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21/10/2020 Ler histórias para os bebês?

| Revista Emília

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Ler histórias para os bebês? E EMÍLIA
POR PATRÍCIA PEREIRA LEITE | 4 04AMERICA/SAO_PAULO NOVEMBRO 04AMERICA/SAO_PAULO 2014 |
CULTURA DA INFÂNCIA |
PARTICIPE

 
“O bebê tem necessidade de leite, de carinhos e de histórias… colocar livros e
histórias poéticas à disposição das crianças em lugares inesperados, faz com que
até as pessoas mais sérias se encantem com o interesse delas. Este é o caminho
mais seguro para que um dia elas compreendam o mundo e tenham o desejo
Últimas
de transforma-lo.”
Não conta
pra mim
René Diatkine*[i] POR MARINA
COLASANTI

 
A relação
Muito antes de ir para a escola, desde o seu primeiro ano de vida, os com a
natureza
pequeninos podem descobrir que os livros contam histórias e que as “pequenas
manchas pretas”, engraçadas, possuem um sentido e fazem falar os adultos. O nos livros
informativ
bebê inicia esta “pesquisa”, como em todas as novas coisas que encontra, a
partir de um contato físico e sensorial. Ele explora o objeto livro colocando-o na os 
POR ANA
boca, brincando com ele. Explora suas formas, suas cores, seu odor, sua GARRALÓN
diagramação, suas ilustrações, “chupa”, “come”! São as primeiras apropriações da
língua escrita que fazemos com o corpo inteiro, com os gestos, primeiro
tentando pegar a imagem, para depois tocá-la, tendo tanto o prazer de escutar

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de perto quanto de longe, do outro lado da sala, enquanto fazemos outras Quem
coisas. Estas explorações abrem um caminho que parte do corpo de quem lê e escolhe os
se desenvolve em direção ao imaginário da criança. livros para
as
Logo que o bebê se apropria do livro e faz dele seu objeto, começa a crianças?
POR FABÍOLA
procurar, além deste contato físico, sensorial e estético,  compreender: o FARIAS
começo, o nal, a ordem das páginas, o direito e o avesso, as ilustrações e os
personagens representados, as letras, suas organizações e repetições… O
Novo
bebê rapidamente entende que as palavras do livro “contam o mundo”. curso!
Como
Os bebês tem direito à leitura, à cultura, a ter uma história e a ouvir muitas podemos
histórias, brincando com as palavras e com a linguagem. Eles necessitam de ampliar
sonhos e da possibilidade de descobrir o mundo em que vivem com tempo nosso
e calma! Por isto é importante criar espaços para a leitura onde os bebês olhar
vivem: nas creches, nas brinquedotecas, nos hospitais e em casa. leitor?
POR REVISTA
EMÍLIA
 

Importância das narrativas PESQUISAR …


Na vida cotidiana, nós empregamos espontaneamente duas formas de
linguagem: a factual e a narrativa.
Siga-nos.
A linguagem factual é empregada quando dois interlocutores estão presentes Compartilhe.
em uma mesma ação; esta linguagem é acompanhada de múltiplas expressões
corporais: mímicas, olhares, risadas… etc. que complementam o que está sendo
dito.  FACEBOOK

A linguagem narrativa se dá quando se conta um fato passado ou futuro, ou


ainda imaginário. Ela tem um começo e um desenvolvimento que nos  YOUTUBE
encaminha para o desfecho, para o nal. É uma forma de linguagem que permite
o acesso ao imaginário e ao pensamento. Esta é a forma de linguagem das
histórias literárias e da poesia.  INSTAGRAM

Desde cedo, a forma narrativa permite que a criança brinque. Ela vai brincar
mentalmente, através de seus balbucios, com essa segunda forma de
linguagem que a encanta.

Em nossos tempos o veículo concreto da linguagem narrativa é o  livro. Em


relação à infância, por exemplo, esta é a sua função principal. E o adulto tem um
papel importante, pois é ele quem reconstitui as narrativas escritas através de
sua voz, de sua leitura e da apresentação das ilustrações. Ele signi ca assim,
para as crianças, a escrita e as imagens, acompanhando-as no contato com

conteúdos e imagens que são para elas desconhecidos, impressionantes e até
inquietantes.

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Dito de outra forma, quando uma mãe canta, para ela mesma e para o seu bebê,
acompanhando a sua voz de movimentos ritmados; a voz, a melodia e o gesto
fazem parte deste contato que se inscreve no registro sensível de um encontro.

Diante de um bebê, os adultos falam entre eles e o anseio de entrar na


intimidade destes dá à criança o desejo de se apropriar de suas palavras. Da
mesma forma, quando familiarizamos os bebês com os livros e as leituras, eles
querem se apropriar das histórias que os livros contam, e, mais tarde, no
momento da aprendizagem formal, este desejo e o conhecimento já adquirido
facilitarão sua aquisição da escrita e da leitura.

A criança que começa a falar não se engana, percebe rapidamente a


importância dos dois aspectos de linguagem – o factual e o narrativo -: a sua
interação e o seu duplo jogo no tempo – real e ccional, (ou seja, o tempo da
narrativa e o tempo no qual a leitura com o adulto acontece) -, pelas palavras,
fatos e seres que a cercam. É desta capacidade de jogo com a linguagem que
dependerá, em grande parte, o desenvolvimento de seu espaço psíquico
interno, de sua capacidade de imaginação, abstração (de desenhar, brincar,
contar histórias, pensar, aprender etc.).

Em relação a este aspecto, como desenvolveu René Diatkine, podemos


encontrar diferenças importantes no desenvolvimento psíquico das crianças que
viveram, desde que nasceram, em culturas nas quais a linguagem que conta
histórias predomina e aquelas onde reina a concretude e as tensões mal
elaboradas; entre as crianças de famílias que tem livros e a leitura é praticada e
aquelas que vivem excluídas deste universo. O desenvolvimento psíquico e o
desenvolvimento da linguagem dependem de dois fatores: da segurança
psíquica (emocional) das crianças e de comportamentos externos que lhes
permitam o acesso à linguagem e acesso à transmissão cultural. Existem
crianças que vivem cercadas de livros e outras que não tem nenhum. Por isto é
importante reuni-las, com a presença de pessoas que leiam livros para elas.

Não estamos falando aqui de aprendizagem precoce da leitura ou da escrita


mas da promoção e valorização de ações que possibilitem que as crianças
desfrutem da riqueza da cultura a qual pertencem desde o seu nascimento – e
que auxiliem a transmissão cultural entre as gerações. Facilitamos, desta forma,
a leitura do mundo, transmitimos a importância do ato de compartilhar, a
importância do lúdico, da estética e fundamentalmente da poesia.

Lendo para os bebês!



Di cilmente nos encontramos na situação de ler somente para os bebês, pois
sempre lemos para eles e para as pessoas que cuidam deles (mães, pais,
enfermeiras, educadores) e isto é importante porque amplia nossa ação, mas
também é delicado pois entramos na intimidade da vida de uma família ou

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instituição. É importante não esquecer disso,  respeitar os movimentos daquele


que cuida do bebê.

Quando lemos para uma mãe e seu bebê, em lugares de sua vida cotidiana,
potencializamos o espaço de troca, de comunicação e de transmissão da
linguagem entre eles. Além disto, ao perceber o prazer e as reações de seu
bebê a mãe também sente vontade de mostrar os livros e de lê-los para suas
crianças. Esta é a melhor forma de explicitar que as histórias são importantes
para todos nós: fazer junto!

Vamos ver como isto acontece de fato: escolhi três exemplos de situações que 
ilustram bem alguns dos aspectos importantes que permeiam a leitura para os
bebês e seus familiares: Estou me propondo a conversar sobre Rafael (12
meses), Breno (2 meses) e sua mãe, Cássio (3 meses) e sua mãe e Lia (recém
nascida) e sua mãe.

“De 1997 a 1999 fui a psicóloga responsável pelo berçário de um


abrigo em São Paulo e a leitura de histórias foi uma das práticas
introduzidas junto aos bebês. Lembro de um dia em que fui ler para os
bebês  enquanto estávamos no parquinho. Eles tinham idades muito
variadas, entre 1 mês e 2 anos e apresentavam, em sua maioria, um
atraso de linguagem e de desenvolvimento motor. As razões para
estarem nesta instituição também eram variadas e poucos ali
recebiam a visita da mãe ou familiares.

Neste dia entre tantos livros e álbuns ilustrados para pequenos,


escolhi Tanto, Tanto! para ler. Este livro de Trish Cooke e Helen
Oxenbury conta a história de uma família que espera o pai para uma
festa de aniversário. A narrativa escrita é longa mas apresenta, assim
como as ilustrações, uma grande diversidade de estruturas e
formatos. Este livro costuma encantar a todos, por suas cores, seus
detalhes, sua melodia, as onomatopeias – trim,trim…- e suas
repetições! Mas também agrada por falar de uma família que se
reúne, do afeto que circula em cada um que chega, faz carinho e
brinca com o bebê “tanto, tanto”! O livro propõe uma grande riqueza,
semântica, estética e lúdica.

A educadora lia e eu também, enquanto vários bebês exploravam os


livros livremente. Rafael (1ano), assim como as outras crianças, me
conhecia bem e tinha acabado de começar a andar. Titubeando, ele se
aproxima (desde o começo da história vejo que está atento), e ca 
vidrado, olha para mim, para o livro, para minha boca, para o livro de
novo, sorri e emite barulhos e a cada vez que a sutil imagem de um
bebê em preto e branco aparece no pé da página ele jubila e bate com
a mãozinha no desenho. Rafael me solicita a car nestas páginas mais

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tempo. Quando acabo de ler, fecho o livro e Rafael reclama, senta no


chão, faz biquinho, chora. Começo a falar com ele, pergunto se ele
quer ouvir novamente a história, ele se acalma, não responde nem sim,
nem não, (ainda não tem este código de linguagem estruturado)
porém parece entender o que estou lhe propondo. Quando abro o livro
para a releitura, dá um grande sorriso e se coloca novamente de pé: Lá
vamos nós compartilhando sorrisos, exclamações, palavras, imagens,
gestos, emoções e textos! (Patrícia Pereira Leite, São Paulo, 1997)

Rafael pede que eu releia “Tanto, Tanto” através de sua atitude, faz uma escolha
de narrativa (sendo que ele ainda não sabe falar); sustenta sua atenção durante
o longo tempo desta leitura; interage comigo e com crianças menores e
maiores, que também estão presentes sem quebrar o momento que ali se
instalou entre os bebês, os mediadores e os livros. Ele nos mostra e exercita
competências complexas.

A mediação de leitura propiciou o contato de Rafael com o adulto e com as


outras crianças e também com o livro e com as histórias. Através desta atividade
os vínculos foram enriquecidos e o desenvolvimento das crianças foi estimulado.

A escuta e a repetição da história

Rafael escuta e solicita a repetição de uma história que é longa, e nas duas
vezes sustenta sua atenção, participando com prazer. Demonstra assim que os
bebês são capazes de escutar e de se interessar por longas histórias, o que
constatamos quando inserimos a leitura na rotina de suas vidas.

Solicitando a repetição da história Rafael prolonga o momento de contato com o


adulto, mas também brinca com a narrativa e com as imagens . Explorando
nesta segunda leitura um universo rico e conhecido, portanto protegido. Isto
para os bebês é importante. Os bebês necessitam de tempo para apreender o
mundo, são muitas as coisas novas com as quais eles entram em contato.

A escolha da narrativa

Através de sua atitude Rafael faz uma escolha de narrativa. É indispensável, para
a saúde, que existam espaços de liberdade, sem avaliação nem expectativa,
onde possamos explorar novos conteúdos e situações, exercitar o que sabemos, 
re etir e criar, isto em qualquer idade ou situação de vida. Por isto  dizemos que
estes momentos de mediação de leitura devem ser conduzidos pelas escolhas
das crianças e em seu ritmo.

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É comum carmos tentados a propor livros que gostamos ou achamos


interessantes para determinada criança ou situação, mas, nesses momentos é
importante termos clareza do que estamos fazendo. Os bebês têm sua própria
forma de pensar e parte dela não conseguimos apreender. Eles absorvem suas
vivências e desenvolvem um pensamento elaborado, à sua maneira, em outro
momento. Um bebê é uma pessoa que está se formando, ainda enigmática,
precisamos por isto cuidar dele, respeitar seus movimentos e perceber os sinais
que nos dá sobre sua escuta.

Quando lemos uma história e mostramos as imagens, os elementos da narrativa


estão lá e o bebê escolhe o que, naquele momento, é relevante para ele. Por
isto é importante ler, se calar e car atento ao que a criança propõe, para não ir
diretamente ao centro daquilo que nós achamos essencial para ele. No exemplo
acima fui eu que escolhi o acervo para a mediação e fui eu quem escolhi
inicialmente ler este livro. Claro que este é um belo e bom livro, e eu já sabia que
pequenos e grandes gostam de ouvi-lo. Por isto, mesmo sem ter pensado
naquele momento, não poderia dizer que foi por acaso que escolhi esta história
que fala de vínculos e encontros. Mas é interessante que Rafael, que tem de
dividir a atenção dos educadores com muitos bebês, cotidianamente, aponta
nesta história para o desenho onde o bebê aparece só, ativo e capaz de
expressar suas emoções e competências. Não podemos a rmar o que se
passou exatamente com Rafael, mas podemos ver que ele gostou do “Tanto
Tanto” e que este momento de mediação foi importante para ele.

Podemos e devemos, como no exemplo, propor histórias como “Tanto, Tanto”,


para crianças que vivem em uma instituição longe de sua família, desde que
sejamos extremamente respeitosos quanto à relação que a criança terá com ela,
aceitando até a escuta distante, a recusa, o silêncio ou as repetições que ela
solicitar.

O livro, graças à narrativa, à história transmitida, à diversidade de situações


propostas, é uma ferramenta que permite abordar mesmo as situações difíceis
com alegria e prazer. Ele nos conta sobre experiências desconhecidas, a partir
das quais podemos imaginar e aprender. Isto, me faz lembrar de uma outra
história que Madalena de Oliveira (educadora do Instituto Fernandes Figueira-
Programa Saúde e Brincar, Rio de Janeiro) me contou uma vez : Ao sair para um
passeio, com um menino que nunca saíra antes do hospital, este olhou para o
céu, apontou uma nuvem e perguntou: – Quem desenhou? Vemos como, para
esta criança, várias coisas e situações do mundo tinham sido introduzidas a partir
dos livros e das leituras que esta equipe fez para ele.

 

O Bebê designa a imagem

Rafael também nos mostra e exercita competências complexas, através de


sua alegria, de seus balbucios e dos delicados tapinhas que dá na imagem.
Demonstra que se reconhece na ilustração do bebê em preto e branco. Este
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bebê, “em preto e branco”, representa um elemento da história sutil, mas


fundamental, que não aparece na narrativa escrita. Nestes detalhes do livro o
bebê aparece ativo: brinca, lê, dança, pede colo, dá risada, observa o adulto,
corre, ca bravo, e chupa seu dedo com sono. Estes detalhes interessam
Rafael, que chama minha atenção, assim como a das outras crianças, e me
faz falar sobre eles. Ao bater sobre a imagem Rafael a está designando. É
uma situação banal como quando apontamos com um dedo para algo. É a
primeira vez que ele faz isto e este momento é fundamental para a criança
que ainda não fala, pois quando ela designa a imagem, é capaz de separar,
discriminar esta imagem- objeto, de todo o resto. Nessa hora, o adulto se
identi ca com a criança e em geral nomeia o objeto e um jogo se instala
entre o bebê e o adulto, um jogo que vai e volta em torno deste gesto que
precede a linguagem. É provável que em pouco tempo, surgirão as primeiras
palavras: bebê, mamãe, papai, não…

Interagindo com outros bebês

Rafael interage comigo e com os outros bebês e, apesar de todos os estímulos


externos – intervenção das outras crianças, barulho e brincadeiras que
acontecem no parquinho, ele participa atenta e ativamente da leitura da história.

Os bebês necessitam e buscam um vínculo privilegiado com o adulto e


inicialmente este é mais interessante e atraente que a interação com as outras
crianças.

Percebemos nesta situação com Rafael, que a leitura feita por um adulto que ele
conhece bem; o contato físico (Rafael mantém-se de pé apoiado em meus
joelhos) e o contato do olhar (olha para mim e para o livro, olha para onde eu
olho: para as outras crianças, adultos, imagens e letras), o ajudam a car
envolvido com a leitura, a desfrutar das inúmeras trocas de linguagem entre as
crianças e a interessar-se por estas tantas janelas que se abrem para o mundo,
através das palavras, das ilustrações, das metáforas, das entrelinhas, das
reações das crianças e dos adultos…

Formas de prestar a atenção

Costumamos também pensar que os bebês são seres dispersos, que não xam
a atenção por muito tempo, o que de certa forma é verdade, se usarmos como
parâmetro o adulto. Porém, seria melhor dizer que os bebês tem outro ritmo,

outra forma de atenção. Não são os estímulos externos que os fazem se
desinteressar de uma história. Na maior parte das vezes são os estímulos
internos. Um bebê que interrompe uma história, que  escutava atentamente, e se
afasta para brincar de outra coisa, ou adormece, ou fecha o livro, na maior parte

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das vezes o faz porque necessita de distância, de silêncio, de repouso para


organizar e elaborar tantas novidades.

Ele precisa de bastante tempo para construir uma idéia, um pensamento, a


memória da história. Como para tudo, ele não aprende a falar, a andar ou a jogar
bola de uma vez só, e ele necessita ser acompanhado no contato com este
objeto – livro e com as histórias.

Ler para o bebês?

“Fui para a UCINE, lá estava Breno, de 2 meses, todo serelepe. Li para


ele várias histórias, ele prestava atenção na voz, e às vezes xava os
olhos em algum ponto do livro. Li: Opostos Divertidos, Joaninha
Rabugenta e Procure e Ache. Li para sua mãe e para outra mãe que
estava no mesmo quarto, O Rei Gilgamesh.

Ao sair deste quarto uma mãe, que estava no quarto ao lado, solicitou
leitura para seu lho, dizendo: Na semana passada o Cassio (3 meses)
estava dormindo, mas hoje não está, e eu quero que ele escute
historinhas! A mãe cou encantada com as histórias. Li Opostos
Divertidos, O Explorador Experto e Brincadeiras Cintilantes, e ela
demonstrou estar feliz pela atenção dada a seu bebê. Ele, por sua vez,
estava sonolento e parecia não estar entendendo muito o que estava
acontecendo, mas sua mãe estava irradiante!”

(Adriana Servilha Gandolfo – ICR- 13/07/2001)


Já li muitas histórias para bebês e já escutei relatos de outros colegas. Algo
importante que estas experiências nos revelam é que apesar do bebê nos ser
próximo, pelo coração, sentimentos, ele ao mesmo tempo nos é estranho e isto
as vezes nos deixa perplexos, como se descobríssemos algo de estranho em
nós mesmos.

Quando lemos para um bebê, entramos em contato com ele, nos sentimos
bizarros e engraçados. Os bebês costumam ser mais silenciosos, sérios e tem
reações muito mais sutis que as crianças maiores. Ficamos na verdade mais uma
vez intrigados diante da maneira que o bebê registra e recebe, no sentido
profundo do termo, o que estamos propondo. Não sabemos tudo que os
pequeninos podem captar, nos sentimos ignorantes e isto é desconcertante.

Ler para bebês portanto nem sempre é fácil. Temos vontade, quando
percebemos que não estão atentos, ou que mostram que estão cansados, de
mobilizá-los, modi cando o tom de voz na leitura, mas o que é importante não é

quanto tempo lemos, e sim que propomos  livros, abrimos espaços para as
histórias, para os bebês e suas mães, no tempo que é possível, sempre com
bastante regularidade.

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Quando estamos lendo em um contexto como o que nos narra Adriana, acima,
não temos só um ouvinte. As mães observam, desfrutam das histórias e dos
livros e também desejam escutar histórias. É neste movimento que
provavelmente assumirão o papel de leitoras para o seu bebê e para os outros
membros de sua família. É fundamental deixar sempre aberto o espaço para se
surpreender, desta forma ca mais fácil descobrir os in nitos matizes e
possibilidades que a leitura de histórias para os pequenos propõe!
Por que ler para os bebês no hospital?

“Eu me aproximei de uma incubadora, do lado a mãe e um bebê.


Cleurimar, que é a mãe, me contou que a lha tinha uma semana de
vida e estava com problemas no coração. Ofereci as leituras para a
mãe, ela aceitou.

Comecei a ler, Cleurimar se emocionou e começou a chorariquei


preocupado e perguntei o que tinha acontecido, ela me pediu para
aguardar com a mão, ela precisava chorar, desabafar. Depois ela me
contou a história de Lia, a sua bebê.

Depois de me contar, perguntei se ela queria que eu continuasse a ler


para ela, ela aceitou novamente e li alguns livros e ela riu em algumas
passagens. No nal, disse que seria bom ela contar, cantar e falar com
a lha. Quando me dirigi para Lia, na incubadora, e comecei a falar
com ela, o medidor de batimentos começou a acelerar. Disse à mãe
que, se ela quisesse, podia pegar livros no 2o andar…”

Ilan Brenman – Hospital Pediátrico – São Paulo, 2001

Além dos elementos que venho destacando, ao longo do texto, vemos aqui
como a leitura consegue resgatar um espaço de comunicação e expressão e o
quanto isto foi importante para esta mãe e provavelmente para a sua lha.

Quando a adversidade da vida é excessiva, utilizamos menos a linguagem


narrativa e muitas vezes nos encontramos impedidos de sonhar e de pensar.

A leitura das histórias permitiu à mãe se expressar, falar dela, resgatar a sua
história e a de seu bebê. Após chorar, falar de si e de sua lha, a mãe consegue
sorrir, aproveitar a leitura e ocupar aquele momento com outros pensamentos,
que não só os de tristeza e de inquietude. Ela observa o Ilan falar com a
pequena Lia, percebe o movimento que isto traz no mediador e em seu bebê. A
“rede“ de linguagem que se instala, auxilia a mãe a sustentar sua angústia e 
permite o movimento em direção à expressão e ao pensar. Apostamos neste
trabalho, como a possibilidade de brincar, de pesquisar, pensar e se expressar a
partir das histórias, entendida como manifestação de vida e saúde. Acreditamos
que a arte e a literatura compartilhadas a partir da leitura e intermediada pela
relação, auxiliam as pessoas a conversarem consigo.
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É claro que sabemos que as diversas situações de con ito, que vive uma criança
ou um jovem, suas referências culturais, suas condições de vida e seu bem estar,
têm um peso importante para seu futuro – mas acreditamos também que as
transformações sempre são possíveis. Encontros e/ou situações aleatórias
podem acontecer e ter importância decisiva no destino de cada um ou de um
grupo, sem que isto seja previsível. Neste sentido, pensamos que viabilizar a
relação de alguém com o que a língua escrita e a literatura transmitem, de forma
que os indivíduos possam estar inseridos em sua cultura e localizem-se na
história da humanidade, é um ingrediente fundamental. E isto deve começar
desde cedo!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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1995.

Bruno Bettelheim e Karen Zelan, La Lecture et l’enfant. Paris:


Lafon, 1983.

Walter Benjamin e outros, Textos escolhidos – o narrador. São


Paulo: Abril Cultural, 1983.

BRESSON, F. Langage Oral, Langage Écrit in La Dyslexie en


Question. Paris, A Colin.

BONNAFE, M. Les Livres c’est bom pour les bébés. Paris:


Calman,1992.

DIATKINE, R.; HEBRARD, J. et al. Textes Centre Alfred Binet,


L’enfant et l’écrit. Paris: Centre Alfred Binet, 1983.

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livres. Paris: Rev. Psychiatrie de l’enfant, XXIX, 2, ED. PUF, 1986,
p. 319 a 361.

DIATKINE, R. Lectures et developpement psychique, Rev.


Perspectives psychiatriques, Lectures d’enfance; plaisir et
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DIATKINE, R. Aussi noir que le bois de ce cadre. Textes du



Centre Alfred Binet, n.º 3, Paris,1985, pag.165-176.

Françoise Dolto, Tudo é linguagem. São Paulo: Martins Fontes,


2000.

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DURKIN, D. Children Who Read Early. Columbia University,


Teachers College, 1966.

FERREIRO, E. Cultura Escrita e Educação. Porto Alegre: Artes


Médicas, 1999.

FERREIRO, E. In: SINCLAIR, H. La Production de notations chez


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Jean Foucambert, A leitura em questão. Porto Alegre: Artes


Médicas, 1994.

PATTE, G. Laisses – les Lire. Paris: Temps Apprivoisé, 1987.

Donnald Winnicott, O brincar e a realidade. Rio de Janeiro:


Imago, 1975.

Donnald Winnicott, O ambiente e os processos de maturação.


Porto Alegre: Artes Médicas. 1990.
Livros de Literatura Infantil citados

TANTO, TANTO!, Cooke T, Oxenbury H. São Paulo: Ática, 1997.

O REI GILGAMESH, Zeman L. São Paulo: Projeto, 1997.

A JOANINHA RABUGENTA, Carle E., Rio de Janeiro: Nova


Fronteira, 1998.

OPOSTOS DIVERTIDOS, Steer D. São Paulo: Brinque- Book,


2010.

O EXPLORADOR ESPERTO, Dijs C. São Paulo: Melhoramentos

BRINCADEIRAS CINTILANTES, Yoon S. São Paulo: Salamandra

PROCURE E ACHE, Hill E., São Paulo: Martins Fontes, 1989.


[i] René Diatkine foi Pedopsiquiatra e Psicanalista Fundador da
Associação A.C.C.E.S. – Actions Culturelles Contre Les
Exclusions et les Segregations fundada em 1982, em Paris,
França.
Imagem Mimi Kichner 
 

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SOBRE O AUTOR

Patrícia Pereira Leite


Psicóloga clínica e psicanalista. Membro da
Sociedade Brasileira de Psicanálise; Mestre em
Psicologia Clínica e Psicopatologia pela
Universidade de Paris V e especialista em
Técnicas de Saúde Mental pela Universidade de
Paris XIII. Membro fundador de A Cor da Letra
Centro de Estudos em Leitura, Literatura e
Juventude. Presidente e Coordenadora de

Projetos sociais em Ação Cultural do Instituto A


Cor da Letra.

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5 Comments

Maria no 5 de maio de 2020 a partir do 21:47


Vemos, nas narrativas, como os bebês entendem e reagem ao
ouvir uma leitura. É emocionante saber que eles podem se
conectar com a leitura!

RESPONDER

Rosangela Carvalho no 30 de abril de 2020 a partir do 09:52


Super interessante, porque pensamos que os bebês não prestam
atenção e subestimamos suas capacidades e sentimentos, texto
muito bom!!!

RESPONDER

Adriana no 28 de abril de 2020 a partir do 15:44


Adorei o texto. É tão mágico e maravilhoso ouvir esses
depoimentos e comprovar o poder transformador dos livros. Não
é mesmo?

RESPONDER

Ied no 31 de março de 2020 a partir do 15:08


Parabéns! Belíssimo trabalho

RESPONDER

Marlene G. Vieira no 13 de junho de 2019 a partir do 21:01


Não conhecia essa leituras para bebês e crianças em hospitais.
Fiquei emocionada, quanto a leitura da criança que estava
incubada. Porque tão logo, a criança escutou alguém falar com
ela seu coração começou a bater, mostrando que a leitura seria
bem recebida pela criança. Belíssimo! Parabéns!

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21/10/2020 Ler histórias para os bebês? | Revista Emília
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