Você está na página 1de 18

Pensando a Psiquiatria

AVALIANDO O TDAH

Dr. Claudio Lyra Bastos

Discussões intermináveis sobre a real natureza do chamado Transtorno do Déficit de


Atenção (TDAH) são travadas até hoje, sem que os debatedores sequer se aproximem
de qualquer consenso, sendo que muitos já se acham tão comprometidos com as suas
posições ideológicas – e mercadológicas – que a realidade clínica acaba relegada a um
segundo plano. Cada setor direciona o seu discurso e seleciona a sua clínica de acordo
com as suas convicções e interesses. Na realidade nunca ocorre entre eles nenhum
debate, nenhuma troca, mas uma simples exposição de ideias paralelas, supostamente
sobre um mesmo assunto.

A psicopatologia da atenção tem sido pouco valorizada, assim como o fato de que a
maior parte dos transtornos psiquiátricos cursa com alterações da atenção. A própria
natureza do processo atencional raramente é discutida no nível clínico, e muita gente
fala de déficit de atenção sem sequer ter uma idéia clara do que seja, realmente, a
atenção. Critérios puramente comportamentais são utilizados para o diagnóstico, sem
levar em conta as funções neuropsicológicas essenciais que estão na pauta. Em nossa
clínica vimos casos de suposto déficit - diagnosticados pelo comportamento - nos quais
havia deficiência de tudo, menos de atenção.

Seria obviamente ridículo, por exemplo, que os indivíduos com suspeita de surdez
tivessem que ser avaliados pelo seu comportamento, e não pela deficiência específica
que supostamente teriam. Imaginemos que as suas atitudes fossem computadas numa
tabelinha, e a audiometria fosse sumariamente deixada de lado. Mas isso é o que
acontece rotineiramente no caso do TDAH.

Para fomentar essa discussão, transcrevemos a seguir um estudo clínico, com o objetivo
de mostrar, através da descrição de dois casos da nossa prática diária, a essencialidade
da adequada avaliação neuropsicológica para o diagnóstico do TDAH.

Considera-se nele que o diagnóstico deve ser essencialmente clínico, o que significa que
não poderia ser feito isoladamente por nenhuma escala ou teste. Leva-se em conta que o
processo da atenção envolve uma interação complexa de funções e o déficit consiste
num quadro sindrômico, e não em uma doença específica. Além disso, em termos
nosológicos a deficiência atencional pode se manifestar como um quadro primário ou
como um sintoma secundário a vários distúrbios e circunstâncias. Por conta dessa
diferença essencial entre os sintomas comportamentais e as manifestações
essencialmente cognitivas são constatadas freqüentes contradições entre as avaliações
realizadas a partir do uso de escalas específicas como a de Benczik ou os critérios do
DSM IV e aquelas baseadas exclusivamente em critérios neuropsicológicos, como os do
WISC-III.

 
 
A AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA E O DIAGNÓSTICO DO TDAH

Cristina Lúcia Maia Coelho[1]

Claudio Lyra Bastos[2]  

Introdução

Das dificuldades associadas à origem do fracasso escolar o TDAH vem sendo


atualmente a mais amplamente divulgada na mídia. Para Luria, o processo da atenção
envolve a seleção da informação necessária, o asseguramento dos programas seletivos
de ação e a manutenção de um controle permanente sobre elas. Se não houvesse essa
seletividade a quantidade de informação seria tão desorganizada que grande parte das
atividades se tornaria impossível. Sem a inibição de todas as associações que afloram
descontroladamente, seria impossível o pensamento organizado, voltado para a solução
dos problemas colocados diante do homem. A atenção é uma função que deve ser
observada e avaliada sempre interrelacionada a outras funções psíquicas. Segundo
Bastos (2011), a afetividade e a vontade são duas outras funções psíquicas que
operacionalizam a atenção. Já a sensopercepção e a cognição são operacionalizadas pela
atenção, que seleciona os elementos perceptivos e constitui os registros mnêmicos.
Podemos admitir dois aspectos básicos da atenção, a saber: a vigilância – que se refere
ao estado de alerta para estímulos internos e externos e a tenacidade – que implica a
concentração ou o foco da consciência.

As alterações da atenção podem se de dois tipos: a hipoprosexia  que envolve um défict


global da atenção – hipovigilância e hipotenacidade – pode ocorrer nas situações de
profunda desmotivação (estados depressivos) e outros e nas disprosexias – a
hipervigilância acompanhada de hipotenacidade que ocorre em estados de alta excitação
e a hipertenacidade, acompanhada de hipovigilância em alguns quadros obsessivos.

Consideramos que o diagnóstico deve ser essencialmente clínico, o que significa que
não pode ser feito isoladamente por nenhuma escala ou teste. Somente uma avaliação
adequada, juntamente com os exames complementares e demais dados colhidos com o
paciente pode constatar a existência ou não do transtorno. Mesmo sendo inegável que
muitas crianças apresentem esse quadro – quando apropriadamente diagnosticado –
devemos levar em conta que, numa visão psicopatológica mais ampla, o processo da
atenção envolve uma interação complexa de funções, e que o déficit consiste num
quadro sindrômico, e não em uma doença específica. Assim, o déficit de atenção pode
se manifestar como um sintoma secundário a vários distúrbios e circunstâncias, e não
apenas como um transtorno primário. A dinâmica familiar, por exemplo, muitas vezes
com excessos de preocupações e eventuais conflitos, produz um impacto negativo no
desenvolvimento destas crianças levando-as a sentimentos de inadequação e
insegurança. Assim, consideramos que é imprescindível no estabelecimento de uma
estratégia terapêutica, determinar se há comorbidade com outros déficits cognitivos ou
transtornos específicos do aprendizado. O objetivo deste trabalho consiste em mostrar,
através de dois casos clínicos, a contribuição da avaliação neuropsicológica para o
diagnóstico do TDAH.
Em casos clínicos específicos de crianças em idade escolar pudemos constatar
contradições entre as avaliações realizadas a partir do uso de escalas específicas como a
de Benczik e outras baseadas em critérios neuropsicológicos no WISC-III que se
correlacionam especialmente com TDAH (Seidman e cols., 1997; Pine e cols.,1999;
Guardiola,1994) assim como nos critérios do DSM IV. Em um dos casos analisados um
déficit específico nas dimensões viso-motoras foi diagnosticado juntamente com a
confirmação do TDAH. Em outro caso, conflitos emocionais, familiares e ausência de
limites, e conseqüentemente a dificuldade em se submeter à autoridade explicavam a
desatenção e a hiperatividade. Existem ainda crianças em que a função atencional
encontra-se primariamente desequilibrada, e são essas as que respondem melhor a
terapias específicas; no entanto, são minoria.

O diagnóstico do TDAH

Problemas de desatenção, de impulsividade e de hiperatividade, podem ser observados


em diferentes quadros neuropsiquiátricos. O objetivo da avaliação neuropsicológica,
não é rotular, mas sim, qualificar a extensão do impacto na vida do paciente para melhor
poder ajudá-lo, através de uma intervenção clínica significativa. Nesse sentido, diz
Bastos (2011):

Na avaliação puramente neuropsicológica, as múltiplas vinculações das funções dificultam


a conceituação dos aspectos primários e secundários, tornando árdua a classificação
nosológica. O mesmo já não ocorre na prática clínica, onde o profissional experiente
geralmente consegue distinguir com razoável clareza o superficial do profundo e o
circunstancial do essencial. A razão disso é que nessa instância clínica a avaliação se dá
por um instrumento sensível à intencionalidade, um componente fenomenológico da
personalidade inacessível por métodos discretos ou estritamente objetivos (p. 151)

Os instrumentos que comumente utilizados no diagnóstico do TDAH são: a entrevista,


as escalas Weschler (WISC-III ou WAIS III), as técnicas grafo-projetivas, o Bender,
Escala Benzick, os critérios do DSM IV e em alguns casos a lista de REY.
Especialmente no caso de crianças em fase escolar, a entrevista clínica semi-dirigida
com o paciente e/ou familiares nos fornece uma noção a respeito das relações que estas
crianças estabelecem nos ambientes em que convive. A entrevista visa o levantamento
de dados relevantes da história de vida pessoal e familiar e, sobretudo, os significados
que a mãe ou o parente atribui a estes dados, dando a clarificação da (s) queixa (s), a
observação inicial do paciente e o levantamento de critérios significativos pelo DSM-
IV. Neste momento, é importante esclarecer quais são os comportamentos apontados
como “inadequados”, quem os percebe desta forma, e que impacto os mesmos
determinam na vida do paciente. As observações clínicas durante a testagem são
também essenciais para a análise qualitativa.
A organização do raciocínio clínico para se chegar a um diagnóstico é fundamental,
salientando-se que a clínica é sempre soberana, portanto, um sujeito pode ser
diagnosticado como TDAH, independentemente de alterações no exame neurológico,
nos exames de neuro-imagem e/ou nos testes neuropsicológicos.

Como bem colocam os autores Fletcher e Levin a avaliação neuropsicológica


geralmente se volta para a aplicação e a interpretação de um conjunto de testes que vão
medir não só uma ampla extensão das capacidades cognitivas específicas como a das
capacidades comportamentais necessárias para o funcionamento psicossocial do
individuo na família, na escola, no trabalho e na comunidade. Deve ter em foco uma
avaliação multimodal, usando vários recursos para se chegar a um conhecimento amplo
do indivíduo.

Em termos neuropsicológicos, o TDAH parece estar relacionado especificamente a uma


atribuição disfuncional que lhe vale a denominação de síndrome disexecutiva ou
minissíndrome frontal. As características diagnósticas do TDAH nas escalas Weschler
são os escores baixos encontrados nos índices de RD (Resistência à Distraibilidade),
sendo os subtestes mais comprometidos, os de Código e Dígitos. No subteste de
Labirinto do WISC-III, é freqüente que crianças com TDAH tenham resultados
inferiores e que apresentem comportamento impulsivo quando não conseguem manter o
comando de não retirar o lápis do papel e também quando partem para ação, sem
nenhum planejamento, o que amplia o número de erros. O paciente de TDAH apresenta
resultados insuficientes no subteste do WISC/WAIS-III Repetição de Dígitos (Ordem
Direta e Indireta – Escala Weschler), que avalia a atenção auditiva, a capacidade de
estocagem (“span”), a memória auditiva e a memória operacional, sendo esta última
mais presente na Ordem Indireta. Essas tarefas – Ordem Direta (OD) e Ordem Indireta
(OI) – exigem muita atenção, porém para a OD nem sempre se encontram resultados
inferiores em pacientes com TDAH. Acrescente-se também que estudos realizados
demonstraram que se o perfil rebaixado em Aritmética, em Código, em Informação e
em Dígitos (ACID) está presente, deve ser considerada a hipótese diagnóstica de um
distúrbio de atenção. Em geral, sujeitos com TDAH apresentam ainda uma discrepância
entre QI Verbal e QI Executivo, com aumento de prejuízo para área de execução.

Observam-se, clinicamente, dificuldades na praxia, na harmonia e na organização de


movimentos mais finos e digitais em sujeitos com TDAH. Fatores como impulsividade
motora, perseveração de movimentos, falha na inibição de respostas e problemas de
gerenciamento de atenção, podem justificar tais inabilidades, por isso, são freqüentes a
disgrafia e a falta de coordenação como sintomas presentes no TDAH. Percebe-se nítida
dificuldade na dinâmica da articulação futuro/presente/passado, que se mostra baseada
nos déficits da percepção e da seqüenciação do tempo. O portador de TDAH pode até
saber verbalizar o que deve ser feito, porém ele não parte para a ação de forma
planejada, pois não mantém suas representações internas e, por isso, busca um
prazer/solução imediato.

TDAH e a Linguagem

A atenção funciona como “porta de entrada” para os estímulos, que são necessários na
aquisição desde a linguagem oral, no inicio do desenvolvimento, até nas mais diversas e
complexas habilidades comunicativas, que fazem com que a interação do individuo com
seu ambiente seja adequada; é a chamada competência comunicativa, que é a esfera
mais comprometida no TDAH. O uso da linguagem pode ser considerado como um dos
componentes auxiliares na auto-regulação do comportamento que, paulatinamente, vai
evoluindo de estímulos sensoriais até o pleno desenvolvimento maturacional da
linguagem em sua expressividade e em sua compreensibilidade, como ferramentas para
gerenciar, organizar e planejar o comportamento, conseguindo manter a atenção e
controlando a impulsividade. E, como se sabe, os portadores de TDAH se beneficiam do
uso de estratégias verbais para desenvolver um auto-controle. Se a atenção interfere na
memória, esta, quando em comprometimento, também afetará todo o processo de
aprendizagem, inclusive o da linguagem. Na matemática, nos cálculos das operações
aritméticas, as alterações de atenção e das funções executivas do TDAH podem induzir
a erros como: inverter números de uma seqüência (136 ao invés de 163) apresentar
disgrafia no desenho do algarismo; esquecer de contar os reagrupamentos feitos na
adição e na multiplicação, ou então, esquecer de descontar os empréstimos na subtração;
ter dificuldade na sistematização na técnica e nas regras da divisão; não perceber dados
essenciais em enunciados matemáticos; ter dificuldade em selecionar o que deve ser
feito, inicialmente, em soluções que envolvem vários cálculos; ter comprometimento na
execução de expressões numéricas e polinômios pela desorganização espacial, pela
omissão de sinais, pela inversão da ordem, pela dificuldade no planejamento mental; ter
dificuldade em cálculo mental e na lentidão para evocação da tabuada. Quanto a estes
dois últimos fatores descritos, deve-se alertar aos educadores de que exigir cálculo
mental rápido e eficaz, em crianças com DA, é um gasto de energia e um desgaste na
relação professor-aluno desnecessário.

Outros transtornos e TDAH

Para Pacheco “... desatenção é um sintoma primário para o TDAH, mas secundário a


vários outros como: Distúrbios Específicos de Aprendizagem, Transtornos de Humor,
Quadros Epilépticos, Transtornos Ansiosos, Alterações Neuroendócrinas, Reações de
Estresse Emocional, Atrasos no Desenvolvimento, Deficiências Mentais, Síndrome de
Tourette, Espectrum Autista, Traumatismos Crânio Encefálicos...”. Há que se ter o
cuidado com o diagnóstico diferencial, pois tem sido muito freqüente recebermos, para
avaliação, crianças e jovens com hipótese diagnóstica para TDAH, quando, em
realidade, o transtorno principal é outro, embora possamos identificar déficits atentivos.
Os comprometimentos e impactos na vida do paciente são, da mesma forma,
prejudiciais, o que reforça a idéia de serem avaliados, para que as intervenções
necessárias sejam tomadas com o intuito de minimizar as alterações psicopatológicas. É
preciso lembrar que comorbidades podem ocorrer, mas deve-se sempre ter o cuidado
necessário para não ampliar demais o leque de patologias associadas.

Quanto ao perfil emocional, sabe-se que o TDAH, freqüentemente, ocorre em


associação com outros transtornos psiquiátricos, existindo uma alta porcentagem (75%)
de escolares com outras desordens psiquiátricas. Realmente, uma taxa muito alta, que
sugere uma certa reflexão  e que, clinicamente, inquieta e, ao mesmo tempo, estimula
para que se questione se tantas comorbidades podem estar associadas ao TDAH, ou não
seria este, em alguns casos, um primeiro diagnóstico, que no desenvolvimento
sintomático vai se caracterizando e se configurando como uma outra desordem e não
uma comorbidade. Ou então, uma resposta relativa frente às situações de conflito, de
impacto e de vivências de fracasso e de baixa auto-estima que podem ser secundárias
frente ao desajuste causado pelo TDAH.

Em função da complexidade da função atentiva, torna-se muito significativo que


possamos avaliar o transtorno, através de um estudo neuropsicológico com critérios
objetivos, mas dentro de uma visão contextualizada que possa considerar sua dimensão
fenomenológica. Consideramos significativas as palavras de Bastos: “Não há como se
avaliar em profundidade o fenômeno psíquico da atenção sem levar em consideração a
questão fenomenológica da intencionalidade e a questão clínica da sua relação com a
personalidade” (2011, p.146).

Caso clínico 1 - A história de Pedro

Pedro tem 8 anos e está na 2ª série do ensino fundamental, e a hipótese diagnóstica é o


TDAH. Os procedimentos utilizados na avaliação foram, a saber: entrevistas, WISC-
III, Grafismo, Escalas de TDAH (Benczik, 2000), Critérios DSM-IV e o teste  Bender-
visuomotor. O comportamento de Pedro durante as provas foi bastante elucidativo para
o diagnóstico. Pedro mostrou-se um tanto ansioso antes de iniciarmos a entrevista e a
testagem. Veio acompanhado da mãe, da avó materna, avô materno, e da irmã menor.
Sua atitude, no entanto, era de receptividade, disposição, demonstrando muita ansiedade
quando entrevistei a mãe e a avó sem a sua presença, chegando a dizer: “Vocês estão
falando mal de mim? Quero ficar, quero ouvir.” Quando a sós com a psicóloga sua
ansiedade diminuiu e se manteve interessado e disposto. Sentia-se satisfeito, mas ao
mesmo tempo muito preocupado e inseguro quanto ao desempenho e muitas vezes
perguntava: “Está certo?” mostrando necessidade de aprovação e autocrítica.
Demonstrou carinho, alegria e agitação dentro de níveis razoáveis para sua idade,
embora observássemos certa impulsividade. A mãe compareceu à entrevista com
aparência preocupada e cansada, considerando-se “estressada”; relatou que embora
formada em engenharia, optou por dedicar-se à educação do filho e aos afazeres
domésticos. De acordo com o seu relato, ao nascer, Pedro teria permanecido no CTI do
hospital com “hipoglicemia” por conta de “falta de complemento vitamínico pediátrico”
(?). Até os três meses, Pedro não dormia bem à noite, chorando demasiadamente. Na
vida escolar, embora tivesse uma adaptação complicada alfabetizou-se com facilidade.
Apresenta dificuldades em matemática por não se concentrar para fazer os deveres.
Leva muito tempo para realizar o dever de casa, mostrando-se agitado. Expressa-se bem
perante a turma, embora não tenha amigos. O seu temperamento não chega a ser
agressivo, mas se mostra um tanto explosivo, não levando “desaforo para casa”.
Consegue assistir a um filme até o final. Conflitos entre a avó e os pais em relação a
Pedro se evidenciam. Segundo a avó, o problema de Pedro se deve à atitude muito
rígida do pai, que tem origem humilde, pouca escolaridade e modestos rendimentos.
Assim, embora diga considerá-lo como um “filho”, destaca a sua insuficiência como
provedor e critica a sua atitude rígida e controladora, que estaria levando o menino
ao stress. Acrescentou que os pais não brincam com ele, preocupando-se
excessivamente com sua educação. Relatou cenas de humilhação causadas por
repreensões do pai. Pedro não é muito sociável, não tem amigos e é extremamente
organizado com seus pertences e brinquedos. René teria afirmado a respeito do pai: Ele
ganha 400 reais: Eu posso com isso?  

Resultados psicométricos - indicadores diagnósticos

WISC-III

                                                  ESCORE

 ÍNDICE                                PONDERADO    QI      PERCENTIL  CLASSIFICAÇÃO

QI VERBAL 85 144 99,8 Muito superior


QI DE EXECUÇÃO 71 129 97 Muito Superior
QI TOTAL 156 140 99,6 Muito superior

Discrepância não significativa entre os aspectos verbais e não verbais. QIV-QIE = 15

Resultados em Fatores no WISC-III[3],[4]

FATORES                                        ESCORE-PADRÃO[5] PERCENTIL     CLASSIFICAÇÃO

COMPREENSÃO VERBAL 130 98 Muito superior


ORGANIZAÇÃO PERCEPTUAL 117 87 Médio superior
RESISTENCIA À DISTRAÇÃO 113 81 Médio Superior
VELOCIDADE DE 99 47 Médio
PROCESSAMENTO

 
 

 
Avaliação

Seu desempenho superior nas escalas verbais do WISC-III como


vocabulário, semelhança, compreensão, informação e aritmética - sugere
um bom funcionamento adaptativo, revelando um alto grau de
generalização conceitual, raciocínio lógico, juízo social, conhecimento
prático das normas sociais, manejo de cálculo, armazenamento e
evocação. Este resultado se relaciona tanto com o conhecimento que
Pedro absorve espontaneamente no ambiente social e familiar como
aquele formalmente adquirido, como, por exemplo, na escola. A
distraibilidade baixa e alta capacidade de concentração ficaram
evidenciadas nos seus resultados altos em aritmética e dígito número.

O seu desempenho nas escalas de execução do WISC-III foi classificado


entre médio, médio superior e superior revelando memória visual,
concentração para detalhes, função atentiva preservada, reconhecimento
e organização visuo-espacial-motora (vale destacar que o teste de cubos
está isento de influências sócio-culturais), concentração necessária ao
significado de uma situação interpessoal, coordenação motora e controle
da impulsividade. Especialmente no teste de código-símbolo que se
relaciona com atenção seletiva e concentrada e distraibilidade, Pedro
obteve um resultado médio, um pouco abaixo do seu padrão de
desempenho. No sub-teste procurar símbolos que se relaciona
especialmente com hiperatividade (no caso de resultados baixos) e
capacidade de trabalhar sob pressão, seu resultado foi acima da média.

 
Estudo diagnóstico para TDA/H

O déficit de atenção não se evidencia pelos critérios neuropsicológicos face aos seus


resultados satisfatórios obtidos nos subtestes códigos (percentil 40), completar figuras
(percentil 99), dígitos (percentil 84) e aritmética (percentil 75) no WISC-III que se
correlacionam especialmente com TDAH (Seidman e cols., 1997; Pine e cols.,1999;
Guardiola,1994), assim com o seu resultado classificado como médio superior no fator
distraibilidade que avalia atenção e concentração. Como reforçadores do diagnóstico
temos a avaliação baseada nos critérios do DSM IV, na qual Pedro não atende aos
critérios para o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), em nenhuma
de suas tipologias. Na escala Benczik,  a avaliação da professora indicou ausência de
problemas de aprendizagem e de comportamento anti-social, mas revelou resultados
acima da expectativa para a sua faixa etária e sexo – embora não se refira ao transtorno
– nas áreas de Déficit de Atenção (percentil 80) e Hiperatividade (percentil 75).

O desempenho no Bender, avaliado na Escala de Maturação Visomotora de


Koppitz, Pedro situou-se na média, indicando nível de maturação da função gestáltica
viso-motora normal. Como se trata de um teste que envolve percepção e coordenação
neuromuscular, pressupõe-se que dependa de certas áreas intactas de integração cortical.
O seu desempenho foi ainda confrontado com um quadro de desvios Koppitz (Lezak,
1995) que indicaram ausência de transtorno no desenvolvimento neuropsicológico.

Personalidade

Pedro apresenta condições de funcionamento psíquico adequadas, apresentado


personalidade integrada, sem sinais patológicos. Demonstrou capacidade de estabelecer
trocas afetivas com relativo controle dos impulsos. Seu nível de expansão vital revelado
pelo tônus energético nas suas atitudes e na sua produção gráfica revelou-se dentro de
padrões aceitáveis para sua idade. No grafismo, apresentou sinais de confiança no seu
meio, forte identificação com a figura paterna, assim como bons vínculos afetivos com
relação aos membros da sua família (mãe e irmã), incluindo os avós. Assim, para Pedro
a figura dominante e mais valorizada na família é o pai. Revelou fantasias de
onipotência típicas de criança de sua faixa etária provavelmente na tentativa de
compensar eventuais sentimentos de menos-valia. Não foram observados sinais de
depressão ou angústia significativos. Suas necessidades parecem predominantemente
ser de busca de atenção, de proteção e de afiliação, sem tendência à evasão. Por fim,
podemos admitir que Pedro tem boas possibilidades de relacionamento interpessoal e
maturidade, garantindo sua adaptação em instituições que possa participar, assim como
seu desenvolvimento a nível cognitivo, psicoafetivo e social.

Síntese

Pedro é uma criança cuja capacidade intelectual situa-se bem acima da média quando
comparada à do seu grupo padrão, tanto na dimensão verbal quanto manipulativa. Esse
fato contribuiu para que tenha desenvolvido necessidades especiais, assim como um
nível elevado de interesse e curiosidade, com um padrão de percepção crítica da
realidade – seja física ou social – um tanto diferenciado da média para sua faixa etária.
Vale ressaltar que na avaliação nãoencontramos indícios que pudessem constatar a
presença de TDA/H, nem qualquer outro tipo de distúrbio, seja cognitivo ou
psicoafetivo. Até porque o bom desempenho escolar apresentado, coerente com os seus
resultados nos testes, torna essa hipótese pouco provável. Com relação ao seu
desenvolvimento intelectual e educacional entendemos que a abordagem pedagógica
institucional atual não se acha em condições de atender adequadamente às necessidades
de suas altas habilidades cognitivas, considerando o seu grau de maturidade emocional e
a sua dinâmica de personalidade. Nesse sentido, é possível que o comportamento
avaliado na escola (Déficit de Atenção) esteja refletindo uma certa frustração por parte
de Pedro com relação ao que lhe é disponibilizado, tanto do ponto de vista social e
cultural como intelectual. Embora nenhum transtorno específico tenha sido
caracterizado na avaliação, os dados projetivos e relacionais nos permitem entender que
as vicissitudes da dinâmica familiar, cujo núcleo se mostra em uma posição de claro
desequilíbrio – com uma figura materna em situação insatisfatória e uma imagem
paterna em papel francamente esvaziado e alijado do centro de decisões – possam se
constituir num importante elemento causal. É provável que essa precariedade no
equilíbrio afetivo familiar – com excessos de preocupações e eventuais conflitos – possa
estar tendo um impacto emocional no desenvolvimento de Pedro, levando-o a
sentimentos de inadequação e insegurança (ainda que não significativos), com
conseqüências  comportamentais importantes, conforme apontado pela avaliação da
professora. Assim, sugerimos orientação familiar, possivelmente seguida de uma
psicoterapia no sentido de se elaborar melhor os impasses e pendências emocionais nas
relações familiares. 

Caso clínico 2 -  A história de João

João tem 8 anos e cursa a alfabetização. O motivo de encaminhamento é a hipótese de


TDA/H. Os procedimentos usados na avaliação foram: Entrevista,WISC-III, Bender -
Teste Gestáltico Visuomotor e o grafismo. João mostrou-se bastante ansioso, mas sua
atitude era de receptividade, disposição, demonstrando alegria e muita impulsividade.
Pegou na mão da psicóloga e perguntava para onde iriam e porque não começavam
logo. Mostrou-se inseguro ao se separar dos pais para realização dos testes. Embora
com bastante agitação, com a solicitação firme do psicólogo, manteve-se sentado para
realizar os testes. Quando sentia alguma dificuldade, mostrava-se irritado. Mostrou-se
impaciente (dizendo: “– Estou com pressa”), porém muito afetivo, carinhoso e
ciumento. Sua expressão verbal é compreensível.Segundo a mãe, João sofreu uma
convulsão (sic) aos oito meses. Demorou a falar e não conseguiu se alfabetizar
ainda. João não se interessa pelas atividades escolares e não brinca com brinquedos, fica
muito irritado com barulho e grita por isso; não tem amigos de sua idade. Segundo
relatou a mãe, com o uso de Ritalina®, João não se mostrou mais atento e muito
sonolento. Relatou ainda que atualmente faz uso de Orap® e parece menos agitado. Seu
sono é sempre muito intranqüilo. João refere-se aos seus familiares com carinho e sabe
o nome de vários deles. Quanto à experiência na escola, fala de um amigo apenas em
especial. Informou que vê desenhos na televisão em casa. Ao perguntarmos a João em
que série ele estaria, o mesmo respondeu:  -“Estou na 2ª e na 3ª ”. Quando a mãe
interveio e disse: “Nada disso. Ele está ainda na alfa, está muito atrasado e este ano ele
precisa ser mais atento e se esforçar mais”.
 

Resultados psicométricos - indicadores diagnósticos

WISC-III

                                                  ESCORE

 ÍNDICE                                PONDERADO           QI        PERCENTIL  CLASSIFICAÇÃO

QI VERBAL 40 87 20 Médio-inferior
QI DE EXECUÇÃO 33 76 5 Limítrofe
QI TOTAL 73 80 10 Médio-inferior
-          Discrepância não significativa entre os aspectos verbais e não verbais. QIV-QIE = 7

Resultados em fatores no WISC[6],[7]

FATORES                                                   ESCORE-PADRÃO[8]      CLASSIFICAÇÃO

COMPREENSÃO VERBAL 97 MÉDIA


ORGANIZAÇÃO PERCEPTUAL 78 LIMÍTROFE
CONHECIMENTO ADQUIRIDO 92,4 MÉDIA
RETENÇÃO 78 LIMÍTROFE
DISTRAIBILIDADE 63,6 LIMÍTROFE

 
 
Avaliação

João apresenta capacidade cognitiva global abaixo da faixa de normalidade, quando


comparado com crianças de sua faixa etária, no WISC (QI total - percentil 10). A
diferença de 7 pontos, embora não significativa, entre QIV (Quociente de Inteligência
Verbal) e QVE (Quociente de Inteligência de Execução) exige alguma
consideração.  João apresenta um funcionamento conceitual em nível médio-inferior
quando os problemas são verbalmente apresentados. O QI na escala verbal foi de 87, o
que revela sua capacidade média inferior para compreensão, conceitos, informação e
vocabulário. Já na escala de execução, no entanto, que envolve a inteligência
manipulativa, seu QI foi 76, colocando-o no percentil 5 e revelando a sua limitação na
capacidade construcional, ou seja, em integrar estímulos perceptuais com respostas
motoras pertinentes. 
Quanto aos fatores, destacaram-se a compreensão verbal com escore ponderado de 97
(médio), o conhecimento adquirido com escore ponderado de 92,4 (médio). No
fator organização perceptual, seu rendimento caiu significativamente para o escore
ponderado de 78 (percentil de 6), numa posição limítrofe, o Fator retenção com escore
ponderado, igualmente limítrofe, de 78 e o Fator Distraibilidade com escore ponderado
de 63,6 (percentil 3) limítrofe.  Especificamente nas sub-escalas verbais seu
desempenho foi considerado médio a médio-inferior no que se refere a vocabulário,
informação, raciocínio lógico, juízo social e conhecimento prático. No sub-reste de
aritmética (manejo de cálculos), o seu resultado cai para abaixo da média (percentil
16).  No sub-teste de Dígitos (números) o percentil 4 mostra-se seguramente um
indicador de capacidade bastante limitada de retenção de memória imediata, situando-se
abaixo da média de crianças de sua faixa etária. Nesta dimensão estão em cena fatores
como concentração, controle de stress e de ansiedade. Nas sub-escalas de execução, o
seu desempenho variou de médio, limítrofe a deficiente. O seu QI de 76 (percentil 5 -
limítrofe) na escala de execução, refere-se à inteligência manipulativa. Podemos
considerar que João possui grau inframédio de habilidade de contato não-verbal,
portanto concreta, com o ambiente, envolvendo aspectos cognitivos visuo-espaciais e
manipulativos. Estes testes envolviam concentração para detalhes, capacidade de
organização visuo-espacial, compreensão do significado de uma situação interpessoal,
concentração e velocidade na construção do objeto assim como o julgamento das suas
implicações, determinando as prioridades e antecipando as conseqüências. Seu
desempenho nestas dimensões pode refletir certas características de personalidade,
como impulsividade, insegurança e hiperatividade. Acreditamos que a ansiedade vivida
tenha certamente comprometeu seu desempenho.  Seria ainda possível considerar que as
suas tendências impulsivas e a insegurança vivida durante a tarefa pudessem ter
reforçado estes resultados baixos. Sua coordenação motora no teste de labirinto
evidenciou seu baixo controle da impulsividade. Por fim, no teste de código revelou sua
limitada atenção seletiva e concentrada, além de baixa resistência à distraibilidade.
Assim, conjugar memória, rapidez e precisão motora pareceu uma tarefa um tanto
complexa para João.

O diagnóstico do TDAH

O déficit de atenção se evidencia pelos critérios neuropsicológicos face aos seus


resultados comprometedores nos subtestes códigos, completar figuras e dígitos no
WISC-III que se correlacionam especialmente com TDA/H (Seidman e cols., 1997;
Pine e cols.,1999; Guardiola,1994), assim como seu resultado classificado como
limítrofe no fator distraibilidade que avalia atenção e concentração. Como reforçadores
do diagnóstico temos a avaliação baseada nos critérios do DSM IV, na qual João atende
aos critérios para o Transtorno de Défict de Atenção/Hiperatividade (TDAH), tipo
combinado ou com sintomas de impulsividade. A princípio, podemos ainda descartar a
hipótese de retardo mental em função dos seus resultados nos subtestes da escala verbal
do WISC-III referentes à semelhança, vocabulário e informação. Sattler (1988)
demonstrou que o QI total pode ser estimado a partir dos resultados nos sub-testes
vocabulário e cubos. João obteve no teste de cubos percentil 50, e vocabulário 60, o que
o situa numa classificação média para crianças de sua faixa etária. Podemos admitir que
João possui um déficit significativo e específico na função construcional, ou seja,
na função visuo-perceptomotora. A função construcional combina atividade perceptiva
com respostas motoras e sempre tem um componente espacial.  Seu desempenho no
Bender, a partir do sistema de medida por categorias de Hain (Lezak, 1995) o classifica
numa área crítica que sugere lesão cerebral. Na Escala de Maturação de Koppitz, João
situou-se a 3 desvios-padrão acima da média (a avaliação é invertida), indicando baixo
nível de maturação da função gestáltica viso-motora. Como se trata de um teste que
envolve percepção e coordenação neuromuscular, pressupõe-se que dependa de certas
áreas intactas de integração cortical. Seu desempenho foi ainda confrontado com um
quadro de desvios Koppitz se caracterizando como altamente sugestivos da presença de
transtorno no desenvolvimento neuropsicológico(em oito desvios, ele apresentou 6).

Personalidade

João apresenta condições de relacionamento interpessoal razoáveis, embora com


controle emocional insuficiente, poucos recursos de controle sobre os afetos e tendência
à impulsividade com expansividade compensatória, em função de sentimentos de
inadequação. Sua expressão afetiva é adequada com sinais de sensibilidade, porém
apresentando extrema insegurança. O medo de ser abandonado e/ou rejeitado é
evidente, mantendo-o extremamente ansioso. Suas dificuldades na escola
provavelmente desenvolveram em João sentimentos de insegurança, assim como
sentimentos de menos-valia e auto-estima precários. Pudemos observar que os agentes
da família e da escola tendiam a reforçar esses sentimentos, ao interpretarem as suas
dificuldades cognitivas e a sua insuficiente dedicação às tarefas como preguiça ou como
sinal de fraco senso de responsabilidade. Nesse sentido, os seus sentimentos de
inadequação podem estar ligados ao seu histórico de dificuldades em se sentir
reconhecido e valorizado, tanto no seio familiar, no meio escolar, quanto no âmbito
social mais amplo. Suas possibilidades de contato mostraram-se restritas, algo
prejudicadas, talvez em função de conflito relacionado à inferioridade. Sua produção
gráfica revelou fantasias de onipotência provavelmente na tentativa de compensar seus
sentimentos de menos-valia, assim como indicaram sua impulsividade. Suas
necessidades parecem predominantemente ser de busca de atenção, de proteção e de
afiliação, com tendência à evasão. João não apresentou sinais psicopatológicos, sem
indícios de pensamentos bizarros ou ilógicos. Pode-se admitir que os seus índices de
integração da personalidade encontram-se em níveis aceitáveis.

Síntese

Em suma, trata-se de criança ansiosa, com intensa angústia de rejeição e desvalorização,


dotada de inteligência discretamente abaixo da média – porém dentro da faixa de
normalidade – com disfunção construcional (déficits específicos nas dimensões
percepto-motoras), na qual se manifesta um quadro sindrômico de TDA/H. Fica
evidenciado que seus sentimentos de inadequação estão ligados ao seu histórico de
dificuldades cognitivas, assim como suas necessidades manifestas em se sentir
reconhecido e valorizado. O impacto que os déficits de natureza cognitiva que
influenciam a formação da personalidade de João vêm tendo sobre o ambiente familiar
parece estar no cerne do problema, produzindo uma carga de ansiedade que só dificulta
o seu desenvolvimento. Sugerimos uma orientação familiar, para que a problemática
que se manifesta em João possa ser mais bem elaborada por todos os membros da
família, até mesmo abrindo maiores perspectivas para a psicoterapia individual. Esta
será fundamental para proporcionar um melhor processo de amadurecimento da sua
personalidade, considerando os seus níveis de insegurança e a ansiedade. Com relação
ao seu desenvolvimento intelectual e educacional sugerimos no momento uma
abordagem psicopedagógica individualizada ou em um grupo reduzido de alunos,
considerando as suas limitações cognitivas e o seu grau de maturidade emocional.

Considerações Finais

Nos casos clínicos específicos apresentados pudemos constatar contradições entre as


avaliações realizadas a partir do uso de escalas específicas como a de Benczik e outras
baseadas em critérios neuropsicológicos no WISC-III que se correlacionam
especialmente com TDAH assim como nos critérios do DSM IV. No primeiro caso
analisado, conflitos emocionais, familiares e consequentemente a dificuldade em se
submeter à autoridade explicavam a desatenção e a hiperatividade. Neste caso, a criança
tendia a refletir o ambiente emocional conturbado criado pela família e em especial pela
mãe.  A ansiedade da mãe, a frustração do pai, a atitude prepotente da avó explicam sua
aparente hiperatividade. Aqui, especificamente podemos ainda acrescentar como
agravante para o pseudo déficit de atenção, a estrutura de estímulos externos recebidos
pela criança no contexto institucional escolar, que em suas atividades propostas pouco
atraentes não tinham um significado especial e, portanto não chegavam a despertar
interesse de Pedro. Vale aqui lembrar que esta mesma criança, esteve durante a
realização dos testes extremamente motivada e atenta. 

No segundo caso, o déficit de atenção se manifestou associado a outro tipo específico de


déficit importante. O TDAH evidenciou-se pelos critérios neuropsicológicos face aos
seus resultados comprometedores nos subtestes códigos, completar figuras e dígitos no
WISC que se correlacionam especialmente com TDAH, assim como seu resultado
classificado como limítrofe no fator distraibilidade. Como reforçadores do diagnóstico
temos a avaliação baseada nos critérios do DSM IV, TDAH tipo combinado com
sintomas de impulsividade. Neste caso, descartamos a hipótese de retardo mental em
função dos seus resultados nos subtestes da escala verbal que envolviam capacidade de
abstração e memória do WISC como semelhança, vocabulário e informação e cubos que
se relacionam com o QI Total. No entanto, foi observado um déficit significativo e
específico na função construcional, ou seja, na função perceptomotora  e  baixo nível
de maturação da função gestáltica visuomotora. 

Em suma, consideramos que os fatores que determinam o sentido e o volume da atenção


situam-se entre as peculiaridades dos estímulos externos – ou seja, a estrutura
psicológica da atividade – que atuam sobre o homem e as dimensões singulares da
história individual de cada sujeito, como suas necessidades, sua dinâmica subjetiva que
vão determinar suas motivações. Assim, o interesse forte do homem, torna alguns sinais
dominantes e inibe simultaneamente sinais secundários que não pertencem ao seu
campo de interesse. Nesse sentido, concluímos que a atenção depende essencialmente
da afetividade e da vontade.
Por fim, não podemos descartar como hipótese diagnóstica – ainda que não tão
freqüente – dos quadros em que a função atencional das crianças encontra-se
primariamente desequilibrada, e são exatamente essas as que respondem melhor à
terapias específicas. No entanto, são minoria, face à grande demanda dos quadros
ansiosos, depressivos e deficitários. Como a mídia vem tendendo a divulgar a versão de
que o TDA/H seria uma doença cerebral específica cujo tratamento se daria quase que
exclusivamente através de drogas, tende a criar nas famílias e nos agentes da escola uma
forte expectativa de resolver a questão do baixo desempenho escolar de forma
imediatista e simplória.