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Manual de Curso de Licenciatura em Administração

Pública

EdO166 – Teoria Geral


de Estado e Relações
Internacionais

Universidade Católica de Moçambique


Centro de Ensino à Distância
CED
Direitos de autor (copyright)
Este manual é propriedade da Universidade Católica de Moçambique, Centro de Ensino à Distância
(CED) e contém reservados todos os direitos. É proibida a duplicação ou reprodução deste manual, no
seu todo ou em partes, sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (electrónicos, mecânico,
gravação, fotocópia ou outros), sem permissão expressa de entidade editora (Universidade Católica de
Moçambique  Centro de Ensino à Distância). O não cumprimento desta advertência é passível a
processos judiciais.

Elaborado Por: dr. Paulo Domingos Muenda Muerembe

Licenciado em Administração Pública e Pós-Graduado em Ciência Política, Governação e Relações


Internacionais.

Revisado Por: Filomena Simoni Camurai


Licenciada em Economia, Pós-Graduado em Ciência Política,

Governação e Relações Internacionais,

Mestrada em Gestão e Administração de Empresas (MBA).

Universidade Católica de Moçambique


Centro de Ensino à Distância-CED
Rua Correira de Brito No 613-Ponta-Gêa·
Moçambique-Beira
Telefone: 23 32 64 05
Cel: 82 50 18 44 0

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E-mail: ced @ ucm.ac.mz
Website: www. ucm.ac.mz
Agradecimentos
A Universidade Católica de Moçambique - Centro de Ensino à Distância e o autor do presente manual,
dr. Paulo Domingos Muenda Muerembe, gostaria de agradecer a colaboração dos seguintes indivíduos
e instituições na elaboração deste manual:
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais i

Índice
Visão geral 1
Benvindo a HISTÓRIA DAS SOCIEDADES II. A Colocação do Homem no centro da
atenção e o Renascimento Cultural ................................................................................ 1
Objectivos da cadeira .................................................................................................... 1
Quem deveria estudar este módulo ................................................................................ 2
Como está estruturado este módulo................................................................................ 2
Ícones de actividade ...................................................................................................... 3
Acerca dos ícones ........................................................................................ 3
Habilidades de estudo .................................................................................................... 3
Precisa de apoio? ........................................................................................................... 4
Tarefas (avaliação e auto-avaliação) .............................................................................. 5
Avaliação ...................................................................................................................... 6

Unidade I - TEORIA GERAL DO ESTADO 7


Introdução………………………………………………………………………………….
1. O Estado: a sua recente evolução.....................................................................................
1.1. Evolução dos modelos de Estado, em particular, do Estado liberal aos nossos dias..........
1.2. Fragmentação do Estado: internacionalização, globalização e integração regional..........
2. Estrutura constitucional do Estado..................................................................................
2.1. Elementos do Estado: o povo, o território e o poder político.........................................
2.1.1. Povo e cidadania..............................................................................................
2.2.1.1. Delimitação dos conceitos.................................................................
2.1.2. Território........................................................................................................
2.2.2.1. Definição e elementos componentes.................................................
2.2.2.1. Composição e limites do território moçambicano..............................
2.1.3. Poder político.................................................................................................
2.2.3.1.Poder político do Estado e outras modalidades do poder político.....
2.2.3.2. A soberania na ordem internacional e na ordem interna...................
2.2.3.3. A soberania na Constituição moçambicana..................................
2.2. Formas de Estado.............................................................................................................
2.2.1. Tipologia das formas de Estado: Estado unitário, Estado federal, e Estado
regional................................................................................................................
2.2.2. A forma do Estado moçambicano................................................................
2.2.3. Descentralização e poder local na Constituição moçambicana........................
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais ii

Sumário ....................................................................................................................... 34
Exercícios.................................................................................................................... 34

Unidade II - SISTEMAS DE GOVERNO E SISTEMAS ELEITORAIS 36


Introdução………………………………………………………………………...
1. Sistemas de governo: principais classificações……………………………………
2. Eleições e sistemas eleitorais.........................................................................
2.1. Representação política e eleição…………………………………………………….
2.2. Eleição e referendo…………………………………………………………………..
2.3. Sufrágio: noção e classificações………………………………………………….
2.4. Sistemas eleitorais: noção e classificações…………………………………….
2.5. O sistema eleitoral da República de Moçambique……………………………………Erro!
Marcador não definido.
Sumário............................................................................................................................. 48
Exercícios.......................................................................................................................... 49

Unidade III - ECONOMIA INTERNACIONAL 50


Introdução
1. As bases teóricas do Comércio Livre Internacional
a. Adam Smith e os proveitos do comércio livre
b. David Ricardo e as vantagens comparativas
2. Teorias do Comércio Internacional
a. Factores produtivos e vantagem comparativa: o modelo Heckscher-Ohlin-
Samuelson
b. Robert Torrens e o problema dos termos de troca
c. John Stuart Mill e o problema das indústrias nascentes
d. Keynes e o proteccionismo macroeconómico
e. Concorrência imperfeita e economias de escala
Sumário ....................................................................................................................... 62
Exercícios.................................................................................................................... 62

Unidade IV - DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO 64


Introdução………………………………………………………………………………
1. Fontes de Direito Internacional
a. Fontes em geral
b. Os tratados
c. Conclusão dos tratados em Moçambique
2. As normas de Direito Internacional
a. Regras e princípios
b. Interpretação, integração e aplicação
3. Sujeitos de Direito Internacional
a. Sujeitos em geral
b. Os Estados
c. As Organizações Internacionais
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais iii

i. A ONU
ii. A União Africana
iii. O GATT/OMC

Sumário ....................................................................................................................... 92
Exercícios.................................................................................................................... 92

Unidade V - TEORIA DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS I 94


Introdução………………………………………………………………………………
1. Introdução à disciplina e principais conceitos………………………………………
Introdução às Relações Internacionais: Teoria e História
Linguagem e principais conceitos
Os actores internacionais e os tipos de Relações Internacionais
A questão dos níveis de análise: o Indivíduo, o Estado e o Sistema
2. A Primeira Guerra Mundial e a Escola Liberal-Idealista
A tradição liberal das Relações Internacionais
Os 14 pontos de Wilson e o Princípio da Segurança Colectiva
3. A Escola Realista e a Guerra-Fria
Edward Carr e a Crítica ao Idealismo
H. Morgenthau e o Segundo Consenso Realista
G. Kennan e a Doutrina da Contenção
Sumário…………………………………………………………………………………
Exercícios………………………………………………………………………………..

Unidade VI - TEORIA DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS II 128


Introdução ........................................................................................................ 128
1. Interdependência, Poder e Informação………………………………………………
Robert Keohane e Joseph Nye e a Interdependência Complexa…………….
A Revolução da Informação e a transformação do Poder Internacional
2. O Neo-Realismo
Kenneth Waltz e a Teoria das Relações Internacionais
Robert Gilpin e as Relações Económicas Internacionais
3. À procura de uma nova teoria dominante
Alexander Wendt e a Anarquia como construção
Fukuyama e o Fim da História
Samuel Huntington e o Choque das Civilizações
Robert Kagan, o Poder e o Paraíso
R. Haas e o Mundo Não-polar
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais iv

Sumário ..................................................................................................................... 153


Exercícios.................................................................................................................. 153

Unidade VII - COOPERAÇÃO E INTEGRAÇÃO ECONÓMICA 155


Introdução.....................................................................................................................
1. A cooperação económica regional ........................... Erro! Marcador não definido.
a. O papel da ONU ............................................... Erro! Marcador não definido.
b. A cooperação da União Europeia com os Países em Desenvolvimento...............
c. Os Sistemas Generalizados de Preferências Comerciais no quadro do African
Growth and Opportunity Act (AGOA) e Tudo memos armas...........................
2. Integração Económica Regional………………………………………………
Fases de integração……………………………………………………………..
3. Integração Regional em África
Integração Regional em África – breve estudo………………………………..
Comunidades Económicas Regionais na África Austral……………………..
A COMESA e a SADC
Sumário ..................................................................................................................... 194
Exercícios.................................................................................................................. 194
Referências Bibliográficas ......................................................................................... 196
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 1

Visão geral
Benvindo ao Módulo sobre a
Teoria Geral de Estado e Relações
Internacionais

Objectivos da cadeira
Quando terminar o estudo sobre a Teoria Geral de Esado e Relações
Internacionais; o cursante será capaz de:

 Definir o conceito Estado;


 Indentificar os factores de surgimento de Estado;
 Identificar a estrutura constitucional do Estado;
Objectivos
 Identificar e explicar as formas de Estado;
 Identificar e classificfar os vários sistemas de governo;
 Conceituar os termos eleição e referendo
 Definir e classificar os tipos de sufrágio;
 Identificar e Explicar os vários sistemas eleitorais;
 Identificar os sistemas de governo e eleitoral vigente na Repúblicade
Moçambique;
 Identificar as teorias do Comércio Livre;
 Analisar os pressupostos básicos das teorias do Comércio
Internacional segundo autores vários;
 Identificar e classificar as fontes de Direito Internacional;
 Explicar e analisar a natureza dos vários tipos de tratados
internacionais;
 Identificar e explicar as normas de Direito Internacional;
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 2

 Identificar os sujeitos de Direito Internacional e explicar a natureza


das Organizações internacionais.

Quem deveria estudar este


módulo
Este Módulo foi concebido para todos aqueles estudantes que queiram ser
professores da disciplina de História, que estão a frequentar o curso de
Licenciatura em Ensino de História, do Centro de Ensino a Distancia.
Estendese a todos que queiram consolidar os seus conhecimentos sobre
a História das sociedades.

Como está estruturado este


módulo
Todos os módulos dos cursos produzidos por Universidade Católica de
Moçambique - Centro de Ensino a Distância encontram-se estruturados
da seguinte maneira:

Páginas introdutórias
 Um índice completo.
 Uma visão geral detalhada do curso / módulo, resumindo os
aspectos-chave que você precisa conhecer para completar o estudo.
Recomendamos vivamente que leia esta secção com atenção antes de
começar o seu estudo.

Conteúdo do curso / módulo


O curso está estruturado em unidades. Cada unidade incluirá uma
introdução, objectivos da unidade, conteúdo da unidade incluindo
actividades de aprendizagem, um summary da unidade e uma ou mais
actividades para auto-avaliação.

Outros recursos
Para quem esteja interessado em aprender mais, apresentamos uma lista
de recursos adicionais para você explorer. Estes recursos podem incluir
livros, artigos ou sites na internet.

Tarefas de avaliação e/ou Auto-avaliação


Tarefas de avaliação para este módulo encontram-seno final de cada
unidade. Sempre que necessário, dão-se folhas individuais para
desenvolver as tarefas, assim como instruções para as completar. Estes
elementos encontram-se no final do modulo.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 3

Comentários e sugestões
Esta é a sua oportunidade para nos dar sugestões e fazer comentários
sobre a estrutura e o conteúdo do curso / módulo. Os seus comentários
serão úteis para nos ajudar a avaliar e melhorar este curso / modulo.

Ícones de actividade
Ao longo deste manual irá encontrar uma série de ícones nas margens das
folhas. Estes icones servem para identificar diferentes partes do processo
de aprendizagem. Podem indicar uma parcela específica de texto, uma
nova actividade ou tarefa, uma mudança de actividade, etc.

Acerca dos ícones


Os ícones usados neste manual são símbolos africanos, conhecidos por
adrinka. Estes símbolos têm origem no povo Ashante de África
Ocidental, datam do século 17 e ainda se usam hoje em dia.

Habilidades de estudo
Durante a formação, para facilitar a aprendizagem e alcançar melhores
resultados, implicará empenho, dedicação e disciplina no estudo. Isto é, os
bons resultados apenas se conseguem com estratégias eficazes e por isso é
importante saber como estudar. Apresento algumas sugestões para que
possa maximizar o tempo dedicado aos estudos:

Antes de organizar os seus momentos de estudo reflicta sobre o ambiente


de estudo que seria ideal para si: Estudo melhor em
casa/biblioteca/café/outro lugar? Estudo melhor à noite/de manhã/de
tarde/fins-de-semana/ao longo da semana? Estudo melhor com
música/num sítio sossegado/num sítio barulhento? Preciso de um intervalo
de 30 em 30 minutos/de hora a hora/de duas em duas horas/sem
interrupção?

É impossível estudar numa noite tudo o que devia ter sido estudado
durante um determinado período de tempo; Deve estudar cada ponto da
matéria em profundidade e passar só ao seguinte quando achar que já
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 4

domina bem o anterior. É preferível saber bem algumas partes da matéria


do que saber pouco sobre muitas partes.

Deve evitar-se estudar muitas horas seguidas antes das avaliações, porque,
devido à falta de tempo e consequentes ansiedade e insegurança, começa a
ter-se dificuldades de concentração e de memorização para organizar toda
a informação estudada. Para isso torna-se necessário que: Organize na sua
agenda um horário onde define a que horas e que matérias deve estudar
durante a semana; Face ao tempo livre que resta, deve decidir como o
utilizar produtivamente, decidindo quanto tempo será dedicado ao estudo e
a outras actividades.

É importante identificar as ideias principais de um texto, pois será uma


necessidade para o estudo das diversas matérias que compõem o curso: A
colocação de notas nas margens pode ajudar a estruturar a matéria de
modo que seja mais fácil identificar as partes que está a estudar e Pode
escrever conclusões, exemplos, vantagens, definições, datas, nomes, pode
também utilizar a margem para colocar comentários seus relacionados
com o que está a ler; a melhor altura para sublinhar é imediatamente a
seguir à compreensão do texto e não depois de uma primeira leitura;
Utilizar o dicionário sempre que surja um conceito cujo significado
desconhece;

Precisa de apoio?
Caro estudante, temos a certeza que por uma ou por outra situação, o
material impresso, lhe pode suscitar alguma dúvida (falta de clareza,
alguns erros de natureza frásica, prováveis erros ortográficos, falta de
clareza conteudística, etc). Nestes casos, contacte o tutor, via telefone,
escreva uma carta participando a situação e se estiver próximo do tutor,
contacteo pessoalmente.

Os tutores tem por obrigação, monitorar a sua aprendizagem, dai o


estudante ter a oportunidade de interagir objectivamente com o tutor,
usando para o efeito os mecanismos apresentados acima.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 5

Todos os tutores tem por obrigação facilitar a interacção, em caso de


problemas específicos ele deve ser o primeiro a ser contactado, numa fase
posterior contacte o coordenador do curso e se o problema for de natureza
geral. Contacte a direcção do CED, pelo número 825018440.

Os contactos só se podem efectuar, nos dias úteis e nas horas normais de


expediente.

As sessões presenciais são um momento em que você caro estudante, tem


a oportunidade de interagir com todo o staff do CED, neste período pode
apresentar duvidas, tratar questões administrativas, entre outras.

O estudo em grupo, com os colegas é uma forma a ter em conta, busque


apoio com os colegas, discutam juntos, apoiemse mutuamente, reflictam
sobre estratégias de superação, mas produza de forma independente o seu
próprio saber e desenvolva suas competências.

Tarefas (avaliação e auto-


avaliação)
O estudante deve realizar todas as tarefas (exercícios, actividades e
autoavaliação), contudo nem todas deverão ser entregues, mas é
importante que sejam realizadas. As tarefas devem ser entregues antes do
período presencial.

Para cada tarefa serão estabelecidos prazos de entrega, e o não


cumprimento dos prazos de entrega, implica a não classificação do
estudante. Os trabalhos devem ser entregues ao CED e os mesmos devem
ser dirigidos ao tutor\docentes. Podem ser utilizadas diferentes fontes e
materiais de pesquisa, contudo os mesmos devem ser devidamente
referenciados, respeitando os direitos do autor.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 6

O plágio deve ser evitado, a transcrição fiel de mais de 8 (oito) palavras de


um autor, sem o citar é considerado plagio. A honestidade, humildade
científica e o respeito pelos direitos autoriais devem marcar a realização
dos trabalhos.

Avaliação
Você será avaliado durante o estudo independente (80% do curso) e o
período presencial (20%). A avaliação do estudante é regulamentada com
base no chamado regulamento de avaliação. Os trabalhos de campo por ti
desenvolvidos, durante o estudo individual, concorrem para os 25% do
cálculo da média de frequência da cadeira.

Os exames são realizados no final da cadeira e durante as sessões


presenciais, eles representam 60%, o que adicionado aos 40% da média de
frequência, determinam a nota final com a qual o estudante conclui a
cadeira. A nota de 10 (dez) valores é a nota mínima de conclusão da
cadeira. Nesta cadeira o estudante deverá realizar 3 (três) trabalhos, 2
(dois) teste e 1 (um) exame. Não estão previstas quaisquer avaliação oral.

Algumas actividades praticas, relatórios e reflexões serão utilizadas como


ferramentas de avaliação formativa. Durante a realização das avaliações,
os estudantes devem ter em consideração a apresentação, a coerência
textual, o grau de cientificidade, a forma de conclusão dos assuntos, as
recomendações, a identificação das referências utilizadas, o respeito pelos
direitos do autor, entre outros. Os objectivos e critérios de avaliação estão
indicados no manual. Consulte-os.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 7

Unidade I
Teoria Geral de Estado

Introdução
Nesta unidade pretende-se que os estudantes tenham conhecimentos
sólidos sobre a figura jurídica e política do Estado, seus elementos, suas
formas etc.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Definir o conceito Estado;


 Indentificar os factores de surgimento de Estado;
Objectivos  Identificar a estrutura constitucional do Estado;
 Identificar e explicar as formas de Estado;

1. O Estado: a sua recente evolução

1.1. Evolução dos modelos de Estado – Do Estado Liberal ao Clássico

A origem do vocábulo ESTADO1 diverge da origem do fenómeno


ESTADO, para o qual existem diversas teorias explicativas, muitas das
quais não conclusivas. O Estado como é conhecido hoje é um fenômeno
recente, cujas características, objectivos e implicações são pontos de
constante divergências entre as concepções liberais, neoliberais e
clássica.

1
Do latim STATUS, que significa está forte.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 8

Os juristas, principalmente os positivistas, tendem a conceber o Estado


em sua forma reducionista e limitada, enfatizando muitas vezes apenas
seus componentes jurídicos. Normalmente concebem o Estado “como a
ordem jurídica soberana, que tem por fim o bem comum de um povo
situado em um determinado território” (DALLARI, 1972:104 citado
por PERREIRA, 2002:14), ou como uma “organização política sob a
qual vive o homem moderno...caracterizando-se por ser a resultante de
um povo vivendo sobre um território delimitado e governado por leis que
se fundam, não sobrepujado por nenhum outro externamente e
supremo internamente” (BASTOS, 1995:10 citado por Ibidem).

Duas correntes para o fundamento das definições jurídicas: (1) prioriza a


compreensão do Estado como um agrupamento humano organizado em
um determinado espaço (território), enquanto a (2) prioriza a
organização normativa do Estado. Para essas correntes do pensamento
priorizam-se sempre os elementos constitutivos do Estado, ou seja, o
povo, o território e o poder político.

Mas, em seu conhecido livro Teoria Geral do Estado, Darcy Azambuja


ensina que Estado é uma criação humana destinada a manter a
coexistência pacífica dos indivíduos, a ordem social, de forma que os
seres humanos consigam se desenvolver, e proporcionar o bem estar a
toda sociedade.

É o Estado o responsável por dar força de imposição ao Direito, pois é


ele que detém o papel exclusivo de aplicar as penas previstas pela Ordem
Jurídica. Assim o Estado pode ser definido como o exercício de um poder
político, administrativo e jurídico, exercido dentro de um determinado
território, e imposto para aqueles indivíduos que ali habitam.

Porém, na visão politico-administrativo Estado é o conjunto de


instituições que tem autoridade de fazer regras que governam as
sociedades monopolizando a legitimidade do uso da força como um meio
de dominação dentro dum território. Aparentemene situado acima da
sociedade e por delegação dos cidadãos tem a missão da regulação social
do bem comum dos cidadãos. Todavia, ele também é atravessado pelas
diferenças que a sociedade comporta.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 9

1.2. A Formação do Estado – causas determinantes do surgimento do


Estado

- Formação ORIGINÁRIA e DERIVADA dos Estados

 FORMAÇÃO ORIGINÁRIA DOS ESTADOS - parte de


agrupamentos humanos ainda não integrados em qualquer
Estado.
 FORMAÇÃO DERIVADA - formação de novos Estados a partir
de outros preexistentes.
 Como é evidente, nos dias actuais, é muito pouco provável que se
possa assistir à formação originária de um Estado.

- Têm-se dois grandes grupos de teorias que procuram explicar a


FORMAÇÃO ORIGINÁRIA DO ESTADO, a saber:

 Teorias que afirmam a formação natural ou espontânea do


Estado, onde todas têm em comum a afirmação de que o Estado
se formou naturalmente, não por um ato puramente voluntário;
 Teorias que sustentam a formação contratual dos Estados,
apresentando em comum, a crença em que foi a vontade dos
homens, que levou à criação do Estado.

- No tocante às causas determinantes do aparecimento do Estado, as


teorias não-contratualistas mais expressivas são:

 Origem familial ou patriarcal - essas teorias situam o núcleo


social fundamental na família. Cada família primitiva se
ampliou e deu origem a um Estado.
 Origem em actos de força, de violência ou de conquista - essas
teorias sustentam, que a superioridade de força de um grupo
social permitiu-lhe submeter um grupo mais fraco, nascendo o
Estado dessa conjunção de dominantes e dominados.

Para Oppenheimer, Estado foi criado para regular as relações


entre vencedores e vencidos.

 Origem em causas económicas ou patrimoniais - o Estado


teria sido formado para se aproveitarem os benefícios da divisão
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 10

do trabalho, integrando-se as diferentes actividades


profissionais, caracterizando-se assim, o motivo económico.

Entre as teorias que sustentam a origem do Estado por motivos


económicos, a de maior repercussão prática foi e continua sendo a de
MARX e ENGELS.

Além de negar que o Estado tinha nascido com a sociedade,


ENGELS afirma que ele “é antes um produto da sociedade, quando ela
chega a determinado grau de desenvolvimento”.

A crença nessa origem tem reflexo imediato em dois pontos


fundamentais da teoria marxista do Estado: a qualificação deste como
um instrumento da burguesia para exploração do proletariado e afirmação
de que, não tendo existido nos primeiros tempos da sociedade humana, o
Estado poderá ser extinto no futuro, uma vez que foi uma criação
puramente artificial para satisfação dos interesses de uma pequena
minoria.

 Origem no desenvolvimento interno da sociedade - o Estado é


um germe, uma potencialidade, em todas as sociedades
humanas, as quais, todavia, prescindem dele enquanto se mantêm
simples e pouco desenvolvidas.

Aquelas sociedades, porém, que atingem maior grau de


desenvolvimento e alcançam uma forma complexa têm absoluta
necessidade do Estado, e então ele se constitui.

Não há, portanto, a influência de factores externos à sociedade,


inclusive de interesses de indivíduos ou de grupos, mas é o próprio
desenvolvimento espontâneo da sociedade que dá origem ao Estado.

- A criação do Estado por formação derivada se dá através de dois


processos típicos opostos, ambos igualmente usados na actualidade, que
dão origem a novos Estados:

FRACIONAMENTO - quando uma parte do território de um


Estado se desmembra e passa a constituir um novo Estado (ex. territórios
coloniais que, com a conquista da independência, por via pacífica ou
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 11

violenta, ocorre o desmembramento e a consequente criação de novos


Estados por formação derivada; decorrente de movimentos separatistas).

O Estado que teve seu território diminuído pelo fracionamento


continua a existir, só se alterando a extensão territorial e o número de
componentes do povo, uma vez que uma parcela deste sempre se integra
no Estado recém-constituído.

A parte desmembrada, que passou a constituir um novo Estado,


adquire uma ordenação jurídica própria, passando a agir com
independência, inclusive no seu relacionamento com o Estado do qual se
desligou.

UNIÃO DOS ESTADOS - implica a adoção de uma


Constituição comum, desaparecendo os Estados preexistentes que
aderiram à União (ex. federações).

Nesse caso, dois ou mais Estados resolvem unir-se, para compor


um novo Estado, perdendo sua condição de Estados a partir do momento
em que se completar a união e integrando-se, a partir daí, no Estado
resultante.

- Criação de novos Estados por formas atípicas, não-usuais e


absolutamente imprevisíveis.

Depois de grandes guerras as potências vencedoras, visando a


assegurar o enfraquecimento permanente dos países vencidos, ou
procurando ampliar seu próprio território procedem a uma alteração dos
quadros políticos, não raro promovendo a criação de novos Estados, em
partes de território de um ou mais vencidos.

Um fenômeno atípico ocorrido no século XX foi a criação de


dois Estados alemães – a República Democrática Alemã e a República
Federal Alemã -, em lugar do único Estado alemão existente antes da II
Guerra Mundial. Terminada a guerra, em 1945, a Alemanha vencida tinha
seu território ocupado pelos vencedores, a União Soviética, no lado
oriental, e os Estados Unidos capitalistas, no lado ocidental. No ano de
1949, a situação de ocupação foi substituída pela criação de dois novos
Estados, a República Democrática Alemã e a República Federal da
Alemanha, o que perdurou até 1989, quando ocorreu a reunificação da
Alemanha.

- Momento em que se considera criado um novo Estado


EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 12

Quanto ao momento em que se considera criado um novo


Estado, não há uma regra uniforme.

Evidentemente, a maneira mais definida de se afirmar a criação é


o reconhecimento pelos demais Estados.

Todavia, o reconhecimento não é indispensável, sendo mais


importante que o novo Estado, apresentando todas as características que
são comuns aos Estados, tenha viabilidade, conseguindo agir com
independência e manter, internamente, uma ordem jurídica eficaz.

A classificação de estados admite várias acepções de acordo com autores


vários mas para melhor compreensão, dividiremos a tipoligia de estados
em dois grandes grupos:

a) Estado Antigo

 Não reconhecido internacionalmente (não havia lei


internacional);
 Zonas fronteiriças patrulhadas e fortificadas;
 Nações capturadas pagavam tributes;
 Formação antiga e sem divisão territorial;
 Estrutura política menos centralizada.

b) Estado Moderno

 Reconhecido internacionalmente desde 1648 2.


 Linhas fronteiriças rígidas;
 Ideologia de uma nação-estado;
 Estrutura política altamente centralizado;
 Estados muito novos.

2. Estrutura constitucional do Estado

2
Vide o Tratado de WestPhalia que faz referência a guerra dos 30 anos e a
inauguração do novo modelo de relações internacionais, onde que foram
legitimadas as fronteiras (apenas as europeias), reconhecimento entre estados,
declaração de uso da força em cada estado. O resultado foi o surgimento de
estados com grande poderio military, levando-os a se reconhecerem mutuamente
como potências.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 13

2.1. Elementos do Estado

O Estado é uma organização política constituído pelos seguintes


elementos:

 População;
 Território e;
 Poder Político.

- População: entende-se pela reunião de indivíduos num determinado


local, submetidos a um poder central. O Estado vai controlar essas
pessoas, visando, através do Direito, o bem comum. A população
pode ser classificada como nação, quando os indivíduos que
habitam o mesmo território possuem como elementos comuns a
cultura, língua, a religião e sentem que há, entre eles, uma
identidade; ou como povo, quando há reunião de indivíduos num
território e que apesar de se submeterem ao poder de um Estado,
possuem nacionalidades, cultura, etnias e religiões diferentes.
- Território: espaço geográfico onde reside determinada população.
É limite de actuação dos poderes do Estado. Vale dizer que não
poderá haver dois Estados exercendo seu poder num único
território, e os indivíduos que se encontram num determinado
território estão obrigados a se submeterem.
- Soberania: é o exercício do poder do Estado, interna e
externamente. O Estado, dessa forma, deverá ter ampla liberdade
para controlar seus recursos, decidir os rumos políticos, econômicos
e sociais internamente e não depender de nenhum outro Estado ou
órgão internacional. A essa autodeterminação do Estado dá-se o
nome de soberania.

2.1.1. Povo e Cidadania

Do ponto de vista do Direito Constitucional moderno povo é o conjunto


dos cidadãos de um país, ou seja, as pessoas que estão vinculadas a um
determinado regime jurídico, a um estado. Um povo está normalmente
associado a uma nação e pode ser constituído por diferentes etnias e
Cidadania é o conjunto de direitos e deveres ao qual um indivíduo está
sujeito em relação à sociedade em que vive.

O conceito de cidadania sempre esteve fortemente "ligado" à noção de


direitos, especialmente os direitos políticos, que permitem ao indivíduo
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 14

intervir na direcção dos negócios públicos do Estado, participando de


modo directo ou indireto na formação do governo e na sua administração,
seja ao votar (directo), seja ao concorrer a um cargo público (indirecto).
No entanto, dentro de uma democracia, a própria definição de Direito,
pressupõe a contrapartida de deveres, uma vez que em uma colectividade
os direitos de um indivíduo são garantidos a partir do cumprimento dos
deveres dos demais componentes da sociedade.

Pois, de acordo com Benevides (4) “Cidadania e direitos da cidadania


reflectem a uma determinada ordem jurídico-política de um país,
de um Estado, no qual uma Constituição define e garante
quem é cidadão, que direitos e deveres ele terá em função de uma série de
variáveis tais como a idade, o estado civil, a condição de sanidade física e
mental, o fato de estar ou não em dívida com a justiça penal etc. A
idéia da cidadania é eminentemente política desligada dos valores
universais, mas a decisões políticas. Um determinado governo, por
exemplo, pode modificar radicalmente as prioridades no que diz respeito
aos deveres e aos direitos do cidadão; pode modificar, por exemplo, o
código penal no sentido de alterar sanções; pode modificar o código
civil no sentido de equiparar direitos entre homens e mulheres, pode
modificar o código de família no que diz respeito aos direitos e deveres
dos cônjuges, na sociedade conjugal, em relação aos filhos, em
relação um ao outro. Pode estabelecer deveres por um determinado
período, por exemplo, àqueles relativos à prestação do serviço militar.
Tudo isso diz respeito à cidadania.”

Logo, povo existe quando os direitos plenos são salvaguardados.

2.1.2. Território

O Território é um dos elementos essenciais para a constituição do Estado,


pois é sua base física, sendo reconhecido, pela maioria dos autores, como
elemento indispensável do Estado.

O conceito de território, como componente do Estado, somente aparece


com o Estado Moderno. Entretanto não há que se falar, que os Estados
Antigos, Grego, Romano e Medieval, não tivessem território. O que
ocorre é que a concepção do termo surge no Estado Moderno.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 15

As Cidades-Estados eram limitadas ao centro urbano, sem conflitos de


fronteiras. Na Idade Média, com a estrutura de poder existente (feudos e
reino), gerando conflitos entre ordens e autoridades, foi necessário uma
definição de soberania (indicação de poder) e de território (indicação
onde o poder actuava).

A limitação da soberania sobre determinado território, estabeleceu uma


eficácia de poder e estabilidade da ordem jurídica.3

2.2.2.1 Definição e elementos componentes

Pedro Calmon: “é a base física, o âmbito geográfico da Nação, onde


ocorre a validade de sua ordem jurídica”

Celso Bastos: “é o espaço no qual o Estado exerce sobre as pessoas que


ali se encontram o seu poder” 4;

Darcy Azambuja: “é a base física, a porção do globo por ele ocupada, que
serve de limite à sua jurisdição e lhe fornece recursos materiais” 5;

R.A.Amaral Vieira: “é o espaço pelo qual o Estado tem soberania, isto é,


exerce jurisdição”6 ;

Sahid Maluf: “é a base física, o âmbito geográfico da nação, onde ocorre


a validade da sua ordem jurídica”7.

Kelsen: “a unidade territorial do Estado é uma unidade jurídica, não


geográfica ou natural, porque o território do Estado, na verdade, nada
mais é que a esfera territorial de validade da ordem jurídica chamada
Estado”8

3
DALLARI, Dalmo de Abreu. Op. cit. P. 86.
4
BASTOS, Celso Ribeiro. Comentários à Constituição do Brasil, vol. 1. São
Paulo. Saraiva. 1988.p. 121.
5
AZAMBUJA, Darcy . op. cit. P. 36.
6
VIEIRA, R.A.Amaral. Introdução ao estudo do Estado e do Direito. Rio de
Janeiro. Forense. 1986. P. 102.
7
MALUF, Sahid. Teoria Geral do Estado, 23a.ed. . São Paulo. Saraiva. 1995.p.
25.
8
KELSEN, Hans. Op. cit. P.208 . Kelsen anota que mais que um espaço
geográfico o território é o espaço de validade da ordem jurídica de um Estado.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 16

2.2.2.2. Relação Estado-Território


Anota Kelsen que “ o território é o espaço dentro do qual é permitido
que os actos do Estado e, em especial, os seus actos coercitivos, sejam
efectuados, é o espaço dentro do qual o Estado, e isso significa, os seus
órgãos, estão autorizados pelo Direito Internacional a executar a ordem
jurídica nacional”9.

Assim para que isso possa ocorrer é necessário que exista uma relação
entre o Estado e o Território.

A relação jurídica que existe entre Estado e território, basicamente, pode


ser dividida em dominium (direito de propriedade) e imperium. A
primeira deriva do direito de propriedade do Rei (Idade Média). A
segunda surgida com a evolução do conceito do Estado.

Anota Dalmo de Abreu Dallari, que existem, basicamente, duas teorias


principais, sobre este relacionamento:

a) Teoria da relação de dominação;


b) Teoria da relação de império.

Uma outra posição a ser considerada, é a de Paulo Bonavides.

Teoria da relação de dominação: destacam-se dois estudiosos, Laband e


Burdeau.

Para Laband, o Estado actua como proprietário do Território, podendo,


inclusive, dispor dele, com poder absoluto e exclusivo. Há um direito real
de natureza pública; um direito exercido directamente sobre o território,
independente dele ser ocupado ou não.

Para Bordeau, é impossível reconhecer um direito de propriedade, que


seria incompatível com as propriedades particulares, tratando-se de um
direito real10 institucional, exercido sobre o solo, directamente, com
conteúdo determinado pelo que exige o serviço da instituição.11

9
KELSEN, Hans. Op. cit. P.208.
10
Direito real é “direito eu incide sobre uma coisa, regulando o uso e gozo da mesma,
seja ela corpórea ou não” (HUMBERTO PIRAGIBE MAGALHÃES et ALL in Dicionário
Jurídico, 8A. ED. Rio de Janeiro. Destaque. 1997. P. 308).
11
Coloca Dalmo de Abreu Dallari, que a explicação de Burdeau não muda a essência do
problema, podendo haver uma diferenciação entre o domínio eminente (exercido pelo
Estado) e o domínio útil (exercido pelo particular). Op. it. P. 88.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 17

Teoria da relação de império: destacam-se Jellinek e Ranelletti.

Anota Jellinek que o imperium que dá qualificação as relações do Estado


com o seu território é um poder exercido sobre as pessoas, sendo através
destas que o Estado tem o poder sobre o território. O direito do Estado
sobre o território é um reflexo da dominação sobre as pessoas, por isso as
invasões são consideradas ofensa à personalidade jurídica do Estado. As
partes desabitadas não apresentam dificuldades ( sempre que alguém
estiver presente o Estado está/ pode o Estado exercer seu poder a
qualquer tempo).

Anota Ranelletti que o território é o espaço dentro do qual o Estado


exerce seu poder de império sobre coisas e pessoas ( afasta o problema
das áreas desabitadas e coincidência de domínios).

Posição de Paulo Bonavides: procedeu ao agrupamento das teorias,


identificando quatro concepções:

a) Território-patrimônio: não faz distinção entre imperium e dominium,


concebendo o poder do estado sobre o Território, como o de qualquer
proprietário;
b) Território-objeto: concebe o território como objeto de direito real de
caráter público, sendo a relação entre Estado e território tão só de
domínio;
c) Território-espaço: o território é a extensão da soberania do Estado;
d) Território-competência: o território é o âmbito de competência da
ordem jurídica do Estado.

Realizada a demonstração das concepções, podemos concluir que:

1) Não existe Estado sem território: o estado surge e integra um


território, sendo que a perda temporária não desnatura o estado;
2) O território estabelece a delimitação soberana do estado: dentro dos
limites do território a ordem jurídica é mais eficaz;
3) O território é objecto de direito12 do Estado:

12
Objeto de direito é “tudo aquilo sobre que se está apto a exercer o poder
conferido pela ordem jurídica” (HUMBERTO PIRAGIBE MAGALHÃES et ALLI
in Dicionário Jurídico, 8A. ED. Rio de Janeiro. Destaque. 1997. P. 628).
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 18

4) Reconhece-se o princípio da impenetrabilidade: monopólio de


ocupação de um mesmo espaço, sendo impossível duas soberanias
ocuparem o mesmo território.

O reconhecimento do território impõe um significado negativo para o


estado, pois surge a obrigação ao Estado de agir excluindo outras ordens
e uma significação positiva, ao assegurar ao Estrado a possibilidade de
agir soberanamente no território.

Nas relações entre território e Estado, houve uma preocupação da Teoria


Geral do Estado com a diferença entre território da metrópole e da
colônia. Entretanto, a partir da Carta da ONU de 1945, estão oficialmente
extinto os territórios coloniais, que se constituíram em Estados próprios
ou forma incorporados ao Estado.

2.2.2.3. Limites do Território


O estudo dos limites do território é importante, principalmente se
atentarmos para o conceito de território. Observado como o espaço de
exercício da soberania, limitando este poder, o conhecimento dos limites
do território serve para se reconhecer o próprio limite da soberania do
Estado.

O território pode ser:

a) íntegro/compacto: constituído por uma porção compacta da superfície


da terra (Ex: Paraguai)
b) desmembrado/ dividido: formado por partes (Ex: Estados Unidos)
c) encravado: inteiramente cercado pelo território de outro Estado (Ex:
Bolívia)

2.2.2.4. Elementos do Território


O território, porção do Globo sobre a qual o Estado exerce sua soberania,
abrange:

Dentro de um conceito positivo ou real:

1) a superfície do solo;
2) o subsolo;
3) o espaço aéreo (a coluna de ar sobre referida superfície);
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 19

4) o mar territorial;
5) as águas interiores ( rios, lagos, golfo, baias, portos);
6) áreas que o Direito Internacional atribuida a cada Estado (rios, mares
e lagos divisórios).

Dentro de um conceito metafísico:

1) os navios mercantes, em alto mar;


2) os navios militares;
3) as sedes de Embaixadas, situadas em estados estrangeiros.

 Domínio Terrestre

Compreende o solo e subsolo da área geográfica incluída nas fronteiras


do Estado. Para delimitar este domínio o Estado possui o direito de
marcar materialmente ou indicar concretamente seus limites, que
13
separam de seus vizinhos, criando fronteiras , que podem ser:

I) limites naturais/artificiais: acompanham os acidentes geográficos


do solo;
II) limites artificiais/intelectuais/matemáticos: seguem linhas
astronômicas (paralelo ou meridiano) ou retas.

As demarcações, acto de assinalar a linha de fronteiras, seguem e


resulta, geralmente, de acontecimentos históricos ou de acordos mútuos.
No caso da América Latina, foi a ut possidetis (posse contínua,
prolongada, mansa, independente de qualquer outro título) que
determinou as fronteiras. Tem-se que atentar para os Tratados firmados,
ainda no tempo de Colônia ( Tordesilhas - 1494, e Madri e a Conferência
de Lima.

Emprega-se, normalmente, nas demarcações postes, marcos, bóias ou


balizas, que são numeradas e, às vezes, indicam as coordenadas
geográficas. A demarcação é definitiva, quando aprovada pelos Estados
limítrofes.

13
Darcy Azambuja ( op. cit. P. 39). Discorre acerca do que chama de fronteira
viva ( constituem zonas onde o contato entre povos diferentes é intenso) e
fronteira morta ( formada por limites antigos, sobre os quais não pairam mais
dúvidas e onde não se entrechocam interesses).
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 20

A demarcação de fronteiras naturais provocam algumas discussões que


foram assim resolvidas pelo Direito:

a) Montanhas: o traçado segue a linha da máxima altura, ou o divisor de


águas;
b) Rios: o traçado segue a linha que divide o rio em duas partes, ouse
confunde com linha média fluvial ou corresponde ao talvegue( eixo
do canal, mais profundo) ;
c) Ilhas: as ilhas situadas nos rios limítrofes pertencem ao Estado cujo
território se encontra;
d) Pontes: o traçado segue a seção média transversal entre os dois
encontros da ponte;
e) Lagos e mares internos: o traçado segue a linha da média distância
entre as margens, ou, em sendo a largura superior a 06(seis) milhas,
cada Estado possui soberania até o limite de três milhas, ficando a
faixa central em comum.

 Domínio Fluvial

Refere-se aos rios e lagos e demais cursos de água que cortam o


território do Estado, nos trechos situados no seus limites. Podem ser
nacionais (percorrem o território de um só estado - Rio São Francisco) ou
internacionais (percorrem o território de dois ou mais Estados - Rio
Amazonas).

Os rios nacionais pertencem ao Estado cujo território corre. Os rios


internacionais podem ser: contíguos (soberania do Estado até a linha
divisória) ou sucessivos ( cada Estado exerce a soberania na parte do rio
que corre em seu território).

 Domínio Lacustre

Aplicam-se aos lagos o mesmo regime jurídico dos mares internos. Se o


lago situa-se no interior do território de um só Estado, pertencerá a este (
Lago Chiuta). Se o lago se situa na divisa de dois ou mais Estados, será
aplicada a linha divisória, como limite da soberania (Lago Niassa).
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 21

 Domínio Aéreo

A coluna de ar situada acima do solo do Estado é área de soberania do


Estado, incluindo a situada acima do mar territorial. Cada Estado é
soberano sobre seu espaço aéreo, mas existem acordos determinando que
os Estados permitam o tráfego de aeronaves doutros Estados em seu
espaço aéreo.

 Domínio Marítimo

Abrange as águas internas, o mar territorial e a zona contígua, situada


entre o mar territorial e o alto mar.

a) Mar interno: quando se situa no interior do território de um só


Estado, pertencerá a este. Se o mar interno se situa na divisa de dois
ou mais Estados, será aplicada a linha divisória, como limite da
soberania (Mar Morto).
b) Mar Territorial: é a faixa de mar que se estende da costa de um
território até certa distância da mesma. O estado exerce sobre o mar
territorial sua soberania. A distância do mar territorial variou no
correr dos tempos:
I) Grócio: a jurisdição do Estado se exerce até onde o Estado pode-
se fazer obedecer por aqueles que passam no mar;
II) Bynkershock ( 1702): estende-se ao alcance do tiro de canhão,
identificado por 03(três) milhas;
III) Conferência de Genebra sobre o Direito do Mar (1958): não
houve um acordo, ficando os Estados com a delimitação,
adotando, alguns, o limite de 200 milhas;
IV) Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (1982):
fixou o mar territorial como de 12 milhas e uma zona de
exploração econômica exclusiva de 188 milhas14.

Os Estados possuem restrição a soberania do mar territorial fundada no


direito de passagem inocente, reconhecido a todos os navios mercantes,
em tempo de paz, desde que não gere dano à segurança ou interesses do
Estado.

14
A Lei 8617/93 disciplinou o Mar Territorial no Brasil, adoptando o conceito
derivado da Convenção da ONU.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 22

c) Zona Contígua: faixa marítima entre o mar territorial e o alto mar,


sobre a qual o Estado possui direitos restritos de natureza
administrativa. Não é aceita por muitos Estados.
d) Plataforma Continental: planície submarina ao longo da costa, com
profundidade não superior a 200 (duzentos) metros. Pertence ao
Estado banhado pelo mar, compreendida como uma extensão do solo
e subsolo do Estado.
e) Zona Econômica Exclusiva: faixa adjacente ao mar territorial, com
188 milhas de extensão, onde o Estado possui direito de soberania
para fins de exploração e gestão.

 Domínio Público Internacional

Alto mar  faixa dos oceanos e mares que se encontra fora do domínio
de qualquer Estado. É bem comum, regulamentada pela Convenção sobre
Alto-Mar da ONU de 1958 ( recebendo igual tratamento em 1982).

Pólo Norte  parte do território pertence ao Canadá, Rússia e Estados


Unidos e Dinamarca. A área considerada mais ao norte, fora dos limites
destes Estados, é, basicamente, uma densa camada de gelo, com escasso
interesse econômico.

Antártica  Faixa de domínio internacional, regulada, basicamente, por


dois Tratados:

1) Antártica( 1959): não militarização da região;


2) Madri ( 1991): não exploração mineral por 50 anos.

2.2.2.2. Composição e limites do território moçambicano

A luz do no 1 do artigo 6 da Constituição da República de Moçambique


(CRM), o território da República de Moçambique é uno, indivisível e
inalienável, abrangendo toda a superfície terrestre, a zona marrítima e o
espaço aéreo delimitados pelas fronteiras nacionais.

E de acordo com o previsto nos nos 1 e 2, do artigo 7 (Ibidem), a


República de Moçambique organiza-se territorialmente em províncias,
distritos, postos administrativos, localidades e povoações. As zonas
urbanas estruturam-se em cidades e vilas.

O Estado moçambicano possui um território unitário do Rovuma ao


Maputo, do Zumbo ao Indico e faz fronteira com outros Estados, tais
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 23

como: Zimbabwe, Zâmbia, Malawi, Tanzânia, Botswana e África do Sul.


O Estado da República de Moçambique é reconhecido a nível
internacional. Ele decide sobre a sua política interna e internacional
independentemente de outros Estados.

2.1.3. Poder Político ou Soberania

Este é o terceiro e último elemento constitutivo do Estado. É o poder

politico que “dá forma ao Estado” (Legon). É o conjunto de poderes

públicos que tem a seu cargo a direcção política de um Estado.

No entanto, alguns autores como o Professor Sampaio Dória inclui

"soberania"' como sendo o terceiro elemento estatal, o que na visão de

outros autores é um pouco ilógico essa inclusão, pois, soberania é

justamente a força geradora e justificadora do elemento governo; é o

requisito essencial à independência, tanto na ordem interna como na

ordem externa. E se o governo não é independente e soberano, como a

Irlanda e o País de Gales, o que teremos é um semi-Estado.

E com isso, nos esclarece que na noção de Estado perfeito está implícita a

idéia de soberania; e que faltando uma característica de qualquer um dos

três elementos o que sempre teremos será um semi-Estado.

Pois, a soberania é um poder político supremo e independente, poder que


não está limitado por nenhum outro poder interno ou externo. Um Estado
soberano não tem que aceitar ordens de outros Estados que não sejam
voluntariamente aceite.

Este poder que existe sobre o terreno e o povo dentro dum Estado
podemos comparar com o poder que os donos duma casa têm. Se alguém
quer entrar na casa, deve pedir
licença, porque esta área é sujeito do poder dos donos. Também, dentro
da casa, não
pode se comportar de qualquer maneira. Então, se alguém quer entrar no
território dum Estado alheio, precisa de certos documentos que tem que
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 24

mostrar na fronteira. Dentro do Estado existem certas regras do


comportamento das pessoas. Por exemplo, o Estado proíbe que alguém
roube uma coisa duma outra pessoa. Caso acontecer isso, ele há de punir.

Moçambique é um Estado constituído pelo povo moçambicano, que é


constituído por todas as pessoas com identidade moçambicana. Dentro do
povo moçambicano existem várias tribos, por exemplo os Rongas, os
Cenas, os Shonas, os Makuas, os Makondes etc. Mas todos são
unidos pela nacionalidade moçambicana. O Estado moçambicano
possui um território unitário do Rovuma ao Maputo, do Zumbo ao Indico.
Também tem os seus próprios órgãos independentes que exercem o poder
político (o Presidente da República, os Deputados da Assembleia
da república, Ministros e os Tribunais). Ex: A Natalia é uma
mocambicana, como os seus pais. Ao mesmo tempo ela pertence ao
povo Makua. Os Malawianos, que vivem na cidade dela não
pertencem ao povo moçambicano. Mas, tanto tempo que eles
moram dentro de Moçambique, estão sujeitos ao poder do Estado
moçambicano. Neste tempo têm que obedecer às leis moçambicanas.

2.2.3.3. A Soberania na Constituição Moçambicana

A Constituição da República de Moçambique no seu artigo 2 consagra

que a soberania reside no povo e que só se pode exercer a soberania

segundo as formas fixadas na Cosntituição. A democracia é o governo do

povo. Implica, que a legitimação do poder político, em palavras mais

simples: o governo, deve sair do próprio povo. O número dos habitantes

em Moçambique não permite que todos possam estar presentes numa

reunião. Por isso, os cidadãos elegem representantes com a tarefa de

exprimir a vontade do povo e, deste modo, governar o país. A

Constituição da República prevê que a população elege deputados

para a Assembleia da República, que são representantes do povo. Para

a escolha dos representantes, arts. 73º e 135º da Constituição da

República exige eleições transparentes, livres e justas, onde todos os

cidadãos maiores de 18 anos têm o direito de participar (arts. 147 n.º 1 e


EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 25

170º n.º 1 da Constituição da República de Moçambique). Todos podem

participar de igual maneira, quer dizer, o voto do Chefe do Posto

Administrativo conta igual como o voto da camponesa Taremba.

2.2.3.3.1. Organização do poder político em Moçambique

Pretende-se aqui analisar, como o poder político, anteriormente


visto como “soberania” dentro dum Estado, está sendo organizado em
Moçambique. O Estado não tem pês para ir ao encontro dos
cidadãos, não tem orelhas para ouvir as preocupações deles e
nem tem boca para falar com eles. Então, como é que o Estado funciona?
O Estado existe para facilitar a vida dos cidadãos que vivem dentro dele.
Para executar a vontade do povo dentro da democracia em Moçambique,
o Estado precisa de órgãos, que trabalham para ele e implementam
aquilo que o povo através dos seus representantes decidiu. Assim como o
nosso corpo humano tem órgãos para lhe servir, o Estado tem órgãos para
interagir com terceiros, para actuar para fora. Portanto, são os órgãos, que
vão aos encontros e reuniões, escrevem e respondem cartas
etc. Mas sempre em coordenação com o "corpo", neste caso o povo
moçambicano, porque os órgãos só têm a sua legitimidade da sua
existência para facilitar as actividades do Estado, que têm como
elemento mais importante o povo. Assim, os órgãos não
podem ultrapassar os limites da autorização deles. Ao mesmo tempo, o
povo deve admitir a responsabilidade de dar directivos e controlar os
órgãos, porque isto não é só direito, mas também dever. Se acontecer uma
situação ilegal, a pessoa responsável deve responder em tribunal.

O poder político em Moçambique está sendo organizado em


órgãos de soberania e órgãos locais do Estado (arts. 133º e 262º da
Constituição da República). Os órgãos da soberania respondem ao nível
central, os órgãos locais ao nível local.

2.3.3.2. Órgãos de soberania

São órgãos da soberania o Presidente da República, a Assembleia da


República, o Governo, os Tribunais e o Conselho Constitucional (art.
133 da Constituição da República de Moçambique).
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 26

a) Presidente da República = O Presidente da República é o Cchefe


do Estado de Moçambique. Ele representa Moçambique internamente
e no estrangeiro. Ele tem a tarefa de controlar o funcionamento correcto
dos órgãos do Estado (art.146º da Constituição da República de
Moçambique). O Presidente da República deve zelar que as garantias da
constituição serão cumpridas. O Presidente da República é eleito pelo
povo. A eleição deve ser directo, igual, secreto, pessoal e periódico.
Eleições têm lugar de cinco em cinco anos.O Presidente da República só
pode ser eleito de novo uma vez (art. 147º da Constituição da República
de Moçambique). Para as demais competências do Presidente da
República veja 146º a 163º da Constituição da República.

b) Assembleia da República = A Assembleia da República é a


assembleia representativa de todos os cidadãos moçambicanos (art.
168º da Constituição da República de Moçambique). A Assembleia da
República é o mais alto órgão legislative na República de Moçambique.
Ela determina as normas que regem o funcionamento do Estado e a vida
económica e social através de leis e deliberações (art. 169º da
Constituição da República de Moçambique). A Assembleia da
República é constituída por 250 deputados. Esses são eleitos em eleições
directas, iguais, secretos, pessoais e periódicos (art.170º da Constituição
da República de Moçambique). Os deputados são os representantes
do povo moçambicano. Eles devem exprimir a vontade dos
cidadãos nas deliberações da Assembleia da República. As leis aprovadas
pela Assembleia da República espelham aquiloque o povo quer. As
leis são implementadas pelo governo e pela administração pública. Pelo
cumprimento das leis velam os tribunais. Deste modo, a nossa
constituição consta o controle mútuo dos poderes dos órgãos da
soberania. Moçambique. A República de Moçambique é um Estado
baseado na organização política democrática.Todos os cidadãos elegem
representantes (deputados) que exercem a vontade deles na Assembleia
da República. O Conselho de Ministros, que é o Governo, deve observar
as deliberações da Assembleia da República (art.202º n.º 1 da
Constituição da República). Portanto, o governo tem o dever de aplicar a
lei sobre as indemnizações, porque esta foi aprovada pela Assembleia da
República.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 27

c) Governo = Conselho de Ministros. A função principal do Conselho


de Ministros é assegurar a administração do país (veja art. 203º da
Constituição da República de Moça mbique para mais funções). O
Conselho de Ministros observa as decisões do Presidente da
República e as deliberações da Assembleia da República (art. 202º da
Constituição da República de Moçambique). Compete ainda ao
Governo (art.204º da Constituição da República de Moçambique): •
Garantir o gozo dos direitos e liberdades dos cidadãos e Dirigir a
política laboral e a segurança social; stimular a apoiar o exercício da
actividade empresarial e da iniciativa privada e proteger os interesses
do consumidor e do público em geral, etc.

d) Tribunais = Os tribunais têm como objectivo garantir e reforçar a


legalidade como factor da estabilidade jurídica. Eles devem garantir o
respeito pelas leis, asseguram os direitos e liberdades dos cidadãos,
punem as violações da lei e decidem os problemas de como está
escrito na lei (art.212º n.º 2 da Constituição da República de
Moçambique). As decisões dos Tribunais são do cumprimento
obrigatório para todos os cidadãos e demais pessoas jurídicas e
prevalecem sobre as decisões de outras entidades (art. 215º da
Constituição da República de Moçambique).velar sobre o
cumprimento da Lei. Desta maneira, os tribunais decidem sobre os
problemas do povo de acordo com a lei.

e) Conselho Constitucional = Ao Conselho Constitucional compete


administrar a justice em matérias de natureza jurídica-constitucional
(art. 241º da Constituição da República de Moçambique). Bem como
os tribunais velam sobre o cumprimento das leis, o Conselho
Constitucional zeal sobre o cumprimento da Constituição da
República de Moçambique.Uma das tarefas do Conselho
Constitucional é apreciar, se leis violam a constituição (art. 244 n.º 1
lit. a da Constituição da República). Cabe ainda ao Conselho
Constitucional – entro outras atribuições – validar e proclamar os
resultados eleitorais.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 28

2.2. Formas de Estado

2.2.1. Formas clássicas do Estado

Por formas de Estado, entendemos a maneira pela qual o Estado


organiza o povo, o território e estrutura o seu poder relativamente a
outros de igual natureza (Poder Político: Soberania e Autonomia), que a
ele ficarão coordenados ou subordinados.

A posição recíproca em que se encontram os elementos do Estado


(povo, território e poder político) caracteriza a forma de Estado (Unitário,
Federado ou Confederado).

Não se confundem, assim, as formas de Estado com as Formas de


Governo. Esta última indica a posição recíproca em que se encontram os
diversos órgãos do Estado ou "a forma de uma comunidade política
organizar seu governo ou estabelecer a diferenciação entre governantes e
governados", a partir da resposta a alguns problemas básicos - o da
legitimidade, o da participação dos cidadãos, o da liberdade política e o
da unidade ou divisão do poder.

As formas de Estado levam em consideração a composição geral


do Estado, a estrutura do poder, sua unidade, distribuição e competências
no território do Estado.

Examinando os vários Estados, verificamos que,


independentemente de seus sistemas de governo, apresentam aspectos
diversos concernentes à própria estrutura. Enquanto uns se apresentam
como um todo, isto é, como um poder que age homogeneamente e de
igual modo sobre um território, outros oferecem diferença no que se
refere à distribuição e sua atuação na mesma área. Pelo exposto, temos a
mais importante divisão das formas de Estado, a saber. Estado Simples e
Estado Composto.

- É fundamental observar como se exerce e/ou se distribui o


poder político, isto é, a Soberania.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 29

1. Esquema

Simples Unitários Centralizados

Descentralizados

Federais

FORMAS DE ESTADO Compostos Confederado


União pessoal

(perante o Direito Internacional União real

Público) União incorporada

Outras formas

Império Britânico

Estado perfeito

É aquele que reúne os três elementos constitutivos – população,


território e governo -, cada um na sua integridade. O elemento governo
entende-se como poder soberano irrestrito. É característica do Estado
perfeito, sobretudo, a plena personalidade jurídica de direito público
internacional.

Estado imperfeito

É aquele que, embora possuindo três elementos constitutivos,


sofre restrição em qualquer deles. Essa restrição se verifica, com maior
freqüência, sobre o elemento governo. O Estado imperfeito pode ter
administração própria, poder de auto-organização, mas não é Estado na
exata acepção do termo enquanto estiver sujeito à influência tutelar de
uma potência estrangeira. Não sendo soberano, não é pessoa jurídica de
direito púbico internacional. Logo, não é Estado perfeito.

Consoante se atenda à ocorrência de um único poder político ou a


uma pluralidade de poderes políticos, unidade ou pluralidade de
ordenamentos jurídicos originários (Constituições), no âmbito territorial
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 30

do Estado, os Estados classificam-se em Estados Simples e Estados


Compostos.

Estado Simples é aquele que corresponde a um grupo


populacional homogêneo, com o seu território tradicional e seu poder
público constituído por uma única expressão, que é o governo nacional.
Exemplos: França, Portugal, Itália, Peru etc.

Estado Composto é uma união de dois ou mais Estados,


apresentando duas esferas distintas de poder governamental e obedecendo
a um regime jurídico especial, variável em cada caso, sempre com a
predominância do governo da união como sujeito de direito público
internacional. É uma pluralidade de Estados, perante o direito público
interno, mas no exterior se projeta como uma unidade.

Os tipos característicos de Estado Composto já foram estudados ,


quando tratamos da Origem do Estado, por isso serão apenas
mencionados aqui: a) União pessoal; b) União real; c) União incorporada
e d) Confederação.

Para o estudo desta unidade o que nos interessa são as formas de


Estado concretizadas no Estado Unitário, na Federação e Confederação.

Sob o ponto de vista do direito público interno, mais


precisamente do Direito Constitucional, os Estados dividem-se em
unitários e federais.

Estado Unitário é aquele que apresenta uma organização


política singular, com um governo único de plena jurisdição nacional,
sem divisões internas que não sejam simplesmente de ordem
administrativas. O Estado unitário é o tipo normal, o Estado padrão. A
França é um Estado unitário. Portugal, Bélgica, Holanda, Uruguai,
Panamá, Peru são Estados unitários. O Brasil, na Constituição de 1824,
adotou a forma de Estado Unitário Descentralizado. Vejamos abaixo
alguns dispositivos desta Constituição:

O Estado Unitário compreende o Estado unitário centralizado e o


Estado unitário descentralizado.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 31

O Estado Unitário Centralizado caracteriza-se pela


simplicidade de sua estrutura: nele há uma só ordem jurídica, política e
administrativa.

De acordo com Kildare Gonçalves, o Estado unitário centralizado


é impossível de ocorrer no mundo contemporâneo, que, em virtude da
complexidade da própria sociedade política, reclama um mínimo de
descentralização, ainda que apenas administrativa, nas modalidades
institucional ou funcional.

O Estado unitário descentralizado manifesta-se no Estado


Regional.

Para estabelecermos o perfil do Estado Regional, que se


aproxima do Estado Federal, é preciso distinguir desconcentração,
descentralização administrativa e descentralização política.

Há desconcentração quando se transferem para diversos órgãos,


dentro de uma mesma pessoa jurídica, competências decisórias e de
serviços, mantendo tais órgãos relações hierárquicas e de subordinação.

A descentralização administrativa verifica-se “quando há


transferência de atividade administrativa ou, simplesmente, do exercício
dela para outra pessoa, isto é, desloca-se do Estado que a desempenharia
através de sua Administração Central, para outra pessoa, normalmente
pessoa jurídica”. Assim, a descentralização administrativa implica a
criação, por lei, de novas pessoas jurídicas, para além do Estado, às quais
são conferidas competências administrativas.

A descentralização política ocorre quando se confere a uma


pluralidade de pessoas jurídicas de base territorial competências não só
administrativas, mas também políticas (Estados-Membros, Distrito
Federal e Municípios, no Direito Constitucional brasileiro).

O Estado Regional, como Estado unitário descentralizado, foi


estruturado, pela primeira vez, na Constituição espanhola de 1931.

No Estado Regional ocorre uma descentralização, que pode ser


administrativa como ainda política. Têm-se, assim, regiões que se
aproximam dos Estados-Membros de uma federação, quando, por
exemplo, dispõem da faculdade de auto-organização. Neste caso,
contudo, como veremos, as regiões não se confundem com os Estados-
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 32

Membros, pois não dispõem do poder constituinte decorrente, já que o


estatuto regional tem de ser aprovado pelo órgão central.

As diferenças entre o Estado Federal e o Estado regional,


relacionadas com a faculdade de autoconstituição e de participação na
formação da vontade do Estado, são:

“a) No Estado Federal, cada Estado federado elabora livremente a sua


Constituição; no Estado Regional, as regiões autônomas elaboram o seu
estatuto político-administrativo, mas este tem de ser aprovado pelos
órgãos centrais do poder político;

b) no Estado Federal, os Estados federados participam, através de


representantes seus, na elaboração e revisão da Constituição Federal; no
Estado Regional, não está prevista nenhuma participação específica das
regiões autônomas, através de representantes seus, na elaboração ou
revisão da Constituição do Estado;

c) no Estado federal, existe uma segunda Câmara Parlamentar, cuja


composição é definida em função dos Estados federados; no Estado
Regional, não existe qualquer segunda Câmara Parlamentar de
representação das regiões autônomas ou cuja composição seja definida
em função delas”.

2.2.2. Descentralização e Poder Local na Constituição moçambicana

A luz do artigo 271 da Constituição da República de Moçambique


(CRM), o Poder Local tem como objectivos organizar a participação dos
cidadãos na solução dos problemas próprios da sua comunidade e
promover o desenvolvimento local, o aprofundamento e a consolidação
da democracia, no quadro da unidade do Estado Moçambicano, apoiando-
se na iniciativa e na capacidade das populações e actua em estreita
colaboração com as organizações de participação dos cidadãos.

O Poder Local compreende a existência de autarquias locais. As


autarquias locais são pessoas colectivas públicas, dotadas de
órgãos representativos próprios, que visam a prossecução dos interesses
das populaces respectivas, sem prejuízo dos interesses nacionais e da
participação do Estado (artigo 272, CRM).
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 33

As autarquias locais categorizam-se em municípios e as povoações, pois,


os municípios correspondem à circunscrição territorial das cidades e vilas
enquanto que as povoações correspondem à circunscrição territorial
da sede dos postos administrativos (artigo 273, CRM).

De acordo com o preceituado nos artigos 274 e 275 da CRM, a criação e


extinção das autarquias locais são reguladas por lei, devendo a
alteração da respectiva área ser precedida de consulta aos seus órgãos e
tem como órgãos uma Assembleia, dotada de poderes
deliberativos, e um executivo que responde perante ela, nos termos
fixados na lei. A Assembleia é eleita por sufrágio universal, directo,
igual, secreto, pessoal e periódico dos cidadãos eleitores residentes na
circunscrição territorial da autarquia, segundo o sistema de representação
proporcional. O órgão executivo da autarquia é dirigido por um
Presidente eleito por sufrágio universal, directo, igual, secreto, pessoal e
periódico dos cidadãos eleitores residentes na respectiva circunscrição
territorial. As candidaturas para as eleições dos órgãos das autarquias
locais podem ser apresentadas por partidos políticos, isoladamente ou em
coligação, ou por grupos de cidadãos eleitores, nos termos da lei.

As autarquias locais têm finanças e património próprios. A lei define o


património das autarquias e estabelece o regime das finanças locais que,
dentro dos interesses superiores do Estado, garanta a justa repartição
dos recursos públicos e a necessária correcção dos desequilíbrios entre
elas existentes. A lei define as formas de apoio técnico e humano do
Estado às autarquias locais, sem prejuízo da sua autonomia (artigo 276,
CRM).

As autarquias locais estão sujeitas à tutela administrativa do Estado que


consiste na verificação da legalidade dos actos administrativos dos órgãos
autárquicos, nos termos da lei. O exercício do poder tutelar pode ser
ainda aplicado sobre o mérito dos actos administrativos, apenas nos casos
e nos termos expressamente previstos na lei. A dissolução dos órgãos
autárquicos, ainda que resultante de eleições directas, só pode ter
lugar em consequência de acções ou omissões legais graves, previstas na
lei e nos termos por ela estabelecidos. As autarquias locais dispõem
ainda de poder regulamentar próprio, no limite da Constituição, das leis e
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 34

dos regulamentos emanados das autoridades com poder tutelar (artigos


277 e 278, da CRM).

As autarquias locais possuem quadro de pessoal próprio, nos termos da


lei. É aplicável aos funcionários e agentes da administração
local o regime dos funcionários e agentes do Estado. A lei garante as
formas de organização que as autarquias locais podem adoptar para a
prossecução de interesses comuns. A revogação e renúncia do mandato
dos membros eleitos dos órgãos autárquicos são reguladas por lei.
(artigos 279 à 281)

Sumário
O presente módulo representa um estudo sobre os principais aspectos
norteadores da evolução do Estado. Pois, o modulo aborda os modelos, os
elementos constituintes do Estado, destacando o povo, território e o poder
politico. Também são apresentadas as tipologias das formas de Estado.
Finalmente, é feita uma reflexão destes aspectos para o caso de
Moçambique.

Exercícios
1. O que é Estado?

a) Quais são as principais formas de fragmentação de

Estado?Exlique cada uma delas.

b) Quais são os elementos constituintes de Estado?

c) Diferencie o Estado Federal do Regional.

2. Diga como se mostra delimitado o território moçambicano do


Zumbo ao Indico.

3. Num Estado Democrático o povo exerce o poder através dos


órgãos de soberania
a) Refira quais são os órgãos de soberania em Moçambique.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 35

4. Dentre as várias formas de Estado identifique qual a que se


enquandra à República de Moçambique e justifique.

5. Justifica porque razão a descentralização é a passagem de poder


do órgão central ao órgão local sendo extensivo as autarquias
diferentemente da desconcentração de poderes.

Fazer os exercícios constantes na auto-avaliação.

Auto-avaliação Entregar os exercícios: 3, 4 e 5.

Em quatro páginas faça um breve resumo da unidade em estudo.


EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 36

Unidade II
Sistemas de Governo e Sistemas
Eleitorais

Introdução
Nesta unidade pretende-se que os estudantes tenham noções básicas dos
diferentes sistemas de governos e sistemas eleitorais com particular
enfoque para a República de Moçambique.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Identificar e classificfar os vários sistemas de governo;


 Conceituar os termos eleição e referendo
Objectivos  Definir e classificar os tipos de sufrágio;
 Identificar e Explicar os vários sistemas eleitorais;
 Identificar os sistemas de governo e eleitoral vigente na Repúblicade
Moçambique.

1. Sistemas de Governo: principais


classificações

Sistema de governo é o relacionamento entre as funções do Estado, de


executar e legislar. Ou seja, a maneira pela qual se organiza a estrutura
política do Estado, e o relacionamento entre os seus diversos órgãos.

É conhecido que as formas de governo existentes em todo o mundo


sempre apresentam peculiaridades de Estado para Estado. Há várias
classificações das formas de governo dependendo da maneira pela qual os
órgãos do Estado irão se relacionar.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 37

Pois, de acordo com Jorge Novais citado por Fernando Loureiro Bastos
(1999:197-205 ) define como:

a) Sistema de governo parlamentaristas15 - “…o sistema em que


o Chefe de Estado é um órgão politicamente ‘apagado’ (em
termos de possibilidade de exercício efectivo de poder) e em que
o Governo é politicamente responsável perante o Parlamento”.

- Neste sistema o poder é exercido pelo Governo e pelo Parlamento


em conformidade com o equilibrio jurídico-formal, nos termos do
qual “…por um lado, o Governo “sai” do Parlamento, forma-se de
acordo com os resultados das eleições parlamentares e pode ser
destruido por acção do Parlamento perante o qual responde
politicamente; em contrapartida, o Governo pode – através de acto
do Chefe de Estado praticado a pedido do Governo – provocar a
dissolução do Parlamento”;
- Existe um Chefe de Estado “…que não é eleito (caso das
monarquias parlamentares) ou é eleito por sufrágio indirect (casos
das repúblicas parlamentares) e que “ainda disponha formalmente
de poderes atribuidos pela Constituição (…), na realidade não é o
Chefe de Estado que os excerce mas sim o Governo.

b) Sistema de governo presidencialistas – “…o sistema em que


(…) o Chefe de Estado é um órgão decisivo, que exerce poderes
importantes, e em que o executive não responde politicamente
perante o Parlamento, pelo menos no que respeita à possiblidade
de o Parlamento demitir o Governo”.

- O presidente é o Chefe de Estado, e é ele que escolhe os chefes dos


Ministérios. O Legislativo, o Judiciário e o Executivo são

15
O sistema parlamentarista tem uma importante vantagem sobre o sistema
presidencialista, porque o parlamentarismo é mais flexível. O primeiro-ministro
pode ser trocado com certa rapidez e o parlamento pode ser destituído. No caso
do presidencialismo, o presidente, na maioria dos casos, cumpre seu mandato até
o fim, mesmo havendo crises políticas.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 38

independentes entre si e funcionam em harmonia, tendo, desta


maneira, como base doutrinária a teoria política de separação e
controle recíproco dos poderes, de Montesquieu, que escreveu: "O
poder deve limitar o poder."
- Neste sistema, o presidente não se subordina ao Parlamento nem
pode nele interferir. Entre suas atribuições estão a de liderar a vida
política da nação, representar o país interna e externamente,
comandar as forças armadas, firmar tratados, encaminhar projetos
de lei ao Congresso, responder pela administração e pelas decisões
nos setores do executivo e escolher os ministros de estado.

c) Sistema de governo semi-presidencialistas – “…o sistema em


que o Chefe de Estado é um órgão com possibilidades de exercer
poderes significativos (caracteristica que é comum ao sistema
presidencial).

- “…a existência de um Chefe de Estado detentor de poderes políticos


importantes, para cujo exercício efectico, e não meramente nominal,
possui a necessária legitimidade democratic, ao ser eleito por sufrágio
directo e universal. Entre estes poderes destacam-se:

- “…o poder de dissolução do Parlamento, o poder de nomeação do


Primeiro-Ministro, a promulgação (ou recusa da promulgação) das leis, a
nomeação de altos funcionários e titulares de outros órgãos, a
possibilidade de suscitar a fiscalização da constitucionalidade das leis,e,
eventualmente, o poder de destituir o Primeiro-Ministro e de desencadear
o processo de referendo nacional”;

- “…a dependência política que sujeita o Governo ao Parlamento e


que, em última análise, possibilita ao Parlamento a retirada da confiança
política ao Governo, provocando por isso a sua queda”.

Tendo em conta as características concretas do Estado em que está a ser


utilizado o semipresidencialismo, este pode ser de pendor presidencial,
de pendor parlamentar ou com equilibrio das duas componentes.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 39

1.1. Exemplos de Países Presidencialistas e Parlamentaristas

1.1.1. O Governo do Brasil - Presidencialista

O sistema de governo usado pelo Brasil é o presidencialismo, onde, como


o próprio nome diz, o nível de poder mais alto é o do presidente, seguido
pelo vice-presidente, ministros, senadores, deputados federais,
governadores, deputados estaduais, prefeitos e vereadores. O
presidencialismo é considerado um dos mais modernos regimes de
governo onde a democracia (direito de todo cidadão participar, criticar e
dar sugestões) é amplamente divulgada.

1.1.2. Governo do Canadá - Parlamentarista

O Canadá é uma monarquia constitucional, um estado federal e uma


democracia parlamentarista, com dois tipos de jurisprudência, o direito
civil e o direito comum. Em 1982, a Carta de Direitos e Liberdades foi
solidamente firmada na Constituição do Canadá.

A Constituição do Canadá era inicialmente um estatuto inglês, o Acto da


América do Norte Britânica de 1867, e até 1982 suas emendas estavam
sujeitas ao Parlamento Britânico. Desde 1982, quando a constituição foi
"patriada", isto é, quando os canadenses foram autorizados a fazer
emendas à Constituição no Canadá, esse estatuto inicial tem sido
conhecido como Acto Constitucional de 1867.

2. Eleições e sistemas eleitorais

2.1. Representação política e eleição

Sendo a distinção entre governantes e governados características das


sociedades huamanas organizadas,podem ser, no entanto, muito diversos
os moldes em que se dá essa relação. Existeêm duas hipótes possíveis
nesta material: por um lado a existência de governos que afastam
radicalmente os cidadãos – relegados para o estatuto de mero súbditos –
de qualquer intervenção da coisa pública, que lhes negam qualquer
influência nas decisões políticas a tomar, enfim, consagram a liberdade
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 40

dos governantes em face dos governados e por outro lado, nos últimos
dois séculos (…) a tendência de converter os súbditos em cidadãos
completes, a de elevar os homens na cidade de simples sujeito ao poder a
verdadeiros sujeitos de poder, isto é, participar os governados na vida
política.

Para tal, os governantes devem actuar para prosseguir os interesses dos


governados, que se cristaliza contemporaneamente a representação
política. Nesta situação, como ensina o Prof> Jorge Miranda “trata-se,
em oposição ao Anicien Régime” de estabelecer uma relação permanente
ente uns e outros, de tal sorte que os governantes ajam como
representantes do povo e prestem contas ao povo pelos seus actos.

Pois, na evolução do Estado modern, que é o modelo de referência no


Estudo da Teoria Geral do Estado, podem ser autonomizados três
modelos de participação política:

 Monarquia limitada pelas ordens em que a participação se dá


numa area ciscusncrita da vida política;
 Monarquia constitucional em que om princípio democratic deve
associar-se ao princípio monarquico;
 Governo representative em que o princípio fundamental da
Constituição é aquilo que se chama soberania do povo.

Como refere o Prof. Jorge Miranda, a participação pode ter lugar:

 Modos individuais –como o direito de petição ou representação


no interesse geral, o direito de acção popular e a iniciativa
popular (legislative ou constituinte) e as liberdades públicas;
 Modos institucionais – como a intervenção em procedimentos
de Administração, a audição, por via de associações
representativas de interesses, antes da tomada de decisão pelos
órgãos competentes, a participação em órgãos consultivos, a
formação de associações públicas, a participação na gestão de
serviços públicos;
 Modos globais ou colectivos – como o sufrágio – traduzido em
eleições ou em referendo – e a assembleia popular ou directa dos
cidadãos.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 41

Pois, em termos de análise do fenómeno da representação política, o Prof.


Jorge Miranda, sublinha que não se trata de uma representação do Estado
mas sim uma representação unitária do povo, na medida em que os
governantes “representam toda a colectividade e não apenas quem os
designou” impõe a eleição.

2.2. Eleição e referendo

De acordo com Fernando Loureiro Bastos, a democracia impõe e implica


que os governados possam manifestar a sua vontade erelativamente à
forma como o poder politico deve ser exercido pelos governantes
(1999:175). Todavia, a forma contemporaneamente mais eficaz de o fazer
é através de sufrágio, na modalidade de eleição.

A eleição é com o referendo uma forma de sufrágio. A utilização de um


ou de outro depende do resultado que se pretende alcançar:

- na eleição, há escolha dos titulares dos órgãos;


- no referendo, há deliberação ou consulta sobre questões
concretas.

Segundo o Prof. Jorge Miranda citado por Fernando Loureiro Bastos


(ibidem), são características comuns de qualquer eleição:

a) pluralidade de intervenientes;
b) identidade de posições jurídicas dessas pessoas;
c) diversidade de funções das pessoas intervenientes na (eleição), os
eleitores, e da pessoa eleita,o titular do cargo ou do órgão;
d) manifestação da vontade individualizada de cada uma dessas
pessoas;
e) apuramento de um resultado final ou vontade comum, decorrente
da pluralidade de expresses de vontade;
f) revelação externa da pluralidade manifestações individuais e,
eventualmente, relevância da sua distribuição.

Disto, depreende-se que a eleição pode ser vista em dois prismas:

- eleição em sentido material – se se preenchem os requisitos da


pluralidade de intervenientes e da pluralidade de votos…e se
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 42

exigem ainda a pluralidade de candidates (ou pessoas


consideradas idóneas para a (eleição) e a pluralidade ou o
pluralism de tendências eleitorais (ou correntes de eleitores);
- eleição em sentido formal – se se contemplam apenas os
requisitos da pluralidade de intervenientes e da pluralidade de
votos.

A eleição, em resultado da votação, vai permitir apurar um,a vontade com


base no princípio da maioria. É que o “princípio elective assenta no
princípiop maioritário e este, por seu turno, no princípio da igualdade”.

2.3. Sufrágio: noção e classificações

O direito de voto pode ser, com efeito atribuido a grupos restritos ou a


totalidade da população. Em regra, o direito de voto é reconhecido pelo
sufrágio universal , isto é, a da atribuição de direito de voto a todas as
pessoas, a partir de uma certa idader, independentemente de sexo ou de
preenchimento de determinados pressupostos, como o rendimento ou as
habilitações literárias.

O sufrágio universal pode ser tido, assim, como um dos traços distintivos
das democracias representativas contemporâneas. É, no entanto,
necessário sublinahr que só existe uma democracia em sentido material, e
não em termos estritamente formais, se a eleição permitir aos eleitores
proceder a escolhas efectivas entre alternativas que traduzem a
pluralidade de interesses da comunidade em questão.

O sufrágio pode ser:

- directo e indirecto: consoante os eleitores escolhem


imediatamene os seus representantes ou vão escolher as pessoas
que procedem a essa escolha pore les;
- restrito16 (censitário e capacitário) e universal: consoante o
direito de voto seja reconhecido a um grupo limitado de cidadãos

16
O sufrágio restrito é censitário quando a atribuição do direito de voto depende
de meios de fortuna e capacitário se a atribuição do direito de voto implica um
determinado grau de instrução, como saber ler.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 43

ou à generalidade dos cidadãos a partir de um certo limite de


idade;
- inorgânico e orgânico – também designado, respectivamente,
por sufrásgio de base territorial e sufrágio de base corporative
que tem lugar:
 quando o direito de voto é exercido pelo cidadão,
pelo simples facto de reunir os requisites legais
do sufrágio, os votos são recolhidos por
circunscrições territoriais cuja delimitação é mais
ou menos arbitrária;
 quando o cidadão dá a sua…contribuição
efectiva para a colectividade, como chefe de uma
família domiciliada numa freguesia, professional
associado nuim sindicato ou instituição privada
de utilidade pública.

- plural, múltiplo e simples – tem como critério distintivo o


número de votos que são atribuidos a cada eleitor para uma
mesma eleição:

 o sufrágio plural – consiste no direito dado a certos


eleitores de votarem uma vez só mas com mais de
um voto e tem sido defendido sobretudo sob a forma
de voto familiar;
 o sufrágio múltiplo – consiste no direito dado ao
mesmo eleitor de votar, embora só com um voto de
cada vez, em diversas qualidades, na mesma eleição;
 o sufrágio simples – consiste na atribuição de um
único voto a cada eleitor.

- publico e secreto – consoante a votação se faça em termos de o


sentido do voto de um eleitor poder ser ou não do conhecimento
dos restantes;
- facultativo e obrigatório – consoante o exercício do direito de
voto seja, ou não, deixado avontade dos eleitores e possa haver,
no Segundo caso, a aplicação de sanções aos não votantes;
- individual e por listas – consoante o sufrágio tenha, no primeiro
caso, por objecto escolher individuos e assim recair nos seus
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 44

nomes, e no segundo caso, designer o partido a orientação ou a


tendência organizada que se prefere, e então o voto incide sobre
uma lista prepared pelas organizações políticas, contando-se o
número de votos recolhidos por lista pela lista e sendo secundário
o número de votos obtido por cada nome dela;
- uninominal e plurinominal – consoante o eleitor só possa votar
em cada divisão eleitoral, em um, ou em mais do que um
candidato.

Em termos de divisão eleitoral, o sufrágio pode ser por circulo


uninominal ou por circulo plurinominal. No primeiro caso, é eleito um
representante por divisão eleitoral, enquanto que no segundo caso são
eleitos vários representantes por divisão eleitoral.

Os circulos eleitorais também podem ser nacionais ou locais, consoante


cobram a totalidade do território ou apenas uma parte.

No sufrágio plurinominal, existe a escolha entre os sistemas de


representação maioritária e os sistemas de representação proporcional. O
sufrágio uninominal, por seu turno, é sempre de representação
maioritária, quer seja de maoiria relativa ou exija a maioria absoluta.

Nos circulos uninominais, com efeito a eleição pode ser:

- por maioria relativa – sendo eleito o candidadto que obter o


maior número de voos, qualquer que seja esse número de
votos;
- por maioria absoluta – em que os candidates só são eleitos
se tiverem a maioria absoluta, isto é, conseguirem a maioria
dos votos expressos e em que se realizam novas eleições –
segunda volta ou segundo turno.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 45

2.4. Sistemas eleitorais: noção e classificações

O sistema eleitoral 17 é normalmente identificado pela forma como os


votos são convertidos em mandatos, isto é, pelo modo de escrutínio.

2.4.1. Os Sistemas de Representação Maioritária e os Sistemas de


Representação Proporcional

O sistema de representação maioritária é um sistema que consagra a


eleição do candidato que tiver mais voto.

O sistema de representação proporcional é um sistema que procura


estabelecer uma correspondência entre o número de votos obtidos por
cada lista concorrente e o número de candidatos que vão ser eleitos, de
modo a alcançar uma representação de maioria e da minoria.

Partindo dos sistemas de representação maioritária e do sistema de


representação proporcional foram criados sistemas mistos em que existe
a predominância de um ou de outro.

São exemplos desta tentativa de conciliar os dois sistemas:

- O sistema de voto transferível ou de Hare – em que cada eleitor


em colégios plurinominais, vota um só candidate, mas deve
indicar uma ordem de preferência entre todos os candidates; sera
eleito o candidate que alcançar o quaciente eleitoral18 e os votos
a que mais tiver obtido serão repartidos, na proporção das
segundas preferências, pelos restantes candidatos.
- O sistema de voto limitado ou sistema de lista incomplete que
se caracteriza por número de candidatos em cada lista ser inferior
ao número de deputados a eleger, de modo que a lista maioritária

17
Em sentido amplo é o conjunto de regras, procedimentos e de prácticas, com a
sua coerência e a sua lógica interna, a que está sujeita a eleição em qualquer país
e que, portanto condiciona o exercício de direito de sufrágio. E em sentido
restrito, sistema eleitoral é a forma de expressão da vontade eleitoral, o modo
como a vontade dos eleitores de escolher este ou aquele candidato, esta ou aquela
lista se traduz num resultado global final.
18
Divide-se o número total de votos expressos pelo número de mandatos.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 46

nunca pode obter mais do que, por exemplo 2/3 ou ¾ dos


mandates e os restantes cabem à minoria.

O mais conhecido é o sistema alemão, em que cerca de metade da


Câmara é eleita pelo sistema maioritário, com circunscrições
uninominais e a outra meade pelo sistema proporcional. Cada eleitor
tem dois votos, um no circulo local uninominal, outro no circulo
nacional de lista.

2.5. O sistema eleitoral da República de Moçambique19

A Constituição da República de Moçambique estipula um sistema


presidencialista, no qual o Presidente da República é chefe de estado,
chefe de governo presidindo o Conselho de Ministros e comandante-
chefe das Forças Armadas (artigo 146). O Presidente detém uma série de
poderes como nomear, exonerar e demitir o Primeiro-Ministro e outros
ministros, os governadores provinciais, o Procurador-Geral e o vice-
Pocurador-Geral da República, nomear o Presidente e o Vice-Presidente
do Tribunal Supremo e o Presidente do Conselho Constitucional. Em
caso de impedimento ou ausência, ou na necessidade de uma substituição
interina, o Presidente da Assembleia da República substitui o Presidente
da República. O governo é representado a nível provincial por
governadores. O poder legislativo é desempenhado pela Assembleia da
República com 250 deputados. As Assembleias Provinciais são um órgão
de representação democrática competindo-lhes a função de aprovar o
programa do governo provincial e de supervisionar a sua implementação.

A Constituição da República de Moçambique estipula uma democracia


multipartidária fundada em eleições periódicas, com mandatos de cinco
anos, através de sufrágio universal, directo, igual e secreto. O Presidente
da República é eleito quando reúna mais de metade dos votos expressos –
maioria absoluta – caso contrário, uma segunda volta das eleições
presidenciais é realizada dentro de 30 dias da data de declaração de

19
Para informações adicionais vide AfriMAP-Moz-PolPart-PT
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 47

resultados pelo Conselho Constitucional, na qual participam os dois


candidatos mais votados.

Para as eleições legislativas em que 250 deputados são eleitos, o país é


dividido em 13 círculos eleitorais correspondendo às 11 áreas provinciais
administrativas incluindo Maputo Cidade que elegem 248 deputados. Os
restantes dois deputados são eleitos pelos dois círculos eleitorais na
diáspora correspondentes aos moçambicanos residentes em África e outro
para moçambicanos residentes no círculo eleitoral Resto do Mundo. Os
membros da Assembleia da República e os membros das 11 Assembleias
Provinciais são eleitos através do sistema de representação proporcional
de Hondt, à excepção dos dois deputados para a Assembleia da República
eleitos na diáspora os quais são eleitos por maioria simples.

Administração Eleitoral

As principais entidades que desempenham um papel na administração de


eleições são a Comissão Nacional de Eleições (CNE), o Secretariado
Técnico de Administração Eleitoral (STAE) e em certa medida o
Conselho Constitucional (CC).

A Comissão Nacional de Eleições (CNE) é um órgão do Estado,


independente e imparcial, responsável pela direcção e supervisão do
processo eleitoral. Os membros da CNE têm um mandato de cinco anos
sendo que o actual mandato termina em Janeiro de 2010. A CNE é
composta por 13 membros incluindo um presidente e 12 vogais. Dos 13
membros da CNE, cinco são indicados pelos partidos ou coligações de
partidos políticos com representação na Assembleia da República de
acordo com o princípio de representatividade parlamentar e os restantes
oito são propostos pelas organizações de sociedade civil. O presidente da
CNE é eleito de entre os candidatos apresentados pela sociedade civil
através de consenso. A CNE está dividida em cinco comissões de
trabalho: a) organização e operações eleitorais; b) assuntos legais e
deontológicos; c) formação e educação cívica; d) administração e
finanças; e) relações internas e externas. A CNE conta com o apoio de 11
comissões provinciais de eleições com carácter temporário, que começam
a funcionar 60 dias antes do recenseamento e actos eleitorais e terminam
30 dias após a divulgação de resultados. Para além destas, existem
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 48

também 148 comissões de eleições distritais ou de cidade, também elas


temporárias, começando a funcionar 30 dias antes do recenseamento e
actos eleitorais e encerrando 15 dias após a divulgação de resultados.
Ambas as comissões, provinciais e distritais, são compostas por 11
membros: 5 membros apresentados pelos partidos políticos de acordo
com a sua representatividade parlamentar e 6 membros cooptados de
entre personalidades designadas pela sociedade civil pelos restantes 5
membros.

O Secretariado Técnico de Administração Eleitoral (STAE) é um


serviço público, representado aos níveis provincial e distrital, que apoia
tecnicamente a CNE e está sob a sua autoridade e direcção. O seu
mandato é desempenhar as actividades técnicas e administrativas
necessárias à condução do processo eleitoral. As principais funções do
STAE são realizar o recenseamento eleitoral, assegurar o transporte e
distribuição do material eleitoral, respeitar os regulamentos, instruções e
directivas da CNE, formar agentes eleitorais, organizar e executar os
processos eleitorais, informar e emitir pareceres sobre matéria eleitoral e
assegurar a elaboração de estudos estatísticos sobre processos eleitorais e
sua publicação.

Finalmente, Conselho Constitucional é um órgão judicial que


desempenha funções no processo eleitoral como aceitação da
apresentação de candidaturas para as eleições presidenciais, decidir, em
última instância, o contencioso eleitoral e proclamar oficialmente os
resultados eleitorais.

Sumário
O módulo em epígrafe faz referência aos três principais sistemas de
governo (presidencialista, parlamentarista e semi-presidencialista).
Também faz-se uma abordagem sucinta sobre as eleiçõres e sisitemas
eleitorais vigentes no mundo, com especial destaque o de representação
proporcional e maioritário. Por fim, uma análise do sistema eleitoral da
República de Moçambique.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 49

Exercícios
1. Dentro dos sistemas de governo diferencie o parlamentarismo do
presidencialismo.

2. Dos diferentes tipos de sufrágio, diga qual é que se enquadra ao


sistema de governo parlamentarista. E para o caso vertente de
Moçambique?

3. Qual é o sistema eleitoral vigente em regimes


ditatoriais?Justifique

4. Em menos de 10 páginas fale do sistema eleitoral em


Moçambique.

Fazer os exercícios constantes na auto-avaliação.

Auto-avaliação Entregar os exercícios: 1, 2 , 3 e 4.

Em quatro páginas faça um breve resumo da unidade em estudo.


EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 50

Unidade III
Economia Internacional

Introdução
Nesta unidade pretende-se que os estudantes compreendam as bases
teóricas do Comércio Livre Internacional.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Identificar as teorias do Comércio Livre;


 Analisar os pressupostos básicos das teorias do Comércio
Objectivos Internacional segundo autores vários.

3. As bases teóricas do Comércio Livre


Internacional
a. Adam Smith e os proveitos do comércio livre

Adam Smith na sua obra A Riqueza das Nações (1985), publicado


originalmente em 1776, desenvolveu a teoria das vantagens absolutas
como a base do comércio internacional. Smith demonstrara que cada
nação tende a especializar-se na produção para a qual se ache
naturalmente mais apta, em aplicação do princípio fundamental da
divisão do trabalho, neste caso em termos internacionais.

Para Smith, o comércio externo se baseava em diferenças absolutas de


custo de produção. Dessa forma, cada país deve se concentrar na
produção dos bens que lhe oferecem vantagem

absoluta. Aquilo que exceder o consumo interno do bem produzido


deveria ser exportado, e a receita equivalente ser utilizada para importar
os bens produzidos em outro país. Como a capacidade de consumo dos
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 51

países envolvidos no comércio internacional será maior após a efetivação


das trocas, Smith (1985) concluiu que o comércio exterior eleva o bem-
estar da sociedade.

A riqueza das nações é o resultado do aumento da produtividade do


trabalho. Este, por sua vez, é conseqüência da divisão do trabalho, que é o
resultado da propensão da natureza humana a trocar,negociar e vender um
produto em troca de outro, limitada, no entanto, pela extensão do
mercado. Uma vez que o comércio internacional aumente o mercado para
os produtos produzidos domesticamente, ele permite o aprofundamento
da divisão do trabalho, contribuindo para aumentar a riqueza das nações.

Por intermédio do comércio internacional, um país exporta as


mercadorias que consegue produzir mais barato que os demais e importa
aquelas que produz mais caro, produzindo, desta forma, mais dos
produtos que faz com maior eficiência, e consumindo mais produtos do
que seria capaz na ausência do comércio internacional. O trabalho de
Smith ficou conhecido como a Teoria das Vantagens Absolutas.

b. David Ricardo e as vantagens comparativas

O conceito de vantagem comparativa foi criado pelo economista inglês D.


Ricardo no início do século XIX com o objetivo de demonstrar que a
vocação da Inglaterra era a especialização naquilo que melhor sabia
produzir. Assim, teria comparativamente custos de produção menores, e
compraria no mercado internacional aquilo que custasse mais caro
produzir internamente.

O pressuposto da teoria de Ricardo (1979) estava baseado no princípio de


livre comércio, criado por Smith, e no efeito positivo que exercia sobre a
produtividade e a especialização dos países. Ricardo (1982) aprimorou
essa teoria, ao estender a possibilidade de ganhos de comércio também
para países que não possuem vantagens absolutas em relação a outros.
Segundo Ricardo, não é o princípio da vantagem absoluta que determina
a direção e a possibilidade de se beneficiar do comércio, mas a vantagem
comparativa.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 52

Portanto, Ricardo (1982) mostrou que o comércio internacional não tem


necessariamente de ser estabelecido com base em vantagens absolutas.
Pode ser vantajoso para um país especializar-se na produção de bens que
são produzidos com menor esforço em outro lugar.

Adicionalmente, pode não haver benefícios em especializar-se na


produção de bens que propiciam vantagem absoluta se houver uma
vantagem ainda maior na produção de outros. Dessa forma, o modelo de
Ricardo prevê uma direção para o comércio exterior: os países exportarão
os bens nos quais têm maior produtividade relativa do trabalho (têm
vantagem comparativa na sua produção) e importarão os bens nos quais
apresentam menor produtividade relativa do trabalho (não têm vantagem
comparativa na sua produção).

Ricardo demonstrou que cada país seria levado a especializar-se não nas
produções em que teria vantagem absoluta, mas sim naquelas em que
haveria maior vantagem relativa. O modelo de Ricardo de comércio
exterior implica, portanto, na especialização de cada país na exportação
do produto do qual tem vantagens comparativas.

4. Teorias do Comércio Internacional


a) Factores produtivos e vantagem comparativa: o modelo
Heckscher-Ohlin-Samuelson
Conforme Krugman & Obstefeld (2001), as vantagens comparativas são
oriundas dos diferentes níveis de stoks relativos dos distintos factores de
produção, influenciando os custos de produção desses bens. As nações
têm tecnologia equivalente, mas diferem na disponibilidade dos factores
de produção, como terra, recursos naturais, mão-de-obra e capital. Por
exemplo, o país no qual o factor trabalho for relativamente abundante
poderá produzir um bem intensivo em trabalho a um custo relativamente
baixo; assim, terá uma vantagem comparativa em sua produção. Então,
diminuindo a produção do bem intensivo em capital, esse país irá
conseguir um grande incremento marginal da produção do bem intensivo
em trabalho.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 53

No modelo de Heckscher- Ohlin, também conhecido como modelo


neoclássico, as diferenças de dotações de fatores entre países são o
principal determinante das vantagens comparativas. As diferenças de
escassez relativa de factores de produção afectam os custos relativos e,
por conseguinte, os padrões de comércio.

Conseqüentemente, o teorema neoclássico básico do comércio


internacional é que qualquer país tende a exportar mercadorias que usam
quantidades relativamente altas de seus factores de produção mais
abundantes. Os padrões de vantagens comparativas são, portanto,
determinados pela escassez relativa dos factores de produção de tal forma
que, por exemplo, os países mais ricos em capital tendem a exportar
produtos intensivos em capital.

Assim, a conclusão do modelo de Heckscher- Ohlin é que países se


especializarão na produção dos bens que utilizam factores de produção
com abundância relativa, exportando esses bens e importando outros
cujos factores produtivos intensivos sejam relativamente escassos em seu
território.

No entanto, um importante estudo empírico para testar o modelo de


Heckscher e Ohlin foi realizado por Leontief (1953), que analisou as
importações e exportações dos Estados Unidos após a 2a Guerra Mundial.
O resultado mostrou que os Estados Unidos exportavam produtos que
eram menos intensivos em capital que suas importações. Sabendo-se que
havia mais capital por trabalhador neste país que em outros, seria de
esperar que o mesmo exportasse bens intensivos em capital e importasse
bens intensivos em mão-de-obra, o que não ocorreu nos 25 anos após a 2a
Guerra Mundial. Essa constatação ficou conhecida como o Paradoxo de
Leontief.

b) Robert Torrens e o problema dos termos de troca

Os termos de troca são trazidos por Robert Torrens, 1844 quando


descreve que a restrição das importações pode aumentar o bem estar num
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 54

país grande na medida em que fazem diminuir o preço das importações, o


que, ceteris paribus, melhora os termos da troca (ou razão de troca
internacional). No seu pensamento, esse benefício deve ser comparado
com os custos da tarifa (distorções de produção e consumo), sendo
possível que os benefícios dos termos de troca proporcionados pela tarifa
superem os custos.

Por outro lado, Torrens descreve que o livre comércio pode não ser a
melhor política para um país. É demonstrável que os ganhos estão
associados a tarifas positivas, mas baixas: a tarifa óptima é o valor que
maximiza esses ganhos. A conclusão é igualmente válida para a restrição
das exportações numa economia grande uma vez que faz subir o preço
das exportações, melhorando os respectivos termos de troca.

Em qualquer destes casos o efeito será tanto mais forte quanto maior for a
parcela do mercado mundial do bem controlada pelo país pois geram-se
perdas de eficiência quer na produção quer no consumo. Trata-se de
políticas potencialmente conflituosas nas relações comerciais. No
entanto, o argumento não se aplica aos países pequenos onde a tarifa
óptima é zero para um país pequeno porque não pode afectar os seus
termos de troca.

c) John Stuart Mill e o problema das indústrias


nascentes

O problema das industrias nascentes foi inicialmente sugerido por


Alexander Hamilton (Report on Manufacturers, 1791), posteriormente
desenvolvido por John Stuart Mill (1848) e vários outros autores. O
pressuposto básico é de que nas indústrias nascentes todas as empresas
vão ser pequenas e produzir bens idênticos, logo, o mercado será de
concorrência perfeita.

É nesta base que está a existência de economias de escala externas


traduzidas como externas à empresa, associadas à indústria em que
quanto maior a produção de um sector, mais baixo é o custo médio de
todas as empresas participantes;
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 55

Outra questão levantada por estes teóricos é de que a concentração


geográfica fomenta o desenvolvimento de vários factores geradores de
Economias de Escala Externa através da especialização de fornecedores;
do desenvolvimento de um mercado comum de trabalho; e dos spillovers
de conhecimento

As Economias de Escala Externas parecem explicar a formação de


clusters em várias indústrias a exemplo dos Semicondutores e
computadores em Silicon Valey, da produção de filmes em Hollywood e
da indústria de relógios na Suiça.

Disto resulta que:

 Empresas em países há muito estabelecidos num mercado terão,


ceteris paribus, custos mais baixos que produtores do mesmo
bem localizados em países emergentes porquanto beneficiam de
economias de escala externas, ao contrário dos produtores de
países com fraca tradição nessa indústria;

Nestas circunstâncias, os padrões de especialização poderão perdurar para


além do que seria previsível pela análise da evolução das vantagens
relativas em que as economias de escala externas poderão compensar
total ou parcialmente a perda de vantagens relativas.

No entanto esta tese só faz sentido enquanto protecção temporária:

 A protecção só deve estar em vigor o tempo suficiente para que a


indústria se torne internacionalmente competitiva;
 O mercado doméstico tem que ser suficientemente grande para
que o sector se torne internacionalmente competitivo;
 Os ganhos futuros devem compensar perdas incorridas durante o
período em que a indústria é protegida:
 custos esses suportados sobretudo pelos consumidores;
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 56

d) Keynes e o proteccionismo macroeconómico

A macroeconomia clássica, como toda a teoria econômica clássica, parte


do pressuposto fundamental de que o mundo econômico é governado por
leis naturais, as quais, se forem deixadas a funcionar livremente,
produzirão sempre os melhores resultados possíveis.

Além deste pressuposto geral, a macroeconomia clássica partia ainda de


dois pressupostos importantes:

 Os preços e salários são sempre flexíveis;


 A moeda não é utilizada com fins de entesouramento.

Estes dois pressupostos permitiam o desenvolvimento dos dois modelos


centrais da macroeconomia clássica:

 A "lei do mercado", segundo a qual a oferta cria sua própria


procura;
 A teoria quantitativa da moeda, que, partindo da equação de
trocas, concluía que, sendo a velocidade da moeda constante, e
dada uma determinada quantidade de moeda, a produção variava
em relação inversa e proporcional aos preços.

Além destes dois modelos, para equilibrar a poupança e o investimento,


a macroeconomia clássica fazia estas duas variáveis dependerem de taxa
de juros, a qual era, por sua vez, determinada pela oferta de poupança e a
procura de investimentos. O resultado de todo este processo era o pleno
emprego no longo prazo, ou, o que dá no mesmo, a impossibilidade de
haver crises de longa duração, indefinidas, de subconsumo ou
superprodução. E assim, a conclusão exigida pela filosofia da lei natural
ficava assegurada.

Contra esta visão idealista da economia, iria levantar-se a figura do


grande economista que marcaria e dividiria a história do pensamento
econômico do Século XX: John Maynard Keynes. A macroeconomia
clássica, ou mais precisamente, neoclássica, sofria das mesmas limitações
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 57

da análise microeconômica, com a qual, na verdade, se confundia


frequentemente. Era um modelo matematicamente rigoroso, fruto da
imaginação e da inteligência de economistas brilhantes, mas não
correspondia à realidade nem fornecia instrumentos eficientes de política
econômica para nela intervir. Na verdade, era sob muitos aspectos mais
uma peça de sistema ideológico alienado e conservador de justificativa do
liberalismo econômico, do laissez-faire.

A macroeconomia clássica transportava-nos para um mundo perfeito, em


que as forças do mercado, através de seus mecanismos automáticos de
auto-ajustamento, garantiriam pleno emprego, eficiência máxima da
produção, maximização da satisfação dos consumidores e dos lucros dos
produtores ( os quais, todavia, corresponderiam apenas ao lucro normal),
e distribuição ótima da renda entre os proprietários dos fatores de
produção. O irrealismo desta visão, porém, tornava-se cada vez mais
patente. A grande depressão dos anos trinta deste século tornou esse
irrealismo gritante. E foi em meio aos anos trinta que um economista
inglês, John Maynard Keynes, que até então se inscrevera entre os mais
eminentes economistas clássicos de seu tempo, publica um livro General
Theory of Employmwent, Interest and Money (1936), que revolucionaria a
teoria econômica.

Esta obra seria antes de mais nada uma denúncia do laissez-faire. Keynes
verificou que o sistema econômico capitalista estava longe de assegurar
automaticamente o pleno emprego e o desenvolvimento econômico sem
crises crônicas, de duração indefinida, como pretendia a teoria econômica
vigente. Este facto fora também constatado pela maioria de seus
contemporâneos. Mas apenas Keynes logrou montar um modelo teórico
que tivesse condições de fazer frente ao modelo clássico. Tarefa
aparentemente com o mesmo sentido já fora realizada no século Já a
crítica de Keynes tem um sentido completamente diverso. Não visava
condenar o capitalismo, mas apontar suas fraquezas e indicar os remédios
adequados. Não era o capitalismo que era condenado, mas o laissez-faire.
É certo que a política para salvar o capitalismo era suficientemente
ousada para praticamente propor a socialização dos investimentos, seu
controle pelo governo5. O máximo que se poderia dizer, portanto, é que
para salvar o sistema capitalista, Keynes admitia um grau de intervenção
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 58

do Estado que a longo prazo poderia implicar no desaparecimento do


sistema capitalista.

Basicamente, porém, denúncia de Keynes ao laissez-faire partia da


verificação que, deixado o sistema econômico por sua própria conta,
tenderia ele, inexoravelmente, à crise crônica de subconsumo, e ao
desemprego. Desta forma, criticando a teoria econômica neoclássica e
propondo seu próprio modelo alternativo, Keynes denunciou o laissez-
faire e devolveu à Economia o contacto com a realidade.

Teoria Geral de Keynes

Keynes apresenta uma análise pessimista do sistema econômico


capitalista. Sua teoria é uma teoria macroeconômica, que, ao contrário da
teoria microeconômica anterior, não toma a produção total como um dado
e o pleno emprego como uma decorrência inerente ao sistema, colocando
como incógnitas a alocação dos factores de produção entre as diversas
possíveis aplicações, através do mecanismo dos preços, e a conseqüente
remuneração dos fatores.

Ao invés de uma teoria estritamente estática e optimista, como era a


teoria neoclássica, Keynes apresenta uma teoria macroeconômica
relativamente dinâmica, cujas incógnitas fundamentais são o volume da
produção e o nível de emprego decorrente. Além disso, ao invés de partir
da análise do comportamento individual dos agentes microeconômicos -
os consumidores e os produtores, Keynes adopta uma abordagem
macroeconômica, partindo directamente do estudo dos agregados
econômicos básicos: a renda, o consumo, a poupança, o investimento,
dentro de uma economia monetária.

Keynes inaugura a abordagem macroeconômica, integrando, ao mesmo


tempo, a teoria monetária. A macroeconomia conta com (1) dados, que
não variam; (2) variáveis independentes, que se dividem em funções de
comportamento e decisões do governo; (3) uma variável dependente
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 59

intermediária; (4) as variáveis dependentes finais; e (5) algumas


identidades fundamentais.

1. Dados
 Quantidade de trabalho e capital;
 Qualidade do trabalho e capital (tecnologia);
 Grau de concorrência;
 Gostos dos consumidores;
 Estrutura social que determina a distribuição de renda;
 Oferta agregada determinada pelo nível de emprego dado o
estoque de capital;

Estes dados da macroeconomia keynesiana mostram bem o seu caráter


estático e de curto prazo.

2. Variáveis Independentes

 Funções de comportamento - baseadas em expectativas a


respeito do comportamento dos indivíduos;
 Função consumo (e poupança) - propensão psicológica a
consumir face a variações na renda;
 Função investimento - expectativas psicológicas de lucro;
 Preferência pela liquidez - expectativas psicológicas quanto à
variação da taxa de juros;
 Procura transacional - e acautelatória - velocidade da moeda -
hábitos de pagamento da economia;

3. Decisões do governo

 Política econômica do governo


 Quantidade de moeda oferecida - política monetária;
 Dispêndio do governo-investimentos públicos - política fiscal;
 Carga tributária - política fiscal.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 60

3. Variável Dependente Intermediária

1. Taxa de juros - determinada pelas variáveis anteriores;

Variáveis Dependentes Finais

 Renda
 Emprego
 Nível de preços

Identidades fundamentais

 Renda igual a consumo mais investimento


 Poupança igual a renda menos consumo
 Investimento igual poupança
 Multiplicador igual ao inverso da propensão marginal a poupar
 Procura de moeda ou preferência pela liquidez igual a procura
por motivos transacionais e acautelatórios mais a procura
especulativa.

Em termos resumidos, podemos afirmar que a macroeconomia


keynesiana, exposta na General Theory, é uma teoria do emprego
baseada na idéia de procura agregada efetiva. O nível de emprego
depende da procura agregada efectiva, ou seja, da renda. Esta tem como
principal componente o consumo, que depende da renda disponível
(função consumo), e que tende a crescer a uma taxa menor do que a renda
(propensão marginal a consumir inferior à unidade). Resulta daí uma
tendência ao aumento de propensão média à poupança. O aumento da
poupança deve ser compensado pela outra componente básica da procura
agregada efetiva: o investimento. Este, que, através do mecanismo do
multiplicador, determina o nível da renda, é, na verdade, a variável
fundamental do modelo keynesiano, devido ao fato de que o investimento
é uma variável que pode ser manipulada com relativa facilidade,
enquanto que o consumo, não.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 61

e) Concorrência imperfeita e economias de escala

Na abordagem que trata do impacto das economias de escala sobre o


comércio internacional, o argumento básico é o seguinte: quando as
funções de produção exibem retornos de escala crescentes, os padrões de
comércio e o desempenho das exportações dependem do tamanho
absoluto do mercado doméstico.

Conseqüentemente, os países maiores terão vantagens comparativas em


sectores com economias de escala significativas. Neste sentido, as
economias de escala podem ser importantes em produtos finais
homogêneos e diferenciados, bem como em bens intermediários, através
da especialização intra-sectorial.

Aqui é importante mencionar que os pioneiros da teoria do comércio


internacional (Ohlin, por exemplo) já chamavam a atenção para as
influências das economias de escala. Todavia, em versões simplificadas
do modelo neoclássico (de Heckscher-Ohlin), supõe-se que as funções de
produção exibam retornos constantes de escala e que os fatores de
produção têm uma produtividade marginal decrescente.

Também deve ser dito que as economias de escala foram discutidas até
como uma variável importante no contexto das exportações de
manufaturados dos países em desenvolvimento. Entretanto, a conclusão
básica é que “a pesquisa empírica sobre a importância das economias de
escala no padrão do comércio internacional tem tido resultados variados”.

No passado recente, o argumento das economias de escala tem sido


associado principalmente com os modelos de comércio baseados em
estruturas de mercado imperfeitamente concorrenciais. Uma das
conclusões básicas destes modelos é que “em um mundo no qual os
retornos crescentes existem, a vantagem comparativa resultante das
diferenças entre os países não é a única razão para a existência do
comércio. As economias de escala criam um incentivo adicional e gerarão
comércio mesmo se os países forem idênticos em gostos, tecnologias e
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 62

dotações de factores” Vale a pena mencionar que a idéia dos retornos


crescentes também se relaciona à acumulação de experiência, ou seja, às
economias da aprendizagem. A este respeito, economias de escala
dinâmicas do tipo “curva de aprendizagem” criam uma vantagem
comparativa para uma firma ou setor, que pode afetar a estrutura nacional
de vantagens comparativas.

Sumário
No modulo apresentado acima, são trazidas as principais teorias
do comércio internacional. Estas apresentam argumentos

construídos através das experiências vividas nos diferentes

momentos da história do comércio internacional, e que servem

como instrumento orientador do traçado das políticas do comércio


dos estados e organizações contemporâneas, a exemplo da

integração regional que tem estado a caracterizar a dinâmica das

relações económicas internacionais na actualidade.

Exercícios
1. Fale das bases teóricas do comércio internacional,

mostrando as especificidades dos modelo de Adam Smith e

David Ricardo.

2. Explique o modelo de dotação de factores (Hecsher-


Honlin-Samuelson) e identifique os aspectos críticos desta

teoria.

3. Em que medida é que o proteccionismo pode trazer

benefícios ao comércio Internacional. Responda tendo em


conta o argumento desenvolvido por Robert Torrens.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 63

4. Problematize a questão das industrias nascentes apoiando-

se no postulado de John Stuar Mill.

5. O modelo de comércio desenvolvido por Keynes denuncia

o laissez-faire partindo da verificação que, deixado o sistema

econômico por sua própria conta, tenderia ele,

inexoravelmente, à crise crônica de subconsumo, e ao

desemprego. Com base nesta premissa básica afirma-se

devolveu à Economia o contacto com a realidade.

Argumente.

Fazer os exercícios constantes na auto-avaliação.


Auto-avaliação
Entregar o exercício: 1 à 5.

Em quatro páginas faça um breve resumo da unidade em estudo.


EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 64

Unidade IV
Direito Internacional Público

Introdução
Nesta unidade pretende-se que os estudantes compreendam a existência e
aplicação de normas jurídicas internacionais, bem como introduzi-las ao
universo das organizações internacionais, de carácter universal, regional e
económico.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Identificar e classificar as fontes de Direito Internacional;


 Explicar e analisar a natureza dos vários tipos de tratados
Objectivos internacionais;
 Identificar e explicar as normas de Direito Internacional;
 Identificar os sujeitos de Direito Internacional e explicar a
natureza das Organizações internacionais.

4. Fontes de Direito Internacional

O Direito Internacional Público (DIP) foi regido tradicionalmente pelos


costumes internacionais até meados do século XX. Mas estes perderam
espaço para os tratados, pois, o direito costumeiro pressupõe uma
sociedade estática enquanto que uma sociedade dinâmica carece de um
direito legislado.

Neste contexto, os tratados são considerados actualmente a principal


fonte do direito internacional, não só devido à sua multiplicidade, mas
também porque geralmente as matérias mais importantes são
regulamentadas por eles.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 65

a) Fontes em geral

Fontes formais de DIP: constituem os modos pelos quais o Direito se


manifesta, isto é, as maneiras pelas quais surgem normas jurídicas. O
artigo 38 do Estatuto da Corte Internacional de Justiça apresenta as fontes
formais do DIP a saber:
 As Convenções internacionais, quer gerais, quer especiais, que
estabeleçam regras expressamente reconhecidas pelos Estados
em litígio;
 O costume internacional, como prova de uma prática geral
aceita como sendo o direito;
 Os princípios gerais de direito, reconhecidas pelas nações
civilizadas;
 Sob ressalva da disposição do art. 59 (segundo o qual "A decisão
da Corte só será obrigatória para as partes litigantes e a respeito
do caso em questão”), as decisões judiciárias e a doutrina dos
juristas mais qualificados das diferentes nações, como meio
auxiliar para a determinação das regras de direito.

Entretanto, a enumeração acima, segundo alguns estudiosos, é


incompleta. Os mais modernos doutrinadores têm incluído os actos
unilaterais como fonte, havendo outros que mencionam, ainda, a lei
internacional (decisões das organizações internacionais).

Fontes materiais do DIP: são os elementos históricos, sociais e


econômicos que acarretam o aparecimento das fontes formais ou seja, os
motivos para a criação das fontes formais.

Classificação das fontes:

As fontes podem ser escritas (tratados) e não-escritas (costumes).


Também podem ser fontes convencionais (tratado) e fontes de base
autoritária (lei internacional).
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 66

Os Tratados como fonte do DIP

O Tratado é definido como um acordo de vontades entre sujetos do DIP


constitutivo de direitos e deveres ou de outros efeitos nas relações entres
eles. Quando estes efeitos consistrem na criação ou modificação de
normas estaremos diante de tratados como fonte de direitos.

Os tratados são considerados a fonte do Direito Internacional mais


democrática, uma vez que há participação directa dos Estados na sua
elaboração. O principal fundamento dos tratados é o Pacta Sunt
Servanda: aquilo que foi pactuado deve ser cumprido. Segue o artigo 26
da Convenção de Viena: “Todo tratado em vigor vincula as Partes e deve
ser por elas cumprido de boa fé.”

Estrutura dos Tratados

Preâmbulo: apresenta o elenco das partes pactuantes, os motivos, as


circunstâncias e os pressupostos do acto convencional. Apesar de não
apresentar considerações de natureza decisória, o preâmbulo de um
tratado afigura-se como importante instrumento de interpretação do
acordo.

Parte dispositiva: é elaborada em linguagem jurídica, apresentando forma


de normas, ordenadas por artigos ou cláusulas. Na parte dispositiva temos
os direitos e deveres das partes.

Anexos: constituem, também, parte do teor obrigacional do tratado. Sua


posição, no texto, destacada do dispositivo, deve-se ao facto de seu
conteúdo representar equações, fórmulas, ilustrações, gráficos, listas etc.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 67

Características dos Tratados

Formalismo: Tratado é um acordo formal, escrito. Não existe tratado oral.


Esta é a principal diferença entre as duas principais fontes do DIP
(tratado e costumes).

Actores: as partes do tratado são necessariamente pessoas jurídicas de


direito internacional público (Estados Soberanos, Santa Sé e
Organizações Internacionais). Resulta daí que as empresas privadas não
têm capacidade para celebrar tratados.

Produção de efeitos Jurídicos: decorre da vontade de se criarem vínculos


obrigacionais entre as partes concordantes.

Regência do Direito Internacional Público: Toda norma internacional tem


que estar ligada a algum ramo do Direito. O Direito dos Tratados está
ligado ao Direito Internacional Público.

Base instrumental: O tratado pode materializar-se em duas ou mais peças


documentais distintas.

Requisitos de Validade dos Tratados


 Capacidade das Partes Contratantes;
 Habilitação dos Agentes Signatários;
 Objeto Lícito e Possível;
 Consentimento Mútuo.

Classificação dos Tratados

Por Critérios Formais:


 Pelo Número de Partes: bilateral ou multilateral (coletivo);
 Extensão do Procedimento: em sentido estrito ou acordo em
forma simplificada.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 68

Por Critérios Materiais:


 Natureza das Normas: contratuais ou normativos;
 Execução no Tempo: dispositivos ou continuados;
 Execução no Espaço: território total ou parcial.

Conceitos e práticas do Direito dos tratados:


 Ractificação: o acto internacional pelo qual um Estado
estabelece, no plano internacional, seu consentimento em
obrigar-se por um tratado.
 Plenos poderes: designa um documento emanado da autoridade
competente de um Estado que indica uma ou mais pessoas para
representar o Estado na negociação, na adopção ou na
autenticação do texto de um tratado, para manifestar o
consentimento do Estado em obrigar-se por um tratado ou para
praticar qualquer outro acto relativo a um tratado;
 Reserva: designa uma declaração unilateral, qualquer que seja o
seu conteúdo ou a sua denominação, feita por um Estado quando
assina, ractifica, um tratado ou a ele adere, pela qual visa excluir
ou modificar o efeito jurídico de certas disposições do tratado na
sua aplicação a esse Estado;
 Estado Negociador: Estado que participou da elaboração e da
adopção do texto do tratado;
 Estado Contratante: Estado que consentiu em se obrigar pelo
tratado, esteja em vigor ou não;
 Parte: Estado que consentiu em ficar vinculado pelo tratado e
relativamente ao qual o tratado se encontra em vigor;
 Terceiro Estado: Estado que não é Parte no tratado;

Nulidade dos tratados:

O tratado que violar uma norma imperativa do Direito Internacional geral


é NULO. Segundo o artigo 53 da Convenção de Viena sobre o Direito
dos Tratados de 1986: É nulo o tratado que, no momento de sua
conclusão, conflita com uma norma imperativa de Direito Internacional
geral. Para fins da presente Convenção, uma norma imperativa de Direito
Internacional geral é uma norma aceita e reconhecida pela comunidade
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 69

internacional dos Estados no seu conjunto, como uma norma da qual


nenhuma derrogação é permitida e que só pode ser modificada por uma
norma de Direito Internacional da mesma natureza.” Assim, havendo
violação de normas imperativas, o tratado não poderá produzir efeitos,
podendo ser citado como exemplo a celebração de tratados que violam
direitos humanos.

Nenhum tratado pode ter um objeto que contrarie a moral, nem deve
tratar de algo inexeqüível. Neste caso, a parte prejudicada, ou ambas,
podem pôr fim àquele tratado.

Vícios possíveis nos tratados


 Consentimento expresso com agravo ao direito público interno:
Ocorre quando o poder Executivo externo, no plano do DIP,
expressa um consentimento a que não se encontra
constitucionalmente habilitado. Pode ser causa de nulidade, nos
casos em que a violação seja manifesta e diga respeito a uma
regra de seu direito interno de importância fundamental.

 Consentimento expresso com erro: Hipótese menos rara, na


prática, sendo o erro de maior incidência o que diz respeito a
questões cartográficas, em tratados de limites. Pode causar a
nulidade do consentimento, caso o erro se refira a um facto ou
situação que a parte supunha existir e que constituía uma base
essencial para o consentimento. (artigo 48, parágrafo 1º da
Convenção de 1969).

 Consentimento expresso com dolo: Ocorre quando o Estado ou


organização internacional foi levado a concluir um tratado pela
conduta fraudulenta de outro Estado. Pode ser causa de nulidade
do consentimento em obrigar-se pelo tratado. (artigo 49 da
Convenção de 1969).

 Consentimento expresso com corrupção: Pode ser causa de


nulidade, nos casos em que um Estado ou organização
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 70

internacional tenha sido levado(a) a concluir um tratado por meio


da corrupção de seu representante, pela acção directa ou indirecta
de outro Estado ou organização. (artigo 50 da Convenção de
1969).

 Consentimento expresso com coacção: Neste, há duas hipóteses:


a primeira quando o consentimento de um Estado foi obtido pela
coacção exercida sobre seu representante; a segunda, quando a
conclusão foi obtida pela ameaça ou emprego da força em
violação dos princípios do DIP incorporados na carta da ONU.
Nestes dois casos, os tratados são nulos, não produzindo efeitos
jurídicos. (artigos 51 e 52 da Convenção de Viena sobre o Direito
dos Tratados de 1969).

a. Conclusão dos tratados em Moçambique

A disposição central para a apreciação da forma como a Constituição


moçambicana de 2004 lida com as questões do Direito Internacional é o
artigo 18, com a epígrafe “Direito internacional”.

O número 1 do artigo 18 da Constituiçãao da República de Moçambique


prevê que “[o]s tratados e acordos internacionais, validamente aprovados
e ratificados, vigoram na ordem jurídica moçambicana após a sua
publicação oficial e enquanto vincularem internacionalmente o Estado de
Moçambique”.

O número 2 deste artigo, por seu turno, estipula que “[a]s normas deDIP
têm, na ordem jurídica interna, o mesmo valor que assumem os actos
normativos infraconstitucionais emanados da Assembleia da República e
do Governo, consoante a sua respectiva forma de recepção”.

As estipulações constantes do artigo 18 são analisadas nos seguintes


aspectos:
 Distinção entre tratados e acordos internacionais;
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 71

 Método de incorporação das vinculações internacionais (tratados


em sentido amplo) na ordem jurídica moçambicana;
 Exigência da publicação interna dos compromissos internacionais
(tratados em sentido amplo) assumidos pelo Estado
moçambicano;
 Previsão da produção de efeitos jurídicos na ordem jurídica
moçambicana de outras fontes de Direito Internacional além das
vinculações internacionais (tratados em sentido amplo);
 Método de incorporação das outras fontes de Direito
Internacional além das vinculações internacionais (tratados em
sentido amplo) na ordem jurídica moçambicana;
 Posição hierárquica das fontes de Direito Internacional no âmbito
da ordem jurídica moçambicana.

Moçambique reconhece a potencialidade da incorporação, na sua ordem


interna, das “normas internacionais” que possam ser encontradas no
Direito Internacional, nomeadamente em costumes internacionais, em
tratados e em acordos internacionais, e em actos de direito derivado
emitidos no âmbito das organizações internacionais de que seja membro.

No que respeita especificamente aos tratados e aos acordos


internacionais, o número 1 do artigo 18 determina que a vigência interna
depende da sua aprovação, ratificação e publicação oficial, em
conformidade com o procedimento de vinculação internacional do Estado
moçambicano, na decorrência da utilização da expressão “validamente”.
Além disso, em resultado do segmento final da disposição em causa, a
produção de efeitos internos é limitada ao horizonte.

Da redacção do nº1 do artigo 18 decorrem três consequências que


importa sublinhar:
 Uma parte da regulamentação da vinculação internacional do
Estado moçambicano deve ser procurada no âmbito da ordem
jurídica interna, com destaque para o direito constitucional;
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 72

 A publicitação interna das vinculações internacionais assumidas


pela República de Moçambique através do seu jornal oficial é
condição de produção de efeitos na ordem jurídica moçambicana;
 Os mecanismos de cessação de efeitos das vinculações
internacionais vigentes na República de Moçambique devem ser
procurados no âmbito do Direito Internacional. O procedimento
de vinculação internacional do Estado moçambicano.

Uma adequada apreciação do procedimento de vinculação internacional


do Estado moçambicano implica que se proceda, antes de mais, a uma
clarificação de três conceitos que podem ser encontrados na Constituição
da República de Moçambique de 2004: “tratados”, “acordos
internacionais” e “convenções”.

Em geral, está-se a lidar com a fonte de Direito Internacional que é


genericamente designada através da expressão “tratado”. Isto é, o
conjunto de compromissos internacionais convencionais assumidos pelo
Estado moçambicano com outros sujeitos de Direito Internacional, que
são o resultado de um procedimento específico, distinto do utilizado para
a produção normativa estritamente interna, que pode ser designado por
procedimento de vinculação internacional.

A distinção entre “tratados” e “acordos internacionais” não é específica


da ordem jurídica moçambicana e pode ser encontrada no Direito
Internacional e nas ordens jurídicas internas dos diversos sujeitos de
Direito Internacional. Tem na sua base a utilização de um procedimento
de vinculação internacional distinto. No caso dos tratados, de um
procedimento longo, com a previsão de uma confirmação da
manifestação do consentimento a estar vinculado expressa através de um
acto solene posterior à assinatura, como a ratificação.

No caso dos acordos internacionais, de um procedimento simplificado,


em que a assinatura traduz a manifestação do consentimento do Estado a
estar internacionalmente vinculado. A divisão dos compromissos
internacionais entre tratados solenes e acordos internacionais em forma
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 73

simplificada, tendo por base o número de fases do procedimento


utilizado, é consensual e de aceitação generalizada ao nível da prática
internacional e da doutrina. Importa ter em consideração, no entanto, que
a terminologia utilizada não é idêntica em todos os casos, sendo possível
encontrar exemplos de vinculações internacionais com a designação de
“acordos internacionais” em relação às quais é exigida, ao nível das
ordens Jurídicas dos Estados participantes, a confirmação do
consentimento a estar internacionalmente vinculado.

No que especificamente respeita ao procedimento de vinculação


internacional do Estado moçambicano, em consonância com a prática
internacional, podem ser autonomizadas três fases: a negociação, a
manifestação internacional do consentimento a estar vinculado, e a
confirmação interna do consentimento a estar internacionalmente
vinculado.

A negociação surge dividida entre o Presidente da República e o


Governo. Ao Governo, através do Conselho de Ministros, compete
“preparar a celebração de tratados e celebrar (…) acordos internacionais,
em matéria da sua competência governativa”, nos termos da alínea g) do
nº 1 do artigo 204. Ao Presidente da República, por seu turno, compete
“celebrar tratados” no domínio da defesa e da ordem pública, em
conformidade com a alínea b) do artigo 161, e “celebrar tratados
internacionais” no domínio das relações internacionais, nos termos da
alínea b) do artigo 162.

A manifestação internacional do consentimento do Estado moçambicano


a estar vinculado encontra-se partilhada entre o Presidente da República,
Governo e a Assembleia da República. No seguimento das normas dos
artigos 161, 162 e 204 anteriormente citadas, é possível depreender que o
Presidente da República e o Governo têm competência para assinar a
totalidade dos tratados e dos acordos internacionais. É o resultado útil que
pode ser retirado da repetida utilização da expressão “celebrar”,
entendida como a autorização da expressão do consentimento
internacional da República de Moçambique a estar internacionalmente
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 74

vinculada. Isso significa que para a Assembleia da República fica


reservada a tarefa da confirmação da manifestação do consentimento das
vinculações designadas como tratados, nos termos das alíneas t) e u) do
nº 1 do artigo 179, ao ser previsto que é da “exclusiva competência da
Assembleia da República” “ratificar (…) os tratados internacionais” e
“ratificar os tratados de participação de Moçambique nas organizações
internacionais de defesa”.

Este esquema de repartição de competências de negociação e de


manifestação do consentimento entre os órgãos de soberania é o mais
adequado à distinção entre tratados e acordos internacionais adoptado
pela Constituição da República de Moçambique de 2004. Isso significa
que deverá ser feita uma interpretação correctiva da alínea g) do nº 1 do
artigo 204, no que concerne à atribuição de competência ao Governo para
“ratificar (…) acordos internacionais”, no sentido de a reduzir a um acto
com efeitos estritamente internos.

A confirmação interna do consentimento da República de Moçambique a


estar internacionalmente vinculada é atribuída à Assembleia da República
e ao Governo. À Assembleia da República cabe expressamente “aprovar
(…) os tratados que versem sobre matérias da sua competência”, em
conformidade com a alínea e) do nº 2 do artigo 179. No que respeita ao
Governo a competência não aparece expressamente no articulado
constitucional, sendo o necessário reverso da disposição relativa à
Assembleia da República, na lógica decorrência da sua competência para
“celebrar, ratificar, aderir e denunciar acordos internacionais”, nos termos
da alínea g) do nº 1 do artigo 204.

A possibilidade do objecto dos tratados da competência de aprovação da


Assembleia da República, com excepção dos relativos “à paz e à
rectificação de fronteiras”, serem sujeitos a referendo está prevista no nº 4
do artigo 13634. A redacção utilizada no preceito parece circunscrever a
apreciação popular às opções a serem tomadas futuramente através da
assunção de um compromisso internacional, embora também não afaste
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 75

radicalmente a opção contrária da submissão do texto de uma vinculação


internacional cujas negociações já tenham sido dadas por concluídas.

A competência para a denúncia das vinculações internacionais aparece


expressamente repartida entre a Assembleia da República e o Governo
em termos particularmente esclarecedores. Assim, nos termos da alínea e)
do nº 1 do artigo 179, compete à Assembleia da Republica “denunciar os
tratados que versem sobre matérias da sua competência”. Da mesma
forma que, em consonância com a alínea g) do nº 1 do artigo 204, o
Governo pode “denunciar acordos internacionais, em matérias da sua
competência governativa”.

Os termos da repartição da competência para a denúncia, no seguimento


da repartição da competência para a vinculação internacional e para a
aprovação interna, têm na sua base uma delimitação das áreas de
actuação da Assembleia da República e do Governo. No que respeita à
Assembleia da República, podem ser integradas nas “matérias da sua
competência” todas as “questões básicas da política interna e externa do
país”, com destaque para aquelas que surgem especificamente elencadas
no nº 2 do artigo 179. Daqui resulta, em contraponto, que ao Governo
caberá concluir acordos internacionais sobre todas as restantes questões,
nestes termos referenciadas como “matérias da sua competência
governativa”, em conformidade com a previsão do artigo 204.

3.4. Publicitação do Direito Internacional na ordem jurídica


moçambicana A publicação dos compromissos internacionais
convencionais está expressamente prevista no nº 2 do artigo 18, ao ser
afirmado que os “tratados e acordos internacionais (…) vigoram na
ordem jurídica moçambicana após a sua publicação oficial”.

Em sentido coincidente, a alínea f) do nº 1 do artigo 144 (Publicidade)


determina que são “publicados no Boletim da República, sob pena de
ineficácia jurídica”, “as resoluções de ratificação dos tratados e acordos
internacionais”. Da conjugação das duas disposições citadas resulta a
imposição de publicitação interna: i) por um lado, dos textos dos
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 76

compromissos internacionais; e ii) por outro lado, dos actos internos


praticados no âmbito da confirmação interna do consentimento da
República de Moçambique a estar internacionalmente vinculada.

A exigência da publicitação do articulado dos tratados e dos acordos


internacionais é particularmente significativa, na medida em que permite
que o acesso às vinculações internacionais se faça em condições
equivalentes às das restantes fontes de direito que integram a ordem
jurídica moçambicana. A publicação oficial em Moçambique das
vinculações internacionais que tenham sido assumidas pelo Estado
moçambicano pode não determinar, contudo, uma produção de efeitos em
termos equivalentes à das fontes de direito de produção estritamente
interna. Com efeito, um tratado internacional ou um acordo em forma
simplificada só estão em condições de começar a produzir internamente
efeitos quando tiverem começado a produzir efeitos internacionalmente,
em conformidade com o que estiver estipulado no compromisso em
questão. Esta prevenção é particularmente relevante no que concerne aos
tratados multilaterais, com um grande número de partes, na medida em
que a reunião das ratificações necessárias à entrada em vigor
internacional ainda pode estar a decorrer na ocasião em que seja feita a
sua publicitação nas ordens jurídicas de algumas das partes. Isso
significa, em conformidade, que deverá ser feita uma clara distinção entre
as regras da vacatio legis aplicáveis ao direito interno e as respeitantes às
fontes de Direito Internacional, independentemente da sua consagração
legal na ordem jurídica em questão, em razão da especificidade das fontes
do Direito Internacional

3.5. A posição hierárquica do Direito Internacional na ordem


jurídica moçambicana

A Constituição da República de Moçambique de 2004 enfrenta o


problema do posicionamento hierárquico do Direito Internacional na
ordem jurídica interna em termos particularmente impressivos. Na
verdade, de uma forma muito pouco comum no direito constitucional
comparado, o nº 2 do artigo 18 prevê que as “normas de direito
internacional têm na ordem jurídica interna o mesmo valor que assumem
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 77

os actos normativos infraconstitucionais emanados da Assembleia da


República e do Governo”.

O nº 2 do artigo 18 é uma concretização do nº 4 do artigo 2 (Soberania e


legalidade), onde se prevê em termos gerais que as “normas
constitucionais prevalecem sobre todas as restantes normas do
ordenamento jurídico”37. Daqui resulta que, ao recorrer à expressão
genérica “normas de direito internacional”, o legislador constituinte
estava intencionalmente a determinar a subordinação ao texto
constitucional de todas as fontes de Direito Internacional passíveis de
produzir efeitos internamente.

5. Sujeitos de Direito Internacional


a. Sujeitos em geral

Não há um consenso, entre os autores, acerca do conceito de pessoa


internacional no DIP. Uma corrente de pensameno advoga que a
conceituação de sujeito de direito no DIP seria idêntica à conceituação de
sujeito de direito no direito interno, ou seja, é sujeito de direito
internacional aquele que tem direitos ou obrigações (DI) perante a ordem
jurídica internacional.

A segunda corrente, entende que, para que alguém possa ser qualificado
como pessoa internacional, é necessário que lhe seja outorgada a
capacidade de agir no plano internacional, possuindo, no mínimo,
prerrogativa de reclamar nos foros internacionais a garantia de seus
direitos. Para esses autores, são sujeitos de direito apenas os Estados
soberanos aos quais se equipara, por razões singulares, a Santa Sé.
Também são sujetos do DIP as organizações internacionais (OI).

Ambas as correntes concordam em um ponto: a subjetividade no DIP é


evolutiva, variando conforme as transformações da sociedade
internacional. Prova disso é que, até o século XIX, os Estados eram as
únicas pessoas jurídicas no DI. No entanto, hoje, após a evolução da
sociedade internacional, é indiscutível que as OI são dotadas de
personalidade jurídica internacional.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 78

b. Os Estados como sujeitos do DIP

Estado sujeito do DIP: é aquele que reúne três elementos indispensáveis


para a sua formação: população (composta de nacionais e estrangeiros),
território (ele não precisa ser completamente definido e governo que deve
ser efectivo e estável. Todavia, o Estado pessoa internacional plena é
aquele que possui soberania. A soberania do estado é avaliada sob ponto
de vista da capacidade de um governo relacionar-se com os demais
Estados, o que, conjugado, significa a existência de um governo não
subordinado a qualquer autoridade exterior. Portanto a soberania do
Estado é a qualidade que assegura a sua capacidade de manter relações
com os demais Estados.

c. As Organizações Internacionais como sujeitos do DIP

Com o advento da Primeira Guerra Mundial, a idéia da instituição de


organizações internacionais ganhou força, com a fundação da Liga das
Nações, que visava a coordenação e controle das atividades dos estados
soberanos, com o objectivo principal de manutenção da paz mundial.
Actualmente, a crescente demanda pelo incremento do comércio
internacional é o principal determinante da multiplicação das
organizações internacionais.

Dessa forma, os organismos são compostos pela reunião de Estados


soberanos, com o objetivo de estabelecer a cooperação permanente entre
os mesmos e a convivência pacífica, seja no aspecto diplomático, ou nos
aspectos econômico, financeiro, social etc.

Segundo a Convenção de Viena, “organização internacional significa


uma organização intergovernamental”. “uma associação de Estados (ou
de outras entidades possuindo personalidade internacional) estabelecida
por meio de um tratado, possuindo uma constituição e órgãos comuns e
tendo uma personalidade legal distinta da dos Estados-Membros”.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 79

As OI’s diferem-se das organizações não-governamentais, ONGs, pois


estas não são constituídas por Estados soberanos, e sim, por pessoas ou
entidades vinculadas a um país soberano, com objetivos específicos (ex:
preservação do meio ambiente, desenvolvimento da comunidade, etc).

Diferenças entre os Sujeitos do DIP

Estados: os Estados possuem uma desigualdade quantitativa, em função


da extensão territorial, população, produção etc, e uma igualdade
qualitativa, tendo em vista que, independentemente do poderio
econômico ou extensão territorial do país, os objetivos do Estado são
sempre os mesmos, lastreados na paz, na segurança e no bem estar de seu
povo.

Organizações internacionais: as OI’s, gozam, para além da desigualdade


quantitativa, em função do número de associados, do orçamento, do
alcance geográfico etc., como de desigualdade qualitativa, baseada nos
diversos objetivos estabelecidos quando da criação das mesmas (fomento
ao comércio, paz, desenvolvimento dos países mais pobres, proteção ao
meio ambiente etc.).

1.2. Modalidades de Organizações Internacionais

As organizações internacionais ou intergovernamentais, ou seja, entre


governos (Estados), podem possuir objectivos genéricos ou específicos,
ou, ser de competência geral ou limitada.

Organizações intergovernamentais de objetivos genéricos: (competência


geral), também conhecidas por organizações de domínio político, visam
coordenar as relações entre países, independentemente da área de
actuação. O maior exemplo desse tipo de organização é a Organização
das Nações Unidas, (ONU) que traz em seu tratado constitutivo
objectivos em praticamente todas as áreas de actuação, podendo ser
destacado um objectivo principal, o de manter a paz mundial, e objectivos
acessórios, através dos quais se pretende atingir o objectivo principal,
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 80

como obter a cooperação internacional nos sectores econômico, social,


cultural, científico etc.

Já as organizações de objetivos específicos: (competência limitada)


coordenam acções entre as nações somente em determinado sector
(econômico, social, financeiro etc), como, por exemplo, a Organização
Mundial do Comércio (OMC). Aqui se enquadram também o FMI
(Fundo Monetário Internacional), o BIRD (Banco Internacional de
Desenvolvimento e Reconstrução, ou Banco Mundial). Também se
enquadram como organizações de objectivos específicos as “agências
especializadas” da ONU, que, por possuírem personalidade jurídica
própria, constituem-se em organizações internacionais distintas no
cenário internacional, tais como a UNESCO (Organização das Nações
Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e a OIT (Organização
Internacional do Trabalho).

Classificação das Organizações Internacionais

Quanto ao domínio temático: temos OI’s de vocação política: aquelas que


têm por objectivo principal a manutenção da paz e segurança (ONU,
Organização da Unidade Africana – OUA), e as de vocação específica:
voltadas primordialmente a um fim, seja económico, financeiro, cultural
ou estritamente técnico (Agências especializadas da ONU, Mercosul,
NAFTA).

Quanto ao seu alcance geográfico: as organizações podem ser globais


(universais) ou regionais, caso contemplem, respectivamente, países de
todas as partes do planeta ex: Banco Internacional de Resconstrução e
Desenvolvimento.

Instituição e Personalidade das Organizações

A criação (instituição) de uma organização internacional se dá por meio


de um tratado constitutivo, tratado multilateral, celebrado entre os
Estados-membros, que instituirá os órgãos componentes da entidade, os
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 81

objectivos a serem alcançados, os direitos e os deveres de cada país


integrante. Em princípio, a organização é instituída por período
indeterminado, mas isso não é obrigatório.

O próprio tratado constitutivo deverá prever se haverá necessidade de


ratificação por parte dos Estados-membros para que ele entre em vigor
ou não. Os tratados constitutivos das organizações internacionais devem
ser aceites integralmente pelos Estados-membros ou rejeitados. Isso
ignifica que um país não poderá aceitar parcialmente as condições o
tratado constitutivo, pois esse facto criaria um desequilíbrio nas relações
entre os componentes da organização. Em termos técnicos,diz-se que a
reserva não é permitida.

A personalidade legal internacional da organização internacional significa


a aptidão ou qualidade da organização de ser sujeito activo e passivo de
direito internacional. A organização internacional, ao ser instituída pelo
tratado constitutivo, passa a ter personalidade jurídica de direito
internacional. A atribuição dessa personalidade normalmente vem
explícita no próprio tratado.

A personalidade jurídica permite à organização actuar como sujeito de


direito internacional. Mas a definição dos direitos e deveres da entidade
configura a capacidade legal internacional da organização. Essa
capacidade será definida com base nos objectivos traçados, previstos no
tratado constitutivo.

Os direitos e deveres devem ser independentes em relação aos dos


Estados. É a capacidade legal da organização. Assim, caso esta contemple
a celebração de tratados, pode-se afirmar que a organização possui
personalidade jurídica implícita. Isso quer dizer que, de forma explícita
ou implícita, toda organização
internacional possui personalidade legal no direito internacional.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 82

A competência que melhor expressa a personalidade jurídica de uma


organização é a capacidade que a mesma possui para celebrar tratados em
seu próprio nome. Devem ser compreendidas como organizações
internacionais apenas “aquelas que, em virtude de seu estatuto jurídico,
têm capacidade de concluir acordos internacionais no exercício de suas
funções e para a realização de seu objecto”.

1.4. Jurisdição das Organizações Internacionais

A jurisdição das organizações internacionais é um termo que se refere às


actividades a serem realizadas pela entidade para a consecução dos
objectivos definidos no tratado constitutivo. A jurisdição é, pois, a
competência que as organizações internacionais possuem para realizarem
suas tarefas, de acordo com suas funções e objectivos. As actividades
realizadas não contempladas pelos objectivos serão consideradas fora de
jurisdição. É o que se chama de Princípio da Especialidade.

Analogamente à personalidade jurídica, a competência das organizações


pode estar detalhadamente prevista no tratado constitutivo ou não. Caso
algum poder não tenha sido atribuído à organização por meio do tratado
constitutivo, mas seja necessário à consecução dos objetivos da entidade,
será reconhecido tacitamente. Esse reconhecimento tácito tem sido aceito
pelos tribunais internacionais, por representar uma necessidade para o
próprio funcionamento e sobrevivência das organizações internacionais.
É o que se chama de teoria do poder implícito. Tal teoria visa sempre o
preenchimento de lacunas ou omissões nos textos constitutivos da
organização internacional, sem jamais substituí-lo ou contrariá-lo.

Os órgãos indispensáveis a uma OI são a assembléia geral e a secretaria.

A assembléia geral: é um órgão normativo, de comando, uma espécie de


“poder legislativo” da organização. Neste orgão, todos os representantes
têm direito a voz e voto, de forma equânime. A assembléia se reúne
periodicamente, para as reuniões ordinárias, e excepcionalmente, para
tratar de assuntos em carácter extraordinário. A Assembleia geral não
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 83

constitui um órgão permanente. Os participantes com poder de voto nas


assembléias são os representantes de cada um dos Estados membros.

A Secretaria: configura um órgão administrativo, de funcionamento


permanente, onde seus integrantes (servidores) têm de ser neutros em
relação aos Estados membros, enquanto durarem seus mandatos.

É comum também em diversas organizações a existência de um conselho


permanente, cujo funcionamento é ininterrupto, com competência
executiva, normalmente atrelada a atribuições específicas, para actuar nos
momentos em que requisitado, como é o caso de situações de emergência.
O Conselho permanente pode ser composto por representantes de todos
os Estados membros ou por representantes de alguns Estados membros,
eleitos pela assembléia geral por prazo certo ou acaso dotados de
mandato permanente (Conselho de Segurança da ONU).

As organizações precisam de instalações físicas para funcionarem. Por


não possuírem território, necessitam que algum país (pode até haver mais
de uma sede) ofereça seu território como base para o funcionamento
físico e instalação da estrutura da organização internacional. Essa cessão,
ou franquia, será implementada por meio de um tratado bilateral entre a
organização e o Estado. É o que se chama de acordo de sede.
Normalmente, a organização instala suas

estruturas no território de um Estado-membro, mas isso não é obrigatório,


embora seja o que tem ocorrido na prática.

i. A ONU

Após o término da 2ª Guerra Mundial, desgastados por dois conflitos


armados em 20 anos, os países resolveram unir esforços com vista a,
conforme consta do preâmbulo da Carta das Nações:

 Preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra;


EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 84

 Reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem, na


dignidade e no valor do ser humano, na igualdade de direitos dos
homens e das mulheres, assim como das nações grandes e
pequenas;

 Estabelecer condições sob as quais a justiça e o respeito às


obrigações decorrentes de tratados e de outras fontes de direito
internacional;

 Promover o progresso social e melhores condições de vida dentro


de uma liberdade mais ampla.

A ONU constitui a maior organização internacional e possui


características supranacionais e previsão de utilização de força militar sob
suas ordens. Com a sua criação procurava-se corrigir os erros cometidos
na Liga das Nações.

Principais objectivos da ONU

 Manter a paz e a segurança internacionais, tomando as medidas


colectivas cabíveis;
 Desenvolver relações amistosas entre as nações, baseadas no
respeito ao princípio de igualdade de direito e de
autodeterminação dos povos;
 Realizar a cooperação internacional para resolver os problemas
mundiais de carácter econômico, social, cultural e humanitário,
promovendo o respeito aos direitos humanos e às liberdades
fundamentais;
 Ser um centro destinado a harmonizar a acção dos povos para a
consecução desses objectivos comuns.

Os princípios a serem cumpridos na realização dos objectivos gerais são:


 Igualdade soberana de todos os membros;
 Cumprimento em boa-fé dos compromissos da Carta;
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 85

 Resolução de conflitos por meio de soluções pacíficas;


 Não utilização de ameaça ou força contra outros Estados;
 Prestar assistência à ONU e não prestar auxílio a outro Estado
contra o qual a ONU agir de modo preventivo ou coercivo;
 A organização fará com que os estados que não são membros
procedam em conformidade com seus princípios;
 Não intervenção em assuntos essencialmente nacionais de cada
país.

A ONU possui duas categorias de membros: os originários e os


admitidos. Esta distinção não traz qualquer diferença em relação aos
direitos e deveres dos membros.

Os membros originários são todos aqueles que estiveram presentes na


Conferência de São Francisco ou que haviam assinado a Declaração das
Nações Unidas em 1942.

Os membros admitidos ou eleitos, são aqueles que preenchem


determinadas condições e apresentam a sua candidatura à ONU. São os
membros que nela ingressaram após a sua constituição e atualmente, são
em maior número do que os originários.

A ONU possui seis órgãos, a saber: Conselho de Segurança, Assembléia


Geral, Conselho Econômico e Social, Conselho de Tutela, Secretariado e
a Corte Internacional de Justiça.

Existem ainda os organismos subsidiários, que são aqueles criados por


seus órgãos, como a Comissão de DI, a Comissão de Quotas, criadas pela
Assembléia Geral e outros.

Ao lado destes órgãos, a ONU coordena a ação de uma série de


organismos especializados, tais como a OIT, a UNESCO, a OMS, a FAO,
etc.

ESTRUTURA DA ONU

1. CONSELHO DE SEGURANÇA: É o órgão mais importante da


ONU. O art. 24 da Carta da ONU estabelece que incumbe a ele, em nome
dos membros das Nações Unidas, "a principal responsabilidade na
manutenção da paz e da segurança internacionais". Nos termos do art. 23
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 86

ele é formado por quinze membros, sendo cinco permanentes e dez não
permanentes, que serão eleitos pela Assembléia Geral pelo prazo de dois
anos. Os não permanentes não podem ser reeleitos. O Conselho de
Segurança é um órgão permanente.

Em relação à manutenção da paz o Conselho de Segurança goza de


autonomia. Age em razão das Organizações Unidas.

São funções do Conselho de Segurança regulamentar os litígios entre os


Estados membros da ONU - regulamentação de armamentos - agir nos
casos de ameaça à paz e de agressão - decidir sobre as medidas a serem
tomadas para o cumprimento das sentenças da Corte Internacional de
Justiça.

São suas atribuições exclusivas:

- acção nos casos de ameaça à paz - aprova e controla a tutela estratégica


- execução forçadas das decisões da CIJ.

São atribuições exercidas conjuntamente com a Assembléia Geral:

- exclusão, suspensão e admissão dos membros - eleição dos juizes da CIJ


- designação do Secretário Geral - emendas à Carta.

São atribuições comuns ao Conselho de Segurança e Assembléia Geral:

- regulamentação de armamentos - solução de litígios - pedir pareceres à


CIJ.

2. ASSEMBLÉIA GERAL: A Assembléia Geral é um dos órgãos que


compõem a ONU. É onde estão representados todos os Estados membros
que têm direito a um voto, apesar de poderem designar para representá-
los, até cinco delegados.

A Assembléia Geral não é um órgão permanente, reunindo-se


anualmente. As sessões têm início na 3ª feira do mês de setembro, mas
algumas vezes o seu início é adiado em cacráter excepcional. Ela
funciona por meio de sete comissões, onde estão representados todos os
seus membros.

As funções da Assembléia Geral são:

 Discutir e fazer recomendações sobre quaisquer questões ou


assuntos que estiverem dentro das finalidades da Carta da
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 87

ONU ou que se relacionarem com as atribuições e funções de


qualquer dos órgãos nela previstos (art. 10);
 Discutir e fazer recomendações sobre desarmamento e
regulamentação de armamentos;
 Considerar os princípios gerais de cooperação na manutenção
da paz e da segurança nacionais e fazer recomendações
relativas a tais princípios (art. 11);
 Fazer estudos e recomendações sobre cooperação
internacional, nos diferentes domínios econômicos, cultural e
social, codificação e desenvolvimento do DI;
 Recomendações para a solução pacífica de qualquer situação
internacional.

São suas atribuições exclusivas:

 Eleger os membros não permanentes do Conselho de


Segurança e os Membros dos Conselhos de Tutela e
Econômico e Social.;
 Votar o orçamento da ONU;
 Aprovar os acordos de tutela;
 Autorizar os organismos especializados a solicitarem
pareceres à CIJ;
 Coordenar as atividades desses organismos. O CES e o
Conselho de Tutela exercem suas competências sob a
autoridade da Assembléia Geral.

3. CONSELHO ECONÓMICO E SOCIAL : É o órgão da ONU sob a


autoridade da Assembléia Geral, responsável pelos assuntos econômicos
e sociais. É formado por 54 membros eleitos pela Assembléia Geral, por
um período de 3 anos.

São suas principais funções:

 Preparar relatórios e estudos e faz recomendações nestes assuntos


 Convocar conferências e prepara projetos de convenção sobre
matérias econômicas e sociais;
 Promover o respeito e a observância dos direitos do homem e das
liberdades fundamentais;
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 88

 Negociar os acordos entre a ONU e as organizações


especializadas, bem como coordena as atividades destas
organizações.

As decisões do Conselho Económico e Social são tomadas por maioria


simples. Reúne-se 2 vezes por ano (uma em Genebra e outra em Nova
Iorque), podendo ter sessão extraordinária.

4. SECRETARIADO: É um órgão permanente da ONU, encarregado da


sua parte administrativa. Seu chefe é o Secretário-Geral, que tem um
mandato de 5 anos, conforme afixado pela Assembléia Geral, pois a Carta
da ONU é omissa a esse respeito.

O Secretário-Geral é indicado pela Assembléia Geral mediante


recomendação do Conselho de Segurança.

Suas funções são:

 É o chefe administrativo da ONU;

 Exerce as funções que lhe são confiadas pela Assembléia Geral,


Conselho de Segurança, de Tutela e Econômico e Social;`

 Reporta à Assembleia Geral sobre os trabalhos da ONU;

 Tem o direito de "chamar a atenção” do Conselho de Segurança


para qualquer assunto que em sua opinião possa ameaçar a
manutenção da paz e da segurança internacionais (art. 99);

 Indica os seus auxiliares.

Desta maneira, o Secretariado tem funções técnico-administrativas e um


direito de iniciativa política. O Secretário-Geral só é responsável perante
a ONU, não podendo em conseqüência, receber instruções dos Governos.

ii. A União Africana

A União Africana (UA) foi formalmente instituída em Julho de 2001. As


razões de sua criação foram anunciadas, em Setembro de 1999, na
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 89

“Declaração de Sirte” dos Chefes de Estado e de Governo da antiga


Organização da Unidade Africana:

 Acelerar o processo de integração regional;


 Promover e consolidar a unidade do continente;
 Fomentar a união, a solidariedade e a coesão;
 Eliminar o flagelo dos conflitos;
 Habilitar a África a fazer face aos desenvolvimentos políticos,
econômicos e sociais da ordem internacional.

Consoante o “Acto Constitutivo da UA”, adoptado em julho de 2000,


seus principais órgãos são:

 Assembléia de Chefes de Estado e de Governo;


 Conselho Executivo, integrado pelos Chanceleres;
 Comitê Permanente de Representantes, composto pelos
Representantes Permanentes dos Estados-Membros em Adis-
Abeba;
 Comissão da UA.

Também fazem parte da estrutura da organização:

 Parlamento Pan-Africano, a Corte de Justiça,


 Conselho de Paz e Segurança,
 Conselho Econômico e Social;
 Corte de Justiça,
 Comitês Técnicos Especializados e Instituições Financeiras.

iii. O GATT/OMC

GATT: General Agreement on Tariffs and Trade: Acordo Geral Sobre


Tarifas e Comércio, criado no contexto da crise económica de 1929, em
que os países -Inglaterra e EUA- sob os auspícios da ONU, temendo a
repetição da crise e conscientes de que o comércio bilateral até entao em
vigor não estava a produzir os efeitos desejados, propuseram regras
multilaterais para o comércio internacional.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 90

Com o passar dos anos, o GATT evoluiu em oito rodadas de negociações


comerciais multilaterais, sendo a Rodada do Uruguai (1986-1994) a
última e mais extensa de todas.

Objectivos do GATT: diminuição das barreiras comerciais, a garantia de


acesso mais equitativo aos mercados por parte de seus signatários e a
promoção do livre comércio. Seus idealizadores acreditavam que a
cooperação comercial aumentaria a interdependência entre os países e
ajudaria a reduzir os riscos de uma nova guerra mundial.

6. A Organização Multilateral de Comércio

A OMC (Organização Mundial do Comércio) é uma instituição


internacional que actua na fiscalização e regulamentação do comércio
mundial. Com sede em Genebra (Suíça) foi fundada em 1994, durante a
Conferência de Marrakech.

A OMC é a única organização que estabelece regras comerciais em nível


mundial, com efeitos vinculantes para seus Membros. Ela não é apenas
uma instituição, mas também um conjunto de acordos.

4.1. Funções da OMC

 Regulamentar e fiscalizar o comércio mundial;

 Resolver conflitos comerciais entre os países membros;


Gerenciar acordos comerciais tendo como parâmetro a
globalização da economia;
 Criar situações e momentos (rodadas) para que sejam firmados
acordos comerciais internacionais;
 Supervisionar o cumprimento de acordos comerciais entre os
países membros.

7. Diferenças entre o Gatt e a OMC

GATT: Este era um acordo multilateral, de caráter provisório e sem base


institucional, com uma pequena secretaria associada, que surgiu em 1947,
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 91

a partir da tentativa fracassada de formação da Organização Internacional


de Comércio (ITO). Desde a sua criação, o GATT contribuiu
efetivamente para a remoção das barreiras comerciais mundiais, mas
nunca teve poder suficiente para impedir que alguns de seus signatários
se desviassem por caminhos protecionistas. Isso se deveu, em parte, à
fragilidade de seus mecanismos de solução de controvérsias comerciais,
extremamente suscetíveis a bloqueios.

A OMC, pelo contrário, é uma organização permanente, com


personalidade jurídica própria e com o mesmo status do Banco Mundial e
do FMI. Os compromissos sob seus auspícios são absolutos e
permanentes, e o seu sistema de solução de controvérsias é mais efetivo e
menos sujeito a bloqueios.

Além destas diferenças, os signatários dos acordos do GATT eram


chamados de partes contratantes, enquanto os da OMC são denominados
membros. As normas do GATT restringiam-se ao intercâmbio de
mercadorias, ao passo que as da OMC cobrem também o de serviços e o
de direitos de propriedade intelectual relacionados com o comércio.

O Gatt possuía muitos acordos de caráter plurilateral (os chamados


“códigos”), dado que muitas das regras negociadas nos anos 70 (Rodada
Tóquio) não foram subscritas por todos os países. Já os acordos da OMC
são praticamente todos multilaterais, ou seja, subscritos integralmente
pelos membros. As únicas excepções ficam por conta dos acordos sobre
carne bovina, produtos lácteos, aeronaves civis e contratação pública, que
são denominados plurilaterais e cuja adesão é voluntária.

Os objetivos mais amplos das novas normas, além da maior


previsibilidade das condições em que operam o comércio internacional,
são a garantia de acesso aos mercados e a competição justa. Por trás
destes dois objetivos estão dois princípios básicos: a não-discriminação e
a reciprocidade, que muitas vezes parecem entrar em contradição.

A não-discriminação é o princípio fundamental do sistema multilateral de


comércio e está expresso nos acordos do Gatt/OMC através de duas
regras: as cláusulas de nação mais favorecida (artigo I) e de tratamento
nacional (artigo III).
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 92

De acordo com a primeira cláusula, os membros estão obrigados a


conceder aos produtos dos demais membros um tratamento não menos
favorável do que aquele que dispensam aos produtos de qualquer outro
país. Assim, se for de 3% a menor tarifa de importação cobrada de um
determinado produto por membro, o mesmo tratamento deve ser aplicado
imediata e incondicionalmente às importações desse bem originárias de
todos os membros da OMC.

Sumário
O presente módulo representa um estudo sobre os principais aspectos
norteadores do Direito Internacional Público. Para que o diálogo com o
leitor seja profícuo o módulo aborda as fontes do DIP, destacando os
tratados, sua conclusão em Moçambique. São apresentadas as normas do
direito internacional público, através de uma reflexão sobre a sua
interpretação e integração na ordem jurídica interna. Também são
apresentandos os sujeitos do DIP, com particular destaque para os
Estados. Finalmente são trazidos alguns exemplos de Organizações
Internacionais que também constituem sujeitos importantes do DIP.

Exercícios
1. Mencione as fontes do Direito Internacional Público, tendo em
atenção a primazia dos tratados;

2. Debruce-se sobre a conclusão dos tratados em Moçambique,


identificando os aspectos da integração das normas do DIP no Direito
Interno.;

3. Da relação entre o DIP e Direito Interno são identificadas duas


teorias: a Dualista e a Monista. Faça uma reflexão em torno delas,
mostrando aspectos de convergência e de divergência;

4. Fale das Organizações Internacionais como sujeitos do DIP.


EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 93

Fazer os exercícios constantes na auto-avaliação.

Auto-avaliação Entregar os exercícios: 2.

Em quatro páginas faça um breve resumo da unidade em estudo.


EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 94

Unidade V
Teoria das Relações
Internacionais I
Introdução
Nesta unidade pretende-se transmitir aos estudantes o conhecimento

sobre as principais teorias que influenciaram a política

internacional na segunda metade do sec. XX.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Analisar o impacto da Primeira Guerra Mundial nas Relações


Internacionais;
Objectivos  Explicar o papel das escolas Liberal-Idealista na Primeira Guerra
Mundial e da Escola Realista na Guerra Fria.

A disciplina das Relações Internacionais, do ponto de vista acadêmico, é


relativamente nova no contexto da história mundial. Sua
institucionalização ocorre apenas em 1919, junto à Universidade de
Gales, logo após o término da primeira Guerra Mundial.

Todavia, como ciência, tem suas raízes em tempos longínquos, datando


dos primeiros relacionamentos entre os homens e suas incipientes
comunidades. Tais relacionamentos, sejam eles de comércio, religiosos
ou até mesmo de guerra, representaram efectivamente uma evolução das
Relações Internacionais como ciência. No entanto, estes invariavelmente
possuíam natureza meramente circunstancial, não dando margem ao
desenvolvimento das Relações Internacionais de uma forma sistemática.
O princípio do equilíbrio do poder e da força, bem como o da defesa
coletiva, eram até então desconhecidos.

Isto só veio a se tornar conhecido no período da Idade Média, com o


EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 95

aparecimento do Estado–Nação, quando um destacado desenvolvimento


projectou-se entre as sociedades, aproximando seus povos. O
fortalecimento do Estado trouxe uma maior interação entre os indivíduos
e suas respectivas sociedades, dando ênfase às Relações Internacionais,
que passam a ser quotidianas e mais complexas, com traços mais
definidos.

Entre os séculos XVI e XIX, os principais Estados Europeus lançaram-se


à conquista do mundo. Outros Estados emergem no curso das Revoluções
Industriais, como Estados Unidos da América e Japão. Tal realidade
provocou uma manifestação intensa das Relações Internacionais, que
assumiram gradativamente uma importância maior no cenário mundial.

Contudo, é a partir do século XX que as Relações Internacionais ganham


espaço de forma definitiva dentro do contexto mundial, principalmente
após o término da Segunda Grande Guerra. Com a nova ordem mundial
que se formou desde então, surgiram Organismos Internacionais (ONU,
OEA, CEPAL, etc.), os quais proporcionaram e impuseram um
estreitamento das relações entre os Estados membros, através de uma
mundialização das relações, sobretudo do ponto de vista diplomático e
comercial.

Entretanto, processo de descolonização, que deu origem a outros tantos


países que passaram a fazer parte do contexto internacional, também é
factor que contribuiu para a consolidação das Relações Internacionais
como disciplina.

Mas ainda havia o obstáculo da chamada Guerra Fria, advinda do pós-


guerra, que através dobinômio Capitalismo X Socialismo, dificultava em
muito as Relações Internacionais entre os países pertencentes a cada
bloco. Com a queda do Muro de Berlim e o surpreendente
desmembramento da União Soviética, que culminou com a abertura e
desmembramento também do Leste Europeu, sucedeu-se uma mudança
profunda na ordem mundial.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 96

Com a afirmação do capitalismo e a mundialização das relações, as


perspectivas passaram a ser vistas sob um prisma ainda mais global, sem
barreiras ideológicas, o que impulsionou o estudo das Relações
Internacionais.

Por todo o exposto, constata-se que a disciplina das Relações


Internacionais está diretamente ligada à ordem mundial e à actualidade
dos valores que envolvem o seu respectivo contexto. Analisando a
evolução histórica da disciplina desde os seus primórdios até os dias
actuais, é possível dizer que as “Relações Internacionais podem ser
entendidas, em sua vertente acadêmica, como o estudo sistemático da
ordem mundial, isto é, das relações entre Estados e actores relevantes do
sistema internacional, assim como das transformações desse sistema ao
longo do tempo.

Portanto, as Relações Internacionais, propriamente ditas, reivindicam, em


anos recentes, o status de disciplina autônoma, o que implica em
identificar objeto e método próprios. Mesmo reconhecendo a premência
de eleger critérios para o recorte do que caracteriza o internacional, é
incontornável reconhecer que essa área mantém-se tributária do
conhecimento gerado e das metodologias desenvolvidas pelas disciplinas
tradicionais. A complexidade das Relações Internacionais
contemporâneas chama a si os recursos analíticos de todas as disciplinas
as quais concernem as relações humanas e sociais internacionalizadas.

Ao longo da evolução da disciplina de Relações Internacionais,


estabeleceu-se a existência de quatro paradigmas interpretativos das
Relações Internacionais: o modelo idealista, o modelo realista, o modelo
da dependência e o modelo da interdependência.

1. 2 Linguagem e principais conceitos

Anarquia: ideia de ausência de autoridade política, supranacional capaz


de coordenar, mediar as acções dos actores de um sistema.

Appeasement (apaziguar): política de permitir, ceder aos desejos de um


estado por forma a evitar a agressão por parte deste. Acredita-se que esta
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 97

tenha sido a política adoptada pelos estados aliados durante a segunda


Guerra Mundial com relação ao regime de Hithler, de forma que isto
permitiu o fortalecimento do regime Nazista.

Actor: Participante de um processo ou de um fenómeno. Os teóricos de


Relações Internacionais concebem o sistema internacional como um
cenário, fazendo analogia ao teatro, enquanto os participantes deste são
actores. Estes seriam entes que participam efectivamente no cenário
internacional. A determinação de qual actor participa no processo das
RI’s varia segundo a abordagem teórica. Há dois tipos de actores
principais: actores estatais, com caracteristicas estatais (soberania,
monopólio legítimo da força, autonomia para escolha de orientacoes
políticas e económicas, população e território sob sua tutela); Actores não
estatais, sao actores que não sao unidades soberanas. Tem ausência de
uma ou de mais características acima citadas. Exemplo: Organizações
Multinacionais, corporações financeiras, Organizações não
Governamentais. A questão é a capacidade de gerar efeitos no sistema
internacional.

Autodeterminação: Faculdade de um povo ou nação de determinar


autonomamente o seu próprio destino político. Ainda que a sua origem
remonte à declaração Universal dos Direitos do Homem e do cidadão, a
ideia passou a ganhar força nos meados do século XX, especialmente em
virtude dos movimentos anti-colonialistas. Duas facetas: autonomia e
liberdade políticas; Princípio de não ingerência em assuntos internos.

Equilíbrio de Poder (Balance of Power): Situação de simetria de poder


entre unidades estatais que lhes cria uma situação de equilíbrio. Ele pode
ser criada pelos actores internacionais de forma deliberada ou surgir
expontaneamente em virtude de combinações ou arranjos políticos
naturais que se vao formando. Os estados orientam as suas políticas
internas em função do próprio equilíbrio. Para isso as alianças tornam-se
fundamentais.

Capabilities: Capacidades internas de um estado. São: factores


geográficos, população, recursos naturais, poder económico, poder
militar, funçoes governamentais, características da sociedade. Aquilo que
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 98

em seu conjunto auxilia na determinação do poder de um estado. Sendo


um atributo do Estado as capabilities são para a concepção cujo actor
estatal é o ente mais relevante. No entanto, não basta que o actor tenha
posse de certa mistura de capacidades, é preciso desenvolvê-las e
articulá-las.

Conflito: situação onde há embate entre possoas ou grupo de pessoas que


se opõem e, portanto, lutam fisicamente. O conflito é um desacordo, uma
oposição ou choque de unidades.
Détente: Palavra de origem cujo sentido quer dizer “descanço”. Nas RI’s
detente significa afrouxamento ou distensão das relações entre estados.
As décadas de 1960 e 1970 são normalmente referenciadas com esse
vocábulo pois houve um relativo afrouxamento das relações entre os
Estados Unidos da América e a Uniao Soviética.

Dilema de Segurança: Ocorre quando um Estado começa a se armar


tendo em conta a sua própria protecção. A lógica do dilema de segurança
é que somente um estado poderoso militarmente poderá sobreviver no
sistema internacional anárquico. Este armamento ainda que para fins
defensivos poderá fazer com que os demais estados do SI também
comecem a adquirir armas. Esta reacção por parte dos demais estados
gerará insegurança no primeiro que reiniciará o processo.

Estrutura: Organização das partes e dos elementos que formam um


conjunto. Nas RI estrutura sinifica um arranjo em torno da vriável poder e
dos proóprios relacionamentos em torno dele. No marxismo a estrutura é
constituída em função das relações estritamente económicas. Polaridade e
anarquia são características de uma organização da estrutura
internacional.

Hegemonia: Preponderância, supremacia, superioridade. A hegemonia


nem sempre se associa à força e/ou poder, podendo significar, conduzir,
liderar, comandar, guiar. Significa a união entre o domínio, que é a
possibilidade do uso da força, com direcção, que é a criação de valores
culturais que legitimam, ou pelo menos justificam o dominio de um actor
sobre os demais.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 99

High Politics: temas considerados de maior importância para os actores


intenacionais, dentro da agenda internacional. Geralmente as High politcs
se relacionam às questões de segurança e interesses estratégicos.

Low Politics: temas considerados de menor importância pelos actores


internacionais dentro da agenda internacional. Geralmente low politics se
relacionam à qualquer questão não ligada à segurança e interesses
estratégicos. Tradicionamnete, meio ambiente, Direitos Humanos,
desigualdades sociais são temas de Low Politics.
Nação: Conjunto de indivíduos ou povo de um país que habitam o
mesmo território, falam a mesma língua, têm os mesmos custumes e
obedecem à mesma lei. Um estado pode conter mais de uma nação, da
mesma forma que pode haver naçòes sem território.

Poder: Na abordagem realista, o poder é a variável mais predominante


nas relações entre os actores internacionais. Sendo definido como as
capacidades relativas dos actores os Estados.
O poder não só determina o comportamento dos actores estatais, que é
condicionado pela busca incessante de incremento de poder, como
também é uma característica inerente neles. Para Web, poder é a
possibilidade de impôr a própria vontade ao comportamento alheio.

Política: assim como o poder o conceito de política encontra diversas


definições, podendo ser tanto a ciência dos assuntos referentes ao Estado,
a um sistema de regras respeitantes à direção dos negócios públicos, a
arte de bem governar o povo. Para as RI o mais importante é a ideia de
conjunto de objectivo que determinam as orientações e acções dos
actores, no caso os nternacionais. Política externa: acção exterior de um
estado surgido das demandas interestatais. Politica internacional:
Conjunto das relações interestatais que constituem o sistema de Estados.

Realpolitik: termo alemão que se refere à política de poder. Enfatiza


políticas baseadas nas considerações de poder prático em detrimento das
políticas baseadas nas considerações morais e éticas. Deste modo real
politik significa manutenção da segurança do Estado num ambiente hostil
e onde o poder e a política de poder são vistas como o principal objectivo
dos líderes.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 100

Soberania: Qualidade de ser soberano. Nas RI é a qualidade de poder


político de um estado que não está submetido à nenhuma autoridade
superior. Soberania é a suprema, independente autoridade final. É o
atributo de um estado que se refere aos seus direitos de exercer
completamente, jurisdição sobre o seu próprio território.

1. 3 Os actores internacionais e os tipos de Relações


Internacionais

a) Os Actores Internacionais

Desde os meados do seculo XVII o Estado era considerado o actor mais


dominante das relações internacionais. No entanto, ao longo do século
XX houve uma mudança da posição absoluta do estado como o mais
importante actor das Relações Internacionais. Com o desenvolvimento e
expansão do capitalismo e a crescente globalização dos mercados
surgiram novas entidades cuja actuação tem impacto relevante na cena
internacional. Neste contexto os Estados deixaram de ser os únicos
actores das relações internacionais, passando a actuar ao lado de outros
actores não estatais nomeadamente, as corporações multinacionais, as
organizações não governamentais e os indivíduos, que hoje assumem
funções tradicionalmente assumidas pelos estados-nação.

Os actores não estatais das Relações Internacionais aparecem no contexto


da teoria pluralista de Relações Internacionais, segundo a qual os actores
não-estatais, os indivíduos, as organizações internacionais, grupos
terroristas, são entidades cruciais na dinâmica internacional. O argumento
básico do pluralismo é de que o Estado não é actor unitário pois decisões
de Política Externa são resultados da interação entre burocracias, grupos
de pressão, indivíduos. Para estes teóricos, a racionalidade não é útil para
as Relações Internacionais tendo em conta os resultados inesperados
gerados pelo comportamento racional dos estados. Mais, a agenda das
Relações Internacionais não se circunscreve aos interesses de segurança
dos Estados, sendo múltipla e extensa aos aspectos sociais, económicos,
direitos humanos, ambiente.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 101

Perante este cenário, o Estado passa a ser cada vez menos soberano, com
o surgimento de novos actores intergovernamentais, transnacionais e
supranacionais, rompendo-se as fronteiras existentes. As Relações
Internacionais não são mais interpretadas através do modelo realista-
conflitivo e interestatal, mas de outro modelo, desenhado em moldes de
interpretação tecnológica, cultural, econômica e política

1.3. Os tipos de Relações Internacionais

No mundo marcadamente estatocêntrico de meados do século XX,


Raymond Aron identificou a especificidade das Relações Internacionais
verificando: “(o que) diferencia as relações entre comunidades
politicamente organizadas de todas as outras relações sociais” (Aron,
1990, p. 148).

Segundo o autor, esta diferença deriva do facto de, nas relações entre
comunidades politicamente organizadas, o uso da violência ser admitido
como norma legal e legítima. Apesar da utilidade desse critério num
cenário dominado por actores estatais, nos dias atuais, em que a
diversidade de actores torna mais complexo o meio internacional, esse
enfoque restringe acentuadamente o escopo das Relações Internacionais.
Ficariam fora de sua área de estudo todas as relações entre actores não
estatais, uma vez que não usufruem da prerrogativa do uso legal e
legítimo da força na defesa de seus interesses.

Considerando as dimensões dos fenômenos de internacionalização e de


globalização perceptíveis a partir das últimas décadas do século XX,
pode-se dizer que passam a ser próprios da área de estudo das Relações
Internacionais os fenômenos de alcance e impacto mundiais que,
diferentemente do que foi originalmente característico de tais relações,
envolvem outros actores além dos Estados nacionais.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 102

Nesse sentido, seria mais útil o conceito desenvolvido por Morgenthau,


que identificou AS Relações Internacionais como um fenômeno político,
passível de existir sob diversas formas institucionais. Esse traço é
característico das relações políticas em geral, não sendo específico das
Relações Internacionais. A contribuição de Morgenthau é mais útil para a
análise das relações internacionais de nossos dias na medida em que as
relações políticas e sociais actuais extrapolam crescentemente os limites
das coletividades politicamente organizadas, instituindo dimensões
relacionais mais amplas, envolvendo vários domínios, podendo ser
eminentemente políticas ou Económicas, Sociais, Culturais.

1. 4. A questão dos níveis de análise: o Indivíduo, o Estado e


o Sistema

Toda ciência implica uma escolha: explicar o mundo pela parte ou pelo
todo. Em Relações Internacionais, essa discussão começou no fim dos
anos 1950 e gerou uma importante reflexão. Kenneth Waltz na sua obra
“Man, the State, and War” (1959), defende a existência de três “imagens”
das Relações Internacionais a saber: o indivíduo, o Estado e o Sistema
Internacional.

De acordo com a primeira imagem (Indivíduo), as causas mais


importantes da guerra são a natureza e o comportamento do homem. As
guerras resultam da estupidez e do egoísmo inerentes ao homem, as
outras causas das guerras são secundárias e subordinadas a esses factores.
Para a eliminação da guerra é necessária uma mudança psciossocial do
homem.

A segunda imagem (Estados) está relacionada com a explicação das


causas da guerra a partir da organização interna dos Estados. Nessa parte,
apresenta-se Karl Marx, Emmanuel Kant e Woodrow Wilson como
exemplos de pensadores que acreditam ser necessária uma reforma nos
Estados, corrigindo seus defeitos, para se alcançar a paz. Waltz apresenta
criticamente a concepção liberal das Relações Internacionais,
argumentando que a prescrição liberal é impraticável porque sua análise é
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 103

inadequada – o problema da guerra, assim como na primeira imagem,


pressupõe a possibilidade de perfeição das unidades.

A anarquia internacional é objecto de análise da terceira imagem (sistema


internacional). O filósofo político clássico no qual Waltz se concentra na
discussão da terceira imagem é Jean-Jacques Rousseau, pois além desse
destacar que as definições sobre a natureza humana são arbitrárias, não
possibilitando conclusões sociais e políticas válidas; ainda explica porque
o Estado pode ser considerado uma unidade, completa de vontade e
propósito. A idéia de Estado como actor unitário é uma premissa
importante tanto no pensamento realista como no neo-realista.

Contudo a vontade do Estado, embora geral para seus cidadãos, é


particular em relação aos outros Estados. Logo, “a ausência de uma
autoridade acima dos Estados para prevenir e conciliar os conflitos que
surgem necessariamente de vontades particulares significa que a guerra é
inevitável”. Ou seja, a guerra acontece pelo simples fato de não haver
nada que a impeça. Para corroborar a sua argumentação, Waltz utiliza
modelos econômicos, relacionando o ambiente econômico com o da
política internacional. Nessa concepção sistêmica, a liberdade de um
Estado é limitada pelas acções de todos ou outros. A explicação dada pela
terceira imagem é definitiva porque considera o ambiente anárquico em
que os Estados se encontram, não se baseando em irracionalidades do
homem ou defeitos dos Estados.

2. A primeira Guerra Mundial e a Escola Liberal Idealista

2.1 A tradição liberal das Relações Internacionais

O modelo idealista das RI’s formado no período entre a Primeira e


Segunda Guerra Mundial. Sofreu fortes influências dos pensamentos de
Jean-Jaques Rosseau, principalmente de sua clássica obra o Contrato
Social, que apregoava a existência de uma sociedade perfeita. O principal
seguidor deste paradigma foi Woodrow Wilson, presidente dos Estados
Unidos da América.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 104

Os teóricos do idealismo corrente acreditam na perfectibilidade humana,


no Direito Internacional e nas possibilidades de haver paz entre os
Estados. Para os Idealistas, a realização desses ideais depende do
aperfeiçoamento das instituições internacionais, o qual, por sua vez, deve
resultar da cooperação entre os estadistas. Para a corrente Realista, por
outro lado, as relações internacionais são determinadas pelas relações de
poder.

2.1.1 Precursores do Idealismo

Os escritores mais importantes cujos trabalhos deram expressão ao


idealismo incluem Condorcet, Rousseau, Kant, Woodrow Wilson.

a) Jean Jacques Rousseau

A visão idealista de Rousseau está reflectida no Fragment on War onde


consta que quando milhares de pessoas belicosas abateram os seus
prisioneiros, quando milhares de doutores na manutenção de tiranos
justificaram estes crimes, fizeram-no por erros humanos ou pela sua
barbaridade em relação à justiça. Não procuremos o que foi feito mas sim
o que deve ser feito e deixemos para trás as autoridades más e
mercenárias que acabam tornando os homens escravos, maus e
miseráveis.

b) John Locke

Locke defendia que o direito natural (lei moral) existe antes da política
uma vez que é dado por Deus. O simples facto de Deus tornar-nos todos
iguais significa que podemos trabalhar os princípios básicos da política
como os direitos naturais a serem libertos de qualquer autoridade que não
consentimos ou para ter posse de propriedade. Esta é uma lei absoluta e
vence a necessidade política. Existe uma lei moral que precede e
ultrapassa a política. Para Locke, o estado de natureza tem uma lei da
natureza para o governar. Advoga que o estado de natureza é ainda
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 105

anárquico mas a imposição para não matar outro ser humano ainda
prevalece. As regras morais são aplicáveis mesmo que não exista alguém
para as colocar em prática. O liberalismo de Locke tem sido usado para
defender os direitos humanos e a distribuição global da riqueza dos mais
ricos para os mais pobres na base de que os ricos não têm o direito de
apenas tomar a riqueza.

c) Immanuel Kant

Kant fez um forte apelo para a prevenção da guerra entre os Estados e a


criação de condições para a paz perpétua (Chander e Arora, 1996: 58).
Elias e Sutch (2007: 67) consideram que de todas as teorias do
iluminismo é a de Kant que constitui o maior marco para a gama de
argumentos liberais contemporâneos. Kant defendia que temos um dever
absoluto de tratar seres humanos como agentes morais autónomos.
Imperativos morais são categóricos em vez de instrumentais – agimos
moralmente porque devemos e não porque isso traz benefícios. Temos o
dever moral de estruturar as nossas vidas políticas e sociais (e isto inclui a
política internacional) de um modo que forneça as condições que tornem
este objectivo moral possível. O seu trabalho argumentava a favor de uma
teoria moral crítica e propunha uma solução política à condição anárquica
das questões mundiais.

d) Woodrow Wilson

O maior advogado do liberalismo dos anos 1920 foi o Ex-Presidente


Woodrow Wilson que deu uma forma concreta ao seu idealismo através
do Tratado de Versalhes. Ele fez um forte apelo para a paz mundial e
organização mundial.

Todos estes escritores e pensadores visualizavam um futuro sistema livre


do power politics, imoralidade e violência. Em conta com o seu
optimismo os idealistas vêem a luta pelo poder como nada mais do que
uma fase passageira da história. A teoria prossegue com a assumpção de
que os interesses dos vários grupos ou nações podem ser ajustados no
interesse mais largo da humanidade como um todo.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 106

2.1.2 Pricipais pressupostos da corrente idealista

O idealismo exerceu sua maior influência no cenário mundial com o


advento da Liga das Nações, que tinha como objectivo maior a
pacificação da ordem mundial, como recção moral e política aos horrores
da Primeira Grande Guerra. Visava, na prática, evitar um novo conflito e
tinha por escopo a definição da justiça como arcabouço das relações entre
os Estados, centrando seus fundamentos nos valores na paz universal.
A natureza humana é essencialmente boa ou altruísta e as pessoas são,
portanto, de ajuda mútua e colaboração.

A preocupação fundamental do ser humano para o bem estar dos outros


torna o progresso algo possível, isto é, todos os seres humanos estão
preocupados com o bem-estar humano e o avanço da civilização.

Os seus principais pressupostos são:

 O mau comportamento do homem é produto não de pessoas más,


mas de instituições e arranjos estruturais maus que motivam as
pessoas a agir de forma egoísta e a prejudicar os outros –
incluindo o recurso à guerra;
 A guerra não é algo inevitável e a sua frequência pode ser
reduzida erradicando os arranjos institucionais que a encorajam;
 A guerra é um problema internacional que requer esforços
colectivos ou multilaterais e não nacionais para a sua eliminação.
E portanto,
 A sociedade internacional deve reorganizar-se para eliminar as
instituições que permitem a ocorrência de guerra.

A contribuição do Idealismo para as Relações Internacionais foi o


estabelecimento de princípios, inspirados em regras éticas, que fizeram
com que as Relações Internacionais passassem a ser mais abertas,
transparentes e democráticas..

O pensamento liberal sobre as relações internacionais foi duramente


criticado pelos realistas no pós-Primeira Guerra Mundial, por
fundamentar suas análises em utopias e idéias normativas sobre como
deveria ser organizada a vida política, desconsiderando a realidade e as
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 107

evidências históricas. Com o desencadeamento da Segunda Grande


Guerra, o paradigma idealista acabou sendo posto de lado pela doutrina,
em virtude do seu aparente fracasso em evitar o novo conflito bélico.

Contudo, nos últimos anos do século XX, o fim do bloco soviético e os


fenômenos da globalização voltam a dar alento a interpretações liberais
da realidade internacional. Multiplicam-se, desde então, os estudos que,
fundamentados na constatação da crescente interdependência
internacional, apostam em desfechos negociados e na viabilidade de uma
ordem internacional pacífica. Essa onda de optimismo é contrabalançada
pelos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos
e por seus desdobramentos, os quais têm reintroduzido as análises de
inspiração realista.

2.2 Os Catorze pontos de Wilson e o Princípio da Segurança


Colectiva

Segurança coletiva é um princípio do Direito Internacional Público


contemporâneo que compele uma organização internacional, com o apoio
obrigatório de seus membros, a implementar medidas coercitivas para
repelir um ataque armado não-justificado ou outra acção que (ameace ou)
viole a paz internacional. Por ataque armado não-justificado ou outra
ação que (ameace ou) viole a paz internacional entende-se qualquer
medida baseada no uso da força ou da violência que esteja em desacordo
com as regras do direito internacional.

O sistema de segurança adoptado em Versalhes trouxe uma substancial


mudança no direito internacional. Até 1914, segundo o direito
internacional público, não havia restrições ao recurso da guerra, existindo
apenas um conjunto de normas que regulamentavam os combates – jus in
bellum. Porém, a destruição provocada pela Primeira Guerra Mundial (I
GM) deixou claro que um fenômeno com tamanha brutalidade não
poderia ser considerado legal. Como conseqüência, o Pacto da Liga das
Nações (1919) impôs restrições à guerra, sendo colocada fora da lei pelo
Pacto Briand-Kellog (1928). Coube ao mecanismo da segurança coletiva
da Liga das Nações a responsabilidade por inibir a ocorrência de novos
conflitos internacionais.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 108

O grau de eficácia de qualquer arranjo de segurança resulta, em boa parte,


da identidade de interesses existentes entre os principais actores. Assim,
para entender as tentativas de adopção de uma segurança coletiva no pós-
I GM, faz-se necessário descrever as mudanças ocorridas na ordem
internacional, responsáveis pela instauração desse conceito de segurança.

O que o presidente tinha em mente por “comunidade de poder” era um


conceito estranho à diplomacia da época, que foi incorporado à idéia de
segurança coletiva adotada na Liga das Nações, tornando-se a base da
ordem internacional proposta por Wilson nos famosos Catorze Pontos.
Formulados pelo presidente e por House, os Catorze Pontos foram
apresentados ao Congresso em janeiro de 1918. Em resumo, os Catorze
ponto previam:

1) Inaugurar pactos de paz, depois dos quais não deveria haver acordos
diplomáticos secretos, mas sim diplomacia franca e sob os olhos
públicos;

2) Liberdade absoluta de navegação nos mares e águas fora do território


nacional, tanto na paz quanto na guerra, com exceção dos mares fechados
completamente ou em parte por acção internacional em cumprimento de
pactos internacionais;

3) Abolição, na medida do possível, de todas as barreiras econômicas


entre os países e o estabelecimento de uma igualdade das condições de
comércio entre todas as nações que consentem com a paz e com a
associação multilateral;

4) Garantias adequadas da redução dos armamentos nacionais até o


menor nível necessário para garantir a segurança nacional;

5) Um reajuste livre, aberto e absolutamente imparcial da política


colonialista, baseado na observação estrita do princípio de que a
soberania dos interesses das populações colonizadas deve ter o mesmo
peso dos pedidos equiparáveis das nações colonizadoras;

6) Retirada dos Exércitos do território russo e solução de todas as


questões envolvendo a Rússia, visando assegurar melhor cooperação com
outras nações do mundo. O tratamento dispensado à Rússia por suas
nações irmãs será o teste de sua boa vontade, da compreensão de suas
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 109

necessidades como distintas de seus próprios interesses e de sua simpatia


inteligente e altruísta;

7) Bélgica, o mundo inteiro concordará, precisa ser restaurada, sem


qualquer tentativa de limitar sua soberania a qual ela tem direito assim
como as outras nações livres;

8) Todo território francês deve ser libertado e as partes invadidas


restauradas. O mal feito à França pela Prússia, em 1871, na questão da
Alsácia e Lorena, deve ser desfeito para que a paz possa ser garantida
mais uma vez, no interesse de todos;

9) Reajuste das fronteiras italianas, respeitando linhas reconhecidas de


nacionalidade;

10) Reconhecimento do direito ao desenvolvimento autônomo dos povos


da Áustria-Hungria, cujo lugar entre as nações queremos ver assegurado e
salvaguardado;

11) Retirada das tropas estrangeiras da Romênia, da Sérvia e de


Montenegro, restauração dos territórios invadidos e o direito de acesso ao
mar para a Sérvia;

12) Reconhecimento da autonomia da parte da Turquia dentro do Império


Otomano e a abertura permanente do estreito de Dardanelos como
passagem livre aos navios e ao comércio de todas as nações, sob garantias
internacionais;

13) Independência da Polônia, incluindo os territórios habitados por


população polonesa, que devem ter acesso seguro e livre ao mar;

14) Criação de uma associação geral sob pactos específicos para o


propósito de fornecer garantias mútuas de independência política e
integridade territorial dos grandes e pequenos Estados.

De uma forma resumida com os catorze pontos de Wilson petendia-se por


fim à diplomacia e dos tratados secretos; à livre navegação em todos os
oceanos, mesmo em tempos de guerra; àremoção das barreiras
alfandegárias dos Estados; desarmamento. Também, a eliminação das
colônias e definição das fronteiras de acordo com o princípio da
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 110

autodeterminação dos povos; a criação de uma associação de nações –


gerida pelo princípio da segurança coletiva.

5. A Escola Realista e a Guerra-Fria

O paradigma realista surge a partir da Segunda Guerra Mundial,


apresentando-se como reacção ao paradigma idealista. Suas origens são
encontradas na obra de Nicolau Maquiavel, denominada "O príncipe"
(1532), e na obra de Thomas Hobbes, denominada "O Leviatã" (1615). A
partir do realismo político, as Relações Internacionais passaram a ser
regidas pelo grau de poder de cada Estado. A política doméstica é tida
como distinta da política internacional e o Estado é o único actor
reconhecido.
De acordo com a concepção realista de Relações Internacionais que tem
como precursores Tucídides e Maquiavel, os Estados são os principais
actores das Relações Internacionais - Os actores não-estatais sempre
vinculam-se ao Estado – a unidade básica de análise. No contexto desta
concepção os Estados são considerados actores racionais pois
seleccionam as decisões que maximizem sua utilidade, em prol do
interesse nacional. Os teóricos realistas apontam a segurança nacional
como o assunto mais importante na pauta dos Estados (high politics).

Os Realistas desdenham do Direito Internacional, por considerarem que o


direito prevalece somente enquanto não colidir com os interesses
daqueles Estados que dispõem de recursos para impor seus interesses aos
demais. Na realidade, acreditam que o direito e a ordem internacional
decorrem diretamente, da correlação de forças entre aqueles que detêm
maior poder. As mudanças ocorridas na estrutura do sistema internacional
após a Segunda Guerra

Mundial pareciam, assim, confirmar a validade dessas teses realistas. A


formação dos dois blocos de poder antagônicos e a rivalidade das duas
superpotências (norte-americana e soviética), hegemônicas em seus
respectivos blocos, ameaçando, a qualquer pretexto, iniciar uma guerra
atômica, não davam margem a dúvidas de que as possibilidades de se
alcançar a paz mundial, tal como o pensavam os Idea listas, não
passavam de uma grande ilusão.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 111

No contexto do realismo, as Relações Internacionais, são dominadas por


um sistema anárquico, prevalecendo a força e o conflito na busca do
poder. Os princípios morais e democráticos são aplicados apenas no
âmbito da política interna. A paz somente é possível quando há o
equilíbrio entre o poder e a força dos Estados oponentes.

Da perspectiva realista, é impossível atingir o bem absoluto dadas as


imperfeições do mundo decorrentes de aspectos próprios da natureza
humana. Assim, considerando as imperfeições do mundo, o realismo
busca a realização do mal menor ou do bem possível. A contenção da
guerra deveria ocorrer não pela sua negação, mas pela busca dos meios de
coibi-la.

Essa leitura da realidade internacional esteve na origem da corrida


armamentista durante a Guerra Fria e permanece sendo o substracto
teórico de importantes análises das relações internacionais
contemporâneas. Segundo a visão determinista dos realistas, os Estados
entretêm uma relação de competição constante sem margens para
qualquer acção transformadora fundamentada na projeção da vontade
humana.

2.2.1 Transformações mundiais e crise dos postulados realistas

Os postulados realistas relativos à primazia do Estado, à divisão entre


política interna e internacional, entraram em crise nos últimos anos do
século XX, quando a crescente interdependência internacional introduziu
no cenário, até há pouco dominado pelas potências estatais, novos actores
e novas problemáticas que subvertem a ordem anterior e os postulados
que balizavam a compreensão da mesma.

Na ordem actual, as acções dos actores civis e privados passam a ser


quase tão determinantes quanto a ação pública dos Estados, embora tais
forças atuem em diferentes esferas. Nesse sentido, convém salientar que o
âmbito internacional é relacional e não geográfico e que, até muito
recentemente, as únicas entidades que reuniam as condições materiais
para se relacionarem nesse plano eram quase exclusivamente os Estados,
o que tem mudado significativamente nas últimas décadas. Por obra das
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 112

transformações daí decorrentes, importantes segmentos sociais têm


reunido condições suficientes para existirem mundialmente, contribuindo
para proscrever a correspondência territorial entre Estado e sociedade.

A política deve ser baseada numa compreensão desta situação. É utópico


sugerir que os ‘pobres’ podem ser levados a perceber que eles devem se
comportar moralmente e legalmente. É realístico reconhecer que o
conflito essencial entre os ricos e os pobres deve ser gerido em vez de
desejar que desapareça. É utópico imaginar que as instituições
internacionais como a Liga das Nações podem ter um poder real. Os
realistas trabalham com o mundo tal como ele é, os utópicos como eles
desejavam que fosse. Na verdade, Carr desejava preservar alguns
elementos do pensamento utópico, mas, apesar de tudo, o realismo era o
seu modelo dominante. O poder das palavras aqui é muito grande – a
forma como o realismo, uma doutrina política que poderia estar certa ou
errada, se torna associada com o ‘realístico’, que é uma qualidade de
juízo que muitas pessoas querem possuir, é criticamente importante no
seu sucesso.

H. Morgenthau e o Segundo Consenso Realista

1º) A importância central no realismo político do “interesse”


(nacional), mas como algo mutável. A principal sinalização que ajuda
o realismo político a situar-se em meio à paisagem da política
internacional é o conceito de interesse definido em termos de
poder. (…) situa-se a política como uma esfera autônoma de ação e de
entendimento, separada das demais esferas (economia/riqueza, ética,
estética, religião…). (…) uma teoria política, de âmbito internacional ou
nacional, desprovida desse conceito, seria inteiramente impossível, uma
vez que, sem o mesmo, não poderíamos distinguir entre fatos políticos e
não-políticos, nem poderíamos trazer sequer um mínimo de ordem
sistêmica para a esfera política. Ainda dentro desse espaço de análise, o
realismo, para Morgenthau, parte do princípio de que seu conceito –
chave de interesse definido como poder constitui uma categoria objetiva
que é universalmente válida, mas não outorga a esse conceito um
significado fixo e permanente. A noção de interesse faz parte realmente
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 113

da política, motivo por que não se vê afetada pelas circunstâncias de


tempo e lugar;

2º) Um outro ponto da teoria realista é o de acreditar em evitar


equiparar as políticas exteriores de um político às suas simpatias
filosóficas ou políticas, ou em deduzir as primeiras tomando por base
as últimas. Por conseguinte, o realismo político contém tanto um
elemento teórico como um normativo. Ele não só sabe que a realidade
política está cheia de contingências e irracionalidades sistêmicas, como
nos chama a atenção para as influências típicas que elas exercem sobre
a política externa. (…) somente uma política externa racional minimiza
riscos e maximiza vantagens: desse modo, satisfaz tanto o preceito moral
da prudência como a exigência política de sucesso. Desta feita,
portanto, a política externa tem de ser racional em vista de seus
propósitos morais e práticos. Entretanto, o realismo é consciente da
significação moral da ação política, como o é igualmente da tensão
inevitável existente entre o mandamento moral e as exigências de uma
ação política de êxito. (…) o realismo sustenta que os princípios morais
universais não podem ser aplicados às ações dos Estados em sua
formulação universal abstrata, mas que devem ser filtrados por meio de
circunstâncias concretas de tempo e lugar. (…) Tanto o indivíduo quanto
o Estado tem de julgar a ação política segundo princípios morais, tais
como o da liberdade. (…) o realismo considera que a prudência – a
avaliação das conseqüências decorrentes de ações políticas alternativas
– representa a virtude suprema na política e ética, em abstrato, julga
uma ação segundo a conformidade da mesma lei moral; a ética política
julga uma ação tendo em vista as suas conseqüências políticas;

3º) O realismo acredita que a política, como, aliás, a sociedade em


geral, é governada por leis objetivas que deitam suas raízes na
natureza humana. O realismo acredita distinguir, no campo da política,
a verdade e a opinião. Para o realismo, a teoria consiste em verificar os
fatos e dar a eles um sentido, mediante o uso da razão. O realismo parte
do princípio de que a natureza de uma determinada política externa só
pode ser averiguada por meio do exame dos atos políticos realizados e
das conseqüências previsíveis desses atos;

4º) A percepção da questão moral nas relações internacionais, por


parte do realismo político, sob a ressalva de que as aspirações morais
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 114

de uma nação não se identificam com os do “conjunto dos preceitos


morais que regem o universo” político. O realismo político recusa-se a
identificar as aspirações morais que governam o universo. (…) a
equiparação leviana de um determinado nacionalismo aos desígnios da
providência é moralmente indefensável. (…) é exatamente o conceito de
interesse definido em termos de poder que nos salva, tanto daquele
excesso moral, como da loucura política, porque, se considerarmos todas
as nações como entidades políticas em busca de seus respectivos
interesses definidos em termos de poder, teremos condições de fazer
justiça a todas elas.

Também o autor distingue a Escola Liberal/Idealista da Escola Realista.


A Primeira acredita em determinada ordem política, racional e moral
derivados de princípios abstratos válidos universalmente [...] confia na
educação, na reforma e no uso esporádico de métodos coercitivos para
remediar defeitos. Já quanto a segunda (a qual pertence o autor), concebe
o mundo de maneira imperfeita do ponto de vista racional e resulta de
encontro de forças inerentes à natureza humana. (…) deve-se trabalhar
com essas forças. Não há possibilidade dos princípios morais serem
realizados plenamente devido aos conflitos de múltiplos interesses. (…) o
mal menor em vez do bem absoluto.

Para Morgenthau, toda a construção em política e, na sua esfera de


análise que se outorga em Política Internacional, todas as relações se
baseiam em relações de poder. Contudo, o próprio Morgenthau reconhece
que uma definição clara do que se trata como poder político é ampla,
vastamente utilizada e apropriada por teóricos das ciências sociais em
geral. Neste sentido, o risco maior da proposta realista sempre radicou
em sua redução a políticas de poder e, destas, a políticas específicas de
interesse nacional.

Neste ponto, já considerando essencialmente o escopo analítico


relativo a uma tipificação da política externa, Morgenthau elenca três
exemplos da escola Realista:

 Status quo (manutenção do poder);


 Imperialismo (expansão do poder);
 Prestígio (política voltada, a priori, à captação no cenário
internacional, de recursos políticos relativos a um ou vários interesses de
um país).
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 115

Morgenthau prefere resistir de modo geral, as concepções muito


abrangentes da ordem internacional, e Ronaldo Sardenberg, que prefaciou
a última edição do livro no Brasil, reconhece que a simples idéia de uma
“ordem internacional” já restringiria sua construção intelectual, salvo
quando se tratasse de um aspecto de desordem como modelo dominante
de organização. Chega, agora, ao ponto de pensar no contraponto à uma
ordem internacional: a anarquia internacional. Todavia, anarquia não
significaria necessariamente caos ou ausência completa de ordem
mundial, mas falta de governança política, ou seja, de uma ordenação
internacional hierarquizada, fundada na autoridade e na subordinação
formal.

Morgenthau afirma que sua obra A Política entre as Nações planejou-se


em torno de dois conceitos: guerra e paz.

Em suas palavras: “em um mundo em que a força motriz resulta da


aspiração das nações soberanas por poder, a paz só poderá ser mantida
por meio de dois instrumentos: o primeiro é o mecanismo autoregulador
das forças sociais, que se manifesta sob a forma de luta em busca do
poder na cena internacional, isto é, o equilíbrio de poder. O outro consiste
nas limitações normativas dessa luta, sob a roupagem do direito
internacional, da moralidade internacional e da opinião pública mundial.”

Contudo, não haveria segurança de que esses esquemas possam manter a


luta pelo poder dentro de limites pacíficos. É interessante, então, melhor
conceituar o poder e Morgenthau o faz: “o poder político consiste em
uma relação entre os que exercitam e aqueles sobre os quais ele é
exercido.” Para Morgenthau a política internacional consiste
necessariamente em política do poder, na luta pelo poder, alterada
somente pelas distintas condições em que as circunstâncias de luta pelo
poder projetam na esfera nacional e internacional. E mais, para o autor a
política doméstica e a política internacional nada mais são do que duas
manifestações do mesmo fenômeno, embora diferenciadas: a luta pelo
poder. O poder, mesmo que limitado e qualificado, representa o valor que
a política internacional reconhece como o valor supremo.

Segundo Morgenthau: “toda atividade política, seja ela nacional ou


internacional, revela três padrões básicos, isto é, todos os fenômenos
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 116

políticos podem ser reduzidos a um dentre três tipos básicos. Uma diretriz
política sempre busca conservar o poder, aumenta-lo ou demonstra-lo”.

Morgenthau neste ponto, portanto, abre espaço para debater como se


efetua a ação de aumento do escopo de poder (imperialismo) ou sua
manutenção (status quo)

Nem toda política externa voltada para um acréscimo no poder de


uma nação constitui necessariamente uma manifestação de imperialismo.
Morgenthau assim define imperialismo:

“Definimos então imperialismo como sendo uma política que visa à


demolição do status quo, que busca uma alteração nas relações de poder
entre duas ou mais nações. Uma política que se contente somente com
um ajuste, deixando intacta a essência dessas relações de poder,
continua operando dentro de uma moldura geral de uma política de
status quo.” (p. 98)

Um outro ponto levantado pelo autor é que não se deve considerar


como imperialista toda política externa que vise à preservação de um
império já existente. Desse modo, o imperialismo se torna identificado
com a manutenção, defesa e estabilização de um império real, em vez de
se equiparar a um processo dinâmico de aquisição de um novo império.

 Principais teorias econômicas do imperialismo: marxista e liberal

“A teoria marxista repousa sobre a convicção, que serve de


fundamento para todo pensamento marxista, de que todos os problemas
políticos constituem o reflexo de forças econômicas. Como conseqüência,
o fenômeno político do imperialismo é um produto do sistema econômico
em que ele se origina – isto é, o capitalismo. As sociedades capitalista
são incapazes de encontrar, por si próprias, mercados suficientes para
seus produtos e investimentos adequados para seu capital. Por esse
motivo, elas tem a tendência a escravizar inclusive áreas mais amplas
não capitalistas, de modo a poder transforma-las em mercados para seus
produtos em excesso e transferir-lhes sua capacidade superavitária de
capital para investimentos.” (p. 103)

Já na Escola Liberal há uma preocupação, sobretudo com o


imperialismo, no qual ela se depara com o resultado, não do capitalismo
como tal, mas de certos desajustes dentro do sistema capitalista. Em
conformidade com o marxismo, a escola liberal aponta que a raiz do
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 117

imperialismo está no excesso de mercadorias e capitais que buscam


saídas em mercados estrangeiros.

Há também, no pensamento político de Morgenthau, uma distinção de


métodos de imperialismo, que seriam três: o econômico, o militar e o
cultural:

“O imperialismo militar busca a conquista militar; o imperialismo


econômico, a exploração econômica de outros povos; o imperialismo
cultural, o deslocamento de uma cultura por outra – mas sempre como
um meio de atingir o mesmo fim imperialista. E esse fim é sempre a
derrubada do status quo, isto é, a reversão das relações de poder entre a
nação imperialista e suas vítimas em potencial.”

Morgenthau também distingue a práxis de do imperialismo:

“O imperialismo constitui uma política de conquista, mas nem toda


política de conquista representa uma forma de imperialismo”. É possível
essa distinção ao conceber que existem políticas de conquista que operam
dentro de um status quo e outra que busca subverte-lo.

Inserido dentro dessa discussão da ampliação, ou não, do poder de uma


nação, Morgenthau concebe que a política externa de uma nação
corresponde sempre ao resultado de uma avaliação de como se encontram
as relações de poder entre várias nações, em certo momento da história, e
de como as mesmas se desenvolverão a curto e médio prazo.

Assim, um outro ponto é inserido pelo autor na busca pelo entendimento


dos mecanismos de atuação das políticas externas:

“Constitui um aspecto característico de qualquer política, seja ela


doméstica ou internacional, que as suas manifestações básicas não
tenham a aparência daquilo que realmente são – manifestações de uma
luta pelo poder. A verdadeira natureza da política se esconde por trás de
justificações e racionalizações ideológicas.” (p. 173)

Segue, portanto, que embora toda e qualquer política consista


necessariamente em uma luta pelo poder, as ideologias tornam o
envolvimento nessa disputa não só moral como psicologicamente
aceitável para os atores e sua platéia. Retomando a discussão sobre o
imperialismo, Morgenthau reconhece que as políticas imperialistas quase
sempre recorrem a disfarces ideológicos, e políticas de imperialismo
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 118

estão sempre à procura de uma ideologia, por que o imperialismo,


diferente da política de status quo, está sempre tendo a necessidade da
prova (por isso a necessidade de provar que um sistema/status quo ou não
deve ser derrubado), enquanto que as políticas de manutenção do status
quo podem ser apresentadas mais frequentemente como elas são na
realidade e a paz e o direito internacional se prestam especialmente bem
para servir como ideologias para uma política de status quo e para
Morgenthau, a invocação do direito internacional indicará sempre o
disfarce ideológico de uma política de status quo.

Poder Nacional, Equilíbrio de Poder

H. Morgenthau afirma:

“O poder de uma nação, tendo em vista o seu moral nacional, reside na


qualidade de seu governo. Um governo realmente representativo, não
apenas no sentido de maiorias parlamentares, mas acima de tudo no
sentido de que se mostra capaz de traduzir as convicções e aspirações
inarticuladas de seu povo em objetivos e políticas internacionais, contará
com as melhores probabilidades de canalizar as energias nacionais em
apoio aos referidos objetivos e políticas.”

Desta forma, é possível entender que a qualidade do governo é uma fonte


de força ou fraqueza. E sem o moral nacional, o poder nacional nada mais
seria do que uma força material. Um outro ponto salientado por
Morgenthau é do de que as nações precisariam apoiar-se na qualidade de
suas diplomacias, que atuariam como elemento catalisador para os
diferentes fatores que constituem o poder (recursos materiais, capacidade
industrial e o grau de preparo militar). Por conseguinte, acompanhando a
exposição analítica do autor, depreende-se que um bom governo
(independente enquanto recurso do poder nacional) corresponde a três
fatores:

a) Equilíbrio entre, de um lado, os recursos materiais e humanos que entram


na formação do poder nacional e, de outro, a política externa a ser
implementada;

b) Equilíbrio entre os recursos disponíveis;

c) Apoio popular à política exterior a ser executada. (p. 280 – 281)


EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 119

Morgenthau também analisa o aspecto de que para a existência de um


bom governo, os objetivos e métodos de política externa de um governo
devem ser selecionados e aplicados, caso contrário estaria abdicando de
poder no concerto das nações. (p. 281) E além, o autor considera mesmo
que não existem mais assuntos puramente internos, já que tudo que uma
nação faz ou deixa de fazer pode ser levado em conta, a seu favor ou
contra, como um reflexo de sua filosofia política, de seu sistema de
governo ou do seu modo de vida.

E já que a política exterior é formulada por, de uma forma ou de


outra, por indivíduos, ocorre que as nações podem cometer erros ao se
auto-avaliar em seu próprio poder e o poder de outras nações.
Morgenthau levanta três erros em especial:

1º) Desconhecimento da relatividade do poder, ao erigir o poderio de


uma determinada nação como algo absoluto;

2º) Tomar certo a dependência de certo fator no passado que tenha


desempenhado um papel decisivo, esquecendo-se, portanto, de uma
mudança dinâmica a que quase todos os fatores de poder estão sujeitos;

3º) Atribuir uma importância decisiva a um só fator tomando


individualmente em detrimento de todos os demais. (p. 300)

Apenas pelo primeiro ponto acima levantado já se exige uma


retomada da discussão sobre o equilíbrio do poder (relativos ao critério de
território, população e armamentos) e seus desdobramentos conceituais
caros à escola Realista de Relações Internacionais. Morgenthau afirma:

1º) O equilíbrio internacional de poder representa apenas uma


manifestação particular de um princípio social de ordem geral, ao qual
todas as sociedades compostas de certo número de unidades autônomas
devem a autonomia de suas partes componentes;

2º) O equilíbrio de poder e as políticas traçadas para preservá-lo não


são apenas inevitáveis, mas são também um elemento estabilizador
essencial em uma sociedade de nações soberanas;

3º) A instabilidade do equilíbrio internacional de poder deve ser


debitada não à imperfeição do princípio, mas às condições particulares
sob as quais o princípio tem de operar em uma sociedade de nações
soberanas. (p. 321-322)
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 120

E ainda inserido dentro da conceituação do equilíbrio de poder,


Morgenthau traz, ao âmbito de discussão, o que conceitua como o
“mantenedor” do Equilíbrio. O autor afirma que o balanceador não está
permanentemente identificado com a política de qualquer uma das nações
ou grupo de nações. Seu único objetivo seria, dentro do sistema
internacional, a manutenção do equilíbrio, de forma independente às
políticas concretas por meio das quais a balança deve servir. Logo,
Morgenthau aponta o exercício do “mantenedor” do equilíbrio do poder:

1º) Ele pode fazer com que o seu apoio a uma nação ou aliança
dependa de certas condições favoráveis à manutenção ou à restauração do
equilíbrio;

2º) Ele pode sujeitar as tais mesmas condições o seu apoio tendo em
vista um ajuste de paz;

3º) Ele pode, finalmente, em qualquer das situações e,


independentemente da manutenção do equilíbrio de poder, conseguir que
os objetivos de sua própria política nacional sejam concretizados no
decorrer do processo de equilibrar a balança de poder dos outros. (p. 368)

Entretanto, Morgenthau aponta três debilidades do equilíbrio de


poder como princípio orientador de política internacional: sua incerteza,
sua irrealidade e sua inadequação:

“O Equilíbrio de poder, concebido mecanicamente, mostra-se carente


de um critério quantitativo facilmente reconhecível, por meio do qual se
poderá medir e comparar o poder relativo de uma quantidade de nações.”
(p. 385)

E dentro desse escopo de debate, Morgenthau traz uma análise sobre


os tipos de guerras ligadas à mecânica do equilíbrio de poder:

1º) A guerra preventiva, no qual ambos os lados seguem objetivos


imperialistas, embora Morgenthau reconheça que essa guerra preventiva
seja vista com horror na linguagem diplomática e pela opinião
democrática, afirma não passar a mesma de um subproduto natural do
sistema de equilíbrio de poder;

2º) A guerra antiimperialista;

3º) A guerra imperialista propriamente dita.


EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 121

NAÇÃO, SOBERANIA, SEGURANÇA

Como autor inserido dentro do paradigma realista de análise das


relações internacionais, H. Morgenthau não concebe que exista uma
sociedade mundial e muito menos uma moralidade universal. Para ele, na
política, tudo que conta é a nação e não a humanidade.

Assim, por conseguinte, a soberania (no sentido westifaliano) é


incompatível somente com um sistema de direito internacional forte e
eficiente, porque centralizado. Ele não é inconciliável de modo algum
com uma ordem legal internacional descentralizada e, portanto, fraca e
ineficaz. (p. 569)

Morgenthau acredita que a soberania da nação é idêntica à soberania


no campo judicial, isto é, cabe à nação individualmente a última e
definitiva decisão quanto, a saber, se, e quando, deve engajar-se em uma
operação coercitiva, por exemplo. E o exercício da soberania constitui-se
um fato político, circunscrito e definido em termos legais, cuja
determinação poderá depender de mudanças graduais no exercício do
poder político, de um governo para outro. Ela deve ser confirmada
mediante o exame da situação política e não pela interpretação de textos
legais. Outro ponto é o reconhecimento do autor de que não existe uma
soberania compartilhada, não em um mundo real. (p. 590)

Por outro lado, a soberania da nação em sua qualidade de objeto


potencial de uma ação coercitiva, manifesta-se no que se costuma chamar
de “impenetrabilidade” da nação. Segue que para Morgenthau existem
três princípios do direito internacional sinônimos da idéia de soberania: a
independência, a igualdade e a unanimidade:

1º) Independência: representaria o aspecto particular da autoridade


suprema de uma nação, em particular que consiste na exclusão da
autoridade de qualquer outra;

2º) Igualdade: nada mais seria do que um sinônimo direto de


soberania, que salienta um aspecto particular desse conceito;

3º) Unanimidade: o princípio da igualdade que decorre de uma norma


fundamental do direito internacional que é responsável pela
descentralização da função legislativa e, até certo ponto, da função de
aplicação da lei, significa que o que diz respeito à função legislativa,
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 122

todas as nações são iguais, independente de seu tamanho, população ou


de seu poderio.

Morgenthau então conceitua de maneira mais circunstanciada


soberania, em principal, por meio de princípios de negação:

 Soberania não significa liberdade de restrições legais. A


quantidade de obrigações legais em virtude das quais a nação aceita limitar
sua liberdade de ação não afeta, como tal, a sua soberania;
 Soberania não significa a liberdade de regulação pelo direito
internacional de todas essas questões que são tradicionalmente deixadas ao
arbítrio das nações individuais;
 Soberania não é o mesmo que igualdade de direitos e obrigações
nos termos do direito internacional;
 A soberania não se confunde com uma verdadeira independência
em matérias políticas, militares, econômicas ou tecnológicas;
 A soberania pressupõe a suprema autoridade legal de uma nação
para aprovar leis e faze-las cumprir dentro dos limites de um certo território
e, como conseqüência, a independência em relação à autoridade de
qualquer outra nação e a igualdade com a mesma nos termos do direito
internacional. (p. 578)

Um outro ponto de análise do sistema internacional analisado por


Morgenthau é o da segurança, tema caro aos realistas. Como
anteriormente salientado, toda política externa atua sempre promovendo
seus próprios interesses. E já que a questão da segurança é premente ao
realismo, Morgenthau analisa na perspectiva da realidade internacional, o
aspecto da guerra (tão importante ao realismo, já que existe de maneira
premente nas suas análises uma dialética de paz e guerra) no âmbito de
uma guerra total. Por isso a importância de conceber que já que a política
externa se faz atuar e promover por meio de seus interesses, esses
interesses mediatizam-se por meio da transformação da mente de seu
opositor.

Trazendo novamente ao resumo o princípio do status quo (e também


do imperialismo) as nações entrarão em conflito por meio da derrubada
(ou a manutenção) do status quo, gerando uma medida de aliança para a
preservação, ou não, variando conforme os interesses do status quo.
Resulta que daí gera-se um sistema de segurança coletiva. Morgenthau
afirma:
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 123

1º) O sistema coletivo precisa ter condições para comandar, a


qualquer momento, uma força tão avassaladora contra qualquer potencial
agressor, ou coalizão de agressores, que estes jamais ousariam desafiar a
ordem defendida pelo referido sistema coletivo;

2º) Todas as nações cujas forças combinadas satisfariam a exigência


do item anterior tem de compartilhar a mesma concepção de segurança
que lhes defender;

3º) Essas nações precisam aceitar voluntariamente a necessidade de


subordinar os seus interesses políticos conflitantes ao bem comum
definido em termos de defesa coletiva de todos os Estados membros.

Morgenthau reconhece que uma ou mais nações se oporão ao status


quo e a preservação do mesmo por meio do sistema coletivo de
segurança. E também afirma que qualquer sistema de segurança coletiva
só tem possibilidade de sucesso no pressuposto de que a luta pelo poder,
como força catalisadora da política internacional, pode ser reduzida ou
substituída por um princípio mais elevado de segurança coletiva, mas
também reconhece que está fadado ao fracasso a preservação do status
quo, por meio da segurança coletiva, à longo prazo, reduzindo sua
aplicabilidade e sucesso apenas a um prazo mais curto de lograr êxito.,
reconhecendo mesmo o autor que a segurança coletiva, à sua
contextualização histórica de análise, não terá quaisquer condições de
funcionamento no mundo contemporâneo

G. Kennan e a Doutrina da Contenção

Contenção: foi uma política dos Estados Unidos usando estratégias


militares, econômicas e diplomáticas para parar a propagação do
comunismo, aumentar a segurança da América e a influência exterior, e
evitar um "efeito dominó". Um componente da Guerra Fria, esta política
foi uma resposta a uma série de jogadas da União Soviética para expandir
a influência comunista na Europa Oriental, China, Coréia e Vietnã.
Representou uma posição intermédia entre a política de apaziguamento e
o rollback. A base da doutrina foi articulada em um cabo de 1946 pelo
diplomata norte-americano George F. Kennan. Como uma descrição da
política externa dos EUA, a palavra se originou em um relatório
apresentado por Kennan ao secretário de Defesa, James Forrestal, em
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 124

Janeiro de 1947, um relatório que depois foi publicado como um artigo de


revista. É uma tradução do francês "cordon sanitaire", usado para
descrever a política ocidental em direção à União Soviética na década de
1920.

Os Estados Unidos e o início da Guerra Fria (1945-49)

A contenção ao comunismo

Dois acontecimentos internos, quase simultâneos, criaram as pré-


condições para que os Estados Unidos se lançassem na Guerra Fria. O
primeiro foi a morte do Presidente Franklin Delano Roosevelt, em maio
de 1945 e, em seguida, em 1946, a eleição de um Congresso
predominantemente republicano (partido conservador). Roosevelt
acreditava num mundo do após-guerra controlado pelos E.U.A, em
comum acordo com a URSS (o que Stalin denominou de “coexistência
pacífica”). Sua morte fez com que seu sucessor Harry Truman, consciente
do poder nuclear, abandonasse esta posição, aderindo à tese de Kennan
do “enfrentamento com o comunismo”.

A eleição de um congresso de maioria republicana, estreitamente ligados


à indústria de armamento e às atividades anti-comunistas, revelou
igualmente uma mudança da opinião pública americana. Manifestando-
se, simultaneamente, contra as reformas sociais da política do New Deal e
contra acordos com os comunistas. Eles, “os vermelhos”, deveriam ser
combatidos em todas as frentes. A ascensão de Truman e o congresso
republicano, tornaram o clima tenso com a URSS, um “clima frio”.
Passado o perigo nazista, os americanos receavam os comunistas. O
elemento desencadeador da mobilização anticomunista deu-se a partir do
célebre discurso de Winston Churchill, feito em Fulton, no Missouri, em
5 de março em 1946, quando o ex-primeiro ministro britânico denunciou
o Comunismo Soviético por estender uma “Cortina de Ferro”(Iron
Curtein), sobre a sua área ocupada na Europa, conclamando os poderes
anglo-saxões, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, a enfrentarem-na.

Com essa inversão, essa completa mudança de postura, de aliados da


URSS para seus adversários, os Estados Unidos obrigaram-se a
elaboraram uma nova doutrina: a Doutrina da Segurança Nacional.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 125

Segundo ela um tipo singular de enfrentamento mortal desenhava-se no


horizonte; simultaneamente estratégico e ideológico. Os Estados Unidos
tinham agora seus interesses e suas bases militares espalhadas por todos
os continentes. Eram uma potência global, não estando mais confinados
aos seus limites continentais primeiros. O seu único rival era o
movimento comunista que tinha sede em Moscou, e manifestava
ambições expansionistas. O marxismo, para os estrategistas do
Pentágono, nada mais era do que o pretexto para o seu domínio do russo
do mundo.

Havia dois frontes portanto. Um estratégico-militar, que seria coberto por


tratados específicos, e outro ideológico, que mobilizaria a opinião pública
e o serviço de contra-espionagem (a CIA [ Central Inteligente Agency]
foi criada em 1947), para o combate ao “perigo vermelho”.

A decisão do caminho a ser seguido em relação à URSS foi traçado por


George Kennan, um alto funcionário americano, que defendeu a
“contenção” contra o comunismo. Os soviéticos somente seriam detidos
por meio de uma enérgica política de enfrentamento, de jogo duro. Esta
política contribuiu para que os Estados Unidos reativassem a sua
industria bélica para atender as necessidades da Guerra Fria. A íntima
relação da política militar com as fábricas de artefatos bélicos, levou a
que, mais tarde, o Presidente Dwight Eisenhower a denominasse de
“complexo militar-industrial”.

A doutrina de Kennan baseava-se na premissa de que a longo prazo a


União Soviética iria expandir sua influência, reconhecendo, no entanto, que
nem todas as partes do mundo seriam vulneráveis a golpes comunistas, por
isso os recursos de contenção dos Estados Unidos deviam ser seletivos,
concentrando-se nos países estratégicos que possuíam capacidade industrial
ou matérias-primas de valor. Para Kennan, os soviéticos iriam expandir sua
influência colocando os recursos psicológicos e políticos como prioridade
acima dos recursos militares. Assim, Washington deveria elaborar
programas de contenção que promovessem a capacidade de segurança
interna dos países vulneráveis6 . No segundo mandato de Truman
(1949/53), com o entrelaçamento das doutrinas de Contenção e de Reserva
Estratégica aliadas com o Programa do Ponto Quatro, que veio a ser
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 126

substituído pela United States Agency for International Development


(USAID), os Estados Unidos passaram a contar com uma organização que
permitiu legitimar o planejamento de segurança para a América Latina.

Quando ocorreu o "Golpe de 1954", os Estados Unidos já haviam


montado uma ampla estrutura de segurança exclusivamente para cuidar
da América Latina. A base para a fundamentação dessa decisão adveio
das reuniões de consultas dos chanceleres americanos, que geraram o
Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), assinado em
1947 no Rio de Janeiro. Uma das ambigüidades do TIAR é que ele
poderia ser usado contra os governos que o haviam assinado, com
exceção dos Estados Unidos. A primeira missão naval dos Estados
Unidos na América Latina se instalara no Brasil em 1922. Até 1942 os
oficiais brasileiros eram treinados na Alemanha ou com os franceses, que
mantiveram uma missão no Brasil entre 1919 e 1940. A Segunda Guerra
mundial deu a Washington uma justificativa para expandir mais sua
influência sobre as forças brasileiras. O planejamento militar era
coordenado por uma Comissão Militar Mista Brasil/Estados Unidos. Em
1949, o Pentágono ajudou o Brasil a fundar e equipar uma cópia do U.S.
National War College, a Escola Superior de Guerra (ESG). Militares
norte-americanos permaneceram no corpo docente da ESG até 19607 . A
Comissão Militar Mista sobrevivera a guerra e, em 1954, foi registrada
nas Nações Unidas como agência permanente, destinada a cuidar das
vendas de armamentos e da assistência militar.

Sumário

O modulo apresentado acima constitui um introdução ao estudo das


Relações Internacionais. Na sua essência as temáticas abordadas trazem
os fundamentos que permitem compreender a evolução das relações
internacionais como disciplina e, principalmente como parte da história
da evolução das sociedades. Através da descrição e discussão dos
instrumentos teóricos inerentes à cada contexto histórico (desde a
fundação do estado Nação, passando pelo período entre as gerras à
contenção do Comunismo), procura-se oferecer subídios para a análise e
definição das relações internacionais contemporâneas e quicá, sua
projecção para o futuro.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 127

Exercícios

5. Estabeleça uma relação entre a surgimento das relações


Internacionais como disciplina, tendo como base o nascimento do
Estado-Nação.
6. O Estado é consensualmente considerado o actor principal das
Relações Internacionais. Agumente a afirmação tendo atenção a
proeminência das Organizações Internacionais Governamentais ou
Intergovernamentais e das Forças Transnacionais.
7. De acordo com Kenneth Waltz as Relações Internacionais podem ser
analisadas através de três níveis de análise: indivíduo, Estados,
Sistema internacional. Exponha a dinâmica das relaçoes
internacionais com base no nível sistémico.
8. Em que se baseia a crítica de E. Carr ao pensamento idealista. Inclua
nos seus argumentos a fragilidade que caracterizou o princípio de
segurança colectivo defendido pela Liga das nações.
9. O interesse nacional dos estados é determinado em termos de poder.
Explique a afirmação acima explorando o pensamento de
Morgenthau
10. Em algum momento da vigência do sistema internacional bipolar, os
Estados Unidos da América defiram a sua política externa com base
na Doutrina Kennan. Argumente.

Fazer os exercícios constantes na auto-avaliação.

Auto-avaliação Entregar o exercício: 1 à 6

Em quatro páginas faça um breve resumo da unidade em estudo.


EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 128

Unidade VI

Teoria das Relações


Internacionais II

Introdução
Nesta unidade pretende-se transmitir aos estudantes o conhecimento

sobre as principais teorias que influenciaram a política

internacional na segunda metade do sec. XX.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Explicar o posicionamento de Robert Keohane e Joseph Nye no


âmbito da Interdependência Complexa e a transformação do
Objectivos
poder internacional

 Explicar o processo neo-realistico em Relações Internacionais na


procura de uma nova teoria dominante.

1. Interdependência, Poder e Informação

1.1 Robert Keohane e Joseph Nye e a Interdependência Complexa

A interdependência complexa é uma teoria liberal e pluralista que veio a


contrapor os ideais realistas, principalmente no que diz respeito às
políticas mundiais. De acordo com a análise de Keohane e
Nye, houve uma mudança na hierarquia das necessidades dos actores
internacionais em que as questões de cunho militar, embora não sejam
menos importantes deixaram de constituir única prioridade nas Relações
Internacionais.

Segundo os autores, as necessidades econômicas cresceram e estas, na


perspectiva da interdependência complexa não devem ser, como dizem os
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 129

realistas, classificadas como “lowpolitics”, mas sim ocupar o mesmo


patamar que as questões de segurança nacional. Na visão realista, três
pontos são tidos como fundamentais:
 Os Estados, sendo unidades coerentes, devem ser os actores
dominantes no cenário dapolítica mundial;
 A força é, para os realistas, um instrumento político eficaz.
Embora
outros instrumentos possam ser usados, a força continua sendo o
mais efectivo;
 Existe uma hierarquia de necessidades, sendo as questões de
segurança militar (High Politics), predominantes, e as que
envolvem economia e questões sociais, as (low politics),
secundárias.

A interdependência complexa, possui três pontos principais diferentes dos


da concepção realista:
 Os Estados não ocupam mais o papel de actores principais do
cenário
mundial. Outros actores emergiram nesse quadro, dentre os quais
podemos
citar as telecomunicações, organizações internacionais e as
transnacionais (bancos e grandes corporações multinacionais),
eles agora participam do cenário mundial e criam novas
necessidades, as quais são tratadas isoladamente e sem respeitar a
uma hierarquia;
 As questões internas e externas começam a se confundir com a
emergência desses novos actores.
 As questões militares, deixam de ser prioridade na relação com
outros Estados, no entanto continuam importantes sobretudo no
que diz respeito as relações com blocos rivais.

A interdependência complexa favorece a cooperação entre os Estados,


principalmente através das organizações mundiais que buscam estabilizar
o cenário internacional,no entanto essa estabilização não significa uma
perda de poderm assim uma mudança na formade se lidar com ele. Na
interdependência, o poder continua presente, mas não como o poder
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 130

bélico e sim como a habilidade de atingir objectivos através de outras


formas que não a guerra propriamente dita.

Avisão de Keohane e Nye adapta-se à realidade do mundo globalizado,


em observância da importância dos novos actores e das relações
económicas e sociais no cenário internacional. A visão realista se perde
ao ignorar o facto de que os
Estados hoje, são cada vez mais liberais e que com isso surgem novos
actores na economia e o lucro se torna o objetivo comum, enquanto a
segurança militar continuaimportante,noentanto, não ocupa mais o papel
principal nos objetivos e nas políticas estatais, num mundo cada vez mais
interligado torna-se impossível a dedicação maioritária a um objectivo
principal, a diversificação de objetivos é portanto inevitável e necessária.

A Revolução da Informação e a transformação do Poder


Internacional

A revolução das tecnologias de comunicação e informação proporcionou


mudanças estruturais tanto na economia mundial como nas relações entre
as pessoas e os países, pondo em causa as concepções tradicionais de
segurança, soberania nacionais e a territorialidade.

A internet, citando um dos exemplos, proporcionou uma mudança


drástica na comunicação mundial, acelerando o processo de globalização.
A facilidade no tráfego de informações e a possibilidade de fazer
negócios sem a necessidade de se deslocar entre países tornaram o mundo
globalizado, fortalecendo a idéia de desterritorialização. As barreiras
geográficas tornam-se irrelevantes no jogo da economia global, uma vez
que os custos de transferência seja de informações, transmitidas por
meios digitais, ou de mercadorias diminuíram drasticamente.

De acordo com Joseph Nye e Robert Keohane, essa revolução na


informação, altera os padrões de interdependência complexa, aumentando
exponencialmente os canais de comunicação existente na política
mundial, entre indivíduos em redes, não apenas indivíduos dentro das
burocracias.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 131

Da mesma forma como no século XIX o grande recurso de poder era o


território e as grandes potências disputavam a corrida pela colonização e
no século XX, com o fim da colonização, o principal recurso de poder
estava na capacidade de vender produtos e serviços para esses países
mesmo sem o controle territorial, dando início ao que foi denominado
neo-colonialismo ou imperialismo. Actualmente o principal recurso de
poder é o controlo sobre a tecnologia da informação, criando uma nova
disputa de poder e um novo paradigma de segurança.

As novas guerras na era da informação não precisam de exércitos,


armamentos pesados nem tanques. Nessa nova guerra, chamada de
cibernética, também não há lançamento de bombas, mas pode causar
muitos danos a um país. Um ataque de hackers, que podem estar a
serviço de um governo ou não, pode obter informações estratégicas de
um país ou até modificar sistemas de controlo de transportes, causando
acidentes, e bloquear o sistema financeiro, causando enormes prejuízos.

A revolução da informação impôs um novo cenário para as relações


internacionais nas áreas econômica, social e de segurança. A
interdependência entre os países que já era complexa devido ao avanço da
globalização acentuou-se com a revolução na comunicação, provocando
uma transformação na forma de compreender temas centrais das relações
internacionais.

4. O Neo-Realismo

2.1 Kenneth Waltz e a Teoria das Relações Internacionais

A principal contribuição de Waltz para a Ciência Política está na criação


do Neorealismo também designado Realismo Estrutural, uma teoria de
Relações Internacionais que considera que as acções dos Estados podem
regularmente ser explicadas pelas pressões exercidas sobre eles pela
competição internacional, que limita e constrange suas escolhas. O
Neorealismo portanto busca explicar padrões recorrentes de
comportamento estatal.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 132

Waltz argumenta que o mundo existe num estado perpétuo de anarquia


internacional, mostrando as distinções entre a anarquia do ambiente
internacional e a ordem do doméstico. Na sua opinião na realidade
doméstica, todos os actores podem apelar e ser compelidos por, uma
autoridade central - 'o Estado' ou 'o governo' - mas na realidade
internacional, não existe tal fonte de ordem. A anarquia da política
internacional significa que os Estados devem agir de forma a garantir sua
segurança acima de tudo, ou então arriscam-se a ficarem prejudicados.

Como a maioria dos Neorealistas, Waltz aceita que a Globalização está


colocando novos desafios para os Estados, mas não acredita que os
Estados estejam sendo substituídos, porque nenhum actor não-estatal
pode igualar as capacidades do Estado.

O Neorealismo foi a resposta de Waltz para o que ele via como as


deficiências do Realismo Clássico. Embora os termos sejam por vezes
utilizados indistintamente, o Neorealismo e o Realismo possuem
características distintas. A principal diferença entre os dois está no papel
atribuído pelo Realismo Clássico à natureza humana, ou ao ímpeto de
dominar, no centro de sua explicação para a guerra, enquanto o
Neorealismo não faz destaque para a natureza humana e argumenta em
lugar disso que as pressões da anarquia definem resultados
independentemente da natureza humana ou dos regimes
políticos domésticos.

A teoria de Waltz, é uma teoria de política externa e não procura prever


ou explicar acções específicas dos Estados. Ela explica apenas princípios
gerais de comportamento que governam as relações entre Estados,
incluindo a Equilíbrio de Poder, corridas armamentistas, e praticar
restrições em proporção ao poder relativo.

Críticas ao Neorealismo
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 133

Desde sua aparição em 1979 até o fim da Guerra Fria, o Neorealismo foi
a teoria dominante de Relações Internacionais. Sua inabilidade em
explicar a súbita e pacífica queda da União Soviética colocou em questão
o argumento de Waltz de que Sistemas Bipolares devem ser mais estáveis
do que os Multipolares.

Outra crítica de peso ao Neorealismo é sua inabilidade de lidar com a


duradoura paz entre as grandes potências desde a Segunda Guerra
Mundial e a crescente cooperação entre os Estados. Explicações
alternativas que focam no papel das Instituições (como o
Liberalismo, Neoliberalismo, Institucionalismo) e regimes
políticos domésticos tornaram-se muito mais proeminentes, embora as
teorias realistas continuem a ter grande influência em trabalhos e teorias
actuais.

Outros críticos argumentam que os Estados, numa crise internacional, não


entram em equilíbrios de poder como os Neorealistas prevêm, e ao invés
disso preferem regularmente seguir o fluxo, ou colocar-se ao lado dos
mais poderosos. Waltz responde que sua teoria explica o comportamento
dos Estados com poderes médio e grande, e que os Estados pequenos e
vulneráveis realmente seguem o fluxo com freqüência ao invés de tentar
o equilíbrio, mas que em última análise suas ações não definem o curso
das Relações Internacionais de maneira significativa.

Robert Gilpin e `as Relações Económicas


Internacionais

Robert Gilpin investiga de que forma o Estado e seus processos políticos


conexos afectam a produção e a distribuição da riqueza. Inversamente a
essas questões indaga também qual o efeito dos mercados e das forças
econômicas sobre a distribuição do poder e do bem-estar entre os Estados
e outros actores políticos, e especialmente como essas forças alteram a
distribuição internacional do poder político e militar.

Na sua tese, Robert Gilpin inspira-se em Kindleberger para quem a causa


principal para a ocorrência e profundidade da crise dos anos 1970 foi o
facto da Grã-Bretanha não ter conseguir mais assumir a responsabilidade
de estabilizar a economia mundial e dos Estados Unidos não se disporem
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 134

a assumir o seu lugar. Isso porque ele parte do pressuposto de que o


sistema econômico mundial é inerentemente instável e assimétricoà teoria
realista das relações internacionais, dando origem à abordagem realista da
economia política internacional, que mais tarde foi nomeada pelos seus
críticos liberais de teoria da estabilidade hegemônica (COHEN, 2008, p.
72-75). O diagnóstico realista acerca da crise dos anos 70 enfatiza
elementos estruturais de mudanças políticas, econômicas e tecnológicas,
apesar de reconhecer que fatores conjunturais, como políticas
inadequadas adotadas pelo governo, também contribuíram para a crise.

O primeiro elemento é o declínio do poder relativo dos EUA. De acordo


com Gilpin (2002, p. 376), “o início do fim foi a adoção de políticas
excessivamente keynesianas e a escalada da Guerra do Vietnã, nos anos
1960”. Esses dois fatores teriam feito com que os Estados Unidos
perdessem o controle do sistema monetário mundial, com o rompimento
de Bretton Woods (GILPIN, 2002, p. 377). Os Estados Unidos teriam
passado cada vez mais a fazer uma política que privilegiava o interesse
nacional, em detrimento dos interesses do sistema econômico
internacional (GILPIN, 2002, p. 377). O aumento dos gastos com os
compromissos internacionais assumidos pelo fato de ser a maior potência
do mundo pósguerra e com a Guerra do Vietnã levou à emissão de mais
dólares, o que gerou inflação e destruiu o sistema de Bretton Woods,
minando a confiança no dólar. Outro fator apontado é a queda da
produtividade da indústria norteamericana em relação às outras potências,
em especial ao Japão e à Alemanha (GILPIN, 2002, p. 376).

O segundo elemento é a mudança nas condições de oferta. O


encarecimento do petróleo, devido aos choques do petróleo; a grande
oferta de mão de obra; o fechamento da fronteira tecnológica; e a redução
do hiato tecnológico entre os EUA e os outros países impulsionaram o
protecionismo e reduziram a produtividade e o crescimento
econômico(GILPIN, 2002, p. 386). O terceiro, são as limitações do
gerenciamento da demanda. Os regimes internacionais, financeiro e
comercial, permitiam a harmonia entre a autonomia econômica interna e
as normas liberais da ordem econômica internacional. Com a crescente
interdependência econômica, as políticas keynesiana e de bem-estar
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 135

social se tornaram cada vez mais ineficientes, gerando uma grande


pressão inflacionária (GILPIN, 2002, p. 387-388).

Enquanto os EUA não se preocupavam com seus déficits comerciais e de


pagamentos, não havia problema. Quando eles passaram de credores para
devedores, mudaram sua política e as funções estabilizadoras deixaram
de ser exercidas, agravando os problemas citados acima (GILPIN, 2002,
p. 391-392).

Vemos, portanto, que a ideia central da teoria da estabilidade hegemônica


é bem simples. O pressuposto desta teoria é que o sistema econômico
mundial é inerentemente instável e assimétrico. Para estabilizá-lo é
necessária uma potência estabilizadora. Apenas uma cooperação entre
Estados não seria capaz de estabilizar o sistema, é necessária uma única
potência com capacidade de liderança. Para poder estabilizar o sistema, a
potência hegemônica deve assumir a responsabilidade de três funções
principais: a manutenção de um mercado aberto de bens, o fornecimento
de empréstimos anticíclicos de longo prazo e o fornecimento de
mecanismos de redesconto para os países com problemas nas crises.
Portanto, o estabilizador deve assumir uma responsabilidade de interesse
público, que não necessariamente contrasta com seuinteresse particular,
mas que faz com que ele não possa pensar exclusivamente neste.

Na explicação dada por esta corrente à crise da hegemonia


norteamericana, fica clara a influência da teoria econômica neoclássica. A
maior evidência disso é o monetarismo presente na explicação do fim do
padrão de Bretton Woods, considerado como o resultado de uma grande
emissão de moeda, o que teria causado inflação e a perda da confiança no
dólar. As ideias de pressão inflacionária advinda das políticas
keynesianas e de redução da produtividade decorrente de medidas
protecionistas também reforçam o caráter neoclássico de seus
argumentos.

É a combinação dessa base econômica neoclássica com a teoria realista


das relações internacionais que dá origem à ideia da necessidade de uma
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 136

potência hegemônica para estabilizar o sistema internacional. Podemos


dizer, portanto, que a teoria da estabilidade hegemônica procura
incorporar a dimensão política do debate realista sobre o papel da
potência hegemônica no sistema internacional à análise do sistema
econômico internacional, feita em bases neoclássicas.

Pode-se constatar, assim, que, apesar da perspectiva radicalmente


diferente em relação às correntes dominantes, a corrente neomarxista
possui um diagnóstico histórico a respeito da crise da década de 1970
muito semelhante. Entre as principais correntes da Economia Política
Internacional, os neomarxistas são os que mais se esforçam por combinar
as dimensões políticas e econômicas do sistema internacional de uma
forma orgânica, procurando estabelecer as relações entre o modo de
produção capitalista e o sistema interestatal surgido na Europa. No
entanto, é interessante notar a semelhança desta corrente com a teoria da
estabilidade hegemônica.

Percebe-se que os principais autores das corrente realista da Economia


Política Internacional, ao realizarem suas construções teóricas, acabam
fazendo uma tentativa de juntar uma análise econômica abstrata, de
natureza neoclássica, com uma perspectiva de política internacional
baseada em concepções neorrealistas a respeito dos Estados e do sistema
internacional. E, a partir disso, ressaltam o papel estabilizador exercido
pela potência hegemônica sobre o sistema internacional.

O problema é que, ao fazerem apenas essa junção de uma teoria


econômica geral com uma teoria de política internacional, as relações
orgânicas entre a produção e distribuição da riqueza e a competição
interestatal deixam de ser devidamente consideradas. Em particular, as
análises de relações econômicas atemporais deixam de levar em conta de
forma satisfatória um sistema econômico internacional formado por
economias nacionais, que estão envolvidas em uma disputa de poder.

Por outro lado, as abordagens críticas, como as de Arrighi e Wallerstein,


também procuram combinar uma ideia importada da Economia Política
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 137

Internacional realista – a ênfase na hegemonia e em seu papel


estabilizador – com uma teoria da acumulação e da crise de influência
marxista, apesar de também serem influenciados pelas ideias de Braudel.
Constatamos, portanto, novamente, uma tentativa de junção de uma teoria
econômica mais abstrata, agora de influência marxista, com uma teoria de
política internacional realista. O interessante é constatar o distanciamento
dessa corrente neomarxista das teorias do imperialismo do início do
século XX, que foram a principal tentativa de unir uma base marxista
com a dinâmica da competição interestatal dentro de um mesmo esforço
teórico integrado. A ênfase no imperialismo foi, de certa forma,
substituída pelo foco na questão da hegemonia. O problema, de novo, é
que a análise acaba caindo na explicação baseada nas relações
econômicas, não sendo efetivamente integradas à competição entre as
unidades econômicas nacionais.

Retomando a definição do campo da Economia Política Internacional


como a tentativa de análise da inter-relação entre os fenômenos políticos
e econômicos que ocorrem no sistema internacional, constatamos que,
para realizar essa tarefa, não basta apenas combinar os campos da
Economia e das Relações Internacionais, como o fazem a maioria dos
autores que procuram tratar desse sistema no âmbito da EPI. Essa
proposta não é suficiente, em primeiro lugar, porque as teorias de
Relações Internacionais, particularmente pela dominância da tradição
norteamericana nesta ciência, são muito marcadas por concepções
convencionais da Ciência Política, de caráter institucionalista e,
frequentemente, ahistórico. Além disso, as teorias de Relações
Internacionais possuem uma imensa dificuldade de integrar a análise dos
fenômenos econômicos, acabando sempre por tomar emprestados
conceitos da teoria econômica neoclássica, sem muitos questionamentos a
respeito de sua validade para o objeto que está sendo analisado.

Em segundo lugar, o próprio surgimento da teoria necolássica, quando a


Economia Política se torna Economics, é marcado pela tentativa de
excluir qualquer elemento político da teoria econômica. A utilização da
Economia Política clássica, como feito pela tradição marxista, ameniza o
problema, mas não o resolve, pois ela ainda é uma ciência econômica.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 138

Sem dúvida, ela possui elementos políticos em sua teoria, porém seu
objeto de estudo é a produção e a distribuição da riqueza, ou do
excedente econômico.

A tentativa de resolver esse problema seria um esforço duplo. Por um


lado, envolveria a busca por uma integração realmente orgânica entre as
perspectivas política e econômica na construção da análise, sem cair na
determinação econômica em última instância. Por outro lado, implicaria
reconhecer e ter mais presente que o caráter internacional do objeto
significa, não apenas que se tratam de fenômenos que transcendem as
fronteiras nacionais, mas principalmente, que se trata de um sistema
composto por Estados e economias nacionais. E também apreciar a real
importância das consequências dessa constatação. Por isso
“internacional”, e não “global”, ou “mundial”. Este esforço ainda está por
se fazer e

determinará o futuro da Economia Política Internacional enquanto uma


teoria que dê conta do funcionamento desse sistema interestatal
capitalista, no qual vivemos.

3. À procura de uma nova teoria dominante

3.1 Alexander Wendt e a Anarquia como construção

Uma das grandes questões que o construtivismo procura responder refere-


se ao papel das idéias na vida social. Essa abordagem investiga a forma
como as idéias constituem o mundo no qual vivemos, e como esse
processo de constituição ocorre. A resposta oferecida pelo construtivismo
afirma que as questões materiais como o significado do poder ou o
conteúdo dos interesses – são, em grande parte, função de idéias. Nesse
sentido, idéias constituem a base material do sistema. Embora os efeitos
das forças materiais não sejam negligenciados, o factor fundamental na
política internacional é a distribuição de idéias nesse sistema.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 139

O que interessa é saber como as idéias influenciam a maneira pela qual as


identidades são constituídas ou reproduzidas e como, por sua vez, os
actores definem seus interesses em função de suas identidades. Para
demonstrar a importância que as idéias têm na política internacional,
Wendt apresenta o debate entre materialismo e idealismo. Segundo o
autor, ambos os argumentos reconhecem o papel das idéias, mas não
concordam quanto aos efeitos dessas na vida social. Assim, o argumento
materialista se baseia na premissa de que “o facto mais importante sobre
a sociedade é a natureza e organização das forças materiais.” Ou seja,
para Wendt, uma teoria é materialista quando os efeitos do poder, dos
interesses dos actores ou das instituições são explicados pelas forças
materiais ‘brutas’.

De forma a entender melhor o impacto das idéias, Wendt distingue dois


tipos de relações e efeitos: causais e constitutivos. Uma teoria causal
explicaria por que X causa Y; essa causalidade implica, portanto, que:

a) X e Y existem independentemente um do outro;

b) X precede, temporalmente, Y; e

c) Se não fosse por X, Y não teria acontecido. Trata-se, em última


instância, de responder à pergunta por que determinado evento aconteceu.

Ao contrário, a explicação constitutiva tenta responder à pergunta: como


determinado evento foi possível, o que difere sobremaneira da explicação
causal. Dessa forma, o objetivo da explicação constitutiva é diferente,
uma vez que tenta dar conta das propriedades dos eventos fazendo
referência às estruturas em virtude das quais tal evento ocorreu. Assim,
esse tipo de pergunta requer explicações sobre as estruturas que
constituem X ou Y em primeiro lugar. Wendt argumenta que tanto os
fenômenos naturais, quanto os sociais podem ser formados por dois tipos
de estrutura: uma interna e outra externa, sendo que a estrutura interna
não é causa das propriedades dos fenômenos, no sentido de ser
antecedente, mas que, ao invés disso, essas estruturas permitem que tais
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 140

propriedades sejam possíveis. No entanto, o que mais interessa para o


autor são as estruturas externas dos fenômenos sociais:

Se, por um lado, Wendt enfatiza o papel das idéias na política


internacional, por outro, não deixa de reservar um espaço para um tipo de
materialismo residual, definido em termos de força material bruta
(capacidade militar, tecnologia, geografia e recursos naturais). Wendt
lembra que as forças materiais brutas têm efeito independente na política
internacional e que as idéias não explicam tudo. Mas é só devido à
interação com as idéias que as forças materiais têm efeito na política
internacional.

Portanto, o facto de as idéias terem um papel fundamental na política


internacional não implica que questões de poder e de interesses nacionais
percam relevância. Assim, Wendt mantém a importância do poder e dos
interesses para a explicação do fenômeno internacional, mas acredita que
os significados atribuídos pelos atores a essas forças são muito mais
significativos. Ao se perguntar como é constituído o poder, Wendt
responde que esse é constituído principalmente por idéias e contextos
culturais. As formações culturais no nível sistêmico são entendidas como
idéias compartilhadas que formam normas, instituições, etc., e que
constituem o significado da distribuição de poder, seja através de
percepções ou através de identidades e de interesses.

O Problema Agente-Estrutura ou o debate entre individualismo e


holismo

Além do idealismo, outro pressuposto do construtivismo é o do


estruturalismo ou holismo. Parte-se da idéia de que as estruturas sociais
têm efeitos que não podem ser reduzidos aos agentes e a suas interações.
Assim, o problema agente-estrutura se encontra no cerne do debate entre
individualistas e holistas. As posições defendidas por ambas as correntes
sustentam que agentes e estrutura são interdependentes. Essas visões
discordam apenas quanto ao grau de interdependência verificado: os
individualistas argumentam que as estruturas podem ser reduzidas às
propriedades e às interações dos agentes, enquanto que os holistas
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 141

sustentam que a estrutura tem propriedades irreduzíveis. A partir desse


debate, Wendt adota uma posição intermediária para tratar a relação
agente-estrutura, situando-os em relações de mútua constituição e
outorgando-lhes o mesmo status ontológico, salientando as relações de
co-determinação ou de interação.

Segundo Wendt, o Estado é um verdadeiro actor. Ao considerar o Estado


como actor é possível atribuir-lhe determinadas propriedades, tais como
identidade e interesses. O agente intencional Estado é, portanto,
possuidor de um ‘self’, porque realiza acções segundocdeterminados
propósitos, e também é unitário, por não ser redutível às suas partes.

No que diz respeito ao conceito de estrutura, ela é caracterizada por


Wendt como distribuição de conhecimento ou de idéias que organizam as
acções dos agentes. Portanto, a estrutura é definida como um fenômeno
social, e não apenas material. Essa característica da estrutura pressupõe
que os agentes são inseparáveis das estruturas sociais porque suas acções
somente são possíveis em virtude daquelas estruturas, particularmente do
tipo de cultura anárquica dominante nas interações dos agentes. E é na
interação entre os agentes que ocorre a distribuição de conhecimento. Por
sua vez, as estruturas de distribuição de conhecimento, dependem do
facto dos actores acreditarem em algo que os induza a realizar
determinadas práticas que reproduzam aquelas estruturas.

Wendt apresenta três lógicas de anarquia a hobbesiana, a lockeana e a


kantiana – que se baseiam nos diferentes papéis do Eu e do Outro que os
atores podem assumir no sistema internacional: inimigo, rival e amigo,
respectivamente. Portanto, não existe uma única lógica anárquica, mas
váriaslógicas ou culturas anárquicas dentro das quais os atores atribuem
diferentes papéis uns aos outros. Nesse sentido, a estrutura de papéis –
compreendidos como propriedades da macro-estrutura, representações
coletivas, e não como propriedade

dos agentes – é de vital importância.

Fukuyama e o Fim da História


EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 142

O Fim da História é uma teoria iniciada no século XIX por Georg


Wilhelm Friedrich Hegel e posteriormente retomada, no último quarto
do século XX, no contexto da crise da historiografia e das Ciências
Sociais no geral, por Francis Fukuyama no seu artigo "O fim da história
de 1989, e, posteriormente, em 1992, com o livro “O fim da história e o
último homem”.

O esforço principal de Fukuyama, foi o de tentar elaborar uma linha de


abordagem da história, a fim de revigorar a tese de que o capitalismo e a
democracia burguesa constituem o coroamento da história da
humanidade, ou seja, de que a humanidade teria atingido, no final do
século XX, o ponto culminante de sua evolução com o triunfo da
democracia liberal ocidental sobre todos os demais sistemas e ideologias
concorrentes.

Para ele, o século XX viu, primeiramente, a destruição do fascismo e, em


seguida, do socialismo, que fora o grande adversário do capitalismo e do
liberalismo no pós-guerra. O mundo teria assistido ao fim e ao descrédito
dessas duas alternativas globais, restando apenas, actualmente, em
oposição à proposta capitalista liberal, resíduos de nacionalismos, sem
possibilidade de significarem um projeto para a humanidade, e o
fundamentalismo islâmico, confinado ao Oriente e a países periféricos.
Assim, com a derrocada do socialismo, Fukuyama conclui que a
democracia liberal ocidental firmou-se como a solução final do governo
humano, significando, nesse sentido, o "fim da história" da humanidade.

Fukuyama não contrapõe a chamada democracia liberal somente ao


socialismo, mas também a uma miríade de regimes autoritários de direita
que entraram em colapso e que, de acordo com ele, acabaram adoptando,
em maior ou menor grau, o modelo da democracia liberal. Na América
Latina, aponta o caso das ditaduras na Argentina, no Brasil e no Chile. Na
Ásia, lembra o fim do regime de Ferdinand Marcos, em 1987, e sua
substituição pelo governo de Corazón Aquino. Na África do Sul, cita a
libertação de Nelson Mandela pelo governo de maioria branca de F.W. de
Klerk e a busca de um governo de co-participação de brancos e negros.
Tudo, segundo ele, com muitas variantes, mas sempre no rumo de um
modelo de democracia liberal. Liberalismo, para Fukuyama, e o regime
fundado, no terreno político, na democracia burguesa e, no terreno
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 143

econômico, "no direito de livre actividade econômica e troca econômica,


baseado na propriedade privada e nos mercados".

Em suma, ao longo do século a democracia liberal teria superado os


"totalitarismos" de direita e esquerda, e também quaisquer outras
variantes autoritárias, e triunfado como o regime mais adequado ao
progresso e à liberdade humana. As propostas que restam hoje em
contraposição à democracia liberal estão na defensiva, e representariam o
conservadorismo e o atraso. EM relação aos países que permaneceram
socialistas como China Cuba, Coreia do Norte e Vietname, Fukuyama diz
que embora o poder comunista persista no mundo, deixou já de refletir
uma idéia dinâmica e atraente. Hoje, os que se dizem comunistas
empenham-se numa luta contínua de rectaguarda para preservar alguma
coisa da sua posição e do seu poder. Os comunistas encontram-se na
posição nada invejável de defender uma ordem social ultrapassada e
reaccionária, como os monarquistas que conseguiram sobreviver até o
século XX".

Passando por cima da realidade histórica mais banal, Fukuyamama


desconsidera o facto evidente de que o fascismo somente se explica se
ligado intimamente ao capitalismo monopolista e às suas crises, da
mesma maneira que o surgimento de um conjunto de regimes ditatoriais e
fascistas na América Latina, no decorrer dos anos 70, foi a expressão
política da forma de desenvolvimento capitalista ocorrida nesses países.
Ou seja, foram regimes que sufocaram a democracia burguesa,
reprimiram os movimentos populares, recorreram à tortura como método
normal de acção, tudo para garantir a acumulação capitalista num modelo
de desenvolvimento associado ao capital financeiro internacional que, por
seu lado, garantiu a esses países o apoio político necessário.

Fukuyama argumenta, ainda que a humanidade já estaria livre de


fenômenos como o nazi-fascismo, uma vez que esse tipo de barbárie não
mais seria condizente com o estágio atingido pela humanidade na pós-
história.

Para dar consistência filosófica às suas teses, Fukuyama foi buscar em


Hegel os fundamentos para sua teoria do "fim da história". Hegel
acreditava num direcionamento da história da humanidade no sentido da
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 144

evolução e do progresso. Para ele, a história humana era a realização


progressiva da sua "idéia absoluta". Ao mesmo tempo, Hegel acreditava
que haveria um "fim da história" - não no sentido de que, com a
construção de uma sociedade superior e livre, a história da humanidade
iria terminar, pois ela seria a manifestação da realização plena da "ideia
absoluta". Fukuyama se apoia nessa concepção e no facto de Hegel
considerar que a "história" havia terminado em 1806, depois da batalha
de Iena, com a vitória de Napoleão sobre os prussianos.

Segundo a teoria de Fukuyama, hoje o mundo está dividido entre os


países capitalistas avançados, que representariam o "Estado universal
homogêneo", e os demais países que ainda não atingiram esse estágio e
que, na verdade, seriam os representantes da barbárie, significando uma
ameaça para os primeiros. Ora, se a "barbárie" ameaça a "civilização",
ou, para usar a terminologia mais velada de Fukuyama, se o "mundo
histórico" ameaça o "mundo pós-histórico", então está criada a
justificativa do uso da força por este último, para se defender
legitimamente do primeiro. Ele aponta pelo menos dois terrenos de
colisão clara entre esses mundos: o do petróleo e o da imigração. Diz que
"a produção de petróleo continua concentrada no mundo histórico e é
crucial para o bem-estar econômico do mundo pós-histórico". Por isso,
ele prevê e justifica novos conflitos como a intervenção imperialista no
Golfo Pérsico. No outro terreno, será necessário "conter a maré"
caracterizada pelo enorme fluxo de migrantes que está indo de um mundo
para outro.

A conclusão de Fukuyama é a de que a força continuará a ser a razão


final nas relações entre esses dois mundos, ou, para usar uma de suas
expressões, entre democracias e não-democracias. E para reger essas
relações, ele critica organismos como a ONU, que não seria uma
sociedade de nações livres, mas um ajuntamento que mistura estas
últimas com ditaduras, que aceitou a União Soviética de Stalin inclusive
com poder de veto em seu Conselho de Segurança, e aceitou também
Estados novos do Terceiro Mundo que compartilhavam pouco dos
princípios liberais.

Por isso, segundo ele, na nova ordem internacional criada após o fim da
guerra fria, uma liga das nações teria que se parecer mais com a OTAN
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 145

do que com a ONU (Nações Unidas) - isto é, ser uma liga de Estados
realmente livres, unidos pelo compromisso comum com os princípios
liberais. Essa liga seria muito mais capaz de uma acção decisiva para
proteger a segurança coletiva contra as ameaças vindas da parte não-
democrática do mundo.

Na sua óptica, após a destruição do fascismo e do socialismo, a


humanidade, à época, teria atingido o ponto culminante de sua evolução
com o triunfo da democracia liberal ocidental sobre todos os demais
sistemas e ideologias concorrentes. Em oposição à proposta capitalista
liberal, restavam apenas os vestígios de nacionalismos sem possibilidade
de significarem um projecto para a humanidade e o fundamentalismo
islâmico restrito ao Oriente e a países periféricos. Desse modo, diante da
derrocada do socialismo, o autor concluiu que a democracia liberal
ocidental firmou-se como a solução final do governo humano,
significando, nesse sentido, o "fim da história" da humanidade.

3.3 Samuel Huntington e o Choque das Civilizações

Ao final do último quartel do Seculo XX, do espírito da “nova ordem


mundial”, passou-se à percepção de um contexto de desordem e
fragmentação (separatismos nacionais, conflitos intraestatais, choques
globais). Do fim ao recomeço da história, as hipóteses sobre o equilíbrio
mundial recairam ao extremo da crise, ganhando destaque interpretações
que procuravam explicar as novas fontes de conflito que tomariam o
lugar da bipolaridade, como o Choque das Civilizações de Samuel
Huntington.

Assim como Fukuyama, Huntington era reconhecido como um dos mais


influentes estrategistas norte-americanos e ligado ao pensamento
conservador. Sua avaliação caminha na direção oposta da de Fukuyama,
prevendo a contestação do modelo ocidental. Como o próprio título de
sua reflexão indica, para Huntington, a confrontação geopolítica
tradicional entre as superpotências seria substituída pelo choque das
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 146

civilizações. Nas palavras de Huntington a identidade civilizacional será


cada vez mais importante no futuro e o mundo será definido em grande
medida pela interação entre sete ou oito grandes civilizações. Estas
incluem a ocidental, a Confuciana, a Japonesa, a Islâmica, Hindu, a
Eslava-Ortodoxa, a Latino-Americana e possivelmente uma civilização
Africana. Os conflitos mais relevantes do futuro irão ocorrer ao longo das
linhas de fratura que separam estas civilizações umas das outras.
HUNTINGTON, 1997.

A partir destas “sete ou oito” civilizações, o autor desenvolve uma tese


extremamente controversa, que indica que a cultura e não a política será o
foco das tensões mundiais. Sem entrar nas abrangentes críticas seja a esta
previsão ou a ideia da subordinação da política à cultura, de imediato é
possível apontar contradições intrínsecas a esta visão: primeiro, a
despeito da ênfase cultural, cada civilização possuirá um Estado-Núcleo
(EUA no Ocidente, Irão no Islão, Índia na Hindu, China na Confuciana),
que indica a prevalência do elemento geopolítico na identificação destes
Estados pivô e na dinâmica de suas relações; segundo, as dimensões
intrablocos de Huntington são extremamente abrangentes e muitas vezes
não compõe um conjunto; por fim, a preocupação do autor é patente ao
longo do artigo, e depois do livro, com a preservação do domínio
ocidental, norte-americano do sistema, o que indica a preocupação com o
poder apesar da premissa do nascimento de um “mundo multipolar e
multicivilizacional”.

É possível identificar um claro carácter excludente da tese de Huntington


na construção da oposição entre o Ocidente e o Resto (the west and the
rest). Esta oposição destaca uma preocupação recorrente de formuladores
de política dos EUA que era a transição do eixo do poder econômico
mundial do ocidente para a Ásia e a ascensão do mundo islâmico. O
choque terá dois ciclos: 1993/1995, associado à polêmica do seu
lançamento e à percepção de declínio dos EUA diante da Ásia (“os
perigos amarelo e vermelho” do Japão e da China) e, 2001/2005, com
foco no terrorismo transnacional islâmico resultante dos ataques
terroristas de 11/09.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 147

Este período marcou as contradições dos processos imediatos do pós-


1989 de universalização do liberalismo, e dos mitos associados à
globalização e regionalização. A ocorrência de crises econômicas e
sociais serviu como ponto de partida para o repensar tanto da esquerda
quanto da direita, colocando-se as alternativas da Terceira Via, dos
Fóruns Sociais Mundiais e da revisão do Consenso de Washington.

Outra hipótese a ser levantada é a preocupação do autor com os choques


civilizacionais internos aos Estados do Ocidente, EUA e europeus
ocidentais, pela transformação da composição racial e étnica de suas
sociedades e a imigração. Esta percepção é reforçada quando do
lançamento de Who Are We? no qual Huntington discute as linhas de
fratura civilizacionais internas aos EUA.

O autor ressalva que os conceitos tradicionais das relações


internacionais não vão desaparecer – ideias como a de interesse
nacional vão permanecer bem vivos na teorização do novo
século. Mas a forma como este interesse nacional vai ser definido será
ligeiramente alterada, com a emergência de um novo e importante factor:
as afinidades culturais ou civilizacionais.

A explicação para esta mudança de paradigma é dupla. Por um lado, o


fim da Guerra Fria pôs a descoberto tensões que, devido à apertada
malha de alianças tecidas durante a década de 60 e 70, tinham
permanecido contidas. É o caso dos conflitos nos Balcãs. Por outro lado,
o acelerar da globalização aumenta o contacto entre povos, o que faz
com que os povos encontrem novos «Outros» contra os quais se
identificar. Dá-se assim um regresso à religião como factor aglutinador
de massas.

Ao mesmo tempo, a urbanização rápida de países pouco desenvolvidos


aumenta o sentimento de desenraizamento, promovendo a procura activa
de novas fontes de paz espiritual. Finalmente, o alastrar da
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 148

democratização cria um notável paradoxo: a ascensão de líderes


extremistas, eleitos com base nos apelos nacionalistas.

Para Huntington, estes quatro factores criam um mundo dividido em oito


grandes civilizações: ocidental, sínica, islâmica, africana, latino-
americana, japonesa, hindu e ortodoxa. Os Estados tenderão a ajustar as
suas simpatias e o seu interesse nacional à filiação civilizacional. Os
focos de tensão encontram-se sobretudo na intersecção de um ocidente
orgulhoso – mas em declínio – com uma Ásia orgulhosa e com uma
economia cada vez maior e um Islão intolerante e demograficamente
pujante. As fronteiras serão as zonas de conflito mais prováveis.

A perspectiva de Huntington entra em choque directo com as doutrinas


optimistas de autores como Fareed Zakaria ou Francis Fukuyama. Para
estes, o curso natural da história levaria a democracia liberal a
disseminar-se, espalhando com ela os valores ocidentais e a paz entre os
povos.

Entretanto, apesar de a análise que Huntington faz das várias


civilizacionais ser extremamente erudita e profunda, os futuros conflitos
civilizacionais parecem menos heterodoxos do que o esperado. Nalguns
casos, a explicação «civilizacional» adequa-se tão bem à emergência de
novos confrontos como o velhinho paradigma realista. Por exemplo, um
confronto entre China e EUA pode ser compreendido como um choque
cultural; mas também pode ser a reacção natural de uma potência
acossada pelo crescimento económico substancial de um rival.

A teoria do autor confronta-se ainda com um problema sério: a realidade.


O livro foi escrito em 1996; desde então, as profecias não se realizaram.O
Ocidente não se agregou em torno dos EUA – muito pelo contrário; a
Rússia reemergiu como um país problemático – apesar de a lógica
civilizacional a dar como um potencial aliado; e o Japão não se
aproximou da China como forma de contrabalançar o poder ocidental. A
obra de Huntington vai permanecer como um importante contributo para
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 149

o estudo das tensões no pós-Guerra Fria; mas é duvidoso que alguma vez
venha a ser mais que uma nota de rodapé na análise das grandes
tendências das Relações Internacionais.

3.4 Robert Kagan, o Poder e o Paraíso

Rober Kagan examina as divergências transatlânticas que se


evidenciaram aquando da Guerra do Iraque, em 2003. Segundo este
analista, o que foi vivido nesse resultou da existência de divergências
inultrapassáveis entre a Europa e os Estados Unidos, em relação à
edificação de uma nova ordem internacional. O contexto que havia
permitido/possibilitado a edificação da aliança no passado era o receio do
comunismo soviético; contudo, após a derrocada do bloco de Leste e o
fim do perigosoviético, já não subsistia uma perspectiva comum no modo
como enfrentar os grandes desafios da agenda internacional.

Segundo Robert Kagan, essas visões opostas resultavam de factos


históricos passados: os europeus, traumatizados por dois conflitos
mundiais e conhecedores da sua menor capacidade militar, preconizavam
uma estratégia mais diplomática; por seu turno, os americanos,
conscientes do seu poderio militar, não tinham receio em utilizá-lo,
sobretudo quando se encontravam perante situações que ameaçavam os
seus interesses estratégicos, como o que acontecera com o ataque
terrorista de 11 de Setembro de 2001; por isso, era pouco relevante para a
diplomacia americana noções relacionadas com o respeito pelo Direito
Internacional, sobretudo quando se estava perante novas ameaças, como o
terrorismo islâmico.

Kagan também defende que algumas das diferenças estratégicas


advinham do

tempo da administração democrata do presidente Bill Clinton, realçando


focos de tensão, tais como o sistema de mísseis, o Iraque (Kagan, 2000:
53-54) – quando o Presidente Clinton bombardeou unilateralmente o
Iraque, em 1998, perante a oposição de alguns Estados europeus – e o
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 150

terrorismo, como temas de alguma fricção entre os dois continentes,


durante esse período; aliás, a intervenção americana na Bósnia e Kosovo
apenas acontecera devido á inoperância europeia em encontrar uma
solução para este conflitos. A nível da política externa americana, não
existem grandes discrepâncias entre os republicanos e democratas quando
se trata de defender os interesses americanos;

Não obstante, esta análise originou críticas de sectores que discordavam


das suas conclusões e que a própria evolução posterior das relações
transatlânticas também viria a desmentir: a partir do desentendimento
iraquiano, não se assistiu ao desmoronar do bloco ocidental, responsável
pela estabilidade da segurança europeia e americana; ao invés, mesmo
durante o segundo mandato do Presidente Bush, verificou-se uma maior
convergência entre as diplomacias dos dois continentes em temáticas
sensíveis da política internacional, como é o caso da questão nuclear
iraniana e da necessidade da estabilização do Afeganistão. Mesmo na
análise das relações entre a Europa e os Estados Unidos, durante a
presidência Clinton, apesar de relatar focos de alguma tensão, não se deve
olvidar que, durante este período, existia uma visão comum nos dois
lados do Atlântico, relativamente aos desafios da nova ordem
internacional (doenças infectocontagiosas, terrorismo, crime organizado).
Deve realçar-se também que a década de noventa é considerada um
período transitório nas relações internacionais, sendo por isso natural que
as divergências não fossem tão claras.

R. Haas e o Mundo Não-polar

As interpretações mais recentes sobre o reordenamento do poder mundial


dão conta da formação de novos equilíbrios globais e regionais,
retomando a perspectiva da troca de posições relativas na estrutura de
poder mundial. Tanto na teoria quanto na prática, a movimentação entre
as potências ascendentes e em declínio, das Américas à Ásia, passando
pela Europa e pela África indica a constituição de um sistema
internacional complexo.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 151

As teses da multipolaridade revelam a existência de uma maior divisão de


poder no cenário e a necessidade de reformar e atualizar as estruturas de
poder vigentes e o papel dos Estados na condução dos negócios
internacionais. Uma redivisão de responsabilidades mais equitativa, assim
como a democratização destas estruturas é uma das prioridades das
nações emergentes. A maior participação destes Estados e atores na
política internacional leva à consolidação de uma gama mais abrangente
de questões e problemas a serem discutidos, que escapam do viés clássico
da segurança, para abordar demandas sociais, econômicas, humanitárias,
visando aredução das assimetrias existentes.

A ascensão simultânea na importância política de vários Estados em


desenvolvimento chave, em particular, Índia, Brasil e Nigéria, significa
que os dilemas políticos, econômicos, financeiros e sociais mais
relevantes da parcela mais pobre da humanidade se tornarão cada vez
mais um tema importante (BRZEZINSKI, 2007, p. 28)31

Outros termos associados à multipolaridade são os processos de


desconcentração de poder, a ascensão dos emergentes e o surgimento de
um mundo pós-americano. A lógica do “ocidente e o resto” prevista por
Huntington anteriormente assume uma visão cooperativa e não conflitiva.
Embora não ignorem a existência de riscos no presente sistema, a maioria
dos autores que defende as teses de dispersão de poder o considera
positivo e reflexo do sucesso do modelo ocidental (em uma relativa
versão renovada do fim da história). Este sucesso aprofunda as redes de
interdependência existentes, valoriza os princípios liberais democráticos e
abre novas oportunidades de parcerias entre os países desenvolvidos e em
desenvolvimento, superando o viés Norte-Sul.

Hachigian and Sutphen (2008) sugerem que para o século XXI uma
política externa norteamericana eficiente depende do estabelecimento de
uma relação estratégica com os países emergentes. Zakaria (2008) afirma
que Estamos vivendo hoje a terceira grande mudança de poder da era
moderna- a ascensão do resto (...) um aspecto relacionado desta nova era
é a difusão de poder do Estado para outros atores (...) Isto não significa
que estamos entrando em um mundo anti-americano. Estamos nos
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 152

movendo para um mundo pós-Americano, um que é definido e dirigido


de muitos lugares e por muitas pessoas (...) este é um processo longo e
lento, mas que garante à América um papel vital, ainda que diferente (...)
ele envolve consultas, cooperação e mesmo compromisso. Ele deriva (...)
da definição da agenda, das questões e da mobilização de coalizões
(ZAKARIA, 2008. p. 2, 4-5, 232-233).

Esta “ascensão do resto”, e a dispersão dos centros de poder, traz à tona


as discussões de Arrighi brevemente citadas, e a ampliação das fronteiras
e transformações inerentes ao capitalismo global nas últimas décadas. A
descentralização, as novas formas de acumulação, as pressões da
competição, os fenômenos da globalização e regionalização são
componentes desteprocesso que afeta Estados e sociedades. Estas
hipóteses se associam aos debates sobre quais Primeiro, Segundo ou
Terceiro “Mundos” prevaleceriam e as contradições que se encontram na
retórica e na prática nesta tentativa de reclassificação das nações e
compreensão de novos equilíbrios.

Atribuindo maior ênfase à difusão do poder, além destas interpretações, o


analista Richard Haass (2008) oferece uma tese adicional sobre o
reordenamento da política internacional. Pode-se destacar que a visão de
Haass acrescenta questionamentos importantes, uma vez que ressalta em
sua ordem em construção abrange formas clássicas de política e os
fenômenos associados à globalização, à regionalização e à ação das
forças sociais no cenário mundial. Nesta avaliação, o cenário do pós-
Guerra Fria não seria nem uni, multi ou unimultipolar, mas sim “apolar”
ou “não-polar”, a partir da desconcentração dos recursos de poder entre
os Estados e entre os Estados, os organismos multilaterais e as forças
transnacionais.

Para Haass, (...) um sistema internacional não-polar é caracterizado por


diversos centros de poder (...) As potências centrais- China, União
Européia, Índia, Japão, Rússia e os EUA (...) muitos outros numerosos
poderes regionais: Brasil, e talvez, Argentina, Chile, México e Venezuela
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 153

na América Latina; Nigéria e África do Sul; Egito, Irã, Israel e Arábia


Saudita no Oriente Médio; Paquistão no Sul da Ásia; Austrália, Indonésia
e Coréia do Sul no Leste Asiático e Oceania. Uma boa quantidade de
organizações pode ser incluída na lista dos centros de poder, incluindo os
globais (FMI, ONU e o Banco Mundial) e as regionais (União Africana,
Liga Árabe, ASEAN, EU, OEA, SAARC) e as funcionais (AIEA, OPEC,
OCS, OMS). Assim como estados dentro de Estados (...) cidades (...)
grandes companhias globais, conglomerados de mídia, partidos políticos,
instituições e movimentos religiosos, organizações terroristas (...), cartéis
de drogas e ONGS (...) (HAAS, 2008, s/p).

Porém, nenhuma destas nações emergentes, demais membros do bloco


ocidental ou pólos alternativos detém pretensões hegemônicas, visando
substituir os EUA ou gerar conflitos. O que se procura é na maioria das
vezes o reforço da presença regional e um espaço diferenciado no sistema
a partir de novas coalizões e propostas de reforma. Esta dinâmica
mostrou-se bastante clara na crise de 2008 quando países emergentes,
desenvolvidos e suas alianças buscaram composições a fim de encontrar
soluções comuns para os presentes problemas.

Sumário
O módulo Relações Internacionais II apresenta a tendência das relações
internacionais contemporâneas. Os argumentos trazidos mostram uma
mudança da estrutura do sistema internacional partindo dos pressupostos
da interdependência complexa aos argumentos do mundo não polar.

Exercícios
1. Diga em que medida a teoria da interdependência complexa se
difere do realismo clássico.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 154

2. Fundamente a influência da Globalização, revolução da


informação nas concepções tradicionais de segurança, soberania
e territorialidade.

3. Explique o sistema internacional baseando-se nos argumentos de


K. Waltz.

4. Inspirando-se em R. Gilpin, diga qual o efeito dos mercados e das


forças econômicas sobre a distribuição do poder e do bem-estar
entre os Estados e outros actores políticos, e especialmente como
essas forças alteram a distribuição internacional do poder político
e militar.

5. Apresente os aspectos críticos do pensamento de F. Fukuyama.

6. Analise o sistema internacional tendo como base o pensamento


de S. Huntington.

Fazer actividades constantes na auto-avaliação

Auto-avaliação Entregar o exercício: 1.

Em quatro páginas faça um breve resumo da unidade em estudo.


EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 155

Unidade VII
Cooperação e Integração
Económica

Introdução
Nesta unidade pretende-se analisar o processo de integração económica
regional dos países em desenvolvimento face a Nova Ordem Económica
Internacional, com particular destaque aos países membros da COMESA
e SADC.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Analisar o processo de integração regional em África;


 Analisar os efeitos económicos da integração regional;
Objectivos
 Mostrar como interelacionam os países em desenvolvimento com os
desenvolvidos;
 Demonstrar o impacto do processo de integração económica para as
economias de escala emergentes.

1. A cooperação económica regional


a. O Papel da ONU20 na construção da Comunidade In- ternacional

A Organização das Nações Unidas é sujeito de Direito Internacional. Trata-te de


uma organização internacional, isto é, uma associação voluntária de sujeitos de
Direito Internacional, criada por Convénios Internacionais que prossegue objectivos
comuns, regulada pelo Direito Internacional, dotada de órgãos permanentes
próprios para a realização das suas funções políticas.

Em termos de objecto, é uma organização de fins gerais, visa a cooperação de


forma genérica, não tendo apenas a finalidade da paz e da segurança internacionais.
Quanto à dimensão territorial, trata-se de uma organização universal, uma vez que

20
Para mais informações vide o ponto 3 da Unidade 5
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 156

pretende abranger todos os Estados, com o objectivo de cooperação.

Ainda quanto à sua estrutura jurídica, é uma organização internacional clássica ou


intergovernamental. Distingue-se assim de organizações como as Comunidades
Europeias, que são supranacionais ou de integração. A ONU tem órgãos
deliberativos constituídos por representantes dos Estados, sujeitos às instruções dos
respectivos governos. Impera, como regra de deliberação, a unanimidade, ainda que
esta tenda a ser substituída pela regra da maioria qualificada. Controlo jurisdicional,
efectuado por um Tribunal de jurisdição facultativa.

A Organização das Nações Unidas é composta por uma Assembleia Geral, um


Conselho de Segurança, um Conselho Económico e Social, um Conselho de Tutela,
um Secretariado e um Tribunal Internacional de Justiça. A Assembleia Geral, o
Conselho de Segurança e o Tribunal Internacional de Justiça são órgãos soberanos,
pronunciam-se em última instância e são totalmente independentes. O Conselho
Económico e Social funciona da dependência da Assembleia Geral e o Conselho de
Tutela na dependência da Assembleia Geral e do Conselho de Segurança. O
Conselho de Tutela suspendeu a sua actividade, após a independência do Palav, o
último território sob tutela. Prevê-se que este órgão desapareça numa próxima
emenda à Carta ou lhe sejam atribuídas novas missões como a salvaguarda do
património comum da humanidade.

De facto, apesar de todas as suas limitações, a ONU tem protagonizado a evolução


da comunidade internacional.

Em primeiro lugar, contribuiu para a universalização da comunidade internacional,


evoluindo-se de um “clube” de países vitoriosos para uma organização que visa
englobar virtualmente todos os países do mundo. O papel da ONU destacou-se no
regime internacional de tutela; na definição do conceito de território não autónomo;
numa clara orientação anticolonialista.

Ao nível do direito internacional e da sua codificação foram dados passos


importantes. A fonte tradicional no período pós-guerra era o costume internacional
que não respondia às novas exigências de criação de consensos traduzidos em
instrumentos normativos, em áreas como a regulação do comércio internacional ou
do património comum da humanidade. Apesar de nem a ONU nem as instituições
especializadas deterem “poderes legislativos” no plano internacional, há alguns
elementos que foram importantes para o desenvolvimento progressivo do direito
internacional: forneceram quadros institucionais estáveis de forma a regular
matérias objecto de estudo sistemático (elaboração do quadro geral do direito dos
tratados, principalmente através da Convenção de Viena de 1969, que equacionou o
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 157

conceito de ius cogens).

Foi mesmo criada uma Comissão de Direito Internacional (CDI) destinada a


proceder ao estudo permanente e à elaboração de regras de direito, através da
codificação do direito consuetudinário, permitindo ultrapassar a falta de certeza que
o caracteriza. Esta Comissão era composta por peritos independentes que estiveram
na origem de algumas das construções mais estruturantes no moderno direito
internacional: Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, Convenção de
Viena sobre as Relações Diplomáticas. Também as resoluções da Assembleia
Geral, embora sem força comparável aos tratados, são hoje reconhecidas como
modos de revelação do costume internacional, pelo menos no que se refere ao seu
elemento de aceitação, já que o costume só se consolida verdadeiramente decorrido
o tempo necessário para que se verifique a sua efectiva observância pelos sujeitos
de direito internacional. Para além disso, destacam-se ainda os actos jurídicos
unilaterais da organização (como questões sanitárias internacionais ditadas pela
OMS).

A Organização das nações Unidas representou, após a tentativa da Sociedade das


Nações, a consecução do objectivo de institucionalizar a vida internacional. Há
quem autores que defendem até uma unificação ideológica. Mas fará sentido numa
organização marcada pela clivagem ideológica entre o chamado mundo livre e o
bloco comunista? A Carta contém em si própria, efectivamente, as bases de uma
ideologia de vida internacional, ao nível dos direitos humanos, os direitos dos
povos (designadamente o princípio da descolonização), a coexistência pacífica, o
direito ao desenvolvimento e a ideia de património comum da humanidade.

De mais difícil celebração e adopção foram os Pactos Internacionais de Direitos


Humanos que, ao contrário da Declaração, pretendem criar vinculações concretas a
que os Estados se obrigam a respeitar na ordem interna. Após um longo período de
negociação, em 1966 foram aprovados por unanimidade em 1966 o Pacto
Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional sobre os
Direitos Económicos, Sociais e Culturais. Existe um vínculo muito estreito entre a
institucionalização da comunidade internacional e a protecção internacional dos
direitos do homem: só a existência de instituição e órgãos internacionais, com
autoridade acatada pelos Estados, abre caminho a uma efectiva garantia dos direitos
do homem em face desses mesmos Estados. As Nações Unidas têm tido um papel
decisivo nesta protecção nos textos produzidos ao longo da sua existência e da
intervenção das organizações especializadas da “família”: OIT, OMS, FAO,
UNICEF, UNESCO.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 158

A coexistência pacífica concretiza-se na preservação da paz, do não recurso à força.


Como a expressão “coexistência pacífica” tinha uma conotação marxista os Estados
ocidentais fizeram pressão para que fosse abandonada: consagra-se a igualdade
soberana dos Estados, do não recurso à força pelo respeito da integridade territorial
e independência política dos Estados, resolução pacífica dos conflitos, não
ingerência, igualdade de direitos e da autodeterminação dos povos e o princípio do
cumprimento de boa fé pelos Estados das obrigações que assumiram.

Embora os mecanismos de controlo da violação do direito internacional sejam


caracteristicamente débeis, dependendo essencialmente da queixa dos Estados que
se consideram lesados por essa violação, nalgumas situações existem verdadeiros
mecanismos de controlo ao nível da organização mundial. O caso de maior eficácia
é a OIT, no âmbito do qual foi instituído um sistema de monitorização do
cumprimento pelos Estados das convenções que ratificaram, através de relatórios
anuais que se obrigam a entregar. Este relatório é depois discutido por uma
comissão da Conferência Internacional do Trabalho. Trata-se de um sistema cuja
eficácia assenta essencialmente na situação embaraçosa em que os Estados
criticados são colocados e que é designada como “mobilização da vergonha”. Na
prática constitui um mecanismo de dissuasão com eficácia razoável. Este método já
foi tentado noutras organizações e na própria ONU, mas com resultados bem mais
modestos. Um dos exemplos foi criação da Comissão dos Direitos do Homem.

Quanto ao direito ao desenvolvimento colocam-se duas questões. Os países


potencialmente receptores do apoio reclamaram-no como um direito, não
dependente de condicionantes políticas, os chamados doadores preferiam vê-lo
como uma concessão que, naturalmente, permitiria mais facilmente colher
dividendos políticos se fosse prestada por mecanismos bilaterais e não dissolvida
em mecanismos multilaterais. O elevado número de Estados membros receptores da
ajuda ao desenvolvimento têm aprovado numerosos documentos que consagram
uma “ideologia do desenvolvimento”. Numa resolução pretendeu-se estabelecer que
1% do PIB dos países desenvolvidos seria destinado aos países em
desenvolvimento. Mas, os países desenvolvimentos recusam-se a aceitar este tipo
de imposto, encarando-o como um dever abstracto de solidariedade motivado
essencialmente pela sua generosidade.

Mas, a ideologia de desenvolvimento está presente na Carta, nas Agências


especializadas, assente no princípio da dignidade humana, no direito a uma vida
condigna, aos benefícios do progresso social. Deverão ser os principais países em
desenvolvimento a traçar a sua estratégia de desenvolvimento, cabendo à
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 159

comunidade internacional a participação no progresso social e no desenvolvimento


devendo completar os esforços desenvolvidos no plano nacional, através de uma
acção internacional concertada.

As Nações Unidas têm sido um instrumento de desenvolvimento em três vectores


essenciais: ajuda financeira, ajuda alimentar e ajuda técnica.

A ajuda financeira tem sido dada através do FMI (criado na sequência da


conferência de Bretton Woods) e do Banco Mundial. O Banco Mundial foi criado
para apoiar a reconstrução dos países devastados pela 2ª Guerra Mundial, mas a
partir de 1998 passou a estar direccionado para o empréstimo de fundos aos países
em desenvolvimento. Este apoio destina-se apenas a governos ou a investidores que
beneficiem de uma garantia governamental. Daí que tenha sido criada uma filial, a
Sociedade Financeira Internacional, que possa levar a cabo financiamentos de
entidades privadas. Também foi criada outra filial, a Agência Internacional para o
Desenvolvimento, destinada a conceder empréstimos em condições mais favoráveis
do que o Banco. Os seus recursos provêm das subscrições e contribuições dos seus
membros.

O FMI destinava-se a assegurar a convertibilidade das moedas, fornecendo apoios


especiais destinados a estabilizar as economias dos Estados em situações de crise. A
falta de vocação de qualquer uma destas instituições para apoiar financeiramente
projectos não amortizáveis ou empréstimos a muito longo prazo com taxas de juro
muito baixas levou à criação de uma nova instituição a SUNFED que acabou por
não resultar devido à falta de fundos e à recusa dos países desenvolvidos em
integrarem os seus órgãos.

Outra vertente da ajuda nas Nações Unidas é a ajuda alimentar. Para além da
intervenção da FAO, a ONU tomou diversas iniciativas próprias que levaram à
criação do PAM – Programa Alimentar Mundial em 1961.

Já no que toca à ajuda técnica, as Nações Unidas criaram uma verdadeira


constelação de instituições especializadas, cabendo à ONU a coordenação do
sistema ainda que de forma descentralizada. A coordenação está entregue à PNUD -
1964 (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

Mas, é a própria ONU a estabelecer objectivos para o desenvolvimento,


nomeadamente, com o lançamento da Primeira Década para o Desenvolvimento em
1960 (que fixava como taxa mínima de crescimento para o decénio em 5%) e a
Segunda Década para o Desenvolvimento. Mas, em 1965 concluiu-se que os países
em desenvolvimento tinham crescido apenas 1% e a expansão do volume de ajuda
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 160

havia decrescido. A 2ª Década também não foi concretizada e a 3ª Década não


atingiu os objectivos nucleares.

Em 2000, foram estabelecidos novos objectivos na Declaração do Milénio da ONU.


Foi adoptada na maior reunião de Chefes de Estado de sempre, comprometeu países
– ricos e pobres – a fazer tudo o que puderem para a erradicação da pobreza,
promover a dignidade e igualdade humanas e alcançar a paz, a democracia e a
sustentabilidade ambiental. Estes compromissos foram assumidos até ao ano de
2015. Alguns desses compromissos: reduzir para metade os índices da pobreza;
universalização do ensino primário; promover a igualdade entre os géneros; reduzir
a mortalidade infantil; combater a SIDA; garantir a sustentabilidade do meio
ambiente; fomentar uma associação mundial para o desenvolvimento; cooperação
com os países em desenvolvimento. É o PNUD ainda o ponto focal do sistema das
Nações Unidas para o acompanhamento e definição das estratégias para a
prossecução dos objectivos domilénio. Apesar de algumas conquistas, verificaram-
se já alguns retrocessos com alguns países que viram baixar o seu índice de
desenvolvimento humano.

Por fim, as Nações Unidas surgem como um instrumento de pacificação. Apesar de


longe dos objectivos dos seus fundadores, tem desempenhado um papel
extremamente importante na eliminação das causas de conflitos na regulação
pacífica dos diferendos.

b. A cooperação da União Europeia com os países em desenvolvimento

Desde 1975 que os países de África, Caraíbas e Pacífico (ACP) se


assumem como os maiores receptores de ajuda comunitária, a qual é
regida desde 2000 pelo Acordo de Cotonou e pelo respectivo protocolo
financeiro, no âmbito do Fundo Europeu de Desenvolvimento (FED) .

Na base dos benefícios concedidos pela União Europeia (UE) aos


países ACP estão sobretudo razões éticas, uma vez que entre estes países
incluem-se alguns dos mais pobres do mundo; e históricas, devido às
fortes relações geradas durante o período colonial, embora estas razões
tenham vindo a perder importância e grande parte da sua pertinência. Por um
lado, o tempo já decorrido desde a independência dos estados desvaloriza o
tradicional motivo colonial para a manutenção de uma relação afectiva e, por
outro, o alargamento sucessivo da UE trouxe para o seu seio países
sem passado colonial e sem relações específicas e preferenciais com as antigas
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 161

colónias. Finalmente, o objectivo declarado nos acordos de estabelecer uma


associação baseada na parceria e na equidade entre todos os signatários,
já não se coaduna com resquícios de paternalismo colonialista inerentes
ao argumento histórico.

O Acordo de Cotonou substituiu as anteriores Convenções de Lomé


que nos últimos vinte e cinco anos constituíram o quadro privilegiado de
cooperação entre a UE e os ACP. Este acordo vem estabelecer um novo quadro
político que regula a cooperação entre as partes e procura prosseguir os objectivos
de redução da pobreza até à sua erradicação, de desenvolvimento sustentável e de
integração progressiva e faseada destes países na economia mundial.

Os Acordos de Parceria Económica (APE) surgem no âmbito do Acordo de


Cotonou e deveriam ter entrado em vigor a 1 de Janeiro de 2008. Com
estes acordos passaria a existir uma quase total liberalização das trocas
comerciais entre a UE e os ACP. Neste sentido, os acordos evidenciam uma clara
reorientação da natureza das relações comerciais, como já reconhecia S.R. Hurt ao
argumentar que o neoliberalismo foi assumindo uma posição de hegemonia na
política económica internacional, promovendo a alteração da dinâmica das
relações Norte-Sul,tendo-se passado da convicção de que os países do Sul deviam
ser protegidos dos excessos da economia de mercado, para uma posição em
que o desenvolvimento económico daqueles países passaria pela sua progressiva
integração no mercado mundial.

Neste contexto, a celebração dos citados APE tem levantado sérias reservas por
parte de autores e de instituições, quer dos países ACP, quer dos estados-membros
da UE, tendo gerado uma alargada coligação de organizações não governamentais
(ONG) no âmbito das campanhas internacionais «Stop EPA» e
«Global Call (EPA 2007)». No fundamental, estes movimentos de
contestação receiam que uma rápida e excessiva liberalização das trocas comerciais
possa provocar um desequilíbrio profundo na economia dos países subscritores
dos acordos .

Desde o início das negociações dos APE em 2002 que a visão da UE e dos países
ACP sobre a forma como devem assumir os futuros acordos comerciais
UE-ACP tem sido muito distinta. Esta divergência tem sido
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 162

particularmente evidente nos domínios da liberalização do comércio, das


denominadas «questões de Singapura» e da sustentabilidade do desenvolvimento,
em que as abordagens da Comissão Europeia (CE) e dos países ACP se encontram,
muitas vezes, em pólos opostos. Ora, este artigo tem por objectivo proceder à
identificação dos principais obstáculos ao processo negocial, bem como reflectir
sobre a argumentação apresentada por ambas as partes.

O Processo de Cooperação UE-ACP: DE YAOUNDÉ A COTONOU

A cooperação da UE com África, iniciada no início dos anos de 1960, marca o


princípio do processo de cooperação europeia para o desenvolvimento, o
qual ficou vertido nas Convenções de Yaoundé I (1964-1969) e
Yaoundé II (1971-1976). Tais convenções estabeleceram, no domínio
comercial, os princípios da reciprocidade das concessões preferenciais entre
a Comunidade Económica Europeia (CEE) e a Associação de Estados Africanos e
do Malgaxe (EAMA), da qual faziam parte 18 países africanos, a maioria dos quais
tinham sido antigas colónias francesas. Foi de facto a herança colonial de alguns
países, especialmente da França, que determinou a conclusão destas convenções .

A entrada do Reino Unido na CEE, em 1973, obrigou ao estabelecimento de um


modelo de cooperação num quadro mais alargado no domínio
geográfico. Tal deveu-se à necessidade de preservar o tratamento preferencial
que os países da Commonwealth usufruíam até então no mercado
britânico, o qual não podia continuar nos mesmos moldes com a aplicação
dos princípios da Política Comercial Comum ao Reino Unido.

A solução adoptada consistiu então na definição do primeiro acordo entre a CEE e


os países ACP, que integravam parte dos países em desenvolvimento da
Commonwealth, os países africanos ligados às Convenções de Yaoundé e, ainda,
mais alguns países em desenvolvimento .
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 163

Em consequência, a CEE e 44 países ACP assinaram a 28 de Fevereiro de 1975, em


Lomé (capital do Togo), a primeira Convenção de Lomé (1975-
1980), a qual introduziu algumas alterações de fundo em relação às suas
antecessoras. Ao nível da cooperação comercial, o novo acordo seguiu o princípio
da não reciprocidade , o que significava que os países ACP não eram
obrigados a conceder tratamento preferencial às importações provenientes
da CEE. Este princípio de não reciprocidade foi mantido nas sucessivas
Convenções de Lomé : Lomé II (1980-1985), Lomé III (1985-1990) e
Lomé IV (1990-2000). Lister (1988),
citado por G. Forwood , enumera os cinco factores que ajudam a explicar a
longevidade do regime de Lomé (1975-2000): a tendência para a inércia nas
relações internacionais; o interesse dos ACP na ajuda da UE; o interesse da UE nas
políticas e na economia dos ACP; o baixo perfil político das convenções; e,
finalmente, a sua capacidade de adaptação às normas políticas internacionais num
quadro em permanente alteração.

Todavia, o campo de acção das sucessivas convenções, em particular a de Lomé


IV, situou-se claramente para além das meras preferências comerciais e
da ajuda ao desenvolvimento. Com efeito, a Convenção de Lomé IV,
estabelecida após o fim do período de bipolarização a nível mundial, faz já
referência expressa aos condicionalismos políticos, nomeadamente à promoção
do respeito pelos direitos humanos, um aspecto que até aí tinha sido vigorosamente
contestado pelos países ACP.

ACORDO DE COTONOU: Mudança em relação ao passado

O Acordo de Cotonou (capital do Benim), assinado a 23 de Junho de 2000,


pretendia estabelecer o quadro de cooperação das relações políticas, de cooperação
ao nível das relações comerciais UE-ACP entre a UE e 77 países ACP e está em
vigor até 2020. Este novo acordo introduziu significativas alterações em
relação à natureza dos quadros regulamentares anteriores, assumindo mesmo
uma ruptura com aqueles em alguns aspectos. De facto, em relação às
precedentes Convenções de Lomé, este acordo apresenta várias inovações,
das quais se destaca a importância atribuída à promoção da integração regional
dos países signatários e o fim das preferências comerciais não recíprocas
concedidas pela UE aos ACP.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 164

A integração regional assume de facto um papel relevante neste


acordo, pois a liberalização nas relações comerciais intra-regionais é
entendida pela UE como um estímulo à mudança estrutural nos países ACP
para liberalizarem os seus regimes de comércio e avançarem gradualmente
para a liberalização multilateral, bastante mais exigente em termos de
competitividade e de performance económica dos países envolvidos.

O novo acordo, baseando-se nas actuais regras da Organização Mundial do


Comércio (OMC), prevê, após um período de transição definido, que sejam
introduzidos os APE que irão substituir os regimes não recíprocos de Lomé
e, por essa via, implementar um regime bilateral para o comércio de bens e
serviços, de forma a que o comércio esteja totalmente liberalizado até 2020.

Deste modo, as novas disposições do Acordo de Cotonou sobre comércio cobrem


duas fases importantes. Na primeira, são prolongados os regimes de preferências
comerciais não recíprocas até 31 de Dezembro de 2007. O período 2000-2007
constituiu uma fase de transição, na qual os ACP deveriam ter desenvolvido a
capacidade dos respectivos sectores públicos e privados de modo a
prepararem-se para o estabelecimento dos APE. Na segunda fase do Acordo
de Cotonou (2008-2020), deverão ser gradualmente introduzidos os APE,
implicando que os países ACP terão que, de forma recíproca, promover a
abertura dos respectivos mercados.

Na opinião de responsáveis da UE, os APE visam ajudar os países ACP a erradicar


a pobreza, favorecendo a sua integração regional e a sustentabilidade do processo
de desenvolvimento socioeconómico de modo a permitir a inserção
progressiva destes países na economia mundial. Previa-se que os APE fossem
assinados até final de Dezembro de 2007 entre a UE e cada uma das seis regiões
que foram consideradas para agrupar o conjunto dos países ACP.

Alguns especialistas têm manifestado um certo cepticismo em relação aos APE,


alertando para a possibilidade de aparecerem efeitos negativos nos ACP,
nomeadamente:

a) o aumento das margens de lucro dos exportadores europeus, em vez de


uma diminuição dos preços no consumidor e nos importadores dos ACP;

b) uma redução acentuada nas receitas aduaneiras, não compensada pela


EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 165

diversificação das receitas fiscais a curto e médio prazo;

c) uma pressão adicional sobre os países ACP para liberalizarem os seus


regimes comerciais numa proporção razoável, em comparação com o que fariam
unilateralmente;

d) algum impedimento à diversificação do comércio dos ACP com


outros parceiros comerciais que não a UE;

e) algumas complicações no processo de integração regional devido ao


tratamento diferenciado relativamente a países pertencentes ao mesmo agrupamento
regional;

f ) o esforço de antigos estímulos enviesados aos agentes económicos


que vêm desde Lomé, os quais têm levado os países ACP a concentrar-se na
obtenção de preferências comerciais, em vez de adoptarem uma posição proactiva,
particularmente no seio do sistema comercial multilateral.

Assim, os referidos autores sublinham que estes alertas deverão estar sempre
presentes aquando das soluções a negociar entre os subscritores dos APE. Alguns
governantes dos ACP têm também manifestado sérias reservas relativamente aos
benefícios provenientes dos APE. Refira-se, como exemplo, Aliyu Modibo,
ministro do Comércio e Indústria da Nigéria, que, numa conferência de alto nível
sobre as relações comerciais entre ACP-UE realizada em Outubro de 2006,
afirmou: «existem receios de que a liberalização do comércio e do investimento,
através da redução gradual das barreiras comerciais entre os dois blocos
económicos aumente ainda mais o fosso entre os dois e vá, provavelmente, destruir
o pouco desenvolvimento que alguns países ACP conseguiram alcançar ao longo
dos últimos anos.»

Por seu lado, Ato Girna Birru, ministro do Comércio e Indústria da Etiópia18,
declarou em 2006: «este tipo de liberalização comercial entre parceiros desiguais
tem provado historicamente ser uma ferramenta ineficaz para o desenvolvimento,
revelando-se mesmo contraproducente. Este tipo de política de liberalização do
comércio pode inibir a capacidade dos nossos países para reduzirem a pobreza e
garantir um desenvolvimento sustentável.»

As Razões para um Novo Acordo de Cooperação UE-ACP


EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 166

Face ao enfoque anterior, torna-se pertinente colocar a seguinte questão: o que


motivou a UE a alterar a sua política de cooperação para o desenvolvimento e a
introduzir modificações apreciáveis no quadro que rege as suas relações com os
ACP, nomeadamente apostando decisivamente na quase total liberalização do
comércio entre as duas partes?

São várias e de natureza distinta as razões apontadas para tal facto. A primeira
prende- se com os resultados decepcionantes dos anteriores Acordos de Lomé.
De facto, após vinte e cinco anos de vigência destes acordos, esperavam-se ganhos
substanciais de quota de mercado na UE por parte dos países ACP. Contudo, o que
se veio a verificar foi um declínio acentuado da importância daqueles países, quer
no mercado mundial, quer no mercado europeu, ao invés de outros países que
não beneficiaram de tais preferências e que viram aumentar as respectivas
quotas naqueles mercados. Na realidade, as exportações dos ACP, que
correspondiam a 3,4 por cento do total mundial em 1976, desceram para apenas
1,1 por cento em 1999.Do mesmo modo, as exportações para a UE, que
representavam 6,7 por cento das importações comunitárias em 1976, caíram para
cerca de 2,8 por cento em 1999.

Em segundo, verificava-se uma elevada concentração geográfica e sectorial


docomércio preferencial, já que em 1999 apenas 10 países africanos e nove
produtos representavam 61 por cento e 57 por cento do total das exportações dos
ACP, respectivamente. Tal significa que estes países diversificaram pouco a
estrutura do seu comércio que se centra essencialmente em produtos como o
alumínio, rum, bananas e óleo, os quais se encontram sujeitos a fortes flutuações de
preços no mercado mundial.

Por outro lado, apenas 10 países, no máximo, conseguiram efectivamente beneficiar


das vantagens preferenciais concedidas pela UE. Entre eles encontram-se
alguns países bastante beneficiados por protocolos específicos, como é o caso, por
exemplo, da ilha Maurícia que foi a grande beneficiária do Protocolo do Açúcar.

Os decepcionantes resultados comerciais obtidos pelos ACP têm sido objecto de


muitas análises. As razões para os maus resultados obtidos estão relacionadas
com constrangimentos registados ao nível da oferta. De facto, a persistência de
problemas estruturais inerentes às economias ACP, os quais têm limitado
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 167

a sua competitividade externa, a ausência de investimento e o baixo


nível de industrialização, combinados com as dificuldades económicas
originadas pela conjuntura internacional e a existência de sofisticados mecanismos
de proteccionismo camuflado no mercado comunitário, são alguns factores
apontados como responsáveis pelo fracasso do sistema. .

Numa orientação similar, Van Hoestenberghe e Roelfsema defendem que


não faz sentido obter preferências comerciais, das quais não se pode
tirar proveito devido ao débil ambiente económico e político, a
inadequadas políticas públicas, à ausência de infra-estruturas de
transporte e de comunicações ou à permanência de situações de
conflito e de guerras declaradas. Por outro lado, Hinkle28 sublinha, a propósito, que
estes obstáculos conduziram a elevados custos de transacção e de
produção, a atrasos no acesso aos mercados globais e, consequentemente,
à perda de competitividade dos produtos ACP num mundo cada vez mais
globalizado.

Uma terceira razão avançada para a mudança de atitude da UE para com os ACP
prende- se com o facto de a última Convenção de Lomé ter sido assinada em 1989,
ano da queda do Muro de Berlim – evento que provocou o fim do
conflito Leste-Oeste. Tal factoveio revolucionar o cenário da política económica
internacional, abrindo o caminho para uma cooperação baseada em novos
valores e princípios, os quais não estavam reflectidos no Acordo e Lomé. Exemplo
disso foi a conclusão das negociações comerciais da Ronda do Uruguai em Abril
de 1994 e o início do funcionamento em 1995 da OMC, que transformaram o
quadro institucional do sistema comercial internacional e que ajudaram a acelerar o
processo de globalização da economia, assente na evolução tecnológica e na
liberalização da economia que muitos países levaram a cabo nos últimos anos. Ora,
as análises realizadas mostram de forma crua que os países ACP não estavam
preparados para este exigente processo de transformação estrutural.

A Natureza dos Novos Acordos UE-ACP

O Acordo de Cotonou (artigo 37.º, n.º 6) prevê, por insistência dos ACP, a
possibilidade de alternativasque lhes permitam manter um acesso equivalente
ao regime actual43 . Todavia, a CE tem-se mostrado extremamente relutante à
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 168

realização de acordos alternativos de comércio (que não os APE) e o artigo citado


estipula que será a UE a estudar as alternativas, não prevendo explicitamente
qualquer negociação e conferindo-lhe total liberdade para aceitar ou recusar esta
opção. No entender de Hurt o antigo regime de cooperação voluntária nas
relações UE-ACP foi substituído pela atitude coerciva, a qual se encontra patente
no comportamento da UE ao apresentar os APE como sendo a única alternativa
viável para o futuro relacionamento com os ACP. O compromisso da UE para
estudar «possibilidades alternativas» parece limitar-se efectivamente ao SGP, sendo
expressamente referido a necessidade de o mesmo estar em «conformidade com as
regras da OMC». O SGP foi deliberada e claramente considerado como uma
alternativa inferior pelo Livro Verde (datado de 1996) sobre as relações UE-ACP
no dealbar do século XXI . Porém, sob o quadro do SGP, os países ACP vêem-se
obrigados a partilhar as suas preferências com os países em desenvolvimento do
resto do mundo, alguns dos quais são bastante mais desenvolvidos do que muitos
dos países ACP. Para além disso, o SGP tem outros constrangimentos,
pois cobre um leque mais reduzido de produtos, possui regras de origem mais
estritas, não decorre de um processo de negociação, pois é proposto unilateralmente
pela UE.

Outra opção para sustentar a cooperação económica consiste em os países


ACP continuarem a gradual liberalização do seu comércio regional dentro
do quadro existente de esquemas de integração regional. Podem liberalizar-
se os regimes com base no princípio da «Nação mais Favorecida», o que
implica um tratamento não discriminatório na importação e exportação de
bens entre as partes envolvidas pertencentes à OMC .

A Questão do Financiamento dos Acordos

As negociações dos APE têm-se revelado também bastante difíceis ao


nível dos chamados recursos adicionais aos previstos no FED. De facto, enquanto
a Comissão Europeia considera que os fundos acordados no 10.º FED (2008-2013)
são suficientes para cobrir todas as questões em torno dos APE, os países ACP
têm pressionado no sentido de obterem compromissos adicionais de forma a
salvaguardarem a afectação das verbas disponibilizadas pelo FED para áreas não
relacionadas com o comércio.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 169

Em conformidade com a Oxfam, que tem uma perspectiva muito crítica sobre a
posição da UE neste assunto, é provável que esta possa desviar verbas
do orçamento que iria beneficiar áreas como a educação, saúde, investigação
e desenvolvimento rural, para cobrir os custos de ajustamento aos APE por
parte dos ACP. Nesse sentido, uma proposta de resolução apresentada no
Parlamento Europeu em Novembro de 2007, solicitava que «sejam assumidos
compromissos concretos tanto no que se refere à ajuda relacionada com
o comércio como aos custos de ajustamento relacionados com os APE»
.

Por seu lado, a Assembleia Parlamentar Paritária ACP-UE realizada em 2007


solicitou a concessão de ajuda financeira e técnica adequada aos estados ACP, de
molde a permitir- lhes respeitar a regulamentação e as normas da UE
em matéria de importação e beneficiar, assim, plenamente de um melhor
acesso ao mercado55.

Algumas Questões Relativas à Integração Regional

Ao contrário da UE, muitos países ACP encaram o comércio regional livre como
um pré-requisito para a entrada em vigor dos APE. A este propósito,
Hinkle defende que implementar os APE sem antes ter resolvido a
questão da continuidade das barreirasinternas ao comércio no seio do
regional, poderá traduzir-se em perdas líquidas de rendimento para muitos
ACP. Por sua vez, Borrmann afirma que os APE requerem esforços
adicionais ao nível da integração regional, antes da liberalização das
importações da UE ter início. A Oxfam sublinha que se os mercados regionais
forem abertos às importações da UE sem antes terem sido previamente
consolidados, tal poderá prejudicar, em vez de reforçar, os actuais esforços de
integração regional.

As negociações dos APE têm sido complexas, uma vez que têm de atender aos
interesses comerciais de ambas as partes envolvidas: regiões ACP e UE.
Acrescente-se o facto de as prioridades nacionais dos ACP terem de ser combinadas
com um consenso regional entre os vários grupos ACP negociadores. O
caso da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental
(CEDEAO), em que apenas a Costa do Marfim e o Gana assinaram um
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 170

APE até 31 de Dezembro de 2007, ilustra as dificuldades em ultrapassar os


interesses dos países-membros para alcançar uma posição regional.

Uma questão que tem criado obstáculos às negociações prende-se com


o facto de os grupos regionais criados para negociar os APE com a
UE não coincidirem com os
esquemas de integração regional já existentes. Acontece, por exemplo, que dentro
do mesmo grupo regional podem ser encontrados estados-membros
pertencentes a diferentes uniões aduaneiras, o que naturalmente dificulta as
negociações, na medida em que os membros de uma mesma união
aduaneira dispõem de uma tarifa externa comum .

O assunto torna-se mais complexo quando estados-membros de uma


mesma união aduaneira integram grupos negociais diferentes. Tal
acontece, por exemplo, com a Comunidade Africana Oriental (EAC,
sigla em inglês), em que a Tanzânia integra o grupo da África Austral,
enquanto o Uganda e o Quénia fazem parte do grupo da África Oriental. No
agrupamento do Sul de África outro problema subsiste e que diz respeito ao facto
de o parceiro dominante do South African Costums Union (SACU), a África do
Sul, não fazer parte das negociações do grupo, uma vez que este país já concluiu o
seu próprio acordo de livre-comércio com a UE.

Outro aspecto que tem dificultado o processo de integração regional


dos ACP, e consequentemente tem entravado as negociações destes países com a
UE, prende-se com a diferença verificada nos montantes tarifários cobrados
pelos países pertencentes ao mesmo grupo regional de negociação. Por
exemplo, no grupo da África Oriental, as tarifas médias oscilam entre
um valor reduzido de 4,6 por cento em Madagáscar e valores superiores
a 20 por cento no Burundi e no Sudão. Para além disso, a definição dos
denominados produtos sensíveis também tem variado entre países pertencentes ao
mesmo grupo regional, o que torna difícil o consenso relativamente ao
conjunto de produtos que devem ser protegidos, pelo menos durante a fase inicial
dos APE.

Uma complicação adicional e recorrente que se tem registado no


decurso das negociações prende-se com o facto de a maioria dos grupos regionais
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 171

incluir quer países menos desenvolvidos (PMD), quer países mais desenvolvidos.
De facto, os PMD podem continuar a beneficiar da isenção e de uma quota livre nas
exportações para o mercado da UE sob a iniciativa comunitária «Tudo menos
Armas» de 2001. Tal facto cria uma divisão (artificial) no seio do grupo de
negociação e promove uma maior fragmentação do processo de integração regional,
uma vez que os PMD se encontram numa posição mais confortável em termos
de acesso ao mercado da UE e, portanto, não sentem de forma
premente a necessidade de discutir concessões comerciais com a UE. Outro factor
de divisão prende-se com o facto de, em termos práticos, os PMD
que permaneçam fora dos APE, sob o regime de TMA, só poderão proteger os seus
mercados da inevitável liberalização se, também eles, erguerem barreiras
aos seus vizinhos.

Coloca-se então a questão de como promover a integração regional dos mercados


entre países contíguos, num contexto de redobrados esforços para manter a
continuidade das relações comerciais não recíprocas com a UE, caso os países mais
desenvolvidos optem pela introdução da reciprocidade nas suas relações comercias
com a UE? Segundo Hinkle e Schiff, esta diferenciação entre PMD e
países mais desenvolvidos tem complexificado o processo de integração
regional entre os países subsarianos.

Karingi alerta também para o facto de os APE poderem comprometer


seriamente os progressos até agora conseguidos em matéria de integração
regional no continente africano. Hurt reforça esta ideia, ao afirmar que o
potencial para a cooperação regional entre as regiões ACP se encontra seriamente
ameaçado pela reciprocidade dos acordos comerciais com a UE, devido à
possibilidade de as exportações provenientes da UE aumentarem de forma
significativa, reduzindo, assim, o comércio intra-regional.

Finalmente, uma dificuldade também sentida pela distinção entre os


PMD e os países com maior nível de desenvolvimento. Na definição depaís
menos desenvolvido não são tidas em linha de conta realidades com a
dimensão económica, o nível de desenvolvimento industrial e humano, a
dependência do país relativamente às exportações, o montante da dívida externa,
o nível de desemprego, o peso da população afectada pelo vírus da sida, etc.
Assim, por exemplo, o Botswana e a Namíbia são classificados como
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 172

países mais desenvolvidos, a par da África do Sul.

c. Os Sistemas Generalizados de Preferências Comerciais no quadro


do African Growth and Opportunity Act (AGOA21) e Tudo memos
armas

Desde 2000, o African Growth and Opportunity Act (AGOA) tem regulado com
algum sucesso as relações comerciais entre os EUA e África. As exportações
africanas para os Estado Unidos aumentaram de 23 mil milhões de USD em 2000
para 81 mil milhões em 2008, apesar da exclusão de exportações-chave como
açúcar, amendoim, leite e tabaco. Durante este período, o investimento directo
estrangeiro (IDE) e o emprego também aumentaram, com a criação de cerca de 300
000 novos empregos em África.

Apesar destes avanços, é frequentemente argumentado que o AGOA não tem sido
capaz de contribuir para o crescimento, o desenvolvimento e uma maior
diversificação comercial. Os benefícios do AGOA têm sido distribuídos de modo
desigual entre países e sectores, estendendo-se a cerca de metade dos países
elegíveis da África Subsaariana e apenas em alguns sectores. A incapacidade da
África em diversificar o seu comércio de produtos agrícolas, que representam
menos de 1% das exportações do AGOA, deve-se em parte às quotas estabelecidas
sobre o açúcar, o tabaco, o leite e o amendoim. Para além disso, apesar do AGOA
ter sido alargado até 2015, devido ao seu futuro incerto, os investimentos
necessários têm sido mantidos a um nível mínimo, deixando pouco tempo à África
para aumentar a sua capacidade produtiva e para consolidar os ganhos deste acordo
preferencial.

O prolongamento do AGOA para além de 2015 permitiria que os investidores


tivessem tempo suficiente para recuperar o retorno dos investimentos, retirando
assim pleno proveito do AGOA. Porém, é igualmente necessário dar resposta a
outros desafios que os beneficiários do AGOA enfrentam. Por exemplo, desde a
eliminação do Acordo Multi-Fibras (AMF), a competição aumentou com a abertura
do sector do vestuário aos países asiáticos. Esta abertura de mercado levou à erosão
das preferências, ao desinvestimento e ao desemprego em países onde o AGOA
tinha inicialmente promovido alguma industrialização no sector têxtil. Ao mesmo

21
Ver ERA 2011 e Páez, et al. (2010).
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 173

tempo, o AGOA não tem em conta o impacto sobre outros parceiros regionais da
retirada de um país africano da lista de beneficiários do acordo, destruindo a criação
da cadeia de valor regional existente. Finalmente, o AGOA carece ainda de
mecanismos para a promoção de ideias inovadoras relativamente a parcerias
público-privadas de investimento em infraestruturas, especialmente no que
concerne à regulação do sector dos transportes em África.

Apesar do AGOA poder ter tido um impacto positivo no passado, necessita de ser
melhorado para dar resposta a estes novos desafios. A revisão deste acordo deve
centrar-se em assegurar mais integração, acessibilidade e durabilidade pois isso
permitirá não só estender os benefícios a todos os países da África Subsaariana,
como promover uma variedade maior de produtos de exportação. Esta revisão
deverá também reorientar o IDE no sentido da agricultura, para além dos sectores
do petróleo, dos têxteis e do vestuário. Tal pode ser feito apoiando os beneficiários
no cumprimento de padrões sanitários e fitossanitários, bem como combatendo as
limitações à oferta. Finalmente, será ainda necessário incluir a diversificação de
exportações e a criação de sectores-alvo, de forma a evitar a erosão das preferências
comerciais no futuro.

Tal como aconteceu com a Ronda de Doha, as negociações dos APE registaram um
avanço reduzido durante 2010. O debate continua a girar em torno das mesmas
divergências dos anos anteriores, as quais incluem: as questões de desenvolvimento
nos APE, as definições de «substancialmente todo o comércio» e de «nação mais
favorecida», as taxas de exportação, a integração regional, as restrições
quantitativas, as garantias agrícolas especiais, a cláusula de reencontro «rendez-
vous clause» e as regras de origem, entre outras. (AU, 2010b).

Tal como nas negociações comerciais multilaterais, a utilização estratégica das


políticas comerciais africanas na prossecução dos seus objectivos de
desenvolvimento e industrialização será condicionada pela forma como o acordo
final lidar com estes assuntos contenciosos. Por exemplo, uma proibição nas taxas
de exportação dos APE significará que alguns países africanos podem não ter
suficiente espaço de acção política para fazer face a preocupações com receitas
adicionais que estão no centro dos objectivos das suas políticas fiscais e industriais.
Como tal, estes países podem necessitar de alargar a sua base fiscal para compensar
a perda de receitas. Da mesma forma, uma definição vaga de «substancialmente
todo o comércio» e da cláusula da nação mais favorecida podem pôr término a
oportunidades de futuros acordos comerciais com terceiros. Assim sendo, estas
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 174

definições podem ir colocando obstáculos a políticas de transformação económica


direccionadas para o crescimento com base nas exportações. Estas regras irão
também reduzir o impacto das políticas de integração regional que têm como
objectivo combater o isolamento em relação ao litoral através de medidas de
facilitação do comércio, entre outras.

Tendo em conta os desafios, o consenso sobre os APE num futuro próximo parece
pouco provável. Num paper de posição sobre os APE (AU, 2010a), os países
africanos manifestaram a sua vontade de considerar a viabilidade destes acordos
relativamente a outras alternativas que incluem: i) diferir e sequenciar os APE para
processos de integração regional; ii) adiar as negociações dos APE até que estejam
concluídas as negociações do artigo XXIV do Acordo Geral sobre Comércio e
Tarifas (GATT); iii) em alternativa aos APE, estender a iniciativa «Everything but
Arms» (EBA) a todos os países africanos; iv) melhorar o Sistema de Preferências
Generalizadas (SGP) da União Europeia, ou v) descontinuar os APE e focar em
contrapartida a integração regional e a Cooperação Sul-Sul. Esta última alternativa,
em particular, evidencia uma vez mais o interesse crescente nas parcerias de
comércio e investimento com economias asiáticas como a China (vide o texto a
seguir).

Cooperação Sul-Sul: A Importância Crescente das Parcerias África-China

A África e a China têm celebrado parcerias nas áreas do comércio, do investimento


e da ajuda. Estas três áreas estão frequentemente inter-relacionadas, reflectindo
relações de complementaridade e/ou competição entre ambas as partes. Por
exemplo, o investimento estrangeiro da China, motivado pela procura de recursos
como minerais e petróleo para exportação, tem uma componente de ajuda através
da construção de infraestruturas, como tem acontecido no Sudão e em Angola.
Ainda que necessário, o desenvolvimento de infraestruturas não deve ser obtido à
custa da exaustão de recursos e da degradação ambiental. Políticas direccionadas
para o desenvolvimento sustentável e a ligação das actividades industriais com a
comunidade local ajudarão a equilibrar a balança entre a exploração de recursos e a
industrialização em África.

O IDE da China no comércio a retalho é outro exemplo das relações de


complementaridade e comercialização dos produtos chineses em África. Em alguns
países africanos como a Nigéria e o Gana, estas relações traduziram-se numa
preferência pelos produtos chineses agrícolas e manufacturados. Por sua vez,
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 175

devido à diferença de preços, esta preferência cria pressão sobre os produtos locais
e regionais, mesmo nos casos em que os produtos chineses são de menor qualidade
que esses produtos locais e regionais. A balança comercial pesa assim a favor da
China. Regras claras sobre a promoção da diversificação regional, a criação de
cadeias de valor e a protecção contra a erosão de preferências poderiam contribuir
para maximizar os benefícios das relações comerciais China-África sem
enfraquecer as questões de integração regional e protecção dos consumidores.

O IDE learning-seeking e market-seeking são exemplares no sector dos serviços


que se tem tornado também um alvo importante do investimento externo da China
em África. Por exemplo, a África do Sul beneficia de complementaridades porque
as empresas financeiras chinesas detém largos mercados e capitais, mas carecem de
competências internacionais que a África do Sul possui. Com o investimento
chinês, as empresas financeiras da África do Sul alargam a sua base de capital,
permitindo-lhes expandirem-se não só em África, mas também a nível internacional
para outros mercados financeiros de países em desenvolvimento.

A cooperação Sul-Sul entre China e África enfrenta grandes desafios. Em primeiro


lugar, é necessário assegurar que o aumento do IDE e do comércio chinês estão
ligados à economia, desde trás, através de parcerias e das potencialidades locais.
Relativamente à ajuda, África não necessita apenas de aumentar o volume de ajuda
direccionado ao continente, mas sim de formular objectivos concretos, tendo em
conta os seus impactos em termos de desenvolvimento sustentável. Finalmente, o
espaço económico africano podia replicar as condições de mercado chinesas se o
continente fosse considerado como um mercado comum. Neste sentido, é possível
identificar oportunidades de ganhos mútuos na troca de bens, serviços e capital
entre os dois mercados, especialmente se, no seu diálogo com os parceiros chineses,
os líderes africanos colocarem o desenvolvimento como ponto de destaque.

1. Integração Económico Regional

1.1. Fases de integração económica regional

O processo de integração económica é um conjunto de medidas que tem como


objetivo promover a aproximação e a união entre as economias de dois ou mais
países. Geralmente essas medidas começam com reduções tarifárias aplicadas ao
comércio entre os países que fazem parte do processo de integração; o segundo
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 176

passo é reduzir as restrições não-tarifárias, ou seja, barreiras que limitam o


intercâmbio.

Neste contexto, primordial discorrermos, em forma de definições, sobre as etapas


ou formas de integração, pois, como veremos, existem diferentes tipos ou
etapas de integração, que variam segundo a intensidade da união
económica dos membros de um Bloco.

Os principais são a Área de Livre Comércio, a União Aduaneira, o


Mercado Comum e a União Econômica e Monetária.

Dessa forma, inicialmente, fala-se em Área de Livre Comércio, como no


22
caso do NAFTA , quando as barreiras visíveis (impostos de importação
e exportação, por exemplo) aplicadas ao comércio entre países
sócios são
eliminadas.

Em princípio, o comércio entre os países membros de uma Área de Livre Comércio


deve ser tão livre como se fosse um só país.

Em uma Área de Livre de Comércio há, entre os países membros,


liberdade de movimentos da generalidade dos produtos, mantendo, todavia,
cada um deles a possibilidade de seguir uma política comercial própria
em relação ao exterior.

Afirmam FLORÊNCIO e ARAÚJO (1996:26):"Nas discussões desenvolvidas no


GATT, considera-se que um acordo comercial, para ser considerado uma Zona de
Livre Comércio, deve abarcar pelo menos 80% dos bens comercializados entre os
países membros, ou seja, devem ser eliminadas as barreiras que atingem pelo
menos 80% dos produtos."

22
North American Free Trade Agreement (Acordo de Livre Comércio da
América do Norte), formado entre Estados Unidos, México e Canadá, cujo
objetivo é a eliminação de alíquotas de importação no intercâmbio de produtos.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 177

A seu turno, em sequência, uma União Aduaneira é parecida a uma


Área de Livre Comércio, com a diferença que, além de terem o comércio livre entre
eles, os Estados-Membros decidem cobrar tributos iguais para o
comércio com países que não são sócios do Grupo. Esses tributos
são chamados de Tarifa Externa Comum, ou TEC.

Portanto, a União Aduaneira é criada para eliminar restrições aduaneiras ao


intercâmbio de mercadorias entre países Partes e para estabelecer uma
política tarifária uniforme (ou política comercial) com relação a países
não-Partes do Bloco.

Dentro deste contexto, ainda pressupõe a negociação conjunta de


qualquer acordo com países terceiros, para que se denote a conclusão desta etapa.

FLORÊNCIO e ARAÚJO (1996:26) afirmam: "Historicamente, o caso certamente


mais famoso desse gênero de integração foi a Zollverein (que em alemão significa
exactamente União Aduaneira), planejada e desenvolvida na década de 1850 por
Otto von Bismarck, e que proporcionou a base económica para a unificação
política da Alemanha."

A Comunidade Económica Européia, que foi instituída através da celebração do


Tratado de Roma em 1957, também foi uma União Aduaneira até 1992, quando
então passou para um estágio mais avançado de integração, o de Mercado Comum.

Neste passo, a seguir, o Mercado Comum vai ainda mais longe. Além da Tarifa
Externa Comum e do livre comércio entre sócios, ele permite que
pessoas de um país membro do Grupo trabalhem no outro, como se fossem nascidas
ali. Em geral, isso não é permitido, e é preciso criar regras especiais para essa
situação, como ocorre no caso da União Européia.

Além disso, no Mercado Comum as empresas podem se instalar ou


investir indiscriminadamente em qualquer dos países sócios. Em
linguagem económica, isto se chama "livre circulação de mão de obra, capital e
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 178

serviços".

Outro ponto, ainda mais importante, diz respeito ao estabelecimento de Políticas


Comunitárias, ou políticas comuns aos países membros do bloco.

No mesmo sentido, esta etapa de integração é caracterizada pelo


afastamento não só das barreiras alfandegárias ao comércio como
também pelo afastamento das barreiras não visíveis (invisible ou non-tariff barriers)
que impedem a concorrência plena entre as economias.

Finalmente, a União Económica e Monetária é o tipo mais avançado de


integração, quando, além de todas as características descritas
anteriormente, os países têm a mesma moeda, proporcionada pela integração de
suas políticas econômicas em nível avançado.

O único exemplo de uma União Econímica e Monetária no mundo é a União


Européia, que criou, recentemente, sua moeda única, o EURO. Já se falou muito de
o Mercosul vir a ter uma moeda única, que tomaria o lugar do Real, do Peso (a
Argentina e o Uruguai tem moedas diferentes mas com o mesmo nome) e do
Guarani (moeda do Paraguai).

Contudo, como podemos observar pelas fases necessárias para se


atingir a integração económica e monetária o referido objetivo encontra-
se distante, tendo em vista que o Mercosul ainda não atingiu,
plenamente e na prática, sequer a fase de União Aduaneira.

Para FLORÊNCIO e ARAÚJO (1996:26): "Ela ocorre quando existe uma moeda
única e uma política monetária inteiramente unificada, conduzida por um banco
Central Comunitário."

Em síntese, pois, uma Zona de Livre Comércio é a etapa ou tipo de


integração em que são eliminadas todas as barreiras ao comércio entre
os membros do grupo.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 179

Por sua vez, a União Aduaneira é a etapa ou tipo de integração em


que, além do livre comércio entre os países membros do grupo,
existe a aplicação de uma Tarifa Externa Comum (TEC) ao comércio
com terceiros países.

Já no Mercado Comum, além da TEC e do livre comércio de bens,


existe a livre circulação de fatores de produção (capital e trabalho) e o
estabelecimento de políticas comunitárias.

Finalmente, a União Económica e Monetária é o tipo mais avançado de integração,


quando, além de todas as características descritas anteriormente, os países têm a
mesma moeda. Como exemplo destas etapas de integração, os cidadãos
europeus podem viajar pela maior parte da União Européia (EU) sem passaporte e
sem controles nas fronteiras.

Podem fazer compras em outro país onde as mercadorias sejam mais baratas sem
pagar quaisquer impostos adicionais. A moeda única, o euro, permite que
os compradores comparem diretamente os preços nos países que a
utilizam. Consequentemente, os fabricantes e varejistas tomaram
medidas para reduzir preços injustificadamente elevados. Viajar para
fazer compras, em turismo ou em negócios de um país euro para outro
tornou-se mais barato porque não é necessário trocar moeda nem pagar
comissões. A concorrência criada pelo mercado único sem fronteiras da UE
conduziu a um aumento da qualidade e a uma redução dos preços. As chamadas
telefónicas, o acesso à Internet e as viagens aéreas tornaram-se mais baratos . No
mesmo sentido, os cidadãos da UE podem viver, trabalhar, estudar e aposentar-se
noutro país da UE se assim o desejarem.

2. Integração Regional em África

3.1. Integração Regional em África – Desenvolvimentos na Integração


Regional em África

A integração regional continua a ser um importante meio para fortalecer o


desenvolvimento e as possibilidades de crescimento de África, incluindo a
promoção do comércio dentro e fora do continente. Através das decisões da União
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 180

Africana, os líderes do continente têm levado a cabo várias iniciativas que têm
como objectivo fortalecer o processo de integração regional. Entre estas iniciativas
incluem-se a transformação da Organização da Unidade Africana (OUA) na União
Africana (UA), a implementação da Nova Parceria para o Desenvolvimento de
África (NEPAD), a racionalização das CER através de uma moratória na criação de
novas comunidades e o reconhecimento de apenas 8 CER como os principais
blocos centrais da União Africana. A Comissão da União Africana (CAU) está a
implementar Programas de Integração Mínima para assegurar que todas as CER
põem em prática as fases do Tratado de Abuja dentro do mesmo quadro temporal.

As CER continuam a desempenhar um papel significativo na prossecução da


integração regional africana através da promoção e implementação de vários
programas. Nas áreas do comércio e da integração de mercados, algumas CER
lançaram as suas áreas de livre comércio, como foi o caso da Comunidade
Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), da Comunidade
Económica dos Estados da África Central (CEEAC), do Mercado Comum da África
Oriental e Austral (COMESA), da Comunidade para o Desenvolvimento da África
Austral (SADC) e da Comunidade da África Oriental (EAC). Outras CER, como a
CENSAD, estão a trabalhar activamente neste sentido. A EAC é já uma união
aduaneira em pleno desde 2005, enquanto o COMESA lançou a sua união
aduaneira mais recentemente, em 2009. A CEDEAO pretende lançar a sua em 2015
e a agenda das uniões aduaneiras da SADC e da CEEAC, cuja entrada em vigor
estava programada para 2010, tem agora efectivação prevista para 2011. A União
do Magrebe Árabe (UMA), a Comunidade dos Estados do Sahel-Sahara
(CENSAD) e a Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento (IGAD)
têm ainda de implementar as suas uniões aduaneiras. Para além destes avanços,
existe também a oportunidade de algumas CER harmonizarem as suas áreas de livre
comércio, de forma a alargar os blocos comerciais. A iniciativa corrente de uma
grande Área de Livre Comércio empreendida pela SADC, pela CEDEAO e pela
EAC é um bom exemplo desta nova tendência de unificação dos mercados sub-
regionais.

Apesar destes desenvolvimentos positivos, algumas CER continuam a enfrentar


vários desafios que afectam significativamente o seu avanço no sentido do
aprofundamento da agenda de integração. Estes desafios podem também travar o
objectivo do continente de implementar um mercado comum num futuro próximo.
Entre os principais desafios incluem-se: a persistência da instabilidade política em
algumas regiões do continente, a ausência de diversificação económica, a
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 181

participação múltipla e sobreposta em diferentes organismos, a ausência de recursos


financeiros adequados para reforçar os processos de integração, a falta de ligação
entre as políticas de desenvolvimento nacional e regional/continental e a fraca
implementação dos protocolos e das decisões comummente acordadas a nível
regional e continental.

Os conflitos em África têm exacerbado a pobreza no continente, tornando mais


difícil acelerar a sua agenda de desenvolvimento e crescimento económico. Os
conflitos têm resultado na perda de vidas humanas e na deslocação de pessoas,
causando também um elevado número de refugiados e crianças-soldado, para além
da forte incidência da vulnerabilidade e da exclusão social, da destruição das
infraestruturas sociais e económicas e do enfraquecimento das capacidades
institucionais.

A implementação de actividades e programas de integração regional, por parte das


CER e de outras instituições pan-africanas, continua a ser condicionada pela
ausência de recursos financeiros adequados e pela sua capacidade de absorção. As
contribuições dos países membros da OCDE não são suficientes para financiar a
execução de actividades e programas. Para além disso, a duplicação de funções e
programas, bem como a sobreposição de participações em organizações sub-
regionais e pan-africanas exercem pressão sobre os recursos limitados dos países
membros da OCDE, contribuindo para fracos resultados de execução.

3.1.1. Implementação dos Programas de Integração Mínima

O Programa de Integração Mínima (PIM) foi desenvolvido pela Comissão da União


Africana, em estreita colaboração com as CER. O PIM inclui um conjunto de
actividades, projectos e programas para implementação pelas CER, de forma a
acelerar o processo de integração regional e continental. O Programa concentra-se
nas seguintes áreas-chave da agenda de integração: comércio, desenvolvimento de
infraestruturas, liberdade de circulação, paz e segurança. O PIM foi aprovado pela
Conferência dos Ministros Africanos Encarregues da Integração Regional e foi
subsequentemente aprovado pela Assembleia da União Africana.

A Comissão da União Africana desenvolveu um Plano de Acção para a


implementação do Programa de Integração Mínima, mas esse plano enfrenta
actualmente vários desafios, incluindo a ausência de financiamento. No entanto, as
agências de implementação, compostas pelas CER, pelos países membros e pela
Comissão da União Africana têm encetado vários esforços para mobilizar recursos.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 182

Um desses principais esforços consiste numa proposta da União Africana para


estabelecer um fundo de integração dedicado a apoiar as actividades e os programas
do PIM. A Assembleia da União Africana apoiou esta iniciativa e a Comissão da
UA irá realizar brevemente um estudo de pré-viabilidade sobre o estabelecimento
do fundo. Para além disso, as CER estão a sensibilizar os seus países membros para
os planos de acção e a incluí-los nos seus programas.

Todas as instituições pan-africanas, incluindo as CER, estão a desenvolver esforços


para acelerar a implementação das actividades e dos programas de integração
regional em África. Entre os esforços de maior destaque inclui-se a actual Área de
Livre Comércio Tripartida entre os membros da EAC, do COMESA e da SADC. A
caixa 3.3 apresenta alguns dos desenvolvimentos mais actuais nesta área.

3.1.2. Áreas de Livre Comércio Propostas em África

Num esforço de acelerar a implementação de uma Comunidade Económica


Africana, conforme estabelecido no Tratado de Abuja, as CER estão a executar
várias actividades e programas onde se inclui a recente decisão tomada pelos
Chefes de Estado e de governo dos países-membros do COMESA, da SADC e do
EAC para estabelecer uma única área de livre comércio. Espera-se que a área de
livre comércio de comunidades económicas inter-regionais contribua para expandir
os mercados africanos, desbloquear o potencial produtivo e aumentar o comércio
dentro do continente. A abertura das fronteiras contribuirá também para facilitar a
livre circulação de empresários entre as CER. Ao mesmo tempo, enquanto mercado
e bloco económico mais alargado, o continente tornar-se-á mais atractivo ao
investimento directo estrangeiro, em particular no que está ligado a economias de
escala.

A Comissão Económica das Nações Unidas para África (CENUA) está a


desenvolver um estudo para ajudar a acelerar a implementação de zonas de livre
comércio entre regiões em África. Entre outras coisas, o estudo irá analisar o
impacto destas zonas nas economias africanas, avaliar os custos e benefícios para os
países, bem como o impacto sobre a eficiência e a eficácia das CER. O estudo irá
também considerar o impacto das áreas de livre comércio entre CER sobre os APE
que os países africanos estão actualmente a negociar com a União Europeia. O
estudo ajudará os países a tomar uma decisão informada sobre a sua participação
nas áreas de livre comércio entre CER.

Desenvolvimentos nas Infraestruturas Regionais


EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 183

O desenvolvimento das infraestruturas regionais, particularmente nos sectores dos


transportes, das comunicações, da energia e dos serviços, é crucial para o
crescimento económico e para o desenvolvimento sustentável. Apesar dos esforços
para pôr em prática um programa de actividades nestas áreas, África continua a ser
um dos continentes onde as redes de infraestruturas são mais fracas, o que contribui
para aumentar os custos de produção e transacção, enfraquecendo a competitividade
dos seus negócios.

Estudos recentes comprovam que as infraestruturas não só são responsáveis por


mais de metade do recente avanço na performance económica de África, como têm
potencial para um contributo ainda maior no futuro. As redes de infraestruturas
africanas estão bastante atrasadas comparativamente a outros países em
desenvolvimento e são caracterizadas pela ausência de ligações regionais e pela
estagnação no seu acesso às famílias. (World Bank, 2010). As conclusões dos
mesmos estudos indicam que as infraestruturas em África necessitarão de um
investimento de cerca de 93 mil milhões por ano, durante os próximos 10 anos.
Mesmo após calcular os ganhos em eficiência e tendo também em conta as
projecções do gasto doméstico e externo, manter-se-à ainda um gap financeiro de
cerca de 31 mil milhões de USD por ano, maioritariamente no sector da energia.

O crescimento económico não se concretizará pelo simples desenvolvimento das


infraestruturas necessárias e dos seus serviços. Como tal, o investimento nas
infraestruturas e nos serviços deve ser acompanhado pelo apoio a reformas de
governação e de regulação destes sectores, bem como pela facilitação do comércio,
entre outras medidas, de forma a permitir aos consumidores finais redução de
custos e poupança de tempo.

3.1.3. Iniciativas de Desenvolvimento de Infraestruturas no Continente

Desde 1970 que os líderes africanos têm bem presente a importância de


infraestruturas acessíveis e eficientes como veículos de promoção da integração
regional. O período entre 1978 e 2000 foi dedicado ao programa das Nações Unidas
para a Década de Transportes e Comunicações em África (UNTACDA),
acompanhado pelo Sub-Saharan Africa Transport Policy Programme (SSATP)
para o desenvolvimento destes sectores. Estes programas foram incorporados por
outras iniciativas recentes, incluindo o NEPAD, o Medium to Long Term Strategic
Framework (MLTSF) e o Programa para o Desenvolvimento de Infraestruturas em
África (PDIA).
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 184

A Comissão da União Africana (AUC), o Banco de Desenvolvimento Africano


(AfDB), a Nova Parceria para o Desenvolvimento de África (NEPAD), bem como
as Comunidades Económicas Regionais (CER) encontram-se actualmente num
processo de criação do Programa para o Desenvolvimento de Infraestruturas em
Africa (PDIA). Este programa tem como objectivos a promoção do
desenvolvimento socioeconómico e a redução da pobreza em África através da
melhoria do acesso a redes e a serviços integrados de infraestruturas regionais e
continentais.

O actual estado de desenvolvimento das infraestruturas africanas continua bastante


diferenciado, uma vez que alguns sectores registaram um progresso significativo
comparativamente a outros. A situação actual é, em geral, insatisfatória, pois é
caracterizada, por um lado, por infraestruturas insuficientes e de baixa qualidade e,
por outro lado, por serviços extensos e ineficientes. A título de exemplo, a extensão
total das redes de estradas cartografadas em África está estimada em cerca de 2,3
milhões de km, dos quais 20% se encontram pavimentados. Em comparação, o
nível desejado e necessário de desenvolvimento económico e social está avaliado
numa média de 7,6 km por 100 km quadrados. Outros desenvolvimentos no sector
das estradas incluem as auto-estradas Trans-Africanas 1; 5 e 7 (TAH1, TAH5 e
TAH7).

O desenvolvimento dos caminhos de ferro é ainda menos satisfatório que o do


sector das estradas. A rede ferroviária de África consiste em cerca de 89.000 km
dentro de uma área de cerca de 29,6 milhões de km quadrados, o que corresponde a
uma densidade de ocupação de 2,5 km por 1.000 km quadrados. Este valor é
bastante baixo quando comparado com a média europeia de 40 km por 1.000 km
quadrados. Dentro dos países continentais de África, 14 não têm linhas de comboio
ou secções de linhas internacionais. Ao mesmo tempo, as redes ferroviárias em
África são normalmente antigas e tecnicamente desactualizadas. O mau estado
destas redes tem resultado numa baixa percentagem de transporte ferroviário de
mercadorias no comércio intra-africano. Para alterar esta situação são necessários
mais investimentos neste sector.

A quota global de África no transporte aéreo continua a ser modesta e está ligada
apenas a três eixos principais: Joanesburgo, Nairobi e Addis Abeba. A
South African Airways, a Kenya Airways e a Ethiopian Airlines continuam a ser as
três principais companhias aéreas de África. Em 2004, a comparticipação Africana
no tráfego mundial de passageiros situou-se em cerca de 5,2%, enquanto a
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 185

percentagem relativa ao tráfego de mercadorias rondou os 3,6%. Ao longo do


mesmo ano, o transporte aéreo (passageiros e mercadorias) gerou 470.000
empregos no continente, o que resultou num aumento de rendimento estimado em
11,3 mil milhões USD (1,7% do PIB africano). Para além da criação de
oportunidades de emprego, o sector do transporte aéreo desempenha também um
papel de crescente importância na competitividade dos produtos africanos nos
mercados mundiais, particularmente para o transporte de cargas mais sensíveis
como os produtos hortícolas e frutícolas. O mesmo acontece para os países do
interior do continente.

3.1.4. Desenvolvimentos nas Negociações de Comércio Internacional durante


2010

À semelhança dos anos anteriores, África registou, em 2010, reduzidos avanços nas
negociações da Ronda de Desenvolvimento de Doha (RDD) da Organização
Mundial de Comércio (OMC). Apesar do fim das negociações ter estado previsto
para Dezembro de 2005, as discussões têm progredido lentamente desde 2008 e, em
2010, praticamente não ultrapassaram os encontros informais, o que resultou no
adiamento de negociações entre sectores. No entanto, em 2010 destacam-se
também alguns pontos como o acordo sobre o comércio de bananas - «Banana
Deal» (BAfD, OCDE e UNECA, 2010) e os avanços registados nas negociações do
comércio de algodão e de barreiras não-tarifárias, com um progresso notável do
Grupo Africano neste último domínio. (UNECA e AUC, 2011).

Apesar do compromisso sobre o fim das negociações da Ronda de Doha ter sido
renovado ao mais alto nível no Fórum Económico Mundial, em Janeiro de 2011,
tornou-se claro que, dado o virtual impasse das negociações, não será possível uma
aplicação separada e antecipada «early harvest» para os países menos avançados
(PMA). Esta situação não só levanta dúvidas sobre os benefícios de
desenvolvimento procurados pela maioria das nações africanas, como também
justifica uma reavaliação sobre a forma como a Ronda de Doha está a lidar com as
preocupações de desenvolvimento nas actuais negociações. Para além disso, se o
espaço de negociação política não for adequadamente considerado, tendo em conta
elementos como a flexibilidade, o tratamento especial e diferenciado e o
compromisso de um acesso alargado a mercados de relevância para África, a
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 186

capacidade dos países africanos para prosseguirem os seus objectivos de


transformação económica e industrialização através da sua agenda comercial pode
vir a ser seriamente comprometido no futuro.1

O impasse nas negociações desde 2005 levou também a um desviar das atenções
para outros tipos de relações comerciais em África. Os acordos de preferência
comercial, como o African Growth and Opportunity Act (AGOA) (ver o ponto 1.c)
e o acordo de Cooperação Sul-Sul com outras economias em desenvolvimento
como a China, a Índia e o Brasil constituem importantes mecanismos no apoio à
agenda de diversificação e desenvolvimento económico de África.

Comunidades Económicas Regionais na África Austral

A COMESA e a SADC

A COMUNIDADE para o Desenvolvimento da África Austral (SADC) cobre o


continente africano à sul do equador, é um bloco regional constituinte da União
Africana. Esta comunidade regional foi estabelecida em A ru s h a , Tanzania, em
1979 e lançada em 1980 em Lusaka, Zâmbia, como uma Conferência Coord enadora
para o Desenvolvimento da África Austral (SADCC). Os estados membros
transformaram-na da SADCC para a Comunidade de Desenvolvimento da África
Austral através do Tratado da SADC, em 1992. O secretariado da SADC encontra-se
local izado em Gaborone, Botswana.

Estados Membros da SADC

Angola, Botswana, Democratic África do Sul, Angola, Botswana, Lesotho, Malawi, Moçambique,
Namíbia, República Democrática do Congo, República Unida da Tanzania, Swazilândia, Zâmbia e
Zimbabwe, tendo como candidato a membro, o Madagáscar.

A Declaração “Rumo à Comunidade do Desenvolvimento da África Austral”


adoptado em Windhoek, Namíbia, a 17 de Agosto de 1992, por Chefes de Estado e
Governo dos países membros, apela à todos países e povos da África Austral a
desenvolver uma visão de um futuro partilhado e comum, dentro da comunidade
regional. O dia da celebração da SADC é 17 de Agosto.

Visão da SADC

A visão da SADC é um futuro comum, um futuro regional que garantirá um bem


EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 187

estar comum, melhoria dos níveis dos padrões e qualidade de vida, liberdade e
justiça social, paz e segurança. Esta visão partilhada está ancorada nos princípios e
valores comuns, afinidades histórico-culturais, dentre os povos da África
Austral.

Objectivos da SADC

Os objectivos da SADC estão declarados no artigo 5 do Tratado, e são:

 alcançar o desenvolvimento e c rescimento económico, aliviar a pobreza,


reforçar os níveis e padrões de vida dos povos da África Austral e apoiar os
socialmente desfavo recidos através da integração regional ;
 desenvolver valores políticos, si stemas e insti tuições comuns;
 promover e defender paz e segurança
 promover o desenvolvimento auto-sustentável na base da auto-confiança e
interd ependência dos estados membros;
 alcançar a complementaridade e n t re os programas e estratégias regionai s e
nacionais;
 promover e maximizar empreendimentos produtivos e a utilização dos
recursos naturais regionais;
 alcançar o uso sustentável dos recursos naturais e protecção efectiva do meio
ambiente;
 reforçar e consolidar as longas afinidades históricas, sociais e culturais e
ligações entre os povos da região.

Para além disso, os estados m e m b ros estão cometidos em garantir que a questão
do alívio à o b reza seja tida em conta em actividades e programas da SADC, com
objectivo último em erradicá-la.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 188

Os estados membros aceitaram cooperar nas áreas de

 segurança alimentar, infra estruturas agrícolas e de terra , comércio, finança, investimento e


mineração,
 desenvolvimento social e humano e programas especiais ciência e tecnologia
 recursos naturais e ambiente
 bem estar social, informação, cultura
 política, diplomacia, relações internacionais, paz e segura nça .

O HIV/SIDA constitui uma grande ameaça para o alcance dos objectivos da SADC
daí que se lhe tenha acord a d o maior prioridade em todos os p rograma s e
actividades da SADC.

Protocolos
Os estados me mbros celebraram protocolos em várias áreas de cooperação que
definem o escopo e objectivos, bem como mecanismos institucionais para
cooperação e integração. Estes protocolos são aprovados pela Cimeira sob a
recomendação do Conselho, sendo que cada protocolo fica aberta à assinatura e
ractificação de cada estado membro. Desta forma, este transforma-se em um
documento legal, em que todos estados membros que concordem, estejam obrigados
a ajustar seus dispositivos legais nacionais em concordância com o documento.

O protocolo entra em vigor trinta dias depois que ela for depositada e ractificada por
maioria de dois terços dos estados m e m b ros e válida apenas aos estados membros
signatários. Após a entrada em vigor, o estado m e m b ro pode fazer parte deste
apenas através da adesão.

Cada protocolo deve ser registado pelo Secretariado Executivo da SADC, o


Secretariado da Organização das Nações Unidas e da Comissão da União Africana.

Parceiros
De acordo com os objectivos do seu Tratado, a SADC procura envolver na sua
totalidade, os povos da região e parc e i ro s estratégicos no processo da integração
regional. A SADC está comprometida em cooperar com todos parc e i ros que
contribuam para o alcance dos objectivos do Tratado em áreas de cooperação, com
objectivo de forjar re l a ç õ e s mais próximas com as comunidades, associações e o
povo em geral.

Cimeira
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 189

O Estado e o Governo é a última instituição fazedora de políticas, com a


responsabilidade de orientar a política e controlar as funções da Comunidade. A
Cimeira reúne pelo menos uma vez por ano, geralmente em Agosto ou Setembro,
num dos estados membros. Durante a Cimeira, o p residente-cessante passa o poder
ao vice, e um novo vice é eleito para presidir no ano seguinte.

A Troika

A Troika consiste em presidentes a n t e r i o res, actuais e futuros da S A D C , e


assegura a implementação de tarefas e decisões, bem como a provisão de orientação
de políticas para as instituções da SADC no período entre as cimeiras regulares. O
sistema de Troika opera ao nível da Cimeira, e também ao do Órgão s o b re
Políticas, Defesa e Segurança, do Conselho de Ministros e Funcionários do Comité
Permanente.

Conselho de Ministros

Os ministros de cada estado membro reúnem-se em Conselho, geralmente dos


Ministérios dos Negócios Estrangeiros e Desenvolvimento Económico, Plano ou
Finanças. O Conselho é responsável pela supervisão e monitoria das funções e
desenvolvimento da SADC, e de assegurar que as políticas são devidamente
implementadas, bem como de fazer recomendações à Cimeira. O Conselho reúne
antes da Cimeira e pelo menos numa outra oportunidade durante o ano, e é presidida
pelo país que detém a presidência da SADC.

Comité Integrado de Ministros

Esta é uma nova instituição visando assegurar orientação apropriada das políticas,
coordenação e harmonização de actividades actividades transversais. É constituído
por pelo menos dois ministros de cada estado membro e presta contas ao Conselho.

Comité Permanente de Funcionários

O Comité Permanente consiste num Secretário Permanente ou um funcionário de


nível equivalente de cada estado membro. Este Comité é um comité técnico de
aconselhamento ao Conselho, e reúne-se antes deste, sob a presidência do mesmo
país em frente da SADC.
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 190

Tribunal
Logo que for estabelecido, o Tribunal vai assegurar aderência às provisões do
Tratado da SADC e instrumentos subsidiários e sua interpretação apropriada, e
arbitrar disputas quanto trazidas ao organismo.

Comités Nacionais da SADC

Esses Comités são compostos por parceiros chave idos do governo, sector privado e
sociedade civil nos estados membros da SADC. A sua função principal é
providenciar subsídios ao nível nacional na formulação de políticas, estratégias e
planeamento regionais, bem como de coordenar e orientar a implementação ao nível
nacional. Os Comités são também responsáveis para a iniciação de projectos.

Secretariado
Esta é principal instituição executiva da SADC, e é responsável pelo planeamento
estratégico, coordenação e gestão dos programas da SADC, e implementação do
plano estratégicoregional . O funcionário sénior é o Secretário Executivo e a sede é
em Gaboron e Botswana. Constratando com a coordenação de actividades sectoriais
que era feito em cada país, a SADC adoptou agora uma abordagem centralizada
através da qual as 21 Unidades de C o o rdenação foram agrupadas em quarto
Direcções: Comércio, Indústria, Finanças e Investimento (TIFI)

 Infrastrutura e Serviços (I&S)


 Alimentação, Agricultura e Recursos Naturais (FANR)
 Desenvolvimento Social Humano Programas Especiais.

SADC COMESA EAC Cimeira conjunta para abordar sobreposição de


afiliações

O DESAFIO da sobreposição de afiliações entre as regiões africanas vai ao


escrutínio em Outubro quando os líderes de três blocos comerciais reunirem-se para
encontrar um meio termo sobre comércio, alfándegas e infraestrutura de
desenvolvimento.

A Uganda vai acolher à 20 de Outubro a cimeira conjunta da SADC, do Mercado


Comum para África Oriental e Austral de África (COMESA) e a Comunidade da
África Oriental (EAC).

A sobreposição de afiliações existe e as três organizações planeam criar uniões


EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 191

aduaneiras, uma situação que apresenta desafios técnicos visto que nenhum país
pode pertencer a mais de uma união aduaneira.

Oito membros da SADC -- a República Democrática do Congo, Malawi, Maurícias,


Madagáscar, Seicheles, Suazilândia, Zámbia e Zimbabwe - também pertencem à
COMESA, enquanto que Angola é um membro da Comunidade República Unida
da Tanzania pertence à Comunidade da África Oriental.

A África do Sul, Botswana, Lesotho, Namíbia e Suazilândia são membros da União


Aduaneira para África Austral (SACU), sendo que apenas um dos 15 Estados
membro da SADC é membro de uma Comunidade Económica Regional -
Moçambique.

Mesmo assim, a SADC, COMESA e EAC ou planeam criar uma união aduaneira
ou já têem uma declarada.

Visto que todos os membros da SACU pertencem à SADC, isso não apresenta
muitos problemas técnicos porque o arranjo da SACU desaparece automaticamente
com a criação de uma União Aduaneira da SADC.

Contudo, os problemas reais existem entre a afiliação dos países da SADC ou na


COMESA ou na EAC. A cimeira tripartidária vai abordar alguns desses desafios e
possivelmente recomendar um quadro que permitiria a criação de uma maior ZCL e
União Aduaneira.

A SADC começou este processo com o lançamento de uma Zona de Comércio


Livre (ZCL) na XXVIIIª Cimeira realizada na África do Sul, em Agosto, marcando
um grande marco na sua história de 28 anos.

Criada em 1980 e transformada em 1992 na actual Comunidade para o


Desenvolvimento da África Austral, a SADC embarcou em vários projectos
ambiciosos de integração regional, em áreas tais como comérc i o , infraestrutura,
segurança alimentar, desenvolvimento humano e social, bem como política, defesa
e esegurança, todos visando levar à prosperidade económica, paz e segurança para
os seus 250 milhões de cidadãos.

O comércio foi apontado como a intervenção com maior potencial para abordar o
grande desafio da SADC - a pobreza.

Os planos da SADC incluem o lançamento da ZCL como um passo inicial na


EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 192

trajectória de integração comercial, aumentando gradualmente para se estabelecer


uma União Aduaneira em 2010, um Mercado Comum até 2015 e uma União
Monetária até 2016. Espera-se pela criação de um banco central regional e
moeda única em 2018.

Pelo que, ao lançar a ZCL no dia da SADC, 17 de Agosto, os líderes da África


Austral demonstraram a sua vontade de prover uma melhor vida para os milhões de
cidadãos, algo reconhecido pelo anfitrião, Presidente sul-africano Thabo Mbeki,
que assumiu a presidência rotativa da SADC na cimeira de dois dias, em
Joanesburgo.

" O desafio confrontando a nossa região durante esta época é de fazer coisas
extraordinária visando construir uma Zona de Comércio Livre e consolodar os seus
ganhos para benefício mútuo das economias e desenvolvimento regional," disse
Mbeki.

Um desafio chave confrontando a região é o desenvolvimento de infraestruturas.


Necessita-se de estradas melhores e redes de linhas férreas para facilitar o fluxo
trans-fronteiriço de bens e serviços. As actuais redes de estradas e linhas férreas não
apoiam adequadamente o comércio efectivo intra-regional.

Um Plano Mestre sobre Infraestrutura está sendo desenvolvido para abordar este
défice.

Embora a ZCL aborda directamente a questão de tarifas ao ponto de permitir que


até 85 porcento de bens comercializados estejam isentos de impostos, os Estados
membro ainda precisam de enfrentar o desafio das barreiras não-tarifárias tais como
procedimentos de entrada fronteiriça restritivos, que contrariam o espiríto de
comércio livre.

Outros desafios centram-se no lado de oferta do comércio onde o sector privado é


chamado a melhor a produtividade se quiser permanecer competitivo no mercado
regional.

Tal competição, embora possa ter implicações negativas sobre o emprego em


economias pequenas e fracas, poderá trazer alternativas baratas sob ponto de vista
do consumidor.

AZCL foi estabelcida através do Protocol Comercial da SADC, cuja implementação


EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 193

começou em 2000.

Até à data, 11 dos 15 Estados membro da SADC estão a aplicar o protocolo, o que
significa que mais de 170 milhões de pessoas nesses países beneficiarão
imediatamente do novo desenvolvimento económico. A Angola e RDC solicitaram
mais tempo antes de se juntarem à ZCL, e espera-se que a Seicheles, que voltou a
juntar-se à SADC na Cimeira, inicie brevemente as formalidades para se tornar
membro da ZCL.

Espera-se que os Estados membro harmonizem as suas políticas nacionais de


comércio com todas as provisões do Protocolo Comercial se se quer implementar
com sucesso a ZCL.

A COMESA com 19 membros, que lançou a sua ZCL em 2004, planea declarar
uma união aduaneira até Dezembro deste ano. AEAC declarou a sua união
aduaneira em 2005.

Em todo o caso, as comunidades económicas regionais são a fundação da proposta


Comunidade Económica Africana (AEC).

Se as três sub-regiões, estendendo-se do Cabo ao Cairo, podem encontrar pontos


comuns relacionados com os arranjos comerciais, isso seria um grande avanço na
medida em que a União Africana está procurando uma rota suave e rápida rumo à
AEC.

Os Estados membro não só enfrentam problemas com as múltiplas afiliações no


concernente ao comércio, como também vários desafios noutras áreas.

No caso da SADC, a COMESA e a EAC, as sobreposições existem noutras áreas


tais como infraestrutura, bem como desafios resultando de obrigações de tempo e
financeiras relacionadas com as contribuições dos membros, participação em
reuniões, bem como a implementação de vários outros programas de integração
regional.

Por conseguinte, a cimeira tripartidária procurará encontrar uma abordagem


conjunta para implementar a rede de telecomunicações regional baseado no
Projecto Comtel da COMESA, o Projecto de Informação e Infraestrutura Regional
da SADC, bem como uma abordagem harmonizada na implementação do Projecto
da NEPAD de Cabo Submarino de Banda Larga da África Oriental (EASSY). O
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 194

último facilitará a conectividade com a África do Norte, as Ilhas Oceánicas e o resto


do mundo.

Espera-se que as três subregiões discutam como melhor acelerar a implementação


de projectos de inter-conectores sobre os auspícios do Grupo de Energia da África
Austral (SAPP) e o Grupo de Energia da África Oriental.

O Grupo de Trabalho Tripartidário envolvendo os três blocos comerciais tem estado


a reunir-se há mais de um ano na preparação da cimeira conjunta.

Sumário
O presente módulo representa um estudo sobre a cooperação económico
regional, onde são estudados os processos de cooperação dos países em
vias de desenvolvimento junto dos países da União Europeia, bem como
o papel das Comunidades Económicas Regionais da África Austral para a
integração económica. Nisto, são identificadas as principais fases de
integração económica regional e os motivos pelos quais maior parte dos
países africanos aderiram ao propósito.

Exercícios
Reflicta sobre as seguintes questões:

1. Quais são os efeitos imediatos da integração


económico regional?
2. Que benefícios tras AGOA para Moçambique no
processo de integração regional?
3. Poderá a fase de União Económica e Monetária
enquadrar-se na República de Moçambique?
4. Diga em que se consubstancia o papel da ONU
face a COMESA e SADC no processo de
integração económico regianal?
5. Que impactos se podem esperar da COMESA e
SADC em 2020?
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 195

Fazer actividades constantes na auto-avaliação

Auto-avaliação Entregar o exercício: 1, 2 e 3.

Em quatro páginas faça um breve resumo da unidade em estudo.


EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 196

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Legislação

 Constituição da República de Moçambique com as


alterações de 2005 e 2007;

 Lei 7/2007 de 26 de Fevereiro (lei eleitoral);

 Lei 8/2007 de 26 de Fevereiro (lei da CNE);

 Lei 9/2007 de 26 de Fevereiro (lei do recenseamento


eleitoral);

 Lei 10/2007 de 5 de Junho (lei que regula as eleições para


as assembleias provinciais);
EdO166 – Teoria Geral de Estado e Relações Internacionais 200

 Lei 15/2009 de 9 de Abril (lei que estabelece o regime


jurídico para a realização simultânea das eleições
presidenciais, legislativas e das assembleias provinciais (lei
de harmonização) juntamente com o decreto presidencial
1/2009;

 Lei 6/2006 de 2 de Agosto e lei 5/2008 de 9 Julho (lei


orgânica do Conselho Constitucional e lei de alteração e
sobre tramitação processual).

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