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AS PRÁTICAS HOLÍSTICAS E A COMPROVAÇÃO

CIENTÍFICA

As práticas holísticas e a comprovação científica

Angel Mar Roman

Escrevi há algum tempo um artigo sobre as diversas visões acerca do


tratamento de doenças, considerando que a cada metodologia
corresponderia uma “igreja”: cada uma com sua liturgia e dogmas ou
modelo de compreender, desenvolver e avaliar o ato terapêutico.

É impossível não concordar que, pelo seu objeto de estudo, a Santa


Madre Igreja da Biomedicina (apelidada, por Hahnemann, de “Alopatia”)
desenvolve um corpo de doutrina importante e necessário. Porém, por
ter se tornado hegemônica, por razões econômicas, políticas e sociais,
passou a ser A visão da “realidade” e não apenas UMA das visões
possíveis.

A partir dessa posição, muitos pastores dessa igreja ousam lançar


julgamentos e avaliações de atos terapêuticos de fora de seus domínios,
propostos por outras igrejas: a diluição homeopática não tem lógica
dentro do repertório biomédico, portanto é fantasia; os meridianos da
acupuntura são outra fantasia, pois as ferramentas disponíveis não são
capazes de pesar ou medir. E, se acaso, uma Fragaria (gênero de
planta ao qual pertence o morango) tiver algum resultado detectável
pelos seus instrumentais, certamente isso se deve a algum princípio de
natureza material. Não há avaliação de processo. Só de resultados.

Além das equações

A Biomedicina é subsidiária da Ciência Moderna, inaugurada no século


XVI, que promoveu a redução matemática do mundo e dos fenômenos
da vida. Mesmo que esses saberes sejam insuficientes para o cuidado
clínico, uma vez que a vida é mais do que equações lógicas, a
Biomedicina produziu sim importantes metodologias e ferramentas
científicas para aferir eficácia e efetividade dos seus atos terapêuticos.
Cito como exemplo a medicina baseada em evidência (MBE). Fármacos
químicos TÊM que ser submetidos ao escrutínio da MBE, porque são de
sua lavra, são produtos dessa igreja.

A questão é que resultados que não podem ser pesados e medidos


pelas ferramentas da prática hegemônica são desqualificados. Então,
muitas vezes, quem se filia a outras igrejas que não a Alopatia tem que
traduzir seus resultado para a nomenclatura da Biomedicina e seus
indicadores: mortalidade, tempo de sobrevida, tempo de internação, etc.,
que fazem parte da gramática, ritos e regras dessa igreja hegemônica.

Outros santos

Tudo bem agirmos assim, mas temos que cuidar para não crer que essa
seja a verdadeira meta de nossa prática, pois essas ferramentas foram
desenvolvidas com os pressupostos da Biomedicina e são insuficientes
para aferir resultados de outras racionalidades. É preciso insistir que as
racionalidades não biomédicas não são da Ciência. Usam outros ritos,
professam outros santos. E, quando reivindicam o caráter de
cientificidade, estão descaracterizando – traindo, se mantivermos a
analogia com igrejas – sua liturgia.

A Homeopatia, assim como outras racionalidades médicas, não são da


Ciência oficial, acadêmica. E isso está bem. Não há problema. Cada
uma tem um corpo teórico próprio e suficiente (os homeopatas chamam
sua teoria de “Filosofia”), que basta para avaliar se houve sucesso
terapêutico.

Sabemos que há pastores e padres que se preocupam mais com o


dízimo do que com sua missão de cuidar dos fiéis. Mas, certamente, a
grande maioria desenvolve sua tarefa imbuído do desejo de ajudar as
pessoas, amenizar sua dores, curar suas doenças e orientá-las para
terem uma vida saudável. Se livrá-las do inferno, melhor ainda! Quero
dizer que não há conflito de interesses entre as igreja, apenas
diversidade terapêutica, litúrgica e dogmática.

Religare

Gostaria, aproveitando o tema em debate, de fazer uma proposta


religiosa: que os pastores das diversas igrejas menores se sentem
juntos e conversem, compartilhando seus textos sagrados e liturgias,
buscando o que é compatível com os missais da Santa Igreja Alopatia
pensando na melhor forma de atender os fiéis.

O começo disso é escrever as diretrizes e construir a aliança dos


profissionais que queiram participar. Ou o contrário: construir a aliança
e, juntos, desenhar as diretrizes para relatar o percurso terapêutico que
atingirá ou não o desfecho previsto.

Pra terminar: a Psicanálise – abominada pelos ortodoxos-fanáticos da


Ciência – nunca se preocupou em ser científica. Não quis ir pra
academia. Foi a academia que foi atrás dela. Então me pergunto: será
que não devemos aprofundar nossa prática ampliadora e reencantadora
da clínica biomédica e, com isso, oferecer para o pensamento
hegemônico essa nossa ampliação?

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