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ESCOLA CONSTITUÍDA COM PARTICIPAÇÃO:

CONSELHO ESCOLAR
Maria Cecília Luiz (org.)

São Carlos, 2021


© 2021, dos autores

Universidade Federal de São Carlos – UFSCar


Reitor
Ana Beatriz de Oliveira

SEaD – Secretaria Geral de Educação a Distância – UFSCar


Secretária de Educação a Distância
Cleonice Maria Tomazzetti

Supervisão
Clarissa Bengtson
Douglas Henrique Perez Pino
Revisão Linguística
Paula Sayuri Yanagiwara
Editoração Eletrônica
Bruno Prado Santos
Capa
Jéssica Veloso Morito

Ficha catalográfica elaborada pelo DePT da


Biblioteca Comunitária da UFSCar

Escola constituída com participação: conselho escolar/


organizadora: Maria Cecília Luiz. -- Documento ele-
S236f trônico -- São Carlos : SEaD-UFSCar, 2021.
102 p.

ISBN – 978-65-86891-26-3

1. Conselho Escolar. 2. Educação 3. Escola. I. Título.

CDD – 612 (20a)


CDU – 612
SUMÁRIO

Apresentação. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4
1 As funções do Conselho Escolar
Cefisa Maria Sabino Aguiar
As funções deliberativa e consultiva do Conselho Escolar. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6
A função mobilizadora do Conselho Escolar. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12
A função fiscal do Conselho Escolar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16
A função pedagógica do Conselho Escolar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19
Conselho Escolar e a dimensão Político-Pedagógica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23
Educação de qualidade e a organização da escola. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24
Resumindo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30

2 Constituição, organização e funcionamento dos Conselhos Escolares


Swamy de Paula Lima Soares e Francisco Herbert Lima Vasconcelos
A constituição dos Conselhos Escolares. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31
Organização e funcionamento dos Conselhos Escolares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33
As ações do Conselho Escolar com foco na melhoria da qualidade da educação
pública. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37
Conselho Escolar: instrumentos, procedimentos e práticas para um bom
funcionamento. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .38
Resumindo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52

3 A importância da participação da comunidade interna e dos familiares


no Conselho Escolar
Maria Cecília Luiz
Conselho Escolar e a relação “família e escola” . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53
A relação escola-família: como é possível?. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61
Caminhos para a relação família e escola: gestão democrática . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 66
Possíveis estratégias para aprimorar a relação família e escola . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70
Resumindo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 76

4 Conselho Escolar e a gestão democrática da educação: convivência e


aprendizagem na escola
Walter Pinheiro Barbosa Junior e Eden Ernesto da Silva Lemos
A importância do Conselho Escolar nas relações da escola . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77
Conselho Escolar: a construção da gestão democrática e os processos de
participação. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 80
Conselho Escolar como espaço de formação humana. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 88
Conselho Escolar e os direitos humanos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 92
Resumindo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100
APRESENTAÇÃO

Este livro traz conteúdos que direta e/ou indiretamente foram refletidos
por vários docentes universitários, representantes de Secretarias Municipais
e Estaduais, diretores, coordenadores, professores, alunos, familiares, e con-
selheiros escolares de diferentes partes do Brasil, sobre o Conselho Escolar.
Em um período significativo de tempo, todos esses sujeitos se propuseram a
realizar ações e mobilizações importantes para fazer este colegiado ser com-
preendido, e muito mais do que isso, tiveram a intenção de o ver funcionar
efetividade, promovendo decisões coletivas na escola.
O Conselho Escolar é um colegiado da escola que possibilita a partilha
de poder e a participação dos diferentes agentes escolares nas deliberações
escolares, cujo intuito é respeitar as diferentes visões de mundo e tomar
decisões coletivas em prol da qualidade do ensino e da aprendizagem dos
estudantes. Este colegiado visa à democracia participativa, em uma educa-
ção pensada de forma horizontal, com perspectivas de corresponsabilizar o
compromisso de todos os agentes da escola.
O objetivo principal deste livro é colaborar com as escolas públicas de
Educação Básica no esforço de refletir sobre conselhos escolares, no Brasil,
isto é, sua legislação, constituição, funções, funcionamento etc. Por isso, os
conhecimentos apresentados nesta coletânea também embasam os conteú-
dos de cursos de aperfeiçoamento em Conselho Escolar, isto significa com-
preender e valorizar a escola e os Conselhos Escolares com a perspectiva
da gestão democrática, por meio de bases teóricas e abordagens práticas
relacionadas à boa convivência, valorizando o diálogo e o respeito mútuo.
Começando com o capítulo que abre o livro, As funções do conselho
escolar, de autoria de Cefisa Maria Sabino Aguiar, trata-se das funções
consultivas, deliberativas, mobilizadoras, fiscal e pedagógica do Conselho
Escolar, uma perspectiva que afirma a dimensão Político-Pedagógica deste
colegiado e prioriza a educação de qualidade.
O tema do segundo capítulo Constituição, organização e funcionamen-
to dos conselhos escolares, de autoria de Swamy de Paula Lima Soares e
Francisco Herbert Lima Vasconcelos, enfatiza os conhecimentos relacionados
As funções do Conselho Escolar | 5

à constituição, organização e funcionamento do Conselho Escolar, além de


instrumentos, procedimentos e práticas para o seu funcionamento.
O tema do terceiro capítulo A importância da participação da comuni-
dade interna e dos familiares no conselho escolar, de minha autoria, abarca
a questão da relação entre família e escola, com sugestões de possíveis es-
tratégias para aprimorá-la.
O tema do quarto capítulo, Conselho escolar e a gestão democrática
da educação: convivência e aprendizagem na escola, de autoria de Walter
Pinheiro Barbosa Junior e Eden Ernesto da Silva Lemos, evidencia a impor-
tância do Conselho Escolar nas relações da escola, a construção da gestão
democrática e os processos de participação, os espaços de formação huma-
na e os direitos humanos.
Esperamos que esta leitura ajude nas relações existentes dentro e fora
da escola e que você goste, além de ser proveitosa!

Maria Cecília Luiz


Fevereiro/2021
1

AS FUNÇÕES DO CONSELHO
ESCOLAR
Cefisa Maria Sabino Aguiar

As funções deliberativa e consultiva do Conselho Escolar

Neste tópico tratamos da função deliberativa e consultiva do Conselho


Escolar, para tanto, devemos refletir sobre a organização do Conselho Es-
colar, levando em conta suas atribuições, composição e paridade. Compre-
ende-se que o processo de escolha e deliberação de ações de interesse
comum é algo que compete a uma coletividade.
O Conselho Escolar representa as comunidades escolar e local, e deve
atuar coletivamente, definir caminhos e deliberar o que é sua de respon-
sabilidade. No Brasil, a criação e a atuação de órgãos de apoio, decisão
e controle público da sociedade civil na administração pública, tem um
significado histórico relevante. Representa, assim, um lugar de participação
e decisão, um espaço de discussão, negociação e encaminhamento das
demandas educacionais. O Conselho Escolar é uma instância de discussão,
acompanhamento e deliberação, na qual se busca incentivar uma perspecti-
va democrática e participativa.
É da responsabilidade da escola, também, mobilizar as comunidades es-
colar e local para participarem da elaboração, acompanhamento e avaliação
do Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola. O PPP contém as concep-
ções de educação, os objetivos, metas e sonhos da escola, assim como os
problemas que precisam ser superados, por meio da criação de práticas pe-
dagógicas coletivas e da corresponsabilidade de todos os envolvidos com a
escola. Esse processo deve ser acompanhado pelo Conselho Escolar.
As funções do Conselho Escolar | 7

Para garantir a legitimidade do Conselho Escolar é importante que se te-


nha representantes de todos os segmentos, como por exemplo: estudantes,
pais ou responsáveis, professores, demais funcionários, diretor (ou alguém
da equipe gestora) e representante da comunidade local.
A eleição e composição dos membros do Conselho Escolar devem ser
definidas em lei específica aprovada no âmbito dos Estados, do Distrito Fe-
deral e dos Municípios, respeitada a composição paritária entre os segmen-
tos eleitos. Todos os representantes do Conselho Escolar deverão ser eleitos
por seus pares, exceto o diretor, que é membro nato desse colegiado.
Para entendermos o que significa essa composição paritária, precisamos
conhecer o termo paritário que, por sua vez, significa uma qualidade que
é par, ou seja, significa equilíbrio. Quando compomos o Conselho Escolar,
temos que ter o cuidado em representar de forma equilibrada os seus seg-
mentos. Por exemplo, 50% dos membros devem ser professores, equipe
gestora e funcionários, e os outros 50% estudantes, familiares e comunidade
local.
Cada um desses representantes deve ser eleito pelos seus pares, sendo
que todo conselheiro deve estar atento às demandas e opiniões das pes-
soas integrantes do seu segmento representativo, ou seja, se eu represento
um determinado segmento do Conselho Escolar, não posso falar das minhas
opiniões isoladamente, mas devo representar a opinião do conjunto daqueles
que estou representando. É importante que existam representantes de todos
os segmentos, porém, quando não há um determinado segmento, o Conselho
se organiza conforme a realidade da escola, observando que a paridade deve
ser respeitada.
O Conselho Escolar deve se mobilizar para garantir a participação de
todos. Em relação às crianças da Educação Infantil, elas são sujeitos que tam-
bém estão construindo sua autonomia, pois a escola de qualidade é para
todos, por isso ela deve criar maneiras para ouvi-las. Implantar Conselhos
Escolares e outras formas de participação das comunidades escolar e local
na melhoria do funcionamento das instituições de Educação Infantil e no
enriquecimento das oportunidades educativas e dos recursos pedagógicos.
A quase totalidade dos sistemas de ensino estabelece o número de con-
selheiros escolares, obedecendo a números mínimos e máximos, com crité-
rios baseados em escalas segundo o número de estudantes matriculados na
escola. É importante, também, que o sistema de ensino defina o mandato
8 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

do conselheiro escolar, que normalmente é de dois anos, com direito a uma


reeleição.
Quanto ao funcionamento, as normas deverão ser claras, descritas em
um Regimento Interno, que defina as atribuições e funções dos conselheiros
e dos suplentes, a periodicidade das reuniões ordinárias, bem como a con-
vocação de reuniões extraordinárias, substituição de conselheiros etc.
O Conselho Escolar deve estar atento ao cotidiano da escola e, de acor-
do com suas necessidades, marcar as reuniões extraordinárias, pois as reuni-
ões ordinárias devem ser previstas no calendário escolar, no início do ano. O
ideal é que haja pelo menos uma reunião ordinária por mês.
As reuniões deverão acontecer em dia e horário que sejam adequados
para todos os conselheiros escolares. É necessário que haja uma ampla
divulgação em local de fácil acesso. Dessa forma, é possível fomentar a
participação dos diferentes segmentos. É preciso garantir a legitimidade,
possibilitando vez, voz e voto para todos os representantes.
Outro aspecto importante que deve ser garantido é que as pautas para
as reuniões do Conselho Escolar sejam construídas coletivamente, de modo
que as necessidades dos diferentes segmentos estejam contempladas em
suas reuniões. Uma forma de garantir que esse processo democrático ocorra
é utilizar um mural com recados e anotações do Conselho Escolar. Nesse
mural, toda a comunidade escolar e local pode contribuir com temas a serem
incluídos na pauta da reunião, além de darem sugestões, opiniões etc. Nesse
caso, o Conselho Escolar deve se organizar para que antes de cada reunião os
temas a serem abordados sejam inseridos no mural por todos os segmentos
pertencentes a esse colegiado.
Ressalta-se que todo representante das comunidades escolar e local tem
legitimidade para articular um melhor funcionamento do Conselho Escolar,
convocando todos os segmentos para organizar coletivamente uma eleição
desse colegiado, em diálogo com a Secretaria da Educação. Um detalhe
importante: ninguém tem autoridade especial fora do colegiado só porque
faz parte dele.
O diretor ou equipe gestora atua como executor das deliberações do
Conselho Escolar, implementando as decisões desse colegiado no cotidiano
da escola. Ele também articula a integração de todos os segmentos, visan-
do a implementação do Projeto Político Pedagógico. O(a) gestor(a) pode-
rá assumir a presidência do Conselho Escolar. Isso fica a critério de cada
Conselho, mas é importante destacar que, não havendo restrição legal, a
As funções do Conselho Escolar | 9

presidência do Conselho pode ser exercida por qualquer conselheiro, desde


que seja eleito entre os próprios membros do Conselho Escolar.
O Conselho Escolar é composto por membros efetivos e seus respec-
tivos suplentes. Os membros efetivos e suplentes são os representantes
eleitos de cada segmento. Os suplentes, assim como qualquer pessoa da
comunidade, podem participar de todas as reuniões, somente com direito
a voz.
O Conselho Escolar possui as seguintes funções:
• Consultiva: opinar, emitir parecer, discutir;
• Deliberativa: decidir, deliberar, aprovar, reelaborar;
• Fiscal: fiscalizar, acompanhar, supervisionar, aprovar prestação de contas;
• Mobilizadora: mobilizar, articular, apoiar, avaliar, promover, estimular;
• Pedagógica: educar, refletir, planejar, avaliar e compartilhar.
Neste momento falamos da função consultiva e deliberativa: a função
consultiva tem o caráter de assessoramento, isto é, quando o Conselho Es-
colar analisa as questões encaminhadas pelos diversos segmentos da escola
e da comunidade e apresenta sugestões ou soluções, que poderão ou não
ser acatadas. Para exercer a função consultiva é necessário, antes de tudo,
ter acesso a todas as informações referentes à questão apresentada, depois
deve contextualizar a realidade da escola para melhor conhecê-la, funda-
mentando de forma mais consistente suas opiniões. É importante também
conhecer a legislação e as normas vigentes porque são instrumentos que
auxiliam legalmente o parecer. Na prática, também deve estudar e investigar
o objeto da consulta, para emitir um parecer consciente e que qualifique a
resposta do Conselho Escolar.
A função deliberativa é exercida quando o Conselho Escolar toma deci-
sões, coletivamente, que devem ser cumpridas. Um exemplo é quando de-
cide sobre questões relacionadas ao Projeto Político Pedagógico. Enquanto
na função consultiva trata-se apenas de uma recomendação, na função
deliberativa a decisão do Conselho Escolar deve ser acatada. Quando os
segmentos exercem coletivamente a função deliberativa proporcionam um
espaço de autonomia na escola, isso é garantido por lei, no Artigo 15 da Lei
de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB):
10 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

os sistemas de ensino assegurarão às unidades escolares públicas de


Educação Básica que os integram progressivos graus de autonomia pe-
dagógica, administrativa e de gestão financeira observadas as normas
gerais de direito financeiro público.

A ação democrática representa um exercício de poder, autocriação, auto


instituição, autogestão. Para que a gestão da escola pública seja efetiva-
mente democrática é fundamental que ela exercite sua autonomia. Após a
Constituição Federal de 1988, à medida que os sistemas de ensino se es-
truturaram e se fortaleceram, houve necessidade progressiva de ampliar
espaços de autonomia na escola. A questão da autonomia remete à questão
da institucionalidade que reveste a escola de personalidade e identidade
própria. Nesse caso, fica uma pergunta: se a escola é uma instituição, o Con-
selho Escolar poderia ser uma instituição independente da escola?
Tanto no Ensino Superior como na Educação Básica, os Conselhos são
situados como instâncias, como mecanismos de gestão, sendo, portanto,
inerentes à instituição de ensino. Por essa razão, os Conselhos são sempre
regulamentados no estatuto (no caso das Universidades) e/ou no regimento
da escola. Isso significa que o Conselho Escolar se insere na institucio-
nalidade e na própria estrutura da escola, por isso é um mecanismo
de gestão da escola pública e está totalmente ligado à escola como
instituição.
Na gestão democrática existe o exercício de decisão coletiva na escola
e ela deve proporcionar espaços de autonomia de forma progressiva, pois
essa é a essência da gestão democrática. O Conselho Escolar não é um ór-
gão à parte da escola, mas é a própria escola, pois está integrado totalmente
a ela. Nesse sentido, a institucionalidade da escola precisa ser reforçada,
para a conquista de progressivos graus de autonomia. Assim, parece impor-
tante chamar a atenção para algumas distinções necessárias.
Na Educação Básica e na Educação Superior é comum a existência de
entidades com personalidade jurídica própria, paralelas ou complemen-
tares. São as fundações, as associações, com finalidades de assistência ao
estudante ou de apoio. Mas essas entidades têm um caráter complemen-
tar. No caso da Educação Básica não podem substituir ou assumir o lugar
da institucionalidade da escola. Essas instituições podem contribuir com a
unidade escolar, mas nunca podem tomar o papel de decisão que cabe à
própria escola como instituição. Nenhuma entidade jurídica pode decidir
pela escola.
As funções do Conselho Escolar | 11

O Conselho Escolar é seu órgão máximo de decisão no âmbito da escola.


É bom frisar que entidades como associações de pais e mestres, caixa escolar,
grêmios estudantis e outras organizações podem e devem existir, porém, no
sentido de promover a mobilização de pais e responsáveis, estudantes e de
outros setores comprometidos com a escola. Essas entidades não podem
substituir o Conselho Escolar, pois ele é um colegiado que representa todos
os segmentos da escola. Dessa forma, é como se a própria escola estivesse
decidindo sobre suas questões, em reuniões do Conselho Escolar.
Isso significa que a função deliberativa do Conselho Escolar está ligada
à autonomia da escola. Por meio dessa função, o Conselho Escolar pode
deliberar sobre as principais questões pedagógicas, administrativas e finan-
ceiras. Daí a importância de encaminhar e acompanhar as deliberações nas
reuniões do Conselho. As entidades de apoio executam o que é pertinente
a suas atribuições. Essa é a situação ideal, coerente com os princípios da
progressiva autonomia da escola e sua gestão democrática. E coerente,
também, com a natureza e as finalidades das entidades complementares
de apoio à escola. Sendo assim, os interesses corporativos têm seus espa-
ços próprios: sindicatos, associações e outros similares. O Conselho Escolar
busca defender os interesses coletivos, em sintonia com o Projeto Político
Pedagógico da escola, que requer uma visão do todo.
É necessário esclarecer que os representantes dos segmentos do Con-
selho Escolar não devem defender seus interesses pessoais, mas devem
compartilhar com os demais conselheiros a percepção, as aspirações e os
desejos de quem eles estão representando. O compartilhar requer sensibili-
dade política, isto é, situar o interesse coletivo acima dos interesses pessoais
ou de um segmento.
Estes processos participativos são muito importantes. Eles propiciam
a mobilização das pessoas para tomadas de decisões, ao invés de ficarem
apenas aceitando as ações impostas. É assim que se exercita a cidadania,
com todos participando ativamente das decisões que fazem parte das suas
vidas.
A integração entre escola e comunidade potencializa o sentimento de
que todos pertencem à escola, e revigora o sentido de partilha, tornando o
processo educativo dinâmico. Essa visão processual resulta em mudanças
de atitudes necessárias para o desenvolvimento de uma nova postura frente
à escola e à comunidade, e vice-versa.
12 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

A função mobilizadora do Conselho Escolar


Neste tópico, tratamos da função mobilizadora do Conselho Escolar e
a importância da mobilização das comunidades escolar e local, com vistas
ao fortalecimento do Conselho Escolar. É de suma importância atentar para
o processo de eleição dos conselheiros escolares para que estes tenham
maior participação e representatividade.
A palavra mobilização nos remete à ação de mobilizar. Quando convo-
camos, queremos que outras pessoas estejam juntas a nós, portanto, mo-
bilização é a ação de chamar, agregar as pessoas em torno de um objetivo
comum.
O Conselho Escolar pode e deve mobilizar a comunidade para se in-
tegrar, acompanhar e participar do cotidiano da escola, com vistas a uma
educação com qualidade socialmente referenciada. Mobilizar é convocar
vontades para atuar na busca de um propósito comum sob uma interpre-
tação e um sentido também compartilhado. Conforme afirma o filósofo e
educador colombiano Bernardo Toro:

A mobilização social é muitas vezes confundida com manifestações públi-


cas, com a presença das pessoas em uma praça, passeata, concentração.
Mas, isso não caracteriza uma mobilização. A mobilização ocorre quando
um grupo de pessoas, uma comunidade ou uma sociedade decide e age
com um objetivo comum, buscando, cotidianamente, resultados decidi-
dos e desejados por todos.

Participar ou não de um processo de mobilização social é uma escolha,


e quando os sujeitos são chamados para participar, eles podem escolher
participar ou não, é decisão de cada um. Faz-se necessário organizar as
ações das pessoas no sentido de buscar a melhoria da qualidade de ensino
e aprendizagem na escola. Por isso, o Conselho deve desempenhar uma
função mobilizadora.
Na função mobilizadora os conselheiros escolares promovem a parti-
cipação, de forma integrada, com os segmentos representativos da escola
e da comunidade local em diversas atividades, contribuindo, assim, para a
efetivação da democracia participativa.
Existem estratégias que propiciam uma mobilização eficiente, um exem-
plo de estratégia de mobilização é a divulgação e, para isso, pode-se usar
o mural do Conselho Escolar. Nele, serão inseridas as demandas das comu-
nidades escolar e local, as pautas da próxima reunião do Conselho Escolar,
As funções do Conselho Escolar | 13

divulgação dos principais resultados e encaminhamentos das reuniões. No


mural, também é possível divulgar todo o processo eleitoral. É um espaço
de comunicação entre todos os envolvidos com a escola. No processo de
divulgação, é fundamental deixar claro para todos os segmentos como será
realizado o processo eleitoral: características, prazos, candidatos, períodos
etc.
Além do mural, para a divulgação das eleições, pode-se criar um site, um
blog e também anunciar na rádio escolar. Em relação à divulgação impressa,
pode-se utilizar folder e/ou jornal do Conselho. Outra estratégia de mobili-
zação interessante é envolver toda a comunidade para conhecer o Conselho
Escolar. Ninguém participa efetivamente daquilo que não conhece, por isso é
fundamental que haja uma formação para que todos possam conhecer a impor-
tância dos Conselhos Escolares.
Podemos citar aqui duas formas de mobilização: a primeira é por meio
de seminários e palestras. Nesses encontros pode-se dar ênfase para alguns
temas, por exemplo: definição de Conselho Escolar, suas principais caracte-
rísticas e atribuições e como esse colegiado pode contribuir para a qualida-
de de ensino e aprendizagem na escola. A segunda forma de mobilização
pode ser por meio de plenárias e assembleias. É muito importante lembrar
a necessidade de mobilização para ampliar a participação nas assembleias
gerais.
A assembleia geral deve ser convocada pelo Conselho Escolar. Ela é um
espaço democrático, onde a comunidade escolar e a comunidade local se
reúnem para compartilhar e decidir as grandes questões referentes à escola.
As assembleias são soberanas nas suas decisões, isto é, qualquer delibera-
ção em contrário só terá validade se novamente apresentada e referendada
por outra assembleia geral. As assembleias gerais podem ser convocadas,
entre outros, para o esclarecimento do papel do Conselho Escolar, para di-
vulgar as propostas de trabalho das escolas e para fazer um balanço das
atividades realizadas.
Pode-se fazer, também, abordagens de temáticas atuais, como uma im-
portante estratégia de mobilização e qualificação. Nelas podem ser tratados
temas sociais e atuais de interesse comum, que contribuam para um melhor
desenvolvimento dos processos educativos na escola. Essa é uma forma de
chamar a comunidade para conjuntamente (ou coletivamente), sob a coor-
denação do Conselho Escolar, refletir sobre questões importantes.
14 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

É possível também trabalhar esse envolvimento em outros espaços,


como na reunião de pais e nos Planejamentos com professores e funcioná-
rios etc. Durante essas reuniões, é importante garantir um espaço na pauta
que possibilite a participação dos conselheiros escolares, na perspectiva de
construção de um diálogo constante com a comunidade.
Para funcionar melhor o processo eleitoral dos Conselhos Escolares é
fundamental que os conselheiros não sejam indicados pelos seus represen-
tantes, mas por um processo eleitoral. Cada membro deve ser eleito por
seu segmento, por um processo amplo, democrático e transparente, que
envolva toda a comunidade escolar.
Ao iniciar o processo eleitoral é necessário que haja uma reunião com
a comunidade para a constituição da Comissão Eleitoral. A Comissão Elei-
toral deve contar com a participação de, no mínimo, um representante de
cada segmento. Vale lembrar que, se o conselheiro for também candidato,
ele está impedido de participar da Comissão Eleitoral. Aconselha-se que a
Comissão Eleitoral possua um presidente e secretário para conduzirem esse
processo de forma democrática e transparente. Recomenda-se ainda que
na Composição da Comissão Eleitoral haja representatividade de todos os
turnos da escola.
As principais ações da Comissão Eleitoral são:
• A divulgação do cronograma de todo o processo de eleição, com datas
referentes à/ao: publicação do edital, inscrição dos candidatos, período
de campanha, eleição e a posse dos conselheiros. Vale ressaltar que o
edital deve ser publicado com bastante antecedência, para garantir toda
a mobilização e o processo democrático;
• Realização de Assembleias gerais e plenárias por segmento, separada-
mente, para apresentação dos candidatos e suas propostas;
• Registrar todo o processo eleitoral por meio de atas e relatórios;
• Realizar inscrição dos candidatos;
• Providenciar as condições materiais necessárias para realizar a eleição,
como: urnas, cédulas, listas de presença e de eleitores;
• Divulgação dos resultados e a posse dos conselheiros.
Diante de tantas atribuições, algumas dificuldades poderão surgir du-
rante o processo eleitoral, porém, deve-se perceber que o tempo e os con-
flitos de interesses são aspectos que inicialmente podem ser considerados
dificuldades, no entanto, podem ser vistos como uma potencialidade para
As funções do Conselho Escolar | 15

fortalecer o grupo. Nesse sentido, a dificuldade passa a ser um desafio, as-


sumido coletivamente pela comunidade escolar.
É importante ressaltar que uma dificuldade problematizada e superada
por todos, passa a fortalecer a construção da identidade coletiva. Isso é um
elemento indispensável no processo de construção democrática.
Nesse processo eleitoral podem ser eleitas a representação dos estu-
dantes, dos pais ou responsáveis pelos estudantes, dos professores e de-
mais funcionários. Lembrando que o diretor da escola é um membro nato do
Conselho Escolar, não havendo necessidade de ser eleito.
Como todo órgão colegiado, o Conselho Escolar toma decisões cole-
tivas, assim, ele só existe quando está reunido. Ninguém tem autoridade
especial fora do colegiado só porque faz parte dele. Daí a importância das
reuniões periódicas com todos os conselheiros.
Dentro desse órgão colegiado, o diretor atua como coordenador na exe-
cução das deliberações do Conselho Escolar, visando à efetivação do Proje-
to Político Pedagógico na construção do trabalho educativo. Ele poderá ser,
ou não, o próprio presidente do Conselho Escolar, conforme estabelecido
pelo Regimento Interno. Já os membros efetivos são os representantes de
cada segmento. Os suplentes podem estar presentes em todas as reuniões,
mas apenas com direito a voz, se o membro efetivo estiver presente.
A escolha dos membros do Conselho Escolar deve considerar a repre-
sentatividade, a disponibilidade, o compromisso, entre outros. O conselhei-
ro deve saber ouvir e dialogar, assumindo a responsabilidade de acatar e
representar as decisões da maioria, sem nunca desistir de dar opiniões e
apresentar as suas propostas, pois o Conselho Escolar é, acima de tudo, um
espaço de participação e, portanto, de exercício de liberdade.
A eleição dos integrantes do Conselho Escolar deve obedecer às dire-
trizes do sistema de ensino. Nesse sentido, é importante definir alguns dos
aspectos que envolvem esse processo: mandatos dos conselheiros, forma
de escolha, existência de uma Comissão Eleitoral, convocação de assem-
bleias gerais para deliberações, existência de membros efetivos e suplentes.
No processo eleitoral alguns cuidados devem ser observados, tais como:
o voto deve ser único, não sendo possível votar mais de uma vez na mesma
unidade escolar; garantir a paridade dos segmentos; assegurar a transparên-
cia do processo eleitoral; realizar debates e apresentar planos de trabalho
etc.
16 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

Após a eleição, deve-se agendar uma data para a posse dos conselhei-
ros. Depois de sua posse, recomenda-se a realização do Curso de Formação
para Conselheiros Escolares, no sentido de qualificar a sua atuação. Quanto
mais o conselheiro se qualifica, mais se fortalece o Conselho Escolar, pois
estes capacitados estão mais preparados para atuarem junto à comunidade
no desenvolvimento de suas funções.
Para finalizar este tema, é importante ressaltar que mobilizar, divulgar
e envolver as comunidades escolar e local faz nascer um Conselho Escolar
forte e consistente.

A função fiscal do Conselho Escolar


Com relação à função fiscal, ressaltamos que ela é caracterizada pelo
acompanhamento da gestão financeira, controle social e regulamentação.
Para executar tal função é fundamental a participação das comunidades es-
colar e local no Conselho Escolar.
A LDB indica o Conselho Escolar e o Projeto Político Pedagógico como
elementos fundantes da gestão democrática da escola. A Lei remete aos
sistemas de ensino a tarefa da regulamentação, assegurando, para sua efe-
tivação, progressivos graus de autonomia pedagógica, administrativa e de
gestão financeira às escolas públicas.
Os sistemas de ensino organizam e regulamentam a gestão democráti-
ca, por meio de leis, decretos, portarias e pareceres. Em geral, no processo
de elaboração dos instrumentos legais e normativos, procuram viabilizar
mecanismos participativos. Cada sistema de ensino tem suas leis e normas
que regulam a gestão democrática. Além da regulamentação do Conselho
Escolar e do Projeto Político Pedagógico, é normatizada, por exemplo, a es-
colha de dirigentes escolares.
É fundamental o conhecimento das leis e normas do Município, Distrito
Federal ou Estado, que regulamentam a gestão democrática para o pleno
exercício da função fiscal do Conselho Escolar.
É bom destacar a importância do Conselho em fiscalizar o cumprimento
do regimento escolar de forma a contribuir com o bom funcionamento da
escola. Muitas vezes o Regimento não é devidamente cumprido por neces-
sitar de adequação e atualização. Os conselheiros podem mobilizar a comu-
nidade para rever e atualizar o regimento da escola, caso seja necessário.
As funções do Conselho Escolar | 17

Faz parte também da função fiscal o acompanhamento e a avaliação das


ações no cotidiano da escola. Por exemplo, quando os conselheiros acom-
panham a execução das ações pedagógicas, administrativas e financeiras,
garantindo o cumprimento das normas da escola e a qualidade social da
educação.
Essa função se efetiva quando o Conselho Escolar é revestido de com-
petência legal para fiscalizar o cumprimento de normas e a legalidade ou
legitimidade de ações, aprová-las ou determinar providências para sua al-
teração. Para a eficácia dessa função, é necessário que o Conselho exerça
também o seu poder deliberativo.
Então, quando o Conselho Escolar planeja, define e acompanha o que
é feito com os recursos financeiros que chegam para a escola está exercen-
do a função fiscalizadora. Existem também outras atribuições do Conselho
Escolar, como por exemplo, elaborar seu próprio Regimento, coordenar o
processo de discussão ou alteração do mesmo, propor e coordenar discus-
sões junto aos segmentos, votar as alterações metodológicas, didáticas e
administrativas na escola e participar da elaboração do calendário escolar
– no que competir à unidade escolar, observada a legislação vigente.
Em relação ao calendário escolar, existem elementos que são organiza-
dos pela Secretaria de Educação e outros pela escola. Isso quer dizer que há
elementos no calendário que competem à escola, e o Conselho Escolar deve
discutir e deliberar coletivamente sobre esses elementos. Ele deve ainda
acompanhar a evolução dos indicadores educacionais (como abandono es-
colar, aprovação, aprendizagem, entre outros), e o resultado das avaliações
externas como, por exemplo, a Prova Brasil, que é um dos componentes do
IDEB.
O IDEB é o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica. Foi criado
em 2007 e representa a iniciativa de reunir, num só indicador, dois concei-
tos igualmente importantes para a qualidade da educação: fluxo escolar
e médias de desempenho nas avaliações. O indicador é calculado a partir
dos dados sobre aprovação escolar, obtidos no Censo Escolar, e médias de
desempenho nas avaliações do Inep: o Saeb, para as Unidades da Fede-
ração e para o país, e a Prova Brasil para os Municípios. Ele permite traçar
metas de qualidade educacional para os sistemas educacionais.
Por meio do conhecimento desses indicadores é que o Conselho Escolar
pode contribuir diretamente no processo de gestão da escola. Por exem-
plo: é possível solicitar a lista de frequência para identificar os estudantes
18 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

que não estão frequentando as aulas e, a partir daí, traçar estratégias para
trazê-los de volta à escola. Uma estratégia que pode ser utilizada é agendar
visitas à casa de cada estudante para saber o que justifica suas ausências.
O Conselho ainda propõe, quando se fizerem necessárias, intervenções
pedagógicas e/ou medidas socioeducativas visando à melhoria da qualida-
de social da educação escolar, deve estar atento inclusive às mudanças nas
legislações que influenciam diretamente no cotidiano da escola.
Os conselheiros escolares devem conhecer, acompanhar e fiscalizar os
recursos financeiros que a escola recebe. Existem vários programas Federais,
Estaduais e Municipais que descentralizam recursos diretos para a escola. É
função do Conselho Escolar fiscalizar o recebimento, a execução financeira e
a sua prestação de contas. Os conselheiros escolares devem estar atentos a
todos os outros programas que chegam à escola, com o propósito de que se
cumpram seus objetivos de melhoria da qualidade da educação. Programas
ligados, por exemplo, à formação de docentes, estrutura física da escola,
ampliação dos espaços pedagógicos, atividades complementares, dentre
outros.
Existem outras atribuições também importantes do Conselho Escolar,
são elas: avaliar e aprovar o Plano Anual da Escola, construído coletivamente,
inclusive a programação de aplicação de recursos financeiros, promovendo
alterações, se for o caso.
Vale ressaltar que a função de um conselheiro escolar é também um
aprendizado decorrente do exercício democrático de divisão de direitos e
responsabilidades na gestão escolar. Cada Conselho Escolar deve chamar
a discussão de suas atribuições, em conformidade com as normas do seu
sistema de ensino e da legislação em vigor.
E, acima de tudo, deve ser considerada a autonomia da escola e o seu
empenho no processo de construção de um Projeto Político Pedagógico
coerente com seus objetivos e prioridades, definidos em função das reais
demandas das comunidades escolar e local.
Para finalizar, não podemos esquecer que o grande objetivo da escola
e do Conselho Escolar é a qualidade do ensino e da aprendizagem. Para o
exercício dessas e de outras atribuições, é indispensável considerar que a
qualidade que se pretende atingir é a qualidade social, ou seja, a realização
de um trabalho escolar que represente, no cotidiano vivido, a garantia do
direito de aprender, bem como o crescimento intelectual, político e social
dos envolvidos.
As funções do Conselho Escolar | 19

A função pedagógica do Conselho Escolar


A função pedagógica do Conselho Escolar é uma função que mobiliza
um conjunto de saberes, valores, afetos constitutivos do ambiente da es-
cola. Todos os sujeitos sociais são responsáveis pela prática educativa, por
isso a contribuição do Conselho Escolar na construção do Projeto Político
Pedagógico e no acompanhamento da aprendizagem dos estudantes é tão
importante.
Para iniciar esta reflexão vamos pensar sobre a seguinte situação: mesmo
que um professor desempenhe da melhor forma possível a docência, se o
estudante não estuda e os familiares não educam e não acompanham a vida
escolar de seus filhos, a qualidade da educação ficará comprometida. Por
outro lado, se o estudante gosta de estudar, os familiares são presentes em
sua educação; mas se o professor e a gestão escolar não desenvolvem um
trabalho pedagógico comprometido com a formação ética e cognitiva do
estudante, a qualidade da educação também ficará prejudicada. Portanto,
é preciso entender que professores, estudantes, familiares, gestores, fun-
cionários e comunidade local devem caminhar juntos, compartilhando
objetivos comuns, expressos no Projeto Político Pedagógico.
É possível perceber que o exercício da função pedagógica do Conselho
Escolar se dá quando mobiliza e cria possibilidades para que as comuni-
dades escolar e local reflitam sobre questões pedagógicas, fazendo com
que cada um se sinta efetivamente partícipe dos processos educativos na
escola. Na medida em que cada segmento assume uma atitude de corres-
ponsabilidade para com esses processos, a educação passa a ser assumida
conscientemente por todos.
O processo educativo está presente em todos os espaços da escola, as-
sim como todos aqueles que estão envolvidos com o cotidiano escolar, por
isso, é necessário que cada um descubra como seu papel pode contribuir
para uma educação de qualidade. O estudante, a família, o funcionário, o
diretor, o professor e o representante da comunidade organizada ocupam
um lugar social na escola e na sociedade contribuindo como representantes,
pensando ações inovadoras, ressignificando valores, mediando problemas
etc.
20 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

Todos podem contribuir para a melhoria da qualidade da educação, mas


os membros do Conselho Escolar têm funções definidas, como:
• Participar de todas as reuniões do Conselho Escolar;
• Reunir-se com seu segmento para compartilhar ideias, informar as de-
liberações do Conselho, identificar necessidades e elaborar propostas;
• Contribuir na elaboração do Projeto Político Pedagógico da escola;
• Estimular a promoção de eventos educativos, envolvendo as comuni-
dades escolar e local (semana de artes, de ciências, gincanas, torneios
esportivos);
• Acompanhar a execução do calendário escolar, assegurando o cumpri-
mento dos duzentos dias letivos e das oitocentas horas anuais de efetivo
trabalho escolar estabelecido conforme o inciso I, do Artigo 24 da LDB;
• Discutir com o seu segmento e demais conselheiros, alternativas para
promover o respeito às diversidades étnico-racial, gênero e pessoas com
deficiências;
• Apropriar-se dos resultados das avaliações internas e externas da es-
cola, com o objetivo de acompanhar e propor ações de melhoria da
aprendizagem;
• Buscar a melhoria das condições de infraestrutura, materiais didáticos e
pedagógicos da escola;
• Acompanhar a execução dos encaminhamentos gerados no âmbito do
Conselho Escolar;
• Debater sobre situações de convivência na escola, ajudando a promover
uma cultura de paz;
• Participar de reuniões, cursos, seminários, fóruns e eventos promovidos
pela escola, e outras instâncias.
A escola é um todo composto por diferentes partes que se articulam
e interagem em prol de uma educação de qualidade. Essa unidade do
trabalho educativo se consolida na construção coletiva do Projeto Político
Pedagógico.
Ainda sobre a qualidade na educação, o Artigo 12 da LDB nos diz que:

Art. 12. Os estabelecimentos de ensino, respeitadas as normas comuns e


as do seu sistema de ensino, terão a incumbência de:
VI - articular-se com as famílias e a comunidade, criando processos de inte-
gração da sociedade com a escola;
As funções do Conselho Escolar | 21

VII - informar pai e mãe, conviventes ou não com os seus filhos, e, se for o
caso, os responsáveis legais, sobre a frequência e rendimento dos alunos,
bem como sobre a execução da proposta pedagógica da escola;
VIII - notificar ao Conselho Tutelar do município, ao juiz competente da
Comarca e ao respectivo representante do Ministério Público a relação dos
alunos que apresentem quantidade de faltas acima de cinquenta por cento
do percentual permitido em lei.

Mas, não basta apenas informar ou notificar a família sobre o desempenho


do estudante, é importante destacar que o processo de ensino e de apren-
dizagem é muito mais amplo do que a divulgação de notas e resultados. O
Conselho Escolar deve avaliar a qualidade da educação ofertada pela esco-
la, sem perder a visão de todo o processo educativo, não devendo se centrar
exclusivamente no desempenho do estudante. Assim, além da avaliação do
desempenho dos estudantes, deve-se procurar estabelecer um cronograma
que contemple as demais dimensões do processo educativo: o contexto
social, o processo de gestão democrática, as condições físicas, materiais e
pedagógicas da escola e o desempenho dos educadores docentes e não
docentes.
É preciso haver também a preocupação com o processo de ensino e
de aprendizagem. Ao se tratar da aprendizagem, verifica-se que quando a
transmissão de conhecimentos é o único objetivo, o professor é visto como o
único que detém o conhecimento. Nessa perspectiva, a concepção, a capa-
cidade de ver o outro, de captar a aprendizagem já existente no estudante,
tende a não ser considerada pelo professor. Ao contrário, o processo de
ensino e de aprendizagem é uma via de mão dupla: de um lado, o professor
ensina e aprende e, de outro, o estudante aprende e ensina, num processo
permeado de contradições e de mediações.
São inúmeras as variáveis que interferem nesse processo, tais como as
condições materiais e as relações humanas. E toda essa complexidade deve
ser compreendida e trabalhada por aqueles que constroem o cotidiano
escolar.
Nesse sentido, o Conselho Escolar, na sua ação mediadora, precisa
considerar os segmentos que participam desse processo de crescimento,
especialmente o estudante e o professor. Assim, na avaliação do processo
de ensino e de aprendizagem, deve-se tentar superar a simples aparência e
buscar a essência dessa atividade.
22 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

Para se ter a dimensão global de todo processo, algumas perguntas po-


deriam indicar essa ação pedagógica do Conselho Escolar, são elas:
• Em que contexto social a escola está inserida?
• Quais as condições físicas e materiais que a escola oferece, para que o
ensino e a aprendizagem ocorram com qualidade?
• Como a escola vem desenvolvendo a gestão democrática?
• Como acontece a formação continuada dos professores e dos funcioná-
rios da escola?
• Quais os instrumentos de avaliação que a escola utiliza para identificar a
aprendizagem dos estudantes?
• Como os estudantes têm respondido às avaliações?
• O que a escola tem feito com os resultados do desempenho dos
estudantes?
Vale ressaltar que ao considerarmos esses questionamentos, o Conselho
Escolar passa a ter uma atuação mais efetiva na dimensão desse proces-
so de ensino e de aprendizagem. Percebe-se que, no acompanhamento e
avaliação realizados pelo Conselho Escolar, há de se considerar, além do
produto expresso nas notas/menções dos estudantes, o processo no qual
se deu essa aprendizagem, revelado nas condições da escola e na ação do
professor, entre outros.
Com base nesse panorama global do processo educativo, o Conselho
pode auxiliar a escola na efetivação de seu compromisso em desenvolver co-
nhecimentos, habilidades e atitudes, então, a partir de todas essas questões
apresentadas, podemos auxiliar no desenvolvimento de uma educação de
qualidade. E esta aprendizagem passa a ser o resultado do esforço realizado
por todos os segmentos da escola, pois o sucesso ou fracasso da aprendiza-
gem é coletivo, ou seja, da escola como um todo.
É importante perceber que a comunidade local e a escolar são responsá-
veis pelo processo de construção do conhecimento, pelo acompanhamento
corresponsável do processo educativo, e cabe ao Conselho Escolar identi-
ficar os aspectos a serem avaliados, além de saber quais os que podem ser
considerados adequados ao trabalho desenvolvido.
As funções do Conselho Escolar | 23

Conselho Escolar e a dimensão Político-Pedagógica


A dimensão político-pedagógica do Conselho Escolar evidencia-se na
escola que se relaciona com um projeto de uma sociedade justa, com ênfase
na construção de processos educativos emancipadores. É fundamental a
existência de espaços propícios para que novas relações entre os diversos
segmentos escolares possam acontecer. Segundo o filósofo italiano Norber-
to Bobbio,

quando se quer saber se houve um desenvolvimento da democracia num


dado país, o certo é procurar saber se aumentou não o número dos que
têm direito de participar das decisões que lhes dizem respeito, mas os
espaços nos quais podem exercer esse direito.

O Conselho Escolar constitui um desses espaços, juntamente com


o Conselho de Classe, o Grêmio Estudantil e a Associação de Pais e
Mestres. Dentre as inúmeras características que o Conselho Escolar pos-
sui, uma lhe confere dimensão fundamental: ele se constitui uma forma
colegiada da gestão democrática, portanto, a gestão deixa de ser o
exercício de uma só pessoa e passa a ser uma gestão colegiada, na qual
os segmentos escolares e a comunidade local se congregam para, jun-
tos, constituírem uma educação de qualidade. Com isso, compartilha-se
as decisões e as suas responsabilidades.
Como vimos existem várias funções do Conselho Escolar, e deve ser
um parceiro de todas as atividades que se desenvolvem na escola. Todo
esse processo de participação da gestão democrática precisa estar ligado,
prioritariamente, à essência do trabalho escolar. Dessa forma, acompanhar o
desenvolvimento da prática educativa e do processo de ensino e de apren-
dizagem é uma tarefa muito importante.
É fundamental, também, esclarecer que dessa maneira a função políti-
co pedagógica do Conselho Escolar se expressa no acompanhamento do
processo educacional. Por meio do Projeto Político Pedagógico, é possível
planejar, implementar e avaliar o processo educacional, pois o Conselho Es-
colar participa da construção desse instrumento e acompanha o desenrolar
das ações da escola, num processo permanente de participação e avaliação.
Esses momentos de avaliação servem como diagnóstico, isto é, como
apresentação da realidade que indica quais aspectos podem ser mantidos,
quais os que devem ser revistos e quais novos procedimentos precisam ser
propostos, na prática cotidiana da escola.
24 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

Toda essa ação de acompanhamento tem uma finalidade maior: a


construção de uma educação democrática. Portanto, é fundamental que o
Conselho Escolar exerça sua função pedagógica junto à comunidade para
discutir a qualidade da educação ofertada na escola.
Nesse sentido, os conteúdos a serem desenvolvidos em sala de aula, a
metodologia a ser empregada pelos docentes, a avaliação da aprendizagem
escolhida e o processo de participação dos diversos segmentos nas ativida-
des escolares devem ser coerentes com o Projeto Político Pedagógico da
escola.
O Projeto Político Pedagógico indica a forma como deverá ser conduzi-
do todo o processo educacional desenvolvido na unidade escolar e, a partir
de então, sabendo onde se deseja chegar e que concepção de educação
se deseja desenvolver, o Conselho Escolar deve iniciar uma ação consciente
e ativa na escola. É por isso que é tão importante compreender porque a
função do Conselho Escolar é fundamentalmente político pedagógica. É
política, na medida em que estabelece negociações e transformações de-
sejáveis na prática educativa escolar, e é pedagógica, pois estabelece os
mecanismos necessários para que essa transformação realmente aconteça.
Para finalizar, é necessário compreender a educação como uma ação
social e entender o Conselho Escolar como um mecanismo de gestão de-
mocrática colegiada.

Educação de qualidade e a organização da escola


Esta parte do texto trata do Conselho Escolar como um exercício demo-
crático e responsável no acompanhamento das atividades da escola. Versa
sobre o modo como a escola se organiza para atender ao direito do estudan-
te de ter acesso a uma educação de qualidade e como esta se configura em
um espaço de exercício de direito.
A função da escola é provocar o desenvolvimento da consciência, asse-
gurando ao estudante o acesso e a apropriação de um conhecimento siste-
matizado, mediante a instauração de um ambiente propício ao saber escolar
e às práticas de convivência democrática. Mas, para cumprir essa função, a
escola precisa construir, de forma coletiva, um Projeto Político-Pedagógico
(PPP). O PPP é um instrumento de planejamento coletivo, capaz de orientar
a unidade do trabalho escolar e garantir que não haja uma divisão entre
os que planejam e os que executam. Elaborado, executado e avaliado
As funções do Conselho Escolar | 25

de forma conjunta, carrega em si os elementos de uma ação pedagógica


participativa.
Nesse processo os segmentos planejam juntos, e isso possibilita uma
visão menos unilateral do todo escolar. Cada um que executa uma parte
desse todo contribui na elaboração do conjunto de ideias, normas e orienta-
ções pedagógicas para compor esse que deve ser o guia de todo o trabalho
escolar. O Conselho Escolar, por se constituir dos diversos segmentos que
organizam a comunidade escolar, é o espaço adequado para a construção
desse documento.
O PPP torna-se, nesse contexto, o instrumento mais importante na or-
ganização da escola rumo a uma educação de qualidade. Para garantir esse
direito – uma educação de qualidade – a escola precisa se organizar para
oferecer também um espaço favorável à plena formação do estudante. Al-
guns fatores são necessários, como:
• espaços físicos adequados;
• materiais didáticos de qualidade e compatíveis com o projeto educacio-
nal da escola e da comunidade local;
• autonomia na gestão;
• quantidade adequada de estudantes por professor;
• autonomia profissional para os docentes;
• práticas de avaliação sistemáticas;
• respeito à diversidade;
• familiares envolvidos com as atividades da escola;
• ambiente favorável à aprendizagem;
• responsabilidade docente.
Com isso, e de posse do conhecimento da dimensão do trabalho es-
colar, com o envolvimento das comunidades escolar e local, cada um pode
executar seu trabalho de forma mais integrada. O PPP, ainda, constitui o nor-
te orientador das atividades curriculares e da organização da escola, ele se
expressa nas práticas cotidianas, traduzindo os compromissos institucionais
relativos ao direito, consagrado nas leis brasileiras, e garantindo a todos o
acesso à educação escolar pública, gratuita e de qualidade.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9394/96) dispõe,
no artigo 22, que a Educação Básica tem por finalidade desenvolver o edu-
cando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da
cidadania e fornecer-lhe os meios para progredir no trabalho e em estudos
posteriores.
A LDB 9394/96 fornece, ainda, o amparo legal para que a escola se or-
ganize de formas variadas, desde que sejam observadas as diretrizes do
sistema de ensino, em cada um dos segmentos e modalidades que com-
põem o Sistema Educacional Brasileiro, e os demais dispositivos da legisla-
ção. De acordo com o artigo 23 da LDB 9394/96, a Educação Básica poderá
organizar-se:

1) em séries anuais;
2) em períodos semestrais;
3) em ciclos;
4) por alternância regular de períodos de estudos;
5) em grupos não seriados;
6) com base na idade;
7) com base na competência;
8) em outros critérios;
9) ou por formas diversas de organização, sempre que o interesse do
processo de aprendizagem assim o recomendar.

De acordo com a Lei, cabe aos sistemas de ensino delimitar a forma


de organização das escolas, como preceituam os vários dispositivos da LDB
9394/96, e, à escola, no âmbito do PPP, explicitar as formas de organização
que adota e que deverão constar no Regimento Escolar. É importante ressal-
tar que em vários estados e municípios vêm ocorrendo experiências e novas
formas de organização do trabalho escolar.
É possível perceber que tradicionalmente predominou, nos sistemas de
ensino e nas escolas, a organização em séries anuais ou períodos semestrais,
mas já existem experiências em escolas públicas brasileiras que vêm modifi-
cando essa forma de organização.
A Lei de Diretrizes e Bases (LDB 9394/96) introduziu inovações para a
organização da escola, e ao instituir a flexibilidade de organização garantiu
o princípio da autonomia dos sistemas de ensino e das escolas e reconheceu
a diversidade como parte desse sistema. Essa flexibilização tem um aspecto
importante, pois, se de um lado permite a utilização de mecanismos para
enfrentar a questão cultural da reprovação escolar, presente nos sistemas de
ensino, de outro lado, favorece a abertura da escola a amplos contingentes
da população para a Educação Básica.
As funções do Conselho Escolar | 27

Essa flexibilidade deve ser acompanhada de perto e (re)avaliada perma-


nentemente para que não se perca de vista o interesse público da escola de
qualidade que almejamos para todos, o Conselho Escolar tem uma inserção
importante no acompanhamento desse processo.
Um Conselho escolar ativo e participativo pode realmente modificar o
cotidiano escolar e garantir a qualidade desde a organização da escola, na
relação até mesmo com o Calendário Escolar, até a organização dos dias
letivos. A flexibilidade da escola em relação a esses aspectos é limitada aos
dispositivos de lei e diretrizes nacionais. São 200 dias letivos, excluído o tem-
po reservado aos exames finais, quando previsto no calendário escolar. A Lei
ainda define a jornada escolar que no Ensino Fundamental deve incluir pelo
menos quatro horas de trabalho efetivo em sala de aula, ou seja, trata-se de
240 minutos diários, no mínimo. Há ressalvas em relação aos cursos notur-
nos e outras formas mencionadas no artigo 34, parágrafo 1o. Mesmo nessas
situações, às 800 horas anuais e os 200 dias letivos deverão ser cumpridos.
A LDB 9394/96 também sinaliza para o ensino em tempo integral. Diz o
artigo 34, parágrafo 2o, que “o Ensino Fundamental será ministrado progres-
sivamente em tempo integral, a critério dos sistemas de ensino” (BRASIL,
1996). O calendário escolar traduz uma preocupação em garantir o tempo
de aprendizagem ao estudante. De acordo com a LDB 9394/96, a escola
pode organizar as suas atividades curriculares considerando a realidade em
que está inserida e o seu PPP, mas deve cumprir as determinações de carga
horária e dias letivos.
Por outro lado, a atividade escolar não se realiza exclusivamente dentro
da escola, isto é, dependendo do contexto em que se insere, são múltiplas
as possibilidades de outros espaços que a escola pode identificar para a
realização do trabalho pedagógico de natureza teórica ou prática. Toda e
qualquer programação incluída na proposta pedagógica da escola, com
exigência de frequência dos estudantes e sob a responsabilidade de pro-
fessores, será caracterizada como atividade escolar.
É bom ressaltar que essa flexibilidade traz grandes responsabilidades
para a gestão da escola e para a condução do processo de ensino e de
aprendizagem. Para efetivar essas atividades curriculares, considerando o
tempo de aprendizagem do estudante, os docentes e gestores precisam de-
senvolver práticas democráticas de (re)organização do fazer cotidiano e da
gestão da escola, com objetivos pedagógicos claros, incentivando posturas
de comprometimento da comunidade escolar.
28 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

É determinante que o Conselho Escolar, na figura de seus conselheiros,


compreenda as razões da adoção de um determinado tipo de organização
das classes e turmas. Verificar se o tipo de organização das classes favorece
a existência de práticas pedagógicas mais integradas na escola é papel do
Conselho e de seus conselheiros. É preciso buscar práticas integradoras que
favoreçam a articulação das atividades curriculares, considerando de forma
adequada os tempos e os espaços escolares.
Para que o Conselho Escolar possa ter uma visão mais concreta sobre
a adequação do tempo escolar às atividades pedagógicas propostas pelos
docentes, ele deve dar visibilidade aos processos formativos que envolvem
os estudantes e os docentes. Assim, estará contribuindo com a abertura de
espaços na escola e favorecendo uma relação integradora com a comunida-
de local, tornando possível realizar feiras de conhecimento, seminários com
relatos de experiências, desenvolvimento de projetos e outras iniciativas
semelhantes.
Cabe ao Conselho Escolar ficar atento se a organização do trabalho pe-
dagógico está respeitando o ritmo de aprendizagem dos estudantes, ele
pode auxiliar a escola na ampliação de sua autonomia em relação à condu-
ção das atividades pedagógicas e administrativas, sem que a instituição per-
ca sua vinculação com as diretrizes e normas do sistema público de ensino.
O tempo pedagógico tem que ser aliado tanto do estudante como do
professor, assim como para o estudante o tempo mais adequado é aquele
que respeita o seu ritmo de aprendizagem, para o professor, o tempo deve
ser alvo de organização e possibilidades de ensino e de aprendizagem para
o aluno.
Importante lembrar que a frequência dos estudantes é importante neste
processo de ensino e de aprendizagem, por isso, como já foi dito, o Con-
selho Escolar deve estar atento e identificar e compreender os motivos de
ausências discentes. Assim, será possível criar estratégias que possibilitem
que o aluno volte a frequentar a escola regularmente. A Lei de Diretrizes e
Bases da Educação Nacional fixa que o controle de frequência fica a cargo
da escola, sendo exigida uma frequência mínima de 75% do total de horas
letivas para aprovação do aluno. Um olhar atento sobre ausências muito re-
levantes pode evitar um abandono escolar de maiores proporções.
O Conselho Escolar constitui o espaço mais adequado para, de forma
compartilhada, esclarecer as dúvidas, encontrar saídas alternativas e propor
novas condutas de participação individual e coletiva no ambiente escolar. O
As funções do Conselho Escolar | 29

tempo escolar não pode ser desperdiçado, visto que ele pode ser um fator
determinante para o aprendizado do aluno. Quando o espaço e o tempo da
escola são estruturados de forma a desenvolver situações que estimulam a
curiosidade e a criatividade dos estudantes, é oportunizado aos alunos um
mecanismo de um pensar relacional com o mundo. Os docentes têm grande
responsabilidade com esse aprendizado a partir do processo de ensino e da
didática de sala de aula.

Referências
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30 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar
2

CONSTITUIÇÃO, ORGANIZAÇÃO E
FUNCIONAMENTO DOS CONSELHOS
ESCOLARES
Swamy de Paula Lima Soares
Francisco Herbert Lima Vasconcelos

A constituição dos Conselhos Escolares

A trajetória de constituição dos Conselhos, seu significado e o papel


que desempenharam ao longo da história da educação brasileira é algo
que deve ser refletido. Importante, também, fazermos a distinção entre os
conselhos na gestão dos sistemas de ensino e os conselhos na gestão das
instituições educacionais. E, por fim, tratar dos Conselhos Escolares como
estratégia para a efetivação do princípio constitucional da gestão democrá-
tica da educação pública.
As instituições sociais, em geral, são fruto de longa construção histórica
e a origem dos conselhos se perde no tempo e se confunde com a história
da política e da democracia. Os registros históricos indicam que já existiam,
há quase três milênios, no povo hebreu, nos clãs visigodos e nas cidades-
-estados do mundo grego, Conselhos como formas originais de gestão dos
grupos sociais. A Bíblia registra que Moisés reuniu setenta anciãos ou sábios
para ajudá-lo no governo de seu povo, dando origem ao Sinédrio, o Conse-
lho de Anciãos do povo hebreu.
No Brasil, uma das maiores experiências com Conselho aconteceu em
Canudos no Arraial do Belo Monte, Sertão da Bahia, entre os anos de 1893 e
1897. Um Conselho de doze membros sob a liderança de Antônio Conselheiro
32 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

construiu uma comunidade, onde tudo o que era produzido pertencia a toda
a comunidade. Todos tinham direito a ter alimentação, casa e educação.
Os Conselhos populares exerciam a democracia direta e/ou democracia
representativa como estratégia para resolver as tensões e conflitos resul-
tantes dos diferentes interesses e eram a voz das classes que constituíam as
comunidades locais.
O sentido dado aos Conselhos foi construído historicamente, eles sem-
pre se situaram na interface entre o Estado e a sociedade civil. Muitas vezes
foram utilizados na defesa dos interesses das elites, tutelando a sociedade.
Nos tempos atuais, os Conselhos, como espaços de interesses e conflitos,
buscam a cogestão das políticas públicas, se constituindo em canais de par-
ticipação popular na realização do bem público.
Para formar uma compreensão mais acurada sobre Conselhos, é impor-
tante entender que existe uma grande diferença entre os valores procla-
mados e os valores reais. Temos, por exemplo, os valores proclamados que
representam as finalidades educacionais, expressas na Constituição, nas leis,
nas normas dos sistemas de ensino e nos Projetos Políticos Pedagógicos das
instituições educacionais, e, de outro, sua negação, quando na prática do
cotidiano escolar esses valores, muitas vezes, não acontecem. É como se
fosse de um lado o projeto, do outro a ação.
Em outras palavras, o projeto-intencionalidade constitui a expressão do
projeto de sociedade que desejamos construir por meio da atividade educa-
tiva, e o projeto-programa é representado pela organização e ação concreta
da escola. Nesse sentido, o Conselho Escolar foi criado para colocar em prática e
fazer valer o que está escrito, sem impor a vontade de um só sujeito, mas de um
coletivo. O Conselho visa atender às necessidades das comunidades escolar e
local, participando da gestão escolar de maneira coletiva e democrática.
O Conselho Escolar se constitui na própria expressão da escola, como
seu instrumento de tomada de decisão. O perfil dos Conselhos Escolares
hoje, com o poder de atuação que possui, originou-se nas lutas dos movi-
mentos populares de redemocratização, no final dos anos de 1970, nos quais
se reivindicava participação nos mais variados setores. Nesse período, esses
movimentos começaram a ter maior visibilidade no sistema de ensino público,
por meio de algumas experiências de gestão dos colegiados, ou seja, com a
participação de segmentos da escola.
Toda legislação que existe hoje e fundamenta o Conselho Escolar é fruto
da Constituição Federal de 1988, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Constituição, organização e funcionamento dos Conselhos Escolares | 33

Nacional (LDB 9394/96) e o Plano Nacional de Educação. Elas carregam al-


gumas bandeiras históricas presentes, inclusive, no Manifesto dos Pioneiros
da Educação Nova de 1932.
Durante a construção do conceito de Conselhos, duas expressões con-
correntes surgiram para denominá-lo, são elas: Conselho Escolar e Conselho
de Escola. Neste texto é adotado o termo Conselho Escolar, pois seguimos
a LDB e a tradição da área educacional.
No setor educacional, a tradição consagrou o termo Conselho acom-
panhado da especificação da área institucional de abrangência – no caso,
Conselho Nacional, Estadual ou Municipal de educação – para distinguir das
demais áreas de ação governamental. Seguindo essa tradição, a LDB e a
maioria dos sistemas de ensino adotaram o termo Conselho Escolar, sim-
plesmente. Porém, mais importante do que a denominação adotada, é a
presença atuante desse colegiado no cotidiano da escola.
Uma das características mais relevantes do Conselho Escolar é o fato
de: ser integrante da estrutura de gestão da escola e fala em nome da co-
munidade escolar. Por isso, para poder falar da escola ao governo em nome
das comunidades escolar e local, é preciso considerar os diferentes pontos
de vista. Isso significa que a composição do conselho precisa representar as
diferenças existentes entre as pessoas de sua comunidade.
Dessa forma, é fundamental que os participantes sejam representativos,
pois a nossa maneira de ver o mundo é única e é construída a partir das
nossas próprias concepções. Por isso, a visão do todo requer considerar as
diferentes perspectivas: da direção, dos professores, dos funcionários, dos
pais, dos estudantes e todos os sujeitos ao qual a escola pertence.
Além disso, é imprescindível ressaltar que se a escola pertence ao pú-
blico, então a gestão pública precisa ser exercida de forma pública. Para
instituir a legítima gestão democrática da escola pública é preciso lhe confe-
rir autonomia e poder, que possibilita a participação. Para concluir, os repre-
sentantes escolhidos ou nomeados dos segmentos nos Conselhos Escolares
devem representar a voz da escola pública.

Organização e funcionamento dos Conselhos Escolares


A natureza e a organização dos Conselhos Escolares devem ser destaca-
das pelo diálogo e a busca pela garantia do direito a educação. O sentido
de participação dos conselheiros escolares visa à valorização da dignidade
34 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

humana com base na construção de uma sociedade democrática. A Cons-


tituição Federal de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
(LDB de 1996) são duas referências legais importantes que preconizam o es-
tímulo à gestão democrática do ensino público e ao regime de colaboração
entre os entes federados.
A Secretaria de Educação, ao planejar a implantação de Conselhos Es-
colares, deve fazer uma ampla mobilização, conscientizando todos os seg-
mentos sobre o papel do Conselho Escolar e a sua importância para garantir
a gestão democrática. Sugere-se que a regulamentação dos Conselhos
Escolares seja feita por meio de leis, decretos e portarias.
Vejamos quais são as principais atribuições dos Conselhos Escolares:
• Elaborar o Regimento Interno do Conselho Escolar, que define ações
importantes, como periodicidade de reuniões e assembleias gerais,
substituição de conselheiros, condições e garantia de participação,
processos de tomada de decisões, indicação das funções do Conselho,
dentre outras.
• Ter uma importante função no debate sobre os principais problemas da
escola e suas possíveis soluções.
• Participar da elaboração, discussão e aprovação do Projeto Político Pe-
dagógico da escola. Cabe ao Conselho Escolar avaliá-lo, acompanhá-lo
e propor alterações.
Define-se Projeto Político Pedagógico (PPP) como um documento oficial
e eficaz para garantir a unidade das ações educativas na escola. Essa unida-
de exige, primeiro, o conhecimento de todo o trabalho que se desenvolve
na escola, em suas especificidades e na relação que existe entre as partes. A
partir do PPP, o Conselho Escolar acompanha todo o processo, auxiliando na
melhoria da qualidade da educação.
Para a elaboração do Projeto Político Pedagógico é importante que a
escola consulte toda a legislação indispensável à tomada de decisões: as
Constituições Federal e Estadual, a Lei Orgânica do Município, os Planos
Nacional, Estadual e Municipal de educação, as normas dos Conselhos
Nacional, Estadual e Municipal de Educação, o Estatuto da Criança e do
Adolescente.
Conhecer a concepção de Conselho Escolar, segundo os princípios da
gestão democrática (determinados pela LDB), significa atribuir às unidades
federadas a competência para definir as normas de gestão democrática do
Constituição, organização e funcionamento dos Conselhos Escolares | 35

ensino público na Educação Básica. A LDB, no Artigo 14, condiciona essa


definição a dois princípios:

1. O primeiro é a participação dos profissionais da educação na elabo-


ração do Projeto Político Pedagógico da escola;
2. O segundo é a participação das comunidades escolar e local em
Conselhos Escolares ou equivalentes.

Os sistemas de ensino adotam diferentes alternativas para a participação


das comunidades escolar e local na gestão da escola, entretanto, é preciso
garantir a figura do Conselho Escolar no sentido propriamente dito, como
colegiado deliberativo, consultivo, fiscal, mobilizador e pedagógico, inseri-
do na estrutura de gestão da escola e regulamentado pelo seu Regimento.
A regulamentação do Conselho Escolar pode variar quando ele também
assume a função de Unidade Executora. Isso nos remete a observar as legis-
lações específicas da gestão financeira de programas que proporcionam a
transferência de recursos para a escola. A Unidade Executora é responsável
pelo recebimento, execução e prestação de contas dos recursos financeiros
destinados às escolas públicas.
Um dos aspectos fundamentais para os membros de um Conselho Es-
colar é o diálogo, entendido como um exercício de se colocar no lugar do
outro. Esse é o grande sentido da ação democrática: a promoção do
diálogo e da alteridade.
Antes, estudantes, funcionários e a comunidade envolvida diretamente
nas práticas educativas no espaço escolar pouco participavam das decisões,
hoje, podem participar. Uma das grandes tarefas que o Conselho Escolar
deve colocar em prática – o convívio com o pluralismo cultural, econômico
e político dos sujeitos participantes do processo educacional, com objetivo
de garantir com qualidade a educação. As diferenças entre sujeitos natural-
mente propiciam conflitos e ideias que marcam o pensamento divergente no
Conselho Escolar. Nesses casos, é preciso garantir não somente o respeito a
essas diferenças, mas abrir espaço para que cada um possa apresentar e ser
considerado nas suas necessidades e potencialidades.
Quando os conflitos inevitavelmente ocorrem na escola, há uma ten-
dência ora de ignorá-los, ora de desconsiderá-los, ora de reduzi-los. Todas
essas posições demonstram o desrespeito e desconsideração com o outro.
A ação democrática proposta pelo Conselho Escolar precisa romper com a
lógica centralizadora e única de opiniões, posturas, aspirações e demandas
36 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

das diferentes pessoas que agem no interior da escola. Os funcionários, por


exemplo, precisam ser ouvidos como parte integrante e importante para o
funcionamento da escola.
Na perspectiva de melhorar a educação e o país, o Conselho Escolar
deve cumprir o papel de mediador de conflitos e construir entendimen-
tos possíveis. Assim, a escuta atenta dos distintos sujeitos e à abertura de
espaços para a concretização do debate de opiniões e ideias, tornam-se
fundamentais para a percepção dos interesses existentes na escola. É muito
importante que as deliberações do Conselho Escolar considerem essas dife-
renças para garantir a unidade na escola.
O respeito ao pluralismo, como atitude indispensável dos diferentes
segmentos que compõem o Conselho Escolar, torna-se garantia de um am-
biente efetivamente democrático na escola, contribuindo, significativamen-
te, para a melhoria das relações entre todos na escola.
É preciso respeitar e criar condições para o desenvolvimento das poten-
cialidades dos estudantes, bem como o atendimento de suas necessidades
específicas.
Há muitas vezes uma visível fragmentação das atividades da escola, e as
pessoas fazem o seu trabalho e pouco conhecem ou se interessam pelo tra-
balho do outro, por isso, muitas vezes as partes executam ações fragmenta-
das e desconectadas. É importante que exista a unidade no trabalho escolar,
ao compartilharmos na escola temos mais sucesso nas práticas educativas.
Quando as partes desse trabalho se distanciam, quando seus membros per-
dem a noção da totalidade e, muitas vezes, percebem sua “parte” como “o
todo”, a escola tende a ver seus esforços se reduzirem na fragmentação.
Em uma escola sem unidade, as partes, ou seja, o meu trabalho, o seu
e o dos outros não se relacionam. Tornam-se partes que fragmentam o
conhecimento e as ações, que distanciam todos os sujeitos envolvidos no
trabalho escolar. E, fragmentados, os sujeitos perdem a dimensão do viver
em sociedade, pois se tornam individualistas, voltados somente para seus
próprios desejos.
Como vimos, o Projeto Político Pedagógico da escola é um documento
que orienta à prática educativa, resgata a unidade do trabalho escolar e ga-
rante que não haja uma divisão entre os que planejam e os que executam.
O PPP elaborado, executado e avaliado de forma conjunta, constitui-se
em uma lógica. Por isso, de posse do conhecimento de todo o trabalho es-
colar, os diversos profissionais e segmentos envolvidos (gestores, técnicos
Constituição, organização e funcionamento dos Conselhos Escolares | 37

administrativos e de apoio, docentes, discentes, pais e comunidade local)


cumprem suas funções específicas, sem torná-las estanques e fragmentadas.

As ações do Conselho Escolar com foco na melhoria da qualidade


da educação pública
As ações do Conselho Escolar devem ter como foco a melhoria da qua-
lidade da educação pública, para isso definimos o conceito de qualidade da
educação no contexto da valorização da escola pública.
O termo qualidade da educação aparece, frequentemente, nas narrati-
vas das políticas públicas em educação. No entanto, esse termo tem tomado
forma e conteúdo diferentes, acompanhando as mudanças ocorridas na so-
ciedade e na educação. É possível perceber que nos últimos anos, a busca
pela qualidade tem sido o “motor” das políticas e das ações na educação.
Nesse sentido, precisamos conhecer a origem desse conceito de qualidade.
Na década de 1990, o conceito de qualidade da educação, que prevale-
ceu em algumas políticas públicas, foi construído a partir do argumento de
que o Brasil havia atingido a quase universalização do Ensino Fundamental,
com mais de 90% de atendimento. Portanto, a qualidade da Educação Bási-
ca (especialmente no Ensino Fundamental) se reduzia à garantia do acesso à
escola. A existência de crianças e jovens fora da escola era atribuída apenas
à reprovação e à evasão escolar, isto é, a escola era responsabilizada pelo
fracasso escolar.
Hoje, é possível entender que a discussão sobre a qualidade na educa-
ção aborda a garantia do direito de aprender, a valorização profissional, a
ampliação dos tempos de aprendizagem, a gestão democrática e a infraes-
trutura necessária as necessidades educativas. Essa visão de qualidade que
se limita somente ao acesso à escola, não garante a permanência do aluno
na escola e o seu sucesso na escolaridade. Ressalta-se que não existem
“modelos” e “fórmulas mágicas” para a qualidade educacional. A qualidade
deve ser fruto da construção coletiva e consciente.
É importante lembramos que não se discute educação sem en-
frentarmos a questão de existir diferentes classes sociais no Brasil. Não
conseguimos atender a qualidade de ensino sem levar em conta o público
alvo da escola pública: em geral, sujeitos em situação de pobreza ou extrema
pobreza. Na educação o sentido de “qualidade” precisa ser decorrente do
38 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

desenvolvimento de relações contextualizadas, sua gestão deve contri-


buir com a escola pública, fortalecendo a relação entre democratização e
qualidade.
A escola de qualidade é aquela que contribui com a formação dos estu-
dantes nos aspectos culturais, sociais, econômicos, políticos e éticos. Nesse
sentido, o ensino de qualidade está intimamente ligado à formação do estu-
dante como sujeito do mundo.
O sentido de qualidade na educação não se reduz a atender, apenas, os
padrões de qualidade voltados para a classificação ou exclusão de estudan-
tes. Sendo assim, podemos refletir sobre os seguintes aspectos:
Como podemos medir a qualidade na educação?
Será que devemos avaliar ou medir apenas por meio de indicadores?
Sabemos que além de indicadores internos e externos, que são tam-
bém muito importantes, é fundamental que o Conselho Escolar considere
as dimensões qualitativas do processo educativo. Isso significa considerar
e avaliar as atitudes, os valores e procedimentos que existem nas relações
dentro da escola.
É possível perceber que uma escola tem boa qualidade quando identifi-
camos alguns atributos:
• Ser responsável pela aprendizagem dos estudantes;
• Admitir correntes de pensamento divergentes com respeito;
• Ser humana, por identificar o aluno como foco do processo educativo.
Após a reflexão sobre o conceito de qualidade da educação pública,
compreende-se, ainda mais, a importância do Conselho Escolar para a me-
lhoria da escola e, consequentemente da educação.

Conselho Escolar: instrumentos, procedimentos e práticas para


um bom funcionamento
Entre os mecanismos de participação presentes no interior da escola,
encontra-se o Conselho Escolar – organismo colegiado, campo pedagógico
de aprendizado das noções de direitos e deveres e base da compreensão e
desenvolvimento do conceito de cidadão. A gestão democrática torna ne-
cessária a efetivação de novos processos de organização e gestão, baseados
em uma dinâmica que favoreça os processos coletivos e participativos de
decisão. Nesse sentido, é fator determinante para uma efetiva atuação do
Constituição, organização e funcionamento dos Conselhos Escolares | 39

Conselho Escolar que este seja participativo e transparente em suas ações e


em seus procedimentos, alertando cada conselheiro para sua real função e
para que a exerça de maneira responsável.
O objetivo deste tópico é contribuir para a organização interna do Con-
selho Escolar por meio da apresentação de procedimentos e orientações
para um bom funcionamento e eficiente comunicação entre a escola e a
comunidade. Não se trata de uma “receita”, mas de sugestões colhidas nas
práticas de Conselhos Escolares. Assim, possibilita-se que cada conselheiro
escolar se conscientize e se aproprie de processos e atividades que movi-
mentam o colegiado.
Antes disso, faz-se necessário resgatar três conceitos que perpassam o
cotidiano do Conselho Escolar e que contribuem para o seu funcionamento:
participação, autonomia e transparência.
A democratização da gestão da escola implica aprendizado, vivência do
exercício de participação e tomadas de decisões. Trata-se de um processo a
ser construído coletivamente e que deve considerar a especificidade e con-
dições de cada escola e município.
Para que a participação seja real, são necessários meios e condições
favoráveis, ou seja, é preciso repensar a cultura escolar e os processos (prin-
cipalmente os autoritários) de distribuição do poder no seu interior. Dentre
os meios e as condições favoráveis à participação, destaca-se a qualificação
dos conselheiros escolares, para que entendam a participação como um
processo a ser construído coletivamente.
A criação de um ambiente participativo é uma condição básica que a es-
cola tem que assumir para permitir que os sujeitos se responsabilizem pelo
próprio trabalho. Para dar sustentação à gestão democrática na escola, seus
gestores e o Conselho Escolar devem promover ações que:
• busquem o engajamento familiar e da comunidade;
• garantam um espaço de discussão e integração de cada grupo social
para encaminhamento de soluções, como a formação de lideranças por
meio dos grêmios de alunos, funcionários, pais e professores, visando o
exercício da representatividade;
• garantam o processo democrático de escolha de diretores por todos
os segmentos da comunidade escolar, qualificando e assegurando este
processo, discutindo e redefinindo suas funções, papéis e relações com
as diferentes instâncias do poder e a participação do Conselho Escolar;
40 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

• articulem a escola com diferentes parceiros para viabilizar suas propos-


tas, valorizando aqueles que fazem parte da comunidade na qual está
inserida;
• proporcionem um ambiente favorável ao desenvolvimento da autonomia
do cidadão, eliminando medidas punitivas e autoritárias, substituindo-as
por medidas educativas, buscando o respeito;
• desenvolvam o compartilhamento da autoridade;
• assumam as responsabilidades em conjunto;
• valorizem o trabalho em equipe;
• propiciem redes de comunicação abertas a todos.
A participação nos remete a outro princípio da democracia: a autono-
mia. Uma escola conquista sua autonomia por meio da capacidade de tomar
decisões compartilhadas e comprometidas para a resolução dos problemas
de maneira rápida, no momento certo, respondendo às necessidades locais.
Para que isso aconteça, o Conselho Escolar, além de estar atento e exercitar
sua função mobilizadora, tem de se organizar internamente para favorecer
mais agilidade e transparência.
Vamos observar algumas características que ajudam na construção da
autonomia na escola:
• é um processo de construção, ela é construída no dia a dia, com a partici-
pação de todos e com a superação das barreiras naturais que aparecem;
• expande o processo decisório, a decisão não está concentrada apenas
nas mãos de uma única pessoa, mas de todos os grupos que fazem a
escola, dentro ou fora dela;
• é um processo de interdependência, deve existir um entendimento am-
plo entre todos que fazem a escola, bem como a colaboração mútua.
• é responsabilidade e transparência, por isso deve-se assumir responsa-
bilidades, responder pelas ações, prestar contas dos atos.
• implica gestão democrática
A autonomia é um processo coletivo e participativo. As tomadas de
decisões devem ser compartilhadas e o comprometimento, diante de um
exercício democrático, envolvendo a todos. A transparência na administra-
ção pública é um imperativo constitucional. Considera-se transparência a
democratização de acesso às informações, em contraposição ao sigilo delas.
O Conselho Escolar, como instrumento que efetiva a gestão democrática da
Constituição, organização e funcionamento dos Conselhos Escolares | 41

escola, ao assumir a transparência como princípio, atribui legitimidade às


suas ações e qualidade às articulações com as comunidades escolar e local.
Aplicando esses princípios no contexto escolar e tomando como exem-
plo a elaboração do Plano de Aplicação Financeira dos recursos que a escola
recebe diretamente, cabe ao Conselho Escolar convocar reuniões de plane-
jamento para o bom uso da verba, de forma a:
• atender as demandas da escola (participação);
• registrar em ata o que ocorreu na reunião, bem como as deliberações
tomadas (autonomia);
• socializar com a comunidade o montante de dinheiro recebido e a previ-
são de gastos, por meio da apresentação do Plano de Aplicação Finan-
ceira (transparência).
Em uma situação como essa, o Conselho Escolar pratica e afirma tanto a
autonomia da escola – por meio de processo participativo – quanto fortalece
sua articulação com a comunidade por meio da publicização de suas ações
e deliberações. Mas o que tudo isso tem a ver com a organização interna e o
bom funcionamento do Conselho Escolar?
O Conselho Escolar, como gerador de uma forma de gestão, na qual as
decisões são integradas e coletivas, constitui-se em um lugar de participa-
ção; um espaço de discussão, negociação e encaminhamento de demandas
educacionais, possibilitando a participação ampla e promovendo a gestão
democrática.
Assim, o Conselho Escolar se relaciona e atua de forma constante e
integrada no cotidiano da escola. E como em qualquer outro espaço de
convivência humana, há a necessidade de se construir normas e regras que
direcionem a dinâmica do colegiado e que atendam às necessidades, cir-
cunstâncias e peculiaridades de sua relação interna e com as comunidades
escolar e local.
Portanto, assim como a escola constrói democraticamente o seu Regi-
mento, o Conselho Escolar necessita formalizar e regulamentar a sua atu-
ação, com o intuito de definir limites e possibilidades de movimentação.
Desta forma, o Regimento se apresenta como uma ferramenta de gestão do
Conselho Escolar.
Quais seriam as diferenças entre Estatuto Social e Regimento Escolar?
Estatuto Social é o documento que rege um/uma órgão/ entidade/ins-
tituição frente à sociedade e à legislação. No âmbito da escola, a Unidade
42 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

Executora necessita de um registro legal que possibilite gerar o seu Cadastro


Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) e, assim, possa efetivar procedimentos
financeiros, como abrir uma conta bancária para movimentar os recursos que
a escola recebe diretamente. Já o Regimento Escolar é utilizado para gerir
normas “dentro” da escola, orientando o que se deve ou não fazer.
Ressalte-se que, conforme previsto pela Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional (Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996), o Regimento
Escolar tem como função primordial normatizar o funcionamento interno
do estabelecimento educacional e regulamentar todo o trabalho pedagó-
gico, administrativo e institucional com base nas disposições previamente
estudadas e implementadas para cumprimento por todos os envolvidos nas
atividades escolares: uma espécie de “lei interna”, que obviamente não se
contrapõe à lei pública, mas preserva o interesse comum na execução dos
objetivos sociais da escola. Portanto, sendo o Conselho Escolar um colegia-
do que exercita a gestão democrática da escola, está presente no Regimen-
to Escolar.
O Conselho Escolar necessita de um Regimento, mas, caso queira, pode
ter, além deste, um Estatuto. Porém, a obrigatoriedade do Estatuto Social só
se efetiva se o Conselho Escolar comportar, também, a natureza de Unidade
Executora. Caso contrário, o Regimento do Conselho Escolar será o docu-
mento normatizador de sua existência e movimentação.
O Regimento do Conselho Escolar é um importante instrumento para
consolidar e regulamentar como se dará o funcionamento do colegiado,
visando ao cumprimento de sua função instituída: a de efetivar a gestão de-
mocrática nas escolas públicas do país.
Fazendo jus aos princípios que norteiam sua elaboração, convém que o
conteúdo do Regimento seja discutido, ampla e coletivamente, e que exista
um consenso consciente. É importante que esse documento regulador seja,
ainda, construído com autonomia, por meio da participação de todos, que se
consolide em Assembleia e que atenda à dinâmica funcional do colegiado.
De acordo com as técnicas de legislação, um Regimento é composto por
capítulos, seções, subseções, artigos, parágrafos, incisos e alíneas. Portanto,
reconhecendo as especificidades técnicas, é pertinente que, ao final de sua
elaboração, um advogado faça as adequações conforme as normas jurídicas.
Mas, o que deve constar no Regimento do Conselho Escolar?
Compete a cada escola/Conselho Escolar, de acordo com sua realidade
e cotidiano, fazer uso de sua autonomia e especificar o que deve constar
Constituição, organização e funcionamento dos Conselhos Escolares | 43

no Regimento do Conselho Escolar, sem perder de vista as regulações para


uma boa convivência e funcionamento do colegiado.
Tão importante quanto o produto final – o Regimento do Conselho
Escolar – é o processo de discussão que leva a esse resultado. Para ter le-
gitimidade e coerência com a realidade local, um Regimento necessita de
um processo de elaboração participativo. Portanto, uma única reunião não é
capaz de esgotar as escutas; cada aspecto deve ser discutido e deliberado
coletivamente. Assim, faz-se necessário construir um calendário de reuniões,
pois, organizadamente e sem imediatismos, visualizam-se possíveis aconte-
cimentos e situações. Cabe ao coletivo destacar a relevância ou não dos
aspectos e, assim, selecionar o que deve constar no documento.
Orienta-se, como primeiros passos do processo de construção do Re-
gimento, para que seja realizada uma pesquisa a fim de melhor conhecer
o que é e para quê serve um Regimento, bem como para que se busquem
Regimentos de Conselhos Escolares que, após analisados, sirvam como re-
ferência. Alguns pontos importantes na elaboração do Regimento Interno
devem ser considerados:
• o Regimento Interno deve ser iniciado do geral para o particular, ou
seja, das funções e competências mais gerais do Conselho Escolar até
as áreas menores da escala hierárquica. Primeiramente, detalham- -se as
competências gerais do Conselho Escolar;
• a estrutura do Conselho Escolar, assim como sua definição, deve ser
apresentada logo nos primeiros artigos;
• no Regimento Interno, existe uma diferença entre competência e atri-
buição: a competência é baseada nos fundamentos legais para que o
Conselho Escolar possa desempenhar suas atividades, de acordo com as
regras estabelecidas. Logo, sua competência reside no âmbito da esco-
la. Já a atribuição está relacionada às funções desempenhadas em razão
da dinâmica de movimentação, ou seja, decorrente da competência. As
funções (atribuições) dos conselheiros escolares, com as peculiaridades
que queiram ser destacadas, são descritas após o detalhamento das
competências do Conselho Escolar;
• o Regimento Interno deve possuir redação concisa e objetiva, de forma
que possa ser compreendido por todos;
• devem ser usados verbos no infinitivo e que expressem bem a ação
desempenhada;
44 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

• devem ser evitados o gerúndio, os adjetivos, os advérbios, os juízos de


valor, as expressões como “através”, “inclusive”, “e outros”, “afetas”, “os
mesmos”, “a quem de direito”, “a quem competente” e o uso excessivo
da expressão “bem como”;
• as competências não devem ser descritas como se fossem finalidades
ou objetivos.
Apesar de não existir previsão legal estabelecendo um modelo para a
elaboração de um Regimento do Conselho Escolar, será essencial o uso do
bom senso, o respeito aos costumes locais e a estrita observação da legisla-
ção para sua elaboração.
A realidade na qual atua o Conselho Escolar não é inerte. Nessa pers-
pectiva, não esqueçamos que o Regimento é um documento que comporta
um dinamismo imposto por mudanças no contexto, dentre elas nas rela-
ções entre as pessoas e nos processos escolares, necessitando, assim, de
periódicas atualizações e adequações. Por isso, o Regimento Interno deve
acompanhar as alterações estruturais, ratificando as mudanças ocorridas no
ambiente escolar e evidenciando a transparência nas suas ações. Tanto o
Regimento Interno como suas posteriores alterações devem ser submetidas
à análise e aprovação da comunidade por meio de Assembleia.
Conclui-se, assim, que o Regimento é o documento norteador e regula-
dor do funcionamento do Conselho Escolar. Nele constam não só estrutura
e normas para funcionamento do colegiado, mas, sobretudo, se apontam
caminhos que movimentam, dinamizam e regulamentam o Conselho Escolar.
Dentre as atividades que perpassam tal dinâmica, estão as reuniões
periódicas, caracterizadas em reuniões ordinárias – que constam em um
calendário deliberado pelos conselheiros escolares no início do ano letivo
– e reuniões extraordinárias – sendo estas convocadas pelo presidente ou
um terço de seus membros, conforme conste no Regimento do Conselho
Escolar. Além disso, indicamos que deve ser promovida, no mínimo, uma
Assembleia Geral por semestre escolar.
O calendário de reuniões ordinárias e Assembleias Gerais deve ser afi-
xado no Mural do Conselho Escolar, em local estratégico da escola, onde
possa se efetivar a comunicação de um grande número de pessoas. Isso,
porém, não dispensa a convocação – por escrito ou presencialmente – de
cada conselheiro e das pessoas cuja participação seja considerada impor-
tante para discussão dos assuntos em pauta. Segundo Antunes (2002, p. 40),
Constituição, organização e funcionamento dos Conselhos Escolares | 45

a pauta é a relação de assuntos que serão discutidos em cada encon-


tro do Conselho Escolar em ordem de importância e prioridade [...]. Os
membros do C.E. não devem ir para uma reunião sem saber os itens que
serão abordados, pois correm o risco de tomar decisões equivocadas por
não terem tido tempo de amadurecer suas opiniões.

É muito importante que um Conselho recém-eleito elabore seu plano


de trabalho, definindo seu cronograma de reuniões durante todo o ano e
as ações a serem desenvolvidas. As reuniões, para que ocorram, precisam
de uma pauta elaborada com a colaboração de toda a comunidade escolar.
Para evitar desperdício de tempo e fomentar a transparência e a parti-
cipação de todos, sugere-se que as pautas, tanto das reuniões quanto das
Assembleias, sejam construídas coletivamente. Como estratégia, pode ser
utilizado um espaço no Mural do Conselho Escolar para colher, junto à co-
munidade, as propostas de assuntos, envolvendo, assim, um grande número
de atores. Cabe ao Conselho Escolar reunido organizar as prioridades a par-
tir das propostas e selecionar os assuntos que comporão a pauta final, que
deverá ser afixada no Mural.
O Mural do Conselho Escolar é um instrumento de comunicação barato
e eficiente. Barato pelo baixo custo de sua confecção, para a qual podem
ser utilizados os mais diversos materiais (como cortiça, compensado, dentre
outros), e eficiente quando está estrategicamente localizado, possibilitando
que haja a interação/integração do colegiado com as comunidades escolar
e local.
Apresentamos “a seguir“ caminhos para a elaboração coletiva da pauta
da reunião/Assembleia:
• constituir um mural específico para o Conselho Escolar, a ser colocado
em local de destaque na escola;
• afixar no Mural o calendário das reuniões ordinárias e Assembleias;
• expor no Mural nome e foto dos conselheiros escolares. Esse proce-
dimento facilita a identificação do conselheiro e a interlocução com a
comunidade, principalmente quando o assunto exige um contato direto;
• destacar o dia, horário e local da Assembleia/ reunião do Conselho
Escolar;
• comunicar que a pauta está aberta, informando a data término para
proposições;
46 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

• delimitar um espaço no Mural para o preenchimento da temática pro-


posta, nome e segmento do proponente;
• no dia posterior à data de finalização das sugestões, um conselheiro es-
colar deve recolher as contribuições e reunir-se aos demais conselheiros
com o intuito de analisar e selecionar as prioridades que comporão a
pauta;
• divulgar no Mural a pauta da reunião/Assembleia e reforçar a data, horá-
rio e local onde acontecerá essa atividade.
De acordo com essa metodologia, os assuntos que ficaram fora da pauta
retornarão quando da deliberação da pauta da reunião do mês seguinte.
Caso aconteça de ter algum assunto que mereça uma reunião específica e di-
ferenciada, o Conselho Escolar realiza e divulga uma reunião extraordinária.
Para realizar reuniões produtivas, são necessários alguns cuidados:
• priorizar o cumprimento do calendário de reuniões e Assembleias;
• escolher um conselheiro escolar para secretariar a reunião;
• organizar as reuniões de modo que elas sejam, ao mesmo tempo, agra-
dáveis e produtivas, para que se atinjam os objetivos;
• evitar que todos falem ao mesmo tempo;
• prestar atenção na fala de cada um para evitar repetições;
• expressar as ideias com clareza e objetividade;
• estimular e oportunizar a todas as pessoas a expressão de suas ideias e
considerações;
• após a aprovação das decisões, definir os responsáveis pelos
encaminhamentos;
• consultar a legislação que dá suporte ao Conselho Escolar, conforme
necessidade advinda da pauta, como o Regimento do Conselho, o Regi-
mento da Escola, a Constituição Federal, a legislação do ensino (Lei de
Diretrizes e Bases no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, os pareceres
do Conselho de Educação etc.), a lei orgânica do Município ou Estado,
bem como os Estatutos do Magistério, da Criança e do Adolescente,
do Idoso, dos Servidores Públicos (municipal ou estadual), da Unidade
Executora;
• registrar em ata toda a dinâmica da reunião (falas, encaminhamentos etc.)
e socializar uma cópia, principalmente, no Mural do Conselho Escolar;
• para que uma reunião possa começar, no entanto, não adianta apenas
iniciar a ata. É necessária que seja declarada a legalidade, ou seja, que
seja comprovado se há quórum, para que a reunião tenha valor legal.
Constituição, organização e funcionamento dos Conselhos Escolares | 47

Secretariar uma reunião/Assembleia é muito mais do que tomar notas e,


posteriormente, preparar e distribuir a ata. O(a) secretário(a) designado(a)
precisa exercitar a sua voz ativa, pois pode – e deve – assumir a respon-
sabilidade de: registrar quem está presente; controlar o horário de início
e término; solicitar que pontos expostos sem clareza suficiente sejam ade-
quadamente esclarecidos ainda durante a reunião; acompanhar as questões
não concluídas ao longo da reunião/Assembleia, sumarizando-as antes do
encerramento e propondo que se delibere a respeito delas.
As Assembleias Gerais são momentos primordiais para o Conselho Es-
colar dialogar grandes questões diretamente com a comunidade escolar e a
local. A convocação da Assembleia – preferencialmente via edital – deve ser
emitida com antecedência, de modo a permitir que os interessados se orga-
nizem e compareçam. É pertinente que seja concebido um espaço na pauta
para que o Conselho Escolar preste contas de suas realizações, reforçando a
transparência de sua atuação.
Na data de realização da Assembleia, uma lista de presença em papel
timbrado ou com cabeçalho de identificação deve ser assinada por todos
os presentes, formalizando o comparecimento e participação destes na
Assembleia. Este documento também será importante para a verificação do
quórum de instalação e de deliberação da Assembleia.
Falamos anteriormente da necessidade de registrar as reuniões e
Assembleias em ata. Mas o que é uma ata?
De acordo com Antunes (2002),

a ata é um documento no qual se registra, com clareza, de maneira ob-


jetiva e fiel, tudo o que ocorre nas reuniões [...]. Se forem registradas
todas as ocorrências, as propostas e as decisões em cada reunião, ficará
mais fácil controlar o que acontece e pressionar a fim de que as decisões
sejam cumpridas (ANTUNES, 2002, p. 48).

É importante que ela seja feita com cuidado, evitando erros de português,
e que possa ser facilmente interpretada por qualquer pessoa que queira,
futuramente, lê-la. A principal importância da ata é o fato de manter um
histórico detalhado dos procedimentos e ações que a reunião/Assembleia
gerou. Após assinada pelo(a) secretário(a) e por todos os presentes, a ata
constitui a prova de que houve a reunião, das decisões nela tomadas, e das
manifestações de todos os participantes.
O Livro de Atas do Conselho Escolar deve ser aberto, preferencialmente,
pelo diretor da unidade de ensino, conforme o seguinte termo de abertura:
48 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

“Este livro contém cem folhas numeradas e rubricadas por mim, Fulano de
Tal, e se destina ao registro de atas das reuniões e Assembleias do Conselho
Escolar da Escola Tal”.
Para evitar qualquer modificação posterior, a Ata deve ser redigida de tal
maneira que isso não seja possível. Neste sentido, as características básicas
da formatação de atas são:
• sem parágrafos ou alíneas, ocupando todo o espaço da página, isto é,
um texto completamente contínuo, como se o texto inteiro fosse um úni-
co e longo parágrafo;
• sem abreviaturas ou siglas;
• números, valores, datas e outras expressões sempre representadas por
extenso;
• sem rasuras nem emendas;
• sem uso de corretivo;
• com todos os verbos descritivos de ações da reunião conjugados no Pre-
térito Perfeito do Indicativo (disse, declarou, decidiu etc.);
• com verbo de elocução para registrar as diferentes opiniões;
• se o relator cometer um erro, deve empregar a partícula retificativa
“digo”, como no exemplo a seguir: “Aos dezesseis dias do mês de julho,
digo, de junho, de dois mil e cinco...”. Quando se constatar erro ou omis-
são depois de lavrada a ata, usa-se “em tempo”, como por exemplo: “Em
tempo: onde se lê julho, leia-se junho”.
Apresentamos, a seguir, os tópicos que devem conter a escrita de uma
ata do Conselho Escolar:
• Cabeçalho (título): deve conter algumas informações que são importan-
tes para situar o leitor e facilitar a pesquisa posterior. O cabeçalho deve,
portanto, apresentar a indicação da ata (título), conforme o exemplo a
seguir: “Ata número doze. Ata da sexta reunião ordinária dos membros
do Conselho Escolar da Escola Tal...”.
• Introdução: deve descrever o título do evento, local, data, hora, partici-
pantes... Exemplo: “Aos oito dias do mês de março de dois mil e treze,
às dezoito horas, na sala da biblioteca, realizou- -se a terceira reunião
ordinária do Conselho Escolar da Escola Tal, para tratar da seguinte pau-
ta: ...”.
Constituição, organização e funcionamento dos Conselhos Escolares | 49

• Participantes: na relação nominal devem-se relacionar as pessoas que


constam na lista de presença (nome completo e indicação do segmento
ao qual pertence) e que, de fato, compareceram à reunião: “Estiveram
presentes os seguintes membros do Conselho: Bruno de Almeida e
André de Souza Pereira (segmento Estudantes); Rosanira Lima Santos,
Heloísa Aguiar Gomes e Paula Pequeno (segmento Professor); Carlos
da Silva (diretor da escola); Jussara Rocha Leite e Luis Floriano Morais
(segmento Funcionários); Dirceu Amorim Costa e Diana Santos Sousa
(segmento Pais); e os seguintes convidados: ...”.
• Desenvolvimento: descrição dos principais temas discutidos na reunião
e respectivos responsáveis.
• Conclusões: descrição das conclusões e deliberações provenientes da
reunião.
• Fechamento: como no exemplo “Por fim, a palavra foi concedida àqueles
que dela quisessem fazer uso e, não existindo manifestações, o presi-
dente encerrou esta reunião, que foi lavrada na presente ata, lido este
instrumento assinam...”.
• Assinatura dos presentes: as assinaturas devem ser colocadas logo após
a última palavra do texto, para não deixar espaço livre.
Alertamos que o conselheiro escolar só deve assinar a ata após a sua
própria leitura. Esse procedimento oportuniza certificar se o conteúdo con-
diz com a dinâmica da reunião, podendo, também, solicitar esclarecimentos
sobre dúvidas, apontar contrapontos e indicar retificações.
Com a implementação das tecnologias, o tradicional Livro de Atas
vai se metamorfoseando e acolhendo as “atas digitais”. Isso significa que
anteriormente, as atas eram redigidas diretamente no Livro ou transcritas
manualmente; hoje podem ser digitadas em um computador. Em termos de
praticidade, temos um arquivo que pode, por exemplo, ser socializado via
e-mail, postado no blog do Conselho Escolar, postado no sítio eletrônico da
escola, enfim, temos diversos meios de socialização. Mas atenção! Isso não
prescinde a eliminação do Livro de Atas.
Se a ata é digital, convém que seja impressa, assinada pelos presentes
na reunião e colada no Livro. Sendo este procedimento adotado, indicamos
que a numeração original das páginas do Livro fique visível e que se ca-
rimbe em cima da emenda, ou seja, o carimbo do Conselho Escolar com a
rubrica de quem secretariou a reunião deve pegar um pedaço da ata colada
e um pedaço da página original do Livro. Pode parecer arcaico, mas este
50 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

procedimento garante o registro da memória das reuniões e Assembleias,


assim como se constitui em um cuidado para se evitar futuras adulterações,
visto que a ata é o documento que, além de comprovar a presença das pes-
soas que participaram, guarda as informações sobre o compromisso de cada
um em relação ao que foi decidido durante a reunião.
Ressaltamos que também pode ser constituído um acervo digital com
materiais do Conselho Escolar. Nesse caso, tem de se ter o cuidado de fazer
backups periódicos.
Conforme vimos anteriormente, o Conselho Escolar produz e tem sob
sua guarda vários documentos e materiais, dentre eles o seu Regimento e o
seu Livro de Atas, que são, respectivamente, sua identidade e sua memória.
Ainda que não tenha uma sala específica no espaço escolar, o Conselho pre-
cisa “cuidar” de sua memória. Portanto, necessita de um local – um armário,
por exemplo – no qual se possa organizar e guardar essa documentação.
Mesmo ciente que esses documentos são públicos, não se pode deixá-
-los vulneráveis ao desaparecimento. Uma alternativa para livre acesso de
qualquer interessado é tirar cópias e deixá-las na biblioteca da escola ou em
outro local onde as pessoas possam se apropriar delas ou consultá-las.
O Conselho Escolar dá transparência às suas ações utilizando-se dos
mais diversos meios de comunicação. Não obstante a realização de reuniões
e Assembleias, e a construção e manutenção do Mural de Conselho Escolar,
outras estratégias estão presentes no seu cotidiano, como o uso de e-mails,
blogs, website, perfil nas redes sociais, além das atas e comunicados escritos.
Quando o Conselho Escolar se preocupa em fazer bom uso dos espaços
virtuais, cultiva o hábito de divulgar não só suas realizações e deliberações,
mas também passa a se inserir em um universo mais amplo, para além da
escola. Nessa perspectiva, articula-se com outros Conselhos em Fóruns e
grupos de discussão.
A organização e o bom funcionamento do Conselho Escolar dependem
do comprometimento e responsabilidade das pessoas que compõem esse
colegiado. São pessoas. E por serem pessoas têm suas fragilidades e incer-
tezas. No entanto, há uma especificidade que traz diferença a esse grupo de
pessoas: a compreensão de que gestão democrática é um bem público e
deve ser cuidada, organizada e praticada.
Constituição, organização e funcionamento dos Conselhos Escolares | 51

Referências
ANTUNES, Â. Aceita um conselho? Como organizar o colegiado escolar. São Paulo: Cortez: Insti-
tuto Paulo Freire, 2006.
BOBBIO, H. O futuro da democracia. In: ______. O futuro da democracia: uma defesa das regras do
jogo. São Paulo: Paz e Terra, 1986.
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Diário Oficial da
União, Brasília, DF, 5 out. 1988.
______. Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação
nacional. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 23 dez. 1996.
______. Projeto de Lei no 4.155, de 10 de fevereiro de 2000. Aprova o Plano Nacional de Educação.
Diário da Câmara dos Deputados, Brasília, DF, 15 jun. 2000.
______. Lei no 10.172, de 9 de janeiro de 2001. Institui o Plano Nacional de Educação e dá outras
providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 10 jan. 2001.
______. Ministério da Educação. Portaria no 2.896, de 16 de setembro de 2004. Cria o Programa
Nacional de Fortalecimento de Conselhos Escolares. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 17 set.
2004. Seção 2, p. 7.
______. Secretaria de Educação Básica. Conselho escolar: uma estratégia de gestão democrática
da educação pública. In: ______. Programa Nacional de Fortalecimento dos Conselhos Escolares.
Brasília: MEC/SEB, 2004. Disponível em: . Acesso em: 2 mar. 2014a.
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trução da cidadania. In: ______. Programa Nacional de Fortalecimento dos Conselhos Escolares.
Brasília: MEC/SEB, 2004. 57 p. Disponível em: . Acesso em: 2 mar. 2014b.
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______. Secretaria de Educação Básica. Conselho escolar e sua organização em fórum. In: ______.
Programa Nacional de Fortalecimento dos Conselhos Escolares. Brasília: MEC/SEB, 2009. 95 p.
Disponível em: . Acesso em: 2 mar. 2014d.
TORO, J. B.; WERNECK, N. M. D. Mobilização social: um modo de construir a democracia e a
participação. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. 104 p.
52 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar
3

A IMPORTÂNCIA DA PARTICIPAÇÃO
DA COMUNIDADE INTERNA E DOS
FAMILIARES NO CONSELHO ESCOLAR
Maria Cecília Luiz

Conselho escolar e a relação “família e escola”

É de suma importância a participação e a parceria entre família e escola


nos espaços escolares, e podemos afirmar que em especial, no Conselho Es-
colar. Com base em estudos na área (ALMEIDA & ARANTES, 2014; RUFINO
& SOUZA, 2012; PEREZ, 2010; BAZELESKI & ARRUDA, 2011; BOTELHO, 2016;
CAMPOREZI & KUHN, 2014; BISPO, 2015), faz-se uma abordagem sobre a
função da família e da escola na trajetória escolar discente, convictos da im-
portância da participação da família na escola.
Além das referências teóricas, as leis brasileiras também ressaltam que
há necessidade de cooperação e união entre as partes, compreendendo
que a escola é responsável pela aproximação. A LBD, Lei n. 9.394/96, em seu
Art. 12, em especial no parágrafo VI, estabelece que:

Os estabelecimentos de ensino, respeitadas as normas comuns e de seu


sistema de ensino, terão a incumbência de: [...] articular-se com as famí-
lias e a comunidade, criando processo de integração da sociedade com
a escola (BRASIL, 1996, p. 11).

Percebe-se, na prática do cotidiano educacional, que o docente pode


criar um elo entre os pais e a instituição escolar e esta relação é de suma
importância para a formação de estudantes. Por isso, é fundamental discutir
e refletir sobre a relação família e escola nos Conselhos Escolares, espaço
54 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

físico no qual se tem a possibilidade de melhorar a comunicação de ambos


– para que o diálogo não seja de mão única, no sentido de haver pouco
espaço para a família se manifestar, sem que seja limitada pelos interesses
da instituição.
Os Conselhos Escolares podem e devem garantir a participação de fa-
miliares dos estudantes dentro da escola. Esta possibilidade de consultar
e deliberar significa manter portas abertas às famílias, pois cada uma, em
sua potencialidade, pode contribuir em prol de promover uma educação de
qualidade de ensino para todos da escola.
Mesmo sabendo dos desafios cotidianos de trabalho e de sobrevivência
que muitos familiares enfrentam, ainda existe, por parte desses, uma preo-
cupação em participar da vida escolar de seus filhos. A forma como se orga-
nizam e tentam acompanhar a vida escolar de seus filhos é algo que deve ser
valorizado pela escola.
Para visualizarmos melhor esta preocupação, Arcega (2018) aborda al-
gumas pesquisas (MATEUS, 2016; ALMEIDA & ARANTES, 2014; BOTELHO,
2016; SILVA & MULHER, 2011; BISPO, 2015; BAZELESKI & ARRUDA, 2011;
CAMPOREZI & KUHN, 2014) que tratam da referida questão, ao indagar aos
familiares o que estes faziam para se envolverem no processo de aprendiza-
gem de seus filhos? Mesmo alegando falta de tempo, despreparo etc. – as
respostas foram:
• Incentivando o estudo;
• Olhando o caderno;
• Perguntando como foi a aula e o que aprendeu;
• Buscando informações com os professores de como está o filho na escola
através de bilhetes ou por telefone, sistema de mensagens por telefone;
• Pedindo para o(s) filho(s) mais velho(s) auxiliar(em) o(s) mais novo(s) nas
tarefas levadas para casa;
• Mostrando preocupação com os estudos e as dificuldades;
• Ajudando com as leituras;
• Cobrando resultados (ARCEGA, 2018, p. 37).
Almeida e Arantes (2014) também desenvolveram estudos e aplicaram
questionários dirigidos aos professores, que tinham várias questões, entre
elas: “Como é o rendimento escolar dos alunos cujos familiares participam
do ambiente escolar?”. O estudo constatou que o rendimento escolar é po-
sitivo, pois os familiares dão continuidade em casa aos estudos feitos em
A importância da participação da comunidade interna e dos familiares no Conselho Escolar | 55

sala. Já os alunos que os pais não comparecem, e que os professores nem


conhecem, os alunos não demostram nenhum interesse nos estudos.
Em revisão bibliográfica de artigos publicados entre 2002 e 2012, Cunha
et al. (2016) verificaram que os profissionais da educação tendem a se queixar
de resultados de aprendizagem de estudantes, e responsabilizam o próprio
aluno e/ou a sua família por esse fracasso escolar.
Diante desse cenário, e de tantos outros desencontros entre a relação
família e escola é que autores como Oliveira & Marinho-Araújo (2010) e
Chechia & Andrade (2005) apontam para a necessidade de busca de novos
caminhos para a relação família e escola. O objetivo deste texto é contribuir
para a efetiva participação dos familiares em Conselhos Escolares, conforme
determina a LDB em seu Art. 14, colaborando para a melhoria da qualidade
da educação básica ofertada nas escolas públicas.
Afinal, como é composta a família dos estudantes? Quais são as suas
funções?
Começando por analisar a função da família, podemos considerá-la
como a primeira agência educacional do ser humano, sendo esta responsá-
vel pela maneira como o estudante se relaciona com o mundo, conforme a
estrutura social que pertence.
A família exerce uma significativa influência na vida dos seus membros,
pois por meio dela ocorrem os primeiros contatos de um bebê com o mun-
do. Neste sentido, os familiares são extremamente importantes e possuem
responsabilidades em vários aspectos na vida de crianças, adolescentes e
jovens, como: psicológicos, sociais, financeiros etc. (SAMPAIO, 2012).
Também é papel da família desenvolver junto à criança suas funções
psicossociais, o que resultará num desenvolvimento afetivo. A ausência de
afetividade conduz à criança a falta de interação social, pois ela tende a
manter-se fechada em suas emoções. Existe a garantia, por lei, de que a
família deve cuidar do bem-estar, da saúde, dando proteção e educação
aqueles que são da sua reponsabilidade.
A educação fornecida em casa pelos familiares é a base para formar a
personalidade da criança e ajudá-la a se relacionar socialmente, pois des-
de que o desde o seu nascimento obtém a herança cultural e social da sua
família.
Percebemos que durante o decorrer dos anos, a formação familiar sofreu
várias modificações na perspectiva social, cultural e econômica. Nos dias de
hoje, há diferentes formações familiares, como nos indica André e Barboza
56 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

(2018): família de pais que já foram divorciados e que tenham filhos de outras
uniões, compondo uma nova estrutura familiar; família que tem mulheres
independentes criando seus filhos sem a presença, ou apoio de uma figura
masculina; família na qual os avós são designados a criar os netos por di-
versos motivos, e/ou outros parentes consanguíneos que exercem a mesma
função etc.
Além disso, os mesmos autores (2018) relatam que, as funções desem-
penhadas pelos cônjuges também foram se modificando com o tempo,
principalmente, dentro de casa, uma vez que a mulher saiu para enfrentar o
mercado de trabalho e não fica responsável somente por cuidar dos filhos e
das tarefas de casa. Com seu ingresso no mercado de trabalho, as funções
que antes eram exclusivamente executadas pela mulher, como levar os filhos
para a escola ou a realização de serviços domésticos, passaram a ser realiza-
das também pelos homens, quebrando, assim, alguns paradigmas machis-
tas. Sendo assim, fica claro que as mudanças que ocorreram na sociedade,
também influenciaram a formação familiar.
Petzold (1996) definiu família como um grupo social especial, caracteri-
zado por intimidade e por relações intergeracionais. O autor (1996) entende
que o conceito de família pode ter diferentes bases, conforme os seguintes
critérios: perspectiva biológica de laços sanguíneos, aproximações genea-
lógicas, designações jurídicas e/ou legais, compartilhamento de uma casa
com crianças etc.
Isso significa que família possui pessoas aparentadas que vivem na mes-
ma casa, geralmente pai, mãe e filhos, ou ainda, pessoas de mesmo sangue,
linhagem ou admitidos por adoção.

A palavra família, no sentido popular e nos dicionários, significa pessoas


aparentadas que vivem em geral na mesma casa, particularmente o pai, a
mãe e os filhos, ou ainda pessoas de mesmo sangue, ascendência, linha-
gem, estirpe ou admitidos por adoção. (PRADO, 2013, p. 12).

Para Veloso (2014), a familiar é o local em que as pessoas expressam seus


sentimentos e emoções. Como: medos, alegrias, inquietações, objetivos
pessoais etc.
Segundo Turner & West (1998), em função dessa ampliação conceitual
sobre formação familiar, atualmente, não comporta mais a ideia de um único
modelo de família, a denominada família tradicional, ou nuclear (pai, mãe e
seus filhos biológicos).
A importância da participação da comunidade interna e dos familiares no Conselho Escolar | 57

Prado (1983, p. 10) considera que família não é uma expressão possível
de ser conceituada, pois as formas de organização de uma família variam
muito com o passar dos anos. A família é uma instituição social que vem se
modificando de acordo com a história e apresentando até formas e finalida-
des diversas numa mesma época e lugar, conforme o grupo social que esteja
sendo observado.
É importante refletirmos sobre a diversificação da formação familiar,
visto que os estudantes podem fazer parte de diferentes tipos de família, e
mesmo assim devem receber o mesmo direito em relação ao processo de
ensino e de aprendizagem. Diante das diversas formações familiares, o pro-
fessor no dia a dia da escola pode ter diferentes maneiras de participação,
atuação e reação de familiares.
Para Ribeiro (2016), a escola tem a percepção de que existe uma diver-
sidade de famílias, sendo umas mais autoritárias, outras mais progressistas.
Essas mais liberais costuma permitir que seus filhos escolham se querem,
ou não, frequentar a escola, e/ou não cobram destes a realização das ativi-
dades escolares. É importante ressaltar que os familiares por terem os laços
afetivos com os estudantes são aqueles que mais poderiam ajudar na sua
educação, ao invés de deixá-los a própria sorte. Ao impor limites com auto-
ridade e carinho, os familiares influenciam os alunos em seus processos de
aprendizagens.
A educação traz consigo hábitos, costumes e valores, que influenciarão
de maneira satisfatória na aprendizagem. Com o apoio da família, todo o
processo de desenvolvimento escolar agregará pontos positivos ao longo
da vida escolar.
Fatores socioeconômicos, culturais e familiares podem interferir no de-
senvolvimento escolar, mas se a família tem uma relação de proximidade
com a escola, esses efeitos se reduzem de forma substancial, pois os familia-
res se comprometem e acompanham a vida escolar. Segundo a Constituição
de 1988, no seu Art. 227:

É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao


adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimen-
tação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade,
ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de
colocá-los a salvo de toda a forma de negligência, discriminação, explo-
ração e opressão (BRASIL, 1988, p. 148).
58 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

A educação e a socialização de estudantes são responsabilidades das


famílias e das instituições educacionais. Assim, a família é constituída de um
sistema complexo e sofre constantes interações, que passam por transfor-
mações ao se relacionar com outros sistemas, como, por exemplo, o sistema
escolar. Compreende-se que a instituição escolar tem função de socializar o
saber sistematizado, isto é, o conhecimento elaborado e a cultura erudita. A
educação promove o desenvolvimento do ser humano do nascimento até a
vida adulta.
Ao contrário do que muitos pensam, o processo de educação e desen-
volvimento do sujeito não é tarefa, exclusivamente, da família, ou somente
da escola. Esse processo de humanização só obtém um resultado produtivo
quando ambas as partes cooperam para o desenvolvimento da criança como
um todo. Instituições como igrejas e clubes esportivos ou projetos culturais
também são responsáveis pela educação das crianças e adolescentes, pois
desempenham um papel importante na sociedade e também na educação.
Livros, eventos culturais, os meios de comunicação como rádio, televisão,
revistas e a Internet também são uma forma de transmitir conhecimentos na
vida contemporânea.
Com a era digital, o aluno tem acesso a diversas informações na Internet,
onde podem adquirir conhecimento de forma rápida e eficaz. Dessa forma,
não se pode responsabilizar exclusivamente a família, ou somente a escola
pelo processo educacional do estudante, sendo que um sujeito se educa
por meio da relação com o meio em que convive e pelas experiências que
vivencia em seu cotidiano.
Segundo Villela & Archangelo (2013), não há, então, a priori, um agente,
ou uma instituição, ou uma fonte ou, ainda, um meio ao qual se possa atribuir
toda a responsabilidade pela promoção da educação. Contudo, apesar da
enorme variedade de agentes e meios educativos, a família e a escola se
destacam na tarefa educativa da criança. Mais do que isso, são legalmente
responsáveis por essa tarefa.
A educação formal é um direito que deve ser garantido a todos, pois
segundo o Art. 53 do Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei nº 8.069 de
13 de julho de 1.990 (BRASIL, 1990):

A criança e o adolescente têm direito à educação, visando ao pleno de-


senvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e
qualificação para o trabalho [...]
A importância da participação da comunidade interna e dos familiares no Conselho Escolar | 59

E, conforme a Constituição Federal em seu Artigo 205:

A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será pro-


movida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno
desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e
sua qualificação para o trabalho (BRASIL, 1988).

Sendo assim, à escola fica designada a função de transmitir a educação


formal para crianças, adolescentes, jovens e adultos – no caso da EJA (Edu-
cação de Jovens e Adultos) – e é obrigação do Estado fornecer um ensino
gratuito a todos os estudantes brasileiros.
Aos familiares é designado a realização da matrícula do seu filho – ou alu-
no que seja responsável – na escola e garantir que esse estudante mantenha
uma frequência escolar na instituição de ensino. Do contrário, o órgão de
defesa dos direitos da criança e do adolescente, como o Conselho Tutelar
baseado no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), deve ser acionado
e, consequentemente, este deve entrar em contato com a família e verificar
se existe algum problema familiar ou de saúde que justifique a ausência do
aluno na escola.
Segundo Villela & Archangelo (2013), a obrigatoriedade da matrícula na
escola é da família, mas caso isso não ocorra, o Estado assume essa res-
ponsabilidade (pela educação formal), assim como pela integridade física e
psíquica no período em que o estudante estiver na escola.
Quando se trata da escola, a primeira função que lhe é imposta por to-
dos é de desenvolver as funções cognitivas dos sujeitos, transmitindo-lhe,
assim, diversos conteúdos diariamente. É importante lembrar, também,
que a escola não tem somente a função de ensinar e de desenvolver
o pensamento cognitivo, sendo essa uma concepção extremamente
tradicional. Essa perspectiva existe para alguns profissionais da educação
que acreditam que a sua tarefa é, exclusivamente, ensinar conteúdos e
transmitir o conhecimento.
Ainda de acordo com Villela & Archangelo (2013), ainda hoje esse pen-
samento prevalece para alguns educadores que defendem ser esta a única
função da escola, ficando a responsabilidade, de todos os outros aspectos,
exclusivamente, para a família.
Em muitos casos, esta discussão de quem deve realizar quais funções
acaba por passar o bastão da responsabilidade da educação de alunos
um para o outro, tanto familiares como educadores. Na verdade, as duas
60 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

partes devem se responsabilizar e contribuir para que ocorra a qualidade da


educação.
Em casos específicos, a escola acusa familiares – por serem analfabetos e
não terem acesso ao conhecimento formal – de desconhecerem a real função
escolar e da aprendizagem. Mas, ao contrário do que muitos pensam, além
de promover a aprendizagem, também, cabe à escola o desenvolvimento
moral dos alunos, promover a saúde, o desenvolvimento afetivo, psicológico
e físico, mesmo que essa também seja a função designada às famílias.
Pois, segundo Villela & Archangelo (2013, p. 31),

[...] Se a escola é responsável pelo aluno durante várias horas por dia,
ao longo de anos, não seria razoável imaginar que pudesse se abster de
promover seu desenvolvimento moral, emocional e psicológico durante
todo esse período. Não se pode imaginar que aspectos fundantes do
sujeito possam ficar “em suspensão” enquanto a atividade intelectual se
desenrola.

Por mais difícil que seja contar com a ajuda dos familiares, a equipe ges-
tora (direção e coordenação pedagógica) e o Conselho Escolar precisam
encontrar meios para atrair os familiares à escola e torná-los parceiros no
processo da aprendizagem dos educandos. Para que a escola seja signifi-
cativa, é necessário que todas as ações a serem tomadas sejam planejadas
pensando no benefício de alunos.
Escola e família têm suas especificidades e suas complementariedades.
Embora não se possa supô-las como instituições completamente indepen-
dentes, não se pode perder de vista suas fronteiras institucionais, ou seja, o
domínio do objeto que as sustenta como instituições.
A diferença entre família e escola está no que cada uma ensina aos
estudantes:
• a família ensina quando promove a socialização, incluindo o aprendizado
de padrões comportamentais, atitudes e valores aceitos pela sociedade;
• a escola ensina quando favorece a aprendizagem dos conhecimentos
construídos pela sociedade em determinado momento histórico e quan-
do amplia as possibilidades de convivência social.
É importante que a escola seja um espaço acolhedor, local em que o
aluno sinta prazer em estar presente. A infraestrutura e a forma de organi-
zação escolar devem ser bem planejadas, proporcionando aos discentes um
A importância da participação da comunidade interna e dos familiares no Conselho Escolar | 61

espaço agradável onde possam desenvolver suas funções sociais, cognitivas


e/ou motoras.
Para estabelecer uma boa conexão com os estudantes e ganhar sua con-
fiança, o professor precisa compreendê-los, conhecer seu cotidiano, a comu-
nidade ao redor da escola a qual pertence, a cultura do seu meio familiar e,
por isso, é de grande importância à parceria da escola com os pais.
De acordo com Sampaio (2012), acredita-se que o processo de ensino
aprendizagem possui relação direta com a infraestrutura do ambiente es-
colar, uma vez que o espaço de convivência é essencial. O aluno precisa ser
acolhido com suas vivências e experiências diárias, para poder aprender de
forma significativa e entender a escola como um espaço aberto para expres-
sar suas opiniões e socializar com os colegas. A família tende a ter grande
importância no processo educativo do indivíduo, por conta dos laços afeti-
vos e pelo convívio diário.

A relação escola-família: como é possível?


Para que a escola seja significativa, é necessário que todas as ações a
serem tomadas pelos envolvidos, dentro e fora da instituição, sejam pla-
nejadas pensando no benefício dos estudantes. Escola e família têm suas
especificidades e suas complementariedades. Cada uma tem suas fronteiras
institucionais, isto é, o domínio do objeto que as sustenta como instituições.
Segundo Estevão (2012), a relação família e escola deve ser construída
para que os alunos tenham um local seguro de aprendizagem. Com essa
relação fortificada e harmônica, o desenvolvimento do estudante e seu ren-
dimento escolar melhoram, visto que tanto a escola quanto a família estão
envolvidas e incumbidas para cumprir suas funções.
Nessa perspectiva, principalmente, a família deve se esforçar em estar
presente em todos os momentos da vida de seus filhos, presença que im-
plica envolvimento, comprometimento e colaboração, deve atentar para as
dificuldades, não só cognitivas, mas também comportamentais. Da mesma
forma, a escola deve estar na vida dos discentes como uma parceira na rela-
ção da construção de afetividade.
A família desenvolve um vínculo no convívio diário por meio de conver-
sas que possam conduzir crianças, adolescentes e jovens por caminhos que
os levem à socialização dos conhecimentos e às relações interpessoais. A
escola deve funcionar como a instituição que une o conhecimento formal
62 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

com o meio para promover espaços educativos convenientes. Ela pode ser
um espaço de troca de experiências junto com o coletivo.
Para Lima (2009), é importante que a escola crie relações com limites,
que possibilite uma fronteira relacional clara, adequada e respeitosa com to-
das as pessoas. Mesmo se houver pensamentos diferentes, ou discordâncias
sobre educação, a escola e a família devem se unir para buscarem uma me-
lhor convivência com tais diferenças. Assim, apesar de escola e família serem
agências socializadoras distintas, elas apresentam aspectos comuns, como:
compartilhar a tarefa de preparar os sujeitos para a vida socioeconômica
e cultural. A despeito das diferenças nas tarefas de ensinar, tanto a escola
como a família precisam uma da outra.

Compreender os familiares: um bom início


Segundo Bhering & Siraj-Blatchford (1999), geralmente os familiares
acreditam que seja de responsabilidade da escola o processo de ensino e
aprendizagem, sendo que suas funções são complementares às metas edu-
cacionais da escola.
Para Bhering (2003), a família se envolve quando participa intensamente
de atividades relacionadas ao ensino e à aprendizagem escolar, tanto em
casa quanto na escola, além da ajuda ou colaboração em prestação de ser-
viços, como: em eventos sociais, feiras, festivais, excursões e aquisição de
materiais e equipamentos para a escola.
Na visão das famílias, em geral, as interações estabelecidas com a escola
ocorrem nos horários de entrada e saída da escola (no portão), nas reuniões
de pais convocadas pela escola ou em datas comemorativas.
Segundo Reali & Tancredi (2002), trata-se de um relacionamento superfi-
cial e limitado a situações “formais”, como as reuniões bimestrais e as come-
morações, sempre organizadas pela escola.
A concepção dos familiares é que a escola (docentes e equipe gestora)
mantenha a educação escolar como sua responsabilidade, e caberia a eles
assegurar que o estudante esteja pronto para essa educação escolar.

Compreender os estudantes: uma possibilidade


Um estudo realizado junto a estudantes do ensino médio de uma escola
em Curitiba, no Paraná, investigou como os alunos viam a relação da escola
com a família, e o resultado foi que a relação era vista de uma maneira muito
negativa.
A importância da participação da comunidade interna e dos familiares no Conselho Escolar | 63

Para os alunos, existe uma cobrança quanto ao rendimento escolar de


ambas as partes, e as convocações de familiares aconteciam apenas em
situações referentes às notas ou ao comportamento. Esta parceria entre
família e escola é desaprovada pela maioria, pois muitas vezes não eram
consultados com antecedência e, também, por não haver nesta relação mo-
mentos de elogios aos discentes.
Segundo Polonia (2005), familiares que têm alunos em séries iniciais es-
tão mais presentes nas atividades programadas pela escola, sendo que este
quadro vai se modificando com o passar dos anos.
Os alunos são peça chave para esta relação entre família e escola e seus
posicionamentos como possíveis mediadores podem estimular a participa-
ção dos familiares e intermediar a comunicação entre família e escola. Ao
contrário do que acontece, na visão dos estudantes a comunicação entre
família e escola não precisa ser de cobranças quanto ao rendimento escolar,
sendo esta uma questão bastante presente e negativa para os discentes.

Compreender os profissionais da educação: uma reflexão sobre o


problema
Diz-se, de forma geral, que a relação de educadores com familiares sem-
pre esteve marcada por movimentos de culpabilização de ambas as partes,
pela ausência de responsabilização compartilhada e pela forte ênfase em
situações-problema que ocorrem no contexto escolar.
A despeito das situações-problema que permeiam a relação família e
escola, acredita-se que a iniciativa de construir uma relação harmoniosa en-
tre as duas instituições deve ser de responsabilidade da escola e de seus
profissionais, que têm uma formação específica. Contudo, os parâmetros
para esta relação não devem se basear, apenas, na função de orientar os
familiares sobre como ensinar seus filhos, como tem preconizado a escola.
Bhering (2003) afirma que, geralmente, a forma que a escola adota para
estabelecer contato com as famílias é motivada pela discussão das situações
de baixo rendimento escolar e de mau comportamento de alunos. Para o au-
tor (2003), os professores compreendem que o apoio dos familiares no pro-
cesso de ensino e aprendizagem deve ser limitado as suas ordens quanto à
realização de tarefas escolares, esquecendo-se de sugerir que as famílias se
envolvam com questões escolares de maneira mais participativa e recíproca.
A educação de alunos com problemas de aprendizagem – fracas-
so escolar – pode ser afetada pelo processo comunicacional circular
64 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

escola-família-estudante. O fracasso escolar pode ser causado por dificul-


dades de letramento, problemas comportamentais, dificuldades sensoriais,
físicas etc. Ele está presente no sistema educacional brasileiro e acaba pro-
piciando a evasão escolar e a defasagem idade/série.
Essa multiplicidade causal gera muitas expectativas em relação à educa-
ção por parte dos educadores e familiares, o que, por sua vez, gera culpa e
conflitos na relação família e escola.
Segundo Tancredi & Reali (2001), em muitos casos existe o desconheci-
mento, por parte dos professores, das características das famílias de seus
alunos, ou uma imagem estereotipada delas, uma vez que as descrições fei-
tas estão carregadas de conotações negativas e preconceituosas. Nem sem-
pre as famílias são vistas como parceiras que têm objetivos comuns, apesar
de se mostrarem conscientes do papel importante da escolarização na vida
de seus filhos e de estarem dispostas a contribuir com a escola.
Na visão de alguns professores, o modelo de família que se configura é
uma família idealizada, que oferece suporte, aconchego e que tem funções
diferentes para cada fase da vida. Diante da realidade das novas configu-
rações familiares e dos problemas de aprendizagem dos alunos, devemos
refletir sobre alguns questionamentos:
• Quais sãos as crianças identificadas com problemas de aprendizagem?
• A que se atribuem essas dificuldades?
• Qual é a dinâmica que se estabelece em torno da criança com proble-
mas de aprendizagem?
• Como tem sido a relação e a comunicação entre a escola e as famílias
dessas crianças?
Para os professores, muitas vezes, as famílias só vão à escola apenas
quando são chamadas e, ainda assim, muitas não vão, ou seja, as famílias
querem um resultado positivo ao final do ano, mas ficam distantes do pro-
cesso, não realizando contato e não participando das reuniões ao longo do
ano.
Ao vislumbrar a relação família e escola, com um enfoque mais socioló-
gico, percebemos que as funções determinantes são ambientais e culturais.
A relação entre educação e classe social mostra certo conflito entre as fi-
nalidades socializadoras da escola e a educação da família, isto é, entre os
objetivos da escola e a organização da família.
A importância da participação da comunidade interna e dos familiares no Conselho Escolar | 65

As famílias que não se enquadram no suposto modelo desejado pela


escola são consideradas as grandes responsáveis pelas disparidades es-
colares. A representação de um modelo familiar correto recebe valor e se
naturaliza, sendo que a própria instituição escolar divulga a ideia de que
algumas famílias agem de modo distante do seu objetivo. Em função dessa
divergência, a preocupação da escola passa a ser de estratégias de socia-
lização das famílias, e esta amplia seus âmbitos de ação, com intenção de
assumir ou substituir a família em sua função socializadora.
Na relação família e escola, há uma aproximação e colaboração de edu-
cadores que, muitas vezes, passa despercebida, que é a de requerer das
famílias atitude social padronizada. O ambiente escolar exerce um poder
de orientação sobre os familiares para que estes possam educar melhor os
filhos e estes, por sua vez, possam frequentar a escola.
Ao perceber a relação família e escola, com um enfoque mais psicológi-
co, a escola tende a reforçar que a família é desqualificada (OLIVEIRA, 2002).
As razões de ordem emocional e afetiva ganham um colorido permanente
quanto ao entendimento da relação família e escola e da ocorrência do fra-
casso escolar. Geralmente, isso acontece quando a perspectiva de professo-
res – discurso psicológico – passa a avaliar e analisar o comportamento de
seus alunos.
Nessa linha mais voltada para “orientar as famílias”, observamos que
Epstein (2009) elabora cinco tipos de envolvimento entre os contextos famí-
lia e escola:
• Tipo 1 – obrigações essenciais dos pais: reflete as ações e atitudes das
famílias ligadas ao desenvolvimento integral da criança e a promoção
da saúde e proteção. A tarefa da família é criar um ambiente propício
para a aprendizagem escolar, incluído o comportamento sistemático e
as orientações contínuas em relação aos hábitos de estudos e às tarefas
escolares.
• Tipo 2 – obrigações essenciais da escola: retrata as diferentes formas e
estratégias adotadas pela escola com intuito de apresentar e discutir os
tipos de programas existentes na escola e evidenciar os progressos dos
estudantes, em diferentes níveis.
• Tipo 3 – envolvimento dos pais em atividades de colaboração na escola:
refere-se ao trabalho em conjunto entre equipe gestora e familiares no
que concerne ao funcionamento da escola com um todo.
66 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

• Tipo 4 – envolvimento dos pais em atividades que afetam a aprendiza-


gem e aproveitamento escola, em casa: estratégias para os familiares
acompanharem as tarefas escolares.
• Tipo 5 – envolvimento dos pais no projeto político da escola: indica a
participação da família na tomada de decisão quanto às metas e aos
projetos escolares, compondo os colegiados da escola.
Apesar desses cinco tipos serem importantes, percebemos que a autora
traça ações somente para os familiares, uma visão bastante comum na esco-
la, cuja reponsabilidade própria cabe apenas informar as famílias acerca do
seu regulamento interno, dos seus programas escolares e de progressos e
dificuldades dos estudantes (Tipo 2).
Segundo Marques (1999), isso se torna comum pois existe a crença, por
parte dos educadores, de que os familiares devem ser orientados a ensinar
seus filhos:

(...) explicar aos pais certas técnicas de ensino ou propor aos pais que
treinem os filhos, ajudando-os a fazer exercícios de leitura, matemática,
etc. (MARQUES, 1999, p. 21).

Tancredi & Reali (2001), Reali & Tancredi (2002) e Caetano (2004) acredi-
tam que a constituição de uma parceria entre família e escola é função inicial
dos docentes, pois eles são elementos chave no processo de aprendizagem.
A construção da relação entre família e escola deve ser cooperativa, com
intenção de fortalecer a relação com confiança, com visão de empatia, colo-
cando-se no lugar do outro, e não apenas de troca de ideias e discussões.
É necessário estabelecer uma parceria de corresponsabilidade entre ambas
às instituições e colocar sempre em primeiro lugar o discente, que é o fator
principal da educação, estabelecendo diálogos democráticos.

Caminhos para a relação família e escola: gestão democrática


É importante ressaltar que na história da relação das duas instituições,
família e escola, os papéis eram bem definidos. A escola era inteiramente
responsável pela transmissão dos conhecimentos acumulados pela socie-
dade, e à família cabia ensinar valores e padrões de comportamento. Esses
papéis têm se confundido ao longo do tempo. Nesse contexto, é preciso
A importância da participação da comunidade interna e dos familiares no Conselho Escolar | 67

que os educadores estejam em perfeita sintonia com a família para comple-


mentar a formação educacional do estudante.
A escola precisa criar interações entre as partes, não como uma forma
de troca de favores, mas como um complemento do que se estabelece no
ambiente familiar. As proximidades entre ambas (família e escola) não é uma
tarefa fácil, exige confiança e a criação de estratégias.
Cabem as duas instituições aprimorar o processo democrático que
acontece dentro da instituição escola, e, sem dúvida, se educarem nessa
relação de trocas, cada uma contribuindo na execução de suas atribuições.
Nesse sentido, a escola, para desenvolver a parceria com a família, precisa
ser democrática. Portanto, é necessário que se instaure e fortaleça a gestão
democrática na escola. Um dos aspectos que devemos garantir, nesse senti-
do, é o da constituição dos Conselhos Escolares (CE), com vistas a propiciar
a representatividade e a paridade no colegiado.
Segundo Lima (2016), algumas instituições escolares elegem seus mem-
bros os sujeitos que já fazem parte do interior da escola, por serem profes-
sores, funcionários ou alunos da própria escola. Em pesquisa realizada, o
referido autor indicou que essas escolas não elegiam membros do CE que
não tivessem vínculo com a escola, o que denotava, claramente, a dificulda-
de em se constituir um colegiado democrático.
Essa composição antidemocrática, na prática, não garantia um caráter
deliberativo sobre as mais diversas situações, pois a visão do CE estava mar-
cada por uma perspectiva de membros que faziam parte da escola, ligados
ao cotidiano da instituição e, mais do que isso, submetidos, de algum modo,
ao gestor escolar.
O Conselho Escolar teve seu processo educacional no Brasil devido às
reivindicações históricas e dos movimentos de educadores por uma edu-
cação de qualidade. Sua perspectiva democrática no ensino público ainda
tem dificuldades de consolidação, principalmente no que se refere à cen-
tralização do poder gestor, a burocracia, o despreparo dos conselheiros, as
dificuldades de ordem prática e a participação destes nos problemas que
envolvem a própria escola e a comunidade externa.
Vários pesquisadores (AGUIAR, 2008; ANTUNES, 2002; BRASIL, 2004a,
2004b, 2004c) concordam que, na prática, a gestão democrática ainda é
muito difícil de acontecer, ora por dificuldade de compreensão de sua tarefa,
ora por conta de gestores e profissionais da educação, ora pelo receio da
equipe gestora de disponibilizar o poder decisório de algumas condutas no
68 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

planejamento das práticas pedagógicas e escolares a outros membros da


família e da escola.
A gestão democrática é um processo, por isso não pode ser interpretada
como algo estático que se espera realizar, como uma ilha da fantasia. Ela só
acontece se houver mobilizações e/ou ações de todos os envolvidos com a
escola.
Como colegiado democrático e representativo, o Conselho Escolar deve
tratar de todos os assuntos relacionados com a escola, da seguinte forma:
melhoria da qualidade de ensino e da aprendizagem; diminuição da evasão
escolar; aumento dos índices de aprovação dos alunos no ano letivo, como
também em avaliações externas; e aumento das matrículas na instituição.
A participação de familiares em reuniões do Conselho Escolar deve ser
real e não formal, isto é, as famílias precisam compreender que suas ações
não podem se restringir em atender apenas as decisões da gestão da esco-
la. Esse problema, muitas vezes, acontece devido ao despreparo das famílias
e até da escola com relação à funcionalidade e autonomia do Conselho Es-
colar, trazendo como consequência reuniões pautadas apenas em proble-
mas disciplinares de alunos, ou de assuntos do cotidiano da escola, como
festas, feiras, entre outros, do que em questões que envolvem o processo
educacional, como a melhoria da qualidade do ensino, da aprendizagem, do
rendimento escolar e da participação em concursos externos.
A importância da existência e da participação nos Conselhos vai além
dos resultados relacionados ao alcance dos objetivos propostos no planeja-
mento estratégico dentro de um processo de gestão participativa. Ela é uma
oportunidade do exercício pleno da cidadania.
A escola deve ser um ambiente democrático e a gestão escolar não deve
estar concentrada nas mãos de uma única pessoa, o diretor. As discussões
que envolvem as relações que a escola estabelece com a família têm sido
cada vez mais discutidas no meio educacional. Dessa forma, é essencial
compreender como elas acontecem e se desenvolvem para que se inicie
uma discussão com a finalidade de melhorar o ambiente escolar, assim como
as próprias relações entre os seus sujeitos.
É fato que muitos educadores não desejam sair de sua zona de conforto
para proporcionar às famílias momentos de visita, a não ser para falar sobre
o bom ou mau desempenho de alunos. Por outro lado, percebemos a falta
de interesse das famílias com relação à aprendizagem das crianças, adoles-
centes e jovens – não têm tempo para saber das suas trajetórias escolares.
A importância da participação da comunidade interna e dos familiares no Conselho Escolar | 69

Segundo Polonia & Dessen (2005), algumas limitações entre a relação


família e escola podem estar diretamente ligadas ao receio dos professores
de serem fiscalizados pelos familiares, ou a ausência de um programa ou
projeto que integre familiares e docentes.
A qualidade do ensino necessita que enfrentemos um longo processo
de mudança que deve começar a partir do Projeto Político Pedagógico, em
que membros da escola democrática envolvam-se nesse processo para pro-
porcionar um ensino de qualidade. É um direito da família participar das
propostas pedagógicas. É um dever das escolas promover meios para que
isso aconteça. Para que a educação de qualidade se torne realidade, é pre-
ciso que todos se sintam envolvidos e responsáveis.
O trabalho pedagógico deve levar em consideração uma flexibilidade no
planejamento diário do professor, esse, por sua vez, deve procurar recupe-
rar os alunos que não obtiverem êxitos na aprendizagem, isto é, com baixo
rendimento. A participação no contexto escolar pode ocorrer de diversas
formas, segundo Lück (2009):
• Participação como presença;
• Participação como expressão verbal e discussão;
• Participação como representação política;
• Participação como tomada de decisão;
• Participação como engajamento.
Cada uma dessas formas de participação contém uma intensidade dife-
rente e gradual no seu nível de interação. Para ser bem-sucedido, um mode-
lo de gestão escolar participativa deve promover: meios, formas sequenciais
e crescentes, de motivar as discussões e os debates acerca da viabilidade
de implantação de novas ideias e projetos na escola. Dentro de um mo-
delo de gestão educacional participativa, a escola deve ser planejada para
se transformar em um local com trabalhos coletivos, com integração entre
escola-família-comunidade.
Para Murillo et al. (2007), o envolvimento, no âmbito da gestão compar-
tilhada, se constitui em elementos motivadores para a colaboração entre
família e escola, com objetivos e visões compartilhados, direcionados a um
processo em que a participação da comunidade escolar na construção e
implantação do projeto político pedagógico torna-se um fator-chave de
sucesso.
70 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

Esta relação entre família e escola, dentro de um plano pedagógico de-


mocrático, deve estar ligada ao interesse de um ensino de qualidade e a
importância do papel da escola para a formação do caráter dos estudantes.
A concepção de gestão compartilhada, ou gestão democrática, vai além
da denominação desse modelo, ou seja, mesmo não tendo sido utilizadas as
denominações “gestão compartilhada” ou “gestão democrática” a essência
desse modelo esteve presente nos discursos de educadores quando estes
se referem à escola como “nossa escola”, à coletividade como trabalho em
conjunto e ao orgulho por se sentirem parte do todo.
A rede de interação entre família e escola só terá resultados positivos se
houver um canal livre de comunicação. Um componente muito importante
na gestão escolar compartilhada é a comunicação. A equipe gestora e o
Conselho Escolar devem ser uma ponte de ligação entre todos os sujeitos
que compõem a escola, facilitando os mecanismos de propagação das in-
formações a respeito do andamento dos projetos da escola e fazendo com
que todos dialoguem entre si.
Um bom processo de comunicação entre os membros da comunidade
escolar ajuda a definir consensos e evitar conflitos, favorecendo a prevalên-
cia da transparência e da democracia no processo participativo.
Com ações conjuntas entre ambas às partes, torna-se possível perceber
as transformações, em que a função da família melhora com a transferência
de valores e crenças aos estudantes e a função da escola se amplia com a
aprendizagem do conhecimento científico.

Possíveis estratégias para aprimorar a relação família e escola


Normalmente, a falta de participação da família no ambiente escolar
ocorre pelo fato de que as atividades escolares são planejadas de forma que
não levem em consideração as necessidades e os interesses das famílias,
tornando-se assim desinteressantes.
Por isso, é necessário que a escola esteja sempre aberta para planejar as
ações, ouvindo os familiares dos alunos, conhecendo as necessidades reais
do cotidiano de seus alunos.
A primeira estratégia é a promoção da comunicação entre a escola e
a família com sistemas de comunicação bilateral, procurando disponibilizar
canais diversos (reuniões de pais, reuniões individuais com a família, conta-
tos telefônicos, e-mail) para que se consiga alcançar um maior número de
A importância da participação da comunidade interna e dos familiares no Conselho Escolar | 71

famílias. Um dos problemas que, geralmente, impedem uma comunicação


mais efetiva, é quando os educadores usam somente bilhetes enviados pe-
los alunos. Esta maneira de se comunicar nem sempre é clara, transmitindo
pouca confiança entre as partes, o que dificulta a relação de parceria.
Também aparece caracterizada como unidirecional e não compartilha-
da, ou seja, a escola comunica o que deseja dos pais enquanto estes sentem
que não são ouvidos e que há pouco espaço institucional para acolher suas
manifestações (OLIVEIRA & MARINHO-ARAÚJO, 2010; FEVORINI & LOMÔ-
NACO, 2009).
A comunicação entre escolas e famílias é prioritariamente exercida nas
formas tradicionais, isso é: bilhetes em cadernos ou agendas, conversas bre-
ves na entrada ou na saída da escola, encontros em datas comemorativas
e por meio do principal canal de comunicação – as reuniões de pais (MAR-
CONDES & SIGOLO, 2012; OLIVEIRA & MARINHO-ARAÚJO, 2010; BHERING
& SIRAJ-BLATCHFORD, 1999).
Conflitos também podem surgir quando existe clara diferença de tra-
tamento dispensada por parte dos professores a alguns pais, geralmente
beneficiando aqueles de classes sociais mais abastadas (MARANHÃO &
SARTI, 2008).
O estudo de Munhoz e Scatralhe (2012) propõe que haja um espaço con-
versacional na escola, onde se possa falar, trocar, ouvir, questionar e dialogar
com os participantes que fazem parte do processo escolar do aluno (pais e
professores, fundamentalmente).
A comunicação é apontada por Bhering & Siraj-Blatchford (1999) como
fundamental para que os pais compreendam e os professores expliquem os
objetivos da escola, o desenvolvimento das crianças, o processo educacio-
nal e a atuação docente. Para que haja o estabelecimento de um diálogo
efetivo, é preciso que os professores aceitem a responsabilidade de se co-
municarem de forma clara, simples e compreensível com os pais, conforme
apontam Polonia & Dessen (2005).
A comunicação com as famílias deve acontecer de forma simples.
Os docentes devem estar atentos à compreensão dos familiares em rela-
ção aos recados escolares e o dever de casa (se está claro). Ao se comunicar
com os familiares, o professor deve levar em consideração as diferentes for-
mas culturais e níveis de escolaridade dos pais ou responsáveis.
Também é preciso, de acordo com Guzzo (1990), que os pais disponham
de algum tempo e interesse para o diálogo, estando disponíveis para o
72 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

estabelecimento de vínculos com a escola. Nessa questão da comunicação,


também perceber a questão do horário de entrada e saída da escola.
Os professores, por sua vez, desejam que os pais sejam mais permeáveis
às suas orientações (MUNHOZ & SCATRALHE, 2012). Conflitos na comunica-
ção ocorrem na medida em que a família se queixa de pouco esclarecimento
e os professores se queixam das cobranças familiares (MUNHOZ & SCATRA-
LHE, 2012).
O ponto de partida deve ser o reconhecimento mútuo destas duas ins-
tituições como sendo de grande importância para o desenvolvimento da
criança, não tornando a comunicação um “diálogo de surdos”, como muito
frequentemente se percebe, conforme relata Szymanski (1997).
Além disso, dialogar requer consciência de igualdade e certeza de res-
peito mútuo, o que não ocorre quando os pais estão em posição subalterna,
como se refere Gomes (1993), ou quando os professores ficam inibidos frente
aos questionamentos de alguns pais com formação superior à sua, conforme
cita Munhoz & Scatralhe (2010).
Outra estratégia está na criação de uma Escola de Pais, com objetivo
formativo, por meio de palestras com os mais variados temas – educação,
saúde, alimentação, trabalhos de casa, comportamento, abandono escolar.
Importante, no final de cada palestra, criar uma sessão de esclarecimento.
Esta ação pode ter a participação de toda a comunidade escolar e externa.
Uma terceira estratégia está no alargamento de horários para as horas
das reuniões de familiares, ou de final de bimestre. Esta ação é fundamen-
tal, pois muitas vezes a família não consegue sair do seu local de trabalho
mais cedo. Caso não seja possível, a escola deve agendar outro horário de
atendimento.
Uma quarta estratégia seria ter a participação de alunos nas reuniões de
final de bimestre. Esta participação de estudantes, em reuniões bimestrais, é
justa, visto que o maior interessado é ele próprio, podendo ainda defender-
-se e esclarecer situações que tenham surgido, evitando novas reuniões ou
discussões.
Uma quinta estratégia está nos docentes em envolver os familiares em
atividades desenvolvidas em casa, sem que seja pesada e desconfortante
(no caso do familiar analfabeto). O objetivo seria ter a família se interessando
e ajudando os filhos nas atividades escolares. Quando as interações entre
escola e família aumentam, os familiares ajudam a escola e os seus profissio-
nais de forma mais positiva.
A importância da participação da comunidade interna e dos familiares no Conselho Escolar | 73

Poderíamos elencar várias outras estratégias simples – ações e ativida-


des – para substituir atitudes realizadas há tantos anos pela escola, porém
o mais importante é termos oportunidades de debater e refletir de maneira
vertical sobre as relações entre família e escola, de forma democrática.
Finaliza-se afirmando que a relação entre escola e família ainda precisa
ser trabalhada e melhor desenvolvida, explorada pela escola. Consideramos
ser importante e fundamental esse envolvimento e essa participação em
todos os níveis de ensino. O envolvimento de todos ainda é tido como um
assunto ambíguo – família não quer participar versus escola não dá espaço
para essa participação –, e muitas são as dificuldades a serem superadas.
Enfim, lembramos que poucas famílias têm a capacidade para mudar esta si-
tuação sozinha, sendo essencial a cooperação de toda comunidade escolar.

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76 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar
4

CONSELHO ESCOLAR E A GESTÃO


DEMOCRÁTICA DA EDUCAÇÃO:
CONVIVÊNCIA E APRENDIZAGEM
NA ESCOLA
Walter Pinheiro Barbosa Junior
Eden Ernesto da Silva Lemos

A importância do Conselho Escolar nas relações da escola

Este texto trata de dois grandes objetivos: refletir sobre o convívio de-
mocrático nos diferentes espaços escolares, sendo que o Conselho Esco-
lar deve promover discussões a respeito da existência de divergências nas
relações dentro da escola e propiciar formas de lidar com os conflitos; e,
entender o papel do Conselho Escolar nas relações que acontecem dentro
da escola, no que se refere ao reconhecimento e o respeito ao outro, com
vistas a gerar práticas democráticas.
Traz duas temáticas a serem discutidas: o convívio democrático nos
diferentes espaços escolares; e, o papel do Conselho Escolar nas relações
que acontecem dentro da escola. Assim, estamos refletindo sobre questões
relacionadas à convivência na escola e nessa perspectiva, pensamos a escola
como um espaço aberto à convivência e consensos, pois há a necessidade
de equilíbrio entre os diferentes interesses envolvidos.
A participação de todos fortalece relações e organiza atitudes e quali-
dades nos sujeitos, no sentido de comprometerem-se com os objetivos da
escola em determinadas circunstâncias. Isso é muito importante para quem
está à frente da escola como nós. Como já foi dito em outras seções deste
livro, os princípios que norteiam a gestão democrática são:
78 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

• descentralização: as decisões e ações devem ser elaboradas e executa-


das baseadas no diálogo e na negociação entre os participantes;
• participação: todos os envolvidos no dia a dia escolar devem participar
da gestão (diretores, funcionários, professores, estudantes, familiares e/
ou responsáveis e comunidade local); e
• transparência: toda e qualquer decisão relativa às políticas a serem de-
senvolvidas e às ações a serem realizadas devem ter caráter público.
Dessa forma, a construção da democracia na escola se caracteriza pela
participação efetiva dos envolvidos.
Destacamos duas práticas que possibilitam uma gestão mais democrá-
tica na escola: reflexões e análises cuidadosas sobre a aprendizagem dos
estudantes, sob a perspectiva de melhorar essa aprendizagem; e, busca de
soluções coletivas para as demandas concretas do dia a dia escolar.
Quais seriam os espaços democráticos para tratarmos as questões rela-
cionadas à escola, além das reuniões do Conselho Escolar?
• reuniões de familiares ou responsáveis;
• reuniões da Unidade Executora;
• atividades Coletivas de Trabalho Pedagógico.
Todos os ambientes coletivos devem ser democráticos. São espaços nos
quais a escola tem a oportunidade de estimular a democracia na sua prática
cotidiana, muito embora isso não signifique uma aplicação de forma direta
e simples. É importante considerarmos que esse consenso não é o ato de
impor algo a alguém. É importante, também, saber que o consenso pode se
modificar a partir do momento em que o grupo acredite que ele não atenda
mais o pensamento coletivo. Isso é democracia.
A princípio, é difícil entender o que é democracia, porque existem varia-
ções nas experiências democráticas ao longo da história e que diferem de
acordo com os contextos e as condições das sociedades. Por isso, depende
do contexto. As regras podem ser modificadas a qualquer momento, desde
que sejam consensuais.
Democracia, como um ideal, nem sempre caracteriza práticas concretas,
ou seja, nem sempre o que se idealiza sobre democracia na escola é neces-
sariamente o que acontece. A democracia não é uma concepção estática e
única, ela sofre influência e interferência dos contextos, dos valores e dos in-
teresses que estão postos para as diferentes sociedades. Fomentar a demo-
cracia implica o reconhecimento dos conflitos no interior dos grupos sociais
Conselho Escolar e a gestão democrática da educação: convivência e aprendizagem na escola | 79

não como fator impeditivo, mas como estímulo ao respeito e à convivência


com as diferenças.
E quais seriam as formas de vivenciar a democracia?
As condições para o desenvolvimento da democracia na escola são da-
das pelo reconhecimento da multiplicidade e da diferença que caracterizam
a vida das pessoas.
A lógica da argumentação nos ajuda a resolver conflitos quando esta-
mos dispostos a dialogar. A gestão nas escolas deve motivar o diálogo por
meio da participação de profissionais da educação, familiares, estudantes
e comunidade local. Nesse sentido, todos devem acreditar que o processo
educacional é algo a ser construído por intermédio de participação ativa.
Quando existe este diálogo, pessoas com diferentes culturas dialogam
entre si, construindo novos saberes. As várias culturas e pensamentos são
benéficas e demonstram que existem diferenças entre as pessoas. Isso con-
tribui para termos outras perspectivas nas relações escolares. Outro aspecto
relativo ao exercício da democracia nas práticas escolares é o incentivo a
utilização de horários e espaços que não são programados oficialmente pela
escola, mas que demonstrem iniciativa e caracterizem a construção de uma
autonomia democrática.
O conceito de autonomia não fica estagnado como mera possibilidade,
por isso a importância das práticas democráticas conscientes e constantes,
inclusive por ser um processo. As pessoas se tornam mais autônomas na
medida em que atuam e têm possibilidades reais de participar e de decidir.
Ao se perceberem respeitadas em suas posições nas questões públicas,
passam, então, a repensar sua participação. A escola é um espaço social que
atende a essa perspectiva na medida em que se constitui em um ambiente
próprio para a construção e exercício da cidadania, para a livre expressão
de ideias e para o crescimento tanto do indivíduo, singularmente, quanto da
sociedade em que está inserido, coletivamente.
A democracia na escola deve se basear no respeito mútuo entre os in-
divíduos numa perspectiva igualitária, isto é, caracteriza-se por uma forma
de gestão justa, mediante um processo em que as razões são aceitáveis e
acessíveis a todos. Os assuntos democracia, escola e gestão democrática,
por sua vez, possuem esse caráter de processo, que é um movimento do
que “está acontecendo”. E isso cria possibilidades de mudanças de ações e
rumos quando se visualiza uma atuação mais humanizada, tanto na socieda-
de quanto na escola.
80 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

Conselho Escolar: a construção da gestão democrática e os


processos de participação
Neste tópico tratamos do fortalecimento de mecanismos de democrati-
zação da escola, em especial, o Conselho Escolar e os processos de escolha
de diretores, por meio de reflexões sobre os limites, as possibilidades e os
desafios da gestão democrática.
Esse é um tema de extrema relevância, pois permite que todos possam
participar ativamente do cotidiano da escola, afinal, gestão democrática im-
plica a efetivação de novos processos de organização e gestão baseados em
uma dinâmica que favoreça a participação de todos nas decisões.
A participação constitui uma das práticas fundamentais a ser desenvol-
vida pelos diferentes atores que atuam no cotidiano escolar. A participação
não tem o mesmo significado para todos. Ela apresenta diferenças quanto à
natureza, ao caráter, às finalidades e ao alcance dos processos participativos.
Isso quer dizer que os processos de participação constituem, eles próprios,
processos de aprendizagem e de mudanças culturais a serem construídos
cotidianamente.
Não existe apenas uma forma ou lógica de participação. Há dinâmicas
que se caracterizam por um processo de pequena participação, e outras
que se caracterizam por efetivar processos em que se busca compartilhar
as ações e as tomadas de decisão por meio do trabalho coletivo, envolven-
do os diferentes segmentos da comunidade escolar. Há processos que são
declarados como participativos, mas que na verdade não garantem a parti-
cipação de todos, optando por decisões já tomadas pela minoria. Para que a
participação coletiva se torne realidade, são necessários meios e condições
favoráveis. É preciso repensar a cultura escolar e os processos que aconte-
cem no interior da escola, estes algumas vezes autoritários.
Um aspecto importante é entender a participação como uma prática a
ser desenvolvida coletivamente. Participação não se decreta, não se impõe.
É, antes de tudo, um processo que envolve sensibilização, compromisso e
vontade de transformar a realidade.
Para melhor compreendermos os processos participativos, primeiro
devemos destacar a importância da escola para a formação do cidadão,
especialmente a escola pública. A educação é um direito do indivíduo, prin-
cipalmente a partir da expansão e da democratização das oportunidades de
escolarização. Garantia de escola para todos significa inclusão social e efeti-
va participação da sociedade civil. Garantir escola para todos é, sobretudo,
Conselho Escolar e a gestão democrática da educação: convivência e aprendizagem na escola | 81

garantir uma educação de qualidade. Não basta que todos tenham acesso à
escola. A verdadeira inclusão social é quando o indivíduo tem acesso a uma
educação de qualidade. Só assim ele realmente poderá ter uma participação
na escola e na sociedade.
A garantia de uma escola pública, gratuita e de qualidade para todos é
um dever do Estado e direito social dos indivíduos. O acesso de todos a essa
escola (pública, gratuita e de qualidade) implica a garantia de condições
objetivas, como o financiamento pelo poder público, o Projeto Político-Pe-
dagógico (PPP), a autonomia escolar e a conscientização e participação coti-
diana de dirigentes escolares, professores, demais funcionários, estudantes
e familiares de estudantes que dela fazem parte.
Historicamente, a participação não se manifesta de forma rápida e es-
pontânea. É necessário um amplo trabalho de mobilização e reflexão a fim
de que todos se conscientizem sobre a importância de participar da elabora-
ção e da construção cotidiana dos projetos da escola. É preciso mobilização
social em defesa da garantia de escola pública de qualidade para todos. A
educação e a escolarização são direitos sociais constitucionais. A educação
e a garantia da escolarização são direitos sociais, e para compreendermos
melhor esses direitos, conceituaremos os termos educação e escola.
Educação são todas as manifestações culturais produzidas pelos seres
humanos. A escola, nesse cenário, é o espaço privilegiado de construção e
socialização do conhecimento e se encontra organizada por meio de ações
educativas que visam à formação de sujeitos capazes de atuar na sociedade
com ética, por meio da participação crítica e criativa na busca de soluções
para os problemas, transformando, assim, a realidade. Ou seja, a organiza-
ção escolar cumpre o papel de garantir não só que os indivíduos tenham
acesso ao conhecimento, mas também que reconstruam cotidianamente
esse saber.
Necessário se faz resgatar como as leis interferem na lógica organizativa
da escola e no protagonismo dos atores sociais que constroem o cotidiano
escolar. Destaca-se nos anos 1990 a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional (LDB 9394/96). Essa lei alterou o panorama da Educação
Básica, que passou a contemplar a Educação Infantil, o Ensino Fundamental
e o Médio. Além dessa mudança, a LDB 9394/96 redirecionou as formas de
organização e gestão, os padrões de financiamento, a estrutura curricular,
requerendo, entre outros, a implementação de processos de participação e
gestão democrática nas unidades escolares públicas.
82 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

Ressalta-se que a referida lei estabelece o princípio da gestão demo-


crática, ou seja, a necessidade de que a gestão das escolas se efetive por
meio de processos coletivos envolvendo a participação das comunidades
escolar e local. Assim, a gestão democrática é a garantia de mecanismos e
condições para que ocorram espaços de participação.
Em seu artigo 14, dispõe que os sistemas de ensino definirão as normas
de gestão democrática do ensino público na Educação Básica, de acordo
com as suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios:

I – participação dos profissionais da educação na elaboração do PPP da


escola;
II – participação das comunidades escolar e local em Conselhos Escola-
res ou equivalentes.

A LDB 9394/96, ao atribuir aos sistemas de ensino a construção das nor-


mas para a gestão democrática, ressalta a necessidade do envolvimento de
diversos segmentos. Assim, a mobilização de todos constitui-se num grande
desafio para a construção dessa gestão participativa.
Também devemos entender que o PPP ocupa um papel central na cons-
trução de espaços de participação e, portanto, na implementação de uma
gestão democrática. Envolver os diversos segmentos na elaboração e no
acompanhamento do PPP é um grande e prazeroso desafio para os conse-
lheiros escolares. Participando dessa construção, os envolvidos conscienti-
zam-se que o PPP deve retratar as intenções da escola para enfrentar os
desafios da realidade cotidiana. Dessa forma, contribuem para melhorar a
qualidade da educação, a partir dos diferentes olhares e das contribuições
de pais, professores, funcionários e estudantes garantindo legitimidade ao
PPP.
É importante o Conselho Escolar compreender melhor o que é gestão
democrática. Esse processo não trata apenas de conhecer os dispositivos
legais, como decretos, portarias ou resoluções, mas também depende da
concepção de gestão e de participação defendida pelos envolvidos. Se
existem espaços de participação, eles devem ser ocupados, e a tomada de
decisão ser coletiva. Então, pensar a gestão escolar é compreender a cultura
da escola e os seus processos, bem como articulá-los com as relações sociais
mais amplas.
A compreensão dos processos culturais na escola envolve diretamente
os diferentes segmentos das comunidades escolar e local, seus valores, suas
Conselho Escolar e a gestão democrática da educação: convivência e aprendizagem na escola | 83

atitudes e seus comportamentos. Semelhante ao que ocorre na sociedade,


a escola também é um espaço de convivência com suas contradições e di-
ferenças. A gestão democrática efetiva-se quando buscamos construir na
escola um processo de participação baseado em relações de cooperação,
no trabalho coletivo e na partilha de poder. Para que isso ocorra é preciso
exercitar o diálogo e o respeito, garantindo a liberdade de expressão.
Ressaltamos alguns mecanismos que fomentam a tomada de decisão
coletiva e a implementação de novas formas de organização e de gestão
escolar, por exemplo, a construção coletiva do PPP, o aprimoramento dos
processos de escolha de diretor, a criação e consolidação de órgãos colegia-
dos na escola, como os Conselhos Escolares, Associação de Pais e Mestres e
o fortalecimento da participação estudantil por meio da criação de Grêmios
Estudantis.
Toda essa dinâmica efetiva-se como um processo de aprendizado políti-
co fundamental para a instituição de uma nova cultura na escola. Pensando
e atuando coletivamente, aumentam-se as possibilidades de obtenção de
bons resultados. Isso implica também vivenciar e construir novas formas de
relacionamento interpessoal.
As práticas de participação coletiva e suas sistemáticas avaliações são
fundamentais para romper com a lógica autoritária de organização e ges-
tão das escolas. Essas práticas, além de contribuírem para a efetivação da
gestão democrática, favorecem a ampliação das concepções de mundo, ser
humano e sociedade.
Nesse processo, a articulação entre os diversos segmentos que com-
põem a escola e a criação de espaços e mecanismos de participação são
fundamentais para o exercício do aprendizado democrático, pois contribuem
para a formação de pessoas críticas, criativas, participativas e solidárias.
A democratização da gestão escolar implica a superação dos processos
centralizados de decisão. A escola precisa não só criar espaços de discus-
sões que possibilitem a construção coletiva do projeto educativo, como
também criar ambientes que favoreçam essa participação.
A participação colegiada na escola é uma das formas que os segmentos
sociais envolvidos nas comunidades escolar e local têm de participar ativa-
mente da instituição escolar e do seu funcionamento, envolvendo-se e par-
ticipando junto ao coletivo das discussões, do planejamento, da avaliação e
da definição de projetos.
84 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

Aos sistemas de ensino e às escolas cabe definir as formas e os meca-


nismos de participação. Em determinados momentos, a participação pode
envolver toda a comunidade escolar. Já em outros, pode envolver represen-
tantes democraticamente eleitos, e assim por diante. Entre os mecanismos
e processos de participação que podem ser vivenciados em uma instituição
educativa, estão a escolha do dirigente escolar, o Grêmio Estudantil, o Con-
selho Escolar e a Associação de Pais.
A escolha do dirigente escolar citada pode ser definida de diversas
maneiras:
• diretor livremente indicado pelos poderes públicos (estados e
municípios);
• diretor aprovado em concurso público específico para o cargo;
• diretor indicado por listas tríplices ou sêxtuplas ou processos mistos;
• eleição direta para diretor.
Embora cada uma dessas modalidades tenha seus fundamentos, nenhu-
ma parece garantir plena e isoladamente as exigências para o cumprimento
das funções do diretor na gestão democrática da escola. O processo de
gestão democrática para a escolha do diretor constitui-se num grande de-
safio, com posições político-ideológicas muito distintas, e exige uma efetiva
participação das comunidades escolar e local, a proposta pedagógica para
a gestão e a liderança dos postulantes ao cargo.
Por isso, é necessária uma análise minuciosa sobre as diversas formas de
escolha, considerando o contexto local, no intuito de subsidiar a opção que
os sistemas de ensino e suas escolas venham a fazer. Por exemplo, na Esco-
la do Campo podem ser encontradas comumente duas situações: a escola
multidocente e a escola unidocente.
Na escola multidocente, a forma de escolha do diretor pode ser pensa-
da dentro dos parâmetros já assinalados, compreendendo tanto a escolha
democrática, via eleições ou outra forma definida pela comunidade, quanto
o exercício democrático, no qual seja assegurada a construção de espaços
democráticos e coletivos de deliberação. Na escola unidocente, no entanto,
o diretor geralmente é o próprio professor que acumula a função de respon-
sável pela escola, preponderando sua função docente. Independentemente
da opção é importante que se garantam processos de participação coletiva.
Ao se analisar essas modalidades, percebe-se que a livre indicação dos
diretores pelo chefe do Executivo se fundamenta na prerrogativa do gestor
Conselho Escolar e a gestão democrática da educação: convivência e aprendizagem na escola | 85

público em indicar o diretor como um cargo de confiança da administração


pública. Historicamente, contudo, essa modalidade parece ter contemplado
as formas mais usuais em que a escolha do diretor não contava com o respal-
do e a participação da comunidade escolar. Outra forma de provimento do
cargo do gestor escolar é o que ocorre por meio de concursos públicos. Por
meio desse mecanismo, acredita-se haver isenção na escolha. Entretanto, o
concurso público para cargos de diretor não tem sido muito adotado pela
maioria dos estados e municípios por entender que a gestão escolar não se
reduz à dimensão técnica, mas se configura também em espaços de nego-
ciações. A seleção do diretor escolar somente por concurso de provas, ou
de provas e títulos, exclui a participação efetiva das comunidades escolar e
local.
A modalidade denominada de indicação a partir de listas tríplices ou
sêxtuplas, ou processos mistos, é uma modalidade que envolve também
a consulta à comunidade escolar para a indicação de nomes dos possíveis
diretores. Nessa modalidade compete ao chefe do Executivo ou ao seu re-
presentante nomear o diretor dentre os nomes destacados ou submetê-los
a uma segunda fase no processo de escolha, com provas ou atividades de
avaliação de sua capacidade cognitiva para a gestão da educação.
Nesse processo a comunidade também se manifesta. A dificuldade é
que ela pode não ser atendida nos seus anseios, pois o Executivo delibera
sobre a indicação do diretor escolar fundamentado também em outros cri-
térios. É importante verificar se o papel da comunidade escolar é decisivo
ou se apenas reforça um discurso de participação e de democratização das
relações escolares.
Já as eleições diretas para diretores, historicamente, têm sido uma das
modalidades tidas como mais democráticas. Apesar de serem polêmicas,
acredita-se que essa modalidade é uma retomada ou conquista da decisão
sobre os destinos da escola pela própria escola. Esse processo de eleição
apresenta-se de formas variadas. Uma delas é quando há delimitação do
colégio eleitoral, que pode ser restrito a apenas uma parcela da comunidade
escolar. A outra forma é quando a totalidade dos segmentos da comunidade
escolar participa de todo o processo eleitoral, para eleger o diretor.
Há exemplos em que a eleição é utilizada como um dos mecanismos de
escolha associado a outros, tais como: provas específicas, apresentação de
planos de trabalho e análise de currículo. No processo misto de escolha do
diretor, valoriza-se a participação das comunidades escolar e local. Porém,
86 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

embora as eleições se apresentem como um legítimo canal na democratiza-


ção da escola e das relações sociais mais amplas, é necessário que não se
percam de vista as limitações do sistema representativo, que muitas vezes
convive com interesses opostos.
É importante destacar que a eleição, somente, não é a garantia da
democratização da gestão, mas devemos referendar essa modalidade como
um importante instrumento a ser associado a outros, para o exercício de-
mocrático, como o Conselho Escolar. Só a prática democrática cotidiana e o
exercício autônomo da cidadania poderão superar as práticas e comporta-
mentos clientelistas na escola.
Nas eleições, como em todo processo de participação, o envolvimento
das pessoas como sujeitos condutores das ações é uma possibilidade, não
uma garantia. É primordial desenvolver uma cultura de participação, em que
os indivíduos se sintam motivados a se tornarem partícipes da ação coletiva.
Dessa forma, reafirmar a prática democrática é fundamental para romper
com práticas autoritárias.
O Conselho Escolar, como órgão de representação, é uma instância cole-
giada, que deve contar com a participação de representantes dos diferentes
segmentos das comunidades escolar e local. Apresenta-se como um espaço
de discussão de caráter pedagógico, consultivo, deliberativo, fiscalizador e
mobilizador.
A quantidade de membros do Conselho Escolar varia de acordo com a
legislação de cada sistema educacional. Assim, a quantidade de represen-
tantes, na maioria das vezes, depende do tamanho da escola e do número
de estudantes que ela possui. O importante é que cada unidade educacio-
nal constitua o seu Conselho Escolar de acordo com suas necessidades e
PPP, garantindo a representação de todos os segmentos.
O Conselho Escolar pode atuar na escolha dos dirigentes escolares e no
processo de implementação da gestão democrática, auxiliando na organiza-
ção do processo ou na forma de consulta, no recebimento de inscrições, na
mobilização da comunidade para a divulgação das propostas de candidatos,
na realização de debates e de outras atividades definidas pela comunidade
escolar e pelo respectivo sistema de ensino. Por se tratar de um dos mais im-
portantes mecanismos de democratização da gestão de uma escola, quanto
mais ativa e ampla for a participação dos membros do Conselho Escolar,
maiores serão as possibilidades de fortalecimento dos mecanismos de par-
ticipação e decisão coletivos. Assim, ele atua como elemento aglutinador
Conselho Escolar e a gestão democrática da educação: convivência e aprendizagem na escola | 87

de forças de diferentes segmentos e como corresponsável pela gestão da


escola, contribuindo para que a escola alcance, a cada dia, mais autonomia.
A autonomia é um conceito relacional. Somos sempre autônomos de
alguém ou de alguma coisa. Sua ação se exerce sempre num contexto de
interdependência e num sistema de relações. A autonomia é também um
conceito que exprime sempre certo grau de relatividade, pois somos mais
ou menos autônomos; podemos ser autônomos em relação a algumas coisas
e não ser em relação a outras.
Quando falamos em autonomia, estamos defendendo que a comunida-
de escolar pense, discuta, planeje, construa, execute e avalie seu PPP, bem
como estabeleça os processos de participação que movimentam o dia a dia
da escola. A construção da autonomia é processual e se articula ao esforço
mais amplo de democratização da escola. Participação efetiva e gestão de-
mocrática são fundamentais para que a autonomia escolar seja resultado da
construção coletiva.
As escolas têm experimentado o fortalecimento do Conselho Escolar
como espaço de decisão e deliberação das questões pedagógicas, admi-
nistrativas, financeiras e políticas. Ou seja, essas escolas têm no Conselho
Escolar um grande aliado no fortalecimento da unidade escolar e na demo-
cratização das relações escolares.
O processo de democratização da escolha de diretores tem contribuído
para se repensar a gestão escolar e o papel do diretor. Em uma unidade
escolar, normalmente, o diretor assume o papel de coordenador das ativi-
dades gerais da escola e, nesse sentido, assume um conjunto de responsa-
bilidades a serem compartilhadas com os diferentes segmentos da escola.
Há alguns anos, o diretor centralizava em suas mãos a tomada de decisões e
pouco compartilhava com as comunidades escolar e local. A partir das mu-
danças no cotidiano escolar e com o fortalecimento da gestão democrática
nos sistemas de ensino, o papel do diretor e sua prática à frente da direção
da escola também se modificam. Questões como avaliação educacional,
planejamento escolar, calendário, PPP, eleições, comemorações e muitas
outras atividades e decisões contam com a participação cada vez maior dos
familiares, dos estudantes, dos professores e dos funcionários.
Essas mudanças acarretam a necessidade de se pensar o processo de
organização e os mecanismos de participação na escola e, ainda, de se es-
truturar a gestão com a participação de outros membros além do diretor.
88 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

O processo de mudança amplia ações compartilhadas na escola e for-


talece a forma de organização coletiva. Ao invés de uma só pessoa respon-
sável pela gestão, existe uma equipe gestora. Papel do diretor e a criação e
atuação dos Conselhos Escolares têm se mostrado também como um dos
caminhos para se avançar na democratização da gestão escolar. Assim, de-
finir claramente as atribuições e o papel político da equipe gestora e do
Conselho Escolar é fundamental!

Conselho Escolar como espaço de formação humana


O Conselho Escolar e os conselheiros escolares vão sempre mudando.
Nesse movimento, a tarefa é organizar e reorganizar ideias e práticas edu-
cativas com pessoas que têm nome, sobrenome e um modo de ser e viver
singular. Os conselheiros são antes de tudo gente e estão sempre se trans-
formando, entrando e saindo do Conselho Escolar. Essa é uma característica
dos processos vivenciados pelos seres humanos que afeta o Conselho Esco-
lar, pois não só o conselheiro se modifica, como sua participação é efêmera,
uma vez que se assume a representação de certo segmento por um tempo
determinado. Quando esse período termina se instaura um novo processo
eleitoral, e essa eleição traz consigo pessoas novas que, muitas vezes, não
sabem o que é o Conselho Escolar, sendo necessário reiniciar todo o pro-
cesso de aprendizado.
Assim, ter paciência histórica e disposição para reiniciar o processo,
compreendendo que esse movimento é um elemento que caracteriza o
Conselho Escolar como espaço de formação humana, é fundamental por-
que, se somos inacabados, a tarefa de representar o segmento dentro de
uma escola é algo que termina. Esse caráter de terminalidade da ação de
conselheiro em uma escola é a base que nos possibilita afirmar que se faz ne-
cessário pensar o Conselho Escolar como um lugar de formação continuada.
Essa perspectiva de não eternidade do conselheiro escolar no Conse-
lho, gerado pela lei que estabelece o tempo para cada pessoa representar
seu segmento fortalece e, ao mesmo tempo, fragiliza o Conselho Escolar.
Fortalece porque permite que um grupo de pessoas, ao assumir o Conselho
Escolar, se aproprie do conteúdo da cultura democrática vivencialmente em
um tempo determinado. Mas fragiliza na medida em que esse mesmo grupo
que se qualificou como gestor da educação pública é substituído pelos no-
vos conselheiros eleitos. Esse movimento instaura um aparente recomeçar.
Conselho Escolar e a gestão democrática da educação: convivência e aprendizagem na escola | 89

Sugerimos o termo “aparente recomeçar” porque, quando se trata da


formação humana, não se recomeça, uma vez que tudo o que foi nunca mais
será o mesmo. Basta olhar o sol e perceber que ele é o “mesmo”, mas novo
a cada dia. Nessa perspectiva, podemos conceber o Conselho Escolar como
um órgão colegiado que só existe quando os conselheiros estão reunidos.
Portanto, sua existência é determinada pela presença de pessoas que se en-
contram para pensar, problematizar e decidir sobre aspectos que compõem
o Projeto Político-Pedagógico (PPP) de uma escola.
Quando pensamos o Conselho Escolar como um espaço de formação
humana, estamos pensando na perspectiva de uma educação democrática,
pois, se antigamente a gestão da escola era caracterizada pela existência
de uma direção centralizada em duas pessoas – o(a) diretor(a) e o(a) vice-
-diretor(a) –, sustentadas pela lógica em que poucos mandavam e muitos
obedeciam, o Conselho Escolar, ao ser constituído por representantes de
segmentos da comunidade escolar e local, eleitos por seus pares, instaura
outra lógica, a de que todos participam diretamente das decisões sobre
suas vidas e o projeto de educação da escola em que estão situados.
Assim, o Conselho Escolar pode ser compreendido como espaço de
formação humana, porque sua essência é a relação cuidadosa e conflituosa
entre os conselheiros que representam seus segmentos. Esse movimento
possibilita o exercício de uma prática educativa em que a dimensão e impli-
cação de todos com o público ganham sentido, porque a escola passa a se
constituir como uma propriedade do público que a constitui.
Dessa maneira, o que antes era organizado de modo simples – duas
pessoas mandavam e todas obedeciam – tornou-se complexo com a exis-
tência do Conselho Escolar. O Conselho é instituído como um colegiado
com caráter deliberativo no interior da escola. Essa perspectiva que instaura
o Conselho na estrutura administrativa e pedagógica da escola modificou a
lógica de gestão. Com o Conselho Escolar, todos pensam e operacionalizam
juntos na escola pública. Assim, o Conselho possibilita que se experimente
uma prática política que educa a comunidade escolar e local, no que diz
respeito ao aprendizado da democracia representativa.
O fato de o Conselho Escolar ser constituído por todos os represen-
tantes da comunidade escolar e local possibilita um ambiente dialógico de
comunicação entre os familiares e os professores e entre a escola e a comu-
nidade onde ela se localiza. Outro aspecto que torna o Conselho Escolar um
ambiente de formação humana é a participação do segmento de pais no
90 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

Conselho, com direito de voto, ou seja, inaugura-se uma nova relação entre
família e escola.
Basta lembrar que nos primeiros momentos os pais, mães ou responsá-
veis pelos estudantes participavam da vida da escola ao deixarem e pegarem
seus filhos no estabelecimento de ensino. Depois, passam a participar das
reuniões para receber as notas e ouvir as reclamações dos professores sobre
seus filhos. Mas, com o Conselho Escolar os pais vão à escola como sujeitos
de direito, assegurado por lei, para tomar parte nas decisões e encaminha-
mentos do projeto político e educativo da escola. São essas conquistas que
estão tornando o Conselho Escolar um espaço de formação humana, na
medida em que as relações no interior da escola estão sendo modificadas.
Além dos familiares, a comunidade local também tem o direito de par-
ticipar efetivamente da vida da escola, por meio de um representante no
Conselho Escolar, eleito pelas instituições ou moradores da comunidade
não escolar. Ser constituído por representantes de todos os segmentos das
comunidades escolar e externa, com direito a voz e voto, possibilita que
o Conselho Escolar seja um órgão educativo de formação humana. Nessa
perspectiva, para que o Conselho Escolar se constitua de fato como um es-
paço de formação humana, é preciso que cada conselheiro tenha sua palavra
assegurada. Mas uma palavra autêntica que sinalize o que cada conselheiro
pensa e deseja. Por ser autêntico no falar, cada conselheiro precisa ser au-
têntico no escutar. Ouvir o que o outro tem a dizer, e não o que deseja que
ele diga.
Assim, é na relação entre o falar e o escutar autênticos que o Conselho
Escolar se constitui como um espaço de formação humana, tecendo um
modo de ser e de fazer a gestão da escola que afirma o fluxo de uma cons-
ciência a qual se relaciona com os outros e com o mundo.
Ao nos ocuparmos com a necessidade do uso da palavra e da escuta
autênticas, pensamos em outra dimensão que torna o Conselho Escolar
um espaço de formação humana. Trata-se do fato de ser constituído por
pessoas diferentes, e é na existência dessa diversidade que se instaura a
possibilidade de realizarmos nossa tendência natural de ser mais com o ou-
tro. Pois é por sermos diferentes que temos o que compartilhar. Todos nós
somos diferentes. É nessa diferença que estão o sentido e a riqueza de ser
gente. E, em um Conselho Escolar em que todos pensam iguais, muitos são
dispensáveis. Claro que podemos concordar, mas é importante que cada um
tenha o direito assegurado de interpretar o mundo à sua maneira.
Conselho Escolar e a gestão democrática da educação: convivência e aprendizagem na escola | 91

Quando compreendemos que cada um interpretar o mundo de uma


perspectiva diferente e que opina sobre ele a partir de sua trajetória de vida,
entendemos que o respeito se faz necessário, principalmente, com relação
àqueles que divergem do nosso pensamento. Nesse aspecto se faz neces-
sário que o Conselho Escolar promova um diálogo entre os conselheiros de
modo que todos possam se conhecer um pouco mais. Saber de si e do ou-
tro, falar onde nasceram, sobre o que gostam de fazer, como se divertem no
fim de semana, com que tipo de escola sonham e o que desejam para todos
os que estão na escola em que ele é conselheiro. Talvez, esse procedimento
venha a contribuir para que o Conselho Escolar se fortaleça como um espa-
ço de formação humanizante.
É importante lembrar que, por mais atuante que seja o Conselho Escolar,
ele não se constitui em um espaço de formação humana se não for instaurado
em seu interior o respeito entre todos que participam desse colegiado.
Respeito significa que todas as ideias serão consideradas e examinadas
coletivamente. Quando sugerimos que todas as ideias sejam consideradas,
estamos chamando a atenção para o fato de que muitas vezes os pais e
estudantes participam do Conselho Escolar, mas suas ideias não são ouvidas.
Muitas vezes esses dois segmentos não são tratados como pessoas que,
implicadas na escola, também opinam sobre o projeto educativo e cujas
ideias em alguns momentos contribuem efetivamente para se obter bons
processos e resultados na relação entre o ensino e aprendizado na escola.
Assim, problematizar o modo como o Conselho Escolar se organiza e
pratica a democracia cotidianamente é fundamental, pois os Conselhos Es-
colares possuem em si a possibilidade de se constituírem em um lugar de
formação humana, mas também carregam consigo o seu contraditório, ou
seja, o de se transformar em um lugar em que a hierarquia, o mando de
poucos e a obediência de muitos pode ser a regra.
Por fim, cabe a cada conselheiro escolar fazer de seu Conselho e de sua
escola um espaço de formação humana, em que todos se sintam gente cui-
dando de gente.
Se você é um conselheiro escolar, que rumo você escolhe para sua
escola?
92 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

Conselho Escolar e os direitos humanos


Tratamos, neste momento, da importância da educação e da escola na
construção e no exercício da cidadania e dos Direitos Humanos, que têm
se traduzido num grande desafio para a humanidade. O respeito à pessoa
humana ocupa hoje um lugar de destaque nas agendas políticas nacionais e
internacionais. Falar sobre Direitos Humanos e educação é muito importante
para os conselheiros escolares. Refletir sobre esse assunto possibilita a inser-
ção ativa do estudante no contexto social, o domínio de conhecimentos que
lhe permitam compreender o mundo em que vive, além de desenvolver uma
ação produtiva no mundo do trabalho e de contribuir para a construção de
uma sociedade mais humana, mais justa e solidária.
A internacionalização da conquista dos Direitos Humanos vem sendo
evidenciada pela forte atuação de expressivos organismos multilaterais, a
exemplo da Organização das Nações Unidas (ONU), Organização dos Esta-
dos Americanos (OEA), Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef),
dentre outros. Organismos como estes têm se empenhado na defesa do
respeito à pessoa humana, inscrevendo os Direitos Humanos no plano inter-
nacional, propondo que eles sejam tratados como uma questão de Estado,
e não de governos.
Devido à relevância dos Direitos Humanos para a educação, torna-se
necessário que os Conselhos Escolares conheçam a história da garantia dos
Direitos Humanos e como suas conquistas foram se configurando até o pre-
sente momento.
No Brasil, a luta pelo respeito aos Direitos Humanos tem uma longa
trajetória, sobretudo quando constatamos a histórica e persistente violação
desses direitos, questão que ainda tem grande visibilidade nos dias de hoje.
Nessa luta de abrangência internacional, o Brasil é signatário dos principais
documentos produzidos pelos organismos internacionais, agregando de-
mandas antigas e contemporâneas de nossa sociedade pela efetivação da
democracia, do desenvolvimento, da justiça social e pela construção de uma
cultura de paz. Assim, assumindo como princípio a afirmação dos Direitos
Humanos, o Brasil confirma a sua condição de defensor dos princípios da
universalidade, indivisibilidade e interdependência no trato das políticas pú-
blicas, na perspectiva da promoção da igualdade, da equidade e do respei-
to à diversidade, em busca da consolidação da democracia e da cidadania
do povo brasileiro.
Conselho Escolar e a gestão democrática da educação: convivência e aprendizagem na escola | 93

A tarefa de efetivação dos Direitos Humanos precisa da contribuição da


educação como uma prática social e política e da escola como espaço de
formação de cidadãos de direitos. É com esse entendimento que os Con-
selhos Escolares visam contribuir para desenvolver, nas escolas brasileiras,
uma cultura de Direitos Humanos, partindo do princípio de que a própria
educação constitui um desses direitos inalienáveis da pessoa humana.
É na escola, dentre outros espaços da sociedade, que crianças, adoles-
centes, jovens e adultos devem aprender a lição do respeito ao outro (na
igualdade e na diferença), da democracia e do exercício da cidadania.
Isso significa que a Educação em Direitos Humanos precisa estar presen-
te nos currículos escolares, nos livros didáticos e nos processos de ensino
e aprendizagem. Os Direitos Humanos precisam ser um elo integrador da
prática educativa. A escola deve tratar os Direitos Humanos na sua prática
pedagógica cotidiana, de forma interdisciplinar no currículo, para promo-
ver conhecimentos e práticas que contribuam para a consolidação desses
direitos.
Esse desafio de tornar a escola espaço de reconhecimento, aprendiza-
gem e afirmação de Direitos Humanos é tarefa eminentemente coletiva. É
uma ação dos diferentes atores sociais: trabalhadores em educação, estu-
dantes, pais e representantes da comunidade local, protagonistas de uma
escola inclusiva, de qualidade e democrática. Desse modo, a escola precisa
desenvolver um amplo processo de reflexão, com a realização de debates,
palestras e campanhas sobre os Direitos Humanos.
A atuação do Conselho Escolar torna-se indispensável. Afinal, ele é uma
instância, por excelência, que deve contribuir para a melhoria do processo
de democratização da gestão. O processo de democratização presente hoje
na maioria dos países marcados por regimes autoritários abre espaços para
reflexões sobre os direitos. Também assume publicamente a intenção de re-
parar as violações de Direitos Humanos cometidas nos anos de autoritarismo
que aconteceram no Brasil e no conjunto dos países da América Latina.
Os Direitos Humanos pertencem a todos os seres humanos, em razão
da dignidade que possuem. Eles são direitos que não deixam de existir nem
podem ser retirados das pessoas, porque ninguém perde sua condição de
ser humano. É importante lembrar que os Direitos Humanos não são apenas
um conjunto de princípios morais, previstos em diversos tratados interna-
cionais e constituições, mas asseguram direitos aos indivíduos e coletivi-
dades e estabelecem obrigações jurídicas concretas aos Estados. Eles são
94 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

compostos de uma série de normas jurídicas claras e precisas, para proteger


os interesses mais fundamentais da pessoa humana. São, portanto, direitos
fundamentais e históricos, pois surgiram de forma gradual, a partir das ne-
cessidades de cada época.
A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão foi criada com base
nos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Foi o primeiro documento
constitucional do novo regime político da França que surgiu por conta da
Revolução Francesa. O seu artigo 1o diz algo muito importante: “Os homens
nascem e permanecem livres e iguais em direitos. As distinções sociais só
podem basear-se na utilidade comum”.
Em 1791, a escritora francesa Olympe de Gouges escreveu a Declaração
dos Direitos da Mulher e da Cidadã. Esse foi o primeiro documento sobre os
direitos das mulheres que trouxe a defesa de que a mulher nasce livre e tem
os mesmos direitos dos homens. O texto denunciava a situação de desigual-
dade entre homens e mulheres que continuava existindo, apesar dos ideais
de liberdade, igualdade e fraternidade.
Como resultado desse processo histórico, esses direitos começaram a
fazer parte dos textos constitucionais, principalmente a partir do início do
século XX. Nesse período, destacam-se a Constituição Mexicana de 1917
e a Constituição Alemã de 1919. Esses dois documentos deram um passo a
mais na conquista dos direitos. Isso realmente foi um grande acontecimento
histórico! E a construção histórica da evolução dos Direitos Humanos vai
do reconhecimento dos direitos dos cidadãos e cidadãs de cada país, até
chegar ao reconhecimento dos direitos das pessoas na comunidade inter-
nacional. Mas, antes de chegar a esse ponto, é necessário refletir sobre a
relevância dos Direitos Humanos.
A sociedade já mudou bastante com relação aos Direitos Humanos. No
decorrer da história contribuíram muito para isso. São muitas as razões para
justificar a importância dos Direitos Humanos. Mas três delas são funda-
mentais: a afirmação da democracia e do Estado Democrático de Direito,
o exercício da cidadania e o respeito à dignidade humana. A vivência da
democracia, que se traduz na garantia e ampliação dos direitos, assim como
em práticas de democracia participativa, necessita de um ambiente de res-
peito e promoção dos Direitos Humanos para afirmar-se.
E quando se fala em Direitos Humanos, não se pensa em direitos apenas
para alguns, para os “bons”, para os que “merecem”. São direitos de todos
os seres humanos, e, por isso, é preciso compreender que todas as pessoas
Conselho Escolar e a gestão democrática da educação: convivência e aprendizagem na escola | 95

têm o direito a ter seus direitos respeitados. Ao mesmo tempo, todo direito
gera deveres e responsabilidades. O Estado de Direito está ligado à de-
mocracia, ele não pode conviver com violações de Direitos Humanos. No
momento em que os Direitos Humanos não são respeitados, o Estado de
Direito se torna vulnerável.
Para que os Direitos Humanos sejam uma realidade, é preciso que as
pessoas atuem nesse sentido. Isso exige não apenas uma mudança de men-
talidade para compreender a importância dos Direitos Humanos na socieda-
de, mas, principalmente, exige uma mudança de atitude que faça acontecer
na prática o respeito mais profundo pelo ser humano. Diante da importância
dos Direitos Humanos como condição para a dignidade do homem e da
mulher, deve-se refletir sobre eles, considerando a sua realidade. Nesse con-
texto, alguns questionamentos são pertinentes:
• Na sua escola, os Direitos Humanos são considerados importantes no
dia a dia da ação educativa?
• A escola valoriza essa temática no seu Projeto Político Pedagógico (PPP)?
Como isso se materializa?
• Na sua escola, a discussão na comunidade escolar sobre os direitos e
deveres envolve os diferentes segmentos?
Proteger e promover os Direitos Humanos significa reconhecer as pesso-
as como sujeitos de direitos e garantir seus direitos fundamentais individuais
e coletivos. Os conselheiros escolares precisam entender bem que os Direi-
tos Humanos são formados por um conjunto de direitos que estão presentes
no nosso cotidiano, de acordo com os vários documentos nacionais e inter-
nacionais dessa área. Temos direitos civis e políticos, sociais, econômicos,
culturais, ambientais. Direitos relacionados à solidariedade e à paz, e tantos
outros.
Os Direitos Humanos civis e políticos são:
• direito à vida;
• direito a não ser torturado;
• direito de ir e vir;
• direito à segurança;
• direito de votar e ser votado(a);
• direito de reunião;
• direito de organizar e participar de partidos políticos.
96 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

Já os Direitos Humanos econômicos, sociais, culturais e ambientais são:


• direito à moradia;
• direito ao trabalho;
• direito à saúde;
• direito à educação;
• direito ao lazer;
• direito a um meio ambiente protegido;
• direito à conservação da biodiversidade.
Os Direitos Humanos devem ser garantidos para todas as pessoas.
Quando isso não acontece, significa que apenas alguns estão sendo privile-
giados. Os direitos são destinados a todas as pessoas, são conquistas sociais
que todos devem proteger. Quando um direito não é posto em prática para
todos, mas apenas para uma parte da população, significa que essas pesso-
as estão tendo privilégios sobre as outras.
Algumas questões são importantes para o Conselho Escolar investigar:
• Existem exemplos, em sua escola e em sua comunidade, de violação de
Direitos Humanos?
• Em sua comunidade, as pessoas que querem estudar – crianças, adoles-
centes e adultos – estão matriculadas na escola?
• Faça um levantamento em sua escola e descubra se ela está adaptada
para pessoas com deficiência.
• O número de professores na escola é suficiente para atender a demanda
de turmas nas salas de aula?
No Brasil, os tratados internacionais de Direitos Humanos começam a
fazer parte das leis brasileiras no contexto da redemocratização. Isso quer
dizer que é no período de retorno à democracia que o país incorpora o Direi-
to Internacional dos Direitos Humanos. É importante notar que, ao longo da
década de 1980, o país autenticou a maioria dos instrumentos de proteção
dos Direitos Humanos, que foram inseridos no Direito Brasileiro. O marco
fundamental da mudança de postura do Estado Brasileiro, em relação a essa
questão, foi a Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988).
O texto constitucional definiu no Artigo 1º a dignidade da pessoa hu-
mana como um dos seus fundamentos. Esse princípio também rege o país
nas suas relações internacionais dos Direitos Humanos no Artigo 4o (BRASIL,
1988). Na história dos Direitos Humanos no Brasil, desde 1997 ações vêm
sendo implantadas.
Conselho Escolar e a gestão democrática da educação: convivência e aprendizagem na escola | 97

Um destaque em relação aos Direitos Humanos no Brasil ocorreu na


esfera da educação, foi à criação, em 2003, do Comitê Nacional de Edu-
cação em Direitos Humanos, constituído por profissionais de instituições e
organizações públicas e privadas que atuam nessa área. Teve, como uma
das atribuições, coordenar a elaboração do Plano Nacional de Educação em
Direitos Humanos, que foi lançado em sua primeira versão no ano de 2003.
Esse Plano teve a finalidade de orientar a construção de políticas na área
de Educação em Direitos Humanos para diversos setores da sociedade. A
falta de conhecimento da população sobre seus direitos também é algo que
compromete a efetivação dos Direitos Humanos.
Os Conselhos Escolares poderão dar uma excelente contribuição no tra-
to dos casos de violações de Direitos Humanos, atuando como agente mobi-
lizador da escola e da comunidade quanto ao conhecimento das instituições
onde se pode denunciar, visto que não tem competência para resolver os
casos de violação. É importante que isso esteja bem compreendido.
Nesse caso, o Conselho recebe uma denúncia de discriminação pra-
ticada dentro da escola contra um estudante e não consegue resolver no
âmbito da escola, ele deve encaminhar essa denúncia ao órgão responsável
de acordo com o caso, por exemplo, à Secretaria de Educação, ao Conselho
Tutelar, à Polícia ou ao Ministério Público.
Além disso, os Conselhos Escolares podem promover muitas ações no
âmbito da escola que valorizem os Direitos Humanos. Ele pode:
• acompanhar e discutir sobre situações de desrespeito aos Direitos Hu-
manos, para a busca de soluções conjuntas;
• participar, junto com outros segmentos da escola, de campanhas in-
formativas e de conscientização sobre os direitos e deveres dentro da
escola.
• realizar atividades educativas, organizadas junto à comunidade escolar,
em datas significativas, como o Dia Internacional da Mulher, o Dia do
Trabalho, o Dia da Consciência Negra, o Dia Internacional dos Direitos
Humanos, entre outras.
Nesse trabalho, vemos que a Educação em Direitos Humanos e a gestão
democrática andam de mãos dadas e que, nesse processo, é necessário es-
timular ações e iniciativas, por exemplo, a implementação de novas formas
de organização e de gestão na escola, a construção coletiva do seu PPP, a
criação e consolidação de Grêmios Estudantis, a criação e o fortalecimento
dos Conselhos Escolares.
98 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar

O Conselho Escolar é mesmo um importante organismo de articulação


entre a escola, a sociedade e os direitos humanos e deve ter um importante
vínculo com outros conselhos, dentre eles os Conselhos Municipais, Estadu-
ais, Distrital e Nacional de Educação, os Conselhos da Criança e do Adoles-
cente, Conselhos Tutelares etc. Afinal, ele é uma instância representativa de
segmentos que compõem a escola e a sociedade, ao mesmo tempo em que
é um espaço de exercício da democracia participativa.
A participação do Conselho Escolar no cotidiano da escola pode ins-
talar uma nova prática pedagógica e uma cultura política democrática. E
isso certamente pode fortalecer os Direitos Humanos. É necessário que
conselheiros escolares compreendam a estreita relação que existe entre
gestão democrática e qualidade do ensino como Direito Humano básico.
Propiciar espaços de participação em todos os níveis da prática educativa
escolar e ter a clareza de que compete à escola oferecer um ensino de
qualidade social são questões a serem tratadas pelo Conselho Escolar.
A educação deve ser tratada e realizada como um direito, e não como
um serviço. Ela não deve resumir-se a ofertas de vagas nas escolas públicas.
Não é apenas o acesso à escola que garante a realização do direito à educa-
ção. É preciso também assegurar a qualidade do ensino, a permanência e a
aprendizagem dos alunos na escola, a formação continuada dos professores
e demais trabalhadores da educação.
A formação também da família, com a realização de palestras promovi-
das pelo Conselho Escolar, tem que investir em uma educação de princípios
e valores democráticos que responda aos interesses da comunidade, po-
dendo propor reflexões junto à comunidade escolar e local sobre algumas
questões, tais como: os conselheiros conhecem o Regimento de sua escola?
Como ele é vivenciado? Que Direitos Humanos estão presentes no Regi-
mento de sua escola? É de conhecimento de todos a existência do Estatuto
da Criança e do Adolescente (ECA), do PPP de sua escola e da Lei de Dire-
trizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9394/96)? A legislação do Conse-
lho Escolar é conhecida por todos da escola, sobretudo pelos conselheiros
escolares?
Os conselheiros podem desenvolver várias ações, por exemplo, colocar
essas legislações à disposição da comunidade escolar, colocar, quinze-
nalmente, no mural da escola, alguns artigos de legislação que tratem da
questão dos Direitos Humanos, afixar o Regimento em áreas de circulação
Conselho Escolar e a gestão democrática da educação: convivência e aprendizagem na escola | 99

da escola para que todos possam ler, estudar com os alunos o Estatuto da
Criança e do Adolescente.
É nas relações humanas, nos conflitos, convergindo e divergindo que se
constrói o espaço de convivência. E esse espaço possibilita o exercício dos
direitos. Todos aprendem a respeitar os outros sujeitos, a valorizar o pluralis-
mo e o multiculturalismo.
Garantir direitos é condição de uma educação com Direito Humano. É
claro que a lei não dá conta de tudo, por isso, muitas vezes, precisa ser ajus-
tada, atualizada, modificada ou revogada, atentando-se para a criação de
novas leis, fruto do desenvolvimento da consciência crítica da educação em
Direitos Humanos e da própria sociedade.

Referências
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100 | Escola Constituída com Participação: Conselho Escolar