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30/10/2019 Aspectos da Chamada Pública do PNAE

Parte Geral - Doutrina

Aspectos da Chamada Pública do PNAE

LUCAS RAFAEL DA SILVA DELVECHIO


Consultor na Empresa Gepam, Advogado, Pós-Graduando em Direito do Estado pela
Universidade Estadual de Londrina - UEL.
JOSÉ CARLOS PACHECO DE ALMEIDA
Advogado, Consultor na Empresa Gepam, Especialista em Gestão Pública pela Universidade
Federal do Mato Grosso do Sul - UFMS.
RAFAEL ANTONIO SHIMADA
Consultor na Empresa Gepam, Especialista em Gestão Pública pela Universidade Federal do
Mato Grosso do Sul - UFMS.

RESUMO: O foco deste artigo escora-se no estudo dos principais aspectos da


dispensa de procedimento licitatório, destinada à aquisição de gêneros alimentícios,
por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar, que ocorre por meio de
procedimento simplificado denominado chamada pública. Seu objetivo, portanto, é
apresentar todos os passos que devem ser observados quando da realização do
processo simplificado, ou seja, desde a cotação de preços, até a entrega dos produtos
em cada uma das unidades executoras.

PALAVRAS-CHAVE: Alimentação escolar; chamada pública; licitação; dispensa de


licitação; agricultura familiar.

ABSTRACT: The focus of this article supports on the study of the main aspects of
weivier bids to aquisition of foodstuffs through the School Feeding National Program
wich happens by the simply procediment that is called Public Call. Its chief purpose,
therefore, its report each step that must be observed when goes do the procedure be
simplidied, since the price quotation until the products delivery in each of the Execution
Unit.

KEYWORDS: School meals; public call; public bid; waiver of bid proceeding; family
farming.

SUMÁRIO: Introdução; 1 Chamada pública; 1.1 Licitação; 1.2 Lei nº 11.947/2009;


1.3 Natureza jurídica da chamada pública; 1.4 O procedimento; 1.4.1 Quem
compra e quem vende?; 1.4.2 Cotação de preços; 4.3 Controle de qualidade; 1.4.4
Divulgação da chamada pública; 1.4.5 Elaboração e recebimento do projeto de
venda; 1.4.6 Critério de seleção; 2 O contrato; 3 Entrega e pagamento;
Conclusão; Referências.

INTRODUÇÃO
O Programa Nacional de Alimentação Escolar [PNAE ] foi implementado
em 1955 e, segundo aponta o Fundo Nacional de Desenvolvimento da
Educação [FNDE], é o maior programa de alimentação escolar do mundo,
oferecendo, além das refeições, educação alimentar e nutricional aos
estudantes de todos os níveis da educação básica pública. O repasse dos
valores é feito pelo governo federal aos Estados, Municípios e escolas
federais, possui caráter suplementar e é dividido em 10 [dez] parcelas
mensais, que corresponde a 200 [duzentos] dias letivos, conforme o número de
matriculados em cada rede de ensino.

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A fiscalização da destinação dos valores repassados pelo Governo


Federal aos Municípios, para implantação e manutenção do referido projeto, é
realizada pelo FNDE, pelo Tribunal de Contas da União [TCU], pela
Controladoria Geral da União [CGU], pelo Ministério Público [MP] e pelos
Conselhos de Alimentação Escolar [CAE] de cada localidade.
De acordo com o art. 14 da Lei Federal nº 11.947/20091, 30% do valor
total repassado pelo PNAE , diretamente aos Municípios, deve ser destinado
para a compra de gêneros alimentícios provenientes da agricultura familiar,
priorizando-se, quando da aquisição, os assentamentos da reforma agrária, as
comunidades tradicionais indígenas e comunidades quilombolas.
O § 1º do supracitado texto legal estabelece que a aquisição de
produtos provenientes da agricultura familiar poderá ser realizada por
intermédio de dispensa de licitação. Todavia, não há óbice quanto à realização
da referida compra por meio de outras modalidades licitatórias, tendo em vista
que o art. 20 da Resolução CD/FNDE nº 26/20132 dispõe que a aquisição de
gêneros alimentícios por meio deste Programa Nacional de Alimentação
Escolar deve ser realizada por meio de licitação pública, nos termos da Lei
Geral de Licitações [Lei nº 8.666/1993], bem como da Lei nº 10.520/20023 [Lei
do Pregão].
O presente estudo, por outro lado, tem por objetivo estudar as
características da dispensa de licitação, realizada por meio de chamada
pública, nos ditames do § 1º do art. 20 da Resolução CD/FNDE nº 26/20134.

1 CHAMADA PÚBLICA

1.1 Licitação
Seguindo os ensinamentos de Maria Sylvia Zanella Di Pietro5, pode-se
entender que licitação é o procedimento pelo qual o ente público chamado
licitante, no exercício de sua função administrativa, abre a todos os
interessados que se sujeitem às condições previamente estabelecidas no edital
[instrumento convocatório] a possibilidade de formularem propostas dentre as
quais selecionará a mais conveniente para a celebração do contrato
administrativo.
Segundo Telles6, o instituto da licitação já era conhecido desde a
antiguidade romana quando, então, era utilizado para disciplinar a alienação
dos despojos de guerra e também para a realização de obras públicas. Nota-se
que, desde aquela época, a palavra já designava a compra ou a venda frente a
uma concorrência entre interessados.

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O procedimento administrativo trata-se de um conjunto de atos


preparatórios, com a finalidade de se alcançar uma determinada ação
desejada pela Administração Pública. Dessa forma, pode-se compreender que
o procedimento licitatório traduz uma série de atos da Administração e fatos do
licitante, que, em conjunto, contribuem para o enlace contratual.

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Esse procedimento, no Brasil, encontra previsão no inciso XXI do art. 37


da Constituição Federal7 e devidamente regulamentado pela Lei Federal nº
8.666/19938, que, por sua vez, estabelece o conceito de licitação em seu art.
3º9, qual seja, o procedimento prévio à celebração dos contratos
administrativos, que tem por objetivo a seleção da proposta mais vantajosa
para o ente licitante, promovendo, ao mesmo tempo, o desenvolvimento
nacional e garantindo a isonomia entre os licitantes.

1.2 Lei nº 11.947/2009


Aprovada em junho de 2009, a Lei nº 11.947 dispõe sobre a alimentação
escolar na educação básica na rede de ensino pública, contemplando diretrizes
que objetivam garantir o direito à alimentação e estabelecendo critérios para
que o Estado execute tal dever estabelecido pela norma constitucional.
O primeiro critério estabelecido pelo referido diploma legal determina
que a alimentação oferecida aos alunos da rede pública de ensino seja
saudável e adequada, ou seja, que contemple a aquisição de produtos
variados e de qualidade, respeitando a cultura e hábitos alimentares de cada
aluno, inclusive a sua faixa etária e estado de saúde.
Desse modo, a lei ressalta a importância do papel do profissional da
nutrição para uma perfeita compreensão da realidade da merenda escolar.
Assim, deverá o nutricionista atuar como responsável técnico pela alimentação
nas unidades de ensino de sua competência, prezando pela efetiva aplicação
das diretrizes de qualidade alimentar que estabelece a norma em comento.
Outrossim, a lei destaca o controle social, que deve ser exercido pelos
membros da sociedade, com a finalidade de certificar-se de que o Poder
Público está aplicando as regras dispostas no texto da lei, a fim de garantir a
melhor alimentação para os alunos da rede pública. Ainda, estabelece a
norma, agora discutida, que o ente executor deverá apoiar o desenvolvimento
sustentável, quando da aquisição dos gêneros alimentícios destinados à
merenda escolar. E é nesse aspecto que se enquadra a chamada pública para
aquisição de gêneros alimentícios provenientes da agricultura familiar, prevista
no art. 14 da referida.
O legislador teve intenção, ao possibilitar a dispensa do procedimento
licitatório para aquisição de alimentos oriundos da agricultura familiar [art. 14, §
1º, Lei nº 11.947/2009], de incentivar esse ramo da economia nacional, de
extrema importância, conforme se pode observar do parecer proferido em
plenário pela Comissão Mista da Câmara dos Deputados10:

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É importante uma palavra sobre a determinação de aquisição de


gêneros junto à agricultura e empreendedor familiares. São eles a fonte
de três quartos da produção de alimentos consumidos pelos brasileiros.
A destinação de recursos do PNAE para esses produtores representa
um decisivo impulso ao desenvolvimento sustentável do país, não se
vislumbrando dificuldades para que deem resposta à demanda de
alimentos assim gerada. De fato, uma boa parte dos itens que constam
dos cardápios da merenda escolar é fartamente produzida pelos
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agricultores familiares, isso sem falar na geração direta de renda e


trabalho para mais de 250 mil trabalhadores do campo e beneficiando,
indiretamente, cerca de um milhão de pessoas. (grifos nossos)
Assim, para regulamentar a Lei nº 11.947/2009, inclusive, o § 1º do art.
11
14 , que prevê a possibilidade de dispensa de licitação para aquisição de
alimentos produzidos pela agricultura familiar, foi elaborada a Resolução nº
26/2009 pelo FNDE - Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação, bem
como a Resolução CD/FNDE/MEC nº 04/2015, que estabelecem os
procedimentos para a realização da chamada pública.

1.3 Natureza jurídica da chamada pública


Por se tratar de um procedimento específico de dispensa de licitação, a
chamada pública não pode ser considerada como uma modalidade licitatória,
uma vez que não se enquadra na conceituação trazida pelo art. 3º da Lei
Federal nº 8.666/1993, supracitado. Nesse passo, também não há qualquer
previsão quanto à dispensa para aquisição de produtos provenientes da
agricultura familiar nos arts. 17, 24 e 25 da Lei Geral de Licitações [Lei nº
8.666/1993].
Porém, conforme se extrai do próprio texto constitucional, o inciso XXI
do art. 37 da CF/198812, que determina a obrigatoriedade da licitação, faz
ressalva aos "casos especificados na legislação", não limitando, portanto, à Lei
nº 8.666, de 1993, a distinção e regulamentação das hipóteses de licitação e
dispensa. Possibilitando as demais legislações ordinárias estabelecer
modalidades e critérios de licitação, como fez a Lei Federal nº 10.520/200213,
por exemplo, que instituiu e regulou a modalidade pregão, observando às
regras da Lei Federal nº 8.666/1993 apenas no que lhe coubesse.
Sendo assim, a própria Lei nº 11.947/2009 permite a dispensa de
licitação, ainda que não prevista na Lei Geral de Licitações, sendo esta
regulamentada pelas Resoluções CD/FNDE nºs 26/2013 e 04/2015, tratando-
se a chamada pública, portanto, de procedimento necessário à dispensa
relativa a aquisição de alimentos produzidos pela economia familiar, com
recurso oriundos do repasse necessário de, pelo menos, 30% do FNDE para o
Programa Nacional de Alimentação Escolar - PNAE .

1.4 O procedimento

1.4.1 Quem compra e quem vende?


Primeiramente, faz-se necessário esclarecer alguns pontos trazidos pela
legislação específica em relação ao procedimento da chamada pública, como a
competência para sua realização, o que se faz a partir do manual de aquisição
de produtos da agricultura familiar para alimentação escolar14.

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As EEx - entidades executoras são as instituições que recebem os


recursos repassados pelo PNAE , em nível federal, estadual e municipal, para
a aquisição dos produtos que compõem a merenda escolar, quais sejam:

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- secretarias estaduais de educação;


- prefeituras;
- escolas federais.
As aquisições poderão ser realizadas tanto pelas EEx, de forma
centralizada, quanto pelas UEx - unidades executoras das escolas, que são
entidades privadas sem finalidade lucrativa, que representam a comunidade
escolar, de forma descentralizada. Estas UEx não recebem diretamente o
repasse do FNDE, mas por meio das EEx, não sendo, contudo, eximidas da
estrita observância da devida realização da chamada pública tratada no
presente estudo.
Outrossim, os particulares que farão parte desta relação de compra pela
Administração Pública são os denominados agricultores familiares e/ou suas
organizações econômicas que possuam Declaração de Aptidão ao Pronaf
[DAP], podendo estes participarem de forma individual ou organizados em
grupos informais [DAP física ou jurídica].
Os agricultores familiares, de acordo com a Lei nº 11.326/200615, são
aqueles que praticam atividades no meio rural; proprietários de até quatro
módulos fiscais; com mão de obra da própria família; renda familiar vinculada
ao próprio estabelecimento e gerenciamento do estabelecimento ou
empreendimento pela própria família; também são assim considerados os
silvicultores, aquicultores, extrativistas, pescadores, indígenas, quilombolas e
assentados da reforma agrária.
Essa categoria de produtores pode participar, no papel de fornecedor
dos alimentos destinados à merenda escolar, nas seguintes condições16:
1) grupos formais: detentores de Declaração de Aptidão ao Pronaf
(DAP jurídica) - cooperativas e associações de agricultores familiares
devidamente formalizadas;
2) grupos informais: grupos de agricultores familiares detentores de
Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP física), que se articulam para
apresentar o projeto de venda;
3) fornecedores individuais: agricultores familiares detentores de
Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP física).
Após estabelecida a definição dos atores que figurarão na relação
jurídica criada por meio da chamada pública, passa-se a comentar cada uma
das etapas do procedimento necessário à aquisição de alimentos advindos da
agricultura familiar.

1.4.2 Cotação de preços


Da mesma forma que a cotação de preços é etapa indispensável
quando da realização de qualquer modalidade licitatória, diferença não há no
procedimento da chamada pública. A uma porque se trata de orçamento
geralmente limitado, ou seja, mínimo de 30% do valor repassado pelo FNDE
no âmbito do PNAE . Outra, por ser requisito indispensável à realização da
dispensa, nos termos da primeira parte do § 1º do art. 14 da Leinº 11.947/2009,
assim disposto:

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Art. 14. [...]


§ 1º A aquisição de que trata este artigo poderá ser realizada
dispensando-se o procedimento licitatório, desde que os preços sejam
compatíveis com os vigentes no mercado local [...]. (grifos nossos)
Assim sendo, os preços obtidos na chamada pública devem refletir,
obrigatoriamente, os preços correntes de mercado, o que se obtém por
intermédio da prévia e ampla pesquisa de preços realizada pela entidade
executora, com ajuda de parceiros como o CAE - Conselho de Alimentação
Escolar ou entidades de assistência técnica e extensão rural, universidades,
entre outros.
Os preços serão obtidos a partir de três orçamentos, granjeados junto
ao mercado local [com preferência à eventual feira da agricultura familiar],
acrescidos dos insumos exigidos no edital da chamada pública, isto é, o valor
final do produto deverá conter, além daquele referente ao alimento, também os
custos relativos à despesa com frete, embalagem, encargos de quaisquer
outros necessários para o fornecimento do bem.
Ressalte-se que os preços obtidos com a pesquisa realizada pela EEx
não são utilizados como critério de classificação de propostas. Isso porque os
valores que deverão constar dos projetos de venda elaborados pelos
fornecedores deverão corresponder ao valor da chamada pública, uma vez que
os preços ali estabelecidos serão os mesmos praticados quando da
contratação, ou seja, o montante que será pago pela Administração ao
agricultor familiar deverá ser preestabelecido. Deve, inclusive, a EEx solicitar
adequação dos projetos de venda com valor diverso daquele estabelecido na
chamada pública [art. 27 da Resolução FNDE nº 26/2013].

1.4.3 Controle de qualidade


A chamada pública realizada nos termos do § 1º do art. 14 da Lei nº
11.947/200917, sob o regime de dispensa do procedimento licitatório, deve
observar os seguintes requisitos: (i) repasse de, pelo menos, 30% (trinta por
cento) do FNDE para aquisição de alimentos da agricultura familiar; (ii) preços
compatíveis com o mercado; (iii) atendimento ao controle de qualidade dos
produtos, de acordo com as normas que regulam a matéria.
Os produtos alimentícios produzidos pela agricultura familiar, que serão
adquiridos para destinação à alimentação escolar, deverão atender às
disposições de legislação de alimentos estabelecida por um serviço de
sanidade (art. 33 da Resolução CD/FNDE nº 26/2013), entre os quais:
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa/Ministério da
Saúde) ou Anvisas locais ou estaduais;
Sistema Unificado de Atenção à Sanidade Agropecuária
(Suasa/Mapa) ou serviços de Inspeção Federal (SIF), Estadual (SIE) ou
Municipal (SIM).

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De acordo com o Manual de Aquisição de Produtos da Agricultura


Familiar para a Alimentação Escolar, disponibilizado pelo FNDE, os produtos in
natura, ou seja, que não possuem qualquer tipo de processamento e que
sejam de origem vegetal, não necessitam de avaliação sanitária. Aqueles que
sofreram qualquer tipo de processamento deverão ser analisados pelo
Ministério da Saúde, por meio da Anvisa. Os produtos de origem animal, por
outro lado, inclusive ovos e mel, necessitam de avaliação sanitária.
Para a efetiva certificação da qualidade dos alimentos oriundos da
agronomia familiar, a entidade executora poderá exigir a apresentação de
amostras.

1.4.4 Divulgação da chamada pública


Saliente-se, de início, que o instrumento da chamada pública [edital]
deve conter todas as informações necessárias, como tipos de produtos,
quantidades, cronograma e locais de entregas e os preços de aquisição, para
que os agricultores interessados possam elaborar o projeto de venda
adequadamente.
A chamada pública deve ser amplamente divulgada, procedendo-se à
publicação do edital em jornal de grande circulação, bem como em mural
público de ampla circulação [geralmente, no átrio da Prefeitura]. Ainda, deverá
ser divulgado na página da internet do órgão competente, em organizações
locais da agricultura familiar [sindicatos, cooperativas, associações etc.],
quando houver, e em entidades de assistência técnica e extensão rural do ente
realizador.
Nada impede, contudo, que haja a divulgação em outros meios de
comunicação, com a finalidade de se dar amplitude à publicidade, como em
rádios comunitárias, jornais de circulação regional, estadual ou nacional.
Importante que se abra parêntese para destacar que o período em que
o edital permanecerá aberto para o recebimento dos projetos de venda será
de, no mínimo, 20 [vinte] dias.

1.4.5 Elaboração e recebimento do projeto de venda


O projeto de venda, segundo o manual do PNAE - FNDE18, "é o
documento que formaliza o interesse dos agricultores familiares em vender sua
produção para a alimentação escolar". Desse modo, a responsabilidade pela
elaboração e entrega dos projetos de venda é inteiramente dos agricultores ou
suas organizações que tenha interesse na venda de seus produtos,
respeitando os termos estabelecidos no edital da chamada pública, inclusive
com relação aos preços ali estabelecidos.
O projeto deverá estar devidamente acompanhado da respectiva
assinatura dos representantes do grupo formal, dos agricultores do grupo
informal do fornecedor individual. No caso do grupo informal, este deverá
apresentar a relação de cada membro participante, com nome completo,
CPF/MF e DAP física.

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Por fim, os agricultores dos grupos formal e informal, assim como o


fornecedor individual, deverão preencher uma declaração afirmando que todos
os produtos que serão por eles entregues são de produção própria.
Outrossim, os projetos de venda deverão ser entregues acompanhados
da seguinte documentação [art. 27 da Resolução CD/FNDE nº 26/2013]:
1. Grupos Individuais:
I - a prova de inscrição no Cadastro de Pessoa Física - CPF;
II - o extrato da DAP Física do agricultor familiar participante, emitido
nos últimos 30 dias;

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III - o Projeto de Venda de Gêneros Alimentícios da Agricultura


Familiar e/ou Empreendedor Familiar Rural para Alimentação Escolar
com assinatura do agricultor participante (anexo IV);
IV - a prova de atendimento de requisitos previstos em lei específica,
quando for o caso; e
V - a declaração de que os gêneros alimentícios a serem entregues
são oriundos de produção própria, relacionada no projeto de venda.
2. Grupos Informais:
I - a prova de inscrição no Cadastro de Pessoa Física - CPF;
II - o extrato da DAP Física de cada agricultor familiar participante,
emitido nos últimos 30 dias;
III - o Projeto de Venda de Gêneros Alimentícios da Agricultura
Familiar e/ou Empreendedor Familiar Rural para Alimentação Escolar
com assinatura de todos os agricultores participantes;
IV - a prova de atendimento de requisitos previstos em lei específica,
quando for o caso; e
V - a declaração de que os gêneros alimentícios a serem entregues
são produzidos pelos agricultores familiares relacionados no projeto de
venda.
3. Grupos Formais:
I - a prova de inscrição no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica -
CNPJ;
II - o extrato da DAP Jurídica para associações e cooperativas,
emitido nos últimos 30 dias;
III - a prova de regularidade com a Fazenda Federal, relativa à
Seguridade Social e ao Fundo de Garantia por Tempo de Serviço -
FGTS;
IV - as cópias do estatuto e ata de posse da atual diretoria da
entidade registrada no órgão competente;

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V - o Projeto de Venda de Gêneros Alimentícios da Agricultura


Familiar para Alimentação Escolar;
VI - a declaração de que os gêneros alimentícios a serem entregues
são produzidos pelos associados relacionados no projeto de venda; e
VII - a prova de atendimento de requisitos previstos em lei
específica, quando for o caso.
Em havendo irregularidade ou ausência de qualquer dos documentos
acima elencados, poderá a EEx abrir prazo para a regulamentação da
documentação. Ao término do prazo para recebimento, a relação dos
proponentes e dos projetos de venda deverá ser apresentada em sessão
pública, devidamente registrada em ata.

1.4.6 Critério de seleção


Recebidos os projetos de venda, estes deverão ser classificados em 4
[quatro] grupos, quais sejam:
Grupo 01 - projetos locais [agricultores ou organizações com sede no
próprio município];
Grupo 02 - projetos do território rural;
Grupo 03 - projetos do estado;
Grupo 04 - projetos do país.
Preferencialmente, as compras devem ser realizadas no município em
que as escolas beneficiárias estão localizadas. Sendo assim, após separados
os projetos, a EEx analisará primeiramente a proposta do grupo 1, respeitando
a seguinte ordem de prioridade para a seleção dos projetos [art. 25 da
Resolução CD/FNDE nº 26/201319]:

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I - os fornecedores locais do município;


II - os assentamentos de reforma agrária, as comunidades
tradicionais indígenas e as comunidades quilombolas;
III - os fornecedores de gêneros alimentícios certificados como
orgânicos ou agroecológicos, segundo a Lei nº 10.831, de 23 de
dezembro de 2003;
IV - os Grupos Formais (organizações produtivas detentoras de
Declaração de Aptidão ao Pronaf - DAP Jurídica) sobre os Grupos
Informais (agricultores familiares, detentores de Declaração de Aptidão
ao Pronaf - DAP Física, organizados em grupos) e estes sobre os
Fornecedores Individuais; e
V - organizações com maior porcentagem de agricultores familiares
e/ou empreendedores familiares rurais no seu quadro de sócios,
conforme DAP Jurídica.
Os demais grupos poderão ser escolhidos apenas quando os
agricultores familiares locais não conseguirem oferecer a quantidade de
produtos exigidos pela entidade executora. Nessa hipótese, as propostas dos
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agricultores locais deverão ser complementadas pelos produtores rurais, do


estado e do país, exatamente nesta ordem.

2 O CONTRATO
Ao final do procedimento de seleção das propostas de venda, os
projetos que atenderam a todos os requisitos anteriormente estudados serão
convocados para a celebração do contrato de venda com a entidade
executora. Segundo o manual anteriormente citado, "o contrato de compra é a
formalização legal do compromisso assumido pela entidade executora e pelos
fornecedores para a entrega dos gêneros alimentícios da agricultura familiar
para alimentação escolar".
Os contratos da chamada pública seguirão as mesmas regras dos
contratos administrativos previsto na Lei de Licitações e Contratos [Lei Federal
nº 8.666/1993], estabelecendo, de forma clara, as condições para a sua
execução, bem como cláusulas uniformes que prevejam os direitos, obrigações
e responsabilidades das partes.

3 ENTREGA E PAGAMENTO
A data do início da entrega dos produtos será aquela estabelecida no
edital e no contrato da chamada pública.
Sendo a entrega efetuada pelo agricultor familiar, tanto este quanto a
entidade executora deverão assinar termo de recebimento, que se trata do
instrumento pelo qual se atestará que os produtos entregues correspondem ao
critério de qualidade estabelecido no contrato.
O termo de recebimento deve estar devidamente acompanhado dos
seguintes documentos:
- nota do produtor rural;
- nota avulsa [vendida na prefeitura]; ou
- nota fiscal [grupo formal].
Poderá haver a substituição dos produtos previstos no contrato da
chamada pública, desde que haja comprovada necessidade e que os novos
produtos correspondam nutricionalmente àqueles estabelecidos no instrumento
contratual, com o devido atestado fornecido pelo nutricionista responsável
técnico.

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CONCLUSÃO
A chamada pública, portanto, garante um procedimento mais
simplificado para aquisição de produtos da agricultura familiar, que seja
destinado à alimentação escolar, desde que cumpridos todos os requisitos
estabelecidos na legislação específica. O legislador, ao criar a referida
modalidade de dispensa de licitação, teve por objetivo destinar o poder de

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compra do Estado, para fomentar esse ramo da economia, que se encontra


enraizado em todo o território nacional.

REFERÊNCIAS
CARVALHO, Matheus. Manual de direito administrativo. 4. ed. rev., ampl. e
atual. Salvador: Jus Podivm, 2017.
MANUAL de Aquisição de Produtos da Agricultura Familiar para a
Alimentação Escolar.2. ed. Versão atualizada com a Resolução CD/FNDE
nº 04/2015. Disponível em: <http://www.fnde.gov.br/>. Acesso em: 10 maio
2019.
PIETRO, Maria Sylvia Zanella Di. Direito administrativo. 31. ed. rev., atual e
ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2018.
TELLES, A. Q. Introdução ao direito administrativo. 2. ed. rev., atual. e
ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000.

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