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DOI: 10.5747/ch.2019.v16.n2.h416
ISSN on-line 1809-8207

Submetido: 13/05/2019 Correções: 20/06/2019 Aceite final: 25/06/2019

A PERIODIZAÇÃO DA ATIVIDADE HUMANA PARA VYGOTSKI, LEONTIEV E ELKONIN:


RUPTURA OU CONTINUIDADE?
Eliete Zanelato¹, Sônia da Cunha Urt²

¹Doutoranda em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Professora da Universidade
Federal de Rondônia (UNIR), Campus de Ariquemes, Departamento de Ciências da Educação (DECED). E-mail:
elietezan@gmail.com
²Doutora em Educação com Pós-doutoramento em Psicologia Educacional pela Universidade Estadual de Campinas
(UNICAMP), Pós-doutoramento na Universidade de Alcalá de Henares-ES e na Universidade de Lisboa-PT. Professora
titular aposentada e professora pesquisadora Sênior dos Programas de Pós-graduação em Educação e em Psicologia
da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

RESUMO
A compreensão do ser humano concreto, não dualista, com bases dialéticas, foi uma preocupação desde a
primeira geração da escola psicológica soviética. Os estudos elaborados por essa escola, posteriormente
denominada Psicologia Histórico-Cultural, subsidiaram a compreensão de que ao longo da vida, ao realizar
atividades para manter sua sobrevivência, o ser humano modifica suas condições externas e internas, isto
é, modifica o meio em que vive e suas funções psíquicas. No presente artigo, o objetivo que se insere é a
análise da periodização da atividade humana, em Vygotski (1896-1934), Leontiev (1903-1979) e Elkonin
(1904-1984), na busca por elementos que interponham continuidades ou rupturas de suas bases. Trata-se
de três autores clássicos que dão fundamentação psicológica aos estudos da Pedagogia Histórico-Crítica e
que, apesar de pertencerem à mesma escola psicológica, trazem ênfases diferenciadas para pensar a
periodização. Para alcançar o objetivo almejado foi realizada uma busca nos textos clássicos desses
autores, disponibilizados em português e espanhol, e elaborado um quadro comparativo a partir dos
principais períodos: primeira infância, infância, adolescência e vida adulta. A linha de defesa adotada é a de
que os estudos da periodização apresentados por Leontiev e Elkonin são uma continuidade dos estudos de
Vygotski. Esse último se dedicou mais às questões internas, à elevação do nível de desenvolvimento
psíquico, sem deixar de considerá-lo dependente da situação de vida concreta. Já Leontiev e Elkonin
exploram mais a influência da atividade social no desenvolvimento psíquico e das relações estabelecidas,
tomando como base as categorias de atividade dominante.
Palavras chave: Periodização da Atividade Humana. Psicologia Histórico-Cultural. Vygotski, Leontiev e
Elkonin.

THE PERIODIZATION OF HUMAN ACTIVITY FOR VYGOTSKI, LEONTIEV AND ELKONIN: RUPTURE OR
CONTINUITY?

ABSTRACT
The understanding of the concrete, non-dualistic human being with dialectical bases has been a concern
since the first generation of the Soviet psychological school. The studies elaborated by this school, later
denominated Historical-Cultural Psychology, subsidized the understanding that throughout the life, when
performing activities to maintain its survival, the human being modifies its external and internal conditions,
that is, it modifies the environment in which lives and their psychic functions. In the present article, the
objective is to analyze the periodization of human activity in Vygotski (1896-1934), Leontiev (1903-1979)
and Elkonin (1904-1984), in the search for elements that interpose continuities or ruptures of their bases.
These are three classic authors who give psychological foundation to the studies of Historical-Critical
Pedagogy and that although they belong to the same psychological school, they bring different emphases

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to think periodization. In order to reach the desired goal, a search of the classic texts of these authors was
made available in Portuguese and Spanish, and a comparative table was drawn from the main periods:
early childhood, childhood, adolescence and adult life. The line of defense adopted is that the periodization
studies presented by Leontiev and Elkonin are a continuation of Vygotsky's studies. The latter devoted
himself more to internal questions, to raising the level of psychic development, while still considering it to
be dependent on the situation of concrete life. Already Leontiev and Elkonin further explore the influence
of social activity on psychic development and established relationships, based on the categories of
dominant activity.
Keywords: Periodization of Human Activity. Historical-Cultural Psychology. Vygotski, Leontiev and Elkonin.

LA PERIODIZACIÓN DE LA ACTIVIDAD HUMANA PARA VYGOTSKI, LEONTIEV Y ELKONIN: RUPTURA O


CONTINUIDAD?

RESUMEN
La comprensión del ser humano concreto y no dualista con bases dialécticas ha sido una preocupación
desde la primera generación de la escuela psicológica soviética. Los estudios elaborados por esa escuela,
posteriormente denominada Psicología Histórico-Cultural, subsidiaron la comprensión de que a lo largo de
la vida, al realizar actividades para mantener su supervivencia, el ser humano modifica sus condiciones
externas e internas, es decir, modifica el medio en que vive y sus funciones psíquicas. En el presente
artículo, el objetivo que se inserta es el análisis de la periodización de la actividad humana en Vygotski
(1896-1934), Leontiev (1903-1979) y Elkonin (1904-1984), en la búsqueda de elementos que interpongan
continuidades o rupturas de sus bases. Se trata de tres autores clásicos que dan fundamentación
psicológica a los estudios de la Pedagogía Histórico-Critica y que, a pesar de pertenecer a la misma escuela
psicológica, traen énfasis diferenciadas para pensar la periodización. Para lograr el objetivo deseado de una
búsqueda se llevó a cabo en los textos clásicos de estos autores, disponible en portugués y español, y se
preparó un cuadro comparativo de los principales períodos: la infancia, la niñez, la adolescencia y la edad
adulta. La línea de defensa adoptada es la de que los estudios de la periodización presentados por Leontiev
y Elkonin son una continuidad de los estudios de Vygotski. Este último se dedicó más a las cuestiones
internas, la elevación del nivel de desarrollo psíquico, sin dejar de considerarlo dependiente de la situación
de vida concreta. Ya Leontiev y Elkonin exploran aun más la influencia de la actividad social en el desarrollo
psíquico y en las relaciones establecidas, tomando como base las categorías de actividad dominante.
Palabras clave: Periodización de la Actividad Humana. Psicología Histórico-Cultural. Vygotski, Leontiev
y Elkonin.

INTRODUÇÃO Histórico-Cultural como Vygotski (1896-1934),


Ao longo da vida, o ser humano realiza Leontiev (1903-1979) e Elkonin (1904-1984).
diversas atividades que possibilitam o Periodização, para a Psicologia Histórico-
desenvolvimento de suas funções psíquicas, o Cultural, é o movimento dos períodos pelos quais
que influencia na capacidade do indivíduo de os seres humanos vivenciam suas relações com o
compreender a prática social e a si próprio. meio e com as outras pessoas ao longo da vida
Algumas atividades possuem mais influência no (do nascimento à velhice) e está diretamente
desenvolvimento de tais capacidades que outras, atrelado às condições concretas da organização
dependendo do período de vida em que o social, ou seja, está atrelado à atividade humana.
indivíduo se encontra e sua realidade concreta, Leontiev (1978; 2004), fundamentado nos
por isso, alguns autores se debruçaram nos estudos de Vygotski, foi precursor da Teoria da
estudos da periodização do desenvolvimento Atividade, e teve seus estudos aprofundados por
humano, dentre eles os clássicos da Psicologia Elkonin (1961; 1987).

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Entretanto, o contexto social da época, Para Vygotski (1996), determinadas


que envolveu a primeira e segunda geração da atividades que são principais em uma idade
escola psicológica soviética, deixou margens para podem se tornar secundárias em outra. Ao
que alguns autores questionassem se os realizar sua análise, estudou a periodização da
trabalhos de Leontiev e Elkonin são uma atividade humana com base no desenvolvimento
continuidade dos estudos de Vygotski. Podemos da personalidade, a partir da identificação de
citar alguns estudos que caminham nessa períodos de crises. Ele buscou realizar um estudo
perspectiva, como: Yasnitsky (2009), Van Der teórico/científico dos períodos de crises porque,
Veer e Valsiner (1996), González Rey (2007), até então, haviam sido realizados apenas estudos
Toassa (2015a; 2015b; 2016) e Martins (2013). empíricos.
Duarte (2001), estudioso da Pedagogia Como é característico nos escritos do
Histórico-Crítica, é um dos autores que defende autor, primeiro fez uma análise dos estudos
que Leontiev deu continuidade aos estudos de empíricos já produzidos e, com eles, identificou
Vygotski. Ele sustenta sua defesa nos três peculiaridades do período de crise no
fundamentos das teorias elaboradas por Vygotski desenvolvimento infantil. A primeira se refere,
e Leontiev, ambos autores apoiados na filosofia por um lado, às dificuldades em definir o
marxista, ou seja, no Materialismo Histórico- momento de início e de fim das crises, visto que
Dialético. muitas características são imperceptíveis, e por
Nesse entorno, no presente artigo, o outro, à existência de um ponto culminante que é
objetivo foi analisar a periodização da atividade uma característica comum em todas as idades
humana em Vygotski, Leontiev e Elkonin, na críticas.
busca por elementos que interponham A segunda peculiaridade, identificada
continuidades ou rupturas de suas bases de nos estudos empíricos, é que neles foram
fundamentação. Acredita-se que estudar essas identificadas muitas crianças “difíceis de educar”,
bases é fundamental para contribuir na com a justificativa de que diminui o interesse e a
consolidação de um caminho para uma educação capacidade geral de trabalho nas aulas nessa fase
escolar como oportunizadora de de crises. São visíveis também conflitos com as
desenvolvimento psíquico superior, caminho pessoas com as quais convivem e consigo
almejado pela Pedagogia Histórico-Crítica. mesmas, ou seja, conflitos externos e internos.
Para tal, foi realizada uma busca nas A terceira peculiaridade é a índole
obras clássicas desses autores, disponibilizadas negativa do desenvolvimento, que é destacada
em português e espanhol, e foi elaborado um pela maioria dos autores estudados por Vygotski
quadro comparativo a partir dos principais (1996). São destacados mais os traços destrutivos
períodos estudados por eles, a saber: primeira que criadores, e consideram que as crianças
infância, infância, adolescência e vida adulta. As perdem os interesses que antes orientavam sua
principais obras foram: Vygotski (1996), Leontiev atividade, que elas se esvaziam. Até hoje ainda é
(2004) e Elkonin (1961). comum o entendimento da adolescência, por
Como base de análise nos dedicamos, exemplo, com ênfase em caráter negativo,
dentro do possível, à explicação dos dados a compreendida como fase problemática, como
partir de sua história e sua lógica de “aborrecência”.
desenvolvimento, evitando tomá-los como Segundo Vygotski (1996), o esquema de
realidade pronta e acabada. Nesse sentido, os crises é comumente assim apresentado pelos
períodos estudados não foram compreendidos autores que estudou: a crise pós-natal gerada
como fixos a partir da idade biológica do pelo nascimento da criança; a crise de um ano,
indivíduo, mas sim, a partir das condições e período que demarca a primeira infância; crise
relações sociais concretas. Como forma de dos três anos, ao adentrar na idade pré-escolar;
organização da exposição do trabalho, será crise dos sete anos, com a entrada na idade
apresentada, inicialmente, a periodização para escolar; crise dos treze anos, com a chegada da
cada um dos autores já anunciados e, na adolescência; e crise dos dezessete anos, com o
sequência, será feita a discussão a partir do advento da fase adulta.
quadro comparativo. Na concepção vygotskiana, os períodos
de crises se alternam com os estáveis e, como o
A PERIODIZAÇÃO EM VYGOTSKI, LEONTIEV E desenvolvimento infantil é um processo dialético,
ELKONIN “[...] a passagem de um estágio a outro não é

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feita por via evolutiva, mas revolucionária” agora passa ser via compreensão e dedução. “A
(VYGOTSKI, 1996, p. 258). Os períodos não transição para a forma superior de atividade de
podem ser compreendidos como pré-definidos, trabalho intelectual é acompanhada por uma
mecânicos e estáticos, mas com variações de diminuição temporária da capacidade de trabalho
acordo com as condições históricas e sociais de [...]” (VYGOTSKY, 1996, p. 259).
cada criança, e de acordo com a forma como O autor propõe um novo esquema de
cada criança reflete, ativa e conscientemente, periodização baseado no critério de novas
tais condições. formações psíquicas em cada fase/período (ou
Vygotski (1996) defende que as crianças idade, como é chamado pelo autor); nele: retira a
são difíceis de educar no período de crise porque crise pós-natal, porque antes dela o indivíduo
o sistema pedagógico utilizado não alcança as ainda não é um ser social e seus estudos devem
mudanças rápidas de sua personalidade. Defende ser realizados pela embriologia e não pela
ainda que, para cada aspecto negativo Psicologia; retira a crise dos dezessete anos,
encontrado no período de crise, existe uma porque está se dedicando nesse momento
mudança positiva (forma nova e superior) na apenas ao desenvolvimento infantil; e, considera
personalidade, que mesmo nos processos críticos a maturação sexual como um período estável e
se produz atividades construtivas. não de crise. O novo esquema pode ser
Na crise de treze anos, por exemplo, a apresentado da seguinte forma:
queda do desempenho escolar se deve a uma
alteração na forma de apropriação de
conhecimentos que, antes, era visual-direta e

Quadro 1. Esquema de periodização de Vygotski

Fonte: Vygotski (1996). Org.: Autoras (2019).

Em cada fase novas formações psíquicas sistema complexo que se desenvolve com a
se formam na criança e reorganizam sua hierarquia das formações centrais.
personalidade. Nas palavras de Vygotski (1996, p. Nesse sentido, algumas linhas de
262), “[...] em cada etapa encontramos sempre desenvolvimento, que eram principais nas etapas
uma nova formação central como uma espécie de anteriores, podem ser acessórias na atual, e vice-
guia para todo o processo de desenvolvimento versa, porque mudam seu significado e o peso na
que caracteriza a reorganização de toda a estrutura geral do desenvolvimento. De uma fase
personalidade da criança em uma nova base”. O a outra ocorre uma reestruturação geral do
autor se refere à formação central, porque sistema de consciência e uma mudança de lugar
existem outras novas formações, as parciais, que nas linhas, compondo assim novas formações
se agrupam a ela, assim como as formações psíquicas (VYGOTSKI, 1996). Nesse processo
remanescentes dos períodos anteriores. dinâmico, o autor ressalta a relação entre o todo
Na infância, a percepção afetiva é a e as partes no desenvolvimento e as
formação central; na idade pré-escolar é o determinações do meio, que, por sua vez, devem
desenvolvimento da memória; e, a partir da ser compreendidas de maneira diferente daquela
idade escolar, é o pensamento, a capacidade de utilizada no estudo da evolução das espécies.
formações de conceitos. Tais formações são
compreendidas por Vygotski (1996) como um

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No início de cada período Com as novas formações ocorrem


1
de idade , a relação também mudanças na personalidade do sujeito.
estabelecida entre a Ou seja, ocorrem modificações na situação social,
criança e o entorno que a mudam suas funções psíquicas e, com isso,
rodeia, especialmente o
modifica sua forma de compreensão de si mesmo
social, é totalmente
peculiar, específica, única
e do mundo que o cerca, o que possibilita
e irrepetível para essa mudanças na atuação nesse mundo. Não existe aí
idade. Denominamos essa uma passividade do sujeito, mas uma postura
relação como situação ativa que permite um processo contínuo de
social de complexificação do desenvolvimento.
desenvolvimento na dita De acordo com Vygotski (1996, p. 265), a
idade. A situação social do nova situação do desenvolvimento passa a se
desenvolvimento é o converter em ponto de partida para o período
ponto de partida para seguinte, ocorrendo uma reestruturação da
todas as mudanças
situação social. “A investigação demonstra que
dinâmicas que se
produzem no
essa reestruturação da situação social do
desenvolvimento durante desenvolvimento constitui o conteúdo principal
o período de cada idade. das idades críticas”. Para ele, essa é a lei
Ela determina plenamente fundamental da dinâmica das idades.
e por inteiro as formas e a Segundo essa lei, as forças
trajetória que permitem à que movem o
criança adquirir novas desenvolvimento da
propriedades de criança em uma ou outra
personalidade, uma vez idade, acabam por negar e
que a realidade social é a destruir a própria base de
verdadeira fonte de desenvolvimento de toda
desenvolvimento, é a a idade, determinando,
possibilidade de que o com a necessidade
social se transforme em interna, o fim da situação
individual. Portanto, a social do
primeira questão que desenvolvimento, o fim da
devemos resolver, ao etapa dada do
estudar a dinâmica de desenvolvimento e o
alguma idade, é esclarecer passo ao seguinte e
a situação social do superior período de idade.
desenvolvimento. (VYGOTSKI, 1996, p. 265).
(VYGOTSKI, 1996, p. 264,
grifo nosso). A periodização, nesse sentido, opera em
uma espiral dialética. Para ilustrar, recorremos a
A partir da identificação da situação uma figura exposta por Tuleski e Eidt (2016, p.
social de cada período, o autor salienta que é 57) a partir de seus estudos de Vygotski. As
preciso esclarecer como surgem e como se autoras demonstram a espiral e explicam que o
desenvolvem, em tais situações sociais, as novas desenvolvimento da periodização “[...] envolve
formações. Essas novas formações são avanços e recuos, saltos e paralizações. Nesse
resultados/produtos do desenvolvimento de cada processo são produzidas e gestadas as atividades-
período. “As mudanças na consciência da criança guia de cada período”.
se devem a uma forma determinada de sua
existência social, própria da idade/período. Por
ela, as novas formações maduram sempre ao
final de uma idade e não ao começo” (VYGOTSKI,
1996, p. 264).

1
Vygotski (1996) utiliza o termo período de idade para se referir a
fase, etapa ou período. Trata-se das etapas da periodização
estabelecidas por ele. Cada idade é ainda dividida em
estágios/fases.

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Figura 1. Movimento dialético do desenvolvimento infantil

Fonte: Tuleski e Eidt (2016, p. 57).

Como se percebe, o sistema de fundamento geral da periodização de Leontiev


periodização elaborado por Vygotski (1996) toma (2004). Para o autor, a posição que o indivíduo
por base a dinâmica no processo de ocupa nas relações sociais está condicionada pelo
desenvolvimento de novas formações psíquicas, lugar objetivo que ela ocupa nessas relações. O
sempre com a clara presença das determinações lugar objetivo que ocupa nas relações sociais, por
sociais nessas formações, sem, entretanto, sua vez, promove as condições para o seu
ignorar o biológico. A situação social do indivíduo desenvolvimento psíquico.
o impulsiona para novos interesses e novas Leontiev (2004, p. 310), ao se referir ao
formações psíquicas continuamente. Nessa desenvolvimento infantil, destaca que “[...] o que
mesma linha de estudos histórico-culturais, determina diretamente o desenvolvimento do
Leontiev (2004) investigou a influência da psiquismo da criança é a própria vida, o
atividade humana no desenvolvimento do desenvolvimento dos processos reais desta vida,
psiquismo e apontou uma periodização com base por outras palavras, o desenvolvimento desta
no conceito de atividade dominante. atividade tanto exterior como interior”. Nesse
Conforme já anunciamos, dentre as intuito, são as condições concretas em que a
diversas atividades humanas, a atividade criança está inserida que impulsionam em maior
dominante é aquela que influi de maneira “mais ou menor grau o seu desenvolvimento psíquico.
determinante” no desenvolvimento do psiquismo O lugar ocupado pela criança mais velha
em certos períodos da vida, a saber: o jogo na de uma família pobre e que precise ajudar a
infância, o estudo durante período escolar até a cuidar dos irmãos mais novos para que os pais ou
adolescência e o trabalho a partir da juventude. É responsáveis trabalhem, por exemplo,
por meio dela que o indivíduo se apropria do proporcionará condições diferentes de
mundo objetivo e delimita continuamente sua apropriação ao ser comparada a uma criança de
personalidade. classe alta, ou mesmo uma criança que não
Nesse processo, a posição que o possua irmãos mais novos. As condições
indivíduo ocupa nas relações sociais é o

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concretas mudam e, com isso, mudam as psíquicas do sujeito e a prepara para o estágio
atividades externas e internas. seguinte.
Na infância a atividade dominante é o O jogo, principalmente o jogo de papéis,
jogo; de acordo com Leontiev (2004, p. 311), tal é uma preparação psíquica para a atividade de
atividade possui três características: estudo e não some imediatamente após a
Primeiramente, é aquela mudança de atividade dominante. Assim como
sob a forma da qual no jogo e no estudo, são geradas as condições
aparecem e no interior da para a atividade do trabalho. Não existe uma data
qual se diferenciam tipos para a alteração da atividade dominante, o jogo,
novos de atividades.
por exemplo, vai se tornando cada vez mais
Assim, por exemplo, o
ensino, no sentido mais
complexo e se mantém ao longo de toda a vida.
restrito do termo, que Para Leontiev (2004), são as condições
aparece pela primeira vez históricas concretas que influenciam no conteúdo
na idade pré-escolar, da atividade, e este, por sua vez, influencia na
ocorre antes de mais nada mudança do estágio de desenvolvimento, não a
no jogo que é a atividade idade da criança. Segundo o autor, “[...] o lugar
dominante neste estágio anteriormente ocupado pela criança no mundo
do desenvolvimento. A das relações humanas que a rodeia é
criança começa a aprender conscientizado por ela como não
jogando. Segundo, a
correspondendo às suas possibilidades. E daí que
atividade dominante é
aquela na qual se formam
se esforce por modificá-lo” (LEONTIEV, 2004, p.
ou se reorganizam os seus 313).
processos psíquicos Com base nas apropriações já realizadas,
particulares. É no jogo, por se abrem inúmeras possibilidades para a criança,
exemplo, que se formam possibilidades essas que extrapolam o modo de
inicialmente os processos vida anterior, com isso sua atividade precisa se
de imaginação ativa, e no reorganizar passando a um novo estágio do
estudo os processos de desenvolvimento psíquico, passando por saltos
raciocínio abstrato. [...] qualitativos (LEONTIEV, 2004). Assim, a criança
Terceiro, a atividade
precisa superar sua infância e incorporar os
dominante é aquela de
que dependem mais
conteúdos da adolescência; isso ocorre à medida
estreitamente as que ela vai se apropriando de elementos da vida
mudanças psicológicas concreta.
fundamentais da O autor (LEONTIEV, 2004) aponta a
personalidade da criança educação dirigida como uma das principais
observadas numa dada responsáveis pela mudança do tipo dominante de
etapa do seu atividade, uma vez que ela conduz a uma
desenvolvimento. É no necessidade interior nova a partir de novas
jogo, por exemplo, que a tarefas, cada vez mais complexas, o que gera
criança de idade pré-
necessidade de reorganização. Ao adentrar na
escolar se aproxima das
funções sociais e das
escola, aos poucos a atividade dominante passa
normas de ser o estudo. Nesse período, que vai até a
comportamento que adolescência, é pelo estudo que ocorrem as
correspondem a certas principais relações com a realidade concreta e em
pessoas [...]. seguida, pelo trabalho.
Outro autor que estudou a periodização
É pelo jogo, atividade dominante na das atividades humanas foi Elkonin (1961); ele
infância, que a criança se apropria do mundo teve como base os estudos de Leontiev, manteve
objetivo e desenvolve tanto quanto possível suas a atividade dominante como categoria de
funções psíquicas. O jogo de papéis, aquele em diferenciação de período e esmiuçou cada uma
que a criança vivencia na brincadeira experiências delas. Apresentamos no quadro abaixo sua
adultas, possibilita o desenvolvimento de sua sistematização.
personalidade. Ou seja, a atividade dominante é
a que dá condições para as principais mudanças

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Quadro 2. Sistematização da periodização da atividade humana por Elkonin

Fonte: Elkonin (1961). Org.: Autoras (2019).

Como se pode perceber no quadro acima, nascimento, maior a predominância biológica no


o autor sistematizou a periodização das psiquismo e, inversamente, quanto mais
atividades humanas. Para ele, tal sistematização distantes do nascimento, maior a predominância
é um plano/projeto de desenvolvimento humano do social.
que tem como atividade fulcral a atividade de Na primeira infância, inicialmente, toda a
trabalho (atividade consciente). O organização da criança é direcionada pelos
desenvolvimento psíquico, dependendo de como adultos, são eles os portadores da experiência
for o processo, alcança seus níveis mais altos de social a ser transmitida. Com o passar do tempo
capacidades na atividade de trabalho. as crianças vão tendo suas experiências, estas vão
A defesa de Elkonin (1961), assim como a se ampliando, vão se tornando mais ricas com o
de Vygotski (1996) e de Leontiev (2004), já avançar de suas idades (ELKONIN, 1961). Isso não
apresentadas nesse tópico, é a de que são as se dá de maneira mecânica, mas em um processo
condições concretas de vida, incluindo as de apropriação e de reflexão constante da
condições de educação, de meio ambiente, de criança, em que ela conserva suas aquisições e as
influência direta dos adultos, que determinam o usa para conquistar novas formações.
desenvolvimento psíquico. A criança nunca é apenas
Inicialmente, a psique infantil, entendida um objeto de influência
como produto da atividade do cérebro, está que reflete passivamente
ligada diretamente ao sistema nervoso, mas, com tudo o que acontece ao
seu redor, mas ela sempre
o passar do tempo, à medida que as influências
tem uma atitude ativa em
sociais são refletidas ativamente pelas crianças, relação a qualquer
tais influências passam a ser decisivas no influência que recebe de
processo de desenvolvimento psíquico (ELKONIN, fora. Ela sempre se
1961). Dessa maneira, quanto mais próximo ao encontra em um ou outro

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nível de desenvolvimento trabalho) servem de base para a reconstrução de


com o qual deve contar toda a atividade mental da criança”. Ao ampliar
para qualquer influência suas atividades, ampliam-se também suas
atual sobre ele (ELKONIN, possibilidades de elaborações, de generalizações,
1961, p. 498).
de compreensão de mundo.
O período escolar é dividido por Elkonin
Um nível de desenvolvimento é utilizado
(1961) em três momentos, a saber: idade escolar
como base para outro e encontra seu ápice na
primária (≅ entre 7-11 anos), idade escolar média
atividade de trabalho. Entretanto, para isso, o
ou secundária (≅ entre 11-15 anos), idade escolar
autor destaca o papel direto do ensino e da
juvenil ou preparatória (≅ entre 15-18 anos). A
educação, considerando-os indispensáveis.
primária é marcada pela entrada da criança na
Mesmo antes de aprender a falar a criança
escola3, o que gera uma mudança em sua
começa a assimilar a experiência social,
situação social e no conteúdo de sua atividade.
principalmente manipulando objetos. Tais
Por mais que algumas escolas priorizem a
objetos possuem uma função social, são
alfabetização desde o período pré-escolar, a
carregados de experiências e significados, o que
exigência socialmente estabelecida é para que ela
permite à criança aprender novos conhecimentos
aconteça no primeiro ano do Ensino
e desenvolver novas capacidades.
Fundamental. Com isso, família e escola
Como resultado da apropriação de
consideram o estudo como uma atividade séria, o
conhecimentos e capacidades cada vez mais
que impulsiona as crianças a terem mais
complexas está a elevação do desenvolvimento
responsabilidades para cumprir as exigências.
da criança a um nível mais avançado, o que lhe
Todo o contexto muda; por exemplo, as pessoas
possibilita novas apropriações. Em um novo nível,
da casa precisam manter silêncio para que a
qualitativamente superior, a criança conseguirá
criança faça suas tarefas; a compra de um livro,
gradativamente se utilizar dos jogos de papéis2,
que antes era dispensável, por ser considerado
por exemplo, como instrumento principal de
um brinquedo, agora passa ser uma ferramenta
novas apropriações da experiência social.
que auxilia na alfabetização.
Na idade pré-escolar, a criança já adquiriu
No decorrer da idade escolar primária o
certa independência para algumas atividades e
jogo se mantém e continua influenciando no
ampliou seu vocabulário e sua capacidade de
desenvolvimento psíquico da criança, mas deixa
utilizar a linguagem. Se amplia também, segundo
de ser a atividade dominante, cedendo esse lugar
Elkonin (1961) o interesse em participar da vida e
ao estudo, conforme expõe Elkonin (1961). O
atividade dos adultos, mas, como ainda não
interesse por jogos que exigem capacidades mais
podem efetivamente, a vivenciam através dos
intelectuais se amplia. Com relação à atividade de
jogos de papeis.
trabalho, que geralmente está ligada ao
Uma criança não pode ainda ser
ambiente familiar, esta também influencia no
professora como sua mãe, mas no jogo ela pode
desenvolvimento psíquico, se torna importante
assumir e desempenhar essa função. Nesse jogo,
aliada para o estudo.
costumam ser respeitadas as regras estabelecidas As investigações têm
socialmente para essa função. Ela assume o papel demonstrado que os
de professora, não pode agir como um escolares que na família
aluno/criança, essa não é uma atitude aceita nas cumprem obrigações de
regras do jogo ao reproduzir a atividade dos trabalho, estudam melhor
adultos. Ao reproduzir tais atividades, a criança que os que estão livres de
se apropria do conteúdo do trabalho de tarefas domésticas
professora e percebe as relações sociais que se (Slavina). Isto se explica
criam na vida concreta. porque o estudo também
é um trabalho que exige
Segundo Elkonin (1961, p. 520), “[...] os
da criança qualidades
novos tipos de atividade (formas mais determinadas da
complicadas de jogo, de desenho, de modelagem, personalidade:
de construção e de formas elementares de sentimentos de dever e de

2 3
Adotamos o termo jogos de papéis, que Elkonin (1961) também Com base no contexto de seus escritos e trazendo para a realidade
chama de jogos ação ou jogos de argumentos. Todos os termos se atual no Brasil, o autor se refere à entrada da criança no primeiro
referem ao jogo realizado principalmente no período pré-escolar. ano do Ensino Fundamental.

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responsabilidade, saber Na idade escolar primária, com a


subordinar sua conduta às apropriação da linguagem escrita, aumentam-se
tarefas sociais, vencer as as exigências de atenção, de percepção, de
dificuldades, organizar a fixação e manutenção de conhecimentos
atividade etc. Essas
gradativamente mais complexos, amplia-se o
qualidades se fazem traços
constantes da
desenvolvimento de operações mentais
personalidade se a vida da (ELKONIN, 1961). O autor chama a atenção,
criança, na escola e na reincidentemente, para o papel do professor no
família, está organizada direcionamento desse processo de aquisição de
como é necessário para conhecimentos visando o desenvolvimento
educar essas qualidades. psíquico, sendo seu foco constante o caráter da
(ELKONIN, 1961, p. 529). orientação da criança frente à realidade.
Ao se apropriar da linguagem escrita a
As tarefas, ou não, que a criança realiza criança desenvolve novas capacidades cognitivas.
podem alterar seu grau de desenvolvimento. Não apenas aprende a escrever palavras, mas
Dragunova (1980) diz que pessoas da mesma também desenvolve novas condições de
idade cronológica podem ter variações em seu pensamento e, quanto mais palavras aprende,
nível de desenvolvimento devido às mais possibilidades de pensamento se instalam.
circunstâncias da vida, que podem frear ou O ensino escolar gradativamente permite a
acelerar o processo de incorporar os traços formação de um sistema de conceitos, via ensino
adultos. Para o autor, situações que podem de distintas formas de raciocínio lógico.
tardar o desenvolvimento, por exemplo, são A idade escolar secundária ou média,
aquelas em que os adultos não atribuem tarefas abarca o período da adolescência e permanece
às crianças, deixando-as livres para apenas com a atividade principal de estudo. Nesse
estudar, ou aquelas em que os adultos período, segundo Elkonin (1961, p. 536), o
superprotegem as crianças, evitando que adolescente já ampliou suas capacidades físicas,
vivenciem experiências de preocupações e intelectuais, volitivas e morais, com isso se “[...]
aflições. Da mesma forma, o excesso de criam as premissas necessárias para que mude
atribuições (domésticas ou não) e vivências fundamentalmente a situação do adolescente na
conflitivas também podem acelerar a aquisição sociedade que o rodeia”. São exigidos dele maior
de traços adultos na criança. independência e responsabilidade, se ampliam os
O jogo, o estudo e o trabalho são interesses cognitivos e os círculos sociais, ocorre
atividades dos indivíduos que exercem influência também sua maturação sexual.
em seu desenvolvimento psíquico, entretanto, Durante a adolescência e a juventude,
em determinados períodos da vida, existem os com a ampliação da independência e do círculo
que são dominantes. Elkonin (1987, p. 108) social, além da atividade de estudo, as relações
reforça que “[...] cada etapa do desenvolvimento com seus pares são colocadas por Elkonin (1961)
psíquico se caracteriza por uma relação como elementos importantes para a formação de
determinada, dominante da etapa dada da sua personalidade. Torna-se um período de
criança frente à realidade, por um tipo constante análise do comportamento e dos
determinado, dominante de atividade”. valores expressos pelos colegas e pelos adultos
A linguagem é destacada em todas as que os rodeiam, na busca por modelos a seguir.
etapas da periodização, por instrumentalizar o Segundo Elkonin (1987), no decorrer do
processo de apropriação, o que impulsiona o desenvolvimento existem períodos em que
desenvolvimento psíquico. O reflexo consciente e predominam as relações entre as pessoas e
a autorregulação da conduta são mediatizados outros em que predominam as relações com os
pelo processo de atividade humana, são objetos de conhecimento. Na adolescência essas
resultados da atividade. Duarte (2001, p. 164), relações são evidenciadas na comunicação
destaca que “[...] a atividade humana é social e, íntima-pessoal e na atividade de estudo.
portanto, sempre mediatizada pelas relações À medida que a idade avança, que se
sociais e pela linguagem. Por sua vez, a linguagem ampliam as apropriações e que os níveis de
só pode existir, na concepção de Marx, como um desenvolvimento psíquico se tornam mais
elemento integrante da prática social, produzido elevados, aumenta o seu grau de
e reproduzido no interior dessa prática”. responsabilidade perante a sociedade, e os

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interesses e motivos vão se direcionando para a novas formações psíquicas, a de Leontiev (2004)
atividade de trabalho predominantemente. Aos e Elkonin (1961) foi a atividade dominante e, no
poucos o estudo vai sendo visualizado como uma caso do último autor, o caráter de orientação do
preparação para o trabalho atual ou futuro. sujeito, as relações.
Já na idade adulta, ainda que se realize as
atividades de jogo e estudo, a dominante é o
trabalho. Para uma melhor compreensão da
sistematização da periodização elaborada pelos
autores aqui utilizados, apresentamos a seguir
um quadro comparativo. A principal base exposta
por Vygotski (1996) foi o desenvolvimento de

Quadro 3. Comparativo entre a sistematização da periodização de Vygotski, Leontiev e Elkonin

Org.: Autoras (2019).

Ao observar o quadro, podemos perceber Elkonin (1987) valoriza os estudos de


que não existe uma ruptura entre as Vygotski sobre a periodização e diz que esses
sistematizações elaboradas pelos autores, mas precisam ser conservados e atualizados com base
uma complementação. Vygotski (1996) se dedica nos conhecimentos contemporâneos sobre o
mais às questões internas, à elevação do nível de desenvolvimento psíquico infantil; cita, dentre
desenvolvimento; entretanto, reafirmou diversas eles, os estudos de Leontiev e de Rubinstein
vezes a dependência da situação de vida sobre atividades dominantes e sua relação com o
concreta, enfatizou que a realidade social é a desenvolvimento da personalidade. Assim como
verdadeira fonte de desenvolvimento. Leontiev os demais autores supracitados, Elkonin (1987)
(2004) e Elkonin (1961) exploram mais a defende a compreensão do desenvolvimento
influência da atividade social no desenvolvimento psíquico infantil como um processo integral.
psíquico e das relações estabelecidas, tomando No quadro é possível perceber que, em
como base as categorias de atividade dominante. todos os períodos, Elkonin intercala atividades
dominantes, voltadas à relação do sujeito com

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outras pessoas, com as relações do sujeito com nunca dispensar a influência da prática social
os objetos de conhecimento a serem nesse processo; inclusive chama as mudanças
apropriados. Ele explica: ocorridas de situação social do desenvolvimento
Cada época consiste em e as considera sempre como ponto de partida
dois períodos para o período seguinte.
regularmente ligados Leontiev (2004) investiga com maior
entre si. Se inicia com o empenho a atividade humana e suas condições
período em que
concretas que possibilitam o desenvolvimento
predomina a assimilação
dos objetivos, dos motivos
psíquico. Para ele, o jogo, o estudo e o trabalho
e das normas da atividade são as atividades dominantes e é por meio delas
humana e o que os indivíduos se apropriam do mundo e
desenvolvimento da formam sua personalidade. Elkonin (1961), por
esfera motivacional e das sua vez, dá continuidade e aprofunda os estudos
necessidades. Aqui se de Leontiev, acrescentando que, ao desenvolver
prepara a passagem ao as atividades, em todas as etapas, ora
segundo período, em que predominam as relações entre as pessoas, ora
tem lugar a assimilação predominam as relações com o objeto de
predominante dos
conhecimento.
procedimentos da ação
com os objetos e a
Pelo presente estudo é possível
formação das concordar com Duarte (2001), que existe
possibilidades técnicas continuidade entre Vygotski e Leontiev, uma vez
operacionais (ELKONIN, que ambos estão fundamentados no
1987, p. 123). Materialismo Histórico-Dialético e compreendem
a atividade humana como promotora de
É possível verificar que, tanto em relação desenvolvimento psíquico. Acrescentamos que os
a Vygotski e Leontiev, como em relação a esses três autores cumprem o almejado pela escola
dois autores com Elkonin, existe um caráter de psicológica soviética de construção de uma teoria
continuidade e não de ruptura. Em algumas que supere a visão dualista do ser humano.
citações diretas do texto, ficou explícita a Os autores consideram o
concordância entre os autores: todos concordam desenvolvimento do psiquismo humano a partir
com as neoformações psíquicas no decorrer da das relações concretas, o que inclui a
periodização das atividades humanas, todos apropriação, via linguagem, da produção lógica e
concordam que existem momentos de mudanças histórica das gerações anteriores; e que essas
qualitativas nas formações psíquicas, concordam apropriações oportunizam novas possibilidades
que as mudanças no desenvolvimento psíquico de objetivações humanas, ou seja, oportunizam
são produções sistêmicas decorrentes da prática novas relações e novos objetos. Esses
social e que a linguagem possui uma função fundamentos deram base para a formulação da
ímpar nesse processo. Pedagogia Histórico-Crítica.

CONSIDERAÇÕES FINAIS AGRADECIMENTOS


Com o propósito de analisar a Agradecemos à CAPES e à FAPERO pelo auxílio
periodização da atividade humana em Vygotski, financeiro disponibilizado ao presente estudo.
Leontiev e Elkonin, na busca por elementos que As autoras declaram não haver qualquer
interponham continuidades ou rupturas de suas potencial conflito de interesse que possa
bases, nos deleitamos em obras clássicas desses interferir na imparcialidade deste trabalho
autores. Foi possível expor cada compreensão de científico.
periodização e elaborar um quadro comparativo
dos três autores a partir do estabelecimento dos REFERÊNCIAS
seguintes períodos: primeira infância, infância, DRAGUNOVA, T. V. Características psicológicas
adolescência e vida adulta. del adolescente. In: PETROVSKI, A. Psicología
Pelo exposto, é possível perceber que evolutiva y pedagógica. Moscou, Ru: Editorial
Vygotski (1996) se dedicou mais ao Progreso, 1980. p. 119-169.
aprofundamento das neoformações psíquicas
formadas ao final de cada período de crises, sem

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