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COLEÇÃO GRANDES ROMANCES

Julien Green

A
EDITORA
NOVA
FRONTEIRA
Tradução de Aulyde Soares Rodrigues
“Todo rom ance greeniano é a aventura do ser
brutalm ente lançado p a ra fo r a de seus hábitos e
obrigado à difícil e trágica descoberta de si
m esm o” (Jacques Petit).
C om parado a B audelaire e F rançois M auriac,
Julien G reen é autor de um a das obras m ais
secretas e inquisitivas da literatura fra n cesa no
século X X . E stão presentes em A drienne M esurat
alguns de seus tem as m ais constantes: a atração e
repulsa p elo pecado, o castigo im posto ao prazer,
o desejo de p ureza e a pertinaz luta do hom em
p ela busca da verdade.
Em m eio a um lirism o crispado e um
desenfreado desnudam ento psicológico, A drienne
M esurat se debate nas angústias de todos os
tem pos. E la sofre e se regozija sob o p eso do
quanto lhe custa descobrir sua identidade. Como
diz o pró p rio G reen, . apropriando-se de uma
palavra de F rancisco de Sales: *‘A p ureza só se
encontra no P araíso e no In fern o ’ ’.


EDITORA
NOVA
FRONTEIRA
SEMPRE
UM BOM
LIVRO
INICIAÇÃO AO MUNDO DE
JULIEN GREEN Em que consistiria essa mestria? No poder
de penetrar os arcanos da alma humana, por
A notoriedade universal de Julien Green intermédio do vasto elenco de personagens
advém destas três modalidades de expressão com que nos deu a sua visão do mundo e da
literária: o romance, o teatro e o diário. Po­ vida. Dele se pode dizer que entrou no ro­
deríamos ainda acrescer o ensaio — lem­ mance como um mestre, ao publicar Mont-
brando sobretudo o seu fam oso Pamphlet Cinère, em 1926.
contre les catholiques de France — se esta No ano seguinte vem a lume Adrienne Me-
quarta modalidade não estivesse contida nos surat, logo laureado pelo prêmio Paul Fiat,
sucessivos textos reflexivos dos numerosos da Academia Francesa. Mais de cinqüenta
volumes de seu Journal. anos levou este livro para chegar à língua
A rigor, para fixar com nitidez o perfil in­ portuguesa, nesta edição da Nova Fronteira.
telectual de Julien Green, cumpre-nos desta­ E certamente para abrir caminho a outros ro­
car, no conjunto de sua obra, os romances e o mances de Julien Green, notadamente Moi-
diário. Porque neles se concentra verdadei­ ra, que tenho à conta de sua obra-prima, e em
ramente o seu gênio de escritor, quer na lim- cuja entrada colocou ele a reflexão de São
pidez da prosa narrativa, quer na capacidade Francisco de Sales que poderia servir de epí­
de adentrar-se no mistério da condição hu­ grafe a todo o seu conjunto romanesco: (,A
mana. pureza só se encontra no Paraíso e no In­
Pierre Gaxotte, que o recebeu na Acade­ ferno.”
mia Francesa, acentuou em Julien Green a Com a obra de Proust, o romance psicoló­
concordância com François Mauriac, seu gico parecia exaurido. Dir-se-ia ser impossí­
antecessor na velha Casa de Richelieu. Am­ vel prosseguir no mesmo caminho, em busca
bos católicos, ambos romancistas, ambos re­ do conhecimento de nossas angústias e dila-
colhendo no pecado a inspiração literária. cerações. Julien Green demonstraria o con­
Separava-os, no entanto, a reação diante da trário, mas sob outra luz. Proust viu os nos­
vida e do mundo — mais sarcástica em Mau­ sos conflitos no plano da realidade objetiva,
riac, mais patética em Julien Green. Mas é sem levar em conta que o pecado, em vez de
deste último, no seu discurso de posse na Aca­ ser apenas a via da perdição e da renúncia, é
demia, o reparo de que, sem um pouco de hu- também a vereda que conduz ao encontro
mour, a vida seria intolerável. com Deus. Só esse encontro nos traz o
Creio que fo i Alceu Amoroso Lima, ao fim perdão.
dos anos 30, num artigo sobre Lúcio Car­ Julien Green é sobretudo o romancista
doso, quem primeiro aludiu, no Brasil, à desse outro lado da vida. Banha-lhe a obra
obra romanesca de Julien Green, acentuan­ romanesca uma claridade de círios acesos. 0
do-lhe a significação e a importância. No en­ homem vive no pecado para se purificar na
tanto, a despeito do louvor do grande crítico, suaflama.
essa obra, segundo suponho, só agora, com Aofechar este romance, jamais nos esque­
este romance, encontra, no Brasil, o cami­ ceremos de suafigura central. Os medos e as
nho da língua portuguesa. perplexidades de Adrienne Mesurat se incor­
Traduzida em outras línguas cultas, nota- poram ao nosso próprio acervo de emoções
damente a inglesa, a alemã, a italiana, a es­ pessoais. Porque ela vive conosco, trazida
panhola, a obra de Green ultrapassa o idio­ pelo poder criador do romancista. E conosco
ma francês em que fo i originariamente cria­ continua; por força da arte com que foi con­
da, para inserir-se no contexto mais amplo cebida e realizada.
do romance universal. E ele, por isso mesmo, Josué Montello
um dos mestres da ficção contemporânea.
---------COLEÇÃO----------
GRANDES ROMANCES

ADRIENNE MESURAT
Julien Green
da Academia Francesa

Adrienne Mesurat
Romance

Prefácio inédito

Tradução de
A u l y d e S o a r e s R o d r ig u e s


EDITORA
NOVA
FRONTEIRA
Título originul:
ADRIENNE MESURAT

© Librairie Plon, 1927


© Librairie Plon, 1973 para a presento odlçlo

Direitos adquiridos para a língua portuguesa, no B ro ill, pcln


EDITORA NOVA FRONTEIRA S. A.
Rua Maria Angélica, 1 6 8 — L agoa— CEP: 22.461 — Tel.: 286*7822
Endereço Telegráfico: NEOFRONT
Rio de Janeiro — RJ

C apa
V ic t o r B u r t o n

Revisão
L ú c ia M o u s in h o
E d n a da S il v a C a v a l c a n t i
M a rild a B a rr oc a

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Green, Julien.
G83a Adrienne Mesurat / Julien Green ; tradução de Au-
lyde Soares Rodrigues. — Rio de Janeiro: Nova Fron­
teira, 1983.
(Coleção Grandes Romances)

Tradução de: Adrienne Mesurat.

1. Romance francês I. Título

CDD — 843
82-0833 CDU — 840-31
SUMÁRIO

Prefácio, 7

Primeira parte, 19

Segunda parte, 149

Terceira parte, 201


PREFÁCIO

Falou-se de psicanálise a propósito de Adrienne Mesurat;


portanto, procurarei esclarecer esse ponto.
Não posso dizer, como já declarei antes, que ignorava por
completo a psicanálise antes de escrever este livro. Em 1920
eu era um insensato neurastênico que definhava de desejo
num dos mais belos ambientes do mundo. Estudioso e triste,
vivia na Universidade de Virgínia a época mais dolorosa da
minha juventude. Nem me passava pela cabeça que as coisas
podiam ser diferentes, embora um velho senhor, no seu apar­
tamento de Viena, tivesse todas as respostas. Seus mensagei­
ros, jovens de cabelos encaracolados como heróis gregos,
repetiam à minha volta as frases misteriosas, as palavras de
sonoridade bárbara como complexo, recalque e libido. —
Escute, preste atenção! — suplicava Freud. — Meu caro im­
becil, deixe de sofrer, posso explicar tudo! — Mas era inútil.
Eu estava surdo.
Contudo, à força de encontrar em cada canto a Introdução
à psicanálise, e seguindo o conselho de dois ou três colegas
empolgados, resolvi lançar os olhos sobre o alentado volume.
O que esperava encontrar? Sem dúvida coisas proibidas, tudo
aquilo que os antigos manuais classificam de indecências.
Minha decepção foi enorme. Não compreendia o que entu­
siasmava tanto os estudantes naquelas páginas de leitura ári­
da. O que havia naquelas crianças complicadas e repugnan­
tes, naqueles bebês imundos, para despertar tanto interesse?
As nurseries transformavam-se em antros de orgia onde
triunfava o urinol. Tudo se resumia em paixões incestuosas
pela mãe e desejos imperiosos de matar o pai. Graças a Deus
nada disso se aplicava à minha pessoa, e conferi a mim mes-

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mo uma grande menção de louvor. Para mim, o que valia
era a muralha sólida da Igreja envolvendo minha preciosa
pessoa e protegendo-me de todas as imundícies do mundo.
E continuei sozinho, orgulhoso e incompreendido.

Entretanto, aqui e ali na obra desse autor suspeito havia


descrições de casos individuais. Eram confidências, ou me­
lhor, confissões cuja sinceridade me perturbava. O sofrimen­
to humano falava abertamente no texto. Sem saber exata­
mente por quê, sentia-me atingido pelo tom, pela crueza das
confissões, pela necessidade que tinham de dizer a verdade
— mas não havia nada para mim, pensava, fechando o livro
com uma sensação de perplexidade. Mais do que uma leitura,
essa primeira exploração do universo freudiano foi para mim
um breve mergulho na sombra, que me provocou indefinível
mal-estar. Resolvi esquecer o assunto. Tudo me parecia
livresco e teórico, comparado à vida real, especialmente à
minha, uma história cuja chave permanecia inacessível.
Eu não era como os outros. Esse o resumo de todas as
minhas dificuldades. Ou talvez fosse melhor dizer, desejava
ser como os outros, refugiar-me no meio deles. Desejara
isso algumas vezes com violência. Quando criança, conhece­
ra a tristeza de não fazer parte do grupo, de não me divertir
com suas brincadeiras. Desajeitado a ponto de ser cômico,
ria sem saber por quê, para acompanhar os outros. Era
fácil perceber que não entendia nada. As regras dos jogos
mais simples escapavam à minha compreensão. A cabra-
cega, a amarelinha e a malha eram atividades estranhas e eu
ficava sozinho, espantado com o vazio que me envolvia.
Mais tarde, no curso superior, foi quase a mesma coisa, e
nada mudou quando, em 1917, vesti o uniforme cáqui e de­
pois o azul-celeste, embora esses trajes me garantissem um
lugar no conjunto. Exteriormente pelo menos. eu era igual
a todo o mundo; as diferenças não eram visíveis, ou talvez,
por instinto, eu achasse que traziam infelicidade. Contudo,
elas existiam. Velavam por mim, não como anjos tutelares,
mas como Parcas.

De volta à casa em 1922, na Rua Cortambert, pensei que


o sentimento de solidão se desvanecia, de certa forma.
Refazia-se ao meu redor o círculo familiar, com a linguagem
que eu conhecia e as particularidades que nos diferenciavam
do resto do mundo. Tínhamos nosso código, podíamos com­
preender as alusões que não faziam nenhum sentido para
um estranho.
Nesse ambiente reconfortante, por que persistia em mim a
necessidade de fuga? Era vazio também? “Especialmente aí”,
cochichavam as Parcas.
Às vezes ia observar o cemitério. Era assim que chamáva­
mos uma coleção de retratos que cobria toda a parede da
sala de jantar, avós, tios, tias e até primos, todos mortos.
Estudava com a atenção sombria do tédio esse mundo há
tanto desaparecido. O nada de toda a vida humana chegava
até mim através desses rostos mudos, mas procurava neles,
sem muita esperança, o elo que me faria um deles, sem jamais
encontrá-lo. Nenhuma semelhança: eu escapava ao grupo.
Essa mulher de bandós negros e grandes olhos suaves era para
mim uma estranha, embora nos unissem laços de sangue. Era
também estranho aquele velho de bigodes brancos e ar car-
rancudo e dominador, meu riquíssimo avô, que fulminava
com o olhar o peralvilho sem vintém que ousava julgar os
mortos. E outros, muitos outros. . . Representavam a famí­
lia, a tribo, ossadas em terras longínquas. Eu estava vivo,
ágil, orgulhoso das minhas mãos que sabiam arrumar as pala­
vras num estilo só meu, orgulhoso dos meus olhos que des­
cobriam um mundo novo no mundo de cada dia.
Em 1926, após terminar meu primeiro livro, procurava
assunto para o segundo. Dizem que o segundo livro é cheio
de riscos. Mas o que me preocupava não era produzir outra
obra, e sim escrever um livro, bom ou mau. Não tinha assun­

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to. Mont-Cinère era a história das minhas recordações da
América e da imensa casa da Virgínia, destruída pelo fogo.
Minha imaginação negava-se a funcionar. Para estimulá-la,
instalei-me no meu quarto numa fria tarde de abril, com um
bloco de papel verde claro e canetas escolhidas cuidadosa­
mente. Silêncio. Os ruídos da cidade não chegavam ao pe­
queno pátio onde uma débil palmeirinha esforçava-se por de­
senvolver-se. Não sentia simpatia pela pequena planta. Para
mim, era o símbolo da neurastenia e do fracasso. Mas não
estava ali para devanear. Precisava escrever um livro, pelo
menos cem páginas com letra bem regular. Infelizmente não
tinha nada para dizer. Comecei a bocejar. Talvez fosse me­
lhor descer para a sala.
Lá não estaria sozinho. Meu pai lia Le Temps, sentado na
sua poltrona coberta com uma manta com desenhos de pete-
cas brancas e amarelas, feita por minha irmã Anne, e lem-
brei-me de que aquelas petecas a haviam deixado nervosa. Mal
chegara e já estava distraído. Além disso, todos conversavam.
Ninguém levava a sério o escritor. Mary achava que era pre­
ciso trocar a água dos vasos de tulipas. Em nossa casa, sem­
pre havia flores por todo o canto. Uma casa sem flores é
uma casa morta, dizia Anne.
— Não podem ficar caladas enquanto leio este artigo? —
perguntou meu pai. “E enquanto procuro assunto para o
meu livro”, pensei eu. Lucy entrou na sala com ar misterio­
so. Olhou-nos com expressão sombria e atravessou o cômodo
com passo militar. — Perdida em seus pensamentos, como
sempre — disse Mary em tom de conversa. Nenhuma res­
posta. Lucy nunca se dava por vencida. Desapareceu como
tinha chegado, e depois voltou, sentando-se perto da lareira.
Fechando os olhos tentei me concentrar. O assunto para
um rom ance... O que devia fazer para encontrá-lo? Hoje,
depois de quase meio século, faço ainda a mesma pergunta,
mas de modo diferente. Como era possível ao escritor de vinte
e cinco anos escapar ao romance que o cercava nessa sala
clara e tranqüila onde ele preparava suas tempestades?
Na verdade, sentia confusamente a presença dos meus
personagens, mas não queria identificá-los com os rostos

10

I
familiares que me observavam enquanto me preparava para
escrever. Usar modelos reais parecia-me desleal. Pensava que
era preciso reinventar a vida. Ou seja, criar. Tudo tinha de
sair da minha cabeça. Era proibido olhar em volta. À vida
escrevia o seu romance; não tinha o direito de ler por cima
do seu ombro, de copiar...
Na verdade, quanto mais me demorava na sala, mais o
meu livro crescia nas regiões invisíveis onde os livros são
feitos. Naquele tempo, sonhava com romances completos, es­
critos numa determinada forma, já prontos, à espera de que
alguém, com um pouco de paciência, os decifrasse. E então
bastava transcrever. Essa idéia vagamente platônica me sedu­
zia, embora não conseguisse levá-la a sério. Elaborar um
plano parecia-me errado; corria-se o risco de se enganar ou
desnaturar o que é bom. O único método razoável era igno­
rar todos os métodos e encontrar o livro, frase por frase.
Bastava para isso sentar-se ante a página em branco e, che­
gado o momento — talvez a espera fosse longa — , deixar cor­
rer a pena. Partia-se de uma imagem — pois a imagem era
indispensável — e, naturalmente, ela era fornecida peía ima­
ginação, mas correspondia a uma realidade.
Aqui começavam as dificuldades. Se a imagem fosse falsa,
podia nos levar longe demais sem que percebêssemos. Era
preciso recomeçar uma vez, duas vezes, até mais. Finalmente,
algo dizia ao autor que estava no caminho certo. Era um
momento de embriaguez, como o êxtase da pitonisa come­
çando suas profecias. O dom se afirmava pela força de ver e
fazer ver. À noite, pensava com impaciência frenética na
página que escreveria no dia seguinte, pois essa página, cujo
conteúdo ignorava ainda, seria uma realidade criada por mim,
retirando as palavras da biblioteca mágica.
O que eu ignorava completamente era que esses livros que
julgava criar, ou descobrir, na verdade já existiam, não nas
paragens remotas e ideais, mas dentro de mim. Era inútil
procurar no fundo do espelho, ou no cemitério, esse desco­
nhecido. Ele estava em todas as páginas. Inocentemente o au­
tor desmascara o culpado, sem saber que esse culpado é ele
mesmo.

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Por que escrever todos esses detalhes, senão para elucidar
a gênese da obra? Meu problema não é o de todos os escri­
tores de ficção, aos quais se pergunta de onde vem o seu
livro? No fundo da minha memória, sob as camadas geoló­
gicas do esquecimento, minha leitura negligente de Freud es­
tava agindo, mas sem aflorar à superfície.
Instintivamente odiava a psicanálise, mas não podia im­
pedir que em 1926, em Paris, como na universidade cinco
anos atrás, fosse um assunto importante, nem evitar que se
respirasse por toda a parte o ar nefasto e esterilizante. Todo
o mundo tinha complexos, e os personagens dos romances
seguiam a moda docilmente. Eu não encontrara ainda o as­
sunto para meu livro, mas havia em mim um desconhecido
que se opunha à entrada de Édipo. Isso também não vinha
à tona.
Depois de várias tentativas malogradas, desisti de traba­
lhar na sala ou no meu quarto. As férias de verão me encon­
traram numa cidadezinha da Alsácia. Cidadezinha é exagero.
Fui primeiro com um amigo a Orbey, onde passamos uma
noite apenas, e lá, no quarto do hotel, escrevi a primeira pá­
gina do meu romance. De vez em quando, o ruído estri­
dente de uma serraria cortava em tiras o silêncio. A isso alia­
va-se o horror de uma tapeçaria onde se viam, a intervalos
regulares, discos vermelhos, como pescoços guilhotinados. No
dia seguinte, partimos para um lugar remoto de onde se avis­
tava, se bem me lembro, o topo do Linge, teatro de violen­
tos combates em 1917.
O lugar chamado Haute-Huttes não podia ser nem mesmo
chamado de vila. Havia apenas uma casa, o hotel, no cami­
nho além do qual as pradarias imensas desciam suavemente
até o fundo do vale. Na Europa toda não existe um lugar tão
agradável. Para trabalhar, era uma delícia. Meu amigo escre­
via seu livro, eu escrevia o meu, cuja primeira página me fora
dada no quarto da tapeçaria sinistra.
Em Hautes-Huttes, o silêncio era profundo, quase ener-
vante. Ficava feliz quando ouvia o canto de uma cigarra
tentando imitar a serraria de Orbey. Vez por outra chegava

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até nós, vindo de um milharal próximo, o ruído da pedra
afiando a lâmina da ceifadeira.
Cada vez que erguia os olhos do meu trabalho, lá estava a
paisagem cheia de pensamentos felizes; sob o céu de um azul
brilhante, as colinas, os bosques e os pastos emolduravam
os campos louros e ruivos. A passagem de uma ou duas car­
ruagens, no espaço de uma hora, era um grande aconteci­
mento. Corria então à janela, curioso, e depois voltava ao
trabalho. E o que encontrava?
Silêncio. Eu estava na Rua Cortambert. Levara comigo
essa rua quase provinciana. Podia estar na Alsácia, mas res­
pirava o ar do nosso apartamento e observava alguém exami­
nando o nosso cemitério, as mãos atrás das costas.
Alguém. . . não eu, por certo. “Uma moça, a heroína”,
dizia para mim mesmo. O desconhecido providenciaria tudo;
eu estava tranqüilo. A heroína tinha mãe? Nenhuma história
sobre a mãe, decidia o desconhecido. A moça a perdera
quando era pequena. Assim, a limpidez da minha obra não
seria perturbada por complexos idiotas.
Podia, portanto, continuar às cegas, sem medo. Então, al­
guém na outra sala chama a jovem e lhe diz que é preciso
trocar a água das flores. Exatamente como em nossa c a sa...
Qual o leitor que duvidaria dessa realidade? Continuei, intré­
pido. Tudo estava em paz nessa história que não acompanha­
va a moda. Faltava o pai. Adrienne tinha direito de ter um
pai. Dei-lhe o nome de Mesurat.
A partir desse momento, comecei um longo jogo de escon­
de-esconde com o tio Freud. Difícil e trabalhoso, achei o iní­
cio do livro pouco promissor, sem brilho e sem interesse.
Apesar disso continuei, obstinado, intrigado com a ternura
e a realidade da primeira página. Tantas coisas podem se es­
conder no coração de uma jovem dominada pelo tédio! Ela
precisava ter um segredo. . .
Quando o livro foi publicado, um ano mais tarde, alguém
descobriu que Adrienne era eu. A revelação atingiu-me como
um raio, e para agravá-la, meu pai, que lera meu livro algu­
mas semanas antes de morrer, tinha dito com um sorriso tris­
te: — Evidentemente eu sou o pai Mesurat. — Eu não esta­

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va presente quando ele disse isso; de modo algum me magoa­
ria. Mas minhas irmãs exclamaram: — Como, papai? Só
porque você também lê Le Tempsl Pura coincidência! —
Elas nunca tinham lido Freud. Meu pai também não. E,
assim, o nome do vienense não foi pronunciado. Faltou ape­
nas isso para que minha consternação fosse completa.
Facilmente me convenci de que eu não era Adrienne Me-
surat. Haviam simplesmente aplicado a mim as palavras de
Flaubert sobre Madame Bovary. Flaubert tem toda a liber­
dade de se identificar com Madame Bovary; quanto a mim,
não me presto a travestis estranhos.
Segundo me lembro, a crítica não fez qualquer alusão à
psicanálise, da qual eu tinha me servido em porções bem
maiores do que imaginava. Seja como for, dos surrealistas
chegava até mim, como um murmúrio, a expressão “escrita
automática”, e senti que se adaptava perfeitamente ao meu
caso. Na verdade, não sabia muito bem o que era a escrita
automática, mas nem sempre é preciso compreender para
adivinhar, e a palavra “automática” parecia aplicar-se a mim
até certo ponto; deixava que minha mão se movesse e as
frases iam se formando, nem sempre perfeitas, é verdade.
Para começar a escrever, precisava colocar-me em estado de
completa imobilidade. Quero dizer, imobilidade interior. Se­
rá que isso exprime exatamente o que quero dizer? Não en­
contro outras palavras.
E então alguma coisa se libertava. Eu esperava sempre
o “clique” que acompanha esse fenômeno indescritível. E,
afinal de contas, o que significa esse “clique”? Isto: eu sabia
que, na hora certa, aquilo que hoje chamo de desconhecido
guiaria a minha mão, e as palavras necessárias surgiriam len­
tamente. Muitos dos meus livros, não todos, foram escritos
assim. Adrienne Mesurat e Leviathan, do princípio ao fim,
depois Moira e alguns trechos de Chaque homme dans sa
nuit. Escrevi Epaves completamente sozinho, por assim dizer,
bem como Varouna, Minuit e Le visionnaire beneficiaram-se
pouco dessa intervenção que tentei descrever da melhor ma­
neira possível, embora resista à análise. Em Uautre, a reali­
dade dos fatos complica meu problema e experimentei as an­

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gústias da transposição; quase nada me foi dado, o desco­
nhecido nada tinha a fazer, ou talvez a verdade autobiográ­
fica tenha dominado a ficção.
Não falei sobre o Voyageur sur la terre, para mim o mais
misterioso de todos os meus livros, porque o escrevi sem com­
preender. No fim pensei ser real um personagem que só podia
ser imaginário e a mensagem da história escapou-me comple­
tamente. T. S. Eliot foi quem primeiro lançou alguma luz
sobre esse livro tenebroso. Compreendeu-o melhor do que
Gide, que o analisou apenas literariamente.
Passaram-se os anos, e não pensava mais no Voyageur e
em Adrienne Mesurat, quando Marc Schlumberger falou a um
amigo meu sobre a opinião de Stekel, que definia meu livro
para seus alunos como um romance psicanalítico escrito por
alguém que nada sabia sobre psicanálise. A princípio essa
apreciação deixou-me indiferente. O que ouvia sobre psica­
nálise fazia-me erguer os ombros. Parecia-me inaceitável es­
pecialmente o complexo de Édipo, sobre o qual tanto se fala­
va. Estava certo de que esse tipo de aberração psicológica
nada tinha a ver comigo. O relacionamento que mantive com
meu pai, desde minha infância até sua morte, parecia-me
perfeitamente normal. Se às vezes achava difícil trocar idéias
com ele era porque o via mais como avô do que como pai.
A diferença de idade era muito grande: quarenta e sete anos.
Às vezes, confesso, sua lentidão, seus silêncios pesados, a
melancolia e os suspiros me impacientavam, mas sentia sua
bondade, e aos dezoito e vinte anos experimentava, como na
infância, uma sensação de segurança ao seu lado. Era para
mim como um grande carvalho. Vivíamos à sombra dessa
árvore imensa que nos protegia. Devo dizer, a bem da ver­
dade, que sua morte causou-me mais tristeza do que dor, mas
uma tristeza que durou muito tempo.
O que me surpreende, sempre que penso nele, é o fato
de jamais ter manifestado a menor oposição aos meus pro­
jetos, nem ao modo de vida que adotei ao voltar da América.
Nenhuma pergunta sobre minhas idas e vindas em Paris, nem
mesmo quando chegava tarde, ou, como acontecia às vezes,
quando dormia fora de casa. Eu era completamente livre.

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Meu pai recomendava-me que fosse prudente. Carejul. “Se
não puder ser sensato, seja prudente.” Esse é o conselho que
dão aos rapazes americanos. Com tudo isso, eu via o papel
de Édipo reduzido a zero, pois, se eu fosse Adrienne Mesu-
rat, não tinha as razões sólidas que ela possuía para jogar
meu pai escada abaixo. Aparentemente sua confiança em
mim era ilimitada. Ignorava que, como tantos rapazes da mi­
nha idade, a procura do prazer levava-me para a rua todas
as noites.
Era de esperar que Adrienne Mesurat tivesse os alinhavos
da autobiografia. A viagem a Dreux e a Monfort-l’Amaury é
verdadeira nos mínimos detalhes. Em 1925, num dos meus
muitos momentos de depressão, resolvi fugir de Paris, não
importa para onde. Na estação de Montparnasse, o nome
Monfort-l’Amaury atraiu minha atenção. Lá e em Dreux
desfilei minha angústia durante quarenta e oito horas. Para
descrever a agonia da heroína, bastou-me reviver a minha.
Se o motivo era diferente, a intensidade era a mesma, e con­
venci-me de que Marivaux não exagerava ao afirmar que,
limitados em tudo, o somos muito pouco quando se trata de
enfrentar o sofrimento.
Em muitos outros trechos repeti, sem perceber, as minhas
experiências pessoais. Na escada em que Adrienne passa a
noite, depois da morte do pai, e que se transforma num antro
de horrores, via a escada da nossa vida, em 1908, onde eu
tremia de inquietação, sentado num degrau, tendo por com­
panhia apenas a chama vacilante de uma vela e a coleção
das fábulas de La Fontaine. Os terrores da infância são in­
descritíveis. Só um escritor poderia imaginar as coisas que
um garoto de oito anos vê na massa de sombra agitada por
uma corrente de ar — só que ele não imagina, ele se recorda.
Volta a ter oito anos.
Se for contar tudo o que a vida me dá quando escrevo,
jamais terminarei esta exposição. Sem dúvida meu erro foi
acreditar que estava inventando, mas, se não acreditasse nis­
so, talvez nunca tivesse escrito uma linha. Em Adrienne Me­
surat vejo a jovem obcecada que atravessa uma vidraça com
os braços, levada por um impulso, em busca do inacessível. O

16
autor, no seu lugar, se contentaria em afastar a cortina e em
apoiar tristemente na vidraça a fronte de mártir. Outras ima­
gens me ocorrem, numerosas e bem definidas. Um jovem não
pode usar a caneta sem falar de si próprio. A quem poderá
enganar, usando uma máscara? Os olhos contam a verdade,
mas ele não sabe, porque não vê o próprio olhar. Talvez a
idade lhe ensine o sentido desse disfarce. Mas não. O arti­
fício continua no plano da ficção, onde tudo é permitido, co­
mo num jogo superior.
Nunca fui um grande leitor dos meus livros. Uma vez im­
pressos, deixo-os fechados, guardando os segredos das suas
imperfeições, mas como é possível não descobrir laços de
sangue entre Adrienne e os solitários violentos dos meus ou­
tros romances? Se a jovem francesa sufoca entre os muros da
súa prisão moral, Karin, a dinamarquesa, passeia, como se
estivesse num calabouço, por uma cidade que finge não vê-la.
Não podemos deixar fora desse grupo o Joseph de Móira,
prisioneiro da sua virtude perfeita da qual só o crime o liber­
tará. Todos transformados, como nos versos de Milton, em
cárceres de si mesmos, não por cortejarem a desgraça, mas
por um determinismo inexorável. Falamos do fatum dos an­
tigos. Pode-se dizer que existe uma afinidade entre essa for­
ma categórica de encarar a sorte dos homens e a mentalidade
fatalista de antes da nossa época. O cristianismo perturbou o
mecanismo terrível do destino, mas os traços dessa libertação
só apareceram muito tarde na minha obra. De que modo? Lá
está a psicanálise, como sempre, fiel no seu posto e com todas
as respostas. Não me lembro mais delas, porque, na minha
opinião, não dissipam a névoa do mistério. Por trás das
explicações da psicanálise, vejo a eterna interrogação.
Se houve um romancista que tenha trabalhado através da
noite da criação literária, esse romancista sou eu. Mas não
sou o único, e isso é o bastante para justificar minhas tenta­
tivas de esclarecimento. A lista dos escritores, grandes e pe­
quenos, que, ao contar uma história, contam a própria vida,
é bem longa. Contam a história de alguém que não conhe­
cem, alguém que lhes guiou a mão quando escreviam.

17
Qual o significado disso tudo? Existirá realmente em nós,
escritores, alguém que se esconde e ao mesmo tempo procura
se revelar usando a linguagem da ficção? De onde vem esse
hóspede misterioso? Da nossa infância? Então é a criança
que fala e age, protegida pela imensa liberdade da fantasia?
Dickens não se teria livrado jamais dos potes de graxa nos
quais sua mão trêmula de fúria colocava os rótulos? Dos-
toievski não sairia nunca do pesadelo no qual seu pai era
castrado e assassinado pelos mujiques? Podemos perguntar se
Stendhal conseguiu escapar aos encantos do tio Cagnon. Ou
se a vingança de Dickens contra a sociedade é quase total;
ele a refaz de alto abaixo, ora sacudindo-a com uma garga­
lhada, ora atirando-se sobre ela com um machado em riste,
porque tinha dentro dele um rapazinho terrível, um verda­
deiro “terror”? A alma de Dostoievski é universal. Ele é o
porco Karamazov. Mas, indo de um extremo ao outro, é
Aliocha, é o luxurioso, o assassino, todos os startsi, todas as
vítimas e todos os santos da humanidade. Quanto a Stendhal,
procuraremos sua ternura e violência em todos os jovens
belos, mais próximos do irresistível Gagnon do que do
qüinquagenário de suíças que não aceita o próprio corpo.
Quando ele escreve, tudo o atinge. Sofre e faz sofrer, como um
milionário distribuindo sua fortuna. E Balzac, precisaria das
centenas de personagens para se completar? E Flaubert, toda
uma província, gêmea de Cartago, e desertos povoados por
anacoretas com suas alucinações? Um porco e um unicórnio?
Mas a criança tem suas exigências. A imaginação tomou as
rédeas do poder.

18
PRIMEIRA PARTE
I

De pé, com as mãos atrás das costas, Adrienne observa­


va o cemitério.
Era assim que os Mesurats chamavam um grupo de doze
retratos pendurados na sala de jantar, sobre o aparador, um
ao lado do outro, cobrindo a parede inteira. Lá estavam
sete Mesurats, três Serres e dois Lécuyers, membros das fa­
mílias ligadas aos Mesurats, todos mortos. À exceção de uma
pintura da qual falaremos mais adiante, eram fotografias do
tipo que se fazia há vinte e cinco anos, fiéis e sem retoques,
o rosto sobre o fundo branco, nenhuma sombra indulgente
para disfarçar os defeitos, exprimindo apenas a linguagem
dura da verdade.
Era fácil distinguir os Mesurats dos Serres e Lécuyers. A
testa curta, os traços fortes, algo de decidido na expressão,
costumavam dizer que pareciam chefes. Homens e mulheres
lançavam o olhar quase agressivo das consciências puras. “E
você”, pareciam dizer, “sabe o que significa um coração tran­
qüilo, cujas batidas jamais se alteram, um coração que não
conhece o medo ou a inquietação, mas que controla a alegria
e recebe a dor com calma porque tem a consciência limpa?”
Lá estavam, jovens e velhos. Esta moça com um véu na cabe­
ça devia ter morrido antes dos trinta anos, religiosa de alguma
ordem. Mostrava o mesmo rosto calmo e o queixo acentuado
daquele velho de casaca; e esta mulher era sem dúvida a sua
mãe, a boca avara, olhos atentos com expressão calculista.
Ao contrário dos Mesurats, que não podiam ser confun­
didos com nenhuma outra família, os Serres e Lécuyers
não diferiam entre si, parecendo-se todos, embora não per­
tencessem ao mesmo ramo.

21
Davam a impressão de ter nascido, crescido e desapareci­
do mais ou menos como as plantas, resignados com a vida,
resignados com a morte, nada transparecendo nos olhos a
nlo ser a alma alheada, volúvel e despreocupada que vemos
às vezes nas multidões. Era opinião corrente que só a sua
riqueza explicava sua associação com os Mesurats, e as mes­
mas pessoas que comparavam estes últimos a chefes diziam
ainda que se tinham lançado sobre os Lécuyers e os Serres
como falcões sobre ovelhas.
Contudo, fortes e fracos, Mesurats, Serres e Lécuyers, to­
dos desapareciam ante a figura da velha Antoinette Mesurat,
que dominava como uma rainha os mais altivos membros da
sua rude família, e o seu retrato, pintado por mãos conscien­
ciosas, prendia toda a atenção. Aparentava cinqüenta anos,
mas era o tipo de mulher para quem a idade nada significa,
o tipo que muito cedo adquire a fisionomia que terá durante
toda a vida, como se a natureza, satisfeita com sua obra, re­
solvesse nada mais modificar. Os cabelos grisalhos, repuxados
para trás, deixavam ver a cabeça pequena, na qual havia pou­
co espaço para idéias, mas onde as que chegavam primeiro
dificilmente cediam lugar às outras, e a fronte maciça, sem
uma ruga, trazia à mente a lembrança de um muro impene­
trável. Os olhos negros não tinham a expressão simplória dos
Serres e dos Lécuyers, que pareciam fitar um ponto distante
no espaço; eram os olhos grandes de contornos bem defini­
dos de uma pessoa calma, que examina de perto e mede os
obstáculos sem bater as pálpebras. Vestia um corpete de
seda preta que moldava o busto generoso e os ombros largos,
do qual o pintor procurara reproduzir a espécie de cintilação,
embora o jogo ingênuo do artista em nada amenizasse o que
havia de enérgico e batalhador na envergadura de linhas pos­
santes.
Adrienne deteve-se por alguns minutos, imóvel ante os
retratos, examinando um a um, a cabeça um pouco incli­
nada para o lado. Suspirou.
— Adrienne, você está aí? — perguntou uma voz de mu­
lher, da sala vizinha. — O que há com você?

22
Adrienne, com um gesto maquinai, passou o pano que
tinha nas mãos sobre o aparador.
— Nada — respondeu. — Os vidros dos retratos estão
muito sujos. Quase não se vê o que está atrás deles.
— É preciso limpar com álcool e passar um pano seco —
disse a voz após um momento.
Fez-se silêncio.
— Continuarão feios do mesmo jeito — observou Adrien­
ne, falando consigo mesma.
Sentou-se em uma das cadeiras estofadas de veludo que se
alinhavam contra a parede, observando os dois retângulos
que o sol desenhava sobre o tapete ao lado da janela.
Baixou a cabeça ao peso do tédio, como outras pessoas
fazem por fadiga, mas os ombros continuaram retos e o
corpo não se curvou. Com o lenço na cabeça e o avental
azul sobre a saia, poderia ser tomada, à primeira vista, por
uma empregada, mas o olhar dominador desfazia imediata­
mente essa impressão. Era uma verdadeira Mesurat, e apesar
da pouca idade (não tinha ainda dezoito anos) seus traços
já revelavam a paixão pela autoridade que se podia notar no
retrato da avó. Na verdade, havia entre as duas mulheres
uma semelhança tão singular que o observador não podia
deixar de rir. Entretanto, os olhos da jovem eram límpidos,
e os lábios, cheios e bem traçados, traíam uma vitalidade
que em vão se procuraria no rosto pálido do retrato. As faces
arredondadas de Adrienne conservavam o frescor infantil e
davam um ar de inocência aos traços nos quais a firmeza de
espírito já aparecia com clareza. Era preciso observá-la por
algum tempo para notar que era bela.
Ergueu-se, foi até a janela, sacudiu o pano de pó; depois,
debruçou-se no parapeito, olhando rapidamente a rua toda.
Nesses dias quentes, ninguém saía de casa; quando muito,
de hora em hora passava uma pessoa procurando a sombra
avara dos muros. Observou por alguns momentos as árvores
de tília ressequidas do jardim e seus olhos voltaram-se quase
imediatamente para a Vila Louise, uma casa que ficava na
esquina. As janelas estavam fechadas. Era uma construção de
pedra molar com filetes de tijolo, de formas bastante preten­

23
siosas, com uma pequena torre que parecia uma guarita e
coberta por telhas multicoloridas. Outra casa, toda branca,
com teto de ardósia, ficava em frente, e a moça, debruçando-
se um pouco mais, viu que as janelas também estavam fecha­
das. Soaram passos na calçada. Com um movimento instinti­
vo, Adrienne retirou o lenço da cabeça e inclinou-se para a
frente; reconheceu a vizinha, que caminhava de cabeça
baixa com um cesto de compras no braço. Rapidamente,
Adrienne lançou o corpo para trás, como se não quisesse ser
vista, e ficou imóvel, apoiada no batente da janela, até que
os passos se perdessem na distância.
A voz tornou a chamá-la. Adrienne recolocou o lenço na
cabeça, amarrando as pontas na nuca, depois foi para a sala.
Olhou em volta, verificando se tudo estava em ordem. As
poltronas e cadeiras, dispostas em círculo no meio da sala,
emprestavam a essa peça da casa um ar solene. Entre os
quadros medíocres que cobriam as paredes, paisagens sotur­
nas, retratos cuidadosamente protegidos por vidro, podia-se
ver o papel de parede grená com flores violeta. Os móveis
de madeira escura imitavam o estilo Regência, obedecendo
ao gosto pelo conforto, característico do Segundo Império;
espaldares altos, pés fortes e a pelúcia espessa convidavam
ao repouso e inspiravam confiança.
Um canapé comprido fora colocado bem próximo à jane­
la, de modo que não teria sido possível ver a pessoa deitada
nele, mas esta estava com os joelhos dobrados e percebia-se
a mão pequena e magra apoiada sobre eles. Era a dona da
voz que chamara Adrienne há pouco.
— Você precisa mudar a água das flores — disse ela
assim que ouviu os passos de Adrienne.
— Sim, mais tarde. Desirée não está em casa?
— Foi fazer compras.
Adrienne caminhou até a lareira e examinou os grandes
candelabros de bronze, franzindo a testa.
— Diga-me, você por acaso sabe quando vão chegar os
novos inquilinos da Vila Louise? — perguntou depois de
algum tempo.

24
— Os novos inquilinos da Vila Louise? Em junho, ou
começo de julho, suponho. Não me escreveram informando.
Em todo o caso, acho bom que mandem podar as tílias e
consertar as janelas.
Após um breve silêncio, a voz continuou:
— Além disso, este ano não são inquilinos, mas uma in­
quilina, a Sra. Legras, que, ao que parece, vive sozinha.
Adrienne voltou-se para a janela:
— Sim, eu sei, papai já nos disse muitas vezes.
Apanhou um vaso de gerânios e dirigiu-se para a porta.
— Aonde vai? — perguntou a voz.
— Trocar a água das flores.
A porta abriu-se e fechou-se. Fez-se um silêncio profun­
do na sala, o silêncio que parece acompanhar o calor dos
dias de verão, tão naturalmente quanto a luz. Um raio de
sol desenhava um traço metálico nas tábuas do assoalho exa-
geradamente brilhante entre os dois tapetes de repes carme­
sim. As moscas voavam silenciosamente do lado de fora da
janela. Ouviu-se o ruído da água que enchia o vaso de flores.
A porta abriu-se de novo.
— Você não se lembra de quando chegaram, no ano pas­
sado? — perguntou Adrienne, entrando na sala.
— Quem, os inquilinos da frente, ainda?
— Naturalmente.
A resposta demorou um pouco.
— Fim de maio.
Adrienne segurava o vaso com o avental para secar as
gotas de água. Colocou-o sobre a mesa redonda de centro e
aproximou-se do canapé.
— Como se sente hoje? — perguntou, olhando pela janela.
— Ora, bem, Adrienne — respondeu a voz com um tom
de surpresa. — Como sempre.
— Ah! — disse Adrienne.
Seu rosto tomou um ar pensativo e preocupado ao mesmo
tempo. Pôs as mãos na cintura, lançando a cabeça para trás,
os olhos fitos na Vila Louise.
— Do outro lado da rua bate mais sol — disse breve­
mente. A

25
— Aqui, temos sol a manhã toda.
— Lá, você teria de manhã e de tarde.
Ficou calada por alguns segundos e depois explicou com
ligeira impaciência:
— . . . porque a casa está voltada para o oeste e para o sul.
Assim, neste momento, se a Sra. Legras estivesse lá, teria o
sol do lado da Rua Presidente Carnot.
Dissera essas palavras com um misto de tristeza e indigna­
ção a custo dominadas e, embora ninguém a pudesse ver,
fez um gesto com a mão, indicando a rua sobre a qual falava.
Passaram-se alguns segundos de silêncio.
— Sim, é verdade — disse enfim a voz. — Ela não está
aproveitando. .. Quer me ajudar a levantar, Adrienne? Se
puxar um pouco o canapé em sua direção.. .
Sem responder, Adrienne colocou uma das mãos sob o en­
costo do canapé, puxando-o para si com facilidade, pois era
vigorosa. Então, a pessoa que estava deitada ergueu-se e deu
alguns passos pela sala, apoiando-se nos móveis. Era uma
mulher de idade indeterminada, precocemente envelhecida
pela doença, a quem hesitaríamos dar trinta e cinco anos. O
corpo grande, curvado como o de uma velha, parecia despro­
vido de forças, e ela caminhava com a mão direita estendida
fazendo lembrar um cego. O medo de cair acentuava a expres­
são naturalmente tímida do rosto, e as sobrancelhas, constan­
temente crispadas pela inquietação e pelo sofrimento, haviam
deixado linhas paralelas na testa. O nariz forte dava uma falsa
impressão de firmeza aos traços, e as faces lívidas eram mar­
cadas por pequenas rugas.
Adrienne recuou um pouco para lhe dar passagem, mas
ela sentou-se numa poltrona, suspirando e olhando à sua
volta com os lábios entreabertos. A jovem, com as mãos na
cintura, observou-a por alguns momentos em silêncio, com
aquele olhar que parecia jamais se aquecer.
— Então — perguntou secamente, afinal —, está cansada,
Germaine?
— Não, é claro que não. Acha que estou com má apa­
rência?

26
Um medo súbito pareceu aumentar o tamanho dos seus
olhos.
— Responda — disse, vendo que Adrienne não abria a
boca.
Adrienne ergueu os ombros.
— Eu não disse que você estava com má aparência —
respondeu num só jato.
— Dormi cinco horas — continuou Germaine com a an­
siedade de uma pessoa que defende uma causa. — Sinto-me
bem, como ontem e como sempre.
Adrienne, porém, olhava pela janela e não a ouvia.

27
II

A residência dos Mesurats chamava-se Vila das Bétulas,


por causa de duas árvores dessa espécie que cresciam no
jardim estreito entre a casa e a rua. O Sr. Mesurat comprou-
a quando, tendo se aposentado, decidiu morar no campo.
Gostava dela como se ele próprio a tivesse projetado, mas,
na opinião dos vizinhos, a vila tomava o lugar de uma bela
casa e parecia miserável numa rua importante como a Rua
Thiers. Para dizer a verdade, era mal construída. Sem dúvida
haviam pedido ao arquiteto que fizesse o maior número pos­
sível de peças, o que resultara em um grave defeito: não havia
espaço entre as janelas da fachada, que quase se tocavam;
quatro no segundo andar, seis no primeiro e quatro no tér­
reo, estas últimas, duas de cada lado da porta. Contudo, seria
assim tão mau não haver quase nenhuma parede à mostra?
Afinal, era tão feia! O material usado era uma pedra toda
eriçada com saliências, cuja cor fazia lembrar a do nugá mar­
rom claro. Já não vimos tantas vezes esse tipo de casa nos
subúrbios de Paris? Com uma escadaria pretensiosa e a mar­
quise em forma de concha, parecia representar o ideal de
toda uma classe da sociedade francesa, tanto que se repro­
duzira o modelo.
Seja como for, o Sr. Mesurat não era cego às imperfeições
da sua vila e julgava-a com a severidade que se aplica às
vezes aos entes queridos. Talvez para não expô-la ao julga­
mento dos outros. Quando se referia a ela nas conversas
com os vizinhos, era como se falasse de uma parenta pobre
mas honrada. Queria que todos a admirassem como ele a
admirava e às vezes, no fim da tarde, depois de ler o jornal,
quando nada mais tinha a fazer até a hora do jantar, sentia

28
pena de não ter amigos aos quais pudesse convidar à sua
casa por alguns momentos, apenas para os fazer apreciar as
vantagens de sua vila, as salas amplas, a esplêndida vista para
o jardim da Vila Louise. .. Quem poderia acreditar, vendo-a
por fora, que fosse tão bem dividida, tão perfeita? Se a conhe­
cessem, teriam coragem de dizer que um Mesurat havia se
enganado?
Embora jovial e tirânico dentro de casa, o Sr. Mesurat de­
monstrava uma timidez infantil assim que saía da Vila das
Bétulas, e o chefe da estação de La Tour-l’Evêque era agora
a única pessoa com quem se dava, por obra de diversas cir­
cunstâncias, entre elas o fato de comprar o jornal duas vezes
por dia na pequena livraria da estação. É verdade que muitas
pessoas já haviam visitado a Vila das Bétulas, mas há algum
tempo, e por motivos que veremos a seguir, essas visitas
cessaram.
A vaidade de proprietário demonstrada por Antoine Mesu­
rat parecia ridícula às filhas, que tinham muito que se quei­
xar da Vila das Bétulas. Mas, graças a um estado de espírito
mais ou menos comum às pessoas de~certa idade, preferia ig­
norar tudo o que pudesse feri-lo ou que õ fizésSe mudar de
conduta.
O velho era a própria imagem da serenidade. Atarracado
e forte, o peito largo, no qual BâTia com os punKòs, como
para que admirassem süã estrutura sólida, mostrava á! ex­
pressão tranqüila e voluntariosa dos que não permitem que a
vida os perturbe e que conservam o bom humor còmo um
avarento guarda seu tesouro. Nenhum sinal de emoção bri­
lhava jamais nos seus olhos, e eram estranhas aquelas pupilas
vazias de um azul tão vivo que pareciam iluminar as faces
vermelhas, as têmporas e a testa. A barba, amarelada e bran­
ca nas pontas, cobria-lhe o queixo, descendo quase até a gra­
vata. Quando era observado, franzia o nariz carnudo e piscava
os olhos de um modo engraçado, mas era apenas um tique
nervoso, sem qualquer intenção de ironia naquela careta.
Geralmente falava muito e sorria com descontração.
Sem dúvida era feliz: levava vida simples, feita de há­
bitos que^cumulara como quem escolhe flores ou pedras ra­

29
ras durante um passeio, e aos quais amava de todo o coração.
A caminhada cotidiana pela cidade, a chegada dos jornais da
tarde, as horas das refeições, eram momentos agradáveis para
esse homem que parecia fadado a nunca deixar este mundo,
tamanha a alegria e o vigor com que a ele se apegava.
Ex-professor de caligrafia em um colégio de Paris, tinha
sessenta anos em 1908, o ano em que esta história começa.
Há quinze anos perdera a mulher, uma Lécuyer insignificante,
de quem pouco falava e cuja falta não sentia. Mais tarde,
Antoine ganhou uma soma considerável na loteria, o que
permitiu que se aposentasse antes do tempo regulamentar,
podendo viver à vontade, especialmente porque seus gostos
eram simples. Na Vila das Bétulas tudo era perfeito. Dispu­
nham de três quartos, e acontecia que a família se compunha
exatamente de três pessoas: ele, Germaine e Adrienne, suas
filhas. Perfeito, como dizia Antoine, passando o polegar pela
barba, a boca entreaberta.
Nessa noite, Germaine não apareceu para jantar. O Sr.
Mesurat franziu a testa: não gostava de quebra na rotina.
— Ela não vem jantar? — perguntou ao sentar-se à mesa.
Adrienne, que ainda estava de pé, baixou o lustre enorme,
de cúpula verde-opaca, até quase tocar o arranjo de flores
no centro da mesa. O lustre subia e descia por meio de um
peso preso a correntes.
— Germaine não vem jantar? — perguntou de novo o
Sr. Mesurat.
Adrienne murmurou uma resposta que se perdeu entre o
ruído das ferragens. Sentou-se afinal e desdobrou o guar­
danapo.
— E então? — fez o velho com impaciência. — Não
ouviu a minha pergunta?
A jovem fitou-o nos olhos.
— Já respondi — disse secamente. — Germaine não está
bem.
— Então, ela não vem jantar?
— Claro que não.

30
Ele balançou a cabeça e depois colocou um pedaço de pão
na sopa, sem perguntar mais nada. Adrienne comia em si­
lêncio.
Ao terminar, Antoine limpou a boca com o guardanapo
e alisou a barba.
— Dei uma caminhada pela cidade hoje à tarde — disse,
estendendo a mão para a garrafa de vinho. — Estão cons­
truindo bastante por lá, atrás do presbitério.
— Ah!
Sim, a casa, aquela grande, você sabe. . .
Ela fez um sinal de assentimento com a cabeça.
*— Já estão no terceiro andar. Antes de julho devem colo-
car a cobertura.
Encheu o copo e pôs-se a tamborilar sobre a toalha, mo­
vendo os dedos como um pianista.
— Sabe quando vão chegar os inquilinos da frente? —
perguntou Adrienne após um momento.
— Não. Por que quer saber?
Parou de tamborilar e olhou para a filha.
— Por nada.
Mesurat inclinou a cabeça para o lado, entrecerrando os
olhos.
— Os do ano passado. . .
— Ah! — exclamou Adrienne, quase sem sentir.
— Creio que foi em junho. Quer conhecer a Sra. Legras?
— Eu? Não especialmente. Estamos mais tranqüilos sem
ela — respondeu a moça rapidamente.
Empurrou o prato e cruzou os braços sobre a mesa.
— Terminou? — perguntou o pai.
— Sim.
Ele tocou a campainha e recomeçou a tamborilar, o ar
satisfeito. Durante o resto do jantar, contou à filha as mu­
danças ocorridas em La Tour-l’Evêque desde a sua chegada,
mas ela não o ouvia. Vez ou outra passava a mão pelos ca­
belos, como para verificar se estavam em ordem, e, embora
acenasse com a cabeça para o pai, seus olhos tinham um ar
ausente, demonstrando que seu pensamento seguia curso bem
diverso das longas descrições do Sr. Mesurat. A luz do lustre

31
caía sobre ela e emprestava-lhe uma brancura que acentuava
a impassibilidade do rosto. Uma sombra marcava a linha reta
das sobrancelhas e o contorno um pouco rígido do lábio infe­
rior, como se um desenhista tivesse reforçado os traços para
pôr em relevo o seu vigor.
Assim que terminaram de jantar, deixou o pai no salão e
saiu. O ar estava agradável. Com uma echarpe sobre os ca­
belos, Adrienne caminhou pela Rua Thiers, passou pela Vila
Louise e parou na Rua Presidente Carnot, que seguia em li­
nha reta até a estrada nacional. Por um momento aguçou os
ouvidos, escutando vozes que vinham de um jardim próximo,
mas começava a escurecer e ela não temia ser vista. Apoiou-se
na parede e ergueu os olhos. A sua frente, apenas a alguns
metros, podia ver na esquina um grande pavilhão quadrado,
cujo teto se perdia na escuridão, mas cujas paredes caiadas de
branco pareciam projetar um clarão luminoso. Duas manchas
negras, uma ao lado da outra, indicavam as janelas com as
venezianas fechadas.
Passaram-se alguns minutos. Alguém vinha da estrada na­
cional, descendo a rua com passos lentos de quem passeia.
Adrienne deixou seu posto contrariada e, contornando a Vila
Louise, voltou pela Rua Thiers até a outra rua transversal,
não se decidindo a voltar para casa. Então parou, à espera.
Sobre sua cabeça, os cachos de glicínias espalhavam o odor
pesado das flores fatigadas pelo calor da tarde. Olhou pensa­
tiva por alguns momentos as duas janelas iluminadas da Vila
das Bétulas: no térreo o salão e no segundo andar o quarto
de sua irmã; enquanto escutava os passos que desciam lenta­
mente a Rua Presidente Carnot, para amenizar a longa es­
pera, imaginou Antoine Mesurat na sua poltrona, as pernas es­
tendidas, cochilando com o jornal nas mãos; depois, Ger-
maine, sentada na cama com uma pilha de travesseiros, o
rosto avermelhado pela febre de todas as noites, os olhos nas
páginas de um livro à sua frente, mas desatentos e alheados.
Os passos tornaram-se mais sonoros, atravessaram a Rua
Thiers e continuaram, descendo a Rua Presidente Carnot.
Adrienne estremeceu de prazer e, correndo nas pontas dos
pés, retornou pelo caminho que tinha feito. Perto da grade

32
da Vila Louise parou ofegante, segurando uma das barras de
ferro. Algo semelhante à felicidade despontava-lhe no rosto.
A emoção iluminava-lhe os olhos e seus lábios entreabertos
deixavam escapar um sopro cujo som ela podia ouvir. Quan­
do os passos se distanciaram, continuou o seu caminho, vol­
tando ao lugar que acabara de deixar.
De novo apoiou-se na grade da Vila Louise. Agora podia
distinguir a silhueta do pavilhão à sua frente, até mesmo os
enfeites de pedra escura sobre o branco das paredes. De vez
em quando, um raio de luz atravessava as nuvens que pas­
savam no céu e refletia-se na ardósia do telhado; a moça se­
guia com os olhos esse reflexo fugitivo. De súbito, a lua apa­
receu: todo o lado da rua pareceu animar-se, vestido com esse
brilho mortiço. Foi tão rápido que Adrienne fez um movi­
mento de surpresa. Avançou até a metade da rua. O teto de
ardósia brilhava como um lago, iluminado agora por uma
claridade violenta. A copa de uma árvore estremeceu, negra,
entre as altas chaminés de tijolo. Longe, no interior de um
parque, dois cães uivaram ao mesmo tempo.
Ela escutava e olhava como se esperasse por alguma coisa.
Afinal, quando a rua escureceu de novo, respirou com força
o ar puro várias vezes, e, lançando um último olhar para
a casa que parecia se recolher para a noite, baixou a ca­
beça e voltou para a Vila das Bétulas.
Ao passar pelo salão para apanhar um livro, o barulho dos
seus passos acordou o pai, que dormia na poltrona. Erguendo
um braço para o teto, bocejou.
— Você saiu? — perguntou.
Adrienne fitou-o nos olhos:
— Não. Você dormiu.
— É verdade. Que horas serão?
— Não sei.
Apanhou o livro e saiu da sala.
Ao chegar à porta do quarto, parou um pouco no corre­
dor, contra seus hábitos, prestando atenção aos ruídos da
casa. Embaixo, o velho Mesurat verificava se a porta e as
janelas estavam bem fechadas. Seus passos pesados iam de
sala em sala, fazendo ranger as tábuas do assoalho. Tossiu.

33
Logo Adrienne ouviu o sopro violento com que o pai apagava
os dois lampiões do salão, e em seguida ele começou a
cantarolar uma ária de ópera. Ela percebeu que o pai ia subir
e entrou no seu quarto, fechando suavemente a porta. Ficou
algum tempo parada no escuro. Nesse instante, o Sr. Mesurat
começou a subir a escada. Sua mão apoiava-se com força no
corrimão de madeira, fazendo-o tremer com o ruído que
Adrienne conhecia tão bem. Ao passar pela porta do quarto
da filha, bateu levemente, dizendo:
— Boa-noite!
Ela sobressaltou-se mas não respondeu. Essa voz, que es­
perava, pareceu-lhe desagradável e chocante. Ela fez apenas
“ah”, um suspiro de impaciência, e acendeu o lampião. Os
passos se afastaram, seguindo para o último andar onde fi­
cava o quarto do Sr. Mesurat.

34
III

Agora a casa toda estava silenciosa. Ruído algum vinha


da rua. Adrienne não gostava dessa hora. Queria ouvir uma
porta se fechando, alguém dizendo uma palavra, e esperava
sempre que o pai voltasse ao salão para apanhar o jornal ou
o cachimbo esquecido. Procurava ouvir, como coisa agora
desejável, a tosse lúgubre da irmã, aquele som que detestava
ouvir durante o dia; mas sabia que à noite Germaine escon­
dia a cabeça no travesseiro para que não a ouvissem tossir.
Despiu-se lentamente, atenta para não fazer barulho, do­
minada pela pressão tirânica do silêncio, e deitou-se sem
apagar o lampião que colocara na mesa-de-cabeceira, pois
sabia que o sono ia demorar algumas horas e não desejava
ficar acordada no escuro sem poder dormir. O ar estava pe­
sado e o lampião aumentava o calor; abaixou um pouco a
mecha. Por alguns minutos folheou o livro de capa amarela
que tinha apanhado no salão, mas ao ver as centenas de pá­
ginas foi tomada de tédio. Colocou-o sob o travesseiro, e com
um gesto característico dobrou o braço sob a cabeça e ficou
imóvel.
No silêncio, tinha a impressão de ouvir um ruído leve e
contínuo, como o som de um inseto minúsculo, mas esse som
vinha do interior dos seus ouvidos. Seu olhar passeava pelo
quarto, esforçando-se para ver nos objetos familiares algo
de novo que lhe houvesse escapado. Odiava esse quarto, es­
pecialmente à noite, nas horas vazias que precediam o sono.
O papel de parede florido, que o pai escolhera e do qual
tanto se orgulhava, o armário, comprado numa grande loja
e que lhe tinham dado quando completara dezesseis anos, a

35
cama de metal, todas essas coisas traziam recordações de anos
insuportáveis, de noites inquietas como esta!
Sempre se recordava da infância e dos primeiros anos da
juventude com uma espécie de lassidão, pois pareciam-lhe ex­
tremamente áridos. Quando fora feliz? Onde estavam os mo­
mentos de alegria dos quais a infância supostamente está
cheia? Onde as férias? Criada por um pai que vivia apenas
para satisfazer as próprias vontades, e pela irmã que pensava
apenas na sua doença, muito cedo tornou-se insensível. Ante
a testa franzida de Germaine, aprendera a não rir com fre­
qüência e a falar pouco, e cresceu com a preocupação de
não desagradar o velho Mesurat, que não tolerava lágrimas
ou mau humor. Nessa escola sua vontade tomou forma ra­
pidamente, e tudo o que existia nela de sério e altivo, em
uma palavra, de Mesurat, sobrepujou todo o resto, a herança
dos Lécuyers. Uma severidade precoce adelgaçava-lhe os lá­
bios, baixava-lhe a linha das sobrancelhas, dava-lhe um ar
tenso e fechado, característico da sua família.
Aos dezesseis anos adquirira a forma moral e física que
teria para o resto da vida. Sem amigos, sem desejo aparente
de se ligar a alguém, freqüentara o curso de Santa Cecília por
vontade da irmã, onde respondia às perguntas das mestras e
voltava depois para casa, para passear sozinha no jardim ou
se trancar no quarto. Nada a dominava; não sentia medo de
coisa alguma e não gostava especialmente de nada. Sua ex­
pressão demonstrava apenas tédio e uma espécie de resigna­
ção revoltada.
Os anos passavam assim, em profunda monotonia. Na Vila
das Bétulas, as horas seguiam o ritmo que lhes imprimiam
Germaine e Mesurat, e a vida era apenas uma série de hábi­
tos, de gestos feitos em momentos determinados. Qualquer
alteração pareceria anárquica. A distração era impossível e,
como obedecendo a uma ordem tácita, Adrienne passou a di­
vidir o seu tempo de modo rígido, preciso, tão rigoroso quan­
to se vivesse num convento. Sentia também a necessidade de
realizar suas tarefas nas horâs certas; por uma estranha con­
tradição, porém, isso lhe desagradava, e era como uma reli­

36
giosa que tivesse perdido a fé» embora conservando ainda um
apego cheio de irritação às regras, só porque as havia esco­
lhido.
Adrienne chegou aos dezoito anos sem que nada de bom
ou de mau lhe acontecesse, sem que nada modificasse sua
vida. Muitas vezes, quando tinham visitas, o pai a chamava;
conservava-a ao seu lado por alguns momentos, observando-a
com um olhar feliz, pois orgulhava-se dela e a achava bonita.
Afinal, quando julgava que o visitante estava suficientemente
impressionado com a beleza da jovem, mandava que Adrienne
se retirasse, como se fosse uma criança. É sabido que, para
os velhos, o mundo e a humanidade cessam de se desenvolver
e de se alterar. Tudo pára e se fixa numa determinada época
de suas vidas e Adrienne, que tinha quinze anos quando o
pai completou cinqüenta e sete, jamais ultrapassara essa ida­
de no espírito do Sr. Mesurat.
Por mais estranho que pareça, nunca mencionavam a pos­
sibilidade de Adrienne vir a se casar, mas, além de Germaine
não cogitar disso e do Sr. Mesurat não querer nem ouvir falar
no assunto, a própria Adrienne não demonstrava o menor
interesse. A vida corria muito bem sem o casamento. Para
que complicá-la?
Adrienne tinha pretendentes, pois os Mesurats não eram
pobres, mas esses homens, suburbanos típicos, filhos de no-
tários e comerciantes, estavam fora de cogitação, e suas pre­
tensões eram tão estranhas quanto os desejos de um louco.
A idéia de passar a vida na companhia de um deles era tão
ridícula que a fazia rir. Quanto ao Sr. Mesurat, não se con­
formava com a idéia de ver partir a filha que há tanto tempo
se acostumara a ter ao seu lado, e ria-se também, como se as
propostas fossem a coisa mais absurda que já ouvira. Ger­
maine não dizia nada. Depois disso tudo e da atitude quase
hostil do Sr. Mesurat, as visitas tornaram-se mais raras, até
cessarem completamente.
Contudo, sob a aparência dessa vida monótona, Adrienne
guardava uma inquietação, a qual dificilmente se adivinharia.
Por isso aprendera a dissimular, e se o pai ou a irmã alguma
vez se interessassem em ler o seu rosto, não descobririam

37
nele o menor traço de emoção. À noite, na solidão do quarto,
durante o dia, nos passeios, entregava-se a pensamentos que
não confiaria a ninguém e que de certa forma a perturbavam.
Mas_quanta cautela para penetrar na timidez orgulhosa das
almas introspectivas que repelem o mundo exterior; com que
palavras poderia Adrienne descrever seus sentimentos? Pro­
vavelmente a própria palavra, sentimento parecia-lhe estranha
é suas lembranças eram imagens desprovidas de tristeza e de
alègria, embora fortes e poderosas a ponto de impedi-la de
pensar em outra coisa.
Vê-se aos quinze anos, mais ou menos. Caminha pela es­
trada que leva à cidade, com um vestido de percal azul, os
braços carregados com flores do campo. O ar está imóvel.
Uma cotovia risca o azul do céu soltando um grito estridente
que é a própria voz do calor e do sol. A sombra é apenas
uma faixa negra ao redor das árvores. Adrienne sente gotas
quentes que correm lentamente pelos seus braços e têmporas.
De súbito, vê uma carruagem que vem da cidade e avança
em sua direção. É uma carruagem de aluguel, maltratada,
com as molas rangendo e os bancos cheios de poeira. O
cocheiro veste um paletó de alpaca e um lenço sob o chapéu
de palha. E, sem saber por quê, aquela carruagem vindo em
sua direção desperta-lhe curiosidade. Pára e se afasta um
pouco da estrada para ver melhor. Logo pode distinguir o
passageiro, e reconhece o Dr. Maurecourt, que mora em La
Tour-l’Evêque há alguns meses. O Sr. Mesurat jamais o con­
vidara para ir à sua casa, embora fossem vizinhos e o velho
demonstrasse grande curiosidade a respeito do médico. Mas
a timidez de Antoine Mesurat o impedia de tomar a inicia­
tiva, e além disso estava informado de que o médico não
aceitava nenhum convite, pretextando sempre estar muito
ocupado. Ocupado! Com o quê? A cidade era pequena e a
clientela, em conseqüência, pouco numerosa; contudo, era
verdade que o médico fazia apenas visitas profissionais e ja­
mais era visto passeando no parque, ou parado nos portões
das vilas conversando com os vizinhos. Andava sempre de­
pressa e de cabeça baixa.

38
A carruagem passa perto de Adrienne. Talvez o seu ocu­
pante tenha sentido o olhar penetrante da jovem. Seja lá
como for, ergue os olhos do livro que está lendo e volta a
cabeça para o lado de Adrienne. É um homem pequeno, jo­
vem ainda, mas envelhecido pela aparência doentia. No rosto
pálido, Adrienne vê os olhos sombrios que a observam com
uma expressão de curiosidade. O médico hesita e depois, com
um gesto tímido, leva a mão ao chapéu. Tudo no espaço de
um segundo, enquanto a carruagem passa por ela.
A lembrança dessa cena fixara-se intensamente no espírito
de Adrienne, como um sonho que não se pode esquecer facil­
mente por sua estranheza, e era exatamente como de uir
sonho acordado que se recordava dela. Ao se afastar^da-es-
trada e parar na grama sabia que esse momento era impor­
tante e que pensaria muito nele dali em diante. Mas não .é
exatamente isso que acontece às pessoas que nada têm na
vida e cuja esperança vã se volta com ardor supersticioso
para o futuro imediato? Quantas vezes sentira essa mesma
Certeza! Quantos prisioneiros sentem um frêmito de inquieta­
ção e de esperança toda a vez que a chave gira na fechadura
da cela!
Depois disso, Adrienne adquirira o hábito de passear re­
gularmente pelo ponto em que vira Maurecourt, e não deixava
de levar nos braços flores do campo, como na primeira vez,
esperando, com um obscuro desejo da alma pesada de tédio,
que as mesmas circunstâncias provocassem o mesmo efeito.
E embora o médico não houvesse mais passado por ah,
Adrienne, com toda a obstinada energia herdada do pai, fez
aquele caminho durante uma semana.
Maurecourt, que quase ninguém via e que ninguém podia
gabar-se de conhecer, morava perto da Vila das Bétulas. Só
depois de algum tempo Adrienne veio a saber algo a seu
respeito; estava sempre alheada e quase nunca ouvia as no­
vidades que o pai contava todas as noites, mas, a partir do
dia em que viu o médico na carruagem, tornou-se mais curio­
sa e, sem fazer nenhuma pergunta, escutava. Assim, ficou
sabendo afinal, pois para o Sr. Mesurat as notícias conser­
vavam o frescor, mesmo depois de desgastadas por semanas

39
de comentários, que o Dr. Maurecourt tinha alugado o pavi­
lhão defronte à Vila Louise. A princípio não acreditou, pois
é sempre difícil acreditar nos acontecimentos muito desas­
trosos ou muito agradáveis, e só depois de observar bem o
pai teve certeza de que dizia a verdade. O velho cortava a
carne em pequenos pedaços, com o respeito dos que se ape­
gam ao alimento como última paixão, e não percebeu a per­
turbação que Adrienne procurava dissimular.
— Papai — disse ela com voz inexpressiva, após um mo­
mento. — Que oportunidade para Germaine!
Germaine já terminara de jantar e estava deitada na sala.
O Sr. Mesurat franziu a testa:
— O que há com Germaine? Ela não está doente.
— Não — disse Adrienne, corrigindo-se. — Mas se ela
ficar doente. ..
— Bem, sem dúvida — resmungou o Sr. Mesurat. — Um
médico perto de casa é cômodo para todos nós.
— Sim.
Adrienne, logo que pôde, refugiou-se no quarto para se
esconder, para ocultar os olhos brilhantes e o rosto que sentia
queimar de emoção. Inclinou-se para fora da janela olhando
o telhado do pavilhão e o canto de uma veneziana. Não co­
nhecia aquela casa? Jamais a notara? Era como se o pequeno
prédio, do qual via apenas uma parte, tivesse aparecido de
súbito na esquina da rua, como os castelos dos contos de
fadas, e ela agora saciava os olhos observando-o. Notou a
copa de uma pequena árvore, que estremecia entre as cha­
minés de tijolo rosado, e o desenho regular dos ornamentos
de pedra escura.
E de repente teve uma idéia. Saiu do quarto e parou por
um momento na escada, apoiada no corrimão. Um ruído de
vozes chegava até ela vindo da sala e reconheceu a voz de
Germaine perguntando alguma coisa ao pai. Subiu silenciosa­
mente ao quarto da irmã, entrou e foi até a janela que estava
aberta. E mais uma vez inclinou-se para fora avidamente.
Dali podia ver toda a rua; nada impedia a vista, como no
primeiro andar, e via-se todo o jardim da Vila Louise. Mas
não estava interessada no jardim. Examinou o pavilhão bran­

40
co. Como o via bem, desde o telhado até a pequena janela
da adega! As duas janelas estavam abertas. Podia distinguir
um tapete vermelho e um tampo de mesa, uma escrivaninha
talvez. Voltou-se com o coração disparado e sentou-se no
parapeito da janela. Percorreu com um olhar longo e cheio de
inveja, e de súbito com tristeza, esse quarto onde estava, mas
que não lhe pertencia.
A partir desse dia, sonhava apenas com o quarto de Ger-
maine. Pode-se dizer sem exagero que pensava nele o dia
todo, pois não há meio-termo para os espíritos marcados pela
solidão, que passam, sem transição, de uma existência vazia
a uma espécie de frenesi interior que os transforma. Assim,
o desejo de ter o quarto da irmã dominou a jovem, súbita
e completamente, e, por um desses absurdos do coração que
sai da monotonia para um novo interesse, ficou tão obcecada
que muitas vezes esquecia-se do motivo desse desejo, e pas­
sava um dia inteiro sem pensar em Maurecourt.
Tinha agora a cabeça cheia de planos confusos e diferen­
tes, dos quais não falava, pois à sua obsessão aliava-se a
prudência; contudo, um bom observador poderia perceber
que todas as suas palavras tinham um único objetivo. Engen­
drou um projeto complexo. Germaine precisava de um quarto
mais ensolarado, exatamente o que ocupava e do qual se via
tão bem o pavilhão branco. Por outro lado, a Vila Louise
recebia mais sol do que a Vila das Bétulas, pois dava para
duas ruas. Por que então Germaine não ia morar na Vila
Louise? Assim, o quarto ficaria vago e Adrienne se apossaria
dele. A enormidade desse plano poderia ser melhor explicada
se nos lembrarmos que Adrienne, como o pai e a irmã, não
tinha a mínima idéia de quem era a futura moradora da Vila
Louise, a Sra. Legras. Sabiam apenas que era casada, mas
que viria só. Consentiria ela nesse arranjo tão estranho? E
Adrienne passou a insinuar constantemente à irmã que seria
muito melhor para ela o lado esquerdo da Rua Thiers.
Depois, ante a resistência de Germaine, que não compreen­
dia, a idéia foi substituída por outra no espírito da jovem.
Por que não ia ela, Adrienne, morar com a Sra. Legras? Se
conseguisse um quarto que desse para a Rua Presidente Car-

41
not, defronte do pavilhão, a vista não seria incomparavel­
mente melhor que a do quarto de Germaine? Mas a idéia de
morar na casa de outra pessoa, que lhe parecia perfeitamente
natural em se tratando de Germaine, tomava aspecto diferente
quando aplicada a ela mesma. Era tímida, e a perspectiva de
conviver com alguém que não conhecia era o bastante para
fazê-la refletir. Concluiu que estava enganada. Então, surgiu
dentro dela um ódio súbito contra a futura locatária da vila,
essa vila que desafiava a sua cobiça e da qual não podia des­
viar os olhos. Todo o seu despeito voltou-se para a Sra. Le-
gras e, infantilmente, desejava que algo de mal lhe aconte­
cesse, que o mau tempo arruinasse as suas férias, por exemplo.
Certa manhã, quando olhava pela janela da sala de jantar,
viu um homem na calçada fronteira. Apesar do calor, vestia-se
de preto da cabeça aos pés, com uma espécie de sobrecasaca
deselegante. Ele caminhava depressa. Adrienne, por um mo­
mento, seguiu-o com o olhar abstrato. O homem atravessou
a Rua Presidente Carnot e continuou em linha reta ao lado
da parede do pavilhão. Depois, ela o viu parar e abrir uma
porta. Adrienne levou a mão à boca para abafar um grito:
era Maurecourt.
Seguiu-se uma semana penosa. Era como se o olhar que
esse homem lhe lançara da carruagem a tivesse enfeitiçado.
Precisava vê-lo de novo. Bastava-lhe que ele passasse outra
vez pela rua quando ela estivesse na janela. Depois disso,
ficaria tranqüila. Mas a que horas ele saía de casa? Muito
cedo, ou muito tarde, ou talvez na hora das refeições. Como
tinha sido possível não reconhecê-lo quando passou? Agora,
olhava pela janela vinte vezes por dia, mas não o viu mais.
De outra vez, saíra de casa às escondidas depois do jantar
e dera algumas voltas ao redor do pavilhão. Não se arriscava
a ser vista, pois os moradores de La Tour-l’Evêque quase
nunca saíam depois do pôr-do-sol, mas o que podia esperar?
Viu uma luz no primeiro andar e ficou passeando na frente
do pavilhão até que ela se apagasse. E, sem saber por que,
sentiu uma viva satisfação ao ver a luz se apagar, e voltou
para casa, extenuada, mas cheia de nova confiança.

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No dia seguinte, esperou a noite com impaciência e alegria,
dificilmente contidas ante o pai e a irmã, e voltou ao seu
posto na esquina, logo que conseguiu sair sem chamar aten­
ção. Ah, perto da pequena casa branca, vendo a janela ilu­
minada, sentia-se feliz. “Ele está lá”, pensava. “Eu sei.” E,
inexplicavelmente, essa certeza era como um penhor, uma
promessa que o próprio Maurecourt lhe tivesse feito.
Agora, o hábito do passeio noturno substituíra o de andar
pelo campo à espera de uma carruagem. De manhã à noite
a jovem só pensava no momento de se encostar na grade da
Vila Louise, e olhava o céu constantemente, temendo que
uma nuvem mudasse o tempo, roubando-lhe aquela hora que,
de um dia para o outro, tornara-se sua razão de viver.

43
IV

No verão, Adrienne ia duas vezes por semana ao jardim


para colher flores, sob o olhar atento do pai, que a observava
do terraço, e da irmã, deitada no canapé. Andava entre os
canteiros circundados de tijolos, parando aqui e ali para ar­
rancar as pequenas ervas que, quando comprimidas, deixa­
vam cair uma gota de líquido leitoso, e a tesoura de podar
rangia ameaçadora entre as flores queimadas de sol. Ter­
minada a inspeção, colhia cinco ou seis hastes de gerânios
vermelhos, a única flor que crescia naquela terra avara, e en­
trava para arrumá-las no vaso. O resto do tempo, sua tarefa
limitava-se a percorrer a casa, quando a empregada termi­
nava a limpeza com a vassoura e o espanador, para verificar
se tudo estava em ordem. Sempre cumprira esses deveres com
boa vontade, porque enchiam o tedioso intervalo entre as re­
feições, mas agora pareciam-lhe fastidiosos. Gostaria de não
fazer nada, de abandonar-se aos sonhos, ao prazer de seguir
languidamente qualquer pensamento que lhe viesse à cabeça.
Ãs vezes, sentava-se numa das grandes poltronas do salão,
de frente para a janela, as mãos cruzadas sobre os joelhos, e
ficava assim durante uma hora, como que absorvida em algo
que via no céu. Entregava-se toda a essa inatividade agradá­
vel e, com a ajuda do calor, passava a um quase torpor, onde
tudo se embaralhava na sua mente, numa confusão deliciosa.
Contudo, isso não fazia parte da sua natureza. Muito ao
contrário, era bastante ativa. Mas essa espécie de jogo, que
consistia em não conduzir os pensamentos, deixando que se
enrolassem e se desenrolassem livremente ao redor de uma
lembrança ou de um projeto, parecia-lhe útil, porque a im-

44
pedia de entregar-se à tristeza e permitia que esperasse o fim
do longo dia sem muito sofrimento.
O menor ruído na rua tirava-a do devaneio e fazia com
que fosse até a janela. Instintivamente, olhava para a esquer­
da, para o lado do pavilhão branco, cujas janelas se fechavam
às oito horas da manhã, abrindo-se somente às seis da tarde,
quando o ar ficava mais fresco. Adrienne conhecia bem esse
momento; esperava-o com uma inquietação que não sabia se
era prãzer ou sofrimento. Não ousava passar a essa hora pela
Rua Presidente Camot, com medo de ser vista, ou talvez de
encontrar a pessoa que morria de desejo de ver, mas, a partir
das cinco e meia, ficava inquieta, e às quinze para as seis
subia ao quarto de Germaine, onde a irmã só ia para dormir,
e debruçava-se na janela. Sentava-se no parapeito e, para
ver melhor, segurava a cortina com uma das mãos, enquanto
a outra se apoiava na calha, o corpo inclinado para fora.
Ficava assim por longo tempo, endireitando o corpo uma
vez ou outra, para descansar ou para que Germaine, que pas­
seava no jardim, não a visse. No silêncio desses fins de tarde
ouvia qualquer som, por menor que fosse. Ouvia o pai sen­
tado no terraço, na cadeira de vime que rangia, virando as
folhas espessas de Le Temps, os pedregulhos rangendo sob os
passos regulares da irmã no jardim. Esses sons a irritavam;
lembravam o tédio da vida cotidiana e pareciam vozes mali­
ciosas dizendo-lhe que não escaparia jamais desse círculo
encantado no qual a prendiam Germaine e o Sr. Mesurat. De
boa vontade teria tampado os ouvidos, mas estava à espera
de outro som, mais fraco porque mais distante, vindo do fim
da rua. Algumas vezes, a idéia de que tudo o que podia fazer
era olhar e ouvir dava-lhe vontade de gritar. Os últimos se­
gundos de espera traziam sempre um mal-estar intenso. Era
como se o céu escurecesse e as telhas do pavilhão se desta­
cassem brancas sobre o fundo completamente negro. Pergun­
tava a si mesma se devia continuar ali, se não era melhor sair
da janela e sentar-se, no exato momento pelo qual tinha es­
perado, mas, quando era maior a sua fraqueza, o relógio da
sala de jantar batia as seis horas. Passavam-se alguns segun­
dos. E então ouvia as janelas se abrindo e batendo contra

45
a parede, uma depois da outra. Via uma mulher de idade,
a empregada sem dúvida, debruçar-se em uma das janelas
do segundo andar e examinar a rua de um lado e do outro.
Quando a mulher se retirava, Adrienne, que estava com a
cabeça para dentro a fim de não ser vista, retomava a sua
posição, segurando a calha. Era nesse momento que via o
tapete carmesim e a superfície polida da mesa cheia de pa­
péis. O sangue lhe subia ao rosto e pulsava-lhe nos ouvidos.
Apoiava todo o peso do corpo em uma das mãos. Tinha a es­
tranha impressão de estar pronta para se lançar no espaço e
voar até aquela sala que lhe parecia tão próxima. Endirei-
tava-se, por fim, com o pulso dolorido e deixava-se cair atur­
dida na poltrona do quarto de Germaine.
Certo dia, quando fechava a porta e preparava-se para des­
cer a escada, cruzou com a irmã que subia. Germaine olhou-a
desconfiada e curiosa.
— O que estava fazendo lá em cima?
Adrienne corou.
— Nada — respondeu.
E perguntou estupidamente:
— E você, por que está subindo?
— Eu? — disse Germaine com voz doce, como quem
sabe exatamente o que responder. — Vou ao meu quarto
descansar.
Subiu dois degraus e parou ao lado de Adrienne. A jovem
sentiu sua respiração no rosto e recuou um pouco. Entreo-
lharam-se por um momento em silêncio, depois Adrienne er­
gueu bruscamente os ombros e, passando pela frente da
irmã, desceu as escadas com passos rápidos.
Entrou no seu quarto, fechando a porta com violência.
Bateu com o pé no chão, tomada de uma cólera súbita, e ati­
rou-se na cama, escondendo o rosto escaldante sob o traves­
seiro. Sentia ódio. Ódio de ter sido surpreendida por Ger­
maine, essa moça envelhecida, cuja doença a predispunha à
crueldade! Apoiou-se num cotovelo e começou a bater com
o punho fechado no travesseiro, repetindo em voz baixa, fu­
riosamente: — Idiota! Idiota!

46
Pela primeira vez perguntou a si mesma o que pensariam
dela o pai e a irmã se pudessem ver seu coração. Ergueu os
ombros. — Como se isso importasse! — murmurou após
refletir por um momento. Sentia-se superior a eles, como se
pudesse compreender, no espaço de um segundo, tudo o que
havia de fútil e de vão em suas existências, e tudo o que havia
de novo e de importante na dela.
Nessa noite, como acontecia com freqüência, jantou a sós
com o Sr. Mesurat, pois Germaine não se sentia bem para
descer. Adrienne ficou satisfeita com isso. Não queria ver a
irmã logo depois de ter corado na frente dela. Temia que,
por malícia, a solteirona lhe perguntasse, durante o jantar, o
que fazia de tarde no segundo andar, em um quarto que não
era o seu. E imaginava o espanto do pai, as perguntas que
ele faria. — Às seis horas lá em cima! Mas a essa hora
você estava lendo no seu quarto! O que foi que deu em você?
— Como se uma religião determinasse que ela deveria estar
em determinados lugares nas diferentes horas do dia. A idéia
a enchia de furor e impaciência.
Sem dúvida, o problema só surgiria de novo no dia se­
guinte. E antes que o amanhã chegasse, haveria ainda aquela
hora deliciosa. Assim que o pai se instalou na poltrona,
Adrienne saiu. Tremia de prazer. Enfiou as unhas no xale
que lhe cobria os ombros e correu ligeira até a esquina da
Rua Presidente Carnot.
Havia claridade bastante para distinguir todos os detalhes
do pavilhão. A cada dia que passava, essa casa assumia
um significado mais nítido no seu espírito. A princípio, con­
siderava-a como o objeto de uma curiosidade inquieta; ago­
ra, corria para ela como se procurasse refúgio. Estaria fican­
do louca? Por que se alegrava tanto com a contemplação
dessa casa banal? Se pelo menos a pessoa que morava nela
pudesse vir em seu auxílio, mas ele nem a conhecia. Além
disso, o que significava “vir em auxílio”? Em auxílio contra
o quê?
Segurou a cabeça com as mãos, aturdida com os pensa­
mentos que se agitavam dentro dela, e recriminou-se por es­
tragar seu prazer com reflexões estúpidas, ali, exatamente

47
onde desejava estar desde o momento em que acordava de
manhã. Por que não estava feliz? O que havia com ela? Seus
olhos encheram-se de lágrimas. Subitamente sentiu-se domi­
nada e atraída por alguma coisa que não conhecia. Atravessou
a rua correndo e colou os lábios na parede do pavilhão.
Quase imediatamente controlou-se, olhando em volta. A
rua estava deserta. Abafou uma risada e murmurou: — Mes­
mo que me tivessem visto, não teriam compreendido. —
Suas faces escaldavam. Voltou pela Rua Presidente Carnot o
mais depressa que pôde, como se fugisse de alguém. Logo
chegou à estrada nacional e parou, arquejante. O ar estava
suave e inerte. Lá em cima, porém, as copas das árvores
moviam-se lentamente com uma brisa que não se podia sen­
tir. Do outro lado da estrada, os campos negros estendiam-se
a perder de vista, sob o escuro constelado de pequenos pontos
tremeluzentes. Percebeu que chorava, mas na solidão imensa
da noite suas lágrimas lhe pareceram pueris. Deu alguns pas­
sos. As pedras ecoavam ao contacto dos saltos dos sapatos;
ouvia esse ruído com a atenção febril de uma criança que so­
fre e que procura distração para a dor. Se continuasse a andar
chegaria a Longpré, na costa, e depois a Coures... Milhares
de pessoas de todos os tipos tinham feito esse caminho. Por
que não ela? Por que não ir aonde bem entendia? Correu um
pouco, mas o vestido longo a incomodava e parou, o
coração aos saltos.
Sentou-se sobre um marco da estrada e começou a canta­
rolar. Depois de alguns momentos, era como se estivesse
fora do próprio corpo e aos poucos se libertasse de alguma
coisa. Era como se, de súbito, milhares de lembranças desa­
parecessem de sua memória e ela se transformasse em outra
pessoa.
Estava ali sentada já há alguns minutos, na beira da es­
trada, num país de sonho, quando uma rajada de vento que
soprava ao nível do chão a fez estremecer. Ergueu-se e cami­
nhou pela estrada, primeiro numa direção, depois na outra,
as mãos atrás das costas, os olhos baixos, e começou a canta­
rolar baixinho, mas percebeu que era a marcha que o Sr. Me­
surat costumava assobiar e calou-se.

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Caminhava agora na direção da Rua Carnot, com as so­
brancelhas franzidas e o passo um pouco mais rápido. Ao
deixar a estrada nacional, sentiu frio subitamente e segurou
com as mãos os braços nus; sua pele estava gelada. Então,
como se esse contacto tivesse acordado uma idéia imperiosa,
parou bruscamente e estendendo os braços, observou-os à luz
incerta que vinha do céu. Eram brancos e roliços e um odor
indefinível de fruta exalava-se da carne jovem; a linha sinuosa
ia da espádua ao punho, num oval alongado. Ela os observou
por alguns instantes, com um olhar onde o prazer se mesclava
à tristeza, e deixou-os cair ao longo do corpo com desespero.
Ninguém jamais lhe dissera que era bela, mas Adrienne sabia.
E revia agora uma noite, na semana passada, quando estava
sozinha no quarto, atormentada por uma crise de melancolia,
das que a acometiam muitas vezes sem motivo aparente. Es­
tava sentada na frente da penteadeira e, com os braços sobre
o mármore, olhava-se ao espelho à luz do lampião. O cabelo
negro emoldurava o rosto e tocava os ombros, emprestando
à sua imagem algo de majestoso e triste. No entanto, os olhos
brilhavam e o sangue circulava rápido sob a pele. Olhava lon­
gamente, admirando os traços perfeitos que o espelho refle­
tia; as sobrancelhas retas e voluntariosas, as pupilas azuis e
os lábios cheios, mas severos. A seriedade da expressão a
surpreendeu; tentou sorrir, mas essa alegria forçada fez com
que fechasse os olhos, como se tivesse visto algo terrível.
Abriu-os depois de alguns segundos, sacudiu a cabeça para
a figura amargurada do espelho, e, curvada de súbito ao peso
de um desespero mudo, deixou cair a cabeça sobre o már­
more, os cabelos espalhando-se sobre escovas, frascos e pe­
quenas caixas.
A lembrança dessa cena tirou-a subitamente da sua quase
embriaguez. De que adiantava ser bonita? Isso por acaso a
impedia de sofrer? E que felicidade lhe traziam os cabelos
abundantes e a pele clara? Teve a sensação de parecer ridí­
cula nos momentos de maior sofrimento. Desejou então voltar
depressa para casa, deitar-se e dormir.
Desceu a rua correndo e não parou na frente do pavilhão
branco. Mas, notando que a luz do segundo andar estava apa­

49
gada, sentiu de novo a satisfação inquieta de todas as noites,
a satisfação cuja espera constituía agora toda a sua vida.
Um momento depois estava de volta à vila. Sem dúvida de­
morara-se mais que de costume, pois o pai já estava deitado, e
entrou em casa tateando no escuro. Subia a escada na ponta
dos pés para o seu quarto, quando, de súbito, uma porta se
abriu no segundo andar, com um ruído seco que cortou o
silêncio.
— É você, Adrienne? — perguntou a voz áspera de Ger­
maine.
A jovem parou na porta do quarto, o coração disparado de
surpresa e de cólera. Hesitou apenas um segundo.
— O que você quer? — disse afinal, em voz baixa.
— Agora você sai depois do jantar. Esteve fora uma hora
e meia.
— Não é da sua conta — respondeu Adrienne.
Abriu a porta e entrou rapidamente no quarto, mas ouviu
ainda a exclamação de Germaine:
— Sim, é! — com voz aguda e furiosa. Foi o bastante para
descontrolá-la. Fechou a porta com força e deu duas voltas
na chave, o mais ruidosamente possível. Depois, encostou o
ouvido na almofada da porta, mas tudo estava quieto. Ficou
alguns minutos no escuro escutando, a respiração ofe­
gante, até ouvir que a porta do quarto de Germaine se fe­
chava suavemente. Sobressaltou-se. Teve a impressão de que
esse cuidado revelava facetas do caráter de Germaine que
não conhecia e perguntou a si mesma há quanto tempo a
irmã doente a espionava.
— Tanto pior, tanto pior — disse em voz alta e cansada.
Deu dois ou três passos para a mesa onde estava o lampião,
mas, pensando melhor, começou a se despir no escuro; não
queria repetir a experiência da outra noite e chorar na frente
do espelho; queria deitar-se sob as cobertas e dormir o mais
depressa possível. Arrancou as roupas com mãos febris, soltou
o cabelo e deitou-se. Mas os pensamentos a impediam de dor­
mir. Sentia calor. O sangue pulsava rápido nas artérias do
pescoço e Adrienne virava de um lado para o outro, sem
encontrar uma posição confortável. A colcha parecia pesar

50
sobre ela e jogou-a para os pés da cama; depois, fez o mesmo
com o lençol cujo contacto a irritava.
Ficou imóvel, na esperança de que se não fizesse nenhum
movimento o sono viria, mas cada vez que fechava os olhos,
pontos e traços brilhantes a obrigavam a abri-los. Um mal-
estar nas pernas e nos braços obrigou-a a virar-se de lado.
Afinal, levantou-se, sentando-se nos pés da cama. Uma mul­
tidão de lembranças vinha-lhe ao espírito e parecia fazer pou­
co dela; lembrou-se que tinha cantarolado quando andava na
estrada. Via-se colando os lábios ao muro do pavilhão branco
e sentiu-se enrubescer recordando-se do que fizera num ins­
tante de arrebatamento.
Depois de quinze minutos, deitou-se novamente, os braços
ao longo do corpo, s\ cabeça pesada, e, como sempre acon­
tecia nos momento* de maior sofrimento, vieram as memó­
rias da infância. Repetia em voz baixa nomes de amigos es­
quecidos e pensava no curso Santa Cecília, na professora de
francês que a repreendia constantemente. Era uma velha sol­
teirona que usava lornhão e invariavelmente uma blusa
branca engomada, sob o guarda-pó de sarja azul que bri­
lhava ao sol de tão usado e puído. Devia ter passado momen­
tos difíceis na vida para ser tão má. Adrienne a revia agora,
o livro na mão, corrigindo os erros dos alunos com um sor­
riso cruel, e podia ouvir a voz aguda e triunfante exclamando:
— Três erros! Vai estudar mais vinte linhas!
De repente, teve a sensação de estar caindo; queria se mo­
ver mas suas mãos estavam cruzadas atrás da cabeça e não
conseguia retirá-las. Sentia que estava se debatendo, e logo em
seguida dormiu.
Após algumas horas, acordou tão subitamente quanto tinha
dormido. Olhou em volta, mas a escuridão era completa e
não conseguia nem ver o travesseiro branco. Lembrou-se en­
tão de uma poesia aprendida há muito tempo e as palavras
lhe vieram aos lábios. Murmurou:

Foi durante o horror de uma noite profunda.


Jamais pensara no sentido dessas palavras e agora que a
lembrança as trazia do passado pareciam-lhe revestidas de

51
uma beleza poderosa e terrível. E Adrienne sentiu medo. Há
realmente, nas primeiras horas de obscuridade, algo de calmo
e seguro, mas à medida que a noite avança e que todos os
ruídos da terra se calam, a sombra e o silêncio adquirem um
aspecto diferente. Pesa sobre tudo uma imobilidade sobrena­
tural, e nada descreve tão bem os momentos que antecedem
a aurora como a palavra horror.
Adrienne cobriu as pernas com o lençol e, virando-se para
o lado, tocou a parede com as mãos. Ouviu a própria respi­
ração e por um segundo pensou que alguém se debruçava so­
bre ela, mas esse temor supersticioso desapareceu assim que
acordou completamente. Sabia que tinha sido atormentada
por sonhos. Mas quais? Não conseguia se lembrar. Pergun­
tou a si mesma se teria gritado ou dito qualquer coisa em voz
alta, e se o som de sua voz a tinha acordado. A idéia de falar
assim no meio da noite pareceu-lhe horrível. Temia o silên­
cio, mas' temia mais ainda quebrá-lo e procurou controlar o
ruído da respiração, aspirando pela boca.
Acalmou-se outra vez com um novo pensamento: logo che­
garia a Sra. Legras. Talvez pudesse ajudá-la. Ajudá-la?
Adrienne dormiu.

52
V

De manhã, ao café, não foi mencionada a cena da vés­


pera e Germaine, depois de beber uma xícara de café preto,
instalou-se, como de hábito, no canapé do salão em frente
da janela. Mas, assim que Mesurat saiu para o passeio diário,
ela se ergueu um pouco, apoiada nas almofadas, e disse à
irmã que arrumava a toalha de uma mesa.
— Agora vai me dizer o que estava fazendo na rua ontem
à noite?
Adrienne voltou-se vivamente, o rosto vermelho sob o
lenço branco que lhe prendia os cabelos:
— Isso a aborrece, então? — perguntou Germaine.
Adrienne deu-lhe as costas, fingindo arrumar o vaso de
flores.
— Então, Adrienne? — disse Germaine, apoiando o coto­
velo no espaldar do canapé; tinha a expressão decidida e
tensa das pessoas que preparam com antecedência as discus­
sões que vão provocar.
— O que você quer? — perguntou Adrienne.
— Quero uma resposta. Você está mudada de uns tempos
para cá. Sai de noite. O que é que você faz? Preciso saber.
Adrienne voltou-se e deu alguns passos na direção do ca­
napé.
— Por quê? Você não é minha mãe.
Sentiu que perdia a paciência e que se arrependeria do que
ia dizer, mas deixou-se dominar pela cólera, sentindo prazer
em desabafar e em ferir:
— Só por ter dezessete anos mais do que eu?

53
O sangue afluiu às faces de Germaine. Parecia surpresa e
por alguns minutos incerta quanto à insolência da pergunta,
mas logo seus traços se contraíram.
— Estou no lugar de sua mãe — disse com voz trêmula
de ódio. — Felizmente existe alguém para tomar conta de
você: eu. Tem o dever de responder. Quero que me diga o
que fez ontem à noite.
Adrienne sacudiu a cabeça resolutamente.
— Não me escutou, Adrienne? — insistiu Germaine, sem
desviar os olhos da irmã. — Quero saber ou direi a seu pai.
— Não vai saber nada — respondeu a jovem em voz
baixa.
Germaine deixou-se cair sobre as almofadas, cruzando as
mãos.
— Como quiser — disse em tom ameaçador.
Adrienne afastou-se e continuou o seu trabalho. Depois
de um curto silêncio, Germaine voltou a falar, com a obsti­
nação dos fracos que não aceitam a derrota e recomeçam a
batalha incansavelmente.
— Pensa que não sei o que faz? Não temos vigiado você
bastante. Pode-se ver no seu rosto.
Adrienne passou o pano de pó na lareira. Olhou-se no es­
pelho e perguntou com voz inexpressiva:
— O que é que pode ver no meu rosto?
— Que você não dorme e que anda pela rua — respondeu
brutalmente a solteirona.
Adrienne passou o pano no espelho com um gesto mecâ­
nico. A expressão de espanto dos olhos claros parecia pro­
curar o sentido das palavras de Germaine.
— Ando pela rua? — repetiu afinal. — Mas isso não é
crime. E, se não consigo dormir, a culpa não é minha.
Germaine mordeu os lábios. Era impossível continuar nes­
se tom; sentia-se ridícula e grosseira.
— Sabe muito bem o que quero dizer — respondeu, fa­
lando rapidamente. — Informarei seu pai sobre a sua conduta
se não me disser o que fez ontem à noite.
E, ante o silêncio desdenhoso de Adrienne, sua curiosidade
aumentou, transformando-se em ira.

54
Ergueu-se bruscamente, apoiando os joelhos trêmulos no
canapé.
— Pois fique sabendo que vai falar. — Apontou o dedo
em riste para a irmã. — Sei como obrigá-la a isso.
A jovem não respondeu; essa súbita explosão de cólera a
enchia de espanto.
— Além disso, por que se esconde se não faz nada erra­
do? — Continuou Germaine, erguendo a voz, como para
convencer a si própria do que dizia. — Espera a noite para
sair sorrateiramente.
Não conteve a raiva ante o olhar inexpressivo da irmã.
— Você me compreende muito bem. Não se faça de ino­
cente. Comigo sabe que não adianta. Pensa que sou tola?
Pensa que não a vejo todas as noites, quando volta da rua
às nove horas?
Adrienne empalideceu.
— Por que quer me fazer infeliz? — balbuciou.
— Infeliz! — exclamou Germaine. — E eu, pensa que
também não sou infeliz?
Fez um gesto desordenado e prosseguiu:
— Tenho sofrido de todos os modos, entende? Horrivel­
mente. Mas minha experiência vai me servir para alguma coi­
sa. Não deixarei que cometa os mesmos erros que cometi.
— Que erros?
— Não precisa saber. Eu a interrogo somente para o seu
bem e por piedade.
Levou o lenço aos lábios.
— Vai me responder? — perguntou de novo.
Adrienne balançou a cabeça:
— Não.
Germaine observou-a por um instante, depois ergueu os
ombros e voltou a se deitar no sofá.
— Então, é como se eu não tivesse dito nada.
— Sim — respondeu Adrienne.
Apanhou um vaso de flores e foi até o banheiro. A cena a
deixara tão perplexa que se esqueceu da cólera contra a
irmã. Colocou o vaso de gerânios na pia e abriu a torneira
com toda a força; o jato d’água caiu sobre a porcelana com

55
um barulho ensurdecedor. Inclinada sobre as flores, a jovem
olhava o líquido que subia lentamente dentro do vaso, fa­
zendo-o oscilar. Quando ficou cheio, fechou a torneira a
contragosto: não queria interromper aquele ruído que a im­
pedia de refletir.
Sentou-se numa cadeira, estupefata ainda com as palavras
de Germaine. Nunca conversavam. Tudo que a irmã fazia a
irritava e seus menores gestos a desagradavam. Sentia tam­
bém uma repugnância instintiva pela doença de Germaine
e não gostava de chegar muito perto dela. Tudo isso as dis­
tanciava, com uma distância que aumentava cada vez mais, e
agora, de súbito, era como se estivesse ante uma desconheci­
da, quando Germaine falou dos próprios sofrimentos.
Ergueu-se e pensativamente enxugou o vaso com o aven­
tal. Voltou ao salão. Por alguns momentos ficou parada, os
olhos fixos nos desenhos do tapete grená; no lugar de sem­
pre, entre duas cadeiras, o sol desenhava um retângulo de luz.
Adrienne assustou-se com o silêncio da irmã. Deu uns pas­
sos, colocou o vaso sobre a mesa de centro e arrumou os
livros que estavam sobre a escrivaninha.
— Diga-me uma coisa — começou subitamente.
Germaine continuou silenciosa. Adrienne foi até o canapé
e observou a irmã. Esta não tinha feito nenhum movimento
mas seus olhos estavam vermelhos; as lágrimas tremiam na
borda das pálpebras e corriam nos dois lados do nariz
aquilino.
— Por que está me olhando? — perguntou com amargu­
ra. E, como Adrienne não respondesse, ajuntou, virando a
cabeça para o lado:
— Vá embora. Detesto você.

Naquela mesma noite, quando Desirée pôs o café na mesa,


o Sr. Mesurat voltou-se para Adrienne:
— Sabe de uma coisa. Tive uma idéia. Nunca fazemos
nada depois do jantar. Vamos jogar trinta-e-um.

56
A jovem deixou cair o guardanapo que estava dobrado e
ergueu os olhos para a irmã, mas Germaine ficou impassível.
— E então? — disse Mesurat, passando a unha do pole­
gar na barba.
Não continuou, intrigado com a expressão de surpresa da
filha mais nova.
— Papai, eu não sei jogar cartas — disse ela rapida­
mente.
— Eu ensino — respondeu o pai em tom definitivo.
— Aprende-se em dez minutos. Germaine vai jogar conosco,
não vai?
Germaine inclinou a cabeça, assentindo.
— É verdade — continuou o velho. — Não fazemos
nada à noite. Eu leio o jornal, sua irmã vai para a cama.
Precisamos nos distrair. O que há com você?
Adrienne estava de^êNCom a mão sobre o peito; o sangue
fugiu-lhe do rosto e ela se apoiou no espaldar da cadeira,
como se tivesse medo de càir.
— O que há com você? — repetiu Mesurat com voz
imperiosa. — Adrienne!
— Vou me deitar um pouco — murmurou ela.
— Sente-se — ordenou o pai.
E, segurando-a pelo pulso, obrigou-a a sentar-se. Adrienne
fechou os olhos, o rosto contraído.
— É estranho esse mal-estar súbito — disse Germaine
com voz glacial.
Sacudiu a cabeça e, colocando a xícara de chá de camomi-
la fumegante no pires, cruzou os braços sobre a mesa, obser­
vando a irmã.
— O calor — explicou o Sr. Mesurat. — Este lampião
esquenta muito, está muito baixo; suspenda um pouco, Ger­
maine.
Germaine estendeu o braço e ergueu o lampião. Sob a luz
vinda do alto, o rosto de Adrienne parecia descorado e o Sr.
Mesurat franziu a testa.
— Vai tomar um pouco de café — disse ele, enchendo
a xícara.
— Não quero nada, papai — respondeu Adrienne.

57
O velho hesitou por um segundo, consultando Germaine
com o olhar. Ela ergueu os ombros.
— Perfeito — disse ele.
Tomou o café em dois goles e levantou-se. Nesse momento,
Adrienne abriu os olhos; sua expressão mudou rapidamente
ao ver o pai afastar-se da mesa e pensou que não ia mais
falar no jogo de cartas, mas o Sr. Mesurat, batendo com a
mão no espaldar da cadeira, disse com uma calma que soava
falsa:
— Levante-se, vamos. Estaremos melhor no salão.
Sem uma palavra, ela obedeceu e passou na frente do
pai, que, sorrindo, bateu-lhe levemente no ombro. Adrienne
entrou no salão e parou, imóvel, no escuro. Sua cabeça rede­
moinhava e sentia-se atordoada. Apenas um pensamento in­
sistente a perturbava cada vez mais: estava quase na hora
em que, todas as noites, chegava à esquina da Rua Presidente
Carnot. A noite estava linda. Pela janela via-se o céu ilumi­
nado com aquela claridade suave que parece a continuação
do dia entre as trevas da noite. Nem uma nuvem. Teve um
impulso súbito, o mesmo que sentira no quarto da irmã, quan­
do, debruçada na janela, tivera a impressão de que o pavi­
lhão estava muito próximo e que podia chegar até ele saltan­
do sobre o jardim. Cruzou as mãos. Ouviu o pai esbarrar
numa cadeira, depois o ruído dos fósforos sendo riscados.
Logo o lampião se acendeu.
— Traga uma cadeira — disse Mesurat, sentando-se à me­
sa de centro.
Controlando-se, Adrienne apanhou uma cadeira e sentou-
se entre o pai e Germaine, que já embaralhava as car­
tas. Notou que o lampião, colocado no centro da mesa,
soltava um pouco de fumaça, mas não disse nada. Estava
vivendo um pesadelo; aquela mulher doente embaralhando
as cartas, o velho com sua respiração ruidosa, e ela sentada
ali, quando devia estar lá fora, perto do pavilhão branco.
Vieram-lhe à mente os versos de Racine. O que podia ser
mais horrível do que essa cena? E subitamente abaixou a ca­
beça, cobrindo o rosto com as mãos.

58
— Ora, vamos — exclamou o pai. — O que é isso agora?
Segurou as mãos de Adrienne, forçando-a a descobrir o
rosto.
— Vai me dizer o que está sentindo — disse com uma
voz que anunciava cólera.
— Nada — protestou Adrienne com desespero, colocan­
do as mãos sobre os joelhos.
— Papai, explique-lhe o jogo e vamos começar — disse
Germaine, impaciente.
O Sr. Mesurat acalmou-se com essas palavras. Apanhou
o baralho que Germaine pusera sobre a mesa e começou a
dar as cartas sem dizer nada. Com os olhos baixos, Adrienne
observava os pequenos pedaços de papelão caindo à sua fren­
te com um ruído seco. Sentiu uma espécie de desmaio. Apa­
nhou as cartas maquinalmente e começou a embaralhá-las,
quando um grito do pai a sobressaltou:
— Não precisa embaralhar outra vez! Vou explicar.
E expôs toda a teoria do jogo, acompanhando as palavras
com gestos precisos, erguendo o dedo indicador, mostrando
as cartas colocadas em leque na sua mão. Adrienne sacudiu
a cabeça.
— Comece! — ordenou ao terminar a explicação.
Ela jogou uma carta ao acaso, que Germaine imediata­
mente cobriu com uma das suas. Chegada a sua vez, o Sr.
Mesurat jogou, explicando a jogada.
— A agora — recomendou — escolha com cuidado.
Adrienne franziu a testa e observou as cartas que segurava
em leque, obedecendo à recomendação do pai. Não prestara
atenção às explicações do Sr. Mesurat, que esperava a sua
jogada, e experimentou a sensação do aluno incapaz de res­
ponder a uma pergunta complicada. Reis, damas e valetes
confundiam-se ante seus olhos. Escolheu um ás de paus,
reconsiderou e pegou um dez de ouros. De súbito, percebeu
que sua mão tremia. O pai e a irmã não tiravam os olhos
dela. Encostou o leque de cartas no peito, como para escon­
der o jogo.
— Eu não sei — disse.
t 59
— Não compreendeu, então? — exclamou o Sr. Mesurat
furioso.
— Jogue qualquer coisa — disse a irmã, irritada.
E bateu na mesa com os nós dos dedos.
— Bem — falou Adrienne, que já não estava mais pen­
sando.
Examinou o jogo outra vez e jogou uma carta a esmo.
— Mas não! — exclamou o Sr. Mesurat. — Não pode
fazer isso! Escute aqui. . .
Inclinou-se para ela e recomeçou a explicação em voz
lenta, mas que se elevava aos poucos. Adrienne não conse­
guia acompanhá-lo. Tantas coisas lhe ferviam na mente que
não compreendia o sentido das palavras; ouvia apenas os
sons cheios de impaciência. O hálito quente do velho no seu
rosto fez com que fechasse óã olhos, tomada de uma repulsa
súbita. Tentou coordenar as idéias. Ouvia apenas uma palavra
que se repetia com o ritmo de um relógio: sofrer, sofrer. Era
isso, sofrer. Lembrou-se então que já passara da hora de estar
lá fora na esquina. Um medo supersticioso apossou-se dela.
Pela primeira vez faltava a essa espécie de encontro. Isso lhe
traria infelicidade. Talvez nesse exato momento o médico
estivesse debruçado na janela. . . Ergueu-se de um salto, dei­
xando cair as cartas.
— Não vou jogar — disse.
— O quê? — rugiu o Sr. Mesurat.
— Não quero jogar — repetiu ela.
Sentiu a mão ossuda da irmã segurar seu pulso e esforçou-
se para se libertar.
— Sente-se — disse Germaine em tom autoritário. —
Sente-se.
O Sr. Mesurat começou a bater com a mão aberta sobre
a mesa.
— Você vai obedecer — resmungou. — Vai me dizer o
que está acontecendo.
— Sente-se — repetiu Germaine.
Adrienne tentou mais uma vez libertar o pulso, mas as
forças a abandonaram subitamente. Sentou-se, deitou a cabe­
ça sobre os braços e começou a chorar.

60
— Deixem-me em paz! Deixem-me em paz!
— Pare de chorar! — ordenou o Sr. Mesurat. — Vai in­
comodar os vizinhos. Cale-se!
— Espere! — exclamou Germaine.
E, largando o braço da irmã, ergueu-se o mais depressa
que pôde e foi fechar a janela.
— Agora, chore — disse, apoiando-se na parede.
O Sr. Mesurat ergueu-se. O sangue tinha-lhe subido às
faces, mas procurou falar com voz pausada, como um ho­
mem que sabe se dominar.
— Não se trata de chorar ou não. Adrienne, vai nos dizer
o que está acontecendo.
Segurou a moça pelo braço. Ela estava pálida e apoiava-se
no espaldar da cadeira com uma das mãos.
— O que quer, papai?
— Que fale conosco, que nos diga o que tem.
— Não tenho nada.
— Então jogue — disse Germaine, voltando à sua cadeira.
Adrienne não respondeu. Parecia-lhe que alguma coisa des­
conhecida deslizava sorrateiramente por aquela sala que co­
nhecia tão bem. Uma mudança indefinida. A sensação de
sonho, de reconhecer lugares jamais vistos. Ao primeiro mo­
mento de curiosidade, segue^e o medo, depois o terror de
não poder fugir, de estar imobilizado e prisioneiro. Pergun­
tou a si mesma se estaria ficando louca, e lançou um olhar
à sua volta. O que a atemorizava não era o aspecto conhe­
cido das coisas, mas a sua estranheza, a sua distância; como
num sonho, porém, tinha a sensação de não poder se mover,
de estar presa por uma força invisível entre a cadeira e a
mesa. Pousou o olhar no lampião. Não estava mais soltando
fumaça e esse detalhe era a medida da extensão do seu
alheamento desde que se sentara à mesa, pois alguém baixara
o pavio e ela sequer percebera. A voz do Sr. Mesurat
a trouxe de volta à realidade.
— Se não quer falar, eu falarei — disse ele, inclinando-
se para a filha. — Você diz que não tem nada, mas vive so­
nhando acordada, distraída, recusa-se a jogar. Por outro
lado, eu soube q u e ...

61
Germaine fez um movimento. O Sr. Mesurat lançou-lhe um
olhar rápido e continuou:
— Disseram-me, e não vou dizer quem, que ultimamente
você tem saído à noite. Fica fora uma hora ou duas, não
sei. Então? Diga que não é verdade.
Aproximou o rosto do de Adrienne. Ela podia ver as pál­
pebras pesadas, o nariz grosso, o desenho das pequenas veias.
As palavras que queria dizer ficaram presas na garganta.
— Isso não chega? Você pensa que é muito esperta, pensa
que não sabemos o que faz?
Interrompeu-se por uns instantes e depois continuou:
»— Todas as tardes, entre cinco e meia e seis horas, você
vai ao quarto de Germaine, debruça-se na janela e espera. . .
— Não é verdade — murmurou a moça.
— Germaine! — exclamou Mesurat.
Germaine corou fortemente e não disse nada.
— Então! — disse o velho, batendo com a mão fechada
na mesa. — Você sabe que para mim basta; quero saber,
entende? Está escondendo alguma coisa. Não vai falar?
Sacudiu-a pelo braço.
— Você anda vendo alguém. Confesse!
Adrienne soltou um grito de dor e tentou libertar o braço,
mas o velho o segurava com firmeza.
— Não. Não vou largá-la. Vai responder. Está apaixona­
da por alguém, não está?
Sacudiu-a com tanta força que ela quase caiu. Viu o medo
no rosto da irmã e sentiu-se tomada de pânico.
— Sim! — exclamou Adrienne com voz aguda, cujo tom
a assustou.
O Sr. Mesurat afrouxou um pouco a mão que a prendia.
— Ah! Quem é? — perguntou.
No silêncio, ouvia-se apenas a respiração do velho, acele­
rada pelo esforço.
— Quem é? — repetiu.
— Não sei o nome — balbuciou a moça.

62
— Não sabe o nome! — repetiu Antoine Mesurat,
segurando a filha pelos ombros. — Pensa que sou imbecil?
Dominado por uma fúria incontrolável, começou a sacu­
di-la com força. Os dentes da jovem se entrechocavam a cada
movimento e ela soltava gritos abafados. Muda de terror,
Germaine não se movia. Subitamente, Adrienne deslizou pelo
peito do pai e caiu inerte aos pés do velho. Perdera os
sentidos.

63
VI

Ao abrir os olhos estava no seu quarto. Ouviu no mesmo


instante passos que se afastavam e uma porta se fechando, de­
pois vozes do outro lado da porta. Logo fez-se silêncio. Es­
tava na cama, completamente vestida. Voavam insetos ao re­
dor do lampião, zunindo com suas vozes minúsculas. Fazia ca­
lor. Adrienne soltou um suspiro profundo e, erguendo-se
apoiada no cotovelo, olhou o quarto. Examinou o armário
com espelho que o pai lhe dera quando completara dezesseis
anos. Havia algo de tão cruel e ridículo nessa lembrança que
Adrienne soltou um gemido de desgosto. Olhou-se no espelho
e viu os cabelos despenteados, soltos sobre os ombros, e, em­
bora essa desordem a chocasse, nada fez para arrumá-los e
continuou olhando o espelho. O rosto estava pálido e com
uma expressão tristonha que ela não conhecia e a boca en­
treaberta. Achou-se envelhecida, mas não desviou os olhos
da imagem. Teria alguma coisa mudado nos seus traços?
Percebeu que a luz do lampião desenhava sombras sob suas
pálpebras. Isso dava-lhe uma expressão desagradável. “Pare­
ço um defunto”, pensou. Continuou a olhar fixo para o espe­
lho e viu então uma faixa escura e trêmula sobre sua cabeça,
que começava a descer para os ombros e para o corpo todo,
desdobrando-se numa segunda imagem, igual à primeira, que
pareceu hesitar por alguns momentos e depois, lentamente,
colocou-se sobre a imagem real. Sentia os olhos pesados
mas não conseguia fechá-los. Contemplou aquelas duas pes­
soas que ondulavam no espelho, embora ela estivesse imóvel.

64
Parou de pensar. Bruscamente, deixou-se cair sobre o traves­
seiro, como se tivesse recebido um golpe. Dormiu.

Quando acordou, já era tarde, mas não tinha vontade de


se levantar e ficou deitada por mais alguns minutos. Em meia
hora estaria lá embaixo como sempre. Ouviria o pai ler os
cabeçalhos do jornal, veria a irmã examinar o fundo da xíca­
ra e limpá-lo com o guardanapo, como fazia todos os dias
antes de se servir de café. E a vida continuaria como sem­
pre, apesar da cena horrível da noite anterior, embora tudo
nela tivesse mudado.
De fato, quando chegou à sala de jantar, lá estava o Sr.
Mesurat segurando o jornal aberto com os braços esticados.
O dia prometia ser quente e ele tirara o paletó de alpaca
preta que colocara sobre o espaldar de uma cadeira. No
rosto corado, a concentração com a leitura formava rugas
ao redor dos olhos e do nariz, pois era presbita e contraía-
o rosto todo para ler. Quando Adrienne entrou na sala, o
pai olhou-a de soslaio.
— Bom-dia — disse ele jovialmente.
— Bom-dia, Adrienne — disse Germaine, servindo-se de
açúcar.
— Bom-dia — respondeu Adrienne.
Sentou-se. Ainda bem, nada havia mudado. Observou a
toalha de listras vermelhas e as xícaras de porcelana com
certa estranheza. Viu, refletida na cafeteira de metal, a sua
imagem deformada, o que tanto a divertia quando era pe­
quena. Refletiu por alguns momentos e serviu-se de café, e,
como sob a força de um encantamento, ouviu a própria voz
dizendo nessa manhã aquilo que dizia todas as manhãs:
— Qual a temperaturá hoje, papai?
Um silêncio, o tempo necessário para procurar a resposta
a essa pergunta no alto da página do jornal, e então, por de­
trás das folhas que conservavam ainda o cheiro da tinta, a
voz do pai respondeu:
— Previsões para o dia 17: alta ligeira, vinte e seis graus.

65
Adrienne sentiu-se vencida. Ergueu os olhos furtivamente
e viu Germaine trocar um olhar com o Sr. Mesurat. Era uma
congratulação mútua que a encheu de horror, e virou a ca­
beça para o outro lado. Lá fora, o céu estava claro, com uma
luminosidade ofuscante. Da sua cadeira, Adrienne avistava a
Vila Louise entre as tílias ressequidas. Por que não era filha
da Sra. Legras? Talvez sofresse menos. Percebeu que o pai
e a irmã a observavam e não agüentou o silêncio.
— Quando vêm os inquilinos da frente? — perguntou só
para dizer alguma coisa.
O Sr. Mesurat colocou o jornal sobre a mesa e olhou para
a frente, por cima do lornhão. Pensou um momento.
— Os do ano passado, deixe v e r.. .
— Vieram em junho — disse Germaine, partindo o pão.
— Mas isso não quer dizer que a Sra. Legras venha na mes­
ma época.
— Evidentemente — disse o velho com convicção.
Deu uma última olhada no jornal e molhou a metade de
uma rosca no café.
— Por que quer saber? — perguntou Germaine, simulan­
do indiferença.
— Ora, não estou interessada. Apenas. ..
— Mas você perguntou — insistiu a irmã.
Adrienne ergueu os ombros sem responder. O Sr. Mesurat
apoiou o jornal da cafeteira e recomeçou a ler, enquanto
comia.
— O ministério vai cair — disse entre duas garfadas. —
É mais do que certo. — Olhou disfarçadamente as filhas —
por sobre o jornal aberto à sua frente. Adrienne baixou a ca­
beça sem se decidir a tomar o café. Germaine não tirava os
olhos dela.
Depois do café, Adrienne apanhou a tesoura de podar nu­
ma gaveta da cozinha, para ir ao jardim. O pai tinha posto
o chapéu panamá, mas, ao contrário do que fazia sempre,
não saiu para o passeio matinal, instalando-se numa cadeira
no terraço, lendo o jornal. Viu Adrienne no corredor e per­
guntou:
— Aonde vai?

66
— Ao jardim colher flores.
— Hoje não é dia — disse uma voz.
A jovem voltou-se e viu a irmã que a observava do seu
canapé, através da janela da sala. Parou indecisa.
— Você ouviu? — perguntou o Sr. Mesurat.
— Os gerânios estão murchos — disse Adrienne depois
de alguns segundos. — Preciso colher outros.
Enrubescera e sua mão direita apertava com força a te­
soura de podar.
O Sr. Mesurat esticou as pernas, cjomo para impedir que a
filha passasse.
— Não ouviu o que sua irmã disse?-^- perguntou.
Adrienne encostou-se no batente da porta, observando o
pai. Sob as abas do panamá, os olhos do velho pareciam ne­
gros, mas a luz destacava o nariz carnudo e as faces pesadas
que se perdiam entre a barba amarelada. Ele enrugou o rosto
com um sorriso satisfeito:
— Por que está olhando para mim? — perguntou depois
de algum tempo.
— Quero sair — disse ela com voz sufocada.
— Pois não vai sair — respondeu o Sr. Mesurat, refor­
çando a frase com uma sacudidela no jornal.
— Por quê? — murmurou Adrienne.
O velho não respondeu logo, olhando-a fixamente.
Adrienne viu o jornal tremer nas mãos do pai e, tomada de
medo, recuou um pouco para o corredor. O Sr. Mesurat,
erguendo-se bruscamente, seguiu-a. Ela recuou mais, encos­
tada à parede, a palma da mão esquerda tocando a madeira
morna. Sentia uma necessidade nervosa de gritar, mas seus
dentes estavam cerrados. Viu o pai avançando. Ele fechou a
porta com estrondo, exclamando:
— Quer mesmo saber por quê?
A voz furiosa a fez tremer. Ouviu a irmã erguendo-se na
sala ao lado para fechar a janela, como na véspera. Seu
coração batia horrivelmente. Deixou cair a tesoura e sacudiu
a cabeça.
— Pois vou dizer — continuou o pai em voz lenta, mas
num crescendo. — Não quero que vá ao jardim, não quero

67
que saia de casa enquanto não me disser o nome do homem,
entendeu, Adrienne?
— Sim — respondeu ela com voz desmaiada. Uma fra­
queza nos joelhos a obrigava a apoiar-se nos lambris da pare­
de para não cair.
— Perfeito — disse o velho. — Vá cuidar da casa.
Voltou ao terraço, instalando-se de novo na cadeira. Pela
grade da porta pôde vê-lo retomar o jornal e abri-lo. Adrienne
fechou os olhos por alguns momentos, depois apanhou a
tesoura e entrou na sala. A irmã estava de pé atenta; apoiava-
se na lareira e viu Adrienne pelo espelho que refletia a porta.
Fez-se um longo silêncio. Adrienne colocou a tesoura sobre
a mesa de centro e olhou os gerânios; com a ponta dos de­
dos derrubou as pétalas queimadas pelo calor e depois ficou
imóvel. Ouviu atrás de si Germaine dirigindo-se para o cana-
pé e depois tentando abrir a janela. Após alguns momentos
de esforço inútil, a solteirona disse:
— Quer me ajudar a abrir a janela?
Falou com voz suave e cansada; deixou-se cair sobre o ca-
napé, sem esperar resposta.
— Como conseguiu fechá-la? — perguntou Adrienne com
voz inexpressiva.
— Não sei, creio que é mais fácil.
Adrienne hesitou por um segundo, depois foi até a janela
e abriu-a. Arrumou o canapé que Germaine deslocara. Afi­
nal, sentou-se numa poltrona no centro da sala. Estava ainda
aturdida pela emoção e movimentava-se automaticamente;
ouvia a própria respiração acelerada, mas aos poucos se acal­
mou. O sol chegava até seus pés, desenhando uma faixa reta
na borda do vestido, e Adrienne observou-a fixamente até
doer-lhe os olhos. Ergueu a cabeça. Pequenas nuvens passa­
vam pelo céu e pareciam se desmanchar em luz. O calor
estava abafado. Nenhum ruído vinha de fora, nem o pio de
um pássaro. Adrienne não ouvia mais o farfalhar do jornal
no terraço e imaginou que o pai devia estar dormindo.

68
VII

Alguns dias mais tarde, Adrienne estava sentada à janela


da sala de jantar, olhando a rua. Acabara de voltar de um
passeio com o pai e não tirara ainda o chapéu. Agora o Sr.
Mesurat a acompanhava todas as tardes e iam até o outro
lado da cidade, além do presbitério, para ver a casa que
estava sendo construída. A estrutura do telhado já estava
pronta e nessa tarde tinham assistido, para grande prazer do
Sr. Mesurat, que batia palmas, a colocação do ramo de árvo­
re e da bandeira tricolor no ponto mais alto da construção.
Eram quase seis horas, mas o céu tinha ainda a claridade
do meio-dia. Adrienne pensou que o aspecto do céu era a
única mudança que observava na paisagem. As árvores na
Vila Louise permaneciam na mesma, os gerânios rosados e
vermelhos renasciam docilmente, com as grandes folhas ave­
ludadas. Inclinou um pouco a cabeça e viu a árvore flexível
que se dobrava suavemente sobre o pavilhão branco. Sentiu
um aperto no peito. Nada mudava em sua vida. Muitas vezes,
quando estavam os três à mesa, sentira-se tentada a dizer:
“Está certo, eu amo Maurecourt, o médico da Rua Camot”,
para ver o que acontecia, mas nunca chegava a pronunciar
essas palavras. Estranhamente, toda vez que estava a ponto
de dizê-las, Germaine ou o pai começavam a falar, como se
adivinhassem seus pensamentos e quisessem impedi-la de con­
fessar. Essa coincidência a perturbava. Atribuiu-a a uma
força misteriosa, advertindo-a para que não falasse do seu
amor, para que guardasse segredo.
Na solidão do quarto, quando o pai e a irmã dormiam,
costumava agora repetir em voz alta o nome de Maure-

69
court, protegendo a boca com as mãos para não ser ouvida,
e repetia dez, vinte vezes, com uma alegria cruel que a fazia
sofrer, o nome que o pai e a irmã não conseguiam arrancar
dos seus lábios. Tinha a impressão de que sufocaria se não
o dissesse assim, repetidamente. Adrienne não chorava, mas,
nos momentos em que o desespero e a melancolia tomavam
o lugar da inquietação e da esperança inútil, sentia um aperto
na garganta e o sangue pulsava-lhe dolorosamente nas têm­
poras.
Tirou o chapéu e enfiou os dedos sob os cabelos, levantan­
do-os, como para diminuir seu peso. Sentia calor com aque­
las roupas. Ergueu-se e, apoiando os joelhos contra o para­
peito da janela, inclinou-se para fora. Ao longe, passava uma
carruagem na estrada nacional e o ruído diminuía rapida­
mente. Mais além, os cães latiam. Aguçava o ouvido, pro­
curando avidamente captar todos esses sons. O silêncio da­
quela rua era realmente insuportável. Era como se as pessoas
evitassem passar por ali para não perturbar a imobilidade
terrível da vizinhança.
Pensava com tristeza que estava quase na hora em que
costumava subir às escondidas ao quarto de Germaine. Agora,
a porta estava sempre trancada. Inclinando-se mais, podia
ver, das outras janelas da casa, o pavilhão branco, mas não
com tanta nitidez.
Começou a soprar uma brisa ligeira e ela respirou demo-
radamente, cerrando os olhos. De súbito, ouviu passos na rua
e voltou-se rapidamente para o pavilhão. Seu coração deu
um salto. O homenzinho que caminhava depressa junto
ao muro era Maurecourt. Hesitou por um segundo e
recuou instintivamente, temendo e ao mesmo tempo dese­
jando com todas as suas forças que ele a visse. Maurecourt
andava rapidamente com os olhos baixos. Num instante ia
desaparecer de vista. Meio enlouquecida, esboçou um gesto
logo reprimido e levou a mão à boca para abafar o grito. Lá
estava ele agora, bem em frente da casa, andando na direção
da Vila Louise. Adrienne agarrou-se ao parapeito, inclinan­

70
do-se para fora como se fosse chamá-lo; chegou a erguer o
braço, mas Maurecourt já não podia vê-la e continuou o seu
caminho. Adrienne via apenas as suas costas e pensou em
chamá-lo em voz alta, gritar o seu nome. Então, ele se volta­
ria. O grito morreu-lhe na garganta. Parecia estar num pesa­
delo, incapaz de se mover ou emitir qualquer som. Sentia den­
tro de si uma força que não podia usar. Ouviu os passos dele
se afastando e bruscamente ele deixou a Rua Thiers. Ah! Ago­
ra podia gesticular! Como louca, deu uma volta sobre si mes­
ma. Vê-lo, chamá-lo, como? Teve uma idéia. Se ficasse doen­
te ele viria; doente ou ferida. Ferida. Fechou uma das folhas
da janela e com um movimento rápido enfiou os braços atra­
vés do vidro.
O ruído do vidro quebrado a assustou. Viu nos braços
longas listras vermelhas; logo o sangue começou a correr e
Adrienne soltou um gemido, embora não sentisse dor. Come­
çou a chorar. Fazia-lhe bem chorar. Mas o pânico a assaltou
ao ver o vestido coberto de sangue e lançou-se para a porta
com os braços estendidos.
O pai entrou na sala e, atrás dele, Germaine, ofegante. A
expressão de cólera dos dois se desfez e exclamaram ao mes­
mo tempo: — Oh! — O velho recuou, olhando estupefato
para Germaine.
— Como fez isso? — perguntou a solteirona com voz trê­
mula. — É uma loucura. Rápido, a tintura de iodo e um
rolo de gaze — continuou, dirigindo-se ao pai. — No armá­
rio do meu quarto.
O Sr. Mesurat desapareceu. Germaine apanhou um guarda­
napo no aparador e envolveu com ele os braços da irmã, mas
ao contacto do linho sobre os ferimentos Adrienne soltou um
grito e tentou desembaraçar-se desse curativo primário. A
vista do próprio sangue a descontrolara completamente e pen­
sou que ia enlouquecer. Deixou-se cair numa cadeira.
— Quer me deixar tratar disso? — disse Germaine, apa­
nhando o guardanapo ensangüentado.
— Chame o médico.

71
— Fique quieta e levante os braços — ordenou Germai­
ne. Adrienne obedeceu. Estava branca como cera e pergun­
tava a si mesma por que tinha se ferido. Esperava mesmo
que chamassem um médico para simples cortes nos braços?
Devia estar completamente transtornada para acreditar nisso,
por um segundo que fosse! E teria sido tão simples fazer um
gesto para o médico! Com certeza ele teria parado e então
Adrienne poderia simular qualquer coisa, um mal-estar súbi­
to; bastava levar a mão à cabeça e soltar um grito.
Mesurat voltou com um pequeno vidro e um rolo de gaze.
— Dê-me rápido — disse Germaine.
Apanhou o vidro e com o aplicador preso à tampa passou
iodo nos ferimentos de Adrienne que gritava de dor. Ao fim
de algum tempo, o sangue parou e Germaine enrolou a gaze
nos braços da irmã. O Sr. Mesurat observava a cena com ex­
pressão descontente e curiosa ao mesmo tempo, e várias
vezes fez menção de ajudar Germaine, mas ela o afastava
com um gesto cheio de autoridade, incomum nela. Essa
mulher, cuja vida não passava de uma longa enfermidade,
achava-se, por assim dizer, no seu elemento, entre curativos e
remédios. Nessas ocasiões, era de uma atividade singular. Era
ela quem tratava dos resfriados do Sr. Mesurat e das dores de
cabeça de Adrienne. No armário do seu quarto tinha todo o
material necessário. Indolente durante a maior parte do tem­
po, parecia encher-se de vitalidade quando a saúde do pai
ou da irmã estavam comprometidas. Administrava os medi­
camentos com mão firme, não perdia a cabeça com pequenos
acidentes, sabia tratar e cuidar com eficiência e presença de
espírito. Não agia assim por bondade, mas levada pelo ins­
tinto do doente que odeia a doença em todas as suas formas
e a combate nos outros para se vingar da impotência em de­
belá-la em si mesmo. Exercia a função de médico com um
fervor ciumento. Não permitia que a contrariassem nem que
a ajudassem. Quanto a chamar um médico, nem se pensava
nessa possibilidade; chamar um médico, quando Germaine
estava presente! O Sr. Mesurat jamais pensara em tomar essa
providência estranha, e Adrienne muito menos. Por isso, o

72
fato de ter acreditado que chamariam Maurecourt dava a
medida da enormidade de sua perturbação.
“Mas eu o amo tanto!” pensou.
E isso foi para ela uma revelação.

Dois dias depois estava quase curada. Não precisava mais


das ataduras e os cortes estavam fechados. Mas guardava
uma impressão profunda do que fizera. Não conseguia reco­
nhecer a si mesma nesse ato de violência e pensava com res­
peito no motivo que a levara a praticá-lo.
O mês de maio estava terminando. Começavam a chegar a
La Tour-l’Evêque os primeiros parisienses, e a sociedade mu­
sical iniciava o programa de concertos no coreto da praça.
Notava-se alguma animação nas ruas do centro, mas a parte
da cidade onde moravam os Mesurats conservava quase a
mesma tranqüilidade do inverno e da primavera. Ouvia-se
com maior freqüência o ruído de carruagens na estrada na­
cional, mas isso era tudo.
Nessa manhã, Adrienne colhia gerânios sob a supervisão
do pai e da irmã. Tinham-lhe permitido essa distração, embo­
ra não tivesse respondido às suas perguntas, porque Germai­
ne estava muito fraca para ir ao jardim regularmente e o Sr.
Mesurat considerava indigna dele a tarefa de colher flores.
Ao se inclinar sobre um dos canteiros, Adrienne ouviu o
ruído de uma carruagem e ergueu a cabeça. O pai baixou o
jornal e olhou a rua atentamente.
— O que há? — perguntou Germaine.
— Não está ouvindo? — disse Adrienne.
Foi até a grade e ficou observando a rua,imóvel, orosto
entre as barras de ferro. Um vento quentesuspendia a
poeira com um murmúrio quase imperceptível. O ruído das
rodas se aproximava.
— Sim, estou ouvindo agora — observou Germaine.
— Vem do lado da estrada nacional — acrescentou o pai.

73
Esse pequeno diálogo, quase sempre igual, repetia-se mui­
tas vezes por dia. Passaram-se alguns segundos. Subitamente,
Adrienne segurou com força as grades de ferro. A carruagem
descia a Rua Carnot e podia-se ouvir distintamente agora,
entre as batidas das patas dos cavalos, o guincho do freio
puxado pelo cocheiro, pois a rua era bastante íngreme.
“A Sra. Legras”, pensou a moça, o coração aos saltos.
Ia afinal ver essa mulher cuja vinda não sabia se abomi­
nava ou desejava. O Sr. Mesurat ficou de pé.
— Vejam só! — disse surpreso.
A carruagem entrou na Rua Thiers. Não era a Sra. Legras,
e Adrienne não pôde conter uma exclamação de desaponta­
mento, mas sua curiosidade aumentou quando o cocheiro
puxou as rédeas parando bem na frente da Vila Louise. Uma
mulher de pequena estatura desceu da carruagem. Era miúda
e usava um vestido preto e simples que indicava a sua pro­
fissão: uma empregada, sem dúvida. Com o ar sério e tímido
da boa empregada doméstica, tentava retirar sozinha a mala
de madeira negra que estava ao lado do cocheiro. Mas este
saltou e pôs a mala nos ombros. Ela retirou uma chave da
bolsa, abriu o portão e entrou no jardim, seguida pelo
cocheiro.
A cena foi observada com um misto de emoção e curiosi­
dade pelos moradores da Vila das Bétulas. Germaine estava
sentada e o Sr. Mesurat, ao lado dela, olhava fixamente o jar­
dim da Vila Louise, a boca aberta, como se um abismo se
tivesse cavado aos seus pés.
Adrienne sentia o coração debatendo-se no peito. Qualquer
novidade a impressionava tanto que era quase um sofrimen­
to. Pensamentos confusos passavam-lhe pela cabeça. As mãos
doíam de tanto apertarem as grades de ferro. Via apenas uma
pequena parte da rua, mas sua imaginação avistava essa rua
alongando-se até o campo e confundindo-se com as suas ve­
redas. Teve uma idéia que a encheu de júbilo e de me­
do : abrir o portão, sair para a rua, correr pelos campos, pelos
bosques, para sentir-se livre, nem que fosse por uma hora.. .

74
Ouviu o pai conversando com Germaine e compreendeu que
não a vigiavam agora. Abaixou o braço direito; a mão
apoiou-se levemente no trinco do portão. Ficou imóvel por
um segundo. Então, mordendo os lábios, puxou a maçaneta.
Sentiu resistência. Segurou-a com as duas mãos, puxando-a
violentamente, sem se importar com o barulho. Mas o portão
estava fechado a chave.

Uma longa semana se passou sem trazer nenhuma novida­


de à vida de Adrienne. Agora, as janelas da Vila Louise fica­
vam abertas durante o dia e podia-se ver a velha empregada
andando de um lado para o outro, empunhando um espana­
dor ou uma vassoura. Um jardineiro viera podar as árvores
do jardim. Isso durante duas tardes. Naturalmente, nenhum
movimento era ignorado pelo Sr. Mesurat, que chegou a su­
primir seu passeio do fim da tarde para acompanhar todos
os aspectos dessa atividade. Germaine também demonstrava
grande interesse pelo que acontecia do outro lado da rua e,
estendida no canapé, estava em situação privilegiada para ob­
servar a Vila Louise.
Apenas Adrienne mostrava-se indiferente. Depois de ter
desejado, temido e esperado a chegada da Sra. Legras, desin-
teressou-se subitamente, no momento exato em que isso esta­
va para acontecer. Sempre que podia, subia ao quarto e dei­
tava-se para dormir ou, quando o sono não vinha, entrega­
va-se languidamente a longos devaneios. Parecia-lhe ter atin­
gido o máximo do desespero ao verificar que o pai trancava
o portão a chave todos os dias. Era uma questão de superio­
ridade física. Ele era mais forte. Seria possível roubar-lhe a
chave? E ao mesmo tempo, por uma estranha contradição,
sentia-se quase satisfeita com a sua impotência. Se estivesse
livre, o que faria? Iria, como antes, rondar o pavilhão? Arras­
taria sua dor pela Rua Carnot e pela estrada nacional, deixan­
do-se enganar pela falsa esperança de encontrar o médico?
Agora estava presa e vigiada de perto. Era talvez menos ater­
rador ser obrigada assim a uma monotonia sem tréguas do que
passar da felicidade inquieta e febril à dor mais cruel. A
lassidão a invadia.

Todas as noites jogavam cartas, o jogo que o pai a obri­


gara a aprender. Perdia-se no tempo a noite em que, num
acesso de angústia, atirara as cartas na mesa dizendo que
não queria jogar. Agora, era com indiferença que tomava seu
lugar, todas as noites, entre o pai e a irmã. Era como se essa
jovem voluntariosa tivesse resolvido se conformar com as
regras da casa para fugir ao tédio, de um lado, e ao constran­
gimento brutal, que lhe dava medo, do outro. Era melhor jo­
gar cartas do que chorar e se lamentar no quarto, ou pro­
vocar a cólera de um velho imperioso e de uma doente
amarga.
— Devo tornar-me igual a eles — pensava. — É o único
modo de ter paz.
O Sr. Mesurat, percebendo essa mudança, felicitava-se
quando estava a sós com Germaine. Sua tranqüilidade estava
sendo respeitada. O que mais podia desejar? Mas Germaine
não acreditava na docilidade de Adrienne. Mais desconfiada
do que o pai, imaginava que a irmã devia estar tramando al­
guma coisa às escondidas, e, mais curiosa também, não per­
doava à jovem ter guardado em segredo o nome do homem
a quem amava. Assim, esse jogo de cartas quotidiano devia
ser um espetáculo estranho para um observador objetivo. Que
diversidade de interesses, quantos pensamentos hostis sepa­
rando aquelas três pessoas sentadas lado a lado à luz do
lampião! O pai, desejando apenas a paz e a conserva.ção
dos seus hábitos; uma jovem torturada por um amor impos­
sível, e a outra, pela inveja e pela curiosidade. E, de certa
forma, todos esses sentimentos pareciam representados de ma­
neira concreta pelo jogo, que consistia em impedir o ataque
do parceiro, destruir seus planos e dominá-lo. No silêncio, as
cartas batiam sobre o mármore com um ruído seco e, de vez
em quando, uma voz dizia o resultado ou fazia um breve co­
mentário. Q Sr. Mesurat, que conhecia bem o jogo, quase

76
sempre ganhava a partida, apesar da aplicação irritada de
Germaine e dos esforços de Adrienne, que se entusiasmava
também.
Só os que vivem fora de Paris podem compreender a for­
ça poderosa do hábito. Não é exagero dizer que fora mais
fácil para Adrienne acomodar-se ao sofrimento por estar num
ambiente onde a vida era regulada pelo costume, e no qual
o imprevisto não existia. A lembrança de Maurecourt fixara-
se em seu coração para sempre. Era como se aquele breve
olhar que o médico pousara sobre seu rosto a acompanhasse
por toda a parte, fazendo com que só pensasse nele. Nada é
mais semelhante a uma mulher enfeitiçada do que uma mu­
lher apaixonada. A vontade não existe e o próprio pensa­
mento não lhe pertence. Não é nada sem a única pessoa capaz
de fazê-la agir, e quando longe de quem ama entrega-se. a
um entorpecimento mental, e sua vida resume-se na consciên­
cia da dor e da solidão.
Existe algo de horrível nessa vida provinciana, onde nada
muda, tudo conserva o mesmo aspecto, sejam quais forem
as profundas modificações da alma humana. A angústia, o
desespero e o amor passam despercebidos, e o coração bate
misteriosamente até a morte, sem que tenha ousado, uma vez
que seja, colher os gerânios na sexta-feira e não na segunda,
ou passear pela cidade às onze horas da manhã e não às cin­
co da tarde.

7?
VIII

Contrariando as previsões do Sr. Mesurat, a Sra. Legras


só se instalou na vila dez dias depois da chegada da empre­
gada. Por incrível que pareça, apenas Adrienne a viu chegar.
Depois de alguns dias, o Sr. Mesurat diminuíra a vigilância
sobre a filha mais nova, retomando seus passeios matinais
até a estação. A Sra. Legras chegou exatamente nessa hora.
Quanto a Germaine, observando inquieta o céu encoberto, à
espera do sol, ficara na cama, como fazia sempre que o tem­
po ameaçava a mínima mudança. Em vão perguntou em voz
alta a Adrienne o que significava o ruído de uma carruagem
na rua. Adrienne vingava-se do sofrimento que a irmã lhe
infligira não lhe dirigindo a palavra.
Debruçada na janela da sala de jantar, observava o movi­
mento. Se fosse no mês passado, estaria na certa dominada
pela emoção e teria se escondido atrás da cortina. Agora,
confessava a si mesma que odiava essa mulher porque a inve­
java, embora inexplicavelmente sentisse, por momentos, res­
peito e simpatia. Talvez porque a Sra. Legras ia morar bem
em frente do pavilhão branco. Era sem dúvida um privilégio
ser vizinha do médico e poder observar à vontade tudo o que
se passava na casa dele. Para Adrienne, essa situação privile­
giada conferia uma espécie de glória à Sra. Legras.
Mas, depois de uma ou duas semanas, essas impressões
tornaram-se menos nítidas. Era como se tivessem sido apaga­
das, a ponto de a jovem poder observar calmamente a chega­
da da Sra. Legras, admirando-se da própria tranqüilidade.
“£ ela, a Sra. Legras”, dizia para si mesma, tentando estimu­
lar a curiosidade adormecida. E ajuntava numa associação
natural: “Então, não amo mais Maurecourt?”

78
Pequena e gorda, a Sra. Legras estava vestida de preto,
mas com uma abundância de sedas e rendas que denotava
acentuada vaidade. Um chapéu grande, adornado de flores,
encobria-lhe o rosto, mas o pescoço forte e as espáduas maci­
ças traíam a sua idade. Saltou agilmente da carruagem e
com voz aguda chamou a empregada. Seus gestos eram vivos.
Virava-se de um lado para o outro, como se não soubesse
o que fazer, e finalmente, não obtendo resposta, começou a
dar ordens ao cocheiro para que apanhasse a bagagem. Os
dois entraram no jardim da vila seguidos de perto por um
cão bassê amarelo. Adrienne ouvia os passos no caminho de
cascalho e a voz da Sra. Legras perguntando ao cocheiro
sobre o tempo em La Tour-l’Evêque. Viu quando subiram a
escadaria e entraram na casa.
Passou-se algum tempo. O cavalo da carruagem sacudia a
cabeça espantando as moscas que zumbiam ao redor das
suas narinas. Tinha na cabeça um chapéu de palha com duas
aberturas para as orelhas inquietas. Sua manta brilhava de
suor. Subitamente, Adrienne agarrou a barra de apoio e incli-
nou-se para a frente. Como que ofuscada, entrecerrou os
olhos. Conhecia essa carruagem. Já vira antes essas rodas
pintadas de amarelo e a banqueta azul-pálida. E a memória
transportou-a bruscamente ao passado; estava na beira da
estrada, os braços carregados de flores. Uma carruagem pas­
sava perto dela e o passageiro, erguendo a cabeça do livro
que estava lendo, lançava-lhe um olhar profundo e ao mesmo
tempo distraído: era Maurecourt. A cena aparecia em sua
mente com tal nitidez e profusão de detalhes que Adrienne fi­
cou transtornada. Seus joelhos pareciam ceder. Sentia o perfu­
me das flores selvagens como se as tivesse nos braços nesse
instante, e pensou que estava enlouquecendo. Sentou-se no pa­
rapeito da janela, mas não conseguia desviar os olhos da car­
ruagem que lhe trazia de modo amargo e quase irônico o
momento misterioso em que pressentira que sua vida ia mu-
3ar. Sonhara então com a felicidade! Agora, não se atrevia
a pensar. Ternas e ferozes, essas lembranças partiam-lhe o
Coração ao lhe falarem de alegria, e Adrienne admirava-se de
não desfalecer sob o peso de um sofrimento tão completo e

79
violento. Não podia nem ao menos chorar; ficou imóvel, a
Boca entreaberta, contendo a respiração para não interrom­
per o curso dos pensamentos que a destruíam.
Alguns minutos mais tarde, o cocheiro reapareceu, subiu
para a boléia e fez estalar o chicote sobre a cabeça do cavalo.
A carruagem pôs-se em movimento. Em três segundos tinha
desaparecido, e o sonho mau que atormentava Adrienne per­
deu a força alucinatória. A jovem ergueu-se, deu alguns pas­
sos mecânicos pela sala. Era como se os pés tivessem vonta­
de própria que a mente não conseguia controlar. De súbito,
deixou-se cair numa cadeira e, pousando os braços doloridos
sobre a mesa, inclinou sobre eles a cabeça. Começou a
soluçar.
Após um momento, ouviu que Germaine a chamava. Sua
primeira reação foi não responder, mas surpreendeu-a
a angústia na voz da irmã. Pôs as mãos sobre os olhos, inde­
cisa. Germaine voltou a chamar. Ergueu-se então, dirigindo-
se para a escada.
— O que é que você quer? — perguntou em voz alta.
Depois, sem esperar resposta, subiu ao quarto da irmã.
Contraiu o rosto ao sentir o cheiro forte de eucalipto. A ja­
nela estava fechada; num pires, sobre a mesa-de-cabeceira,
um cigarro medicinal queimava ainda.
— O que é que você quer? — repetiu, parada na porta.
Sentada na cama, os ombros cobertos com um xale de lã,
Germaine olhava inquieta para a irmã. Parecia mais magra,
mas as faces estavam coradas.
— Feche a porta — ordenou.
Adrienne hesitou. Repugnava-lhe ficar fechada nesse quar­
to com a doente. Afinal, bateu a porta atrás de si e dirigiu-se
rapidamente para a janela.
— Não abra — disse Germaine, apavorada.
Adrienne voltou-se.
— O que é que você tem? — perguntou, aborrecida.
Germaine ergueu a mão descarnada e a deixou cair sobre
o lençol, como se o esforço fosse demais para ela. Tinha
uma horrível expressão de cansaço.
— Essa febre me consome — disse.

80
— Está com febre?
— Não consigo fazer baixar a temperatura — explicou
Germaine. — Geralmente vem à noite e desaparece de ma­
nhã. É a mudança do tempo, creio.
— Não está fazendo frio hoje.
A outra sacudiu a cabeça e fechou os olhos. Fez-se silêncio.
— Precisa de alguma coisa? — perguntou Adrienne. —
Quer uma aspirina?
— Não. Não quero nada.
E ajuntou, voltando a cabeça para a irmã:
— Sente-se.
Adrienne não se moveu. Hesitava entre o desejo de sair do
quarto e a surpresa de ouvir Germaine falar nesse tom.
— Sente-se — repetiu a outra com voz suplicante. — Não
vê que não estou bem?
Era a primeira vez que essa confissão saía dos seus lábios.
Adrienne sentou-se no centro do quarto.
— Não quero ficar sozinha — continuou Germaine.
— Por quê? Do que tem medo?
Germaine olhou a irmã com ar inseguro:
— Não tenho medo — disse afinal. — O que quer dizer?
— Ora, eu não sei — respondeu Adrienne com um gesto
de impaciência. — Eu não disse que você tem medo.
Calaram-se. Adrienne cruzou as mãos sobre o avental e
ficou imóvel. Procurava respirar o mais levemente possível
o ar impuro que a envolvia.
— Adrienne — disse a solteirona depois de algum tem­
po. — Você não acredita que eu esteja doente, acredita?
— Não.
— Mas não respondeu quando eu disse que não estou
bem. . .
— Ora, o que queria que eu dissesse?
— Não está preocupada comigo?
— Não — respondeu Adrienne.
Subitamente, seu coração deu um salto. Algo sinistro a
envolvia, como se os pensamentos lúgubres de Germaine tives­
sem se transportado misteriosamente para ela, envenenan­
do-a. Virou o rosto, desviando-o do olhar da irmã.

81
— Escute — acrescentou Germaine subitamente. — Vou
lhe dizer uma coisa.
Calou-se, como para se concentrar, fechando os olhos. So­
bre a brancura da fronha, seu rosto parecia consumido por
um fogo interior. Os cabelos grisalhos estavam presos com
uma fita azul. Parecia-se tão pouco com a Germaine que
Adrienne conhecia que esta, movida por um temor súbito,
começou a se levantar da cadeira, mas a irmã abriu os olhos,
fitando-a:
— Escute, Adrienne — disse em voz baixa. — Acho que
vou morrer.
Adrienne ergueu-se e deu um passo para a cama. A estu­
pefação a impedia de falar.
— Germaine, você está louca — disse afinal .
E fez um rápido movimento de cólera contra essa mulher
que a assustava.
— Sim, louca — continuou. — Tem apenas um pouco de
febre.
Germaine sacudiu a cabeça.
— Estou doente há doze anos — disse.
— Não diga isso — observou Adrienne. — Nós teríamos
sabido se fosse verdade.
— Você sabe muito bem — afirmou Germaine com voz
calma. — Jamais se aproxima de mim. E seu rosto, sua ex­
pressão, cada vez que chego perto de você, pensa que não
vejo? Agora mesmo. . .
Adrienne abaixou os olhos. Sabia que era verdade e que
seu rosto traía essa repulsa. Ficaram em silêncio por alguns
momentos.
— Minha doença não é contagiosa — disse Germaine.
— Por que não consulta um médico? — perguntou
Adrienne enrubescendo.
Um clarão passou pelos olhos de Germaine e ela per­
guntou:
— Que médico?
— Qualquer um — balbuciou Adrienne. — Há médicos
aqui.
— O da Rua Camot, por exemplo?

82
— Ele ou outro qualquer.
— Mas ele de preferência — disse Germaine com hi­
pocrisia.
— O que quer dizer? — perguntou Adrienne, sentindo
renascer todo o rancor contra a irmã. — Por que diz isso?
Germaine ergueu a mão como há pouco e a deixou cair.
Seus lábios distenderam-se.
— Adivinhei — disse.
Adrienne olhou-a sem responder. Procurava ler nos olhos
de Germaine, mas esta, com um suspiro, virou a cabeça.
Adrienne sentiu um aperto no coração. Pela primeira vez
odiou aquele amor. Fazia-a parecer ridícula. E detestava essa
mulher doente, que não tinha nada a fazer senão controlar
a vida dos outros, e horror de si mesma, da paixão que a de­
vorava e que escondia como se fosse uma doença vergonhosa.
— Não é verdade — disse afinal.
— Sim — replicou Germaine. — Você cortou os braços
de propósito.
— O que está dizendo? — perguntou em voz baixa.
— Tenho olhos para ver.
— Mas isso não é da sua conta — exclamou a jovem,
batendo com o pé no chão. — Você me faz terrivelmente
infeliz.
Germaine moveu a cabeça, como para ouvir melhor.
— Como assim? — perguntou.
— Como? — exclamou Adrienne, descontrolada. — Não
posso sair quando quero, sou obrigada a jogar cartas com
vocês à noite, a passear pela cidade com papai todas as tar­
des; não sou livre, não posso nem me debruçar na janela!
Interrompeu-se ao ver a expressão da irmã. Um sorriso
enrugava-lhe a face. Escutava, a boca entreaberta, mal escon­
dendo a alegria que lhe iluminava os olhos. Adrienne obser­
vou-a por um momento e ficou tão confusa que se afastou,
dando alguns passos na direção da porta, apoiando-se nos
pés da cama. No espaço de um segundo, imaginou mil coisas
diferentes. Depois, olhando o sorriso que pairava ainda no
rosto da irmã, teve a intuição da verdade.
— Oh! Você está contente! — exclamou.

83
Quis dizer mais alguma coisa, mas as palavras ficaram pre­
sas na garganta. Então, ergueu os ombros, enfurecida, e saiu
rapidamente, batendo a porta com força. No corredor parou,
escutando; nenhum som vinha do quarto. Encolerizada, en­
fiou as mãos nos bolsos do avental. Estava ofegante. E de
súbito, erguendo a cabeça desafiadoramente, murmurou:
— Pois que morra!
Ouviu o latido do bassê da Sra. Legras e em seguida o
ruído do portão da Vila das Bétulas que se abria. O pai vol­
tava do passeio. Desceu e encontrou o Sr. Mesurat no salão.
Perturbada, começou a andar de um lado para o outro, a ca­
beça baixa, as mãos sobre o avental.
— O que há com você? — perguntou o velho.
Adrienne parou subitamente:
— Comigo? Nada. j
Na verdade, por que descera ao salão? Dirigiu-se para fa
porta, mas o pai a deteve:
— Que cara é essa? O que estava fazendo lá em cima?
Voltou os olhos para ele mas parecia não vê-lo.
— Lá em cima? — perguntou.
— Sim, lá em cima! — exclamou Mesurat. — Não fique
repetindo minhas palavras! Ordeno que me diga o que estava
fazendo lá em cima!
Adrienne sacudiu a cabeça:
— Nada.
— Como! s— gritou o velho exasperado. — Aí está você
com o rosto afogueado, os cabelos em desordem. . .
Ela olhou-sé no espelho e viu que de fato o cabelo caía-
lhe em mechas sobre a testa. A expressão desvairada do pró­
prio rosto a assustou. Deu um passo para trás, apoiando-se
no espaldar do sofá.
— Ela vai morrer — disse rapidamente.
O Sr. Mesurat não se moveu.
— Quem? — perguntou afinal.
Ele estava mais ou menos no centro da sala, e o chapéu,
que não tirara ainda, sombreava-lhe os olhos. Adrienne sus­
pirou.
— Germaine — diss& com voz inexpressiva.

84
S — Germaine? — exclamou o Sr. Mesurat, furioso. —
Você está louca! Ela não está doente!
— Sim, ela está doente.
Ao dizer essas palavras, Adrienne ficou lívida. O velho
bateu com a mão fechada no espaldar de uma poltrona.
— Quer calar essa boca! — ordenou. — Se estivesse
doente, ela teria dito!
— Ela me disse.
— Não é verdade. Germaine está perfeitamente bem.
Adrienne olhou para o pai sem responder. Ele estava ver­
melho de raiva.
— Saia daqui! — gritou o velho.
Adrienne obedeceu. Saiu da sala, fechando a porta atrás
de si, como num sonho. Do outro lado da rua, o bassê da
Sra. Legras enchia o jardim com seus latidos.

85
IX

O tempo mudou e choveu torrencialmente durante toda


a semana. Adrienne e o pai não puderam sair. Quanto a Ger­
maine, jamais saía, mesmo com a temperatura mais amena;
porém, ao contrário dos outros dias, não saiu do quarto e não
compareceu às refeições. A princípio, o Sr. Mesurat fingiu
não perceber sua ausência. Por mais que detestasse qualquer
mudança nos hábitos da casa, parecia-lhe que referir-se a
Germaine seria demonstrar uma preocupação com algo que
resolvera ignorar.
“Se não dissermos nada”, pensava ele, “tudo se resolverá”.
O mau humor, no entanto, traía sua inquietação. Embora
tentando convencer-se de que Adrienne mentira e de que Ger­
maine estava tão doente quanto ele próprio, alguma coisa o
prevenia do contrário. Recusava-se a acreditar nessas tolices,
e para reforçar sua descrença perguntava todas as manhãs a
Adrienne, ao se sentarem à mesa do café, por que Germaine
demorava tanto para descer.
— Sabe muito bem por quê — repetia a moça com ar
cansado.
— Não, eu não sei — respondia Mesurat, furioso. E
como Adrienne repetisse que Germaine estava doente, batia
com o punho na mesa, ordenando que se calasse.
— Eu a proíbo de me falar nesse assunto! Germaine está
perfeitamente bem. — E, certo dia, ajuntou depois de um
momento de reflexão: — E, a propósito, logo veremos.
Passou o polegar pela barba com ar satisfeito.
Na manhã seguinte, quando o café estava servido, Mesurat
subiu ao andar de Germaine e começou a gritar:

86
— Germaine, você está pronta?
Um silêncio. Chamou de novo, dessa vez tamborilando com
os dedos na porta do quarto da filha.
— Não vou descer — respondeu Germaine.
— Sim, você vai descer — comandou o velho com auto­
ridade.
Encostou o ouvido na porta e segurou a maçaneta. O san­
gue coloria suas faces e dava um novo brilho aos olhos
azuis. Inclinava-se para a frente, procurando ouvir, e as cos­
tas curvas faziam lembrar um animal possante à espreita da
presa.
— Está me ouvindo? — perguntou. — Eu vou fazer você
descer!
Ao ouvir as vozes, Adrienne subira silenciosamente até o
meio da escada do segundo andar e de pé no degrau, as cos­
tas apoiadas na parede, escutava com um misto de medo e
de curiosidade a voz tonitruante do pai.
— Germaine! — repetiu Mesurat. — Estou avisando! Vou
entrar e obrigá-la a descer!
E, para reforçar a ameaça, girou repetidamente a maça­
neta. Um grito de medo respondeu.
— Não, papai! — exclamou Germaine. — Vá embora!
Calou-se por um momento e depois repetiu:
— Vá embora! Vou me vestir.
— Vai descer? — insistiu o Sr. Mesurat.
Depois de alguns segundos, ela respondeu:
— Sim. — Mas a voz era tão fraca que Adrienne não
pôde ouvir; adivinhou, porém, a resposta pela exclamação
de triunfo do pai.
— Perfeito! — disse o velho. — Eu sabia.
Largou a maçaneta e começou a descer a escada rapida­
mente. Ao passar por Adrienne, segurou com força a mão da
filha sacudindo-a raivosamente; seus olhos mergulharam nos
dela:
— E você — disse —, se me disser mais uma vez que ela
está doente. . .

87
Não terminou a frase e, sacudindo os ombros bruscamente,
largou-a e continuou a descer os degraus.

Um quarto de hora mais tarde, Adrienne e o Sr. Mesurat


estavam ainda à mesa; já haviam terminado de tomar o café
com leite. Mais de uma vez o velho ameaçou subir, para ver
se Germaine vinha ou não, màs limitava-se a inclinar-se um
pouco para a frente, as mãos apoiadas na mesa, pronto
para empurrar a cadeira e levantar-se com um só movimento,
e depois mudava de idéia, resmungando. Adrienne observava
a repetição dessa mímica com o canto dos olhos e não dizia
nada. Há alguns dias seu coração fora tomado por um sen­
timento até então desconhecido, chocante a princípio, mas
que depois se transformara numa alegria secreta: desprezava
o pai. Durante anos o havia respeitado, talvez até mesmo
amado, Com aquele aVnor morno que se distribui em partes
iguais aos membros da família; mas, a partir do dia em que
ele a tinha sacudido com violência para obrigá-la a jogar
cartas, descobrira que seu respeito era apenas medo e que o
amor filial não representava nenhum papel nos seus senti­
mentos. Agora, temia-o ainda; temia a força do punho cabe­
ludo e dos dedos cruéis que tinham deixado marcas verme­
lhas nos seus braços, e na escada seu coração disparara quan­
do o velho apertara sua mão. Começava, porém, a se habituar
com essa violência e sofria menos; parecia-lhe que, desde que
passara a observar por algum tempo as atitudes ridículas do
pai, sentia-se mais livre e respirava melhor. Era uma espécie
de vingança na qual o velho era, ao mesmo tempo, o instru­
mento e a vítima. Seria por causa dela que ele fazia aquelas
caretas ridículas, andava pesadamente com a boca aberta, co­
mia com maus modos? Não. Mas era como se procurasse
degradar-se aos olhos da filha, enquanto ela o observava com
repulsa e curiosidade. O maior consolo dos oprimidos talvez
seja considerarem-se superiores aos tiranos. Em certas oca­
siões, Adrienne sentia-se tomada por uma alegria estranha
e então esquecia Maurecourt por alguns momentos; era quan­

88
do o pai, cedendo a um hábito inveterado, contava os insetos
presos ao papel pega-mosca que pendia do lustre do salão e,
com o dedo em riste, os olhos fixos, exclamava triunfante:
— Quinze em uma hora!
Ou então quando, precisando responder a uma carta, tra­
çava no papel linhas paralelas, talvez um hábito conservado
de sua antiga profissão, e desenhava um “Senhor” esplêndido
com espirais floreadas que lhe arrancavam profundos sus­
piros.
Quanto à irmã, seus sentimentos eram diferentes. Sabia
que Germaine era amarga, invejosa da saúde e da felicidade
dos outros, mas teria perdoado tudo isso se o horror à doença
não a impedisse de sentir piedade. Sempre que passava pela
irmã, continha a respiração para não absorver o ar que, se­
gundo pensava, a solteirona envenenava com seu alento. À
mesa, sofria por sentar-se ao seu lado e ficava feliz todas as
vezes que um mal-estar maior retinha a irmã no quarto. É ver­
dade que muitas vezes tentava dominar essa aversão esforçan­
do-se por falar com Germaine mais suavemente do que de há­
bito, mas a outra parecia não reconhecer essas tentativas bem?
intencionadas e permanecia fechada no seu mau humor de
doente incurável. E então Adrienne sentia uma aversão irre­
sistível e odiava a irmã como se ela fosse um ninho de víbo­
ras, com o horror natural a tudo que pode abreviar a vida
ou alterar suas fontes.
Entre essas duas pessoas, uma doente, a outra senil, a jo­
vem tinha a consciência definida da sua força e da sua moci­
dade, mas a satisfação que isso lhe dava era apenas um senti­
mento fugitivo. Na verdade, de que lhe valia ter apenas de­
zoito anos? Era'feliz? E sõhhàva com a fugà, sonhava em
lançar-se aos pés de Maurecourt, no qual depositava todas as
esperanças, e suplicar que se casasse com ela. Poucos passos
separavam a Vila das Bétulas da casa do médico, mas erá
como se fosse uma distância entre dois mundos. E Adrienne
só analisava a situação por antítese. De um lado a tristeza de
sua casa, do outro a felicidade com Maurecourt. Em sua casa
o declínio da vida* a ronda da morte; com Maurecourt a vida
calma, sem preocupações, uma alegria constante, renovada a

89
cada dia. Traçava na imaginação o retrato desse Dr. Maure-
court, que vira apenas rapidamente, mas que para ela era um
personagem simbólico. Com o misticismo próprio das almas
ingênuas, sentia-se mais perto dele quando sofria as amargu­
ras do presente e encontrava uma estranha doçura mista de
amargor ao pensar no quanto teria ainda de sofrer. “Se eu
não o amasse”, pensava, “não sofreria tanto”. E esse pensa­
mento a reconfortava um pouco, como se, por meio de um
tratamento misterioso, o médico aliviasse sua tristeza. Todos
esses sonhos, devaneios e quimeras viviam na mente de
Adrienne, afastando-a da realidade.
Estremeceu ao ouvir o grito do pai e, voltando os olhos
para a porta, viu Germaine. A pobre mulher caminhava com
dificuldade, os olhos fechados como se sentisse alguma dor,
mas Adrienne admirou-se ao ver o pouco que tinha mudado.
Esperava ver o rosto mais magro, uma fraqueza de agonizan­
te, mas, embora Germaine estivesse horrivelmente magra e
andasse se apoiando numa bengala, não estava mais pálida do
que antes, senão que com a mesma cor de sempre, que por
um momento poderia dar a ilusão de saúde.
— Viu? — exclamou o Sr. Mesurat triunfante. — Não
disse que ia descer? É tudo uma questão de força de vontade.
Passou rapidamente o polegar pela barba e lançou um
olhar rápido para Adrienne, à espera de um gesto de aprova­
ção, mas a jovem fingiu não perceber.
— Vamos — disse ele, irritado com essa atitude da filha.
— Sirva o café para sua irmã. Toque a campainha para
que tragam o pão.
E, estendendo a perna por debaixo da mesa, deu um vigo­
roso pontapé na cadeira que Germaine nãonchegara a puxar.
— Sente-se, Germaine — disse com bom humor, feliz por
vê-la novamente no lugar de sempre.
Ela deixou-se cair na cadeira. Sentada meio de lado, a
cabeça baixa e os braços apoiados na mesa, arquejava e pare­
cia extenuada. Sem uma palavra, Adrienne encheu uma xíca­
ra com café e colocou-a na frente da irmã. Olhava-a atenta­
mente, sem dissimular a curiosidade ávida e cruel, a mesma

90
que surpreendemos nos olhos das crianças quando assistem
ao castigo imposto aos colegas.
— Tome o café — ordenou o Sr. Mesurat.
Germaine inclinou a cabeça e aproximou a xícara dos lá­
bios, mas rapidamente a recolocou no pires. Estremeceu.
— Fechem a janela — disse ela.
Nesse momento, a empregada entrava com o pão. O Sr.
Mesurat ergueu os ombros.
— Desirée, feche a janela — disse com ar contrariado.
Desirée colocou o cesto de pão na mesa, fechou a janela
e saiu da sala. Fez-se silêncio por alguns momentos.
— Vamos — disse o velho afinal, ao ver que Germaine
não se movia. — Tome o café.
Germaine ergueu a cabeça; os olhos brilhantes com as
pálpebras vermelhas pousaram em Adrienne.
— A aspirina — pediu.
— O que é isso? — perguntou o Sr. Mesurat, como se es­
tivesse à espera desse pedido. — Para que aspirina?
A filha mais velha olhou para o pai; estava com a boca
entreaberta e um tremor ligeiro traía forte emoção.
— Para baixar minha febre — respondeu.
— Sua febre! — exclamou o velho. — Vá se olhar no
espelho. Tem tanta febre quanto eu. Está com uma aparência
ótima!
Continuou, mesmerizado pela própria voz que enchia a
sala:
— Eu sei o que é febre. Febre foi a que tive em 86. Não
se consegue levantar da cama, quando se tem febre; fica-se
deitado quinze dias sem se mexer.
Germaine fez menção de falar.
— Cale-se! — ordenou o pai. — Além disso, esse clima
é diferente. Não se apanha febre em Seine-et-Oise, está ou­
vindo, e você não está doente e ninguém aqui jamais esteve.
Sua voz alteava-se cada vez mais. Gritava, pontuando as
palavras com golpes da mão fechada sobre a mesa.
— Portanto, chega, chega, chega! Estão ouvindo? Quero
paz! Quero que me deixem tranqüilo. Está ouvindo, Adrien-

91
ne? Isso é para você também. A primeira que falar novamen­
te em doença vai se arrepender.
Ergueu-se, jogando o guardanapo na mesa entre pratos
e xícaras. As filhas o olhavam sem ousar responder. Ele bu­
fava de cólera, mas parecia satisfeito com o efeito de suas
palavras.
— Compreenderam? — exclamou depois de uma pausa.
E, erguendo furiosamente os ombros quatro oü cinco ve­
zes, enfiou as mãos nos bolsos do casaco e saiu da sala.
Adrienne e Germaine ouviram quando ele se deixou cair pe­
sadamente numa poltrona com um suspiro de cansaço.

\
92
X

Alguns minutos mais tarde, obedecendo à mania do pai,


que desejava a todo custo que nada mudasse, Germaine estava
deitada no canapé da sala, em frente da janela, embora o sol
não tivesse aparecido e o céu ameaçador prenunciasse chuva.
Quando o Sr. Mesurat saiu para comprar o jornal na esta­
ção, ela chamou a irmã, que verificava a limpeza dos móveis
da sala de jantar. Adrienne atendeu contrariada. A princípio,
lembrando-se da crueldade de Germaine, regozijara-se com
a violência do pai obrigando-a a sair da cama, considerando
que era um justo castigo, mas a ira do velho Mesurat ultrapas­
sara as suas expectativas e tinha agora para com a irmã o
vago sentimento de embaraço que nos causam as pessoas que
são humilhadas muito além do que merecem.
— Sim, o que é? — disse ela.
—t Adrienne — começou Germaine com uma firmeza na
voz que surpreendeu a irmã. — Resolvi sair de casa.
— Sair de casa! Nem pense nisso!
— É algo que não vou discutir com você — continuou
Germaine seca e asperamente. — Compreende que não pos­
so mais viver aqui, na minha idade, dominada por um homem
que não me permite ficar deitada quando quero, quando pre­
ciso! E depois esse clima é péssimo, terrível. Vê como está
frio hoje, depois daqueles dias tão quentes. É de matar
qualquer um. Preciso de calor, de sol, de uma temperatura
estável. Preciso também sentir que sou livre. Papai envelhe­
ceu terrivelmente. É um tirano, um tirano. Enfim, você viu
essa manhã. . . Essa cena ridícula, odiosa. Há muito penso
em partir, mas dificuldades de todos os tipos têm me impe­
dido, pequenas dificuldades na verdade. Hoje de manhã.

93
sinto-me com forças para partir, mas não posso sozinha. É
preciso que você me ajude. É preciso, entende? Além disso,
sei que não sentirá minha falta.
Riu com amargor.
— Minha saúde, minha felicidade, sim, minha felicidade,
muita coisa depende do que pretendo fazer. Detesto essa
casa, meu quarto gelado quando o sol se põe. Não posso pas­
sar o inverno aqui. Já não agüento mais. Quero partir, partir.
O coração de Adrienne parecia prestes a sair do peito.
Pensou no quarto que ficaria vazio, na janela à frente da
qual ia poder sentar-se o dia inteiro. Deu um passo na dire­
ção da irmã.
— Mas e papai? — indagou com voz trêmula. — O que
vai dizer a ele?
— Papai não vai saber de nada antes da minha partida.
— E o dinheiro, Germaine? Onde vai arranjar dinheiro
para a viagem?
— O dinheiro, o dinheiro — disse Germaine nervosa. —
Eu arranjo, fique certa. Vou pensar nisso. Agora, vai me
ajudar? Vai me ajudar a sair daqui?
Adrienne reprimiu a exclamação que lhe chegava aos
lábios.
— Se acha que posso ajudar... — respondeu.
Calou-se, tomada de um pudor que a impedia de trair seu
contentamento. Germaine riu.
— Por que está rindo? — perguntou Adrienne.
— Nada, nada. Quer escrever uma carta que vou ditar?
Apanhe o papel na escrivaninha.
Adrienne obedeceu, calada, apanhou papel, uma pena,
tinta e sentou-se à mesa.
— Pronta? — perguntou Germaine.
E ditou a seguinte carta:

“Minha senhora, gostaria de me hospedar em sua casa por


uma semana até encontrar um lugar onde o clima convenha
ao meu estado geral de saúde. Aceito desde já o preço que

94
determinar pela pensão. Peço desculpas por não ter nenhuma
recomendação além da minha condição que, espero, mereça
sua benevolência. Chegarei amanhã, terça-feira, no trem da
noite.
Acredite, senhora. .

Interrompeu-se.
— Trata-se uma religiosa de senhora?
— Não sei — disse Adrienne. — Acho que não.
— Paciência. Não tenho tempo para perder com essas mi­
núcias. “. . . nos meus melhores sentimentos.” Escreva meu
nome e enderece para a Senhora Superiora do Lar de Saint-
Blaise.
— Em que departamento fica Saint-Blaise?
— Não sei.
— Procure no Larousse. Mas depressa. Vai chover e pa­
pai voltará.
Adrienne apanhou um dos volumes que estavam no fundo
da escrivaninha e começou a procurar. Enquanto folheava
o livro, com uma pressa que fazia tremer seus dedos, Ger­
maine, apoiada sobre um cotovelo, vigiava o portão do jar­
dim. Seu rosto estava imóvel, mas a tensão do olhar traía uma
profunda ansiedade. Com um gesto característico arrumou
uma ponta do xale sobre o peito.
— Então? — perguntou depois de alguns momentos, com
impaciência, passando a mão no braço do sofá.
Adrienne fechou o livro e completou o endereço.
—■ Côte-d’Or — disse. — Estou escrevendo.
— Muito bem. Feche o envelope e coloque o selo. Há
alguns na gaveta pequena. Essa tarde, quando sair com pa­
pai, coloque a carta na caixa do correio sem que ele veja.
Calou-se e parecia querer se lembrar de alguma coisa.
— Espere. Outra coisa — continuou, falando rapidamen­
te. — Ah, sim... Ponha o livro no lugar. Você vai escrever
ao homem que aluga carruagens para que venha amanhã e
pare na esquina da Rua Carnot às seis e meia.

95
— Seis e meia! — exclamou Adrienne.
— Quero sair antes que papai se levante. Diga ao homem
para vir na hora; diga-lhe seis e quinze. Estarei lá embaixo
com as malas.
— E se chover?
Germaine pareceu amedrontada. Não tinha pensado nessa
possibilidade, mas controlou-se.
— Pior para mim — disse. — Mas estarei lá; com um
guarda-chuva eu me arranjo. Ah! A chave do portão! Você
vai tirá-la do bolso do paletó do papai.
— Do paletó de papai? Mas quando, Germaine?
— Não sei. De noite. Bem, começou a chover.
Adrienne ergueu-se e aproximou-se do canapé. A precipi­
tação de Germaine a deixara tão nervosa quanto a irmã.
— Como é que você quer que eu apanhe a chave? —
perguntou.
Germaine voltou para ela o rosto angustiado.
— Espere até a noite — disse. — Então, entre no quarto
dele. Está no bolso direito do paletó. Você a apanha, vai
abrir o portão, volta e a coloca no bolso novamente. Quer
fazer isso? — Adrienne parecia indecisa.
— Vai fazer, não vai? — perguntou Germaine, ofegante.
—- Diga que sim, eu imploro, Adrienne. Se eu pudesse...
Tem medo de que ele acorde?
Seu rosto iluminou-se. Apoiando-se no cotovelo, disse em
voz baixa:
— Juro que não acordará. Ele diz sempre que nem se
mexe durante a noite e que nem o trovão o acorda. Está ou­
vindo? Eu ju ro ...
— Está bem — concordou Adrienne.
E, subitamente entusiasmada, exclamou:
i— Mas naturalmente ele não vai acordar. É tolice minha.
Então, vou escrever ao homem da carruagem. Ponho a carta
no correio de tarde. Deve ser entregue às nove horas.
— Quanto tempo vai ficar fora?
— Não sei. Não se esqueça, seis e quinze da manhã.
O portão do jardim abriu-se. Viram o Sr. Mesurat cor­
rendo pelo caminho central. Adrienne enfiou a carta no cor­

96
pete e guardou a pena e a tinta na escrivaninha. Quando o
pai entrou na sala, ela estava limpando as luminárias de
bronze que adornavam a lareira. Germaine, com os olhos
fechados, parecia dormir.

à tarde, o Sr. Mesurat e as filhas observavam o céu com


um sentimento que diferia apenas em intensidade, mas era o
mesmo nos três. Choveria? E, com olhos inquietos, procura­
vam entre as nuvens algum sinal de bom tempo. Contudo, por
maior que fosse o aborrecimento do velho ante a possibilidade
de se privar do passeio quotidiano, não se comparava à an­
siedade de Adrienne e ao quase terror que agitava o coração
de Germaine. Se tivessem alguma religião, as duas estariam
rezando. A cada pancada de chuva, trocavam olhares carre­
gados de uma tristeza apavorada. Era como se suas vidas de­
pendessem do tempo que ia fazer entre quatro e cinco horas
da tarde. Para compreender a intensidade desses sentimentos,
talvez seja necessário relembrar o modo de vida das duas
irmãs. Pode parecer estranho que, após viverem por tanto
tempo numa monotonia insuportável, não tivessem paciência
de esperar um dia mais favorável para a execução do plano.
Se chovesse entre quatro e cinco horas, Adrienne não sairia
e conseqüentemente a carta não seria colocada na caixa do
correio a tempo de alcançar o homem da carruagem antes
da noite. Mas, se Germaine não partisse no dia seguinte, não
podia transferir a viagem para o outro dia ou para a outra se­
mana? Assim é o coração humano. Deixa passar longos anos
sem nem pór um minuto se rebelar contra a sõrtéj e então
chega o momento em que não agüenta mais e a necessidade
imediata de mudança é imperiosa, com a certeza de que tudo
estará perdido se algo não der certo no plano que na véspera
sequer existia. Assim Germaine virava-se de um lado para o
ouTrcT no canapé onde tinha passado tantas horas imóvel,
presa agora de um sofrimento que a fazia juntar as mãos so­
bre o peito, ou cobrir o rosto para abafar os gemidos, atenta
ao carrilhão do relógio que batia de quinze em quinze mi­

97
nutos, procurando no céu uma nesga de claridade que os
ventos caprichosos ora propiciavam, ora recusavam.
A tarde pareceu terrivelmente longa. Depois do almoço,
porém, não choveu mais e o céu adquiriu um tom esbranqui­
çado que prometia conservar-se até o fim do dia. A impa­
ciência dolorosa de Germaine comunicava-se à irmã, que
afinal se sentou perto do canapé, esperando a ocasião para
falar com a doente e combinarem os detalhes do plano. Mas,
mesmo se o Sr. Mesurat tivesse sido avisado do que as duas
tramavam, talvez permanecesse com tanta obstinação na sala
ao lado delas. Instalado na sua poltrona, lia os anúncios do
jornal com a atenção própria do tédio; interrompia-se às ve­
zes para bocejar ou fazer perguntas rotineiras às filhas, o que
aumentava a irritação das duas. Para se acalmar, Adrienne
apanhara um livro e fingia não escutar as perguntas do pai.
Germaine respondia com monossílabos. Passaram-se duas
horas.
Enfim, o velho levantou-se e saiu da sala, indo até o ter­
raço.
— Adrienne, os selos — cochichou Germaine. — Estão
na gaveta pequena da direita na escrivaninha. Veja também
se ele não guardou o dinheiro na gaveta de baixo.
A jovem correu à escrivaninha na ponta dos pés e abriu
uma gaveta, fechando-a silenciosamente logo depois. Voltou
para perto da irmã.
— Apanhei os selos — disse em voz baixa.
— E o dinheiro?
— Não deu tempo para ver, ele está voltando.
Germaine fez um gesto de aborrecimento.
— Não, ele nem se mexeu. Posso vê-lo daqui. Eu aviso
se voltar.
Empurrou-a com a mão. Adrienne voltou à escrivaninha e
abriu a gaveta indicada pela irmã. Estava cheia quase até em
cima de papéis e, sob um maço de recibos, viu uma carteira
e apanhou-a; ia começar a examiná-la quando ouviu os pas­
sos do pai que voltava. Afobada, fechou a gaveta e só teve
tempo de atirar a carteira sobre os joelhos de Germaine. O
pai entrou na sala.

98
— Não está mais lendo? — perguntou ele, ao vê-la no
meio da sala.
— Não — respondeu ela, virando-se um pouco, para
que o pai não visse que estava corada.
— Parece que o tempo vai firmar — disse o Sr. Mesurat,
sentando-se na sua poltrona. — Dentro de uma hora pode­
mos sair.
Adrienne sentou-se, apanhando o livro. Sentia o coração
disparado e por um momento receou que o pai ouvisse sua
respiração angustiada; mas ele cantarolava, sacudindo a ca­
beça para a direita e para a esquerda. Depois de alguns mo­
mentos, ele cochilou.
— Então? — perguntou Adrienne, inclinando-se para a
irmã. — A carteira?
— Vazia — respondeu Germaine. — Procure na outra
gaveta.
— Não posso — disse Adrienne, acentuando a palavra.
— Então, não quer que eu parta?
Adrienne mordeu os lábios. Veio-lhe à mente a imagem
da casa branca e o interior da sala que se via do quarto de
Germaine. O destino do seu amor parecia ligado à partida
da irmã. Germaine adivinhou os pensamentos que passavam,
fugitivos, pela mente da jovem. Insistiu.
— Não posso partir sem dinheiro. Procure outra vez. Ele
não vai acordar.
Adrienne abaixou a cabeça e parecia refletir profunda­
mente.
— De quanto precisa? — perguntou.
— Quatrocentos francos para partir — respondeu Ger­
maine rapidamente.
— E depois?
A irmã fez um gesto com a mão, como para dizer que só o
futuro próximo importava.
— Tenho minhas jóias — disse afinal. — Eu me arranjo.
E ajuntou com impaciência:
— O essencial é sair daqui, não é? Preciso desse dinheiro.
Os olhos de Adrienne refletiam sua indecisão. Uniu as
mãos sobre os joelhos.

99
— Posso emprestar essa quantia — disse com esforço.
Germaine a olhou friamente.
— Das suas economias? — perguntou.
— Sim.
—- Está bem. Empreste-me quinhentos francos.
Adrienne ergueu-se e saiu da sala na ponta dos pés. Ao
passar a porta, suspirou. Custava-lhe separar-se do dinheiro
que o pai a fizera economizar durante sete anos, mas pensou
que daria de boa vontade o dobro dessa quantia para que a
irmã saísse de casa. Subiu ao quarto e retirou do armário uma
caixa de madeira que abriu com uma pequena chave de co­
bre. Havia cerca de trezentas moedas de ouro, em pequenas
pilhas envoltas em papel. Lá estavam também os presentes
de Natal, de Páscoa, de aniversário, que o Sr. Mesurat e uma
velha prima falecida há pouco lhe haviam dado. Apanhou
uma pilha com vinte e cinco moedas, trancou a caixa, colo­
cou-a no armário e fechou a porta à chave. Por um segundo
ficou imóvel no meio do quarto. Era a alegria ou o remorso
que lhe faziam doer o coração? Apoiou-se no peitoril da ja­
nela e olhou a casa branca na esquina. Isso lhe deu coragem.
Lembrou-se das cartas que devia pôr no correio, retirou-as
do corpete, fechou os envelopes e colou os selos. Depois
desceu.
O pai dormia ainda, mas ela percebeu uma grande inquie­
tação no rosto de Germaine, que lhe fez sinal para que se
aproximasse.
— Está com o dinheiro? — perguntou.
Adrienne entregou-lhe as moedas. Sem uma palavra, Ger­
maine verificou se o pacote estava bem fechado e colocou-o
no corpete. Deixou-se cair sobre as almofadas.
— O que estava fazendo lá em cima? — perguntou com
ar de censura. — Ele poderia ter ouvido seus passos. Selou
as cartas?
Adrienne inclinou a cabeça assentindo e foi sentar-se numa
poltrona. Agora só restava esperar.

100
XI

Afinal, o relógio bateu quatro horas e o Sr. Mesurat levan­


tou-se da poltrona para sair com a filha. Adrienne já estava
pronta. Vestia um pequeno colete azul com mangas bufantes
e um chapéu de palha preta, ligeiramente erguido atrás, para
acomodar os cabelos abundantes. Nas mãos cobertas por uma
luva de renda, girava com impaciência a sombrinha.
— Vamos — disse o pai, notando sua inquietação sem
imaginar a causa. — Você vai sair.
E ajuntou, olhando o céu:
— Se o tempo continuar bom, vai haver concerto na praça.
Puseram-se a caminho imediatamente. Embora soubesse o
itinerário que fariam, a jovem continuava inquieta. Bastava
que, ao passarem pelo correio, o pai resolvesse atravessar a
rua um pouco antes, para impedir que colocasse as cartas na
caixa. Mas isso não aconteceu, e Adrienne cumpriu sua mis­
são exatamente como haviam planejado. Caminhava perto
da parede, e, ao chegar à caixa, colocou as cartas com um
gesto rápido que não despertou a menor suspeita. O sucesso
a deixou tão satisfeita que num impulso segurou o braço
do pai, como se, com um pequeno gesto de afeição, quisesse
se apoiar nele.
— O que há com você? — perguntou o velho, estupefato.
Ela enrubesceu e retirou a mão.
— Estou um pouco cansada — murmurou.
— É ridículo, não andou nem cinqüenta passos.
Continuaram a caminhar em silêncio. Logo avistaram o
pequeno parque cheio de tílias, doado à cidade pela munici­
palidade. O relógio da prefeitura tocou quatro e quinze
e os grupos de pessoas começaram a se dirigir para o inte-

101
rior do parque, lançando olhares rápidos para o céu. Depois
de passarem pelo portão, Adrienne e o pai tomaram o cami­
nho central que levava ao coreto cujo teto vermelho e as
pequenas colunas podiam ser vistos de longe. Em volta dessa
construção que procurava imitar a arquitetura chinesa, esta­
vam dispostas cadeiras de armar, muitas delas já ocupadas,
mas um hábito de mais de oito anos garantia ao Sr. Mesurat
e à filha dois bons lugares, um pouco atrás do regente da
orquestra. Quando passavam entre as cadeiras, Adrienne to­
cou o cotovelo do pai.
— Papai, há alguém no meu lugar.
Uma senhora gorda com um vestido castanho ocupava a
cadeira de Adrienne.
— Ora, ora, que maçada! — disse o Sr. Mesurat, que se
tornava o homem mais tímido do mundo assim que punha os
pés na rua. — Vá explicar àquela senhora. ..
E ficou um pouco atrás, enquanto a filha se dirigia para
a intrusa.
Adrienne parou na frente dela e disse:
— Sinto muito, senhora...
Mas interrompeu-se imediatamente. Era a Sra. Legras.
— Sente o que, senhorita? — perguntou a Sra. Legras, er­
guendo a cabeça.
Sua voz era irônica e calma e a expressão divertida. Não
devia ter mais de quarenta anos; a idade já deixara marcas,
mas o rosto oval e cheio, de traços regulares, era agradável.
O nariz arrebitado e os lábios grossos traíam uma sensualida­
de que combinava com o ar majestoso que os traços adqui­
rem quando tomados pela gordura. A jaqueta de sarja enfei­
tada de tafetá estava entreaberta, deixando ver um luxuoso
peitilho de renda sobre a blusa branca. Uma pequena rede
que pendia do chapéu segurava os cabelos abundantes. Exa­
lava um perfume forte de pó-de-arroz.
— Não vai me dizer que estou sentada na sua cadeira —
continuou. — É a terceira vez que me dizem isso hoje. Não
vou sair daqui.
E ajuntou, como se houvesse alguma ligação entre os dois
fatos:

102 t
— Além disso, eu conheço você. É minha vizinha da Vila
das Bétulas.
Adrienne inclinou a cabeça num gesto de assentimento.
Sentia-se constrangida e confusa entre o despeito de ver essa
mulher ocupando o seu lugar e o espanto de se encontrar
face a face com a Sra. Legras.
— Não faz mal — murmurou por fim. — Podemos nos
sentar em outro lugar.
— Sente-se aqui ao meu lado. Quem está com você?
O Sr. Mesurat tinha se adiantado e ouvia a conversa com
ar embaraçado. Adrienne o apresentou timidamente e os dois
sentaram-se, a jovem entre o pai e a Sra. Legras. Inconscien­
temente envergonhava-se do pai e voltou-se para sua vizinha,
para que esta não visse o Sr. Mesurat. Mas a Sra. Legras
curvava-se curiosa, para a frente e para trás, observando-o
com o canto dos olhos. O velho virou-se um pouco de lado,
aborrecido com essa atenção e furioso por não estar sentado
no seu lugar de sempre. Que figura faria se viessem reclamar
a cadeira que ocupava?
— Seu pai é simpático — cochichou a Sra. Legras ao ou­
vido de Adrienne. — Tímido, não é?
— Sim, senhora.
— Ê, estou vendo. Uma bela cabeça. Eu diria que é mi­
litar.
Adrienne enrubesceu. Não podia, por nada deste mundo,
confessar a verdadeira profissão do pai.
— Fez o serviço militar em Bourges — balbuciou.
E ajuntou vivamente, abrindo a bolsa:
— Vou comprar o programa do concerto.
— Já comprei — disse a Sra. Legras.
Entregou-lhe a folha de papel que tinha nas mãos. Adrien­
ne examinou o programa por alguns momentos com olhos
que pareciam ofuscados e o devolveu sem ter lido uma pa­
lavra. Então, a Sra. Legras inclinou-se para a frente e dirigiu-
se ao Sr. Mesurat:
— Vejo que gosta de música, senhor.
Essas palavras amáveis e banais fizeram enrubescer o ve­
lho. Passou o polegar pela barba e respondeu brevemente

103
que sempre assistia aos concertos da sociedade musical. A
Sra. Legras fez um gesto de aprovação e sorriu. Tinha dentes
grandes e regulares, dos quais parecia se orgulhar.
— Você disse que ele era oficial em Bourges — disse ao
ouvido de Adrienne. — Há quanto tempo moram em La
Tour-l’Evêque?
A jovem ia responder, mas foi impedida pelas exclama­
ções à sua volta; os músicos acabavam de chegar e as pes­
soas que passeavam ainda ao redor do coreto precipitaram-
se para as cadeiras desocupadas, sentando-se tumultuada-
mente. Logo depois, a orquestra atacou uma peça brilhante.
Há tanto tempo Adrienne assistia a esses concertos que já
não sentia nenhum prazer especial. Tinha bom ouvido, o bas­
tante para saber que os músicos eram medíocres, que nem
sempre observavam o ritmo e que a qualidade dos instru­
mentos não fazia justiça ao virtuosismo dos compositores.
Nesse dia, porém, desde os primeiros acordes sentiu uma
estranha emoção. Sem dúvida os últimos acontecimentos de
sua vida a tinham deixado mais sensível. Ouviu uma longa
frase musical que se elevava lenta e preguiçosamente ^ de
súbito "passava a um ritmo caaa vez mais acelerado. Sentiu-se.
atingida por uma voz que se dirigia a ela, numa linguagem
que compreendia, e entre seu espírito e a orquestra estabele­
ceu-se essa comunicação misteriosa, essa espécie de diálogo
secreto que é o mais poderoso encanto da música e que ex­
plica a sua influência sobre o coração humano. Adrienne Es­
cutava. Toda a alegria e toda a tristeza que se sucediam nos
temas musicais, comunicando-se entre si, cortavam-lhe o co­
ração e, ao mesmo tempo, traziam-lhe aos olhos lágrimas de
prazer. Reconhecia-se nos ritmos diversos que eram como as
batidas do seu coração. Lembrava-se da dor, da solidão e,
na estrada nacional, do riso mais triste do que um soluço.
Teve uma sensação de abafamento. Era como se num minuto
estivesse revivendo todo o sofrimento dos últimos meses e a
dor, expressa numa voz que não era a sua, parecia mais viva
e mais real. Pela primeira vez ouvia a história da sua infeli­
cidade e ela lhe pareceu apavorante. Talvez tivesse se habi­
tuado ao sofrimento, como a uma ferida incurável, e a música

104
explicava tudo, todas as razões pelas quais devia continuar
suportando. Teve a impressão de que todos ali compreendiam
que a música falava dela, e com uma sensação de embaraço
ji lançou um rápido olhar à Sra. Legras. Mas a gorda senhora
parecia insensível à beleza que atingia Adrienne tão profun­
damente e olhava à sua volta com expressão curiosa e satis­
feita.
A música terminou e os aplausos sobressaltaram Adrienne.
Sentiu que alguém colocava a mão sobre a sua com doçura e
autoridade, e, voltando-se, viu que a Sra. Legras a observava
atentamente.
-— Bem — disse ela em voz baixa —, é a música que a
faz chorar?
—• Não percebi que estava chorando — respondeu Adrien­
ne, forçando um sorriso. Queria retirar a mão, mas a Sra.
Legras a segurava com tanta determinação que seria um
gesto de mau gosto.
— Qual é o nome dessa música? — perguntou.
— Não sei — respondeu a Sra. Legras. Uma Dama branca
qualquer. Sabe, você vai tomar lanche comigo — continuou
em tom sério e insinuante ao mesmo tempo. — Somos vizi­
nhas e precisamos nos conhecer.
Adrienne corou de prazer. Era como se a música que aca­
bara de ouvir fosse o prenúncio magnífico de uma nova vida.
Se não, por que teria se comovido tanto? Essa mulher quase
desconhecida que a convidava para a casa que tanto queria
conhecer não seria um bom sinal? Teve vontade de pergun­
tar se da Vila Louise se via o interior da casa branca da Rua
Carnot, e voltando os olhos brilhantes para a Sra. Legras ia
aceitar o convite, quando se lembrou da irmã. Não seria me­
lhor certificar-se primeiro de que tudo estava pronto para a
sua partida? Um pequeno contratempo poderia pôr tudo a
perder.
— Hoje não posso — disse.
— Por quê? — perguntou a Sra. Legras.
( Tinha um ar presunçoso, como se o fato de conhecer
Adrienne há cinco minutos lhe desse o direito de ouvir suas
confidências. A jovem sacudiu a cabeça.

105
— Outro dia, senhora, com muito prazer.
— Amanhã, então.
— Sim, amanhã.
E perguntava a si mesma como seria o dia de amanhã,
qual a reação do Sr. Mesurat ao desaparecimento de Ger­
maine, mas não queria pensar muito nessas coisas. No mo­
mento, estava tranqüila, quase feliz. Será que isso não bas­
tava? Os aborrecimentos nos alcançam sem que, por assim
dizer, precisemos ir ao seu encontro. Temia apenas que o
pai tivesse ouvido a conversa com a Sra. Legras. E se criasse
dificuldades? Se a proibisse de ir à Vila Louise? Aparente­
mente, porém, ele estava alheio às duas, lendo um programa
que apanhara do chão. Adrienne inclinou-se para a sua vi­
zinha:
— Não diga nada a meu pai — murmurou.
E como a Sra. Legras parecesse surpresa, ajuntou rapida­
mente:
— Explico depois.
Um ruído estridente interrompeu a conversa. Os músicos
afinavam os instrumentos. Após alguns instantes, a orquestra
rompeu numa marcha pretensiosa e barulhenta. Com um in-
controlável sentimento de desgosto Adrienne reconheceu a
melodia que o pai cantarolava constantemente e viu que ago­
ra ele acompanhava a música com um tímido movimento da
cabeça. Presa de súbita irritação, apertou com força o fecho
da bolsa. Essa marcha estúpida e feia, que fazia brilhar os
olhos das pessoas à sua volta, era a sua vida presente. Podia
ouvir o Sr. Mesurat apagando a luz e subindo a escada com
passos lentos, assobiando por entre o bigode. Sentiu horror
de si mesma e estremeceu como se estivesse nauseada.
Entre o ruído dos aplausos, ouviu a voz tranqüila da Sra.
Legras:
— Que música idiota!
Adrienne teve vontade de segurar a mão da mulher, mas
faltou-lhe coragem. Alguns pingos de chuva começaram a
cair sobre as árvores. Abriam-se guarda-chuvas. Várias pes­
soas ergueram-se, indecisas, com um olhar interrogador para

106
os músicos que conversavam entre si. De repente, a chuva fi­
cou mais forte e a confusão foi geral. Subiam os degraus do
coreto, abrigavam-se sob as árvores. O Sr. Mesurat segurou
o braço da filha.
— Venha! — disse ele.
— Até logo. Vou me abrigar — exclamou a Sra. Le­
gras, abrindo uma minúscula sombrinha de seda azul.
Trocou um olhar de cumplicidade com Adrienne, que se
voltara para ela, e desapareceu na multidão.

107
XII

Ao entrar na Vila das Bétulas, Adrienne sentiu-se como


um condenado voltando à penitenciária. A conversa com a
Sra. Legras trouxera-lhe uma penosa nostalgia da liberdade.
Aquela mulher podia fazer o que bem entendesse.. . Atra­
vessou correndo o pequeno jardim, evitando as poças d’água,
e subiu as escadas até o terraço que a chuva fustigava com
violência. No vestíbulo bateu com força os pés no chão,
uma ou duas vezes, e entrou na sala depois de enxugar os
sapatos.
Estava escuro. A Vila das Bétulas era um lugar lúgubre
com as janelas fechadas. O Sr. Mesurat entrou atrás dela,
ofegava.
— Não tiveram tempo de terminar o programa — ex­
plicou para Germaine, que, como sempre, estava deitada
no canapé. — Só a abertura e uma marcha, sabe.. . aquela...
Cantarolou.
Adrienne passou por trás dele, encolhendo os ombros e
levantando os olhos para o teto.
— Muita gente? — perguntou Germaine.
— Nem um lugar vazio — respondeu o velho. — Um
sucesso!
— Conhecemos a Sra. Legras — disse Adrienne, que não
pôde deixar de falar na nova amiga, como para afastar a
tristeza e o tédio que pesavam sobre a sala. Tirou o chapéu
e as luvas que, molhadas, colavam-se às suas mãos, e os co­
locou sobre a mesa.
— Sim — disse o velho. — Pretensiosa, não é?
Adrienne enrubesceu.
— Só porque se veste bem? Não acho não.

ros
— É possível — concedeu o Sr. Mesurat, aborrecido por
Adrienne não ter concordado. — Mas eu acho.
Sentou-se na sua poltrona.
— Não sei o que o marido dela faz. Ouvi dizer que são
ricos.
— Ricos — repetiu Germaine como um eco.
— Sim, mas não se sabe de onde vem o dinheiro — obser­
vou o velho, erguendo o dedo indicador.
Adrienne apanhou o chapéu e as luvas e saiu da sala. Esse
tipo de diz-que-diz a desagradava e arrependia-se de ter
mencionado o nome da Sra. Legras. Ao sair da sala sentiu
um alívio quase físico. Teve vontade de pular como uma
criança, e subiu correndo ao quarto para ver da janela a vila
onde estaria no dia seguinte. Sentia-sé' ãlégréT assím de um
momcnlo para o outro e agradecia a sôrte de ter um quarto
onde s p . sazioTfãr ^ nsar^npRríã^lios seus pla-
nos. nas suas_ esperanças, e onde podia esconder , essaJ:elici^
dade inexplicável e súbita.
Fechou a porta e sentou-se perto da janela, abrindo uma
parte da cortina. Chovia a cântaros e o céu estava sombrio.
Uma água barrenta corria no meio-fio e as pedras da rua
brilhavam; o ruído monótono da chuva enchia o ar.
Ao fim de alguns minutos, Adrienne ouviu o barulho de
uma carruagem que vinha da cidade; era o carro de aluguel,
e parou na frente da Vila Louise. A grande capota de couro
reluzente de chuva estava fechada, e a jovem viu apenas de
relance sua nova amiga entrar em casa, depois de gritar algu­
ma coisa para o cocheiro. O portão do jardim fechou-se rui­
dosamente e a Sra. Legras subiu a escada, tão depressa quan­
to lhe permitiam as pernas grossas, batendo várias vezes a
aldrava da porta. Ouviram-se latidos insistentes dentro da
casa; afinal, a porta se abriu e a Sra. Legras entrou.
Tudo se passara rapidamente. A carruagem fez a volta e
retomou o caminho da cidade. Adrienne fechou a cortina e
entregou-se às suas reflexões. Essa independência desfrutada
pela vizinha... Poder tomar uma carruagem, fazer o que
tinha vontade. Encostou a testa na janela; através da cortina
podia ver, à luz do crepúsculo, os muros brancos da casa

109
de Maurecourt e, sobre o telhado de ardósia, a copa escura
da pequena árvore imóvel sob a chuva. Lá embaixo na sala,
o Sr. Mesurat falava com Germaine e o som confuso de sua
voz chegava até Adrienne. Sentiu-se triste, do mesmo modo
como há pouco ficara feliz. A alegria desapareceu tão rapi­
damente quanto chegara.
Depois do jantar, a temperatura baixou tanto que Germaine
pediu que acendessem a lareira. De outra forma, não poderia
mais ficar na sala. O pai a princípio aborreceu-se, chocado
com a idéia de acender o fogo no começo de junho, mas aca­
bou concordando e encarregou-se de arrumar os ramos verdes
no fundo da lareira. O mais importante para ele era o fato de
que assim poderiam jogar cartas, como sempre. Sem dúvida
esse fogo lhe parecia ridículo e extraordinário, mas consentiu
em violar o costume para não sacrificar um hábito que o
agradava cada vez mais. O jogo de trinta-e-um coroava o seu
dia. Depois, podia apagar as luzes, certo de ter trabalhado
satisfatoriamente; podia dormir.
Enquanto o pai acendia o fogo, agachado na frente da la­
reira, Adrienne embaralhava as cartas, os braços apoiados
sobre a mesa. Ao seu lado, a irmã, recostada numa poltrona,
seguia os gestos de Adrienne com olhar febril e absorto. Es­
tava enrolada em uma manta de lã e colocara sobre os om­
bros uma jaqueta de sarja, cujas mangas pendiam ao lado dos
braços da poltrona. O rosto afogueado exprimia uma dolorosa
contenção de espírito. O Sr. Mesurat erguia e abaixava a
chapa da lareira ruidosamente, e ela aproveitou para pergun­
tar, inclinando-se para Adrienne:
— Colocou as cartas no correio?
A jovem moveu a cabeça em sinal afirmativo. Germaine
fechou os olhos, aliviada. Depois de alguns instantes, o Sr.
Mesurat ergueu-se e com a ponta do pé calçado de chinelo
suspendeu a chapa da lareira.
A sala iluminou-se com a luz alegre de reflexos dançantes.
Os galhos retorciam-se com o calor do fogo. Germaine abriu
os olhos. O pai a observava, um pouco afogueado pelo es­
forço; e, esfregando as mãos, perguntou:
— Está satisfeita?

110
f Ela murmurou:
— Sim. — Ergueu-se um pouco na cadeira. Começou a
apanhar com a mão ossuda as cartas que Adrienne dava uma
a uma.
O Sr. Mesurat observou as chamas por alguns segundos
e teve uma idéia.
— Adrienne — perguntou —, onde você deixou seus sa­
patos?
— Na cozinha, com os seus, para secarem mais depressa
— respondeu a jovem.
Ele saiu da sala. Germaine o acompanhou com os olhos,
depois voltou-se para a irmã.
— Adrienne — disse com urgência.
Adrienne parou de distribuir as cartas.
— O que você quer? — Ficou intrigada com a expressão
do rosto da irmã. Parecia sorrir. Havia algo diferente nos
seus olhos.
— O que você quer, Germaine? — repetiu.
Germaine estendeu a mão que Adrienne ignorou.
— Vou partir, Adrienne — sua voz estava entrecortada.
j — Não voltarei nunca mais.
Passou o lenço nos lábios e continuou, abaixando um pou­
co a cabeça:
— Nunca mais! Está tudo acabado. Acabado. ..
E de súbito, inclinando-se para a frente, apoiou o rosto
nas cartas que segurava abertas em leque e começou a soluçar
descontroladamente. Adrienne levantou-se.
— O que você tem, Germaine? — balbuciou.
E, num gesto medroso, tocou com a ponta dos dedos o
ombro que tremia com os soluços. Mas Germaine não parou
de chorar.
— Fique quieta — pediu a jovem. — Papai já vem aí.
Com efeito, ouviram os passos do Sr. Mesurat no cor­
redor que levava à cozinha. Germaine ergueu um pouco o
corpo e mordeu com força o lenço que colocara sobre a boca
para abafar os soluços. Conseguiu conter as lágrimas, e o
medo de despertar suspeitas no pai e de prejudicar seu plano
l 111
de fuga fez com que se acalmasse. Adrienne sentou-se e con­
tinuou a dar as cartas.
— Aqui estão — disse Mesurat, entrando. — Estão en­
charcados. Não secariam nunca na cozinha. — Segurava um
par de sapatos em cada mão e colocou-os perto do fogo cui­
dadosamente, com as pontas voltadas para a sala. Adrienne
e Germaine o observavam furtivamente com a mesma expres­
são de curiosidade e repulsa. O velho estava abaixado perto
do fogo e fazia lembrar, com um ridículo odioso, um garoti-
nho brincando na areia. A jovem sentiu que corava de ver­
gonha e baixou as pálpebras, mas Germaine não desviou os
olhos.
— Vamos, papai — disse afinal Adrienne, batendo com
as cartas na mesa. — Estão bem assim. Venha jogar.
Ele se ergueu, apoiando-se na mesa com uma das mãos,
e aproximou-se da sua poltrona.
— Quem começa? — perguntou.
Apanhou as cartas e examinou-as.
— Eu — disse Adrienne.
Ela jogou uma carta no centro da mesa. Germaine a cobriu
com uma das suas. O Sr. Mesurat jogou uma terceira sobre
as outras duas com um ruído seco. Até o fim da partida,
nenhum deles disse uma palavra.

Adrienne dormiu mal, apesar de sentir-se extremamente fa­


tigada.
Conseguira esgueirar-se no quarto do pai e apanhara a
chave no bolso do paletó, uma operação fácil, pois o velho
dormia profundamente, mas o pavor de acordá-lo tropeçando
num móvel, de ouvi-lo gritar, de ser descoberta, fazia com que
o suor escorresse pelo seu rosto, e voltara ao quarto comple­
tamente esgotada. Despiu-se no escuro, atirando-se na cama.
Cochilou por alguns momentos, e de súbito ergueu-se brus­
camente, como se alguém lhe tivesse tocado no ombro, di­
zendo: “Vamos, abra os olhos, pense, pense”. Virava-se in­
quieta na cama, procurando no travesseiro um lugar ainda

112
não marcado pelo peso da cabeça. Mas em vão tentava fugir
aos pensamentos. O sono inquieto durou pouco.
Os acontecimentos que se anunciavam faziam-na recordar
as últimas semanas. Sentia uma necessidade de ligar o pas­
sado ao futuro, esperando assim, por uma lógica misteriosa,
adivinhar o que a vida lhe reservava, recordando tudo o que
lhe tinha acontecido de bom e de mau. Que lugar ocupava o
amor na sua vida? Trouxera alguma mudança importante?
Sentiu-se tentada a responder “não” a essa pergunta, mas
refletiu que não teria ajudado a fuga de Germaine com tanto
entusiasmo se não ambicionasse o seu quarto. E por que que­
ria tanto aquele quarto? Depois, pensou na Sra. Legras. Ti­
nha enrubescido como uma menina ante aquela mulher gorda
e a tratara com a maior delicadeza. Amanhã iria visitá-la.
Por quê? Esperando o quê? Não ousava confessar nem a si
mesma. Era também um efeito do seu amor.
O pensamento voou então para o objeto dessa paixão,
aquele que sem querer, sem saber, a fazia tão infeliz. Pare-
cia-lhe que sofria menos ultimamente. Talvez por não tê-lo
visto desde o dia em que cortara os braços na janela? Então,
por que esse desejo de rever Maurecourt? Por que vigiava a
rua o dia inteiro? Por acaso ficaria curada mais rapidamente
se nunca mais o visse? Mas só a idéia lhe trazia lágrimas aos
olhos. Disse em voz alta, enxugando os olhos com o lençol:
— Algumas pessoas são doentes, eu estou apaixonada. Nada
há a fazer.
E, chorando, adormeceu afinal.

Na manhã seguinte, muito cedo, foi acordada por batidas


na porta do quarto. Ergueu-se de um salto e correu para
abrir. Era Germaine. O rosto horrivelmente emaciado e as
olheiras profundas denunciavam uma noite de insônia.
— Vai partir? — perguntou Adrienne.
— Sim, vou partir — Germaine respondeu, decidida. —
Dê-me a chave.

113
Estava vestida de preto e carregava com dificuldade uma
pequena valise cheia de objetos. O chapéu, muito grande
para a cabeça, dava-lhe um ar ridículo. Notando o olhar de
Adrienne, disse:
— Sim, apanhei um dos seus chapéus. Os meus estão
muito velhos.
Cansava-se com o mínimo esforço. Colocou a valise no
chão e apoiou-se no batente da porta, enquanto Adrienne
ia apanhar a chave.
— Obrigada — disse. — São quinze para as seis. Vou
esperar lá embaixo.
Adrienne concordou, inclinando a cabeça. Não lhe agra­
dava o modo inquieto e a expressão solene com que a irmã
a observava. De súbito, Germaine balbuciou:
— Adeus, Adrienne.
— Adeus.
Mas Germaine não se moveu. Olhava o rosto constrangido
de Adrienne com ar desesperado.
— Vai me escrever? — perguntou.
A jovem ergueu os ombros. Bruscamente, Germaine esten­
deu os braços; seus lábios tremiam e as lágrimas brilhavam-
lhe nos olhos, mas Adrienne recuou para dentro do quarto,
apavorada. Sem uma palavra, Germaine apanhou a valise e
desceu a escada, apoiando-se na parede.
Adrienne voltou a se deitar. Podia ouvir Germaine abrin­
do e fechando cuidadosamente a porta da sala de jantar.
Chovia. As gotas d’água batiam na janela com um som
longínquo. A jovem puxou o lençol até a boca e olhou para
o teto, pensativa.
Arrependia-se de não ter beijado Germaine, ou melhor,
de não ter podido beijá-la. Ao ver aqueles braços estendidos,
um horror instintivo a fizera fugir para dentro do quarto.
Talvez um beijo fosse o bastante para transmitir a doença.
Sem dúvida Germaine afirmava que não era contagiosa, mas
não é isso que dizem todos os doentes?
Agora, Adrienne estava completamente desperta. Volta­
ram os temores. E se o pai levantasse mais cedo que de cos­
tume e descesse para a sala de jantar encontrando a filha

114
pronta para partir? Não, isso não era possível. A única coisa
a temer era que ele ouvisse a carruagem parando na esquina.
Assim mesmo, o que poderia fazer? Afastou esses pensa­
mentos e começou a fazer planos para o dia que começava.
De manhã iria ao quarto da irmã; de tarde à casa da Sra.
Legras.
O relógio bateu seis horas. Mais uma vez perguntou a si
mesma qual seria a reação do Sr. Mesurat ante o desapareci­
mento da filha. Depois de refletir por alguns momentos, re­
solveu fingir que ignorava tudo, deixando que ele descobrisse
os detalhes sozinho. Não pôde conter um riso silencioso ao
imaginar a estupefação do velho, e escondeu o rosto com o
lençol, como se temesse ser surpreendida.
Ouviu então uma porta que se abria lentamente. Era Ger­
maine saindo da sala de jantar. Agora atravessava o salão
e seguia pelo corredor. “Imprudente”, pensou Adrienne,
“está arrastando os pés”. Outra porta abrindo e fechando.
Agora podia ouvir os passos hesitantes da irmã no caminho
do jardim. Seu coração disparou. Não resistiu à tentação de
levantar-se e chegar à janela. Germaine estava no portão,
um pouco inclinada para a frente. A valise e o guarda-chuva
estavam no chão amassando um pé de gerânio rosado. Ela
inclinou-se um pouco mais; assim com as costas curvadas e o
vestido preto, parecia um inseto. Moveu os braços. Afinal,
Adrienne ouviu o rangido da chave na fechadura e tapou os
ouvidos. Como era possível o pai não escutar? Mas Germaine
abriu o portão, apanhou a valise e o guarda-chuva e desapa­
receu.
Adrienne voltou para a cama. Tirou de baixo do traves­
seiro um pequeno relógio de ouro, que usava na cintura pre­
so a uma corrente durante o dia: seis horas e cinco minu­
tos. Por que Germaine tinha saído tão cedo? Ia ficar gelada
na chuva. Fechou os olhos, aconchegando as cobertas. Queria
dormir, não viver esses minutos que passavam tão lenta­
mente. De repente, teve a impressão de ouvir os passos do
pai descendo a escada e, tomada de pânico, jogou para longe
as cobertas. Mas tinha se enganado; o silêncio só era quebra­
do pelo murmúrio da chuva na vidraça.

115
Já não podia mais se conter. Levarüou-se. e vestiu o
penhoar. Por que a carruagem não chegava? Por que o reló­
gio não batia o quarto de hora? E, sem .raciocinar que uma
pergunta era a resposta^ da óutra",''começou a andar entre a
cama e a janela, presa de um terror que tentava em vão do­
minar.
Ouviu a tosse da irmã na rua. Ao longe, o sino da igreja
deu uma badalada. Apanhou de novo o relógio e sentou-
se à janela; dali quase podia ver Germaine. Avistava a valise,
e começou a olhar do relógio na palma da sua mão para o
muro de pedra e a velha valise de couro, repetidamente. A
água lamacenta corria no meio-fio, ondulada pela desigual­
dade das pedras, que a faziam parecer uma trança de cabelo.
Adrienne, na sua impaciência, notava cada detalhe, ávida por
uma distração que fizesse passar o tempo.
Afinal, ouviu a carruagem numa rua próxima. Só podia
ser a de Germaine. Eram seis e vinte. Ergueu-se, agitando as
mãos como uma criança. A carruagem apareceu. Adrienne
tornou a tampar os ouvidos; esse barulho todo não acorda­
ria o pai? Seu medo durou pouco. Viu Germaine fechar o
guarda-chuva e atirar a valise para dentro da carruagem pa­
rada. Segurava agora a alça de ferro e entrava com dificulda­
de. Adrienne teve a impressão de vê-la cair pesadamente no
banco.
Alguns segundos mais tarde, a rua estava deserta e silen­
ciosa novamente. Ao lado da casa branca, a pequena árvore
de folhas escuras tremia com a brisa matinal.

116:
XIII

Adrienne não pôde deixar de enrubescer ao entrar na sala,


temendo a hora em que o Sr. Mesurat perguntasse por que
Germaine ainda não havia descido. Para sua surpresa, viu o
pai preparando-se para abrir o jornal, sentado à mesa onde
estavam postos apenas dois lugares. Sua confusão aumentou
quando o velho lhe disse bom-dia, por trás do jornal, com
voz que não lhe pareceu em nada diferente. Pensou estar
sonhando e sentou-se em silêncio. Com mão pouco firme,
serviu-se de café e partiu o pão. Sentia o coração disparado.
Lançava olhares furtivos na direção do pai, mas o jornal que
o escondia completamente da filha estava firme entre os
dedos curtos e avermelhados do velho.
Adrienne começou a tomar o café. Subitamente, o Sr. Me­
surat jogou o jornal no chão e aproximou a cadeira da mesa.
— O que há? — perguntou. — Não quer saber a tempe­
ratura hoje?
E, sem esperar resposta, tirou do bolso um pedaço de
papel amarrotado, colocando-o sob os olhos da filha.
— Leia isto.
Era um bilhete de quatro linhas rabiscadas a lápis.
Adrienne reconheceu a letra de Germaine e leu:

“Vou-me embora, papai. Não me procure, nin­


guém sabe o meu endereço. Apanhei no escrínio de
mamãe Iodas as jóias que me pertencem. Adeus.”

111
— Onde encontrou isso? — balbuciou a jovem.
A pergunta ficou sem resposta. O velho guardou o bilhete
no bolso e serviu-se de café. Tinha o rosto inescrutável das
pessoas a quem o espanto anula a ira e que só conseguem
controlar sua fúria em silêncio. Tomou o café sem erguer os
olhos. Quando terminou, levantou-se e saiu de casa.
Adrienne ficou sozinha. Pela primeira vez em toda a sua
vida estava só em casa e pensou nisso com um misto de
prazer e ansiedade, como se a solidão guardasse mistérios
infinitos. Podia ir aonde bem entendesse. Ao quarto de Ger­
maine, ou até mesmo sair e fugir, como já imaginara uma
vez. Contudo, ficou sentada imóvel, contemplando a xícara
de café ainda pela metade. Algo a impedia de se levantar, um
cansaço súbito e inexplicável. Logo o pai estaria de volta,
pondo fim a essa curta liberdade. Seria outra vez a filha, a
escrava de Antoine Mesurat. Ficou ali sentada, com uma
sensação agradável de se abandonar à sorte, de não mais
lutar, deixar que tudo corresse normalmente. Há muito pro­
curava ser feliz; agora não tentaria mais. Viveria um dia
depois do outro, curvando-se à cólera do velho Mesurat. Sen­
tiu sono. Apoiou a cabeça nos braços e cochilou.
Acordou ouvindo o relógio bater nove horas e admirou-
se de o pai ainda não ter voltado. Geralmente ia à estação
comprar o jornal e voltava em quinze minutos. Onde estaria
ele? Resolveu não se preocupar e, levantando-se, arrumou
ligeiramente os cabelos.
Pensou em ir ao quarto da irmã, mas o medo do contá­
gio a fez hesitar; desde que Germaine lhe dissera que estava
morrendo, Adrienne não suportava nem a idéia de tocar em
qualquer coisa que a irmã tivesse usado. Mas não encorajara
sua partida para ficar com o quarto? Parecia-lhe absurdo
rejeitar o fruto da vitória por um escrúpulo tolo. Além disso,
pensava, tentando estimular sua coragem, se o quarto estiver
contaminado, a casa toda também está.
Após refletir por alguns minutos, decidiu um plano
de ação. Foi à cozinha e colocou enxofre num pires. Depois
subiu ao segundo andar. “Devia estar feliz”, pensava. “Pela
primeira vez, depois de um mês, vou voltar àquela janela.

118
Será que não amo mais Maurecourt?” A pergunta fez com
que o sangue lhe subisse às faces.
Empurrou a porta e entrou no quarto com ar decidido,
mas contendo a respiração. A janela estava fechada. Abriu-a
e aspirou demoradamente o ar misturado às gotas de chuva.
Olhou a casa branca por algum tempo. O telhado de ardósia
luzia como metal sob a chuva que resvalava sobre ele. A ja­
nela do primeiro andar estava entreaberta e podia ver a ponta
do tapete vermelho, do qual quase já tinha se esquecido.
Sentiu os olhos se encherem de lágrimas que não conseguia
reprimir.
— Como sou infeliz — murmurou.
E ajuntou rapidamente, em tom pensativo ao qual se
mesclava alguma revolta:
— Por causa dele.
Fechou a janela com gesto rápido, como se a cena fosse
dolorosa demais para ela. Apanhou um fósforo, riscou-o no
mármore da lareira e pôs fogo no enxofre do pires, que ime­
diatamente começou a soltar uma fumaça acre. Saiu do quar­
to às pressas.

O Sr. Mesurat só voltou na hora do almoço e não trocou


nem uma palavra com a filha. Parecia mesmo evitá-la. À
mesa, leu o jornal, ou fingiu ler, pois Adrienne o surpreen­
deu algumas vezes com os olhos perdidos no vazio, por cima
do lomhão, numa meditação que só interrompia para levar
o garfo à boca. Esse silêncio, contrário a todas as suas pre­
visões, convinha a Adrienne, que interiormente se felicitava
por ser deixada em paz.
Logo depois do almoço, o Sr. Mesurat pôs o chapéu e saiu
novamente, sem demonstrar nenhuma intenção de levar a
filha. Essa alteração completa dos seus hábitos a princípio
divertiu Adrienne, mas depois deixou-a inquieta. Vivera tanto
tempo de acordo com uma rotina rígida que adquirira a ma­
nia das horas certas para tudo, e essa mudança nas idas e
vindas do pai lhe parecia perturbadora. Embora não confes­

119
sasse conscientemente, isso a chocava como se fosse uma con­
duta irregular.
Essas pequenas preocupações, porém, logo foram substi­
tuídas por pensamentos bem diferentes. Lembrou-se da ele­
gância da Sra. Legras no dia em que a conhecera, e não
queria ir à casa dela sem dar à toalete uma atenção escrupu­
losa. Subiu para o quarto e passou em revista seu guarda-
roupa. O exame foi longo porque a escolha era restrita. Tinha
três saias de verão, uma de sarja muito justa e as outras de
algodão branco. Chovia. Se usasse uma saia branca, na certa
ia sujá-la de lama porque não tinha sorte, e ela ficaria horrí­
vel. Por outro lado, achava que a de sarja, justa, a envelhecia.
Resolveu experimentar as três saias e, como continuasse inde­
cisa, resolveu-se por um costume de inverno. Uma saia de
fazenda grossa, marrom claro, e uma blusa plissada, com pu­
nhos e gola engomados e um modesto jabô de renda.
Ãs três e meia estava pronta. Desmanchara e refizera o
penteado três vezes, e agora tinha a certeza de que nada
mais havia para modificar e que estava tão bonita quanto
possível. Examinou-se atentamente no espelho, fechando os
olhos e abrindo-os rapidamente, para ver o efeito. “Se fosse
me encontrar com Maurecourt, teria me vestido melhor?”
perguntou a si mesma. Sacudiu a cabeça e sentou-se. Toda
a alegria desvaneceu-se ao pensar que não ia vê-lo nesse dia,
nem em outro qualquer, e por isso tanto fazia estar bem ou
mal vestida, bonita ou feia. Passara uma hora na frente do
espelho só para tomar chá com a Sra. Legras, apenas para
isso? Qual a sua esperança secreta? Ergueu os ombros e
resolveu sair antes que o pai chegasse e a impedisse.

A empregada apanhou seu guarda-chuva e a conduziu à


sala que parecia pequena demais para a quantidade de obje­
tos acumulados e dava uma desagradável impressão de po­
breza. Além disso, os móveis mal feitos e de material inferior
tinham passado por tantas mãos que possuíam a caracterís­
tica impessoal das coisas alugadas. As inúmeras cadeiras não

120
eram convidativas e sua diversidade era espantosa. De todos
os tipos, estavam dispostas em semicírculo, nos cantos, ou
ao lado de mesinhas atulhadas de lampiões e bibelôs. Uma
imensa planta de inverno esparramava suas folhas sobre o
piano de armário. Perto deste, uma escrivaninha avançava
seu bojo redondo, como que oferecendo à admiração os pu-
xadores das gavetas. As cortinas pregueadas e com franjas
espessas não deixavam passar a luz.
Adrienne sentou-se numa conversadeira e esperou. Sentia-
se constrangida. Um espelho com moldura dourada exces­
sivamente trabalhada mostrava-lhe a imagem de uma jovem
corada que enrubescia cada vez mais. Já se arrependia de
ter aceito o convite e imaginava o que diria, que desculpa
daria por ter chegado tão cedo. Um relógio encimado por
dois cupidos bateu três e meia. Tranqüilizou-se pouco
a pouco. Recostou-se na cadeira e olhou em volta, mais se­
nhora de si, sem poder acreditar que estava afinal na casa
da Sra. Legras, essa casa que há tanto tempo a intrigava. Pela
janela viu a Vila das Bétulas; pareceu-lhe tão absurdo que
não pôde deixar de sorrir. De que parte da casa se avistava
o pavilhão branco? Teria coragem de perguntar?
A porta se abriu bruscamente e a Sra. Legras entrou na
sala precedida por um robusto bassê que, rosnando, foi logo
cheirar os sapatos de Adrienne.
— Até que enfim! — exclamou a Sra. Legras, estendendo
as mãos para a jovem.
Usava uma blusa de sede branca com um vasto peitilho
creme e uma saia de tafetá cinza, justa nas cadeiras, que se
alargava aos poucos até abrir-se num godê farfalhante na
altura dos joelhos. Os cabelos negros e espessos, arrumados
num penteado bufante sobre a testa, chegavam quase até as
sobrancelhas. Quando entrou, toda a sala ficou impregnada
de resedá.
— Não vamos ficar aqui — disse ela, segurando as duas
mãos de Adrienne. — Estaremos melhor no meu quarto.
Conduziu a jovem para fora da sala e, enlaçando a cintu­
ra de Adrienne, levou-a para a escada. Enquanto subiam,
falava com alegria e volubilidade.

121
— Então, estamos enganando seu pai — disse com uma
ligeira pressão dos dedos na cintura da jovem. — Vai me
contar por que ele é tão severo. Eu a tenho observado todas
as tardes, sabe? Foi um imenso prazer encontrá-la no con­
certo. Estava me aborrecendo tanto!
Explicou que viera a La Tour-FEvêque para descansar.
— Não tenho a sua idade — ajuntou, piscando o olho.
— Aqui estamos. Entre.
O quarto era pequeno, forrado de rosa antigo e vermelho.
Aqui também o ambiente tinha um luxo que dava impres­
são de pobreza. A cama de madeira clara imitava as formas
caprichosas do século XVIII, sem dúvida comprada numa
grande loja de Paris onde os móveis desse tipo eram fabri­
cados em série. Duas cadeiras do mesmo tipo, mas pintadas
de branco, ladeavam uma mesa minúscula e redonda com
tampo de mármore, dessas que parecem feitas para serem
derrubadas. O tapete, espesso mas manchado, abafava o ruí­
do dos passos.
— Que lindo! — exclamou Adrienne.
— Hem? — disse a Sra. Legras. — É gracioso. Puro
século XVIII. Tire o chapéu. Sim, eu insisto. Ali está o
espelho.
Adrienne inclinou-se um pouco e tirou o chapéu. Sentiu
que enrubescia novamente. Por que toda essa timidez com
uma pessoa tão amável? Teve uma súbita vontade de rir.
Esse quarto, esse mistério, a sua fuga, tudo tinha algo de
agradável, de imprevisto que a encantava. Voltou-se para a
janela e olhou através do brise-bise de musselina, mas viu
apenas a Vila das Bétulas.
— Alguma coisa errada? — perguntou a Sra. Legras, no­
tando seu desapontamento.
— Não, nada — respondeu Adrienne. — Chove ainda.
— Sente-se — disse a Sra. Legras, levando-a até a poltro­
na. — O chá será servido daqui a uma hora. Assim pode­
mos nos conhecer melhor.
Sentou-se, ajeitando as almofadas às suas costas, enquanto
o cão se deitava aos seus pés, sobre um escabelo.

122
— Em primeiro lugar, vou falar de mim para ficar mais
à vontade. Portanto, um resumo sobre a Sra. Legras. Boa pes­
soa de meia-idade. . . Sim, sim — disse, como se Adrienne
tivesse protestado — , entre duas idades, muito mais para a
pior. Temperamento um tanto vivaz, devo prevenir, mas aqui
(colocou a mão sobre o peito) um coração, um verdadeiro
coração feminino: mãe, irmã, esposa, tudo combinado. E
confidente — ajuntou, erguendo o dedo indicador. — De
gosto extravagante, caprichoso mesmo. Bastante alegre. Isso
quanto à moral. Quanto ao resto, uma vida calma, sem per­
calços, sem grandes acontecimentos. Nenhum sonho, um bom
marido, nenhuma ambição. Em suma, numa palavra, burgue­
sa, burguesa, burguesa. Que tal?
Adrienne fez um esforço violento para se dominar. Sentiu
que era chegado o momento de livrar-se da timidez e dizer
uma palavra amável.
— Naturalmente — disse, corando um pouco — sou tão
burguesa quanto a senhora.
— Oh, minha querida menina! — exclamou a Sra. Le­
gras, estendendo a mão sobre a mesa e segurando o braço
da jovem. E começou a rir. Vamos fazer um trato, está bem?
Vivo sozinha aqui. Sozinha, não. Meu marido vem às vezes,
mas os negócios o prendem muito. Enfim, estou sozinha a
maior parte do tempo, e você também, não é assim?
— Sim, senhora.
— Sim, Léontine — corrigiu a Sra. Legras. — Então, ca­
da vez que uma de nós estiver aborrecida, vai visitar a
outra. . .
Interrompeu-se ao ver a expressão sobressaltada de
Adrienne e disse vivamente:
— . . .e sairemos juntas. Mas falemos de você. Posso
chamá-la pelo primeiro nome? Adrienne, não é?
— Sim.
— Gostaria que me chamasse de Léontine. É o melhor
meio para construir amizade e confiança entre duas pessoas.
Faça de conta que nos conhecemos há seis anos. Não quer
tirar o casaco?

123
Adrienne abriu dois botões do casaco e sorriu, apoiando-
se no braço da poltrona.
—^ Minha menina, que idade tem? — perguntou a Sra.
Legras. — Ainda não precisa guardar segredo. Dezenove?
— Dezoito.
— Dezoito anos!
Voltou-se rapidamente para Adrienne, juntando as mãos
sobre a mesa. Os olhos castanhos claros pareciam amarelos
e fixavam-se na jovem com expressão curiosa. Os cantos da
boca ergueram-se.
— Dezoito anos! — repetiu pensativamente. — Feliz
Adrienne! Com um rosto desses. . .
Deu uma risada sonora.
— Não precisa baixar a cabeça — falou com voz grave.
— Com esses olhos, pode olhar o mundo de frente.
Havia algo de insinuante e confidencial no seu modo de
falar, que causou profunda impressão em Adrienne. Essa
intimidade de linguagem a desconcertava e sentia dissipar-
se todo o prazer da visita à medida que a ouvia. Talvez a
Sra. Legras percebesse sua mudança.
— Bem — disse com seu tom de voz normal (endireitou
o corpo e sorriu). — Nunca se é tão bela como quando
ainda não se sabe nada, mas deixe que lhe diga que você
tem sido muito mimada. Gostaria que lesse sua mão?
Adrienne levantou a cabeça, os olhos brilhantes:
— Sabe ler a mão?
— Vai ver — disse a Sra. Legras. — Dê-me aqui.
Adrienne estendeu a mão direita.
— A outra também.
A Sra. Legras segurou as duas mãos que repousavam so­
bre a mesa e virou-as um pouco de lado para examinar bem
as palmas. Subitamente, apalpou as bases dos polegares.
— Ah! Ah! — disse, olhando para Adrienne. — Você
vai ter uma vida muito interessante. . .
Inclinou-se um pouco e, depois de alguns momentos,
ajuntou:
— . . . e longa. Doenças sem importância, não muita
coisa.

124
Continuou o exame. Adrienne podia sentir a sua respira­
ção sobre a pele das mãos.
— Serei feliz? — perguntou depois de um silêncio.
j — O que entende por felicidade? —- disse a Sra. Legras,
sem erguer a cabeça.
Adrienne ergueu os ombros.
— Não sei.
Hesitou e disse afinal:
— Vê um casamento?
A Sra. Legras apertou levemente as mãos da jovem, sem
dúvida para acentuar as linhas da palma. Inclinou-se mais.
Adrienne viu o grande pente com bolas douradas no alto
da sua cabeça. Um pequeno silêncio.
— Sim, um casamento — disse afinal a Sra. Legras, pen­
sativa.
Ergueu a cabeça e interrogava com os olhos o rosto aten­
to da jovem. Mas Adrienne baixou as pálpebras.
— Quando esse casamento? — perguntou com impa­
ciência mal dissimulada.
— Muito breve, mas depende de você.
Uma profunda emoção apossou-se de Adrienne. Puxou as
mãos que estavam doloridas.
— Depende de mim? •— ecoou.
— Depende da sua habilidade. Você é bonita, mas isso
não basta. Os homens são uns animais que só se deixam
prender quarrdo mâS tomámos à iniciativa. Um fracasso logo
no início é sempre irremediável. Você é rica?
— Tenho o bastante.
A Sra. Legras observava-a com a boca entreaberta:
— Quanto? — perguntou com voz seca.
Adrienne fez um gesto, indicando que não sabia.
— Meu pai tem economias.
— Não tenha medo de nada, minha menina — concluiu
a Sra. Legras, batendo com a palma da mão na mesa. —
Mesmo que fosse feia, eu apostaria no seu sucesso. Porém. . .
Começou a contar nos dedos:

125
— É jovem, é bonita e é rica! Agora, um conselho. Você
tem o pescoço muito bem feito: mostre-o; e cabelos sober­
bos, deixe que os vejam.
Retomara o tom imperativo, ante a confusão e alegria
que podia ver no rosto da jovem.
— Não faça essa cara tão séria; você franze demais as
sobrancelhas. Apenas um ar reservado, um sorriso de vez
em quando. E cuidado com as roupas. Devem ser mais
enfeitadas. Nada de luvas de algodão, hem? Tudo isso
conta. Quer agradar? Compreenda então que os homens nun­
ca vêem as coisas bonitas, mas as feias eles notam logo. Estra­
nho, mas verdadeiro. Pergunte a um homem a cor das boni­
tas luvas de camurça que você usou de manhã e não saberá
dizer. Mas use luvas de algodão e verá logo sua expressão
de desagrado.
Cruzou as mãos sobre a mesa com ar malicioso.
— E agora compreendo — disse, baixando a voz. — Seu
pai a prende muito. Vigia você. Aposto que veio aqui sem
que ele soubesse.
Adrienne sobressaltou-se; lembrou do que dissera na vés­
pera e ficou confusa ao perceber que a Sra. Legras adivinha­
va por que não queria que o pai soubesse da conversa das
duas no concerto. Sentiu um certo ressentimento, mesclado
ao desejo de confiâfinteíramente naquela mulher.
— Meu pai não gosta que eu saia sozinha.
Interrompeu-se. Algo no seu íntimo a impedia de contar
tudo à Sra. Legras.
— E ele não quer que saia sozinha para que não vá à
casa desse cavalheiro — concluiu a Sra. Legras. — Como é
o seu amigo?
Adrienne ficou escarlate. Essas perguntas a transtornavam.
Era como se a estivessem despindo. Ouvir falar do seu amor
com essa naturalidade e, além de tudo, uma estranha, era
monstruoso. Controlou-se, porém, lembrando-se que a Sra.
Legras podia ser-lhe útil.
— Tem olhos negros — começou dolorosamente.
Refletiu. Era tudo o que podia lembrar do rosto apenas
entrevisto.

126
— Jovem?
— Sim — respondeu Adrienne depois de pequena hesi­
tação.
— E o que mais? — perguntou a Sra. Legras com impa­
ciência. — É alto?
Adrienne não conseguiu responder. Só então percebeu que
nunca notara essas particularidades e que elas agora lhe pa­
reciam de importância capital. Por acaso, nunca tinha visto
o Dr. Maurecourt? Sim, no dia em que ferira o braço na ja­
nela. Por que não o tinha observado melhor? Agora, não era
capaz de descrevê-lo. Essa descoberta a aterrorizou. Pergun­
tou a si mesma se não estaria louca, sofrendo assim por um
homem que não reconheceria se encontrasse na rua. Seus ou­
vidos começaram a zumbir e Adrienne apoiou a cabeça no
encosto da poltrona. Um tremor percorreu-lhe o corpo. O
ar estava pesado.
—7—
_ O que é isso? — disse a Sra. Legras, erguendo-se ra­
pidamente e dando volta à mesa. — Você está estranha.
Sua voz estava ansiosa. Começou a dar palmadinhas nas
mãos de Adrienne.
— O que há? — perguntou. — Foi alguma coisa que eu
disse?
Adrienne fez um gesto vago.
— Estou com dor de cabeça — murmurou, ajuntando
logo a seguir: — Minha cabeça está rodando.
— A cabeça está rodando! — exclamou a Sra. Legras. —
Minha querida, é melhor deitar-se.
Ajudou-a a se erguer da poltrona e, passando o braço sob
o da jovem, levou-a para a cama. Adrienne sentou-se. Fe­
chou os olhos com uma sensação de vertigem, segurando
uma barra da cabeceira da cama.
— Agora, deite-se — insistiu a Sra. Legras, assustada
com essa indisposição repentina. Repetiu a ordem até
Adrienne obedecer.
— Vamos, não é nada — disse a Sra. Legras depois de
alguns segundos.

127
Estava no meio do quarto, indecisa, e de súbito teve uma
idéia.
— Descanse tranqüila por um momento — disse. — Vou
lhe trazer um cordial que lhe restituirá as forças.
Dirigiu-se rapidamente para a porta e saiu do quarto.
Adrienne fechara os olhos e parecia dormir.

128
XIV

Voltou para casa ao cair da noite, cansada e cheia de de­


sânimo. A Sra. Legras dera-lhe um copg^devinho do Porto
que lhe provocara uma violenta dor de cabeça e sentia as
pernas cederem ao peso do corpo a cada passo.
Ao entrar no portão da Vila das Bétulas sentiu náuseas.
Nunca estivera tão doente e tão infeliz. Odiou o ruído desse
portão que se fechava atrás dela. A chuva continuava, au­
mentando o filete de água barrenta em torno do gramado.
Não podia haver nada mais lúgubre do que esse jardim en­
charcado que desaparecia na sombra.
Subiu ao quarto rapidamente e, depois de tirar a roupa
molhada, atirou-se na cama, cobrindo a cabeça com o tra­
vesseiro. Então, era _assim, tudo recomeçava perpetuamente.
Devia percorrer sem descanso esse ciclo no qual o desespe­
ro dava lugar à esperança, e o medo transformava-se em ale­
gria. Esperara tão ansiosamente essa visita à Vila Louise e
voltava agora sem ter perguntado qual o quarto que dava
para a Rua Carnot. Além disso, recusara-se a confiar naque­
la mulher que parecia disposta a ajudá-la. Mas a Sra. Legras
a desagradava, e Adrienne não sabiá explicar por quê. “Ela
é ridícula”, pensava, "e isso. Jamais poderei lhe dizer a
quem amo”. Não suportava a idéia de ouvir o nome de Mau-
recourt pronunciado por aqueles lábios grossos. Preferia
guardar o segredo por toda a vida e sofrer como sofria.
Depois, começou a imaginar a confidente ideal, a pessoa
a quem, sem pejo nem remorso, pudesse contar seu sofrimento
e pedir conselho. Conhecia alguém assim? Sua irmã? Conteve
um grito ao pensamento de que a solteirona doente talvez
tivesse descoberto tudo e contado ao pai; a lembrança de

129
sua conversa com Germaine a humilhava profundamente.
Segurou a cabeça com as mãos para deter o curso dos pen­
samentos que a torturavam. Um terror insano apossou-se
dela. Estava só. Jamais poderia confiar em alguém. Pensou
que, se de um momento para o outro toda a população da
Terra desaparecesse e ela fosse a única sobrevivente, sua
vida espiritual continuaria na mesma. Do mesmo modo, se
lhe cortassem a língua nada mudaria na sua capacidade de
comunicação.
De súbito, teve uma idéia que a abalou; ergueu um pouco
o corpo, apoiando-se no cotovelo. Consultaria Maurecourt
sobre uma doença imaginária e, durante a consulta, falaria
de si mesma, como se fosse de outra pessoa, de uma amiga.
E contaria toda a história infeliz; ele ficaria comovido, tal­
vez até mesmo adivinhasse de quem se tratava; de qualquer
modo, o terreno estaria preparado e teria oportunidade de
vê-lo. Tocaria a campainha da casa branca, entraria no con­
sultório, aquele que avistava do quarto de Germaine, pisa­
ria no tapete vermelho. Sua imaginação criou asas. Ah! Se
pudesse ir agora mesmo à casa do médico! E por que não?
Se estivesse realmente doente, hesitaria? Em quinze minu­
tos poderia estar face a face com Maurecourt; quinze minu­
tos, o tempo de se vestir e atravessar a rua. Esse pensa­
mento causou-lhe vertigens, mas covardemente resolveu adiar
a visita. Já era muito tarde. Amanhã, sem falta.
Estava imersa nos seus pensamentos, quando ouviu o
portão do jardim que se abria e se fechava, e reconheceu os
passos do pai na aléia central, depois subindo as escadas.
Entrou na casa. Adrienne, presa de um terror súbito, pensou
em trancar a porta do quarto. Durante esse dia tão movi­
mentado nem tivera tempo para pensar no pai e não tinha
idéia do que ele fizera, mas só podia esperar o pior dessa
ausência, e temia o momento em que tivesse de descer e en­
frentar o velho. Pela primeira vez na vida ia passar uma
noite sozinha em casa com esse homem, cuja violência che­
gava às raias da loucura. E quase lamentou a partida de
Germaine. A empregada dormia fora; era casada e tinha um
quarto na cidade.

130
Vestiu-se e esperou. Passou-se um longo quarto de hora,
e então ouviu o pai, que a chamava, como de hábito, para
jantar. Sentiu-se menos inquieta, mais aliviada, e respondeu
com voz que era quase um grito. O desespero fazia com que
o coração lhe parecesse crescer no peito, e desejou ardente­
mente não ser obrigada a comentar com o pai a ausência
de Germaine. Talvez ele fosse fingir que nada acontecera.
Sentia que morreria se houvesse uma cena nessa noite; a
emoção a feria e sua fraqueza era tanta que teye de apoiar-
se no corrimão para descer a escada.
Não ousava encarar o pai, que lia o jornal da tarde en­
quanto tomava a sopa. Sentou-se silenciosamente e começou
a comer, mas o medo e uma pontada aguda na cabeça lhe
tiravam todo o apetite. Conseguiu tomar algumas colheradas
de sopa e deixou que o prato fosse retirado quase cheio. O
jantar arrastava-se interminavelmente. Atrás do jornal, o Sr.
Mesurat comeu, sem dar atenção à filha, e ergueu-se assim
que terminou a sobremesa.
Sem dizer palavra foi para a sala de estar, acendeu o lam­
pião e, sentado na sua poltrona, pôs-se a folhear Le Temps
pela vigésima vez, recomeçando a leitura minuciosa que fazia
desse jornal. Adrienne, que o seguira, sentou-se no outro lado
da sala. Esperava poder ir logo para o quarto, quando per­
cebeu que o pai a observava com o canto dos olhos. O que
estaria esperando? A resposta não se fez demorar.
Depois que Desirée saiu, o velho ergueu-se e foi trancar
o portão e a porta de entrada. Essas precauções eram co­
muns e consagradas pelo hábito de oito anos, mas nem por
isso deixaram de amedrontar a jovem, que estremeceu ao
ouvir o ruído das chaves nas fechaduras. Pensou em pedir
socorro, em chamar a Sra. Legras, mas a razão dominou o
instinto. Se atendessem ao seu chamado, o que diria?
Levantou-se e deu alguns passos pela sala, o coração dis­
parado, sem poder explicar a origem desse terror súbito. O
pai voltava pelo corredor. Ainda era tempo de fugir e tran­
car-se no quarto, mas o absurdo desse modo de agir a fez
hesitar; não queria parecer ridícula.

131
Quando o Sr. Mesurat entrou na sala, Adrienne ficou atô­
nita com o cansaço estampado em seu rosto. Parecia ter di­
minuído de tamanho. Talvez por estar com os ombros cur­
vados para a frente. Ele atravessou a sala e parou perto da
filha. Adrienne notou os círculos escuros ao redor dos olhos
do pai e a testa franzida. Mesurat segurou as lapelas do casa­
co e encarou a filha, que virou a cabeça para o lado.
— Você saiu esta tarde? — perguntou ele.
— Sim.
— Onde foi?
Adrienne apoiou a mão na mesa que estava atrás dela e
respondeu rapidamente:
— Visitar uma amiga.
— Quem?
Não teve forças para mentir e respondeu sem respirar:
— A Sra. Legras.
Ele ergueu um dos ombros.
— Não sabe o que é essa mulher?
Ela empalideceu sem responder. O pai apanhou um lam­
pião de sobre a mesa.
— Vá para o seu quarto — ordenou.
Adrienne saiu da sala, acompanhada pelo pai, que segu­
rava o lampião um pouco acima da cabeça. Os dois come­
çaram a subir a escada. Nessa casa, onde a arquitetura era
calculada para aproveitar o máximo de espaço, a escada era
muito íngreme. Adrienne parou, apoiando-se no corrimão.
Parecia que seus joelhos estavam a ponto de se dobrar e
imaginou se uma queda sobre o mármore do vestíbulo seria
bastante para matá-la.
“Não é bastante alto”, pensou.
— Ande — disse o Sr. Mesurat, como se quisesse pôr em
prática o pensamento da filha.
Apoiada no corrimão, Adrienne continuou a subir. No
patamar do seu quarto parou em frente à porta e olhou para
o pai .
— Boa-noite — disse.
Esperava que ele a deixasse ali.

132
— Entre — ordenou o Sr. Mesurat com um gesto impe­
rioso.
— Não vai se deitar? — perguntou ela com voz fraca.
Então, sem responder, ele a empurrou para o lado, abriu
a porta e entrou no quarto; colocou o lampião sobre a mesa
e pôs as mãos na cintura:
— Estou esperando. \
Ela entrou e ficou de pé perto da porta.
— Dê-me a chave daquele armário — disse o Sr. Me­
surat.
Adrienne começou a tremer; hesitou por um instante e
depois, vendo o olhar do pai, tirou a chave da gaveta da
mesa-de-cabeceira. Ele a apanhou com um gesto brusco e
abriu o armário; a porta girou com um rangido estridente no
silêncio do quarto, o espelho refletiu a luz do lampião pro­
jetando-a como um raio. O Sr. Mesurat enfiou as mãos entre
as roupas da filha e finalmente encontrou a pequena caixa
de madeira.
— Abra isso — ordenou secamente.
— Por que, papai? — perguntou Adrienne, quase im­
plorando.
Passou as costas da mão na testa. Teve vontade de se ajoe­
lhar aos pés do pai. Era tanto o seu desalento que já não
importava o grau de humilhação a que o medo a levasse.
Apoiou-se com uma das mãos nos pés da cama, o pu­
nho dobrado.
— Quanto deu à sua irmã? — perguntou o Sr. Mesurat.
— Quinhentos francos.
— Quinhentos francos!
Repetiu a exclamação, como se não pudesse acreditar, de­
pois fez menção de dizer alguma coisa, mas ordenou apenas:
— Abra essa caixa.
Adrienne tirou o relógio da cintura e destacou uma peque­
na chave da corrente. O Sr. Mesurat olhou para dentro da
caixa e certificou-se de que faltavam vinte e cinco moedas.
Voltou-se para a filha.
•— Então é verdade.
Exclamou:

133
— Imbecil! Nunca mais verá esse dinheiro, nunca mais,
está ouvindo? Como pensa que sua irmã vai lhe pagar?
Calou-se, e então continuou, como se tivesse uma idéia
súbita:
— Você tirou do seu dote. Pensa que é rica? Pensa que
alguém se casa sem dinheiro?
Adrienne recuou ante o velho que avançava para ela. Um
pensamento tentava formar-se em sua mente e lembrou-se con­
fusamente das palavras da Sra. Legras sobre o casamento.
Por que fatalidade tudo se encadeava agora como num pesa­
delo? Era como se o Sr. Mesurat se tivesse aliado àquela
mulher para trazer o desespero ao seu coração. Ficou em
silêncio. Seus olhos pareciam pregados no pai, sem que pu­
desse desviá-los daqueles olhos raiados de sangue que a
fascinavam. Continuou recuando até apoiar as palmas das
mãos na parede, na qual se encostou como se fosse parte dela.
— Você a ajudou a partir — disse o pai com voz surda.
— As duas se aliaram para enganar o velho Mesurat, não foi?
Ela fez que não com a cabeça. O velho retirou um papel
do bolso.
— Então o que significa isso? — perguntou.
Adrienne reconheceu com Üòrtor a carta que enviara ao
homem da carruagem.
— Vamos — disse Mesurat, tomando a guardar o papel
no bolso e se afastando um pouco. — Bem vê que é inútil
mentir. Quer que lhe diga o que fiz hoje?
Começou a andar pelo quarto, afetando uma calma mais
repugnante do que a sua cólera, porque parecia satisfeito
consigo mesmo.
— Bem, aqui está. Fui primeiro à casa do homem que
aluga carruagens. Não foram muito espertas se não imagi­
naram que esse seria o ponto de partida das minhas investi­
gações. Deviam saber que não sou tolo a ponto de pensar
que sua irmã, com seus hábitos preguiçosos, iria a pé para a
estação. E o que foi que descobri? Que você pedira uma
carruagem para as seis e quinze.. . Mostraram-me a carta,
sua carta, imbecil! Segundo passo, a estação. Por acaso não
tenho amigos na estação, eu, que vou lá duas vezes por dia

134
e converso com todo o mundo? O que me disseram então?
A Srta. Mesurat tomou o trem das seis e cinqüenta e cinco
para Paris. Que tal?
Parou de andar, olhando para a filha com um tremor
triunfante, as mãos atrás das costas. Ela não se moveu.
— E não é tudo — continuou ele, afogueado. — Voltei
para casa e você tinha saído!
Repetiu:
— Saído! — com uma ênfase que seria cômica em outra
ocasião.
— Você pensa que é livre, que pode ir ver essa. . . essa
Legras quando bem entender? Ah! Tenho informações sobre
ela, sobre a sua Léontine Legras. Trataremos disso também.
Afinal, fui ao quarto de Germaine. Um cheiro insuportável
de enxofre. Então, compreendi. Você quer aquele quarto.
Desinfetou-o na esperança de poder debruçar-se na janela
o dia inteiro. Engana-se. Germaine contou-me tudo.
Adrienne ficou imóvel. Ele a olhou de alto abaixo, furio­
so, e continuou:
i— Sim. Muito bem, não terá aquele quarto. A partir de
hoje fica proibido para você. E a chave. . . (bateu no peito,
na altura do bolso superior do colete) a chave está aqui.
Esta você não roubará como a outra. Aprendi a não confiar
em você.
As palavras foram acompanhadas por uma risada amar­
ga. Era evidente que preparara a cena em .todos os detalhes,
enquanto se escondia atrás do jornal, até os mínimos gestos,
o próprio tom de voz. Mas logo a cólera o dominou e Me­
surat entregou-se a ela com um furor que eliminou toda a
possibilidade do efeito que desejara causar.
— Você vai ver! — gritou subitamente. — Quis mudar
tudo nessa casa e será a primeira a sofrer. Vai ficar tranca­
da aqui todos os dias. Só sairá comigo. Vai fazer só o que
eu quero até a sua maioridade.
E disse então uma frase que era, sem dúvida, uma lem­
brança da sua antiga profissão, e que usava às vezes:
— Farei com que respeite o regulamento com o máximo
rigor.

135
Bufou de cólera e deu um soco na mesa fazendo oscilar
o lampião.
— Portanto, não espere dar suas fugidas como antes.
Acabaram-se os passeios noturnos. Vê? Germaine me con­
tou tudo. Eu farei com que ela volte, a sua irmã. Ela tomará
conta de você.
Gritou:
— Dê-me o endereço dela!
Adrienne não disse nada.
— Dê-me o endereço ou mato você! — gritou o velho,
rubro de raiva. Mas Adrienne sacudiu a cabeça. O pai deu
uns passos para ela. A jovem conteve a respiração e cerrou
os dentes. Seu coração batia com tanta força que lhe parecia
ter alguém caminhando com passos pesados e rápidos dentro
do peito. O Sr. Mesurat encarou-a e ergueu os ombros duas
vezes.
— Imbecil! — disse com voz rouca. — Quer ser livre,
quer poder se encontrar com ele à vontade, ir à casa dele
todas as noites, como antes. Não conte com isso. Daria tudo
para me ver morto, não é? Não se preocupe, sou muito resis­
tente!
Bateu no peito duas vezes. E, subitamente, esbofeteou
Adrienne. Ela não se moveu. Ele viu o rosto pálido da filha
colorir-se apenas ondé^sua mão o atingira. Nos olhos imó­
veis, alargados pelo medo, a expressão de ódio impotente
o excitou. Esbofeteou-a de novo, com toda a força. Adrienne
cambaleou, com um suspiro que era quase um estertor.
O pai afastou-se um pouco e gritou, trêmulo de ira:
— Escute bem! Vou falar com o seu doutor e o ensinarei
a não tocar numa Mesurat! Ele quer o seu dinheiro. Pois
para começar vou deserdá-la. Não terá nada. Jamais se casa­
rá. Todo o meu dinheiro irá para o Estado. Ah! Vai ver!
Amanhã cedo vou à casa de Maurecourt e depois ao tabe­
lião. Já se divertiram muito à minha custa! Uma foge com
as minhas jóias, a outra desonra meu nome com um miserá­
vel que está atrás da sua fortuna, e eu, o idiota, o tolo sem
saber de nada!
Calou-se e depois, vendo que ela continuava imóvel:

136
— Não acredita, não é? Muito bem, vou agora mes­
mo à casa de Maurecourt!
Saiu com passos rápidos e chegou ao patamar da escada.
Adrienne acompanhou-o com os olhos, e então foi como se
todo o seu corpo se distendesse. Lançou-se para fora do
quarto, batendo a porta com força ao sair. Na semi-obscu-
ridade ouviu a voz do pai dizendo seu nome com voz alte­
rada. Passou-se um segundo. Acreditou ver uma luz rodo­
piando sobre a cabeça do velho. Um pânico terrível apossou-
se dela e, sem perceber, como se uma força irresistível a
impulsionasse para o abismo negro, atirou-se de frente para
a escada; todo o peso do seu corpo caiu sobre os ombros do
pai, que perdeu o equilíbrio e caiu para a frente, enquanto
Adrienne se agarrava ao corrimão. Ouviu-o gritar: “Oh!”
como se lhe faltasse o ar. Devia ter caído ao comprido, ba­
tendo com a testa num degrau, rolando depois até em­
baixo, em duas cambalhotas; seus pés bateram no corrimão
fazendo-o oscilar. Adrienne sentiu o frêmito da madeira en­
tre as mãos e, ao mesmo tempo, ouviu outro baque, mais
surdo e mais longínquo do que o primeiro.
Inclinou-se sobre o corrimão, o ventre apertado contra
a barra de madeira. O suor escorria-lhe pelas sobrancelhas
e ao longo das têmporas. Chamou a meia-voz:
— Papai!
Depois de alguns segundos, sentou-se no primeiro degrau
e esperou.

137
XV

O tempo passou. Adrienne perguntava a si mesma se tinha


dormido e que horas seriam. O corpo dolorido a obrigava a
curvar as costas e por duas vezes tentou erguer-se, mas um
cansaço imenso a esmagava, e ficou ali, com as costas apoia­
das nas barras do corrimão. Tiritava de frio. Sua cabeça pa­
recia vazia. Em certo momento imaginou que estava na ca­
ma, sonhando; no sonho estava sentada na escada, lembran­
do-se de uma cena que tivera com o pai, e essa ilusão a tran­
qüilizou um pouco. Não estava lutando contra o sono, mas
o filete de luz sob a porta do quarto a mantinha acordada.
Parecia-lhe que aquela linha brilhante entre as sombras a im­
pedia de fechar as pálpebras pesadas. Por outro lado, julga-
va-se adormecida, sonhando.
O torpor trouxe-lhe descanso físico e despertou comple­
tamente. A consciência do que tinha acontecido voltou-lhe
aos poucos, mas ela não conseguia acreditar. O que estava
fazendo ali? “Talvez eu seja sonâmbula”, pensou. Riu
baixinho e, segurando no corrimão, ergueu-se. Percebeu que
estava vestida; o ruído dos seus saltos no tapete trouxeram
de volta a realidade, e Adrienne precipitou-se para o quarto.
A janela estava fechada. Um cheiro forte de óleo impreg­
nava o ar. O lampião devia estar aceso há muito tempo.
Consultou o relógio. Duas horas! Tinha dormido, não na ca­
ma, pois não estava desfeita, mas lá fora.
De súbito, ao recolocar o relógio na gaveta da mesa-de-
cabeceira, pensou ter ouvido a voz do pai. Gritava como há
pouco. Adrienne voltou-se e não viu ninguém. Seus ouvidos
zumbiam. “Como pode estar gritando”, pensou, “se já foi

138
se deitar?” Tirou o corpete e soltou os cabelos. Seus dedos
tremiam e isso a assustou.
— Vou ao quarto de papai — disse em voz alta e firme.
Segurou o lampião com as duas mãos e saiu do quarto, os
olhos fixos na escada que levava ao segundo andar. Pare­
cia-lhe que havia decorrido um tempo interminável e que
seus passos vacilavam. Chegou à escada e subiu três degraus
penosamente. Um suspiro profundo escapou-lhe do peito e
parou.
— Ele está roncando, posso ouvir •— disse a meia-voz,
mas sabia que não ouvia nada. Agarrou o corrimão com a
mão direita e segurou o lampião um pouco acima da cabe­
ça. Então, recomeçou a subir, degrau por degrau, como uma
criança e chegou ao segundo andar.
O quarto do pai ficava exatamente por cima do seu. À
esquerda estava o de Germaine. Jamais entrava no quarto
do Sr. Mesurat. Ele não gostava que fossem bisbilhotar as
suas coisas, como dizia. Foi até a porta e aguçou o ouvido;
depois, segurou a maçaneta girando-a cuidadosamente, mas
estava trancada a chave. Apoiou-se na parede, escutando.
O medo emprestava-lhe uma aura espectral. Moveu-se, de
súbito, dando alguns passos, como a contragosto, e mur­
murou:
— Não.
Foi até o corrimão e inclinou-se, olhando para baixo. Os
cabelos roçavam-lhe as faces. Olhou e não viu nada. A luz
não estava na direção certa. Esticou o braço que segurava
o lampião e viu um corpo estendido no fim da escada. Sua
mão tremia. Existe um certo modo de estar deitado por
terra, uma certa imobilidade que não engana, que não se
parece em nada com o sono ou com uma síncope. A morte
não imita nada. Podia ver a cabeça sobre uma mancha es­
cura, entre os braços estendidos e as pernas dobradas, os
dois pés apoiados no último degrau. Curvou o braço que
segurava o lampião e a figura desapareceu.
Desceu, apoiando-se na parede, com um passo lento
que ecoava no silêncio com ritmo monótono. Nesse mo­
mento, qualquer pessoa poderia ter passado ao seu lado

139
sem ser vista, tão imersa estava em seus pensamentos. Movia
um pé depois do outro, com o cuidado inconsciente que se
aplica aos gestos mais comuns quando a meditação absorve
a mente e todas as outras faculdades. Os olhos arregalados,
inexpressivos, pareciam conter um paroxismo imóvel de sur­
presa, que emprestava ao rosto um horrível ar de estupidez.
Ao entrar no quarto, fechou a porta, colocou o lampião
sobre a mesa e olhou o armário. A caixa de madeira estava
entreaberta sobre a roupa, como o Sr. Mesurat a deixara
quando, atirando-a para o fundo do móvel, dissera que seu
dote estava prejudicado. Contou o dinheiro, recolocou-o na
caixa, baixou a tampa e girou a pequena chave que tinha
ficado na fechadura. Depois, fechou o armário e começou
a se despir lentamente.
Fazia calor no quarto. Abriu a janela e aspirou o ar frio
que afagou seus ombros nus como mãos geladas. Os cães
latiam do lado da estrada nacional, mantendo um diálogo,
encorajando-se mutuamente com latidos roucos que eram
como perguntas e respostas. A lua brilhava suavemente. A
árvore ao lado da casa branca balançava-se com a brisa
que aos poucos expulsava as nuvens do céu. Tudo estava
calmo. Passou as mãos pelos ombros e correu, friorenta, pa­
ra a cama. Tudo o que fazia, os gestos familiares que reen­
contrava davam-lhe uma satisfação puramente animal e in­
consciente que podia ser descrita da seguinte forma: “Tudo
está bem. Nada mudou, pois estou deitada, como todas as
noites, abri a janela, passo as mãos pelos ombros.” Apagou
o lampião e aconchegou-se às cobertas.
No escuro, bocejou e fechou os olhos, mas um zumbido
contínuo a impedia de dormir. O som ora parecia próximo,
ora longínquo, e o menor ruído o fazia cessar. Pensou em
cantarolar, mas parou às primeiras notas reconhecendo na
música que murmurava a marcha preferida do pai. O zum­
bido continuava. Bateu as mãos uma contra a outra; o baru­
lho a assustou. Tapou os ouvidos, mas escutava ainda um
murmúrio surdo, como o de um rio correndo rapidamente.
Com um gesto violento, jogoü para longe as cobertas e
levantou-se. Então o terror apossou-se de Adrienne. As­

140
sustou-se por estar de pé. Se não estava deitada, alguma coi­
sa devia ter acontecido. O que fazer? Encontrar o lampião e
acendê-lo, pois sentia medo. Gaguejou:
— É estúpido, é estúpido. — Seu maxilar inferior pen­
deu, sem que pudesse fechar a boca. Procurou os fósforos,
acendeu um, que se apagou, outro, cuja chama bruxuleou
com a brisa que entrava pela janela. Afinal, conseguiu acen­
der o lampião.
Suspirou profundamente. Na claridade não tinha medo.
Não se tem medo quando se pode ver. Deitou-se novamen­
te, sem apagar o lampião. O relógio da igreja bateu três ho­
ras. Contou as badaladas em voz alta e virou-se na cama.
Com os olhos fechados, percebia a claridade avermelhada
através da fina pele das pálpebras. Convencida de que não
conseguiria dormir, cruzou as mãos sobre as cobertas. Ficou
imóvel, os olhos abertos perdidos no espaço. O zumbido re­
começou, mas com a lâmpada acesa não era tão importante.
Obrigou-se a pensar na sua infância, lembrando-se de deta­
lhes, de como seus amigos se vestiam, seus nomes, seus
rostos. Era como se, no silêncio da noite, todas essas pes­
soas ressuscitassem com suas vozes, suas risadas, mas esse
jogo não a satisfazia, cansava-a; além disso, entre as lem­
branças desse passado que tentava, por assim dizer, reviver,
era preciso fazer uma escolha. Algumas imagens expulsava
da memória. Queria limitar-se às cenas da escola. Não queria
se ver na Rua Thiers, quando voltava para casa depois das
aulas, fechando o portão, andando pelo corredor, subindo
ao quarto; ali, naquela casa.
Algo a oprimia terrivelmente. Era como se o ar que respi­
rava estivesse carregado de veneno. Levou as mãos ao peito.
Precisava de todas as forças para dominar o terror que au­
mentava. Na confusão do seu espírito que lutava desespera­
damente, lembrou-se das palavras de uma colega do curso
de Santa Cecília: “Parece que quando se está em perigo é
preciso dizer Jesus, Maria, José!” Mas não conseguia descer-
rar os dentes e limitava-se a enxugar com os cabelos as gotas
de suor que lhe escorriam pelas têmporas.

141
De súbito, abriu a boca e gritou. Mal pôde reconhecer a
própria voz; era um brado breve de medo. Saltou da cama
e correu para a janela, na esperança de ver alguém na rua, de
ouvir algum ruído que a distraísse, que lhe assegurasse a
existência de outros seres vivos além dela. Mas o silêncio
da madrugada estendia-se por todas as vilas vizinhas, sobre
todos os jardins desertos. Parecia-lhe estar encurralada no
canto do quarto, incapaz de voltar para a cama. Sua imagina­
ção libertava-se furiosamente, vingando-se de certa forma do
controle a que fora submetida. Adrienne estendeu o braço
para apanhar o penhoar sobre a cadeira, vestiu-o e sen­
tou-se em frente da janela. Por um instante teve a impres­
são de estar segura. Bastava chamar, as pessoas viriam. Mas
compreendeu que não poderia ficar ali até o dia clarear.
Ainda não eram quatro horas e o céu estava escuro. Tinha
medo de se resfriar, de ficar doente como Germaine; por
outro lado, a idéia de fechar a janela, de colocar aqueles
quatro vidros entre ela e o mundo, aqueles vidros que po­
diam abafar seus gritos, era-lhe insuportável.
Agora o zumbido voltava. Ouvia seu fluxo e refluxo dentro
da cabeça. Por um momento, julgou que vinha de fora, do
outro lado do quarto e que aumentava. Às vezes, era apenas
perceptível e ao mesmo tempo, inexplicavelmente, como um
rugido imenso e contínuo. Sentiu que estava com febre, que
talvez logo começasse a delirar. E então o que faria? O que
podia impedi-la de se atirar pela janela, por exemplo? Milha­
res de temores a assaltavam. A luz ia se apagar e ficaria sozi­
nha na escuridão. Ia se resfriar, apanhar pneumonia. Ia ficar
louca. Estendeu o braço bruscamente, puxando o lampião
para mais perto, porque a luz e o calor lhe transmitiam se­
gurança e, além disso, o lampião era uma arma; poderia ati­
rá-lo na cabeça de um agressorr Na cabeça de quem? Olhou
para a porta e arrependeu-se de não tê-la trancado a chave.
Agora era tarde demais. Não conseguiria nunca atravessar
o espaço que a separava dela. Suas forças diminuíam. Por
uma espécie de dissociação, via a si mesma, meio despida,
apoiada no batente da janela, segurando o lampião. O que
estava fazendo? Esperando o quê? E, de súbito, foi tomada

142
por um assombro inominável. Já não era o pavor de alguma
coisa à sua volta, como há pouco, ou a sensação de estai
sendo vigiada, mas um medo ignóbil de si mesma, dos seus
menores gestos, da sua sombra e dos próprios pensamentos,
nos quais julgava perceber os sintomas da demência. E, qua­
se sem querer, deixou escapar um grito, e outro, e mais
outro. Sentiu-se aliviada. Gritou:
— Socorro! — A voz que saía dos seus lábios a surpre­
endeu. Sobressaltou-se com a facilidade com que gritara e
sua angústia diminuiu pouco a pouco.
Os cães ladraram lá fora, aqui e ali. Adrienne calou-se,
satisfeita com essa algazarra dos animais que ela provocara,
e recomeçou com voz mais firme e mais estridente. Não ob­
tendo resposta, reuniu todas as forças e chamou:
— Sra. Legras!
Por um longo momento ouviu apenas o ladrar perdido dos
cães e o ruído das correntes que eles forçavam em vão. Mas
agora estava melhor. As forças voltavam. Colocando o lam­
pião sobre a mesa, atravessou o quarto com passos largos
e girou a chave na fechadura da porta.
Sentada na cama, observava o céu que lentamente mudava
de cor; as estrelas pareciam recuar, esvaindo-se aos poucos.
Ficou imóvel por muito tempo; então, um estremecimento
percorreu-lhe o corpo e Adrienne bocejou. Quase sem sentir,
deixou cair a cabeça sobre o travesseiro e, puxando as cober­
tas, dormiu enrodilhada no centro da cama.

143
XVI

Foi acordada três horas mais tarde pelo ruído de vozes


que vinha do andar térreo. Lembrou-se imediatamente do
que tinha acontecido na véspera e, com um movimento brus­
co, sentou-se na cama. Escutou por um minuto; reconheceu
a voz de Desirée, mas não podia entender o que dizia. Seu
coração batia disparado. Levantou-se, girou a chave para
abrir a porta, foi até a janela, fechou-a e escutou. A voz
de Desirée continuava, as palavras entremeadas por exclama­
ções. De súbito, ouviu chamar o seu nome, mas não respon­
deu e ficou parada no meio do quarto. Pela primeira vez
pensou na polícia, nos interrogatórios. Que atitude tomaria?
O que ia dizer? Acreditariam se falasse em acidente? Será
que tinham ouvido seus gritos na noite? Mas comparadas
ao terror que sentira, essas preocupações eram sem impor­
tância. Com a luz do dia, sentia-se mais segura. “Não têm
provas”, pensava.
No mesmo instante, Desirée chamou-a novamente. Res­
pondeu :
— Sim? — com voz fraca, e entreabriu a porta. Ao pé
da escada, a empregada dizia:
— Uma desgraça, senhorita!
— O que aconteceu? — perguntou Adrienne com voz
seca.
— O senhor está caído na escada.
— O senhor! — exclamou a jovem. — Onde?
Desirée não respondeu imediatamente. Depois disse:
— Que desgraça, senhorita!
Um silêncio. Adrienne resistiu à terrível emoção que a
dominava e, atravessando o patamar, apoiou-se no corrimão,

144
sem coragem de olhar para baixo. Ouviu o soluço assustado
da pessoa que estava com Desirée, uma velha que vendia
ervas no mercado e que entrara na vila para oferecer a sua
mercadoria. Adrienne ficou impaciente.
— Parem com isso! — disse friamente. — O que acon­
teceu?
Uma curiosidade súbita e monstruosa obrigou-a a olhar
para baixo. Reconheceu a cena que vira à luz do lampião. O
corpo destacava-se nitidamente sobre o mosaico de cores páli­
das. A mancha escura sob a cabeça pareceu-lhe menor.
Olhou longamente, sem poder acreditar que aquilo era seu
pai. De noite, inclinada sobre o corrimão do segundo andar,
quando a luz, saindo do vazio, iluminara o fim da escada, ela
sabia que aquele era o corpo do Sr. Mesurat. Agora, que­
brado o silêncio aterrador da noite e esvaída a escuridão
profunda que enchia toda a casa com um horror sem nome,
já não podia acreditar. Era como se o pai tivesse sido substi­
tuído por um manequim de serragem. Sentiu os olhos das
duas mulheres que procuravam os sinais de emoção em seu
rosto e empalideceu.
— Como aconteceu isso? — balbuciou.
— Não ouviu nada? — perguntou Desirée, uma mulher
pequenina e morena, com blusa e saia cinzentas.
Adrienne sacudiu a cabeça e, afastando-se do corrimão,
cambaleou na direção do quarto.
Teve uma idéia.
— Chamem a Sra. Legras — ordenou.
Entrou no quarto, fechando a porta, e ouviu as duas mu­
lheres que saíam da casa e atravessavam correndo o jardim.
Passou-se um longo quarto de hora. Esperou, sentada na
cama, pensando em como deveria agir. Surpreendia-se por
oão estar mais abalada. Era como se a noite passada tivesse
esgotado nela toda a capacidade para sentir terror. Nada
estava acontecendo como esperava. Talvez devesse ter-se
mostrado mais agitada para as duas mulheres há pouco.
Resolveu fingir uma dor silenciosa e ficar onde estava.
Afinal o portão foi aberto e algumas pessoas atravessaram
o jardim. Pareceu-lhe ouvir uma voz de homem e o sangue

145
afluiu com violência ao seu coração. Seria o comissário de
polícia? Esqueceu-se do que tinha resolvido e ergueu-se ra­
pidamente, mas faltou-lhe coragem para olhar pela janela.
O espelho do armário refletia uma mulher com olheiras fun­
das, as faces pálidas e os cabelos em desalinho espalhados
sobre o penhoar rosa. Suas mãos estavam frias.
Quase no mesmo instante ouviu o ruído de passos no vestí-
bulo e vozes que a sobressaltaram. Eram altas e estridentes.
Distinguiu as exclamações da Sra. Legras e ficou impressio­
nada com a vulgaridade de sua voz; tinha-a confundido com
a de um homem, momentos atrás. Seu primeiro impulso foi
o de trancar a porta; mas refletiu sobre a imprudência dessa
atitude e fez exatamente o contrário: abriu-a.
— Minha pobre menina — disse a Sra. Legras lá embai­
xo. — Você está aí! Não desça, vou subir.
E, dirigindo-se às pessoas que a rodeavam, deu uma or­
dem que abalou Adrienne.
— Vão chamar o médico para o atestado.
O médico! Maurecourt! Nem por um instante tinha pen­
sado nessa possibilidade. Ia afinal ver esse homem, e em sua
casa; sem dúvida teria de falar com ele. Assim, seus projetos
da véspera iam se realizar. Uma alegria selvagem encheu-lhe
o coração. As coisas aconteciam sem que as provocasse. Re­
fletiu que estaria mais à vontade para falar com ele, pois na
certa atribuiria sua confusão à desgraça que se abatera sobre
a Vila das Bétulas. Desnorteada, começou a murmurar:
— Tomara que papai seja delicado com ele! — E parou,
estupefata com as próprias palavras.
A Sra. Legras estava ao seu lado. Tinha se vestido às
pressas, com um grande casaco de viagem marrom sobre
o penhoar de crepe branco que aparecia por baixo dele,
afagando\lhe os tornozelos. Um véu negro pendia do cha­
péu, escondendo-lhe o rosto.
— É horrível! — disse ela, fechando a porta depois de
entrar. — Como aconteceu?
Adrienne ergueu os ombros e baixou a cabeça.
— Minha pobre menina — disse a Sra. Legras — , agora
está só no mundo.
Sentou-se na cama e segurou a mão de Adrienne.
— Não se esqueça de que estou aqui, está bem?
Passou-se um minuto. A Sra. Legras não tirava os olhos
da jovem.
— Minha pobre menina — repetiu.
E como se falasse para si mesma:
— O pobre homem! Tentou descer a escada no escuro.
Que imprudência na idade dele! Mas devia ter se apoiado
no corrimão. E você não teve a idéia de iluminar a escada
para ele?
— Não ouvi quando desceu — disse Adrienne com voz
seca.
— Dormia profundamente — decidiu a Sra. Legras com
um suspiro.
Adrienne queria que a mulher fosse embora e arrependia-
se de tê-la chamado. Não lhe agradava aquela insistência
sobre as circunstâncias do acidente.
— Morreu sem um ai — continuou a outra. — Espanto­
so. Naturalmente a polícia fará uma investigação.
Adrienne sobressaltou-se.
— Isso a preocupa? — perguntou a Sra. Legras. — Sim­
ples formalidade, minha cara.
Nesse momento bateram na porta.
— Entre! — disse a Sra. Legras, sem soltar a mão da
moça.
Era Desirée.
— O médico virá em dez minutos — informou ela em
voz baixa. E ajuntou: — Parece que alguém gritou durante
a noite.. .
— Eu teria ouvido — disse a Sra. Legras. — Não durmo
muito bem e qualquer ruído me acorda.
Fez um gesto, dispensando a empregada, mas esta não
parecia disposta a sair.
— A senhorita precisa de alguma coisa? — perguntou.
Adrienne sacudiu a cabeça. Desirée examinou o quarto.
De súbito, seus olhos fixaram-se no lampião. Adrienne se­
guiu seu olhar e tremeu. Estava completamente vazio.

147
— Veja — disse Desirée a meia-voz. — O lampião está
vazio. Eu o enchi de óleo anteontem.
Passou rapidamente por Adrienne e a Sra. Legras e apa­
nhou o lampião, examinando-o com curiosidade; e então
saiu na ponta dos pés, como se deixasse um quarto de
doente.
A Sra. Legras apertou a mão da jovem.
— O que acha dessa mulher? — perguntou.
Adrienne olhou-a sem compreender.
— Por quê? — disse com voz estrangulada.
— Porque acho que falou de modo estranho. Sou capaz
de jurar que está imaginando coisas. O lampião. O que há
de extraordinário no fato de estar vazio?
Levantou o véu, arrumando-o sobre a aba do chapéu e
fitou Adrienne nos olhos.
— Você passou a noite em claro, isso é tudo. Não é mes­
mo? E os gritos de que ela falou. Suponhamos que tenha tido
um pesadelo, que tenha gritado pedindo socorro.
Adrienne não se moveu. Não ousava falar ou fazer um
gesto, como um animal apanhado na armadilha, imóvel,
antes de começar a se debater até a morte. Sentiu os dedos
da Sra. Legras entrelaçados nos seus, como que para segurá-
la melhor.
— Minha pequena Adrienne — disse suavemente. — Quer
que eu fale com o médico e com o comissário de polícia?
Adrienne teve a impressão de que o quarto escurecia. Sem
responder, deixou cair a cabeça sobre o peito daquela mu­
lher a quem odiava e que a acariciava delicadamente, dizen­
do palavras que a jovem não ouvia.

148
SEGUNDA PARTE
I

— Vê, tudo correu bem, por assim dizer. Por que criaram
dificuldades para enterrarxrpobre homem? O Dr. Maure­
court foi perfeito. É tão delicado. Você precisa conhecê-lo,
precisa ver mais gente, não se isolar assim. Não faz bem.
Sabe o que me chocou um pouco, apenas um pouco? Posso
dizer? Foi o fato de não ser um funeral cristão.
“Oh! Naturalmente vai dizer que cada um faz como quer,
mas, na minha opinião, uma cerimônia religiosa não faz mal
nenhum. Sou religiosa. Não pense que sou fanática ou mís­
tica, mas fui criada durante trinta anos nesses princípios. Sou
burguesa, vou à missa. Seu pobre pai não tinha religião?”
A Sra. Legras usava um vestido lilá e um enorme chapéu
de palha. Sentada sob uma árvore do jardim, bordava um
lenço. De vez em quando, erguia os olhos, e sob as abas do
chapéu observava Adrienne, que, sentada ao seu lado, escu­
tava. A jovem estava de luto. Sacudiu a cabeça.
— Não. — respondeu.
Não gostava da tagarelice da Sra. Legras. Algumas das
coisas que dizia pareciam cheias de subentendidos que a in­
trigavam, embora prestasse a maior atenção ao monólogo
aparentemente desconexo da mulher. Todas as manhãs, des­
de o enterro do pai, Adrienne ia visitá-la e ficava até a hora
do almoço. À tarde, muitas vezes davam um passeio a pé
ou de carruagem. Uma ou duas vezes tinham jantado juntas.
Isso não significava que Adrienne tivesse mudado de opinião.
Pelo contrário, detestava a Sra. Legras mais do que nunca,
mas era como se estivesse ligada a ela por algo que não lhe
permitia deixar a sua companhia. Estava certa de que a Sra.
Legras descobrira todo o mistério da morte do seu pai. Só

151
isso seria motivo suficiente para Adrienne se afastar de uma
pessoa tão perigosa, mas, quando não a via, era dominada
por uma estranha inquietação. Sentia falta da tagarelice da
vizinha. Precisava ouvir aquela conversa contínua e indis­
creta que tornava sempre presente a lembrança do fim trá­
gico do Sr. Mesurat. Sentia, porém, uma repugnância dolo­
rosa e ao mesmo tempo uma espécie de consolo. Calada, as
mãos cruzadas sobre o colo, escutava aquelas reflexões ba­
nais entremeadas de hipóteses que a faziam tremer. O nome
de Maurecourt era constantemente inserido no monólogo, e
para Adrienne era sempre um choque. Esforçava-se para dis­
simular esses sentimentos sob a aparência impassível, e res­
pondia brevemente às perguntas da Sra. Legras.
— Você insinuou que ele não a deixava sair — continua­
va ela, atenta às pequenas folhas que bordava no canto do
lenço. — Pobre homem! Parecia tão simpático, tão tímido.
Você me disse que ele era tímido, não foi?
— Disse.
— E agora está livre — disse a Sra. Legras suavemente.
— O que pretende fazer com o seu tempo?
Adrienne ergueu os ombros com um gesto de ignorância.
— Precisa tentar esquecer um pouco — disse a Sra. Le­
gras. — Afinal de contas, quando se é jovem como você,
tem-se a vida toda pela frente. Não ficou surpresa ao saber
que é tão rica, quando o notário leu o testamento do seu
pai?
— Não sou tão rica assim — disse Adrienne.
— Como não! Toda a fortuna dele é sua.
— Primeiro tenho de dividir com minha irmã e, segundo,
só disporei do total quando for maior.
A Sra. Legras suspirou. Sabia que Germaine estava muito
doente.
— Que Deus proteja a sua irmã — disse.
Ficaram caladas por alguns momentos. O dia estava lindo
e o jardim perfumado. Uma profusão de lilás embalsamava
o ar imóvel com seu aroma forte e triste. No gramado que
separava o jardim da casa, o bassê amarelo corria com o

152
corpo colado ao solo, perseguindo borboletas e soltando
latidos agudos. Os pássaros conversavam nas árvores.
— Pronto — disse a Sra. Legras, tirando o dedal. —
Chega por hoje.
Enrolou a tesoura, o dedal e a linha no lenço que bor­
dava. Adrienne conhecia bem esse gesto que, todos os dias,
indicava que a Sra. Legras queria se livrar dela. Sentia tanta
humilhação que jurava sempre não voltar a visitá-la, ou pelo
menos partir meia hora mais cedo, mas sabia que não era
capaz disso. Apanhou o relógio e consultou-o, fingindo es­
panto.
— Onze e quarenta! — exclamou.
— Oh! Não precisa ir embora! — disse a Sra. Legras,
como fazia todos os dias.
— Mas tenho de ir almoçar\— respondeu Adrienne.
— Nesse caso. . . — a Sra. Legras sorriu. Levantaram-se
e se despediram.
— Volte logo — exclamou a Sra. Legras quando Adrien­
ne já deixava o jardim.
Em casa, Adrienne ficava geralmente na sala de estar à
espera do almoço, ocupando-se com uma coisa ou outra.
Muitas vezes, colocava o avental sobre a saia de sarja preta,
como antigamente, e limpava os móveis, onde sabia que o
pano de pó de Desirée não chegava nunca. Distraía-se reti­
rando os livros das prateleiras, limpando a poeira das estan­
tes com uma escova de roupa e recolocando-os por ordem
de tamanho. Jamais lhe ocorreu ler um deles. Como muitas
mulheres cuja infância foi monótona e que guardam apenas
más recordações da escola, repugnava-lhe empenhar-se nu­
ma leitura mais longa, como se isso representasse uma tarefa
desagradável, um dever.
Raramente ia ao próprio quarto, a não ser para dormir
à noite. Embaixo, no andar térreo, sentia-se menos só
porque a sala de jantar se comunicava com a cozinha por
meio de um corredor. Temia a solidão. Certo dia, ao ouvir
os latidos de Pyrame, o bassê, pensou em comprar um cão,
mas não gostava desses animais e os gatos pareciam-lhe apa­
nágio das solteironas.

153
Se a Sra. Legras sugerisse que fosse morar na Vila Louise,
Adrienne teria aceito alegremente, por mais penosa que lhe
fosse a companhia dessa mulher. Certo dia, após refle­
tir sobre o assunto, concluiu que a Sra. Legras não era ape­
nas uma pessoa com quem podia conversar e se distrair, mas
a única cuja companhia realmente desejava.
Por mais estranho que fosse, não podia nem mesmo ima­
ginar a mais simples troca de palavras com o médico. Esfor­
çava-se mesmo para não pensar muito nele, temerosa do ex­
cesso de tristeza que isso lhe traria. A idéia de que ele esti-
vera em sua casa parecia-lhe estranha e quase terrível. Essa
lembrança, em lugar de aproximá-la dele, a afastava. Não
ousara vê-lo então, e não podia acreditar que Maurecourt
tivesse estado nessa sala onde descansava agora. Isso a cho­
cava, como uma espécie de sacrilégio, como se a casa não
fosse digna dessa visita, desse privilégio. Já não olhava pela
janela. Em vez de sentir-se livre, de fazer o que desejava,
tinha a impressão de que algo irreparável acontecera e que
era inútil agora olhar para a casa branca ou entregar-se aos
seus sonhos, e quando, cedendo à tentação, ia até a janela e
seus olhos envolviam a casa de telhado azul, meio encoberto
pela árvore trêmula, arrependia-se tão profundamente que
não havia nenhuma proporção entre o prazer sentido e a dor
que provocava.
O importante agora era ouvir a Sra. Legras. “No fundo,
é uma boa pessoa”, dizia para si mesma, como para se des­
culpar daquela necessidade contínua de escutar os monólo­
gos todos e maliciosos da vizinha. Não acreditava numa única
palavra. Desconfiava da Sra. Legras, do seu sorriso, dos seus
longos apertos de mão e sobretudo daquela voz incansável
que dizia coisas tão estranhas. Muitas vezes Adrienne sentiu-
se a ponto de desfalecer ouvindo-a falar sobre a morte do
pai. O que a alarmava era o tom plácido e pausado que a
mulher usava para exprimir as opiniões mais inquietadoras.
— Veja bem — dizia a Sra. Legras, sem erguer a cabeça
—, se me dissessem que seu pai foi assassinado, não ficaria
surpresa. — Adrienne não respondia, mas as pontas dos seus
dedos, cruzados sobre os joelhos, ficavam geladas. Tinha

154
vontade de se erguer de um salto, correr até a estação e
tomar um trem, fugindo como fizera Germaine. Mas ficava
imóvel na cadeira, os olhos fixos nas mãos hábeis da Sra.
Legras, que bordava um ramo de rosas na ponta de um len­
ço. Não conseguia deixar a casa da vizinha antes das onze
e meia. Tinha de esperar o momento penoso em que ela
enrolava o bordado, quando então Adrienne consultava o
relógio com ar de espanto. E partia com pena lindescritível,
temendo o momento de estar só de novo na Vila idas Bétulas,
que detestava agora muito mais do que antes. Ágora, todas
as vezes que entrava no jardim e batia o portão de ferro
com violência, tampava os ouvidos; não suportava esse ruído
que conhecia tão bem e que lhe trazia tantas recordações.
Certo dia, não entrou em casa imediatamente e pensou em
ir até a cidade para almoçar, mas o temor de que a vissem
e estranhassem o passeio impediu-a. O que diria Desirée se
não voltasse na hora de sempre? Estava certa de que a em­
pregada não desconfiava de nada, apesar do que a Sra. Le­
gras sugerira, mas Adrienne estava resolvida a fazer de tudo
para não dar o menor pretexto para falarem a seu respeito.
Por essa mesma razão, nunca saía à noite. Poderia encontrar
alguém. O melhor era ficar em casa. Sentava-se na sala, ao
lado do lampião, folheando álbuns de gravuras. Meio apoia­
da à mesa, ouvia os ruídos que vinham da cozinha e virava
as páginas distraidamente. Mas, assim que ouvia Desirée sair
da parte dos fundos e caminhar pelo corredor para ir embo­
ra, começava a sentir-se inquieta. Ouvia o ruído da porta
que se abria e os passos que se afastavam na aléia do jar­
dim, e, depois, o som detestável do portão, que só se fecha­
va quando batido com violência. Parecia-lhe que ò si­
lêncio começava a crescer à sua volta como uma sombra
imensa e que nas profundezas desse silêncio podia ouvir
milhares de vozes. Era-lhe penoso continuar folheando o
álbum e o som da própria respiração a incomodava. Por
uma estranha deformação da memória, quase sentia sauda­
des do tempo em que duas pessoas, sentadas ao seu lado ao
redor dessa mesma mesa, a obrigavam a jogar cartas.

155
II

Haviam-se passado três semanas desde a morte do Sr.


Mesurat. Germaine, avisada imediatamente, não aparecera
em La Tour-l’Evêque para o enterro do pai, alegando o es­
tado crítico de sua saúde. Contudo, pedira uma cópia do
testamento e enviara a La Tour-l’Evêque um tabelião de
Saint-Blaise para representá-la e cuidar dos seus interesses.
De acordo com o testamento, a pequena fortuna do Sr.
Mesurat devia ser dividida igualmente entre as filhas, mas
aparentemente não previra a possibilidade de morrer antes
que a mais nova atingisse a maioridade e, portanto, não no­
meara tutor. Os únicos parentes do Sr. Mesurat, uma soltei­
rona de Rennes e um celibatário que morava em Paris, esta-
vam de relações cortadas com o primo Antoine há muitos
anos e sabiam que não herdariam nada. Portanto, em vão
foram convocados; não iam se incomodar sem algum pro­
veito. Assim, na ausência de um conselho de família e com
a recusa dos parentes de se responsabilizarem por Adrienne,
o juiz de paz de La Tour-l’Evêque nomeara o Sr. Biraud,
notário da cidade, tutor da Srta. Adrienne Mesurat, até a
sua maioridade. Ao mesmo tempo, Germaine Mesurat tinha
poder de conselho e podia propor ao Sr. Biraud modifica­
ções no modo de gerir a fortuna de Adrienne. Ficou deter­
minado que Adrienne receberia mensalmente a soma desig­
nada pelo notário e por Germaine, a qual seria evidentemen­
te deduzida da sua parte na herança. Germaine, maior de
idade, podia usar o dinheiro como lhe aprouvesse. Tudo foi
resolvido em três semanas.
Com o passar do tempo, Adrienne habituara-se às novas
circunstâncias de sua vida, à solidão e até mesmo à tristeza

156
que não a abandonavam. Parecia-lhe que agora sofria menos.
Ao acordar de manhã, já não sentia a surpresa dolorosa
de pensar que o dia nada tinha para lhe oferecer; ao con­
trário, essa certeza lhe parecia boa, porque, sabendo-se pro­
tegida contra as ilusões da esperança, sentia-se de certo mo­
do defendida contra a infelicidade. O que poderia acontecer
agora para perturbá-la? Não exterminara as fontes da sua
melancolia? Se Maurecourt morresse agora, por exemplo,
sua vida não mudaria, pois não conservava nenhuma ilusão
a esse respeito.
Enquanto esperava a hora de sair com a Sra. Legras, ou
de ir à sua casa para vê-la bordar no jardim, procurava
ocupar-se, dedicando-se à execução de projetos há muito
sonhados. Queria modificar completamente a disposição de
todas as peças da casa. Já mudara os móveis da sala de lugar,
quebrando a simetria antiga das poltronas, colocando-as con­
tra as paredes e não em círculo ao redor do tapete, deixando
livre o centro da peça, que assim pareceria maior. Mudou
também de lugar vários quadros. O canapé onde Germaine
se deitava fora afastado para um canto, entre duas portas,
e retirara a pele de pantera que o cobria, substituindo-a
por um xale bretão. Essas pequenas alterações mudaram de
tal modo o aspecto da sala que Adrienne fingia não reco­
nhecê-la e sorria satisfeita com sua obra.
Certa manhã, resolveu ir ao terceiro andar para ver o
quarto de Germaine. Algo a impedira de fazê-lo até então.
Especialmente o vago temor de um possível contágio. Dera
ordem a Desirée para limpar bem o quarto a arejá-lo todos
os dias e, há muito, todas as roupas de Germaine tinham
sido dadas aos pobres. Ainda assim, Adrienne pensava que,
quanto mais esperasse para entrar lá, melhor seria. Não ti­
nha por acaso a vida inteira para ir lá em cima? Além do
mais, uma vez que não queria pensar no médico, seria inú­
til chegar à única janela de onde poderia vê-lo. Mas, nessa
manhã, sentia-se mais forte que de hábito, quase indiferen­
te. “Talvez eu o ame menos agora”, pensava com falsa ale­
gria. Felicitou a si mesma, como se houvesse conseguido

157
uma vitória, pensando em como seria feliz se se libertasse
totalmente desse amor.
Subiu. A mão tremia um pouco ao abrir a porta, e uma
sensação indescritível a deteve por um momento na soleira.
A última vez em que vira a irmã nesse quarto fora quando
Germaine a chamara para dizer que estava morrendo. Havia
nesse quarto mais do que o perigo do contágio; estava cheio
da lembrança de uma moribunda que vivera longos anos
de sofrimento, sem nenhum objetivo. A cama, as cadeiras,
o pequeno armário de remédios, tudo falava à sua memória
numa linguagem eloqüente e terrível e Adrienne teve a sen­
sação de que o quarto transmitia infelicidade. Pensou em
fechar a porta sem entrar, mas a hesitação durou pouco. Al­
guma coisa a atraía irresistivelmente para a janela, desprovi­
da agora de cortinas. Conteve a respiração e atravessou o
quarto com passos largos. Seu coração batia descompassada-
mente, pois subira a escada com muita pressa. Abriu a jane­
la, respirou profundamente o ar fresco e debruçou-se sobre a
calha, olhando para a frente. Entre as árvores da Vila Louise
avistou a Sra. Legras caminhando pelos canteiros com
uma tesoura de podar nas mãos. Um pouco atrás, o bassê
cheirava as pedras do chão. Adrienne teve vontade de cha­
mar a vizinha, mas conteve-se. Observou a gorda senhora
que, com passo tranqüilo, ia de um canteiro ao outro, o rosto
protegido pelo chapéu de palha.
De repente, Adrienne virou a cabeça. Como fazia antes,
agarrou-se à borda da calha e inclinou-se o mais que pôde
para ver a casa branca. Para isso tinha ido a esse quarto,
compreendia agora, e sentiu-se subitamente inebriada à idéia
de saborear essa alegria que negara a si mesma por três se­
manas. Olhou com uma espécie de avidez. O sol iluminava
o telhado que refletia a luz com um brilho cegante. Foi a
primeira coisa que viu. Depois, baixou o olhar procurando a
janela, que estava aberta como de hábito. Adrienne teve a
impressão de voltar no tempo. Sentiu-se quase chocada ao
verificar que nada mudara, como se esperasse uma cena di­
ferente, e imediatamente foi envolvida pela mesma languidez
de um mês atrás, nesse mesmo lugar, aquela espécie de en­

158
torpecimento de todo o seu ser. As mãos lhe doíam. Incli­
nou-se mais e divisou o interior daquela sala que a intrigava
tanto e que supunha ser o consultório do médico. O tapete
grená e um dos ângulos da escrivaninha estavam banhados
por um raio de sol.
De súbito, afastou-se, cobrindo a boca com as mãos. Al­
guém aparecera na janela. Sem dúvida, não era o médico;
bastara-lhe um segundo para ter certeza. Afastou-se um pou­
co, dando as costas para o pavilhão, com a cabeça apoiada
no batente da janela. Uma espécie de gemido surdo subiu-
lhe do peito e ela murmurou:
— Quem será? Quem será? *■*- E não ousava voltar-se
para ver. Parecia-lhe que todo o seu destino ia se resolver
naquele instante, que estava a ponto de descobrir algo essen­
cial e definitivo que decidiria a sua felicidade ou a sua des­
graça. Um silêncio profundo pesava sobre a rua. Os pássa­
ros estavam calados. Tudo parecia mudo e imóvel para sem­
pre, como sob a força de um encantamento. Por fim, incapaz
de se conter por mais tempo, inclinou-se para a frente, apoi­
ando as mãos trêmulas na calha. A janela estava vazia.
Adrienne afastou-se rapidamente, suspirando. “Eu me en­
ganei”, pensou. “Não havia ninguém.”
E saiu correndo do quarto.
À tarde, quando saía para ir à casa da Sra. Legras, o car­
teiro entregou-lhe uma carta. Abriu-a e começou a ler, ali
mesmo na rua. Era da superiora do hospital onde estava
Germaine e dizia:

“Senhorita, compadecemo-nos sinceramente da sua profun­


da dor e desejamos que a certeza da solicitude divina a am­
pare nesses dias difíceis. Receávamos, como a senhorita tam­
bém, sem dúvida, que a notícia tivesse efeitos prejudiciais na
saúde precária da sua irmã, mas ela parece resignada aos so­
frimentos que lhe foram destinados aqui na terra. Não se
preocupe com ela. Podemos dizer que está melhor. O ar des­
sa região..

159
Adrienne saltou dez linhas e leu:

. .muito fraca para escrever, pede-lhe que transfira para


o seu nome a soma de quinhentos francos, no banco de
Saint-Blaise, quantia essa que deverá ser depositada todos
os meses..

Amassou a carta e jogou-a na sarjeta. Não escrevera nem


uma vez para a irmã e a Sra. Legras tinha se incumbido de
lhe comunicar a morte do pai. A idéia de restabelecer con­
tacto com a doente só podia desagradá-la; e muito mais a
perspectiva de fazer-lhe algum favor. Não se tratava do fato
de enviar uma parte da herança paterna, más a obrigação
de pensar em Germaine uma vez por mês a aborrecia; ir ao
tabelião, ao correio, pronunciar o seu nome. Atribuía tudo
isso ao ódio que sempre sentira pela irmã, mas na realidade
era algo mais forte que jamais compreenderia, uma vez que
não tinha coragem de confessar a si mesma. Duas preocupa­
ções tinham agora lugar preponderante em sua vida: preci­
sava pensar no médico ou esforçar-se para esquecê-lo, o que
era outro modo de se lembrar desse homem, e precisava
ouvir a Sra. Legras falar-lhe sobre a morte do pai, acusan-
do-a veladamente de tê-lo assassinado. Tudo que distraísse
seus pensamentos desse amor insistente e dos remorsos não
confessados era-lhe insuportável.
Atravessou a rua, pensando aborrecida que tocara sem
luvas na carta que a doente, por certo, lera e sobre a qual
respirara. “Por que ela vive ainda, afinal?” perguntou cruel­
mente a si mesma. “O que tem ela que lhe dê sentido à
vida?”
Entrou no jardim da Vila Louise. A Sra. Legras saía de
casa. Desceu as escadas, dirigindo-se para Adrienne e agitan­
do um bastão azul na mão esquerda, enquanto, com o braço
direito, apertava um embrulho de papel marrom contra o
peito.

160
— O que é isso? — perguntou a jovem.
— Já vai ver — respondeu a Sra.JLegras.
Estendeu o bastão para Adrienne como se fosse sua mão
e sentou-se sob uma tília. A jovem instalou-se ao lado dela.
— Minha querida — começou a Sra. Legras, desatando
o barbante do embrulho. — Tenho uma novidade para você
que, estou certa, vai aborrecê-la...
— Uma novidade?
— Vou partir...
Colocou as mãos pequenas sobre o embrulho e observou
Adrienne, para julgar o efeito das suas palavras. Adrienne
baixou os olhos.
— . . . e volto daqui a três dias — ajuntou, rindo às gar­
galhadas. — Meu marido precisa de mim — continuou, sé­
ria---- Nada grave, mas os negócios o prendem em Paris, não
pode vir ter comigo, bem, você compreende. . . Já lhe disse
o que ele faz?
Adrienne sacudiu a cabeça negativamente.
— Lã, algodão, seda — disse a Sra. Legras. — Não me
envergonho de dizer que sou uma verdadeira burguesa. Aí
está mais uma prova. . .
Abriu o embrulho. Continha uma peça de fazenda azul
vivo. A Sra. Legras levantou-se e solenemente desenrolou a
peça, segurando-a à sua frente com o braço estendido; era
uma bandeira tricolor do tamanho de um guardanapo.
— Estou vendo — disse Adrienne.
A figura branca e fardada encoberta pela bandeira pare­
cia-lhe ridícula e conteve-se para não rir.
— Meu marido mandou isso para o 14 de julho. A outra
está muito desbotada e eu a tirei do mastro que vou utilizar
— explicou a Sra. Legras. — Seda da melhor qualidade.
Pode tocá-la.
Adrienne segurou a fazenda entre os dedos.
— Depois de amanhã é o dia 14 — disse a Sra. Legras,
sentando-se. — Preciso colocar a bandeira no mastro. Sabe
que isso me comove? Sim, fui criada nesses princípios durante
trinta anos. Boa francesa, boa cristã. Não estou falando por
você. Bem, mas estava lhe contando sobre meu marido. Pre­

161
cisa conhecê-lo. Quer segurar o mastro? Enquanto isso vou
costurar a bandeira. Infelizmente, seus negócios não vão
muito bem ultimamente. Enfrenta uma terrível concorrência
estrangeira, especialmente da Inglaterra. Quer segurar firme,
minha querida? Portanto, temos tido grandes aborrecimentos
com dinheiro, naturalmente. Dê graças aos céus por ter sido
protegida contra aborrecimentos desse tipo. Você teve um
bom pai, que fez tudo para lhe garantir um futuro agradável.
Inclinou-se sobre o pano, começando a costurar.
— Estive falando a respeito dele no outro dia — disse
com ar despreocupado.
— A respeito de quem, senhora? — perguntou a jovem
depois de alguns segundos.
— De seu pai, ora. Você nunca mais foi à cidade. Não
sabe o que é a província. Só uma parisiense como eu pode
sentir a diferença. Fala-se e fala-se. Limito-me a escutar,
mas ontem uma tal Srta. G rand... Você a conhece?
— A do armarinho — disse Adrienne, empalidecendo.
— Essa mesma. Fui comprar um carretei de linha azul
para a bandeira. A Srta. Grand me atendeu, embrulhou o car­
retei e sabe o que foi que ela disse?
— Não, senhora.
— Por favor, segure o mastro com força, do contrário
vou me picar com a agulha. Ela me disse: “A senhora mora
em frente da Vila das Bétulas? Deve conhecer a Srta. Me­
surat. O pai teve morte trágica. Isso não é natural.” Tudo
isso é a Srta. Grand falando, compreende?
— Sim — murmurou a jovem.
— Naturalmente — continuou a Sra. Legras, sem erguer
os olhos da costura — não me cabia dar nenhuma opinião.
Mas, afinal, como você me chamou no dia da catástrofe,
acho melhor dizer-lhe o que penso, mesmo que fique calada
diante de estranhos. Bem, eu acho muito estranho. Tenho
pensado muito sobre isso. Além do mais, sou muito intuitiva.
Adivinho as coisas. Seu pai teria levado um lampião para
descer as escadas.
Fez-se um silêncio.

162
— Então eu apenas disse à Srta. Grand: “Sim, parece
estranho.” Mas sabe muito bem que não ia falar a seu res­
peito com aquela mulher. Estou certa de que não gostaria,
não é?
— Não. Não gostaria.
— Tinha certeza disso, minha querida — disse a Sra. Le­
gras com doçura.
Terminou de costurar a bandeira em silêncio. Segurando
fortemente o mastro, Adrienne olhava a nuca branca e forte
sob ò chapéu de palha fina, a cabeça inclinada, e sentiu-se
invadida por uma fúria silenciosa. Não era justo que a Sra.
Legras pudesse realizar todos os seus projetos, que pudesse
abrigar os pensamentos mais vis, sem que ela, Adrienne, o
objeto dessas lucubrações criminosas, soubesse das mesmas.
Teve vontade de atacá-la, derrubá-la da cadeira, qualquer
coisa para impedir aquela mulher de continuar pensando.
“Que direito tem de me interrogar assim?” pensou. “Sem
dúvida, vai usar contra mim tudo o que lhe contei. Não res­
ponderei mais às suas perguntas.”
— Aí está — disse a Sra. Legras, dando um nó na linha.
— Terminei. Dê-me agora, ora, dê-me aqui!
Arrancou a bandeira das mãos de Adrienne, que não a
soltou imediatamente.
— Você também vai hastear uma bandeira na sua casa,
não vai? — perguntou a Sra. Legras, segurando a bandeira
com o braço estendido para contemplá-la.
— Naturalmente, naturalmente — respondeu Adrienne.
— Parece triste, preocupada. Não é por causa do que lhe
falei?
— Não.
A Sra. Legras inclinou a cabeça para o lado.
— É o seu namorado? — perguntou em voz baixa. —
Nunca me falou dele. Faz muito mal. Tenho mais experiên­
cia do que você e entendo dessas coisas.
— Não tenho namorado — disse Adrienne com voz rouca.
— Pois então está errada — observou a Sra. Legras, co­
locando a bandeira no colo. — Uma moça como você. . .
Adrienne ergueu os ombros.

163
— Não adianta nada ser bonita — murmurou. — Não
sou feliz.
— Não adianta quando se é pobre — retrucou a Sra.
Legras.
A jovem ia dizer alguma coisa, mas conteve-se. Arrepen-
dia-se do pouco que dissera. Era-lhe odioso ouvir essa mu­
lher falar sobre o seu amor. De repente, lembrou-se da
pessoa que julgara ver na janela da casa do médico nessa
manhã. O que fazer para que a Sra. Legras a convidasse a
ver a sua casa? Naturalmente, de alguma parte avistava-se
o pavilhão branco. Mas queria mesmo ver de novo aquela
janela, rever talvez a pessoa desconhecida que se debruça­
ra por um instante para a rua? Perguntou inesperadamente:
— Comprou essa vila há muito tempo?
A Sra. Legras olhou para ela e fez um muxoxo.
— Meu Deus, você deve estar sonhando! Sabe muito
bem que não estava aqui no ano passado. Além disso, não
comprei essa vila, eu a aluguei. Meu marido alugou.
Juntou as mãos sobre o pano da bandeira e continuou
com certa frieza:
— Se acha que sou indiscreta, não precisa mais me ouvir.
— Nunca pensei que fosse indiscreta — disse Adrienne,
corando.
— Bem, vamos deixar isso — disse a Sra. Legras, enro­
lando a bandeira. — É natural que guarde seus segredos.
E ajuntou imediatamente:
— Eu não tenho segredos, o que simplifica muito as coi­
sas. Não falemos mais disso.
Fez um gesto, como se procurasse afastar alguma coisa
da frente do rosto, e ergueu-se.
— Desculpe, minha querida. Preciso fazer as malas. De­
pois do almoço, vou passar no veterinário. Deixei meu ca­
chorro com ele. Descobri que anda se coçando um pouco.
Quer ir comigo?
— Muito obrigada — disse Adrienne. — Não posso.
— Então até logo. Sem rancor?
— E por que teria rancor?
Apertaram-se as mãos. Adrienne voltou para casa.

164
III

No dia seguinte, bem cedo, a jovem foi atraída à janela


pelo ruído de uma carruagem que parava no portão da Vila
Louise; viu a Sra. Legras sair da casa e instalar-se no veículo,
que partiu imediatamente. A cena apertou-lhe o coração. Du- '
rante muito tempo depois de o silêncio ter voltado à rua,
ficou imóvel, os olhos fixos no local onde a vizinha tinha
tomado a carruagem, como se tivesse acontecido alguma
coisa irreparável que lhe causava uma infelicidade intensa.
Sua alma estava vazia. Fora preciso ver a partida da vizinha
para compreender o quanto a companhia dessa mulher odio­
sa lhe era necessária. Não tentava explicar a contradição
monstruosa, aceitava-a como algo mais forte do que sua von­
tade, contra a qual não tinha forças para lutar. Como des­
cobrir a origem e a natureza da sua servidão, dessa necessi­
dade imperiosa de visitar a Sra. Legras todos os dias? Pre­
feria não perguntar. O medo estranho de si mesma, que sen­
tira na noite da morte do pai, esse horror de descobrir o que
podia fazer ou pensar, assaltou-a de novo. Somente por uma
espécie de magia desconhecida para ela, auferia uma sensa­
ção de paz interior com a tagarelice pérfida da Sra. Legras.
Se a mulher partisse, como poderia viver? E agora ela havia
partido. Precisava esperar três longos dias para revê-la, três
dias de solidão insuportável nos quais o silêncio assustador
não teria nenhuma resistência, esse silêncio contra o qual
precisava lutar incessantemente até que a voz rápida e mo­
nótona da Sra. Legras voltasse para romper o encantamento
sinistro.
Vestiu-se o mais rápido que pôde e resolveu sair. Uma
forte tempestade desabara durante a noite e o tempo estava

165
fresco. O céu cinzento e ameaçador parecia tocar as árvores.
Não eram ainda oito horas. Como precaução, apanhou um
guarda-chuva e, sem esperar que a cozinheira lhe servisse o
café na cama, saiu.
Na rua, voltou as costas deliberadamente para o pavilhão
branco. Não queria ir naquela direção; não queria, acima de
tudo, pensar nisso agora. Desejava fatigar-se, andar até as
pernas não agüentarem, não pensar, não refletir sobre coisa
alguma, andar, atravessar a cidade, andar pelo campo e de­
pois voltar para casa e dormir. Caminhou pela Rua Thiers,
virou à esquerda seguindo o muro coberto de glicínias que
exalavam um odor delicioso, e continuou em frente. Três mi­
nutos mais tarde estava na praça da pequena cidade. As
pessoas a cumprimentavam. Respondia embaraçada, apres­
sando o passo. Não estava procurando um passeio. O impor­
tante era manter-se em movimento. Portanto, evitou a praça
do mercado, onde todos a conheciam. Entrou por uma viela
ao lado da igreja e parou sob a marquise de uma casa para
retomar o fôlego. Sua pele estava úmida; tirou as luvas
que lhe esquentavam as mãos e passou o lenço sobre o nariz
e as faces. Tinha caminhado tão depressa que nem sabia
onde estava. Depois de alguns minutos, recomeçou a andar,
saindo da viela para a rua principal da cidade. A essa hora,
tudo estava calmo ainda. Os empregados abriam as lojas e
viam passar a jovem dama que parecia tão apressada. Adrien­
ne percebeu que a olhavam e, presa de um pavor inexplicá­
vel, voltou sobre seus passos. Tudo se embaralhava em sua
mente. A jovem sempre tão controlada perdera completa­
mente á cabeça. Teria corrido se não temesse despertar sus­
peitas, pois no seu íntimo conservava o medo de fazer
qualquer coisa que parecesse estranha. Quando começava a
atravessar a rua apressadamente, uma carruagem, cujo ruí­
do não ouvira, vinda da sua direita, a surpreendeu. Deu um
salto para trás, quase caindo. Assustada, começou a cami­
nhar na parte da calçada mais afastada da rua, junto aos
muros. De súbito, ergueu os olhos e leu sobre a porta de
vidro de uma loja o nome de Ernestine Grand.

166
Parou. A loja era pintada de preto, com uma fachada mal
conservada onde se amontoavam roupas de malha de lã de
cores pálidas, pantufas e, pendurados nos cabides, aventais
longos, azuis e vermelhos. Adrienne lembrou-se da mulher
de quem a Sra. Legras lhe falara. Sem dúvida era a mesma
pessoa. Parecia-lhe que, inexplicavelmente, como se tudo
fosse apenas um sonho, iria encontrar sua vizinha nessa loja.
Além disso, era um modo de escapar à curiosidade dos olha­
res que acreditava fixos nela. Entrou.
Uma campainha de som triste anunciou a sua chegada,
mas passou-se algum tempo antes de aparecer alguém. Era
uma pequena loja sombria com um balcão que ocupava qua­
se todo o espaço, e gavetas verdes com puxadores de cobre
cobriam uma parede inteira. Um cheiro indefinível, de fa­
zenda e de bolor, impregnava o ambiente. Os ruídos vindos
de fora eram abafados, transformados, e a rua, separada da
loja apenas pelo vidro espesso, parecia infinitamente distante.
Adrienne sentou-se e calçou as luvas. No profundo silên­
cio da loja, ouvia a própria respiração e um zumbido con­
fuso enchia-lhe a cabeça, como se aparecesse sempre que ela
se encontrava numa sala fechada, mas seu coração estava
menos agitado do que na rua e sentia-se mais calma.
Afinal, abriu-se uma porta no fundo da loja dando passa­
gem a uma mulher que não parecia satisfeita ao ver uma
freguesa tão cedo, e que lançou um olhar furtivo ao balcão
para ver se não faltava nada. Era magra e alta e caminhava
silenciosamente, a não ser pelo farfalhar do vestido preto;
cumprimentou e colocou-se na frente de Adrienne do outro
lado do balcão.
— Senhorita?
— Quero um carretei de linha branca — disse Adrienne
rapidamente.
Tirou as luvas, disfarçando o embaraço, e seguiu com os
olhos a mulher que abria uma gaveta silenciosamente.
Adrienne apertou as mãos uma contra a outra sobre o bal­
cão, como para tomar coragem. Queria dizer alguma coisa
que levasse a Srta. Grand a falar da Sra. Legras, mas não
sabia o quê. Bruscamente ouviu sua própria voz dizendo:
— A Sra. Legras esteve aqui ontem?
Calou-se. Passou-se um segundo mortal, depois a mulher
fechou a gaveta e voltou-se:
— Esteve anteontem, comprando linha.
A Srta. Grand tinha o rosto longo e a pele sem vida como
a das freiras enclausuradas que não saem nunca e respiram
constantemente o mesmo ar viciado. Colocou sobre o balcão
uma gaveta com carretéis de linha de diversas cores e se in­
clinou um pouco. Adrienne podia ver as pálpebras brancas
e a risca dos cabelos grisalhos que ela usava em bandós.
— Se a senhorita quer escolher.. . — disse ela com voz
tranqüila. E ajuntou no mesmo tom:
— Ela me disse que se conhecem muito bem.
— É verdade — disse Adrienne com um entusiasmo que
logo reprimiu. Com a ponta dos dedos separava os carretéis
sem escolher nenhum.
— Ela viajou por alguns dias — continuou, absorta. —
Estive com ela ontem à tarde. Estava costurando uma ban­
deira. Eu a ajudei.
— A senhorita sofreu bastante — replicou a Srta. Grand
depois de um momento. — Foi exatamente o que eu disse à
Sra. Legras. . .
Adrienne ergueu os olhos e viu as duas mãos da Srta.
Grand apoiadas no balcão. Eram mãos longas e a pele man­
chada enrugava-se nas falanges; mãos fortes. Suspirou e apa­
nhou um carretei, examinando-o atentamente.
— O marido da Sra. Legras é comerciante? — perguntou
rapidamente, recolocando o carretei na gaveta.
— O Sr. Legras? — disse a outra.
Sorriu um pequeno sorriso tranqüilo, quase imperceptível.
Adrienne a observava.
— Não está no comércio de seda e algodão? — pergun­
tou com voz inquieta.
A Srta. Grand ergueu ligeiramente os ombros e sorriu.
— Não conheço o Sr. Legras — disse.
— Mas ela me falou sobre ele ontem e disse que ele tra­
balha com seda e algodão.
— Bem, não vou dizer que ela não conheça alguém no
ram o...
Adrienne riu nervosamente.
— Então. . . seu marido. . . — disse.
A mulher inclinou a cabeça para o lado e passou o dedo
pela borda da gaveta.
— Não quero ser indiscreta — disse por fim.
— Não se trata disso — replicou a jovem, inclinando-se
sobre o balcão. — Tudo ficará entre nós duas, dou-lhe minha
palavra.
Pela primeira vez a Srta. Grand ergueu as pálpebras e fi­
xou os olhos pálidos em Adrienne. Entreolharam-se por um
segundo.
— Parece que esse senhor é bastante generoso com ela
— disse a Srta. Grand, voltando a baixar a cabeça.
— Foi ela quem lhe disse?
— Sim — cochichou a Srta. Grand com voz quase inau­
dível.
Era como se estivesse confessando uma falta.
— Naturalmente, ela nunca me disse que esse senhor não
era o seu marido, compreenda. Mas, enfim, todos sabem,
embora ela nem desconfie. Todo mundo aqui sabe disso.
Adrienne ficou apavorada. Lembrou-se do que o pai
lhe dissera sobre a Sra. Legras. Pequenos detalhes até
então incompreensíveis vinham-lhe à mente: a maquilagem
um pouco exagerada, a familiaridade fácil e a voz, tudo aqui­
lo que a havia chocado na vizinha explicava-se com o que
acabava de saber. Como não compreendera mais cedo? Mas
como podia saber até que ponto chegava a imprudência des­
sas criaturas que não hesitavam em se mostrar em público,
em ir a concertos? Pois não hesitava em classificar a Sra.
Legras na categoria mais abjeta. Sua testa e suas faces esta-
vam em fogo. Jamais fora tão atingida no seu orgulho. En­
tão aliara-se a uma mulher da rua. Um frêmito percorreu-
lhe o eorpo e subitamente teve consciência de ser uma
Mesurat, mas uma Mesurat quase desonrada, quase aviltada.
Cobriu novamente o rosto com o véu, apanhou as luvas e o
carretei de linha, e pagou sem dizer uma palavra.

169
Na rua, retirou o carretei da bolsa onde o guardara e jo­
gou-o na sarjeta.
A chuva caía mansamente, uma chuva fina e silenciosa
como um nevoeiro. Adrienne abriu o guarda-chuva e come­
çou a correr. Pouco lhe importava agora que a vissem, que­
ria voltar para casa pelo caminho mais curto.
Assim que entrou em casa, sem tirar o chapéu e o casaco
sentou-se em um dos cantos da sala, o busto ereto e os braços
sobre os joelhos, na atitude de uma pessoa acabrunhada. O
que lhe partia o coração, mais do que todo o resto, era o
fato de ter sido enganada. Por certo essa humilhação a ma­
taria. A Sra. Legras sem dúvida comentara na cidade, como
fazem as mulheres desse tipo. Devia ter exagerado a intimi­
dade que havia entre elas, espalhando tudo aquilo que
Adrienne, na sua ingenuidade imperdoável, lhe contara. Como
todos deviam estar rindo e caçoando das duas!
Lembrava-se da Sra. Legras lendo-lhe a mão, interrogan-
do-a sobre a fortuna do pai. Tudo se enquadrava na idéia
que tinha das mulheres dessa profissão e perguntava a si
mesma como pudera ser tão tola de não perceber antes. E
cada lembrança a fazia suspirar indignada.
Porém, considerações de ordem mais séria a alarmaram
mais ainda. Com certeza a Sra. Legras não deixara de co­
mentar a morte do Sr. Mesurat. O que teria dito? Que papel
reservara para Adrienne na sua história?
Adrienne ergueu-se e deu alguns passos pela sala. A ex­
pressão por vezes suspeita da Sra. Legras, as frases ambíguas,
o que significariam realmente? Adrienne já tinha pensado
sobre essas coisas, mas até então dizia a si mesma des-
preocupadamente: “É apenas uma mulher pérfida que faz
um jogo duplo”, evitando ir mais longe nos seus pensamen­
tos, temendo convencer-se de que devia se abster completa­
mente da companhia daquela mulher; mas acordava agora.
Era preciso acabar tudo. Do contrário, essa mulher faria
com que toda a cidade se voltasse contra ela para o resto da
vida, levando-a a recuar como uma criminosa. Começou a
dizer em voz alta e penetrante:

170
— Eu, uma criminosa! — A idéia a chocava como se
nunca tivesse pensado nisso até aquele momento. Sem dúvi­
da ouvira a Sra. Legras fazer insinuações infames e sentira
medo, mas, na verdade, teria acreditado que a mulher a
considerava uma assassina? Se tivesse acreditado nisso, teria
continuado a visitá-la todos os dias? Não teria fugido ime­
diatamente? Agora, porém, não podia mais ter dúvidas. Era
uma mulher de má vida, capaz, portanto, das idéias mais
terríveis. O que fazer?
Apoiou-se contra a lareira e apertou os olhos com os de­
dos; na noite que criava com esse gesto via passar linhas
vermelhas. A chuva caía com mais força. Ouvia as gotas
batendo contra a janela entreaberta. Depois de um momen­
to, Adrienne sentou-se à mesa de centro e repousou a cabeça
sobre o mármore, sem forças para se manter ereta. Era como
se vivesse sozinha nessa casa, não há um mês, mas há anos.
Contra sua vontade, a imagem do pai surgiu-lhe ante os
olhos. Pensou: “Desde a morte do meu pai, a morte do
meu pai. . . ” E era como se tivesse lançado sobre esse
acontecimento um véu que a impedia de vê-lo; essa expres­
são banal a satisfizera, pelo aspecto de normalidade que em­
prestava à morte terrível do Sr. Mesurat, recalcandd na me­
mória a verdade sinistra.
Em busca de mais defesa, voltou o pensamento para o mé­
dico. De onde estava, via o pavilhão branco, e abandonou-se
à contemplação de um pedaço de parede e um canto de te­
lhado, com a alegria triste e exausta de quem cede depois
de longa luta. Por detrás daquela parede vivia um homem
que, com uma palavra, podia fazê-la feliz para sempre. Criou
mentalmente uma imagem de Maurecourt. Por que não ia
vê-lo, falar com ele? Por quê? Porque tinha esperado demais
e o momento passara. Com o espírito supersticioso das pes­
soas a quem a solidão torna tímidas, imaginava confusamen­
te que todos os atos de sua vida eram determinados por uma
vontade desconhecida e que tinha apenas um momento, um
só, para agir. E era preciso agarrá-lo na sua passagem, pois
o tempo o levava inexoravelmente, não permitindo que vol­
tasse jamais. Tivera uma hora, um minuto, para pôr o cha­
péu, atravessar a rua, bater na porta do pavilhão branco.. .
Agora, restava-lhe viver com seus remorsos inúteis e com
esse amor que não soubera fazer triunfar.
Não lutava. Deixava que a recordação das velhas esperan­
ças a destruísse. Parecia-lhe que assim chegaria ao fundo
dessa grande dor. Lá, ninguém a poderia atingir.
Com súbita resolução, subiu ao quarto de Germaine.
Debruçar-se naquela janela e olhar de novo seria a prova da
sua força; prova de que já não tinha medo, de que estava
resignada, de que não estava mais sob a incerteza da espe­
rança dolorosa e da dolorosa apreensão.
Entrou no quarto, abriu a janela e debruçou-se, agarran­
do-se à calha. Gotas de chuva caíam sobre sua pele. O cora­
ção acelerou-se com as batidas precipitadas que conhe­
cia tão bem e que faziam pulsar o corpo todo. Via o pavi­
lhão e, como no passado, seu olhar ia do telhado brilhante
sob a chuva à árvore que a mais leve brisa fazia estremecer;
não queria olhar para a janela imediatamente, adiando esse
prazer que era também uma prova, esforçando-se para não
vê-la.
Havia alguém na janela. Adrienne sabia disso, enquanto
olhava para o telhado e para a árvore, e por isso seu cora­
ção disparava, mas esperou um momento e depois baixou os
olhos. Era uma criança, um menino de doze ou treze anos,
debruçado sobre a barra de apoio, que tentava alcançar a
borda da calha com a ponta do cabo de um chicote. Quase
sem respirar, Adrienne acompanhou o esforço do menino,
que estendia a mão, segurando o chicote na ponta dos dedos.
Tinha cabelos negros. Apenas a cabeça era visível, o rosto
abaixado, sem dúvida com a boca na altura da barra de
apoio. Vestia um avental de listras azuis que deixava apare­
cer apenas uma gola muito branca em contraste com os
cabelos.

172
Permaneceu imóvel até o menino sair da janela, depois
afastou-se e deu alguns passos pelo quarto. A porta estava en­
treaberta; fechou-a. Fechou também a janela e sentou-se. Mo-
via-se lentamente, como se cada gesto seguisse uma ordem
predeterminada. E de súbito, no silêncio abafado do peque­
no quarto, abandonou-se a toda a tristeza que em vão ten­
tava afastar e as lágrimas rolaram-lhe pelas faces.

173
IV

Alguns minutos mais tarde, desceu correndo. Não era


possível ficar mais tempo naquela casa onde fora tão infeliz;
não podia mais ver aquelas paredes, aqueles móveis, teste­
munhas e lembranças do sofrimento que feria seu coração.
Entrou no seu quarto, colocou numa valise algumas peças de
roupa ao acaso, apanhou trezentos francos na caixinha de
madeira e saiu da Vila das Bétulas, depois de avisar Desirée
que ficaria fora um ou dois dias.
Estava feliz por ter agido assim. Cinco minutos antes
se lamentava num quarto fechado. De súbito, compreendera
que era tolice chorar assim, deixar-se vencer pela vida sem
tentar uma defesa, e agora estava a caminho da estação, com
passo firme e rápido que a estimulava, a valise numa das
mãos, o guarda-chuva na outra. Continuava a chover. En­
quanto andava, ouvia as gotas de chuva caindo com um ruí­
do seco sobre a seda esticada e procurava descobrir um ritmo
nessas batidas. Parecia-lhe que o fato de prestar atenção às
pequenas coisas demonstrava sua liberdade de espírito, e a
colocava, de certa forma, acima de si mesma. Talvez as lá­
grimas lhe tivessem feito bem; sentia-se envergonhada e ao
mesmo tempo mais forte.
Ao chegar à estação, perguntou a si mesma para onde iria.
O trem para Paris só passava às duas e meia. Além disso,
não queria ir a Paris; já estivera lá muitas vezes e a cidade
lhe dava uma impressão desagradável de atordoamento fe­
bril. Entrou na sala de espera e consultou o horário. Em
quinze minutos sairia um trem para Montfort-l’Amaury.
Gostou do nome e comprou uma passagem de segunda
classe para a pequena cidade cujo interesse histórico o car­
taz anunciava. Começou então a andar pela sala de espera

174
e pela plataforma, completamente absorvida nos seus proje­
tos. Sentiu-se animada repentinamente e, como estava só,
pronunciava em voz alta palavras desconexas, frases inaca­
badas, que se diria dirigidas a uma pessoa fraca e débil a
quem era preciso encorajar.
— Vamos — dizia a meia-voz — , vamos depressa. (E
olhava à sua volta, furtivamente.) É preciso terminar. Não
fico mais aqui, não posso mais.. .
Temendo ter dito as últimas palavras em voz muito alta,
tossiu para disfarçar, mas não havia ninguém para ouvi-la.
Então começou a rir, colocando o lenço sobre a boca. Nesse
momento o trem surgiu na estação.
Os poucos viajantes que esperavam na plataforma embar­
caram na terceira classe e Adrienne encontrou com facilida­
de um compartimento vazio. Assim que se sentou no banco
forrado de pano azul e começou a sentir o movimento do
trem cada vez mais rápido, teve vontade de levantar-se e
cantar. Era a primeira vez que viajava sozinha e, pela pri­
meira vez também, teve a impressão de ser livre. Estava afi­
nal livre do constrangimento inexplicável da Vila das Bétu­
las que a fazia sofrer tanto, não precisava mais lutar contra
os próprios pensamentos. À medida que via as árvores, as
casas, toda aquela paisagem odiosa de La Tour-l’Evêque afas-
tando-se, sentia um aperto na garganta, mas não era a an­
gústia com a qual tinha vivido até então.
Tirou o chapéu que lhe apertava a cabeça e abriu as duas
janelas para não sentir o mau cheiro do compartimento. O
vento soprou sobre os seus cabelos, e ela virou o rosto para
trás, escutando o ritmo regular do trem; não era um ruído
desagradável; as batidas surdas tinham um sentido oculto
que despertava em Adrienne um eco profundo, como se fosse
uma frase monótona repetida indefinidamente para se gravar
para sempre na alma.

Quando acordou, o trem entrava na estação de Montfort.


O silêncio e a imobilidade a haviam despertado. Colocou o

175
chapéu apressadamente, apanhou a valise e o guarda-chuva e
saltou para a plataforma. Um funcionário da estação, no­
tando que ela olhava para os lados com ar inquieto e um
pouco atemorizado, indicou-lhe a saída.
Encontrou-se numa praça rodeada de árvores e enchar­
cada de chuva. Uma estrada branca, cujo fim não podia avis­
tar, estendia-se na direção do campo, entre as planícies e os
bosques. Adrienne voltou e perguntou ao funcionário da es­
tação onde ficava a cidade. Ele apontou a longa estrada, di­
zendo que teria de andar uma meia hora ou tomar uma car­
ruagem. Duas ou três esperavam na frente da estação.
Adrienne hesitou. Continuava a chover e o tempo não
prometia melhorar tão cedo. Ela, no entanto, considerava
a carruagem um luxo. Calculou rapidamente a despesa que
representaria; afinal de contas eram as suas economias e não
o dinheiro que recebia mensalmente; esse argumento a de­
cidiu. Dirigiu-se a uma e entrou, sentando-se sob a capota de
couro, depois de pedir ao cocheiro para levá-la à cidade.
Nas proximidades de Montfort-l’Amaury, a estrada é cal­
çada e ladeada de árvores. À direita e à esquerda a paisagem
é a mesma, mais sombria ainda num dia de chuva. Tudo o
que Adrienne podia ver, curvando-se para a frente, era uma
série interminável de campos verdes onde o vento e a chuva
redemoinhavam. Na linha do horizonte, uma fileira irregu­
lar de árvores parecia tentar inutilmente juntar-se para for­
mar bosques. O céu sem cor aumentava a desolação do es­
petáculo.
Ela recostou-se no banco, desistindo de olhar. Percebeu
então, pelo passo do cavalo, que a carruagem entrara numa
rua. Inclinou-se e viu algumas crianças que, atraídas pelo
ruído, chegavam às portas e acompanhavam o veículo com
olhos nos quais Adrienne pensou discernir desconfiança.
O cocheiro parou na frente da igreja. Depois do barulho
das rodas sobre as pedras, o silêncio pareceu estranho e qua­
se desagradável. Adrienne desceu. Era a hora do almoço e
as ruas estavam desertas. Quando pagava ao cocheiro, ouviu

176
um galo cantar e, sem saber por que, seu coração se apertou
de tristeza.
Depois que o veículo já tinha desaparecido, Adrienne lem-
brou-se de que poderia ter pedido ao cocheiro que lhe indicas­
se um restaurante e um hotel, e agora não queria entrar numa
loja, incomodar com suas indagações as pessoas ocupadas.
Ao acaso, dirigiu-se para uma rua íngreme que parecia ser
a principal da cidade. Todas as casas pareciam tão antigas e
tranqüilas que não pôde deixar de observá-las com uma
curiosidade tímida. Voltou-se e viu a torre da igreja cujas
pedras tinham adquirido com o tempo a cor indecisa da
água e onde o musgo traçava linhas sombrias. Sob o céu
chuvoso, nessa hora silenciosa, quando tudo parecia domi­
nado por uma imobilidade infinita, a jovem teve a confusa
impressão de que a velha cidade esperava por ela e que
a havia atraído por meio de sortilégios poderosos e secretos.
Continuou a caminhar. Um letreiro, na interseção de duas
ruas, recomendava um hotel e a flecha branca indicava o
caminho; era só seguir em frente. Logo Adrienne deixou
para trás as últimas casas da cidade. Andava agora numa
estrada ladeada de árvores e plantações de madeira de corte.
Depois de alguns minutos, pensou que tinha se perdido,
mas outro letreiro confirmava a indicação e viu, logo adian­
te de uma curva da estrada, uma construção longa e baixa
de aparência muito pobre, e entre as duas janelas, em gran­
des letras pretas, a inscrição: Hotel Beauséjour.
Havia duas portas. Adrienne bateu na primeira sem obter
resposta. Através de uma janela do térreo viu uma sala de
jantar rústica, com assoalho de tijolo rosado. Esperou um
segundo e depois foi até a outra porta e abriu-a sem bater.
Entrou numa sala sombria, onde um grande espelho emba-
ciado, com moldura preta, cobria a parede oposta à porta.
Encostado no balcão de zinco, um operário de macacão azul
tomava vinho e observava uma criança que, no fundo da
sala, desenhava, os braços sobre uma mesa cinzenta. Ambos
viraram a cabeça quando Adrienne entrou.
— Chame a hoteleira! — gritou o operário.

177
Adrienne pensou em voltar-se e sair, mas no mesmo ins­
tante uma mulher apareceu numa das portas. Cabelos grisa­
lhos, rosto gordo e branco, devia ter cinqüenta anos; parou
com as mãos na cintura sobre as tiras do avental azul.
— Quer um quarto? — perguntou.
E, sem esperar pela resposta, ajuntou com voz desagra­
dável:
— Não temos nenhum.
— Quero almoçar — disse Adrienne.
— Bem — concordou a mulher. — Por aqui.
Conduziu-a para a sala que Adrienne vira pela janela.
— Quer almoçar já? — perguntou a hoteleira.
— Imediatamente — respondeu Adrienne.
Sentou-se a uma pequena mesa ao lado da lareira e colo­
cou a valise no chão, enquanto a mulher estendia uma toa­
lha sobre a lona que cobria a mesa. A sala estava fria, mas
Adrienne sentia-se por demais exausta para reclamar ou
sair dali.
— Se quer mesmo um quarto — disse a mulher, colo­
cando um garfo e uma colher de estanho sobre a mesa —,
tenho apenas um. Pode vê-lo antes de servirmos a sopa.
— Está bem — concordou Adrienne.
Levantando-se, apanhou a valise e seguiu a mulher. Saí­
ram por uma porta no fundo da sala, atravessaram um pe­
queno pátio, subiram uma escada de madeira branca entre
duas paredes pintadas de verde. Adrienne olhava para os
pés da mulher calçados com meias pretas de lã e para os
tornozelos enormes, que apareciam sob a saia cinzenta a
cada passo, e de novo teve vontade de fugir dali, de descer
a escada silenciosamente e sair para a rua. E então correr!
Mas não tinha forças.
No topo da escada, a hoteleira abriu uma porta, revelando
um quarto quase todo ocupado por uma cama de ferro, e
tornou a fechá-la rapidamente, dizendo:
— Está ocupado por parisienses.
Chegaram a um corredor.

178
— Aquele também — disse ela, apontando uma porta
com o polegar.
Chegaram a uma terceira porta e ela falou, olhando
Adrienne de frente:
— Posso lhe ceder aquele ali até amanhã.
Abriu a porta. Era um quarto quadrado, com uma grande
cama de madeira e uma pequena janela que deixava entre­
ver uma parede rebocada de branco, do outro lado da rua,
e as copas das árvores. Sobre a mesa de madeira branca, uma
bacia.
— Está bem — disse Adrienne.
Colocou a valise sobre a cama e baixou os olhos para
evitar a curiosidade penetrante da mulher.
— Fico com esse quarto — disse.
Quando descia a escada, viu que o operário sentara-se per­
to da mesa que ela escolhera. Ele comia e lia o jornal.
Adrienne sentou-se e começou a comer, sem poder deixar
de lançar, vez por outra, um olhar ao homem. A companhia
a agradava. Precisava sentir que não estava só. A sua fren­
te, sobre a lareira de mármore negro, havia um grande ca­
lendário encostado num espelho acinzentado pelo tempo.
Adrienne comeu pouco, mas, para se aquecer, tomava
o vinho medíocre que lhe tinham servido. No silêncio, escu­
tava o ruído do jornal que o homem dobrava e desdobrava
sem cessar; às vezes ele se inclinava sobre uma página com
avidez e levava uma garfada à boca. Devia ter uns trinta
anos; o rosto manchado de cal, os olhos brilhantes e curio­
sos, passava de vez em quando as costas da mão pelo bigode
louro e observava Adrienne disfarçadamente. Em certo mo­
mento, seus olhos se encontraram. Ela queria apenas certifi-
car-se de que ele não tinha acabado de almoçar, que não ia
partir. Ao perceber que o homem intercepetara seu olhar,
corou baixando os olhos.
— Mau tempo para viajar — disse ele, baixando o jornal.
Adrienne fez um gesto com a cabeça.
— Não é daqui da região? — perguntou o homem.
Ela mordeu os lábios. Por que tinha de ficar olhando pa­
ra os outros assim? Como se não fosse bastante sua amizade

Í79
com a Sra. Legras e depender de informações de uma dona
de loja! Iria agora encetar uma conversa com um estucador?
Passaram-se alguns segundos que lhe pareceram interminá­
veis. O homem não se moveu, não disse nada. Adrienne,
as mãos cruzadas sobre a mesa, ficou imóvel. De súbito,
ouviu-o dizer com voz lenta e irônica:
-— A senhora está viajando.
Deixou escapar uma risada leve e zombeteira, e logo o ruí­
do de papel indicou que apanhava de novo o jornal para
continuar a leitura. Ela endireitou o corpo e tomou um gole
de água.
Por mais que tentasse, não podia continuar a refeição; to­
dos os pratos lhe pareciam insípidos; o pouco que conse­
guira comer parecia preso na sua garganta; a carne fibrosa,
o purê de batatas feito com água a repugnavam. Apenas o
vinho, acre e rascante, a agradava. Tomou um copo.
Ao entrar na sala sentira frio, agora sentia calor, um calor
quase excessivo. Ergueu-se um pouco na cadeira e viu no
espelho baço o seu rosto vermelho. O sangue pulsava-lhe nas
têmporas. Sentou-se de novo. Teve uma súbita vontade de
chorar, mas seus olhos estavam secos. Não era tristeza o que
sentia, mas cólera, cólera contra si mesma. O que estava fa­
zendo nesse restaurante? Estava por acaso mais feliz do que
na Vila das Bétulas? Sentia uma constrição ao redor da cabe­
ça, logo acima das sobrancelhas. Se conseguisse chorar, isso
por certo passaria, mas em vão tentava trazer lágrimas aos
olhos, cansando-se com o esforço. Apoiou o cotovelo na mesa
e a face ardente na mão. Fechou os olhos. Teve a impressão
de que tudo mudava à sua volta. O ruído do garfo do operário
tocando no prato chegava até ela como um som estranho,
um som meio abafado por um zumbido contínuo. Tudo isso
durou apenas um momento. Quando abriu os olhos, viu o
cardápio rabiscado com tinta violeta. Observou-o, sem con­
seguir ler o que estava escrito, e de repente teve uma idéia.
Há pouco vira um lápis sobre a lareira; estendeu a mão apa-
nhando-o e escreveu no cardápio: Senhor...
Riscou a palavra devagar, como se estivesse pensando em
outra coisa; passou outro traço sobre a palavra com um gesto

180
rápido, obliterando-a por completo, e bruscamente escreveu
estas palavras:

Aqui, em Montfort, no dia 11 de julho de 1908,


senti-me mais infeliz do que nunca. Sou infeliz por
sua causa. Quando vai ter pena de mim?

Agora, as lágrimas lhe corriam pelas faces. Dobrou o pa­


pel colocando-o no corpete. As palavras que escrevera a
aliviaram de algum modo e sentia-se um pouco melhor. Sus­
pirou e limpou o nariz com o lenço.
Quando a hoteleira entrou trazendo queijo e frutas,
Adrienne disse-lhe com voz firme que tinha mudado de idéia
e não ia ficar, o tempo estava péssimo. Sem tocar na sobre­
mesa, pagou o almoço e subiu para apanhar a valise.
No pequeno quarto caiado, fez um gesto de alegria, como
de quem escapa de um perigo. Imaginou o horror daquele am­
biente ao crepúsculo; podia pensar nisso, agora que estava
saindo dali. A noite entraria suavemente pela janela muito
pequena, que deixava entrever apenas uma parede e algu­
mas árvores molhadas de chuva. Que momentos passaria na­
quela cama de acolchoado vermelho, nessa casa solitária, tão
triste nesse dia chuvoso? Apanhou a valise e saiu apressa­
damente.
Quando atravessava a sala de jantar, dirigindo-se para a
porta, ouviu a hoteleira falando com o operário enquanto
lhe servia o café. Não olhou para eles, mas sentia que a ob­
servavam com curiosidade hostil e escutou a mulher dizer:
— Eu tinha certeza, aquela. . .

181
V

Abriu o guarda-chuva e começou a correr, apesar do can­


saço. Admirava-se de poder andar tão depressa, com passos
tão largos. Era como se não controlasse seus movimentos,
como se estivesse fugindo a um perseguidor cujos passos pu­
desse ouvir aproximando-se. Logo chegou à igreja, que ob­
servou rapidamente sob a seda encharcada do guarda-chuva.
As pedras verdes que pareciam restos de uma enchente, as
lajes batidas pela chuva pareceram-lhe de súbito tão lon­
gínquas, tão estranhas a tudo que ela própria representava,
que ficou chocada. Experimentou uma sensação até então
desconhecida: a indiferença absoluta de tudo ao que se pas­
sava no seu íntimo, a indiferença dessa igreja e desse lugar
à sua dor, a indiferença de milhões de pessoas à sua sorte.
Sentiu o coração apertado ao pensar nessa solidão. Atraves­
sou a praça e entrou num café para ter com quem falar.
Estava vazio, mas isso não a surpreendeu. A pequena
cidade gelada e avara não mostrava seus habitantes com boa
vontade, escondia-os bem no fundo das casas. Chamou. Um
homem apareceu depois de alguns momentos. Tinha in­
terrompido a refeição para atendê-la e limpava a boca com
o guardanapo. Seus olhos demonstravam aborrecimento por
ter sido incomodado.
— Que deseja a senhora?
— Onde posso alugar uma carruagem?
— Vai para a estação? Aguarde até quatro horas. Todas
as carruagens vão esperar o trem de Dreux.
— Preciso de uma agora — respondeu Adrienne. — On­
de posso encontrar?

182
O homem apoiou a mão sobre o mármore de uma das
mesas.
— Eu mesmo alugo as carruagens, senhora — disse, im­
paciente. — O trem para Paris só sai às quatro horas.
— Não vou para Paris, vou para Dreux — explicou
Adrienne, sentindo que corava.
Decidira naquele momento e ajuntou:
— Acho que tem um trem mais ou menos às duas horas.
O homem observou-a durante alguns segundos, depois fez
um gesto de indiferença e voltou-lhe as costas.
— Uma corrida dessas nem vale a pena — disse, afas­
tando-se. — Teria de pagar a minha volta também.
Adrienne apanhou a valise que colocara sobre uma mesa;
o couro preto molhado brilhava. A angústia quase a sufo­
cou. Fazer todo aquele caminho de volta a pé pareceu-lhe
superior às suas forças, mas era preciso. Tinha de se apres­
sar. Saiu, atravessou a praça quase correndo, pois notara que,
quanto mais depressa andava, menos sentia o cansaço.
A chuva parou quando Adrienne saiu da cidade e tomou
a estrada. Soprava uma brisa fresca, mas o trigal encharcado
estava imóvel; apenas a relva das valas encrespava-se e on­
dulava como se fosse agitada por mãos invisíveis. Um pro­
fundo silêncio estendia-se pelos campos desertos. A jovem
caminhava sem erguer a cabeça para não ver a distância de-
sanimadora da estrada. Às vezes mudava a valise de uma
das mãos para a outra. Concentrava-se no ruído dos próprios
passos sobre as pedras, mas logo os pensamentos a fizeram
perder a noção do movimento e do cansaço e chegou à es­
tação muito antes do que esperava.
Não havia nenhum trem para Dreux antes das três horas
e resolveu esperar em um pequeno café ao lado da estação.
Era uma casa nova, não maculada pelo tempo. A mesa de
bilhar cheirava a verniz. O mármore das mesas conservava
ainda o brilho. Depois de pedir um café, Adrienne sentou-se
ao lado de uma mesa sobre a qual havia um mostruário gi­
ratório de cartões-postais, tirou o chapéu e colocou-o no
banco ao lado. Sentia a cabeça latejar como se dentro
dela se debatesse um pássaro. As roupas molhadas a aque­

183
ciam demais. Várias vezes um calafrio percorreu-lhe o corpo.
Para se distrair, examinou os cartões-postais, pensando que
davam uma idéia completamente falsa de Montfort. Nada
podia ser mais alegre do que aquelas velhas ruas sombreadas
de árvores. E a igreja que vira, opaca e sinistra sob a chuva,
como parecia inocente! Ao lado do mostruário havia uma
pasta, um tinteiro e uma caneta. Escolheu um cartão que
representava a igreja e, sem hesitar, com um gesto natural e
quase inconsciente, escreveu o endereço do médico nas cos­
tas do cartão. Era a primeira vez que traçava o nome dele;
quando terminou, ergueu a mão, assombrada com o que lia.
Pensou em escrever ao médico, em enviar-lhe uma carta
anônima. Assim, poderia dizer o que quisesse. Ele jamais sa­
beria de onde viera. Por que não pensara nisso antes?! Po­
dia dizer que o amava, libertando-se assim daquele peso
sufocante.
Quando a garçonete lhe trouxe o café, pediu um envelope
e começou a escrever:

Eu o amo e o senhor não sabe, mas estou certa de


que, se soubesse o que tenho sofrido pelo senhor,
teria pena de mim.

Parou de escrever. Essas palavras não diziam tudo o que


sentia e surpreendeu-se ao pensar que não conseguira des­
crever imediatamente uma emoção tão nítida. Continuou:

r . Sou tão infeliz que isso deve ser o bastante para


què^cr^enkor me ame.
yTQ x.
Mas esse argumento lhe pareceu falho, antes mesmo de
terminar de escrever a frase, e murmurou:
— Por quê?

184
“Não tem importância”, respondeu para si mesma. “Ele
jamais saberá quem escreveu esse cartão.”

Eu o amo, é tudo o que posso escrever, mas meu


coração está repleto com a sua imagem e não cesso
de pensar no senhor, enquanto choro,

E, na verdade, Adrienne chorava ao escrever essas pa­


lavras.
Apanhou o envelope que a moça lhe trouxera, colocou o
cartão dentro e escreveu o endereço do médico; tomou o
café e esperou o trem.

Dreux é uma pequena cidade comercial, o principal mer­


cado da região. Depois de descer pela avenida da estação,
chegando à prefeitura, Adrienne teve de esgueirar-se entre
as carruagens que enchiam a rua e todo um lado da praça.
Os camponeses em manga de camisa conversavam, forman­
do pequenos grupos em volta dos bezerros e dos porcos
cuja sorte seria decidida nessas discussões intermináveis. To­
das as calçadas estavam ocupadas por vendedores que ofe­
reciam suas aves ao exame dos transeuntes, e no centro da
praça, apesar da lama e das poças d’água que a terra satura­
da já não absorvia, agrupavam-se os vendedores de legu­
mes e de armarinho. Uma multidão indiferente circulava
entrè as barracas, solicitada pelos gritos monótonos dos ven­
dedores aos quais parecia não dar atenção.
Adrienne não se apressou em atravessar a praça. Agrada­
va-a ser acotovelada por essas pessoas que não conhecia
e que a forçavam a segui-las, a pisar com elas o solo enchar­
cado, como se de súbito fizesse parte de uma procissão, em
meio à qual se perdia, esquecia-se de todos os seus aborre­
cimentos e de tudo que a fazia diferente dos outros, para se
tornar um deles, esses homens e essas mulheres de expressão

185
enigmática. Via nos seus rostos o ar sombrio e desconfiado,
e, sem saber por quê, esse estado de espírito era-lhe re­
pousante.
! Sem notar, contornou um edifício atarracado, cheio de es­
tátuas, que julgou ser uma igreja. Então, entrou por uma
/rua e, ainda aturdida pelo tumulto do mercado, seguiu o
seu caminho, olhando as lojas à direita e à esquerda com
um interesse fictício, pensando: “Veja, as vitrinas; uma pa­
daria”, como se o objetivo da sua viagem fosse observar as
coisas e se instruir.
Naquele fim de tarde sem sol, as casas da rua principal
adquiriam um aspecto pesado, com as cortinas abertas, na
tentativa de colher até o fim uma luz que não lhes custava
nada. Em quase todas as portas, uma pequena placa de me­
tal com um nome gravado parecia proteger os moradores
contra a entrada de estranhos. Os telhados inclinavam os
beirais sobre as janelas do primeiro andar como um chapéu
desabado sobre os olhos para ocultar o rosto. A mesma ex­
pressão desconfiada dos rostos que vira nas ruas, aparecia
nas casas. Sentindo-a, apertou o passo. Por nada deste mun­
do pediria que lhe indicassem um hotel; preferia procurar
ao acaso a provocar nas pessoas olhares de interrogação
muda e quase hostil.
No fim da rua encontrou o que procurava. Uma casa mais
pobre, embora mais alta do que as outras e que perdia sua
individualidade por conservar a porta aberta. Lançou um
olhar à fachada, onde letras indecentemente grandes diziam
o nome do hotel e onde as janelas muito pequenas e nume­
rosas davam um ar de fragilidade ao edifício. Entrou. Uma
chama azul iluminava fracamente o longo corredor que leva­
va a um balcão, onde uma mulher gorda lia o jornal perto
do lampião. Parecia-lhe ter entrado num labirinto do qual
jamais sairia. Através de uma porta entreaberta viu uma sala
de jantar comprida, mergulhada na semi-obscuridade do cair
da noite, e pequenas mesas com toalhas brancas agrupadas
ao redor de uma mesa oval reservada aos hóspedes em trân­
sito. Era como se alguma coisa lhe dissesse: “Aí está o seu
lugar.” Pediu um quarto.

186
A mulher disse um número e estendeu a chave a um ga­
roto, que apanhou a valise de Adrienne e começou a subir
a escada. Ela o seguiu. Subiram dois andares, caminharam
por um corredor e finalmente pararam diante de uma porta
que o rapaz abriu.
— Aí está — disse ele, colocando a valise nos pés da
cama.
Adrienne teve de fazer um esforço para entrar. O quarto
estreito, com tapetes vermelho escuro, pareceu-lhe assusta­
dor. Ao cruzar a soleira da porta lembrou-se, sem saber por
quê, da criança que vira na janela da casa do médico, o rosto
pálido, quase branco, e teve a impressão indefinível de que
o menino entrava no quarto com ela.
Depois que o rapaz saiu e fechou a porta, foi até a outra
extremidade do quarto e inclinou-se, com as mãos apoiadas
numa pequena mesa ao lado da janela. Via apenas os telha­
dos das casas e o céu incolor que escurecia rapidamente. O
espetáculo deu-lhe um aperto no coração e sentiu que as
lágrimas lhe subiam aos olhos, mas controlou-se.
— Não posso me entregar — murmurou. A pelúcia da
toalha que cobria a mesa estava úmida sob seus dedos; o
contacto era dasagradável, e retirou as mãos como se as tives­
se pousado sobre algo horrível.
Sentou-se numa poltrona de costas curvas e examinou os
móveis do quarto; eram extremamente modestos. Uma gran­
de cama de ferro pintada de preto e coberta por um acol­
choado vermelho ocupava quase todo o espaço; perto da
porta, um pequeno armário com espelho, do tipo fabricado
em série, refletia a imagem triste de uma parede listrada de
vermelho e rosa e de uma bacia sobre um tripé de ferro. Era
tudo. Um ligeiro odor de poeira exalava-se do tapete e das
cortinas. Adrienne ergueu-se, não querendo deixar-se domi­
nar pela sordidez e pela melancolia do quarto. Estava cansa­
da e não tinha mais forças para procurar coisa melhor. Já
passava das cinco horas. Depois de refletir por um momento,
entreabriu a janela, tirou os sapatos e estendeu-se na cama
para descansar até o jantar.

187
Cobriu-se com o acolchoado e procurou dormir, mas a dor
de cabeça a impedia. Então um pensamento insinuou-se
com insistência em sua mente, uma idéia louca que a ator­
mentara durante toda a tarde e que se tornava clara agora.
Por que sentia tanto calor? Estaria com febre? Suas faces
escaldavam. Na rua, sentira arrepios de frio, mas por que
tremia agora sob o espesso acolchoado de penas?
— Ora, ora — disse a meia-voz para afastar o pensa­
mento incômodo, sem contudo conseguir. Quanto mais pro­
curava livrar-se dele, mais sentia o temor abjeto que crescia
dentro dela. Cerrou os olhos e, cruzando as mãos sob o acol­
choado, tentou pensar em outra coisa, mas sua imaginação
não obedecia e levava-a sempre para o caminho que não
queria percorrer. Subitamente, virou-se de lado, o rosto so­
bre o travesseiro, as mãos cobrindo os ouvidos. Sentia-se aba­
fada e milhares de lembranças vinham-lhe à memória. Que­
ria o aniquilamento de um sono profundo, perder a cons­
ciência do próprio eu durante horas, talvez dias, para esca­
par a uma visão que a perseguia desde aquela tarde e que a
alcançara afinal, subjugando-a.
Via a irmã na manhã de sua fuga. Sob o chapéu muito
grande, parecendo esmagada pelo seu peso, o rosto afoguea-
do de febre. Os olhos circundados por olheiras brilhavam
como se estivessem cheios de lágrimas. Via-se, porém, que
estavam secos. Ou não estariam? Por acaso, por um momen­
to Germaine não teria inclinado a cabeça e chorado ao es­
tender os braços? E Adrienne tinha-se afastado para que a
doente não a tocasse, para não respirar o seu hálito.
Bruscamente, as palavras que guardava no íntimo por tanto
tempo, chegaram-lhe aos lábios e escaparam-se com um
soluço: i
— Apanhei a doença de Germaine! — Voltou-se na cama
e ficou de costas, os punhos cerrados sobre a boca. A
cabeça movia-se inquieta no travesseiro e em vão ela pro­
curava abafar os gemidos com o lenço.
Pulou da cama e correu para o armário. Suas faces esta­
vam vermelhas, e os cabelos em desordem contribuíam para
a aparência desfeita. Lágrimas tremiam nas pontas dos cílios.

188
Olhou-se no espelho por um momento e depois foi até a
janela. Estava bem mais escuro, mas as lojas não tinham
ainda acendido as luzes. As pessoas voltavam do mercado
em pequenos grupos silenciosos; o ruído monótono dos sa­
patos grossos sobre as pedras ecoava na rua. Abriu a janela
com violência e debruçou-se para fora. Pesava sobre a cida­
de uma tristeza abominável; mas não podia fugir, estava pre­
sa, precisava ficar em Dreux e passar uma longa noite. Por
que deixara La Tour-l’Evêque? Parecia-lhe agora que essa
viagem lhe fora imposta por uma força onipotente contra a
qual não podia lutar.
Deixou cair a mão sobre a saia e sentiu que a roupa esta­
va molhada. Na sua confusão nem notara isso. O casaco,
que vestia ainda, estava úmido nas mangas e nos ombros.
Passou as mãos sobre os pés: estavam gelados. Pensou em
se despir completamente, enxugar-se com uma toalha e dei-
tar-se, mas a perspectiva de ficar doente nesse quarto até o
dia seguinte a apavorava. Resolveu sair e comprar remé­
dios na farmácia. Essa decisão a acalmou; pelo menos fala­
ria com alguém, aliviando um pouco o coração.
Colocou papel dentro dos sapatos molhados, calçou-os e
saiu.
Não estava tão frio como tinha imaginado e as ruas
já estavam secas. Depois de andar algum tempo pela
rua principal, achou uma farmácia. Sem hesitar, empurrou a
porta. Sua timidez era superada pelo desejo de se sentir segu­
ra, de sarar, se Ts50~ainda foSSe possível. Não tinha tempo a
perder, mas, quando se viu à frente do velho farmacêutico,
não soube o que dizer. Como explicar seus temores? Ele a
mandaria a um médico. Disse apenas que estava resfriada
e arrependeu-se antes mesmo de terminar a frase. Por que
não dizer a verdade? Essa mentira talvez lhe custasse a vida.
— Será que estou muito mal? — perguntou ela, sentindo
a cabeça zonza.
O homem olhou para ela como se a julgasse louca.
— Muito mal? — repetiu. — Desde quando está sentin- i
do esse mal-estar?

189
Ela lhe explicou que a febre aparecera depois do almoço.
O homem baixou a cabeça e desapareceu por trás de um
grande móvel cheio de caixas e frascos. Adrienne podia ou­
vir o ruído de frascos que se abriam e de pesos colocados na
balança. O farmacêutico era pequeno, usava barba, curvo
pela idade, e todos os seus gestos tinham uma precisão irri­
tante. Ela sentou-se e logo em seguida ergueu-se, observando-
o entre os frascos da estante. Agora ele derramava um pó
branco de um pedaço de papel sobre o prato da balança com
uma lentidão cuidadosa.
— Não é nada, sem dúvida — disse ela com voz altera­
da pela emoção.
Ele não respondeu imediatamente.
— Vou lhe dar um xarope — disse após ter pesado o pó.
Passaram-se mais alguns segundos. O velho embrulhou o
remédio, escreveu uma receita ilegível, depois apanhou uma
garrafa com um líquido cor de groselha e examinou o rótulo.
— Então, o senhor acha que isso vai passar logo? —
perguntou Adrienne esforçando-se para parecer despreo­
cupada.
Ele estava com uma das mãos no frasco e ergueu um olhar
desconfiado para Adrienne; sem dúvida temia que ela mu­
dasse de idéia.
— Isso vai depender do cuidado que tiver. Essas afec-
ções só são cortadas no início.
— Mas estou cuidando a tempo — respondeu Adrienne
rindo, como para se desculpar da infantilidade de sua atitude.
— Está com medo de que seja outra coisa além de um res­
friado? Já foi ao médico?
Ela sacudiu a cabeça.
— Oh, não estou doente, o senhor sabe.
As palavras soaram como um dobre de finados; tantas
vezes as ouvira dos lábios de Germaine. Apanhou a garrafa
das mãos do farmacêutico e perguntou o preço:
— Quatro francos — disse ele.
E ajuntou ao ver a surpresa da moça:

190
— Toda doença grave começa como uma pequena indis­
posição. O que gastar de um lado recuperará de outro. Com
esse xarope e esse pó pode ficar tranqüila.
Era exatamente o que ela queria ouvir. Pagou os remédios
e saiu.

Já tinha terminado o jantar há alguns minutos, mas per­


manecia sentada à pequena mesa próxima da janela. Não
tinha ânimo de se levantar e atravessar os corredores estrei­
tos até o quarto. Não subira antes do jantar, preferindo es­
perar num salão mal iluminado, onde as pessoas que entra­
vam a observavam com curiosidade, saindo em seguida, de­
pois de terem desarrumado a pilha de revistas sobre a mesa
de imitação de ébano.
Tomara o xarope e o pó e sentia-se melhor. As palavras
do farmacêutico haviam de certa forma acalmado seus te­
mores, mas sentia-se irritada pela solidão que a cercava
desde a manhã. Perguntava a si mesma sem cessar: por que
estava aü? O que tinha conseguido de bom deixando La
Tour-l’Evêque?
Os hóspedes deixavam a sala de jantar aos poucos. Um
jovem com lornhão, que jantara numa mesa próxima à sua,
cumprimentou-a, com uma ligeira inclinação de cabeça, ao
sair. Ela respondeu. Teria de bom grado conversado com
qualquer pessoa, até mesmo com o garçom, que agora lhe
lançava olhares indicativos de que já era tarde e devia sair,
ou até mesmo com o operário de Montfort.
Ergueu-se afinal, dirigindo-se para a porta, e veio-lhe a
idéia de sair. Há uma hora que a chuva tinha parado e suas
roupas estavam secas. Pelo menos adiaria o momento odioso
de voltar para o quarto. Calçou as luvas, deixou o xarope
e o pó na portaria e saiu.
Uma vez lá fora, ficou satisfeita por ter pensado nesse
pequeno passeio. Ainda não eram nove horas e a noite esta- ,
va esplêndida. A rua estava banhada com a claridade sem­
pre estranha da lua cheia, muito branca, quase verde. Não

191
se via uma nuvem no céu, e, como se esse espetáculo fosse
feito para inspirar respeito na terra, a pequena cidade estava
imersa no silêncio.
Adrienne desceu a rua sem encontrar ninguém. Ao chegar
à Praça do Mercado, parou, notando a mudança que a noite
trazia àquele lugar que lhe parecera tão sombrio e tão feio.
As barracas dos vendedores e as carroças tinham partido. A
praça estava vazia e nas grandes poças d’água a lua desli­
zava lentamente. Ao norte era limitada por um edifício mo­
derno; em seguida, pequenas casas e árvores a envolviam
em círculo até o prédio que Adrienne julgara ser uma igreja
por causa das esculturas que o enfeitavam, mas que era na
realidade a antiga câmara municipal; tinha o aspecto de uma
torre encimada por guaritas e, ao clarão da lua, um ar ro­
mântico que encantou a jovem.
A beleza do lugar envolveu-a, trazendo-lhe um momento
de paz e o esquecimento de toda a dor. Por um minuto,
ficou imóvel para não quebrar com o ruído dos seus passos
o silêncio maravilhoso da noite. E, voltando ao passado,
lembrou-se da sua infância. Tinha sido feliz, em certos mo­
mentos, sem saber, e precisara esperar por esse instante de
sua vida para reconhecer a felicidade do passado; ante essa
torre em ruínas, iluminada pela lua, vinha-lhe à memória
a lembrança de coisas esquecidas, dos passeios no campo,
das conversas com as amigas, no jardim do curso Santa Ce­
cília. As recordações vinham desordenadas, mas tão brusca­
mente que a chocavam e, nessa noite, Adrienne estava tão
fraca que era preciso muito pouco para a enternecer. Por
que então não conhecia essa felicidade dispensada aos outros
com tanta liberalidade? E desejou dolorosamente essa coisa
que não possuía mais, e que a lembrança tornava tão bela
e tão desejável.
Suspirou e deu alguns passos na calçada que contor­
nava a praça. O relógio da prefeitura soou nove horas e,
logo em seguida, o da igreja. Cães latiam ao longe. Parou
e, erguendo a cabeça, olhou as estrelas. Eram tantas que,
mesmo escolhendo um pequeno pedaço do céu, não conse­
guia contá-las. Os pontos brilhantes tremeluziam ante seus

192
olhos como punhados de minúsculas flores brancas na su­
perfície de um lago negro. Lembrou-se de uma canção do
tempo de colégio:

. . . o céu semeado de estrelas . . .

Era preciso elevar o tom de voz subitamente na palavra


estrelas e essas três notas, tão difíceis de atingir, tão lon­
gínquas, exprimiam uma nostalgia serena que lhe cortou o
coração. Levou as mãos aos olhos e chorou.
Depois de alguns momentos, retomou seu caminho e en­
trou numa rua que saía da praça e que ela julgou ser a rua
principal. Logo, porém, percebeu seu erro. Essa rua condu­
zia para fora da cidade. Voltou, entrou em outra rua, no
fim da qual se via a silhueta da grande torre, e para não se
perder resolveu voltar à praça, de onde seria mais fácil en­
contrar o caminho para o hotel.
Caminhava lentamente, sem vontade de voltar àquele
quarto e, quando passava por um café, cruzou com um tra­
balhador que saía. Era um homem jovem. Adrienne pôde
ver seu rosto iluminado pela luz baça, o branco dos olhos
brilhando, o rosto imberbe e magro. Ao vê-la, ele parou,
observando-a, as mãos nos bolsos. Adrienne atravessou
a rua imediatamente e começou a andar mais depressa, per­
cebendo que ele a seguia. Seus pés, calçados com alpargatas,
quase não faziam ruído sobre as pedras; caminhava a passos
rápidos. Adrienne sentiu medo, porque ele não dizia nada;
se tivesse lançado um insulto ou uma ameaça, achava, fica­
ria mais tranqüila. Pensou em gritar por socorro, mas o medo
do ridículo a impediu. Por outro lado, não ousava correr;
isso talvez instigasse a audácia do homem. Apressou o passo
e, em vez de continuar em frente, na praça, tomou uma viela,
a primeira que apareceu à direita.
Então ele a alcançou. Adrienne voltou-se bruscamente,
colada à parede, e disse ofegante:
— Vá embora.

193
Mas ele ficou parado observando-a. O boné, meio incli­
nado, deixava entrever o brilho metálico dos cabelos negros.
Tinha traços fortes e olhos negros, pelo que podia ver. Uma
gravata vermelha rodeava-lhe o pescoço acentuando a bran­
cura da pele. Riu baixinho.
— De que tem medo? -— perguntou.
A mão de Adrienne crispou-se no guarda-chuva. Respon­
deu.
— Deixe-me em paz ou grito por socorro.
O homem observou-a por mais um segundo e depois er­
gueu os ombros.
— Não quero lhe fazer mal — disse.
E seguiu o seu caminho. Adrienne ouviu-o assobiar uma
valsa da moda. Sua primeira sensação foi de alívio, por ter
se livrado do perigo, mas subitamente sentiu um profundo
pesar. Alguém viera a ela, aproximara-se da sua solidão, e
ela o repelira. E por quê? Porque usava roupas de traba­
lho e lhe dirigia a palavra sem conhecê-la? Ora, que impor­
tância tinha isso? Lembrou-se da voz grave, quase terna,
como de algo muito distante e inatingível. Se ele voltasse,
lhe daria atenção. Mas voltaria? Não o tinha afastado com­
pletamente?
Entrou na mesma rua que ele, mas logo chegou a uma
encruzilhada. Para onde? Já não ouvia o assobio. Escolheu
uma das ruas ao acaso, apressando o passo, o coração dis­
parado. Murmurou:
— Se cruzar novamente o meu caminho, falará comigo e
eu responderei.
A rua dava uma volta imprevisível e terminava na praça.
Um rápido olhar bastou para ver que estava vazia. Ele entra­
ra na outra rua. Se corresse, talvez o alcançasse, mas cor­
rer! A idéia fez com que refletisse sobre o que estava fazen­
do. Sentia o olhar desconfiado de Germaine. Apoiou-se ofe­
gante na grade de um açougue. Estava fazendo exatamente
aquilo de que o pai e Germaine a haviam acusado injusta­
mente; corria atrás de um homem, e parecia-lhe que esse ato
ligava-se de modo misterioso à cena horrível à qual tinha
sido sujeita, quando o velho e a doente a interrogavam, ator­

194
mentavam, e quando adivinhara no fundo dos seus olhos
ávidos os pensamentos imundos que os lábios não ousavam
dizer. De súbito, algo dentro dela afastou esses escrúpulos.
Viu-se numa solidão imensa, privada das amizades mais sim­
ples. Não queria fazer nada errado, apenas conversar, ouvir
o som de uma voz respondendo à sua, não ter de voltar
àquele hotel triste, sem ter rompido o silêncio do dia, a não
ser por um obrigado ou um cumprimento. A lembrança do
quarto onde ia passar a noite pareceu-lhe desculpa suficien­
te para o que estava fazendo.
Desistiu de estudar a própria alma e continuou seu cami­
nho, tomando agora uma rua que, achava, a aproximaria
dele. Corria para não pensar. Seus passos ecoavam no silên­
cio da noite e o ruído a sobressaltou; começou a correr nas
pontas dos pés, mas seu cansaço aumentava a cada segun­
do; além disso, não sabia o caminho e corria ao acaso; era,
pois, inútil continuar. Mas não parou; foi até o fim da rua,
entrou em outra e logo se encontrou numa espécie de pátio,
onde a folhagem espessa dos plátanos conservava ainda o
odor e a frescura da chuva e os espalhava pelo ar. A terra
molhada e as poças d’água interromperam-lhe os passos. Sen­
tou-se num banco.
Seu coração batia dolorosamente, fazendo pulsar todo o
corpo; podia sentir a violência desse ritmo no mais fundo
das entranhas e nas artérias do pescoço. — Corri depressa
demais — murmurou ofegante. Curvou-se para a frente,
as mãos apoiadas no cabo do guarda-chuva, como uma ve­
lha exausta. Olhava estupidamente os sapatos e a barra da
saia de sarja preta manchada de lama. De seus lábios escapa­
va-se a respiração arquejante que parecia uma queixa, a lín­
gua estava seca. Ficou assim por alguns minutos, incapaz de
se erguer, apesar dos arrepios que lhe percorriam o corpo
e do ar fresco que fazia secar no seu pescoço as gotas de
suor. Uma fadiga tremenda pesava sobre seus ombros; era
como se lhe tivessem atravessado as omoplatas com pontas
de ferro. A cabeça estava vazia.
Ergueu-se afinal e, sem saber como, encontrou-se a cami­
nho do hotel.

195
Na portaria do hotel, apanhou o vidro de xarope e o pó
e subiu penosamente até o quarto onde, colocando os remé­
dios distraidamente em algum lugar, atirou-se na cama, sem
se dar ao trabalho de acender o lampião a gás. Nunca como
nessa noite tivera tanta vontade de dormir. O menor gesto
exigia um grande esforço, mas abençoava essa lassidão que
apagava completamente o seu cérebro; não seria capaz de
formar nem uma frase inteligível.
Quase imediatamente, mergulhou no mais profundo dos
sonos. Estava deitada sobre o acolchoado que envolvia seu
corpo com ondas arredondadas e imóveis. O chapéu escor­
regara para trás ao pousar a cabeça no travesseiro. As per­
nas estavam encolhidas e os braços estendidos, as mãos cru­
zadas. Era a imagem perfeita do mais completo esgotamen­
to. Respirava com dificuldade; o rosto, meio escondido pelo
travesseiro, e o peito arfando vez por outra, num esforço
dos pulmões para conseguir mais ar.
O luar penetrava livremente pela janela, cujas venezianas
não tinham sido fechadas, desenhando nos pés da cama de
Adrienne um retângulo alongado e transmitindo ao tapete e
ao assoalho aquela cor estranha que parece sempre uma com­
binação de tons mortos. Tudo era silêncio na rua e no inte­
rior do hotel.
Adrienne dormia há meia hora, quando viu entrar Ger­
maine. Não ouvira a porta se abrir, mas percebeu a irmã que
passava perto da cama. Germaine não olhou para ela. Ca­
minhou com passos decididos até a lareira, onde Adrienne
colocara os remédios. A solteirona apanhou o vidro e o exa­
minou. Estava vestida de preto como sempre e sem chapéu.
Havia no seu rosto algo indefinível que parecia um sorriso,
mas era mais a expressão de quem reconhece um objeto fa­
miliar. Segurando o vidro de xarope com as duas mãos, exa­
minava a cor do líquido e lia o rótulo. Depois de um minuto,
sacudiu a cabeça e pela primeira vez olhou para Adrienne,
mas a jovem não distinguia seus traços, pois a irmã estava
de costas para a luz. Passaram-se alguns segundos. A velha
solteirona não se movia, segurando o vidro de modo que os

196
raios de lua passavam através dele, no gargalo, como que
marcando a dose já tomada. Afinal, colocou-o sobre a larei­
ra cuidadosamente, como temerosa de perturbar o silêncio
da noite, e lançou um olhar indiferente ao pacote de pó ao
lado do vidro.
Depois, foi até a janela para assegurar-se de que estava
fechada. Ficou parada ali, entre as cortinas de pelúcia bege,
e sua sombra não se movia, desenhada sobre o retângulo de
luar como um cadáver no ataúde, bem maior do que Ger­
maine, que parecia muito pequena. Parecia absorvida na
contemplação do céu escuro e das estrelas, visíveis através do
tule do bríse-bise. O luar refletia-se nos seus ombros e sobre
os cabelos cuidadosamente arrumados. Ficou imóvel por
um longo tempo, e Adrienne ouvia apenas o ruído das mãos,
que ela vez por outra esfregava com um movimento que
não lhe chegava aos ombros.
Era como se esperasse alguma coisa. De súbito, voltou-se,
como se alguém tivesse aberto a porta, e dirigiu-se rapida­
mente para o lado de Adrienne, sem dúvida para encontrar-
se com a pessoa que chegava. Nesse momento, Adrienne a
viu. Estava terrivelmente pálida e caminhava com os olhos
fechados. Havia terra nos seus cabelos e na frente do ves­
tido, que ela espalhava pelo tapete a cada passo, mas era
sempre devolvida à figura que avançava, como se mão invi­
sível e injuriosa a lançasse em seu rosto. Parou um instante
perto da jovem. Suas mãos estavam cruzadas e não se
moviam.
Passaram-se dois ou três minutos; a porta não se abriu,
mas bruscamente Adrienne compreendeu que alguém entrara
no quarto; os lábios de sua irmã moviam-se sem emitir ne­
nhum som. Depois, percebeu que alguém passava entre Ger­
maine e a cama e viu a irmã dirigir-se para o armário. Ficou
ali por um longo tempo, falando, explicando alguma coisa
à pessoa invisível, que devia estar ao lado dela e que, para
Adrienne, só podia ser seu pai. Nesse momento, começou a
se debater e acordou.
Sentou-se na cama e olhou em volta. Os gritos subiam-
lhe à garganta mas a boca emitia apenas um estertor. Admi­

197
rava-se de não ver nenhuma diferença entre esse quarto e o
do sonho, e procurou Germaine no espelho do armário e a
sua sombra no retângulo de luar sobre o tapete. Quando des­
pertou por completo e a angústia diminuiu um pouco, saltou
da cama e acendeu o lampião a gás. Eram apenas onze
horas. Encheu a bacia com água e lavou o rosto. Depois,
abriu a porta do armário e jogou sobre ela a pelerine que
trazia ainda nos ombros, escondendo assim o espelho que
a amedrontava.
— Estou muito quente — murmurou. — Não devia ter me
deitado sem tirar a roupa. Que pesadelo!
Riu. O ar pesava nesse quarto onde a janela estivera fe­
chada desde as cinco ou seis horas. Como quando dor­
mia, respirava com dificuldade. De súbito, tossiu. Er­
gueu-se vivamente, olhando-se no espelho pendurado sobre
a lareira. O sangue fugira-lhe das faces e à luz do lampião
sua imagem tinha uma cor verde-azulada. Tossiu outra vez
na frente do espelho. O que viu trouxe-lhe um terror me­
donho.
— É o começo — disse a meia-voz — , o primeiro acesso.
Refletiu por um minuto, depois, apanhando o vidro de
xarope, bebeu pelo gargalo. O licor espesso deu-lhe uma
sensação de enjôo. Tomou outro gole e examinou o
rótulo com repugnância. Quando pousou o vidro sobre a
lareira e ergueu os olhos para o espelho, viu atrás de si a
porta do armário aberta. Sem poder se conter, deu um grito,
logo abafado com a mão. O que diriam se a ouvissem? A
idéia de que talvez tivesse vizinhos a reconfortou. Quase ime­
diatamente veio-lhe a certeza de que não havia ninguém nos
quartos ao lado.
— Estou sozinha nesse andar — disse para si mesma.
Escutou o ruído do gás queimando no lustre de globos
de vidro fosco. E começou a se despir rapidamente.
Ao soltar os colchetes da blusa, os braços erguidos na frente
do espelho, teve a impressão de já ter feito esses gestos em
circunstâncias parecidas, e ficou imóvel, intrigada com essa
lembrança que não podia identificar e que a apavorava. A
luz crua e amarelada do lampião banhava-lhe o rosto dan-

198
do-lhe um aspecto dramático. Sua boca abriu-se. Ficou assim
por alguns segundos, os cotovelos erguidos na altura da
cabeça. Tinha medo de se mover. O gás queimava com um
zumbido contínuo e insistente, que enchia o silêncio e con­
fundia-se com ele de modo inexplicável.
Soltou os cabelos bruscamente e fez um esforço para sa­
cudir o torpor que lhe invadia o cérebro. Provavelmente o
xarope continha ópio. Parecia-lhe que, acordada como esta­
va, o pesadelo ia recomeçar a qualquer momento e, por outro
lado, se dormisse, encontraria de novo a visão que a apavo­
rara. Esse pensamento a fez tremer. Perguntava a si mesma
como passaria a noite.
Pouco a pouco sentiu-se dominada por um pânico que não
conseguia controlar. Tudo naquele quarto a contrariava ou
a amedrontava: o armário aberto ou fechado parecia-lhe hor­
rível, pelas lembranças que despertava. Procurava não ver a
pequena poltrona de costas curvas que a saia de Germaine
havia tocado, e não podia nem pensar em voltar para a ca­
ma, onde quase desmaiara de terror. Quanto mais o sonho
se afastava dela, mais real parecia; lembrava-se de todos os
detalhes, e sabia que bastaria fechar os olhos para ver o
rosto da irmã próximo ao seu, e sentir a presença da pessoa
pela qual Germaine esperara.
Seu coração batia precipitadamente. De súbito, voltou-se,
as costas contra a parede, de frente para o quarto, de modo
que ninguém pudesse se colocar atrás dela, mas compreendeu
que esse gesto, em vez de diminuir o seu medo, mais o agu­
çava. Não devia confessar a si mesma que estava apavorada.
Ficou por um minuto com as palmas das mãos coladas à
parede, atenta ao menor ruído e quase fora de si; o som da
sua respiração a descontrolava; era como se ouvisse alguém
respirando ao seu lado, um sopro espesso e rouco.
Um relógio bateu onze e meia. Cinco horas ainda até a
aurora. Por que não tinha ficado lá fora?! Por que não pas­
sara a noite naquele banco sob as tílias?! Pensou em se ves­
tir, arrumar a valise e partir. Diria que a cama estava suja, i
mas não teve coragem. Uma vontade imperiosa de dormir
a fazia menear a cabeça e, cada vez que o queixo caía sobre

199
o peito, era como se todo o corpo acompanhasse o movi­
mento, tombado para a frente, mas endireitava-se rapida­
mente, sacudindo os cabelos, sobressaltada.
Finalmente, resolveu vestir o penhoar e entreabrir a janela.
O ar fresco banhou-lhe o rosto, despertando-a. Apanhou um
guia na valise e folheou-o, sem encontrar o que procurava;
as imagens dançavam no seu cérebro e não podia nem mes­
mo lembrar-se do que procurava no pequeno livro, cujas
folhas finas escorregavam entre seus dedos trêmulos. Reviu
a imagem do médico quando, de dentro da carruagem, a
olhava por um momento; mas a lembrança fugiu imediata­
mente, como se o medo que a dominava não permitisse um
único pensamento reconfortante.
*— É exatamente isso! — disse ela.
Sentiu os joelhos trêmulos e tentou lembrar-se do rosto
do jovem trabalhador que a seguira: seus lábios brilhavam,
podia vê-los movendo-se quando ele falava, descobrindo os
dentes um pouco irregulares. Mas, dentro dela, crescia algu­
ma coisa tumultuosamente, mais forte do que essas lembran­
ças desordenadas que tentava evocar. O sangue pulsava-lhe
nas têmporas, ecoando na cabeça toda. Pensou que ia cair
e agarrou-se à cama. Tinha certeza de que havia alguém
atrás dela; ouvia uma respiração mais forte do que a sua,
sobre o seu ombro. O pequeno livro escapou-lhe dos dedos;
Adrienne escorregou lentamente sobre o tapete, segurando a
cabeça com as mãos.

200
TERCEIRA PARTE
I

Quando voltou para casa, Desirée ainda não chegara. Era


muito cedo. Entrou no salão e abriu as janelas. À vista das
tílias no jardim da Sra. Legras, deu um suspiro. Há quanto
tempo não as via? Um mês, um dia? Como tudo mudava
pouco!
Sobre o aparador estava uma carta da Sra. Legras. Leu-a
imediatamente.

Minha menina — dizia a amiga —, vai fes­


tejar o dia 14 comigo. Chego amanhã, dia 12. Os
negócios do Sr. Legras estão melhores do que pen­
sei. Amizade. Léontine L . . .

Rasgou a carta, jogando os pedaços na lareira. Havia


outra sobre o aparador; reconheceu a letra e calçou as
luvas antes de abri-la.

Senhorita. .. — dizia a superiora do hospital de


Germaine. Adrienne interrompeu a leitura, lem­
brando-se do sonho. Suas mãos tremiam de emo­
ção. A carta continuava: felizmente não tenho más
notícias sobre sua irmã, mas é tudo o que posso
dizer sobre a saúde dela. Continuamos esperando
que o ar desse lugar lhe devolva as forças e o ape­
tite. Já é alguma coisa o seu estado não ter
piorado.

203
Ela me pede para lhe dizer que resolveu conside­
rar a questão do dinheiro, e que a senhorita não
lhe enviou a soma pedida. Escreveu ao seu notário,
o qual se encarregará de lhe enviar o dinheiro de
que ela precisar. Assim, não precisa incomodar-se.
Ela diz ainda, e com razão, se me permite opinar,
que a soma designada para a senhorita é maior do
que as suas necessidades, e que escreveu sobre isso
ao Sr. Biraud. Portanto, não se admire de receber
nesse mês cem francos menos do que recebeu no
mês passado.

Adrienne colocou a carta sobre o aparador sem termi­


ná-la, e apertou o lábio inferior com os dedos. Parecia per­
turbada. Um círculo escuro ao redor dos olhos aumentava o
seu brilho, mas o rosto exprimia uma profunda amargura.
Inclinou a cabeça e ficou imóvel por algum tempo, olhando
para um raio de sol que lhe banhava os pés e alongava-se
pelo tapete. Depois de alguns instantes, suspirou e pôs-se a
andar pela sala.
Estava um pouco frio, mas o sol anunciava um belo dia.
Um melro assobiava numa das bétulas do jardim; parava
de vez em quando, como para tomar fôlego, e quando reco­
meçava eram sempre as mesmas notas alegres, a última sus­
tentada com uma espécie de complacência. A jovem parou
por um momento em frente da janela, atraída vagamente
por esse canto, que lhe trazia inúmeras lembranças. Desde
a morte do pai, constantemente recordava o passado, a in­
fância em especial. Entregava-se então a um profundo deva­
neio, deixando a mente ao acaso das lembranças. Quase
sempre no verão os melros apareciam no jardim, nas pri­
meiras horas da manhã, quando as aléias estavam ainda de­
sertas. Passeavam à vontade, gordos e nédios como eclesiás­
ticos bem nutridos. Pelo menos era essa a comparação que
Mesurat usava para descrever esses pássaros.
Notou que os gerânios cresciam bem; a chuva lhes dera
nova força. A grama precisava ser aparada. Voltou para o

204
centro da sala, aproximou-se do aparador e leu a última pá­
gina da carta, segurando-a com a ponta dos dedos. A reli­
giosa não dizia mais nada de interessante e terminava com
votos piedosos que Adrienne não se deu ao trabalho de ler.
Terminada a leitura, rasgou a carta, que foi fazer compa­
nhia à da Sra. Legras. Então tirou as luvas e sentou-se à
escrivaninha; depois de alguns minutos de reflexão, come­
çou a escrever:

Minha querida Germaine. Proponho que deter­


minemos, por intermédio do Sr. Biraud, uma soma
fixa, que receberei mensalmente. Isso nos poupará
aborrecimentos até o dia em que, tendo atingido a
maioridade, eu possa afinal dispor dos meus bens
como quiser. Espero que o ar de Saint-Blaise faça
bem a você e que se restabeleça breve. Sua irmã,
Adrienne.

Releu o que escrevera e, à falta de um mata-borrão, sa­


cudiu a folha para secar a tinta. Mas, ao dobrá-la para colo­
car no envelope, mudou de idéia e rasgou-a lentamente em
quatro pedaços. Cruzou as mãos sobre a mesa e, erguendo
os olhos, fixou-os na Vila Louise, que podia ver de onde
estava. Uma pequena linha apareceu entre as suas sobrance­
lhas, como se estivesse completamente absorvida no espetá­
culo que contemplava.
Em sua mente, o fluxo e refluxo de lembranças a enchiam
de angústia. Subitamente, sem saber por que, palavras ouvi­
das há muito tempo voltavam-lhe à memória, palavras das
conversas banais do pai com Germaine. Por mais que pro­
curasse não ouvir aquelas vozes, não tinha força para afas-
tá-las. Até aquele momento fora sustentada por uma energia
nervosa, mas, depois de alguns minutos, os efeitos da noite i
insone se fizeram sentir. Não tinha vontade de dormir; seus
membros pareciam entorpecidos e o cérebro fatigado já não
lhe obedecia; estava à mercê de qualquer pensamento, de

205
qualquer tipo de sonho. Era como se sua vontade se subju­
gasse a um encantamento. Custava-lhe grande esforço des­
viar os olhos do objeto à sua frente.
Após alguns momentos, com um esforço violento endirei­
tou o corpo. Esse torpor a assustava. Ergueu-se e começou
a andar pela sala.
— Para mim é tudo a mesma coisa — murmurou. —
Agora nada mais me importa.
Ao chegar à janela, parou, olhando a parte do pavilhão
branco que avistava da sala. Contemplou-o por alguns se­
gundos e depois continuou o vaivém que a levava da porta
da sala de jantar à do vestíbulo. Estava em jejum e sua cabeça
parecia vazia. De súbito, foi tomada de fraqueza e as pernas
fraquejaram. Caiu ajoelhada perto do sofá, que substituía
agora o canapé de Germaine, e entregou-se a uma crise de
choro que sacudia seu corpo de alto a baixo. Escondeu o
rosto entre os braços, repetindo dolorosamente:
— Tudo, sim, tudo.

Duas horas depois estava sentada no quarto. Desfez a


valise, guardou os objetos no armário e voltou à vida de soli­
dão que ela mesma construíra e da qual aparentemente
não podia mais fugir. De que adiantara ter viajado? Não
fora obrigada a voltar? Se ao menos tivesse voltado com o
espírito mais calmo, o coração mais fortalecido! Entre­
tanto, não tinha feito mais do que se aniquilar, abismando-
se numa melancolia mais profunda.
— Não posso mais viver assim — repetiu várias vezes,
passando a mão fechada sobre os joelhos; mas essas pala­
vras, em vez de incitá-la a agir, eram como a constatação
de um fato irremediável. Então o tédio e o desejo de se li­
vrar dos pensamentos que a obcecavam fizeram com que
procurasse uma distração, algo com que ocupar as mãos.
Apanhou no armário uma velha caixa de chapéu onde
guardava todas as cartas que já recebera. A maior parte esta­
va cuidadosamente arrumada em grupos de dez ou vinte, com

206
um pedaço de papel branco sob as fitas que as atavam, no
qual estava indicado o ano, com uma caligrafia perfeita, se­
gundo os ensinamentos paternos. Havia quatro ou cinco gru­
pos: cartas das amigas da escola, escritas durante as férias;
mais raras, cartas de parentes, pois os Mesurats eram pou­
cos e não se davam ao trabalho de manter relações; por­
tanto, a correspondência de Adrienne com seus primos de
Paris e de Rennes limitava-se a pedidos de pequenos favo­
res. Finalmente, soltas e negligentemente espalhadas na cai­
xa, cartas que nunca tinham sido abertas. Adrienne começou
a examinar estas últimas. Uma era de Paris, três de La Tour-
1’Evêque, outra de Rennes. Eram cartas de pêsames pela
morte do Sr. Mesurat. Adrienne não tivera até então inten­
ção de lê-las, mas o hábito de guardar todas as cartas era
mais forte do que ela, e, mesmo sem abri-las, guardava-as
com as outras. Não abriu as cartas dos parentes, mas as de
La Tour-l’Evêque a intrigavam, porque não reconhecia a le­
tra. Abriu o envelope com um grampo de cabelo e retirou
um pequeno cartão dourado e levemente perfumado; era da
Sra. Legras. Franziu a testa e leu: “desgraça terrível. . . ami­
ga devotada” e, depois de um momento de hesitação, rasgou
o bilhete, cuja vista e perfume a horrorizavam.
A segunda carta era do chefe da estação, que conhecera
bem o Sr. Mesurat e com razão se considerava seu amigo.
A terceira, com letra pequena e cerrada, difícil de ler,
estava assinada: Denis Maurecourt. Adrienne deixou esca­
par uma exclamação ao decifrar o nome e corou fortemen­
te. Suas mãos estavam trêmulas e por alguns minutos não
conseguiu compreender as palavras sob seus olhos. A sim­
ples idéia de que esse homem dirigira sua atenção a ela, de
que tivera o trabalho de apanhar a pena, o papel, e pensar
em Adrienne Mesurat, emocionou-a de tal forma que não
sabia se era felicidade ou tristeza o que sentia.
Repetiu várias vezes:
— Imagine! — com a mais profunda surpresa. Depois,
enxugou as lágrimas que lhe corriam pelas faces e leu a
carta. Era breve, um pouco afetada, mas Adrienne viu nela

207
uma delicadeza que a encantou. O sentido de algumas fra­
ses escapava-lhe completamente e ela as relia sem compre-
endê-las, sem que as palavras se relacionassem entre si; a
fórmula banal do fim a surpreendeu, e não podia tirar os
olhos das palavras sentimentos respeitosos e devotados, em­
prestando a cada uma delas um significado profundo e es­
pecial.
Quando afinal conseguiu reler a nota de modo mais racio­
nal, começou a chorar violentamente. Era como se essa carta
representasse um ato de caridade incalculável. Num impul­
so de gratidão, ergueu o papel até os lábios e beijou o lugar
em que a mão do médico devia ter pousado. Lembrou-se
então da carta que mandara de Montfort-l’Amaury. Ele já
devia ter recebido. O que teria pensado? Sentia-se confusa
à idéia de que Maurecourt talvez tivesse achado graça e
ficou satisfeita por não ter assinado. Mas, depois de um mo­
mento de reflexão, lamentou não ter escrito seu nome naque­
la carta, pois isso sem dúvida o obrigaria a procurar uma
solução, ao passo que a carta anônima ia, sem dúvida, tor­
nar tudo mais confuso e difícil.
— Jamais teria coragem de assiná-la — murmurou.
Releu a carta de Maurecourt e guardou-a no corpete.

A tarde toda Adrienne passeou pelo campo. A tempera­


tura estava amena e ela esperava que o exercício e o ar puro
a libertassem daquela opressão; de vez em quando, tinha
breves acessos de tosse que a aliviavam, mas a assustavam,
como se fossem sinais de uma doença terrível, e procurava
a custo reprimi-los, como se com isso pudesse curar-se. Mas
queria sobretudo aproveitar a tranqüilidade de espírito que
lhe trouxera a carta de Maurecourt; talvez a palavra alegria
seja forte demais para descrever o que se passava em sua al­
ma; havia ainda muito temor em seu coração, muita descon­
fiança no futuro e em si mesma, para que a alegria pudesse
penetrar, mas sentia-se mais calma.

208
Ao voltar à Vila das Bétulas, soube que uma senhora a
tinha procurado. Pensou tratar-se da Sra. Legras, mas um
olhar rápido à Vila Louise confirmou que as janelas conti­
nuavam fechadas. Quanto à visitante, não deixara o nome,
mas prometera voltar à noite.
Adrienne não precisou esperar muito. Acabava de tirar o
chapéu, quando ouviu a campainha do portão. Imediata­
mente apanhou um livro e, com o coração disparado, sentou-
se no sofá. Queria que a surpreendessem nessa atitude. Para
as pessoas que vivem isoladas, uma visita não é coisa sem
importância; é preciso realizar, nesses casos extraordinários,
todo um ritual, que pode parecer ingênuo a um parisiense,
mas que é indispensável aos moradores de La Tour-l’Evêque.
Adotou, portanto, uma atitude, não descuidada, mas repou­
sante, como convém a quem está lendo, isto é, a cabeça
inclinada e um dedo no rosto, a outra mão segurando o livro,
cujas linhas saltavam e dançavam ante os seus olhos.
Após um momento, a porta se abriu, dando passagem a
uma senhora vestida de preto, que avançou com passo rápi­
do e silencioso até o meio da sala. Adrienne levantou-se ime­
diatamente, largou o livro e cumprimentou-a.
— Não tenho a honra de conhecê-la, senhorita — disse
a visitante — , mas moro muito perto.
Interrompeu-se, como para despertar a curiosidade de
Adrienne, e sorriu. Aparentava quarenta anos e não usava
nenhum artifício para disfarçar a idade. No rosto magro, as
inúmeras rugas desenhavam ao redor da boca e das pálpe­
bras um sorriso imóvel. Apenas os olhos eram jovens, ne­
gros, irrequietos e curiosos. Enquanto falava, Adrienne teve
a impressão de que ela enumerava os móveis da sala fazendo
uma lista na memória. Sua voz era suave, com um calor re­
primido que não desagradava.
— Quer sentar-se, senhora? — disse Adrienne.
Instalaram-se no sofá, uma em cada ponta, ambas com o i
corpo ereto.
— Para não intrigá-la por mais tempo — disse a visitante
*—, vou lhe dizer que me chamo Marie Maurecourt e que

209
sou a irmã do médico. Até agora, morei em Paris, mas
há alguns dias estou na casa do meu irmão.
Seus olhos percorreram a sala mais uma vez da porta às
janelas e, como por acaso, fixaram-se em Adrienne, que ficou
calada.
— Está surpresa por ter vindo visitá-la, senhorita? —
perguntou.
Adrienne juntou as mãos até os dedos estalarem; fez um
imenso esforço e disse rapidamente:
— Na verdade, não a esperava.
— Mas é muito natural. Somos vizinhas. Está sozinha
e presumo que esteja muito triste. É perfeitamente compreen­
sível, senhorita.
Olhou para o jardim. Ficaram em silêncio, Adrienne bai­
xou os olhos e esperou.
— Nós pensamos, meu irmão e eu — disse Marie Mau­
recourt depois de alguns momentos —, que talvez lhe pos­
samos ser ú teis.. . Quando digo meu irmão e eu, é um mo­
do de falar que pode induzir a erro. Não combinamos nada.
Meu irmão nem sabe que vim visitá-la, mas ontem falamos
da senhorita e aparentemente ele acha que é quase um de­
ver. . . Como diria? Ajude-me.
— Não sei — murmurou Adrienne.
— Bem, um dever não deixá-la sozinha, um dever fazer-
lhe companhia na medida do possível. Como sou da mesma
opinião, vim vê-la. Devo dizer que meu irmão é um homem
muito ocupado, nunca tem tempo para si mesmo e, além
disso, não goza de boa saúde. Toda visita desnecessária, toda
fadiga supérflua lhe são proibidas.
Tinha falado rapidamente, sem olhar para Adrienne.
— Agora — continuou mais lentamente — quero que sai­
ba que não está só, que pode contar comigo sempre que
estiver muito triste. É muito simples, basta escrever-me uma
palavra e eu virei.
Ergueu-se com um movimento brusco e estendeu a mão à
jovem, que se levantou.
— A propósito — disse Marie Maurecourt subitamente
—, não nos escreveu ultimamente?
Adrienne conteve a respiração; examinou rapidamente os
olhos que fugiam aos seus, mas eles não lhe disseram nada.
— Não — disse depois de um momento.
Sentiu uma cólera súbita contra essa mulher. Será que vie­
ra também espionar, como Germaine, como a Sra. Legras?
A idéia de que sua carta tivesse ido parar em suas mãos
parecia-lhe insuportável. Lembrou-se das palavras: . . .Se
soubesse como sou infeliz. . . e corou.
— Não — repetiu com voz mais firme — , não fui eu.
Pela primeira vez Marie Maurecourt fixou em Adrienne
os olhos pretos, com uma pequena chama amarela que lhes
dava uma expressão selvagem, quase maligna. Ergueu os om­
bros levemente.
— Confusão de endereço — murmurou.
E disse em voz mais alta:
— Não a aborreci com essa visita? Queria tanto vê-la.
— De modo nenhum! — disse Adrienne.
Dirigiram-se para a porta.
— Soube que viajou. . . — observou Marie Maurecourt
voltando-se para Adrienne, que a acompanhava.
Mas a jovem não respondeu. Estavam já na porta que se
abria para o jardim. Adrienne mantinha-se ereta e silencio­
sa. De súbito, a visitante se apoiou ao batente da porta, co­
mo se tomada por uma fraqueza terrível.
— Fez boa viagem? — perguntou.
Seu olhar já não tinha a mesma dureza; algo de suplican­
te, de humilde mesmo, parecia implorar a Adrienne que res­
pondesse, que lhe dissesse toda a verdade.
— Sim, muito boa — respondeu Adrienne secamente.
Marie Maurecourt suspirou. Apertaram-se as mãos e ela
partiu.

211
II

No dia seguinte, um pouco antes do almoço, a empregada


anunciou a Sra. Legras.
— Diga-lhe que saí — ordenou Adrienne, que limpava
os móveis da sala.
Mas, no mesmo instante, a Sra. Legras entrou. Ouvira as
palavras de Adrienne.
— Saiu! — exclamou. — Mandou dizer isso para mim?
Usava um vestido lilá e um chapéu coberto de flores bran­
cas. Adrienne olhou-a sem responder. A Sra. Legras voltou-
se para Desirée, que observava a cena.
— Muito bem, retire-se — disse impaciente. — A senho­
rita não precisa de você agora, creio.
Quando ficaram a sós, Adrienne sentou-se; estava pálida.
— Não queria vê-la — disse.
— Eu percebi — replicou a Sra. Legras com voz sibi-
lante.
Colocou-se na frente de Adrienne com as mãos na cin­
tura.
— Quer ter a bondade de me explicar por quê? — per­
guntou com os olhos brilhantes.
— Quero viver absolutamente só, não quero ver ninguém
— disse Adrienne.
Sentiu-se ofendida pelo olhar de desprezo da antiga amiga
e ergueu-se.
— Ninguém — repetiu, fazendo um gesto com a mão.
— Isso não é resposta.
Adrienne ergueu os ombros.
— Deve se contentar com isso.
A Sra. Legras ficou rubra e segurou o pulso da jovem.

2:12
— Vamos — disse em voz baixa, o rosto muito próximo
do de Adrienne. — Não está falando sério. Tem alguma coi­
sa contra mim?
A moça libertou o pulso bruscamente.
— Não lhe devo nenhuma explicação — disse. —
Deixe-me.
A Sra. Legras ficou em silêncio por um momento, depois
começou a rir e sentou-se numa cadeira.
— Minha pobre criança — disse enfim com sua voz nor­
mal —, o que deu em você? Se é uma brincadeira, vamos
acabar com ela. É impossível que esteja falando assim à sua
melhor amiga.
De súbito, pareceu muito surpreendida, como se só então
compreendesse a enormidade do que estava acontecendo.
— Falando sério, Adrienne, é a mim que você recebe des­
sa maneira? Por acaso ficou louca? Volte à razão. Vamos
fingir que nada aconteceu.. .
Adrienne deixou escapar um suspiro de cólera.
— Não posso dizer mais claramente que não quero mais
vê-la, senhora — disse depois de um momento.
— E eu, não posso dizer mais claramente que você é
uma tola. Se existe uma pessoa no mundo a quem deva amar,
respeitar, sim, respeitar, essa pessoa sou eu.
— Oh, não! — respondeu Adrienne com voz embargada.
— Respeitar uma mulher como a senhora! Está brincando.
— O que quer dizer com isso, Adrienne?
— Sabe o que quero dizer.
— Não sei coisa alguma, exijo uma explicação.
Adrienne fulminou-a com o olhar.
— Bem — disse em tom decidido — , saiba que uma Me­
surat não aperta a mão de um a. . . de um a. . .
— Uma o quê? Diga — desafiou a Sra. Legras batendo
com o pé no chão.
— De uma mulher perdida, senhora! — disse a jovem
com voz estridente.
Apoiava-se trêmula contra o aparador que estava limpan­
do quando a Sra. Legras chegou. Atrás dela, os oito Mesu-
rats, homens e mulheres, contemplavam a cena como jura­

213
dos num tribunal. Nesse momento, Adrienne parecia com
todos eles, a cabeça atirada para trás, os olhos atentos. A
Sra. Legras não respondeu prontamente; era evidente que até
aquele momento não acreditava que aquela palavra pudesse
sair dos lábios de Adrienne, e seu rosto demonstrava uma
enorme surpresa. Sob a pintura, suas faces ficaram lívidas.
Afinal, ergueu os ombros com uma fúria desdenhosa.
— Que mexerico é esse que está repetindo? — pergun­
tou. — Compreende pelo menos o sentido do que disse?
Sua boca ergueu-se num sorriso. Essa calma aparente des­
concertou a jovem, que esperava uma explosão de injúrias;
não respondeu à pergunta.
—- Realmente — continuou a Sra. Legras em voz pau­
sada — vejo que não se deixa guiar pela polidez ou pelo
reconhecimento. Vai todos os dias à minha casa, acei­
ta convites (que nem sonho em fazer), tudo isso para me
dizer agora que sou, como foi que disse? Uma mulher per­
dida, perdida! (Repetiu a palavra perdida como se a di­
vertisse, e riu.) Por que, se posso perguntar? Será por acaso
porque uso pó-de-arroz? Naturalmente isso não se faz em
La Tour-FEvêque. Ah! As conclusões prematuras não detêm
uma Mesurat!
Subitamente, pareceu perder todo o controle e, erguendo-
se de um salto, colocou-se na frente de Adrienne, que se vol­
tou um pouco sem olhar para ela.
— Pequena tola! — disse a Sra. Legras junto ao ouvido
da jovem. — Sei o bastante sobre você para levá-la ao tri­
bunal!
Ao ouvir essas palavras, Adrienne voltou para a mulher o
rosto terrivelmente pálido. Fez um esforço para abrir a boca,
mas não conseguiu. O medo a fez recuar até sentir a ponta
do aparador sob a mão. Não podia tirar os olhos do rosto
da Sra. Legras, que evidentemente se rejubilava com seu
triunfo.
— Vamos — disse ela depois de um momento — , então
recobrou a memória. Esquece facilmente os serviços que lhe
são prestados, senhorita. Sabe que eu a livrei de uma compli­
cação muito séria? Sabe ou não?

214
— Não sei o que quer dizer com isso — tartamudeou
Adrienne.
— Sabe muito bem que, se eu me sentar àquela mesa para
escrever à polícia tudo o que sei sobre a morte de seu pai,
você se arrastaria aos meus pés, Srta. Mesurat!
Com gesto imperioso apontava a mesa grande, ao pronun­
ciar essas palavras. Adrienne apoiou-se no aparador. Então
saíram de seus lábios as palavras que não queria dizer.
— De que modo eu sou responsável? — perguntou com
voz entrecortada.
— Cale-se! — disse a Sra. Legras. — Não sou juiz para
que se desculpe comigo. Mas tome cuidado; se ouvir dizer
que está falando de mim em La Tour-l’Evêque, digo tudo o
que sei. Está bem claro?
Fez um movimento com a cabeça e saiu rapidamente.

Adrienne ouviu o portão da Vila das Bétulas fechar-se


violentamente e, dois segundos depois, o da Vila Louise.
Ouviu também os latidos do bassê amarelo saudando a dona.
Afinal, voltou o silêncio, o silêncio pesado e profundo que
conhecia tão bem. Deixou-se cair numa cadeira e permane­
ceu imóvel. Um suor frio corria da raiz dos cabelos pela sua
testa. Alguma coisa se aniquilava dentro dela, sabia que não
tinha mais forças para lutar e pela primeira vez, depois de
semanas, sentiu todo o horror daquela casa silenciosa. Ape­
sar da confusão do seu espírito, não conseguia fazer um
gesto. Queria erguer-se, andar, mas uma lassidão horrível
pesava sobre ela. Em vão tentou ficar de pé, as pernas não
a sustentavam.
Lembrou-se do dia em que, o rosto encostado na grade (
do jardim, pensara em fugir e tentara abrir o portão, só para
verificar que o pai, como que prevendo essa possibilidade,
o havia trancado à chave. Hoje, tudo parecia na mesma, e
tinha a impressão de que, se tentasse fugir, obstáculos mais
poderosos ainda a impediriam.

215
Compreendeu então o significado da sua viagem. Era co­
mo se ãs pequenas cidades que visitara a houvessem rejeita­
do. Pensara que não podia mais viver na Vila das Bétulas;
estava enganada, era o único lugar onde poderia viver. Além
disso, materialmente falando, não podia modificar coisa al­
guma. Era menor, sua fortuna não lhe pertencia. Não con­
cebia a idéia de vender a casa e comprar outra. Herdara do
pai uma espécie de veneração pelos hábitos, que a aprisio­
nava entre essas paredes, entre esses objetos que a faziam
lembrar a infância melancólica e a juventude dolorosa. Po­
dia modificar a disposição das coisas, das cadeiras e das me­
sas, mas precisava tê-las à sua volta.
Sentiu medo. Na confusão em que se encontrava, as idéiàs
sucediam-se cada vez mais apavorantes. Perguntava a si mes­
ma se não fora vítima de uma ilusão e se a Sra. Legras, na
verdade, não estivera ali. Parecia ouvir novamente o ruído
dos dois portões, abrindo-se e fechando-se. Não era sonho.
Portanto, o resto era também real. E voltaram-lhe à mente
as palavras da vizinha, mas com algo que não tinham quan­
do ela as pronunciara; não havia ódio e pareciam gritos de
alarma, um aviso de “salve-se!” que ecoava no silêncio. Re­
cuperou bruscamente as forças e ergueu-se.
Seu primeiro impulso foi escrever a Marie Maurecourt di­
zendo que precisava vê-la. Foi à sala de estar, rabiscou um
bilhete de quatro linhas e colocou-o no envelope.
— Para que servirá isso? — disse em voz alta, quando
terminou de escrever o endereço.
Parou por um momento e depois disse a meia-voz:
— Não vou naturalmente lhe dizer que matei meu pai.
Essas palavras a encheram de terror. Levou as mãos aos
olhos.
— Não é verdade — disse.
Subitamente, baixou as mãos e repetiu, como se alguém
a contestasse:
— Em primeiro lugar, não é verdade.
Foi dominada por uma cólera louca; até aquele mo­
mento sentira-se por demais abatida, por demais estupefata
para compreender o quanto era humilhante a atitude da Sra.

216
Legras. Mas agora suas forças voltavam e o sangue lhe su­
biu ao rosto. Num segundo convenceu-se de que aquela mu­
lher a havia caluniado, e seu furor cresceu. Olhou para a
Vila Louise e cerrou as mãos; seus olhos ficaram negros.
— Se a encontrar de novo — murmurou. — S uja...
S u ja...
Procurava uma palavra. Veio-lhe à mente uma expressão
que o pai costumava usar.
— Cadela, sim, cadela, cadela suja da rua!
Logo se controlou, como se o insulto a libertasse da an­
gústia. Finalmente, ergueu os ombros.
— Além disso — murmurou, respondendo a uma voz in­
terior —•, ela sabe que estou com a razão. Depende só de
mim colocar toda a cidade contra ela, obrigando-a a partir.
Basta que eu converse com algumas pessoas para que, em
uma semana, todo o mundo fique sabendo.
Baixou os olhos para a carta que acabara de escrever.
— A Srta. Maurecourt, por exemplo.
Resolveu mandar levar a carta a Marie Maurecourt ime­
diatamente. Sem dúvida, não podia confiar na mulher, mas
por outro lado não podia também ficar assim isolada. Pre­
cisava ver alguém, falar com alguém.
E, empurrando a cadeira, ergueu-se e começou a andar
pela sala. Estava ainda com o avental branco e o lenço na
cabeça, amarrado na nuca, a fazia parecer uma camponesa.
Ao passar pelo espelho, olhou sua imagem e achou-se um
pouco mais magra e abatida; as roupas negras de luto acen­
tuavam a aparência doentia e sem cor. Encostou-se na lareira,
examinou o rosto com atenção, notando as sombras escuras
sob os olhos; descobriu pequenas linhas sob as pálpebras,
mais finas do que fios de cabelos, apenas perceptíveis. Fran­
ziu as sobrancelhas. Desviou os olhos e pareceu refletir pro­
fundamente. Toda a perturbação da cólera desapareceu poun
co a pouco, dando lugar a uma melancolia mais apavorante.
Sentou-se na poltrona em que o pai fazia a sesta e ficou
imóvel, as costas para a janela. A casa e a rua estavam silen­
ciosas. Fazia calor. No jardim os pássaros se calavam à apro­
ximação do meio-dia.

217
III

Imediatamente depois do almoço, resolveu levar ela mes­


ma o bilhete ao pavilhão branco; sem dúvida não teria cora­
gem de bater à porta temendo que o médico atendesse; ape­
nas colocaria a carta na caixa de correspondência. Seria bas­
tante, pensava, se conseguisse fazer isso. Não estaria se arris­
cando a encontrar-se com Maurecourt, se ele saísse de casa
no mesmo momento?
Essa possibilidade, que em outros tempos lhe pareceria
cheia de temeridade e delícia, hoje se apresentava como uma
prova impossível de enfrentar. Queria vê-lo quando estivesse
mais calma e sem essa expressão fatigada. Que impressão
provocaria no médico, assim pálida, nervosa como estava?
Talvez, se fosse sincera consigo mesma, percebesse que de­
sejava tirar partido daquela exitação que a dominava, que
ingenuamente contava com o efeito de um rosto desfeito e
da dificuldade de se expressar, para inspirar piedade a esse
homem, e que não confiava a carta a Desirée por esse motivo.
Mas não podia confessar isso a si mesma. Era preciso agir
e no próprio excesso de desespero encontrava força.
Colocou o chapéu de palha preta e saiu. Enquanto atra­
vessava a rua, imaginava o que diria se encontrasse Maure­
court e não tinha resposta para essa interrogação. Logo che­
gou à porta de madeira que tantas vezes tinha observado,
na qual a tinta verde se empolava e se descascava em alguns
pontos sob o efeito do calor. O coração parecia querer sal­
tar-lhe do peito. Ficou imóvel por um momento, a carta meio
enfiada na abertura da caixa de correspondência, sem se de­
cidir a abrir os dedos e deixá-la cair. No interior da casa
branca, alguém movia cadeiras, sem dúvida a empregada, ar-

218
rumando a sala depois do almoço. Onde estaria Maurecourt
nesse momento? Talvez repousando no jardim. Ela o ima­
ginou deitado numa espreguiçadeira sob uma árvore, sob
uma faia, como a que via do quarto de Germaine. Arrepen­
deu-se de não ter escrito a ele e sim à irmã, foi invadida por
uma ternura que lhe arrancou um suspiro.
“Ele está ali”, pensava. “Se soubesse que estou tão perto,
o que diria?”
Subitamente desanimada, deixou cair a carta; a caixa se
fechou com um pequeno ruído seco. Pareceu-lhe ouvir pas­
sos na aléia que acompanhava o muro do jardim e afastou-
se na ponta dos pés. A emoção apertava-lhe a garganta. Não
estava enganada, alguém caminhava realmente do outro lado
do muro, mas os passos pararam subitamente. Adrienne pa­
rou também, apoiando-se na parede de pedra. Passaram-se
alguns segundos. Afastou-se um pouco mais, silenciosamen­
te, e chegou à esquina. Ali esperou. Alguém no jardim
esperava também, estava certa. Logo ouviu o som dos passos
retomando a caminhada, mas um pouco mais apressados;
pararam na porta. Ouviu a caixa de cartas ser aberta e de­
pois fechada cuidadosamente.
“Fui observada”, pensou, estupefata. “Alguém me viu.”
E recuou, escondendo-se no ângulo do muro da casa, sem
coragem de fugir. Após um minuto de silêncio profundo, a
mesma mão que abrira a caixa virou a maçaneta e abriu a
porta. Alguém saiu. Adrienne reteve a respiração. Apenas qua­
tro ou cinco passos a separavam da pessoa que estava agora
parada na rua e sem dúvida olhava para os lados, na esperan­
ça de ver quem trouxera a carta; bastava que fosse até o
ângulo do muro para vê-la. Adrienne ouviu a porta se fe­
chando e passos que se dirigiam para a casa. Esperou ainda
alguns segundos e, depois de um pequeno passeio até a esp
trada nacional, voltou para casa.
Na escrivaninha do salão encontrou uma carta que chega­
ra durante sua ausência. À primeira vista reconheceu a letra,
e o perfume de resedá que se evolava do papel confirmou
suas suspeitas: era da Sra. Legras.

219
Sentou-se e ficou pensativa por alguns minutos, antes de
abrir o envelope. De súbito, pensou no pior: a vizinha a de­
nunciara à polícia. Ah! Precisava mesmo pedir conselho a
alguém. Abriu o envelope e retirou um pequeno cartão lilá,
que leu sem compreender a princípio:

Minha menina — dizia a Sra. Legras — , somos


tolas por brigar desse modo. Não sei onde foi bus­
car aquelas idéias a meu respeito, nem sei onde fui
buscar tudo o que lhe disse de manhã. Vamos atri­
buir tudo isso ao tempo tempestuoso, e volte a
abraçar, se quiser, sua velha amiga Léontine
Legras.

Adrienne apoiou a cabeça no braço de canapé onde es­


tava sentada e ficou imóvel por longo tempo.

Mais ou menos às três horas recebeu a visita da Srta.


Marie Maurecourt e sobressaltou-se com a frieza que notou
na expressão da solteirona.
— Chamou-me, senhorita — disse ela.
— Sim, é verdade — respondeu Adrienne.
Sentaram-se, uma na frente da outra. A Srta. Maurecourt
estava bem vestida, com uma toalete quase de cerimônia;
usava um chapéu de seda preta com pequenas plumas da
mesma cor. A malha fina do pequeno véu escondia o rosto
quase completamente, e via-se apenas a tonalidade mate e
amarelada da sua pele e os olhos escuros e brilhantes. Uma
jaqueta e um vestido de sarja azul dissimulavam mal sua
magreza, embora fossem folgados. Cruzou as mãos enluva-
das sobre o colo e esperou uma explicação.
— É verdade — repetiu Adrienne com esforço. — Não
me disse que podia chamá-la quando. . .

220
Ela ia dizer nos dias em que me sinto triste, mas, ante
a expressão severa e distante da outra, interrompeu-se; essas
palavras lhe pareciam ridículas. Além disso, depois de rece­
ber a carta da Sra. Legras, não via nenhuma necessidade des­
sa visita da irmã do médico e arrependia-se de tê-la cha­
mado.
— O que quer me dizer, senhorita? — perguntou Marie
Maurecourt.
Adrienne abaixou os olhos, olhando as mãos cruzadas
também sobre o c o lo ... Fez-se um curto silêncio.
— Senhorita — disse bruscamente Marie Maurecourt — ,
mudei minha opinião a seu respeito desde a minha última
visita. Refleti sobre a nossa conversa. Minha impressão é
que pode muito bem dispensar a minha companhia. Além
do mais, segundo me disseram, sua solidão não é tão com­
pleta como quis me fazer acreditar.
— Não compreendo o que quer dizer — disse Adrienne
com voz incerta.
— Não mesmo? — perguntou Marie Maurecourt com
ironia. — Tem uma excelente vizinha, senhorita. Eu a feli­
cito. Léontine Legras é sem dúvida uma pessoa en­
cantadora. Assim, é uma pena que meu irmão e eu não este­
jamos dispostos a conhecer uma mulher desse tip o ...
Interrompeu-se, fitando os olhos na jovem.
— . . . ou as amigas dela.
— Está louca! — exclamou Adrienne.
— Seja educada, senhorita — retrucou Marie Maure­
court com voz pausada. — A cortesia é necessária, mesmo
nessas circunstâncias. Naturalmente tem liberdade de esco­
lher suas amizades, mas, considerando a qualidade da sua
amiga Léontine, a classe a que ela pertence, não devia nem
pensar em procurar a nossa convivência.
Adrienne ficou rubra. i
— Não me dou mais com a Sra. Legras — disse.
— Então isso é muito recente — replicou Marie Mau­
recourt com ceticismo. — Soube que hoje de manhã a Sra.
Legras, como a chama, lhe deu a honra de uma visita.
— Veio contra a minha vontade, senhorita.

221
— Ah? É possível, mas a correspondência continua. De
tarde, uma carta.
— Está me espionando, senhorita, não posso permitir
isso.
— Tomo certas providências antes de abrir a porta de
uma casa honrada a uma estranha. Agora tenho certeza.
— Certeza de quê? — perguntou Adrienne, erguendo a
voz.
Marie Maurecourt observou-a por um momento sem res­
ponder.
— Do que a senhorita é realmente, Srta. Mesurat — res­
pondeu secamente. — As provas são abundantes.
A jovem não conseguiu se conter. Abandonou toda a pru­
dência que a aconselhava a não romper os pontos de comu­
nicação com os Maurecourts e entregou-se à cólera.
— É favor explicar-se — disse com voz trêmula. — In­
timo que se explique.
Em resposta, Marie Maurecourt abriu a bolsa preta que
tinha entre as mãos e retirou uma carta.
— Escreveu isto? — perguntou.
— Naturalmente, senhorita, é a carta que lhe mandei
depois do almoço.
— Muito bem. E isto?
E atirou um envelope sobre o colo de Adrienne. A jovem
o apanhou e retirou a carta que escrevera em Montfort. Um
grito escapou-lhe do peito.
— Eis aí um grito que explica tudo — disse Marie Mau­
recourt, fechando a bolsa.
Adrienne ergueu-se, levando a mão ao pescoço.
— Essa carta não lhe foi endereçada — disse por fim
com voz estranha.
— É melhor que lhe diga que ela jamais chegou ao
destinatário — respondeu Marie Maurecourt, que seguia os
movimentos da jovem com um sorriso de desprezo.
— A senhorita a roubou! — exclamou Adrienne. — É
uma infâmia, senhorita.

222
Marie Maurecourt não se alterou.
— E como chama isso que a senhorita fez? — pergun­
tou. — Costuma escrever muitas declarações de amor como
esta? A Legras deve lhe dar preciosos conselhos, senhorita.
Não me admira essa amizade.
Adrienne bateu com o pé no chão.
— Saia daqui! — exclamou.
— Não antes de lhe avisar que a próxima carta desse ti­
po que eu encontrar na minha caixa de correspondência vai
ser usada para denunciá-la à opinião pública. Mandarei pu­
blicar uma cópia no Moniteur de Seine-et-Oise. Veremos o
que pensam dela as pessoas honestas.
Ergueu-se bruscamente e afastou-se com passo decidido,
as costas retas, e depois, erguendo os ombros, lançou um úl­
timo olhar de desprezo a Adrienne e saiu da sala.
Adrienne levou as mãos à boca, abafando o grito de raiva
que lhe subia da garganta e deixou-se cair no canapé. Suas
mãos tremiam. Com o punho fechado batia repetidamente
nos joelhos.
— Vou vê-lo — disse depois de um momento, a voz es­
trangulada. — Só Deus sabe o que essa mulher já lhe disse.
Tirou o lenço do corpete e limpou a boca.
— Vamos — disse, levantando-se. — Vamos. Não vou
me deixar vencer por uma solteirona mal-humorada. Não
devo ceder.
O corpete parecia apertar-lhe o peito, as barbatanas a in­
comodavam; abriu alguns botões e deu um suspiro.
— Vamos — repetiu, começando a andar pela sala. —
Não devo ceder.
Sentou-se à escrivaninha, apanhou uma pena e começou i
a escrever:

Senhor, ignoro o que podem lhe ter dito a meu


respeito.

223
Não gostou da frase. Rasgou o papel e recomeçou:

Senhor, é extremamente necessário que eu o veja.

Mas não lhe pareceu melhor do que a anterior. Rasgou


a segunda folha de papel e, inclinando-se sobre a escriva­
ninha, apoiou a testa nas mãos.
— O que fazer, meu Deus, o que fazer? — disse em voz
alta, num tom de cólera mesclado de desânimo.
Sentiu que as forças a abandonariam se não reagisse pron­
tamente. Apanhou a terceira folha de papel e escreveu o
seguinte:

Senhor, preciso vê-lo. Há muito tempo penso em


pedir que me ajude, pois é só da sua ajuda que
preciso. Se já lhe falaram de mim, não acredite em
nada do que disseram. Sou terrivelmente infeliz,
não posso sofrer mais. O seu dever é me socorrer,
ê vir me ver, sozinho.

Parou de escrever.
— Não posso mandar essa carta — disse; de súbito,
exclamou com voz decidida: — Bem, tanto pior! Não pode
me acontecer nada pior do que sofri hoje. Além disso, estou
certa de que ele compreenderá.
Escreveu ainda:

Estou certa de que me compreenderá.

E assinou.
Depois de endereçar o envelope, abotoou a blusa, colo­
cou o chapéu e saiu. Pretendia entregar a carta pessoalmente
ao médico e depois voltar para casa e esperar. No estado de

224
espírito em que se encontrava, o projeto lhe parecia imen­
samente simples. Depois de semanas de hesitação e incerte­
za, via claro agora, pela primeira vez, como uma espécie de
compensação, pensava ela, por tudo o que tinha sofrido. Ad-
mirava-se de não ter pensado nisso há mais tempo.
“Talvez fosse melhor dizer que quero consultá-lo”, pen­
sava, enquanto atravessava a rua.
E ajuntou imediatamente: “Paciência, não posso modifi­
car essa carta.”
Temia que suas forças se esgotassem; sabia que não podia
exigir muito mais de si mesma e que, se não aproveitasse
agora a energia que juntara para escrever a carta, tudo esta­
ria perdido. Sem dúvida, devia ter falado com o mé­
dico há muito tempo. Quantas dificuldades teria evitado!
Contudo, o momento preciso tinha passado, ela o deixara
passar, e hoje, por um misterioso acaso, esse momento vol­
tava. Podia senti-lo, tinha a certeza. Era a sua última opor­
tunidade: toda a sua felicidade, talvez toda a sua vida, de­
pendia agora das próximas três ou quatro horas. Essa idéia
quase supersticiosa a abalou, como se fosse a revelação de
um mistério. Caminhou mais depressa e chegou à esquina,
exatamente onde se escondera quando Marie Maurecourt
apanhara sua carta. Apoiou-se na parede.
Quanto tempo teria de esperar? Como saber se ele ia sair
de tarde? Perguntava e não sabia responder. Sentia-se de­
cidida e indiferente ao mesmo tempo. Olhava o cascalho da
rua; uma expressão sombria dominava-lhe o rosto. A cor
desaparecera-lhe das faces e os lábios estavam quase bran­
cos. Uma dor nos ombros, um peso estranho, obrigava-a a
se curvar um pouco. Por mais de dez minutos ficou ali para­
da, sem erguer a cabeça.
O ruído de uma carruagem na estrada nacional sobressal-
tou-a. Endireitou o corpo e olhou ao redor. Após alguns mo­
mentos o silêncio voltou. O dia estava muito quente e todos
preferiam ficar em casa. E Adrienne imaginava os vizinhos
reclinados nas poltronas, tranqüilos. As férias começavam
no dia seguinte. Viriam os parisienses, que procuravam La
Tour-l’Evêque para descansar, e ocupariam as vilas à direita

225
e à esquerda da Vila das Bétulas. A jovem teve a dolorosa
consciência da solidão cruel com que o sofrimento a envol­
via. Em todo o bairro, talvez em toda a cidade, era a única
a sofrer assim. Os homens e as mulheres comiam, trabalha­
vam e dormiam com uma tranqüilidade quase perfeita, sem
maiores aborrecimentos. Mas podia ela comer, dormir, ficar
tranqüila por meia hora que fosse?
Fez um movimento de cólera contra esse homem que não
vinha, como se ele estivesse atrasado para um encontro pre­
viamente acertado; em certos momentos Adrienne chegava
a detestá-lo. Não era ele o responsável por todo o seu sofri­
mento? Era humilhante pensar que a sua felicidade, a sua
pãz~istavam à mercê de alguém que vira passar na rua ape­
nas uma vez.
E, de súbito, teve a impressão de que ele estava ali à sua
frente, que podia vê-lo. Os olhos negros a fitavam com um
misto de afeição e curiosidade. Todos os pensamentos fugi­
ram da mente de Adrienne. Compreendeu que estava sem
defesa, que a razão apenas exacerbava o que sentia; tinha
de aceitar a verdade: estava apaixonada.
A intensidade da sua atenção fez com que julgasse ouvir
passos no jardim, além do muro, que se dirigiam para a
porta; o coração de Adrienne disparou. E se fosse Marie
Maurecourt? E se ela a encontrasse ali na rua, o que faria?
“E se fosse ele?” pensou. O sangue pulsava-lhe nas têmpo­
ras. Juntou as mãos e murmurou: — Não, não — entre os
dentes. As forças a abandonavam; juntou as mãos como que
para segurá-las por mais algum tempo. De súbito, àtravessou
a rua.
— É inútil — disse em voz rápida e baixa. — Não pode­
ria falar com ele. Eu não poderia.
E, guardando a carta no corpete, continuou a andar com
o rosto banhado em lágrimas.

Entrar em casa, ouvir o portão se fechando atrás dela,


não teria coragem agora para isso. Andou pela rua por al­

226
guns momentos, indecisa, com um aperto na garganta. Atra­
vés das lágrimas via uma nuvem atravessando lentamente o
azul do céu e os pássaros, fatigados pelo calor, repousando
sobre os fios telegráficos. Andava ao acaso. Um soluço sacu­
diu todo o seu corpo e Adrienne sobressaltou-se, como se
esse som rouco e breve que escapava dos seus lábios tivesse
sido produzido por outra pessoa.
“É demais”, pensava, “vou ficar louca. Não posso mais
sofrer assim.”
Angustiada, inclinou a cabeça sobre o peito e torceu as
mãos em silêncio. Nada do que tinha sofrido até então com-
parava-se com os terríveis minutos desse último quarto de
hora. Era como se nunca tivesse realmente conhecido o pran­
to e como se todos os seus temores e decepções, todo o seu
desespero do passado fossem apenas imaginários; como se,
pela primeira vez, se encontrasse frente a frente com a terrí­
vel realidade que tocava agora do fundo da sua imensa dor.
Teve vontade de se curvar, enrodilhar-se sobre si mesma. A
idéia da morte atravessou-lhe o espírito e não a comoveu;
lembrou-se do terror que sentira ao pensar que a doença da
irmã poderia tê-la afetado, mas seu corpo não tremeu e o
que a apavorara há alguns dias agora a deixara indiferente.
— Talvez tudo se acabe assim — disse para si mesma.
Parou e ergueu os olhos; passara mais de uma vez pela
Vila Louise, nesse seu andar errante. A cena com a Sra. Le­
gras veio-lhe à memória, mas de maneira confusa. Tudo o
que tinha acontecido antes da visita de Marie Maurecourt
estava em outro tempo, e até mesmo essa visita parecia-lhe
sem sentido. Teve a curiosa impressão de estar bêbada. Seus
joelhos curvavam-se. Puxou o fio da campainha e, sem espe­
rar que atendessem, abriu o portão. Deu alguns passos no
jardim e caiu sobre a relva.

227
IV

— Não — dizia a Sra. Legras com autoridade. — Fique


tranqüila. Henriette vai lhe trazer um cordial e você deverá
repousar durante uma hora.
Adrienne, que estava apoiada sobre o cotovelo, deixou-se
cair para trás na espreguiçadeira, no quarto da Sra. Legras,
olhando à sua volta como se não estivesse vendo nada. Afi­
nal, voltou os olhos para a vizinha, que estava ao lado da
sua cabeceira com um penhoar cor de malva, observando-a
com atenção.
— Há quanto tempo estou aqui? — perguntou Adrienne
depois de alguns instantes.
A Sra. Legras consultou o relógio de parede.
— Vinte minutos. Está um pouco melhor?
Adrienne não respondeu.
— Não fale, se isso a deixa cansada — disse a Sra. Le­
gras, sentando-se ao lado dela. — Diga-me apenas se pre­
cisa de alguma coisa.
Bateram na porta. A Sra. Legras foi abrir e voltou com
um copo de licor cheio até a metade.
— Beba isto — ordenou, sustentando a cabeça da moça.
— Obrigada — murmurou Adrienne depois de esvaziar
o copo.
— Pobre criança — disse a Sra. Legras, voltando a sen-
tar-se. — Nós a encontramos estendida na relva. Durante
mais de cinco minutos foi preciso umedecer sua testa e ba­
ter-lhe no rosto. Está melhor?
Adrienne fez que sim com a cabeça.
— Essa síncope não é natural — continuou a Sra. Legras.
— Eu sempre a achei tão forte. Mas já chamei o médico.

228
Fez-se um silêncio. Os olhos de Adrienne fixaram-se no
rosto da Sra. Legras.
— O médico? — perguntou com voz inexpressiva.
— Naturalmente. Mandei chamá-lo há pouco.
Adrienne fez um esforço para se erguer.
— Não quero vê-lo — disse com mais vivacidade. —
Não posso.
— Acalme-se, minha querida — recomendou a Sra. Le­
gras — ; não precisa vê-lo se não quiser. Agora deite-se.
A jovem segurou as mãos da Sra. Legras.
— Qual médico? — perguntou.
— Ora, você sabe, minha querida, só temos um. Aquele
que mora em frente.
Um grito escapou dos lábios de Adrienne, e ela inclinou a
cabeça sobre as mãos da Sra. Legras.
— Meu Deus! — exclamou esta. — Você me assusta! O
que está sentindo, Adrienne?
Ergueu-se tentando soltar as mãos.
— Oh, não vá embora! — suplicou a moça, erguendo a
cabeça. — Vou lhe contar.
— Contar o quê? — perguntou a Sra. Legras.
— Sente-se, não posso falar assim — retrucou Adrien­
ne. — Escute-me com atenção, senhora. Oh! Ajude-me.
— Naturalmente, minha querida. Sempre lhe disse para
confiar em mim. Fale. Pronto, estou sentada, pode falar.
Adrienne escondeu o rosto nas mãos.
— Não posso ver esse homem « disse. E acrescentou:
— Pelo menos, não hoje.
— Não ver o médico? Mas ele não é nenhum monstro.
Do que tem medo?
— A senhora não compreende — exclamou a jovem com
voz entrecortada. — Tenho sofrido horrivelmente. '
— Vamos — a Sra. Legras segurou a mão de Adrienne.
— Controle-se. Você se assusta com pouca coisa. Disse-me
que costuma ter dores de cabeça?
— Não se trata disso. A senhora deveria compreender. Eu
já vi esse homem muitas vezes. Eu o conheço.

229
Olhou para a Sra. Legras, que parecia procurar entender
essas palavras. Adrienne notou as pálpebras azuladas e alon­
gadas com um traço de lápis. “Estou falando a uma mulher
dessas”, pensou. “Bem, paciência.” Sua timidez abandonou-a
completamente e estava a ponto de dizer: “Eu o amo”, quan­
do a Sra. Legras exclamou como se tivesse tido uma idéia
súbita:
— Não vai me dizer que está apaixonada pelo Dr. Mau­
recourt?
E, ignorando o gesto de Adrienne, continuou, tomada de
surpresa:
— Minha querida, é impossível! Um homem daquela ida­
de! Ele tem quarenta e cinco anos!
— Não posso fazer nada! — disse Adrienne, soluçando
descontroladamente.
— Oh! — exclamou a Sra. Legras. — Minha menina,
você está sonhando. Ele tem um filho de treze anos, que está
passando as férias aqui em La Tour-l’Evêque.
Adrienne soltou um grito.
— Maurecourt é casado!
— Casado? Não. A mulher morreu há cinco anos. Isso
não altera o fato de ele ter idade para ser seu pai. Além
disso, meu Deus! A idade a gente pode deixar passar, mas
pense em como é magro, magro demais, e parece não ter
muita saúde. E, ao lado de tudo isso, não tem dinheiro. Não
é um bom partido, minha querida.
— Que me importa? — disse Adrienne, enxugando os
olhos. — Não o amo por ser um bom partido — continuou
com voz embargada. — Eu o amo assim como ele é.
— Vamos! — Observou a Sra. Legras com voz firme.
— Não devemos encorajar uma ilusão que não a levará a
parte alguma. Ê preciso reagir. Você é jovem, bonita, bas­
tante rica, não é? Seria um pecado desperdiçar tudo isso.
Que diabo, pense um pouco no que você é! Pense na sua
felicidade! É insensato prender-se a um homem desse tipo.
Olhe, não posso levar a sério essa história toda.
E começou a explicar por que o Dr. Maurecourt lhe pa­
recia um partido completamente inaceitável, mas, ante a ex­

230
pressão obstinada de Adrienne, que parecia não a ouvir, per­
deu a paciência e exclamou:
— E depois tudo isso é tolice! Pensa que ele se preocu­
pa com o amor ou com o casamento? Bem se vê que não o
conhece. Ele só pensa nos seus doentes.
— O que quer dizer? — perguntou a jovem.
— Que não é um homem como os outros. Ah, minha pe­
quena, bem sei que não se pode escolher, mas não precisa ir
a esse extremo! Devia ter me consultado antes. Eu lhe teria
contado tudo.
— Mas o quê, o quê?
— Bem, eu não sei. É um homem que vai à missa todas
as manhãs, piedoso como uma velha, e sempre enfiado nas
casas dos seus doentes, no hospital ou na clínica. Todos co­
nhecem seus hábitos. Três vezes por semana, vai ao hospital
de Dreux, onde dá consultas de graça. Além disso, tem
teorias próprias sobre o modo de tratar as doenças. Não faz
nada como os outros fazem. Enfim, você pode ver que tipo
de homem ele é.
— O que quer dizer? — perguntou mais uma vez
Adrienne.
Estava tão pálida que a Sra. Legras alarmou-se e pro­
curou acalmá-la.
— Minha pobre Adrienne, estou dizendo tudo isso para o
seu bem. Você sabe que eu não o conheço, esse Dr. Maure­
court. Afinal de contas ele tem um coração como todo
mundo, sem dúvida, mas, julgando pelas aparências. . .
enfim ...
— Se não o conhece, por que fala assim? — exclamou a
jovem, erguendo o corpo. — Por que ele não pode me amar?
Ergueu-se bruscamente e ajoelhou-se aos pés da Sra. Le­
gras, que se levantou.
— Senhora! — disse Adrienne, completamente descon­
trolada.
As palavras pareciam presas na sua garganta; repetiu:
— Senhora! — com tanta angústia que Léontine pensou
que a moça ia morrer.

231
— Minha criança — disse, segurando as mãos de Adrien­
ne. — Não fique assim. Meu Deus, o que há com ela?
— Ajude-me, senhora — pediu Adrienne, soluçando.
— Eu? Mas como? Vamos, levante-se. Vamos ver. Co­
ragem, ânimo! Eu também passei por momentos difíceis. Não
pense que é a única!
Ajudou Adrienne a se levantar e sentaram-se lado a lado
na espreguiçadeira. A Sra. Legras tremia de emoção e foi
com impaciência que disse:
— Realmente, minha querida, você está se entregando de­
mais. Não é mais uma criança.
— A culpa não é minha — exclamou Adrienne. — É de­
mais. Vou ficar louca se continuar assim. Não posso falar
com ninguém, tenho de guardar tudo comigo, o dia todo, a
noite toda.
— Fale com ele.
— Não posso.
— Então escreva-lhe.
— É inútil. A irmã lê todas as cartas antes de entregar
a ele. Ela conhece a minha letra. Veja, eu escrevi (tirou a
carta do corpete), esperava entregar-lhe pessoalmente, mas
não tive coragem.
— Então quer que eu a entregue, não é? Agora entendo.
Ah! Você não é nada tola. Não sabe que não se conduz um
caso amoroso dessa maneira? E depois não o conheço. Não
pode me usar como intermediária. Isso ficaria muito mal.
Aproxime-se dele, apresente-me, e então veremos.
— É impossível. Tive uma discussão com a irmã dele.
A Sra. Legras ergueu as mãos para o teto.
— Tudo errado, tudo! Olhe, dê-me essa carta, estou co­
meçando a perder a paciência. Dê-me aqui.
Apanhou a carta com ar decidido.
A Sra. Legras olhou-a com desprezo.
— Escute — disse afinal. — Esse homem virá aqui. Eu
o receberei na sala lá embaixo. Direi que a carta caiu do
seu corpete quando nós o desabotoamos. Ele vai ler. Esteja
certa de que não a verá logo depois. Quando souber a natu­
reza da sua doença, vai esperar que esteja mais calma, se

232
não for um idiota. Então responderá à sua carta e nós ve­
remos o que fazer. Mas nada de tolices, entendeu?

Uma longa meia hora passou-se até a chegada do médico.


Nesse meio-tempo, a Sra. Legras vestiu uma saia e um cor­
pete de tecido branco. Saiu do quarto, depois de recomendar
a Adrienne que ficasse calma e fingisse estar dormindo se,
por acaso, Maurecourt insistisse em vê-la. Descendo a esca­
da, abriu o envelope, leu a carta que Adrienne lhe confia­
ra, ergueu os ombros e tomou a fechar o envelope cuidado­
samente.
O médico estava de pé no meio da sala. Ela pensou que
não se enganara quanto à sua idade e que os quarenta e
cinco anos estampavam-se claramente no seu rosto. Era mais
alto do que ela, mais ou menos da altura de Adrienne, mas de
uma magreza extrema, que o fazia parecer mais esbelto do
que a jovem. O cabelo ainda negro cobria a parte superior
da testa e as têmporas, acentuando a pele muito branca e
as faces coradas. Os olhos eram iguais aos da irmã, mas sem
a inquietação permanente das pupilas; ao contrário, seu olhar
pousava nas pessoas e nas coisas com um misto de atenção
e de doçura, desviando-se com pesar. As sobrancelhas pre­
tas, um pouco arqueadas, davam-lhe o ar meridional e quase
exótico que se notava em Marie Maurecourt. O nariz era
reto e pequeno, embora as narinas fossem largas. Na boca
de lábios finos um semi-sorriso passava lentamente, dando-
lhe uma expressão de extraordinária bondade. Com um ges­
to aparentemente habitual, passava a mão no queixo. Esta­
va vestido de preto com um paletó longo, cujos cerzidos, por
mais caprichosos que fossem, indicavam muito uso, mas dq
uma limpeza impecável.
— Doutor — disse a Sra. Legras, indicando com a mão
uma cadeira.
— Senhora — começou ele, continuando de pé. — Creio
que se trata de algo urgente. Pelo menos foi o que me dis­
seram.
I
233
— Sim, trata-se de algo urgente — repetiu a Sra. Legras
com ar importante. — Mas, por favor, vamos sentar.
Sentaram-se. A Sra. Legras cruzou as mãos e os pés e
disse com voz solene:
— Trata-se da Srta. Mesurat, doutor. Veio me visitar ho­
je, mais ou menos às duas horas, e desmaiou no jardim. Foi
preciso que eu e minha empregada passássemos um pano
molhado nas suas têmporas e lhe batêssemos...
— Quanto tempo durou a síncope?
— Quatro ou cinco minutos. Quando desabotoei seu cor­
pete, uma carta caiu. Está aqui, doutor. Tem o seu nome e
endereço.
Ele abriu o envelope e leu a carta. A Sra. Legras tossiu e
olhou para os próprios pés; depois de um momento, ergueu
os olhos furtivamente e examinou o rosto do médico, que
franzia as sobrancelhas.
“Está demorando”, pensou ela. “Será que pretende deco­
rá-la?”
— Senhora — disse de súbito Maurecourt, dobrando a
carta. — Posso lhe fazer uma ou duas perguntas?
— Naturalmente, doutor — respondeu a Sra. Legras, tos­
sindo outra vez.
— Sabe se é a primeira vez que a Srta. Mesurat tem esse
tipo de desmaio?
— Aqui na minha casa, sim. Em outras ocasiões, não
sei. Ela jamais fala sobre a sua saúde. Pensei que fosse sau­
dável.
— Ela estava melhor quando a deixou?
— Agora? Estava dormindo.
— Ela vomitou?
— Não.
— Tem febre?
— Também não.
— Amanhã irei à casa dela, senhora. — Por favor, diga-
lhe isso quando ela acordar.
Levantou-se e parecia indeciso.
— Senhora, há ainda uma pergunta que devo lhe fazer,
porque diz respeito ao estado de saúde da Srta. Mesurat.

234
— Estou pronta a lhe responder, doutor — disse a Sra.
Legras com a expressão exigida pelas circunstâncias.
— Conhece a Srta. Mesurat? Conhece-a bem?
— Eu a vejo todos os dias.
— Ultimamente ela parecia calma e satisfeita?
A Sra. Legras estava ainda com as mãos cruzadas; sepa­
rou-as e baixou os olhos, como para observar as palmas e
nelas procurar a resposta.
— Achei que estava nervosa e abatida — disse afinal.
— Sabe se ela se alimenta bem?
— Penso que sim. Ela emagreceu — observou a Sra.
Legras. E acrescentou em tom levemente dramático:
— E, há alguns dias, começou a tossir.
Ele inclinou a cabeça, pensativo.
— Acha que ela se ressente ainda da morte do pai? —
perguntou ele com voz mais baixa.
A Sra. Legras suspirou profundamente.
— Evidentemente — respondeu, erguendo um dos om­
bros e a sobrancelha. — Mas deve haver outra coisa.
— Muito bem, senhora, eu lhe agradeço — disse o mé­
dico, apanhando o chapéu. — Se conseguir fazer com que ela
passe a noite aqui, creio que será melhor. Muitas vezes, uma
pequena mudança nos hábitos pode fazer bem a uma pessoa
nervosa.
A Sra. Legras refletiu por alguns segundos.
— Está bem — disse afinal. — Passará a noite aqui.

I
235
V

Adrienne acordou no meio da noite e percebeu imediata­


mente que não estava em casa; a lua iluminava a pequena
sala onde a Sra. Legras a tinha instalado. Ergueu-se do
canapé que lhe servia de leito e, calçando os chinelos, foi
até a janela entreaberta. O ar estava pesado; o céu sem nu­
vens anunciava um dia mais quente do que os anteriores.
Sentia como se estivesse vivendo uma vida estranha, a vida
da qual temos consciência nos sonhos. Lembrou-se da con­
versa que tivera com a Sra. Legras antes de dormir, como
se opusera a essa mulher que pretendia desencorajá-la, mudar
seus sentimentos, insistindo em que devia conhecer o que ela
chamava de um partido mais apresentável.
— Um partido — repetia a jovem a meia-voz com um
misto de cólera e lassidão. — Um partido. Acho até graça.
Por acaso tenho culpa de amar esse homem? Não foi minha
escolha!
Sentou-se perto da janela, apoiando o cotovelo no peito­
ril. À rua estava toda branca, com sombras nítidas junto às
paredes. Remava profundo silêncio, o silêncio do meio da
noite e do meio do dia que, nas pequenas cidades provincia­
nas, provoca um aperto no coração, como se todos os seres
viventes tivessem sido surpreendidos pela morte. Ergueu os
olhos e viu, do outro lado da rua, uma casa estreita no fun­
do de um pequeno jardim. Os seis degraus simples da entra­
da iam dar a uma porta cuja parte superior era formada por
uma grade de desenho rebuscado. Adrienne conhecia bem
essa grade. Quantas vezes havia passado seus dedos de crian­
ça nessa rede de ferro! Havia algo acabrunhador nessa lem­
brança. “Por que estou aqui?” perguntou a si mesma. Olhou

236
as janelas. Eram seis, talhadas na pedra, altas e estreitas co­
mo a própria casa, com uma cimalha banal e losangos de­
senhados nas venezianas de madeira.
Depois a clarabóia; depois o telhado, aquele telhado qua­
se vertical cujas telhas pareciam novas, não desgastadas pelo
tempo. A atenção de Adrienne prendia-se toda a esses de­
talhes, que já observara centenas de vezes, mas que lhe
apareciam, nessa hora e nessas circunstâncias, revestidos de
um aspecto completamente novo. Era como se estivesse vi­
vendo uma alucinação. Olhando a Vila das Bétulas, imagi­
nava que jamais entrara naquela casa banal e mal construí­
da, que era a primeira vez que a via. E essa impressão jun­
tava-se ao desgosto provocado por algo que se conhece mui­
to bem e do qual subitamente se foge com pavor, depois
de tê-lo suportado durante longos anos.
“Estou sonhando”, pensava. “Não devo ficar assim.”
Mas uma espécie de entorpecimento a imobilizava, e per­
maneceu ali, o queixo na mão, o cotovelo apoiado no peito­
ril da janela. E à imobilidade do corpo juntava-se a do es­
pírito; não conseguia dominar seus pensamentos. Vinham-
lhe à mente as mais variadas lembranças, sem que pudesse
fazer o menor esforço para afastá-las; idéias incoerentes pas­
savam pelo seu cérebro; tinha a estranha sensação de se
comunicar com um mundo desconhecido,“'de que sua von­
tade fora abolida, obrigando-a a permanecer passiva. Não
se tratava de estar triste ou de ter medo; a indiferença toma­
va o lugar do desespero que a fizera desmaiar no jardim.
Sentia-se subitamente alheada de tudo que se referia à sua
vida quotidiana e, olhando a Vila das Bétulas, sem se dar
conta que tinha vivido ali sempre, admirava-se dos sentimen­
tos que a haviam feito sofrer tanto, e mal se reconhecia'na
lembrança dessa grande dor. Algo a levava para fora de si
mesma; tinha consciência do peso do seu corpo; a cabeça,
as mãos, os braços, formando um só bloco, incapaz de qual-
I quer movimento. Parecia-lhe que escapava dessa massa imó­
vel e flutuava acima dela. E, pouco a pouco, uma calma de­
liciosa invadiu-lhe o coração, ao mesmo tempo em que os

237
sentidos eram dominados por uma vertigem indefinível. A vila
e as árvores balançavam-se de um lado para o outro ante
seus olhos lentamente, e essa espécie de oscilação da terra
toda a acalentava.
Fechou os olhos e sentiu que o encanto se desfazia. A vida
voltava ao seu corpo, a vida que conhecia, ao sabor das re­
cordações. Via-se na beira da estrada, os braços carregados de
flores do campo. “Sim”, pensou ela, “foi onde tudo co­
meçou”.
Mas agora, mesmo dando rédeas à memória, sentia algo
como um estremecimento. Era como se, no momento de
cair para a frente, fosse segura por uma força desconhecida
que a fazia voltar a si. As imagens ficaram confusas e um
ruído nos seus ouvidos a fez estremecer. Ouviu bater o portão
da Vila das Bétulas e, depois de algum tempo, outro ruído,
que lhe deu vontade de gritar; contra sua vontade, separou
em partes o que ouvia; primeiro um som forte e abafado,
que se reproduzia com intervalos freqüentes e irregulares,
hesitante a princípio, depois mais rápido e mais forte, um
arrastar de pés confusos, e por fim um murmúrio crescente
de palavras trocadas em voz baixa. Aterrorizada, escutava os
passos sobre as pedras do caminho; via de novo aqueles ca­
minhos. Não andara bem ao lado deles? Eram negros. A
areia parecia quase branca no calor da manhã; ela a via a
seus pés, entre os dois caminhos. Era tudo o que via. Não
ousava erguer os olhos. Um único pensamento ocupava seu
espírito e era tremendamente importante: “Todos estão
olhando para mim, não devo andar muito depressa, não de­
vo me aproximar desses caminhos, devo acompanhar os pas­
sos dos cavalos. Todos estão olhando para mim.” E caminha­
va lentamente, num passo automático, sob seu véu de crepe.
Acompanhava o enterro do pai.
De súbito, recuperou as forças e ergueu-se:
— O que há comigo? — perguntou em voz alta e abafa­
da. — Se continuo pensando nessas coisas, vou ficar louca.

238
Correu à mesa próxima da cama e acendeu o lampião.
Não eram ainda duas horas. Seu coração batia com tanta
força que levou a mão ao peito, como para acalmar o ritmo
precipitado que fazia vibrar todo o seu corpo. Sentou-se
na cama.
— Por que não posso dormir como todo mundo? —
perguntou a si mesma. — Será que nunca mais terei um dia
tranqüilo, uma noite tranqüila?
Os cabelos lhe caíam sobre o rosto; afastou-os e olhou à
sua volta. Os móveis não-familiares lhe pareciam estranhos
à luz indecisa do lampião de óleo. Eram muitos, e por terem
sido tantas vezes alugados não se pareciam com pessoa
alguma.
— Por que não posso dormir na minha casa? — pergun­
tou. — O que é que eu tenho? — Essa pergunta atingiu o
mais profundo do seu desespero e ela a repetiu em voz alta
e irritada: — Afinal o que é que eu tenho?
Sentiu o ar fresco nos pés descalços e estremeceu. A idéia
de apagar o lampião e deitar-se naquele canapé estreito
parecia-lhe insuportável. No escuro tinha medo. Milhares de
formas estranhas a dominavam, impunham-se a ela, quando
estava no escuro; lembranças, impacientes para chegar à sua
memória, escrúpulos, arrependimentos, fantasmas, contra os
quais precisava lutar.
Olhou o lampião, a luz brilhando sob o abajur de musse­
lina plissada, com um franzido cuja frivolidade parecia es­
tranha e quase sinistra a essa hora da noite. Os mosquitos,
atraídos pela luz, voavam por cima do vidro até que o calor da
chama lhes queimasse as asas. Sobre a mesinha, ao redor do
lampião, conchas de formatos diversos misturavam-se a ob­
jetos de nácar; Adrienne os observou com uma curiosidade
mista de desagrado. Sua imaginação trazia-lhe a imagem
dos dedos curtos da Sra. Legras abrindo essas pequenas cai­
xas, manuseando a espátula.
Pouco ã pouco, começou a ter consciência de tudo o que
se passara nos últimos dois dias. Discutira com Léontine Le-

239
gras, a insmtara, depois fizeram as pazes, e agora estava sen­
tada na saleta de sua casa. Contudo, sabia bem o que os Mau-
recourts pensavam dessa mulher, a Legras, como dizia Ma-
rie Maurecourt. Tinha de escolher entre eles e ela, sabia. E
o que tinha feito? Instalara-se na casa da Sra. Legras, pedi­
ra-lhe que falasse com o médico, fizera-lhe confidências que
chegariam aos ouvidos dos Maurecourts e de todo mundo.
Esse pensamento a perturbou. Teve a impressão de que nem
sempre agia de acordo com a própria vontade. Havia alguma
coisa no seu íntimo que não obedecia às ordens da razão.
Era como se inadvertidamente se tivesse deixado prender nu­
ma armadilha Sentiu todo o corpo gelado.
Hesitou por um momento e depois, erguendo-se de um
salto, apanhou as roupas e vestiu-se rapidamente; suas mãos
tremiam ao calçar as meias, e não conseguiu abotoar a blusa
e os sapatos até em cima. Penteou-se com as mãos do me­
lhor modo possível. Sobre o relógio da lareira, viu no espe­
lho os cabelos em desordem, os olhos arregalados, cercados
de uma sombra escura que a luz do lampião exagerava. Ago­
ra, sentia horror dessa sala, cujos móveis tinham pertencido
a tantas pessoas, esses móveis equívocos. E começou a cor­
rer de um lado para o outro, procurando a bolsa que trouxe­
ra na véspera. Encontrou-a no chão, perto do canapé no
qual passara parte da noite; depois saiu.
Apoiada à parede, seguiu por um corredor que levava à
frente da casa. A chave estava na fechadura e ela a girou
silenciosamente, abriu a porta e alcançou os degraus. Des­
ceu, atravessou uma das aléias do jardim na ponta dos pés
e caminhou sobre a grama, para abafar os passos. Ao
chegar ao castanheiro parou; era ali que costumava sentar-se
quando fazia a visita diária à Sra. Legras para ouvi-la fazer
conjeturas sobre a morte do Sr. Mesurat. Por um segundo,
a lembrança dessa agonia a emocionou violentamente. Con­
trolou-se e correu até o portão, que por sorte não estava
trancado.
Agora estava na rua. Sob a claridade da lua cheia a cal­
çada toda branca parecia coberta de neve. Às vezes, tocadas

240
pela brisa leve e silenciosa, as árvores sacudiam suavemente
as copas, como se dançassem em sonho, e as folhas, ilumina­
das pelos raios baços, brilhavam com reflexos de metal. Pa­
rou por um momento, exausta, mas a hesitação durou pouco.
Com passo rápido atravessou a rua e abriu o portão da Vila
das Bétulas.
Ouviu-o batendo atrás de si e voltou-se, olhando-o com
uma expressão de pânico. Os seus olhos pareciam maiores,
o rosto todo branco, quase lívido, e os lábios, entreabertos
como para emitir um grito, não tinham cor e mal se distin-
guiam do resto do rosto. Voltou-se então para a casa e ca­
minhou pela aléia, o cascalho murmurando sob seus pés.
Todos os seus gestos indicavam determinação. Andava de­
pressa; entretanto, ao pousar o pé sobre o primeiro degrau,
uma fraqueza súbita quase a fez cair. Mas não. Baixou ape­
nas a cabeça e, segurando a saia, subiu os seis degraus, abriu
a porta e desapareceu no interior da casa.

Os fósforos estavam na cozinha. Caminhava ereta, pas­


sando a mão esquerda na parede à medida que avançava,
chegando assim ao fim do corredor. Um assombro sem nome
a espreitava, esperando o momento em que ela de súbito
se entregasse, o momento em que começasse a gritar
na escuridão, vencida pelo pavor das trevas. No fim
do corredor começou a correr, atônita por ter entrado naque­
la casa nessa hora lúgubre. Já estava na cozinha, tropeçando
nas cadeiras, de cuja disposição não se lembrava, sentindo
que a angústia aumentava e que o terror pânico ia se apossar
da sua razão antes que pudesse acender a luz. Debateu-se por
alguns segundos na escuridão, meio fora de si, encontrou afi­
nal a caixa de fósforos e abriu-a com dificuldade, com mãos
trêmulas.
Ao ver brilhar a luz do lampião, olhou à sua volta com
espanto. Tirou o chapéu e sentou-se à mesa, sob o bico de

241
gás, cuja crepitação enchia o silêncio. Fixou os olhos na
toalha impermeável, marcada com círculos deixados pelos
pratos e bandejas.
E, de súbito, cedendo a uma força irresistível, inclinou o
corpo para a frente e escondeu o rosto nos braços.
Passou-se um longo quarto de hora, antes que resolvesse
subir para o quarto.

242
VI

Estava agora no meio da sala com um pano de pó na


mão e olhava com tristeza esses móveis, que o hábito, qua­
se uma necessidade nervosa, a obrigava a limpar todos os
dias. Como na véspera, em certos momentos sentia-se toma­
da por uma indiferença completa sobre o que esse dia lhe
reservava. Era como se o coração, esgotado pelo sofrimento,
não fosse mais capaz de sentir. Seus temores, sua agitação
da noite anterior pareciam-lhe absurdos e agora estava tran­
qüila, mas com uma tranqüilidade assustadora, que era ape­
nas o efeito do cansaço de tudo.
Ao limpar a guarnição da lareira, olhou-se no espelho.
Não estava com boa cor. Observou, entre as sobrancelhas,
uma linha que parecia ter-se aprofundado, uma pequena
linha vertical que parecia traçada com a unha. Perguntou a
si mesma o que poderia fazer para fazê-la desaparecer, ou
pelo menos impedir que se acentuasse, e ficou abalada com
o que havia de vaidade nesse pensamento. “Para quê?” pen­
sou. “Que diferença faz?”
Continuou a andar, examinando cada bibelô colocado so­
bre as mesas, passando o pano de pó nos espaldares das ca­
deiras.
“Talvez ele venha hoje”, pensava. “Foi o que a Sra. Le­
gras me disse.”
Mas esse pensamento que, vinte e quatro horas atrás, a
teria arrebatado, deixava-a agora quase fria. Era estranho.
Por mais que repetisse essas palavras, por mais que trouxes­
se à memória o rosto de Denis Maurecourt, não se comovia,
não ficava infeliz ou feliz. Teve um pensamento estranho.
Será que tudo isso valia a pena. Por acaso a Sra. Legras

243
tinha razã oe o médico não era digno do seu interesse? E
sentiu por um momento uma decepção amarga e profunda.

Contudo, a previsão da Sra. Legras se realizou, e pouco


antes das dez horas Denis Maurecourt entrou no salão. A
princípio, a jcvem não o reconheceu. Ele não se fizera anun­
ciar e, por um segundo, ficou observando-a em silêncio.
Adrienne olhou para ele, o coração apertado como se a vida
lhe tivesse abandonado o corpo, depois compreendeu que
ele viera vê-la e deixou escapar um grito.
— O que deseja? — perguntou.
E ao mesmo tempo pensava: “Estou enganada, não é
ele. Ele é muito mais alto. Sua cor é mais viva.” Mas a cer­
teza de que não se enganava foi mais forte e Adrienne pen­
sou que ia desfalecer.
— Pensei que estivesse na casa da Sra. Legras — disse
ele. — Foi lá que tive notícias suas ontem. Como passou a
noite?
Adrienne não respondeu. Não podia despregar os olhos
desse rosto que imaginara tão diferente. Sentiu um acanha-
mento terrível e ao mesmo tempo uma alegria palpitante
e desordenada que a impediam de falar. Sem perceber o que
fazia, recuou um pouco e sentou-se no canapé. Ele ficou de
pé por um momento, depois sentou-se também.
— Se eu soubesse que não estava bem, teria vindo mais
cedo — disse Maurecourt suavemente. — Devia ter me avi­
sado, senhorita. Será que se importa de responder a algumas
perguntas? Preciso saber do que se trata.
Ela fez um sinal com a cabeça.
— Dorme bem?
Adrienne refletiu e disse:
— Não — com voz rouca.
— Há quanto tempo?
— Não sei. — E acrescentou rapidamente: — Não posso
responder a essas perguntas.

244
— Estou procurando ajudá-la, senhorita — retrucou ele
sempre com suavidade.
Ela suspirou e abaixou a cabeça.
— Oh! Bem o sei — disse como que para si mesma. A
emoção, porém, foi mais forte e Adrienne não conseguiu
controlá-la. As lágrimas começaram a rolar dos seus olhos.
Ele esperou um momento antes de falar e por fim disse:
— Compreendo as suas dificuldades mais do que pensa,
senhorita. Não é bom viver desse modo, sozinha, sem ver
ninguém. Deve sair, ver o mundo. Não se entregue à melan­
colia.
— Não tenho vontade de sair. ..
Ele levantou-se, pensativo. Afinal, colocou-se na frente
da jovem.
— Não quer se curar?
Adrienne lembrou-se imediatamente da sua tosse e teve
medo de que ele soubesse.
— Não estou doente — respondeu com vivacidade.
— Estamos fazendo um jogo de palavras, senhorita. Sei
que não é feliz. Não é quase a mesma coisa?
Adrienne ergueu os olhos para ele.
— Muito bem — disse com esforço. — E o que devo
fazer para sarar, como diz?
— Posso fazer uma pergunta?
Ela assentiu com a cabeça.
— A senhorita tem hábitos religiosos?
Adrienne corou fortemente. Lembrou-se do que a Sra. Le­
gras lhe dissera sobre o médico e teve medo de desagradá-
lo confessando que não acreditava em nada. Sentiu um dese­
jo súbito de ser igual a ele, de se parecer com ele em tudo.
Depois de esperar um momento pela resposta, o médico
continuou como se não tivesse perguntado nada:
— Está muito nervosa, senhorita. Está se entregando aos
poucos a uma melancolia da qual talvez nunca mais se liber­
te, se não reagir agora. É preciso conhecer o mundo, con­
fiar nas pessoas, muito mais do que faz agora. Existem Qoi-
sas no seu íntimo que não deviam existir, mas que o fato de
se fechar em si mesma faz com que se tornem reais. Tem

245
guardado pensamentos secretos que acabarão agindo como
um veneno.
Adrienne parecia assustada.
— O que quer dizer? — perguntou.
— Que deve se esforçar para viver de outro modo — dis­
se ele com voz mais seca. — Jamais será feliz se não resol­
ver sair, conhecer as pessoas da cidade, ocupar-se com algu­
ma coisa. O que faz aqui o dia todo?
Ela ergueu ligeiramente os ombros sem responder. De­
pois de obssrvá-la por um minuto, Maurecourt sentou-se à
sua frente e começou a falar como se de súbito, mudando de
opinião sobre a conduta a mostrar, adotasse uma nova tática.
— Não me esconda nada, senhorita. Lembre-se de que
vim para ajudá-la, posso quase dizer para salvá-la, sim, sal­
vá-la. Não é verdade que desde a morte de seu pai tem se
sentido muito infeliz?
Adrienne estremeceu.
— Sei muito bem — continuou ele — que seu pai a criou
em circunstâncias estranhamente penosas, senhorita. É mui­
to natural ceder por algum tempo a uma dor tão forte. Não é?
Seus olhos estavam fixos nos de Adrienne; o sorriso desa­
parecera de seus lábios. Ela não conseguiu sustentar aquele
olhar e desviou um pouco a cabeça. Todo o seu corpo tre­
mia com tal violência que teve de se apoiar no braço da ca­
deira. A sensação horrível de ser um animal preso na arma­
dilha, sem poder fugir, voltava-lhe agora; gotas de suor bri­
lhavam nos seus cabelos e corriam-lhe lentamente sobre a
pele. E então ouviu a própria voz dizendo alguma coisa:
— Por certo — respondeu — é muito natural.
— Mas, senhorita — continuou ele —, era assim tão che­
gada a seu pai? Não havia às vezes desentendimentos entre
os dois?
Ela olhou Maurecourt, que permaneceu imóvel.
— Por que me pergunta isso? — sua voz parecia estran­
gulada na garganta.
— Para ajudá-la a me dizer a verdade — respondeu ele
sem mudar a expressão.

246
Adrienne uniu as mãos sobre a mesa num gesto automá­
tico e conteve a respiração. Sentia a língua seca e áspera
contra o céu da boca.
— O que quer dizer? — balbuciou depois de alguns ins­
tantes.
Ele não respondeu. E então algo tumultuoso apoderou-
se do peito de Adrienne; era como se todas as suas entra­
nhas pulsassem como um grande coração. Ergueu-se brus­
camente com as duas mãos na garganta:
— Por que me olha assim? O que vai fazer?
Sua voz parecia um grito abafado. Depois, disse com uma
expressão indefinível, como uma criança que recita a lição:
— Papai caiu da escada.
— Ele não a viu então? — perguntou Maurecourt quase
a meia-voz.
— Não — respondeu ela, mais calma. Refletiu e conti­
nuou como se falasse em sonho:
— Estava escuro. Eu tinha fechado a porta do meu quar­
to, onde a luz estava acesa. De repente, nós dois estávamos
no escuro, no topo da escada.
Calou-se.
— E então. . . — perguntou Maurecourt.
— Eu o empurrei pelos ombros — respondeu ela com
voz quase inaudível.
Fez-se um longo silêncio. Já não sentia medo. Tudo nela
parecia entorpecido. Tinha apenas a impressão de que algo
de extraordinário estava acontecendo. Sua vista estava tur­
va; imaginava uma espessa linha negra ao redor da cabeça
e dos ombros do médico e uma obscuridade crescente inva­
dia a sala. Foi como se estivesse a ponto de dormir, inas
permaneceu de pé, imóvel.
— Por que matou seu pai? — perguntou Maurecourt de­
pois de algum tempo.
Uma terrível comoção apossou-se dela. Essas palavras,
ditas em voz mais severa e mais forte, a arrancaram do tor­
por que aos poucos a envolvia. Deixou escapar um grito,

247
vindo das profundezas do seu ser, e, dando um passo na
direção do médico, ajoelhou-se aos pés dele. Maurecourt não
se moveu.
— Quem lhe disse? — gemeu Adrienne. — Foi aquela
mulher, aquela Sra. Legras.
— Eu sabia há muito tempo — respondeu ele. — Desde
a manhã em que vim constatar a morte do seu pai.
Ela abafou um grito:
— Vai me denunciar!
— Denunciar? Como se já não tivesse sido bastante pu­
nida! Levante-se! — continuou ele. E erguendo-se por sua
vez, inclinou-se para ela e disse em tom autoritário:
— Levante-se, senhorita.
Adrienne obedeceu. Um tremor nervoso agitava-lhe as
mãos e a cabeça; parecia estar negando alguma coisa. Os
olhos, circundados de negro, estavam aumentados pelo me­
do. Ele pousou suavemente os dedos no braço da jovem e
disse com voz tranqüila e firme:
— Agora vamos ao quarto de seu pai.
O rosto de Adrienne se crispou como se fosse sorrir, mas
a expressão trágica do olhar era apavorante.
— Não tenha medo — disse ele calmamente. — Repito,
vim aqui para ajudá-la. É muito jovem, precisa ser feliz, mas
nunca o será se não se libertar de certas idéias. Agora deve
me obedecer. Vamos àquele quarto.
— A porta está trancada — disse ela, baixando a cabeça.
— Há dois meses que não entro lá.
— Onde está a chave?
Adrienne ficou em silêncio. Ele insistiu suavemente:
— Quero a chave, senhorita. Por favor, dê-me a chave.
Como por um impulso súbito, ela foi até a escrivaninha,
abriu uma gaveta e apanhou a chave. Estendeu-a ao médico.
— Mostre-me o caminho, senhorita — disse ele. —
Apóie-se no meu braço.
Adrienne hesitou por um momento, depois passou o bra­
ço pelo do médico. Tudo parecia dançar ante os seus olhos;
não sabia de onde lhe vinha a força para colocar um pé à
frente do outro, para manter-se de pé. Sentia contra o braço

248
| nu o contacto da fazenda um pouco áspera e, baixando os
olhos, viu sua mão branca sobre a manga negra de Denis
Maurecourt. Nesse momento, uma felicidade frenética supe-
rou seu espanto. Foi uma emoção tão repentina que teve de
se controlar para não soltar um grito. As lágrimas treme­
ram nas bordas de suas pálpebras. Na porta da sala, soltou
o braço para passar na frente, depois novamente apoiou-
se nele para subir as escadas. Com a outra mão segurava
o corrimão com tanta força que a madeira machucava-lhe a
palma; seus pés tropeçavam nos degraus. Não ousava er­
guer os olhos para Maurecourt, nem acreditar que ele esta­
va ali ao seu lado, embora ouvisse a sua respiração e, bai­
xando os olhos, pudesse ver a mão do médico e os sapatos
empoeirados.
Quando chegaram ao segundo andar, dominada de novo
pela angústia, Adrienne parou, deixando o braço de Mau­
recourt. Ele segurou a mão da jovem com firmeza.
— Não tem nenhuma confiança em mim? — perguntou.
Então, baixando a cabeça, ante os olhos que se fixavam
nela, Adrienne começou a soluçar. O médico largou sua mão.
Colocou a chave na fechadura e abriu a porta.
— Venha — disse ele já dentro do quarto.
Reunindo todas as suas forças, Adrienne entrou.
Há meses não entrava nesse quarto. Mesmo antes da mor­
te do Sr. Mesurat não o fazia. A princípio, parada na soleira,
não via nada, pois as janelas estavam fechadas. Sentia o
cheiro de poeira e de umidade. Fechou os olhos e apoiou-se
no batente na porta, enquanto o médico abria as janelas.
— O que está sentindo? — perguntou ele. — Sente-se.
E, tomando-lhe a mão, conduziu-a a uma poltrona.
Adrienne sentou-se e olhou à sua volta. Conhecia tão bem os
móveis das outras partes da casa que já não os notava e
talvez não fosse mesmo capaz de descrevê-los. Não sabia
se eram bonitos ou feios, eram os móveis, como para um
lobo ou uma raposa a floresta é a floresta, sem outra defi­
nição possível. Mas o quarto do pai, quase não o conhecia,
e foi com uma sensação de choque que observou o leito em
pitchpin e as cadeiras de palha que ele tinha usado durante

249
anos. De um modo indefinível e talvez ridículo, os móveis
pareciam com o Sr. Mesurat. Era como se, servindo-o por
tanto tempo, tivessem adquirido algo da aparência do ho­
mem. Não se podia imaginar outro corpo que não o seu
estendido no leito pequeno e vulgar, e parecia natural que
sua mão riscada de veias azuis, mas sua mão somente, se
apoiasse no espaldar dessas cadeiras. Se ele estivesse ainda
na terra, por certo estaria ali.
Adrienne estremeceu.
— Por que me trouxe aqui? — perguntou.
— Para lhe ensinar a não ter medo desse quarto — res­
pondeu Maurecourt. — Condenou-o durante dois meses e
isso é errado. O que o fazia terrível era justamente o fato
de não entrar aqui. Assim também no seu íntimo existem
quartos fechados cujas janelas jamais são abertas. É preciso
inundá-los de sol. Tem medo aqui comigo?
Ergueu para ele os olhos transfigurados de confiança.
— Não — disse em voz baixa.
Ele fez um gesto.
— Então! Está curada. Não há mais nada, nem terrores,
nem espectros. Evitava pensar no seu pai porque tinha medo
dele, não é?
Adrienne levou a mão à testa, como temendo o que Mau­
recourt ia dizer. Ele percebeu essa inquietação e disse com
impaciência mal contida:
— Está imaginando coisas que não existem. Seu pai não
está mais aqui para atormentá-la. Não há nada nesse quarto,
nada nessa casa. Acredita em mim?
Voltou a segurar-lhe a mão.
— Acredito no que me diz — respondeu ela.
Sempre segurando a mão dela, Maurecourt continuou a
falar. Mas Adrienne não compreendia suas palavras. O con­
tacto a transtornava. Começou a tremer e sentiu que as for­
ças a abandonavam. Os olhos de Maurecourt, fixos no seu
rosto, refletiam sua própria imagem. Via os lábios dele se
movendo. Subitamente, deixou-se cair aos pés do médico,
exclamando:
— Não me abandone! ■ — suplicou.

250
As lágrimas inundavam-lhe os olhos; com o rosto afoguea-
do, continuou apressadamente:
— Não pode imaginar como me sinto feliz nesse momen­
to. Desde que chegou. Não poderia explicar. Se me deixar,
vou enlouquecer, morrer. Há meses e meses que só penso
no senhor. Não sabia como lhe dizer isso. Escrevi-lhe várias
vezes. Desde o dia em que o vi na estrada.
Ele inclinou-se e segurou os pulsos de Adrienne; seu rosto
estava vermelho.
— Cale-se! — balbuciou. — Não sabe o que está dizendo.
Adrienne sacudiu a cabeça violentamente:
— Não vai me impedir de falar. Não é minha culpa se
o amo.
— Você não me ama. É impossível.
Largou os pulsos da jovem e afastou-se sem tirar os olhos
do rosto dela. Adrienne levantou-se.
— Por que é impossível? — exclamou.
— Mas é evidente — respondeu ele. — Pense em tudo
que nos separa. Em primeiro lugar, minha idade. Sabe quan­
tos anos tenho? Quarenta e cinco, vinte e sete mais do que
você. Já pensou nisso?
Ela apoiou-se no espaldar de uma poltrona.
— Isso não faz diferença nenhuma — balbuciou.
— Acha mesmo? — disse Maurecourt com voz mais
animada. — Ah! Talvez lhe pareça cruel, mas não posso lhe
falar de outro modo. Escute. Pode ser feliz. Muito feliz. Mas
para isso é preciso convencer-se de que a razão é parte es­
sencial de qualquer felicidade profunda e duradoura. Talvez
tenha pensado em mim como. .. como seu marido? Pois é
realmente uma coisa completamente absurda. E uma idéia
que se formou na sua mente porque vive muito só. Mas, se
sair, se fizer amizade com algumas pessoas da cidade. .. Seu
pai tinha amigos em La Tour-l’Evêque? Procure renovar essas
relações. Eu a ajudarei. Vai ver. Há bons partidos aqui na
cidade. ..
Adrienne ergueu os olhos.
— Bons partidos! — repetiu dolorosamente.
— Mas é claro. Posso citar alguns.

251
— Não, eu não quero.
•— Por quê?
— Porque é o único homem a quem posso amar.
Ele juntou as mãos e respondeu suavemente:
— Essa idéia nasceu num dia em que estava só, num dia
em que o tédio a dominava. Teria amado qualquer outro.
Suponha que outra pessoa tivesse passado na estrada em
meu lugar, nesse dia de que falou há pouco, que fosse um
jovem. . .
— Por que preciso supor tudo isso? Mesmo que fosse ver­
dade, não faria nenhuma diferença.
E sentiu rancor contra esse homem que a fazia tão infeliz.
— Eu não o escolhi — disse ela. — Tem razão. Mas
não posso mais sofrer assim, por nada, não é possível. E
preciso que me ame. É preciso que tenha pena de mim, do
contrário vou enlouquecer, sim, enlouquecer. Digamos então
que estou errada por amá-lo. Não posso fazer nada. Essa é a
verdade.
— Então vejamos — disse ele depois de um momento.
— Se lhe dissessem coisas a meu respeito, coisas desagradá­
veis, muito graves, tão graves que a fizessem se afastar de
mim. Se soubesse, por exemplo. . .
— O quê? — perguntou ela. — O que ia dizer?
De súbito, ele pareceu mudar de idéia.
— Compreende que não posso acreditar que a sua feli­
cidade dependa exclusivamente de mim. Deus é bom. Não
a faria apaixonar-se seriamente por um homem com quem
não pode se casar...
— Por que não podemos nos casar?
Ele não respondeu à pergunta, continuando:
— Por isso, não posso acreditar nesse sentimento, ou pe­
lo menos que seja profundo.
— Como? — perguntou ela. — O que quer que eu faça
para lhe provar? Que me mate?
— Quero lhe mostrar que está errada, que está enganando
a si mesma — respondeu ele com obstinação.
Adrienne pôs a mão sobre o peito.

252
— Mas eu sei que não estou errada! — exclamou. — Eu
sofro. Sei que sou infeliz porque o amo. Por que não acre­
dita em mim?
Maurecourt observou-a em silêncio e por fim disse:
— Não posso continuar essa discussão, senhorita.
— Como? O que vai fazer? Não vai embora, vai?
Ele segurou-lhe a mão, obrigando-a a sentar-se. Adrienne
obedeceu trêmula. Maurecourt sentou-se na frente dela.
— Vou lhe dizer uma coisa que a afastará de mim, se­
nhorita — disse depois de um silêncio.
Ela queria impedi-lo de falar, mas o desejo de ouvir a sua
voz foi mais forte.
— E o que é? — perguntou com voz apenas perceptível.
— Olhe aqui — disse ele com esforço. — Sou doente,
muito doente.
— Doente? — repetiu ela, como se não soubesse o sig­
nificado da palavra.
— Sim — disse ele. — Por isso minha irmã não quis
ficar em Paris onde lecionava; veio morar comigo. Estava
muito preocupada. Estou à mercê de uma crise.
Adrienne estava lívida.
— Não é verdade — murmurou.
— Sim, senhorita — disse ele suavemente. — Meu tem­
po é limitado. Daqui a dois anos estarei sob a terra.
Um grito escapou dos lábios da moça. Ergueu-se e caiu
de novo sobre a poltrona. Grossas gotas de suor rolavam pela
sua testa. Maurecourt calou-se e desviou os olhos.
— Não é verdade — disse ela subitamente com voz rou­
ca. — Diz isso para se desembaraçar de mim.
Ele sacudiu a cabeça.
— Muito bem, tanto pior! — exclamou ela. — Então
está doente! Não é razão para que não nos casemos. Morre­
rei também. Não me importa morrer, se não estiver ao meu
lado.
Ergueu-se, fazendo um movimento na direção dele, mas
Maurecourt levantou-se também e segurou as mãos da moça.
— Não tenho o direito de lhe deixar nenhuma ilusão, se­
nhorita — disse com voz alterada. — Eu não a amo.
Adrienne não desviou os olhos e ficou imovel; mas nas
mãos quentes do médico as suas ficaram geladas, teve a
impressão de que o coração parara de bater e que era lan­
çada num abismo.
— Então, o que vou fazer? — perguntou.
A dor no peito aumentava. Suspirou para recuperar o rit­
mo da respiração.
Ele não respondeu imediatamente. Adrienne viu as lágri­
mas correndo pelas faces do homem à sua frente; Maure­
court apertava-lhe as mãos com força como para impedi-la
de fugir.
— É uma grande provação— murmurou ele. — Deve
reagir, não se deixar vencer.
Mas ela não o ouvia mais. Olhava por cima do ombro
dele, como se Maurecourt não estivesse ali; suas mãos esta-
vam entorpecidas.
Depois de alguns momentos, ele se foi.

254
VII

Estava sozinha no quarto do pai. Há meia hora estava


sentada, a porta entreaberta. Ouviu que a chamavam. Não se
levantou, mas ouvia a voz ecoando na sala e no vestíbulo.
Depois, passos subindo a escada, procurando-a no primeiro
andar. E os chamados se repetiam em tons diferentes, pas­
sando da alegria à surpresa, da irritação à perplexidade. Era
a Sra. Legras. Chegou afinal ao segundo andar e viu
Adrienne.
— Bem! — exclamou. — Por que não respondeu?
Parou de súbito ao ver a expressão da jovem.
— Ele veio. Adrienne? — perguntou em tom medroso.
— O que foi que ele lhe disse, criança?
Como a moça parecesse não ouvi-la, aproximou-se e,
com a mão apoiada no espaldar da cadeira, aproximou seu
rosto do de Adrienne.
— Deixe-me — murmurou a jovem.
— Não — disse a Sra. Legras com uma firmeza cheia
de doçura. — Não vou deixá-la. Vai falar comigo, dizer tudo
o que se passa no seu coração, libertar-se.
Adrienne ergueu rapidamente os olhos para a Sra. Legras.
Essas palavras lembravam as de Maurecourt no início da
sua conversa. Foi como se a dor se renovasse, mudando de
aspecto subitamente. Até aquele momento estivera mergu­
lhada numa espécie de torpor, mas o som dessa voz, paro­
diando as palavras do médico, a fez voltar a si. Atirou-se
nos braços da mulher e começou a soluçar. As lágrimas inun­
davam seu rosto; sentia-as quentes nas pálpebras e nas faces.
Segurou os braços da Sra. Legras com as duas mãos, como
se quisesse dizer alguma coisa, mas suas palavras perdiam-

255
se em gritos confusos. Sentia o perfume, o resedá que conhe­
cia tão bem e que lhe trazia tantas recordações dos últimos
meses. Ouvia a voz da Sra. Legras murmurando pequenas
frases, enquanto a apertava contra o peito.
Depois de alguns minutos, afastou-se um pouco e fez um
esforço para se erguer.
— Vamos — disse a Sra. Legras, indecisa. — Procure
acalmar-se. Veja o seu estado!
Adrienne deixou-se cair na poltrona mais uma vez e
cobriu os olhos com as mãos.
— O que vai ser de mim? — disse através das lágrimas.
A Sra. Legras apanhou uma cadeira e sentou-se à frente
dela.
— Minha querida — começou ela — , é preciso ser ra­
zoável.
— Não posso — gemeu Adrienne.
— Vai ver, querida — disse a Sra. Legras com voz suave.
— Eu também sofri por amor, posso garantir. Tudo se cura
com o tempo.
Adrienne ergueu os ombros e procurou um lenço no bolso
da saia.
— Não quero me curar — sua voz estava rouca.
— Que idéia! Minha pobre amiga, todos sofrem, todos se
sentem vencidos em algum momento. Não é a única, pode
estar certa. Há tantos homens. . .
— Não — disse Adrienne, enxugando os olhos. — Nin­
guém . . .
Voltou-se bruscamente na poltrona e apoiou a testa nas
mãos.
— Oh! — exclamou diversas vezes.
A Sra. Legras levantou-se.
— Vamos — implorou — , coragem, minha querida.
Nem tudo está perdido.
— Ele disse que não me ama.
— Disse isso realmente? Talvez tenha entendido mal.
Ao ouvir essas palavras, Adrienne levantou-se, avançando
para a Sra. Legras.

256
— Sim, talvez eu tenha me enganado — murmurou com
o rosto desfeito. — Não é mesmo?
— Não me surpreenderia — respondeu a Sia. Legras com
voz hesitante.
Segurou o braço de Adrienne e conduziu-a até a cama,
onde as duas se sentaram.
— Minha querida — disse a Sra. Legras com um suspiro.
— Vamos nos acalmar e ver as coisas friamente. Você é ain­
da uma criança. Não sabe que entre as coisas que dizemos
e as que pensamos. . . Enfim, esse homem talvez tivesse um
motivo para lhe dizer tudo isso. Além do mais, pode ter sido
uma frase sem importância. Compreende que, jovem como é,
e rica, bem acima da média. . . Seria um absurdo se não
pudesse encontrar alguma coisa... Minha querida, levante-
se. Vamos à minha casa e, se quiser, faremos um passeio à
cidade.
Passou o braço pelos ombros de Adrienne, que voltou
para ela o rosto inundado de lágrimas.
— Então — disse com voz estrangulada — acredita
que. . . tudo se arranjará?
— Sim — respondeu a Sra. Legras com firmeza. — Mas
precisa um pouco de coragem, um pouco de ânimo! Levan-
te-se. Agora nada de nervosismos. Ah! Se eu não estivesse
aqui! Tente pensar em outra coisa.. . Esse era o quarto da
sua irmã?
Ergueram-se.
— Não — disse Adrienne com voz indiferente. — Era o
de papai.
Passara o braço sob o da Sra. Legras como se não quises­
se separar-se dela.
— O quarto d e ... Ah, bem. Vamos descer? Sentaremos
no seu quarto. Eu vou lhe dar um cordial.
— Não vai embora? — perguntou Adrienne.
— É claro que não, ora essa.
Saíram lentamente. A Sra. Legras acariciava a mão da
jovem e apertava o braço dela contra o seu.
— Diga-me uma coisa — começou, enquanto desciam a
escada. — Parece que você fez uma pequena viagem? Oh!

257
Precisa me contar tudo, logo que estiver melhor. E como
não pensou em me escrever, minha querida? Não sou sua
amiga? A propósito, sabe que quero lhe pedir um favor, pe­
quena Adrienne? Oh, desculpe-me por falar nisso hoje, mas
as circunstâncias me obrigam. É sobre a minha correspon­
dência dessa manhã. Imagine que recebi a conta de um for­
necedor de Paris. Como no momento estou sem dinheiro e
não posso fazer uma viagem só por causa de duzentos fran­
cos . . . enfim, pensei em você.
— Em mim? — perguntou Adrienne sem compreender.
— Sim, minha querida. Em Paris conheço umas dez pes­
soas que me emprestariam essa pequena quantia. Oh! Não o
meu marido. Ele já tem muitos aborrecimentos com seus ne­
gócios, mas amigas, amigas como você, Adrienne. . . Além
disso, é só por alguns dias. Devo receber dois ou três mil
francos muito breve. Peço desculpas, minha querida, mas se
pudesse me fazer esse favor...
— Todo o meu dinherio está com o notário. Tenho ape­
nas o que recebo no começo do mês.
— Mas você tem economias, minha querida. Oh! Eu não
a aconselharia a tocar nelas se fosse para outra coisa, mas,
na verdade, pode ficar tranqüila.
Havia na sua voz uma impaciência mal dissimulada.
Adrienne enxugou os olhos e assoou o nariz.
— Eu sei — disse ela.
E ajuntou:
— Vou ver.
Levou a Sra. Legras até o seu quarto e abriu o armário
de espelho.
— Imagine, a conta do meu peleteiro. É um absurdo pa­
gar a conta de um peleteiro no dia 14 de julho.
Fez-se silêncio. Adrienne encontrara a caixa de madeira
e a abria agora com a pequena chave que levava na corren­
te do relógio.
— Aí está — disse com ar sombrio.
— Ah! — disse a Sra. Legras.
Enfiou os dedos na caixa e retirou as moedas de ouro.
Nesse momento, Adrienne lembrou-se das palavras do pai

258
sobre o dinheiro que ela emprestara a Germaine: “Nunca
mais verá esse dinheiro. É um desfalque no seu dote.” Deu
um grito e fez um gesto para apanhar a caixa, mas a Sra.
Legras afastou-se vivamente, conservando-a fora do alcance
de Adrienne.
— Meu Deus, você me assustou! — exclamou. — O que
há com você?
— Não quero lhe emprestar esse dinheiro — disse Adrien­
ne com voz angustiada. — Devolva-me!
— Garanto que está seguro — a Sra. Legras ergueu-se
com a caixa sob o braço.
— Quero agora mesmo, senhora.
— Por quê?
Adrienne ficou rubra.
— Não posso lhe dizer. Preciso dele agora.
— Realmente? — disse a Sra. Legras, animando-se. —
Sabe que não está agindo amavelmente? Depois de prometer
o dinheiro, de me entregar. . .
— Eu explicarei — disse Adrienne, perdendo a cabeça.
— Estou escutando.
— Se eu me casar algum dia. . . — começou a jovem
1 com voz dolorida.
Parou e apertou as mãos; um suspiro escapou-lhe dos
lábios.
— Mas não vai se casar nessa semana — observou a Sra.
Legras, colocando a caixa sobre uma cadeira ao seu lado.
— Pensa que nunca me casarei? — perguntou a jovem
depois de um momento.
— Minha querida — disse com o tom de quem quer
levar a conversa para um assunto mais razoável — , estamos
falando de coisas diferentes. Eu pedi o dinheiro emprestado,
você me dá, ou melhor, me empresta, depois o quer de volta,
sob o pretexto de precisar dele para se casar. Ou melhor,
deixe que lhe diga que ninguém se casa assim tão depressa
quanto imagina. Terá o dinheiro de volta daqui a uma sema­
na. E depois tudo isso é absurdo! Por que estamos agindo
assim?
Apanhou a caixa e desfez os pequenos rolos de moedas.

259
— Vamos contar dinheiro — disse ela.
Adrienne observava em silêncio os dedos curtos e afila­
dos que retiravam rapidamente as pilhas de moedas de ouro
do papel que as enrolava, com a ponta da unha. A Sra. Le­
gras verificou o conteúdo de cada pilha.
— Cinco mil e duzentos — disse. — Muito bem! Estamos
ricas! Vou apanhar os meus duzentos francos, minha queri­
da. Quer que lhe dê um recibo? Não, estou certa que não.
Estou dizendo, é uma questão de dois, três dias no máximo.
Se soubesse como me ajudou! Não me esquecerei disso, po­
de estar certa.
Enquanto falava, ia passando para a sua bolsa seis pilhas
de peças de ouro, olhando Adrienne de soslaio.
— Vai ver, Adrienne — disse ela. — Talvez um dia ve­
nha a precisar de mim outra vez e então. . . Hem?
E, como a moça não respondesse, a Sra. Legras colocou a
caixa sobre a cadeira, mais uma vez, ao lado da bolsa, e disse
com ar sério:
— Adrienne.
Mas era como se pouco a pouco Adrienne mergulhasse
num sonho, e, embora os olhos estivessem abertos e fixos,
não viam nada à sua volta.
A Sra. Legras passou o dedo na sobrancelha com ar in­
quieto.
— Ora, ora — disse a meia-voz. — O que há com ela
agora?
Com um gesto impaciente segurou a mão da moça.
— Não está ouvindo, Adrienne? Adrienne! Oh! Que
coisa!
Apanhou a bolsa, levantou-se, e depois olhou para Adrien­
ne pensativamente.
— E se eu lhe disser que em vez de duzentos francos
apanhei mil e quinhentos? — disse subitamente.
E, pegando a caixa de madeira, estendeu-a para Adrienne
com mão trêmula de emoção; mas a moça pareceu não notar
seu gesto.
— É um pouco demais — murmurou a Sra. Legras, per­
plexa.

260
Esperou um segundo e, colocando a caixa sobre a mesa,
abriu-a, sem tirar os olhos de Adrienne.
— Bem, veja — continuou. — Estou ajuntando trezen­
tos francos aos mil e quinhentos que você me emprestou tão
gentilmente. Olhe, vou colocá-los na minha bolsa.
Acompanhou as palavras com um gesto. Depois, ficou per­
to da mesa, indecisa.
— Mas ela me assusta — murmurou por fim. — Pare­
ce que está me observando, e quando eu falo. . .
Olhou para Adrienne com um misto de medo e repulsa.
— O que a impede de me ver? — disse a meia-voz, per­
turbada. — Não está doente? Não ouve também.
Chamou:
— Adrienne! s— mas não obteve resposta.
Bruscamente apanhou as moedas de ouro que ainda esta-
vam na caixa e jogou-as na bolsa. Seus olhos brilhavam.
Colocou a caixa vazia sobre a mesa cuidadosamente e, apro­
ximando-se da jovem, observou-a por alguns momentos. De­
pois de algum tempo, seus olhos se fixaram na corrente de
ouro que Adrienne trazia na cintura, da qual pendia o reló­
gio. Encostou a mão no ombro da moça levemente, sem pro­
vocar nenhuma reação. Então, com um gesto rápido das duas
mãos, a Sra. Legras passou a corrente pela cabeça de Adrien­
ne e retirou o relógio de sua cintura. Fez isso com tal rapi­
dez e habilidade que parecia um prestidigitador. Num segun­
do o relógio e a corrente juntaram-se às moedas de ouro
na sua bolsa.
— Vamos — murmurou a Sra. Legras. — Você me devia
isso!
Observou o quarto com olhar atento, deu alguns passos, a
boca entreaberta, a respiração um pouco mais apressada do
que o normal. Depois, dirigiu-se para a porta e saiu rapida­
mente.

261
VIII

— Srta. Adrienne!
A cozinheira a chamava na escada. Adrienne sobressal-
tou-se ao ouvir aquela voz e não respondeu enquanto não
ouviu os passos de Desirée subindo a escada.
— O que há? — perguntou com voz rouca.
— Está aí, senhorita? — perguntou Desirée, entrando no
quarto. Seu olhar vivo e inquisidor desagradava a Adrienne,
esse olhar que pousara no lampião vazio na manhã
da morte do Sr. Mesurat. Era uma mulher que parecia res­
sequida pelo calor do fogão. Parecia impossível que o san­
gue circulasse sob a pele seca e colada aos ossos, dos quais
parecia ter adquirido a cor. Tinha o nariz reto e longo de
narinas estreitas, os olhos castanhos e impertinentes, e o há­
bito de erguer os ombros quando falava, que lhe dava um
ar de desconfiança.
— Pensei que a senhorita tinha saído — continuou. —
Não a ouvi no salão. Pensei que talvez tivesse ido se despe­
dir da Sra. Legras.
— A Sra. Legras?
— Sim, a senhorita sabe que ela partiu?
Adrienne sacudiu a cabeça.
— Ora, é uma história! — exclamou Desirée surpreendi­
da. — A senhorita não sabe que a Sra. Legras brigou com
o proprietário da Vila Louise? Ela não lhe disse? Na ver­
dade, ela não é boa coisa. Bem, acabou. Ela deixou a cidade.
A senhorita não ouviu a carruagem há pouco?
— Não, Desirée — disse Adrienne, erguendo-se.
Estava um pouco ofegante.

262
— A senhorita não vê ninguém — disse Desirée —, por
isso não sabe das novidades. Bem, a Sra. Legras foi despe­
jada. Sim. Era um escândalo, essa mulher que andava por
toda a parte, pintada, empoada e insolente ainda por cima.
Naturalmente, se soubessem quem era não lhe teriam aluga­
do a vila. Afinal, o proprietário, com medo do que poderiam
pensar, mandou-lhe uma carta. Foi a viúva Got que me con­
tou, a tia da dona do armarinho, mas todo o mundo sabe.
Então, a Sra. Legras foi ver o proprietário e o insultou. Pa­
rece que a vila estava alugada em nome do seu amante, mas
eles brigaram e ele fez um acordo com o proprietário para
expulsá-la da casa. Ela foi a Paris exatamente para resolver
isso. E depois ela precisava de muito dinheiro imediatamen­
te. Veio me pedir hoje de manhã, mas não está pensando
que eu lhe dei, não é? A senhorita não está bem? — pergun­
tou de súbito Desirée, vendo que Adrienne fechava os olhos
e se apoiava na mesa.
— Não é nada — respondeu Adrienne. — Que horas
são?
— O almoço está pronto, senhorita.
Adrienne levou a mão à testa, foi até a poltrona e sen­
tou-se. O olhar de Desirée a incomodava; sentia que a mu­
lher acompanhava atentamente todos os seus gestos.
— Vou descer num momento — disse, desviando os
olhos.
— Ah! — disse Desirée. — Muito bem. Esqueci-me de
dizer que alguém veio procurar a senhorita há uma hora
mais ou menos, mas, juro, pensei que a senhorita tivesse
saído.
— Quem, Desirée?
Desirée fez um movimento de ombros na direção da rua.
— A irmã do doutor.
Pronunciou a palavra doutor com desprezo.
— A Srta. Maurecourt! — exclamou Adrienne.
— Pensei que nunca mais fosse embora. Insistiu, insistiu.
Disse que vai voltar.
— Quando?

263
— Não disse — respondeu Desirée. E acrescentou com
sua voz fina que parecia sempre preparar uma pergunta: —
Toda essa gente, o tipo de pessoas de quem seu pai não gos­
tava nem um pouco.
Mas Adrienne não ouviu. Ergueu-se bruscamente e cami­
nhou na direção da empregada.
— Desirée — disse depois de breve hesitação. — Vou
ficar a tarde toda em casa. Se essa senhora voltar, avise-me
imediatamente, compreende? É importante.
Parecia ter recobrado as forças de repente e falava com
uma animação que não procurava dissimular.
— Tem certeza de que ela disse que voltaria?
— Pode ficar tranqüila, senhorita. Tem tanta necessidade
assim de vê-la? Não é da minha conta, mas não existe nada
pior do que aquela mulher. Isso não a impede de ir todos os
domingos à missa, de comungar.. . Mas a senhorita não
vai à missa.
— Está bem — disse Adrienne, desejando que ela se
fosse, mas ao mesmo tempo interessada no que dizia.
— Na verdade, a senhorita não é nada curiosa — conti­
nuou Desirée sacudindo a cabeça. — Não sabe de nada. Mas
isso lhe diz respeito. Essa Srta. Maurecourt me provocou tan­
to há pouco que tive vontade de lhe dizer umas boas. Com
aquele a r . . .
— Que ar? — perguntou Adrienne maquinalmente.
— Ela é orgulhosa — replicou Desirée com ódio. —
Além disso, não deixa ninguém se aproximar do irmão. Ela
tem ciúmes! Como se alguém quisesse aquele pobre médico.
Parecem casados, mas isso não a agrada muito, isso de tomar
conta dele o tempo todo. . .
Adrienne ficou pálida.
— Desirée, o que está dizendo? — perguntou com voz
estrangulada.
— A senhorita vive num sonho — respondeu Desirée, er­
guendo os ombros com expressão de pena. — E pensa que
os outros também vivem assim. Pelo amor de Deus, senho­
rita, não compreende que quando se tem segredos como os
seus não se pode confiar em mulheres como a Sra. Legras?

264
— Segredos? — murmurou Adrienne.
Sentiu que suas pernas se dobravam e sentou-se na cama.
— Mas, sim — disse Desirée. — Ah! A senhorita ainda
tem sorte de encontrar uma pessoa como eu. Direi sempre
que não é verdade.
Calou-se, esperando que Adrienne lhe pedisse para se ex­
plicar, mas esta ficou em silêncio. Continuou com voz mais
calma:
— Naturalmente a senhorita sabe o que quero dizer. Po-
de-se afirmar que tem muita sorte por ter a mim como em­
pregada e por eu ter a língua sempre pronta para enfrentar
as comadres da cidade.
— As comadres, Desirée? — perguntou Adrienne.
— Sim, as comadres do mercado, que a senhorita parece
não saber quem são. Oh! Nós discutimos, não tenha medo.
Em todo o caso, vou dar um bom conselho. Dessa vez estou
certa de que vai ficar agradecida. Bem, não saia de casa
agora. É o melhor que tem a fazer. Depois veremos. Estão
fazendo todo o tipo de comentários a seu respeito.
Adrienne ergueu-se e soltou um grito.
— Meu Deus, Desirée, cale-se! — exclamou. — Eu lhe
darei dinheiro. Entende?
— Sim, &euhorita. Oh! sim — respondeu Desirée calma­
mente.
Adrienne segurou-lhe o braço; tremia tanto que mal con­
seguia falar.
— Desirée — disse por fim — , posso contar com você,
não é? Eu lhe darei dinheiro, cem francos, duzentos fran­
cos. O que lhe disseram, Desirée?
— O que me disseram? Mas todo o mundo diz que o se­
nhor seu p a i...
— Não, não — interrompeu Adrienne, descontrolada. —
Além disso, se estivessem mesmo falando, o doutor me teria
dito. . .
— Ah! Aquele! — disse Desirée dando uma gargalhada.
— Não sabe que ele é ainda mais ingênuo do que a senhori­
ta? Ele vê todo mundo numa nuvem. Imagina que todos
são bons. A senhorita arranjou um namorado bem tolo! Não

265
quero ofendê-la, mas a dona do armarinho me contou umas
boas que ouviu da Sra. Legras. Então contou tudo àquela
mulher! Oh! Quanto à história do senhor seu pai, não lhe
contou.. .
Cruzou os braços com uma expressão terrível.
— . . . não lhe contou, do contrário ela faria um escândalo
muito maior!
— Não, não! — exclamou Adrienne, cobrindo a boca
com as mãos. E, com um movimento convulsivo, lançou-se
aos pés da empregada, segurando o avental com as mãos trê­
mulas. — Eu lhe darei tudo o que tenho, Desirée — tar-
tamudeou ela. — Tenha pena de mim, Desirée. Sabe muito
bem que nada disso é verdade. Meu Deus! Meu Deus!
Arrastou-se até a cama e cobriu o rosto com as mãos.
Um uivo abafado saía dos seus lábios.
Certos momentos são impossíveis de viver. Devíamos ser
capazes de saltá-los, omiti-los e recomeçar a vida mais adian­
te. Por que sofrer todas essas agonias? Elas não nos fazem
melhores, não trazem solução para as dificuldades do pre­
sente, são estéreis e só servem para embotar o coração. As­
sim pensava Adrienne deitada na cama.
Fechara as cortinas das janelas e procurava não dormir,
apenas se tranqüilizar. Seu pensamento lançava-se para o
futuro, num esforço desesperado para não lembrar os acon­
tecimentos dessa manhã. “Talvez tudo acabe se arranjando”,
dizia para si mesma com uma obstinação feita de covardia e
de coragem. E isso lhe parecia tanto mais provável quanto
menor fosse a razão para esperar. Ouvia todos os ruídos da
casa e da rua. Logo Marie Maurecourt chegaria; ia abrir o
portão, subir os degraus da entrada e na certa traria novi­
dades, de outro modo por que viria visitar Adrienne?
A jovem esperava tudo dessa visita, uma libertação súbita
dos seus males, um milagre. Não via nada mais do que isso,
não pensava no amanhã; a única coisa importante era a visi­
ta de Marie Maurecourt. E no tormento horrível da sua in­
quietação encontrava momentos de alegria louca, delirante,
ao pensar que aquela mulher poderia lhe trazer felicidade.
Trazer-lhe felicidade como? Adrienne não tinha a mínima

266
idéia. Não pensava também em tudo o que sabia sobre o
caráter de Marie Maurecourt; confiava-lhe cegamente sua fe­
licidade porque não lhe restava mais ninguém para implorar
ajuda. Todo o resto perdia-se no nada. Só existiam agora os
passos que logo ouviria no jardim e a presença daquela pe­
quena mulher.
Inconscientemente levou a mão à cintura para consultar o
relógio, e na sua confusão não lhe pareceu estranho o fato
de não encontrá-lo; os dedos continuaram a apalpar a cintu­
ra, o corpete, procurando o longo cordão de ouro.
Depois de uns quinze minutos, ergueu-se, fora de si de im­
paciência. Ao passar pelo espelho não pôde deixar de ver o
próprio rosto. As pálpebras inchadas denunciavam uma noite
de insônia. Estava pálida.
— Meu Deus! — gemeu. — Ela tem de vir!
Foi até a porta e encostou o ouvido na madeira. Não saíra
do quarto depois da conversa com Desirée, nem descera para
almoçar. Deviam ser três horas. Escutava com a cabeça um
pouco inclinada. Depois, com um gesto inconsciente, girou a
chave na fechadura. Por nada desse mundo desceria. A idéia
de rever Desirée a deixava gelada e procurava com todas as
suas forças esquecê-la. Se ao menos pudesse rever Marie
Maurecourt. . . Era uma obsessão. Precisava explicar-lhe tan­
tas coisas! Tudo aquilo que não pudera explicar ao irmão,
tudo aquilo que certamente o teria convencido. Com Marie
Maurecourt não teria falsa vergonha. Além disso, sabia que
era a sua última oportunidade, tinha um pressentimento. Fa­
laria a essa mulher como jamais falara a ninguém, com toda
a franqueza, sem medo. Diria: “Sim, quero me casar com o
seu irmão, sou jovem, sou rica, bastante rica. Onde ele po­
deria encontrar um partido como eu? Por acaso sou feia?”
Voltou-se para o espelho e repetiu essas palavras em voz
baixa. O quarto estava na penumbra. Foi até a janela e abriu
as cortinas. Voltou ao espelho. A luz incidia diretamente no
seu rosto. Sem dúvida estava pálida, assustadoramente páli­
da, mas seus olhos desceram para as espáduas generosas que
modelavam o corpete, para os braços roliços que ela esten­
deu um pouco, e depois olhou ao longo de todo o corpo.

267
— Talvez eu não seja tão bonita quanto penso — disse.
E tentou se lembrar de quantas vezes lhe tinham dito que
era bela. A Sra. Legras, até demais, mas a Sra. Legras estava
de olho no seu dinheiro. Seu pai, uma vez, sim, seu pai. E o
operário que a seguira em Dreux. Mas ele, Denis Maure­
court, se a achasse bonita não teria se apaixonado por ela
imediatamente?
— Estou certa de que ele está escondendo o jogo —
murmurou ela. E lembrou-se das palavras da Sra. Legras a
esse respeito. — Além disso, eu o amo demais — continuou
em voz mais alta — para que ele não me ame.
E entregou-se a uma série infindável de raciocínios. De
repente, irritada pela espera que parecia não terminar, foi até
a janela e ajoelhou-se ante o peitoril.
— Que venha, que venha logo — murmurava, batendo
com a mão fechada na borda da janela.
Súbito, teve a impressão de que tudo recomeçava, como
se nada tivesse acontecido na véspera e nessa manhã. De
novo pensava num meio de fazer o médico compreender que
ela o amava, mas tudo recomeçava dentro de sua alma, por­
que nada tinha além desse amor, embora tudo continuasse
à sua volta. As coisas aconteciam muito depressa, depressa
demais. As pessoas falavam, agiam, acontecimentos se suce­
diam e ela permanecia imóvel. Fechou os olhos, levando as
mãos aos ouvidos. Aquele zumbido odioso estava lá de novo,
no fundo da sua cabeça. Era tudo a mesma coisa, o mesmo
sofrimento. Alguém tinha dito “eu não a amo” e nada mu­
dara.
Nesse momento viu Marie Maurecourt que atravessava a
rua dirigindo-se para a Vila das Bétulas. Adrienne ergueu-
se de um salto e se escondeu ao lado da janela. Seu coração
disparou. Sentiu que não poderia esperar nada daquela vi­
sita e desceu as escadas.
Marie Maurecourt entrou apressadamente na sala onde
Adrienne estava sentada. Usava o mesmo tipo de roupa que
parecia ter pertencido a alguém mais forte e que se ajustava
mal ao seu corpo magro. O chapéu de palha negra, redon­
do e com abas estreitas, era enfeitado com um cacho de uvas

268
da mesma cor, e, embora estivesse muito quente, vestia uma
jaqueta de sarja azul sobre a blusa; na mão trazia a pequena
bolsa da qual havia tirado as cartas de Adrienne na outra
visita. Talvez não esperasse encontrar a jovem na sala, pois
fez um movimento rápido ao vê-la e enrubesceu ligeira­
mente.
— Tentei vê-la de manhã — disse ela, sem cumprimen­
tar. — Não foi possível. Sem dúvida deu ordens para que
não me recebessem. Em todo o caso, o que tenho para lhe
dizer é breve e vai me ouvir.
Sua voz estava amarga e angustiada. Um tremor contínuo
lhe agitava a cabeça, fazendo palpitar as folhas de parreira
de tafetá preto que enfeitavam o chapéu. Olhou a jovem, que
se apoiava no espaldar de uma poltrona.
— Sabe o que acaba de fazer? — perguntou ela.
Esperou a resposta que não veio. Sua respiração ruidosa
e áspera quebrava o silêncio. Sibilou:
L — Está matando meu irmão — disse por fim, com voz
enérgica.
Adrienne sobressaltou-se e abriu a boca.
— Eu? — perguntou.
— Sim, você! — insistiu Marie Maurecourt, aproximan­
do-se dela. — Então não compreende todo o mal que lhe
faz? Meu irmão é um homem de saúde muito delicada.
Sua voz embargava-se agora com lágrimas de cólera e de
emoção, mas dominou-se e continuou a falar rapidamente,
como se temesse romper em soluços antes de terminar:
— Extremamente delicada. Sua vida não passa de uma
longa seqüência de doenças. Ele é fraco, tem o coração fra­
co, qualquer emoção pode provocar uma crise, uma parada
cardíaca. Durante toda a vida tomei conta dele. Sou dez anos
mais velha, mas ele parece ter mais idade do que eu. Se lhe
acontecer alguma coisa. ..
E, como se fosse invadida por algo que não podia con­
trolar:
— .. .prefiro morrer com ele. É a única pessoa que te­
nho no mundo. Não posso impedir que se canse, que cuide
das pessoas que muitas vezes não lhe pagam, mas não permi-

269
tirei que mulheres como você o atormentem com suas his­
tórias.
Olhou para Adrienne, que estava imóvel, e ficou por um
momento em silêncio.
— Mulheres como você — repetiu raivosamente, pois a
ira dominava a emoção de há pouco. — Sabe o que fiz com
suas cartas? Joguei-as na rua e farei o mesmo sempre que
escrever para ele. E não espere vê-lo outra vez. Ele veio esta
manhã porque o atraiu à sua casa, pretextando doença. Mas
agora estamos prevenidos. Pode procurar outro médico. Peça
à sua amiga Léontine Legras que lhe indique um. Ela deve
conhecer muitos.
Respirou fundo e continuou:
— Não, quando me lembro.. . De manhã, quando ele
voltou da sua casa, pensei que ia desmaiar. Ficou cinco
minutos sem poder dizer uma palavra. Nunca me assustei
tanto, esteja certa. Deitou-se no sofá do consultório. . .
A lembrança desse momento parecia tirar-lhe as forças.
Continuou com voz seca:
— Digo-lhe agora que, se alguma coisa acontecer ao meu
irmão, a responsabilidade será toda sua. Deve haver leis para
criminosas do seu tipo. Além disso, se posso lhe dar um con­
selho, o melhor que tem a fazer é sair da cidade.
Interrompeu-se ao ver a expressão de Adrienne.
— Vamos — continuou com voz mais branda —, digo
isso por uma só razão. Se não é feliz aqui, deve viver em
outro lugar. Tem os meios para isso. Não tem parentes em
La Tour-l’Evêque.
Adrienne sentou-se; Marie Maurecourt sentou-se ao seu
lado e continuou:
— E depois sabe tão bem quanto eu que sua reputação
na cidade não é das melhores. Acredito que seja por sua
amizade com Léontine Legras. Tenho certeza de que o que
realmente lhe faz falta é um casamento. Bem, não espere en­
contrar um bom partido em La Tour-l’Evêque. Todos estão
contra você. Eu prefiro não acreditar em tudo o que dizem,
conheço muito bem as intrigas da Srta. Grand, mas num lu­
gar como esse a mentira tem a mesma força da verdade. Por­

270
tanto, vá embora, parta. Não importa para onde. Passou al­
gum tempo em Dreux. Volte para lá. É uma cidade maior
que La Tour-l’Evêque.
Na sua ânsia para convencer, baixara a voz, assumindo o
tom usado pela Sra. Legras. A idéia de livrar-se de Adrienne
fazendo com que deixasse a cidade viera subitamente e pare­
cia-lhe tão boa que a fez esquecer-se da cólera.
— Esteja certa de que vai se sentir muito melhor do que
aqui. Ouvi dizer que a sociedade de Dreux é numerosa e
muito fina. Ao passo que aqui! Nesse buraco! Ah! Se tivés­
semos meios para ir para algum outro lugar! Mas você, pen­
se bem! Pode vender esta vila e ir morar e m. . .
Pareceu ter uma idéia súbita; seu rosto ficou sombrio.
Dreux não seria muito próximo de La Tour-l’Evêque?
— Por que não ir para Paris de uma vez? — perguntou.
— Em todo o caso, não perca tempo. Qualquer dia desses
poderá receber uma visita desagradável. Entende o que que­
ro dizer? Está me escutando, Srta. Mesurat?
Segurou o braço de Adrienne e o sacudiu de leve. Mas ha­
via no rosto da jovem o mesmo alheamento de quando a
Sra. Legras a deixara nessa manhã. Nenhuma emoção nos
olhos imóveis. Marie Maurecourt observou-a por um mo­
mento e depois disse com voz impaciente:
— E essa agora! Fazendo drama! Outra vez, como de
manhã, sem dúvida. Ah! É bom que saiba que tenho nervos
excelentes. Comigo isso não adianta, esse.. . esse tipo de
histeria. Vim aqui para lhe prestar um favor.
Deixou-se novamente dominar pela cólera.
— Sim, isso mesmo! Para lhe prestar um favor. E
quando penso no mal que me fez! Ah! Tem sorte por estar
tratando com uma cristã, senhorita. Está em perigo, não com­
preende? Amanhã pode ser procurada pelas autoridades. E
então? O que vai fazer? Sabe que será inútil tentar uma far­
sa, não sabe?
Ergueu-se e agora falava como uma pessoa desnorteada
com a notícia de uma catástrofe.
— Vá embora! O que está esperando? Faça as malas hoje
à noite. O seu notário se encarregará do resto.

271
Inclinou-se para Adrienne e segurou-lhe as mãos, fitando-a
bem nos olhos.
— Diga alguma coisa! — exclamou, como se falasse a
um surdo.
Subitamente, largou as mãos da jovem e perguntou:
— O que está sentindo? — Sua voz era agora um mur­
múrio.
Esperou indecisa por algum tempo. A princípio pensara
que Adrienne demonstrava desprezo, mas essa impressão
desfez-se rapidamente. Havia no olhar da moça algo que não
podia ser fingido; era um olhar vazio, os olhos de uma pes­
soa adormecida a quem se levantam as pálpebras; as pu­
pilas azuis não se fixavam em nada, não viam nada.
Marie Maurecourt voltou-se bruscamente e saiu da sala.

272
IX

Caía a noite. Uma dessas belas noites de verão, que não


se pode determinar quando começam, pois o céu permane­
ce claro, mesmo depois de o sol se pôr. Eram oito e meia.
As árvores pareciam mais escuras, os pássaros se haviam
calado, mas o céu ainda estava azul.
Como sempre fazia nos feriados, Desirée preparara um
jantar frio e saíra mais cedo, para só voltar no dia seguinte.
Não tinha procurado ver Adrienne depois da conversa da­
quela manhã, e sem dúvida fora, como quase todo mundo,
ao baile público de La Tour-l’Evêque.
Adrienne estava sozinha na sala, sentada no canapé. Vez
por outra erguia-se e caminhava de um lado para o outro.
Seus gestos não traíam a menor impaciência; caminhava len­
tamente, com atitude absorta, mas os olhos continuavam
na mesma, imóveis como olhos de boneca. O calor a inco­
modava e desabotoara a blusa na altura do pescoço. De vez
em quando soltava um suspiro cansado e, parando na frente
do espelho, batia levemente com a mão sobre o coque no
alto da cabeça e penteava com os dedos a parte da frente
com ar pensativo.
Não tinha jantado. Na verdade, não saíra da sala depois
da visita de Marie Maurecourt. Agora estava sentada e olha­
va à sua volta, aparentemente atenta, mas sempre com aque­
le olhar que ia de um objeto a outro sem os ver. A sala fica­
va cada vez mais escura, mas nem pensava em acender o
lampião. Cruzou as pernas, juntou as mãos e continuamente
agitava a cabeça com um movimento súbito, e levantava-se
para reiniciar o passeio pela sala.

273
Quando a escuridão invadiu a sala, Adrienne sentou-se
perto da janela e ergueu os olhos para o céu que parecia
ficar mais profundo à medida que escurecia. O pio de um
pássaro cortou o silêncio e se prolongou por alguns segun­
dos, estridente e longínquo como uni grito de medo ao cair
da noite. Dos jardins vinham diferentes perfumes, o odor
pesado que as flores exalam na frescura do crepúsculo. O ar
estava imóvel. Nenhum ruído vinha da rua ou das casas
vizinhas, algumas delas com a bandeira nacional hasteada no
topo. Aquela parte da cidade estava deserta. Passou-se um
quarto de hora.
No entanto, vindo da cidade, podia-se ouvir um rumor in­
distinto, depois Adrienne viu um traço luminoso que se
elevava por trás do telhado da Vila Louise e se abria num
leque de fagulhas, como uma flor monstruosa. Uma claridade
viva encheu o céu por um segundo e lançou um reflexo
amarelado no rosto da jovem. Adrienne piscou os olhos e
aguçou os ouvidos para o clamor de admiração que acompa­
nhou os fogos de artifício. Outros foguetes riscaram o céu,
feixes de prata, espirais em curvas crescentes como uma
mola distendida, outros uma linha reta que subitamente se
abria, espalhando entre as estrelas pequenos pontos de ouro.
O último era uma gigantesca girândola tricolor que arrancou
um “oh!” de surpresa e de prazer, cujo eco chegou até a
Vila das Bétulas.
Adrienne não se moveu. Com as mãos cruzadas sobre os
joelhos parecia toda entregue ao espetáculo que se desenrola­
va aos seus olhos, pois os grandes traços de luz haviam fi­
nalmente prendido sua atenção e ela agora olhava o céu
acima do teto da Vila Louise. Com um ligeiro movimento de
cabeça, seguia a trajetória dos foguetes e fixava os olhos no
ponto onde eles desapareciam, até que outro começasse a
traçar seu desenho no céu. Muito tempo depois de a girân­
dola tricolor ter desaparecido, esperava ainda, imóvel.
De repente, ouviu o som de uma banda militar. Era uma
música ora jubilante, ora melancólica, mas apenas as partes
alegres e rápidas chegavam aos seus ouvidos. Adrienne es­
cutava. A peça era curta, a abertura do concerto. Veio em

274
seguida uma valsa cujos primeiros acordes foram acolhidos
com um murmúrio de excitação. Era uma música muito co­
nhecida. Na última temporada fora tocada, assobiada e can­
tada a ponto de não haver uma pessoa que não conhecesse
seu ritmo hesitante e lânguido.
Adrienne se ergueu. Muitas vezes ouvira a Sra. Legras
cantarolar a letra dessa valsa. Será que poderia se lembrar?
É claro que não. Nenhuma emoção, nenhum pensamento
apareciam no seu rosto. Voltou-se para o interior da sala e
respirou com força por duas vezes. Depois deu alguns pas­
sos, apesar da escuridão; de súbito, foi de encontro a um
móvel e gritou. Ficou parada por um momento e então, reto­
mando o caminho, saiu da sala.
Com passo hesitante desceu as escadas da frente e parou
na aléia do jardim, as sobrancelhas franzidas, como se hou­
vesse no céu ou nas árvores algo que a surpreendesse, algo
que não compreendia. Com olhar intrigado dirigiu-se para o
portão. E começou a falar alto: eram palavras incompreen­
síveis cujo tom desligado e indiferente contrastava com uma
certa fluência.
Abriu e fechou o portão e atravessou a rua, falando sem­
pre. Agora tudo estava escuro, mas Adrienne caminhava com
passos rápidos e logo chegou à rua que levava à cidade. Na
luz indecisa que vinha do céu, seu belo rosto estava lívido,
com enormes sombras escuras ao redor dos olhos, que se
refletiam nas faces. Uma expressão impassível endurecia-lhe
os traços que pareciam talhados no mármore. Toda a huma­
nidade parecia ter abandonado o rosto pálido, a boca exan-
gue que falava sem cessar.
— Quinhentos francos do notário no fim do mês, mais
cinco mil e duzentos de economias — dizia ela —, isso deve
bastar para o meu dote. Depois, posso sempre pedir empres­
tado a um e a outro, à Sra. Legras, aos Maurecourts. O no­
tário pode também me adiantar um mês ou dois. Preciso de
dinheiro. Não se pode casar sem dinheiro. Naturalmente, pa­
pai me ajudará. E, se ele se recusar, apanharei minha parte,
como fez Germaine ao partir. Apanharei o que resta das
jóias de mamãe. Não existe nenhuma lei contra isso. De qual­

275
quer modo, essas jóias me pertencem, pois papai está morto,
e elas são minha parte na herança. Além disso, como, diabo,
vão servir para um homem? Anéis e colares de mulher. Pa­
pai não pode usá-los!
Riu silenciosamente e continuou:
— Depois, é bom que Germaine saiba que não vou mais
permitir que me vigie. Entrarei e sairei quando bem enten­
der. Se resolverem trancar o portão outra vez para me im­
pedir de passear, é muito simples, mando fazer uma chave
só para mim, sim, só para mim!
Olhou à sua volta e repetiu em voz mais alta:
— Para mim! E irei ao quarto de Germaine quantas ve­
zes quiser. Além disso, ela me deve quinhentos francos e,
uma vez que não vai mesmo me pagar, eu me instalarei no
quarto dela. Está me ouvindo?
As últimas palavras foram endereçadas a uma velha que
saía de casa, do outro lado da rua, e que apressou o passo
ao ver Adrienne gesticulando na sua direção.
— Ora, vamos! — exclamou a pobre louca. — Está com
medo também! Faz muito bem em fugir! Ela faz muito bem
em fugir — ajuntou a meia-voz, quando a mulher se afas­
tou. — Que ninguém me provoque hoje. Estou farta de todos
esses porcos!
E, de súbito, jorrou-lhe dos lábios uma torrente de injú­
rias as mais grosseiras. Gritava as palavras vis e as repetia
com uma veemência apavorante, palavras cujo sentido ja­
mais conhecera e que vinham agora à sua pobre mente, onde
tudo se embaralhava numa hedionda confusão. Agitava os
braços para todos os lados e caminhava cada vez mais de­
pressa. Sua ira fora substituída por uma súbita alegria e co­
meçou a rir, um riso profundo e sinistro.
De repente, parou. Estava tão perto do baile público que
o som da música abafava sua voz. No fim da rua podia ver
um ângulo da praça e as guirlandas de pequenas lâmpadas
que se estendiam de uma árvore à outra. Os pares dançavam.
Olhou por um momento e então deu mais alguns passos. As
pessoas dançavam compenetradamente, com gestos lentos.
Toda a sua atitude demonstrava cuidado para não errar o

276
passo, para seguir o ritmo; e os pés, sobre o pavimento da
praça, moviam-se com um murmúrio cadenciado, que su­
plantava o som da orquestra, quando a música era mais sua­
ve. Essa música, Adrienne a conhecia. Era outra vez aquela
valsa da qual ninguém se cansava. As vozes femininas can­
tavam em tom agudo:

Eu não o amo
Ou talvez isso seja apenas um sonho.. .

Adrienne escutava. Ficou ali de pé, no meio da rua es­


cura, os braços oscilantes; com a cabeça um pouco para a
frente, parecia atenta ao menor ruído. A luz do baile a inti­
midava um pouco, do contrário teria se aproximado mais.
Agora a valsa tinha acabado. Ouviram-se aplausos e os pares
se separavam com risos e exclamações de prazer. O ruído
fez Adrienne recuar. Uma voz de homem gritou: “Viva Fal-
lières!” em meio à alegria geral.
Adrienne recuou um pouco mais. Pensou que vinham em
sua direção e, voltando-se, pôs-se a correr, tomada de um
pânico tão insensato quanto sua cólera de há pouco, tão inane
quanto o seu riso. Entrou numa pequena rua que levava ao
campo. Seu coração batia disparado. Resmungou alguma coi­
sa com voz trêmula e correu com mais energia.
Logo chegou à estrada nacional. Ouvia ainda os ruídos da
festa. Tampou os ouvidos com as mãos e continuou a cor­
rer. Seus passos ecoavam sobre as pedras. À direita e à es­
querda, as árvores mal se distinguiam do céu, onde miríades
de estrelas cintilavam. A noite estava escura; na penumbra
apenas a estrada era visível.
Depois de alguns minutos, diminuiu o passo, arquejante.
Reinava profundo silêncio e a pequena cidade estava longe,
mas Adrienne não parou. Andava, ora com passo len­
to, ora mais rápido e tão desalentado como se afinal a fadi­
ga fosse dominar a jovem livrando-a do seu pavor. Continua­

277
va a falar em voz baixa, mas sua língua estava seca e as pala­
vras eram incompreensíveis.
Ãs vezes a inquietação aumentava subitamente. Então
juntava todas as forças e corria por alguns segundos, como
espicaçada por um aguilhão. Depois seu espírito perdia-se
novamente em outras abstrações e começava a arrastar os
pés.
Ao passar pelas primeiras casas da cidade, alguns tran­
seuntes a fizeram parar. Adrienne não lhes pôde dizer seu
nome ou seu endereço. Não se lembrava de mais nada.

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ESTA OBRA FOI COMPOSTA PELA
LINOLIVRO S/C COMPOSIÇÕES GRÁ­
FICAS LTDA. E IMPRESSA NA EDITO­
RA VOZES LTDA., PARA A EDITORA
NOVA FRONTEIRA S.A., EM FEVE­
REIRO DE MIL NOVECENTOS E OI­
TENTA E TRÊS.

Não encontrando este livro nas livrarias, pedir pelo Reembolso Postal
à EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A. — Rua Maria Angélica, 168
— Lagoa — CEP 22.461 — Rio de Janeiro