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VITOR

HENRIOUEPARO

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

ADMINISTRAÇ
Paro, Vitor Henrique
Administração escolar: introdução crítica/ Vitor Henrique Paro.
i7. ed. rev. e ampl. São Paulo : Cortez, 20i2.

Bibliografia.
ISBN 978-85-249-i954-l

í. Escolas - Administração e organização 2. Sociologia educado


nal 1. Título.

CDD-37i.2
i2-098i2 '37o.l9

Índices para catálogo sistemático


i. Administração escolar : Educação 37i.2
introdução
crítica
z. Educaçãoe sociedade 37o.lg

]7' edição
revistae ampliada
4' reimpressão
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l Transformação social: superação da sociedade de classes

No atual contexto da sociedadecapitalista em que vivemos, a


transformação social precisa ser entendida num sentido que extra-
pole o âmbito das meras "reformas", de iniciativa da classeque
detém o poder, e que visam tão somente a acomodar a seus interes-
ses os antagonismos emergentes na sociedade. Em seu sentido ra-
CAPÍTULOlll dical, a transformação social deve estar comprometida com a própria
\ superaçãoda maneira como se encontra a sociedadeorganizada.
Não, portanto, a mera atenuação ou escamoteaçãodos antagonis-
Transformação social e educação escolar mos, mas a eliminação de suas causas,ou seja, a superaçãodas
classes sociais.

Para os propósitos do presente trabalho, não se trata, é bem ver-


dade, de nos empenharmos num tratado minucioso a respeito da re-
A administração capitalista, ao mediar a exploração do trabalho volução que precisa ser empreendida com vistas à organização de uma
pelo capital, coloca-se a serviço da classeinteressada na manutenção nova ordem social. Basta, para isso, que tracemos as linhas básicas que
da ordem social vigente, exercendo, com isso, função nitidamente nos possibilitem situar a educação escolar e o seu papel nesse proces-
conservadora. Essafunção não é, porém, inerente à administração em so de transformação. Entretanto, por mais sintéticos que sejamos
si, mas produto dos condicionantes socioeconómicos que configuram nessatarefa, é preciso, para não cairmos nas simplificações e mutilações
a administração espec{/icamenfecapitalista. A atividade administra- teóricas tão comuns nessa área, avançarmos um pouco mais na com-
tiva em sua concepção mais geral e abstrata, de utilização racional preensãoda maneira como se organiza a sociedade capitalista. Requi-
de recursospara a realizaçãode âns, vista no Capítulo 1 -- pode sito essencial, a esse respeito, é a apreensão mais clara do funciona-
apresentar-se concretamente tanto articulada com a conservação mento da superestrutura política, jurídica e ideológica da sociedade,
quanto com a superação de determinada ordem social. Isso depende, referida no Capítulo i, mas até aqui pouco examinada. No capítulo
na prática, da naturezados fins que seprocura atingir. A administra- anterior, por força da natureza do assunto tratado, e até por razões
ção estará tanto mais comprometida com a transformação social didáticas, procurei deter-me -- tanto quanto isso foi possível -- nos
quanto mais os objetivos com ela perseguidos estiverem articulados limites da estrutura económica, examinando as relações de produção
com essa transformação. Assim sendo, no caso da administração es- que aí ocorrem. E preciso, agora, um pouco mais demoradamente,
colar, a análise de suas relaçõescom a transformaçãosocial deve examinar a maneira pela qual os homens tomam consciência dessas
passar, necessariamente, pelo exame das condições de possibilidade relações e a forma que assume, com base nelas, a organização política
da própria educação escolar como elemento de transformação social. ejurídica dasociedade.
Esse exame constitui o propósito principal do presente capítulo. Para Uma abordagem consistente das superestruturas não pode deixar
concretiza-lo, começarei por abordar, a seguir, o próprio conceito de de levar em conta as formulações teóricas de Antonio Gramsci, sem
trn ncfnrm nnãn cnninl
)UV UVVXHA« dúvida nenhuma um dos autores que mais contribuíram para a com-
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Comentárioza--Ousda, 1----- preengqo do papel;dessas superestruturas to de certezana obtenção do acatamento à ordem estabelecida.Mas o
séculoXX.
ViceComentado na sociedade capitalista deste século. Para consentimento advindo da aplicação da força só se realiza na presença
8,P.4o
ele, a superestrutura se compõe de duas do instrumento coercitivo. Se a obediência é produto apenas da coerção,
instâncias, dialeticamente interligadas, afastando-se esta, aquela cessa de ocorrer. Por isso, a coerção, sozinha,
Comentário z3 -- Ob- mas que possuem suas especificidades. A não garante a continuidade ou a perenidade do acatamento à vontade
serve-se, desde já, que as socíedadepoZídca, ou Estado no sentido imposta pela classe dominante, já que, embora possua efetividade a
expressões"sociedade políti-
estrito, congregao conjunto de atividades curto prazo, suamanutenção por períodos mais longos se torna extre-
ca" e "sociedade civil", como
deverá âcar claro no decor- que dizem respeito à função de coerçâo mamente difícil e onerosa, pois necessita da vigilância constante para
rer do texto, não se referem .ou domínio direto, enquanto a sociedade que seus efeitos se mantenham.
nem a partes da sociedade
cíz;íZ agrupa os organismos chamadoXs
concretamente considerada, Já a persuasão -- função característica da sociedade civil -- possui
nem a "sociedades"que se 'privados", cuja função primordial é a de um elemento de risco, visto que o consentimento não se dá por doação,
qualiâquem respectivamen- persuasão.
mas por opção "livre" das pessoas ou grupos a que se visa persuadir.
te como "civil" ou como "po-
lítica". Gramsci utiliza essas No âmbito da sociedadepolítica, a É bem verdade que tal liberdade pode ser reduzida ao extremo pela
expressões para se referir a
classeno poder utiliza os mecanismos de exposição do sujeito apenas àqueles argumentos que favorecem sua
instâztcías da superestru-
tura. São,pois, do mesmo coerção estatal (forças armadas, tribunais, escolha em determinado sentido, privando-o dos demais. De qualquer
modo que o termo "superes- legislação, polícia, etc.) para exercer "le- forma, porém, ela se fundará ou na presença de argumentos propícios
trutura",categoriasteóricas,
galmente" seu domínio sobre os grupos ao consentimentoou na ausênciade argumentoscontrários, ou em
com vistas a explicar o real,
não existindo como objetos sociais discordantes. Este "aparato de ambas as coisas, mas nunca num elemento de força direto, sob pena
tangíveis.
coerçãoestatal", entretanto, além dessa de transformar-se em mera coerção. Por outro lado, nunca se terá
função disciplinadora dos grupos que não plena certeza de que todas as variáveis tenham sido plenamente con-
concordam com os rumos impressos pela troladas de tal forma que não apenas tenham sido afastadosou dissi-
classe dominante, "é constituído para toda a sociedade, na previsão dos mulados todos os elementos da realidade concreta que possam levar o
momentos de crise no comando e na direção, nos quais ú'amassao con- sujeito a uma opção divergente, mas também que os próprios argu-
mentos apresentados não venham a se revelar impotentes ou a provo-
senso espontâneo" (GRAMscl,i978b, P. n). O consenso "espontâneo", por
sua vez, é normalmente obtido na esfera da sociedade civil, por meio dos car o resultado oposto. Essa liberdade de opção, presente em maior ou
mecanismos persuasórios inerentes aos meios de comunicação de massa, menor grau na açãopersuasiva, empresta-lhe um caráter de imprevi-
sibilidade, estando, cada um dos sujeitos envolvidos na relação, sus-
à escola,às associaçõescientíficas e culturais em geral, às igrejas, aos
sindicatos e às associaçõesprofissionais, aos partidos políticos, enâm, a cetível não apenas de persuadir mas também de ser persuadido. To-
davia, não obstante essecomponente de risco, a ação persuasiva é de
todos aqueles organismos ditos "privados", em virtude de sua autonomia
fundamentalimportância na obtençãodo apoio dos grupos sociais
em relação à função estritamente coercitiva da organização estatal.
subalternos aosrumos traçados pela classedirigente. Seu elemento de
A coerção-- função com a qual se identifica a sociedadepolítica vigor está em que, diversamente do consentimento que advém da
, na medida em que, pela utilização da força, não deixa ao grupo ou coerção, a adesão "espontânea" produzida pela persuasão, uma vez
grupos, aos quais ela se aplica, outra alternativa senão a submissão a conseguida, mantém-se por períodos relativamente longos, prescin-
seus propósitos, constitui, nas mãos da classedominante, um elemen. dindo da presença permanente do elemento persuasor.
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Embora cada uma dessasduas esferasda superestrutura possua dade civil suficientemente desenvolvida. Ele se torna insuâciente,
função e materialidade próprias, elas existem em permanente enter-rela- porém, nas sociedadescapitalistas modernas, onde se verifica uma
nto, não se registrando, na prática, uma nítida separaçãoentre crescentesocializaçãoda participação política, decorrente do notável
ambas. A função das duas, na sociedade de classes, é "conservar ou pro- desenvolvimentodos organismos da sociedade civil, que se tornam
mover uma determinada base económica, de acordo com os interesses também mais complexos. Com isso, a estrutura do Estado ganha nova
de uma classe social fundamental" (COUmqHO, i98o, p. 52). Na sociedade complexidade, porque este deixa de agir apenas com base na coerção
capitalista, sociedadepolítica e sociedadecivil têm suasatividades con- e passa a incluir e a dar importância crescente aos elementos de per-
jugadas para se garantir o domínio da classeque detém a propriedade suasão.Assim, diante da insuficiência da noção de Estado em sentido
dos meios de produção. Esse domínio sobre os demais grupos sociais, estrito, ou "Estado-coerção" (GRAMscl,i978d, p. l49), para explicar
a classe burguesa consegue pela mediação do Estado. Este, embom =E toda a complexidade do Estado capitalista moderno, Gramsci apresen-
apresente como representante do interesse geral da sociedade, tem como ta o conceito de Estado em sentido amplo ou a "noção geral de Estado"
função perpetuar as relações sociais de produção, a partir das quais é (GRAMscl, l978d, p. l49), na qual, além dos elementos coercitivos ine-
organizado, e, ao mesmo tempo, reproduzir a divisão da sociedade em rentes à sociedade política, "entram elementos que também são comuns
classes e garantir o poder de uma classe sobre as demais.: à noção de sociedade civil" (GRAMscl,i978d, p. t49). Essa noção cons-
titui uma ampliação do conceito de Estado em sentido estrito, pois não
E precisamente quando se procura compreender o funcionamen-
ignora as funções coercitivas presentes em todo tipo de Estado, acres-
to do Estado na sociedade capitalista atual que não se pode ignorar a
centando-lhes, porém, as funções que são próprias da sociedade civil.
decisiva contribuição de Gramsci a respeito. Sua ampliação do concei-
".ArestaseRMão, poder-se-ia dizer que Estado = sociedade política +
to de Estado para além de seu "sentido estrito" é de particular impor-
sociedadecivil." (GRAMscl,
i978d, p. l49, grifos meus)
cia para a elucidação da maneira como se encontra organizada a
moderna sociedade capitalista. Em seu sentido estrito, o conceito de Na medida, porém, em que sociedade política e sociedade civil
constituem os dois grandes "planos" (GRAMscl,i978b, p. 10) que com-
Estado refere-se ao conjunto dos órgãos por meio dos quais a classe
põem a superestrutura, é preciso estabelecercom precisão em que
dominante exerce a coerção sobre as pessoas e grupos que não concor-
dimensão é lícito dizer-se que Estado = sociedade política + sociedade
dam com a direção que ela procura impor à sociedade. Neste preciso
civil, para que não se cometa o equívoco de reduzir a noção de supe-
sentido, as funções do Estado se identiâcam com as funções da socie-
restrutura à noção de Estado. Foi visando a chamar a atenção para a
dade política, as quais ele procura manter sob seu exclusivo domínio.
mediante o monopólio legal da força. necessidade de uma maior explicitação do assunto que gritei a expres-
são"neste sentido", contida na citação acima. Acredito que a frase de
Mas, para Gramsci, esse conceito parece aplicar-se mais propria- Gramsci deve ser entendida não no sentido de que o Estado seja a soma
mente à organização do Estado pré-capitalista, ou mesmo à primeira fotaZ.dasduas instâncias superestruturais -- hipótese em que os termos
fasedo Estado burguês, quando não se tem presente ainda uma socie- "Estado" e "superestrutura" expressariam ambos uma mesma identi-
dade --, mas no sentido mais específico de que o Estado não se compõe
apenas de elementos coercitivos, ou seja, de elementos que são comuns
à noção de sociedade política, "pois deve-se notar que na noção geral
de Estado entram elementos que também são comuns à noção de so-
ciedade civil". Por isso, logo a seguir, Gramsci acrescenta: "neste sen-
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de uma concepção do mundo, que se manifesta implicitamente na arte,


no direito, na atividade económica, em todas as manifestaçõesde vida
individuais e coletivas" (GRAMscl, i978a, p. 16). Essa impregnação de
"todas as manifestações de vida individuais e coletivas" pela concepção
de mundo da classe dirigente consiste num processo orgânico que
envolve as estruturas materiais e todo o corpo social. Assim,

a ideologia nunca é uma totalidade abstrata em conexão com uma to-


talidade concreta, uma relação ideal teoria/prática, uma cadeiainvisível
que uniria a consciência ao real, mas o processo díaiétíco da man{6es-
fação de uma 'iZosoÚa " determinada, ab'aués das esb'usuras materiais
históricas, de que modiPca a forma e o conteúdo ao "realizar-se".
(GRlsoNl; MAGGlom, 1974, p. 289, grifos meus)

Tendo em conta esseconceito abrangente de ideologia, torna-se


necessário "distinguir entre ideologias historicamente orgânicas, isto
é, que são necessárias a uma determinada estrutura, e ideologias arbi-
trárias, racíonaZísfas,'desejadas'"(GRAMscl,i978a, p. 62, grifo no
original). Estasúltimas, enquanto "lucubrações arbitrárias de deter-
minados indivíduos" (GRAMscl,i978a, p. 62), desvinculadas de uma
realidadeestrutural, "não criam senão 'movimentos' individuais, po-
lêmicas, etc." (GRAMscl,l978a, p. 63) de curta duração e sem uma
significativa interferência na realidade social. Embora se deva consi-
derar que "nem mesmo estas são completamente inúteis, já que fun-
cionam como o erro que se contrapõe à verdade e a afirma" (GRAMscl,
i978a, p. 63), somente as primeiras são "historicamente necessárias"
(GRAMscl, l978a, p. 62), porque somente elas se vinculam organica-
mente a "determinada estrutura", expressando, no nível superestru-
tural, as relações sociais de produção que se desenvolvem sob o co-
mando de uma dada classesocial
É por isso que as concepçõesideológicas e jurídicas sobre um
mesmo tema variam radicalmente em sociedadescom relações de
produção diferentes. Numa sociedade primitiva, por exemplo, onde
Por meio da sociedade política,[-.] exerce-sesempre uma ditadura, ou, mais precisamente, exista a posse comum da terra e dos meios de produção, é inconcebível
uma domízzação,mediante a coerção."(Cou'nNlio, i98o, P. 52, grifos no original) a existência de uma "crença" disseminada na conveniência da proprie-
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dade privada como norma jurídica; numa sociedade capitalista, pelo tendo validade eterna e universal. Por um lado, os conteúdos ideoló-
contrário, em que há a apropriação, por uma classe, dos meios de pro- gicos são apresentados como dotados de uma perenidade que está
dução, verifica-se um consenso na população a respeito da conveniên-
acima da própria história, já que são considerados válidos e verdadei-
cia e da necessidade de tal norma. De forma análoga, o comportamen- ros para qualquer sociedadehistoricamente determinada. Por outro
to indlividualista e pragmatista, característico das sociedades lado, os fins a que visam e os interesses a que atendem não são tidos
capitalistas modernas, que se revela no desejo generalizado das pessoas como fins e interesses particulares da classe dominante, mas como se
em desfrutar ao máximo da vida material imediata, competindo para fossem comuns a toda a sociedade.3
' levar vantagem" em tudo diante dos outros, e valorizando o "ter" o
A ideologia ou concepção de mundo da classe dominante apresen-
"parecer ser" e o "aparecer" diante da opinião alheia -- em contradição,
ta-se concretamente sob diversos graus qualitativos: no mais alto nível,
portanto, com os valores mais condizentescom a autenticidade e aX
acha-sea./ilosoÚa,no mais baixo, oloZcZore,e, no nível intermediário,
cooperação entre as pessoas --, tal comportamento está inexoravel-
a religião e o senso comum. A filosofia é a concepção de mundo em seu
mente associado ao consumismo exacerbado,que é o correspondente
mais alto grau de elaboração, exibindo, como tal, alto rigor lógico, coe-
superestrutural "necessário" da realização do valor das mercadorias
rência e sistematização. Ê nessenível que ascaracterísticas da concepção
pela venda, que se dá no nível da estrutura económica. Em contrapo- de mundo se apresentam mais nitidamente, constituindo assim a âlo-
sição, na sociedade feudal, em que a atividade económica não dependia soüa a "chave-mestra da ideologia" e a "expressão cultural da classe
do consumo em massa, era mais adequada e "necessária" à estrutura
fundamental" (PoRTa.l.i,1977,p. 4). A ideologia se dissemina por toda
material a "mentalidade" -- que de fato existia, fomentada pela lgrqa
a sociedade sob a forma do senso comum, que é a maneira fragmentá-
Católica, principal veiculadora da ideologia dominante de então -- de
ria, incoerentee inconsequentepela qual os elementosda filosofa se
que o correto era a parcimónia e o comedimento no comer, no beber.
adaptam à situação social e cultural de cada camada social (GMsoNl;
no vestir, nos confortos da vida em geral, porque a verdadeira felici-
MAcciom, i97i, p. 33o). Também nesse nível intermediário, como "ele-
dade não em para esta vida, mas para a "vida depois da monte", a qual mento do senso comum desagregado"(GRAMscl,l978a, p. l4), encon-
sõ seria realmente venturosa e feliz para as pessoasque, durante sua
tra-se a religião que, embora seja composta por elementos ideológicos
existência terrena, fossem humildes, cumpridoras da lei, esforçadase
e culturais variados, do presente e do passado, possui elementos que
diligentes no trabalho, respeitadoras da ordem, tudo, en6m, que favo- sãointrínsecos à concepçãode mundo dominante, os quais ela assimi-
recia nao o consumo para si, mas a produção resignada que propor- la e veicula de maneira própria. A ideologia dominante impregna tam-
cionava o consumo e o bem-estar para os grupos sociais dominantes.
bém o folclore, que é a "concepção do mundo e de vida" dos estratos
E em decorrência dessa organicidade histórica da relação entre mais baixos da população. Concepçãodo mundo, todavia, "não elabo-
superestrutura ideológica e estrutura económica que "os pensamentos rada e assistemática", que mais constitui um aglomerado de "fragmen-
da classedominante são também, em todas as épocas, os pensamentos tos de todas as concepçõesdo mundo e da vida que se sucederam na
dominantes, ou seja, a classeque tem o poder mafeMaZdominante em hIstÓrIa" (GRAMSCI, I978C, P. I84).
uma dada sociedade é também a potência dominante espíríhaZ" (MARx;
ENGEI.s, i975b, P. 55-56, v. i, grifos no original). .Alémdisso, embora 3 «[...] cada nova classe no poder é obrigada, quanto mais não soja para atingir os seus fins, a
represente os interesses particulares de determinada classe social. representar o seu interesse como sendo o interesse comum a todos os membros da sociedade
historicamente considerada, a ideologia que está na base da "direção ou, exprimindo a coisa no plano das ideias, a dar aos seus pensamentos a forma da universali-
dade, a representa-los como sendo os únicos razoáveis, os únicos verdadeiramente válidos."
intelectual e moral", impressa pela classedirigente, se apresenta como (MARX; ENGEI..S,
I975b, P. 57, V. I)
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Vemos, assim, que, nas sociedadescapitalistas modernas, embo- a relação entre essesdois momentos do bloco histórico é uma relação
ra a classedominante jamais descartetotalmente a coerçãocomo dialética entre dois momentos igualmente determinantes: o momento
instrumento de sua supremacia social, é por meio de uma efetiva "di- estrutural, pois ele é a base que engendra diretamente a superestrutura,
reção intelectual e moral" que se completa sua hegemonia sobre a to- que no início é apenas o seu reflexo; durante o período considerado, a
talidade do corpo social.4 O exercício da hegemonia vem, pois, reiterar, superestrutura só poderá desenvolver-se e agir entre limites estruturais
no nível da superestruturajurídica, política e ideológica, o predomínio bem precisos: assim, a estrutura influi, constantemente, sobre a ativida-
que a classeburguesa detém, no nível da estrutura económica. Em tal de superestrutural. O momento ético-político desempenha de qualquer
modo, em função dessa base, um papel motor. É ele que desenvolve a
situaçãohistórica, estrutura e superestrutura interagem reciprocamen-
consciência de classe dos grupos sociais, que os organiza política e ideo-
te, constituindo um "bloco" mais ou menos harmónico, sob a direção
logicamente; no seio da superestrutura, então, desenrola-se o essencial
da classecapitalista. Forma, assim, aquilo a que Gramsci chama de\
do movimento histórico e a estrutura torna-se o instrumento da ativida-
bloco /zísfóríco. "A estrutura e as superestruturas formam um 'bloco
de superestrutural. (PORIELU,i977, p. 56)
histórico', isto é, o conjunto complexo -- contraditório e discordante
-- das superestruturas é o reflexo do conjunto das relações sociais de Existe, assim, entre as relações sociais de produção e a superes-
prOdUÇãO."(GRAMSCI, I978a, P. 52)
trutura política e ideológica,uma relaçãodialética,no interior do
Isto quer dizer que não há uma autonomia absoluta da superes- bloco histórico, de tal forma que "as forças materiais são o conteúdo e
trutura com relação à base económica. Afirmar, porém, que a superes- as ideologias são a forma -- sendo que esta distinção entre forma e
trutura é o reflexo da infraestrutura, ou que esta determina "em última conteúdo é puramente didática, já que as forças materiais não seriam
instância" aquela, não signiâca admitir que haja uma relação mecâni- historicamente concebíveis sem forma e as ideologias seriam fantasias
ca entre ambas, de tal forma que a segunda seja mera expressão ime- individuais sem as forças materiais" (GRAMscl,í978a, p. 63).
diata da primeira. Pelo contrário, como temos visto até aqui, há um.a O caráter dialético e orgânico do vínculo que existe entre estrutu-
relação de reciprocidade entre essasduas instâncias, que leva a des- ra e superestrutura se expressa concretamente nos grupos encarrega-
cartar como erróneo não apenaso "ideologicismo", que tende a ver
dos precisamente de realizar essa ligação: os intelectuais. O conceito
uma primazia da superestrutura político-ideológica no desenvolvimen-
de ínfeZectuaZ,em Gramsci, contudo, tem uma significação bastante
to histórico, mas também a posição "economicista", segundo a qual o precisa, que difere enormemente da maneira como o termo é usual-
momento ético-político ou superestrutural constitui mero reflexo ime-
mente utilizado. Na linguagem corrente, costuma-se chamar de inte-
diato da estrutura.s Em verdade, nenhum dos dois níveis pode ser lectual a "pessoa que tem gosto predominante ou inclinação pelas
considerado como tendo uma primazia com relação ao outro, porque coisasdo espírito, da inteligência" (FERREIRA,
i975). A presença dessa
atividade mental, anteposta à atividade manual, não basta, entretanto,
para identificar o intelectual no sentido gramsciano. "Todos os homens
são intelectuais, poder-se-ia dizer então; mas nem todos os homens
desempenham na sociedade a função de intelectuais." (GRAMscl,i978b,
p. 7) É, pois, na./Unção que exerce no contexto das relações sociais
globais que deve ser buscada a identificação do intelectual. O critério
para distingui-lo do não intelectual não será encontrado "no que é
intrínseco às atividades intelectuais", mas "no conjunto do sistema de
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VITORHENKiQUEPARO ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR 119

i:: : =:
$H=====n*E;m=:: "necessárias" à estrutura económica, à qual o intelectual se liga por sua
identificação e defesados interesses de uma classefundamental.
É como "funcionários" (GRAMscl, i978b, p. io) das superestruturas
que os intelectuais procurarão atender a essesinteresses, desempe-
nhando suas atividades específicastanto no âmbito da sociedadecivil
quanto no da sociedade política. Tais atividades visam a buscar a ho-
mogeneidade do grupo social fundamental -- dando aos seus membros
a consciência da função que têm tanto no campo económico quanto no
social e no político (GRAMscl,l978b, p. 3) -- bem como a levar tal gru-
po a tornar-se hegemónico na sociedade -- proporcionando-lhe a di-
reção do bloco histórico. Assim, podemos afirmar que, na sociedade
capitalista, os intelectuais ligados à classeburguesa são

células vivas da sociedade civil e da sociedade política: são eles que ela-
boram a ideologia da classedominante, dando-lhe assim consciência de
seu papel, e a transformam em "concepçãode mundo" que impregna
todo o cor.E)o
social. No nível da difusão da ideologia, os intelectuais são
os encarregadosde animar e gerir a "estrutura ideológica"da classe
dominante no seio das organizações da sociedade civil (igrejas, sistema
escolar,sindicatos, partidos etc.) e de seu material de difusão (mass
media). Funcionários da sociedade civil, os intelectuais são igualmente
os agentes da sociedade política, encarregados da gestão do aparelho de
Estado e da força armada (homens políticos, funcionários, exército etc.).
(PORTELU,1977, P. 87)

A esseintelectual que se articula organicamente a uma das classes


essenciaisdo modo de produção vigente -- e cuja noção vimos exami-
nando até aqui -- Gramsci acrescenta o qualificativo de "orgânico", para
diferencia-lo do intelectual "tradicional", que é aquele que já foi orgâ-
nico.de uma classe fundamental no bloco histórico precedente.7 Diver-

7 "Cada grupo social 'essencia]',[-.] surgindo na história a partir da estrutura económica ante-
rior e como expressãodo desenvolvimento desta estrutura, encontrou pelo menos na história
que se desenrolou até aos nossos dias categorias intelectuais preexistentes, as quais apareciam,
aliás, como representantes de uma continuidade histórica que não fora interrompida nem
mesmo pelas mais complicadas e radicais modificações das formas sociais e políticas."(GKAMs-
cl,i978b,p.5)
120
VITOR HENRiQUE PARO ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR 121

Não obstante tenham todos a mesma especificidadequanto ao


papel que desempenhamcomo "funcionários da superestrutura", é
possível identificar uma hierarquia dos intelectuais, de acordo com a
natureza intrínseca da atividade intelectual que exercem. Essa hierar-
quia, segundo Gramsci, vai dos grandes intelectuais -- que se colocam
no mais alto nível, como os criadores da ideologia em seus diversos
ramos: âlosofia, ciência, arte, direito, etc. aos intelectuais subalter-
nos -- que se encontram no nível mais baixo e são"os 'administradores'
e divulgadores mais modestos da riqueza intelectual já existente, tra-
dicional, acumulada" (GRAMscl,i978b, p. 2i-22). Identificam-se, pois,
o criador, o organizador ou administrador e o educador ou divulgador
(PORTELU, t977, p. 97). Essastrês qualidades não são,todavia, inteira-
mente dissociáveis, constituindo a praxis do intelectual uma combina-
ção delas -- em graus, evidentemente, variáveis. O criador, o organi-
zador e o educadoridentificam-se, pois, pelo predomínio, em sua
prática social, de uma dessasqualidades sobre as demais. O papel do
intelectual criador, como elaborador de uma nova concepçãode mun-
do, é de importância decisiva para a classe que aspira à direção geral
da sociedade. Nem por isso, entretanto, se deve minimizar a impor-
tância da ação do educador e do organizador, já que são eles os res-
ponsáveis por tarefas tão imprescindíveis quanto a disseminação da
nova ideologia da classefundamental e a organizaçãodessa classevi-
sando à hegemonia da sociedade.
Na sociedadecapitalista, ao vínculo orgânico que se estabelece
entre estrutura e superestrutura, constituindo um bloco histórico sob
a hegemonia da classe burguesa, subjazem os antagonismos entre as
classes fundamentais. Precisamente por força desse vínculo orgânico,
as contradições surgidas no seio das relações sociais de produção en-
contram suaexpressãona superestrutura e permeiam toda a organiza-
ção da sociedade.Tais contradições advêm da exploração do trabalho
proporcionada pela propriedade dos meios de produção por parte da
classecapitalista, cujos interesses, assim, são antagónicos aosinteresses
da grande maioria da população. Em vista disso, há uma impossibili-
dade estrutural de se construir, sob o capitalismo, uma sociedadena
qual possa haver o livre desenvolvimento e realização do homem,já que
122 VITOR HENKiQUE PARO ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR 123

os antagonismos de classe implicam que a satisfação dos interesses de submeter os demais grupos sociais a suas condições de exploração. A
uns sejacondição necessáriada negaçãodos interessesde outros. Uma classeoperária, entretanto, cujo interesse fundamental é precisamente
sociedadeonde vigore não a força e o poder de uns sobre os outros, mas a eliminação de toda exploração, só pode fazê-lo desdeque rea/mente
a colaboração recíproca entre seus membros, deve fundar-se não no expresse o interesse comum de toda a sociedade.
antagonismo de interesses, mas na existência de interesses fundamen- Mas a revolução a ser conduzida com vistas à superação da atual
tais comuns aos diversos grupos e pessoasque a compõem. Uma trans- sociedade de classesnão pode ser imaginada sob o prisma imediatista
formação social que tenha como horizonte essetipo de organização que a reduz a mero movimento explosivo de tomada do poder estatal.
social precisa ter, portanto, como meta prioritária, a eliminação dos A ideologia dominante -- principalmente da forma que é veiculada nos
antagonismos de classesque caracterizam a sociedade capitalista. Tais. bancos escolares -- tende a traduzir as grandes mudanças ocorridas na
antagonismos, por sua vez, só desaparecerão quando forem eliminadasx história em termos de atos heroicos ou catastróficos, concentrados no
as causas que o engendram, ou seja, a divisão da sociedade em classes tempo e no espaço.Entretanto, os verdadeiros movimentos revolucioná-
sociais e a propriedade privada dos meios de produção. rios até aqui ocorridos -- as revoluções burguesas, por exemplo nunca
Embora as contradições tenham sua origem na esfera das relações seresumiram a movimentos dessaordem de simplicidade. O convul-
de produção, é no nível superestrutural que elas se traduzem e encon- sionamento social, o confronto direto e decisivo, com vistas à tomada
tram o seu termo,9 já que é nesse nível que "os homens tomam cons- do poder estatal, se deu sempre como desfecho de movimentos muito
ciência" dessesantagonismos e os levam "às suasúltimas consequências" mais amplos e complexos, que se desenrolaram durante séculos e que
(MAKX,l977a, p. 25). Em outras palavras, a superação das atuais relações expressavam as contradições existentes não no interior de uma ou outra

sociais de produção, e sua transformação de relações de dominação em parcela da população, mas na totalidade do corpo social. Na sociedade
capitalista moderna, em virtude do crescimento, tanto em extensão
relações de colaboração recíproca, "só pode ser efetuada por um movi-
quanto em complexidade, da sociedade civil, a revolução reveste-se de
mento prático, por uma reco/ração"(MAKx;ENGEI..s, í975b, P. 48, v. i,
gritado no original), que seja produto da vontade coletiva dos homens um caráter ainda mais complexo, não se reduzindo a "um ou mais fatos,
concentrados no tempo e no espaço, como uma tragédia clássica"", mas
e que promova a transformação radical de toda a ordem social vigente.
Nas condições sociais do capitalismo, o único grupo social diretamente num prolongado processo de transformação estrutural da sociedade.
apto a conduzir esse movimento é a classe operária, não apenas por sua A esserespeito, há que se evocar novamente a relevância do pen-
posiçãoessencialno mundo da produção, mastambém porque somen- samento de Gramsci que, ao privilegiar a sociedade civil como cenário
te ela pode traduzir os interesses de toda a sociedade:' -- e isto de uma principal da luta pela hegemonia da classe revolucionária, leva em
forma mais radical do que a que tem ocorrido na história até aqui. To- conta as condições concretas da sociedade capitalista moderna, na qual
das as classesque, no passado, conduziram uma revolução social, em- a primazia da classedominante não se funda exclusivamente no poder
bora traduzissem seus interessesparticulares como selossem os inte- coercitivo do Estado, mas em todo o complexo conjunto de mecanismos
e instituições da sociedade civil. Nas sociedadestradicionais, em que
ressesde toda a população, o âzeram apenaspara tomar o poder e
o poder da classe dominante se restringia ao Estado-coerção, em vista
da presença de uma sociedade civil extremamente débil, bastava à
9 "]-.] em qualquer movimento histórico, é no nível das atividades superestruturais que se tra-
duzem e resolvem as contradições surgidas na base." (PORrELU, i977, p. 56)
SÓa consciência de classe do proleta Fiado capta os interesses da sociedade inteira,já que seus n AMENDOLA, Giorgio. La crisedella società e il Panito Comunista. In: Glí anní della republica
interesses de classe coincidem com os de toda a sociedade." (SÁmcHKZ VÁzQUKZ, i977, P. 363) Romã, i976, p. n5-n6. Citado em Coutinho (1981, p. n4).
124
ViTOR HENniQUE PARO ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR 125

classe que aspirava ao domínio tomar de assalto o aparelho estatal para desagregar a sociedade civil, para subtrair as classessubalternas à in-
ter a seu dispor a direção de toda a sociedade. Sob as atuais condições fluência ideológica da classe dirigente e, pouco a pouco, impor, por uma
do capitalismo, entretanto, a adoção de tal estratégia pode redundar difusão da concepçãoproletária do mundo, a sua própria direção inte-
na frustração completa dos objetivos, tendo em vista que apenas a lectual e moral. A luta pela hegemonia precede a luta pelo poder político.
tomada do poder estatal não significa a neutralização da antiga classe (GRlsoNl;MAacioKI, 1974, p. 326, grifo no original)
dominante enquanto classe dirigente, já que esta, por meio da socie-
Todo o problema da transformação revolucionária da sociedade
civil, sobre a qual mantém sua primazia, consegueimpedir a
hegemonia da nova classerevolucionária. se resume na criação de um novo bloco histórico. Isso só se faz a par-
tir de uma crise orgânica no bloco histórico vigente e da constituição
Assim, no atual estágio de desenvolvimento do capitalismo, a bur-. de um novo sistema hegemónico. A crise orgânica se faz presente à
guesia,como classehegemónica,não apenasdomina (poder estatal,\
medida que se rompe o vínculo que liga a estrutura à superestrutura.
sociedade política), mas ao mesmo tempo dirige (consenso, sociedade
Em tais condições, a classe dominante "não é mais 'dirigente', mas
civil) os diversos grupos sociais. A estratégia de luta adequada para unicamente dominante, detentora da pura força coercitiva" (GRAMscl,
arrebatar-lhe a direção da sociedade não é, pois, prioritariamente. a
i977, .p. 56). A crise orgânica ou crise de hegemonia conâgura, pois,
conquista do poder do Estado,já que estapode constituir-se numa vi-
um rompimento dos grupos subalternos com todo o sistema hegemó-
tória efêmera, se não se tiver conseguido também a adesão de parcelas nico da classedominante: rompimento com seus intelectuais e com a
significativas da sociedade.A luta deve constituir-se, pois, não numa ideologia que veiculam, bem como com os organismos e instituições
"guerra de movimento", em que se busca atingir determinado objetivo que representam a classe no poder. É bom ressaltar, entretanto, "que
de forma frontal, fulminante e decisiva, mas numa "guerra de posiçoes" nem toda a crise no seio do bloco histórico é necessariamente orgâni-
na qual são conquistados espaços sucessivamente mais amplos no in- ca". Para que isso aconteça "é necessário que a ruptura atinja as clas-
terior da sociedade civil, reservando o assalto ao Estado apenas para ses'fundamentais', isto é: a classe dominante, de um lado, e aquela
quandojá se tiver conseguido a concordância e a colaboração dos vários
que aspira à direção do novo sistema hegemónico, de outro" (PORTES.H,
setores da sociedade civil (GlIAMscl,i978d, P. 67-75). Essa estratégia i977,P.lo3).
ganha ainda maior sentido quando se consideram as enormes dificul-
A crise de hegemonia da classedominante
dades em se concretizar um assalto ao poder pela força, diante do
monopólio da violência exercido pela classedominante. Em outras ocorre ou porque a classedirigente faliu em determinado grande em-
palavras, em vista da não disponibilidade de um aparato bélico à altura preendimento político pelo qual pediu ou impôs pela força o consenti-
das forças do inimigo, não resta à classe dominada outro caminho senão mento das grandes massas (como a guerra), ou porque amplas massas
minar-lhe as resistências, privilegiando a ação incansável e prolongada (especialmente de camponeses e de pequenos burgueses intelectuais)
na esfera dos recursos aos quais tem acesso,ou seja, dos mecanismos passaram de repente da passividade política a certa atividade e apresen-
da sociedade civil. Em termos concretos, isto quer dizer que taram reivindicações que, no seu complexo desorganizado, constituem
uma revolução (GRAMscl, í978d, p. 55).
a revolução passa, primeiro, por uma luta de grande fôlego travada no
terreno da sociedade civil, contra, portanto, a /zegemonía da classe diri- A crise orgânica, todavia, não configura, por si só,uma revolução;
gente, isto é, o proletai'iado e o partido da classe operária devem, antes nem mesmo constitui uma garantia de que possa desembocar num
de se atirarem ao poder do Estado, lutar contra o poder hegemónico, movimento revolucionário vitorioso. Se não for acompanhadade uma
126 VITOR HENKiQUE PARO
ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR 127

ação incisiva e organizada em direção à transformação estrutural, por proâssional e a necessidadede organiza-la, "mas não ainda a unidade
parte da classe que aspira à hegemonia, a classe dominante pode re- do grupo social mais amplo" (GRAMscl,i978d, p. g). No segundo mo-
cobrar o fôlego e desenvolver mecanismos de acomodação do bloco mento, ou momento económico, já "se adquire a consciência da soli-
histórico, recompondo suasforças e alianças e se colocando novamen-
dariedade de interessesentre todos os membros do grupo social, mas
te na direção dasociedade.
ainda no campo meramente económico" (GRAMscl,l978d, p. 49). Há
uma concepçãode certa forma "reformista", na qual o confronto com
A classedirigente tradicional, que tem um numeroso pessoal preparado,
muda homens e programas e retoma o controle que Ihe fugia, com uma os grupos dominantes tem um caráter reivindicatório, com o propósi-
rapidez maior do que a que se verifica entre as classessubalternas. Tal- to de se igualar a eles em termos políticos e jurídicos, sempre nos
vez faça sacrifícios, exponha-se a um futuro sombrio com promessas. precisos limites da ordem social vigente. O terceiro momento é o mo-
demagógicas,mas mantém o poder, reforça-o momentaneamente ex mento propriamentepo/ÍHco, no qual a classe operária se percebe como
serve-se dele para esmagar o adversário e desbaratar os seus dirigentes; grupo social mais amplo e adquire a consciência de que os próprios
que não podem ser muitos e adequadamente preparados. (GRAMscl, interessesde caráter corporativo extrapolam o grupo estritamente
i978d,p.55)
económico, expressando-se em termos dos interesses de outros grupos
subordinados. A classeoperária já não faz apenas reivindicações que
A classe revolucionária impedirá essa recomposição de forças dos levem a uma igualdade com a classe dominante; consegue já perceber,
grupos dominantes somente se for capazde remeter-se decisivamente
em vez disso, a necessidade de superação da própria sociedade de
em direção à transformação social, criando um novo sistema hegemó- classese toma consciência de seu papel histórico, como grupo revolu-
nico sobsua direção.
cionário a quem cabea condução do processo de transformação social,
Um grupo social pode e mesmo deve ser dirigentejá antes de conquistar
aglutinando ao seu redor os interesses e ações dos outros grupos su-
bordinados.
o poder governamental (é essauma das condiçõesprincipais para a
própria conquista do poder); depois,quando exerceo poder, e mesmo
Esta é a fase mais abertamente política, que assinala a passagem nítida
que o conservefirmemente nas mãos, torna-se dominante, mas deve
da estrutura para a esfera das superestruturas complexas; é a fase em
continuar a ser também "dirigente". (GRAMscl,
í98i, P. l98)
que as ideologias germinadas anteriormente se transformam em "par-
Esse movimento em direção à criação de um novo sistema hege- tido", entram em choque e lutam até que uma delas, ou pelo menos uma
combinação delas, tende a prevalecer, a se impor, a se irradiar em toda
mónico dependerá, por sua vez, do grau de "homogeneidade, de auto-
a área social,determinando, além da unicidade dos fins económicose
consciência e de organização" (GRAMscl,i978d, p. 49) alcançado pela
políticos, também a unidade intelectual e moral. Colocatodas asques-
classe operária, grau este que corresponde a sua posição no contexto
tões em torno das quais se acende a luta não num plano corporativo,
da relação de forças políticas na sociedade. A esse respeito, podem ser
masnum plano "universal", criando, assim, a hegemoniade um grupo
identificadostrês momentos distintos, correspondentesao grau de social fundamental sobre uma série de grupos subordinados. (GRAMscl,
consciênciapolítica coletiva atingido pela classe social em cada um
í978d,p.5o)
deles. O mais elementar desses momentos é aquele em que, não obs-
tante haja uma consciência de grupo, ela se refere a interesses estrita- A tomada de consciência política reveste-se, assim, de importân-
mente corporativos no âmbito apenas do grupo profissional. É o nível cia fundamental para a participação dos componentes da classeope-
economzco-corporafíuo, no qual é sentida a homogeneidade do grupo rária no processo de criação de um novo sistema hegemónico. Por meio
128
VITOR HENKtQUE PARO 129
ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR

dela, eles se percebem ao mesmo tempo como sujeitos da história e prática, constituindo assim um bloco cultural e social" (GRAMscl,
como membros do único grupo social com condiçõesde assumir a l978a, p. l8). Considerando ainda que "todos os homens são intelec-
direção de um movimento radical de transformação social. Gramsci tuais" (GRAMSCI, I978b, P. 7),"
utiliza o termo "catarse" para indicar essa
o prob[ema da criação de uma nova camada inte]ectua] [...] consiste em
passagem do momento puramente económico (ou egoísta-passional) ao elaborar criticamente a atividade intelectual que existe em cada um em
momento ético-político, isto é, a elaboraçãosuperior da estrutura em determinado grau de desenvolvimento, modiâcando sua relação com o
superestrutura na consciênciados homens. Isto significa, também, a esforçomuscular-nervoso no sentido de um novo equilíbrio e conseguin-
passagemdo "objetivo ao subjetivo" e da "necessidadeà liberdade". A do-se que o próprio esforço muscular-nervoso, enquanto elemento de
estrutura, de força exterior que subjuga o homem, assimilando-o e Q uma atividade prática geral, que inova continuamente o mundo físico e
tornando passivo, transforma-se em meio de liberdade, em instrumen- social, torne-se o ./izizdamento de uma Roda e integral concepção do
to para criar uma nova forma ético-política, em fonte de novas iniciativas. mundo (GRAMscl, l978b, p. 7-8, grifos meus).
(GRAMSCI,
I978a, P. 53)

Surgindo, assim, a partir da prática e dos problemas da classe


Mas essaconsciência crítica dos contingentes da classeoperária trabalhadora, essa"nova e integral concepçãode mundo" emergecomo
não se dá espontaneamente, sem uma ação intencional e organizati- autoconsciência crítica dessa classe, constituindo-se no fundamento
va: uma massahumana não se 'distingue' e não se torna indepen- de uma verdadeira "reforma intelectual e moral" (GRAMscl, l978d, p.
dente 'por si', sem organizar-se" (GRAMscl, l978a, p. 21). Coloca-se
8-g), que precisa ser efetivadaem íntima vinculação com a transfor-
portanto, a imprescindível presença do intelectual, já que "não exis-
mação económica da sociedade.
te organização sem intelectuais, isto é, sem organizadores e dirigen-
A reforma intelectual e moral coloca-se, por sua vez, como uma
tes, sem que o aspecto teórico da ligação teoria-prática se distinga
concretamenteem um estrato de pessoas'especializadas'na elabo- das tarefas básicas a que deve dedicar-se o novo Partido Político, o
Partido Político da classerevolucionária. Tal Partido deveconstituir-se
ração conceptual e filosóâca" (GRAMscl,i978a, p. 2í). A atividade do
novo intelectual, do intelectual orgânico da classe trabalhadora. não em verdadeiro "intelectual coletivo":3, uma vez que, por meio de seus
se dá, entretanto, arbitrariamente, numa relação de exterioridade quadros de intelectuais, procura tornar sua classe ao mesmo tempo
com a massa operária. O próprio conceito gramsciano de intelectual homogênea e hegemónica. A homogeneidade se concretiza quando é

exclui qualquer interpretação que não leve em conta a organicidade proporcionada à classe operária a consciência de sua função revolu-
de seu vínculo com a classe fundamental que ele representa Por sso cionária, por meio da difusão da nova concepção de mundo e da edu-
o modo de ser do novo intelectual deve consistir "num imiscuir-se cação das massas no exercício do pensamento crítico e na aceitação

í2 "Não existe atividadehumana da qual se possa excluir toda intervençãointelectual, não se


pode separar o homolaber do homo sapíens. Em suma, todo homem, fora de sua profissão,
desenvolveuma atividadeintelectual qualquer, ou sda, é um 'âlósofo', um artista, um homem
de gosto, participa de uma concepção do mundo, possui uma linha consciente de conduta moral,
a mesma unidade que deve existir entre teoria e prática" (GltAMscl contribui assim para manter ou para modificar uma concepção do mundo, isto é, para promover
novas maneiras de pensar."(GRAnscl,l978b, p. 7-8)
i97õa, p. iUJ, na qual são elaborados e tornados coerentes "os prin-
n "P. Togliatti denominou o partido de ínteZecMal coZefíuo,formulação que sintetiza melhor as
cípios e os problemas" que as massas colocam «com a sua atividade suasfunçõese a sua organização."(GRlsoNl;MAGGloM,
i974, p. 3i7, grifos no original)
130 VITOR HENKiQUE PARO ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR 131

ativa e crítica de tal ideologia, evitando, ao mesmo tempo, sua defor- mação social. Numa sociedade dividida em classes antagónicas,
mação, e lutando para que ela predomine sobre as demais e se gene- produto da propriedade privada dos meios de produção, os interesses
ralize em toda a sociedade.Mas essafunção de homogeneidade vincu- conflitantes impossibilitam a busca de objetivos comuns a toda a so-
la-se organicamente com outra mais abrangente que é a busca da ciedade. AÍ, as várias praxis individuais, movidas por interesses parti-
hegemonia social da nova classerevolucionária, mediante a desarticu- culares, e subsumidas pelos interesses dominantes, acabam por con-
lação do atual bloco histórico, sob a direção da classeoperária. Por vergir para a obtenção de um resultado que não representa o interesse
isso, o Partido Revolucionário deve estruturar-se de maneira dinâmi- comum.:s Ou seja, "os atos dos indivíduos concretos como seres cons-
ca e efetiva,contando com organizaçãoe quadros à altura de suas
funções.'4Pode-sedizer, assim, que o Partido Revolucionário "é ao
A produção e utilização de automóveis de passeio na sociedade capitalista moderna pode
mesmo tempo o organizador e a expressão atava e atuante" (GRAMscà servir-nos de exemplo ilustrativo a este respeito. O operário metalúrgico, ao empregar suaforça
de trabalho numa indústria automobilística, não tem como intenção contribuir para a poluição
i978d, p. 9) da vontade coletivado operariado,a qual sepõe como sonora e ambiental que o carro que ele produz irá provocar: seu interesse individual é o ganho
"consciência atuante da necessidadehistórica, como protagonista de de um salário que possibilite sua sobrevivência e a de sua família; por sua vez, o capitalista da
um drama histórico real e efetivo" (GltAMscl,i978d, P. 7). indústria de automóveis está interessado em seulucro, não nos congestionamentos que os carros
provocam nas grandes cidades, nem no aumento da mortalidade em decorrência dos acidentes
Como a classedominante utiliza-se do Estado como meio de exer- de trânsito; também o comerciante do setor tem como interesse individual a obtenção do lucro,
cício e manutenção de sua dominação, a desarticulação do atual bloco advinda da compra e venda de veículos, não o consumo desmesurado de petróleo ou álcool, com
a consequênciade constituir-se, o primeiro, num recurso natural não renovável, e que represen'
histórico implica também a apropriação do aparelho de coerção estatal ta alta evasãode divisas ao país, e, o segundo, num produto agrícola cuja produção em alta es
pela classe revolucionária. Entretanto, essaapropriação dar-se-á não cala concorre de forma drástica com outras culturas produtoras de alimento; Ênalmente, o
consumidor ou usuário do automóvel, ao optar por sua aquisição e utilização, tem como objetivo
como um fim em si, mas somente como um estágio no processo revo-
a satisfação das necessidades pessoais de locomoção que um carro de passeio pode oferecer, não
lucionário, no qual a classe operária se apropria do poder coercitivo o desperdício de milhares de horas de trabalho humano incorporadas na produção do automóvel
apenascomo meio para a sua completa dissolução e a instauração da e que poderiam ser empregadas em atividades socialmente mais úteis, como a produção de ali-
mentos ou a construção de moradias para a população. (Embora nem sempre perceptível de
sociedade regulada, na qual o Estado-coerção perde completamente imediato, tal consumo pode ser facilmente identificado como desperdício quando se atenta para
sua razão de ser. É por isso que um processo revolucionário que se o fato de que um automóvel de passeio,fabricado para levar cinco ou mais pessoas,transporta,
encaminhe no sentido da superação da sociedadede classesdeve co- na grande maioria dos casos, apenas o seu motorista. Com isso, milhares e milhares de pessoas
saem de casa diariamente com seus carros, abarrotando as ruas da cidade com a capacidade
locar "como objetivo do Estado" (em seu sentido estrito) "o seupróprio ociosa destes,nem por isso gastando menos combustível, tendo menor desgaste, ou deixando
fim, o seu desaparecimento, a reabsorção da sociedade política pela de ocupar o mesmo espaçono congestionamento das ruas.) Pois bem, embora cada um desses
sociedadecivil" (GRAMscl, i978d, P. i02). agentes o operário, o capitalista, o comerciante, o consumidor final esteja na busca de
objetivos inteiramente defensáveis a partir de seus interesses individuais, o conjunto de suas
E importante observar como o que vimos até aqui sobre a trans- práticas concorre para um resultado social que ninguém tinha como intenção atingir. Por outro
lado, existeum interesse(particular) dominante que acaba,emúltima análise,por determinar
formação social liga-se diretamente ao problema da racionalidade em todos os demais, qual seja, o interesse capitalista, que coloca em primeiro lugar não a melhor
seusentido social, examinado no Capítulo ll. .Aârmei aí que uma ver- forma de atender à população com meios de transportes, mas a produção em massa de automó-
veis de passeio, com o fim de proporcionar maiores lucros às empresas do setor. Assim, um
dadeira racionalidade na utilização dos recursos em termos do inte-
sistema de locomoção urbano, baseado no transporte coletivo, sem os inconvenientes do auto-
ressecomum, na sociedade, só pode existir a partir de uma transfor- móvel de passeio apontados acima, mais económico, menos poluidor, enfim, mais racional do
ponto de vista social, embora tecnicamente possível, esbarraria nos interesses particulares do-
minantes da classe proprietária dos meios de produção. Esseexemplo, embora bastante esque-
'4 Sobre a estrutura e organização do Partido Político da classe operária, bem como sobre suas mático, podeservir para ilustrar como, na sociedadede classes,o atendimento de interesses
funções,ver GRAMscl
(i978d); GmsoNt;MAccioKJ(i974, P. 3i5-322). individuais leva a resultados indesejáveis do ponto de vista social.
132 133
VITOR HENKiQUE PARO ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR

cientes,isto é, suaspraxis individuais, integram-se numa praxis comum 2 Educação escolar para a transformação social
que desembocanum produto ou resultado"; mas, enquanto cada uma
dessaspraxis individuais está ligada a uma intenção original, o mesmo
Da maneira como vimos até aqui, a transformação social seresume,
não acontece "com a praxis coletiva em que cada uma dessas atividades
em última instância, no processo pelo qual a classe fundamental domi-
individuais se integra" (SÁNcnEZ
VÁzQUEZ,
i977, p. 326). Em outras
nada busca arrebatar a hegemonia social
palavras, "a praxis intencional do indivíduo funde-se com as de outros
das mãos da classedominante, construin- Comentário z4 -- Há
numa praxis inintencional -- que cada um deles isoladamente não muito estou convencido de
do um novo bloco histórico sob sua dire-
buscou nem desejou -- para produzir resultados que também não foram que essa acepção restrita
ção. Nesse contexto, a educação poderá de política não é suficiente
buscados ou desejados" (SÁNcmEZ VÁzQUEZ, 1977,P. 333).
contribuir para a transformação social, na para dar conta do exame
A obtençãode um resultado social que representeo interesse do "papel da educação no
medida em que for capaz de servir de ins-
processo de transformação
coletivo só é possível a partir da integração das diversas praxis indi- trumento em poder dos grupos sociais social", A política precisa ser
viduais numa praxis coletiva e intencional. Isso, por sua vez, só pode dominados em seu esforço de superação considerada em seusentido
dar-se quando há concordância coletiva quanto aos objetivos a serem da atual sociedade de classes. Dessa forma, mais amplo, como "ativi-
dade humano-social com o
buscados, o que exige a inexistência dos antagonismos de classe.:óEis.
a questão da educação como fatos de trans- propósitodetornarpossível
portanto, o sentido de se afirmar que a verdadeira racionalidade social a convivênciaentre grupos
formação social inscreve-se no contexto
reclama, para concretizar-se, uma transformação radical na socieda- mais amplo do problema das relações en-
e pessoas, na produção da
própria existência em socie-
de que remova as fontes de tais antagonismos, isto é, a propriedade tre educação epolítica.:8 Esseproblema só dade" (PARO, 2002, p. i5).
privada dos meios de produção e a correspondenteorganização da pode ser adequadamente analisado se
Este conceito envolve não
sociedadeem classesantagónicas. É que somente mediante tal trans. apenas o sentido restrito de
tanto política quanto educaçãoforem vis- política como relação "entre
formação é possível integrar os interesses individuais (de pessoas ou tas em suas especificidades, de tal modo contrários antagónicos"
grupos) aos interesses sociais (da sociedade considerada em seu todo). (Saviani, 1983, p. 93), ou
Ou seja, somente assim é possível constituir-se uma autêntica vonta- seja, como luta política,
mas também o sentido de
de coletiva, representativa dos interesses de toda a sociedade e não Trata-se, aqui, da política como é utilizada por Gramsci, 'convivênciapacííicaelivre
em sua acepção "restrita", "como o conjunto de práticas e entre pessoas e grupos que
apenasde grupos dentro dela. Por outro lado, torna-se imperativa, aí,
de objetivações que se referem diretamente ao Estado, às se aÚrmam como sujeitos'
a utilização racional dos recursos com vistas à realização de tais obje- relações de poder"(COUrINno, i981, p. 72), ou seja, como (PARO, 20tob, p. 27; grifos
tivos coletivos. Revela-se, com isso, o verdadeiro sentido de uma ra- prática característica da "sociedadepolítica". Gramsci originais),que é o conceito
emprega o termo também em seu sentido "amplo", como de democracia em seu sen-
cionalidade que não se detém apenas na consideração dos meios e de 'catarse"; neste sentido, "o político identiâca-se pratica- tido mais amplo e rigoroso.
sua adequadautilização (racionalidade funcional)", mas implica ne- mente com liberdade, com universalidade, com toda forma A partir destaúltima acep'
cessariamente a análise dos objetivos e sua articulação com os inte- de praxis que supera a mera recepção passiva ou a mani- ção, pode-se compreender o
ressessociais globais. pu[ação de dados imediatos]-.] e se orienta consciente- caráter político da educação
mente para a totalidade das relações subaetivas e objetivas" não apenas de forma extrín-
(CouTINHO,1981, p. 70). Na sociedade dividida em classes seca a ela,ou seja, quando
antagónicas,verifica-se o primado da política em seu sig- a apropriação da cultura
:o "0 desaparecimento das contradições antagónicas ainda que subsistam contradições de niâcado "estrito". É também neste sentido que se dá a luta produzida historicamen-
outra espécie -- cria ascondições para q ue os interesses pessoais e sociais se aproximem e, assim.
política paro a super.!çêgliessa sociedade. Parece ser esta, te serve de üzstrumento
sqa possível desenvolver-se uma praxis comum consciente." (SÁWCHEZ
yÁzQUKZ,
i977, P. 365)
'7 Cf. Capítulo 11,item 2, seçã0 2.2, deste livro.
portanto, a acepçãoque devemosutilizar para examinar o para municiar os grupos
papel da educação no processo de transfomtação social.
134 ViTOR HENniQUE PARO ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR 135

que uma não se dilua na outra e vice-versa. são política da educação envolve, por sua vez, a apropriação dos instru-
em luta, mas também de
A própria admissão de que possuem rela- forma intrínseca, a partir mentos culturais que serão acionados na luta contra os antagónicos
ções recíprocas já pressupõe que elas são da percepção de que a edu- (SAVIANI,t983,p.88)
"práticas distintas, dotadas cada uma de cação como relação entre
sujeitos (autores, senhores
especificidadeprópria" (SAV:tAxI,1983, p. de vontade) é uma relação
Assim, a educaçãose revela como elemento de transformação
85). "A especificidade da prática política necessariamente política social, por um lado, no caráter pedagógico que assume a luta política
e, como produtora de seres
se define pelo caráter de uma relação que da classetrabalhadora em seu esforço
humano-históricos, que exi-
se trava entre contrários antagónicos' revolucionáriocomvistasàdesarticulação '.. . .... .. .. -.
ge a aârmação dos sujeitos Comentário 25 -- Hoje
como tais, ela se faz também
(HAVIAM, i983, p. 93), enquanto "a especi- do poder da classe burguesa e à construção .ã. .se mais esta expressão.
necessariamente demo- \ do novo bloco histórico, já que "toda rela- Elapodedaraimpressão
de
ficidade da prática educativa se define pelo crítica. Paraumavisão que o saber apenas se acu-
caráter de uma relação que se trava entre mais detalhada da relação ção de 'hegemonia' é necessariamente uma mula no decorrer do tempo,
entre política e educação,
contrários não antagónicos" (SAV.IANI, i983, ver meus dois livros mais
relação pedagógica" (GRAMscl, i978a, p. quando, na verdade, ele é

p. 93). Em outras palavras, enquanto, na 37), por meio da qual a classe que aspira p'oduzído historicamente.
recentes: Educação como .' . ; . ' Tambémapalavrasaber--
ação política, buscamos vencer o adversá- exercício do poder (PARO, à direção da sociedade procura convencer .jl;:j;'ünh« qui a intenção
20tob) e Checa da esHuM-
rio, que possui interesses opostos àqueles os diversos grupos sociais da universali- deindicaralgomaisdoque
ra da escola (PARO, 20u).
pelos quais lutamos, na ação educativa, dade e validade social de seus propósitos. "'ra"ente conhecimentos
em escritos posteriores
procuramos precisamente atender aos Por outro lado, a educação se revela como eu a substituí por culmra,

interessesda outra parte com a qual nos relacionamos.Enquanto a fator de transformação social, também, entendida esta como tu(lo
em seu caráter intrínseco de apropriação Ílqu:lo que é produzido pelo
política se fundamenta na coerção,constituindo uma relação de doma homem em sua constituí-
do saber historicamente acumulado, visto ção histórica: conhecimen-
nação, a educação se funda na persuasão, configurando uma relação de
hegemonia (SAV.IANI,
i983, p. 85-95, passam). que, por meio dela, a classe revolucionária tos, informações, valores,
crenças, ciência, filosofia,
se apodera da ciência, da tecnologia, da arte,tecnologia,direito,etc.
Embora distintas, educaçãoe política são inseparáveis, havendo
filosofia, da arte, enfim, de todas as con- Paramaiorexplicitação
do
uma dimensãopolítica em toda prática educativae uma dimensão
quistas culturais realizadas pela humana- conceito de educaçãocomo
educativa em toda prática política (SAVIANI,
i983, p. 92). dade em seu desenvolvimento histórico e
apropriação da cultura,ver
PARO (20iob).
que hoje se concentram nas mãos da mi-
A dimensão política da educaçãoconsiste em que, dirigindo-se aos não
noria dominante. Esse saber, ao ser apro-
antagónicos, a educação os fortalece (ou enfraquece) por referência aos
antagónicos e desse modo potencíaliza (ou despotencializa) a sua práti- priado pela classedominada, serve como elemento de sua afirmação e
ca política. E a dimensão educativa da política consiste em que, tendo emancipação cultural na luta pela desarticulação do poder capitalista
como alvo os antagónicos, a prática política se fortalece (ou enfraquece) e pela organização de uma nova ordem social.
na medida em que, pela sua capacidadede luta, ela convenceos não A educaçãoentendida como apropriação do saber historicamente
antagónicos de sua validade(ou não validade), levando-os a se engajarem acumulado, ou seja, como processo pelo qual as novas geraçõesassimi-
(ou não) na mesma luta. lam as experiências, os conhecimentos e os valores legados pelas gerações
A dimensão pedagógicada política envolve,pois, a articulação, a aliança precedentes, é fenómeno inerente ao próprio homem e que o acompanha
entre os não antagónicos visando à derrota dos antagónicos. E a dimen- durante toda sua história. O desenvolvimento filosófico, científico, ar-
136 137
VITOR HENKiQUE PARO ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR

Contentário z6 -- Reite- tístico e tecnológico, bem como as mudan- número e complexidade das tarefas a se-
radas vezes neste livro o ças que são introduzidas nos valores e nas rioedu«dorOuseja,ess' rem executadas, o homem não consegue
verbo transmitir aparece én'azzq$erído
daposse
do produzir individual e diretamentetodos
associado ao processo edu-
maneiras de conduzir-se socialmente, são
cativo. Todavia, esseempre- sempre cumulativos e se fazem com base educador
paraa doedu- OSobjetos e serviços necessáriosa sua
go é bastante questionável nas conquistas alcançadas anteriormente de«maIra-smüsãode subsistência na sociedade.Por isso, sua
porque, em educação, não algoque"passa"
deuma existência é produzida socialmentepor
existe propriamente uma ç transmitidas às novas gerações por meio
b'ansmíssão do saber. no de algum processo educativo. p'sso'' outra,masdeumal meio da divisão social do trabalho, em que
sentido normalmente atri- te culturalhistoricame=:ll cada indivíduo ou grupo desenvolve um
O processo educativo podia ser extre-
buído a essapalavra. Na produzido, como forma, número limitado de tarefas, cujos produ-
linguagem usual, o termo mamente simples nos primeiros grupR-
transmitir supõe a b'ans- porexcelência,
deosÜeito tos, somados aos de todas as demais uni-
mentos humanos, nos quais os pais ou
/erêncía de determinado ção(cí. PARO,
z012)d'c'' l dades produtoras, formam o conjunto de
objeto de um lugar para membros mais velhos conseguiam,me-
bens e serviços disponíveis na sociedade
outro ou da posse de uma diante o contato informal inerente à pró-
pessoapara outra.Porcon- pria vida cotidiana, transmitir a seusfilhos e aos quais, no capitalismo, os indivíduos
seguinte, o objeto passa a particulares têm acessopor meio do mercado. Historicamente, a edu-
ocupar um novo espaço ou
e membros mais jovens do grupo a totali-
estar de posse de outra pes- dade do saber acumulado. Na sociedade cação participa de processo análogo, já que, em determinado estágio
soa à custa de desocupar o do desenvolvimento histórico, e diante da impossibilidade de setrans-
moderna, porém, como produto do desen-
espaço anterior ou privar a mitir, às novas gerações, de maneira apenas informal e privada, todo
primeirapessoa da posse do
volvimento histórico, a complexidade e o
montante do saber produzido historica- o saber necessário a sua existência como membros participantes da
objeto em favor da segunda.
Não é assim que acontece, mente, bem como a velocidade e o dina- sociedade, parte da educação passa a ser "produzida" socialmente, por
todavia, com oprocesso edu-
mismo com que essesaber constantemen- meio das instituições escolares,criadas especificamente para esseüm.
cativo.Aqui a "transmissão'
só pode ser aplicada como te se renova, sãode tal magnitude, que já A existência da escola coloca-se, pois, de forma tão irreversível
uma metáfora, que, aliás, quanto a própria divisão social do trabalho, de tal modo que a hipóte-
não se torna mais sequer imaginável que
deve ser evitada para não se de se voltar a contar exclusivamente com os mecanismos informais
se ocultar a peculiaridade uma mesma pessoa,ou mesmo uma intei-
darelaçãopedagógica,con- ra comunidade, possa detê-lo em sua to- de educação equivale mais ou menos à de se voltar a produzir exclusi-
fundindo-a com a simples talidade. Com isso, tornam-se também vamente em casa o vestuário, a alimentação, o lazer, enfim, todos os
relação de "dar e receber'
insuficientes os mecanismosinformais de bens e serviços necessáriosà subsistência em nossa complexa socie-
ou de algo quepassa de um
lugar a outro. Na ação edu- transmissão e apropriação desse saber, dade contemporânea. As propostas de desescolarizaçãoda sociedade
cativa,quando o educando (ll.l.lcn, i973), neste sentido, se mostram tão progressistas e avançadas
se apropria de determina- havendo a necessidadede instituições
do elemento cultural (um formalmente destacadaspara essatarefa. quanto as que pregam a volta do homem aos"bons velhos tempos" da
conhecimento, um valor. caverna.
Entre essasinstituições, destaca-se a
uma habilidade, etc.), pela Considerar anacrónica a desescolarizaçãonão significa, todavia,
mediação do educador, tal escola, cuja especificidade é precisamente
elemento incorpora-se em a transmissão do saber de forma sistemá- acreditar que a escoladesempenhe um papel espontaneamente revo-
suapersonalidade viva, mas
tica e organizada. A escola coloca-se, as- lucionário em nossasociedade.Pelo contrário, como qualquer insti-
nem por issopara de compor
também a personalidade
l sim, como participante da divisão social
do trabalho. Como é sabido, diante do
tuição que integra determinado sistema hegemónico, ela procura
atender, em primeiro lugar, aos interesses da classe que detém a dire-
138

VIGOR HeNRIQUE PARO ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR 139

mente reduzido de pessoas,a tarefa de Comentário z7 -- Em


dotar a imensa maioria de suaclientela de t986, passou-me desperce-
bido o uso dessetermo. Na
uma educaçãomínima, que consiste, em
ocasião, falar em clientela
geral, na apreensãode uns tantos conhe- escolarpara se referir àque-
cimentos e no desenvolvimento de com- les que fazem uso (usuários)
dos serviços escolares não
portamentos e habilidades propícios à sua
tinha ainda a conotação, de
integração no mercado de trabalho e que certo modo pejorativa, que
podem ser conseguidos num período de adquiriu hoje em dia. Hoje
nao emprego mais essa ex-
escolarização extremamente curto. pressão para referir-me aos
Os interesses do capitalismo são leva- beneâciários do ensino, pelo
signiíicadoqueelaadquiriu
dos em conta pela escolatambém em ter- no contexto do pensamento
mos superestruturais, uma vez que esta neoliberal, que a uülizapara
funciona como mecanismo de dissemina- atribuir, a esses usuários,
a qualificação de meros
ção da ideologia da classe dominante. Essa consumidores de mais uma
função da escola já se faz presente, na for- mercadoria que lhes é ofe-
recida. Os educandos e seus
ma de projeto da classe burguesa, desde
paisouresponsáveisnãosão
que esta se eleva à condição de classe revo- clientes (no sentido de me-
lucionária que pretende instalar uma nova ros consumidores de merca-

ordem social e que, por meio da doutrina dorias), mas cidadãos. "[...]
o consumidor seapropüa de
liberal, propugna pela generalização da bens finitos, que se acabam
educação escolar como forma de levar as com o consumo,enquanto
pessoas a saírem de seu estado de ignorân- o cidadão se apropria de
bens que, quanto mais ele
cia e aderirem à nova visão de mundo, consome, mais ele pode
contribuindo para a construção da demo- consumir, são para sempre.
(PARO, 2010b, p. ioi, com
cracia burguesa. Quando a burguesia assu-
base em entrevista na mí-
me a direção da sociedade, a generalização dia concedidapelo grande
da educação como dever do Estado se apre- geógrafo brasileil'o Milton
senta como forma efetiva de consolidar sua Santos[i926-2001])

hegemonia no seio do novo bloco histórico.


Convencida da superioridade da nova for- Comentário 28 Para
uma reflexão mais detida
ma de organização social, mas precisando sobre o papel da escola na
do apoio de todos os segmentosda socie- formação para o trabalho,
ver meu texto "Parem de
dade para consolida-la, ela acreditava que
preparar para o trabalho
a apropriação dos instrumentos intelec- (PARO, 2001)
tuais por parte das amplas camadasda

:r
140
VITORHENKtQUEPAKO ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR
141

população era uma forma de pâ-las em contato com sua visão de mundo sendo negada em sua função específica de distribuição do saber. Entre
e conseguir, assim, a adesão a seus propósitos políticos e económicos. essasformas, a mais eâciente, sem dúvida nenhuma, é a quantidade
Tal crença, entretanto, fundava-se na suposição de que a organização da limitada dos recursos que são destinados ao setor educacional." No
sociedadeem basescapitalistas estava acima dos antagonismos de clas- Brasil, essaquestão se revela no descasocom que é tratada a escola
se,bastando que se disseminassea explicitação dos princípios liberais pública. A constante diminuição relativa das verbas governamentais a
para que eles fossem afeitos indistintamente pelos diversos grupos so- elaendereçadascontrasta com a situação precária em que se encontra
ciais. Passado,entretanto, o período revolucionário, no qual os diversos o ensino no país, com prédios e instalações escolaresem péssimo es-
grupos se aliaram à classeburguesa no interesse comum de derrubar a tado, escassezde professores e funcionários, inadequação de recursos
antiga ordem social e económica, e consolidado o novo tipo de organi- didáticos e escassezde material escolar em geral, classessuperlotadas,
zação social, as contradições vêm à tona, revelando-se a verdadeira\ baixos salários de professores e pessoal em geral, falta de segurança
natureza do modo de produção capitalista, fundado na divisão de classes nas escolas, etc. Além disso, como se estes problemas não fossem su-
e na supremacia de uma delas sobre as demais. A educaçãoescolar, ficientes para dificultar o alcance do objetivo especificamente educa-
nessecontexto, à medida que procurava disseminar a ideologia da clãs - cional da escola, a esta acabam sendo atribuídas novas funções, decor-
se burguesa, precisava fornecer, ao mesmo tempo, certos elementos rentes do estado de pobreza -- gerado pela
intelectuais -- leitura, escrita, informações mais ou menos objeüvas
sobre a realidade, etc. --, que acabavam por possibilitar às pessoas das
tra a grande parte de sua clientela. E o J Co«.«tári0
27,pi39.
caso, por exemplo, da merenda escolar
que, embora justificável como maneira de

das massasaos interesses da classeburguesa, acabava contraditoria- evitar que a fome das crianças comprome- Comentário 3o -- Essa
ta sua aprendizagem, não deixa de cons- lcHU.a à Escola
Nova,com
mente, por propiciar aosgrupos subalternos instrumentos intelectuais tituir um encargo a mais a absorver parte lbase em escritos notacla-
que lhes possibilitavam enxergar de modo mais nítido seuspróprios dos já parcos recursos com que conta o
mente de George Sniders
e Dermeval Saviani. consi-
interesses de classe, passando a lutar por eles e a opor-se, em conse-
ensino e que, nem por isso, deixam de ser d.ro hoje completamente
considerados pelo Estado como sendo jequivocada. Especialmente
recursos integralmente destinados à edu- durante a década de 1980,
' . , . l ocasiãoemquefoiescritaa
cação (PARO, í982, P 6-7). l :;edição deste limo, estava
nitiva como se imaginava, mostrando-se, em vez disso,como um terre-
Outra maneira pela qual se verifica a Hmuito em voga nos meios
acadêmicos brasileiros,
negaçãodo papel educacional da escola é em especial por parte dos
por meio da articulação política dos mé- ch,m,dos "conteudistas
todos pedagógicos com ideias e medidas jum sentimento de a«rsão
cresce,a partir daí, o entusiasmo da classedominante pela generajizanão
indiscriminada da educação escolar. ' ' '' "--v que levam à minimização do saber passa' l à EscolaNova,pelo qual

,.] O desinteresse crescenteda classedominante pela generalização


i9 Parater um exemplo de como, mesmo nos países considerados superdesenvolvidos, como é o
de uma educação de qualidade pode ser ilustrado pelas diversas formas
caso dos Estados Unidos, o Estado capitalista possui razões para recusar maiores verbas para a
pelas quais, com a contribuição da própria ação estatal, a escolavem educação, ver BARAN; SWEEZY(1978, P. i72-t75).
142
VITORHENKiQUEPARO 143
ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR

do às
massas.roi o que aconteceu,poi sãofunções que, de uma forma ou de outra, são realmente desempe-
exemplo, com relação ao movimento da jlmbém fui contaminado.
nhadas pela escola, e que buscam atender aos interesses da classe do-
Escola Nova que, ao deslocar o problema aproâindado
dahistéu' s minante. Em outras palavras, embora o papel da escolana reprodução
da democracia do âmbito da sociedade 'du'ação me co.vence«
da força de trabalho e na inculca ideológica não seja exclusividade sua,
global (igualdade de oportunidades, cor- qu' não se pode confundir
nem tampouco tão decisivo para a perpetuação da atual ordem social
reção das injustiças sociais) para o âmbito Movimento
daEuolaNova quanto querem fazer crer alguns de seus críticos mais acerbos(BouKniEu;
da unidade escolar e da sala de aula (preo- e de se«sautorescom a pAssEKON,
t975; BAUDEI.OT;
EsTABI.ET,
t978; ALrHussEK,
[i97-]), a verdade
é que a escola presta, a este respeito, uma parcela de contribuição gran-
seus 6ns e degradando seus
de o suficiente para que a classe dominante dela não abra mão.
\

das elites e o empobrecimento do conteú- Em segundo lugar, a escola se mostra necessária à classe domi-
nante também na medida em que ela pode servir como álibi no pro-
do da educação destinada às massas po-
cessode justificação ideológica das desigualdades sociais geradasno
nível da estrutura económica e impossíveis de serem solucionadas pelo
capitalismo. Nesseprocesso, tais desigualdades são apresentadas como
acidentalidades,numa ordem social que, sendojusta no seu todo,
possui algumas disfunções que podem ser corrigidas desde que, aos
cidadãos, sejam dadas oportunidades que lhes possibilitem sair de sua
situação de pobreza ou de inferioridade social. Nesse contexto, a esco-
la é apresentada como um instrumento de equalização social, pois, por
seu intermédio, os indivíduos podem adquirir conhecimentos,habili-
dades, ou o domínio de uma profissão, que lhes possibilitarão ascender
na escala social. A escola, na verdade, não possui de modo nenhum
essepoder de corrigir as injustiças provocadas pela ordem capitalista.
Na medida, entretanto, em que tal crença é disseminada, os indivíduos
tenderão a acreditar que, se não possuem melhores condições de vida,
ou é porque não se aproveitaram da oportunidade que lhes foi ofere-
cida pela escola, ou é porque esta não está cumprindo satisfatoriamen-
te suas funções. Fato semelhante ocorre quando a situação de fome em
que se acham os grandes contingentes de crianças nas periferias das
grandes cidades passa a ser tratada não como consequência da extrema
exploração e injustiça social a que são submetidos seus pais, mas como
uma questão que deve circunscrever-se às obrigações da escola em lhes
fornecer merenda. De uma forma ou de outra, o processo de mistiâca-
:' A questão, aqui apenas enunciada, da articulação política da Escola Nova e da pedagogia ção se concretiza em favor dos interesses dominantes, uma vez que o
tecnicista com os interesses dominantes é tratada com detalhes por Dermeval Saviani(1983). problema é tratado no âmbito da instituição escolar, deslocando-seda
144
VITORHENKiQUCPARO ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR 145

esfera das relações sociais de produção, onde ele se origina e onde simo nível de ensino. É essetipo de escola,
seuslugares de mando na
poderiam ser desveladas suas verdadeiras causas sociais e económicas. degradada em suas funções, impotente
sociedade. Mas, do ponto de

A escola não pode ser totalmente negada em nossa sociedade, por vista didático-pedagógico, para atingir seus objetivos educacionais,
como procurei demonstrar
outro lado, porque a população em geral também a considera neces- reiteradas vezes em escritos que favorece a manutenção da atual ordem
sária e a reclama como obrigação do Estado. Quer em virtude da ideo- posteriores (PARO, 2000, social e económica. Não é, portanto, a es-
zoo7, 20iob, zon), a qua-
logia dominante, que apresenta a escola como instrumento de ascensão cola que consiga promover intelectual e
lidade do ensino básico da
social, quer em virtude do próprio interesse pessoal de elevação cultu- rede privada,para onde se culturalmente a generalidade dos jovens e
ral, via educaçãoformal, a frequência à escolaé um valor que se gene- encaminham as crianças das
crianças que interessa aos propósitos da
camadasricas, praticamente
ralizou na sociedade capitalista moderna, tornando-se aceito mais ou não se diferencia das escolas classe dominante, mas a escola cuja reali-
menos intensamente em todas as camadas da população. Diante disso, ' públicas em geral. O que dade revela que menos de l5% dos alunos
o Estado não consegue ficar alheio às reivindicações dos vastos setores as escolas privadas podem
que conseguem entrar na la série do lg grau
(como faziam as chamadas
da população, que passam, assim, a pressiona-lo para que seja cum- 'boas" escolas tradicionais conseguem completar a escolaridade dita
prido seu dever de fornecer educação escolar para todos. de antigamente) é "dar-se ao
obrigatória e que, desses mesmos alunos
luxo de ser incompetentes,
Em resumo, não obstante os riscos que Ihe representa a educação porque podem discriminar que entram anualmente na la série, mais
escolar em sua instrumentalização intelectual dos grupos sociais que seus alunos, escolhendo da metade não logra sequer promover-se
apenas aqueles que [por sua
Ihe são antagónicos, à classe dominante não interessa, nem Ihe é viável. para a série subsequente. Essa escola, ao
origem socioeconomica e
na prática, abolir inteiramente a escola,já que esta,além de servir-lhe familiar] aprendemapesar manter uma existênciamais formal que
da má escola e contribuem
como auxiliar indispensável na reprodução da ideologia e da força de real, se presta, assim, à mistificação da
para que esta apareça como
trabalho, bem como álibi no processo de escamoteaçãodas injustiças sendo escola de excelência' verdadeira situação educacional das cama-
socIaIs, apresenta-se também como objeto de reivindicação da popu- (PARO,non, p. ag; grifo no das dominadas da população, que conti-
original).
lação, cujas pressões nesse sentido não podem ser ignoradas. nuam sem uma escolaque atenda de fato
O que atende aos interesses dominantes não é, pois, nem a com- a sua especificidade de instância privile-
Conientário 3a -- Em
pleta negaçãoformal e real da escola,nem sua afirmação e generaliza- giada da apropriação do saber historica-
termos quantitativos, a si-
ção, mas sua existência tal qual ela se dá tuação melhorou desde que mente acumulado, ou seja, de instituição
Comentário3i -- haver- em nossa sociedade, ou sqa, uma escola foi escuto este livro, embora
especificamente educacional.
continue ainda bastante
date,émuito
relativo
dizer que, distribuindo desigualmenteo saber.
precária. Em 20io, foi de Explicitados os propósitos fundamen-
q". aeducação
escoam
mm ratifica as diferenças sociais inerentes à 44,3% a taxa de alunos que talmente dominantes a que serve a insti-
concluíram o ensino fun-
pri"ilegadlaséde
' aquaH- sociedade capitalista. Por isso, enquanto a tuição escolar, e diante da constataçãode
damental, em comparação
dade".
Édeboaqualidadedo
l Ínfima minoria de crianças e jovens, per- com osque o iniciaram em que a escolaque serve a tais propósitos é
2003 (Inep, 20u). Entre-
p"todeüstade;sas
cama-l =.c.. camadas privilegiadas pode precisamente aquela que é substancialmen-
tanto, a qualidade continua
receosconteúdoscurricula-
l contar com educação escolar de boa qua- muito baixa, de tal modo te negadaem seu papel educativo, um
resea
concepçãodemundolidade, a escolada grande maioria mal quepermanece inteiramen- movimento que vise a sua apropriação
nec'ssáHos
apm"eWirem sobrevive em meio aosproblemas e carên- te válida a afirmação que
como instrumento de transformação social
conclui esseparágrafo.
3 de toda ordem, apresentando baixís- deve ter presente exatamente a necessida-
146 VITOR HENKPQUEPARO 147
ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR

de de sua aârmação como instância privilegiada de apropriação do saber. uma das instâncias onde se realiza tal transformação. Pretender que
Essa afirmação de seu papel educativo deve levar em conta, antes de ela se constitua na grande equalizadora social, ou no lugar por exce-
mais nada, os condicionantes sociais que determinam seu funcionamen- lência de onde irradiará a revolução social, é incorrer no equívoco de
to e que conâguram sua localização no nível da superestrutura social.
imputar, a uma instituição apenas,aquilo que é função da sociedade
como instituição integrante da sociedadecivil. O fato, porém, de perten- como um todo. Igualmente equivocada é a atitude de negar à escola
cer à sociedade civil não signiâca que ela estqa livre da interferência do
qualquer papel na transformação social, esperando que a sociedade
Estado. Como vimos anteriormente, ao falar do Estado em seu sentido
mude para mudar a escola. Porque a escola não é o local da mudança,
amplo, este,além da sociedadepolítica, faz uso também dos mecanismos não signiâca que ela não possa ser um dos locais dessa mudança. A
persuasivos da sociedade civil. É aí que a escola aparece como uma das
revolução é um processo que envolve todo o corpo social, íncZusíue a
instituições que o Estado (em sentido amplo) procura manter sob sua \' escola. Cada um dos instrumentos de luta (sindicato, escola, imprensa,
tutela, com vistas a garantir a hegemonia da classeque ele representa. associaçõesprofissionais, igreja, etc.) tem muito a oferecer dentro de
Assim compreendido, é importante notar, por outro lado, que esseaces- suas características específicas,desde que, levando em conta suas li-
so do Estado à escola não a torna um aparato de coerção. Não obstante
mitações e potencialidades, procure intencionalmente a melhor forma
a presença, aí, de elementos coercitivos -- que se revelam na própria de concorrer para o objetivo comum da transformação social. No caso
prerrogativa do Estado em estabelecernormas para o ensino: determi-
da escola,ela poderá concorrer com sua parcela para a transformação
nando a composição de currículos e programas, a organização adminis- social, na medida em que, como agência especiâcamente educacional,
trativa da escola e do ensino em geral, etc. --, tais elementosvisam a
conseguir promover, junto às massas trabalhadoras, a apropriação do
garantir essa ascendência do Estado sobre a escola precisamente para saber historicamente acumulado e o desenvolvimento da consciência
que ela cumpra seupapel caracteristicamente persuasivo.
crítica da realidade em que se encontram.
Assim, como instância da sociedade civil e utilizando o mecanismo
Não existem fronteiras nítidas entre a apropriação do saber e o
da persuasão, a escola só pode ser eâcaz para o próprio Estado se Ihe
desenvolvimento da consciência crítica, já que são coisas que não se
for reservada a autonomia inerente aos chamados "aparelhos 'privados'
excluem, mas que se completam mutuamente. Têm, entretanto, suas
de hegemonia"::. Como tal, ela é um local de disputa, onde, não obs-
especificidades,que permitem trata-las separadamente.A apropriação
tante o Estado, por suaposição de representante da classedominante.
do saber é de fundamental importância para a classe trabalhadora,
possua grande vantagem com relação à classe dominada, esta pode
enquanto classe revolucionária. Uma classe que pretenda a direção da
neutralizar ou diminuir essa vantagem na mesma proporção em que sociedadenão pode ficar à margem do acervo cultural, científico e
consigaaproveitar, aí, as contradições inerentes ao sistema capitalista,
tecnológico da humanidade. "A classeoperária possui um elemento de
fazendo da escola, enquanto aparelho "privado" de hegemonia, mais
triunfo: o número. Mas o número não pesa na balança se não está
um espaço de expressão de seus interesses de classe.
unido pela associaçãoe guiado pelo saber."" É aí que se coloca a im-
E preciso notar, entretanto, que, entendida a transformação social portância da escola, e a necessidade de que a classe trabalhadora de-
no sentido que vimos anteriormente, a escolacoloca-se como apenas senvolva esforços para que ela cumpra efetivamente sua função de

:2 MAKX,K. Manifesto inaugural de la Asociación Internacional de los Trabajadores. In: MAKX


K.; ENaELS,
F. Obras escogídas. Moscou: Ediciones en Lenguas Extranjeras, i951. t. 1,p. 346-354
i; citaçãoda p. 353. Citado em lanni(1982, p. 82).
148 ViTOR HENRIQUE PARO ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR 149

levar o saber às grandes massas da população. Mas é preciso, a esse Não se pretende, com isso, secundarizar a necessidadeda cons-
respeito, afastar as concepções simplistas, que procuram negar qualquer ciênciacrítica -- já a anunciei como uma das importantes tarefas da
validade revolucionária a tudo que esteja de posse da classe dominante. escolavisando à transformação social e terei oportunidade de explici-
Assim, identificando o caráter ideológico de todo saber dominante. os ta-la mais adiante. Mas a própria consciência crítica não se desenvol-
defensoresde tais concepçõesrepudiam também a apreensão,pela ve sem uma base de conhecimentos positivos que a escolapode trans-
classetrabalhadora, dos conteúdos veiculados pela escola,já que esta mitir e da qual a classetrabalhadora tem necessidadepara emancipar-se
constitui simplesmenteum instrumento de transmissão da ideologia culturalmente. Em outras palavras, a classetrabalhadora precisa do-
dominante. Pretendendo ser politicamente progressistas, tais concep- minar os instrumentos culturais que estão em poder da classedomi-
çõesse revelam, na verdade, extremamente reacionárias, pois negam a nante, precisamente para antepor-se a esta enquanto classe revolucio-
apropriação do saber historicamente acumulado como instrumento de ' nária.Isso porque
luta para a transformação social. O fato de determinado instrumento
o domínio da cultura constitui instrumento indispensávelpara a parti-
(o saber, por exemplo) estar nas mãos do inimigo e este o utilizar para
cipação política das massas. Se os membros das camadas populares não
oprimir-nos não significa que tal instrumento sqa nocivo em si. É o seu
dominam os conteúdos culturais, eles não podem fazer valer os seus
uso pelo adversário (contra nós) que o torno nocivo (para nós). Se pu- interessesporque âcam desarmados contra os dominadores, que se
dermos arrebata-lo das mãos do inimigo, poderemos recompâ-lo em servem exatamente dessesconteúdos culturais para legitimar e conso-
nosso benefício.
lidar a sua dominação. (SAVIANI,
1983, p. 59)
Não se advoga, com isso, uma pretensa neutralidade do saber.
Todo saber é verdadeiramente ideológico se se entende ideologia no Por isso, há que se evitar que a existência de conteúdos ideológicos,
sentido gramsciano, como concepção de mundo ílnpZícífa na filosofia, no interior da escola, sirva de pretexto para se negar essesaber posi-
na arte, na ciência, etc. Mas isso não quer dizer que ele não possa ser tivo que ela pode oferecer e que é de tão grande utilidade para a classe
desarticulado dos interessesda classedominante e articular-se com os trabalhadora. Ademais, se se nega, por ser ideológico, todo o saber
interesses da classe trabalhadora. Não é porque o conhecimento, as transmitido pela escola, deve-se negar, consequentemente, também as
técnicas, os instrumentos e habilidades na realização, por exemplo, de demais formas de apreensão do saber, no interior do sistema capita-
uma cirurgia do coração, estalam adstritos às possibilidades da classe lista, já que a ideologia dominante perpassa toda a vida da sociedade.
dominante que, tendo condiçõesde fazê-laem membrosda classe A esserespeito, não deixa de ser contraditório o fato de que os que
operária que dela necessitem,vamos deixa-los morrer, a pretexto de condenam qualquer aquisição do saber via escola sejam, em geral, os
que os elementos necessários estão impregnados de ideologia burgue- mesmos que advogam um saber exclusivamente proletário, que brote
sa. Pelo contrário, o que devemos fazer é nos esforçarmos para que tais espontaneamente das massas populares. Como se o povo, em toda sua
elementos estejam ao alcance de toda a classetrabalhadora. O mesmo prática cotidiana (e não somente na escola), não estivessepermanen-
acontececom relação à escola. 2 + 2 = 4 tanto para o burguês quanto temente exposto às mais diversas formas de manifestação da ideologia
para o operário. E se, no processo de transmissão desse conteúdo. a dominante. Poder-se-á contra-argumentar, na verdade, com a expe-
escolainculca também conteúdos considerados ideologicamente com- riência dos grupos informais de educação popular, na qual são levados
prometidos com a classe dominante, isso não deve obscurecer o fato em conta, em primeiro lugar, a realidade imediata e os interesses dos
de que o trabalhador, em sua luta pela hegemonia (que não se restrin- próprios educandos,sem o autoritarismo que predomina na educação
ge à escola), precisa aprender que 2 + 2 = 4. formal. Não se trata de modo nenhum de se negar a importância e a
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VITOR HENKIQUE PARO ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR 1 51

dade de tais experiências, embora, também aí, não se parta do nada as mais diversas formas de exploração humana, as vastas camadas de
para "fazer brotar o saber", mas de conhecimentos e experiências an- trabalhadores é que sempre estiveram compelidas a trabalhar além do
ores que, em larga medida, fazem parte também do acervo cu]tura] necessárioa sua subsistência material para que a minoria dominante
e científico da classedominante. Embora, por problemas quer políticos pudesse apropriar-se do excedente. E foi graças a esse excedente, pro-
...quer
operacionais, se possam colocar dúvidas a respeito da possibili- duzido com o suor e o sangue dos explorados, que essasminorias en-
dade de generalização de tais experiências para os milhões de novas contraram condições de, além da garantia de sua subsistência material
crianças que anualmente acorrem à escola, o que não se pode deixar
e de seu lazer, manter os intelectuais que, articulados aos seusinteres-
de reconhecer é a importância desse tipo de educação,quando mais ses, foram desenvolvendo a ciência, a filosofia, a arte, a tecnologia,
nao sela, por sua articulação com os interesses dominados, pelo cará-
enâm, todo o saber que se foi acumulando e concentrando em suas
ter inovador dos métodos empregados, pelo espírito cooperativo que\ mãos.Assim como o trabalho escravo no Antigo Egito era condição
predomina em tais experiências e pelos benefícios que representam
para que houvesse sacerdotes dedicando-se à geometria e à astronomia,
para os membros da classe trabalhadora que a elas têm acesso. Não se
e assim como a servidão feudal alimentava o monopólio da pesquisa e
trata, portanto, de negar sua validade e importância. O que não se pode
do estudo por parte do clero e da nobreza, é o trabalho alienado e ex-
aceitar, entretanto, é que tais práticas sejam referidas como pretexto
plorado no processocapitalista de produção que continua possibilitan-
para se negar a escola, quando a atitude contrária é que parece mais
coerente com a defesa dessas mesmas práticas: se, em determinada do, hoje, a perpetuação do monopólio científico, cultural e tecnológico
da classe dominante.
instância da sociedade (também impregnada pela ideologia, também
sob as vistas do Estado capitalista), é possível, mercê das contradições A ideologia burguesa nos faz lembrar, constantemente, dos gran-
que o capitalismo não pode superar, desenvolver experiências de edu- des vultos da ciência como os principais responsáveis pelas invenções
cação informal comprometidas com os interessesdominados, por que e descobertas científicas que realizaram. Não é, entretanto, a eles que
razão, em outra instância, a escola,não se pode também, não obstan- devemos nosso principal tributo, mas aos muitos trabalhadores que,
te a presença da mesma ideologia e do mesmo Estado, aproveitar-se antes e durante a vida de tais vultos, tiveram de arcar com o trabalho
das mesmas contradições -- que aí se manifestam obx/lamente de ma- pesado,livrando-os dessefardo, para que pudessem dedicar seu tem-
neira diversa -- para desenvolveruma educaçãoque sqa também po à ciência e ao saber. Não deixa, por isso, de soar um tanto hipócri-
benéâca à classe trabalhadora? A resposta a esta questão se encontra ta a afirmação de que o povo deve buscar, ele mesmo, elaborar a sua
na explicitação da especificidade da escola e de sua função na socieda- cultura, o seu saber. Como se a classe trabalhadora, durante milhares
de capitalista e na constatação de que, afirmada tal especificidade e de anos, já não tivesse arcado com o pesado ânus de tal elaboração.
realizada a função para a qual ela foi criada, ela estará no m nimo. Parece que só mesmo a falta de qualquer perspectiva histórica pode
transmitindo aos tmbalhadores um saber que tem sido priNrilégioda levar a que, após todo essetempo de exploração, se pretenda, a pre-
classedominante. Isso com a vantagem de constituir uma agência texto de não se agir paternalisticamente ou de não se impor um saber
adequadaao ensino em massa. ' ' ' - -t'
dominante, exigir que a classe operária torne a produzir todo o pro-
O fato de o saber estar concentrado nas mãos de uma elite domi- cesso de acumulação do saber que Ihe foi historicamente expropriado.
nante não deve levar a crer que ele foi produzido por essa elite, nem E isso quando se procura, por meio da escola,"devolver-lhe" pelo me-
que foram estasque arcaram historicamente com os custosde tal pro- nos parte dessesaber que está concentrado nas mãos da classedomi-
dução. Durante todo o curso da história das sociedades de classes. sob nante, mas que, porjustiça, deveria pertencer-lhe.
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VITOR HENKTQUE PARO 153
ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR

sua função de distribuição do saber historicamente acumulado. Se a


essa consciência histórica se alia a percepção da importância que re-
presenta para a classetrabalhadora a apreensão do saber como instru-
mento de transformação social, configura-se a verdadeira dimensão
revolucionária do trabalho pedagógico na escola.A apropriação dessa
dimensão pelo educador que aí trabalha, em especial pelo professor,
deveservir como estímulo para que ele se constitua num verdadeiro
intelectual orgânico da classedominada, à medida que sua açãocomo
transmissor do saber venha a se articular intencionalmente com os
interesses dessaclasse. É claro que essaarticulação não se concretiza
apenaspelavia da transmissão de um saber positivo, mas também pela
consciência crítica da qual ele é condição necessária. Todavia, diante
da situação de precariedade em que se encontra o ensino no Brasil,
cumprir o mínimo pregadopela própria cartilha liberal, utilizada pela
classe dominante, já é dar um grande passo à frente no sentido da
emancipação da classedominada (MEI.LO,i98í). Há, portanto, ainda,
um vasto campo de ação nos limites da escola preconizada pela própria
burguesia, a ser preenchido com um trabalho significativamente cons-
trutivo em prol dos interesses dominados. Num país onde a grande
maioria das crianças mal consegue sair de seu estado de analfabetismo,
uma das missões revolucionárias da escola deve consistir em rea/men-
te ensinar essas crianças a ler e a escrever.
A escola estará contribuindo para a transformação social não
apenasquando promove a transmissão do saber, mas, comojá afirmei,
também quando consegueconcorrer para
o desenvolvimento da consciência crítica
Comentário 33 -- Vede
de sua clientela. O fato de nossa escola . Comentário 27, p. i39.
estar tão degradada em sua função de
divulgação do saber, que o mínimo de
conteúdo que se consiga por seu intermédio já represente muito para
a classe trabalhadora, não deve levar a que se satisfaça com apenas
isto. Também a constatação de que, por ser capitalista, a escola encon-
tra sérios obstáculos para veicular conteúdos que contrariem a ideo-
logia dominante não pode ser motivo suficiente para inibir a iniciativa
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VITOR HENKiQUE PARO ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR 155

de se buscarem, aí, espaçospropícios à promoção da consciência crí- pessoasafastadasda compreensão objetiva do mundo social, refugian-
tica. A esserespeito, é bom observar, antes de mais nada, que a men- do-senuma concepçãoidealista da realidade como forma de ocultar
cionada complementaridade entre saber elaborado e consciência crí- os conteúdos que comprometem sua situação dominante, à classe
tica aponta para o fato de que a própria apropriação do primeiro já operária interessa precisamente o contrário, ou seja, o desvelamento
constitui uma contribuição para o desenvolvimento da segunda,mes- mais radical possível da realidade concreta, já que o conhecimento
mo que esta não esteja explícita nos currículos e programas e mesmo dessarealidadejá traz, em si, um caráter revolucionário, porque põe
que disso não tenham consciência os agentesenvolvidos no processo à mostra as injustiças e contradições existentes, apontando para a
deensino. necessidade de sua superação.

Desdeque, sem conhecimento objetivo da realidade, não se poda A concepção de mundo que tem por premissa a necessidadede
vê-la criticamente, o desenvolvimento de uma consciência crítica na superaçãoda atual ordem económica e social, em direção a uma orga-
escola deve levar em conta, preliminarmente, a própria valorização dos nização social que, garantindo ao homem o domínio mais adequado
conhecimentos objetivos que se fazem presentes mesmo no currículo possível das forças naturais, as coloque em benefício da liberdade e
da escola capitalista. À proporção que apreende as múltiplas determi- desenvolvimento coletivos, só pode ter na apropriação crítica dessereal
naçõesdo real, o educando vai formando para si uma visão mais obje- um dos mais importantes instrumentos na busca de seus objetivos. Ou
tiva do mundo natural e das maneiras de aborda-lo e modifica-lo em sqa, essa concepção de mundo, que é a da classe trabalhadora, supõe,
benefício do próprio homem, afastando, assim, as concepçõesmágicas necessariamente,a consciência crítica da realidade. Na medida, pois,
e mistiâcadasdo mundo, "pela aprendizagemda existênciade leis em que tal concepçãoé divulgada, o desenvolvimento da consciência
naturais como algo objetivo e rebelde, às quais é preciso adaptar-se crítica deve aparecer como conteúdo necessário dessa divulgação. E,
para domina-las" (GRAMscl,l978b, p. i3o). Da mesma forma, à medida como vimos, a divulgação da nova concepção de mundo apresenta-se
que amplia seu conhecimento da realidade social, adquire condições como uma questão crucial na estratégia a ser adotada pela classetra-
de perceber que existem "leis civis e estatais que são produto de uma balhadora em sua luta de superação do bloco histórico vigente.
atividade humana, estabelecidaspelo homem e podem ser por ele Para se conseguir a direção da sociedade, é preciso que a ideologia
modificadas visando a seudesenvolvimento coletivo" (GRAMscl,i978b, da classe dominante, que perpassa a vida da sociedade em toda a sua
P. X.'SUJ.
extensão,sqa progressivamente desarticulada, por meio da dissemi-
À classedominante não interessa, entretanto, que o conhecimen- nação de uma visão de mundo superior articulada aos interesses da
to objetivo da realidade social seja adquirido pelas amplas camadas da classe revolucionária. A esse respeito,
população. Por isso, essetipo de conhecimento é o mais comprometi- criar uma novacultura não significa apenasfazer individualmente des-
do no interior da escola capitalista, quer por meio da mistiâcação da cobertas"originais"; significa também, e sobretudo, difundir criti-
realidade social, quer por meio da sonegaçãopura e simples dos con- camente verdades já descobertas, "socializá-las" por assim dizer;
teúdos que Ihe dizem respeito. É importante notar que a estratégia da transforma-las,portanto, em basede açõesvitais, em elementosde
classe operária para a conquista da hegemonia social guarda, a esse coordenação e de ordem intelectual e moral. O fato de que uma multidão
respeito, uma diferença fundamental em relação à maneira peia qual de homens sda conduzida a pensar coerentemente e de maneira unitá-
a burguesia procura manter-se como classe hegemónica. Enquanto ria a realidade presente é um fato "filosófico" bem mais importante e
esta, mediante uma abordagem metafísica do real, busca manter as 'original" do que a descoberta,por parte de um "gênio filosófico", de
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VITOR HENKiQUE PARO ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR 157

uma nova verdade que permaneça como património de pequenos grllnOS passagemdessesconteúdos não podem ser orientadas por critérios
intelectuais.(GiIAmsci, l978a, p. i3-l4) ' ' '' '''' meramente passionais. Não que a adesão a determinada concepção de
mundo não deva incluir também certa dose de paixão, mas esta deve
Mas, na escolacapitalista, a visão de mundo da classedominada
ser dirigida pela reflexão efundamentada no conhecimento objetivo da
realidade concreta. Por isso, no processo pedagógico de divulgação da
nova ideologia, não basta indignar-se com a situação social vigente e
carregar na exacerbação do discurso, fato que leva muitas vezes à uti-
lização de chavões e lugares-comuns que só contribuem para desacre-
ditar a própria causarevolucionária.É precisoprivilegiar os conteúdos
que contribuem para uma real compreensão da realidade económica,
social e política em que vivemos. Não é suficiente, por exemplo, pregar
que existe a exploração; em termos educativos, isto é, em termos de
apropriação de instrumentos culturais relevantes à luta revolucionária,
épreciso levar o educando a compreender a exploração concretamente,
de maneira científica, porque só identificando seus determinantes ele
pode encontrar os meios de lutar por sua extinção.
A disseminação, na escola, de uma nova concepção de mundo
exigirá, necessariamenteuma mudança na própria postura do educa-
dor, diante da educação e do seu próprio papel como transmissor de
ta] concepçãode mundo. Tal mudança se resume, fundamentalmente,
em seu cada vez mais efetivo exercício do papel de intelectual no sen-
tido gramsciano, mantendo com a classe trabalhadora uma relação de
representação que sqa a expressão consciente de seu compromisso
com os interesses dessa classe. Essa nova postura pode não depender,
necessariamente,de modiâcações estruturais -- também desejáveise
pelas quais se deve também lutar -- que envolvam o funcionamento
da escolaou a maneira visível de serem realizadas, aí, as atividades de
ensino-aprendizagem; mas exige que a relação educador/educando
sqa.o correspondente, na escola, da relação orgânica que deve existir
entre intelectual e massa de trabalhadores, no âmbito da totalidade
social. Tal relação revela o caráter revolucionário do processo pedagó-
gico fundado na ligação dialética que deve haver entre o "saber" do
intelectual e o "sentir" das massas dominadas, diante da realidade
social, e que a aguda percepção que Gramsci tinha dessamesma rea-
lidade permitiu-lhe expressar da seguinte forma:
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VITOR HENKÍQUE PARO ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR

O elemento popular "sente", mas nem sempre compreende ou sabe: o [

elemento intelectual "sabe", mas nem sempre compreende e, muito QUESTÕESETEMAS PARA ORIENTAÇÃO
menos, "sente". Os dois extremos são, portanto, por um lado, o pedan- DA LEITURA OU RELEITURADO CAPITULO lll
tismo e o filistinismo, e, por outro, a paixão cega e o sectarismo. Não que
o pedante não possa ser apaixonado, até pelo contrário; o pedantismo Item i: Transformação social: superação da sociedade de classes
apaixonado é tão ridículo e perigoso quanto o sectarismo e a mais de-
1 0 que é "sociedade política"?
senfreada demagogia. O erro do intelectual consiste em acreditar que se
2 O que é"sociedade civil"?
possa saber sem compreender e, principalmente, sem sentir e estar
3 0 que é Estado em sentido amplo?
apaixonado (não só pelo saber em si, mas também pelo objeto do saber),
4 0 que podemos entender por dominação?
isto é, em acreditar que o intelectual possa ser um intelectual (e não um.
5 0 que é ideologia?
mero pedante) mesmo quando distinto e destacadodo povo-nação, ou\
6 0 que entende Gramsci por "ideologias historicamente orgânicas"?
sela, sem sentir as paixões elementares do povo, compreendendo-as e,
7 Sobque graus qualitativos apresenta-se concretamente a ideologia da
assim, explicando-as ejustiâcando-as em determinada situação históri- classe dominante?
ca, bem como relacionando-as dialeticamente às leis da história, a uma
8 0 que entende Gramsci por: filosofia, senso comum, religião, folclore?
concepção,do mundo superior, cientíâca e coerentemente elaborada, que
g O que é bloco histórico?
é o "saber"; não se faz política-história sem esta paixão, isto é, sem esta
io O que significa dizer que a infraestrutura determina "em última ins-
conexãosentimental entre intelectuais e povo-nação. Na ausênciadeste tância" a superestrutura?
nexo, as relações do intelectual com o povo-nação são, ou se reduzem a,
n Que papéis desempenham estrutura e superestrutura num processo
relaçõesde natureza puramente burocrática e formal; os intelectuais se de transformação social?
tornam uma castaou um sacerdócio (o chamado centralismo orgânico). i2 Explicite com suaspalavras o trecho de Gramsci:
Sea relação entre intelectuais e povo-nação, entre dirigentes e dirigidos, "as forças materiais são o conteúdo e as ideologias são a forma -- sen-
entre governantes e governados, se estabelecegraças a uma adesãoor- do que esta distinção entre forma e conteúdo é puramente didática, já
gânica, na qual o sentimento-paixãotorna-se compreensãoe, desta que as forças materiais não seriam historicamente concebíveissem
forma, saber (não de uma maneira mecânica, mas vivencialmente), só forma e as ideologias seriam fantasias individuais sem as forças ma-
então a relação é de representação, ocorrendo a troca de elementos in- teriais" (p. n7).
dividuais entre governantes e governados, entre dirigentes e dirigidos, i3 0 que é intelectual?
isto é, realiza-se a vida do conjunto, a única que é força social; cria-se o t4 Como se dá alegação do intelectual com a estrutura económica? E com
bloco histórico". (GltAMscl,i978a, p. i38-i39, grifo no original) a superestrutura?
t5 De que forma a relação do intelectual com o mundo da produção é
mediatizada"?
í6 Por que se diz que os intelectuais são "funcionários" da superestrutura?
t7 0 que é intelectual orgânico?
i8 0 que é intelectual tradicional?
ig O que é transformismo?
20 Em que consiste a autonomia relativa dos intelectuais?
2i Em que sentido se pode falar numa hierarquia dos intelectuais? Quais
os níveis que podem ser identificados? F

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