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Dados Internacionais de Catalogaçâo na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Dias, Agemir de Carvalho


Sociologia da religião : introdução às teorias sociológicas
sobre o fenômeno religioso / Agemir de Carvalho Dias. -
São Par.rlo : Paulinas, 2012. - (Coleção temas do ensino
religioso)

Bibliografla.
ISBN 978-85-356-3312-2

l. Experiência religiosa 2. Fenomenologia 3. Religião


- Aspectos sociocnlturais 4. Religião e sociologia I. Título.
lI. Série.

t2-t067l cDD-306.6

Índice para catálogo sistemático:


l. Fenômeno religioso : Sociologia da religião 306.6

A coleção Temas do Ensino Relígioso é uma iniciativa


do Departamento de ciência da Religião da Faculdade de ciências Sociaib da puc-Sp

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Afonso M. L. Soares
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Coordenação de revisão: Marina Mendonça
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lî edição - 2012
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realidades e novas religiosidades, bem como obrigam antigas


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religiões a buscarem novos signiftcados. Nesse sentido, seguindo
Durkheim, podemos aftrmar que há algo de perene na religião' ,
"*ø,rt'q-.,...

O IMPACTo Do SURGIMENTo Do
CAPITALISMO NA VIDA RELIGIOSA

On¡Ervos

Compreender que as transformações sociais produzem


consequências em todos os aspectos da vida humana,
Analisar os impactos do surgimento do capitalismo
na vida religiosa,

INTRODUçÃO

A sociologia da religião como especialidade da sociologia sur-


giu a partir da discussão do papel da religião dentro da sociedade
capitalista. O processo que levou ao surgimento do capitalismo
produziu uma nova teorização da sociedade, Com o advento do
capitalismo, houve uma verdadeifa mudança na forma de o homem
produzir. Achamada Revolução Industrial trouxe uma inimaginável
riqueza e também o fenômeno de uma classe social empobrecida,
surgindo uma nova categoria de pobres' os deserdados do sistema.
A Revolução Industrial eclodiu na segunda metade do sé-
culo XVIII. A partir dela, a humanidade "rompeu os grilhões do

20 I socrorccrA DA RELlclÀo O IMPACTO DO SURGIMENTO DO CAPITALISMO NA VID^ *''-'O'O'A I 2'


poder produtivo".r O desenvolvimento da produção não se deu ao desenvolvimento dos povos ì para outros ela teve um papel
em um processo igualitário. Ao mesmo tempo que aumentava fundamental nas transformações sociais.
a riqueza, também aumentava a miséria. Esse processo ocorreu
primeiramente na Inglaterra e depois se espalhou por diversos
países da Europa.
SocIEDADE PRE-cAPITAIIsTA E VIDA REtIGIosA
com o capitalismo, surgiu uma nova forma de desenvolvi-
mento econômico dos povos. A questão não se reduz à acumu-
As mudanças ocorridas na Europa ocidental que acarreta-
lação de riquezas. o capitalismo é uma nova forma de o homem
ram no surgimento do capitalismo foram precedidas por
se organizar como ser produtivo. Sua lógica interna subverte a outras
formas de organização da sociedade nas quais a religião
relação com as riquezas. Essas transformações econômicas fo- exercia
urna função fundamental. A vida religiosa da sociedade
ram acompanhadas por outras no campo político e religioso. A antiga e
feudal foi objeto de estudo de diversos pensadores sociais, pois
sociologia da religião procurará entender as transformações que
se imaginava que só era possível entender a sociedade
estavam acontecendo no mundo religioso e o seu papel dentro moderna
através do estudo das transformações anteriores. Muitos
da sociedade moderna, desses
pensadores imaginaram a sociedade dentro de
Para analisar as transformações ocorridas, e as que estão um processo
ocorrendo no campo religioso, faz-se necessário caracterizar a evolutivo. o estudo do passado, portanto, era uma forma de
religião antes do advento do capitalismo. os sociólogos procu- aprender suas leis evolutivas.
ram caracterizar essas religiosidades para poderem desenvolver Para o pensamento evolucionista, a Europa ocidental
era o
a teoria sobre o que acontece com a religião quando há transfor- ápice da civilização. Igualmente sua religião, o cristianismo
de
mação econômica, ou em alguns casos o que muda na economia vertente protestante, o estudo comparativo das religiões
foi o
quando a religião muda. método utilizado para demonstrar o estágio em que
cada religião
Temos nos dois últimos séculos, como reação às rápidas se encontrava. o estudo de sociedades tradicionais (consideradas
transformações que ocorreram no mundo, um fenômeno novo primitivas) era realizado como uma espécie de análise
arqueo-
no que diz respeito aos estudos da religião. Surgiram diversas lógica que encontraria elementos identiftcáveis como parte
do
perguntas com relação ao seu papel e ao seu signiffcado. para passado evolutivo da sociedade europeia moderna.
alguns estudiosos, a religião foi vista como um impedimento A sociedade feudal estava dividida em estamentos. Na base
dessa sociedade, encontrava-se o camponês. A religiosidade
' HOBSBAVM, Aua das reooluções, p, 44, camponesa estava fortemente vinculada à natureza, sendo pouco

22 I ,o.,oroo,A DA RELrcrÀo
o IMPA.T' Do SURCIMENT. Do CAPITALISM. NA VIDA o,'.,o,o,o
I 23
suscetível à racionalizaçáo. Para Max Veber, a religião campo- também entre os guerreiros do islamismo, entre os siques na
nesa era uma religiosidade mágica e pragmática' índia e entre os monges budistas guerreiros no Japão.
Foi na cidade medieval que se encontrou um desenvolvi-
Quanto mais o desenvolvimento de uma cultura se orienta pelo
mento religioso de caráter ético. Na Idade Média, a cidade era o
mundo dos camponeses - Roma no Ocidente, a fndia, na Ásia
centro da devoção em oposição ao campo. Isso aconteceu devido
oriental, o Egito, no Oriente próximo -, tanto mais precisamente
à expansão do cristianismo primeiramente nos centros urbanos.
esse elemento populacional pesa no prato da balança do tradicio-
E foi o desenvolvimento dos centros urbanos que possibilitou a
nal e tanto mais carece a religiosidade, pelo menos a popular, de
formação de uma religiosidade do tipo "congregacional", pois na
uma racionalização ética. Tämbém no desenvolvimento posterior
cidade os vínculos tribais e clânicos adquiriam uma importância
das religiöes judaica e cristã, os camponeses não aparecem como
cada vez menor.
portadores de movimentos éticos racionais, ou o fazem de modo di-
o movimento de emancipação das comunas acabou forman-
retamente negativo (como no judaísmo), ou (como no cristianismo)
do burguesias na Europa. As primeiras cidades emancipadas do
só excepcionalmente, e então em forma comunista revolucionária.2
poder feudal surgiram na ltália, mas o fenômeno se estendeu
A visão moderna do camponês como o tipo específico de por diversas outras cidades portuárias europeias, que se torna-
homem religioso não era compartilhada no período medieval. O ram centros comerciais. A autonomia política dessas cidades
homem do campo era o pagão. Mas não era somente no cristia- exerceu. papel fundamental na formação de uma religiosidade
nismo que havia uma desconftança com relação à religiosidade independente do modelo feudal, Foi nessas cidades que se
camponesa. Tämbém encontramos a mesma avaliação negativa desenvolveu um tipo de religiosidade de relações comunitárias
da religiosidade campesina em outras formas religiosas. livremente criadas.
Outro estamento dentro da sociedade feudal era a nobreza o movimento que levou à emancipação da cidade foi além
guerreira. A religiosidade desenvolvida nessa camada da popu- e possibilitou a emancipação do homem até então ligado à terra,
lação é compatível com a religiosidade profética.3 Isso se deve como era próprio do regime feudal, Marx assinala que um dos
ao sentimento guerreiro de combater pela fé. O conceito de pressupostos do trabalho assalariado e uma das condições histó-
"guerra santa", isto é, travada em nome de uma divindade, não ricas do capital é o trabalho livre, o qual só foi possível quando
é um absurdo ou um sacrilégio; pelo contrário, é algo desejável o trabalhador se tornou livre dos vínculos feudais.a
e heroico. Essa forma de religiosidade guerreira se encontrou

2
\)íEBER, Ensaios de sociología, p. 321
3
Ibid., p. 324. MARX, Formações econômicas þrí-caþitalistas , p. 65 .

,o Lo.,oroo'A DA RELlcrÀo O IMPAcTo Do SURGIMENTo Do cAPITALISMo NA VIDA oul.,o,o,A I 25


A religiosidade feudal ligada ao cristianismo medieval identi-
ftcava-se com uma estrutura político-religiosa que se ordenava
em
" Houve na Inglaterra uma proteção estatal ao empresariado
disposto a conquistar mercados.
grupos sociais avessos a mudanças e cuja base econômica
eram a I A tecnologia sofreu uma intensa evolução.
terra e a produção artesanal. Esse tipo de organização socialera
propício para uma prática comunitarista. A "comunidad.e" abar-
t cresceu uma ideologia de progresso individuarista, secu-
cava uma série de relações em que se conffgurava um alto grau larista e racionalista.

de compromissos morais e de coesão social. Nessa sociedade, As demais regiões da Europa eram menos povoad.as e es-
o
tempo era lento, sem grandes mudanças/ e a religião constituía sencialmente rurais. A riqueza era ainda patrimonialista, quem
o centro de seu pensamento. possuía mais terras era considerado possuidor de maior riqueza.

A religiosidade na ldade Média tinha uma grande instituição Os proprietários de terra nessas regiões se constituíam na mais
- a lgreja -, QU€ determinava de certa forma a constituição do importante classe econômica. Do ponto de vista político, os
que era sagrado. o processo de centr alizaçãode poder principais países eram dirigidos por monarquias absolutas, com
no Bispo
de Roma constitui-se uma forma de controle da religiosidade. exceção da Inglaterra, que tinha feito a sua revolução política
As
lutas religiosas que aconteceram no ftnal da ldade-Média, um século antes.
cujo
principalexemplo foi a Reforma Protestante, eram um A Revolução Industrial ocorreu no final do século xvlll,
modo de
libertação desse centro do poder. mais precisamente de l7B0 até 1840, com a implantação das
ferrovias em toda a Europa. Foi nessas condições de inédito
crescimento econômico que ocorreram algumas transformações
TRAN SFoRMAçÕE S ECoNoMICAs sociais importantíssimas. A maior delas se deu no campo, No
E MUDANçAS NA VIDA RETIGIOSA feudalismo, o modo de produção se baseava no sistema de ro-
dízio das culturas e nos contratos de servidão. Havia uma terra
As transformações econômicas e sociais que se iniciaram
comum aos camponeses.
no ffnal da ldade Média já estavam praticamente consolidadas
A Inglaterra foi o primeiro país a romper com os sistemas
na segunda metade do século xvlll no Noroeste da
Europa. de produção agrícola não comercial, diminuindo sensivelmente
Encontramos os seguintes elementos nessa região:
a cultura de subsistência e acabando com as terras comuns. A
¡
As mercadorias europeias eram comercializadas em
todo produção agrícola em larga escala fez com que os camponeses
o mundo,
. Formou-se uma classe de empresários privados.
desapropriados das suas terras se deslocassem para os centros
industriais com o obietivo de procurar trabalho.

26 Lo.,oloo,A DA RELrcrÀo
O IMPACTO DO SURGIMENÏO DO CAPITALISMO NA VIDA A,,'O'O'O I 27
o A formação de comunidades por meio de livre adesão,
Ainda na Inglaterra a transformação na vida social e econô-
batizando apenas pessoas adultas.
mica com o ffm do feudalismo foi acompanhada pela revolução
o A disciplina eclesiástica com o ob¡etivo da formação de
política, A característica marcante dessa revolução política
uma igreja pura.
que ocorreu nesse país no século XVII foi a participação dos
o A não aceitação da doutrina dos sacramentos.
diversos agrupamentos religiosos que se constituíram devido
o A ênfase na formação de uma "comunidade de santos",
ao movimento da Reforma Protestante. Na Inglaterra, esses
Na prática, santidade deveria se manifestar como um afas-
a
agrupamentos desenvolveram uma ideologia política e tiveram
tamento das coisas do mundo e por isso o desprezo dos radicais
participação signiftcativa no movimento que foi chamado de
pelo Estado, as posições oftciais, a lei, a guerra. Para muitos, o
Revolução Puritana (l 642- | 649).
sofrimento era tido como um modo de manifestar sua fé religiosa.
A Reforma Protestante já se havia mostrado uma força de
Viviam de forma comunitária, atendiam aos pobres e viviam do
transformação com características políticas. Mas não era um
seu trabalho. Na busca de estabelecer padrões de vida comuni-
movimento unitário, Além das três grandes forças reformadoras
tários, acabaram participando de movimentos revolucionários,
o calvinismo e o anglicanismo -, vários outros
- o luteranismo, pensando assim estabelecer o reino milenar de Cristo na terra,
pequenos movimentos reformistas se espalharam pela Europa,
Essesmovimentos foram perseguidos tanto pelos protestan-
No geral, eram mais radicaiss nas suas propostas. Eles foram
tes quanto pelos católicos. Muitos de seus membros acabaram
diversos e menores na sua influência. Para poder analisá-los, a
emigrando e refugiando-se em lugares onde havia relativa tole-
sociologia os agrupou em categorias, embora reconheça suas
rância, como os Países Baixos e a Inglaterra, e posteriormente os
particularidades.
Estados Unidos. Na Holanda e na Inglaterra, esses agrupamentos
O pensador alemão Ernst Tioeltsch6 tipiftcou esses movi-
sofreram a influência dos calvinistas -vários conceitos calvinistas
mentos como "seitas", O termo, para esse autor, não é pejorativo,
foram aceitos por alguns desses grupos, principalmente o concei-
mas quer ressaltar apenas as novas maneiras iniciadas com a
to deþredestinaçã0. Na Inglaterra, o movimento da reforma radical
Reforma de adesão religiosa que se davam através de uma deci'
já adquiriu outra feição na mistura entre igrejas independentes
são consciente, em contraposição à "igreja", em que a pessoa e
calvinismo, formando o movimento puritano.
nasce fazendo parte. As principais características das seitas são'
A Inglaterra sofreu profundas transformações com o mo-
vimento conhecido como Revolução Puritana (1640-1660),
Uso o termo "radical" para designar esses movimentos seguindo L[NDBERC, As composto por presbiterianos, setores da Igreja Anglicana ,leuellers,
reJormas na Euroþa , p. 238 .
áiggers, membros da Quinta Monarquia, batistas, brownistas,
sociøl teøcbing oJthe Cbristim cburcbes'
QUâ-
TROELTSCH ,Tbe

O IMPAcTo Do sURGIMENTo Do cAPIT¡,LIsMo NA VIDÂ *,l,o,o,o I 2n


28 I socroloclA DA RELtclÀo
cres e outros agrupamentos. Em certa medida, os acontecimentos
poder real e a adoção do parlamentarismo. As consequências
que levaram à Revolução Puritana e a seu desenvolvimento deram
do movimento foram além. Se na Inglaterra a contestação teve
o tom do pensamento social dos agrupamentos dissidentes que
um viés religioso com a participação dos diversos agrupamentos
povoaram as novas colônias inglesas.
originários da Reforma Protestante e que ffzeram parte do "movi-
Tievor-HoperT identificou três estrangeiros como filósofos
mento puritano", em outros países do continente, principalmente
da Revolução Purftana: Samuel Hartlib (polonês), John Dury
na França, a contestação da antiga ordem aconteceu através de
(escocês) e Jan Amos Komensky (Comênio) (tcheco).
O pri- uma posição antirreligiosa e anticlerical,
meiro defendia a ideia de progresso, o segundo a unidade do
Devemos lembrar que houve um constante crescimento d.a
movimento político e religioso, levando a revolução para toda
massa trabalhadora na Europa desde o século XV. Eric Hobsbawme
a Europa, e Comênio, chamado também de pai da pedagogia,
e ceorg Rudé demonstraram que a população da Inglaterra e do
pensou as mudanças acontecendo através da educação.
País de Gales mais do que duplicou entre 1750 e 1g40. o cresci-
As ideias defendidas pelos puritanos foram introduzidas pelos
mento da produção agropecuária se deu por meio dos enclosures, o
colonos na América, pois nas colônias os diversos dissidentes da
movimento de transformação das terras comunais e desocupadas
Igreja da Inglaterra encontraram espaço para fazer suas experi-
em propriedade privada, geralmente com a expulsão do campo-
ências de uma sociedade-modelo. um dado importante é que as nês. Juntamente com o crescimento da pobreza rural, ocorreu o
colônias inglesas surgiram como iniciativas privadas. Segundo
crescimento da pobreza urbana.
Johnson,s elas se constituíram como um contrato individual e Para essa população, a religião oftcial não trazia nenhuma
coletivo a fim de fundar um Estado eclesiástico.
resposta, antes disso, fazia parte do sistema de opressão. o
A trajetória dos colonos envolvidos no projeto de uma na-
sistema de taxas na Inglaterra, incluindo o imposto religioso
ção para a glória de Deus - o antigo sonho carvinista - levou à (dízimo), onerava o sitiante e era motivo de grande insatisfação
formulação de uma religiosidade civil (ver próximo capítulo),
das classes produtoras.A situação de pobreza era semelhante
que permeou o pensamento americano.
em quase toda a Europa. Na França, em meados do século xrx,
No continente europeu, a Revolução Industrial transformou
a população pobre era de milhões,
o antigo regime, começando pela Inglaterra, que logo depois
da restauração viveu a Revolução Gloriosa, com a limitação do Aos quatro milhões (inclusive crianças etc.) de pobres, vagabun-
dos, criminosos e prostitutas oficiais com que conta a França,
acrescentam-se cinco milhões que pairam à margem da existência
7 TR¡VOR-HOPER, Religiã0, reJorna e transJornação sociø|.
" JOHNSON, Hisfória do cristianisno.
HOBSBA\øM; RUDÉ, Cøþitao Swing, p. 27.

30 Lo.,oroo,A DA RELrcrÀo
O IMPACTo Do sURGIMENTo Do cAPITALIsMo NA VIDA nu,,o,o,o I 31
e que vivem no próprio campo ou que desertam continuamente, uma produção humana e que as revelações
nad"a mais são do
com seus trapos e suas crianças, do campo para as cidades ou das que antropologia,
cidades-para o campo [.,.]. Além da hipoteca que o capital lhe
A religiao é o sonho do espírito humano. Mas
impõe, a pequena propriedade está sobrecarregada pelo imposto. também no sonho
não nos encontramos no nada ou no céu,
O imposto é a fonte de vida da burocracia, do exércit o, dos padres e mas sobre a terra _ no
reino da realidade, aþeuas não enxergamos os ob¡etos reais à ruz da rear¡dade
da corte, em suma, de todo o parelho do poder executivo.l0
e da necessidade, mas no brirbo arrebatador àa
ínaginação e da arbítrariedade.t I

Na descrição da situação da classe trabalhadora feita por


A religião foi acusada de esconder a rearidade.
Marx e Hobsbawm, temos, juntamente com a burguesia e o Esta- Escondendo
a realidade, ela se tornou instrumento
do, a igreja e o clero como elementos importantes da exploração da opressão e do domínio
dos povos. Assim, a crítica da rerigião era
dos trabalhadores e dos pobres. a mais primordiar. Esse
ataque extrapolou os meios interectuais
E não somente na Europa os pobres cresciam: em outras par- e se tornou um perigo
real para as igrejas à medida que eras passaram
tes do mundo se formava uma grande camada de trabalhadores a perder espaço
em diversos países após a Revorução Francesa.
empobrecidos pelo novo sistema de produção. No Brasil, no Houve uma ten-
dência geral de secularização à medida que
século XIX, além da escravidão dos negros também havia uma os ideais libertários
da Revolução Francesa se tornaram mundiais. posteriormente,
classe de trabalhadores rurais e urbanos empobrecidos.
o mesmo ímpeto secularizante foi difundido com
Aturdidas pela nova realidade econômica, as religiões, prin- os ideais da
revolução socialista na Rússia.
cipalmente o cristianismo, se viram como alvo de grande crítica
Essa inesperada secularização e a perda
juntamente com o próprio sistema capitalista, Essa crítica estava de espaços em que
a religião atuava foram dramáticas na
presente tanto na Revolução Francesa quanto na Revolução França ,.uolu.ionária, o
processo de descristianização levou
Socialista Russa, Contudo, só tardiamente as religiosidades se i
depredação de templos,
à perseguição de clérigos e, em r7g5,
posicionaram com relação a essas críticas, já em uma posição à separação formar entre
Igreja e Estado. os projetos secularizantes
defensiva, quando o ataque acontecia por todos os lados. ocorreram em várias
partes do mundo, Ievando a um conflito
O movimento iluminista atacou de forma contundente as constante entre Estado
e religião. No entanto, as religiosidades não
bases intelectuais das religiões, os pressupostos de fé foram ficaram alheias a
todo esse processo.
atacados. O que culminou com a mais importante de todas as
críticas - a aftrmação de que todas as Escrituras Sagradas são

l0 MARX, O "Cou¡r de Main" deLuísïotraþarle, p.287, F- FEUERBACH/, ssência do cristianisno, p. 31.

32 Lo.,oloo,A DA RELrcrÄo
O IMPACTo Do sURcIMENTo Do CAPITALISMo NA
VIDA *,¡-,o.o,o I 33
Rrucre.o E ctAssEs soct"Als Para Marx ,a não é um grupo definido peros rendi-
cløsse
mentos. classe é um aspecto das relações de produção,
No mo-
Na modernidade, a religião começou a ser entendida como delo de Marx, as classes sociais existem no antagonismo
entre
um fenômeno social. Com os movimentos da Reforma Protes- classe dominante e classe dominada. para .1.,
tante, as diversas religiosidades foram identiffcadas com setores
o, capitalistas
só constituem uma classe à medida que entram
em luta contra
da sociedade, O exemplo clássico é a análise que Friedrich En- outra classe. Na sociedade capitalista, houve uma
gels faz das guerras camponesas da Alemanha. Ële caracteriza tendência de
simplificação das classes sociais que se encontram
em oposição
os campon eses ønabatisf¿s como revolucionários, os burgueses direta: a burguesia e o proletariado.
luteranos como reformistas e a aristocracia feudalcatólica como
Max veber fez a distinção entre classe, status epartido.
conservadora. EIe
trabalhou com uma concepção pluralista de
classes sociais: fez
Foi com Saint"Simon que se iniciou a pensar a sociedade
distinção entre classes þroþrietárias e crasses de aQußiçao.
moderna dividlda em classes sociais diferentes daquelas vigen- Tämbém a
classe de não proprietários se constitui
de uma ,éri. d. classes
tes no regime feudal. A decadência do feudalismo propiciou a
intermediárias, formando vários tipos de classe
formação de uma nova classe social que se desenvolveu de co- nídia.
Para veber, as filiações de status advêm
munas urbanas livres chamadas por ele de industriais. Saint-Simon de uma situação
que não são construídas sobre o critério
identificava os industriais e os trabalhadores como sendo parte de mercado. A classe
é uma expressão das relações de mercado, por
das classes produtoras, em contraste com a classe dos parasitas, sua vez o støtus
é a relação envolvida no consumo e retrata
que eram aqueles que exerciam funções não um estilo de vida.
þrodutluøs, como os Nesse casor o status se apresenta como um
aristocratas e o clero. modo concorrente
de formação de grupos dentro da sociedad..Ja
Na tentativa de explicar a nova sociedade industrial, Karl o partido está
orientado para a aquisição ou a manutenção da riderança
Marx elaborou uma teoria das classes sociais que se tornou o po-
lítica e representa uma forma de organização sociar que
núcleo de sua explicação sobre o funcionamento do sistema visa à
distribuição de poder.
capitalista. No pensamento de Marx, as classes sociais estão
veber analisou que as rerigiões estão rigadas aos agrupamen-
em conflito. com o advento do capitalismo, estabeleceu-se um
tos de classe ou de status. Ele construiu uma
novo sistema de classes baseado na manufatura e centrado nas tipologiaìigando as
classes sociais e a prática econômica:
cidades.r2
t o confucionismo refletia uma ética de homens que viviam
de rendas, donos de uma curtura riterária impregnada
t2 CIDDENS, Cøpitalßmo e moderna teoria social, p.29,
de
racionalismo.

34 Loaroroo'r o¡, nrucrÃo


O IMPACTo Do sURCIMENTO Do cAPITALIsMo NA
VIDA *,t-,.,o,o I 35
O hlnduísmo estava vinculado a uma casta hereditária de consciência de classe é a forma como essas
experiências são tratadas
letrados' os brâmanes, que constituíam os representantes em termos culturais: encarnadas em tradições,
sistemas de valores,
da tradição. ideias e formas institucionais.r3
O budismo foi propagado por monges mendicantes e
Na análise de Thompson, não podemos rigar
itinerantes, resolutamente contemplativos e desprezado- diretamente
uma religião a uma determinada classe,
mas não podemos despre-
res do mundo; somente eles é que eram os verdadeiros
zar os aspectos religiosos na formação da
membros da comunidade; os outros eram leigos, gente consciência de classe.
Movimentos religiosos como o puritanismo e
inferior no sentido religioso. o metodismo
auxiliaram no processo de formação da
consciência da crasse
O islamismo era a religião dos guerreiros conquistadores,
operária inglesa.
uma ordem de cavaleiros cruzados, disciplinados. Depois
Mais recentemente outros estudiosos procuraram
apareceu o suftsmo mais contemplativo e místico. fazer a
ligação entre classes sociais e religiosidade,
r O judaísmo depois do exílio foi a religião de um "povo
de Richard Niebuhr sobre As origens sociais das
como os estudos
denominações cristãs,
de párias" burgueses; a partir da Idade Média, passou a os quais analisam a formação das denominações
protestantes
ser dirigido por uma intelligentsia de pequenos burgueses
nos Estados unidos. Tämbém temos os
estudos realizados por
racionalistas em constante proletarização.
cavalcantira sobre o fundamentarismo americano,
¡ O cristianismo começou sua carreira como doutrina de
ele, está ligado às classes baixas dessa nação.
QU€, segundo

artesãos itinerantes, sendo uma religião especificamente


No Brasil, os estudos sobre a composição sociar
das rerigio-
urbana e antes de tudo burguesa.
sidades ainda está iniciando. por cerca
de quinhentos anos a
O historiador inglês EdwardThompson, em seu estudo sobre identidade religiosa esteve ligada ao cristianismo
A Jonnação da cløsse oþerária inglesa, demonstrou a importância da
católico e só
nos últimos cento e cinquenta anos começou
a se estabelecer
religiosidade na formação da consciência da classe trabalhadora. uma diversidade. No censo 2000, percebzu-se
que, apesar da
Partindo de uma ideia marxista de classe, ele analisou a formação hegemonia católica, há uma pruraridade rerigiosa
da classe operária inglesa,
prin.iilr.nt.
nos grandes centros.
A classe acontece quando alguns homens, como resultado de ex- As mudanças religiosas que ocorreram no
mundo por causa
periências comuns (herdadas ou partilhadas), sentem e articulam do capitalismo propiciaram a formação de uma
sociedade cul-
a identidade de seus interesses entre si, e contra outros homens
ft4 THOIt4PSON//, rnação da classeoþerária inglesa, p.
cujos interesses diferem (e geralmente se opõem) dos seus t ]A CAVALCANTi, Muo, Religiao. pålrti... ' 10.

36 I socror-ocrA DA RELrcrÃo
o lMPAcro Do suRclMENTo Do cAplrlltsMô NÂ vrnÁ or,,^,^"^ L,
turalmente diversificada, o que trouxe uma série de questöes
sobre a função da religião, sua relação com a sociedaáe e
seu QEsrÕES rARA REFLExÃo
papel como um fenômeno que impede ou ajuda na
mudança.
Diversos pensadores sociais que começaram a analisar o mundo Explique de que forma as mudanças econômicas e
moderno tiveram na religião um dos principais temas para sua soCiais' transformaram a religiäo a partir do século
teoria de sociedade. XVI.
Analise a formação da religião levando em conta'as
estruturas das classes sociais.
CONCTUSÃO

vimos que na ldade Média a rerigião tinha uma grande


instituição, a lgreja católica, a qual exercia uma função SUGESTÕES DE LEITURA
hege-
mônica na vida religiosa da população da Europa ociJental.
As
transformações econômicas advindas com a Revolução CAVALCANTI, H. Marx, religião
política, o proresran-
Industrial B. e
quebraram essa hegemonia através do movimento tismo conservador norte-americano como ópio do povo.
d, R.fo.rn,
Protestante e das revoluções políticas que aconteceram Dados.v.41, n. 1, Rio deJaneiro, 1998.
no velho
continente. HOBSBA\øM, E. A era das reooluções. Rio de Janeiro, paz e
Têmos então a formação de um mundo cada vez Terra, 1977.
mais pru-
ral em que a religião começa a perder sua hegemonia como \trEBER, M. Aitica þrotestante e o esþírito do caþitalismo. São paulo,
elemento estruturador da sociedade. Essa perda de espaço Pioneira, 1983.
não
fica sem reação, e as religiosidades no ocidente passam
por um
processo de transformação em que elas intensiftcaram
suas ações
no sentido de reconquista de espaço.
As novas classes sociais produziram novas religiosidades
para atender a suas necessidades, os estudos
sobre religião
começam a fazer a relação entre religiosidades e classes
sociais,
procurando demonstrar como a religião está intimamente
ligada
a determinados agrupamentos ou socied.ades.

38 Lo.,oroo,A DA RELTGIÀo
O IMPACTo Do SURGIMENTo Do cAPITALIsMo NA VIDA o,l-'o,o,n I39