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HISTÓRIA DA ÁFRICA DO SÉCULO XX

A EFETIVAÇÃO DA ESTRUTURA COLONIAL

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Olá!
Ao final desta aula, você será capaz de:

1- Examinar a estrutura da organização colonial na África;

2- Analisar os principais objetivos das metrópoles europeias para com suas colônias;

3- Relacionar o processo de colonização africano com outros movimentos mundiais.

O inglês nasce com um certo poder milagroso que o torna senhor do mundo. Quando deseja alguma coisa, ele

nunca diz a si próprio que a deseja. Espera pacientemente até que lhe venha à cabeça, ninguém sabe como, a

insopitável convicção de que é seu dever moral e religioso conquistar aqueles que têm a coisa que ele deseja

possuir. Torna-se, então, irresistível. Como grande campeão da liberdade e da independência, conquista a

metade do mundo e chama a isso de Colonização. Quando deseja um novo mercado para seus produtos

adulterados de Manchester, envia um missionário para ensinar aos nativos o evangelho da paz. Os nativos

matam o missionário; ele recorre às armas em defesa da Cristandade; luta por ela, conquista por ela; e toma o

mercado como uma recompensa do céu... (SHAW, Bernard. The Man of Destiny. Citado por LINHARES, Maria

Yedda Leite. A luta contra a metrópole. São Paulo: Brasiliense, 1983. p. 36).

Os argumentos demonstrados pelo dramaturgo Bernard Shaw no trecho anterior, ainda que digam respeito às

estratégias utilizadas pelos britânicos no processo de neocolonização, poderiam ser observados em outras

nações europeias que se diziam senhoras de outras partes do mundo. Nesta aula, vamos analisar como se deu o

processo de colonização do continente africano de forma geral para, nas aulas subsequentes, compreendermos

algumas de suas peculiaridades.

Introdução

A resistência foi uma constante durante a efetivação da colonização africana. Conforme estudamos na aula

anterior, líderes religiosos, políticos e exércitos bem-estruturados entraram diversas vezes em conflito com as

forças europeias que tentavam invadir o continente africano.

Leitura

Salvo algumas exceções, a superioridade bélica, a significativa fragmentação política das sociedades africanas e a

desarticulação dos maiores estados da África acabaram levando à ocupação efetiva do continente por parte dos

europeus.

A colonização africana

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Segundo diversos historiadores, o intervalo entre 1885 e 1919 é conhecido como período da pacificação.

O momento no qual os europeus conseguem desarticular grande parte da resistência imposta pelos africanos e

efetivam a ocupação do continente por meio da construção de redes de infraestrutura, como rodovias, ferrovias

e telégrafos.

Esses diferentes meios de transporte e comunicação viabilizaram o contato com regiões até então desconhecidas

no interior da África, ampliando ainda mais a área de ocupação metropolitana.

Esse momento foi marcado pela transição da política das metrópoles, que, com o controle dos movimentos de

resistência, passam a ter uma atuação mais civil que militar.

Embora pequenos exércitos e guarnições continuassem existindo e atuando nos movimentos insurretos, foi nos

primeiros vinte anos da colonização que as nações europeias montaram a burocracia colonial, mesmo que o

número de funcionários fosse muito pequeno se comparado à extensão territorial que estava sob seu controle.

O investimento, relativamente baixo, devia-se às pretensões europeias de criar colônias autossuficientes. Desse

modo, a ordem era gastar o menos possível.

Duas figuras foram fundamentais para a efetivação do colonialismo: as empresas ou empresários europeus e as

missões religiosas.

Um dos nomes mais famosos desse período foi Cecil Rhodes.

Cecil Rhodes

Esse rico inglês investiu boa parte de sua fortuna na busca e na extração de diamantes na atual África do Sul e foi

o fundador da colônia britânica cujo nome lhe prestaria homenagem: Rodésia (atual Zimbábue). Não foram,

porém, apenas os interesses financeiros que motivaram Rhodes.

Exemplo máximo dos ideais imperialistas britânicos, ele teve papel decisivo na elaboração do projeto

parcialmente executado da estrada de ferro que ligava o Cairo (Egito) ao Cabo (África do Sul), os dois extremos

da colonização britânica.

Saiba mais
Ainda que a ideologia colonial estivesse clara na mente dos políticos europeus, os primeiros
grandes investimentos em território africano foram privados, ou seja, realizados não pelo
Estado, mas por empresas e homens que decidiram apostar na colonização.

Cecil Rhodes e os desejos da colonização inglesa na África

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As missões cristãs exerceram importante papel nesse período. Além de conviverem diariamente com os grupos

colonizados, os missionários cuidavam tanto da educação quanto das questões religiosas da população e eram os

intermediários na comunicação entre colônia e metrópole.

Embora alguns missionários tenham sido veementemente contrários à violência empreendida pelo governo

colonial, sua atuação acabou gerando os substratos necessários para a própria colonização, já que eles pregavam,

cotidianamente, a necessidade de conversão das sociedades africanas.

Conforme mencionado anteriormente, as missões cristãs acabaram desestruturando diversos povos da África na

medida em que impunham a eles uma nova forma de compreender o mundo. Não só antigos deuses foram

substituídos pelo único Deus cristão, mas práticas do dia a dia, como alimentação, vestimenta e até a noção de

família extensa, foram alteradas.

Outra mudança importante criada pelas missões foram os missionários africanos, ou seja, homens que haviam

sido convertidos e passaram a pregar o Evangelho em regiões ainda mais interioranas do continente.

Figura 1 - Jovens africanos convertidos pelas missões europeias na África colonial Missão dos Padres Brancos -
Grupo de freiras - Uganda - 1920/1930

A colonização na África e a Europa

O advento da Primeira Guerra Mundial foi um dos divisores de água da política colonialista. Em primeiro lugar,

ocorre um reordenamento físico da partilha da África, tendo em vista as sanções impostas à Alemanha e à Itália.

Por outro lado, a própria ideologia imperialista fica mais clara e mais bem-argumentada pelas nações europeias.

Segundo os europeus, a colonização era uma etapa primordial para o desenvolvimento do continente africano.

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A partir de então, a colonização “clássica” foi empregada pelas metrópoles europeias, que ampliaram sua

administração civil não só em termos quantitativos mas também qualitativos, permitindo, assim, que as colônias

passassem a ser autossuficientes.

Figura 2 - Partilha africana em 1914, antes da Primeira Guerra Mundial

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Figura 3 - Partilha da África em 1919, após o armistício.

Armistício é a ocasião na qual as partes envolvidas num conflito armado concordam com o fim definitivo da

guerra. É o instante anterior ao tratado de paz.

As mudanças na política econômica colonial

A implementação da cobrança de tributos e a adoção do sistema monetário foram o ponto de virada na política

econômica colonial.

Além de garantir receita suficiente para arcar com os custos de toda a burocracia colonial, a necessidade de

pagar com moeda os impostos cobrados pelas metrópoles obrigou os jovens das populações africanas a

aceitarem trabalhos malremunerados que eram oferecidos pelas empresas e pelas indústrias coloniais

(sobretudo a indústria da mineração), o que, consequentemente, resultou em um expressivo êxodo rural da mão

de obra ativa.

Além de solucionar o problema de mão de obra que havia caracterizado o primeiro momento da colonização, a

cobrança de impostos facilitou o confisco de terra de milhares de trabalhadores rurais africanos.

A expressiva oferta de trabalhadores aguçou ainda o interesse de empresários europeus, que passaram a ver a

África como um grande investimento.

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Não por acaso, esse foi o período de maior exploração mineral e agrícola, de construção de hidrelétricas, portos,

ampliação da malha ferroviária e rodoviária etc.

A fim de manter a ordem e, sobretudo, garantir a cobrança de impostos, os estados europeus ampliaram

significativamente o quadro de funcionários coloniais.

O crescimento da população europeia resultou na melhoria da infraestrutura urbana, como a construção de

hospitais e de redes de esgoto, que, em sua maioria, era usufruída apenas pelos colonizadores.

Vamos estudar a seguir as políticas educacionais adotadas nas colônias.

Fique ligado
A terra confiscada não só gerou ainda mais mão de obra e permitiu o cultivo extensivo de
produtos que tinham grande procura no mercado europeu, mas também causou grandes danos
a diversas sociedades africanas, que foram apartadas do lugar onde seus ancestrais estavam
enterrados.

As políticas educacionais

Muitos estados metropolitanos começaram a participar da educação criando escolas laicas nas diferentes

colônias.

Em um primeiro momento, essas escolas eram frequentadas pelos filhos dos colonos. Com o tempo, porém, os

jovens das elites africanas, sobretudo das populações que viviam nos centros urbanos, começaram a estudar

nelas.

Nas colônias pertencentes à França, à Bélgica, a Portugal e à Itália, a educação laica era pautada pela doutrina da

assimilação.

As crianças e jovens africanos eram entendidos como integrantes dos impérios francês, belga, português e

italiano.

As aulas eram ministradas nas línguas dos colonizadores, e os conteúdos dos livros didáticos se remetiam quase

exclusivamente ao universo europeu.

As crianças africanas colonizadas pela França aprendiam que seus primeiros ancestrais haviam sido os gauleses.

Embora essa política educacional não levasse em consideração as histórias, as culturas e as línguas africanas,

permitia que um seleto grupo de estudantes da África pudesse finalizar seus estudos nas universidades

europeias.

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Como veremos em outro momento, parte desses estudantes que rumaram para a Europa foi fundamental nas

lutas de independência.

O sistema educacional adotado por essas metrópoles era um dos exemplos da administração fortemente

centralizadora dessa colonização.

Já as colônias britânicas adotaram políticas educacionais e coloniais

empíricas e descentralizadoras. Não estava no horizonte da Grã-Bretanha incluir os africanos no rol de cidadãos

britânicos. A ideia era deixar que eles evoluíssem por eles mesmos.

No campo educacional, por exemplo, parte das aulas era ministrada nas línguas locais e havia uma franca

postura separatista entre os colonos e seus descendentes e os africanos.

Em alguns locais, como na África do Sul, essa política foi levada ao extremo, criando as condições necessárias

para a consolidação do apartheid. No entanto, mesmo a política inglesa viabilizou a formação de uma classe

média intelectualizada africana.

Uma análise mais apurada sobre os diferentes sistemas de colonização será feita nas próximas aulas.

O que vem na próxima aula


•A política adotada nas colônias inglesas;

•Os principais objetivos da colonização britânica em diferentes partes da África;

•A postura inglesa diante de suas colônias com seu projeto imperialista.

CONCLUSÃO
Nesta aula, você:
• Examinou os interesses econômicos da política colonial;
• Relacionou como esses interesses coloniais estavam em fino diálogo com eventos mundiais, como a
Primeira Grande Guerra.

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