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RESENIIAS

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eUL MODERNISTA EM SAO PAULO

Orfeu extático na metrópole: São Paulo, sociedade e cultura nos


frementes anos 20, de Nicolau Sevcenko.
São Paulo, Cia. das Letras, 1992. 390 p.

Elias Thomé Saliba

. .. . .
m relação ao passado e à história, evocar 5"8S proprJ85 experlenCl9S exl5-
"

experimentamos freqüentemen­ tenciais e afetivas.


te duas atitudes diversas: aquela espé­ Músico prodigioso e sedutor, Orfeu,
cie de curiosidade intelectual, que nos na mitologia grega, era louvado como
leva a perguntar "como realmente aeon· celebrante nos rituais de exaltação e de
teceram as coisas", ou uma inquietação êxtase coletivo. Glosado em prosa e ver­
diferente, parecida com uma emoção BO e largamente disseminado, o onLSmo
nostálgica, que n081eva a BCleditar que, transfOtIllOU-se quase que numa tradi­
como dizia Goethe, "o mellior da história ção na cultura ocidental. Numa de suas
é o entusiasmo que ela inspira". inúmeras e obscuras versões, o orflSmo
Olieu extático na metrópole parece concebia duas almss para os homens, a
um livro destinado tanto àqueles leito­ psyche, espécie de alma visível que de­
res com inquietações intelectuais quan­ saparecia com a morte, e a alma invisí­
to aos nostálgicos pelo passado, aquelee ool, eterniwda em sucessivas migra­
leitores ansiosos por reencontrar ou ções. Era com ""ta última que Orfeu se

E6t"cIoB Históricoa, Rio de Janeiro, vol. 6, 11. 11, 1993, P. 128·137.


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comunicava com os homens através da gripe, a geada, os gafanhotos, as greves


catarse e do êxtase coletivos. e a guerra. Através de cronistas anôni·
Neste livro de Nicolau Sevcenko, o mos e de uma leitura original dos jor­
orftsmo serve com emblema e inspira· nais da época, o autor busca captar
ção para traçar um vigoroso painel da uma sutil atitude de difuso estranha­
história de São Paulo nos anos 20. E o mento na população em relação à pró­
percurso do historiador da cultura tam­ pria identidade de São Paulo, que vivia
bém parece cheio das mesnla5 sombras, naquele momento o auge do seu pro·
ciladas e complexidades do orusmo, pois cesso de metropolização. Afinal, qual
está fundado mais na sondagem das era a identidade de São Paulo? "Não
coisas invisíveis do que das visíveis. era uma cidade nem de negros, nem de
Na senda do seu livro anterior, Li/<­ brancos e nem de mestiços; nem de
raturacomo missão, no qualjá realizara estrangeiros e nem de brasileiros; nem
un18 densa sondagem da história sócio� americana, nem européia, nem nativa;
cultural brasileira sob o prisma da belle nem era industrial, apesar do volume
époque carioca, o autor se dedica, com crescente das fábricas, nem entreposto
igual (ou talvez maior) acuidade, a re­ agrícola, apesar da importância cru·
construir os impasses da modernidade cial do café; não era tropical nem sub­
cultural brasileira, tendo como epicen­ hopical; não era ainda moderna, mas
tro a urbanização acelerada de São Pau­ já não tinha passado" (p.31).
lo nos frementes anos 20. Reconstrução Naquele ano de 1919, a cidade é
pouco ortodoxa, vale dizer, reaJizada por estranhamente captada, num lapso de
um autor que sabe, mais do que nin­ consclencla, como um eruglua para os
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guém, que a narrativa "é o modo supre­ seus próprios habitantes. Lapso de
mo da experiência da vida", consciência na memória social que du­
Mas não ternos nada semelhante a ra muito pouco, repontando em alguns
uma narrativa tradicional; pelo con­ dos cronistas mais sensíveis do cotidia­
trário, é uma narrativa densa, comple­ no, porque depois, apenas as lnetáforas
xa, extremamente ciosa dos ritmos in­ e mitos é que terão força para captar a
finitamente variados da história hu­ formação daquele caos urbano. São
mana, desdobrada em telnas de enor· Paulo seria uma espécie de Babel in­
me abrangência, portanto, impossível verti da? - metáfora sugerida por um
de ser resunlida. Nesta forma de nar· cronista da época, embora a realidade
rativa, articuada na construção de estivesse mais para Cativeiro da Babi­
temporalidades múltiplas, a tarefa do lônia, sugere Sevcenko, fazendo refe·
historiador é tanto mais difícil por em­ rência aos milhares de seres dezenrai·
penhar·se em duas coisas simultanea· zados, submetidos a Uln aviltamento
mente, nadar com acorrente dos acon­ em progressão geométrica no caos da
tecimentos e analisa;' esses aconteci· metropolização de São Paulo.
mentos da posiçáD de um observador Para compensar o estranhamento e
posterior, mais bem. infonnado. o lapso na menlória coletiva buscava­
se, pelas trilhas do contingente e do
E a narrativa de Orfeu extático ini­ incidental, uma nova equação de valo­
cia-se em janeiro de 1919, unl ano de res. A guerra havia terminado em
fortes expectativas para os paulista­ 1918, mas começava um novo tipo de
nos, já que o período anterior foi pro· mobilização coletiva, a ritualização dos
fundamente marcado pelo flagelo dos movimentos de massa - nos esportes,
ucinco gês" que atingiram a cidade: a especialmente no futebol e nas corri·
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das de automóvel, no carnaval, em há­ despreendida, em movimento", única


bitos urbanos como o flerte, no trânsi­ forma de manter O inconformismo num
to, nos comícios com grandes concen� mundo que deixava de ser a esfera da
traçóes populares e,já nos anos seguin­ palavra para transformar-se, rapida,­
tes, nas grandes festas de iniciativa mente, na esfera da ação.
estatal. Em lugar da razão e da pala­ Do balé aojazz, do cubismo ao futu­
vra, o universo imprevisível da ação rismo, dos mitos fascistas à treslouca­
que atropelava tudo, tomando a dian­ da pataf'lSica de Alfred JaITY, o autor
teira aos fatos da consciência reflexiva. consegue captar, com versatilidade e
Nas flmbrias invisíveis do acelerado erudição surpreendentes, a fOl"m8 co­
processo de metropolização de São mo os registros literários e artísticos
Paulo, a mobilização é quase que per­ sintonizavam essa fragmentação e es­
manente. Entre os heróis desta nova se dezenraizamento generalizado.
predisposição mental, desta espécie Mas o cenário para o surto de moder­
curiosa de cidadania fundada na emo­ nismo na São Paulo dos anos 20 era o de
ção, que impregnava o comportamento uma autêntica "expos ição universal bi­
dos paulistanos, estavam Arthur Frie­ zarra": a polifonia arquitetônica e urba­
denreich, "o maior artilheiro futebolís­ nística produzida na esteira da especu­
tico de todos 05 tempos"; e Edu Chaves, lação cafeeira,contr11Stando com o cená­
o herói do raids aéreos, que em 1920 rio dos cortiços e bairros pobres,sujeitos
vence, com o apoio do governador do às enchentes periódicas, à repressão po­
estado Washington Luís, o maior desa­ licial e à violência constante. A narrati­
fio aéreo sul-americano, o raid entre va desse tenso processo de urbanização,
São Paulo e Buenos Aires. Não mais particulalJllente no capítulo 2, pelo vo­
Rui Barbosa, o herói da palavra, a
,
lume e pela extensão da pesquisa docu­
Aguia de Haia das décadas iniciais da mental, demonstra que Sevcenko reali­
República, mas, sim, Edu Chaves, o
,
zou também urna extensa história so­
herói da aviação, a Aguia dos Ares. cial de São Paulo.
No contexto internacional, a cultura Nunca será demais lembrar-pois o
européia também atravessava os im­ silêncio da crítica a este respeito é as­
passes do período pós-guena, mergu­ sustador -que o livro é uma releitura
lliando numa atmosfera twva de desen­ original do modernismo paulista, atra­
raizamento e fragmentação social,pelos vés do seu enquadramento ambíguo
efeitos ambíguos e combinados da revo­ neste cenário de dezenraizamento e
lução tecnológica, da própria guerra e fragmentação que converge, rapida­
das novas perspectivas do conhecimen­ mente, para repotencializar atitudes
to. Começava, na expressão de Arnold nacionalistas e mitos de mobilização
Schoenberg, "uma dança fúnebre dos coletiva. A Semana de 22 é caracteriza­
princípios". Descrevendo de fonna mi­ da como um tour de force de propagan­
nuciosa e sutil os choques da cultura da em favor da arte moderna em São
européia com os pressupostos do indivi­ Paulo e mais um evento entre a exten­
dualismo racionalista, da cultura ilus­ sa programação de festas cívicas que
trada e do positivismo, o livro incorpora aconteciam na cidade, inclusive com o
na nalTativa as tensas reflexões de patrocínio e incentivo do governador
Nietzsche ou Wittgenstein, calcadas no do estado. A urbanização acelerada e a
perspectiuismo, cujo escopo básico era velocidade tecnológica conjugavam-se
"demolir qualquer concepção estável ou com símbolos regressivos e arcaicos,
fechada, mantendo a mente sempre próprios de uma geração que não tinha
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mais passado, e partia numa busca Neste sentido, O/feu extático realiza
sôfrega pelas raízes tradicionais pau­ uma extensa análise da principal pro­
listas de bandeirantes, sertanejos e dução modernista, na melhor linha­
"caipiras estilizados", forjando todo um gem da historiografm cultural, pois ao
imaginário de mitos tradicionais - co­ invés de sentidos absolutos, imanentes
mo se analisa no subcapítulo intitula­ e com chaves próprias, a criação artís­
do Umjequitibá no palco. tica é vista com um conjunto vivo de
Com rara sensibilidade, procura-se práticas e eventos, síntese antitética
desmistificar a aura de ilusão presente de todo aquele imaginário, de rituali­
no gesto pretensamente inovador dos zação de fantasias coletivas, forjado na
nossos modernistas, mostrando-se que São Paulo dos anos 20.
por trás da forma, do vocabulário e do No final, a narrativa retorna à cena
repertório de imagens, subsistia a urbana, desdobrada em três atos nos
mesma tônica idealista, nativista, na­ quais se exercitaram aquela mobiliza­
cionalista e militante. Nacionalismo ção e ritualização colelivas: 1922, a cena
sim, mas não mais em confronto com o dos 18 mártires na Revolta do Forte de
cosmopolitismo, como no período de Copacabana; 1924, quando São Paulo, a
consolidação da República - tratava-se bela capital cosmopolita, é bombardea­
de uma luta entre um nacionalismo de da após a invasão das b"Op3s federais; e
matiz assimilacionista contra outro in­ 1930, quando Getúlio Vargas vem a São
transigente. Militante sim, porque Paulo e é (surpreendentemente para o
mesmo entre os artistas e escritores, próprio Getúlio) saudado por uma
predominava a faina de ver "em cada imensa multidão. Os atos, quase todos
criatura um soldado, numa guerra que de timbre órfico, criavam um clima psi­
sô admitia dois lados, o certo e o errado, cológico e social altamente propício para
o justo e o opressivo, o bem e o mal. As o surgimento de mitos e messianismos,
metáforas militares se tornam cumu­ como escreve o autor: ''O quadro todo
lativas, dominantes, sufocantes. Por como se vê, pelo que implicava de dissi­
toda a parte se fala e se repete, exaus­ pação de balizas, liberação de impulsos,
tivas vezes, em frente única, combate, incorporação estrutural da incerteza e
vitória e líder" (p.300). do fortuito, ênfase na mobilização 115ica,
Entre os artistas e poetas, poucos muscular, reflexa, inconsciente, era
conseguem manter a lucidez e a pre­ particularUlente propício para a repo­
sença de espírito e salvar-se dos riscos tencialização dessa outra entidade ar­
do naufrágio da reflexão e da crítica. caica e regressiva, o mito" (p.311).
Alguns deles são particularmente des­ Por afinidades eletivas, como bem
tacados pelo autor, como Tarsila do diz Maria Odila Dias no prefácio do
Amaral, Ribeiro Couto, Blaise Cen­ livro, Sevcenko discerne na participa­
drars, António de Alcântara Machado ção de Sérgio Buarque de Holanda no
e, sobretudo, Manuel Bandeira. Pálida modernismo um caminho radical, in­
antítese ao messianismo generalizado, dependente das mobilizações e da polí­
ardilosamente oculto em sutilezas ór­ tica tradicional, centradas na faina da
ficas, mostra-se como Bandeira conse­ remodelação orgânica e compulsiva da
guiu forjar uma poesia desprendida de cultura.
fÓtlllulas, indiferente a expectativas, O/feu extático na metrópole percor­
revelando forte empatia para com as re o caminho notável de uma reviravol­
criaturas privadas de fantasias, como­ ta historiográfica: de uma história so­
ções exaltadas ou delírios de grandeza. cial da cultura passamos para uma