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07/08/2017 "Os Mercados se Autorregulam"? - Como essa ideologia nos roubou trilhões.

E quer roubar mais

“Os Mercados se Autorregulam”? – Explicando como essa


ideologia nos roubou trilhões. E quer roubar mais
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e-quer-roubar-mais/
04/03/2017

“Minha voz não era popular. Os mercados financeiros vinham se expandindo, a inovação avançava a passos largos e o
país estava próspero. A indústria de serviços financeiros argumentava que os mercados provaram ser autorregulados e
que o papel do governo na fiscalização e regulação do mercado devia ser reduzido ou eliminado. Todos nós já pagamos
um alto preço por esse argumento falacioso.”

Brooksley Born, ex-presidente da Commodity Futures Trading Comission, a única voz feminina na comissão que aprovou
a lei Gramm-Leach-Bliley (em 2009) [1]

Neste texto vocês poderão ver, minuciosa e rigorosamente, como a Grande Recessão de 2008 é uma crise que cai no
colo dos apelos de que os mercados devem regular a sociedade. Dos apelos de
que princípios democráticos e de justiça social não devem “interferir” na lógica de
uma sociedade governada pelo mercado; de que os mercados são eficientes em
darem conta de si mesmos e levam a uma sociedade o melhor possível para se viver.
Para exemplos práticos do que esta apologia da submissão de todas as esferas da
vida à lógica do mercado têm promovido, conferir “O que o dinheiro não compra”, do
filósofo Michal J. Sandel, de espectro político de centro. Desde pagamento por
melhores lugares nas prisões, barrigas literalmente de aluguéis, a mercado de
cobaias humanas em testes de laboratório, tropas mercenárias em conflitos na
Somália e Afeganistão, venda de sangue, mercados de futuro de terrorismo, etc.[2].

O mais importante a se frisar é que a Crise não foi um acidente de percurso na economia-mundo capitalista, porém, parte
inerente do próprio percurso. E atenção: o mundo não a superou. A responsabilidade da aplicação prática dessa
ideologia mercadologista que recai em seus promotores deveria tê-los feito pelo menos mais reflexivos após 2008. Mas
não. Diante deste risco de caírem no ostracismo, os patrocinadores redobraram seus lóbis intensamente.

A primeira falácia a se desconstruir: “Fannie Mae e Freddie Mac foram os monstros, tio Scooby!”

Os defensores da crença no domínio dos mercados sobre a vida das pessoas buscaram alguns caminhos para tirarem
o corpo fora da responsabilidade sobre a Crise: um dos mais insistidos consiste em dizer que a culpa é da participação
do Estado como garantidor nas empresas de capital aberto Fannie Mae e a Freddie Mac, devido terem sofrido grandes
perdas especulativas na virada de século. E devido às grandes perdas, o governo foi forçado a colocá-las sob
intervenção nos fins de 2008. Elas, há mais de 55 anos, são empresas privadas que deixaram de ser garantidoras de
empréstimos do governo.

Com o fim das políticas sociais de habitação pelo governo Reagan, gerando um colossal contingente de estadunidenses
sem teto, o governo Clinton viu a necessidade de tentar mitigar tal questão. Atuou para que as empresas aplicassem
também linhas para população de média renda, ao invés de retomar as políticas habitacionais anteriores que foram
extinguidas[3]. Enfrentou a partir de 1995 um pesado ataque do partido Republicano no congresso para eliminar a
agência federal do Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano (HUD). O governo reagiu cedendo aos
republicanos parcialmente, convertendo os subsídios e planos de habitação na concessão de vouchers portáteis, um tipo
de vale-crédito para os beneficiários se arranjarem com empresas privadas. Outra capitulação se deu em 1999, quando
Bill Clinton assinou a Lei de Modernização dos Serviços Financeiros, uma desregulamentação que permitia que
bancos comerciais e instituições financeiras estivessem livres para se unir e formarem grandes corporações financeiras.

Contudo, estas duas empresas foram alvo de auditorias implacáveis [4] no período de 1999 a 2003, depois dos
escândalos das PontoCom com a maquiagem e trapaça no balanço das empresas privadas. Então, até 2005, não
tiveram atuação de peso diretamente nos “empréstimos duvidosos”. As agências de classificação de risco privadas lhes
atribuíam o mesmo peso de garantia dos títulos de tesouro dos EUA.

Aqui está o plano de fundo: a Fannie Mae – a Federal National Mortgage Association – foi criada em 1930 para facilitar a
compra da casa própria através do mercado bancário de hipotecas, liberando dinheiro que poderia ser usado para fazer
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novos empréstimos. Ambas, Fannie e Freddie Mac passaram a ser as maiores garantidoras de parte do volume
hipotecário nos EUA nos anos 90, em resposta a escândalos contábeis nas empresas – num momento em que essa
prática se revelou ampla no grande mercado [5].

Agentes do mercado e reguladores reduziram a amplitude da carteira de empréstimo das duas companhias e após
rigorosas auditorias passaram a ser mais rígidos nos critérios. As duas estavam submetidas a exigências legais de só
comprarem hipotecas para mutuários que efetuaram pagamentos mínimos e com rendas cuidadosamente
documentadas. Compravam lotes hipotecários nos mercados de hipotecas secundárias, ampliando o leque de créditos
para compradores que atendessem as exigências, usando as suas posições para tentar expandir a cidadãos de menor
renda. Não podiam entrar nos negócios subprime (os instrumentos de crédito de alto risco), posto que displicentes
com garantias, que eram transformados em papeis negociados no mercado: destacam-se as hipotecas das casas)
porque estes não cumpriam as exigências.

Barry Riholtiz, um chefe de um importante escritório financeiro, considerado um dos mais importantes jornalistas
econômicos dos Estados Unidos e – nada suspeito de “esquerdista” – colunista do Bloomberg e do Washington Post,
ofereceu US$100.000,00 para quem provasse que ele estava errado acerca da loucura que é culpar as Fannie e Freddie
pela da supercrise [7].

Riholtiz apresenta os pontos básicos em que se demonstra a irracionalidade deste argumento fundamentalista, ao
pontuar que a subscrição para o despontar do boom dos subprime está nos “bancos-sombra” que não estão abrangidos
pela Community Reinvestment Act, como a Fannie e Freddie estão. Entidades que nunca foram regulamentadas. Aponta
também que até 2005 o mercado de subprimes é Wall Street, não as duas empresas.

Levanta que o que motivou as instituições financeiras a centrar fogo nos subprime foi a amplitude dos lucros, não
qualquer ordem formal presidencial (considerando a predominância do período Bush, de direita) ou do Congresso
(dominado pelos republicanos). Até 2005 as Government Sponsored Enterprises (GSEs), empresas patrocinadas pelo
poder público (criadas através do Congresso) para facilitar o acesso ao crédito não podiam adquirir papéis de
hipotecas duvidosas. A quota nelas do mercado de hipotecas mais inseguras caía entre 2004 a 2007, quando
experimentou uma alta devido a verem a farra do retorno em relação ao risco. Emprestadoras privadas, como a
Countrywide, concentravam o mercado subprime. Tudo avalizado por econometristas confiantes na eficiência dos
mercados.

O que os lobistas do darwinismo social mercadista podem dizer do fenômeno na Europa, sem Fannie e Freddie, mas
igualmente com necessidade de estatização em massa de bancos (como houve em países que se destacam nos índices
da Heritage) e recuperação do sistema financeiro? Foi a força do chip do número da besta? Do “globalismo”? [8]

Até aqui, podemos prosseguir após constatarmos: a principal “desculpa furada” dos defensores da ideologia da
autorregulação dos mercados dominando fracassa em um exame crítico. É insustentável e deve ser, em nome da
integridade, deixada de ser levada em consideração.

Culpando Política Social para pobres por incomodar a lógica mercadista?


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O touro de Wall Street.

Os Darwinistas Sociais mercadistas que usam o apelo “liberalismo econômico” como cortina de fumaça costumam
culpar o instrumento institucional chamado ‘Community Reinvestment Act‘ (CRA), criada para evitar que bancos
discriminassem pessoas por bairros onde morassem (conhecidos bairros de pobres e minorias) na concessão de
créditos. Para eles esta lei pesou como sendo intervenção forçada no mercado para tentar ajudar os pobres
adquirirem imóveis às custas do eficiente mercado de finanças bancárias. Mas não há propriedade racional em culpar a
CRA atribuindo-lhe a culpa por supostamente “forçar” empréstimos hipotecários a juros menores do que o equilíbrio de
mercado.

A lei estava em vigor desde 1977, trinta anos antes!! E ganhou vigor justamente em consequência da plutocracia do
governo Reagan, como já comentado, cortar os programas habitacionais públicos e levando a um extremo contingente
de desabrigados [9]. E este tempo todo não fez estourar “bolhas”. E ainda por cima, só se aplica a bancos depositários,
fração mínima da composição dos “empréstimos duvidosos”. Anos depois da entrada em vigor desta lei, uma outra
legislação de cunho mercadista veio à tona; esta sim tem peso real sobre a Grande Recessão de 2008: a Lei de
Controle Monetário e de Desregulamentação de Instituições Depositárias [10], que formalizou e legalizou a
agiotagem a níveis de máfia italiana.

O que realmente formou a bolha hipotecária sobre os mais vulneráveis socioeconomicamente não seguiu nenhuma
lógica de política social. Mas a busca inexorável do lucro. A obrigação de dívida colateralizada ( na qual há um ativo
que é dado como garantia caso o empréstimo não seja pago e o emprestador, por sua vez, vende a terceiros o direito de
receber os juros e o retorno do empréstimo em algum momento no futuro, passando a divida pra frente), a
comercialização dos direito de recebimento sobre quitações futuras e juros dos empréstimos – os CDO’s (Collateralized
Debt Obligation) – e os CDS’s (Credit Default Swaps) – não são instrumentos da Community Reinvestment Act.

Foram instrumentos criados na transição de século por aqueles que acreditam nos dogmas dos mercados eficientes em:
refletirem valor e risco nas transações; autorregulados – com capacidade inerente de se reestabilizarem ante as
perturbações e oscilações -; nos dogmas das alocações racionais dos agentes vistos como átomos isolados; dos preços
refletindo todas as informações relevantes e tendendo ao equilíbrio, etc. Era com estes instrumentos que se agrupava e
dividia as hipotecas em parcelas qualitativas e vendia-se como produtos separadamente, a partir do que os bancos, sem
se preocuparem em saber da vida dos hipotecários, relaxavam seus padrões de concessões.

Os bancos não queriam saber se um indivíduo era de minoria étnica, negro, idoso, etc. – simplesmente encaixavam o
que seria a precificação dos custos adicionais dos riscos em um amplo agrupamento estratificado hierarquicamente; a
princípio de qualidade mais duvidosa, mas na média geral dos títulos, o risco de inadimplência ficaria percentualmente
baixo. Não se saberia mais quem é quem. Só variava o diferencial astronômico de juros para cada categoria de
qualidade, o que fez com que, no final das contas, os títulos podres ficassem mais atrativos para os Fundos de Hedge –
o prêmio de risco era muito maior – e se maquiasse misturando tudo. E cada grupo de títulos, sob a forma CDO, por sua
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vez, se via transformado em outro produto financeiro. Tudo isso é um esquema mercadológico, algo que sempre vem
após uma vulnerabilização da vida das pessoas para os poderosos econômicos.

A Lei de Modernização dos Mercados Futuros de Commodities, implementada no arcabouço da ideologia


monetarista (que acredita que, com uma moeda estabilizada, o mercado dá conta de cumprir com o melhor
funcionamento da sociedade), veio possibilitar que essas pirâmides chegassem a alturas ainda muito maiores. Cada
CDO foi securitizado sob a forma de CDS (contratos nos quais o vendedor se compromete a reembolsar, corrigido a
juros, os pagamentos do comprador se os instrumentos de crédito não forem honrados), quando então seus riscos não
constavam mais nos balanços da instituição financeira – o que efetivamente fez o crédito ficar muito mais barato.

Isto não tem nada a ver com as costumeiras petições de princípio mercadistas a respeito de inundação de dinheiro por
parte do “Banco Central” – FED – ou irreal cobertura de risco por parte do governo. Os preços subiam, mas a avaliação
de risco de mercado continuava a cair nas instituições financeiras privadas, aumentando a oferta creditícia e
incentivando-se a ofertar mais. Um ciclo vicioso no mercado que, na complexidade social, não assimila e corrige
devidamente os riscos sistêmicos, mas tende a deixá-los acumular até o caos.

Na prática, pessoas ávidas por unicamente maximizar seus ganhos no prazo mais curto possível estavam comprando
seguros das casas de outras pessoas, que buscavam nelas simplesmente viver, manipulando-se o sonho das pessoas
num cassino forjado.

Mas qual o papel então da política financeira na Grande Recessão? Como os dogmas das seitas de fundamentalismo de
mercado tiveram papel neste processo?

Onde está John Galt, o rico virtuoso que os liberais dizem que carrega o mundo nas costas?

Na verdade, o que as autoridades monetária fizeram, sob controle do presidente do FED Alan Greenspan, fã confesso de
Ayn Rand e Milton Friedman, dois ícones do neoliberalismo [11], foi exatamente um “desintervencionismo”, ao deixar a
moeda flutuar sem intervir para enxugar a liquidez circulante, deixando a taxa de juros baixa.

Greenspan costumava declarar: “Não existe nada na regulação federal que se faça superior à regulamentação do
mercado”; “parece não haver necessidade de regulação governamental nas transações com derivativos de
balcão”. “Tenho uma ideologia. Minha visão é de que os mercados livres e competitivos são de longe a melhor
maneira de organizar a economia.” [12] – mais tarde vamos mostrar como ele confessou estar errado.

Em abril de 2003, no Museu e Biblioteca Presidencial Ronald Reagan, Greenspan afirmou categoricamente [13] que não
havia bolha imobiliária. Greenspan disse ainda em 2004 que este mercado se regula contra a especulação, alegando “ao
vender uma casa, os proprietários se mudam e vão morar noutro lugar”.
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Don Kohn, outro neoliberal monetarista, diretor do FED que se tornaria vice-presidente, afirmava que com intervenção “o
governo corre o risco de enfraquecer a regulação privada e a estabilidade financeira ap enfraquecer os
incentivos”; (…) “os atos de grupos privados para se proteger – o que o presidente Greenspan chamou de
regulação privada – são em geral muito eficazes” [14]. É nítida a doutrina que orientava as autoridades.

Se a autoridade monetária tivesse atuado aumentando a taxa de juros, retirando liquidez e estimulando inversões
financeiras do setor produtivo para os títulos do tesouro – num momento em que a economia estadunidense crescia em
confiança (a produtividade crescia após uma virada cíclica em fins de 1993, devido às inovações dos sistemas de
informação nos fluxos de estoques e registros das firmas, o que, juntamente com a enxurrada de produtos de consumo
baratos do leste asiático, dissolveu qualquer pressão inflacionária) – aí sim, aí inteligentemente pode se dizer que sim, o
FED sob Greenspan (até há pouco tempo o gestor ícone mundial dos fãs do “estado minimo”) teria sido
“invervencionista”.

No início de 2008, a Bloomberg.com, tradicional parceira do Instituto Mises, previu que a média de ganhos do ano seria
de 11% no Standard & Poor’s 500 Index. Mas no final do ano, o índice S&P 500 tinha caído 38%, fritando 29 trilhões de
dólares do mercado [15].

Deixe passar, deixe comprar? Quando se submete as pessoas a uma lógica de cassino

Milton Friedman, Alan Greenspan, seu sucessor Ben Bernanke

As protagonistas da crise foram justamente as firmas do chamado “shadow banking system” [16], ou “sistema de bancos
sombra”, que NUNCA, NUNCA foram reguladas. São instituições financeiras não depositárias. É por elas serem os
pivôs dos esquemas dos bancos para não serem regulados e operarem no “mercado livre” (sic), é que elas os levaram à
bancarrota. Como exemplo, o Auctionate Rate Security (ARS) [17], que o mega-banco Lehman Brothers operava, em que
os operantes emprestavam dinheiro à instituição mutuária (recebedora de empréstimos) a longo prazo, enquanto toda a
semana a instituição leiloava os papéis dos investidores permanentes com taxas de juros que se aplicavam a todos os
recursos investidos até o leilão seguinte. Os investidores recebiam taxas de juros mais altas que as oferecidas pelos
bancos sobre depósitos, e os emitentes pagavam taxas de juros menores que as incidentes sobre empréstimos
bancários.

Isso era pra escapar de impostos e escapar da regulação; estes sistemas de fundos não regulados não precisavam,
como os bancos, conterem reservas líquidas, lastro e capital substancial, pagando ainda despesas do sistema de
garantias de depósito. Era um “mercado livre” de alavancagem de aplicações de alta rotatividade [18], ou seja,
empréstimos tomados para se buscar maximizar lucros líquidos sem precisar despender investimentos proporcionais. Só
o ARS em 2008 envolvia 400 bilhões de dólares. Nesta época, os leilões começaram a fracassar porque os investidores
que se iludiam achando que tinham acesso imediato à liquidez se viram presos a investimentos com durações de
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décadas e irresgatáveis antes dos vencimentos. O efeito dominó no fracasso dos


leilões levou ao pânico da corrida aos bancos, tal como na parecida crise de 1929.

E foi assim que os outros elementos do sistema financeiro das sombras, paralelo, não
regulado, “mercado livre”. Tais como os asset-backed commercial paper conduits,
os structured investiment vechicles, auction-rate preferred securities, tender option bonds,
os carry trades japoneses e os variable rate demand notes [19], mais os fundos de hedge,
que perfaziam muito mais ativos em trilhões de dólares do que os balanços patrimoniais
dos maiores bancos de investimento e das empresas controladoras de bancos. Mais até
do que todo o sistema bancário. As operadoras não precisavam ser “forçadas” a nada,
Alan Greenspan e a escritora Ayn
elas ganhavam com os esquemas piramidais “ilastreáves” e exponenciais montados em
Rand
cima dos papéis dos mutuários da base, tirando oportunidade de desesperos e correndo
atrás de seduzi-los, sedentas pelos títulos hipotecários negociáveis ancorados em
empréstimos que reuniam vários milhares de hipotecas.

Vinha se aprofundando a desregulamentação sobre instituições bancárias comerciais, com operações extracontábeis,
os off balance sheet [20], que advieram, por exemplo, da revogação por parte do FED do Glass-Steagall Act[21] em
1999, retirando as regulamentações das operações dos bancos comerciais no negócio de bancos de investimentos. O
governo Bush, a partir de 1999, agiu no sentido de mais desregulamentação também através do Office of the Comptroller
of the Currency (OCC) [22] bloqueando as ações dos estados, referentes a supervisionar os subprimes. Em 2003 deu
atribuições esquisitas ao OCC para bloquear iniciativas das unidades federativas que quisessem submeter os
empréstimos subprime a supervisões. Agravando o processo, a lei de desregulamentação chamada Gramm-Leach-Bliley
[23] foi promulgada, capitaneada pelo senador republicano do Texas Phil Graham [24]– o mesmo que obteve aprovação
para o Senado homenagear Milton Friedman com uma medalha de ouro -, que disse à época: o governo não é a
resposta. (…) Aprendemos que promovemos o crescimento econômico e a estabilidade por meio da
concorrência e da liberdade.

“Quase todas as agências reguladoras, legisladores e acadêmicos assumiram que os gerentes desses bancos sabiam o
que estavam fazendo. Em retrospecto, eles não sabiam. A divisão de produtos financeiros do American International
Group (AIG), por exemplo, obteve 2,5 bilhões de dólares de lucro bruto em 2005, basicamente revendendo seguros
subvalorizados sobre títulos complexos e não muito bem compreendidos. Geralmente descrita como “caçar níqueis na
frente de um rolo compressor”, essa estratégia é lucrativa nos anos comuns e catastrófica nos anos ruins. Quanto a esta
última queda, o AIG teve seguros não pagos sobre mais de 400 bilhões de dólares em títulos. Até esta data, o governo
dos Estados Unidos, no esforço de resgatar a empresa, aplicou cerca de 180 bilhões de dólares em investimentos e
empréstimos para cobrir as perdas que a sofisticada modelagem de risco econômico do AIG disse que seriam
praticamente impossíveis”.

Simon Johnson, diretor econômico do FMI em “The Quiet Coup”, The Atlantic, 2009 [25]

Agências de risco privadas – a aposta dos gestores pró-mercadismo

Como Robert Hiller demonstrou [26], as agências de classificação privadas e companhias de financiamento atuaram pela
delegação de Greenspan e gestores economistas neoliberais nessa delegação de poder. Funcionavam como forma do
Estado se esvair do papel ativo, substituindo-lhe pelas novas ferramentas de redes de informação especializada e assim
diminuírem custos de transação para os agentes. Fiavam-se no aumento de valor de mercado dos imóveis, a partir de
1997 – ou seja, logo antes da ação do mercado para revogar o Glass-Steagall act – que eram inflados pelos
especuladores: foi movimento orquestrado de ativos que eram valorizados com as operações em cascatas; todo um
esquema de comunicação imensamente financiado vendia a sensação aos agentes de que os ativos iriam mesmo só
continuar a se valorizar.

Estes ativos passaram a ser agrupados em pacotes de derivativos, contratos firmados sobre pagamentos no futuro
remetidos ao valor de um indexador, onde o “mix” ficava avaliado de “classe A” acima; com isto, os títulos podres não
afetavam a avaliação de risco. Com os preços se valorizando, a curva de oferta e procura se afastava imensamente do
equilíbrio e irregularmente – ou seja, sem “mão invisível” – pois a utilidade percebida das hipotecas aumentava à
medida que os preços dela subiam.

A taxa de juros do FED foi abaixando a partir do novo ciclo de crescimento se inflação que mencionamos e, como vimos,
não temos evidência de nenhum ato oficial reforçando a “Community Reinvestiment Act“ de 1977 – o “zeramento” dos
juros nominais adveio justamente de uma absurda desregulamentação do mercado em 1999. O cancelamento da Glass-
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Steagall pelo governo Bush Jr., sob lóbi do “mercado” financeiro, retirou inúmeras regulamentações básicas, como a
relacionada a um agente exercer o mesmo trabalho de administrador, diretor, funcionário e operador de uma firma de
certificado de posse de valores mobiliários e de outro banco qualquer.

Como mencionado, acabou-se com a separação entre bancos comerciais e os de inversões de investimentos,
onde os primeiros passaram a especular livremente com ativos de natureza não exigível; então companhias de seguros
foram oficialmente autorizadas a especular com negociações de valores mobiliários. Eliminou-se substancialmente as
exigências então vigentes sobre recolhimentos nas operações junto à câmara de compensação; abriu-se a porteira para
a formação de carteis; incrementou-se o desacoplamento da economia real; a “desprecificação” dos riscos; o
favorecimento do desenfreado cassino de altos rendimentos de curto prazo com um alavancamento incalculável com
riscos inestimáveis.

Cálculos estimam-se que foram aplicados mais de 300 milhões de dólares em lóbi para essa desregulamentação, em
que 207 congressistas republicanos votaram a favor e cinco contra. O mote era a facilitação de fusões, pois já
imediatamente antes fora criado o precedente com a fusão do Citicorpe com o Travelers Group, que era até então ilegal
de acordo com o Bank Holding Company Act [27].

Sim, o ônus é dos pregadores da ideia dos “mercados desregulados” – e o abismo ainda paira à
frente

Cena do filme “O Lobo de Wall Street”.

Ou seja, definitiva e indubitavelmente, o ônus recai pesadamente sobre a ideologia do “mercado livre” (sic), mercado
“desregulamentado”, blindado à democracia política e social. As escalas dos ativos arriscados e ilíquidos, como os
CDOs, ativos que são apenas lastros para títulos de dívidas, que por sua vez usam outros iguais como garantias.

O que ocorre hoje é justamente o fato de se ter aberto a caixa de Pandora das desregulamentações e não ter como
rastrear os fundos paralelos no mundo. Novas pirâmides se formaram, com novas inovações financeiras, fundos de
hedge operando em conjunto assumindo posições vendidas e compradas em pontas do mesmo circuito; e o limite do
poder das reservas em atuar como defesa devido ao problema de lastro, de esquemas imensuráveis de derivativos em
cima de instrumentos de crédito de base, voltou a ser profundamente frágil.

Os detentores dos ativos financeiros em liquidez podem agir muito mais rápido do que a capacidade das empresas do
setor produtivo manterem o capital estável para se desenvolverem em longo prazo, com grande defasagem de
velocidade, com exponencial aumento de criação de títulos de crédito em comparação com os ativos reais de atividades
produtivas. São “armas financeiras de destruição em massa” – palavras do investidor Warren Buffet – que escapam ao
poder dos Bancos Centrai, não tendo governo, um “mercado livre”, um moinho louco.
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Movimentos de direita nos EUA lutaram contra ajuda financeira para os perderam seus imoveis. Um repórter da CNBC,
ativista do Estado Mínimo, ilustra perfeitamente o tom: “Será que realmente queremos subsidiar as hipotecas dos
perdedores? Isso aqui é a América! Quantos de vocês querem pagar a hipoteca do seu vizinho que tem um banheiro
extra e não consegue pagar suas contas?” [28]

Os primeiros sistemas modernos de taxa sobre capitais, heranças, e renda, eram irrisórios, mas serviam pelo menos pra
justamente lastrear os ativos capitalizáveis e a economia em geral. Além do poder de mercado da rede mundial do poder
corporativo, de concentrar, distorcer, cobrir riscos, coagir instituições. Perdemos o bonde da Taxa Tobin [29] que além de
sua finalidade ética e social, permitiria isso em grande parte no sistema financeiro. Além de regulamentação sobre
tomadas hostis, proibição de vendas a descoberto, aumentar a margem de exigência na negociação de ações, etc. Isso
precisaria de uma arquitetura institucional bem mais multilateral e efetiva do que a que temos. Mas há o temor de que o
carro esteja sem freio. E se não cobrarmos a responsabilidade dos pregadores mercadistas, seremos
atropelados. Eles nos devem trilhões.

“O senhor descobriu um problema?” – perguntou Henry Waxman a Alan Greenspan em outubro de 2008 [30].

_ Descobri um um problema no modelo que me parecia uma estrutura vital, um modo como o mundo funciona por assim
dizer.

“Em outras palavras, o senhor descobriu que sua visão de mundo, sua ideologia, não é correta” – interpelou
Waxman. “Ela não estava funcionando?”

_ Exatamente – respondeu Greenspan. Foi exatamente por essa razão que fiquei chocado. Porque há 40 anos ou mais
eu tinha provas consideráveis de que funcionava excepcionalmente bem.

Entidade calcula os custos da crise de 2008: US$ 14 trilhões

EUA emitem US$ 2,3 trilhões desde 2008, mas bancos retêm 85%

– Para maior compreensão dos instrumentos de truques financeiros no coração da Crise Neoliberal de 2008,
recomendamos ainda o agradável e inteligentíssimo texto Entendendo a crise: o que são as tais das CDOs

Steve Keen: um arrepiante modelo matemático sobre o futuro desta crise

Nossa Dívida, Nossa Vida

Notas e Referências

[1] https://repository.library.georgetown.edu/handle/10822/1040525
[2] https://www.youtube.com/watch?v=A8hzcQuG1LQ
[3] http://www.sfweekly.com/news/the-great-eliminator-how-ronald-reagan-made-homelessness-permanent/
[4] http://www.freddiemac.com/investors/board_appointment.html
https://www.fanniemae.com/content/guide/selling/d1/3/06.html
http://www.fanniemae.com/resources/file/ir/pdf/info-statements/infostmtkpmg072302.pdf
[5] http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1901200306.htm
[6] http://ritholtz.com/2010/05/rewriting-the-causes-of-the-credit-crisis/
[7] http://ritholtz.com/2010/05/rewriting-the-causes-of-the-credit-crisis/
[8] http://www.telegraph.co.uk/finance/financialcrisis/3160602/Australian-assets-sale-boosts-HBOS-funds.html
http://www.independent.co.uk/news/business/news/wall-street-humiliated-by-nationalisation-of-banks-961397.html
http://www.telegraph.co.uk/finance/financialcrisis/3187946/Financial-crisis-Banks-nationalised-by-Government.html
https://www.theguardian.com/business/2008/oct/08/creditcrunch.banking
http://news.bbc.co.uk/2/hi/business/7641753.stm
https://www.ft.com/content/22db4400-0c86-11de-a555-0000779fd2ac
https://www.theguardian.com/business/2009/jan/15/anglo-irish-bank-nationalisation
http://www.nysun.com/business/three-european-governments-will-baill-out-fortis/86732/
http://uk.reuters.com/article/uk-dutch-finance-cbank-idUKBRE9100A420130201
[9] http://www.nhi.org/online/issues/135/reagan.html
[10]https://en.wikipedia.org/wiki/Depository_Institutions_Deregulation_and_Monetary_Control_Act
[11] http://0055d26.netsolhost.com/friedman/pdfs/other_commentary/Farmand.02.17.1951.pdf
https://www.atlasnetwork.org/
07/08/2017 "Os Mercados se Autorregulam"? - Como essa ideologia nos roubou trilhões. E quer roubar mais

[12] http://www.nytimes.com/2008/10/24/business/economy/24panel.html?_r=0
[13] http://www.federalreserve.gov/boardDocs/speeches/2004/20041019/default.htm
[14] http://www.federalreserve.gov/BOARDDOCS/SPEECHES/2005/20050827/default.htm
[15] Thomasson, Lynn (2009), “Strategists See 17% S&P 500 Rise on Fed Cuts After Saying ‘Buy’,” Bloomberg.com, 5
January 2009. https://www.bloomberg.com/news/articles/2009-12-14/top-stocks-pickers-see-11-percent-rise-in-s-and-p-
500
[16] http://www.ibtimes.com/what-shadow-banking-risky-sector-center-sanders-clinton-debates-2250172
[17] http://www.barrons.com/articles/SB121159302439419325
[18] http://dowbor.org/?s=%22crise+financeira+sem+mist%C3%A9rio%22
[19] http://scholarship.law.unc.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1012&context=ncbi
http://www.ft.com/intl/cms/s/0/8eebf016-48fd-11dc-b326-0000779fd2ac.html
http://www.winthropcm.com/The%20Trouble%20in%20the%20Auction%20Rate%20Preferred%20Securities%20Market.pdf
http://www.wsj.com/articles/SB120174979818331061
http://www.ft.com/intl/cms/s/0/0952b150-a622-11dd-9d26-000077b07658.html
http://www.rwbaird.com/help/account-disclosures/variable-rate-demand-disclosure.aspx
[20] http://xn—off%20balance%20sheet-ol9l/
[21] http://www.nytimes.com/topic/subject/glasssteagall-act-1933
[22] http://www.ffiec.gov/bsa_aml_infobase/documents/regulations/occ_bsa_reg.pdf
[23] http://www.nytimes.com/2008/09/28/magazine/28wwln-reconsider.html?_r=0
[24] http://www.banking.senate.gov/prel99/1112gbl.htm
[25] http://drmingxia.org/wp-content/uploads/2014/10/TheQuietCoup.pdf
[26] http://press.princeton.edu/titles/8714.html
[27] http://www.eltiempo.com/archivo/documento/MAM-758916
[28] Rick Santelli, do Tea Party: https://www.youtube.com/watch?v=zp-Jw-5Kx8k
[29] https://pt.wikipedia.org/wiki/Taxa_Tobin
[30] http://www.nytimes.com/2008/10/24/business/economy/24panel.html?_r=0