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FACULDADE DE LETRAS E CIÊNCIAS SOCIAIS

DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA

PERSEGUIÇÃO E CAÇA AO ALBINO: contribuição do associativismo para a integração


social dos albinos

Projecto de monografia a ser apresentada em cumprimento parcial dos requisitos exigidos para a
obtenção do grau de Licenciatura em Sociologia na Universidade Eduardo Mondlane

Autora:

Arlete Cuco

Supervisor:

Dr. Neto Sequeira (MA)


UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE

FACULDADE DE LETRAS E CIÊNCIAS SOCIAIS

DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA

PERSEGUIÇÃO E CAÇA AO ALBINO: contribuição do associativismo para a integração


social dos albinos

Monografia Apresentada em Cumprimento Parcial dos Requisitos Exigidos para a Obtenção do


Grau de Licenciatura em Sociologia na Universidade Eduardo Mondlane

Autora:

___________________________________

Arlet Cuco

Supervisor:

Dr. Neto Sequeira

O Júri

O supervisor O(A) presidente O(A) oponente

_____________________ ____________________ ____________________

Maputo, aos__________de________________de 2018


Declaração de Honra

Declaro ser a autora desta Monografia, que constitui um trabalho original e inédito, que nunca
foi submetido (no seu todo ou qualquer das suas partes) a outra instituição de ensino superior
para obtenção de um grau académico ou outra habilitação. Atesto ainda que todas as citações
estão devidamente identificadas. Acrescento que tenho consciência de que o plágio é a utilização
de elementos alheios sem referência ao seu autor e constitui uma grave falta de ética, que poderá
resultar na anulação da presente Monografia.

________________________________

(Arlet Cuco)

i
Dedicatória

Dedico esta monografia aos meus pais Adolfo Cuco e Rosita João Cuco, esposo Domingo
Chiconela, e aos meus filhos Júnior, Aniso e Lopes.

ii
Agradecimentos
Primeiro, agradeço a DEUS, todo poderoso e protector, por me ter acompanhado durante toda a
minha jornada académica.

Agradeço, segundo, ao meu supervisor dr. Neto Sequeira, que teve toda a paciência da vida e
incentivou, tornando possível a finalização deste trabalho.

De seguida agradeço aos amores da minha vida, meu marido Domingos Muiombo Rubão
Chiconela, meus pais e filhos, por terem acreditado em mim e oferecido incentivo e
encorajamento sem os quais não teria investido neste trabalho.

Dirijo, especialmente, o agradecimento aos representantes da associação Amor a vida, senhor


Milton, senhor Williamo, Padre Alexandre e a Edna Ribeiro, pela sua disponibilidade e abertura
em participarem do estudo.

iii
Resumo

A perseguição e rapto de albinos em Moçambique foi um fenómeno, que durante os últimos


anos, representou uma das preocupações ao nível nacional, envolvendo diferentes actores sociais
na sua definição como problema social. Construindo esse fenómeno como problema sociológico,
temos como objectivo compreender a contribuição do associativismo para integração social dos
albinos durante o contexto em sofriam a perseguição e rapto para a extracção dos seus órgãos.
Adoptamos uma metodologia qualitativa aplicada sob ponto de vista da teoria de estruturação de
Giddens (2003), pelo que, assumimos que a associação Amor a vida define as suas acções de
intervenção com base nos recursos encontrados na estrutura social. A nossa análise e
interpretação mostra que o medo, terror e insegurança são factores que caracterizam o contexto
de perseguição e rapto de albinos em escala nacional. Os entrevistados apontam que a
superstição, os fins económicos, a ausência de valores e a não aplicação de políticas de
integração social de albinos são algumas das causas da perseguição e rapto de albino. As práticas
que visam combater este fenómeno e promover esta a integração dos albinos são campanhas de
sensibilização, divulgação de mensagens nos meio de comunicação e internet, criação de
parcerias e orientação para que os albinos assegurem a sua propria protecção. Os albinos
associados afirma encontrar benefícios nas práticas de intervenção da Amor a vida, pelo que,
possibilitam que concluamos que essas práticas contribuiram para que alguns dos albinos se
sentissem mais integrados nalguns contextos sociais a medida em que procurassem fazer face ao
medo, insegurança e terror provocado pela perseguição e rapto de albinos em outras províncias.

Palavras-chave: Associativismo; integração social; práticas sociais.

iv
Abstract

Keywords:

v
Índice
Declaração de Honra........................................................................................................................i

Dedicatória......................................................................................................................................ii

Agradecimentos..............................................................................................................................iii

Resumo...........................................................................................................................................iv

Abstract............................................................................................................................................v

Introdução........................................................................................................................................1

Capítulo I. Revisão da literatura......................................................................................................8

Capítulo II. Enquadramento teórico e conceptual.........................................................................15

2.1. Quadro teórico.....................................................................................................................15

2.2. Definição e operacionalização dos conceitos......................................................................17

2.2.1. Associativismo.............................................................................................................17

2.2.2. Integração social...........................................................................................................18

2.2.3. Práticas sociais.............................................................................................................20

Capítulo III. Metodologia..............................................................................................................22

3.1. Estratégia de investigação...................................................................................................23

3.2. Técnicas de recolha de dados..............................................................................................23

3.3. Unidade de análise..............................................................................................................24

3.3. Questões éticas do estudo...................................................................................................25

Capítulo IV. Análise e interpretação dos dados.............................................................................28

4.1. Perfil da associação Amor a vida........................................................................................28

4.3. Percepções sobre a perseguição e rapto de albinos.............................................................37

4.4. Práticas sociais de integração social dos albinos................................................................40

4.5. Percepções sobre as práticas sociais de integração social dos albinos................................45


Considerações finais......................................................................................................................48

Referências bibliográficas.............................................................................................................51

Anexos...........................................................................................................................................53
Introdução

O albino nunca esteve antes no centro dos discursos mediáticos quanto está ultimamente em
Moçambicano, centrando-se na denúncia de uma série de situações em que pessoas dessa
categoria identitária vêm sendo vítimas de formas de tratamento diferencial com tendência à
desumanização, violando-se os seus direitos que lhes devem estar assegurados ao nível nacional
e internacional.

O albinismo é concebido como uma característica genética que os indivíduos possuem, resultante
do facto de nascerem com limitação ou ausência de melanina, que é um pigmento responsável
pela coloração da pele, cabelo, pelos e olhos, fazendo com que sejam vulneráveis ao sol e certos
alimentos, o que pode causar problemas de saúde (Melo, 2016). Essas características, quando
socialmente construídas, sujeitam os albinos a tratamentos diferenciados, como discriminatórios
e estigmatizantes, não obstante a constituição, ao nível de Moçambique, reconhecer a igualdade
entre os cidadãos.

Ao nível nacional, de um lado, a Constituição de Moçambique define, no artigo 35, referente ao


princípio da universalidade e igualdade, que Todos os cidadãos são iguais perante a lei, gozam
dos mesmos direitos e estão sujeitos aos mesmos deveres, independentemente da cor, raça, sexo,
origem étnica, lugar de nascimento, religião, grau de instrução, posição social, estado civil dos
pais, profissão ou opção política. (p. 11) e, do outro lado, ao nível internacional, as
Organizações das Nações Unidas (ONU), na sua resolução, estabelece que Não há espaço neste
século para crenças erradas e prejudiciais, ou qualquer tipo de discriminação. As pessoas com
albinismo são merecedoras de dignidade como qualquer outro ser humano. Têm o direito de
viver livres de discriminação, privação e medo (KANIMAMBO, s.d, p. 1).

Contrário ao conteúdo desses documentos, o Moçambique descrito nos meios de comunicação é


uma arena na qual os albinos são obrigados a lutar contra uma série de atrocidades, que vão
desde o simples olhar discriminatório, isolamento, estigmatização até aos raptos. Por exemplo,
enquanto KANIMAMBO (s.d) denuncia a discriminação contra os albinos em todo o país,
Matias (2015, 26 de Agosto) aponta que só no ano de 2015 foram registados 15 casos de
sequestros e assassinatos de albinos no país.

1
O rapto praticado contra os albinos em Moçambique chama atenção de vários actores sociais
com diferentes interesses sobre essa categoria social. Enquanto alguns, como os cientistas sociais
(sociólogos, antropólogos, etc), preocupam-se, especificamente, com a compreensão desse
fenómeno, buscando analisar, dentre outras questões, os factores sociais por detrás da sua
ocorrência e seus efeitos dentro da sociedade, outros, como a Liga dos Direitos Humanos (LDH)
e outras Organizações da Sociedade Civil (OSC), realizam intervenções com vista a
transformação do quadro social dentro do qual os albinos são construídos como vítimas de
formas de tratamento que colocam em causa a sua existência.

Essas preocupações crescem a medida que muda o quadro social que integra os albinos em
Moçambique com tendência à degradação da sua condição social. Antes de 2015, o país contava
com um total de cerca de 20.000 albinos numa população total de 20.579.265 de habitantes. Esse
tamanho é considerado normal em comparação com países da África Oriental e o ambiente de
aparente calmaria1 dentro do qual se encontra essa minoria. Entretanto, desde os finais de 2014
(até Dezembro de 2014, 114 albinos tinham desaparecido no Centro e Norte do país) e início de
2015 até finais de 2016 e inícios de 2017, o cenário de calmaria foi alterado pela ocorrência
crescente de raptos de albinos (KANIMAMBO, s.d, p. 2).

Ao longo desse intervalo temporal, vários relatos, vindo de diferentes partes do país, como
Nampula, Malema, Morrupala, Ribábuè (ibidem), divulgaram a ocorrência de casos de
desaparecimento e raptos de albinos. Num meio informativo electrónico, Caldeira (2016, 30 de
Março) apontava para ocorrência de mais casos de rapto e assassinato de uma pessoa portadora
do albinismo em Moçambique, na província de Sofala, mais especificamente no distrito de
Muanza. Ainda na mesma província ocorreu um caso de um albino adulto que foi interceptado
em plena via público, tendo sido atacado com golpes que tiraram a sua vida e depois lhe foram
decepados os membros superiores.

1
A calma social dentro da qual estão inseridos os albinos, assim como qualquer outra minoria social, nunca pode ser
absoluta, pois estão sempre sujeitos a diferentes formas de discriminação, seja na sua forma directa ou indirecta,
entretanto, os níveis atingidos por essa forma de tratamento é que tornam esse fenómeno mais preocupante nalguns
espaços da sociedade em comparação com outros, assim como nalguns períodos e não noutros. Ao falarmos de
calmaria, estamos a comparar com outros contextos em que o fenómeno atingiu proporções sociais intoleráveis.

2
Em compreensível que, diante de um ambiente social com essas características, existam vários
actores sociais que procuram ir para além da simples observação, procurando oferecer
explicações acabadas a serem assumidas por outros como verdadeiras. Como afirma Santos
(1999), em torno dos problemas sociais são construídas explicações – algumas das quais
oferecidas por especialistas – não só divergentes, por vezes incoerentes, como também
contraditórias entre si, sendo que, afirma Giddens (2003), o sociólogo é desafiado a incidir sobre
essas explicações, suspendendo-as e transformando-as em seu objecto de estudo a medida que
rompe com elas.

A ruptura com as explicações do senso comum implica tanto a sua rejeição, como também a
mudança do sentido que sugerem. Desta forma, ao invés de preocuparmo-nos com as causas dos
raptos contra os albinos, buscamos, neste trabalho, incidir sobre as práticas com vista à
reintegração social numa época em que os discursos predominantes nas sociedades
contemporâneas apelam e defendem a aceitação da diferença como uma condição para a
convivência social. É nesses termos que Pires (2012), professor e investigador, defende uma
integração social heterogonia e de diferenciação em detrimento de uma sistémica, com tendência
à homogeneização.

De acordo com Almeida (1993), a integração social é um conceito e uma prática inserida no
debate sociológico quando o que está em causa, dentre outras questões, é a existência de
categorias sociais vítimas de perseguição, visto que, assume-se que carecem de aceitação social
por parte de outros grupos sociais. Podemos assumir o mesmo com relação aos albinos em
Moçambique, pois, de um lado são, vítimas de perseguição e raptos e, do outro lado, vários
actores têm realizado marchas e campanhas com vista a facilitar a sua aceitação social.

Mueia (2016, 17 de 2016) afirma, num informativo electrónico, que diversas campanhas vêm
sendo levadas a cabo por activistas albinos, assim como não, por todo o Moçambique, exigindo
mais seriedade das autoridades governamentais moçambicanas no combate ao rapto, tráfico e
assassinatos de albinos. Embora essas práticas tenham sido mais comuns, principalmente, na
região Norte, com maior incidência, e Centro, com menor incidência, essas campanhas foram
realizadas também na região Sul, especificamente em Maputo, com a finalidade de impedir que
essas práticas atingissem esta província, pois o sentimento de medo e insegurança tornou-se o
estado de espírito de toda a “Nação moçambicana”.

3
Existe, em escala nacional, uma preocupação com a reintegração social dos albinos nos
diferentes espaços da sociedade moçambicana, pois o seu isolamento do convívio social não
constitui alternativa, embora não seja imediatamente observável e compreensível para o olhar
comum. É sobre as práticas realizadas com vista a integração social dos albinos num contexto de
caça ao albinos que nos debruçamos neste trabalho, procurando, especificamente, compreender a
forma como as associações que as levam a cabo procuraram responder aos desafios com os quais
se deparam no âmbito da sua intervenção. Nesse contexto, interessam-nos as práticas levadas a
cabo por essas associações de albinos.

Incidimos as nossas reflexões sobre a realidade social da cidade de Maputo, onde identificamos a
associação Amor a vida com a qual trabalhamos. Escolhemos esta associação pelo facto de
termos observado alguns esforços no sentido de lutar pela integração de albinos num contexto
em que vinham sendo alvos de perseguição e raptos, o que tornou possível que estudássemos as
práticas de integração social dos albinos.

Justificamos o estudo da contribuição do associativismo para a integração dos albinos por


considerar que a caça a pessoas dessa categoria social é um fenómeno cuja tomada de
conhecimento interessa a sua efectiva compreensão num contexto em que emergiram analistas,
nos meios de comunicação, preocupados em oferecer explicações superficiais e simplistas sobre
esse fenómeno. Olhar para a caça aos albinos do ponto de vista sua integração social é uma
forma de romper com os discursos quotidianos com pretensão simplista à cientificidade, assim
como de oferecer, às associações de albinos, uma informação científica e fidedigna sobre a sua
própria actuação.

A relevância do associativo para a realização dos interesses dos indivíduos dentro das sociedades
modernas e democráticas generalizou-se ao ponto de poucas pessoas tomarem a iniciativa de
problematizar a sua eficácia. Decerto que em condições normais – com as quais as pessoas lidam
ordinariamente –, o associativismo pode contribuir para a integração social dos indivíduos como
mostram Bíscaro (2012) e Melo (s/d). Mas em situações extraordinárias é importante levantar o
problema sobre a eficácia do associativismo para a satisfação dos interesses individuais. Quando
levantamos este problema, estamos a enriquecer o debate em torno desse fenómeno, tendo como
caso de estudo a categoria social dos albinos, contribuindo também para a produção do
conhecimento científico em Moçambique tanto sobre o associativismo, sobre as práticas de i

4
Qualquer estudo que suspenda e problematiza todo o conhecimento científico já constituído está
a contribuir para a ciência, pois, como afirma Pooper (1980), só é válido o conhecimento que
sobreviver à comprovação empírica contínua. Desta forma, estamos a problematizar os
resultados de estudos realizados em Brasil segundo os quais o associativismo contribui para a
integração social dos albinos. Ademais, as teorias sociológicas reclamam a sua generalidade, o
que só pode ser alcançado por meio da sua aplicação em contextos sociais para além daqueles
nos quais foram concebidas.

É dentro do quadro anteriormente delimitado que o objectivo geral do presente trabalho é de


compreender a forma como a associação Amor a vida procurou contribuir para a integração dos
albinos no contexto em que sofriam perseguição. Este objectivo desdobra-se nos seguintes
objectivos específicos: descrever o contexto social dentro do qual a associação realiza a sua
intervenção; identificar as percepções sociais dos associados sobre a perseguição e raptos de
albinos; e, descrever as práticas adoptadas pela associação de albinos para a integração social
destes.

Tem sido uma opção recorrente estudar as experiências dos albinos a partir das representações
sociais, o que tem permitido identificar as bases do tratamento que a sociedade atribui a essa
categoria social. Entretanto, não é nosso interesse discutir representações sociais que as pessoas
possuem sobre o albino, mas devemos, sempre, chamar atenção para a necessidade de uma
vigilância epistemológica, principalmente quando o conhecimento científico produzido coincide
com as ideias difundidas ao nível do senso comum, o que acontece com as afirmações segundo
as quais a perseguição dos albinos tem por detrás a sua ligação com a superstição, com risco de
se negar a possibilidade de sua integração social, pois implicaria medidas também supersticiosas.

Neste trabalho, basta-nos afirmar que não reiteramos as alegações de superstição, limitando a
reconhecer o facto de os albinos serem vítimas de diferentes formas de tratamento que vão do
simples desconhecimento da sua existência, isto é, sua invisibilidade, passando pela sua
exclusão, estigmatização, discriminação até ao seu rapto e assassinato, o que constituem
indicadores de não estarem efectivamente integrados socialmente nos espaços nos quais são
assim abordados.

5
Assim, observamos que o associativismo é uma forma adoptada pelos albinos para fazer frente
ao tratamento que recebem da sociedade, procurando, por meio dele, levar a cabo práticas que
permitem a sua saída do anonimato e da invisibilidade, de modo a efectivar a sua integração
social. Isso é o que mostram alguns estudos que discutimos na revisão da literatura (cf. Burgos,
2014; Melo, 2016) e o que podemos observar na realidade quotidiana em Moçambique. Estes
estudos revelem a eficácia do associativismo para integração social do albino, embora suas
análises limitem-se às questões da estigmatização e discriminação.

Em contextos em que a relação com os albinos transcendente discriminação e estigmatização,


transformando-se em perseguição, raptos e assassinatos, é importante problematizar a capacidade
das associações de adaptar as suas práticas com vista à integração social dessa categoria social.
Como afirma Touraine (1994), as antigas formas de associativismo não respondem os desafios
colocados pelas sociedades contemporâneas, sendo um desafio a adopção de práticas de
intervenção de acordo com esta nova realidade social. Para Giddens (1999), num contexto de
globalização, os actores sociais encontram diante de si uma gama de recursos com base nos quais
podem tomar suas decisões e orientar suas práticas, de modo a responder os desafios colocados
pelo seu quotidiano.

A partir dessa problemática dos desafios da contemporaneidade e da necessidade de adequar as


acções de intervenção do associativismo a esse contexto, compreendemos ser relevante
problematizar as práticas adoptadas pelas associações dos albinos com vista a integração social
destes num meio social em que são vítimas de perseguição e raptos, sendo esta uma questão não
explorada nos estudos consultados ao nível de Moçambique. Para o efeito, levantamos a seguinte
questão: de que forma o associativismo procura contribuir para a integração social dos albinos
num contexto de perseguição e raptos?

Respondemos, provisoriamente, a questão acima colocada afirmando que a contribuição do


associativismo para a integração social do albino, num contexto de perseguição e raptos destes,
consistiu na adopção de práticas sociais diferenciadas e adaptadas a cada realidade social na qual
realizavam as suas acções de intervenção.

Organizamos o presente relatório em seis partes, sendo que a primeira é esta na qual trazemos
uma breve contextualização do tema em estudo, definindo os objectivos que procuramos

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satisfazer. Na segunda parte trazemos a revisão da literatura sobre a situação social do albino em
diferentes sociedades. Na terceira parte trazemos o enquadramento teórico e conceptual. Na
quarta parte trazemos a metodologia, contendo os métodos e técnicas usadas para a realização
deste trabalho. Na quinta parte trazemos a análise, interpretação e discussão dos dados. Na sexta
parte trazemos as considerações finais, seguidas das referências bibliográficas.

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Capítulo I. Revisão da literatura

Foi díficil encontrar estudos que retratam especificamente a questão da integração social dos
albinos, pelo que, de modo a enriquecer a revisão da literatura que apresentamos nesta parte do
trabalho, recorremos a outros estudos que tenham analisado outras dimensões da realidade social
do albino, tais como sua discriminação, sua invisibilidade e perseguição. O mesmo afirmamos
com relação aos estudos realizados em Moçambique cuja escassez levou-nos a recorrer a
publicações científicas internacionais.

Começamos a nossa apresentação e discussão com estudos que tenham sido realizados no âmbito
internacional2. Trazemos, primeiro, estudos que retratam acções de associações de albinos para
ganhar visibilidade dentro da sociedade brasileira. A este respeito, Bíscaro (2012) traz um
trabalho com o tema “Albinos do Meu Brasil: a luta para não passar em branco”, analisando os
movimentos albinos em dois estados brasileiros com recurso ao método comparativo, mostrando
que os meios para ganhar visibilidade variam de região para região.

No nordeste, uma das regiões analisadas, a APALBA, associação estudada, tem pautado por uma
intervenção mais directa junto dos albinos por meio de contactos e encontros em espaços físicos
concretos, fornecendo serviços de saúde, informação, orientação para formação escolar e
profissional e facilitando a sua integração social. Ao contrário, no Sul de Brasil, a PCAs,
associação em estudo, o recurso é o espaço virtual, sendo que os encontros são mais na internet,
o que não significa que não existam encontros físicos. Por meio de contactos virtuais, são
marcados encontros físicos, mas o espaço de partilha simbólica e construção de identidade albina
é o virtual.

Na internet os albinos puderam expor-se e apresentar-se ao mundo, demonstrando as suas


habilidades e potencialidades, o que concorreu para que, por exemplo, agências de publicidade
procurassem-nos para participarem de comerciais de televisão, filmes, entrevistas na imprensa.

2
Tem sido um aspecto crítico o grande recurso a produções científicas brasileiras em torno de diferentes fenómenos,
como se fosse o único país produtor. No entanto, visto que também, neste trabalho, destacamos Brasil, na discussão
de estudos realizados internacionalmente, justificarmos com o facto de termos tido acesso a estudos desse nível por
meio da internet. Assim sendo, na nossa busca persistente na internet, só nos foi possível encontrar estudos
brasileiros, pelo que, esse foi o factor limitador para que não tivéssemos acesso a estudos de outros países. A este
respeito Melo (2016, p. 3) afirma “Fazendo a pesquisa bibliográfica, percebi que existe uma carência de trabalhos
sobre o albinismo, principalmente nas ciências humanas e sociais. Em sites de busca é possível encontrar trabalhos
relacionados às ciências da saúde, limitando o debate aos factores genéticos, causas e possíveis tratamentos”.

8
Eles foram integrando-se socialmente em espaços dos quais eram antes excluídos, o que mostra a
o poder integrador da internet.

No mesmo campo de debate, em torno da invisibilidade dos albinos, está Melo (s.d) de quem
destacamos o estudo intitulado “Sou uma pessoa com albinismo. Sou também uma pessoa
invisível: uma reflexão sobre activismo e inclusão”. O artigo se interessa por um dos casos
analisados no estudo anterior, pelo que, destaca, de igual modo, o investimento que a associação
de albinos em causa, PCAs, fez no uso da comunicação digital para conquistar a visibilidade
dentro da sociedade brasileira.

Sem repetir o conteúdo do outro estudo, interessa-nos destacar o facto de Melo (s.d) observar
que vários grupos encontram-se no espaço virtual, espaço de interacção, para divulgar, consumir
e partilhar informação sobre os problemas enfrentados pelos albinos no seu quotidiano,
destacando, em específico, o Blogo Albino Incoerente em que um livro sobre o ser albino foi
divulgado.

As mesmas observações são feitas pelo autor noutro trabalho intitulado “Não consto do censo,
quase nunca apareço na mídia’: uma reflexão sobre (in)visibilidade dos (as) albinos (as)” em que
aponta que a invisibilidade do albino tem por detrás a sua ausência ou pouca representatividade
nos mídia, o que reflecte uma fenómeno de exclusão. O ponto central deste estudo é que Melo
(2016) afirma que o associativismo foi a estratégia manipulada para que o albino conquistasse o
estatuto que possui hoje no Brasil e no mundo, pois, por meio dele, foi possível defender os seus
interesses e direitos por meio da criação de redes de sociabilidade, promoção de eventos,
lançando programas sobre albinos como o Programa Estadual de Atenção Integral às Pessoas
com Albinismo.

Do ponto de vista do exposto, os albinos pautam pela construção de espaços de sociabilidade dos
quais participam tanto albinos como pessoas não albinas, potenciando a construção de redes de
relacionamento de pessoas que não enfrentam nenhum problema em aceitarem e relacionarem-se
com albinos. Assim, a comunicação digital demonstra o seu poder e capacidade de mobilizar
maior número de indivíduos possíveis de forma rápida, contribuindo positivamente para a
integração social dos albinos.

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Reconhecemos o poder da comunicação digital na construção de relacionamentos em rede num
diâmetro já mais antes visto e em curto prazo de tempo, visto que, muitas pessoas aderem a esse
espaço. Entretanto, não podemos ignorar o facto de existir ainda um grande número de pessoas,
especialmente em Moçambique, que não tem acesso a esse recurso tecnológico, pelo que, estão
excluídas da comunicação digital. Nessas situações, outros meios de integração têm sido os
recursos accionados.

A integração social é também um problema que se levanta no espaço escolar sobre o qual
Martins (2012) realizou um estudo com o tema “Bullying no espaço escolar: os dilemas e
desafios enfrentados por albinos no processo de inclusão social”, em que discute as estratégias
usadas para combater o bullying e assegurar que os albinos estejam devidamento integrados
nesse ambiente e sejam aceites como outros alunos/estudantes considerados normais.

Neste estudo afirma-se que os albinos são vítimas também dos próprios professores. Não se trata,
no casos dos professores apontados, de um acto deliberado de exclusão, mas sim da falta de
preparação pedagógica para lidar com as especificidades dos albinos. Neste caso, o problema é
inerente ao próprio sistema educacional, que admite albinos em escolas nas quais não estão
criadas condições para que eles sejam efectivamente integrados, pelo menos em termos
padagógicos. Como resultado, não podia se esperar outra realidade, o albino enfrenta não só
dificuldades nos relacionamentos sociais, como também no processo de aprendizagem, tendo
problemas na assimilação da matéria (Martins, 2012)

De acordo com este terceiro autor, para combater o bullying do qual são vítimas os albinos,
recorre-se a uma intervenção cooperativa, envolvendo todos os actores vinculados ao processo
educativo, tais como pofessores, funcionários, alunos e pais. Esse envolvimeento cooperativo
incide sobre diferentes dimensões da integração, como paz pessoal, meio ambiente,
solidariedade, tolerância e respeito às diferenças. Essa estratégia consiste em centralizar as suas
acções no espaço físico escolar, privilegiando-se os contactos directos presenciais.

A integração social dos albinos não ocorre somente do ponto de vista das relações sociais,
materializando-se também sobre um prisma jurídico, que consiste no reconhecimento dos
direitos da pessoa albina. Essa dimensão da integração social é analisada por Borcat, Severino e
Ensino (s.d), no seu trabalho com o tema “As pessoas com albinismo e o novo conceito de

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deficiência sob enfoque do princípio da igualdade à luz do direito a diferença”, em que olham
para a invisibilidade dos albinos, enquanto uma variável condicionante para a sua privação de
direitos fundamentais para qualquer pessoa.

Como forma de contornar essa situaçao, a ONU adoptou uma convenção na qual eleva o albino à
categoria de pessoas com deficiência para que ele possa gozar de direitos, de um modo geral, e
de tratamento especial de um modo específico. Entretanto, Borcat, Severino e Ensino (s.d)
afimam ser, essa, uma medida relevante e um avanço na forma de conceber o albino, porém, a
sua integração legal apresenta alguns aspectos críticos, como é o caso de integrar apenas uma
categoria específica de albinos, aquela cuja hipopigmentação da íris e da retina ocasionam
acuidade visual inferior a 30%, deixando-se de fora todas demais categorias.

Desta forma, a integração legal cobre apenas um número específico e bastante reduzido de
albinos, fazendo com que outros continuem ainda em situação de privação dos seus direitos, o
que não só viola o princípio da igualdade, como também fomenta para que as desigualdades de
tratamento não sejam somente entre os albinos e os não albinos, mas também entre diferentes
categorias de albinos. Com efeito, a integração legal, por ser diferenciada, não constitui um meio
eficaz para a integração social do albino.

Essa é uma questão que os três autores observaram e criticaram na forma como a ONU procura
realizar a integração social dos albinos. Este terceiro estudo, diferente dos dois primeiros, adopta
uma perspectiva dos direitos. Este sentido é tambem assumido por Cavalcante (2012), no seu
estudo intitulado “Direitos Humanos no Brasil- Uma análise sobre o Albinismo”, no qual
observa que, na realidade brasileira, os albinos são vítimas de exclusão social como resultado,
dentre outros factores, especialmente da falta de informação sobre o albinismo, exigindo-se que
seja necessário uma campanha de sensibilização e conscientização das pessoas para que saibam
como relacionarem-se com os albinos.

Como a apontamos, a primeira consequência e a mais grave da falta de participação é a


invisibilidade dos albinos que resulta na privação dos seus direitos. Os albinos existem na
sociedade, mas não vêm os seus direitos assegurados porque as pessoas, simplesmente, não
sabem que eles existem, não conhecem as suas dificuldades, o que concorre para que sejam

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vistos como pessoas estranhas as quais são atribuídas formas tratamento discriminatórios e
estigmatizantes.

Na sociedade brasileira a situação dos albinos é mais caracterizada pela exclusão, discriminação,
estigmatização e invisibilidade. Esses são fenómenos universais, porém, nos países africanos
ocorre mais do que isso. Um estudo sobre alguns países africanos foi realizado na Espanha, com
o tema “Los albinos em África”, por Burgos (2014) em que, dentre outras questões, destaca a dos
assassinatos e mutilações contra albinos, assim como o seu envolvimento em associações. De
acordo com este autor, nalguns países africanos, incluindo Moçambique, esses fenómenos estão
presentes, sendo que ocorrem em toda a África subsaariana. Por exemplo, na Tanzania, em 2014,
ocorreram 69 assassinatos de albinos.

Os albinos são também apontados como vítimas de ostracismo social, mesmo dentro da sua
própria família há probabilidade de serem rejeitados e deixados a sua própria sorte até morrerem.
As principais razões para essa realidade são crenças ligadas às magias e ao mistério, a ideia de
que o albino é fruto de adultério, interesses económicos vinculados à venda e compra de órgãos
de albinos, entre outros [ CITATION Bur14 \l 1033 ]. De acordo com este autor, no âmbito dos
esforços pela integração social dos albinos, tem-se criado o que ele designa de sociedades
albinas, isto é, associativismo. Estas iniciativas permitem que realizem viagens por todo o
mundo, defendo seus direitos, oferecendo oportunidades de educação, integrando-os em
diferentes áreas, tais como desporto, política, arte.

A integração dos albinos em práticas de associativismo é uma estratégia de facilitação de sua


integração social, beneficiando não somente os que se encontram associados, como também os
que não estão. A sua actuação cobre tanto o âmbito nacional de cada país quanto todo o mundo,
promovendo acções de defesa dos direitos humanos e universais dos quais os albinos são
sujeitos. Não obstante, é importante atentar-se à particularidade de cada contexto nacional, de
modo a trazer as suas especificidades, pelo que, a seguir, trazemos estudos realizados sobre
Moçambique.

No contexto nacional moçambicano, começamos pelo estudo realizado pela Ravim e Handicap
International ([RHI] 2010), com o tema “As pessoas com deficiência em Maputo e Matola:
representação social da deficiência, situação sócio-económica, condições de acesso aos serviços

12
sanitários e sociais, sistema de actores locais”, no qual chamam atenção para factores que
dificultam e chegam até a impedir que os albinos sejam efectiva e socialmente integrados em
quase todos os espaços da sociedade, começando pela comunidade em que vivem, passando pela
escola, transportes, mercado de trabalho até nos hospitais, onde deveriam receber um tratamento
igual a de todos os outros.

Este estudo traz um aspecto de destaque que nos permite compreender a necessidade que levou a
ONU a elevar algumas subcategorias de albinos à categoria de deficientes. O estudo informa que,
nalgumas comunidades com as quais se trabalhou, observou-se que as pessoas toleram e aceitam
com muita facilidade pessoas com outras deficiências que pessoas albinas. Com efeito, o
tratamento do albino como portador de deficiência pode fazer com que os outros o integrem nas
suas categorias de deficientes, passando a tratar-lhe como tal.

Com efeito, é de notar que o tratamento que se atribui ao albino, impedindo a sua efectiva
integração social, resulta de uma mentalidade que as pessoas possuem com base na qual
preferem o deficiente que o albino. A integração do albino na categoria de deficiente é assim
uma estratégia para a integração social dos albinos por meio da mudança da mentalidade da
social com relação a pessoa albina.

Esse é um dos poucos estudos que encontramos sobre a situação dos albinos no contexto
moçambicano. O outro que identificamos e revelou-se relevante para esta discussão pertence a
Sitoe (s.d), com o tema “Perseguição a pessoas com albinismo: ganância, ambição e superstição
aterrorizam famílias em Nampula”, em que a autora não só aponta para casos de perseguição de
albinos que resulturam em seu assassinato e retirada de partes do seu corpo, como também
destaca as representações sociais por detrás dessas práticas.

De acordo com este estudo, no contexto sobre o qual incidiu a análise, observou-se a existência
de famílias que viviam terror resultante do facto de pessoas albinas estarem a desaparecer da
comunidade, reaparecendo sem vida, principalmente naquelas nas quais mais de um membro é
portador do albinismo. Relatos recolhidos no campo e analisados revelam que alguns dos
perpetradores da perseguição eram indivíduos próximos que se dedicavam à caça ao albino a
mando de terceiros.

13
Os outros aspectos a destacar neste último estudo são os factores apontados como causadores
desse comportamento contra os albinos. Sitoe (s.d) aponta que aqueles que caçam directamente
os albinos são motivos por motivos económicos, sendo que comercializam as partes do corpo das
vítimas em troca dinheiro. Quanto aos compradores dessas partes, por detrás, afirma a autora,
estão as crenças supersticiosas, vinculadas às representações sociais que possuem dos albinos
segundo as quais estão associados a poderes sobrenaturais.

O exposto mostra que as representações sociais possuem, de facto, uma componente prática, no
sentido de orientarem a forma como os indivíduos relacionam-se com os outros e com a
realidade ao seu redor. É neste sentido que também reconhecemos a importância das
representações sociais, no entanto assumimos ser importante não limitar a análise das
experiências dos albinos a essa dimensão, pois, tendo uma dimensão prática, não informam todas
as acções práticas com vista a integração social dos albinos, especialmente num contexto
moçambicano onde eles são vítimas de perseguição e raptos.

Nesta ordem de ideias, trazendo também a componente das representações sociais, mesmo que
de passagem, focamos o nosso estudo nas práticas concretas do associativismo com vista à
integração social dos albinos e, simultaneamente, lutar contra os actos de perseguição e raptos da
pessoa albina.

14
Capítulo II. Enquadramento teórico e conceptual

2.1. Quadro teórico

Para a análise e interpretação dos dados que obtivemos neste estudo, recorremos à teoria de
Estruturação de Giddens (2003) em que o autor procura mostrar que é na estrutura social onde os
agentes encontram os recursos necessários para a orientação e realização das suas acções.
Escolhemos esta teoria pelo facto de assumirmos ser no próprio contexto social no qual estão
inseridas as associações, onde estas encontram os recursos necessários para fazer frente aos
desafios da integração social com os quais se deparam nas sociedades contemporâneas. Como
afirma Giddens (1991), as sociedades contemporâneas não só trazem novos desafios, mas
também oferecem novos meios pelos quais se pode responder a esses desafios.

A teoria da Estruturação parte das contribuições tanto do estruturalismo quanto da


fenomenologia, procurando ir para além dessas duas correntes, na medida em que supera as suas
limitações por serem objectivista e subjectivista, respectivamente. De acordo com Giddens
(2003), o ponto de partida deve ser o reconhecimento de que o agente e a estrutura são
componentes de uma mesma realidade social e que se complementam pelo facto de
influenciarem-se e transformarem-se um ao outro. Em síntese, a estrutura é base da orientação
das acções dos agentes, e estes criam condições para a ocorrência de mudanças na estrutura.

É neste sentido que o autor define as práticas sociais como objecto de estudo da sociologia,
sendo esse o domínio do encontro entre a estrutura e o agente, pois asseguram tanto a reprodução
quanto a transformação da realidade social. Em termos de definição, para o melhor entendimento
do que estamos aqui a apresentar, Giddens (2003) define a estrutura como um conjunto de
recursos, sejam materiais ou simbólicos, com base nos quais os agentes orientam as suas acções
quotidianas, tais como normas, valores, linguagem, significados, tecnologia, entre outros. É com
base nesses recursos que os agentes não só agem como também comunicam-se entre si em
relações sociais concretas.

A partir destes recursos, os agentes podem constituir o que autor entende como sendo sistema
social, isto é, relações sociais concretas entre os indivíduos. Para Giddens (ibidem), enquanto
comunicam, interagem e relacionam-se, os agentes estão constituindo sistema sociais. Estes

15
princípios teóricos abrem espaço para que possamos, hipoteticamente, conceber a associação dos
albinos como um sistema social em que os indivíduos interagem com base nos recursos
estruturais para a orientação de práticas de intervenção com vista a integração social dos albinos.

Até então, mostramos como a estrutura actua sobre os indivíduos, enformando as suas acções.
Vejamos a seguir o sentido contrário. O conceito de reflexividade é um ponto de partida para
compreender a capacidade do agente de transformar a estrutura. Entende-se agente como todo
aquele que possui e exerce efectivamente essa capacidade, isto é, consegue provocar mudanças
na estrutura social por meio das suas práticas sociais por meio da sua capacidade reflexiva
(Giddens, 2003). A reflexividade revela que os agentes podem orientar as suas acções de forma
racional (buscando fins específicos) e monitorar o seu curso (definir e redefinir continuamente o
seu sentido). Vemos que a aplicação dos recursos estruturais é consciente e intencional,
implicando a selecção dos melhores recursos para o alcance dos objectivos definidos.

Ao analisar as sociedades contemporâneas, Giddens (1991) aponta que se multiplicam e se


diversificam os recursos a disposição dos indivíduos para a tomada de suas decisões e orientação
das suas acções. De acordo com o autor, na modernidade tardia, existe o que designa de sistemas
peritos, como fontes de conhecimento e informação, assim como se globalizam as tecnologias
que permitem aos agentes agir no seu quotidiano. Desta forma, sob ponto de vista dos conceitos
de racionalização e monitoração reflexiva, podemos conjecturar que os agentes podem
seleccionar, dentre essa diversidade de recursos, aqueles que melhor permitem orientar as suas
acções e satisfazer os seus objectivos.

É relevante, dentro deste quadro teórico, distinguir entre os efeitos desejados e os efeitos não
desejados das acções a partir do conceito de agência. Giddens (2003) afirma que este conceito
implica reconhecer que embora as acções tenham em vista objectivos racionalmente definidos,
têm também efeitos não desejados cuja multiplicação e reprodução podem provocar mudanças na
estrutura ao longo do tempo. Isto é o mesmo que afirmar que os agentes não têm domínio de
todos os efeitos que podem resultar das suas acções. Isto ocorre independentemente da satisfação
dos objectivos previamente definidos.

A partir dos princípios teóricos que expusemos mostramos que os conceitos de práticas sociais,
estrutura, agende e reflexividade, e seus constituintes, são as bases para a interpretação das

16
práticas de intervenção levadas a cabo pela associação de albinos em análise. Desta forma,
buscamos valorizar a influência do contexto sobre essas práticas, bem como a forma como estas
procuram modificar o contexto estrutural no qual os albinos são vítimas da perseguição e raptos.

Com esta apresentação, trouxemos os aspectos centrais da teoria da Estruturação e os princípios


que justificam a sua escolha e servem de base para a análise e interpretação das experiências da
associação dos albinos estudadas. Assumimos que os membros da associação em estudo agem
como agentes, demonstrando a capacidade de compreender o contexto dentro do qual se
encontram, os desafios que lhes são colocados e os recursos aos quais podem recorrer para
responder a esses desafios de modo a contribuir para a integração social dos albino face a
perseguição e raptos dos quais são vítimas.

2.2. Definição e operacionalização dos conceitos

Neste quadro conceptual, realizamos a definição e operacionalização dos conceitos de


associativismo, integração social, práticas sociais e albinismo.

2.2.1. Associativismo

O associativismo é, actualmente, um dos conceitos mais usados, quando se pretende falar de


acções colectivas e cooperativas. Existe mais consenso quanto à sua definição do que à sua
importância, forma de funcionamento e actuação. Aqui, interessamo-nos apenas pelo primeiro
plano, o que nos poupa muito esforço, pois não há muita controvérsia.

O associativismo pode ser definido como uma forma de organização de pessoas que se juntam de
modo a conciliar os seus esforços para atingir uma finalidade por meio de acções colectivas.
(Instituto Ecológica, 2007 apud Amaral, Felix, Moreira, Silva, & Silva, s.d). Esta perspectiva
coloca a enfâse na satisfação dos interesses comuns, assim como na ausência de fins lucrativos e
reconhecimento jurídico.

As definições do associativismo podem diferir em função das dimensões valorizadas. Alguns


autores optam por partir das condiçoes que dão origem ou justificam a sua criação. É o caso de

17
Amaral, Felix, Moreira, Silva, & Silva (s.d) que afirmam que é resultado da luta pela
sobrevivência e pela melhoria das condições de vida, o que faz com que os indivíduos
enveredem pela realização de acções colectivas de solidariedade e cooperação. Esses autores
preferem falar do associativismo, enquanto uma construção e uma conquista.

A ideia de construção e conquista pretende sobrer-se à ideia de associativismo como uma


organização, como está expresso na definição de Scherer-Warren (2001, p. 42 apud Leonello,
2010, p. 40) para quem esse conceito refere-se a “formas organizadas de acções colectivas
empiricamente localizáveis e delimitadas, criadas pelos sujeitos sociais em torno de
identificações e propostas comuns, como para a melhoria da qualidade de vida, defesa de direitos
de cidadania, reconstrução ou demandas comunitárias”. Leonello (2010) acrescenta ainda que as
suas intervenções englobam reivindicações civis e participação na esfera pública.

Associamo-nos à ideia de ser importante conceber o associativismo para além de uma


organização – no sentido restrito do termo – para concebê-lo como uma construção e conquista,
o que coloca a enfâse nas relações e interacções entre os indivíduos, ou melhor, sujeitos e
actores, na medida em que estão envolvidos na luta pela transformação da sociedade. Desta
forma, no lugar de organização, falamos de união de pessoas que se envolvem em relações
duradoiras, geralmente, informais, embora possam ter uma base formal e jurídica, de cooperação,
inter-ajuda, solidariedade e co-participação, com vista a sua intervenção social em prol da defesa
dos seus interesses comummente partilhados.

2.2.2. Integração social

Integração social é um conceito caro à sociologia, sendo central para a compreensão da realidade
social, seja do ponto de vista da ordem, como da desordem. Esse conceito tem como base a ideia
de integração, que é definida por Pires (2012) como processo de constituição de uma sociedade
por meio da combinação das suas componentes, que podem ser pessoas, instituições ou
organizações.

Quando acrescentamos o termo social, formando integração social, a sua aplicação restringe-se
especialmente ao plano dos indivíduos. O mesmo autor afirma que este conceito refere-se à

18
incorporação dos indivíduos num espaço social por meio de relacionamentos, passando a
constituir-se laços sociais e simbólicos de pertença colectiva (Ibidem).

Nestes termos o conceito implica a partilha de laços e símbolos entre indivíduos dentro de um
espaço social, no entanto pode estender-se para a questão da participação, como o faz Magano
(2008). De acordo com este autor, integração social é a participação dos indivíduos em
actividades dentro da sociedade, como as profissionais e de consumo, o que implica a
interiorização de valores e normas.

Esta segunda dimensão especifica mais a primeira ao dar exemplo de espaços nos quais se pode
realizar a integração social, como o caso do profissional. No entanto, este exemplo é bastante
específico, pelo que, restrito. Uma ideia mais geral e abrangente de espaços em que os indivíduos
podem lutar pela sua integração social é oferecida por outros autores, como podemos observar na
sequência.

De acordo com Gaulejac e Léonetti (1994 apud Magano, 2008), a integração social pode ocorrer
em diferentes dimensões dentro da sociedade, deste a económica, que implica a participação no
consumo e nas actividades de produção, passando pela dimensão social, que abarca a
participação em grupos primários, até a integração global no seio da sociedade por meio de laços
sociais, simbólicos e institucionais.

Vemos que em cada definição que trazemos novos elementos vão sendo agregados no conceito
de integração social, demonstrando a sua complexidade, o que torna a sua operacionalização uma
exigência para a sua aplicação no presente trabalho. Por mais que tentemos delimitar o seu
alcance, a realidade mostrará sempre que a sua heterogeneidade não pode ser apreendida de uma
só vez, pelo que, a nossa definição estará sempre aberta à integração de novos aspectos com os
quais depara-nos ao longo do estudo.

É neste sentido que se afirma que a integração social é, antes de tudo, indefinível, ou melhor,
definível como uma pluralidade, aberta e mutável, tendo como fundamento a partilha do ser de
cidadania. [ CITATION Joã93 \l 1033 ] Entendemos integração social como a abertura para o
exercício de escolhas livres sem, contudo, abdicar do seu relacionamento com os outros e da sua
participação nos diversos espaços da sociedade.

19
2.2.3. Práticas sociais

Práticas sociais é um conceito que reúne pouco consenso no seio do campo académico, pelo que,
não é nosso interesse apresentar todas as definições possíveis de serem encontradas, mesmo
porque muitos autores que fazem a sua utilização esquivam-se da necessidade de apresentar uma
definição precisa.

De acordo com Almeida, Santos, & Trindade (2000), Trindade (2000), tendo-se preocupado em
analisar todas – no sentido literal do termo, pois consideramos pouco provável que tenha, de
facto, esgotado todas as definições existentes – as definições até então apresentadas do conceito
de prática social, chegou a conclusão que é possível agrupá-las em duas categorias: uma das
definições que aplicam o conceito no sentido de referir-se ao conjunto de acções, e outra no
sentido de referir-se às acções que se apresentam como organização encadeada e padronizada.

Essas categorias apresentam definições que também podem ser distinguidas pelo facto de
priorizarem diferentes factores da realidade social. Enquanto numa categoria tende-se a olhar
mais para os aspectos de ordem objectiva, como é o caso dos papéis sociais, noutra incide-se
mais para aspectos subjectivo, buscando-se captar os significados atribuídos pelos sujeitos
(Almeida, Santos, & Trindade (2000),

Não obstante ser possível identificar definições que podem ser agrupadas em cada uma das
categorias acima expostas, não podemos estruturar o nosso pensamento de forma dicotómica,
sendo importante considerar a existência de mais de duas categorias. Isto significa que é possível
encontrar definições que combinam, simultaneamente, a subjectividade dos actores e a dimensão
objectiva da realidade social, como podemos observar na que apresentamos a seguir.

Souza, Torres, & lucas (2011) afirmam que as práticas sociais resultam simultaneamente das
acções dos indivíduos e seus aspectos constituintes como intenções, valores, atitudes, crenças e
da estrutura na qual estão integradas as relações internas e externas de uma organização, bem
como os contextos das interacções entre as organizações.

Quando são combinados todos esses factores, concebe-se a definição segundo a qual as práticas
sociais referem-se às actividades quotidianas produzidas pelos actores sociais no seio de

20
contextos e interacção, sendo que este contexto pode ou não ser uma organização (Souza, Torres,
& Lucas, 2011)

A definição que apresentamos no último parágrafo acima representa um avanço nas limitações
de outras definições ao valorizarem ou a dimensão subjectiva ou a objectiva separadamente.
Neste trabalho combinamos as duas dimensões, concebendo práticas sociais como acções dos
indivíduos, que, estando doptadas de significado subjectivo, possibilitam a reprodução do
contexto social em que essas acções são realizadas. É conveniente valorizarmos,
simultaneamente, essas duas dimensões, uma vez que, assumimos um quadro teórico em que
Giddens (2003) considera que as práticas sociais reflectem o encontro entre a estrutura e os
agentes.

21
Capítulo III. Metodologia

Neste capítulo do trabalho procuramos apresentar os métodos e técnicas que aplicamos para a
materialização do estudo que realizámos. Antes, compreendemos ser relevante definir a
finalidade e abordagem da pesquisa que realizámos e adoptámos, respectivamente. Com
trabalho, tivemos a finalidade descrever a forma como a associativismo procura contribuir para a
integração social dos albinos, pelo que, o nosso estudo é do tipo descritivo. De acordo com Gil
(2008), a pesquisa descritiva procura apresentar as características de um determinado fenómeno.
É neste sentido que procuramos, com este estudo, descrever as práticas sociais adoptadas pelas
associações de albinos para contribuir para a sua integração social. Não tivemos a pretensão de
observar se as acções realizadas contribuíram efectivamente para essa finalidade.

Em função da finalidade deste estudo, descrição do fenómeno, entendemos ser apropriado a


adopção de uma abordagem qualitativa. De acordo com Freitas e Jabbour (2011, p. 9), “quando a
finalidade é explicar ou descrever um evento ou uma situação, a abordagem adoptada deve ser a
qualitativa”, visto que, permite verificar a forma como os actores sociais percebem o mundo ao
seu redor e orientam as suas acções, num contexto social caracterizado por certa complexidade.
Assumimos que as associações que buscam a integração dos albinos estão inseridas num
ambiente social em que lidam com uma complexidade 3 de factores, seja em termos de desafios,
seja em termos de recursos disponíveis para enfrentar esses desafios.

A abordagem qualitativa mostrou-se apropriada para descrever o nosso objecto de estudo a partir
de três dimensões que se complementam, que são o ambiente social da perseguição e rapto dos
albinos, entendimento dos membros associações sobre esses fenómenos e acções desta com vista
a integração social dos albinos. Trata-se aqui de aspectos difíceis de quantificar, visto que,
carecem de aprofundamento para a sua descrição, mesmo porque captamos a partir da
perspectiva dos integrantes da associação em estudo.

3
É comum e recorrente sociólogos caracterizarem as sociedades modernas e contemporâneas pela sua
complexidade, podendo-se destacar Morin (2007), Giddens (1991), entre outros.

22
3.1. Estratégia de investigação

Exploramos a realidade sobre a qual incidimos de forma profunda, procurando saturar a


informação disponível, de modo a ter uma ideia global do associativismo albino, tendo como
base a associação com a qual trabalhamos. Para efeito, adoptámos o estudo de caso como uma
estratégia de investigação com base na qual retratamos as experiências de uma associação, mais
especificamente, de alguns membros integrantes de uma associação por meio dos quais
compreendemos as práticas de integração social dos albinos.

Ignoramos qualquer controvérsia existente em torno do estudo de caso, procurando apenas tirar
proveito das suas vantagens na análise do fenómeno social. De acordo com Lima, Antunes, Neto
e Peleis (2012), o estudo de caso, mais do que um simples método, é uma estratégia de
investigação que consiste em seleccionar um ou poucos casos para o seu estudo de forma
profunda, reunindo, de forma sistemática, o maior número de informação possível sobre o
fenómeno em análise.

Neste trabalho o estudo de caso consistiu, primeiro, na selecção de uma associação de albinos, de
modo a explorar as suas experiências em torno das suas práticas de intervenção social. Em
segundo lugar, procurámos, por meios de entrevistas e levantamento documental, recolher
informação possível de ser obtida sobre as acções por meio das quais procurou-se contribuir para
a integração social dos albinos dentro do contexto da sua perseguição e rapto. Tratando-se de um
estudo descritivo, considerámos ter atingindo um nível de profundidade em termos de
informação, o que nos permitiu compreender o caso seleccionado em grande parte das suas
dimensões.

3.2. Técnicas de recolha de dados

Realizámos a recolha de dados com recurso a duas técnicas de recolha de dados: o levantamento
documental e a entrevista semi-estruturada. A primeira consiste em recolher e retratar
informação junto de documentos, como actas, contratos, estatutos, etc [ CITATION Qui88 \l 1033 ], a
segunda, em realizar uma conversa com base nalgumas perguntas previamente definidas, que não
podem ser alteradas, mas podem ser acrescentadas por outras com vista ao aprofundamento de
23
novos aspectos que vão surgindo, dando ao entrevistado a liberdade de formular respostas e
aprofundar os seus significados [ CITATION Ant99 \l 1033 ].

Neste trabalho, escolhemos o levantamento documental como meio para obter informação
referente ao perfil da associação com a qual trabalhamos, identificando e descrevendo as suas
áreas de actuação, os seus objectivos, entre outros aspectos que permitem contextualizá-la.
Assim, trabalhámos com dois documentos: o Regulamento Interno da associação e os Estatutos
da associação.

A entrevista semi-estruturada foi uma técnica que usámos para obter informação referente ao
contexto social no qual ocorreu a perseguição e raptos de albinos, captar o entendimento dos
entrevistados sobre esse fenómeno, descrever as práticas sociais de intervenção com vista a
integração social dos albinos e captar a percepção dos albinos beneficiários sobre essas mesmas
práticas. Desta forma, realizámos algumas conversas com alguns membros da associação
seleccionada, incidindo sobre os seus representantes e membros associados que implementaram
as práticas de intervenção e beneficiaram-se destas, respectivamente.

As entrevistas tiveram uma duração média de 1 hora e 40 minutos, o que justifica-se pelo facto
de termos procurados captar a informação com maior profundidade possível. Para a gravação das
conversas, recorremos ao telefone celular, isto com a anuência dos próprios entrevistados que
não mostraram nenhuma resistência quanto à solicitação do uso desse dispositivo electrónico.

3.3. Unidade de análise

Tivemos como unidade de análise associações criadas tanto por albinos membros associados,
assim como não, cuja finalidade é, dentre outras, defender os interesses e direitos dos albinos,
lutar pela sua integração social, promover o seu Bem-estar. Como outros critérios de inclusão,
definimos que as associações elegíveis tinham que ter instalações na cidade de Maputo, as suas
intervenções deveriam ter abrangência nacional ao nível do território moçambicano. Foi neste
sentido que seleccionamos a associação Amor a vida por ter sido a primeira com a qual tivemos
contacto e fomos aceite para a realização deste estudo. Concorreu para a sua selecção, também, o
facto de terem reconhecido o seu envolvimento na luta pela integração social dos albinos tanto

24
antes quanto durante, bem como depois do período em que tiveram lugar as práticas de
perseguição e rapto de albinos com maior predominância, isto é, de 2014 a 2017.

Na associação acima mencionada, dentre os seus membros, definimos os membros associados,


mais especificamente os representantes e beneficiários, como informantes-chave, considerando o
facto terem sido responsáveis pela realização das práticas de integração social dos albinos e por
se terem beneficiado dessas práticas, respectivamente.

Deste modo, definimos com critério de construção da nossa amostra a acessibilidade. De acordo
com Gil (2008), a amostra por acessibilidade é aquela em que o investigador não tem a liberdade
de escolher os elementos por entrevistar, limitando-se a trabalhar com aqueles aos quais têm
acesso. Assim, tivemos de trabalhar com aqueles membros da associação Amor a vida aos quais
nos foi possíveis ter acesso, pelo que o número de entrevistados, que totalizaram 6, foi
igualmente definido por este critério, isto é, só nos foi possível ter acesso a esse número de
membros da associação. Dentre esses 6, 2 são representantes da associação e 4 são membros
associados beneficiários das suas práticas de intervenção.

Inicialmente, esse número de 6 entrevistados pareceu-nos uma limitação do estudo, uma vez, que
consideramos que teria sido relevante que trabalhássemos com outros membros. Entretanto, ao
longo da recolha, análise e interpretação dos dados, vimos que não era nenhuma limitação, os
dados confirmam a existência de uma tendência na repetição da informação disponível sobre o
fenómeno em análise.

3.3. Questões éticas do estudo

Por consideramos a situação social dos albinos, entendemos ter sido indispensável observarmos
algumas questões éticas na nossa relação com os entrevistados e no tratamento dos dados.
Procurámos observar as seguintes questões: consentimento informado, anonimato,
confidencialidade, direito à privacidade, benefícios e divulgação dos resultados. Não
identificámos nenhum risco para os entrevistados que participaram do estudo.

25
O consentimento informado foi uma questão cuja observância consistiu na transmissão de toda
informação relevante referente ao estudo, permitindo que o entrevistado pudesse conhecer o
estudo em realização e decidir sobre a sua participação. Desta forma, informámos sobre o tema
de estudo, âmbito de sua realização, seus objectivos, sua finalidade, sua liberdade de não aceitar
fazer parte do estudo, abertura para que pudesse fazer qualquer pergunta que considerasse
pertinente e a possibilidade que tinha de desistir ao longo da sua participação, caso achasse
conveniente. Esta informação foi verbalmente transmitida, mesmo porque os entrevistados
disseram não haver necessidade de apresentar um documento escrito.

O anonimato foi observado por meio da não identificação dos entrevistados com base nos seus
nomes, sejam estes reais ou fictícios, pelo que, ao longo do registo das entrevistas e análise e
interpretação dos dados, limitamos a distinguir entre os membros representantes e membros
associados da associação Amor pela vida, enumerando os depoimentos que apresentamos.

A confidencialidade foi uma questão que observamos por meio da restrição do acesso aos dados
recolhidos, analisados e interpretados. O trabalho foi conduzido por um único investigador
(estudante-autor), tendo sido este o responsável pela realização das entrevistas, pela transcrição
dos seus conteúdos e pela sua análise e interpretação. Desta forma, conservámos a informação no
âmbito da realização da monografia e no campo científico.

Observamos o direito à privacidade com base na elaboração e administração de questões que


não se referissem à intimidade dos entrevistados, a aspectos que estes não preferissem partilhar
com o investigador. Para o efeito, foi-lhes informado que não eram obrigados a responder todas
as questões, principalmente aquelas que entendessem fazer parte da sua privacidade. Procurámos
também evitar a manipulação de perguntas como forma de fazer os entrevistados facultarem
informação privada inconscientemente.

Quanto aos benefícios, identificámos um. Considerando o facto de os albinos serem apontados
como uma categoria social invisível (Bíscaro, 2012; Melo, 2016), a sua participação neste estudo
permite que suas experiências sejam conhecidas por outras pessoas, saindo assim da
invisibilidade para o domínio público. Devemos afirmar, sobre esta questão, que Burroy (2006)

26
defende que a sociologia pública4 deve assumir o papel de tornar do conhecimento público as
experiências das categorias sociais excluídas desse domínio.

A divulgação dos resultados é uma questão ética observada no âmbito do cumprimento do


princípio (imperativo institucional) segundo o qual o conhecimento científico é comunitário
(Coelho, 2017), devendo ser partilhado por todos. Desta forma, colocamos este trabalho à
disposição de qualquer pessoa interessada, pelo que, depositamos na biblioteca virtual da
Universidade Eduardo Mondlane, bem como estamos abertos a enviar uma versão a quem
solicitar.

4
A opção por uma sociologia pública não reúne consenso no seio dos sociólogos, existindo os que defendem a sua
realização, como o autor citado no parágrafo, e aqueles que defendem a necessidade de não se enveredar por essa
forma de fazer sociologia. Defendendo este segundo argumento, pode-se consultar o artigo de Tunner (2009) – ver
referência completa nas referências bibliográficas deste estudo.

27
Capítulo IV. Análise e interpretação dos dados

Apresentamos, neste capítulo, os dados obtidos, trazendo o perfil da associação Amor a vida, a
descrição do contexto da perseguição e rapto dos albinos em Moçambique, percepções sobre a
perseguição e rapto de albinos, práticas realizadas para a integração social dos albinos e
percepções sobre as práticas de integração social dos albinos.

4.1. Perfil da associação Amor a vida

Neste tópico fazemos a descrição do perfil da associação Amor a vida, destacando aspectos
como sua origem, áreas de actuação, sua estrutura interna, funcionamento interno, entre outros,
como se pode observar na sequência.

A Amor a vida é um pessoa colectiva de direito privado, doptada de autonomia administrativa,


financeira e patrimonial, que foi criada e possui estatutos próprios, embora procure agir dentro
das demais legislações que estejam em vigor em Moçambique, como revelam os seus Estatutos.
A criação dessa associação foi em circunstâncias específicas, como documenta a passagem
seguinte:

“Nós não queríamos criar uma associação. A primeira ideia era criar um grupo de activistas que
lutassem em prol dos direitos dos albinos. Tudo começou através de duas moças, uma em
Nampula, e outra cá em Maputo, que se conheceram através do face book e tiveram essa ideia.
Foram criando links com outras pessoas até que se criou um grupo de watsap com o nome Amor a
vida. O tempo foi passando, depois acabou materializando-se. Como, para operar, precisássemos
de algo que nos conferisse esse direito por meio do associativismo, acabamos criando uma
associação, que integrou primeiramente albinos. Isso foi a 16 de Março de 2014. Em 2015, entre
os meses de Maio e Julho, submetemos ao Ministério da Justiça e, em Agosto, tivemos a
publicação no BR.” (Membros A e B)

Esta passagem mostra que antes da definição, ou melhor, da ideia de associação, surgiu a ideia
da identificação com a causa da defesa da pessoa albina, o que, de certo modo, é compreensível,
uma vez que, os seus fundadores foram todos albinos. O associativismo foi apenas um meio
encontrado, ao longo dos seus relacionamentos, pelos entrevistados e outros para melhor
responderem aos seus interesses e defenderem a sua causa em prol dos direitos dos albinos.
28
O associativismo é concebido como tendo essa capacidade de facilitar a satisfação dos interesses
(individuais ou colectivos) dos indivíduos dentro da sociedade, na medida em que permite a
combinação de esforços para a realização desse fim. É o que observam Amaral, Felix, Moreira,
Silva, & Silva (s.d), quando afirmam que o associativismo permite aos indivíduos materializarem
e sustentarem as suas reivindicações, defendendo os seus interesses e objectivos. No entanto,
teoricamente, devemos observar que o associativismo é um recurso que os entrevistados
encontram na estrutura social para orientar as suas acções, visto que, tendo seus objectivos,
encontram aí o melhor meio para a sua satisfação. Entendemos, a partir de Giddens (2003), que a
criação da associação Amor a vida foi racionalmente orientada com vista a determinados fins
também racionalmente definidos.

De acordo com os Estatutos da associação, os objectivos que norteiaram a sua criação e


continuam norteando a sua intervenção junto de pessoas com insuficiência de pigmentação, são
resumidamente: (i) contribuir para o bem-estar físico, psicológico, moral, mental, e apoio
psicossocial; (ii) prestar assistência às pessoas, através dos meios ao seu alcance; (iii) advogar
condições que garantam assistência médica; (iv) lutar pela não exclusão; (v) advogar a
facilitação do ensino e aprendizagem; (vi) envolver e sensibilizar a comunidade.

A materialização desses objectivos é procurada em diferentes domínios que a associação define


como suas áreas de intervenção, como está documentado na passagem seguinte:

“Fazemos um pouco de tudo, mas trabalhamos essencialmente com a sensibilização de pessoas


albinas e não albinas no combate à discriminação, estigmatização, agora ao rapto de pessoas
albinos. Mas também actuamos no combate ao cancro de pele, que nos últimos tempos mata
muitas pessoas albinas. Na área da educação também actuamos. Acabamos por entrar em todas as
áreas por uma questão de inclusão, sentimos que existe muita exclusão de pessoas albinas porque
há aquela ideia de que os albinos não podem fazer isto, não podem fazer aquilo. Há um
preconceito que esses são sensíveis, há uma super protecção que de certa forma acaba fazendo
com que eles sejam excluídos. Achamos que essa super protecção chega a ser prejudicial, pois
acaba levando a ideia de que o albino é vulnerável, enquanto não é tudo isso, não se insere nesse
quadro que as pessoas desenham. Falamos por exemplo do acesso à educação. Eles têm problemas
de vista, têm problemas de pele, pelo que, há certas actividades que não podem fazer, por
exemplo, ficar em altas temperaturas. Então, lutamos para que os albinos sejam colocados em
situação igual para que possam gozar dos seus direitos.” (Membro A)

29
Os resultados mostram que existe o entendimento segundo o qual os albinos enfrentam o
problema da exclusão em todos os domínios da sociedade, tais como educação, saúde, entre
outras, o que pode resultar do excesso de zelo e protecção que a sociedade demonstra para
pessoas dessa categoria social. Com efeito, o âmbito de intervenção da associação deve abarcar,
igualmente, todos esses domínios, com riscos de assistir-se a violação dos direitos dos albinos
nalguns domínios. De acordo com os entrevistados, a estigmatização e a discriminação são
alguns dos factores responsáveis pela exclusão social dos albinos, pelo que, a sensibilização de
pessoas tanto albinas, assim como não tem sido uma das estratégias de a sua intervenção social.

As acções da associação fazem parte da dimensão da estrutura da OSC, isto de acordo com
Francisco (2010)5, em que podemos destacar também os membros constituintes. Nos Estatutos
da associação, é possível observarmos que, actualmente, a Amor a vida é constituída por
membros que se encontram agrupados em quatro categorias. A primeira é dos fundadores, que
inclui todos aqueles que estiveram presentes na assembleia constituinte e que tenham
manifestado interesse de serem membros. A segunda é dos efectivos, que são todos aqueles
foram sendo admitidos mediante o cumprimento dos requisitos definidos internamente. A
terceira é dos honorários, que inclui individualidades cujas acções contribuem para o
desenvolvimento da associação. Por fim, a quarta categoria é dos beneméritos, que abarca
aqueles que tenham contribuído para a divulgação e prestígio da associação por meio dos seus
merecimentos e serviços.

Podemos reagrupar as quatro categorias anteriores em duas, tendo como critério a possibilidade
de integração ou não de novos membros para cada uma delas. De um lado, temos as categorias
fundadores e beneméritos cuja característica é o facto de não possibilitarem a inserção de novos
membros, visto que, a associação já foi constituída e já foi divulgada, gozando actualmente de
certo nível de prestígio. Do outro lado, estão as categorias honorários e efectivos que se
assemelham porque estão abertas à inclusão de novos membros, pois a associação está aberta
para indivíduos que queiram ser membros efectivos ou que tenham interesse em contribuir para o
desenvolvimento da associação.

É neste sentido que no artigo 7º do documento em referência, referente à Admissão de


Associados, estabelece-se que “Para ale dos associados fundadores, podem ser admitidos como
5
De acordo com o autor, as outras dimensões são valor, ambiente e impacto.

30
associados efectivos os indivíduos e as pessoas colectivas que estejam regularmente constituídas
conforme com o estabelecido nestes estatutos.” Quanto aos indivíduos com IPP, define-se como
critérios de admissão, para além de estar nessas condições, ser maior de dezoito anos de idade.
Para menores de dezoito anos, os seus pais ou encarregados de educação podem candidatar-se à
categoria de membros efectivos.

Podemos ver assim, que embora a associação tenha como foco das suas acções de intervenção as
pessoas com IPP, está a aberta a integração de pessoas que não façam parte dessa categoria, mas
que estejam ligadas aos indivíduos com IPP ou que tenham interesse em participar activamente
para a consecução das suas acções. Esta abertura releva que a Amor a vida cujo ambiente interno
é caracterizada pela diversidade quanto a origem e perfil das pessoas que a integram, sendo está
uma das exigências para um forte OSC. Para Francisco (2010), ao nível da estrutura interna, é
relevante que a SC respeite e promove a diversidade na sua constituição.

Tendo referenciado a questão da estrutura, é-nos oportunidade observar que a associação em


análise apresenta uma estrutura composta por uma Assembleia Geral (AG), Conselho de
Direcção (CD) e Conselho Fiscal (CF), como está patente no seu Regulamento Interno (RI). De
acordo com este documento AG é o único órgão do qual fazem parte todos os membros da Amor
a vida em pleno gozo dos seus direitos estatuários. Quanto aos outros dois órgãos, fazem parte
um número reduzido de membros, eleitos por voto directo e secreto (Artigo 5º), como é o caso
do presidente, Vici-presidente e outros membros da direcção. Para além desses órgãos,
considerados principais, existem os subsidiários, nomeadamente, o Conselho Técnico (CT),
Conselho Consultivo (CC) e as Comissões Especializadas (CE).

A ocupação dessas posições por cada dos membros eleitos para efeito – considerando que todas
as posições são ocupadas por membros eleitos por voto directo e secreto – condiciona o acesso
aos recursos estruturais por meio dos quais os membros orientam as suas relações entre si. Como
afirma Giddens (2003), é na estrutura social onde os agentes buscam os recursos por meios dos
quais exercem poder diante dos outros. Desta forma, os Estatutos e RI representam recursos
formais passíveis de serem mobilizados pelos seus membros, como é o caso do presidente que
pode recorrer ao Artigo 18ª do RI para exercer o poder de levantamento de fundos fora do plano
financeiro até dez mil meticais.

31
Não obstante a legitimidade da qual gozam alguns membros de exercerem certo nível de poder
por ocuparem determinadas posições, de acordo com um dos entrevistados, tem sido política da
associação promover relações igualitárias entre os seus membros independentemente da posição
ocupada, como documenta a passagem seguinte:

“Existe na associação as posições de direcção como fazem referência os estatutos, assim como
outras posições ocupadas por outros membros, mas isso não condiciona a forma como procuramos
nos relacionar porque procuramos garantir a inclusão e igualdade de todos os membros. Faria
sentido, estarmos a lutar pela igualdade social entre os albinos e outras pessoas com pigmentação
normal enquanto dentro da associação estamos a promover hierarquias, exclusão e desigualdade
de oportunidades entre os membros. As posições são apenas uma questão de organização e ordem
na realização das associações, mas temos relações de igual sem ninguém com privilégios
especiais.” (Membros A e B)

As relações sociais burocratizadas e hierarquizadas constituem, em grande parte das OSC em


Moçambique, um entrave para a realização das suas acções com eficiência e eficácia (Francisco,
2010), pelo que as relações horizontais têm sido apontadas como relevantes de serem adoptadas.
A partir da passagem acima, podemos observar a existência de uma consciência que revela o
reconhecimento da importância das relações horizontais para a realização das suas intervenções
independentemente das posições ocupadas, o que permite que as pessoas com IPP não são
apenas concebidas como beneficiários de práticas assistencialistas, mas também sejam sujeitos
participantes do processo, por exemplo, da sua integração social.

4.2. Contexto de perseguição e raptos dos albinos em Moçambique

Analisamos e interpretamos, neste tópico, os dados que permitem, a partir dos estratos das
entrevistas, fazer uma descrição do contexto de perseguição e raptos de albinos, captando e
destacando os aspectos mais marcantes e significativos característicos sob ponto de vista da
Amor a vida.

Os depoimentos seguintes permitem aprofundar alguns dos eventos que estavam a ocorrer em
Moçambique no âmbito da realização das acções de intervenção da Amor a vida, como podemos
observar:

32
“Vimos que a discriminação e perseguição estavam a se agravar em Moçambique, sendo que esses
fenómenos derivam da falta de conhecimento do que era o albinismo. Isso é um grave atentado aos
direitos humanos. As pessoas se mostravam mais interessadas em enriquecer de graça, por isso,
andavam a perseguir albinos para tirar partes do corpo e revender para curandeirismo. Muitos
albinos deixaram de sair às ruas por de medo e terror que estavam a passar, era um ambiente
obscuro, de pessoas a caçarem pessoas.” (Membro A)

“As pessoas querem enriquecer a todo custo e já nem sabem onde devem buscar essa riqueza. É
um ambiente de terror e medo para qualquer pessoa, mesmo aquele que não é albino pode ser
também morto por denunciar essas situações. Víamos mães preocupadas em não deixar os seus
filhos irem a escola por causa do medo, passavam a ficar em causa, pais a lamentar que seu filho
não voltou para casa e que não ia voltar mais. Isto vinha acontecendo quase todos os dias.”
(Membro associado D)

“Nós fomos notando que havia uma exclusão da pessoa albina, mas também havia uma auto-
exclusão. Quando a gente cresce num meio onde não estamos em contacto com outras pessoas.
Geralmente, as famílias tendem a esconder as pessoas albinas. A pessoas cresce naquele
mindinho. De certa forma acaba ficando a parte, achando que ele tem que estar no mundo dele.
Como resultado disto, obviamente, muitos tinham baixa auto-estima. Havia uma vergonha de
relacionamento entre os próximos albinos, entre os albinos havia dificuldade de relacionamento.”
(Membro B)

Estes depoimentos descrevem ambiente social em que as pessoas albimas estavam sugeitas a
formas específica de tratamento. Vemos que falam especialmente da perseguição e rapto de
albinos, ou melhor, de tráfico de órgãos humanos (TOH) 6, especificamente de pessoas albinas.
Dois aspectos podemos destacar para efeitos da presente análise e interpretação de dados: a caça
de albinos e o isolamento dos albinos.

A caça aos albinos foi um fenómenos observado ao longo dos últimos anos com maior
incidência em Moçambique e que constitui preocupação por parte de vários actores desta
sociedade – o que observamos ao longo da busca exploratória na realização deste trabalho nos
diversos órgãos de comunicação –, uma vez que, representa um atentado e violação dos DH das
pessoas albinas. A divulgação de práticas de caça aos albinos é um factor que veio contribuir
6
De acordo com Study on Trafficking in Human Organs, European Union (2015 citado por Mariano, Braga &
Moreira, 2016). “O termo tráfico de órgãos agrupa toda uma gama de actividades ilegais que visam comercializar
órgãos e tecidos humanos para fins de transplante. Engloba o tráfico de pessoas com a intenção de remover os seus
órgãos; “turismo de transplantes”, em que os pacientes viajam para o exterior em busca de um transplante (ilegal)
de um doador que é pago; e o tráfico de órgãos, tecidos e células, que se refere a transacções comerciais com partes
do corpo humano que tenham sido removidas de pessoas vivas ou falecidas.

33
para que se colocasse termo a uma discussão que vinha tendo lugar em Moçambique em que, de
um lado, actores como a LDH procuravam demonstrae que o TOH é uma realidade em
Moçambique e, outro lado, as entidades policiais negavam a sua existência, afirmando não
existirem provas que mostrasse da manifestação desse fenómeno.

A caça aos albinos em Moçambique foi uma questão tão discutida e divulgada que não havia
razão para a formação de discursos que negassem a manifestação. Daí a preocupação que a Amor
a vida partilhou com outros actores no contexto em descrição relativamente a esse fenómeno.
Neste ambiente social, o outro factor que destacamos nos depoimentos dos entrevistados é
relativo aos efeitos que os fenómeno da perseguição de albinos teve na vida quotidiana dos
actores sociais, o que podemos analisar nos depoimentos acima.

De acordo com os resultados deste estudo, afirma-se que o contexto de perseguição e caça aos
albinos era também caracterizado pelo medo e pelo terror que as pessoas tanto albinas, assim
como não enfrentavam. De um lado, os albinos se sentiam amedrotados por estavam a ser
caçados, do outro lado, os não albinos tinham medo porque poderiam ser vítimas caso tomassem
a iniciativa de denunciar os casos de raptos de albinos testemunhados.

Neste contexto, as formas concretas de manifestação do momento para o caso dos albinos e de
seus familiares, de acordo com os dados, a isolamento dentro de casa e dos limites familiares,
bem como a exclusão de alguns círculos de relacionamento foram as estratégias adoptadas,
minimizando, desta forma, o risco de serem raptados ao qual estavam expostos. Assim, para as
crianças albinas, por exemplo, as mães optaram por proibir que estas frequentassem a escola.

O deixar de ir a escola reflecte um contexto particularmente da caça aos albinos diferente do


contexto de sua discriminação e estigmatização. A resposta a este fenómeno pode ser feito pela
exclusão de certos espaços de relacionamento, no entanto a resposta ao risco de ser caçado
requere um isolamente mais radical, tendo exigido que os albinos não só se auto-excluissem dos
espaços de relaciomento, como também evitassem sair á rua.

A caça aos albinos foi um fenómeno que, do ponto de vista discursivo, pode ter atingido maior
para do território moçambicano – a julgar pelo alcance dos meios de comunicação onde os casos
observados eram publicados –, todavia a distribuição dos casos assistidos era desigual por todo o
país, como atestam os depoimentos seguintes:

34
“Observámos na Zambézia, na Manica. Teve um caso em Gaza, mas não foi muito avante, foi de
um pai que quiz vender uma criança albina. Em Maputo não tivemos nenhum caso, em Cabo
Delgado não tivemos nenhum caso.” (Membro A)

“Ocorreu mais em Nampula. Até que nós que estamos em Maputo que achávamos que estávamos
seguros, mas fomos percebendo que não estávamos tão seguros como pensávamos que estávamos.
Fomos criando mecanismos individuais que de alguma forma nos levavam a acreditar que nos
protegiam do que estava a acontecer, mas um momento tenso para todos.” (Membro B)

Não podemos esperar que os entrevistados tenham conhecimento de todos os casos de raptos de
albinos que tenham ocorrido em Moçambique durante o período em que esse fenómeno atingiu o
pico, mas, ainda assim vemos que eles possuem a capacidade de diferenciar a ocorrência dos
fenómenos entre algumas localidades. Por exemplo, enquanto um entrevistado aponta para a
província da Zambézia e Manica, o outro aponta para a província de Nampula como tendo
aoclhidos maior número de casos de raptos. Esta última observação, sem precisar números, é
corroborada por Sitoe (s.d), quando afirma que foi em Nampula, onde muitos foram vítimas de
rapto e perseguição.

As províncias de Cabo Delgado e Maputo são apontadas como não tendo observado a ocorrência
de nenhuma caso de tentativa e ou efectivação de tráficos de albino, referindo apenas que na
província de casa ouve um caso frustrado. Dois aspectos podemos destacar nestes dados. O
primeiro é que, independentemente da localização geográfica dos entrevistados – recordemos
que este estudo foi realizado na cidade de Maputo, pelo que, os nossos entrevistados estão
localizados nesta parcela de Moçambique –, eles têm acesso a informação referente a situação de
outras províncias quanto á ocorrência de casos de caça ao albino.

A possibilidade de tomada de conhecimento de eventos que ocorrem a distâncias geográfica


torna-se cada vez mais facilitada pelo avanço tecnológico, especialmente, com a internet. Como
afirma Giddens (1991), a comunicação por internet torna mais curtas as distância entre os
indivíduos, possibilitando a partilha de informação em tempo recorde 7. Vimos na descrição da
trajectória da Amor a vida que dos entrevistados, ao explicar o surgimento da associação, fez

7
Uma busca na internet sobre casos de rapto de albinos em Moçambique é capaz de revelar a repercussão que esse
fenõmeno teve nesse espaço de circulação, divulgação e partilha de informação. Convida-se o leitor a se dirigir ao
google e procurar informação por meio das frase “tráfico de órgãos humanos de albinos em Moçambique”.

35
menção ao facto de dois dos seus fundadores (os pioneiros) conheceram-se por meio da internet,
tendo trocado informação e decido criar uma associação.

O segundo aspecto, destacado no segundo dos dois depoimentos acima, é referente ao facto a
distância entre os locais de ocorrência dos casos de rapto de albinos observados e a localização
geográfica dos leitores, entre Nampula e Maputo por exemplo, não ter impedido que eles
experimentassem o mesmo sentimento de medo e terror como efeitos da perseguição e raptos de
albinos. Refere-se, no depoimento em referência, que, mesmo estando a residir em Maputo,
sentiram a insegurança que os albinos das província da ocorrência do fenómeno sentiam.

Em termos mais teórico, podemos afirmar que a insegurança, ou melhor, o risco de rapto foi
atingiu distância para além dos locais em que estavam de facto a ocorrer os casos de raptos dos
albinos. Estaríamos, para recorrer a uma expressão giddenniana, diante de um risco de longo
alcance, na medida em que os seus efeitos eram sentido para além do local geográfico da sua
ocorrência. Esta constatação é também sustentada a partir da afirmação de um dos entrevistados
acima segundo a qual sentiu-se a necessidade de adoptar meios de gerir o risco que sentiam
mesmo estando em Maputo.

Esta extensão dos efeitos dos casos de perseguição e rapto de albinos justifica a razão da
realização deste estudo em Maputo, visto que, essa extensão também ocorria em sentido
contrário, isto ém as práticas realizadas pela Amor a vida, sendo realizada em Maputo, poderiam
ter os seus efeitos nas província em que os albinos estavam sendo efectivamente perseguidos e
raptados. Mesmo porque Giddens (2003) afirma que a estrutura social garante que os efeitos dos
indivíduos, sejam estes desejados ou não, reproduzam-se para além do tempo e do espaço de sua
realização.

A descrição que fizemos do contexto da intervenção da Amor a vida neste tópico do trabalho,
tendo-se baseado em aspectos específicos, serviu para mostrar que a perseguição e rapto dos
albinos foi um fenómeno observados pelos entrevistados criou um ambiente social caracterizado
pelo medo e pelo terror, em que o risco de ser raptado foi sentido e vivenciado para além dos
limites geográficos de ocorrência de casos de perseguição de albinos observados.

36
4.3. Percepções sobre a perseguição e rapto de albinos

Neste tópico do trabalho analisamos e interpretamos os dados referentes às percepções dos


representantes e membros associados sobre a perseguição e rapto de albinos no contexto
moçambicano, anteriormente descrito.

Inicialmente, tendo observado que os entrevistados possuem consciência da ocorrência de casos


de rapto e perseguição de albinos no país anteriormente, preocupamo-nos em aprofundar as
razões apontadas para a manifestação desses fenómenos, o que podemo ver nos depoimentos
seguintes:

“Cada um tem seus interesses e suas razões, mas eu acho que se trata de superstição e falta de
valores que as pessoas actualmente. De um lado, as pessoas querem poder, dinheiro, riqueza,
juventude e acham que os olhos, a pele e as unhas dos albinos podem dar isso. Mas do outro lado,
nem isso, as pessoas apenas não toleram os albinos, acham que eles são estranhos, são incapazes,
não têm condições de fazer nada. Quando um albino está doente poucos toleram.” (Membros B, C,
D)

“Tirando a discriminação, observamos que nós não temos políticas de inclusão das pessoas
albinas. Tudo bem que existe uma política que foi definida, mas não está sendo colocada em
prática, o que dificulta um pouco a acção. Questões de emprego, seria importante que a pessoa
albina fosse atribuídas actividades que não coloquem em causa a sua saúde por causa da pele. Se
albinos fossem defendidos não seria traficados como são.” (Membro A)

Estes dois depoimentos sintetizam as posições que nos foi possível identificar no seio da amostra
com a qual trabalhámos. Podemos ver que muitas categorias são identicáveis nos depoimentos
acima, no entanto interassam-nos apenas susceptíveis serem relacionadas à perseguição e raptos
de albinos em Moçambique, que são especificamente a superstição, falta de valores, desejo de
enriquecer e falta de aplicação de políticas de inclusão dos albinos.

A superstição e a busca pelo enriquecimento são causas da perseguição e rapto de albinos que já
foram destacada no contexto moçambicano. Identificamos o estudo de Sitoe (s.d) em que o autor
destaca essas duas categorias de causas, afirmando que as representações sociais que alguns
indivíduos possuem sobre os albinos faz com que tenham a convicção e crenças de que partes do
seu corpo possuem poderes específica, o que, por sua vez, faz com que alguns comecem a
perseguir e raptar albinos motivados por interesses económicos.

37
A existência de pessoas envolvendo na perseguição e rapto de albino é razão para que os
entrevistados aponte que uma das causas desses fenómeno é a ausência de valores. Afinal, como
Rocher (1999), valores são a base para a orientação do comportamento social. No entanto,
cruzando as categorias das causas, podemos afirmar que não se trata, necessariamente, de
ausência de valores, mais sim da interiorização e materialização de valores que fazem com que
se privilegie os interesses económicos em detrimento da vida de outra pessoa.

Quanto á quarta categoria de causas e perseguição e rapto de albinos, os dados mostram que
aponta-se para falta da defesa dos direitos dos albinos no âmbito da implementação de política de
inclusão como elemento que faz com que os albinos sejam perseguidos, uma vez que, não são
protegidos. A falta de uma efectiva inclusão é uma questão destacada em outros contextos, por
autores como Bíscaro (2012), como uma das razões para que os albinos se encontrem a vivenciar
experiência degrantes, quanto a observância dos seus direitos.

Fechamos este tópico, referentes às percepções dos entrevistados sobre a ocorrência da


perseguição e rapto de albinos, procurando saber sobre o seu posicionamento quanto a ocorrência
desse fenómeno, o que está contido nos depoimentos seguintes:

“Hum! É claro que não posso concordar com isso, não só porque sou um albino, mas porque não
faz nenhum sentido numa sociedade em que todos somos diferentes, cada um tem seu estilo de
vida, de viver, de se apresentar, por que o albino não pode ser diferente? Isso é uma barbaridade.”
(Membros A, B)

“Quem vai concordar em viver com medo na sua própria sociedade. Você tem que andar a olhar
para trás, para os lados com medo de alguém chegar derepente e meter-lhe num carro para ir te
matar. Se não for isso, não podes ter relacionar com ninguém porque outros não te querem por
perto. Essa é a pior forma de viver. Até aqui na cidade Maputo mais ou menos porque as pessoas
já começam a aceitar albinos, mas nas províncias, nas zonas rurais, a situação é pior, é mesmo de
lamentar e de chorar porque o albino sofre muito pela falta de integração social.” (Membro D)

De um modo geral, o posicionamento assumido pelos entrevistados diante do fenómeno de


perseguição e rapto de albinos em Moçambique é de reprovação, assumindo a impossibilidade de
partilharem práticas dessa natureza, o que não se justifica pelo facto de serem albinos, pois tais
fomas de tratamento não são admissíveis para qualquer categoria social de pessoas.

38
Esse posicionamento é justificado de diferentes formas. De um lado, percebe-se ser intolerável
aceitar que numa sociedade em que existem diferentes categorias sociais, com estilos de vida
próprios, e que se aceitam e se reconhecem entre si, encontrarem a categoria social dos albinos a
serem perseguidos e raptados como se a sua condição de diferença fosse a menos inaceitável. A
diferenciação é, de facto, de acordo com Giddens (1991), uma das características predominantes
da sociedade modernas, acompanhada, de certo modo pela aceitação uma da outras.

Entretanto, a maior diferenciação não significa, automaticamente, o reconhecimento e aceitação


entre as diferentes categorias sociais. Wiviorka (2007) afirmou que o crescente processo de
diferenciação e aceitação das diferenças nas sociedades modernas, longe eliminar, pelo contrário,
tornou subtil a hierarquização entre as identidades sociais, pelo que, continuou-se a acreditar na
existência de identidades superiores em relação a outras. É esta realidade que se torna
incompreensível para um dos nossos entrevistados, justificando a sua abominação com relação à
perseguição e rapto de albinos.

Do outro lado, a intolerância com relação à perseguição e raptos de albino em Moçambique é


uma posição defendida com base na impossibilidade de se alimentar uma vida baseada no medo
e na insegurança. Desta forma, existe a percepção segundo a qual, numa sociedade considerada
livre que nem a moçambicana, não se pode admitir que os albinos circulem nas ruas sob risco de
ser suprendidos e raptados para, posteriormente, serem mortos e traficado. Mais uma vez,
destaca-se, na sua passagem das duas acima, a falta de integração social dos albinos como factor
que concorre para que estejam sujeitos a viver num mundo de medo e terror.

Essas são condições estruturais com as quis os albinos têm de conviver no seu quotidiano,
operacionalizando o conhecimento que possuem para orientar as suas acções. As percepções
sociais que eles possuem sobre a realidade social da perseguição e rapto de albinos informa o que
Giddens (2003) de consciência prática, na medida em que permite que eles possam lidar com as
formas de tratamento às quais são sujeitados nalguns espaços da sociedade, por exemplo,
procuram andar com mais controlo nas ruas, de modo a evitar ser supreendidos e serem raptados
para lhe ser retirados os órgãos.

Os dados que interpretamos nesta parte do trabalho permitem afirma, em forma de uma rápida
conclusão, que os entrevistados procuram explicar a ocorrência do fenómeno de perseguição e

39
rapto de albinos em Moçcambicano, identificando suas causas e se posicionando relativamente à
sua ocorrência. É neste sentido que aponta para a superstição, fins económico, ausência de
valores e falta de materialização de política de inserção social, bem como como condenam a
prática da perseguição e rapto de albinos.

4.4. Práticas sociais de integração social dos albinos

Os dados que analisamos e interpretamos neste quarto tópico deste capítulo referem-se às acções
levadas a cabo pela associação Amor a vida com vista lutar contra a perseguição e rapto dos
albinos, procurando contribuir assim para a sua efectiva integração social.

A partir dos resultados que apresentamos nos depoimentos seguintes é possível observamos que
a Amor a vida procurou levar a cabo a acções no âmbito do contexto da perseguição e rapto de
albinos em Moçambique, como é possível ver abaixo:

“Essa parte já é complicada porque nós, como associação, não podemos resolver isto, mas
procuramos realizar campanhas de sensibilização, interagimos com a polícia, sendo possível,
intervínhamos através da mídia para fazer chegar aquilo que era a nossa opinião, que era o nosso
sentimento para condenar esse tipo de acções. Também fomos aconselhar alguns membros nas
províncias onde isso acontecia a tomar medidas de protecção individual. Eles deviam escolher os
lugares onde frequentar, andar em grupo, estar sempre com família e amigos.” (Membro associado
F)

“Esse foi um problema muito complexo que enfrentamos durante os últimos anos. Primeiro é que
participamos da concepção da estratégia de protecção dos albinos ao nível nacional junto do
governo de Moçambique. Fora isso, continuamos a fazer as mesmas acções que vínhamos
realizando de sensibilização das pessoas, mas procuramos adaptar as conteúdos a essa realidade,
procurando consciencializar as pessoas que o albino não tem nenhuma característica ou poder
especial que o diferencia de outras pessoas. Participamos nalgumas campanhas em forma de
marcha, divulgamos e trocamos mensagens na internet com pessoas de outras províncias. Isso não
foi nada que tenha mudado a nossa forma de actuação.” (Membro associado D)

Estes resultados mostram que a Amor a vida entendia a particularidade do contexto de


perseguição e raptos de albinos como constituindo o desafio para a sua actuação, embora um dos
entrevistados assuma a limitação dos recursos ou capacidade da associação para colocar termos

40
na ocorrência desse fenómeno. No entanto, o facto de terem continuado a levar a cabo práticas de
intervenção com vista a reintegração social dos albinos é revelador da consciência que possuiam
de, pelo menos, poderem mudar alguma coisa na situação social do albino.

São essas acções que interessam destacar nesta trabalho. Identificamos quatro categorias de
práticas de intervenção, nomeadamente: sensibilização, divulgação de mensagens de condenação
do fenómeno, parcerias com outros actores e transmissão de mecanismos de gestão de risco
directamente aos albinos. Atententamos com alguma minunciosidade para cada uma dessas
acções.

A sensibilização é uma prática realizada por meio de campanhas realizadas em dois espaços,
virtual e físico. No primeiro, a Amor a vida procurou transmitir e partilhar mensagens com o
resto da sociedade, enquanto no espaço físico a associação enveredou pela participação em
marchas. A comibinação destes dos espaços revela uma tendência que vem sendo comum nas
sociedades contemporâneas, contrário o que se esperava. Isto é, o aparecimento da internet não
conduziu ao desaparecimento do uso dos espaços públicos físicos. O que ocorre, como afirma
Castells (2013) é que as acções coletivas são realizadas com base no uso combinado dos espaços
físicos e virtuais.

No contexto brasileiro, Bíscaro (2012) chegou a resultados diferentes dos que encontramos neste
trabalho. Este autor analisou dois casos de duas associações de albinos em que enquanto uma
pautava pelo uso exclusivo dos encontros concretos físicos, a outra enveredava pelo uso também
exclusivo da internet, dando a impressão de serem recursos mutuamente exclusivos. Contudo, o
caso da Amor a vida mostra que são recursos que podem ser combinados, podendo-se tirar
proveito das potencialidades de ambos os meios.

A opção por essa forma de actuação da Amor a vida leva-nos a afirma que eles tinham
consciência da possibilidade de recorrer tanto ao espaço físico, quanto ao virtual como recursos
estruturais passíveis de serem aplicados para lograr os seus interesses, isto é, facilitar a
reintegração social dos albinos. Com base no conceito de racionalidade de Giddens (2003) é
legítimo considerarmos que os membros da Amor a vida demonstraram a sua capacidade de
definir os seus objectivos e de seleccionar o melhor meio para a sua satisfação. Esta questão
pode ser observada também quanto á definição do conteúdo das mensagens divulgadas.

41
Os conteúdos das campanhas de sensibilização foram sendo adaptados especificamente para
reflectir os problemas que procuravam combater, o da perseguição e rapto de albinos, pelo que o
foco era informar as pessoas que os albinos não eram pessoas que possuiam poderes especiais a
serem usados para finalidades supersticiosas. Ao cruzarmos esta informação com as percepções
antes analisadas, podemos ver que a definição desses conteúdos mensáticos teve como base a
percepção segundo a qual a perseguição e rapto dos albinos estava sendo motivada por causas
supersticiosas.

A outra acção, a da divulgação de mensagens de condenação da perseguição e rapto de albino foi


realizada especialmente nos mídia, transmitindo mensagens que revelavam o posicionamento
crítico da associação com relação a ocorrência desse fenómeno. Não carecemos de aprofundar
esse posicionamento, visto que, visemo-lo na secção anterior. Falemos da criação de parcerias
com outros autores, destacando a polícia e o governo de Moçambique. Junto destes, de acordo
com os dados, a Amor a vida busca conferir maior protecção aos albinos.

Está patente num dos depoimentos que a associação participou da elaboração de uma estratégia
nacional de protecção ao nível nacional. Esta foi uma questão central, uma vez que, nas análises
e interpretações anteriores, vimos que os dos problemas que afectava os albinos era o de viver
com medo e insegurança, quando se faziam ruas, tendo sido uma das estratégias de algumas
famílias manter os filhos nas suas casas. Relacionado com a questão da protecção dos albinos
está a outra prática de intervenção, a da transmissão de mecanismos de gestão de risco
directamente aos albinos.

Com feito, os albinos eram ensinado que deviam escolher os lugares onde frequentar, andar em
grupo, estar sempre com família e amigos. Este conhecimento transmitido aos albinos devia-lhe
capacitar no sentido de saber agir em função de circunstâncias específicas, evitando expor-se ao
risco de ser raptado, facilitando as investidas dos raptares. Actuando desta forma, a Amor a vida
actuou como o que Giddens (1991) designou de sistema perito, isto é, fonte de informação e
orientações que permitem aos agentes enfrentarem os vários desafios que lhes são impostos
quotidianeamente.

Estas duas últimas práticas de intervenção podem ser interpretadas em dois momentos. Em
primeiro momento, consideramos que o recurso à parceria revela o que os dos entrevistados já

42
tinha observado, ao afirmar que a associação não tinha capacidade de resolver o problema da
perseguição e rapto de albinos no país. A colaboração com outros autores podia aumentar as
possibilidade de inverter o cenário. Em segundo momento, recurso a parcerias e a instrução dos
albinos mostra que reconhecem que essa coloboração podia não ser suficiente para lhe dar com o
poblema, pelo que, seria importante incluir os próprios albinos na sua própria protecção.

De acordo com as colocações que fizemos no parágrafo acima, a Amor a vida procurou fazer um
combinação de vários recursos que se encontravam a sua disponibilidade, de modo a alcançar os
objectivos que tinham definido. Combinaram os encontros físicos e virtuais; harmonizaram a
divulgação de próprias mensagens nos mídias com a divulgação de mensagens conjuntamente na
marcha da qual participaram; associação a protecção feita pelo governo de Moçcambique e pela
polícia aos albinos à protecção feita pelo próprio albino a si mesmo.

Encerramos a análise e interpretação dos dados neste tópico com dados referentes a influência
que o contexto antes descrito, de perseguição e rapto de albinos, teve nas práticas de intervenção.
De acordo com os depoimentos seguintes, de um forma geral, pode-se dizer que as estratégias de
intervenção não foram profundamente adaptadas em função do fenómeno que se procurava
combate, como podemos ver:

“Na verdade não alteraram, nas mudaram porque nós, mesmo antes dessas práticas acontecerem
cá em Moçambique nós já tínhamos situações dessas noutros países, como Tanzânia e Malawi e
nós observamos. Para com isso que a questão do tráfico sempre esteve na lógica das nossas
acções, então o que aconteceu em Moçambique não chegou a alterar.” (Membro associado D)

“Nós não chegamos de desenhar acções específicas para combater o tráfico de albinos, o que seria
impossível, pois havia de requer um estudo, uma pesquisa. O que nós fizemos, fomos percebendo
que o grande problema da perseguição era a questão da informação, as pessoas acreditavam
muitos nos mitos porque não tinham uma informação contrária àquela que elas vinham
consumindo. Quando nos apercebemos disto, desenhamos acções de forma a garantir que a
informação correcta sobre os albinos chegasse as pessoas, isto é que era importante, que as
pessoas tivessem informação correcta sobre o albinismo. A partir daí, as pessoas começaram a
perceber que os olhos, a pele ou o cabelo do albino não têm nenhum efeito mágico, não têm
diamante, não têm absolutamente nada e que são iguais aos olhos a pele de uma pessoa com
pigmentação não vão perseguir a ninguém, não vão precisar matar alguém porque sabem que não
têm nenhum efeito especial.” (Membros associaidos B e E)

43
De acordo com estes dados, de um lado, há uma ideia de não ter havido nas práticas de
intervenção, mas do outro lado, reconhece-se que passou-se a focalizar mais na informação como
a ferramenta que permitiria fazer frente ao fenómeno de perseguição e rapto de albinos. Quanto à
primeira questão, um dos entrevistados afirma que o facto de terem estado em contacto com
outros contextos nacionais em que a perseguição e rapto de albinos já vinha ocorrendo antes de
se intensificar em Moçcambique concorreu para que integrassem, logo de início, nas suas
práticas de intervenção, aspectos que tinham em vista lidar em com esse fenómeno. Com efeito,
quando enclodiu em Moçambique não houve necessidade de implementar mudanças na forma de
intervir.

No que tange à segunda questâo, entende-se que as mudanças realizadas ocorreram apenas ao
nível do conteúdo das mensagens difundidas, ou seja, da informação que se pretendia expalhar
em todas a sociedades. Esta estava relacionada com a questão da perseguição e rapto, uma vez
que, entendia-se que a falta de informação apropriada sobre o albinismo e albinos fazia com que
associassem as características das pessoas desta categorias social a poderes mágicos, o que
precitava a procura pelos seus órgãos.

Neste sentido, as mudanças nos conteúdos mensáticos tiveram como finalidade adaptar aos
desafios que foram impostos pelo problema de perseguição e rapto de albinos, o que nos permite
afirmar que o contexto que descreve influenciou na definição das informações difundidas. Esta
capacidade de perceber a importância de rever as mensagens transmitidas mostra que a Amor a
vida é uma associação em que os seus membros monitoram reflexivamente as suas práticas de
intervenção com vista a integração social dos albinos, isto é, têm a capacidade de redefinir o
sentido das suas acções no seu curso, de modo a garantir que os seus objectivos sejam
efectivamente alcançados.

Compreender ser possível falar da integração social, pois os entrevistados, de uma forma ou de
outram, assumem que o problema da perseguição e rapto de albinos está vinculado á essa falta de
integração que, por sua vez, tem por detrás uma falta de informação apropriada que informa as
representações sociais segundo as quais os albinos contém órgãos com poderes mágicos. É neste
sentido que afirmam que sentiram a necessidade de trabalhar especialmente com a divulgação
para mudar a forma de representar o albino. Nesta questão, assossiamo-nos a Cavalcante (2012),

44
RHI (2010), quando exploram as representações sociais para explicar a falta de integração social
dos albinos na sociedade.

4.5. Percepções sobre as práticas sociais de integração social dos albinos

As práticas de intervenção aqui descritas foram realizadas pela Amor a vida, cujo efeito só pode
ser interpretado do ponto de vista dos beneficiários das mesmas, no sentido de saber se
contribuiram efectivamente para a sua reintegração social no contexto da perseguição e rapto de
albinos. É o que procuramos fazer ao longo deste último tópico, analisando e interpretando dados
recolhidos apenas junto dos albinos associado da assciação

Começamos por questionar aos entrevistados sobre as acções das quais se beneficiaram daquelas
que foram realizadas pela associção. Obtivemos os depoimentos seguintes:

“Eu participei de quase todas as acções realizadas pela associação Amor a vida porque sou
membro desde o início. Mas durante o período em que nos país estava a acontecer muito a questão
do tráfico de albino, tive a oportunidade participar da marcha que se realizou em Maputo contra
esse fenómeno, duma formação de curta duração que deream, onde ensinaram como se precaver
para não e expor ao risco de ser raptado. Uma vez fui a associação enviou-me para televisão para
participar de um programa onde manifestavamos contra esse questão dos raptos.” (Membro
associado C)

“Na internet temos trocados muitas sms que são divulgadas pela associação, partilhamos com
amigos, com albinos de outras províncias, com pessoas que também não albinas, de modo a
facilitar a circulação da informação. Na associação” (Membro associado E)

“Não partecipei de muitas coisas. Houve uma vez que a associação foi ao meu bairro para tratar de
uma situação de um albino que estava tendo problemas na comunidade, então foram para lá para
realizar uma palestra de sensibilização. Dessa eu participei palestra eu participei. Mesmo dentro da
associação davam algumas instruções, no sentido de dizerem que deviamos evitar andar sozinhos
durante a noite, deviamos esta com colegas para evitarmos quaquer situação.” (Membro assiciado
D)

Ao partimos das práticas de intervenção descritas na secção anterior, verificamos que os


membros associados entrevistados tendem a fazer referência unicamente aquelas práticas das
quais foram beneficiários directo. Com efeito, práticas como a parceria com a polícia e com o
governo de Moçcambique com vista a assegurar a protecção de albinos não são referenciadas

45
pelos entrevistados, pois não só não recaem directamente sobre eles, como é o caso das práticas
de sensibilização, transmissão de mecanismos de gestão do risco de rapto e partilha de
informação na internet.

Neste quadro de percepções sociais afirmam terem participado, durante o contexto da


intensificação da perseguição e rapto de albinos, de práticas de intervenção que consistiram na
realização de marchas, sensibilização feita directamente nas comunidades, divulgação da
informação na internet e reprovação do fenómeno nos mídia. Vemos que estas foram práticas das
quais os entrevistados participaram directamente, tendo, igualmente, acesso directo a informação
transmitida pela Amor a vida. Recorrendo a Giddens (2003), podemos afirmar que os membros
associados entrevistados, juntamente com os membros representantes da associação constituiram
sistema social, na medida em que estiveram em relações sociais concretas, independentemente
ser intermedidas tecnologicamente ou não.

Com base no exposto, podemos afirmar que as práticas de intervenção levadas a cabo pela Amor
a vida, pelo menos as que foram referenciadas pelos entrevistados, atingiram os seus
beneficiários directos, isto é, os albinos visados, uma vez que, uma parte destes reconhece ter
tomado partido e se beneficado de algumas dessas acções. Mesmo porque as informações que os
entrevistados apontam como lhe terem sido transmitidas, conscidem com aquelas indigitadas
pelos entrevistados representantes da Amor a vida como as que procuraram transmitir ao longo
das suas práticas de intervenção.

Quanto à análise e interpretação da percepção sobre os efeitos das práticas de intervenção das
quais se beneficiaram os membros associados entrevistados, combinamos os dados referentes ao
problemas enfrentados e a contribuição dessas práticas de intervenção para a resolução dos
mesmos, tendo obtido os seguintes posicionamentos:

“Eu tive apenas aqueles problemas normais de sempre, de as pessoas te olharem com estranhos,
mas quanto á questão de rapto não enfrentei nenhuma situação porque isso não aconteceu em
Maputo, mas sim em outras províncias. Agora, nos bairros, nas escolas as acções da associação
ajudam porque, pelo menos no meu caso, as pessoas que participaram passaram a me tratar sem
problemas. Sinto que esse problemas tende a dimunuir.” (Membro associado F)

“Durante esse tempo em que andam a raptar albinos para retirar os órgãos, essas situações não
afectaram aqui em Maputo, apenas sentimos por albinos que se encontravam noutras províncias,

46
principalmente em Nampula. De um modo geral, posso dizer que as coisas mudaram porque as
pessoas já aceitam os albinos, mas não posso dizer que essas mudanças são resultado directamente
das acções da Amor a vida. O que mudou é que eu passei a agir de forma normal com as pessoas,
quem trata mal o albino é quem tem problemas.” (Membro associado C)

Estes dados são de entrevistados que afirmaram que, durante o contexto da perseguição e rapto
de albinos em Moçambique, não enfrentaram nenhum problema vinculados a esse fenómeno, o
que explicam pelo facto de a caça aos albinos ter ocorrido em províncias distante de Maputo,
como o caso de Nampula. No entanto, existe um entendimento segundo o qual as práticas das
quais se beneficiaram contribuiram para sua integração nalguns espaços da sociedade, como é o
caso da escola, bem como fora destas.

De acordo com os dados, estes entrevistados entendem que as práticas de sensibilização


contribuiram para que as pessoas passassem a lhes aceitar, de um lado, e as práticas de formação
permitiram que passasem a agir de forma normal diante de pessoas que os tratavam com
diferença. Embora não possamos afirmar que se trata de prática de luta contra a perseguição e
rapto dos albinos, podemos afirmar que houve um contribuição para a integração social dos
albinos, tanto tornando-nos mais capazes de enfentrar diferentes situações com as quais se
deparavam quotidianeamente, quanto facilitando a sua aceitação por parte dos outros.

Giddens (2003) afirma que a capacidade reflexiva dos agentes pressupõe reconhecer que nem
todos interagem com a estrutura social da mesma maneira, podendo interior os seus recursos e
manipulá-los de forma diferenciada. É esta característica da realidade social que nos permitiu
identificar uma outra categoria de entrevistados no seio da nossa amostra, como podemos ver nos
depoimentos seguintes:

“Esse fenómeno afectou qualquer pessoas albina. Só de acontecer com uma outra pessoa, não
importa o lugar, já trás medo para todo. Eu pensei que estaríamos bem em Maputo, mas como vi
um caso que aconteceu em casa, enfrentei também o problema medo que um dia pudesse
acontecer comigo. Na minha opinião, as acções da associação ajudaram porque as pessoas
passaram a tratar-nos de forma a nos proteger, ficaram mais próximas, passamos a andar em grupo
nas ruas. Na escola, meu amigos acompanhavam até a minha escola. Essa foi uma recomendação
feita pela associação na internet.” (Membro associado D)

“Inicialmente, veio aquele medo de também o rapto dos albinos chegar em Maputo porque tinha
tendência a crescer noutras províncias. Vivi num ambiente de terror, de insegurança, medo a

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medida que as notícias davam a entender que mias casos vinha ocorrendo. Eu comecei a me isolar,
mas fui aconselhado a não fazer isso porque aumentava o risco de rapto. Devíamos associar-nos a
pessoas que conhecíamos e confiávamos. Cheguei a fazer novos amigos não albinos pela internet
que se sensibilizaram com as acções da associação, passávamos a nos encontrar para conversar
divertir. Eu me sentia mais seguro e a vontade.” (Membro associado E)

Diferente dos outros entrevistados, estes afirmam ter enfrentados problemas vinculados á
perseguição e raptos de albinos no contexto da ocorrência desses fenómenos. Estas problemas
estão vinculados aos efeitos que já tínhamos discutidos ao longo destes trabalho, que são a
questão do medo, do terror e da insegurança resultantes dos casos de raptos de albinos que
ocorriam noutras províncias de Moçambique.

Como forma de responder a esse problema de medo, terror e insegurança, alguns albinos
começaram a pautar pelo isolamento, distanciando dos ambientes sociais – vimos antes que um
dos entrevistados representantes da associação apontou para casos em que familiares optaram
por não deixar as suas crianças irem a escolar como forma de as proteger – como uma forma de
sentir seguro, pois identificava indícios da possibilidade do fenómeno de perseguição e rapto de
albinos poder atingir a província de Maputo, pois já começava a fazer-se sentir na vizinha Gaza.

O isolamento é o contrário da integração social, pelo que, enveredar por essa via era frustrar os
objectivos definidos pela Amor a vida. É pela capacidade que esta associação teve de inverter
esse quadro do isolamento como estratégia de gestão do risco de rapto, que os entrevistados
constroem a percepção segundo a qual as práticas de intervenção levadas a cabo pela associação
contribuíram para que retornassem ao convívio familiar e tivessem mais aceitação nalguns
domínios de relacionamentos, como é o caso do escolar.

A sensibilização directa realizada nas escolas, a sensibilização indirecta, divulgação e partilha de


informação realizadas por meio da internet possibilitaram a integração de albinos em novos
grupos de amizades que incluíam pessoas não albinas, preocupada com a situação da perseguição
e rapto de albinos, que se mostraram abertos para assegurar a protecção dos entrevistados, uma
vez que, uma das orientações da associação Amor a vida era de os albinos, ao invés de se
isolarem, buscarem estar junto de outras pessoas que podem minimizar o risco de rapto e
permitissem a construção de um sentimento de segurança. É neste sentido que os entrevistados
foram integrando-se, cada vez mais, socialmente.

48
Considerações finais

O estudo das práticas de integração social realizadas pelas acções albinas mostrou ser relevante
considerar que os actores sociais que estão inseridos no associativismo estão em relação com
uma estrutura social na qual não só enfrentam diferentes formas de tratamento, como também
encontram recursos que lhes permite lidar com essas formas de tratamento.

Realizámos uma descrição do contexto social moçambicano da ocorrência da perseguição e rapto


de albinos a partir da perspectiva da associação Amor a vida, tendo constatado que esses
fenómenos são interpretados como tendo produzido um ambiente social caracterizado pelo medo,
terror e insegurança como efeito do risco de rapto aos qual estavam sujeitos os albinos.
Classificamos esse risco como sendo de longo alcance pelo facto de atingir províncias distantes
daquelas onde ele ocorreu de facto.

Os dados mostram que os entrevistados possuem capacidade de não identificar os casos de rapto
de albinos, como também de apontar para causas que, na sua perspectiva, estão por detrás desse
fenómeno, tendo destacado a superstição, fins económicos, falta de valores e não aplicação de
políticas definidas para inserção social dos albinos. Apesar de apontar-se para todas estas causas,
a superstição é a que informa algumas da práticas de intervenção com vista integração social do
albino no contexto de sua perseguição e rapto.

O facto da associação Amor a vida estar inserida numa sociedade contemporânea em que a
estrutura social disponibiliza uma variedade de recursos a serem aplicados para a concepção e
materialização das suas práticas de intervenção permitiu que fizesse uma combinação e
harmonização de diferentes técnicas. Combinaram os encontros físicos e virtuais; harmonizaram
a divulgação de próprias mensagens nos medias com a divulgação de mensagens conjuntamente
na marcha da qual participaram; associação a protecção feita pelo governo de Moçambique e
pela polícia aos albinos à protecção feita pelo próprio albino a si mesmo.

Observamos que nem a todas essas práticas é atribuída relevância pelos entrevistados associados
a Amor a vida quanto à sua contribuição para a sua contribuição social. Apesar de nem todos
terem enfrentado problemas de medo, terror e insegura, os dados mostram que, de uma forma

49
geral, existe a percepção de que as práticas de sensibilização directa nas escolas e nas
comunidades, a sensibilização, divulgação e partilha de informação por meio da internet são
interpretados como tendo tido maior contribuição na sua integração social nalguns espaços da
sociedade, com destaque para a escola, grupo de amizades e comunidade.

Observamos ainda que as práticas de intervenção adoptada pela associação Amor a vida durante
o contexto e perseguição e raptos de albinos não sofreram varição quando às estratégias
definidas, sendo que as mudanças foram feitas no seu conteúdo, especialmente no que diz
respeito as mensagens difundidas que foram definidas em função da necessidade que se tinha de
combater a perseguição e raptos de albinos de uma forma geral, ao nível nacional, sem que se
procura-se fazer variar em função de cada localidade, de modo a adaptar as exigência
contextuais.

Em função desta última observação conclusiva, podemos afirmar que a nossa hipótese foi
refutada pelos dados relevantes que analisamos e interpretamos, uma vez que, não se pautou pela
diferenciação das práticas de intervenção em função das realidades contextuais, mesmo sabendo-
se da existência de localidades onde a perseguição e rapto de albino eram mais intensos. Mesmo
porque, as práticas levadas a cabo em determinado local atingiam localidades mais distantes,
estando todas as províncias sujeitas à influencia de mesmas práticas de intervenção.

A teoria de estruturação de Giddens (2003), combinada com as suas contribuições sobre a


sociedade da modernidade tardia pemitiu observar que o associativismo inclui actores com
capacidade de mobilizar recursos estruturais para a orientação das suas práticas sociais e, ao
mesmo tempo, actuar como sistemas peritos, isto é, fontes de informação para que os outros
também orientem suas práticas quotidianas. Este foi um contributo grande para o nosso trabalho,
pois saimos da dimensão individual para a dimensão associativa, depois para a dimensão
contextual e, por fim, para a estrutural.

Enfrentamos a limitação de termos trabalhado com albinos que estejam a residir e buscam
integração social em Maputo, local onde não ocorreu nenhum caso de perseguição e rapto de
albinos. Desta forma, compreendemos ser uma oportunidade para futuros estudos compreender
as experiência de albinos que estiveram efectivamente integrados em contexto onde, de facto,

50
houve caso de rapto e assassinato de albino, considerando o nível embrionário de produção
científica em torno do fenómeno.

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52
Documentos:
Associação Amor a vida (2008). Regulamento interno, Maputo.

Associação Amor a vida (2009). Estatutos da associação KANIMAMBO, Maputo.

53
Anexos

1. Guião de entrevista semi-estruturada para os representantes da associação Amor a vida

1.1. Perfil socio-demográfico

 Sexo
 Idade
 Estado civil
 Residência
 Nível de escolaridade
 Formação profissional
 Posição na associação
 Função na associação
 Tempo integrado na associação
 Tempo de integração na associação

1.2. Contexto social de intervenção da associação e suas percepções

 Em que momento se preocuparam com a inserção do albino na sociedade?


 O que é que fez com que se preocupassem com a inserção do albino na sociedade?
 O que estava a acontecer com os albinos quando se preocuparam com a inserção do
albino na sociedade?
 Como é que descreve o ambiente no qual os albinos começaram a ser vítimas de
perseguição e assassinato em Moçambique?
 Ao nível de Moçambique, que situações encontravam quando buscavam promover a
participação dos albinos nana sociedade?

1.3. Práticas adoptadas para sua integração social dos albinos


 Desde a criação da associação, em que ambiente tem procurado promover a relação a
associação dos albinos com outras pessoas?
 Desde a criação da associação, como tem procurado fazer com que os albinos se
relacionem de forma livre com outras pessoas na sociedade?
 Como é que tem variado as acções da associação para promover a relação dos albinos
com outras pessoas em cada província ou localidade do país (Moçambique)?
 Houve algumas variação das acções da associação ao longo da localidade d país durante o
período da perseguição e assassinato dos albinos? Justifique
 Quando se intensificou a perseguição e assassinato dos albinos em Moçambique, o que a
associação tem feito para lutar contra esse fenómeno?
 Quanto a aceitação dos albinos, o que associação procurou fazer durante o contexto da
perseguição e assassinatos dos albinos em Moçambique?

2. Guião de entrevista semi-estruturada para os membros associados

2.1. Perfil socio-demográfico

 Sexo
 Idade
 Estado civil
 Residência
 Nível de escolaridade
 Formação profissional
 Posição na associação
 Função na associação
 Tempo de integração na associação

2.2. Processo de entrada para a associação Amor a vida

 Em momento procurou se integrar na associação?


 O que é que te levou a se associar com outras pessoas para defender interesses com os
albinos?
 De uma fora geral, o que estava a acontecer com os albinos em Moçambique no momento
em que te associaste com outras pessoas para defender seus direitos?
 O que é que te leva a permanecer associados com outras pessoas para defender os
interesses dos albinos?

2.3. Percepções sobre as práticas adoptadas para a integração social dos albinos

 Que acções conhecem que foram realizada pela Amor a vida durante o contexto de
perseguição e rapto de albinos para a integração social destes?
 De qual dessas acções se beneficiou directamente? E indirecta?
 Que problemas enfrentou durante o período de perseguição e rapto de albinos?
 Como é que as acções da Amor a vida ajudaram a enfrentar esses problemas?
 Como é que as acções da Amor a vida ajudaram a se inserir mais na sociedade, a
relacionar-se com outras pessoas no contexto da perseguição e rapto de albinos

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