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43º Encontro Anual da Anpocs

ST42 Trabalho, sindicalismo e os desafios sociológicos em tempos de crise

O ativismo sindical da alta classe média: auditores-fiscais da Receita Federal do


Brasil diante dos governos do Partido dos Trabalhadores

Patrícia Vieira Trópia (UFU)

Uberlândia, setembro de 2019.


O ativismo sindical da alta classe média: auditores-fiscais da Receita Federal do
Brasil diante dos governos do Partido dos Trabalhadores
Patrícia Vieira Trópia (UFU)1
Introdução
Desde a crise do “mensalão”, setores da alta classe média vinham expressando
insatisfação com os governos do Partido dos Trabalhadores. Esta insatisfação emergia e
submergia de acordo com as conjunturas eleitorais e a revelação de denúncias de
corrupção vinculadas ao PT. Foi assim na crise política do “mensalão”, no apagão dos
aeroportos, quando o movimento “cansei” se organiza e nas eleições de 2006, 2010 e
2014.
O Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros, conhecido como “Cansei”,
passou a se organizar após a reeleição de Lula, com o apoio de setores da burguesia e da
alta classe média, articulados por João Dória Júnior, Paulo Zottolo e Luiz Flávio Borges
D’Urso. Contrário ao “caos aéreo”, à “corrupção” e à “falta de segurança”, o movimento
chegou a reunir, em 2007, cerca de 5.000 pessoas na Praça da Sé sob gritos de “Fora
Lula”. O “cansei” canalizava a insatisfação de segmentos da alta classe média com os
recorrentes atrasos e cancelamentos de vôos em 2006, resultantes da ampliação do acesso
dos setores populares a um padrão de consumo que incluía viagens de avião.
Até então efêmeras, tais manifestações todavia encontraram na conjuntura de
junho de 2013 condições históricas para se fortalecer e disseminar. A polarizada eleição
para a presidência da República em 2014 novamente instou setores da alta classe média
ao antipetismo, mas foi no contexto de crise econômica e política que elas assumiram
uma forma orgânica, levando em março de 2016 milhares de pessoas, com perfil de
classe média, à Av. Paulista, em São Paulo, para apoiar o impeachment da presidenta
Dilma Rousseff.
Um dos primeiros analistas a identificar o afastamento eleitoral das classes
médias dos governos do PT foi André Singer. Singer (2012) argumenta que, em 2006,
houve um realinhamento eleitoral no Brasil, efeito da adoção de políticas de redução da
pobreza e aumento do consumo de um lado e da crise do “mensalão”, de outro. As
eleições de 2006 marcariam a guinada do subproletariado ao lulismo e a debandada da
classe média rumo ao antipetismo.

1
A pesquisa contou com financiamento da FAPEMIG.

2
A guinada das classes médias, seu comportamento político durante as
manifestações de “Junho de 2013” e seu apoio ao impeachment deram impulso a estudos
e novos ensaios (CAVALCANTE, 2017; FIRMINO, 2018, GALVÃO, 2016; TRÓPIA,
2018). Estes trabalhos partem também de uma abordagem comum. Indicam que é preciso
investigar os interesses materiais, políticos e ideológicos das classes médias na política
recente, interesses mormente ofuscados pelo combate genérico à corrupção.
Cavalcante (2018) relembra que o apego das classes médias ao discurso
anticorrupção é um fenômeno recorrente na política brasileira cujos exemplos mais
notórios são o movimento tenentista, o udenismo e o Fora Collor, movimentos que
assumem a forma genérica e moralizante de um combate a um adversário “abstrato”
posto que o inimigo principal é mormente ocultado nas discursos de primeiro plano.
Segundo o autor,
“a classe média reage contra algo, mas, na impossibilidade de expressar abertamente,
ou mesmo diretamente, o alvo de sua recusa, faz uso do discurso de combate à corrupção para
atingir seus objetivos, como, por exemplo, preservar privilégios e fortalecer a fonte ideológica de
justificação da desigualdade que naturaliza sua posição superior em relação ao proletariado”
(2018, p. 105).

Ademais, o autor chama a atenção para a importância de se buscar “as


motivações, os interesses e os caminhos que levam a classe média a essas posições na
atual configuração do capitalismo brasileiro” (CAVALCANTE, 2018, p. 105). Embora
a ideologia da corrupção tenha uma origem pequeno burguesa e encontre nas classes
médias uma força apoio, é preciso captar a especificidade da adesão à bandeira
anticorrupção na conjuntura brasileira recente.
Antes de mais nada, é preciso ressaltar que as classes médias não se comportam
como um bloco homogêneo (SAES, 1984), nem invariavelmente assumem posições
político ideológicas reacionárias. As classes médias são heterogêneas e “basculam” nas
diferentes conjunturas, seguindo seus interesses de fração (TROPIA, 1994. Galvão
(2016) chamou atenção para o apoio de determinados segmentos das classes médias ao
impeachment de 2016, enquanto outros segmentos desta mesma classe defenderam o
“Não vai ter golpe!”. Um conceito operacional de classes médias deve incorporar o
fenômeno da basculagem (SAES, 1984), o que significa que elas não são “inerentemente
conservadoras, nem radicais, podendo, sobretudo em momentos de polarização política,
apoiar movimentos de extrema direita ou movimentos reformistas” (GALVÃO, 2016).

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O combate à corrupção é, bem entendido, um valor em uma sociedade que institui
a igualdade formal. Se o princípio da igualdade é central na esfera jurídico política do
Estado burguês, seu contrário, ou seja, a apropriação desigual dos recursos públicos,
constitui, formalmente, uma prática a ser combatida. Na sociedade burguesa, fundada na
promessa de igualdade, a corrupção é sancionada como uma prática ilegal, ilegítima e
imoral. Entretanto, a distinção entre recursos públicos e privados é apenas formal pois na
prática “os recursos do Estado estão a serviço da classe capitalista” (BOITO JR., 2017).
É por esta razão que a retórica de combate à corrupção é uma ideologia, fundada em uma
concepção deformada e interessada sobre a natureza e o funcionamento do Estado.
Deformada mas não meramente ilusória, pois a existência no âmbito do próprio Estado
capitalista de instituições voltadas, entre outras funções, ao combate à corrupção, visa
reproduzir a percepção de igualdade formal de todos os cidadãos vis-à-vis ao Estado e
seus recursos materiais.
O combate à corrução faz parte das funções estatais de servidores específicos,
especialmente recrutados segundo princípios meritocráticos. Estes servidores acreditam
que a prática da corrupção quebra as próprias regras da organização burocrática estatal,
por meio das quais foram selecionados e em nome da preservação das quais eles atuam.
Justamente porque acreditam na neutralidade do Estado não questionam que as regras da
organização burocrática estatal criam setores parasitários e privilegiados. Dito de outro
modo, a quebra das regras burocráticas é vista, de forma ingênua ou interessada, como
ação de políticos desonestos, que deveriam ser substituídos por políticos honestos
(MARTUSCELLI, 2016), mas não como um “sintoma” do burocratismo.
Os auditores-fiscais da Receita Federal são servidores do Estado responsáveis
pela tributação, arrecadação e pela sua fiscalização. Constituem um corpo de
funcionários da burocracia estatal que reivindica o reconhecimento profissional como
autoridade tributária, aduaneira e fiscal. No combate à sonegação e ao contrabando, os
auditores-fiscais reafirmam a legitimidade da autoridade fiscal, dispondo-se,
frequentemente, como propositores de ações voltadas à melhoria do fisco ou de reformas
tributárias, tal como evidencia a campanha Imposto Justo lançada em 20132. Há uma

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Ver: https://www.sindifisconacional.org.br/impostojusto/wp-content/uploads/2013/05/cartilha-baixa.pdf.
Em setembro de 2019, o Sindifisco Nacional promoveu o Fórum Nacional Tributário, visando discutir e
apresentar as propostas de Reforma Tributária com membros do governo e especialistas. Marcelo Souza
Silva, palestrante substituto do Secretário da Receita Federal, Marcos Cintra, apresentou a proposta

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convergência entre a luta por “justiça fiscal, contra sonegação e contrabando”, e a luta
por reconhecimento profissional. São, ademais, membros da alta classe média, que
mantém uma relação orgânica com a bandeira de luta contra a corrupção.
Nossa intenção neste texto é analisar o comportamento de auditores-fiscais, em
particular durante os governos do PT. Busca-se articular uma dimensão estrutural –
auditores como servidores públicos que têm forte apego ao discurso e ao sindicalismo
meritocráticos - aos aspectos conjunturais e às particularidades históricas, dimensões que
se atravessam e combinam. Para tanto, pesquisamos a atuação do Sindifisco Nacional e
levantamos, por meio de surveys e entrevistas, o posicionamento de sua base sobre
algumas políticas dos governos petistas.3

I. O sindicalismo da alta classe média profissional: da renovação ao


conservadorismo

No início dos anos 90, a maioria dos sociólogos brasileiros interessados no tema
da classe média investigava as mudanças “nas relações de emprego e no mercado de
trabalho, mudanças produzidas pela recessão no início da década de 1980 e pelos
efeitos da duradoura estagnação econômica” (TRÓPIA 2017, p. 156-7). Os efeitos da
estagnação econômica dos anos de 1980 tinham afetado tradicionais profissões, até então,
consideradas sólidas (BONELLI, 1989). As pesquisas tematizavam os processos de
assalariamento, as mudanças das credenciais formativas e educacionais e as trajetórias
profissionais dos assalariados não manuais, tais como médicos, engenheiros, advogados,
bancários, professores, funcionários públicos (BARBOSA, 1993; CANEDO, 1978;
SEGNINI, 1988; KAWAMURA, 1981; GRUN 1985, 1990).
Estudos sobre reestruturação produtiva, novas tecnologias, precarização, alteração
nas relações trabalhistas ganharam também importância no campo, em função do
impacto destes fenômenos no desenvolvimento do capitalismo brasileiro e nas relações
capital trabalho. Ampliaram-se os estudos sobre assalariados não manuais, motivados por
alterações nas profissões, mudanças no próprio padrão de desenvolvimento econômico –
redução do papel desenvolvimentista do Estado nacional -, baixo crescimento, aumento

detalhada do governo federal, expondo a polêmica cobrança de uma “nova” CPMF, o que rendeu nos dias
seguintes a queda do então Secretário.
3
Realizamos surveys em 2012 e 2017 junto aos auditores fiscais da receita Federal visando levantar seu
perfil socioeconômico e político ideológico.

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do desemprego nos níveis mais altos das carreiras, informalidade e redução das
hierarquias (downsizing), ainda que nem todas as abordagens se pautassem numa análise
das classes (TRÓPIA, 2017).
A despeito do legado da sociologia das profissões, a bibliografia sobre
sindicalismo de setores profissionais da alta classe média é ainda acanhada, quando
comparada ao rol de pesquisas sobre trabalhadores rurais e urbanos manuais. Exceção à
regra, de certo modo, são os clássicos estudos sobre engenheiros (KAWAMURA, 1981,
986; SIMÕES, 1991; LARANJEIRA, 1992; GUTIERREZ, 2011) e médicos (PAIVA,
TEIXEIRA, 2014; ESCOREL, 1999; CAMPOS, 1987, 1988; RIBEIRO, 1993;
LARANJEIRA, 1992; MATHIAS, 2016).
A inserção de alguns setores das altas classes médias no movimento sindical
reivindicativo fez parte do que os próprios dirigentes denominaram “movimento de
renovação”. No caso da Engenharia, mudanças na estrutura produtiva e nos processos de
trabalho levaram à emergência, entre os anos de 1960 e 1980, de um movimento de
engenheiros assalariados, vinculados a posições subordinadas (subalternas) na grande
indústria nacional, bem como à aproximação com entidades sindicais operárias e
organizações populares (KAWAMURA, 1986; SIMÕES, 1992). Os engenheiros haviam
se transformado de profissionais liberais em assalariados e, nessa condição, enfrentavam
problemas de desemprego, subemprego, rebaixamento salarial, degradação de suas
condições de vida e trabalho (LARANJEIRA, 1992).
O movimento de renovação leva a categoria a se organizar, disputar e conquistar a
direção das entidades sindicais representativas estaduais e nacionais, visando torná-las
mais democráticas - aumentando o número de filiados e a participação em grandes
congressos estaduais e nacionais. Tomando como exemplo o Sindicato de Engenheiros
do Rio Grande do Sul, Laranjeira (1992) mostra, entretanto, que, embora tenham apoiado
a liberdade de organização, autonomia sindical e ampliação dos direitos trabalhistas,
engenheiros defendiam bandeiras corporativas, como a luta meritocrática pelo monopólio
do exercício profissional, monopólio questionado técnicos de 2o grau. A luta pelo
monopólio profissional é um traço característico do sindicalismo meritocrático, que
“induz a uma identificação coletiva restrita, fechada no universo da profissão, sendo
refratário, por esse motivo, à politização da luta sindical” (BOITO JR., 2004, p. 292).
Os engenheiros tenderiam, mesmo nos países subdesenvolvidos, a apoiar políticas
desenvolvimentistas e de potencial tecnológico nacional (LARANJEIRA, 1992;

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GUTIERREZ, 2011). A raiz do movimento de renovação deve ser buscada no contexto
político da ditadura militar, nos investimentos estatais em grandes obras, pesquisa e
desenvolvimento, mas também na insatisfação de parte dos engenheiros com o
desemprego e a perda salarial e de status (GUTIERREZ, 2011). Engenheiros de empresas
estatais e privadas, assalariados de grandes e pequenas empresas teriam se aproximado
do “novo sindicalismo” em uma conjuntura específica. O movimento de renovação teria,
segundo Gutierrez, mostrado limites nos anos de 1990 em função do impacto da
reestruturação produtiva e de políticas neoliberais na categoria, transformando os
engenheiros que atuavam na área de produtos e projetos em profissionais responsáveis
por funções concentradas em engenharia de processos, voltadas para “adaptar produtos
desenvolvidos por grandes multinacionais” (JORNAL DA UNICAMP, 2011, p. 2).
Ao analisar a Federação Nacional de Engenharia, a Federação Interestadual de
Sindicatos de Engenheiros, o Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia
e o Instituto de Engenharia, Gutierrez distingue engenheiros do setor público e privado,
evidenciando aproximações e diferenças, na medida em que “enquanto um continuou
como ‘servidor’ público, o outro passou a ser cada vez mais cobrado e remunerado
como um profissional ‘do mercado’” (2011, p. 184). Malgrado as diferenças, o autor
indica que tais mudanças tenderam a minar “aquela que era uma das principais forças
políticas e base de sustentação do que ficou conhecido como o ‘movimento de
renovação’ dos engenheiros nos anos de 1980”, aproximando “os engenheiros dos
interesses privados dessas companhias – e, consequentemente afastando-os de uma visão
de nação” (GUTIERREZ, 2011, p. 192).
A inflexão político ideológica, captada por Gutierrez, nos ajuda a entender o
comportamento bifronte dos engenheiros diante dos governos petistas e do impeachment
de 2016. A Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros (Fisenge) posicionou-
se contrariamente ao impeachment e em defesa da democracia. Já o Sindicato dos
Engenheiros de Minas Gerais (SENGE), embora filiado à CUT e composto por diretores
favoráveis aos avanços sociais obtidos nos governos petistas, não deixou de expressar a
insatisfação da categoria com os rumos do governo Dilma e com a situação de paralisia
do setor produtivo cujos reflexos “na empregabilidade, criação de empregos e
principalmente no desenvolvimento e aprimoramento da infraestrutura nacional e
estadual” eram sentidos pelos engenheiros (SENGE, 2016, p. 2). O “Manifesto pelo
Brasil”, divulgado por engenheiros graduados pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica,

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não expõe uma posição explicitamente pró-impeachment, mas identifica na corrupção o
inimigo central que deve ser combatido com uma reforma política que descentralize o
sistema político brasileiro 4 . Se, nos anos de 1980, o encolhimento do mercado de
trabalho dos engenheiros suscitara um movimento de renovação sindical, o fracasso das
políticas neoliberais adotadas pelos governos Temer e Bolsonaro para o enfrentamento da
crise econômica tem levado, na hipótese de alguns analistas, à radicalização ideológica
de setores superqualificados rumo à extrema direita (COUTINHO, 2018).
O movimento de renovação também repercutiu em outro segmento da alta classe
média profissional: os médicos. A renovação na formação e na organização sindical dos
médicos nasce com o movimento sanitarista, empenhado na descentralização,
participação e organização. Neste processo foi fundamental a atuação do movimento
estudantil, de médicos residentes, que ainda trabalhavam sem carteira assinada e com
excessiva carga de trabalho, além dos sindicatos e entidades como o Conselho Nacional
de Medicina e a Associação Médica Brasileira. Resulta do movimento sanitarista a
constitucionalização dos direitos relacionados à saúde na Carta de 1988, transformando a
saúde em direito individual e criando o SUS (PAIVA, TEIXEIRA, 2014).
No final de 1977 surge o Movimento de Renovação Médica no Rio de Janeiro,
que logo irradia suas ideias para outras entidades da categoria, ganhando maior espaço no
cenário sindical e político no país. Visava transformar a “consciência” dos profissionais
para a condição de assalariados, pertencentes à classe trabalhadora “empobrecida pela
política em vigor” (ESCOREL, 1999, p. 89). O perfil da categoria havia sido alterado, de
profissionais liberais, secretados pela ideologia pequeno-burguesa, para a condição de
assalariados.
Ribeiro (1993) compreende que o movimento de renovação foi fundamental mas
teve menor alcance, posto que a adesão ao sanitarismo não foi unânime nem generalizada
(Cf. CAMPOS, 1988). A categoria continuou fragmentada em distintas situações de
trabalho e influenciada por divergentes correntes políticas em disputa pela hegemonia da
formação e atuação médicas: o Reme (movimento de renovação médica) defendia a
socialização dos serviços de saúde, a nacionalização da indústria farmacêutica e o direito
4
Em 18 de setembro de 2017, pouco menos de um ano após o impeachment de Dilma Rousseff, um grupo
de engenheiros graduados pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica publicou o Manifesto pelo Brasil em
que expunha o principal motivo para a situação do país: a má gestão. O sistema politico brasileiro,
excessivamente centralizado, seria o principal responsável pela crise e pelo flagelo da corrupção. A
corrupção estaria sendo enfrentada pela Justiça mas apenas uma reforma política poderia derrotá-la.
(MANIFESTO…, 2017).

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universal e popular à saúde; o “kassabismo”, corrente liberal influente na Associação
Médica Brasileira desde sua fundação até o início dos anos de 1980, sob liderança de
Pedro Kassab (Cf. CAMPOS, 1987), e o neoliberalismo, “expressão da crescente
associação entre consultório médico e convênio empresarial” (RIBEIRO, 1993, p.6). Por
sua vez, a ação sindical dos médicos nos anos de 1980 não convergia com algumas
bandeiras tipicamente trabalhistas e progressistas, assumindo um caráter meritocrático e,
de mais a mais, conservador (LARANJEIRA, 1992).
A atuação do Sindicato médico do Rio Grande do Sul, segundo Laranjeira (1992,
p. 250), caracterizou-se por forte apelo corporativista, voltado para interesses imediatos:
a defesa da “respeitabilidade da profissão médica, justo pagamento social e material
pelos serviços médicos e defesa da realização profissional”. O avanço do assalariamento
na categoria médica não implicou em aproximação com demais trabalhadores, suscitando
uma reação contrária e o desejo de recuperar a “dignidade perdida”, em defesa da
hierarquia social e profissional existentes. Se bandeiras relativas ao direito sindical e à
democracia aproximara médicos dos trabalhadores, a luta pela ampliação do sistema
público e universal de saúde os afastaria. A existência de tensões e divergências em
relação aos rumos da saúde pública, cuja universalização era defendida por sindicatos e
centrais trabalhistas, ajuda a explicar a preferência dos médicos pela representação
corporativa, via entidades profissionais, e pela via parlamentar, elegendo deputados
compromissados com seus interesses, independente de filiação partidária. O impacto
político e social do movimento de renovação não deve, entrementes, ser minimizado, na
medida em que suscitou uma reação conservadora nos anos 2000, afinada com sua base
social, composta por profissionais liberais, associados a cooperativas de trabalho médico
e planos de saúde privada.
No início dos anos 2000, ocorre uma inflexão no movimento médico com a
ascensão de uma corrente de matiz conservador, tendo como base um discurso
“corporativo moralista” e de defesa do exercício profissional, que estaria sob ataque do
governo brasileiro e de entidades médicas “esquerdistas” (MATHIAS, 2016). Entre as
reivindicações que passaram a orientar as entidades médicas está a criação da Lei do Ato
Médico que garantia a primazia de diagnóstico e prescrição de tratamento à categoria. Os
médicos brasileiros sentiam-se ameaçados também com a possibilidade de vinda de
profissionais estrangeiros para suprir a carência de profissionais no interior do país.
Quando o PT chega ao poder, a reação foi reforçada pelas entidades que temiam o

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movimento de reforma sanitária, a residência multiprofissional e a abertura do campo de
trabalho médico para profissionais estrangeiros. A pá de cal viria justamente durante o
governo Dilma quando, em resposta às críticas sonantes nas manifestações de junho de
2013 às políticas sociais, o governo institui o Programa Mais Médicos.
O movimento de renovação de engenheiros e médicos nos anos de 1980, bem
como o sindicalismo orientado à defesa profissional adotado por eles, nos ajudam a
examinar nosso objeto: os auditores-fiscais da receita federal (AFRF).
Os auditores-fiscais também passaram por um processo de “renovação” no final
da década de 1980. A conjuntura inflacionária, o acúmulo de perdas salariais e a ameaça
de retirada de benefícios históricos (remuneração variável, paridade, entre outros),
somada à constitucionalização do direito à sindicalização no setor público, levam a
categoria a transformar sua entidade, até então confinada à luta corporativa e assistencial,
em um ativo e reivindicativo sindicato profissional a partir dos anos de 1990.

II. Os auditores-fiscais da receita federal: cargo, carreira e tensões

O atual cargo de auditor-fiscal da Receita Federal do Brasil resulta de um


conflitivo processo de fusão de servidores públicos, iniciado em 1969. Naquele ano,
houve a fusão de quatro categorias de servidores do fisco, no âmbito da então Secretaria
da Receita Federal, instituindo-se a função de agente fiscal de tributos federais. Logo
depois, os agentes fiscais de tributos federais foram transformados em fiscais de tributos
federais e, em 1985, em auditores-fiscais do tesouro nacional, após a fusão com os
controladores de arrecadação federal. Em 1999, ocorreu mais uma alteração com a
criação da Receita Federal, instituindo-se o cargo de auditor fiscal da Receita Federal. A
última mudança ocorreu em 2007 com a fusão dos fiscos e dos cargos de auditor-fiscal da
Receita Federal e de auditor-fiscal da Previdência Social, resultando no cargo de auditor-
fiscal da Receita Federal do Brasil.
O cargo de auditor-Fiscal compõe, junto ao de analista tributário, a carreira de
auditoria da Receita Federal. O ingresso na carreira é feito por meio de concurso público,
seguido de treinamento específico e eliminatório na Escola de Administração Fazendária.
Enquanto o concurso para o cargo de auditor exige titulação de ensino superior, o de
analista requer o diploma de nível médio.

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As diferenças, dentro de uma mesma carreira, entre os cargos de auditor e
analista/técnico da Receita têm sido motivo de acirradas disputas e conflitos. Enquanto
auditores reivindicam o reconhecimento de distinções remuneratórias e profissionais,
analistas lutam pela equalização e aproximação entre os benefícios atribuídos aos
diferentes cargos5. É o que se verifica quando analisamos as greves deflagradas pelos
servidores da Receita Federal no período 1988-20086 e durante o processo de fusão dos
fiscos, episódio que revelou apego ao cargo, defesa da exclusividade da função e de
atributos exclusivos para o exercício da função de Auditor Fiscal.
O texto da Medida Provisória (MP) 258, que previa a fusão das Receitas Federal
(RF) e Previdenciária e criava a Super-Receita, não reconhecia as atividades profissionais
de analistas tributários mas era apoiado pelo Sindireceita, Sindicato dos Analistas
Tributários da Receita Federal. O Sindireceita viu, na criação da Super-Receita, a
oportunidade para se criar um cargo único de Auditoria, histórica reivindicação dos
analistas/técnicos tributários. Tal pretensão suscitaria forte reação da Unafisco, entidade
representativa dos auditores-fiscais naquela conjuntura.
Intitulado “Desmistificando as pretensões dos técnicos da receita federal”, o
documento da Unafisco explicita a posição dos auditores-fiscais em defesa do monopólio
do exercício profissional e a linha de defesa adotada por eles: a desqualificação dos
analistas/técnicos da receita Federal e sua entidade sindical.
(...) os técnicos têm como objetivo final transformar um cargo público, de nível médio,
criado para executar atividades de média complexidade nos serviços de apoio relacionados com
os encargos de que se incumbe a Receita Federal, em um cargo de nível superior, com
atribuições de complexidade superior, mediante a absorção ou compartilhamento das atribuições
específicas e privativas dos auditores-fiscais da Receita Federal (UNAFISCO, 2005).

O principal argumento dos auditores é que os técnicos não tinham a mesma


qualificação, não haviam ingressado no serviço público no mesmo concurso, com o
mesmo nível de dificuldade, e que, portanto, não teriam a mesma competência para o

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Também são recorrentes conflitos de poder entre auditores e chefias, como por exemplo a exigência de
um Mandato de Procedimento Fiscal para execução de tarefas regimentais (CECCON, 2011). Tais
conflitos não chegam a suscitar fraturas na categoria, nem a minar a unidade corporativa - diferentemente
do que ocorre entre auditores e analistas. Neste último caso, há uma luta de natureza meritocrática dos
auditores para se manterem distintos e superior aos analistas.
6
A partir dos dados do Sistema de Acompanhamento de Greves (SAG-Dieese), especialmente elaborado
por Rodrigo Linhares, em nome de quem agradeço ao Dieese, nota-se a deflagração de greves de
analistas/técnicos da RF ao longo do período 1988-2008, cuja reivindicação central era a reposição salarial
a percentuais iguais aos já concedidos a auditores, bem como a concessão de mesmas gratificações àqueles
já garantidas. Exemplares são as greves de analistas/técnicos realizadas em 1988, 1989, 1993, 1994 e 2007
(por isonomia salarial).

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exercício das funções do cargo de Auditor, onerando os cofres públicos especialmente a
previdência social7.
Os auditores são responsáveis pelas atividades de tributação, arrecadação e
fiscalização dos tributos e contribuições federais. A Receita Federal do Brasil tem como
missão a “justiça fiscal e o respeito ao cidadão”. Entretanto, os próprios auditores
reconhecem tratar-se, tal missão, de um ideal. Apoiando-se em pesquisa de campo,
Ceccon (2011, p. 75) afirma que os auditores são sempre pressionados a alcançar
recordes de arrecadação, por meio de políticas de incentivo à produtividade e do
estabelecimento de metas (TROPIA, 2017). Para estimular o aumento da produtividade e
recordes de arrecadação, a Receita Federal tem historicamente instituído mecanismos de
bonificação e gratificação (Gratificação por produtividade, RAV, GEFA, GIFA, GAT,
GDAT).8
O survey nacional que realizamos em 2015, sobre condições de trabalho de
auditores-fiscais da Receita Federal do Brasil, revelou que os auditores têm,
majoritariamente, uma percepção crítica sobre o trabalho por metas, em função da
sobrecarga e da queda na qualidade do trabalho. Do total dos pesquisados, 36,1%
afirmaram que as metas afetam a qualidade do serviço realizado, 21% que aumentam o
stress no trabalho, 14,2% que intensificam conflitos entre chefias e subordinados e 10,4%
que impactam nas relações familiares, enquanto 14,2% eram favoráveis porque
aumentaria a produtividade. Ainda que implique alguma precarização das condições de
trabalho, como indica nossa pesquisa, o aumento da produtividade (resultante da política
de metas ou mesmo do desvio de função) está longe de ser rejeitado. Embora sofra
críticas, o cumprimento de metas de produtividade estabelecidas pela Receita Federal
tem sido recompensado por meio de bônus e gratificações, coincidindo com os interesses
materiais destes servidores. Históricas greves e realização de operações padrão da
categoria foram motivadas, além da luta salarial, por questões relativas à carreira (diante
de mudanças nas gratificações e bonificações conquistadas e de mudanças que
implicavam quebra da hierarquia entre auditores e analistas ou ainda perda de status e
prestígio social).

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A fusão dos fiscos ocorreu em 2007, dando origem à atual Receita Federal do Brasil, criando um cargo
único para auditores fiscais da Receita e da Previdência mantendo, todavia, distintos cargos para auditores
e analistas.
8 No período 2008-2016 a remuneração suplementar deu-se na forma de subsídio e desde 2017 vigora o

bônus de eficiência.

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Trata-se de uma carreira pública que demonstra grande apego aos valores
burocráticos tipicamente capitalistas: princípio da legalidade, a defesa do mérito
profissional, a crença na impessoalidade e na neutralidade do Estado. O conjunto de
valores burocráticos – a impessoalidade, a publicidade, a legalidade, o profissionalismo,
a universalidade - que enquadra e regula as práticas dos agentes, funcionando como seu
princípio organizativo, constitui o burocratismo (POULANTZAS, 1977). Segundo
Poulantzas, o burocratismo constitui “um modo de organização hierárquica, de delegação
de poder, do aparelho de Estado que tem efeitos sobre o seu funcionamento” (1977,
p.345). Quais efeitos? O aparato burocrático moderno “não se apresenta diretamente
como aparato de predomínio de classe, mas como a ‘unidade’, o princípio de organização
e a encarnação do ‘interesse geral’ da sociedade” (POULANTZAS, 1977, p. 276). Os
auditores reproduzem estes valores e encaram a função de autoridade fiscal pública em
nome da defesa dos interesses de toda a sociedade. De tal modo que a categoria reage,
sempre que a autoridade fiscal é ameaçada (e seu poder alterado ou diminuído).
A rigor, desde a década de 1990, reformas administrativas têm impactado na
profissão e suscitado um forte ressentimento de perda de autoridade. A reforma
administrativa proposta por Bresser Pereira em 1995 é criticada pois conceberia o agente
fiscal não mais como autoridade, mas como “servidor posto a serviço do cliente”
(BIANCO, COLBARI e SILVA NETO, 2010, p. 455). Auditores deixariam de ser
autoridades responsáveis pela fiscalização e pelo desembaraço aduaneiro para se
tornarem agentes delegados de autoridades administrativas. A defesa da autoridade e a
valorização do cargo são motes constantes em campanhas da categoria, como por
exemplo o Projeto “Formação da Autoridade Fiscal”, de 2011, retomado em 2015 com a
reedição da Cartilha “11 ações individuais para a valorização do cargo de Auditor
Fiscal”9.

9
Ver: <http://docplayer.com.br/15327953-Acoes-individuais-para-a-valorizacao-do-cargo-de-
auditor-fiscal-projeto-auditor-valorizado.html>. No programa da chapa “Um novo rumo para uma
nova história”, vendedora na última eleição para a direção do Sindifisco Nacional, propunha-se a
valorização do cargo e da autoridade do auditor-fiscal: “Os Auditores-Fiscais já tiveram ao longo do
tempo diversos formatos remuneratórios. Com exceção do período de 2008-2016, no qual a remuneração
se deu sob a forma de subsídio, o formato prevalente foi o vencimento básico seguido de uma ou até duas
gratificações (...). É fundamental esclarecer que quando se iniciou a negociação que culminou no acordo de
2008, o subsídio era pago a poucas carreiras (Magistratura, Ministério Público, AGU e Polícia Federal). O
subsídio representava, naquele momento, uma forma de distinção em relação às demais carreiras do
serviço público. Ainda, em 2008, o subsídio restabeleceu a paridade e livrou os Auditores-Fiscais das
avaliações individuais trimestrais da GIFA. (...) desde então, o subsídio passou a ser adotado por inúmeras

13
A perda de autoridade tem motivado inúmeras reações da categoria, tal como em
2016 quando protestos e greves ocorrem contra as alterações no Projeto de Lei
5864/2016 que trata da Carreira Tributária e Aduaneira da Receita Federal e institui o
Programa de Remuneração Variável do Órgão, alterações que permitiriam o
compartilhamento de atribuições, até então, restritas a auditores também aos analistas
tributários. Finalmente, em reação a iniciativas legislativas de instituir “vetos ao poder da
Receita”, limitando a ação de compartilhamento de informações bancárias e fiscais com
órgãos como o Ministério Público, a categoria, por meio do Sindifisco, lançou a
campanha “Ninguém está acima da Lei” 10 . A crise iniciou-se com o vazamento de
informações relativas à quebra de sigilo fiscal do Ministro do STF, Gilmar Mendes, e se
agravou com o afastamento de dois auditores-fiscais, culminando com a decisão do
Ministro Dias Toffolli de suspender processos judiciais baseados em compartilhamento
de dados bancários e fiscais sem prévia autorização judicial. A medida tem sido
concebida como uma interferência na autoridade fiscal que lhes é constitucionalmente
atribuída.
O forte apego aos valores burocráticos e a adesão à ideologia da meritocracia são
aspectos centrais para entendermos a especificidade da ação sindical deste segmento da
alta classe média.

III. Associativismo e sindicalismo meritocrático

Em 1970, os agentes fiscais de tributos federais criaram a União Nacional dos


Agentes Fiscais dos Tributos Federais (Unafisco), entidade voltada, no fundamental, para
dar assistência à categoria. Originalmente a Unafisco era uma entidade pouco expressiva
do ponto de vista reivindicativo, dedicada à formação de patrimônio, pressão sobre a SRF
para incorporação da gratificação de produtividade aos proventos e sua extensão aos
aposentados e defesa da imagem profissional. A exceção foi a realização de operação
padrão durante a campanha salarial de 1983.

carreiras, inclusive cargos de nível médio, também nos estados e municípios, de tal modo que, hoje, não é
mais sinal de prestígio”. Ver:
< http://www.auditoresfiscais.org.br/media/documentos/PlataformaChapa03.pdf>.
10
Ver:
https://www.sindifisconacional.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=37113:sindifisco-
faz-campanha-de-outdoors-em-defesa-da-receita-e-contra-a-corrupcao&catid=256:atividades-
corporativas&Itemid=1535.

14
Esta situação começou a se alterar apenas no final dos anos de 1980, em função
das perdas salariais derivadas do cenário inflacionário e da oportunidade de intervir, de
forma orgânica, na Constituinte. O ano de 1987 marca o início de um movimento de
inflexão na atuação da categoria. Os Auditores deflagram a primeira campanha de caráter
propriamente político capitaneada pela Unafisco. Após uma série de debates foi
publicado o documento “Sobre hienas e leões ou venha conhecer de perto o leão do
imposto de renda” que denunciava a disparidade de tratamento dado pelo sistema
tributário ao pequeno e ao grande contribuinte (LOUZADA, 1999, p. 94).
No bojo da Constituinte, a Unafisco passou a atuar como grupo de pressão
apoiando as propostas relativas aos servidores públicos, entre as quais a Emenda
1P063540 que defendia a paridade de remuneração entre o auditor aposentado e o ativo.
A causa principal, que mobilizaria a categoria, foi a vitoriosa campanha contra o artigo
57 da Constituição, que vedava a participação do servidor público no produto da
arrecadação de impostos e multas, proibindo qualquer vencimento que estivesse
condicionado ao montante de tributos arrecadados pelos fiscais (Cf. LOUZADA, 1999).
A luta política dentro do aparelho do Estado, por meio de grupos de pressão, assessoria
parlamentar entre outras formas, passaria, então, a ser cada vez mais comum e a
mobilizar a categoria.
A agitação em torno da Assembleia Nacional Constituinte criou um clima
reivindicativo em função do elevado quadro inflacionário do período, com perda
acumulada de 40% no valor dos salários, além da retirada do adicional de periculosidade
e auxílio-moradia. Sem obter êxito nas tradicionais negociações com a Secretaria do
Tesouro Nacional e o Ministério da Fazendo, os auditores ameaçavam realizar uma
operação-padrão como forma de protesto dentro da lei (exigir notas fiscais e laudo
periciais dos produtos, pesagem e conferência de mercados), causando atraso na
liberação de exportações e importações, com impactos na cadeia produtiva das empresas.
Apesar do Decreto Lei 2.357, de agosto de 1987, incluir a Gratificação de
Estimulo à Fiscalização e Arrecadação (GEFA), vinculando-a a metas fixadas pelo
Ministério, o movimento dos auditores fiscais não “esfriou”, ocorrendo a deflagração da
operação padrão (LOUZADA, 1999, p.100-101).
Garantido o direito à sindicalização de servidores públicos, em 1988, os auditores
criam o Sindifisco. Em 1995, diante da proposta de reforma no aparelho do Estado, o
Sindifisco une-se à Unafisco, originando a Unafisco Sindical, entidade que teria nos anos

15
seguintes uma intensa atividade sindical grevista e de intervenção no debate político
sobre as reformas administrativa, tributária e da previdência. Em 2007, com a fusão das
carreiras de auditor fiscal da Receita e de auditor da Previdência Social, as entidades
representativas destes servidores se unem e é criado o Sindifisco Nacional.
O Sindifisco Nacional constitui um típico sindicato profissional, criado para a
defesa exclusiva desta carreira típica de Estado, razão pela qual a entidade opta pela
participação no Fórum Permanente das Carreiras Típicas de Estado e não se filia à
qualquer central sindical. Os principais eixos de atuação do Sindifisco Nacional na defesa
da profissão têm sido: 1) luta por salário e carreira (PCS), 2) mobilização em defesa da
autoridade exclusiva de auditores fiscais no exercício das funções fiscais de combate à
sonegação, contrabando, crime organizado e lavagem de dinheiro e 3) intervenção nas
políticas fiscal e tributária.
O Sindifisco Nacional é ativo no plano político-parlamentar e no plano
reivindicativo. No plano parlamentar, o Sindifisco atua enquanto “grupo de interesse”,
junto ao Congresso Nacional. Para tanto dispõe de uma Diretoria de Assuntos
Parlamentares, criada para interagir dentro do Congresso nacional, “buscando tomar
conhecimento das proposições e matérias de interesse dos Auditores-Fiscais e trabalhar
para que essas proposições sejam finalizadas com total acolhimento dos anseios da
Classe dos Auditores Fiscais ativos e aposentados e assim como de seus pensionistas”11.
Varia a forma como atuam os grupos de pressão, mas no fundamental ocorre via
contato direto com parlamentares dentro do Congresso Nacional, ou com as bases
eleitorais, ou ainda por meio da produção de textos ou propostas que possam
eventualmente se tornar emendas parlamentares, como é o caso campanha Imposto Justo.
A relação entre grupos de pressão e o Estado faz-se por meio da constituição de
lobbies, que atuam no sentido de influenciar, pressionar, persuadir no sentido político, o
tomador de decisão na esfera do poder público. Segundo Offe, a formação de grupos de

11
Ver:
<https://www.sindifisconacional.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=668&Itemid=55
7>. Segundo nossa pesquisa, sistematicamente são destacados determinados Auditores-fiscais, com
experiência e trânsito em Brasília, que se comportam como grupo de pressão. Neste sentido, o Sindifisco,
além da Diretoria de Assuntos Parlamentares, promove “Oficinas de Trabalho Parlamentar”, que visam
formar a base para atuar junto ao Congresso Nacional. Em 2011, o Sindifisco criou o CETAP (Centro de
Estudos Tributários, Aduaneiros e Previdenciários) e o CAP (Canal de Atendimento ao Parlamentar), um
portal por meio do qual parlamentares podem, não apenas demandar estudos técnicos como, consultar
sobre questões tributárias, aduaneiras e previdenciárias (CETAP-CAP: CANAIS QUE EXPANDEM
CONHECIMENTO E APROXIMAM O LEGISLATIVO, 2011, p. 4).

16
interesse ocorre por motivos pragmáticos. Visa “facilitar a resolução do conflito
distributivo, obter um conhecimento mais sólido e previsível necessário à elaboração da
política, livrar a burocracia estatal do poder de veto de grupos de interesse
imprevidentes, combater mais eficazmente a inflação, a recessão e a crise fiscal” (1994,
p. 241). Ao atuar de forma corporativa na defesa de interesses, os grupos de pressão
despolitizam os conflitos, pois restringem o leque de participantes tanto quanto o
conjunto das estratégias e táticas possíveis.
A atuação intensa do Sindifisco como grupo de interesse tem consequências
políticas sobre a categoria, que, em geral refratária a alianças com demais trabalhadores
públicos ou privados, opta por atuar por dentro do Estado ou por meio de ações sindicais
que demonstrem sua força corporativa.
No plano reivindicativo, a entidade volta-se para a valorização salarial e
profissional. A atuação sindical corporativista não impede que o sindicato proponha, nem
que deixe de realizar, paralisações, greves e operação padrão. No período 1988-2008,
foram realizadas paralisações praticamente anuais, segundo levantamento que realizamos
a partir dos dados do Dieese (Quadro I) e da imprensa nacional e sindical. Elas
evidenciam o ativismo reivindicativo, e de natureza corporativa, dos auditores.
As greves, protestos, paralisações e operação-padrão visam recorrentemente a
manutenção do poder salarial e a inclusão de remuneração complementar (variável ou
fixa) na forma de gratificação, bônus e subsídios ao cargo. O perfil das reivindicações
assume a forma de uma luta por distinção e por um salário relacional, ou seja por um
padrão salarial que seja superior a cargos e carreiras menos prestigiadas e de menor
status e equipada aos maiores salários do funcionalismo público.
Em geral as paralisações dos auditores fiscais assumem a forma de uma luta
orgânica de âmbito nacional, que envolve a maioria da base, embora frequentemente
isolada das demais categorias do serviço público federal. Isso não significa que em
determinadas conjunturas os auditores não tenham realizado greves junto ao
funcionalismo público federal ou a determinadas carreiras públicas, como ocorreu em
1995, 2000, 2003, por exemplo, justamente em função dos efeitos das propostas de
reforma administrativa e da previdência entre os servidores públicos federais. Mas são as
greves de advertência e operação-padrão as formas preferenciais.
Paralisações, greves de advertência, por tempo determinado, indeterminado ou
operação-padrão são formas de pressão efetivas que impactam imediatamente na cadeia

17
produtiva das empresas (atrasando processos de produção, importação e exportação) e na
arrecadação fiscal, afetando o governo. Todavia, auditores tendem a optar pela operação-
padrão e paralisações, recorrendo, com menor frequência, à greve por tempo
indeterminado. Embora tais estratégias produzam impactos efetivos, a operação-padrão
significa o confronto dentro da ordem e maior disposição à negociação. Segundo Paulo
Gil Introini, então presidente da Unafisco: “Historicamente, a classe prefere as
operações-padrão durante alguns dias para mostrar à sociedade sua disposição em
negociar” (FOLHA DE S. PAULO, 25 de abril de 2000).

Quadro 1 – Paralisações de auditores fiscais da Receita Federal, por ano, abrangência, forma de luta,
motivação principal e principais conquistas (1987-2008)
Abrangên Forma
Ano Principais reivindicações Conquistas
cia de luta
GTD e Reajuste salarial (reposição da inflação (39,7%),
1987 Nacional Instituição da Gefa*
OP adicional de periculosidade e auxílio-moradia
1988 Nacional GA Reajuste salarial Sem informação
GTI e
1989 Nacional PCS e reajuste salarial Instituição da RAV**
OP
Contra a extinção do cargo de Auditor do
1989 Bahia Protesto Sem informação
Tesouro Nacional na proposta de PCS
Santos/SP
1991 GA Contra Extinção da RAV Manutenção da RAV
Nacional
Contra mudanças na RAV e o teto servidores MP 306 instituiu teto tendo
GTI e
1992 Nacional públicos (limite do salário almirante de esquadra) como referência o salário de
OP
27 dias de paralisação ministro e presidente
Condições de trabalho, recomposição dos Reajuste de 85%, aumento e
1993 Nacional OP auditores e antecipação do pagamento da RAV, pagamento da RAV a cada
reajuste de 113% 10 dias
MP 583/94 nova tabela de
reajuste (entre 12,9% a
Paralisa
16,3%)
1994 Nacional ção e Reajuste salarial (plano real)
MP 747/93 Isonomia e
OP
eliminação do sub teto da
carreira de auditor fiscal
Contra a instituição de sub teto da RAV a 8 vezes
Nacional e o salário base da categoria e novo teto - 80% do
1995 GTD Sem informação
do FPF salário de ministros; contra reforma
administrativa;
1996 Nacional OP Contra as reformas neoliberais Sem informação
Mobili-
Crise da receita (denuncias de sucateamento da
1997 Nacional zação e Sem informação
RF); Defesa do Fundaf
protesto
Promessa de reajuste do
Paralisa- Reposição salarial (60%) e
1998 Nacional governo e de apresentação de
ção PCS
um PCS
Paralisa-
PCS e contra o arrocho fiscal; contra o modelo de
1999 Nacional ção e Não houve negociação
avaliação individual e remuneração variável
OP
Paralisa- PCS (esvaziamento da função e demanda por
1999 Nacional ção e inclusão nas carreiras típicas de Estado) Defesa Não houve negociação
OP do PL 4.399
Paralisa- Inclusão de garantia contra demissão de
ção, OP servidores por motivos políticos no PL 43/99.
2000 Nacional
e de Defesa da estabilidade. Contra a MP 1.915/99
parte do que instituía redução de até 30% no salário com

18
FPF base na avaliação de desempenho. Reposição
salarial (63,8%), condições de trabalho; contra o
desmonte da Receita; demanda por concurso
Reajuste salarial de 21,66%; contra a MP 2.175 e
Paralisa
a extinção da Gratificação de Desempenho das
2002 Nacional ção e
Atividades Tributárias (GDAT) para os
OP
aposentados
GTI do Contra Reforma da Previdência (PL 9) e 46,95%
2003 Nacional FPF e de reposição de perdas (entre junho de 1998 e
OP dezembro de 2002), PCS e abertura de concurso
GTD e
2003 Nacional Contra Reforma da Previdência e Reajuste
OP
Reajuste entre 7% e 24% na remuneração básica
em 2004 e de 14% a 18% em 2005. Extensão aos
GTI e
2004 Nacional aposentados. O governo propunha gratificação, Recusa da proposta
OP
vinculada ao aumento da arrecadação (28,8%
para ativos e 8,6% para aposentados)
Paralisa
2005 Nacional ção e Defesa da segurança (sequestros relâmpagos) Sem informação
OP
Contra a MP 258: previa a fusão dos fiscos e A fusão ocorreu sem a
GTI e
2005 Nacional criava a Super-Receita. Contra a transformação transformação de cargo de
OP
de cargos sem concurso público analistas em auditores.
Reivindicam PCS, com piso de R$ 16.340 e teto Reajuste de 34% para ativos,
de R$ 20.425; gratificação por atividades de condicionado ao
GTD e
2006 Nacional risco; melhorias na estrutura de trabalho; cumprimento de metas.
OP
realização de concurso público; e fixação de data- Salário inicial R$ 10.155,00;
base Salário final R$ 13.382,00.
Paralisa Reajuste salarial/equiparação salarial com
2007 Nacional
ção carreiras similares
Reajuste de 42%; transformação da remuneração Reajuste entre 41,7% e
GTI e variável em fixa; aumento do piso, equiparado 43,9%. O piso passou para
2008 Nacional
OP aos delegados da PF; paridade entre ativos e R$ 14 mil e o teto para R$ 19
aposentados; e melhores condições de trabalho mil; criação de subsídio.
Fonte: SAG/Dieese (Sistema de Acompanhamento de Greves) e levantamento próprio a partir de fontes
primárias e imprensa nacional. Elaboração própria.
*Gefa (gratificação de estímulo à fiscalização e arrecadação)
**RAV (Retribuição Adicional Variável)
GA – Greve de advertência; GTD - Greve por tempo determinado; GTI - Greve por tempo indeterminado;
OP = Operação-padrão

O sindicato investe, ademais, na divulgação de campanhas informativas e estudos


técnicos sobre tributos e impostos com o objetivo de se legitimar socialmente, assumindo
um modelo de sindicalismo tipicamente corporativista e meritocrático. A taxa de filiação
dos auditores fiscais ao Sindifisco é 95%. Passemos à análise do posicionamento dos
auditores diante dos governos do PT. Que interesses materiais, políticos e ideológicos
estariam submersos aos discursos do Sindifisco e sua base?

III. 1 Auditores fiscais diante dos governos petistas

Durante os governos do PT, em determinadas conjunturas o Sindifisco comporta-


se como oposição, noutras converge com políticas implementadas, mas não constitui uma
força apoio destes governos.

19
O apoio do Sindifisco a algumas políticas implementadas pelo governo Lula
explica-se pelo legado regressivo do governo FHC12, por um lado, e pela retomada dos
investimentos do Estado brasileiro no desenvolvimento econômico, dos concursos
públicos para a Receita Federal e por mudança no padrão de negociação com o governo,
que resultaram, não sem conflitos e greves nacionais, em recuperação salarial e adoção
de subsídio como forma de remuneração complementar, em 2008. Como sintetizou um
dirigente do Sindifisco em entrevista,
“A gente milita em torno de (...) interesses. Geralmente em períodos de campanha
salarial (...) a nossa luta é grande porque o governo sempre resiste a conceber aumentos salarias,
mas eu diria que o governo Lula, um governo de sindicalistas, não atendeu as demandas dos
sindicalistas, mas sempre havia uma abertura para negociar, para conversar, diferentemente do
governo Fernando Henrique Cardoso”. (Entrevista realizada com Dirigente do SINDIFSCO
NACIONAL em Belo Horizonte em 10/02/2011)

No entanto, no bojo da reforma da previdência, em 2003, da reforma tributária,


em 2004, e no contexto da criação da Super Receita, em 2007, o enfrentamento com o
governo Lula resultou em fortes embates e na deflagração de greves e operação padrão.
Em grande medida, o posicionamento do Sindifisco se expressou na opinão dos
auditores.
O survey que realizamos em 2012 captou a opinião dos auditores sobre algumas
políticas adotadas nos governos Lula. Foram desaprovadas as ações que tiveram um
impacto direto na carreira e nas condições de trabalho, bem como aquelas que
implicaram em desoneração da folha ou isenção fiscal, classificadas no Gráfico 1 na
categoria “RF, FF e Políticas anticíclicas”. A reforma da previdência foi a política do que
encontrou maior resistência: 64,5% consideraram-na desfavorável. A política do BNDES
de Financiamento de grandes empresas nacionais com taxa de juros especiais foi, por sua
vez, considerada desfavorável por 48,5%. Já a fusão dos fiscos contrariou 33,3% dos
auditores, muito embora 45,9% deles tenha sido favorável e 20,8% parcialmente

12
A opinião dos auditores, captada por um survey realizado em 2012, é predominantemente negativa em
relação à adoção de políticas que passaram a vigorar durante os governos FHC. Exceto a abertura
econômica, cujo impacto na indústria foi considerado benéfico para 73,4% dos pesquisados, as demais
políticas foram amplamente rechaçadas: 76,0% discordam que “a reforma administrativa e do Estado
trouxe maior agilidade às decisões burocráticas”; 68,2% discordam que “a privatização das empresas
públicas aumentou a competitividade”; 65,5% discordam que “Com o fim do monopólio estatal melhorou
o acesso da população aos serviços públicos “; 84,9% discordam que “a flexibilização dos direitos
trabalhistas tornou o país mais competitivo”. Foram aplicados 212 questionários no CONAF ocorrido em
Salvador.

20
favoráveis13. A política de enfrentamento da crise econômica de 2009, que reduziu o IPI
de vários segmentos da indústria nacional, alterando as regras fiscais e tributárias, foi
considerada desfavorável por 25,6% dos pesquisados, enquanto 28,9% considerou-a
favorável e 45,5% parcialmente favorável. Neste sentido, no primeiro survey a redução
do IPI tendia a ser vista positivamente.
Por sua vez, as “Políticas distributivas e de bem estar” e as “Políticas
desenvolvimentistas” suscitaram apoio e reticência. No que diz respeito às políticas
distributivas, o programa Bolsa Família foi considerado favorável por 29,5% do total dos
auditores pesquisados, 45,7% considerou-o parcialmente favorável e 24,8% se
posicionou desfavoravelmente. A recuperação do salário mínimo foi avaliada
positivamente por 85% dos auditores, enquanto o REUNI foi considerado favorável por
55% deles. O plano de aceleração do crescimento (PAC) foi avaliado de forma favorável
por 36,4% dos pesquisados e parcialmente favorável pela maioria absoluta dos
respondentes (51,5%). A elevação da cota orçamentária do BNDS foi considerada
favorável por 27,8% e parcialmente favorável por 50% dos pesquisados.
Quanto mais afetados pela retirada de direitos, carreira e “status público” maior é
a tendência de rejeição às políticas. Por sua vez, a promoção de políticas de bem-estar
social e distributivas encontram maior aceitação.

Gráfico 1 – Opinião dos auditores pesquisados sobre a política nos Governos Lula

Fonte: Pesquisa Trabalho e representações dos auditores fiscais da Receita Federal (2012).
RF – Reforma da Previdência

13
A percepção (favorável) dos pesquisados sobre a fusão dos fiscos destoou do posicionamento do
Sindisco e da própria reação da categoria de auditores-fiscais da Receita Federal na ocasião. Como vimos,
tratou-se de um processo tenso de fusão de cargos (auditores da Receita e da Previdência), de entidades e
que resultou em fortes embates, embates que em 2012, cinco anos mais tarde, podem ter sido absorvidos
pelos servidores. De todo modo, é possível notar, quando cruzamos as variáveis percepção e setor de
trabalho, que a percepção favorável à fusão é maior entre ex-auditores da Previdência do que entre
auditores da Receita.

21
FF – Fusão dos fiscos

No survey de 2012, também investigamos a opção eleitoral dos auditores,


indagando-lhes sobre seu voto para presidente em 2010. A candidata Dilma Rousseff foi
a preferida pela maioria relativa dos auditores no primeiro turno (38,8%), enquanto
Marina Silva alcançou 23,9% e José Serra 22,5%. No segundo turno, 50,5% preferiram
Dilma Rousseff, 31,3% José Serra e 18,3% anularam, votaram em branco ou não
votaram. Como Sindifisco e sua base avaliaram o governo Dilma Rousseff?
O segundo survey, realizado durante o CONAF de 2017, 14 reafirmou que os
auditores pesquisados tendem a apoiar as ações “desenvolvimentistas” e “distributivas”,
adotadas pelos governos petistas, mas não sem resistências. Ademais, nota-se algumas
opiniões distintas relativamente a 2012.
Não obstante tenha ocorrido uma redução no percentual de pesquisados
totalmente favoráveis (em 2012 eram 86,6%), a política macroeconômica melhor
avaliada em 2017 foi a de recuperação do Salário Mínimo: 78% foram totalmente
favoráveis (Gráfico 2). As políticas “intervencionistas” e voltadas ao desenvolvimento,
tais como o PAC e Plano Brasil Maior, também receberam o apoio dos auditores. Em
relação ao Plano de Aceleração do Crescimento, 54,5% é parcialmente favorável
enquanto 31,5% é favorável ao PAC – enquanto em 2012 totalmente favoráveis
representaram 36,4%. Em contrapartida, apenas 14,1% revela-se totalmente contra.
Posicionaram-se favoravelmente ao Plano Brasil Maior 37,9% dos auditores e
parcialmente favoráveis 50,6%. Todavia, quando indagados sobre a política de redução
do IPI como forma de enfrentamento da crise de 2009, chama a atenção o percentual de
pesquisados contrários (40,5%) e parcialmente favoráveis (40,5%). Apenas 19,1% foi
totalmente favorável, indicando, em certo sentido, uma mudança de percepção desta
política, na medida em que, em 2012, cerca de ¼ era contrário.
Dentre as políticas “desenvolvimentistas”, a elevação da cota orçamentária do
BNDES foi a que suscitou, relativamente, a maior resistência. A maioria relativa foi
contrária (42,2%, enquanto em 2012 eram 22,2%), embora tenham sido parcialmente
favoráveis 41,1% e totalmente favoráveis 16,7% dos pesquisados15.

14
Dos 381 delegados participantes do CONAF 2017, 93 responderam ao questionário.
15
A política de redução do IPI, apesar de estimular o crescimento econômico e propiciar redução de
desigualdades regionais, implica em renúncia tributária, aceitáveis em determinadas circunstancias e sob
certas condições. Apesar de isenções, exclusões e renúncias serem apoiadas como politica econômica, não

22
No que diz respeito às políticas distributivas e de bem estar a tendência geral é de
considerá-las total e parcialmente favoráveis, exceto no caso da política de Cotas raciais
nas universidades públicas. Vejamos.
Os auditores pesquisados durante o CONAF de 2017 foram predominantemente
favoráveis à adoção do Programa Mais Médicos pelo governo Dilma. Do total, 40,2% foi
totalmente favorável e 29,4% parcialmente favoráveis, enquanto 30,4% contrários.
A política de Cotas nas universidades públicas suscitou maior rejeição entre
auditores pesquisados (46,2% foram contrários). Ao reservar vagas socioeconômicas,
étnico-raciais ou para portadores de deficiência, institui-se um tratamento desigual aos
desiguais, política que colide com ideais meritocráticos que supõe um tratamento igual
aos desiguais. Dito de outro modo, a existência de institucionalidades (sistema educativo,
carreiras, status) que tratem de forma igual os indivíduos é condição para que as
assimetrias reais possam parecer resultantes de naturais diferenças entre indivíduos mais
ou menos talentosos, aptos e esforçados. A ideologia da meritocracia, ao naturalizar as
assimetrias sociais, oculta a desigualdade social entre trabalhadores manuais e não
manuais.
Se a política de cotas raciais nas universidades públicas é a política social mais
rejeitada pelos auditores, a implementação do Plano de reestruturação das universidades
públicas federais, o REUNI, teve apoio entre os pesquisados: 44,3% dos auditores
pesquisados foram favoráveis, 43,2% foram parcialmente favoráveis e 12,5% contrários.
Por sua vez, aproximadamente metade dos auditores foi totalmente favorável ao
Programa Minha casa, minha vida: 49,5% é favorável, 37,5% parcialmente favorável e
13,2% contrários ao Programa. O programa Bolsa Família, adotado pelo governo Lula,
com o intuito de reduzir os índices de miséria e pobreza absoluta no país, foi considerado
favorável por 33,7% (em 2012 eram 24,8%); 43,5% foram parcialmente favoráveis e
22,9% contrários.

se trata de um posicionamento acrítico. São criticadas quando impactam nas contas públicas e quando seus
resultados não apresentam benefícios sociais, correspondendo a interesses econômicos setoriais, como é o
caso da indústria automobilística na conjuntura de 2014. As criticas também são endereçadas quando se
trata de beneficiar devedores e sonegadores, o que, segundo nossa hipótese, explicaria a resistência
daqueles pesquisados que foram contrários à politica de redução do IPI e de elevação orçamentária do
BNDES. Neste sentido, auditores são, em princípio, favoráveis ao fomento do crescimento via recursos de
públicos, via bancos públicos por exemplo, mas desde que tal fomento não implique prejuízo aos cofres
públicos e benefícios a mau pagadores e sonegadores.

23
Tomando-se tão somente as posições extremas, favoráveis e contrárias, os
resultados da pesquisa mostram que, dentre os programas sociais implementados pelos
governos do Partido dos Trabalhadores, “Minha casa, minha vida”, “Reuni” e “Mais
Médicos” foram, nesta ordem, os que receberam mais opiniões favoráveis. A política de
“Cotas raciais nas universidades públicas” tem o maior percentual de auditores
contrários.

Gráfico 2 - Posição dos auditores pesquisados sobre a política durante os governos do Partido dos
Trabalhadores

Fonte: Pesquisa Trabalho e representações dos auditores fiscais da Receita Federal (2017).

O survey de 2017 evidenciou que a candidata Dilma Rousseff foi a preferida no


primeiro turno das eleições de 2014 (34,4%). Marina Silva aparece em segundo lugar
com a preferência de 19,4% dos pesquisados e Aécio Neves em terceiro com 17,2%. No
segundo turno, não houve, todavia, grande migração de votos dos demais candidatos para
Dilma Rousseff que receberia 38,7% dos votos. Aécio Neves teria recebido 35,5%
enquanto 24,7% anularam, votaram nulo ou não votaram.
Quando indagados, todavia, sobre o processo de impeachment de 2016, 54,8%
dos pesquisados se manifestaram favoravelmente, 39,8% foram contrários e 5,4% não
responderam ou não souberam opinar. Vejamos como o Sindifisco se posicionou diante
das políticas no governo Dilma Rousseff.
A análise da atuação do Sindifisco entre os anos de 2011 e 2014 revela que,
embora fosse inicialmente positiva a expectativa em relação ao reconhecimento de
direitos e reivindicações históricas da categoria, a entidade se posicionou criticamente ao
Plano Brasil Maior e ao PAC, em função da política de desoneração da folha de

24
pagamentos. A posição da entidade sobre a proposta de desoneração da folha de
pagamentos pode ser assim sintetizada:
No que tange à condução da política fiscal no Brasil, outro instrumento usado,
sobretudo em momentos de crise internacional, a fim de evitar o recrudescimento da economia
interna e a perda de competitividade do País no mercado internacional são as desonerações em
setores específicos. Embora este instrumento seja capaz de gerar os resultados esperados, gera
também perda de arrecadação fiscal. Somente em 2011, a renúncia tributária com a aplicação do
Plano Brasil Maior foi da ordem de R$ 74 milhões. Para 2012, estima-se uma renúncia tributária
de R$ 4,9 bilhões e de R$7,2 bilhões anuais em 2013 e 2014. Ademais, essas desonerações seriam
mais efetivas não fosse o caráter regressivo do nosso sistema tributário que onera mais o
consumo e menos a renda, ao contrário do que ocorre nos países desenvolvidos”
(INCONSISTÊNCIAS DA PROPOSTA DE DESONERAÇÃO DA FOLHA DE SALÁRIOS,
2011. P. 20).

Embora apoiasse a adoção de uma política intervencionista por parte do Estado na


propulsão do desenvolvimento, inclusive assumindo a tarefa de “conseguir os recursos
necessários para garantir a arrecadação indispensável aos projetos essenciais para o
desenvolvimento do país” 16 , o Sindifisco era crítico quando tais políticas implicavam
renúncia fiscal de setores empresariais.
“Quando o Governo Federal editou a medida Provisória 540 em agosto de 2011,
criando a desoneração da folha de pagamentos para quatro setores produtivos, o SINDIFISCO
NACIONAL posicionou-se contrariamente à medida, pelas incertezas que ela trazia para o
financiamento da seguridade social. Havia a expectativa de que a desoneração da folha de
pagamentos seria ampliada. Eis que a Lei 12.715, de 17 de setembro de 2012, como conversão da
medida Provisória no 563, de abril de 2012, aumentou para 14 o número de setores beneficiados
pela desoneração a partir de 1o de agosto de 2012. E a partir de janeiro de 2013 ela se estende
para outros setores produtivos e também para uma série de produtos industriais. Mais ainda, a
medida Provisória no 582, de 20 de setembro de 2012, contemplou com a desoneração outros 25
segmentos da indústria, perfazendo um total de 40 setores desonerados” (TRIBUTAÇÃO EM
REVISTA, 63, 2012, p.5).

Teve peso decisivo na avaliação negativa que entidade e os próprios auditores


fizeram do governo Dilma as dificuldades que a categoria encontrou na campanha
salarial, motivada pelo congelamento dos reajustes de servidores no biênio 2011 e 2012.
O desgaste resultante de dois anos de mobilização e da proposta de reajuste escalonado
em três anos, paralelamente à adoção de políticas que implicaram em desoneração e
renúncia fiscal17, constituem as causas de fundo das críticas à presidenta e seu governo.
Os governos petistas também passaram a ser vistos como governos que
beneficiavam “ricos” e “miseráveis” deixando de lado a classe média.

16
“O Sindifisco defende, junto com a sociedade, um país mais justo e igualitário, que respeite o
trabalhador. Por esse e outros motivos, lutamos pelo fim do Fator Previdenciário e pela reforma política.
Defendemos também um imposto justo, de maneira que o cidadão que ganhe menos pague menos” (DIA
NACIONAL DE LUTA LEVA SINDIFSICO À PAULISTA, 2013, p. 16).
17
A elevação da Cota Orçamentária do BNDES foi criticada por 42,2% dos pesquisados e a redução do IPI
por 40,5% deles.

25
Esta insatisfação emergiu, de forma explícita, no bojo dos protestos que
ocorreram em junho de 2013. Em 18 de junho daquele ano, a matéria intitulada
“Protestos pelo Brasil: o despertar da classe média” (SINDIFISCO, 2013) partia do
diagnóstico segundo o qual as manifestações populares - que tinham origem na
indignação com o aumento das tarifas de ônibus na capital paulista, mas haviam se
generalizado -, escancaravam “o descontentamento da classe média brasileira com a
condução da política pública adotada no país”. A política adotada no país era criticada
por beneficiar dois polos sociais, “ricos” e “miseráveis”, deixando de lado e
sobrecarregando a “classe média”.
“Uma política distorcida e equivocada que beneficia duas extremidades da pirâmide
social (no topo, os mais ricos, e na base, os miseráveis) e sobrecarrega a classe média. De um
lado, o Governo busca alguma justiça social com auxílios pontuais aos que têm menos. A política
assistencialista, baseada no Bolsa Família, é meritória e responsável por uma das épocas de
maior mobilidade social do país e pelo fortalecimento do mercado consumidor brasileiro. No
entanto, está claro que é insuficiente. Aqueles que emergiram à classe média atual querem mais –
mais escola, mais educação, melhor transporte público.
De outro, um sistema tão antigo quanto o Brasil, que continua a privilegiar os mais
ricos. Não é difícil enxergar o esforço do Governo para amparar e cobrir de afagos os mais
abastados. Nos últimos anos, sob o pretexto de combate à crise internacional, o empresariado
tem sido agraciado com múltiplas desonerações, que não são repassadas para o preço dos
produtos e beneficiam apenas os donos do capital, que desembolsam cada vez menos para
financiar o desenvolvimento do país.
E quem paga por isso? A classe média, obrigada a absorver os afagos ao empresariado
e as consequências de uma máquina político-econômica deficiente e ineficaz” (SINDIFISCO,
2013).18

Ao apontar a sobrecarga de tributos “sobre as classes médias” como a razão dos


protestos, a matéria expressa com rara clareza os interesses da base social do Sindifisco
Nacional.

IV Breves considerações finais

Os auditores-fiscais constituem um corpo de funcionários da burocracia estatal


que reivindica o reconhecimento profissional como autoridade tributária, aduaneira e
fiscal. No combate à sonegação e ao contrabando, os auditores-fiscais reafirmam a
legitimidade da autoridade fiscal. Convergem luta por “justiça fiscal, contra sonegação e
contrabando” e luta por reconhecimento profissional. São, ademais, membros da alta

18
O Sindifisco reagia ao que chamou de “forma de gestão pública” que estaria “impregnada na mente dos
governantes”. Mais precisamente, reagia à proposta de Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, de
imputar o financiamento do transporte público à “quem anda de carro” (evitando o aumento da tarifa de
ônibus).

26
classe média, que mantém uma relação orgânica com a bandeira de luta contra a
corrupção.
O apego das classes médias ao discurso anticorrupção é um fenômeno recorrente
na política brasileira. Na conjuntura brasileira recente, o processo que resultou no
impeachment da presidenta Dilma Rousseff contou com a força apoio de setores das altas
classes médias. A bandeira anticorrupção atraiu, ainda que de modo distinto e com níveis
de adesão diferentes, alguns setores desta fração, em função das denuncias de corrupção,
levadas a cabo pela operação Lava Jato e atribuídas ao PT. Que interesses materiais,
políticos e ideológicos estariam submersos no discurso anticorrupção das altas classes na
conjuntura recente?
É preciso investigar caso a caso. A oposição de médicos, e de suas entidades
representativas, aos governos petistas tem relação com a ascensão de uma corrente
conservadora nos anos 2000, que se fundamenta em um discurso “corporativo moralista”
e de defesa do exercício profissional, o qual estaria sob ataque do governo brasileiro e de
entidades médicas “esquerdistas”. Os médicos brasileiros sentir-se-iam ameaçados com a
possibilidade de vinda de profissionais estrangeiros para suprir a carência de
profissionais no interior do país. Quando o PT chega ao poder, a reação foi reforçada
pelas entidades nacionais que temiam o movimento de reforma sanitária, a residência
multiprofissional e a abertura do campo de trabalho médico para profissionais
estrangeiros. A pá de cal viria justamente durante o governo Dilma quando, em resposta
às críticas sonantes nas manifestações de junho de 2013 às políticas sociais, o governo
institui o Programa Mais Médicos. No caso dos engenheiros, nossa hipótese indica que
há um comportamento bifronte dos engenheiros diante dos governos petistas e do
impeachment de 2016. A Fisenge posicionou-se contrariamente ao impeachment e em
defesa da democracia. Já o SENGE, embora filiado à CUT e dirigido por lideranças
favoráveis aos avanços sociais obtidos nos governos petistas, não deixou de expressar a
insatisfação da categoria com os rumos da política econômica do governo Dilma e com a
situação de paralisia do setor produtivo cujos reflexos “na empregabilidade, criação de
empregos e principalmente no desenvolvimento e aprimoramento da infraestrutura
nacional e estadual” eram sentidos pelos engenheiros.
O posicionamento de auditores-fiscais da Receita Federal diante do petismo não é
de oposição militante nem de adesão ativa. O Sindifisco Nacional não compõe uma das
forças apoio dos governos petistas, mas também não clamou que sua base fosse às ruas

27
(tal como ocorreu com médicos e suas associações) na cruzada anticorrupção. Todavia,
auditores têm entre suas funções o combate à corrupção, sonegação e contrabando. Neste
sentido, acreditam que a prática da corrupção quebra as próprias regras da organização
burocrática estatal, por meio das quais foram meritocraticamente selecionados e em
nome da preservação das quais eles atuam.
A análise do comportamento dos auditores-fiscais diante dos governos petistas
mostra que este segmento da alta classe média apoiou e reagiu às políticas
implementadas, seguindo seus interesses materiais e ideológicos. O apoio do Sindifisco a
algumas políticas implementadas pelos governos petistas explica-se pelo legado
regressivo do governo FHC, por um lado, e pela retomada dos investimentos do Estado
brasileiro no desenvolvimento econômico, dos concursos públicos para a Receita Federal
e por mudança no padrão de negociação com o governo, que resultaram em recuperação
salarial e adoção de subsídio como forma de remuneração complementar, a partir de
2008. Durante o governo Lula, em função da reforma da previdência, em 2003, que
retirou direitos históricos à aposentadoria do setor público, e da criação da Super Receita,
em 2007, houve fortes embates. Foram combatidas as ações que tiveram um impacto
direto na carreira, bem como criticadas aquelas que implicaram em perda na arrecadação
fiscal. No governo Dilma, nota-se que recrudescem as críticas ao governo. Pesaram na
avaliação negativa do governo Dilma as dificuldades que a categoria encontrou na
campanha salarial, motivada pelo congelamento dos reajustes de servidores no biênio
2011 e 2012. O desgaste resultante de dois anos de mobilização e da proposta de reajuste
escalonado em três anos, paralelamente à adoção de políticas que implicaram em
desoneração e ampliação da renúncia fiscal, constituem as causas de fundo das críticas à
presidenta e seu governo. São estas razões que nos ajudam a entender porque a maioria
dos auditores (58,6%) pesquisados teriam apoiado o impeachment de Dilma Rousseff.
Além de frustrar interesses materiais da categoria, os governos petistas também
passaram a ser vistos como governos que beneficiavam “ricos” e “miseráveis” deixando
de lado a classe média. Emergia, então, um ressentimento de classe média no bojo dos
protestos que ocorreram em junho de 2013.
Mormente encobertas por bandeiras em defesa da justiça e autoridade fiscais e de
combate à sonegação e ao contrabando, as críticas aos governos do PT têm, portanto,
raízes nas reformas previdenciária e, na fusão dos fiscos, nas dificuldades das campanhas

28
salariais e nas políticas que puseram em xeque o “status público” e os interesses de classe
média deste segmento social.

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