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Machad

pedra versus mac


metal: a ambieg
agricultura de c
Amazônia pré-

358
dos de
chados deMachados de
pedra versus machados de
guidade metal:
da a ambiguidade da
coivara na
agricultura de coivara na
Amazônia pré-histórica
-histórica
w i l l i a m m. d e n e v a n
University of Wisconsin-Madison

359
Denevan, W. M

Denevan, William M. 1992. Stone vs outras economias tradicionais como


metal axes: the ambiguity of shifting representativas de sistemas pré-históri-
cultivation in prehistoric amazonia. cos de produção de alimentos. Mesmo
Journal of the Steward Anthropological Soci- onde tais grupos sofreram claramente
ety 20: 153-65. considerável aculturação, tem sido
sugerido que seus sistemas para obten-
Tradução de Denise Pahl Schaan e Ana
ção de alimentos encontram-se essen-
Paula Schaan
cialmente preservados e são de longa
duração, apesar das mudanças de culti-
“O domínio da floresta pelo vos e ferramentas.
homem não requer machados”. Essa perspectiva, entretanto, sofre
Sauer (1958: 108)
oposição, quando assistimos ao debate
sobre a autenticidade dos Tasaday nas
Filipinas (Headland 1992), e a visão re-
INTRODUÇÃO
visionista dos !Kung do Kalahari por
Donald Lathrap teve percepções no- Wilmsen (1989), que argumenta que os
táveis sobre a pré-história Amazônica, !Kung estão longe de serem caçadores-
a interação entre subsistência e as- coletores remanescentes da idade da
sentamentos, e a posição da Amazônia pedra. Poucos grupos em qualquer lo-
como um palco central e não como cal tem se mantido isolados, direta ou
um recanto atrasado na América do indiretamente, da economia mundial.
Sul. Um de seus maiores interesses
Nas terras baixas da América do Sul,
era a distinção entre as culturas e as
encontramos tribos como os Nam-
economias da densamente habitada
biquari, Ache, Héta, Sirionó, Yuquí,
planície inundável (várzea) e aquelas
e Yora que até recentemente subsis-
das terras altas escassamente ocupa-
tiam de caça e coleta com pouco ou
das (terra firme) (Lathrap 1970, 1977).
nenhum cultivo. Entretanto, antes de
Um componente-chave desta história
serem remanescentes de sociedades
é o machado de pedra e sua eficiência
pré-agrícolas, parece que muitos são
para derrubar a floresta. A presença de
agricultores refugiados que escaparam
machados de pedra em sítios arque-
de tribos mais poderosas, dos Euro-
ológicos é provavelmente indicativa de
peus, ou de pressões demográficas nas
agricultura (Lathrap 1970: 62-63). Mas
várzeas, um argumento lançado em
que tipo de agricultura? Don1 apreci-
1968 por Lathrap e mesmo antes por
aria o que eu tenho a dizer aqui; estou
Claude Lévi-Strauss (1963); veja tam-
certo de que ele teria alguns comentári-
bém Bailey et al. (1989:65-66).
os cáusticos, mas construtivos.
Mais recentemente, a arqueóloga Anna
Etnólogos e etnohistoriadores tem
Roosevelt afirmou que, na Amazônia,
geralmente retratado os caçadores-
“teorias sobre a subsistência pré-con-
coletores indígenas sobreviventes (for-
quista não podem ser testadas com da-
rageiros), os agricultores de coivara, e
dos etnográficos” e que “as maneiras

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Machados de pedra versus machados de metal

pelas quais os índios atuais manejam tor limitante principal (Denevan 1971,
os recursos podem não ser represen- 1992: 208-209; Hames and Vickers 1983).
tativas das pré-históricas” (Roosevelt
Eu acredito que o padrão da cultura
1989:31). Colchester (1984: 311) dá
de ciclo curto, a agricultura de coivara
maior ênfase: “é tempo de começarmos
com longos períodos de pousio, é pri-
a examinar as sociedades amazônicas
mariamente um desenvolvimento pós-
em termos das transformações radicais
conquista, refletindo a mudança do
recentes que tem ocorrido e que estão
desmatamento da floresta com macha-
ocorrendo em suas bases tecnológicas,
dos de pedra para os mais eficientes
demográficas, e econômicas”. Além
machados de aço ou ferro, e que em
disso, a maior parte dos índios sobre-
tempos aborígenes o desmatamento
viventes está localizada nas altas flo-
era muito trabalhoso para ser uma es-
restas de terra firme dos interflúvios,
tratégia agrícola comum ou frequente.
onde as condições de recursos (solos,
Vou primeiro comparar o corte de ár-
caça e pesca) são relativamente pobres,
vores com machados de pedra e metal.
enquanto que a maioria dos índios
Então, argumentarei sobre o significa-
pré-históricos estavam localizados nas
do disso para a agricultura indígena
planícies inundáveis ricas em recursos
pré-histórica na Amazônia.
ou nos barrancos adjacentes.
Nosso conhecimento das adaptações
indígenas à terra firme, adaptações CORTE DE ÁRVORES
que estão agora sendo alardeadas como Existem alguns dados disponíveis so-
instrutivas para a utilização com suces- bre a tecnologia e o trabalho diferen-
so da floresta tropical, estão baseadas cial envolvido na abertura da floresta
primariamente em observações atuais. com machados de pedra e metal na
Esse modelo é caracterizado pelo cul- Amazônia, em especial de Robert Car-
tivo de curta duração/pousio da agri- neiro (1974, 1979a, 1979b), que con-
cultura de coivara, plantas com baixo duziu pesquisa experimental entre os
conteúdo de proteína (mandioca, bata- Amahuaca no leste do Peru, os Kui-
ta doce, banana da terra), assentamen- kuru na Amazônia brasileira, e os Ya-
tos pequenos e temporários (cerca de nomamö no sul da Venezuela. Cortar
10 a 100 pessoas), e baixas densidades árvores com machados de pedra clara-
populacionais (menos de 0,5 pessoas mente é um trabalho difícil, que con-
por km²). Técnicas agroecológicas some tempo.
produtivas são comuns, tais como de
melhoria do solo, manejo de pousio, e Carneiro (1979b: 69-70), por exemplo,
plantações policulturais. Debate con- calcula que um árvore com diâmetro
siderável existe sobre as razões para de 61cm de dureza moderada poderia
este padrão que se aplica à maioria das levar de 11,7 a 14,4 horas para cortar
tribos de terra firme2, particularmente com um machado de pedra, contra
sobre se a caça (proteína) escassa é o fa- 0,52 horas com um machado de aço.
O tempo de corte, claro, varia com o

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tipo do machado, a força do braço, a para 1, pedra para aço.


técnica de corte³, espessura do tronco,
Para uma roça familiar de 1,7 acres de
e a dureza da madeira. A razão de tem-
árvores com tamanhos e durezas varia-
po de corte, pedra para aço, aumenta
dos, Carneiro (1979b: 71) calculou
progressivamente com o tamanho do
um total de 1.229 homens/hora para
tronco. A razão é somente de 10 para
desmatamento com o machado de pe-
1 para uma árvore de diâmetro de 15
dra versus somente 64 horas com o
cm; é de 23 para 1 para uma árvore de
machado de aço, uma razão de 19 para
61 cm; de 32 para 1 para uma árvore
1. O primeiro equivale a 246 dias de
de 122 cm, ou 115 horas versus 2,4
trabalho de 5 horas, o que é simples-
horas. Diferenças em tempo de corte
mente intolerável. Ele pergunta como
entre machados de pedra e metal são
o desmatamento para a coivara pode-
muito maiores para madeiras duras do
ria ter se dado. Sua resposta é que o
que para madeiras macias: “mantendo
tempo de trabalho foi reduzido com
o diâmetro constante, uma árvore duas
a ajuda da queima do tronco das ár-
vezes mais dura do que outra (densi-
vores, cortando um anel através das
dade ou gravidade específica) irá levar
camadas, queda de árvores causando
duas vezes mais para ser cortada”. Isso
queda de outras adicionais, e deixando
para o machado de aço. A diferença
as árvores maiores no lugar. Ele calcula
para o machado de pedra seria ainda
uma eficiência mediana da razão de 7 a
maior (Carneiro 1979: 62).
8 para 1, pedra para aço, usando técni-
Hill e Kaplan (1989; Kaplan 1985) cas auxiliares, e de 10 para 1 se todas
trabalhando com os índios Ache no as árvores acima de 61 cm de diâmetro
Paraguai e os Yora no Peru, confir- são deixadas no lugar4. Kaplan (1985),
mou a hipótese de Carneiro de que entretanto, aponta que a técnica de
as razões para o desmatamento au- derrubar múltiplas árvores não reduz o
mentam desproporcionadamente com tempo de desmatamento significante-
aumento no diâmetro da árvore e sua mente. Matando e desfolhando árvores
dureza, com uma razão significante- pelo anelamento e queima da base do
mente maior de aumento para a pedra tronco deixa as árvores em pé, mas irá
comparada com os machados de aço. levar a luz do sol para parte da superfí-
A dureza, entretanto, tem efeito mui- cie adjacente.
to maior no tempo de desmatamento
Outra consideração é a disponibi-
para o machado de pedra do que no
lidade das rochas para as lâminas de
tamanho da árvore: “Para madeiras
machado. Pode levar vários dias para
duras, o custo de tempo para o des-
se fazer um machado de pedra e horas
matamento com o machado de pedra
para afiá-lo (Kozák et al 1979); fontes
pode ser 60 vezes maior do que para
adequadas de rochas podem se encon-
das ferramentas de metal” (Hill e Ka-
trar longe, requerendo longas caminha-
plan 1989: 331). Em geral, a razão da
das ou trocas (Denevan 1966: 47-48).
eficiência era de aproximadamente 10
Lâminas de machado se tornam dis-

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Machados de pedra versus machados de metal

formes ou quebram, e os cabos que- se concentravam junto aos pequenos


bram5. Machados são perdidos ou cursos d’água7 onde o desmatamento
roubados. A rapidez pelo qual as tribos para as roças era mais fácil (Hill e Ka-
trocaram para os machados de metal plan 1989: 332). Mesmo hoje, eles fre-
quando disponíveis, seu esforço para quentemente abrem roças em moitas
consegui-los, e o papel importante dos de bambus gigantes (Baksh e Johnson
machados de metal nas trocas são bem 1990: 205). A dependência dos Yora
conhecidos, refletindo a economia de (Peru) da coleta aparentemente reflete
trabalho, como relatado na “Revolução a disponibilidade limitada de macha-
do Machado”, por Alfred Métraux (1959)6. dos de metal (Hill e Kaplan 1989). Al-
lan Holmberg (1969: 272) relatam que
os Sirionó deram muito mais atenção
IMPLICAÇÕES AGRÍCOLAS ao cultivo e se tornaram mais seden-
A ineficiência dos machados de pedra tem tários tão logo lhes proporcionaram
implicações dramáticas para a agricultura machados de aço.
pré-histórica da Amazônia. Diversos an- O uso de machados de pedra pelos Ya-
tropólogos tem sugerido isso sem, no nomamö para desmatar e o impacto da
entanto, ir além (Colchester 1984; Hill introdução de machados de aço no sé-
e Kaplan 1989). Kaplan (1985), em um culo XX são descritos por Colchester
artigo não publicado, apresenta a hipó- (1984). Vegetação secundária e popu-
tese de que “agricultores aborígenes, lações de espécies musáceas de caules
particularmente nas regiões interfluvi- macios são procuradas para roças por
ais, eram altamente seletivos com rela- causa da maior facilidade de derrubá-
ção à sua escolha de locais potenciais las com os machados de pedra do que
para cultivo, o que, como resultado da a floresta adulta, mesmo que mais
distribuição dos tipos de floresta, co- trabalho seja requerido para limpar o
locou restrições importantes sobre os inço em área de vegetação secundária.
padrões de assentamento e as práti- Roças eram pequenas, as árvores
cas de subsistência através da bacia grandes não eram derrubadas, e a
Amazônica”. busca de caça e plantas silvestres para
Locais para cultivo teriam sido procu- alimentação tinha grande importância
rados onde a vegetação não possuía ár- para a subsistência: “os Yanomamö
vores duras e grandes e era dominada do século XVII eram coletores dos
por árvores pequenas e macias, essen- interflúvios que suplementavam sua
cialmente vegetação secundária, como subsistência com o cultivo de peque-
roças abandonadas em regeneração, ou nas roças amplamente dispersas pelo
ao longo de córregos, ou ainda locais seu território de forrageiro” (Colches-
perturbados por quedas de árvores e ter 1984: 308). Relatos dos primeiros
de barreiras. Os Machiguenga (Peru) exploradores confirmam este padrão.
dizem que, quando eles tinham ferra- Com a introdução dos machados de
mentas de pedra, seus assentamentos metal, os Yanoama mudaram de uma

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economia de forrageio suplementada cultores intensivos, principalmente ao


pela agricultura para uma economia longo de pequenos cursos d’água. Em
agrícola suplementada pelo forrageio, geral populações eram provavelmente
com roças e aldeias grandes e menor pequenas, mas possivelmente maiores do
mobilidade (Colchester 1984: 310). Da que os estudiosos tem acreditado, inclu-
mesma forma, os índios Machiguenga indo eu mesmo (Denevan 1992: xxv-
disseram que, no passado, quando era xxvii; Meggers 1992). Em contraste,
difícil obter machados de metal sua sobre as planícies e muros de conten-
roças eram muito menores e eles de- ção adjacentes não existia vegeta-
pendiam mais dos produtos da floresta ção para retirar ou somente vegetação
para sua alimentação (Johnson 1977: 164). facilmente removível, e o machado de
pedra não era um problema. Solos
Não estou argumentando que o
eram férteis e os recursos silvestres ri-
desmatamento da floresta do inter-
cos. Roças não “mudavam” e popula-
flúvio era raro em tempos anteriores
ções eram densas. Além disso, aquelas
aos machados de metal, mas que era
savanas onde a fertilidade do solo e a
provavelmente mais restrito e muito
drenagem não eram severas e podiam
menos freqüente do que com as tri-
ser manejadas, podem ter sido atrativas
bos da floresta tropical hoje, a maio-
a agricultores permanentes uma vez
ria das quais desmatam novas áreas a
que havia poucas ou nenhuma árvore
cada dois ou três anos. Locais eram
para cortar (e.g. Denevan 1966: 94-95;
sem dúvida mais seletos, baseados na
Posey 1985: 140-144).
facilidade de desmatamento, e uma
vez que uma roça era estabelecida, Nós sabemos que florestas com ma-
era provavelmente mantida cultivada deiras duras foram desmatadas para
pelo maior tempo possível. Possivel- agricultura em outros locais por popu-
mente era necessário menos trabalho lações relativamente densas usando
para combater ervas daninhas (pro- ferramentas de pedra, como em Yuca-
vavelmente suprimidas pelas sombras tán, no oeste da América Central e na
controladas) e outras pragas e para Europa. No entanto, estas eram áreas
usar técnicas de manutenção do solo, com solos muito superiores àqueles
do que era requerido para abrir novas da Amazônia, de forma que os cam-
roças. Entretanto, necessitam-se dados pos podiam ser utilizados por muitos
para confirmar isso. anos e não tinham que ser desmata-
dos frequentemente. O trabalho con-
O argumento aqui é hipotético, pois
siderável envolvido em desmatar com
existe pouca evidência arqueológica
instrumentos de pedra podia ser então
ou histórica inicial sobre a natureza
tolerado. Em estudo recente, Doolittle
da agricultura pré-histórica de terra
(1992) argumenta que a agricultura de
firme, e não existe nenhuma evidência
coivara pré-histórica na América do
física para qualquer forma de agricul-
Norte era menos comum do que as
tura de coivara pré-histórica. Existiam
roças permanentes.
provavelmente agrupamentos de agri-

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Machados de pedra versus machados de metal

CONCLUSÕES como locais naturalmente per-


turbados ou antigas roças com
Estou sugerindo que a agricultura de
vegetação secundária recente
coivara na Amazônia pré-histórica era
de plantas de caule macio. Um
incomum por causa da ineficiência do
exemplo atual de tais locais são
machado de pedra, especialmente nas
roças altamente diversificadas
florestas adultas, altas, com madeira
ou policulturais descritas por
dura da terra firme. A agricultura in-
Harris (1971) para os Waika
dígena de coivara dos dias de hoje tem
(Yanomamö) do alto Orinoco,
um período curto de cultivo, como
que são cultivadas por até seis
conseqüência de solos pobres, invasão
anos. Esses campos contras-
de pragas, diminuição da caça, e fric-
tam com a roça monocultural
ção social, mas isso foi possível pelo
dominada por uma única es-
machado de aço que torna a abertura
pécie, geralmente a mandioca,
de novas roças um processo relativa-
que é a forma comum de áreas
mente fácil – uma questão de poucas
de cultivo indígenas em flores-
semanas para criar uma roça sufici-
tas tropicais hoje (Beckerman
entemente grande (0,5 – 2,0 ha) para
1983), mesmo para os Yano-
sustentar uma família.
mamö (Hames 1983: 18-19).
A agricultura indígena de coivara, assim A maioria das áreas de planta-
como a conhecemos, é o produto do ção atuais de monoculturas são
machado de aço, e também do facão. usadas somente por um a três
Qual era, então, a natureza da agricul- anos Beckerman (1983: 4-6) dá
tura pré-histórica na floresta alta? Não várias razões para as plantações
sabemos e talvez nunca saibamos. No en- monoculturais, mas não con-
tanto, existem diversas possibilidades: sidera o papel do machado de
(1) Hortas: canteiros permanen- aço em fazer as roças de coivara
tes com plantas anuais e perenes possíveis.
em volta da casa, com controle (3) Agroflorestal: manipulação
cuidadoso de ervas daninhas, da floresta através de plantação
manejo de solo e uso de lixo do- e manejo intencional e não in-
méstico como fertilizante. Lath- tencional de plantas ao longo de
rap (1977), em seu artigo clás- trilhas, áreas de acampamento,
sico, “Our Father the Caiman, roças em pousio e outras áreas
our Mother the Gourd”, dizia de atividade (campos de flores-
que a antiga forma de agricul- tas) (Denevan e Padoch 1988;
tura amazônica era feita assim Posey 1985).
nestas hortas domésticas;
Estes três modelos de agricultura
(2) Roças intensivas: localizadas em terra firme, com a tecnologia do
em locais onde o desmatamen- machado de pedra, na realidade eram
to era relativamente fácil, tais provavelmente manifestados por in-

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úmeras formas de transição, variando que solos pobres e proteína animal


conforme habitat, mobilidade, tempo limitada não são fatores contribuintes.
e demografia. Essas atividades, junta- Aqui está envolvido um grande debate
mente com a coleta, contribuíram para na ecologia cultural amazônica que ainda
a criação das florestas antropogênicas, está para ser resolvido.
ou florestas semi-manejadas, com um
A adoção dos machados de metal e
número maior do que o original de
facões no Novo Mundo foi geralmente
plantas úteis presentes – silvestres,
rápida onde havia presença européia.
semi-domesticadas e domesticadas.
De acordo com Hans Staden (1928: 74,
A floresta amazônica não era primi-
90), que morou com os Tupinambá,
tiva em 1492 e também não o é hoje.
ferramentas de ferro eram um impor-
Provavelmente todas estas formas de
tante objeto de troca na costa brasileira
agricultura e agroflorestamento es-
desde 15548. Áreas mais remotas ob-
tavam presentes na terra firme, em um
tinham ferramentas de ferro indireta-
mosaico de densidades populacionais
mente, provavelmente através de trocas
variáveis, que devem ter incluído gru-
e invasões ocasionais. Tribos isoladas
pos de caçadores-coletores dispersos
continuaram o uso de ferramentas de
nas florestas mais difíceis, e grandes
pedra até boa parte do século XX, e
populações semi-permanentes onde a
algumas poucas ainda usam. Isso le-
vegetação era facilmente derrubada.
vanta a questão: como a agricultura e
Sabemos pela arquelogia e outras o forrageio e assentamentos associa-
evidências que havia algumas popula- dos eram afetados quando as pessoas
ções substanciais na floresta de terra às vezes tinham machados de metal
firme. Sítios grandes tem sido vistos, e algumas vezes ainda dependiam de
mas não estudados. Relatos sobre a machados de pedra, ou quando alguns
sublevação dos Jívaro em 1599 men- agricultores em uma aldeia tinham
cionam mobilização de mais de 20 mil machados de metal enquanto que outros
guerreiros (Harner 1982: 21). Relatos não os tinham? Parece que há poucos
etnohistóricos indicam assentamentos relatos sobre isso. Uma mudança do
Kayapó periodicamente alcançando dia para a noite da pedra para o aço,
mais de mil pessoas (Posey 1987: 139- como relatado por Holmberg (1969:
147). A base substancial desse número 268) e outros provavelmente não era
é desconhecida. comum.
A dificuldade de derrubar a floresta Há outras perguntas que precisam ser
tropical com árvores duras, adultas, respondidas. Quão eficientes eram os
com machados de pedra explica ao me- machados de ferro que foram intro-
nos parcialmente a dramática diferenciação duzidos na era colonial?9 Machados de
entre os assentamentos geralmente disper- ferro devem ter sido menos eficientes
sos da terra firme e os assentamentos do que machados de aço, mas a maioria
ribeirinhos grandes, densos e perman- dos dados experimentais de Carneiro e
entes. Isso não quer dizer, entretanto, outros se refere aos machados de aço.

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Machados de pedra versus machados de metal

Além disso, em que medida os macha- sentamento escolheu um método par-


dos de metal estavam presentes no ticular para adquirir bens manufatura-
alto Amazonas na época pré-histórica? dos, particularmente ferramentas de
Lathrap (1970: 178) encontrou macha- ferro” (Golob 1982: 269)10. Mas a tec-
dos de bronze no rio Pachitea e no rio nologia do machado de pedra também
Pisqui no leste do Peru, claramente ob- nos diz que a floresta amazônica pode
tidos através de trocas com os Andes. ser cultivada com êxito e de forma sus-
Esses eram pequenos, no entanto, e tentável com destruição mínima por
provavelmente não eram usados para outros meios que não a agricultura de
cortar árvores grandes. Finalmente, coivara, que é um dos maiores instru-
qual era a importância do machado mentos de destruição da floresta hoje.
de pedra para a agricultura em outros
pontos da América tropical? Gordon
(1982: 57-61) discute o uso de ferra- NOTAS
mentas de corte feitas de pedra e de 1
Nota das Tradutoras: aqui o autor usa
metal na América Central, incluindo o “Don” como diminutivo (apelido) de
impacto do facão na manipulação de Donald [Lathrap].
espécies da floresta. Ele observa que: 2
Por exemplo: Campa, Bora, Yanomamö,
“derrubar a floresta tropical úmida Kuikuru, Amuesha, Machiguenga, Kay-
sem uma ferramenta de corte de metal apó, Runa, Ka’apor, Amahuaca, e Siona-
certamente seria um processo lento e Secoya; veja Posey e Balée (1989); Hames
trabalhoso” (ibid). Ele também acredita e Vickers (1983).
que milpas com múltiplos cultivos eram 3
Hodder (1983: 79-80) questiona a vali-
um componente integrante das flores- dade dos resultados de Carneiro (1979a,
tas antropogênicas. 1979b) para a eficiência do corte da árvore
Para concluir, a agricultura de coivara pelos Yanomamö, uma vez que o respon-
sável pelo corte não tinha experiência an-
como uma prática antiga na Amazônia
terior com o machado de pedra.
parece ser um mito. Não há evidência
para isso. No máximo era raro, pelo
4
Outros estudos concluíram pela eficiên-
menos na forma de curtas temporadas cia menor do machado de pedra sobre o
machado de aço (razão aproximada de 3:1
de cultivo. Não faz sentido, tendo em
a 6:1), mas eles geralmente não levam em
vista o machado de pedra. A agricultura
consideração a variação do diâmetro das
de coivara é, portanto, uma adaptação árvores e sua dureza (Salisbury 1962: 220;
relativamente moderna, resultado da Saraydar e Shimada 1971, 1973; Steensberg
introdução do machado de metal. Se 1980: 38-39; Townsend 1969: 203-204).
essa afirmação é válida, qual seu sig- 5
Veja Carneiro (1979a: 41); Lowenstein
nificado? Certamente nos diz alguma (1987: 35-43); Townsend (1969: 201).
coisa sobre a adaptação pré e pós-Co- Lowenstein compara o tempo necessário
lombiana e o impacto da tecnologia eu- para produzir e afiar, eficiência e dura-
ropéia: “produção e organização social bilidade dos machados produzidos por
foram alteradas à medida que cada as- picoteamento versus lascamento para os

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Denevan, W. M

Maia. Carneiro (1974: 115) cita um homem a non-western society, in Risk and Uncer-
Amahuaca sobre o uso antigo dos macha- tainty in Tribal and Peasant Economies. Edita-
dos de pedra: “Eles dizem que está sempre do por E. Cashdan, pp. 193-227. Boulder:
quebrando. Dizem que está sempre sem Westview Press.
fio. Esse machado de pedra não presta!”
Beckerman, S. 1983 Does the swidden ape
6
Existem vários exemplos da obsessão the jungle? Human Ecology 11: 1-12.
indígena pelos machados de pedra na
Carneiro, R. L. 1974. On the use of the
Amazônia (DeBoer 1981; Denevan 1966:
stone axe by the Amahuaca indians of east-
97; Golob 1982: 115, 126-127, 153-154,
ern Peru. Ethnologische Zeitschrift Zilrich 1: 107-122.
201-202; Isaac 1977: 141).
____. 1979a. Tree felling with the stone
7
Wilk (1985: 55) acredita que nas terras
axe: An experiment carried out among the
baixas dos Maias, a agricultura de várzea
Yanomamö indians of southern Venezu-
em períodos de águas retraídas precedeu a
ela, in Ethnoarcheology: Implications of Eth-
agricultura de coivara nas terras altas, em
nography for Archeology. Editado por Carol
parte pelo fato dos machados para cortar a
Kramer, pp. 21-58. New York: Columbia
mata serem inadequados.
University Press.
8
Jean de Léry (1990: 101), que estava na
____.1979b. Forest clearance among the
costa brasileira ao mesmo tempo em que
Yanomamö, observations and implica-
Staden (1556-58), disse que “bens” (in-
tions. Antropologica 52: 39-76.
cluindo machados de ferro) dos europeus
permitiram que os índios tivessem grandes roças. Colchester, M. 1984. Rethinking stone age
economics: some speculations concerning
9
O desenvolvimento do machado de ferro
the Pre-Columbian Yanoama economy.
foi instrumental na abertura das florestas
Human Ecology 12: 291-314.
no noroeste da Europa na Idade Média.
Alguns machados de ferro tinham partes DeBoer, W. R. 1981. The machete and the
de aço soldadas à cabeça, mas machados cross: Conibo trade in the late seventeenth
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