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DESVENDANDO MÁSCARAS SOCIAIS

I – objetivo, método e alcance desta pesquisa.


Bronislaw Malinowski

O autor faz considerações a respeito da questão epistemológica, propondo


neutralidade e imparcialidade como postura adequada para a ciência. Alude aos
diferentes ramos de conhecimento observando, por analogia, que em todos eles esta
postura se faz necessária. Afirma que o valor científico dos trabalhos etnográficos
depende do quanto seu autor seja capaz de expor claramente sua posição diante do
material de pesquisa.
Ilustra as dificuldades e obstáculos que o etnógrafo encontrará, descrevendo algumas
de suas experiências com o trabalho de campo. Atribulações estas, cuja solução e
superação explicarão algumas das regras metodológicas que o autor expõe. Fatores
como a inexperiência e a falta de orientação (devida ao desinteresse ou falta de tempo
por parte do “anfitrião branco”), a delicada abordagem científica impossibilitada de se
efetivar com precisão pela excitação que a presença de um estranho causa, a
insuficiência de dados precisos frente ao distanciamento na comunicação que é
resultante do desconhecimento da linguagem nativa e a desqualificação das fontes
secundárias – outros “homens brancos”, devido a contaminação por preconceitos destas
mentes medianas em relação ao povo nativo são exemplos da necessidade de aplicação
sistemática de um método e de princípios afim de obter os resultados científicos
desejados.
Malinowski aponta três princípios essenciais na metodologia cientifica etnográfica;

1. O registro objetivo e claro da organização da tribo e a anatomia de sua cultura


através do método de documentação estatística. Apesar da estrutura cultural não estar
traduzida em códigos ou leis formais, encontra-se incorporada nos indivíduos que, por
sua vez, não são capazes de estabelecer qualquer observação objetiva das leis
psicológicas as quais estão sujeitos pela força da tradição. Por isto uma forma adequada
para coletar dados concretos sobre a estrutura social e cultural é a indução. Embora seja
impossível inquirir um nativo sobre regras gerais, abstratas pode-se sempre perguntar
como determinado caso seria tratado, afirma o autor.
Além disso, a verificação empírica dos fatos e a coleta de impressões, opiniões e da
postura dos nativos no momento em que o fato acontece se faz, certamente, crucial para
um trabalho etnográfico. Malinowski, num esforço de objetividade e imparcialidade,
aponta o procedimento de apresentação concreta em tabelas, dos dados obtidos em
relação às fontes do etnógrafo.
Portanto o primeiro aspecto metodológico seria que “cada fenômeno deve ser
estudado mediante a mais ampla variedade possível de suas manifestações concretas;
cada qual estudado através de um levantamento exaustivo de exemplos detalhados (...)
método que poderia ser chamado método de documentação estatística mediante
evidência concreta.” (p. 53)

2. Malinowski cita o exemplo dos trabalhos de amadores (residentes de longa data


como missionários, comerciantes, médicos e funcionários etc.) que, apesar de não
científicos, oferecem material empírico de grande valor, pois tem proximidade como o
comportamento da vida real dos nativos. Para ele, se o pesquisador especializado puder
adotar tais condições de vida onde haja contato estreito com a vida nativa, terá condição
de encaixar na anatomia cultural da tribo seus “imponderáveis da vida real”, através de
um diário etnográfico onde arquivará observações minuciosas, detalhadas.

3. “Além do esboço claro da constituição tribal e dos itens culturais cristalizados, que
constituem o esqueleto, além dos dados da vida diária e do comportamento ordinário,
que são, por assim dizer sua carne e seu sangue, resta ainda a ser registrado o espírito –
os pontos de vista e opiniões e expressões dos nativos. Pois, em cada ato da vida tribal,
há, inicialmente, a rotina prescrita pelo costume e tradição, em seguida há a maneira na
qual é praticado e, finalmente, há o comentário a seu respeito, presente na mente dos
nativos.” (p.58). Para que se chegue a este resultado, o autor afirma ser o conhecimento
da língua nativa o melhor instrumento de pesquisa. Portanto, descobrir as maneiras
típicas de pensar e agir, correspondentes às instituições e à cultura determinada,
formulando um “corpus inscriptionum” como documento da mentalidade nativa,
constitui a terceira regra apresentada por Malinowski.

Considerações estas, sobre as três linhas de abordagem que conduzirão o etnógrafo a


compreender a visão de mundo do nativo e sua relação com a vida, que apontam o que
para o autor é o objetivo principal de uma pesquisa; realizar um estudo onde o desejo
pessoal de sentir pelo que vivem os indivíduos, de compreender a natureza de sua
felicidade seja a maior recompensa.

O autor faz uma observação acerca da desmistificação do selvagem graças à


etnologia, que organizou e sistematizou o que antes parecia caótico e irregular.
Contrastando a concepção popular com a da ciência moderna, que mostra a organização
bem definida das instituições sociais tribais, governadas pela autoridade da tradição
através de mecanismos de legitimação extremamente complexos, onde estariam sujeitos
a um estrito código de etiqueta, em contraposição à qual a etiqueta e as convenções
européias mais “civilizadas” pareceriam livres e confortáveis.
Esta observação demonstra exatamente os resultados obtidos quando o estudo
científico se orienta no sentido do interesse sério, imparcial e responsável pela
compreensão da natureza da relação do homem tribal com a vida, com sua realidade, a
que Malinowski se refere.