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Texto da aula Aulas do curso

Introdução a Chesterton

Ortodoxia (II)
A raiz do paradoxo do cristianismo é o seu próprio Fundador, não pela “incoerência” ou
os “desvarios” de sua doutrina, mas pelo mistério de sua Pessoa. 

Só nEle tem resposta aquilo a que nem o paganismo, com seu otimismo
desmesurado, nem o estoicismo, com seu pessimismo antinatural, podiam responder.
Só em Cristo, Deus verdadeiro e homem verdadeiro, há separação com união,
comunhão sem confusão, num equilíbrio tão fino, que a linguagem humana
dificilmente o poderia expressar em termos adequados sem um esforço sobre-
humano.

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Como vimos na aula passada, Ortodoxia é um livro eminentemente


autobiográfico, no qual Chesterton repisa o itinerário intelectual que o
levou desde a percepção da loucura do pensamento moderno à
compreensão da sensatez paradoxal do cristianismo. A partir de
Descartes, o mundo precipitou-se numa heresia fundamental, que é o
não reconhecer outra fonte de conhecimento além da razão, entendida
como razão geometrizante, dedutiva, sedenta de uma certeza
matemática. Trata-se, noutras palavras, de uma razão parcial, mutilada
e, poderíamos dizer, caolha, incapaz de enxergar o valor do “mágico”, não
no sentido de superstição, mas de surpreendente, de indedutível, do que
só se pode conhecer por visão direta e simples, como a de uma criança.

Ao perceber os absurdos a que levava o projeto da modernidade,


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Chesterton dedicou-se à tarefa de elaborar uma visão de mundo que
escapasse a esses parcialismos de que vimos falando, mas a filosofia
que ele pensava ser descoberta sua era, na verdade, um mistério
descoberto à humanidade. Era o cristianismo. Essa descoberta, porém,
Chesterton não a descreve como resultado de uma dedução lógico-
matemática, como se um pouco de paciência, somada a umas quantas
operações aritméticas, permita por si só “reconstruir” todo o sistema do
pensamento cristão. Trata-se, antes, de um acontecimento ou, se assim
podemos dizer, de um despertar para uma luz que brilha à inteligência,
por mais que tentem embaçá-la as loucas construções do pensamento
humano.

Um dos passos centrais deste itinerário está descrito nos capítulos 5 e 6.


Em A bandeira do mundo, Chesterton traça uma das grandes conclusões
a que, em matéria de religião, chega Ortodoxia: as duas principais
cosmovisões religiosas da antiguidade, o paganismo e o estoicismo, são
igualmente absurdas, embora por diferentes razões — a primeira, por ser
demasiado otimista, a ponto de adorar a natureza como a um Deus; o
segundo, por ser pessimista em excesso, de modo que a única coisa que
se pode adorar é o próprio eu. Tanto uma como outra visão encarnam,
pois, duas tendências igualmente parciais e, por isso, igualmente
insuficientes: o otimismo pagão pensa que tudo é bom, menos o
pessimista; o pessimismo do estóico pensa que tudo é ruim, menos o
próprio pessimista.

Ambas as visões são absurdas porque se situam nos extremos opostos


da única atitude que, para Chesterton, é saudável e que ele ilustra por
meio do patriotismo. A atitude patriótica é uma mistura equilibrada
entre amor e ódio à própria nação. É patriota quem odeia a pátria o
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bastante para querer mudá-la, mas a ama suficiente para pensar que
vale a pena lutar por mudá-la. O nacionalista, por outra parte, é quem só
ama a pátria; mas, por não fazer mais do que amá-la, a ama mal e,
justamente por isso, não tem a energia de ânimo suficiente para
defendê-la (às vezes de si mesma).

O que o patriotismo põe em evidência é que se o homem só odeia, como


o pessimista, ele se torna um conformista; mas, se só ama, como o
otimista, termina amando mal, porque não vê o que pode haver de
errado com o amado. Essas duas atitudes tornam-se particularmente
perigosas quando, para além do amor (ou ódio) à pátria, se estendem a
matérias mais importantes, como a busca da verdade.

Mas como, afinal, se ama a verdade? Olhemos para as mulheres a quem


a fortuna fez mães. Elas amam de um modo quase místico, extático, que
as põe fora de si; mas têm, ao mesmo tempo, um senso crítico que pode
parecer às vezes o mais cáustico cinismo. As mães amam tanto a seus
filhos, que se sentem unidas a eles, não por laços, mas por um pacto de
sangue; mas, dado que os extremos se tocam, é tamanho o amor
materno que ele pode parecer também certa forma de ódio: as mães
criticam, pegam no pé, cismam e reclamam, como se quisessem que o
filho, a quem tanto amam, fôra uma pessoa completamente diferente. E
amam assim justamente por amarem sem razão, isto é, de graça, e não
por este ou aquele motivo particular.

Só quem ama de graça, com um amor parecido com o das mães, pode
amar de verdade, com toda a força que este verbo leva consigo, pois só
quem ama de graça está em condições de ver, sem partidarismos, sem
receio de ferir suscetibilidades, sem medo de desfazer as próprias
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ilusões, o que há de mal na coisa amada, ou seja: que ela não é tudo o que
poderia ou deveria ser.

Amar por tal o qual motivo não é amar o amado, mas uma parte dele; é
fechar os olhos para o que nele se deve odiar e, por isso, para a
possibilidade de que ele melhore, se aperfeiçoe, dê tudo de si. É assim o
amor, não dos patriotas, mas dos nacionalistas. Estes não amam a
pátria, mas a história dela, e por isso são capazes de “reescrever” (isto é,
de distorcer) a história de seus países para ficar somente com os feitos
grandes, heroicos, valorosos, memoráveis etc., como se entre estes picos
de glória mundana não houvesse profundos vales de misérias, covardias
e derrotas humanas.

Por isso, só o cristão está em condições de amar o mundo, porque só ele


é o que Chesterton chama de patriota cósmico:

Será que ele [o homem] é capaz de admirar seu bem colossal sem
ao mesmo tempo sentir submissão? Será que ele é capaz de
admirar sua colossal perversão sem jamais sentir desespero?
Será capaz, em suma, de ser ao mesmo tempo não apenas um
pessimista e um otimista, mas também um fanático pessimista e
um fanático otimista? Ele é pagão o suficiente a ponto de morrer
pelo mundo e cristão o suficiente a ponto de morrer para o
mundo? (Ortodoxia, ed. Mundo Cristão, pp. 75-76).

O pagão, por outro lado, é um otimista cósmico. Para ele, o mundo é tão
bom e amável, que só pode ser divino. Chesterton nota, contudo, que
adorar a natureza como tal é adorar a variabilidade do que, de dia, é belo
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e harmonioso, como uma manhã de primavera, e o que, de noite, é cruel
e assassino, como uma terrível noite de inverno. O resultado é que o
pagão, em seu culto desmedido ao mundo, acaba assimilando-o também
em sua crueldade imprevisível e feroz. O problema do pagão é não
enxergar que a natureza, por mais bela e ordenada que seja, está
decaída, não é o que deveria ser, segundo o desígnio de Deus.

Ao otimismo ingênuo do paganismo se opõe, como em diâmetro, o


pessimismo cósmico do estóico. Este já não crê em deuses nem na
divindade das forças naturais, mas apenas na luz ou no logos interior.
Isto quer dizer que ele, por não crer em nada, já que tudo é ruim, acredita
apenas em si mesmo, visto que só ele é bom. Não é necessário notar o
absurdo de adorar antes a si do que, por exemplo, a crocodilos e gatos,
porque se trata de um culto egocêntrico, típico de uma sociedade
decadente que, para manter-se de pé entre suas ruínas, busca refúgio na
interioridade resignada de um homem que vê, em sua indiferença à
catástrofe do mundo, a única “jóia” do universo. Não é de espantar que a
popularidade de uma tal filosofia haja coincidido com as etapas finais
de uma Roma para a qual já não valia tanto a pena dominar e civilizar o
mundo. O melhor era cruzar os braços:

Os nossos pessimistas idealistas foram representados pelos


velhos remanescentes dos estóicos. Marco Aurélio e seus amigos
haviam de fato abandonado a ideia de qualquer deus presente no
universo e procuravam apenas o deus interior. Não depositavam
nenhuma esperança na virtude da natureza, e quase nenhuma
esperança na virtude da sociedade. Não alimentavam um
interesse suficiente no mundo exterior para realmente destruí-lo
ou revolucioná-lo. Não amavam suficientemente a cidade para
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atear-lhe fogo (Ortodoxia, ed. Mundo Cristão, p. 81).

A solução para este dilema, oscilante entre o otimismo de uns e o


pessimismos de outros, é a junção de ambos naquele patriotismo
cósmico de que só um cristão pode ser coerentemente capaz, isto é, a
união entre um amor reto e um ódio justo:

As únicas pessoas que realmente desfrutavam desse mundo


ocupavam-se em desintegrá-lo; e as pessoas virtuosas não
atribuíam atenção suficiente a essa gente para derrubá-la.
Diante desse dilema (o mesmo que nós enfrentamos) o
cristianismo de repente entrou em cena e apresentou uma
resposta singular, que o mundo no fim aceitou como A resposta.
Foi a resposta naquela época, e eu penso que é a resposta agora
(Ortodoxia, ed. Mundo Cristão, p. 81).

Em Os paradoxos do cristianismo, Chesterton desenvolve essas ideias,


insistindo de modo particular no caráter à primeira vista paradoxal do
cristianismo. De fato, a religião cristã parece defender teses tão
encontradas que só pode tratar-se de algo muito bom e, portanto,
verdadeiro, ou de algo muito ruim e, por conseguinte falso. O
cristianismo, por sua própria índole, não é nunca uma solução de meias,
medíocre, que tem umas pitadas de verdades em meio a uns quantos
errinhos. Não é como algumas religiões modernas, que querem meter na
mesma paleta todas as cores, e acabam com isso formando um marrom
borroso, acinzentado, sem vida. 
Prova dessa aparente contradição cristã é a contradição com que a
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criticam os seus próprios detratores. Aqui, Chesterton põe a nu a
incoerência daqueles que, hoje, levantam o dedo para acusar o cristão de
pouco viril, como se professara uma religião afeminada, que produz
monges apáticos, de cara macilenta, sem vida, ou só com isto a que
chamam “vida contemplativa”; mas que, amanhã, levantam o mesmo
dedo para acusar o fiel de intolerante e violento, como se aderira a um
culto primitivo, que faz dos homens animais dispostos a arrasar meio
mundo só para reconquistar a Terra Santa. 

Mas como é possível, afinal, que uma única e mesma religião tenha por
efeito homens de tão diversa índole? Como pode uma religião tão pouco
“masculina” produzir guerreiros valentes? E como pode uma religião tão
“intolerante” dar ao mundo a delicadeza de uma virgem consagrada? A
contradição é, em realidade, apenas aparente. De fato, assim como nada
impede que um mesmo homem seja gordo e magro ao mesmo tempo,
por ter mais carne nesta do que naquela parte do corpo, assim também o
cristianismo pode, segundo sua vocação católica, abarcar os contrários
mais contrários. 

O mundo até pode, é verdade, achar o cristão “esquisito” de figura. No


entanto, pode muito bem ser o caso de que este seu aspecto inusual, que
desperta reações tão contrastantes, seja a forma padrão que deveria ter
o espírito humano, enquanto são disformes e desproporcionais
justamente as outras figuras, por serem ou muito magras, quase
raquíticas, ou muito gordas, com uma morbidez vergonhosa. 

Por isso, falando do cristianismo e da Igreja, escreve:


[…] se esse acúmulo de loucas contradições realmente existia,
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algo pacífico como um quacre e ao mesmo tempo sanguinolento,
deslumbrante demais e surrado demais, austero e, no entanto,
pendendo absurdamente para a volúpia dos olhos, o inimigo das
mulheres e seu insensato refúgio, um solene pessimista e um
parvo otimista, se essa perversidade existia, então havia nela
algo totalmente supremo e único. Pois eu não descobri em meus
professores racionalistas nenhuma explicação dessa
excepcional corrupção […]. Era, de fato, tão sobrenatural como a
infalibilidade do papa. Uma instituição histórica, que nunca deu
certo, é realmente um milagre praticamente tão grande quanto
uma instituição que não pode dar errado (Ortodoxia, ed. Mundo
Cristão, p. 95).

Os críticos da Igreja, com efeito, a acusam de ter sempre estado errado.


Mas que milagre maior pode haver do que uma instituição atravessar
dois milênios de história sem nunca ter acertado uma dentro? A
conclusão que disso extrai Chesterton não poderia ser mais sensata: 

A única explicação que imediatamente me ocorria era que o


cristianismo não provinha do céu, mas do inferno. Realmente, se
Jesus de Nazaré não era o Cristo, ele devia ter sido o anticristo
(Ortodoxia, ed. Mundo Cristão, p. 95). 

Em última análise, a raiz do paradoxo do cristianismo é o seu próprio


fundador, Jesus Cristo, não pela “incoerência” ou os “desvarios” de sua
doutrina, mas pelo mistério de sua Pessoa. Só nEle tem resposta aquilo a
que nem o paganismo, com seu otimismo desmesurado, nem o
MENU
estoicismo, com seu pessimismo antinatural, podiam responder.

Cristo é a um tempo elo e divisa, união e separação: é a espada que,


demarcando a diferença entre criatura e Criador, proíbe a idolatria do
mundo; mas é também o único em que o Criador e a criatura se
encontram mais unidos, de maneira que é somente a partir dEle que há
no homem aquele divino que os estóicos, errando o alvo, pretendiam
adorar. Pois os estóicos aspiravam em vão a uma verdade que não pode
dar-se dentro do estoicismo, porque só em Cristo Deus é homem e um
homem é Deus, e é só pela graça de Cristo que os homens podem agora
ser verdadeiros templos de Deus.

Eis o grande paradoxo. Em Cristo, Deus verdadeiro e homem verdadeiro,


há separação com união, comunhão sem confusão, num equilíbrio tão
fino, que a linguagem humana dificilmente o poderia expressar em
termos adequados sem um esforço sobre-humano. Este é o motivo por
que os cristãos sempre lutaram contra os menores desvios doutrinais,
contra a menor ambiguidade no uso da linguagem cristológica, contra
toda tendência a fazer ora a humanidade, ora a divindade pesar mais do
seu lado da balança.

É nessa tensão tão fina quanto divina que se fundam, por sua vez, os
demais paradoxos do cristianismo. É assim que o cristão, por exemplo,
pode ser monge e cruzado, humilde e magnânimo, vestir-se com os
ouros do episcopado e levar sob a batina um duro silício, amar o silêncio
e pregar o Evangelho a toda a criatura. Em Cristo, o homem se encontra
com o seu mistério, porque nEle é elevado a ser mais do que é, sem
deixar porém de ser o que ainda é:
Num sentido, o homem devia sentir-se mais orgulhoso do que
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nunca; noutro, ele devia ser mais humilde do que jamais fora. Na
medida em que sou homem, sou a principal das criaturas. Na
medida em que sou um homem, sou o principal dos pecadores
(Ortodoxia, ed. Mundo Cristão, p. 100).

A estranheza que o cristianismo causa na inteligência humana é


semelhante a que experimentaria um alienígena que examinasse pela
primeira vez um corpo humano:

Suponhamos que alguma criatura matemática proveniente da


lua examinasse o corpo humano; ela imediatamente veria que o
fato essencial nesse caso é que o corpo é duplicado. Um homem
contém dois homens: um à direita que se parece exatamente
com outro à esquerda. Depois de notar que há um braço do lado
direito e outro do lado esquerdo, uma perna à direita e outra à
esquerda, ela poderia ir adiante e ainda encontrar de cada lado o
mesmo número de dedos nas mãos, o mesmo número de dedos
nos pés, olhos geminados, orelhas geminadas, narinas
geminadas e até lobos do cérebro geminados. No mínimo ela
tomaria o fato como lei; e depois, quando encontrasse um
coração de um lado, ela deduziria a presença de outro coração do
outro lado. E exatamente nesse momento, no ponto em que se
sentisse mais segura de estar certa, ela estaria errada (Ortodoxia,
ed. Mundo Cristão, pp. 85-86).
O que Chesterton viu no cristianismo, e que o distinguia de todos os
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parcialismos heréticos, foi esta sua deslumbradora coerência lógica que,
a certa altura, torna-se o mais “ilógico” dos pensamentos, mas não por
ser falsa, senão precisamente por ser verdadeira. Pois quanto mais
sublime e “estranha” é a verdade à nossa inteligência, tanto menos se
deixa ela compreender e acomodar aos nossos esquemas. O
cristianismo, numa palavra, é a religião verdadeira e mais
genuinamente racional, mas não é uma religião racionalista. A sua
“incoerente” coerência está acima de nós, e ainda que a possamos
compreender em parte, é um mistério incompreensível.

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