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Historiografia

Brasileira
em
Perspectiva

981.0072 '·C bam. 981.0072 H673 6.ed

H673 Titult>: Historiografía brasileira em


Per~pectiva ¡ .

~ 1~11 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 11 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1
6.ed

1
90011 Ac. 17565
I..V.L..LV~.La.u.a Brasileira em Perspectiva hltll~RJ N" Pat.:2016/20 10 l____ _ _____,
Ct>pyrig/Jf({) 1998 do, autor~s
T')d os os dlrdt05 Uelta cd.,Jo rcscn,¡Jo,:.
SUMÁRIO
Lditora Comcxw (W•tora l'•n~kr 1 tJ~.)

Or¡:.u;:::.1¡.1o
.\l~r<Os CctM J •. lrcítJ\
DitlJTtlJI."tl,llcJ
lúlmlu ,\ l.uconJc~ de 01" crra
Rn·1.Jo
.\ bm.1 Leal lntrodu~ao, 7
Apparccidal'crcir,¡ ,\lorcir;~
Marcos Cezar de Freitas
Dados lnrerna,ionars de C~raloga~lo na Public;t\ao (CII')
(C.lmara Br,Hilcira Ju l.ivro, SI~ BtJ\11)
Frerras. 'v1arcos Cet<tr.
PARTE 1 - HISTORIOGRAFIA BRASJLEfRA: OS OLHARES SOBRE AS FONTES
Hisrorrografi.t brasile.ra clll pcrspcuiva 1 \iarcm C:czar
de Freira~ (org) 6. ed., P retmprcss~o ~ito l'.udo ' Contexw, 2007
Aspectos da Historiografía da Cultura sobre o Brasil Colonial, 17
Bibl iografia
ISBN 85-7244-088-7 Laura de Mello e Souza
l. Brasd- Hi;rót i.t. 2 Brastl - Hisró11a - Hísto11ografia A Sociedade Brasileira e a Historiografía Colonial, 39
l. Freiras, Ma r~o~ Cez.tr de.
Laima Mesgravis
98-0499 CDD- 981007.2
fndJGes para '•dlogo \Ístcm.lttco· Sociabilidades sem História: Votantes Pobres no Império, 1824- J88 J, 57
1 Brastl Hiqonografia 981.0072 Maria Odila Leite da Silva Dias
2 Hmoriografi.t: BrJ~íl 98 10072
1 F R R J - NOVA /GUACU
O fmpéno da Revo lu~ao: Matrizes Interpretativa ... do ... Connitos da
Registro
Sociedade Monárquica, 73
ata ....'JS!._../...?.~_}..1Q____ E1>11 ORA Co.-. 1 !eX 1t> habel Andrade Marson
g :....... . Di retor cdnorial:fizmu f'mslcy
x.: ·;..~~ '11·~e:'"'=="--=l)~-------l Rua Dr. Jo~¿ l:.lt.ll. 520 . Alto d.t L.tpa
Escravidao Negra cm Debate, J03
~ · · .. :t..'>!. ~----..· - - - 05083-030- ~loPaulo- '1' Suelv Robles Reis de Queiróz
ngem; --- l'.~sx. 111) 3832 5838
roe es so; .......J:133.{Qj....... - con te\to@ed i toratonrexru com .br O Diálogo Convergente: Políticos e Historiadores no Início da Repúbl ica, 119
_ W\\'Y..cdtcor~wntcxto lOm.br
Maria de ú;urdes Monaco Janotti
A Historiografia da Classe Operária no Brasil: Tn*tória e Tendencias, 145
Clcíudio H. M. Bata/ha
ToCF
Anos Trinta e Política: Hi stória e Historiografía. 159
Vavv Pacheco Borges
P101bida 1 rcprodu~áo tot.d ou p.~rti.ll.
0< infrarores ser5o proce.\,Jdm nJ lnnnd dJ let
Estado Novo: Nova~ Histórias, 183
Maria Helena Rolim Cape/ato
...-·~

J#l..' ...............
PARTE II - HJSTORIOGRAHA RRASILFJRA NOVAS f'ONTcS
PARA NOVOS OLHARF.S PARA UMA HISTÓRTA DA
Hi.,tória da., Mulheres: A~ Vo¿es do Silencio, 217
HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA
Mary Del Pri01·e

Hi'itória e Htstoriografia da., Cidades. um Percurso. 237 Marcos Cezar de Freitas (usn
Maria Stella M. Brescwnni

Sobre Hi'>tória. Braudel e o~ Yaga-lumes. A EscoJa dos Annales e o Brasil


(ou \ice-versa)_ 259 htstóna do cerco de Ltsboa, por um tnstante. eMeve ¡¡.., m.lo" <k
Paulo Miceli
Hi.,t6rias que os Ltvros Dtdáticos Contam. Depois que Acabou a Ditadura
no Brasil, 271
A Raimundo Silva. o revi..,or a qucm Saramago torturou com a
htpótese de que a inser~ao de uma pala\ ra - u m ll{tO e m meto a
uma reconstituir,;:ao histónca, oca::.ionaria a revt.,ao de todo o fato. ou ~c¡a da própna
hi.,tória do cerco. Naquele in~tante, v da dú1•ida. ocorria ao revi~or a po..,..,e de um
Ka::umi Munakata poder cujo exercício podcria facultar a obltterac;:ao da memória já cristalizada ~obre a
cidade cercada. A dúvtda, aos poucos, pa~sou a \Cr a .'>en-:a¡;ao de posse !>Obre o lato
RegiOnalismo e História da Literatura: Quemé o Vilao da História?, 297 em ~ ._ Quando se acredita na existéncia de tal poder supoe-se também ser vcro~sítml
Marüa ú~jo/o po..,.;uir autoridade sobre a permanéncia do<; senttdo'i sociais dos fatos reorgani7ado!>
no carpo de u m texto. Seria o senhor da narrac;:ao tJmbém o senhor do fato?
A Conflgura\ao da Historiografia Educacional Brasiletra, 329 No in~tante <;eguinte, o da conspirarüo. quando num gesto de rebeldta
Marta Maria Chaga'i de Carvalho acreo;centou o 1uio indevtdo a na~ra~iío, oconeu-lhc que a atttude repre\entava a
Htstória dos lnrelectuais nos Anos 50. 355 garantía de autonomta do leitor sobre o faro A exi-;tcncia e a permanéncia de um e
de outro (intérprete e hi..,tória) independiam da.., formas através da~ CJUiJÍ'-o ,..,e
Lealldro Konder
reconheciam um 110 outro Tal independéncia recíproca era, contudo, inst<1vcl e
A Ptntura e o Olhar sobre Si: Víctor Meirelles e a Invcn¡yao de uma Históna efe mera. Isso porque no terceiro 1n<;tante, o da proclamufriO da .fw \(/.
Visual no Século XIX Brasileiro, 375 recompuseram-se a integridade do fato - como entidaJc alheia as conspira~ñe .-; da
lorf!.e Co/i narrativa, e a autoridade do historiador- como preceptor único da possibtlidadc de
um nüo ocupar o lugar de um sim, ou vtce-vcr\a. Ao tevisor insurrecto rc:-.tava
Iracema ou a Funda9ao do Brasil, 405 tornar a SOiidao de Slltl lida e detxar que lmtort:ldOr e história prOS'>CguÍ-..\em '.CU\
Renatv Janine Ribeiro caminhos (cf S.tramago. 1989). Ao hi'-.!onadot n::tornava a autoridade \Obre o
acontectdo.
Ao historiado• de ofícto, a fabulac;iio de Saramago ~ugerc a pre-;en~a
Notas. 415 fanta<,magórica do mmt!acru a as~ombt at permanentemente suas prált<.:a' A
realidade ca~oa do profissional da hi::.tórin testando a Lenactdade de seus olhos. 1::-;o;a
ca~oada pode ser mclhor entendida se for comparada as metüforas que a literatura
no~ oferece. Lembrcmo~ Macando:

Os únu.:o~ c.:a~o~ de cla'i!.ilic.:.u,:iiu tmposstvcl cram os de Jose


Arcadto e 1\urcilano Segundo. roram t:lll parecidos e trave<;<;OS
durante a inf;\nc.:i.l que nema pr6pna S.mt.l '-iofia de la Ptedad o<;

6
7
·mO que anali ... ado no pa<>sado. quando¡:í se \ahc ('!) t) que ...e ra;\OU. H;í ...cmpre
potha J¡st•nguir N11 d1a do hauzado, Amaranta t.:olllt.:ou nclcs u' ...,es olhar Jj-.poslO a "ra-.trear LU11<.1 pe!Sollagcnt uu Ullt f,ilu ,,¡.._ yu'- ,llnb":-. ''-
pubcna' com o' rcspcctl\<h nnm•·" ., ' "t" .liU os d)lll nn1p.c~ de urn cm ..,cu" simulacros. e e!>.scs. por -.ua vez. pndem st!r procurados cm -.uas
1 . _ 1d~. rcaltdade. A ht-..tonogralta
· quer o t en:cer--.e para u·mgtr · · os o11tare!>. ao p
coreo; thl"crentcs. marcada' com ,¡, nu~o:•a•s de t.:ada um. mas reveen ·
quando comt•c;a•am a ir ¡-, escola nptaram por tro~:ar a rnupa e 11 ., F
quot:ll
. cncarecendo-\hes: "o te m no\'amente .m contrapo'>t\ao a es-.a 1ttpotc,e.
- . _? l
as pul ... c.;¡ras e ,1 se t.:h,un;u cm ele-; rncsm<l' com os ll<lliiC' au
con u <ÍIIO O mcstrc Mckhor ~~~cnlona. acnqumado a LonhcccJ .;,clllrn.: unt novo ol har que apan h•1 0 .. novo.. qu.mc
vtsto.
há . 1\) e 1e nao - e• o novo. ma-. a
Jo,é A1t.:.1dio Segundo pela camtsa \Ctdc. pcrdcu ,\s c<;tnhenas repeti~;:w;. quc percebe a n1~tura ~ua~d-~ e la__ f<:bc~u ..'\ realtdadc e wrnou se
quando 1k~cohnu que este tratia a pubctra de \urcliano r"io;ténc a. conumltdade (uma "e' t1 ,tg~.:dt,t outt ,\ \el 1,u..,,t ).
Scguml11. L' que o outro dJtJ.I que.; ' l t.:halll<L\"<t clllretanto. pe 1
Tah·a. por tudo tsso a h1-.toriografia e-.te_¡a f.tdada a :-.er -,clllprc uma p<.trlt..
1\ureltann Segundo a pesar de '<>llr .1 carm'a hrnnca e trazc¡ a da hi-.t )ria da'- idéias (e vice-versa) uma vet que sua ocupa<;:iln com o tcgi-.tro e:-.ta
pulscira maJctda ..:om o nonte de lose Arc:-ttllu Segundo A impregnada 1
das unpressoes (fanta~magónca'> o u nüo) do "nao regtstrado" .
pat tlr daí nao se ...ahJ,\ m.11s com c.:ellc~:a quem crn que m. Paradoxahnente i'>sO nao a torna uma Jcposttún.t fiel da verd.tde, ao contráno
Mcsmo quando ncst·eram e a \ida m ltll no u d1 fe¡ entes, ( 1r:-ula
cuntmuava .1 se pcrguntar se ele~ mesmos n;to tcnam t.:omctJdo um l.tlo pode nao ter aconte~Jdo. Lonttariamente ¡¡~ alcga~i~e' de
um erro cm alg,Jm nmmento do \CU mtnneado Jogo de um aomsta. Ma~ o f<1to de ~le tc1 podido afirm.t-lo. de ter
cqutvocos e nao tcriam lkadn trocados para sempre. Até o pod1do contar coma ,u,1 .tceltat;üo pelo públil:o contemporanco.
princíp1o da adole~ccncia. fnram do1s mecanJ\1110S siJH.:r6nicos. e pelo me1ws tao rc\"el.tdm quanto ,, stmplc' oLorrcncia de um
J\corclavam ao mc~mo tempo [.. 1 e até ~onhnvam a~> me~m.1~ evento l l A ¡ecepc;río Jo~ enunci~tdo!o> é ma1., reveladora parn a
c01~as. Em ca:-.a, nndc ~e acredn.tva que ~.:no1dcnavam o:. ~eu.,
história da~ ldeologi,t<, di• que ~u a r• oduc;ao: e quando u m autor
ato:. pelo mero desCJO de wnfundu· nmguém pcrccheu a comete um 0ngano ou mente, ~~.u texto nao é meno'>
rcalidade até que um dia Santa Sofi.1 de la P1edad deu a ele:-. um ~¡gnilicattvo do que quando d11 a \erdade: (\que 11nporta é que
cop1> de 1imanada e C\lc dcmomu ma1~ [.. 1 du que o outro para o texto po~~a ~er recch•do pelo~ contenlpor:ineo::. ou que 'eu
di7CI que C\tava faltando a¡,:u<..ar O lempo ac:~bou de produtor tenha a..:reditado nclc. Ne"'" p~.:r~pccllva a noc;üo de
dc~n11umar as Lni\as .. (García Marque/. 1976. 166)
falso é n1hl pettinente (Todorov llJ91· 52)

Em me10 a-.. palavra~ de García Matque7 pode acorrer ao histonador A hi.;toriografia pode conccber a s1 mcsma. no fluxo da pr:.ítica do-.
reconhccer-,e, nao na confu-;ao das personagcns que .wheranamente trocam a hi,toriadores, como o espa~o invc:-.ttgativo no qua! até o ,jmu\ac.;ro con-.cgue -.er
própna 1denridade, o próprio papel e desconccrtam o observador que sempre soube tralldO a luz COI11 grandcL.a Jc reconhecimento. E porque isso dtz re-.pcito a -.ua
que dcterm111ado~ indtcadores correspondem a determinada" tdcntidade!>. (trocada" naturen. a htstoriografia semp1e encaminha o enfrentamento Je uma que...ráo que
as pulo.;etras. rrocado'\ O!>. nomes .. ) O hi'\tonador, ao contr;.\rio. pode pcrccber-sc em diz n:., peito i"l configura~üo de seu" Jomínto..;: o que t! a dimensáo políttca de !>.CU\
qucm nao está no texto- o leitor
contcúdo~, métodoo; e prática~?
Ilá uma expectativa cochtchando no'> ouvtdos de quem le de que há alguém
que ze la pela ordem do.:: fatos. pelo nome das per'\onagens. pela indtcac;ao dos -;eus
papéi' Santa Sofia de la Ptedacl pcr!>.cgutu o ..;i mulact o até o flagrante. O htstoriador Há doi~ anos. Fernando No\ ai-. comenta va a multiphcn~ño editorial do-.
pode :.e a'\SU!>.Iar ao -;upor-sc como cla. E""e \liSto ganha <>entido quando lembra de 1..'studo' e do!>.stc-.. sobre ht!>.toriografia no Bra-.d. Na oca,iao, referia--.e tamhém ~~
urna convicc;ao que o acompnnha: é dado como certo que a 111St\lencta do olhat. a necc-.stdade de "analt-,ar tnc~ts de perlo .1 -.uposta mcompattbtltdade entre o
traca de angulo-. para o vt-;lumbre (J nova per,pcctiva) sao recompensadas com o marxtsmoeanovahistonogrnfia''(cl. Novats, 1995: \~abr. \9l.J5.QI)
de-. vel,uncnto d.t real idade. Pots bem, uma cotsa ~ a políttca na ht-.tóna, outra é a d1men.;;ao que ganha
A lw,tonografia, por !-.ll.t 'e?, pode ...er t!ntendtda como u m universo \1m llar na hi-.toriografia Nesse particular, a historiografía pt)de -;er entendida como o low.\
:1 po<.tura de S,tnt,\ Sofia de la Piedad. ou <>cp, com indtferen~a ao fato de que tic tnlet ven~áo no qual a políttc.l (diluída ou magnificada) manife-.ta-'-c na' prútic,t!>.
muito-. olhates vi~lumhram a me~ma cot,a, confirma duas htpóte"e" que dl\cur-..tvas dos htstoriadore~ .
..tcompanharam como -.ombra a-.. fant:tsttea\ personagen-.. da ciJade Je espdho-. 1)
há sempre um novo olhar 'obre o quottdwno, o que 11npede que o mesmo o.;e rep1ta.
9
8
É vao porqut! o ace,so aos eventos que transconcm ¡, m~rgcm do evento
Aqui no:-. deparamo-, com urna questao de tundo já faz algum tempo que(, . • des\ KutaJu!- Ju~ grandes processos. como o da f<mnap0 de 11111 F<;t·tdn
e.,for<;o no ~enttdo de tnucr a ~oc!edadt• ··para dc-ntw" dos hvro~ J~..- IH~tt.lllct cmdtu. • por 11t.'xcmplo. nao
l{tu;O.
• - e' (a 1 d o em f un9ao - d a d •~tancw
. ~ . ma10r
. ou menor que -;e
-.c numa 1rágtl chcotomta entre O'> plano-. mtcroscop1co e macroscóptco. entre <t
po
nactona1· •la•·'io aos detcrmmtsmos
· O d
. etertnml:o.lllO -.o se matena 111a na va- 1·1 u-..ao
· -
hi,tól ia políttca delimitada pela rcla<;üo entre os homen~ e o Estado e a históna torna em -.enhor
rt: .,., da narra~ao
• - . ,
e tambem o senhor do lato. .
~nc1al pmcuntda te cncnntrada) p.1ra além do~ limite.-. da ac;ao e..;tatal na v1da de que 0É como ~e o<; htstona . . dores. d.treta ou .md 1retamente. con-.tantcmcnte
pübhca. roclama''elll a tn!-urreic;ao do Hegei adormecidO cm cada qual contra o Mar\
De forma sunpho.,ta, podemo:-. indic<~r a ocorrellCIJ, e<;pecialmente no ambno :.upotentc J.1' e!'tlruturao; ou. ao contrano. como se pr~'enassem o guardt<tnato d.t
unl\asit.:irio. de um<t espécie de "tli"1"an de taref<t-." Segundo es<.a, o~ C<;ludos dialéti(a que cada um sabe ter cm clefesa do ngor ,,~,.ademKO contra a~ demanda-; do
'obre o~ planos estruturai-., macropolíticm, 1deológiuh etc., '>ao o~ ma1s mdicad 0 ,
para abordar as \OCtedade-. nos .;eus aspectos púhl icos. snpértlu<l.
A cso;e respe1to a soc10logw tcm .,e divertido a nossa custa:
Fm contrapost<;ao, u m outrn campo de 1nte1 ven<;ao tcónco-metodológica \e
apresenta afirmando que nem toda!> a.1 h1.stóna., :-.ilo tocadas e del1nidas pelo.., Conhec.:cmo~ o~ C!ttrago~ fe1tos na (lc~CII~ño CJCntíflca pelo~
eH!Iltl>:-. políticos Procura-se, ;bslm, um (outro) espa~o social (privado) capa? de <>e c.,qucma.., da ·'contradilfáo", da "..;upera¡;áo" o u dn "dJalclic.t' .
ofcteccr ¡¡ pcsqutsa IH-.tónca exigindo. contudo. novas abordagem. po1s. afinal de pob cm Marx, amda que <;éno soc1ólogo e lw;tonador, é o que
coma-.. trata-se de II:CUperar (uwadir) os espac;os ínttmos da sociedade. há de mais inc.:an~avelmente hegelwno e qu..: p101 luncJona
É pesaroso que nao sejam. o<: do1s planos. c~for~o~ cumulativos e Como ímli!>, esscs esquemas ~empre atraem l .. j Para dar
apenas um exemplo vJo;ível da atualldade do n1.1lcfkJO
complementare ....
hegehano, obscr\e -;e o aprc:.sadu acollumento da mic1 o-
Días a:>slllala que:
históna ou da pesqui.,a blllgrá!Jca l .j A minúci.1 ou a
oríginalidade nao 1cm muna unportancia p.mt o lenor aprco;sado
O descortinar al. ~~truturas do quotid.ano .10 nívcl da ou o seguidor prcc.:oce. O que o fasc.:111.1 é um princípio de
01 gan 1t.a<;ao domicdwr. familiar e da~ par~ntcla~ e VILinhan<;.ts ínterpcnelrary:io dJalét1ca que dc~rerta nele o dm minho~.:o
.:on~tllUJ terreno difícil. ondc a hlstuiiOgJafi.l pcnclra hegellano sonhandn [. .] - . contando-me a mennr hiswneta,
c~poradJ~..amcntc com Je,ultados bnlhant~:-., porém ~cmp1c com
me t-ontnm a lm.tória de toda a ...ocJcdadc e de toda a épocn. [ J
cno1 mes dif1culdadcs úc doc.;umcntao,:ao E!>IC r[JnC.:ÍplO hcgch3nO marXJSI<I dcixou perceber seu \entido
Nüo sti\1 caminhos tnl hú\ e 1s po1 hi..,toriadore~ preocupados totaht:lno na pnlítica, ondc cotlSI!>tC cm acertar ~1s c.:ontas do
c.: o m me todos q uc p1 CS1>11pocm cqu i1íhno. funciOnal idadc, E~pÍ11to ab"oluto nas co'>lil!> de cada JndJvíduo, pois ~.:ada um é
eslabdJdade, conserva<;ao e "status quo''; e:-te~. vnluntanamente um microcosmo da din:irn1t:a sot.Jal. Ba'>la ahá)) cnunc.;Já·IO
ou nao. -;e vcem enredados nos conteúdos forma1~ e normativo-. assim par a dc))pellal u m do~> ma1<; anugoo; fantal.m.ts de~cntívoc;
da-.. fontc~ .. (D1as, 1995. 51. 2~ ed ) - o da Jc<.:iprm:idadc especular do mic.:ro e do mac1o
(Passeron. 1995 89-90)
É neccs:-.áno ~u..,tentar que a hhtória, como campo d1~c1plmar, dev,¡ se
manter oferecendo lettura-. ~obre qualquer soc1edade dtvidllldo-se. Tais questoes foram chamada~ com o objetivo de repartir com o lcitor ao;
metodolog1camente, nas prát1ca!-. h1stonognífica' do macro e do mtcro, do público e difkuldatles que <lCompanham a tdéw de colocar a hi!-ttOriografia braslletra em
do privado?
per... pectiva
Há que se lembrar que" aten~iio aos microuniversos, na maioria das vete~. Os jovens que cht.:!gam a.., faculdades de hi-.tóna e aO!'t cur-.o<; de pÓ\-
cl<í-sc em vlrtude da capactdade que o h1~toriador Jc~envolve de apreender ludo o graduac;ao hojc em dia Já sao lc1tores longínquo!- uo'> cl<iS'>ICO.., que apó-. os <1110'> 30
que tran:-.borda e c:-capa aos domín1o~ dos determlni-,mo"> (económico~ ou qualquet destc século passaram a di-;cutJr o paí..., a partir da releitura de no~-.a históna Desde
um). e tudo o que¿ -.ólido desmancha nas detcrmmac;oe-; os anos 70, nas vánas univer..,1dade~ do país, d""eminou--;e um novo debate entre
Ma..; ainda está por ;,;er dito de forma mai' det1da que se o "campo propíc10" hl..,tonadores, o que ~igntfica d1zer que o-. sucessores de Sérg1o Buan. ¡uc de
¿1 invcst1ga~fio dos un1versos microscóp1cos é delimitado a part11 da distancia que se Holanda, Caio Prado Jún101. Gilberto Freyre . .lo'é Honóno Rodrigues, entre outro,,
toma em relac;ao aos determinismos. de qualquer espéc1e, o e~foryo delimitaltvo é
\ 'UO.
11
10
eonu-~.:ttzar;un a partir de entao uma nova historiografía bra-;ilcira. nem -;emprc de quando quer referir-se a uma hi,tória da literatura. E mais: - que configura~ao
ruptut a e m rcltu;üo ao~ gran eJe, meqrc,, nem scmpre de ~:onunuid,1ue. historiográfica c0nft>n' (ou nao) autonomía ;t hi,tória da educac,:üo em relac,:iío ~~
l m pütll.. u Ju-, L<tllllttno-, e de~cammho-. entre o público en privauo. entren
1 história. É aqueJa um :.ubcampo de.,ta? Com quats recursos a filosofía abn..
m tero e o macroco,mo~. Ji¿ respeito :t... vtc tssitudcs da pe-,qui-.a ht-.tónca
rcpr~.:,c;ntada por pcsqutsadorc-, como <~queJes que compareccm a esta colctanea.
11
¡ rerlocu~ao com a h1stóna para. em "terntório estrangciro", problcmatlzar a
prodU(;ao de imagen:-. nas pdticas discurs1va-; da historiografía'? Em que momento a
Para 111\ C\tig,u a hi\lot iografia bra,iletra. a di,tanna de postuonamcntlh tlltelectualidade brasilcira tnterveto no debate político medmnte a evoca<;ao da
como "htstottador dn llltlTO" o u ''htstonador do macro", é neccsqíno flagrar a história como base de autoridade argumentativa? E, por fim. como a hl-;tóna e a
pe,qui'a ht..,tórict no \CU faLer-sL É necc......,írto por ls,im dt7cr. surprecndcr o' hi,tonografia se con\'ertem em produtos clo e para o mercado, ou seJa. o que é o
olharcs sobre as fontes. n;io olvidando que, muttas veLe' no ca'>o da pesqui-;a tivro de hi'itória?
ht,tónca .t lonte 1<17 o nlhar de qucm olha É pn.:u'o t.1mh~m ir .llém perccber a
No seu aspecto material um livro é um espa~o finito. Essa fatalidade
cmet¡,!.l!nct.t constante de nova., fonte-; para novos olhan::<;.
sornada ao; tnúmeras posslbtlidades que se nhrcm quando se pretende di~CUtll
O lt\ ro Hi~touografio lml\ileim em penpectil'll apre-;enta-'c an dehatc sem historiografía toma esta publica~üo ciente de que vem a público com !acunas
ncupar-se coma recupcra~ao Jirct.t dos íconcs de nossa historiogralta, ou 'CJa. nao Enseja-se. contudo, que seja a pnmemt de uma série de publica~oes que art1cule a
h<í um Lapítulo e~pecial dedtcado a Caphtrano. a Varnhagen. a Franci~LO Li,boa. ,1 produ<;ao permanente de uma história da historiografía brasilcira.
13twrquc ele Holanda, Prado .Júnior. Honóno Rodl!gue\, entre tantm. embora lodo.., O leitor talvez estranhe a dispandadc entre os capítulos quanto ao tamanho
tcnham '-Ido revi.,llado-, pelo' autores que comparecem ne,ta coletanea. de cada um. Constderou-se conveniente facultar aos analistas ltberdadc de
A "cartografía'' aqui bU!\Cadn ba-;eia--;e em Joj<, criténos. trazer a lu7 as interven<;ÜO, com um mínimo de monitornmento, para que interviesscm mov1dos
lontcs que tem condu7ido a pesqutsa htstórica no -;eu fa7er-sc con,tante. o que quer pelo dcsejo de opinar sobre os temas solicitados. Os caleido~cópio'> sao fabricados
dizer. evidenemr com quai., recuro.;o<: descnttvos, normativos e filológico..; o ,1cC~!\O assim.
ao p,¡-,-.;ado hrastlciro tem \Ido buscado ~lat<, tmportante do que rcavt\'ar a' Por fim. é necessáno enaltecer o profiss10nalismo de cada autor aqui
dt..;cussoes em torno da pertinenct.l de determ 1nada!\ pettodizwroe:.. de determinacla:- envolv1do. Cada qual retirou-se por um pouco de seus muitos afazcres para ~:ompor
ruptura,, de determinado' "sentidos htstónco,", foi ~olicitar ao~ pe'>qui,adorc'> que um texto inédtto para e~te HisrorioKrafia brasileira em penpecttva. Foram
aquí e..;tao que rclesscm as fontcs CLIJO manu-;cto os investe Ja condi~ao de solícitos, gcntis e diligente~.
intérprete' de momento., dect~ivos da htstória do Brao;il 0<: cnténos de cada autor A pequena parte de esfor~o que me cabe ne!>te cmpreendimcnto gostaria de
rcvclarüo ao lcitor que cm torno de "momentos dects1voo;" há uma compreensao dedid-la ü memória de Enio Silvcira. Altá~. qualquer tentativa de resgatar idéias na
multtfacetada. sem nada que sugira unantmtdade, e cu1a e!>colha de fontes para o história das idéias, o debate na história dos debates, é, inevitavelmcnte, um tributo a
accsso aO!\ mc-;mos revela o angulo vi!\ado em cada qual. ele.
Apcís tsso. o '>egundo mov11ncnto analítico quer trazer ao debate os
processo-; de "aqutsi~ao" de nova:- fontc .-. para ,¡ produ~üo de noves o lharc'> sobre o
passado. Nc'>se sentido, é ncces,átto operar um desdobramento na expostr;ao
Pnmeiramente, cncaminha-'e a di'>cu-;<,ao -;obre a rec.ep~iío de novas aportes e
escoJa... na historiografía hrasiletra. Desdohram-se de tats prcocupa~óe" ao;
tndaga~oes ~ubre a., pos.,tbtlidade-, heurí,tica' pre,entc~ na configura~ao de campoo;
stngulate~ na hi!>toriografia, como tlo genero. das attes e das cidade.'-.
Na 'cqliéncia, abre-\e espa~o as análtse'> sobre a pre<:cn9a do conhecimcnto
hi,tóri~:o na <11 quitctura teónca e metodológic<t de out ros campos epistemológicos e
di-..ctpltnares Basicamente bu-.;ca-'>C explicttar a emergenc!a de campo' histórico<.
patttculares. Tndaga-'>e, por exemplo. se O\ di lema<, entre o particular e o u ni ver<., al
tamhém interfcrem na imagem de históna que a literatura elahora "no -,eu interior"

12 13
da d1vulga<;Jo", o que oca~ionana a ~uh ... tituic;iio de ··um saber hrstórico arcaren
IIL"ItÍIUIII '<10L'I··. ~() Br<t\11. os j IVI"O'i dldatrcos de 1-lrstona pelo rn Por-
,,1 ,, lui,uueuh.. REGIONALISMO E HISTÓRIA DA
re-.guardam n scu ptíhlico (profc~o.~o.on:s e aluno<..) do ri~;co do nenhum saber enos
ma1-. que c~~a histona scp su..,pella ao<.. olhos do histonador academico •-Por
LITERATURA: QUEMÉ O VILÁO DA
<.;ep ~:omo for. o que acahou preqfl'ccndo tomo currículo de H1Mórra HISTÓRIA ? 1
va/lO da lnrcratJV<L do governo é e ...sc conteúdo consensual doo.; In-Tos didáttc 110
complementado pelo" parad1dático~. E na medrda cm que a' ed1toras paulístas t~~.
praticamcnte o monopt'>lio Jo mercado de II\To_, did;ítu.:o" de todo o paí~ (mclu\t\~ Mm isa La jo/o ll ';-.;tc,,.\tr,
de cdi~c~ks regional\), nao ¿ e.xagcro ..;upor que tal ··currículo" informal tcnhc
akanc;ado abrangéncia nac10nal Orante dev,e fato con-.wnado, a Propol~
Curnc ular de 1992 canr no hlZIO, mc-.mo porque a enumcra<;ao do, contcúdos _a
despeito da -.ua introduc;Jo teórica. que propüe llllla abordagem próx1ma .1 da ( ) lJUe\llonamenlo de Lonceiros ~ul:hJanLiallstas de liLer,llura e
hl~l()ria. um rcdut.1ndo ilteratur<L a obra~ lllcrüna~ e \Ua~
hrstóna do cot1drano tendo como eixo quatro temas - em quasc nada difere dos Já
con<..agrado-; ~uposta\ marcas de hteranedade e es-.enLialidadc. o outro
compn.:cndendo a lm.t!ÍI m Lomo rcpo~it(írio de Jato~ e eventos
O que os profe..,sore-; e o-; alunos fa7em cfetivamcnte com tudo r.,so é uma
outra hrstória, a ser pesquisada. tJLorridos no pa-;-;ado A 1111cn.,a ,unpha~an do ob¡eto -..oh
invcst1g,1~ao ,¡ históna pulvcn7ada cm 1nlind<ívcis hi,tónas
loca1s. construídas a p.trtir de inrcrcs'e" piUJ ,us, e a literatura
articulada como proees-;o instávcl cm urna rcde de rnu lt1plm,
<>istemas snc1ais mterauvm - ~uscita. como consequenc1a.
1
modelos mal'> dcn-.os e pJUJ Jlacctados [ .. ] nao htí tms coisa...
como os ~igmficados, as ohras de arte, a hl ... tónt~, a rcalldadc.
mas cm ve/ di-;so. '>lgni fil.:ados. obras de arte, hi'>IÓrias e
realidades. Sua nbJetiv1uadc mLuJti\ amente sentida pode \Cr
explicada t:cllno o re~u l tndo da lnler:-.ubJCi lVIcladc, ocas10nada
por um,l soLialita\-:lo bastante homogcnea dm grupos snc1ais
que c:-.t:lo integrados por 1111crcsses. ncccssidadc-; e 1ntcn~oes
sunila1eo; ~
E o;e amso o sabi<i ele Gon~alvc" Dllls vinha 1:-Hcar "pomo~ de
He'>péridcs·· na laranjc1ra de :-eu qumtal. Aldro\ando
e~rogueteava-o com apó:-trofcs:
- S.11tn fora rcgl(lnall,mo de m5 a,-,oniincia 11

m.tcn~ao dc-.te cnsaro é discutir algumas hi-;tórias lit.erária' na

A cxpectat¡va de que isto permita falar de lfi-.tóriu Litenírrn. Stm ..


das mmúscul<l'- para as maiúsculas! Na discussao. a-; hi'-lória<..
revtsitadas nüo scrao hdcl<; como fonte de infonndl)6es -,obre au tores, ob~<l'- e C<;tilo<..
que é o ofício mai'i comum tla.., história.., literária.... Kada disso ..
Serao !idas levando em contu ~ua e~pessura di-.cursiva, de l1nguagem
~fOduz1tfa pOI afguém, que faJa a partir de algum lug<~r, cm dctcrmmatfa 'oltliLt!fUO,
com CCIIO'> objetivos. tran-.fornJ.Indo--.c a-.-,rm '-Clls contcúdo-. - autore-., ohras e
Cl!ltlos- cm pretextos para a dr:-cussao do papel que o di-.curso da história liten1ria-
296 297
ou, vá lü... o dt'icur!:.o de algun.., de seus espécimcns - ensina sobre o que.: a Htstó Após regres~ar ao Bras1l. t:onltnuou a eulllvar a poe:,ia. n.t..,
1 tterál ia p0de enc;in:J.r o.;obrc outras cois:1o.; que nao apena. a literatura. ~ montanha' aurífera'> e na~ tcrr ••~ do ti ~amante. mas essas
O recorte será o tratamento dispensado ao regiOnalismo e a hipóte<,e riquc;:.as altamente mio o udu,·rram. Naquelas montanha~
história L;OlllO texto escorregadio e -.inuoso, que diz scmpre muito ma1c; ou m ..: ll dis¡;c ele - nao havw regatos ar<:¡ídtcos, cu¡o ~uave murmúno
menos do qut: parece estar dt.tendo. ' ' lUI!Q mc;pirasse melodioso~ verso~ As águas turvas e fctas do~
riachos apena!> suscil,l\ a m idéta\ ligadas il d1 rícil e ambtciosa
minerat;ao, que poluía essas mcsm.u. águas. (p.9)
Mas em conjunto. nenhum pollugues. m1' úllimos l:em .mo....
A LII'ERA'IlJRA DA A.\-IÉRI(..\ PORTOGl'ESA E ,\1 Boun:RWI<:K E SISMONDJ E No
conseguira escrcver <><>neto<; como os de Co~la. os quaiS \C
Ül HAR SOLIDÁRIO E DJD,\ IICO DF FERDI'IA:\'D DENIS E DE ALl\lf.m.\ as'>emelham, de manemt mai:-; em.:antauora. aos de Pemuca [ . ]
CARRETT
1:m ~onctm podem ser considerados os mais perlcitos da
literatura portuguesa. Por vezes, pcnsamol> ouvir o tom ingenuo
Friednch Bouterwek, profcs\Or da Universtdade alemii de Gouingen de amigas l;an~ues pottuguesas, que nos fosse reslltuído pelo
convidado por scu colega Eichhorn para a"'sumir a parte ibérica de u~ eco Italiano.
monumental História da poesw e da elnqiiencia (doze volume:-. publicados entrt Ma~ (l go~to francés, do mcsmo passo, exerl:eu cena
1801 e 1819). no vol u me dedtcado a Hi.1tóna da poesw e da eloqitihzcia ponuxu~Ja innucncta, embor;¡ meno'> acentuaJa, sobte a poe~ta de Co~ta
(-r volume, publicado em 1805) inaugura o olhar europeu que se volta para nossa (grifos mcus) (p. l 0)
literatura. Em scu texto, ao lcvantamento das influencia~ europétas em escritores
brasileiro<. (i<;to é, portugue.1es da América, no correto dizer dele .. / alinham-se Em ..,equencia ao projeto para o qua! Bouterwek contribu1 com a pune
conselhos sobre os mai<; recomendávei" rumos a serem assumtdos pela tnctpiente telativa a Portugal (e, por mclusao colonial, ao Brastl. .), a próxima obra a cuidar das
produvao ltterária da entao colonia portuguesa. poouc;oes literárias hrasileiras é a do suí<;:o Simonde de Sismondi, cuja De la
O lratamcnto dispcn'\ado por Bouterwek a Cl:iudio Manuel da Costa é Lilteruture du Midi de I'Europe fo1 editada em 18 13 e teve várias reedi<;ües Cotejo
exemplar da metodologia que tanto se utiliza de paráfrasc... e de le1turas clesta obra coma de Bouterwek sugere algumas semelhanc;as e outras tanta.-. diferenc;as
amob10gr:.íficas de textos literános, guanto do 7elo do historiador na enumcra~iio As pn meiras referem-se sobretudo ao corpus ao qual ambo1> os
das inlluen<.:ta1> europétas muntfestadas pelo poeta-inconfidente. E~te eurocemrisnw historiadores recotTem: aparentemente, Sismondi in~ptrou-se bastante na obra de
fica menos estranho -;e se levar em conta que, petra Bouterwek, Cláudio Manuel da antecessor (que ele, aliás, refere em rodapé), de quem chega a parafra-.ear
Co-;ta era, fora de qualquer dúv1da, um autor lusitano. texto-. Veja-se a semelhan~a entre o parágrafo no qual Sismondi trabalha elementos
A obra de Bouterwek trabalha com categorías que lembram a prolixa biográficos de Cláudio Manuel da Costa e o Já transcrito excerto de Bouterwek:
Bib!tmeca lusitana ( 1741) de Diego Barbo•;a Machado Na obra do prelado tomo o historiador alemao, também Si-.mondt mterpreta literalmente a., mesmas
portugues Barbosa Machado, a interferencia da crenc;a traz, para a história que narra {llssagens do Prólogo que Cláuuio Manuel da Costa apoe as <>uas Obras, texto já
em verbetcs trar;os de maravifhoso'' que podem ser crcditados a formac;ao católica COmentado por Bouterwek:
do autor. Já os proccdimentos agenct.td01> por Bouterwek parecem con verter para 0
mundo leigo. reformado e untver-.itáno do professor alemao, as hojc pouco Durante c.i neo ano-; recebe u ele cduc.a<;~O européta; m a.,
credenctada.., cmegonas de providencl(l/ismo e boa:. inlenroes: nc1:.ta cidacle, a cscola de Góngora clomtnava amda, e f01 o gos10
pesso.tl de Costa que o decidiu a buscar modelo~ nos anllgo-;
nos cinl;o Jno~ cm que freqüemou a untverstdade de Coimbta, ali poetm, italianos e em Meta~l.ísio De regres~o ao Bra\tl.
continua .. a a imperar, segundo mformacyoes do próprto poeta, a conunuou O!> seus e-.IUdo:, poéllt:O~ na' nunas de ouro e de
t:onompida moda poélica do marintsmo portugucs. Por sorte (e diamante, l:Ujas riqucta\ parece que nao o la<;cinaram Naquclas
•~so t:onslitm a pt imeira ¡nm·a de que estam predestinado a montanha ... d11. ele. nao :.e veem regato~ da Arcádia. cujo doce
melhor !01 ma~ao ), o jove m Co.'''' wmc<;ou a e~tudar e i mtlar os murmúno produza '>nns harmoniosos a torrente que '>e
poetn;; Italianos mais antigo~. ao lado de Meta~t:bto, durante ~ua de.,penha. turva e imunda, lembra ~omcnte a arnbiyao dm
e:otada cm Coimhra Ten1ou, mesmo, escrever ~onetos a manetra homens que 1 epresatam e t:ompurt:aram as á guas cm busca. de
de Peuarca. em língU<I itali.ma e leve cxito tesOUIOS. (p.23-4)
298 299
As diferen<;as vao por canta dos tra<;os proféticos e pcdagóa1co d E<. só nos arredores da Independencia hrasiletra que o redesenho do mapa
s· 1 F.l . . . . 1:>'
, lsmom J. • e se melina a vattcmar futuro grandioso para a produca- ¡· Xto .c.
!) o te . ' h d
d·l Europa favorece novo ful•rulo para oc; olho~ europeus que. nos ol an o,
1. . . 3' o tter¡¡ . .. . lftJCO , o . .
co on1~- p01~tu~ue!)a e a. ~~lanzar a cor loc:ll: isto é, 0 ~merícanismo que aplaufta dt oriz.am-nos. É 0 caso dos _próximos historiadores, o pnmetro dos qua1s,
pr~tl~r;ao ~e ~l~ns a1cades.' numa e~pect~ de apl1ca<;ao pioneira de id¿¡ d~ u.,ive. viveu no Brastl _por mutto~ anos. . . . . .
reldyao cntt e litewturu e .wcteJade <.¡ue cornam soltas nas dlscussoes d as IL¡ 1 A estréia de Ferdllland Dent~ em a!)~ untos braslietros deu-se e m S cene.~ de
rous le~ rro¡1iques el de leur influence sur la poesie de 1824. Nessa obra, o
0
Schlegel e de M me. de Stael, círculo tntelectual freqüentado por Sisnlond . grupo dos
. . . , . . l. JWIUrl' ·• · ·.
E a propos1to de Manuel Inac10 da Stlva Alvarenoa e de S'ta G/ . t'rances fa~cinava-se coma brasthdade que, cxpre.!>sa nas cores e formas da
. . e ' aura q - · ,1 ¡1nte · · . .
penclo1 para o aconselhamemo leva S1smond 1 a americanizar os olhos .... , Ue o · .vJaJ • , vai ser decisiva na sistemat1zacao com que. do11-. ano<; depot'> ( 1826), no
pdl· ·t11· d 01-.· quats, para a¡· · a produrao li'terária bras ·¡ ~.:. cruenos 1
cm d e ¡ere aval1ar · __ un:/U, · ·
, tfe l'Histotre Litteratre du porruga,1 sulvt · · r.u
1 R'esume• de f'r¡Lf of01re
·
. 1 T . , 1 eua. ann..._ Jírumc , . . . .
cam1n 10.s para cla. Com~ntanclo o que bem ma 1s tarde e com muita p _,-~,.. · , . re du Brésil Ferdinand Denb trataria da htstona da ltteratura bra~tle1ra.
,. . B ropnert-a- , <>'m ' x , . . .
S erg.1o u arque de Holanda va1 chamar de conquista de cidadania p , .. ~01\C. Já 0 subtítulo do Résumé' , revela ~eu carater normativo: Dent.s anuncta-o
·¡ . 7 S d' . oetl< a da . d . N
11at ure::a 1Jrast etra , 1smon 1 regl<;tra que ~como ··Considerayoes gerais sobre o c~ráter que a poesta eve assunur no o~o
·Mundo (p.35, grifo meu)", atnude d1dáuca que se derrama pelo texto: A pedagog1a
O principal atrativo desses poemas é ainda a sua cor local, g¡amfe.,ta-se tanto nas .reflexoe~ mai~ gerais ~obre a cultura__bra<;tlelra, c?m? nos
as imagcns sugeridas pelas árvores, pdas borboletas, pelas !'"-'momentos em que Dems se detem mmdamente na obrad: d1fercntes escntOJe!) . O
serpentcs da América; ou o convite para mitigar os calores de projeto educativo materializa-se, por exemplo, na sucessao de verbos normativos
dezemhro nas rrescas ondas de um regato. (p.26) (grifados por mi m) que se esparramam pelo seu texto :

O tropicalismo, ativado, rende ainda mai.s dividendos, ao prognosttcar para Se essa parte da Aménca adotou uma língua que a nossa velha
a literatura brasile1ra futuro brilhante e gui~á superior ao da Metrópole. É como se Europa aperfeic,;oara, deve rejeirar as idéias m1tológ¡cas devtdas
Si.!>mond i inaugurasse (do avesso, de vez que sua perspectiva é européia) o daí para as fábula!> da GréCia. [ .. } A América, estuante de JUVCntude.
frente con·ente me-ufanismo dos o lhos que viram e anal isaram nossas primeiras deve ter pensamentos novos e enérgicos como ela mesma; nossa
manifestayoes literánas . Observador atento da política européia que, ao tempo de e>lória llterá1'i.t nao pode sempre dummá-l::t como um foco que
elabora~ao de sua obra assistia a expansao napoleónica, Sismondi inscre\c na ~e enfraquece ao atravcssar os mares. e destinado a apagar-se
transferencia da Coroa Portuguesa para o Brastl os bons auspícios do completamente diantc das aspira¡;:6es primitivas de uma nac,;ao
desenvolvimento literário da colonia, para o qual, na retórica da pergunta que fecha cheia de energ1a.
Nessas belas paragens, tao favorecidas pela natureal, o
a transcri~ao abaixo, ele vaticina futuro resplandecente: pensamento deve olargar-se como o espetáculo que se lhe
ofercee; mnjestosn, grac;as as obras-primas do passado, tal
No mais aprazívcl dos climas e no mais rico dos solos, pcnsamento deve permanecer mdependente, nao procurando
fundaram [os portuguc~esJ uma colonw que ultrapassa dozc outro guia que a observa¡;:ao Enfim, a América deve ser livre
vezes a superfície da antiga máe-pátria; para lá transportaram tanto na sua poe~ia corno no seu governo. (p.36)
hoje a sede de seu governo, sua marinha e seu exército;
acontecimentos de todo Imprevistos conferem a na¡;:ao outra
JUventude e novas energías; e nao estarao pr6ximos os tempos Mais adiante. Denis anuncia o premio ao aconselhado abandono dos topoi
em que o Impéno do Bra~rl venh::t a produ7ir, em língua gicos: a inspira~iio na natureza americana o francés creclita a possibilidade de
portuguesa, dignos sucessores de Cam6es'! (p. 26) poetas brasileiros v1rem a suplantar os europeus. Sohdariedade tropical explic1ta,
de refolhos contrad1tórios, v1sto que a literatura européia (e o público europeu)
. el
Mas, assim co~o Bout~rwek, Sismondi ~onhecia a colonia que ~ra~1:0 ~ 1
.
literatura que por aqu1 :-.e faz1a apenas de ouv1do, e (tal vez ... ) de lettu1'•1 · .ef.O 6 constitui matriz da linguagem (inclus1ve das metáforas) e horizonte em que
de poesía·
(re)mterpreta9ao de tais leituras inscrevia-se dentro de monumental
continental De la Litteratw e du Midi de l'Europe no qua!, tal vez, nao fosse de: 1
pro!- A aurora da Grécia, com scul- róseo:. dedo:-.. abnrá aquel~ céu
relevo o papel representado por Portugal e suas colonias ... ofuscante de esplendor, cujo bnlho rana empalidecer o mcsmo

300 301
fh>t'l.t~ dc,,a~
1
/\poi., Se •':-. rq•l(>c' lllrtn·111 a llitllttl'.t;t, 'l' -;e
f'L'IIL'lf¡fi'L'Ill J.t ~/,IJJdt•/;¡ <llll' d.,<>k'r l ' ( l' tkrtl ro d,· !'""'''" N u me:-.mo ano c111 l)lll l kn1.., I.Jn<..," -..:u N< .\111/W t 1X2úl. AlnwrJa (lanl'll
\l'I:IO lfii,IJ\ ,¡ 110\, l:tfll'/ 110\\th IIIL'.\lrl'\ fo:-.~a ll.tlllll.:/:1, llllll(o
~scr~' e u"'" .:!-:·, ... ;,,,¡" ''" lllll'llct e tJot'\ltl r'olfrt.r.:ue'u publll.'ada ~.·oJtHI
ff; .• :.ír:.:
la1 or:i1·L·I .ll> rk'l'rt\'oh lllll'llltl do . ~.:11111. l'~p.ir/l' pm lnd,¡ parlL'
jntrodltl;i'io a antolO¡.!Ía qu.: tl.'tínc 'oh o IÍIUio d.: l 'aii/<1.\0 lil.\itono ou f111<'1W.\' rlo1·
'L'll' L'lll',lfllo,, cirL'Unda ''' l·,·n¡n ,, 111ha11o' l'IHlt "' "1''' helt•s
don,: ·~ nao l: l'(lfllp l'lll ll0:0.\,1\ l'ldade,, ondc a de''' •nhv.·('fll.
atlfOH'' ¡)()r/llgll< vn allll,l:til <' Jllot!cmo.l :vtaJ ... larde a Hi,tríria é rcpubl icada elll
Oll<k IIHÚI:" le/e~ niio d fll'rll'hem lp 371 volullll' inJ~.·pendt.:ntc. com u títulu !Joi,JIICÍO du J¡¡,,,;,.¡(/ ,¡o 1'"1'\'Ítt f'lll lilll!llo
¡; Ja,¡ i m:n el lfll(' n.io '" l'llumrrc no Rr.htf uru
1 ,., dalkll ""'''lile pOtW!:IIl'lll. .
Conpcr r:•ra <f.ll •• hrrc•p:¡ llllJ:l llk:r,¡ l'\,11,1 dl'""' IIIOll\ ~uro, () lllO\ llllt:nlo Jl~ IL'LKiagt.:m de u m te\ll' ljtiL' mJgllwhncnle t.:unstlltll:l
rciii.IIH''ll'llh:' '·•<:,uu .urrd.t rr;¡, lhlll''>l.l' das caprlo~nra, aprt:,...:nta.,)o de antolngra, dando-liJe " dtll•llhlllli.I dt..• uma publi,:at.ao '"1lad.J
Jl'\Gta'. ¡ I' :" 3: repd ._,, llllll \'arnha~en qt11.:. L'lll 1'<:"( rqmblict e int11ul.1 Hll'forio rla lttewtum
bnHiláro o en'<IIU IJ¡,¡(·l/ ru•. qul.' .n,~in.tlml.'llll' :k'('l!)l'·•nh 11 a 't'IJ l ·l,irrll-~H'
1) '-''bo,·o hi,ron¡;o tk lknrs Ul'Upa-.,~,· d~.· irHímcro... c'crl!on.•, cuja ¡.,,.t reciclag:l.'m t.:'>ln:lla o pmcnte:-.1..1• t:rrtrc .JIIIOIL>gi.t' ~.lll'•ttína' lilt'J:tri.I'-
(I/IWnr anir/{((/e '~ iHtll~nttca IIH.Jtkrcntetncnrc pcln nas~.·Jilh.'lllo uu p~.·la ll.:márJca 0 e L tahei' clwgiiL'. lltclthl\l.', ;, Tcona Liter<irra.
n~t·tle pl.'la frdelrJadc ilJwture/a rrnprcal e ah,tndono da linguagcm pn~llt',J :urnpéia 1\ am¡)tll<ll;:iu Ja antolug1a qul' ele-; IIHrndutiam. no ca...c1 de l1arretl t: de
a quaiJdack pnétka. pontilhandt 'éli !t.~.\lo. quer Je cxcertos comentados de Varnhagl·n , tki \a-o' pairando no ar 1-. acar ret,t a t.:orhtnt~i'io d~.· unt out ro ... ~.·ntido:
poema .... quer de alu'o'-'" a hi,tonadores d.t ll!cratma que u prcccderam. no crHJIL:\tn de uma antologra. o l.'n~,tÍP qu ... a mtrodu;, ancora 'lla l'\Í,Iellc l.t 11:1
,\o 'L dL•bru<,:ar analirkameme 'ohrc O\ te\to:-. que Lornenta. Den" n:lo abre ~ele~an dn' pocm.t'-. ÍlhiiHrando ao kiror da nhra quc a rclk.xúo da !Ji,lorw li1aánu
m;ío do, \,!In re., que d(l\·oga L'. f¡l'f a propo,¡,¡ Je ruptura com a mitulogia d;í,sica. se exl.'rt'l: 1.' (11110 forma dl.' lcgttim,t<,~to Ju qul' loi ,,¡1, 11 l.' prl.'senatln na.., alllnln¡:i(ll.
C.\ proba em Gurvaga 'Cll
J)e..,aparectd,ls ,¡s poe,ia,, por0m. torn.t-\l.' tn~vtlavl.'l a naturalila\ao do dl\curso
ongrnalmcntc htstm rtantc. dado t¡ue nün ma1' e ... tao preo.,cntc~ o' te.\to' que.
rcircrnun Clllprcgo úc llld,ifim" MlgLIIú.t, pela muologra. e de :-.uo;tl.'ntandlH), <.hn am-I he crL·dibi litlade nu. ao meno'. eoncrerude.
''" llla~ de J10C)lf0 paslor" uif'unúrJa\ rm Fontcnelk Ulli;J \ Cl Relati\ amente a Chíudio Manuel tiJ Co,ta. Garrel! allcrnadamente lnu nt-
que tuúo ""' pout:o <'onv..:m ao pocla hr.~,,kllo habitante úc lhe ,, inl'lul:nci.t européia ("Dc1xou-noo.; algurh -.onclo' exl.'elente'. e rivali/Oll no
rcgicico; onde a n.llurc;,, mai' oo;lcn¡., C'>plcnJor e rna¡c~t.Jdc genl.'ro de Mct.t-.ta'>io. com a' melhon.:s can.;on~ta' do delicado poeta italtann' l e
(p.66 7¡
r~cnmlll .t-lhc , ¡ p.trcrm6nHt de Wll<'lintmdatl<·. como Dcn1,, Je.:lamantln mat' cor
Tami1L;m Cl<iutlro Manud Ja Coqa local e mai' c\ori-.mo cm 'uas c.:ompo~ic;oc~:
é réu do me:-.mo lllUe<.,c J<Í vcl
proced,mcntll tle rccida~cm lllllologr~:a:
a' m:qc,lo\a' e novas l:cnao; d.l naturct<l naquda vasta ¡~·grfin
dcnam lct dadtl a '''U'i poetas 111.11, "''grnaltdmk. maJs
pcrt:dJC-'>C que co;ILJdou o.,ohrctuúo O\ Halt.lno,, ma' (,¡1\ ct se drfcn:nrc . . tm.tg~·no; cxptc~,¡)c.., ,. L',!IJn. do que nek' aparece. a
lenh.t tornado dcm.J'>~:tdo ~.·uropcu na' su;h mcláfora' 'LI,J~ edUt:a..;ao cumpl'1a ap.tgou lhc' 11 l'\j1ÍIIlo nacwnal : p:uccc que
t5doga.., 'L nos a lrgur ,JnJ 'llhnu ......as a:-. lm lll,h poélicns i mpmta\ o.,e rc~.·cJ.Jill t.lc '-l' rnn,uar .Jmcril'aJHl'.. e Jaí \'Cill uma alct.u;;io e
pcfw, \el'UJo, antC/It ll'l''>, ~111110 'C lS h,lhll,llltl'\ tfds carnpanhas rmpmpncd,Jdc que u;í quchra L'lll :-.u;Jo; lllclhorco., tJUaiJd,¡dc~.
do Novo J\1unuo de\'C.\\Cill tle\l'llt:.tlar lfli,Jgcrh 'cmclhalllc~ ús (p.l)O¡
anll'llonncn rc li'>,Jda-. . tp 6 1J¡
A propÓ\ItO dc Gnrl/aga. a alrlud~.· il<lrrnati\ ~~ -.obrde\ a ,¡, 11tl'orntat;<-1es
t\a, re,tri~·óe, de Den" a obra tk Cl;íudio. h<t ecos de Boutcrwd. de
~1.\llJondi. apont,llldo (l Lonjunto dd,~-. p.u.t o COil\tante n:torno, na hi ... tnria d<t
l'actu,u,. Scu tom pte:-.cntJ\ll tr,ldu; \l' l'lll curnl'llléÍrio' au que C\l<.Í c/111<'1111' J.1
poesta Jc Gonta~a: Se lwtii'C'.'·''' f"J/ 11/llthu (llll fe' rle /he .fu~l'l ulgun1a < c' IIHI/LI. so
lttcr.tllll a hra"lc" "· de uma e'pécie de rndt'l. ¡,éiO orh11al. ora ccntr .ttla na 1--.urop.t. 111c (¡twt~wna noo do tfll<' f<'~. tno., do lfll<' rl<'t.wu de Ja::t 1·. l:m pleno l.'\erdcJO de
ora centr.tda n.t Amérrca
um,t pl.'dagogia da ltteratura romiintrt.:a. G.meu Íll\l'llt.IIÍ.I elelllCiliO'> da raun.l t.: da
1-::uropeu tk
Cflfl'\{/()/1.
lll.tl:-. ou arnerrtano de rneno .... 11/fl\' Olf 11(1{ 111¡1\ ; 'flwr i.1 tht• flor.1 cuja pre'L'Ilt;<t no plll'lll,J . ao conknr-lhe aurl'niÍl'a .unericanid.tdt.'. alllllentar·
lh<'-lll u (fi/Uiidwlr·
302
\().)
Nao causa e'-pécic ao zclo.,o crítico da identidade cultural alheta ser trancé tlll1a<;aO final do parentesco entre antologías e histórias literárias F""a alianc;a
-ergo t>nrorcu - n mndeln pr0p0~t" ~ J!ldcrna va1 en~,;uulwl c:xpiv.,:--dU tanto na pioncira e popular "érw Nnnm· (lantrrH
EJ¡LOfU Agir, como, um pouco depo1s, as utilís-.imas !:>énes Ja PreH!nra da
Exrli<.:o-mc. qUiscra <.:u que um ve;. dt.: no~ dchuxar no Brasil ra porttl~uesa e Presenra da literatura fnasileira
cenas da 1\r<.:;klia. quadrm lnlt.:iram~,;nt..: cumpeu~. pllltal>se os E-.tre•ta-se. assim, o parcnte&co entre Jw.tóna literátia e antologías,
~cu~ painé1~ <.:t'lll a~ corcs do país ondc o ... situou Oh' e quanto -o;e entre amba'i curio..,o c1clo de retroalimenta~ao. a históna lnerána
nao perdeu a poe~ia neste fatal crro 1 'oC ec;~a amável. -;e cssa .;e produz a part1r de uma antología torna arti~ulados e coesos os textos da
mgenua Marili-1 fo....,c como a \'¡rguua de Samt-Picrrc. sentar- ::ologia que íntroduz Por outro lado. os textos con<,tantes da antología tornam-sl?
'c a ~omhra da' palmcuas, e enqu.tnto lhc rC\Oav:un cm torno o
¡¡mite e o horizonte da reflexao htstónca que. aliccn;anJo-s~ naqueles textos e nao
cardcal ~oberho com a rúrrura dos reís. o sabiá. terno e
mclodio~o. que saltassc pelo-; monlcs c~pcssos a cotia fuga? outros. erige-os em canon, e a..;¡ mesma canonl/a.
como a lebrc da Europa, ou grnve p<lssca<;<;C pela orla <.1,1 ribcira Januário da Cunha Barhosa, que entre 1~30 e 1834 dirige a lmprensa Rég1a.
o tatu ec;cammo cla ~e cntretive,sc cm tcccr para o seu armgo e organiza cm 1829 o prime1r0 tomo de c.;eu ?amaso brmileiro. Na<> considera96e..,
scu cantor uma grínalda nao de rosas. nao de J~mins, porém de Ao piÍ" . ~~ ·r b 1
11tco entre as JUstt 1cat1va<; para c.;ua o ra. e e1~cam-se o amor a· patna,
- · a 1

roxo~ marlír 10~. das al va!. flore' dth vermclhos bagos do aJis..,üo CJ\ilintória da<> antologi,t<. e histórias 1Itcrárias ~. acre...centando-..,e a elas a
1 1
lu~troso cafe¿c¡ro; que pmtura, ... e .1 de ...cnhara com :-.ua n.uural cfificu)dade de ilCC'>'-.0 a<; obra<. antenores \Obre a literatura brasileira. a precaricdade 1
gra~a o ingenuo pincel de Gon;.tga' (p.9 J) ctaconst.rvac;ao de manuscntos e as vantagens da impren'>a.

1-'ica convidativo conduz1r ao implo~cável diva de Sigismundo eMe11 Emprend1 esta colc<;ao da-. mclhore~ Poc-.ta'> dos no%o~ Poetas.
pnmeiros histonadores Je 110\'>a literatura, CUJO'i ensaÍOS dao supenoridade virtual a com o iim de tornar amda mais conhecido no mundo hterário o
literatura bra..,ileml sobre a portuguesa. Enguanto intelectu<us europeus que se GeniO daqueles brasile1ros, que. ou podcm servir de modelo.,,
ocupam de urna literatura ,unencana, vivem ambo'> o papel de agente~ duplos: -;ao. ou de estímulo a nm.sa briosa mocidadc, que Já come~a a tnlhar
de Utn laJO, homens da VIrada f0111Uill1Ca, filhos que prCCÍsam matar O pai; de OUtrO, a estrada da~ Bel.ts 1 etra~. qua~e abandonada nos úhimo' vinte
homen~ de seu tempo, o.;ao pa1s de si me~mos. e a~~im, cand1Jatos exemplares ao
anos dos nossos acnntcnmentos PoiiUCO'>
Os que se deram a scmelhante t<ll era na Inglaterra, Fran~a.
papel Je vítima deste Édipc de espelhos ... Portugal e Espanha, de ceno nño t1vcram tantas díficuldadc~ a
vencer, como a-. que cncontro ncstc paí~. ondc a lmprensa é
moderna, e por i'>!:-.0 O'> esenio~. por In<lls de uma ve¿ ..:opiados,
A HISTORIOGRAFIA D A LITERATURA BRASILEIRA SE:\1 SOTAQUE EUROPEU podem ~er. em mulla'> partes. diferente' do' que saíram da pena
de ~eus autores.
A hi<;toriografia da lneratura brasile1ra come9a a perder o ~otaque europeu
no projeto que a acopla a organiza9ao de antologtas de nossa produc;:ao poética. . Em 1850, os dois pnmciros tomos Jo Nmilégio da poesía brasileira de
confírmand0-c.;e aqui a hipótese de Carpeaux" para que m a alian~a Varnhagem 16 vcm u luz, com subtítulo que apresenta a obra como
antolog~as/hi'>tórias da literatura é rnuito anliga .
No Novo MunJo, e particularmente no Laso brasileiro, fonaleccm a históna colc<;ao da~ mai' not:Í\ e1s composi~úe~ dn'> poeta~ bra.. IIcuns
literána <h antologías organiLada" com o obJetivo de resgatar do esquecimento a falccido~. contendo as biografía., de muito!. deles. 17tudo
literatura aqui produzida quando ainda nao se di..,punha de imprensa precedido de um fn,;uo lmtórico -,ohrc as letras no Bra~II.
O Pamaso lusitano ele Alme ida Garreu, que incluí autores brasileiros, foi 0
modelo seguido por Januá1 io da Cunha Barbo., a, cujo Panw w brasileiro ( 1829)
in:>pira. em 1840, Pereira da Silva que publica o !>egundo volume de -;eu ParrzaW
brmileiro, o qual, em 1850-18~3 ressurge como paradigma quando Varnhagt:JU
seleciona o Flonlégio do poesw brast!etra, obra sobre a qual Sílv10 Romt:ro
::'a Esta obra de Varnhagcm. e ..,crita num paí.., j<i indepcndente, polemiza com
heran~a IIterána portuguc..,a. bem como com o policlélmento que. em nomc
_,;o. lntelectuais d'além mar queriam exercc1 sobre as letras brasileira.... O
e<;tabelet:eu cm 1888 sua Histf),if¡ da litewtura bra\ileira, numa cspéc1e Je rilégw mostra ainda tnHro" de um pro¡cto hi,tórico ma1" geral no qua! o

304 305
americanismo (forma de designar, cntao, o regionalismo) é uma <.la~ categ . A esta implacável censura do canibalic;mo segue-se mventáno de funy6es
f ore "d .
t mente cnvo 1VI as e constantemente Invo~aJtt:>.
onas llh:
.,... .. ,a, ret..olocando-sc, no texto, a ten sao entre os p0'1 n-; un1ver<:<l
. 1/ reg10na 1. que.a
Em Yarnhagem avulta a oposi9ao regional/universal tao assídua h" d' entño continua e continuará uma das mais recorrentes obsessoes da h1stóna
. , . d . B ·¡ , . , na Istñ...:_ r t
l tterana ma e tn razt . Ja vtstvel e pressuposta em obras anteriore ........- atura brasJieira.
Varnhagem que e la se explicita: quando de 1847, o crítico expoe os crit's•. é en. r Em texto de 1unho de 1869, muito apropria<..lamente intitulado Carta sobre a
- d e poemas. d o Flon·t'egw.
nortearam a se1ec;:ao enos n...
'1\IIC rura brasílica, que re~ponde a art1gos . do m.e~mo ano pu bl.1cad os no JOma . l's,
. e Júnior, no verdor <.le seus 21 anos mscrcve-se nas hostes dos que
nao queremos por l!>SO diL.Cr que ofcrccemos O mclhor dcsta, . ~:J,~am a amencaniz:.ariio plena da imaginac;:ao poética. Mas os termos desta
porém s1m o que por mai!> americano ti vemos ... ~ndicayao continuam muito próximos dos que discutiam o assunto Já no comec;:o
~~culo. A reivindJcac;:ao vem da Europa romántica proclamada por Mmc de
Opondo de um lado o que é bom aoque é americano, Vamhagem sug~ e seu círculo:
que ambos os predicados - qualidade estética e americanidade - nao andatn,
necessariamente, juntos. E que, no caso de discreparem, sua antología favorece a Deixcmos ¡t antiga Grécia os seus risonhos bosques
americwzidade, amparando-se em argumentayao nao muito distinta daquela de que povoados por ninfas e sátiros, a~ suas musas e os seus deuses,
dois séculas antes lan~ara mao Barbosa Machado para justificar o vemaculismo de o:> scu:> heróis e os ~cu::, pastores, as suas montanhas e as sua:>
fontcs: nao passem da Índw as suas cxtraordinárias crenc;:as, a
sua obra.
sua ru1do~a teogonía e a~ Jutas estupendas de seus semideuscs,
Em trecho subseqüente do mesmo prólogo, a!-. razóe!-t da eventual antinomia de que sflo verdadc1ros interpretes os Vedas, o Mahabárata e o
qualldade versus americanidade ganham luzes, quando Varnhagem p6e na mesa Sncuntala, fique a Alemanha com a sua atmosfera carregada e
suas crens:as e pressupostos relativos ü qualidade artística : a:> inspirar;oes sombrías que lhe produziram o Fausto e o
Werther; permane~am na ltália os páltdos gondoleiros, o scu
enganar-se-ia o que julgasse que, para ser poeta original, havia azulado céu e a sua poesía cismadora; nao transpon ha os montes
que retroceder ao ABC da arte, em vez de adotar e possuir-se da Escócia o eco dos misteriosos .;antos do bardo Morven;
bem dos preceitos do belo, que dos ant1gos rcccbcu da Europa. deixemos, afina!, il Franr;a a sua literatura multiforme, porque
novos e brilhanles mundo~ se palentearam, nos voos da pocs1a,
Varnhagem discorda, assim, frontalmente, das normas que os primein» desde que Colombo, transpondo as balizas da velha navegac;:ao e
historiadores da literatura bra~ileira trac;:aram para ela e, no mesmo gesto rebeldt. atirando-se aos tenebrosos mares do ocidcnte, franqueou um
insurge-se contra o espírito moderno patrocinador de todo o projeto ocidental de imenso estádio as imaginac;:oes ardentcs e aos espfritos
história literária do qual a sua obra faz parte: para o Visconde, existiam, sim. empreendedores.
De impress6es completamente estranhas, de uma nalureza
preceitos do Belo, que vinham dos antigos e o habitar deles era a Europa ...
liio cheia de esplendores como a da América, dessas florestas
Mais adiante, ao ocupar-se do nascente indianismo (também parente, e agora
se..:tllares, desses rios colossais, nao deve por ccrto surgir senao
ancestral próximo ... do regionalismo) Yarnhagen também ajusta comas com anrigliS urna literatura original, melancólica e ao mesmo lempo
sugestoes de Sismondi, de que certos árcades sairiam lllcrando se substituíssem suas pasmosa, impregnada dessc poderosíssimo sentimcnto religioso
rosadas pastorinhas por acobreadas índias: mais uma vez o texto de Varnhagen é do que por si só se expande toda vez que o homem curva-se ante o
contra, e. porque do contra, de:, venda o~ limites de suas-apostas no americanismo: Senhor, abismado pelos portentos da crinr;ao.
Pocs1a soberba ! poesía filha do assombro e da admirar;ao !
O contn1rio [isto é, o abandono dos prece1tos do bclo] podía Foi da contemplar;ao uos magníficos cspetáculos do encantado
comparar-se ao que, para buscar originalidade, dcsprczasse novo mundo, que nasceram os Ercilla, os Chatcaubriand, os
todos os elementos da civiliza~ao, todos os preceitos da Cooper, os Durao e os Basílio da Gama. (p.l 0)
religiao, que nos transrnitmlm nOS!>OS pais. Nao será um engano,
por exemplo, querer produ1.ir cfcito e ostentar patriotismo Já ve o leitor pac1ente que estes primórdio<; de nossa história !iterária foram
exaltando as a~oes ele uma caterva de canibais que vinha t-..fOntn::~rl~r por repeti~oes, como se vé no texto de Araripe que no sentimento entre
assaltar uma colonia de nossos antepassado~ só para os devorar?

306 307
nmt1co e proféuco (nao obstante normativo) dos pnmeiros estudioso~ uc n ante~ de tudo, é certo Yentimen/0 ímww, [grifo meu] que o torne
literawra nhrc esr.w;o para a pa1~agcm amencana. entregando se a urna ptospe 0~lt homcm de 'eu tcmpo e uo !>CU pJís. ainda quanuo lratc de
que. nao obstante a r!.!llgio~idatle, tem eco" de um ceno pos1t1vi•ano. enriqucc c~lo as!> untos remotos no lempo e no C!>pac;o. (p.804)
mu1to a rela~ao litcratura/soclcdade, bem mms frouxamcme postulada por Mrr~e~ll
Stael e '>t!U~ ~onv1vas. • -- ·de implacável balanr;o da produ~ao brasileira que empreende, o texto de
mscreve suas observac¡:oes num outro patamar Av mlorizar diferenlemenre
¡Jjft'tt!llfes modalidade\· e diferenres género\ lirerários parece fazer. com as obras que
3.SIS'l EM \TIZA<;ÁO E ESPECIALIZA( \o NA HISTÓRIA DA LITF.Rnult\ precec.km. o _mesmo que ~lencar. preparando a chegada_do seu ~ guarCi!ZJ fez com
0
BRASILEIRA: DE MACHADO DE ASSJS AO REGIONALISMO EM GRAN))¡ A col!fálerarao dos twnows de Gonr;alvcs de Magalhaes. Ass11n como Alencar
OCULAR DE ALCEL A~tOROSO LIMA a epopéia llldianic;ta opondo a ela o romance indianista. Machado
l t;:.~ualiti~<l o romarKc que nao sl.!ja o romance de amí/ise mterinr. ou seja. o dele
Onginalmente e..,cnto para o jornal Novas Mund(ls, que circulava nos próprio. E ~omo se o mestre M.u.:hado prepa~asse o b~rr;~ espléndido. Afi~al. em
Estados Unidos, o Urt1go Notícia da atual literatura braslleira: illslillto dt 1873 já fazm u m ano seu romance Ressurre1cao e nada md1cava que o localismo c;e
19
Nacinnalidade , de Machado de Assi<; é de 1873 e jú no título, registra a aparente incluísse ou fosse inclUir-se entre a'> estratégw-; romanesca\ machadianas.
hegemon1a do (por assim dizer) localümo no momentoso embate entre o cá e 0 Id
que tanta'> palmeira<; e passannhos renderam a Gon~alves D1as. Do romance plll amente de anál 1se r.lll~~i 1110 cxcmplar
A supremacía do localismo de que '>e ocupa Machado nao é apenas 0 da temo~. ou porque u nossa índole nao no:- t:hame para aí, ou
produs:ao IJterária, ma<> também o do discUI so sobre a literatura. da crítica e da porque ~cja e~ta ca..,tu de obras ainda incompatível com a no~sa
adolesccncw hterária (p.805)
hlstóna literána, dando fon;a a hipótese de que tanto a literatura quanto o di\curso
Pelo que respeita ü análise das paixoes e caractere!> sao
sobre ela se retroallmentam harmomosamente. nao obstante a.-. polemicas que ls
muito menos comuns os exemplos que podem satislazer a
vezes parecem azedar o 1díl10:
crítica [... j Esta é, na verdade, uma das pa1tes mats difícc1~ do
romance, e ao mc!.mo tempo das mais supcnores. Naturalmente
Quem examina a uwal lneraturu bras1leira rcconhece-lhc logo, exige da parte do e!>tntor dotes niio vulgares de observa9ao que,
como pnme1ro uac,:o, certo in..,llnto de nacmnalidacle Poe!.ta, inda cm lltcmtura~ mai~ .tdwntad,l\, nao andam a rodo nem sao
romance, todas as formas literüna~ buseam vestir-se corn as a parttlhu do maior número. (p.805)
<.:ores do pa1s, e nao há negar que semelhantc preocupac,:ilo é
smtoma de vnalldade e abono de futuro [ ] (p 801)
Nesta espécie de legi ~la~ao em causa própria, e que de qualquer forma nao
l· ] man1festa-<;e a), vete~ uma opiniiio que lcnho por erronca. é
R encanta com nada que se aprox1me do regionalismo, parece ouvir-se sub-reptícw
a que '\CÍ rct:onhecc Cl>pírito nacional nas obra~ que tratnm de
assunto local, doutrina que, .1 ~cr cxuta, lim11aria muito os 4ueixa de um escritor ainda nao ungido pelas ben~aos do público, e que tinha a
cabedais de nossa literatura. (p 803) br-lhe o;ombra, por exemplo, a verde-amarela, nacionalistíso;ima e muito
beriada pelo leitv; figura de Alencar no romance.
Entmndo na questao, e nao obstante o travo naturalista que reponta .. Senda, n0 entanto o texto de Machado urna espécie de panorama para
expressao in1·tinto, Machado comeya a desbastar a assertividade de receiruá;i<~ que; t
«rtranxe1r01 -afina! Novos mundos era editado em Nova York - é só na caudalosa
;¡¡ Clb~ de Sí! vio Romero, em sua H1stória da literatura brasileira, de 1888. que o
tema vinha acumulando em defco;a de sua po<>i9ao convoca um tal sentido 111111~1:..
nacionalidade, em tomo ao qual gravltuna uma espécie de alma ntJCU' com a tradi9ao crítica e h1stórica questao as-.ume a sistematJZar;ao até entao
personugem esta que fa7 carreira nos estudo.-. llterános brasdeiros: e na qual nao se di;;far9a- ao contrário, se al9a- a imensa simpatía de
pelo niio urbano, sobretuJo se o nao urbano vier do norte.
nao há dúv1da que uma llteralura. sobretudo uma lncratura E..,ta obra de Sílvio Romero, a muitoc; respeito'> fundadora e a muitos outro~
nascente dcve pnnc1palmente alimentar-se do~ a~suntos que lhe de águas 20 inspira. a partir do fim do século passado outra~ tantas h1stórias
oferece sua regiiio; mas niio c~labc lcyamm. doutrin.J'> tao que, aliás, multiplicam-se na e~teira de um desenvolv1mento ma10r das
ah~olula~ que a empoh1cyam O que '>C devc cx1gir uo c~clltor, culturais.

308 309
Da 1\cadernra Bra-.ilc!ra de Letra ... fundada cm 1897 <lO\ cur... u ... d~ Let. f:no mtennr dL'\ta suct·..,sao cronológtcl uc modo.1 de de.\ignorito Je no:..'>.t(Sl
....... 1, ...... ~ .. :... . 1~-· ·l ,¡ '-"'-'
1,.; ... 1 vv \1 '-it\,.U~~hliJH,,.JI
.. . _ . . ·. . ra,
"•nhJ"•" lhl 1.\o..l\......_u.-. lt.l\,. .... (.l\. : '-\...\.UHI 1\J lll'lHULHHir..U .tU flles
.-'\..1\..,
~l.• 11J¡J·'''I
~n ~
n·t•·•nn·lll>-.1 c1111' lrma l''lahclccc a' -.ubdrvr,oe' ncnor,¡f~ea:--
.\mnrn;;n
· · ... ( h rb1IO,t.!ntr·ra o h rrgatória· 010
t . . .- :-- .•

tt•mpP que crhe¡a rnu 1trp 1rca\=ao - ·'ue h ·''torra-.


• 1·rterarra dt: dentre a' quars o rcgronalr-,mn \JI de..,crnoher-...~.. ..:nquarrtucontcxtn e cnqu,mtulrrnitt'.
Cllr\OS ue Letras .. ) ahrL' espa<;o para o erv.. arsmo que. meno-. judrct~trvo do que
<:rrtrca e tamhcm meno' lrn '<lnnente cronológrctl do que hi'-l<irias lrterárra~ [,¡~,. hr:"rlerrr'IJ • lrt• 1 ,írtn. qr • 1 n io l'HI ' .mr' rcani 11111 dt•
tradrcwnar:--, rcl orrn.¡ta a Jr..,cuss<w do prohlcnw. · aparencia dm IL'Illl'o' L·olonral' t' .rinda nii11 the:::ma ""
1'\.t ,ua Pt·quen" hiHon¡ ''" llft·mrum hranleira de 1'71~. J:.Í poqeno ret!ton.rJr,mo tk a11 Jo, tenrr• ,., uc ho.Jl l rr,Ktcr 1 , t•·'-l'.
~·,lwtiallllentc duranlc o . . ~:~..ulo XIX. por unr.t c.:orhC'Icncra nJcuor
portanto a uma pmdu<;ao ha-.tantc ... rgnilicatr\a de /iq tio núo-urhana. Rona[d d;
da naL't<rn.tliJ.rlk-. por um dt:,CJ<I t.:'pccial de e\prrnm e''·'
(\¡n alho nüo 'e Lklonga por corhrdera~¡-,L., ktiriLa-. .,ohre o rcgionalr'nlo. Sern
nat'l"naltd.ldc n~rqurlo que patL.... I.t m.u:.. pr.>l'unJo e ~in<xro, e por
IL'.'>e' tll'lll p<U .\oc:--. leva adrantl..', L' agor,r de torm,¡ .lll<171guada. o rcconhccimento de
Ulll.t 111/)(/n·twto <'lit 1'!/ltt/\ CIIIH'IIfl'.l tflll' ahnm~<'l<tllt , Jli<in <11
urfercnll!'> 1 ('/(('/l{l'.\ da literatura hra-,ilerra bu,cando em tradrc;oe... lrterána~ dt/Uc'/1/l .1Jaco dc.1.wt rcalulmlc 'lll< wnal. (p.5Y3¡ (gnlo mcuf
c\lrangerra.... termo'i de cornpara~·fto para tar:- vertente.\: Ctncn p.ul.'<.:l!lll \CI L'Til g..:ral ,~..,-...::.. mero~ dtlen.'nle!'>. us e idculcs.
a jltülll\ ll uun¡,os. tt,. sdra1 e a rnra Ante ... dl' cncará-hh
C '111 nl~rnardo Guím.rr;k~ ll\emn~ a-. pr irníci:" do ... enaru ... rno. j,olad.rlllt'llte l' mi\ICI' kmtlt<ll qu.: a lilcllllftl(t du ut'ltllidi/o
Jo romance L·.rrnpc~rrhr. que Ar ino~. no., r:.~prdos tontos de fJI'!o con-.tituru tambt5m uma e~p~L'IL' p.rrtil'ul.rr de h,,,..,tklrl\lll<l. n;io
~-Cilcio. polru l' de ...ern·oln:u de um modo qua-;c defrnllr\o. fundad.! Tlll 111Cill. lll,l\ llO 111.11~ gr.l\<.: do' Tlll~~O\ proOICill,l~ do
LT\andn do.~ llh!\mo;, proct.:\\O~ d~: 1urgucni 11 nas fltsuírws dt• o;éculn XIX tp 'il)~)
utn Cor(l(/01 l r 287 l
Ao fazer a lrtcratura da c: ...cravrdño ornhrear com modalidade., litcránas de
A mud.mc;a qualrtativa no drscurso 'obre frcc;ao nao urbana vem de forma caracterit.tt;5o gcog.dfic.~. o c:rrtJCo propoc u m t nténn mal\ f'ultural do que
dcfinitt\1 a com Akcu Amoro'o Lima, ao inscrevcr -;cu C'-tudo -;obre Afonso geográfico, para a clas~ifica\=ño de diferente' manrfesta<;oe., litcrúria.., brasllerra.... o
Armo:- ~ numa reflexao \llbre a queslfío do regronalt\1110 na literatura hra<.deira. que é murto rntere..,..,ante.
Seu cn ... ~uo. longo c competente, atribuí genealogra ilustre (rsto é, européra) a A C'-pecifícrdade da literatura d.1 e'c:ravrdao. por c:>.cmplo. ap:.~rcnt<tda por
e\-:a vertcntc de nos'a tradir;:5o lrtcrária. accm1panha as tran<;formac;oe' sofridas ao afinidade corn a literatura t/o.1 ~efl ·o s e do ro( a. podena explicar o .;quívoco litcrário
longo do lempo por c,;,as lllarllk\lac;óc;, e estahelecc paralelo entre o de....envolvimento repre..,cntaJo pur ,\ e.1om a lsoura. quem ..,abe u romancl.' de temátrca nao urbana
de:--sa vertente na lrteratura brasilcrra e na de out ras conmnid:.~Jes lati no-amem:anas. carece de linguagem nanatr\a tltstinta da linguagem Ja narratrva c:rtaclrna'? Ao
Ao l.tdo da mesti«;agem de no..,,a~ letra,, Amoroso Lima regrstra agenciar um modelo lrteratro mudamente urbano, Bernardo Guimarat.::-. rompcndo
a fu ni lamento progrC\\JVO no recorte regronalr:--ta. tradut:r ndo-sc tal a fu ni lamento na!> com o acerto e: o m que narrara ..;e u'> casos mai.., cspecr ficamentc regionalr~;ta'>.
\Uces!-.iva!» Je-.ignar;oc:- que recobre m o percur'o tnlhado pela \ ertcntc literária que ~obretudo em O l'lllllfiin de ~Juquém. erra tom t: mt:lodra. ma' .tnll~.., que a htpótC\C
desemboca em .;fon:-o Arrnos a :--uce\sao do'i termo\ a111ericanismo. nacionalismo ~e enn,1ec,:a em tese. vale regi~trar que o dc'>alrno. rnlolenivel d ouvtJos críticos.
(patnott\1110. hra-;ilciri,mo) e rcgiunali11110 'ugere um lllO\tmcnto do :oom .10 clost•. parece nao ter rncomodado em absoluto o re-.peitá\'el públrco que corhtuntu e
ger,mdo uma c'>pecifica\=flO cada Vt.!t maror d,r rmagcm que c:--ta tradiqao da continua con ... umindo murto\ e muito'> rnilharc.., de c ...crava' baura' que. rnclu-;rve
literatura bra'>i lcira ttnha de"' mcsma e de !-.eus conte:>.to... tnrgram cum ba'>tante 'uce-.:-o para outra~ rnídras.
Pro:-.seguindo. no cntanto. no encalt;o Jas origcns do n:gronalrsmn.
;\Jo correr de tod:J a rro,-.;~1 hro.;lúr ia lil~:dr ia. loi o t'lllllato da Amoros,l Lima .ts cncontr,l. no que Llenorllin,l de hmsiletrismo do w•cttlo '<IY. que
lrt.:r<llur·r rmport.tda lom e..,,e elemento lo~..al eUJO pnrnciro nao é llclll (1 cid(/(/1', 1/l'/11 U 1 Ut/lfiO, f/('11/ ll .\ c•fl·a. 11<'111 (( JIUÚO, 1/ll/.\ ti l'll('ll,
11 utu ..,urge porl.tnlo u>rn ..;..,..,,,, c<~rll.·f,l:~ l.' con!(>' do povo- quc
tt!entific:anJo nesta o hibndr.,mo de ge1to.\ du cit!(/(lc• 110 CC'Iuírio clos cctntpo' (r 594).
pr O\"O<.nU « dtlcr cn1.. r.1.,:ao nauonal dl no"' a lllcr.rtura e
tdentific.:ando cm Marttn\ Pena o inícw de,ta lrnha)!ern lrterána:
c ... pcel.rlmcnlt: de cerl<t' ligura' lrteraria..,
Dar na . .ccr.un n amcrrt.tnr ... nul. rn,¡j, t.uJe o hr,l\tkrrrsllHl e
i .,,, e"a roc,.t que rnrnou podC·'-l' dlll'f o hr,t,tlerrr,rno do
al1nal ,, rcglllrralismo forma' ~...rda \L'/ m.u ... acerllu¡¡da:-. d,,
~:-.;pírrto loLal ( p 'iXlJ ¡
'L't'ulo e llllliUlHl Jl<ll meto da' ( ontl'dttt,, de l'vl<lltln' Pena, qut.:
come e; .11.un .1 'll conhL'L rJ.r, un 1X~X 1 t p.5<J.t 1
310 311
Estudando mais detalhadamcntc o sertani !'lmo, Amoroso Lima frisa, junr ,a segunda fase do sertanismo, a partir de entao de inspirac;ao naturali'>ta e de
com todos o-; clemat<. i~mo,· <.eu p:1rcntesco onginal como mdianismo, subhnha ~
11 1111 region.1l. yu~.. g~::ra uma literarura Jas secas (p.604)
ril!llta<;ao n-'
qual "'' c(¡;<.~aca a
no entanto seu caráter mat.\ nacional (p.595), e estabclecendo a obra de Bernardo ~ rorJ de Oltveira Paiva (Dona Guidinha do poro, parctalmentc publicado em 1897
Gu1maracs como seu marco 1111cral (O ermitüo eh Muc¡uém, 1858): : Rt'\'tsta Brasdeira). ficando a<; vertente~ mineira e pauhsta respectivamente
pn!'entadas por Aflonso Annos e Valdomtro Silve1ra
Dissipada a Jlu,ao da~ .selvas, mas \Cntmdo \empre a
~ É a propó~ito de Valdomtro Silvetra que Amoroso Lima de novo embarca
nece:.stdadc de procurar urna originalidade local , voltaram-se
cawgorias além de extratextuab para a discus:-.ao da maior 011 menor qualufade
para o~ campos hahitados por cssa ra9a Crulada. Já 111
nacionalizada e mtegrada no <:orpo da na~ao: o mcstJ~o ~ unla' ou de out ras obras, já agora defimt1vamemc regiOnall,tas:
sertaneJO. Daí resultou o scnanismo. (p.596)
Se ltv c.:atptn!>mo literáno. sem o menor grau Jc anifício, é c¡ue
\'ll'<:lll' deixou de vi ver a wda que aninut os ~eu\ con1o.1. Viveu. e
Nao obstante tantos acerto.!t. ao discutir a natureza das manifesta
9
ac, a tra:- porwmo Rravada em seu cnrw;iio. Dctxou de Vl\é-la e
literárias chamadas sertanrsras da literatura, Amoroo;o Lima destempera e, a
pode entao ob-;ervá-la. comprecnde-la, e traduzi-la como :-ó e
semelhan~a de seus pares. invoca razocs extra-textuai'>. remcidmdo na metafísica ao
quase ~empre po'>sível a quem considera as cot:-a' de fora e de
comentar a fon;a de autores e textos ccarcnses no Regionalismo. Derrama-,t:. cuna, depots de a~ ter constderado do scu amago. Literariamente,
a
proclamando o "Ceará, terra predestinada arte pelador [ ... ] Nao podiam deixar dt: ¡,entir é a conscténcta de ter sentido Vivcu. porém, essa vida com
possuir expressao literária própna cssa terra e essa gente predestinadas" (p.602t tanta absorcrao e detxou de vive-la com tanta lut:tdc7 que nela ~e
fundando aí o julgamento de valor, a partir do qual desqualifica essa vertente da clispersou, e a vida que anima seus conlm regionaltsws é a da
lite ratura, a propósito da qual ressurgem categorías tao inconsúteis como o stta alma, revivendo, trre<.:onhecível e tran!>ubstanctada, no
sentimenr.? ínrtmo que brandia Machado de A s1>1s: próprio ambiente local . Nao se sente. portante, o criador nesses
quadros ~ucessivos e nagrantes de ahsolula veracidade As próprias
Era o brasileirismo de enl1io mats tetírico que espontiineo, e o dcscn~ocs da naturen sao fcttas em notas tao sóbrias e de tanta
mesmo aconteceu naturalmente com o sertanismo, ramo propricdade, que evocam irresistivelmcnte o quadro cc;bo~ado. É
daquele. Procurava-se o sertao para ;\\~unto ou para ambiente de que a natu reza está em sett corm;iio. [grifos meus) (p.61 0)
ltteratut a. ll(/o porque eua fon-e a tendencl(( 11/l'encível da alma Eue C'IIÍmufo it eJponwnetdade e el origina!tdade é t()da a
do awor fgnfo meu]. mas por ver nesse sertao o meio própno justifica<iio litel(íria do sertanismo [ ... ] Ncle hao de \)Utro" talvct
para criar uma literatura nactonal. (p.597) encontrar a repcrcus-.;ao soctal, expres-.a por um conhecimento
mat:- profundo da terra. pelo desem·ofl imentn dn l'~pírito
O equívoco nao impede, porém, que um pouco depois, o crítico, de novo. regional. lundamento do amor a grande pát1 it1, pela rc\elacrao ao
mamfeste intuivao lumm o~a. ao amarrar a questao reg1onalis ta a questoe" de litoral deste povo imen~o e de~amparado do sert:io, que tecc a
lmguagem, justificando por dunensoes formais do texto a <;upremacia Iiterária de umdade da Pátna. Nada disso. porém, mterc:-~a dirctamentc, e se
Inocencia de Taunay sobre outras obra~ do me!-tmo recorte. o scrtancJO nos tem dado algumas obras que hao de fi car cm nossa
literatura. é apenas por contarem estas uma ex¡neuün nawral e
Outro motivo da supenondade de lnocencw sobre os romances 1•ignmsa da alma de seus autores. [gn fos mcusl (p.6 11-612)
regionalistas da época cst.í na língua cmpregacla. Já nao :,e fala
do sertfio em linguagem chísstca ou apenas vulgar, mas com a Amoroso L1ma, como se ve, erig1a a autenticidade como selo de qual1dade
produ~ao .\errwusta, que considera renovada por Monteiro Lnbaro (p.61 1), de
língua renovada pelo contacto com a terra, e mbora apenas no
léxico. (p.598) L-¡ern comenta, ao lado da obra doutrinária de Lobato, A onda verde, a ficvao de
l'lllando Caiuby, Sapezais e Tigueras, e de Oliveira e Soun, Pimquara.\
A partir daqui envcrcdando pelo mapeamento dos debates sobre fíng~ E.,te te xto recapttula a a.vassaladora influencia européia na literatura
brasileim. língua portuguesa e língua nacio11al que entao se trnvavai11S lcira . ismo a ismo, Amoroso Ltma Inventaria a importa9üo de csttloo;, de
75
assinalando ainda as rupturas entre Romant1 smo e Naturalismo, o crítico dá 1 di ....,.uagcns, de temas e de as&untos, mscreve ndo a importanc ia de Lobato na mptura
(ano Ja publtca~ao de O cacauliwa de Ingles de Sousa) como marco da abertura cade ia de impo1 ta~oes

312 313
Se o~ ven101> de além-mar sopram p<ll a o c.:la~'lctsrno
···tmf'ni:J'1n, p.1r~, U ~e d1rigcm lhl:,~,,~ pm;l..t!>, 1..0111 raJ<t!> 0 REGIONALISMO EM BANHO DE MAll H UMOR: LUCIA MIGUEL PEREIRA
excc~ot:.\. Se a agulha indtca o arcadi~mo, árcadcs ~eremos. Se
o romantismo :tl:ompanha a no~~a independen~.-til políttl..d é Também na Htstória da lilem/ura hra \'tleira. Prnsa de fiq·iío 1X70 ICJ2U.
Je Lúc1a M1gud P~reira , publicada em 195W , o reg10nallsmo '>ai contund1do a
22 1
meno~ por independencia lllcr•in.t que rcpt:rcus..,iiu do
movimento universal. Se na Europ.1. cm nome da vcrdadc partir de concep9óes essenciaiJ~ta:-. de literatura, que parecem acn-;ofar-<>e aqm.
CIClllÍfiea I>C rcage COntra a fanta~t<l romanttca. nao devíamos intensificando a visiío 1mplacavelrnente negativa do rcgiOnall-;mo que parece ter
a¡;ompanhar a onda! E \C, cxaustos do famtgerado documento cornes:ado a si:-.temat Llar-se cm 1873. com o já mencionado O mstilllo da
humano. hu.,cam refúg10 nurn c~pintuaii:o.mo envolto cm
11 aciona/ídade de Machado de A:--..,i:-., onde, como v1mos, o antenor
símbolos. logo pa ..samos docdmentc á tarcfa mvcterada de
nacional11:ar corrcntcs exríttcas. lp 462) cncaminhamento positivo da que,tao 1nvertc 'eu rumo.
Grande achado ou equívoco ahar? pcrgunta-se o regionall..,mo. entre ..ts
f ... 1sua contnbui9ao caraetcrí.~tica e valiosa é chamat a aten9iio
dos hra.;;tleircl\ para a <;Ua tcrra, cnttcar il'>peramentc aqueJe-, que extremidades do arco em que '>C d1 .. poe, em diferentes long1tudes no:-.-;a melhor
~e comprnzcm cm formas arttficiat~ de civihzac;ao, ma ... n5o crítica. na qual ~e incluí Dona Lúc1a. No primeiro movm1ento do capítulo
para detxá-los crnba,bacados, cm cotllcmplnc;ao pcrantc umn Regwnalomo. ela propóe que se considere regiOnalista
plítrta de compendio I..Í\lco, ma., perante um paí., CUJa
ctvdtt;:u,:Jo é apena-. de fachada e cujo corpo ao desamp.tro se qualquer livro que Intenctonalmcnte ou niio, tradu7.t
1
cstende por hont.ontes scrn rim. (p.465) pcc.:uh.tridnde' locm~. (p.l79) '1

para afunilar a defini9ao, restringindo-a a

A di ..cussao do sertanismo moderno lido a partir da extratextualidade obra., cujo tim pnmordial for a ftxa<,:ao de llpo<,. co!>tumes e '1
prossegue com Mário Hora (Tahuréus e Tabaroas), Ca1los Días Fernandes (Os ltngungen~ locai~. cujo contcúdo perderia sem esses elemen to~
cangacetros) e Roque Callagc (Rmciio), adcnnclo Amoro1>o L1ma a uma visao cxtenores, e que !>e passcm cm ambientes onde os hábttO!> e o:.
aním1ca da produ~iío literária que, para descartar-..e da per~pectiva taineana, C!>tilo~ de vida se difcrenc1em do' que impnmem a cJvilua<;ao
Identifica valor estético com uutenttctdade: niveladora (p 179)

A ensaísta acerta em parte, ao menos pelo avesso: o nao regionaltsmo


Nao devemos re!.tringir-nos a indagar se os llvro~ que surgem enquanto literatura articula-se, efetivamente, com o que se pode chamar de
contirmam ou nao as caracterí!>tiCa!> de nossa ra~a. a civilita~ao civilizaran niveladora; ma'> o recurso a categorias extratcxtuais e quase tao
de nosso me1o, a~ tdéias de nosso lempo. Tudo o que criamos é metafísica<; quanto as mvocadas por Amoro1>0 Lima também leva a discussao para
naiUr.tlmcnte 'Jtuado no scio des~.~~ Circunstancta~ e, para cada forad o texto, ao amarrar o regionali..,mo a finalidade da obra.
ca~o. dcvernos dosar as mflucncm.;; respectivas. Essas Ao longo do texto, a menyao ao regionalismo acompanha-sc de expres<;óes
inve!.tigac;oes, porém, nada rcsolvem do problema estético que como rurali!lmo, provincianismo, pitoresco, cor local· no sent1do pejorativo com
contém cada verdade1ra obr.1 de arte. Dcvcmos procurar se o que comparecem ao texto, cssa-; palavws guardam a poetra do longo caminho por
poema, ~e o romance. ~e o conro, \e a p•ígma literária que elas trilhado. desde os ingenuo.. textos fundadores de Sismondi e Den1s até este
dcfrontamos pussui o u nao uma for~a inte1 ior de perpetua~flo,
requmtadamente exigente me10 do século XX. É a part1r deMe chao, já lcx1camente
se é viva, pura, VCidadcJra, c.:omovida. ~e é livre. ~e revela uma
minado, que Lúcia M1guel Pere1ra tece outra~ considcra\=oes 'obre o regionall'.. mo,
pcrsonalidade ongmal e fortc, se no.\ prende e repercute em
no:.sa alma, ~e pus-.ui cssa ~implicidadc natural d,¡~ coísa1> frisando ~ernpre scu..; a<,pectos negativoo;; uu deficitários:
s mceras e essa radicac,:ao profunda da~ eoil.as vividas. Essc o
pela ~u a naturcLa (o 1 eg1onal i~mo) des" ia-sc do cam111ho
c.:nténo JU~.>to <.:om que llevemos julgar a:-. obra~ de ane, pouc:o
habuual da fic.:c;iio
no' 1111ponando que rcveJam cm \Ua ~uperftcie um trecho do
~.>crtao, umJ calc,:ad;t de avenida ou uma p~u:,agcm do<> antípoda,
(p 677) re~er vando, com is~o, a categoría do lwhitual (é claro que a anos-luz da noyiío
Positiva de e!ltronhamento. .) a fic~iío lf{LO re8ionalista que, na seqüencta e de
314
315
Seria, e é .
lambuJa, ganha também atavíos de universalldade. Para Lúcia Miguel Perl!ira, . A quec;;tan da literatura regionalista é, como todas as qucstoes hterána'>,
fic~dO nüo regionalt ... ta ' '' ,na questao de linguagem: por um lado, linguagem como o código de que se rece a
ra, e, de outro, conceprüo da literatura como finguagem.
vé um homem cm :-~u mcio ou ~.-nntra o seu meto ma:, ve
Este duplo enfoque reno\ a o parentesco do<> e"tudo" da literatura com o-;
também o homcm. alguém que por -.uao; tea~ües m:us profundas
se 1mana, por ~nhre tb dtvcr-;idades de cxpres-;fio, aus outros __.udoS da linguagcm e a questao que coloca nao é normativa nem valorativa. mas
seres, intcressa-se pelos mdi,íduos especificamcnte, mas na ·m e~peculativa: que raz6eo; levam, a partir de um certo momento histórico,
SI •
,egtncntos representattvos d a cnt1ca
' e da h1stona ' . d a 11tcratura a exc 1u1r
. ¡·1•1guagens
medida e m que se integram na hurnan1dadc (gn fo-. da autora)
(p.180) ¡o urbanas nem cultas do horizonte de possibilidades de expressao literária?
11 A resposta cmaranha-se nas enrrelinha<> de texto<; como o de Lúc1a M1guel
enguanto a fic~ao regionali'-la o qual, ao pros!>eguir na discussao de modoc; de ser do romance
reg onalista. condena, na metáfora do turismo. a posicráo do autor rcgionah!>ta:
entcnde o md1víduo apenas como síntese do meio a que 1
pcrtence e na medida cm que desmtcgra da humanidade [.. ) Há, na sua alitude, alguma c..:oJsa Jo turi'>ta an~toso por descohnr
buM;a nas personagens nao o que encerram de pessoal e ns encantos pccultarc!> de cada Jugar que visita, sempre pronto a
relativamente ltvre mas o que as liga a seu arnbtente. (p 180) cxtastar-se ante as novtdadc~ e a cxagcrar-lhcs o alcance. (p. ISO)

Opera-se, com isso. brutal radicalizayao da postura etnocentrica que ve no Talvez nao seJa descabida a expre~sao rurista no contexto desta discus~ao,
olhar branco, urbano, hurgues e moderno, e nas linguagens a ele correspondentes. já que a expressao marca a po<>icrao de exteriondade, de passagem rápida e de nao
modelo correto de olhar e padrao de linguagem scm sotaque. Ou seja: estudos comprometlmento do vmJante cm face dos locais percomdos, paisagens vistas e
literários como este de Lúcm Miguel Pereira talvez sejam. por deformayao do pessoas encontradas. Turismo e turista sao sugestivos, s1m, mas nao para
ofício, baluarte de visoes extremamente conservadoras· afina!, desde os anos 30 e necessariamente representar a posiyao do escntor regionalista em face da sua
sobretudo nos anos 50, brasilianistas nativos de-;cobrcm de novo o Brasi l, tentando matéria, mas sim para metafonzar a posit;áo da crítica e da história hterána em face
evitar, nas rcpresenta¡;oes que constroem para o país os preconceitos etnocentrico~
Este d1~tanciamento nao comprometido parece ser a relacrao da instituiyao
de textos regionalistas!
~éculo ~~
que vincavam grande parte da produyao das c1encias humanas e da literatura do
(supostamente já) extinto século XIX. literária posterior ao XIX com a literatura nao urbana, em meio qual
Assim, postulando como naturais, atributos, valores e comportamentos que destacam-se, por antiguidade e vigor. as manifesta<r5es rcg10nahstas.
A partir de O mstlllf() da naciona!tdade ( 1873) de Machado, turúticas
sao culturws, o texto de Miguel Pereira desistonza a no~ao de homem com que
opera. Tais comportamento-;, valores e atltudes, tidos em primeira instancia como parecem ter sido as incursoes críticas aos rincoes regionalista~ das letra~ nac10nais
apanágio dos seres humanos em geral sao, logo a segu1r, representados como Espírito leve de v1ajeiro que se explica - mclu-.tve - pela face urbana do d1scurso
uníversais pela literatura, ao menos na le1tura que da flccyao (ou, melhor dizendo, de sobre literatura e, conseqúentcmente, pela inevitabilidade do sotaque que atribuí a
seul> outros, seJam este., outros a literatura de caip1ras. de criancra~ ou de negros, o
wna cet1aficriio) faz a crítica (ou. melhor dizendo. uma certa críflca).
Em conseqth~ncia deste a-historicisrno, elementos como conduta socwl e que traz a literatura regiOnalista pura o contexto das literaturas adjetivadas, 24 1\tO e ,
literaturas marginaii:,adas, como, com justicya, a<; nomeia Amaldo Saraiva
... ou, para ficar numa formulacrao leve, como d1zia a senhora portugue~a de
linguagem ganham foros de extenoridade ao serem convocados para a
desqualificayiío do regionalismo, que, segundo a autora, é
quema esposa de Rui Barbosa comentava o sotaque. - Pois minlw nca senhow, se a
fatalmente levado a conferir as extcnondades a conduta língua é minha. o sotaque é seu ... Moral da h1stória. o sotaque é sempre do outrol
social. a ltnguagcm uma tmportiincta exclu:.iva, e a procurar Reconhecer como mcvitávcl a face urbana da literatura nao fortnlccc o
osten~tvamcnte, o cxóttc..:o, o estranho. argumento de qualquer fiteramlade 1numente: a face urbana da literatura esculpe-se
no boj o do modo de prodwrii.o e de circularclo dos objetos (li vros) nos quais c1rcula
O ponto é cruc1al: de que linguagem fala a crít1ca, para considcrá-la com¡'
0 texto litcr(uto, e na galáxta de discurso'> (hbtóna. crítica e teoria da-literatura) que
elemento exterior? exterior a que? Trata-se da linguagem relatada. da linguagl!tll 0 leg1timam .
colocada na boca das pcro;onagens? Nao seria isto um grande viés empobrecedor'>
317
316
(~ curioo;;o observar que, nao oh-.tantc a sofl~ttca~iio de Ct!rtas C<ttc -·,Jo deKoberto tarde, .to menos no relóg10 de Dona Lúcia, que se de~>agrada
Cl'n'ncad:p; ~' que nrwun hem <'"111 .1 ptett~ndida rnod"tnidadc do., an gc~ 1!

hra.<.ileiros, o texto de Lúcia Miguel Peretra acaba reassumindo 1Js


qu.: chama.
complaccntementc pcdagógtco do~ longínquos primcJrO~> hJ\tonadores da lite0 11)Q¡ a~ anomalia~ de no~~u evolur,;üo lltcdna, mdo do umver~uh~mu
bJa:-.ile1ra Ao aLon:-.c:lhar o ... rumo ... da mnpliudade, e.\(Hmtaneidade, flue,~ clá.>!-.i<.:O para o amenL•tm-;mo JOllliínlJLU. dc:-.tc P<lra o
júcilidade. dona Lúcta ex~rce. a rute/a .normolil·a muito ~emelhante q~o
a bra~llciri.,mo e dcswbrindo tarde u n:gi"n<lii!-.IHO. quanúo.
marcuva o dt~cur~o do~ pnmc1ros cstud10:-.os de nossa literatura, naqueie e·-. natur.tlmcnte. o scnttmcnto loc<tl Jcn.:11a antcccc..lcr o nactonal.
reguma/ face a literat~ra ~uropéi~. Parece, _com IS\0, t:~nfirmar~se_ ~ue a
gaenuadora e normalll'a e tentac;ao 1rrt:s1stt \el para a u 1t1<..a e hr~tona litenín·
ru,: este o conuncnt.d. que. por ~ua vez. v•ria ante!>. do umvcrsal.
(p.! S2)
Jü vado a :-.eu furo1 civililatório toda~ a'> Vc7c., que tem de.: ha\er-,e com ror::...
Mas, mesmo desagthlnún num equh·0co, a que-;tao é importante. É po.,.,ívcl
ourra.\ de IJtermura, como 1! o <..aso da ltteratura popular. da leminina, da infantJJ
reconhec1mcnto de certas manifestac;oes cullurais como \eJulo ou fl{io
1!/ou da negra. para ficar -;ó em modelllos que hOJe já tem transito mais lt\re ha 0
cl(lade da.v letra.\, como dizia Angel Rama. '&:rawra só seja possível quando o aparato críttco da teoría da literatura bem como
Mai.<. adiantc, ao ancorar outra-.. cons•deratr6es sobre o regionahc;mo procedimentos e valores da crít1ca .,e tcnham refinado o :-.ufic•ente para uma
06
pcrspect1va dos gcneros lite/{ínos, Lúc.a M1guel 111 ainda que tenue) pcrceptrao da altendade. l:.ssa percc~ao exige nao -..ó re finamente e
Pere1ra assmaJa col'l1tl pluralidade de categoría<> no intenor do aparato crít1co, ma" também (e também
compensatóna
11
pinc1palmente) soli~e7 n~ apa~elho s?ctal q~e o formula, ~e modo qu: m
\ua prcdilcc;ao pelo conto, onc..lc a tarcfa Jo artífice se diss1mula tJIItridades reconhec1das nao ma1~ com.t1tuam ns~os para a 1dent1dade hegemomca 11
mclhor e que, além dio;so, sendo urna anedota breve, permite 41ogropo social que, formulando-a' ou reconhccendo-as, proclama sua existencia. 11
aprc:.entar as personagcns uniC..:amcnte como expressoes de scu É c~cusado di7er que no ca.<.o da htcratura regiOnalista braslleira estas 11
me1o, porque .ts mo,tra sob uma só face, coi!-.a dtfícil de se questóes nasccm lá longe, e talvez in<~erevam-se na esteira do modo de domma~ao :1
con:.egUtr no romance. (p.l H1) tlsica. políttca e económica vigente por longo tcmpo e por diferentes modos na
América Latina ... Talvez as questoe~ com que hOJC a crítica e a história literária "11
A questao é interessante. .eem-se a brac;o-; enraízem-se no subsolo da donunac;ao cultural.
Mas as conclusócs, pífia,, sao o resultado de uma concepr;iio de conto que Um dos pnmeiros ge~to.., de<,ta dom111a9ao fo1 a gramaticali-:a~iio das 11
concebe como narrativa que aprc<;cnta wn cnnjhro único Para nao polemizar mais. l.gua5 indígenas: ainda que castelhanizadas, aportuguesada' e latinizadas pelo 11
11
e também porque Mário de AnJrade já disse que conto é o que cada um d1z que llfor~o jesuítiCO de descrcve-las, sao vistas, nos pnme1ros ensaios que sobre e las se
c::onto é, talvez nao sCJa criticamente mutto eficiente estabelccer parentesco formal .~vem, sohrerudo pelo que nela~ nüo há, interpretando-<;e tai'> auséncm.<. como
entre conto e regiona/nmo a part1r de considerar;oes ~obre a naturez:a des1e *omas da precariedade do arc.tbou~o cJvlli¿acional de seus falante::, nattvo~·t; É
controvertido e polimorfo genero literário. Talvez melhor fosse relacionar .0
predomínto da f•cc;ao curta regionalista a proximtdade das raíze'i populares e oJ115
Jo ghzem conto, no ca<;o, aparentado ao causo, o que faria reverberar com
luzes a questao benJatmn1ana .de p_rogres~ivo declínio da narra~'"' de
htstonzando-a ao trazer para a dJI\CU<;<>ao diferentes formas Je narrayao e
= '-ante conhectda a rapidez com que. a partir da tnextstencta dos sons F, L e R, cm

'
~~a~ americana,, alguns croni.<.ta~ deduz1ram a inexi~tencia de Fé, de Let e de
valores metafístcos, é ccrto, pelo que repre~entam de abstra~oes, ma::, também
-ntáculos da ordem européia a \er 1nstituída na Colónia. fl
2

Talvez sejam, a~'\im, ancestral mente fortes as razoes pelas quais é tao difíctl
narrativitlade. _ do \lar de ltteratura enquanto manifesta950 cultural produ::.tda por e: gravitando muito
Mai., adiante. Lúcia Miguel Pere1ra aponta como contrad1~Jl1 u comun1dades ágrafas Ta1-. comumdades -.ao de alguma fonna herde1ras
regionalismo ser ele fruto ncm sempre étnicas, com certeza económica" e socia") de outras comunidade'>,
~h cont~to com as civiliza~oe::. européias se deu em situac;:ao de tnfenoridade
do cncon1ro com forma!> de vtc..la ruunnell!arcs. eJe espímos que t am ~1do invadidas ... ) e nurn momento h1o;tónco cm que o poder e a autondade
lhe-. <;entem a ~cdm;ao prect<;amcntc por conheccrem outras 01lnula~oe-; como a e-.téttca, por exemplo, nao tinham um poder de fogo menor
ma1s complex.t!>. (p. l H1) 0
Poder de arcabuzes e ctuctfixos.

318 319
Talvez, entáo, o regionaftsmo só pudesse ter sido desentranhadu d Sublinha-se aqu1, no discurso de Lúcta Miguel Pereira, o critério de
determmado conJUnto de obras e lido como proieto no fim d0 século XIX P~~ ulll ~(111 ionalidade que, etlcamentc rno;;itiva ganha aplau<;no;, rln hi<;tnriacinrí1 <"[lll' llí1
to1 ~ó entao q~e amad_ureceram a~ condic;:?es sociocul~urais ~e:es~árias para qu:qut do texto, denuncia, ~olidána. a de!>uman1dade da~ condic.;ües de vida do
vozes da altendade nao representassem n~cos para a mstttUic;:ao IJterária brasiJ . a ¿ narrado.... Coerentemcnte, o~> adjetivos que passam a caracterizar a
11 0
os arredores da República sao o tempo de consolidac;ao e modernízac;:ao, ísto é~lll; -,Dllxlut;fiO liteníria Je Carvalho Ramo¡, ~ao extraídos de um paradigma ético, ou
aburxuesamento das institu1c;:oes culturais, o que Jhes garante a nece(,,: dt ~ ,, rnoral. ou cri~tao, mas nunca literário:
1
consistencia para, sem muitos riscos, (re)conhecer práticas e discursos cu!tu~
desenvolvido~ para fora de seus (da instituic;:ao) limites, e dialogar com ~:~:' A naturct.a e o~ húbito~ go~<lllo~ que '>egue com amor niio 11
deixando-se, inclusive, permear por alguns de seus trac;os e-usando deles, inclu\ \'; lazem csqucccr que os tropctros, boiadciro::. e camaradas sao
para renovar-<;e, 1
sohrctudo homen-; - homcn-; que vivcm mndn nuus miscrávcl
Em resumo: a cotac;:iio de certos genero~ literários na bolsa da história e da do que pttorcsc:.lmcntc. (p.186)
crítica está SUJeita a oscilac;:oes gerenciadas tanto pela economía interna do sístcrna
literário quanto pela relac;:ao deste sistema com outros Sistemas sociais. Talvez por conduindo, como seria de esperar-se, pela aclama<;:ao da obra de Carvalho Ramos
isso possa postular a relac;ao da~ obras literárias com d1ferentes elos das redes pelas como literariamente sincera e lwmwwmente ge11erosa numa eqm vocada rclac;:ao
quais elas circulam como urna rela9iío de interlocurao: assim como indivíduo.~ e 1iteratura-soc1edade.
grupos ~oc1ais interage m na comunidade pela interac;:ao de seus discursos, idioleto\ e A extensáo dedicada ao comentário Ja obra de Miguel Pereira dcvcu-sc a
dialetos, também suas linguagens stmbólicas (incluindo-se aqui generas e vertentes nqucza com que seu en<;aio incorpora os principais tópicos que, daí para a frente,
literárias) interagem, mesclam-se e alteram-se, num diálogo infinito de culturas. pontuari'ío o discurso da crítica sobre o regionalismo Como se ve, sofist1ca-se a
A quesUio do extraliterário continua freqüente no ensaio da historiadora, estrarégia discursiva pela qual historiadores mais vasculham o regionalismo na (va)
também no varejo de estudo de alguns escritores: expectativa de faze-lo (o regionalismo) dwlogar de 1gual para igual com a ficqao
nao regi onalista.
Pouco depois no sul, Sim6es Lopes Neto dava ao gauch1smo, Como, no entanto, o relato de tal diálogo só se trava no discurso da crítica,
talvez a rnanifcsta~ao mais legítima e VJV:.l- ccrtnmentc por vir é mUlto significativo o refinamento de voz da crítica, já que. na reparti~ao dos
de uma zona mais nítidamente diferenciada - de nosso poderes da mstitui~ao literána. é ela (a crítica) quern forncce nao ~ó genealogías
reg1onalismo. ( 183) ~nos ou mat~> Ilustres para urna e outra modalu.iade literária, mas ainda os títulos
de c1dadania para o que é e o que mio é literárío.
Na visao da autora, a qualidade da obra de Simoes Lopes Neto deve-se Lavra o decreto de expulsao do Parnac;o do que nao é literário e ainda
menos ao trabalho artístico do escritor e mais ii identidade forte da regiao que ele pro' idencia os passaportes necessárioc; para o que é literário ma 11011 troppo
tematiza como se o regionalismo se resolvesse ao tematizar regioes menos ou mais
literarizáveis. Mas a questao é outra: trata-se de textualizar todas e cada urna das
regioes brasi leiras e, textual izando-as, literarizá-las o u niio. 0 REGLONALISMO NA HlSTÓRIA LITERÁIUA DA SEGUNDA METADE DO
Certamente, a autora nao pretende. com sua teoría, enfraquecer a identidade SÉ<TLOXX
regional de nenhum rinciio brasileiro, assim como Amoroso Lima nao pretendía, ao
proclamar a voca~ao literária regionalista do Ceará pór em dúvida a especificidade 7
E m 1959, na sua lntrocht(ÜO el literatura no BrasiP , Aframo Coutinho
regional de outros recantos brasileiros. Mas sao ambas abordagens que passam ao dedica cinco páginas a O regionalismo na prosa de fic~iio, desagradado do
largo de questoes propriamente literárias. Lúcia Miguel Pereira estabelece o
1917, em que Hugo Carvalho Ramos publica TropaJ e boiadas, como marco 8
ano: l'tgiona)ismo romantico por

atitude que :.upervalonzar o pilorcsco, a cor local do lipo, ao mc:,rno tcmpo


que procura encobn-lo, atnbumdo-lhc qualidadc:-., sentimcnto:,,
nao se contenta com descrevcr, mas flí-lo com inrenr;:ocs valores que nao lhc pcrtcnccm. ma~ a cuiLUra que se lhc
dcnunctadoras ( 183) sobrepoc. (p.20 1)

320 321
Depor-; de levantar diferente~ acep~6es para a expre<;o;ño regionalism de Selfiio: é toda a aluviao scrtancj.1 que dc.~abou sobre o país
dcter se no pouco operauonal l:oncello de que "Num <.f'ntrd0 hrgo, toda ohr.¡11 . e entre 1900 e 1930 e ainda perdura na lrtcratur.1 e no rádio. (p
arte e rcgronal", (202) propoe údrm11a9ao do concerto, postulando que "para ~ 113- 14)
regional urna obra de arte nao "omente tem úe ser localizada numa regiao s~;: ':"
tamh~m deve tirar su? sub-.t~nci~ real deste . local" (202), identifican·d~ n~~ Também cm várro-. e diferentes momento., Ja ::.ua Forma)¡fio da lueraturct
. " , o crr't reo f ran;c o cen ho.
brtll'¡/erra
\llh.\·tal/cw l:omo decorrencra, prrmerramente, do .fundo natural e, em seguida, "d
maneirm. peculiares da socicdadc humana estabelccida naquela rcgiao e que lts
fi1cram distinta de qualquer outra'' (p.202) .t o rcgi,)nali-.mo p1ís-romantico dos citados autores ltrata-sc de
Af'onso Arinos, Srm6es Lope!-. Neto, Valdomiro Silvcira,
Comentando diferente" manrfc-,ta~oes hi~tórica:, do r~gionalrsmo no Bra\il, Coclho Neto, Mnnterro Lobato! tendc a anular o aspecto
hierarquiza-as, apontando marorc-; qualrdades em urna-, e menores em outra,· humano. cm bcnelu.:ro de um prtoresLO que ~e e~tcnde também il
"numa fase mai" tardía, C~>"e '>Crtanrsmo corrompeu-se no carpirismo, representa~ao fala e ao gc~to. tratando o homcm como pelfa da paisagcm,
l:aricatural e grotesca" (205). propondo que, do conjumo de regionalismos emerja cnvoh·cndo ambos no mesmo tom de cxc.¡i..,mo. É urna
0
todo nacional, sugenndo (ma.., ern momento algum pratrcando ... ) para o estudo do verdadcir;l nlrcnar;ño do homcm dentro da literatura, urna
regronali .. mo critérios cultmai-. em vez de naturai~. rerficm;iio Jc ~ua suh..,tiincia esprritual, até pú-lo no mesmo pé
A partir da A formar{/o da literarura hrasileira obra de Antonio Candido, que as arvorcs e o~ cavalos, para dclertc cstctico Jo homem da
também publicada em 1959~x. a drscussao do regronal ismo reponta, em modula~ücs cidade. NITo é [Hoa que a literatur•• sertanep, (bern vcrsnda.
diferentes, quer nas consrdcra~6es gerais que a propósito da fic9iío brasi leira apcsar de tudo, por aqueles meslrcs), dcu lugar a pror sub-
AntoniO Candido e!-.palha ao longo de toda a obra, qucr nos capítulos em que se lrteratura de que hú notícia cm no...sa hist1ír ra. mvadrndo a
sensibilidadc do lcrtor mediano como prnga ncra~ta [p. 210,
detém e<,pecificamente em autores que se dedicaram ao regiOnalismo.
v.2]
O mestre é pouco pal:rente com hio;tórias do c;ertao, ~endo várias a~ [...] persrstcntc cxotrsrno, que crvou a no..,sa visao de nó!>
pao;<;agcn~ em que, com severidadc. acusa-as de crime de lesa-literatura, como por mesmos até hojc, levando-nos a nos encarar como faziam os
excmplo no ensaio Literatura e cultura de 1900 a 1945 (panorama para c~trangeiro\, propiciando, nas letras, a explorar;áo do pitoresco
estra~tgeiros). texto redigido em 1950. publicado em 1953 na Alcmanha 29 e incluido no sentido curopeu, como se cstivés,cmos condenados a
cm 196'i cm Literatura e .wciedade ~o exportar produtos tropicais tnmbém no terreno da cultura
Refenndo-~e a prodw¡:ao literána do período compreendrdo entre 1900 e cspirrtual (p 118, v.2)
1922, Antonio Candrdo é implaccí.vel:
Contextualizando de forma ampla o regionalismo, Antonio Candido accna
O regwnalismo, que desde o rnício do nosso romance constitur com uma relar;ao rnteressante entre projetos (políticos) separatistas e proJetos
urna das prrncrpai!. vías de autodefini9ao da con:-.cicncra local, (literários) regionalrstas, na qual os segundos scnam a expressao cultural do-,
com José de Alcncar, Bernardo Guimariies, Franklin Távora, prirneiros. Opondo a falencia do projeto polítrco de dar expressiio política a
Taunay, transtorma--.c .tgora no conto scrtanCJO que alcan~a diferenras regionais a permanencia de projeto '>tmrlar 110 plano da inte!tgencia
voga surpreendcntc. Genero artificral e pretcn-.roso, crramlo um (p 292, 2 vol), Antonro Cundido encontra na Recife do" anos 70 do século pa.,-.ado
scntimento subJitcrno e f<lcil de condescendencia cm rela<,:iio ao "o máximo deo;ta tendcncra, prolongando-<>e por tOdo o pós-romantrsmo e, em
próprio país, a pretexto de amor da terra, Ilustra bcrn a posi<riio
nos<,os días. pelo romance nordestino e a obra de Gilberto Freyre". (p.293)
dc!>\a fase que procurava, n;t -.ua voca~iio CO!>mopolrta, um mero
de encarar com olho~ curopcu-; as nossa!> rc,tlidadcs mais Na genese dcssa idéia de drferenciar;:ao cultural. da qual Franklm Távora for
típrcas Forneccu-lho o conto scnanejo, que tratou o homem tnilitantc incansável, Antonro Candrdo a~<;rnala "que dio;<;ociar o que era uno e fa7er
rural do angulo pllOrCSLO, ~entrmcntal C jOCOSO, faVOICCCildO a de características rcgionai" pnncípio de independencia, traía de cerio modo a
seu re:.pcito idéras-lerla~ pcrrgosas tanto do ponto de vista grande tarefa romantica de definir uma literatura nacional" (p.293, v.2).
~ocral quanto, snbretudo, estétrLo É a banalrdadc des,orada de É neste momento que se torna '>uge ... uvo traryar um paralelo entre esta
Catulo da Pai.xiío Ccnren~c. a ingcnuidade de Cornélin Prrcs, o P<1'>I¡;ao de Antonio CanJrdo e as posrc;oes defendrda-, pelos iniciadores de no..,-.a
pretencroso c.xotr-.mn de Valdomrro Silvcira ou do Coelho Neto ht,tonografia e crítica literária-.: nao se podcria ler. na-. reivindica96c.., de Franklrn

322 323
Távora de que Antonio Candido se ocupa, wua outm 111anifesta<;iio tanta" outras vezco;. é c111 nome Jc.1 uni\·er.\lllidade que Lobato é despachado
nacion;lli smo . ..:orr..::1-.ponJ..:nt..:: Jgur..t tt vutru tlluutclllu hbtúril:o'! O das letra... :
Anton1o Camhdo intui ao corbiderar que
Nao se devc procumr por ou1ro lado. me ... mu nos mumentm.
T:.nora 101 o pnmet1'1> romancista do Nordeste, no sent1do cm que mai~ lclt;es do conll\ta, a cmegoria da p10funuiu.luc cni.Juantu
aindu hoJc entendemos u cxpre~sao. e dcste modo abnu caminho proJc~ao de untma' morai~ qLH:. revdem um destino ou
o umo llnhagem IILhtn.:. culminada pela gcrac;üo de J 930, ma1s de conflgurem uma eú.. tcncia. Lobato era c~cntnr de nutro e!'tnfo:
meto :-éculo uqmt' Úl~ 'ua.., tentativa,, refon;ada, a meto caminho sabia nan a1 LOill brilho u m caso. uma ancdota e sohretudo u m
pelo baiano llununcn~c J' O!> !>elttie~ (p.294, \.2) des fecho feíto de aul ... o ou violcncw. (p.6X ¡

É a propósito dl! Bernardo Guimaraes qul! Antonio Candido tern Tah'ez por mtegrar uma sele\ÜO que concebc a história literána como
ob,l!n'<ll;oe-. mais fecundas para o dcscm·ofvimento JI.! uma teoría do rcgiüll:Jiisrno ininterrupta di.! e-.tilo' monolítico-.. o hvro O pré-modenzismo. a partir de
que nao e..,corra para o C\tcrior do texto. ao analisar que tíwlo. já revela -..ua parcialidade: vohaclo para o modernismo'~. detém-se na
de can!ncJa-.., lamentando. !>ObrctuJo, a" que podenam ter identificado o
O!> romance~ dc,tc fUI/, Bernardo Joaqlllm da S1ha Gu1maracs. ismo a certao; preocupa<;6es e postura-; Ja mo<;ada paul1stana Je 22 .
parec.:em bo.t prns.t de roc;a, cadcncmda pelo fumo de rolo que Se Alfredo Bos1 rcg1•-tra e aplaude em Lobato o desabusado demolidor da
vm camelo no colll:avo da mao ou pela man..:ha das bestas de das Letras, ele nao deixa de incluir, entre o:- problemas que aponta na
vtagem, sem out ro ritmo além do que lhc-; 1mpri me a di.,posu;ño lobatiana, a crenc¡:a numa rac.:iona/idade progrenista, muito próxuna Jo
de narrar "adiamcntc, com simplic.:id<1de. o fruto de uma
o crítico com.idcra o modernismo da Rep1íblim Ve/ha, incompatívcl com o
plloresca cxpcncnd.t humana e aní~tiC<t. O em1ittio de Muquém
é contado cm quatro pou~os por u m companheti'O de jot nada: e
·ramento da rac1onahdade e com a valonzac;üo do irrac10nalismo prcgado-. e
quase todo-, ()~ outros livros nao del.\am de aprc ...entar e ... ta pela~ vanguarda-;.
tonalid.1de de conversa de rancho. Conven.a de hachare!
bastante letr.tdo para florear :h descrt~ÜC\ 1.; ~uspender a Moralisw e tloutrin.tdor aguerrido. de acentuadas tendencia~
curiosid.tde do ou\lnte, mas bastante llhlluto p.tra exprimir para uma c.:oncep\flo racionali!-.la e pragm:itica do homcm.
fielmente .1 msp1rat¡ao do gcn10 do ... lugare~. (p.233, v.2) Lohato .t...!>umlu po.;i~ao ambl\••tlcnte dentro do pré-
Modellw;mo Na medida em que a cultura do 11ncdiato após-
Ao destacar ne1-.tc comentárío a oralidade do te.tto, gucrra rclletia o .tprofundamento de um ftlao nacionalista, o
criador do Jcca mantinha bravamente a vanguarda, com efeito,
procedunento:, narratit•os, de ongem urbana e de origcm rural, cm vot. JI.! m•uu-..
dep1.w; de Euclitle-. e de Lima Baneto. ninguem mclhor do que
cm voz de bacharel letrado, Anton1o Candtdo cst<Í cifrando em procctl
' • t, ele "ouhe apont.u· a ... ma7clas fí!-.IC:l'i . .;oclllls e ment,u' do Brasil
formato; o modo de ..,e1 do rcgionaltsmo que, em texto'> posteriores do cntKil ollgürqliiLO da 1 República, que se arra:.la\a por Jetrü" de umo
dar urna legibihdade muito específica a cultura da Aménca Latina, do fachada acadcmltd e parn3!>Wil•t Neo;-;a pa-.pccti'a Loboto
mundo e do subdescnvolvimento. Navegando agora n!ntc ü espcc1ficidadc encarnou o divulgador agrc~s1vo do <:1cnc1a, do progre'i'>O. do
- 1\lo c. o ser de de lmguagem do reg10nali~mo AntoniO Candido faz a di mundo moderno. tcndo sido um Jemolidor de tahus. a manemt
Jecolar ao incluir nela a-; necc~-,üria~ condirñes de protlu~úo do rerto t da dm. \ociali,ta\ lah1anos. com u m ... uperavll de \et ve e dt.
flll'l'círim essenc1a1:- para que a ltteratura cumpra 1-.ua fun~ao ~imból1ca sarcasmo l.:.ntrctnnto .. C!'La mc),ma nota moralista e
Na História concrw da literatura bra.~ileim de Alfredo Bosi, htn\¡¡da polcmicamente did;ítiea afa<aava-o do Modern1smo de 22. ou ao
1970 • be m como no volumc l.'ll1 que o mesmo crítico c~tuda especifica
11 meno' das corrcntes irro(.lonallstu' que lhc pcrmcavam a
e<>tétiea. l.ohato \Cntina a vida 10da cm nome do bl.lm senso e da
pré-m()(krni..,mo ~ 4 • categoría na qual inscreve a obra de Montciro Lobato. J
rali:io (como -.e lora um velho acadcmico). total repulsa pelos
re,,urge.
1~1110~ que dclini~<llll as grandes H\'Cntura\ e a.., grandes
Por um lado, a impaciencia com que o crítico le Monteiro com¡u1'1<1~ da arte noveccntt~ta , futurismo. cubismo.
dc,toa Jo tom em que outro.., aítico1-. em outros tempo..., cutdaram do cxpn~-;,íonlsmo. -,um;ah ... mo. ah~ u acinni ... mo . ( p.67-8)

324 325
É na História concisa, no capítulo O regionalbmo como programa , a predommáncta do conto rcgionaJi,ta (e nao Jo runMnce), relacionando
0
Alftt'<io Ro<:i ferc not~ cstimulant~ .... pw1ui,:.u1a ao propor, na obra. ~Ue­ prl!dorrunáncta com o Naturalismo l bu:-ca 1.k ubJcll '-IJ<JJc. d ..... ¡, 111\l'>linJ~•.
reglonall:-ta' do fim do 'éculo. a pl'squi!la de uma possível poét1ca da oralicl ::: ~ n, ern rnatrize" européias para a literatura bra\lletra
retornando a Iinguagem e nela fundando a categona que taltava: com Alfredo~~ •
11 Nesta acidentada ht•.tória do percur'o da no'iao de regtonalismo, per<.cbc-se
pela pnmeira vez, o pe~o da orafldade no regiOnalismo é entrevisto co~ o conceito- independentemente da nomenclawra que teceba-, de~envolvtdo
c~trutut ante apartir e a propÓ<>llO de ccrto t1po de produc;ao literária hrasileira, é requisitado com
A obra de Bo-,i -;egue-~e. dez unos depois,11 um estudo específico d (rc'-lüencia na tradic;:ao de nossa crítica e IHStória litcnhins corno divisor de ¡\guas
.
regmna 1·t<;tnO, d e Jose, Mauncto ' . G omes de Al met.d a ' . que a partir do título. .11'
entre a boa e a má literatura
t mdiciio regwnalista nn romcmc<' brastleiro, tndica su a c~pect fícidade, que rima Desde o Florilégio de V<u·nhagem, pa,~ando pelas ststemat1za<¡:oc"
bem ~,;om um tempo unt\er:-ttano de cspectaliza<;oe-,, doutorado-, e pós-doutorado~ de Sílv10 Romero e José Verhsimo. até obras mais contempodinea~. a
Esta obra de Gomes de Almetda, ao mesmo tempo que prolonga que.stñe~ ¡dc:ntificarrño de uma literatura americana. sertane_¡a ou regionalista acompanha a
mai' antiga.s, encaminha novas. mas, no geral, nao altera o paramar em que a qucstao diferenciac;ao de um determinado segmento da produc;:ao literána brastletra.
\Cm ,e colocando desde o~ ano., 50, sobretudo em func;ao da multiphcac;ao de estudo\ Marcando-o atravé<> do adjetn o que o qualifica. opoe este segmento a out ro que. na
sobre o Brasil que ~e desemolvem cm mstituic;oe" como o JSEB que, a semelhan<;a ausencta de uma qualificcl'iiio específica, deixa 'ubcntendido <.eu caráter, scnao
do IHGB do ~éculo pas<>ado, vai fornecendo a<> bases da cada nova do país. urbano, ao menos 11(/0 regional. Inscrcve-se, a<;stm, o binomio regional/urbano em
A tradirao regionaltsta 110 romance brasiletro define o regionalismo com outro. a antinomia u ni vcrsnl/particular de tradi¡yao antiga nos estudos ltterário'>, e
ba...e no referente, e nao no discurso, envereda nas rarefeitas formulac;oes transforma-se num dos Ji visores de águu da literatura brasile1ra.
sub~tancial i stas, ao pretender mantera discussao em termo~ do que chama primado Mas a inclu'iaO de um texto na categona re,C?ionaltsmo nao é neutra. no
ahsnluto da obra literlÍria em si (p. 16), e atribut o pnmeiro plano na atenr;iio do limite, regwnali.,mo e reg1onali~ta ~ao de~1gnac;oe-. que recobrem, de.svalonzando.
¡níblho <'da crítica de que go:a O romance de 30 O Sita l!XCepCU>Ila/ fecundtdad<• e autores e textos que nao fa1em da cidade moderna matriz de sua mspirac;:ao, nem da
qualulade· narrati'va urbana padrño de linguagem. Obras e uutores regionaltstas - salvo
excec;:oes como algum romancistas de 30 e as vereda~ <.,ertanejas de GUJmaraes Rosa
Partimo~ da 1dé1a h:i.,ica de que, para que uma cn:1<;ao artísttca - costumam <;er vi<;tos pela críuca (e conseqüentementc pelas h1stória' ltteránas)
possa ser considerada reg10nall~la deve haurir a <;ua matéria e a como estet1camente inferiore!-., sendo a ~upcnoridade da produc;:ao literát ia nao
<;ua substanci::t na pr6pria realidade fís1co-cultural da reg1áo, reg10naltsta vinculada il !->lla universalidade, categoría também respon..,úvel pela
a111da que para transcendc-l.t Adm1timo~ também que :.t criac;:ao
redenc;ao ele escritore~ como Graciliano Ramos e Guimuraes Rosa que em nome da
regionalista surge not mal mente quando e:.ta rcalidade se
apresenta suficientemente diferenctada- no todo ou cm alguns abrangencia de sua obra alc;:am vóo da vala comum do rcgwnalismo.
de seus aspectos dectsivos - para al1mentar uma obra peculiar, Distin~ao homóloga vtge no resto da ltteratura latino-americana e também
(p.l59-60) na africana, contexto<> do-. maís promissore~ para estudar a questao do regionalismo
Nesse ambito mator, o rcg10nali<;mO pode <>er visto ele outra maneira: ele talvet
Se nestes pressuposto' há grandes promes~a,, como por exemplo levar em constitua urna dts~idencia Ja matriz Iiter:íria européia e através de procedimento\
con~iderac;ao o público na avalws:ao do regionali~mo, por outro lado, a literários pouco ortodoxos busque articular-se ao hibndismo mestic;o da" v;ínas
ar<tumentarao
~ T a · Jresentada funda-'>e ainda em cateaot
O ias tncompatíveiS cotn _ a culturas latino-americanas. É nesse senttdo que apontam instigantes trabalho.s de
promettda perspectiva re~.:epctonal, tats como obra literána em si, ou a opost~ao Angel Rama. Cornejo Polar, Fernandes Retamar e Walter Mignolo.
entre di\·curso e referemc. Sao, porém, inspiradas e promissoras as consideras:óe:- de E é tambétn Jcsta pcr.,pectiva que os prcconceito~ com que a crítica e a
Gomcs de Almetda relativa:-. ao romnncc lnocéncia. hiMória Iiterána brasikira~ Jidam com o regionalismo podem desvelar -,cu~
Discute uma quarta edt~ao do romance ( 1898), na qual os cdttores aluden~ a contornos ideológico<> e <;ua dimensao política -;eus protocolos de Ieitura literána
vontnde Je Taunay de exclutr do livro epígrafes, gnfo" no clialeto e expltca~JO sao urbanos e ortodoxo~ e talvez codifiquem, no rótulo regionalismo/regionali.lta
vo<.abular, no intuito de tomar a lettura da obra mai<; cot rente. A partir desse projt:tll, sua incapac1dade de dat conta do modo de ser me.HI{'O da literatura regtOnaltsta
o crittco aponta o caráter univer-.<11 da" epígrafes de Tau·1ay, assinalando. no lit11 Jo qu~. produto cultural crioulo como o paí.... é canmb,tdo como estrangetro pelo'
Olhos urbanos e europctndo-. Ja crítica ...
326 327

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