, mas também aquela que é pressionada,
costurada dentro do pano, enfiada dentro da massa, dissolvida
[cxci]
dentro da solução.
A liderança missional implica ações e metas específicas para
dentro e fora da igreja. O valor de nossos ministérios e projetos é
proporcional à relação que guardam com a missão da igreja no
mundo. A igreja-em-missão oferece respostas ao dentro por meio de
dons e ministérios que o Espírito derrama, e expressa o fora com
serviço missional e diaconal que demonstre amor, justiça e
misericórdia.
Conclusão

Há boas razões pelas quais o povo de Deus é chamado o “povo do


livro”. A igreja representa a comunidade que encarna a Palavra
como seu testemunho. A Bíblia deve fundamentar e determinar
nosso caráter e nossas atividades, nosso ministério e nosso estilo
de liderança. Dentro do paradigma missional, a história bíblica é
única e incomparável. A Bíblia deve ser o ponto inicial para qualquer
modelo de liderança missional no Brasil.
Contudo, boa parte do povo brasileiro tem uma relação
supersticiosa com a Palavra de Deus. A Bíblia aberta,
especialmente no salmo 91, pode ser vista na sala da maioria das
casas brasileiras como amuleto de proteção contra o mal. Outros
procuram versículos de maneira aleatória: onde parar o dedo, ali
está Deus falando. Não por razões místicas, mas hermenêuticas, a
Bíblia deve ser a bússola que norteia pastores e líderes no
desenvolvimento de seu projeto ministerial. A proposta de liderança
missional é de engajamento na Palavra.
Vimos que o Deus missionário atua na história e na cultura. A
liderança missional deve ouvir a Palavra, engajar-se em sua
verdade e viver a realidade da vinda do reino na cidade. Em vez de
interpretar a Bíblia, precisamos interpretar o mundo e a missão
tendo as Escrituras como base. Um dos objetivos dessa proposta de
liderança missional é, usando as palavras de Mariano Artega,
“promover uma cosmovisão bíblica a partir da qual se possa ler a
[cxcii]
realidade tirana, interpretá-la, denunciá-la e transformá-la”.
Para tanto, a Bíblia deve se tornar novamente norma de fé e guia
de prática para a igreja-em-missão, que tem a responsabilidade de
refletir sobre sua realidade social e cultural. Diz René Padilla: “Não
há maior contribuição que a igreja possa dar à humanidade que o
[cxciii]
evangelho de Jesus Cristo e seu poder libertador”.
Líderes missionais são profetas da atualidade. Eles aplicam a
Palavra de Deus às cidades brasileiras de maneira contextual e num
tempo específico. Sua voz profética é resultado de uma reflexão
original e autêntica das condições sociais e da realidade do país. A
igreja perderá o rumo se não conseguir responder claramente às
angústias e indagações mais profundas da alma brasileira com o
evangelho de Jesus. Sem esta voz profética, a liderança continuará a
ser muito mais influenciada pelos paradigmas e tendências culturais
da primeira parte deste livro do que pelo modelo encarnacional de
Cristo. Além disso, manterá a condição de gueto.
A igreja não é um fim em si mesma. A liderança missional deve
mobilizar e capacitar os cristãos para o cumprimento da missão de
Deus na cidade e a vinda de seu reino na terra. Este é o desafio
apresentado nesta obra. Se você deseja aplicar os princípios
contidos neste livro, sugiro que se aprofunde no estudo dos quatro
aspectos principais que se interligam e se complementam nos
diversos capítulos. Para mim, eles exprimem as marcas mais
significativas da genuína liderança missional brasileira:
• Quem somos: Padrão bíblico
• Onde estamos: Padrões histórico e contextual
• Em que ambiente estamos: Padrão cultural
• O que e como devemos fazer: Padrão prático
Uma liderança missional saudável traça diretrizes para uma ação
comprometida com cada pessoa, conhecendo sua situação concreta
dentro de seu contexto. Nas palavras de Orlando Costas, há “a
necessidade de uma contínua leitura do momento específico da
[cxciv]
missão de Deus na história concreta do homem”. Precisamos,
então, mobilizar o líder missional na realização de pesquisas,
análises, leituras e interpretações da situação histórico-geográfica e
do contexto social e político em que sua igreja encontra-se inserida.
Observe atentamente o contexto e a realidade da região onde sua
igreja está localizada. Faça uma análise das necessidades mais
prementes da comunidade ao redor. Crie na sua igreja uma
atmosfera que demonstre a importância da observação histórica e a
relevância do contexto na busca de sua identidade missionária. Mas
lembre-se daquilo que vimos sobre a essência do ministério: Jesus
será sempre o modelo para decifrar e interpretar as cidades
brasileiras. Ele abre as portas para a análise social e científica do
ser humano. Ele se preocupa com cada homem e mulher, e com o
todo do homem e da mulher brasileira.
O plano de ação precisa dessa coerência. É claro que esta obra
não pretendeu oferecer receitas e respostas prontas, mas se dispôs a
levantar princípios, propor algumas alternativas e oferecer
direcionamentos e orientações que auxiliem o líder missional na
busca de sua identidade missionária e na descoberta da vontade de
Deus para sua vida e seu ministério. Tendo chegado ao fim do livro e
com isso em mente, meu desejo é que o Senhor o ilumine, dirija e
abençoe nessa imensa tarefa de compreender e discernir os tempos
atuais.
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1 The Church Between Gospel and Culture, p. 114.

[ii]
Donald POSTERSKI, Future Faith Churches, p. 119.

[iii]
A Bíblia e a missão integral da igreja, p. 46.

[iv]
Missão transformadora, p. 95.

[v]
Esta também é uma preocupação de vários teólogos latino-americanos, como Orlando
Costas, René Padilla, Leonildo Silveira Campos, Júlio de Santana, José Rubens
Jardelino, Alberto Tapia e Samuel Escobar, entre outros.

[vi]
Igreja: comunidade missionária, p. 183.

[vii]
Hacia una Pastoral Latinoamericana, p. 29.

[viii]
El Protestantismo en América Latina Hoy, p. 80.

[ix]
Pastoral: perspectiva histórica e desafios atuais, p. 30.

[x]
Igreja: comunidade missionária, p. 200.
[xi]
A World Gone Bananas, p. 27.

[xii]
The Urban Christian, p. 23.

[xiii]
La Actualidad de la Pastoral Paulina, p. 91.

[xiv]
Veja www.tribalgeneration.com, associado ao ministério Brasil 2010, para uma
discussão sobre as gerações emergentes do Brasil.

[xv]
Missão integral, p. 143.

[xvi]
El Protestantismo en América Latina Hoy, p. 81.

[xvii]
Igreja: comunidade missionária, p. 182.
[xviii]
Hacia una Pastoral Paulina, p. 92.

[xix]
Igreja & sociedade: o desafio de ser cristão no Brasil do século XXI, p. 120.
[xx]
Idem, p. 121.

[xxi]
O que faz o Brasil, Brasil?, p. 120.
[xxii]
Citado por Paul HIEBERT, The Gospel in Our Culture, p. 149.
[xxiii]
P. 227.

[xxiv]
Missional Church, p. 72-75.

[xxv]
P. 35.

[xxvi]
God’s Missionary People, p. 165.

[xxvii]
Why Resident Aliens Struck a Chord, p. 426.

[xxviii]
Paul HIEBERT, The Gospel in Our Culture, p. 145.

[xxix]
Van GELDER, The Essence of the Church: A Community Created by the Spirit, p.
22-23.
[xxx]
Igreja: comunidade missionária, p. 183.

[xxxi]
The Gospel in Our Culture: Methods of Social and Cultural Analysis, p. 147.

[xxxii]
Van GELDER. The Essence of the Church: A Community Created by the Spirit, p.
24.
[xxxiii]
Darrel GUDER, Missional Church, p. 201.
[xxxiv]
Leonildo CAMPOS, Teatro, templo e mercado, p. 172.

[xxxv]
M. Douglas MEEKS, Global Economy and the Globalization of Theological Education,
p. 256.
[xxxvi]
A World Gone Bananas. Globalization and Economics, p. 13.

[xxxvii]
K. P. ALEAZ, Globalization of Poverty and the Exploitation of the Gospel, p. 167.
[xxxviii]
J. Andrew KIRK, Mission in the West, p. 123.

[xxxix]
Lesslie NEWBIGIN, The Gospel in a Pluralistic Society, p. 1.

[xl]
Alister E. MCGRATH, Pluralism and the Decade of Evangelism, p. 107.

[xli]
Teatro, templo e mercado, p. 203.

[xlii]
Igreja & sociedade, p. 118.

[xliii]
George R. HUNSBERGER, The Church in the Postmodern Transition, p. 98.

[xliv]
Eugene H. PETERSON, Um pastor segundo o coração de Deus, p. 2.

[xlv]
Donald POSTERSKI, Future Faith Churches, p. 171.
[xlvi]
Howard HAUERWAS, Discipleship as a Craft, Church as a Disciplined Community, p.
81.
[xlvii]
Citado por Donald POSTERSKI e Gary Vincent NELSON em Future Faith Churches,
p. 15.

[xlviii]
George R. HUNSBERGER, Features of the Missional Church, p. 9.

[xlix]
Teatro, templo e mercado, p. 266.

[l]
O marketing e as estratégias de comunicação da Igreja Universal do Reino de Deus, p. 35.
[li]
Teatro, templo e mercado, p.73.

[lii]
Luciano Jaramillo CÁRDENAS, Missão e inserção missionária, p. 18.

[liii]
Igreja & sociedade, p. 126.

[liv]
Missional Church, p. 200.

[lv]
A Peculiar People, p. 36.

[lvi]
El Protestantismo en América Latina Hoy, p. 77.
[lvii]
Lamin SANNEH, Encountering the West, p. 221.

[lviii]
Citado em Darrel L. GUDER, Missional Church, p. 180.

[lix]
Gerhard KITTEL e Gerhard FRIEDRICH, The Theological Dictionary of the New
Testament.

[lx]
Craig Van GELDER, The Essence of the Church, p. 107-113.

[lxi]
P. 610-616.

[lxii]
P. 356-374.

[lxiii]
Citado por David BOSCH em Missão transformadora, p. 611.

[lxiv]
Future Faith Churches, p. 197.

[lxv]
The Gospel in a Pluralist Society, p. 158.

[lxvi]
The Contemporary Christian, p. 356.
[lxvii]
Stanley HAUERWAS & William H. WILLIMON em Christianity Today, p. 16.
[lxviii]
Lesslie NEWBIGIN, Your Kingdom Come, p. 41.

[lxix]
Douglas WEBSTER, Yes to Mission, p. 64.

[lxx]
Citado por John STOTT em The Contemporary Christian, p. 357.

[lxxi]
Luciano Jamarillo CÁRDENAS, Boletim Teológico/FTL-Brasil, p. 11.

[lxxii]
Darrell L. GUDER, Ser Testigos de Jesucristo, p. 46.

[lxxiii]
David BOSCH, Missão transformadora, p. 456.

[lxxiv]
Ser Testigos de Jesucristo, p. 197.

[lxxv]
Walter BAUER, Wilbur GINGRICH & Frederick Wilbur DANKER, A Greek-English
Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature, p. 321.
[lxxvi]
Citado por Stanley HAUERWAS & William H. WILLIMON em Missiology: An
International Review, p. 421.
[lxxvii]
Missiology: An International Review, p. 421.

[lxxviii]
Em A Devotional Commentary, p. 151-152.
[lxxix]
Unfinished Agenda, p. 11-12.

[lxxx]
Lesslie NEWBIGIN, The Open Secret, p. 118.

[lxxxi]
Lesslie NEWBIGIN, Foolishness to the Greeks, p. 123.

[lxxxii]
Lesslie NEWBIGIN, The Gospel in a Pluralist Society, p. 107.

[lxxxiii]
P. 99.

[lxxxiv]
Douglas WEBSTER, Yes to Mission, p. 101-102.

[lxxxv]
The Contemporary Christian, p. 363.

[lxxxvi]
Let the Nations Be Glad: The Supremacy of God in Missions, p. 96.

[lxxxvii]
Foolishness to the Greeks, p. 64. Newbigin desenvolve esse argumento também
em The Light Has Come, p. 14.
[lxxxviii]
New Directions in Mission and Evangelism, p. 85.

[lxxxix]
Donald C. POSTERSKI, True to You, p. 182.
[xc]
Lesslie NEWBIGIN, Foolishness to the Greeks, p. 148-149.

[xci]
David Lowes WATSON, The Church Between Gospel and Culture, p. 197.

[xcii]
Unfinished Agenda, p. 254-255.

[xciii]
David BOSCH, Missão Transformadora, p. 613.

[xciv]
Lesslie NEWBIGIN, The Gospel in a Pluralist Society, p. 116-117.

[xcv]
The Missionary Nature of the Church, p. 84.

[xcvi]
Citado por Jun Vencer num encontro em Colorado Springs, junho/2002.

[xcvii]
Rodney CLAPP, A Peculiar People: The Church as Culture in a Post-Christian Society,
p. 154.
[xcviii]
Citado por David BOSCH em Missão transformadora: mudanças de paradigma na
teologia da missão, p. 453-454.
[xcix]
Stanley HAUERWAS & William H. WILLIMOn, Sojourners, p. 30.

[c]
The Great Divorce, p. 66.

[ci]
Sign of the Kingdom, p. 19.
[cii]
Stanley HAUERWAS, Truthfulness and Tragedy, p. 142-43.
[ciii]
Misión, p. 13.

[civ]
The Decisive Hour of Christian Mission, p. 193.

[cv]
Darrel GUDER, Missional Church, p. 142.

[cvi]
Idem, p. 173.

[cvii]
Idem, p. 453.

[cviii]
The Gospel in a Pluralist Society, p. 147.

[cix]
Karl MÜLLER, Teologia da missão, p. 100-101.

[cx]
A Peculiar People: The Church as Culture in a Post-Christian Society, p. 147.
[cxi]
Lesslie NEWBIGIN, Foolishness to the Greeks, p. 134.

[cxii]
Lesslie NEWBIGIN, The Gospel in a Pluralist Society, p. 125.
[cxiii]
David BOSCH, Missão transformadora: mudanças de paradigma na teologia da
missão, p. 219.

[cxiv]
Idem, p. 616.

[cxv]
Lesslie NEWBIGIN, The Gospel in a Pluralist Society, p. 128.

[cxvi]
Luciano Jaramillo CÁRDENAS, A Bíblia e a missão integral da igreja, p. 41.

[cxvii]
Bases Bíblicas de la Misión, p. 138.

[cxviii]
Darrel L. GUDER, Missional Church, p. 185.

[cxix]
Emílio CASTRO, Hacia una Pastoral Latinoamericana, p. 15.

[cxx]
James V. BROWNSON, The Church Between Gospel and Culture, p. 251.

[cxxi]
Ver mais em Emílio CASTRO, Hacia una Pastoral Latinoamericana, p. 94.

[cxxii]
David Lowes WATSON, The Church Between Gospel and Culture, p. 189.
[cxxiii]
The Form and Structure of the Visible Unity of the Church, p. 444-451.

[cxxiv]
Darrel L. GUDER, Missional Church, p. 187.

[cxxv]
Missão transformadora, p. 617-619.

[cxxvi]
Missão integral, p. 139.

[cxxvii]
George R. HUNSBERGER, Between Gospel and Culture Church, p. 291.

[cxxviii]
Estudos teológicos, p. 192.

[cxxix]
God ’s Reign and the Rulers of this World, p. 90-92.

[cxxx]
A responsabilidade missionária da igreja, p. 23.

[cxxxi]
Citado por Samuel ESCOBAR, Desafios da igreja na América Latina, p. 62.

[cxxxii]
Igreja, comunidade missionária, p. 184.

[cxxxiii]
Valdir STEUERNAGEL, Igreja: comunidade missionária, p. 187.
[cxxxiv]
David Lowes WATSON, The Church Between Gospel and Culture, p. 192.

[cxxxv]
Lesslie NEWBIGIN, The Gospel in a Pluralist Society, p. 137-140.

[cxxxvi]
Tom SINE, Which Scenarios Are Most Likely, p. 34.

[cxxxvii]
Lesslie NEWBIGIN, The Open Secret, p. 94.

[cxxxviii]
Bases bíblicas, p. 433.

[cxxxix]
Citado por Emílio CASTRO, Hacia una Pastoral Latinoamericana, p. 86.

[cxl]
Missão transformadora, p. 487.

[cxli]
Idem, p. 500.

[cxlii]
Idem, p. 589.

[cxliii]
The Finality of Christ, p. 96.
[cxliv]
E. Stanley JONES, Faith Future, p. 20.

[cxlv]
El Protestantismo en América Latina Hoy: Ensayos de Camino, p. 106.

[cxlvi]
David BOSCH, Missão transformadora, p. 50.

[cxlvii]
Samuel ESCOBAR, Desafios da igreja na América Latina, p. 60.

[cxlviii]
Valdir STEUERNAGEL, Igreja: comunidade missionária, p. 201.

[cxlix]
Eduardo HOOMART, História geral da igreja na América Latina, p.157.

[cl]
Valdir STEUERNAGEL, Igreja: Comunidade missionária, p. 208.

[cli]
Emilio CASTRO, Hacia una Pastoral Latinoamericana, p. 108-115.

[clii]
Stanley HAUERWAS & William H. WILLIMON, Resident Aliens: Life in the Christian
Colony, p. 44-49.
[cliii]
A Peculiar People: The Church As Culture In A Post-Christian Society, p. 86.
[cliv]
Orlando COSTAS, El Pastor como Agente Movilizador, p. 7.

[clv]
James ENGEL, How Can I Get Them to Listen?, p. 13.
[clvi]
Emilio CASTRO, Hacia una Pastoral Latinoamericana, p. 19.

[clvii]
The Church Between Gospel and Culture, p. 231-237.

[clviii]
O que faz o brasil, Brasil?, p. 118.

[clix]
Religiosidade, p. 46.

[clx]
Ver mais em Raízes do Brasil, p. 29-193.

[clxi]
Leonildo S. CAMPOS, Religiosidade, p. 48.

[clxii]46
Roberto DAMATTA, O que faz o Brasil, Brasil?, p. 120.

[clxiii]
Religiosidade, p. 50.

[clxiv]
O que faz o Brasil, Brasil?, p. 117.
[clxv]
A Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) estima que apenas 20% dos
mais de 80 milhões de católicos brasileiros vão regularmente às missas dominicais.
[clxvi]
Teatro, templo e mercado, p. 20, 36.
[clxvii]
Igreja: comunidade missionária, p. 226.

[clxviii]
Missão integral, p. 139.

[clxix]
Roldão ARRUDA, “Religião sob medida”. O Estado de São Paulo, 27/1/2002.

[clxx]
Missão integral, p. 140.

[clxxi]
Craig van GELDER, The Church Between Gospel and Culture, p. 305.

[clxxii]
El Pastor como Agente Movilizador, p. 3.

[clxxiii]
Dimensiones del Crecimiento Integral de la Iglesia, p. 8-14.

[clxxiv]
Dimensiones del Crecimiento Integral de la Iglesia, p. 11.

[clxxv]
Dimensiones del Crecimiento Integral de la Iglesia, p. 12.

[clxxvi]
Evangelización contextual, p.100.

[clxxvii]
Adaptado do software CompuCoach, criado por Robert E. Logan.
[clxxviii]
Uma análise mais detalhada com o mapa da cidade encontra-se no livro II da
série Revolução silenciosa (Editora Palavra).

[clxxix]
A partir do endereço completo, nossa equipe, em Londrina, do Brasil 2010 pôde
elaborar uma pesquisa detalhada do bairro onde se localiza qualquer igreja.

[clxxx]
Missão integral, p. 143-150.

[clxxxi]
Lesslie NEWBIGIN, Whose Justice, p. 310.

[clxxxii]
Teatro, templo e mercado, p. 135.

[clxxxiii]
E. Dixon JUNKIN, , p. 312-313.

[clxxxiv]
Adaptado do software CompuCoach, criado por Robert E. Logan.

[clxxxv]
P. 143.
[clxxxvi]15
Cuidado pastoral del hombre, p. 102.

[clxxxvii]
Emilio CASTRO, Cuidado Pastoral de la Comunidad Secular. Citado em Orlando
COSTAS, El Protestantismo en América Latina Hoy, p. 102.
[clxxxviii]
El Protestantismo en América Latina Hoy, p. 91.

[clxxxix]
Adaptado do software CompuCoach, criado por Robert E. Logan.

[cxc]
Idem.

[cxci]
Features of the Missional Church: Some Directions and Pathways, p. 9.

[cxcii]
Bases Bíblicas de la Misión, p. 138.

[cxciii]
Missão integral, p. 142.

[cxciv]
El Protestantismo en América Latina Hoy, p. 91.

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