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Um estudo comparativo das seis Cons-

tituições brasileiras (as de 1824, 1891,


1934, 1937, 1946 e 1967), no que toca
à educação e à cultura, faz saltar aos
olhos um divisor de águas: a Constitui-
ção da República dos Estados Unidos do
Brasil, de 16 de junho de 1934.

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Em que consiste esse corte que a sim- Em ambas, a educação vem tratada de
ples leitura dos textos legais deixa tão forma sumária, em poucos e genéricos
evidente? artigos, misturados com outros, de teor
Não se trata apenas do peso, bem di- estranho ao tema, e subordinados ao
verso, conferido à questão do ensino e à assunto geral dos "direitos civis e polí-
sua administração em todo o país. Trata- ticos dos cidadãos brasileiros".
se de uma diferença qualitativa. É o pró- A Constituição do Império define co-
prio teor das preocupações com o ensino mo "gratuita" a instrução primária (art.
que muda significativamente no período 179, § 32), mas não estabelece o seu ca-
que se segue à Revolução de 1930 e se ráter obrigatório. E apenas prevê, no §
traduz pela fórmula jurídica de 1934. 33, a existência de "Colégios e Univer-
Nas duas Constituições que a precede- sidades, onde serão ensinados os elemen-
ram, a do Império, outorgada por Pedro tos das Ciências, Belas-letras e Artes".
I logo depois de ter dissolvido a nossa Nada mais.
primeira Assembléia Constituinte, e a da Durante a Regência, o Ato Adicional
República, recém-proclamada, a concep- de 1834 transfere às Províncias a atri-
ção de Estado, imanente em ambas, tra- buição de legislar sobre o ensino primá-
zia o selo do iluminismo burguês. O Es- rio e secundário, ambos, aliás, precarís-
tado do século XIX brasileiro restringia- simos no Segundo Reinado¹. 1 Ver Maria de Lourdes Ma-
riotto Haidar, O Ensino Se-
se a atender, em tudo quanto lhe fosse A Carta da República, na sua "Decla- cundário no Império Brasi-
possível, às demandas de segurança das ração de Direitos", ainda mais enfática leiro, São Paulo, Grijalbo-
Edusp, 1972.
oligarquias que o sustentavam, relegando ao proclamar a igualdade dos cidadãos
a um vasto e obscurecido pano de fundo brasileiros, levou ao extremo a sua par-
as necessidades e as aspirações de um po- cimônia na hora de propor o modus fa-
vo sem terra, sem dinheiro e sem status. ciendi pelo qual seria garantido ao povo
A linguagem que exprimia essas ten- o acesso àqueles mesmos direitos funda-
dências particularistas aparentava, contu- mentais. Sobre educação, dispõe no ar-
do, um ar universalizante. O que, longe tigo 72:
de ser um paradoxo exclusivamente na- "Será leigo o ensino ministrado nos
cional, afinava-se com a retórica liberal estabelecimentos públicos".
do Ocidente, onde coexistiam liberalismo A exigência de laicidade, cuidado úni-
e violenta exploração do proletariado. co do legislador, era sinal dos tempos,
Quando se abre a Constituição Política consumando o divórcio de Igreja e Es-
do Império e se lê, no seu artigo 1.°, tado, tema dos parágrafos anteriores, que
"O Império do Brasil é a associação disciplinam o casamento civil e os cemi-
política de todos os cidadãos brasileiros", térios seculares.
ressalta um modo de dizer abrangente Listando as atribuições do Congresso
(todos os cidadãos), mas sabe-se que o Nacional, a Lei maior preceituava, no seu
seu referente era o contexto oligárquico art. 35:
e escravista, afinal a nossa maneira pe- § 2.º — Animar no país o desenvolvi-
culiar de viver o capitalismo naquela al- mento das Letras, Artes e Ciências ( . . . ) ;
tura da divisão internacional da econo- § 3.° — Criar instituições de ensino
mia. Os desequilíbrios reais, que se nive- superior e secundário nos Estados;
lavam na abertura do texto mediante pro- § 4.° — Prover a instrução secundária
testos de igualdade formal, seriam camu- no Distrito Federal.
flados, no corpo da Carta, pelo processo Leia-se com atenção: o parágrafo 2.º
de omissão, toda vez que a Lei deveria é perfeitamente anódino ("animar". . . ) ;
enfrentar carências mais amplas que os o 3.º a nada obriga, apenas lembra uma
interesses da classe privilegiada. eventual iniciativa que os deputados fe-
Não eram a educação e a cultura, em derais poderiam tomar ou não; só o 4.°
princípio, direito de todos os cidadãos emprega um termo de compromisso,
brasileiros, a crer na perspectiva dos "prover a instrução secundária", mas o
ideais patrióticos que se espraiavam na limita à capital federal, então a cidade do
caudalosa oratória da época? Sim, claro; Rio de Janeiro.
mas nem a Constituição bragantina nem O brilho da ausência revela o distan-
a republicana irão além do mero enun- ciamento do legislador em relação ao pro-
ciado daquele mesmo princípio. Em ne- blema da escolarização maciça do povo
nhuma delas figura título ou secção es- que cumpriria ao Poder Público agenciar.
pecial para contemplar os deveres do Es- A República Velha funcionava como
tado para com a infância e a juventude. "um clube de fazendeiros", segundo a

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A EDUCAÇÃO E A CULTURA NAS CONSTITUIÇÕES BRASILEIRAS

feliz expressão de Celso Furtado. Aos la- Então, e só então, introduz-se no cor-
tifundiários era, de resto, fácil providen- po da carta um título substancioso cha-
ciar bons colégios particulares para seus mado "Da Ordem Econômica e Social",
filhos até que entrassem em alguma fa- no qual se encarregam as indústrias e as
culdade do país ou, melhor ainda, da Eu- empresas agrícolas de proporcionar ensi-
ropa. A educação reduzia-se a assunto no primário gratuito a seus empregados
privado, de que a República poderia, na analfabetos (art. 139).
prática, desonerar-se. Quanto à popula- Então, e só então, abre-se um capítulo
ção de baixa renda (já não falo da massa especial para a educação e a cultura,
egressa da Abolição), não entrava na li- incumbindo-se a União de "fixar o Plano
nha de conta da Constituinte de 91. Ape- Nacional de Educação, compreensivo do
sar de maioria absoluta, poderia ser tra- ensino de todos os graus e ramos, comuns
tada como quantité négligeable. e especializados; e coordenar e fiscalizar
Tanto é verdade que esse permaneceu a sua execução, em todo o território do
o espírito da República Velha até o seu país" (art. 150, a ) .
final, que a reforma da Carta de 91, pro- Então, e só então, institui-se como nor-
posta e aprovada em 1926, em nada al- ma "a tendência à gratuidade do ensino
terou os artigos então vigentes em ma- ulterior ao primário, a fim de o tornar
téria de ensino público. mais acessível" (art. 150, § único, b ) .
Então, e só então, prevê-se uma dota-
ção orçamentária para o ensino nas zonas
"Trinta" e a modernização do rurais, por meio de um percentual fixo
Estado brasileiro que durante muitos anos permanecerá o
mesmo, ou seja, 20% das cotas destina-
A crise da "República do Kaphet", das à educação no respectivo orçamento
como a apelidava Lima Barreto, forte- anual (art. 156, § único).
mente entrançada com a do capitalismo
internacional em 29, cavaria largas fen-
das na hegemonia oligárquica. A Revo- A questão da gratuidade do ensino
lução de 30, o movimento sindical anar- público
quista e comunista que a precedeu, o te-
nentismo, o impulso reformista do Go- Merece destaque a proposta de "ten-
verno Provisório liderado por Getúlio dência à gratuidade do ensino ulterior ao
Vargas, e, do lado oposto, o ideário pro- primário". A rigor, antes de 30, só os
gressista de uma fração dissidente da bur- quatro primeiros anos de educação for-
guesia de São Paulo, constituíam forças mal eram contemplados com a previsão
que, na sua interação, provocaram revi- da escola pública generalizada
sões fundas no quadro institucional do A Lei maior de 34, atribuindo à União
país. a tarefa progressiva de fundar e manter
Foi nesse clima de "reconstrução na- escolas secundárias e superiores gratui-
cional" que se deram discussões acalora- tas, dava um passo considerável para am-
das em torno dos grandes contrastes da pliar a esfera da instrução popular. As
nossa vida social e política: federalismo/ Constituições seguintes não superariam,
centralismo, agrarismo/industrialização, nesse campo, a formulação de 34.
elite/massas. . . A Lei do Estado Novo (1937) é inci-
A Assembléia Constituinte de 1934 foi siva apenas no caso do "ensino pré-voca-
o teatro por excelência desses debates dos cional e profissional destinado às classes
quais saiu uma Constituição sob vários menos favorecidas", que declara ser "o
aspectos inovadora, se comparada às do primeiro dever do Estado". Suas dispo-
Império e da Primeira República. sições, porém, são vagas quando se re-
A Revolução de 30 e a Carta de 34 fere aos ginásios e às universidades; estas
nos aparecem hoje, cada vez mais niti- ficam diluídas no elenco das "institui-
damente, como balizas de um processo ções artísticas, científicas e de ensino"
de modernização do Estado pelo qual que o Estado deverá proteger ou criar.
este reconhece as carências de uma nação A Constituição de 46, neoliberal, res-
em desenvolvimento, e busca supri-las. sentiu-se de uma certa timidez no trato
É sintomático que só em torno de da democracia econômica e social. Com-
Trinta o pólo da responsabilidade social parem-se as formulações sobre o ensino
comece a mudar os títulos, os artigos e "ulterior ao primário":
os parágrafos do texto constitucional. Na Carta de 34 (texto já citado): "ten-

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dência à gratuidade do ensino educativo sos e simetricamente opostos às verten-
ulterior ao primário, a fim de o tornar tes do trabalhismo e do nacionalismo an-
mais acessível" (art. 150, § único, b); teriores.)
Na Carta de 46: "o ensino primário A questão da gratuidade do ensino pú-
oficial é gratuito para todos; o ensino blico tem sido a pedra de toque das in-
oficial ulterior ao primário sê-lo-á para tenções democráticas do legislador bra-
quantos provarem falta ou insuficiência sileiro nestes últimos cinqüenta anos.
de recursos" (art. 168, item I I ) . Ela se resolvia, na Carta de 34, em
Limitando a gratuidade das escolas se- termos de "tendência": o que era um
cundárias e superiores públicas tão so- modo feliz e inteligente de vincular o
mente aos alunos que de fato provassem crescimento do sistema escolar oficial às
míngua de recursos (isto é, aos que tes- possibilidades financeiras do Estado. Este
temunhassem, perante a Escola e a Lei, oscila, na verdade, entre duas opções
a sua pobreza), a Constituição de 46 nascidas de filosofias diferentes:
abria caminho para uma figura híbrida, o
a) ou aumenta, sempre que pode, o
ensino público pago.
A Constituição de 67 e a sua Emenda montante dos recursos destinados aos ser-
de 69, que até agora nos regem, confun- viços de educação;
dem ainda mais as águas do público e do b) ou contenta-se em administrar "bol-
privado que o espírito de 34 tendia a se- sas", concedendo-as, a título de emprés-
parar. Diz a Carta emersa do golpe de 64: timo, a solicitantes que provarem falta
"Sempre que possível, o Poder Públi- de condições econômicas, ao mesmo tem-
co substituirá o regime de gratuidade pe- po em que cobra mensalidades aos
lo de concessão de bolsas de estudo, exi- demais.
gido o posterior reembolso no caso de A primeira política é de largo espec-
ensino de grau superior" (art. 168, § 3.°, tro. Repensa, de modo coerente, o pro-
item III) . blema crônico da má distribuição da ren-
A redação do mesmo dispositivo na da nacional. Uma sociedade em que mais
Emenda de 69 (promulgada por uma de um terço da população vive em esta-
Junta Militar) tenta alcançar o inverso do de pobreza (e um quarto, de pobreza
da proposta socializante de 34: absoluta) não pode fugir à responsabili-
"O Poder Público substituirá, gradati- dade de prover os poderes públicos de
vamente, o regime de gratuidade no en- meios bastantes para que tenham acesso
sino médio e no superior pelo sistema de à escola gratuita, nos três ciclos, os filhos
concessão de bolsas de estudo, median- de trabalhadores de baixo salário e de
te restituição, que a lei regulará" (art. desempregados.
176, § 3.°, item IV). A Constituição de 34 foi a primeira a
A Constituinte de 34 propunha "ten- determinar, no seu art. 156, que para o
dência à gratuidade"; o tecnocrata de 69 ensino fossem alocados à União e aos mu-
determina que o Executivo substitua a nicípios nunca menos de 10% do orça-
gratuidade, já obtida e efetivada, por mento anual; e nunca menos de 20%
bolsas restituíveis: procedimento que, aos Estados e ao Distrito Federal.
previsto em 67 só para o ensino supe- O acerto básico dessa política, inspi-
rior, aqui é estendido também para o en- rada nos ideais de Trinta, está compro-
sino médio. vado pelas estatísticas. Os índices de ma-
(Eis um exemplo, entre tantos, que trícula na escola pública foram, a partir
ilustra o equívoco — histórico e teórico de 1940, muito mais altos que os índi-
— de certas interpretações abstratas que ces de crescimento demográfico2. - Sobre o sentido desse "ar -
ranque", em termos de de-
vêem no golpe de 64 um fruto do "es- No mesmo espírito, mas acentuando a mocratização do ensino, ver:
pírito de 30". Ao contrário, o movimen- linha descentralizadora, reza a Constitui- Florestan Fernandes, Educa-
ção e Sociedade no Brasil,
to político-militar de 64 foi uma revan- ção de 46: "Anualmente, a União apli- Dominus-Edusp, 1966; Otaíza
che retardada de generais anticomunistas cará nunca menos de dez por cento, e os Romanelli, História da Edu-
cação no Brasil (1930-1973),
e de rancorosos antigetulistas, insuflados Estados, o Distrito Federal e os Municí- Vozes, 1978; Celso de Rui
Beisiegel, "Educação e So-
pela UDN e pela CIA, contra tudo o que pios nunca menos de vinte por cento da ciedade no Brasil após 1930",
de socializante e popular o Estado brasi- renda resultante dos impostos na manu- em História Geral da Civili-
zação Brasileira (dir. Boris
leiro vinha construindo a partir de outu- tenção e desenvolvimento do ensino" Fausto), tomo II I , O Brasil
(art. 169). Republicano; vol. 4.°, Econo-
bro de 1930. Em 64 imitou-se, em par- mia e Cultura, São Paulo,
te, e potenciou-se o modelo centralizador Os percentuais a serem despendidos Difel, 1984
de 1937, mas agora em função de obje- pela União foram majorados para 12%
tivos burocrático-capitalistas bem preci- em 1961, quando o Presidente João Gou-

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A EDUCAÇÃO E A CULTURA NAS CONSTITUIÇÕES BRASILEIRAS

lart promulgou a Lei n.° 4.042, de Dire- uso de impostos gerais que todos os ci-
trizes e Bases da Educação Nacional, ain- dadãos se devem mutuamente, conforme
da não integrada, porém, ao corpo da o seu salário e as suas rendas.
Constituição. Os tributos devem ser geridos publica-
Sintomaticamente, a Carta de 67 dei- mente por um governo representativo,
xou de prever dotações orçamentárias o qual aplicará — também publicamente
precisas para o sistema de ensino público. — os seus recursos em áreas considera-
Só graças à Emenda Calmon, regula- das prioritárias para todos os cidadãos.
mentada em 1985, restabeleceu-se a obri- Na verdade, a escola dita "gratuita",
gação constitucional de vincular ao en- acessível a todos, baseia-se no pressupos-
sino uma parcela da receita resultante de to de que TODOS JÁ ESTÃO PAGAN-
impostos, arbitrando-se em "nunca me- DO, PROPORCIONALMENTE, VIA
nos de 13" o seu percentual, no caso da ESTADO, PARA O BEM DE TODOS
União, e "nunca menos de 25", no caso E DE CADA UM.
dos Estados, dos Municípios e do Dis- Cada cidadão deve merecer a redistri-
trito Federal. buição constante e sistemática do bem
Faz parte ainda de uma política de au- público, principalmente em setores vitais
mento das oportunidades educacionais, que empenham a pessoa e a sociedade
encetada em 30, estender a duração do por um tempo longo, como é o ensino de
Primeiro Ciclo, que de quatro anos pas- 2.º e 3o graus. O mesmo raciocínio vale
sou a cinco, e chegou a oito, por força para os órgãos responsáveis pela saúde
da Lei n.° 5.692/71. Esta medida, sem pública.
dúvida progressista, tomada em plena di- A quem não tem, ao "menos favoreci-
tadura militar, nos adverte sobre o cará- do", para usar de um velho eufemismo,
ter intermitente, mas poderoso, da ética não é o caso de conceder, nem de em-
da responsabilidade social do Estado, ca- prestar, mas, sim, de restituir, sob a for-
paz de atuar nos legisladores sob regimes ma de bens materiais e culturais, o que
de poder os mais diversos. o pobre paga com o seu trabalho, no dia-a-
A opção contrária, privatizante e mer- dia, gerando a renda nacional. O Estado
cantil, conseguiu cortar, em 67, o prin- democrático, no regime capitalista, não
cípio das dotações fixas para o ensino pode fazer menos do que corrigir o
público, que vinha da Revolução de 30. mercado e compensar a erosão que a
A filosofia "neoliberal", adotada por mais-valia produz no salário e na vida do
um Estado autoritário, investe fartamente trabalhador.
na "segurança nacional", mas procura Só para situar a questão, em tempos
desonerar o Poder Público de encargos recentes:
sistemáticos em matéria de educação, Em 1980, segundo fontes do então
apelando para o procedimento aleatório Ministério da Educação e Cultura, havia
de conceder bolsas de empréstimo a cole- cerca de onze milhões de adolescentes,
giais e a universitários de instituições ofi- entre 15 e 19 anos, que não tiveram
ciais. acesso ao curso colegial. Não podendo
Deixo de lado aqui o problema, aliás pagar as mensalidades de uma escola par-
nada desprezível, do quantum que atin- ticular, nem contando com cursos notur-
giriam as mensalidades e as restituições nos oficiais em sua vizinhança, eles in-
de bolsas sob um regime inflacionárío. terromperam, talvez para sempre, o seu
A prática de mensalidades-e-bolsas, tempo de aprendizado formal.
corrente na empresa privada de ensino, A pergunta justa é a seguinte:
é discriminatória na escola pública. Se- Deveria o Estado ter concedido bolsas,
para o aluno que pode e o aluno que não sob empréstimo, a essa massa de jovens
pode. Alguns, "ricos", ou "remediados", sem recursos, quando sabemos que aper-
ou "auto-suficientes", deverão pagar di- turas de ordem econômica têm causado,
retamente ao Colégio ou à Faculdade a já no primeiro ciclo, uma evasão de alu-
fim de que a administração venha a em- nos que sobe a mais de 50% nas primei-
prestar dinheiro a outros, ditos "pobres" ras séries? Para estes nem a gratuidade
ou "dependentes". basta.
Desaparece, de plano, a mediação uni- Os nossos problemas de ensino, na sua
versal que é a figura do estudante de es- infra-estrutura, são graves e de longa du-
cola pública, cidadão igual aos colegas ração. O grau de empenho e de respon-
perante a lei. Essa mediação obtém-se, sabilidade do Poder Público não pode
numa sociedade democrática, pelo bom

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ser equiparado ao tipo de interesse de etc.), nada mais o Estado poderá fazer
uma escola privada, que é, em geral, uma "pela cultura".
empresa centrada em si e eventualmente A sociedade brasileira não tem uma
provisória como qualquer outra firma co- "cultura" já determinada. O Brasil é, ao
mercial. As universidades e os colégios mesmo tempo: um povo mestiço, com
oficiais, ao contrário, são serviços públi- raízes indígenas, africanas, européias e
cos sustentados permanentemente e por asiáticas; um país onde o ensino médio
toda a nação: eis a diferença. e universitário tem alcançado, em alguns
Não convém misturar os dois sistemas, setores, níveis internacionais de qualida-
pelo menos enquanto vigorar o princípio de; e um vasto território cruzado por
do lucro. . . Que a escola particular con- uma rede de comunicações de massa por-
tinue a existir, e seja até amparada pelo tadora de uma indústria cultural cada vez
Estado com isenção de impostos e me- mais presente.
diante o salário-educação, talvez repre- O que se chama, portanto, de "cultura
sente um meio salutar de manter o plu- brasileira" nada tem de homogêneo e
ralismo democrático. Mas que se garan- uniforme, e nunca poderá entrar em bi-
tam à escola pública recursos suficientes tolas jurídicas. A sua forma complexa e ³ Procurei formular mais ex-
plicitamente o tema no en-
para que não fiquem ameaçadas nem a mutante resulta de interpenetrações da saio "Cultura Brasileira". Em
Filosofia da Educação Brasi-
sua gratuidade nem a sua qualidade. cultura erudita, da cultura popular e da leira, org. por D. Trigueiro
cultura de massas 3 . Mendes, Rio de Janeiro, Ci-
vilização Brasileira, 1983, pp.
Se algum "valor" deve presidir à ação 135-176.
Uma palavra sobre cultura e do Poder Público no trato com a "cultu-
Constituição ra", este não será outro que o da liber-
dade e o do respeito pelas manifestações
Todas as constituições brasileiras fo- espirituais mais diversas que se vêm
ram lacônicas e genéricas ao tratar das gestando no cotidiano do nosso povo.
relações entre cultura e Estado. Em face dessa corrente de experiên-
Não creio que se deva propriamente cias e de significados tão díspares, a
lamentar esse vazio nos textos da Lei nossa Lei maior deveria abster-se de pro-
maior. por normas incisivas, que soariam estra-
Ao Estado, cumpre realizar uma ta- nhas, porque exteriores à dialética das
refa social de base cujo vetor é sempre "culturas" brasileiras. Ao contrário, um
a melhor distribuição da renda nacional. certo grau de indeterminação no estilo
Na esfera dos bens simbólicos esse obje- dos seus artigos e parágrafos é, aqui, re-
tivo se alcança, em primeiro e principal comendável.
lugar, construindo o suporte de um sis- A liberdade de associação, de culto,
tema educacional sólido conjugado com de imprensa, de expressão em geral, re-
um programa de apoio à pesquisa igual- presenta a condição a priori de uma po-
mente coeso e contínuo. lítica democrática a longo prazo.
A maneira mais inteligente de "pro- Creio que a competência do Estado
mover a cultura" e "animar o desenvol- não poderá extrapolar os limites do sus-
vimento das Ciências, das Artes e das tento, parcial ou global, de instituições
Letras" (fórmulas que costumam apare- e pessoas que, sem interesses mercantis,
cer nos textos legais) ainda é munir subs- se proponham a trabalhar na produção e
tancialmente o ensino e a pesquisa em na comunicação de bens simbólicos.
todos os seus ramos, de tal modo que Não cabe à Lei predeterminar ou ajui-
docentes, discentes e pesquisadores das zar os conteúdos da cultura, que se fa-
várias instituições escolares e científicas zem por si no embate das idéias, das ne-
disponham de meios condignos para per- cessidades e suas formas.
fazer os seus cursos e projetos. Não há uma diretriz "positiva" a ser
Que o mesmo se faça em relação aos atribuída pela Carta ao Estado, a não ser
direitos autorais e aos direitos de paten- a de prover os cidadãos de meios con-
te sobre os quais a Carta deverá mani- cretos para exercerem uma sociabilidade
festar-se, ainda que de maneira genérica. livre, cordial e responsável. Esta — é
Afora esses deveres, que prevêem nossa esperança — humanizará a cultura
ações tópicas do Poder Público (criação e, quem sabe, o próprio Estado.
e manutenção de bibliotecas, editoras, Novos Estudos CEBRAP, São Paulo
museus, arquivos, discotecas, filmotecas, n.° 14, pp. 62-67, fev. 86
teatros, orquestras, circos, casas de cul- Alfredo Bosi é professor de Literatura Brasileira da Uni-
tura, estações de rádio, canais de TV, versidade de São Paulo.

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