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A

REENCARNAÇÃO
SEGUNDO O ESPIRITISMO

ENSINAMENTOS
DE ALLAN KARDEC

Compilação feita por


M. Henri SAUSSE

-1-
ESTUDO
sobre a

REENCARNAÇÃO
segundo os ensinamentos de ALLAN KARDEC

A REENCARNAÇÃO
_______________________

Nascer, morrer, renascer e progredir sem cessar


Tal é a grande lei à qual precisamos todos nos submeter,
Ninguém a pode transgredir, a suprema sabedoria
Nos fez nascer um dia apenas para logo morrer.

É preciso voltar a este lugar de miséria


Expiar nossos erros, suportar o peso;
Porque em um novo corpo saído da matéria
O Espírito deve reparar suas faltas de outrora.

A Terra é para nós apenas um inferno passageiro;


Onde devemos lutar e trabalhar sempre;
Vencer nossas paixões cada dia mais,
Para ganhar, passo a passo, as moradas celestes.

Viemos muitas vezes sobre esta Terra;


E ainda viremos progredir e sofrer;
Assim o quer o destino; desvendando este mistério,
De nossos más tendências saibamos nos libertar.

Não, Deus não teria querido que uma só existência


Decidisse o porvir do Espírito imortal;
Ele lhe deu o tempo, a esperança e o sofrimento,
Para conquistar um dia a felicidade eterna.

Mais dura seja nossa tarefa nesse Mundo, amigos,


Mais é preciso preenchê-la com zeloso cuidado.
Se quisermos experimentar a exaltação profunda
De logo deixá-lo por Mundos mais doces.

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A REENCARNAÇÃO ANGLO-SAXÔNICA

Estas poucas estrofes, escritas antes da guerra, me foram trazidas à memória em


seguida à leitura de uma carta de um correspondente londrino, expondo como os
espiritualistas do outro lado da Mancha abordam a questão do progresso e da reencarnação.
Persuadido de que esses novos resumos interessarão aos leitores, ressalto, textualmente, as
passagens seguintes que nada têm em comum com os ensinamentos de Allan Kardec, os quais
temos a intenção de expor no decorrer desta compilação.
Eis aqui a opinião de meu correspondente inglês:
« A Doutrina Espírita, tal como foi exposta pelo Sr. Léon Denis, é muito prática e
inteligente; é completamente diferente da crença dos espiritualistas deste lado da Mancha. Na
Inglaterra, ao invés de crer na Reencarnação, pensa-se que uma vez transposto o umbral do
Além, não se retorna à carne, mas que há Esferas espíritas em torno da Terra onde ficam os
defuntos. Logo próximo à Terra se localiza (conforme seu ensinamento) « o plano astral
Inferior», esfera astral de baixo onde se encontram os Espíritos viciosos, malignos, etc. Após
vem o «plano astral Superior », esfera astral do alto; aqui os Espíritos estão em um degrau
mais alto e são um pouco mais avançados. Depois existe « a Summerlan», Terra de Verão do
céu: aqui os Espíritos são muito similares aos Espíritos encarnados; têm um corpo astral de
uma fluidez mais sutil e fazem o bem, estudam e aprendem para subir para a quarta esfera. Ali
o corpo fluídico se torna mais refinado, purificado, não se ocupando mais das coisas que
interessavam os Espíritos quando estavam encarnados na matéria, mas estudam-se as grandes
leis do Universo e as artes celestes, as matemáticas e talvez a geografia do sistema solar.
Depois de haver passado um longo período de anos na quarta esfera, passa-se para o que se
chama « a esfera Cristã », a esfera do Cristo. Aí se situa a grande escola sob a direção do
Cristo. Após haver passado um tempo na « esfera do Cristo », torna-se puro Espírito, quer
dizer sem nenhum corpo, somente um Espírito e progride de esfera em esfera até que se torne
Mestre, ou seja, finalmente absorva a si mesmo em Deus e nele se dissolva.
Diz-se que é Dele que viemos, pequena centelha do fogo divino, e que é para Ele que
retornaremos.
Eu diria, caro Senhor, que achei a Doutrina Espírita, tal como a expôs o Sr. Léon
Denis, bem mais razoável e aceitável por todos e agradeço por me haver enviado suas obras. »
Uma coisa que meu correspondente não disse, é a razão pela qual os Espíritas e os
Espíritas Anglo-Saxões eram, de início, hostis à reencarnação tal como a compreendemos e
tal como os Espíritos a ensinaram. Talvez fosse considerada uma queda para eles o fato de
poder reencarnar em uma personagem de cor, ao retornar sobre nosso planeta. Depois de
alguns anos esta repulsão foi modificada e a reencarnação tal como nos ensina Allan Kardec é
aceita, conforme a compreendemos, na Inglaterra como na América.

INSTRUÇÕES SOBRE A REENCARNAÇÃO


Ditada por meio de um copo e recolhida pela Srtª Bedette

« Observação interessante. Este ditado foi dado em várias sessões; cada interrupção
feita no meio de uma frase, esta era continuada nesse ponto preciso na sessão seguinte. »
16 de Janeiro de 1911. - Afirmar a lei da reencarnação foi, durante minha vida
material, o ponto de partida de todos os meus trabalhos, o dogma fundamental. A pedra sobre
a qual Pedro devia fundar a Igreja de Jesus e que, tendo sofrido tantas tormentas e

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tempestades, seria ainda forte e quase invencível se a Igreja não tivesse escondido sob o
alqueire esta luz, por julgá-la muito viva, muito luminosa para nossa compreensão. Sem a
reencarnação qual seria nosso destino futuro? No que tange à parte espiritual, ele não poderia
ser determinado como resultante de apenas uma vida material já que ela seria única
20 de Janeiro, e seria então muito natural considerar a morte com o terror religioso no
qual a Igreja a envolve. A reparação para a maioria seria eterna e incluiríamos os choros e o
ranger de dentes dos infelizes lançados ao monturo celeste, tenros corações dos esposos, dos
irmãos, dos amigos, abismados na mais profunda dor, talvez jamais revendo aqueles por quem
choram. Tais seriam as conseqüências
22 de Janeiro, bem adoçadas, bem abreviadas da teoria da vida única da qual a Igreja
não quer ou não pode se desfazer porque isso completaria sua perda. Nos dias atuais as vozes
de além-túmulo se elevam e gritam: Eu vivo. Talvez digam: O sofrimento não foi abolido pela
destruição do corpo, mas estou vivo e posso mitigar esse castigo que as faltas de minhas vidas
anteriores me tem infligido; posso, desde já, diminuir minhas penas por minhas próprias
resoluções e com a ajuda de meus Guias. Em todo caso a estrela brilhante da esperança brilha
ante meus olhos; seres queridos, nada está perdido. Vivi, viverei, retornarei para o meio de
vocês sobre essa Terra de sofrimentos que pode se tornar uma Terra de alegria e de amor se
batalharmos contra todos os nossos instintos perversos. Glória a Deus no mais alto dos Céus.
Eis o canto de nossa alma quando ela tiver apreciado e compreendido esta verdade que é a
fonte da vida. Vamos meus amigos, penetrem-se desta confiança que dá uma fé absoluta, mas
uma fé apoiada sobre provas inegáveis.
Qual será nosso amanhã? Ele será exatamente tal qual vocês o tiverem feito no dia de
hoje.
Entre as reencarnações, sua alma imortal gozará as alegrias e a felicidade
correspondente ao ideal que vocês tiverem traçado durante a encarnação
23 de Janeiro. Omnia mecun porto - Trago todos os meus bens comigo – possam
vocês dizer essas palavras com alegria quando de sua entrada na vida espiritual. Por todas as
maneiras possíveis nós viemos lhes dizer: Vocês constroem seu amanhã; ele será pouco
diferente, talvez até inferior àquele de hoje se vocês não se melhorarem. Vocês próprios
pagam as faltas cometidas nas suas existências anteriores, é por isso que muitos dentre vocês
têm de lutar contra a adversidade, durante toda ou parte de sua encarnação. Entretanto
coragem, a paciência e a resignação na luta os permitirão reparar e conquistar.
30 de Janeiro uma situação mais elevada. Na erraticidade que enormidade de pobres
seres sofredores, ignorantes ou viciosos vivem em fluidos quase tão materiais quanto os da
Terra; eles foram surdos à voz de seu Guia, foram cegos à luz espiritual; arrastam-se em torno
de nós, próximos a nós. Algumas vezes, um pensamento simpatizante, forte, imperioso é para
eles como um farol. Há sobre a Terra, meus amigos, seres bastante elevados que, entristecidos
com a situação desses infelizes, oram por eles e nisso se ocupam diariamente.
Os grupos espíritas que estão livres da presunção e do egoísmo podem ter sobre eles
uma grande influência já que, graças aos médiuns, podem entendê-los, conversar com eles e
lhes indicar um estado menos doloroso. Encorajam-nos à prece, essa possante alavanca da
qual vocês não se servem suficientemente. Esses pobres irmãos que vocês esclarecem,
atraídos para o bem que encontraram entre vocês aí se manterão e, se afastarem, retornarão;
então, meus amigos, seus atos bons ou maldosos, serão comentados e julgados e exercerão
sobre eles sua influência. É uma grande responsabilidade que vocês tomam livremente, pois
que, nenhum grupo ignora ou não deve ignorar as leis espirituais. O bem moral que vocês
farão à esses infelizes tem um resultado maior do que podem crer. O remorso das faltas
cometidas, agora que puderam compreender qual era a fonte de seus males, os obriga a tomar
resoluções, embora não sejam muito puras, porque seu objetivo ainda não é o bem, mas a
extinção de seus sofrimentos ; o desejo de um futuro melhor e essas resoluções

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freqüentemente são suficientes para que entre em uma nova evolução (reencarnação); um
desejo desconhecido ou um comedimento no mal opera sobre o corpo material. É assim que,
pouco a pouco, uma nova regeneração se estabelece, ainda lentamente, mas por comparação
rápida e ativa.
Digo-lhes ainda, meus amigos, trabalhem os seus seres morais para a vida espiritual
desde esta existência, ela será correspondente ao ideal que vocês se tiverem traçado. Nenhum
devotamento, nenhuma ternura
6 de Fevereiro de 1911, poderá fazê-los participantes de uma felicidade que não seja
obra sua e que essas palavras que Ovide colocou na boca de Médée não sejam nunca as suas:
« Eu vejo o bem, aprovo e faço o mal ». Velo por seu grupo e os protejo e bendigo.

O PORQUE DESSE LIVRO

Um desejo que tem freqüentemente se manifestado ao longo de quarenta anos durante


os quais exerci as funções de secretário geral da Federação Espírita Lionesa, foi este: Não
seria útil reunir em uma só obra todos os pontos da Doutrina que, nos livros de Allan Kardec e
de Léon Denis, têm tratado da reencarnação? Esparsos como estão hoje nas suas diversas
obras, isso tornaria mais fácil e mais aproveitável, a todos os adeptos do Espiritismo, o estudo
dos diversos ensinamentos dados por nossos Mestres. Está aí certamente uma lacuna a
preencher, mas na época em que o pedido me era freqüentemente feito, não tinha tempo para
empreender esse trabalho, mas hoje, embora a reunião desses ensinamentos possa talvez fazer
falta, o inicio antecipando a felicidade de nossos adeptos, de nossos Mestres e de nossos
amigos do lado de lá.
A maior parte dos elementos contidos nesta brochura já foi publicada no jornal O
Espiritismo Kardecista, de Setembro de 1919 a Dezembro de 1920. A formidável procura que
se produziu então com a publicação no jornal, nos fez abandonar e adiar para tempos
melhores a tiragem em brochura de propaganda desse pequeno opúsculo: A Reencarnação
segundo o Espiritismo. É esse projeto que hoje retomo no interesse da Doutrina.
É, para mim, um fato incontestável que se os livros de Allan Kardec fossem lidos mais
freqüente e seriamente seriam mais bem compreendidos, seus ensinamentos melhor
observados e seriam apreciados em seu justo valor pelos detratores que os denegriram apenas
por conhecê-los mal ou mesmo não os conhecer de todo. Pretende-se, como desculpa, que os
livros de Allan Kardec sejam velhos, rococós e por esnobismo transmite-se isso aos outros;
sem se importar com os tesouros de verdade que são, dessa forma, negligenciados.
É preciso reagir contra esta tola maneira de julgar sua obra; é preciso levar os neófitos
a ler mais séria e atentamente Allan Kardec, para poder melhor compreendê-lo e reter seus
ensinamentos.
Para que a Doutrina Espírita leve seus frutos e se propague conforme nossos desejos, é
indispensável beber em sua fonte, isto é nas obras do Mestre, onde está formulada em termos
claros, límpidos e precisos, não podendo dar lugar a nenhuma falsa interpretação; é por esse
motivo que em vez de transmitir mal seus ensinamentos querendo explicá-los, me limitarei a
uma simples compilação de seus trabalhos sobre esse ponto: a Reencarnação, ao qual me
permitirei somente adicionar a exposição de alguns fatos novos que vêm confirmar os
ensinamentos de Allan Kardec.

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O Sr. CORONEL DE ROCHAS
As vidas sucessivas

As experiências apresentadas pelo Sr. coronel de Rochas sobre as regressões de


memória nas suas obras sobre o assunto das vidas sucessivas pareciam prometer uma
quantidade importante de provas ao assunto da Reencarnação. É lamentável que essas
promessas não tenham sido realizadas e que controles sérios e numerosos não tenham
confirmado as primeiras experiências, afastando esse ponto obscuro do qual o coronel me
falou várias vezes, ao me pedir para renovar as mesmas experiências. « Não seriam as
declarações dos que nada vieram provar nem confirmar, devidas somente à imaginação fértil e
por vezes pouco escrupulosa dos sonâmbulos? » Para se assegurar, é preciso retomar de novo
essas pesquisas e, em lugar de admitir de modo benévolo, simples afirmações, exigir certezas,
provas reais e fatos precisos que pudessem ser controlados pelos pesquisadores escrupulosos,
no único interesse da verdade.
Quando numa sessão de evocação, um Espírito se manifesta, pedimos provas de sua
identidade, exigimos dele, seu nome, prenome, títulos e qualidades, seu estado civil, e
informações particulares com os quais possamos reencontrar a pista e constatar a sua absoluta
autenticidade. Porque não agiríamos da mesma forma com os sonâmbulos que pretendem
reviver suas existências passadas, mas que não fornecem nenhuma prova da realidade e da
sinceridade de suas afirmações?
Peço perdão a todos os sonâmbulos do presente, do passado, e do futuro; é um fato
certo e bem estabelecido pela experiência que todas as pessoas, durante o sono magnético, são
mais ou menos preguiçosas e enganadoras ou enganadas. Todo esforço lhes é penoso, toda
busca os fatiga, assim eles freqüentemente iniciam bem, mas em vez de buscarem seriamente
o que se lhes é pedido, inventam de ler no pensamento de seu magnetizador o que ele deseja
ou espera obter e, uma vez neste caminho, sua imaginação inventiva terá bela oportunidade de
forjar histórias as mais estupendas, cujo controle será nulo porque impossível na ausência dos
elementos necessários. Por várias vezes o coronel de Rochas, a quem manifestei meus receios
a esse respeito, me pediu para retomar, por minha conta, às mesmas experiências.
Infelizmente, nunca obtive resultados sérios nesse caminho. Eu queria precisão, datas,
informações que pudesse controlar, mas jamais obtive algo desse tipo, nada que pudesse me
provar a sinceridade e a autenticidade das informações dadas, fora dos fatos da vida presente,
assim permaneci cético sem por isso ter a pretensão de acreditar que porque não houvesse
obtido de outrem o que pedia, teria de perder toda esperança nesse gênero de pesquisas1.
Mas um fato capital veio colocar aqui um grande ponto de interrogação: Se a
lembrança de todos os encarnados é a de que há uma causa, uma razão maior, que nós não
conhecemos, mas que nem por isso tem menos razão de existir, a lembrança de nossas vidas
passadas teriam sido apagadas de nossa memória simplesmente para nos incitar a buscá-la, a
descobri-la por meio de um artifício mais ou menos engenhoso, mais ou menos sério? Se
fosse assim seria fácil desvendar o enigma de nosso passado e descerrar o véu misterioso que
o encobre aos nossos olhos. Então se perguntaria: que utilidade poderia ter este esquecimento,
imposto à todos, de um passado que seria entretanto tão simples de fazer reaparecer à vontade
aos nossos olhares curiosos?
1
O Sr.
Coronel de Rochas, no prefácio de seu livro: As Vidas sucessivas reconheceu que,
embora as experiências de regressão da memória fossem aparentemente muito
comprobatórias, elas em realidade estariam apenas em estado bruto; ficaria para o futuro
discernir a parte de verdade que contivessem.

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Um fato importante e que é preciso assinalar, é que o Coronel, com seu sujeito
Josefina, fazia não somente reviver o passado, mas podia também sondar o porvir e prever os
eventos futuros. Ora, as predições feitas pelo sujeito Josefina nessas condições não se
realizaram de todo, longe disso, e o Coronel de fato o observa na página 89 das Vidas
sucessivas.
Depois que as palavras de Josefina foram postas em cheque pelos eventos
concernentes ao futuro, que ela anunciara, por que seriam mais dignos de crença os relatos do
passado que eram impossíveis controlar? Assim, não nos iludamos tão rapidamente e vejamos
se este esquecimento do passado não nos teria sido imposto por ser necessário, indispensável,
para não entravar nosso Espírito em sua marcha tão lenta para o progresso e para a perfeição,
objetivo comum a todos nós. Ao querer sondar um ponto misterioso que não devemos
conhecer, há grande possibilidade de que sejamos enganados nas nossas pesquisas e
mistificados, zombados por intermediários, submetidos como todos nós a esta grande lei de
esquecimento do passado.

O ESQUECIMENTO DO PASSADO

Allan Kardec disse, sobre esse assunto, no Livro dos Espíritos, no 392 : « Por que o
Espírito encarnado perde a lembrança do passado? »
« O homem não pode nem deve tudo saber; Deus, na sua sabedoria, o quer assim. Sem
o véu que lhe encobre certas coisas, o homem ficaria ofuscado, como aquele que passa sem
transição, da escuridão para a luz. Pelo esquecimento do passado é mais senhor de si mesmo »
No 395 : « Podemos ter qualquer revelação sobre nossas existências anteriores? »
« Nem sempre. Muitos sabem, entretanto o que foram e o que fizeram; se lhes fosse
permitido dizê-lo abertamente fariam singulares revelações sobre o passado. »
No 396 : « Certas pessoas acreditam ter uma vaga lembrança de um passado
desconhecido que se apresenta a elas como a imagem fugidia de um sonho que se busca em
vão lembrar. Não é esta idéia apenas uma ilusão? »
« Algumas vezes é real; mas freqüentemente também, é uma ilusão contra a qual é
preciso se por em guarda, porque pode ser o efeito de uma imaginação superexcitada. »
No 430 : « Já que a clarividência do sonâmbulo é a de sua alma ou de seu Espírito,
porque ele não vê tudo, e porque se engana freqüentemente? »
« Inicialmente não é dado aos Espíritos imperfeitos tudo ver e tudo conhecer; você
sabe bem que eles partilham ainda dos seus erros e preconceitos, e assim, quando estão
ligados à matéria não gozam de todas as faculdades do Espírito. Deus deu ao homem esta
faculdade com um propósito útil e sério e não para que se informe daquilo que não deve
saber; eis porque os sonâmbulos não podem falar de tudo. »
Página 233. « A experiência mostra que os sonâmbulos recebem também
comunicações de outros Espíritos que lhes transmitem o que devem dizer e suprem suas
deficiências. Isso se vê, sobretudo nas prescrições médicas; o Espírito do sonâmbulo vê o mal,
um outro indica o remédio. Esta dupla ação é algumas vezes patente e se revela, além disso,
por essas expressões bastante freqüentes: me disseram para falar, ou me foi proibido dizer tal
coisa. Nesse último caso, há sempre perigo em insistir para obter uma revelação recusada,
porque podem se aproximar Espíritos levianos que falam sem escrúpulos e sem se preocupar
com a verdade.»
Sobre esse mesmo problema: o esquecimento do passado, Allan Kardec disse também
em O que é o Espiritismo, página 115: « Tudo se encaixa no Espiritismo, e quando se observa
o conjunto, vê-se que os princípios decorrem uns dos outros, servindo de apoio mútuo e então,

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o que parecia uma anomalia contrária à justiça e à sabedoria, passa a ser muito natural e vem
confirmar esta justiça e esta sabedoria.
Tal é o problema do esquecimento do passado que se liga à outras questões de igual
importância e é por isso que pretendo aqui apenas trazê-lo à tona.
Se a cada existência um véu é lançado sobre o passado, o Espírito nada perde daquilo
que adquiriu; apenas esquece a maneira pela qual a adquiriu. Para me servir da comparação
do escolar, diria que pouco importa para ele saber onde, como e sob qual professor fará seu
quinto ano, se, chegando na quinta série, sabe o que aprendeu na quarta. Que lhe importa
saber que foi fustigado por sua preguiça e insubordinação, se os castigos o tornaram
trabalhador e dócil? É assim que ao reencarnar, o homem leva por intuição e como idéias
inatas, o que adquiriu em ciência e em moralidade. Disse em moralidade porque se durante
uma existência ele melhorou, se aproveitou as lições da experiência, retornará instintivamente
melhor, com seu Espírito amadurecido na escola do sofrimento. Pelo trabalho terá mais
solidez e longe de ter de recomeçar tudo, possui uma base cada vez mais rica sobre a qual
pode se apoiar para adquirir ainda mais.
O esquecimento temporário é um benefício da Providência; a experiência é adquirida
freqüentemente por rudes provas e terríveis expiações cuja lembrança seria muito penosa e
viria se juntar às angústias das tribulações da vida presente. Se os sofrimentos da vida
parecem longos que seria então se sua duração fosse aumentada com a lembrança dos
sofrimentos do passado?
Você, por exemplo, Senhor, é hoje um homem honesto, mas isso se deve aos rudes
castigos a que foi submetido por crimes que agora repugnariam sua consciência; seria
agradável se lembrar de ter sido enforcado por isso? A vergonha não o perseguiria ao pensar
que o mundo saberia o mal que houvesse feito? Que lhe importa o que fez e o que suportou
para expiar, se você agora é um homem estimável! Aos olhos do mundo é um homem novo, e
aos olhos de Deus um Espírito reabilitado. Liberado da lembrança de um passado importuno
pode atuar com mais liberdade; é um novo ponto de partida; seus débitos anteriores estão
pagos, cabe a você não contrair novos.
Quantos homens quereriam poder, durante a vida, lançar um véu sobre seus primeiros
anos. Quantos se têm dito, no final do percurso: « Se fosse recomeçar, não faria o que fiz! ».
Bem ! Aqueles que não puderam refazer o que fizeram errado nesta vida, fá-lo-ão em uma
outra. Em uma nova existência, seu Espírito levará, no estado de intuição, as boas resoluções
que terá tomado, é assim que se cumpre gradualmente o progresso da humanidade.
Suponhamos ainda, o que é muito comum, que nas suas relações, em sua família
mesmo, se encontrasse um ser que lhes tivesse dado motivos de queixa, que talvez os tivesse
arruinado ou desonrado em outra existência e que, Espírito arrependido, viesse encarnar no
seu meio, unindo-se por laços de família para reparar, por seu devotamento e sua afeição, os
danos causados; não estariam mutuamente na mais difícil posição se lembrassem, ambos, de
sua inimizade? Em vez de apaziguar, os ódios se eternizariam.
Conclui-se disso que a lembrança do passado traria a perturbação nas relações sociais
e seria um entrave ao progresso. Querem uma prova atual? Um homem condenado às galés
toma a firme resolução de se tornar honesto; que acontece na sua saída? Ele é repelido pela
sociedade e esta repulsão o lança quase sempre de volta ao crime. Suponhamos, ao contrário,
que ignorando seus antecedentes, fosse bem acolhido por todos. Se ele próprio pudesse
esquecê-los, sentir-se-ia mais honesto e poderia caminhar de cabeça erguida, em vez de curvá-
la sob a humilhação da lembrança.
Isto concorda perfeitamente com a doutrina dos Espíritos sobre os mundos superiores
ao nosso. Nesses mundos, onde reina apenas o bem, a lembrança do passado nada tem de
penosa, eis porque se recordam de sua existência precedente, como nós nos lembramos do que

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fizemos na véspera. Quando ao tempo passado nos mundos inferiores, não é para eles mais
que um sonho mau ».

É com justa razão que a lembrança do passado nos foi retirada, não há então nenhum
motivo razoável para querer possuí-la mesmo contra as ordens da Providência.
Não é então por esse caminho que devemos procurar fatos novos e provas que venham
confirmar a teoria da pluralidade das existências passadas. Nós as encontraremos mais
certamente nos casos particulares, nessas reminiscências do passado, que se produzem por
vezes entre certas pessoas e que são tanto mais comprobatórias quando são espontâneas e
podem ser verificadas e controladas.
Importa pouco no momento saber quem fomos no passado. O ponto capital para nós é
adquirir a prova, a certeza de que já vivemos outras existências corporais, que deveremos
reencarnar ainda muitas vezes antes de atingir o aperfeiçoamento moral para o qual todos
caminhamos mais ou menos lentamente. O que devemos saber também é que as condições de
nossa existência atual são resultado de nossas existências precedentes, e que, na nossa
existência presente, por nossos feitos e gestos, por nossas ações boas ou más, preparamos as
condições favoráveis ou dolorosas, que teremos nas existências futuras.
Mas, neste ponto interrompo minhas reflexões pessoais e cedo a palavra ao nosso
Mestre, Allan Kardec, mais autorizado de quem quer que seja, para tratar esta importante
questão da Reencarnação.
Pego seus ensinamentos em O Livro dos Espíritos, em O Evangelho segundo o
Espiritismo, na Gênese e também nos diversos volumes da Revista Espírita onde esta questão
foi tratada tão magistralmente. Possa este trabalho atingir o triplo objetivo que me propus: 10
Propagar a grande lei da pluralidade das existências corporais sucessivas ou, dito de outra
forma, a Reencarnação; 20 Expor as provas filosóficas e morais e as provas materiais; 30 Levar
todos os Espíritas, ou os que assim se dizem como tal, a reler freqüentemente e estudar as
obras de Allan Kardec e Léon Denis onde estão expostos com tanto método e autoridade todas
as questões que interessam à Doutrina Espírita.
Quando se quer estudar o Cristianismo, deve-se recorrer aos Evangelhos e aos Atos
dos Apóstolos; para conhecer, a religião de Maomé é preciso aprender no Alcorão; os Judeus
interrogam o Talmude no que concerne aos seus ritos; os Budistas se referem aos Vedas; os
Cabalistas ao Zohar, etc...
Porque somente os Espíritas procuram alhures em vez de nas obras do fundador de
nossa filosofia os princípios sobre os quais querem estabelecer suas convicções?
Desta falha, deste erro inicial, decorre a tepidez de suas convicções e sua falta de
coesão; daí também a culpável lentidão com que conduzimos a difusão de nossa filosofia.
Ah ! Como poderíamos proclamá-la abertamente quando muitos dos pretensos adeptos têm
freqüentemente vergonha de se declarar simplesmente Espíritas?
Saibamos, meus amigos, não é senão colhendo nossos ensinamentos em sua fonte
verdadeira, isto é, nas obras de Allan Kardec e de Léon Denis, que podemos e devemos
estudar a Doutrina Espírita se queremos conhecê-la intacta e sem nenhuma mistura. É também
estudando esses mestres, com toda atenção que eles merecem, que poderemos apreciá-los em
seu justo valor e lhes render os tributos de reconhecimento e de admiração que lhes são
devidos. Também não é senão seguindo suas lições que poderemos adquirir as fortes
convicções que nos farão traçar nossa conduta sobre nossos princípios. Elas, somente, nos
darão a fé dos verdadeiros apóstolos2.
2
Foi para facilitar a todos este estudo sobre a reencarnação que reuni, a seguir, todos os
ensinamentos de Allan Kardec que têm tratado desse assunto.

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NÃO SE MORRE

Não se morre, morrer, meus amigos, é


renascer,
É se atirar alegre em um mundo mais belo.
É sondar o destino, é aprender e conhecer
Os segredos que nos vela aqui em baixo o
túmulo.

É corrigir em nós as taras do Ser Velho,


Por um mundo melhor criar o homem novo,
É subitamente ver nos aparecer no Além
todos os
Nossos queridos desaparecidos, em uma viva
pintura.

Visto que o céu, para nós e para eles se


entreabriu,
E o maior espetáculo à nossa alma é ofertado,
Bendigamos os Espíritos que nos estendem a
mão.

Da voz e do aceno então com que eles nos


convidam,
Ao uníssono que todos os nossos corações
palpitem,
Nos conduzindo a Deus pelo mais seguro
caminho.

Estrela, l° de Julho de 1923.

DA PLURALIDADE
DAS EXISTÊNCIAS CORPORAIS
Revista Espírita, 1858, pág. 295 a 301. O Livro dos Espíritos, pág. 96 e seguintes.

Das diversas doutrinas professadas pelo Espiritismo, a mais controversa é sem dúvida,
a pluralidade das existências corporais, ou a Reencarnação. Se bem que esta opinião seja
agora compartilhada por um grande número de pessoas, acreditamos dever, em razão de sua
extrema gravidade, examiná-la aqui de maneira mais aprofundada, a fim de responder às
diversas objeções que ela tem suscitado. Antes de entrar a fundo na questão, algumas
observações preliminares nos parecem indispensáveis.

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O dogma da reencarnação, dizem certas pessoas, nada tem de novo, foi ressuscitado de
Pitágoras. Nunca dissemos que a doutrina espírita foi uma invenção moderna do Espiritismo ;
sendo uma lei da natureza, deve ter existido desde a origem dos tempos, e estamos sempre nos
esforçando para provar que se pode encontrar os seus traços na mais remota antiguidade.
Pitágoras, como se sabe, não é o autor do sistema da metempsicose; ele a colheu entre os
filósofos indianos e entre os egípcios onde existia desde tempos imemoriais. A idéia da
transmigração das almas era então uma crença vulgar admitida pelos homens mais eminentes.
Por que meio ela apareceu? Foi por intuição ou revelação? Nós não o sabemos; mas,
qualquer que ele seja, uma idéia não atravessa as eras e é aceita pelas inteligências de elite
sem ter um lado sério. Então a antiguidade desta doutrina seria antes uma prova do que uma
objeção. Todavia, como se sabe igualmente, entre a metempsicose dos antigos e a doutrina
moderna da reencarnação, há esta grande diferença que os Espíritos rejeitam da forma mais
absoluta, a transmigração do homem nos animais e reciprocamente.
Sem dúvida, dizem também alguns contraditores, vocês estavam imbuídos dessas
idéias, da reencarnação, e eis porque os Espíritos abonaram a sua maneira de ver. Está aí um
erro que prova, uma vez mais, os perigos dos julgamentos precipitados e sem exame. Se, antes
de julgar, essas pessoas se dessem ao trabalho de ler o que temos escrito sobre o Espiritismo,
elas se poupariam do esforço de uma objeção feita um pouco precipitadamente. Repetiremos
então o que dissemos sobre esse assunto, saibam que, quando a doutrina da reencarnação, foi
ensinada pelos Espíritos, ela estava tão longe de nosso pensamento, que tínhamos feito um
sistema todo diferente sobre os antecedentes da alma, de resto partilhado por muitas pessoas.
A doutrina dos Espíritos, sobre esse ponto, nos surpreendeu; diremos mais, contrariamente,
porque ela revirava nossas próprias idéias; ela estava longe, como se vê, de ser um reflexo.
Isso não é tudo; não cedemos ao primeiro choque; combatemos, defendemos nossa opinião,
levantamos objeções, e foi apenas à evidência que nos rendemos, e quando vimos a
insuficiência de nosso sistema para resolver todas as questões que este assunto levantava.
Aos olhos de algumas pessoas, a palavra evidência parece sem dúvida singular em
semelhante matéria, mas não parecerá imprópria para aquelas que estão habituadas a
escrutinar os fenômenos espíritas. Para o observador atento, há fatos que, se bem não sejam
de natureza absolutamente material, não deixam de se constituir numa verdadeira evidência
moral. Este não é o lugar para explicar esses fatos; apenas um estudo contínuo e perseverante
poderia fazê-los compreender; nosso propósito é unicamente o de refutar a idéia de que esta
doutrina seja apenas a tradução de nossos pensamentos. Temos uma outra refutação a opor : é
que não foi somente a nós que ela foi ensinada; isto tem ocorrido em muitos outros locais, na
França e no exterior; na Alemanha, na Rússia, na Holanda, etc., e isso antes mesmo da
publicação de O Livro dos Espíritos. Acrescentemos ainda que depois que nos entregamos ao
estudo do Espiritismo, temos tido comunicações de mais de cinqüenta médiuns, escreventes,
falantes, videntes, etc., mais ou menos esclarecidos, de uma inteligência normal mais ou
menos limitada, alguns mesmo completamente iletrados, e, por conseqüência, totalmente
estranhos aos assuntos filosóficos, e que, em nenhum caso, os Espíritos têm se desmentido
sobre esta questão; ocorre o mesmo em todos os círculos que conhecemos, onde o mesmo
princípio tem sido professado. Este argumento não é de forma alguma sem réplica, nós o
sabemos e é por isso que não insistiremos além do razoável.
Examinemos o assunto sob um outro ponto de vista, fazendo abstração de toda
intervenção dos Espíritos. Coloquemo-nos então, momentaneamente, em um terreno neutro,
admitindo um mesmo grau de probabilidade para uma e outra hipótese, a saber: a pluralidade
das existências corporais, e vejamos para que lado nos levará a razão e nosso próprio
interesse.
Certas pessoas repelem a idéia da reencarnação pelo único motivo de que ela não lhes
convém, dizendo que para elas já basta uma existência e que não quereriam recomeçar uma

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outra; sabemos que só o pensamento de reaparecer sobre a Terra os faz pular de furor. Temos
apenas uma coisa a lhes perguntar que é: se pensam que Deus pediu seus conselhos ou
consultou seus gostos para reger o Universo. Ora, de duas uma: ou a reencarnação existe, ou
não existe; se ela existe será em vão contrariá-la, e será preciso se submeter, pois Deus não
lhes pedirá permissão. Parece-nos um mal entendido dizer: já sofri bastante por hoje, não
quero sofrer mais amanhã. Qualquer que seja seu mau-humor, isto não lhe fará sofrer menos
no dia de amanhã e nos dias seguintes ou até que esteja recuperado; portanto, se devem
reviver corporalmente, reviverão, reencarnarão, em vão se revoltarão como crianças que não
querem ir à escola, ou como condenados que não querem ir para a prisão, pois é preciso que
passem por lá. Semelhantes objeções são muito pueris para merecer um exame sério. Nós lhes
diremos, entretanto, para serená-los, que a doutrina da reencarnação não é assim tão terrível
quanto crêem, e se a houvessem estudado a fundo não teriam tanto medo; saberiam que as
condições desta nova existência dependem deles; ela será feliz ou infeliz conforme o que
tiverem feito neste mundo, e podem desde esta vida se elevar tão alto, que não terão mais
nada a temer em retornar ao lamaçal. (O Livro dos Espíritos, página 145). Supomos que
falamos às pessoas que acreditam num futuro qualquer após a morte, e não aos que dão a si
mesmos a perspectiva do nada, ou que querem afogar sua alma no todo universal, como as
gotas de chuva no oceano, o que vem dar aproximadamente no mesmo. Então se vocês
acreditam em um futuro qualquer, sem dúvida não admitirão que seja o mesmo para todos, de
outro modo onde estaria a utilidade do bem! Porque se constranger? Porque não satisfazer
todas as suas paixões, todos os seus desejos, mesmo quando às custas de outro, uma vez que
isso não faria diferença? Vocês acreditam que esse futuro será mais ou menos feliz ou infeliz,
segundo o que tiverem feito durante a vida; têm então o desejo de serem tão felizes quanto
possível, já que isso deve ser para a eternidade? Têm por acaso, a pretensão de ser um dos
homens mais perfeitos que hajam existido sobre a Terra, e de ter assim, o direito de imediato à
felicidade dos eleitos? Não. Admitem também que há homens que valem mais que vocês e
que têm direito a um lugar melhor, sem querer dizer com isso que vocês estejam entre os
reprovados. Pois bem! Coloquem-se por um instante pelo pensamento nesta situação
intermediária que será a de vocês, como acabam de convir, e suponham que alguém viesse
lhes dizer: vocês sofrem, não são tão felizes quanto poderiam ser, enquanto têm, diante de
vocês, seres que gozam de uma ventura sem par; querem trocar de posição com a deles? Sem
dúvida, dirão: o que é preciso fazer ? - Quase nada, recomeçar o que tiverem feito mal
tratando de fazê-lo melhor. Hesitariam em aceitar, mesmo que fosse ao preço de várias
existências de provas? Tomemos uma comparação mais prosaica. Se a um homem que, sem
estar na última das misérias, passando, entretanto privações por causa da mediocridade de
seus recursos viessem dizer: eis uma imensa fortuna, você pode dela gozar necessitando para
isso apenas trabalhar rudemente durante um minuto. Fosse ele o mais preguiçoso da Terra,
diria sem hesitar trabalhemos um minuto, dois minutos, uma hora, um dia se for preciso, que
é isso comparado a terminar minha vida na abundância? Ora que é a duração de uma vida
corporal com relação à eternidade? Quase nada, menos que um minuto, menos que um
segundo.
Temos reparado pessoas fazendo este raciocínio: Deus, que é soberanamente bom, não
pode impor ao homem o recomeçar uma série de misérias e tribulações. Acharão, por acaso,
que há mais bondade em condenar o homem a um sofrimento perpétuo por alguns momentos
de erro, do que lhe dar os meios de reparar suas faltas? Dois fabricantes tinham, cada um, um
operário que podia aspirar a se tornar sócio do chefe. Ora ocorreu que esses dois operários
empregaram uma vez muito mal sua jornada e mereceram ser despedidos. Um dos dois
fabricantes despediu seu operário, malgrado suas súplicas e ele, não tendo encontrado
trabalho, morreu na miséria. O outro disse ao seu operário: você perdeu um dia e me deve
uma compensação; tendo feito mal seu trabalho, deve-me uma reparação, eu o permito

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recomeçá-lo; trate de fazê-lo bem e o conservarei, e poderá sempre aspirar à situação superior
que lhe havia prometido ». É preciso perguntar qual dos dois fabricantes foi mais humano?
Deus, a própria clemência, seria mais inexorável que um homem? O pensamento de que a
nossa sorte fique para sempre fixada por algumas horas de provações, ainda mesmo quando
nem sempre tiver dependido de nós atingir a perfeição sobre a Terra, tem qualquer coisa de
pungente, enquanto que a idéia contrária é eminentemente consoladora; ela nos deixa a
esperança. Assim sem nos pronunciar pró ou contra a pluralidade das existências, sem admitir
uma hipótese em vez da outra, dizemos que, se tivéssemos escolha, não haveria ninguém que
preferisse um julgamento sem apelação. Um filósofo disse que se Deus não existisse seria
necessário inventá-lo para felicidade do gênero humano; poder-se-ia dizer outro tanto da
pluralidade das existências. Mas como dissemos, Deus não pede nossa permissão; não
consulta nossos gostos, ou é ou não é; vejamos de que lado estão as probabilidades e
encaremos a coisa de outro ponto de vista, sempre abstraindo os ensinamentos dos Espíritos,
unicamente como estudo filosófico.
Se não existe a reencarnação, haveria apenas uma existência corporal, isso é evidente;
se nossa existência corporal atual for única, a alma de cada homem é criada no seu
nascimento a menos que se admita a anterioridade da alma, caso em que se perguntaria o que
seria a alma antes do nascimento e se esse estado não constituiria uma existência sob uma
forma qualquer. Não há meio termo: ou a alma existia ou não existia antes do corpo; se
existia, qual era sua situação? Tinha ou não consciência dela mesma? Se não tivesse
consciência, é como se não existisse; se tiver uma individualidade, era ela progressiva ou
estacionária. Num ou noutro caso em que grau ela ingressaria no corpo? Admitindo-se,
segundo a crença vulgar, que a alma nascesse com o corpo, ou, o que viria dar no mesmo, que
antes de sua encarnação tivesse apenas faculdades negativas, colocamos as seguintes
questões:
O Livro dos Espíritos, página 147.
10 Por que a alma mostra aptidões tão diversas e independentes das idéias adquiridas
pela educação?
20 De onde vem a aptidão extranormal de certas crianças de pouca idade para tal arte
ou para tal ciência, enquanto outras permanecem inferiores ou medíocres por toda sua vida?
30 De onde vêm entre uns, as idéias inatas que não existem em outros?
40 De onde vêm, entre certas crianças, esses instintos precoces para os vícios ou para
as virtudes, esses sentimentos inatos de dignidade ou de baixeza que contrastam com o meio
em que nasceram?
50 Por que certos homens, abstração feita da educação, são mais avançados que
outros?
60 Por que há selvagens e homens civilizados? Por que se tomarmos um menino
Hotentote, ainda na amamentação, e o educarmos nas escolas mais renomadas, jamais
faremos dele um Laplace ou um Newton?
Nós perguntamos : qual é a filosofia ou a teosofia que pode resolver esses problemas?
Ou as almas são iguais ao nascer, ou são desiguais, quanto a isso não há dúvida. Se são iguais,
porque essas aptidões tão diversas? Dirão que isso depende do organismo? Mas então esta é a
Doutrina mais monstruosa e a mais imoral. O homem não seria mais que uma máquina, um
joguete da matéria; não teria mais a responsabilidade de seus atos; poderia tudo atribuir às
suas imperfeições físicas. Se elas são desiguais, foi Deus que as criou assim; mas então
porque esta superioridade inata concedida a alguns? Esta parcialidade estaria conforme a
justiça de Deus e ao amor que distribui igualmente entre todas as suas Criaturas?
Admitamos, ao contrário, uma sucessão de existências anteriores progressivas e tudo
se explica. Os homens trazem no nascimento a intuição daquilo que adquiriram; são mais ou
menos avançados, segundo o número de existências que têm percorrido; segundo estejam

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mais ou menos afastados do ponto de partida; absolutamente como em uma reunião de
indivíduos de todas as idades, cada um terá um desenvolvimento proporcional ao número de
anos que terá vivido; as existências sucessivas serão para a vida da alma, o que os anos são
para a vida do corpo. Reúnam um dia mil indivíduos, de um até oitenta anos; suponham que
um véu seja lançado sobre todos os dias precedentes, e que, na sua ignorância, vocês
acreditem que todos nasceram no mesmo dia: vocês naturalmente se perguntarão porque uns
são grandes, outros pequenos, uns velhos, outros jovens, uns instruídos e outros ignorantes;
mas se levantarem a nuvem que lhes oculta o passado, se souberem que uns viveram mais
tempo que os outros, tudo estará explicado. Deus, na sua justiça não poderia criar almas mais
ou menos perfeitas; mas com a pluralidade das existências, a desigualdade que constatamos
em nada contraria a mais rigorosa eqüidade: é que vemos apenas o presente e não o passado.
Baseia-se esse raciocínio sobre um sistema, uma suposição gratuita? Não, partimos de um fato
patente, incontestável: a desigualdade das aptidões e do desenvolvimento intelectual e moral,
e constatamos ser esse fato inexplicável por todas as teorias em curso, enquanto que por uma
outra teoria a explicação é simples, natural e lógica. Seria racional preferir a que não explica
em vez daquela que explica?
Com respeito à sexta questão se diria sem dúvida que o Hotentote é uma raça inferior;
então perguntaremos se o Hotentote é um homem ou não. Se for um homem, porque Deus o
deserdou, a ele e sua raça, dos privilégios concedidos à raça caucasiana? Se não é um homem,
porque procurar torná-lo um cristão? A Doutrina espírita é mais ampla do que tudo isso: para
ela não há variadas espécies de homens, há apenas homens cujo Espírito é mais ou menos
atrasado, mais suscetíveis de progredir; não está isso mais conforme à justiça de Deus?
Acabamos de ver a alma no passado e no presente; se a considerarmos no futuro,
encontraremos as mesmas dificuldades :
10 Se somente nossa existência atual deve decidir nosso futuro, qual será, na vida
futura, a posição respectiva do selvagem e do homem civilizado? Estarão no mesmo nível, ou
estarão distanciados na quota de felicidade eterna?
20 O homem que tem trabalhado por toda sua vida para se melhorar estará na mesma
faixa que aquele que permanece inferior, não por sua culpa, mas porque não tem tido nem o
tempo, nem a possibilidade de se melhorar?
30 O homem que fez o mal porque não pôde se esclarecer, é passível por um estado de
coisas que não dependeram dele?
40 Trabalha-se para esclarecer os homens, para os civilizar, mas para um que se
esclarece há milhões que morrem diariamente antes que a luz tenha vindo até eles; qual é a
sorte desses? Serão tratados como réprobos? Caso contrário, que fizeram para merecer ficar
na mesma situação que os outros?
50 Qual é a sorte, das crianças que morrem bem cedo, antes de haver podido fazer nem
o bem nem o mal? Estarão eles entre os eleitos ? Por que este favor se nada fizeram para o
merecer? Por qual privilégio foram liberados das tribulações da vida?
Haverá uma doutrina que possa resolver essas questões? Admitam as existências
sucessivas e tudo se explica conforme a justiça de Deus. O que não se pode fazer em uma
existência será feito em outra; é assim que ninguém escapa à lei do progresso, que cada um é
recompensado segundo seu mérito real, que ninguém está excluído da felicidade suprema à
qual podem pretender quaisquer que sejam os obstáculos encontrados em seu caminho.
Essas questões poderiam ser multiplicadas ao infinito, porque os problemas
psicológicos e morais, que encontram sua solução apenas na pluralidade das existências, são
inumeráveis; nos limitamos aos mais gerais. Como quer que seja, dir-se-ia talvez, a doutrina
da reencarnação nunca foi admitida pela Igreja, pois isso seria a subversão da religião. Nosso
objetivo não é o de tratar esta questão nesse momento, basta-nos haver demonstrado que ela é
eminentemente moral e racional!

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Livro dos Espíritos, páginas 151 a 153.
Ora, o que é moral e racional não pode ser contrário a uma religião que proclama ser
Deus a bondade e a razão por excelência. Que teria sido da religião se, contrariando a opinião
universal e o testemunho da ciência, ela tivesse, relutando contra todas as evidências,
rejeitado de seu seio qualquer um que não acreditasse no movimento do sol e nos seis dias da
criação? Que mérito e que autoridade teria tido entre as pessoas esclarecidas uma religião
fundada sobre erros manifestos impostos como artigos de fé? Quando foi demonstrada, a
Igreja sabiamente se colocou do lado da evidência. Se estiver provado que certos fatos seriam
impossíveis sem a reencarnação, se certos pontos do dogma não podem ser explicados senão
por esse meio, é preciso admiti-la e reconhecer que o antagonismo entre esta doutrina e os
seus dogmas são apenas aparentes. Mais adiante mostraremos que a religião está, talvez,
menos afastada do que se pensa e que ela não sofreria mais do que sofreu com o movimento
da Terra e os períodos geológicos que, à primeira vista, pareciam ser um desmentido aos
textos sagrados. Além disso, o princípio da reencarnação ressalta de várias passagens das
Escrituras e se encontra notadamente formulado, de maneira explícita, no Evangelho.
« Quando desciam da montanha (após a transfiguração), Jesus fez esta recomendação e
lhes disse: Não falem à ninguém do que vocês acabam de ver, até que o filho do homem esteja
ressuscitado dentre os mortos. Seus discípulos então o interrogaram, e lhe disseram: Por que
então os Escribas dizem que é preciso que primeiro Elias venha? Mas Jesus lhes respondeu: É
verdade que Elias deve vir e que restabelecerá todas as coisas. Mas eu lhes declaro que Elias
já veio, e sequer o conheceram, mas o fizeram sofrer como quiseram. É assim que farão
morrer o filho do homem. Então seus discípulos compreenderam que era de João Batista que
ele lhes havia falado. » São Mateus, cap. XVII.
Pois que João Batista era Elias, então houve a reencarnação do Espírito ou da alma de
Elias no corpo de João Batista.
Qualquer que seja, de resto, a opinião que se faça sobre a reencarnação, quer se a
aceite ou não, não nos livraremos de sofrê-la, se não obstante ela existir, contrariamente a
todas as crenças; o ponto essencial, é que o ensinamento dos Espíritos é eminentemente
cristão; ele se apóia sobre a imortalidade da alma, as penas e recompensas futuras, a justiça de
Deus, o livre-arbítrio do homem e a moral do Cristo; então não é anti-religioso.
Temos raciocinado, como dissemos, abstraindo todo ensinamento espírita que, para
certas pessoas, não teria autoridade. Se nós, e outras tantas pessoas, adotarmos a opinião da
pluralidade das existências, não é somente porque nos vem dos Espíritos, é porque nos
pareceu a mais lógica, e porque somente ela, resolve questões até então insolúveis. Se tivesse
vindo de um simples mortal nós a teríamos adotado da mesma forma; e não teríamos hesitado
nem um pouco em renunciar às nossas próprias idéias; desde o momento que um erro é
demonstrado, o amor próprio tem mais a perder que a ganhar ao se obstinar em uma idéia
falsa. Da mesma forma nós a teríamos repelido, ainda que vinda dos Espíritos, se nos tivesse
parecido contrária à razão, como temos recusado muitas outras; porque sabemos por
experiência que não se deve aceitar cegamente tudo o que vem de sua parte, mais do que o
que vem da parte dos homens. Então, o primeiro fator aos nossos olhos é, sobretudo, o de ser
lógica; há um outro, o de ser confirmada pelos fatos; fatos positivos e por assim dizer
materiais, que um estudo atento e razoável pode revelar a quem se der o trabalho de observar
com paciência e perseverança e em presença dos quais a dúvida não é mais permitida. Quando
esses fatos forem vulgarizados como aqueles da formação e do movimento da Terra,
necessário será se render à evidência, e os oponentes estarão em débito por sua contradição.
Reconheçamos então, em resumo, que a doutrina da pluralidade das existências
explica somente o que, sem ela, é inexplicável; que ela é eminentemente consoladora e
conforme à justiça mais rigorosa, e que é para o homem a âncora de salvamento que Deus lhe

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deu na sua misericórdia. As palavras mesmas de Jesus não podem deixar dúvida a esse
respeito. Eis aqui o que se lê no Evangelho segundo São João, capítulo III.
3. Jesus respondendo, a Nicodemus, disse: Em verdade, em verdade eu lhe digo, que
se um homem não nascer de novo, ele não poderá ver o reino de Deus.
4. Nicodemus lhe disse: Como um homem pode nascer quando já é velho? Pode
reentrar no ventre de sua mãe e nascer uma segunda vez?
5. Jesus respondeu: Em verdade, em verdade lhe digo que se um homem não nascer da
água e do espírito, ele não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne e o
que é nascido do espírito é espírito. Não se espante do que lhe disse: é preciso que você nasça
de novo.

A RESURREIÇÃO DA CARNE
« Livro dos Espíritos, pág. 470 »

O dogma da ressurreição da carne é a consagração daquele da reencarnação ensinada


pelos Espíritos?
Como querem que seja de outra forma? São palavras como essas e tantas outras, que
só parecem desarrazoadas aos olhos de certas pessoas que se prendem à letra, que conduzem à
incredulidade; dê-lhes uma interpretação lógica, e aqueles que se chamam de livres
pensadores as admitirão sem dificuldade, precisamente pelo que refletem; porque, não se
enganem, o que esses livres pensadores mais desejam é crer; têm como os outros, talvez até
mais, a sede do porvir, mas não podem admitir o que é contrariado pela ciência. A doutrina da
pluralidade das existências está de acordo com a justiça de Deus; só ela pode explicar o que
sem ela é inexplicável; como querem que esse princípio não esteja na própria religião?
Assim a Igreja, pelo dogma da ressurreição da carne, ensina ela própria a doutrina da
reencarnação.
Isso é evidente; aliás, esta doutrina é a conseqüência de muitas coisas que têm passado
desapercebidas e que não tardarão a ser compreendidas nesse sentido; mais um pouco e se
reconhecerá o que o espiritismo ressalta a cada passo do texto mesmo das Escrituras sagradas.
Então os Espíritos não vieram subverter a religião, como alguns o pretendem; ao contrário
vieram confirmá-la, sancioná-la por provas irrecusáveis; mas como são chegados os tempos
de não empregar mais a linguagem figurada, eles se exprimem sem alegorias, dando aos fatos
um sentido claro e preciso que não possa estar sujeito a nenhuma falsa interpretação. Eis
porque, dentro de algum tempo, haverá mais pessoas sinceramente religiosas e crentes do que
existe no dia de hoje.
A ciência, com efeito, demonstra a impossibilidade da ressurreição segundo a idéia
vulgar. Se os restos do corpo humano permanecessem homogêneos, embora dispersos e
reduzidos a pó, se conceberia ainda sua reunião em um tempo dado; mas de nenhuma forma
isso se passa assim. O corpo é formado de elementos diversos: oxigênio, hidrogênio,
nitrogênio etc... Por sua decomposição, esses elementos se dispersam para servir à formação
de novos corpos; de tal maneira que a mesma molécula de carbono, por exemplo, terá entrado
na composição de muitos milhares de corpos diferentes (estamos falando apenas de corpos
humanos sem computar os dos animais); que tal indivíduo tem talvez em seu corpo moléculas
que pertenceram aos homens das primeiras eras; que essas mesmas moléculas orgânicas que
vocês absorvem na sua nutrição provêem talvez do corpo de um outro indivíduo que vocês
conheceram, e assim por diante. Tendo a matéria uma quantidade determinada e sendo suas
transformações indefinidas, como cada um desses corpos poderia se reconstituir dos mesmos
elementos? Existe aí uma impossibilidade material. Então não se pode racionalmente admitir
a ressurreição da carne senão como uma figura simbolizando o fenômeno da reencarnação,

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pois nada chocaria mais a razão do que algo que esteja em contradição com os dados da
ciência.
É verdade que, segundo o dogma, esta ressurreição não deverá ter lugar senão no fim
dos tempos, enquanto que segundo a doutrina espírita, ela tem lugar todos os dias. Mas nesse
quadro do julgamento final não haveria uma grande e bela imagem que, sob o véu da alegoria,
oculta uma dessas verdades imutáveis que não terá mais céticos quando o seu verdadeiro
significado for restituído? Quem quiser meditar bastante a teoria espírita, sobre o futuro das
almas e sobre a sorte que se segue às diferentes provas a que elas devem se submeter verá
que, com exceção da simultaneidade implícita no juízo final, o julgamento que as condena ou
absolve nada tem de ficção, como pensam os incrédulos. Observemos ainda que ela é uma
conseqüência natural da pluralidade dos mundos, hoje perfeitamente admitida, enquanto que
na doutrina do julgamento final, a Terra é tida como único mundo habitado.

METEMPSICOSE
« O Livro dos Espíritos, pág. 301 »

611 : « A origem comum dos seres viventes no princípio inteligente não é a


consagração da doutrina da metempsicose? »
« Duas coisas podem ter a mesma origem e mais tarde não se assemelharem
absolutamente. Quem reconheceria a árvore, suas folhas, suas flores e seus frutos no germe
informe contido na semente? No momento em que o princípio inteligente atinge o grau
necessário para ser Espírito e entrar no período de humanidade, não tem mais relação com seu
estado primitivo e não tem mais a alma dos animais tanto quanto a árvore não é mais a
semente. No homem não há mais de animal do que o corpo e as paixões que nascem sob a
influência do corpo e do instinto de conservação inerente à matéria. Não se pode então dizer
que tal homem seja a encarnação do Espírito de tal animal, e por conseqüência a
metempsicose, tal como é entendida, não é exata. »
612 : « Poderia o Espírito que animou o corpo de um homem encarnar num animal?
“Isso seria retrogradar e o Espírito não retrograda. O rio não remonta à sua nascente.”
613 : « Por mais errada que seja a idéia ligada à metempsicose, não seria ela o
resultado do sentimento intuitivo das diferentes existências do homem? »
« Esse sentimento intuitivo se encontra nessa crença, como em muitas outras; mas
como a maior parte dessas idéias intuitivas, o homem a tem desnaturado. »
A metempsicose seria verdadeira se entendêssemos por essa palavra a progressão da
alma de um estado inferior a um superior onde adquiriria os desenvolvimentos que
transformariam sua natureza; mas é falsa no sentido da transmigração direta do animal no
homem e reciprocamente, o que implicaria a idéia de uma retrogradação ou de fusão, ora esta
fusão, não podendo ter lugar entre seres corporais de duas espécies, é um indício de que elas
estão em graus não assimiláveis e que o mesmo deve acontecer com os Espíritos que os
animam. Se os mesmos Espíritos pudessem animá-los alternadamente, se concluiria daí uma
identidade de natureza que se traduziria pela possibilidade da reprodução material. A
reencarnação ensinada pelos Espíritos, ao contrário, está fundamentada sobre a marcha
ascendente da natureza e sobre a progressão do homem na sua própria espécie, o que em nada
lhe diminui sua dignidade. O que o rebaixa, é o mau uso das faculdades que Deus lhe deu para
seu adiantamento. Como quer que seja, a antiguidade e a universalidade da doutrina da
metempsicose, e os homens eminentes que a propuseram, provam que o princípio da
reencarnação tem suas raízes na própria natureza; portanto são antes argumentos em seu favor
do que contrários.

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O ponto de partida do Espírito é uma dessas questões que se prendem ao princípio das
coisas, e são segredo de Deus. Não é dado ao homem conhecê-las de maneira absoluta, e a
esse respeito, apenas pode fazer suposições e construir sistemas mais ou menos prováveis. Os
próprios Espíritos estão longe de tudo conhecer; sobre o que não sabem, podem ter opiniões
pessoais mais ou menos sensatas.
É assim, por exemplo, que nem todos pensam da mesma forma no assunto das relações
que existem entre o homem e os animais. Segundo alguns, o Espírito não chega ao período
humano senão após se ter elaborado e individualizado nos diferentes graus dos seres inferiores
da criação. Segundo outros, o Espírito do homem teria sempre pertencido à raça humana, sem
passar pela fileira animal. O primeiro desses sistemas tem a vantagem de dar um objetivo ao
futuro dos animais que formariam assim os primeiros anéis da cadeia de seres pensantes; o
segundo está mais de acordo com a dignidade do homem e pode se resumir como se segue:
As diferentes espécies de animais não procedem intelectualmente uns dos outros pelo
caminho do progresso; assim o espírito da ostra não se torna sucessivamente o do peixe, do
pássaro, do quadrúpede e do quadrúmano; cada espécie é um tipo absoluto, física e
moralmente, cada um de seus indivíduos haure na fonte universal a porção do princípio
inteligente que lhe for necessária, segundo a perfeição de seus órgãos e o trabalho que deve
realizar nos fenômenos da natureza, e que na sua morte devolve à massa. Os dos mundos mais
avançados que o nosso são igualmente raças distintas, apropriadas às necessidades desses
mundos e ao grau de adiantamento dos homens dos quais eles são os auxiliares, mas que,
espiritualmente falando, não procedem de nenhuma maneira dos da Terra. Não é da mesma
forma com o homem. Do ponto de vista físico, ele forma evidentemente um elo da cadeia dos
seres vivos; mas do ponto de vista moral, entre o animal e o homem, há solução de
continuidade; O homem possui sua própria alma ou Espírito, centelha divina que lhe dá o
senso moral e um alcance intelectual que falta nos animais; é o ser principal, pré-existente e
sobrevivente ao corpo, conservando sua individualidade. Qual a origem do Espírito? Onde
está seu ponto de partida? Forma-se do princípio inteligente individualizado? Este é um
mistério que seria inútil tentar penetrar, e sobre o qual, como havíamos dito, não se pode
senão construir sistemas. O que é consolador, o que ressalta imediatamente do raciocínio e da
experiência, é a sobrevivência do Espírito, a conservação de sua individualidade após a morte,
a progressividade de suas faculdades, seu estado feliz ou infeliz proporcional ao seu avanço
no caminho do bem, e todas as verdades morais que são conseqüência desse princípio. Quanto
às relações misteriosas que existem entre o homem e os animais, isso é, nós o repetimos, o
segredo de Deus, como muitas outras coisas, cujo conhecimento atual não importa muito ao
nosso adiantamento e com as quais seria inútil nos preocuparmos.

PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS


(Livro dos Espíritos página 120, capitulo IV).
Da Reencarnação

166 : « Como a alma que ficou longe de atingir a perfeição durante a vida corporal,
pode acabar de se apurar? »
« Submetendo-se à provação de uma nova existência. »
« Como a alma realiza essa nova existência? Faz isso pela sua transformação como
Espírito? »
« A alma em se apurando sofre sem dúvida uma transformação, mas para isso lhe é
necessário a provação da vida corporal. »
« A alma passa então por várias existências corporais? »

- 18 -
« Sim, todos nós tivemos várias existências. Aqueles que lhes dizem o contrário
querem mantê-los na ignorância na qual eles mesmos estão; esse é seu desejo. »
« Parece resultar desse princípio que a alma, após ter deixado um corpo, toma um
outro; dito de outra forma, que ela se reencarna em um novo corpo; é assim que devemos
entender? »
« Isso é evidente. »
167 : « Qual é o objetivo da reencarnação? »
« Expiação, melhora progressiva da humanidade; sem isso onde estaria a justiça? »
168 : « O número de existências corporais é limitado, ou o Espírito se reencarna
perpetuamente? »
« A cada nova existência, o Espírito dá um passo no caminho do progresso; quando
ele tiver se despojado de todas as impurezas, não terá mais necessidade das provações da vida
corporal. »
169 : « O número das encarnações é a mesma para todos os Espíritos? »
« Não; aquele que avança rapidamente se poupa das provações. Todavia essas
encarnações sucessivas são sempre muito numerosas, porque o progresso é quase infinito. »
170 : « Que se torna o Espírito após sua última encarnação? »
« Espírito bem-aventurado; ele é puro Espírito. »

JUSTIÇA DA REENCARNAÇÃO
« Livro dos Espíritos, pág. 121 »

171 : « Sobre o que está fundamentado o dogma da reencarnação? »


« Sobre a justiça de Deus e a revelação, porque nós lhes repetimos sem cessar: Um
bom pai deixa sempre aberta aos seus filhos uma porta para o arrependimento. A razão não
lhe diz que seria injusto privar para sempre da felicidade eterna todos aqueles de quem não
tem dependido o se melhorar? Não são filhos de Deus todos os homens? Apenas entre os
homens egoístas se encontram a iniqüidade, a raiva implacável e os castigos sem remissão. »
Todos os Espíritos tendem à perfeição, e Deus lhes forneceu como meios as provações
da vida corporal; mas na sua justiça, lhes concedeu a realização, em novas existências,
daquilo que não puderam fazer ou acabar em uma primeira prova.
Não estaria de acordo com a eqüidade, nem com a bondade de Deus condenar para
sempre aquele que encontrou obstáculos ao seu melhoramento, alheio à sua boa vontade e no
próprio meio onde se encontram colocado. Se a sorte do homem fosse irrevogavelmente
fixada após sua morte, Deus não teria, de nenhuma forma, pesado as ações de todos na mesma
balança e de maneira alguma os teria tratado com imparcialidade.
A doutrina da reencarnação, quer dizer a que consiste em admitir para o homem várias
existências sucessivas, é a única que corresponde à idéia que fazemos da justiça de Deus para
com o homem colocados em uma condição moral inferior, a única que pode nos explicar o
futuro e assegurar nossas esperanças, pois que nos oferece os meios de resgatar nossos erros
por novas provações. A razão no-la indica e os Espíritos no-la ensinam.
O homem que tem a consciência de sua inferioridade haure na doutrina da
reencarnação uma esperança consoladora. Se ele crê na justiça de Deus, não pode ser igualado
eternamente àqueles que têm feito melhor do que ele. O pensamento de que esta inferioridade
não o deserda para sempre do bem supremo, que poderá conquistar por novos esforços, o
sustém e reanima sua coragem. Quem é que, ao termo de sua carreira, não lamenta o haver
adquirido muito tarde uma experiência da qual não pode aproveitar? Esta experiência tardia
não está absolutamente perdida, ele a colocará em proveito em uma nova vida.

- 19 -
ENCARNAÇÃO NOS DIFERENTES MUNDOS
« Livro dos Espíritos, pág. 122 »

172 : « As nossas diferentes existências corporais se realizam todas na Terra? »


« Não todas, mas em mundos diferentes: as daqui não são nem a primeira nem a
última, e são das mais materiais e das mais afastadas da perfeição. »
173 : « A cada nova existência corporal, a alma passa de um mundo ao outro, ou
podem se realizar várias sobre o mesmo globo? »
« Ela pode reviver várias vezes sobre o mesmo globo se não estiver bastante avançada
para passar para um mundo superior. »
« Assim podemos reaparecer várias vezes sobre a Terra ? »
« Certamente. »
« Podemos voltar a este após haver vivido em outros mundos ? »
« Com certeza; vocês podem já ter vivido algures e sobre a Terra. »
174 : «É uma necessidade reviver sobre a Terra? »
« Não; mas se vocês não avançam, podem ir para um outro mundo que não vale mais,
e que pode ser pior. »
175 : « Há alguma vantagem em retornar a habitar sobre a Terra? »
«Nenhuma vantagem em particular, a menos que seja em missão; então se avança, aí
como alhures. »
« Não seria mais feliz permanecer como Espírito? »
« Não, não! Seria estacionar, e se quer avançar para Deus. »
176 : « Os Espíritos após terem encarnados em outros mundos, podem vir para este
sem que jamais tenham estado aqui? »
« Sim, como vocês nos outros. Todos os mundos são solidários: o que não se realiza
em um se realiza no outro.
« Assim haverá homens que estão sobre a Terra pela primeira vez? »
« Há muitos em diversos graus. »
« Pode-se reconhecer um sinal qualquer quando um Espírito está em sua primeira
aparição sobre a Terra? »
« Isso não teria nenhuma utilidade. »
177 : « Para chegar à perfeição e à felicidade suprema que é o objetivo final de todos
os homens, o Espírito deve passar pela fieira de todos os mundos que existem no universo? »
« Não, porque há muitos mundos que estão no mesmo grau, e onde o Espírito não
aprenderia nada de novo. »
« Como então explicar a pluralidade das existências sobre o mesmo globo? »
«A cada vez ele pode se encontrar em posições bem diferentes, que são para ele outro
tanto de ocasiões para adquirir experiência. »
178 : « Os Espíritos podem reviver corporalmente em um mundo relativamente
inferior a outro onde já tenham vivido? »
« Sim, quando for para cumprir uma missão, para ajudar ao progresso e então aceitam
com alegria as tribulações dessa existência, porque lhes fornecem um meio de avançar. »
« Não pode também ocorrer por expiação, e não pode Deus enviar Espíritos rebeldes
para mundos inferiores? »
« Os Espíritos podem, permanecer estacionários, mas não retrogradam, e então sua
punição é de não avançar e recomeçar as existências mal empregadas no meio que convier à
sua natureza. »
« Quais são os que devem recomeçar a mesma existência? »
« Os que falharam em sua missão ou em suas provações. »

- 20 -
183 : « Passando de um mundo a outro, o Espírito passa por uma nova infância? »
« Por toda parte a infância é uma transição necessária, mas não é, em toda parte, assim
tão estúpida como entre vocês »
184 : « O Espírito tem a escolha do novo mundo em que deve habitar? »
« Nem sempre, mas pode pedi-lo, e pode obtê-lo se tiver mérito; porque os mundos
são acessíveis aos Espíritos apenas conforme o seu grau de sua elevação. »
« Se um Espírito nada pede, o que determina o mundo onde será encarnado? »
« O grau de sua elevação moral. »
185 : « O estado físico e moral dos seres vivos é perpetuamente o mesmo em cada
globo? »
« Não, os mundos também estão submetidos à lei do progresso. Todos começaram
como o de vocês por estarem em um estado inferior, e a Terra mesmo sofrerá uma
transformação semelhante; ela se tornará um paraíso terrestre quando os homens tiverem se
tornado bons. »
« É assim que as raças que povoam hoje a Terra desaparecerão um dia e serão
substituídas por seres cada vez mais perfeitos; essas raças transformadas sucederão a atual,
como esta sucedeu a outras ainda mais grosseiras. »
192 : « Pode-se, desde esta vida, por uma conduta perfeita transpor todos os graus, e se
tornar um puro Espírito sem passar por outros graus intermediários? »
«Não, porque o que o homem crê perfeito está longe da perfeição; há qualidades que
lhe são desconhecidas e que não pode compreender. Ele pode ser tão perfeito quando
comportar sua natureza terrestre, mas essa não é a perfeição absoluta. O Espírito deve avançar
em ciência e em moralidade; se progrediu apenas em um sentido, é preciso que progrida no
outro para atingir o topo da escala; mas quanto mais o homem avança na sua vida presente,
menos longas e penosas serão as provações seguintes. »
« O homem pode ao menos se assegurar, desde esta vida, uma existência futura menos
cheia de amarguras ? »
« Sim, sem dúvida, pode abreviar a duração e as dificuldades do caminho. Somente o
descuidado se encontra sempre no mesmo ponto. »
193 : « Um homem, nas suas novas existências, pode descer mais baixo do que
estava? »
« Como posição social, sim ; como Espírito, não. »
« A alma de um homem perverso pode se tornar a de um homem de bem?
« Sim, se ele está arrependido e isso então é uma recompensa. »
A marcha dos Espíritos é progressiva e jamais retrograda; elevam-se gradualmente na
hierarquia, e não descem da categoria onde chegaram. Nas suas diferentes existências
corporais podem descer como homens, mas não como Espíritos. Assim a alma de um
potentado da Terra pode mais tarde animar o corpo de um artesão, e, vice-versa; porque as
categorias entre os homens freqüentemente estão em razão inversa da elevação dos
sentimentos morais. Herodes era rei, e Jesus carpinteiro.
196 : « Os Espíritos não podendo melhorar senão sofrendo as tribulações da existência
corporal, seguir-se-ia que a vida material seria uma espécie de crisol ou de depurador, por
onde devem passar todos os seres do mundo espírita para chegar à perfeição? »
« Sim, é bem assim. Eles se melhoram nessas provas evitando o mal e praticando o
bem. Mas apenas após várias encarnações ou depurações sucessivas, em um tempo mais ou
menos longo, segundo seus esforços, é que atingem o objetivo ao qual tendem. »
« É o corpo que influi sobre o Espírito para melhorá-lo, ou o Espírito que influi sobre
o corpo? »
« Seu Espírito é tudo. Seu corpo é apenas uma veste que apodrece, eis tudo »

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O DESTINO DAS CRIANÇAS APÓS A MORTE
« Livro dos Espíritos, pág.133 »

197 : « O Espírito de uma criança morta com poucos anos de idade é tão avançado
quanto o de um adulto? »
« Algumas vezes muito mais, porque pode ter vivido muito mais e ter mais
experiência, sobretudo se tiver progredido. »
« O Espírito de uma criança pode assim ser mais avançado que o de seu pai? »
« Isso é muito freqüente não o vê você mesmo sobre a Terra ? »
198 : « O Espírito de uma criança que morre em tenra idade, não tendo podido fazer
mal, pertence a graus superiores? »
« Se não fez mal, também não fez bem, e Deus não o libera das provas que deve
sofrer. Se for puro isso não seria porque era criança, mas porque era mais avançado. »
199 : « Porque tão freqüentemente é a vida interrompida já na infância? »
« A duração da vida da criança pode ser para o Espírito que está encarnado nela o
complemento de uma existência interrompida antes do momento devido, e sua morte é
freqüentemente uma prova ou uma expiação para os pais. »
« Que ocorre ao Espírito de uma criança que morre cedo? »
« Ele recomeça uma nova existência. »
Se o homem tivesse apenas uma só existência e se após esta existência sua sorte futura
estivesse fixada para a eternidade, qual seria o mérito da metade da espécie humana que
morre com pouca idade, para gozar sem esforço da felicidade eterna, e com que direito seria
libertada das condições, freqüentemente tão duras, impostas à outra metade? Uma tal ordem
de coisas não poderia estar segundo a justiça de Deus. Pela reencarnação, a igualdade é para
todos; o futuro pertence a todos sem exceção e sem favor para ninguém; os que chegarem por
último não podem se queixar senão deles mesmos, o homem deve ter o mérito por seus atos,
como tem a responsabilidade.
Além disso, não é racional considerar a infância como um estado de inocência. Não se
vê crianças dotadas dos piores instintos em uma idade onde a educação não pode ainda ter
exercido sua influência? Não se vê algumas que parecem trazer de nascimento a astúcia, a
falsidade, a perfídia, o instinto mesmo do roubo e do assassinato, e isso não obstante os bons
exemplos de que elas estão cercadas? A lei civil as absolve de seus crimes porque, se diz, que
elas agem sem discernimento; ela tem razão porque, com efeito, agem mais instintivamente
do que propositadamente; mas de onde podem provir esses instintos tão diferentes entre
crianças de mesma idade, criadas nas mesmas condições e submetidas às mesmas influências?
De onde vem esta perversidade precoce se não for da inferioridade do Espírito, pois que a
educação aí não contribuiu em nada? As que são viciosas, é que seus Espíritos progrediram
menos, e então sofrem as conseqüências, não por seus atos de infância, mas por aqueles das
existências anteriores e é assim que a lei é a mesma para todos, e que a justiça de Deus atinge
a todo mundo.

PARENTESCO
« Livro dos Espíritos, pág. 135 »

203 : « Os pais transmitem a seus filhos uma parte de sua alma, ou não fazem senão
lhes dar a vida animal à qual uma alma nova vem, mais tarde, adicionar a vida moral? »
« Somente a vida animal, porque a alma é indivisível. Um pai obtuso pode ter filhos
inteligentes, e vice-versa. »

- 22 -
204 : « Uma vez que temos várias existências, a parentela remonta além de nossa
existência atual? »
« Não pode ser de outra forma. A sucessão das existências corporais estabelece entre
os Espíritos laços que remontam às suas existências anteriores; daí freqüentemente as causas
de simpatia entre vocês e certos Espíritos que lhes parecem estranhos. »
205 : « Aos olhos de certas pessoas a reencarnação parece destruir os laços da família
ao fazê-los remontar além da existência atual. »
« Ela os estende, mas não os destrói. O parentesco estando fundado sobre afeições
anteriores, torna os laços que unem os membros de uma mesma família menos precários. Ela
aumenta os deveres da fraternidade, já que no seu vizinho, ou no seu servidor, pode se
encontrar um Espírito a quem você tenha estado ligado pelos laços do sangue. »
« Ela diminui entretanto a importância que alguns ligam à sua afiliação, já que se pode
ter tido por pai um Espírito que tenha pertencido a uma outra raça ou que tenha vivido em
uma condição totalmente diferente. »
« Isso é verdade, mas esta importância está fundada sobre o orgulho; o que a maioria
honra em seus ancestrais, são os títulos, a categoria, a fortuna. Aquele que se envergonharia
de ter tido por ascendente um honesto sapateiro, se vangloriaria de descender de um gentil-
homem devasso. Mas não importa o que digam ou façam, não impedirão as coisas de serem o
que são, porque Deus não rege as leis da natureza baseando-se na sua vaidade. »
206 : « Do fato de que não haja filiação entre os descendentes de uma mesma família,
se segue que o culto dos ancestrais seja uma coisa ridícula? »
« Certamente que não, porque deve-se sentir feliz de pertencer à uma família na qual
os Espíritos elevados se encarnaram. Ainda que os Espíritos não procedam uns dos outros,
não têm menos afeição por aqueles que se ligaram à eles por laços de família, porque esses
Espíritos são freqüentemente atraídos para tal ou qual família pela simpatia ou pelos laços
anteriores, mas creiam que os Espíritos de seus ancestrais não ficam honrados com o culto
que vocês lhes rendem por orgulho; seu mérito não reflete sobre vocês senão na medida em
que vocês se esforcem por seguir os bons exemplos que eles deram, e somente então é que sua
lembrança pode não somente lhes ser agradável, mas mesmo lhes ser útil. »
215 : « De onde vem o caráter distintivo que se observa em cada povo? »
« Os Espíritos têm também famílias formadas pela similaridade de seus pendores mais
ou menos depurados segundo sua elevação. Bem! Um povo é uma grande família onde se
reúnem Espíritos simpáticos. A tendência que têm os membros dessas famílias de se unir é a
fonte da semelhança que existe nos caracteres distintivos de cada povo. Crêem que os
Espíritos bons e humanos buscarão um povo duro e grosseiro? Não, os Espíritos simpatizam
com os povos, como simpatizam com os indivíduos; assim estarão no seu meio. »
216. « O homem conserva, nas suas novas existências, traços do caráter moral de suas
existências anteriores? »
« Sim, isso pode ocorrer; mas em se melhorando ele muda. Sua posição social pode
também não ser mais a mesma; se de senhor ele se torna escravo, seus gostos serão totalmente
diferentes e vocês teriam dificuldade em reconhecê-lo. O Espírito sendo o mesmo nas
diversas encarnações, suas manifestações podem levar de uma para as outras certas analogias,
modificadas. Todavia, pelos hábitos de sua nova posição, quando um aperfeiçoamento notável
tiver mudado completamente seu caráter, ele pode se tornar humilde e humano em vez de
orgulhoso e malévolo, se estiver arrependido. »
217 : « O homem nas suas diferentes encarnações, conserva os traços do caráter físico
das existências anteriores? »
« O corpo é destruído e o novo não tem nenhuma relação com o antigo. Entretanto o
Espírito se reflete no corpo; certamente, o corpo não é senão matéria; mas malgrado isso ele é
modelado pelas capacidades do Espírito que lhe imprime um certo caráter, principalmente

- 23 -
sobre a fisionomia, e há verdade quando se diz que os olhos são o espelho da alma; quer dizer
que, mais particularmente, a fisionomia reflete a alma; porque uma pessoa excessivamente
feia, quando possui um Espírito bom, sábio, humano, tem, entretanto qualquer coisa que
agrada enquanto que há rostos mais belos que não provocam nenhuma aprovação e para os
quais se tem mesmo repulsão. Poderias crer que apenas os corpos bem feitos sejam o
envelope dos Espíritos mais perfeitos enquanto que todos os dias encontramos homens de
bem sob um exterior disforme. Então, sem haver uma semelhança pronunciada, a similitude
dos gostos e dos pendores pode dar o que se chama, um ar familiar. »
Não tendo o corpo que reveste a alma em uma nova encarnação, necessariamente,
nenhuma relação com aquela que deixou, uma vez que pode ter vindo de outra procedência
muito diferente, seria absurdo concluir que uma sucessão de existências possa ter alguma
semelhança que seria apenas fortuita. Entretanto as qualidades do Espírito freqüentemente
modificam os órgãos que servem às suas manifestações, e imprimem sobre a fisionomia, e
mesmo ao conjunto de suas maneiras, um cunho distinto. É assim que sob o envelope mais
humilde se pode encontrar a expressão da grandeza e da dignidade, enquanto que sob as
vestes de um grande senhor se vê algumas vezes a da baixeza e da ignomínia. Certas pessoas
saídas da mais ínfima posição tomam sem esforço os hábitos e as maneiras da alta sociedade,
parecendo que aí reencontraram seu elemento, enquanto que outras, apesar de seu nascimento
e de sua educação, estão aí sempre deslocadas. Como explicar esse fato de outra maneira
senão como um reflexo do que já foi o Espírito?

IDÉIAS INATAS
« Livro dos Espíritos, pág. 140 »

218 : « O Espírito encarnado não conserva nenhum traço das percepções e dos
conhecimentos que adquiriu nas suas existências anteriores? »
« Fica uma vaga lembrança que lhe dá o que se costuma chamar de idéias inatas. »
« A teoria das idéias inatas não é, então, uma quimera? »
« Não, os conhecimentos adquiridos em cada existência não se perdem; o Espírito
desligado da matéria sempre se recorda deles. Entretanto, na encarnação, pode esquecê-los em
parte, momentaneamente, mas a intuição que nele permanece ajuda ao seu adiantamento; sem
isso estaria sempre recomeçando. A cada nova existência o Espírito parte de onde estava na
sua existência precedente. »
« Deve existir uma grande conexão entre duas existências sucessivas? »
« Nem sempre tão grande quanto poderias crer, porque as posições são freqüentemente
bem diferentes e no intervalo entre encarnações o espírito pode progredir. »
219 : « Qual é a origem das faculdades extraordinárias dos indivíduos que, sem estudo
prévio, parecem ter a intuição de certos conhecimentos como as línguas, o cálculo, etc. »
« A lembrança do passado e o progresso anterior da alma, mas dos quais não tem
consciência. De onde queria que viessem? O corpo muda, mas o Espírito não, ainda que
troque de vestimenta. »
220 : « Mudando de corpo, pode-se perder certas faculdades intelectuais, não ter mais,
por exemplo, o gosto pelas artes? »
« Sim, se tiver pervertido esta inteligência, ou se dela tiver feito mal emprego. Por
outro lado, uma faculdade pode ficar adormecida durante uma existência porque o Espírito
quer exercer uma outra que não está com ela relacionada; então permanece em estado latente
para reaparecer mais tarde. »

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ESPÍRITOS ERRANTES
« Livro dos Espíritos, pág. 154 »

223 : « A alma reencarna imediatamente após sua separação do corpo? »


« Algumas vezes imediatamente, mas o mais freqüentemente após intervalos mais ou
menos longos. Nos mundos superiores a reencarnação é quase sempre imediata; sendo menos
grosseira a matéria corporal, o Espírito encarna gozando de quase de todas suas faculdades.
Seu estado normal é o dos sonâmbulos lúcidos. »
224 : « No que a alma se torna nos intervalos das encarnações ? »
« Espírito errante que aspira a um novo destino; pelo qual aguarda. »
« Qual pode ser a duração desses intervalos? »
« De algumas horas a alguns milhares de séculos. De resto não há, propriamente
falando, um limite estabelecido para o estado de erraticidade que pode se prolongar por um
tempo longo, mas que, entretanto, nunca é perpétuo; cedo ou tarde, o Espírito sempre tem de
recomeçar uma existência que servirá para a purificação de suas existências precedentes. »
« Esta duração está subordinada à vontade do Espírito ou pode ser imposta como
expiação? »
« É uma conseqüência do livre-arbítrio; os Espíritos sabem perfeitamente o que fazem,
mas há também aqueles para quem é uma punição infligida por Deus. Outros pedem para
prolongá-la para seguir estudos que só podem ser feitos com proveito no estado de Espírito. »
225 : « A erraticidade é, por si só, um sinal da inferioridade entre os Espíritos? »
« Não, porque há Espíritos errantes em todos os graus. A encarnação é um estado transitório,
já o dissemos: no seu estado normal o Espírito está desligado da matéria. »

ESCOLHA DAS PROVAS


« Livro dos Espíritos, pág. 125 »

258 : « No estado errante, e antes de começar uma nova existência corporal, o Espírito
tem a consciência e a previsão do que lhe ocorrerá durante a vida? »
« Ele mesmo escolhe o gênero de provas a que quer se submeter, e é nisso que consiste
o seu livre-arbítrio. »
« Então, não é Deus que lhe impõe as tribulações da vida como castigo? »
« Nada acontece sem a permissão de Deus, porque foi Ele quem estabeleceu todas as
leis que regem o universo, você pode perguntar então porque fez uma lei em vez de outra.
Dando ao Espírito a liberdade de escolha, deixa-lhe toda a responsabilidade pelos seus atos e
suas conseqüências; nada estorva seu futuro, pois tanto o caminho do bem quanto o do mal
está disponível para todos. Mas se sucumbir resta-lhe uma consolação, é que não está tudo
acabado para ele, e que Deus, na sua bondade, o deixa livre para recomeçar o que tiver feito
mal. Ademais, é preciso distinguir o que é a obra da vontade de Deus, e o que é da do homem.
Se um perigo o ameaça, não foi ele quem criou esse perigo, foi Deus; mas foi dele a vontade
de se expor por saber ser este um meio para seu adiantamento, e Deus o permite. »
259 : « Se o Espírito tem a escolha do gênero de provas a que deve se submeter,
segue-se que todas as tribulações que experimentamos na vida foram previstas e escolhidas
por nós? »
« Toda, não é a palavra adequada, porque isso seria dizer que vocês escolheram e
previram tudo o que lhes acontece no mundo, até nos mínimos detalhes; escolheram o gênero
de prova, os detalhes dos fatos são conseqüência da posição e, freqüentemente, de nossas
próprias ações. Se o Espírito quis nascer entre os malfeitores, por exemplo, ele sabia a que
arrastamentos se exporia, mas não cada um dos atos que realizaria, esses atos são o efeito de

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sua vontade, ou de seu livre-arbítrio. O Espírito sabe que em escolhendo certo caminho terá
de manter certo tipo de luta; sabe então a natureza das vicissitudes que encontrará, mas não
sabe se ocorrerá antes um evento em vez de outro. Os detalhes dos eventos nascem das
circunstâncias e da força das coisas. Apenas são previstos os grandes eventos, aqueles que
influem sobre o destino. Se seguir um caminho cheio de sulcos, você sabe que deve tomar
grandes precauções porque há a chance de cair, mas não sabe em qual direção cairá e pode ser
que você não caia se for bastante prudente. Se passando na rua, uma telha cai sobre sua
cabeça, não creia que isso estava escrito, como se diz vulgarmente. »
260 : « Como o Espírito pode querer nascer entre pessoas de má vida? »
« É preciso que seja enviado para um meio onde possa sofrer a prova que pediu. Pois
bem! Então é necessário que se aja por analogia; para lutar contra o instinto de furto, é preciso
que se encontre entre gente dessa espécie. »
« Então, se não houvesse pessoas de má vida sobre a Terra, o Espírito não poderia
encontrar o meio necessário a certas provas? »
« É isso algo que se deva lastimar? É o que tem lugar em mundos superiores onde o
mal não tem acesso; é por isso que lá só há bons Espíritos. Façam que, em breve, ocorra o
mesmo sobre sua Terra. »

RETORNO À VIDA CORPORAL


«Livro dos Espíritos, pág. 195»

330 : « Os Espíritos sabem a época na qual reencarnarão? »


« Eles a pressentem, como o cego sente o fogo quando dele se aproxima. Eles sabem
que devem retomar um corpo, como vocês sabem que um dia vão morrer, mas não sabem
quando isso ocorrerá. »
« A reencarnação é então uma necessidade da vida corporal? »
« Certamente é assim. »
331 : « Todos os Espíritos se preocupam com sua reencarnação? »
« Há os que nunca pensam nisso, que nem mesmo o compreendem; isso depende de
sua natureza mais ou menos avançada. Para alguns a incerteza de onde estarão no porvir é
uma punição. »
332 : « O Espírito pode apressar ou retardar o momento de sua reencarnação? »
« Pode apressar demonstrando seu desejo ou pode retardá-lo se recuar diante da prova,
porque entre os Espíritos também existem os covardes e os indiferentes, mas isso não ficará
impune; sofrerá como todo aquele que recua diante de um remédio salutar que pode curá-lo. »
333 : « Se um Espírito se encontra bastante feliz em uma condição mediana entre os
Espíritos errantes, e não tiver a ambição de se elevar, pode prolongar esse estado
indefinidamente? »
« Não indefinidamente; o progresso é uma necessidade que o Espírito experimenta
pois, cedo ou tarde, todos devem se elevar; é o seu destino. »
339 : « O momento da encarnação é acompanhado de uma perturbação semelhante
àquela que tem lugar quando se deixa o corpo? »
« Muito maior e, sobretudo mais longa. Na morte o Espírito sai, mas no nascimento
entra na escravidão. »
340 : « O instante em que um Espírito deve encarnar é um momento solene para ele?
Realiza este ato como algo grave e importante? »
« É como um viajante que embarca para uma travessia perigosa, e não sabe se
encontrará a morte nas vagas que irá afrontar. »

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341 : « A incerteza em que se encontra o Espírito sobre a eventualidade do sucesso nas
provas que vai sofrer na vida, é para ele causa de ansiedade antes de sua encarnação? »
« De ansiedade bem grande, uma vez que as provas de sua existência o retardarão ou o
adiantarão segundo as tiverem suportado, bem ou mal. »
342 : « No momento de sua reencarnação, o Espírito está acompanhado por outros
Espíritos seus amigos que vêm assistir à sua partida do mundo espiritual, como vêm recebê-lo
quando para aí retorna? »
« Isso depende da esfera que o Espírito habita. Se estiver nas esferas onde reina a
afeição, os Espíritos que o amam o acompanham até o último momento, encorajando-o e
freqüentemente o seguem na vida. »
343 : « Os Espíritos amigos que nos seguem na vida são por vezes aqueles que vemos
em sonho, que nos testemunham afeição e que se nos apresentam com fisionomias
desconhecidas? »
« Muito freqüentemente são eles que os vão visitar assim como vocês vão ver um
prisioneiro. »

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, pág. 84.

3. Após a transfiguração, seus discípulos o interrogaram e lhe disseram: Por que então
dizem os escribas que é preciso que primeiramente Elias volte? Mas Jesus lhes respondeu: É
verdade que Elias deve retornar e restabelecer todas as coisas; mas eu lhes declaro que Elias
já veio e eles não o reconheceram, mas o trataram como lhes aprouve. É assim que farão
sofrer o Filho do Homem. Então seus discípulos compreenderam que era de João Batista que
lhes falara. (São Mateus, capítulo XVII, v. 10 a 13 ; São Marcos, capítulo IX, v. 11, 11, 13)

RESSURREIÇÃO E REENCARNAÇÃO

4. A reencarnação fazia parte dos dogmas Judeus sob o nome de ressurreição: somente
os Saduceus, que pensavam que tudo acabava com a morte, nela não acreditavam. As idéias
dos Judeus sobre esse ponto, como sobre muitos outros, não estavam claramente definidas,
porque apenas tinham noções vagas e incompletas sobre a alma e sua ligação com o corpo.
Acreditavam que um homem que tivesse morrido poderia reviver sem ter uma explicação
precisa quanto à maneira pela qual teria lugar; designavam pela palavra ressurreição o que o
espiritismo chama, mais judiciosamente, de reencarnação. Com efeito, a ressurreição supõe o
retorno à vida do corpo que já está morto, o que a ciência demonstra ser materialmente
impossível, sobretudo quando os elementos do corpo estão dispersos e absorvidos desde há
muito tempo. A reencarnação é o retorno da alma ou Espírito à vida corporal, mas em um
novo corpo, formado para ele, e que nada tem de comum com o antigo. A ressurreição podia
se aplicar a Lázaro, mas não a Elias, nem aos outros profetas. Se então, segundo sua crença,
João Batista era Elias, o corpo de João não podia ser o de Elias uma vez que João tinha sido
visto ainda criança e seu pai e sua mãe eram conhecidos. João podia ser Elias reencarnado,
mas não ressuscitado.
5. Ora, havia um homem entre os Fariseus, de nome Nicodemus, senador dos Judeus,
que veio à noite encontrar Jesus, e lhe disse: Mestre, sabemos que veio da parte de Deus para
nos instruir como um doutor; porque ninguém poderia fazer os milagres que faz, se Deus não
estivesse com ele.
Jesus lhe respondeu: Em verdade, em verdade, lhe digo: Ninguém pode ver o reino de
Deus se não nascer de novo.

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Nicodemus lhe disse: Como pode nascer um homem que já está velho? Pode reentrar
no seio de sua mãe, para nascer uma segunda vez?
Jesus lhe respondeu: Em verdade, em verdade, lhe digo: Se um homem não renascer
da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, o
que é nascido do Espírito é Espírito. Não se espante com o que lhes disse, que é preciso
nascer de novo. O Espírito sopra onde quer, e vocês escutam sua voz, mas não sabem de onde
ele vem, nem para onde vai, ocorre o mesmo com todo homem que é nascido do Espírito.
Nicodemus lhe respondeu: Como isso pode ser! Jesus lhe disse: O que! Você é mestre
em Israel e ignora essas coisas! Em verdade, em verdade, lhe digo: que dizemos o que
sabemos e que não rendemos testemunha senão do que vimos; e, entretanto vocês não aceitam
nosso testemunho. Mas, se não me acreditam quando lhes falo das coisas da Terra, como
acreditariam quando lhes falasse das coisas do Céu? (São João, cap. III, v. de 1 a 12).
6. O pensamento de que João Batista era Elias e de que os profetas poderiam viver de
novo sobre a Terra se encontra em muitas passagens dos Evangelhos.
Se esta crença estivesse errada, Jesus não teria deixado de combatê-la, como combateu
a tantas outras; longe disso Ele a sanciona com toda a sua autoridade e a põe por princípio e
como uma condição necessária quando disse: Ninguém pode ver o reino dos céus se não
nascer de novo; e insiste ao acrescentar: Não se admirem de que lhes tenha dito que é preciso
que nasçam de novo.
7. Essas palavras: ‘se um homem não renascer da água e do Espírito’, têm sido
interpretadas no sentido da regeneração pela água do batismo. O texto primitivo diz
simplesmente: não renascer da água e do Espírito, porém, em certas traduções, ‘do Espírito’
foi substituída por: ‘do Espírito Santo’ que não corresponde mais ao mesmo pensamento.
Esse ponto capital ressalta dos primeiros comentários feitos sobre o Evangelho como será um
dia constatado sem equívoco possível3.
8. Para compreender o verdadeiro sentido dessas palavras, é preciso igualmente se
reportar à significação da palavra água que não era sempre empregada na sua acepção própria.
Os conhecimentos dos Antigos sobre as ciências físicas eram muito imperfeitos, eles
acreditavam que a Terra tinha saído das águas, por isso consideravam a água como o
elemento regenerador absoluto; é assim que na Gênese é dito: « O Espírito de Deus estava
sobre as águas; flutuava na superfície das águas - que o firmamento seja feito no meio das
águas - que as águas que estão sob o céu se reúnam em um só lugar e que o elemento árido
apareça - que as águas produzam animais vivos que nadem na água e pássaros que voem
sobre a Terra e sob o firmamento ».
De acordo com esta crença, a água tinha se tornado o símbolo da natureza material,
como o Espírito o da natureza inteligente. Essas palavras: « Se o homem não nascer da água e
do Espírito, ou em água e em Espírito » significam então « Se o homem não renascer com seu
corpo e sua alma ». É esse o sentido que estava incluído nesse princípio.
Esta interpretação é, além disso, justificada por essas outras palavras: O que nasceu da
carne é carne e o que nasceu do Espírito é Espírito. Jesus fez aqui uma distinção positiva
entre o Espírito e o corpo. O que é nascido da carne é carne, indica claramente que o corpo só
procede do corpo, e que o Espírito é independente do corpo.
9. O Espírito sopra onde quer; vocês ouvem sua voz, mas não sabem nem de onde ele
vem nem para onde ele vai, pode-se entender que se fala do Espírito de Deus que dá a vida a
quem ele quer, ou da alma do homem nesta última acepção: « Vocês não sabem nem de onde
ele vem nem para onde ele vai», significa que não se sabe nem o que foi, nem o que será o
Espírito. Se o Espírito ou a alma fosse criado ao mesmo tempo em que o corpo, saberíamos de
3
A tradução de Osterwald está de acordo com o texto original; ele traz: não renasce da água
e do Espírito; o de Sacy diz: do Santo Espírito; o de Lamennais: Espírito santo.

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onde ele vem, uma vez que conheceríamos seu começo. Em todo caso, esta passagem á a
consagração do princípio da pré-existência da alma e por conseqüência, o da pluralidade das
existências.
10. Ora, desde o tempo de João Batista até o presente o reino dos céus se toma pela
violência e são os violentos que o arrebatam - porque até João todos os profetas, como
também a lei, assim têm profetizado - e se vocês quiserem compreender o que lhes digo, é ele
mesmo o Elias que há de vir - que ouça aquele que tiver ouvidos para ouvir (São Mateus, cap.
XI, v, 12 a 15).
1l. Se o princípio da reencarnação, expresso em São João poderia, a rigor, ser
interpretado em um sentido puramente místico, o mesmo não poderia ser com esta passagem
de São Mateus, que não tem equívoco possível: ELE MESMO é o Elias que há de vir; não há
aí nem imagem nem alegoria; é uma afirmação positiva. - « Desde o tempo de João até o
presente o reino dos céus se toma pela violência ». Que significam essas palavras, já que João
Batista vivia ainda nesse momento. Jesus lhes explica dizendo: « Se querem compreender o
que digo, é ele mesmo o Elias que há de vir.». Ora, João não sendo outro senão Elias, Jesus
fazia alusão ao tempo em que João vivia sob o nome de Elias. « Até o presente se entendia
que o reino dos céus poderia ser alcançado pela violência », é uma outra alusão à violência da
lei mosaica que comandava o extermínio dos infiéis para ganhar a Terra Prometida, Paraíso
dos Hebreus, enquanto que, segundo a nova lei, o Céu se ganha pela caridade e pela doçura.
Depois acrescenta: Que ouça aquele que tem ouvidos para ouvir. Essas palavras tão
freqüentemente repetidas por Jesus, dizem claramente que nem todo mundo estava em
condições de compreender certas verdades.
12. Aqueles de seu povo que foram mortos viverão de novo, os que estavam mortos
em meio a mim ressuscitarão. Despertem de seu sono e cantem louvores a Deus, vocês que
habitam na poeira, porque a orvalho que cai sobre vocês é um orvalho de luz e vocês
arruinarão a Terra, e o reino dos gigantes. (Isaías, capítulo XXVI, v19)
13. Essa passagem de Isaías é também muito explícita; aqueles de seu povo que foram
mortos viverão de novo. Se o profeta houvesse pretendido falar da vida espiritual, se ele
tivesse querido dizer que aqueles que foram mortos não estavam mortos em Espírito, teria
dito: vivem ainda e não viverão de novo. No sentido espiritual, essas palavras seriam sem
sentido, pois implicariam em uma interrupção na vida da alma. No sentido da regeneração
moral, elas seriam a negação das penas eternas, uma vez que estabeleceriam, em princípio,
que todos os que estão mortos reviverão.
14. Mas, quando o homem morre uma vez, quando seu corpo, separado de seu
Espírito, estiver consumado, o que se torna ele? O homem estando morto uma vez poderia
reviver de novo? Nesta guerra em que me encontro todos os dias de minha vida, espero que
chegue minha mutação. (Job, capítulo XIV, v. 10, 14). (Tradução de Le Maistre de Sancy).
Quando o homem morre, perde toda sua força, expira; depois onde está ele? Se o
homem morre, reviverá? Esperarei todos os dias de meu combate até que venha alguma
mudança? (Tradução protestante de Osterwald.)
Quando o homem está morto, ele vive sempre; terminando os dias de minha existência
terrestre, esperarei, porque a ela retornarei de novo. (Versão da Igreja grega.)
15. O princípio da pluralidade das existências está claramente expresso nestas três
versões. Não se pode supor que Job tenha querido falar da regeneração pela água do batismo
que certamente não conhecia. « O homem estando morto uma vez, poderia reviver de novo ».
A idéia de morrer uma vez e depois reviver implica a de morrer e reviver várias vezes. A
versão da Igreja grega é ainda mais explícita, se isso é possível. « Terminando os dias de
minha existência terrestre, esperarei, porque para aqui retornarei », quer dizer, retornarei à
existência terrestre. Aqui está tão claro como se alguém dissesse: « Saio de minha casa, mas
para ela retornarei ».

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« Nesta guerra em que me encontro todos os dias de minha vida, esperarei que chegue
minha mutação. » Job quer, evidentemente, falar da luta que sustém contra as misérias da
vida, ele espera sua mudança, quer dizer, se resigna. Na versão grega, esperarei parece,
sobretudo se aplicar a uma nova existência: « Quando minha existência terrestre estiver
acabada, esperarei porque retornarei ».
Job parece se colocar, após sua morte, no intervalo que separa uma existência de outra
e dizer que lá ele esperará seu retorno.
16. Então não há dúvida de que, sob o nome de ressurreição, o princípio da
reencarnação era uma das crenças fundamentais dos Judeus; o que é confirmado por Jesus e
os profetas de uma maneira formal; de onde se segue que negar a reencarnação é renegar as
palavras do Cristo. Um dia, se meditarmos sem idéias preconcebidas, a autoridade de sua
palavra, sobre esse ponto como sobre muitos outros, será reconhecida.
17. Mas a esta autoridade, do ponto de vista religioso, vem se juntar, do ponto de vista
filosófico, a das provas que resultam da observação dos fatos; quando se quer remontar dos
efeitos às causas, a reencarnação aparece como uma necessidade absoluta, como uma
condição inerente à humanidade, em uma palavra, como uma lei da natureza; ela se revela por
seus resultados de maneira por assim dizer material, como um motor oculto se revela pelo
movimento. Ela sozinha pode dizer ao homem de onde ele vem, para onde ele vai, porque está
sobre a Terra, e justificar todas as anomalias e injustiças aparentes que a vida apresenta.
Sem o princípio da pré-existência da alma e da pluralidade das existências, a maior
parte das máximas do Evangelho seria ininteligível: por isso têm dado lugar a interpretações
tão contraditórias. Este princípio é a chave que lhes deve restituir seu verdadeiro sentido.

OS LAÇOS DE FAMÍLIA
Fortalecidos pela reencarnação e rompidos pela unicidade das existências.

18. Os laços da família não são destruídos pela reencarnação, como assim o pensam
certas pessoas; ao contrário são fortalecidos e apertados: é o princípio oposto que os destrói.
Os Espíritos formam no espaço grupos ou famílias unidos pela afeição, pela simpatia e
pela similaridade das inclinações; esses Espíritos, ditosos por estarem juntos, se procuram. A
encarnação os separa apenas momentaneamente, porque, após sua reentrada na erraticidade,
eles se reencontram como amigos no retorno de uma viagem. Freqüentemente até, seguem
juntos na encarnação, onde reunidos em uma mesma família, ou em um mesmo círculo,
trabalham no seu mútuo adiantamento. Se uns estão encarnados e outros não, ainda assim
estarão unidos pelo pensamento; os que estão livres velam por aqueles que estão em cativeiro;
os mais avançados procuram fazer progredir os retardatários. Após cada existência terão dado
mais um passo na via da perfeição; cada vez menos ligados à matéria, sua afeição é mais viva
pela razão mesma de que é mais apurada, porque não é mais perturbada pelo egoísmo nem
pelas sombras das paixões. Podem assim percorrer um número ilimitado de existências
corporais sem que nenhum dano seja feito à sua afeição mútua.
Deve ficar bem entendido que se trata aqui de afeição real de alma para alma, a única
que sobrevive à destruição do corpo, porque os seres que se unem aqui apenas pelos sentido
não têm nenhum motivo para se procurar no mundo dos Espíritos. Nada existe de durável
senão as afeições espirituais, as afeições carnais se extinguem com a causa que as fez nascer.
Ora esta causa não existe mais no mundo dos Espíritos, enquanto que a alma existe sempre.
Quanto às pessoas unidas pelo único móvel do interesse, nada são realmente uma para a outra,
a morte as separa na Terra e no Céu.
19. A união e afeição que existem entre os parentes são um índice da simpatia anterior
que os aproximava; também se diz de uma pessoa cujos gostos e inclinações não têm
nenhuma similaridade com os de seus próximos, que não é da família. Dizendo isso se

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enuncia uma verdade maior do que se supõe. Deus permite, nas famílias, essas encarnações de
Espíritos antipáticos ou estranhos com o duplo objetivo de servir de provação para uns e de
meio de adiantamento para os outros. Pois os maus melhoram pouco a pouco em contato com
os bons e pelos cuidados que recebem; seu caráter se adoça, seus costumes se depuram e as
antipatias se desfazem; é assim que se estabelece a fusão entre diferentes categorias de
Espíritos, como ocorre na Terra entre as raças e os povos.
20. O medo de que, com a reencarnação, aumente indefinidamente o parentesco, é um
medo egoísta que prova não se ter bastante amor para se relacionar com um grande número de
pessoas. Um pai que tem vários filhos os ama menos do que se tivesse apenas um? Mas que
os egoístas se tranqüilizem, não há fundamento neste temor. Do fato de que um homem tenha
tido dez encarnações, não se segue que encontrará no mundo dos Espíritos dez pais, dez mães,
dez mulheres e um número proporcional de filhos e de novos parentes; aí encontrará sempre
os mesmos que foram objeto de sua afeição e que a ele estiveram ligados sobre a Terra a
títulos diferentes e talvez sob o mesmo título.
21. Vejamos agora as conseqüências da doutrina anti-reencarnacionista. Esta doutrina
anula necessariamente a pré-existência da alma; sendo as almas criadas ao mesmo tempo em
que o corpo, não existiria entre elas nenhuma ligação anterior; seriam completamente
estranhas umas das outras; o pai seria estranho ao seu filho; a filiação das famílias se
encontraria reduzida à única filiação corporal sem nenhum laço espiritual. Não haveria então
nenhum motivo de se vangloriar por ter tido por ancestrais personagens ilustres; ancestrais e
descendentes, com a reencarnação, podem ter se conhecido, haver vivido juntos, ter se amado
e se encontrar reunidos mais tarde para apertarem seus laços de simpatia.
22. Isso quanto ao passado. Quanto ao futuro, segundo um dos dogmas fundamentais
que decorre da anti-reencarnação, a sorte das almas está irrevogavelmente fixada após uma só
existência; a fixação definitiva da sorte implica na cessação de todo progresso, porque se há
algum progresso não poderia haver sorte definitiva; elas vão imediatamente para a mansão
dos bem-aventurados ou para o inferno eterno, segundo tenham vivido bem ou mal; estarão
assim imediatamente separadas para sempre, sem esperança de se aproximar novamente, de
modo que pais, mães, filhos, maridos e mulheres, irmãos ou irmãs e amigos e não podem
jamais ter certeza de se reverem, é a ruptura mais absoluta dos laços da família.
Com a reencarnação, e seu conseqüente progresso, todos os que se amam se
reencontram na Terra e no espaço, e juntos gravitam para chegar a Deus. Se falharem no
caminho, retardam seu adiantamento e sua felicidade; mas não perdem toda a esperança;
ajudados, encorajados e sustentados por aqueles que os amam, sairão um dia da lama em que
se colocaram. Com a reencarnação, enfim, há solidariedade perpétua entre os encarnados e os
desencarnados, daí o estreitamento dos laços de afeição.
23. Em resumo, apresentam-se quatro alternativas ao homem, para seu porvir de além-
túmulo: 10 O nada, segundo a doutrina materialista; 20 A absorção no todo universal, segundo
a doutrina panteísta; 30 A individualidade com fixação definitiva da sorte, segundo a doutrina
da Igreja; 40 A individualidade com progresso indefinido, segundo a doutrina espírita.
Segundo as duas primeiras, os laços de família são rompidos após a morte, e não há nenhuma
esperança de reencontro; com a terceira, há chance de se rever, desde que estejam no mesmo
meio, e esse meio pode ser o inferno como o paraíso; com a pluralidade das existências que é
inseparável do progresso gradual, há a certeza da continuidade das relações entre os que se
amam e é isso o que constitui a verdadeira família.

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LIMITES DA ENCARNAÇÃO
Quais são os limites da encarnação?

24. A encarnação não tem, propriamente falando, limites nitidamente traçados, se


entendemos como envoltório o que constitui o corpo do Espírito, uma vez que a materialidade
desse envelope diminui à medida que o Espírito se purifica. Em certos mundos mais
avançados do que a Terra, ele já é menos compacto, pesado e grosseiro, e em conseqüência
sujeito a menos vicissitudes; em grau mais elevado, se desmaterializa e acaba por se confundir
com o perispírito. Conforme o mundo no qual é chamado a viver, o Espírito toma o envoltório
apropriado à natureza desse mundo.
O próprio perispírito sofre transformações sucessivas; tornando-se cada vez mais
etéreo até a completa depuração, que constitui os puros Espíritos. Se mundos especiais são
designados, como estações, aos Espíritos mais avançados, estes últimos não estão a eles
ligados como nos mundos inferiores; o estado de desprendimento em que se encontram
permite-lhes se transportar a toda parte onde os chamem as missões que lhes são confiadas.
Se considerarmos a encarnação do ponto de vista material, tal como tem lugar na
Terra, pode-se dizer que está limitada aos mundos inferiores; depende do Espírito, por
conseguinte, se libertar dela, mais ou menos prontamente, trabalhando pela sua depuração.
Deve-se considerar, também, que no estado errante, quer dizer no intervalo das
existências corporais, a situação do Espírito está relacionada com a natureza do mundo ao
qual se liga por seu grau de adiantamento; assim, na erraticidade, será mais ou menos ditoso,
livre e esclarecido conforme esteja mais ou menos desmaterializado.

NECESSIDADE DA ENCARNAÇÃO

25. A encarnação é uma punição, e apenas os Espíritos culpados estão sujeitos a ela?
A passagem dos Espíritos pela vida corporal é necessária para que, por meio de uma
ação material, possam cumprir os desígnios cuja execução Deus lhes confiou; é necessária
para eles mesmos porque a atividade, que são obrigados a exercer, ajuda no desenvolvimento
de sua inteligência. Sendo Deus soberanamente justo deve distribuir, igualmente, a todos seus
filhos; é por isso que dá a todos um mesmo ponto de partida, a mesma aptidão, as mesmas
obrigações a cumprir e a mesma liberdade de agir; todo privilégio seria uma preferência e
toda preferência uma injustiça. Mas a encarnação é para todos os Espíritos apenas um estado
transitório, uma tarefa que Deus lhes impõe no início de sua vida, como primeira prova da
otimização que farão de seu livre-arbítrio. Os que cumprem esta tarefa com zelo transpõem
rápida e menos penosamente esses primeiros degraus da iniciação e gozam mais cedo dos
frutos de seus trabalhos. Os que, ao contrário, usam mal a liberdade que Deus lhes concede,
retardam seu adiantamento. É assim que, por sua obstinação, podem prolongar
indefinidamente a necessidade de reencarnar e é então que a encarnação se torna um castigo.
26. Nota. Uma comparação vulgar fará compreender melhor esta diferença. O escolar
não chega aos graus científicos senão após haverem percorrido a série das classes que aí
conduzem. Essas classes, qualquer que seja o trabalho que exigem, são um meio de chegar ao
objetivo, e não uma punição. O estudante laborioso abrevia o caminho, e encontra menos
espinhos. O mesmo não acontece para quem, por negligência e preguiça, é obrigado a repetir
certas classes. Não é o trabalho da classe que é uma punição, mas a obrigação de recomeçar o
mesmo trabalho.
Assim é com o homem na Terra. Para o Espírito do selvagem, que está quase no início
da vida espiritual, a encarnação é um meio de desenvolver sua inteligência, mas para o
homem esclarecido, em quem o senso moral está largamente desenvolvido, e que é obrigado a

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repetir as etapas de uma vida corporal plena de angústias, enquanto que poderia já ter chegado
ao objetivo, é um castigo, pela necessidade em que está de prolongar sua permanência em
mundos inferiores e infelizes. Aquele que, ao contrário, trabalha ativamente em seu progresso
moral pode não somente abreviar a duração da encarnação material, mas transpor de uma só
vez os degraus intermediários que o separam dos mundos superiores.
Poderiam os Espíritos encarnar uma só vez no mesmo globo, e assim cumprir suas
diferentes existências em esferas diferentes? Esta opinião seria admissível apenas se todos os
homens na Terra estivessem, exatamente no mesmo nível intelectual e moral. As diferenças
que existem entre eles, desde o selvagem até o homem civilizado, mostram os degraus que
terão de transpor. A encarnação, além disso, deve ter um propósito útil; ora qual seria o das
encarnações efêmeras, das crianças que morrem em tenra idade? Teriam sofrido sem proveito
nem para si nem para ninguém; Deus, cujas leis são todas soberanamente sábias, nada faz
inutilmente. Pela reencarnação no mesmo globo, quis que os mesmos Espíritos entrassem
novamente em contato e tivessem ocasião de reparar seus danos recíprocos; por suas relações
anteriores quis, por outro lado, fundar os laços de família sobre uma base espiritual e apoiar
sobre uma lei da natureza os princípios de solidariedade, fraternidade e igualdade.

METEMPSICOSE E PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS


O que é o Espiritismo, pág. 142.

A metempsicose dos antigos consistia na transmigração da alma humana nos animais,


o que implicaria numa degradação. De resto esta doutrina não era o que se crê vulgarmente.
A transmigração nos animais não era considerada como uma condição inerente à
natureza da alma humana, mas como um castigo temporário, de modo que as almas dos
assassinos passavam para os corpos dos animais ferozes para neles receber uma punição; as
dos impudicos para os porcos e os javalis, as dos inconstantes e levianos para os pássaros; as
dos preguiçosos e dos ignorantes, para os animais aquáticos. Após alguns milhares de anos
nessa espécie de prisão, mais ou menos segundo a culpabilidade de cada um, a alma reentrava
na humanidade. A encarnação animal então não era uma condição absoluta e se aliava, como
se vê, à reencarnação humana, e a prova disso está em que a punição dos homens tímidos
consistia em passar para o corpo de mulheres expostas ao desprezo e às injúrias. Isso
funcionava como uma espécie de espantalho para os simples, antes que um artigo de fé entre
os filósofos. Da mesma forma que se diz às crianças: « Se forem más, o lobo vai comer
vocês», os Antigos diziam aos criminosos: Vocês se tornarão lobos. Hoje se lhes diz: « O
diabo os pegará e levará para o inferno ».
A pluralidade das existências, segundo o Espiritismo, difere essencialmente da
metempsicose, ao não admitir a encarnação da alma nos animais, nem mesmo como punição.
Os Espíritos ensinam que a alma não retrograda, mas que progride sem cessar. Suas diferentes
encarnações corporais se cumprem na humanidade; cada existência é para ela um passo
adiante na senda do progresso intelectual e moral, o que é bem diferente. Não podendo
adquirir um completo desenvolvimento em uma só existência, freqüentemente abreviada por
causas acidentais, Deus permite que continue em uma nova encarnação a tarefa que não pode
acabar, ou recomeçar a que foi mal feita. A expiação, na vida corporal, consiste nas
tribulações que aqui se sofre.
Quanto à questão de saber se a pluralidade das existências é ou não contrária a certos
dogmas da Igreja, limitar-me-ei a dizer isto: de duas uma, ou a reencarnação existe ou não
existe; se existe, é porque está nas leis da natureza. Para provar que não existe, seria preciso
provar ser ela contrária, não aos dogmas, mas a essas leis, e que se pudesse encontrar uma
outra que explicasse mais clara e logicamente as questões que somente ela pode resolver.

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De resto, é fácil demonstrar que certos dogmas aí encontram uma sanção racional que
os faz serem aceitos por quem os repelia por falta de compreensão. Não se trata então de
destruir, mas de interpretar, o que teria lugar mais tarde pela força das coisas. Os que não
quiserem aceitar a interpretação estão perfeitamente livres, como o são hoje, de acreditar que
é o sol que gira em torno da Terra.
A idéia da pluralidade das existências se vulgariza com uma espantosa rapidez, em
razão de sua extrema lógica e de sua conformidade com a justiça de Deus. Quando for
reconhecida como verdade natural e aceita por todos, o que a Igreja fará?
Em resumo, a reencarnação não é um sistema imaginado para as necessidades de uma
causa, nem uma opinião pessoal; ela é ou não é um fato. Se estiver demonstrado que certas
coisas que existem são materialmente impossíveis sem a reencarnação, é preciso admitir que
são conseqüências da reencarnação, logo, se está na natureza, ela não poderia ser anulada por
uma opinião contrária.

REENCARNAÇÃO
« A Gênese, pág. 222 ».

33. O princípio da reencarnação é uma conseqüência necessária da lei do progresso.


Sem a reencarnação como explicar a diferença que existe entre o estado social atual e aquele
dos tempos de barbárie? Se as almas são criadas ao mesmo tempo em que os corpos, as que
nascem hoje são, também, todas tão novas, tão primitivas quanto as que viviam há milhares
de anos, acrescentemos que não haveria nenhuma conexão entre elas, nenhuma relação
necessária; seriam completamente independentes umas das outras. Por que as almas de hoje
seriam então mais bem dotadas por Deus que suas precedentes? Por que compreenderiam
melhor? Por que têm instintos mais apurados e costumes mais brandos? Por que têm a
intuição de certas coisas sem as terem aprendido? Duvidamos que alguém possa resolver
essas questões, a menos que admita que Deus criou almas de diversas qualidades segundo os
tempos e os lugares, proposição inconciliável com a idéia de uma justiça soberana.
Admita, ao contrário, que as almas de agora já tenham vivido em tempos remotos, que
possam ter sido tão bárbaras como seu século, mas que progrediram; que a cada nova
existência traziam as aquisições das existências anteriores; que, por conseguinte, as almas dos
tempos civilizados são almas imperfeitas, mas que têm se aperfeiçoado por si mesmas, com o
tempo, e terão a única explicação plausível da causa do progresso dos Espíritos.
34. Algumas pessoas pensam que as diferentes existências da alma se cumprem de
mundo em mundo, e não em um mesmo globo onde cada Espírito passaria uma única vez.
Esta doutrina seria admissível, se todos os habitantes da Terra estivessem exatamente
no mesmo nível intelectual e moral; então eles poderiam progredir apenas indo para um outro
mundo, e sua reencarnação na Terra não teria nenhuma utilidade; ora, Deus nada faz
inutilmente. Desde que aí se encontram todos os graus de inteligência e de moralidade, desde
a selvageria que beira o animal até a civilização mais avançada, ela oferece um vasto campo
ao progresso; então se poderia perguntar por que o selvagem seria obrigado a ir procurar
alhures o grau acima dele quando o encontra ao seu lado e assim sucessivamente; por que o
homem avançado apenas teria podido fazer suas primeiras etapas nos mundos inferiores,
quando ao seu redor estão os análogos de todos esses mundos, quando há diferentes graus de
adiantamento, não somente de povo a povo, mas no mesmo povo e na mesma família? Se
fosse assim, Deus teria feito alguma coisa inútil colocando lado a lado a ignorância e o saber,
a barbárie e a civilização, o mal e o bem, enquanto que é precisamente esse contato que faz
avançar os retardatários.

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Então não há necessidade de que os homens mudem de mundo a cada etapa, como não
há por que um estudante mudar de colégio a cada série; longe de ser uma vantagem para o
progresso, isso seria um entrave porque o Espírito estaria privado do exemplo que lhe oferece
a observação dos graus superiores e a possibilidade de reparar seus erros no mesmo meio e na
presença dos que foram ofendidos, possibilidade que é, para ele, o mais poderoso modo de
adiantamento moral. Após uma curta coabitação, os Espíritos se dispersariam e se tornariam
estranhos uns aos outros e os laços de família e de amizade, não tendo tido tempo de se
consolidar, seriam rompidos.
Ao inconveniente moral se juntaria um inconveniente material. A natureza dos
elementos, as leis orgânicas, as condições de existência variam de acordo com os mundos; sob
esse aspecto, não há dois que sejam perfeitamente idênticos. Os tratados de física, química,
anatomia, medicina, botânica, etc., de nada serviriam nos outros mundos e, portanto, o que se
aprende não é perdido; não somente isso desenvolve a inteligência, mas as idéias que aí se
colhe ajudam na aquisição de novas. Se o Espírito fizesse apenas uma única aparição em cada
mundo, freqüentemente de curta duração, a cada migração ele se encontraria em condições
totalmente diferentes; sob elementos novos, com forças e segundo leis desconhecidas para ele,
sem ter tido tempo para elaborar os elementos conhecidos, de os estudar, de nisso se exercitar.
Teria de, toda vez, fazer um novo aprendizado e essas mudanças incessantes seriam um
obstáculo ao progresso.
Portanto, o Espírito deve permanecer no mesmo mundo até que tenha adquirido a
soma de conhecimentos e o grau de perfeição que esse mundo comporte.
« 31. Gênese ». Pode-se comparar os Espíritos que vieram povoar a Terra a esses
bandos de emigrantes de diversas origens que vão se estabelecer numa terra virgem. Eles aí
encontram madeira e pedra para construir suas habitações e cada um dá à sua um cunho
diferente, conforme o grau de seu saber e sua inspiração particular. Grupam-se por analogia
de origem e de gostos, e esses grupos acabam formando tribos, depois povos tendo cada um
seus costumes e seu caráter próprio.
(Pág. 224) Que os Espíritos deixam por um mundo mais avançado aquele sobre o qual
nada mais podem auferir, é como deve ser e é o que ocorre; tal é o princípio. Se alguns o
deixam antecipadamente, é sem dúvida devido a causas individuais que Deus pesa em sua
sabedoria.
Tudo na criação tem um objetivo, sem o que Deus não seria nem prudente nem sábio;
ora, se a Terra devesse ser apenas uma etapa única para o progresso dos indivíduos, que
utilidade haveria para as crianças que morrem em tenra idade, vir aí passar alguns anos,
alguns meses, algumas horas, durante os quais nada podem adquirir? O mesmo seria para os
idiotas e os cretinos. Uma teoria é boa apenas sob a condição de resolver todas as questões
que a ela se relacionam. A questão das mortes prematuras tem sido a pedra de tropeço para
todas as doutrinas, exceto para a doutrina espírita que a resolveu de maneira racional e
completa.
Há uma vantagem real para o progresso dos que cumprem na Terra uma missão
normal em voltar ao mesmo meio para continuar o que deixaram inacabado, freqüentemente
na mesma família ou em contato com as mesmas pessoas, de modo a reparar o mal que
tenham feito ou para sofrer a pena de talião.

OS CRETINOS E A REENCARNAÇÃO
R. E., 1861, pág. 312.

Os cretinos são seres punidos na Terra pelo mau uso que fizeram de suas faculdades;
sua alma está aprisionada num corpo cujos órgãos, impotentes, não podem exprimir seus

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pensamentos; esse mutismo moral e físico é uma das mais cruéis punições, freqüentemente é
ela escolhida por Espíritos arrependidos que desejam resgatar suas faltas. Esta prova não é
estéril, porque o Espírito não permanece estacionário na sua morada de carne; seus olhos
bestificados vêem, seu cérebro deprimido concebe, mas nada consegue traduzir nem pela
palavra nem pelo olhar, e, salvo o movimento, estão moralmente no estado dos letárgicos e
dos catalépticos que vêem e ouvem o que se passa ao redor deles sem poder se exprimir.
Quando vocês têm em sonho esses terríveis pesadelos em que querem fugir de um perigo, que
os leva a gritar para chamar por socorro enquanto que sua língua permanece ligada ao céu da
boca e seus pés ao solo, vocês experimentam por um instante o que os cretinos sofrem
sempre: a paralisia do corpo em relação à vida do Espírito.
Quase todas as enfermidades têm assim sua razão de ser, pois nada acontece sem uma
causa, e o que vocês chamam de injustiça do destino é a aplicação da mais alta justiça. A
loucura também é uma punição pelo abuso de altas faculdades; o louco tem duas
personalidades, a que extravasa e a que tem consciência de seus atos sem poder dirigi-los.
Quanto ao cretino, a vida contemplativa e isolada de sua alma, que não tem as distrações do
corpo, pode talvez ser tão agitada quanto as existências mais complicadas pelos
acontecimentos; alguns se revoltam contra seu suplício voluntário; lamentam havê-lo
escolhido e experimentam um furioso desejo de retornar a uma outra vida, desejo que os faz
esquecer a resignação da vida presente e o remorso da vida passada do qual têm consciência,
porque os cretinos e os loucos sabem mais do que vocês e sob sua impotência física se oculta
uma poderosa moral da qual vocês não têm nenhuma idéia. Os atos de furor ou de
imbecilidade, aos quais seu corpo se entrega, são julgados pelo ser interior que sofre e disso
se envergonham. Assim, zombá-los, injuriá-los, maltratá-los mesmo, como se faz algumas
vezes, é aumentar seus sofrimentos, porque os faz sentir mais duramente sua fraqueza e sua
abjeção e, se pudessem, acusariam de covardia os que agem dessa forma porque sabem que
sua vítima não pode se defender.
Nota. - Houve um tempo em que se colocava em discussão a alma dos cretinos e
perguntavam se eles verdadeiramente pertenciam à espécie humana. A maneira pela qual o
Espiritismo nos faz encarar esta questão não é de maior moralidade e ensinamento? Não
haveria aí matéria para sérias reflexões ao meditarmos que esses corpos desfavorecidos
encerram almas que talvez tenham brilhado no mundo, que são tão lúcidas e tão pensantes
quanto as nossas sob o espesso envoltório que lhes abafa as manifestações, e que talvez possa
ocorrer o mesmo conosco, se abusarmos das faculdades que nos distribui a Providência ?
De outra forma, como o cretinismo poderia ser explicado; como fazê-lo concordar
com a justiça e a bondade de Deus, sem admitir a pluralidade das existências, ou dizendo de
outra forma, a reencarnação? Se a alma ainda não viveu, é porque foi criada ao mesmo tempo
em que o corpo; nesta hipótese, como justificar a criação de almas tão deserdadas quanto a
dos cretinos, partindo de um Deus justo e bom? Porque não se trata de um desses acidentes,
como a loucura, por exemplo, que se pode evitar ou curar; esses seres nascem e morrem no
mesmo estado, não tendo nenhuma noção do bem e do mal. Qual será seu destino na
eternidade? Serão felizes como os homens inteligentes e trabalhadores? Mas por que este
favor, uma vez que nada fizeram de bom? Ficarão naquilo que se chama de limbo, quer dizer
em um estado misto que não é nem felicidade nem infelicidade. Por que esta inferioridade
eterna? Seria sua falta se Deus os criou cretinos? Desafiamos todos os que repelem a doutrina
da reencarnação a saírem deste impasse. Com a reencarnação, ao contrário, o que parece uma
injustiça se torna uma admirável justiça; o que é inexplicável se explica da maneira mais
racional. De resto, sabemos que os que repelem esta doutrina, jamais a combateram com
argumentos mais peremptórios do que o de sua repugnância pessoal em retornar à Terra.
Estão bastante seguros de terem muitas virtudes para ganhar o céu de imediato! Desejamos-

- 36 -
lhes boa sorte. Mas e os cretinos? E as crianças que morrem em tenra idade? Que títulos terão
para apresentar?

A REENCARNAÇÃO
Advertência de um Espírito - R. E., 1861, pág. 33.

A reencarnação, diz-se, é o inferno; a reencarnação é o purgatório; a reencarnação é a


expiação; a reencarnação é o progresso; ela é enfim a santa escada que todos os homens
devem galgar; esses degraus são as fases das diferentes existências a percorrer para chegar ao
cume, porque Deus o disse: para ir à Ele, é preciso nascer, morrer, renascer, até que se tenha
chegado aos limites da perfeição, e ninguém chega a Ele sem ter sido purificado pela
reencarnação.

CONSEQÜÊNCIAS DA DOUTRINA DA REENCARNAÇÃO SOBRE A


PROPAGAÇÃO DO ESPIRITISMO
R. E., ano 1862, pág. 106

O Espiritismo caminha com rapidez, este é um fato que ninguém poderia negar, ora
quando uma coisa se propaga, é que ela convém; portanto, se o Espiritismo se propaga, é
porque ele convém. Para isso há várias causas; a primeira é, sem contradita, como o temos
explicado em diversas circunstâncias, a satisfação moral que dá aos que o compreendem e
praticam; mas esta mesma causa recebe seu poder, em parte, do princípio da reencarnação, é o
que iremos tentar demonstrar.
Todo homem que reflete não consegue deixar de ficar preocupado com o futuro depois
da sua morte, e isso é muito bom. Quem é aquele que não dá mais importância para sua
situação sobre a Terra após alguns anos, do que para alguns dias? Faz-se mais: Durante a
primeira parte da vida, trabalha-se, fica-se extenuado de fadiga, impõe-se toda sorte de
privações para assegurar na outra metade um pouco de repouso e bem-estar. Se ele toma
tantos cuidados por alguns anos eventuais, não seria mais racional que tomasse ainda mais
para a vida de além-túmulo, cuja duração é ilimitada? Por que a maior parte das pessoas
trabalha mais para o presente fugidio do que para o futuro sem fim? É que se acredita na
realidade do presente e se duvida do futuro; ora, não se duvida senão daquilo que não se
compreende. Basta que o futuro seja compreendido e a dúvida cessará. Mesmo aos olhos de
quem segue as crenças vulgares e está convencido sobre a vida futura, ela se apresenta de
maneira tão vaga, que a fé nem sempre basta para fixar suas idéias e ela tem características
mais de hipótese que de realidade.
O Espiritismo vem levantar esta incerteza pelo testemunho daqueles que viveram e por
provas, de certa forma, materiais.

O CASO DE M. V...4
R. E., 1860, pág. 205

4
M. V..., era soldado da Maison de Coligny, se chamava Gaston Vincent e, conforme as
informações de seu Guia, foi morto na São Bartolomeu; hoje é oficial da marinha.

- 37 -
Dir-lhes-ei, por mais ridículo que isso possa parecer, que minha convicção é a de ter
sido assassinado por ocasião dos massacres de São Bartolomeu. Eu era criança quando esta
lembrança veio ferir minha imaginação. Mais tarde, quando li esta triste página de nossa
história, pareceu que muitos desses detalhes me eram conhecidos e creio ainda que se a velha
Paris pudesse ser reconstruída, reconheceria a sombria alameda em que, fugindo, senti o frio
de três punhaladas, golpeadas em cheio nas costas. Há detalhes desta cena sangrenta que estão
em minha memória e que nunca desapareceram. Por que tinha esta convicção antes de saber o
que era a São Bartolomeu? Por que, lendo o relato desse massacre, disse a mim mesmo: é o
meu sonho, esse sonho ruim que tive quando criança, e do qual a recordação me restou tão
vivaz?
Por que, quando quero consultar minhas recordações, concentrando meu pensamento,
fico como um pobre louco a quem surgiu uma idéia e parece lutar para reencontrar sua razão?
Por que? Nada sei sobre isso. Vocês me acharão ridículo, sem dúvida, mas não perderei com
isso minhas recordações e minha convicção.
Se lhes dissesse que tinha sete anos quando me veio esse sonho: tinha vinte anos, era
jovem, bem colocado, penso que era rico. Vim duelar e fui morto. Se lhes dissesse que essa
saudação que se faz com as armas antes de lutar, eu a tinha feito na primeira vez em que tive
um florete nas mãos. Se lhes dissesse que cada preliminar, mais ou menos gracioso, que a
educação ou a civilização colocou na arte de esgrima, me era conhecido antes de minha
instrução nas armas, diriam sem dúvida que sou um louco, um maníaco; mas me parece por
vezes que uma luz atravessa esse nevoeiro e tenho a convicção de que a lembrança do passado
se restabelece em minha alma.
Não li nenhum autor tratando de assunto semelhante. Talvez o faça em meu retorno,
pois essa leitura lançará uma luz sobre mim.

A REENCARNAÇÃO NA ANTIGÜIDADE
Os Pandus e os Kurus - R. E., 1862, p. 241.

Tendo irrompido a guerra civil entre os descendentes de Pandu, legítimos herdeiros do


trono, e os descendentes de Kuru, que o usurpou, os Pandus vieram à frente de um exército
que o herói Arjuna comandava para atacar os usurpadores. A batalha durou muito tempo e a
vitória estava incerta; um armistício deu aos dois exércitos presentes o tempo de reagrupar
suas forças; de repente as trombetas tocam: os dois exércitos se agitam totalmente, avançando
para o combate; os cavalos brancos levam o carro de Arjuna, próximo do qual o deus
Krischna se detém. Repentinamente o herói se detém no meio do espaço que separa os dois
exércitos; ele os percorre com o olhar: « Irmãos contra irmãos, diz, parentes contra parentes,
prestes a se degolarem sobre os cadáveres de seus irmãos! ». Uma melancolia profunda, uma
súbita dor o tomou.
Krischna! Gritou, eis nossos parentes armados, de pé, prestes a se degolarem! Veja,
meus membros tremem, minha face empalidece, meu sangue gela, um frio de morte circula
em minhas veias e meus cabelos se eriçam de horror. Meu arco fiel cai de minha mão, incapaz
de sustentá-lo; vacilo, não posso avançar nem recuar, e minha alma embriagada de dor parece
querer me abandonar. Deus de cabelos louros, ah! Diga-me, quando tiver assassinado os
meus, será isso a felicidade? A vitória, o império e a vida, de que me servirão então? Aqueles
pelos quais desejo obtê-lo e conservá-lo terão perecido nos combates? Oh conquistador
celeste, quando o triplo mundo for o preço de sua morte, eu não quereria degolá-los por esse
miserável globo; não quero isso, ainda que eles se aprontem para me matar sem piedade.
Aqueles pelos quais você chora a morte, responde-lhe o Deus, não merecem que os
chore; o sábio, quer viva ou quer morra, não tem lágrimas para a vida e para a morte. Nunca

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houve o tempo em que eu não existi, em que você não existiu, em que esses guerreiros não
existiam, e nunca se verá a hora em que soará nossa morte. A alma colocada em nosso corpo
atravessa a juventude, a idade madura e a decrepitude e passando para um corpo novo nele
recomeça seu curso. Indestrutível e eterno, um deus desenrola de suas mãos o universo em
que estamos; e quem aniquilará a alma que ele criou? Quem então destruirá a obra do
indestrutível? O corpo, envoltório frágil, se altera, se corrompe e perece, mas a alma, a alma
eterna que não se pode conceber, essa não perece. Ao combate, Arjuna! Impele seus corcéis
ao combate; a alma não mata, a alma não é morta; ela nunca desabrocha, nunca morre; ela
conhece o presente, o passado, o futuro, ela é antiga, eterna, sempre virgem, sempre jovem,
imutável, inalterável. Cair no combate, degolar seus inimigos o que é senão despir uma
vestimenta ou tirá-la daquele que a usava? Vai então e nada tema; lança sem escrúpulos uma
roupa usada; veja sem terror seus inimigos e seus irmãos deixar uma veste usada, seus corpos
perecíveis, e sua alma vestir uma nova forma. A alma é algo que o gládio não penetra, que o
fogo não pode consumir, que as águas não deterioram, que o vento Sul não desseca. Pára
então de gemer.
Nota. – A idéia da reencarnação, com efeito, está muito bem definida nesta passagem,
como de resto todas as crenças espíritas o estavam na Antigüidade; falta aí apenas um
princípio - o da caridade. Estava reservado ao Cristo proclamar esta lei suprema, fonte de
todas as felicidades terrestres e celestes.
« Esta passagem foi tirada do livro em sânscrito Bhagavad Gita. »

A REENCARNAÇÃO NO JAPÃO
R. E., 1868, pág. 252.

A seguinte narração foi extraída da história de São Francisco Xavier, pelo padre
Bonhours. É uma discussão teológica entre um monge japonês, chamado Tucarondono, e São
Francisco Xavier, então missionário no Japão.
« Não sei se você me conhece, ou, melhor dizendo, se me reconheceria, disse
Tucarondono a Francisco Xavier. Não me lembro de lhe ter visto antes, respondeu ele.
Então o monge, explodindo de rir, e virando-se para outros monges, seus confrades,
que tinha trazido com ele: Bem que lhes disse, falou, que não valeria a pena vencer um
homem que tratou comigo mais de cem vezes e que fizesse cara de nunca me ter visto. Em
seguida, olhando Xavier com um sorriso de desprezo: não lhe resta nada, prosseguiu ele, das
mercadorias que você me vendeu no porto de Frenasoma?
Em verdade, replicou Xavier com um semblante sempre sereno e modesto, em minha
vida, nunca fui comerciante e jamais vi Frenasoma.
Ah! Que esquecimento e que bobagem, retomou o monge, fazendo-se de admirado e
continuando suas risadas: o que pode ter ocorrido para que você tenha esquecido isso?
Reavivem minha lembrança, replicou docemente o padre, vocês que tem mais de
espírito e de memória que eu.
Bem que quero, disse o monge, todo orgulhoso do elogio que Xavier lhe tinha dado.
Faz hoje justamente quinze centenas de anos que você e eu, que éramos comerciantes,
fizemos nosso tráfico em Frenasoma, eu comprei de você cem peças de seda em um mercado
muito bom. Lembra-se disso agora?
O santo que julgava aonde iria o discurso do monge, lhe perguntou honestamente que
idade ele tinha. Tenho cinqüenta e dois anos, disse Tucarondono.
Como pode ser, respondeu Xavier, que você fosse comerciante há quinze séculos, se
há apenas meio século que está no mundo e como traficamos naquele tempo, você e eu em

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Frenasoma, se a maior parte dentre vocês, monges, ensinam que o Japão não era mais que um
deserto há mil e quinhentos anos?
Escute-me, disse o monge, você ouvirá os oráculos e concordará que temos mais
conhecimento das coisas passadas do que vocês têm das coisas presentes.
Você deve saber então que o mundo jamais teve começo e que as almas, propriamente
falando, não morrem. A alma se desliga do corpo em que está encerrada, procura um outro,
saudável e vigoroso, onde renasce tanto com o sexo nobre, quanto com o sexo imperfeito,
segundo as diversas constelações do céu e os diferentes aspectos da lua. Essas mudanças de
nascimento fazem que nossa sorte também mude. Ora, é a recompensa daqueles que viveram
de forma santa ter a memória fresca de todas as vidas que teve nos séculos passados e de se
representar a si mesmo inteiramente tal como tem sido desde uma eternidade sob a forma de
príncipe, de comerciante, de homem de letras, de guerreiro, e sob outros aspectos. Ao
contrário, qualquer um, como você, sabe tão pouco dos próprios afazeres, que ignora o que
têm sido e o que têm feito durante o curso de uma infinidade de séculos, mostrando que todas
as suas faltas o tornaram merecedor da morte tantas vezes que perdeu a lembrança das vidas
que tem trocado.
Nota. – Não se pode supor que Francisco Xavier tivesse inventado esta história que
não lhe era proveitosa, nem suspeitar da boa fé de seu historiador, o Pe. Bonhours. Por outro
lado, não é menos certo que era uma peça pregada pelo monge ao missionário, uma vez que
sabemos que a lembrança das existências anteriores é um caso excepcional e que nunca
comporta detalhes tão precisos; mas o que ressalta desse fato é que a doutrina da reencarnação
existia no Japão nessa época, em condições idênticas, salvo a intervenção das constelações e
da lua, àquelas que são ensinadas nos dias de hoje pelos Espíritos. Uma outra semelhança não
menos notável é a idéia de que a precisão da lembrança é um sinal de superioridade. Os
Espíritos nos dizem, com efeito, que nos mundos superiores à Terra, onde o corpo é menos
material e a alma está em um estado normal de desligamento, a lembrança do passado é uma
faculdade comum a todos e aí se recordam de suas existências anteriores como nos
lembramos dos primeiros anos de nossa infância. É bem evidente que os Japoneses não estão
nesse grau de desmaterialização que não existe sobre a Terra, mas o fato prova que disso têm
intuição.

A REENCARNAÇÃO NA AMÉRICA
R. E., 1862, pág. 50.

Freqüentemente fica-se surpreso que a doutrina da reencarnação não tenha sido


ensinada na América, e os incrédulos não deixaram de se apoiar nisso para acusar os Espíritos
de contradição. Não repetiremos aqui as explicações que temos dado e publicado sobre esse
assunto. Nos limitaremos a lembrar que os Espíritos mostraram sua prudência habitual.
Quiseram que o Espiritismo nascesse em um país de liberdade absoluta quanto à emissão de
opiniões; o ponto essencial era a adoção do princípio e, para isso, não quiseram a nada estar
presos. Não ocorria o mesmo em todas as suas conseqüências e, sobretudo a reencarnação,
que teria se chocado contra os preconceitos da escravidão e da cor.
A idéia de que um negro pudesse se tornar branco, que um branco pudesse ter sido
negro, que um senhor havia sido escravo, teria parecido de tal forma monstruoso que teria
bastado para rejeitá-lo de todo; os Espíritos preferiram sacrificar momentaneamente o
acessório pelo principal, e nos disseram sempre que, mais tarde, a unidade se faria sobre esse
ponto como sobre todos os outros. É, com efeito, o que começa a ter lugar; várias pessoas do
país nos têm dito que esta doutrina encontra ali, agora, numerosos partidários; que certos
Espíritos, após havê-la feito pressentir, vieram a confirmar. Eis o que nos escreveu nesse
assunto, de Montreal, Canadá, M. Henry Lacroix, natural dos Estados-Unidos: « A questão da

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reencarnação da qual vocês têm sido os primeiros promotores visíveis, nos pegou de surpresa
aqui, mas hoje estamos reconciliados com ela, com essa filha do seu pensamento. Tudo se
tornou compreensível por esta nova claridade; agora podemos ver bem longe, diante de nós,
no caminho eterno. Portanto, isso nos parecia bem absurdo no começo, como o dissemos; mas
hoje negamos, amanhã acreditamos, eis a humanidade. Felizes daqueles que querem saber,
porque a luz se fará para eles; infelizes são os outros, porque permanecem nas trevas. »
Assim foi a lógica, a força do raciocínio que os levaram a esta doutrina e porque aí
encontraram a única chave que podia resolver os problemas até então insolúveis. Todavia
nosso honorável correspondente se engana sobre um fato importante, ao nos atribuir a
iniciativa desta doutrina que chama de filha de nosso pensamento. É uma honra que não nos
cabe; a reencarnação foi ensinada a outros além de nós, antes da publicação de O Livro dos
Espíritos; além disso, o princípio tem sido claramente colocado em várias obras anteriores
não somente às nossas, mas antes da aparição das mesas girantes, entre outras em Céu e
Terra, de Jean Renaud e em um encantador livrinho de Jourdan, intitulado Preces de Ludovic,
publicado em 1849. Sem levar em conta que esse dogma era professado pelos druidas, aos
quais certamente nada havíamos ensinado. Quando nos foi revelada, fomos surpreendidos e a
acolhemos com hesitação, com desconfiança, nós a combatemos mesmo, durante algum
tempo, até que a evidência nos fosse demonstrada. Assim, esse dogma, nós o aceitamos e não
o inventamos, o que é bem diferente.
Isso responde à objeção de um de nossos assinantes. M. Salynes, de Angers, que é um
dos antagonistas confessos da reencarnação, e que pretende que os Espíritos e os médiuns que
a ensinaram sofressem a nossa influência, tendo em vista que aqueles que se comunicavam
com eles diziam o contrário. De resto, M. Salgues alega contra a reencarnação objeções
especiais, das quais faremos, num desses dias, o objeto de um exame particular. Nesse ínterim
constatamos um fato, é que o número de partidários cresce sem cessar e que os dos
adversários diminui; se esse resultado for devido à nossa influência, é nos atribuir uma
influência bem grande, pois que se estende da Europa à América, à Ásia, à África e até à
Oceania. Se a opinião contrária for verdadeira, como acontece de não ter tido a
preponderância?
O erro seria então mais poderoso que a Verdade?

UMA ÚLTIMA PALAVRA

Aqui se encerra minha tarefa.


Quando tomei a resolução de reunir em uma só brochura de propaganda todos os
ensinamentos que Allan Kardec nos deu sobre a grande lei da reencarnação, pensava que seria
útil, talvez, completar a exposição pelo relato de alguns fatos novos e comprovantes que
vieram depois confirmar as provas morais e filosóficas sobre as quais o Fundador da Doutrina
Espírita estabeleceu esta verdade fundamental da pluralidade das existências corporais e
sucessivas. Não foi senão agora, quando esta compilação está terminada, que constato com
uma real satisfação que ela basta a si mesma para levar a uma convicção séria e forte e que
toda adição estranha faria apenas alongar e tornar mais pesado o texto, sem lhe dar nenhuma
autoridade adicional.
Remeterei então o leitor que acreditava haver necessidade de um acréscimo de novas
provas, para assegurar suas convicções, às obras especiais de Jean Renaud5, Pezzani6, Coronel
de Rochas7, etc., que reuniram um grande número de testemunhos, também interessantes, e
5
Jean Renand. Terra e Céu
6
Pezzani. A pluralidade das existências.
7
Coronel de Rochas. As vidas sucessivas.

- 41 -
com os quais terão apenas o embaraço da escolha. Seguir esses autores neste caminho seria
faltar com meu objetivo que é, antes de tudo, fazer conhecer, em uma brochura de
propaganda, os argumentos fornecidos por Allan Kardec sobre esta importante questão da
reencarnação segundo o Espiritismo.
Que nossos amigos possam bem secundar meus esforços e o objetivo será atingido
para o bem moral de todos e para a glorificação de nosso Mestre amado :

ALLAN KARDEC.

HENRI SAUSSE.
Dezembro de 1920.

POR QUE?

Quem então poderá jamais sondar o grande mistério


Que nos faz nascer um dia e logo após morrer?
De onde viemos, exilados sobre a Terra,
E por que precisamos tanto penar e sofrer?

Por que nossos duros labores, nossas lutas sem descanso,


Se nada, de nós, deve sobreviver depois do amanhã?
A quem reclamar sobre esta ingrata tarefa
Que me impõem, ai de mim! A um cego destino?

Da vida à morte, nesta morada de lágrimas,


Enquanto tudo sorri para uns, outros estão fatigados;
De uma existência infeliz, com muito poucos encantos:
Dos malhos, da desgraça e de seus golpes redobrados.

Depois, após tantos esforços e amargos sofrimentos,


Quando acreditamos tocar a felicidade neste mundo,
Vemos envolver todas as nossas esperanças
Ante a tumba aberta em que se estancam nossos passos.

Para além do sepulcro, que se tornam nossas almas?


Existe a vida ainda, ou o sombrio nada?
Existe enfim o repouso, ou os terríveis dramas,
De um inferno odioso ou de um céu indolente?
De onde partimos, para vir a esse mundo,
Sofrer tantos tormentos, penas e dores;
Se somos malditos, por que? Quem me responde?
Quem nos condenou a verter tanto choro?

Eu partilho consigo sua amarga tristeza,


E, entretanto vejo, amigo, secarem seus choros.
De uma benfazeja esperança, receba a carícia.
Escuta e verá se acalmarem suas dores.

De onde viemos? Ninguém o saberia dizer.

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Nós sabemos entretanto para que objetivo iremos.
A rota é dura, ai de mim! mas por que a maldizer
Quando nós mesmos fixamos seus marcos?

Se, partimos do nada, marchamos para o sublime,


Nós não podemos, ai de mim! Fazê-lo ao nosso gosto:
De um desejo imprudente, quando somos vítima,
Saibamos que cada esforço é ainda assim um progresso!

Ora, amigo, todo esforço engendre o sofrimento;


Se quisermos, do mal, não ser mais prisioneiros,
Nos nossos mais duros reveses, conservemos a certeza
Que de nossa felicidade somos os pioneiros.

Cada um de nós, desde então, perseguindo seu caminho,


Deve elevar seu coração, esclarecer seu cérebro;
Ante os espinhos do caminho, é preciso, custe o que custar,
Despojar o velho homem e criar o novo.

Não foi ao acaso que, nesse lugar de miséria,


A fim de progredir, nós necessitamos vir.
Seguiremos, novamente, muitas vezes, esse calvário,
Feito para nos assegurar um brilhante futuro.

E cada vez, nossa alma, em cruéis lutas,


Dos laços da carne, tende a se despojar.
Após muitos reveses, esforços e quedas,
Ela se eleva enfim e vê o céu brilhar.

Ela está alegre então porque essa felicidade suprema


É o preço de seus males, o fruto de seu trabalho
Ela venceu a morte e certa de si mesma
Ela vê sem terror seu lúgubre séqüito.

Ela sabe que a vida é, para nós, eterna,


Que a morte é apenas uma palavra; quando tocamos o umbral,
Adquirimos a alegria e a prova nova,
De que vivemos ainda além do sepulcro.

Na cadeia sem fim que foram nossas existências,


Recolhemos os frutos dos labores precedentes
E preparamos já a alegria ou os sofrimentos
Daqueles que seguirão, por nossos atos presentes,

Saibamos tirar proveito de cada nova aurora,


E esta grande lei que não se pode transgredir:
Nascer, morrer, renascer e depois morrer ainda,
Para, de novo, renascer e sempre progredir.

Henri SAUSSE.

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ÍNDICE DOS ASSUNTOS
A REENCARNAÇÃO.........................................................................................................................2
A REENCARNAÇÃO ANGLO-SAXÔNICA....................................................................................3
INSTRUÇÕES SOBRE A REENCARNAÇÃO.................................................................................3
O POR QUE DESSE LIVRO..............................................................................................................5
SR. CORONEL DE ROCHAS............................................................................................................6
O ESQUECIMENTO DO PASSADO.................................................................................................7
NÃO SE MORRE..............................................................................................................................10
DA PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS CORPORAIS.............................................................10
A RESSURREIÇÃO DA CARNE.....................................................................................................10
METEMPSICOSE.............................................................................................................................17
PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS............................................................................................18
JUSTIÇA DA REENCARNAÇÃO...................................................................................................19
ENCARNAÇÃO EM DIFERENTES MUNDOS..............................................................................20
O DESTINO DAS CRIANÇAS APÓS A MORTE..........................................................................22
PARENTESCO..................................................................................................................................22
IDÉIAS INATAS...............................................................................................................................24
ESPÍRITOS ERRANTES..................................................................................................................25
ESCOLHA DAS PROVAS................................................................................................................25
RETORNO À VIDA CORPORAL....................................................................................................26
RESSURREIÇÃO E REENCARNAÇÃO........................................................................................27
OS LAÇOS DE FAMÍLIA.................................................................................................................30
LIMITES DA ENCARNAÇÃO........................................................................................................32
NECESSIDADE DA ENCARNAÇÃO.............................................................................................32
METEMPSICOSE E PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS.........................................................33
REENCARNAÇÃO...........................................................................................................................34
OS CRETINOS E A REENCARNAÇÃO.........................................................................................36
A REENCARNAÇÃO.......................................................................................................................37
CONSEQUÊNCIAS DA DOUTRINA DA REENCARNAÇÃO SOBRE A PROPAGAÇÃO DO
ESPIRITISMO....................................................................................................................................37
O CASO DE M. V.............................................................................................................................38
A REENCARNAÇÃO NA ANTIGUIDADE...................................................................................38
A REENCARNAÇÃO NO JAPÃO...................................................................................................39
A REENCARNAÇÃO NA AMÉRICA.............................................................................................40
UMA ÚLTIMA PALAVRA..............................................................................................................41
POR QUE?.........................................................................................................................................42

Este e outros artigos traduzidos estão disponíveis, gratuitamente, no endereço:


http://home.ism.com.br/~pauloaf/curso.htm

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