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2019 © Laura Assis

2020 © Laura Assis

Capa: Diego Navarro


Revisão: Lia Duarte Mota

A848d Assis, Laura


Duas vezes o sol / Laura Assis.
– Juiz de Fora: Aquela Editora, 2019.

ISBN: 978-85-65179-10-2

1. Poesia brasileira I. Título


There's a radiant darkness upon us,
but I don't want you to worry.

The National
Então, através

I
Meio da tarde
de quarta, não está
tão escura a sala.
Esperamos semanas
inteiras por essa parada,
mas as letras se esbarram
e borram as palavras; é como
se a legenda
fosse em hebraico.
Doze anos, meu inglês
quase fictício: sem tradução
o filme é um mosaico de frames
e mais frames sem sentido.

O médico atrasa
e já está com pressa,
mas faz muitas perguntas difíceis:
"esse ou essa?",
"essa ou aquela?".
As letras se fundem
como fizeram
na tela, suas linhas
são quase invisíveis,
e a verdade é que não enxergo
nenhuma delas.

Três graus aqui,


dois e meio lá
e é como se a luz atravessasse
as bordas do mundo
e tudo se iluminasse,
tudo
("então é assim
que vocês enxergam?",
pergunto para alguém
do meu lado).
É como se antes
eu estivesse vislumbrando
a vida inteira por um vidro embaçado,
agora tudo brilha e se define
através das vitrines que corrigem
os desvios opacos
do espaço.
II
Muitos anos e alguns graus
depois, eu já tinha usado
e desistido de usar lentes,
tinha visto
muita coisa,
ou quase nada,
tinha perdido
certezas, moedas
ganhado apelidos
e deixado de cumprimentar
muita gente.
Mais de duas décadas
convivendo com a escolha
de olhar alternada:
ver tudo
artificialmente
ou viver no natural
da vista nublada.

Até aquele momento,


em que no início
não enxerguei nada,
o mesmo embaço
que antes,
quase sempre,
eu estive acostumada,
até que a luz
me encontrou, ou uma
sinapse, e aí sim
foi como se o mundo
inteiro, de repente,
num só clique
se apagasse.

De certo modo,
eu vi até o futuro
já que o desejo
forma na mente a imagem,
assim como a miopia
que eu também tinha,
à frente da retina
forma objetos
sem margens;
uma espécie de
defeito na convergência
que meio que antecipa
a formação,
uma ansiedade
dos olhos para perceber
primeiro:
é assim que o mundo
e suas formas
somem (e eu estava de óculos
o tempo inteiro,
mas precisei reaprender
alguns sentidos
para só então
enxergar
meu próprio
nome).
Mergulho

Hoje por uma ou duas vezes


o sol ofuscou
pequenos desastres,
mas considerando as possibilidades
desta manhã de segunda-feira
– 25 graus,
céu parcialmente nublado,
9 horas e 41 minutos
na pulsação do relógio alheio
à existência do dia que emula
todos os outros
que vieram antes dele –
eu me lembro que o absurdo
nos espreita
por uma fresta.

Entretanto,
não faz muito tempo
que entendi:
shoppings, salas de espera, maternidades,
filas, escritórios, estradas e festas;
todos os lugares estão lotados
de gente tentando ser feliz.

Ainda não sei


se os pretextos do desejo
são mesmo assim
tão abstratos
ou se essa é só outra maneira
de interpretar o mundo,
mas desde que cheguei aqui
os dias têm sido
um mergulho
na tarde mais quente
do último verão da minha infância
– o golpe de sal e realidade
no corpo despreparado.

Então me pergunto:
quanto tempo
eu teria aguentado
sem respirar
se alguém não tivesse me mostrado
como a luz se dispersa
antes mesmo
de tocar a superfície
e avisado que ali onde eu estava
parecia, sim, muito longe,
mas ainda dava pé?

Hoje por duas ou três vezes


o sol ofuscou
pequenos desastres.
Hotel Madrid

Tenho pena dos quartos de hotel


em que nunca estivemos,
eles não irão assistir
nosso entusiasmo ao desfazer as malas,
astronautas encantados
com planetas menores:
a aventura de esquecer que
em dois ou três dias
estaríamos voltando para casa.

Tenho pena dos corretores de imóveis


que ainda perdem tempo
me ligando para falar
de lugares
onde nunca irei morar.
Sempre grandes demais
esses apartamentos,
com janelas voltadas
para um futuro difuso,
e em cujos anúncios
meus olhos,
se não fosse por nós,
sequer teriam tocado.

Tenho pena da tarde de domingo


que vai se surpreender
ao nos encontrar
em coordenadas tão contrárias.

Mas todo silêncio é pouco


quando no quarto ao lado
uma aposta dorme
o sono leve
dos que preferiam despertar.

(o letreiro do Hotel Madrid


se acende resignado,
enquanto os carros
se deslocam lentamente,
como religiosos
em uma apática procissão
pela Avenida do Contorno.
É quando penso em um poema
que irá começar com o verso
“Tenho pena dos quartos de hotel etc.”,
um poema que será
uma espécie de aquário,
recorte antinatural
de um desejo perdido,
e que um dia me explicará tua ausência
de forma quase matemática.
Por favor, não se esqueça
de alimentar os peixes
assim que virar esta página.)
Equinócio

essa sua metade


que segue na sombra
e se esconde
das fotografias
não se revela
por quase nada
mesmo no breve instante
em que o resto brilha
de uma outra parte
também é memória
o que foi iluminado
e ainda assim se perdeu
hoje falamos dela
com o mesmo cuidado
de quem diante
de estranhos não diz
o verdadeiro nome
de um deus
LAURA ASSIS nasceu em Juiz de Fora em
1985 e é doutora em Literatura pela PUC-
Rio. Publicou o livro Depois de rasgar os
mapas (2014) e três plaquetes de poesia,
além de textos literários e críticos que
figuram em revistas, antologias e sites
diversos no Brasil, Portugal, México e EUA.
Participa do coletivo editorial Capiranhas do
Parahybuna e atua como professora de
Língua Portuguesa e Literatura.
DUAS VEZES O SOL foi composto em Gastromond
e Minion Pro para a Aquela Editora e lançado em
outubro de 2019. Em outubro de 2020, durante o
isolamento social imposto pela pandemia de
covid-19 e enquanto o Brasil passa por uma das
maiores crises políticas, ambientais e éticas de sua
história, essa edição virtual é colocada no ar,
revista e acrescida do poema “Equinócio”, inédito
até então.

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